<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Música &#8211; Passa Palavra</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/tag/musica/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Tue, 19 May 2026 21:02:58 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.0</generator>
	<item>
		<title>Black Alien: poesia de aço</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159226/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/05/159226/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 May 2026 21:02:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159226</guid>

					<description><![CDATA[Black Alien não resolve as contradições que o atravessam, ele as organiza e é nessa organização que reside sua força. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">“É só tubarão, tarântula, piranha, vagabundo e filho da puta.”</p>
<p style="text-align: justify;">A história de Black Alien não se explica pela queda, mas pela criação. Como historiador, não compartilho de qualquer perspectiva que suprima o sujeito do seu tempo; ainda assim, é impossível ignorar que Black parece operar alguns passos à frente, inaugurando linguagem, abrindo circuitos, tensionando formas e produzindo obra enquanto o país ainda não possuía o vocabulário para nomeá-la. Falar dele é falar de formação estética, de redes culturais, laboratórios musicais, atravessamentos entre mundos sociais e simbólicos e só depois, muito depois, tocar nas fraturas pessoais que o Brasil insiste em eleger como narrativa principal. Sua trajetória não cabe na moldura estreita da ruína nem na fantasia moral da superação: ela exige leitura de autor, não de paciente; leitura de obra, não de escândalo.</p>
<p style="text-align: justify;">A abordagem da trajetória de Black Alien exige precisão teórica para que não caiamos na armadilha historiográfica que transforma o artista em epifenômeno da própria ruína, anulando sua potência criativa para reduzi-lo à figura-tipo do “gênio autodestrutivo”, um arquétipo que, além de pobre, é racialmente marcado e amplamente mobilizado pela cultura brasileira para administrar a memória de artistas negros. O fenômeno contemporâneo onde mídias e formadores de opinião exaltam as desgraças de artistas como entretenimento é perceptível, sobretudo em tempos de plataformas virtuais, resultado do espetáculo como única via para explicar o mundo e as coisas. O vício, por maior que tenha tido impacto concreto na vida de Black Alien, não pode ocupar o centro interpretativo, sob pena de reproduzir um enquadramento moralizante que naturaliza o sofrimento como essência e a queda como destino. Ele deve ser entendido como expressão de um conjunto de determinações sociais como a precariedade estrutural da indústria cultural brasileira que consome artistas até o esgotamento, a ausência de cuidado ou amparo sistemático nas redes de produção musical, a intensa pressão performativa que recai sobre corpos racializados e a própria lógica do capitalismo tardio que, como vários autores analisam, captura subjetividades até o limite da exaustão psíquica. Desse modo, a droga não explica a obra, mas a obra, em sua densidade formal, histórica e estética, revela muito sobre as tensões que atravessam o sujeito que a produz.</p>
<p style="text-align: justify;">A criação de Black Alien é anterior e maior do que qualquer fratura; é fruto de um repertório vasto, de uma sensibilidade aguçada, de uma inteligência literária rara, de um trânsito social complexo, de encontros artísticos (como o laboratório estético com SpeedFreaks e a experiência no Planet Hemp) e de uma relação singular com a linguagem, que o coloca anos à frente de seus pares. Se a dependência aparece no percurso, ela deve ser tratada como elemento material de uma formação social contraditória, nunca como chave interpretativa do artista. O centro analítico é e deve ser a criação, o modo como Black Alien organiza o verbo, reinventa a métrica, expande o imaginário do rap brasileiro, estrutura uma poética de tensão permanente, e produz obra enquanto o país ainda aprendia a nomear aquilo que ele já havia criado.</p>
<p style="text-align: justify;">A insistência em reduzir artistas como Black Alien ao drama biográfico denuncia não apenas pobreza analítica, mas uma operação histórica mais profunda que envolve a tendência da indústria cultural (especialmente no Brasil) de transformar corpos negros em narrativas consumíveis, retirando deles a complexidade formal, o pensamento estético e a historicidade concreta que deveriam ser o centro de qualquer análise séria. Adorno já sugeria que, no capitalismo tardio, o sofrimento individual é rapidamente recodificado como mercadoria emocional, e isso se intensifica quando o artista provém das margens, pois o sistema cultural encontra aí terreno fértil para produzir mitos que se alimentam de ruína. Essa lógica é tão eficaz que, quando alguém como Black Alien surge com uma obra monumental, intricada, radicalmente inventiva, a crítica apressada corre para enquadrá-lo na matriz da “tragédia pessoal”, como se fosse mais fácil lidar com a sua dor do que com a sua inteligência. A dificuldade de nomear sua contribuição estética mostra um déficit histórico do próprio campo cultural brasileiro, que raramente reconhece artistas negros como produtores de forma e não apenas de testemunho.</p>
<p style="text-align: justify;">A obra de Black Alien, entretanto, exige um tipo de leitura que escapa a esse esquema; sua escrita depende de escolhas formais meticulosas, da combinação entre humor corrosivo e metáfora espiritual, do uso virtuoso de síncopes internas, da articulação entre referências eruditas e cultura pop, da velocidade mental que reorganiza imagens múltiplas em ciclos rítmicos próprios. Esse trabalho de linguagem (e não qualquer peripécia biográfica) é o que funda sua singularidade. O artista não pode ser reduzido à condição de “sobrevivente”, porque a sobrevivência, no seu caso, é consequência de uma obra que o excede: é a criação que molda o sujeito, e não apenas o sujeito que sofre para criar. Analisar Black Alien a partir da forma é tirar o foco da intriga para a inteligência, do escândalo para o rigor, da queda para o gesto de invenção; é recusar o exotismo da ruína e recolocar sua obra no lugar que ela ocupa, ou seja, o da construção estética de alta densidade num país que raramente reconhece a grandeza de seus próprios criadores. A singularidade estética de Black Alien advém do seu lugar num trânsito social complexo, que o expõe simultaneamente a mundos distintos e que, longe de fragmentá-lo, amplia seu horizonte expressivo. A formação escolar em espaços de classe média alta de Niterói, o contato precoce com idiomas estrangeiros, as viagens à Europa ainda na adolescência, o ambiente doméstico atravessado por referências culturais díspares, tudo isso se combina com a sociabilidade de São Gonçalo, a rua como espaço de observação aguda, o skate como pedagogia do risco, a noite da Lapa como laboratório sensível, e, sobretudo, a relação estética com SpeedFreaks como experiência de criação compartilhada. Esse trânsito contínuo entre esferas sociais e simbólicas, ora protegido, ora vulnerável; ora incluído, ora expulso, produz um tipo de inteligência que é tensionada. Black Alien pensa entre fronteiras e essa condição liminar é importante para a sua linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua lírica não se encaixa na rigidez do rap dos anos 1990, nem na assepsia emocional do rap dos anos 2010; ela nasce do cruzamento das duas margens, carregando simultaneamente erudição e precariedade, lucidez e vertigem, humor refinado e crítica amarga. A mistura de inglês e português é expressão natural de alguém que cresceu em ambientes multilíngues e multiculturais. As referências a Saturno, Babel, Jah, anéis planetários, zoológico urbano, boxe, Estado, anjos, Cinta-Larga, indústria, formam fragmentos de mundos distintos que ele consegue organizar dentro de um mesmo campo poético. Black Alien opera como um poliglota simbólico que traduz, deforma e reconstrói códigos de universos sociais que normalmente não dialogam entre si. É por isso que sua obra tem a marca do excesso organizado, a densidade imagética que ele produz só é possível porque sua formação não obedece às hierarquias tradicionais da cultura brasileira, que ainda separam rigidamente o “culto” e o “popular”. Ele transita entre esses polos com naturalidade, e sua potência estética reside justamente nessa capacidade de converter deslocamento social em forma artística.</p>
<p style="text-align: justify;">A posição de Black Alien na história da música brasileira, portanto, não é periférica nem marginal, mas axial no sentido mais rigoroso do termo. Sua obra atua como um eixo de reorganização da linguagem; depois dele, o rap brasileiro já não funciona do mesmo modo, pois ele não apenas acrescenta temas ou amplia repertórios, mas tensiona a forma, a métrica, a sintaxe, a velocidade do verso, o regime de imagens inaugurando uma língua que antes não existia. Ao produzir essa inflexão, ele cria um antes e um depois no campo do rap, abrindo um novo horizonte de possibilidades estéticas e expandindo os limites da literatura oral urbana no Brasil contemporâneo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Black Alien &amp; SpeedFreaks</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A história de Black Alien não existe sem SpeedFreaks, da mesma forma que a história de SpeedFreaks não existe sem Black Alien. Não se trata de complementaridade romântica nem daquela noção batida de “parceria criativa”. A relação entre os dois tem densidade histórica, é um fenômeno estético produzido por condições sociais, técnicas e culturais específicas de Niterói e São Gonçalo nos anos 1990. É ali que surge uma das duplas mais inventivas da música brasileira, uma dupla que não imitava nada e não seguia ninguém, porque operava num campo onde tradição, forma e regra praticamente não existiam. Eles se inventaram “sozinhos”. Criaram linguagem porque não possuíam uma pronta. Descobriram caminhos porque não tinham mapa. É isso que torna Black &amp; Speed tão raros: não são “bíblias” de um estilo, mas os criadores do terreno onde outros estilos seriam possíveis.</p>
<p style="text-align: justify;">As origens sociais dos dois ajudam a entender essa explosão. Enquanto Black Alien transitava entre colégios de classe média alta e a vida concreta de São Gonçalo, Speed crescia numa Niterói que ainda pulsava com restos da contracultura, do rock experimental, do pós-punk e de uma sociabilidade de guetos artísticos que nunca tiveram grande visibilidade pública. Cada um trazia de si uma fratura, uma incompletude e é justamente esse material estilhaçado que produz invenção. A formação híbrida de Black Alien encontra na sensibilidade melancólica de Speed um eixo inesperado: o primeiro opera pela aceleração, pela inteligência técnica e humor corrosivo; o segundo pelo desvio, pela paranoia poética e lentidão febril e os dois juntos criam uma forma. Do ponto de vista materialista, o encontro deles se explica por condições concretas, de uma cena alternativa de Niterói e São Gonçalo, as fitas independentes, os primeiros home studios, o acesso parcial a equipamentos, a falta de indústria estruturada e o fluxo cultural intenso que atravessava a juventude nos anos 90, sendo esse amálgama um processo fundamental para essa formatação. A ausência de um mercado organizado permitia uma liberdade estética que seria impossível anos depois. O rap ainda não tinha passado por profissionalização, a internet era pressentimento, não ferramenta, e as gravadoras deixavam buracos por onde entravam experimentações. Foi nesse vácuo que a dupla prosperou, sem supervisão, sem direção artística, regulação externa. Eles puderam errar, testar, ousar e, sobretudo, inventar.</p>
<p style="text-align: justify;">A pesquisa de Rafael Porto sobre a vida de Speed ilumina o processo. Speed guardava tudo desde beats, fonogramas, projetos inacabados, rascunhos, trechos soltos. Guardava como quem vive numa relação quase carnal com o estúdio. Rafael encontrou isso tudo num HD entregue pela família, arquivos brutos sem polimento, pedaços de obra dispersa que revelam como Speed trabalhava a linguagem sonora como quem trabalha madeira ou metal. Ele experimentava, repetia, criava sobre erros, derretia e reconstruía suas próprias bases. Essa atitude experimental (profundamente moderna) é o motor da parceria com Black Alien. Não é que Speed produzisse para Black cantar; é que ambos trabalhavam como dois artesãos tentando resolver o mesmo problema de como fazer caber múltiplos mundos dentro de um verso. O processo criativo deles não tinha ordem natural. Nunca funcionou como divisão de tarefas (“eu produzo, você rima”). Era um fluxo contínuo de obsessão. Eles passavam horas ouvindo, regravando, testando velocidades, invertendo trechos, mudando a ordem interna das sílabas. Se há algo que define essa dupla é justamente a ausência de estabilidade e é dessa instabilidade que surge a força estética deles. O rap brasileiro, naqueles anos, ainda trabalhava com estruturas fixas; a dupla interferia nessas estruturas como quem joga água fervendo sobre o gelo. A métrica que eles criam (e que Black levará ao limite em <em>Babylon By Gus &#8211; Vol. I</em>), nasce da experimentação material, da hora, do estúdio, da sujeira, do improviso, da respiração acelerada do Speed e da inteligência ágil do Black.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-159228 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/20150903173854124691e-1030800423.jpg" alt="" width="615" height="615" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/20150903173854124691e-1030800423.jpg 615w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/20150903173854124691e-1030800423-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/20150903173854124691e-1030800423-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/20150903173854124691e-1030800423-420x420.jpg 420w" sizes="(max-width: 615px) 100vw, 615px" />Quando se ouve “Jah Jah Overall”, “Guerrilha Verbal” ou qualquer outro registro da dupla, percebe-se que ali já existe uma forma distinta de organizar o som. E isso não é fenômeno técnico apenas, mas social. Black (com sua formação híbrida, bilíngue, leitor voraz) puxa a linguagem para fora do rap; Speed (com seu imaginário melancólico, paranoico e altamente sensível) puxa o rap para um lugar de delírio poético. O choque entre esses polos produz uma lírica que ultrapassa a fronteira do gênero. Eles não são “um grupo de rap”, estando mais próximos de um experimento de linguagem. Aqui cabe, sim, uma menção lateral a Anselm Jappe, não no diagnóstico apocalíptico do “fim da arte”, que pode soar abstrato demais para o nosso caso, mas na ideia central de Jappe de que o capitalismo contemporâneo drena a energia vital da forma artística. Black &amp; Speed surgem justamente num momento anterior a esse esvaziamento brutal. Eles criam antes que o mercado imponha a forma, antes que o rap brasileiro se converta em produto esportivo e motivacional e antes que o algoritmo colonize a música. Ou seja, eles criam num tempo em que a invenção estética ainda não havia sido algemada pelo valor. Nesse sentido, a dupla é exemplar, pois não são manifestação tardia de uma forma decadente, mas expressão precoce de uma forma insurgente.</p>
<p style="text-align: justify;">O álbum Na Face, gravado mas nunca lançado oficialmente, é o ápice desse laboratório. A lista de participações (Herbert Vianna, Igor Cavalera, Otto, Chorão), revela que o disco era reconhecido como obra relevante dentro de comunidades musicais distintas. Mas ele se perde num vazio institucional: gravado sem estrutura, ensaiado sob pressão, circulou como fantasma em MP3, como mito entre DJs e colecionadores. Hoje, parece evidente que se trata de um dos discos “perdidos” mais importantes da música brasileira. Mas a clandestinidade tem consequência histórica: enquanto a dupla inventava linguagem, a indústria fazia de tudo para não vê-la. Isso reforça um ponto materialista essencial: a obra não desaparece porque é fraca — desaparece porque não cabe no sistema de produção artística da época.</p>
<p style="text-align: justify;">Black Alien leva consigo, para o Planet Hemp e mais tarde para seu trabalho solo, tudo aquilo que aprendeu com Speed como a velocidade interna, a rima em espiral, o verso que muda de direção no meio do caminho, o humor como arma, a crítica como narrativa. Speed, por sua vez, absorve de Black a noção de rigor, o controle rítmico, a estrutura interna do verso, a tensão entre velocidade e pausa. Essa troca produz dois artistas que se modificam reciprocamente ao ponto de, em certos momentos, escreverem como se estivessem dentro da mente um do outro. Por isso, quando Black Alien grava <em>Babylon By Gus &#8211; Vol. I</em>, em 2003-2004, o disco carrega espectros do Speed em cada decisão formal como a síncope interna, a expansão imagética, o humor sombrio, as metáforas delirantes, o cruzamento de referências, a crítica ao mundo, a paranoia produtiva, as camadas sobrepostas de mundo. <em>O Ano do Macaco</em> é, nesse sentido, também uma obra da dupla, ainda que só um deles esteja no estúdio. O processo inventado por Black &amp; Speed permanece ali, como memória sonora daquilo que um laboratório criativo pode gerar quando não é atravessado por censura estética nem pela violência silenciosa do mercado. A dupla Black Alien &amp; Speed, portanto, não é um capítulo lateral da música brasileira, mas o eixo subterrâneo que reorganiza possibilidades formais, históricas e poéticas do rap.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Black Alien e o Planet Hemp</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A relação de Black Alien com o Planet Hemp é outro ponto nodal. Sua entrada reorganiza o grupo por dentro e contribui para alterar, por fora, o curso do rap brasileiro. Quando Black Alien passa a integrar o Planet Hemp, em 1996, a banda já não é apenas um experimento de rap-rock, mas um fato político em consolidação. Vive cercada pela polícia, monitorada pelo Judiciário, demonizada pela grande imprensa, celebrada por amplos setores da juventude urbana e observada com desconfiança pelos segmentos progressistas “respeitáveis” que, em plena onda de neoliberalização do país, preferiam artistas dóceis a coletivos insurgentes. O Planet Hemp carregava o estigma da “apologia” num contexto em que qualquer dissidência cultural era tratada como ameaça moral. Isso significa que o grupo não operava apenas no campo musical, situando-se no centro de uma disputa política aberta.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse ambiente que Black Alien entra. Ela se dá por convite interno, reconhecimento estético e necessidade. O Planet precisava de alguém capaz de sustentar a velocidade das bases, de atualizar a retórica de enfrentamento e de reorganizar a energia do palco. Black, então com pouco mais de vinte anos, surge exatamente como esse corpo capaz de ocupar a zona de fogo cruzado entre música, polícia e política. A função dele não é substituir ninguém, mas reatualizar o grupo, deslocar seu centro de gravidade e permitir que a banda continuasse respirando. Com sua dicção veloz, arsenal de referências, precisão técnica e ironia aguda, ele reposiciona o Planet dentro do campo da música contestatória brasileira. Mas para entender o peso dessa entrada, é preciso reconstruir o contexto histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">O Brasil de meados dos anos 1990 é governado por Fernando Henrique Cardoso, período marcado pela conversão agressiva ao neoliberalismo, privatizações, desmonte de políticas sociais, avanço das igrejas neopentecostais e ascensão de um tipo de moralismo urbano que demoniza juventudes periféricas e expressões culturais tidas como “de risco”. O rap ainda não é mercadoria consolidada; é visto como algo hostil ao Estado e inconveniente ao mercado. Ao mesmo tempo, o genocídio da juventude negra se intensifica, a violência policial é legitimada como “ordem” e a guerra às drogas cria um clima de perseguição aos corpos racializados. Nesse cenário, o Planet Hemp funciona como ruptura, como ponto de destruição da normalidade moral. Eles afrontam a PM, falam abertamente de maconha, ocupam espaços de mídia mainstream levando a desobediência civil como palavra de ordem. E justamente por isso, a entrada de Black Alien tem um significado político profundo que intensifica a dimensão estética da dissidência. O Planet já era guerra simbólica; com Black, torna-se guerra estética. A letra que Black Alien estreia com força no segundo disco do Planet Hemp (Zerovinteum) é um documento histórico de primeira ordem porque condensa, numa única operação formal, as principais contradições sociais do Brasil urbano dos anos 1990. O racismo estrutural, a violência contra a juventude negra, a criminalização da pobreza e a lógica repressiva do Estado aparecem como forças que organizam a própria linguagem. Black expõe a função real da polícia numa sociedade de classes racializada. A segurança pública aparece como gestão violenta da pobreza, como mecanismo de controle social que protege a circulação da mercadoria e do turismo ao custo da eliminação física de corpos considerados descartáveis. Essa constatação, inserida numa letra que já rompe com a linearidade e com a expectativa narrativa do rap tradicional, ganha densidade histórica porque não é apresentada como exceção ou desvio, mas como normalidade funcional da ordem urbana capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">A força crítica da letra reside justamente no modo como essa violência não é separada da forma estética. O racismo atravessa a própria estrutura da linguagem, quando o sujeito se apresenta como “elemento”, antecipando a leitura policial do corpo negro como ameaça. Trata-se de um gesto profundamente materialista: a identidade não é afirmada, mas desmontada, revelando como o Estado já inscreveu o indivíduo numa gramática repressiva antes mesmo de qualquer ato. Ao se nomear segundo a lógica do prontuário, Black expõe o processo de alienação que transforma sujeitos em categorias administrativas, em alvos legítimos da violência institucional. A linguagem do controle é apropriada e devolvida como crítica, evidenciando que o problema não é o “desvio” juvenil, mas o modo como a sociedade organiza juridicamente a morte. Essa operação formal se articula com a crítica à cidade como espetáculo. A letra contrapõe a imagem da cidade que “brilha” à realidade do arrastão, da execução sumária, da juventude caçada. O Rio turístico, vitrine do capital, só se sustenta porque existe um outro Rio, onde a polícia atua como força de contenção racial e de classe. A violência, portanto, é método. Essa leitura está plenamente alinhada com uma análise marxista da cidade, na qual o espaço urbano é organizado para garantir a reprodução do capital, mesmo que isso implique a produção sistemática da morte. O rap, nesse contexto, deixa de ser apenas voz da periferia e se torna forma de conhecimento social, capaz de revelar aquilo que a ideologia urbana tenta ocultar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a letra recusa qualquer pedagogia da vítima, sem sentimentalismo, nem pedido de reconhecimento. O tom é seco, irônico. Isso é central: a recusa da comoção é também recusa da captura ideológica. A juventude negra assassinada aparece como prova de um sistema que funciona exatamente assim. Ao integrar essa constatação numa linguagem fragmentada, agressiva e de difícil assimilação, Black impede que o conteúdo seja consumido como denúncia domesticada. A forma impede o consumo fácil da indignação. É aí que a guerra estética se revela mais perigosa do que a simbólica, pois não oferece ao ouvinte o conforto de saber “de que lado está”, mas o força a lidar com uma língua que desorganiza sua percepção. Essa dimensão se amplia quando a letra atravessa Rio e São Paulo, sugerindo que a violência não é localizada, mas estrutural, nacional, própria do capitalismo dependente brasileiro. A menção às cidades constrói um circuito de repressão e circulação integrado. A juventude negra é alvo em qualquer lugar; a lógica policial se repete com variações locais. O Planet Hemp, com Black Alien, deixa claro que a questão não é regional, mas histórica, tratando-se da forma como o Estado brasileiro, em sua fase neoliberal, reorganiza a repressão sob o discurso da ordem, da segurança e do progresso.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a letra articula tudo isso numa linguagem que se assume como perigosa. Não perigosa porque incita a violência, mas porque desestabiliza a gramática dominante. A alienação não é apenas denunciada como condição social, ela é combatida no nível da forma, por meio de uma língua que se recusa a ser mercadoria dócil. Ao fazer da estética um campo de confronto, Black Alien transforma o rap em instrumento de análise social de alta intensidade. A violência contra a juventude negra, o racismo estrutural e a repressão estatal deixam de ser apenas temas do discurso e passam a ser elementos constitutivos de uma forma artística que expõe, sem mediação moral, o funcionamento real da sociedade brasileira. É nesse sentido que essa letra não é apenas música, mas crítica histórica em estado bruto.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="size-full wp-image-159229 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203.jpg" alt="" width="984" height="984" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203.jpg 984w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-681x681.jpg 681w" sizes="(max-width: 984px) 100vw, 984px" />Black traz ao Planet um tipo de invenção formal que não pode ser assimilada pelo Estado ou pela mídia da mesma maneira que a provocação explícita: rimas sincopadas, dicção veloz, referências múltiplas que atravessam cultura pop, literatura, religião, cinema, crítica social e humor corrosivo; alternância entre inglês e português sem hierarquia; uso da metáfora como arma e da velocidade como método. Ao reorganizar a forma, ele reorganiza também as condições de recepção: a banda deixa de ser apenas um corpo que afronta a moral dominante e passa a ser uma força estética que agride a própria estrutura perceptiva da sociedade. A polícia, a Justiça, a mídia burguesa e até setores liberais que toleravam a “irreverência” do Planet não sabiam o que fazer com essa combinação de rigor formal e revolta política. Porque uma guerra simbólica ainda é negociável, o Estado pode demonizar, a imprensa pode caricaturar, a moralidade pode reagir. Mas a guerra estética é corrosiva, já que ela altera a língua, desloca o eixo da representação, inventa subjetividades, produz novas sensibilidades. Com Black Alien, o Planet Hemp torna-se perigoso não apenas porque diz o que o Estado não quer ouvir, mas porque diz de um modo que o Estado não consegue controlar. A forma passa a ser o escândalo. E é justamente aí que a entrada dele assume seu peso histórico: Black adiciona ao Planet uma camada de sofisticação, velocidade e precisão poética que transforma desobediência civil em gesto estético e gesto estético em crítica política de alta intensidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação interna do Planet Hemp (de guerra simbólica para guerra estética) se manifesta de maneira ainda mais intensa nos palcos, e é ali que se revela o impacto concreto da entrada de Black Alien. As turnês entre 1996 e 2000 tornam-se verdadeiros campos de prova: o grupo passa a enfrentar não apenas a hostilidade da grande imprensa e a perseguição policial, mas também um novo tipo de recepção do público, que reage à presença de Black como quem reconhece uma linguagem antes inexistente. A performance dele intensifica o enfrentamento político porque reorganiza a energia da plateia: seu flow rápido e preciso não apenas empolga, mas movimenta cognitivamente o público, criando um estado de atenção mais agudo, mais crítico, mais mobilizado. Enquanto Marcelo D2, BNegão e os demais membros do Planet sustentam a postura contestatória e a dramaturgia da banda (teatralidade, ironia, comicidade, confronto), Black acrescenta um elemento de verticalidade poética que altera o ritmo emocional do show. Os versos ganham densidade; a rima adquire a função de comentário político imediato; o humor funciona como violência simbólica; e a música passa a operar como pensamento. Isso produz, nos shows, uma tensão inédita: o público não apenas dança ou protesta, mas escuta e reflete, impondo novas práticas sociais. E essa escuta, carregada de forma e velocidade, incomoda muito mais do que a mera defesa da maconha. Por isso as turnês do Planet nesse período se tornam espaços de conflito direto com o Estado. A polícia invade shows, interrompe apresentações, prende integrantes, ameaça produtores. Não se trata apenas do conteúdo “proibido”: é o efeito social da forma. Shows do Planet com Black Alien são momentos em que milhares de jovens experimentam simultaneamente insubordinação e sofisticação estética, combinação que o Estado brasileiro historicamente teme. A polícia reage com brutalidade porque vê ali não um entretenimento, mas uma massa organizada por linguagem, e essa é a forma mais avançada de potência política nas artes. A repressão que o Planet sofre (especialmente entre 1997 e 1999) apresenta isso com clareza: quanto mais o grupo aprimora sua forma, quanto mais Black Alien amplia a agudeza do discurso, mais a estrutura repressiva responde com encarceramento, censura e violência. Os shows se tornam espaços-limite de disputa entre Estado e juventude, entre autoridade moral e imaginação crítica, entre institucionalidade e experimentação artística. E Black, no centro dessa engrenagem, atua como o MC que não só segura o palco, mas reorganiza a percepção coletiva, produzindo algo que nenhum aparato repressivo consegue neutralizar: uma estética que não cabe nas categorias usuais da ordem ou da desordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença de Black Alien no Planet Hemp altera radicalmente a gramática interna da banda, o sentido político externo das suas performances e a recepção social que a juventude brasileira passa a ter da dissidência naquele final de século. Sua inserção se dá num momento de alta fricção, quando o grupo já havia se consolidado como antagonista político da grande imprensa e do Estado, mas ainda buscava uma forma mais articulada de intervenção. Os primeiros passos do Planet (especialmente o disco <em>Usuário</em>) possuíam enorme energia de enfrentamento, mas não tinham ainda o rigor formal e a densidade poética que seriam alcançados a partir de 1997. A linguagem organizada é força histórica. É por isso que, entre 1996 e 2000, o Planet se torna a banda mais politicamente perigosa do país. A função de Black Alien dentro do grupo é dupla: técnica e estrutural. Técnica, porque ele introduz uma forma de rima que o rap brasileiro ainda não conhecia. Estrutural, porque sua presença tensiona e desloca a banda inteira, tanto estética quanto simbolicamente, já que a presença de Black tende a mover o eixo. Suas qualidades elevam o padrão interno do Planet. Ele empurra o grupo para fora da zona de conforto, obriga os outros a reorganizarem seus papéis e reconfigura a própria expectativa do público a cada show. Essa dinâmica interna tem impacto direto nos discos.</p>
<p style="text-align: justify;">No álbum <em>Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Para</em> (1997), Black aparece como força de articulação. Ele ancora o verso, estabiliza o ritmo e introduz camadas poéticas que direcionam a banda para uma zona de invenção. Seu timbre preciso e sua velocidade dão aos refrões e às passagens intermediárias uma solidez rítmica que, sem ele, seria impossível, sendo uma de suas funções orientar o sentido da música. Black introduz uma organicidade formal que faz o disco soar mais coeso, mais agressivo e, ao mesmo tempo, mais inteligente. Ele captura a agitação caótica do grupo e a transforma em clareza poética. Sua presença reorganiza a energia do álbum, tornando-o uma síntese muito mais afiada do que seria se dependesse apenas da dramaturgia e da potência cênica dos outros membros. Essa reorganização se intensifica em <em>A Invasão do Sagaz Homem Fumaça</em> (2000), quando o Planet Hemp já opera sob uma conjuntura de cerco: moralismo midiático, criminalização agressiva do debate sobre drogas e repressão policial como espetáculo disciplinar. O disco responde com mais tensão urbana e maior complexidade interna, e Black Alien atua aí como força de densificação formal. Ele aparece creditado nos vocais do álbum e, especificamente, assina composição em faixas-chave como &#8216;Ex-Quadrilha da Fumaça&#8217;, &#8216;Test Drive de Freio de Camburão&#8217; e &#8216;Contexto&#8217;, pontos em que o grupo não apenas reage à repressão, mas estrutura crítica social em forma, ritmo, montagem de referências, ironia e ataque direto ao dispositivo policial como método de governo. Sua presença intensifica a repressão porque sua forma de dizer produz maior capacidade de articulação política entre os ouvintes. Essa transformação é nítida nas turnês. A recepção do público se modifica. A plateia começa a prestar atenção na forma, não apenas no gesto contestatório. Os shows se tornam atos políticos completos com gente cantando refrões sobre criminalização, jovens exercitando dissidência estética, multidões reagindo a versos como se fossem instruções de combate. A presença de Black reorganiza a plateia e essa função é crucial num país em que a estética é uma das poucas vias disponíveis para elaborar politicamente o que a institucionalidade bloqueia.</p>
<p style="text-align: justify;">A saída dele, por volta de 2001, portanto, não é apenas um acontecimento interno à banda, mas uma reorganização do campo cultural. Sem Black, o Planet perde parte da sua força estética. Continua relevante, claro, mas já não possui a mesma capacidade de produzir forma insurgente. Politicamente, é uma perda significativa: a combinação entre D2 e Black era rara, porque articulava combate e elaboração, confronto e reflexão, agressividade e precisão. A saída de Black também marca o início de sua própria travessia artística rumo a <em>Babylon By Gus &#8211; Vol. I</em>, em que ele leva ao limite tudo aquilo que vinha experimentando no Planet, velocidade, multiplicidade, humor ácido, crítica social, criação formal. Sua obra solo nasce da tensão acumulada durante aqueles anos de palco, estúdio, repressão, rua e invenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Em síntese, o período Planet Hemp (1996-2000) é definitivo para compreender a formação artística de Black Alien. É ali que ele aprende a segurar multidões, a enfrentar o Estado, a lidar com o caos, a organizar a linguagem, a criar forma sob pressão. É ali que ele se torna o MC capaz de produzir um dos discos mais importantes da música brasileira contemporânea. E é ali que o Planet Hemp, com ele, se torna não apenas símbolo de resistência, mas uma máquina estética de dissidência, algo que, no Brasil, é sempre mais perigoso do que qualquer discurso explícito. Ele leva ao grupo algo que até então não existia naquela escala: rigor poético. A rima deixa de ser apenas ferramenta de agitação e passa a ser também instrumento de elaboração. Black traz densidade, não só energia. Ele insere na banda um tipo de inteligência formal que, até então, circulava de modo mais difuso na cena underground. O Planet passa a ter um MC com formação híbrida, trânsito social complexo e domínio técnico que permite ao grupo dialogar com públicos antes inalcançáveis como estudantes, leitores, jovens de classe média, críticos de música, setores da imprensa cultural. Ao mesmo tempo, Black reforça a potência do grupo nas periferias, por trazer consigo a dicção da rua, o humor ácido, a velocidade agressiva e a metáfora como ataque. O discurso que era lido como afronta juvenil passa a ser articulado com outra camada de sentido e isso altera o modo como o Judiciário reage à banda. O histórico de perseguição policial ao Planet Hemp não pode ser desligado de duas coisas: do avanço da direita nos anos 90 e da crescente sofisticação das letras que Black começa a entregar. A repressão sempre teme dois tipos de artistas: os que mobilizam massas e os que pensam com precisão. Black traz as duas dimensões. Além disso, a presença dele reorganiza a política interna da banda. O Planet Hemp sempre foi um coletivo plural, mas também uma máquina caótica com múltiplas vozes, disputas internas, improviso permanente, tensões criativas. A entrada de Black demora pouco para alterar a equação. Ele rapidamente se torna um “núcleo técnico”, o MC que segura a barra lírica nas performances mais difíceis, que sustenta a energia dos shows longos, que injeta ironia em momentos de dispersão, que amarra canções com fluidez dramática. Se o Planet tinha energia de levante, Black fornece arquitetura formal para que essa energia não se disperse.</p>
