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	<title>França &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Meras Conchas Vazias: Combatendo a Terceirização nos Museus da França</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Jan 2026 12:16:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[França]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[ As perspectivas e os desafios da organização em instituições culturais francesas cada vez mais vazias. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Valentin J. e Ethel L.</h3>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Em Paris, você pode entrar em museus e instituições de arte, comprar seus ingressos, passar por uma verificação de segurança e deixar seus pertences em um guarda-volumes. Todos os funcionários usam o mesmo uniforme, juntamente com um crachá com o logotipo do Louvre ou da Fundação Louis Vuitton. No entanto, você talvez não tenha percebido que quase todos os funcionários que você viu não trabalham para esses museus, apesar de serem a “cara” das instituições: eles trabalham para uma empresa terceirizada/prestadora de serviços externa, com o museu dependendo da terceirização para quase tudo, exceto a própria exposição.</p>
<p style="text-align: justify;">Muséa, Pénélope, Marianne International, City One: nos últimos vinte anos, essas empresas viram sua atuação dentro dos museus crescer. Elas são prestadoras de serviços e vendem serviços de recepção e visitas guiadas para museus. Essa tendência começou em meados dos anos 2000, com o Museu Quai Branly, e se disseminou na década de 2010, tanto em museus nacionais quanto em instituições privadas, com quase todos os serviços — da segurança e limpeza à recepção, manutenção predial e visitas guiadas — agora terceirizados.</p>
<p style="text-align: justify;">A introdução de atores privados e a mudança nas prioridades dos museus em direção ao engajamento público levaram a uma divisão do trabalho em tarefas que antes eram executadas por um corpo unificado de funcionários públicos responsáveis ​​pela recepção e vigilância. Esses novos prestadores de serviços remodelaram funções de atendimento ao público, como recepção, vigilância e visitas guiadas — funções que envolvem interação direta com o público. É amplamente reconhecido que a terceirização promove a especialização do trabalho, fragmentando tarefas antes integradas. Essa divisão do trabalho também é marcada por uma homogeneização dos perfis sociais atribuídos a cada função especializada. Nos casos aqui examinados, por exemplo, as mulheres são predominantemente empregadas em funções de engajamento público e recepção, enquanto os homens se concentram em cargos de vigilância. Concomitantemente, estudos sociológicos mostram que a terceirização não apenas reforça, mas também reproduz normas de gênero, tornando invisíveis certas formas de trabalho e “naturalizando” as divisões de gênero em áreas como conservação, transmissão de conhecimento e interação com o visitante. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158553" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa.jpg" alt="" width="2400" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa.jpg 2400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-2048x1365.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 2400px) 100vw, 2400px" />Como a organização do trabalho em museus se tornou tão fragmentada? Vamos explorar algumas possíveis razões. Em primeiro lugar, as políticas francesas têm se concentrado cada vez mais no aperto do orçamento estatal. A cultura e as instituições culturais dependem fortemente de subsídios públicos desde o século XX. Essa dependência evoluiu para um compromisso formal do Estado em fornecer serviços culturais públicos com a criação do Ministério da Cultura em 1959. Embora o Ministério tenha sido fundado com o objetivo de tornar a arte acessível a todos, estudos sociológicos no final da década de 1960 revelaram que os museus continuavam sendo espaços frequentados principalmente por aqueles que se sentiam “no direito” de visitar e interagir com a arte. <strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Paralelamente a uma crescente sensação de “desencantamento” com a ideia da experiência universal da arte promovida pelas instituições, a década de 1980 testemunhou uma mudança na cultura e no espírito das políticas públicas. Racionalização, cortes orçamentários e inspiração proveniente do setor privado tornaram-se as forças motrizes dos sucessivos governos, intensificando-se ao longo dos anos. Um nome acadêmico foi dado a esse espírito: NGP, Nova Gestão Pública.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra dinâmica pode ser observada: os museus seguem um modelo de “sistema de estrelas”, onde um pequeno número de instituições responde por 90% do número de visitantes nacionais, enquanto os museus restantes atraem coletivamente apenas cerca de 10%. Desde a década de 1990, os principais museus públicos — a começar pelo Louvre —– conquistaram gradualmente autonomia em relação ao Ministério da Cultura. Essa mudança permite que eles retenham os lucros obtidos e administrem seus próprios orçamentos, em vez de redistribuir parte deles para instituições menores, como acontecia anteriormente. Como resultado, eles podem decidir de forma independente como alocar seus recursos, seja para contratações, investimentos ou outras prioridades.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora essa decisão possa ter parecido acertada na época, ela também pressionou alguns museus a limitar déficits ou até mesmo gerar lucros, uma tarefa bastante difícil no setor cultural. Além disso, uma mudança na política que regulamentava a contratação de servidores públicos em 2008 limitou o número de trabalhadores empregados diretamente pelo Estado, o que também impactou os museus públicos. <strong>[3]</strong> As instituições são incentivadas — ou até mesmo pressionadas — a equilibrar as contas com menos funcionários e subsídios estagnados, enquanto enfrentam um número crescente de visitantes. De modo geral, nos últimos 30 anos, tanto as instituições culturais públicas quanto as privadas têm adotado cada vez mais conceitos de gestão do setor industrial, como a força de trabalho <em>just-in-time</em>, que lhes permite adaptar-se aos picos de visitantes e às flutuações sazonais, criando, assim, contratos de curto prazo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os fenômenos descritos acima podem ser os fatores que incentivaram os museus a contratar prestadores de serviços para tarefas que viabilizam o acesso do público. Diversas explicações foram apresentadas para essa tendência, sendo a principal delas o fato de os museus tenderem a se concentrar em sua atividade principal: a produção de exposições. <strong>[4]</strong> No entanto, uma explicação mais pragmática pode ser o verdadeiro fator determinante: isso permite que as instituições mantenham sempre uma equipe completa e se adaptem à demanda sazonal flutuante sem o ônus da gestão direta de pessoal. Os prestadores de serviços, atuando como subcontratados, oferecem muito mais flexibilidade do que trabalhadores individuais e assumem a responsabilidade pelos recursos humanos. Os contratos entre museus e prestadores de serviços geralmente especificam apenas o número de “cargos” necessários, dependendo das flutuações sazonais de visitantes. Os prestadores, então, têm liberdade para contratar conforme acharem melhor para garantir a lucratividade, alinhando-se, ainda que de forma geral, às preferências dos museus. Isso frequentemente resulta em um pequeno número de funcionários permanentes apoiado por um grupo rotativo de trabalhadores contratados por prazo determinado, embora existam variações. No caso de visitas guiadas, os subcontratados às vezes atuam meramente como intermediários entre os museus e os guias freelancers. Por outro lado, em alguns museus, a equipe de recepção terceirizada é composta quase que inteiramente por funcionários permanentes. A inconsistência nas práticas de contratação entre as instituições reduz as oportunidades de interesses compartilhados e solidariedade entre os funcionários dos museus.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158552" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/84277580_BVParisMona-LisaLouvreVisitors-wait-in-line-to-see-the-Mona-Lisa-in-the-Medici.jpg" alt="" width="450" height="740" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/84277580_BVParisMona-LisaLouvreVisitors-wait-in-line-to-see-the-Mona-Lisa-in-the-Medici.jpg 450w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/84277580_BVParisMona-LisaLouvreVisitors-wait-in-line-to-see-the-Mona-Lisa-in-the-Medici-182x300.jpg 182w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/84277580_BVParisMona-LisaLouvreVisitors-wait-in-line-to-see-the-Mona-Lisa-in-the-Medici-255x420.jpg 255w" sizes="(max-width: 450px) 100vw, 450px" />Já é politicamente questionável que os museus nacionais dependam tanto da terceirização, pois isso, na prática, vincula sua sobrevivência a empresas privadas. Mas, como era de se esperar, esse sistema também acarreta sérios problemas em relação às condições de trabalho, à gestão e à remuneração. Os trabalhadores dessas empresas terceirizadas têm condições de trabalho muito piores do que os funcionários internos dos museus. No dia a dia, os diferentes acordos trabalhistas sob os quais operam resultam em frequentes mudanças de turno, jornadas de trabalho noturnas até mais tarde e salários por hora significativamente inferiores para a equipe de recepção terceirizada… Devemos acrescentar que esses acordos trabalhistas não são atualizados de forma completa há 20 anos!</p>
<p style="text-align: justify;">As condições de trabalho dos funcionários terceirizados de museus são agravadas por uma dupla vigilância: eles são frequentemente monitorados por um gerente da empresa prestadora de serviços e também acompanhados de perto pela equipe administrativa do museu, que garante o cumprimento dos termos do contrato. Legalmente, os trabalhadores terceirizados não podem receber ordens dos museus. Portanto, as informações e os ajustes no trabalho devem ser feitos do museu para a empresa prestadora de serviços, que então instrui seus gerentes, que por sua vez orientarão a equipe da recepção, os fiscais ou os guias.</p>
<p style="text-align: justify;">A terceirização também afeta a forma como os trabalhadores percebem seus próprios papéis. No nosso caso, os funcionários da recepção que entrevistamos expressaram um forte sentimento de distanciamento das instituições em que trabalham. Alguns também relataram sentir-se desconectados da arte e da cultura, apesar de trabalharem em museus. Isso ocorre em parte porque os contratos entre museus e prestadores de serviços às vezes os proíbem de interagir com os visitantes sobre esses assuntos —– mesmo quando estão posicionados diretamente em frente a obras de arte ou coleções. Embora essas experiências possam variar de acordo com a função, para os funcionários da recepção, essa desconexão pode contribuir para a desvalorização do seu trabalho, agravada pela sensação de desempenhar tarefas invisíveis, como recepcionar visitantes e fornecer informações.</p>
<p style="text-align: justify;">Para além desses problemas estruturais, alguns desses fornecedores recorrem a uma gestão severa. Em resposta, os trabalhadores por vezes ameaçam apresentar queixas à Inspection du travail (IT) <strong>[5]</strong>, mas isso frequentemente leva à não renovação dos seus contratos. Na maioria das vezes, porém, as queixas à IT revelam-se inúteis, uma vez que dependem da permanência do trabalhador na empresa até à realização da inspeção — um processo que pode demorar até um ano, apesar da elevada rotatividade de pessoal. A gestão de recursos humanos representa um desafio adicional. Embora não pretendamos defender a existência de recursos humanos, a grave falta de pessoal nos níveis de gestão superior obriga os trabalhadores a verificarem pessoalmente os seus salários em relação às horas trabalhadas. Noutro caso, um simples pedido por uma sala de intervalo adequada prolongou-se por meses e permanece por resolver, com a empresa de terceirização e o museu a acusarem-se mutuamente pela inação.</p>
