<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Greves &#8211; Passa Palavra</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/tag/greves/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Tue, 28 Jul 2026 17:22:03 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.0.2</generator>
	<item>
		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (7)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159527/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/07/159527/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jul 2026 03:17:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159527</guid>

					<description><![CDATA[Devemos estar abertos a uma revisão fundamental, baseada nas transformações da realidade social. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong style="font-family: Verdana, Geneva, sans-serif; font-size: 14px;">CAPÍTULO 5</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Greve Geral</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Essa ideologia de ação coletiva, com sua oposição estática entre revolta e greve, seria, por sua vez, elidida com uma oposição correspondente em um estrato conceitual mais elevado, o do anarquismo e do socialismo. Pode parecer, dentro das convenções do presente, que táticas específicas e seus repertórios surgem de, e são portanto próprios de, posições políticas e analíticas particulares <strong>[1]</strong>. Historicamente, a oposição ideológica das táticas ajudou a produzir a oposição política e isso, por sua vez, consolidaria ainda mais a antítese das formas de ação.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, a greve, e com ela a categoria mais ampla de ações trabalhistas organizadas e a organização em grande escala como tal, é entendida como a tática político-econômica associada ao campo complexo do socialismo e do comunismo como horizontes políticos, conjugando-se com o pensamento materialista histórico. A revolta, e com ela o conjunto de táticas “insurrecionais” antes e além da organização trabalhista tradicional, é entendida em oposição a isso. É um ataque espontâneo à vida cotidiana, mas também a rejeição de um programa político supostamente determinista, autoritário e implicitamente, se não explicitamente, estatista. Uma das questões básicas deste livro é se esse conjunto de oposições dicotômicas, uma fórmula com motivos históricos reais, ainda faz sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">A divisão na Primeira Internacional certamente não precisa ser repetida aqui, e um desdobramento completo da divergência entre anarquistas, de um lado, e socialistas e comunistas do outro, está além do escopo deste estudo <strong>[2]</strong>. Vale a pena lembrar até que ponto essas posições eram, a princípio, muito mais contínuas do que parecem agora; em paralelo com a das revoltas e greves, sua polarização é um procedimento a-histórico. Na época da Primeira Internacional, a retórica da emancipação do trabalho como projeto fundamental era compartilhada, juntamente com a centralidade do proletariado e o pressuposto da luta de classes como base para a revolução. Os debates da época são ilustrativos. Pode-se considerar a disputa entre o anarquismo coletivista e o comunismo anarquista na década de 1870. A primeira facção desejava acabar com todas as trocas comerciais e o salário, enquanto na visão da segunda, “uma economia de troca ainda opera dentro de uma rede de &#8216;coletividades&#8217; autogerenciadas e pertencentes aos trabalhadores, que detêm a propriedade legal dos instrumentos e recursos de produção”. O trabalho assalariado e seu status assumiram uma importância decisiva. Kristin Ross escreve: “Além disso — e esse foi o ponto de maior ruptura entre os dois grupos —, o anarquismo coletivista manteve o sistema salarial, fazendo a distinção entre alimentos e outros bens dependentes da contribuição de trabalho de cada indivíduo” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Tais posições e debates sobre o conteúdo de uma sociedade revolucionária deixam claro que a antítese rígida das posições políticas decorrentes dessa oposição seria moldada ao longo do tempo. A divisão de táticas em posições políticas e analíticas não acontece simplesmente ao longo do caminho, mas faz parte dessa moldagem. Em nenhum lugar o processo é encenado de forma mais explícita do que no caso da greve geral. Os debates sobre a greve geral apresentam dificuldades, sobretudo pelas várias distinções feitas (e não feitas) entre greves gerais “proletárias” e “políticas”, entre a greve “geral” e a greve “de massa”. Felizmente para nós, analisar essas distinções é menos importante do que um momento específico dentro dos debates e as possibilidades que ele oferece para considerar a relação entre táticas e posições políticas.<img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159534" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1.jpg" alt="" width="638" height="886" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1.jpg 638w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1-216x300.jpg 216w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1-302x420.jpg 302w" sizes="(max-width: 638px) 100vw, 638px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A vitória dentro da Internacional da posição socialista, no que diz respeito aos modelos de luta política, já havia sido ratificada antes da cisão de 1872. A Resolução nº 9 do ano anterior afirmava que “essa constituição da classe trabalhadora em um partido político é indispensável para garantir o triunfo da revolução social e seu objetivo final — a abolição das classes”. O compromisso com um processo parlamentar implica tanto um certo tipo de organização quanto, pelo menos, alguma observância de um padrão legalista. A estratégia parlamentar terá idas e vindas, mas a lógica organizacional do partido, que a acompanha, terá grande constância. Como expressão de sua base organizacional, supostamente ordeira em sua execução e entrando em confronto com o capital em vez do Estado, a greve restrita não pode deixar de aderir a tal horizonte político, mesmo que qualquer greve específica provavelmente tenha ambições mais locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Em contrapartida, a aparente desordem dos modos anarquistas de luta torna-se objeto de antipatia. <em>Espontaneidade</em> é a palavra-chave que codifica essa antipatia. É um termo ambíguo, politicamente. Muitas vezes, indica uma ação que surge “naturalmente”, uma resposta momentânea. Nesse sentido, um ato espontâneo é escravo do estímulo. No entanto, de acordo com outra definição, “no século XVIII, quando Kant descreveu a unidade transcendental da apercepção — o fato de eu estar ciente de mim mesmo como tendo minhas próprias experiências —, ele chamou isso de ato espontâneo. Kant queria dizer o oposto de algo natural. Um ato espontâneo é aquele que é realizado livremente” <strong>[4]</strong>. Assim, o termo preserva tanto o sentido de afloramento autônomo (lembrando a visão espasmódica da revolta) quanto o de ato voluntário, livremente escolhido, que, no entanto, carece do desenvolvimento paciente de uma contra-organização que se movimenta paralelamente aos desenvolvimentos do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O termo assume uma complexidade ainda mais controversa com a revolução Soviética. Lenin o utilizará, notoriamente, para deplorar as massas desorganizadas. A palavra russa <em>stikhiinost</em> significa tanto espontaneidade quanto o caos da natureza: aquilo que tem o menor grau de organização. Alexander Bogdanov, um filósofo polímata russo, especificará que essa desordem da natureza é uma resistência à organização que é o trabalho humano, e que os dois se opõem: “Consequentemente, o mundo é um campo de batalha do trabalho coletivo, no qual a atividade humana luta contra a resistência espontânea da natureza” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É o colapso não declarado desses sentidos — caótico, natural, contra o trabalho humano — que permite que o termo assuma suas dimensões mais pejorativas. A partir da ortodoxia leninista, o espontaneísmo torna-se não apenas falta de organização em algum sentido, mas também antagonismo ao trabalho e, portanto, implicitamente ao proletariado. Além disso, uma discordância com estratégias organizacionais pode ser transcodificada como irracionalidade, contrária não apenas ao trabalho, mas também ao ser humano como tal.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um momento anterior desse debate encenado à luz da Comuna de Paris, Marx inicialmente argumenta seriamente contra tal abordagem, contra a revolução impaciente. Em meio às esmagadoras derrotas francesas de 1870, ele adverte: “Os trabalhadores franceses […] não devem se deixar influenciar pelos souvenirs nacionais de 1792 […]”. Em vez disso, eles devem “construir o futuro. Deixem-nos incrementar calma e resolutamente as oportunidades da liberdade republicana, para o trabalho de sua própria organização de classe” <strong>[6]</strong>. Como é bem sabido, ele mais tarde mudará sua posição e fará uma avaliação surpreendente sobre a Comuna.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>Engels e Sorel</strong></em></h5>
<p style="text-align: justify;">As dúvidas iniciais de Marx retornam na avaliação de Engels sobre a greve geral desencadeada pelos bakuninistas em 1873, com a Espanha à beira da guerra civil. As conclusões de Engels certamente assombram a vacilação posterior de Hobsbawm, sua identificação da greve geral com a revolta — dois avatares de espontaneidade excessiva e organização inadequada, a identidade do excesso e da insuficiência. “A greve geral, no programa dos bakuninistas, é o mecanismo que será usado para introduzir a revolução social”, escreve ele, elevando o tom de escárnio. Ele continua:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em uma bela manhã, todos os trabalhadores de todas as indústrias de um país, ou talvez de todos os países, cessarão o trabalho e, assim, obrigarão a classe dominante a se submeter em cerca de quatro semanas ou a lançar um ataque contra os trabalhadores, para que estes tenham o direito de se defender e possam usar a oportunidade para derrubar a velha sociedade.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Voltando a 1842 e suas limitações, suas falhas de coordenação e preparação, ele então chega ao “ponto crucial da questão”:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por um lado, os governos, especialmente se encorajados pela abstenção da ação política por parte dos trabalhadores, nunca permitirão que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente e, por outro lado, eventos políticos e as intervenções da classe dominante levarão à libertação dos trabalhadores muito antes que o proletariado consiga formar essa organização ideal e esse colossal fundo de reserva. Mas se eles tivessem isso, não precisariam recorrer ao caminho indireto da greve geral para atingir seu objetivo <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os anarquistas, nessa narrativa, carecem tanto de razão quanto de recursos. Não tendo desenvolvido adequadamente suas associações trabalhistas, os trabalhadores não terão acumulado capacidade organizacional adequada nem recursos financeiros suficientes para encenar o que acreditam ser uma batalha pela emancipação total. Rosa Luxemburg encontra nisso o que se tornará o senso comum da social-democracia, derivado de seu oposto, a “teoria anarquista da greve geral — ou seja, a teoria da greve geral como meio de inaugurar a revolução social, em contraposição à luta política cotidiana da classe trabalhadora”. Qualquer defesa da greve geral anarquista “se esgota no seguinte dilema simples: ou o proletariado como um todo ainda não possui a poderosa organização e os recursos financeiros necessários, caso em que não pode levar adiante a greve geral, ou está suficientemente bem organizado, caso em que não precisa da greve geral” <strong>[8]</strong>.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159535" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32.jpg" alt="" width="642" height="886" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32.jpg 642w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-217x300.jpg 217w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-304x420.jpg 304w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-640x883.jpg 640w" sizes="(max-width: 642px) 100vw, 642px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Georges Sorel oferecerá, no entanto, uma defesa notável. Antes de passar a isso, podemos observar em Engels uma suposição interessante sobre o desenvolvimento de um fundo de greve, a artilharia pesada no arsenal do proletariado. O limite para sua expansão é o Estado, que “nunca permitirá que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente”. Este é o mundo visto da perspectiva da acumulação, em que se pressupõe um excedente social crescente, e a disputa para apropriar-se da maior parte possível desse excedente é o preâmbulo plausível e necessário para uma luta ampliada. A concepção de Engels sobre os fundamentos da luta é produtivista, não apenas no sentido abstrato de assumir a centralidade do trabalho produtivo para a luta revolucionária, mas também em sua pressuposição de um aumento concreto e contínuo da riqueza social decorrente do capital produtivo; ela se encaixa com a observação de Rule sobre a dependência da greve bem-sucedida da “expansão da produção”. Essa é a particularidade histórica implícita a partir da qual Engels universaliza sua crítica.</p>
<p style="text-align: justify;">Sorel será o opositor de Engels mais de trinta anos depois. Sua defesa da greve geral não é menos ardente do que a denúncia de Engels, embora compartilhe a tendência universalizante dessa denúncia. Para Sorel, o poder da greve geral não é sua capacidade de subjugar instantaneamente o capital, mas sua provisão ao proletariado de uma orientação total, uma totalização política.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele distingue entre uma greve geral “proletária” e uma greve geral “política”. Esta última é entendida como um mecanismo convocado por atores políticos no controle de sindicatos centralizados com o objetivo de transferir o poder de um governo para outro já preparado e organizado. É a “organização ideal” que Engels considera impossível. O gesto de Sorel não é insistir, contra Engels, na possibilidade dessa organização. Em vez disso, ele a rejeita por preservar a dominação política, por projetar sobre a greve geral esse caráter “político” cujo horizonte é a tomada do poder estatal e o controle estatal centralizado. A greve geral proletária, por outro lado, é a pré-condição para a luta de classes emancipatória.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, Sorel opõe a greve geral proletária à greve limitada ou restrita, sugerindo que esta última oferece satisfações e ganhos parciais que servem para diminuir o fervor revolucionário. Além disso, ela revela, mas não resolve, os interesses divergentes entre os trabalhadores comuns e a aristocracia operária dos “encarregados, escriturários, engenheiros, etc.”, bem como os interesses aparentemente opostos do campesinato e do proletariado industrial. A noção de Marx do capital como uma totalidade e sua concepção da existência social em duas classes antagônicas não podem ser compreendidas a partir dessa perspectiva, nem podem ser construída a partir de fragmentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve geral unifica a experiência das misérias cotidianas e os vislumbres fragmentários de algo além delas, permitindo ao trabalhador individual uma intuição do mundo para o qual a revolução tende, obtida “como um todo, percebida instantaneamente” <strong>[9]</strong>. Esse “conhecimento total” bergsoniano supera, ao mesmo tempo, o problema prático da desunião da classe. Sorel imagina resolver o chamado problema da composição desta forma: “Mas todas as oposições se tornam extraordinariamente claras quando os conflitos são ampliados para o tamanho da greve geral… a sociedade está claramente dividida em dois campos, e apenas em dois, em um campo de batalha” <strong>[10]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ação espontânea, portanto, é corolário do conhecimento espontâneo no sentido kantiano. Isso fornece a única passagem possível para a consciência de classe atualizada e a possibilidade revolucionária que não está entravada desde o princípio por estruturas organizacionais reificadas: “<em>a greve geral deve ser tomada como uma totalidade indivisível, e a passagem do capitalismo ao socialismo concebida como uma catástrofe, cujo desenvolvimento escapa a qualquer descrição</em>” <strong>[11]</strong>. Embora Sorel fosse um socialista e sindicalista herético, é essa contraposição à organização estatal e partidária que se torna a posição anarquista familiar sobre a greve geral.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>A Inversão de Rosa Luxemburg</strong></em></h5>
<p style="text-align: justify;">A reelaboração dessa questão por Luxemburg em “<em>A greve de massas</em>”, um dos maiores panfletos políticos jamais escritos, tanto por seu método quanto por sua conclusão, não está isenta de ambiguidades. Aqui, ela parece distinguir a greve geral e a greve de massa como fenômenos dos séculos XIX e XX, respectivamente, para depois tratá-los como iguais: “o anarquismo, ao qual a ideia da greve de massa está indissoluvelmente associada”. Ela admite que a crítica de Engels a essa greve “à primeira vista é tão simples e irrefutável que, por um quarto de século, prestou um excelente serviço ao movimento operário moderno contra o fantasma anarquista e como meio de levar a ideia da luta política ao mais vasto círculo de trabalhadores” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua retórica aqui é sofisticada, mas enviesada e potencialmente enganosa. Ela sugere que qualquer refutação do veredito de Engels deve, portanto, tomar o lado do “fantasma anarquista”. Isso provou ser uma interpretação errônea duradoura de Luxemburg, cuja posição é frequentemente atribuída a uma espontaneidade soreliana. “Rosa Luxemburg deu grande ênfase à espontaneidade das massas”, começa um resumo da sabedoria recebida; ele cita comentários representativos no sentido de que Luxemburg tinha “uma fé fanática, mas utópica, quase anarquista, nas massas” <strong>[13]</strong>. O próprio Sorel relata que a “nova escola que se autodenomina marxista, sindicalista e revolucionária” — ele se refere a Luxemburg, talvez Anton Pannekoek —“declarou-se a favor da greve geral assim que tomou consciência do verdadeiro sentido da sua própria doutrina” <strong>[14]</strong>.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159536" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22.jpg" alt="" width="755" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22.jpg 755w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-252x300.jpg 252w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-352x420.jpg 352w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-640x763.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-681x812.jpg 681w" sizes="(max-width: 755px) 100vw, 755px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas, para Luxemburg, não foi a consciência doutrinária que mudou. Foram as circunstâncias materiais. Não se pode culpar Engels pelo seu raciocínio em 1873; são aqueles que permanecem presos nessa posição contra os novos desenvolvimentos históricos que merecem desprezo. Pannekoek apresentará um argumento semelhante pouco tempo depois. Diante da polêmica de Kautsky contra a greve de massa, que Kautsky temia que prejudicasse o Partido Social-Democrata e seus sindicatos, Pannekoek sustenta que “várias formas de ação… não são opostas, mas parte de uma gama gradualmente diferenciada”, formas que assumem sua relevância mutável a partir do desenvolvimento das forças econômicas <strong>[15]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Luxemburg escreve seu panfleto na esteira de uma série de greves de massa em expansão, primeiro na Bélgica e na Suécia, depois na Holanda, Rússia e Itália; em seguida, a onda insurrecional de greves que constitui a Revolução Russa incompleta de 1905. Ela encara a greve, portanto, não como um erro, mas como uma eventualidade:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Se, portanto, a Revolução Russa nos ensina alguma coisa, ela nos ensina acima de tudo que a greve de massa não é artificialmente “criada”, não é “decidida” aleatoriamente, não é “propagada”, mas que é um fenômeno histórico que, em um determinado momento, resulta de condições sociais com inevitabilidade histórica. Não é, portanto, por meio de especulações abstratas sobre a possibilidade ou impossibilidade, a utilidade ou a nocividade da greve de massa, mas apenas por meio de um exame dos fatores e condições sociais a partir dos quais a greve de massa cresce na fase atual da luta de classes — em outras palavras, não é pela crítica subjetiva da greve de massa do ponto de vista do que é desejável, mas apenas pela investigação objetiva das fontes da greve de massa do ponto de vista do que é historicamente inevitável, que o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua investigação revela uma situação profundamente complexa na Rússia. Ela descreve os preparativos para a greve de massa de janeiro em São Petersburgo:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Aqui se lutava pela jornada de oito horas, ali se resistia ao trabalho por peça, aqui se “expulsavam” capatazes brutais em um saco sobre um carrinho de mão, em outro lugar se lutava contra sistemas infames de multas, em todos os lugares se lutava por melhores salários e aqui e ali pela abolição do trabalho em casa <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nessa circunstância de múltiplas queixas, nenhuma coordenação política vinda de cima é possível. No entanto, a disseminação interna da greve dentro do proletariado torna-se possível. O que dá consistência a essas várias particularidades russas é a transição de um absolutismo quase feudal para um capital industrializante. Embora a mão de obra urbana e o campesinato possam se encontrar em posições bastante diferentes, ambas as posições flutuam dentro dessa transformação singular, e a conexão entre lutas políticas e econômicas está aberta, desafiando a separação que Anthony Giddens chama de base fundamental do Estado capitalista <strong>[18]</strong>. Assim, torna-se possível uma mudança no equilíbrio, da frente do absolutismo para a das lutas econômicas que se seguem à greve de janeiro. Para Luxemburg, isso abre uma perspectiva revolucionária:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas, ao mesmo tempo, o período das lutas econômicas da primavera e do verão de 1905 tornou possível ao proletariado urbano, por meio da agitação e da direção social-democrata ativa, assimilar posteriormente todas as lições do prólogo de janeiro e compreender claramente todas as tarefas futuras da revolução <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A espontaneidade, então, pode se desdobrar em coordenação em determinadas condições, as de transição. Essa é a sequência revolucionária que Luxemburg vê diante de si, e a greve de massa é a forma que essa sequência assume. Para ela, isso não valida a posição anarquista. Sua conclusão, apresentada no início, é de fato brutal a esse respeito. O caráter revolucionário e o sucesso da greve de massa “não apenas não justificam o anarquismo, mas significam, na verdade, a liquidação histórica do anarquismo” <strong>[20]</strong>. Devido aos desenvolvimentos político-econômicos, a greve de massas, por assim dizer, mudou de lado; em um movimento objetivo, entrou no repertório da luta comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se agora ler Luxemburg como um golpe desferido pelo socialismo e pelo marxismo contra as fantasias anarquistas. Em alguns momentos, o panfleto assume tons triunfalistas, o que não é louvável. Pode-se lê-lo como uma recomendação de como proceder, da importância da arma da greve de massa; sem dúvida, isso é fundamental.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, talvez seja mais significativo para o presente ler o panfleto por sua clareza dialética. Quando as condições materiais mudam, quando a estrutura político-econômica muda, a importância política e as possibilidades práticas de uma tática de ação coletiva também podem mudar. A associação congelada da greve e das formas de organização política que a acompanham com o que agora passaremos a chamar de teoria comunista deve ser abandonada. Da mesma forma, a associação congelada da ação coletiva supostamente espontânea com o anarquismo. Os pensadores que defendem essas identificações, apesar de toda a sua astúcia intelectual ou rejeição por princípio das tendências teóricas, só podem ser nossos Kautskys, ou, nesse caso, Bömelburgs, presos no âmbar do “que é desejável”. Devemos estar abertos a “uma revisão fundamental do antigo ponto de vista do marxismo”, baseada nas transformações da realidade social <strong>[21]</strong>. Não se declara que um comunista faz isso ou um anarquista faz aquilo. Vai-se ao “ponto de vista do que é historicamente inevitável” — somente a partir desse ponto de vista “o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159533" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A.jpg" alt="" width="886" height="836" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A.jpg 886w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-300x283.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-768x725.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-445x420.jpg 445w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-640x604.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-681x643.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 886px) 100vw, 886px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> O marxismo não é uma crença política (muito menos um programa), mas sim um modo de análise.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> É uma espécie de petição de princípio distinguir entre socialismo e comunismo. A intenção, que será relevante mais adiante, é muito semelhante à do termo “marxismo tradicional” de Moishe Postone, que consideramos ser o socialismo — referindo-se a um horizonte político de socialização dos meios de produção sob o controle dos trabalhadores por meio da tomada do Estado, enquanto “comunismo” se refere ao horizonte político de abolir o modo de produção por completo. Sobre a questão de se o primeiro pode levar ao segundo, como proposto na <em>Crítica ao Programa de Gotha</em>, de Marx, algumas breves reflexões são apresentadas no capítulo final.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Kristin Ross, <em>Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune</em>, Londres: Verso, 2015, 107.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> “Spontaneity, Mediation, Rupture”, <em>Endnotes</em> 3, 2013, 232. Os autores coletivos citam Robert Pippin, Hegel&#8217;s Idealism, Cambridge: Cambridge University Press, 1989, 16-24.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Maria Chehonadskih, “The Anthropocene in 90 Minutes”, mute.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Karl Marx e V. I. Lenin, <em>The Civil War in France: The Paris Commune</em>, Nova York: International Publishers, 1968, 34.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Friedrich Engels, ““The Bakuninists at Work: An Account of the Spanish Revolt in the Summer of 1873,” cited in Rosa Luxemburg, <em>The Essential Rosa Luxemburg</em>, ed. Helen Scott, Chicago: Haymarket Books, 2008, 111-12.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Georges Sorel, <em>Reflections on Violence</em>, ed. Jeremy Jennings, Cambridge: Cambridge University Press, 1999, 128. Ver nota de rodapé 17 nessa página sobre Bergson.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Sorel, <em>Reflections</em>, 132.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ibid., 148 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 114, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Norman Geras, <em>The Legacy of Rosa Luxemburg</em>, Londres: Verso, 1976, 111-12. A segunda passagem cita E. H. Carr.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Sorel, <em>Reflections</em>, 120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Anton Pannekoek, <em>Pannekoek and Gorter&#8217;s Marxism</em>, ed. D. A. Smart, London: Pluto, 1978, 65.Em retrospecto, como era fácil derrotar Kautsky em um debate!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 117-8 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Ibid., 129.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Anthony Giddens, <em>The Class Structure of the Advanced Societies</em>, Londres: Hutchinson, 1973, 206.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Ibid., 113 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Ibid., 114.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este capítulo são da autoria de Frans Masereel (1889-1972).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/07/159527/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (6)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159497/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/07/159497/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2026 17:21:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159497</guid>

