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	<title>Médio_Oriente &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Irã e Gaza são apenas o começo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 17:23:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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					<description><![CDATA[ A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. Por Chris Hedges]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Chris Hedges</h3>
<p style="text-align: justify;">O genocídio em Gaza é o começo. Bem-vindo à nova ordem mundial. A era da barbárie tecnologicamente avançada. Não existem regras para os fortes, apenas para os fracos. Oponha-se ao forte, recuse-se a curvar-se às suas exigências caprichosas e você receberá uma chuva de mísseis e bombas. Assistimos a essa loucura diariamente com a guerra contra o Irã, o bombardeio de saturação do sul do Líbano e o sofrimento em Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Órgãos internacionais como as Nações Unidas foram castrados, transformados em apêndices inúteis de outra época. A santidade dos direitos individuais, as fronteiras abertas e o direito internacional desapareceram. Os governantes mais psicopatas da história humana, aqueles que reduziram cidades a cinzas, que levaram populações aprisionadas a locais de execução e a terras desvastadas que ocuparam com valas e cadáveres em massa, voltaram com uma vingança, abrindo um vasto abismo moral.</p>
<p style="text-align: justify;">A lei, apesar de alguns esforços valentes de um punhado de juízes &#8212; que em breve serão expurgados &#8212;, internamente e em organismos internacionais como o Tribunal Internacional de Justiça, é desprezada e violada. Selvageria no exterior. Selvagem em casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Lucy Williamson, da BBC, relata que Israel está destruindo o sul do Líbano “usando Gaza como modelo &#8212; um plano para destruição usado novamente como um caminho para a paz”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de 1 milhão de pessoas já foram deslocadas no Líbano &#8212; um quinto de toda a população de um país que já abriga o maior número mundial de refugiados per capita &#8212; em apenas algumas semanas. Some-se a isso 2 milhões de deslocados em Gaza e 3 milhões de deslocados no Irã. 6 milhões de pessoas ficaram desabrigadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por quatro décadas, o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tem pressionado para que os EUA entrem em guerra com o Irã. As administrações anteriores, Republicanas e Democratas, recusaram, em grande parte por causa da oposição feroz dentro do Pentágono, que não via o Irã como uma ameaça existencial e não projetava um resultado positivo para os EUA ou seus aliados regionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Donald Trump, encorajado por sua equipe de negociação inepta de seu genro Jared Kushner e seu colega empresário imobiliário e parceiro de golfe Steve Witkoff, ambos fervorosos sionistas, mordeu a isca de Israel. O conselheiro de segurança nacional da Grã-Bretanha, Jonathan Powell, que participou das negociações finais entre os EUA e o Irã, considerou Kushner e Witkoff como “ativos israelenses”.</p>
<p style="text-align: justify;">Joseph Kent, que renunciou ao cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo para protestar contra a guerra, escreveu em sua carta de renúncia que “o Irã não representava ameaça iminente para nossa nação, e é claro que começamos essa guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby americano”.</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica pública para a guerra contra o Irã desde que começou em 28 de fevereiro tem sido proteana. É para encerrar o programa nuclear do Irã? É para frustrar o programa de mísseis balísticos do Irã? É porque os EUA realizaram ataques preventivos contra o Irã, como disse Marco Rubio, para garantir a segurança dos ativos dos EUA uma vez que Israel decidiu atacar? É porque o governo iraniano realizou uma repressão letal, matando centenas de manifestantes antigoverno durante protestos de rua massivos? É mudança de regime? É uma tentativa de encerrar o chamado terrorismo patrocinado pelo Estado do Irã? Ou esses subterfúgios servem a outro propósito?</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente, Israel e os EUA buscam mudança de regime. Mas aqui parece que os EUA e Israel divergem. Israel também aparentemente procura, como no Iraque, Síria, Líbia e Líbano, a desintegração física do Irã, a quebra do país em enclaves étnicos e religiosos em guerra, a transformação do Irã em um Estado falido.</p>
<p style="text-align: justify;">Os persas no Irã constituem cerca de 61% da população com vários grupos minoritários, que muitas vezes sofrem repressão estatal, representando os 39% restantes. Esses grupos étnicos incluem azerbaijanos, curdos, amantes, balochs, árabes e turcomanos, juntamente com minorias religiosas como sunitas, cristãos, bahá&#8217;ís, zoroastristas e judeus. A quebra do Irã em enclaves étnicos e religiosos antagônicos deixaria Israel como a potência dominante na região, dando-lhe a capacidade de, se não ocupar seus vizinhos diretamente, controlá-los e subjugá-los através de proxies, parte de um desejo de longa data de uma Grande Israel. Também tornaria possível que os Estados estrangeiros controlassem as reservas de gás iranianas, a segunda maior do mundo, e suas reservas de petróleo, 12% do total global.</p>
<p style="text-align: justify;">A cruzada de Israel contra os palestinos, os libaneses e agora os iranianos é justificada pelo extermínio de 6 milhões de judeus durante o Holocausto. Mas não passa despercebido no Sul Global, especialmente entre palestinos, que quase todos os estudiosos do Holocausto se recusaram a condenar o genocídio em Gaza. Nenhuma das instituições dedicadas a pesquisar e rememorar o Holocausto traçou os óbvios paralelos históricos ou criticou o massacre em massa.</p>
<p style="text-align: justify;">Estudiosos do Holocausto, com um punhado de exceções, expuseram seu verdadeiro propósito, que não é examinar o lado sombrio da natureza humana e a propensão assustadora que todos nós temos a cometer o mal, mas santificar os judeus como vítimas eternas e absolver o estado etnonacionalista de Israel de seus crimes de colonialismo de assentamento, apartheid e genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">O sequestro do Holocausto, o fracasso em defender as vítimas palestinas porque elas são palestinas, implodiu a autoridade moral dos estudos do Holocausto e dos memoriais do Holocausto. Eles foram expostos como veículos não para evitar o genocídio, mas para perpetrá-lo, não para explorar o passado, mas para manipular o presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer reconhecimento tépido de que o Holocausto pode não ser propriedade exclusiva de Israel e seus partidários sionistas é rapidamente encerrado. O Museu do Holocausto em Los Angeles excluiu, depois de uma reação, um post no Instagram que dizia: “NUNCA MAIS NÃO PODE APENAS SIGNIFICAR NUNCA MAIS PARA <abbr title="Operating System">OS</abbr> JUDEUS”. Nas mãos dos sionistas, “nunca mais” significa precisamente isso, nunca mais, <em>apenas</em> <em>para os judeus</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158963" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg" alt="" width="752" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-300x238.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-529x420.jpg 529w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-640x508.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-681x541.jpg 681w" sizes="(max-width: 752px) 100vw, 752px" />Aimé Césaire, em <em>Discurso sobre o Colonialismo</em>, escreve que Hitler parecia excepcionalmente cruel apenas porque presidia “a humilhação do homem branco”, aplicando à Europa os “procedimentos colonialistas que até então haviam sido reservados exclusivamente para os árabes da Argélia, as &#8216;coolies&#8217; da Índia e os negros da África”.</p>
<p style="text-align: justify;">A quase aniquilação da população aborígene da Tasmânia, o massacre alemão do Herero e Namaqua, o genocídio armênio, a fome de Bengala de 1943 &#8212; então o Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill se referiu aos hindus como “um povo animalesco com uma religião animalesca” &#8212; juntamente com o lançamento de bombas nucleares em alvos civis em Hiroshima e Nagasaki, ilustra algo fundamental sobre “a civilização ocidental”.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio não é uma anomalia, é codificado no DNA da “civilização” ocidental.</p>
<p style="text-align: justify;">“Na América”, disse o poeta Langston Hughes, “não é preciso dizer aos negros o que é o fascismo em ação. Nós sabemos. Suas teorias da supremacia nórdica e da supressão econômica há muito tempo são realidades para nós”.</p>
<p style="text-align: justify;">Os nazistas, quando formularam as leis de Nuremberg, usaram como modelo as leis destinadas a oprimir os negros. A recusa dos Estados Unidos em conceder cidadania a nativos americanos e filipinos &#8212; embora vivessem nos EUA e nos territórios dos EUA &#8212; foi imitada pelos fascistas alemães que retiraram a cidadania dos judeus. As leis antimiscigenação americanas, que criminalizavam o casamento inter-racial, foram a influência para proibir casamentos entre judeus alemães e arianos. A jurisprudência americana classificou qualquer pessoa com um por cento da ascendência negra &#8212; a chamada “regra de uma gota” &#8212; como negra. Os nazistas, ironicamente mostrando mais flexibilidade, classificaram qualquer pessoa com três ou mais avós judeus como judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Os milhões de vítimas indígenas de projetos coloniais em países como México, China, Índia, Austrália, Congo e Vietnã, por essa razão, são surdas para as afirmações dos judeus de que sua vitimização é única. Eles também sofreram holocaustos, mas esses holocaustos permanecem minimizados ou não reconhecidos por seus perpetradores ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">Israel encarna o Estado etnonacionalista que nossos fascistas cristãos e a extrema-direita sonham em criar para si mesmos, que rejeita o pluralismo político e cultural, bem como as normas legais, diplomáticas e éticas. Israel é admirado pela extrema-direita porque virou as costas para o direito humanitário e usa força letal indiscriminada para “limpar” sua sociedade daqueles condenados como contaminadores humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi essa distorção do Holocausto como único que incomodou Primo Levi, preso em Auschwitz de 1944 a 1945 e que escreveu livros sobre a sobrevivência em Auschwitz. Levi foi um crítico feroz do Estado de apartheid de Israel e seu tratamento aos palestinos. Ele viu a Shoah [Holocausto] como “uma fonte inesgotável do mal” que “é perpetuada como ódio nos sobreviventes, e brota de mil maneiras, contra a própria vontade de todos, como uma sede de vingança, como colapso moral, como negação, como cansaço, como resignação”.</p>
<p style="text-align: justify;">Levi deplorou o maniqueísmo daqueles que “evitam nuances e complexidade”. Ele condenou aqueles que “reduzem o rio dos acontecimentos humanos a conflitos, e conflitos a duelos, nós e eles”. Ele alertou que a “rede de relações humanas dentro dos campos de concentração não era simples: não poderia ser reduzida a dois blocos, vítimas e perseguidores”. O inimigo, ele sabia, “estava do lado de fora, mas também dentro”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mordechai Chaim Rumkowski, conhecido como “Rei Chaim”, governou o gueto de Łódź na Polônia em nome dos ocupantes nazistas. O gueto tornou-se um campo de trabalho escravo que enriqueceu Rumkowski e seus senhores nazistas. Rumkowski deportou opositores para campos de extermínio. Estuprou e molestou meninas e mulheres. Exigiu obediência inquestionável. Incorporou o mal de seus opressores. Para Levi, ele foi um exemplo do que muitos de nós, em circunstâncias semelhantes, somos capazes de se tornar.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos todos refletidos em Rumkowski, sua ambiguidade é nossa, é a nossa segunda natureza, nós híbridos moldados a partir de argila e espírito”, escreveu Levi <em>em Os Afogados e os Sobreviventes.</em> “Sua febre é nossa, a febre de nossa civilização ocidental que &#8216;desce no inferno com trombetas e tambores&#8217;, e seus adornos miseráveis são a imagem distorcida de nossos símbolos de prestígio social”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Como Rumkowski, nós também estamos tão deslumbrados com o poder e o prestígio a ponto de esquecer nossa fragilidade essencial”, continuou Levi. “De bom grado ou não chegamos a um acordo com o poder, esquecendo que estamos todos no gueto, que o gueto está murado, que fora do gueto reinam os senhores da morte, que espera próxima ao trem.”</p>
<p style="text-align: justify;">Levi entendeu que a linha entre a vítima e o vitimizador é fina. Todos nós podemos nos tornar carrascos dispostos. Não há nada intrinsecamente moral sobre ser judeu ou um sobrevivente do Holocausto. Levi, por essa razão, era <em>persona non grata</em> em Israel.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Os sionistas encontram no Holocausto e no Estado judeu um senso de propósito e significado, bem como uma superioridade moral nauseante. Após a guerra de 1967, quando Israel tomou Gaza, a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, as Colinas de Golã da Síria e a Península do Sinai do Egito, Israel, como observou o sociólogo americano Nathan Glazer de forma aprovadora, tornou-se “a religião dos judeus americanos”. O Holocausto tornou-se o seu “capital moral”.</p>
<p style="text-align: justify;">“O sofrimento judaico é retratado como inefável, incomunicável e, no entanto, algo sempre a ser proclamado”, escreve o historiador europeu Charles S. Maier, em <em>The Unmasterable Past: History, Holocaust, and German National Identity</em>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">É intensamente privado, não para ser diluído, mas simultaneamente público para que a sociedade gentil confirme os crimes. Um sofrimento muito peculiar deve ser consagrado em locais públicos: museus do Holocausto, jardins de memória, locais de deportação, dedicados não como memoriais judeus, mas cívicos. Mas qual é o papel de um museu em um país, como os Estados Unidos, longe do local do Holocausto? É para reunir as pessoas que sofreram ou para instruir não-judeus? É suposto servir como um lembrete de que “pode acontecer aqui?” Ou é uma afirmação de que alguma consideração especial é merecida? Sob que circunstâncias uma tristeza privada pode servir simultaneamente como uma dor pública? E se o genocídio é certificado como uma tristeza pública, então não devemos aceitar as credenciais de outras tristezas particulares também? Um historiador americano de ascendência polonesa argumenta que, com a invasão alemã de 1939, os poloneses se tornaram os primeiros povos da Europa a experimentar o Holocausto e que os historiadores até agora “escolheram interpretar a tragédia em termos exclusivistas &#8212; ou seja, como o período mais trágico da história da Diáspora judaica”. Se os poloneses americanos reivindicam seu próprio “Holocausto esquecido”, que reconhecimento eles devem desfrutar? Os armênios e os cambojanos também têm o direito de financiar publicamente museus de holocausto? E precisamos de memoriais para adventistas do sétimo dia e homossexuais por sua perseguição nas mãos do Terceiro Reich?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O sofrimento único confere um direito único.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer crime que Israel realize em nome de sua sobrevivência &#8212; seu “direito de existir” &#8212; é justificado em nome dessa singularidade. Não há limites. O mundo é preto e branco, uma batalha interminável contra o nazismo, que é proteano, dependendo de quem Israel visa. Desafiar essa sede de sangue é ser um antissemita, facilitando outro genocídio de judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa fórmula simplista não serve apenas os interesses de Israel, mas também os interesses das potências coloniais que realizaram seus próprios genocídios, aqueles que eles também procuram obscurecer.</p>
<p style="text-align: justify;">A sacralização do Holocausto nazista oferece um <em>quid pro quo</em> bizarro. Armar e financiar o Estado de Israel, bloqueando resoluções e sanções da ONU que condenariam seus crimes e demonizar os palestinos e seus apoiadores se tornam prova de expiação e apoio aos judeus. Israel, em troca, absolve o Ocidente de sua indiferença à situação dos judeus durante o Holocausto, e a Alemanha por perpetrá-lo. A Alemanha usa essa aliança profana para separar o nazismo do resto da história alemã, incluindo o genocídio que os colonos alemães realizaram contra os Nama e Herero no sudoeste alemão da África, agora na Namíbia.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tal magia”, escreve o israelense historiador e estudioso do genocídio, Raz Segal, “legitima o racismo contra os palestinos no exato momento em que Israel perpetra o genocídio contra eles. A ideia de singularidade do Holocausto reproduz-se assim em vez de desafiar o nacionalismo excludente e o colonialismo de assentamento que levaram ao Holocausto.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal, diretor do programa de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Stockton, em Nova Jersey, escreveu um artigo sobre a guerra em Gaza em 13 de outubro de 2023, intitulado: “Um caso de genocídio”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa denúncia de um estudioso israelense do Holocausto, cujos familiares morreram no Holocausto, foi uma postura muito solitária.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal viu na exigência imediata do governo israelense que os palestinos evacuassem o norte de Gaza e a demonização dos palestinos por autoridades israelenses &#8212; o Ministro da Defesa disse que Israel estava “combatendo animais humanos” &#8212; o cheiro de genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">“Toda a ideia sobre prevenção e &#8216;nunca mais&#8217; é que &#8212; como ensinamos nossos alunos &#8212; há alertas vermelhos, e que uma vez que os notamos, devemos trabalhar para interromper o processo que pode se transformar em genocídio”, disse-me o professor Segal, “mesmo que ainda não seja genocida”.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal pagou pela sua honestidade. O convite para liderar o Centro de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Minnesota, que não emitiu nenhuma condenação do genocídio, foi revogado.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o professor Segal e eu testemunhamos na capital do estado em Trenton, em oposição à adoção do projeto de lei da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA), que equipara as críticas ao Estado de Israel a antissemitismo, fomos vaiados por sionistas e nossos microfones foram cortados pelo presidente da comissão. Lá estávamos nós, argumentando que esse projeto de lei iria reduzir a liberdade de expressão enquanto ao mesmo tempo nos negavam a liberdade de expressão.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio é a próxima etapa no que o antropólogo, Arjun Appadurai, chama de “uma vasta correção malthusiana mundial” que é “voltada para preparar o mundo para os vencedores da globalização, sem o ruído inconveniente de seus perdedores”.</p>
<p style="text-align: justify;">O financiamento e o armamento de Israel pelos Estados Unidos e pelas nações europeias, enquanto realiza o genocídio, implodiu efetivamente a ordem jurídica internacional pós-Segunda Guerra Mundial. Ela não tem mais credibilidade. O Ocidente não pode mais ensinar ninguém sobre democracia, direitos humanos ou as supostas virtudes da civilização ocidental. O ardil, que de alguma forma nós, como nação, promovemos a democracia, a igualdade e os direitos humanos, está terminado.</p>
<p style="text-align: justify;">“Ao mesmo tempo em que Gaza induz vertigem, um sentimento de caos e vazio, torna-se para inúmeras pessoas impotentes a condição essencial da consciência política e ética no século XXI &#8211; assim como a Primeira Guerra Mundial foi por uma geração no Ocidente”, escreve Pankaj Mishra.</p>
