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	<title>Moçambique &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A ultradireita evangélica faz o seu ensaio em Moçambique</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jan 2025 03:24:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
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					<description><![CDATA[ O problema da ameaça de líderes populistas esconde um problema maior e mais profundo que diz respeito à incapacidade das elites políticas e dos partidos tradicionais de satisfazer as demandas da sociedade, abrindo espaço para que discursos e atitudes populistas ganhem saliência. Por José de Sousa Miguel Lopes ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por José de Sousa Miguel Lopes</h3>
<p style="text-align: justify;">Tirando a primeira década de independência, assistiu-se em Moçambique, nas últimas quatro décadas, a um progressivo aumento da pobreza (ver <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/01/155613/" href="https://passapalavra.info/2025/01/155613/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>). O país enquadra-se, certamente, na previsão feita recentemente pela revista <em>The Economist</em> que aponta para o aumento da lacuna econômica entre a África e o resto do mundo. Segundo a <em>The Economist</em>, até 2030 estima-se que os africanos representarão mais de 80% dos pobres do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Tentar sair desse empobrecimento, desse caminho perigoso, exige políticas radicalmente diferentes das adotadas até ao momento. Torna-se imperativa uma verdadeira mudança e a implementação de justiça social. Para o efeito, em momentos de crise tão profunda como a que está ocorrendo, Moçambique precisa estar atento e tentar se resguardar da onda ultradireitista que se está ampliando pelo globo. Com efeito, líderes populistas proliferam como cogumelos após forte chuvada, apresentando-se como Salvadores da Pátria. Alimentados por falsas narrativas, anunciam, com a maior desfaçatez, a eliminação rápida de todas as mazelas. No entendimento de Ferrajoli (2025):</p>
<blockquote><p>Estamos assistindo a uma mutação do próprio capitalismo neoliberal, que até agora devastou a esfera pública e submeteu a política à economia, mantendo, contudo, a separação formal entre as duas esferas. O fenômeno Musk sinaliza uma involução adicional: uma espécie de regressão pré-moderna ao estado patrimonial da época feudal, quando a política não tinha se separado da economia como esfera pública acima dela. Hoje estamos diante do direto governo privado e, ao mesmo tempo, global de setores fundamentais da vida civil e pública. Como se trata de um governo privado, ele também consiste em um poder absoluto. Esfera pública, separação de poderes e direitos fundamentais são conceitos estranhos a ele e incompatíveis com ele.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A nova direita global, que tem uma visão imperialista, mas tem como líder não uma nação, mas um homem fabulosamente rico: <strong>Elon Musk</strong>. Trump será imperador por quatro anos. Mas o império de Musk está apenas começando, e durará muito mais. Se os liberais não souberem se unir, a Internacional reacionária poderá fazer da democracia uma curiosa recordação.</p>
<p style="text-align: justify;">Em várias partes do mundo, governos progressistas assumiram o poder, mas sem possuírem uma estratégia clara para reconstruir suas sociedades a partir dos restos do neoliberalismo. Muitas vezes, não têm um programa político concreto capaz de superar tal regime de forma contundente. Incapazes de desenvolver uma política que rompa totalmente com o neoliberalismo, muitos desses governos progressistas voltam à imobilidade neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos cinquenta anos, durante o auge do Consenso de Washington, a maioria das nações mais pobres, como Moçambique, caiu em ciclos de dívida e austeridade, altas taxas de pobreza e profundo desespero.</p>
<p style="text-align: justify;">É neste quadro que a extrema-direita se encontra em ascensão eleitoral no mundo. Sua máxima expressão, Donald Trump, ocupa o cargo mais poderoso do planeta. A direita passou a fazer intensa (des)educação política do povo. As forças progressistas perderam a capacidade de promover grandes mobilizações populares diante da falta de educação política do povo, da excessiva burocratização dos partidos progressistas, da perda de referências históricas. Essa extrema direita fala em nome do povo, mas não constrói políticas que ajudem o povo.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando esses partidos políticos chegaram ao poder, não romperam fundamentalmente com o consenso neoliberal, já que a maioria deles continuou a adotar as políticas de desregulamentação empresarial, austeridade social e compromisso com o mercado. Esses partidos não adotaram políticas fortes de protecionismo econômico e bem-estar social.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa extrema direita rompeu com o liberalismo social e com formas de libertarianismo convencional com sua religiosidade fortemente conservadora (antiaborto, antifeminismo, homofobia e transfobia) e tradicionalismo geral (seu enraizamento na família nuclear patriarcal e na Igreja, que se transpôs para uma crença no forte líder masculino na sociedade).</p>
<p style="text-align: justify;">Essa extrema-direita, com muita frequência, assume carácter fascizante. Saliente-se que a palavra “fascista” assumiu uma carga moral, que é útil para fins eleitorais, mas não para entender adequadamente a extrema direita. Essa extrema direita não apareceu, como o fascismo fez cem anos atrás, para derrotar as lutas da classe trabalhadora e o movimento comunista, nem tem qualquer problema com as instituições formais da democracia. Tanto os fascistas italianos quanto os alemães queriam suspender os sistemas democráticos e eleitorais e usar todo o aparato repressivo do estado para dizimar o movimento dos trabalhadores e as instituições comunistas. Nenhuma ameaça desse tipo enfrenta atualmente o capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso específico dos Estados Unidos, a eleição de Trump, um protofascista egomaníaco, como dirigente no país mais poderoso do mundo não pode deixar de ser um alento à ultradireita de todo o mundo, como se viu, por exemplo, no primeiro mandato quanto às relações entre Trump e Bolsonaro.</p>
<figure id="attachment_155769" aria-describedby="caption-attachment-155769" style="width: 225px" class="wp-caption alignright"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-155769 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-1.jpg" alt="" width="225" height="225" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-1.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-1-70x70.jpg 70w" sizes="(max-width: 225px) 100vw, 225px" /><figcaption id="caption-attachment-155769" class="wp-caption-text">Daniel Chapo e Venâncio Mondlane | Fonte: Instagram</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">As débeis forças progressistas, acuadas pelo fundamentalismo religioso, sobretudo, de Venâncio Mondlane, dotado de inegável poder eleitoral, ainda não sabem como enfrentar esse desafio. Um governo que, a partir de agora, pretendesse seguir uma política progressista precisaria encontrar uma estratégia que se pudesse contrapor ao fenômeno do conservadorismo religioso, cujo impacto cultural e político é significativo. O eventual fracasso da extrema direita forneceria uma tremenda oportunidade para os progressistas — contanto que estivessem preparados para assumir a responsabilidade. Infelizmente, parecem ser poucas as esperanças para que os progressistas tenham condições de aproveitar essa oportunidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Moçambique estamos agora em presença de um conflito entre duas direitas: a frelimista, de Daniel Chapo e a personificada por Venâncio Mondlane, embora esta última seja uma clara extrema-direita</p>
<p style="text-align: justify;">
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A juventude moçambicana e seus desafios</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Vemos hoje adolescentes e jovens perdidos, que adotam ideologias que os fazem sentir que têm um lugar no mundo. Os poderes mais miseráveis manipulam-nos em relação às suas necessidades, à solidão e àquela falta de identidade, de saber quem é, de se sentir acompanhado, de pertencer a alguma coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">O eleitor em geral e os jovens em particular, desprovidos de consciência de classe, de relações corporativas (como as sindicais) e imunizados pelos impactos da grande mídia graças às suas bolhas digitais, buscam eleger quem lhes possa garantir um lugar ao sol na praia das oportunidades. Na falta de referências revolucionárias eles votam pensando, primeiro, na prosperidade individual, e não na coletiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses eleitores pobres manifestam seu inconformismo ao dar apoio aos que ostentam a bandeira da “antipolítica”. Decepcionados com os políticos tradicionais, preferem os arrivistas, os messiânicos, os que ousam contrariar o perfil da institucionalidade política e se glamourizam pelo histrionismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A juventude, que tem participado massivamente nas revoltas contra as políticas da Frelimo, está demonstrando seu justo e profundo descontentamento. Como silenciar a alta de desemprego, a fome, a ausência de perspectivas entre muitos outros problemas? Num quadro desta natureza, em que tudo se faz urgente, um perigo pode rondar a genuína vontade de mudança. A juventude moçambicana, com justa razão, apresenta-se bastante agressiva e impaciente. No entanto, como aponta o Editorial do <em>Savana</em>, um dos principais jornais moçambicanos:</p>
<blockquote><p>A volatilidade da sociedade moçambicana é simplesmente impressionante: a obediência quase que canina com que cidadãos acatam ordens para a desobediência civil, resultando numa revolta de carácter violento de saque, mortes em massa e destruição de propriedade, é típica de um ambiente em que de tão descomandadas e desesperadas, as pessoas já não têm tempo nem espaço para pensar que o que estão a destruir hoje, lhes fará imensa falta no dia seguinte. A intensidade da violência contra seus semelhantes mostra um nível de desumanidade de pessoas que de tanto terem sido desumanizadas elas próprias, perderam qualquer grão de respeito pela vida humana. A manipulação pública, inerente a regimes de inspiração autocrática, só contribui para adensar ainda mais os níveis de violência. (<em>Savana</em>, 03/01/2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Neste cenário, será a juventude tão conhecedora das questões políticas, ideológicas, históricas e dos nebulosos meandros da situação que neste momento perpassa o tecido social moçambicano? Será que ela tem um mínimo de conhecimento sobre questões geopolíticas e como elas interferem ou podem vir a interferir no processo moçambicano? Será que ela sabe quem é Trump e Bolsonaro, ambos cultuados por Mondlane? Se não sabem é grave, mas se sabem é mais grave ainda. Conhecem o líder da extrema direita André Ventura, único dirigente partidário português com quem Mondlane se encontrou na sua campanha? E o argentino Javier Millei, o mais feroz defensor de Israel na América Latina? Ou então, ignorando tudo isso, entra de cabeça no anúncio que lhe fazem de que agora tudo vai mudar para melhor, sustentada no argumento de que “pior não pode ficar”.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Venâncio Mondlane e Daniel Chapo: os perigos do evangelismo conservador e da teoria do domínio</strong></h4>
<figure id="attachment_155771" aria-describedby="caption-attachment-155771" style="width: 199px" class="wp-caption alignleft"><img decoding="async" class="size-full wp-image-155771" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-2.jpg" alt="" width="199" height="253" /><figcaption id="caption-attachment-155771" class="wp-caption-text">Presidente moçambicano Daniel Chapo | Fonte: Facebook</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Os dois principais opositores na recente disputa eleitoral são evangélicos. Venâncio Mondlane é pastor e na sua campanha difundiu aberta e fortemente suas posições religiosas fundamentalistas (para mais informações sobre estas suas posições veja <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/01/155681/" href="https://passapalavra.info/2025/01/155681/" rel="ugc nofollow">aqui</a>). Daniel Chapo, que foi empossado no dia 15/01/2025 “escondeu”, durante sua campanha, seu lado evangélico. Ele pertence à IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), a famosa congregação do bispo brasileiro Edir Macedo. Só agora, na tomada de posse e nos dias subsequentes, decidiu revelar esse seu lado evangélico difundindo fotos onde aparece ajoelhado e orando e também participando em entrevistas onde manifesta sua filiação e suas crenças.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentindo-se acossado pela forte religiosidade do seu opositor Venâncio Mondlane e das multidões de apaniguados que o seguem, Daniel Chapo tenta mostrar que também segue os preceitos de Deus, afim de ganhar simpatizantes. Começou timidamente se ajoelhando entre muros, mas deve ter percebido que precisa de escancarar em público seu lado evangélico. Só que é uma luta desigual neste campo. Daniel Chapo está a lutar contra um pastor e seu vasto rebanho já consolidado e ele só agora descobriu que deveria copiar o pastor para tentar trazer para seu lado, alguns indecisos. Repito, no campo religioso, parece-me que para Daniel Chapo é uma batalha perdida.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o que parece estar a emergir em Moçambique é o evangelismo conservador, uma versão reacionária do cristianismo. O horizonte político moçambicano parece estar a dar os primeiros passos para mergulhar mais fortemente numa visão de mundo que se está espalhando por todo o planeta através das missões que as organizações evangélicas estadunidenses exportam para muitas partes do mundo. São mensagens populares apoiadas em agressivas campanhas de penetração em comunidades locais, através de redes sociais, rádios, televisões e publicações por onde difundem seu credo para dominar o mercado religioso.</p>
<figure id="attachment_155770" aria-describedby="caption-attachment-155770" style="width: 1440px" class="wp-caption alignright"><img decoding="async" class="size-full wp-image-155770" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3.jpg" alt="" width="1440" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3.jpg 1440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-1024x512.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-840x420.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-681x341.jpg 681w" sizes="(max-width: 1440px) 100vw, 1440px" /><figcaption id="caption-attachment-155770" class="wp-caption-text">Venâncio Mondlane | Fonte: Observador.pt</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">E agem com astúcia, combinando as tradições patriarcais com as agendas nacionalistas locais mais retrógradas. Querem restaurar um país e ordenar a sociedade segundo as leis de Deus. Isto se traduz em uma ênfase hierárquica da autoridade masculina e uma política baseada “na lei e na ordem”.</p>
<p style="text-align: justify;">São pessoas que se opõem aos direitos de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais, ao aborto, à imigração, à redistribuição de renda e a qualquer tentativa de abordar as desigualdades sociais, pois apoiam sem rodeios o capitalismo de livre mercado. Também são muito propensos a negar a existência do racismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, enquanto muitos defendem a democracia liberal, o evangelismo conservador está cada vez mais inclinado a tendências autoritárias. Apoiam as lideranças fortes, mostram muito pouca preocupação com a supressão de direitos civis e acreditam que a violência política pode ser justificada se é para proteger sua visão do que deve ser um país. Venâncio Mondlane expressa, com clareza, sua posição quanto ao uso da violência política:</p>
<blockquote><p>No dia 18/01/2025, uma das 25 medidas propostas pelo líder opositor Venâncio Mondlane para os primeiros cem dias de governação em Moçambique é mandar matar um polícia por cada manifestante morto. Recorre, assim, à Lei de Talião do Antigo Testamento: “Chamem-me agitador: o povo está sendo morto!”, afirma ele. (RODRIGUES. 17/01/2025)</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dominam com habilidade a tecnologia moderna para disseminarem mensagens e são incrivelmente acolhedores quando as pessoas entram pela porta de sua igreja desencantadas com um Estado que não lhes oferece qualquer resposta.</p>
<p style="text-align: justify;">Os evangélicos oferecem um senso de comunidade e identidade a seus fiéis, em uma época caracterizada pela incerteza econômica e de mudanças culturais. São formados na crença divina da prosperidade, que promete sucesso aos seus adeptos, tanto neste mundo como no próximo.</p>
