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	<title>Outras_lutas &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (11)</title>
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					<comments>https://passapalavra.info/2026/08/159704/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Aug 2026 17:43:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[Para além da greve e da revolta, a comuna é uma tática que também é uma forma de vida. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 9</strong></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A revolta, o bloqueio, a barricada, a ocupação. A comuna. É isso que veremos nos próximos cinco, quinze, quarenta anos. A lista não é nova. Tornou-se uma espécie de senso comum entre alguns grupos que se identificam com o fim do programa. O objetivo aqui não é reiterar os itens, nem simplesmente explicar por que eles são mais prováveis de serem eficazes agora do que em algum momento anterior. Este é certamente o caso. O argumento deste livro, no entanto, não é que as lutas de circulação apontem a abordagem correta para “bloquear o capital” (ou como quer que alguns possam expressá-lo) de modo a subjugá-lo. A circulação é o valor em movimento rumo à realização; é também um regime de organização social dentro do capital, interligado com a produção em uma relação mutável cujo desequilíbrio se manifesta como crise. Tentamos estabelecer as bases teóricas e históricas para as “circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas do passado”, para explicar por que, nessas circunstâncias, novas lutas pela circulação são inevitáveis e como uma compreensão mais completa desse quadro conceitual e da história material pode mediar entre o que é e o que deveria ser. Isso exigirá lidar com os limites da onda mais recente de lutas, ao mesmo tempo em que se tenta extrair o núcleo prático, por assim dizer, a partir do qual as lutas futuras certamente florescerão.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>A Praça e a Aliança de Classes</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A <em>ágora</em> grega clássica é tanto um mercado quanto uma assembleia pública, um caráter duplo que persiste de forma cada vez mais fantasmagórica na primeira era das revoltas. O retorno da <em>revolta linha</em> à praça lembra as lutas do mercado da primeira era de revoltas, lembra as reivindicações sociais dessas lutas conduzidas por meio da economia. Não pode deixar de ser assim. Ao mesmo tempo, demonstra a impossibilidade de tal retorno.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando as diversas iterações do “movimento das praças” que orientaram a luta global em 2010-11 surgem na ágora, elas apresentam, em muitos aspectos, uma demonstração clara do argumento deste livro. Elas vão diretamente para o local exemplar de circulação. Sua base nas populações excedentes é manifesta. Pode-se considerar a precipitação da Primavera Árabe pela autoimolação de Mohamed Bouazizi, um dos tunisianos em ascensão empurrados para a economia informal e então sujeitos a assédio incessante pela polícia. Tal precipitação depende da natureza excepcional do episódio, seu paroxismo de empobrecimento. Mas depende simultaneamente da natureza paradigmática da situação de Bouazizi, como um entre muitos que se tornaram excedentes pelas transformações político-econômicas, não absorvíveis, sem futuro, lançados nos espaços públicos das cidades.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, a localização da <em>revolta linha</em> na praça moderna é um sinal de seu confinamento ao espaço da política. Esse é mais ou menos o problema transcendental de 2011. O capitalismo realizado repousa sobre a separação entre o político e o econômico, a autoridade do povo capaz de ser conceituada independentemente dos problemas supostamente tecnocráticos da criação e distribuição de recursos. Essa separação é expressa na distância entre nossas principais riotologias, encontradas anteriormente: por um lado, a política da ideia de Badiou e, por outro, o economismo mecânico do New England Complex Systems Institute e outros. A população da <em>revolta linha</em>, podemos agora reconhecer, alcança uma ordem histórica não por meio de uma ideia compartilhada, nem pelas flutuações mortais dos preços dos alimentos, mas correspondendo a uma unidade político-econômica subjacente, uma reorganização material da sociedade, que lhes proporciona um conjunto compartilhado de problemas e uma arena compartilhada na qual enfrentá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">As armadilhas da política são muitas. A necessidade de repressão violenta e a indignação que a acompanha para expandir os acampamentos Occupy é paralela à sua orientação mais ampla em relação ao Estado e suas instituições. Outra armadilha é vista na longa revolta da crise grega: seu <em>antikristos</em> de antagonistas e policiais, incessante desde 2008, precede e fundamenta o acampamento na Praça Syntagma, em Atenas, e os ataques repetitivos ao prédio do Parlamento. Provavelmente, o exemplo mais angustiante da armadilha política é a descoberta de que os aparentes golpes públicos da Primavera Árabe dão origem a revoluções formalistas de fatal incompletude. <em>O povo quer a queda do regime</em>. “Mas esse antagonismo é, na verdade, interminável, circular”, como alguns observaram. “Nada pode tornar essa circularidade mais clara do que a saída de Mohamed Morsi, 30 meses após a queda de Hosni Mubarak, um ano e uma semana após sua própria eleição. Acontece que <em>não foi</em> a queda do regime que o povo queria, não era a democracia em algum sentido abstrato” <strong>[1]</strong>. Apesar dos projetos de reabilitação empreendidos por vários filósofos, a democracia continua sendo o contrário da absolutização. “Se começamos com o Estado, terminamos com o Estado”, observa Kristin Ross, argumentando que narrar o nascimento da Comuna de Paris como um confronto entre uma população e seu governo é limitar nossa compreensão do evento a uma disputa pelo controle de um Estado que continua sendo o Estado <strong>[2]</strong>. este é o limite tanto para a teoria quanto para a prática, principalmente para nossa compreensão de todas as maneiras pelas quais o Estado moderno evolui a partir das estruturas do capital e delas depende.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159708" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E.jpg" alt="" width="1960" height="1304" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E.jpg 1960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-1024x681.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-768x511.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-1536x1022.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-681x453.jpg 681w" sizes="(max-width: 1960px) 100vw, 1960px" />Esse anseio democrático sem sentido não estará mais presente em nenhum outro lugar do que nos Estados Unidos, onde a deliberação se torna um fim em si mesma. Os objetivos práticos do Occupy Wall Street (OWS) são rapidamente colocados entre parênteses. Originalmente, ele declara sua intenção (de forma um tanto implausível) de bloquear a bolsa de valores, de interromper o movimento virtualizado do próprio capital financeiro. Empurrado rapidamente para a praça que o tornaria famoso, cercado por barricadas e pela polícia, ele flui periodicamente para as ruas ou para a ponte do Brooklyn. Seu outro objetivo declarado é desenvolver uma única demanda contra a oligarquia financeira, entendida como responsável pela crise financeira, e contra as políticas de austeridade implementadas em resposta a ela. Torna-se claro rapidamente, ainda que tacitamente, que qualquer demanda específica fragmentaria o frágil agrupamento. E assim o acampamento se torna “sua própria demanda”, ao mesmo tempo um apelo pelo reconhecimento da miséria vivida pela austeridade e uma prefiguração imaginária da autogestão futura. É revelador que a inovação mais famosa do OWS seja o “microfone humano”, uma forma de comunicação.</p>
<p style="text-align: justify;">O Occupy Oakland compartilhará semelhanças genéricas com o OWS e não faltará deliberação. Suas diferenças serão mais reveladoras. O mais militante dos acampamentos, ele encarna a ideia de revolta como modalidade, não apenas porque regularmente salta para as ruas da cidade e entra em revolta aberta. Entendido de acordo com a intensa condensação de riqueza, gentrificação e crescente desigualdades peculiares (mas não exclusivas) Oakland e à área da baía, a destruição regular de propriedades pelo Occupy Oakland é uma espécie de fixação de preços: uma tentativa de reduzir os valores imobiliários em alta, minando os padrões burgueses de habitabilidade. Ao mesmo tempo, isso afeta diretamente a economia. Por duas vezes, os ocupantes fecharam o vasto Porto de Oakland (ambas as vezes em uma colaboração incômoda com o sindicato dos estivadores e armazéns), uma vez dentro de uma tentativa de greve geral — a primeira nos Estados Unidos desde 1946. Junto com essas lutas clássicas de circulação, não é surpresa que o Occupy Oakland tenha se concentrado em uma cozinha comunitária, sinalizando a centralidade da população excedente para o acampamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de seu papel na rede nacional de acampamentos no outono de 2011, a formação do Occupy Oakland deve ser igualmente registrada à luz de outras histórias. Uma delas é a “dupla revolta”, um lugar-comum mal reconhecido a nível sistêmico. Na França, os distúrbios de 2005 espalharam-se de banlieue em banlieue, particularmente aquelas com populações fortemente informalizadas e imigrantes, após as mortes de Zyed Benna e Bouna Traoré enquanto fugiam da polícia; em 2006, os chamados distúrbios CPE responderam às tentativas de reestruturar os mercados de trabalho juvenis e caracterizaram-se por ocupações universitárias. O padrão se repete no Reino Unido em ordem inversa: primeiro as lutas estudantis de 2010, incluindo ocupações de universidades e a invasão da sede do Partido Conservador; depois os distúrbios de Tottenham em 2011, após o assassinato de Mark Duggan. Em Oakland, as revoltas no início de 2009 seguem o assassinato de Oscar Grant pela polícia; 2009-2010 vê uma série de ocupações universitárias atraindo repressão militarizada em toda a Califórnia (e no país), mas centrada na vizinha Berkeley.</p>
<p style="text-align: justify;">A forma da duplo revolta é bastante clara. Uma revolta surge quando os jovens descobrem que os caminhos que antes prometiam uma integração formal minimamente segura na economia agora estão fechados. A outra revolta surge das populações excedentes racializadas e da gestão violenta do Estado sobre elas. Os detentores de promissórias vazias e os detentores de nada. Quando essa dupla contemporânea é reconhecida, os dois lados são considerados opostos, a abjeção de um traindo o privilégio relativo do outro. Isso é, em si, uma compreensão unilateral da crise e de suas populações, dos modos e temporalidades através dos quais a exclusão se desenrola. A tarefa não é descobrir novas categorias sociológicas que possam substituir as classificações obsoletas de uma era anterior, substituindo um conjunto reificado de atores por outro. Em vez disso, é trazer à tona o movimento real dentro do qual essas categorias sociais se desenvolvem, mudam, se elaboram internamente e em relação a outras forças sociais. O acampamento de Oakland, que se autodenominou brevemente Comuna de Oakland, pode ser entendido como uma tentativa impossível de sintetizar os dois grupos constituintes da dupla revolta — e como um exemplo vivo do terreno de luta cada vez mais compartilhado por essas populações, seu movimento inacabado em direção umas às outras.</p>
<p style="text-align: justify;">A composição do acampamento era sua força e sua fraqueza: a base de sua militância e os termos de sua aliança de classe insustentável entre os excluídos e os marginalizados. A composição do acampamento captura “uma contradição central embutida nas manifestações contemporâneas da cidade de tendas… entre a abjeção do campo de refugiados e o ativismo do campo político”, como Sasha X denomina as questões <strong>[3]</strong>. Essa descrição, no entanto, ignora a subsunção contínua do “campo político” dentro das condições político-econômicas. Seria igualmente preciso descrever o Occupy Oakland como um exemplo de proletarização incompleta. No momento, ainda não é possível unificar a dupla revolta em um único acampamento. Isso se manifesta mais claramente na contradição entre ideologia e prática. O discurso dominante do Occupy — “somos os 99%” e, portanto, merecedores de uma parcela equivalente da riqueza social e do poder de classe — é incapaz de representar aqueles cujas vidas já estão além das promessas de melhorias institucionais e políticas redistributivas. Há pouco reconhecimento nessa formulação da relação material entre o movimento Occupy e o planeta das favelas, mesmo que esse planeta apresente cada vez mais lugares como Oakland. Ao mesmo tempo, porém, as formas de luta de Oakland (revolta, greve geral, paralisação do porto) se comportam mais claramente com a política das populações excedentes, uma política sem programa.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal política, tendendo à absolutização, não ficaria sem oposição. Aqueles que ainda eram capazes de projetar, a partir de sua circunstância social, uma imagem de redistribuição e restauração de algum momento anterior de equilíbrio social (ssempre lembrando o período do Longo Crescimento e um keynesianismo nostálgico) muitas vezes estavam dispostos a impor essa visão por meio da colaboração passiva e ativa com a polícia. Isso se provaria uma obstrução igual à própria polícia.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo, o acampamento era singular. Certamente se destacava no mapa nacional de acampamentos do Occupy: todos black blocs e com más intenções, partes deles envolvidos em uma política qualitativamente diferente, enfrentando o Estado de austeridade como antagonista, em vez de parceiro traído, uma Sociedade de Inimigos para quem lutar contra a polícia era menos um objetivo do que uma inevitabilidade de posição. É mais contínuo com uma narrativa internacional, um fio condutor que se estende desde as revoltas nas periferias até todas as festas de gás lacrimogêneo do futuro. A aliança contínua ou indistinguibilidade entre acampamentos de população excedente e outros agregados políticos que não podem ser apropriados para uma parceria com o Estado é uma característica básica das <em>revolta linha</em> — e que certamente se expandirá e se intensificará à medida que continua a se transformar, juntamente com o aumento da produção da não produção e da volatilidade política global.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>A Rua e a Divisão</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A lógica das lutas de circulação não viu exemplo mais espetacular do que o de 24 a 25 de novembro de 2014, quando a revolta se espalhou de cidade em cidade a partir de um subúrbio de St. Louis, após um momento de violência intolerável, de gestão fatal de populações racializadas, começando da maneira como as revoltas começam na era da r<em>evolta linha</em>, não do nada, mas de todos os lugares. O local dessa revolta é a rua, a rua onde Michael Brown foi assassinado, a rua onde as pessoas se reuniram para aguardar a notícia de que seu assassino não seria indiciado, a rua onde as pessoas se encontraram depois. A rua onde a violência contra a polícia abriu espaço para a pilhagem de estabelecimentos comerciais e permitiu a evasão para outros alvos. E, eventualmente, as rodovias, em escala continental, fechando cruzamentos após cruzamentos em todo o Sistema Rodoviário Interestadual, a paisagem construída da circulação, outrora o maior projeto de obras públicas conhecido na história. E, no entanto, isso não deve ser reduzido a espetáculo, a representação. O bloqueio do tráfego, a interrupção da circulação como um projeto imediato e concreto, não registrou nada além do desejo insaciável de <em>fazer tudo parar</em>. As rodovias e vias públicas eram o que havia de mais próximo <em>disso tudo</em>, da totalização anti-humana e da reificação do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159706" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1.jpg" alt="" width="1200" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-768x1024.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-1152x1536.jpg 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-640x853.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-681x908.jpg 681w" sizes="(max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />As cenas semelhantes em todo o país transmitem uma sensação estranha de coordenação, de organização sem organização. Os distúrbios seriam levados à expansão nacional não apenas pela impunidade do policial, mas por uma série de assassinatos em todo o país, policial contra pessoa, elos de uma cadeia sem fim. Ainda mais notável e sugestivo do que o salto espacial desses distúrbios, porém, é sua duração inicial. É nisso que reside a verdadeira novidade de Ferguson.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois que Michael Brown foi morto a tiros por Darren Wilson, as revoltas locais começaram quase imediatamente e duraram mais de duas semanas. A medição de revoltas é uma ciência inexata; no entanto, essa sequência parece ter durado mais do que qualquer uma dos casos semelhantes já discutidos, de Detroit, Newark e Chicago até o presente. Qualquer pessoa que já tenha estado em Ferguson reconhecerá o quão extraordinário é esse fato. Uma pequena cidade incorporada ao norte de St. Louis, sua população é de cerca de 20.000 habitantes, abaixo do pico de 30.000 em torno de 1970, antes da desindustrialização. Não há coisas para queimar que durem duas semanas. Não há praça para ser ocupada, mas a cumplicidade entre a rua e a praça persiste. Na área comercial da West Florissant Avenue, epicentro da revolta, as pessoas incendiaram o mercado QuikTrip e usaram o terreno como sua praça até que ele foi isolado pelo Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">A transformação racial da cidade tem sido impressionante, mesmo seguindo um curso cada vez mais comum, passando de cerca de três quartos de brancos e um quarto de negros em 1990 para quase o inverso em 2010. A estrutura tradicional dos Estados Unidos de fuga dos brancos, que outrora transformou os centros das cidades em áreas de concentração da população excedente, sofreu uma mutação para se assemelhar ao modelo europeu e global de banlieues e bidonvilles, que reúnem as populações excedentes em anéis ao redor das cidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Phil A. Neel oferece uma explicação clara de como essas mudanças demográficas e a geografia da paisagem atenuada fornecem os termos para a “revolta suburbana”, cujo locus classicus está na revolta descentralizada e sem demandas de Los Angeles em 1992 <strong>[4]</strong>. Neel localiza uma coordenada adicional para explicar a dificuldade de conter a revolta: a ausência de uma classe mediadora de líderes negros dedicados à ordem em nome da comunidade. Esta é uma expressão reveladora do que é, na verdade, uma mudança estrutural muito maior.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma convenção quase universal das <em>revoltas linha</em>, das rebeliões e dos revoltas que, pouco depois de eclodirem e obterem uma vitória substancial ou aparente, se dividem em dois impulsos. Estes são, por vezes, abertamente antagónicos, outras vezes sobrepostos e coniventes. O primeiro impulso é em direção a uma espécie de populismo, uma tentativa de aumentar as fileiras mobilizando a simpatia do público, usando a seu favor a cobertura da mídia e outros aparatos discursivos. Ele é inevitavelmente atraído para alguma versão da política da respeitabilidade e, em geral, para a persuasão moral da desobediência civil passiva e da não violência em geral. Ele pretende desenvolver uma força política, influenciar a opinião pública, obter concessões. Eventualmente, será atraída sem falha para a arena eleitoral, subordinada como plataforma ou bancada da política partidária. Se essa fração política for chamada desde o início a justificar a desordem da revolta, ela assume a afirmação de Martin Luther King Jr. de que “uma revolta é a linguagem dos que não são ouvidos”. Isso tem um apelo imediato; seria difícil não ouvir em qualquer revolta o lamento dos empobrecidos. No entanto, isso apresenta uma sintomatologia pouco examinada, pressupondo que o grito incipiente da revolta deve, na verdade, ter algum significado ainda indecifrável além de si mesmo e, além disso, que essa criação de significado é seu aspecto principal — os outros aspectos infelizes que se vêem no noticiário são negados no apelo humanista universal para reconhecer o sofrimento do outro e até mesmo perdoar os excessos em sua expressão. Dentro dessa compreensão, mesmo a revolta sem demandas é transcodificada para <em>ser ela própria uma demanda</em>, algo que poderia ser satisfeito pela ordem atual se pudesse ser compreendido. A negociação se torna uma verdade transhistórica.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo impulso encontra na revolta algo além ou antes da comunicação. Ela se volta menos para a política e mais para os aspectos práticos, voltando-se para o material, tanto no sentido baixo quanto no alto. Esses aspectos práticos podem incluir saques, controle do espaço, erosão do poder da polícia, tornar uma área hostil a intrusos e destruir propriedades entendidas como constituindo a exclusão dos manifestantes do mundo que eles veem sempre diante de si e no qual não podem entrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa divisão é tão antiga quanto a própria revolta e não é clara. Há aspectos práticos nos atos discursivos e, inversamente, a janela quebrada ou a loja incendiada são inevitavelmente uma forma de comunicação. No entanto, a divisão é evidente, vivida socialmente pelos participantes e repetida em grande parte sem falhas. Isso também se provaria em Ferguson, onde cada noite de tumultos apresentava tanto marchas pacíficas que seguiam em grande parte as prescrições da polícia quanto ações menos ordeiras que incluíam incêndios criminosos e tiros contra policiais. Embora as facções tenham trabalhado em colaboração durante os primeiros dias, ou talvez ainda não estivessem totalmente formadas, elas passaram a estar cada vez mais em desacordo, especialmente depois que um grande número de clérigos nacionais chegou a Ferguson para amplificar o que consideravam ser as lições do Dr. King.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas é aqui que uma mudança histórica surge à vista, uma mudança de importância primordial. Desde o movimento pelos direitos civis (e antes dele, a “primeira geração” do movimento feminista), o lado das estruturas legais, da persuasão moral e da política da respeitabilidade efetivamente hegemonizou o debate rapidamente após cada revolta. Isso aconteceu em grande parte porque essa abordagem podia oferecer ganhos reais, ainda que limitados. Tais resultados já não parecem plausíveis. O sucesso da estratégia discursiva baseava-se em um certo grau de riqueza social, mercados de trabalho em equilíbrio e uma continuidade do lucro digna de ser preservada, mesmo que isso significasse sacrifícios relativos para o capital.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159705" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1696" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-1024x678.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-768x509.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-1536x1017.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-2048x1356.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-634x420.jpg 634w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-640x424.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-681x451.jpg 681w" sizes="(max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Talvez se possa imaginar exigências no presente que, se atendidas, alterariam substancialmente as circunstâncias dos excluídos. Mas o aumento do número de excluídos é o mesmo fato que a incapacidade de atender a tais exigências — as duas faces da crise. Assim como os EUA não podem mais proporcionar acumulação em nível global e, portanto, devem ordenar o sistema mundial por coerção em vez de consentimento, o Estado não pode mais oferecer o tipo de concessões conquistadas pelo movimento pelos direitos civis, não pode mais comprar a paz social. É tudo bastão e nenhuma cenoura. A revolta em Baltimore após o assassinato de Freddie Gray em 2015, cuja duração e intensidade foram enfrentadas pela Guarda Nacional e um estado de emergência de nove dias, apenas confirmam essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">Por causa disso, a divisão não pode mais ser facilmente superada. O prolongamento das revoltas e de sua fúria é, sem dúvida, uma medida das pressões sociais que se acumulam em torno do policiamento racializado e da violência imanente aplicada à gestão das populações excedentes em geral. É também uma medida do apelo cada vez menor da moderação e da conformidade otimista. Essa abordagem ainda mantém algum carisma, como atesta a institucionalização em curso das revoltas de Ferguson e Baltimore dentro da contenção das ONG&#8217;s. Ao mesmo tempo, o argumento de que a violência e a subordinação sem fim são estruturais e não podem ser resolvidas nem prática nem teoricamente por meio da participação redistributiva torna-se cada vez mais difícil de refutar.</p>
<p style="text-align: justify;">A menos que ocorram mudanças imprevisíveis na organização social subjacente, a divisão se tornará mais ampla e permanecerá aberta por mais tempo. É assim que a tendência à absolutização se manifesta em nível prático. Se entendermos cada caso semelhante como uma divisão de duração crescente, o número de divisões abertas em um determinado momento também aumentará. É previsível que uma série em cascata delas — inicialmente, mas não exclusivamente, orientadas por lutas racializadas — consiga preservar suas próprias existências enquanto atrai outras lutas para aproveitar sua principal chance contra uma desordem crescente, uma desordem que agora parece pertencer não à revolta, mas ao Estado, ao que antes era uma ordem violenta. Contra essa grande desordem, uma auto-organização necessária, a sobrevivência em uma chave diferente. Não é preciso pensar que isso é provável para considerá-lo mais provável do que um programa socialista renovado, mesmo que com novos adornos para uma economia supostamente nova.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Comuna e Catástrofe</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Se a praça e a rua têm sido os dois locais principais das <em>revoltas linha</em>, ambos se abrem para a comuna. A comuna, no entanto, não é um lugar nesse sentido, não é uma “aglomeração territorial”, como Kropotkin expressou <strong>[5]</strong>. Sua história tem sido a de escapar dessa designação, mesmo quando casos específicos assumem os nomes de seus locais. Pode-se dizer que é, em vez disso, uma relação social, uma forma política, um evento. Ela tem sido chamada de todas essas coisas. Também sugerimos que é uma tática, compreensível dentro do desenvolvimento do repertório de ação coletiva de Tilly neste livro. Isso pode parecer uma conclusão curiosa para um empreendimento tão sustentado e elaborado como a comuna. Uma última digressão, então, para dar sentido a tal afirmação e reuni-la em algo completamente diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Bruno Bosteels, ao deslocar a comuna da exemplaridade abrangente de Paris, fornece uma visão fundamental. Em seu estudo sobre o que o historiador Adolfo Gilly chamou de Comuna de Morelos (que atingiu seu auge em 1914-15), ele admite:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">No nível das formas organizacionais aparentes, o anarquismo é acusado de favorecer revoltas e ataques espontâneos como parte de sua ideologia de ação direta, à qual apenas uma consciência de classe socialista, voltada para a tomada do poder estatal, é capaz de emprestar a organização necessária para um movimento político duradouro <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa antinomia, com sua conjunção já ideológica entre identificação política e formas de ação, é precisamente o que a comuna dissolve: “No entanto, há uma forma política na qual anarquistas e socialistas — mesmo no México — parecem capazes de encontrar um terreno comum: a forma da comuna” <strong>[7]</strong>. Essa multiplicidade da comuna é observada por Marx em relação a Paris, da qual ele extrai uma lição mais unívoca:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Seu verdadeiro segredo era este. Era essencialmente um governo da classe trabalhadora, produto da luta da classe produtora contra a classe apropriadora, a forma política finalmente descoberta sob a qual se poderia trabalhar a emancipação econômica do trabalho <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa conclusão é ambígua se tomarmos Morelos como um estudo de caso em contraposição a Paris, dada sua continuidade provisória de camponeses e trabalhadores, reforma agrária ao lado de lutas anticapitalistas nas usinas de açúcar em rápida industrialização (uma ambiguidade que Bosteels estende por toda a história subterrânea da “Comuna Mexicana”, passando pela revolta zapatista de 1994 e pela Comuna de Oaxaca de 2006). Ou seja, a partir dessa perspectiva, não parece nada claro que o segredo composicional da comuna seja um “governo da classe trabalhadora” singular, mas sim a comunalidade de várias frações sociais.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159709" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139.webp" alt="" width="1300" height="867" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139.webp 1300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-1024x683.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1300px) 100vw, 1300px" />E é exatamente esse o ponto. Dentro das transformações do presente, a forma da comuna é impensável sem a modulação da classe trabalhadora tradicional para um proletariado expandido. Ou seja, ela não é orientada por trabalhadores produtivos, mas sim pela população heterogênea daqueles que não têm reservas. Assim como a revolta, a comuna pode contar com trabalhadores, mas não necessariamente como trabalhadores. Ross argumenta que a comuna é definida, em parte, pela plenitude de sua relação.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que a comuna, como meio político e social, oferecia que a fábrica não oferecia era um escopo social mais amplo — que incluía mulheres, crianças, camponeses, idosos e desempregados. Ela compreendia não apenas o reino da produção, mas tanto a produção quanto o consumo <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">À primeira vista, essa é uma afirmação curiosa, pois é o próprio capitalismo que se baseia nos circuitos interligados de produção e consumo, uma combinação que nos proporcionou as duas formas originais da luta moderna: greve e revolta, fixação de salários e preços. A implicação deve ser que a comuna oferece produção e consumo de necessidades (e de prazeres! — “luxos comunitários”, como diz Ross) além das medidas do capital. Ou seja, além do salário e do preço. Assim é, em teoria. O comunismo no presente, que não pode mais ser confundido com o comando dos trabalhadores sobre a produção e a distribuição no modo socialista, é a quebra do índice entre o trabalho de cada um e seu acesso às necessidades — as atividades sociais gêmeas reguladas pelos salários e preços, respectivamente. Ele pode preservar a produção e o consumo em um sentido geral. Mas elimina as mediações que ligam a produção ao consumo. Só então as compulsões de valor que organizam as relações sociais são quebradas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, escondido nas sombras projetadas pela luz abstrata do ideal, há igualmente um sentido prático e concreto desse reconhecimento de que a comuna está além da produção e do consumo capitalistas. Se nos voltamos no último momento para as histórias materiais, é porque não temos outro ponto de partida. Nem a Comuna de Paris nem a de Morelos podem ser compreendidas independentemente das catástrofes sociais — as revoltas — que as precederam <strong>[10]</strong>. A comuna aparece além do salário e do preço porque essas lutas deixam de ser possíveis em qualquer sentido prático, porque a reprodução humana naquele momento não se encontra nem no local de trabalho nem no mercado. Na medida em que a comuna é uma abertura histórica, ela é também uma exclusão, e essa exclusão é inseparável de sua existência operacional. Como Marx nos lembra, “A grande medida social da Comuna foi sua própria existência operacional” <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A comuna, então, tem uma continuidade com a revolta. Ela pressupõe a impossibilidade da fixação de salários como meio de garantir qualquer tipo de emancipação. É provável que seja inaugurada, como muitas lutas na primeira era das revoltas, por aqueles para quem a questão da reprodução além do salário há muito se coloca — aqueles que foram socialmente forjados como portadores dessa crise. “As mulheres foram as primeiras a agir”, lembra-nos Lissagaray sobre a Comuna de Paris, “endurecidas pelo cerco — elas tiveram uma dose dupla de miséria” <strong>[12]</strong>. Esse cerco que é o gênero nunca terminou.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a comuna também rompe com a base da revolta na fixação de preços, porque o abastecimento para a subsistência não se encontra mais nessa ação. Está além da greve e da revolta. Em tal situação, a comuna surge não como um “evento”, mas como uma tática de reprodução social. É fundamental entender a comuna primeiro como uma tática, como <em>uma prática à qual a teoria é adequada</em>. Para além da greve e da revolta, o que distingue os problemas e possibilidades da reprodução daqueles da produção e do consumo é o seguinte: a comuna é uma tática que também é uma forma de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">As comunas que estão por vir se desenvolverão onde as lutas pela produção e circulação se esgotaram. É provável que as comunas que estão por vir surjam primeiro não em cidades muradas ou em comunidades de retiro, mas em cidades abertas, onde aqueles excluídos da economia formal e deixados à deriva na circulação agora observam o fracasso do mercado em suprir suas necessidades. O <em>glacis</em> ao redor da Muralha de Thiers é agora o <em>Boulevard Periphérique</em>; a população excedente se reúne agora nas rodovias ao redor de Lima, Dhaka e Dar es Salaam. Mas não apenas lá.</p>
<p style="text-align: justify;">As coisas se desintegram, o centro e a periferia não se sustentam. Girando e girando na noite, somos consumidos pelo fogo. Talvez a Longa Crise do capital possa se reverter; é uma aposta perigosa para ambos os lados. Dentro da persistência da crise, no entanto, a reprodução do capital através do circuito de produção e circulação — salário e mercado — parece cada vez mais não como uma possibilidade, mas como um limite para a reprodução proletária. Um circuito morto e em chamas. Aqui, a revolta retorna tarde e aparece cedo, tanto em excesso quanto em falta. A comuna nada mais é do que o nome para a tentativa de superar esse limite, uma catástrofe peculiar ainda por vir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Research and Destroy, “The Wreck of the Plaza” (A destruição da praça), 14 de junho de 2014, researchanddestroy.wordpress.com. Este artigo foi publicado anteriormente com o título sugestivo “Plaza-Riot-Commune” (Praça-Revolta-Comuna).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Kristin Ross, <em>Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune</em>, Verso: Londres, 2015, 14.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Sasha X, “Occupy Nothing: Utopia, History, and the Common Abject,” <em>Mediations</em>, 28: 1, outono de 2014, 62.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Phil A. Neel, “New Ghettos Burning”, 17 de agosto de 2014, ultracom.org.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Ross, <em>Communal Luxury</em>, 123-4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Bruno Bosteels, “The Mexican Commune,” in <em>Communism in the Twenty-First Century</em>, vol. 2, ed. Shannon Brincat, Santa Barbara: Praeger, 2014, 168.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Ibid.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Karl Marx e V. I. Lenin, <em>The Civil War in France: The Paris Commune</em>, New York: International Publishers, 1968, 60.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ross, <em>Communal Luxury</em>, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Para uma análise das condições político-econômicas de Morelos antes da Comuna, see Paul Hart, <em>Bitter Harvest: The Social Transformation of Morelos, Mexico, and the Origins of the Zapatista Revolution, 1840-1910</em>, Albuquerque: University of New Mexico, 2005, 149, 191-2.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Marx, <em>The Civil War</em>, 65.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Prosper-Olivier Lissagaray, <em>History of the Paris Commune of 1871</em>, trad. Eleanor Marx Aveling, London: Verso, 2012, 65.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>Ilustram este artigo fotografias de levantes recentes: do Occupy Wall Street à Primavera Árabe; do estallido chileno às jornadas de Junho de 2013 no Brasil e ao levante zapatista em Chiapas, no México.</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (9)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Aug 2026 19:54:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[A mudança nas formas de ação coletiva é uma habilidade dialética. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 3: REVOLTA LINHA</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 7</strong></h5>
<h6 style="text-align: justify;"><strong>A Longa Crise</strong></h6>
<p style="text-align: justify;">A revolta e a crise chegam juntas, cada uma anunciando a outra. A nova era de revoltas surge não apenas com a intensificação das rebeliões urbanas e suburbanas, mas também com o eclipse dos movimentos operários, as linhas de tendência das revoltas e greves primeiro se cruzando e depois divergindo, em sincronia com o auge e o declínio do “longo século XX” da hegemonia americana. O que a crise tem a ver com as revoltas, além dessa coincidência e de uma sensação ansiosa e difusa de que as coisas estão desmoronando?</p>