<p style="text-align: justify;">Para sermos honestos, não fomos os primeiros a questionar essas questões. Já existem tentativas de contestar essas práticas há anos. A situação nos museus franceses é realmente crítica, com falta de pessoal e prédios com sérios problemas estruturais. Mas a maioria das greves e protestos foi realizada por trabalhadores contratados diretamente, muito mais sindicalizados e com empregos mais estáveis ​​do que os nossos. Como muitos dos nossos colegas têm contratos de curta duração (às vezes de apenas um dia!), é compreensível que relutem em se engajar nesse tipo de luta, especialmente quando uma greve oficial significa perder uma parte considerável do salário mensal, além de enfrentar grande insegurança. Uma greve teria pouco efeito de qualquer forma: alguns dos nossos colegas têm contratos flexíveis, o que significa que podem ser alocados para praticamente qualquer local onde o empregador precise deles. Como os trabalhadores terceirizados são facilmente substituíveis, uma greve em um local de trabalho teria pouco impacto. As empresas de terceirização têm uma reserva de trabalhadores disponíveis caso alguém falte. Em caso de greve, algumas pessoas contatadas pela empresa para preencher turnos podem nem saber que são fura-greves até chegarem ao local de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo assim, como nós, trabalhadores de museus, mesmo sem trabalhar para o museu, poderíamos encontrar maneiras de lutar contra isso, de recuperar nossa autonomia quando raramente, ou nunca, encontramos nossos colegas da mesma prestadora de serviços que trabalham em outros locais em Paris? Como poderíamos organizar uma resistência coletiva quando todos sentem que têm muito a perder para agir? Responder a essas perguntas é particularmente difícil, visto que as diferentes prestadoras de serviços raramente se comunicam além de questões estritamente operacionais do dia a dia, o que limita a possibilidade de unir lutas entre diferentes empresas. No fim, vários de nossos camaradas organizaram, com a ajuda do Sud, a<em> Union Syndicale Solidaires</em>. Esses trabalhadores, em sua maioria do Palais de la Porte Dorée, estavam fartos do escopo vago e cada vez mais amplo de suas funções. O museu frequentemente lhes pedia para assumir tarefas como vigilância, jardinagem e limpeza, nenhuma das quais constava em suas descrições oficiais de cargo. Além disso, a inauguração do novo Museu da História da Imigração no mesmo edifício trouxe um fluxo de visitantes, aumentando ainda mais a pressão sobre a equipe, embora o aumento da carga de trabalho não tenha sido reconhecido. O que diferenciava esses colegas era seu envolvimento prévio no ativismo sindical — alguns eram inclusive sindicalizados, o que é relativamente incomum na França, onde a sindicalização permanece particularmente baixa. Esses colegas já sabiam a quem recorrer, eram mais determinados e tinham um melhor entendimento de seus direitos do que outros. Com a ajuda de advogados e camaradas, nosso sindicato entrou com uma ação judicial contra quatro museus e três empresas terceirizadas: o Louvre (que trabalhava com a Muséa), o museu Mucem de Marselha (com a Pénélope) e a Bolsa de Comércio e o Palácio da Porte Dorée (com a Marianne International).</p>
<p style="text-align: justify;">O processo judicial não visava diretamente as nossas condições de trabalho, algo que, como já mencionamos, é da competência da Inspeção do Trabalho. Ele foi instaurado contra a própria prática de terceirização, sendo as supostas infrações “<em>prêt de main d&#8217;oeuvre illicite</em>” e “<em>délit de marchandage</em>”, duas infrações que podem ser julgadas pela justiça. Primeiro, o “<em>prêt de main d&#8217;oeuvre</em>” refere-se ao uso ilegal de mão de obra externa. Com isso, argumentamos que o trabalho que realizamos nos museus é fundamental para sua missão principal e, portanto, não deve ser tercerizado para fornecedores externos. Segundo, a acusação de “<em>marchandage</em>” questiona a injustiça da terceirização, pois nos nega os direitos e benefícios concedidos aos funcionários internos.</p>
<p style="text-align: justify;">Juntamente com essa denúncia, vários jornais começaram a abordar a questão da terceirização em museus, principalmente o jornal de esquerda<em> Libération</em>, que demonstrou interesse desde o início. No fim, para nossa própria surpresa, a história recebeu ampla cobertura — da TV local e rádio nacional aos jornais quebequenses — em grande parte porque o Louvre estava envolvido.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158551" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1.jpg" alt="" width="2268" height="1514" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1.jpg 2268w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-1024x684.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-768x513.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-1536x1025.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-2048x1367.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-681x455.jpg 681w" sizes="(max-width: 2268px) 100vw, 2268px" />abaEmbora a imprensa já tivesse dado alguma cobertura às dificuldades dos trabalhadores em diversos locais terceirizados ao longo dos anos, o assunto finalmente veio à tona por completo. Para nossos camaradas, o feedback esmagador da campanha foi a sensação de que suas lutas finalmente foram reconhecidas, de que foram vistos — e de que não estavam sozinhos. O que podemos afirmar com certeza é que a campanha deixou sua marca e que muitos de nossos camaradas passaram a entender de fato como trabalhar para um prestador de serviços externo piora nossas condições de trabalho. Quanto à ação judicial, embora não possamos confiar totalmente nela, ainda esperamos que estabeleça um precedente. Contudo, embora a perspectiva de acabar com nossa própria terceirização e reintegrar os museus não seja impossível (casos assim já ocorreram no passado, principalmente no setor de telecomunicações), ainda é improvável. Mas, se tal oportunidade surgisse, a aproveitaríamos com prazer. Muitos de nós, na verdade, estamos mais ou menos satisfeitos com nosso trabalho — apenas esperamos por mais funcionários, melhores salários e maior reconhecimento, como provavelmente a maioria dos trabalhadores deseja.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que mais queríamos era lançar luz sobre a terceirização no setor cultural. Como escrevemos anteriormente, é possível entrar e percorrer um museu inteiro sem interagir com um único funcionário. Recepção, guias, até mesmo segurança ou limpeza, não devem ser vistos como fontes de lucro no caso dos museus. Como costumamos dizer às pessoas que nos perguntam sobre toda essa confusão: os museus acabam se transformando em empresas sem funcionários, apenas com gestores. Qual é o limite da terceirização em museus, quando a legislação permite que eles utilizem cada vez mais prestadores de serviços para suas atividades? Que impacto isso terá no acesso à arte, com uma força de trabalho fragmentada e terceirizada em instituições culturais, desde as pessoas que recepcionam os visitantes até aquelas que apresentam e explicam as obras de arte? E os museus perderão sua capacidade de funcionar adequadamente se todas as suas competências forem progressivamente terceirizadas?</p>
<p style="text-align: justify;">Por ora, o uso da terceirização tem sido explicado oficialmente (e ironicamente) pelo desejo dos gestores de museus de se concentrarem em suas “missões essenciais”: a criação de exposições. Mas agora, com os museus nacionais alugando espaços para exposições privadas e dependendo mais do que nunca de eventos privados para obter receita, surge a pergunta: irão ainda mais longe e terceirizarão o próprio processo de criação de exposições? <strong>[6]</strong> Nosso receio é que os museus se tornem meras conchas vazias — instituições sem alma, focadas unicamente na autopreservação, desaparecendo, na prática, em espírito.</p>
<p><em>Traduzido do<a href="https://notesfrombelow.org/article/mere-shells-fighting-outsourcing-in-frances-museum" target="_blank" rel="noopener"> inglês</a> por Bruna Costa</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Schütz, G. (2022). Subcontratação sob uma perspectiva de gênero: uma análise da terceirização “permanente” de serviços gerais com base no caso dos serviços de recepção. Entreprises et histoire, No 107(2), 45-59. <a class="urlextern" title="https://doi.org/10.3917/eh.107.0045" href="https://doi.org/10.3917/eh.107.0045" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://doi.org/10.3917/eh.107.0045</a>.</p>
<p><strong>[2]</strong> Ver Bourdieu, P., &amp; Darbel, A. (1969). O Amor pela Arte: Os Museus de arte na Europa e seu público.</p>
<p><strong>[3]</strong> A mudança de 2008 é chamada, Révision Générale des Politiques Publiques (Revisão Geral da Política Pública), e permite principalmente que apenas um em cada dois funcionários públicos aposentados seja substituído.</p>
<p><strong>[4]</strong> Veja o debate sobre ética organizado pelo Comitê Nacional Francês do ICOM (Conselho Internacional de Museus) em 24 de março de 2025: <a class="urlextern" title="https://www.icom-musees.fr/ressources/pour-une-delegation-responsable-musees-et-externalisation" href="https://www.icom-musees.fr/ressources/pour-une-delegation-responsable-musees-et-externalisation" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.icom-musees.fr/ressources/pour-une-delegation-responsable-musees-et-externalisation</a></p>
<p><strong>[5]</strong> Inspeção do trabalho.</p>
<p><strong>[6]</strong> Um caso interessante é o da exposição “Machu Picchu e os tesouros do Peru” na Cité de l’Architecture et du Patrimoine; toda a ala de exposições temporárias foi cedida à empresa privada World Heritage Exhibitions LLC. Veja: <a class="urlextern" title="https://www.citedelarchitecture.fr/fr/exposition/machu-picchu-et-les-tresors-du-perou" href="https://www.citedelarchitecture.fr/fr/exposition/machu-picchu-et-les-tresors-du-perou" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.citedelarchitecture.fr/fr/exposition/machu-picchu-et-les-tresors-du-perou</a></p>
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		<title>Sobre o 10 de Setembro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Sep 2025 14:39:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[França]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[O que predomina é o medo difuso por parte dos poderes constituídos, mas também o sentimento de derrota e desespero entre aqueles que lutam contra eles. Por Temps Critiques]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Temps Critiques</h3>
<p style="text-align: justify;">10 de setembro, 2025</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O texto a seguir foi <a class="urlextern" title="https://blog.tempscritiques.net/archives/author/tempscritiques" href="https://blog.tempscritiques.net/archives/author/tempscritiques" rel="ugc nofollow">divulgado </a>pelos camaradas do <em>Temps Critiques</em> às 10h do dia 10 de setembro de 2025. O texto aborda a campanha “Bloqueie Tudo no dia 10 de setembro”, que vem sendo promovida com grande alarde durante todo o verão. No momento em que este artigo é publicado, as ações continuam ocorrendo em todo o país.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Outros idiomas: </em><a class="urlextern" title="https://blog.tempscritiques.net/archives/author/tempscritiques" href="https://blog.tempscritiques.net/archives/author/tempscritiques" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Francês</a><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">O chamado para “Bloquear Tudo” em 10 de setembro de 2025 é muito diferente da convocatória dos Coletes Amarelos para ocupar as rotatórias em outubro &#8211; novembro de 2018. Sua origem não é claramente identificável, embora Les Essentiels, um pequeno grupo pró-“Frexit”, pareça ter sido o responsável pelo seu início. Acima de tudo, não contém nenhuma referência que possa significar um coletivo ou coletivos em torno de um emblema reconhecível, como os coletes amarelos ou os guarda-chuvas de Hong Kong. O clima atual, ao que parece, é de revolta, ou pelo menos de raiva, ou indignação (com o objetivo de abranger o maior número possível de pessoas), como se isso fosse tudo o que fosse necessário para transmitir o apelo e abraçar todas as demandas e formas de ação possíveis, desde as mais limitadas, como desconectar seus aparelhos, até as mais extremas, como cercar Paris. Nesse ambiente vago e nebuloso, é fácil esquecer que não há somente um inimigo do outro lado (seja quem for considerado o principal inimigo — o Estado e sua polícia, o governo, Macron), mas toda uma organização de relações sociais da qual participamos voluntária ou involuntariamente, com seu arranjo de dependência e sedimentação hierárquica e recíproca, e que estrutura a dominação de uma forma muito mais complexa do que a simples oposição entre eles e nós, como se houvesse apenas duas forças se enfrentando e bastasse que “nós” tomássemos a iniciativa quando quiséssemos, então por que não em 10 de setembro?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157688" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/MjAyNTA4ZThiNmVhNDYyOWU1MmEwOWI5ZWNhMmE2YTQ5YzUzYmY-1603612136.jpg" alt="" width="1260" height="708" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/MjAyNTA4ZThiNmVhNDYyOWU1MmEwOWI5ZWNhMmE2YTQ5YzUzYmY-1603612136.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/MjAyNTA4ZThiNmVhNDYyOWU1MmEwOWI5ZWNhMmE2YTQ5YzUzYmY-1603612136-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/MjAyNTA4ZThiNmVhNDYyOWU1MmEwOWI5ZWNhMmE2YTQ5YzUzYmY-1603612136-1024x575.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/MjAyNTA4ZThiNmVhNDYyOWU1MmEwOWI5ZWNhMmE2YTQ5YzUzYmY-1603612136-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/MjAyNTA4ZThiNmVhNDYyOWU1MmEwOWI5ZWNhMmE2YTQ5YzUzYmY-1603612136-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/MjAyNTA4ZThiNmVhNDYyOWU1MmEwOWI5ZWNhMmE2YTQ5YzUzYmY-1603612136-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/MjAyNTA4ZThiNmVhNDYyOWU1MmEwOWI5ZWNhMmE2YTQ5YzUzYmY-1603612136-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1260px) 100vw, 1260px" />Em retrospecto, o movimento dos Coletes Amarelos demonstrou uma capacidade surpreendente de definir objetivos que consideravam as situações geográficas e sociais de seus participantes. Eles estavam conscientes de sua incapacidade de realmente bloquear qualquer coisa, pois sabiam de sua relativa exterioridade em relação às relações de exploração e produção. Os locais selecionados para ocupar não eram, portanto, centros de produção, mas áreas de circulação das quais qualquer pessoa poderia se apropriar, mesmo que temporariamente, ou pelo menos redirecionar (da troca de fluxos de mercadorias para a troca de palavras, sem que isso fosse formalizado em discursos por discursos, como às vezes acontecia com o Nuit Debout, ou nas discussões intermináveis que os “radicais” tanto gostam). Em suma, transformaram concretamente sua fraqueza em força, em vez de simplesmente exibir essa fraqueza para todos verem, como fizeram na época os defensores da falsa “convergência das lutas”. A força dos Coletes Amarelos residia, entre outras coisas, no equilíbrio que mantinham entre a ação direta, a liberdade de expressão moderada (as questões controversas eram frequentemente deixadas de lado ou consideradas secundárias) e a reflexividade constante do movimento sobre si. Ele nunca se perdeu em discursos confusos, nem se envolveu em diálogos com as autoridades ou a mídia — daí sua relativa irredutibilidade e o fato de que nunca houve nada a negociar.</p>