					<description><![CDATA[A greve é exatamente o que a revolta não é. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 2: GREVE</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 4</strong></h5>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Greve Contra a Revolta</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Que tipo de contraponto é a greve em relação à revolta? O século XIX se propõe a medir isso, a calcular essa relação. Ele o faz de forma desigual na Europa Ocidental, na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos — de forma insistente, incerta, mas com resultados consequentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro não é uma história da greve ou do movimento operário, da era em que a proletarização denota a desapropriação agrária, a expansão industrial, o incremento, em termos absolutos e relativos, da população global no trabalho assalariado, e o indivíduo soberano como forma de integração aos circuitos de acumulação. No entanto, estas são as coordenadas do período em que a era dourada das revoltas se dissolve e de onde surge a nova era das revoltas: a longa segunda-feira do mundo em que era sempre hora de trabalhar e o capitalismo produtivo dominava em escala global, com a sua volatilidade típica.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve, a tática dominante da ação coletiva nesse período, exigirá alguma reflexão &#8211; até porque o status da greve, uma vez que se torna a figura principal do antagonismo social, oferece uma posição a partir da qual se pode refletir sobre a revolta. Cada ação esclarece a estrutura e a dinâmica da outra, cada uma revela mudanças nas metamorfoses subterrâneas e instáveis do capital. Isso é verdade não apenas de uma forma absoluta, segundo a qual a verdade de cada uma pode ser contrastada, mas também de acordo com as conceções políticas do par e do emparelhamento — o que poderíamos chamar de ideologias da revolta e da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">No capítulo anterior, propusemos a compreensão mais ampla possível de uma greve: uma luta pelo preço da força de trabalho e pelo próprio emprego, conduzida pelos trabalhadores como trabalhadores na esfera da produção. Essas características podem ser abstraídas e estendidas a qualquer ação orientada por elas. Essa greve chega cedo, coexistindo com a revolta à medida que ela reúne as suas forças.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é obviamente exagerado. Um experimento mental, digamos. Certamente está em desacordo com as compreensões convencionais desenvolvidas desde o século XIX, que oferecem uma porta muito mais estreita pela qual uma tática deve passar para ganhar esse nome. A greve restrita é geralmente definida de acordo com uma autodenominação ou autorreconhecimento, que deve ser acompanhado por um comportamento físico e político específico: ordeiro, ancorado no lugar, disciplinado, legalista, caracterizado pela recusa. Formas de aparência, em suma, que podem ser discernidas por um observador casual. Se um episódio falhar ou exceder esses padrões, ele não é considerado uma greve (podemos pensar nas greves dos campos de carvão de 1913-1914, que em algum momento da série concertada de greves se tornaram a Guerra dos Campos de Carvão do Colorado e depois o Massacre de Ludlow). Ou, como acontece repetidamente, os eventos que não correspondem a esse modelo de greve são apagados para que o nome greve possa preservar suas reivindicações. Quem se lembra agora como greves as revoltas dos trabalhadores têxteis de Lyon em 1831 e 1834, que exigiram salários, trabalho e justiça para os líderes presos por meio de barricadas e guerrilha? Esta greve chega tarde. O período de transição é muito mais longo. Exceto que, como veremos, não há transição alguma.</p>
<p style="text-align: justify;">O próprio Marx observa que 1830 marca a mudança na França de um estado de proprietários de terras para um de capitalistas. Hobsbawm generaliza a data como um ponto de viragem para a “consciência da classe trabalhadora” nos países de origem das duas revoluções burguesas e industriais, uma nova situação que “certamente surgiu entre 1815 e 1848”. Para ele, “na Grã-Bretanha e na Europa Ocidental em geral [1830] marca o início dessas décadas de crise no desenvolvimento da nova sociedade, que terminam com a derrota das revoluções de 1848 e o gigantesco salto económico após 1851” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A temporalidade é complexa, mas aponta para o atraso da greve no seu sentido estrito. Por consenso geral, a greve não tem existência real até 1830 ou, na verdade, por um bom tempo depois disso. Shorter e Tilly são a exceção parcial. A <em>greve</em> não aparece no índice de <em>The Making of the English Working Class</em>. O estudo cuidadoso de John Rule sobre o trabalho inglês de 1750 a 1850 raramente menciona a greve e, dentro desse período, a greve em sua narrativa ainda não está esclarecida, ainda em relação ambígua com intimidação, destruição de máquinas e outras atividades não relacionadas à greve &#8211; o conjunto predestinado de elisões que caracteriza a época. Esses fatos nos dizem tanto sobre as autoidentificações da época quanto sobre seus historiadores. A famosa pesquisa de Rudé sobre o período de 1730 a 1848 tem, na entrada <em>Greve</em>, um redirecionamento: “Veja disputas trabalhistas, ludismo, Londres, Paris”<strong>[2]</strong>. Sem dúvida, todas essas são coisas que se deve ver. A força da substituição é sugerir que devemos localizar a greve como um desenvolvimento tardio dentro do gênero mais amplo da disputa trabalhista, um desenvolvimento que, em 1848, ainda não havia surgido.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159504" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1.jpg" alt="" width="1190" height="1536" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1.jpg 1190w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-793x1024.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-768x991.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-640x826.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-681x879.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1190px) 100vw, 1190px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Seria tolice contestar tal conclusão. Certamente essa é a posição apresentada de forma persuasiva por Shorter e Tilly:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao concentrarmo-nos na greve, excluímos várias outras formas de conflito e de ação coletiva (as duas não são de forma alguma sinónimas)… Isso é conveniente, uma vez que a greve é uma das formas de ação mais fáceis de identificar, rastrear e descrever. As outras formas de conflito, protesto e autoexpressão que poderiam ser usadas para se ter uma ideia das mudanças nas orientações dos trabalhadores incluem a destruição de máquinas, sabotagem, brigas, manifestações, redação de panfletos e, talvez, rotatividade e absenteísmo; todas elas são muito mais difíceis de identificar do que as greves. Outras formas de ação coletiva que os trabalhadores têm empregado para alcançar objetivos comuns incluem a organização de partidos políticos, sociedades de ajuda mútua, grupos conspiratórios, sindicatos, planos de seguro e muitos outros empreendimentos cooperativos <strong>[3]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A preservação dos muitos modos de ação coletiva, da criatividade do antagonismo, é uma tarefa vital. Mas também há dificuldades aqui, enigmas qualitativos que vão além do âmbito da pesquisa quantitativa. Uma primeira sugestão da dificuldade é a tendência de localizar o surgimento da greve no ponto de inflexão em que ela se torna a tática principal, no lugar do momento de sua entrada no teatro da luta. Isso tem o efeito de sugerir uma ruptura histórica excessivamente clara entre revolta e greve. Além disso, a narrativa genérica em que a greve surge como uma espécie de condensação da disputa trabalhista esconde, certamente contra as intenções dos nossos historiadores mais hábeis, o surgimento da greve a partir da revolta, das lutas de circulação. Em vez de serem complementares e genealogicamente conjuntas, as duas táticas são rigidamente demarcadas tanto na sua natureza como na sua história, e colocadas em oposição. Isso mais tarde se revelará um problema para aqueles que tentam compreender o retorno da revolta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Espectáculo e Disciplina</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A oposição entre revolta e greve é um projeto declarado do século XIX que persiste em vários setores desde então. A dicotomia é produzida com sucesso por volta de meados do século. Considere a distância entre as revoltas de Bull Ring em 1839 e a greve dos fabricantes de vidro de Flint duas décadas depois. Cada um deve ser reconhecido como exemplar do seu género. A primeira começou com uma série de reuniões políticas realizadas no distrito comercial de Bull Ring, em Birmingham. A 4 de julho, o presidente da câmara e os magistrados chegaram e leram a Lei das Revoltas, momento em que a polícia chamada de Londres atacou a multidão de uma forma que suscitaria comparações amplas e inevitáveis como Peterloo. Consequentemente, seguiu-se uma revolta. “Janelas foram quebradas com tijolos e torrôes de açúcar foram saqueados da mercearia de Bourne antes de ser incendiada, e janelas fechadas foram atacadas com barras de ferro arrancadas da cerca”, deixando destroços suficientes para que “o Duque de Wellington chegasse ao ponto de comparar Birmingham às cidades que ele tinha visto saqueadas no continente durante as suas campanhas militares” <strong>[4]</strong>. Mais revoltas se seguiram, em Birmingham e em outros lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Em paralelo com o surgimento da arquitetura de vidro, a quebra de janelas passou a definir, no século XIX, o que Ian Hayward chama de “revolta espetacular”. Numa comparação perspicaz, Isobel Armstrong contrapõe as revoltas de 1839 à greve bem-sucedida dos vidreiros de Flint, iniciada em fábricas de várias cidades em dezembro de 1858 e que se prolongou até ao ano novo. A greve, muito debatida tanto dentro como fora do sindicato, define-se precisamente contra os hábitos revoltosos de 1839 e outros. Isto não é de admirar, dada a sua constituição: “A prática de quebrar vidros não tinha influência sobre os vidreiros e a sua greve disciplinada” <strong>[5]</strong>. Nisto, a sua autoconceção é paradigmática da ação laboral moderna. A greve é exatamente o que a revolta não é.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há dúvida de que esses dois eventos foram corretamente nomeados. O primeiro não é a forma <em>autêntica</em> da revolta por comida, que já havia passado do seu auge e entrado em declínio décadas antes. Mas é bastante semelhante — sobretudo por ter começado no mercado, com saques incluindo a apreensão de alimentos, batalhas sangrentas com o Estado e assim por diante. A ação posterior segue o formato da greve em todos os aspectos. Não é nenhum mistério por que ela deseja tão insistentemente se distinguir da revolta, dada a sua necessidade de reivindicar legitimidade tanto contra a repressão estatal quanto para obter apoio de outros sindicatos. Nesta conjuntura, a clara demarcação entre — e, de fato, a contraposição entre — greve e revolta <em>tornou-se</em> verdadeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser entendido como a <em>ideologia da ação coletiva</em> cimentada no período, em que revolta e greve assumem uma oposição política e até mesmo um antagonismo. O argumento aqui é que essa oposição é possível precisamente porque as duas ações foram definidas inteiramente de acordo com suas formas de aparência, que são consideradas como fornecendo um conhecimento claro de sua política, seu conteúdo social. Walter Benjamin observa: “É peculiaridade das formas <em>tecnológicas</em> de produção (em oposição às formas artísticas) que seu progresso e seu sucesso sejam proporcionais à <em>transparência</em> de seu conteúdo social. (Daí a arquitetura de vidro)” <strong>[6]</strong>. Produção industrial, progresso, arquitetura de vidro. Este é o mundo da greve. A ideologia da ação coletiva mantém essa ideia de transparência — que, ao olhar para a superfície, é possível ver diretamente as profundezas, ter acesso imediato ao conteúdo social. A greve torna-se greve ao ser <em>formalizada</em> contra a revolta. É a própria ordem, a janela intacta. A revolta, agora definida igualmente como o oposto da greve, deve igualmente encontrar o seu conteúdo na sua forma. Mas isso tem consequências paradoxais. A sua forma é desordenada; a desordem torna-se o seu conteúdo. Ninguém sabe o que a revolta quer. Ela não quer nada além da sua própria desordem, da sua opacidade brilhante. Brilhos e cacos de vidro estilhaçados.</p>
<p style="text-align: justify;">O objetivo não é sugerir que por baixo desta ideologia existe uma verdade contrária; não é assim que a ideologia funciona. Não devemos sugerir que a revolta e a greve são uma só, ou mesmo semelhantes. A divisão entre revolta e greve é necessária e até óbvia, e baseia-se nas mudanças mais substanciais na economia política da época. Em vez disso, a esperança é estar atento aos riscos do que pode ser perdido ao colocá-los em oposição rígida e estática. Ao perder a história em que a greve surge da revolta, perdemos o próprio processo de transformação e ficamos com os seus resultados diante de nós como dados adquiridos. Isso apresenta limites para uma periodização adequada dentro da história do capital. O “capitalismo” não é uma coisa homogénea. Nem é um fenômeno polidamente serial, uma situação sincrônica sucedendo discretamente outra. Fredric Jameson, na sua metodologia literária épica, insiste (em uma escala diferente): “O que é sincrónico é o &#8216;conceito&#8217; do modo de produção; o momento da coexistência histórica de vários modos de produção não é sincrônico neste sentido, mas aberto à história de forma dialética” <strong>[7]</strong>. É precisamente a sincronização — a revolta com uma fase do desenvolvimento do capital, a greve com outra, uma ruptura entre elas — que obscurece esta situação. Se a nossa datação sugere que a era das revoltas termina antes do início da era das greves, isso não pode oferecer um testemunho completo sobre o equilíbrio instável dentro do próprio capital, as mudanças continuamente provocadas pela dinâmica autodestrutiva do valor.</p>
<p style="text-align: justify;">Armstrong esforça-se por superar este limite, por transpor o espaço morto aberto entre a revolta e a greve. A partir de revoltas anteriores, ela deduz o que chama de “os três princípios cardinais da gramática da quebra de vidros — ação coletiva, o corpo como propriedade e a recusa da abstração”; ela encontra estes princípios ressurgindo na greve posterior <strong>[8]</strong>. Esta é uma leitura sutil e perspicaz sobre questões cruciais, sobretudo a rejeição do que ela chama de código patrício de quebra de janelas, no qual “quebrar janelas é um ato informal de violência, um certo <em>estilo</em> de crime sem conteúdo” <strong>[9]</strong>.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159505" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825.jpg" alt="" width="1000" height="815" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-768x626.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-515x420.jpg 515w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-640x522.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-681x555.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a gramática de Armstrong mantém um certo formalismo, um certo foco discursivo — assim como a ideia de Hayward de revolta espetacular, que, em primeiro lugar, pode ser entendida como uma resposta ao novo espetáculo da modernidade urbana e industrial. O conteúdo social tanto da revolta quanto da greve, não pode ser limitado aos princípios dos participantes, seus afetos e crenças. Qual é, então, o conteúdo social da greve? Ele é duplo. Como observado, é o confronto do trabalho com o capital na tentativa de definir o preço da força de trabalho (contra o preço zero do desemprego). Mas o conteúdo social da greve é também a <em>própria produtividade</em>, e isso é extremamente importante. Não é o “capitalismo” em algum sentido abstrato ou geral do qual a greve depende. Também não pode ser reduzido às misérias particulares da vida mecanizada da industrialização, embora ninguém possa duvidar que estas são um estímulo brutal. É antes o conjunto de mudanças que acompanham a transição do capital comercial para o capital industrial que leva muitos para os novos setores produtivos e que leva o capital a concentrar-se também aí — tal como muitos foram anteriormente levados para o mercado de subsistência num processo global desigual.</p>
<p style="text-align: justify;">Um fato evidente, embora muitas vezes negligenciado, é que a eficácia limitada da greve baseada na procura coincide, em geral, não com a fragilidade do capital, mas com a sua vitalidade, quando o circuito salário-mercadoria está produzindo mais-valia e acumulação. Quando a produção não está em expansão, um capitalista tem menos interesse em preservar a sua continuidade e pode tentar resistir aos grevistas. “Mas argumentar que um empregador poderia resistir aos seus trabalhadores em greve”, observa John Rule sobre as primeiras greves inglesas, “não significa que fosse sempre do seu interesse fazê-lo. Ele não iria querer renunciar aos elevados lucros disponíveis com a expansão da produção num mercado em ascensão. Em tais condições, era mais racional ceder do que resistir às exigências” <strong>[10]</strong>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Muito e Muito Poucos</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Assim surge a categoria das lutas de produção, para as quais a greve é o arquétipo. A greve é a forma de ação coletiva própria da fase produtiva do capital. Ela surge antes disso, testa-se contra o mundo, mas só consegue realizar-se com o período de acumulação do capital. Esta fase não chega pontualmente ou autonomamente quando o capital comercial ou centrado na circulação se esgota, mas surge a partir dele e permanece entrelaçada com ele. A produção e a circulação mantêm uma relação dialética clássica: opostas e mutuamente constitutivas, a sua contradição (a contradição entre valor e preço) mantém-nas em movimento conjunto. A origem da greve é a transformação que move corpos e capital para a esfera da produção. Nem todos eles, nem tudo, continuaremos a insistir. Mas depois de um certo limiar. A greve emerge da circulação, mas torna-se a tática principal quando o limiar é ultrapassado, quando uma mudança quantitativa na estrutura da economia torna-se qualitativa. No final, as questões podem ser formuladas da seguinte forma: a greve ascende quando o local de reprodução proletária se desloca para o salário, que deve, ao mesmo tempo, tornar-se o ponto crucial do próprio circuito de reprodução do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">A purificação e a autonomização da greve no século XIX são, portanto, unilaterais; elas mantêm apenas a oposição entre produção e circulação, sem a sua unidade. Ou seja, na dialética da continuidade e da ruptura, o cenário de greve contra a revolta é necessário, mas insuficiente, inclinando-se demais para a ruptura, para a descontinuidade e a oposição formal. Será importante reconhecer os momentos em que essa continuidade, agora oculta por trás do véu da mudança histórica, se torna visível.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos voltar a 1839 simplesmente para recuperar a heterogeneidade do momento. As reuniões políticas que inspiram a violência são, naturalmente, as reuniões cartistas. Porta-estandartes dos muitos de Shelley, eles são a organização trabalhista mais avançada da Grã-Bretanha. O seu jornal, <em>The North Star</em>, publica “To The People” — a passagem de “Masque of Anarchy” que inclui o famoso verso — em abril de 1839. Em maio, publica um poema de “E.H. (Uma Operária de Stalybridge)” e, em junho, um poema anónimo, “Versos de um Operário”. Esta é a edição atual quando começam as revoltas de Bull Ring <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O movimento sindical organizado já está bem avançado. Como diz Eric Hobsbawm,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na Grã-Bretanha, as tentativas de unir todos os trabalhadores em “sindicatos gerais”, ou seja, de romper o isolamento setorial e local de grupos específicos de trabalhadores para alcançar a solidariedade nacional, talvez até universal, da classe trabalhadora, começaram em 1818 e foram perseguidas com intensidade febril entre 1829 e 1834 <strong>[12]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Portanto, não é tão fácil definir a política do Bull Ring. Essa incerteza empalidece diante dos acontecimentos de três anos depois, talvez os mais indecisos do século XIX na Grã-Bretanha. O mistério está todo numa única frase: “O ponto de combustão social espontânea na Grã-Bretanha foi atingido na greve geral não planejada dos cartistas no verão de 1842 (as chamadas &#8216;revoltas dos plugues&#8217;)” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">“Espontânea”, “não planejada”. Queremos destacar estas palavras; sabemos muito bem que significam revolta. O episódio salta dos mineiros de Staffordshire para fábricas, moinhos e minas em toda a Grã-Bretanha, reunindo finalmente mais de um milhão de trabalhadores em seu entorno. Apresenta as características básicas da greve laboral de forma bastante perfeita: assume a forma de recusa de trabalho. Após três anos de colapso industrial, as suas principais reivindicações, aprovadas como resoluções ao longo da ação, dizem respeito à duração da jornada de trabalho e à restauração dos salários aos níveis de 1820, bem como à redução dos aluguéis. Hobsbawm continua a insistir, no entanto, que é tanto uma greve excessiva quanto insuficiente: “A greve geral provou ser inaplicável sob o Cartismo, exceto (em 1842) como uma revolta espontânea contra a fome” <strong>[14]</strong>. Em tudo isso, ele parece ansioso por reconhecer que a greve e a revolta podem ser contínuas, enquanto ainda tenta preservar a ideia da greve pura como algo diferente. É uma confusão. Mas essa confusão é a verdade das coisas.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses deslizes são o resultado inevitável de deixar a forma representar o conteúdo com demasiada facilidade. São também sinais da coexistência de Jameson, da presença de tensões dentro da espiral diacrónica do capital. Como tal, tornam pensáveis outros momentos de coexistência, outros momentos de metamorfose dentro do capital e, portanto, nas suas formas de ação coletiva. Uma vez que o peso deste livro se inclina para pensar uma metamorfose complementar no presente, isto é realmente sugestivo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159503" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962.jpg" alt="" width="1224" height="962" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962.jpg 1224w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-1024x805.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-640x503.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-681x535.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1224px) 100vw, 1224px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Eric Hobsbawm, <em>The Age of Revolution: Europe 178-1848</em>, Londres: Abacus, 2007, 255, 141.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> George Rudé, <em>The Crowd in History: A Study of Popular Disturbances in France and England, 1730-1848</em>, Londres: Lawrence and Wishart, 1984, 278.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Shorter e Tilly, <em>Strikes in France</em>, 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Michael Weaver, “Os motins de Birmingham Bull Ring de 1839: variações sobre um tema de conflito de classes”, <em>Social Science Quarterly</em> 78: 1, março de 1997, 146, 137.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Isobel Armstrong, <em>Victorian Glassworlds: Glass Culture and the Imagination 1830-1880</em>, Oxford: Oxford University Press, 2008, 69. Armstrong também conecta os dois eventos por meio da estranha coincidência de que um dos magistrados de Birmingham de 1839, William Chance, era sócio de uma das maiores empresas de fabricação de vidro da Inglaterra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Walter Benjamin, <em>The Arcades Project</em>, trad. Howard Eiland e Kevin McLaughlin, Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2002, 465 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Fredric Jameson, <em>The Political Unconscious: Narrative as Socially Symbolic Act</em>, Ithaca: Cornell University, 2014, 95.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Armstrong, <em>Victorian Glassworlds</em>, 73.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 65 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> John Rule, <em>The Labouring Classes in Early Industrial England 1750-1850</em>, Londres: Addison Wesley Longman, 1986, 261 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Mike Sanders, <em>The Poetry of Chartism: Aesthetic, Politics, History</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 2009, 233.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Hobsbawm, <em>Age of Revolution</em>, 255.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Ibid., 208.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Ibid., 256-7.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram o capítulo são da autoria de Käthe Kollwitz.</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/07/159497/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (5)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159475/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/07/159475/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 19:18:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159475</guid>