<p style="text-align: justify;">A profunda relação entre revoltas e crises é o tema do restante deste livro, principalmente por causa de nosso argumento central: <em>a crise sinaliza uma mudança do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e as revoltas devem ser entendidas, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a luta pela fixação de preços e a rebelião do excedente são formas distintas, embora relacionadas</em>. Nos capítulos anteriores, isso foi aventado de forma fragmentada e agora merece um desdobramento sistemático. Isso é particularmente necessário, dado que a crise aparece na maioria das vezes como um evento pontual, mesmo que expresse um processo subjacente e contínuo no qual o capital encontra seus limites internos e luta violentamente para superá-los. A crise é o ponto de exclamação de uma profunda reorganização social. As revoltas expressam essa organização social alterada, dirigem-se a ela e procuram aboli-la e, assim, a si próprias.</p>
<p style="text-align: justify;">A Longa Recessão, para usar a linguagem de Brenner, é semelhante a declínios anteriores. Este livro argumenta, no entanto, que as últimas quatro décadas podem ser entendidas de forma um pouco diferente, como uma Longa Crise. O período atual distingue-se de passagens semelhantes em ciclos anteriores na medida em que as recuperações do tipo visto anteriormente permanecem invisíveis do nosso ponto de vista. Historicamente, o capital resolveu sua contradição em desenvolvimento realocando-se para outro lugar, buscando uma circunstância em que a produção ainda não tivesse se prejudicado e o processo de acumulação pudesse recomeçar em uma base nova e ampliada. Isso tem o efeito de restabilizar o sistema mundial capitalista volatilizado pela crise secular. Não está claro se isso aconteceu ou está em andamento nos anos desde a recessão econômica global do final dos anos 1960 e início dos anos 1970. As tentativas de uma nova hegemonia pelas economias do Leste Asiático e da zona do euro fracassaram no caminho; as “economias emergentes” parecem já estar muito avançadas em sua produtividade para impulsionar a acumulação em escala global, internalizando massas de nova mão de obra na indústria ou na categoria mais ampla da manufatura <strong>[1]</strong>. O mal-estar planetário persiste, e com ele a volatilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não significa que as realocações e restaurações da acumulação de capital sejam impossíveis. Só por sua conta e risco se faz afirmações contundentes sobre um período histórico enquanto ainda se vive nele. Portanto, essas observações devem ser um tanto provisórias, uma tentativa de desenvolver um relato razoavelmente unificado da época. Há, pelo menos, algum consenso sobre por onde começar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159614" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935.jpg" alt="" width="653" height="881" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935.jpg 653w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-222x300.jpg 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-311x420.jpg 311w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-640x863.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 653px) 100vw, 653px" />“E quanto a 1973-1974, então?”, questionou Fernand Braudel, grande historiador da <em>longue durée</em>. O ano de 1973 vê o primeiro de uma série de choques do petróleo, a retirada formal dos EUA de sua aventura no Sudeste Asiático e o colapso final do sistema monetário de Bretton Woods, preparando o terreno para o aumento dos desequilíbrios comerciais e da conta corrente; concomitantemente, há uma desaceleração global dos mercados. Este é apenas o começo do história. “Trata-se de uma crise conjuntural de curto prazo, como a maioria dos economistas parecem pensar assim? Ou tivemos o privilégio raro e nada invejável de ver com nossos próprios olhos o início da virada do século?” <strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As perguntas são retóricas. Braudel está avaliando os “ciclos seculares”, os períodos econômicos mais longos — o que Arrighi esclareceria como ciclos de acumulação liderados por um Estado capaz de impulsionar a expansão material de uma economia mundial, sobre a qual a nação líder alcança hegemonia na medida em que seus ganhos fazem parte dos lucros sistêmicos (e na medida em que é capaz de garantir estabilidade ao sistema interestadual). Ambos os escritores remontam aos impérios comerciais protocapitalistas para uma consideração de quatro ciclos cada vez maiores e mais rápidos, mas com padrões semelhantes. Para Braudel, um ciclo começa quando outro termina, à maneira dos reinados monárquicos. Na versão revisada de Arrighi, eles se sobrepõem, com uma hegemonia entrando em sua fase crepuscular de financeirização, descendo para a escuridão com crédito prolongado, mesmo enquanto financia a aceleração de uma hegemonia emergente em direção à decolagem industrial.</p>
<p style="text-align: justify;">Inevitavelmente, “1973” é uma metonímia para mudanças demasiado amplas para serem contidas num único ano. No entanto, esta datação do “ponto em que a tendência secular começa a entrar em declínio, ou seja, o momento da crise” tornou-se um assunto de amplo consenso entre historiadores e teóricos da <em>longue durée</em>, apesar de diferenças relativamente pequenas <strong>[3]</strong>. Já encontramos o fato mais dramático, da perspectiva da acumulação e da hegemonia: o colapso secular da lucratividade e do crescimento, liderado pelo declínio da indústria manufatureira dos EUA, de tal forma que os melhores anos da recessão são piores do que os melhores anos do <em>boom</em> (com apenas uma ou duas pequenas exceções). Podemos, portanto, datar a ascensão cíclica das finanças a partir desse momento, embora não porque as finanças tenham “expulsado” o capital industrial — um modelo conceitual que abre caminho para a ideia catastrófica de capitalismo bom e ruim, ou capitalismo saudável e doentio. O capital é um espaço unitário de fluxos que buscam oportunidades de investimento que retornem a taxa média de lucro. Quando essa exigência não pode mais ser satisfeita por um setor industrial em crescimento, os lucros são armazenados em refúgios seguros ou reinvestidos em outros lugares em empreendimentos comerciais e/ou instrumentos financeiros. Financeirização é simplesmente o nome dado a essa mudança nos fluxos de capital. Quando observamos a publicação da obra mais célebre da engenharia financeira, o modelo de precificação de opções de Black-Scholes, ou a abertura do primeiro grande mercado de derivativos, a Chicago Board Options Exchange, ambos em 1973, devemos ter claro que essas não são novas armas que permitem às forças financeiras derrubar as paredes da indústria. Elas são consequências da necessidade do capital de espaço para ir além do setor industrial.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>O Arco da Acumulação</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A teoria da crise aborda a questão de por que a expansão industrial deve terminar e dar lugar às longas especulações financeiras em um grande redirecionamento dos fluxos de capital pontuado por uma desvalorização maciça. Arrighi e Brenner, possivelmente os dois historiadores econômicos mais convincentes do período que atingiu seu auge em 1973, oferecem explicações divergentes para esse declínio específico da acumulação, com base em suas diferentes percepções do que é o capitalismo; ambos também divergem em alguns detalhes da teoria abstrata da crise de Marx.</p>
<p style="text-align: justify;">O modelo de Arrighi é pouco teorizado, em consonância com sua abordagem mais descritiva das economias mundiais. Ele sugere uma causalidade um tanto eclética, baseada em uma teoria da crise amplamente smithiana, que pressupõe que a concorrência de mercado corrói constantemente a margem de lucro. As lutas trabalhistas (entendidas à maneira de Karl Polanyi) oferecem outra pressão sobre os lucros, assim como o custo das funções hegemônicas de guarda global. Isso motiva o investimento a se afastar do nexo Estado-Indústria, que se encontra em dificuldades, em direção aos mercados financeiros internacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">A teorização mais sistemática de Brenner baseia-se em um modelo de superprodução no qual a capacidade industrial incontestável dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial acaba enfrentando a concorrência de produtores internacionais mais eficientes, notadamente Alemanha e Japão. Com altos níveis de investimento já imobilizados em capital fixo, cujo valor só pode ser recuperado por meio da fabricação de mais commodities, as empresas americanas são incapazes de reduzir a produção e, portanto, ficam presas em uma concorrência fratricida por participação no mercado. As empresas que deveriam ser eliminadas de um setor em uma onda de destruição criativa destinada a abrir canais para um novo crescimento, em vez disso, cambaleiam para frente, muitas vezes apoiadas pelo Estado, que precisa de sua riqueza e gestão de mão de obra para sua estabilidade. Isso leva ao “que foi efetivamente um processo de superinvestimento, levando ao excesso de capacidade e à superprodução na manufatura em escala internacional”, iniciando uma turbulência sistêmica que ainda não diminuiu <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ambas as análises permanecem no nível dos preços, o nível quantitativo que descreve a manifestação efetiva da crise. Para a análise do valor de Marx, os movimentos dos lucros são fenômenos superficiais que correspondem a uma mudança subjacente no equilíbrio entre capital constante e variável: meios de produção e trabalho assalariado, ou trabalho morto e vivo. Apesar das forças contrárias, essa chamada composição orgânica do capital tende a aumentar com o tempo, à medida que a concorrência obriga a aumentar a produtividade, substituindo iterativamente o trabalho por máquinas e processos de trabalho mais eficientes (o que o século XX conheceu como fordismo e taylorismo, respectivamente).</p>
<p style="text-align: justify;">Esse domínio crescente do trabalho morto sobre o vivo é uma expressão em toda a sociedade da lei do valor, à medida que o aumento da produtividade diminui a quantidade média de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir mercadorias. As consequências econômicas ocorrem de forma desigual. Inicialmente, os aumentos na produtividade geram lucros elevados que atraem mais investimentos e mais mão de obra para a produção. Isso, em combinação, produz uma expansão ainda maior. Com o tempo, porém, o aumento na proporção entre trabalho morto e vivo prejudica a capacidade de produção de valor, sendo o trabalho vivo no processo de produção a única fonte de mais-valia. A mesma dinâmica que originalmente impulsiona a acumulação — o aumento da produtividade no nexo entre salário e mercadoria — também a prejudica, até que a capacidade de produção e a capacidade de trabalho não possam mais ser reunidas e, em vez disso, fábricas vazias e populações desempregadas se acumulem lado a lado. Esse processo ampliado é o que chamamos de <em>produção da não produção</em>. A crise e o declínio não vêm de choques extrínsecos, mas dos limites internos do capital. Podemos chamar isso de “arco de acumulação”, que traça as contradições do capital ao longo do eixo do tempo histórico. Chamá-lo de arco sem dúvida suaviza uma trajetória irregular <strong>[5]</strong>. Além disso, o enredo não expressa algum fato simplesmente quantitativo sobre taxas de crescimento ou similares. Os dois lados do arco, embora ainda sejam arranjos do capitalismo e expressões da dinâmica do valor, são qualitativamente diferentes em sua organização social em uma dialética de continuidade e ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159611" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155.jpg" alt="" width="640" height="448" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155-300x210.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155-600x420.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />No longo século XX, o arco de acumulação viu primeiro a “transferência sem precedentes da população da agricultura para a indústria” e, em seguida, em uma grande reversão, a desindustrialização, afastando a população da indústria e do processo de produção de maneira mais geral, levando-a para o trabalho no setor de serviços ou para o subemprego e o desemprego <strong>[6]</strong>. Essas são reorganizações sociais em escala global.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de suas diferentes análises de causalidade, tanto Brenner quanto Arrighi conseguem escavar a forte relação entre a explicação <em>lógica</em> da acumulação autodestrutiva e a explicação <em>histórica</em> dos ciclos capitalistas, particularmente do ciclo atual em que se concentram. Ou seja, apesar de todas as suas sutilezas metafísicas, o debate sobre a chamada Lei da Tendência da Queda da Taxa de Lucro tem uma correspondência suficiente com as ascensões e quedas que Arrighi apresentou de forma tão abrangente. A explicação de Arrighi começa com a fórmula de Marx para a reprodução ampliada do capital, D-M-D&#8217; (dinheiro-mercadoria-dinheiro&#8217;): o itinerário obrigatório do dinheiro da perspectiva do capitalista, passando para a produção de mercadorias se, e somente se, as mercadorias resultantes puderem ser vendidas a um preço mais alto — pois o capitalista só continua sendo capitalista se isso for possível. A novidade de Arrighi é, então, transferir esse processo lógico para a história empírica de seus “longos séculos”. Ele identifica “a alternância de épocas de expansão material (fases D-M de acumulação de capital) com fases de renascimento e expansão financeira (fases M-D&#8217;)”. Ele narra essa mudança de fase por meio de sua oposição temporal dos períodos D-M e M-D&#8217;:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nas fases de expansão material, o capital monetário “coloca em movimento” uma massa crescente de mercadorias (incluindo a força de trabalho mercantilizada e os dons da natureza); e nas fases de expansão financeira, uma massa crescente de capital monetário “se liberta” de sua forma mercantil, e a acumulação prossegue por meio de transações financeiras (como na fórmula resumida de Marx, D-D´). Juntas, as duas épocas ou fases constituem um ciclo sistêmico completo de acumulação (D-M-D&#8217;) <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na era do capitalismo moderno, essa fase de expansão material é cognata com o crescimento industrial. Nessa fase, a ação principal é a compra de força de trabalho e de meios de produção para a fabricação de mercadorias — ou seja, a valorização dentro do processo de produção. No período de expansão financeira, a principal ação é a venda dessas mercadorias para a realização do valor que elas carregam — ou seja, o capital se recentra no mercado, na troca e no consumo. Esse é o sentido de uma era de circulação da perspectiva do capital: à medida que a capacidade da produção de gerar altos lucros diminui, o capital muda seus investimentos para a realização no presente imediato tanto do valor existente quanto do valor que supostamente está por ser gerado no futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser formulado de outra maneira. A crise irrompe no momento em que o lucro e a expectativa de lucro deixam de fluir da manufatura. Nesse momento, os credores procuram cobrar suas dívidas antes que os devedores fiquem sem recursos; as empresas devedoras, por sua vez, são obrigadas a deixar de reinvestir na produção, enquanto vendem freneticamente seus produtos no mercado para cumprir suas obrigações. Ou podemos narrar os fatos como mencionado anteriormente: o dinheiro disponível para reinvestimento deixa de circular quando os lucros da produção caem abaixo de um certo limite e fica cada vez mais parado nos bancos, marcando passo enquanto aguarda oportunidades de investimento suficientemente tentadoras. Esse momento de imobilidade é o momento da crise; quando o capital começa a circular novamente, ele busca tanto o comércio quanto os créditos sobre o valor futuro, o que Marx chama de capital fictício. Um exemplo sugestivo do presente é a medida em que as montadoras americanas sobreviventes obtêm cada vez mais lucros não da produção, mas do financiamento de compras de consumidores por meio de braços de crédito internos. Mais uma vez, vemos que a expansão financeira é a contração industrial vista de uma posição diferente. E, mais uma vez, narramos em termos indiferentes a mesma mudança da valorização para a realização, da produção para a circulação.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo moderno passou por dois arcos, centrados na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, com o segundo surgindo à medida que o primeiro declinava. Cada um tem suas particularidades. Ao mesmo tempo, eles podem ser sintetizados em um arco mais longo. Desde a primeira decolagem até o recente declínio, sempre houve um motor de acumulação global em funcionamento. De aproximadamente 1830 a 1973, houve um núcleo de capital produtivo no Ocidente com sua expansão sistêmica crescente. É de acordo com isso que anteriormente chamamos o período do século XVIII até o presente de metaciclo, um grande arco de acumulação no sistema mundial capitalista seguindo o curso de <em>circulação-produção-circulação linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159612" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881.jpg" alt="" width="1152" height="1352" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881.jpg 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-256x300.jpg 256w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-873x1024.jpg 873w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-768x901.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-358x420.jpg 358w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-640x751.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-681x799.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-341x400.jpg 341w" sizes="auto, (max-width: 1152px) 100vw, 1152px" />O período de <em>circulação linha</em>, a reorganização social da Longa Crise, condiciona o declínio da greve e a nova era de revoltas de duas maneiras distintas, embora inevitavelmente relacionadas: a espacialização da economia e a recomposição da relação capital/classe. Vamos analisá-las uma de cada vez, antes de reuni-las no final.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>A Espacialização da Luta</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">As revoltas são, originalmente, lutas pelo preço dos bens, ou seja, lutas pela reprodução fora do salário, mas ainda suspensas no mercado. São “lutas para controlar o espaço” e a passagem por ele; há uma rima inclinada entre a revolta paradigmática de exportação em King&#8217;s Lynn em 1347 e o bloqueio maciço no porto de Oakland em 2011 <strong>[8]</strong>. O controle sobre o espaço assume muitas formas, muitas vezes envolvendo esforços para expulsar a polícia dos distritos comerciais que ela defende. As revoltas são obcecadas por edifícios, praças e passagens, com aglomerações na praça e nas ruas. Hobsbawm dedica um capítulo de seu livro <em>Revolutionaries</em> ao papel do urbanismo na insurreição. Há algo de arquitetônico em uma revolta, ou seja, algo espacial. A barricada, esse grande instrumento da revolta, tem suas origens no isolamento de bairros contra incursões; o surgimento da barricada nada mais é do que o surgimento da primeira era de revoltas, que recuou após a Primavera das Nações em 1848 <strong>[9]</strong>. As novas avenidas largas do século XIX são, em relatos sucessivos, projetadas para pôr fim às barricadas e as revoltas; o crescimento industrial acabará por fazer um trabalho melhor nisso.</p>
<p style="text-align: justify;">A espacialidade prática da revolta corresponde a uma distinção teórica. A lógica abstrata da produção é temporal, a lógica abstrata da circulação é espacial. A produção é organizada pelo valor, pela valorização das mercadorias, e esse valor é regulado pelo tempo de trabalho socialmente necessário. É através desse tempo que ambos os lados se reproduzem. Na produção, tanto o capital quanto seus antagonistas lutam por esse tempo — sua duração, seu preço. A greve é uma luta temporal.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez que o valor temporal do trabalho vivo repousa na mercadoria, ele se torna objetivado, espacializado. A circulação é organizada pelo preço, pela realização da mais-valia como lucro quando as mercadorias trocam de lugar. Esta é uma formulação conceitualmente espinhosa, como fica evidente na exposição de Marx:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O dinheiro é agora trabalho <em>objetivado</em>, quer possua a forma de dinheiro ou de uma mercadoria particular. Nenhum modo objetivo de ser do trabalho se opõe ao capital, mas todos eles aparecem como modos possíveis de existência para ele, que ele pode assumir através de uma simples mudança de forma, passando da forma monetária para a forma mercadoria. A única antítese do trabalho <em>objetivado</em> é o trabalho <em>não objetivado</em>; em antítese ao trabalho <em>objetivado</em>, o trabalho subjetivado. Ou aquele trabalho que está presente no tempo, vivo, em antítese ao trabalho passado no tempo, mas existente no espaço. Como trabalho presente no tempo, não objetivado (e, portanto, também ainda não objetivado), ele só pode estar presente como <em>capacidade</em>, possibilidade, habilidade, como <em>capacidade de trabalho</em> do sujeito vivo <strong>[10]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao refletir sobre a relação lógica entre trabalho e mercadorias, Marx chega à antítese entre trabalho não objetivado e trabalho objetivado. De um lado, a força de trabalho que ainda não foi transferida para uma mercadoria no processo de produção; do outro, o valor objetivado nas mercadorias que agora entram no espaço de circulação, elas próprias objetos espaciais. O aumento da proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e vivo, é o próprio processo de espacialização e, portanto, a transformação das lutas temporais em espaciais. Essa distinção existe também no nível prático, no que diz respeito à circulação no sentido concreto: transporte, comunicações, finanças. Marx fala da famosa “aniquilação do espaço pelo tempo”. Isso tem sido frequentemente entendido como uma afirmação da crescente irrelevância das relações espaciais para o capital. O oposto é verdadeiro. Marx argumenta que o espaço se apresenta como o problema fundamental para a troca, e quanto mais o capital depende da troca, mais o espaço apresenta problemas a serem superados:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O capital, por sua natureza, ultrapassa todas as barreiras espaciais. Assim, a criação das condições físicas de troca — dos meios de comunicação e transporte — a aniquilação do espaço pelo tempo — torna-se uma necessidade extraordinária para ele. Somente na medida em que o produto direto possa ser realizado em mercados distantes em quantidades massivas, proporcionalmente à redução dos custos de transporte, e somente na medida em que, ao mesmo tempo, os meios de comunicação e transporte possam produzir esferas de realização para o trabalho, impulsionado pelo capital; somente na medida em que o tráfego comercial ocorra em volume massivo — no qual mais do que o trabalho necessário é substituída — apenas nessa medida a produção de meios baratos de comunicação e transporte é uma condição para a produção baseada no capital e, por essa razão, promovida por ele <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os leitores provavelmente conhecem os debates muitas vezes tediosos sobre se essa passagem sugere que a circulação é internalizada à produção, ou se isso é apenas uma aparência e as obras e mercadorias da circulação são, como Marx continua, “uma <em>condição</em> para o processo de produção” — uma afirmação bastante diferente <strong>[12]</strong>. Para nossos propósitos, o significado é o mesmo. Esse é particularmente o caso, pois não estamos afirmando que as lutas na circulação têm uma relação privilegiada com a produção de valor. Na mudança que se segue à crise, o capital, incapaz de gerar mais-valia ou crescimento adequados por meio da produção industrial convencional, é compelido a entrar no espaço da circulação para competir por lucros, diminuindo seus custos e aumentando o tempo de rotatividade para um volume cada vez maior de mercadorias. As lutas nesse espaço são, portanto, centrais para a existência contínua de cada capital. Há poucas indicações de que isso gere acumulação da mesma forma que a produção industrial.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, esse é o destino inconfundível do capital pós-1973, tornando “nosso presente fundamentalmente um <em>tempo de espaço logístico</em>” <strong>[13]</strong>. Essa reorganização sistêmica, observa Jasper Bernes, “indexa a subordinação da produção às condições de circulação, o tornar-se hegemônico dos aspectos do processo de produção que envolvem a circulação”. Haverá implicações nesse desenvolvimento para as lutas contemporâneas. “A logística é a arte da guerra do capital, uma série de técnicas para a competição intercapitalista e interestatal” <strong>[14]</strong>. Será necessária uma contra-arte que se adapte a esse terreno transformado, mas que também reconheça o espaço logístico como peculiarmente estruturado pelas necessidades do capital, o tipo de maquinaria que o proletariado não pode simplesmente apreender e utilizar para seus próprios fins.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159609" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573.jpg" alt="" width="1000" height="1000" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A construção maciça, impulsionada pelas finanças, do transporte marítimo global e da conteinerização, possivelmente o projeto mais fundamental para o capital nessa época, sinaliza a mudança radical. Ela é prenunciada pela regularização dos contêineres de transporte intermodal (aperfeiçoados para resolver os problemas logísticos da Guerra do Vietnã) por meio de uma série de acordos de 1968 a 1970 e pela desregulamentação do transporte na década seguinte <strong>[15]</strong>. O Centro de Transporte e Logística é criado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em 1973: “líder mundial em educação e pesquisa em gestão da cadeia de suprimentos” <strong>[16]</strong>. A fabricação Just-In-Time, que se generalizou na década de 1970, é o aspecto metodológico da mesma mudança. Desenvolvida na indústria automobilística japonesa, ela é o oposto do paradigma fordista da indústria automobilística dos Estados Unidos, descobrindo eficiências menos na organização da produção do que na circulação, no estoque e na troca: um conjunto interligado de práticas cujo núcleo constitui uma espécie de taylorismo da cadeia de suprimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A correspondência desses desenvolvimentos com a crise industrial é quase absoluta. As expressões desse movimento interligado são numerosas. Em abril de 1973, a Federal Express entrega seu primeiro pacote; quarenta anos após o início da Longa Crise, a FedEx terá a quarta maior frota e será a maior companhia aérea de carga do mundo <strong>[17]</strong>.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>O Fim do Programa</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A mudança na circulação é uma reestruturação econômica que impulsiona e se baseia em uma reorganização social maciça, uma recomposição do capital e da classe. Isso transforma profundamente os horizontes políticos e, com eles, as formas de luta. As mudanças subjacentes se mostraram opacas para alguns observadores. Um deles, escrevendo na revista socialista democrática <em>Jacobin</em>, descobre em 2015 que “a economia dos EUA gira em torno da expansiva indústria de logística” e só consegue concluir que, “após três décadas de mudanças dolorosas na economia industrial, acredito que os socialistas podem, mais uma vez, ter uma estratégia industrial nos Estados Unidos” <strong>[18]</strong>. Outra proposta do mesmo local observa a mesma transformação “particularmente na produção enxuta e nos estoques <em>just-in-time</em>” e reconhece a importância resultante de “focar nesses pontos de distribuição” para “bloquear a distribuição”. O autor recomenda, para esse fim, a organização de “grupos de trabalhadores estrategicamente posicionados”.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses exemplos reconhecem corretamente a vasta transferência de força de trabalho da produção industrial para o espaço de circulação, distribuição e troca. No entanto, a importância disso como um aspecto de uma reestruturação social profunda é negligenciada. É compreensível que o leitor fique perplexo quanto ao motivo pelo qual o esvaziamento do setor industrial, base histórica da organização socialista, exigiria mais uma vez uma “estratégia industrial”. Por sua vez, pode-se perguntar por que o “bloqueio da distribuição”, precisamente a tática dos não trabalhadores tanto lógica quanto historicamente, exige “grupos de trabalhadores”. Dessa perspectiva, não importa o problema, a solução é sempre a mesma: organização do trabalho industrial. É sempre tempo de greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se argumentar que os trabalhadores da circulação são de alguma forma mais difíceis de organizar, que algo peculiar ao novo local de trabalho exclui essa possibilidade. Há razões para acreditar nisso. Além da desagregação e da desqualificação como barreiras à organização, a tradicional paralisação do trabalho pressupõe um senso de posse moral dos trabalhadores sobre seus equipamentos, um resquício das culturas artesanais e manuais que fornece uma função legitimadora estranha ao âmbito da circulação. Dito isso, não há aqui nenhum argumento contra tal organização. A greve da UPS em 1997 mostra que tais coisas são possíveis. É inevitável que uma porcentagem crescente das poucas greves que estão desaparecendo seja na circulação e que as ações trabalhistas mudem para lutas de circulação, como uma questão prática. Considere a mudança tática ilustrativa por parte dos sindicatos franceses, por exemplo, quando as refinarias de petróleo e os depósitos de petróleo franceses foram bloqueados por duas semanas em 2010 <strong>[19]</strong>. De forma mais ampla, os argumentos normativos sobre o que as pessoas que lutam devem fazer ignoram a verdade mais básica. As pessoas lutarão onde estiverem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nosso argumento é que as pessoas estão em outro lugar. E, além disso, que a explosão desses locais de trabalho é sintomática de uma reestruturação maior que augura mal para o potencial dessa organização. O trabalho no mundo superdesenvolvido não mudou simplesmente seu centro de gravidade em algum sentido neutro. Sua relação com a acumulação mudou profundamente e, diante dessa mudança, a exigência de formas inalteradas de ação parece, na melhor das hipóteses, uma falha de compreensão. Mesmo a política de classe mais recôndita ou reducionista é agora obrigada a se reconfigurar de acordo com essas grandes transformações político-econômicas ou se condenar ao interminável papel de um romance ultrapassado ao qual o perfume de 1917 sempre se apega.</p>
<p style="text-align: justify;">O editor da Jacobin, Bhaskar Sunkara, resume essa política ritualística. Ele reconhece que “pode ser útil considerar as maneiras pelas quais a situação atual se assemelha a um retorno ao pré-fordismo”; dada a semelhança, a política oferecida então certamente ainda deve prevalecer, e “às vezes novas crises precisam ser enfrentadas com o vocabulário antigo” <strong>[20]</strong>. Mas qual é esse vocabulário antigo e por que exigiria o mesmo conjunto de estratégias que esses pensadores vêm propondo há mais de um século, sem variações? Podemos notar aqui um erro simples na compreensão do caráter do arco de acumulação. Ele supõe que um ponto na descida seria historicamente idêntico a um ponto na ascensão simplesmente porque estavam na mesma altura (de lucro ou taxa de desemprego, etc.). Esse equívoco não leva em conta o vetor: a diferença entre ascensão e queda, entre mercados de trabalho restritos e flexíveis, entre a capacidade de dinamismo e expansão e o curso da estagnação e contração. As condições que historicamente possibilitaram o vocabulário socialista —acumulação real, um mercado de trabalho tenso, a possibilidade de ganhar poder apropriando-se de uma parte dessa acumulação, um proletariado industrial em expansão — não existem mais. Os ganhos progressivos que poderiam fortalecer e encorajar o partido de massa dependente da organização sindical não estão mais ao alcance, como estavam durante o crescimento econômico, a expansão e o boom. Isso faz parte de uma mudança mais ampla: “O ano de 1978”, como observou sucintamente um historiador de negócios, foi o “Waterloo para sindicatos, reguladores e reformadores tributários keynesianos” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159615" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605.jpg" alt="" width="2000" height="1363" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-1024x698.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-1536x1047.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-616x420.jpg 616w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />Talvez possamos admitir que Sunkara está parcialmente certo. É inevitável que compreendamos novos momentos primeiro através de vocabulários antigos. Mas estamos mais adiantados no arco do que ele pode supor e, portanto, talvez precisemos recorrer a um léxico bastante mais antigo e renová-lo. É mais cedo do que pensamos. Ou seja, é bem mais tarde.</p>
<p style="text-align: justify;">O declínio do movimento trabalhista no Ocidente dispensa explicações. As narrativas contrárias, especialmente aquelas que sugerem que o declínio é resultado de combates ideológicos, falhas de vontade ou erros estratégicos, já foram submetidas ao que Marx chamou de crítica prática do real. Os dados básicos são bem conhecidos. Provavelmente, o mais claro é o colapso para zero das greves envolvendo mais de 1.000 trabalhadores a partir do final dos anos 1970. Para aqueles que duvidam dessa medida (que tem pouca correlação com a sindicalização), a situação pode ser resumida assim: nos Estados Unidos, após 1981, apenas três anos excederam 10 milhões de dias acumulados de paralisação por greves, com vários anos abaixo de 1 milhão. De 1947 a 1981, o número excedeu 10 milhões todos os anos, com uma média de mais do dobro disso <strong>[22]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos encontrar um momento decisivo voltando mais uma vez a Detroit e a 1973, onde “pela primeira vez na história do UAW, o sindicato se mobilizou para manter uma fábrica aberta” <strong>[23]</strong>. Isso se tornará rapidamente o paradigma para a organização trabalhista, quer se queira ou não. Com o esvaziamento do setor industrial e a perda de lucratividade, a principal ameaça tanto para o capital quanto para o trabalho é que uma determinada empresa deixe de existir. E, em uma escala maior, a própria capacidade de autorreprodução do capital entrará em colapso. A partir desse ponto, as lutas contra o capital só podem ser <em>contra</em> a existência do capital, em vez de <em>pelo</em> empoderamento do trabalho. Capital e trabalho se encontram agora em colaboração para preservar a autorreprodução do capital, para preservar a relação de trabalho juntamente com a viabilidade da empresa. Isso impõe limites quase absolutos à negociação.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos chamá-la de “armadilha da afirmação”, na qual o trabalho fica preso à posição de afirmar sua própria exploração sob o pretexto da sobrevivência. É uma versão do que Lauren Berlant chama de “otimismo cruel”. O otimismo é cruel em uma situação cada vez mais comum:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O objeto/cena que desperta uma sensação de possibilidade na verdade torna impossível alcançar a transformação expansiva pela qual uma pessoa ou um povo se arrisca a lutar; e, duplamente, é cruel na medida em que os próprios prazeres de estar dentro de uma relação se tornaram sustentáveis, independentemente do conteúdo da relação <strong>[24]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Certamente isso descreve com exatidão não apenas qualquer relação, mas as exigências da relação de trabalho na Longa Crise. A armadilha da afirmação é o otimismo cruel em seu estrato mais obstinado, existindo independentemente de apegos libidinosos, suas compulsões não envolvendo nenhum reconhecimento errôneo. Os prazeres sustentadores são comida e abrigo.</p>
<p style="text-align: justify;">Preso na armadilha da afirmação, o trabalho deixa de ser a antítese do capital. Isso pode ser visto como o final irônico da própria afirmação que define o horizonte socialista da luta, em que “a revolução é, portanto, a afirmação do proletariado, seja como ditadura do proletariado, conselhos operários, libertação do trabalho, período de transição, definhamento do Estado, autogestão generalizada ou uma &#8216;sociedade de produtores associados&#8217;” <strong>[25]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses são os termos em que o grupo Théorie Communiste define o “programatismo”, o modelo central da luta revolucionária de classe no século XX. Moishe Postone identifica o programatismo (ele não usa o termo) com o “marxismo tradicional” que, segundo ele, reconhece erroneamente a base do capitalismo como a propriedade dos meios de produção, enquanto trata o trabalho produtivo como “a fonte transhistórica da riqueza e a base da constituição social”. A apropriação dos meios de produção, portanto, preserva <em>a forma capitalista de riqueza</em> enquanto a redistribui socialmente, e assim “o marxismo tradicional substitui a crítica de Marx ao modo de produção e distribuição por uma crítica apenas ao modo de distribuição” <strong>[26]</strong>. Daí a distinção usada aqui entre socialismo e comunismo: o primeiro indicando esse modelo distributivo, o segundo indicando a abolição da economia e o fim da relação indexical entre o trabalho de cada um e qualquer relação ou acesso à riqueza social.</p>