<p style="text-align: justify;">Transmitem a ideia de que se alguém é “obediente” e busca a bênção de Deus, receberá sua recompensa na forma de felicidade pessoal e sucesso financeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Misturam habilmente a caridade com a evangelização. Distribuem refeições gratuitas, elaboram programas extraescolares e oferecem ajuda individual à margem das políticas estatais contra a pobreza e a desigualdade. Venâncio Mondlane já participou nesse tipo de atividade.</p>
<p style="text-align: justify;">Aproveitam-se da devoção de seus seguidores para se apresentarem como a única opção política realmente cristã.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma grande quantidade de dinheiro por trás dessas igrejas, suas redes e organizações, que reúne destacados pastores que se aliam a bilionários para obterem elevadas doações privadas. Por outro lado, milhares de evangélicos em vários lugares do mundo, doam 10% de sua renda mensal para suas congregações.</p>
<p style="text-align: justify;">E esse dinheiro é usado para pagar os pastores (que enriquecem de forma desmedida) e a toda a sua equipe de assessores, para construir edifícios, financiar missionários, comprar recursos educacionais e alimentar a divulgação. Além disso, as editoras evangélicas são um grande negócio. Os <em>best-sellers</em> evangélicos costumam vender milhões de cópias, apesar de serem bastante simples e de qualidade questionável. Os circuitos de conferências que organizam também são extremamente lucrativos, e a música e suas rádios se transformaram em indústrias com um gigantesco alcance.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O evangelismo faz emergir um sinal de alerta na defesa da democracia</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">No país mais poderoso do mundo, na tomada de posse de Donald Trump no dia 20/01/2015, podemos constatar como ele está rodeado de inúmeras lideranças religiosas. Com efeito:</p>
<blockquote><p>“A bênção será dada pelo rabino Ari Berman, reitor da Universidade Yeshiva; pelo imã Husham Al-Husainy, do Centro Islâmico Karbalaa em Dearborn, Michigan; pelo pastor Lorenzo Sewell, da Igreja 180 em Detroit; e pelo reverendo Frank Mann, padre da Diocese de NovaYork”, observa a José Lorenzo (15/01/2025). O comitê inaugural de Trump também informou que o presidente eleito participará novamente dos cultos inaugurais na Igreja Episcopal de St. John, no centro de Washington, bem como de um culto de oração na Catedral Nacional de Washington. (IDEM).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até mesmo em meio à guerra na Ucrânia se pode constatar como a força da religião evangélica consegue que promover alianças entre os inimigos que se digladiam no campo de batalha. Com efeito, após a invasão russa à Ucrânia, os Estados Unidos e a Europa encontraram-se na linha da frente da batalha contra a Rússia quando, até nessa guerra, existia uma forte aliança de interesses entre evangélicos estadunidenses e empresários russos ortodoxos. Algo similar acontece com a religião: a Internacional reacionária produziu alianças inesperadas entre religiões, não só dentro do próprio cristianismo — católico, ortodoxo ou neopentecostal — mas até estabelecendo acordos contingentes com o Islã, contornando na ponta dos pés a contradição de que muitos dos partidos europeus de extrema direita têm propostas claramente islamofóbicas.</p>
<blockquote><p>Desde 2010, as instituições europeias registaram um aumento muito significativo na atividade de grupos de pressão religiosos. Igrejas e organizações confessionais realizaram mais reuniões políticas em Bruxelas do que grandes empresas como a Google ou a gigante do tabaco Phillip Morris. Os dados refletem a preponderância do cristianismo — que inclui católicos e protestantes — cuja capacidade de influência é apoiada por um sólido apoio econômico. O <em>lobby</em> da Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia (Comece) contava um orçamento de mais de um milhão de euros em 2019, segundo dados do Registo da Transparência da EU. (ALABAO, 2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Constata-se, pois, um espantoso crescimento das Igrejas evangélicas, cuja maioria de fiéis faz uma leitura salvacionista da Bíblia (pauta de costumes) e não libertária o que faz perigar as democracias. Os pobres estão optando pelas Igrejas evangélicas, nas quais encontram acolhimento e suporte social, inexistentes na maioria das paróquias católicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dois principais políticos de Moçambique, Daniel Chapo e Venâncio Mondlane, são ambos evangélicos, sendo o último pastor. No início do atual governo verificam-se sinais de que estes opositores começaram a dialogar. Nas questões religiosas, certamente, a sintonia será perfeita.</p>
<p style="text-align: justify;">Face a essa sintonia, uma pergunta perturbadora não pode deixar de ser feita: estará se desenhando, a curto ou médio prazo, a edificação de um Estado Teocrático em Moçambique, à boa maneira iraniana?</p>
<p style="text-align: justify;">Um Estado Teocrático ajuda a imposição ilegítima do controle político, diminui o espaço de liberdade que resta aos cidadãos. Com ele a Bíblia se sobrepõe à Constituição. Contra os mitos e a crença nos milagres ou aparições sobrenaturais, temos a ciência e a democracia. Saibamos usá-las em prol do pacífico convívio, sem perseguições e mentiras, santas ou seculares. Se a democracia ostenta defeitos, suas mazelas confessadamente têm origem em seres humanos que erram e podem corrigir seus equívocos. Com a teocracia nenhum limite obriga o governante, pois seus decretos são divinos. No fundo de todo teocrata dormita um totalitário. É tempo de aprender tal lição da história religiosa e política.</p>
<p style="text-align: justify;">As forças progressistas, acuadas pelo fundamentalismo religioso dotado de inegável poder eleitoral, ainda não sabem como enfrentar esse fator que constitui o substrato cultural.</p>
<p style="text-align: justify;">É preciso que se reaja a essa escalada bíblica, antes que tenhamos todo poder político tomado por pessoas terrivelmente evangélicas! Como reagir é a questão. Tendo em conta a aceitação que se deve ter pelo diálogo inter-religioso, pode parecer uma quebra de respeito à diversidade o combate a uma vertente religiosa específica. O caso reside no conhecido paradoxo: só não podemos ser tolerantes com os que desejam abolir a tolerância. Só não podemos abrir diálogo com os que pretendem abolir o diálogo, a diversidade, a liberdade. Faz-se necessário pensar estratégias de libertar a consciência do povo enganado e cooptado e denunciar e combater os falsos líderes que o exploram e oprimem.</p>
<p style="text-align: justify;">Não menos importante é o crescente alastramento da chamada “teologia do domínio” que defende a subordinação das esferas pública e privada aos preceitos religiosos. É uma doutrina que prega a necessidade de os cristãos assumirem o controle sobre todas as áreas da sociedade, incluindo governo, educação e cultura, para implementar uma nação sob “princípios bíblicos”. Essa ideologia ameaça diretamente a laicidade do Estado e a diversidade religiosa, fundamentais em uma sociedade democrática. A adoção dessa teologia por líderes religiosos e políticos em Moçambique gera preocupações sobre os riscos de uma agenda que busca impor valores religiosos específicos a toda a população.</p>
<p style="text-align: justify;">O papel da família, a essência da educação e o significado da liberdade, tudo é defendido numa perspectiva cristã. Apoiar candidaturas fundamentalistas que defendam pautas moralistas e antiestatais é algo fora do ordenamento democrático.</p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, por exemplo, muitas igrejas incentivam os jovens a ingressar em cursos-chaves para ocupar posições de influência. O objetivo é contrapor o criacionismo “bíblico” àquilo que designam como “ensino ateu”. Pretende-se que os alunos que se envolvem nestes cursos se tornem palestrantes equilibrados, pesquisadores curiosos e defensores resilientes de uma cosmovisão bíblica.</p>
<figure id="attachment_155772" aria-describedby="caption-attachment-155772" style="width: 320px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-155772" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-4.jpg" alt="" width="320" height="213" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-4.jpg 320w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-4-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px" /><figcaption id="caption-attachment-155772" class="wp-caption-text">Foto: Publico.pt</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Os promotores do “legado cristão” defendem um Estado mínimo e o “autogoverno”, principalmente no que se refere à educação e à cultura (o que favorece o domínio da manipulação e doutrinação para as quais são treinados incansavelmente). Em sua maioria, são inimigos das políticas públicas, principalmente as que buscam o acolhimento e dignidade das minorias e a “diversidade”.</p>
<p style="text-align: justify;">A “teoria do domínio” prega que os cristãos têm a missão de governar todas as esferas da sociedade — incluindo política, educação, mídia e economia — para estabelecer os valores cristãos como padrão universal. A execução dessa teologia ameaça o princípio do Estado laico e pode retirar os direitos de minorias religiosas e sociais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O Salvador da Pátria como elemento central do Populismo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Entramos no século XXI como uma era sinistra, em que paixões de um escuro passado estão sendo mobilizadas novamente contra as forças da democracia de um modo diferente de tudo que vimos desde os anos 1930.</p>
<p style="text-align: justify;">Os moçambicanos não estão imunes aos atentados conta a democracia e parecem sentir um quase vazio de poder, que possibilita o surgimento de líderes populistas que se apresentam como Salvadores da Pátria.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma coisa é dizer, com toda a justiça, que o “prazo de validade” da Frelimo terminou há muito tempo, outra coisa é receber de braços abertos qualquer aventureiro que aparece prometendo este mundo e o outro. Que Venâncio Mondlane fala muito bem, como muitos dizem, é evidente. Aliás, se o modelo de comparação for o último presidente do país, Filipe Nyusi, então Venâncio Mondlane é um génio da oratória. Mas não basta falar bem e fazer belas promessas. É fundamental fazer uma espécie de Raio X daqueles que se propõem ser os Salvadores da Pátria. Basta analisar um pouco a geopolítica mundial, sobretudo após a I Guerra Mundial nas últimas décadas, para encontrarmos dezenas de Salvadores da Pátria e populistas. Dois exemplos, entre muitos outros, de “salvadores da pátria” foram Benito Mussolini na Itália e de Adolf Hitler na Alemanha, nas décadas de 1920 e 1930.</p>
<p style="text-align: justify;">Como sabemos, Salvadores da Pátria não existem. São como o Homem Aranha ou a Mulher Maravilha, maravilhosos nos filmes e desenhos animados, mas não fazem parte do mundo real. Neste ninguém colocou em risco a humanidade mais do que esses salvadores da pátria, cheios de verdadeiras ou supostas boas intenções.</p>
<p style="text-align: justify;">Os que acreditam nesses facínoras, por ignorância e fé, são os maiores prejudicados. Os que realmente criam valor e oportunidades são transformados em bodes expiatórios e acabam sacrificados após serem difamados, demonizados e humilhados. Os salvadores da pátria querem mesmo é enriquecer e manter o poder. Esses aventureiros nada produzem, nada criam, não conseguem nem exercer suas funções mais básicas, porque estão preocupados em controlar o povo para espoliá-lo. Infelizmente, o povo não percebe como o sistema é perverso e ele é a vítima. Somente quando a situação chega num ponto ultrajante, alguns se revoltam e recomeça o ciclo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o <em>establishment</em> hoje é o centro neoliberal, então certamente qualquer desafio a ele será populista.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, o termo populismo precisa ser ampliado para incluir alguns aspectos-chave, como a necessidade de aceitar o capitalismo como eterno, encolher os aspectos do Estado que fornecem bem-estar social e regulam os negócios, expandir o aparato repressivo do Estado para evitar qualquer desafio ao status quo e reconhecer a centralidade dos Estados Unidos como líder do sistema mundial.</p>
<p style="text-align: justify;">Presenciamos o suporte crescente direcionado a um populismo de direita que vê a democracia liberal como um anacronismo. Os sinais são claros. Ao redor do mundo, indivíduos, grupos e políticos vomitam desordenadas incitações de ódio e intolerância, legitimando e apoiando abertamente o racismo, a homofobia e outras selvagens formas de nacionalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que tem surgido desse abismo do poder autoritário é uma atualizada versão da política demagógica e a normalização de uma maré de ignorância com naturalização da crueldade. Um resultado direto é o crescente apoio de um populismo de direita, que trata com ódio e desdém tanto os indivíduos privados de necessidades básicas para sua subsistência &#8211; incluindo moradia, alimentação e água limpa — como as populações imigrantes deslocadas de sua terra natal por conflitos e expropriações das forças globais do capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O populismo de direita oferece uma noção pseudodemocrática de política, em que as decisões não são informadas por evidências e a ação coletiva desaparece diante do simbólico mito de um líder totalitário e poderoso. Nesse discurso, a política torna-se personalizada na imagem de um demagogo, sustentada graças à suposta ignorância das massas, tratadas como um verdadeiro “rebanho”. A emergência desses líderes da extrema direita pode ser exemplificada com a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos e de Jair Bolsonaro no Brasil. Mas também já podemos notar a capilarização desse fenômeno, com versões regionais e locais dessas figuras na política. Constata-se que se articulam perfeitamente com os evangélicos quase como se fossem irmãos siameses. Aí estão Daniel Chapo, mas, sobretudo, Venâncio Mondlane conduzindo os seus rebanhos em terras moçambicanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Promessas de benefícios e privilégios são a chave que denuncia o populista demagogo. Quando chegam ao governo, grande parte dessas lideranças se limita a propor mudanças do <em>status quo</em> centradas em políticas públicas. É o caso, por exemplo, das regras mais restritivas sobre imigração — como nas normas sobre pedidos de asilo, visto de permanência para trabalho, e a expulsão nas fronteiras. Ou seja, populistas usualmente são reformistas, não querem subverter o regime vigente.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejam-se algumas das promessas que Venâncio Mondlane já anunciou:</p>
<blockquote><p>Imensa gente em Moçambique vê Venâncio Mondlane como o salvador da pátria. Ele acha-se um novo messias que, como Moisés a conduzir os hebreus através das águas apartadas do Mar Vermelho, fugindo do exército do faraó, vem libertar os moçambicanos do jugo da Frelimo para transformar o país na terra que mana leite e mel, em que ele vai construir três milhões de casas em cinco anos, uma linha férrea da Ponta do Ouro até Mocímboa da Praia, e criar uma linha de crédito de 600 milhões de dólares para os empresários e investidores que viram os seus armazéns e infraestruturas destruídos pelos “manifestantes” nos dias de Natal (VAZ. <em>NPCTB</em>, 13/01/2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Portanto, o problema das falsas promessas e da ameaça de líderes populistas esconde um problema maior e mais profundo que diz respeito à incapacidade das elites políticas e dos partidos tradicionais de satisfazer as demandas da sociedade, abrindo espaço para que discursos e atitudes populistas ganhem saliência. É o que está acontecendo agora em Moçambique. Segundo Costa (2025):</p>
<blockquote><p>Mas o que vejo dele [Venâncio Mondlane] é um discurso populista primário, de instrumentalização do justo descontentamento em relação ao poder estabelecido, mas sem fornecer qualquer alternativa programática ou propostas objetivas. É um discurso comum a todas as variantes do fascismo dos tempos atuais que vemos eclodirem por todo o mundo.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mesmo no interior do Podemos, partido com o qual Mondlane firmou um Acordo, os conflitos internos não demoraram a surgir e se apresentam de forma contínua. Nesses conflitos, a imagem de Mondlane revela um personagem pouco confiável. Para Albino Forquilha, líder do Partido Podemos que aceitou o ingresso de Mondlane no seu Partido: “Venâncio Mondlane violou reiteradamente, e de forma grave, os termos do referido acordo, em múltiplas ocasiões, desde o período da campanha” (MUSSANHANE, (06/01/2025, p. 2).</p>