					<description><![CDATA[É a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 3</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Mudança, Ou, da Revolta à Greve</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">É impossível, certamente, descobrir o momento exato em que a greve supera a revolta no repertório. Qualquer determinação desse tipo seria excessivamente confiante quanto à clareza e pontualidade com que as formas de luta se desenvolvem, divergem e reformam. Pior ainda seria sugerir que uma desaparece, para ser substituída pela outra. As táticas, uma vez adotadas, estão sempre à mão, mais próximas ou mais distantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao buscar a transição, temos a dificuldade já exposta. A mudança da revolta para a greve é imanente a uma mudança mais completa e complexa na estrutura da ascensão do capital. A greve emerge da revolta — de um modo centrado na obtenção de lucros no mercado para um centrado na extração de mais-valia. Ou seja, a greve emerge no novo mundo da produção capitalista, como deve ser, a partir do espaço da circulação. Ela se afasta do mar, deixando um rastro de espuma, embora ainda não totalmente formada. Marinheiros britânicos, americanos e franceses estavam consistentemente entre os trabalhadores mais militantes do século XVIII, rivalizando com os sapateiros (os comerciantes eram encontrados mais consistentemente entre os líderes de distúrbios políticos do século XVII até a Comuna de Paris). A própria palavra inglesa <em>strike</em> parece datar de 1768, quando marinheiros se juntaram a “artesãos e comerciantes da cidade — tecelões, chapeleiros, serradores, moedores de vidro e carregadores de carvão — na luta por melhores salários, [e] arriaram suas velas e paralisaram o comércio da cidade. Eles &#8216;não tinham tripulação ou, de outro modo, eram impedidos de navegar todos os navios no Tâmisa&#8217;” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A derivação do termo francês para greve, <em>gréve</em>, é ainda mais sugestiva — uma etimologia com o alcance de um épico, começando na margem de um rio e terminando no Hôtel de Ville alguns séculos depois e a oitenta passos de distância. É uma palavra antiga. Originalmente, significava uma área plana de areia e cascalho próxima à água, uma praia e, portanto, um local onde os barcos descarregavam cargas. A <em>gréve</em> mais trabalhável do Sena tornou-se, portanto, o principal porto de Paris <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ficava na margem direita, uma vez que a cidade se expandiu a partir das ilhas do rio. A área aberta próxima à praia serviria como mercado central da cidade na Alta Idade Média, antes que os feirantes se mudassem para Les Halles. Trabalhadores não qualificados se reuniam ali em busca de trabalho, carregando e descarregando madeira e trigo, barris de vinho e fardos de feno: a Praça da Gréve. O nome duraria mais de 500 anos. Em 1802, a praça tornou-se a Place de l&#8217;Hôtel de Ville, renomeada em homenagem ao seu edifício principal, a residência do prefeito, o golpe termidoriano e, por um breve período, a Comuna. Fotografias antigas mostram que os c<em>ommunards</em> ergueram barricadas ali, em parte por causa de grandes barris de vinho. Uma rima medieval. Onde estava o mercado, estará a comuna.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159484" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg" alt="" width="800" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-681x341.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas estamos nos precipitando. Estamos no porto mais uma vez, o lugar que fornece a principal coordenada para esta primeira seção, para a era de ouro das revoltas. É inevitável, porque é prática e logicamente necessário, que o porto e o mercado parem a greve. É igualmente inevitável, então, que retornaremos ao porto mais adiante neste livro, à medida que as coisas oscilam de greve para revolta. É um ponto de captação de mão de obra não utilizada em meio à grande máquina do mercado. Um lugar de miséria e possibilidade. É apropriado, talvez, que a Place de Gréve também sediará uma guilhotina; o dicionário de 1835 associa a palavra <em>gréve</em> a execuções. Ele ainda não menciona ações dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a mudança já está em andamento. A ascensão do capital refina algumas frases. Chateaubriand, ultradireitista e inveterado criador de termos, usa <em>gréviste</em> em 1821; por enquanto, não significa exatamente um grevista, mas sim alguém que se opõe aos monarquistas. Seu faro para política está afiado como sempre. À medida que os corpos se reúnem na Praça, os desempregados que serão o primeiro exército das Jornadas de Junho, “<em>étre en gréve”</em> passa a significar “procurando trabalho”. Em 1848, após um colapso econômico em toda a Europa, “<em>mettre un patron en gréve</em>” significa “recusar-se a trabalhar para o patrão”. O sentido moderno e a greve moderna chegaram. A transição está completa.</p>
<p style="text-align: justify;">A França chega lá um pouco mais tarde do que a Inglaterra ou os Estados Unidos, por razões já discutidas. Os anos 1848-1851 são o grande pivô, apesar de toda a sua natureza farsesca. A industrialização agora remodelará a sociedade francesa em um nível profundo. Diante desta passagem, as perplexidades abundam, como em outros lugares. Em 1830, encontramos “uma revolta de trabalhadores têxteis ocorreu em Roubaix; eles queriam um aumento de salário”. O promotor de Douai relata: “Eles quebraram as vidraças nas lojas principais, onde foram em massa para solicitar acordos por escrito sobre o aumento”. Roubaix era um centro têxtil desde o final da Idade Média, com uma organização trabalhista bem desenvolvida. Shorter e Tilly registram isso corretamente (embora de forma ambígua) como um prelúdio para a greve na França, observando que “às vezes, os trabalhadores de uma loja paravam por um tempo e, às vezes, tentavam obter paralisações em outras lojas do mesmo setor”, mas, mais comumente, “o cerne de sua ação era uma demonstração de força aliada à apresentação de reivindicações coletivas relativas às condições de emprego em um conjunto específico de lojas. A lei da época proibia quase qualquer tipo de ação coletiva dos trabalhadores” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O promotor claramente não tem palavras para isso. O conteúdo da própria estrutura social em que está enredado ainda não lhe é conhecido: a chegada ao palco das classes trabalhadoras. Ele está preso à forma. É uma multidão enfurecida afinal, mesmo que sejam trabalhadores se mobilizando como trabalhadores em seus locais de trabalho, reivindicando melhores salários. A consequência desse formalismo é evidente. “A revolta, de acordo com o relatório do deputado, não parece ter nenhuma conotação política”, conclui nosso cronista. Podemos suspeitar que ele queria dizer que os eventos não estão diretamente relacionados à Revolução de Julho, duas semanas antes. Ao mesmo tempo, reconhecemos um senso comum a caminho de se tornar um truque de retórica. Ele realiza um certo tipo de trabalho, essa confusão, esse hábito peculiar de nomenclatura. Porque podemos chamá-lo da revolta, podemos proceder como se seu manifesto significado político não existisse. Mais um espasmo na história sem história dos miseráveis.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><em><strong>Quebra-Máquinas</strong></em></h4>
<p style="text-align: justify;">“ÀS CLASSES TRABALHADORAS”, como começavam os panfletos:</p>
<blockquote><p><em>Os Cavalheiros, a Agricultora, os Fazendeiros e outros, tendo comunicado a vocês sua intenção de aumentar seus Salários de forma satisfatória; e tendo sido bom sentirem que será mais benéfico para seus próprios interesses permanentes retornar às suas ocupações honestas habituais e se afastarem de práticas que tendem a destruir a Propriedade, de onde os próprios meios para seus Salários adicionais devem ser fornecidos</em><strong>[4]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta publicação em particular vem dos magistrados de Berkshire; apenas dois condados ingleses proferiram mais sentenças de morte a participantes da “revolta de Swing”, e nenhum prendeu tantos. O objetivo é acalmar os verdadeiros seguidores do mítico “Captain Swing” durante a onda de quebra-máquinas iniciada no outono de 1830. Caso isso acontecesse, as revoltas de Swing durariam até o ano seguinte. As classes trabalhadoras, neste ponto, ainda são plurais, as frações libertadas pelos destroços do feudalismo, ainda em processo de se transformarem na classe trabalhadora. Thompson considera 1790-1832 como o período crucial, onde encontramos também aquele episódio mais duradouro de destruição de máquinas, as revoltas luditas de 1811-1813.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159482" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png" alt="" width="701" height="891" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png 701w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-236x300.png 236w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-330x420.png 330w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-640x813.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-681x866.png 681w" sizes="auto, (max-width: 701px) 100vw, 701px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Repetidamente, Swing trata de máquinas debulhadoras. Da mesma forma, “os ataques luditas se limitavam a objetivos industriais específicos: a destruição de teares mecânicos (Lancashire), máquinas de tosquia (Yorkshire) e resistência ao colapso do costume na indústria de tricô de Midland” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Já encontramos o mecanismo que, acionado pelos avanços agrários, fará girar as rodas da Revolução Industrial. A corrida pela produtividade, a própria base do desenvolvimento capitalista, significa a substituição da força de trabalho por meios de produção, do trabalho vivo por morto, do capital variável por constante. O aumento da produtividade tende a aumentar os salários, o que, por sua vez, força novos avanços que economizam mão de obra. Paralelamente, massas de empregados domésticos são lançadas ao mercado de trabalho: o aumento dos custos dos produtos agrícolas persuade os empregadores a abandonar arranjos residuais de trabalho em espécie em troca de salários, repassando a inflação aos trabalhadores. O trabalho agrário perdido pelo cercamento deprime esses mesmos salários, mesmo enquanto a indústria caminha pela paisagem com botas de sete léguas.</p>
<p style="text-align: justify;">À medida que o salário se generaliza, o mercado começa a renunciar à sua centralidade social. O espaço físico sujeito em parte ao controle comunitário, dá lugar a “mistérios de um mercado &#8216;autorregulador&#8217;, o mecanismo de preços e a subordinação de todos os valores comunitários ao imperativo do lucro” <strong>[6]</strong>. Em pouco tempo, “o membro característico dos pobres rurais era agora um proletário sem terra, dependendo quase exclusivamente do trabalho assalariado ou da Lei dos Pobres para sua vida” <strong>[7]</strong>. A Lei dos Pobres é um lembrete, à luz de discussões anteriores, de que zero também é um salário, embora um salário que precisará de suplemento para que seus beneficiários sejam mantidos em reserva disponível.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a isso, surgem o General Ludd e o Captain Swing, um liderando ataques contra as indústrias têxteis, o outro no teatro de combate agrário. Ambos os movimentos descreveram a si mesmo em termos militares, nunca melhor do que em uma carta “Assinada pelo General do Exército de Reparadores/Reformadores Ned Ludd Clerk”. Fizeram juramentos, muniram-se de armas. Contínuos e populares, dificilmente se pode discutir que foram revoltas reais. Seus períodos foram variados. Não tiveram uma única atividade. Somente nas revoltas de Swing, “incêndios criminosos, cartas ameaçadoras, panfletos e cartazes &#8216;inflamáveis&#8217;, &#8216;roubos&#8217;, reuniões salariais, agressões a feitores, párocos e proprietários, e a destruição de diferentes tipos de máquinas, todos desempenharam seu papel”. Apesar de toda essa variabilidade de forma, o conteúdo é constante. “Por trás dessas atividades multiformes, os objetivos básicos dos trabalhadores eram singularmente consistentes: alcançar um salário mínimo vital e acabar com o desemprego rural” <strong>[8]</strong>. Não menos claros eram os luditas, cujas “reivindicações incluíam um salário mínimo legal; o controle da &#8216;exaustão&#8217; de mulheres ou menores; arbitragem; o engajamento dos patrões para encontrar trabalho para homens qualificados despedidos por maquinário; a proibição de trabalho de má qualidade; o direito à associação sindical aberta” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não devemos sugerir que os dois grandes episódios de quebra de máquinas sejam idênticos. Seus fundamentos são diferentes. Apesar de toda a sua ligação, os mundos agrícola e industrial na Grã- Bretanha estão em desacordo; as batalhas obstinadas sobre as Leis dos Cereais ressaltam os interesses contrários do campo e da cidade. Kirkpatrick Sale intitula seu estudo “Rebeldes Contra o Futuro: Os Luditas e Sua Guerra contra a Revolução Industrial”; poderíamos dizer o mesmo dos manifestantes do Swing? <strong>[10]</strong> Mas é enganoso, ainda que esteja de acordo com parte do espírito de Thompson, considerar as revoltas como defesas retrógradas do costume. Novamente nos deparamos com a questão do prático, da necessidade. Frequentemente, os luditas colocam as coisas de maneiras difíceis de confundir, afirmando seu direito e intenção de “quebrar e destruir todo tipo de estrutura que não pague o preço regular previamente acordado”. Uma lista está anexada a este comunicado; máquinas que não desloquem trabalhadores serão deixadas intactas <strong>[11]</strong>. Ludd e Swing, sem dúvida, compartilham a sensação de um terreno perigosamente instável, de um mundo da vida sob coação. No entanto, eles estão unidos, na fórmula mínima, pela pressão para baixo nos salários e pela ameaça de desemprego tecnológico. E é aqui que o quebra-cabeça da classificação se afirma.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159483" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg" alt="" width="700" height="924" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-318x420.jpg 318w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-640x845.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-681x899.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As autoridades, previsivelmente, desejam conceder-lhes força insurrecional apenas quando necessário para aplicar penalidades mais severas. Em sua maioria, os grandes episódios de quebra de máquinas serão registrados como revoltas por observadores, na época e posteriormente. Afinal, as leis dão nomes, e muitas vezes é o crime de revolta pelo qual os exércitos de Ludd e Swing são processados (embora um projeto de lei específico que torne a invasão de domicílio um crime capital seja aprovado logo no início). Magistrados de Nottingham relatam “um espírito ultrajante de tumulto e revolta” nos primeiros dias de Ludd, estabelecendo os termos da arte para condenações da Lei da Revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">Ocasionalmente, o nome parece adequado, por exemplo, aplicado à extorsão de dinheiro e provisões. Os episódios reais, apesar de toda a sua variedade, muitas vezes assemelham-se formalmente à revolta — em seu tom, ímpeto, selvageria. E, no entanto, deveria ser impossível olhar para essas reivindicações e não reconhecer a greve em formação. Elas dizem respeito apenas a emprego, melhores salários, melhores condições de trabalho, proteções legais. Se estamos buscando a fonte da grande confusão entre a natureza subjacente da luta coletiva e sua aparência, não precisamos ir além desses eventos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos apresentar o argumento com clareza, principalmente porque se trata de um argumento sobre confusão. É somente neste período de transição histórica que os contornos da revolta e da greve podem finalmente ficar claros em seus delineamentos, exatamente porque é somente nesses períodos que os dois podem ser colocados em tão estreita proximidade, misturados e, no final, esclarecidos. Ou, para colocar de outra forma, a quebra de máquinas é como se dá a transição da revolta para a greve. Sem dúvida, parece retrospectiva, “o último capítulo de uma história que começa nos séculos XIV e XV” <strong>[12]</strong>. Mas essa insistência no costume, na luta contra o futuro, ignora aquela parte da quebra de máquinas que é a invenção, que antecipa. Não é menos um primeiro capítulo de políticas de confronto no local de trabalho que não terminaram. É somente em um período de transição que um híbrido tão chocante e inovador, com um pé no confinamento e nas revoltas por comida, um pé na legislação fabril e nas lutas pela jornada de trabalho, pode surgir. “Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal emergiu”, escreve Thompson <strong>[13]</strong>. Em tal circunstância, é inevitável que as táticas proliferem à medida que as pessoas tentam soluções para um novo conjunto de problemas, tomando emprestadas suas formas do antigo repertório — assim como o capital extrai suas formas do comércio até que o novo conteúdo esteja pronto para ser divulgado no dia a dia.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho como fulcro da reprodução, que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Na verdade, são a mesma coisa: contexto e conflito. Eles se movem juntos. O ritmo próximo dessa dupla mudança fornece a base histórica para um argumento político-econômico que define revolta e greve adequadamente em sua plenitude histórica — define-os não de acordo com atividades específicas, mas antes pelas maneiras como o problema da reprodução confronta a massa de pessoas, suas posições dentro das relações sociais dadas, os lugares para onde foram empurradas, os espaços onde seus antagonistas devem ser visíveis, podem ser vulneráveis.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>Os Muitos</strong></em></h5>
<p style="text-align: right;"><em>Levantem-se, como leões após o sono,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Em número invencível,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Sacudam suas correntes para a terra como orvalho</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que durante o sono caíram sobre vocês —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vocês são muitos — eles são poucos —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>— Percy Bysshe Shelley,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>“A Máscara da Anarquia”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Se alguém fosse em busca de um fio condutor que atravessasse a sequência revolta-greve-revolta “linha”, faria pior do que seguir o destino do poema de Shelley, composto para “um pequeno volume de <strong>canções populares</strong> totalmente políticas”<strong>[14]</strong>. O poema narra o Massacre de Peterloo de 1819, nomeado com alguma ironia em homenagem a Waterloo, travado quatro anos antes. Estamos no meio do caldeirão de Thompson, então. A Inglaterra está em meio à fome e à depressão. A revolta por comida, tendo atingido o pico segundo todos os relatos em 1800-1, está em recuo. O fim das guerras napoleônicas lançou uma grande massa de corpos em um mercado de trabalho incapaz de absorvê-los. A indigência na Inglaterra está em 15% e a emigração em níveis históricos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159485" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg" alt="" width="1053" height="1053" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg 1053w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1053px) 100vw, 1053px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É nesse contexto que 64.000 pessoas se reúnem no Campo de São Pedro, em Manchester, buscando reformas parlamentares, principalmente em relação ao sufrágio. A Lei da Revolta é lida. Na carga de cavalaria imediatamente seguinte, mais de uma dúzia de manifestantes são mortos e centenas ficam feridos. A indignação moral toma conta da nação. Na Itália, Shelley constrói seu poema a partir de notícias de jornais.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria difícil chamar Peterloo de revolta no sentido que a palavra havia se desenvolvido ao longo dos séculos anteriores. É próximo em certos aspectos. A grande assembleia se reúne na ágora. O termo e o código legal são usados em qualquer caso; é a categoria representativa que as pessoas têm em mãos. Certamente houve reuniões que podem ser mais apropriadamente chamadas de revoltas nos dias seguintes em cidades vizinhas. Mas a revolta do século XVIII atingiu, em geral, seu limite e explodiu. A multidão reunida na praça tenderá para a revolução ou nada, pressionada contra a impossibilidade da demanda prática quando até mesmo os apelos por reforma são recebidos com violência mortal. É aqui que o poema começa. O afastamento da revolta já começou. James Chandler escreve:</p>
<blockquote><p>Tudo isso quer dizer que, à semelhança de Peterloo, a “Revolução Francesa” em uma escala maior, ou talvez até mesmo o próprio “Romantismo” em uma escala ainda maior — nomeia um evento de duração indeterminada que marca uma grande transformação nas práticas da representação literária e política moderna, entendida em seu momento como tendo potencial revolucionário <strong>[15]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas o poema só é publicado em 1832, no final a nossa primeira tentativa. A estrofe final do longo poema irá tornar-se uma espécie de canção de marcha para luta após luta. É logo retomada pelos cartistas, que em 1842 se aproximam da primeira greve geral. O tempo do trabalho começou. Em 1911, Pauline Newman orientará seus discursos de organização para o Sindicato Internacional das Trabalhadoras do Vestuário Feminino com as frases de Shelley. Mas haverá outras oscilações. Em 2010, o poema é repatriado quando estudantes e outros que lutam contra cortes fatais no salário social atacam e ocupam o número 30 de Millbank, a sede do Partido Conservador em Londres. A estrofe final de Shelley é citada repetidamente nos dias seguintes, o fio condutor retornando na longa temporada que inclui o movimento das praças, o movimento <em>Occupy</em>, a Primavera Árabe — o retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">A estrofe final acrescenta um último verso a uma quadra que aparece anteriormente, desviando o olhar do pacifismo fundamental do poema: “Vós sois muitos — eles são poucos.” <strong>[16]</strong> Pode ser possível persuadir você de que os sons do primeiro verso, levantem-se/leões/depois, querem que você ouça a palavra revolta. É difícil não ouvir. É difícil não ouvir na associação do poema de “Anarquia” com o Estado corrupto, em vez de com os antagonistas do Estado, um precursor da inversão dialética com a qual iniciamos este livro: “Uma ordem violenta é uma desordem; e uma grande desordem é uma ordem. Essas duas coisas são uma só.” Mas o último verso de Shelley levanta uma questão mais simples ou talvez muito mais intratavelmente complexa, a dos muitos.</p>
<p style="text-align: justify;">O popular e o político, como ele insistia. Multidões e poder, na fórmula concisa de Canetti. Massas, classes, turba, multidão. Súditos, cidadãos, o povo. O sentido de antagonismo e metamorfose social, o sentido (para arriscar essa substancialização portentosa) do político: isso não pode ser desvinculado do sentido da multidão e daquilo que poderia lhes dar uma unidade, seja ela autodeclarada ou espectral. Isso dificilmente seria o lugar para uma revisão da literatura. Em vez disso, uma proposição simples: que revolta e greve serviram como, entre outras coisas, metonímias para este assunto em um determinado momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é outra maneira de delinear o que é apreendido na ideia de um repertório de ação coletiva e de identificar uma tática principal dentro dele. Essas táticas, e as mudanças entre elas, são expressões da massa social e suas recomposições, que por sua vez se formam e se transformam a partir de dadas bases materiais. Em outras palavras, a revolta não é um evento isolado e singular; é tanto uma fração real de quanto uma figura para os muitos aos quais está sempre adjacente. É a relação interna dos muitos externalizada sob certas condições. Isso também se aplica à greve. Compreender as transformações na sequência revolta-greve-<em>revolta “linha” </em>é enxergar as mudanças dos muitos, ver o que pode ser compreendido nelas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Greg Grandin, <em>The Empire of Necessity: Slavery, Freedom, and Deception in the New World</em>, Nova York: MetropolitanBooks, 2014, n. 146. A citação sem atribuição é de The Economic Review, Vol. 5, Londres: Rivington, Percival &amp; Co., 1895, 216.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Eric Hobsbawm faz uma observação fascinante em <em>The Age of Revolution: Europe 1789-1848</em>, Londres: Abacus, 2007, 265, nota de rodapé 31. Ele escreve: “A greve é uma consequência tão espontânea e lógica da existência da classe trabalhadora que a maioria das línguas europeias tem palavras nativas independentes para designá-la (por exemplo, grève, huelga, sciopero, zabastovka), enquanto que as palavras para outras instituições são frequentemente emprestadas.” No entanto, isso é, em última análise, enganoso de maneiras que serão exploradas no capítulo seguinte, notadamente pela forma como declara a autonomia da greve em relação a uma tradição mais antiga, como se ela tivesse surgido de forma autóctone a partir da nova dispensação proletária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Todos os trechos são de Edward Shorter e Charles Tilly, <em>Strikes in France 1830-1968</em>, Londres: Cambridge University Press, 1984, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Eric Hobsbawm e George Rude, <em>Captain Swing: A Social History of the Great English Agricultural Uprising of 1830</em>, Nova York: W. W. Norton, 1968, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Thompson, <em>Working Class</em>, 484.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Wood, <em>Origin of Capitalism</em>, 69.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Hobsbawm e Rude, <em>Capitão Swing</em>, 35.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 195.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Thompson, “Working Class ”, 551.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Kirkpatrick Sale, <em>Rebels Against the Future: The Luddites and Their War on the Industrial Revolution: Lessons for the Computer Age</em>, Boston: Addison-Wesley, 1995.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Conant e Darval, citados em Thompson, “Working Class”, 535.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Working Class”, 543.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Carta a Leigh Hunt, 1º de maio de 1820, <em>The Letters of Percy Bysshe Shelley: In Two Vols</em>., vol. 2, ed. Frederick L. Jones, Oxford: Clarendon Press, 1964, 191 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> James Chandler, England in 1819: <em>The Politics of Literary Culture and the Case of Romantic Historicism</em>, Chicago: University of Chicago Press, 1998, 18.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Diferentes impressões do poema variam em sua ortografia; esta citação segue a primeira edição, Londres: Edward Moxon, 1832.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Ilustram o texto &#8220;O Hôtel de Ville incendiado, atacado pelas tropas de Versalhes&#8221;, de Gustave Clarence Rodolphe Boulanger (1871), &#8220;O Líder dos Ludditas&#8221;, de autoria anônima (1812), &#8220;Um Retrato Original do Capitão Swing&#8221;, de autoria anônima (1830), &#8220;O Massacre de Peterloo&#8221;, de George Cruikshank (1819).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/07/159475/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (3)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159417/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/07/159417/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 14:42:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159417</guid>

					<description><![CDATA[A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 1: REVOLTA</strong></h4>
<p><strong>CAPÍTULO 1</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Que é Uma Revolta?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que está em jogo na definição de revolta não é simplesmente a possibilidade de fazer distinções históricas úteis, mas também a decifração do significado e do potencial político da revolta. Esse também é um problema para a pesquisa. Certamente, as revoltas frequentemente apresentam violência, direta, indireta ou como ameaça. Os problemas surgem quando os dois [revolta e violência] são atrelados um ao outro. Se alguém estiver, por exemplo, analisando registros públicos e selecionar <em>violência</em> e palavras relacionadas como termos de pesquisa, essa correlação terá um profundo efeito nos resultados. Da mesma forma, o pressuposto de que a violência indica uma revolta apresentará instantaneamente desafios para qualquer conceituação útil da atividade em questão.</p>