<p style="text-align: justify;">Politicamente, isso significa algo essencial: Black Alien é o MC que transforma a rebeldia do Planet em linguagem de combate, linguagem estruturada, linguagem ofensiva. Ele formula pensamento crítico em forma de verso e isso tem consequência histórica, pois muitos jovens que viam o Planet como símbolo de transgressão passam, com Black, a enxergar o grupo como espaço de elaboração política. Ele tensiona o discurso e cria uma camada analítica que amplia o alcance da banda. Em outras palavras: com Black Alien, o Planet deixa de ser apenas uma banda “rebelde” para se tornar um coletivo estético-político no sentido forte do termo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O processo artístico até 2004 &#8211; técnica, estúdio, laboratório</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Entre 2001 e 2003, após o afastamento do Planet Hemp, Black Alien inicia o processo de gravação de seu primeiro álbum solo. O percurso é intenso, concentrado e guiado por uma obsessão formal rara no rap brasileiro daquele período. <em>Babylon By Gus &#8211; Vol. I: O Ano do Macaco</em> é produzido por Alexandre A-Basa, em sessões diárias realizadas no estúdio da Deckdisc, no Rio de Janeiro, ao longo de 48 dias de trabalho contínuo. O método de criação é dialógico: Black e Basa desenvolvem suas partes separadamente e, em seguida, entram em debate sobre letras, filosofia, timbres e estrutura sonora, construindo a obra por fricção e escolha consciente. Influenciado por experiências que iam do rap político norte-americano ao soul e ao funk, o disco se organiza como laboratório estético no qual a voz é tratada como instrumento central, exigindo precisão de flow, interpretação e respiração. Black participa ativamente das decisões formais, interferindo na arquitetura do álbum e consolidando ali uma linguagem que rompe com a rigidez métrica e temática do rap nacional da época. O resultado é uma obra singular, que condensa as aprendizagens do Planet Hemp e da experiência com Speed, mas as reorganiza num patamar autoral pleno, marcando uma inflexão na história do rap brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O lançamento, feito pela Deckdisc, é modesto. Sem orçamento gigantesco, sem publicidade massiva, mas o boca a boca explode. Blogs, comunidades do Orkut, fóruns, zines, boca de bar, o disco se espalha pelo subterrâneo com uma velocidade impressionante. <em>O Ano do Macaco</em> se torna clássico instantâneo não porque é empurrado pela indústria, mas porque o público reconhece na hora que ali está algo diferente de tudo. A crítica especializada (ainda tímida na época) reconhece o disco como marco. Alguns jornalistas o comparam a um “Faroeste Caboclo do rap”, outros dizem que é “uma obra-prima neurofuturista”, “um delírio técnico”, “um tratado de sobrevivência urbana”. Mas a verdadeira canonização não vem do jornalismo; vem da rua. DJs o tocam em todas as festas. MCs o estudam. Leitores decoram versos inteiros. O álbum se torna referência para toda uma geração.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="size-full wp-image-159227 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499.jpg" alt="" width="939" height="939" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499.jpg 939w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-681x681.jpg 681w" sizes="(max-width: 939px) 100vw, 939px" />O disco é fundador, um ponto de inflexão, é a prova de que o rap brasileiro pode ser lírico, filosófico, literário, rápido, técnico, poético e brutal ao mesmo tempo. Ainda que Speed não esteja presente fisicamente, sua presença estética está por toda parte. <em>O Ano do Macaco</em> soa como um diálogo com ele, ou melhor, como continuidade de um laboratório conjunto. É como se Black carregasse consigo a parte luminosa e a parte sombria da dupla, mantendo vivo o impulso criativo que Speed simbolizava. Quando o Brasil olha para trás, duas décadas depois, percebe que <em>Babylon By Gus &#8211; Vol. I</em> é um dos discos mais importantes da música brasileira pós-2000. Não só do rap — da música brasileira. A crítica o põe ao lado de obras como <em>Sobrevivendo no Inferno</em>, <em>Nada Como um Dia Após o Outro Dia</em> e <em>A Procura da Batida Perfeita</em>. Mas o que importa é que o disco não nasce da queda — nasce da vida artística plena.</p>
<p style="text-align: justify;">“From Hell do Céu” se abre como um campo de tensões com a metáfora da corrida (com seu grid, largada, promessa de ultrapassagem) introduz uma percepção crítica da concorrência como forma social, na qual o movimento incessante convive com a fixidez das posições, sendo que acelerar, disputar, performar não altera o lugar ocupado, apenas intensifica a experiência de estar preso dentro de um circuito previamente delimitado. O verso inicial, portanto, estabelece o regime em que o mundo será lido ao longo da música. Quando a letra convoca o “sobrevoo”, há uma operação cognitiva que exige distanciamento para que a ordem das coisas se revele como construção e não como natureza dada. A cidade, nomeada como zoológico, aparece como descrição de uma racionalidade que administra corpos, organiza fluxos e transforma sujeitos em espécimes observáveis, controláveis, classificáveis. A vida reduzida à sobrevivência indica um ponto de saturação em que a reprodução social se mantém no limite, sem excedente simbólico capaz de sustentar a ideia de plenitude. Olhar de cima, nesse contexto, significa apreender a forma dessa organização, perceber o declive como tendência histórica e não como acidente.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença dos “mestres das marionetes” apresenta o poder como função, distribuído em operações que produzem conduta, modulam percepção e regulam acesso. Orquestrar, adestrar, abrir e fechar são momentos de um mesmo processo que atravessa mídia, Estado, mercado e cultura. A dilatação da pupila e a aniquilação dos corpos surgem lado a lado, sem hierarquia, como técnicas distintas que incidem sobre o mesmo material biológico e social, expandindo a experiência ou interrompendo-a definitivamente. A fórmula “from hell do céu” condensa essa duplicidade sem resolvê-la, mantendo em tensão a experiência concreta da violência e um resto de transcendência que não se estabiliza nem como fé nem como ironia. A linguagem da música varia continuamente entre referências (bíblico, urbano, técnico, pop) e nesse trânsito constrói uma tentativa de inteligibilidade em um espaço marcado pela fragmentação comunicativa. A referência à Torre de Babel afirma a necessidade de forjar uma língua que atravesse essas fraturas. Nesse ponto, a ideia de acordar primeiro adquire densidade crítica, pois o problema não está na falta de sonho, mas na forma social que produz o sonho como mercadoria e horizonte ilusório, exigindo, em resposta, uma vigília que desfaça o encantamento e restitua alguma capacidade de apreensão do real.</p>
<p style="text-align: justify;">O refrão organiza a dinâmica da música como uma sequência de impulsos e suspensões que dizem respeito tanto ao corpo quanto ao trabalho de criação: disparar, parar no infinito, reabastecer, seguir. Essa cadência remete a um regime de produção em que intensidade e esgotamento se alternam, exigindo recomposição constante. A escrita aparece como fixação desse movimento, como tentativa de registrar aquilo que se vê no interior desse ciclo, enquanto o veredicto é posto para fora do sujeito, recusando a posição de juiz e preservando uma espécie de abertura ética que impede a redução da experiência a julgamento moral. Na segunda parte, a letra se aproxima diretamente das formas de existência sob o capital, e a distinção entre quem desiste, quem permanece e quem desiste permanecendo descreve posições dentro de um mesmo campo, não tipos psicológicos isolados. A figura daquele que ocupa espaço sem conduzir a própria vida traduz um processo de esvaziamento em que a presença física não corresponde a uma participação efetiva na determinação do próprio destino. A imagem dos “cérebros de férias” aponta para uma suspensão socialmente produzida da atividade crítica, um desligamento que não decorre de incapacidade, mas de condições que tornam o pensamento um luxo ou um risco. O trabalhador que percorre portas com currículo nas mãos aparece como expressão de uma economia que exige mobilidade constante sem garantir inserção estável, produzindo uma circulação vazia, marcada pela repetição de tentativas fracassadas. A compressão da família no cubículo evidencia a reorganização do espaço urbano sob a lógica da contenção, enquanto a ausência de paz no versículo sugere o esgotamento de formas tradicionais de mediação diante da dureza material da vida cotidiana. A articulação entre Ecad e Green Card conecta duas estratégias de sobrevivência (a inserção no circuito cultural e a fuga geográfica) que, embora distintas, respondem a uma mesma estrutura de bloqueio. A metáfora do garimpo em terra indígena intensifica a dimensão histórica da violência, ao associar trabalho, ilegalidade e risco de morte em um cenário marcado por expropriação e conflito. Cantar a vida amarga se apresenta como registro sistemático de uma condição compartilhada, enquanto a recusa em aceitar a mão que afaga delimita uma posição diante das instâncias que oferecem reconhecimento em troca de domesticação. Há, nesse gesto, uma recusa de integração que preserva a possibilidade de crítica.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a letra se volta para o próprio fazer, a imagem da “poesia de aço” direciona a compreensão da escrita, que passa a ser pensada como processo produtivo, técnico, repetitivo, submetido a uma disciplina específica. A siderúrgica evoca calor, pressão, transformação de matéria bruta em forma trabalhada, indicando que a linguagem não emerge espontaneamente, sendo resultado de um trabalho insistente. A referência a Saturno introduz uma temporalidade marcada pela lentidão e pelo peso, sugerindo uma elaboração que se dá na duração, repetição, insistência, que não se resolve em síntese rápida. O “verbo cru” indica uma recusa de mediações suavizantes, uma escolha por expor a experiência sem revestimentos conciliadores, enquanto a verdade situada entre parto e infarto aponta para formas de irrupção que implicam dor e risco, seja na criação que gera algo novo, seja na ruptura que ameaça a própria continuidade da vida. A recusa da mediação televisiva pensa a expectativa de transformação para fora dos circuitos institucionalizados, afirmando que aquilo que efetivamente altera a realidade não se apresenta necessariamente sob forma espetacular.</p>
<p style="text-align: justify;">O fechamento com a terra improdutiva reconecta a elaboração simbólica ao plano material, indicando que a questão fundamental permanece ancorada na forma como a produção e a reprodução da vida são organizadas. A improdutividade, longe de ser atributo natural, aparece como resultado de uma estrutura que impede que a riqueza potencial se converta em condições efetivas de existência para a maioria. A música, ao percorrer diferentes escalas (do corpo à cidade, da linguagem à economia) constrói uma visão em que esses níveis não se dissociam, se articulam em uma totalidade tensa. A força de “From Hell do Céu” se concentra justamente nessa capacidade de sustentar essa articulação sem reduzir a experiência a um eixo único, permitindo que a linguagem opere como meio de apreensão de um mundo em que violência, trabalho, desejo e forma se entrelaçam de maneira indissociável.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mr. Niterói &#8211; A Lírica Bereta</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Com uma trajetória tão profícua, Black ganha um filme biográfico. Ao ser interpelado sobre a possibilidade de produzir um material sobre sua carreira ele coloca para o diretor se se quer mostrar tudo ou só uma parte da sua realidade. Sabendo das tensões existentes, o diretor Ton Gadioli foi cuidadoso. Logo no início, Black dispara: “É só tubarão, tarântula, piranha, vagabundo e filho da puta”, se referindo ao mercado da música, essa máquina que devora talento e entrega ruína, que seduz para, depois, descartar. A fala condensa a antipatia que Black sempre demonstrou pelo ambiente que tenta transformar arte em produto padronizado. O ódio reflete a percepção de alguém que viu por dentro a mecânica do espetáculo e entendeu que, para quem não se adapta ao jogo, o destino é ser moído. “Eu já quis matar um monte de gente…” reflete a expressão crua de uma mente pressionada, de alguém que viveu em estado de tensão constante, cercado por expectativas, fracassos, traições, vícios, ilusões. E logo depois, num contraste que só confirma a profundidade desse sujeito, ele solta: “Seus amigos não te dão drogas. Eles te dão livros e te apresentam a célebres.” É outra chave fundamental. Black Alien sempre esteve cercado por cabeças que não o trataram como mascote da cena, mas como intelectual da rua, como alguém de quem se cobra densidade, leitura, reflexão. Ele não é apenas o MC rápido e técnico, mas um leitor que transforma angústia em sintaxe, ansiedade em fluxo, desordem mental em métrica. Essa frase (livro no lugar da droga) é a confissão de que a cultura, para ele, sempre foi ferramenta de reparo mental. A droga o derruba, o livro o reestrutura; o vício o desorganiza, a linguagem o recompõe e isso atravessa a estética dele de ponta a ponta.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme então abre o plano para a Lapa, a noite pulsa como organismo vivo, artistas de rua, jovens bêbados, trabalhadores exaustos, policiais espalhados como espectros, luzes que piscam. <em>A Lírica Bereta</em> capta a Lapa como um território da contradição, uma zona onde miséria e festa se encostam, onde o brilho barato esconde a ruína social, onde tudo parece possível e, ao mesmo tempo, nada se sustenta. É o cenário perfeito para um artista cuja obra nasce justamente desse encontro entre precariedade e grandeza. No filme, quando Black aparece no meio desse fluxo, existe um magnetismo imediato. Ele circula como alguém que pertence não à indústria, mas à noite, ao subterrâneo, ao caldo cultural da rua. Tudo ali (as pessoas, os ruídos, as conversas soltas, os becos, os ambulantes, a sensação de insegurança) aparece como matéria-prima da poética que ele carrega. Esse início de <em>A Lírica Bereta</em> traz à tona o contraste entre a agressividade e o afeto, a violência e a lucidez, o ódio e a intelectualidade. Black Alien sempre foi esse amálgama paradoxal que pensa, lê, observa, mas transborda raiva, cansaço, vício, desesperança e essa soma de forças opostas é o que faz dele um autor no sentido forte, alguém que organiza o caos, que exprime o indizível, que transforma sobrevivência em poética.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença de Black Alien no palco é um capítulo à parte na compreensão da sua obra, o público participa ativamente. Tive a oportunidade de vivenciar isso diretamente quando participei das gravações de <em>A Lírica Bereta</em>, a convite do meu amigo Ton Gadioli. Uma das tomadas aconteceu na Fundição Progresso, e ali ficou ainda mais evidente que Black arrasta todos com uma espécie de afeto coletivo, uma vibração compartilhada, algo que só emerge quando um artista que carrega no corpo as marcas de sua própria guerra aparece diante de centenas de pessoas sem disfarçar essas marcas. Talvez por isso a sensação seja tão difícil de verbalizar. Quando Black está no palco, algo da ordem do sensível se irradia e o público responde como se reconhecesse, naquele homem, uma experiência que cada um carrega, mas raramente assume. Walter Benjamin chamaria isso de aura, não como a aura aristocrática da arte distanciada, mas como aquele brilho singular que surge quando a obra nasce de um processo irreproduzível, quando carrega consigo a marca do tempo, das cicatrizes, perdas, lapsos, de tudo o que não se pode repetir mecanicamente. O que a câmera registra na Fundição Progresso é justamente a luta invisível que sustenta esse magnetismo. E é por isso que seus shows têm essa força que quase nenhuma imagem dá conta, porque ali a verdade não é ensinada, é compartilhada. Esse reconhecimento é político, estético, existencial.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Conclusão…</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que permanece, ao final desse percurso, não é a imagem de um artista atravessado por contradições (isso seria pouco), mas a de um produtor de forma num país que historicamente dificulta o reconhecimento desse tipo de trabalho quando ele emerge fora dos circuitos autorizados. Black Alien não se deixa apreender por categorias prontas porque sua obra não responde a uma demanda prévia, pois cria as condições de sua própria inteligibilidade, força o campo cultural a se reorganizar para dar conta dela. E é justamente por isso que, tantas vezes, se tenta reduzi-lo à biografia, ao episódio, à queda, como se fosse necessário rebaixar a complexidade da forma para torná-la consumível. Mas a obra insiste. Ela permanece nos versos que continuam circulando, nas métricas que se tornaram referência sem que muitos saibam nomear sua origem, nos deslocamentos que passaram a parecer naturais depois que ele os realizou pela primeira vez. Permanece também no modo como diferentes gerações se aproximam dela e, ainda hoje, encontram dificuldade em estabilizá-la, como se cada escuta revelasse um excesso que não se deixa capturar completamente. Isso não é efeito de mistificação, mas de elaboração: trata-se de uma obra que opera acima do nível médio de formalização do campo em que surgiu.</p>
<p style="text-align: justify;">Black Alien não resolve as contradições que o atravessam, ele as organiza e é nessa organização que reside sua força. Sua trajetória não aponta para uma superação individual nem para uma narrativa exemplar de redenção, mas para algo mais difícil de sustentar: a persistência da criação em meio a um conjunto de determinações que tendem ao esgotamento. Se há algo que sua obra demonstra, é que a linguagem ainda pode funcionar como instrumento de apreensão do mundo mesmo quando o mundo se apresenta fragmentado, violento e opaco. Por isso, ao final, talvez não seja o caso de perguntar o que aconteceu com Black Alien, mas o que sua obra fez com o rap brasileiro e, em alguma medida, com a própria possibilidade de pensar a experiência urbana contemporânea a partir da linguagem. A resposta não se encontra numa frase, nem numa síntese confortável. Ela está dispersa, em circulação, atravessando vozes, cenas, textos, escutas. E isso basta para situá-lo onde de fato está: não na margem, não no desvio, mas no ponto em que a forma se reorganiza e obriga a história a se mover.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/05/159226/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Até sempre, Aldir!</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159197/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/05/159197/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Nicolas Lorca]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 May 2026 16:50:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159197</guid>

					<description><![CDATA[Por Jan Cenek Tomo a liberdade de dispensar as aspas. Saberão reconhecer os versos do compositor genial, sem aspas. Assim como saberão reconhecer o autor do trecho mórbido e covarde, entre aspas. É que meu coração tropical está coberto de neve. Também eu bebo um pouquinho para ter argumento. Mesmo sentindo frio em minha alma, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Tomo a liberdade de dispensar as aspas. Saberão reconhecer os versos do compositor genial, sem aspas. Assim como saberão reconhecer o autor do trecho mórbido e covarde, entre aspas.</p>
<p style="text-align: justify;">É que meu coração tropical está coberto de neve. Também eu bebo um pouquinho para ter argumento. Mesmo sentindo frio em minha alma, apesar do açoite contínuo da noite. Bêbado. Mas sem traje de luto e sem chapéu-coco: arrebentar as correntes que envolvem o amanhã!</p>
<p style="text-align: justify;">Morreu o compositor genial: Aldir Blanc. Boêmio. Vascaíno. Psiquiatra. Apaixonado pelo samba e pelo jazz. Homem grande em todos os sentidos: turrão, pavio curto, humano. Quase não saía de casa, mesmo assim foi vitimado pela Covid-19. Tinha a barba e a voz grossas. Não gostava de sol, ia à praia para beber cerveja. Subia o morro, seguia os blocos carnavalescos e frequentava centros espíritas para curtir a batucada. Ainda garoto, construiu uma bateria de lata. Estudou medicina, tornou-se psiquiatra. Disse que a psiquiatria não ajudou o letrista. Foi o contrário.</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente está entre os maiores compositores da MPB: com Noel Rosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Adoniran Barbosa, Geraldo Filme. Como, no Brasil, as fronteiras entre a canção, a poesia e a literatura são tênues: a morte coloca Aldir no devido time, com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes e até Machado de Assis. Sim, o letrista da Zona Norte do Rio tem um quê do bruxo do Cosme Velho: o realismo, os detalhes, o band-aid no calcanhar, o dodói de Tolstói, a faca do crime, o ciúme que mata, o humor que redime, o banho de ervas, o nome da outra no pano vermelho, o cigarro molhado de chuva, a goiabada-cascão no sonho do boia-fria, a toalha molhada no chão, os fios de barba na pia, os falsos votos de feliz casamento, a curiosidade pelos rancores siameses e pela cruel indiferença.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há, na MPB, verso mais machadiano do que: eu aprendi que a alegria de quem está apaixonado é como a falsa euforia de um gol anulado. Três anos vivendo juntos. Ele é Vasco doente, ela grita Mengo no segundo gol do Zico. Não há, na MPB, crônica mais machadiana do que <em>A nível de</em>: Wanderley e Odilon – nomes que Aldir Blanc sacou na onomatopeia do parceiro João Bosco – são muito unidos, vão juntos ao Maracanã; Yolanda e Adelina, as esposas, são amigas e se fazem companhia; até que se estrutura um troca-troca; mulher com mulher, homem com homem; só que o casamento continua a mesma bosta.</p>
<p style="text-align: justify;">Na morte estúpida do artista, vê-se um paralelo fúnebre com a sua própria obra. São os becos sem saída do tempo presente. Em vez de reza uma praga de alguém. Não a bala com a bala, nem a faca com a faca, nem o corpo estendido no chão. Mas os doentes sem leito, a falta de respiradores, os corpos nos corredores, as covas coletivas, as subnotificações. É a morte do malandro, da enfermeira do Salgado Filho, do <em>latin lover</em>, das Marias, das Clarices e até dos compositores geniais. &#8220;E daí? Eu não sou coveiro&#8221; – disse uma figura verdadeiramente triste. O Brazil não merece o Brasil. O Brazil tá matando o Brasil. Do Brasil, S.O.S ao Brasil – diria Aldir.</p>
<p style="text-align: justify;">Os heróis do bem – cidadãos de bem? – levando a paz na ponta dos aríetes. A conversão dos infiéis. A nudez sem véus diante da Santa Inquisição. As carreatas da morte. A burguesia dentro dos carros, exigindo o sacrifício dos trabalhadores. Empilhados nas filas dos hospitais: pais-de-santo, paus-de-arara, passistas, flagelados, balconistas, palhaços, marcianos, canibais, pirados dançando, todos dormindo de olhos abertos.</p>
<p style="text-align: justify;">Aldir Blanc teve dezenas de parceiros: Paulo César Pinheiro, Moacyr Luz, Guinga, João Bosco. Com este compôs <em>O bêbado e a equilibrista</em>, que era uma homenagem a Chaplin e, com Elis Regina, virou o hino da anistia. Existe figura mais chapliniana do que o exilado político? – perguntava o compositor.</p>
<p style="text-align: justify;">Adeus, Aldir. O tempo adormece as paixões, você as liberta. O tempo se rói com inveja, você dorme tranquilo. Até sempre!</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Texto escrito na noite da segunda-feira 04 de maio de 2020. Durante a pandemia de Covid-19. Quando chegou a notícia sobre o passamento do genial Aldir Blanc, ocorrido naquela manhã. Alguns anos depois, esta pequena lembrança.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/05/159197/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Melancolia e crítica à ditadura em Cazuza</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/04/159134/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/04/159134/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Apr 2026 06:27:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159134</guid>

					<description><![CDATA[Cazuza expressa a frustração com uma transição política que trocou o nome do regime, mas permaneceu com a mesma estrutura. Por Michel Goulart da Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Goulart da Silva</h3>
<p style="text-align: justify;">Não é possível separar a trajetória de Cazuza e o processo de transição da ditadura, na década de 1980. Suas letras expressam as esperanças e, posteriormente, as frustrações que marcaram o processo que redundou na construção da chamada Nova República. Se em 1985 o artista era o rosto de uma juventude ainda esperançosa pela possibilidade de mudança, ao fim de sua vida, em 1990, sua obra havia se transformado em uma das críticas mais ferozes e lúcidas aos limites dessa transição.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua trajetória artística começa em 1981, como vocalista da banda Barão Vermelho. Foram três álbuns com a banda, com letras em um tom mais leve, como “Bete balanço e “Pro dia nascer feliz”. O Barão Vermelho e seu principal letrista, Cazuza, não tinham “a inquietação política da brasiliense Legião Urbana e privilegiava dramas da intimidade de jovens urbanos”.<strong>[1]</strong> Depois de sua saída da Barão Vermelho, Cazuza, em sua carreira solo, se torna uma espécie de porta-voz da decepção com a transição da ditadura.</p>
<p style="text-align: justify;">O ano de 1985 marca o ponto de inflexão na percepção de Cazuza sobre o processo político e social pelo qual passava o país. Com o fim da ditadura e a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, o Brasil vivia um clima de expectativa pela volta da democracia plena e das eleições diretas. Contudo, contraditoriamente, depois de enterrada a emenda Dante de Oliveira, aquela eleição ainda foi realizada de forma indireta.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse cenário ocorreu o primeiro Rock in Rio, onde Cazuza, ainda como vocalista do Barão Vermelho, encerrou o show enrolado na bandeira brasileira, cantando a música “Pro dia nascer feliz”. Contudo, o entusiasmo inicial foi rapidamente confrontado pela realidade política. Com a morte de Tancredo Neves e a posse de seu vice, José Sarney — que havia sido um colaborador da ditadura — sinalizava-se que a mudança não seria tão profunda quanto o esperado. Escrevendo em 1990, e fazendo um balanço desses anos, o sociólogo Florestan Fernandes dizia:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“O último quinquênio representou um amplo deslocamento histórico e abriu promessas autênticas de transformação profunda da sociedade civil, da cultura e do Estado. Porém, marchamos em ziguezague e sob o guante da burguesia associada (nacional e estrangeira), dentro de limites estritos, impostos abertamente pela tutela militar até hoje”.<strong>[2]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159141" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/09f4dcd967bf8de45b4b300050d05408.jpeg" alt="" width="1778" height="1000" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/09f4dcd967bf8de45b4b300050d05408.jpeg 1778w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/09f4dcd967bf8de45b4b300050d05408-300x169.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/09f4dcd967bf8de45b4b300050d05408-1024x576.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/09f4dcd967bf8de45b4b300050d05408-768x432.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/09f4dcd967bf8de45b4b300050d05408-1536x864.jpeg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/09f4dcd967bf8de45b4b300050d05408-747x420.jpeg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/09f4dcd967bf8de45b4b300050d05408-640x360.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/09f4dcd967bf8de45b4b300050d05408-681x383.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1778px) 100vw, 1778px" />Essa mudança se expressou nas letras de Cazuza, que, do tom até mesmo alegre dos primeiros anos do Barão Vermelho, passou para o pessimismo. Sua decepção com a transição da ditadura pode ser entendida como uma possível expressão dos limites do processo. Florestan Fernandes, ainda no começo da década de 1980, afirmava que “as pressões do topo da sociedade conferem, portanto, um amplo espaço político à ditadura, no qual ela pode movimentar-se, defender-se e até ganhar elasticidade para parecer ser o que não é”.<strong>[3]</strong> Nesse processo, a ditadura “se despoja de alguns de seus traços e funções, mas incorpora outros e, o que é deveras relevante, pode preservar quase intocável seu núcleo de poder”.<strong>[4]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Cazuza captou essa essência em suas letras. Sua transição para a carreira solo coincide com uma paulatina mudança de percepção em relação à realidade. O otimismo em relação ao dia que poderia nascer feliz vai abrindo passagem a uma certa melancolia, como se percebe na música “Mal nenhum”, de 1985, no álbum que ficou conhecido como <em>Exagerado</em>. Nessa música, canta Cazuza:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nunca viram ninguém triste?</p>
<p style="text-align: justify;">Por que não me deixam em paz?</p>
<p style="text-align: justify;">As guerras são tão tristes</p>
<p style="text-align: justify;">E não têm nada de mais</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em 1987, no álbum seguinte, <em>Só se for a dois</em>, percebe-se a persistente melancolia. Na música “Ritual”, o poeta assim canta:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Pra que buscar o paraíso</p>
<p style="text-align: justify;">Se até o poeta fecha o livro</p>
<p style="text-align: justify;">Sente o perfume de uma flor no lixo</p>
<p style="text-align: justify;">E fuxica</p>
<p style="text-align: justify;">Fuxica</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Contudo, o avanço da situação política parece também influenciar no amadurecimento de Cazuza como crítico social. O contexto é o das disputas em torno da nova Constituição, promulgada em 1988, processo contraditório, em que, a despeito da incorporação das reivindicações dos trabalhadores, as classes dominantes conseguiram garantir seus interesses na manutenção do poder do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1988, Cazuza lançou três de suas canções mais emblemáticas: “Ideologia”, “Brasil” e “O tempo não para”. Essas músicas revelam suas frustrações sociais, políticas e econômicas, se constituindo no que o próprio Cazuza definiu como “uma trilogia de Sarney ao PT no poder”.<strong>[5]</strong> Essas músicas mostram um Cazuza decepcionado com a transição da ditadura e os rumos que tomava a Nova República.</p>
<p style="text-align: justify;">Em “Ideologia”, registra o vazio de propósitos de uma geração que cresceu sob a ditadura e que, na abertura política, viu seus sonhos se esvanecerem. Cazuza canta sobre a desesperança diante das velhas estruturas mantidas na Nova República. O garoto do passado assim olha para a realidade:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Pois aquele garoto que ia mudar o mundo</p>
<p style="text-align: justify;">Mudar o mundo</p>
<p style="text-align: justify;">Agora assiste a tudo em cima do muro</p>
<p style="text-align: justify;">Em cima do muro</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa desesperança também tem relação com as referências políticas de uma geração, que parecem ter ficado no passado. O pessimismo de Cazuza “vinha de alguém que lamentava que os amigos de juventude não tinham levado seus projetos adiante”.<strong>[6]</strong> Em meio ao que entendia como conformismo daquela geração, os poderosos seguiam controlando a sociedade, como canta nessa passagem Cazuza:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Meus heróis</p>
<p style="text-align: justify;">Morreram de overdose, é</p>
<p style="text-align: justify;">Meus inimigos</p>
<p style="text-align: justify;">Estão no poder</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em “Brasil”, Cazuza faz um ousado convite para que o país “mostre sua cara”, denunciando a corrupção e o caráter predatório das classes dominantes, se remetendo à corrupção, entre outros temas. Na letra, refere-se a uma festa em que os trabalhadores não estavam sendo convidados, assim cantando Cazuza:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Não me ofereceram</p>
<p style="text-align: justify;">Nem um cigarro</p>
<p style="text-align: justify;">Fiquei na porta</p>
<p style="text-align: justify;">Estacionando os carros</p>
<p style="text-align: justify;">Não me elegeram</p>
<p style="text-align: justify;">Chefe de nada</p>
</blockquote>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159143" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/helmsboro-hans2.webp" alt="" width="956" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/helmsboro-hans2.webp 956w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/helmsboro-hans2-300x201.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/helmsboro-hans2-768x514.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/helmsboro-hans2-627x420.webp 627w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/helmsboro-hans2-537x360.webp 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/helmsboro-hans2-640x428.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/helmsboro-hans2-681x456.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 956px) 100vw, 956px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Gravada quando Cazuza já enfrentava a debilidade causada pela AIDS, “O tempo não para” pode ser visto como um manifesto contra o comodismo, anos antes da difusão da fajuta ideia de “fim de história”. Cazuza expressa a frustração com uma transição política que trocou o nome do regime, fez mudanças em sua aparência, mas permaneceu com a mesma estrutura e até mesmo governada por algumas das mesmas pessoas. Evidencia-se a crítica de Cazuza em passagens como esta da música:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eu vejo o futuro repetir o passado</p>
<p style="text-align: justify;">Eu vejo um museu de grandes novidades</p>
<p style="text-align: justify;">O tempo não para</p>
<p style="text-align: justify;">Não para, não, não para</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em suas últimas obras, Cazuza, especialmente no álbum <em>Burguesia</em>, de 1989, parece mostrar em definitivo o fim de suas ilusões com a Nova República. O músico utiliza o termo “burguesia” para designar não apenas a classe econômica detentora dos meios de produção, mas um comportamento ético mesquinho e uma posição política de direita. No refrão da música “Burguesia”, canta Cazuza:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A burguesia fede</p>
<p style="text-align: justify;">A burguesia quer ficar rica</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto houver burguesia</p>
<p style="text-align: justify;">Não vai haver poesia</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua obra mostra como as classes dominantes procuraram barrar as transformações sociais reivindicadas pelos trabalhadores mobilizados na década de 1970. Em 1990, diante da consolidação do processo de transição, Florestan Fernandes dizia que “a ditadura militar encontrou vários meandros para continuar viva e atuante”.<strong>[7]</strong> Cazuza, o poeta, tentou mostrar isso em imagens, metáforas, símbolos, como uma forma de resistência a essa permanência do passado no controle das instituições.</p>
<p style="text-align: justify;">Por meio de suas letras, Cazuza imortalizou a sensação de que o Brasil, apesar de ter mudado de regime político, continuava a ser um país onde uma minoria seguia explorando os trabalhadores. Décadas depois, a atualidade de suas canções mostra que muitos dos limites daquela transição — a corrupção, a desigualdade e autoritarismo nem tão disfarçado — ainda persistem na sociedade brasileira. Relembrando Cazuza, podemos fazer de sua “metralhadora cheia de mágoas” uma arma de crítica ainda necessária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Mario Luis Grangeia. Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016, p. 39.<br />
<strong>[2] </strong>Florestan Fernandes. A transição prolongada: o período pós-constitucional. São Paulo: Cortez, 1990, p. 6.<br />
<strong>[3] </strong>Florestan Fernandes. A ditadura em questão. 2ª ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1982, p. 11.<br />
<strong>[4] </strong>Florestan Fernandes. A ditadura em questão. 2ª ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1982, p. 11.<br />
<strong>[5] </strong>Mario Luis Grangeia. Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016, p. 77.<br />
<strong>[6] </strong>Mario Luis Grangeia. Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016, p. 73.<br />
<strong>[7] </strong>Florestan Fernandes. A transição prolongada: o período pós-constitucional. São Paulo: Cortez, 1990, p. 5.</p>
<div class="secedit editbutton_section editbutton_10">
<form class="button btn_secedit" action="/doku.php" method="post">
<p class="no" style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram o artigo são da autoria de Hans Haacke (1936-).</em></p>
</form>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/04/159134/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Mano Brown: a dialética da traição</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/04/159113/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/04/159113/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Apr 2026 19:23:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159113</guid>

					<description><![CDATA[Essa transformação é a síntese da dialética da traição: quanto mais visibilidade ganha o ícone negro, menos visível se torna a estrutura que oprime os negros como classe.Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">O que entendemos por <em>dialética</em></h3>
<p style="text-align: justify;">No sentido materialista-histórico, dialética é a compreensão do real como processo contraditório e em movimento, em que cada forma social carrega em si sua negação e sua transformação possíveis. Não se trata de um jogo abstrato de opostos, mas de um método para apreender como as forças sociais se relacionam, se enfrentam e se transformam mutuamente, produzindo novas sínteses. Aplicada à cultura e à política, a dialética revela que a mesma força que ameaça a ordem pode, em determinadas condições históricas, ser neutralizada e incorporada como parte de sua conservação. A “traição” aqui é o instante em que a energia de contestação deixa de apontar para a superação do sistema e passa a reforçar a sua continuidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Introdução</h3>
<p style="text-align: justify;">Poucas figuras sintetizam com tanta força simbólica as contradições do Brasil contemporâneo quanto Mano Brown. Líder histórico dos Racionais MC&#8217;s, Brown não é apenas um artista: é um fenômeno social, uma referência moral, um ícone incontornável da cultura negra e periférica nas últimas três décadas. Sua voz, sua postura, sua linguagem e sua estética condensam em forma musical a experiência brutal da exclusão racial e de classe que estrutura a sociedade brasileira. Exatamente por isso, sua trajetória é marcada por uma contradição de fundo: a da liberdade forjada sob os limites do capitalismo dependente, que concede reconhecimento simbólico apenas à custa da mutilação política.</p>