<p style="text-align: justify;">Qual é a situação hoje? Os motivos para ficar com raiva ainda existem e até se intensificaram. Não temos muitas informações confiáveis sobre as pessoas por detrás da convocatória de 10 de setembro, mas o que sabemos com certeza é que elas não têm como “bloquear tudo”, a menos que os caminhoneiros entrem em ação. Por outro lado, durante a crise sanitária, observamos que os grupos de funcionários ou outros trabalhadores repentinamente designados como essenciais <em>eram </em>essenciais precisamente porque sua atividade continuou durante a crise e, em comparação, a atividade provisória de outros cessou.</p>
<p style="text-align: justify;">De acordo com algumas pesquisas, como a do <em>Le Monde</em> de 2 de setembro de 2025, a iniciativa está particularmente enraizada em cidades pequenas e médias, e menos nas grandes cidades, uma característica que a torna semelhante ao movimento dos Coletes Amarelos — um movimento que não era muito urbano — e diferente dele, uma vez que não se concentra em áreas periféricas. Os trabalhadores/empregados e aposentados, dois grupos centrais entre os Coletes Amarelos, estão sub-representados. Por outro lado, gerentes, estudantes do ensino médio e pessoas economicamente inativas estão super-representados. A campanha “Bloqueie Tudo” é motivada menos pela experiência direta da precariedade econômica do que por uma forte politização de esquerda, mesmo que pretenda ser autônoma em relação aos partidos e não se envolva em formas de ação do tipo sindical. A isso se soma o desejo de se envolver “pelos outros”, o que parece motivar a mobilização. Agora, embora realmente existam “outros”, eles não parecem constituir o “alvo” preferido da franja politizada, que raciocina somente em termos de “causas” em vez de situações concretas (a questão do poder de compra aparece, portanto, apenas indiretamente, através do desejo de combater a desigualdade social; e a crítica ao consumismo estatal parece arriscada se, partindo de seu enquadramento original de decrescimento, o movimento acabar se juntando a uma crítica mais ampla da intervenção social do Estado — como pode ser visto com a proposta de novo orçamento, a ênfase do governo na redução da dívida, a restrição da assistência médica a estrangeiros, etc.). Em suma, essa preocupação voluntarista com os outros provavelmente renderá pouca recompensa, deixando seus atores na posição de comandantes sem exército.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa abordagem externa não se manifesta aqui em um apelo para bloquear espaços públicos, como nas rotatórias ou manifestações de rua, mas sim em um apelo para nos organizarmos e podermos fazer tudo de casa e em nossos próprios termos, alimentando a ideia de que dominamos as máquinas, em vez de elas nos dominarem. A ideia é bloquear individualmente o “sistema” econômico, como se fosse algo externo a nós. Em primeiro lugar, trata-se de uma concepção de <em>povo </em>imaculado que não pode deixar de evocar más lembranças<strong>[1]</strong>; além disso, finge que esse “povo” já se colocou em movimento graças à sua capacidade de “hackear” microtecnologias. Embora alguns (por exemplo, Paolo Virno <strong>[2]</strong>) se gabem da suposta “inteligência coletiva” dos movimentos, que já incorporou o intelecto geral e, por que não, já que estamos falando disso <strong>[3]</strong>, a IA, basta levantar dúvidas sobre sua alegada “autonomia”, pois aqui estamos muito distantes das teses operaístas originais que Virno supostamente reivindica como suas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157689" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/manifestation-14-avril-lyon-2566254538.jpeg" alt="" width="1280" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/manifestation-14-avril-lyon-2566254538.jpeg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/manifestation-14-avril-lyon-2566254538-300x169.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/manifestation-14-avril-lyon-2566254538-1024x576.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/manifestation-14-avril-lyon-2566254538-768x432.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/manifestation-14-avril-lyon-2566254538-747x420.jpeg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/manifestation-14-avril-lyon-2566254538-640x360.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/manifestation-14-avril-lyon-2566254538-681x383.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />O chamado a uma “greve de consumidores” apenas acentua essa exterioridade e ressalta o contexto sociológico dos iniciadores da campanha, dado que uma proporção relativamente grande da população já “entrou em greve” contra férias e qualquer coisa que não seja a compra de bens de primeira necessidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma que a imposição do artigo 49.3 pelo governo abafou o movimento pelas pensões de junho de 2023 sob uma enxurrada de argumentos democráticos apresentados por forças que pouco tinham a ver com o próprio movimento, o movimento de 10 de setembro já alcançou o feito involuntário de ser sufocado, mesmo antes de nascer, com tentativas de infiltração por parte de forças políticas (os partidos da antiga Nova Frente Popular e os vários grupos da “esquerda da esquerda”) ou sindicatos (SUD), que prometeram não se deixar enganar uma segunda vez, após sua cegueira em relação ao movimento dos Coletes Amarelos.</p>
<p style="text-align: justify;">A “indeterminação” mencionada por alguns<strong>[4]</strong> é, portanto, muito menor do que era com os Coletes Amarelos; quanto à questão de seu poder, ela não pode ser avaliada na ausência de qualquer movimento real do que é, por enquanto, somente um chamado e não um movimento. Hoje, existe uma certa confusão entre o que costumava ser chamado de movimento social — mesmo em suas variantes do “novo movimento social” a partir de 1986, por exemplo, na França, com os movimentos dos maquinistas e enfermeiros, durante os quais o fio condutor das lutas de classe ainda não havia sido cortado (coordenações substituindo temporariamente os sindicatos) — e movimentos como os que surgiram a partir da segunda metade da década de 2010. Seguindo os passos de Stéphane Hessel, a iniciativa Nuit Debout promoveu a indignação e a expressão pública por meio de um senso de envolvimento cívico. Os Coletes Amarelos, por sua vez, expressaram a urgência de pessoas que estavam cansadas e queriam ação direta, embora com uma referência gradual à Revolução Francesa que historicizou e politizou o movimento a partir de dentro, ao invés de através da intervenção de forças externas. Apesar das críticas dirigidas a ela <strong>[5]</strong>, a promoção do RIC [uma iniciativa para referendos — Ill Will] demonstrou um desejo de avançar em direção à instintuir, em vez de sinalizar uma vontade de se institucionalizar; o que se buscava eram práticas de democracia direta que estivessem fora das formas consagradas nas lutas proletárias históricas. Essa tendência contrabalançou uma tendência ao <em>dégagisme</em> [“Joguem todos fora!” —Ill Will] que também está presente na convocatória atual, que parece combinar consciência cívica e populismo de esquerda (explicando o apoio irrestrito do La France Insoumise).</p>
<p style="text-align: justify;">Igualmente duvidosa é a sugestão de que a “indeterminação” do movimento poderia ser, em última análise, uma fonte de força ou poder. Na verdade, o poder pressupõe uma forte determinação, como vimos nas reações do Estado a quaisquer forças que genuinamente o ameaça (os Coletes Amarelos na França, a criminalização das lutas em outros lugares). Os Coletes Amarelos obtiveram essa força não da indeterminação de sua composição de classe e da heterogeneidade de suas reivindicações, mas de sua ação, dos confrontos com o Estado que ocorreram onde quer que seus diversos coletivos de luta interviessem no espaço público.</p>
<p style="text-align: justify;">Como escreveu Michaël Foessel no <em>Libération</em> em 4 de setembro de 2025, a mobilização virtual de um “On ne veut plus” [Não vamos mais continuar] vinda de baixo corresponde a um “On ne peut plus” [Não podemos mais continuar] vindo de cima, uma situação historicamente definida no início do século XX como constituindo a premissa de uma fase pré-insurrecional — com a diferença de que as palavras só têm significado num contexto histórico preciso. Há motivos para duvidar de um “Não vamos” vindo das bases, quando muitas vezes ele se assemelha a um “Não podemos” (formar um coletivo, entrar em greve, etc.). Quanto ao “Não podemos mais continuar” no alto, envolve um governo específico com sua própria constituição e sistema eleitoral, pressupondo dois blocos e não três. Este é somente um caso específico de impasse político no contexto mais geral de uma crise nos regimes democráticos, mas não estamos na Rússia de 1917, quando Lenin proferiu sua famosa frase.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, embora critiquem a mídia tradicional, os idealizadores não têm escrúpulos em usar seus métodos, assim como os dos políticos: o efeito do anúncio não é real, mas gera efeitos reais, como Foucault poderia ter dito. Hospitais e clínicas cancelaram as operações originalmente agendadas para 10 de setembro.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157686" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/rep-3270-hd47322.jpg" alt="" width="1200" height="800" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/rep-3270-hd47322.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/rep-3270-hd47322-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/rep-3270-hd47322-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/rep-3270-hd47322-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/rep-3270-hd47322-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/rep-3270-hd47322-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/rep-3270-hd47322-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Quanto àqueles que poderiam realmente fazer bloqueios significativos se quisessem, uma greve foi convocada para 18 de setembro, não querendo se envolver com o “Bloqueie Tudo” e perder a liderança potencial do que existe somente como um projeto. À primeira vista, as esperanças dos sindicatos de assinar uma espécie de novo acordo de 13 de maio (1968), quando o movimento (até então composto essencialmente por estudantes) decidiu implorar por apoio em troca de uma greve geral, parecem muito escassas; eles sem dúvida ficariam satisfeitos se o governo retirasse a eliminação prevista de dois feriados públicos. De fato, apesar do apelo eventual de Mélenchon por uma greve geral, suas táticas não implicam nenhuma reviravolta sindicalista revolucionária, sugerindo que eles aprenderam a lição do fracasso da luta pelas aposentadorias em 2023. Desde o final do verão de 2023 até os dias atuais, o que predomina é claramente um medo difuso por parte dos poderes constituídos, mas também um sentimento de derrota e desespero entre aqueles que lutam contra eles. Nesse sentido, o fogo não está latente sob a superfície habitual da aquiescência diária.</p>