<p style="text-align: justify;">Considere as confusões que se proliferam quando se faz a fusão, neste exemplo do texto de abertura de <em>“Rioting in America”</em> de Gilje:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mesmo nos primeiros anos do século XIX, à medida que os trabalhadores refinavam suas táticas de greve, a coerção era necessária para impor a unidade e persuadir os proprietários quanto à legitimidade das exigências dos trabalhadores. Essa coerção frequentemente assumia a forma de revoltas &#8211; seja cobrindo de piche e penas um sapateiro recalcitrante em Baltimore ou brigando com os fura-greves nas docas de Nova York. A força era frequentemente usada para enfrentar a força, e as revoltas e a violência representam os sinais da história trabalhista americana desde a década de 1830 até o século XX. Antes de 1865, a maioria das greves violentas se limitava a cabeças rachadas e eram assuntos locais. Depois de 1865, as revoltas passaram a ter alcance nacional. Na grande greve ferroviária de 1877, os trabalhadores lutaram contra os militares de Baltimore a São Francisco. As dimensões dessas guerras trabalhistas continuaram a ganhar as manchetes nacionais com as batalhas em Homestead em 1892, Pullman em 1894, Ludlow em 1914 e Blair Mountain, West Virginia, em 1921. Acrescente a esses grandes cataclismos inúmeras escaramuças nas cidades, vilas e no campo, e veremos que grande parte da história do trabalho americano está escrita com sangue, como revoltas <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ficamos um pouco surpresos ao saber que a revolta é um aspecto marcante da história do trabalho. É um complemento da greve, seu braço armado. Ou talvez a revolta seja simplesmente uma subcategoria, a <em>greve violenta</em>; às vezes, elas se elevam ao status de “guerras trabalhistas”, chegando enfim ao último floreio gramaticalmente desajeitado, determinado a aproximar o máximo possível as palavras “revoltas” e “sangue”.</p>
<p style="text-align: justify;">Como costuma acontecer até mesmo com as concatenações mais arbitrárias, uma verdade é, no entanto, capturada. O eco de “escrito em letras de sangue e fogo” é sugestivo. A famosa descrição de Marx da acumulação primitiva insiste na violência das expropriações que produzem as condições para o capitalismo. À medida que os cavaleiros da indústria substituírem os cavaleiros da espada, parecerá que a apropriação do excedente sob o capital, diferentemente de todos os modos anteriores de produção, é garantida por meio de consentimento livre. Mas essa dupla liberdade do trabalho — <em>dos</em> meios de subsistência e <em>para</em> dispor de suas capacidades à vontade — é precisamente o que foi assegurado por essa violência originária, que não é dissolvida, mas sim sublinhada e preservada dentro da dominação impessoal da relação de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de se admirar, portanto, que a violência ronde o mundo do trabalho. Esse é o núcleo da verdade no relato de Gilje e o momento em que a violência poderia ter sido reconhecida como analiticamente independente da constituição da revolta. Com essa separação esclarecedora, a força ideológica dessa associação exclusiva poderia ser inspecionada. Mas é exatamente o que não acontece. É do caráter do pensamento burguês preservar uma compreensão mais moral do que prática do antagonismo social. Assim, em vez disso, encontramos a notável insistência de que a violência é sempre e em todos os casos um sinal da revolta — mesmo quando envolve “brigas com fura-greves”, um absurdo evidente. Citando “alguns precedentes legais”, Gilje acabará chegando à sua definição completa de revolta como “qualquer grupo de doze ou mais pessoas tentando fazer valer sua vontade imediatamente por meio do uso da força fora dos limites normais da lei” <strong>[2]</strong>. Uma revolta, não podemos deixar de notar, é o anverso perfeito de um júri.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é, nesse sentido, sempre e em toda parte ilegítima, o que pode não nos surpreender, a não ser pela alegação inicial de que ela serviu “para persuadir os proprietários da legitimidade das demandas dos trabalhadores”. A partir daí, os problemas categoriais só se proliferam. A consequência desse relato em particular é reduzir a greve em sua totalidade ao aspecto mais mínimo e ascético, a inação encontrada ao abandonar as ferramentas. Ela é sempre pacífica e sempre dentro da lei — apesar dos longos períodos da história durante os quais até mesmo a greve ou “reunião” mais moderadas eram ilegais, e apesar dos inúmeros exemplos de lutas com piquetes e outras formas de violência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159420" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg" alt="" width="1504" height="1157" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg 1504w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-300x231.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-1024x788.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-768x591.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-546x420.jpg 546w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-640x492.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-681x524.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1504px) 100vw, 1504px" /> Por meio de tais construções contrafactuais, obtemos um modelo de greve severamente limitado, tanto em termos de quais ações ela pode incluir, quanto em relação a seu escopo histórico e geográfico. De fato, a greve contemplada aqui quase não existe. Essa definição também tem o efeito contrário de ampliar e desfigurar nosso conceito de revolta para além de qualquer particularidade; ele pode ser encontrado em todos os tempos e lugares como algo que beira a essência trans-histórica. Uma definição mais persuasiva, mas ainda limitada, é oferecida por David Halle e Kevin Rafter:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[A revolta] envolve publicamente pelo menos um grupo, que com pouca ou nenhuma tentativa de ocultação, agride ilegalmente pelo menos um outro grupo ou ataca ou invade ilegalmente uma propriedade… de forma que se indique que as autoridades perderam o controle… os ataques a outro grupo ou à propriedade devem atingir um determinado limite de intensidade <strong>[3]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser útil em comparação com a avaliação de William Sewell, um dos principais historiadores da ação coletiva. Embora se baseie em Tilly, Sewell também dá à violência um lugar de destaque em sua estrutura analítica em todos os períodos históricos, concluindo que “o argumento essencial de Tilly ainda pode ser explicado de forma mais econômica com o uso de sua tipologia de violência competitiva, reativa e proativa” <strong>[4]</strong>. O que diferencia Sewell de Gilje é que, ao deslocar os termos revolta/greve para os registros de violência em vez de sobrepor as duas estruturas à força, ele é capaz de avaliar a mudança de uma orientação dominante para outra dentro de um repertório de ações aberto à transformação histórica. Ou seja, ele mantém a possibilidade de periodização como tal. Isso é exatamente o que Gilje efetivamente abandona ao obscurecer totalmente metade do trabalho da história. Tilly observa,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O repertório de ações coletivas evolui de duas maneiras diferentes: o conjunto de meios disponíveis para as pessoas muda em função de transformações sociais, econômicas e políticas, enquanto cada meio de ação individual se adapta a novos interesses e oportunidades de ação. Rastrear essa dupla evolução do repertório é uma tarefa fundamental para a história social <strong>[5]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A descrição da revolta como expressão multifacetada da violência social geral que muda de forma a torto e a direito, conforme ditam as circunstâncias, ressalta a segunda enquanto apaga a primeira — e, com ela, qualquer chance de compreender a importância sistemática do retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Econômico e o Político</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">O confusão entre revolta e violência tem sido uma ferramenta essencial para a redução política da revolta, seu isolamento da política propriamente dita, cuja medida se baseia implicitamente em um modelo de auto-consciência ou em sua ausência. Foi isso que Thompson começou a criticar, chamando-a de “visão espasmódica da história popular:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">De acordo com essa visão, as pessoas comuns dificilmente podem ser consideradas agentes históricos antes da Revolução Francesa. Antes desse período, elas se intrometem ocasionalmente em momentos de súbita perturbação social. Essas irrupções são compulsivas, em vez de autoconscientes ou autoativadas: são simples respostas a estímulos econômicos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas conceitualizações são renovadas na ciência positivista e quantitativa, por exemplo, do New England Complex Systems Institute. Seu estudo de 2011, focado em nações com baixos salários, traça uma correlação de explicação única [single-bullet] em que os autores “identificam um limite específico de preço dos alimentos acima do qual os protestos se tornam prováveis” <strong>[7]</strong>. Há desvios mais matizados dessas suposições subjacentes, articulando aumentos insuportáveis nos preços das mercaorias com mudanças econômicas mais amplas, como a reestruturação do FMI, programas e relações comerciais forçadas, que fornecem as condições para regimes alimentares precários. Enfatizando a construção da fome e da escassez, esses relatos, no entanto, assumem um verdadeiro mecanismo autonômico [autonomic] de encadeamento entre estímulo e resposta. A definição efetiva de revolta aqui é condicional. É simplesmente o que acontece quando os preços dos alimentos atingem um certo apogeu, uma versão da abordagem dos “historiadores do crescimento”, rejeitada por Thompson por “obliterar as complexidades do motivo, do comportamento e da função, que, se fossem notados pelo estudo de seus análogos marxistas, os fariam protestar” <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa abordagem encontra seu contraponto de forma um tanto perversa em Alain Badiou. Ele oferece um sentido qualitativo e abstrato do momento político. Em muitos aspectos, seu relato transcende os limites de seus contemporâneos, intelectuais de esquerda que, confrontados com as revoltas de Tottenham em 2011, aprenderam pouco. Na melhor das hipóteses, fomos levados a pensar que as revoltas alcançaram um espontaneísmo lamentável, aquela acusação que é a reanimação do pensamento socialista da tropa “espasmódico”. Foi um espetáculo estranho ver uma teoria política outrora moderna ser apresentada como um truísmo, como se o debate entre Lênin e Luxemburg tivesse sido resolvido e suas conclusões fossem válidas para sempre, sem necessidade de análise real. Em geral, os relatórios foram ainda menos generosos. Os participantes eram farsantes da sociedade antes deles, movidos pelas compulsões de autocancelamento da época, avatares do individualismo materialista momentaneamente liberados, talvez aptos a escapar de explosões sem sentido se lhes fosse fornecido um programa político. Como Slavoj Žižek perguntou, queixoso, do recinto de papel da <em>London Review of Books</em>: “Quem conseguirá direcionar a raiva dos pobres?” Era difícil não temer que um filósofo quisesse se encarregar dessa tarefa.</p>
<p style="text-align: justify;">Badiou, no entanto, deixa claro que as revoltas para as quais ele volta sua atenção não estão em busca de uma direção de vanguarda, sem a qual só podem afirmar a sociedade da qual surgiram. Ele as identifica como um fato periodizante em meio à sua própria realização:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…] vários povos e situações estão nos dizendo, em uma linguagem ainda indistinta, que esse período acabou; que há um renascimento da História. Devemos então nos lembrar da Ideia revolucionária, inventando sua nova forma ao aprender com o que está acontecendo <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A Ideia surge do evento da revolta, que então fornece uma força e duração organizacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse esquema, há uma certa alternância entre períodos em que “a concepção revolucionária de ação política foi suficientemente esclarecida (…) e, com base nisso, garantiu apoio maciço e disciplinado” e “períodos intervalares [quando], em contraste, a ideia revolucionária do período anterior (…) está dormente” <strong>[10]</strong>. Na falta de uma ideia ordenadora (muitas vezes aparecendo como a Ideia majestosa), esses últimos períodos dão origem à expressão dessa desordem no modo protopolítico da revolta. Badiou vê uma “estranha semelhança” entre nosso passado recente e a Restauração Francesa após a derrota final do espírito republicano: “desde o início da década de 1830, foi um grande período de revoltas, que muitas vezes foram momentânea ou aparentemente vitoriosas… Essas foram precisamente as revoltas, às vezes imediatas, às vezes mais históricas, características de um período intervalar” <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159422" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O puramente econômico e o puramente político, como era de se esperar, mostram os limites um do outro em negativo. O conto indexical do New England Complex Systems Institute não pode fazer muito além de atender certas quantidades à medida que elas se aproximam de determinados níveis e aguardar a revolta que inevitavelmente seguirá. O método deles parece ser relativamente preciso, depois de dados concretos, mas dificilmente é explicativo em relação à revolta como fenômeno social.</p>
<p style="text-align: justify;">O relato de Badiou, ao contrário, é admiravelmente explicativo, mas impreciso. Ou seja, ele fornece um contexto social reconhecível para a revolta em oposição a outras formas de ação, uma demanda por periodização, e está preparado para aceitar a revolta como um testemunho sério sobre a transformação histórica. No entanto, há imprecisões em sua pesquisa histórica, o que deriva de periodizações um tanto arbitrárias da história francesa a partir de desejos políticos imputados, em direção a uma trajetória global de revolta, à qual essa distribuição histórica não corresponde. O movimento oscilante que ele deduz para a França, com fases que duram décadas, tem pouca força de periodização; provavelmente preciso para seu país natal, ele combina pouco ou nada com as tendências da história em outros lugares. Além disso, qualquer revolta de importância política (uma “revolta histórica”, em sua tipologia) aparece como um evento praticamente sem determinação, fora do tempo. Os analistas quantitativos nos dão causalidade demais; Badiou, de menos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas duas abordagens estão diante de nós como Scylla e Charybdis, os duros bancos de areia do economicismo vulgar e o redemoinho da abstração política. Como navegar entre elas, entre a revolta como jogo de fome e a revolta como emanação de uma estrutura diáfana de sentimento político? Sem dúvida, cada um deles é, de certa forma, informativo, mas ainda insuficiente. Se enfatizamos a periodização, é primeiro porque mudanças fundamentais e duradouras no repertório da ação coletiva sugerem que a periodização é possível em formas mais completas do que espasmos ou oscilações, tanto em escalas infranacionais quanto supranacionais. Se a revolta olha para a periodização, o período, por sua vez, olha de volta para a revolta pelo buraco da fechadura dialética. É difícil, talvez impossível, estabelecer o que é uma revolta sem a periodização; com ela, a revolta (e também a greve) pode ser entendida como um conjunto de práticas diante de circunstâncias práticas, com ou sem um imaginário sobre a autoconsciência reflexiva dos participantes em que se baseiam tantos relatos.</p>
<p style="text-align: justify;">É na prática que Thompson baseia sua análise. Sua conclusão agrega um conjunto de outras práticas, incluindo bloqueio, confisco, revenda, ameaça e violência real contra comerciantes e transportadores. É a partir dessas práticas, em relação a um senso personalizado do custo de se manter vivo, que ele deduz a prática de fixação de preços como a atividade unificadora. Thompson, por sua vez, foi criticado pelo peso que ele dá ao costume e ao direito presumido de transformar o costume em uma arma, que é aproveitada pela multidão. No entanto, o caso mais básico que ele constrói se aproxima do indiscutível: o caso de reconhecer que a situação de revolta não é nem a simples fome nem a “emoção” política (como a revolta já foi chamada), mas sim o domínio do mercado. Se o mercado era “o ponto em que os trabalhadores mais frequentemente sentiam sua exposição à exploração, era também o ponto &#8211; especialmente em distritos manufatureiros rurais ou dispersos &#8211; em que eles podiam se organizar mais facilmente” e, portanto, era “tanto na arena da guerra de classes quanto na fábrica e na mina que se deu a revolução industrial” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Falar de guerra de classes não pode deixar de tender a um certo reducionismo. Não parece, pelo menos no sentido ortodoxo que adquiriu, totalmente adequado ao mundo protoindustrial em questão, nem ao presente quando o pertencimento de classe fornece não tanto um limite, mas uma lógica para a mobilização política. Apenas assim, como nossa introdução observa, a “fixação de preços de mercadorias no mercado” descreve apenas uma fração da revolta contemporânea. Thompson, e ele não está sozinho, aponta uma saída em um momento de atenção ao tema da revolta. Ele faz uma pausa em sua pesquisa para observar: “Os iniciadores das revoltas eram, com muita frequência, as mulheres”, pela razão evidente de que “elas também eram, é claro, as mais envolvidas no comércio cara a cara, mais sensíveis aos significados dos preços, mais experientes em detectar baixo peso ou qualidade inferior” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é apenas razoável, no caso das excluídas antecipadamente do “patriarcado do salário” <strong>[14]</strong> encontrarem mais intensamente a luta no mercado, uma vez que a agricultura de subsistência é minada e a questão básica da sobrevivência é forçada a entrar em uma esfera de troca em expansão. E isso nos oferece, mais do que uma lógica de circulação, a esfera do consumo e da troca. Além disso, gera uma lógica de reprodução como tal.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Dilema da Reprodução</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A reprodução social tem sempre dois lados. Do lado dos despossuídos do capital, ela é tanto a venda da força de trabalho quanto a compra do que é necessário para reproduzir essa força de trabalho. Do lado do próprio capital, é a valorização das mercadorias na produção e a realização desse valor na troca. Essas são as mesmas atividades, evidentemente, vistas de posições diferentes. A ilustração mais clara do caráter duplo da reprodução, sua unidade contraditória, é a chamada <em>double moulinet</em> ou, em alemão, <em>zwickmühle</em>, uma palavra que o inglês traduz como “dilema”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na narrativa tradicional desse dilema, trata-se de uma história do trabalho: da força de trabalho refeita e revendida pelo salário, e do trabalho reprodutivo infinitamente apropriado para esse processo, mais comumente referido como “trabalho feminino” não remunerado. O que Thompson vislumbra é que esse trabalho reprodutivo acontece não apenas em casa &#8211; cozinha, quarto, berçário &#8211; mas também, no período pesquisado por ele, é encaminhado pelo mercado. Quando o mercado parece ser a principal condição para a reprodução, as lutas pela reprodução inevitavelmente se situarão nele. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de notar que essa situação não se aplica a todos os sujeitos igualmente &#8211; que aqueles que são os últimos a entrar e os primeiros a sair do assalariamento, aqueles que nunca foram incluídos, aqueles que, na melhor das hipóteses, conseguem acesso secundário, estarão na vanguarda daqueles que se encontram lutando pela reprodução de maneiras que vão além do salário. Nessa divisão dos participantes, encontramos outra maneira de ver a conjuntura das épocas marcadas como “revolta” e “revolta linha”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159419 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png" alt="" width="198" height="340" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png 198w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922-175x300.png 175w" sizes="auto, (max-width: 198px) 100vw, 198px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Na introdução, estabelecemos uma definição tripartite de greve como a forma de ação coletiva que luta para definir o preço da força de trabalho, é unificada pela identidade do trabalhador e se desenvolve no contexto da produção; a revolta luta para definir os preços no mercado, é unificada pela desapropriação compartilhada e se desenvolve no contexto do consumo. A greve e a revolta são distinguidas mais ainda como táticas principais dentro das categorias genéricas de lutas pela produção e circulação. Podemos agora reafirmar e elaborar essas táticas como sendo cada uma delas um conjunto de práticas usadas pelas pessoas quando sua reprodução é ameaçada. A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Seus pontos fortes são igualmente seus pontos fracos. Eles fazem usos estruturados e improvisados do terreno dado, mas esse é um terreno que eles não criaram nem escolheram. A revolta é uma luta pela circulação porque tanto o capital quanto os seus despossuídos foram levados a buscar a reprodução nesse terreno.</p>
<p style="text-align: justify;">Se essa parece ser uma linguagem um tanto técnica para uma experiência sensorialmente carregada &#8211; um antagonismo social dramático carregado de perigo, fúria, desespero e certo prazer social -, isso é apenas uma resposta às rejeições convencionais da revolta já encontradas, por meio da apresentação de um argumento que não deveria ter sido necessário. A revolta, que compreende práticas organizadas contra ameaças à reprodução social, não pode ser nada além de política. Isso não quer dizer que a contradição da reprodução possa ser resolvida na circulação mais do que na produção. Na verdade, é a existência dessas duas esferas, em sua unidade e contradição, que garante a existência e dá forma às lutas pela reprodução. Se as vastas expansões da revolução industrial fornecem os excedentes para o desenvolvimento de aparatos militares e policiais modernos, elas também fornecem excedentes que podem ser usados para comprar a paz social. À medida que esses excedentes derretem e parcelas cada vez maiores da população se tornam excedentes para a economia, o Estado se volta cada vez mais para a coerção como estilo de gestão: o salário social do compromisso keynesiano é retirado em favor da ocupação policial das comunidades excluídas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a polícia e a revolta passam a se pressupor mutuamente. A revolta passa a se reconhecer por meio dessa imbricação. Caminhando por Hackney durante as revoltas de 2011, passando por cenas de angústia e excitação, passando por latas de lixo em chamas e os detritos de saques, alguns observadores concluíram que “uma luta coerente estava sendo travada aqui … para insistir no respeito dos policiais, forçar o reconhecimento de um assunto em que a rotina diária vê apenas um abjeto”. <strong>[15]</strong> A passagem aponta para a revolta como uma relação necessária com a estrutura atual do Estado e do capital, travada pelos abjetos &#8211; pelos excluídos da produtividade. Mas também aponta para a dependência da revolta em relação ao seu antagonista. No momento, a polícia aparece como necessidade e limite.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o tema dialético, esse dilema de necessidade e limite. O mercado, a polícia, circulação. Essas não são situações em que qualquer superação final é possível; é onde as lutas começam e florescem, desesperadamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Gilje, <em>Rioting in America</em>, 3.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ibid., 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> David Halle e Kevin Rafter, “Riots in New York and Los Angeles: 1935-2002”, em <em>New York and Los Angeles: Politics, Society, and Culture—A Comparative View</em>, ed. David Halle, Chicago: University of Chicago Press, 2003, 347.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> William Sewell, “Violência coletiva e lealdades coletivas na França: por que a Revolução Francesa fez a diferença”, <em>Política e Sociedade,</em> n.º 18, 1990, 529.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Charles Tilly, “Getting It Together in Burgundy, 1675-1975” (Unindo forças na Borgonha, 1675-1975), Teoria e Sociedade, 4: 4, 1977, 493.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Thompson, “Economia moral”, 76.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Marco Lagi, Karla Z. Bertrand e Yaneer Bar-Yam, “As crises alimentares e a instabilidade política no Norte da África e no Oriente Médio”, Cambridge, MA: Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra, 10 de agosto de 2011, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 78.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Badiou, <em>The Rebirth of History</em>, 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Ibid., 38-39.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ibid., 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 134, 120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Ibid., 115; 116</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Silvia Federici, <em>Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation</em>, Nova York: Autonomedia, 2004, 68,97-100.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> “A Rising Tide Lifts All Boats”, <em>Endnotes</em> 3 2011, 102.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As gravuras que ilustram este artigo são, respectivamente, das greves de Baltimore (1877), Homestead (1892) e Pullman (1894).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/07/159417/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A greve da USP e o anjo da história</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159393/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/06/159393/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Jun 2026 13:39:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159393</guid>

					<description><![CDATA[A greve deixou claro, para quem ainda tinha dúvidas, que o acesso ao mundo da elite não apenas não seria fácil, mas principalmente não seria possível nem politicamente desejável.  Por Isadora de Andrade Guerreiro ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<div class="preview" style="text-align: justify;">
<div class="pad">
<div class="level2">
<p>A USP passou neste primeiro semestre por uma de suas mais longas greves estudantis dos últimos anos, com 54 dias parados. Haveria muito o que dizer sobre ela, mas vou me deter apenas sobre um aspecto que creio relevante neste meu lugar de colunista de Cidades do Passa Palavra: a alteração na forma de uso das forças de repressão pelo Estado de São Paulo e suas consequências nas lutas, seja na organização popular, seja na estudantil. Tenho comentado sobre o assunto particularmente no que tange às favelas, mas veremos a seguir que os métodos de abordagem em territórios distintos parecem estar se aproximando.</p>
<p>Em especial, a forma de remoção da Favela do Moinho foi amplamente comentada por mim (<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" href="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" href="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/05/159159/" href="https://passapalavra.info/2026/05/159159/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>), mostrando ali uma articulação empresarial-militar específica, na qual a repressão é conformada em incursões armadas que espalham terror tanto indiscriminadamente, quanto de maneira direcionada quando se quer desbaratar núcleos dirigentes. O dispositivo é a criminalização generalizada, buscando relacionar narrativamente a organização popular ao tráfico de drogas, colocando o território, sua população e sua rede de apoio como parte do “ecossistema do crime”. O braço armado do Estado usado na forma de milícia aqui é relevante, bem como sua ampla aceitação pela sociedade, que dorme tranquila sabendo que a ordem do “cidadão de bem” está acima de qualquer direito humano.</p>