<p style="text-align: justify;">O problema está na decisão do Podemos de tomar posse no dia 15/01/2025 e Mondlane afirmar que o Podemos não pode aceitar tomar posse, porque ainda se está a lutar pela verdade eleitoral. Conforme o investigador do Centro de Integridade Pública (CIP), Lázaro Mabunda:</p>
<blockquote><p>O Podemos diz que essa luta já se esgotou, porque os acordos do Conselho Constitucional são irrecorríveis, mas Mondlane está a dizer que não. Ele não está contra a tomada de posse, mas está contra a tomada de posse neste momento em que ainda se está a lutar pela verdade eleitoral. (MABUNDA, <em>apud</em> NÁDIA, 2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, o que Mondlane deseja mesmo é ser Presidente da República de imediato. No entendimento de Vaz (18/01/2025):</p>
<blockquote><p>E para atingir esse objetivo, vale tudo — se necessário, destruir infra-estruturas públicas e privadas, promover o caos nas cidades e vilas, apunhalar a economia, incendiar o país. Desde meados de outubro, já lá vão três meses, Venâncio, o messias moçambicano, o iluminado, tem conseguido provocar sucessivas paralisações em Maputo e em algumas outras cidades moçambicanas, causando muito mais do que incómodos pessoais passageiros, ele tem causado danos sérios à nossa economia.</p></blockquote>
<figure id="attachment_155773" aria-describedby="caption-attachment-155773" style="width: 686px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-155773 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5.jpg" alt="" width="686" height="386" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5.jpg 686w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 686px) 100vw, 686px" /><figcaption id="caption-attachment-155773" class="wp-caption-text">Fonte da imagem: Youtube</figcaption></figure>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Um possível e urgente caminho para a resolução dos problemas que Moçambique enfrenta</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Para provocar aquilo que se designa por Transformação do Conflito é preciso que uns percebam o problema dos outros. Perceber — um exercício básico — não significa concordar. Significa, tão somente, recolher informação para ajudar as partes a resolverem os seus diferendos. É sempre bom lembrar que a paz se faz com o inimigo. Na opinião de Vaz (13/01/2025):</p>
<blockquote><p>Sejamos, porém, optimistas, iremos ultrapassar esta tormenta que estamos a viver no nosso país, como já superámos outras. Apesar de salteadores mafiosos no poder, apesar de messias fascizantes a quererem substituí-los. Iremos curar as feridas e voltar a viver unidos. Com visões diferentes, mas com o mesmo amor pelo país.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">O revolucionário africano Amílcar Cabral nos ensinou que o objetivo da libertação nacional é “a libertação do processo de desenvolvimento das forças produtivas nacionais”. Portanto, a formulação de uma nova teoria do desenvolvimento para o Sul Global, em geral, e para Moçambique, em particular, também é um retorno à origem de nossas lutas pela libertação do imperialismo e do neocolonialismo. É a partir do resgate dessas lutas que urge traçar o caminho para as aspirações de justiça social de Moçambique.</p>
<p style="text-align: justify;">Como diz o ditado, <em>“a arrogância precede a queda”</em>. Quando se juntam apoiadores de salvadores diferentes, o resultado só pode ser catastrófico, mesmo. Quando a arrogância de apoiadores são reflexos do candidato, então, este só tem a perder. Não se desejam deuses inatingíveis no poder. Respeite-se o slogan “Não somos servos, somos povo”. Deseja-se na governança quem olhe para o povo como uma entidade merecedora de respeito e não como servidores fiéis.</p>
<p style="text-align: justify;">São ainda milhões os que preferem a sensatez, o diálogo, a busca por soluções realistas, não fantasiosas. São eles os que rechaçam a política da vingança, que acaba arrastando a situação para o pior.</p>
<p style="text-align: justify;">É compreensível a revolta dos jovens moçambicanos. A frustração tinha que ter uma válvula de escape, mas agora é preciso ir em busca de serenidade. É preciso um intenso e genuíno diálogo entre as principais forças em disputa.</p>
<p style="text-align: justify;">É fundamental reforçar a educação cívica e a conscientização sobre os valores democráticos para impedir que visões teocráticas comprometam os direitos fundamentais de todos os cidadãos. Para muitos, o desafio está em equilibrar a liberdade religiosa com a necessidade de preservar um Estado laico e inclusivo, garantindo que nenhum grupo imponha suas crenças sobre toda a sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">O vocábulo “sensatez”, oposto de insensatez, deve começar a aparecer, ainda que temeroso, na boca de quem prefere pensar numa solução viável da crise, que implique limar arestas, juntar ideias distintas, dialogar até à exaustão.</p>
<p style="text-align: justify;">A célebre frase do pensador italiano, Giuseppe Tomasi di Lampedusa fez-me soar um alerta. Diz ele que <em>“Algo deve mudar para que tudo continue como está”</em>. Mesmo com esse alerta, eu desejo fortemente ser contrariado pela frase de Lampedusa. O povo moçambicano merece dias melhores.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando uma crise ocorre, as ações tomadas dependem das ideias circulando no seu entorno. Então, talvez a função básica seja desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne o politicamente inevitável.</p>
<p style="text-align: justify;">Um aspecto da maior relevância que deve ser observado numa democracia é a transparência. Se não fizermos um esforço para uma renovação, reinvenção e reinstalação dos valores democráticos, o que vencerá serão as trevas. Às vezes, as sociedades optam por cometer suicídio por ignorância. Há cinquenta anos ninguém dizia que a Terra era plana, o que aconteceu para que nos dias de hoje haja tanta falta de cérebro, tanto desespero?</p>
<p style="text-align: justify;">E o que fazer com o desespero, com a sensação física do desespero? O que fazer quando parece não haver mais saída, que nada vai mudar substancialmente a situação em que nos encontramos, que nada pode ser feito? Segundo Franco Berardi, esta é a principal questão da política hoje. Mas uma política que vá além da política. Porque o desespero não vai desaparecer por decreto-lei, argumentos ou explicações. É algo do corpo, está ligado ao corpo, que contamina toda a alma, e a possui. Um desespero que se traduz em todos os lugares em agressão. A prepotência dos fortes — “nada é como antes” — transforma-se em guerra contra os mais fracos. E o desespero dos fracos procura retribuir, vingar-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Como é possível interromper uma psicose (um delírio) em massa? Ou seja, como escapar do contágio do desespero agressivo ou vingativo?</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma questão central de uma política que vai além da política, uma política que sabe ouvir e dialogar com os corpos, com o que acontece nos corpos e através de suas necessidades básicas, chegar ao espírito! Todos os que enlouqueceram fascinados pela linguagem do triunfo sobre o próximo, se farão a pergunta: Ganhar o quê? O mundo é controlado, manipulado pelo 1% de milionários e estes, teleguiados por 0,1% dos mesmos! Somente eles podem ganhar! A ilusão, como sempre, termina em decepção. Grandes expectativas levam a novas frustrações. A Esperança recaiu no Desespero. Um desespero que hoje, como no passado, dá um giro para a direita. É sabido que desesperados votaram massivamente em Trump, em Bolsonaro, em Milei: os humilhados, os quebrados, os arruinados, material e mentalmente. Não estaremos vendo em Moçambique um quadro semelhante?</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos tempos estão doentes com o “sim, é possível”. Diante do “querer é poder” como mandato da época que nos estressa e esgota, assumir a impotência como alavanca, comparar-se com o impossível e o trágico é algo perturbador.</p>
<p style="text-align: justify;">Resignação? Radicalização do desespero, isso sim. A descrença em todas as consolações, nas ilusões voluntárias, nas promessas políticas. É possível imaginar um político que não peça a nossa ilusão, a nossa fé? Um político que diga “não é possível”, decepcionando crenças e libertando-se assim dos deveres?</p>
<p style="text-align: justify;">Destruir a Esperança como expectativa e crença, para que as esperanças possam talvez ressurgir em letras minúsculas, como atividade e a partir do vazio. Somente no extremo do desespero, uma vez destruídas todas as ilusões, é possível reencontrar a esperança novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Para finalizar, o grande desafio, para enfrentar a pobreza e a miséria visando um Moçambique verdadeiramente soberano, é unir as forças progressistas capazes de imaginar e lutar por um Moçambique no qual o fascismo neoliberal não mais exista e onde a promessa de uma genuína democracia se torne mais que um sonho utópico ou um discurso oportunista.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação do país apresenta tal complexidade que falar em forças progressistas parece algo fora do lugar. Claro que tem gente progressista, mas que, no momento atual está acuada, pois a onda da extrema-direita incute medo. Mas quando a situação se acalmar, quem sabe não vão começar a ouvir-se essas vozes?</p>
<p style="text-align: justify;">Não haverá justiça social sem mobilização popular nem futuro em que valha a pena viver sem luta coletiva. É preciso tratar a questão da democratização do poder a sério, com esforços contínuos para desenvolver uma forte aliança republicana e democrática contra a aliança evangélico-populista.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda gente pretende saber, de imediato, quais os rumos que o país vai tomar. O que atrás apresentamos são apenas meras sugestões sobre o que deveria ser feito de acordo com nossos valores e nossa visão de mundo. Assegurar certezas num momento político tão complexo é algo que pode acabar no “reino das frustrações”.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">ALABAO, Nuria. Internacional Antifeminista, uma radiografia In: <em>Outras Palavras</em>. <a class="urlextern" title="https://outraspalavras.net/direita-assanhada/internacional-antifeminista-uma-radiografia/" href="https://outraspalavras.net/direita-assanhada/internacional-antifeminista-uma-radiografia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://outraspalavras.net/direita-assanhada/internacional-antifeminista-uma-radiografia/</a> (17/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">COSTA, João Vasconcelos. #15 &#8211; No Moleskine, “Europa 2025” e “Depois de Moçambique, Angola?”, mais as secções habituais. <em>Por baixo da espuma</em>. <a class="urlextern" title="https://joovasconceloscosta.substack.com/p/15-no-moleskine-europa-2025-e-depois" href="https://joovasconceloscosta.substack.com/p/15-no-moleskine-europa-2025-e-depois" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://joovasconceloscosta.substack.com/p/15-no-moleskine-europa-2025-e-depois</a> (04/01/2025)</p>
<p style="text-align: justify;">FERRAJOLI, Luigi. Fascismo-liberal, também o espaço é privatizado. In: <em>IHU &#8211; UNISINOS</em> <a class="urlextern" title="https://www.ihu.unisinos.br/647771-fascismo-liberal-tambem-o-espaco-e-privatizado-artigo-de-luigi-ferrajoli?utm_campaign=newsletter_ihu__13-01-2025&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station" href="https://www.ihu.unisinos.br/647771-fascismo-liberal-tambem-o-espaco-e-privatizado-artigo-de-luigi-ferrajoli?utm_campaign=newsletter_ihu__13-01-2025&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.ihu.unisinos.br/647771-fascismo-liberal-tambem-o-espaco-e-privatizado-artigo-de-luigi-ferrajoli?</a> (13/01/2025)</p>
<p style="text-align: justify;">LORENZO, José. In: <em>Religion Digital</em> <a class="urlextern" title="https://www.religiondigital.org/jose_lorenzo/" href="https://www.religiondigital.org/jose_lorenzo/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.religiondigital.org/jose_lorenzo/</a> (15-01-2025).</p>
<p style="text-align: justify;">LORY, Gregoire. Interferência de Elon Musk nos debates nacionais irrita a Europa. <em>Euronews</em>. In: <a class="urlextern" title="https://pt.euronews.com/my-europe/2025/01/08/interferencia-de-elon-musk-nos-debates-nacionais-irrita-a-europa" href="https://pt.euronews.com/my-europe/2025/01/08/interferencia-de-elon-musk-nos-debates-nacionais-irrita-a-europa" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://pt.euronews.com/my-europe/2025/01/08/interferencia-de-elon-musk-nos-debates-nacionais-irrita-a-europa</a> (08/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">MUSSANHANE, Sebastião. Comunicado de Imprensa. (06/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">NÁDIA, Issufo. Acordo entre VM e PODEMOS: “Não houve transparência”. In: <em>DW África</em>, 2025. <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-002/n%C3%A3o-houve-transpar%C3%AAncia-nem-do-ven%C3%A2ncio-nem-do-podemos/a-71267996" href="https://www.dw.com/pt-002/n%C3%A3o-houve-transpar%C3%AAncia-nem-do-ven%C3%A2ncio-nem-do-podemos/a-71267996" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.dw.com/pt-002/n%C3%A3o-houve-transpar%C3%AAncia-nem-do-ven%C3%A2ncio-nem-do-podemos/a-71267996</a> (10/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">RODRIGUES, António. <em>O Público</em>, (17/01/2025) <a class="urlextern" title="https://www.publico.pt/2025/01/17/mundo/noticia/venancio-mondlane-manda-matar-policia-manifestante-morto-2119194" href="https://www.publico.pt/2025/01/17/mundo/noticia/venancio-mondlane-manda-matar-policia-manifestante-morto-2119194" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.publico.pt/2025/01/17/mundo/noticia/venancio-mondlane-manda-matar-policia-manifestante-morto-2119194</a></p>
<p style="text-align: justify;">SAVANA. <em>Editorial.</em> Maputo, (03/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">ST.CLAIR Jeffrey. In: Counter Punch. <a class="urlextern" title="https://www.counterpunch.org/2025/01/10/roaming-charges-hurricane-of-fire/" href="https://www.counterpunch.org/2025/01/10/roaming-charges-hurricane-of-fire/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.counterpunch.org/2025/01/10/roaming-charges-hurricane-of-fire/</a> (11/01/2025)</p>
<p style="text-align: justify;">VAZ. Álvaro Carmo. <em>NPCTB</em>, 1/25, (13/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">_____________<em>NPCTB</em>, 2/25, (18/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">VIRISSIMO, Vivian. Cinco mais ricos do mundo dobram patrimônio em 3 anos enquanto 60% ficam mais pobres. <em>Brasil de Fato. </em><a class="urlextern" title="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/15/cinco-mais-ricos-do-mundo-dobram-patrimonio-em-3-anos-enquanto-60-ficam-mais-pobres" href="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/15/cinco-mais-ricos-do-mundo-dobram-patrimonio-em-3-anos-enquanto-60-ficam-mais-pobres" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.brasildefato.com.br/2024/01/15/cinco-mais-ricos-do-mundo-dobram-patrimonio-em-3-anos-enquanto-60-ficam-mais-pobres</a> (15/01/2024).</p>
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		<title>Surrealismo político em Moçambique</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Jan 2025 11:53:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[Para onde caminha Moçambique? Por José Miguel de Sousa Lopes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por José Miguel de Sousa Lopes</strong></h3>