<p style="text-align: justify;">Contrário ao que afirmam os atuais defensores da hipótese da autonomia, os movimentos recentes — pelo menos em seus resultados — não atestam o crescimento da autonomia dos movimentos sociais, algo que esses movimentos nunca almejaram, mas sim uma autonomização do próprio social, na medida em que a velha questão social foi “invisibilizada” (para usar um termo da moda). Isso levou ao isolamento de movimentos que, segundo a mídia, quase todos apoiam… à distância. As buzinas aqui, o barulho de panelas e frigideiras ali, não têm mais influência do que a torcida nos estádios… a menos que você acredite que tudo não passe de um espetáculo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido por Marco Tulio Vieira, a partir da versão em Inglês disponível em <a href="https://illwill.com/september-10th" target="_blank" rel="noopener">Ill Will</a></em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Imagem da capa: Um ônibus é incendiado em uma rodovia perto de Rennes, França, em 10 de setembro de 2025. </em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Enquanto os Coletes Amarelos se moviam em todos os sentidos da palavra, a iniciativa atual apela a um grupo pré-estabelecido: “Em 10 de setembro, vamos agir juntos. Uma só voz, um só povo. Unidos contra um sistema que nos oprime”, diz o slogan final de um cartaz cujo início revela a ideologia interseccional popularizada e aplicada às questões sociais: “Todos unidos. Não importa sua religião, sua cor, seu bairro, sua origem. Negros, brancos, árabes, crentes ou não, trabalhadores, desempregados, aposentados, sem-teto, jovens das periferias… Fazendeiros, caminhoneiros… Todos em nossa população, de mãos dadas.“</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Veja o trecho, publicado em 1º de setembro de 2025, no Lundimatin, do texto de Virno “Virtuosité et Révolution”, extraído de Miracle, virtuosité et “déjà vu”. Trois essais sur l’idée de “monde”, L’éclat, 1996 (disponível online <a class="urlextern" title="https://lundi.am/En-attendant-le-10-septembre-une-miraculeuse-exception" href="https://lundi.am/En-attendant-le-10-septembre-une-miraculeuse-exception" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Os iniciadores utilizam o Telegram, mas também o Instagram, Facebook, X, Bluesky, Discord… Todas essas redes permitem a divulgação em grande escala de milhares de imagens, muitas das quais foram geradas por inteligência artificial.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Ver Serge Quadruppani, “Vers le 10 septembre ou la puissance de l’indéterminé” (Rumo ao 10 de setembro ou o poder do indeterminado), Lundimatin, 1º de setembro de 2025 (disponível online <a class="urlextern" title="https://lundi.am/Vers-le-10-septembre-ou-la-puissance-de-l-indetermine" href="https://lundi.am/Vers-le-10-septembre-ou-la-puissance-de-l-indetermine" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>); e nossa resenha (J. Guigou) em: “Hasardeuse prédiction: Remarques sur l’article de Serge Quadruppani…” (Previsão arriscada: observações sobre o artigo de Serge Quadruppani…) (disponível online <a class="urlextern" title="https://blog.tempscritiques.net/archives/5226" href="https://blog.tempscritiques.net/archives/5226" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Para essas críticas, consulte Temps critiques, “Dans les rets du RIC”, março de 2019. Disponível online <a class="urlextern" title="http://tempscritiques.free.fr/spip.php?article397" href="http://tempscritiques.free.fr/spip.php?article397" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.</p>
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		<title>Cague no Sena</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jun 2024 03:10:49 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Após o presidente francês, Emanuel Macron, e a prefeita da capital, Anne Hidalgo, prometerem que mergulhariam no rio Sena após a sua despoluição para as provas de natação das Olimpíadas de Paris, franceses lançaram a campanha “Cague no Sena”. No site da campanha, informando a distância que você mora de Paris, é possível calcular qual o melhor horário para você “deixar o seu presente” no rio. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Internacional Lunática</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Jan 2024 03:10:59 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No nono aniversário do atentado de 7 de janeiro de 2015 contra a redação do Charlie Hebdo, franceses de direita batem boca no Twitter/X sobre quem salvará o país do avanço do Islã. Na direita ligada a Sarkozy acusam o partido de Marine Le Pen de estar a serviço de Putin, que seria um dos manipuladores geopolíticos do terrorismo islâmico. Eis que um direitista responde que é melhor estar sob as ordens de Putin que sob os ditames globalistas fascistas satanistas da União Europeia. No Brasil, um ano depois da tentativa de golpe, perfis bolsonaristas homenageiam os seus presos políticos, que teriam sido mandados a campos de concentração. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Velha Toupeira (6)</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Jul 2023 11:14:13 +0000</pubDate>
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		<title>O atual protesto da reforma da previdência: da recusa à revolta?</title>
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		<pubDate>Tue, 16 May 2023 12:27:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[As propostas de “convergência” dominaram, mas revelaram-se um fracasso devido ao seu caráter abstrato e manipulador. Por Temps critiques]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Temps critiques</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Os movimentos sociais desde 1968 não foram pautados pela sucessão de mandatos presidenciais. É verdade que estiveram algumas vezes ligados a uma ou outra reforma política, mas também surgiram independentemente da temporalidade institucional. Eles são mais determinados pelas transformações das relações sociais e pelas mutações do Estado, ou seja, pela passagem de uma sociedade ainda dominada pelo trabalho para uma sociedade a que chamamos capitalizada, onde a exploração da força de trabalho é apenas um elemento entre outros da valorização do capital. A resistência e os protestos contra estas convulsões políticas e antropológicas geraram, durante os mandatos de Macron (ministro da Economia, depois presidente), o movimento das praças e da <em>Nuit debout</em>, o acontecimento que propiciou os Coletes Amarelos sobre as condições de vida, o movimento contra o projeto de reforma por pontos das aposentadorias parado pela crise sanitária e, finalmente, agora, a rejeição do segundo projeto de reforma das aposentadorias.</p>
<p style="text-align: justify;">Para além da reforma das aposentadorias, o protesto atual <strong>[1]</strong> estaria relacionado à violência tecno-burocrática de um governo que dificilmente compreendemos a “grande marcha” empreendida à margem ou mesmo fora das instituições (cf. 49-3)? Se tentarmos fazer um balanço da evolução do Estado, verificamos que, por um lado, persistem a verticalidade presidencial e o poder soberano de três ou quatro ministros e, por outro, instituições descentralizadas, horizontalmente ligadas em rede, num emaranhado que dá origem a uma reabsorção das instituições que Macron tenta intensificar. Esta transição interminável do Estado-nação para o Estado-rede se traduz por uma crise de legitimidade da 5ª República <strong>[2]</strong>, que se reflete nos apelos a uma 6ª República, na exigência de um referendo ou ainda a um estado de exceção que não assumiria nem a forma bonapartista nem a fascista-populista, mas sim a de uma personalização do poder na sua forma pós-moderna, isto é, esvaziada de um real conteúdo político e, sobretudo, de poder político. De fato, este projeto de reforma das aposentadorias, como todos reconhecem, mesmo no campo presidencial, não é uma reforma como era a reforma previdenciária por pontos. Trata-se mais de um pretenso compromisso de campanha do que uma vontade de abordar o assunto ou de responder a uma urgência. Contudo, tem o valor de testar a legitimidade e de avaliar a relação de forças tornada incerta pela sucessão de acontecimentos ou de lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-large wp-image-148496" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/d2e9b08_1682961274781-1ermai-lemonde-8-1-1024x512.jpg" alt="" width="640" height="320" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/d2e9b08_1682961274781-1ermai-lemonde-8-1-1024x512.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/d2e9b08_1682961274781-1ermai-lemonde-8-1-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/d2e9b08_1682961274781-1ermai-lemonde-8-1-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/d2e9b08_1682961274781-1ermai-lemonde-8-1-1536x768.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/d2e9b08_1682961274781-1ermai-lemonde-8-1-840x420.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/d2e9b08_1682961274781-1ermai-lemonde-8-1-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/d2e9b08_1682961274781-1ermai-lemonde-8-1-681x341.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/d2e9b08_1682961274781-1ermai-lemonde-8-1.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />As passeatas ditas “selvagens” que atualmente agitam várias cidades operam como uma nova força derivada dos Coletes Amarelos, cujo princípio era não pedir autorizações para a ocupação de vias públicas ou para a organização de manifestações ao sábado. Ainda, não respeitavam os horários habituais das manifestações nem o seu percurso e, por conseguinte, criavam perturbações da ordem pública, ocasionando um certo excesso das forças policiais e, posteriormente, uma reconfiguração do espaço público. Mas, ao contrário das ações levadas a cabo pelos Coletes Amarelos, as ações em torno das aposentadorias estão mais em sintonia do que em oposição às ações sindicais. Com efeito, por um lado, as frações da esquerda sindical (SUD, CGT e CNT-SO), aquelas que, grosso modo, já participavam mais ou menos dos Coletes Amarelos, estão presentes também nestas passeatas e ações de bloqueio, enquanto, por outro lado, os jovens que participam do movimento parecem não desenvolver o velho anti-sindicalismo revolucionário das gerações anteriores. Tudo isto coexiste, de momento, incluindo nas assembleias gerais intersindicais abertas, cujo número de participantes é claramente superior às assembleias intersindicais tradicionais que agrupam as frações sindicais de esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">Na medida em que a luta não encontra o seu próprio espaço de expressão, como as vias públicas tinham sido para os Coletes Amarelos, ela tenta ocupar um caminho cujo princípio de fluidez é desviado para a sua dimensão social e política. No entanto, não é no ato de revirar e incendiar os lixos ou no confronto brutal com as forças da ordem que se constitui um movimento, mas sim na vontade de não negociar um percurso, de não cair nos moldes da lei, de não obedecer a um Estado cada vez mais abrangente. Pois é na reunião dos manifestantes em grandes praças de diversas cidades, no dia 23 de março, ao partirem “ferozmente”, mesmo que em grupos e já não em grande cortejo, que se sentiu uma verdadeira novidade e o desenvolvimento de uma força, mesmo que de momento seja apenas uma “força passageira”, mais do que as premissas de realização de um movimento capaz de colocar as questões em termos diferentes dos das organizações sindicais. As passeatas noturnas podem ser vistas como a expressão de um novo imprevisto que radicaliza um pouco o modo tradicional de se protestar.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, o movimento sindical tenta retomar o protagonismo no decorrer das manifestações, reconstruindo uma aparência de serviço de ordem, a fim de retomar a liderança da manifestação e a negociar da melhor forma possível, ou seja, sem rupturas, os pontos conflitantes do percurso. Trata-se, de fato, de não exercer demasiada pressão sobre o governo para não desfazer uma unidade sindical construída a partir do mínimo denominador comum. Na realidade, a capacidade de controle das forças sindicais já não têm nada a ver com as dos anos 1960-1970, o que significa que as organizações oficiais do movimento operário <strong>[3]</strong> já não têm as chaves da gestão das manifestações, deixando-as ao cuidado dos que caminham na frente da passeata ou da polícia. Esta situação deixa espaço para muitas iniciativas: estender-se às ruas adjacentes, mesmo que isso signifique voltar ao seu ponto de partida; retomar a iniciativa de avançar; não esperar que os sindicatos, mas todos os presentes, seja qual for a sua tendência, marquem o caminho para e em direção a outros locais. As ações de repressão diurnas e as passeatas noturnas imprimiram um ritmo e uma intensidade a um movimento que, até então, tinha dificuldade em encontrar a sua forma, uma vez que apenas seguia os dias de ação iniciados pelos sindicatos. Mas a repetição das mesmas táticas também acelerou a resposta da polícia e a implementação de uma estratégia de tensão que não existia antes da aprovação forçada do artigo 49-3. Esta estratégia é apoiada por uma grande parte da mídia que, desde há duas semanas, tende a reduzir a revolta atual a uma situação de motim ou mesmo de insurreição — que só existe em estado embrionário. Assim, as fotos e os vídeos de atos de destruição são isolados do seu contexto, que é o de atos altamente direcionados e com objetivos considerados legítimos não só pelos seus autores, mas também pelos outros participantes da manifestação, que cada vez mais integram estes tipos de ações no seu universo mental.