<p>Bem, eu já dizia ali que o sono não deveria ser tão tranquilo, já que o dispositivo de generalização indiscriminada do terror estava apenas em fase laboratorial, claro, no seu território preferencial, as favelas que atrapalham os circuitos de valorização. Como dispositivo político, no entanto, o pesadelo não tarda a chegar em territórios menos evidentes, como a Universidade de São Paulo. Na noite de 10 de maio, a mesma <a class="urlextern" title="https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/em-acao-violenta-pM-invade-campus-da-uSP-para-acabar-com-ocupacao-da-reitoria1" href="https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/em-acao-violenta-pM-invade-campus-da-uSP-para-acabar-com-ocupacao-da-reitoria1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">polícia militar paulista invadiu violentamente o prédio da Reitoria</a> ocupado por estudantes em greve, que reivindicavam melhorias de <em>permanência</em>. As cenas de terror são estarrecedoras. Qualquer semelhança com a Favela do Moinho &#8211; cujos moradores reivindicavam melhorias urbanas e habitacionais para morar e trabalhar, ou seja, <em>permanecer</em> numa área privilegiada de São Paulo &#8211; não é mera coincidência.</p>
<p>Foi invasão pois, agindo como milícia, a polícia não realizou uma ação de reintegração de posse, autorizada por um juiz a partir de um mandado judicial requerido pela proprietária do prédio, como pede o rito democrático. Sem mandado algum, nem extrajudicial, a ação policial não tinha nenhuma relação administrativa com a USP, que pode inclusive inicialmente dizer oficialmente que “sem comunicação prévia à Reitoria, houve a desocupação do espaço público pela Polícia Militar”. No entanto, no mesmo comunicado, a Reitoria dizia que “informou sobre a ocupação à Secretaria de Segurança Pública (SSP), no mesmo dia do ocorrido (7/5), com vistas à adoção dos protocolos de proteção e de preservação da ordem de competência das autoridades policiais” &#8211; ou seja, lavando ao mãos quanto ao que poderia ser feito, se retirando de qualquer responsabilidade causada por uma ação certamente violenta.</p>
<p>O que é isso senão a contratação de um serviço miliciano oficial por uma elite universitária que não quer sujar as mãos? Por que a USP não se utilizou do amparo legal para realizar essa desocupação, pedindo a reintegração de posse? Estaria com medo de ser questionada na justiça sobre os motivos da ocupação estudantil? Por que uma ação política dos estudantes é respondida com violência estatal ilegal, sem nenhuma comissão de negociação, como sempre ocorreu em outras situações como esta e que certamente seriam requeridas pela justiça em situações de mediação? São perguntas que ficaram sem resposta.</p>
<p>A USP não queria mediação, não queria colocar em questão o fato de que não sabia mais o que fazer com estudantes aos quais não concederia mais nada. Aos quais queria impor uma derrota que os colocasse “no seu lugar”, aquele de receber passivamente as benesses desenhadas para transforma-los em… cidadãos de bem.</p>
<p>A culpa passou a dominar o debate político diante do silêncio atordoante dos gestores acadêmicos, que se colocam acima de qualquer necessidade de dar resposta à comunidade ou à sociedade. Com força crescente pelo apoio de setores docentes, os estudantes passaram a ser criminalizados pela gestão universitária por suas atitudes consideradas violentas. Quem diria. O trauma está instalado e, com ele, o ódio, sentimento novo entre docentes e estudantes e que se renova cotidianamente no retorno às aulas em pequenas ou grandes retaliações mais ou menos administrativas (notas, faltas…), mais ou menos explícitas ou violentas, mas nem um pouco racionais.</p>
<p>A semelhança com a remoção da Favela do Moinho não é mera coincidência também na medida em que se tratam de situações nas quais há uma população pobre e racializada, que carrega seus modos, experiências e necessidades de vida, instalada no seio do território das elites, resultado de lutas por acesso e <em>permanência</em>. Sim, pois essa greve &#8211; nas suas pautas e estratégias de luta &#8211; é um marco da transformação do corpo discente após a política de cotas. Texto muito revelador desta questão, escrito por estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU-USP), foi publicado <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/05/159199/" href="https://passapalavra.info/2026/05/159199/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui no Passa Palavra</a>.</p>
<p>Foi uma greve de enorme choque de diversas culturas políticas, para a qual a gestão universitária literalmente não estava preparada, não entende e, claro, não parava de julgar como “erradas” dentro de seus próprios parâmetros &#8211; e limites &#8211; históricos. Ora, não existe “errado” na política. Existem experiências, necessidades de vida e interesses divergentes em jogo, que entram em conflito. Se tais elementos não entram em jogo com o mesmo formato ou linguagem esperados pelas elites, como foram até então, entra-se em território desconhecido onde a barbárie parece estar autorizada, já que os velhos instrumentos não comportam uma reivindicação que, no limite, coloca em jogo a própria existência da Universidade como é conhecida.</p>
<p>Do lado do corpo estudantil, tais contradições vieram também à tona, pois a greve deixou claro, para quem ainda tinha dúvidas, que o acesso ao mundo da elite não apenas não seria fácil, mas principalmente não seria possível nem politicamente desejável: ao entrar no seu território, este corpo discente transforma-o. Por isso, percebeu que precisa assumir a tarefa política histórica de construir a nova forma universitária, que ainda não existe. Uma forma universitária que carregue uma verdade difícil para aqueles que achavam que tinham sido aceitos no paraíso: a de que este corpo estudantil faz parte da sociedade como sem-teto, como população em insegurança alimentar, no limite da saúde mental, tal qual aqueles fora dos muros. Estudante: lute como um sem-teto! É necessário articular lutas. É tarefa muito mais árdua, mas muito mais promissora, do que a reivindicação de acesso a uma forma que não comporta a sua existência. Isso ficou explícito na derrota que foi imposta violentamente ao corpo estudantil.</p>
<p>Derrota sim, é necessário assumir isso, assim como no caso da Favela do Moinho é necessário reiterar que as soluções habitacionais conquistadas não podem jamais ser consideradas uma vitória &#8211; o que seria assumir o discurso do seu algoz. No caso do movimento estudantil da USP, assumir a derrota, negando qualquer tipo de meia-vitória propagandeada pelos gestores docentes ou discentes, é ganhar a possibilidade de construir sua própria história, carregando consigo para o futuro a história dos vencidos, como diz Walter Benjamin (Teses sobre o conceito de história), e não aquela dos vencedores. Estes últimos são a classe dominante que, imbuída da noção de progresso, marcham adiante violentamente sem olhar para trás. Os vencidos devem olhar para trás e encarar seu próprio terror, pois apenas ele construirá a sua história. Segundo Benjamin, na Tese 9:</p>
<blockquote><p>Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.</p></blockquote>
<p>Para criar uma nova Universidade, não guiada pela noção de progresso, será preciso não se identificar com o mundo dos vencedores, mas construir seus próprios caminhos entre as ruínas. Neste sentido, é necessário que mostrem o cinismo da célebre frase inscrita na Praça do Relógio do Campus da Capital da USP “No universo da cultura, o centro está em toda parte”. Que todas as partes são essas, constantemente tendo negadas as suas existências? Benjamin lembra, na Tese 7, para que nunca nos esqueçamos:</p>
<blockquote><p>(…) Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes génios que os criaram, como à corveia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.</p></blockquote>
</div>
<div class="clearer"></div>
</div>
</div>
<div class="clearer" style="text-align: justify;"></div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/06/159393/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (2)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159370/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/06/159370/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2026 16:51:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159370</guid>

					<description><![CDATA[O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro? Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO (continuação)</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Mercado e o Chão da Fábrica</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A principal dificuldade em definir a revolta advém de sua profunda associação com a violência; para muitos, esta associação é tão carregada afetivamente para um lado ou para outro que é difícil de dissipar e, por sua vez, dificulta perceber outras coisas. Sem dúvida, muitas revoltas envolvem violência — talvez a grande maioria, se incluirmos danos materiais à propriedade, bem como ameaças explícitas ou <em>sub voce</em> [indiretas]. Não está totalmente claro se tal inclusão é natural ou razoável. Que dano material seja igual a violência não é uma verdade, mas a adesão a um conjunto particular de ideias sobre propriedade, relativamente recente, que envolve identificações específicas entre humanos e riqueza abstrata do tipo que culmina, por exemplo, no entendimento jurídico de que corporações são pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, essa insistência na violência da revolta obscurece a violência cotidiana, sistemática e onipresente que persegue a vida cotidiana na maior parte do mundo. A visão de uma sociabilidade geralmente pacífica que só excepcionalmente irrompe em violência é um imaginário acessível apenas a alguns. Para os demais — a maioria — a violência social é a norma. A retórica contra a revolta violenta torna-se um dispositivo de exclusão, voltado não tanto contra a “violência”, mas contra grupos sociais específicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao longo de mais de dois séculos, as greves frequentemente também envolveram violência: batalhas campais entre trabalhadores de um lado e policiais, fura-greves e mercenários do outro, que em seu auge assemelhavam-se a combates militares. Se estendermos a categoria como acima, a violência é onipresente na greve, mesmo como uma espécie de contraviolência defensiva. Reportando da França em 1968, o poeta italiano Angelo Quattrocchi observou:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores podem ameaçar destruir as máquinas, e a ameaça por si só pode impedir uma intervenção armada. Senhores da fábrica, a despossessão é sua maior força. As máquinas, o Capital, propriedade de outros e usufruído por outros, estão agora em suas mãos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta passagem pretende distinguir a greve limitada, para Quattrochi um evento covarde e coreografado, da ocupação de fábrica. É sugestivo que ele tenha escolhido fazer a distinção naquele momento, observando uma Paris onde revolta e greve entraram em intensa colaboração e competição, cada uma tentando transcender não apenas os seus próprios limites, mas também os da outra. Dito isso, o servilismo cinzento da greve limitada é, em si, um desenvolvimento histórico particular. A situação real que ele descreve, o potencial dos trabalhadores para disporem das engrenagens da produção como bem entenderem, está no cerne da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso pressupõe que já sabemos a diferença entre revolta e greve. Se não é a violência, o que é então? E. P. Thompson, cujo pensamento é a pedra angular deste livro, fornece a base para uma resposta em seu memorável “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. Se essa resposta foi curiosamente ignorada, é quase certamente porque o ensaio nunca formaliza completamente a lógica que apresenta. Criticando as reduções e a força despolitizadora contidas no termo “bread riot” (revolta do pão), ele produz uma visão mais sistemática da economia política da revolta:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tem-se sugerido que o termo “revolta” é uma ferramenta de análise pouco afiada para tantas queixas e motivos particulares. É igualmente um termo impreciso para descrever a ação popular. Se procuramos a forma característica da ação popular, não devemos considerar bate-bocas junto às padarias de Londres, nem mesmo as grandes contendas provocadas pelo descontentamento com os grandes moleiros, mas as “rebeliões do povo” (especialmente em 1740, 1756, 1766, 1795 e 1800) nas quais se destacaram os mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias. O notável sobre essas “insurreições” é, primeiro, a sua disciplina, e, segundo, o fato de mostrarem um padrão de comportamento cuja origem devemos buscar centenas de anos antes; um padrão que se torna mais, e não menos, sofisticado no século XVIII; que se repete, aparentemente de forma espontânea, em diferentes partes do país e depois da passagem de muitos anos tranquilos. A ação central nesse padrão não é o saque dos celeiros, nem o furto de grãos e farinha, mas “fixar o preço” <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É precisamente esta a situação que se inverterá com a virada do século:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O conflito econômico das classes na Inglaterra do século XIX encontrou a expressão característica na questão dos salários: no século XVII os trabadores mobilizavam-se rapidamente e partiam para a ação por causa do aumento dos preços <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Thompson capta a textura da transformação profunda em curso, de forma tão elusiva quanto imanente:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal começou. Nesses anos, a forma alternativa de pressão econômica — a pressão sobre os salários — está se tornando mais vigorosa; existe algo mais que retórica por trás da linguagem da sedição — organização de ligas clandestinas, juramentos, o obscuro “Ingleses Unidos”. Em 1812, os tradicionais motins da fome coincidem em parte com o luddismo. Em 1816, os trabalhados de East Anglia não só determinavam os preços, mas também exigiam um salário mínimo e o fim do sistema <em>speenhamland</em> de assistência aos pobres. Eles antecediam a revolta muito diferente dos trabalhadores de 1830. A forma antiga de ação continua a existir na década de 1840 e até mais tarde: estava profundamente arraigada no Sudoeste. Mas nos novos territórios da Revolução Industrial, ela passou gradativamente a outras formas de ação <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Preços e salários, eis a combinação. Um é a medida do mercado, o outro do chão de fábrica e da mina, e do trabalho agrícola desde que a agricultura de subsistência e as terras que outrora eram propriedade comum ruíram em meio a sangue e fogo. R. H. Tawney aborda o mesmo ponto, em termos um tanto diferentes:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A economia do bairro medieval era aquela em que o consumo tinha, de certa forma, a mesma primazia na mente do público, como árbitro indiscutível do esforço económico, tal como o século XIX atribuía aos lucros <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas os salários são, em si, um tipo especial de preço. Lembrando-nos disso, a fórmula se torna clara: em primeira instância, <em>a revolta é a fixação de preços para as mercadorias, enquanto a greve é a fixação de preços para a força de trabalho</em>. Este é o primeiro nível ou perspectiva de análise necessário para compreender a história da revolta, que poderíamos chamar de nível prático. A prática política em sua dimensão mais completa é a da reprodução — da família e do indivíduo, da comunidade local. Na virada do século XVIII para o XIX, a questão da reprodução desloca seu centro de gravidade de um lugar para o outro, de uma luta para a seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159375" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg" alt="" width="1920" height="1511" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1024x806.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1536x1209.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-640x504.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-681x536.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />É evidente que consumidor e trabalhador não são duas classes opostas, muito menos consecutivas. Em vez disso, são dois papéis momentâneos dentro da atividade coletiva necessária para reproduzir uma única classe: o emergente proletariado moderno, que precisam se virar dentro da relação salário-mercadoria. Se um momento prevalece sobre o outro, isso indica o grau de desenvolvimento técnico e social dentro dessa relação e a posição que o proletário ocupa nela. Na cena da revolta, aqueles que definem os preços no mercado podem ser trabalhadores (como no caso dos “mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias” de Thompson), mas este não é o fato imediato que os levou até lá. Esse reconhecimento permite um refinamento de nossas definições.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço da força de trabalho (ou as condições de trabalho, que são praticamente a mesma coisa: a quantidade de miséria que pode ser comprada por libra);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta trabalhadores aparecendo <em>enquanto trabalhadores</em>;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto da produção capitalista, caracterizando-se pela sua interrupção na fonte por meio da suspensão do trabalho, do bloqueio do chão de fábrica, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço das mercadorias (ou sua disponibilidade, o que é praticamente a mesma coisa, pois a questão é igualmente de acesso);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta participantes sem nenhum outro laço em comum além de sua despossessão;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto do consumo, caracterizando-se pela interrupção da circulação comercial.</p>
<p style="text-align: justify;">Este aparato conceitual é simples, mas poderoso, e é suficiente para o período inicialmente analisado por nossos estudiosos, isto é, estendendo-se até o século XX. No entanto, ele apresenta problemas para o presente. As lutas características da <em>revolta-linha</em>, o período que se inicia na década de 1960, juntamente com o último florescimento da greve, e que continua até o presente, não podem ser compreendidas adequadamente dentro da estrutura da fixação de preços, mesmo no sentido ampliado de Thompson. Mas também não podem ser compreendidas sem ela. É aqui que precisaremos de um segundo nível ou hotizonte: o da periodização, preocupado precisamente com o grau de desenvolvimento técnico e social do capital acima mencionado, em todas as suas eloquentes e ambíguas flutuações.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Circulação-Produção-Circulação Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Já observamos que a primeira transição, revolta-greve, corresponde histórica e logicamente à Revolução Industrial e sua extensão e intensificação da relação salarial no início do longo século XIX britânico. A segunda transição, greve-revolta linha, corresponde, por sua vez, ao período de “desintegração da hegemonia” dos Estados Unidos no final do longo século XX. Uma ascensão e uma queda. Um certo padrão em meio à confusão e ao ruído da história, levando-nos agora ao outono do império, conhecido pelos termos de capitalismo tardio, financeirização, pós-fordismo e assim por diante — aquela ladainha dilatada que corre para acompanhar o ritmo do nosso desastre proteico.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas datações são extraídas do esquema de Giovanni Arrighi, que descreve quatro “longos séculos e ciclos sistêmicos de acumulação”.</p>
<p style="text-align: justify;">“A principal característica do perfil temporal do capitalismo histórico esboçado aqui é a estrutura semelhante de todos os longos séculos”, observa Arrighi <strong>[11]</strong>. A estrutura recorrente é uma sequência tripartite que começa com uma expansão financeira originalmente liderada pelo capital mercantil; seguida de uma expansão material “de toda a economia mundial” liderada pela manufatura ou, mais amplamente, pelo capital industrial, na qual o capital se acumula sistematicamente; e quando isso atinge seus limites, uma expansão financeira final. Durante essa fase, nenhuma recuperação real da acumulação é possível, mas apenas estratégias mais ou menos desesperadas de adiamento. Historicamente, o setor financeiro da economia líder, em tal situação, encontrou uma potência industrial em ascensão para absorver seu excesso de capital, financiando assim sua própria substituição. Essa nova hegemonia se formará em bases necessariamente expandidas, capaz de restaurar a acumulação em escala global, mas, ao mesmo tempo, partindo de uma posição mais próxima de seus próprios limites de expansão — daí os ciclos sobrepostos de Arrighi, ampliando-se e acelerando-se à medida que avançam, a série de transferências antes conhecida como <em>translatio imperii</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159371" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png" alt="" width="809" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png 809w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-300x198.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-768x506.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-637x420.png 637w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-640x422.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-681x449.png 681w" sizes="auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa esquematização tem sido motivo de várias pesquisas sobre a transição para o capitalismo, frequentemente encontradas sob o título “Comércio ou Capitalismo?”. Robert Brenner, Ellen Meiksins Woods e outros argumentaram que o desenvolvimento de extensas redes comerciais e a consequente reorganização social não deve ser confundido com o capitalismo propriamente dito, e particularmente com o “desenvolvimento implacável e sistemático das forças produtivas” do capital, que não se pode dizer que tenha começado muito antes do ciclo britânico e da decolagem industrial <strong>[12]</strong>. É precisamente essa distinção que anima o argumento aqui apresentado. Os mercados são indiscutivelmente anteriores ao capitalismo e continuam nele; tornam-se parte da constituição do capitalismo somente quando são transformados pela elaboração do nexo salário-mercadoria e submetidos às disciplinas da produção de mais-valia. Isso acompanha a primeira transição, <em>revolta-greve</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, é difícil contestar a descoberta de Arrighi de que os impérios comerciais protocapitalistas seguiram praticamente a mesma parábola de desenvolvimento de suas versões mais realizadas. Os dois grandes impérios capitalistas, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, preservam e transmutam as formas de desenvolvimento, preenchendo-as com novos conteúdos. Dentro do alcance espiralado do capital, cada ciclo apresenta uma fase dominada pela lógica da produção, aqui significando a valorização das mercadorias, que Arrighi generaliza como D-M. Ao interromper estas, estão as fases dominadas pela circulação, pois tal é o caráter do capital mercantil ou financeiro, que Arrighi define como a realização de valores, ou M-D. Nunca é uma questão de ou/ou. Ambos os processos devem estar em vôo conjunto, ou o capital cessaria completamente de se mover (e capital imóvel não é capital de forma alguma). A descrição aqui diz respeito ao equilíbrio de forças dentro do circuito expandido do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos, portanto, uma periodização que corresponde às nossas práticas: <em>revolta-greve-revolta linha</em> mapeia as fases de <em>circulação-produção-circulação</em>. É verdade que o período que abrange o início do século XX foi para a Grã-Bretanha, na época ainda a principal economia capitalista, um período financeiro ou centrado na circulação. Aqui, o raciocínio do esquema de Arrighi baseado na sobreposição de ciclos fica claro. Embora os Estados Unidos tenham experimentado sua própria “Longa Depressão”, correspondente à inflexão econômica da Grã-Bretanha no final do século XIX, ainda assim eles supervisionaram, nesse período, uma notável expansão da produção, impulsionada por uma segunda Revolução Industrial capaz de contrabalançar o declínio britânico. Nossa fase atual de circulação, no entanto, carece de muitas evidências desse contrapeso sistêmico; apesar de toda a atenção dada ao papel da China como a nova oficina do mundo, por exemplo, ela já está perdendo mão de obra industrial <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">De fato, isso aponta para o que é único, pelo menos provisoriamente, sobre o nosso momento dentro de uma estrutura de sistemas mundiais. O alcance em espiral de longos séculos pode ter ficado sem espaço para se expandir; a retomada em uma escala maior não parece estar nos planos (embora não devamos descartar facilmente a capacidade do capital de se salvar de uma crise aparentemente total). O capital produtivo dominou, digamos, de 1784 a 1973. É possível que volte a dominar. No momento, isso parece incerto. Longe de sustentar uma hegemonia ascendente, os Estados Unidos, em seu declínio, estão — apesar de seu setor financeiro hipertrofiado — encerrando sua trajetória como nação devedora maciça. Agora é possível argumentar que, mesmo em nível global ou sistêmico, o capital se encontra em uma fase de circulação que não está sendo atendida pelo aumento da produção em outros lugares — uma fase distinta que inevitavelmente teremos de chamar de <em>circulação-linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, os regimes britânico e americano podem ser fundidos em um único metaciclo, que segue a sequência <em>circulação-produção-circulação linha</em>. Novamente, isso requer uma certa suavização heurística da trajetória volátil do sistema-mundo capitalista. Trata-se de um argumento, não de uma verdade absoluta. Ainda assim, achamos que é um argumento sugestivo: é possível mapear as três fases de Arrighi na periodização do capital de Brenner no que pode ser visto como um “arco de acumulação”, pelo menos no Ocidente, emergindo do comércio com a Revolução Industrial e descendo para as finanças com a desindustrialização generalizada, sem nenhuma reversão em vista. A sequência coeva de <em>revolta-greve-revolta linha</em> torna-se, portanto, uma história do capitalismo e uma exposição de sua forma atual, das contradições do presente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e Crise</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Para que o retorno da revolta sirva de testemunho sobre o <em>status</em> do capitalismo como tal, deve haver mais do que uma coincidência entre as duas sequências. Deve haver um encadeamento teórico. Esse é o terceiro e último nível do horizonte analítico, o da própria história, pelo qual nos referimos ao entrelaçamento dialético das lutas vividas com as compulsões do movimento autônomo do capital, entendido como um movimento real da existência social. O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pergunta já recebeu uma resposta preliminar. As fases lideradas pela produção material gerarão lutas dentro da produção, sobre o preço da força de trabalho; as fases lideradas pela circulação verão lutas no mercado, sobre o preço das mercadorias. Esse é um relato sincrônico, sem uma dinâmica que nos leve de uma fase a outra; além disso, ele ainda não aborda as peculiaridades da <em>revolta linha</em> e da <em>circulação linha</em>. Isso requer uma rápida passagem pela teoria marxiana da crise <strong>[14]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159374" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O valor, para Marx, tem tanto uma existência qualitativa como relação social como uma existência quantitativa no valor de troca <strong>[15]</strong>. O valor de troca de uma mercadoria viabiliza a mais-valia, a “essência invisível do capital”, valorizada na produção e realizada como lucro na circulação. A circulação, Marx se esforça por decifrar, nunca pode ser, por si só, a fonte de novo valor para o capital como um todo. A ideia de que isso poderia acontecer recebe um tratamento extenso e desdenhoso n&#8217;<em>O Capital</em>, que termina:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por mais que nos viremos, a conclusão final permanece a mesma. Se forem trocados equivalentes, não haverá mais-valia, e se forem trocados não equivalentes, ainda não teremos mais-valia. A circulação, ou a troca de mercadorias, não cria valor <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas categorias são infinitamente problemáticas, principalmente pelos limites da “circulação”. O extraordinário desenvolvimento do transporte, uma das principais marcas de nosso tempo, parece, a princípio, se encaixar nessa descrição, circulando produtos para realizar como lucro a mais-valia valorizada em outro lugar. Alguns argumentam que a mudança de local, ao contrário, aumenta o valor de uma mercadoria. Em seu sentido mais restrito, os “custos puros de circulação” podem ser limitados a atividades que não fazem nada além da troca em si, a transferência abstrata de título: vendas, contabilidade e coisas do gênero. Além disso, a financeirização e a “globalização” (ou seja, a extensão em direção aos limites planetários das redes e processos logísticos, coordenados pelos avanços nas tecnologias da informação) também devem ser entendidas como estratégias temporais e espaciais, respectivamente, para internalizar novas entradas de valor de outro lugar e de outro momento. Mas isso só pode afirmar a proposição de que a fase atual de nosso ciclo de acumulação é definida pelo colapso da produção de valor no centro do sistema-mundo; é por essa razão que o centro de gravidade do capital se desloca para a circulação, carregado pelo tripé da toyotização, da tecnologia da informação e das finanças.