<p style="text-align: justify;">Nenhum de nós que reportou de Israel e Palestina, onde trabalhei como repórter por sete anos, previu esse genocídio. E, no entanto, estávamos cientes do impulso genocida que estava no coração do projeto sionista &#8212; o desejo de grandes segmentos da sociedade israelense de erradicar e expulsar todos os palestinos. Esse impulso genocida estava lá desde o início do sionismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Victor Klemperer, professor de linguística e filho de um rabino de Berlim que viveu sob o domínio nazista, observou em seu diário: “Para mim, os sionistas, que querem voltar para o estado judeu de 70 d.C. (destruição de Jerusalém por Tito), são tão ofensivos quanto os nazistas. Com sua sede de sangue, suas antigas “raízes culturais”, sua visão de mundo ora hipócrita, ora obtusa, eles são páreo para os nacional-socialistas”.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Cobri o rabino extremista Meir Kahane, que afirmava que a violência era uma virtude judaica, e a vingança, um mandamento divino. Quando eu estava baseado em Israel, ele foi impedido pelo governo israelense de se candidatar a cargos públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Kahane foi assassinado em 5 de novembro de 1990, na cidade de Nova York. Seu partido, o Kach, foi declarado ilegal em Israel quatro anos depois, após Baruch Goldstein, um médico nascido no Brooklyn e membro do Kach, entrar na Mesquita de Ibrahimi, em Hebron, e abrir fogo contra os fiéis, matando 29 palestinos. Goldstein, vestido com seu uniforme de capitão do exército, foi dominado pelos fiéis e espancado até a morte. Fui enviado pelos meus editores em Nova York para entrevistar os sobreviventes. Quando receberam o material, insistiram para que eu fizesse mais entrevistas com colonos judeus que justificassem as queixas de Goldstein contra os palestinos, parte do jogo de equilíbrio, mas na verdade parte do esforço para obscurecer a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">O Kach, após suas declarações de apoio ao massacre, foi declarado uma organização terrorista pelos Estados Unidos. Mas o kahanismo não morreu. Foi nutrido por extremistas judeus e colonizadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A intolerância racial de Kahane e seus apelos à violência em massa contra os palestinos contaminaram segmentos cada vez maiores da sociedade israelense. Encontrou aceitação quase universal após os ataques de 7 de outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhei essa intolerância em comícios políticos realizados por Netanyahu, que recebeu financiamento generoso de americanos de direita associados ao AIPAC, quando concorreu contra Yitzhak Rabin, que negociava um acordo de paz com os palestinos. Os apoiadores de Netanyahu entoavam slogans inspirados por Kahane, como “Morte aos árabes” e “Morte a Rabin”. Queimaram uma efígie de Rabin vestida com um uniforme nazista. Netanyahu marchou em frente a um funeral simulado para Rabin.</p>
<p style="text-align: justify;">Rabin foi assassinado por um fanático judeu em 4 de novembro de 1995.</p>
<p style="text-align: justify;">Netanyahu, que se tornou Primeiro-Ministro pela primeira vez em 1996, passou sua carreira política cultivando esses extremistas judeus, incluindo Itamar Ben-Gvir, que tinha um retrato de Goldstein na parede de sua sala de estar, Bezalel Smotrich, Avigdor Lieberman, Gideon Sa&#8217;ar e Naftali Bennett.</p>
<p style="text-align: justify;">O pai de Netanyahu, Benzion, que trabalhou como assistente do fundador do sionismo revisionista, Vladimir Jabotinsky, e foi chamado por Benito Mussolini de “um bom fascista”, foi um líder do Partido Herut, que defendia que Israel se apropriasse de todas as terras da Palestina histórica. Muitos dos membros do Partido Herut realizaram ataques terroristas durante a guerra de 1948 que estabeleceu o Estado de Israel. Albert Einstein, Hannah Arendt, Sidney Hook e outros intelectuais judeus descreveram o Partido Herut, em uma declaração publicada no New York Times, como um partido “muito semelhante, em sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, aos partidos nazistas e fascistas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre houve uma vertente virulenta de fascismo judaico dentro do projeto sionista, espelhando a vertente do fascismo na sociedade americana. Infelizmente, para nós e para os palestinos, essas vertentes fascistas estão em ascensão.</p>
<p style="text-align: justify;">A decisão de obliterar Gaza tem sido, há muito tempo, o sonho dos sionistas de extrema-direita, herdeiros do movimento de Kahane. A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. A supremacia judaica é santificada por Deus, assim como o massacre dos palestinos, que Netanyahu comparou aos amalequitas bíblicos, massacrados pelos israelitas. Europeus e euro-americanos nas colônias americanas usaram a mesma passagem bíblica para justificar o genocídio contra os nativos americanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os inimigos — geralmente muçulmanos — destinados à extinção são subumanos que personificam o mal. A violência e a ameaça de violência são as únicas formas de comunicação compreendidas por aqueles que estão fora do círculo mágico do nacionalismo judaico.</p>
<p style="text-align: justify;">A redenção messiânica ocorrerá assim que os palestinos forem expulsos. Extremistas judeus exigem a demolição da Mesquita de Al-Aqsa, um dos três locais mais sagrados para os muçulmanos, supostamente construída sobre as ruínas do Segundo Templo Judaico, destruído em 70 d.C. pelo exército romano. Esses extremistas defendem sua substituição por um “Terceiro” Templo Judaico, uma medida que incendiaria o mundo muçulmano. A Cisjordânia, que os fanáticos chamam de “Judeia e Samaria”, está sendo anexada por Israel. Israel, governado por leis religiosas impostas pelos partidos ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torá, em breve espelhará a teocracia despótica do Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">James Baldwin previu, de forma profética, essa regressão à nossa barbárie inata. Ele alertou que havia uma “terrível probabilidade” de que “as populações ocidentais, lutando para manter o que roubaram de seus cativos e incapazes de se olhar no espelho, precipitarão um caos em todo o mundo que, se não acabar com a vida neste planeta, provocará uma guerra racial como o mundo jamais viu, e pela qual gerações ainda por nascer amaldiçoarão nossos nomes para sempre”.</p>
<p style="text-align: justify;">A selvageria no Irã, no Líbano e em Gaza é a mesma selvageria que enfrentamos em casa. Aqueles que perpetram o genocídio, o massacre e a guerra não provocada contra o Irã são as mesmas pessoas que desmantelam nossas instituições democráticas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158962" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg" alt="" width="793" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-220x300.jpg 220w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-752x1024.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-768x1046.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-308x420.jpg 308w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-640x872.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-681x927.jpg 681w" sizes="(max-width: 793px) 100vw, 793px" />Os iranianos, libaneses e palestinos sabem que não há como apaziguar esses monstros. As elites globais não acreditam em nada. Não <em>sentem</em> nada. Não se pode confiar nelas. Eles exibem as características essenciais de todos os psicopatas — charme superficial, grandiosidade e presunção, necessidade de estímulo constante, propensão à mentira, ao engano, à manipulação e incapacidade de sentir remorso ou culpa. Desprezam, considerando fraquezas, as virtudes da empatia, da honestidade, da compaixão e do altruísmo. Vivem segundo o lema “Eu. Eu. Eu.”</p>
<p style="text-align: justify;">“O fato de milhões de pessoas compartilharem os mesmos vícios não os torna virtudes, o fato de compartilharem tantos erros não os torna verdades, e o fato de milhões de pessoas compartilharem as mesmas formas de patologia mental não as torna sãs”, escreveu Erich Fromm em “The Sane Society”.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhamos o mal por quase três anos em Gaza. Observamos agora no Irã. Observamos no Líbano. Vemos esse mal sendo justificado ou mascarado por líderes políticos e pela mídia.</p>
<p style="text-align: justify;">O The New York Times, num gesto digno de Orwell, enviou um memorando interno instruindo repórteres e editores a evitarem os termos “campos de refugiados”, “território ocupado”, “limpeza étnica” e, claro, “genocídio” ao escreverem sobre Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqueles que nomeiam e denunciam esse mal, incluindo os estudantes heroicos que montaram acampamentos em campis universitários aqui e no exterior, são difamados, colocados em listas negras e expurgados. São presos e deportados. Um silêncio ensurdecedor se abate sobre nós, o silêncio de todos os Estados autoritários. Sabemos onde isso termina. Deixe de cumprir seu dever, deixe de apoiar a guerra contra o Irã, de se manifestar contra o crime de genocídio e veja sua licença de transmissão revogada, como propôs Brendan Carr, presidente da FCC (Comissão Federal de Comunicações) de Trump.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos inimigos. Eles não estão na Palestina. Eles não estão no Líbano. Eles não estão no Irã. Eles estão aqui. Entre nós. Eles ditam nossas vidas. Eles são traidores dos nossos ideais. Eles são traidores do nosso país. Eles vislumbram um mundo de escravos e senhores. Gaza é apenas o começo. Não existem mecanismos internos para a reforma. Podemos obstruir ou nos render.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são as únicas opções que nos restam.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Chris Hedges é jornalista estadunidense, autor de vários livros, entre os quais, </em>American Fascists<em> e </em>Death of the Liberal Class<em>.</em></strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Traduzido do original em: <a class="urlextern" title="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" href="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning</a></p>
</blockquote>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="size-thumbnail wp-image-158961 alignnone" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/abed_abdi_haifa-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As obras que ilustram o artigo são do artista palestino Abed Abdi (1942 &#8212;)</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A luta dos estudantes nos EUA contra uma máquina genocida</title>
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		<pubDate>Sat, 11 May 2024 09:43:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[Sionismo e grande capital, é isso que os estudantes estão confrontando e enfrentando com a luta pelo desinvestimento e para tentar parar um virtual genocídio em curso.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Leo Vinicius</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">No dia 17 de abril de 2024 estudantes da Universidade de Columbia, em Nova York, que lutam ativamente há seis meses para que a Universidade desinvista seu fundo em empresas ligadas direta ou indiretamente às mortes infligidas aos palestinos por Israel, estabeleceram um acampamento dentro do <em>campus</em>. No dia seguinte a presidente da Universidade, Minouche Shafik, chamou a polícia para acabar com o acampamento, resultando em violência contra os estudantes e cerca de 100 presos. O acampamento foi reestabelecido pelos estudantes e a notícia da repressão policial fez os acampamentos por esse desinvestimento dos fundos das universidades, e de solidariedade à população em Gaza, se espalharem como fogo no palheiro por inúmeras universidades dos EUA (dezenas ou até mais de cem em algumas contagens). A repressão policial também se espalhou por inúmeros desses <em>campi</em> dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui pretendo trazer ao leitor de língua portuguesa três tópicos sobre essa luta ainda em curso no momento em que escrevo: 1) o que ou a quem esses estudantes estão confrontando e enfrentando quando lutam por essa demanda; 2) quais as condições políticas e sociais que fizeram esse levante ocorrer; 3) quais as perspectivas emancipatórias imanentes a esse movimento.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A luta contra um poder econômico e político gigantesco</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Um repórter da <em>Al Jazeera</em> em Inglês pergunta a um estudante da Universidade George Washington, na capital dos EUA:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Você tem a percepção de que se você estivesse protestando, por exemplo, contra a Rússia ou sobre a mudança climática, a Universidade estaria achando legal e elogiando? Por que você acha que ela é tão particularmente virulenta contra esta manifestação?</em></p>
<p style="text-align: justify;">O estudante respondeu:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Porque a Universidade não é uma instituição educacional. É uma instituição financeira. E estamos pedindo desinvestimento</em> <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta do estudante foi certeira no objetivo de aproveitar o espaço na mídia para ter um impacto político e discursivo. Mas ele também deve saber que não é apenas por lutarem por controle sobre o investimento de capital que a repressão tem sido virulenta. Se a demanda fosse não investir em empresas ligadas ao uso de combustível fóssil, a reação seria muito diferente. Eles estão enfrentando o poder econômico e político do sionismo, que nos EUA é imenso, envolvendo os dois grandes partidos políticos. Vale salientar que há cristãos sionistas e não apenas judeus sionistas <strong>[2]</strong>. O mais poderoso grupo formal de <em>lobby</em> sionista nos EUA é a AIPAC (<em>American Israel Public Affairs Committee</em>), conhecido por despejar milhões de dólares em campanhas de políticos alinhados aos interesses de Israel e despejar milhões de dólares para que políticos não alinhados não sejam eleitos.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de continuarmos, é preciso ter uma ideia de algumas características do sistema universitário dos Estados Unidos. Lá as universidades, tanto as privadas quanto as públicas, possuem fundos formados por doações e outras verbas, os quais são investidos no mercado financeiro. Os estudantes da Universidade de Michigan, que é uma universidade pública, conseguiram que a administração divulgasse esse ano o tamanho do fundo e no que ele estava investido. Como exemplo, o fundo da Universidade de Michigan é de 17,9 bilhões de dólares, e após investigarem os investimentos os estudantes chegaram à conclusão de que 6 bilhões estavam investidos em empresas direta ou indiretamente ligadas à morte dos palestinos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152833 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254.jpg" alt="" width="1734" height="1254" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254.jpg 1734w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-300x217.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-1024x741.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-768x555.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-1536x1111.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-581x420.jpg 581w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-640x463.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/f9bc2684-ecd3-40ab-8c2b-aeca7894fb7a_1734x1254-681x492.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1734px) 100vw, 1734px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tanto as universidades privadas quanto as universidades públicas nos EUA são geridas como empresas. Vale lembrar que as públicas também não são gratuitas. Tantos as privadas quanto as públicas possuem um presidente, um CEO, que é escolhido por um Conselho (<em>Board of Trustees</em>). A forma de composição desse conselho varia. Nas universidades públicas geralmente os membros ou a maioria deles são indicados pelo governador do estado. O presidente, nas privadas e nas públicas, é escolhido por esse Conselho, a partir de indicações que surgem. Trata-se basicamente da escolha de um Executivo, um CEO, no mercado. Por exemplo, na Universidade de Indiana (pública) a atual presidente tem um histórico acadêmico, mas se tornou uma gestora de universidades; e a atual presidente da Universidade de Columbia foi presidente da <em>London School of Economics</em> na Inglaterra e teve cargo de direção no Banco da Inglaterra e no FMI, além de ter sido vice-presidente do Banco Mundial. Como vemos, de fato as universidades dos EUA se parecem muito com instituições financeiras. O presidente escolhido pelo Conselho assina um contrato com a Universidade com prazo determinado.</p>
<p style="text-align: justify;">Existem, portanto, dois mecanismos principais de pressão do poder econômico e político ligados ao sionismo sobre os gestores das universidades estadunidenses: a) a ameaça de cortar doações e recursos públicos direcionados à universidade; b) pelo bloqueio da carreira e da “empregabilidade” dos gestores. Sobre esse segundo ponto, vale apontar que os manifestantes da Universidade de Columbia eram ameaçados de entrarem em lista negra de empregadores durante o acampamento; e o cientista político judeu Norman Finkelstein teve seu <em>tenure</em> (que dá estabilidade de emprego) negado na universidade em que lecionava, o que correspondia na prática a uma demissão, e não conseguiu ser contratado por nenhuma universidade dos EUA durante quinze anos, devido à pressão sionista após ele ter desmascarado na TV e em livro os plágios e informações falsas contidas em um livro de um professor de Harvard, propagandista de Israel.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como manifestações em solidariedade aos palestinos ocorrem em universidades dos Estados Unidos desde outubro de 2023, a pressão sionista para aplacar essas manifestações e calar os críticos a Israel também não apareceu agora. As tropas de choque invadindo as universidades e reprimindo os estudantes são apenas a expressão de um conflito escalado. Em janeiro deste ano, por exemplo, a Universidade de Indiana cancelou uma exposição de Samia Halaby, uma conhecida artista palestina-americana de 87 anos. Halaby se graduou, fez mestrado e foi professora da própria Universidade de Indiana. A exibição foi cancelada por Halaby ter condenado no Twitter o massacre de Israel em Gaza (obviamente essa não foi a justificativa oficial do cancelamento). No mesmo mês o professor Abdulkader Sinno foi suspenso na mesma universidade. Ele era orientador do Comitê de Solidariedade à Palestina dos estudantes da universidade. Em 15 de novembro de 2023 o deputado federal Jim Banks, do Partido Republicano, escreveu à presidente da Universidade de Indiana, Pamela Whitten, afirmando que a Universidade poderia perder acesso a verba federal se tolerasse antissemitismo no <em>campus</em>. O deputado mencionou especificamente o Comitê de Solidariedade à Palestina na carta. Não é novidade que os sionistas chamem de antissemitismo o antissionismo ou críticas às políticas de Israel, uma vez que eles usam e divulgam há mais de cinquenta anos essa tática <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma regra vigente desde 1969 na Universidade de Indiana permitia manifestações, cartazes, símbolos e estruturas num espaço chamado Dunn Meadow. Após o acampamento em solidariedade aos palestinos ser estabelecido no local, dia 24 de abril a presidente da Universidade de Indiana alterou a regra, passando a proibir estruturas no Dunn Meadow. No dia seguinte chamou a polícia no <em>campus</em>, com <em>snipers</em> posicionados no terraço. Cerca de 50 estudantes foram presos e imediatamente suspensos pela administração da Universidade <strong>[4]</strong>. Tudo isso supostamente por causa de uma tenda erguida em um bosque, que até o dia anterior era permitida. Em outras universidades, como a do Texas e a do Arizona, a repressão policial também foi imediata.</p>
<p style="text-align: justify;">Em dezembro de 2023 a presidente da Universidade da Pensilvânia, M. Elizabeth Magill, renunciou ao cargo por pressão de doadores sionistas e políticos. Depois foi a vez de Claudine Gay, presidente da Universidade de Harvard renunciar. Ambas e mais a presidente do MIT, Sally Kornbluth, haviam sido convocadas para uma audiência pública no Congresso no início de dezembro, com o intuito de serem cobradas sobre a não repressão das manifestações contra o extermínio em Gaza que ocorriam nos <em>campi</em> dessas universidades. Claro, serem cobradas sob o discurso de não estarem reprimindo o “antissemitismo”. Três dias depois da audiência, mais de 70 congressistas pediram a destituição das três <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 17 de abril de 2024 foi a vez da presidente de Columbia prestar satisfação aos congressistas. Provavelmente por ter visto o que aconteceu com Gay e Magill, Minouche Shafik agiu de forma pateticamente subserviente diante dos questionamentos dos congressistas, como um empregado amedrontado diante de um patrão que o ameaça. Chegou até mesmo a afirmar que um professor mencionado seria demitido, algo que fugia até mesmo do seu poder de decisão. Por coincidência ou não, no mesmo dia em que Shafik estava no Congresso se humilhando, os estudantes da coalizão <em>Columbia University Apartheid Divest</em> estabeleceram o acampamento no <em>campus</em>, com as mesmas demandas que faziam há meses: basicamente o desinvestimento em Israel e em empresas com negócios com o governo israelense. No dia seguinte Shafik, provavelmente procurando “mostrar serviço” e agradar os sionistas que a pressionavam, chamou a polícia no <em>campus</em>, com o resultado já exposto no início deste texto. Sua decisão de chamar a polícia não passou pelo senado da Universidade, como previa o regulamento desde 1968. O acampamento foi refeito após esse episódio, estudantes foram suspensos de forma arbitrária (principalmente os palestinos), e no dia 29 de abril, 21 congressistas do Partido Democrata enviaram uma carta ao Conselho (<em>Board of Trustees</em>) da Universidade de Columbia, afirmando que era “hora de agir” e que apesar das promessas feitas o acampamento ainda não havia sido suprimido. Na noite do dia seguinte centenas de policiais entraram no <em>campus</em>, prenderam manifestantes e destruíram o acampamento. Na mesma hora a polícia também entrou no <em>campus</em> do City College no Harlem (Nova York), também destruindo o acampamento e prendendo pessoas. Os estudantes do City College, por serem mais pobres e com mais melanina, estão enfrentando acusações mais graves nos inquéritos policiais. Em Columbia a polícia permanecerá no <em>campus</em> até o dia 17 de maio (para garantir que a cerimônia de formatura ocorra).</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152831 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Columbia0.jpg" alt="" width="600" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Columbia0.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/Columbia0-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Na Universidade da Califórnia em Los Angeles a administração da universidade deixou que uma milícia formada por Proud Boys e sionistas atacasse durante dias o acampamento em solidariedade aos palestinos. Quando a polícia apareceu, apenas observou as agressões da milícia fascio-sionista, e quando resolveu tomar alguma ação apenas dispersou a milícia sem prender ninguém. Vinte e cinco estudantes feridos do acampamento tiveram de ir ao hospital. No dia seguinte a tropa de choque entrou no <em>campus</em> para acabar com o acampamento, o que conseguiu após uma batalha com muitos estudantes presos e outros feridos. Ou seja, gestores de universidades, polícia e milícias para-policiais agiram em convergência e conivência na supressão do movimento. <em>Fascismo e grande capital</em>, para repetir o título do livro de Daniel Guérin. Mas dessa vez o fascismo se chama sionismo. Sionismo e grande capital, é isso que os estudantes estão confrontando e enfrentando com a luta pelo desinvestimento e para tentar parar um virtual genocídio em curso.</p>