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, o “nós também passaremos à força” é ainda muito minoritária nas ações e marchas, bem como nos locais de trabalho, porque muitas pessoas têm a impressão de que, na pior das hipóteses, já nada é possível e que, na melhor das hipóteses, tudo está paralisado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-148494" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/images.jpg" alt="" width="275" height="183" />Trata-se de uma parte da juventude de esquerda que se compromete verdadeiramente com a ação, ao lado dos manifestantes que estão na frente do ato, das frações de esquerda dos sindicatos e de muitos ex-Coletes Amarelos que nunca desistiram. Isto dá um novo entusiasmo ao “movimento”, mesmo que não seja a força motriz. De fato, a concentração nas aposentadorias não é mobilizadora para os estudantes do ensino secundário e universitário, que são normalmente mais atraídos pelos “problemas sociais” do que pela “questão social”, e para os jovens dos bairros, que são indiferentes à política em geral, mas não à injustiça, à discriminação e ao aparato policial. Se tomarmos o exemplo dos jovens que participam atualmente das diferentes formas de ação, não encontraremos apenas “autônomos”, “antifas”, “insurrecionais” ou estudantes, mas jovens de todos os tipos, incluindo os que trabalham. Eles perambulam à noite numa grande mistura de origens sociais, tendo como ponto comum a determinação e a vontade de atingir objetivos significativos. Além disso, é preciso sublinhar que uma certa camada de estudantes tiveram a capacidade de romper o ritual do bloqueio, o que significa que, mesmo quando as universidades são paralisadas, já não são utilizadas, como no tempo do primeiro contrato de trabalho, para se oporem às reformas específicas do sistema de educação nacional, nem para “retomar” a instituição, que já não tem nada a oferecer como verdadeira saída, sobretudo nas Ciências Humanas e Sociais. As universidades já não são tomadas como bases de apoio; servem antes como ponto de encontro coletivo para a ida às manifestações.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isto, que possibilita uma mistura de gerações, certamente não produz uma nova “composição de classe” segundo o modelo operário italiano dos anos 1960-1970. Não há uma aliança consciente ou velada entre frações, mas uma “aliança” <strong>[4]</strong> de circunstâncias e oportunidades que tende a ultrapassar os particularismos habituais, de idade, sexo, etc. Uma aliança contra o Poder em geral, o Poder com P maiúsculo, que inclui tanto a dimensão desse poder, ou seja, o poder político atual e Macron em particular (não um ódio de classe, mas um ódio de todos) como o Poder na figura do Estado e das suas forças de repressão, o Poder político-econômico como capacidade de reorganizar o território e as infra-estruturas (os “grandes projetos”), ou seja, o Poder como força capitalista. Em suma, o capitalismo como Poder. A este respeito, o conflito em torno dos bacias de Deux-Sèvres mostra um caminho para uma “aliança” que se estende a certas categorias de agricultores ou de populações rurais <strong>[5]</strong>. É diferente da simples “aliança” entre forças convergentes que mantém-se separadas.</p>
<p style="text-align: justify;">É a partir da decisão do governo de utilizar o artigo 49-36 <strong>[6]</strong> que parece ter ocorrido uma mudança no sentido de um alargamento e de uma radicalização do movimento. Aliás, é paradoxal, uma vez que é nesta nova configuração que se poderia observar um movimento em gestação que encontramos seguramente o menor número de eleitores potenciais e reais &#8211; uma vez que aí se encontram a maioria daqueles que recusam ideológica e politicamente a ideia de representação parlamentar e que, de qualquer modo, sofrem por não se sentirem representados e não votam.</p>
<p style="text-align: justify;">Este fenômeno é observado em muitas grandes e médias cidades <strong>[7]</strong>, ao passo que esta “aliança” não se verificou com o movimento dos Coletes Amarelos devido, por um lado, ao seu caráter “inclassificável” do ponto de vista do fio desgastado, se não mesmo quebrado, das lutas de classes; e, por outro lado, ao fato de não se ligar de forma alguma às preocupações dos “milênios”. As propostas de “convergência” dominaram, mas revelaram-se um fracasso devido ao seu caráter abstrato e manipulador. Só pudemos observar a diferença e a falta de entendimento entre os protestos climáticos e os protestos dos Coletes Amarelos quando se encontraram; uma lacuna que um slogan como “fim do mês, fim do mundo, a mesma luta” não conseguiu preencher imediatamente.</p>
<p style="text-align: justify;">É porque o processo em curso se afasta, em parte, das formas esperadas pelo aparelho de Estado que Macron e o seu governo se encontram na defensiva, mesmo que isso só leve, de momento, ao cancelamento de eventos como a visita de Charles 3º de Inglaterra. Que tudo era esperado até o artigo 49-3, notamos no texto “À sombra das pensões”, porque era essa a situação do momento, mas será a mesma coisa atualmente? Sim e não. Sim, porque os sindicatos delimitam as reivindicações (trata-se apenas de voltar à reforma aos 60 anos, na melhor das hipóteses, para a CGT e o SUD, ou de manter a situação atual para os outros) e o ritmo dos momentos de luta impõe-se; não, porque já não são senhores do curso das manifestações. De fato, em muitas cidades, são as escolhas das prefeituras que provocam incidentes como o incêndio às portas da Câmara Municipal em Bordeaux ou em Lyon, onde o percurso é desviado para evitar a passagem em frente ao antigo hospital do Hôtel-Dieu, que se tornou um “templo do capitalismo”. Isto teve o efeito perverso de provocar um curto-circuito na sequência habitual do final da manifestação, durante a qual as ondas de manifestantes seguiam um ritmo regular de dispersão sucessiva de cada nova leva de chegadas. É este bloqueio político-policial dos fluxos, para preservar os bens simbólicos econômicos, que cria um aperto de contenção. E depois, são os poucos manifestantes da frente que decidem o que acontece. Em Lyon, por exemplo, esta situação de bloqueio da prefeitura já existia na greve pré-confinamento, só que a mobilização dos manifestantes era muito menor. Há aqui um paradoxo: enquanto os movimentos pós-Coletes Amarelos deveriam ter sido fortes porque beneficiaram do efeito Coletes Amarelos, os de hoje podem ter sofrido o efeito negativo da Covid; no entanto, é o contrário que está acontecendo, de tal forma que a insuportabilidade do atual governo está cada vez mais presente. Um governo que está ficando sem rumo, que já não sabemos o que realmente representa, vista rejeição da rua, da opinião pública e o desinteresse de muitos eleitos.</p>
<p style="text-align: justify;">É também por isso que a utilização do 49-3, que é perfeitamente constitucional, mesmo que levante a questão da validade da sua inclusão na Constituição, parece ter sido entendida como algo forçado que é acompanhada por uma mudança na política repressiva, onde passamos da “luva de veludo” das primeiras manifestações para o “punho de ferro” da última quinzena. A cólera provocada por esta passagem à força ultrapassa largamente as fileiras do LFI <strong>[8]</strong> e dos seus apoiadores, que a vêem como uma limitação às suas capacidades de intervenção no Hemiciclo. Na verdade, a utilização deste artigo pelo governo de Macron tornou-se, no espaço de algumas horas, um vetor de raiva fora do Hemiciclo, onde um slogan como “nós também passaremos à força” se tornou uma ponta de lança do protesto contra o projeto de reforma, um elemento unificador dessas forças e a afirmação não do que seria um contra-poder, mas sim um poder em processo de formação.</p>
<figure id="attachment_148497" aria-describedby="caption-attachment-148497" style="width: 1000px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-148497" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/20230119170306-68382912.jpg" alt="" width="1000" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/20230119170306-68382912.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/20230119170306-68382912-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/20230119170306-68382912-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/20230119170306-68382912-840x420.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/20230119170306-68382912-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/05/20230119170306-68382912-681x341.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /><figcaption id="caption-attachment-148497" class="wp-caption-text">A demonstrator holds a sign reading &#8216;Metro, job, tomb&#8217; during a rally called by French trade unions in Paris on January 19, 2023. &#8211; A day of strikes and protests kicked off in France on January 19, 2023 set to disrupt transport and schooling across the country in a trial for the government as workers oppose a deeply unpopular pensions overhaul. (Photo by Christophe ARCHAMBAULT / AFP)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A situação já não é, portanto, a mesma que no início, quando se notava um seguimento dos mobilizados e a sua vontade de não bater de frente os sindicatos, o que poderia representar, por uma vez, uma frente única e, portanto, uma maior força de resistência nestes tempos em que a relação de forças parece desfavorável. Nas ações, a maioria dos participantes seguia as instruções sindicais e a lógica que delas decorre, como por exemplo a preservação dos instrumentos de trabalho dos ferroviários e dos petroleiros. Mas os cortes de energia dos sindicalistas da Engie <strong>[9]</strong> são muito menos consensuais e dão outra perspectiva tática, sendo um último recurso aos sindicalistas caso a derrota em campo aberto se tornar ameaçadora. É o que acontece numa situação de bloqueio em que a “força pacífica” dos sindicatos é confrontada com a própria força do Estado, sem uma perspectiva evidente de saída. No entanto, nada se passa no front. Do lado do governo, a “abertura” de Macron a tudo, exceto à idade da reforma, é de fato uma forma de não ceder; do lado da contestação à reforma, a unidade intersindical serve-lhe paradoxalmente na medida em que a impede de visar um nível mais elevado de agitação (greve por tempo indeterminado ou greve geral), sobre a qual, além disso, não tem qualquer garantia de sucesso, uma vez que, no estado atual das forças, só diria respeito a certos setores “protegidos” <strong>[10]</strong>. É por isso que uma possível opção estratégica para o governo… e para os sindicatos seria a consulta aos cidadãos, através do procedimento de referendo de iniciativa compartilhada, que seria apoiada pelo menos pela CFDT <strong>[11]</strong> (o “colocar em pausa” de Laurent Berger) e pela CFTC <strong>[12]</strong>. Além disso, colocaria os partidos políticos de novo em jogo, salvaguardando a legitimidade da escolha táctica sindical. Por outras palavras, uma alternativa democrática e institucional que reduz um combate que coloca a questão a legitimidade destas instituições.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Se o intitulamos como “protesto” é porque há movimento: protesta-se mais do que contesta-se, mesmo que envolto com o slogan “anti-capitalista…”. Protesta-se contra o que considera serem abusos: o atraso na idade da reforma, o artigo 49-3, o nível de repressão e um desprezo, considerado insuportável, por parte do poder político, os lucros exorbitantes dos bancos e das companhias petrolíferas.<br />
<strong>[2]</strong> Sobre esse ponto, podemos nos reportar ao artigo “Les Gilets jaunes et la crise de légitimité de l’État”<a class="urlextern" title="http://tempscritiques.free.fr/spip.php?article417" href="http://tempscritiques.free.fr/spip.php?article417" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">http://tempscritiques.free.fr/spip.php?article417</a>,<br />
<strong>[3]</strong> Quanto aos partidos políticos, já não saem à rua e concentram-se em batalhas na Assembleia Nacional. Este fato está obviamente ligado à crise geral da função política e ao quase desaparecimento no terreno de organizações políticas de esquerda institucional, como o NPA ou a Lutte ouvrière ou ainda a LFI. Estas permanecem à margem das manifestações (pontos de partida e cruzamentos). A direção da predominância da relação partido/sindicato inverte-se então em relação à perspectiva leninista, mas não pode recuperar a sua origem revolucionária sindicalista ou anarco-sindicalista… porque se exprime agora fora de qualquer perspectiva revolucionária. De fato, esta relação é obsoleta, devido à perda da centralidade do trabalho na sociedade capitalizada e a uma perspectiva comunista que se tornou impossível de encontrar. Daí o papel fundamental de um sindicato como o CFDT. Um papel que se revelará provavelmente operacional na procura de um compromisso para uma possível “saída da crise”.<br />
<strong>[4]</strong> A noção de “aliança” foi elaborada pela primeira vez por Jacques Baynac (Mai retrouvé, Belfond, 1978, p. 113), onde ele procura caracterizar o lugar entre estudantes, jovens e trabalhadores em maio e junho de 1968.<br />
<strong>[5]</strong> Na luta contra as bacias, reencontramos a mesma heterogeneidade social que caracterizamos como “supra”, sem que falássemos de convergência de interesses.<br />