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, os fatos práticos são esclarecedores. Como Brenner observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Entre 1973 e o presente, o desempenho econômico nos EUA, na Europa Ocidental e no Japão, segundo todos os indicadores macroeconômicos padrão, deteriorou-se, ciclo econômico após ciclo econômico, década após década (com exceção da segunda metade da década de 1990) <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O crescimento do PIB global dos anos 50 até os anos 70 permaneceu acima de 4%; desde então, tem se mantido em 3% ou menos, às vezes muito menos <strong>[18]</strong>. Mesmo os melhores momentos durante a Longa Crise foram, em geral, piores do que os piores momentos do longo <em>boom</em> anterior. Se estipulássemos que o transporte pode fazer parte da valorização tanto como da realização, ainda assim nos confrontaríamos com o fato de que as grandes expansões do transporte global e a aceleração do tempo de rotatividade desde os anos 70 são concomitantes ao recuo da produção industrial nas principais nações capitalistas. Essa marcha a passos largos, por sua vez, é concomitante exatamente com o que a teoria do valor projeta de uma mudança em direção à circulação: menos produção de valor, menos lucros sistêmicos. De qualquer forma, a navegação e as finanças não parecem ter detido a estagnação e o declínio da lucratividade global. Tomando emprestado um termo de Gilles Chatelet, poderíamos chamar sua colaboração de “cibermercantilismo”, análogo ao modo pré-industrial no qual nenhuma quantidade de compras baratas e vendas caras ou vendas cada vez maiores pode levar à expansão.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, isso não quer dizer que não tenham aumentado os lucros de empresas individuais, que podem obter vantagem competitiva diminuindo seus próprios custos de circulação em um jogo de “empobreça-seu-vizinho” para a era da tecnologia da informação. Da mesma forma, as empresas podem participar de esquemas que recirculam e redistribuem o valor já existente, retirando uma parte à medida que ele passa. Sem ir muito longe no labirinto marxológico, podemos afirmar de forma bastante incontroversa sobre o período em questão que o capital, diante de retornos muito reduzidos nos setores tradicionalmente produtivos, vai em busca de lucro além dos limites da fábrica — no setor FIRE (<em>Finance, Insurance, and Real Estate</em>: isto é, Finanças, Seguros e Imóveis), ao longo das rotas traçadas pelas redes logísticas globais —, mas não encontra nenhuma solução contínua para a crise que o afastou da produção em primeiro lugar. Em vez disso, há uma agitação cada vez mais frenética, esquemas mais elaborados, bolhas e colapsos cada vez maiores. Em um movimento de desespero dialético, aquilo que levou o capital à esfera fratricida da circulação de soma zero faz praticamente o mesmo com uma parcela crescente da humanidade. Crise e desemprego, os dois grandes temas d&#8217;<em>O Capital</em>, são expressões da falha trágica do capital: ao buscar o lucro, ele precisa destruir a fonte do lucro, esbarrando em limites objetivos em seu impulso incessante de acumulação e produtividade. Os <em>Grundrisse</em> oferecem a formulação mais concisa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O próprio capital é a contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. Portanto, ele diminui o tempo de trabalho na forma necessária para aumentá-lo na forma supérflua; portanto, coloca o supérfluo em medida crescente como uma condição — questão de vida ou morte — para o necessário <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A “contradição em processo” nada mais é do que a própria lei do valor em movimento, apresentando-se de várias formas. Podemos vê-la como a contradição entre o valor e o preço, as medidas de produção e circulação, respectivamente — o que se revelará também como a contradição entre o capital como um todo e os capitais individuais. Esses últimos não se preocupam com a saúde geral do sistema capitalista, nem são obrigados a fazê-lo. Ao contrário, são obrigados a competir com outros capitais em seu setor. Portanto, embora a necessidade de expansão, de gerar novo valor que leve à acumulação sistêmica, seja um absoluto existencial do ponto de vista de todo o capital, os capitalistas individuais não pensam em termos de valor e acumulação. Eles medem sua existência em preço e riqueza e são compelidos a buscar lucro onde quer que ele seja encontrado, independentemente das consequências para o todo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse fenômeno unitário também é uma contradição entre a mais-valia absoluta e a relativa. As lutas intercapitalistas para economizar todos os processos substituem reiteradamente a força de trabalho por máquinas e formas organizacionais mais eficientes e, assim, com o tempo, aumentam a proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e trabalho vivo, expulsando a fonte de mais-valia absoluta na luta por sua forma relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise é o desenvolvimento dessas contradições até o ponto de ruptura. Isso caracteriza não uma escassez de dinheiro, mas seu excesso. Os lucros acumulados ficam ociosos, incapazes de se converter em capital, pois não há mais nenhuma razão sedutora para investir em mais produção. As fábricas ficam em silêncio. Buscando salários em outros lugares, os trabalhadores deslocados descobrem que a automação que economiza mão de obra se generalizou em vários setores. Agora, a mão de obra não utilizada se acumula lado a lado com a capacidade não utilizada. Essa é a produção da não-produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, voltamos, sob um disfarce um pouco diferente, à questão de classe, na forma do que Marx chama de “população excedente, cuja miséria está na razão inversa da quantidade de tortura que ela tem à disposição na forma de trabalho. Por fim, quanto mais extensas forem as seções pauperizadas da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, maior será o pauperismo oficial. <em>Essa é a lei geral absoluta da acumulação capitalista</em>” <strong>[20]</strong>. Como aponta o <em>Endnotes</em> no tratamento mais incisivo dessa questão: “Essa população excedente não precisa se encontrar completamente &#8216;fora&#8217; das relações sociais capitalistas. O capital pode não precisar desses trabalhadores, mas eles ainda precisam trabalhar. Assim, eles são forçados a se oferecer para as formas mais abjetas de escravidão assalariada na forma de produção e serviços insignificantes — identificados com mercados informais e, muitas vezes, ilegais de troca direta que surgem junto com as falhas da produção capitalista” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de surpreender que essa população excedente seja racializada em todo o Ocidente. A capacidade de lucro do capital sempre exigiu a produção e a reprodução da diferença social; em mercados de trabalho com excesso de oferta, o mecanismo das diferenças salariais dá um salto do quantitativo para o qualitativo. Junto com as “recuperações sem emprego” desde 1980, que dão suporte às teorias subjacentes de aumento do excedente, a taxa de desemprego, por exemplo, entre os negros estadunideneses tem se aproximado consistentemente do dobro da média atual, se não for mais alta, o que tem provocado, entre outras coisas, uma vasta expansão do complexo industrial-prisional para gerenciar esse excedente humano. O próprio processo de racialização está intimamente ligado à produção de populações excedentes, cada uma funcionando para constituir a outra de acordo com lógicas variadas de profunda exclusão. Como argumenta Chris Chen:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O surgimento do estado carcerário anti-negros nos EUA a partir da década de 1970 exemplifica os rituais de violência estatal e civil que reforçam a racialização da vida sem salário e a marcação racial da vagabundagem. Do ponto de vista do capital, a “raça” é renovada não apenas por meio de diferenças salariais racializadas persistentes ou do tipo de segregação ocupacional postulada pelas teorias raciais anteriores de “mercado de trabalho dividido”, mas também por meio da racialização de populações excedentes ou supérfluas não assalariadas, de Cartum às favelas do Cairo <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso opera, por sua vez, no nível da revolta contemporânea, uma rebelião excedente que é marcada pela raça e, por sua vez, a marca. Daí uma distinção final em relação à greve, que, na forma moderna, existe dentro de uma estrutura legal (mesmo que isso seja frequentemente ultrapassado). Aqui, começamos a entender o tipo de trabalho ideológico que está sendo feito pela insistência na ilegitimidade peculiar da revolta. A ilegalidade da revolta é, entre outras coisas, a ilegalidade do corpo racializado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Lutas na Circulação</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Uma população, portanto, cuja própria existência — sua possibilidade de reprodução — é redirecionada pela reorganização econômica da esfera da produção para a da circulação. Essa não é a “sociedade de consumo” no sentido popular, “a vitória definitiva do materialismo em uma adoração universal do fetiche da mercadoria” <strong>[23]</strong>. Mas é uma sociedade de consumo mesmo assim: população excedente confrontada com o velho problema do consumo sem acesso direto ao salário. Não de forma absoluta, não de forma homogênea em todo o mundo, mas suficientemente. Falamos de mudanças de tendência. Quando a base para a sobrevivência do capital muda substancialmente para a circulação, e a base para a sobrevivência dos empobrecidos muda da mesma forma, aí encontraremos a <em>revolta linha</em>. Assim, ela nomeia a reorganização social, o período em que ela domina e a principal forma de ação coletiva que corresponde a essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma maneira um tanto técnica de falar sobre exclusão e empobrecimento, sem dúvida, esse uso de categorias da economia política clássica e sua crítica. A virtude dessa linguagem está em seu poder de explicar a ligação entre <em>revolta</em> e <em>revolta linha</em> para revelar que a revolta do pão e a revolta racial, esses nomes imprecisos emparelhados, mantêm uma unidade profunda. Em uma formulação resumida, a crise sinaliza um deslocamento do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e a revolta deve ser entendida, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a fixação de preços e a rebelião dos excedentes são formas distintas, embora relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159377" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg" alt="" width="1500" height="991" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-300x198.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-1024x677.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-768x507.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-636x420.jpg 636w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-640x423.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-681x450.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />O novo proletariado, que deve agora (de acordo com o sentido original da palavra) expandir-se para incluir as populações excedentes entre os “sem reservas”, encontra-se em um mundo transformado. Já detalhamos algumas dessas transformações. A situação pode ser definida como um quiasmo de épocas. Em 1700, a polícia, tal como a reconhecemos, não existia; o mercado era vigiado ocasionalmente pelo oficial de justiça ou o funcionário parroquial. Ao mesmo tempo, a maioria das necessidades diárias da vida era produzida localmente. Em suma, o Estado estava longe e a economia, perto. Em 2015, o Estado está próximo e a economia, distante. A produção é aerossolizada; as mercadorias são montadas e entregues por meio de cadeias logísticas globais. Muitas vezes até mesmo os gêneros alimentícios básicos têm origem em um continente distante. Enquanto isso, o exército interno permanente do Estado está sempre à mão — progressivamente militarizado, sob o pretexto de fazer guerra às drogas e ao terror. A <em>revolta linha</em> não pode deixar de se voltar contra o Estado; não há como não fazê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O encontro espetacular com o Estado não deve, no entanto, sugerir que não exista uma forma diretamente econômica na revolta contemporânea, além de seu conteúdo político-econômico subjacente. As duas formas mais visíveis são a destruição econômica e o saque, uma frequentemente seguindo a outra em uma negação conjunta da troca e da lógica do mercado. Apesar da aparência universal desse aspecto da revolta, ela é sempre tratada como um desvio da e um comprometimento com a queixa inicial que poderia ter dado legitimidade a revolta. Que reivindicação ética poderia ser feita em relação ao roubo total? O fato de isso parecer misterioso aponta para um momento de fechamento ideológico e suprema ignorância histórica. O saque não é o momento da falsidade, mas da verdade que ecoa por séculos de revolta: uma versão da fixação de preços no mercado, embora a preço zero. É uma volta desesperada à questão da reprodução, embora dramaticamente limitada pela estrutura do capital em que inicialmente opera.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a revolta levanta a questão da reprodução, ela o faz como negação. Ele representa a reversão do destino dos trabalhadores na modernidade tardia. O poder histórico dos trabalhadores tem se apoiado em um setor produtivo em crescimento e em sua capacidade de se apoderar de uma parte do excedente em expansão. Desde a virada dos anos 70, o trabalho foi reduzido a negociações defensivas, compelido a preservar as empresas capazes de fornecer salários, afirmando o domínio do capital em troca de sua própria preservação. O trabalhador que aparece <em>como trabalhador</em> no período de crise enfrenta uma situação em que “o próprio fato de agir como classe aparece como uma restrição externa” <strong>[24]</strong>. Essa dinâmica, que poderíamos chamar de armadilha da afirmação, tornou-se uma forma social generalizada e uma estrutura conceitual, a irracionalidade racional do nosso tempo. A própria desordem da revolta pode ser entendida como a negação imediata disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas lutas, por sua vez, não podem deixar de confrontar o capital onde ele é mais vulnerável. Não há necessidade de imputar um tipo de consciência a essa forma latente de conflito com o capital. Compelido ao espaço de circulação, a revolta se encontra onde o capital tem deslocado cada vez mais seus recursos. A mais ou menos simultânea explosão de revoltas em Louis, Los Angeles, Nashville e mais de uma dúzia de outras cidades é um veredicto tão decisivo quanto se poderia imaginar sobre a tese da circulação. É fácil dizer que essa interrupção é amplamente simbólica: quanto do capital está em outro lugar, globalmente distribuído, resiliente, desmaterializado? As tomadas de rodovias no final de novembro de 2014 são, no entanto, um índice da situação real em que a luta ocorrerá. Além disso, elas demonstram os limites das várias categorias de revoltas. Elas são, evidentemente, descendentes das revoltas pré-modernas de exportação. Não são menos irmãos do que a paralisação do porto de Oakland em 2011 e o longo bloqueio do túnel planejado para o Vale de Susa pelo movimento No-TAV. Reconhecer isso é reconhecer que a revolta é uma tática privilegiada na medida em que é um exemplo da categoria mais ampla que designamos como “lutas na circulação”: a revolta, o bloqueio, a ocupação e, no horizonte mais distante, a comuna.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal surgiu”, escreveu Thompson sobre a transição de dois séculos atrás <strong>[25]</strong>. Até mesmo a imprensa burguesa tem um vislumbre disso: Em 2011, a <em>Newsweek</em> exibiu um revoltoso de Tottenham em sua capa, com roupa de treino e máscara, e as chamas no fundo, com a manchete “O DECLÍNIO E A QUEDA DA EUROPA (E TALVEZ DO OCIDENTE)” <strong>[26]</strong>. Algo acabou, ou deveria ter acabado; todos podem sentir isso. É uma espécie de interregno. Uma calmaria miserável, iluminada em todos os lugares pela sensação de declínio e incêndios acesos ao longo do terreno planetário da luta. As músicas no rádio são as mesmas — horríveis, surpreendentes. Elas prometem que nada mudou, mas nunca cumprem suas promessas, não é mesmo? As fissuras na organização da sociedade aumentam a cada semana. E, no entanto, essa persistência ansiosa, essa suspensão incômoda. Haverá uma recuperação? Uma catástrofe maior? O que devemos preferir? Essa é a tônica da época das revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Angelo Quattrochi, “What Happened,” em The Beginning of the End: France, May 1968, eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 49.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> E. P. Thompson, “The Moral Economy of the English Crowd in the Eighteenth Century,” <em>Past and Present</em>, n.º 50, fevereiro de 1971, 107-8. (<em>Edição brasileira In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo. Companhia das Letras, 1998</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 79.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> R. H. Tawney, <em>Religion and the Rise of Capitalism</em>, Londres: Harcourt Brace, 1926, 33.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century: Money, Power, and the Origins of Our Times</em>, Londres: Verso, 1996, 219-20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Robert Brenner, <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Londres: Verso, 2009, 13.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Alan Freeman, “Investing in Civilisation: What the State Can Do in a Crisis” em <em>Bailouts and Bankruptcies</em>, eds., Julie Guardand Wayne Antony, eds., Winnipeg: Fernwood, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> É frequentemente observado que Marx não deixou uma teoria completa sobre a crise. Sua teoria do valor em geral, no entanto, fornece a base lógica para uma teoria elaborada. Para o melhor resumo disso, ver Anwar Shaikh, “Introduction to the History of Crisis Theories” [Introdução à história das teorias da crise], <em>US Capitalism in Crisis</em> [O capitalismo americano em crise], Nova York: URPE, 1978.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Para a explicação mais eloquente desta parte da teoria de Marx, ver I. I. Rubin, <em>Essays on Marx&#8217;s Theory of Value</em>, trad. Fredy Perlman e Milos Samardzija, Nova Iorque: Black Rose, 1990, 120-21.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Karl Marx, Capital: <em>A Critique of Political Economy</em>, vol. 1, Londres: Penguin, 1992, 226.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs”, prólogo da edição espanhola de <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Madri: Akal, 2009. Disponibilizado ao autor em manuscrito, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ibid., 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Karl Marx, <em>Grundrisse</em>, Londres: Penguin Books, 1993, 706.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Karl Marx, <em>Capital</em>, vol. 1, 798 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> “Misery and Debt” [Miséria e dívida], <em>Endnotes</em> 2, 2010, 30, nota de rodapé 15.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Chris Chen, “The Limit Point of Capitalist Equality” [O ponto limite da igualdade capitalista], <em>Endnotes</em> 3, 2013, 217.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Tom Nairn, “Why It Happened” [Por que aconteceu], em <em>The Beginning of the End: France, May 1968</em> [O começo do fim: França, maio de 1968], eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense” [Comunização no tempo presente], em Communization and its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles [Comunização e seus descontentamentos: contestação, crítica e lutas contemporâneas], ed. Benjamin Noys, Nova York: Minor Compositions, 2011, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Thompson, “Moral Economy” [Economia moral], 128.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> <em>Newsweek</em>, 22 de agosto de 2011.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de que se seguiu ao assassinato de Martin Luther King Jr. em 1968.</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/06/159370/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (1)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/158115/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/06/158115/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Jun 2026 12:55:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158115</guid>

					<description><![CDATA[Esta é, portanto, a necessidade mais básica: uma teorização propriamente materialista da revolta. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Joshua Clover</h3>
<blockquote><p>Este livro foi publicado originalmente em inglês pela editora Verso (2016). Esta é uma tradução coletiva feita por alguns camaradas no âmbito de um grupo de estudos. A revisão da tradução é do Passa Palavra.</p></blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>para Oakland, para a comuna</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A. Uma ordem violenta é desordem; e</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>B. Uma grande desordem é uma ordem.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Estas duas coisas são uma. (Páginas de ilustrações.)</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>—“The Connoisseur of Chaos,” Wallace Stevens</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Você sabe como conseguir, sem entrada, sem dinheiro nunca, dinheiro não dá em árvore de jeito nenhum, só os brancos têm, fazem com uma máquina, para te controlar, você não pode roubar nada de um homem branco, ele já roubou, ele te deve tudo o que você quiser, até a vida dele. Todas as lojas abrirão se você disser as palavras mágicas. As palavras mágicas são: Contra a parede, filho da puta, isso é um assalto! Ou: Quebre a janela à noite (essas são ações mágicas), quebre as janelas durante o dia, a qualquer hora, juntos, vamos quebrar a janela e tirar a merda de lá. Sem entrada. Sem tempo para pagar. Pegue o que quiser.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>—“Black People!”, Amiri Baraka</em></strong></p>
<hr />
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Agradecimentos</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Como muitos outros livros de teoria política, este livro é fruto de mobilizações políticas que, por sua vez, orientaram grupos de leitura, pesquisas e inúmeras discussões. Em todas essas variadas circunstâncias, tenho sido grato pela amizade, discernimento e diligência — literal e figurativa — de Ian Balfour, Ali Bektaş, Lauren Berlant, Sean Bonney, Bruno Bosteels, Shane Boyle, Sarah Brouillette, Lainie Cassel, Maya Gonzalez, Virginia Jackson, Neil Larsen, Laura Martin, Phil Neel, Sianne Ngai, Will O&#8217;Connor, Simone Pinet, Nina Power, Louis-Georges Schwartz, Tim Simons, Michael Szalay, Alberto Toscano, Wendy Trevino e Derek Zika. Provavelmente esqueci alguns. As formulações iniciais foram propostas por Beverly Silver, incentivadas por William Sewell, e desenvolvidas posteriormente em visitas ao Centro de Teoria Social e História Comparada de Robert Brenner e ao Centro Arrighi de Estudos Globais. A produção deste livro não teria sido possível sem o apoio de Sebastian Budgen e do pessoal da Verso, de David Theo Goldberg e do Instituto de Pesquisa em Humanidades da Universidade da Califórnia, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Warwick e da assistência editorial de Deborah Young.</p>
<p style="text-align: justify;">Seeta Chaganti e Carol Clover proporcionaram as condições de possibilidade. Sou particularmente grato aos camaradas cujos pensamentos e ações são os nervos e tendões deste livro, incluindo Aaron Benanav, Jasper Bernes, Chris Chen, Tim Kreiner, Colleen Lye, Annie McClanahan, Chris Nealon e Juliana Spahr. <em>E quando tudo estiver terminado, dê-me sua mão para que possamos recomeçar do início.</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Uma Teoria da Revolta</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas estão chegando, já estão aqui, outros estão a caminho, ninguém duvida disso. Eles merecem uma teoria adequada.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma teoria da revolta é uma teoria da crise. Isso é verdade em uma dimensão específica e local, em momentos de vidros quebrados e incêndios, em que a revolta é considerada a irrupção de uma situação desesperadora, a pauperização até o limite, a crise de uma determinada comunidade ou cidade, de algumas horas ou dias. Entretanto, a revolta só pode ser compreendida como tendo uma significação estrutural e imanente, para parafrasear Frantz Fanon, na medida em que pudermos descobrir o movimento histórico que fornece sua forma e substância. Devemos, então, passar para outros níveis, nos quais as instâncias aglutinadoras próprias das revoltas são indissociáveis da crise capitalista contínua e sistêmica. Além disso, a revolta como uma forma particular de luta ilumina o caráter da crise, torna-a novamente pensável e oferece uma perspectiva a partir da qual podemos ver seu desdobramento.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira relação entre a revolta e a crise é a do excedente. Isso já parece um paradoxo, pois tanto a crise quanto a revolta são comumente entendidos como decorrentes de escassez, carência, privação. Ao mesmo tempo, a revolta é a própria experiência do excesso. Excesso de perigo, excesso de informação, excesso de equipamento militar. Excesso de emoção. De fato, as revoltas já foram conhecidas como “emoções”, uma história ainda visível na palavra francesa: <em>émeute</em>. O excesso crucial no momento da revolta é simplesmente o dos participantes, da população. O momento em que os partidários da revolta excedem a capacidade de gerenciamento da polícia, quando os policiais fazem sua primeira retirada, é o momento em que a revolta se torna totalmente ela mesma, se afasta da continuidade sombria da vida cotidiana. A incessante regulação social que parecia ideológica, onipresente e abstrata é, nesse momento de excesso, revelada como uma questão prática, aberta à contestação social.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos esses excessos correspondem a transformações sociais mais amplas, das quais essas experiências de excesso afetivo e prático são indissociáveis. Essas transformações são as reestruturações materiais que respondem à crise capitalista e a constituem, e que apresentam excedentes de capital e população como características centrais. E são elas que propõem a revolta como uma forma necessária de luta.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158125 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017.jpg" alt="" width="928" height="627" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017.jpg 928w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-300x203.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-768x519.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-622x420.jpg 622w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-640x432.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-681x460.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 928px) 100vw, 928px" /></p>