<p style="text-align: justify;">Este “marxismo tradicional” deve ser entendido historicamente. O horizonte socialista do programatismo não deve ser entendido como uma falha analítica ou moral, nem como uma espécie de paralisação; haveria uma passagem do socialismo para o comunismo (ou de uma fase inferior para uma fase superior do comunismo, como Marx afirma em <em>Crítica ao Programa de Gotha</em>). Em vez disso, ele reflete com precisão as condições reais do mundo em que surge. É uma luta contra o capital “vista do ponto de vista do trabalhador, ou seja, do ponto de vista do ciclo do capitalismo produtivo”, nas palavras de Gilles Dauvé <strong>[27]</strong>. Ou seja, surge com o aumento do poder do trabalho industrial, razão pela qual os trabalhadores desse setor são capazes de se posicionar como a fração revolucionária da classe. Seu crescimento é a expansão do capital. Isso, no entanto, não implica um ponto de vista ou forma de luta imutável: “a centralidade do trabalho proletário na análise de Marx sobre o capitalismo não deve ser tomada como uma avaliação afirmativa de sua parte sobre sua primazia ontológica na vida social, ou como parte de um argumento de que os trabalhadores são o grupo mais oprimido da sociedade” <strong>[28]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É do outro lado do arco-íris da acumulação que os limites históricos do programatismo se tornam evidentes. Quando a fração de classe que centralizou a era do programa não exerce mais um poder peculiar sobre o capital, tal curso de luta é excluído. Esse resultado não é consequência de artimanhas políticas, de alguma política nefasta sob o título de “neoliberalismo”. É a própria autotransformação do capital da perspectiva do trabalho — trabalho agora forçado a afirmar o capital no mesmo gesto pelo qual afirma seu próprio ser. É precisamente essa luta pela autopreservação, o que a Théorie Communiste chama de “pertencimento de classe como uma restrição externa”, que é o limite das lutas trabalhistas como motor revolucionário <strong>[29]</strong>. As reivindicações salariais, outrora imaginadas como uma vantagem ou mesmo uma alavanca para a abolição da classe, devem agora ser adaptadas às necessidades de autorreprodução do capital, à medida que essa autorreprodução entra em crise. Em sua lassidão crepuscular, a classe trabalhadora é reduzida a reproduzir pouco além das condições de sua própria miséria. A luta salarial mantém sua legitimidade como reivindicação de sobrevivência — salário, salário contra a morte da luz —, mas ao mesmo tempo legitima o capital. Não há além.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159610" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959.jpg" alt="" width="1214" height="850" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959.jpg 1214w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-300x210.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-1024x717.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-768x538.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-600x420.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-640x448.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-681x477.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1214px) 100vw, 1214px" /></p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>Sobredeterminação</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A revolta não busca preservar nada, não afirma nada, exceto talvez um antagonista comum, uma miséria comum, uma negação comum. Ela carece de um programa. Sob o título “Isso não foi um movimento”, um comentarista sobre as revoltas de Londres em 2011 escreve:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nos distúrbios de agosto, nada na situação de seus protagonistas valia a pena ser defendido: vizinhança, residência, comunidade, etnia e raça, todos se revelaram aspectos da reprodução do capital, que produz esses proletários como verdadeiros indigentes. […] A linguagem da revolta não era a linguagem positiva do “movimento”, da mudança social, das reivindicações ou da política, mas sim a linguagem negativa do vandalismo. O que aconteceu foi muita destruição, nada foi construído, não houve planos, nem estratégias <strong>[30]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para muitos observadores, essa é a característica mais perturbadora das revoltas. Diante disso, a exigência de um programa, a exigência de exigências, é em si uma exigência familiar, o estertor da política prescritiva. Ela não será atendida. Mas isso não quer dizer que as revoltas careçam de determinações. Na verdade, as revoltas são surpreendentemente sobredeterminadas pela série de transformações históricas que tornam inevitável o gênero particular de antagonismo que chamamos de lutas de circulação.</p>
<p style="text-align: justify;">Um resumo será útil. O excedente social que acompanha a acumulação diminuiu e, com ele, a capacidade do capital e do Estado de atender às demandas por salários diretos e sociais, apesar de exceções ocasionais. A demanda salarial é excluída como nada mais do que uma ação de retaguarda inseparável da afirmação da existência do capital. O capital transferiu suas esperanças de lucro para o espaço da circulação e, assim, transferiu sua vulnerabilidade para lá. O trabalho mudou para a circulação com ele. O mesmo aconteceu com o não trabalho: os subempregados e desempregados, aqueles deixados para as economias informais, aqueles deixados para apodrecer. Essa desindustrialização foi dramaticamente racializada.</p>
<p style="text-align: justify;">A morte da demanda salarial significa o desaparecimento das lutas de produção unificadas pelo papel comum dos participantes como trabalhadores assalariados. Ao mesmo tempo, a luta pela circulação não tem nenhuma exigência lógica de que seus participantes sejam trabalhadores. Se o trabalho tem acesso imediato e legitimidade para interromper a produção na fábrica, qualquer pessoa pode liberar um mercado, fechar uma estrada, fechar um porto. Como no século XVIII, os manifestantes podem ser trabalhadores, mas não aparecem <em>como</em> trabalhadores; os participantes não estão unificados pela posse de empregos, mas por sua desapropriação mais geral. Eles entram no espaço do mercado, lutando pela reprodução além do salário. Esta é a definição que oferecemos na introdução, repetida novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez, então, a “sobredeterminação” esteja errada. Uma nova situação para a disputa social foi gerada. Um novo arranjo da população por meio do mesmo movimento gera trabalhadores e não trabalhadores circulantes, que por acaso compartilham uma relação com essa situação de disputa. Essa mudança nas formas de ação coletiva é uma habilidade dialética. Mas a dialética precisa do proletariado, e não acabamos de declarar a morte da classe trabalhadora?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ver Joshua Clover e Aaron Benanav, “Can Dialectics Break BRICS?” <em>The South Atlantic Quarterly</em> 113: 4, outono de 2014, 743-59.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Fernand Braudel, <em>The Perspective of the World: Civilisation and Capitalism</em>, vol. 3, Berkeley: University of California Press, 1982, 80.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ibid., 77.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Brenner, <em>Turbulence</em>, 38.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Para uma imagem do movimento crescente de acumulação e crise, ver Henryk Grossman, <em>Law of Accumulation and Breakdown of the Capitalist System</em>, Londres: Pluto Press, 1992, 84.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Aaron Benanav e John Clegg, “Misery and Debt: On the Logic and History of Surplus Populations and Surplus Capital,” <em>Contemporary Marxist Theory</em>, eds. Andrew Pendakis et al., New York: Bloomsbury, 2014, 585.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Arrighi, <em>Long Twentieth Century</em>, 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Abu-Lughod, <em>Race, Space</em>, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Mark Traugott, <em>The Insurgent Barricade</em>, Berkeley: University of California Press, 2010, 81-82.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Karl Marx, “Fragment des Urtexts von &#8216;Zur Kritik der politischen Ökonomie,&#8217;” Grundrisse der Kritik der PolitischenÖkonomie, Berlim: Dietz Verlag, 1858/1953, 942 (ênfase no original). Citado em Jacques Camatte, <em>Capital and Community: The Results of the Immediate Process of Production and the Economic Work of Marx</em>, trad. David Brown, Londres: Unpopular Books, 1988, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 524-5 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Ibid., 525 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Deborah Cowen, <em>The Deadly Life of Logistics: Mapping Violence in Global Trade</em>, Minneapolis: University of Minnesota Press, 2014, 5 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Jasper Bernes, “Logistics, Counterlogistics and the Communist Prospect,” <em>Endnotes</em> 3, 2013, 185.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Marc Levinson, <em>The Box: How the Shipping Container Made the World Smaller and the World Economy Bigger</em>, Princeton: Princeton University Press, 2006, 147-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Consulte o site do MIT Center for Transportation &amp; Logistics MIT, ctl.mit.edu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Consulte a página da FedEx, “Nossa história: história e cronologia”, about.van.fedex.com; e a página da IATA Publicações e ferramentas interativas, <a href="https://web.archive.org/web/20120427115854/http://www.iata.org/ps/publications/pages/wats-freight-km.aspx." target="_blank" rel="noopener">https://web.archive.org/web/20120427115854/http://www.iata.org/ps/publications/pages/wats-freight-km.aspx.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Joe Allen, “Studying Logistics”,<em> Jacobin</em>, 12 de fevereiro de 2015, jacobinmag.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Para um estudo abrangente desse fenômeno em relação aos distúrbios, consulte Blaumachen, “The Transitional Phase of the Crisis: The Era of Riots” (A fase de transição da crise: a era dos distúrbios), blaumachen.gr.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Bhaskar Sunkara, “Precarious Thought”, <em>Jacobin</em>, 13 de janeiro de 2012, jacobinmag.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Jefferson Cowie, <em>Stayin&#8217; Alive: The 1970s and the Last Days of the Working Class</em>, Nova York: New Press, 2010, 292. A fonte citada é Kim McQuaid, <em>Uneasy Partners: Big Business in American Politics, 1945-1990</em>, Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1994, 156.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Consulte o banco de dados online do Bureau of Labor Statistics, “Economic News Release: Table 1. Work stoppages involving 1,000 or more workers, 1947-2014” (versão atualizada em 11 de fevereiro de 2015), bls.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Bill Bonds, WXYZ-TV News, falando sobre os eventos na fábrica de estampagem Mack, 16 de agosto de 1973. Citado em Georgakas e Sunkin, Detroit, 189.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Lauren Berlant, <em>Cruel Optimism</em> Durham: Duke University Press, 2011, 2.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Théorie Communiste, “Much Ado About Nothing,”<em> Endnotes</em> 1, 2008, 155.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> Moishe Postone, <em>Time, Labor, and Social Domination</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 1993, 69 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[27]</strong> Gilles Dauvé, <em>Ni Parlement ni syndicats: les Conseils ouvriers</em>, Paris: Editions Les Nuits rouges, 2008, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[28]</strong> Postone, <em>Social Domination</em>, 356 n.120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[29]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense,” <em>Communization and Its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles</em>, ed. Benjamin Noys, Wivenhoe: Minor Compositions, 2011, 53.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[30]</strong> Rocamadur/Blaumachen, “The Feral Underclass Hits the Streets: On the English Riots and Other Ordeals,” SIC, n.º 2, janeiro de 2014, 113-4.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Mario Sironi.</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>A Gramática sem Dono &#8211; Parte II</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2026 17:42:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[A gramática de classe não exige aparatos burocráticos, exige enraizamento no chão do bairro, da fábrica, do escritório, precisamente o chão que a esquerda evacuou.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Phintener</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>O sintoma tomado como explicação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A Parte I desta série demonstrou a emergência de uma gramática totalitária que atravessa o bolsonarismo e atinge, por homologia formal, as vertentes identitárias que se pretendem sua antítese. Resta enfrentar a questão central: por que o trabalhador precarizado adere à gramática que o subjuga? Recorrer aos clichês da “alienação” ou do “pobre de direita” é apenas a recusa da esquerda em olhar para a própria omissão. Esta Parte II toma a reação do eleitorado periférico não como um desvio moral, mas como um fato social a ser explicado.</p>
<p style="text-align: justify;">A análise cruza três fontes de dados: os registros eleitorais por zona do TSE (2024), os microdados de mobilidade da Pesquisa Origem-Destino (2023) e os setores censitários do Censo 2022. A cartografia que emerge desse mapeamento desmorona as ficções confortáveis da esquerda de Estado sobre o território que julgava dominar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>I. A disputa — três candidatos, 57 zonas, nenhuma vitória fácil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A eleição municipal de São Paulo em 2024 produziu, no primeiro turno, um resultado que contrariou as expectativas de todos os campos. Ricardo Nunes (MDB), Guilherme Boulos (PSOL) e Pablo Marçal (PRTB) chegaram ao resultado final separados por menos de dois pontos percentuais entre si — uma diferença estatisticamente estreita para uma cidade com mais de seis milhões de eleitores.</p>
<figure id="attachment_159575" aria-describedby="caption-attachment-159575" style="width: 346px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159575 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1.png" alt="" width="346" height="176" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1.png 346w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1-300x153.png 300w" sizes="auto, (max-width: 346px) 100vw, 346px" /><figcaption id="caption-attachment-159575" class="wp-caption-text">Gráfico 1 — Participação dos três principais candidatos no total de votos válidos (1º turno). Fonte: TSE, Votação nominal por município e zona, 2024.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O equilíbrio agregado, no entanto, oculta uma geografia interna profundamente assimétrica. Das 57 zonas eleitorais da capital, Boulos e Marçal venceram 20 cada; Nunes venceu apenas 17 — apesar de ter obtido a maior votação nominal total. A distribuição territorial, e não os números brutos, é onde o argumento da Parte II começa.</p>
<figure id="attachment_159576" aria-describedby="caption-attachment-159576" style="width: 265px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159576 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem2.png" alt="" width="265" height="180" /><figcaption id="caption-attachment-159576" class="wp-caption-text">Gráfico 2 — Zonas eleitorais vencidas por cada candidato. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong> II. O paradoxo da Zona Leste: espoliação material e captura gramatical</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que os totais agregados, é a cartografia do voto de Marçal que revela o nó analítico deste trabalho. Das 20 zonas eleitorais que conquistou, a esmagadora maioria concentra-se na Zona Leste histórica: Vila Formosa, Vila Matilde, Tatuapé, Sapopemba, Penha de França, Cangaíba, São Miguel Paulista, Itaquera, Ermelino Matarazzo e Vila Prudente. Falamos do tradicional cinturão produtivo paulistano — uma geografia ligada por contiguidade física e social ao ABC Paulista, matriz do sindicalismo combativo que gestou o PT e a CUT entre o fim dos anos 1970 e o início dos 1980. Com uma média de 31,2% de votos no quadrante leste — superando seu índice geral na capital —, a campanha de Marçal penetrou na medula desse território de trabalhadores. A escolha da Zona Leste como laboratório analítico central justifica-se precisamente por isso: ela condensa em estado puro o curto-circuito em tela — o mesmo tecido operário que Kowarick (1994) consagrou como epicentro das lutas urbanas da metrópole agora sob o domínio da teologia do empreendedor individual.</p>
<figure id="attachment_159577" aria-describedby="caption-attachment-159577" style="width: 398px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159577 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3.png" alt="" width="398" height="229" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3.png 398w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3-300x173.png 300w" sizes="auto, (max-width: 398px) 100vw, 398px" /><figcaption id="caption-attachment-159577" class="wp-caption-text">Gráfico 3 — Percentual médio de votos em Marçal por perfil territorial. A Zona Leste e a Zona Norte apresentam os maiores índices. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O Censo 2022 permite dimensionar o peso demográfico desse território. A Zona Leste concentra 3,57 milhões de habitantes — o segundo maior contingente entre as regiões da cidade, atrás apenas da Zona Sul — e registra a maior média de moradores por domicílio: 2,42 pessoas, contra 1,75 no Centro Expandido e 1,90 na Zona Oeste. Famílias maiores em domicílios menores, com renda familiar mediana de R$ 4.600 mensais: é a combinação que amplifica o impacto de qualquer confisco do rendimento real — cada real a menos no salário divide-se por 2,42 pessoas.</p>
<figure id="attachment_159578" aria-describedby="caption-attachment-159578" style="width: 420px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159578" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4.png" alt="" width="420" height="203" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4.png 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4-300x145.png 300w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /><figcaption id="caption-attachment-159578" class="wp-caption-text">Gráfico 4 — Perfil territorial de São Paulo: população e moradores por domicílio por região. Fonte: Censo IBGE 2022. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A Pesquisa Origem-Destino do Metrô de São Paulo (2023) confirma e detalha esse quadro. Com renda familiar mediana de apenas 3,5 salários mínimos por família, a Zona Leste fica muito abaixo da Zona Oeste (R$ 9.433) e do Centro Expandido (R$ 7.646) — e 42,7% de seus domicílios vivem com menos de R$ 4.000 mensais. Para uma família mediana de 2,42 pessoas, o valor per capita é de R$ 1.901 — um rendimento de subsistência frente ao estrangulamento do custo de vida paulistano. O dado mais revelador não reside nas médias agregadas por região, mas no estrangulamento por faixa de renda: trabalhadores com renda per capita de até 1 salário mínimo despendem em média de 85 a 88 minutos por deslocamento, contra 61 minutos gastos por aqueles posicionados acima de 3 salários mínimos — uma assimetria do tempo de 40%. A distância percorrida expõe a mesma fratura territorial: são 17,1 km de percurso para a fração de menor rendimento contra 10,1 km para as faixas de maior renda, uma disparidade de 70%. Na Zona Leste, essa desigualdade materializa-se no fato de que mais de 83% das viagens de trabalho dependem exclusivamente do transporte coletivo, sem qualquer flexibilidade modal. A dependência estrita do ônibus não é apenas uma métrica de tempo — é a expressão territorial da ausência de margem: não há automóvel próprio, não há orçamento para transporte por aplicativo, tampouco folga na renda que autorize outra escolha.</p>
<figure id="attachment_159579" aria-describedby="caption-attachment-159579" style="width: 403px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159579" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5.png" alt="" width="403" height="187" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5.png 403w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5-300x139.png 300w" sizes="auto, (max-width: 403px) 100vw, 403px" /><figcaption id="caption-attachment-159579" class="wp-caption-text">Gráfico 5 — Tempo e distância de deslocamento ao trabalho por faixa de renda per capita. Trabalhadores com renda de até 1 SM percorrem trajetos 70% mais longos e despendem 40% mais tempo do que trabalhadores com renda acima de 3 SM. Fonte: Pesquisa Origem-Destino Metrô SP 2023. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O gráfico abaixo sintetiza as quatro dimensões do território cruzadas nesta análise: população, renda, voto em Marçal e composição domiciliar. O padrão é inequívoco — as regiões de maior votação em Marçal são exatamente as de menor renda e maior densidade familiar.</p>
<figure id="attachment_159580" aria-describedby="caption-attachment-159580" style="width: 420px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159580 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6.png" alt="" width="420" height="315" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6.png 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-300x225.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-100x75.png 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-180x135.png 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-238x178.png 238w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /><figcaption id="caption-attachment-159580" class="wp-caption-text">Gráfico 6 — Síntese: quatro dimensões do território e do voto por região (renda: mediana familiar). Fontes: Censo IBGE 2022, Pesquisa OD Metrô SP 2023 e TSE 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Os dados da RAIS 2024 esmiúçam a natureza do vínculo de trabalho que serviu de alicerce histórico à região. Na capital paulista, o setor industrial lidera o índice de formalização com 95,3% de empregos celetistas. Contudo, essa cobertura contratual traduz-se em um salário mediano de escassos R$ 2.950 (2,09 salários mínimos), sendo que 48,3% dos operários não atingem a faixa de 2 mínimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Estrutura análoga verifica-se no setor de transportes, engrenagem vital da Zona Leste: com 94,4% de vínculos formais sob a CLT, o setor registra remuneração mediana de R$ 3.350 (2,37 SM), acumulando 41,4% de seus profissionais situados abaixo de 2 salários mínimos. O quadro expõe o drama do trabalhador de carteira assinada cuja remuneração sequer cobre os custos de reprodução da sua própria força de trabalho frente ao encarecimento da habitação e da mobilidade metropolitana. Longe de mitigar a espoliação material, a formalidade do contrato apenas a quantifica com precisão matemática no contracheque<strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente nesse chão material que a gramática do coaching encontra seu solo mais fértil. Sob a lógica da economia narrativa, prevalecem as linguagens capazes de oferecer a estrutura mais eficaz para processar as angústias da experiência vivida. O coach entrega ao trabalhador da Zona Leste a arquitetura clássica da gramática autoritária: o arco de decadência e redenção, a identificação nítida do inimigo (o &#8216;sistema&#8217;, o Estado, a burocracia), a promessa de um protagonismo individual imediato e a completa dispensa de mediações corporativas. Trata-se de uma sintaxe que opera abaixo da consciência reflexiva do sujeito — não é necessário dominar suas regras formais para reproduzi-la no cotidiano da sobrevivência.</p>
<figure id="attachment_159581" aria-describedby="caption-attachment-159581" style="width: 340px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159581" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7.png" alt="" width="340" height="191" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7.png 340w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7-300x169.png 300w" sizes="auto, (max-width: 340px) 100vw, 340px" /><figcaption id="caption-attachment-159581" class="wp-caption-text">Gráfico 7 — Top 10 zonas de Marçal: comparativo com Boulos e Nunes. Destacam-se as zonas da Zona Leste histórica. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>III. Do chão batido aos gabinetes: a retração da esquerda ao Centro e a tutela na periferia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A distribuição territorial do eleitorado de Guilherme Boulos projeta o espelho inverso daquilo que a narrativa progressista tradicional esperava. O candidato do PSOL não fincou suas maiores estacas na Zona Leste histórica, mas em dois polos sociologicamente antagônicos: o Centro Expandido (Pinheiros, Vila Mariana, Perdizes, Bela Vista) e a franja periférica de formação mais recente (Capão Redondo, Guaianases, Cidade Tiradentes, São Mateus e Campo Limpo).</p>
<figure id="attachment_159582" aria-describedby="caption-attachment-159582" style="width: 323px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159582" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8.png" alt="" width="323" height="186" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8.png 323w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8-300x173.png 300w" sizes="auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px" /><figcaption id="caption-attachment-159582" class="wp-caption-text">Gráfico 8 — Percentual médio de votos em Boulos por perfil territorial. Desempenho mais forte no Centro Expandido e na periferia distante. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Essa periferia distante — onde Boulos registrou seu melhor desempenho popular — caracteriza-se pela urbanização recente, pela baixa densidade de postos de trabalho e pela ausência de uma tradição fabril territorializada. <strong>[2]</strong> Ocorre que esse isolamento não constitui um mero detalhe geográfico, mas o resultado direto da metamorfose da esquerda combativa em esquerda de Estado: encerradas no formalismo corporativo dos setores organizados, as estruturas sindicais deram as costas aos trabalhadores informais, enquanto os quadros partidários de esquerda, convertidos em técnicos e gestores do Estado, desativaram a presença no território por considerarem a mobilização popular incompatível com a sua nova função de administradores da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante desse duplo deslocamento — corporativo e partidário —, a presença da esquerda nesses territórios deu-se quase exclusivamente pela via das lutas por moradia, das redes de solidariedade comunitária e da cobertura da assistência social, e não pelo enfrentamento direto do conflito entre patrão e trabalhador no local de produção ou de moradia. Nesses bairros, portanto, a atuação da esquerda governista estruturou-se na chave da tutela institucional, substituindo a solidariedade autônoma de classe pela intermediação burocrática junto às próprias instâncias do aparato público. Em contrapartida, a força de Boulos no Centro Expandido — cujo ápice registrou-se na Bela Vista, com 43,65% dos votos válidos — revela que seu núcleo eleitoral mais denso advém das zonas de alta renda e elevada escolaridade. Trata-se da geografia de reprodução das novas elites intelectuais e tecnocráticas, onde o discurso identitário e a pauta da gestão progressista da cidade encontram ressonância imediata — operando em um plano abstrato, blindado das agruras materiais e do confisco do tempo que martirizam o cotidiano do trabalhador no trecho metropolitano.</p>
<figure id="attachment_159583" aria-describedby="caption-attachment-159583" style="width: 292px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159583" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9.png" alt="" width="292" height="222" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9.png 292w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9-100x75.png 100w" sizes="auto, (max-width: 292px) 100vw, 292px" /><figcaption id="caption-attachment-159583" class="wp-caption-text">Gráfico 9 — Dispersão por zona eleitoral: Marçal × Boulos. Zonas acima da linha diagonal = Boulos à frente; abaixo = Marçal à frente. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>IV. O voto como escolha gramatical racional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A reação habitual da esquerda a estes números insiste no diagnóstico que a Parte I caracterizou como sintoma: o recurso preguiçoso à ideia de que o trabalhador periférico &#8216;não sabe votar&#8217; ou é refém de &#8216;alienação&#8217;. Trata-se de uma manobra típica da moralidade identitária — transmutar o estrangulamento material do sujeito em defeito de sua consciência. Se Faye explica a circulação da gramática do coaching, falta decifrar por que a linguagem de classe atrofiou. A gramática totalitária reproduz-se sem necessidade de regência central: ganha escala porque cada indivíduo, ao utilizá-la, a ratifica no espaço social. O inverso é verdadeiro: a gramática de classe não exige aparatos burocráticos para pulsar — exige enraizamento no chão do bairro, da fábrica, do escritório – das relações sociais de trabalho. E foi precisamente esse chão que a esquerda evacuou.</p>
<p style="text-align: justify;">O nó do problema é claro: a gramática totalitária não triunfou por superioridade teórica na Zona Leste, mas por ter herdado o vazio deixado pela retirada das lutas sociais. O operário da Vila Matilde não se tornou um convertido; ficou desprovido de linguagem de classe. Esse deserto gramatical constitui o desfecho inescapável do acoplamento do sindicalismo e dos partidos de esquerda às engrenagens do Estado Amplo. Trata-se de um longo processo de assimilação no qual os órgãos de combate, ao se converterem em burocracias, abandonaram a organização autônoma do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a entidade sindical assume o controle de fundos de investimento, o trabalhador que a rejeita não está alienado: está formulando um diagnóstico lúcido sobre uma estrutura que se virou contra ele. O problema é que essa recusa justa é tragada por uma narrativa que perpetua a sua espoliação.</p>
<p style="text-align: justify;">A derrocada do sindicalismo tradicional não gerou um vácuo inerte, mas uma zona gramatical desprotegida. A gramática totalitária — leve, descentralizada e viral — move-se com desenvoltura nesses espaços abandonados. O coach não derrotou a burocracia sindical na arena das ideias; simplesmente ocupou o espaço que esta desocupou ao se metamorfosear em capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador que reage contra esse ecossistema exerce uma leitura precisa da sua estagnação — ainda que o seu voto acabe prisioneiro de uma gramática autoritária. O rótulo de &#8216;pobre de direita&#8217; serve apenas para blindar a esquerda governista de sua própria falência territorial, recusando-se a enxergar a razão material do protesto. Com isso, cumpre-se rigorosamente a máxima de Faye: quando a linguagem de libertação deixa de habitar o cotidiano, a gramática totalitária não precisa vencer o debate de ideias — basta-lhe a posse do terreno vago.</p>
<p style="text-align: justify;">A narrativa do coach-empreendedor converteu-se na única gramática de agência que o sistema manteve aberta para quem vive sob o confisco do rendimento real, a expulsão do mercado formal e a desregulamentação absoluta. Diante do cinismo das linguagens institucionais herdeiras do iluminismo gerencial, a teologia do empreendedorismo de si performa uma falsa liberdade — mas entrega o único simulacro de protagonismo disponível no ecossistema criado pela própria gramática totalitária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>V. A acusação moral como escudo da burocracia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O insulto revela a estrutura. Ao rotular o espoliado periférico de “alienado” ou “pobre de direita”, a esquerda identitária reproduz o exato dispositivo que a Parte I identificou como marca do pós-fascismo: a essencialização do sujeito, a substituição da análise materialista pelo veredicto moral, a recusa da mediação em favor da condenação. O que torna esse dispositivo particularmente revelador é que ele opera nos dois polos do campo de esquerda — e de formas simétricas. A esquerda governista, assimilada pelo Estado Amplo, converte a crítica de classe em gestão identitária de conflitos: administra as diferenças sem tocar nas relações de exploração que as produzem. A extrema-esquerda, encastelada em sua pureza doutrinária, recusa o contato com a classe real porque a classe real não corresponde ao sujeito histórico que seus textos prescrevem. Ambas produzem o mesmo resultado prático: o terreno vago. Uma o produz por integração ao capital; a outra, por horror ao chão.</p>
<p style="text-align: justify;">Reed Jr. e Michaels dissecaram o mecanismo nos Estados Unidos: a centralidade identitária desloca o conflito de classe para um terreno perfeitamente palatável às elites corporativas. No caso brasileiro, o deslocamento tem uma especificidade: foi operado em parte pelas mesmas estruturas que deveriam ser seu antídoto. A burocracia sindical que gere fundos de pensão e senta em conselhos de administração não apenas deixou de representar o trabalhador — tornou-se parte do sistema que o explora. O rótulo de “pobre de direita” é a última linha de defesa dessa burocracia: enquanto o trabalhador da Zona Leste for visto como problema cognitivo, não será necessário enfrentar a ruptura estrutural que a própria esquerda produziu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VI. A gramática e o território</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A eleição de 2024 em São Paulo traduz no território o que a análise teórica demonstrou no plano discursivo: a gramática totalitária encontrou no antigo cinturão operário o seu solo mais fértil precisamente porque as instâncias de mediação de classe se retiraram do chão da fábrica e do bairro.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a evidência empírica confirma não é uma mera correlação estatística entre espoliação e voto — isso qualquer regressão linear produziria. O que os dados escancaram é um paradoxo histórico: a Zona Leste, berço da maior densidade de organização trabalhadora desta metrópole, tornou-se o epicentro de adesão a uma narrativa que dissolve a consciência de classe no empreendedorismo de si. Não se trata de coincidência, mas de causalidade funcional: a gramática totalitária não penetrou apesar da tradição operária, mas através da casca em que essa tradição se converteu ao integrar-se às funções gerenciais do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O contradiscurso possível não virá da tutela moral de uma burocracia partidária. Virá da reconstrução de uma linguagem enraizada no chão da vida cotidiana — no tempo espoliado no transporte, na conta que não fecha, no rendimento real confiscado pela metrópole. Somente uma gramática que coloque a exploração material no centro, oferecendo pertencimento sem exigir submissão à etiqueta gerencial, poderá romper os labirintos digitais do capital. A disputa decisiva não é pela conversão moral do indivíduo, mas pela posse das palavras que dão sentido à dor do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">E aqui está o verdadeiro paradoxo que os dados revelam: a Zona Leste não foi capturada pela gramática do coach apesar de ter sido o berço do sindicalismo combativo. Foi capturada por causa do que esse sindicalismo se tornou. O fascismo pós-fascista não precisou vencer a tradição operária da Vila Matilde — bastou-lhe aguardar que ela se desintegrasse por dentro. O triunfo da gramática totalitária no antigo cinturão operário de São Paulo não é uma vitória ideológica: é o resultado de uma vacância. Enquanto essa vacância não for preenchida por uma gramática que nomeie a exploração com a precisão com que os dados a revelam, o ônibus das cinco da manhã continuará sendo o veículo em que a gramática sem dono faz seus recrutamentos. Até quando os gabinetes continuarão culpando os trabalhadores pelo deserto que eles próprios produziram?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Nota metodológica: Os dados setoriais da RAIS referem-se ao município de São Paulo como um todo. O geocruzamento RAIS × distrito — que estabelece a densidade de postos de trabalho por unidade territorial e sua correlação com o resultado eleitoral por zona.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A assimetria entre distritos-polo e distritos-dormitório constitui o dado estrutural que ancora empiricamente o argumento desta seção. Enquanto Itaim Bibi registra densidade de emprego formal equivalente a 420% de sua PEA residente — absorvendo, portanto, força de trabalho de outros territórios —, Itaim Paulista e Cidade Tiradentes, distritos nucleares da Zona Leste, operam com densidades de 15% e 16%, respectivamente. O trabalhador residente nesses distritos não apenas recebe menos: trabalha em outro território, percorrendo diariamente a distância entre o dormitório periférico e o polo atrator, o que explica de forma estrutural, e não apenas estatística, os 83% de dependência exclusiva do transporte coletivo registrados pela OD 2023.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">BERNARDO, João. Capital, gestores, sindicato. São Paulo: Vértice, 1987.<br />
BERNARDO, João. Labirintos do Fascismo. Porto: Afrontamento, 2015.<br />
BERNARDO, João. Do sindicalismo de negócios ao negócio sindical. Passa Palavra, 3 jul. 2019. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/07/127156" href="https://passapalavra.info/2019/07/127156" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2019/07/127156</a>.<br />
BERNARDO, João; PEREIRA, Luciano. Capitalismo Sindical. São Paulo: Xamã, 2008.<br />