<strong>[6]</strong> O artigo 49-3 não é uma exceção na Constituição de 1958, uma vez que o artigo 44, conhecido como “votação fechada”, possibilita a aceleração dos artigos 48 e 47-2, que reduz os debates a 40 dias. Todos estes artigos já foram utilizados sucessivamente, mas raramente de forma complementar. É o que os teóricos do direito analisam como “parlamentarismo racionalizado”. No entanto, convém recordar que, na República de Weimar, a partir de 1919, existia um equivalente do 49-3. O artigo 48-2 permitia ao Presidente do Reich aprovar uma lei por simples assinatura, sem votação no Parlamento. Esta lei foi calorosamente aplaudida pelo jurista nazista Carl Schmitt e foi aplicada por Hindenburg para estabelecer a ditadura hitleriana. Um tipo de procedimento em que a lei não é mais do que “a hedionda cabeça de Górgone do poder”, como afirmou o jurista constitucional alemão Hans Kelsen, em oposição a Carl Schmitt.<br />
<strong>[7]</strong> De fato, nem tudo está concentrado em Paris. Cidades como Bordeaux, Nantes e Rennes, Lyon e Toulouse em menor grau, estão em convulsão e perturbam a leitura habitual do jacobinismo centrada no que se passa “na capital”. Politicamente, isto coloca problemas de gestão das lutas pelo poder e, concretamente, um problema de distribuição e de disponibilidade das forças da ordem. Se o movimento dos Gilets jaunes sentia a necessidade de se deslocar a Paris para as “jornadas nacionais”, porque é lá que tudo se decide, embora a sua força resida sobretudo na sua ancoragem local, atualmente surge uma nova lucidez quanto às lutas a travar onde quer que valha a pena, porque o capital está hoje em todo lugar (luta contra as bacias).<br />
<strong>[8]</strong> NdT.Cf. <a class="urlextern" title="https://lafranceinsoumise.fr" href="https://lafranceinsoumise.fr" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://lafranceinsoumise.fr</a><br />
<strong>[9]</strong> NdT. Cf. <a class="urlextern" title="https://www.engie.fr" href="https://www.engie.fr" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.engie.fr</a><br />
<strong>[10]</strong> Além disso, as votações, muitas vezes com braços levantados, a favor da greve por tempo indeterminado, não garantem o apoio maciço dos trabalhadores em princípio afetados.<br />
<strong>[11]</strong> NdT. Cf. <a class="urlextern" title="https://www.cfdt.fr/portail/navigation-principale-asp_5000" href="https://www.cfdt.fr/portail/navigation-principale-asp_5000" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.cfdt.fr/portail/navigation-principale-asp_5000</a><br />
<strong>[12]</strong> NdT. Cf. <a class="urlextern" title="https://www.cftc.fr" href="https://www.cftc.fr" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.cftc.fr</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido pelo Passa Palavra <a class="urlextern" title="http://tempscritiques.free.fr/spip.php?article530" href="http://tempscritiques.free.fr/spip.php?article530" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">a partir do original</a> publicado em <a class="urlextern" title="http://tempscritiques.free.fr/" href="http://tempscritiques.free.fr/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Temps critiques</a>.</em></p>
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		<title>[França] Sobre a construção policial ao redor de Serge e os outros feridos de Sainte Soline</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Mar 2023 18:22:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
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		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Camaradas do S. 2º comunicado à imprensa dos camaradas de Serge: Enquanto nosso camarada Serge luta como um leão para manter a vida que o Estado está tentando tirar, estamos assistindo a uma nova onda de violência, desta vez da mídia, que visa torná-lo um homem que pode ser legitimamente fuzilado. Hoje, ele ainda [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 id="magicdomid36" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1 i"><i>Por Camaradas do S.</i></span></h3>
<h4 id="magicdomid14" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1 b"><b>2º comunicado à imprensa dos camaradas de Serge:</b></span></h4>
<div id="magicdomid18" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">Enquanto nosso camarada Serge luta como um leão para manter a vida que o Estado está tentando tirar, estamos assistindo a uma nova onda de violência, desta vez da mídia, que visa torná-lo um homem que pode ser legitimamente fuzilado. Hoje, ele ainda está em coma e seu prognóstico ainda é incerto. Nossa solidariedade também vai para Mickaël e para todos aqueles que encontraram violência policial em seu caminho.</span></div>
<div id="magicdomid19" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid20" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">As palavras do poder estatal são incansavelmente repetidas nos palcos da mídia burguesa para construir o inimigo que eles querem combater. Sua cortina de fumaça não resistirá às dezenas de relatos que vieram para recompor o curso dos acontecimentos. A Gendarmeria [força policial de choque francesa] usou granadas para ferir os manifestantes e orquestrou o falha dos serviços de resgate, mesmo que isso significasse deixar os camaradas morrerem.</span></div>
<div id="magicdomid21" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid22" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">Os serviços de inteligência distribuem o arquivo de Serge aos escritórios editoriais com o objetivo de impor o prisma policial para designar o que somos. Não vamos tentar desmontar aqui cada uma das versões policiais deliberadamente truncadas. Isso seria acreditar que qualquer verdade sobre este assunto poderia existir nos arcanos da propaganda do Estado e da mídia. Serge, como militante revolucionário, participa há muitos anos com toda sua vontade nas diferentes lutas de classe que surgem contra nossa exploração, sempre tentando ampliá-las e fortalecê-las, pela vitória dos proletários.</span></div>
<div id="magicdomid23" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid24" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">Afinal, não podemos nos resignar a sermos esmagados.</span></div>
<div id="magicdomid25" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid26" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">Apelamos a todos aqueles que o conhecem para dizer aos que o rodeiam quem ele é. Mas lembrando de uma coisa: Serge, na luta, recusa a estratégia do poder para designar o bom e o mau. Nós mantemos esta linha com ele.</span></div>
<div id="magicdomid27" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid28" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">Na terça-feira 28 de março, pessoas de todo o mundo tomaram a iniciativa de mostrar sua solidariedade no coração do movimento contra a reforma previdenciária na França. Também recebemos muitas mensagens de camaradas de outros países. Agradecemos calorosamente a eles e os convidamos a continuar e fortalecer a luta. Outras iniciativas já estão planejadas e convidamos as pessoas a se unirem a elas e a multiplicá-las, sem moderação, na França e no mundo.</span></div>
<div id="magicdomid29" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid30" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">Apelamos para a distribuição massiva deste comunicado.</span></div>
<div id="magicdomid31" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid32" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">PS: Há muitos rumores circulando sobre a saúde de Serge. Por favor, não os espalhe. Nós o manteremos informado sobre a evolução da situação.</span></div>
<div id="magicdomid33" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid34" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">Para entrar em contato conosco: s.informations@proton.me</span></div>
<div aria-live="assertive"></div>
<div aria-live="assertive">
<h4 id="magicdomid2" class="ace-line" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1 b"><b>Comunicado de imprensa dos pais de Serge</b></span></h4>
</div>
<div id="magicdomid35" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive">
<div id="magicdomid4" class="ace-line" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">Nosso filho Serge está atualmente hospitalizado numa condição de risco de vida após um ferimento causado por uma granada GM2L durante a manifestação de 25 de março organizada em Sainte Soline contra os projetos de irrigação.</span></div>
<div id="magicdomid5" class="ace-line" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">Abrimos acusações por tentativas de homicídio, obstrução deliberada da ajuda médica; e violação do sigilo profissional no interior de uma investigação policial, com uso indevido das informações contidas em sua ficha.</span></div>
<div id="magicdomid6" class="ace-line" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">Em resposta aos artigos publicados na imprensa, muitos deles imprecisos ou enganosos, gostaríamos de deixar claro que:</span></div>
<div id="magicdomid7" class="ace-line" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">    &#8211; Sim, Serge está na &#8220;lista S&#8221; &#8212; assim como milhares de militantes hoje na França atualmente.</span></div>
<div id="magicdomid8" class="ace-line" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">    &#8211; Sim, Serge teve problemas judiciais &#8212; assim como a maior parte daqueles que lutam contra a ordem estabelecida.</span></div>
<div id="magicdomid9" class="ace-line" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">    &#8211; Sim, Serge participou de muitas mobilizações anticapitalistas &#8212; assim como milhões de jovens ao redor do mundo que acreditam que uma boa revolução não é pedir demais hoje em dia, e assim como os milhões de trabalhadores que estão lutando contra a reforma da aposentadoria na França.</span></div>
<div id="magicdomid10" class="ace-line" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1">Nós consideramos que esses não são atos criminais que manchariam nosso filho, mas que tais atos são, ao contrário, crédito para ele.</span></div>
<div id="magicdomid11" class="ace-line" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid12" class="ace-line" aria-live="assertive"><span class="author-a-y0a6btz75zz77zz89z1vz72zz67zz85zz89z1 i"><i>Pais do Serge, 29 de março</i></span></div>
</div>
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		<title>[França] Camarada internado e com risco de morte após a manifestação em Sainte-Soline</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Mar 2023 22:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[França]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Apesar de seu estado grave a prefeitura impediu conscientemente que os serviços de emergência interviessem. Por Camaradas de S.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Camaradas de S.</h3>
<p style="text-align: justify;">Nosso camarada S. foi atingido na cabeça por uma granada explosiva durante a manifestação contra reservatórios de água neste sábado, 26 de março, em Sainte Soline.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de seu estado grave, a prefeitura impediu conscientemente, em um primeiro momento, que os serviços de emergência interviessem, e apenas depois de algum tempo o transportaram para uma unidade de atendimento apropriada. Ele está atualmente em terapia intensiva neurocirúrgica. Seu prognóstico vital ainda está comprometido.</p>
<p style="text-align: justify;">A onda de violência sofrida pelos manifestantes deixou centenas de feridos, com vários atentados graves à integridade física, conforme anunciado pelos diversos relatórios de informação disponíveis. Os 30.000 manifestantes tinham o objetivo de bloquear o local da megabacia [grandes reservatórios de água destinados à agroindústria] de Sainte-Soline, um projeto de apropriação privada de água por uma minoria em benefício de um modelo capitalista que não tem mais nada a oferecer além de morte. A violência do braço armado do estado democrático é a expressão mais clara disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo em seguida do movimento contra a reforma da previdência, a polícia mutila e tenta assassinar para impedir a sublevação, para defender a burguesia e seu mundo. Nada impedirá nossa determinação em acabar com o reinado deles.</p>
<p style="text-align: justify;">Na terça-feira, 28 de março, e nos dias seguintes, vamos fortalecer as greves e bloqueios, sair às ruas, por S. e todos os feridos e presos de nossos movimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vida longa à revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Camaradas de S.</p>
<p style="text-align: justify;">PS: Se você tiver alguma informação sobre as circunstâncias dos ferimentos infligidos a S., entre em contato conosco: s.informations@proton.me</p>
<p style="text-align: justify;">Gostaríamos que este comunicado fosse distribuído o mais amplamente possível.</p>
<p><em>Traduzido do <a href="https://nantes.indymedia.org/posts/86473/communique-au-sujet-de-s-camarade-au-pronostic-vital-engage-a-la-suite-de-la-manifestation-de-sainte-soline/" target="_blank" rel="noopener">Francês</a></em></p>
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		<title>Nova onda na França, mesmas soluções: trabalho remoto, isolamento social e vacinas</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/01/141855/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Jan 2022 12:01:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[França]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[A vacinação não é, portanto, uma solução individual, mas coletiva.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Sindicato dos trabalhadores e trabalhadoras da indústria de videogames</h3>