<p style="text-align: justify;">“Qualquer população tem um repertório limitado de ação coletiva”, observa Charles Tilly, grande historiador dessas questões. Escrevendo em 1983, ele mede uma transformação histórica singular, uma mudança oceânica cujas marés se espalharam logo ou tarde pelo mundo industrializado:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em algum momento do século XIX, as pessoas da maioria dos países ocidentais abandonaram o repertório de ação coletiva que vinham usando há cerca de dois séculos e adotaram o repertório que usam até hoje <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A mudança em questão foi da revolta para a greve. Desde a passagem marcada por Tilly, ambas as táticas existem no repertório; a questão é saber qual delas predomina, fornecendo a orientação principal na guerra incessante pela sobrevivência e pela emancipação. A percepção de um recuo da revolta nessa narrativa tem sido um lugar-comum. A frase de abertura do popular volume <em>Rioting in America</em>, de 1996, nos informa: “As revoltas fazem parte do passado americano” <strong>[2]</strong>. Mas o passado nunca está morto. Ele sequer é passado.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, outra transformação já estava em andamento: desde os anos 60 ou 70, a grande mudança histórica se inverteu. À medida que as nações superdesenvolvidas entraram em uma crise contínua, ainda que irregular, a revolta voltou a ser a principal tática no repertório da ação coletiva. Isso é verdade tanto no imaginário popular quanto no domínio dos dados (na medida em que tais questões permitem a comparação estatística). Independentemente da perspectiva, as revoltas alcançaram uma resoluta centralidade social. As lutas trabalhistas foram, em sua maioria, reduzidas a ações defensivas esfarrapadas, enquanto a revolta aparece cada vez mais como a figura central do antagonismo político, um espectro que surge em debates insurrecionais, em estudos governamentais ansiosos e em reluzentes capas de revistas. Os nomes se tornaram pontos cardeais de nosso tempo. A nova era de revoltas tem raízes em Watts, Newark, Detroit; passa pela Praça Tiananmen em 1989 e Los Angeles em 1992, chegando ao presente global de São Paulo, Gezi Park, San Lázaro. A revolta proto-revolucionária da Praça Tahrir, a revolta quase permanente da Exarcheia, a virada reacionária da Euromaidan. No núcleo crepuscular: Clichy-sous-Bois, Tottenham, Oakland, Ferguson, Baltimore. São muitos para contar.</p>
<p style="text-align: justify;">A teoria é imanente à luta; muitas vezes ela precisa se apressar para alcançar uma realidade que se acelera. Uma teoria do presente surgirá de seus confrontos vividos, em vez de chegar à cena carregada de homilias e prescrições retroativas a respeito de como a guerra contra o Estado e o capital deve ser travada, programas que, segundo nos dizem, alguma vez funcionaram e que agora podem ser renovados e impostos mais uma vez em nosso momento bastante distinto. O subjuntivo é um modo adorável, mas não é procedimento do materialismo histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui chegamos a uma espécie de encruzilhada. De forma muito esquemática, a associação da estrutura analítica de Marx com uma descrição leninista da estratégia política — centrada na organização proletária em direção ao partido revolucionário e na tomada do Estado e da produção — está profundamente sedimentada. A revolta não tem lugar nesse cenário conceitual. Com frequência, entende-se que a revolta não tem política alguma, é uma irrupção espasmódica que deve ser lida de forma sintomática e talvez receba uma dose paternalista de simpatia. Aqueles que atribuíram à revolta o potencial de uma abertura insurrecional para uma ruptura social geralmente vêm de tradições intelectuais e políticas indiferentes ou até mesmo antitéticas ao comando do Estado e da economia, mais notoriamente (mas não exclusivamente) as de algumas vertentes do anarquismo <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso expressa uma ligação subterrânea do comunismo, tanto por céticos quanto por adeptos, com a “organização” como tal, e mais ainda com algum partido de esquerda da ordem, com um senso científico do progresso da história, com a modernidade pela qual devemos passar com toda sua barbárie maquinada. Ao contrário, a revolta, como é amplamente aceito até mesmo entre seus partidários, é uma grande desordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a oposição entre greve e revolta passa a representar, por meio de um silogismo velado, a oposição do marxismo <em>tout court</em> a outras tradições intelectuais e políticas, geralmente aquelas que são antidialéticas, se não diretamente anticomunistas. A maioria, se não todos os lados, compartilharam dessa visão. Não faltaram livros à esquerda e à direita para nos informar, ora em tons melancólicos, ora comemorativos, que o declínio do movimento trabalhista e do binômio classe revolucionária &#8211; partido de massa, ou a suposta transcendência de qualquer teoria do valor-trabalho, significam que podemos finalmente deixar a análise de Marx e suas categorias para o século XX, se não para o século XIX. Você já deve estar familiarizado com a narrativa. Os países de origem do capitalismo não apresentam mais uma classe trabalhadora industrial com poder ou magnitude crescentes, que pudesse servir como uma vanguarda para as classes exploradas em geral, muito menos tomar as rédeas da produção. Além disso, o foco original no trabalhador fabril inglês e a contabilização desse trabalho como particularmente produtor de valor e, portanto, mais próximo do coração do capital, representou o sujeito da política inevitavelmente como branco e masculino. Dada a globalização do capital, seu salto para todos os cantos da existência social e os desenvolvimentos vitais da política anticolonial (para abreviar uma série de intervenções cruciais e complexas), será necessário um novo sujeito revolucionário e um novo desdobramento revolucionário.</p>
<p style="text-align: justify;">Decerto isso é uma caricatura. Essas sugestões são, de fato, em muitos aspectos, instrutivas, se não simplesmente verdadeiras. Isso não significa uma refutação do materialismo histórico, mas põe um conjunto de problemas para ele. O enfraquecimento dos movimentos trabalhistas tradicionais no Ocidente e a intensificação de uma desapropriação mais completa não apontam para o fim do antagonismo anticapitalista potencialmente revolucionário nem da força analítica do materialismo histórico. Além disso, ainda precisaremos do último para compreender o primeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal de contas, o materialismo histórico é uma teoria da transformação, se é que é alguma coisa. Isso não quer dizer que toda mudança histórica deva ser apoiada. Mas um marxismo que só consegue entender a tendência da realidade como um erro não é marxismo algum. O significado da revolta mudou radicalmente. Ela não será entendida se não nomearmos as determinações e forças segundo as quais ela assume seu novo papel e pelas quais ela é impelida irresistivelmente para o futuro, mesmo quando olha para trás, para os séculos XVII e XVIII. Esta é, portanto, a necessidade mais básica: uma <em>teorização propriamente materialista da revolta</em>. A revolta para os comunistas, digamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não está claro se esse livro existe. Talvez a abordagem mais próxima seja <em>The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings</em>, de Alain Badiou: “Eu também sou marxista — na íntegra, completamente e, portanto, naturalmente, não há necessidade de reiterar isso”, insiste ele, reiterando-o em várias ocasiões ao mesmo tempo em que observa que ele é</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">bem ciente dos problemas que foram resolvidos e que é inútil reexaminá-los; e dos problemas que permanecem pendentes e que exigem de nós uma retificação radical e uma esforço inventivo. Todo conhecimento vivo é composto de problemas que precisam ser construídos ou reconstruídos, e não de descrições repetitivas <strong>[4]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Depois de oferecer essa nota promissória, ele não se preocupa muito com a problemática do capital, nem faz muito uso das categorias que nos foram legadas pela crítica da economia política. Ficamos com “a Ideia” desempenhando o papel deixado pelo partido, fornecendo uma coordenação do espírito revolucionário que procede a certa distância dos desenvolvimentos dialéticos das forças sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Badiou organiza seu livro como uma taxonomia de revoltas organizada em torno da Primavera Árabe. Essa é uma das abordagens genéricas que se sobrepõem a esses estudos, dividindo as revoltas de acordo com o status político, a causa disparadora principal ou eventual, a composição dos participantes. Outra é o estudo sociológico dos manifestantes e suas condições imediatas, e seu primo próximo, a fenomenologia (geralmente em primeira pessoa). Há também os estudos de caso de revoltas famosas, além de pesquisas e atlas menos glamourosos. Independentemente de suas lacunas, a biblioteca das revoltas é escura e profunda; apenas uma fração pode ser abordada aqui. Este livro tem outras promessas a cumprir. Ele também se baseia na teoria do valor de Marx e na teoria da crise, da qual a primeira não pode ser desvinculada, em relatos de como os setores urbanos se esvaziam, como setores inteiros da economia se erguem e caem, e como o sistema-mundo se organiza e desorganiza; a tradição da análise dos sistemas mundiais fornece uma estrutura de amplitude global e de <em>longue durée</em> para pensar o evento localizado da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">Há limites para essa extensão, necessariamente. É evidente que as revoltas na Índia e na China, para escolher apenas dois exemplos contemporâneos, têm suas próprias características distintas (e seus próprios estudos em desenvolvimento). Minhas alegações se referem principalmente às nações do Ocidente de desenvolvimento industrial precoce e agora em processo de desindustrialização. Esses lugares não têm um apelo privilegiado para as revoltas; eles são, na verdade, o terreno em que uma lógica específica se torna visível, uma lógica tanto da revolta quanto do capital em seu outono catastrófico. Espero que essas reflexões sejam, de certa forma, adaptáveis, pois estão inseridas em mudanças político-econômicas que, por sua vez, estão fadadas a viajar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158124" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before.webp" alt="" width="2000" height="1335" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before.webp 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-1024x684.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-768x513.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-1536x1025.webp 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-629x420.webp 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-681x455.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />Além disso, assim como a nova era de revoltas expressa as transformações globais do capital e, portanto, carrega suas condições objetivas, ela se torna uma ocasião para examinar mais profundamente essas transformações. Se este livro oferece alguma novidade, elas são as seguintes: primeiro, definições mais claras de <em>revolta</em> e <em>greve</em>, que padecem de mais confusão do que se poderia esperar. Em segundo lugar, uma explicação de por que a revolta voltou e por que ele assume a forma que tem no presente. E, em terceiro lugar, uma vez que a lógica da revolta e sua relação com as transformações do capital tenham sido apreendidas, fornecer algumas previsões sobre o futuro da luta. Uma teoria do presente, portanto. No mínimo, a teoria deve ser capaz de explicar por que, após o fracasso em apresentar uma acusação contra o policial que assassinou Michael Brown em Ferguson, Missouri, houve uma onda nacional de revoltas — e por que, como se por uma telepatia entre os empobrecidos, as revoltas em cidade após cidade assumiram a forma de bloqueio da rodovia disponível mais próxima.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta-Greve-Revolta Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Este livro está organizado mais ou menos em ordem cronológica, desde a era de ouro das revoltas até a era das greves e vice-versa, com foco especial nas passagens de transição. No entanto, não se trata de uma crônica. Em vez disso, ele aproveita a oportunidade para desenvolver uma série de conceitos e argumentos sobre revolta e economia política à medida que avança. Ele constrói um modelo explicativo que pode coordenar os principais fatos do presente, de modo que eles possam se manifestar de forma um pouco mais eloquente. Ao se aproximar da era atual, os capítulos inevitavelmente se tornam um pouco mais detalhados. No entanto, o todo será necessariamente uma simplificação das infinitas complexidades da realidade; assim são os modelos heurísticos. Pelo menos, isso faz com que os livros sejam mais curtos.</p>
<p style="text-align: justify;">O Riot Act do Rei George I em 1714, em resposta, em parte, às revoltas da Coroação que acompanharam sua ascensão, se apresentava como “Um ato para prevenir revoltas e assembleias desordeiras, e para punir os desordeiros de forma mais rápida e eficaz”. Isso levanta uma questão sobre o estatuto comunicativo da revolta desde seu início. Trata-se, em grande parte, de uma declaração, de um discurso — ele prescreve a linguagem que deve ser lida para declarar uma reunião ilegal (daí a expressão, “ler o Riot Act”). Com ele, o termo <em>riot</em> muda decisivamente de seu sentido mais antigo de “vida desregrada, solta ou esbanjadora; deboche, dissipação, extravagância” e até mesmo “folia, alegria ou barulho desenfreados” para seu significado contemporâneo de “uma violenta perturbação da paz por uma assembleia ou grupo de pessoas; um surto de ilegalidade ativa ou desordem entre a população”. Chaucer, como tantas vezes, antecipa a modernidade da palavra. “Roubos e revoltas são conversíveis”, escreve ele em <em>The Cook&#8217;s Tale</em>, observando que o mestre paga o preço pela folia do aprendiz <strong>[5]</strong>. Ele associa a palavra à reviravolta das hierarquias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">A transição da revolta para a greve ocorre de forma irregular. A chegada da greve como fato social ocorre entre 1790 e 1842, data da primeira greve em massa na Inglaterra. Assim como muitas mudanças marítimas, é difícil reconhecê-las em sua primeira aparição, mas elas se mostrarão com clareza em um exame posterior. Será útil reconhecer a continuidade, bem como a oposição, a maneira como o novo conteúdo para a luta emerge de formas mais antigas de ação e, portanto, passa por períodos de indefinição. O mesmo pode ser dito sobre o retorno das revoltas; ainda é cedo. Com o declínio do movimento trabalhista no Ocidente, a revolta aumenta, tanto relativa quanto absolutamente. Inevitavelmente, há um intervalo em que as duas táticas coexistem uma ao lado da outra. De uma perspectiva, elas parecem disputar a primazia; de outra, a volatilidade de sua presença dual durante essa segunda transição produz uma situação revolucionária, que é amplamente conhecida com o nome, não totalmente preciso, de “1968”. O ano histórico-mundial de 1973 é o ano da virada, com o colapso dos lucros industriais sinalizando o início do que deveria ser corretamente chamado de Longa Crise, com suas recomposições de classe e divisão global do trabalho que progressivamente minam as possibilidades de organização militante dos trabalhadores no Ocidente. Na década de 80, a transição está praticamente concluída. Se isso aparece inicialmente como parte de um fechamento mais amplo das fronteiras revolucionárias — como o fim da história concomitante com a saída do comunismo do século XX —, o veredicto é mais uma vez aberto ao debate. O debate está intrinsecamente ligado ao retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Revolta-greve-revolta</em>, portanto. Mas isso não é suficiente. Tal formulação pode sugerir uma simples oscilação, ou pior, uma regressão. Essa narrativa tem seu apelo, dadas as tonalidades afetivas do presente, as insinuações de um colapso civilizacional acelerado por uma catástrofe ecológica. No entanto, isto é apenas um contorno, não uma teoria. Ela não é explicativa nem precisa. A nova era de revoltas, em muitos aspectos não se assemelha à sua antecessora. Antes do século XIX, as dificuldades gerais enfrentadas pelos pobres para administrar a subsistência, incluindo não apenas as revoltas pelo pão, mas também as revoltas contra os cercamentos das terras comuns, proporcionavam a ocasião para o surgimento do antagonismo social. Notavelmente, esses eventos incluíam as “revoltas contra exportações”, revoltas em que o transporte de grãos para fora do condado, especialmente em épocas de fome, era interrompido por esforços combinados e coordenados. De acordo com muitos relatos, essa configuração básica das necessidades é mantida até hoje; estudos empíricos que relacionam os preços dos alimentos a revoltas continuam sendo comuns e, de certa forma, persuasivos, principalmente em países com baixos salários. No entanto, as revoltas começam agora não no celeiro, mas na delegacia de polícia, literal ou figurativamente, incitados pelo assassinato de um jovem de pele escura pela polícia, ou em decorrência do fracasso do aparato legal em responsabilizar adequadamente a polícia por sua violência. A nova era encontra seu paradigma nas revoltas de Los Angeles de 1992, após a absolvição dos policiais que foram gravados espancando brutalmente Rodney King após uma parada de trânsito — revoltas que se espalharam por várias outras cidades e continuaram por cinco dias. Cada vez mais, as revoltas contemporâneas ocorrem dentro de uma lógica de racialização e têm o Estado, e não a economia, como seu antagonista direto. A revolta retorna não apenas a um mundo mudado, mas ela mesma se transformou.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Revolta-greve-revolta linha</em>. Assim fica melhor. Esses termos compõem as três seções do livro. Cada uma delas tem não apenas um período apropriado, mas também um lugar apropriado. Para a primeira era de revoltas, o mercado, mas sobretudo o porto; para a era da greve, o chão de fábrica; e, para a nova era de revoltas, a praça e a rua. Para cumprir essa sequência tripartite, este livro precisará descobrir tanto a continuidade das duas eras de revoltas quanto suas diferenças: a unidade de uma revolta no mercado e os levantes frequentemente racializados dirigidos aparentemente contra o Estado. Aqui está o argumento, em sua forma condensada e abstrata, ao qual o restante do livro acrescentará detalhes e digressões, bem como uma estrutura político-econômica e um olhar para o futuro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Charles Tilly, “Expressando sua opinião sem eleições, pesquisas ou movimentos sociais”, <em>The Public Opinion Quarterly</em> 47: 4, inverno de 1983, 464.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Paul A. Gilje,<em> Rioting in America</em>, Bloomington: Indiana University Press, 1999, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> The Invisible Committee, <em>The Coming Insurrection</em>, Cambridge: Semiotext(e), 2009, e sua continuação To Our Friends, trad. Semiotext(e), Cambridge: Semiotext(e), 2015, são as versões mais incisivas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Alain Badiou, <em>The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings</em>, trad. Gregory Elliot, Nova York: Verso, 2012, 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> “For thefte and riot, they been convertible.” Geoffrey Chaucer, <em>The Riverside Chaucer</em>, 3ª ed., Larry D. Benson, ed. geral, Boston: Houghton Mifflin, 1987, 85.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de Los Angeles, em 1992</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/06/158115/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Fora (quase) todos</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159209/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/05/159209/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 03:01:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159209</guid>

					<description><![CDATA[Durante uma assembleia de funcionários da Universidade de São Paulo, um militante de um partido trotskista concluiu sua fala dizendo que “a gente só vai superar tudo isso quando derrubar Tarcísio, derrubar Lula e tudo isso aí!”. Imediatamente ouviu-se uma voz no meio da multidão: “Lula, não! Ninguém aqui vai derrubar o Lula, não!”. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Durante uma assembleia de funcionários da Universidade de São Paulo, um militante de um partido trotskista concluiu sua fala dizendo que “a gente só vai superar tudo isso quando derrubar Tarcísio, derrubar Lula e tudo isso aí!”. Imediatamente ouviu-se uma voz no meio da multidão: “Lula, não! Ninguém aqui vai derrubar o Lula, não!”. <strong>Passa Palavra</strong></p>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/05/159209/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>[RJ] UERJ: Calendário de lutas dos vigilantes e auxiliares administrativos da Conquista</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158809/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/03/158809/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Mar 2026 20:08:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158809</guid>

					<description><![CDATA[Funcionários terceirizados que pretam serviço para a UERJ, denunciam atrasos no salário. Por Invisíveis]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Invisíveis</h3>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/p/DVWSEt1DnKW/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
<div style="padding: 16px;">
<p>&nbsp;</p>
<div style="display: flex; flex-direction: row; align-items: center;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 40px; margin-right: 14px; width: 40px;"></div>
<div style="display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 100px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 60px;"></div>
</div>
</div>
<div style="padding: 19% 0;"></div>
<div style="display: block; height: 50px; margin: 0 auto 12px; width: 50px;"></div>
<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
<div style="padding: 12.5% 0;"></div>
<div style="display: flex; flex-direction: row; margin-bottom: 14px; align-items: center;">
<div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(0px) translateY(7px);"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; height: 12.5px; transform: rotate(-45deg) translateX(3px) translateY(1px); width: 12.5px; flex-grow: 0; margin-right: 14px; margin-left: 2px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(9px) translateY(-18px);"></div>
</div>
<div style="margin-left: 8px;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 20px; width: 20px;"></div>
<div style="width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);"></div>
</div>
<div style="margin-left: auto;">
<div style="width: 0px; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-right: 8px solid transparent; transform: translateY(16px);"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; flex-grow: 0; height: 12px; width: 16px; transform: translateY(-4px);"></div>
<div style="width: 0; height: 0; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-left: 8px solid transparent; transform: translateY(-4px) translateX(8px);"></div>
</div>
</div>
<div style="display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center; margin-bottom: 24px;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 224px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 144px;"></div>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/p/DVWSEt1DnKW/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Invisíveis (@invisiveistrabalhador)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script>CALENDÁRIO DE LUTAS CONTRA CALOTES EM SALÁRIOS DE VIGILANTES E AUXILIARES ADMINISTRATIVOS PELA <a class="x1i10hfl xjbqb8w x1ejq31n x18oe1m7 x1sy0etr xstzfhl x972fbf x10w94by x1qhh985 x14e42zd x9f619 x1ypdohk xt0psk2 x3ct3a4 xdj266r x14z9mp xat24cr x1lziwak xexx8yu xyri2b x18d9i69 x1c1uobl x16tdsg8 x1hl2dhg xggy1nq x1a2a7pz notranslate _a6hd" tabindex="0" role="link" href="https://www.instagram.com/conquista.grupo/">@conquista.grupo</a> NA UERJ</p>
<p>2 e 3 de março: 9h rua Teixeira Ribeiro 229.na sede da empresa, para cobrar o pagamento, já que a diretoria disse que tem &#8220;explicações&#8221;. com o <a class="x1i10hfl xjbqb8w x1ejq31n x18oe1m7 x1sy0etr xstzfhl x972fbf x10w94by x1qhh985 x14e42zd x9f619 x1ypdohk xt0psk2 x3ct3a4 xdj266r x14z9mp xat24cr x1lziwak xexx8yu xyri2b x18d9i69 x1c1uobl x16tdsg8 x1hl2dhg xggy1nq x1a2a7pz notranslate _a6hd" tabindex="0" role="link" href="https://www.instagram.com/sindicatodosvigilantesrj/" target="_blank" rel="noopener">@sindicatodosvigilantesrj</a></p>
<p>3 de março: 18h, reunião online para pensar a mobilização e luta com trabalhadores terceirizados (link por dm) CHAMANDO ESTUDANTES, PROFESSORES, SERVIDORES E MAIS QUISER APOIAR A LUTA.</p>
<p>12 de março, 18h no hall do queijo, UERJ MARACANÃ: contra o calote da empresa CONQUISTA,<br />
REITORIA deve pagar salários!</p>
<p>3 MESES SEM SALÁRIO PARA VIGILANTES A E 2 MESES PARA AUXILIARES ADMINISTRATIVOS!</p>
<p>Não ESPERE articulação com Ministério do Trabalho, que é do presidente, que vai demorar para exigir decisão do poder judiciário! PROTESTE E PARALISE!</p>
<p>REITORIA GULNAR E DEUSDARÁ se coloca como &#8220;boazinha&#8221; por ter pago todas as FATURAS para a empresa CONQUISTA. MAS ELA QUE CONTRATOU UMA EMPRESA ENVOLVIDA EM CORRUPÇÃO E QUE DÁ CALOTES CONSTANTES EM TRABALHADORES TERCEIRIZADOS!</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/03/158809/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>&#8220;As pessoas lutam onde estão&#8221;: entrevista com Joshua Clover</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158726/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/02/158726/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Feb 2026 14:37:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158726</guid>

					<description><![CDATA[Entrevista realizada em 2024 com Joshua Clover sobre revoltas, greves e comunas que já existem agora.   Por Ronja Mälström]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3 style="text-align: justify;"> Por Ronja Mälström</h3>