COMPANHIA DO METROPOLITANO DE SÃO PAULO. Pesquisa Origem e Destino 2023. São Paulo: Metrô, 2025.<br />
FAYE, Jean-Pierre. Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative. Paris: Hermann, 1972.<br />
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2022: Agregados por Setores Censitários. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.<br />
KOWARICK, Lúcio (org.). As lutas sociais e a cidade: São Paulo, passado e presente. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1994.<br />
REED JR., Adolph; MICHAELS, Walter Benn. No Politics but Class Politics. Londres: ERIS, 2023.<br />
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Votação nominal por município e zona — Eleições 2024. Disponível em: &lt;<a class="urlextern" title="https://dadosabertos.tse.jus.br" href="https://dadosabertos.tse.jus.br" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://dadosabertos.tse.jus.br</a>&gt;. Acesso em: jul. 2026.</p>
<p style="text-align: center;"><em>A obra que ilustra o artigo é da autoria de Paulo Ito (1978-).</em></p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (8)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Aug 2026 11:17:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[ É difícil enfatizar a importância do esforço para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.  Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h3 style="text-align: justify;">CAPÍTULO 6</h3>
<h3 style="text-align: justify;">Fios cruzados, Ou da Greve para a Revolta</h3>
<p style="text-align: justify;">Em 1963, a revista socialista <em>Monthly Review</em> dedicou uma edição dupla a um trabalhador da indústria automobilística de Detroit: uma descrição precisa que ressalta a qualidade comum da trajetória de James Boggs, inseparável de sua vida notável. Em 1937, seguindo o caminho da primeira Grande Migração de negros americanos do sul rural para o norte e o meio-oeste industrial, Boggs mudou-se do Alabama para Detroit, onde viveria o resto de sua vida. Ele acabaria se casando com Grace Lee, a terceira líder e teórica da Tendência Johnson-Forrest, juntamente com C. L. R. James e Raya Dunayevskaya. A tendência teve origem no Partido dos Trabalhadores e no Partido Socialista dos Trabalhadores, dois grupos trotskistas; ela preservava uma perspectiva obreirista e dava atenção especial às greves selvagens militantes entre mineiros e trabalhadores automotivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Dado esse conjunto de circunstâncias, afiliações e compromissos, o breve prefácio de Boggs para seu livro <em>The American Revolution: Pages From a Negro Worker&#8217;s Notebook</em> (<em>A Revolução Americana: Páginas do Caderno de um Trabalhador Negro</em>) é surpreendente. Ele conclui:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sou um operário de fábrica, mas sei mais do que apenas o trabalho na fábrica. Sei a diferença entre o que soaria certo se vivêssemos em uma sociedade de pessoas lógicas e o que é certo quando se vive em uma sociedade de pessoas reais com diferenças reais. Pode parecer perfeitamente natural para uma pessoa altamente educada e lógica, mesmo quando ouve as pessoas dizerem que haverá uma grande revolta, supor que não haverá uma grande revolta porque as autoridades têm tudo sob controle. Mas se eu continuasse ouvindo as pessoas dizerem que haveria uma grande revolta e visse uma dessas pessoas lógicas parada no meio, <em>eu </em>diria a ela que era melhor sair do caminho, porque com certeza seria morta.</p>
<p style="text-align: justify;">Reformas e revoluções são criadas pelas ações ilógicas das pessoas. Muito poucas pessoas lógicas fazem reformas e nenhuma faz revoluções. Direitos são o que você faz e o que você toma <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">É uma passagem curiosa, e não apenas por seu gesto final do que poderíamos chamar de <em>instrumental irracionalidade</em>. Por um lado, é um pouco opaca; o surgimento repentino da revolta é, no mínimo, sem motivo, ou desorientadoramente presciente. 1963 é quatro anos antes da Grande Rebelião de Detroit, na época a revolta de maior escala na história nacional. E é um ano antes das rebeliões no Harlem e em outros lugares inaugurarem o período em que a “revolta racial” ascende como uma característica central do cenário político dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, o raciocínio que permeia a passagem é familiar, se você já passou alguns momentos com a história implícita do debate. Ele associa tacitamente a organização operária à “lógica”, a um tipo de ordem que não pode deixar de refletir a racionalidade congelada da linha de montagem da fábrica. A revolta vem acompanhada de desordem, ilógica, o espaço social ambiente do boato. Não menos significativo, o texto recupera a superação da política prescritiva por Luxemburg. Sua distinção entre “o que soaria certo se vivêssemos em uma sociedade de pessoas lógicas” e “o real” do que realmente acontece em determinadas condições sociais é uma versão da oposição de Luxemburg entre o politicamente “desejável” e o “historicamente inevitável”.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada um deles encontra a particularidade de seu momento, de sua abertura, incerteza, possibilidade. Os anos 1960 dão origem a uma situação única de revoltas e greves, que se concentra principalmente em Detroit. A situação lá tem duas características distintas. Uma é a racialização da revolta, ou melhor, a relação entre revolta e racialização. Esse é o tema de um capítulo posterior. A outra, que difícilmente pode ser dissociável da questão racial, é a proximidade entre as duas formas de ação coletiva — sua coexistência, adjacência, confronto. Esse é um enigma revelador da década, um emaranhado que, à medida que se desenvolve e se esclarece, começa a revelar como a revolta não apenas expressará, mas explicará seu momento histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">As associações mais reveladoras e preditivas entre revolta e greve são aquelas com determinadas condições político-econômicas que orientam o capital como um todo e mudam ao longo do tempo, permitindo que as formas de ação mudem em seu significado e seu poder. Essa indexação não é absoluta; as condições político-econômicas não são absolutamente determinantes. Em vez disso, elas sugerem possibilidades e limites. O campo da disputa social é mantido em tensão, por um lado, pela capacidade dos seres humanos de “fazer sua própria história” e, por outro, pelas “circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas do passado”. É por causa da tensão entre essas forças, entre agência e determinação, que encontramos múltiplas formas de ação coletiva dentro de uma determinada conjuntura. Ao mesmo tempo, como um determinado conjunto de condições se inclina para um lado e não para outro, uma das formas de ação tenderá a se tornar a tática dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">Em períodos de transformação sistêmica, haverá necessariamente mudanças nas táticas dominantes e competições entre táticas, à medida que diferentes frações da sociedade, posicionadas de maneira diferente, empreendem lutas emancipatórias. Os anos 1960 e 1970 nos Estados Unidos oferecem um estudo extraordinário desse fenômeno de transformação, equivalente ao que vimos no início do século XIX na Grã-Bretanha — embora aqui o vento da mudança sopre na direção oposta, da fábrica de volta para o porto, o mercado, a praça pública. Apesar de todas as diferenças manifestas, há ressonâncias da destruição de máquinas do século XIX, à medida que mudanças radicais na produção social se manifestam como indecisão e transformação dentro do repertório de táticas. Com a greve agora uma tática distinta e popular, o retorno da revolta aparece a princípio como um esforço estranho e heróico de unir as duas formas de ação em um processo revolucionário no qual a luta operária e a revolta parecem duas frentes de um único antagonismo. “Sou um operário de fábrica, mas sei mais do que apenas o trabalho na fábrica”, diz Boggs; poderia ser a década falando. A luta e a invenção incessantes da década, em grande parte centradas entre a população negra que suportava o peso inicial da desindustrialização, só são possíveis dentro de uma janela muito estreita. É um esforço perseguido de lado, desesperadamente, talvez às escondidas da consciência, e que, em última análise, é incapaz de se realizar.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159561 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1.jpg" alt="Revolta, greve, revolta" width="734" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1.jpg 734w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-514x420.jpg 514w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-640x523.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-681x557.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 734px) 100vw, 734px" /></p>
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<h3 style="text-align: justify;"><em>Luta e Lucro</em></h3>
<p style="text-align: justify;">A greve sobrevive como tática principal no ocidente industrializado ao longo dos anos 1960. Tal como Engels sugeriu, está ligada à expansão económica. Ao longo do século XX, a greve não acompanha a catástrofe econômica, mas sim o crescimento, um fato que não é menos verdadeiro nos anos 1930 da Depressão e da Frente Popular do que durante o boom do pós-guerra, como observou o sociólogo Roberto Franzosi:</p>
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<p style="text-align: justify;">Pesquisas quantitativas mostraram, sem sombra de dúvida, em diferentes contextos institucionais (períodos de amostragem e países), que a frequência das greves acompanha o ciclo econômico e, em particular, o movimento do desemprego — quanto maior o nível de desemprego, menor o nível de greves <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Apesar da clareza dessa correlação, a associação tradicional da greve com o baixo desemprego faz parte de uma dinâmica mais ampla de acumulação sistêmica e industrialização em expansão, inexoravelmente ligada a altas taxas de lucro. A acumulação, deve-se observar, não é um processo fluido e sem complicações, mesmo quando vista à distância. O longo metaciclo do capital produtivo no Ocidente, de cerca de 1830 a 1973, é repleto de volatilidade, crises, recessões e uma transferência entre potências hegemônicas. No entanto, dentro desse cenário histórico variado, a correlação entre greves, mercados de trabalho tensos, expansão industrial e altas taxas de lucro é impressionante; a causalidade é logicamente necessária. Ela se baseia nas dificuldades relativas em substituir a mão de obra, na relutância do capital em interromper atividades altamente lucrativas, na capacidade do Estado de comprar a paz interna com salários sociais e na capacidade da força de trabalho de aumentar sua posição e seu poder de compra, na medida em que há excedente social a ser apropriado.</p>
<p style="text-align: justify;">Os anos 1960, nesse aspecto, são um período incomum. As taxas de lucro permanecem historicamente altas. O crescimento real do PIB mundial na década é superior a 5%, mais de um ponto percentual acima das décadas anteriores e posteriores, impulsionado pela Anglosfera e pelo norte da Europa, com o Japão crescendo ainda mais rapidamente em sua recuperação acelerada. As taxas de lucro líquido da indústria nos EUA apresentam picos iguais e médias superiores a qualquer outro período de expansão <strong>[3]</strong>. Consequentemente, o “desaparecimento das greves” no norte da Europa, no Reino Unido, nos EUA e no Canadá, previsto por alguns economistas — apostando que, dentro de um “movimento trabalhista maduro… os membros não estão tão predispostos a greves como antes” — não se concretizou <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, começa a aparecer a fraqueza macroeconômica, com a expansão desacelerando à medida que os lucros acumulados buscam, cada vez mais em vão, uma saída produtiva, iniciando “a crise sinalizadora do regime de acumulação dos EUA no final da década de 1960 e início da década de 1970” <strong>[5]</strong>. As tentativas correspondentes de aumentar o poder de compra não levam à renovação da produção, mas à inflação e à fuga de capitais, no caminho para a crise de 1973 que sinalizaria o declínio do ciclo de acumulação liderado pelos EUA. Brenner acompanha o declínio do setor industrial dos EUA, e da manufatura em geral, diante da concorrência internacional, um fenômeno do qual as montadoras são, como sempre, os principais exemplos. O efeito desse declínio, “especialmente dada a enorme fração do total das economias capitalistas avançadas representada pela produção dos EUA, foi uma grande queda na lucratividade agregada das economias capitalistas avançadas, localizadas principalmente na manufatura, nos anos entre 1965 e 1973” <strong>[6]</strong>. O fato de a desaceleração global ter sua base no motor industrial dos EUA sugere que pode ser possível generalizar, pelo menos de forma limitada, a partir da experiência dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma economia paradoxal, com alta produtividade ofuscada pela desindustrialização incipiente. As greves persistem: no Reino Unido, a década de 1960 veria um aumento notável tanto nas paralisações quanto no total de dias de trabalho perdidos. Nos Estados Unidos, as greves experimentariam um surto no outono, começando por volta de 1964 e durando até os anos 1970 — não se sabia que esse seria o último brilho dourado antes do inverno chegar para o movimento operário no coração do sistema capitalista mundial <strong>[7]</strong>. Ao mesmo tempo, há uma visibilidade rapidamente crescente de revoltas em todas as escalas, mais notavelmente na série de “Long Hot Summers” (Longos Verões Quentes). A nova era de revoltas ainda não chegou de fato, mas a transição desigual já começou.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seu estudo sobre o estado carcerário na Califórnia, Ruth Wilson Gilmore descreve a maneira como uma população racializada se mobiliza entre opressões locais e colapso sistemático:</p>
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<p style="text-align: justify;">A Rebelião de Watts de 1965 foi uma encenação consciente de oposição (mesmo que “espontânea” no sentido leninista) à desigualdade em Los Angeles, onde o apartheid cotidiano era renovado à força pela polícia sob a direção do chefe William Parker, um supremacista branco assumido. Em Oakland, o Partido dos Panteras Negras foi concebido como um desafio dramático, altamente disciplinado e fácil de imitar à brutalidade policial local. A organização militante urbana antirracista negra, que se concentrava em atacar as formas concretas pelas quais “a raça… é a modalidade através da qual a classe é vivida”, surgiu de muitas décadas de luta no caldeirão sangrento da revolução contra o apartheid do sul <em>e seu</em> sósia nas cidades do norte…</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1967, o sistema começou a desmoronar simbolicamente e materialmente. Durante o Verão do Amor, enquanto milhares de hippies se reuniam em São Francisco para repudiar o establishment, a Califórnia alinhou suas forças coercivas antirracistas por trás <em>da vanguardista Panther Gun Bill</em> (Lei dos Panteras Armados) — tudo isso ao mesmo tempo em que a taxa de lucro começou seu espetacular declínio <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Mesmo o famoso e anódino Relatório Kerner, encomendado por Lyndon Johnson após os distúrbios de Newark e a Grande Rebelião de 1967, registra “uma mudança gradual tanto nas táticas quanto nos objetivos” dos protestos negros, “de ações legais para ações diretas, da classe média e alta para ações em massa… de apelar para o senso de justiça dos americanos brancos para demandas baseadas no poder do gueto negro” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os contornos da revolta moderna, a <em>revolta linha</em>, começam aqui a ficar claros. Embora compartilhe certas características e lógicas com revoltas mais antigas, ela entra em uma situação histórica muito diferente e enfrenta um cenário estranho. Portanto, é crucial observar que a sequência <em>revota-greve-revolta linha</em> não sugere uma simples oscilação histórica, mas um desenvolvimento longo e abrangente que esgota e recupera formas à medida que o conteúdo e o contexto da luta mudam. Como essa trajetória traça mudanças sociais mais amplas que ocorrem em diferentes graus em todo o mundo superdesenvolvido, certas semelhanças podem ser observadas apesar das diferenças nacionais ou regionais, por exemplo, entre as revoltas no Reino Unido e na França.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta nos Estados Unidos é uma nova fase da luta racializada que emerge da e contra a história do movimento pelos direitos civis, mais orientado para as reformas, que em 1965 já havia conquistado grande parte das vitórias que conquistaria. A racialização da nova revolta se destaca ainda mais claramente no contexto do trabalho organizado, sobretudo pela branquitude codificada desse contexto. Rotineiramente precipitado pela violência dos atores estatais e sua consequente impunidade, o auge das revoltas deve ser pensado não apenas no contexto da violência racial do Estado, mas também, por exemplo, no do racismo agressivo dos sindicatos da AFL, que conseguiram adiar a formação de qualquer sindicato liderado por negros até a carta de 1925 da Brotherhood of Sleeping Car Porters. Ou seja, a negritude da revolta aparece não apenas como uma continuidade conturbada do movimento pelos direitos civis contra a anti-negritude do Estado, mas também contra a branquitude da greve. Isso acaba por estruturar o próprio senso comum — apesar da longa história de exemplos contrários em ambos os lados da suposta dicotomia, desde as revoltas “nativistas” de brancos contra brancos no século XIX e a onda de ataques anti-asiáticos após a Lei de Exclusão Chinesa até a Greve dos Viticultores de Delano.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um paradoxo evidente. Por um lado, o tema das revoltas contemporâneas no Ocidente é consistentemente racializado, e os padrões de longa data de violência racializada, contenção e abjeção são inseparáveis do desenvolvimento das revoltas modernas. Por outro lado, a identificação absoluta e eventualmente naturalizada da tática com a raça acabará sendo um erro destrutivo, uma confusão entre correlação e causa — como se a própria negritude fosse a origem das revoltas. Janet Abu-Lughod ressalta os limites do termo “revolta racial”, observando a construção da <em>raça</em> e, além disso, a inadequação do termo <em>revolta</em> em relação aos sentidos mais abertamente políticos disponíveis para a linguagem de revolta e rebelião. No final, ela o mantém “porque tem uma referência aparentemente clara na literatura à violência inter-racial, seja iniciada por coletividades de brancos contra negros ou por coletividades de negros contra brancos” <strong>[10]</strong>. Significativamente, a história das revoltas raciais nos Estados Unidos começa com os brancos disciplinando outras populações insubordinadas. O “Verão Vermelho” de 1919, que ajudaria a forjar laços profundos, mas agora amplamente esquecidos, entre os negros dos EUA e as organizações socialistas e comunistas, é o exemplo mais conhecido, mas dificilmente o único, inserido em “uma onda extraordinária de violência em massa dirigida aos negros entre 1919 e 1923” <strong>[11]</strong>. Na segunda metade do século XX, <em>as revoltas raciais</em> evocam imagens de violência espontânea dos negros. É só então que o termo passa a significar revoltas como tal. A convergência retórica é grosseira e eficaz. O caráter supostamente irracional e natural das revoltas, sem razão, organização e mediação política, está alinhado com a tradição racista em que os sujeitos racializados são considerados naturais, animalescos, irracionais e imediatos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159562 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="486" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2.jpg 486w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-243x300.jpg 243w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-340x420.jpg 340w" sizes="auto, (max-width: 486px) 100vw, 486px" /></p>
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<h3 style="text-align: justify;"><em><strong>Revoluções Por Minuto</strong></em></h3>
<p style="text-align: justify;">Em 1968, o Partido Socialista Italiano da Unidade Proletária ficou em um impasse sobre um convite para sua conferência internacional em 1968: um membro dos Panteras Negras ou alguém do movimento operário radical de Detroit? Sua grande sorte foi descobrir que John Watson era um membro central tanto do Movimento Revolucionário da União Dodge (DRUM) quanto do principal grupo do Black Power. Essa situação não duraria muito. “A filiação de Watson a duas organizações revolucionárias distintas, o DRUM e os Panteras Negras, representou um compromisso de curta duração entre as forças revolucionárias em Detroit e na Califórnia”, que entraria em colapso logo em seguida <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse momento é o ponto crucial de uma sequência política volátil. Mesmo o relato mais resumido oferece uma noção da rápida mudança das formações revolucionárias. A pré-história deve incluir a ascensão da industrialização dos EUA em Detroit, bem como a fundação da Nação do Islã, liderada pelo trabalhador automotivo desempregado Elijah Muhammad. Entre 1920 e 1970, a população negra de Detroit aumentou de 4% para 45%; este é o local mais dramático de uma internalização mais ampla da mão de obra negra no proletariado industrial, ele próprio uma força motriz nos sucessos do movimento pelos direitos civis e no desgaste da lei formal de Jim Crow <strong>[13]</strong>. O início dos anos 1960 vê o desenvolvimento da UHURU, uma filial ativa do Movimento de Ação Revolucionária (RAM) nacional, e em 1966 a fundação da filial de Detroit do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa. Em seguida, a Grande Rebelião no verão de 1967, caracterizada, entre outras coisas, por vários atiradores nos telhados repelindo a polícia. No outono do descontentamento de Detroit, o Inner City Voice, um jornal militante negro liderado por Watson nos escritórios da Wayne State University, torna-se um nexo para várias lutas militantes; sua equipe inclui figuras centrais em todos os grupos do período. No ano seguinte, forma-se o DRUM e, em seguida, vários outros RUMs; em 1969, eles se unem como Liga dos Trabalhadores Negros Revolucionários (LRBW). Em 1970, a seção de Detroit dos Panteras é fechada, talvez por ordem da poderosa seção de Chicago; bem antes disso, “as tensões ideológicas entre os Panteras e a Liga haviam se tornado de conhecimento público” <strong>[14]</strong>. Em 1970, a LRBW inicia uma longa e dolorosa cisão, dividida entre tendências que apoiam a luta na frente cultural, o engajamento parlamentar, a formação de conselhos operários e um partido vanguardista negro. Em 1972, o que restava da LRBW se afilia à Liga Comunista e deixa de existir como entidade autônoma. Na medida em que é possível fazer afirmações pontuais, a sequência terminou e, com ela, os longos anos 1960 <strong>[15]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito se escreveu sobre essa ascensão e queda. Menos atenção foi dada à característica mais notável da sequência, que é justamente o que a torna uma sequência, em vez de um agregado caótico de grupos, partidos, interesses e contrainstituições, cada um sincronicamente relacionado a fenômenos díspares em outros lugares. Trata-se da tênue mistura entre o trabalho militante organizado e o Black Power.</p>
<p style="text-align: justify;">As condições que possibilitaram a sequência, em primeiro lugar, incluem a entrada simultânea da mão de obra negra no núcleo do setor industrial e sua marginalização dentro dele. Por um lado, “a revolução negra da década de 1960 finalmente chegou a um dos elos mais vulneráveis do sistema econômico americano — o ponto da produção em massa, a linha de montagem” <strong>[16]</strong>. Por outro lado, a força dessa chegada foi atenuada pelos sindicatos tradicionais, cujo sistema de antiguidade efetivamente deu “força legal ao monopólio dos homens brancos dos melhores empregos”, nas palavras de um autor anônimo, que continua:</p>
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<p style="text-align: justify;">Neste deserto de esperanças distorcidas dos trabalhadores, de onde mais poderia vir a redenção senão daqueles cujos interesses eram sacrificados a cada passo para que outro grupo mais favorecido pudesse fazer as pazes com os patrões? De onde mais, senão dos trabalhadores negros das fábricas infernais de automóveis da cidade de Detroit? <strong>[17]</strong></p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Tudo isso contribui para contextualizar o que poderíamos chamar de “greve militante negra”. Trata-se de uma versão da greve selvagem que vai além dos sindicatos tradicionais centrados nos brancos. Sua autoridade deriva, em grande parte, das revoltas urbanas em Detroit e em outros lugares — ou seja, de lutas que não se baseiam em condições de trabalho comuns, mas sim na distância do mercado de trabalho, na luta confrontadora pela reprodução social fora da esfera da produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Na mesma linha, os distúrbios tiram lições da tradição da greve. Escrevendo na primavera de 1967, o teórico do Black Panther Huey P. Newton mostra-se cético em relação às revoltas:</p>
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<p style="text-align: justify;">Ainda estamos no estágio elementar de jogar pedras, paus, garrafas de vinho vazias e latas de cerveja em policiais racistas que esperam uma chance de assassinar negros desarmados… Não podemos mais nos dar ao luxo duvidoso das terríveis baixas infligidas arbitrariamente a nós pelos policiais durante essas rebeliões <strong>[18]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não é, porém, um defensor das lutas trabalhistas. Sua questão é como <em>passar</em> da revolta para um combate mais eficaz e, para isso, ele convoca o “Partido de Vanguarda” — ou seja, por tipos de ordem e disciplina herdados da organização do trabalho proletário e do campesinato agrícola. É característico do período que tanto a revolta quanto a greve, buscando ultrapassar seus próprios limites, ocorram simultaneamente. Cada uma parece precisar da outra para parecer revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa coincidência não pode ser reconhecida como tal pelos observadores oficiais. O <em>Relatório Kerner</em>, usando a rubrica “desordens”, oferece esta descrição da Grande Rebelião: “Um espírito de niilismo despreocupado estava se instalando. Revoltas e destruição pareciam cada vez mais se tornar fins em si mesmos. No final da tarde de domingo, pareceu a um observador que os jovens estavam &#8216;dançando em meio às chamas&#8217;” <strong>[19]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não pode deixar de harmonizar-se com os “infernos” do trabalho descritos acima. Tudo está a arder. A par do aumento em grande escala da força de trabalho negra, o desemprego entre os negros após a Segunda Guerra Mundial oscila entre 150 e 400 por cento acima do dos brancos e significativamente acima do dos hispânicos não brancos também <strong>[20]</strong>. A população total de Detroit atinge o seu pico em 1950 e começa um declínio bastante acentuado; a cidade deixa de crescer economicamente por volta de 1960, mesmo com a continuação da mudança demográfica <strong>[21]</strong>. O fardo racial da desindustrialização é ainda mais agravado pelas políticas sindicais de “último contratado, primeiro demitido”, que revertem a segunda Grande Migração em uma Grande Exclusão contínua. Assim, vemos duas tendências: uma economia manufatureira ainda dominante que internaliza a força de trabalho negra, mas que começa seu declínio e é incapaz de absorver totalmente o influxo demográfico. Isso implica um aumento tanto da população negra empregada quanto da excedente, sujeita a desapropriações diferenciadas. Mas essas tendências estão se movendo em direções opostas. No período de 1965 a 1973, as linhas de tendência se cruzam como fios elétricos, e Detroit testemunha <em>a intensificação das condições para revoltas e greves</em>, centradas na comunidade negra. Essa é a situação à medida que os anos 1960 se aceleram e a base para a sequência política que se desenrola, mesmo que não possa durar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1970, o início da sequência já havia começado a se encerrar:</p>
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<p style="text-align: justify;">[A Liga] acreditava que o Partido dos Panteras Negras, com sede em Oakland, estava indo na direção errada ao se concentrar em organizar elementos lumpen da comunidade negra. A Liga não acreditava que um movimento bem-sucedido pudesse se basear nos lumpen, pois eles carecem de uma fonte potencial de poder. A Liga acreditava que os trabalhadores negros eram a base mais promissora para um movimento negro bem-sucedido devido ao poder potencial derivado da capacidade de interromper a produção industrial <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">O debate ideológico sobre o sujeito revolucionário adequado (ao qual voltaremos), com suas aparentes diferenças regionais, repousa sobre o destino dos próprios sujeitos. Já em 1963, Boggs havia diagnosticado a produção da não produção e o excedente populacional, e até que ponto isso estava fadado a desmantelar a organização trabalhista. Suas observações marcam a distância desde 1919, quando a Irmandade de Sangue Africana (a primeira liga de comunistas negros nos EUA) pôde incluir como parte de seu programa básico uma reivindicação por “Desenvolvimento Industrial” <strong>[23]</strong> Ele escreve:</p>
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<p style="text-align: justify;">A automação substitui os homens. É claro que isso não é novidade. O que é novo é que agora, ao contrário da maioria dos períodos anteriores, os homens deslocados não têm para onde ir. Os agricultores deslocados pela mecanização das fazendas na década de 1920 podiam ir para as cidades e trabalhar na linha de montagem […] nos Estados Unidos, com a automação chegando quando a indústria já atingiu o ponto em que pode suprir a demanda do consumidor, a questão do que fazer com o excedente de pessoas que são dispensáveis pela automação se torna cada vez mais crítica a cada dia <strong>[24]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Os editores da edição especial se esforçam para discordar, insistindo que “à medida que o trabalho produtivo se torna cada vez mais frutífero e menos necessário”, o capital desenvolverá outros setores, criará “direta e indiretamente, outras áreas de emprego — em vendas, entretenimento, especulação (legal e ilegal), serviços pessoais e assim por diante. Alguns dos empregos assim criados também sucumbem à automação, mas o processo de proliferação não é interrompido” <strong>[25]</strong>. Isso tem alguma verdade; esses setores, em geral, passam por períodos de crescimento à medida que a desindustrialização avança. No entanto, não o suficiente para gerar os mercados de trabalho tensos que as greves exigem — muito menos para restaurar a acumulação de capital em níveis suficientes, sendo esse trabalho, em primeiro lugar, amplamente improdutivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Detroit é única neste período, não pela medida em que é uma exceção na trajetória histórica das condições para motins e greves, mas pela forma como é uma clarificação laboratorial de um processo dinâmico que ocorre de forma desigual em todo o mundo superdesenvolvido, uma dinâmica baseada na grande transformação do capitalismo que será conhecida como desindustrialização, acompanhada pelo declínio da acumulação e por mudanças na divisão global do trabalho e do não trabalho. Se a organização militante dos trabalhadores parece prevalecer em Detroit por volta de 1970, ela é minada a longo prazo. Em 2005, os afro-americanos representarão mais de 80% da população de Detroit, e pelo menos um quarto deles estará desempregado <strong>[26]</strong>. A previsão de Boggs acabará captando a realidade da situação.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo isso, é difícil enfatizar adequadamente a importância do esforço nesse período para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159563 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="750" height="457" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-300x183.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-689x420.jpg 689w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-640x390.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-681x415.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;"><em>A Revolta como Modalidade</em></h3>
<p style="text-align: justify;">O que pode significar, depois de ter trabalhado para rearticular o significado da revolta como uma forma de ação coletiva, sugerir agora que ela é uma modalidade política? Por exemplo, o que pode significar sugerir que os Panteras estão do lado da revolta, mesmo que Huey Newton tivesse pouca fé em tais atividades? Essa ambiguidade permeia as páginas do jornal <em>The Black Panther</em>. Um mês após o assassinato de Martin Luther King Jr. (e o assassinato separado do Pantera Lil&#8217; Bobby Hutton pela polícia) e a cascata imediata de revoltas, Eldridge Cleaver intitula sua coluna “Dig This” de “Credo para revoltosos e saqueadores” e oferece uma narrativa entusiasticamente apocalíptica; a página oposta apresenta um grande desenho de Matilaba em que dois policiais prendem ou possivelmente lincham um jovem negro, enquanto três militantes com boinas, jaquetas e rifles se preparam em uma esquina. Letras em negrito na parte superior da ilustração dizem “NO MORE RIOTS” (NÃO MAIS REVOLTAS); ao lado, “TWO&#8217;S AND THREE&#8217;S” (DOIS E TRÊS) <strong>[27]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Um primeiro passo pode ser observar que as revoltas já têm uma base em tipos alternativos de cooperação social. Robin D. G. Kelley observa sobre a revolta de Watts em 1965 que “a rebelião não surgiu do caos, mas de uma comunidade mobilizada” que abrigava uma ampla variedade de grupos, clubes e organizações mais ou menos formais; como observado acima, o mesmo aconteceu em Detroit (e certamente em outros lugares). Em Watts, as revoltas sinalizaram uma mudança em que “a orientação anterior pelos direitos civis deu lugar a uma cultura política do Black Power e alternativas culturais à assimilação da classe média”. As revoltas foram contínuas, acompanhando um desenvolvimento político mais amplo. Assim, em um caso, “logo após a revolta, gangues de rua radicalizadas formaram os Sons of Watts (Filhos de Watts) e mais tarde se juntaram ao Partido dos Panteras Negras” <strong>[28]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa continuidade entre o Black Power e os distúrbios permanece sob a superfície das políticas e dos planos. Eles compartilham uma circunstância e um propósito: “Os distúrbios que estão acontecendo são uma festa de autodefesa”, nas palavras de Fred Moten, ele próprio um teórico da negritude como excedente <strong>[29]</strong>. O sentido de ligação talvez fique mais claro se voltarmos à formulação básica das revoltas e greves como lutas de circulação e produção, respectivamente. É isso que os dados deste capítulo têm narrado: o declínio inicial e velado da produção nos Estados Unidos e no mundo, a mudança germinativa de corpos e capital para o mundo da circulação. A sequência política narra isso com igual clareza; o status da dinâmica revolta/greve nesse período serve como uma janela clara para a economia política da época. De fato, as revoltas e as greves têm todo o seu poder social porque carregam — junto com os desejos de seus participantes, suas misérias e negações — a lógica dessas categorias mais amplas. Pode-se dizer que, no limite, as revoltas e as greves são personificações coletivas da circulação e da produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a passagem central do poema “Riot”, de Gwendolyn Brooks, em que John Cabot, de nome brâmane e pertences luxuosos, “todo branco e azul sob seus cabelos dourados”, enfrenta seu fim:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Porque os negros estavam descendo a rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque os pobres estavam suados e feios</p>
<p style="text-align: justify;">(não como os dois negros delicados em Winnetka)</p>
<p style="text-align: justify;">e vinham em direção a ele em fileiras desordenadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em mares. Em ventos fortes. Eles eram negros e barulhentos.</p>
<p style="text-align: justify;">E não podiam ser detidos. E não eram discretos <strong>[30]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O poema segue as revoltas de Chicago de 1968. Não há trabalho, apenas negritude; é o futuro de Boggs, não o de seus editores. Há o consumo conspícuo de John Cabot e o movimento incontrolável dos “negros” pelas passagens urbanas. Mercado e via pública. Dificilmente se poderia pedir uma figura melhor de corpos movidos à circulação, da circulação como tal. A rima diferida carrega isso, <em>descendo a rua sem poder ser detida e sem discrição</em>. Nem são discretos. Ao mesmo tempo ordenados e não, “fileiras desordenadas”, eles se tornam negritude ambiente, negritude preenchendo e transbordando o espaço da existência social. Cabot reza para que “a negritude” não o toque, mas “Ela o impulsionou / e soprou sobre ele: e o tocou”.</p>