<p style="text-align: justify;">Campanhas pelo Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel não são novas nos Estados Unidos e em outros países. Em função disso Israel havia feito um grande <em>lobby</em>, principalmente nos EUA para que fossem aprovadas leis anti-BDS. Nas palavras de Benjamin Netanyahu: “Quem nos boicotar será boicotado… Nos últimos anos promovemos leis na maioria dos estados dos EUA, que determinam que ações fortes devem ser tomadas contra quem tenta boicotar Israel” <strong>[7]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 1º de maio a câmara dos deputados dos EUA aprovou por 320 votos a 91 uma expansão do conceito de antissemitismo. Certamente será aprovada também no senado e sancionada por Joe Biden. Nesse projeto de lei o Departamento de Educação terá de adotar o conceito de antissemitismo da <em>International Holocaust Remembrance Alliance</em>, o qual favorece que se confunda antissionismo com antissemitismo e críticas a Israel com antissemitismo. Ou seja, a reação ao movimento estudantil que confronta os interesses sionistas e do grande capital foi imediata, passando pelas pressões políticas e financeiras, atravessando a repressão policial e chegando às mudanças de legislação.</p>
<p style="text-align: justify;">Cereja do bolo, dia 2 de maio Joe Biden criminaliza o levante estudantil em conferência de imprensa, sacrificando sua possível reeleição para servir ao sionismo e ao grande capital <strong>[8]</strong>. Trump e Biden apoiaram a repressão policial.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Os fatores políticos e sociais do levante</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Primeiro fator para desencadear o levante: a militância de longa data. Desde os anos 1990 existem comitês e grupos de solidariedade aos palestinos e pelo desinvestimento em Israel em universidades dos EUA. Por anos a fio eles pareceram insignificantes, mas quando o segundo e infeliz fator para desencadear uma mobilização massiva surgiu, o massacre e virtual genocídio em Gaza, esses grupos tendem se tornar a referência política para organizar e direcionar o movimento. Possuem além de tudo o conhecimento mais aprofundado da causa, além de pautas e objetivos bem estudados.</p>
<p style="text-align: justify;">O terceiro fator é uma mudança demográfica nas universidades dos EUA, como salientou o jornalista Juan González, uma das lideranças estudantis na ocupação da Universidade de Columbia contra a guerra do Vietnã em 1968. Há uma diversidade maior de origem dos estudantes universitários estadunidenses do que em décadas atrás, e isso inclui muitos estudantes do Oriente Médio ou com origem familiar naquela região. É ilustrativa a declaração do estudante entrevistado pela <em>Al Jazeera</em> mencionado anteriormente. Na mesma entrevista ele conta ao repórter que é filho de imigrantes que tiveram que sair de seu país como consequência do imperialismo dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">Um quarto fator é mais especulativo, embora tenha sido dito por mais de um professor universitário estadunidense. Nas palavras de Finkelstein, um dos fatores dessa conexão forte com a população em Gaza seria “que Gaza se tornou uma metáfora para toda uma nova geração que se sente totalmente sem poder, em um sistema controlado por um punhado de pessoas muito ricas e poderosas. E o fato de como em Gaza, uma grande parte dos nossos jovens não apenas se sente sem poder, mas sentem como se não tivessem futuro sob esse sistema. Acho que Gaza se tornou uma metáfora para os sem poder e sem futuro para muitos jovens ao redor do mundo, não apenas nos países industrializados” <strong>[9]</strong>.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152832 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254.jpg" alt="" width="1670" height="1254" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254.jpg 1670w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-1024x769.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-768x577.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-1536x1153.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-559x420.jpg 559w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-640x481.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/05/2f42ce1a-1c83-4d56-bf90-df980515beca_1670x1254-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1670px) 100vw, 1670px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Perspectivas emancipatórias</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Quanto às demandas de desinvestimento, é importante ressaltar que na Itália também houve lutas estudantis significativas desde outubro de 2023. Conseguiram que a Universidade de Nápoles rompesse relações com uma empresa pública italiana que possuía contrato com o exército israelense. Mas o fato é que, principalmente nos EUA, onde o sionismo exerce um poder político e econômico imenso, a pauta BDS a Israel tende a avançar muito lentamente. Ainda mais que o contexto nos EUA e no Ocidente é da existência e ascensão de uma extrema-direita pró-sionismo. E a demora de avançar nesse caso é crucial, não apenas para parar o massacre em Gaza como para interromper a transformação da Cisjordânia em um novo campo de concentração como Gaza, como vem ocorrendo com o aumento dos postos de controle e violência israelense contra os palestinos.</p>
<p style="text-align: justify;">A repressão em Columbia e em outras universidades, embora tivesse indignado muitos professores e funcionários das universidades, alguns dos quais colocaram seus corpos na linha de frente, necessitava de uma resposta contundente, para além de cartas de repúdio e votações simbólicas. A campanha BDS em Columbia solicitou que os professores e funcionários parassem o trabalho após a repressão e supressão do acampamento no dia 30 de abril. Era a ação que poderia manter a disputa, pois seria inesperada pelos gestores, além de potencialmente servir de exemplo a ser seguido em outras universidades. A incapacidade dos professores e funcionários pararem o trabalho apareceu assim como um limite da luta, na medida que não conseguiu envolver e colocar na mesa o poder real dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A pauta de desinvestimento, embora não toque na transformação das relações de produção, possui um caráter anticapitalista no sentido de reduzir o controle dos gestores sobre onde o capital é investido. Trata-se em última análise da comunidade definir a finalidade da produção e possivelmente também sobre como é realizada a produção (condições ambientais e de trabalho).</p>
<p style="text-align: justify;">Mas se existe uma característica emancipatória desse movimento de base estudantil, se trata do seu universalismo imanente, o qual uma das expressões é, nas palavras de Finkelstein, o “ato de genuína solidariedade com pessoas sem poder, despossuídas quase do outro lado do mundo”. Os estudantes assumiram riscos por pessoas que estão tão longe sem nenhum benefício próprio estar em jogo (o que os distingue da geração que lutou contra a guerra do Vietnã, que teriam o benefício de não ir pra guerra com o fim dela). Judeus, palestinos, pessoas de todas as cores, origens, religiões, se uniram por uma causa. Compartilharam espaço, refeições, luta, rituais, cuidando-se e protegendo-se; enfrentaram juntas a repressão, por uma causa que aparentemente não lhes dizia respeito diretamente. Apenas aparentemente. O salto para um movimento potencialmente revolucionário é dado na solidariedade ativa que reconhece no outro a si próprio. Esse salto é dado quando, e nas condições em que, o convívio com a diversidade e as diferenças produz o entendimento de que somos iguais.</p>
<p style="text-align: justify;">O jornalista Jamil Chade conta que quando virou correspondente internacional tinha a expectativa de conhecer muita diversidade e coisas exóticas. Embora isso tenha feito parte, com o passar dos anos, conhecendo mais de 70 países e cobrindo guerras e catástrofes humanitárias, segundo ele: “na verdade eu descobri que somos muito iguais no fundo. A gente chora pelas mesmas coisas. A gente sonha com as mesmas coisas. E a gente quer uma coisa: dignidade” <strong>[11]</strong>. E como ele ressalta, o ponto central de todos é a busca por dignidade, e para buscá-la é preciso indignação.</p>
<p style="text-align: justify;">O universalismo da busca por dignidade é o que fez os zapatistas ultrapassarem identidades e se tornarem um catalisador de movimentos anticapitalistas mundo afora <strong>[12]</strong>. Essa potência é ainda mais imanente a esse levante estudantil. Uma luta pela humanidade que foge a toda retórica, que está inscrita na própria prática. Uma luta solidária no sentido mais profundo e revolucionário que pode ter essa palavra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>P.S.</strong> O Evergreen College, em Olympia no estado de Washington, se tornou a primeira instituição de ensino superior dos EUA a se comprometer a desinvestir e não efetuar programas com Israel. Segundo um dos organizadores, o fato de Rachel Corrie estudar no Evergreen quando foi morta por um trator israelense na demolição de uma casa na Faixa de Gaza em 2003, e sua memória ser cultivada até hoje na Universidade, foi um fator para a conquista. Rachel era ativista do Movimento Internacional de Solidariedade à Palestina e morreu tentando parar o trator. Essa conquista dos estudantes 21 anos depois mostra que os mortos de ontem vivem nas lutas de hoje.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>P.P.S.</strong> O maior sindicato de trabalhadores de acadêmicos dos EUA chamou uma votação a ser realizada de 13 a 15 de maio para decidir sobre entrada em greve da categoria, como resposta à repressão ao acampamento no <em>campus</em> de Los Angeles da Universidade da Califórnia (UCLA). Trata-se do sindicato dos estudantes de pós-graduação que trabalham nos <em>campi</em> da Universidade da Califórnia. A propósito, na UCLA os manifestantes pró-Palestina têm sido alvo de agressões física de apoiadores do sionismo desde outubro do ano passado, com conivência da administração. Na Universidade de Columbia os estudantes de pós-graduação que trabalham para a Universidade estão agindo por fora do sindicato, chamando “sickouts” (paralisação com pedidos de licença médica), e recusa de entregarem notas finais à administração. Também em Nova York, na universidade The New School, foi estabelecido no dia 8 de maio o primeiro acampamento de professores pelo desinvestimento em Israel. Enquanto isso os manifestantes em inúmeras universidades, além de suspensão, prisão e violência policial, estão enfrentando ameaças de todo tipo: a polícia de Nova York está divulgando os endereços dos presos e há campanhas para fotografar e filmar os estudantes em troca de dinheiro. No <em>campus</em> da UCLA estudantes e professores continuam a ser presos, com presença constante da tropa de choque no <em>campus</em>. O virtual genocídio em Gaza continua, agora em Rafah. Como um estudante de doutorado da Universidade de Chicago respondeu quando perguntado se temia sanção da Universidade: “Não ligo. Não importa. Há coisas que importam mais do que meu futuro acadêmico: certamente cada uma daquelas crianças que estão sendo assassinadas, mortas de fome, mutiladas…” <strong>[12]</strong>.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Law enforcement action at US universities &#8216;disproportionate&#8217;: UN <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=wq3VkFy9QOw" href="https://www.youtube.com/watch?v=wq3VkFy9QOw" rel="ugc nofollow">https://www.youtube.com/watch?v=wq3VkFy9QOw</a></p>
<p><strong>[2]</strong> Para ter uma ideia do cristianismo sionista nos EUA, veja o documentário Til Kingdom Come, da cineasta israelense Maya Zinshtein: <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=S3YSG8sgU4g" href="https://www.youtube.com/watch?v=S3YSG8sgU4g" rel="ugc nofollow">https://www.youtube.com/watch?v=S3YSG8sgU4g</a></p>
<p><strong>[3]</strong> Os estudantes da Universidade de Columbia montaram uma planilha com os investimentos da Universidade em empresas relacionadas às Forças de Ocupação de Israel a que tiveram acesso: <a class="urlextern" title="https://docs.google.com/spreadsheets/d/1MfzTwVeg-joMrDEU12wX3C78yser91N60kMj2-_16C8/edit#gid=0" href="https://docs.google.com/spreadsheets/d/1MfzTwVeg-joMrDEU12wX3C78yser91N60kMj2-_16C8/edit#gid=0" rel="ugc nofollow">https://docs.google.com/spreadsheets/d/1MfzTwVeg-joMrDEU12wX3C78yser91N60kMj2-_16C8/edit#gid=0</a></p>
<p><strong>[4]</strong> Veja o que Noam Chomsky expôs sobre essa tática: <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=OsEzZdR69vg" href="https://www.youtube.com/watch?v=OsEzZdR69vg" rel="ugc nofollow">https://www.youtube.com/watch?v=OsEzZdR69vg</a></p>
<p><strong>[5]</strong> How a Gaza protest at Indiana University became a battle for free speech <a class="urlextern" title="https://www.aljazeera.com/news/2024/5/1/how-a-gaza-protest-at-indiana-university-became-a-battle-for-free-speech" href="https://www.aljazeera.com/news/2024/5/1/how-a-gaza-protest-at-indiana-university-became-a-battle-for-free-speech" rel="ugc nofollow">https://www.aljazeera.com/news/2024/5/1/how-a-gaza-protest-at-indiana-university-became-a-battle-for-free-speech</a></p>
<p><strong>[6]</strong> Penn&#8217;s Leadership Resigns Amid Controversies Over Antisemitism <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2023/12/09/us/university-of-pennsylvania-president-resigns.html#:~:text=The%20president%20of%20the%20University,of%20Jews%20should%20be%20punished" href="https://www.nytimes.com/2023/12/09/us/university-of-pennsylvania-president-resigns.html#:~:text=The%20president%20of%20the%20University,of%20Jews%20should%20be%20punished" rel="ugc nofollow">https://www.nytimes.com/2023/12/09/us/university-of-pennsylvania-president-resigns.html#:~:text=The%20president%20of%20the%20University,of%20Jews%20should%20be%20punished</a></p>
<p><strong>[7]</strong> US legislator: Israel &#8216;asked me&#8217; to introduce bill against groups boycotting it <a class="urlextern" title="https://www.middleeastmonitor.com/20201118-us-legislator-israel-asked-me-to-introduce-bill-against-groups-boycotting-it/" href="https://www.middleeastmonitor.com/20201118-us-legislator-israel-asked-me-to-introduce-bill-against-groups-boycotting-it/" rel="ugc nofollow">https://www.middleeastmonitor.com/20201118-us-legislator-israel-asked-me-to-introduce-bill-against-groups-boycotting-it/</a></p>
<p><strong>[8]</strong> Majority in U.S. Now Disapprove of Israeli Action in Gaza <a class="urlextern" title="https://news.gallup.com/poll/642695/majority-disapprove-israeli-action-gaza.aspx" href="https://news.gallup.com/poll/642695/majority-disapprove-israeli-action-gaza.aspx" rel="ugc nofollow">https://news.gallup.com/poll/642695/majority-disapprove-israeli-action-gaza.aspx</a> ; Biden cannot afford a boiling summer of protest <a class="urlextern" title="https://edition.cnn.com/2024/05/02/politics/biden-campus-protest-politics-analysis/index.html" href="https://edition.cnn.com/2024/05/02/politics/biden-campus-protest-politics-analysis/index.html" rel="ugc nofollow">https://edition.cnn.com/2024/05/02/politics/biden-campus-protest-politics-analysis/index.html</a></p>
<p><strong>[9]</strong> Em: <a class="urlextern" title="https://twitter.com/MayadeenEnglish/status/1785337208662102205" href="https://twitter.com/MayadeenEnglish/status/1785337208662102205" rel="ugc nofollow">https://twitter.com/MayadeenEnglish/status/1785337208662102205</a></p>
<p><strong>[10]</strong> A partir dos 23 min neste vídeo: <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=kVat3sfB3EU&amp;t=1592s" href="https://www.youtube.com/watch?v=kVat3sfB3EU&amp;t=1592s" rel="ugc nofollow">https://www.youtube.com/watch?v=kVat3sfB3EU&amp;t=1592s</a></p>
<p><strong>[11]</strong> Ilustrativa a reposta do finado Subcomandante Marcos em 1994 quando perguntado sobre por que os zapatistas usam passamontanhas e se chamam &#8216;Marcos&#8217;: “Marcos é gay em <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Francisco_(Calif%C3%B3rnia)" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Francisco_(Calif%C3%B3rnia)" rel="ugc nofollow">São Francisco</a>, negro na <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81frica" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81frica" rel="ugc nofollow">África</a> do Sul, asiático na <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Europa" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Europa" rel="ugc nofollow">Europa</a>, hispânico em San Isidro, anarquista na Espanha, palestino em Israel, indígena nas ruas de <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/San_Crist%C3%B3bal_de_las_Casas" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/San_Crist%C3%B3bal_de_las_Casas" rel="ugc nofollow">San Cristóbal</a> (…)” <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_zapatista" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_zapatista" rel="ugc nofollow">https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_zapatista</a></p>
<p><strong>[12]</strong> A entrevista inteira, enquanto ele formava uma barreira diante dos policiais, pode ser vista aqui: <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=EvcLyhR7ZkE" href="https://www.youtube.com/watch?v=EvcLyhR7ZkE" rel="ugc nofollow">https://www.youtube.com/watch?v=EvcLyhR7ZkE</a></p>
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		<title>Racismos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Dec 2023 12:06:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
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					<description><![CDATA[Diz Norman Finkelstein em seu livro I&#8217;ll Burn the Bridge When I Get to It! que, certa vez, estava sentado no escritório de Edward Said quando ele deixou escapar: “Chomsky é racista”. “Por quê?”, perguntou Finkelstein em voz alta, com mais do que um leve constrangimento. Disse então Said: “ele não cita árabes em suas publicações criticando [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Diz Norman Finkelstein em seu livro <em>I&#8217;ll Burn the Bridge When I Get to It!</em> que, certa vez, estava sentado no escritório de Edward Said quando ele deixou escapar: “Chomsky é racista”. “Por quê?”, perguntou Finkelstein em voz alta, com mais do que um leve constrangimento. Disse então Said: “ele não cita árabes em suas publicações criticando Israel”. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Iranianos em revolta</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Jul 2018 12:30:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[Os recentes protestos se espalharam rapidamente em muitas cidades; questões importantes, como o custo de vida e a má qualidade da água potável têm sido a principal razão para manifestações.  Por Um Militante Anônimo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><em><strong>Por Um Militante Anônimo</strong></em></h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Nota do Passa Palavra</em></strong>: a crise econômica no Irã, causada em especial pela retomada das sanções econômicas anunciada em maio por Donald Trump, tem levado a uma série de protestos contra as políticas de Hassan Rouhani, sendo o mais recente deles a greve no Grande Bazar de Teerã em 25 de junho (ver mais <a href="http://www.aljazeera.com/news/2018/06/strike-tehran-grand-bazaar-rial-devaluation-180625180010879.html">aqui</a>, <a href="https://en.radiofarda.com/a/iran-bazaar-strike-economic-worsening/29318196.html">aqui</a>, <a href="http://ww.rudaw.net/mobile/english/middleeast/iran//25062018">aqui</a>, <a href="https://www.bbc.com/news/world-middle-east-44602189">aqui</a>). Não custa lembrar que sanções internacionais contra as políticas de Mahmoud Ahmadinejad foram também acompanhadas por protestos internos em meio à Primavera Árabe, que levaram em 2013 a uma mudança de governo. Há que se acompanhar com atenção os fatos em meio à nova conjuntura internacional de nacionalismos, populismos e fascismos em ascensão. Por isto traduzimos estas curtas notas sobre a greve no Grande Bazar, que ajudam a entender a composição interna, origens e rumos deste protesto.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sobre a situação no Irã: ela piorou quando parte considerável do Grande Bazar em Teerã foi fechada há uma semana. O Bazar tem sido um dos principais apoiadores burgueses – se não o principal – do atual regime desde a revolta de 1979.</p>