<p style="text-align: justify;"><em>“Riot. Strike. Riot</em> : <em>The New Era of Uprisings”</em> foi o livro que consagrou Joshua Clover como um dos principais pensadores contemporâneos sobre revoltas (<em>riots</em>) como métodos de luta política. Mantendo-se fiel às questões que teoriza, Clover acredita que teoria e prática não devem estar tão distantes uma da outra, ao contrário do que o meio acadêmico muitas vezes sugere. Por exemplo, Clover oferece treinamentos sobre “Conheça seus direitos” para pessoas que têm pouca experiência e não conhecem os riscos legais dos protestos — ele não é alheio aos métodos de luta que analisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Na conversa a seguir, Ronja Mälström faz a Clover todas as perguntas, por mais simples que fossem, que ela gostaria de ter feito antes de ler o livro dele. Como você verá, Clover argumenta convincentemente por que as greves (<em>strikes</em>) não são mais a principal forma de luta e sobre a importância de explorar métodos políticos que alguns podem considerar desconfortáveis ​​ou perigosos. Sua perspectiva oferece uma estrutura para entendermos as formas pelas quais as pessoas lutam por justiça e pela paz, tanto hoje quanto historicamente. Começando pelo motivo pelo qual as pessoas lutam, em primeiro lugar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>JOSHUA CLOVER</strong>: Minha primeira regra absoluta é que as pessoas enfrentam seus problemas onde estão. Eu não ofereço soluções prontas, nem digo: “Não, vá para lá e faça isso”. As pessoas lutam onde estão. Se você odeia seu trabalho e ele te deixa infeliz, você luta nesse espaço para mudar isso. Minha impressão é que as pessoas estão em um lugar diferente agora do que estavam na década de 1950. A era do industrialismo, do trabalho fabril, declinou, especialmente no Ocidente superdesenvolvido. Para cada vez mais pessoas, o lugar onde encontram sua própria infelicidade é frequentemente fora do trabalho, e o lugar onde elas podem ter alguma influência para mudar o mundo também é frequentemente fora do trabalho. Então, vemos mais lutas fora do ambiente de trabalho. Este é o contexto social onde eu acho que as revoltas acontecem. Para mim, o que categorizamos como uma revolta está ligado a um contexto social e histórico muito amplo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>RONJA MÄLSTRÖM: Como podemos então dar sentido a essa categoria? Por que ocorre uma revolta, como ocorre uma revolta, quando ocorre uma revolta?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Meu objetivo era criar uma categoria que abrangesse diversos tipos de eventos, em vez de uma categoria específica e restrita. Acho que há quem olhe para uma determinada revolta e diga: “Isso não é uma revolta, é um levantamento, é uma insurreição”, para lhe conferir mais legitimidade política. Mas, na minha opinião, todos são politicamente importantes, certo? Não quero selecionar algumas formas e deixar outras de lado — dizer “essa não conta, não faz parte da vida política”. Eu queria incluir tudo o que faz parte da vida política. O que eu não queria era discutir sobre palavras. Simplesmente aceitei a palavra comum “riot”<strong>[1]</strong> e decidi tentar resgatá-la como categoria política.</p>
<p style="text-align: justify;">O termo sofisticado que criei é “lutas da circulação”. Não preciso me aprofundar na economia política desse termo, exceto para dizer que “circulação” significa, mais ou menos, o mercado. Não apenas o supermercado literal, mas o mundo onde trocamos mercadorias, compramos e consumimos coisas para tentar sobreviver. Especialmente para pessoas que não têm um emprego fixo, que trabalham em casa ou, em geral, que não têm oportunidade de lutar no ambiente de trabalho. Elas ainda podem estar tendo dificuldades para sobreviver, conseguir comida para suas famílias, sentir-se seguras da polícia. Todas as coisas que acontecem na praça pública e no mercado, é lá que elas vão lutar. E é isso que uma revolta representa para mim. Qualquer tipo de luta que se desenrola nesse espaço. O mercado, a praça pública, o espaço de troca, de transporte, de consumo.</p>
<p style="text-align: justify;">As pessoas que lutam ali podem ser trabalhadores, mas não estão se apresentando <em>como</em> trabalhadores. Esse é um ponto crucial. Eu posso ter um emprego, mas se eu bloquear uma rodovia porque quero paralisar o mundo porque a situação é intolerável, não estou fazendo isso como trabalhador, mas sim como alguém que pode bloquear uma rodovia. Esses são os parâmetros da categoria que uso para definir revolta — é uma definição bastante ampla, como você pode ver. Espero que isso comece a responder à sua pergunta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Com certeza, entendo como isso inclui métodos como ocupações, bloqueios e inúmeras outras formas de luta.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso é importante. Se você reduzir as revoltas a “pessoas quebrando janelas”, não será explicado nada do que está acontecendo ou como a história mudou. Mas se você começar a observar todas essas lutas — o bloqueio, a ocupação, a barricada, os tumultos e os saques — todas essas coisas juntas, e como elas mudaram, surgiram e desapareceram, você pode começar a entender uma história de luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158729" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c.jpg" alt="" width="1692" height="2391" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c.jpg 1692w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-212x300.jpg 212w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-725x1024.jpg 725w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-768x1085.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-1087x1536.jpg 1087w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-1449x2048.jpg 1449w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-297x420.jpg 297w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-640x904.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-681x962.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1692px) 100vw, 1692px" />Então, temos as lutas da circulação — o que vocês chamam de formas de resistência das quais participamos fora de nossos locais de trabalho e não como trabalhadores. E como você chamaria as lutas no local de trabalho? </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para manter nosso vocabulário pseudotécnico, se chamamos revoltas de “lutas da circulação”, deveríamos chamar as lutas no trabalho de “lutas da produção”. Lutas no local onde você produz bens, serviços ou gera lucros para o seu chefe. A greve é ​​a mais famosa delas, mas não a única. Podemos também pensar na sabotagem e desfalque no local de trabalho, operações-tartaruga e até mesmo participação em reuniões de organização sindical.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Voltando às perguntas bobas, por que as greves têm boa reputação e as revoltas, má reputação?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Depende a quem você pergunta, haha. Em geral, acho que as greves têm maior legitimidade, mesmo entre quem não participa delas. Os participantes geralmente acham que o que estão fazendo é justificado, ou pelo menos espero que sim, seja uma greve ou um protesto.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, acho que as pessoas têm um respeito bastante sensato pelo trabalho e pelos sofrimentos inerentes a ele. Elas o compreendem, inclusive as greves, nesse contexto. Muitas pessoas têm experiência com o trabalho, com salários baixos, tédio, exaustão, lesões, assédio do chefe; obrigação de trabalhar quando precisam cuidar da família. Todas essas coisas horríveis do trabalho. Por isso, elas simpatizam com as greves.</p>
<p style="text-align: justify;">As greves muitas vezes foram e são muito violentas, tanto por parte da polícia quanto dos grevistas, ou de ambos. E essa é uma história esquecida. Mas a reputação de serem mais organizadas, mais pacíficas, mais voltadas a uma retirada do que a um ataque, faz com que as pessoas se sintam melhor em relação a elas de muitas maneiras. A greve parece algo passivo. “O que estou fazendo? <em>Não</em> estou trabalhando!” E não há nada que pareça imediatamente agressivo ou ameaçador quando meu vizinho diz: “Não estou trabalhando”.</p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas são vistas como caóticas, incontroláveis ​​e voláteis, e você sabe que o bom liberal sempre se oporá a qualquer tipo de luta social que, de alguma forma, ameace chegar à sua porta. Portanto, o caráter indisciplinado de uma revolta, que faz parte de seu poder, também faz parte de sua ameaça e de seu risco. Isso faz com que o centrista, o liberal, seja naturalmente antipático às revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Só mais uma coisa sobre greves. Em países como a Suécia e a Finlândia, com uma longa história de fortes movimentos operários e de social-democracia, houve muitas ameaças ao direito de greve nos últimos anos e tentativas claras de limitar essa possibilidade. Gostaria de saber sua opinião sobre isso. Como isso se encaixa no contexto geral? Se seguirmos sua posição de que as lutas por direitos circulatórios, ou revoltas, são os principais focos de protesto hoje em dia, mas ao mesmo tempo observarmos que aqueles no poder estão visando as “lutas por direitos da produção”, limitando a possibilidade de greve. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Boa pergunta. Quer dizer, uma razão pode ser que as revoltas já são completamente ilegais. Não dá para torná-las <em>ainda mais</em> ilegais. Embora nos EUA haja grandes esforços para legalizar, por exemplo, atropelar pessoas que bloqueiam a rua. Várias novas leis foram aprovadas, assim como o aumento das penalidades contra protestos de qualquer tipo. Então, acho que é possível tentar criminalizar ainda mais as revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece haver bastante espaço para restringir as proteções legais para uma greve. Então, consigo entender porque isso poderia ser um interesse. Aqui chegamos talvez a um pouco do meu ceticismo, não em relação ao movimento operário histórico, mas em relação aos sindicatos e ao seu funcionamento. Acredito que deixar espaço legal e legitimidade para as greves foi, na verdade, uma estratégia útil para os capitalistas no período de expansão econômica massiva após a Segunda Guerra Mundial. Chamamos isso de “comprar a paz social”. É possível aumentar os salários para que as pessoas continuem indo trabalhar, porque o trabalho gera lucros enormes para os capitalistas e, por isso, há mais espaço para os trabalhadores se movimentarem e conquistarem ganhos correspondentes. Ficou claro que era do interesse do capital ceder a algumas demandas em vez de deixar a economia parar de crescer.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Você diria que mesmo antes do capitalismo já víamos revoltas ao longo da história? E que greves são, na verdade, a nova categoria?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso é absolutamente correto. Greves realmente não existiam antes do século XVII. Por outro lado, se observarmos atividades mais ou menos revoltosas, confrontos violentos com as autoridades, com o governo, elas estão quase se tornando “trans-históricas”. Sempre nos dizem para nunca começar uma redação com “Desde o início dos tempos”. Então, estou tentando evitar isso. Mas as lutas antiautoritárias são bastante constantes.</p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas camponesas e as revoltas de escravos são categorias humanas, políticas e históricas incrivelmente importantes. Estou tentando diferenciá-las das lutas por circulação, que são mais específicas historicamente e mais restritas. Elas podem parecer muito semelhantes às revoltas camponesas e de escravos, mas acredito que têm uma base diferente. Surgem de algo específico do capitalismo, na forma como ele estrutura os mercados locais e globais e como organiza nossas vidas para o lucro; como nos torna dependentes desses mercados para sobreviver. Na forma como inclui algumas pessoas e exclui outras, e nas formas particulares pelas quais coloca as pessoas umas contra as outras. Portanto, acho útil fazer essa distinção.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também quero chamar a atenção para as semelhanças entre levantes camponeses ou de escravos e revoltas. As lutas pela circulação de mercadorias podem girar em torno do custo de vida, o preço da sobrevivência em um contexto de mercado, mas inevitavelmente envolvem confrontos com a polícia, uma vez que ela aparece. É importante lembrar que a polícia é uma invenção moderna. Nos Estados Unidos, a polícia só surgiu no século XVII ou provavelmente no XVIII. Sua origem está ligada a dois fatores: no Sul, como patrulhas de escravos, e no Nordeste, como forma de disciplinar a mão de obra.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas é também nesse sentido que se veem as ligações com todas essas lutas históricas, porque o confronto com a força coercitiva também faz parte dos levantes camponeses e de escravos. O confronto com a polícia conecta o levante de escravos à greve, à revolta. Todas elas têm a ver com a busca pela liberdade. Todas elas têm a ver com a luta no contexto em que se está inserido. Envolvem especificamente a tentativa de superar a força coercitiva que os aprisiona em um determinado modo de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha grande referência intelectual, Fredric Jameson [que faleceu entre a realização desta entrevista e sua publicação], escreveu que é preciso sempre ter em mente a continuidade e a ruptura simultaneamente. Esse é o melhor conselho intelectual que já recebi. Aprendi isso em um livro — as pessoas deveriam ler livros.</p>
<p style="text-align: justify;">Tento abordar isso com a sua pergunta, sobre se as revoltas sempre existiram. Há uma ruptura, que é a integração do mercado mundial, o fato de você ter que se vender para comprar mercadorias nesse mercado, mesmo enquanto o grão local é enviado para outro lugar onde pode gerar mais lucro. Isso transforma vidas. Acho que isso merece sua própria história e é diferente dos levantes camponeses e de escravos. Mas, como ambas inevitavelmente envolvem o confronto com forças coercitivas de violência que impõem a sua miséria, também existe uma continuidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158728" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII.jpg" alt="" width="1447" height="1532" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII.jpg 1447w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-283x300.jpg 283w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-967x1024.jpg 967w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-768x813.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-397x420.jpg 397w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-640x678.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-681x721.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1447px) 100vw, 1447px" />Você disse no início que queria resgatar as revoltas como categoria política. Pelo menos para mim, foi isso que aconteceu. Na época em que seu livro foi lançado, eu estava cercada por amigos que eram muito céticos em relação à ideia de revoltas, dizendo “revoltas não levam a lugar nenhum mesmo”. E, por outro lado, amigos achavam que não precisávamos de nenhuma teoria para as revoltas, mas que “as pessoas simplesmente as fazem”. </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Eu estava insatisfeita com ambas as posições. Achei que poderíamos encontrar uma maneira de não criar uma lacuna tão grande entre o pensamento e a prática, de integrá-los. Através do seu livro, encontrei uma forma de conversar sobre revoltas com todos os meus amigos a partir de uma perspectiva mais metodológica e menos moralista. Pensando na luta como diferentes ferramentas, e nas revoltas como uma delas, e baseando nossa análise em quando fez sentido para as pessoas usar uma ou outra. Isso foi incrível, obrigada. </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Agora, a conexão entre teoria e prática me leva à ideia de comuna, sobre a qual ainda não falamos, mas talvez possamos começar com o básico: o que a comuna significa para você?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Comecei a pensar nisso perto do final do livro. Para o próximo livro em que estou trabalhando, introduzo uma terceira categoria que acompanha as revoltas e greves, e sim, é a comuna.</p>
<p style="text-align: justify;">Reprodução é o nome dado a tudo o que fazemos para que nossos amigos, nossa família e nossa comunidade possam existir de um dia para o outro, de um mês para o outro, de uma geração para a outra. Inclui tudo, desde cozinhar e cuidar uns dos outros até gerar e criar filhos, e tudo o que há entre esses dois extremos. O capitalismo precisa disso porque precisa de trabalhadores e de consumidores. Não se trata de algo para você e para mim, não é para proporcionar uma vida boa para nossos amigos e parentes em nossas comunidades, é para criar consumidores e trabalhadores para o capitalismo. Mas não precisa ser assim — a comuna aponta para essa possibilidade de outra vida.</p>
<p style="text-align: justify;">A produção industrial em uma fábrica pode desaparecer com o fim do capitalismo. Fazer compras no supermercado ou na IKEA é circulação. Isso também é capitalismo, e quando o capitalismo acabar, isso também pode acabar. Mas o nosso cuidado mútuo, cozinhar uns para os outros, gerar e criar filhos juntos não vai acabar. Isso pode ser externo ao capital. Então, todo esse esforço que chamaremos de trabalho reprodutivo para reconstruir nossas comunidades dia após dia, geração após geração, é a base da comuna. Essa atividade é o que a comuna faz. Essa é a vida comunitária. A comuna é apenas um nome para a atividade reprodutiva separada do capitalismo, e acabamos pensando que, bem, isso é algo para o futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos exemplos famosos no passado: a Comuna de Paris, mas também a Comuna de Xangai e a Comuna de Morelos durante a Revolução Mexicana, entre várias outras. Mas, na maioria das vezes, pensamos: “Bem, a comuna é algo do futuro. Vamos superar o capitalismo algum dia, mas a comuna não existe no presente.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ela existe, sim, no presente. E não me refiro àqueles grupinhos de 12 ricos com barbas e tudo mais que vão morar no campo e dizem que aquilo é um país. Não é disso que estou falando. O que quero dizer quando penso em comuna, e particularmente na comuna como tática, é o seguinte:</p>
<p style="text-align: justify;">Para o meu livro, estou lendo bastante sobre os bloqueios de oleodutos — uma luta clássica da circulação, né? É a circulação desse recurso. Você não chega lá como um trabalhador dizendo “Estou em greve por causa do oleoduto”. Você chega dizendo: “Não vou deixar esse oleoduto passar pela minha terra, meu território, o território dos meus amigos, nossa terra comunitária. Não vou deixar que ele destrua os rios e o solo. Não vou deixar isso acontecer. Vou bloqueá-lo com mil dos meus amigos”. O que acontece?</p>
<p style="text-align: justify;">Se você pretende permanecer lá e manter o bloqueio não apenas na segunda-feira, mas também na terça, quarta, quinta, sexta e pelo resto do ano, algumas coisas precisam acontecer. É preciso começar a cozinhar, então monta-se uma cozinha comunitária. As pessoas precisam descansar. Providenciam-se lugares para dormir e abrigo. As pessoas precisam receber cuidados médicos. Monta-se uma tenda médica e outras estruturas. Isso é o acampamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata de um acampamento de protesto tentando chamar a atenção para algo e dizendo: “Estamos indignados”. É algo muito prático. E o que esse acampamento prático está fazendo? Está fazendo exatamente o que chamávamos de trabalho reprodutivo há pouco tempo. Está fornecendo comida, abrigo, cuidados e comunidade para as pessoas que estão bloqueando o oleoduto. É uma comuna que começa a se formar como parte de uma tática de luta. Está realizando esse trabalho comunitário que identificamos com a comuna ou o trabalho reprodutivo, não para produzir mão de obra para o capitalismo, não para produzir consumidores para o capitalismo, mas para produzir um bloqueio ao oleoduto. E, na verdade, o bloqueio ao oleoduto não existe sem essa pequena comuna, e a comuna não existe sem o bloqueio. Eles estão totalmente ligados. São um só. Não é um ou outro. Você não precisa escolher entre militância e trabalho de cuidado. São a mesma coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">É aí que a comuna se encaixa, não como uma visão do futuro, o que é ótimo, mas como uma tática prática no presente em que todos já estamos envolvidos. E como sempre, meu trabalho não é dizer às pessoas o que fazer, mas sim tentar nomear as coisas corretamente, tentar descrever o que já está acontecendo. Os grandes teóricos são as pessoas que estão bloqueando os oleodutos e cuidando dos acampamentos. São eles que estão descobrindo como fazer isso e o que fazer para se libertar, e eu tenho a sorte de ter a oportunidade de tentar pensar sobre isso e formular as ideias em palavras.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158730" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ.jpg" alt="" width="2000" height="1982" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-300x297.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-1024x1015.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-768x761.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-1536x1522.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-424x420.jpg 424w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-640x634.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-681x675.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />Essa visão da comuna me parece muito promissora, traz esperança. Tenho sentido falta de reflexões sobre continuidade e reprodução relacionadas à luta, nesse sentido.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Se você não tem salário ou está vinculado a um emprego, não pode fazer greve, ou pode tentar, mas o que vai acontecer? Se você não tem muita saúde, o que acontece com todos nós em algum momento da vida, é difícil participar de uma revolta. Mas como é numa comuna? O que é preciso para fazer parte dela ou para lutar dessa forma? </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Essa é uma ótima pergunta, sobre a qual não tenho certeza se refleti tanto quanto deveria, mas acho que você já ofereceu uma maneira útil de pensar a respeito. Se dividirmos, de forma redutiva, todos os tipos de luta no mundo em três categorias: revolta, greve e comuna; ou lutas da circulação, lutas da produção e lutas da reprodução, isso abre um amplo espaço para diversos tipos de atividade. E, idealmente, se pensarmos nelas como parte de uma unidade, em vez de escolhas opostas, isso significa que há muitas maneiras diferentes pelas quais as pessoas podem se posicionar em termos de como desejam participar.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitas vezes alguém diz que não, que a única tática correta é esta. Mas, como você apontou, haverá muitas pessoas que dirão que isso não é possível para elas. Mesmo que eu acreditasse nessa tática, mesmo que esse fosse o meu desejo, por vários motivos ela não é possível para mim: por causa de onde moro, da minha situação de cidadania, da minha situação laboral, das minhas capacidades físicas, entre outras coisas. E estar atento ao fato de que nem todas as formas de luta são possíveis para todas as pessoas é fundamental. Se pudermos pensar em todos nós juntos, com nossas diferentes capacidades, formando uma espécie de unidade, isso abre um leque enorme de caminhos que as pessoas podem seguir.</p>
<p style="text-align: justify;">E é por isso que é importante não inventar oposições. Uma das mais destrutivas é o debate entre militância e cuidado. Alguém diz: “Vamos fazer algo muito militante” — algo codificado como militante, algo violento, arriscado ou simplesmente fisicamente ambicioso. E então alguém diz: “Bem, na verdade, deveríamos estar mais atentos ao trabalho de cuidado e nos concentrar nisso, sem cair na armadilha de tentar ser ultrarradicais e assim por diante”. Esse debate é frequentemente marcado por questões de gênero, com a militância codificada como masculina e o trabalho de cuidado como feminino. Mas também evoca outras diferenças, incluindo quem é <em>capaz</em> e de que maneira. Assim, surge uma oposição real entre militância e cuidado, apresentada como um debate ético. Qual é a coisa certa a fazer? E enquanto você escolher uma dessas opções, acabará com um conjunto incompleto de táticas e com pessoas excluídas.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos pensar nessas coisas como uma unidade, como tenho tentado sugerir. A comuna e o bloqueio são um ótimo exemplo. Não se trata de uma coisa contra a outra, elas formam um todo. No fim, quero que as três — revolta, greve, comuna — formem um todo no qual as pessoas possam participar de diversas maneiras. A poetisa Diane di Prima tem um poema que termina com a frase: “Será preciso que todos nós empurremos a coisa por todos os lados para derrubá-la”. Essa é uma forma de colocar a situação.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra forma de dizer isso é: é isso que significa uma greve geral. Porque uma greve geral não é, na verdade, uma greve no sentido técnico de paralisação dos trabalhadores; envolve muito mais coisas. Greve geral é o nome dado quando a revolta, a greve e a comuna acontecem simultaneamente. É isso que a greve geral realmente é. E esse é o dia, a semana ou o ano em que haverá um papel para todos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Obrigado, Joshua Clover. Chegar à greve geral é a maneira perfeita de encerrar esta entrevista e mal posso esperar que esse ano chegue. Você deu pistas essenciais sobre como compreender as várias formas de luta possíveis</strong> — <strong>ou impossíveis</strong> — <strong>para as pessoas e por que faz sentido usá-las em contextos e momentos específicos. Como você disse, as pessoas lutam onde estão e, idealmente, todas as diversas táticas juntas criam uma unidade. </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Aguardo ansiosamente seu livro sobre a comuna [2], para entender ainda melhor essa tática nos dias de hoje. Só a ideia de algo que permanecerá mesmo após o fim do capitalismo já é poderosa. </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As futuras revoltas, greves e comunas promovidas por aqueles que vocês chamam de “grandes teóricos” terão uma aparência um pouco diferente para mim, agora que tenho um arcabouço que permite conectar todos os pontos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ronja Mälström é escritora e editora do Turning Point. Ela se dedica a temas como comunidades organizadas, movimentos de resistência e alternativas para uma vida além do capitalismo e do patriarcado</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Traduzido de: <a class="urlextern" title="https://turningpointmag.org/2024/11/24/people-struggle-where-they-are-joshua-clover-on-riots-strikes-and-commune-that-are-already-here/" href="https://turningpointmag.org/2024/11/24/people-struggle-where-they-are-joshua-clover-on-riots-strikes-and-commune-that-are-already-here/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://turningpointmag.org/2024/11/24/people-struggle-where-they-are-joshua-clover-on-riots-strikes-and-commune-that-are-already-here/</a></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> <em>Riot</em> em inglês possuem um sentido que seria melhor traduzido como uma revolta na forma de um tumulto ou motim. Uma ação de uma multidão indignada que age normalmente nas ruas enfrentando forças do Estado, muitas vezes danificando propriedade. Traduzimos riot por revolta, embora revolta não carregue o sentido negativo que <em>riot</em> possui na sociedade (Nota do Tradutor).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Joshua Clover faleceu em abril de 2025, o livro sobre a comuna que eles estava escrevendo acabou não sendo publicado (Nota do Tradutor).</p>
</div>
<div class="secedit editbutton_section editbutton_25" style="text-align: justify;">
<form class="button btn_secedit" action="/doku.php" method="post">
<div class="no"><em>As imagens que ilustram o artigo são de  Theo Van Doesburg</em></div>
</form>
</div>
<div class="section_highlight_wrapper">
<h3 id="entrevista_com_nildo_viana_critica_das_plataformas_e_da_politica_progressista" class="sectionedit26" style="text-align: justify;"></h3>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/02/158726/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