<p style="text-align: justify;">A minha hipótese é que Mano Brown se tornou um emblema daquilo que Florestan Fernandes chamou de integração condicionada do negro à sociedade de classes burguesa. Essa integração nunca se dá em bases plenas e emancipatórias — mas sim sob controle, vigilância e limite, subjugando o negro, mantendo-o numa eterna posição de submissão. Brown emerge como exceção, mas sua ascensão simbólica serve, por fim, à reprodução da regra: a desorganização política da negritude e a neutralização da crítica radical. É paradoxal que isso tenha acontecido após anos de afirmação de uma estética e postura radical contra os aparatos de poder que historicamente oprimem os negros. De denúncia sistemática, não só Mano Brown, mas todos os integrantes dos Racionais passam a flertar com a mesma ordem que diziam combater. A dialética da traição diz respeito em como a promessa da modernidade, da república e da sociedade burguesa em torno da inclusão de todos como iguais num regime fraterno e sem distinções foi um fracasso. Podemos dizer também que essa é a dialética da dominação. O poder prometido não passou de uma representação nas mãos de poucos.</p>
<p style="text-align: justify;">O que se propõe aqui é uma análise crítica do processo pelo qual a burguesia brasileira forjou, ao longo do século XX, um modelo de inclusão subordinada do negro, transformando-o em trabalhador disciplinado, símbolo da integração e, eventualmente, liderança representativa. Essa “liberdade” é, no fundo, uma forma de reprodução ideológica da dependência, travestida de sucesso individual e superação coletiva.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir das categorias formuladas por Florestan Fernandes, em especial nas obras <em>A Integração do Negro na Sociedade de Classes</em> e <em>A Revolução Burguesa no Brasil</em>, este texto busca historicizar a figura de Brown no interior das determinações da formação social brasileira. Mano Brown não é uma anomalia: é um produto e um produtor da contradição racial e de classe no Brasil, cuja emergência e atual adesão parcial à ordem revelam muito mais sobre o país do que sobre o próprio artista. Esta reflexão, portanto, não é sobre Mano Brown enquanto indivíduo, mas sobre a funcionalidade da exceção no interior de uma estrutura que mantém a regra da exclusão. A chamada liberdade do negro sob o capitalismo dependente é, em última instância, uma liberdade vigiada, condicionada, administrada pela ordem; e Mano Brown é hoje o nome visível dessa operação.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159114 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp1.jpg" alt="Mano Brown e a dialética da traição" width="463" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp1.jpg 463w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp1-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp1-324x420.jpg 324w" sizes="auto, (max-width: 463px) 100vw, 463px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">A revolução burguesa inacabada e a construção da desigualdade estrutural</h3>
<p style="text-align: justify;">Para compreender o lugar de Mano Brown como figura histórica, é preciso antes compreender o tipo de sociedade em que ele se forjou; uma sociedade marcada por uma revolução burguesa incompleta, autoritária e profundamente excludente. Florestan Fernandes, em sua obra <em>A Revolução Burguesa no Brasil</em>, demonstra que o processo de modernização capitalista brasileiro não se realizou por meio da destruição da ordem anterior, mas pela sua incorporação seletiva e funcional às novas formas de dominação. Ao contrário do modelo clássico de revolução burguesa (como na França ou na Inglaterra), em que a ascensão da burguesia implicou a derrocada do antigo regime, no Brasil o que se consolidou foi uma autocracia burguesa, na qual as elites econômicas modernizaram as formas de dominação sem democratizar as estruturas sociais. A passagem do escravismo para o trabalho livre não significou a abolição das hierarquias raciais e de classe, mas a sua reconfiguração funcional ao capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, destaco um trecho dessa obra em que Florestan trata da noção de burguês e burguesia no Brasil.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>Quanto às noções de “burguês” e de “burguesia”, é patente que elas têm sido exploradas tanto de modo demasiado livre, quanto de maneira muito estreita. Para alguns, o “burguês” e a “burguesia” teriam surgido e florescido com a implantação e a expansão da grande lavoura exportadora, como se o senhor de engenho pudesse preencher, de fato, os papéis e as funções socioeconômicas dos agentes que controlavam, a partir da organização econômica da Metrópole e da economia mercantil europeia, o fluxo de suas atividades socioeconômicas. Para outros, ambos não teriam jamais existido no Brasil, como se depreende de uma paisagem em que ainda não aparece nem o Castelo nem o Burgo, evidências que sugeririam, de imediato, ter nascido o Brasil (como os Estados Unidos e outras nações da América) fora e acima dos marcos histórico-culturais do mundo social europeu. Os dois procedimentos parecem-nos impróprios e extravagantes. De um lado, não se pode associar, legitimamente, o senhor de engenho ao “burguês” (nem à “aristocracia agrária” à “burguesia”). Aquele estava inserido no processo de mercantilização da produção agrária; todavia esse processo só aparecia, como tal, aos agentes econômicos que controlavam as articulações das economias coloniais com o mercado europeu. Para o senhor de engenho, o processo reduzia-se, pura e simplesmente, à forma assumida pela apropriação colonial onde as riquezas nativas precisavam ser complementadas ou substituídas através do trabalho escravo. Nesse sentido, ele ocupava uma posição marginal no processo de mercantilização da produção agrária e não era nem poderia ser o antecessor do empresário moderno. Ele se singularizava historicamente, ao contrário, como um agente econômico especializado, cujas funções constitutivas diziam respeito à organização de uma produção de tipo colonial, ou seja, uma produção estruturalmente heteronômica, destinada a gerar riquezas para a apropriação colonial. (Fernandes, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil, 2020, p.32)</em></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Existe ou não uma revolução burguesa no Brasil?</h3>
<p style="text-align: justify;">Para Florestan, essa pergunta é crucial, mas frequentemente mal colocada. O que o autor nos coloca é que muita gente tende a negar que tenha havido uma revolução burguesa em nosso país, como se isso só pudesse acontecer nos mesmos moldes do que ocorreu na Europa, especialmente a partir da experiência francesa ou inglesa. Isso é um equívoco. O erro está em querer aplicar esquemas repetitivos, como se a história brasileira fosse uma versão atrasada ou deformada da história europeia. Mas a formação social brasileira tem suas próprias dinâmicas, ainda que inseridas no processo mais amplo de expansão do capitalismo em escala global. O que importa entender aqui não é se houve ou não uma revolução burguesa “clássica”, nos moldes europeus, mas como se deu, no Brasil, a incorporação de estruturas e formas de sociabilidade típicas do capitalismo moderno, como a mercantilização das relações sociais, a ampliação do trabalho assalariado, o surgimento de uma sociedade baseada em classes e a formação de uma ordem econômica monetária e competitiva. Esses elementos não surgiram do nada nem seguiram um roteiro iluminista. Ao contrário: foram articulados com os restos do regime escravocrata, com a grande propriedade rural, com o patrimonialismo e com a dependência externa.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Florestan, o que chamamos de burguesia no Brasil não é uma classe revolucionária no sentido europeu do termo. Ela não rompeu com a ordem anterior, mas emergiu dentro da transição conservadora que manteve a estrutura oligárquica no poder, adaptando-a aos interesses do capital internacional. A chamada revolução burguesa brasileira foi, portanto, um processo parcial, desigual e combinado, marcado pela manutenção das formas de dominação anteriores (como o latifúndio, o racismo estrutural, o coronelismo) e pela importação tardia de certos mecanismos de modernização capitalista, sempre sob o controle de elites comprometidas com a ordem. Por isso, ao invés de negar a existência de uma revolução burguesa, o mais apropriado é compreendê-la como uma forma histórica específica de transição, marcada pelo hibridismo entre o velho e o novo, pela continuidade das estruturas coloniais dentro de uma nova lógica de dominação de classe. Foi uma revolução sem ruptura. O que se deve investigar, então, são os sujeitos históricos concretos desse processo — as camadas sociais que impulsionaram as transformações, mas também aquelas que resistiram, negociaram ou adaptaram-se a elas — e como tudo isso se deu no interior do capitalismo dependente e racializado brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa forma conservadora de revolução forjou o que Florestan chamará de ordem social autoritária, onde as liberdades formais coexistem com estruturas rígidas de exclusão e controle. A classe dominante brasileira nunca precisou abrir mão de seu poder para realizar a transição ao capitalismo. Ao contrário: apropriou-se do Estado, moldou as instituições e integrou apenas o que lhe era funcional. Nesse contexto, a população negra foi duplamente excluída: primeiro como ex-escrava, sem reparação histórica, sem acesso à terra, ao crédito ou à cidadania; depois como massa superexplorada, destinada à informalidade, ao trabalho precarizado, às periferias urbanas e à marginalidade institucional. O fim da escravidão, como aponta Florestan, não significou a libertação real dos negros, mas a sua condenação à liberdade sob controle. Essa liberdade é condicionada: ela exige adaptação, docilidade, neutralidade. É nesse ponto que a figura de Mano Brown adquire seu peso simbólico: ele é produto dessa contradição. Um negro periférico que ascende por meio da arte e da crítica, mas que, ao se consolidar como liderança simbólica, é convocado a representar a possibilidade de superação do racismo sem a necessidade da ruptura com o capitalismo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159115 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp2.jpg" alt="Mano Brown e a dialética da traição" width="441" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp2.jpg 441w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp2-221x300.jpg 221w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp2-309x420.jpg 309w" sizes="auto, (max-width: 441px) 100vw, 441px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">A integração como exclusão: o negro na sociedade de classes burguesa</h3>
<p style="text-align: justify;">Em <em>A Integração do Negro na Sociedade de Classes</em>, Florestan Fernandes desenvolve uma das mais lúcidas análises sobre a permanência do racismo estrutural no Brasil após a abolição da escravidão. Contra as teses liberais e evolucionistas que supunham que o tempo e o progresso bastariam para integrar o negro à sociedade, Florestan demonstra que a integração do negro não é resultado natural da modernização, mas sim um processo contraditório e violentamente controlado pelo capitalismo dependente brasileiro. O ponto central de sua tese é claro: a abolição não rompeu com o racismo estrutural, apenas o reconfigurou. O negro foi formalmente “livre”, mas permaneceu à margem das estruturas econômicas, políticas e simbólicas da sociedade. Sua liberdade foi definida não como emancipação coletiva, mas como individualização da sobrevivência. Integrar, nesse contexto, significava antes de tudo adaptar-se a um mundo hostil, fundado sobre sua exclusão.</p>
<p style="text-align: justify;">A modernização capitalista brasileira não foi acompanhada por uma reforma agrária, por políticas estruturais de reparação, nem por uma democratização real das instituições. Ao contrário: o negro foi empurrado para os porões da sociedade urbana, desorganizado enquanto classe, atomizado enquanto sujeito e coagido a disputar espaços simbólicos por meio da performance individual. Esse ponto é essencial para pensarmos o surgimento de figuras como Mano Brown. Ele emerge como exceção que confirma a regra: sua voz potente e sua trajetória impressionante são usadas como evidência de que “o sistema funciona”, de que “a meritocracia é possível”, de que “o rap salva”. Mas essa salvação é restrita, seletiva e profundamente funcional ao capital. A existência de Brown como referência permite que o Estado e a burguesia apontem: <em>“vejam, há progresso”</em> — ao mesmo tempo em que as estruturas de opressão permanecem intactas. Além disso, a “integração” promovida por esse sistema opera não apenas pela via econômica, mas também pela via ideológica. O negro integrado não pode ser radical. Ele deve controlar seu discurso, modular sua crítica, mediar sua revolta. Brown, ao longo dos anos, foi se transformando em modelo de comportamento aceitável pela ordem, não por ter se vendido, mas por ter sido absorvido pelo processo de integração que Florestan tão bem descreveu: aquele em que a exceção se torna vitrificada, símbolo de inclusão, não de confronto.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa funcionalidade da exceção negra integrada é o coração da dialética da traição. Não porque Brown traiu o povo. Mas porque o próprio sistema, ao promover a ascensão simbólica de indivíduos negros, produz a aparência de justiça onde há continuidade da dominação. E é essa aparência que desarma a crítica e anestesia a consciência de classe. É essa a arma mais potente da burguesia. É esse o seu jogo. A trajetória de Mano Brown, enquanto figura incontornável da cultura hip hop brasileira, é marcada por uma tensão que encarna a contradição vivida por todo movimento popular que surge da periferia: a tensão entre a rebeldia autêntica e a captura institucional. Brown é o grito insurgente que irrompe das quebradas, mas também o ícone nacional legitimado por instituições que, historicamente, marginalizaram a população negra. Essa tensão é o centro do processo que Florestan Fernandes ajudou a desvelar: a falsa inclusão promovida pela sociedade de classes como forma de preservar sua estrutura excludente.</p>
<p style="text-align: justify;">No início de sua trajetória, os Racionais MC&#8217;s representaram uma contestação radical da ordem social, ecoando os gritos de uma juventude negra, empobrecida, massacrada pela polícia e negligenciada pelo Estado. A fala cortante de Brown, seu estilo austero, sua recusa ao espetáculo e sua postura desafiadora forjavam um sujeito coletivo em rebelião. O rap dos anos 1990 &#8211; especialmente em <em>Sobrevivendo no Inferno</em> &#8211; era denúncia e uma convocação à consciência. Porém, ao longo dos anos, esse mesmo discurso foi ganhando reconhecimento nos espaços que antes o ignoravam ou criminalizavam. Brown passou a ser chamado para palestras, programas de TV, entrevistas em jornais de grande circulação e, por fim, para conversar com o Presidente da República em seu podcast. Esse reconhecimento é parte de uma dinâmica de hostilização à crítica, como nos advertia Guy Debord: o espetáculo, quando não consegue destruir a oposição, a incorpora e a transforma em imagem domesticada.</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica do capital não é apenas a da exclusão. É, sobretudo, a da captura das potências disruptivas. O sistema é engenhoso em transformar crítica em produto, rebelião em mercadoria, e luta em símbolo. A ascensão de figuras como Mano Brown, ao mesmo tempo que representa conquistas simbólicas importantes para a população negra, não implica necessariamente um avanço da consciência de classe. Pelo contrário: pode significar sua anestesia, quando essa ascensão serve para mascarar a brutalidade da estrutura social que se mantém intacta. A presença de Brown ao lado de Lula <strong>[1]</strong>, nesse contexto, deve ser lida à luz da teoria crítica marxista: não como aliança entre iguais, mas como relação entre a exceção e a regra, entre a voz que foi domesticada e o projeto progressista que busca legitimação simbólica nas periferias. O governo petista, que jamais foi revolucionário, precisa da aura popular de figuras como Brown para sustentar sua imagem de defensor dos pobres, ainda que, na prática, mantenha compromissos inabaláveis com o capital e a ordem. Essa cooptação não apaga o mérito de Brown enquanto artista e porta-voz de uma geração. Mas revela o limite de sua radicalidade enquanto projeto político. Sua rebeldia foi reorganizada, sua insurreição foi acomodada, sua denúncia se tornou conciliadora. Essa é a dialética da traição forjada pela própria estrutura social, não por uma escolha individual. Traição não como deslealdade consciente, mas como efeito da lógica que transforma crítica em símbolo e símbolo em instrumento da ordem.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159116 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp3.jpg" alt="Mano Brown e a dialética da traição" width="575" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp3.jpg 575w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp3-288x300.jpg 288w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp3-403x420.jpg 403w" sizes="auto, (max-width: 575px) 100vw, 575px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Florestan nos adverte que a revolução burguesa no Brasil não foi feita pelos trabalhadores, nem com sua participação ativa. Foi uma modernização conservadora, autoritária e excludente. Nesse contexto, a inclusão do negro se dá pela via da subordinação e da funcionalização, ou seja, ele é incluído apenas na medida em que sirva para manter a ordem. E quando figuras como Mano Brown, mesmo carregando sua história de luta, passam a operar como legitimadores simbólicos de governos que não rompem com essa lógica, contribuem involuntariamente para a reprodução da dominação. Esse é o cerne da traição dialética: não é que Brown tenha traído a periferia deliberadamente, mas sim que foi traído pela estrutura que o colocou como símbolo para desarticular a luta coletiva que sua arte um dia impulsionou. A liberdade do negro, sob o capitalismo dependente, é sempre condicionada. E quando não se enfrenta essa condição estrutural, a luta vira conciliação, e a exceção vira justificativa da opressão.</p>
<p style="text-align: justify;">No podcast com Lula, Mano Brown parece operar numa lógica de contenção. Ainda que diga não estar 100% alinhado ao presidente e critique seu vice, sua postura é nitidamente de acolhimento político, de respeito à figura do líder popular e de adesão pragmática ao projeto do Partido dos Trabalhadores. Semayat Oliveira, que apresenta o podcast junto com Brown, em sua fala, reconhece a existência do medo na população — o medo do comunismo, o medo da esquerda, o medo da mudança — e pergunta a Lula como a esquerda pode lidar com esse sentimento. A pergunta é legítima, mas revela uma chave de leitura que, se não for problematizada, se converte numa estratégia de capitulação política. Ao priorizar a escuta ao medo, ao invés de radicalizar a denúncia das causas materiais que geram esse medo — desigualdade, repressão, extermínio —, Brown e Oliveira parecem internalizar uma lógica defensiva que abafa a crítica e reforça a mediação progressista do conflito de classes. Sua crítica ao conservadorismo dos fãs, como vimos no texto de 2017, não se converte em proposta política de reorganização popular, mas numa melancolia impotente diante da perda de sentido do próprio rap enquanto arte insurgente.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa postura converge com o projeto petista, que, desde sua fundação, optou por ocupar o Estado burguês, legitimando toda ordem de absurdos. Em nome do “possível”, do “governável”, da “correlação de forças”, o PT negociou com todas as frações da burguesia, abandonou qualquer horizonte socialista e optou por políticas de inclusão via consumo. Nesse pacto, a classe trabalhadora é tratada como massa de manobra eleitoral, enquanto seus instrumentos de organização autônoma são sabotados, cooptados ou desmobilizados. Brown, ao validar esse projeto, se torna parte do dispositivo de despolitização. Sua presença no podcast é simbólica: o maior rapper do país dialogando com o maior líder popular da Nova República. Mas esse encontro, longe de representar uma síntese radical, sela a integração da cultura de resistência ao projeto de conciliação. A potência revolucionária do rap é convertida em capital simbólico para legitimar um governo que reafirma a ordem — com arcabouço fiscal, responsabilidade com o mercado e vice reacionário. A função de Brown nesse momento é, portanto, ambígua. Por um lado, ele continua sendo uma referência para milhões. Por outro, seu discurso hoje contribui mais para o amortecimento das contradições do que para sua explicitação revolucionária. E a evocação da revolução soa vazia quando se recusa a romper com a forma-partido burguesa, com o Estado capitalista, com a política como administração da desigualdade.</p>
<p style="text-align: justify;">A integração do negro ao sistema capitalista brasileiro nunca se deu por emancipação, mas por submissão ativa às regras do jogo burguês, sob a promessa de inclusão. Durante o ciclo petista, consolidou-se o que podemos chamar de bloco cultural progressista, no qual artistas, intelectuais e comunicadores oriundos das periferias foram incorporados à lógica de Estado, às políticas públicas de cultura e à esfera da representatividade simbólica. Essa integração implicou adaptação, regulação estética, autocensura e limitação da crítica ao sistema. A cultura da periferia foi, paulatinamente, subsumida à forma Estado e à forma mercado. A política de editais, prêmios, festivais e fomento cultural não promoveu uma radicalização da consciência de classe entre artistas populares. Ao contrário: fortaleceu o empreendedorismo cultural e consolidou a figura do “artista-gestor”, que aprende a captar, negociar, apresentar projetos, prestar contas e disputar reconhecimento institucional. É a figura do artista como “agente do próprio sucesso”, totalmente compatível com a ideologia neoliberal da meritocracia mitigada. Mano Brown (ícone maior do rap nacional) foi lentamente se ajustando a esse novo paradigma. Sua crítica ao racismo se tornou compatível com os marcos da institucionalidade. Sua denúncia da desigualdade passou a conviver com elogios a programas sociais geridos pelo próprio aparelho repressor. A radicalidade estética e política dos Racionais foi se diluindo na ambiguidade pragmática da democracia de baixa intensidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata aqui de deslegitimar suas experiências, sua trajetória ou seu lugar na história do rap. Trata-se, sim, de compreender a dialética perversa que transforma o rebelde em conselheiro do príncipe, o dissidente em mediador, o artista radical em peça do jogo institucional. Esse processo é típico das sociedades capitalistas periféricas: a cooptação das forças críticas é um dos mecanismos centrais de sua estabilidade. E o PT, enquanto gestor desse modelo, soube aplicar com maestria a lógica da incorporação subordinada. A elite intelectual e artística negra foi seduzida por ministérios, cargos, editais, campanhas publicitárias e políticas afirmativas que, embora importantes em certos aspectos, não romperam com o sistema de dominação racial e de classe — apenas o tornaram mais palatável. A questão que se impõe, portanto, é: de que forma a crítica cultural pode romper com esse ciclo de assimilação? Como preservar a radicalidade emancipadora da cultura negra e periférica sem cair na armadilha da representatividade domesticada?</p>
<p style="text-align: justify;">A integração da figura de Brown ao lulismo é um exemplo eloquente do que Florestan chama de integração funcional e subordinada dos negros. Ele não é mais o porta-voz da revolta das ruas — é o embaixador simbólico de uma governabilidade domesticada. A conciliação substitui a radicalidade, o carisma ocupa o lugar da consciência, e a imagem do negro vencedor é usada para mascarar o fracasso da transformação estrutural. Eis o centro da dialética da traição. Ao analisar a trajetória do Brown — do porta-voz feroz da revolta periférica ao mediador cultural de um projeto político conciliador —, vemos em curso justamente o que Florestan chamou de “liberdade condicionada”. Brown, como figura pública, como símbolo da ascensão do negro, foi incorporado à lógica do capital simbólico e político, sem que as estruturas de opressão racial, econômica e cultural tivessem sido efetivamente desmontadas. Sua liberdade de expressão hoje é total, mas está politicamente esvaziada de seu conteúdo transformador original. É o direito de dizer tudo, menos o essencial.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa liberdade condicionada opera sob a forma de uma promessa: “você pode vencer se for forte, autêntico, trabalhador, artista, empresário.” Mas, como ensinava Florestan, a ideologia da ascensão individual encobre o bloqueio estrutural da ascensão coletiva. Ao invés de desvelar as contradições do racismo estrutural e da dominação de classe, o discurso da liberdade sob o lulismo e sob o progressismo cultural apenas legitima a ordem. Brown, ao aderir a essa lógica, mesmo que com reservas, participa da consolidação de uma nova hegemonia progressista que busca gerenciar o conflito. O rap, enquanto expressão crítica e insurgente, se torna útil quando pode domesticar o dissenso, canalizá-lo para o voto, para o empreendedorismo, para o protagonismo simbólico. A radicalidade do discurso foi absorvida como diferencial mercadológico; a estética da revolta foi transformada em capital cultural.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação é a síntese da dialética da traição: quanto mais visibilidade ganha o ícone negro, menos visível se torna a estrutura que oprime os negros como classe. O elogio da representatividade substitui a crítica ao racismo institucional; a presença simbólica no poder substitui a transformação concreta do poder. Brown, enquanto sujeito histórico, está preso entre dois mundos: é produto da violência estrutural do Estado e da classe dominante, mas também se torna reprodutor de uma ordem que aprendeu a se legitimar justamente através das vozes que antes a combatiam. O conceito de liberdade, portanto, precisa ser resgatado em seu sentido ontológico, e não formal. A liberdade para o capital é o direito de circular no mercado, consumir e ser consumido. A liberdade para o proletariado negro, como aponta Florestan, só pode emergir da ruptura com a ordem capitalista. Tudo o que não aponta para essa ruptura, ainda que se chame de revolução, é gestão da desigualdade. Florestan Fernandes, em sua crítica demolidora à ideologia da “democracia racial”, mostra como o mito da harmonia entre brancos e negros no Brasil não é apenas uma ilusão, mas uma ferramenta ideológica sofisticada da dominação burguesa. Ao afirmar que o racismo no Brasil não se expressa como segregação formal, mas como exclusão estruturada e difusa, Florestan denuncia a naturalização da desigualdade como se fosse “efeito colateral” e não mecanismo essencial de reprodução do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa farsa ganha novo fôlego na era do progressismo institucional. A eleição de líderes populares, a ampliação do consumo periférico, a presença de negros em cargos públicos e na grande mídia são apresentadas como prova de superação do racismo. Mas o que realmente ocorre é a substituição da crítica estrutural por uma celebração do possível dentro dos limites do capital. A sociedade não muda — ela muda de linguagem. É nesse ponto que se torna possível entender o papel simbólico de Mano Brown como representante da exceção funcional. Sua figura pública ocupa um lugar estratégico: aquele que pode reivindicar a negritude, falar da favela, da violência policial, da fome e da exclusão, mas sem romper com a ordem que produz tudo isso. O sistema o tolera porque ele fala “verdades”, desde que essas verdades não transbordem em ação revolucionária. Brown, assim como tantos outros artistas e líderes populares, foi transformado em pedra fundamental da democracia racial fictícia contemporânea. Seu reconhecimento público serve para reafirmar a ideia de que “o negro venceu”, mesmo que as estruturas de exclusão permaneçam intocadas.</p>
<p style="text-align: justify;">É a lógica do tokenismo elevado à categoria de hegemonia cultural: os poucos que “vencem” se tornam os símbolos de um sistema supostamente justo. E os que não vencem? Falta esforço. Falta mérito. Falta talento. Não é mais a estrutura que oprime — é o indivíduo que falha. Essa é a essência da <em>liberdade condicionada</em>: um verniz de inclusão sobre o concreto da barbárie. Portanto, Brown se torna, hoje, mais útil ao sistema do que perigoso. Sua aura de autenticidade, sua trajetória real, seu carisma, tudo isso é mobilizado para reforçar a ideia de que é possível avançar sem ruptura, resistir sem revolução, conquistar sem confrontar. E essa ideia é o pilar subjetivo da dominação nas democracias raciais latino-americanas. A sociedade de classes no Brasil, fundada sobre a escravidão, organizou-se historicamente de modo a inviabilizar qualquer protagonismo real dos negros como sujeitos políticos autônomos. Desde o período colonial, passando pelo Império e pela República Velha, as tentativas de organização popular negra foram duramente reprimidas, quando não cooptadas ou invisibilizadas. Com a abolição sem reforma agrária, sem indenização, sem reparação, o negro foi juridicamente “livre”, mas socialmente proscrito.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159117 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp4.jpg" alt="Mano Brown e a dialética da traição" width="420" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp4.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp4-210x300.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp4-294x420.jpg 294w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Com o tempo, porém, a dominação racial se sofisticou. Não bastava mais excluir. Era preciso incluir para desorganizar. A entrada de figuras negras em partidos, sindicatos, universidades e espaços culturais tornou-se funcional à estabilidade da ordem, desde que esses indivíduos não rompessem com a lógica estrutural do capital e da branquitude. É nesse ponto que se insere a crítica mais profunda à representação: a presença de corpos negros em espaços de poder não significa, em si, a ruptura com a dominação racial. Ao contrário, pode significar a sua legitimação. A representação se torna uma armadilha quando substitui a transformação concreta das condições de vida por uma estética da visibilidade. O que Florestan chama de “integração subordinada” ganha ares de conquista, mas serve à perpetuação da desigualdade. Nesse sentido, Mano Brown fala em nome da periferia, mas é escutado pelas elites. Fala do sofrimento do povo, mas media seu discurso pelas exigências da respeitabilidade pública. Fala de revolução, mas encontra na governabilidade o limite da sua crítica. O sistema seleciona suas lideranças populares. Promove algumas, silencia outras. E Brown, justamente por sua contundência, carisma e história real de sofrimento e resistência, é transformado em símbolo de um país que “melhorou”. Ele não precisa endossar explicitamente o neoliberalismo. Basta que legitime, ainda que criticamente, a continuidade do pacto lulista — esse pacto que integra sem emancipar, distribui sem romper, acolhe sem subverter.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, o problema não está apenas nas escolhas individuais de Brown, mas na lógica de representação sob o capitalismo dependente, onde a crítica possível é aquela que não ameaça o essencial: a propriedade privada, a acumulação, a dominação de classe e a hegemonia branca. Brown, ao criticar os “extremismos” de esquerda e direita, reafirma esse centro ilusório — onde não há neutralidade, mas conciliação. E é essa conciliação que precisa ser desmascarada. A verdadeira luta de classes, como dizia Marx, não se faz no parlamento, mas nas ruas, nas fábricas, nos territórios. A representação sem organização revolucionária é o caminho mais curto entre a denúncia e a acomodação. E a trajetória de Brown, nesse ponto, é sintoma da derrota ideológica de uma geração que acreditou ser possível servir a dois senhores: o povo e o Estado burguês.</p>
<p style="text-align: justify;">O conceito de liberdade, sob o capitalismo dependente brasileiro, é uma abstração jurídica que não encontra lastro material na vida da maioria da população negra. O trabalho assalariado precarizado e racializado é a realidade da população negra. A liberdade foi concedida, mas amputada. Essa “liberdade condicionada” é a base do pacto racial do Brasil moderno. Condicionada não apenas economicamente — pela ausência de terra, moradia, educação e saúde — mas ideologicamente: o negro seria aceito socialmente desde que renunciasse à insurgência, à memória de luta e à negritude enquanto projeto político. É assim que se forja a contradição fundamental da integração: ao mesmo tempo em que o sistema capitalista dependente necessita da força de trabalho negra, ele a rejeita como sujeito histórico. Daí a violência simbólica e material cotidiana que persiste após a abolição, após a redemocratização e até mesmo durante os chamados “governos populares”.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão, portanto, não é apenas a presença ou ausência de negros em cargos públicos, universidades ou na arte mainstream. O que importa é a forma sob a qual essa presença se realiza. O sistema abre suas portas à diferença, desde que ela não altere a estrutura, desde que o negro livre se comporte como ex-escravo agradecido. E aqui voltamos à trajetória de Mano Brown. Sua ascensão social e simbólica é celebrada como exemplo de superação, mas se torna instrumento de contenção. Ele representa a liberdade possível: a do negro que venceu sem romper com o sistema. Sua crítica é tolerada porque não ameaça a totalidade; é até incentivada, pois serve de válvula de escape para a tensão social. Mas a verdadeira liberdade — como prática histórica de superação das determinações alienantes — exige ruptura. E é aí que a traição se revela: não como escolha individual, mas como processo histórico dialético, no qual as lideranças populares são transformadas em emblemas da ordem, justamente porque sua crítica foi neutralizada pelo reconhecimento oficial.</p>
<p style="text-align: justify;">Brown, portanto, não é só um caso particular. Ele é expressão de um processo social mais amplo, em que o capitalismo brasileiro, para manter sua dominação racial e de classe, necessita produzir símbolos de ascensão que validem a permanência da exclusão.</p>
<p style="text-align: justify;">A dialética da traição, nesse sentido, não é desvio moral, mas engrenagem estrutural. O sistema fabrica seus heróis negros para evitar a revolta negra. E ao fazer isso, transforma a liberdade em farsa, o empoderamento em contenção e a representação em negação do próprio representado. A revolução é adiada em nome da governabilidade, do diálogo, da paz social — e a miséria permanece. A denúncia de Florestan permanece atual: sem organização autônoma da classe trabalhadora e sem consciência das determinações estruturais do capitalismo dependente, qualquer projeto progressista será capturado por dentro. O reformismo não é apenas uma escolha; é o resultado histórico da correlação de forças numa sociedade marcada pela violência de classe e de raça. A esquerda que se adapta aos marcos da institucionalidade burguesa torna-se reprodutora das formas de dominação que deveria combater. E ao naturalizar esse processo — como faz Brown — ela legitima a estrutura que massacra o povo. A esperança reformista, nesse contexto, é a negação da revolução sob o disfarce da prudência.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Representatividade como contenção: a armadilha da mediação simbólica</h3>
<p style="text-align: justify;">O discurso da representatividade se tornou o principal vetor de legitimação do pacto democrático pós-1988. Ao mesmo tempo em que se mantinha intocada a estrutura de propriedade, de poder político e de dominação de classe, uma série de políticas simbólicas passaram a ser promovidas pelo Estado e pela elite liberal, oferecendo “visibilidade” às populações historicamente oprimidas. Não se tratava de redistribuição do poder ou da riqueza, mas da gestão controlada das aparências: o negro que entra na universidade, a mulher que chega ao ministério, o artista periférico que recebe um prêmio, enquanto o sistema que os oprime permanece incólume. Para compreendermos os limites da representatividade no capitalismo dependente, é fundamental retomar as formulações de Florestan Fernandes. Em <em>A Integração do Negro na Sociedade de Classes</em>, ele afirma com veemência: a verdadeira libertação do negro só pode ocorrer com a destruição da ordem social que o oprime. A integração parcial, simbólica e mediada pelo liberalismo não emancipa — ela apenas administra a desigualdade. Florestan rompe com o mito da democracia racial ao demonstrar que o racismo no Brasil é estruturalmente funcional à manutenção da ordem burguesa. Ele não é um resquício do passado escravista, mas um mecanismo ativo de reprodução da desigualdade no presente. E a sua superação exige uma luta radical, de base classista e revolucionária, que envolva não apenas a denúncia do preconceito, mas a destruição das condições materiais que o sustentam.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica de Florestan à chamada “integração por cima” é ainda mais pertinente quando aplicada ao papel de figuras como Mano Brown. A inserção de sujeitos negros nos espaços institucionais, na grande mídia, nas campanhas publicitárias ou na cena cultural mainstream não representa necessariamente um avanço político real. Ao contrário, pode se tornar uma engrenagem de desmobilização coletiva, de esvaziamento do conflito e de incorporação dos elementos mais críticos ao interior da hegemonia liberal. Florestan compreendia que a classe trabalhadora negra não poderia delegar sua libertação a nenhum partido conciliador, tampouco ao Estado burguês. Por isso, sua proposta era a de uma revolução democrática radical, conduzida pelas massas organizadas, contra as bases da sociedade de classes e do racismo estrutural. Na perspectiva marxista do autor, a autonomia da luta negra não significa isolamento identitário, mas conexão orgânica entre a luta antirracista e a luta contra o capital.</p>
