<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Perú &#8211; Passa Palavra</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/tag/peru/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Wed, 15 Mar 2023 08:19:05 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9</generator>
	<item>
		<title>Três percursos no labirinto. 1</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/03/147227/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2023/03/147227/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Mar 2023 08:07:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Bolívia]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Perú]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=147227</guid>

					<description><![CDATA[Entre todos os percursos que eu poderia ter feito, não será estranha a quase ausência da América Latina? Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;">«Este é um livro interminável, por isso me permito apresentá-lo inacabado» — foi com estas palavras que iniciei a primeira edição do <em>Labirintos do Fascismo</em> (Porto: Afrontamento, 2003). Doze anos depois eu prevenia ainda o leitor: «Este é um livro interminável, e permanecerá tão inacabado como na primeira versão». Disse o mesmo em 2018: «Este é um livro interminável, e permanecerá tão inacabado como nas duas versões anteriores». Finalmente, na última e definitiva edição (São Paulo: Hedra, 2022) mantive o aviso: «Esta é uma obra interminável, e permanecerá tão inacabada como nas três versões anteriores».</p>
<p style="text-align: justify;">Porém, entre todos os infindáveis percursos que eu poderia ter feito, não será estranha a quase ausência da América Latina? Mencionei Getúlio Vargas apenas duas vezes e só de passagem, embora fosse oportuna a comparação entre o Estado Novo português e o Estado Novo brasileiro como duas variantes do fascismo conservador. O próprio peronismo não fora sequer analisado na versão de 2003 e introduzi-o depois só porque me pareceu indispensável dissecar uma modalidade do fascismo que dera um peso especial aos sindicatos e também porque me interessou mostrar um tipo de articulação entre os quatro pólos do fascismo em que a incidência de cada um deles se sucedeu no tempo, só alcançando uma conjugação simultânea no plano ideológico, no justicialismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa circularidade na articulação entre os pólos do fascismo tornou muito durável o mito do peronismo, cada pessoa encontrando nele o que deseja e esquecendo o que não pretende ver. Mas, sendo assim, não deveria eu ter estudado a influência do peronismo em toda a América Latina? Parece estranho que me tivesse condenado a não usar esse campo privilegiado para a análise dos cruzamentos e convergências entre extrema-direita e extrema-esquerda que estão sempre na origem de qualquer modalidade de fascismo. Ainda hoje, e decerto amanhã, a esquerda latino-americana encontra a sua imagem em regimes que mais não são do que uma actualização do fascismo de Juan Perón e aplaude o peronismo sem o reconhecer como um dos rostos do fascismo. O problema é que não se trata só de influências ou reflexos, pois na América de língua espanhola as raízes do fascismo ultrapassam muito a Argentina, e foi este o obstáculo que me deteve.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes do 25 de Abril de 1974, estava eu no exílio em Paris, li na revista <em>Política</em>, publicada por jovens fascistas radicais portugueses, um artigo que descrevia com apreço a situação na Bolívia sob a presidência de Paz Estenssoro. Já naquela época eu me interessava pelo estudo do fascismo, nunca deixei de me interessar, particularmente nas versões radicais, em que os temas da esquerda deixam sinais visíveis, e as páginas da <em>Política</em> traçavam um retrato fascinante da experiência boliviana, imbricando-se esquerda e direita numa promiscuidade com que até então eu nunca havia deparado. Já não tenho a revista, decerto a deixei para trás em qualquer das várias mudanças de país, mas recordei o assunto enquanto prosseguia as pesquisas necessárias para escrever e reescrever o <em>Labirintos</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Na primeira metade da década de 1940 dois partidos se destacaram na Bolívia, o Partido de la Izquierda Revolucionaria (PIR), marxista de orientação pró-soviética, e o Movimiento Nacionalista Revolucionario (MNR), fundado e dirigido por Víctor Paz Estenssoro. As simpatias do MNR pelo fascismo, justificadas pela oposição ao imperialismo americano, confirmaram-se em 1943, quando colaborou com a organização militar secreta Razón de Patria para derrubar o governo civil e instaurar um novo governo, em que Paz Estenssoro ocupou a pasta da Fazenda. O MNR era considerado fascista por ambos os extremos do leque político e neste contexto é significativo que tivesse começado a mobilizar o campesinato índio, reunindo-se em 1945 um Congresso Indígena. Foi pouco, mas não seria necessário mais para me deixar curioso, pois ter-se-ia então antecipado a situação instaurada naquele país na última década e meia? Bastaria esta possibilidade para merecer o percurso, que afinal não fiz.