<blockquote><p>O que vai ser abordado neste texto diz respeito a um episódio ocorrido no dia 09/01/2025.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Quero, desde já, chamar a atenção para três questões.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira diz respeito ao uso que faço da palavra surrealismo no título deste trabalho. O surrealismo é um movimento literário e artístico, lançado em 1924 pelo escritor francês André Breton (1896-1966), que se caracterizava pela expressão espontânea e automática do pensamento (ditada apenas pelo inconsciente) e, deliberadamente incoerente, proclamava a prevalência absoluta do sonho, do inconsciente, do instinto e do desejo e pregava a renovação de todos os valores, inclusive os morais, políticos, científicos e filosóficos. Não é este sentido ligado à arte que utilizo no título, mas sim o sentido de presente em algo estranho, absurdo, que não corresponde à realidade. Dizer que algum acontecimento é surreal significa que foge à realidade, que é bizarro ou absurdo.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda para o facto de que o texto, em alguns momentos, está carregado de forte ironia. A tragédia que está ocorrendo em Moçambique é de tal magnitude, que esta foi a forma que encontrei para não cair na insanidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A terceira diz respeito ao fato de estas reflexões se referirem a um episódio ocorrido num determinado dia e hora. Para quem desejar ter mais informações sobre o contexto político e os tumultos violentos que Moçambique atravessa no momento, clique <strong><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/01/155613/" href="https://passapalavra.info/2025/01/155613/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O que me “incentivou” a escrever estas breves considerações foi o episódio que ocorreu no dia 09/01/2025, às 8:20h da manhã, no momento da chegada ao aeroporto de Maputo, do candidato Venâncio Mondlane, que há uns meses se tinha auto proclamado Presidente da República. Ao colocar os pés em solo moçambicano não só reafirmou sua autoproclamação como foi mais além, montou uma cerimónia de tomada de posse, levando assim à prática o seu desejo. Alguns dirão que essa tomada de posse foi apenas uma forma simbólica. Tudo bem, mas também sabemos que um símbolo é qualquer coisa usada para representar ou substituir outra, estabelecendo uma correspondência ou relação entre elas. Tem um valor evocatório ou místico. Então, isso não invalida o propósito de Mondlane.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155684" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1.jpg" alt="" width="1080" height="591" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1.jpg 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1-300x164.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1-1024x560.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1-768x420.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1-640x350.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1-681x373.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Já vi muita coisa na vida. Ingenuamente, pensei que já tinha visto de tudo. Ledo engano. Depois disto, só me falta ver boi voando. Descobri que um cidadão não precisa respeitar um mínimo de regras constitucionais. Basta uma Bíblia bem encadernada, novinha em folha como se pode ver nas fotos. Provavelmente este exemplar do seu possuidor nunca foi aberto! Precisa também ter habilidade para fazer genuflexões, que o caminho do Senhor fará o resto. Como se sentirão os moçambicanos pertencentes a outros credos religiosos, ou sem credo religioso, ao verem estas imagens? Pois, foi isto que os moçambicanos, e não só, tiveram o “privilégio” de assistir esta manhã, um momento que vai ficar registado não apenas na História de Moçambique, mas na História Mundial. Afinal, apenas em duas ocasiões ocorreram “autoproclamações” políticas no planeta Terra.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O surgimento das autoproclamações políticas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O fenômeno de autoproclamação ocorreu pela primeira vez na Venezuela, em 2019, quando Juan Guiadó acusou as autoridades venezuelanas de fraude eleitoral. Incentivado pelos Estados Unidos, seguido depois pelo Parlamento Europeu, se autoproclamou Presidente da República. Durante dois anos, fez um périplo por vários países para receber apoio e derrubar o presidente Nicolás Maduro, mas todas as tentativas fracassaram. Guaidó, além de ocultar ou falsificar dados de sua declaração de patrimônio, recebeu dinheiro de fontes internacionais e nacionais sem justificar, tendo também conseguido desviar 2 bilhões de dólares a contas próprias. Registe-se que o ato da tomada de posse ocorreu fora do país. Agiu em conjunto com o governo dos EUA para ativos venezuelanos apropriados no exterior. A movimentação financeira incluía contas do governo da Venezuela ou do Banco Central Venezuelano sediadas no Federal Reserve Bank de Nova York, mas o controle destes ativos era aplicável a contas semelhantes em qualquer banco segurado ou garantido pelo governo americano. Guaidó tem cerca de vinte processos abertos contra si por crimes de usurpação de funções, corrupção, branqueamento de capitais, incitação pública continuada à desobediência às leis, peculato agravado, utilização fraudulenta de fundos públicos, conspiração com governos estrangeiros, terrorismo, rebelião, tráfico de armas de guerra, traição e associação para cometer um crime.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda ocorreu em 2024, também na Venezuela, no processo eleitoral para Presidente da República com o surgimento do candidato Edmundo González Urrutia, que também acusou as autoridades venezuelanas de fraude eleitoral. Na esteira de Guaidó, também se autoproclamou Presidente. Sua estratégia assenta na negação da Quinta República, no financiamento espúrio, na pressão política internacional e em medidas coercivas unilaterais, combinadas com cenários de violência nas ruas e, como aconteceu em 2019, a montagem de uma arquitetura institucional paralela, que, como o tempo demonstrou, tinha como objetivo a apropriação da herança venezuelana no exterior. Entre os vários encontros de Urrutia devem salientar-se os que ocorreram com Trump e Milei. Na América Latina, apenas Costa Rica, Panamá, Equador — que provavelmente mudará de governo em fevereiro —, Peru, Argentina e o governo cessante do Uruguai, são os países que reconheceram a autoproclamação de Urrutia. Mesmo com tensões, o Plano “Guaidó 2.0” parece ter muito menos atores envolvidos. É verdade que nem o mundo nem a região são os mesmos de 2019.</p>
<p style="text-align: justify;">O “rio” da autoproclamação parece vir engrossando com novos afluentes que surgem cada vez com maior frequência e intensidade. Diria que parece estar virando moda esse tipo de ato na política, ou melhor, na antipolítica. Eu próprio começo a dar sinais esperançosos para me aventurar também nesse sedutor e atraente caminho da autoproclamação para Presidente da República. De que país? Ora… qualquer um. O que não falta são países no mundo. Talvez a escolha da República das Bananas seja a mais interessante!</p>
<p style="text-align: justify;">Feita a escolha, só é necessário um estalar de dedos e abrir, ao acaso, uma página da Bíblia. Este é, certamente, um dos livros mais banhados de sangue da literatura mundial, principalmente o Antigo Testamento. É este livro que acompanha o pastor Mondlane dia e noite, livro sem o qual ele se sentiria à deriva, completamente sem rumo.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante destacar que Moçambique é agora o único país do mundo que tem dois presidentes: um proclamado e outro autoproclamado. Lembro que Urrutia, ao contrário de Mondlane, se autoproclamou, mas não tomou posse. Assim, Moçambique entrou para o Guiness Book com esta façanha indesmentível. Finalmente, toda a comunidade internacional vai passar a respeitar Moçambique! Que orgulho!</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma pequena digressão bíblica</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">No mundo ocidental a Bíblia é o livro mais famoso e o mais citado. Atenção, eu disse citado, não disse lido. Nos Estados Unidos, por exemplo, praticamente todos os americanos possuem este livro que, inclusive, é colocado na mesinha de cabeceira. Mas, a esmagadora maioria, nunca o leu. No púlpito das igrejas do Ocidente, os padres sempre citam passagens da Bíblia, mas apenas aquelas poucas impregnadas de valores humanos. Daí que, ininterrupta e sistematicamente, sejam sempre as mesmas citações que os paroquianos são “obrigados” a ouvir até serem fixadas na memória para serem passadas adiante.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155685" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3.jpg" alt="" width="1440" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3.jpg 1440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-1024x512.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-840x420.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-681x341.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1440px) 100vw, 1440px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: Que Deus é esse que o livro nos mostra? A Bíblia apresenta-nos um Deus tirano, vingador, caprichoso, que manda exterminar povos inteiros. E pede que se façam essas ações sem compaixão. Vejamos apenas alguns exemplos, dentre centenas, que fazem parte do livro mais famoso do mundo ocidental.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando Deus fala a Saul para que acabe com o povo de Amaleque, ordena-lhe: “<em>Vá, pois, e fira Amaleque e destrua tudo o que tem e não tenha piedade dele. Mate homens, mulheres e crianças, mesmo as de colo, vacas, ovelhas, camelos e burros</em>. (1. Samuel, 15:3).</p>
<p style="text-align: justify;">Outro exemplo:</p>
<blockquote><p><em>Quando no meio de ti, em alguma das tuas portas que te dá o senhor teu Deus, se achar algum homem ou mulher que fizer mal aos olhos do senhor teu Deus, transgredindo a sua aliança, Que se for, e servir a outros deuses, e se encurvar a eles ou ao sol, ou à lua, ou a todo o exército do céu, o que eu não ordenei, E te for denunciado, e o ouvires; então bem o inquirirás; e eis que, sendo verdade, e certo que se fez tal abominação em Israel, Então tirarás o homem ou a mulher que fez este malefício, às tuas portas, e apedrejarás o tal homem ou mulher, até que morra </em>(Deuteronómio 17, 2-5).</p></blockquote>
<p>E para finalizar mais um exemplo:</p>
<blockquote><p><em>Tudo o que for achado será transpassado; e tudo o que se unir a ele cairá à espada. E suas crianças serão despedaçadas perante os seus olhos; as suas casas serão saqueadas, e as suas mulheres violadas</em>“ (Isaías 13, 15-16).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">É este livro um dos principais suportes do projeto político de Mondlane. Numa época em que a questão da violência se coloca para toda a humanidade e em que diversos setores da sociedade buscam soluções não violentas para o drama da violência, coloca-se para o cristão, que baseia sua fé na revelação bíblica, o seguinte dilema: Como ser não violento e crer num Deus violento? Há que fazer uma escolha necessariamente empobrecedora, qual seja, escolher ou a imagem do Deus bíblico ou o ideal da não violência? Ou ainda, há que escolher entre o Deus do Antigo Testamento, que se envolve em práticas de violência e o Deus de Jesus, que se revela como amor redentor na impotência da cruz?</p>
<p style="text-align: justify;">Saberá Mondlane responder a este dilema?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As sinalizações da política-espetáculo de Venâncio Mondlane</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Na sociedade do espetáculo, a imagem desempenha um papel central na política. Os políticos que adotam estratégias teatrais se preocupam mais com sua própria imagem e como são percebidos pelos eleitores do que com a qualidade das políticas que estão sendo discutidas. Assim, a construção de uma persona midiática atraente se torna prioritária em detrimento do trabalho legislativo sério e da busca por soluções efetivas para os problemas enfrentados pela sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155683" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2.jpg" alt="" width="1140" height="739" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2.jpg 1140w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-300x194.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-1024x664.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-768x498.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-648x420.jpg 648w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-341x220.jpg 341w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-640x415.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-681x441.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" />Contudo, essa utilização de estratégias teatrais na política contribui para a alienação e a superficialidade do debate público. Ao buscar momentos dramáticos e polêmicos, os políticos desviam a atenção dos problemas reais e complexos que requerem abordagens aprofundadas. A simplificação excessiva e a busca por slogans de efeito resultam em uma compreensão superficial e distorcida das questões políticas, comprometendo o diálogo construtivo e a tomada de decisões informadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos numa época em que o método de divulgação de uma ideia, de um projeto e de uma liderança deve ser transmitido às massas em uma linguagem semelhante à de um produto de consumo, em que o discurso emotivo deve predominar. Nesse processo, no qual nós ainda vivemos, resta saber quem sobrevirá — a política ou a propaganda.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso em análise podemos ver como, num golpe de mágica, um novo Salvador, ou melhor, pastor, se apresenta perante o seu rebanho, que está inteiramente disponível para seguir toda e qualquer orientação messiânica.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua arrogância chega ao ponto de afirmar, um dia antes da sua chegada a Moçambique, que “Gostaria de convidar o próprio Presidente da República, o Procurador-Geral da República, a presidente do Conselho Constitucional e o presidente do Supremo Tribunal a irem receber-me”. Diria eu, não só recebê-lo, mas a prestar-lhe vassalagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Importa salientar que Mondlane transporta consigo vários processos-crime por incitação às manifestações violentas que têm vindo a acontecer no País desde 21 de outubro e que causaram danos materiais e vários mortos.</p>
<p style="text-align: justify;">O sociólogo João Feijó assevera que: “Venâncio Mondlane já nos habituou a um tipo de política-espetáculo, em que tem de criar acontecimentos que provocam grande comoção social, para manter viva a chamada luta na rua, e é nessa onda que ele navega, mantendo as massas ativas, exaltadas e emotivas” (FEIJÓ, 09/01/2025). Aliás, essa é a estratégia adotada pela extrema-direita mundial, sendo as mais representativas as dos EUA, Argentina, Itália, Hungria.</p>
<p style="text-align: justify;">Nestas considerações procuro, em alguma medida, mostrar o elo entre a mídia e a política, pois, como é óbvio, o que proporcionou minhas reflexões sobre este texto foram, exatamente, os vídeos e fotos da “tomada de posse” do pastor Mondlane na sua chegada a Moçambique.</p>
<p style="text-align: justify;">A política não se esvazia necessariamente com a crescente importância dos meios de comunicação. Em primeiro lugar porque uma grande parte dela se faz longe destes meios e, depois, porque, mesmo na mídia, a política pode se realizar sem perder em conteúdo. Modificam-se as formas de interação entre os cidadãos e o sistema político, assim como se modificam as formas de interação em sentido mais geral nas sociedades contemporâneas. Os meios de comunicação oferecem novas possibilidades de ação para os movimentos que interagem e competem para tornarem as suas demandas assuntos de interesse público. Nesse sentido, a democracia corre o risco de morrer democraticamente porque a própria democracia está elegendo antidemocratas para o poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Não foi um espetáculo político, estrategicamente bem pensado, o que Mondlane proporcionou aos seus seguidores?</p>
<p style="text-align: justify;">Para onde caminha Moçambique? Fazer futurologia política, como se sabe, é um exercício muito arriscado. Mas Deus e Mondlane sabem o caminho. Confiemos na indesmentível sabedoria de ambos.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">FEIJÓ, João. Que Esperar do Regresso de Venâncio Mondlane a Moçambique: Prisão, Mais Manifestações ou um Regresso à Normalidade? In: <em><a href="https://www.diarioeconomico.co.mz/2025/01/08/economia/desenvolvimento/o-que-esperar-do-regresso-de-venancio-mondlane-a-mocambique-prisao-mais-manifestacoes-ou-um-regresso-a-normalidade/?utm_source=mailpoet&amp;utm_medium=email&amp;utm_source_platform=mailpoet&amp;utm_campaign=Janeiro%202025" target="_blank" rel="noopener">Diário Económico</a>. </em>(09/01/2025).</p>
<p><em>Fotografias retiradas de Diário Económico e O Observador</em></p>
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		<title>Moçambique: terremoto político coloca o país à beira do caos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jan 2025 10:57:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[ Preocupações sobre fraude nas eleições gerais de Moçambique em outubro de 2024 se transformaram em um movimento nacional de protesto contra a Frelimo, que governa o país desde a independência. Por  José de Sousa Miguel Lopes ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por José de Sousa Miguel Lopes</strong></h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Introdução</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Após sua independência em 1975 Moçambique enfrentou uma terrível guerra civil, que opôs a direitista Renamo (Resistência Nacional de Moçambique), apoiada pelo então regime do <em>apartheid</em> da África do Sul e pelos EUA, ao governo socialista da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique).</p>
<p style="text-align: justify;">Esse conflito se deu de 1977 até 1992, quando se assinou um acordo de paz, conhecido como “Acordo de Roma”. Tal acordo, apoiado pela maioria da comunidade internacional, conferiu prestígio internacional ao país.</p>