<p style="text-align: justify;">A emancipação do negro, portanto, não se alcança com cotas, prêmios ou cargos, mas com o enfrentamento direto da dominação econômica, política e cultural. Brown, ao aceitar ocupar a posição de representante domesticado dentro do jogo democrático burguês, distancia-se dessa proposta. Sua fala, cada vez mais marcada por ambiguidades, por elogios ao PT, por críticas genéricas à “extrema-esquerda”, por discursos de unidade nacional, revela o quanto a radicalidade foi sendo corroída em nome da governabilidade simbólica. Essa capitulação é expressão de um movimento histórico mais amplo de dissolução do horizonte revolucionário no campo da cultura. E é por isso que precisamos retomar Florestan, não como símbolo acadêmico, mas como instrumento teórico e político para a reconstrução da consciência negra anticapitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o projeto de emancipação negra foi historicamente capturado pela lógica da integração simbólica, isso se deu, em grande medida, pela atuação estratégica da democracia burguesa em países periféricos como o Brasil. A conciliação racial é parte da tática de contenção política. Ao mesmo tempo em que admite pontualmente sujeitos negros em espaços de visibilidade, neutraliza a potência coletiva da crítica, transformando luta em vitrine, dissidência em diversidade controlada. A democracia liberal, em sua forma brasileira, reconfigurou o racismo como “problema de imagem”, algo a ser corrigido com campanhas, representatividade e políticas compensatórias. Mas não tocou no essencial: a divisão racial do trabalho, o genocídio da juventude negra, a concentração fundiária, a exploração salarial, o controle policial das favelas e a marginalização sistemática da estética negra insurgente. É neste contexto que a cultura tornou-se, ao mesmo tempo, um espaço de denúncia e um campo de domesticação. O rap, nascido como grito de revolta contra o sistema, foi progressivamente absorvido pelo mercado e pela institucionalidade. E figuras como Mano Brown — cuja trajetória carrega uma carga histórica de enfrentamento — passaram a oscilar entre a crítica pontual e a validação das estruturas de poder. A conciliação racial, portanto, não é apenas uma política de Estado. Ela reconfigura o campo simbólico da cultura, estabelece novos parâmetros de aceitabilidade e domestica figuras antes vistas como radicais. Brown, ao não se opor frontalmente à estrutura que massacra sua gente, passa a fazer parte de um dispositivo de contenção, ainda que sua intenção subjetiva possa ser outra.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que precisamos ir além das intenções. A análise marxista exige que revelemos a função histórica e social de cada ato político, de cada fala pública, de cada aliança tática. E, neste sentido, Brown se tornou, ainda que contraditoriamente, um operador da estabilidade institucional, alguém que legitima a ordem que fingimos combater. A trajetória da cultura negra no Brasil é marcada por uma tensão constante entre resistência e controle. Do samba perseguido como caso de polícia ao rap transformado em peça publicitária de bancos, assistimos a um processo contínuo de apropriação, esvaziamento e reorganização da expressão negra dentro dos marcos do capital e da institucionalidade burguesa. O racismo no Brasil foi estruturado para garantir a continuidade da dominação de classe. A repressão direta cede lugar, em determinados momentos, a estratégias mais sofisticadas de incorporação simbólica. A burguesia, ao invés de excluir totalmente, aprende a incluir de forma seletiva e instrumentalizada. No caso da arte, isso se manifesta na criação de políticas culturais voltadas para a “inclusão da diversidade”, que na prática funcionam como formas de controle social. Ao financiar, premiar e institucionalizar determinados artistas e discursos, o Estado e seus agentes econômicos se apropriam do discurso de resistência para administrá-lo. Isso é evidente na relação entre o hip hop e os programas de cultura dos governos petistas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159118 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp5.jpg" alt="Mano Brown e a dialética da traição" width="466" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp5.jpg 466w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp5-233x300.jpg 233w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp5-326x420.jpg 326w" sizes="auto, (max-width: 466px) 100vw, 466px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No início dos anos 2000, o rap se encontrava num impasse: por um lado, resistia à lógica mercantil, com forte crítica à violência policial e à miséria; por outro, passava a ser cortejado por gestões públicas e marcas comerciais, que viam ali uma nova forma de falar com a juventude pobre. Foi nesse contexto que muitos artistas, inclusive Brown, passaram a participar de encontros com ministros, campanhas de políticas públicas, e selar alianças com figuras como Lula e Gilberto Gil. Essa aproximação é parte de um projeto de governo que buscava neutralizar a crítica social por meio da inclusão institucional e simbólica, e o rap, seduzido pelo poder, se aproximou de um perigoso algoz. A retórica do “rap consciente” passou a ser aceita, desde que falasse de direitos, cidadania, autoestima e empreendedorismo, mas não mais de luta de classes, revolução ou socialismo. É nesse ponto que a traição dialética começa a se desenhar: quanto mais o rap é incluído no circuito institucional, mais ele perde sua potência radical. Não se trata de purismo ou nostalgia, mas de compreender o mecanismo pelo qual a arte insurgente é transformada em arte funcional ao status quo. Mano Brown, neste contexto, tornou-se um símbolo dessa transição. Da radicalidade dos primeiros discos dos Racionais à fala cautelosa no podcast com Lula, vemos o percurso de uma voz antes insurgente que hoje atua como moderador simbólico das contradições sociais, tentando construir pontes com o poder em nome da governabilidade; o mesmo discurso de Lula.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o nó dialético da traição: a forma rebelde sobrevive, mas seu conteúdo é substituído. O discurso permanece crítico na aparência, mas a crítica já não aponta para a ruptura, e sim para a adaptação. A rebeldia é convertida em legitimidade institucional. O insurgente se torna embaixador da ordem que antes combateu. Se o projeto da burguesia brasileira &#8211; em sua forma mais sofisticada &#8211; consistiu em integrar para controlar, é preciso compreender como essa integração parcial e distorcida reorganizou subjetivamente os setores negros e periféricos, produzindo novos modos de existência adaptados à ordem. A partir das políticas compensatórias dos anos 2000, sustentadas por programas como Bolsa Família, Prouni, Minha Casa Minha Vida e as chamadas “políticas de inclusão produtiva”, ocorreu uma ascensão relativa de parcelas da população negra, antes totalmente excluídas do mercado formal e dos circuitos de consumo. Essa ascensão, no entanto, foi organizada sob os parâmetros da lógica neoliberal, que impõem como horizonte a superação individual, o empreendedorismo, a competição e a meritocracia. A classe dominante ofereceu uma “porta de entrada” que ao mesmo tempo é um funil ideológico.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação material reconfigura profundamente as formas de sociabilidade nas periferias. Se antes havia uma identidade negra forjada na resistência coletiva — marcada por valores como solidariedade, combate ao racismo estrutural, denúncia do genocídio e crítica à polícia —, agora essa identidade é fragmentada e substituída por uma lógica de distinção individualizada. O negro que consome, o negro que empreende, o negro que ascende torna-se o novo ideal. A cultura hip hop, enquanto forma de expressão popular, não escapa desse processo. Pelo contrário: é atravessada, capturada e utilizada como vetor dessa nova ideologia. A linguagem estética do rap, por exemplo, sofre mutações: do protesto social à celebração da ostentação, da denúncia à motivação pessoal, da organização comunitária à lógica do self branding. É nesse contexto que a trajetória de Mano Brown — e de tantos outros — precisa ser analisada não como fenômeno individual, mas como parte de um processo coletivo de despolitização e reorganização simbólica do campo popular. A revolta não desaparece, mas é reconfigurada como ressentimento difuso. A crítica social se dissolve em slogans. A revolução vira hashtag. Esse processo é ainda mais perverso porque opera no plano do desejo. Como analisa o próprio Florestan Fernandes, a integração do negro à sociedade de classes se dá sob a condição da renúncia a si mesmo, à sua história de luta e ao seu pertencimento coletivo. É o preço da entrada no banquete burguês: abandonar o projeto de transformação para caber na fantasia da ascensão individual.</p>
<p style="text-align: justify;">A “liberdade” que se oferece ao negro nesse modelo é a liberdade burguesa, isto é, a liberdade de empreender, de consumir, de ser visto — mas não a liberdade de romper com as estruturas da dominação racial e de classe. Trata-se, como diria Hegel, de uma liberdade abstrata, que não se realiza enquanto negação da escravidão real. A tragédia dialética está posta: o que parecia ser emancipação tornou-se adaptação. O que parecia ascensão tornou-se captura. E o que parecia revolução tornou-se política pública. A transformação das condições objetivas de existência de parcelas da população negra sob o lulismo gerou, ao mesmo tempo, um novo terreno subjetivo de conformismo político e adesão simbólica à ordem, que só pode ser compreendido à luz da categoria marxiana de <em>falsa consciência</em>. Segundo Marx e Engels, a ideologia dominante é aquela da classe dominante, e ela se impõe não apenas por coerção, mas sobretudo por consenso. Essa lógica é central para entender como, mesmo diante da permanência do racismo estrutural, do extermínio da juventude negra, da precarização do trabalho e da violência estatal, uma parcela significativa da população negra passou a legitimar o projeto petista como horizonte máximo de transformação social. Trata-se de uma integração ideológica fundada na promessa de “melhorias possíveis”, mas limitada pelas condições estruturais do capitalismo dependente e pelas alianças de classe que sustentam o Estado brasileiro. A falsa consciência, aqui, é a internalização de uma lógica de mundo que oculta as causas reais da dominação e oferece soluções parciais, fragmentárias, administráveis. Nesse contexto, entram as lideranças simbólicas como operadores ativos dessa integração.</p>
<p style="text-align: justify;">A traição da revolução, portanto, não se dá apenas na esfera política ou econômica, mas também na esfera simbólica, no campo da cultura, na linguagem dos artistas. A função ideológica das figuras públicas que outrora representavam a periferia torna-se elemento central da dominação contemporânea, justamente porque mantém a ilusão de que algo está mudando. Assim, a consciência de classe é substituída pela consciência de consumo, a luta coletiva pela motivação individual, a revolução pela reforma, e a crítica pela diplomacia. O negro, agora incluído, se torna garantidor da ordem que continua a oprimir sua classe.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Considerações finais: entre a integração perversa e a superação radical</h3>
<p style="text-align: justify;">O percurso aqui traçado revelou que a integração do negro na sociedade de classes brasileira foi, desde sua gênese, uma integração perversa, subordinada, mutilada, e funcional à dominação de classe. Como nos mostrou Florestan Fernandes, não se tratou de uma inserção plena nos marcos da cidadania, mas de uma acomodação subalterna, um “ajustamento” que permitiu ao capitalismo dependente ampliar sua base de exploração, mantendo intactas as hierarquias raciais herdadas do escravismo. Essa integração forjada, que teve seu auge nos governos do lulismo, não se confunde com emancipação. Ao contrário: constituiu uma forma moderna e perversa de contenção social, uma manobra de adaptação da ordem às demandas de inclusão, sem tocar nas estruturas fundantes da desigualdade. O “pobre que virou classe média” continua sendo trabalhador precarizado, alvo da violência policial, vulnerável à oscilação do capital e excluído do poder real de decisão política. Mais do que isso, a ideologia da ascensão — reforçada por programas sociais, por lideranças simbólicas e pelo discurso da “nova classe C” — produziu um novo tipo de subjetividade: um sujeito agradecido, integrado ao consumo, e desmobilizado politicamente. Um sujeito que vê na ordem uma oportunidade e na crítica uma ameaça. Um sujeito que deseja estabilidade mais do que transformação.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste cenário, a traição não é apenas dos que governam, mas do próprio projeto de libertação negra que, capturado pela lógica da governabilidade, tornou-se refém da política institucional. A luta antirracista foi redirecionada para dentro da ordem, convertida em pauta de representação, e esvaziada de seu potencial revolucionário. A própria ideia de “revolução” foi recodificada como sinônimo de avanço dentro do sistema, e não de ruptura com ele. A dialética da traição está, portanto, na forma como a promessa de emancipação foi metabolizada pelo capital, com o auxílio das forças políticas progressistas e das lideranças culturais que se deixaram capturar por esse jogo. A revolução sonhada pelas gerações que lutaram contra o racismo, a miséria e a violência do Estado foi rebaixada a reformas gerenciáveis e ao apaziguamento simbólico. Encerrar este capítulo é, então, marcar um ponto de inflexão: é preciso retomar o fio da crítica radical, reconstruir uma consciência de classe enraizada na experiência concreta dos trabalhadores negros, e reafirmar a possibilidade histórica de uma superação revolucionária da ordem burguesa.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159119 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp6.jpg" alt="Mano Brown e a dialética da traição" width="449" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp6.jpg 449w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp6-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/pp6-314x420.jpg 314w" sizes="auto, (max-width: 449px) 100vw, 449px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ao exibir Brown em um podcast com o Presidente da República, o sistema oferece um espetáculo de suposta inclusão, apagando o genocídio cotidiano nas periferias, o encarceramento em massa, a humilhação sistemática nos serviços, escolas e hospitais. A exceção é a prova de que “o sistema funciona” — e, portanto, deve ser preservado.</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de </em><em>José Luis Gutiérrez Solana (1886-1945).</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/04/159113/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O malandro de papel</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158910/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/03/158910/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Mar 2026 10:39:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158910</guid>

					<description><![CDATA[Marcelo D2, a indústria cultural e o espetáculo patético da crítica que não critica. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">A matéria da <em>Rolling Stone Brasil</em> publicada em 15 de novembro de 2025, com o título espetaculoso “A grande crítica que Marcelo D2 faz ao rap atual”, é um documento perfeito do vazio contemporâneo, do grotesco e da caricatura. Não apenas um texto fraco, mas a radiografia exata do pacto entre o jornalismo cultural de entretenimento e artistas que já ultrapassaram há muito o ponto de inflexão entre insurgência e carreira. O título anuncia uma espécie de terremoto — “a grande crítica” — mas o conteúdo é um tremor de cortina, um soluço domesticado que reforça o próprio fenômeno que finge denunciar. Não há crítica, há marketing. Não há reflexão, há circulação. Não há ruptura, há acomodação confortável no circuito previsível da nostalgia administrada.</p>
<p style="text-align: justify;">A peça jornalística vende como ousadia o que não passa de reminiscência inofensiva. Um veterano lamentando a perda da “essência” do rap — mas sem jamais tocar no que seria a raiz efetiva de qualquer transformação estética: as relações de produção, a lógica da indústria cultural, a reorganização algorítmica da música, a subsunção real da arte ao capital, a captura simbólica das formas dissidentes, a metamorfose do conflito em conteúdo rentável. É uma crítica que nasce morta porque não tem objeto; ou melhor, porque seu objeto é cuidadosamente esvaziado para não ferir a sensibilidade de mercado da própria figura que o jornalismo endeusa. D2 é apresentado como o guardião de um espírito perdido, como se sua fala fosse a sentença definitiva sobre o estado do rap — quando, na prática, sua fala é uma confissão melancólica de acomodação e impotência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158911" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/OperaDoMalandro-4112468248.jpg" alt="" width="347" height="555" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/OperaDoMalandro-4112468248.jpg 347w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/OperaDoMalandro-4112468248-188x300.jpg 188w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/OperaDoMalandro-4112468248-263x420.jpg 263w" sizes="auto, (max-width: 347px) 100vw, 347px" />O texto tenta atribuir profundidade a um discurso raso, confuso, cheio de lugares-comuns e isenções. D2 diz sentir falta do “movimento rap”, como se o movimento tivesse sido uma substância mágica que evaporou sozinha, e não uma prática histórica produzida por condições materiais muito específicas: a marginalidade urbana, a ausência de políticas públicas, a violência policial, a precariedade tecnológica, a circulação artesanal de produções, a autonomia forçada, o antagonismo explícito com a mídia e com o Estado. Esse conjunto de condições não desapareceu; foi reorganizado. Não foi o rap que mudou isoladamente — foi o regime de produção cultural que se transformou radicalmente, deslocando a autonomia para um plano quase inexistente. Mas o texto, ao invés de investigar essa mutação, prefere dramatizar o desabafo de D2 como se fosse uma reflexão ontológica sobre o gênero. A superficialidade vira acontecimento; a banalidade vira análise. É um verdadeiro horror!</p>
<p style="text-align: justify;">E o mais grave: o texto naturaliza sem qualquer pudor a ideia de que a “cooptação” do rap pelo mainstream é um processo externo, quase metafísico, como se o capital fosse uma entidade comedora de culturas que age por capricho. A própria palavra “engoliu” é usada como se designasse uma força inevitável, uma digestão espontânea do sistema sobre o que antes era puro. Entretanto, o capital não engole nada sem preparar o alimento. A captura das estéticas insurgentes é um procedimento estruturado da modernidade tardia. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência do próprio sistema: incorporar a crítica para neutralizá-la, transformar antagonismo em espetáculo, fazer da ruptura um nicho de mercado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158914" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/612971513782406-1095463962.jpg" alt="" width="360" height="360" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/612971513782406-1095463962.jpg 360w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/612971513782406-1095463962-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/612971513782406-1095463962-70x70.jpg 70w" sizes="auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px" />D2, ao lamentar a perda da marginalidade, o faz desde o lugar confortável de alguém que se transformou, há pelo menos duas décadas, em patrimônio pop nacional. Isso não invalida sua trajetória, mas invalida sua pretensão de falar como outsider e, sobretudo, como crítico (o que de fato está anos luz de ser). O discurso de outsider de alguém que vive no circuito institucional — festivais patrocinados por bancos, publicidade, mídia de massa, gravadoras — é, em si, uma caricatura da própria condição que diz defender. D2 nesse sentido aprimora o sentido do cinismo. Ele é um tecnólogo da miséria humana, do disfarce sem pudor. O jornalismo cultural, claro, não toca nisso: prefere alimentar a fantasia do artista que “ainda é rua”, mesmo que sua rua seja hoje o backstage de festival premium. É a caricatura da caricatura. O simulacro da simulação. A tosquice em pessoa.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele diz: “o rap virou <em>mainstream,</em> eu não me sinto mais representado”. Falta apenas a honestidade de completar: “porque eu próprio já fui absorvido”. Não como indivíduo — isso seria moralismo — mas como posição de classe e posição histórica. O D2 que fala não é o garoto das ruas dos anos 90; é uma entidade estética integrada, cujo nome virou marca, cujo rosto virou ícone, cujo discurso virou capital simbólico. Ele diz que o rap deixou de ser outsider, mas não percebe que a própria ideia de outsider virou um ativo de mercado, uma estética vendável, um fetiche que legitima o produto. A matéria, claro, reforça isso com toda força possível, porque é justamente esse fetiche que dá cliques. O texto da <em>Rolling Stone</em> não faz sequer um movimento mínimo de contextualização histórica. Nada sobre a transformação do rap brasileiro em um sistema de carreiras regulado por plataformas. Nada sobre a precarização das cenas independentes. Nada sobre a profissionalização compulsória, que transforma qualquer jovem MC em gestor de si mesmo, editor, influencer, estrategista de engajamento. Nada sobre a estética da retenção, que redefine métrica, flow, tema e até tempo de música. Nada sobre a decadência das políticas públicas de cultura, que empurram artistas para os braços das marcas. Nada sobre a transformação do conflito em entretenimento. Nada sobre a morte política do rap enquanto ferramenta de organização de classe. Nada sobre a conversão do discurso da revolução em branding de autenticidade. D2 performa a putrefação perfumada, o monstro maquiado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158917" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/64be63bb-f8ba-44b9-a544-d1513645da52_medium-3476969402.jpg" alt="" width="450" height="622" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/64be63bb-f8ba-44b9-a544-d1513645da52_medium-3476969402.jpg 450w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/64be63bb-f8ba-44b9-a544-d1513645da52_medium-3476969402-217x300.jpg 217w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/64be63bb-f8ba-44b9-a544-d1513645da52_medium-3476969402-304x420.jpg 304w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" />O jornalismo não poderia tocar nesses pontos porque isso significaria enfrentar o verdadeiro problema: o rap não foi engolido pelo sistema; o rap foi formatado pelo sistema desde a sua produção primária<strong>.</strong> O que antes levava décadas para se institucionalizar — punk, rock, MPB, samba, funk — hoje leva meses. A cultura perdeu sua capacidade de maturação porque a forma social da cultura mudou. Mas o texto ignora tudo isso, fingindo que a história está dada, que o rap tinha uma essência revolucionária que foi traída por ingratidão dos mais jovens, e que o papel do veterano é lamentar. É preguiçoso. É covarde. É ideologicamente nocivo. Uma verdadeira bosta… A matéria chama as falas de D2 de “crítica”, mas crítica é desmontagem das estruturas, não confissão subjetiva. Crítica exige investigar por que o mainstream se expande, por que o underground se fragiliza, por que as formas de insurgência perdem potência, por que a dissidência é absorvida com tanta facilidade. Crítica exige tocar no ponto central: não há cultura insurgente quando a forma social dominante é a plataforma algorítmica. O capitalismo tardio sofisticou o mecanismo de captura ao ponto de transformar qualquer gesto de autonomia em conteúdo imediatamente monetizável. O rap não fugiu disso; foi sua vítima exemplar.</p>
<p style="text-align: justify;">D2, ao invés de formular isso, escolhe a rota moralista: o rap de hoje é menos interessante, menos profundo, menos revolucionário. Esse moralismo é o pior tipo de decadência intelectual: a decadência travestida de consciência. O veterano, em vez de pensar a nova fase do capital, culpa a nova fase da cultura. D2 age como um cão que morde o próprio rabo, alegre e abobado. O problema não é o jovem que faz trap de dois minutos; é a lógica de consumo que exige trap de dois minutos. Mas para compreender isso, seria necessário formular a crítica da produção, não a crítica da estética. E D2 não ousa. Talvez por incapacidade conceitual; talvez por conveniência; talvez por ambas. O texto jornalístico, por sua vez, é ainda mais pobre e medíocre. Ele não apenas não critica: ele celebra a crítica superficial. Ele a transforma em produto de circulação, reforçando exatamente a lógica que D2 afirma lamentar. É como assistir a um incêndio sendo descrito por um bombeiro que joga gasolina. A matéria dá mais espaço às frases emotivas do que aos processos históricos. Não contextualiza o que é mainstream hoje; não explica por que o rap se tornou lucrativo; não analisa a profissionalização acelerada do gênero; não menciona a financeirização das gravadoras-distribuidoras; não problematiza o papel das plataformas como novos donos dos meios de produção musical. É jornalismo de entretenimento travestido de análise — e de análise não tem nada. É o puro lixo jornalístico.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-158915" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846.jpg" alt="" width="1280" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" /></p>
<p style="text-align: justify;">E quando D2 fala do passado — “o rap era música que não existia no Brasil”, “samplear os mais velhos era reverência” — a matéria trata isso como sabedoria ancestral. Mas não questiona a romantização óbvia: o rap nunca foi puro; sempre teve disputas internas, conflitos, divergências, tensões de classe, apropriações, rivalidades, estratégias de sobrevivência em um mercado hostil. Não havia uma “essência”; havia contradição. Mas contradições não vendem bem — então o jornalismo cultural as transforma em nostalgia. A nostalgia, por sua vez, vira mercadoria. A mercadoria, por sua vez, vira ideologia. A Rolling Stone não publica uma crítica — publica uma peça de autopromoção. O veterano se lamenta, a revista transforma o lamento em manchete, o público consome a melancolia como performance como quem come um pão dormido requentado. A crítica vira estética da crítica, higienizada, embaladinha, pronta para consumo. Tudo isso é a fórmula perfeita para uma indigestão. O rap vira pauta de revista, não pauta de conflito. É a vitória final da indústria cultural: transformar o ressentimento do artista em conteúdo rentável. E o pior é que D2 julga ser sagaz em suas assertivas. Mal sabe ele que está sendo patético.</p>
<p style="text-align: justify;">E é nesse ponto que a crítica precisa ser implacável: o discurso de D2 não é revolucionário, é profundamente conservador, idiotizante e babaca<strong>.</strong> Não conservador no sentido moral, mas conservador no sentido histórico: ele tenta preservar uma imagem fixa do rap que nunca existiu, ao invés de compreender o movimento real das forças sociais. É a fala de quem vê a história como decadência, não como transformação estrutural. A matéria amplifica isso com prazer, porque a decadência vende. O público adora ouvir que “o rap de hoje não presta” — isso cria a ilusão reconfortante de pertencimento a um passado glorioso. É a mesma lógica do rockeiro que diz que “o rock morreu” a cada década. Ao invés de perguntar: por que o rap mudou? Em que condições sociais ele mudou? Que forma social organiza a música hoje? Como o capital de plataforma redefine o som, o comportamento, o discurso, o flow? A matéria prefere a pergunta mais velha do mundo: “o que você sente falta?”. E D2, previsivelmente, responde com o que sua própria posição histórica permite: ele sente falta do lugar simbólico que tinha quando era jovem. Confunde perda de centralidade com perda de essência. A matéria não apenas aceita isso — ela transforma isso em tese.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158913" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/filmes_6949_Malandro03-1697672887.jpg" alt="" width="352" height="464" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/filmes_6949_Malandro03-1697672887.jpg 352w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/filmes_6949_Malandro03-1697672887-228x300.jpg 228w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/filmes_6949_Malandro03-1697672887-319x420.jpg 319w" sizes="auto, (max-width: 352px) 100vw, 352px" />A crítica real não está em D2; está no que ele não pode dizer. Ele não pode dizer que a cultura perdeu autonomia porque isso implicaria criticar o mesmo sistema que o consagrou. Ele não pode dizer que o rap virou indústria porque ele próprio é parte da indústria. Ele não pode dizer que o rap virou produto porque ele próprio é um produto histórico. Então ele opta pela rota inofensiva: “sinto falta do underground”. É quase cômico. O underground que ele sente falta foi destruído pelo mesmo processo de mainstreamização que o lançou ao estrelato. A matéria, por sua vez, atua como cúmplice, porque vive precisamente dessa integração. D2 diz que “não se escreve o futuro sem olhar para o passado”. É uma frase bonita, mas vazia; vazio como ele. Olhar para o passado não basta; é preciso compreender o passado. E compreender o passado não é reverenciar os mais velhos — é analisar as condições de produção que permitiram o surgimento do rap brasileiro. A matéria não faz isso. D2 não faz isso. Ambos se refugiam na estética da memória — uma memória higienizada, adornada, confortável. Uma memória que serve muito bem ao mercado porque transforma a história em decoração.</p>
<p style="text-align: justify;">O discurso de D2 é um discurso derrotado, incapaz de compreender as próprias condições históricas que o formaram. E o jornalismo cultural é o porta-voz dessa derrota, transformando o lamento em pauta, em manchete, em mercadoria. O rap não perdeu essência. O rap perdeu autonomia. E a matéria da <em>Rolling Stone</em> é uma prova viva disso: ela transforma uma crítica inexistente em espetáculo, reforçando a mesma lógica que diz estar denunciando. Em última instância, a figura de Marcelo D2 condensa a farsa inteira: vendido como malandro sagaz, cool, inteligente e crítico, ele não passa de um personagem perfeitamente ajustado às necessidades simbólicas do capital, girando em torno do próprio rabo enquanto posa de consciência lúcida. Sua imagem é a da rebeldia higienizada, da malandragem de boutique, do “outsider” que desfruta de todas as garantias do insider; é o ícone de um tempo em que a crítica virou estilo e a insurgência virou etiqueta de marketing. D2 encarna a miséria intelectual elevada à condição de produto: não pensa o sistema, ornamenta o sistema; não enfrenta as contradições, flutua sobre elas com frases feitas; não aponta saídas, recicla ressentimentos rentáveis. Patético não apenas pelo que diz, mas pelo lugar histórico que ocupa e não tem coragem de nomear: o de funcionário de luxo de uma indústria que transforma em espetáculo até a própria ruína do que um dia foi movimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ilustram o artigo diferentes capaz e cartazes do musical Ópera do Malandro.</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/03/158910/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>3</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Quinto Andar: ironia e a estética da recusa no rap independente</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158639/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/02/158639/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 05:20:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158639</guid>

					<description><![CDATA[Fazer arte como quem desafia o mercado, afirmando que a verdadeira independência não é o sucesso, mas o direito de criar sem pedir licença. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por Arthur Moura</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>“Eu nem sou rapper.” — </em>De Leve</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Resumo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O Quinto Andar surgiu em Niterói no fim dos anos 1990, a partir do encontro entre De Leve, DJ Castro, Shawlin e Marechal — este último se desligando antes da gravação do álbum <em>Piratão</em> (2005), realizado por De Leve, Shawlin, DJ Castro e Bruno Marcus. O grupo transformou a precariedade técnica em linguagem e o humor em crítica, rompendo com a rigidez moral do “rap consciente” e inaugurando uma estética da recusa em que rir, improvisar e errar se tornam gestos políticos. Entre a era analógica e a cultura digital, o Quinto Andar antecipou o espírito do rap independente brasileiro: fazer arte como quem desafia o mercado, afirmando que a verdadeira independência não é o sucesso, mas o direito de criar sem pedir licença.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente existe pouco material crítico dedicado ao Quinto Andar — lacuna que revela não apenas o descuido com a própria memória do rap carioca, mas também um sintoma mais amplo do apagamento histórico que atravessa a cultura brasileira. O grupo surgiu num momento de transição, quando a internet ainda era território instável e a produção independente ensaiava seus primeiros gestos de autonomia, e desapareceu antes que pudesse ser plenamente compreendido. A sua história, contudo, ilumina o que viria depois: o desdobramento do rap nacional rumo à profissionalização e à mercantilização das estéticas de resistência, assim como larga influência entre as novas gerações. O Quinto Andar nasceu coletivo, gregário, múltiplo — uma pequena comunidade de invenção que fazia da precariedade um laboratório — e se desfez quando a cena que ajudara a abrir começou a exigir identidades sólidas e carreiras individuais. Ou seja, o seu esfacelamento também respondeu ao seu tempo histórico (e às contradições desse tempo). Ainda assim, sua passagem deixou marcas profundas, como um navio quebra-gelo que, mesmo fragmentando-se, abriu rotas novas para o som e para o pensamento. Os seus ex-integrantes continuam dando contribuições importantes, ainda que ancorados em novas contradições. O grupo mostrou que era possível rir do fracasso e transformar o erro em linguagem, antecipando um modo de fazer arte que o país levaria anos para entender.</p>
<p style="text-align: justify;">O Quinto Andar nasce de um encontro casual entre dois adolescentes de Niterói que escreviam rimas sem qualquer pretensão de gravar — De Leve e Marechal. Em entrevista concedida a mim em 2009, De Leve rememora com humor e nitidez aquele momento em que o rap ainda não era visto como ofício: <em>“Eu e Marechal escrevíamos umas paradas na casa dele, mas tudo brincadeira, a gente nem gravava nada… posso arriscar que isso era em 1996.”</em> O país vivia outra infraestrutura cultural: não havia cena estabelecida, nem estúdios acessíveis, nem uma economia simbólica em torno do rap. O ato de rimar era um gesto sem lugar, uma linguagem que ainda buscava seu espaço. O próprio De Leve descreve o período como um tempo de lacuna, de amadorismo radical, quando a vontade de fazer som convivia com a impossibilidade material de registrá-lo. O Quinto Andar nasce, portanto, como resposta a esse vazio — uma criação que emerge da ausência de meios. O início do grupo coincide com a chegada das primeiras conexões domésticas à internet. A precariedade técnica vira campo de invenção. De Leve, sem acesso a gravadoras ou selos, transforma o Napster em plataforma artesanal de divulgação: <em>“Eu ficava na internet, no Napster, com as músicas nossas… fazia busca: &#8216;Racionais&#8217;. Quem tinha Racionais? Ia lá e mandava o som do Quinto Andar.”</em> Essa estratégia rudimentar de compartilhamento — o envio manual de MP3 a desconhecidos — é um marco da gênese do rap digital brasileiro. O grupo nasce como prática de guerrilha comunicacional, um laboratório de subversão tecnológica antes mesmo da era das redes sociais. As músicas, gravadas em condições improvisadas, espalham-se de forma subterrânea, por curiosidade e insistência, mais do que por aceitação. <em>“Neguinho ouvia e falava &#8216;que merda!&#8217;”</em>, lembra De Leve, rindo. A provocação era o método.</p>