<p style="text-align: justify;">É difícil discernir se essa série de transferências existe no nível da consciência de Cabot ou do poema. Ambos, no final. Cabot não está, de fato, enganado sobre seu destino. Os negros são a negritude que é a revolta. Pelo menos em 1968. Na medida em que a revolta é uma categoria reconhecida pelo Estado, pela lei e pelo mercado, os negros descendo a rua sempre serão uma revolta, ou o momento antes, ou o momento depois. Tanto social quanto economicamente, a negritude aqui é excedente — para o Estado, para a lei, para o mercado. Ela promete sempre exceder a ordem, a regulamentação. A revolta é um exemplo da vida negra em suas exclusões e, ao mesmo tempo, em seu caráter de excedente, isolada na esfera barulhenta da circulação, forçada a se defender contra a morte social e corporal que lhe é oferecida. Uma rebelião excedente.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de se admirar que ela forneça a base para um imaginário de luta. Essa visão circula na ficção da época, que apresentou “uma notável proliferação de romances de autores afro-americanos projetando a possibilidade de uma guerra racial catastrófica em grande escala, de meados da década de 1960 ao início da década de 1970” <strong>[31]</strong>. Esse salto especulativo pode esclarecer de forma útil a posição de Newton. Ele é cético em relação aos limites da revolta, mas por razões bastante contrárias às razões daqueles que insistem no curso da organização trabalhista. Newton, assim como Boggs em sua análise, reconhece que o terreno de disputa marcado pela revolta é inevitável &#8211; que a revolta não é um desvio de algum caminho verdadeiro, mas existe no curso ao longo do qual a luta se desenvolverá. Ela não pode ser recusada. A revolta só pode fazer uma coisa: expandir-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizer que se está alojado em um mundo no qual a revolta é a forma de ação coletiva pela qual a luta deve passar &#8211; que é uma <em>instância</em> de uma coletividade social completa e complexa &#8211; é encontrar a revolta como modalidade social. Quando o substrato material da vida cotidiana é a concentração de populações na circulação, em economias informais &#8211; uma população coletiva tornada excedente e forçada a enfrentar o problema da reprodução no mercado em vez de no salário formal &#8211; nessa situação, qualquer reunião na esquina, na rua, na praça pode ser entendida como uma revolta. Ao contrário da greve, é difícil dizer quando e onde a revolta começa e termina. Isso é parte do que permite que a revolta funcione tanto como um evento específico quanto como uma espécie de miniatura holográfica de toda uma situação, uma imagem do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se esse relato parece aerossolizar a revolta, isso está de acordo com a circunstância com a qual a revolta se confronta. A revolta pré-industrial encontra o mercado imediatamente à sua frente, um fenômeno concreto; encontra a própria economia. Ao mesmo tempo, não encontra a polícia, o estado armado, exceto nas formas mais atenuadas. Essas tecnologias de controle permanecem incompletas e distantes em 1740. Por outro lado, a revolta pós-industrial encontra apenas uma amostra de mercadorias nas lojas locais. Os saques se aproveitam disso como devem: a verdade da antiga revolta, a fixação de preços em zero. Como Tom Hayden reconheceu no primeiro tratamento extenso da rebelião de 1967 em Newark:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A revolta foi mais eficaz contra os comerciantes que praticavam preços abusivos do que os protestos organizados jamais haviam sido. No ano anterior, foi iniciada uma pesquisa para verificar os comerciantes que pesavam suas balanças. A pesquisa fracassou devido ao desinteresse: as pessoas precisavam de poder, não de provas <strong>[32]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Ela continua sendo uma atividade central, claramente contínua com as intervenções do século XVIII. No entanto, a nova revolta descobre, ao definir o preço das mercadorias, que a economia como tal regrediu para a logística planetária e a divisão global do trabalho para o éter das finanças. A polícia, no entanto, pode ser encontrada em cada esquina.</p>
<p style="text-align: justify;">A distância entre a revolta e a <em>revolta linha</em>, os dois emissários das lutas pela circulação, parece, a princípio, ser a diferença entre a fixação de preços e a não fixação, ou entre a luta no mercado e a luta com o Estado. Esses aspectos, como sugerimos, não são tão facilmente separados, seja na prática ou teoricamente. Ao analisar a nova revolta, Georgakas e Surkin concluem que</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A violência de 1967 foi significativamente diferente daquela das explosões anteriores de Detroit. As revoltas de 1833, 1863 e 1943 foram conflitos entre raças. A rebelião de 1967 foi um conflito entre os negros e o poder do Estado. Em 1943, os brancos estavam na ofensiva e andavam pela cidade em carros à procura de alvos negros fáceis. Em 1967, os negros estavam na ofensiva e seu principal alvo era a propriedade. Em alguns bairros, os Apalaches, estudantes e outros brancos participavam da ação ao lado dos negros como seus parceiros. Diversas fotos mostram saques sistemáticos e integrados, que os rebeldes chamavam de “compras de graça” <strong>[33]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Janet Abu-Lughod observa que essa mudança no objeto da revolta também descreve as rebeliões no Harlem e em Watts, embora insista que essas rebeliões “não se tratavam apenas de brutalidade policial. Ambas ocorreram no contexto de uma recessão econômica cujo efeito apareceu primeiro nas áreas negras, mas depois se espalhou para a economia mais ampla dos EUA”, assim como em Detroit <strong>[34]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, a distinção conceitual entre violência estatal e econômica é elusiva. Guy Debord, avaliando a rebelião de Watts, teoriza o duplo confronto com o Estado e a propriedade e suas posições mutáveis. “A sociedade encontra no saque sua resposta<em> natural</em> à abundância antinatural e desumana de mercadorias”, escreve ele. Isso tem sido constantemente mal interpretado como uma sugestão de que o saque é uma realização hiperbólica da ideologia do consumo (um refrão comum dos comentaristas liberais), apesar do que Debord diz logo em seguida: “Ele [o saque] instantaneamente mina a mercadoria como tal e também expõe sua lógica última: o exército, a polícia e as outras forças especializadas que detêm o monopólio estatal da violência armada” <strong>[35]</strong>. Talvez essa exposição seja o propósito do saque, como argumentou Bruno Bosteels, caso se busque na teoria francesa a importância discursiva da revolta <strong>[36]</strong>. Ao mesmo tempo, o saque é certamente contínuo com a história prática da fixação de preços. De qualquer forma, Debord capta algo sobre o mundo superdesenvolvido e sua aparente abstração. A polícia agora ocupa <em>o lugar</em> da economia, a violência da mercadoria encarnada. No mundo em chamas da última instância, eles são fungíveis:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que é um policial? Ele é o servo ativo da mercadoria, o homem totalmente subjugado pela mercadoria, por cujos esforços um determinado produto do trabalho humano continua sendo uma mercadoria com a propriedade mágica de ser paga, e não apenas uma geladeira ou um rifle &#8211; algo cego, passivo, insensível, sujeito à primeira pessoa pronta para fazer uso dele. Por trás da humilhação de serem submetidos à polícia, os negros rejeitam a humilhação de serem submetidos a mercadorias <strong>[37]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">A fórmula mais simples é a seguinte. Para a revolta, a economia está próxima, o Estado está distante. Para a <em>revolta linha</em>, a economia está longe, o Estado está perto. De qualquer forma, é o mercado e a rua. <em>Hic Rhodus, hic salta!</em></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159564 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="750" height="573" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-550x420.jpg 550w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-640x489.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-681x520.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> James Boggs, <em>Pages from a Black Radical&#8217;s Notebook: A James Boggs Reader</em>, Detroit: Wayne State University Press, 2011,84-5.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Roberto Franzosi, “One Hundred Years of Strike Statistics: Data, Methodology, and Theoretical Issues in Quantitative Strike Research”, CRSO Working Paper No. 257, Ann Arbor: Center for Research on Social Organization, 1982, 15, 17.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs,” prologue to T<em>he Economics of Global Turbulence</em>, Madrid: Akal, 2009, page numbers taken from typescript provided by author, 8, 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Arthur M. Ross e Paul T. Hartman, <em>Changing Patterns of Industrial Conflict</em>, Nova York: Wiley, 1960, 71, 43.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century</em>, 315.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Brenner, <em>Turbulence</em>, 38.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Dados do Reino Unido do Office for National Statistics, “Labour Disputes Annual Estimates; United Kingdom; 1891-2014” (versão atualizada em 16 de julho de 2015), ons.gov.uk; Dados dos EUA do Bureau of Labor Statistics, “Comunicado de Notícias Econômicas: Tabela 1. Paralisação de trabalho envolvendo 1.000 ou mais trabalhadores, 1947-2014” (versão atualizada em 11 de fevereiro de 2015), bls.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ruth Wilson Gilmore, <em>Golden Gulag: Prisons, Surplus, Crisis, and Opposition in Globalizing California</em>, Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 2007, 39-40 (emphases in original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Otto Kerner et al., <em>Report of the National Advisory Commission on Civil Disorders</em>, Nova York: Bantam, 1968, 227.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Janet Abu-Lughod, <em>Race, Space, and Riots in Chicago, New York, and Los Angeles</em>, Oxford: Oxford University Press, 2007,7, 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Michael C. Dawson, <em>Blacks In and Out of the Left</em>, Cambridge: Harvard University Press, 2013, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Dan Georgakas e Marvin Surkin, <em>Detroit: I Do Mind Dying: A Study in Urban Revolution</em>, Chicago: Haymarket Books,2012, 50.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Dados disponíveis na página da web Detroit History, “Population of Various Ethnic Groups” (População de vários grupos étnicos), historydetroit.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 119.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> A narrativa foi compilada a partir de Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>; Joshua Bloom e Waldo E. Martin, Black Against Empire: <em>The History and Politics of the Black Panther Party</em>, Berkeley: University of California Press, 2013; e A. Muhammad Ahmad, “The League of Revolutionary Black Workers: A Historical Study”, historyisa weapon.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Trabalhador anônimo escrevendo no <em>Inner City Voice</em>, outubro de 1970, citado em Georgakas e Surkin, Detroit, 37.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Huey P. Newton, <em>The Huey P. Newton Reader</em>, eds. David Hilliard e Donald Weise, Nova York: Seven Stories Press, 2011, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Otto Kerner et al., <em>National Advisory Commission</em>, 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Joe T. Darden, Richard C. Hill e June M. Thomas, <em>Detroit: Race and Uneven Development</em>, Filadélfia: Temple University Press, 1990, 107.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Campbell Gibson e Kay Jung, “Tabela 23. Michigan — Raça e Origem Hispânica para Grandes Cidades Selecionadas e Outros Locais: Censo Mais Antigo até 1990”, PDF, Departamento do Censo dos Estados Unidos, fevereiro de 2005, census.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> James A. Geschwender, “The League of Revolutionary Black Workers,” <em>The Journal of Ethnic Studies</em>, 2: 3, outono de 1974, 9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Dawson, <em>Blacks In and Out</em>, 50.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Boggs, <em>Boggs Reader</em>, 102.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Leo Huberman e Paul Sweezy, “Editor&#8217;s Forward” (Prefácio do editor), history isaweapon.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> Joe T. Darden e Richard W. Thomas, <em>Detroit: Race Riots, Racial Conflicts, and Efforts to Bridge the Racial Divide</em>, East Lansing: Michigan State University Press, 2013, sem paginação, Tabela 15. Observe que todos os dados sobre desemprego neste capítulo são baseados na categoria U3 do Bureau of Labor Statistics, que não inclui os subempregados, os desanimados em procurar trabalho, os encarcerados e assim por diante. O número total U6 de Detroit em 2005 provavelmente está mais próximo de 45%.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[27]</strong> <em>The Black Panther</em>, 2: 2, 4 de maio de 1968: 4-5.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[28]</strong> Robin D. G. Kelley, “Watts: Remember What They Built, not What They Burned” (Watts: Lembre-se do que eles construíram, não do que queimaram), Los Angeles Times, 11 de agosto de 2015, latimes.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[29]</strong> Fred Moten, “Necessity, Immensity, and Crisis (Many Edges/Seeing Things)” (Necessidade, imensidão e crise (muitas facetas/vendo as coisas)), Floor, 2011. floorjournal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[30]</strong> Gwendolyn Brooks,<em> Riot</em>, Detroit: Broadside Press, 1969, 9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[31]</strong> Julie A. Fiorelli, “Imagination Run Riot: Apocalyptic Race-War Novels of the Late 1960s”, <em>Mediations</em>, 28: 1, outono de 2014, 127.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[32]</strong> Tom Hayden, <em>Rebellion in Newark: Official Violence and Ghetto Response</em>, Nova York: Random House, 1967, 30.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[33]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 155.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[34]</strong> Abu-Lughod, <em>Race, Space</em>, 25.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[35]</strong> Guy Debord, “Le déclin et la chute de l&#8217;économie spectaculaire-marchande”, <em>Internationale Situationiste</em> 1958-69: Éditionaugementée, Paris: Librarie Arthème Fayard, 2004, 418. Tradução minha. Este ensaio não estava assinado no original, mas mais tarde foi atribuído a Guy Debord.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[36]</strong> Bruno Bosteels, <em>Marx and Freud in Latin America: Politics, Psychoanalysis, and Religion in Times of Terror</em>, Londres: Verso, 2012, 292.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[37]</strong> Debord, “<em>Déclin</em>”, 418.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Edvard Munch (1863-1944).</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (5)</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 19:18:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
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		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[É a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 3</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Mudança, Ou, da Revolta à Greve</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">É impossível, certamente, descobrir o momento exato em que a greve supera a revolta no repertório. Qualquer determinação desse tipo seria excessivamente confiante quanto à clareza e pontualidade com que as formas de luta se desenvolvem, divergem e reformam. Pior ainda seria sugerir que uma desaparece, para ser substituída pela outra. As táticas, uma vez adotadas, estão sempre à mão, mais próximas ou mais distantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao buscar a transição, temos a dificuldade já exposta. A mudança da revolta para a greve é imanente a uma mudança mais completa e complexa na estrutura da ascensão do capital. A greve emerge da revolta — de um modo centrado na obtenção de lucros no mercado para um centrado na extração de mais-valia. Ou seja, a greve emerge no novo mundo da produção capitalista, como deve ser, a partir do espaço da circulação. Ela se afasta do mar, deixando um rastro de espuma, embora ainda não totalmente formada. Marinheiros britânicos, americanos e franceses estavam consistentemente entre os trabalhadores mais militantes do século XVIII, rivalizando com os sapateiros (os comerciantes eram encontrados mais consistentemente entre os líderes de distúrbios políticos do século XVII até a Comuna de Paris). A própria palavra inglesa <em>strike</em> parece datar de 1768, quando marinheiros se juntaram a “artesãos e comerciantes da cidade — tecelões, chapeleiros, serradores, moedores de vidro e carregadores de carvão — na luta por melhores salários, [e] arriaram suas velas e paralisaram o comércio da cidade. Eles &#8216;não tinham tripulação ou, de outro modo, eram impedidos de navegar todos os navios no Tâmisa&#8217;” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A derivação do termo francês para greve, <em>gréve</em>, é ainda mais sugestiva — uma etimologia com o alcance de um épico, começando na margem de um rio e terminando no Hôtel de Ville alguns séculos depois e a oitenta passos de distância. É uma palavra antiga. Originalmente, significava uma área plana de areia e cascalho próxima à água, uma praia e, portanto, um local onde os barcos descarregavam cargas. A <em>gréve</em> mais trabalhável do Sena tornou-se, portanto, o principal porto de Paris <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ficava na margem direita, uma vez que a cidade se expandiu a partir das ilhas do rio. A área aberta próxima à praia serviria como mercado central da cidade na Alta Idade Média, antes que os feirantes se mudassem para Les Halles. Trabalhadores não qualificados se reuniam ali em busca de trabalho, carregando e descarregando madeira e trigo, barris de vinho e fardos de feno: a Praça da Gréve. O nome duraria mais de 500 anos. Em 1802, a praça tornou-se a Place de l&#8217;Hôtel de Ville, renomeada em homenagem ao seu edifício principal, a residência do prefeito, o golpe termidoriano e, por um breve período, a Comuna. Fotografias antigas mostram que os c<em>ommunards</em> ergueram barricadas ali, em parte por causa de grandes barris de vinho. Uma rima medieval. Onde estava o mercado, estará a comuna.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159484" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg" alt="" width="800" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-681x341.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas estamos nos precipitando. Estamos no porto mais uma vez, o lugar que fornece a principal coordenada para esta primeira seção, para a era de ouro das revoltas. É inevitável, porque é prática e logicamente necessário, que o porto e o mercado parem a greve. É igualmente inevitável, então, que retornaremos ao porto mais adiante neste livro, à medida que as coisas oscilam de greve para revolta. É um ponto de captação de mão de obra não utilizada em meio à grande máquina do mercado. Um lugar de miséria e possibilidade. É apropriado, talvez, que a Place de Gréve também sediará uma guilhotina; o dicionário de 1835 associa a palavra <em>gréve</em> a execuções. Ele ainda não menciona ações dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a mudança já está em andamento. A ascensão do capital refina algumas frases. Chateaubriand, ultradireitista e inveterado criador de termos, usa <em>gréviste</em> em 1821; por enquanto, não significa exatamente um grevista, mas sim alguém que se opõe aos monarquistas. Seu faro para política está afiado como sempre. À medida que os corpos se reúnem na Praça, os desempregados que serão o primeiro exército das Jornadas de Junho, “<em>étre en gréve”</em> passa a significar “procurando trabalho”. Em 1848, após um colapso econômico em toda a Europa, “<em>mettre un patron en gréve</em>” significa “recusar-se a trabalhar para o patrão”. O sentido moderno e a greve moderna chegaram. A transição está completa.</p>
<p style="text-align: justify;">A França chega lá um pouco mais tarde do que a Inglaterra ou os Estados Unidos, por razões já discutidas. Os anos 1848-1851 são o grande pivô, apesar de toda a sua natureza farsesca. A industrialização agora remodelará a sociedade francesa em um nível profundo. Diante desta passagem, as perplexidades abundam, como em outros lugares. Em 1830, encontramos “uma revolta de trabalhadores têxteis ocorreu em Roubaix; eles queriam um aumento de salário”. O promotor de Douai relata: “Eles quebraram as vidraças nas lojas principais, onde foram em massa para solicitar acordos por escrito sobre o aumento”. Roubaix era um centro têxtil desde o final da Idade Média, com uma organização trabalhista bem desenvolvida. Shorter e Tilly registram isso corretamente (embora de forma ambígua) como um prelúdio para a greve na França, observando que “às vezes, os trabalhadores de uma loja paravam por um tempo e, às vezes, tentavam obter paralisações em outras lojas do mesmo setor”, mas, mais comumente, “o cerne de sua ação era uma demonstração de força aliada à apresentação de reivindicações coletivas relativas às condições de emprego em um conjunto específico de lojas. A lei da época proibia quase qualquer tipo de ação coletiva dos trabalhadores” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O promotor claramente não tem palavras para isso. O conteúdo da própria estrutura social em que está enredado ainda não lhe é conhecido: a chegada ao palco das classes trabalhadoras. Ele está preso à forma. É uma multidão enfurecida afinal, mesmo que sejam trabalhadores se mobilizando como trabalhadores em seus locais de trabalho, reivindicando melhores salários. A consequência desse formalismo é evidente. “A revolta, de acordo com o relatório do deputado, não parece ter nenhuma conotação política”, conclui nosso cronista. Podemos suspeitar que ele queria dizer que os eventos não estão diretamente relacionados à Revolução de Julho, duas semanas antes. Ao mesmo tempo, reconhecemos um senso comum a caminho de se tornar um truque de retórica. Ele realiza um certo tipo de trabalho, essa confusão, esse hábito peculiar de nomenclatura. Porque podemos chamá-lo da revolta, podemos proceder como se seu manifesto significado político não existisse. Mais um espasmo na história sem história dos miseráveis.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><em><strong>Quebra-Máquinas</strong></em></h4>
<p style="text-align: justify;">“ÀS CLASSES TRABALHADORAS”, como começavam os panfletos:</p>
<blockquote><p><em>Os Cavalheiros, a Agricultora, os Fazendeiros e outros, tendo comunicado a vocês sua intenção de aumentar seus Salários de forma satisfatória; e tendo sido bom sentirem que será mais benéfico para seus próprios interesses permanentes retornar às suas ocupações honestas habituais e se afastarem de práticas que tendem a destruir a Propriedade, de onde os próprios meios para seus Salários adicionais devem ser fornecidos</em><strong>[4]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta publicação em particular vem dos magistrados de Berkshire; apenas dois condados ingleses proferiram mais sentenças de morte a participantes da “revolta de Swing”, e nenhum prendeu tantos. O objetivo é acalmar os verdadeiros seguidores do mítico “Captain Swing” durante a onda de quebra-máquinas iniciada no outono de 1830. Caso isso acontecesse, as revoltas de Swing durariam até o ano seguinte. As classes trabalhadoras, neste ponto, ainda são plurais, as frações libertadas pelos destroços do feudalismo, ainda em processo de se transformarem na classe trabalhadora. Thompson considera 1790-1832 como o período crucial, onde encontramos também aquele episódio mais duradouro de destruição de máquinas, as revoltas luditas de 1811-1813.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159482" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png" alt="" width="701" height="891" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png 701w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-236x300.png 236w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-330x420.png 330w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-640x813.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-681x866.png 681w" sizes="auto, (max-width: 701px) 100vw, 701px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Repetidamente, Swing trata de máquinas debulhadoras. Da mesma forma, “os ataques luditas se limitavam a objetivos industriais específicos: a destruição de teares mecânicos (Lancashire), máquinas de tosquia (Yorkshire) e resistência ao colapso do costume na indústria de tricô de Midland” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Já encontramos o mecanismo que, acionado pelos avanços agrários, fará girar as rodas da Revolução Industrial. A corrida pela produtividade, a própria base do desenvolvimento capitalista, significa a substituição da força de trabalho por meios de produção, do trabalho vivo por morto, do capital variável por constante. O aumento da produtividade tende a aumentar os salários, o que, por sua vez, força novos avanços que economizam mão de obra. Paralelamente, massas de empregados domésticos são lançadas ao mercado de trabalho: o aumento dos custos dos produtos agrícolas persuade os empregadores a abandonar arranjos residuais de trabalho em espécie em troca de salários, repassando a inflação aos trabalhadores. O trabalho agrário perdido pelo cercamento deprime esses mesmos salários, mesmo enquanto a indústria caminha pela paisagem com botas de sete léguas.</p>
<p style="text-align: justify;">À medida que o salário se generaliza, o mercado começa a renunciar à sua centralidade social. O espaço físico sujeito em parte ao controle comunitário, dá lugar a “mistérios de um mercado &#8216;autorregulador&#8217;, o mecanismo de preços e a subordinação de todos os valores comunitários ao imperativo do lucro” <strong>[6]</strong>. Em pouco tempo, “o membro característico dos pobres rurais era agora um proletário sem terra, dependendo quase exclusivamente do trabalho assalariado ou da Lei dos Pobres para sua vida” <strong>[7]</strong>. A Lei dos Pobres é um lembrete, à luz de discussões anteriores, de que zero também é um salário, embora um salário que precisará de suplemento para que seus beneficiários sejam mantidos em reserva disponível.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a isso, surgem o General Ludd e o Captain Swing, um liderando ataques contra as indústrias têxteis, o outro no teatro de combate agrário. Ambos os movimentos descreveram a si mesmo em termos militares, nunca melhor do que em uma carta “Assinada pelo General do Exército de Reparadores/Reformadores Ned Ludd Clerk”. Fizeram juramentos, muniram-se de armas. Contínuos e populares, dificilmente se pode discutir que foram revoltas reais. Seus períodos foram variados. Não tiveram uma única atividade. Somente nas revoltas de Swing, “incêndios criminosos, cartas ameaçadoras, panfletos e cartazes &#8216;inflamáveis&#8217;, &#8216;roubos&#8217;, reuniões salariais, agressões a feitores, párocos e proprietários, e a destruição de diferentes tipos de máquinas, todos desempenharam seu papel”. Apesar de toda essa variabilidade de forma, o conteúdo é constante. “Por trás dessas atividades multiformes, os objetivos básicos dos trabalhadores eram singularmente consistentes: alcançar um salário mínimo vital e acabar com o desemprego rural” <strong>[8]</strong>. Não menos claros eram os luditas, cujas “reivindicações incluíam um salário mínimo legal; o controle da &#8216;exaustão&#8217; de mulheres ou menores; arbitragem; o engajamento dos patrões para encontrar trabalho para homens qualificados despedidos por maquinário; a proibição de trabalho de má qualidade; o direito à associação sindical aberta” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não devemos sugerir que os dois grandes episódios de quebra de máquinas sejam idênticos. Seus fundamentos são diferentes. Apesar de toda a sua ligação, os mundos agrícola e industrial na Grã- Bretanha estão em desacordo; as batalhas obstinadas sobre as Leis dos Cereais ressaltam os interesses contrários do campo e da cidade. Kirkpatrick Sale intitula seu estudo “Rebeldes Contra o Futuro: Os Luditas e Sua Guerra contra a Revolução Industrial”; poderíamos dizer o mesmo dos manifestantes do Swing? <strong>[10]</strong> Mas é enganoso, ainda que esteja de acordo com parte do espírito de Thompson, considerar as revoltas como defesas retrógradas do costume. Novamente nos deparamos com a questão do prático, da necessidade. Frequentemente, os luditas colocam as coisas de maneiras difíceis de confundir, afirmando seu direito e intenção de “quebrar e destruir todo tipo de estrutura que não pague o preço regular previamente acordado”. Uma lista está anexada a este comunicado; máquinas que não desloquem trabalhadores serão deixadas intactas <strong>[11]</strong>. Ludd e Swing, sem dúvida, compartilham a sensação de um terreno perigosamente instável, de um mundo da vida sob coação. No entanto, eles estão unidos, na fórmula mínima, pela pressão para baixo nos salários e pela ameaça de desemprego tecnológico. E é aqui que o quebra-cabeça da classificação se afirma.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159483" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg" alt="" width="700" height="924" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-318x420.jpg 318w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-640x845.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-681x899.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As autoridades, previsivelmente, desejam conceder-lhes força insurrecional apenas quando necessário para aplicar penalidades mais severas. Em sua maioria, os grandes episódios de quebra de máquinas serão registrados como revoltas por observadores, na época e posteriormente. Afinal, as leis dão nomes, e muitas vezes é o crime de revolta pelo qual os exércitos de Ludd e Swing são processados (embora um projeto de lei específico que torne a invasão de domicílio um crime capital seja aprovado logo no início). Magistrados de Nottingham relatam “um espírito ultrajante de tumulto e revolta” nos primeiros dias de Ludd, estabelecendo os termos da arte para condenações da Lei da Revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">Ocasionalmente, o nome parece adequado, por exemplo, aplicado à extorsão de dinheiro e provisões. Os episódios reais, apesar de toda a sua variedade, muitas vezes assemelham-se formalmente à revolta — em seu tom, ímpeto, selvageria. E, no entanto, deveria ser impossível olhar para essas reivindicações e não reconhecer a greve em formação. Elas dizem respeito apenas a emprego, melhores salários, melhores condições de trabalho, proteções legais. Se estamos buscando a fonte da grande confusão entre a natureza subjacente da luta coletiva e sua aparência, não precisamos ir além desses eventos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos apresentar o argumento com clareza, principalmente porque se trata de um argumento sobre confusão. É somente neste período de transição histórica que os contornos da revolta e da greve podem finalmente ficar claros em seus delineamentos, exatamente porque é somente nesses períodos que os dois podem ser colocados em tão estreita proximidade, misturados e, no final, esclarecidos. Ou, para colocar de outra forma, a quebra de máquinas é como se dá a transição da revolta para a greve. Sem dúvida, parece retrospectiva, “o último capítulo de uma história que começa nos séculos XIV e XV” <strong>[12]</strong>. Mas essa insistência no costume, na luta contra o futuro, ignora aquela parte da quebra de máquinas que é a invenção, que antecipa. Não é menos um primeiro capítulo de políticas de confronto no local de trabalho que não terminaram. É somente em um período de transição que um híbrido tão chocante e inovador, com um pé no confinamento e nas revoltas por comida, um pé na legislação fabril e nas lutas pela jornada de trabalho, pode surgir. “Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal emergiu”, escreve Thompson <strong>[13]</strong>. Em tal circunstância, é inevitável que as táticas proliferem à medida que as pessoas tentam soluções para um novo conjunto de problemas, tomando emprestadas suas formas do antigo repertório — assim como o capital extrai suas formas do comércio até que o novo conteúdo esteja pronto para ser divulgado no dia a dia.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho como fulcro da reprodução, que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Na verdade, são a mesma coisa: contexto e conflito. Eles se movem juntos. O ritmo próximo dessa dupla mudança fornece a base histórica para um argumento político-econômico que define revolta e greve adequadamente em sua plenitude histórica — define-os não de acordo com atividades específicas, mas antes pelas maneiras como o problema da reprodução confronta a massa de pessoas, suas posições dentro das relações sociais dadas, os lugares para onde foram empurradas, os espaços onde seus antagonistas devem ser visíveis, podem ser vulneráveis.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>Os Muitos</strong></em></h5>
<p style="text-align: right;"><em>Levantem-se, como leões após o sono,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Em número invencível,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Sacudam suas correntes para a terra como orvalho</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que durante o sono caíram sobre vocês —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vocês são muitos — eles são poucos —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>— Percy Bysshe Shelley,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>“A Máscara da Anarquia”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Se alguém fosse em busca de um fio condutor que atravessasse a sequência revolta-greve-revolta “linha”, faria pior do que seguir o destino do poema de Shelley, composto para “um pequeno volume de <strong>canções populares</strong> totalmente políticas”<strong>[14]</strong>. O poema narra o Massacre de Peterloo de 1819, nomeado com alguma ironia em homenagem a Waterloo, travado quatro anos antes. Estamos no meio do caldeirão de Thompson, então. A Inglaterra está em meio à fome e à depressão. A revolta por comida, tendo atingido o pico segundo todos os relatos em 1800-1, está em recuo. O fim das guerras napoleônicas lançou uma grande massa de corpos em um mercado de trabalho incapaz de absorvê-los. A indigência na Inglaterra está em 15% e a emigração em níveis históricos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159485" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg" alt="" width="1053" height="1053" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg 1053w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1053px) 100vw, 1053px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É nesse contexto que 64.000 pessoas se reúnem no Campo de São Pedro, em Manchester, buscando reformas parlamentares, principalmente em relação ao sufrágio. A Lei da Revolta é lida. Na carga de cavalaria imediatamente seguinte, mais de uma dúzia de manifestantes são mortos e centenas ficam feridos. A indignação moral toma conta da nação. Na Itália, Shelley constrói seu poema a partir de notícias de jornais.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria difícil chamar Peterloo de revolta no sentido que a palavra havia se desenvolvido ao longo dos séculos anteriores. É próximo em certos aspectos. A grande assembleia se reúne na ágora. O termo e o código legal são usados em qualquer caso; é a categoria representativa que as pessoas têm em mãos. Certamente houve reuniões que podem ser mais apropriadamente chamadas de revoltas nos dias seguintes em cidades vizinhas. Mas a revolta do século XVIII atingiu, em geral, seu limite e explodiu. A multidão reunida na praça tenderá para a revolução ou nada, pressionada contra a impossibilidade da demanda prática quando até mesmo os apelos por reforma são recebidos com violência mortal. É aqui que o poema começa. O afastamento da revolta já começou. James Chandler escreve:</p>
<blockquote><p>Tudo isso quer dizer que, à semelhança de Peterloo, a “Revolução Francesa” em uma escala maior, ou talvez até mesmo o próprio “Romantismo” em uma escala ainda maior — nomeia um evento de duração indeterminada que marca uma grande transformação nas práticas da representação literária e política moderna, entendida em seu momento como tendo potencial revolucionário <strong>[15]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas o poema só é publicado em 1832, no final a nossa primeira tentativa. A estrofe final do longo poema irá tornar-se uma espécie de canção de marcha para luta após luta. É logo retomada pelos cartistas, que em 1842 se aproximam da primeira greve geral. O tempo do trabalho começou. Em 1911, Pauline Newman orientará seus discursos de organização para o Sindicato Internacional das Trabalhadoras do Vestuário Feminino com as frases de Shelley. Mas haverá outras oscilações. Em 2010, o poema é repatriado quando estudantes e outros que lutam contra cortes fatais no salário social atacam e ocupam o número 30 de Millbank, a sede do Partido Conservador em Londres. A estrofe final de Shelley é citada repetidamente nos dias seguintes, o fio condutor retornando na longa temporada que inclui o movimento das praças, o movimento <em>Occupy</em>, a Primavera Árabe — o retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">A estrofe final acrescenta um último verso a uma quadra que aparece anteriormente, desviando o olhar do pacifismo fundamental do poema: “Vós sois muitos — eles são poucos.” <strong>[16]</strong> Pode ser possível persuadir você de que os sons do primeiro verso, levantem-se/leões/depois, querem que você ouça a palavra revolta. É difícil não ouvir. É difícil não ouvir na associação do poema de “Anarquia” com o Estado corrupto, em vez de com os antagonistas do Estado, um precursor da inversão dialética com a qual iniciamos este livro: “Uma ordem violenta é uma desordem; e uma grande desordem é uma ordem. Essas duas coisas são uma só.” Mas o último verso de Shelley levanta uma questão mais simples ou talvez muito mais intratavelmente complexa, a dos muitos.</p>