<p style="text-align: justify;">A realização de eleições multipartidárias (1994, 1999, 2004, 2009, 2014, 2019 e agora, em 2024) sempre ocorreram de forma regular, democrática e pacífica, sem denúncias comprovadas de fraude; o pleno funcionamento, de forma ininterrupta, de seu poder Legislativo (a Assembleia da República) e a liberdade de expressão, religiosa e de associação, algo relativamente raro na África subsaariana, chegaram a situar Moçambique como modelo para países em situação pós-conflito.</p>
<p style="text-align: justify;">Adicionalmente, em 6 agosto de 2019, foi assinado, em Maputo, o Acordo de Paz e Reconciliação. O evento histórico foi apresentado como conclusão do processo de paz entre o governo moçambicano e a Renamo. O instrumento foi firmado pelo presidente de Moçambique, Felipe Nyusi, e pelo general Ossufo Momade, líder da Renamo.</p>
<p style="text-align: justify;">Para complicar ainda mais a situação de segurança de Moçambique, a província de Cabo Delgado, situada no extremo norte do país, vem sofrendo, desde 2017, ataques sistemáticos do autodenominado “Al-Shabaab Moçambicano” (ASM), grupo terrorista islâmico, que, em poucos anos, se fortaleceu a ponto de ameaçar a estabilidade dessa região do país. Estima-se que a instabilidade no norte de Moçambique tenha resultado, até o momento, em mais de 3.000 mortes e 800 mil deslocados internos. Muito embora o controle do porto e a vila sede do distrito de Mocímboa da Praia tenha sido retomado pelo governo moçambicano, a situação de instabilidade persiste, agravada pela crise dos alimentos e dos seguidos ciclones tropicais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155615 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp1-2.jpg" alt="Moçambique: terremoto político" width="454" height="314" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp1-2.jpg 454w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp1-2-300x207.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 454px) 100vw, 454px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Além de seu imenso potencial agrícola, Moçambique é um dos países com maior potencial energético da África. Possui grandes reservas estimadas de carvão (23 bilhões de toneladas) e de gás natural (127 bilhões de metros cúbicos comprovados), além de elevado potencial de geração de energias renováveis, como eólica (4.700 MW), solar (2.700 MW) e bioenergia (2.200 MW).</p>
<p style="text-align: justify;">Em particular, a confirmação, em 2011, de vultosas reservas de gás natural na Bacia do Rovuma, no extremo norte do país, e o projeto de liquefação de gás deverão tornar Moçambique um dos maiores exportadores mundiais de gás natural. Especificamente, tornar-se-á o terceiro maior exportador dessa <em>commodity</em> estratégica.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, Moçambique tem-se aproximado bastante da China, e já aderiu ao projeto do Cinturão e Rota da Seda.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma, mantém boas relações com a Rússia. Com efeito, Moçambique e Rússia realizaram, nos últimos anos, movimentos de reaproximação, que culminaram com a assinatura de importantes acordos, sobretudo em cooperação militar, tendo a Rússia oferecido treinamento de pessoal e equipamentos militares para o governo moçambicano.</p>
<p style="text-align: justify;">No campo geopolítico, o governo de Moçambique inclina-se mais para o BRICS e é crítico à imposição de uma nova “guerra fria” ao Sul Global, embora procure manter boas relações com os EUA e a União Europeia.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155616 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp2-1.jpg" alt="Moçambique: terremoto político " width="774" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp2-1.jpg 774w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp2-1-194x300.jpg 194w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp2-1-660x1024.jpg 660w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp2-1-768x1191.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp2-1-271x420.jpg 271w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp2-1-640x992.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp2-1-681x1056.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 774px) 100vw, 774px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Em 25 de Agosto de 2023, o Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, defendeu que a iniciativa de cooperação entre os países que fazem parte dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, e África do Sul), com países não BRICS, como Moçambique, aliada à sua expansão, configura um contributo positivo para a materialização das iniciativas africanas refletidas nas agendas para o desenvolvimento de África.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo da Frelimo, frise-se, não é hostil aos EUA, e a empresa norte-americana Exxon-Mobil já lidera um consórcio internacional para a exploração do gás natural moçambicano. Contudo, seria de interesse do “Ocidente” que Moçambique tivesse um governo mais alinhado aos seus interesses e menos independente. Os EUA estão muito preocupados com a crescente influência da China e da Rússia na África, em geral, e em Moçambique, em particular.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>2024: um ano sem precedentes na história do voto a nível mundial</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em um ano sem precedentes na história do voto, mais de 80 países tiveram eleições legislativas ou executivas, nacionais ou locais — e ainda houve outras votações importantes, como a do Parlamento Europeu. No geral, o clima foi de mudança: a inércia típica das reeleições, quando as máquinas governamentais trabalham a favor da continuidade do poder, foi suplantada por um desejo de troca no comando, resultado de um mundo em estado prolongado de “policrise”, decorrente de guerras, alto custo de vida e outras ameaças.</p>
<p style="text-align: justify;">Em mais de 80% das democracias que depositaram votos para eleições nacionais, o governo de situação perdeu cadeiras ou percentual de votos em relação à eleição anterior.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi ainda um ano de desconfiança generalizada, com grande número de eleições antecipadas e um <em>impeachment</em> presidencial na Coreia do Sul que quebrou a dieta mundial de dois anos sem ejeção de chefes de Estado via <em>impeachment</em>. Isso tudo sem contar com as reformas constitucionais que aconteceram à queima-roupa, como no Togo, ou reformas judiciárias que aconteceram no encalço de outras eleições, como no México. As cortes também foram acionadas sob vultosas suspeitas de fraudes e, pela primeira vez na história, um país europeu, Roménia, cancelou uma eleição em razão de fortes suspeitas de interferência estrangeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, também não é de surpreender que mais de quatro em cada dez cidadãos do mundo não confiem em seus governos nacionais — patamar de confiança que piora a cada ano há mais de uma década.</p>
<p style="text-align: justify;">Para não dizer que não falamos de Donald Trump nos Estados Unidos, sua vitória selou o fim de uma era — ou do Partido Democrata como o conhecemos hoje. Se, no começo do ano, a disputa era carimbada como “a eleição” do ciclo, com resultado incerto e potencial margem de vitória para Joe Biden, do Partido Democrata, o cenário político apresentou, algumas vezes, reviravoltas até o candidato do Partido Republicano ser consagrado não só como o novo presidente, mas como o primeiro presidente Republicano em vinte anos a conseguir ganhar também no voto popular. E não foi só a presidência; o partido de Trump conseguiu levar igualmente o Senado e a Câmara dos Representantes — as duas casas do Congresso norte-americano. Foi uma vitória devastadora.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155617 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3.jpg" alt="Moçambique: terremoto político" width="774" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3.jpg 774w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3-194x300.jpg 194w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3-660x1024.jpg 660w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3-768x1191.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3-271x420.jpg 271w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3-640x992.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3-681x1056.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 774px) 100vw, 774px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, 2024 foi o ano em que massas de cidadãos ao redor do mundo não temeram protestar contra sistemas políticos que lhes viraram as costas — seja nas urnas, seja nas ruas. Seja votando em candidatos que não eram favoritos, seja bancando manifestações públicas de descontentamento. A contraparte da desconfiança nos partidos, políticos e instituições bem-estabelecidas é a insatisfação, a manifestação, até o boicote. O ano de 2024 mostrou cidadãos em alerta.</p>
<p style="text-align: justify;">A extrema-direita, em ascensão nos países centrais do capitalismo, mas também na periferia do sistema, é uma manifestação da crise do capitalismo globalizado e das democracias liberais. É o caso de Moçambique que vive um terremoto político e social que ameaça colocar em questão a própria estrutura de um Estado já fragilizado, inclusive por abalos climáticos. Nas últimas semana, a violência já fez mais de duas centenas de mortos e colocou em cena a validade das eleições realizadas em outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise aumentou quando, em 19 de outubro, dois representantes do partido Podemos, o partido de Mondlane, foram mortos a tiros. O ataque descarado enviou ondas de choque por todo o país e atraiu condenação mundial, incluindo do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, dos EUA e da União Europeia.</p>
<p style="text-align: justify;">Análises internas e externas apontam que as eleições em Moçambique foram fraudadas. Um relatório da CPLP indicou problemas como “<em>morosidade na apuração</em>” e problemas nos “<em>procedimentos de contagem</em>” dos votos. Um outro informe, desta vez realizado por observadores da UE, também sinalizou para os problemas identificados. A missão “<em>observou irregularidades durante a contagem de votos e a alteração injustificada dos resultados eleitorais</em>”. Os bispos católicos de Moçambique também denunciaram manipulação de votos. Até ao momento, apenas 15 governos pelo mundo reconhecem os resultados divulgados pelos moçambicanos, entre eles Cuba, China, Rússia, Angola, Nicarágua e Venezuela.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o questionamento de resultado de eleições é comum no país, a diferença desta vez foi a articulação dos protestos, ganhando o apoio da classe média e baixa urbana. O governo reagiu com violência, revelando a estrutura precária das forças de ordem.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155619 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3.png" alt="Moçambique: terremoto político" width="728" height="437" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3.png 728w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3-300x180.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3-700x420.png 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3-640x384.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp3-681x409.png 681w" sizes="auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As acusações de diplomatas estrangeiros são, de fato, de que o pastor teria ampliado a crise social com discurso de ódio. Foram suas convocações que ampliaram o movimento de saques de lojas e estabelecimentos comerciais em Maputo e em outras cidades. Como forma de justificar a repressão, o governo se apressou em denunciar a tentativa de Mondlane de instrumentalizar o caos e chantagear o país.</p>
<p style="text-align: justify;">A aposta de Venâncio Mondlane, uma espécie de Juan Guaidó de Moçambique, é forçar a continuidade dos atos para, quem sabe, receber apoio direto e intervencionista da OTAN, além dos grupos de mercenários, ONGS, Igrejas e mídias atlanticistas. Está no horizonte, no plano interno, uma desenhada intenção de jogar na divisão das forças armadas. Ele terá sucesso? A história dirá…</p>
<p style="text-align: justify;">Quem concorre, no universo das eleições burguesas, é o caso em pauta de Venâncio Mondlane, não deve apresentar os resultados e muito menos anunciar a vitória antes do pleito. O roteiro, alicerçado na vitória prévia e nas denúncias de fraudes prenunciadas, não é uma novidade nos países controlados e principalmente golpeados pela OTAN. A disputa e o interesse pelo processo eleitoral de Moçambique têm relação com os recursos e/ou riquezas que estão no subsolo do país e com a posição geoestratégica relativa às novas rotas da seda, BRICS e países do cone sudeste e sul do continente africano.</p>
<p style="text-align: justify;">O golpe híbrido e/ou a tentativa de golpe de Estado, em desenvolvimento em Moçambique, tem componentes comuns e a assinatura do imperialismo na sua concepção, execução e finalidade de captura, rapinagem e total controle dos recursos minerais, energéticos e geoestratégicos do país. Venâncio Mondlane é o ícone dessa política de desestabilização nacional. O objetivo é empurrar o país para o caos e, ao mesmo tempo e com saques e agentes mercenários infiltrados, fragilizar o governo e promover uma convulsão social que possibilite o golpe de Estado e/ou a total desorganização social e de todas as instâncias de governo, do Estado e fundamentalmente da soberania popular.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que está acontecendo?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Moçambique está no fio da navalha. Já assolado por uma terrível insurgência jihadista, o país está agora lidando com as consequências violentas dos resultados das eleições.</p>
<p style="text-align: justify;">As autoridades anunciaram a vitória do candidato do governo com 70,7% dos votos. Mondlane teria ficado com apenas 20,3%. O partido Podemos disse que deveria ter 138 dos 250 assentos no parlamento, em vez dos 31 que a comissão eleitoral disse ter conquistado.</p>
<p style="text-align: justify;">Mondlane afirmou repetidamente que venceu e pediu que seus partidários saíssem às ruas. Isso levou a economia a uma quase paralisação, incluindo o fechamento da fronteira e a interrupção do comércio com a África do Sul.</p>
<p style="text-align: justify;">Declarou vitória com base no fato de que uma contagem paralela parcial conduzida por sua equipe lhe deu a maioria dos votos, mesmo que ele tenha fornecido poucas evidências para comprovar sua alegação. O procurador-geral alertou em resposta que Mondlane deveria se abster de incitar distúrbios. Desrespeitando essa liminar, Mondlane convocou seus apoiadores, inclusive nas redes sociais, onde ele tem centenas de milhares de seguidores, em 16 de outubro, a se juntarem a protestos e realizarem greves gerais contra o manejo das eleições, capitalizando alegações confiáveis de grupos da sociedade civil e observadores locais e estrangeiros de que o processo estava repleto de irregularidades e fraudes.</p>
<p style="text-align: justify;">Um primeiro protesto nacional, em 21 de outubro, foi dispersado por agentes de segurança fortemente armados que dispararam munição real contra manifestantes em várias cidades e bombas de gás lacrimogêneo contra jornalistas que entrevistavam Mondlane em Maputo. O candidato posteriormente fugiu para um esconderijo secreto, fora do país, especula-se que se encontra na Suécia, de onde agora transmite regularmente conversas ao vivo para seus seguidores no Facebook. Três dias depois, e para nenhuma surpresa, os resultados oficiais da eleição proclamaram Chapo como vencedor com 71 por cento dos votos, com Mondlane com 20 por cento. A Frelimo também aumentou sua maioria absoluta no parlamento para 195 de 250 assentos e manteve todos os onze cargos de governador provincial.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155620 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp5.jpg" alt="Moçambique: terremoto político" width="768" height="611" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp5.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp5-300x239.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp5-528x420.jpg 528w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp5-640x509.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp5-681x542.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As frustrações entre os apoiadores de Mondlane com o governo da Frelimo se transformaram em protesto popular. Desde o duplo assassinato e o anúncio de que Chapo será o próximo presidente de Moçambique, as frustrações entre os apoiadores de Mondlane com o governo da Frelimo ampliaram os protestos populares contra o governo, em uma escala sem precedentes na história recente do país. Vários partidos da oposição — além do Podemos — se juntaram aos apelos de Mondlane para protestar. Manifestações ocorreram na maioria das províncias, com Maputo, Nampula e Zambézia entre os pontos críticos. Reuniões na capital atraíram milhares de pessoas e paralisaram a cidade, incluindo o porto, embora a polícia tenha impedido a formação de grandes multidões. Atos de vandalismo também foram relatados, com manifestantes destruindo escritórios do partido Frelimo em todo o país e uma delegacia de polícia em Nampula.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 7 de novembro, a agitação atingiu o auge quando Mondlane encorajou seus apoiadores a marchar em Maputo. Manifestantes e forças de segurança se envolveram em batalhas contínuas ao longo do dia, deixando várias pessoas mortas. A África do Sul fechou temporariamente sua principal fronteira terrestre com Moçambique, no mesmo dia em que os manifestantes moçambicanos a tentaram cruzar, com a polícia sul-africana disparando balas de borracha em uma tentativa de empurrá-los de volta. O governo também suspendeu a internet móvel em várias ocasiões. Em 12 de novembro, o chefe de polícia Bernardino Rafael chamou o movimento de protesto de “terrorismo urbano” com “a clara intenção de alterar a ordem constitucional moçambicana democraticamente estabelecida”. No mesmo dia, o procurador-geral anunciou que 208 processos foram iniciados contra os perpetradores “morais e materiais” da violência, provavelmente incluindo Mondlane.</p>