<p style="text-align: justify;">Na ausência de uma indústria que os absorvesse, os integrantes do Quinto Andar inventaram uma linguagem própria, ancorada no humor, na ironia e na liberdade de abordar qualquer tema — da vizinha à menstruação — sem necessidade de justificativa política imediata. “<em>A ideia era fazer a música pra nego curtir, pra rir, pra se divertir… e pode ser rap, pode ser maneiro e não precisa ser disso ou daquilo</em>”, lembra De Leve. Esse impulso lúdico e anárquico não representava descompromisso, mas uma forma de reabrir o campo expressivo do rap num momento em que o gênero, após a década de 1990, havia se consolidado em torno da retórica da denúncia e do engajamento moral. O chamado <em>rap consciente</em> — fundamental para a formação de uma consciência de classe e racial no país — começava, entretanto, a produzir seus próprios limites. A força política do discurso se institucionalizava em fórmula: cada verso precisava afirmar algo, cada rima devia ensinar. A crítica social, antes gesto insurgente, tornava-se uma espécie de dever moral, um código de correção estética. É esse ponto que o Quinto Andar rompe. Ao rir, o grupo não abandona a crítica; ele a desloca. A ironia funciona como válvula de escape diante da seriedade excessiva que havia tomado o gênero. A recusa à “pureza” discursiva não é despolitização, é consciência do esgotamento de uma forma. Ao tratar temas banais, o Quinto Andar revela o quanto o cotidiano também é político: o tédio, o desejo, a precariedade, o humor são partes da experiência social. De Leve, Marechal, Shawlin, DJ Castro, Gato Congelado, Matéria Prima, Lumbriga, Kamau, compreendem que a vida popular não cabe apenas nas categorias da opressão e da luta — ela é também contradição, gozo e absurdo. Quando o grupo introduz a figura do “largado” ou o deboche sobre o próprio fracasso, não se trata de zombar da miséria, mas de reconhecer a humanidade que sobrevive nela. O riso, nesse contexto, é o ponto mais alto da consciência. Ele desmonta o heroísmo e recoloca o sujeito comum no centro da narrativa. O Quinto Andar nasce, assim, como uma reação estética ao fechamento moral do discurso político no rap. Sua crítica não vem do púlpito, mas da rua, do quarto abafado, da conversa atravessada — e é justamente essa desobediência de tom, esse humor sujo e contraditório, que devolve vitalidade à linguagem e inaugura a estética da recusa: o direito de não precisar provar seriedade para ser verdadeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O Quinto Andar foi um dos primeiros grupos de rap que atravessaram a minha vida — e digo “atravessaram” porque não foi um encontro planejado, mas uma colisão. Já contei essa história algumas vezes em <em>lives</em>. Era o início dos anos 2000, por volta de 2003. Eu ainda morava com minha família e tínhamos um único computador em casa, aquele trambolho pesado, barulhento, que chiava quando conectava à internet discada. Um dia levei a máquina para a casa de um amigo — “Morto Vivo”. Ele era roqueiro, daqueles com discografia inteira do Metallica e do Sepultura organizada em pastas no HD. Pedi para ele copiar algumas músicas pra mim e, junto com uma avalanche de guitarras distorcidas, veio uma pasta chamada “Quinto Andar”. Eu não fazia ideia do que era aquilo. Confesso que, naquela época, eu nutria um certo desprezo pelo rap — um preconceito que vinha das conversas de estúdio, das rodas de músicos de rock que repetiam, com a segurança de quem nunca ouviu direito, que o rap era coisa passageira, repetitiva, uma moda sem harmonia e sem futuro.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158641" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Piratao.jpg" alt="" width="500" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Piratao.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Piratao-70x70.jpg 70w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Abri a pasta sem nenhuma expectativa, só por curiosidade. Não era um disco, não era uma obra organizada, mas um amontoado de faixas soltas, gravações precárias, sons crus. E foi justamente isso que me pegou. Não parecia o tipo de música feita para soar bem, mas para existir. Havia ali uma urgência, uma verdade áspera. As batidas eram simples, as vozes pareciam gravadas num quarto abafado, e mesmo assim — ou talvez por isso — soavam mais vivas do que tudo o que passava nas rádios. Eu estava acostumado com o requinte técnico do rock, com a ilusão de que boa música é a que tem bons equipamentos. O Quinto Andar desmontou isso em poucos segundos. Aquelas músicas me mostraram que o som não precisava ser limpo pra ser potente. Que o improviso podia ser forma. Que a precariedade podia ser estética. Naquele tempo, a internet ainda era um território meio místico. O Napster, o Kazaa, o Soulseek eram portas para um outro mundo. As músicas baixavam devagar, linha por linha, e cada faixa era uma descoberta, um risco. O Quinto Andar habitava esse subterrâneo digital, essa madrugada em que a juventude caçava sons, ideias e liberdade. Eu ouvia as músicas e tinha a sensação de estar invadindo uma conversa alheia, uma mesa de bar onde os MCs trocavam piadas e desabafos. Eles rimavam como quem conversa — sem pregação, sem moralismo, sem o peso das certezas. Era uma voz urbana, debochada, cansada, cheia de inteligência. Eu não sabia ainda, mas estava ouvindo o som de um Brasil que o rádio não tocava e que as gravadoras fingiam não existir.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o tempo percebi que o Quinto Andar era mais que um grupo, era um gesto. Um modo de estar no mundo. Eles faziam música como quem responde ao tédio com invenção. Gravavam com o que tinham, lançavam onde dava, erravam e seguiam. O humor era uma forma de resistência, a ironia uma espécie de defesa contra a miséria cotidiana. Em cada faixa havia o retrato de uma geração que não se via representada por ninguém. Um “foda-se” sincero, sem pose, sem marketing. Quando ouvi “Largado”, senti o desconforto de quem se reconhece. Não era o tipo de rebeldia épica do rock — era a rebeldia do desânimo, a coragem de admitir o cansaço. E esse cansaço, dito em voz alta, tinha algo de profundamente libertador. “Largado” é talvez a canção que melhor traduz o espírito do grupo. O termo aponta para uma posição existencial: a de quem recusa a corrida moral da produtividade, de quem não quer ser enquadrado. É o gesto de alguém que entende que o sistema não é apenas econômico, é espiritual. Que a exigência de ser eficiente, competitivo, ajustado, é o modo mais eficaz de controle. O sujeito “largado” não é apático — ele está cansado. E transforma esse cansaço em linguagem. A música é uma radiografia do esgotamento coletivo. Quando o público transforma essa canção em ideologia, De Leve reage com humor e espanto. Porque a ironia não cabe em cartilha. A força do “Largado” está em negar o programa, em permanecer sem função definida. Essa ironia, que atravessa o trabalho do grupo, carrega uma dimensão política singular. Num país em que a miséria é constante e a esperança é mercadoria, rir é um ato de sobrevivência. O humor do Quinto Andar é a risada amarga de quem entende o absurdo da realidade. Cada rima que brinca com o caos é um modo de respirar. A leveza é uma forma de peso. E nesse movimento, o coletivo cria uma nova ética estética: a do improviso como método. A precariedade vira poética. O ruído, textura. O erro, assinatura. O que para a lógica do mercado é falha, para o grupo é identidade. Essa inversão de valor é revolucionária na sua simplicidade. É arte nascida do limite.</p>
<p style="text-align: justify;">A canção é, ao mesmo tempo, um autorretrato e uma sátira social, um espelho que devolve o cotidiano de uma juventude que vive sob o olhar de reprovação permanente. O “largado” é o sujeito que encarna o desajuste como identidade — não o rebelde teatralizado, mas o homem comum que se recusa a ser adestrado. A letra é construída como narrativa cômica, cheia de imagens reconhecíveis: o sujeito de chinelo, a namorada envergonhada, o sogro moralista, o segurança que desconfia da aparência, o caixa que acusa o pobre de roubo. A repetição de situações banais cria um inventário do estigma social, onde cada gesto e cada roupa se transformam em marcador de classe. O humor funciona como instrumento de denúncia. É a gargalhada amarga de quem conhece a humilhação cotidiana e a transforma em rima. A ironia do refrão — “É o terror da família quando cê cola com a filha / Só porque cê é largado” — desloca o peso da crítica: o problema não é o indivíduo, mas a moral burguesa que vê perigo na informalidade, ameaça na pobreza e vergonha no improviso. De Leve opera um deslocamento ético. Ele transforma o que, para a lógica dominante, é sinal de desleixo em símbolo de autenticidade. “Cê anda de chinelo toda hora”, “cê é velho e continua largado”, “pra continuar largado”: a repetição martela a persistência desse sujeito que não muda porque mudar significaria trair sua própria forma de vida. O “largado” não é desleixado por descuido, é coerente por convicção. No mundo que exige eficiência, limpeza, formalidade, ele representa a presença do erro como forma de resistência. A canção, nesse ponto, ultrapassa a anedota e se torna filosofia popular. Fala de uma ética subterrânea, um modo de vida que se sustenta à margem, um código de conduta que recusa a domesticação simbólica do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">“Largado” é o avesso da moral do sucesso. Cada verso aponta para uma espécie de pedagogia negativa: a música ensina a não ascender, a não competir, a não polir o que o sistema exige que seja polido. É uma recusa estética e existencial. O humor não busca aprovação; ele opera como desobediência. O riso é o disfarce da crítica. Quando ele diz “Síndrome de pobre, largado estilo nobre”, há uma inversão completa do valor burguês: o pobre não é o carente, é o único que não se vendeu. O “largado” não deseja integrar-se, ele já entendeu o custo dessa integração. Essa compreensão silenciosa é o que faz da canção um dos documentos mais potentes da contracultura urbana brasileira. Sua força está em devolver humanidade à precariedade. O que em outro contexto seria visto como fracasso — o chinelo, o vale-refeição, o boné emprestado, o almoço no restaurante popular — aqui ganha uma aura de dignidade. O “largado” é o que sobrevive sem espetáculo, o que mantém a sensatez num mundo que exige pose. O último verso, “Tem gente que muda / Mas se depois de 25 anos, ainda sai de casa de bermuda / Vai morrer largado”, encerra o ciclo com ironia melancólica. Não há redenção nem lição de moral: há permanência. O sujeito continua sendo quem é, e essa constância, num tempo de máscaras, é a única forma de integridade possível.</p>
<p style="text-align: justify;">A canção se inscreve, portanto, como uma espécie de sociologia em versos. Mostra o cotidiano das classes subalternas não como vítima, mas como inteligência popular que dribla o poder por meio da invenção. O “largado” é a figura que escapa à lógica da mercadoria, o corpo que não se ajusta, o gesto que interrompe a coreografia do capital. É o operário sem uniforme, o artista sem marketing, o cidadão sem etiqueta. No fundo, De Leve compõe um elogio da simplicidade que não é insurgente. “Largado” transforma o desajuste em símbolo de consciência. Em sua aparente leveza, o texto carrega densidade política: uma crítica à estética da limpeza, à moral da produtividade e à tirania do sucesso. O que o Quinto Andar intuiu ali, ainda de forma precária e ruidosa, é que o riso pode ser a forma mais eficaz de denúncia, e que a recusa em se adequar — mesmo quando parece preguiça — é, em si, uma forma de resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Ambas as canções — “Largado” e “Já É” — formam, juntas, uma espécie de díptico sobre o desencanto e a recusa. Se em De Leve o humor traduz o cansaço social como forma de sobrevivência, em Marechal o cansaço se torna gesto estético, um modo de desafiar o próprio peso do discurso. São duas faces de uma mesma insubordinação: o direito de não corresponder às expectativas, seja da moral do trabalho ou da moral do rap.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158646 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/IMG_20260202_221226.jpg" alt="" width="500" height="389" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/IMG_20260202_221226.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/IMG_20260202_221226-300x233.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/IMG_20260202_221226-768x597.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/IMG_20260202_221226-540x420.jpg 540w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/IMG_20260202_221226-640x498.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/IMG_20260202_221226-681x529.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">“Já É”, de MC Marechal, é uma faixa reveladora do espírito experimental e provocador do Quinto Andar. Em sua aparente leveza, o texto de Marechal carrega uma crítica contundente à rigidez estética e discursiva que dominava o rap brasileiro. O rapper se coloca frontalmente contra a ideia de que a autenticidade no rap depende da extensão da letra, da densidade do conteúdo ou da pretensa profundidade moral. O verso “<em>Se você é maluco e fica ouvindo meu som / é certo que já percebeu e comentou com os amigos que eu só escrevo uma parte e largo um refrãozinho na moral</em>” é uma provocação direta ao dogmatismo lírico que caracterizava o gênero — uma espécie de desafio à tradição do “rap longo”, da narrativa interminável, das canetas gastas como símbolo de competência. Marechal desmonta essa retórica de maneira debochada: “<em>Você pode até achar que é preguiça, mas a minha arte é assim pra não encher o saco</em>”. A frase, aparentemente banal, revela uma tomada de posição estética: o cansaço como gesto crítico. O tédio diante da repetição se torna argumento poético. A recusa em alongar o discurso não é preguiça, mas estratégia — um modo de negar o formalismo que transforma o rap em ritual disciplinado.</p>
<p style="text-align: justify;">O eixo histórico do Quinto Andar atravessa uma década decisiva para a cultura brasileira. O grupo surge na virada dos anos 1990 para os 2000, em meio a transformações sociais, políticas e tecnológicas que reconfiguravam a forma de produção cultural no país. A geração que o compõe cresceu sob o impacto da abertura neoliberal, da precarização do trabalho e da desarticulação dos movimentos sociais. O horizonte revolucionário dos anos 1980 e o realismo combativo dos anos 1990 — tão fortes na estética de grupos como Racionais MC&#8217;s — já não encontravam solo fértil no início do novo milênio. A juventude urbana, sobretudo a que habitava o entre-lugar da classe média baixa e da periferia, vivia um desencanto sem programa: era politicamente órfã e culturalmente saturada. Foi nesse vazio histórico que o Quinto Andar apareceu — um coletivo que, sem querer, traduziu o colapso das certezas políticas e a chegada de uma sensibilidade pós-utópica. O Rio de Janeiro, berço do grupo, também é personagem dessa história. A cidade vivia uma transição simbólica: após a euforia modernizadora dos anos 1990 — marcada pela reconfiguração urbana e pela promessa de um “Rio Global” —, emergia um cotidiano de desilusão e desencaixe. A zona sul perdia sua aura de glamour, a Baixada e Niterói se afirmavam como polos de produção cultural e o funk começava a ocupar o papel de linguagem popular dominante. O rap carioca, historicamente mais difuso e menos organizado que o paulista, ainda buscava um centro. Foi nesse contexto que o Quinto Andar se tornou referência — não por oferecer uma direção, mas por aceitar o caos como método. Niterói, onde De Leve e Marechal se conheceram, simbolizava bem essa ambiguidade: próxima e distante do Rio, urbana e suburbana, ao mesmo tempo parte e resto. A ironia niteroiense, com sua fala mansa e humor melancólico, está impregnada em cada faixa do grupo. As músicas registram uma cidade cansada, mas ainda pulsante. O personagem do Quinto Andar — o sujeito sem grana, de chinelo, barrado nas festas, zombando do próprio fracasso — é o retrato mais honesto do Brasil dos anos 2000: uma população que não chegou a se integrar plenamente ao consumo, mas também já não acreditava em projetos coletivos. Essa consciência de estar no entre-lugar — nem excluído absoluto, nem incluído real — define a historicidade do grupo. O Quinto Andar é o som de uma transição de época, a tradução cultural de um país que trocava o sonho da transformação pelo alívio da sobrevivência.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano do rap nacional, o grupo representa o ponto de inflexão entre duas eras. De um lado, o legado da “fase heróica” — politizada, discursiva, marcada pela retórica da denúncia e pela solidez ética dos anos 1990. De outro, o nascimento da cultura digital e da estética pós-industrial, que dissolveria fronteiras entre gêneros, linguagens e classes. O Quinto Andar foi o primeiro a habitar esse intervalo. Se os Racionais MC&#8217;s e o Facção Central denunciavam o sistema, o Quinto Andar o ridicularizava; se o rap paulista falava da opressão estrutural, o carioca descrevia o desconforto difuso de viver sob ela. A luta de classes, que antes aparecia como conflito aberto, agora se manifestava como ironia. O “foda-se” do De Leve e o “já é” de Marechal são respostas a um mesmo impasse histórico: como sustentar uma ética de resistência num mundo que transformou até o protesto em produto? O grupo respondeu com desobediência estética. Ao invés de aderir à seriedade militante, preferiu rir; ao invés de reivindicar pureza, assumiu o erro; ao invés de construir um discurso fechado, celebrou o inacabado. Essa atitude, que pode parecer leve, é profundamente política. É o gesto de quem recusa a forma disciplinar da crítica e propõe, em seu lugar, uma crítica encarnada, cotidiana, feita de tropeços e gírias.</p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória do Quinto Andar também acompanha a transformação do próprio campo cultural brasileiro. Nos anos 2000, a cultura independente deixava de ser apenas resistência marginal e passava a ser incorporada pelo discurso da “economia criativa”. O grupo viveu, em tempo real, o processo de mercantilização da rebeldia. As mesmas ferramentas que garantiam autonomia — os computadores, os fóruns, a internet — tornaram-se, poucos anos depois, instrumentos de vigilância, promoção e competição. Os artistas que nasceram da precariedade passaram a disputar métricas de sucesso e financiamento. O rap, antes espaço de insurgência, converteu-se em mercado simbólico, com nichos, selos, patrocínios e uma nova classe média cultural. O Quinto Andar, no entanto, encerra sua trajetória antes dessa captura total. Dissolve-se em 2005, com <em>Piratão</em>, no exato momento em que o rap independente começava a se profissionalizar. É como se o grupo tivesse intuído que a espontaneidade não sobreviveria ao algoritmo. Seus integrantes seguiram caminhos distintos, mas cada um levou consigo um fragmento do espírito original. Marechal se tornou figura central na institucionalização do rap alternativo — com sua “Batalha do Conhecimento” e o projeto “Um Só Caminho”, transformou a liberdade estética em doutrina. De Leve continuou trilhando o caminho do humor e da crítica, preservando a leveza e a ironia como formas de pensar o mundo. Shawlin e Kamau seguiram rumos mais técnicos, mais próximos da linguagem profissional que o próprio grupo havia satirizado. Matéria Prima produziu álbuns fantásticos como <em>2Atos</em>, musical, poético, lançado em 2017. O Quinto Andar, como coletivo, desapareceu, mas seu fantasma permanece rondando a cena — como lembrança de um tempo em que a arte ainda podia nascer do improviso e a precariedade era sinônimo de verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">O Quinto Andar ocupa o lugar do “intervalo”, o tempo entre o fim de um ciclo e o início de outro. É o som do hiato — o momento em que o rap deixa de ser exclusivamente instrumento de denúncia e passa a ser também autorreflexão, espelho de si. O grupo é herdeiro de uma tradição crítica e, ao mesmo tempo, precursor de uma sensibilidade pós-industrial. Sua importância não está apenas nas letras, mas no modo como encarna o espírito de uma época: a passagem da militância à ironia, do engajamento à autoanálise, da coletividade política à fragmentação digital. O Quinto Andar é o rap que aprendeu a rir porque entendeu que o riso é a última defesa possível num mundo que transforma tudo em mercadoria. Seu eixo histórico é o da transição e da perda — mas também o da invenção de uma nova linguagem, nascida entre a utopia que se esvai e o cinismo que ainda não se impôs. É o som de um país que, sem saber para onde ir, decidiu transformar o desajuste em ritmo. O Quinto Andar foi uma faísca. Uma fagulha que incendiou uma década de criação e depois se desfez no ar, deixando atrás de si uma trilha de fumaça, estilhaços e invenção. Não há como falar da história do rap no Rio de Janeiro sem cruzar esse breve episódio, porque ele condensa uma época, um estado de espírito, uma forma de pensar o som e a cidade. Quando o grupo aparece, a virada do século ainda respirava restos do que fora a cultura analógica: a fita cassete, o vinil, o ensaio de garagem. Ao mesmo tempo, um novo corpo social se formava — a juventude conectada, precária, curiosa, mergulhada nas primeiras brechas digitais.</p>
<p style="text-align: justify;">O debate sobre se o Quinto Andar possuía ou não uma ideologia revela uma dimensão fundamental da estética e da ética que o grupo ajudou a inaugurar. O Quinto Andar nunca teve uma ideologia explícita, mas possuía uma visão de mundo — e essa visão era, por natureza, antissistêmica. Sua “ideologia”, se assim se pode chamar, era a do acaso, da desorganização, da vida improvisada, e isso é precisamente o que o tornou tão influente. Ao rejeitar o discurso da grandeza, o grupo mostrou que o comum também é político. E ao transformar a precariedade em linguagem, deu forma a uma sensibilidade coletiva que o Brasil urbano conhecia, mas não nomeava. O público fez do “largado” uma ideologia porque, em última instância, precisava de uma — precisava transformar em mito aquilo que o capitalismo lhe negava como condição de vida digna. Nesse sentido, a força simbólica do Quinto Andar ultrapassa o grupo: ele representa o nascimento de um novo ethos no rap brasileiro, o momento em que a margem começou a falar de si com ironia, sem pedir desculpas e sem se explicar. Essa, talvez, tenha sido a sua verdadeira ideologia — não uma doutrina, mas uma forma de estar no mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">O álbum <em>Piratão, </em>produzido por Bruno Marcus<em>,</em> sintetiza esse período. Lançado em 2005, já no ocaso do grupo, o disco cristaliza a contradição de uma geração que viveu à margem da indústria e da legalidade. O “piratão” é mais do que um símbolo da pirataria; é um espelho da informalidade brasileira, da sobrevivência pela gambiarra. As faixas se equilibram entre crítica e deboche, entre a denúncia e o cotidiano. A sonoridade é seca, o humor corrosivo, a sinceridade desconcertante. <em>“Rap do Calote”</em>, <em>“Melô da Propaganda”</em>, <em>“Esse Planeta”</em> — todas tratam da vida comum como campo de fricção política. O Quinto Andar olhava para o país sem a retórica do herói, sem a estética da pureza. Não havia pureza possível. E talvez por isso, o som era verdadeiro. Mas o grupo não resistiu à própria intensidade. O que começou como coletividade espontânea se fragmentou com a mesma rapidez com que se formou. A dissolução do Quinto Andar é o retrato de um tempo em que a colaboração cede espaço à gestão. Cada integrante precisou encontrar seu caminho num mundo que exigia individualidade como moeda. A lógica do coletivo, que parecia natural no início, se tornou difícil de sustentar quando a visibilidade entrou em jogo. O mercado sempre encontra um modo de dividir o que ameaça ser comum. Ainda assim, o que ficou não foi o fracasso, mas o eco. Cada trajetória solo — Marechal, Shawlin, Kamau, De Leve — carrega uma centelha daquele laboratório de som e pensamento.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158642" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Screenshot_2026-02-02-07-57-04-087_com.google.android.googlequicksearchbox-edit-1024x744.jpg" alt="" width="500" height="363" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Screenshot_2026-02-02-07-57-04-087_com.google.android.googlequicksearchbox-edit-1024x744.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Screenshot_2026-02-02-07-57-04-087_com.google.android.googlequicksearchbox-edit-300x218.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Screenshot_2026-02-02-07-57-04-087_com.google.android.googlequicksearchbox-edit-768x558.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Screenshot_2026-02-02-07-57-04-087_com.google.android.googlequicksearchbox-edit-578x420.jpg 578w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Screenshot_2026-02-02-07-57-04-087_com.google.android.googlequicksearchbox-edit-640x465.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Screenshot_2026-02-02-07-57-04-087_com.google.android.googlequicksearchbox-edit-681x495.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Screenshot_2026-02-02-07-57-04-087_com.google.android.googlequicksearchbox-edit.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O impacto do Quinto Andar no rap do Rio foi profundo. Depois deles, a cena nunca mais foi a mesma. Abriu-se espaço para múltiplas vozes, para experimentação, para uma estética menos rígida e mais consciente de si. A herança está nas batalhas de rima, nas produções independentes, nas conexões entre rap, funk, trap e poesia urbana. A cidade, que sempre foi palco de exclusões, encontrou neles um espelho generoso: o retrato de uma juventude que, mesmo sem horizonte, inventava uma linguagem. O Quinto Andar permanece como uma espécie de alegoria. Representa o instante em que a independência ainda parecia possível, antes de ser completamente cooptada pela lógica do empreendedorismo cultural. Representa também a ética da partilha, mesmo que breve, em um tempo em que tudo se tornou competição. E, sobretudo, representa a dignidade da imperfeição — o direito de criar sem pedir autorização.</p>
<p style="text-align: justify;">O gesto do “foda-se” no rap brasileiro atravessou um processo de domesticação que acompanha a própria história recente da cultura urbana no país. Em sua origem, quando ecoava nas rimas do Quinto Andar e nas ironias do De Leve, o “foda-se” era mais do que um palavrão — era uma torção da linguagem, um modo de afrontar a lógica do decoro e da disciplina. Representava a recusa à forma social do ajuste. O “largado” não era o desinteressado, mas aquele que se mantinha à margem da moral do desempenho; a palavra carregava o peso existencial de uma juventude que preferia a precariedade à submissão. Havia nesse despojamento uma inteligência do cansaço, uma rebeldia silenciosa contra a cidade funcional, contra a padronização das falas e das identidades. Com o tempo, esse mesmo signo foi absorvido, remodelado e devolvido à juventude como slogan. O “foda-se” deixou de ser expressão de ruptura e virou mercadoria afetiva, modelo de conduta, estética de marca. O que antes era provocação transformou-se em estilo de vida publicitário. O que havia de ironia e crítica foi reduzido a superfície. O mercado, que tudo devora, compreendeu que o desencanto podia ser vendável. E assim o gesto libertário se converteu em produto: o “foda-se” como performance de consumo, o “largado” como identidade de boutique. O gesto que antes dizia “não participo do jogo” virou “não quero saber de nada”. A recusa à adequação foi convertida em anestesia. Essa mutação é sintoma da reestruturação social do capitalismo: a crítica se torna imagem, e a rebeldia, passatempo. O “foda-se” se transformou em válvula de escape administrada, em terapia de consumo. É esse o ponto em que o rap, atravessado por sua própria visibilidade, começa a se moldar às exigências do capital. As letras passam a obedecer à gramática do algoritmo. O ritmo, a batida e o refrão são pensados para o consumo rápido, para o compartilhamento imediato. A arte se adapta às plataformas, e não o contrário. Os artistas compreendem, intuitivamente, que precisam performar acessibilidade para sobreviver. O “foda-se” vira etiqueta de marketing, e a independência, retórica de venda.</p>
<p style="text-align: justify;">O rap do Rio de Janeiro viveu essa transição de forma dolorosa. Dos becos e estúdios improvisados de Niterói às campanhas publicitárias das marcas de <em>streetwear</em>, o percurso do som acompanha a trajetória do país: um deslocamento da precariedade criativa para a profissionalização controlada. O Quinto Andar, nesse sentido, permanece como lembrança de uma época em que era possível errar, improvisar, gravar sem pauta, sem patrocínio, sem público-alvo. A liberdade não estava no mercado, estava na ausência dele. O que restou do “foda-se” original é o eco de um riso que já não se ouve. Um riso cansado, melancólico, que lembra o momento em que o rap ainda falava das ruínas e não das vitrines. Essa lembrança, porém, não deve ser nostalgia: deve servir como medida crítica. Pensar o Quinto Andar hoje é pensar o destino da criação popular sob o capitalismo tardio. É lembrar que toda vez que a linguagem se aproxima da sinceridade, o mercado encontra um modo de capturá-la. O desafio, para quem continua produzindo, é escapar dessa captura sem cair na paralisia.</p>
<p style="text-align: justify;">O Quinto Andar não apenas inaugurou uma estética, mas revelou uma posição no mundo. Sua obra, marcada por improviso, precariedade técnica e ironia, é a tradução de um tempo em que a juventude brasileira experimentava o esgotamento dos grandes discursos e a saturação do engajamento moral. Quando De Leve diz <em>“Eu nem sou rapper”</em>, ele não está negando o hip-hop — está negando o enquadramento, a identidade disciplinar, a exigência de ser algo definido. O grupo transformou a recusa em linguagem e, com isso, formulou uma das expressões mais lúcidas do desencanto contemporâneo. O “mal feito” virou categoria crítica, não porque se orgulhassem da falta, mas porque entenderam que o erro é o último refúgio da verdade numa sociedade que exige polimento e performance. O que o Quinto Andar nos ensinou, enfim, é que há uma beleza imensa em dizer <em>não</em>.</p>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/02/158639/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Crise da participação democrática na cultura</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/07/157057/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/07/157057/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Jul 2025 22:17:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Artes_plásticas]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157057</guid>

					<description><![CDATA[Na prática  o conselho tornou-se um órgão submetido a jogos políticos, autoritarismo e uma estrutura incapaz de garantir a participação social na formulação de políticas culturais. Por Rodrigo Juste Duarte]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3 style="text-align: justify;">Por Rodrigo Juste Duarte</h3>
<p style="text-align: justify;">A participação social nas decisões das políticas públicas é um direito social garantido na Constituição. Num governo que defende a democracia e a cultura, era de se supor que ambos os direitos estariam garantidos dentro do MinC. Porém, o <a class="urlextern" title="https://cnpc.cultura.gov.br/" href="https://cnpc.cultura.gov.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC)</a>, que deveria ser a instância máxima de participação social na cultura brasileira, vive uma crise institucional por falhas das instituições democráticas e gestoras. Nas últimas semanas, o Ministério da Cultura promoveu uma série de ações emergenciais na tentativa de reduzir o desgaste público após revelações de uma série de problemas apontados por TCU, IPEA, OCB e IBDCult.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro o Ministério da Cultura convocou uma <a class="urlextern" title="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/sistema-minc-se-reune-para-debater-governanca-do-sistema-nacional-de-cultura" href="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/sistema-minc-se-reune-para-debater-governanca-do-sistema-nacional-de-cultura" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">reunião emergencial</a> em 16 de junho, em Brasília, com representantes de todas as secretarias e entidades vinculadas. Com participação de Daniel Samam, coordenador-geral do CNPC, o encontro destacou uma suposta reforma do CNPC, mas, na avaliação de especialistas do Observatório da Cultura do Brasil (OCB), tratou-se mais de um gesto de marketing institucional para conter a <a class="urlextern" title="https://mega.nz/folder/N3sXFIKC#_u28dtLtzuxvsYqO5rYGGg" href="https://mega.nz/folder/N3sXFIKC#_u28dtLtzuxvsYqO5rYGGg" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">erosão de credibilidade</a> do que de um compromisso real com mudanças estruturais.</p>
<p style="text-align: justify;">Criado pelo <a class="urlextern" title="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5520.htm" href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5520.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Decreto 5.520/2005</a>, o CNPC deveria exercer funções consultivas, fiscalizadoras e deliberativas, como previsto nas leis do SNC &#8211; Sistema Nacional de Cultura (<a class="urlextern" title="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/Lei/L14835.htm" href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/Lei/L14835.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Lei Nº 14.835/2024</a>) e do PNC &#8211; Plano Nacional de Cultura (<a class="urlextern" title="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12343.htm" href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12343.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Lei Nº 12.343/2010</a>). Seu papel seria propor políticas públicas, articular diferentes esferas de governo e fomentar o debate com a sociedade civil. Além disso, pela lei do SNC, todos os conselhos devem ser consultivos e deliberativos. Já o Plano Nacional de Cultura aprovou na Conferência Nacional de Cultura uma de suas principais metas, de que os conselhos de política cultural devem ser fiscalizadores, paritários, consultivos e deliberativos.</p>
<p style="text-align: justify;">Na prática, porém, o conselho tornou-se um órgão anacrônico, esvaziado, submetido a jogos políticos, autoritarismo, normas arbitrárias, marcado por omissões, irregularidades e uma <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/gq1A2ZaZ#owBXrLdGZWZjRcUFWpTfz7Ng6CkSpmepPWUznfnk6Pg" href="https://mega.nz/file/gq1A2ZaZ#owBXrLdGZWZjRcUFWpTfz7Ng6CkSpmepPWUznfnk6Pg" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">estrutura incapaz de garantir a participação social</a> efetiva na formulação de políticas culturais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Capacitação ou controle político?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A segunda medida anunciada pelo MinC foi a Portaria nº 217/2025, que cria o Programa Nacional Aldir Blanc de Formação em Gestão Pública da Cultura, voltado a capacitar conselheiros, gestores e técnicos. Dias depois, em 26/06, o Ministério <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=x7teuwCp3-w" href="https://www.youtube.com/watch?v=x7teuwCp3-w" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">promoveu uma live</a> para apresentar a proposta.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao reconhecer a máxima importância da participação social, democracia e da capacitação e formação de agentes e conselheiros, a OCB, no entanto, faz um alerta: &#8220;a portaria é interessante no discurso, e necessária, mas erra. Porque na prática a capacitação será dada por agentes do bloco no poder (governo e partidos), sem isenção política, para a formação de conselheiros que ajam como agentes políticos e militantes.&#8221; Uma afirmativa dura, mas necessária, já que tom &#8216;político&#8217; já foi dado durante a <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=x7teuwCp3-w" href="https://www.youtube.com/watch?v=x7teuwCp3-w" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"><em>live</em> de anúncio governamental</a>, em que foram proferidas diversas vezes frases que falam de “pacto na cultura”, “união” e de “consenso” dentro do conselho. Mas os conselheiros (que foram bastante destacados na <em>live</em>) têm outro papel.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo um dos membros da OCB, “os conselhos de cultura têm caráter fiscalizador, de controle social, são consultivos e deliberativos. Gestores públicos precisam respeitar as diferenças, e o direito constitucional da população de promover controle social. Exigir consensos, pactos, unidade, união são traços autoritários fruto do clima polarizado e da guerra cultural no Brasil. A defesa do Estado democrático de direito, a defesa das políticas públicas e da cidadania, passam pelo ambiente livre, saudável, transparente, de comunicação nítida, e que permita diferenças de opiniões”. Afirma ainda que os “conselheiros têm que ser capacitados para exercer a liberdade crítica, de questionar, de peticionar [ao] Estado, acessar ouvidorias, controladorias, Lei de Acesso à Informação e, se necessário, acionar o MP ou demais órgãos de controle. Esse é o papel de um conselheiro, que não pode ser submetido a aspones”, completa o cientista político e ex-conselheiro do CNPC, Manoel J de Souza Neto.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O CNPC e a ilusão da participação: anacronismos jurídico-institucionais no sistema nacional de cultura</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O CNPC sofre de “algumas ambiguidades da institucionalização da participação”, isso segundo estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), “O pacto federativo nas políticas culturais e seus instrumentos” de Frederico A. Barbosa da Silva e Eliardo Teles, 2021.</p>
<p style="text-align: justify;">O Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC), criado pelo Decreto nº 5.520, de 24 de agosto de 2005 (BRASIL, 2005), foi instituído como instância central do Sistema Nacional de Cultura (SNC), com a promessa de ampliar a participação social na formulação, monitoramento e fiscalização das políticas culturais brasileiras. Entretanto, uma análise minuciosa da trajetória normativa e institucional do CNPC revela um cenário paradoxal de ambiguidade, fragilidade técnica e perda paulatina de competências, que apontam para um anacronismo jurídico e administrativo de grandes proporções.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde sua criação, o CNPC foi concebido como órgão colegiado da estrutura do Ministério da Cultura (MinC), com a competência de “estabelecer as diretrizes gerais para aplicação dos recursos do Fundo Nacional de Cultura (FNC), no que concerne à sua distribuição regional e ao peso relativo dos setores e modalidades do fazer cultural”, conforme previa originalmente o inciso III do art. 72 do Decreto nº 5.520/2005. Tal dispositivo dialogava diretamente com o art. 32 da Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991 &#8211; a Lei Rouanet &#8211; que define os objetivos culturais que devem ser observados na alocação de recursos do Pronac (BRASIL, 1991).</p>
<p style="text-align: justify;">Todavia, a reforma promovida pelo Decreto nº 6.973, de 10 de outubro de 2009 (BRASIL, 2009), eliminou esta atribuição específica, substituindo-a por competências genéricas como “acompanhar e avaliar a aplicação dos recursos provenientes do sistema federal de financiamento da cultura” (art. 72, IV). A modificação fragilizou juridicamente o poder deliberativo do conselho sobre o FNC e abriu margem para interpretações restritivas, como a que foi posteriormente feita pela Consultoria Jurídica (Conjur) do MinC. O relatório jurídico da Conjur, ao rejeitar a validade da Resolução nº 4, de 2010, que estabelecia diretrizes de aplicação do FNC, baseou-se justamente nessa mudança textual, ignorando a interpretação sistemática e ampliativa das competências do CNPC.</p>