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi pouco, mas houve muito mais. O governo instaurado em 1943 foi violentamente derrubado três anos depois, e quando o candidato do MNR triunfou nas eleições presidenciais de 1951 o exército interveio e formou uma junta governativa. O MNR começou então a preparar o seu regresso, separou-se da ala explicitamente fascista e procurou o apoio sindical, especialmente do sindicato dos mineiros, dirigido por Juan Lechín, um simpatizante do trotskismo que contava com a adesão dos trotskistas reunidos no Partido Obrero Revolucionario (POR), fundado no final de 1935. Ora, durante a segunda guerra mundial os marxistas pró-soviéticos tinham defendido a moderação nas lutas dos mineiros, para que não surgissem problemas com o fornecimento de matérias-primas aos Aliados, e como os trabalhadores não estavam dispostos a pagar a factura, houve muitos a abandonar o PIR em benefício do POR. Se o MNR pretendia uma base operária activa, era entre os mineiros que poderia encontrá-la, com Lechín na sua órbita e o POR como apoiante exterior. Foi neste quadro que se preparou a revolução de Abril de 1952.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa revolução triunfou graças aos mineiros que, chefiados por Lechín, pegaram em armas e invadiram a capital. Não foi um simples golpe, como tem havido muitos nesse país, porque nas ruas ficaram seiscentos mortos e, sobretudo, porque se operou uma reorganização política, social e económica sem precedentes. Antes de mais, o exército, que se opusera à revolução, foi dissolvido e substituído por milícias camponesas e operárias, organizadas pela Central Obrera Boliviana (COB), cujo secretário-executivo era Lechín. Na realidade essas milícias agiam como uma força armada à disposição do MNR, e era Paz Estenssoro quem controlava o governo. Para garantir uma mobilização durável dos trabalhadores foram nacionalizadas as três grandes companhias mineiras e encarregou-se da sua gestão um novo organismo público; realizou-se uma profunda reforma agrária, dissolvendo-se os latifúndios, o que libertou da servidão o campesinato indígena; e promoveu-se a organização política dos índios, concedendo-lhes o direito de voto e convertendo-os numa base de apoio governamental. Lechín, inspirado pela vulgata trotskista, apresentava este regime como um duplo poder, os trabalhadores ao lado da burguesia. Nem todos os trotskistas, porém, aceitaram essa visão benévola e em 1954 ocorreu uma cisão no POR, demasiado minúscula para pôr em perigo o governo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-147251" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-1-300x168.png" alt="" width="620" height="347" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-1-300x168.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-1-1024x574.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-1-768x430.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-1-749x420.png 749w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-1-640x359.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-1-681x382.png 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-1.png 1440w" sizes="(max-width: 620px) 100vw, 620px" />Chegado a este ponto de um percurso que não fiz, mas imagino agora, e lembrando-me do artigo que lera na <em>Política</em>, eu averiguaria como se reorganizou o fascismo no MNR, que foi o centro da revolução de Abril de 1952. Este Movimento fora fundado em 1941, quando a hostilidade ao predomínio dos Estados Unidos, entendida como anti-imperialismo, podia legitimar-se com a invocação do fascismo. Mas entretanto os tempos haviam mudado, o Eixo fora derrotado e já não era vantajoso um governo reivindicar explicitamente o fascismo, para mais no continente americano. Eu detectaria o fascismo do MNR antes de tudo no seu nacionalismo submetido à tutela do Estado. Em seguida, encontrá-lo-ia na articulação deste nacionalismo estatal com a central sindical ou, mais exactamente, na manipulação dos sindicatos, reforçada pela conjugação entre sindicatos e milícias armadas.</p>