<p style="text-align: justify;">Confederação das Associações Económicas (CTA) fez saber que mais de 500 empresas foram vandalizadas durante as manifestações pós-eleitorais em Moçambique, sendo que, até agora, 12 mil pessoas estão sem emprego. Onório Manuel, vice-presidente do pelouro da Indústria da CTA, disse que “são empresas localizadas, sobretudo, na província de Maputo, onde está a maior parte do tecido industrial do País” (MANUEL, 2024).</p>
<p style="text-align: justify;">Advogados dizem que ajudaram a garantir a libertação de mais de 2.700 manifestantes de detenções ilegais. Várias organizações apontaram o impacto prejudicial das manifestações na economia, com a maioria dos trabalhadores ficando em casa nos dias de protesto, seja porque estão respondendo ao chamado de Mondlane para greve ou por medo da violência que podem encontrar no caminho para o trabalho. Mondlane pediu mais protestos até 15 de novembro, após o que ele diz que deve haver uma “pausa”. Para o analista Jamil Chade:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até agora foram mais de 254 mortos, centenas de feridos e mais de 4,1 mil pessoas detidas. (…) Incêndios ainda causaram perdas de mais de 14 milhões de euros no setor de saúde, com a destruição de 77 ambulâncias e outras viaturas. (…) para além das perdas estimadas em 24,8 bilhões de Meticais (360 milhões de euros), agora mais 500 empresas foram ou vandalizadas ou saqueadas (…) Até novembro, os prejuízos das vandalizações estavam estimadas em 2,9 bilhões de Meticais (45 milhões de euro), e mais de 12 mil postos de emprego afetados, diretamente (…) Isto significa que cerca de 40% do tecido industrial de Moçambique foi vandalizado. Nos próximos tempos, haverá escassez de tudo, incluindo desemprego em massa. Prevê-se que mais de 500 mil pessoas poderão ir ao desemprego, de forma imediata, o que irá agravar a pobreza e condições sociais (CHADE, 2024).</p>
</blockquote>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155622 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp6-1.jpg" alt="Moçambique: terremoto político" width="640" height="634" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp6-1.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp6-1-300x297.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp6-1-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp6-1-424x420.jpg 424w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Cerca de duas mil e quinhentas famílias moçambicanas do distrito de Morrumbala, na Zambézia, entraram nos últimos dias no país vizinho, Malawi, fugindo da tensão pós-eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde 21 de outubro, pelo menos, ocorreram um total de 261 de óbitos e 573 baleados, segundo o último balanço feito pela plataforma eleitoral Decide (JULIÃO, p. 4). Para Ntsai:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nunca em Maputo se destruiu tanto num só dia: hospitais, postos de energia, armazéns de medicamentos, lojas, condutas de água, bens públicos, repartições e serviços. Tudo que era nosso, agora ficou de ninguém. Tudo que era construção, ficou ruína (NTSAI, p. 5)</p>
</blockquote>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Para onde, provavelmente, os protestos caminharão a partir daqui?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Apesar da reputação da Frelimo de violar normas democráticas e eleitorais, a campanha de 2024 começou com uma surpresa quando o partido nomeou Daniel Chapo, de 47 anos, como seu candidato presidencial. Anteriormente governador da província de Inhambane, acredita-se que Chapo entenda a necessidade de abrir espaço democrático e empreender uma reforma significativa. Mas isso não significa que o partido no poder esteja pronto para afrouxar seu controle ainda, muito menos para abrir mão do poder. O atual presidente Nyusi, que permanecerá como secretário-geral do partido até pelo menos 2027, é apoiado por uma facção linha-dura dentro da Frelimo composta por generais da era da libertação com interesses comerciais que pretendem preservar a todo custo. A seleção de um jovem candidato com pouca experiência em política nacional é, segundo relatos, um compromisso forjado como resultado de uma luta interna pelo poder, em vez do reflexo de um desejo genuíno de mudar de rumo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem Mondlane nem o governo parecem prontos para recuar, apesar da natureza mortal dos protestos. Mondlane declarou que está aberto a falar com o governo, mas ele afirma que os protestos continuarão até que ele seja proclamado o vencedor da eleição presidencial e até que o governo concorde com reformas como medidas anticorrupção e fornecimento de assistência médica acessível. Mondlane provavelmente calcula que a paralisia contínua das principais cidades do país forçará a mão do governo, enquanto ele perderia prestígio e ímpeto se aceitasse qualquer coisa aquém de suas demandas. Enquanto ele pede manifestações pacíficas, apimenta seus discursos com palavras combativas como “revolução”, além de enfatizar a necessidade de “acabar com o regime” e de “o povo tomar o poder”.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo, enquanto isso, está prolongando o jogo. Nyusi e outros oficiais têm repetidamente pedido calma e alertado que novos distúrbios serão enfrentados pela força. O governo provavelmente calcula que os protestos acabarão eventualmente diante das dificuldades econômicas ou mais brutalidade policial. Ainda assim, Chapo mostrou seu lado pragmático ao dizer que pode considerar o diálogo depois que o Conselho Constitucional confirmar os resultados das eleições, um processo que tradicionalmente leva algumas semanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas quais são as perspectivas de desescalada? Apelos para o diálogo vieram de vários quadrantes. Bispos católicos na influente Conferência Episcopal de Moçambique criticaram a condução das eleições e sugeriram que os políticos considerassem formar um governo de unidade nacional. A nível regional, a União Africana (UA) condenou os assassinatos de Dias e Guambe, ambos do Partido Podemos, e apelou à calma. Anteriormente, em contraste com a UE e outros, a equipa de observação eleitoral da UA descreveu as eleições como “pacíficas” e em conformidade com as leis eleitorais moçambicanas. Parceiros estrangeiros que apoiam o governo com ajuda ao desenvolvimento e assistência militar, nomeadamente a UE e os EUA, apelaram à contenção. A 2 de novembro, o Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e da Política de Segurança, Josep Borrell, insistiu na necessidade de diálogo político.</p>
<p style="text-align: justify;">Para limitar o risco de um confronto mais mortal, todos os lados devem recuar do abismo. As forças de segurança devem garantir os direitos dos manifestantes de se manifestarem pacificamente e responder com moderação se enfrentarem violência ou vandalismo. Chapo e Mondlane devem cumprir suas declarações de que estão abertos ao diálogo e explorar a possibilidade de negociações de desescalada. Embora os dois lados possam ver pouco espaço para compromisso, a intransigência tem riscos para ambos os lados. Os apoiadores de Mondlane acabarão se cansando e podem já precisar de um descanso, a julgar por seu desejo de pausar os protestos. As queixas expressas nas ruas de Moçambique, entretanto, dificilmente desaparecerão e podem ser o prenúncio de mais protestos antigovernamentais no futuro.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155623 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp7.jpg" alt="Moçambique: terremoto político" width="590" height="416" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp7.jpg 590w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp7-300x212.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 590px) 100vw, 590px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As discussões devem visar, antes de tudo, reduzir a brutalidade policial e o assédio de apoiadores da oposição. Uma concessão importante do governo seria dar garantias a Mondlane de que ele pode retornar com segurança a Moçambique e não será preso se prosseguir com seu trabalho político. As autoridades moçambicanas devem se comprometer a fornecer atualizações regulares sobre a investigação do assassinato de Dias e Guambe. Elas também devem cumprir seu compromisso de responsabilizar os perpetradores do ataque. As investigações sobre a violência pós-eleitoral devem ser justas, não motivadas por motivos políticos partidários.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora essas medidas ajudem a acalmar a animosidade entre os dois lados, o acordo sobre um resultado para a disputa eleitoral continua mais distante. A maioria das figuras seniores da Frelimo não estará disposta a aceitar Mondlane como interlocutor nas negociações sem garantias de que ele está preparado para retirar sua demanda de ser reconhecido como o presidente legítimo do país. Mesmo assim, as forças da oposição devem insistir na necessidade de negociar reformas no sistema político para torná-lo mais representativo e garantir uma maior diversidade de vozes. Muitos moçambicanos estão convencidos de que mudanças na forma como o país é governado serão necessárias para alcançar as melhorias sociais e econômicas que eles almejam.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora pareça haver pouca perspectiva de acordo entre os dois lados quanto ao resultado da eleição, uma série de medidas podem ajudar a tornar a votação mais transparente. As autoridades eleitorais devem publicar os resultados desagregados da eleição por seções eleitorais. Esta medida não seria apenas um sinal de boa vontade por parte das instituições eleitorais, mas também permitiria que os observadores verificassem a veracidade de uma série de alegações de fraude em torno do processo de tabulação. Simultaneamente, Mondlane deve fornecer mais detalhes sobre a metodologia que ele supostamente usou para chegar à conclusão de que venceu a eleição, para ajudar o público e os observadores a avaliar a credibilidade de sua alegação. Enquanto Moçambique luta contra uma onda de agitação, sinais claros de moderação e transparência de ambos os lados podem ajudar a restaurar a calma.</p>
<p style="text-align: justify;">A extrema-direita se apropriou da política de forma que ela atravessa todas as dimensões da vida, e a identificação de parte do eleitorado com figuras desse campo cresceu.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155624 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp8.jpg" alt="Moçambique: terremoto político" width="175" height="287" /></p>
<p style="text-align: justify;">A extrema-direita cresce no vácuo da incapacidade dos liberais e dos partidos de centro-esquerda de resolver problemas básicos das sociedades: desemprego, estagnação da renda, pobreza e desigualdade, saúde, educação, habitação, imigração, inflação, preços da energia e dos alimentos e crise ambiental. É certo que esses problemas foram agravados pela pandemia e pela guerra, mas existiam antes das mesmas.</p>
<p style="text-align: justify;">Os partidos liberais e de centro-esquerda, no poder, costumam se insular em relação às sociedades, constituem elites que se servem dos privilégios públicos e da corrupção e só recorrem ao povo na hora do voto. Seu maior esforço consiste em promover políticas compensatórias que criam uma falsa sensação de distributivismo que disfarça os sistemas tributários regressivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses partidos não conseguem reter a lealdade eleitoral das massas e os partidos de centro-esquerda perdem até mesmo a lealdade dos trabalhadores, que se deslocam para as legendas de extrema-direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Com discursos nacionalistas e moralistas, com a defesa de valores conservadores e apelos a Deus e à religião, essas siglas se revestem de roupagem antissistema e prometem soluções heterodoxas que combinam ações de Estado, políticas populistas e liberdade de mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">A extrema-direita, com fórmulas simples e vazias de conteúdo, procura viabilizar-se por uma estratégia fideísta agregando fidelidades pelo moralismo e o conservadorismo. Essas agremiações estão ainda numa fase inicial de formação e de amadurecimento ideológico. O seu agrupamento mais desenvolvido e coeso parece aninhar-se no Partido Republicano dos Estados Unidos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155625 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-50-31-b3a843129db554781d6fc63832f1cfa9.jpg-imagem-JPEG-265-×-400-pixels-Redimensionada-93.png" alt="Moçambique: terremoto político" width="425" height="642" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-50-31-b3a843129db554781d6fc63832f1cfa9.jpg-imagem-JPEG-265-×-400-pixels-Redimensionada-93.png 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-50-31-b3a843129db554781d6fc63832f1cfa9.jpg-imagem-JPEG-265-×-400-pixels-Redimensionada-93-199x300.png 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-50-31-b3a843129db554781d6fc63832f1cfa9.jpg-imagem-JPEG-265-×-400-pixels-Redimensionada-93-278x420.png 278w" sizes="auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tudo indica que a estratégia fideísta visa preparar contingentes para uma futura “guerra santa”, com o objetivo de assaltar o poder e estabelecer regimes autoritários. Esse é o desdobramento natural e previsível das estratégias fideístas. Os grupos religiosos extremados — evangélicos, católicos e judeus ortodoxos — constituem contingentes, por excelência, mobilizáveis por essa extrema-direita neonazista.</p>
<p style="text-align: justify;">O risco potencial de regimes autoritários e totalitários sempre será uma ameaça latente nas zonas sombrias da alma humana. A ideia iluminista da infinita perfectibilidade da humanidade revelou-se uma falácia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">A corrupção das elites que governam o país</h3>
<p style="text-align: justify;">A Frelimo governa Moçambique desde que conquistou a independência de Portugal em 1975, mas o partido perdeu muito apoio público nos últimos anos. Autoridades do governo têm sido frequentemente associadas à corrupção, notadamente no infame caso das dívidas ocultas de US$ 2 bilhões conhecido como o “<em>escândalo do atum</em>”, que bloqueou a maior parte do investimento estrangeiro e levou a uma forte depreciação da moeda nacional, o metical, em 2016. Apesar dos enormes recursos de hidrocarbonetos, Moçambique é um dos países menos desenvolvidos do mundo, classificando-se em 183º lugar entre 193 nações no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. Também sofreu ciclones mortais nos últimos anos que devastaram a cidade portuária de Beira e inundaram repetidamente as plantações pertencentes a agricultores de subsistência. A frustração com o controle do partido no poder sobre o aparato estatal se acumulou entre uma população que exige mais espaço democrático, governo responsável e melhores perspectivas para o futuro. Esse sentimento é particularmente intenso entre os jovens que vivem em cidades que são ativos nas mídias sociais e constituem o núcleo da base de apoio de Mondlane.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, Moçambique está lutando contra uma insurgência ligada ao Estado Islâmico na província de Cabo Delgado, no norte, que uma sucessão de operações militares estrangeiras — incluindo mercenários da Rússia e da África do Sul — até agora não conseguiu reprimir. Maputo agora depositou suas esperanças de pacificar a área em cerca de 5.000 soldados ruandeses, que além de tentar extinguir a insurgência também são encarregados de proteger um projeto de gás multibilionário na península de Afungi que a TotalEnergies e outras empresas estrangeiras estão lutando para concluir por causa da insegurança na área.</p>