<p style="text-align: justify;">O episódio configura o que poderíamos chamar de um anacronismo normativo-institucional deliberado: ao atualizar o decreto fundante do CNPC sem preservar suas funções mais estruturantes, o próprio Estado desconstituiu a principal função técnica e deliberativa do conselho. Mais grave: tal modificação foi sugerida pelo próprio grupo de trabalho do CNPC encarregado de atualizar o decreto, com a justificativa de evitar a “desatualização precoce” do texto legal. A tentativa de abstrair a referência ao FNC em favor de uma redação genérica comprometeu a segurança jurídica do próprio órgão.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo o cientista político Manoel J de Souza Neto, “Do ponto de vista jurídico-administrativo, trata-se de um erro grave de técnica normativa. A linguagem genérica, ainda que supostamente mais &#8216;atualizável&#8217;, torna-se juridicamente menos eficaz e mais sujeita a interpretações excludentes, sobretudo em temas sensíveis como a gestão de recursos públicos. A partir daí, configurou-se um vácuo de poder no qual o CNPC passou a exercer majoritariamente funções simbólicas e participativas, sem efetiva capacidade de normatizar o uso dos instrumentos de financiamento cultural”.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a ambiguidade apontada por Barbosa e Teles (IPEA, 2021) se estende ao próprio papel do conselho no sistema federativo e participativo proposto pelo Sistema Nacional de Cultura. A mudança das competências da Secretaria de Articulação Institucional (SAI), formalizada pelo Decreto nº 7.743, de 31 de maio de 2012 (BRASIL, 2012), consolidou a SAI como responsável pela coordenação do CNPC, da Conferência Nacional de Cultura e da Comissão Intergestores Tripartite. Entretanto, a sobreposição entre a função de coordenação técnica (da SAI) e a função deliberativa (do CNPC) não foi resolvida, criando zonas cinzas de indefinição jurídica e administrativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Ademais, a fragilidade institucional do CNPC evidencia-se na ausência de discussões substantivas nas atas das sessões ordinárias a respeito das reformas do MinC ou da execução dos recursos do FNC. Como aponta a própria Ata da 112ª Sessão Ordinária (2011), a Resolução nº 4/2010, aprovada pelo plenário, jamais foi publicada ou implementada por decisão unilateral da Conjur, sem que o conselho fosse previamente informado da alteração de seu decreto fundante (BRASIL, 2011).</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é segundo o cientista político Manoel J de Souza Neto “uma forma de participação decorativa, na qual o CNPC permanece como instância de escuta e articulação, mas esvaziado de efetiva influência sobre os principais mecanismos de gestão cultural”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda segundo Barbosa e Teles (IPEA, 2021) a prevalência de moções e recomendações simbólicas, ao invés de resoluções com força normativa, reforça esse diagnóstico:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">“Um dos membros do plenário do conselho revelou que sua preocupação surgiu quando buscou a resolução no site das reuniões do plenário do CNPC e não a encontrou. Com efeito, naquele site, nas páginas referentes às 11a e 12a sessões ordinárias constam apenas moções, ato mais de exortação do que de normatização. Dessas exortações constam moções de aplausos à deputada federal Alice Portugal; de apoio aos movimentos pró-liberdade religiosa e respeito à alteridade cultural no Brasil; apoio ao projeto de lei que cria o Conselho de Arquitetura e Urbanismo; de apoio às entidades envolvidas no projeto Morar Carioca; e de apoio aos artistas de rua que vinham sofrendo com proibições e restrições impostas injustamente. Todas iniciativas importantes, mas nada que se assemelhasse ao impacto de uma resolução normativa sobre o uso dos recursos do FNC” (IPEA, 2021).</p>
<p style="text-align: justify;">Para Souza Neto, “a substituição da função de gestor técnico por uma função exclusivamente simbólica é uma forma de desinstitucionalização travestida de democracia participativa”.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, cumpre destacar o paradoxo fundamental: embora o CNPC tenha contribuído ativamente na elaboração do próprio decreto que limitou suas competências, a ausência de uma leitura jurídica adequada e que atenta aos impactos interpretativos das mudanças redacionais, tornou o órgão vítima de sua própria abstração normativa. Para Souza Neto “O caso é exemplar de como a linguagem jurídica, quando negligenciada, pode se tornar obstáculo ao exercício da participação social e à efetividade das políticas públicas, ao mesmo tempo, que como observador na época, me pergunto, o quanto conselheiros subservientes ao poder do Estado, não foram orientados a induzir o conselho ao erro?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a OCB, a superação desse anacronismo exige não apenas a restauração de competências normativas claras ao CNPC, mas também a institucionalização de canais de diálogo jurídico entre conselhos participativos e órgãos de controle. Como já alertavam autores clássicos como Lasswell e Kaplan (1950), as políticas públicas eficazes são aquelas em que a comunicação entre as instâncias decisórias é estruturada, contínua e transparente. Enquanto a gramática dos gestores e tecnocratas de uso do direito continuar alheia à gramática da participação, a promessa da democracia cultural continuará sendo adiada indefinidamente.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma história de esvaziamento e omissões</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os problemas do CNPC não são recentes (<a class="urlextern" title="https://www.jusbrasil.com.br/" href="https://www.jusbrasil.com.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">sugerimos busca do CNPC no Jus Brasil</a>). Eles remontam a sucessivos governos que, seja por negligência ou má-fé, contribuíram para sua <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/g2MAib6R#SChRJBY0UbwJsW2STB9yScvZAg4TCrrqRZgt58pHVbw" href="https://mega.nz/file/g2MAib6R#SChRJBY0UbwJsW2STB9yScvZAg4TCrrqRZgt58pHVbw" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">degradação</a> e <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/t61wkRqb#Ovs5aIOyQMO6gO_H-jsGbf6vCNWta_0Pnxi6wg0mGWI" href="https://mega.nz/file/t61wkRqb#Ovs5aIOyQMO6gO_H-jsGbf6vCNWta_0Pnxi6wg0mGWI" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">erosão institucional</a>. Durante a gestão da ministra Ana de Hollanda (de 2011 a 2012), o <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/5m9xCZjT#aNMDh7COZi1wS0gQnRvIBEvSKIDD7V7InV8PcaVrHL0" href="https://mega.nz/file/5m9xCZjT#aNMDh7COZi1wS0gQnRvIBEvSKIDD7V7InV8PcaVrHL0" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">conselho foi rebaixado, perdendo força deliberativa</a>, através do Decreto nº 7.743, de 31 de maio de 2012, que transferiu o CNPC da Secretaria executiva para a SAI (Secretaria de Articulação Institucional). Em 2016, Michel Temer extinguiu o MinC e, com ele, o CNPC por meio da <a class="urlextern" title="https://www2.camara.leg.br/legin/fed/medpro/2016/medidaprovisoria-726-12-maio-2016-783106-publicacaooriginal-150375-pe.html" href="https://www2.camara.leg.br/legin/fed/medpro/2016/medidaprovisoria-726-12-maio-2016-783106-publicacaooriginal-150375-pe.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Medida Provisória 726/2016</a>, que foi revogada posteriormente (graças a <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/5m9xCZjT#aNMDh7COZi1wS0gQnRvIBEvSKIDD7V7InV8PcaVrHL0" href="https://mega.nz/file/5m9xCZjT#aNMDh7COZi1wS0gQnRvIBEvSKIDD7V7InV8PcaVrHL0" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">pressões do ex-presidente Sarney, criador do ministério</a>), mas que deixou sequelas. Jair Bolsonaro, em 2019, repetiu o esvaziamento (<a class="urlextern" title="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/mpv/mpv870.htm" href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/mpv/mpv870.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Medida Provisória nº 870/2019</a>), <a class="urlextern" title="https://www.camara.leg.br/noticias/565844-projeto-susta-decreto-que-alterou-conselho-nacional-de-politica-cultural/" href="https://www.camara.leg.br/noticias/565844-projeto-susta-decreto-que-alterou-conselho-nacional-de-politica-cultural/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">reduzindo o conselho a uma instância decorativa</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">O esvaziamento já foi tratado em pesquisas acadêmicas: “diversos são os fatores que contribuem para a ineficiência dos conselhos gestores e suas instâncias de apoio, sistematizados, genericamente, da seguinte forma: (a) indefinição das competências e atribuições, (b) a falta de cuidado na elaboração de instrumentos jurídicos de apoio às deliberações, (c) desconhecimento do que seja participação de um representante, (d) necessidade de capacitação dos conselheiros, e (e) ausência de igualdade de condições de participação entre os representantes da sociedade civil” (Gohn, 2011 in “Política nacional das artes e participação social: pressupostos e práticas nas políticas culturais” de Juliana Amaral dos Santos, Gloria Maria de Sousa dos Santos, Marcia Cristina de Almeida Santos &#8211; ANAIS do XII seminário Internacional de políticas culturais, 2023).</p>
<p style="text-align: justify;">A atual gestão, que se comprometeu em revitalizar a cultura, completa dois anos e meio sem avançar em algo básico: a reformulação do CNPC e a recriação dos colegiados por meio de um novo decreto. A demora não é acidental. Reflete a falta de prioridade e a resistência em submeter o órgão a um escrutínio democrático, enquanto valoriza uma instância criada há poucos anos, os comitês estaduais de cultura (alvos de <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/" href="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">reportagens denunciativas do Estadão</a>, que alegavam uso político partidário dos comitês). Segundo depoimento de participante de uma <a class="urlextern" title="https://youtu.be/qXFCY9Oz6uA" href="https://youtu.be/qXFCY9Oz6uA" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">reunião extraoficial</a>, realizada em 29/03/2025, entre membros do OCB e de representantes da sociedade civil do CNPC, este afirmou que o governo dá <a class="urlextern" title="https://acontecenobrasil.com/materia/2025_cnpc-se-reune-apos-conselheiros-tomarem-ciencia-de-ne07mv" href="https://acontecenobrasil.com/materia/2025_cnpc-se-reune-apos-conselheiros-tomarem-ciencia-de-ne07mv" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais atenção para os comitês de cultura do que para o CNPC</a>, o que é uma situação no mínimo afrontosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Vale lembrar que os conselhos de cultura (constituídos por lideranças eleitas, que representam seus segmentos da cultura) estão respaldados na Constituição brasileira e em tratados internacionais: “tendo em vista o disposto no § 4º do art. 216-A da Constituição Federal e a Declaração do México, da qual o Brasil é signatário, que prevê a participação da sociedade na tomada de decisões concernentes à atividade cultural” (TCU, 2024, P.1-3).</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Um conselho que não delibera, não fiscaliza e não cumpre a lei</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O CNPC, em tese, deveria ser um espaço de participação social ativa, com poder deliberativo, conforme estabelecem suas leis. Na prática, porém, sequer funciona como instância consultiva. O Tribunal de Contas da União (TCU) já alertou que o conselho não é ouvido em decisões cruciais, violando sua própria legislação. Se existem zonas cinzas e atribuições destituídas, da qual este governo se recusa em devolver ao CNPC o que foi perdido, por outro lado, naquilo que é função do organismo, o conselho se omite.</p>
<p style="text-align: justify;">Conforme registrado em auditoria do TCU de 2024, o CNPC deixou de exercer seu papel de acompanhamento do Plano Nacional de Cultura (PNC): “No portal do CNPC, também não foram identificados relatórios específicos sobre o acompanhamento do PNC realizados pelo Conselho Nacional. Denota-se que a participação do CNPC na avaliação do PNC foi limitada, deixando de ocorrer após 2016, o que torna prejudicada sua participação no processo de monitoramento, em inobservância do previsto no § 1º do art. 8º da Lei do PNC (Lei 12.343/2010). Assim sendo, cabe recomendar ao MinC que garanta a participação efetiva do CNPC no processo de monitoramento do Plano Nacional de Cultura e ao Conselho Nacional de Política Cultural que acompanhe e avalie a execução do PNC, em conformidade com o previsto no art. 2º, VI, do Decreto 9.891/2019.” (TCU, 2024, p. 29)</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o CNPC falha em seu dever ético e legal de denunciar irregularidades, conforme determina o Código de Ética do Serviço Público (<a class="urlextern" title="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d1171.htm" href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d1171.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Decreto 1.171/1994</a>) e a <a class="urlextern" title="https://www.jusbrasil.com.br/artigos/02-do-dever-de-denunciar-apurar-fiscalizar-decidir-e-de-resposta-da-administracao-publica/418844179" href="https://www.jusbrasil.com.br/artigos/02-do-dever-de-denunciar-apurar-fiscalizar-decidir-e-de-resposta-da-administracao-publica/418844179" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Lei nº 19.969/18, art. 120</a>. Conselheiros omitem-se diante de denúncias graves, preferindo discussões estéreis em redes sociais a ações concretas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seu <a class="urlextern" title="https://linktr.ee/Minc40anosRelatorio" href="https://linktr.ee/Minc40anosRelatorio" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">relatório dos 40 anos do MinC</a>, que teve a primeira versão liberada em <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/03/ministerio-da-cultura-completa-quatro-decadas-confrontado-por-pressoes.shtml" href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/03/ministerio-da-cultura-completa-quatro-decadas-confrontado-por-pressoes.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">reportagem da Folha de São Paulo</a>, o Observatório da Cultura do Brasil (OCB) analisou auditorias do TCU e CGU, que apontam os poderes garantidos ao CNPC, mas ocultados dos próprios conselheiros e da sociedade pelo Ministério. Em uma <a class="urlextern" title="https://youtu.be/qXFCY9Oz6uA" href="https://youtu.be/qXFCY9Oz6uA" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">reunião extraoficial</a> com o OCB, realizada em 29/03/2025, membros do OCB tomaram conhecimento de auditorias do TCU, que notificou o MinC para dar poderes ao Conselho diante de suas atribuições para acompanhar o Plano Nacional de Cultura (PNC) bem como demais questões previstas em regimento: “A maior parte dos relatórios não faz menção à participação do CNPC no acompanhamento das metas, tendo sido identificados apenas agradecimentos sobre a participação do Conselho em alguns relatórios” (TCU, 2024, P.28-29). No entanto, os conselheiros nada fizeram.</p>
<p style="text-align: justify;">Com base em seus estudos e acompanhamento do conselho, o OCB chegou a produzir uma carta aos conselheiros com 19 <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/wuNmDC7Q#UAw6v0n3S-ji0T6sShLC7YespOkMeC1-zwaVUivrh54" href="https://mega.nz/file/wuNmDC7Q#UAw6v0n3S-ji0T6sShLC7YespOkMeC1-zwaVUivrh54" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">contribuições para reestruturação do CNPC</a>, às vésperas de uma reunião ordinária do Conselho, realizada nos dias 10 e 11 de abril deste ano em Brasília. No entanto, o documento não foi apresentado no encontro.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Estrutura precária, apagão de dados e contratos sem eficácia nem economicidade</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Além de falhas de representação, o CNPC passa também um cenário de problemas estruturais na área de tecnologia, conforme auditorias do TCU e da Controladoria-Geral da União (CGU). O site do CNPC teria custado R$ 1,4 milhão, em um contrato sem licitação na modalidade TED, firmado entre o MinC e o Lab Cultura Digital, da UFPR. O site apresentado não efetivou um sistema de reuniões e deliberações <em>on-line</em>, que agilizaria atividades e reduziria custos de reuniões presenciais. Este foi um dos casos de irregularidades apontados em auditorias sobre contratos TEDs de TI do Ministério da Cultura, celebrados com universidades federais, que consumiram R$ 4,4 milhões entre 2015 e 2016 e não foram “nem econômicos nem eficazes” (CGU, 2016). A crítica partiu em 2016 pelo conselheiro Souza Neto, o que lhe rendeu perseguições políticas do Estado e de agentes envolvidos, mas posteriormente seu questionamento foi confirmado em auditoria do TCU, provocada pelo mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2023, ocorre mais um episódio contraditório. O site do CNPC ficou fora do ar justamente após denúncias relacionadas ao problema acima. Durante uma <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/YiEQGCSD#uQc0h8LrNSgmREg1mqvA4XmdsxhTU1Rbj5XNj8v7WWI" href="https://mega.nz/file/YiEQGCSD#uQc0h8LrNSgmREg1mqvA4XmdsxhTU1Rbj5XNj8v7WWI" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">reunião para ouvir a sociedade civil sobre a reformulação do CNPC</a>, realizada em 16/11/2023, um ex-conselheiro do Conselho Nacional de Política Cultural informou que o site do CNPC estaria sendo gestado externamente pelo Lab Cultura Digital, que em tese pertenceria à UFPR, mas na prática estaria alocado na Rede Livre (<a class="urlextern" title="http://redelivre.org.br/" href="http://redelivre.org.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">redelivre.org.br</a>), que tem entre seus dirigentes coletivos de militância política.</p>
<p style="text-align: justify;">Após a denúncia, o site ficou fora do ar durante um mês. O <a class="urlextern" title="https://www.jornalintegracao.com/noticia/46203/site-do-cnpc-sai-do-ar-apos-denuncia-minc-alega-ter-sido-vitima-denataquenhacker" href="https://www.jornalintegracao.com/noticia/46203/site-do-cnpc-sai-do-ar-apos-denuncia-minc-alega-ter-sido-vitima-denataquenhacker" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">MinC alegou &#8220;ataque hacker&#8221;</a>, mas não apresentou provas ou registros de investigação pela Polícia Federal. Na época, a versão foi contestada por fontes da sociedade civil, conselheiros e pela imprensa. A coincidência temporal entre o apagão e a repercussão das denúncias gerou desconfiança entre conselheiros e agentes culturais, configurando uma suposta tentativa de ocultar informações. O episódio nunca foi devidamente esclarecido.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Autoritarismo, censura e perseguições</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Relatos de conselheiros e observadores independentes apontam um cenário de censura, perseguição a críticos e até expulsões arbitrárias no CNPC, como aconteceu em um episódio em 2016, quando o então conselheiro Manoel J. de Souza Neto questionou o MinC com relação a possíveis irregularidades sobre um contrato para produção do site do CNPC, e foi perseguido. Agentes em cargos comissionados e militância agiram para manobrar e impedir que um conselheiro fosse em reuniões, após ter questionado contratos sem licitações. O conselheiro registrou o caso no mandado de segurança <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/pzswiKTD#07Vbv80YJKZunmGE-f5J0SIAzUEX38qI2S_3_FIi8VM" href="https://mega.nz/file/pzswiKTD#07Vbv80YJKZunmGE-f5J0SIAzUEX38qI2S_3_FIi8VM" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">MS 22794/DF (2016/0223952-4)</a> do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Posteriormente, os contratos e a execução foram avaliados por auditorias do TCU, CGU e pelo <a class="urlextern" title="https://linktr.ee/Minc40anosRelatorio" href="https://linktr.ee/Minc40anosRelatorio" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">relatório do Observatório da Cultura do Brasil (OCB)</a>, confirmando os problemas de execução.</p>
<p style="text-align: justify;">Em entrevistas e debates com participação de membros da sociedade civil que integraram essas instâncias, é comum encontrar críticas ao que ocorria dentro do CNPC e Colegiados, o que pode ser conferido em seus depoimentos sobre a árdua missão de assumir a tarefa de conselheiros de cultura no Brasil (exemplos <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=noktTur7YuQ" href="https://www.youtube.com/watch?v=noktTur7YuQ" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=1kKVOezH5RI" href="https://www.youtube.com/watch?v=1kKVOezH5RI" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>).</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda em relação de autoritarismo, o professor de Direito Humberto Cunha Filho (IBDCult) relata no artigo <a class="urlextern" title="https://www.ibdcult.org/post/o-fim-dos-conselhos-de-cultura-e-a-restaura%C3%A7%C3%A3o-das-guildas" href="https://www.ibdcult.org/post/o-fim-dos-conselhos-de-cultura-e-a-restaura%C3%A7%C3%A3o-das-guildas" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">&#8220;O fim dos Conselhos de Cultura e a restauração das guildas&#8221;</a> que, ao acompanhar uma reunião do conselho de cultura, que este opera com normas com limites “sobre os quais o conselho poderia atuar, alguns dos quais, na melhor das hipóteses, eram errados; na possibilidade mediana, catequéticos; e no outro extremo, mentirosos” (um ambiente incompatível com o debate democrático). O autor faz relato e um panorama que se aplicam a todas as instâncias no Brasil. Afirma, ainda, que os conselhos operam como “guildas medievais”, portanto voltados ao corporativismo e busca de vantagens individuais.</p>
<p style="text-align: justify;">O CNPC, que deveria ser um espaço plural, transformou-se em um reduto autoritário, onde divergências são sufocadas. Em vez de fiscalizar o poder público, o conselho submete-se a ele, recuando diante de pressões políticas. Recentemente, em junho de 2025, após vazamento de uma carta de apoio a servidores grevistas do Ministério da Cultura, a conta de Instagram @cnpc.br (que não é oficial pois deveria ser gerida pelo governo) foi usada para disseminar desinformação, negando a existência do documento, até que o <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/DK-itV2v-lT/?img_index=5" href="https://www.instagram.com/p/DK-itV2v-lT/?img_index=5" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">OCB comprovou sua autenticidade</a>, mostrando que a carta foi deliberada em uma reunião (realizada em um grupo de WhatsApp do conselho).</p>
<p style="text-align: justify;">O Observatório da Cultura do Brasil, em seu <a class="urlextern" title="https://linktr.ee/Minc40anosRelatorio" href="https://linktr.ee/Minc40anosRelatorio" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">relatório dos 40 anos do MinC</a>, aponta diversos questionamentos ao sistema MinC, razão que deflagrou as reações agressivas de determinados membros do CNPC.</p>
<p style="text-align: justify;">O próprio <a class="urlextern" title="https://www.gov.br/cultura/pt-br/composicao/secretaria-dos-comites-de-cultura/daniel-barbosa-balabram/@@download" href="https://www.gov.br/cultura/pt-br/composicao/secretaria-dos-comites-de-cultura/daniel-barbosa-balabram/@@download" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Coordenador Geral do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) Daniel “Samam” Barbosa Balabram</a>, admitiu problemas no CNPC, em <a class="urlextern" title="https://revistaforum.com.br/debates/2025/5/19/conselhos-de-cultura-da-critica-construo-de-participao-social-por-daniel-samam-179607.html" href="https://revistaforum.com.br/debates/2025/5/19/conselhos-de-cultura-da-critica-construo-de-participao-social-por-daniel-samam-179607.html" rel="ugc nofollow">artigo assinado por ele na Revista Fórum</a> em resposta ao artigo do Prof. Humberto Cunha, mas as mudanças prometidas ainda não saíram do papel. “A provocação, embora incômoda, é um convite urgente à reflexão: estaríamos, sob o manto da participação social, caminhando para trás, limitando a profundidade e o alcance de nossas políticas culturais?”, afirmou ele. “Para que esses espaços cumpram o papel transformador que deles se espera é preciso ir além da simples representação de nichos. O caminho para essa evolução passa, inevitavelmente, por um investimento sério e contínuo na formação de quem ocupa esses espaços, capacitando-os não apenas com ferramentas de gestão, mas com uma visão crítica e estratégica”, comentou.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, diante de revelações que o Observatório da Cultura do Brasil vem apontando na imprensa, o próprio <a class="urlextern" title="https://www.gov.br/cultura/pt-br/composicao/secretaria-dos-comites-de-cultura/daniel-barbosa-balabram/@@download" href="https://www.gov.br/cultura/pt-br/composicao/secretaria-dos-comites-de-cultura/daniel-barbosa-balabram/@@download" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Coordenador Geral do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) Daniel “Samam” Barbosa Balabram</a>, ocupando cargo público, no exercício da função, sugeriu uma guerra terceirizada do MinC contra o OCB, instrumentalizando e manobrando o CNPC. Em grupo de WhatsApp formal do CNPC, incitou os conselheiros a aprovarem ato de moção de repúdio contra o Observatório da Cultura do Brasil mediante falsas acusações de que o OCB estaria escrevendo textos sem fundamento contra o MinC e o conselho (nos <em>prints</em> abaixo, foram ocultadas informações sobre números de telefones e identidades de conselheiros da sociedade civil).</p>
<p style="text-align: justify;"><a class="media wikilink2" title="wiki:image5.png" href="https://wiki.passapalavra.info/lib/exe/detail.php?id=artigos_em_reserva&amp;media=wiki:image5.png"><img decoding="async" class="media" src="https://wiki.passapalavra.info/lib/exe/fetch.php?media=wiki:image5.png" alt="" /></a><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157065" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem1.png" alt="" width="425" height="337" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem1.png 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem1-300x238.png 300w" sizes="auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Antes de incitar a posição antidemocrática do MinC e do CNPC contra a imprensa e sociedade civil, no entanto, Saman, recordou aos Conselheiros que na 42a Reunião do CNPC, conselheiros haviam criticado o MinC.</p>
<p style="text-align: justify;">No <em>print</em> acima, um conselheiro confessa que o CNPC estava errado diante das denúncias feitas pela OCB. Ele afirma que agora “dizer que é <em>fakenews</em> fica pior a emenda do que o soneto”, então procuram uma alternativa simbólica, ao propor que em reunião decidir por meio de uma comissão, uma “resposta fundamentada. Ou então, o MinC fazê-la, isentando a gestão atual do CNPC, publicando-a”. Porém, o funcionário do MinC, coordenador do CNPC, devolve, a questão de que a OCB não mentiu ao afirmar que alguns membros do CNPC haviam feito críticas dos constrangimentos sofridos, afirmando que “Embora na 42ª Reunião, em abril, tivemos posicionamentos de conselheiros do pleno. Consta da ata, inclusive”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seguida este agente em cargo comissionado, volta na questão central, de que não é o CNPC, mas o medo das críticas ao MinC (e, portanto, ao governo) dizendo que “Mas este observatório continua com ataques infundados contra o MinC e este Conselho, penso q o pleno deve se manifestar novamente em instrumento regimental. Sugiro uma Moção de Repúdio”. Uma clara demonstração de alinhamento e de hierarquia entre o órgão público (agentes comissionados deste governo), com comandos do que o CNPC deve fazer para defender não o CNPC, mas defender o MinC, sendo papel deles fiscalizar o órgão de governo, e não defendê-lo. A situação se agrava, pois revelam a intenção de trazer inverdades em instância oficial ao sugerir uma moção de repúdio no pleno do CNPC para defesa do governo, alegando ataques infundados do OCB contra o MinC. Situação que demonstra o desespero do grupo, ao afirmar que análises de políticas públicas são “ataques” e que milhares de páginas de documentos, auditorias e estudos formais, além de 800 páginas de análises com base em provas obtidas em auditorias de CGU e TCU, seriam “infundados”.</p>
<p style="text-align: justify;">Conforme <em>print</em> abaixo, agendaram a data da reunião entre 04 e 06 de agosto de 2025. Entre estes dias, pretendem fazer uma moção sem base jurídica, sem crime, apenas por motivação política, para tentar desacreditar pesquisas sérias, revelando o conjunto de ilegalidades anteriormente denunciado.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157064" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem2.png" alt="" width="308" height="339" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem2.png 308w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem2-273x300.png 273w" sizes="auto, (max-width: 308px) 100vw, 308px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="media wikilink2" title="wiki:image6.png" href="https://wiki.passapalavra.info/lib/exe/detail.php?id=artigos_em_reserva&amp;media=wiki:image6.png"><img decoding="async" class="media" src="https://wiki.passapalavra.info/lib/exe/fetch.php?media=wiki:image6.png" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Em seguida, os conselheiros, dentro de esfera oficial de órgão público, sugeriram promover atos de cancelamentos e denúncias das contas da OCB nas redes sociais, em tentativa de retirá-las do ar e promover silenciamento, devido ao OCB tecer críticas ao MinC. Portanto, descumprindo o CNPC de sua função de fiscalizar o Ministério da Cultura, tendo invertido seu papel, para órgão de defesa do governo. Em outra mensagem no grupo, uma conselheira da sociedade civil faz uma série de afirmativas falsas, atribuindo ao OCB (uma rede de pesquisadores) ações e reportagens como se fossem do ex-conselheiro Manoel Neto. Informações estas que não procedem, posto que não consta denúncia de assédio referida abaixo, nem processo na Conjur, ou proibição de entrada em prédio por algum tipo de assédio, mas que supostamente poderia revelar algum ressentimento ou ódio político, o que não faz sentido, já que o pesquisador não é de direita, como afirmado.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157063" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem3.png" alt="" width="425" height="334" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem3.png 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem3-300x236.png 300w" sizes="auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="media wikilink2" title="wiki:image4.png" href="https://wiki.passapalavra.info/lib/exe/detail.php?id=artigos_em_reserva&amp;media=wiki:image4.png"><img decoding="async" class="media" src="https://wiki.passapalavra.info/lib/exe/fetch.php?media=wiki:image4.png" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Afirma ainda a conselheira contra o ex-conselheiro (denunciante dos fatos irregulares, que foram levados ao TCU e confirmados), de que ele estaria com um grande jornal de direita (no caso, a Folha de São Paulo), jogando para polarização o caso, como forma de engajar o grupo pela obrigação de luta militante, diante da guerra cultural. As contradições se multiplicam. Primeiro, pelo fato de tanto a OCB como o colaborador em questão, serem todos progressistas, de esquerda e até alguns de extrema esquerda, portanto a alusão à direita é uma manobra. A Folha de São Paulo, parceira na <a class="urlextern" title="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" href="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">série de reportagens e relatório dos 40 anos do MinC</a>, é de fato liberal, entre a social-democracia e o centro-direita. Mas, não se configura como do lado da direita (inclusive, é chamado por conservadores como jornal comunista).</p>
<p style="text-align: justify;">A outra contradição na afirmação, é a de que o pesquisador e ex-conselheiro não teria relevância, sendo que o mesmo tem uma <a class="urlextern" title="https://www.econodata.com.br/consulta-empresa/59901622000133-fonoteca-da-musica-paranaense-colecao-manoel-jose-de-souza-neto" href="https://www.econodata.com.br/consulta-empresa/59901622000133-fonoteca-da-musica-paranaense-colecao-manoel-jose-de-souza-neto" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">fonoteca homenageando seu nome</a> pelos trabalhos de pesquisa em musicologia, tem <a class="urlextern" title="https://museuindependente.blogspot.com/2008/09/des-construo-da-msica-da-cultura.html" href="https://museuindependente.blogspot.com/2008/09/des-construo-da-msica-da-cultura.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">livros lançados</a>, citações em mais de 250 trabalhos científicos, e mais de 2.000 reportagens, artigos e entrevistas. A afirmativa falsa de “não relevância” demonstra um desejo de membros do CNPC em manchar o nome do pesquisador.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outra parte, afirma que precisam agir contra a pessoa do pesquisador Porém, não se atentam ao detalhe de que os estudos da OCB são de uma rede nacional de colaboradores. E de que “não dá para deixar ele agir sem tomar providências pq ele não para, nem quando perde as causas”, revelando desejos de calar e censurar de forma arbitrária quem age na fiscalização e controle social. Em seguida questiona as denúncias feitas contra o MinC, como sendo falsas, alegando que “já aconteceu das denúncias serem mentiras”. Uma situação que beira o surreal, posto que em momento algum o conselheiro perdeu alguma ação, como será demonstrado. Além, do que, suas denúncias foram confirmadas pelo TCU.</p>
<p style="text-align: justify;">Na fala acima, novamente, diante do papel de conselheiros atuantes, pesquisadores, juristas e imprensa (que estão embasados com informações comprovadas por auditorias de CGU e TCU), determinados conselheiros ignoram fatos, documentos e leis, tentando dar justificativa irreal de que não passa do delírio de um ex-conselheiro, usando da tática da depreciação pessoal. Sem qualquer prova, base, ou decisão de comissão de ética, Conjur, ou decisão judicial, de forma leviana e irresponsável, a conselheira afirma que algo pesaria contra um dos membros do OCB, uma ação na Conjur por assédio contra a coordenação do CNPC. Essa reportagem teve acesso a mais de <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/5j0QRKQY#6Q8EefVXS_qxUfk_R_7d67kKHOOug3Keae3m1xW9Hb4" href="https://mega.nz/file/5j0QRKQY#6Q8EefVXS_qxUfk_R_7d67kKHOOug3Keae3m1xW9Hb4" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">30 ofícios do referido conselheiro</a>, questionado o MinC por manobras, mas que não foram respondidos pelo ministério. Entre os ofícios haviam denúncias das irregularidades, questionamentos normativos, solicitações de explicações sobre as medidas de impedimento de que o conselheiro fosse ao pleno expor os fatos, e pedidos de numeração ou protocolo de processo contra o mesmo, pois teria sido afastado<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/02/151795/" href="https://passapalavra.info/2024/02/151795/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> das reuniões sem explicações, sem processos administrativos</a>, nem mesmo acusações, o que configura um <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/8vUlULDa#L3Ira5Q86JhtcGcHSAB-7SGajeqWxN_qx4Ub-rXBPVY" href="https://mega.nz/file/8vUlULDa#L3Ira5Q86JhtcGcHSAB-7SGajeqWxN_qx4Ub-rXBPVY" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">tribunal de exceção</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Inclusive, pedidos de explicações sobre seu suposto impedimento de ir à plenária após ter feito as denúncias (posteriormente confirmadas pelo TCU), não obtendo qualquer informação de processo internamente contra ele. Inclusive, no Mandado de Segurança <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/pzswiKTD#07Vbv80YJKZunmGE-f5J0SIAzUEX38qI2S_3_FIi8VM" href="https://mega.nz/file/pzswiKTD#07Vbv80YJKZunmGE-f5J0SIAzUEX38qI2S_3_FIi8VM" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">MS 22794/DF (2016/0223952-4)</a> no STJ, o MinC informou categoricamente que o mesmo não respondia a processo, e nem foi expulso do CNPC, motivo do arquivamento do processo pelo excelentíssimo Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, posto que, não tendo sido expulso do conselho, o processo perdeu seu objeto.</p>
<p style="text-align: justify;">O pesquisador confirma que ao seguir orientação jurídica de ir ao plenário do CNPC expressar a denúncia feita em 2016 sobre uso de recursos controversos do site do CNPC do MinC, foi de fato informado por agentes em cargos comissionados, em tom de ameaça, de que se fosse (na reunião no edifício Corporate em Brasília), “seria retirado à força”, revelando o nível de autoritarismo dentro do MinC. Uma situação que, no entanto, não foi decisão judicial, nem foi medida protetiva, não teve base legal, não foi proibido. Foi ameaçado. Situação que nas entrelinhas foi confirmada pela conselheira envolvida nos atos autoritários, de que no CNPC e o MinC, agem de forma a calar, censurar e constranger &#8211; medidas tomadas contra quem faz o papel legal de controle social previsto pelo cargo de conselheiros.</p>