<p style="text-align: justify;">E, como num espelho, formava-se o reflexo inverso. O MNR vira-se na necessidade de prescindir da invocação do fascismo e para isso tinha de eliminar os fascistas notórios. A Falange Socialista Boliviana, fundada em 1937, era o partido propriamente fascista, e a sua oposição à elite oligárquica tradicional aproximou-a do MNR, a ponto de ser convidada para se juntar à coligação que fez a revolução de 1952, mas retraiu-se no último momento e converteu-se a partir de então no principal opositor ao governo saído da revolução. Aquela síntese fascista formada à revelia do partido especificamente fascista lembra o que sucedeu na Birmânia, onde o fascismo se constituiu independentemente do partido fascista de U Saw e por fim contra ele. A Falange pagou caro, porque os seus dirigentes e militantes foram os mais numerosos a povoar os vários campos de concentração que o governo do MNR estabelecera, onde tiveram por companheiros militantes e dirigentes do antigo PIR, que em 1950 se dissolvera para se transformar no Partido Comunista da Bolívia. E assim os fascistas clássicos e os comunistas ortodoxos eram, de um lado e outro, as vítimas dos dois extremos que se haviam conjugado no fascismo radical do MNR.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui eu faria uma pequena digressão, recordando a estadia de Ernst Röhm na Bolívia desde 1928 até 1930, durante o período em que estivera afastado do comando das SA. Ora, parece que Röhm exercera uma considerável influência sobre Germán Busch Becerra, que depois de ter combatido na guerra do Chaco se tornara presidente em 1937 e se declarara ditador dois anos depois, para em breve morrer, por suicídio segundo uns, dizem outros que assassinado. O importante neste caso é que a memória de Germán Busch e das leis por ele promulgadas influenciaria a revolução de Abril de 1952, traçando uma linha de continuidade entre a ala radical e social do nacional-socialismo germânico e o fascismo boliviano. Depois desta deambulação, eu regressaria ao percurso principal.</p>
<p style="text-align: justify;">A articulação do nacionalismo estatal do MNR com os sindicatos da COB e as milícias constituiu apenas o eixo endógeno do fascismo, em boa medida gerado no próprio processo que levara à revolução de 1952, e se este eixo basta para caracterizar um movimento, ele é insuficiente para sustentar um regime. Assim, o governo emanado da revolução concentrou-se no fortalecimento do eixo conservador, exógeno, procedendo simultaneamente a reformas sociais e económicas que atenuaram ou mesmo suspenderam o radicalismo inicial. Seria aqui necessário superar uma lacuna e averiguar o papel desempenhado por um dos pólos do eixo conservador, a Igreja. Mas de 1956 em diante uma das funções dos governos hegemonizados pelo MNR foi a consolidação do outro pólo deste eixo, reconstituindo as forças armadas, que as milícias haviam substituído. Ora, essa deslocação da incidência dos eixos do fascismo, se por um lado aumentou a clivagem interna do regime e agravou o dissídio entre Paz Estenssoro e Lechín, que fundou o Partido Revolucionario de la Izquierda Nacionalista, onde acolheu muitos trotskistas saídos do POR, por outro lado fez com que ambos evoluíssem para posições cada vez mais moderadas.</p>
<p style="text-align: justify;">O fim de tudo isto foi ignóbil, porque em 1964 Paz Estenssoro candidatou-se à presidência da República apresentando como vice-presidente o general René Barrientos, comandante da Força Aérea, mas em Novembro desse ano Barrientos e o comandante do Exército efectuaram um golpe e o MNR foi expulso do poder. Lechín imaginou então que havia chegado o momento da desforra e apoiou Barrientos, só para poucas semanas depois ser preso e exilado, ficando os militares a governar praticamente sem interrupção até 1982. Pois mesmo nesta situação, quando em 1971 o general Hugo Banzer instaurou uma feroz ditadura, o MNR apoiou-o e Paz Estenssoro foi nomeado conselheiro do governo, até que em 1974 Banzer rompeu com o MNR e com a Falange, que também lhe dera apoio.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o eixo endógeno do fascismo boliviano fora demasiado radical para assegurar sozinho a sobrevivência do regime, o eixo exógeno mostrou-se demasiado conservador para lhe garantir a continuidade. Esta articulação dos dois eixos operada em sucessão e não simultaneamente lembra o sucedido no fascismo argentino, e Perón veria a sua imagem, ou o seu reflexo, na esquizofrenia siamesa formada pelo duo Juan Lechín / Paz Estenssoro.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-147266" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-2-300x225.jpg" alt="" width="620" height="464" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-2-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-2-768x575.