<p style="text-align: justify;">O popular e o político, como ele insistia. Multidões e poder, na fórmula concisa de Canetti. Massas, classes, turba, multidão. Súditos, cidadãos, o povo. O sentido de antagonismo e metamorfose social, o sentido (para arriscar essa substancialização portentosa) do político: isso não pode ser desvinculado do sentido da multidão e daquilo que poderia lhes dar uma unidade, seja ela autodeclarada ou espectral. Isso dificilmente seria o lugar para uma revisão da literatura. Em vez disso, uma proposição simples: que revolta e greve serviram como, entre outras coisas, metonímias para este assunto em um determinado momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é outra maneira de delinear o que é apreendido na ideia de um repertório de ação coletiva e de identificar uma tática principal dentro dele. Essas táticas, e as mudanças entre elas, são expressões da massa social e suas recomposições, que por sua vez se formam e se transformam a partir de dadas bases materiais. Em outras palavras, a revolta não é um evento isolado e singular; é tanto uma fração real de quanto uma figura para os muitos aos quais está sempre adjacente. É a relação interna dos muitos externalizada sob certas condições. Isso também se aplica à greve. Compreender as transformações na sequência revolta-greve-<em>revolta “linha” </em>é enxergar as mudanças dos muitos, ver o que pode ser compreendido nelas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Greg Grandin, <em>The Empire of Necessity: Slavery, Freedom, and Deception in the New World</em>, Nova York: MetropolitanBooks, 2014, n. 146. A citação sem atribuição é de The Economic Review, Vol. 5, Londres: Rivington, Percival &amp; Co., 1895, 216.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Eric Hobsbawm faz uma observação fascinante em <em>The Age of Revolution: Europe 1789-1848</em>, Londres: Abacus, 2007, 265, nota de rodapé 31. Ele escreve: “A greve é uma consequência tão espontânea e lógica da existência da classe trabalhadora que a maioria das línguas europeias tem palavras nativas independentes para designá-la (por exemplo, grève, huelga, sciopero, zabastovka), enquanto que as palavras para outras instituições são frequentemente emprestadas.” No entanto, isso é, em última análise, enganoso de maneiras que serão exploradas no capítulo seguinte, notadamente pela forma como declara a autonomia da greve em relação a uma tradição mais antiga, como se ela tivesse surgido de forma autóctone a partir da nova dispensação proletária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Todos os trechos são de Edward Shorter e Charles Tilly, <em>Strikes in France 1830-1968</em>, Londres: Cambridge University Press, 1984, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Eric Hobsbawm e George Rude, <em>Captain Swing: A Social History of the Great English Agricultural Uprising of 1830</em>, Nova York: W. W. Norton, 1968, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Thompson, <em>Working Class</em>, 484.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Wood, <em>Origin of Capitalism</em>, 69.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Hobsbawm e Rude, <em>Capitão Swing</em>, 35.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 195.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Thompson, “Working Class ”, 551.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Kirkpatrick Sale, <em>Rebels Against the Future: The Luddites and Their War on the Industrial Revolution: Lessons for the Computer Age</em>, Boston: Addison-Wesley, 1995.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Conant e Darval, citados em Thompson, “Working Class”, 535.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Working Class”, 543.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Carta a Leigh Hunt, 1º de maio de 1820, <em>The Letters of Percy Bysshe Shelley: In Two Vols</em>., vol. 2, ed. Frederick L. Jones, Oxford: Clarendon Press, 1964, 191 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> James Chandler, England in 1819: <em>The Politics of Literary Culture and the Case of Romantic Historicism</em>, Chicago: University of Chicago Press, 1998, 18.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Diferentes impressões do poema variam em sua ortografia; esta citação segue a primeira edição, Londres: Edward Moxon, 1832.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>Ilustram o texto &#8220;O Hôtel de Ville incendiado, atacado pelas tropas de Versalhes&#8221;, de Gustave Clarence Rodolphe Boulanger (1871), &#8220;O Líder dos Ludditas&#8221;, de autoria anônima (1812), &#8220;Um Retrato Original do Capitão Swing&#8221;, de autoria anônima (1830), &#8220;O Massacre de Peterloo&#8221;, de George Cruikshank (1819).</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (4)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 19:51:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[Desde os seus primórdios, a revolta tem sido uma luta de circulação por excelência. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p><strong>CAPÍTULO 2</strong></p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Era de Ouro da Revolta</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Entre os muitos locais onde se poderia começar a história, cada um deles atormentado pela impossibilidade de chegar a um verdadeiro início, poderíamos olhar para Brístol e King&#8217;s Lynn em 1347. É demasiado cedo, claro. Estes acontecimentos são anómalos no gráfico de dispersão dos acontecimentos que entraram nos contos. Na melhor das hipóteses, são precursores. Talvez seja melhor começar no século XVI, onde “as revoltas por comida não seguiram uma tradição antiga: os primeiros foram como pequenos mamíferos peludos ofuscados pelos grandes dinossauros destruidores, que foram as rebeliões dinásticas e camponesas e as batalhas de cercamento” <strong>[1]</strong>. Ou o século XVIII de Thompson, <em>locus classicus </em>indiscutível. Tilly, em sua maior amplitude, propõe o período de 1650-1850. John Bohstedt vê um intervalo de três séculos em que “o nosso terceiro século, de 1740 a 1820, foi a era de ouro dos revoltas por comida” <strong>[2]</strong>. Thompson observa que estes são frequentemente identificados como “insurreições” ou “levantes dos pobres”. Outros, seguindo Thompson, advertem contra a imposição de distinções demasiado rígidas entre os tipos, optando por recomendar, em vez disso, a abordagem de “afastar-se da compartimentação de protestos. Embora a divisão dos protestos em diferentes &#8216;tipos&#8217; &#8211; alimentares, industriais, políticos, convencionais e assim por diante &#8211; possa ser mais organizada, ela obscurece a nossa compreensão dos próprios vínculos que os perpassam” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ligação é a própria ligação: a troca como síntese social. Marx observa que “a categoria econômica mais simples, por exemplo, o valor de troca, pressupõe uma população. Além disso, uma população que produz em relações específicas”. É com isto que “a colocação do produto no mercado… pode ser considerada mais exatamente como a transformação do produto <em>numa</em> <em>mercadoria</em>. Só no mercado é que ele é uma <em>mercadoria</em>” <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ascensão dos mercados, no sentido abstrato, é inevitavelmente desigual no espaço e no tempo, e muitas vezes difícil de ver. No entanto, as revoltas alimentares acompanham o mercado no seu percurso para se tornarem a forma paradigmática de conflito social. “À medida que uma massa crescente de trabalhadores passou a depender dos mercados para obter os seus alimentos, a Inglaterra tornou-se cada vez mais vulnerável ao fracasso das colheitas e às revoltas por comida”, Bohstedt nota <strong>[5]</strong>. Tilly diz o seguinte sobre a França: “Notamos o aumento duradouro das revoltas alimentares no final do século XVII, à medida que a pressão sobre as comunidades para cederem as reservas locais de cereais às exigências do mercado nacional aumentou” <strong>[6]</strong>. Richard Price, retomando o quadro de Thompson: “As revoltas dos preços e as lutas por conta da utilização racionalizada da terra foram formas características deste choque entre as inovações das forças de mercado e a afirmação de uma &#8216;economia moral&#8217; de obrigações recíprocas e responsabilidades” <strong>[7]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão da “economia moral” apoia-se fortemente no significado de auto- reconhecimentos particulares por parte dos antagonistas. Neste aspecto, é exemplar de muita reflexão sobre a revolta, um dispositivo explicativo que se baseia na intenção e na <em>razão </em>como baluarte contra análises despolitizantes, contrapondo a autorreflexão ao mero reflexo. É Thompson no seu momento mais justificatório, quando a justificação não é necessariamente a tarefa em causa. Um historiador contrapõe uma “economia pragmática”, argumentando: “Se as revoltas alimentares e as crenças paternalistas e da economia moral estavam tão enraizados na defesa da tradição como Thompson argumentava, essas tradições e crenças deveriam ter-se manifestado nas primeiras ondas nacionais de revoltas, 1740, 1756-57 e 1766” <strong>[8]</strong>. No entanto, “já deve ter ficado claro que os desordeiros de 1740 estavam mais interessados em confiscar alimentos do que em regular os mercados” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A apreensão de alimentos e a regulação dos mercados opõem-se apenas no domínio da ideologia. Como ambos os lados parecem não perceber, o sentido moral da multidão (caso exista) é um instrumento de necessidades pragmáticas, não a sua transgressão. A causa do acontecimento está noutro lado, na transformação social. Quando o mercado se generaliza e a troca se torna, nos termos de Alfred Sohn-Rethel, uma “segunda natureza puramente social” ao lado da primeira natureza do uso &#8211; quando a própria reprodução é cercada por todos os lados &#8211; o preço não pode deixar de se tornar um local de antagonismo imediato.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159440" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project.jpg" alt="" width="1280" height="885" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-300x207.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-1024x708.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-768x531.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-607x420.jpg 607w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-640x443.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-681x471.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />Mas não devemos apoiar-nos demasiado na magia do “preço”. Insistir na distinção é negligenciar o facto de que o zero da apreensão também é um preço; está em relação com o total de fundos disponíveis para satisfazer as necessidades básicas. No contexto do mercado, a expropriação direta encontra-se no mesmo continuum de uma luta redistributiva pela sobrevivência que a exigência de um custo mais baixo dos cereais. O próprio Tilly faz esta observação com respeito à Inglaterra, França e, eventualmente, Estados Unidos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Durante o período de 1650 a 1850, as pessoas, na maioria das vezes, impediam que os cereais saíssem da cidade, confiscando o carregamento, ou forçavam os alimentos locais a entrar no mercado a um preço inferior ao que o proprietário preferia. As autoridades chamavam a estas ações revoltas alimentares, mas na realidade consistiam em pessoas comuns que faziam quase exatamente o que as próprias autoridades faziam em tempo de escassez &#8211; proibir que os cereais saíssem da cidade, confiscar os abastecimentos locais, regular o preço <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A apreensão de alimentos <em>é</em> uma regulação do mercado, tal como a exportação de alimentos em caso de escassez é uma regulação do mercado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O</strong></em> <em><strong>Mercado</strong></em> <em><strong>Mundial</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">É por esta razão que começamos nas docas. Em 1347, ocorrem duas revoltas notáveis na Inglaterra, nos portos da Liga Hanseática de Brístol e King&#8217;s Lynn:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Uma vez a bordo, a multidão, assumindo o poder real, descarregou os navios “contra a vontade dos proprietários” e pôs os cereais à venda “ao seu próprio preço”. Os manifestantes também apreenderam e venderam outros carregamentos de milho que estavam a ser trazidos para Lynn para serem comercializados e depois, “sob a sua autoridade”, condenaram os proprietários ou transportadores à chacota pública, “sem processo legal”. Por último, a multidão foi acusada de prender o presidente da câmara e outros habitantes e de emitir proclamações quase reais <strong>[11]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta assunção carnavalesca do poder assombra a revolta; mais de quatro séculos depois, as Revoltas de Gordon assinarão no muro quebrado da prisão de Newgate, “Sua Majestade, Rei Mob”. A partir de um certo ponto, o comando sobre o preço não é tão fácil de distinguir da soberania. Mas é um fato diferente que é mais revelador aqui. No porto de Bristol, os navios dirigem-se para a Gasconha, os que partem de King&#8217;s Lynn para Bordeaux.</p>
<p style="text-align: justify;">O mercado mundial está em formação, um projeto de comerciantes, militares e bancos. Os acontecimentos de Bristol e de King&#8217;s Lynn ocorrem pouco depois de a Inglaterra não ter pago os empréstimos maciços de Florença com os quais financiou a invasão de França; tanto a Gasconha como Bordeaux são os eixos da Guerra dos Cem Anos. A rede comercial do Mediterrâneo propaga esta volatilidade, o “grande crash” da década de 1340 (onde se regista o primeiro colapso bancário, que derrubou as Casas de Bardi e Peruzzi). Contra este drama no sistema mundial nascente, as revoltas de exportação de 1347 não desempenham senão um papel secundário <strong>[12]</strong>. Contudo, estão costurados nesse tecido, urdume e trama.</p>
<p style="text-align: justify;">O porto, o entreposto, mesmo numa escala limitada (pois o que é King&#8217;s Lynn comparada com Veneza na Alta Idade Média, ou com Amsterdã do século XVII?) é o mais próximo que o mundo feito chegará da intersecção da teoria da produção e da circulação. Se é a azáfama do mercado local em grande escala, é ao mesmo tempo a condensação de todas as abstrações do espaço mundial, dos acordos comerciais, dos portulanos, do direito do almirantado. É a paisagem construída onde se manifesta a relação entre o local e o global. Fora do porto, é difícil conciliar as duas coisas, se a pessoa não tiver viajado muito: o quotidiano cívico da ágora e o sublime fictício do comércio oceânico. É a distância entre o livro contábil e a ficção de aventuras. Franco Moretti observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">As aventuras tornam os romances longos porque os tornam amplos; são os grandes exploradores do mundo ficcional: campos de batalha, oceanos, castelos, esgotos, pradarias, ilhas, bairros de lata, selvas, galáxias… Margaret Cohen, com quem aprendi muito sobre este assunto, vê-as como uma metáfora de expansão: o capitalismo na ofensiva, planetário, atravessando os oceanos. Penso que tem razão, e acrescentaria apenas que a razão pela qual a aventura funciona tão bem neste contexto é o facto de ser tão boa a imaginar <em>a guerra</em> <strong>[13]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nesta perspetiva, o feito de <em>Robinson Crusoé </em>é sintetizar o livro de contábil e a aventura &#8211; descobrir entre as verdades que a modernidade oferecerá, a unidade dos dois. Como diz Marx, “assim como a troca privada cria o comércio mundial, a independência privada cria completa dependência do chamado mercado mundial” <strong>[14]</strong>. O aforismo de Walter Raleigh precede-o: “Todo o comércio é comércio mundial; todo o comércio mundial é comércio marítimo”. Uma dialética da banca do comerciante e do mercado mundial, portanto, o emaranhado dos fenómenos mais locais e mais longínquos. E, juntamente com isso, a dialética da revolta e da guerra, King&#8217;s Lynn e Calais, cada um no extremo de uma meada partilhada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159439" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit.jpg" alt="" width="1280" height="971" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-300x228.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-1024x777.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-768x583.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-554x420.jpg 554w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-640x486.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-681x517.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />Pouco importa, para voltar a um tema anterior, se os desordeiros possuem pensamentos sobre os mercados mundiais, conflitos distantes, a malha apertada do espaço global. Têm uma tarefa prática que surge dentro destes, a partir destes, e que participa neles independentemente disso. Os participantes não conseguem parar de se virar para estas coisas que assombram todos os horizontes. Thompson, ao falar do planejamento e paciência negligenciados da revolta no mercado em toda a sua particularidade local, é atraído pela atração magnética da exportação:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Além disso, exigiam mais preparação e organização do que parece à primeira vista; por vezes, a “multidão” controlava o mercado durante vários dias, à espera de que os preços baixassem; por vezes, as ações eram precedidas de panfletos escritos à mão (e, na década de 1790, impressos); por vezes, as mulheres controlavam o mercado, enquanto grupos de homens interceptavam os cereais nas estradas, nas docas, nos rios; muito frequentemente, o sinal de ação era dado por um homem ou uma mulher que transportava um pão no alto, decorado com uma fita preta e com a inscrição com um slogan qualquer” <strong>[15]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Aqui, o senso comum da história da revolta torna-se uma narração, na qual a revolta de exportação é uma espécie de digressão, uma sub-história. Finalmente, é de grande importância, ao traçar o longo arco histórico da revolta, compreender que isso inverteu as coisas. Consideremos o século das ondas de revoltas nacionais. Em 1740, a grande maioria são “ações de multidão para impedir o transporte de alimentos”. As revoltas concentram-se em torno das costas e dos cursos de água: as fozes do Tamisa e do Severn, King&#8217;s Lynn, ao longo do Ouse e até o Union Canal. As revoltas mais generalizados de 1756-1757 registam um aumento tanto na fixação explícita de preços como nos ataques a comerciantes, mas continuam a orientar-se para os transportes; agrupam-se novamente em torno das vias navegáveis e em direção às Midlands. Por volta de 1795, o “ano culminante” de Thompson para as revoltas, apoiado pela fome e pelo jacobinismo canalizado, as revoltas encontram-se em todo o lado abaixo de Northumberland; a fixação de preços é agora igual aos transportes. Não há falta de nenhum dos dois. Em 1800-1801, as revoltas somam-se uns aos outros, espalhando-se pelas Midlands e atravessando a costa ao sul, no último pico antes das revoltas começarem a declinar na Inglaterra <strong>[16]</strong>. E não é só na Inglaterra; o rumo é muito semelhante nas colônias norte-americanas, onde os amotinados exemplares de 1709 a 1713 atacaram navios, tendo num caso partido um leme contra a partida de um carregamento de trigo; estes acontecimentos estão intimamente ligados ao comércio emergente das Índias Ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">O padrão é perfeitamente claro. A revolta das exportações, a intervenção física direta nos transportes, dificilmente é uma divergência ou improvisação na trajetória da revolta, mas antes a sua base. Está lá na origem, é uma invenção dos mercados nacionais e internacionais emergentes, do financiamento da bolsa nacional, da mercantilização da agricultura e da correspondente destruição da autossuficiência comunitária. Desde os seus primórdios, a revolta tem sido uma luta de circulação por excelência. Mesmo as sedições mais discretas e rústicas partilharam este contexto amplo. Depois de 1521, teve início uma expansão ainda mais dramática e sangrenta, a catástrofe da colonização, escravidão, das rotas das especiarias &#8211; aquilo a que alguns historiadores chamarão de “a primeira globalização”, a era mercantilista que integra a economia mundial no intervalo entre as viagens de Colombo e Da Gama num extremo, e a Revolução Industrial por outro. O fato de esta época mercantilista coincidir mais ou menos com a primeira época de revoltas não é uma correlação reveladora, mas sim a base histórica e teórica da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e</strong></em> <em><strong>Luta</strong></em> <em><strong>de</strong></em> <em><strong>Classes</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">No primeiro florescimento da revolta estão as sementes do seu declínio. A Inglaterra é o centro da parte inicial deste estudo, não por ser a primeira casa da revolta, mas por ser a casa da primeira transição, <em>revolta</em><em>-greve</em>. A lógica da revolta destaca-se de forma mais acentuada, em contraste. O próximo capítulo é dedicado a esta transição. No entanto, as dinâmicas subjacentes a essa transição já estão a emergir durante a era de ouro da revolta. Num movimento de auto-cancelamento e auto-propulsão que já nos deve ser familiar, esta emergência é tanto a condição para essa era de ouro como para o que a levará ao fim.</p>
<p style="text-align: justify;">O desenvolvimento do mercado coincide com o aumento da pressão sobre a população em toda a Europa, a partir de finais do século XV, e com o concomitante aumento dos preços dos cereais. Nestas condições, de acordo com o relato persuasivo de Brenner sobre a ascensão do capitalismo em Inglaterra, “encontramos os proprietários a consolidar as posses e a arrendá-las a grandes arrendatários capitalistas que, por sua vez, as cultivariam com base no trabalho assalariado e melhoramento agrícola” <strong>[17]</strong>. Na França, este processo é inibido pela tendência do Estado para proteger a propriedade dos camponeses. Daí resultam duas vias de desenvolvimento, eloquentemente avaliadas por Ellen Meiksins Wood:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">a dinâmica do crescimento auto-sustentado e a necessidade constante de melhorar a produtividade do trabalho pressupunham transformações nas relações de propriedade que criavam a necessidade de tais melhorias simplesmente para permitir que os principais atores econômicos &#8211; proprietários e camponeses &#8211; se reproduzissem. As divergências entre a Inglaterra e a França, por exemplo, pouco tinham a ver, em primeira instância, com as respectivas capacidades tecnológicas. Distinguiam-se pela natureza das relações entre proprietários e camponeses: um caso exigia o aumento da produtividade do trabalho, o outro não, e, de certa forma, até impedia o desenvolvimento das forças produtivas. O impulso sistemático para revolucionar as forças de produção foi mais o resultado do que a causa <strong>[18]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A pequena produção camponesa podia ser intensificada, e muitas vezes foi. No entanto, isso era geralmente feito através do aumento da mão de obra. Não se tratava de uma fuga à armadilha malthusiana e, como Brenner observa, dependia de uma maior produção de cereais de base noutros locais:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O desenvolvimento econômico inglês dependia assim de uma relação simbiótica quase única entre a agricultura e a indústria. Tratou-se, de fato, em última análise, de uma revolução agrícola, baseada na emergência de relações de classes capitalistas no campo que tornou possível que a Inglaterra se tornasse a primeira nação a experimentar a industrialização <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estes diferentes caminhos ditam diferentes lutas:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na Inglaterra, é claro, a revolta camponesa era dirigida contra os senhorios, numa vã última tentativa para defender a propriedade camponesa em desintegração contra a invasão capitalista que avançava. Na França, o alvo da revolta camponesa era, tipicamente, a tributação esmagadora do Estado absolutista <strong>[20]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Neste caso, Brenner refere-se a revoltas camponesas como a Rebelião de Kett, em 1549, a maior das revoltas de cercamento do período. Como já foi referido, estas revoltas estão relacionadas com as revoltas por comida pela questão da subsistência, mas tratam-se de uma rede ampla. Podemos aperfeiçoar esta ideia sugerindo que a revolta camponesa é como um tio daquilo que acabaremos por reconhecer como a revolta, uma posição feudal contra a reestruturação que lentamente perde a sua força à medida que o seu mundo se desvanece de forma desigual. A revolta sobrevive depois de o seu parente mais velho ter ficado na memória. Mas durante algum tempo desenvolve-se paralelamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159441" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder.jpg" alt="" width="1280" height="913" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-300x214.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-1024x730.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-768x548.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-589x420.jpg 589w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-640x457.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-681x486.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />É de esperar que assim seja. O mercado, o mundo das trocas e do consumo, tem uma longa história. Foi este fato que levou Fernand Braudel a afirmar que a economia tem três camadas. A vida quotidiana constitui a camada de base, com o mercado por cima. “Depois, ao lado, ou melhor, acima desta camada, vem a zona do anti-mercado, onde vagueiam os grandes predadores e onde a lei da selva entra em ação” <strong>[21]</strong>. O que isto deixa escapar é a forma como o capitalismo não é simplesmente uma camada acrescentada, mas também uma relação social que transforma o conteúdo do mercado que encontra ante si, preservando inicialmente a sua forma (e fazendo cada vez mais o mesmo com a vida quotidiana). Agora será onde o valor se realiza, por detrás da cortina de comprar barato e vender caro. O capitalismo é a internalização do comércio, não o seu contrário: um capitalismo inicialmente mercantil, circulatório. E o período em que este processo de internalização estiver em plena atividade &#8211; depois de iniciada a revolução agrícola, antes da revolução industrial &#8211; será a era de ouro da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> John Bohstedt, <em>The Politics of Provisions: Food Riots, Moral Economy, and Market Transition in England</em>, c. 1550-1850, Surrey, Reino Unido: Ashgate, 2013, 27.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> John Bohstedt, “The Pragmatic Economy, the Politics of Provisions and the &#8216;Invention&#8217; of the Food Riot Tradition in 1740”, in<em> Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, eds. Adrian Randall e Charles Molesworth, Nova York: St. Martin&#8217;s Press, 2000, 57-59.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Adrian Randall e Charles Molesworth, “The Moral Economy: Riots, Markets, and Social Conflict,” in <em>Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, 12.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 101, 534 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Bohstedt, “Pragmatic Economy”, 57.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Tilly, “Burgundy”, 503.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Richard Price, <em>Labour in British Society: An Interpretive History</em>, Londres: Croom Helm, 1968, 29.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Bohstedt, “Pragmatic Economy”, 75.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 67.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Tilly, “Speaking Your Mind”, 470.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Buchanan Sharp, “The Food Riots of 1347 and the Medieval Moral Economy,” in <em>Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, eds. Adrian Randall and Charles Molesworth, New York: St. Martin&#8217;s Press, 2000, 35-35.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Vale a pena notar aqui que “sistema mundial” não pretende designar a totalidade do globo e, então, tratar a Europa Ocidental como se ela pudesse desempenhar esse papel na análise, como tantas vezes acontece na imaginação ocidental. Como Immanuel Wallerstein esclarece, “A inclusão do hífen teve como objetivo sublinhar que não estamos falando de sistemas, economias, impérios do (todo) mundo, mas de sistemas, economias, impérios que são um mundo (mas muito possivelmente, e de fato geralmente, não abrangendo todo o globo)”. Immanuel Wallerstein, <em>World-Systems Analysis: An Introduction</em>, Durham: Duke University Press, 2004, 16-17.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Franco Moretti, “The Novel: History and Theory”, <em>New Left Review</em>, n.º 52, julho-agosto de 2008, 115, 124.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 159.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> E. P. Thompson, <em>The Making of the English Working Class</em>, Vintage Books, 1966, 65. Ele continua com uma nota de rodapé de J. F. Sutton, The Date-Book of Nottingham, Nottingham, ed. de 1880, p. 286: “Uma ação em Nottingham, em setembro de 1812, começou com várias mulheres colocando um pão de meio centavo no topo de uma vara de pescar, depois de pintá-lo com ocre vermelho e amarrar nele um pedaço de crepe preto, emblemático… da &#8216;fome sangrenta vestida com saco de cilício&#8217;”. A bandeira vermelha e preta começa no pão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Andrew Charlesworth, ed., <em>An Atlas of Rural Protest in Britain 1548-1900</em>, Londres: Croom Helm, 1983, 81, 84, 98, 102.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “Agrarian Class Structure and Economic Development in Pre-Industrial Europe”, <em>Past and Present</em>, n.º 70, fevereiro de 1976, 61.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ellen Meiksins Wood, <em>The Origin of Capitalism: A Longer View</em>, Londres: Verso, 2002, 66-7.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Brenner, “Agrarian Class Structure” (Estrutura de classes agrárias), 68.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Ibid., 70.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Fernand Braudel, <em>The Wheels of Commerce: Civilization and Capitalism, Fifteenth-Eighteenth Century</em>, vol. 2, Berkeley: University of California Press, 1982, 230.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Pieter Bruegel (1526–1569)</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2026 16:51:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro? Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO (continuação)</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Mercado e o Chão da Fábrica</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A principal dificuldade em definir a revolta advém de sua profunda associação com a violência; para muitos, esta associação é tão carregada afetivamente para um lado ou para outro que é difícil de dissipar e, por sua vez, dificulta perceber outras coisas. Sem dúvida, muitas revoltas envolvem violência — talvez a grande maioria, se incluirmos danos materiais à propriedade, bem como ameaças explícitas ou <em>sub voce</em> [indiretas]. Não está totalmente claro se tal inclusão é natural ou razoável. Que dano material seja igual a violência não é uma verdade, mas a adesão a um conjunto particular de ideias sobre propriedade, relativamente recente, que envolve identificações específicas entre humanos e riqueza abstrata do tipo que culmina, por exemplo, no entendimento jurídico de que corporações são pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, essa insistência na violência da revolta obscurece a violência cotidiana, sistemática e onipresente que persegue a vida cotidiana na maior parte do mundo. A visão de uma sociabilidade geralmente pacífica que só excepcionalmente irrompe em violência é um imaginário acessível apenas a alguns. Para os demais — a maioria — a violência social é a norma. A retórica contra a revolta violenta torna-se um dispositivo de exclusão, voltado não tanto contra a “violência”, mas contra grupos sociais específicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao longo de mais de dois séculos, as greves frequentemente também envolveram violência: batalhas campais entre trabalhadores de um lado e policiais, fura-greves e mercenários do outro, que em seu auge assemelhavam-se a combates militares. Se estendermos a categoria como acima, a violência é onipresente na greve, mesmo como uma espécie de contraviolência defensiva. Reportando da França em 1968, o poeta italiano Angelo Quattrocchi observou:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores podem ameaçar destruir as máquinas, e a ameaça por si só pode impedir uma intervenção armada. Senhores da fábrica, a despossessão é sua maior força. As máquinas, o Capital, propriedade de outros e usufruído por outros, estão agora em suas mãos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta passagem pretende distinguir a greve limitada, para Quattrochi um evento covarde e coreografado, da ocupação de fábrica. É sugestivo que ele tenha escolhido fazer a distinção naquele momento, observando uma Paris onde revolta e greve entraram em intensa colaboração e competição, cada uma tentando transcender não apenas os seus próprios limites, mas também os da outra. Dito isso, o servilismo cinzento da greve limitada é, em si, um desenvolvimento histórico particular. A situação real que ele descreve, o potencial dos trabalhadores para disporem das engrenagens da produção como bem entenderem, está no cerne da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso pressupõe que já sabemos a diferença entre revolta e greve. Se não é a violência, o que é então? E. P. Thompson, cujo pensamento é a pedra angular deste livro, fornece a base para uma resposta em seu memorável “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. Se essa resposta foi curiosamente ignorada, é quase certamente porque o ensaio nunca formaliza completamente a lógica que apresenta. Criticando as reduções e a força despolitizadora contidas no termo “bread riot” (revolta do pão), ele produz uma visão mais sistemática da economia política da revolta:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tem-se sugerido que o termo “revolta” é uma ferramenta de análise pouco afiada para tantas queixas e motivos particulares. É igualmente um termo impreciso para descrever a ação popular. Se procuramos a forma característica da ação popular, não devemos considerar bate-bocas junto às padarias de Londres, nem mesmo as grandes contendas provocadas pelo descontentamento com os grandes moleiros, mas as “rebeliões do povo” (especialmente em 1740, 1756, 1766, 1795 e 1800) nas quais se destacaram os mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias. O notável sobre essas “insurreições” é, primeiro, a sua disciplina, e, segundo, o fato de mostrarem um padrão de comportamento cuja origem devemos buscar centenas de anos antes; um padrão que se torna mais, e não menos, sofisticado no século XVIII; que se repete, aparentemente de forma espontânea, em diferentes partes do país e depois da passagem de muitos anos tranquilos. A ação central nesse padrão não é o saque dos celeiros, nem o furto de grãos e farinha, mas “fixar o preço” <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É precisamente esta a situação que se inverterá com a virada do século:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O conflito econômico das classes na Inglaterra do século XIX encontrou a expressão característica na questão dos salários: no século XVII os trabadores mobilizavam-se rapidamente e partiam para a ação por causa do aumento dos preços <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Thompson capta a textura da transformação profunda em curso, de forma tão elusiva quanto imanente:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal começou. Nesses anos, a forma alternativa de pressão econômica — a pressão sobre os salários — está se tornando mais vigorosa; existe algo mais que retórica por trás da linguagem da sedição — organização de ligas clandestinas, juramentos, o obscuro “Ingleses Unidos”. Em 1812, os tradicionais motins da fome coincidem em parte com o luddismo. Em 1816, os trabalhados de East Anglia não só determinavam os preços, mas também exigiam um salário mínimo e o fim do sistema <em>speenhamland</em> de assistência aos pobres. Eles antecediam a revolta muito diferente dos trabalhadores de 1830. A forma antiga de ação continua a existir na década de 1840 e até mais tarde: estava profundamente arraigada no Sudoeste. Mas nos novos territórios da Revolução Industrial, ela passou gradativamente a outras formas de ação <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Preços e salários, eis a combinação. Um é a medida do mercado, o outro do chão de fábrica e da mina, e do trabalho agrícola desde que a agricultura de subsistência e as terras que outrora eram propriedade comum ruíram em meio a sangue e fogo. R. H. Tawney aborda o mesmo ponto, em termos um tanto diferentes:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A economia do bairro medieval era aquela em que o consumo tinha, de certa forma, a mesma primazia na mente do público, como árbitro indiscutível do esforço económico, tal como o século XIX atribuía aos lucros <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas os salários são, em si, um tipo especial de preço. Lembrando-nos disso, a fórmula se torna clara: em primeira instância, <em>a revolta é a fixação de preços para as mercadorias, enquanto a greve é a fixação de preços para a força de trabalho</em>. Este é o primeiro nível ou perspectiva de análise necessário para compreender a história da revolta, que poderíamos chamar de nível prático. A prática política em sua dimensão mais completa é a da reprodução — da família e do indivíduo, da comunidade local. Na virada do século XVIII para o XIX, a questão da reprodução desloca seu centro de gravidade de um lugar para o outro, de uma luta para a seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159375" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg" alt="" width="1920" height="1511" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1024x806.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1536x1209.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-640x504.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-681x536.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />É evidente que consumidor e trabalhador não são duas classes opostas, muito menos consecutivas. Em vez disso, são dois papéis momentâneos dentro da atividade coletiva necessária para reproduzir uma única classe: o emergente proletariado moderno, que precisam se virar dentro da relação salário-mercadoria. Se um momento prevalece sobre o outro, isso indica o grau de desenvolvimento técnico e social dentro dessa relação e a posição que o proletário ocupa nela. Na cena da revolta, aqueles que definem os preços no mercado podem ser trabalhadores (como no caso dos “mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias” de Thompson), mas este não é o fato imediato que os levou até lá. Esse reconhecimento permite um refinamento de nossas definições.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço da força de trabalho (ou as condições de trabalho, que são praticamente a mesma coisa: a quantidade de miséria que pode ser comprada por libra);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta trabalhadores aparecendo <em>enquanto trabalhadores</em>;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto da produção capitalista, caracterizando-se pela sua interrupção na fonte por meio da suspensão do trabalho, do bloqueio do chão de fábrica, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço das mercadorias (ou sua disponibilidade, o que é praticamente a mesma coisa, pois a questão é igualmente de acesso);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta participantes sem nenhum outro laço em comum além de sua despossessão;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto do consumo, caracterizando-se pela interrupção da circulação comercial.</p>