<p style="text-align: justify;">As informações que cargos comissionados e conselheiros espalham, portanto, não são verdadeiras, são narrativas pessoais para ocultar as denúncias, “cancelando” aqueles que agem em prol do que é justo e correto. Ainda assim, os envolvidos pela perseguição contra o conselheiro, até hoje seguem espalhando informações caluniosas, como comprovado no vazamento das conversas.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, desmentindo uma mensagem acima, o jornalista do OCB, Rodrigo Juste Duarte, não contactou um conselheiro (como o próprio escreveu no grupo) ou outros conselheiros, não promovendo nenhum tipo de assédio. O que pode ter acontecido é que alguns deles receberam mensagens com notícias enviadas pela lista de transmissão do Observatório da Cultura do Brasil no WhatsApp, em uma lista com centenas de contatos, sem qualquer tipo de assédio. Nos últimos meses, pela referida lista de transmissão, conselheiros receberam informações e reportagens a fim de que pudessem fazer as mudanças sobre o Ministério da Cultura, a partir dos materiais recebidos, sem ter em nenhum momento formalizado descontentamentos aos envios de notícias. É de se estranhar que o grupo tome essa posição política ideologizada, sendo que a função dos conselheiros é de fiscalizar o governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 16/05/2023, ocorreu uma sequência de mensagens agressivas de determinados conselheiros, após uma postagem no perfil e instagram do OCB, que trouxe uma <a class="urlextern" title="https://drive.google.com/file/d/1xwK-i_LO6w12exQtJYAGVcrOsLG6NqI1/view?usp=drive_link" href="https://drive.google.com/file/d/1xwK-i_LO6w12exQtJYAGVcrOsLG6NqI1/view?usp=drive_link" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">carta do CNPC de apoio à greve dos servidores do MinC</a>, que <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/DLAbQptRFYc/?img_index=4" href="https://www.instagram.com/p/DLAbQptRFYc/?img_index=4" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">foi deliberada</a> (em uma reunião em um grupo de WhatsApp do conselho), mas até então não havia sido divulgada, estando inédita até aquela ocasião. A reação destes membros do conselho é uma tentativa de silenciar críticas à gestão.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que se observou foi que conselheiros entraram no grupo de WhatsApp do Observatório da Cultura do Brasil, e também na conta de instagram @observatoriodaculturabr exigindo, de forma agressiva, que o OCB retirasse a postagem, constrangendo pesquisadores. Os ataques anti-democráticos contra a imprensa <a class="urlextern" title="https://drive.google.com/drive/folders/1TlPIUaJuLp82QJ2_4fEP5HgcI3wt5AML?usp=sharing" href="https://drive.google.com/drive/folders/1TlPIUaJuLp82QJ2_4fEP5HgcI3wt5AML?usp=sharing" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">podem ser lidos aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Conforme arquivos disponíveis, determinados conselheiros ao invés de lerem as pesquisas e auditorias, assumindo papel fiscalizador sobre o MinC, partem para prática de agressões), ataques políticos, ideológicos, e pessoais depreciativos na tática da fulanização (ataques <em>ad hominem</em>) vinda de uma instância que deveria primar pelas boas práticas da administração pública, posto que é um conselho que fiscaliza o poder público e responde ao código de ética do funcionalismo público federal.</p>
<p style="text-align: justify;">Conforme mensagens abaixo revelam, os conselheiros são orientados pela Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural, Márcia Rollemberg (cargo comissionado, e que ocupa vaga de conselheira) a denunciar a página do Observatório da Cultura do Brasil, para provocar a queda das postagens ou, quem sabe, até do canal. Além de afirmar em tom de ordem do MinC ao subserviente CNPC de que “todos os conselheiros devem denunciar na plataforma”, ela faz sua denúncia, mostra o comprovante do Instagram, e ainda ensina aos demais como fazer.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157062" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem4.png" alt="" width="425" height="279" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem4.png 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem4-300x197.png 300w" sizes="auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px" /><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157061" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem5.png" alt="" width="425" height="297" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem5.png 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem5-300x210.png 300w" sizes="auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px" /><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157060" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Imagem5.jpg" alt="" width="263" height="205" /></p>
<p style="text-align: justify;">Estas conversas comprovam de forma categórica as denúncias do OCB de que existe uma aliança entre funcionários do MinC e o CNPC, em que o conselho passa <a class="urlextern" title="https://acontecenobrasil.com/materia/2025_cnpc-se-reune-apos-conselheiros-tomarem-ciencia-de-ne07mv" href="https://acontecenobrasil.com/materia/2025_cnpc-se-reune-apos-conselheiros-tomarem-ciencia-de-ne07mv" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">por constrangimentos</a>, recebendo orientações de cima para baixo de agentes governamentais para que fiquem alinhados na defesa de um agenda do poder público, conforme o Observatório havia revelado. O Ministério da Cultura reage aos estudos do relatório <a class="urlextern" title="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" href="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">MinC 40 anos</a> com críticas fundamentadas em auditorias oficiais, usando o CNPC como organismo auxiliar, para incitar ataques de Conselheiros, contra a imprensa livre, os observatórios e a sociedade civil.</p>
<p style="text-align: justify;">As conversas obtidas de forma lícita através de conselheiros indignados com a atuação dos demais, revela que o grupo sabe que existem irregularidades, que as denúncias sobre o MinC procedem, mas existe um sentimento de indignação do grupo político, que se manifesta no desejo deles de censurar, de calar as denúncias. Isso se explicita ao citar denúncias de Conjur, TCU e MinC. O episódio revela como determinados funcionários e agentes em cargos comissionados do Ministério da Cultura agem à margem da lei e da boa administração pública. Uma reportagem de 2023, publicada no Le Monde Diplomatique Brasil, já trazia relatos de conselheiros do CNPC, que preferiram não se identificar, de que “<a class="urlextern" title="https://diplomatique.org.br/exemplos-de-ma-gestao-de-conselhos-de-cultura-os-muitos-casos-do-consec/" href="https://diplomatique.org.br/exemplos-de-ma-gestao-de-conselhos-de-cultura-os-muitos-casos-do-consec/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">no ambiente dos conselhos de cultura ocorre autoritarismo e pseudo participação</a>”.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Necessidade de reformas urgentes do CNPC</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Observatório avalia que o CNPC, em sua forma atual, fracassou como instituição. “Não basta ajustes; é necessária uma reestruturação completa, com: restauração plena de seu caráter deliberativo, consultivo e fiscalizador conforme as leis; transparência absoluta em suas decisões; fim das indicações político-partidárias, garantindo representação efetiva da sociedade civil; capacitação obrigatória de conselheiros e investigação independente sobre irregularidades passadas”, afirma o OCB.</p>
<p style="text-align: justify;">“A cultura brasileira merece mais do que um conselho frívolo, omisso e autoritário. O MinC não pode continuar protelando: ou reforma o CNPC com urgência, ou assume de vez seu esvaziamento como política de Estado. A hora da mudança é agora, antes que o descrédito seja irreversível”, finaliza Souza Neto.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Conclusões sobre as ações recentes: </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A convocação do MinC para “reformular” o CNPC parece mais uma tática de Relações Públicas para tentar passar uma boa imagem do que um compromisso real com mudanças. O texto oficial do ministério fala em debates e propostas, mas sem trazer prazos e mecanismos concretos de transparência. Enquanto isso, o conselho continua sem capacidade deliberativa, sem transparência e sem independência, servindo mais como um instrumento de legitimação de políticas governamentais, órgão decorativo, do que como um efetivo conselho de participação, controle e fiscalização social.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto ao Programa Nacional Aldir Blanc de Formação em Gestão Pública de Cultura, destinado a conselheiros, técnicos e gestores públicos, o Observatório da Cultura do Brasil considera que a prioridade formativa deve recair, antes de tudo, sobre os cargos comissionados. “Trata-se de agentes políticos, muitas vezes indicados por critérios exclusivamente partidários, sem a devida qualificação técnica ou preparo para a administração pública. Esses agentes, em diversas situações documentadas, têm se mostrado refratários à escuta, à crítica e ao debate público. Com frequência, impõem interesses pessoais ou de grupo, restringem a participação democrática, e atuam de forma autoritária, promovendo silenciamentos, constrangimentos e, em alguns casos, até censura. Além disso, agem de forma a exigir pactos e consensos, em espaços (arte, cultura e sociedade) que são por realidade plurais, de dissensos, de diversidade, atropelando e promovendo planificações tecnocratas. A forma como sucessivas gestões vêm tratando os conselheiros do CNPC revela esse problema: interesses corporativos e lógicas hierárquicas se impõem ao interesse público. Diante disso, propomos que qualquer programa formativo inclua, de maneira central, conteúdos sobre ética pública, democracia participativa e responsabilidade administrativa, aos cargos indicados, pois neles estão a origem do que não está em conformidade com o ambiente capaz de promover com que todos cumpram com seus papéis.”</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTA DO OCB:</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Obtivemos informações de conselheiros indignados, que entregaram materiais desta reportagem, em que membros do CNPC citam o OCB de forma leviana, em situações em que o fazer jornalístico, as pesquisas (todas embasadas com dados oficiais e leis) e a realização de denúncias são direitos garantidos na Constituição, ao jornalismo e a qualquer cidadão. O vazamento, neste sentido, é lícito, pois revela que estes agentes atuam de forma ilícita dentro de uma esfera governamental pública, para conspirar contra a sociedade civil e contra a imprensa.</p>
</div>
<div class="secedit editbutton_section editbutton_9" style="text-align: justify;">
<form class="button btn_secedit" action="/doku.php" method="post">
<div class="no"></div>
</form>
</div>
<div class="section_highlight_wrapper">
<h3 id="naquela_mesa" class="sectionedit10" style="text-align: justify;"></h3>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/07/157057/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>MC Marechal e a Ideologia da Competência: Poder, Dominação e Fetichismo no Rap Carioca Contemporâneo</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/07/156965/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2025/07/156965/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Jul 2025 13:49:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=156965</guid>

					<description><![CDATA[Se, em seus primórdios, o rap independente foi sinônimo de resistência, contracultura e prática autogestionária, o que vemos atualmente — especialmente a partir de figuras como MC Marechal — é uma virada decisiva rumo à lógica empresarial, ao empreendedorismo de palco e à racionalização fordista da produção musical. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<h4 id="apresentacao" style="text-align: justify;"><strong>Apresentação</strong></h4>
<div class="level4" style="text-align: justify;">
<p>O presente ensaio é fruto de uma reflexão longa, acumulada ao longo de quase duas décadas de vivência, pesquisa e produção cultural no campo do rap independente do Rio de Janeiro. Não se trata de uma análise externa, fria ou distante, mas de um texto forjado a partir da experiência direta com os sujeitos e os processos que aqui serão criticamente examinados.</p>
<p>A figura de MC Marechal, em particular, ocupa um lugar central neste trabalho, não apenas por sua relevância na cena, mas pela forma como sua trajetória, seu discurso e suas práticas condensam algumas das maiores contradições que atravessam o rap carioca e brasileiro na era neoliberal. Falo, inclusive, a partir de um breve período de convivência pessoal e profissional com Marechal, quando, em meados de 2006, ensaiamos uma relação de produção musical que terminou justamente por conta de aspectos que hoje se tornaram marcas estruturais da sua conduta pública: o autoritarismo, o controle excessivo, a recusa ao dissenso e o desprezo por qualquer forma de mediação coletiva. O ensaio não se limita a uma crítica de caráter pessoal. O objetivo aqui é demonstrar como a figura de Marechal, hoje consolidada como empresário, gestor de carreiras e produtor de conteúdo motivacional no canal Independente de Música, representa um modelo cada vez mais hegemônico no interior da cena hip hop: o do coach cultural, que transforma a história da luta de classes, a cultura de resistência e as experiências de exclusão em ferramentas de motivação empresarial.</p>
<p>Ao longo do texto, busco articular experiências de campo, entrevistas, episódios concretos e referências teóricas que permitam uma análise mais profunda das ideologias que hoje estruturam o rap independente, com ênfase especial nas categorias de poder, fetiche, controle social e burocratização dos desejos. A análise vai além da figura de Marechal, mas parte dele como exemplo emblemático de um processo maior de domesticação da cultura hip hop pelas dinâmicas do capital.</p>
<p>Este não é um texto para agradar. Tampouco é um ajuste de contas. É uma tentativa de organizar, teoricamente, um debate que segue sendo evitado dentro da cena: o debate sobre o poder, a dominação e a transformação do rap em instrumento de legitimação ideológica do neoliberalismo.</p>
<p>Espero que este ensaio sirva como ponto de partida para novas reflexões, debates e, quem sabe, para a retomada de um espírito crítico que o rap, enquanto cultura de resistência, já teve um dia, mas que hoje parece ter enterrado debaixo de likes, métricas e slogans de autoajuda.</p>
<h4>Introdução: A experiência do dissenso e o nascimento de uma crítica necessária</h4>
<p>A produção cultural brasileira, especialmente aquela vinculada aos setores periféricos e populares, sempre esteve marcada por uma tensão central: a disputa entre autonomia estética e captura ideológica pelos mecanismos de poder do capital. O rap, enquanto forma de expressão nascida no seio da classe trabalhadora urbana e racializada, se constituiu historicamente como um canal de denúncia, resistência e mobilização. No entanto, nas últimas duas décadas, as transformações estruturais da indústria cultural e a penetração das lógicas neoliberais no campo da produção independente redesenharam as formas de atuação de artistas, produtores e lideranças culturais.</p>
<p>Este ensaio parte de uma experiência pessoal vivida com MC Marechal em meados de 2006, quando, durante um breve período de colaboração artística, foi possível observar de perto traços centrais daquilo que se configuraria posteriormente como uma das formas mais bem acabadas de uma ideologia de controle, autoritarismo simbólico e fetichismo da competência na cena do rap carioca contemporâneo. A convivência com Marechal evidenciou não apenas aspectos de sua personalidade &#8211; dominadora, inquestionável e avessa ao dissenso &#8211; mas também permitiu perceber os contornos iniciais de um projeto político-estético baseado na hierarquização da produção cultural, no culto à liderança e na negação sistemática de espaços de autonomia criativa.</p>
<p>O episódio que simboliza essa ruptura foi a recusa explícita de Marechal em lançar o disco <strong>Relatoatividade</strong>, do grupo Fluxo, após uma audição marcada por um comportamento desrespeitoso e desmobilizador &#8211; o artista chegou a dormir durante a escuta do álbum e, posteriormente, justificou sua decisão com o argumento de que detinha um suposto “controle de qualidade” sobre tudo o que passava pelo seu crivo. Essa lógica de monopólio da autoridade estética, somada a episódios de veto a relações de trabalho com outros músicos com quem ele mantinha atritos, tornou evidente a existência de um campo de poder personalista e verticalizado.</p>
<p>Este texto, portanto, busca ultrapassar o relato pessoal para propor uma análise teórica mais ampla. Pretende-se, aqui, compreender como a figura de MC Marechal representa, de maneira sintomática, os processos de burocratização da criatividade, de fetichização da competência e de captura da cultura hip hop pelas dinâmicas autoritárias típicas da sociabilidade burguesa em tempos de neoliberalismo avançado.</p>
<h4>I. A formação da ideologia da competência no campo do rap carioca</h4>
<p>Pierre Bourdieu, ao analisar o funcionamento dos campos artísticos, demonstra como os agentes que nele atuam disputam posições de poder não apenas através da produção simbólica direta, mas também pela capacidade de estabelecer os critérios legítimos de julgamento e consagração. No caso específico do rap carioca, MC Marechal construiu, ao longo dos anos, um sistema discursivo e prático baseado justamente nessa legitimação hierárquica, onde a figura do artista se confunde com a do árbitro moral, técnico e político do campo.</p>
<p>A “ideologia da competência”, conceito trabalhado por Marilena Chaui, aplica-se com precisão ao caso em questão. Segundo Chaui, a ideologia da competência institui uma divisão social que determina, de forma prévia, quem pode falar, quem deve ouvir e quais conteúdos são autorizados a circular. Marechal não apenas aplicou esse modelo como o radicalizou no interior da cena independente. A constante referência ao “Um Só Caminho” não é apenas um lema motivacional, mas um dispositivo ideológico que define os parâmetros da produção legítima, da conduta moral dos agentes e da forma de inserção no mercado musical.</p>
<p>Essa ideologia se manifesta de modo concreto em pelo menos três dimensões:</p>
<ul>
<li class="li"><strong>A centralidade da liderança personalista:</strong> Marechal, ao construir sua imagem pública, desloca o eixo da criação coletiva &#8211; característica fundacional do hip hop &#8211; para a consagração de uma liderança individual dotada de uma suposta visão superior do campo.</li>
<li class="li"><strong>O monopólio da avaliação estética:</strong> O “controle de qualidade” que reivindicava sobre os trabalhos alheios não é um gesto isolado, mas a expressão de um modelo de gestão autoritária da produção cultural, no qual as criações dos pares passam a depender da chancela de um líder incontestável.</li>
<li class="li"><strong>A negação do dissenso:</strong> A recusa sistemática ao contraditório, o bloqueio de articulações com outros artistas e a imposição de uma lógica de exclusividade nas relações de trabalho são elementos que reafirmam o caráter burocrático e disciplinador de sua prática.</li>
</ul>
<p>Além disso, é fundamental observar como o anti-intelectualismo de Marechal &#8211; traduzido em sua rejeição explícita às instituições escolares e ao conhecimento sistemático &#8211; serve como complemento ideológico à sua prática autoritária. A desescolarização não é, neste caso, uma experiência de autonomia, mas uma estratégia discursiva que reforça a centralidade do “saber de experiência própria” como única fonte legítima de autoridade. Essa prática não apenas reforça o isolamento político dos seus interlocutores, como também bloqueia qualquer possibilidade de debate crítico sobre as formas de poder reproduzidas em seu entorno.</p>
</div>
<h4 id="ii_o_fetichismo_da_competencia_e_a_naturalizacao_da_hierarquia_na_cultura_hip_hop" style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-156968 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Basquiat1.jpeg" alt="" width="1456" height="816" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Basquiat1.jpeg 1456w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Basquiat1-300x168.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Basquiat1-1024x574.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Basquiat1-768x430.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Basquiat1-749x420.jpeg 749w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Basquiat1-640x359.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Basquiat1-681x382.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1456px) 100vw, 1456px" />II. O fetichismo da competência e a naturalização da hierarquia na cultura hip hop</h4>
<div class="level4">
<p style="text-align: justify;">O fenômeno observado na trajetória de MC Marechal não é um caso isolado de comportamento individual, mas uma expressão específica de um processo mais amplo: a conversão das relações culturais em relações de poder fetichizadas, nas quais a competência, ao invés de ser uma expressão de desenvolvimento coletivo, passa a funcionar como mercadoria simbólica. Esse fenômeno, analisado por Carlos Nelson Coutinho e por István Mészáros, permite observar como o rap carioca, mesmo enquanto expressão de uma cultura de resistência, foi progressivamente capturado pelas formas fetichizadas de sociabilidade próprias do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo Mészáros, o fetichismo social não se restringe à esfera econômica direta, mas se estende à totalidade das relações humanas, promovendo a naturalização de hierarquias, a internalização da dominação e a reprodução da obediência como se fossem escolhas individuais. A ideologia da competência no rap, especialmente na figura de Marechal, é, portanto, uma manifestação concreta do fetichismo em seu estágio mais avançado: o da aceitação voluntária das estruturas de dominação como se fossem expressão de mérito pessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">A construção de slogans como “Um Só Caminho” não pode ser lida apenas como uma filosofia de vida. Trata-se de um dispositivo que performa uma operação de sutura ideológica entre dois polos que deveriam ser contraditórios: a estética da resistência e a moralidade do desempenho individual. Essa fusão cria um campo discursivo em que a hierarquia não aparece mais como imposição externa, mas como um destino necessário para aqueles que desejam “superar suas limitações” e “serem dignos” do reconhecimento no campo do rap.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, a ideologia da competência se articula diretamente com a lógica neoliberal da performance, na qual o valor de um sujeito é mensurado não pela sua inserção crítica na luta de classes, mas por sua capacidade de atender aos critérios definidos por lideranças já estabelecidas. Não por acaso, a prática de Marechal estabelece um circuito de reconhecimento baseado na lealdade, na disciplina e na deferência ao líder &#8211; um ethos que se aproxima das formas mais arcaicas de autoridade carismática, mas que, sob a estética do rap, se recobre de uma falsa aura de horizontalidade e organicidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa dinâmica se cristaliza ainda mais quando observamos o caráter excludente da construção simbólica que Marechal opera em sua relação com os pares. Ao estabelecer-se como portador de um saber superior &#8211; justificado por sua “vivência de rua” e sua “trajetória de resistência” &#8211; Marechal cria um campo de validação moral no qual apenas aqueles que se submetem aos seus critérios de qualidade e conduta são aceitos como interlocutores legítimos. Essa estrutura se manifesta de maneira evidente nas suas práticas de veto, na exclusividade das parcerias e na rejeição pública de qualquer tentativa de dissenso ou crítica.</p>
<p style="text-align: justify;">É possível afirmar que o processo de fetichização da competência em Marechal gera uma espécie de “estratificação simbólica do campo do rap”, onde os “aptos” e os “não aptos” são separados não por suas elaborações artísticas ou políticas, mas pela capacidade de ajustamento ao discurso do líder. Isso se conecta ao que Lukács chamou de “reificação das relações humanas”, quando os sujeitos passam a se relacionar uns com os outros não como iguais, mas como funções dentro de uma estrutura social fetichizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa reificação atinge o campo das emoções, da amizade e até da própria produção artística. O que antes era uma cultura forjada na coletividade e na contestação, transforma-se num espaço de reprodução hierárquica, onde os critérios de participação são ditados por um código moral privatizado, autorreferente e marcado pela lógica da obediência.</p>
<p style="text-align: justify;">A consequência mais grave desse processo é o bloqueio das potências críticas do rap. Ao transformar a “qualidade artística” em fetiche e ao revestir o “merecimento” de um conteúdo quase espiritual, Marechal institui, de forma objetiva, um regime de silenciamento, onde os artistas e fãs que não comungam de sua visão são imediatamente excluídos da cena ou rotulados como “inimigos da cultura”, “haters” ou “invejosos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em termos marxistas, trata-se de um processo típico de alienação, no qual as formas sociais (no caso, o campo simbólico da competência) se autonomizam frente aos sujeitos históricos que as produzem, impondo-se como verdades inquestionáveis. A crítica, neste contexto, passa a ser vista como um ataque pessoal e não como um momento legítimo de enfrentamento ideológico.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, é importante reforçar que essa naturalização da hierarquia dentro da cena independente carioca é apenas um sintoma de um processo estrutural mais amplo: a penetração das formas de controle ideológico da sociedade burguesa no interior das culturas de resistência.</p>
<h4 style="text-align: justify;">III. Da resistência à administração: o rap como espaço de gestão empresarial e disciplinamento dos corpos</h4>
<p style="text-align: justify;">A trajetória de MC Marechal alcança um novo estágio com o surgimento do seu canal “Independente de Música”, um projeto que, embora à primeira vista se apresente como uma ferramenta de orientação para artistas independentes, é na verdade a consolidação definitiva de uma guinada ideológica já anunciada em suas práticas anteriores: a transformação da cena independente numa extensão dos princípios administrativos e gerenciais do capitalismo tardio.</p>
<p style="text-align: justify;">O canal funciona como uma espécie de plataforma de coaching empresarial voltado para músicos, com ênfase obsessiva em temas como planejamento de carreira, gestão de equipe, controle de processos de produção, cálculo de métricas de alcance e otimização de desempenho artístico. Essa racionalização da prática musical, que se articula com os princípios do fordismo cultural, materializa o que já se vinha delineando na construção ideológica de Marechal: a completa subordinação da produção cultural à lógica de mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">O discurso de Marechal na atualidade se distancia de qualquer compromisso histórico, político ou crítico que caracterizou os momentos mais férteis e transformadores do rap. O foco agora é a performance empresarial. Termos como “trabalho em equipe”, “controle de qualidade”, “meta”, “engajamento”, “planejamento de carreira” e “mentalidade de crescimento” tomam o lugar de qualquer reflexão sobre estrutura de classes, racismo estrutural, violência de Estado ou as contradições do modo de produção capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">O que está em curso é o deslocamento definitivo do rap como espaço de resistência social para um campo de gestão individualizada de capital simbólico. Marechal, ao se posicionar como coach do rap independente, não apenas atualiza o ideário neoliberal da autossuficiência e do empreendedorismo, mas também cristaliza uma concepção de cultura como mercadoria de alto desempenho, onde o artista é visto como uma pequena empresa e o sucesso depende exclusivamente de seu esforço pessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa guinada ideológica, no entanto, não é abrupta. O mito MC Marechal foi sendo construído ao longo de quase duas décadas de forma calculada e progressiva. Um dos dispositivos mais eficazes dessa construção foi o não lançamento de um disco de estúdio. Esse gesto, longe de ser apenas uma consequência de dificuldades de produção ou de um suposto perfeccionismo, funciona como estratégia de marketing emocional, promovendo um estado permanente de ansiedade e expectativa entre os fãs.</p>
<p style="text-align: justify;">A promessa sempre adiada de um grande álbum de estreia reforça a figura de Marechal como um gênio incompreendido, um artista supostamente à frente de seu tempo, incapaz de entregar qualquer produto que não seja a obra-prima definitiva. Tal estratégia é própria da lógica de fetichização de mercado: quanto mais distante e inatingível o objeto, mais ele se valoriza no imaginário coletivo. O que se vende, no caso de Marechal, não é a obra, mas a espera pela obra.</p>
<p style="text-align: justify;">O repertório simbólico de Marechal também colabora para essa construção mitológica. Sua performance descalça nos palcos, por exemplo, reforça um código de representação que transita entre a imagem de humildade e uma espécie de santidade laica. A escolha por se apresentar descalço evoca, num primeiro plano, a ideia de conexão com as raízes e com a terra, mas em um segundo plano &#8211; menos consciente para o público e mais revelador no campo da análise crítica &#8211; remete à tradição iconográfica das figuras sacralizadas, dos imperadores divinizados, que em determinadas culturas se apresentavam descalços como símbolo de proximidade com o sagrado e de autoridade moral incontestável.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa simbologia do corpo &#8211; da estética do “líder humilde” que ao mesmo tempo se coloca como tutor espiritual e moral da cena &#8211; reforça a estrutura hierárquica já analisada anteriormente. Marechal não é apenas um MC. Ele se posiciona como uma autoridade moral, um modelo de conduta, uma instância de validação estética, comportamental e agora também administrativa dentro da cultura hip hop.</p>
<p style="text-align: justify;">É necessário observar como essa forma de poder simbólico se entrelaça com os mecanismos clássicos da sociedade de controle, descritos por Foucault. A partir do canal Independente de Música, Marechal não apenas propõe o que deve ser feito artisticamente, mas regula as condutas, disciplina os métodos de produção e administra os sentidos possíveis daquilo que se entende por sucesso, fracasso e mérito na cena independente.</p>
<p style="text-align: justify;">Por trás do discurso de “orientar os independentes”, o que se instala é um regime de normatização, onde o artista é treinado para aceitar os mesmos códigos de produtividade, meritocracia e empreendedorismo que caracterizam a lógica empresarial do grande capital. Trata-se, portanto, de uma completa aderência ideológica ao modo de produção hegemônico, onde o rap é esvaziado de seu conteúdo político e convertido em nicho de mercado sob a gestão de micro-empresas culturais.</p>
<p style="text-align: justify;">Se antes a cultura hip hop carregava em sua formação a tensão histórica com as estruturas de poder, hoje, nas mãos de figuras como Marechal, ela se resigna a um papel de ferramenta de ajuste social, estimulando comportamentos empresariais, incentivando a autoexploração e naturalizando a precarização como um degrau necessário para o sucesso individual.</p>
<p style="text-align: justify;">A transformação de MC Marechal de MC de batalha para gestor de carreira e produtor de conteúdo motivacional não é apenas uma evolução pessoal, mas o sintoma de um processo mais amplo: o encerramento da autonomia crítica do rap enquanto campo cultural. Marechal, agora, representa com clareza a figura do administrador da esperança, aquele que ensina os oprimidos a aceitarem sua condição, desde que acreditem com disciplina, foco e fé que um dia poderão também ter acesso aos pequenos privilégios reservados aos gestores de si mesmos.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-156971 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat2.jpg" alt="" width="817" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat2.jpg 817w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat2-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat2-775x1024.jpg 775w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat2-768x1015.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat2-318x420.jpg 318w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat2-640x846.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat2-681x900.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 817px) 100vw, 817px" />IV. A estética da escassez: a não-obra como estratégia de poder simbólico</h4>
<p style="text-align: justify;">Uma das dimensões mais singulares e, ao mesmo tempo, mais sintomáticas da construção do mito MC Marechal é a elaboração de uma estética da escassez. Diferentemente de outros MCs de sua geração que buscaram a produção contínua de álbuns, mixtapes, singles e colaborações para manter sua relevância, Marechal optou por uma postura diametralmente oposta: a ausência controlada de um disco oficial de estúdio.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante quase duas décadas, o discurso de Marechal girou em torno da promessa de um álbum que nunca veio. O tão esperado “primeiro disco” tornou-se, por si só, um objeto fetichizado, um espectro que ronda sua carreira e que sustenta sua figura como alguém “em processo”, “em construção”, como se sua obra fosse um diamante ainda sendo lapidado, esperando a suposta maturidade artística plena para emergir.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa estratégia não pode ser lida de maneira ingênua. Longe de ser apenas fruto de insegurança criativa ou de dificuldades materiais, o adiamento permanente se converteu em um recurso de marketing simbólico extremamente eficiente. Ao não lançar um álbum, Marechal alimentou uma narrativa de que aquilo que ele prepara é tão especial, tão fora da curva, tão revolucionário, que o público precisa aguardar o tempo necessário &#8211; o tempo do gênio, o tempo do mestre.</p>
<p style="text-align: justify;">A não-obra se tornou, paradoxalmente, sua maior obra. A expectativa contínua, somada a doses calculadas de apresentações ao vivo, frases enigmáticas em entrevistas e publicações de redes sociais cuidadosamente escolhidas, serve para alimentar o imaginário de uma genialidade latente e inatingível.</p>
<p style="text-align: justify;">No campo da teoria crítica, esse fenômeno dialoga com o conceito de “valor pela ausência”, uma forma de produção de sentido na qual o que não é entregue ao público acaba adquirindo um valor simbólico superior ao que efetivamente seria ofertado caso a obra fosse concretizada. Trata-se de uma fetichização da promessa, uma “mercadoria não realizada” que mantém o consumidor em estado permanente de espera e, por consequência, de lealdade emocional ao produtor da expectativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Pierre Bourdieu, ao discutir os mecanismos de produção de distinção no campo cultural, destaca como certos agentes sociais constroem seu capital simbólico não apenas através do que produzem, mas também pelo que decidem não produzir. A raridade, o silêncio seletivo e o controle das aparições públicas são estratégias recorrentes de quem deseja ocupar posições de autoridade simbólica dentro de um campo de produção restrita.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso de Marechal, esse processo de distinção foi ainda mais acentuado pelo seu comportamento performativo. A escolha de permanecer descalço em shows, como já foi mencionado, reforça um jogo de significados que alterna entre a mística da humildade e a representação de um líder espiritual, quase messiânico. O silêncio discográfico, por sua vez, é mais um elemento na construção desse personagem que ocupa uma posição moral e estética de suposta superioridade.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa gestão calculada da ausência também opera como um mecanismo de dominação ideológica. A lógica é simples, mas poderosa: “se ele ainda não lançou, é porque o mundo ainda não está pronto; é porque a obra precisa ser perfeita; é porque só ele sabe a hora certa”. Dessa forma, o público internaliza a posição de espera como um ato de fé, de lealdade e até de cumplicidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, a produção da escassez de conteúdo artístico não é um acidente, mas uma estratégia política de poder simbólico. Marechal faz de sua não-discografia um lugar de força. Ele é o dono do tempo, o senhor da expectativa, o gestor da ansiedade coletiva de uma geração de fãs.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o rap, em sua origem, foi uma cultura de urgência, de denúncia imediata, de produção rápida e de resposta direta ao contexto social, a postura de Marechal representa uma inflexão histórica: a transformação da cultura da resposta em uma cultura da espera. Não se trata apenas de um adiamento de um produto, mas de uma reconfiguração da relação entre artista e público. O discurso do “ainda não é a hora” naturaliza o poder de um só sobre os demais, reforçando o imaginário de que há uma verdade oculta que só o líder conhece e que só ele pode revelar quando bem entender.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa lógica, somada ao seu atual papel como coach e gestor de carreira, completa o ciclo de uma ideologia que caminha da cultura de resistência para a administração de afetos, expectativas e condutas sociais.</p>
<h4 style="text-align: justify;">V. A ideologia da competência como disciplinamento de classe: entre o rap e a lógica empresarial</h4>
<p style="text-align: justify;">Ao migrar de um artista independente com discurso de resistência para um gestor de carreiras, coach de produção musical e empreendedor do rap, MC Marechal consolida sua adesão a um projeto de disciplinamento ideológico que tem na “ideologia da competência” seu eixo central. Seu novo canal no YouTube, intitulado <em>Independente de Música</em>, é a materialização mais recente desse processo. Nele, Marechal se apresenta como um consultor de negócios musicais, oferecendo dicas, estratégias e conselhos sobre como transformar a produção artística em empreendimento rentável, com foco claro nas métricas de produtividade, controle de processos e otimização de resultados &#8211; todos valores alinhados à lógica do mercado capitalista e sua racionalização fordista da cultura.</p>
<p style="text-align: justify;">O canal funciona como uma verdadeira escola de gestão empresarial aplicada à música. Termos como “gestão de carreira”, “posicionamento de marca”, “monetização de conteúdo”, “otimização de resultados” e “métricas de desempenho” são recorrentes, sinalizando a completa incorporação do discurso neoliberal dentro da cena do rap independente. A estética da luta social é substituída por uma estética da performance, da eficiência e do empreendedorismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que antes era visto como resistência agora é tratado como falta de profissionalismo. O que antes era denunciado como exploração de classe agora é reembalado como “falta de foco”, “imaturidade de mercado” ou “mentalidade de escassez”, nas palavras dos novos gestores culturais.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse processo se encaixa perfeitamente no que Marilena Chaui definiu como a “ideologia da competência”: uma estrutura de pensamento que naturaliza a divisão entre os que sabem e os que não sabem, os que podem e os que não podem, os que são produtivos e os que são vagos, os que têm o “direito” de falar e os que devem apenas ouvir e obedecer.</p>