<p style="text-align: justify;">Bazar: seu significado literal é mercado. Está lá há séculos, há várias centenas de anos. O Bazar era tradicionalmente o lugar onde os preços das mercadorias eram definidos. Quando se diz que alguém é Bazaari, isso significa basicamente que ele é um comerciante, que também tem muito dinheiro disponível e, ao mesmo tempo, pode atuar como financiador (na verdade, um especulador, um agiota, um açambarcador, um especulador de curto prazo que não investe na produção). No Bazar, esses burgueses podem ser vistos como donos de lojas muito simples e pequenas, com poucas cadeiras, uma mesa, um telefone e muito poucas mercadorias, sentados algumas horas atrás de sua mesa – sem fazer nada além de conversar com outros Bazaaris ou falar ao telefone, comprar e vender ou acumular mercadorias. O Bazar existe em paralelo ao sistema financeiro no Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">Que diferença fez a greve no Bazar? Pense no dia, por exemplo, em que o sistema financeiro for fechado. Que efeito(s) teria na economia? É claro que a greve do Bazar foi relativamente pequena, por isso não teve um efeito tão dramático quanto o fechamento do sistema financeiro. No entanto, a greve dos Bazaaris, em certa medida, aumentou os preços. Uma razão para isso é que eles são atacadistas e qualquer ação sua que aumente os preços produz ondulações através do mercado. Além disso, se suas ações parecem representar uma retirada do apoio ao regime, elas também agravam a crise política.</p>
<figure id="attachment_121945" aria-describedby="caption-attachment-121945" style="width: 470px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-121945" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/07/images-17.jpeg" alt="" width="470" height="313" /><figcaption id="caption-attachment-121945" class="wp-caption-text">Iran Labor News Agency. 25, Jun. 2018</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Há rumores, especialmente vindos da fração reformista do regime, dizendo que a atual onda de protestos (e a última) foi iniciada pela “linha-dura” derrotada nas últimas eleições, e que esperam dar um golpe de Estado para trazer os militares ao poder. Embora seja incerto se isto é verdadeiro ou não, ou que haja pelo menos alguma verdade nisso, pessoas comuns há muito tempo fartas de suas condições de vida aderiram aos protestos, e seus slogans também mudaram.</p>
<p style="text-align: justify;">Os recentes protestos se espalharam rapidamente em muitas cidades; questões importantes, como o custo de vida e a má qualidade da água potável, especialmente no sul do país, têm sido a principal razão para manifestações. Há dois relatórios da Aljazeera, um sobre os protestos e outro sobre a escassez de água.</p>
<figure id="attachment_121946" aria-describedby="caption-attachment-121946" style="width: 474px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-121946" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/07/final.jpg" alt="" width="474" height="287" /><figcaption id="caption-attachment-121946" class="wp-caption-text">Iran, 25, June, 2018. Xinhua/Ahmad Halabisaz</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Enquanto as maiores cidades foram coloridas pelos protestos do Bazaar sobre o declínio da moeda iraniana contra o dólar, as cidades do sudoeste, na província iraniana do Khuzistão (centro da produção de petróleo do Irã e lar de uma grande minoria árabe), explodiram há alguns dias principalmente por causa da falta de água para uso geral e de água potável de boa qualidade em particular, e também da poluição do ar. (Como os leitores devem saber, a água se tornou e será uma das causas mais importantes dos conflitos sociais no Irã e no Oriente Médio. Essa é outra história que precisa de explicações separadas.)</p>
<p style="text-align: justify;">A inflação muito alta e a queda acentuada no valor da moeda nacional são os resultados da saída dos EUA do PAIC (Plano de Ação Integral Conjunto), e das promessas da administração dos EUA de impor as mais duras sanções ao Irã. Mas quando se trata da condição da classe trabalhadora, o que descrevi não é novo. Esta é a condição em que os trabalhadores vivem há décadas. Vivendo abaixo da linha da pobreza, trabalhando em dois empregos (de dia e de noite), fazendo com que todos da família trabalhem, sem contracheques durante meses, assinando “contratos em branco” em que renunciam ao direito de reivindicar seguros ou apresentar queixas contra um empregador por questões de segurança no trabalho. Mesmo a venda de órgãos e crianças não é incomum nos últimos meses ou anos.</p>
<figure id="attachment_121942" aria-describedby="caption-attachment-121942" style="width: 512px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-121942" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/07/images-14.jpeg" alt="" width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-121942" class="wp-caption-text">Iranian Labor News Agency. 25, Jun. 2018</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Existem muito poucas pequenas organizações independentes de trabalhadores sob a forma sindical. O regime tem seus próprios “sindicatos” chamados “conselhos de trabalhadores islâmicos” e, tendo-os como pretexto, suprime qualquer organização independente. No momento, ainda que participem dos protestos de rua, os trabalhadores parecem estar “quietos”, ou realizando seus próprios protestos defensivos como antes em seus locais de trabalho. Eu realmente não consigo entender como eles conseguem viver com salários tão baixos e inflação alta. Para ilustrar a situação, considere estas informações: enquanto o salário mínimo no Irã é de cerca de US$ 200,00 por mês [<strong>Nota do Passa Palavra</strong>: R$ 770,08 pelo câmbio de 15 de julho de 2018], o nível dos preços pode competir com o dos europeus!</p>
<p style="text-align: justify;">Não admira que a sociedade esteja explodindo ou possa explodir novamente a qualquer momento! Claro, não estou falando sobre o que cada trabalhador fará. Em vez disso, quero esclarecer as condições em que uma parte da classe trabalhadora é forçada a agir como tal.</p>
<blockquote><p>Traduzido e revisado pelo Passa Palavra a partir do original publicado em <a href="http://insurgentnotes.com/2018/07/iranians-in-revolt">Insurgent Notes</a>.</p></blockquote>
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		<title>&#8220;Uma revolução real é uma massa de contradições&#8221;: entrevista com um voluntário em Rojava</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Mar 2017 18:13:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
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					<description><![CDATA[A revolução está avançando mediante formas de democracia popular, libertação das mulheres e algum tipo de economia solidária. Plan C entrevista Peter Loo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Plan C entrevista Peter Loo</h3>
<p style="text-align: justify;">Em outubro de 2016 Peter Loo chegou a Rojava <strong>[1]</strong> para trabalhar voluntariamente como professor de inglês e participar do cotidiano daquela sociedade &#8211; era o resultado de mais de 14 meses de organização pelo Grupo de Solidariedade a Rojava do Plan C <strong>[2]</strong>. Atualmente ele está trabalhando na campanha do SYPG [Instituto pela Solidariedade e Unidade dos Povos, na sigla em curdo] em Qamishlo. Além de oferecer as suas habilidades diretamente, Peter tem viajado a vários lugares em Rojava e conversado com muitas pessoas sobre o quanto o futuro da região e de toda a Síria segue indefinido. Esta entrevista ocorreu em dezembro de 2016.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Grupo de Solidariedade à Rojava (GS):</strong> <em>Olá, Peter. Temos muitas perguntas sobre suas experiências até agora, mas talvez você possa explicar um pouco a história para os leitores que não conheçam os detalhes.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Peter Loo (PL):</strong> Bem, devemos começar falando brevemente das origens da revolução. Muitos pulam essa parte, mas ela é fundamental para se entender a dinâmica da revolução como um todo. O Partido da Unidade Democrática (PYD, na sigla em curdo), que liderou a revolução, tem atuado no norte da Síria / Curdistão Ocidental (Rojava é o nome curdo para Oeste) desde 2003. Antes dele, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), a quem o PYD é filiado, tinha sido autorizado pelo regime a utilizar a região como base de organização contra o Estado turco, até a sua expulsão em 1998.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro protesto contra Assad ocorreu no início de 2011 e, na primavera, o PYD começou a concentrar esforços na organização da comunidade curda, formando comitês locais e unidades armadas de autodefesa (as precursoras do YPG e das forças femininas do YPJ). Essa deveria ser a base social da revolução. Em meados de julho de 2012, quando a luta social contra Assad transformou-se num conflito militar sangrento, que envolvia diversos poderes internacionais, aquelas unidades de autodefesa, reforçadas por guerrilheiros treinados pelo PKK, expulsaram as forças do regime de várias cidades no norte do país. As unidades de defesa do PYD tomaram o controle das principais estradas e expulsaram as forças do regime de lugares-chave com poucos confrontos e baixas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113270 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava10.jpg" alt="" width="1304" height="400" /></p>
<p style="text-align: justify;">A revolta teve uma geografia diferente: áreas de população predominantemente curda, onde o PYD estave se organizando, foram aquelas em que houve levante e expulsão das forças do regime. Em áreas sem maioria esmagadora curda, as forças de Assad conseguiram manter sua presença. Aqui em Qamishlo, onde estima-se 20% de apoio da população ao regime, ocorreram alguns duros combates mas o regime conseguiu manter o controle de muitos prédios públicos. Julho de 2012 marca o aparecimento de Rojava como uma força distinta no conflito sírio. Os cantões que se formaram declararam oposição a Assad (argumentando, no entanto, que ele deveria ser removido do cargo através de eleições, e não pela força), não como parte da constelação rapidamente fragmentada dos Rebeldes Sírios. É complicada a relação entre Rojava e o Exército Livre da Síria (FSA, na sigla em inglês) &#8211; as forças militares inicialmente formadas pelos rebeldes &#8211; havendo exemplos tanto de cooperação quanto de conflito entre Rojava e diferentes parcelas do FSA desde o início da revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Este relato das origens da revolução como insurreição popular é contestado pelos mais críticos da Revolução de Rojava, que se recusam em juntar-se a uma revolta mais ampla contra Assad. No Reino Unido, de modo mais explícito, entre estes críticos estão Robin Yassin-Kassab e Leila al-Shami, autores de Burning Country. Neste livro, que só toca no tema de Rojava brevemente, os autores argumentam que a retirada das forças de Assad foi “aparentemente coordenada” com o PYD, cuja chegada ao poder já era um fato consumado, sendo acordado de antemão com o regime a liberação de tropas para o combate contra os rebeldes em outros lugares. Estas duas narrativas (fato consumado ou insurreição bem-sucedida) são conflitantes e eu não tenho uma resposta definitiva &#8211; talvez as coisas fiquem mais claras em poucos meses, à medida que for se delineando o futuro do relacionamento entre Rojava e o regime. No entanto, a tese do fato consumado não explica por que houve baixas militares nos primeiros dias, nem por que as hostilidades continuam acontecendo esporadicamente. Uma conspiração não parece provável. Em vez disso, [é provável que] ao reconhecer que a realidade política de Rojava havia se transformado com a insurreição, Assad renegociou sua posição política em relação a esta parte da Síria, possivelmente mantendo abertas as suas alternativas a longo prazo.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir deste início a revolução se expandiu geograficamente &#8211; dois dos três cantões estão diretamente conectados (Kobane e Cizire), e segue a luta para conectá-los ao cantão de Efrin &#8211; como também se expandiu socialmente. Foi instituído um sistema político baseado na descentralização (o confederalismo) e na construção das “comunas” em nível local, um sistema econômico que prioriza cooperativas e assegura localmente as necessidades básicas das pessoas, e uma gigantesca transformação das relações de gênero em curso. Esta é uma das mais empolgantes lutas políticas que têm ocorrido no mundo atualmente, tanto em termos de escala quanto de conteúdo, ainda mais impressionante tendo em conta o conflito que continua a se desenrolar na Síria e a hostilidade vinda dos países vizinhos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Depois retomaremos o tema da relação entre a revolução e o regime. Então a revolução começou como um movimento liderado pelo PYD, apoiado principalmente por curdos?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-128648 alignright" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava1-1.jpg" alt="" width="313" height="418" />PL: </strong>Exatamente. Depois do que podemos chamar de fase insurrecional da revolução &#8211; eliminando o regime do controle efetivo &#8211; a fase seguinte foi a de uma consolidação política e da implementação de um programa político. Este programa tem três eixos centrais: um sistema de democracia de base (que se dá numa relação com partidos políticos formais e uma forma de sistema representativo), conhecido por confederalismo democrático; uma revolução feminina; e um programa ecológico (de longe o aspecto menos desenvolvido até o momento). Conseguir apoio a este programa, para além do PYD e da comunidade curda, foram as tarefas imediatas da revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos pequenos partidos políticos formam agora uma parte ativa da revolução, trabalhando juntos no interior do Movimento por uma Sociedade Democrática (TEV-DEM, na sigla curda). Obviamente, nem todos apoiam esse processo. O Conselho Nacional Curdo (ENKS), uma coalizão de 16 partidos dominada por Massoud Barzani, presidente do Governo Regional Curdo (KRG) do Iraque, tem sido um declarado opositor de muitos dos desenvolvimentos em Rojava. Barzani não compartilha da visão política do PYD, modelando o KRG no rumo de Estado petroleiro, a exemplo de Dubai, e implementa atualmente um embargo total a Rojava, em cooperação com o seu aliado, a Turquia, o que tem gerado todo o tipo de problema. Em função destas tensões, Carl Drott, da Universidade de Oxford, disse que “às vezes parece que a única política consistente do Conselho Nacional Curdo [ENKS] é opor-se a qualquer coisa que o PYD faça”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda mais importante é que a revolução tem priorizado a conquista da confiança e do apoio de todas as comunidades aqui em Rojava. Estas comunidades (árabe, síria, chechena, armênia, turcomana, etc.) estão cada vez mais participando, em maior número, conforme o tempo vai passando, e veem as ideias de revolução &#8211; e seus benefícios &#8211; sendo postas em prática, tanto quanto veem que não há um retorno do regime. As razões para apoiar a revolução variam dos mais motivados politicamente, que desejam um Curdistão livre ou a crença nas políticas de Öcalan [o líder do PKK, preso na Turquia] e sua visão de confederalismo, ao desejo menos abstrato de paz, segurança e garantia de serviços básicos, que a revolução está proporcionando. Todos aqui amam profundamente o YPG e o YPJ e esse apoio se estendeu à aliança militar &#8211; as Forças Democráticas Sírias &#8211; que eles construíram com outras milícias progressistas (de diferentes etnias) da região.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolução começou dentro da comunidade curda e a conquista de apoio no interior de outras comunidades é uma prioridade central. Isso inclui trabalhar com milhares de refugiados árabes que fogem do conflito por toda a Síria e que estão sendo impedidos pela Turquia de viajar para a Europa. Parte do meu trabalho aqui com o TEV-DEM gira em torno da construção desse apoio entre as comunidades. A comunidade assíria [também chamada de siríaca], por exemplo, está fortemente dividida entre o regime e a revolução, sendo que cada facção tem as suas próprias unidades militares e policiais. Atravessando os bairros assírios estas divisões são bastante nítidas, uma rua cheia de retratos de Assad e bandeiras do regime, a seguinte com pontos de controle pró-revolução com slogans revolucionários nos muros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Vamos abordar a espinhosa questão da relação entre o regime e o PYD. Resumindo, o que está acontecendo?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Bem, como eu disse antes, a revolução não expulsou o regime em todos os lugares. Aqui em Qamishlo, o regime ainda tem uma presença. Por exemplo, quando Aleppo foi “liberada” recentemente, em alguns bairros foram estrondosas as celebrações pela vitória de Assad, e o regime ainda paga os salários de alguns funcionários públicos, como os professores. Ocasionalmente surgem conflitos nas cidades em que o regime ainda se faz presente, como Qamishlo e Hasseke.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-113272 alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava2.jpg" alt="" width="319" height="425" />Como eu disse antes, a revolução aqui se constituiu como uma força independente do movimento rebelde mais amplo (ele mesmo muito diversificado) contra Assad. Ela tem contado com o apoio de movimento sociais internacionais, partidos políticos progressistas, e também, de modo mais controverso, com o apoio de grandes Estados, como os EUA e (às vezes) a Rússia. Estes têm, em certa medida, impedido Assad ou, especialmente neste momento, o Estado turco, de esmagá-la, mas a situação ainda é perigosa. Quanto ao regime, não está claro no momento qual a orientação dele frente à Rojava, e vice-versa. Neste momento, nenhum dos lados tem força militar suficiente para derrotar facilmente um ao outro. Com a derrota dos rebeldes, que basicamente estará assegurada com a reocupação de Aleppo, isso poderá mudar. Por exemplo, as YPG e YPJ no extenso bairro curdo de Aleppo, Sheiq Maqsoud, que o defenderam dos ataques rebeldes (como também ajudaram as forças de Assad em alguns pontos do combate), agora se retiraram de lá, deixando somente a Asayish (uma força policial) no bairro.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta “relação” com o regime tem sido criticada por muitos. No início do levante sírio o potencial de uma aliança mais ampla entre curdos e árabes parecia possível, mas falhou por várias razões. Estas incluem um chauvinismo árabe latente, um sub-produto de décadas de governo colonial em Rojava pelo regime, que foi um fator na falta de vontade &#8211; tanto do regime quanto dos rebeldes &#8211; de ver a autonomia curda estabelecida. A ascensão da proeminência de forças islâmicas do lado rebelde também bloqueou uma aliança em larga escala entre a revolução de Rojava e os rebeldes. Alianças têm sido feitas com algumas forças nas regiões que compõem os cantões, como as SDF [Forças Democráticas Sírias], mas uma ampla aliança com as maiores facções do lado rebelde não aconteceu. Essa aliança perdida, se alguma vez foi possível, provavelmente influenciou de modo significativo o resultado do resto do conflito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Temos visto uma rápida expansão dos cantões de Rojava, particularmente em áreas de significativa população árabe. Você pode nos contar das suas experiências em torno do modo como os diferentes grupos étnicos têm se incorporado na revolução, e como ela tem sido recebida?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Desde 2015 as áreas controladas pelos cantões se expandiram de forma massiva por meio de suas ofensivas contra o ISIS. É inegável que uma das razões para isso é a construção de um sistema contínuo e conectado de cantões. Tais ofensivas, em geral feitas por militares curdos em áreas predominantemente árabes, provocaram alguns problemas. Em dezembro eu tive a oportunidade de visitar o front em Salouk [próximo a Al-Raqqa]. À medida que a ofensiva em Raqqa ia empurrando as linhas de frente para mais adiante, as pessoas iam podendo retornar às suas aldeias. De modo geral, junto aos aldeões com os quais estive, percebi um amplo apoio às SDF, que eles contactaram. Entretanto, nem todos esses aldeões concordam com o rumo dos acontecimentos &#8211; muitos, nos disseram, tinham sido ou ainda eram apoiadores do ISIS. Visitamos um Tabur (unidade militar) que tinha sido alvo de um ataque suicida no princípio do ano; o sujeito que fez isso era um visitante frequente, morador da aldeia vizinha.</p>