<p style="text-align: justify;">Este aparato conceitual é simples, mas poderoso, e é suficiente para o período inicialmente analisado por nossos estudiosos, isto é, estendendo-se até o século XX. No entanto, ele apresenta problemas para o presente. As lutas características da <em>revolta-linha</em>, o período que se inicia na década de 1960, juntamente com o último florescimento da greve, e que continua até o presente, não podem ser compreendidas adequadamente dentro da estrutura da fixação de preços, mesmo no sentido ampliado de Thompson. Mas também não podem ser compreendidas sem ela. É aqui que precisaremos de um segundo nível ou hotizonte: o da periodização, preocupado precisamente com o grau de desenvolvimento técnico e social do capital acima mencionado, em todas as suas eloquentes e ambíguas flutuações.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Circulação-Produção-Circulação Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Já observamos que a primeira transição, revolta-greve, corresponde histórica e logicamente à Revolução Industrial e sua extensão e intensificação da relação salarial no início do longo século XIX britânico. A segunda transição, greve-revolta linha, corresponde, por sua vez, ao período de “desintegração da hegemonia” dos Estados Unidos no final do longo século XX. Uma ascensão e uma queda. Um certo padrão em meio à confusão e ao ruído da história, levando-nos agora ao outono do império, conhecido pelos termos de capitalismo tardio, financeirização, pós-fordismo e assim por diante — aquela ladainha dilatada que corre para acompanhar o ritmo do nosso desastre proteico.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas datações são extraídas do esquema de Giovanni Arrighi, que descreve quatro “longos séculos e ciclos sistêmicos de acumulação”.</p>
<p style="text-align: justify;">“A principal característica do perfil temporal do capitalismo histórico esboçado aqui é a estrutura semelhante de todos os longos séculos”, observa Arrighi <strong>[11]</strong>. A estrutura recorrente é uma sequência tripartite que começa com uma expansão financeira originalmente liderada pelo capital mercantil; seguida de uma expansão material “de toda a economia mundial” liderada pela manufatura ou, mais amplamente, pelo capital industrial, na qual o capital se acumula sistematicamente; e quando isso atinge seus limites, uma expansão financeira final. Durante essa fase, nenhuma recuperação real da acumulação é possível, mas apenas estratégias mais ou menos desesperadas de adiamento. Historicamente, o setor financeiro da economia líder, em tal situação, encontrou uma potência industrial em ascensão para absorver seu excesso de capital, financiando assim sua própria substituição. Essa nova hegemonia se formará em bases necessariamente expandidas, capaz de restaurar a acumulação em escala global, mas, ao mesmo tempo, partindo de uma posição mais próxima de seus próprios limites de expansão — daí os ciclos sobrepostos de Arrighi, ampliando-se e acelerando-se à medida que avançam, a série de transferências antes conhecida como <em>translatio imperii</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159371" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png" alt="" width="809" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png 809w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-300x198.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-768x506.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-637x420.png 637w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-640x422.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-681x449.png 681w" sizes="auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa esquematização tem sido motivo de várias pesquisas sobre a transição para o capitalismo, frequentemente encontradas sob o título “Comércio ou Capitalismo?”. Robert Brenner, Ellen Meiksins Woods e outros argumentaram que o desenvolvimento de extensas redes comerciais e a consequente reorganização social não deve ser confundido com o capitalismo propriamente dito, e particularmente com o “desenvolvimento implacável e sistemático das forças produtivas” do capital, que não se pode dizer que tenha começado muito antes do ciclo britânico e da decolagem industrial <strong>[12]</strong>. É precisamente essa distinção que anima o argumento aqui apresentado. Os mercados são indiscutivelmente anteriores ao capitalismo e continuam nele; tornam-se parte da constituição do capitalismo somente quando são transformados pela elaboração do nexo salário-mercadoria e submetidos às disciplinas da produção de mais-valia. Isso acompanha a primeira transição, <em>revolta-greve</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, é difícil contestar a descoberta de Arrighi de que os impérios comerciais protocapitalistas seguiram praticamente a mesma parábola de desenvolvimento de suas versões mais realizadas. Os dois grandes impérios capitalistas, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, preservam e transmutam as formas de desenvolvimento, preenchendo-as com novos conteúdos. Dentro do alcance espiralado do capital, cada ciclo apresenta uma fase dominada pela lógica da produção, aqui significando a valorização das mercadorias, que Arrighi generaliza como D-M. Ao interromper estas, estão as fases dominadas pela circulação, pois tal é o caráter do capital mercantil ou financeiro, que Arrighi define como a realização de valores, ou M-D. Nunca é uma questão de ou/ou. Ambos os processos devem estar em vôo conjunto, ou o capital cessaria completamente de se mover (e capital imóvel não é capital de forma alguma). A descrição aqui diz respeito ao equilíbrio de forças dentro do circuito expandido do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos, portanto, uma periodização que corresponde às nossas práticas: <em>revolta-greve-revolta linha</em> mapeia as fases de <em>circulação-produção-circulação</em>. É verdade que o período que abrange o início do século XX foi para a Grã-Bretanha, na época ainda a principal economia capitalista, um período financeiro ou centrado na circulação. Aqui, o raciocínio do esquema de Arrighi baseado na sobreposição de ciclos fica claro. Embora os Estados Unidos tenham experimentado sua própria “Longa Depressão”, correspondente à inflexão econômica da Grã-Bretanha no final do século XIX, ainda assim eles supervisionaram, nesse período, uma notável expansão da produção, impulsionada por uma segunda Revolução Industrial capaz de contrabalançar o declínio britânico. Nossa fase atual de circulação, no entanto, carece de muitas evidências desse contrapeso sistêmico; apesar de toda a atenção dada ao papel da China como a nova oficina do mundo, por exemplo, ela já está perdendo mão de obra industrial <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">De fato, isso aponta para o que é único, pelo menos provisoriamente, sobre o nosso momento dentro de uma estrutura de sistemas mundiais. O alcance em espiral de longos séculos pode ter ficado sem espaço para se expandir; a retomada em uma escala maior não parece estar nos planos (embora não devamos descartar facilmente a capacidade do capital de se salvar de uma crise aparentemente total). O capital produtivo dominou, digamos, de 1784 a 1973. É possível que volte a dominar. No momento, isso parece incerto. Longe de sustentar uma hegemonia ascendente, os Estados Unidos, em seu declínio, estão — apesar de seu setor financeiro hipertrofiado — encerrando sua trajetória como nação devedora maciça. Agora é possível argumentar que, mesmo em nível global ou sistêmico, o capital se encontra em uma fase de circulação que não está sendo atendida pelo aumento da produção em outros lugares — uma fase distinta que inevitavelmente teremos de chamar de <em>circulação-linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, os regimes britânico e americano podem ser fundidos em um único metaciclo, que segue a sequência <em>circulação-produção-circulação linha</em>. Novamente, isso requer uma certa suavização heurística da trajetória volátil do sistema-mundo capitalista. Trata-se de um argumento, não de uma verdade absoluta. Ainda assim, achamos que é um argumento sugestivo: é possível mapear as três fases de Arrighi na periodização do capital de Brenner no que pode ser visto como um “arco de acumulação”, pelo menos no Ocidente, emergindo do comércio com a Revolução Industrial e descendo para as finanças com a desindustrialização generalizada, sem nenhuma reversão em vista. A sequência coeva de <em>revolta-greve-revolta linha</em> torna-se, portanto, uma história do capitalismo e uma exposição de sua forma atual, das contradições do presente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e Crise</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Para que o retorno da revolta sirva de testemunho sobre o <em>status</em> do capitalismo como tal, deve haver mais do que uma coincidência entre as duas sequências. Deve haver um encadeamento teórico. Esse é o terceiro e último nível do horizonte analítico, o da própria história, pelo qual nos referimos ao entrelaçamento dialético das lutas vividas com as compulsões do movimento autônomo do capital, entendido como um movimento real da existência social. O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pergunta já recebeu uma resposta preliminar. As fases lideradas pela produção material gerarão lutas dentro da produção, sobre o preço da força de trabalho; as fases lideradas pela circulação verão lutas no mercado, sobre o preço das mercadorias. Esse é um relato sincrônico, sem uma dinâmica que nos leve de uma fase a outra; além disso, ele ainda não aborda as peculiaridades da <em>revolta linha</em> e da <em>circulação linha</em>. Isso requer uma rápida passagem pela teoria marxiana da crise <strong>[14]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159374" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O valor, para Marx, tem tanto uma existência qualitativa como relação social como uma existência quantitativa no valor de troca <strong>[15]</strong>. O valor de troca de uma mercadoria viabiliza a mais-valia, a “essência invisível do capital”, valorizada na produção e realizada como lucro na circulação. A circulação, Marx se esforça por decifrar, nunca pode ser, por si só, a fonte de novo valor para o capital como um todo. A ideia de que isso poderia acontecer recebe um tratamento extenso e desdenhoso n&#8217;<em>O Capital</em>, que termina:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por mais que nos viremos, a conclusão final permanece a mesma. Se forem trocados equivalentes, não haverá mais-valia, e se forem trocados não equivalentes, ainda não teremos mais-valia. A circulação, ou a troca de mercadorias, não cria valor <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas categorias são infinitamente problemáticas, principalmente pelos limites da “circulação”. O extraordinário desenvolvimento do transporte, uma das principais marcas de nosso tempo, parece, a princípio, se encaixar nessa descrição, circulando produtos para realizar como lucro a mais-valia valorizada em outro lugar. Alguns argumentam que a mudança de local, ao contrário, aumenta o valor de uma mercadoria. Em seu sentido mais restrito, os “custos puros de circulação” podem ser limitados a atividades que não fazem nada além da troca em si, a transferência abstrata de título: vendas, contabilidade e coisas do gênero. Além disso, a financeirização e a “globalização” (ou seja, a extensão em direção aos limites planetários das redes e processos logísticos, coordenados pelos avanços nas tecnologias da informação) também devem ser entendidas como estratégias temporais e espaciais, respectivamente, para internalizar novas entradas de valor de outro lugar e de outro momento. Mas isso só pode afirmar a proposição de que a fase atual de nosso ciclo de acumulação é definida pelo colapso da produção de valor no centro do sistema-mundo; é por essa razão que o centro de gravidade do capital se desloca para a circulação, carregado pelo tripé da toyotização, da tecnologia da informação e das finanças.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, os fatos práticos são esclarecedores. Como Brenner observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Entre 1973 e o presente, o desempenho econômico nos EUA, na Europa Ocidental e no Japão, segundo todos os indicadores macroeconômicos padrão, deteriorou-se, ciclo econômico após ciclo econômico, década após década (com exceção da segunda metade da década de 1990) <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O crescimento do PIB global dos anos 50 até os anos 70 permaneceu acima de 4%; desde então, tem se mantido em 3% ou menos, às vezes muito menos <strong>[18]</strong>. Mesmo os melhores momentos durante a Longa Crise foram, em geral, piores do que os piores momentos do longo <em>boom</em> anterior. Se estipulássemos que o transporte pode fazer parte da valorização tanto como da realização, ainda assim nos confrontaríamos com o fato de que as grandes expansões do transporte global e a aceleração do tempo de rotatividade desde os anos 70 são concomitantes ao recuo da produção industrial nas principais nações capitalistas. Essa marcha a passos largos, por sua vez, é concomitante exatamente com o que a teoria do valor projeta de uma mudança em direção à circulação: menos produção de valor, menos lucros sistêmicos. De qualquer forma, a navegação e as finanças não parecem ter detido a estagnação e o declínio da lucratividade global. Tomando emprestado um termo de Gilles Chatelet, poderíamos chamar sua colaboração de “cibermercantilismo”, análogo ao modo pré-industrial no qual nenhuma quantidade de compras baratas e vendas caras ou vendas cada vez maiores pode levar à expansão.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, isso não quer dizer que não tenham aumentado os lucros de empresas individuais, que podem obter vantagem competitiva diminuindo seus próprios custos de circulação em um jogo de “empobreça-seu-vizinho” para a era da tecnologia da informação. Da mesma forma, as empresas podem participar de esquemas que recirculam e redistribuem o valor já existente, retirando uma parte à medida que ele passa. Sem ir muito longe no labirinto marxológico, podemos afirmar de forma bastante incontroversa sobre o período em questão que o capital, diante de retornos muito reduzidos nos setores tradicionalmente produtivos, vai em busca de lucro além dos limites da fábrica — no setor FIRE (<em>Finance, Insurance, and Real Estate</em>: isto é, Finanças, Seguros e Imóveis), ao longo das rotas traçadas pelas redes logísticas globais —, mas não encontra nenhuma solução contínua para a crise que o afastou da produção em primeiro lugar. Em vez disso, há uma agitação cada vez mais frenética, esquemas mais elaborados, bolhas e colapsos cada vez maiores. Em um movimento de desespero dialético, aquilo que levou o capital à esfera fratricida da circulação de soma zero faz praticamente o mesmo com uma parcela crescente da humanidade. Crise e desemprego, os dois grandes temas d&#8217;<em>O Capital</em>, são expressões da falha trágica do capital: ao buscar o lucro, ele precisa destruir a fonte do lucro, esbarrando em limites objetivos em seu impulso incessante de acumulação e produtividade. Os <em>Grundrisse</em> oferecem a formulação mais concisa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O próprio capital é a contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. Portanto, ele diminui o tempo de trabalho na forma necessária para aumentá-lo na forma supérflua; portanto, coloca o supérfluo em medida crescente como uma condição — questão de vida ou morte — para o necessário <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A “contradição em processo” nada mais é do que a própria lei do valor em movimento, apresentando-se de várias formas. Podemos vê-la como a contradição entre o valor e o preço, as medidas de produção e circulação, respectivamente — o que se revelará também como a contradição entre o capital como um todo e os capitais individuais. Esses últimos não se preocupam com a saúde geral do sistema capitalista, nem são obrigados a fazê-lo. Ao contrário, são obrigados a competir com outros capitais em seu setor. Portanto, embora a necessidade de expansão, de gerar novo valor que leve à acumulação sistêmica, seja um absoluto existencial do ponto de vista de todo o capital, os capitalistas individuais não pensam em termos de valor e acumulação. Eles medem sua existência em preço e riqueza e são compelidos a buscar lucro onde quer que ele seja encontrado, independentemente das consequências para o todo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse fenômeno unitário também é uma contradição entre a mais-valia absoluta e a relativa. As lutas intercapitalistas para economizar todos os processos substituem reiteradamente a força de trabalho por máquinas e formas organizacionais mais eficientes e, assim, com o tempo, aumentam a proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e trabalho vivo, expulsando a fonte de mais-valia absoluta na luta por sua forma relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise é o desenvolvimento dessas contradições até o ponto de ruptura. Isso caracteriza não uma escassez de dinheiro, mas seu excesso. Os lucros acumulados ficam ociosos, incapazes de se converter em capital, pois não há mais nenhuma razão sedutora para investir em mais produção. As fábricas ficam em silêncio. Buscando salários em outros lugares, os trabalhadores deslocados descobrem que a automação que economiza mão de obra se generalizou em vários setores. Agora, a mão de obra não utilizada se acumula lado a lado com a capacidade não utilizada. Essa é a produção da não-produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, voltamos, sob um disfarce um pouco diferente, à questão de classe, na forma do que Marx chama de “população excedente, cuja miséria está na razão inversa da quantidade de tortura que ela tem à disposição na forma de trabalho. Por fim, quanto mais extensas forem as seções pauperizadas da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, maior será o pauperismo oficial. <em>Essa é a lei geral absoluta da acumulação capitalista</em>” <strong>[20]</strong>. Como aponta o <em>Endnotes</em> no tratamento mais incisivo dessa questão: “Essa população excedente não precisa se encontrar completamente &#8216;fora&#8217; das relações sociais capitalistas. O capital pode não precisar desses trabalhadores, mas eles ainda precisam trabalhar. Assim, eles são forçados a se oferecer para as formas mais abjetas de escravidão assalariada na forma de produção e serviços insignificantes — identificados com mercados informais e, muitas vezes, ilegais de troca direta que surgem junto com as falhas da produção capitalista” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de surpreender que essa população excedente seja racializada em todo o Ocidente. A capacidade de lucro do capital sempre exigiu a produção e a reprodução da diferença social; em mercados de trabalho com excesso de oferta, o mecanismo das diferenças salariais dá um salto do quantitativo para o qualitativo. Junto com as “recuperações sem emprego” desde 1980, que dão suporte às teorias subjacentes de aumento do excedente, a taxa de desemprego, por exemplo, entre os negros estadunideneses tem se aproximado consistentemente do dobro da média atual, se não for mais alta, o que tem provocado, entre outras coisas, uma vasta expansão do complexo industrial-prisional para gerenciar esse excedente humano. O próprio processo de racialização está intimamente ligado à produção de populações excedentes, cada uma funcionando para constituir a outra de acordo com lógicas variadas de profunda exclusão. Como argumenta Chris Chen:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O surgimento do estado carcerário anti-negros nos EUA a partir da década de 1970 exemplifica os rituais de violência estatal e civil que reforçam a racialização da vida sem salário e a marcação racial da vagabundagem. Do ponto de vista do capital, a “raça” é renovada não apenas por meio de diferenças salariais racializadas persistentes ou do tipo de segregação ocupacional postulada pelas teorias raciais anteriores de “mercado de trabalho dividido”, mas também por meio da racialização de populações excedentes ou supérfluas não assalariadas, de Cartum às favelas do Cairo <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso opera, por sua vez, no nível da revolta contemporânea, uma rebelião excedente que é marcada pela raça e, por sua vez, a marca. Daí uma distinção final em relação à greve, que, na forma moderna, existe dentro de uma estrutura legal (mesmo que isso seja frequentemente ultrapassado). Aqui, começamos a entender o tipo de trabalho ideológico que está sendo feito pela insistência na ilegitimidade peculiar da revolta. A ilegalidade da revolta é, entre outras coisas, a ilegalidade do corpo racializado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Lutas na Circulação</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Uma população, portanto, cuja própria existência — sua possibilidade de reprodução — é redirecionada pela reorganização econômica da esfera da produção para a da circulação. Essa não é a “sociedade de consumo” no sentido popular, “a vitória definitiva do materialismo em uma adoração universal do fetiche da mercadoria” <strong>[23]</strong>. Mas é uma sociedade de consumo mesmo assim: população excedente confrontada com o velho problema do consumo sem acesso direto ao salário. Não de forma absoluta, não de forma homogênea em todo o mundo, mas suficientemente. Falamos de mudanças de tendência. Quando a base para a sobrevivência do capital muda substancialmente para a circulação, e a base para a sobrevivência dos empobrecidos muda da mesma forma, aí encontraremos a <em>revolta linha</em>. Assim, ela nomeia a reorganização social, o período em que ela domina e a principal forma de ação coletiva que corresponde a essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma maneira um tanto técnica de falar sobre exclusão e empobrecimento, sem dúvida, esse uso de categorias da economia política clássica e sua crítica. A virtude dessa linguagem está em seu poder de explicar a ligação entre <em>revolta</em> e <em>revolta linha</em> para revelar que a revolta do pão e a revolta racial, esses nomes imprecisos emparelhados, mantêm uma unidade profunda. Em uma formulação resumida, a crise sinaliza um deslocamento do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e a revolta deve ser entendida, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a fixação de preços e a rebelião dos excedentes são formas distintas, embora relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159377" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg" alt="" width="1500" height="991" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-300x198.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-1024x677.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-768x507.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-636x420.jpg 636w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-640x423.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-681x450.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />O novo proletariado, que deve agora (de acordo com o sentido original da palavra) expandir-se para incluir as populações excedentes entre os “sem reservas”, encontra-se em um mundo transformado. Já detalhamos algumas dessas transformações. A situação pode ser definida como um quiasmo de épocas. Em 1700, a polícia, tal como a reconhecemos, não existia; o mercado era vigiado ocasionalmente pelo oficial de justiça ou o funcionário parroquial. Ao mesmo tempo, a maioria das necessidades diárias da vida era produzida localmente. Em suma, o Estado estava longe e a economia, perto. Em 2015, o Estado está próximo e a economia, distante. A produção é aerossolizada; as mercadorias são montadas e entregues por meio de cadeias logísticas globais. Muitas vezes até mesmo os gêneros alimentícios básicos têm origem em um continente distante. Enquanto isso, o exército interno permanente do Estado está sempre à mão — progressivamente militarizado, sob o pretexto de fazer guerra às drogas e ao terror. A <em>revolta linha</em> não pode deixar de se voltar contra o Estado; não há como não fazê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O encontro espetacular com o Estado não deve, no entanto, sugerir que não exista uma forma diretamente econômica na revolta contemporânea, além de seu conteúdo político-econômico subjacente. As duas formas mais visíveis são a destruição econômica e o saque, uma frequentemente seguindo a outra em uma negação conjunta da troca e da lógica do mercado. Apesar da aparência universal desse aspecto da revolta, ela é sempre tratada como um desvio da e um comprometimento com a queixa inicial que poderia ter dado legitimidade a revolta. Que reivindicação ética poderia ser feita em relação ao roubo total? O fato de isso parecer misterioso aponta para um momento de fechamento ideológico e suprema ignorância histórica. O saque não é o momento da falsidade, mas da verdade que ecoa por séculos de revolta: uma versão da fixação de preços no mercado, embora a preço zero. É uma volta desesperada à questão da reprodução, embora dramaticamente limitada pela estrutura do capital em que inicialmente opera.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a revolta levanta a questão da reprodução, ela o faz como negação. Ele representa a reversão do destino dos trabalhadores na modernidade tardia. O poder histórico dos trabalhadores tem se apoiado em um setor produtivo em crescimento e em sua capacidade de se apoderar de uma parte do excedente em expansão. Desde a virada dos anos 70, o trabalho foi reduzido a negociações defensivas, compelido a preservar as empresas capazes de fornecer salários, afirmando o domínio do capital em troca de sua própria preservação. O trabalhador que aparece <em>como trabalhador</em> no período de crise enfrenta uma situação em que “o próprio fato de agir como classe aparece como uma restrição externa” <strong>[24]</strong>. Essa dinâmica, que poderíamos chamar de armadilha da afirmação, tornou-se uma forma social generalizada e uma estrutura conceitual, a irracionalidade racional do nosso tempo. A própria desordem da revolta pode ser entendida como a negação imediata disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas lutas, por sua vez, não podem deixar de confrontar o capital onde ele é mais vulnerável. Não há necessidade de imputar um tipo de consciência a essa forma latente de conflito com o capital. Compelido ao espaço de circulação, a revolta se encontra onde o capital tem deslocado cada vez mais seus recursos. A mais ou menos simultânea explosão de revoltas em Louis, Los Angeles, Nashville e mais de uma dúzia de outras cidades é um veredicto tão decisivo quanto se poderia imaginar sobre a tese da circulação. É fácil dizer que essa interrupção é amplamente simbólica: quanto do capital está em outro lugar, globalmente distribuído, resiliente, desmaterializado? As tomadas de rodovias no final de novembro de 2014 são, no entanto, um índice da situação real em que a luta ocorrerá. Além disso, elas demonstram os limites das várias categorias de revoltas. Elas são, evidentemente, descendentes das revoltas pré-modernas de exportação. Não são menos irmãos do que a paralisação do porto de Oakland em 2011 e o longo bloqueio do túnel planejado para o Vale de Susa pelo movimento No-TAV. Reconhecer isso é reconhecer que a revolta é uma tática privilegiada na medida em que é um exemplo da categoria mais ampla que designamos como “lutas na circulação”: a revolta, o bloqueio, a ocupação e, no horizonte mais distante, a comuna.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal surgiu”, escreveu Thompson sobre a transição de dois séculos atrás <strong>[25]</strong>. Até mesmo a imprensa burguesa tem um vislumbre disso: Em 2011, a <em>Newsweek</em> exibiu um revoltoso de Tottenham em sua capa, com roupa de treino e máscara, e as chamas no fundo, com a manchete “O DECLÍNIO E A QUEDA DA EUROPA (E TALVEZ DO OCIDENTE)” <strong>[26]</strong>. Algo acabou, ou deveria ter acabado; todos podem sentir isso. É uma espécie de interregno. Uma calmaria miserável, iluminada em todos os lugares pela sensação de declínio e incêndios acesos ao longo do terreno planetário da luta. As músicas no rádio são as mesmas — horríveis, surpreendentes. Elas prometem que nada mudou, mas nunca cumprem suas promessas, não é mesmo? As fissuras na organização da sociedade aumentam a cada semana. E, no entanto, essa persistência ansiosa, essa suspensão incômoda. Haverá uma recuperação? Uma catástrofe maior? O que devemos preferir? Essa é a tônica da época das revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Angelo Quattrochi, “What Happened,” em The Beginning of the End: France, May 1968, eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 49.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> E. P. Thompson, “The Moral Economy of the English Crowd in the Eighteenth Century,” <em>Past and Present</em>, n.º 50, fevereiro de 1971, 107-8. (<em>Edição brasileira In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo. Companhia das Letras, 1998</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 79.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> R. H. Tawney, <em>Religion and the Rise of Capitalism</em>, Londres: Harcourt Brace, 1926, 33.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century: Money, Power, and the Origins of Our Times</em>, Londres: Verso, 1996, 219-20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Robert Brenner, <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Londres: Verso, 2009, 13.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Alan Freeman, “Investing in Civilisation: What the State Can Do in a Crisis” em <em>Bailouts and Bankruptcies</em>, eds., Julie Guardand Wayne Antony, eds., Winnipeg: Fernwood, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> É frequentemente observado que Marx não deixou uma teoria completa sobre a crise. Sua teoria do valor em geral, no entanto, fornece a base lógica para uma teoria elaborada. Para o melhor resumo disso, ver Anwar Shaikh, “Introduction to the History of Crisis Theories” [Introdução à história das teorias da crise], <em>US Capitalism in Crisis</em> [O capitalismo americano em crise], Nova York: URPE, 1978.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Para a explicação mais eloquente desta parte da teoria de Marx, ver I. I. Rubin, <em>Essays on Marx&#8217;s Theory of Value</em>, trad. Fredy Perlman e Milos Samardzija, Nova Iorque: Black Rose, 1990, 120-21.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Karl Marx, Capital: <em>A Critique of Political Economy</em>, vol. 1, Londres: Penguin, 1992, 226.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs”, prólogo da edição espanhola de <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Madri: Akal, 2009. Disponibilizado ao autor em manuscrito, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ibid., 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Karl Marx, <em>Grundrisse</em>, Londres: Penguin Books, 1993, 706.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Karl Marx, <em>Capital</em>, vol. 1, 798 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> “Misery and Debt” [Miséria e dívida], <em>Endnotes</em> 2, 2010, 30, nota de rodapé 15.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Chris Chen, “The Limit Point of Capitalist Equality” [O ponto limite da igualdade capitalista], <em>Endnotes</em> 3, 2013, 217.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Tom Nairn, “Why It Happened” [Por que aconteceu], em <em>The Beginning of the End: France, May 1968</em> [O começo do fim: França, maio de 1968], eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense” [Comunização no tempo presente], em Communization and its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles [Comunização e seus descontentamentos: contestação, crítica e lutas contemporâneas], ed. Benjamin Noys, Nova York: Minor Compositions, 2011, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Thompson, “Moral Economy” [Economia moral], 128.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> <em>Newsweek</em>, 22 de agosto de 2011.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de que se seguiu ao assassinato de Martin Luther King Jr. em 1968.</em></p>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Nota ao Comitê Nacional da LSR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jun 2026 11:55:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O enfrentamento das opressões exige métodos coletivos, transparentes e emancipatórios, capazes de proteger as pessoas envolvidas sem reproduzir lógicas punitivistas, arbitrariedades ou mecanismos de destruição política de indivíduos. Por Militantes da Célula do Rio Grande do Sul (LSR)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Militantes da Célula do Rio Grande do Sul (LSR)</h3>
<p style="text-align: justify;">Nós, militantes da célula do Rio Grande do Sul, dirigimo-nos ao Comitê Nacional para manifestar nossa discordância em relação ao processo conduzido pela Comissão de Conduta responsável por apurar o caso envolvendo os camaradas FL e GA.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossa divergência não se limita ao mérito da decisão tomada, mas diz respeito principalmente aos métodos políticos e organizativos empregados durante todo o processo. Entendemos que a forma como a questão foi conduzida revela problemas que extrapolam um caso específico e apontam para fragilidades democráticas que precisam ser debatidas por toda a organização.</p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, cabe recordar que o Congresso deliberou a construção de uma <em>Comissão de Conduta </em>justamente em razão de experiências anteriores vividas pela organização. Tratava-se de uma tarefa estratégica, destinada a estabelecer critérios claros, transparentes e coletivamente construídos para a mediação de conflitos, apuração de denúncias e proteção dos direitos políticos e individuais dos militantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, o trabalho deliberado pelo Congresso não foi concluído nos termos aprovados. A direção assumiu a condução do processo e indicou novos responsáveis para a tarefa, alterando, na prática, uma deliberação congressual sem amplo debate com a militância. Ainda que se considerasse necessária a constituição de uma nova comissão, entendemos que sua escolha deveria ter ocorrido pelos mesmos mecanismos democráticos utilizados anteriormente, com participação ampliada da militância, e não apenas por indicação do Comitê Nacional. Tal procedimento enfraquece o princípio da soberania das instâncias coletivas e cria precedentes preocupantes para a vida interna da organização.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, observamos que o processo foi marcado por forte peso de percepções subjetivas, avaliações morais e pressões externas. <strong>Em vez de privilegiar critérios políticos claros, evidências verificáveis e garantias de contraditório</strong>, a condução da apuração parece ter sido influenciada por narrativas e interpretações que não puderam ser devidamente debatidas pelo conjunto da militância, tampouco contou com a escuta de testemunhas indicadas por ambos os lados.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica que apresentamos não significa minimizar denúncias ou desconsiderar a importância de combater qualquer forma de violência, abuso ou opressão. Pelo contrário. <strong>A tradição do feminismo marxista</strong><strong> </strong><strong>nos</strong><strong> </strong><strong>ensina</strong><strong> </strong><strong>que</strong><strong> </strong><strong>o</strong><strong> </strong><strong>enfrentamento</strong><strong> </strong><strong>das</strong><strong> </strong><strong>opressões</strong><strong> </strong><strong>exige métodos coletivos, transparentes e emancipatórios, capazes de proteger as pessoas envolvidas sem reproduzir lógicas punitivistas, arbitrariedades ou mecanismos de destruição política de indivíduos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma organização revolucionária não pode substituir a investigação séria pelo julgamento moral, nem transformar conflitos complexos em processos simplistas. O combate às opressões e às violências deve caminhar junto à defesa da democracia operária, do direito de defesa, da presunção política de boa-fé e da construção coletiva da verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Também consideramos grave que o processo tenha desconsiderado elementos relacionados às condições emocionais e à saúde mental dos envolvidos. Uma organização que se reivindica socialista deve ser capaz de combinar firmeza política com solidariedade humana, especialmente diante de situações de sofrimento psíquico e vulnerabilidade. A responsabilização política não pode significar abandono, isolamento ou negação do dever coletivo de cuidado.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma, preocupa-nos a ausência de uma reflexão crítica por parte da direção acerca de suas próprias responsabilidades na condução do caso. <strong>Ao</strong><strong> </strong><strong>concentrar</strong><strong> </strong><strong>a</strong><strong> </strong><strong>análise exclusivamente sobre indivíduos, corre-se o risco de obscurecer problemas estruturais, falhas de acompanhamento político e limitações dos mecanismos internos de mediação de conflitos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Também nos parece insuficiente a reflexão realizada pela direção sobre as consequências políticas e organizativas do processo para a célula de Goiás. Durante um período prolongado, a célula viu-se submetida a forte pressão externa, ao mesmo tempo em que ficou privada da atuação de um de seus principais dirigentes e referências políticas. Diante dessa situação excepcional, consideramos legítimo questionar quais foram os encaminhamentos concretos adotados pelo Comitê Nacional para garantir acompanhamento político, sustentação organizativa e apoio aos militantes diretamente impactados pelos acontecimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o próprio CN reconhecia estar sobrecarregado pela complexidade da situação, cabe perguntar quais mecanismos foram acionados para suprir essa limitação. Houve solicitação formal de apoio à Internacional? A Internacional foi informada das dificuldades enfrentadas pelo Conselho Nacional para responder adequadamente às demandas políticas, organizativas e humanas decorrentes do caso? Caso tenha sido informada, quais medidas de apoio foram oferecidas? Caso não tenha sido, por que tal necessidade não foi apresentada?</p>