<blockquote><p>&nbsp;</p>
<p>Este comunicado sindical não apresenta uma descrição fidedigna do cenário político francês, uma vez que o governo Macron nunca apresentou as vacinas como uma panaceia única, pretendendo sempre acompanhá-las de normas sanitárias como o uso de máscaras, o distanciamento social e os confinamentos. Além disso, a necessidade do certificado de vacinação não foi apresentada de nenhuma forma falaciosa pelo governo, mas como uma medida indispensável para evitar contágios, nomeadamente num país como a França, em que um grande número de pessoas resiste a vacinar-se. Apesar disso, o Passa Palavra optou por publicá-lo na integra devido à relevância política da luta pelo homeoffice ocorrendo na categoria dos programadores de videogames.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em um <a class="urlextern" title="https://www.stjv.fr/en/2021/08/health-measures-finding-safety-in-the-collective-despite-the-government/" href="https://www.stjv.fr/en/2021/08/health-measures-finding-safety-in-the-collective-despite-the-government/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">comunicado anterior</a> lembramos a todos a ameaça representada pelas escolhas políticas do governo francês e pela comunicação falaciosa em torno do “passaporte vacinal” e das vacinas contra a COVID-19, que não são a panacéia infalível que tentaram nos vender.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-141899" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/Figura-1-Super-Mario-Bros-classico-jogo-de-aventura-b-Jogos-de-Acao_Q320.jpg" alt="" width="320" height="320" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/Figura-1-Super-Mario-Bros-classico-jogo-de-aventura-b-Jogos-de-Acao_Q320.jpg 320w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/Figura-1-Super-Mario-Bros-classico-jogo-de-aventura-b-Jogos-de-Acao_Q320-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/Figura-1-Super-Mario-Bros-classico-jogo-de-aventura-b-Jogos-de-Acao_Q320-70x70.jpg 70w" sizes="auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px" />As discussões sobre a pandemia e a saúde pública estão praticamente ausentes de todos os meios de comunicação, que estão mais interessados em compreender o último pânico moral da extrema-direita e em fazer campanha pelos fascistas. Após quase dois anos numa situação pandêmica, surge uma nova variante, a epidemia piora a níveis sem precedentes, e o governo continua a prosseguir a sua política criminosa de inação. É como se a COVID-19 não tivesse já causado mais de 100 mil mortes na França, a maioria das quais poderia ter sido evitada através de medidas mais decididas em vez de se recorrer a soluções milagrosas para beneficiar a agenda capitalista em todas as fases.</p>
<p style="text-align: justify;">A nova variante, de particular preocupação, a <a class="urlextern" title="https://covariants.org/variants/21K.Omicron" href="https://covariants.org/variants/21K.Omicron" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Ômicron</a>, poderia tornar a situação ainda pior, como a Delta antes desta. É preciso lembrar que quanto maior for a circulação do vírus, mais provável é que estas mutações apareçam, matem mais pessoas e prolonguem a epidemia. As imperfeições das políticas de saúde pública favorecem diretamente o seu aparecimento. É por isso que é absolutamente necessário que se quebre as patentes de vacinas a fim de assegurar um acesso equitativo e global à vacinação e de parar a pandemia.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste preciso momento, muitas empresas de jogos de videogame procuram formalizar as suas políticas de trabalho remoto, fazendo o seu melhor para que não seja generalizado, e para garantir o controle sobre os seus empregados. Algumas inclusive obrigaram a um regresso completo ao escritório já há vários meses. <strong>Exigimos a implementação maciça do trabalho remoto na indústria dos jogos de videogame</strong>, para que todos os trabalhadores voluntários possam evitar arriscar a sua saúde no trabalho e durante seu deslocamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta exigência não é nem absurda nem complicada, uma vez que ondas anteriores mostraram que é viável. As empresas tinham implementado em massa um trabalho remoto, que continua a ser uma solução prática, eficiente e comprovada, após mais de um ano de pandemia. Os trabalhos de jogos de videogame são em geral bastante compatíveis com este tipo de atividade, portanto já não existem desculpas válidas para não reduzir a exposição dos trabalhadores, e dos seus familiares mais próximos, ao vírus &#8211; e mais importante, para não subestimar a contribuição dos trabalhadores da indústria para a circulação do vírus na população como um todo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-141898" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/14153902953524.jpg" alt="" width="512" height="447" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/14153902953524.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/14153902953524-300x262.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/14153902953524-481x420.jpg 481w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" />Se a presença física no escritório for realmente necessária, a aplicação de medidas sanitárias (desinfecção e ventilação das instalações, distanciamento físico, proteção através do uso de máscara durante todo o dia de trabalho) é indispensável e obrigatória. Deve também ser lembrado que existem dispositivos técnicos, que devem ser adotados para além de medidas individuais: Os <a class="urlextern" title="https://www.allodocteurs.fr/maladies/maladies-infectieuses-et-tropicales/coronavirus/capteurs-de-co2-une-solution-pour-limiter-les-contaminations-au-covid-19_31275.html" href="https://www.allodocteurs.fr/maladies/maladies-infectieuses-et-tropicales/coronavirus/capteurs-de-co2-une-solution-pour-limiter-les-contaminations-au-covid-19_31275.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">sensores de CO2</a> podem detectar uma falta de ventilação (o que, evidentemente, exige que sejam tomadas as medidas necessárias em caso de ventilação insuficiente!), e os <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/wirecutter/blog/can-hepa-air-purifiers-capture-coronavirus/" href="https://www.nytimes.com/wirecutter/blog/can-hepa-air-purifiers-capture-coronavirus/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">dispositivos de filtragem do ar</a> (norma HEPA) são uma solução adequada para locais onde a ventilação não é possível. <strong>Estas não são medidas de conforto, mas condições necessárias para qualquer trabalho em espaços partilhados!</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para os trabalhadores, os benefícios da vacinação (redução significativa dos riscos <a class="urlextern" title="https://twitter.com/mimiryudo/status/1418634614625783809" href="https://twitter.com/mimiryudo/status/1418634614625783809" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">para si</a> próprio e <a class="urlextern" title="https://twitter.com/C_A_Gustave/status/1418543892702679041" href="https://twitter.com/C_A_Gustave/status/1418543892702679041" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">para outros</a>, e finalmente a contribuição para erradicação do vírus) são imensos e inegáveis mas, ao contrário das mentiras proferidas por alguns ministros, não oferece proteção de 100% e não impede completamente a infecção a si próprio ou a outros. <strong>A vacinação não é, portanto, uma solução individual, mas coletiva.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">É importante que o maior número possível de nós tire proveito do acesso a uma dose de reforço (terceira para a maioria das pessoas) para se vacinar, não para seguir cegamente o governo, mas para a saúde de todos nós. Recordemos que a lei aprovada em Julho passado pelo Parlamento francês inclui, no seu <a class="urlextern" title="https://www.assemblee-nationale.fr/dyn/15/textes/l15t0660_texte-adopte-provisoire.pdf" href="https://www.assemblee-nationale.fr/dyn/15/textes/l15t0660_texte-adopte-provisoire.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">artigo 17</a>, <strong>o direito dos funcionários a irem e serem vacinados durante o horário de trabalho, sem qualquer penalização para o seu salário ou direitos de férias.</strong> Por conseguinte, já não há qualquer desculpa nessa frente, e seremos intransigentes com qualquer empresa que se oponha ao exercício deste direito.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-141901" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/super-mario-bros-pc-game-_imagenGrande1.jpg" alt="" width="1600" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/super-mario-bros-pc-game-_imagenGrande1.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/super-mario-bros-pc-game-_imagenGrande1-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/super-mario-bros-pc-game-_imagenGrande1-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/super-mario-bros-pc-game-_imagenGrande1-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/super-mario-bros-pc-game-_imagenGrande1-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/super-mario-bros-pc-game-_imagenGrande1-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/super-mario-bros-pc-game-_imagenGrande1-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/01/super-mario-bros-pc-game-_imagenGrande1-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" />Desde o início, a campanha de vacinação do governo tem favorecido desproporcionalmente os ricos, como todas as suas políticas. Vamos agir autonomamente para construir uma cobertura vacinal capaz de proteger todos os trabalhadores!</p>
<p style="text-align: justify;">Para construir a solidariedade e a ajuda mútua necessárias para enfrentar a pandemia, continuemos juntos a:</p>
<ol>
<li class="li">nos vacinar e procurar tomar doses de reforço;</li>
<li class="li">incentivar nossos familiares a se vacinarem;</li>
<li class="li">ajudar as pessoas que sofrem de forma discriminatória do acesso aos agendamentos de vacinação a obtê-los;</li>
<li class="li">recordar e exigir a aplicação rigorosa de medidas sanitárias na nossa vida cotidiana e no trabalho;</li>
<li class="li">faça isolamento social e testes sempre que possível, a qualquer sinal de sintomas ou sempre que surgir uma dúvida.</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;"><em>Todos os links remetem a artigos ou documentos na língua francesa. Este artigo foi traduzido e revisado da sua versão em inglês pelo Passa Palavra, e o original, publicado em novembro deste ano, pode ser visto <a class="urlextern" title="https://www.stjv.fr/en/2021/11/new-epidemic-wave-same-solutions-remote-work-self-isolation-vaccines/" href="https://www.stjv.fr/en/2021/11/new-epidemic-wave-same-solutions-remote-work-self-isolation-vaccines/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.</em></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Tão longe, tão perto: 150 anos da Comuna de Paris</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137704/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Apr 2021 03:07:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[França]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A radicalidade da Comuna de Paris contrasta com os limites do tempo presente. Atualmente, a emancipação do trabalho, parece, ao mesmo tempo, mais possível e mais difícil. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">A Comuna de Paris completou 150 anos em 18 março. Foi uma experiência fundamental para o proletariado, influenciou lutas posteriores como, por exemplo, a Revolução Russa. Apesar de ter durado apenas 72 dias, colocou, pela primeira vez, a possibilidade concreta de emancipação do trabalho. A radicalidade da Comuna de Paris contrasta com os limites do tempo presente. Atualmente, a emancipação do trabalho, parece, ao mesmo tempo, mais possível e mais difícil. Daí o título, “tão longe, tão perto”.</p>