<p style="text-align: justify;">Na medida em que a área controlada pelo sistema confederado se expandia, algumas mudanças aconteceram para acomodar o crescente número de integrantes não-curdos. Já comentei que as SDF constituem uma coalizão militar multiétnica, que implicou em um passo positivo para a revolução. O atual nome oficial da região, Federação Democrática do Norte da Síria, é uma indicação do projeto multiétnico que a revolução tenta construir. Tempos atrás vimos a fala de um dos co-presidentes da confederação, Mansur Salem, que é um árabe sírio, e ele enfatizava como a construção deste apoio multiétnico é um desafio político chave para a revolução.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Até que ponto a ideologia da revolução tem sido apreendida pelas pessoas comuns?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Visitantes que chegarem em Rojava com expectativas em torno de uma experiência revolucionária transcendental ficarão desapontados. Dado o trabalho incrível que tem acontecido, e o que toda a grande mídia tem produzido para a audiência ocidental, isto não é surpreendente. No entanto, para além do front, o caminho pelo qual a revolução tem se manifestado pode muitas vezes ser extremamente sutil, e menos desenvolvido do que se espera ou deseja.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113273 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava3.jpg" alt="" width="864" height="486" /></p>
<p style="text-align: justify;">Eu já falei como a expansão dos valores revolucionários no interior de outras comunidades é um trabalho em andamento. Um outro exemplo é que, enquanto os níveis mais altos do sistema confederado, sobretudo nas cidades, estão bem desenvolvidos, o nível mais baixo, a comuna &#8211; instituição de nível comunitário, nos bairros, onde ocorre a participação mais direta nas assembleias políticas e nos comitês políticos temáticos &#8211; não está tão desenvolvida, como se poderia pensar de fora. As razões para isso retomam as origens e dinâmicas da fase insurrecional da revolução, como discutido anteriormente.</p>
<p style="text-align: justify;">Contrariando a intuição, temos os níveis mais altos desse sistema político buscando ativamente expandir a participação política das bases. Muito trabalho tem sido feito para ampliar numérica e geograficamente as comunas. Isto requer encontrar recursos físicos e educar as pessoas nas comunidades locais quanto aos valores da revolução e os modos (às vezes complicados) pelos quais o sistema funciona. Mas talvez o elemento mais visível da revolução, por aqui, seja o papel das mulheres na sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Esta era a minha próxima questão. A imagem muitas vezes projetada da revolução enfatiza a libertação feminina e o papel do YPJ em liderar o chamado para a mudança nas relações de gênero. O quanto isso impacta o cotidiano em Rojava? É uma parte de fato essencial do movimento?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Uma crítica da esquerda na Europa, como exemplificado em um recente artigo de Gilles Dauvé <a class="urlextern" title="http://www.troploin.fr/node/83" href="http://www.troploin.fr/node/83" rel="nofollow">Rojava: reality and rhetoric</a>, é a de que a revolução das mulheres em Rojava se limita às mulheres das YPJ. Se for assim, então Rojava não pode ser visto como um lugar onde há uma revolução das mulheres. Afinal, o Estado de Israel recruta mulheres em suas tropas e [Muammar] Gaddafi era famoso por utilizar guarda-costas mulheres. A história está cheia de exemplos em que as mulheres desempenham um papel significativo em lutas sociais ou conflitos militares, apenas para retornarem a posições sociais subservientes ao final das hostilidades. No entanto, não é aqui que a revolução das mulheres em Rojava termina. Nem para no ponto em que assegura um mínimo de 40% de representação feminina em todos os comitês e na igualdade no número de porta-vozes (o que, isoladamente, vai mais longe do que a maioria dos estados ocidentais).</p>
<p style="text-align: justify;">De modo subjacente a todos estes resultados claramente visíveis está o lento, paciente desenvolvimento do movimento político das mulheres: educação política para que as mulheres possam desenvolver as suas habilidades e a confiança de organizadoras futuras, formas de (re)educação e intervenção contra os homens que abusam, a atividade dos comitês de mulheres em todos os níveis do sistema confederado, e o incansável trabalho do Kongreya Star (Congresso Estrela), que é a expressão organizada do movimento de mulheres aqui.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113274 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava4.jpg" alt="" width="864" height="648" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez mais, este não é um processo livre de problemas; estas mudanças estão sendo produzidas sobre uma sociedade extremamente conservadora, onde a violência contra a mulher, os assassinatos por questões de honra, os casamentos forçados, uma diferença salarial incrivelmente alta, bem como as mais rotineiras características do patriarcado eram extremamente comuns antes da revolução. O movimento está trabalhando duro para envolver a todos, para ser firme e tomar atitudes imediatas onde estas são necessárias ou agir mais a longo prazo onde assim for mais efetivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Como tudo aqui, compartilham-se muitas características dos movimentos ocidentais, mas mantêm-se também muitas diferenças. Os fundamentos políticos do movimento das mulheres aqui é chamado por todos de Jineologia, que significa a ciência da mulher. Öcalan é, sem surpresa, o teórico chave da Jineologia, tendo apresentado amplos argumentos sobre as raízes históricas do patriarcado que sucedeu uma sociedade matriarcal pacífica. O capitalismo é visto como inerentemente patriarcal e Öcalan, que, uma vez mais, é o ponto de referência central para o movimento, defende que “a necessidade de reverter o papel do homem tem importância revolucionária”.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, algumas partes dessa teoria são mais problemáticas para algumas feministas do Ocidente. Por exemplo, a abordagem jineológica do gênero parece essencialista, em que características definidas são atribuídas aos gêneros. Feministas <em>queer</em> acharão esta ideologia bastante desafiadora. As políticas de sexualidade também são bastante diferentes daquelas do Ocidente, são praticamente proibidas as relações sexuais entre quadros militantes, e no resto da sociedade é forte a ênfase na abstinência até o casamento. Em muitas entrevistas, quando a diversidade sexual é abordada, a resposta padrão parece ser algo na linha do “nunca encontramos gays em Rojava”. No entanto, isso é algo que esperançosamente deverá ser abordado com o tempo, e já ouvi relatos de palestras sobre políticas LGBT ocorrendo em algumas áreas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>É um bom ponto sobre a Jineologia não ser derivada diretamente do feminismo ocidental. Pode-se dizer o mesmo sobre os movimentos apoistas em geral?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Sim, com certeza. Muitos debates sobre o PKK construídos a partir da tentativa de responder se eles são ou não uma organização anarquista têm circulado em alguns meios porque falharam em analisar o próprio movimento. Do mesmo modo que o PKK nunca foi, historicamente, uma organização marxista-leninista tradicional, não é, hoje, um movimento anarquista. O PKK e suas organizações irmãs se autodefinem como “apoistas” – um movimento construído essencialmente em torno de Abdullah Öcalan e sua obra, digamos, bastante eclética. Os movimentos baseados em sua visão política são contraditórios, especialmente desde o desenvolvimento do “novo paradigma”, desde a prisão de Öcalan em 1999. Este paradigma mudou substancialmente muitas partes da visão política do PKK. Ainda que o PKK tenha renunciado formalmente ao desenho de um Estado curdo independente e substituído-o por seu modelo de confederalismo democrático, ele ainda é um movimento hierárquico com disciplina rígida para os quadros e um culto à personalidade em torno do próprio Öcalan. Sua concepção de revolução não se deixa mapear entre aquelas sustentadas pelos movimentos revolucionários clássicos, sendo:</p>
<blockquote><p><em>”…nem a ideia anarquista de abolição imediata do Estado, nem a ideia comunista de tomar o Estado inteiro imediatamente. Com o tempo, organizaremos alternativas para cada parte do Estado geridas pelo povo, e quando elas forem exitosas, aquela parte do Estado se dissolve.”</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">De particular importância é o fato de que sua crítica do capitalismo – ou, em sua própria terminologia, da modernidade capitalista – apesar de bastante opaca (uma opacidade que não é propriamente ajudada pela falta de obras do movimento traduzidas para o inglês), certamente não é tão fundamental quanto aquelas oriundas da tradição marxista. Embora o movimento apoista corresponda a muitos dos valores das tradições socialista e anarquista, ele é um tanto distinto e diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve um artigo escrito por dois outros voluntários internacionais que se autodefinem como anarquistas no site do Plan C há pouco tempo. O artigo apresenta alguns pontos importantes e úteis sobre as complicações da prestação de solidariedade aqui, e por esta razão deveria, definitivamente, ser lido. Eles mostram um ponto (incontroverso) de que o trabalho em Rojava não é neutro. As escolhas a respeito de como e com quem trabalhamos aqui fortalecerá alguns grupos, indivíduos e dinâmicas ao invés de outros, e precisamos estar atentos a tal fato.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113275 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava5.jpg" alt="" width="864" height="648" /></p>
<p style="text-align: justify;">Leio esta afirmação como se usasse o argumento implícito, comum a muitos na esquerda antiautoritária, de apoiar o povo ou os movimentos sociais ao invés de partidos organizados. Um problema particular com esta perspectiva é que o movimento apoista transcendeu os limites de seus partidos políticos e é, também, um movimento social de massas com elementos de auto-organização que ultrapassam os partidos. Argumentaria que a esquerda revolucionária precisa apoiar o PYD e os movimentos apoistas por todo o Oriente Médio ao invés de um “povo” sem alinhamento político, mal-definido e, potencialmente, ficcional. Eles são uma força progressista muito grande, talvez a maior no Oriente Médio, e a maior parte de suas políticas se assemelha muito fortemente com as nossas. A demonstração de um compromisso sério com um trabalho de solidariedade prática e real, que uma vez ultrapassada a fase da simples escrita de artigos começa a se tornar muito desafiadora, ajuda a construir a plataforma a partir da qual é possível entabular debates com estes movimentos. Há partes da visão apoista que adoraria debater criticamente com eles (por exemplo, definições e críticas ao capitalismo), mas isto só acontecerá com alguma relevância quando se possa demonstrar algum tipo de “folha corrida”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Voltando às comunas, qual sua importância?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Num nível local elas são importantes para resolver problemas menores, lançar luzes sobre problemas mais amplos, e funcionar como a correia de transmissão local das ideias da revolução. Além de tocar as assembleias e comitês locais, os elementos mais baixos do sistema servem como centros de mobilização do povo para a autodefesa, ou para manifestações e passeatas. Quando vamos a eventos políticos, costumamos sair em grandes comboios de ônibus saindo do Mala Gel (Casa do Povo – basicamente, um centro social) de nossa vizinhança, e quando organizamos eventos as comunas locais são um recurso vital para nos conectarmos diretamente com o povo. Ainda não vi o suficiente deste sistema complexo para avaliar até que ponto as ideias básicas deste sistema são ouvidas nos escalões mais altos do sistema federal por meio dos vários delegados eleitos e comitês temáticos.</p>
<p style="text-align: justify;">É até engraçado, encontrei um marxista-leninista europeu aqui que estava convencido de que os anarquistas tinham entendido a revolução de modo totalmente equivocado, e que as comunas tinham um papel bastante periférico em tudo o que acontecia. Para ele, a revolução era dominada pelo PYD, com o YPG e o YPJ fornecendo a força por trás dele. Quando ele encontrou um dos partidos marxistas-leninistas internacionais aqui fazendo um trabalho comunitário consistente, promovendo e realmente construindo comunas, toda sua atitude mudou completamente. Talvez alguns na esquerda estejam um pouco otimistas sobre até que ponto o sistema de comunas está desenvolvido, mas ele definitivamente existe e cresce; o que não podemos fazer é confundir nossos desejos com a realidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>A questão econômica. Uma das perguntas mais importantes para muitos na esquerda é: que tipo de economia está sendo construída?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> O Norte da Síria, historicamente, foi deliberadamente subdesenvolvido pelo regime sírio e tratado como uma colônia interna. Colonos árabes eram encorajados a se mudar para a região e, junto com a exploração das reservas de petróleo encontradas na área, o outro setor principal, a produção agrícola, foi estritamente planejada e gerenciada. O que é hoje o cantão de Efrin teve suas muitas florestas substituídas por plantagens de oliveiras, enquanto nos anos 1970 o regime espalhou o rumor de que uma praga que afetava a produção de tomates estava se espalhado desde a Turquia, visando estimular a conversão completa da produção agrícola do cantão de Cizire para o cultivo de trigo. No inverno, é uma experiência bastante sombria dirigir nos campos vazios sem fim que compõem o interior do cantão de Cizire. Agora estão em curso esforços para diversificar a produção agrícola, tanto por razões ecológicas quanto econômicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a revolução não herdou muito em termos de meios de produção em larga escala. As poucas instalações existentes de grande produção foram socializadas. Creio que estes são uma fábrica de concreto, os poços de concreto, e, desde a campanha de Manbij, a barragem de Tishrin. Aqui em Qamishlo há, aproximadamente, 60 “fábricas”, com um tamanho máximo de 20 empregados. Algumas delas são privadas, algumas funcionam como cooperativas. A vertente comercial e logística da vida em Rojava também é de pequena escala. Quando o regime foi desalojado, pouco havia em termos de sistemas logísticos de larga escala que poderiam ser socializados &#8211; sistemas de transporte, ou os sistemas de logística integrados que as grandes redes de supermercado possuem. O minúsculo sistema ferroviário está fora de serviço e o regime controla o aeroporto em Qamishlo, que só mantém uma rota interna irregular para Damasco.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113276 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava8.jpg" alt="" width="900" height="473" /></p>
<p style="text-align: justify;">Janet Biehl, conselheira de desenvolvimento econômico no cantão de Cizire, em uma grande entrevista discute as “três economias” que funcionam paralelamente em Rojava. Você pode lê-la, mas, em resumo, há uma “economia de guerra”, uma “economia aberta” (ou seja, economia privada) e uma “economia social”. No momento, a economia de guerra &#8211; com pão e petróleo subsidiado, por exemplo &#8211; domina, com a economia social das cooperativas despontando como uma esperança futura. Obviamente o perigo é se/quando terminar o embargo e o investimento privado for permitido &#8211; sobretudo para infraestruturas dispendiosas como refinarias de petróleo e indústria pesada &#8211; que a economia social seja completamente abandonada.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu não gostaria de me aventurar em uma previsão quanto ao futuro da economia aqui, embora os desafios futuros pareçam bastante claros, mas eu posso dizer que é decepcionante que alguns na esquerda não estejam apoiando o que acontece aqui em razão da persistência da propriedade privada, da produção de <em>commodities</em> e do assalariamento. Isso é um tipo de purismo do “tudo ou nada”, que em geral vem de um lugar abstrato, aparentemente distante do reconhecimento das dificuldades de mudança social real. Nenhuma revolução até aqui conseguiu abolir as relações capitalistas &#8211; e muito menos no espaço de poucos anos, durante uma guerra por procuração internacional, ao mesmo tempo em que sofre um embargo! Embora a crítica apoista da modernidade capitalista seja claramente não-marxista, aqui em Rojava esta estratégia econômica é amplamente progressista &#8211; ainda que haja pontos de interrogação quanto ao seu futuro &#8211; e isso merece a nossa solidariedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece miopia recusar-se a apoiar porque o capitalismo ainda funcionará de alguma forma em um futuro próximo. É interessante que muitas vezes apoiamos lutas sociais não-comunistas até o ponto em que elas alcançam condições de mudar o mundo de forma significativa, ponto esse em que muitos de nós retiramos o nosso apoio. Precisamos ter uma visão de longo prazo das mudança social, que a reconheça como um processo contraditório e complicado. Somente pelo fato de que a revolução aqui não está, imediatamente, implantando o comunismo, não significa que não devamos apoiá-la.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Qual o perfil político dominante dos voluntários internacionais? Que tipo de expectativas eles trazem, e de que modo estas são confirmadas ou subvertidas?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Em geral, as pessoas que chegam aqui são uma mistura entre os muito otimistas e aqueles que esperam por algo mais realista. Em um momento, baseado apenas na cobertura feita pela internet, parecia que a maioria dos voluntários eram aventureiros, liberais bem intencionados, ou mais ainda pessoas de direita querendo somente combater o ISIS.</p>
<p style="text-align: justify;">Evidentemente há muitos voluntários da diáspora curda, mas, além destes, a maioria dos voluntários que eu conheci aqui, ou dos quais ouvi falar, são pessoas de esquerda. Há uma presença relativamente grande de camaradas turcos, membros de organizações marxistas-leninistas e maoistas, por exemplo. Os outros voluntários são principalmente da Europa e da América do Norte, e a maioria está em unidades militares. Isso inclui um dedicado Tabur internacional &#8211; o Batalhão Internacional da Liberdade -, que as pessoas em casa provavelmente conhecem por meio das ótimas fotos da sua “Brigada Bob Crow”, formada por voluntários anglófonos.</p>
<p style="text-align: justify;">Devido às barreiras linguísticas e às dificuldades de viajar para cá e encontrar uma ocupação em que se possa ser útil, não há muitos voluntários estrangeiros na sociedade civil. Esperemos que isso fique mais fácil com o passar do tempo. No momento, se as pessoas quiserem se voluntariar aqui, devem pensar sobre as habilidades que têm ou que podem obter antes de vir. Por exemplo, se estiverem interessadas em treinar para atuarem como professores de inglês como segunda língua, esta é uma ótima maneira de ser útil aqui, pois a demanda por estas aulas é enorme.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113277 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava7.jpg" alt="" width="864" height="648" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>O que você acha que a presença de voluntários internacionais acrescenta ao movimento?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Por vezes, habilidades específicas bastante demandadas aqui, por exemplo, médicos. Se não isso, ao menos os voluntários trabalham como uma conexão entre Rojava e o resto do mundo. As pessoas aqui sabem que não estão sozinhas, e o resto do mundo começa a descobrir um pouco mais sobre o que está acontecendo aqui. Esta é, certamente, uma grande responsabilidade para aqueles que têm habilidade de relatar e retratar toda uma revolução com base em suas experiências. Aqueles dentre nós que têm feito isso, precisam tentar ser honestos quanto ao que vimos, quanto ao que pensamos, e em relação aos limites de nossa experiência pessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é surpresa, mas é decepcionante ver críticas à maioria dos voluntários como &#8216;aventureiros orientalistas&#8217;, &#8216;islamofóbicos enrustidos&#8217;, ou &#8216;fantasiados com um complexo de herói&#8217;, críticas estas que surgiram em alguns setores da esquerda. Enquanto alguns se encaixam neste perfil, este não é o caso da maioria &#8211; em especial os camaradas politicamente ativos que têm respondido às chamadas por voluntários. O YPG também está tomando medidas para filtrar este tipo de voluntário. É surpreendente como até mesmo o que eu tomaria como um valor histórico incontroverso do movimento comunista &#8211; o internacionalismo &#8211; é bombardeado por aqueles que também se veem como parte da esquerda. Parece que aqui e agora há mais voluntários de esquerda de estruturas pré-existentes, ou talvez eles estejam apenas utilizando melhor os canais de mídia. Seja como for, repetir com insistência o ponto de que se trata de uma luta progressista que precisa de apoio da esquerda internacional, e que se vê como parte de um movimento internacional, é intensamente importante e é uma tarefa política na qual todos podemos nos envolver.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>O que você considera ser o impacto mais significativo da revolução até agora?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Para os povos da região, a revolução os libertou da dominação do regime de Assad e do ISIS. E também houve progressos massivos em termos de libertação feminina e democracia direta. Internacionalmente a revolução deu um forte impulso às lutas ao norte da fronteira, em Bakur, na Turquia<strong>[3]</strong> e aos revolucionários mais distantes. Embora nós precisemos ter cautela, há muitas lições para se tomar dessa revolução. No mínimo, Rojava serve como um lembrete que a revolução é sempre uma possibilidade onde os revolucionários estão organizados, comprometidos e preparados para arriscarem as suas vidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Algum comentário final?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> A revolução aqui não esboça a fantasia perfeita de alguns revolucionários do Ocidente. Não foi o levante espontâneo da maioria esmagadora do povo, não aboliram o Estado (se é que isso é possível) ou o capitalismo, e ainda há problemas para resolver. Apesar do fato de que não se trata de comunismo pleno aqui e agora, esta revolução precisa ser aplaudida e apoiada. Como todas as revoluções, esta não emergiu totalmente formada, mas tem sido feita rapidamente em face de toda a oposição que sofre. Ao contrário de muitas revoluções, esta é bem difícil de definir; etiquetas como “anarquista” ou “revolução sem estado” obscurecem mais do que revelam. O que sabemos é que esta revolução está avançando mediante formas de democracia popular, libertação das mulheres e algum tipo de economia solidária. A vida em Rojava é melhor para mais pessoas do que na maior parte do Oriente Médio.</p>