<p style="text-align: justify;">A desconfiança no governo é abundante. A maioria das eleições desde a introdução da democracia multipartidária em 1994 foi manchada por acusações de fraude. As eleições municipais de 2023 foram um exemplo revelador, com a suposta vitória esmagadora da Frelimo, na qual ganhou 64 dos 65 municípios, gerando acusações de fraude eleitoral. As evidências de irregularidades levaram vários tribunais locais a invalidar os resultados e ordenar uma nova votação, com o Conselho Constitucional eventualmente entregando quatro municípios à Renamo.</p>
<p style="text-align: justify;">O dia da votação na eleição presidencial de outubro ocorreu pacificamente, mas relatos de fraude surgiram rapidamente. Observadores locais e internacionais questionaram a integridade das urnas bem antes dos resultados oficiais serem anunciados, apontando casos do excessivo volume de cédulas, intimidação de eleitores e compra de votos. Por exemplo, a missão de observação eleitoral da União Europeia observou “alteração injustificada dos resultados eleitorais e nível da secção eleitoral e distrital”. Uma baixa participação, igualando a baixa histórica do país de 43%, ressaltou uma falta geral de confiança pública no processo eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora Mondlane tenha inicialmente convocado protestos de rua como forma de repudiar a fraude eleitoral, as manifestações rapidamente se transformaram em uma demonstração mais ampla de insatisfação com o governo da Frelimo. As principais fontes de descontentamento público, que tiveram grande destaque na campanha de Mondlane, variam de raiva pela falta de espaço democrático à frustração com a brutalidade policial, corrupção e pobreza. Os assassinatos de Dias e Guambe, os mais recentes de uma longa lista de assassinatos de figuras de destaque em Moçambique, também alimentaram a ira popular.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155626 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp9.jpg" alt="Moçambique: terremoto político" width="1441" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp9.jpg 1441w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp9-300x250.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp9-1024x853.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp9-768x640.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp9-504x420.jpg 504w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp9-640x533.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp9-681x567.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1441px) 100vw, 1441px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Reina o tráfico de influências para garantir a riqueza exclusiva de um seleto grupo de membros da Frelimo, suas famílias e associados empresariais. Reina a exclusão e o empobrecimento. A acumulação de grande parte das elites governamentais assenta nas negociatas dos grandes projetos ligados ao gás e petróleo, ao tráfico de drogas, comércio de rubis e outras pedras preciosas, à “indústria” dos raptos, ao tráfico de madeira, entre outros.</p>
<h4></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As inspirações políticas e ideológicas de Venâncio Mondlane</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Mondlane, de 50 anos, é um novato na política. Nas eleições autárquicas de 2018 Mondlane recebeu um convite do então líder Afonso Dhlakama e passa a liderar a campanha da Renamo (partido que nasceu e recebeu forte apoio do regime do <em>apartheid</em>). Em 2019 é assessor particular do presidente da Renamo e mandatário nacional do partido. É deputado e líder de bancada na AR em 2020.</p>
<p style="text-align: justify;">Posteriormente tenta uma candidatura com a Coligação Aliança Democrática para as legislativas, depois de ser rejeitado para a liderança da Renamo, mas a Comissão Nacional de Eleições reprova-a.</p>
<p style="text-align: justify;">Fez uma tentativa malsucedida de se tornar prefeito da capital, Maputo, em 2023.</p>
<p style="text-align: justify;">Concorre, então, às presidenciais de outubro de 2024 como candidato independente anti-<em>establishment</em> com o apoio de um pequeno partido fundado por desertores da Frelimo, o Partido Otimista pelo Desenvolvimento de Moçambique (Podemos), partido fundado em 2019.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, o principal partido de oposição do país, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), que travou uma guerra civil com a Frelimo entre 1977 e 1992, entrou nas eleições fraco e dividido.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155627 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-56-08-mz_m004_003.jpg-imagem-JPEG-1000-×-1250-pixels-Redimensionada-51.png" alt="Moçambique: terremoto político " width="514" height="643" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-56-08-mz_m004_003.jpg-imagem-JPEG-1000-×-1250-pixels-Redimensionada-51.png 514w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-56-08-mz_m004_003.jpg-imagem-JPEG-1000-×-1250-pixels-Redimensionada-51-240x300.png 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-56-08-mz_m004_003.jpg-imagem-JPEG-1000-×-1250-pixels-Redimensionada-51-336x420.png 336w" sizes="auto, (max-width: 514px) 100vw, 514px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mondlane é pastor na Igreja Ministério Divina Esperança, cujo fundador Luís Fole (e seu mentor) tem como líder espiritual o nigeriano Joshua Iginla. Este profetiza que Mondlane será um líder. Em 2019 Iginla adquiriu um jato particular e é atualmente um dos pastores mais ricos e influentes da Nigéria. Sua igreja ramificou-se por todo país. É possuidor de um patrimônio líquido estimado em US$ 4,2 milhões (ILHEUVA, 2024).</p>
<p style="text-align: justify;">Com os crescentes tumultos, decorrentes dos resultados pós-eleitorais, e para fugir da Justiça, Mondlane abandona o país, para lugar incerto. Começa a fazer suas <em>lives</em> nas redes sociais a partir do exterior. Afirma ser um admirador do ex-presidente Jair Bolsonaro e tem sido apoiado por igrejas evangélicas brasileiras. Num vídeo disponível na internet (veja o vídeo <a href="https://www.youtube.com/watch?v=drPQOrw9TZ0" target="_blank" rel="noopener"><strong>aqui</strong></a>) não só agradece a uma destas igrejas, como presta homenagem a Jair Bolsonaro. Mondlane chamou o ex-presidente brasileiro de “<em>homem de Deus</em>” e “<em>esperança do Brasil”</em>. Importa destacar que Bolsonaro, que se encontra inelegível, é ainda acusado de prevaricação, charlatanismo, epidemia com resultado em milhares de mortes, infração a medidas sanitárias preventivas, emprego irregular de verba pública, incitação ao crime, falsificação de documentos particulares, crimes de responsabilidade (violação de direito social e incompatibilidade com dignidade, honra e decoro do cargo), crimes contra a humanidade (nas modalidades extermínio, perseguição e outros atos desumanos) (Agência<em> Senado, 2024).</em> Somados, os vários inquéritos podem resultar em penas de até 70 anos de prisão, caso Bolsonaro seja condenado, julgamento que deverá ocorrer nos primeiros meses de 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">É este currículo de Bolsonaro que leva Mondlane a manifestar sua enorme admiração por ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele também comemorou a vitória de Donald Trump por “<em>proteger os valores morais da América</em>” (<a href="https://aimnews.org/2024/11/07/venancio-mondlane-welcomes-trumps-victory/" target="_blank" rel="noopener"><strong>Aqui</strong></a>). Sobre o currículo de Trump, um dos maiores facínoras da atualidade, se faz desnecessário tecer qualquer tipo de análise.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As inspirações messiânicas e econômicas de Venâncio Mondlane</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Messiânico, ele chegou a anunciar ainda no começo de dezembro que não haveria Natal neste ano no país. “<em>Vamos perder as festas, não vamos a praia, não vamos visitar a família, para organizarmos esse país. Este ano, os dirigentes vão ter de ficar com o povo, porque se eles saírem, nós vamos ocupar</em>”, alertou.</p>
<p style="text-align: justify;">Para se entender melhor os fundamentos que sustentam o messianismo religioso de Venâncio Mondlane, importa, ainda que de forma breve, apresentar alguns dados sobre a forma como operam as igrejas evangélicas no Brasil, pois é principalmente neste país que este pastor procura apoio e sustentação.</p>
<p style="text-align: justify;">Inúmeros pastores tornaram-se ricos e poderosos manipulando a boa-fé dos que creem no Evangelho. Dos que roubam dinheiro público através de emendas secretas da bancada evangélica. Por exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus do bispo Edir Macedo transformou-se em uma “agência política”, com uma lógica de ascensão ao poder. É a religião que mais cresce no Brasil e na América Latina e que se cola muito bem a esse projeto de direita que passa pela questão moral e pelo conservadorismo. Em janeiro de 2013, Macedo foi apontado pela revista Forbes como o pastor mais rico do Brasil, tendo seu patrimônio estimado em quase 2 bilhões de reais.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro pastor, Silas Malafaia, considera que seu Deus está expressamente ligado a uma “<em>teologia da prosperidade”,</em> na qual ele próprio é pródigo acumulando uma fortuna pessoal de mais de 150 milhões de dólares.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses pastores transformam o dízimo em um saque diabólico.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155628 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-58-56-mz_m004_001.jpg-imagem-JPEG-1000-×-800-pixels-Redimensionada-80.png" alt="Moçambique: terremoto político" width="803" height="422" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-58-56-mz_m004_001.jpg-imagem-JPEG-1000-×-800-pixels-Redimensionada-80.png 803w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-58-56-mz_m004_001.jpg-imagem-JPEG-1000-×-800-pixels-Redimensionada-80-300x158.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-58-56-mz_m004_001.jpg-imagem-JPEG-1000-×-800-pixels-Redimensionada-80-768x404.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-58-56-mz_m004_001.jpg-imagem-JPEG-1000-×-800-pixels-Redimensionada-80-799x420.png 799w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-58-56-mz_m004_001.jpg-imagem-JPEG-1000-×-800-pixels-Redimensionada-80-640x336.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-22-58-56-mz_m004_001.jpg-imagem-JPEG-1000-×-800-pixels-Redimensionada-80-681x358.png 681w" sizes="auto, (max-width: 803px) 100vw, 803px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Na sua pluralidade e diversidade, sempre houve casos mais ou menos isolados de desvios envolvendo pessoas ou igrejas evangélicas. Porém, o que se vê agora é uma avalanche de perversões ditas religiosas, sobrepostas às relações promíscuas com o governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Templos religiosos são o melhor lugar para se lavar dinheiro no Brasil. Com efeito, nenhum templo religioso contribui com imposto no Brasil, e este é o ponto de partida para toda a roubalheira. Viabiliza que ali se lave dinheiro do narcotráfico, de jogos ilegais, dos políticos e das milícias.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses pastores alavancam o fascismo e o conservadorismo através do discurso da <em>&#8216;família brasileira&#8217;</em>, mas por trás desse discurso há uma narrativa machista, homofóbica e racista.</p>
<p style="text-align: justify;">A mente da maioria dos fiéis está tão cauterizada que, infelizmente, não conseguem enxergar as coisas de forma mais abrangente. Os pastores fazem um trabalho muito forte de condicionamento mental nessas igrejas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles se utilizam de artifícios bíblicos. Para eles a Bíblia descreve de forma incontestável a palavra de Deus. O pastor Silas Malafaia e muitos outros confiam cegamente nesse livro, que possibilita criar diversas interpretações. Sempre selecionam algum aspeto fora do contexto para tornar verdadeira a base ideológica que defendem.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155629 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-00-41-d444944701e979cf1df3c8bbd39599c6.jpg-imagem-JPEG-200-×-324-pixels-Redimensionada-99.png" alt="Moçambique: terremoto político " width="396" height="642" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-00-41-d444944701e979cf1df3c8bbd39599c6.jpg-imagem-JPEG-200-×-324-pixels-Redimensionada-99.png 396w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-00-41-d444944701e979cf1df3c8bbd39599c6.jpg-imagem-JPEG-200-×-324-pixels-Redimensionada-99-185x300.png 185w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-00-41-d444944701e979cf1df3c8bbd39599c6.jpg-imagem-JPEG-200-×-324-pixels-Redimensionada-99-259x420.png 259w" sizes="auto, (max-width: 396px) 100vw, 396px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É tudo empresa cara, a estrutura toda funciona na lógica empresarial. E na lógica do capital, como sabemos, a empresa foca o lucro, assim como essas instituições religiosas. A sorte é que eles ainda são muito fracionados, há interesses pessoais muito grandes envolvidos. Se não estivessem tão fracionados a possibilidade de eleger um presidente evangélico brasileiro seria muito maior.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma das apostas de Mondlane. Não é difícil imaginar para onde se encaminhará o Estado moçambicano, ao seguir esta cartilha. Prestemos atenção neste grito de uma moçambicana, que nos alerta para os perigos deste projeto venancista:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nunca tive paciência para assistir a uma “<em>Live</em>” do pastor. Pela primeira vez, dei-me ao esforço de seguir o anúncio da Turbo8. Era véspera do Natal. E fiquei assustada mesmo antes de VM7 começar a pregação. Enquanto ele dava tempo para juntar uma audiência mais volumosa, fui lendo os comentários dos seus seguidores. Aquilo não era uma plataforma virtual: era um templo e os crentes saudavam não um líder político, mas uma entidade divina (NTSAI, p. 6) (…) O que mais me assustou nessa “<em>Live</em>”, porém, foi o tom de ódio com que o pastor invocava constantemente um Deus vingativo, um Deus munido de machados, fogachos e punhais. Um Deus sedento de sangue, de cinzas e de ruínas. Não era esse Deus que eu conhecia. O meu Deus é o do amor, do abraço e da reconciliação. Mas foi esse outro Deus das pragas e dos apocalipses que o pastor Mondlane convocou (IDEM) (…) Não se esqueça, senhor Venâncio: o hino nacional fala contra os tiranos. Que não são apenas os corruptos da FRELIMO. Você também é um deles. Um tirano que, mesmo sem chegar ao poder, já nos está a escravizar com mais cem anos de fome e de pobreza (IDEM)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para Ntsai, “um dirigente da oposição não pode convidar ao suicídio coletivo do seu próprio país. Nenhum médico pode mandar incendiar o hospital onde ele promete tratar os seus pacientes” (NTSAI, p. 6). É difícil não concordar com as posições defendidas por Ntsai.</p>