<p style="text-align: justify;">Essas questões não têm caráter secundário. Para uma organização marxista, a responsabilidade coletiva sobre seus quadros e organismos não pode ser substituída pela simples gestão administrativa de crises. Quando uma célula enfrenta pressões extraordinárias, cabe ao conjunto da organização mobilizar recursos políticos para sustentá-la, garantindo que seus militantes não sejam deixados isolados diante de conflitos que ultrapassam sua capacidade local de enfrentamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Também entendemos que uma organização socialista não pode adotar uma postura abstrata de neutralidade diante de situações concretas. <strong>O método marxista exige uma análise materialista da realidade, capaz de compreender não apenas os fatos em si, mas também as relações de força, os interesses em disputa e as consequências objetivas produzidas por cada decisão política.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, consideramos insuficiente a reflexão apresentada pela direção acerca dos efeitos concretos que suas deliberações e comunicações públicas produzem na vida dos militantes envolvidos. Os camaradas atingidos pelo processo não eram figuras isoladas, mas quadros que, durante anos, assumiram tarefas de direção, exposição pública e defesa das posições da organização em diferentes espaços políticos e institucionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Por essa razão, uma avaliação materialista da situação deveria considerar que acusações, sanções organizativas e notas públicas não produzem efeitos apenas no interior da organização, mas também repercutem em um contexto político mais amplo. Ignorar essa dimensão significa tratar como abstrata uma realidade profundamente concreta. Uma organização revolucionária deve ser capaz de avaliar como suas decisões podem ser apropriadas, amplificadas ou instrumentalizadas por forças externas, bem como os impactos que isso produz sobre seus militantes e sobre sua própria intervenção política.</p>
<p style="text-align: justify;">Consideramos igualmente problemática a forma como a organização apresentou à militância a saída da camarada BF. Em sua comunicação oficial, a direção afirmou que não teria havido debate suficiente sobre suas posições. Entretanto, ocorreram diversas instâncias de discussão, incluindo reuniões nacionais e internacionais, além da apresentação de um documento escrito no qual a camarada expôs de forma detalhada suas divergências políticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, os motivos que fundamentaram sua decisão foram reduzidos ou apresentados de forma parcial, sendo resumidos a desacordos relacionados à questão da saúde mental, quando suas críticas abrangiam aspectos muito mais amplos da condução do processo, da ausência de respaldo aos próprios militantes da organização e da priorização de pressões externas em detrimento do debate interno, da responsabilidade coletiva e do cuidado político com seus quadros.</p>
<p style="text-align: justify;">A camarada BF relatou ter se sentido violentada politicamente e descredibilizada ao longo de todo o processo. Entendemos que apresentar publicamente os argumentos que contestam sua posição sem expor de maneira clara, completa e honesta as razões políticas por ela defendidas não constitui um tratamento respeitoso de sua trajetória militante.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O método marxista de construção política exige que as divergências sejam apresentadas em sua totalidade, permitindo que o conjunto da militância tenha acesso aos diferentes argumentos em disputa. Uma organização</strong><strong> </strong><strong>revolucionária</strong><strong> </strong><strong>deve confiar na capacidade política de sua base para analisar criticamente os debates, formular suas próprias conclusões e participar conscientemente da elaboração coletiva de sua linha política.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Também cabe ressaltar que o debate sobre feminismo marxista e seus desdobramentos organizativos não é um tema novo em nossa organização. Trata-se de uma discussão presente há pelo menos dois congressos e que envolve divergências políticas legítimas acerca da construção de uma perspectiva feminista de classe, dos métodos de combate às opressões e da forma como esses</strong><strong> </strong><strong>princípios devem orientar a vida interna da organização.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Em um desses congressos, justamente os militantes</strong><strong> </strong><strong>e</strong><strong> </strong><strong>dirigentes</strong><strong> </strong><strong>que</strong><strong> </strong><strong>posteriormente seriam os mais atingidos pelos acontecimentos recentes apresentaram</strong><strong> </strong><strong>propostas</strong><strong> </strong><strong>de acréscimo ao documento que orientava o debate sobre feminismo marxista. Na ocasião, fomos orientados pela direção nacional a retirar essas contribuições, sob a avaliação de que não seria o momento adequado para incorporá-las ao texto.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>No congresso seguinte, emergiu uma discussão acerca das contradições presentes em qualquer processo político que envolva conflitos, denúncias e disputas de interpretação</strong><strong> </strong><strong>da</strong><strong> </strong><strong>realidade.</strong><strong> </strong><strong>Entre</strong><strong> </strong><strong>os</strong><strong> </strong><strong>temas</strong><strong> </strong><strong>levantados</strong><strong> </strong><strong>estava</strong><strong> </strong><strong>a</strong><strong> </strong><strong>necessidade</strong><strong> </strong><strong>de</strong><strong> </strong><strong>refletir sobre a possibilidade de instrumentalização de pautas legítimas em conflitos</strong><strong> </strong><strong>políticos concretos. Embora reconheçamos que o debate ocorreu já ao final dos trabalhos congressuais, a orientação da direção foi no sentido de não aprofundar aquela discussão naquele momento.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Retomamos esse episódio não para questionar as circunstâncias em que tal</strong><strong> </strong><strong>decisão foi tomada, mas porque a experiência acumulada posteriormente demonstra que se tratava de um debate necessário. Os acontecimentos recentes evidenciam que a organização carece de uma elaboração mais aprofundada sobre a relação entre combate às opressões, democracia interna, garantias políticas e métodos de apuração de conflitos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Do ponto de vista do feminismo marxista, essa reflexão é indispensável. A tradição marxista sempre rejeitou qualquer concepção idealizada dos sujeitos sociais. O materialismo histórico parte do entendimento de que todas</strong><strong> </strong><strong>as</strong><strong> </strong><strong>relações</strong><strong> </strong><strong>humanas</strong><strong> </strong><strong>são atravessadas por contradições, interesses, pressões sociais e determinações históricas concretas. A luta contra a opressão das mulheres não exige a suspensão da análise crítica da realidade, mas justamente o seu aprofundamento.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Por essa</strong><strong> </strong><strong>razão,</strong><strong> </strong><strong>o</strong><strong> </strong><strong>feminismo</strong><strong> </strong><strong>marxista</strong><strong> </strong><strong>busca</strong><strong> </strong><strong>combater</strong><strong> </strong><strong>simultaneamente</strong><strong> </strong><strong>dois</strong><strong> </strong><strong>desvios: de um lado, a minimização ou negação das opressões efetivamente existentes; de outro, a substituição da análise concreta dos fatos por pressupostos abstratos</strong><strong> </strong><strong>acerca dos sujeitos envolvidos. A defesa intransigente das mulheres e das pessoas oprimidas não pode significar a renúncia aos métodos de investigação, ao contraditório, à avaliação das evidências e à compreensão das múltiplas determinações presentes em cada situação concreta.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Em nossa avaliação, a experiência recente</strong><strong> </strong><strong>demonstra</strong><strong> </strong><strong>a</strong><strong> </strong><strong>necessidade</strong><strong> </strong><strong>de</strong><strong> </strong><strong>retomar</strong><strong> </strong><strong>esse debate de forma mais</strong><strong> </strong><strong>profunda</strong><strong> </strong><strong>e</strong><strong> </strong><strong>sistemática.</strong><strong> </strong><strong>Não</strong><strong> </strong><strong>porque</strong><strong> </strong><strong>as</strong><strong> </strong><strong>opressões</strong><strong> </strong><strong>sejam</strong><strong> </strong><strong>menos reais ou menos importantes, mas justamente porque o enfrentamento consequente das opressões exige métodos políticos sólidos, democráticos e compatíveis com a tradição marxista de análise concreta da realidade concreta.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, consideramos importante registrar que o debate realizado em nossa célula ocorreu por iniciativa e insistência dos próprios militantes que a compõem, e não como resultado de uma orientação política da organização voltada a promover um amplo processo de discussão e elaboração coletiva sobre os acontecimentos. Entendemos que tal fato reforça nossa preocupação com os limites democráticos observados ao longo de todo o processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante do conjunto desses acontecimentos, chegamos à conclusão de que a confiança política necessária para a continuidade de nossa construção militante encontra-se profundamente abalada. Uma organização revolucionária sustenta-se não apenas pela concordância programática, mas também pela confiança em seus métodos, em sua capacidade de ouvir posições divergentes e em sua disposição para realizar avaliações críticas de seus próprios erros.</p>
<p style="text-align: justify;">Em não encontrando ressonância junto a essa Direção Nacional, estamos nos afastando do quadro militante da LSR.</p>
<p style="text-align: justify;">Não descartamos a possibilidade de, no futuro, voltarmos a construir conjuntamente este projeto político. Contudo, entendemos que isso dependeria de uma reflexão crítica séria por parte da organização acerca dos problemas aqui apontados. No momento presente, não enxergamos condições concretas para a disputa de nosso posicionamento político no interior da organização. A experiência recente demonstra que, mesmo tendo ocupado responsabilidades nacionais e apresentado suas críticas em diversas instâncias formais de debate, a camarada BF não encontrou espaço efetivo para que suas posições fossem consideradas e respondidas politicamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, reafirmamos nossa solidariedade aos camaradas atingidos pelo processo e nosso compromisso com a construção de uma organização socialista fundada na democracia interna, na transparência, na responsabilidade coletiva e na confiança política entre seus militantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Atenciosamente CD, JB e MB.</p>
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		<title>Mini-Manual de organização e autodefesa contra a violência institucional no SUS</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159292/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 15:32:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Este manual serve para alertar os trabalhadores da saúde da existência de práticas e informações que podem e devem te ajudar a se defender de determinadas violências institucionais. Por Viva SUS]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Viva SUS</h3>
<p style="text-align: justify;">Trabalhadoras do SUS:</p>
<p style="text-align: justify;">Este manual serve para alertar você da existência de práticas e informações que podem e devem te ajudar a se defender de determinadas violências institucionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Organizar-se coletivamente contra essas mesmas violências, sistematicamente praticadas dentro dos serviços de saúde do SUS.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas as informações compartilhadas neste material são, ou de lastro público (como os processos trabalhistas e matérias veiculadas), ou denúncias relatadas na escuta dos serviços ao longo dos últimos 4 anos de organização do VivaSUS. Todo o seu conteúdo é de interesse público (!!!)</p>
<p>TRABALHADORAS DO SUS, É HORA DE PERDER A PACIÊNCIA!!!</p>
<p><strong>Para baixar o manual, clique no link que está na Bio: <a href="https://www.instagram.com/vivasus_?utm_source=ig_web_button_share_sheet&amp;igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==" target="_blank" rel="noopener">@vivasus_</a></strong></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DY1onBGqTny/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DY1onBGqTny/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por VivaSUS (@vivasus_)</a></p>
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		<title>[Greve na USP] Aos que não foram chamados à mesa: um manifesto em defesa da permanência, mobilização e luta estudantil</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159199/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2026 19:28:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[Ao negar a legitimidade das reivindicações por melhores condições de permanência, a USP nega-se uma vez mais o reconhecimento dos estudantes como parte do corpo político da universidade. Por ex-alunos e alunos da FAUUSP]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por ex-alunos e alunos da FAUUSP</h3>
<p style="text-align: justify;">Parece consensual que, dentro e fora dos muros da universidade, vivemos um momento crítico. Em momentos como este, palavras de ordem das mais distintas vêm de todos os lados, algumas sendo repetidas regularmente: diálogo, pluralidade, democracia… Palavras que, ao não se assentarem em ações concretas, tampouco no reconhecimento do outro como sujeito de igual estatuto político, ficam soltas no vazio e, mais do que isso, voltam-se como condenação àqueles que não possuem outra opção senão agir.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta nota, escrita por ex-alunos e alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAUUSP), membros de gestões recentes do Grêmio desta faculdade (<strong>gfaud</strong>), nos colocamos em apoio e solidariedade aos estudantes brutalmente agredidos pela Polícia Militar na madrugada de 10 de Maio <strong>[1]</strong><sup><strong> </strong></sup>e ao movimento grevista da Universidade de São Paulo. Em meio a posicionamentos institucionais de repúdio vindos dos mesmos que, dois dias atrás, condenaram as ações estudantis de modo a abrir caminho ao que ocorreu na madrugada deste domingo, é preciso colocar em evidência alguns dissensos que se escondem sob palavras vazias e conclamar uma verdadeira tomada de posição.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>TAMBÉM SOMOS SUJEITOS POLÍTICOS</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A USP foi a última das grandes universidades a aderir ao sistema de cotas, implementando-as apenas nos vestibulares de 2017, permanecendo por mais de dez anos na contramão de um movimento nacional que vislumbrava universidades mais plurais, populares e democráticas. O elitismo acadêmico uspiano deu suas caras, mas foi a força do corpo estudantil, por meio de greves e ocupações, que conseguiu enfim começar a ruir os altos muros da universidade e abrir passagem para vivências historicamente apartadas do reduto acadêmico.</p>
<p style="text-align: justify;">Ocorre que, das cotas para cá, a universidade se diversificou, escutam-se novas linguagens e outros corpos são vistos ocupando os espaços. Esses novos estudantes, que vêm de todos os cantos do país, decidiram que não querem apenas adentrar a USP, querem transformá-la. Queremos permanecer e disputar também os rumos deste que é mais um dos espaços de formação política de nossa sociedade, a fim não de constituir outra elite intelectual, mas sim uma outra relação entre academia e sociedade que seja parte de uma transformação mais ampla.</p>
<p style="text-align: justify;">“Seja qual for a sua história, sua trajetória ou seu jeito de ser, a USP tem espaço para você!” foi uma das frases da campanha institucional de recepção dos calouros de 2026. Em 2024, o espaço concedido pela USP a 51 estudantes para se alojarem, às vésperas do início das aulas, foi um acampamento provisório instalado sob as arquibancadas do Centro de Práticas Esportivas <strong>[2]</strong>. Esse é apenas um entre os diversos desafios relativos à permanência dos novos estudantes, mas evidencia as condições precárias da habitação estudantil, bem como a difícil realidade enfrentada pelos estudantes para viver em São Paulo com políticas de permanência insuficientes.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a permanência estudantil extrapola as políticas afirmativas e as políticas de assistência, ambas sabidamente limitadas. A vida universitária demanda o reconhecimento dos pares. Entretanto, a relação entre discentes e docentes muitas vezes esbarra em abusos fundados na deslegitimação das novas vozes. Estes ocorrem de forma direta, a partir de humilhações e assédios constantemente denunciados &#8211; mas que raramente têm resolução diante de uma burocracia hierarquizada -, e também indireta, pelo desdém e indiferença para com as novas vozes que não compartilham do repertório dito imprescindível, da mesma formação elitizada, do mesmo referencial-teórico europeu.</p>
<p style="text-align: justify;">Permanecer só é possível quando nos reconhecemos no espaço em que estamos inseridos. Este reconhecimento não ocorre pois não nos vemos ao entrarmos em salas de aula cujos currículos invisibilizam vivências distintas daquela compartilhada entre professores de maioria branca, representantes de elites intelectuais e culturais, quase sempre de São Paulo. Não queremos aqui advogar por uma representatividade vazia, mas reiterar que os corpos historicamente apartados da universidade carregam consigo outros repertórios e subjetividades frente aqueles cristalizados pela academia. Nosso reconhecimento não ocorre porque os espaços de socialização, interlocução e mobilização que conquistamos têm sido reiteradamente atacados e, em muitos casos recentes, cerceados e tomados. Não ocorre porque nossas mobilizações por pautas justas, como a melhoria das políticas de permanência, o aumento do número de professores, a implementação de cotas para os concursos de docentes, isto é, pautas que visam transformar a universidade em uma instituição realmente mais plural, têm sido deslegitimadas pelo corpo docente que alça o controle da burocracia. Parece que a tão celebrada democratização da universidade encontrou seu teto.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio às mobilizações por uma universidade radicalmente múltipla, emergem vozes ditas progressistas a anunciarem que os estudantes estão sendo manipulados, que utilizam de táticas violentas, ou a reivindicar uma ilusória “neutralidade institucional”, uma miragem mobilizada para deslegitimar vozes que buscam o reconhecimento de suas angústias, demandas e desejos para a USP. Tal neutralidade é inexistente pois trata-se de um discurso que visa a conservação do espaço e da hierarquia que mantém o poder de um grupo que não mais representa a multiplicidade que compõe a universidade e não reconhece as novas vozes que aqui emergem <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve presente, assim como mobilizações anteriores, clama pelo reconhecimento de que as pautas do corpo estudantil são legítimas, assim como deveriam ser legítimas nossas vozes e referenciais. Que também somos e, mesmo que sem reconhecimento, continuaremos a ser sujeitos políticos que constroem essa universidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>SOBRE AS ATUAIS MOBILIZAÇÕES</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A atual greve estudantil se iniciou no interior de um ciclo de luta diante da precariedade de condições de trabalho e estudo no ambiente universitário e da escalada contínua de políticas de cunho neoliberal, como a “bonificação” por “projetos” ofertada pela reitoria aos docentes como falso aumento salarial. As políticas de permanência sequer foram incluídas na discussão orçamentária e, para além disso, os estudantes ainda tiveram os espaços sob sua autonomia ameaçados. Alguns aspectos das movimentações recentes merecem destaque.</p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, é preciso mais uma vez dizer: os espaços estudantis estão sob ataque! No processo que deu início à greve, fomos surpreendidos com a apresentação de uma minuta <strong>[4]</strong><sup><strong> </strong></sup>referente aos espaços estudantis, pela sua suposta regularização. Estes se constituem como os poucos espaços dentro da universidade em que temos algum grau de autonomia, condição necessária para a atuação dessas entidades estudantis e os únicos lugares nos quais podemos nos mobilizar e termos nossas vozes amplamente reconhecidas. Neles, em diálogo uns com os outros, é onde podemos ter nossas histórias, medos e desejos reconhecidos como legítimos, e é onde podemos discuti-los coletivamente. Nunca há consenso, mas é justamente a partir do dissenso que temos construído nossa mobilização. Não há neutralidade, tampouco concordância inabalável, quando estamos em um grupo diverso que é capaz de legitimar vozes plurais.</p>
<p style="text-align: justify;">Cabe aqui também destacar o que essa minuta significa, especialmente se colocarmos em perspectiva a série de medidas institucionais recentes de cerceamento de espaços estudantis, aumento de dispositivos de vigilância e da militarização nos campi. A diminuição de sua importância, como foi feito por parte dos docentes frente à possibilidade de que esses conflitos pudessem ser resolvidos dentro das unidades, entre diretoria e centros acadêmicos, serve única e exclusivamente para dissuadir a mobilização estudantil em torno desta pauta. Além disso, é ofensivo ignorar que esse aparente consenso esconde que a minuta retira autonomia e abre margem para a total tomada do espaço no futuro. Mais que isso, o não reconhecimento público da gestão estudantil faz dela dependente de acordos com a diretoria das unidades e a reitoria desta Universidade e, portanto, condiciona a autonomia estudantil ao aval do corpo diretivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Já com o acirramento das mobilizações, na busca por negociações, o corpo estudantil recebeu negativas em relação ao diálogo supostamente defendido pela reitoria. Inicialmente, pela sua recusa à participação nas mesas de negociação e, depois, pelo encerramento unilateral destas &#8211; estopim que levou o movimento estudantil à ocupação da reitoria, cujo objetivo era a retomada das negociações. Destacamos que, assim como na última greve geral em 2023, a ocupação de espaços foi utilizada como último recurso, sempre em resposta ao encerramento do diálogo por parte do gabinete do reitor. A resposta oferecida aos estudantes é brutal e covarde, pois respalda a violência policial no cerceamento da ocupação. Como vemos, o suposto diálogo parece iluminar apenas as salas de decisão, estas trancadas aos estudantes, cabendo-lhes apenas a tratativa com a PM. No fundo, a ocupação escandaliza não porque seja violenta (pois não foi), mas porque interrompe a coreografia elegante da omissão: expõe que o “diálogo” celebrado pela burocracia universitária é muitas vezes apenas o nome polido que se dá à obediência.</p>
<p style="text-align: justify;">Na tarde do dia 10 de Maio, a mesma reitoria que encerrou as negociações com o corpo estudantil publicou uma nota informando que não houve notificação da ação policial que reprimiu violentamente os estudantes que ocupavam o prédio administrativo. Mesmo sem notificação à reitoria, a ação truculenta parecia respaldada pela administração da USP. Isso porque o cerceamento policial foi permitido, legitimando a ameaça constante de uso da violência. Foi legitimada em cada uma das notas de repúdio que condenaram a ocupação da reitoria pelo dano causado ao patrimônio público, como se o ínfimo dano material desqualificasse, mais uma vez, toda e qualquer tentativa de diálogo com aqueles que possuem demandas, medos e desejos distintos da alta burocracia uspiana.</p>
<p style="text-align: justify;">É comovente observar a sofisticação moral da nossa universidade: cita democracia em solenidades, pluralidade em campanhas institucionais, pensamento crítico em projetos pedagógicos — mas quando estudantes pobres, cotistas, trabalhadores e filhos das periferias do Brasil ousam pôr em prática exatamente este pensamento crítico e se organizar em busca de uma nova universidade, acabam acusados de desrespeitar a democracia e a instituição. A omissão, anuência com o discurso criminalizante e deslegitimação da luta perpetrada pelo próprio quadro diretivo das unidades abre caminho para ações como a que a PM realizou na madrugada do dia 10 de Maio. A universidade que diz formar cidadãos parece preferir súditos bem-comportados; aceita a diversidade desde que muda, incentiva a presença dos novos corpos desde que estes não alterem a decoração da sala, prega a inclusão desde que esta não toque na hierarquia real que organiza quem fala, quem decide e quem apenas agradece pela oportunidade de estar ali.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre as falas que diziam-se preocupadas com o desmonte e os ataques à universidade pública, observamos posições passivas, como tem sido nos últimos anos. A universidade pública tem, sim, sido desmontada e atacada reiteradamente. Os estudantes têm sido sempre a linha de frente nesta luta: somos nós que sofremos os assédios e agressões dos fascistas que recorrentemente causam perturbações na rotina uspiana; somos nós que denunciamos reiteradamente a destruição da infraestrutura universitária, clara na situação corrente dos bandejões, do transporte público que atende os campi, das partições da USP que desidratam com a ausência de servidores suficientes. Fomos nós que, em 2022 e em 2023, nos mobilizamos pelo aumento do número de docentes e pela implementação de cotas nos concursos, pauta que afeta diretamente o pleno funcionamento da universidade e frente a qual esta categoria se manteve amplamente passiva até aquele momento. A preocupação verbalizada pelos docentes com estas questões, embora possamos crer como verdadeira, não foi acompanhada de um conjunto concreto de ações enquanto o movimento estudantil não tensionou esse debate, pressionando diretamente a categoria. E se hoje podemos celebrar a realização de concursos para docentes com reserva de vagas PPI, e também a chegada dos primeiros docentes negros a unidades como a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design, é porque houve reconhecimento, entre os docentes, da legitimidade pautada pelo corpo estudantil.</p>
<p style="text-align: justify;">Cabe destacar que a categoria docente concentra a maior parte do poder político-institucional dentro da universidade. Embora sujeitos a fatores externos, bem sabemos, são os professores que tomam as principais decisões sobre os rumos da USP. Hoje observamos este poder ser usado muito mais para rechaçar estudantes que se engajam na luta por uma universidade plural do que, de fato, para construí-la participativamente. A coragem de estudantes que colocaram em risco sua própria segurança física, psicológica e jurídica para construir o ideal de universidade que deveria ser um sonho coletivo foi reiteradamente deslegitimada. Sem a construção imagética de que a ocupação representava uma escalada da violência e uma ameaça ao patrimônio público, a desocupação imposta pela polícia seria um desfecho descolado do processo que nos trouxe até aqui. Seria expressão de ataques vindos de forças externas, mas não é esse o caso. A gravidade deste fato é acentuada quando lembramos que, há quinze anos, na última vez em que a reitoria foi ocupada e tal violência empregada, os estudantes lutavam por uma pauta de caráter ideológico (que permanece justiçada agora): a retirada da Polícia Militar do campus. Em contraste, hoje os estudantes lutam por algo muito mais básico: o reconhecimento de que fazem parte desta universidade, que terão a dignidade de se alimentar sem medo de ingerir comida estragada e contaminada; de fugir da humilhação e sofrimento impostos pela ausência de recursos mínimos para manter o sonho de se formar na USP. É esta a raiz da nossa revolta e é contra esses ideais tão mínimos que a universidade emprega a violência.</p>
<p style="text-align: justify;">Não podemos deixar de indicar mais uma vez que ao negar a legitimidade das reivindicações por melhores condições de permanência, nega-se uma vez mais o reconhecimento dos estudantes como parte do corpo político da universidade. Rejeitar o diálogo com aqueles que vivenciam a precariedade habitacional do CRUSP e que dependem dos bandejões e do auxílio permanência para viver em São Paulo é dizer que o que existe é suficiente, que não há perspectiva de futuro com plena inclusão dessas novas vozes na academia. É reiterar que somos bem-vindos quando não ameaçamos tensionar a estabilidade da estrutura universitária, este castelo construído para manter-nos fora. Somos bem-vindos quando despidos de nossos próprios repertórios e desejos, quando amoldados às preexistências que deseja-se conservar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>TOMEMOS POSIÇÃO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isto posto, fica claro que vivemos um momento histórico e crítico. Daqui, escolhemos o caminho que, inevitavelmente, trilharemos juntos como parte da Universidade de São Paulo. Entendemos que este precisa estar conectado com as lutas dos que vieram antes, constituindo-se como um movimento histórico que vai além dos muros da nossa universidade, se assentando, portanto, em lutas comuns que visam a construção de novos horizontes políticos contrários a quaisquer hierarquias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma universidade que preserva memoriais contra a ditadura enquanto autoriza, normaliza ou relativiza métodos que carregam precisamente sua sombra histórica. O DCE Livre carrega o nome de Alexandre Vannucchi Leme não como ornamento nostálgico, mas como lembrete incômodo de que a repressão ao movimento estudantil nunca foi um acidente externo à vida universitária; ela sempre foi o teste decisivo de seus princípios. E hoje o teste retorna. Quem fala em pluralismo, mas se cala diante da polícia dentro da universidade, defende apenas o pluralismo dos que já têm cadeira, sala, título e estabilidade. Quem condena a quebra de vidros com mais energia do que a quebra de corpos revela, sem querer, sua verdadeira pedagogia: patrimônio acima de gente, ordem acima de justiça, reputação institucional acima da dignidade estudantil e humana.</p>
<p style="text-align: justify;">Os ares fascistas que pairam sobre o Governo do Estado de São Paulo só poderão ser enfrentados no ambiente universitário se os dissensos próprios da pluralidade dos corpos que compõem nossa academia construírem espaços capazes de ouvir as diversas vozes que hoje nos constituem. Talvez assim, estudantes, professores, funcionários e todos os outros interessados na construção de uma nova universidade encontrem caminhos comuns que visam o enfrentamento dos tempos sombrios que nos espreitam.</p>
<p style="text-align: justify;">Da parte dos estudantes está colocada nossa luta irrestrita contra o projeto de destruição do ensino público de qualidade. Dos funcionários, como suas posições e atuações recentes deixam claras, também. É hora que o corpo docente, por sua vez, assuma também uma posição clara, que esteja posta numa manifestação pública, mas também e principalmente em ações concretas que movam a política interna desta universidade no sentido da reconstrução e do fortalecimento da mesma, e das relações entre as categorias que a compõe. Assim, poderemos juntos avançar no diálogo, na democratização e até mesmo num verdadeiro pluralismo universitário.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ASSINAM ESTE MANIFESTO:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Allan Pedro dos Santos Silva &#8211; gfaud 2021/ 2023</p>
<p style="text-align: justify;">Ana Pacheco &#8211; gfaud 2021/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Bárbara Carneiro &#8211; gfaud 2019/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Breno Terra &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Camila Rosado &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Felipe Leonidas &#8211; gfaud 2020/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Gabrielle Gusmão &#8211; gfaud 2019/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Helena Nakamura gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Henrique Munhoz Clesca &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">João Generoso &#8211; gfaud 2018/2019</p>
<p style="text-align: justify;">João Iwamoto &#8211; gfaud 2024/2026 Ketlyn Caroline Gonçalves &#8211; gfaud 2018/2019</p>
<p style="text-align: justify;">Larissa Hiratsuka &#8211; gfaud 2017/2018</p>
<p style="text-align: justify;">Lucas Lopes &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Luciana Salvarani &#8211; gfaud 2022/2025</p>
<p style="text-align: justify;">Matheus Martins &#8211; gfaud 2021/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Miguel Fiorelli &#8211; gfaud 2021/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Nicolas Sarracino &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Paulo Tadashi &#8211; gfaud 2018/2019</p>
<p style="text-align: justify;">Patrick Corrêa &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Rafael Kim &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Raphael Ramos &#8211; gfaud 2024/2025</p>
<p style="text-align: justify;">Rodolfo Sydow &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Yu Weibin &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Roberto Shimoda &#8211; gfaud 2017/2018</p>
<p style="text-align: justify;">Horrana Porfirio Soares &#8211; gfaud 2015/2016</p>
<p style="text-align: justify;">Hudynne Helena Guimarães Lima &#8211; gfaud 2015/2017</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Ver em: <a class="urlextern" title="https://www.brasildefato.com.br/2026/05/07/estudantes-da-usp-em-greve-ocupam-reitoria/" href="https://www.brasildefato.com.br/2026/05/07/estudantes-da-usp-em-greve-ocupam-reitoria/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.brasildefato.com.br/2026/05/07/estudantes-da-usp-em-greve-ocupam-reitoria/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Ver em: <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/04/a-espera-de-moradia-alunos-da-usp-vivem-debaixo-de-arquibancada-de-estadio.shtml" href="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/04/a-espera-de-moradia-alunos-da-usp-vivem-debaixo-de-arquibancada-de-estadio.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/04/a-espera-de-moradia-alunos-da-usp-vivem-debaixo-de-arquibancada-de-estadio.shtml</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Destacamos o posicionamento de um grande número de docentes de universidades federais e estaduais contra as vozes conservadoras que se disfarçam sob esta suposta neutralidade, exposto no texto <a class="urlextern" title="https://pluralismoencarnado.com/" href="https://pluralismoencarnado.com/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Em defesa do pluralismo encarnado”</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Ver em: <a class="urlextern" title="https://iclnoticias.com.br/usp-restringir-comercio-contas-estudantis/" href="https://iclnoticias.com.br/usp-restringir-comercio-contas-estudantis/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://iclnoticias.com.br/usp-restringir-comercio-contas-estudantis/</a>.</p>
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