<p style="text-align: justify;">Para aqueles que temem que os revolucionários tenham poder de verdade para fazer a transformação ao invés de manterem a “resistência” para sempre, gostaria de citar Murray Bookchin (cuja influência na luta aqui é certamente exagerada por alguns):</p>
<blockquote><p><em>“Os anarquistas podem reivindicar a abolição do Estado, mas alguma coerção, de algum tipo, será necessária para prevenir o retorno do Estado burguês em força total com um terror desenfreado. Para uma organização libertária, pelo medo extravagante de criar um &#8216;Estado&#8217;, se abster de tomar o poder quando puder fazê-lo com o apoio das massas revolucionárias, trata-se de uma confusão, no melhor dos casos, e um total vacilo, no pior”</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Aqueles que tomam uma posição ultra-esquerdista em Rojava, e loucamente a rejeitam, mostram-nos mais sobre as fraquezas de suas próprias políticas do que da revolução que vem se fazendo aqui. Uma revolução real é uma massa de contradições que precisam ser enfrentadas. Que a revolução esteja fazendo isso sem recorrer à ditadura de um partido político, isso faz dela uma revolução particularmente importante para que a esquerda libertária a esteja apoiando.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113278 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava9.jpg" alt="" width="960" height="720" /></p>
<p style="text-align: justify;">Existem outras formas de a esquerda manifestar solidariedade com Rojava e com a luta ampla que ocorre aqui na região do que escrever artigos e compartilhar coisas no facebook. Informar-se sobre o que está acontecendo aqui é importante, claro, mas devem ser muito maiores as obrigações das organizações políticas que apoiam a revolução e daqueles que têm capacidade. Por exemplo, no Reino Unido o Grupo de Solidariedade a Rojava do Plan C trabalha com estruturas lideradas por curdos que organizam discussões e demonstrações, tem arrecadado dinheiro para coisas como um ônibus escolar e suprimentos médicos, e agora está enviando voluntários para o trabalho civil.</p>
<p style="text-align: justify;">Existem alguns dedicados grupos de solidariedade aos curdos no Reino Unido que também fazem um grande trabalho. Quando comparado a campanhas de solidariedade de longa duração, como a solidariedade aos palestinos, por exemplo, as campanhas de solidariedade aos curdos ainda estão engatinhando. A intensificação massiva da contrarrevolução na Turquia cumpre um papel tanto dentro quanto fora de suas fronteiras, provavelmente atingirá o Iraque este ano, fazendo desta solidariedade algo ainda mais importante. Efetivas estruturas de solidariedade nacional precisam ser estabelecidas ou reunidas, atuando juntas em nível internacional. É meio clichê, mas não devemos esquecer o slogan “a solidariedade não é uma palavra, ela é uma arma”.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Peter Loo é membro do Plan C e atua no Grupo de Solidariedade a Rojava.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> ‘Rojava’ é utilizado aqui em vez de Federação Democrática do Norte da Síria – o título oficial da região – tanto por abreviar como por corresponder ao nome mais familiar no Ocidente [ver <a class="urlextern" title="https://resistenciacurda.wordpress.com/2017/01/08/rojava-ou-norte-da-siria/" href="https://resistenciacurda.wordpress.com/2017/01/08/rojava-ou-norte-da-siria/" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">aqui</a>].</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> O Plan C é uma organização britânica anticapitalista, cuja plataforma pode ser vista <a class="urlextern" title="http://www.weareplanc.org/about/" href="http://www.weareplanc.org/about/" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">aqui</a> [em inglês].</p>
<p><strong>[3]</strong> Bakur é como os curdos chamam o Curdistão do Norte, o mesmo que Curdistão turco.</p>
<blockquote><p><em>Traduzido por <strong>Passa Palavra</strong> a partir do original disponível <a href="http://novaramedia.com/2017/02/01/a-real-revolution-is-a-mass-of-contradictions-interview-with-a-rojava-volunteer/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a>.</em></p></blockquote>
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		<title>Pray for the left ― ou as perigosas opiniões da esquerda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2015 22:02:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[Conduzir um pensamento político pelos irracionalismos (nacionalismo, xenofobia, identitarismo, insensibilidade, ressentimento) pode produzir catástrofes: a saber, o fascismo. Por Coletivo Loukanikos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Coletivo Loukanikos</h3>
<p style="text-align: justify;">Antes de tudo, é preciso dizer que estamos em acordo com um recente comunicado de <a href="https://www.facebook.com/AnarquistasEnsinam/photos/a.426598794039953.106867.426597257373440/1053111954721964/?type=3&amp;fref=nf" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><em>Anarquistas Ensinam </em></a>e o de <a href="http://www.alternativelibertaire.org/?Attentats-de-Paris-Contre-leurs" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><em>Alternative Libertaire</em></a>, publicados no momento em que escrevemos este texto, o qual vai no mesmo sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">A fazenda eletrônica criada por Mark Zuckerberg já tem várias cabeças que por lá publicam informações e as debatem. Por ser bem habitada por trabalhadores, não é incompreensível que por lá se veicule a propaganda e opiniões de setores da esquerda. É preocupante, porém, pelo fato de que outros espaços propícios ao debate ― sejam na própria internet, com sua facilidade, ou mesmo os cara-a-cara ― estejam sendo constantemente substituídos pela fazenda, que tem políticas corporativas quase discretas de censura, seleção algorítmica de conteúdo e, obviamente, sendo um fácil e organizado catálogo para espiões de agências de repressão. O fato de nos mantermos sempre presos entre as cercas de Zuckerberg é algo que mereceria nossa atenção, mas é um assunto para outro debate. Por agora, trataremos de preocupações que se dão ainda no espaço da fazenda.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2015/12/1.jpg" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-107030 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/1-300x168.jpg" alt="1" width="300" height="168" /></a>É preocupante a reação de muitos indivíduos de esquerda nos contextos de tragédias, como a de ontem em Paris. Ao reagirem à explícita hipocrisia e seletividade da imprensa capitalista (a brasileira em destaque) e à importância que essa dá a uma tragédia em um país como a França, em detrimento de outras tragédias em países mais pobres, certos indivíduos de esquerda tentam medir quais dores são maiores e, assim, também estabelecem uma seletividade ao elencar quais tragédias devem ser mais relevantes. O pior de tudo: relativizam ou simplesmente alegam insensibilidade e ausência de empatia a vítimas de atentados na Europa, dizendo que há atentados piores e que não recebem o espaço devido na imprensa capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando do atentado ao Charlie Hebdo, a onda era menosprezar o acontecimento, pois o Estado brasileiro mata jovens negros todos os dias na periferia. Ou porque também houve atentados do Boko Haram na Nigéria, e do Al-Shabaab na Universidade de Garissa, no Quênia, os quais ganharam menos atenção da imprensa corporativa e menos (ou nenhuma) lágrima dos chefes de Estado que, hipocritamente, <em>étaient Charlie</em>. Aliás, diziam alguns colegas de esquerda que seletivamente se guiavam em uma senda identitária que o Charlie Hebdo “teve o que procurou”, por sempre ofender a religião alheia — que por ser alheia, e de muitos imigrantes pobres, é mais sagrada para alguns colegas que o cristianismo ou o judaísmo. Já agora, menosprezam os atentados em Paris porque, além de se matar muitos jovens negros nas periferias brasileiras, houve a tragédia causada pela Vale-Samarco em Minas Gerais que, apesar da cobertura da imprensa capitalista, esta hesita e faz malabarismos retóricos para não dizer o que é óbvio e tem de ser dito: a culpa é da empresa e dos agentes públicos que a beneficiam.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda no menosprezo, esses certos indivíduos de esquerda pioram as coisas quando insistem na ideia do “teve o que procurou”. Ora, estão errando o alvo, pois atingem os que já sangram no chão parisiense. Quem “procurou” foi o Estado <strong>[1]</strong>, o qual não foi atingido. Não eram as vítimas dos atentados que promoviam a guerra no Oriente Médio, nem que fechavam fronteiras ou deitavam imigrantes aos guetos. Insistir no maniqueísmo identitário anti-eurocêntrico, insinuando que as vítimas são igualmente culpadas pelas guerras ou pelo colonialismo, e portanto pelos atentados, é um erro fatal que trai o princípio do internacionalismo como princípio da esquerda que quer ser revolucionária e que se diz solidária aos refugiados.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizer também que a qualidade de vida dos trabalhadores europeus (que, é importante dizer, para a maioria destes na União Europeia está mal) é custeada pelo imperialismo, ou em outras palavras, mais claramente, dizer que o salário de europeus é fruto do saque colonial e que, portanto, esses trabalhadores são culpados por se beneficiarem historicamente do colonialismo, é mais uma vez errar grosseiramente o alvo, aliviando para a atuação do Estado de países metropolitanos em África, continente que desde o século XIX é laboratório do capitalismo que temos hoje. Com essa leitura, não sabem considerar o que é lucro e o que é salário; a esquerda que tão arrogantemente manda seus opositores estudarem parece também falhar nos estudos, mostrando não compreender a conjuntura histórica e nela a situação de trabalhadores no ciclo de mais-valia relativa nos países colonialistas.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2015/12/2.jpg" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-107031 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/2-300x200.jpg" alt="2" width="300" height="200" /></a>É justa a indignação contra a hipocrisia e seletividade da imprensa capitalista e dos chefes de Estado. Porém, fazer contorcionismos eufemísticos que no fim legitimam os atentados já não é justo. Combater os estereótipos, dizendo que nem todo islamita é terrorista, e que a grande maioria deles repudia atos terroristas como o ocorrido, também é justo. Porém, reforçar o estereótipo de que todo europeu é opressor e racista, desconsiderando que grande parte é contra a guerra empreendida pelos seus Estados, é pensar na mesma lógica, mas do outro lado. Combater o silêncio da imprensa capitalista em relação ao terrorismo de Estado nas periferias, bem como à tragédia em Minas Gerais, ou à guerra no Oriente Médio e às calamidades em África também é justo, ainda mais que se aproveitam do sensacionalismo em relação aos atentados em Paris para jogarem para debaixo do tapete aquelas tragédias. Porém, desmerecer as vítimas e o peso dos atentados, que estão contextualizados em um conflito mundial de grandes proporções, também é pensar na mesma lógica, só que do outro lado. Na verdade, nesses casos a lógica é a mesma, só o conteúdo e os alvos que são trocados.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao expressar indignação à forma de construção de informações pela imprensa capitalista, o que parece é que esses indivíduos de esquerda demonstram fé e esperança de que chegará um dia em que ela se alinhará ideologicamente aos que lutam por justiça social. Ora, todos sabem muito bem como é e quais os interesses defendidos pela imprensa <strong>capitalista</strong>. Quando esta, assim como outras empresas de outros setores, assume uma postura esperada, como, por exemplo, quando atendem as causas antirracistas ou LGBT, ou dos direitos humanos, a mesma esquerda que sabe quais são os interesses dessas empresas mais comemora que desconfia. Há conquistas, há a “visibilidade”, mas também há a apropriação de lutas e a água fria.</p>
<p style="text-align: justify;">A imprensa capitalista veicula as tragédias em Minas Gerais, mas, é claro, não aponta uma postura anticapitalista em dizer que aquilo não foi um mero acidente. Ela também veicula tragédias em outros países, mas bem discretamente, escondidas nas colunas menos lidas em seus meios. O que a esquerda não pode fazer é ter a passividade de esperar que um dia essa imprensa diga o que queremos que diga. Se a maior parte da população é manipulada e acomodada a essa imprensa capitalista, é papel da esquerda procurar meios de informar, de produzir notícias e fomentar debates dentro e, principalmente, fora da fazenda. O que é verdade, é que essa mesma esquerda tão crítica também é dependente da imprensa capitalista, apenas republicando seus conteúdos e incluindo uma análise. É uma atitude importante, mas também é importante que se pense em como se construir nossos próprios meios de informação — se não dispomos de recursos financeiros, como a imprensa capitalista que tem correspondentes por todo o planeta e equipamentos caros, que ao menos procuremos formar uma rede de informações com as mídias independentes interestaduais e internacionais.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2015/12/3.jpg" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-107032 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/3-300x182.jpg" alt="3" width="300" height="182" /></a>Criamos uma dependência à fazenda, com seus algoritmos que selecionam conteúdos, e a maior parte de notícias que lemos e republicamos são as que aparecem no feed de notícias. Essa comodidade certamente prejudica a atividade de se procurar, de ir atrás de notícias. Também somos, de certa forma, reféns da desinformação de que tanto acusamos a maior parte da classe trabalhadora presente na fazenda. Quando pessoas trocam fotos de perfis e mostram solidariedade a atentados na Europa, não significa automaticamente que são insensíveis a outras tragédias — ou quando são insensíveis, é porque se guiam pelo bombardeio de informações da imprensa capitalista, e aí a esquerda precisa repensar como se faz informação: será que somos muito chatos? Por que é tão difícil fazer visíveis as tragédias que queremos que sejam vistas? Por que, em nossas famílias, no trabalho, na escola, no ônibus, as pessoas se mostram desconfiadas com o que falamos? A hipocrisia de chefes de Estado e da imprensa capitalista que se diz solidária a atentados terroristas em Paris, certamente, não pode ser transferida a nossos conhecidos que se manifestaram solidários às vítimas.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda tem suas dificuldades em informar pessoas além dos círculos militantes, e os certos indivíduos de esquerda que se dizem insensíveis aos atentados em Paris estão falhando em sua luta, cometendo injustiças quando dizem estar procurando por justiça a quem não tem. Ao dizerem que não ligam para o que acontece na Europa, porque existem as desgraças cotidianos no Brasil, no Oriente Médio e em África, certos indivíduos de esquerda começam a agir da maneira que dizem mais desprezar. Ao se hierarquizar tragédias, mostrando-se preocupados com o que acontece em Minas Gerais ou nas periferias, a esquerda cai na armadilha antirrevolucionária: o nacionalismo. São nacionalistas na medida em que consideram que as tragédias daqui são mais dignas de revolta que as tragédias em França. São xenófobos quando desprezam as vítimas europeias, estereotipadas como eurocêntricas e racistas. Destroem a solidariedade internacionalista que a esquerda revolucionária deveria ter, deixando que fronteiras, nações e identidades seja a força motriz de suas críticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por homologarem as atitudes de Estado, da classe capitalista, a todas as populações europeias, esses indivíduos de esquerda praticam o preconceito. Os atentados não atingiram o Estado francês, mas a população civil em seu cotidiano: o restaurante, o jogo de futebol, o concerto de rock. É por essas vítimas que devemos prestar solidariedade, de forma bem distinta da “solidariedade” hipócrita e sensacionalista da imprensa capitalista e dos chefes de Estado. Ao achar graça, e achar “bem feito” para a França, cujo Estado é responsável também pelos atentados, esses certos indivíduos de esquerda aliviam e legitimam a ação de um grupo fascista, qual seja, o ISIS, que é proclamado como um Estado. E pior, agem como os “coxinhas” em comentários raivosos na internet.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2015/12/4.jpg" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-107033 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/4-300x169.jpg" alt="4" width="300" height="169" /></a>Esses certos indivíduos de esquerda vão pela via fácil do sensacionalismo, assim como a imprensa capitalista. Esquecem-se de considerar que o capitalismo é um sistema integrado, organizado internacionalmente, assim como a atuação da classe dirigente, e que os problemas que acontecem no Brasil, na Nigéria, no Quênia, na Turquia, na Síria e no Iraque devem ser igualmente preocupações políticas. A tragédia de Minas Gerais causada pela Vale-Samarco, assim como as chacinas nas periferias e a violência policial, bem como a fome, atentados e a exploração extensiva da força de trabalho em África, são tão importantes quanto as tragédias causadas por um conflito que atualmente acontece.</p>