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-2-561x420.jpg 561w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-2-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-2-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-2-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-2-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-2-640x479.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-2-681x510.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-2.jpg 900w" sizes="(max-width: 620px) 100vw, 620px" />Se eu tivesse podido limitar-me a dar corpo e substância às peripécias que agora esbocei em linhas muito sumárias, o <em>Labirintos</em> apresentaria mais uma variante do fascismo e a obra cresceria uma dezena e meia de páginas. Nada de dramático. Mas compreendi então que para analisar o processo revolucionário de Abril de 1952 e a reorganização política subsequente teria de recuar até às três guerras fatídicas que a Bolívia travou, primeiro contra o Chile em 1879-1884, depois contra o Brasil em 1899-1903, finalmente a guerra contra o Paraguai em 1932-1935. Note-se a amplidão do arco cronológico, desde pouco depois da Comuna de Paris até às vésperas da guerra civil em Espanha. Três guerras, três derrotas esmagadoras.</p>
<p style="text-align: justify;">Na guerra contra o Chile, a Bolívia aliou-se ao Peru para manter a soberania sobre uma área da costa do Oceano Pacífico rica em salitre e em guano. Não há motivo para nos espantarmos com o facto de homens se trucidarem durante cinco anos pela posse de fezes de pássaros e morcegos, pois eram um fertilizante muito cobiçado e já os Estados Unidos, cumprindo o seu <em>manifest destiny</em>, haviam iniciado a expansão no Pacífico com a ocupação de algumas ilhas cobertas de guano. Como observei no <em>Labirintos</em> (Hedra, vol. 4, pág. 329), «as grandes ambições podem começar pelos excrementos». Eram deploráveis as condições económicas e militares nos três países que se envolveram em guerra, mas as do Chile pareciam talvez menos más do que as da aliança boliviano-peruana, embora as condições logísticas fossem péssimas para todos. O conflito lançou a economia do Peru no caos e obrigou a perdas territoriais, além de levar a uma desagregação da elite e do aparelho político, forçando o país a assinar a paz em Outubro de 1883. Por seu lado, a Bolívia suspendeu as hostilidades no ano seguinte, completamente derrotada, sem guano nem acesso ao mar.</p>
<p style="text-align: justify;">A guerra que a Bolívia prosseguiu contra o Brasil em 1899-1903 foi, se possível, mais desoladora ainda. Estava em causa a soberania sobre o Acre, rico em árvores-da-borracha, ou cauchu. Batendo-se num território remoto e com precárias condições logísticas, a Bolívia enfrentou não só o Brasil, mas também algumas breves tentativas separatistas e um autonomismo rudimentar da parte de ocupantes que pretendiam manter-se alheios a qualquer lei. Quando iniciou a primeira campanha a Bolívia acabara de ser dilacerada por uma guerra civil, e a instabilidade política ressurgiu esporadicamente ao longo do conflito. No final da segunda campanha, em 1903, a Bolívia reconheceu a derrota, aceitou a desmobilização das suas tropas e assinou um tratado de paz em que cedeu aos brasileiros o território do Acre. Com esta guerra lastimável, a Bolívia perdeu aproximadamente 190.000 km², que se somaram aos pouco mais de 164.000 km2 que havia já concedido ao Brasil num tratado assinado em 1867.</p>
<p style="text-align: justify;">Três décadas depois, em 1932-1935, a Bolívia envolveu-se numa guerra contra o Paraguai pelo controle da região norte do Grande Chaco, onde se supunha então que existisse petróleo, além de este território possibilitar uma saída fluvial para o Oceano Atlântico. A derrota boliviana foi tanto mais surpreendente quanto a população paraguaia equivalia a menos de metade da população boliviana, e além disto o Paraguai saíra trucidado da guerra que desde o final de 1864 até ao começo de 1870 travara contra a Tríplice Aliança, composta pelo Brasil, a Argentina e o Uruguai, em que sofrera enormes baixas humanas. Mas, se a Bolívia acabou vencida, o Paraguai obteve uma vitória de Pirro porque, apesar de ter aumentado muito a sua superfície territorial, as economias de ambos os países ficaram à beira do colapso; e se a Bolívia perdeu cerca de 2% da população, o conflito custou ao Paraguai cerca de 3% da população.</p>