<p style="text-align: justify;">A Comuna de Paris se comunicava por meio de cartazes, experiência retomada, posteriormente, no maio de 1968 francês. Alguns cartazes e decretos da época podem ser consultados <a class="urlextern" title="http://www.grupgerminal.org/?q=node/968" href="http://www.grupgerminal.org/?q=node/968" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>. Dando continuidade à discussão iniciada na <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/03/136999/" href="https://passapalavra.info/2021/03/136999/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">coluna anterior</a>, comento algumas comunicações da Comuna de Paris, todas reais, com exceção da última, que não ocorreu. É uma tentativa de pensar o processo revolucionário a partir dos documentos produzidos no calor dos acontecimentos.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No início de setembro de 1870, o imperador francês, Napoleão III, foi capturado pelos prussianos junto com milhares de soldados. Em 04 de setembro, a Assembleia Legislativa proclamou a República. Em 14 de setembro, o Comitê Central Republicano de Defesa dos 20 Distritos de Paris, formado por 4 delegados de cada distrito, informou, em um cartaz, sobre a criação de Comitês de Vigilância e Defesa, além de fazer reivindicações relacionadas à segurança pública, alimentação, moradia e defesa. Ali estava delimitado o “programa” da Comuna de Paris:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Eleição para magistrados.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Supressão da polícia, que deveria ser substituída pela Guarda Nacional formada por trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Liberdade de expressão, reunião e associação.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Expropriação, com reembolso posterior à guerra, de alimentos e outros produtos. Divisão das provisões entre os parisienses de forma proporcional enquanto durasse o cerco à cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Garantia de moradia para toda a população de Paris.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Fornecimento aos Comitês dos 20 Distritos de recursos materiais e humanos para que pudessem organizar a defesa dos bairros.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Controle popular sobre a política de defesa.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Distribuição de armas para que a população parisiense se defendesse. Mobilização de todos os cidadãos aptos para a defesa da cidade, inclusive mulheres e crianças, porque Paris estava disposta a sepultar-se sob suas ruínas, sem se render.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao final, o Comitê Central Republicano de Defesa dos 20 Distritos de Paris diz estar convencido de que o Governo de Defesa Nacional adotaria as medidas propostas. Não ocorreu. Nem poderia. As reivindicações eram radicais demais para o Estado burguês, principalmente porque propunham privá-lo do controle sobre as forças repressivas. As medidas citadas foram o eixo em volta do qual se organizou, posteriormente, a Comuna de Paris. Vale ressaltar que a Guarda Nacional começou a ser mobilizada em agosto de 1870, a possibilidade de conseguir alguma renda somada à disposição para a luta atraiu trabalhadores. Além de atacar o controle estatal sobre as forças repressivas, as medidas apontavam para uma reorganização social com liberdade de expressão, direito à moradia e distribuição de alimentos. Também transparece o estado de espírito dos parisienses, que estavam dispostos a serem sepultados sob as ruínas da cidade, mas sem se renderem. O cartaz é seis meses anterior à Comuna de Paris, que se constituiu quando ficou nítido que o governo não atenderia às reivindicações dos trabalhadores, além de sabotar a resistência.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">06 de janeiro de 1871, um cartaz assinado pelos delegados dos 20 Distritos de Paris denunciou o Governo de Defesa Nacional, que estava preocupado em negociar a rendição, ignorando as necessidades da resistência, como fabricar armas e recrutar combatentes. Os delegados denunciaram que militares bonapartistas haviam sido mantidos em seus postos, enquanto republicanos estavam presos. Denunciaram, também, a fome provocada pelo cerco de Paris. O povo deveria tomar a responsabilidade pela libertação. A Comuna aparece como única possibilidade de salvação coletiva.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">29 de março de 1871, onze dias depois do levante e três dias após a eleição de membros para o Conselho da Comuna, um cartaz informou que não poderia ser criada nem introduzida em Paris nenhuma força militar diferente da Guarda Nacional. Era a concretização da reivindicação inicial, reafirmando o controle popular sobre a força pública, medida inaceitável para a burguesia, que para garantir sua existência como classe, precisa controlar as forças repressivas por meio do Estado.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">30 de março de 1871, cartazes fixados no 2º e no 20º distritos convocaram professores para instaurar a educação laica, gratuita e obrigatória, como forma de superar os dogmas religiosos que renegam a ciência, consagram privilégios e legitimam a exploração. Vale destacar que, nos tempos da Comuna, a educação não era universal, além de ser controlada pela Igreja, que ensinava o conformismo e a submissão. A classe trabalhadora já havia organizado experiências educativas autônomas. A Comuna herdou iniciativas e técnicas pedagógicas desenvolvidas anteriormente pelo proletariado parisiense. A educação comunal tentou romper a separação entre trabalho manual do intelectual e, assim, apontou no sentido da emancipação da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">30 de março de 1871, cartaz fixado no 2º Distrito proibiu a circulação de prostitutas pelas ruas. Quem desobedecesse seria detida pela Guarda Nacional. Os delegados responsabilizam a falta de educação e de trabalho pela prostituição, reconheceram as prostitutas como vítimas de uma sociedade perversa. Afirmaram que a reorganização social, incluindo o trabalho feminino, resolveria o problema. Mas não ofereceram nenhuma contrapartida ou alternativa imediata para as mulheres proibidas de circular pelas ruas.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">01 de abril de 1871, a Comissão de Trabalho intermediou a contratação de trabalhadores, solicitou que informassem as respectivas profissões e necessidades, enquanto as empresas informariam as vagas disponíveis e as exigências para a contratação. O cartaz indica que as relações de produção capitalistas não haviam sido superadas.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">02 de abril de 1871, ficou estabelecido, por decreto, que os funcionários da Comuna não poderiam receber mais que seis mil francos anuais, salário condizente com os valores recebidos por operários. A medida foi reivindicada, posteriormente, em programas e processos revolucionários. O Estado – entendido, fundamentalmente, como um comitê gestor da burguesia – separa o funcionalismo em faixas salariais, remunerando mais e melhor os responsáveis por funções estratégicas para o funcionamento das relações de produção capitalista, engajando-os. É o que ocorre, atualmente, com os setores responsáveis pela repressão: juízes, promotores, militares de alta patente. Ao reduzir os salários dos seus funcionários, a Comuna apontou no sentido da superação do Estado. Foi um governo barato. Não era mais necessário gastar altas somas com pessoal responsável por reprimir trabalhadores.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">03 de abril de 1871, a Comuna de Paris decretou a separação da Igreja do Estado, medida que incluiu o confisco de bens e a supressão do financiamento público das religiões. Ao enfrentar a Igreja, a Comuna fez o que as revoluções burguesas não fizeram, uma vez que, ao assumir o controle do Estado e consolidar as relações de produção capitalistas, a burguesia precisou da ideologia para azeitar as engrenagens sociais. Vale lembrar que, na França, a Igreja influenciava a educação da classe trabalhadora ensinando o conformismo e a submissão. Ao separar a Igreja do Estado, a Comuna de Paris deu um passo importante no caminho da emancipação do trabalho.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">07 de abril de 1871, a Comuna de Paris anunciou a criação de três restaurantes populares no 8º Distrito. Era uma tentativa de garantir as necessidades básicas, com perspectiva de avançar também para questões relacionadas à subsistência, moradia, vestuário e educação. Está registrado no cartaz: <em>A miséria é uma praga que engendra a desordem. O trabalho é uma riqueza que fertiliza os bons sentimentos. Garantir trabalho a todos é a nossa meta</em>. Vale destacar que a contrapartida, oferecida pelos cidadãos, era o trabalho que pudessem fornecer à comunidade. Apesar de ser uma medida emergencial, a criação de restaurantes populares e a possibilidade de trocar alimentos por trabalho indica que a Comuna era portadora, em potência, da superação das relações capitalistas de produção.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">16 de abril de 1871, a Comuna de Paris convocou, por decreto, as organizações operárias para identificar fábricas abandonadas pelos patrões e apresentar um projeto para retomada das atividades pelos trabalhadores. Novamente, tratou-se de medida emergencial, mas apontou para o controle operário sobre a produção e, consequentemente, para a emancipação do trabalho.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">27 de abril de 1871, a Comissão Executiva da Comuna de Paris informou, por meio de um cartaz, a proibição de multas e deduções sobre os salários, prática empregada pelo capital para ampliar lucros. A medida indica, ao mesmo tempo, que vigoravam relações capitalistas de produção e que a Comuna atuou na estrutura produtiva da sociedade.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">01 de maio de 1871, foi anunciada a criação de um orfanato onde antes havia uma escola gerida pela Igreja. Os órfãos teriam a companhia de outras crianças. Todas receberiam a mesma educação. O cartaz informa que os soldados da Guarda Nacional de Paris não deviam temer pelo futuro dos filhos, caso caíssem em combate, porque a Comuna garantiria a existência dos órfãos e a memória dos revolucionários tombados. Era um momento em que os prussianos já haviam libertado milhares de soldados franceses para combater os comunardos, que, apesar a intensificação da luta, mantiveram a preocupação com a educação laica e o cuidado com os órfãos.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">06 de maio de 1871, a União de Mulheres elaborou manifesto rechaçando o cartaz de um grupo anônimo, que afirmou que as mulheres parisienses pediam a paz a qualquer preço. A União de Mulheres rechaçou a generosidade dos assassinos e informou que a liberdade (de Paris) não podia conviver com o despotismo (de Versalhes). Qualquer conciliação significaria trair a demanda operária por renovação social, superação de privilégios, fim da exploração e, sobretudo, emancipação do trabalho. O cartaz da União de Mulheres foi um dos textos mais firmes e avançados da Comuna: Paris não retrocederá porque carrega a bandeira do futuro! As mulheres informaram que estariam nas barricadas para combater os verdugos caso tentassem entrar na cidade, o que se confirmou dias depois.</p>
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<p style="text-align: justify;">09 de maio de 1871, um cartaz informou sobre a criação de quatro armazéns para venda de gêneros alimentícios no 14º Distrito. O objetivo era evitar a especulação e a alta dos preços, como havia ocorrido anteriormente. Era uma medida emergencial, mas apontou para a reorganização e a transformação das relações sociais.</p>
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<p style="text-align: justify;">Os últimos cartazes da Comuna são chamados à resistência: <em>Às armas! Que Paris se cubra de barricadas e que, atrás das muralhas improvisadas, lance novamente seu grito de guerra aos inimigos, grito de orgulho, grito de desafio, mas também grito de vitória; porque Paris, com suas barricadas, é inexpugnável</em>. O que o primeiro cartaz citado informava, e a história comprovou, foi que os parisienses não se renderiam, prefeririam ser sepultados sob as ruínas das cidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Considerando todo o heroísmo dos comunardos e o processo de transformação social em curso, chama a atenção uma comunicação e uma ação que não foram realizadas. A Comuna de Paris não interveio no Banco da França, que chegou a repassar 16,7 milhões de francos para os revolucionários, financiando, inclusive, a manutenção da Guarda Nacional, mas, ao mesmo tempo, repassou 315 milhões de francos ao governo estabelecido em Versalhes. Os dados são de <a class="urlextern" title="https://resistir.info/crise/mroberts_18mar21.html" href="https://resistir.info/crise/mroberts_18mar21.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Michael Roberts</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">O chefe do Banco da França não foi substituído. Os comunardos também mantiveram o delegado responsável pelas finanças da Comuna, apesar dos mandatos revogáveis e da possibilidade de trocá-lo. O ótimo filme La Commune, de Peter Watkins, sugere que o controle sobre o Banco da França estava colocado para os revolucionários (ver <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=iVr9EoUoY-s&amp;t=20s" href="https://www.youtube.com/watch?v=iVr9EoUoY-s&amp;t=20s" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=NFVWpGT9224&amp;t=16s" href="https://www.youtube.com/watch?v=NFVWpGT9224&amp;t=16s" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>). Mas prevaleceu a posição do delegado responsável pelas finanças, o proudhoniano Charles Beslay: <em>o sistema da Comuna e o meu se traduzem nesta palavra sagrada: respeito pela propriedade, até sua transformação</em>. Beslay foi para a Suíça após a destruição da Comuna de Paris, o governo francês sequer o processou. Os comunardos colocaram o povo em armas e combateram a religião, derrubando dois pilares de sustentação do capital. Faltou controlar o Banco da França: para cortar o financiamento do inimigo e usar os recursos no fortalecimento do processo revolucionário.</p>
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