<p style="text-align: justify;">É bom lembrar as reações de Estado e de grupos de extrema-direita aos atentados em Paris, que o nacionalismo, a xenofobia, o sensacionalismo e a hipocrisia de certos indivíduos de esquerda parecem desconsiderar. Pouco tempo depois dos atentados, o presidente François Hollande decretou estado de emergência em toda Île-de-France, bem como o encerramento de fronteiras. As ruas de Paris foram tomadas de cercos policiais e militares e, como disse um bombeiro francês em reportagem da RTP3, a França estaria em guerra. Isso significa estado de exceção, suspensão de direitos, como demonstra muito bem <a href="http://www.lemonde.fr/societe/article/2015/11/14/attaques-a-paris-ce-que-veut-dire-la-declaration-d-etat-d-urgence-en-france_4809523_3224.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a> o  que é o <em>État d’Urgence</em>. O Estado pode restringir e impedir trânsito de pessoas e veículos, estabelecer toques de recolher, invadir casas e prender pessoas sem mandado (ou com mandados feitos às pressas, desconsiderando-se qualquer direito civil garantido). Com isso, a polícia invade guetos e oprime imigrantes, mas não só. Manifestações, atividades sindicais e fluxo de informações na internet e por telefone, e até a imprensa serão censurados e coibidos pelo Estado. Isso é preocupante, e o nacionalismo de certos indivíduos de esquerda, que os deixa insensibilizados com a tragédia em Paris, impede o olhar mais atento e a solidariedade internacionalista <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Chefes e ex-chefes de governo e Estado decretaram a “guerra total, implacável e impiedosa” ao terror. Assim o fizeram Angela Merkel, François Hollande, Nicolas Sarkozy, John Kerry, Barack Obama, David Cameron, Matteo Renzi, Mariano Rajoy, Benjamin Netanyahu e Recep Erdogan. Sabemos muito bem o que isso significa e porque isso é perigoso para as populações de seus países, sobretudo os imigrantes, no alvo tanto do Estado quando do ISIS. Na Polônia, Alemanha, Itália as fronteiras também foram encerradas, assim como se acendeu o alerta em todos os países europeus. E na Bélgica, menos de uma hora depois dos atentados, o Estado decretou encerramento de fronteiras e iniciou operações policiais nos bairros de imigrantes islamitas. Na França ainda, Marine Le Pen, na extrema-direita, assim como fez Sarkozy, deixou claro quem são os inimigos: os imigrantes. Em Calais, no campo de refugiados, houve um atentado incendiário às tendas de refugiados. São estes, os refugiados, os que serão mais atingidos por toda a situação que, com certeza, trará o endurecimento do trânsito no Espaço Schengen. E é em nome desses refugiados <strong>[3]</strong>, também, que certos indivíduos de esquerda, nacionalistas e identitaristas, mostram toda sua alegada insensibilidade ou pouco caso.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2015/12/5.jpg" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-107034 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/5-300x184.jpg" alt="5" width="300" height="184" /></a>Vamos lembrar sim, do que acontece em Minas Gerais, nas periferias brasileiras; dos atentados em Beirute, em Ancara; no avião russo que foi abatido e caiu na península de Sinai; no financiamento e venda de armas e nos bombardeios da NATO [OTAN] no Oriente Médio, que atingem mais a população civil que as bases do ISIS; vamos lembrar que em 1961 houve uma grande chacina terrorista em Paris que dizimou argelinos; vamos lembrar, também, que muitos líderes de países africanos, mesmo sendo africanos, exploram suas populações e se aliam aos Estados europeus. Atentados em Paris em 2015 por grupos fascistas não são “bem feito”, assim como não foi “bem feito” a ocupação nazi em Paris em 1940. Esses indivíduos de esquerda, para serem considerados como tal, deveriam no mínimo ter que separar o que são atitudes de Estado, que geram guerras, e quais suas vítimas. Estariam as vítimas de Paris em acordo com a guerra na Síria? Seriam todos contra os refugiados? Para quem vive ou está na Europa, no cotidiano vê-se mais opiniões contra a guerra e solidárias aos refugiados que o contrário. Não tomemos as atitudes da extrema-direita como hegemônicas, apesar de serem extremamente perigosas, nem tomemos as atitudes de Estado como opinião pública: estaríamos caindo na hipocrisia e na manipulação preconceituosa da imprensa capitalista que todos ojerizam.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses indivíduos de esquerda que na fazenda de Zuckerberg se mostram patriotas, nacionalistas, xenófobos e sensacionalistas, além de policialescos contra quem mostra solidariedade às vítimas, além de serem, como a imprensa capitalista, seletivos em tragédias, demonstram não ter autocrítica. Quando dizem que as pessoas se esquecem da tragédia em Minas Gerais — ou, meses antes, em relação à viralização da foto da criança morta em uma praia da Turquia, quando diziam que a matança aos indígenas no Brasil (“os nossos refugiados”) a mando de empresários ruralistas, era um assunto mais importante que “os refugiados estrangeiros” — desconsideram que o cérebro humano tem uma capacidade incrível de se pensar em várias coisas ao mesmo tempo, além de se estabelecer relações entre fatos aparentemente desconexos. São <strong>moralistas</strong> e ressentidos, na medida em que estabelecem, por um juízo de valor, como e por quem todos devem sentir dor. Ao agirem assim, e desconsiderando as incríveis capacidades do cérebro humano, estão sendo tão irracionais quanto os que eles acusam de sê-lo. Conduzir um pensamento político pelos irracionalismos (nacionalismo, xenofobia, identitarismo, insensibilidade, ressentimento) pode produzir catástrofes: a saber, o <strong>fascismo</strong>. Não vamos tão longe: o ISIS também tem esses princípios como motor de sua prática, agravada pela irracionalidade de seu fanatismo religioso.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2015/12/6.jpg" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-107035 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/6-300x182.jpg" alt="6" width="300" height="182" /></a>Esses indivíduos de esquerda, ao selecionarem a quem se deve prestar mais ou menos solidariedade, parecem não estar tão preocupados com um debate pelo raciocínio, ou um convencimento a sério. Ao agirem, como estão agindo na fazenda, parece-nos mais que estão marcando território, exibindo-se e tentando ser os “diferentes”, não por justiça, mas por aparências. A fazenda de Zuckerberg é um espaço de debates também, mas isso é limitado e pode ser nocivo, afinal não foi feito para isso. Na verdade, ela é uma grande vitrine de vaidades narcísicas, e por isso não dá para se diferenciar muito bem quem está preocupado em se fazer ouvido e quem usa suas opiniões e participações políticas como troféus morais dos “verdadeiros” defensores da justiça e liberdade. Mostram-se, assim, como pretensos juízes da moral e dos bons costumes da esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando à falta de autocrítica, algumas dessas pessoas por vezes compartilham notícias sobre o que acontece em Kobane e em todas as frentes de resistência curda ao ISIS. Expõem algo que acontece e que, bem precariamente, é noticiado na imprensa capitalista. Mas estariam mais preocupados na revolução em curso — com todas suas dificuldades, incertezas e contradições internas — ou na criação de fetiches, como forma de se pavonearem aos amigos de fazenda e deixando de lado a complexidade dos conflitos? Se todos que estão preocupados com os atentados em Paris se esquecem dos atentados no Oriente Médio, do que mais falavam alguns indivíduos de esquerda em setembro quando dos ataques da França à Síria? Poderíamos dizer, sem medo de sermos injustos, que enquanto as desgraças no mundo acontecem, grande parte desses indivíduos de esquerda parecia mais preocupada com o Eduardo Cunha. A luta contra Cunha é muito importante, mas não seria tão importante quanto as desgraças que estavam a acontecer simultaneamente pelo mundo? Se isso parece ser uma falsa questão, sensacionalista e hipócrita, desmerecer as vítimas em Paris por conta de tragédias mais próximas geograficamente também o é. O moralismo é um veneno na esquerda. Se a imprensa capitalista e os chefes de Estado exploram oportunisticamente a tragédia em Paris, na esquerda não devemos fazer o mesmo, explorando a situação catastrófica em Minas Gerais, do massacre a povos indígenas ou explorando imagens de crianças mortas, feridas ou famélicas no Oriente Médio e África para fins sensacionalistas — devemos nos esforçar sempre em construir argumentos racionais em nossas análises, se pretendemos estabelecer uma crítica.</p>
<p style="text-align: justify;">Com todas essas reações entre as cercas da fazenda de Zuckerberg, certos indivíduos, que se dizem de esquerda anticapitalista e libertária, se mostraram patriotas, nacionalistas e moralistas. Com todos os seus “isso aqui a mídia não mostra”, “lamento as vítimas em Paris, mas aqui a polícia mata preto todo dia”, “enquanto colocam a bandeira francesa, Rio Doce está morto e pessoas estão sem água” e outros sensacionalismos, esses indivíduos de esquerda mostram não apenas ignorar o caráter integrado do capitalismo, como traem e abandonam o princípio da <strong>solidariedade internacionalista</strong>. As fronteiras e identidades, as quais os capitalistas já ultrapassaram, ainda são entraves à classe trabalhadora, que por ela se encontra dividida. E alguns indivíduos de esquerda, que deveriam lutar contra as divisões internas à classe trabalhadora — e estando, inclusive, sempre vigilantes aos direitos humanos e civis em todas as partes do mundo —, estão agindo na contramão: ao tentar persuadir pessoas a não se solidarizarem tanto com as vítimas em Paris, reforçam a ideia segregacionista de fronteiras e identidades, de forma maniqueísta, como nacionalistas e patriotas que são.</p>
<p style="text-align: right;">Novembro de 2015</p>
<h3 style="text-align: justify;"><a href="/wp-content/uploads/2015/12/destaque.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-107040" src="/wp-content/uploads/2019/10/destaque.jpg" alt="destaque" width="600" height="338" /></a>Notas</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Que nos desculpem colegas de certas tendências ou concepções de esquerda mas, para nós, Estado é um conceito que define o espaço de exercício do poder de controle exploratório da classe dominante. Não importa se é “velho” ou “novo”, “burguês” ou “não-burguês”, “liberal” ou “desenvolvimentista”. Estado abrange tanto o que é comumente conhecido como poder público quanto empresas privadas. O Estado, assim, ou é capitalista ou não existe.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Vale lembrar, a fim de se mostrar que esse problema também é nosso: no Brasil discute-se, e provavelmente será aprovada, uma lei “antiterrorista”. Já houve a Copa do Mundo em 2014, que mostrou a integração internacional da repressão. Em 2016, essa situação se agravará com as Olimpíadas, e é bem provável que manifestantes anticapitalistas serão os terroristas inventados pelo Estado. Em Portugal, hacktivistas já foram detidos sob o pretexto de segurança do Estado e antiterrorismo. Em Espanha, a “Lei da Mordaça” e as operações “Caixa de Pandora”, nas quais manifestantes e militantes, sobretudo anarquistas, foram presos também no pretexto de segurança do Estado como incitantes ao terror.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> A questão da nacionalidade de integrantes do ISIS tem uma complexidade que a extrema-direita ignora em suas vociferações racistas e xenófobas. Praticamente todos os terroristas identificados têm nacionalidade de algum país europeu. São, em sua maioria, imigrantes ou filhos de imigrantes, tendo sido criados na Europa desde crianças. Outros são, digamos assim, nativos europeus, integrando-se nas fileiras do ISIS. A esquerda deve insistir que não são refugiados, mas também sem cair no erro de se generalizar e colocar qualquer imigrante islamita como suspeito. Para se combater o discurso da extrema-direita, é preciso provar que é incerto, imprevisível — e, portanto, deve-se prezar sempre pela presunção de inocência, opondo-se a qualquer política pública de caráter xenófobo ou a qualquer “lei antiterrorista” — quem, quando, de onde vem e aonde vai “surgir” um combatente do ISIS.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A atualidade do povo curdo no Oriente Médio: entrevista com Mehmet Dogan</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Oct 2014 13:29:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[A União de Comunidades do Curdistão tem uma postura muito crítica a respeito de se criar uma nova divisão, um novo Estado curdo. O Estado-Nação capitalista é um Estado que legitima a dominação. Por Mehmet Dogan entrevistado por Pátria Grande]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Mehmet Dogan entrevistado por Pátria Grande</h3>
<p style="text-align: justify;">Entrevistamos<strong>[*]</strong> Mehmet Dogan, jornalista, documentarista e antropólogo curdo, que nos explica a história de luta do povo curdo, a atualidade e a relevância que tem esse povo nos conflitos do Oriente Médio; uma população de 40 milhões de pessoas, as quais os países imperialistas nunca permitiram que escolhessem seu próprio destino. Por isso os curdos vivem divididos entre a Turquia, a Síria, o Irã e o Iraque, num território cujo tamanho se aproxima ao da Espanha, porém situado em uma posição geoestratégica crucial, onde se encontram importantes reservas de petróleo, gás e outros recursos minerais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Pátria Grande (PG): </strong><em>Qual é sua análise sobre a situação atual do Oriente Médio?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mehmet Dogan (MD):</strong> Há dois conflitos centrais no Oriente Médio: o da Palestina e o do Curdistão. O conflito palestino é bastante conhecido, bem como as causas e forças que estão envolvidas. Porém agora, nos últimos tempos, estando o Hamas à frente do processo de resistência, tendo ganhado a disputa política na OLP [Organização para Libertação da Palestina], atrevo-me a dizer que não há um processo revolucionário na Palestina. Há uma luta por independência, porém independência não é sinônimo de revolução. Obviamente, os palestinos têm seu direito a lutar por sua independência e autodeterminação. Conheço muitos companheiros curdos que morreram ao lado dos palestinos nos anos 1980, porém não podemos mesclar ou cair em uma confusão. O conflito entre Israel e os palestinos não tem de fundo um processo revolucionário que possa mudar completamente a realidade do Oriente Médio. Por isso, o centro da revolução não está na Palestina. O centro da revolução do Oriente Médio está na Síria, está no Iraque e, sobretudo, na Turquia.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/kobani_1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-100314" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/kobani_1-300x180.jpg" alt="kobani_1" width="300" height="180" /></a>Nos anos 1960 e 1970 havia uma juventude combativa no mundo inteiro, quando havia lutas de libertação em todos os cantos do planeta. Nessa época existiu uma luta muito interessante na Turquia. A esquerda turca e o povo curdo em geral, em muito pouco tempo, conquistaram muito terreno e inclusive estiveram próximos de libertar o país. Durante os anos 1970 e 1980, nas mesmas décadas que na Argentina, houve regimes ditatoriais. Na Turquia, o imperialismo controlava o Estado através do exército turco, que – vale a pena dizer – é a segunda maior força da OTAN, obviamente depois do exército ianque. O movimento revolucionário, a esquerda revolucionária turca e o povo curdo foram vítimas de uma repressão brutal. Em 1980 se operou um golpe de Estado e em apenas 3 meses houve um pouco menos de 600 mil presos. Há ainda 20.000 desaparecidos à força, e hoje em dia temos 12.000 presos políticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse movimento que nasceu na Turquia tem um programa a favor dos povos, a favor das classes populares, contra o sistema neoliberal e, inclusive, um programa ecológico também. Podemos dizer que é uma ideologia socialista comunitária. No início da década de 2000, a direção do PKK, que em castelhano [e português] significa Partido dos Trabalhadores do Curdistão, criou uma frente ampla chamada União de Comunidades do Curdistão (KCK). Essa união de comunidades está unindo outros partidos curdos do Iraque e da Síria. Há mais de 400 movimentos sociais que estão participando dessa frente ampla. Movimentos de mulheres, antes de tudo, movimentos de juventude, operários e camponeses fazem parte do PKK.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa frente desenvolveu uma nova ideologia que se chama confederalismo democrático. As bases dessa ideologia aparecem durante 1998, momento em que o PKK se transformou de um partido clássico marxista-leninista em um partido socialista mais comunitário, que se transformou de um partido independentista em um partido confederado. Essa transformação implica uma crítica profunda ao Estado nacional capitalista. Para nós, criar um estado nacional, independente, curdo, hoje em dia, não serve ao benefício do povo curdo e de outros povos oprimidos, mas serve aos interesses do Império, que quer dividir esta região em pequenos Estados. De fato, seria continuar com a política que teve o Império para esta região. Os franceses, britânicos e gringos dividiram toda a região com o critério de “uma família, um Estado”, como se pode ver por exemplo nos casos do Qatar e do Yêmen. O objetivo, obviamente, consistia em dividir o Oriente Médio para poder controlá-lo mais facilmente. Não há nenhum argumento antropológico, sociológico ou político que possa legitimar a divisão geopolítica atual do Oriente Médio. Por isso que a União de Comunidades do Curdistão tem uma postura muito crítica a respeito de se criar uma nova divisão, um novo Estado curdo. O Estado-Nação capitalista é um Estado que legitima a dominação em três sentidos: em primeira instância, permite que uma classe explore às classes populares; em segunda instância, através do machismo; e, por último, temos a dominação sobre a natureza. A mãe-natureza é a vítima desse sistema de superprodução e consumismo. Então, analisando esses três pontos, os companheiros da União de Comunidades do Curdistão chegaram a algumas conclusões muito interessantes. O confederalismo democrático prevê não somente a autodeterminação dos povos curdos, turcos, armênios, árabes e persas, como também aposta em construir uma nova maneira de organização comunitária a partir de uma base em que todos possamos viver em harmonia com a natureza, onde homens e mulheres sejam realmente iguais.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o confederalismo democrático, a luta ganhou rapidamente a simpatia diante de todo povo curdo, mas também de outros povos. Antes, obviamente, as organizações já tinham muitíssima relevância, porém chegaram a outro nível de massividade através dessa nova ideologia. Em 1984 não havia outra maneira de lutar senão através da luta armada porque havia uma ditadura na Turquia, e no Iraque tínhamos Sadam Husseim. A luta armada ganhava rapidamente simpatia, e em 1988 a guerrilha do PKK tinha 8.000 guerrilheiros. E, paralelamente, os companheiros começaram a participar e impulsionar as lutas democráticas, inicialmente graças à luta das mães dos desaparecidos e dos presos políticos. Como se darão conta, é muito similar ao que se passou na Argentina. Logo surgiram novos movimentos políticos e sociais, que nasceram primeiro na Turquia, porém não se limitaram a ela justamente porque nós, curdos, também vivemos na Síria, Iraque, sob as fronteiras arbitrárias que nos impuseram. Pouco a pouco, as organizações nacionalistas curdas desses diferentes países foram levantando a bandeira do confederalismo democrático. Produziu-se uma transformação ideológica muito importante. Essa transformação foi, por si, uma revolução. Essas mudanças são muito visíveis. Na Turquia, faz umas semanas, houve eleições. Os companheiros participaram das eleições e conquistaram quase 10% dos votos, obtendo 36 deputados na Assembleia Nacional, e mais de 100 prefeituras. Se vocês viajarem por ali, verão o que é uma prefeitura socialista comunitária. A partir de questões bem concretas: por exemplo, todas as organizações que pertencem à União de Comunidades do Curdistão se regem pelo princípio da co-presidência. O que quer dizer co-presidência? Uma co-presidência é uma presidência compartilhada por uma mulher e um homem. Suponhamos que um pequeno povoado onde há 50 habitantes e existe uma associação de cinema, da qual participam 10 pessoas. Para que essa associação possa ser membro da União de Comunidades do Curdistão, a associação de cinema tem que aceitar o princípio de co-alcaídes e designar uma mulher e um homem como co-presidência. Dessa maneira, as mulheres começam a tomar um poder extraordinário. Desde os anos 1980 as mulheres já começaram a se organizar em brigadas especiais de mulheres, não somente para a luta armada, mas atuando em toda sociedade em geral. Porém agora a participação da mulher voltou a ocupar um lugar-chave. Agora nas prefeituras da Turquia não temos um prefeito, e sim dois co-prefeitos, um prefeito e uma prefeita. Isso muda dramaticamente a cabeça feudal e escravista do Oriente Médio. Foi uma revolução poder imaginar e implementar organizações, prefeituras, comunas, assembleias populares onde a mulher é dirigente.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/Bs8Bok5CQAAvU0U.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-100315" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/Bs8Bok5CQAAvU0U-300x223.jpg" alt="Bs8Bok5CQAAvU0U" width="300" height="223" /></a>Por outro lado, em cada prefeitura, ou comuna, ou bairro, controlado por este movimento se organizam assembleias populares comunais. Não esperamos a transformação do Estado. Esta ideologia, este programa não diz “vamos fazer a revolução proletária, vamos tomar o controle do Estado”. Não vamos esperar que isso ocorra, vamos nos organizar onde estivermos para transformar a vida. Nesse sentido, tudo o que ocorreu depois de 2001 na Argentina é para nós muito interessante: assembleias populares, piqueteros, empresas recuperadas por trabalhadores, todas essas para nós foram experiências muito importantes. Aprendemos muito com isso e estamos aplicando onde temos controle do território.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso tudo, creio que esse conflito é mais interessante porque pode transformar-se em uma revolução e pode mudar a sociedade em todos os sentidos. Vou tentar ilustrá-lo com outro exemplo: os curdos que controlam a parte norte da Síria e do Curdistão ocidental com mais de 70.000 guerrilheiros (a maioria são mulheres) estão aplicando este modelo de confederalismo democrático de forma muito concreta. Há uma cidade na Síria que tem 100.000 habitantes, onde há, digamos, 10.000 árabes, 10.000 armênios, 5.000 assírios, não me recordo quantos cristão e muitos membros de outras etnias. Nessa cidade-comuna, que eles agora chamam de cantões, desde 2010, a assembleia popular se forma não somente pela porcentagem da população de etnia curda, mas sim por dois representantes do armênios, dois representantes dos árabes, dois representantes do curdos. Os curdos são a maioria da população da cidade, porém não da prefeitura.