<p style="text-align: justify;">De 1831 até 1938, em cem anos de guerras e caos político, passando por mais de quarenta governos e quase duzentas tentativas de golpe de Estado, a Bolívia perdeu mais de metade do território. As humilhações militares provocaram um ressentimento generalizado e uma reacção nacionalista, atitudes propícias à gestação do fascismo, tanto mais que aquelas aspirações geográficas eram consideradas indispensáveis ao desenvolvimento económico do país e a afirmação nacionalista se apresentava como um anti-imperialismo. Mas foi sobretudo a derrota no Chaco que assumiu as dimensões de catástrofe nacional e exerceu um efeito considerável sobre a sociedade e a cultura bolivianas, numa época em que o país começara a modernizar-se e a noção de cidadania abarcava já camadas sociais vastas. A historiografia parece unânime ao apontar uma linha de evolução que levou da derrota na guerra com o Paraguai até à revolução de Abril de 1952.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi precisamente aqui que comecei a hesitar, quando verifiquei que a análise da variante boliviana do fascismo me obrigaria ao estudo, necessariamente longo, de três guerras desoladoras. Mas não pretendi apenas esquivar-me a um trabalho fastidioso. É que o percurso pela Bolívia ter-me-ia levado a investigar o papel do Peru naquele contexto. Na época colonial a Bolívia era conhecida como Alto Peru, e foi nos complicados jogos de poder com José de San Martín que Simón Bolívar, cujo controle sobre o Peru estava em risco, concedeu a independência ao Alto Peru em Fevereiro de 1826, passando o novo país, em sua homenagem, a chamar-se Bolívia. Depois, o general Andrés de Santa Cruz esforçou-se por confederar os dois países no período de 1836 até 1839, mas em Janeiro de 1839, na batalha de Yungay, este projecto ficou frustrado. O estudo do Peru afigurou-se-me, então, tanto mais necessário à compreensão da situação boliviana quanto o Peru participara na guerra contra o Chile e se interessara também pelo Acre. Ora, a inclusão desse país não tornaria o percurso demasiado extenso e moroso?</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-147268" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-3-300x169.jpg" alt="" width="620" height="349" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-3-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-3-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-3-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-3-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-3-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-3-681x383.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-3.jpg 1280w" sizes="(max-width: 620px) 100vw, 620px" />A passagem pelo Peru colocaria obrigatoriamente em destaque a Alianza Popular Revolucionaria Americana (APRA), que durante quase um século ocupou um lugar incontornável na vida política daquele país. Fundada em 1924 por Victor Raúl Haya de la Torre, a APRA foi originariamente uma organização marxista, embora não comunista. No início a APRA não era nacionalista, pois Haya de la Torre defendia o ideal bolivariano da união dos Estados latino-americanos, mas rapidamente limitou o seu escopo ao Peru e em 1930 converteu-se no Partido Aprista Peruano. Os apristas reivindicavam a nacionalização das terras e das indústrias e defendiam, num plano estritamente político, os interesses dos índios. A minha hipótese inicial de trabalho, nesta deambulação peruana de um percurso que não fiz, consistiria em procurar ao redor do Partido Aprista os traços de fascismo. Por um lado, o aprismo ditava uma grande parte dos temas ideológicos em jogo na vida política do país e, por outro lado, essa vida política parecia ter como principal objectivo impedir a chegada do Partido Aprista ao governo. E assim este partido foi duplamente condicionado na sua evolução, perdendo a especificidade ideológica quando os adversários formulavam reivindicações semelhantes às suas e suavizando o radicalismo prático em troca de sucessivas promessas de legalização ou de partilha do poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a depressão económica mundial da década de 1930, igualmente padecida no Peru, um movimento insurreccional assegurou aos apristas popularidade e apoio, mas sucessivos pronunciamentos militares e ditaduras impediram-nos de chegar ao poder e por vezes prenderam-nos e mataram-nos. Terminada a segunda guerra mundial, porém, os governantes e a oligarquia chegaram a um compromisso com o Partido Aprista, aceitando a sua legalização e instaurando a liberdade de imprensa e de associação, enquanto, por seu lado, os apristas se comprometeram a apoiar uma candidatura presidencial moderada, que triunfou nas urnas. Mas como o Partido Aprista havia obtido a maioria absoluta na Câmara de