<p style="text-align: justify;">O moçambicano Manjate, interroga-se preocupado: “que líder é este que proíbe as pessoas de irem à escola, de irem ao hospital e ao mercado” (MANJATE, p. 3).</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155630 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-02-35-31249dd3e676c7cf6981d8c90b11dc50.jpg-imagem-JPEG-236-×-255-pixels.png" alt="Moçambique: terremoto político " width="566" height="612" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-02-35-31249dd3e676c7cf6981d8c90b11dc50.jpg-imagem-JPEG-236-×-255-pixels.png 566w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-02-35-31249dd3e676c7cf6981d8c90b11dc50.jpg-imagem-JPEG-236-×-255-pixels-277x300.png 277w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-02-35-31249dd3e676c7cf6981d8c90b11dc50.jpg-imagem-JPEG-236-×-255-pixels-388x420.png 388w" sizes="auto, (max-width: 566px) 100vw, 566px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Já agora, para perceber o quanto é nociva a ligação da política com os evangélicos desloquemo-nos para o Quénia, um país bem próximo de Moçambique. Observe-se este comentário de Wanda Njoya sobre o atual presidente queniano William Ruto:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A maior manifestação da fé de Ruto não está em sua visão de identidades sexuais, mas em seu pensamento econômico. Quatro anos atrás, a jornalista queniana Christine Mungai escreveu uma análise brilhante da “teologia gangster” de Ruto, argumentando que a camaradagem de Ruto com igrejas evangélicas era uma estratégia tática para se sustentar como um “vigarista”. (…) Ele teve que se alinhar com pastores que haviam fundado suas igrejas em prédios abandonados com poucos fiéis antes de se tornarem ricos líderes de megaigrejas.(…) Cabe aos pobres “trabalhar duro” usando os empréstimos que recebem, embora a altas taxas de juros, da mesma forma que Ruto passou de vendedor de frangos a presidente, e da mesma forma que pastores se tornaram donos de megaigrejas. (…) O evangelicalismo de Ruto é parte integrante de sua política econômica neoliberal, que ele acredita que abordará a situação das pessoas na base (NJOYA, 2023).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao analisarmos como a componente económica intercepta a componente religiosa busca-se compreender a corrupção que toma conta dos aventureiros políticos como Mondlane. Para o efeito, importa destacar a forma como nas últimas décadas, o conceito de corrupção se infiltra no modo de funcionamento dos Estados.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos anos que se seguiram à queda da União Soviética, a palavra “<em>corrupção</em>” começou a aparecer cada vez mais nos relatórios de agências multilaterais e organizações não governamentais. Esses relatórios argumentam que a corrupção está enraizada na função reguladora dos Estados que controlam projetos de desenvolvimento em larga escala e cujos funcionários públicos supervisionam a entrega de licenças e autorizações. Se a função reguladora do Estado puder ser minimizada, apontam muitos desses relatórios, a corrupção será menos generalizada. Esse tipo de discurso anticorrupção se encaixa perfeitamente na receita neoliberal de redução dos aparatos regulatórios dos Estados, desregulamentação e privatização da atividade econômica e promoção da ideia de que a liberdade da mão invisível do mercado cria uma base moral para a sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">O epicentro desse argumento tem sido o continente africano, onde a ideia de “<em>corrupção</em>” — ou seja, corrupção do Estado — tem sido efetivamente usada para diminuir suas funções reguladoras e reduzir o número de funcionários públicos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155631 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp10.jpg" alt="Moçambique: terremoto político" width="1000" height="694" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp10.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp10-300x208.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp10-768x533.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp10-605x420.jpg 605w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp10-640x444.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp10-681x473.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Em 1997, Matthew Parris, um membro conservador do Parlamento Britânico, nascido na África do Sul, disse: “a corrupção se tornou uma epidemia africana. É impossível exagerar o envenenamento das relações humanas e a paralisação da iniciativa que a corrupção na escala africana traz” (Szeftel, 1998, p. 221). As palavras — <em>na escala africana</em> – definem uma atitude em relação à corrupção que incorpora tanto a longa história colonial de roubo quanto o presente neocolonial de malversação corporativa no continente.</p>
<p style="text-align: justify;">Os Estados pós-coloniais compreenderam muito bem as graves limitações que herdaram de seus antigos senhores coloniais, como um aparato estatal hierárquico projetado para aterrorizar a população colonizada e uma burocracia que foi treinada para servir aos objetivos do colonialismo, não ao povo. Com a saída dos burocratas coloniais, os Estados agora independentes tiveram que formar uma administração quase inteiramente nova, com pessoas que, muitas vezes, vinham de origens empobrecidas ou quase empobrecidas (condições materiais que poderiam aumentar a tentação de aceitar subornos).</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo segundo estimativas conservadoras, a África tem sido, de fato, um credor líquido de capital para o mundo — não um devedor líquido, como é a percepção comum. Em outras palavras, se não fosse pelo roubo em grande escala, a África teria todo o capital necessário dentro de suas fronteiras para atender às suas aspirações de desenvolvimento.</p>
<p style="text-align: justify;">E como ocorre a interseção entre a economia e a componente religiosa, mais concretamente a da “Teologia da Prosperidade”?</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, a Teologia da Prosperidade se faz presente em todo o mundo, exaltando os privilégios que a riqueza e o dinheiro podem trazer, apresentando-os como “retribuição de Deus” aos fiéis que seguem sua doutrina, substituindo a fé e a devoção divinas por “prósperos empreendimentos”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155632 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-06-24-6ea5ea318481080a21d601d35362f09a.jpg-imagem-JPEG-736-×-469-pixels.png" alt="Moçambique: terremoto político " width="736" height="469" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-06-24-6ea5ea318481080a21d601d35362f09a.jpg-imagem-JPEG-736-×-469-pixels.png 736w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-06-24-6ea5ea318481080a21d601d35362f09a.jpg-imagem-JPEG-736-×-469-pixels-300x191.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-06-24-6ea5ea318481080a21d601d35362f09a.jpg-imagem-JPEG-736-×-469-pixels-659x420.png 659w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-06-24-6ea5ea318481080a21d601d35362f09a.jpg-imagem-JPEG-736-×-469-pixels-640x408.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/Screenshot-2025-01-06-at-23-06-24-6ea5ea318481080a21d601d35362f09a.jpg-imagem-JPEG-736-×-469-pixels-681x434.png 681w" sizes="auto, (max-width: 736px) 100vw, 736px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A Teologia da Prosperidade redefine o neopentecostalismo. Para alcançar seus objetivos, os responsáveis pela disseminação dos ideais da Teologia da Prosperidade, buscam arrebanhar o maior número possível de adeptos, uma vez que por “prósperos empreendimentos”, compreende-se a doação aos “ministérios”, “obras” ou igrejas. Pregadores muito bem preparados constroem e apresentam aos doadores uma analogia simples, porém convincente: ao assumir o compromisso de se tornar um “empreendedor” a partir de uma primeira doação, o fiel estará plantando a semente da prosperidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas é preciso cuidar dessa semente, regando e cultivando-a com novas doações. Com isso, estão dizendo aos seus seguidores que a responsabilidade pelo sucesso ou o fracasso de seu empreendimento, depende única e exclusivamente de sua fidelidade a Deus, manifestada através de sua fidelidade à “igreja”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que acontece se o fiel proceder de acordo com os ensinamentos e ainda assim não alcançar a graça proferida por suas palavras?</p>
<p style="text-align: justify;">Nestes casos, as lideranças do neopentecostalismo atribuem a culpa única e exclusivamente ao seguidor, afirmando ser ele um indivíduo de “pouca fé” incapaz de exercer sua posse das bençãos por não conseguir associar espiritualidade com bens materiais, boas condições de saúde e felicidade, e por esta razão não merece a salvação. Estamos assim face um manifesto de profunda crueldade.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem é de fato o vencedor aqui? O mercado da fé que estimula o consumo fortalecendo o neoliberalismo e o capitalismo selvagem que condena milhares à fome e a miséria, ou o crente que sucumbe aos seus apelos em nome da fé e busca o acúmulo de bens? Não é difícil perceber que o vitorioso é o mercado da fé.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155634 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp11-1.jpg" alt="Moçambique: terremoto político" width="469" height="621" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp11-1.jpg 469w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp11-1-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp11-1-317x420.jpg 317w" sizes="auto, (max-width: 469px) 100vw, 469px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uns pensam que deve se formar um Governo de Unidade Nacional, outros sugerem um Governo de Transição e outros ainda um Governo de Gestão.</p>
<p style="text-align: justify;">Num quadro tão dramático parece ser extremamente difícil fazer uma escolha entre os dois principais partidos que disputam a governação do país.</p>
<p style="text-align: justify;">De um lado, a Frelimo que, desde a morte de Samora Machel, em outubro de 1986, viu a progressiva acentuação da corrupção desenfreada dos principais dirigentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Do outro, um candidato populista de extrema-direita que almeja também lançar mão dos mecanismos de acumulação da Frelimo, acrescidos de uma nova fonte de acumulação: a proveniente da componente evangélica, sugando desenfreadamente os poucos bens das massas empobrecidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, de forma irónica, parece que o povo moçambicano será “coagido” a escolher entre dois acumuladores. Existe um ditado popular que diz: “<em>Atrás de mim virá, quem me louvará</em>”. Que não se cumpra este ditado e que o povo moçambicano possa encontrar outros mecanismos que rompam com esta dualidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Considerações finais</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Face ao quadro apresentado parece-nos importante tecer breves considerações sobre os passos que se avizinham de forma a restabelecer a estabilidade social, criando as condições para a retomada de um verdadeiro processo democrático.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir desse restabelecimento, faz-se necessário implementar políticas compensatórias de mitigação da pobreza e da desigualdade e de recuperação do emprego e da renda para dignificar os moçambicanos mais pobres. Será necessário realizar reformas estruturantes, que eliminem os mecanismos que produzem a desigualdade e a concentração de renda numa perspectiva de longo prazo.</p>
<p style="text-align: justify;">Existem duas tarefas ainda mais difíceis. A primeira consiste em favorecer a organização e a participação política do povo como forma efetiva de conquista e garantia de direitos. A segunda, imbricada com a primeira, consiste em criar afetos, fidelidades, uma adesão espiritual a um projeto de país, de nação e de humanidade. As formas vazias da república e da democracia precisam ser superadas pelo calor comunitário da participação e da mobilização, orientadas por valores universalistas da construção de um destino comum para a humanidade em nosso planeta.</p>
<p style="text-align: justify;">Importa compreender qual a intensidade do neocolonialismo em Moçambique e qual a participação do “inimigo interno”. Muitos discursos têm proliferado alegando a criminalidade estrangeira em face da frágil situação moçambicana, uma leitura homogeneizante e perigosa. Por melhor intencionados que sejam, trazem dois problemas derivados e uma perspectiva que, ao alegar a longa história de exploração e negar ou diminuir a participação moçambicana em sua própria história, promovem uma leitura muito parcial do passado e colocam os moçambicanos numa situação de debilidade. O primeiro problema é a produção de uma história de Portugal em Moçambique com a participação de alguns moçambicanos que de forma valente, mas frágil, inocente e quase insana tentaram defender sua autonomia e liberdade. O segundo é o reforço à ideia de que Moçambique não tem condições de caminhar sozinho, que dependeu e sempre vai depender da ajuda internacional. Os dois problemas nos encaminham para o velho discurso colonial de que o homem branco tem como dever moral educar e civilizar o continente negro.</p>
<p style="text-align: justify;">Gostaria apenas de chamar a atenção para o fato de que como seres humanos os moçambicanos são seres desejantes, com capacidade intelectual e livre arbítrio. Portanto, acredito que não auxilia muito pensar Moçambique de forma generalista ou reafirmar a perspectiva neocolonial de maneira dissociada das múltiplas realidades moçambicanas, pois sua presença em Moçambique é fruto de uma omissão dos governos locais, o dos bem sucedidos agenciamentos coletivos que alimentam o Capitalismo Mundial Integrado.</p>
<p style="text-align: justify;">O ano de 2024 veio reforçar um mundo em realinhamento. Um realinhamento de forças que clama por novas lideranças, já que aquelas do final da Segunda Guerra Mundial não conseguem mais responder aos desafios presentes. Esses espaços estão sendo disputados a unhas e dentes, e muitas vezes por forças claramente antidemocráticas, como é o caso presente em Moçambique.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que nunca, este é o momento para países do Sul Global, como Moçambique, se unirem em torno de uma nova agenda: mais democrática, ambiciosa e inclusiva.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155635 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp12.jpg" alt="Moçambique: terremoto político " width="980" height="673" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp12.jpg 980w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp12-300x206.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp12-768x527.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp12-612x420.jpg 612w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp12-640x440.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/pp12-681x468.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 980px) 100vw, 980px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">CHADE, Jamil. Moçambique vive pior crise em 50 anos e opositor sugere paramilitares. UOL, 29/12/2024.</p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2024/12/29/mocambique-vive-pior-crise-em-50-anos-e-opositor-sugere-paramilitares.htm" href="https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2024/12/29/mocambique-vive-pior-crise-em-50-anos-e-opositor-sugere-paramilitares.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2024/12/29/mocambique-vive-pior-crise-em-50-anos-e-opositor-sugere-paramilitares.htm</a></p>
<p style="text-align: justify;">LHEUVA, Sandra. Biografia de Joshua Iginla – esposa, filhos, ministério e patrimônio líquido. Thrillng, 29/05/2024</p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://thrillng.com/joshua-iginla-biography/" href="https://thrillng.com/joshua-iginla-biography/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://thrillng.com/joshua-iginla-biography/</a></p>
<p style="text-align: justify;">JULIÃO, Paulo. O regresso da &#8221;Vigilância Popular&#8221; nos dias do fim do sinistro Nyussismo. In <em>Carta da Semana</em>, 28/12/2024. file:///E:/Users/User/Downloads/Carta%20da%20semana%20ed%2018_web.pdf</p>
<p style="text-align: justify;">MANJATE, Joaquim Marcos. “Não é Venâncio Mondlane que é forte, o Estado é que está a falhar!”. In: <em>Carta da Semana</em>, 28/12/2024 file:///E:/Users/User/Downloads/Carta%20da%20semana%20ed%2018_web.pdf</p>
<p style="text-align: justify;">MANUEL, Onório. Manifestações Gerais: “Mais de 500 Empresas Vandalizadas e 12 Mil Pessoas Desempregadas” – CTA. Diário Económico, 30/12/2024.</p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://www.diarioeconomico.co.mz/2024/12/30/economia/desenvolvimento/manifestacoes-gerais-mais-de-500-empresas-vandalizadas-e-12-mil-pessoas-desempregadas-cta/?utm_source=mailpoet&amp;utm_medium=email&amp;utm_source_platform=mailpoet&amp;utm_campaign=Dezembro%202024" href="https://www.diarioeconomico.co.mz/2024/12/30/economia/desenvolvimento/manifestacoes-gerais-mais-de-500-empresas-vandalizadas-e-12-mil-pessoas-desempregadas-cta/?utm_source=mailpoet&amp;utm_medium=email&amp;utm_source_platform=mailpoet&amp;utm_campaign=Dezembro%202024" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.diarioeconomico.co.mz/2024/12/30/economia/desenvolvimento/manifestacoes-gerais-mais-de-500-empresas-vandalizadas-e-12-mil-pessoas-desempregadas-cta/?utm_source=mailpoet&amp;utm_medium=email&amp;utm_source_platform=mailpoet&amp;utm_campaign=Dezembro%202024</a></p>
<p style="text-align: justify;">NJOYA, Wandia. William Ruto e os evangélicos. In: África é um país, .27/01/2023</p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://africasacountry.com/2023/01/william-ruto-and-the-evangelicals" href="https://africasacountry.com/2023/01/william-ruto-and-the-evangelicals" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://africasacountry.com/2023/01/william-ruto-and-the-evangelicals</a></p>
<p style="text-align: justify;">NTSAI, Margarida. Deixe de cantar o hino, senhor engenheiro. In: <em>Carta da Semana</em>, 28/12/2024. file:///E:/Users/User/Downloads/Carta%20da%20semana%20ed%2018_web.pdf</p>
<p style="text-align: justify;">SZEFTEL, Morris &#8216;Misunderstanding African Politics: Corruption and the Governance Agenda&#8217;, <em>Review of African Political Economy </em>25, n. 76, jun. 1998.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>A imagem em destaque é da autoria de © Siphiwe Sibeko/Reuters. As demais artes, no corpo do texto, são da autoria de Malangatana (1936-2011).</em></p>
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