<p style="text-align: justify;">A retórica de Marechal, tanto no canal quanto em suas aparições públicas recentes, tem como base a premissa de que o fracasso de um artista é consequência direta de sua falta de organização, disciplina ou “mentalidade empreendedora”. Assim, desloca-se a responsabilidade dos problemas estruturais da indústria cultural &#8211; como a desigualdade de acesso, o racismo estrutural, o sucateamento da educação pública e a concentração de capital &#8211; para o campo da vontade individual, reforçando a velha máxima liberal de que “quem quer consegue”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pedagogia do sucesso baseada no mérito individual, que agora ganha corpo em seu canal e em suas palestras, cumpre uma função política objetiva: neutralizar as contradições de classe presentes no campo da cultura, transformando-as em problemas de gestão pessoal. O problema deixa de ser a estrutura para ser o indivíduo. Ao invés de estimular a análise crítica das condições materiais de produção artística, o discurso de Marechal orienta os jovens artistas a se adaptarem, otimizarem suas entregas e aceitarem as regras do jogo.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o canal <em>Independente de Música</em> naturaliza o conceito de empreendedor de si mesmo, numa reedição brasileira daquilo que Pierre Dardot e Christian Laval identificaram como o novo espírito do capitalismo: o sujeito neoliberal como uma empresa de uma pessoa só, responsável por sua própria sorte ou fracasso.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o rap, em sua origem, era uma forma de denúncia coletiva contra as condições materiais de opressão, a prática atual de Marechal atua como gestão dos afetos produtivos, organizando os desejos e esforços dos jovens MCs em função de um sucesso empresarial que, como sabemos, permanece acessível apenas a uma minoria.</p>
<p style="text-align: justify;">O mais problemático, porém, não é apenas a adoção do discurso empreendedor. É a construção de uma nova moral de classe dentro do rap. Marechal não apenas ensina os artistas a produzirem melhor &#8211; ele define o que é qualidade, o que é profissionalismo e quem merece estar na cena. Isso cria um campo de distinção cultural altamente excludente, onde os que não seguem a cartilha da produção empresarial são descartados como “não sérios”, “imaturos” ou “incompetentes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse disciplinamento simbólico é um dos motores ideológicos mais perigosos do rap carioca contemporâneo. Porque ao invés de estimular a politização da juventude, ele a empurra para uma corrida individualista, despolitizada e funcional à reprodução das estruturas de dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">A figura de Marechal, nesse contexto, deixa de ser apenas um MC ou um artista. Ele se torna um agente de racionalização ideológica, um intelectual orgânico da ideologia neoliberal no campo da cultura hip hop. Seu projeto atual não é mais o da música de protesto, mas o da administração da produção simbólica dentro dos parâmetros empresariais. Uma gestão de corpos e desejos que tem como horizonte último não a emancipação, mas a otimização mercadológica da cultura periférica.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-156970 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat3.jpg" alt="" width="720" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat3.jpg 720w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat3-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat3-683x1024.jpg 683w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat3-280x420.jpg 280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat3-640x960.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat3-681x1022.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px" />VI. A construção do mito: entre a ausência e o culto à personalidade</h4>
<p style="text-align: justify;">Um dos fenômenos mais intrigantes da trajetória de MC Marechal é a forma como ele conseguiu construir sua imagem pública a partir da ausência. Marechal consolidou-se como um dos maiores mitos do rap nacional sem nunca ter lançado um disco solo completo, criando em torno de si uma atmosfera de mistério, expectativa e reverência que o alçou a um patamar quase messiânico dentro da cena independente.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse fenômeno não pode ser compreendido apenas por fatores de ordem estética ou musical. Trata-se, antes de tudo, de uma estratégia ideológica sofisticada, que opera naquilo que Pierre Bourdieu chamaria de economia simbólica do reconhecimento. Marechal transformou a falta de um álbum em um ativo de mercado. Sua ausência tornou-se presença. A promessa virou mercadoria.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo de mais de uma década, Marechal soube trabalhar com precisão os mecanismos de escassez, criando uma relação de desejo permanente com seu público. O não lançamento do disco virou um elemento central da sua marca pessoal, gerando uma expectativa infinita e retroalimentando o imaginário coletivo de que o que estava por vir seria, por definição, uma obra-prima. O que nunca chega é sempre perfeito na cabeça de quem espera.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse processo de construção simbólica também se desdobra em performances cuidadosamente planejadas. Um exemplo clássico é a recorrência de Marechal se apresentar descalço nos palcos. O que à primeira vista pode parecer um gesto de humildade ou de identificação com o chão da periferia, na verdade evoca, consciente ou inconscientemente, uma tradição de representação imperial e sacralizada do corpo político.</p>
<p style="text-align: justify;">Historicamente, a imagem de figuras descalças em situações de poder tem forte carga simbólica. Imperadores bizantinos, chefes tribais e até mesmo líderes religiosos utilizaram os pés descalços como símbolo de ligação direta com o sagrado ou com o povo. No caso de Marechal, esse recurso simbólico parece projetar uma imagem de ascetismo revolucionário, de alguém que, ao mesmo tempo, é do povo e está acima dele. Um líder espiritual da cena. Um guru. Um coach.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse culto à personalidade foi sendo cuidadosamente sedimentado ao longo dos anos através de frases de efeito, posturas de distanciamento calculado e a construção de uma imagem pública onde a modéstia e a superioridade moral caminham lado a lado. Em sua trajetória, Marechal não apenas se retirou dos processos tradicionais de produção fonográfica, como também criou um campo de distinção simbólica entre ele e os demais MCs.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos poucos, o artista foi consolidando a ideia de que “nem todo mundo pode falar com ele”, que “nem todo mundo entende a profundidade da sua caminhada”, e que “quem questiona é porque não compreendeu a missão”. Essa construção discursiva reforça a verticalidade das relações que Marechal estabelece com sua base de fãs e com o próprio campo do rap.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica ao sistema, ao capital e ao mercado &#8211; que aparece pontualmente em suas letras &#8211; é sempre atravessada por uma perspectiva moralizante e autocentrada. A figura do líder inquestionável substitui a crítica estrutural. O combate ao sistema vira uma batalha individualizada, travada no campo da conduta ética pessoal e não da organização coletiva.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é uma espécie de mitologia do “MC puro”, aquele que por não ter lançado disco, por não ceder a entrevistas, por manter-se “fiel” a uma suposta essência, seria mais legítimo que os outros. Essa mitologia reforça a ideia de que a ausência é sinônimo de profundidade, que o silêncio é mais eloquente do que a crítica, e que o aplauso vem por antecipação, sem necessidade de obra concreta.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa lógica é profundamente funcional ao capitalismo contemporâneo, que sabe transformar o não-consumo em consumo simbólico, a escassez em fetiche, a ausência em espetáculo. Como diria Guy Debord em “A Sociedade do Espetáculo”, “o que é apresentado como raro torna-se infinitamente desejável, precisamente por ser inacessível”.</p>
<p style="text-align: justify;">Marechal, com sua trajetória, confirma essa leitura. Sua ausência material tornou-se presença mítica. Seu nome passou a circular como marca, conceito e referência, ainda que sua produção fonográfica seja mínima. Sua maior obra até aqui, paradoxalmente, é a construção de si mesmo como símbolo.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema, do ponto de vista político, é que esse processo reforça não apenas a lógica mercadológica do capital simbólico, mas também uma forma bastante autoritária de gestão das subjetividades no campo cultural. Ao invés de abrir caminhos para a crítica, o mito Marechal fecha o debate, neutraliza o dissenso e transforma a cena independente num espaço de adoração e reverência, não de confronto de ideias.</p>
<h4 style="text-align: justify;">VII. Da autogestão à lógica empresarial: o rap como extensão da cultura start-up</h4>
<p style="text-align: justify;">Se, em seus primórdios, o rap independente foi sinônimo de resistência, contracultura e prática autogestionária, o que vemos atualmente — especialmente a partir de figuras como MC Marechal — é uma virada decisiva rumo à lógica empresarial, ao empreendedorismo de palco e à racionalização fordista da produção musical. Esse processo não se deu de forma abrupta, mas foi o resultado de uma transformação progressiva, acompanhando os próprios movimentos de adequação do hip hop brasileiro à economia de mercado e ao ethos neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;">O exemplo mais evidente desse novo momento é a criação, por parte de Marechal, do canal no YouTube intitulado “Independente de Música”. O nome, aparentemente um trocadilho inteligente, já carrega em si a síntese da nova ideologia: não mais a independência como horizonte político ou estético, mas como categoria gerencial, de eficiência produtiva e de superação individual. A independência aqui é tratada como um desafio técnico-administrativo, não como uma posição histórica frente à indústria cultural.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir do canal, Marechal passa a ocupar uma posição cada vez mais clara de coach empresarial da música independente. Seus vídeos, lives e cursos, longe de qualquer análise estrutural sobre as condições históricas de produção cultural na periferia, são voltados quase exclusivamente para métricas de desempenho, gestão de carreira, organização de equipe, definição de metas e produtividade. A linguagem adotada é a do mundo corporativo: palavras como “gestão de marca”, “entrega de valor”, “posicionamento”, “escalabilidade” e “funil de vendas” passaram a fazer parte do vocabulário corrente.</p>
<p style="text-align: justify;">É a completa transformação do MC em CEO da própria carreira, encarnando com entusiasmo todas as etapas do empreendedorismo neoliberal, cuja lógica central é individualizar o fracasso e transformar o sucesso em uma questão de mérito e esforço pessoal. O velho discurso da meritocracia, tão caro à ideologia dominante, agora é reembalado com terminologias de superação e empoderamento. As contradições históricas, as determinações estruturais, o racismo estrutural, o desemprego, a precarização e a violência de Estado são relegados a um segundo plano, quando não totalmente silenciados.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa nova fase do discurso marechalino consolida aquilo que já estava latente desde os primeiros anos da ideologia “Um Só Caminho”: a centralidade do indivíduo como unidade autossuficiente de produção, decisão e desempenho. O coletivo é tratado como um organismo que só funciona se cada célula obedecer a uma hierarquia funcional, como já apontamos anteriormente ao citar Foucault e Carlos Nelson Coutinho. Agora, com o canal Independente de Música, essa lógica é operacionalizada de maneira aberta e didática.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista teórico, o que estamos presenciando é a passagem da ética comunitária para a ética empresarial, tal como diagnosticada por autores como Byung-Chul Han, que em “A Sociedade do Cansaço” e “Psicopolítica” descreve com precisão como o capitalismo avançado converte sujeitos antes explorados em sujeitos autoexploradores. Marechal não é mais apenas um MC. Ele é gestor, mentor, empresário e, sobretudo, agente ativo da reprodução ideológica neoliberal no campo da música independente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao convidar seus seguidores a tornarem-se empreendedores de si mesmos, Marechal reforça um modelo de mundo no qual o fracasso social é tratado como culpa individual, onde a solução para os problemas estruturais da pobreza e da exclusão é a adaptação ao mercado. A palavra “independente”, que antes remetia à recusa em se submeter aos mecanismos de controle da indústria cultural, agora virou apenas um selo de gestão eficiente, um manual de boas práticas para pequenos empresários da música.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação tem efeitos devastadores na dimensão política do rap. O que antes era um campo de produção de contranarrativas, de denúncia e de elaboração estética da experiência da periferia, agora é um espaço de autoajuda corporativa. O rap vira um PowerPoint motivacional em forma de rima. Não se trata mais de transformar o mundo, mas de adaptar-se a ele, com foco, força, fé — e claro, com o devido planejamento estratégico trimestral.</p>
<p style="text-align: justify;">A defesa que Marechal faz da produção independente, portanto, não é uma defesa da autonomia política ou estética, mas da autossustentação empresarial dentro dos parâmetros do capitalismo de plataforma. Seu canal Independente de Música é, nesse sentido, o ápice desse processo de empresarização do discurso, onde o rap não é mais uma arma de luta, mas um produto de mercado, a ser gerenciado, monetizado e escalado como qualquer outro bem de consumo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao assumir esse papel de coach da cena, Marechal enterra de vez qualquer possibilidade de se pensar o rap como um espaço efetivo de resistência estrutural. Sua independência é apenas formal, subordinada, como qualquer start-up, à lógica mais ampla da acumulação capitalista. O resultado é um rap domesticado, adaptado, higienizado e profundamente alienado de suas origens como expressão crítica da luta de classes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-156967 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat4.jpg" alt="" width="1312" height="1432" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat4.jpg 1312w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat4-275x300.jpg 275w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat4-938x1024.jpg 938w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat4-768x838.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat4-385x420.jpg 385w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat4-640x699.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/basquiat4-681x743.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1312px) 100vw, 1312px" />VIII. Conclusão: Entre a fetichização da resistência e a afirmação da ordem</h4>
<p style="text-align: justify;">A trajetória de MC Marechal, especialmente a partir da consolidação de sua figura pública como empresário, gestor de carreiras e produtor de conteúdo motivacional voltado para o mercado da música, representa uma síntese das contradições mais profundas do rap carioca e brasileiro no contexto neoliberal. O que estamos testemunhando é a cristalização de um processo de longa duração: a transformação da crítica em mercadoria, da resistência em fetiche e da cultura periférica em ativo de mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">Marechal, ao se constituir como mito forjado na ausência, conseguiu alimentar por anos uma aura de genialidade por meio da estratégia de nunca lançar um disco completo de estúdio. Sua obra sempre esteve em estado de promessa, cultivando nas bases um sentimento de expectativa e devoção, como se a qualquer momento um grande acontecimento artístico fosse surgir, justificando a longa espera. Essa operação simbólica construiu o que podemos chamar de fetiche da ausência criadora, onde o vazio de produção é interpretado como sinal de profundidade e genialidade. Trata-se, na verdade, de uma engenharia da ansiedade, na qual a suspensão constante da entrega final transforma o próprio processo de espera em produto de culto.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato de Marechal ter aparecido descalço em alguns de seus shows é mais um detalhe simbólico que merece atenção. Se, para o público, esse gesto pode parecer um sinal de humildade e autenticidade, numa análise mais minuciosa o que vemos é a construção de uma imagem que remete diretamente a figuras historicamente endeusadas: reis, imperadores e líderes espirituais que, ao caminhar descalços, se colocam num suposto estado de proximidade com o sagrado e com o povo, mas que, no fundo, reafirmam sua superioridade simbólica. Trata-se de um processo de sacralização da liderança, que afasta ainda mais o público de qualquer possibilidade real de horizontalidade nas relações.</p>
<p style="text-align: justify;">O canal Independente de Música, por sua vez, consolida a transição definitiva de Marechal de artista para agente ideológico da racionalização neoliberal. Suas falas, vídeos e cursos são um manual de sobrevivência no capitalismo, mascarado de empoderamento artístico. Não há nas suas formulações qualquer elaboração sobre as contradições de classe, sobre a exploração estrutural ou sobre os mecanismos históricos de exclusão que atravessam a história do rap. O conteúdo político foi reduzido a slogans vagos sobre superação, disciplina e produtividade.</p>
<p style="text-align: justify;">A mitificação de Marechal está ancorada num duplo movimento: por um lado, a promessa nunca cumprida de uma obra definitiva e, por outro, o constante reforço da sua figura enquanto única referência legítima de competência, verdade e autenticidade no rap independente carioca. Quem questiona é imediatamente deslegitimado, tachado de recalcado ou de incapaz de entender a profundidade de suas propostas. Essa blindagem simbólica reforça o caráter autoritário das suas relações políticas, artísticas e empresariais.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a trajetória de Marechal é expressão concreta de um fenômeno mais amplo: a absorção progressiva das culturas de resistência pelas dinâmicas do capital. O rap, enquanto espaço de contestação social, foi sendo domesticado, burocratizado e adaptado ao mercado. O discurso revolucionário cedeu espaço para a linguagem da performance individual e da gestão de si. Os MCs transformaram-se em CEOs, os coletivos em startups, e a militância em storytelling de sucesso.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o rap nasceu como voz dos oprimidos, o que vemos hoje é a sua transformação em propaganda da ordem. O discurso de Marechal não é exceção. Pelo contrário: é o exemplo mais acabado de como a indústria cultural consegue, por meio da fetichização da resistência, reabsorver toda forma de antagonismo e convertê-lo em mercadoria vendável.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao final, o que resta é um rap domesticado, blindado contra a crítica e funcional à reprodução do próprio sistema que sempre disse combater. Um só caminho, na prática, tornou-se o caminho único da adaptação à ordem burguesa, embalado por versos bem rimados, vídeos bem editados e uma retórica de superação que mais aliena do que liberta.</p>
</div>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram o corpo do texto são de <span class="kY2IgmnCmOGjharHErah">Jean-Michel Basquia</span>t (1960-1988)</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>A fotografia em destaque é do próprio Mc Marechal</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/07/156965/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Fantasmas e fantasmas</title>
		<link>https://passapalavra.info/2024/09/154839/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2024/09/154839/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Sep 2024 12:00:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=154839</guid>

					<description><![CDATA[Os fantasmas do comunismo dos tempos atuais não geram medo em ninguém. Por Rodrigo Oliveira Fonseca]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Rodrigo Oliveira Fonseca</h3>
<p style="text-align: justify;">Os fantasmas do comunismo dos tempos atuais não geram medo em ninguém. A distribuição em creches de mamadeira com bico em formato de pênis, a implantação de banheiros unissex [casas de banho neutras] em escolas e universidades, a obrigação do uso de linguagem neutra, a difusão da cristofobia, o roubo de cachorros para incrementar o churrasco de gato… são coisas que geram repulsa e indignação nas camadas menos escolarizadas, além de variações entre raiva e galhofa nas outras. Por exemplo, foram produzidos vários vídeos que musicalizaram a última pérola do Trump, a sua denúncia de que em Springfield desapareceram cachorros e gatos porque os imigrantes estariam comendo-os. Me chamou a atenção, em particular, a postagem de um <em>remix</em> desses por uma conta trumpista do YouTube. Neste vídeo, Trump aparece não como um otário ou pateta de quem se ri, mas sim como um cara <em>zoeiro</em> [troçador] que quebra o tédio do debate político, um sujeito que é autêntico e tem <em>cara dura</em> [descarado] o suficiente para dizer coisas assim e não corar ou gaguejar. Esses fantasmas também divertem aqueles a quem poderíamos supor estarem assustados.</p>
<p style="text-align: justify;">E a mentira? Uma pista: Jean Pierre-Faye, na sua <em>Introdução às linguagens totalitárias</em>, explica que no ambiente intelectual nazista a distinção entre o verdadeiro e o não-verdadeiro era visto como um formalismo pernicioso, e o que realmente importava era a defesa dos mitos e da cultura de um povo em situação de “violação”. Cachorros e gatos não estão sendo comidos por imigrantes nos EUA? Mas o risco seria “real”, e quem alerta amigo é.</p>
<p style="text-align: justify;">Não que a verdade seja um valor e um discurso desimportantes para toda a direita. Verdade, honestidade, honradez ainda são moedas ideológicas correntes, mas no consórcio entre tradicionalistas religiosos e iconoclastas reacionários, entre conservadores de um lado e radicais de direita de outro, os conservadores às vezes parecem como a parte “manipulada”, “abusada”, beatas católicas nas mãos de nazistas pagãos. Têm a ver com isso os ataques recentes do Malalfafa ao Lamarçal, as críticas do principal líder bolsonarista junto aos evangélicos, o pastor Silas Malafaia, às picaretagens de Pablo Marçal, candidato à prefeitura de São Paulo e empresário <em>coach</em>. Claro, pessoas que honesta e genuinamente creem (creem em____, a preencher como se quiser), muitas vezes são feitas de gato e sapato, ou de churrasco e capacho, à esquerda e à direita, nas mãos de quem tem expectativas mais “pragmáticas”, prosaicas e mundanas, seja a direção do partido, se reproduzindo <em>ad infinitum</em> para manter pequenos poderes, seja o charlatão que vende remédio para combater vermes que causam a diabetes, seja o político profissional e fisiológico que se elege como antissistema. A frase do <em>todo dia sai na rua um otário e um malandro</em> é uma caricatura disso. Juventudes periféricas radicalizadas, descrentes de tudo, reativas e violentas, “malandras”, também são manipuladas e manipuláveis nas mãos de conservadores “otários” desde os seus gabinetes.</p>
<p style="text-align: justify;">O que não é bem uma caricatura disso são algumas letras da banda Engenheiros do Hawaii. Esses dias vi parte de um <em>podcast</em> que reuniu os músicos Carlos Maltz e Augusto Licks. Me levou a querer ouvir, pela primeira vez na vida, um disco inteiro deles, no caso, o primeiro, <em>Longe demais das capitais</em>, de 1986. Estarrecedor. Na adolescência eu gostava muito de <em>Somos quem podemos ser</em> e <em>Toda forma de poder</em>, músicas cujas letras críticas me soavam mais anarquistas. Mas copio aqui abaixo duas letras de músicas que eu nunca tinha ouvido, músicas que hoje soam meio que como versão séria e careta do <em>remix</em> <em>They&#8217;re eating the dogs</em>, uma delas sobre um amor nazi-fascista-medieval-pós-moderno, uma “sopa de letrinhas” cuja fauna ideológica é curiosa, e outra sobre a superioridade de quem não tem fé nenhuma, da qual vou comentar mais adiante uma das estrofes.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>SOPA DE LETRINHAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O nosso amor é nazi-fascista Você se esconde e eu sigo tua pista Eu fico sozinho mas eu fico em paz Eu volto pra casa você volta atrás</p>
<p style="text-align: justify;">O nosso amor é medieval É como uma pedra em piso De catedral […]</p>
<p style="text-align: justify;">O nosso amor é pós-moderno Eu quero que você se aqueça nesse Inverno Eu tenho andado aéreo como tropas minhas No ataque Fim de noite fim do mundo lá no fundo Do conhaque Eu fico sozinho Teu beijo me arranha Um estranho no ninho Ninguém estranha</p>
<p style="text-align: justify;">O nosso amor é nazi-fascista Eu tento fugir você me conquista Eu fico sozinho mas eu fico em paz Eu volto pra casa e você volta atrás Eu fico sozinho Teu beijo me arranha Um estranho no ninho</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>FÉ NENHUMA</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não levo fé nenhuma em nada! Não levo fé nenhuma em nada!</p>
<p style="text-align: justify;">Mas ninguém tem o direito De me achar reacionário Não acredito no teu jeito Revolucionário</p>
<p style="text-align: justify;">Eu sei que você acredita Nas notícias do jornal Mas tudo isso me irrita Me enoja e me faz mal</p>
<p style="text-align: justify;">Por incrível que pareça Teu discurso é tão seguro Talvez você esqueça: Você também não tem futuro</p>
<p style="text-align: justify;">Não levo fé nenhuma em nada! Não levo fé nenhuma em nada!</p>
<p style="text-align: justify;">Você quer me pôr no agito No movimento estudantil Mas eu não acredito No futuro do Brasil</p>
<p style="text-align: justify;">Eu não vou morrer de fome Eu não vou morrer de tédio Eu não vou morrer pensando Qual seria o remédio</p>
<p style="text-align: justify;">Sei de cor seus comentários Sobre o mal da alienação Mas eu não vivo de salário Eu não vivo de ilusão</p>
<p style="text-align: justify;">Não levo fé nenhuma em nada!</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-154842" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/09/corpo.jpg" alt="" width="400" height="598" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/09/corpo.jpg 500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/09/corpo-201x300.jpg 201w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/09/corpo-281x420.jpg 281w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Volto às provocações do vídeo do Trump zoeiro dançando um <em>fake news</em> pra cá, <em>fake news</em> pra lá. Querer desmontar o Trump (e o Bolsonaro, e o Marçal, e o Orbán, e o Putin, e o Chega, e o….) só pelo lado conservador, pelo lado que mobiliza os setores que alimentam e se consomem por ídolos e instituições, pode ser como enxugar gelo. No campo dos ídolos e das instituições é capaz que, até aqui, as grandes transformações tenham sempre operado substituições. Como escreveu o jovem Marx, Martinho Lutero abalou a fé na autoridade (“o Papa é pop”!) porque restaurou a autoridade da fé, e assim uma devoção autêntica não cai com a queda de um príncipe, político, dirigente, guia genial ou pastor: “Deus detesta os ídolos” (<em>Salmos</em>, <em>Coríntios</em>, <em>Levítico</em>, <em>Êxodo</em> etc.); “O indivíduo tem dois olhos / O Partido tem mil olhos / O Partido vê sete Estados / O indivíduo vê uma cidade / O indivíduo tem sua hora / Mas o Partido tem muitas horas. / O indivíduo pode ser liquidado / Mas o Partido não pode ser liquidado…” (Brecht, no seu <em>Elogio ao Partido</em>).</p>
<p style="text-align: justify;">Para (não) variar, o cerne do problema é material, é esse mundo vale de lágrimas: “O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, em germe a crítica do vale de lágrimas de que a religião é a auréola.” (Marx, na <em>Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel</em>).</p>
<p style="text-align: justify;">O final de <em>Fé nenhuma</em> é como a cereja no bolo ideológico que reúne conservadores indignados e revoltados sem fé? Quem não vive de salário tem maiores predisposições para não crer em nada? São pessoas que vivem em uma parte VIP do vale de lágrimas, de onde assistem a tudo de camarote refrigerado com <em>all-inclusive</em>? Não perigam morrer de fome, nem de tédio.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica ao conservadorismo e à religiosidade é germinal de toda e qualquer crítica, mas ainda não é a crítica radical e muito menos a ação radical que pode fazer recuar e sumir essa gente toda que tomou o lugar do radicalismo revolucionário antes ocupado à esquerda do espectro político.</p>
<p style="text-align: justify;">Acusá-los de mentirosos e criminosos é mais que inócuo, pois uma parte de suas bases está tomada pela fé e mitologia em torno desses personagens, enquanto uma outra parte quer mais é gozar com a cara e o desespero dos adversários, para desestabilizá-los e tirá-los de cena, entendendo que, no fundo, ninguém vale nada, e mentira por mentira, é sempre melhor optar por aquela que atinge os inimigos. Como o filósofo fascista Julius Evola admitiu no pós-guerra, ainda que o texto dos <em>Protocolos dos Sábios do Sion</em> fosse mentiroso, “aquele escrito faz parte de um grupo de textos que de maneiras diversas (mais ou menos fantásticas e por vezes até fictícias) expressaram o sentimento de que a desordem dos tempos recentes não é acidental” (<em>apud</em> João Bernardo, <em>Labirintos do Fascismo</em>, p. 341 na edição de 2018).</p>
<p style="text-align: justify;">São muitas as “desordens” não acidentais que afetam a vida das maiorias trabalhadoras. A produtividade do trabalho cresce de modo exponencial, o número de trabalhadores aumenta em todos os cantos, e o tempo efetivamente utilizado ou disponível para o trabalho também aumenta.</p>
<p style="text-align: justify;">O salário é uma ilusão? Claro, a ilusão de ser pago pelo tempo disponibilizado e pelo empenho despendido.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma aposta quanto ao que não seria inócuo nessa quadra da história, na perspectiva dos que vivemos de salário, seria sermos mais “proativos” nessa evocação de fantasmas. De outros fantasmas, claro. Por exemplo, os países de capitalismo avançado têm necessidades crescentes de trabalhadores imigrantes, mas o fantasma reacionário da “grande substituição” não deverá mais meter tanto medo quando, de modo generalizado, pudermos avançar em uma cultura e em uma política de solidariedade nos locais de trabalho e nos ramos de atividade. Não deixar que as divisões entre cargos, funções, setores e regimes de contratação, como as divisões entre nacionalidades, sejam também divisões políticas, talvez seja o pior dos pesadelos para os capitalistas.</p>
<blockquote><p><em>As obras que ilustram o artigo são ilustrações de Gustave Doré (1832 – 1883) para o poema &#8220;O Corvo&#8221;, de Edgar Allan Poe.</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2024/09/154839/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>São Paulo é outra coisa</title>
		<link>https://passapalavra.info/2024/09/154632/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2024/09/154632/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Sep 2024 08:27:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=154632</guid>

					<description><![CDATA[Só não sei se nós que perseguimos a cidade, como na canção, ou se é o contrário. Mas que São Paulo é outra coisa, isso é. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=463zWvzwt0Q"><em>Persigo São Paulo</em></a> é uma canção enigmática. <a href="https://www.youtube.com/watch?v=be2n1tpJjf0">Itamar Assumpção</a> repete algumas vezes um verso intrigante: “São Paulo é outra coisa”. O bardo repete, também, o advérbio de negação não. A canção não diz exatamente o que é a cidade. Mas dá pistas: “Não é exatamente amor/ É identificação absoluta [&#8230;] São Paulo sou eu [&#8230;] Eu não me amo/ Mas me persigo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Também eu já escrevi sobre São Paulo (<a href="https://passapalavra.info/2021/01/135840/">aqui</a>, <a href="https://antiode.blogspot.com/search?q=lamento+paulistano">aqui</a>, <a href="https://antiode.blogspot.com/search?q=O+metr%C3%B4+n%C3%A3o+pode+parar.">aqui</a>, <a href="https://passapalavra.info/2023/05/148597/">aqui</a>). A certeza de que a cidade é outra coisa me acompanha, mas só consegui expressar minimamente essa outra coisa – se é que consegui – por aproximação e pela negativa. Como na canção, São Paulo não se ama (“Eu não me amo [&#8230;] São Paulo sou eu”). Como pode se amar uma cidade hipertrofiada que cresce passando por cima de si mesma? Uma boa definição sobre a outra coisa que é São Paulo foi registrada por Mário de Andrade no poema <em>Os cortejos</em> <strong>[1]</strong>: “Pauliceia – a grande boca de mil dentes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Estava caminhando pela Pauliceia quando fui convidado para participar do plantio de mudas e mutirão comunitário no <a href="https://www.instagram.com/parquedajoia/">Parque da Joia</a>, na zona Oeste de São Paulo. Essas coisas ainda acontecem na cidade. As pessoas se comunicam e se encontram. Conversar é revigorante. Trabalhar a terra idem. O Parque da Joia é uma área verde – com árvores frutíferas, campo de futebol, nascentes e uma simpática sede – que permite a comunicação e o encontro entre as pessoas e com a natureza. A comunidade cuida de tudo e luta para que a área seja oficialmente reconhecida como parque público.</p>
<p>Revolvendo o solo e conversando fui conhecendo a história do lugar. Abaixo da primeira camada de terra se encontra entulho, indicando que o parque nem sempre esteve ali. Foi quando me contaram que o local havia abrigado a Favela da Joia, que chegou a ter 260 famílias. Daí o entulho abaixo da primeira camada de terra. Trata-se de um aterro. “São Paulo é outra coisa” – pensei imediatamente. Os moradores da favela conquistaram moradias melhores e se mudaram em 1994, depois a natureza e a comunidade foram retrabalhando o local. Conversando soube, também, que as nascentes do Parque da Joia alimentam o rio da região, o Água Podre (Ypuera). Por ali se fez a libertação das nascentes, como já havia sido feito com as nascentes do Córrego Água Preta, na Praça Homero Silva, na Pompeia. Água Podre: que nome poético. Eu que vivi perto do <a href="https://passapalavra.info/2024/02/151793/">Água Preta</a> descobri que há um rio irmão com nome igualmente interessante. Por outro lado, Água Podre me remeteu a Itabira e à mineração. Um artigo de 1980 fala das águas de Itabira <strong>[2]</strong>: “Este câncer que atingiu a nossa cidade vai deixar três enormes crateras na superfície de suas terras, as águas podres e ácidas, o clima aleatório e fétido, e alguns milhares de indivíduos tentando reviver o que poderíamos chamar de <em>Prostituta do Capitalismo Selvagem</em>.” Itabira não é apenas uma foto na parede, como queria o poeta, é, também, outra coisa, como São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu já havia conhecido o Parque da Joia e iniciado esse texto quando tive acesso <strong>[3]</strong> a uma carta de Mário de Andrade <strong>[4]</strong> para Paulo Duarte datada de 05 de agosto de 1944. O modernista comenta sobre França, Portugal, Catalunha, Florença, Roma, Belém e São Paulo. Diz Mário: “São Paulo&#8230; Não São Paulo é outra coisa, não é amor exatamente, é identificação absoluta, sou eu. E eu não me amo. Mas me persigo. Bonita palavra ‘perseguir’ em tudo o que a sua etimologia sugere e confessa. Eu per-sigo São Paulo.” A enigmática canção interpretada por Itamar Assunção é um trecho da carta de Mário de Andrade para Paulo Duarte. Pensando bem. Faz sentido. É do poeta modernista a definição da Pauliceia como uma grande boca de mil dentes. Só não sei se nós que perseguimos a cidade, como na canção, ou se é o contrário. Mas que São Paulo é outra coisa, isso é.</p>
<p style="text-align: justify;">São Paulo é outra coisa também porque há espaços como o Parque da Joia. Com mutirões comunitários aos sábados, futebol aos domingos, saraus, festivais de arte e música, encontros diários e diversas possibilidades. Na antiga sede, utilizada para organizar o movimento de moradia, acontecem formações em permacultura, aulas de capoeira e ensaios musicais. A ideia é agregar outras atividades. Fica o convite para uma visita ao Parque da Joia, quem sabe uma caminhada pela mata, ao lado das nascentes. Porque São Paulo é outra coisa. A Pauliceia é uma grande boca de mil dentes que devora tudo, mas que, às vezes, sorri.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Mário de Andrade. <em>De Pauliceia desvairada a lira paulistana.</em> São Paulo: Martin Claret, 2016. p. 56.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Fernando Duarte Gonçalves.<em> Itabira, a prostituta do capitalismo selvagem</em>. Disponível em: <a href="http://www.viladeutopia.com.br/itabira-a-prostituta-do-capitalismo-selvagem/">http://www.viladeutopia.com.br/itabira-a-prostituta-do-capitalismo-selvagem/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Soube que a letra da canção <em>Persigo São Paulo </em>saiu de uma carta de Mário de Andrade por meio de uma de uma postagem da <a href="https://www.facebook.com/photo.php?fbid=806984954788332&amp;set=a.637665021720327&amp;type=3&amp;eid=ARAGIFgporU2GcwcptMz_8dxmPKH-lbyfQnXex61JvD1MWIgdqjY2nGooPrxktRT4zRvYSLwlTgn6apf">Casa Mário de Andrade</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4] </strong>Paulo Duarte. <em>Mário de Andrade por ele mesmo.</em> 2 ed. São Paulo: Hucitec, 1977. p. 278.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2024/09/154632/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