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, com dois representantes – um homem e uma mulher – de cada etnia, a população decide, através de uma forma organizativa muito direta, a política social, econômica e ecológica da cidade. Essa é uma experiência muito importante. As decisões não se tomam por maioria, devem se dar por unanimidade. “Maioria” quer dizer apenas que 51% decidem sobre 49%, porém isso nem sempre implica que a decisão seja correta. Então esse processo de consenso na tomada de decisões permite que se produza uma discussão muito forte entre as pessoas, entre homens e mulheres, entre organizações, e gera uma dinâmica de formação política extraordinária. Obviamente isso obriga que haja discussões muito profundas. O processo em si vem sendo uma vitória por si próprio. Levando em conta todos esses aspectos, creio que nesse conflito do Oriente Médio haja uma luta muito interessante e que pode transformar toda região. A princípio, no mundo atual não se pode esperar transformações em apenas 5 ou 10 anos, porém insisto que segue sendo muito importante o que já se conseguiu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PG:</strong> <em>Você acha que o governo dos Estados Unidos pode chegar a tirar o PKK da lista de organizações terroristas agora que a guerrilha se voltou centralmente para a luta contra o Estado Islâmico?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>MD:</strong> Agora há uma campanha dos amigos do PKK na Europa e nos Estados Unidos para demonstrar que a lista de organizações terroristas é ridícula. Nos Estados Unidos, chegamos a várias dezenas de milhares de assinaturas. Com essa campanha temos dois objetivos. Que nos tirem agora da lista porque lutamos contra a Al Qaeda, e a CNN não pode dizer o contrário. O PKK nunca realizou ataques sobre organizações civis, nem econômicas, somente contra guarnições ou estruturas militares. Na Europa, setores relevantes da população sabem que o PKK defende o povo, que não é uma organização terrorista. Agora estamos propagandeando nossas ideias para que o povo dos Estados Unidos as conheça e saiba que não somos terroristas. Seu governo só vai tirar o PKK da lista por pressão do seu próprio povo.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/kobane-turkey.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-100317" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/kobane-turkey-300x205.jpg" alt="kobane-turkey" width="300" height="205" /></a>Sabem como o PKK entrou na lista de organizações terroristas? Em 2004, o PKK decidiu realizar um cessar-fogo unilateral. Pouco depois, Felipe González (primeiro-ministro social-democrata da Espanha), em uma reunião da União Europeia propôs incluir o PKK na lista porque o confederalismo democrático que ele propunha os assustava, bem como o cessar-fogo, já que facilitava o crescimento político da organização, e pelo nível de massividade que podia adquirir. Com a pressão dos Estados Unidos, entrou naquela lista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PG:</strong> <em>O Estado Islâmico conseguiu crescer e controlar um grande território em muito pouco tempo. O que pode nos contar sobre essa organização?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>MD:</strong> A organização do Estado Islâmico do Iraque e da Síria, que é um desenvolvimento da Al Qaeda, não tem apoio da população desta região, nem sequer os sunitas apoiam essa organização. São mercenários que geram medo, ocupando lugares e matando todos que controlam o território. A população obviamente, e com razão, tem medo e não pode fazer nada. A única força que poderia liderar a iniciativa contra essa perigosa ameaça é o PKK. O PKK resiste e liberta os povos, não somente do império mas de todo o Estado Islâmico. Através dessa luta podemos mostrar ao mundo inteiro que os islamistas da Al Qaeda e o imperialismo estão juntos. O imperialismo apoiou e apoia de maneira direta a Al Qaeda/Estado Islâmico, porque querem desestabilizar a região. Querem poder dizer: “olhem, fizemos uma intevenção em 2003 contra Sadam Husseim para libertar e exportar uma democracia estado-unidense para lá, mas não funcionou”. Eles mesmos provocaram o conflito entra sunitas e xiitas, duas ramficações do Islã, e agora dizem “vejam, os bárbaros não entendem a democracia, se matam entre si, precisam de nós”. Para legitimar, assim, uma intervenção e presença permanente na região, jogam com a Al Qaeda/Estado Islâmico.</p>
<p style="text-align: justify;">Quase 85% dos mercenários da Al Qaeda são jovens que têm nacionalidade francesa, alemã ou britânica. Não vêm de países árabes, não vêm do norte da África. São estrangeiros, são jovens dos bairros pobres de Paris, de Marselles, de Londres ou de Berlim. Trouxeram essa força reacionária contra nós, contra todos os povos desta região. Claro que agora estão vendendo armas aos Estados que têm que matar essa organização islamita. Acabam de vender armas ao Estado autônomo curdo do Iraque por 4 milhões de Euros para que lutem contra o Estado Islâmico. Acabam de vender não sei quantas centenas de mísseis a Bagdá. Porém, desta vez, o imperialismo permitiu de forma direta aos islamitas roubarem as armas no Iraque. Inclusive ofereceram mais de 100 tanques de última tecnologia. Os gringos há umas semanas saíram dessa cidade e deixaram absolutamente todo o equipamento militar. Qualquer comandante militar, quando se retira, se deixa uma estrutura militar, destrói-na ou quebra imediatamente para que o inimigo não possa usá-la. Bom, os gringos deixaram tudo servido de bandeja. Esses equipamentos agora estão sendo manejados pelos islamitas do Estado Islâmico.</p>
<p style="text-align: justify;">O Império tem um plano para esta região. Os Estados imperialistas acreditam que podem sair da crise econômica a que estão submetidos não com uma guerra, como dizia Lênin, mas com conflitos regionais: África do Norte, Oriente Médio e, por que não, amanhã poderia ser entre o Paquistão e a Índia. E, claro, logo após a destruição: quem reconstrói tudo? Suas empresas multinacionais. O que ocorreu na Iugoslávia está ocorrendo nas nossas regiões, e por isso digo que querem balcanizar a região. A única força que pode apresentar um obstáculo a esse plano é o PKK, uma verdadeira força democrática e revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PG:</strong> <em>Em 2013 o PKK se retirou da Turquia. Nos últimos tempos voltou a ter presença em território turco?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>MD:</strong> Em 2009, havia um processo de negociação entre o PKK e o governo turco. Em 2010, se rompeu essa negociação depois de mais de mil idas e vindas. O governo turco oficialmente queria conseguir a paz, igual o governo da Colômbia busca fazer com as FARC. Em 2012, começa um novo processo de negociação. Em 21 de março de 2013, Abdullah Öcalan, que era presidente do PKK, aceita novas negociações. A ideia do PKK era de não continuar com a luta armada e garantir um mínimo de democracia. Durante as negociações, o estado turco aceita que sim, o PKK se retira da Turquia e começa um processo de paz. Porém, igual na Colômbia, o governo tira e enrola, dá voltas. Na verdade, só 30% das forças saíram da Turquia. O PKK está na Turquia porém não suas atividades não continuam, atividades que consistiam em realizar ataques armados contra centros militares. A Turquia queria jogar com o PKK dizendo “bem, vamos acalmar o PKK” e atacar mais na Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Graças a esse processo, o PKK mostrou sua vontade de paz e ganhou até uns 10% dos votos. Porém, de concreto, não aconteceu nada, e novos pequenos enfrentamentos vão acontecendo. A Turquia tirou seus militares da região do Curdistão porque pensavam que poderiam fazer uma intervenção na Síria, porém não puderam porque ali também está o PKK. Não fazem ações militares esperando o processo de paz: é como na Colômbia, é como o cessar-fogo. Não é o abandono da luta armada, é uma estratégia para mostrar a vontade de fazer a paz.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PG:</strong> <em>Há alguma novidade sobre a investigação das três companheiras do PKK que foram assassinadas no início de 2013 em Paris?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/140906161453_franca_ei_624x351_afp_nocredit.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-100318" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/140906161453_franca_ei_624x351_afp_nocredit-300x168.jpg" alt="140906161453_franca_ei_624x351_afp_nocredit" width="300" height="168" /></a>MD:</strong> Existem todas as provas de que o assassinato só pode ter sido obra do serviço secreto turco junto com o serviço francês, belga e alemão. Já temos escutas telefônicas que o demonstram. A França vem realizando investimentos de 20 milhões de euros em centros nucleares junto à Turquia. Para a França, a Turquia é uma potência econômica com a qual convém ter uma boa relação. Por isso, negociam coisas com esses assassinatos. Mataram as três companheiras no Centro de Informação do Curdistão de Paris. Eu trabalhei nesse centro e o conheço muito bem. Há câmeras do serviço secreto francês para observar tudo e é impossível que não tenham gravações dos assassinos. Houve uma mobilização muito importante agora para denunciar a colaboração entre os serviços secretos e a relação franco-turca. Que isso tenha sido feito em pleno processo de paz foi uma clara provocação contra o PKK para que este voltasse a combater, para iniciar uma guerra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PG:</strong> <em>Você mencionou, antes, o resultado das eleições que participaram na Turquia. Como avalia o desempenho eleitoral do Partido Democrático do Povo (HDP)?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>MD:</strong> É uma vitória muito importante porque pode crescer ainda mais rapidamente. O Partido Democrático do Povo é uma aliança progressista de curdos, armênios, turcos e de todas as nacionalidades presentes na Turquia. Há mais de 600 movimentos sociais que participam desse partido. Sua construção conseguiu vencer obstáculos de comunicação. Construiu-se junto aos irmãos turcos e isso nos serviu para chegar aos jovens turcos, ao centro da Turquia, algo que antes era impensado. Esse partido é muito afinado à luta dos curdos porque a maioria dos seus membros são curdos, porém ao mesmo tempo é um partido pela democracia de todos os povos turcos. No partido participam intelectuais, dirigentes sindicais e movimentos estudantis. Todas as organizações que o compõe participaram da ocupação da Praça Taksim. Está claro que nos próximos anos vamos observar um desenvolvimento interessante nesse sentido.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>[*]</strong>Esta entrevista foi feita pelo site argentino <a href="http://patriagrande.org/entrevista-a-mehmet-dogan-sobre-la-actualidad-del-pueblo-kurdo-y-medio-oriente-facundo-guill%C3%A9n/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Pátria Grande</a> e traduzida do original espanhol pelo Passa Palavra.</p>
</blockquote>
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		<title>Um lento e silencioso genocídio</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Sep 2009 12:15:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Médio_Oriente]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
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					<description><![CDATA[As Nações Unidas publicaram um relatório sobre o impacto humanitário do bloqueio israelita a Gaza, que em Julho passado entrou no seu terceiro ano. Os números destacados incluem o desemprego acima dos 40%, mais de 75% das famílias dependentes de assistência alimentar, impossibilidade de reconstrução das mais de 6 mil estruturas destruídas ou danificadas durante [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As Nações Unidas publicaram um relatório sobre o impacto humanitário do bloqueio israelita a Gaza, que em Julho passado entrou no seu terceiro ano. Os números destacados incluem o desemprego acima dos 40%, mais de 75% das famílias dependentes de assistência alimentar, impossibilidade de reconstrução das mais de 6 mil estruturas destruídas ou danificadas durante a última ofensiva israelita, mais de 20 mil pessoas a viver em habitações precárias, 2 a 8 horas de cortes de electricidade diários, cerca de 10 mil pessoas sem acesso a água corrente, impossibilidade de tratamento médico fora de Gaza, salas de aulas superlotadas. Leia <a href="http://bit.ly/8X5Zt" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> o relatório. <strong><em>Comité Palestina (PT)</em></strong></p>
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		<title>Salvar condenados à morte no Irão!</title>
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		<pubDate>Mon, 11 May 2009 14:04:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Agir é preciso]]></category>
		<category><![CDATA[Médio_Oriente]]></category>
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					<description><![CDATA[Delara Darabi foi executada no dia 1 de Maio de 2009 pelas autoridades iranianas por um crime de que foi acusada quando tinha 17 anos A Amnistia Internacional considera que se tratou de um julgamento injusto e que os tribunais se negaram a considerar novas provas que, segundo o seu advogado, teriam provado que ela [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Delara Darabi foi executada no dia 1 de Maio de 2009 pelas autoridades iranianas por um crime de que foi acusada quando tinha 17 anos</strong></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/02/agir090507_delaradarabi.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-3408 aligncenter" title="agir090507_delaradarabi" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/02/agir090507_delaradarabi-300x208.jpg" alt="agir090507_delaradarabi" width="300" height="208" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/02/agir090507_delaradarabi-300x208.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/02/agir090507_delaradarabi.jpg 578w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a></p>
<p>A Amnistia Internacional considera que se tratou de um <strong>julgamento injusto</strong> e que os tribunais se negaram a considerar novas provas que, segundo o seu advogado, teriam provado que ela estava inocente desse delito.</p>
<p>A Amnistia Internacional manifesta a sua indignação por esta execução e, em particular, por o seu advogado não ter sido informado, apesar da exigência legal de o fazerem com 48 horas de antecedência. Trata-se de uma <strong>cínica estratégia por parte das autoridades do Irão para evitar os protestos</strong> nacionais e internacionais que poderiam ter salvo a vida de Delara Darabi.</p>
<p>Mas não vão conseguir calar-nos. A Amnistia Internacional lutou para salvar a sua vida logo que se soube do seu caso. E continua a fazê-lo por todos os menores que, no Irão, correm o perigo de execução iminente.</p>
<p>É preciso continuar a agir pelos casos de Benhoud Shojaee, Mohammad Feda&#8217;i, Bahman Salimian, Naser Qasemi, Mohammad Reza Haddadi, Abbas Hosseini, e tantas outras pessoas que se encontram em perigo de serem executadas no Irão, acusados de crimes alegadamente cometidos quando eram menores.</p>
<p><strong>Por isso, pedimos a todos:</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>AJUDEM A PARAR ESSAS EXECUÇÕES<br />
assinando a PETIÇÃO às autoridades iranianas.</strong></p>
<p style="text-align: center;"><em><strong><a href="http://web.es.amnesty.org/iran-ejecucion-inminente/" target="_blank">AQUI</a>.</strong></em></p>
<p style="text-align: center;"><em><strong><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/02/agir090507_logoai.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-3411" title="agir090507_logoai" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/02/agir090507_logoai.jpg" alt="agir090507_logoai" width="316" height="106" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/02/agir090507_logoai.jpg 316w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/02/agir090507_logoai-300x100.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 316px) 100vw, 316px" /></a><br />
</strong></em></p>
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		<title>Holocausto e Racismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Apr 2009 19:16:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Médio_Oriente]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Ao classificar  Israel como racista, o presidente do Irã causou um mal-estar  geral  em encontro de representantes da ONU. Entretanto, analisando-se a questão mais de perto, não teria um quê de razão na declaração do líder iraniano? Por David Costa Rehem No dia 20 de abril, em um encontro da ONU sobre o racismo, o [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Ao classificar  Israel como racista, o presidente do Irã causou um mal-estar  geral  em encontro de representantes da ONU. Entretanto, analisando-se a questão mais de perto, não teria um quê de razão na declaração do líder iraniano?</em> <strong>Por David Costa Rehem</strong></p>
<p><span id="more-3061"></span></p>
<p style="text-align: justify;">No dia 20 de abril, em um encontro da ONU sobre o racismo, o presidente do Irã Ahmadinejad denunciou o Estado de Israel como racista. Tal declaração fez com que diversos delegados presentes, representantes de diversos países da Europa e dos Estados Unidos, se retirassem do encontro em protesto às declarações. Ao ver reportagens sobre o assunto surge a pergunta: qual a relação entre essa declaração e a questão do Holocausto?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-3071" title="gaza3" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/04/gaza3-300x198.jpg" alt="gaza3" width="300" height="198" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/04/gaza3-300x198.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/04/gaza3.jpg 400w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />Poderíamos até fazer uma relação se lembrarmos das declarações que esse mesmo presidente fez de que não houve o Holocausto. Esse posicionamento, de fato, nega uma das maiores atrocidades ocorridas em nossa era, onde milhões de judeus foram perseguidos e mortos durante o regime nazista, só na Europa, além de perseguições e hostilidades ao redor do mundo, impetradas (ontem e hoje) por simpatizantes do regime hitlerista. Até aí poderíamos entender a resposta.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém, o foco dessa vez não era a existência ou não do Holocausto e sim as posturas do Estado sionista de Israel em relação aos povos árabes, palestinos e fiéis do Islamismo. Assim como é indiscutível o Holocausto são indiscutíveis as posturas racistas do Estado de Israel.</p>
<p style="text-align: justify;">As autoridade israelenses, um dia após as declarações do presidente <img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-full wp-image-3069" title="gaza11" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/04/gaza11.bmp" alt="gaza11" width="280" height="210" />iraniano e nas celebrações em memória das vítimas do Holocausto, compararam o líder do Irã a Hitler. Analisando de mais perto os acontecimentos recentes (para não fazer uma retrospectiva que poderia chegar até às ações das milícias sionistas durante o processo de independência da região) apontam muito mais para semelhanças com o nazismo do Estado de Israel do que do Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">O Estado do Irã é teocrático, baseia suas leis e suas relações na religião. É um Estado com mão forte, opressor, não porque assim o é o Islamismo, mas porque tem uma forte presença dos fundamentalistas, que seguem o Alcorão de forma rígida e, muitas vezes, cruel. Mesmo assim, se comparado a outros Estados teocráticos, se diferencia por uma abertura cada vez maior onde diversos grupos (principalmente as mulheres) protagonizam lutas em defesa de direitos humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o Estado de Israel se baseia na lógica de que uma mentira contada muitas vezes se torna verdade. Utiliza-se da memória do Holocausto para justificar todas as suas atrocidades. Oprime os opositores internos, sejam eles palestinos ou judeus, como no caso das três adolescentes presas no final do ano passado por não concordarem com o alistamento compulsório que as obrigaria a participar das atrocidades contra o povo palestino.</p>
<p style="text-align: justify;">Israel ainda cria Campos de Concentração nas áreas onde vivem os palestinos, vigiando todos os seus passos, colocando-os como cidadãos de segundo escalão na política nacional, disfarçado de democracia, propagando a idéia de que todos os palestinos são terroristas ou concordam com o terrorismo, negando-lhes o direito de existir enquanto povo e nação, além de desrespeitar acordos internacionais sobre crimes de guerra e direito à soberania.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-3070 alignleft" title="gaza2" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/04/gaza2-300x216.jpg" alt="gaza2" width="216" height="155" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/04/gaza2-300x216.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2009/04/gaza2.jpg 400w" sizes="auto, (max-width: 216px) 100vw, 216px" />Essas são apenas algumas das posturas racistas do Estado de Israel. Não conseguimos compreender, portanto, todo o estardalhaço com a declaração do presidente iraniano. Talvez ainda o remorso pela participação e/ou omissão em relação ao Holocausto cause constrangimentos aos países europeus e aos EUA em se posicionar contra Israel, mas nunca é pouco lembrar que se posicionar contra o sionismo e sua política, que tem bases extremo-nacionalistas, não significa se posicionar contra os judeus e o Holocausto.</p>
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