Deputados e constituía o grupo mais numeroso no Senado, tentou impor a sua agenda ao governo, estimulando para isso a agitação universitária e as greves, já que os sindicatos eram maioritariamente apristas. Ao mesmo tempo, as forças conservadoras opunham-se às reformas projectadas pelo governo, o que agravou o caos. Foi nestas circunstâncias que o Partido Aprista enfrentou uma coligação de todos os rivais, tanto de direita como de esquerda, entre os quais se contavam os comunistas. Este ciclo encerrou-se com o pronunciamento de Outubro de 1948, impondo um regime militar que durou oito anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de proibido, o aprismo continuou a beneficiar de um grande apoio popular durante a ditadura e um novo ciclo político iniciou-se em 1956, quando as negociações entre o Partido Aprista, o governo e a direita tradicional conduziram à legalização daquele partido, que em troca aceitou atenuar as reivindicações, o que haveria de levar à saída dos seus militantes de esquerda e depois à fundação do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). Entretanto foi eleito um presidente apoiado pelos apristas, e seis anos mais tarde, em 1962, efectuaram-se novas eleições. Os principais candidatos, Haya de la Torre e Fernando Belaúnde Terry, apresentavam programas populistas e pretendiam incorporar os indígenas na vida nacional. O Partido Aprista obteve os melhores resultados no norte do país e entre os trabalhadores sindicalizados, sobretudo os da cana-de-açúcar, e Fernando Belaúnde triunfou na capital e nas regiões mais modernizadas, mas também no Sul, apesar de ser a região mais rural e arcaica. Haya de la Torre conseguiu uma percentagem de votos um pouco superior à de Belaúnde, embora não o suficiente para ser eleito imediatamente, e chegou a um acordo com outro candidato que atribuiria a vice-presidência a um aprista. Porém, Belaúnde e os militares, apoiados pelos sectores mais conservadores, impediram a efectivação desse acordo e o exército tomou o poder, para no ano seguinte se realizar um novo sufrágio. Como seria de esperar, Belaúnde foi eleito presidente.</p>
<p style="text-align: justify;">Belaúnde obtinha apoios ao mesmo tempo à esquerda e à direita do Partido Aprista. Ele era bastante mais radical do que os apristas quanto à reforma agrária, era hostil ao capital estrangeiro e crítico da liberdade de mercados, o que lhe valia uma certa simpatia dos castristas e dos comunistas pró-soviéticos; mas, como atacava o Partido Aprista, era igualmente bem-visto pelos conservadores. Ao ultrapassar pela esquerda os apristas e ao ultrapassá-los pela direita também, não estaria Belaúnde a encetar a gestação de um fascismo? Seria nesta perspectiva que eu iniciaria a minha deambulação pelo Peru, só depois evocando as décadas anteriores como <em>background</em> do momento culminante de 1962 e 1963. Em seguida regressaria a 1963 e acompanharia o governo de Belaúnde que, sem dispor de maioria parlamentar e perante uma crise económica acelerada pelas medidas que acabara de tomar, enfrentava, por um lado, a oposição do Partido Aprista associado à direita conservadora e, por outro lado, a oposição da extrema-esquerda, incluindo trotskistas e guerrilhas guevaristas. Nestas circunstâncias, um grupo de jovens oficiais nacionalistas defendia a necessidade de realizar reformas antes que a situação se deteriorasse e, sob a chefia do general Juan Velasco Alvarado, apoderou-se do poder em 1968.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo de Velasco Alvarado propunha a nacionalização de empresas estrangeiras e previa a distribuição das suas acções aos trabalhadores até que eles controlassem 51% do capital, propondo igualmente uma ampla reforma agrária que integraria os camponeses índios e transformaria os latifúndios em unidades cooperativas ou em sociedades de interesse social. O governo pretendia ainda proceder a uma reforma do ensino e alfabetizar a população, assumindo também o Estado o controle dos grandes órgãos de informação. Na política externa reconheceu os governos de Cuba e da República Popular da China e adoptou uma postura activa no grupo dos não-alinhados e, mesmo que não houvesse tudo o mais, bastaria isto para gozar do apoio praticamente incondicional do Partido Comunista Peruano. Nesse percurso imaginário eu pararia aqui, deixando o projecto de Velasco Alvarado em suspenso, sem lhe analisar o declínio suscitado pela deterioração da situação económica, com a consequente radicalização da esquerda, incluindo o Partido Comunista e a central sindical, o que levou os próprios militares a efectuarem um golpe em 1975 e a substituirem Velasco Alvarado por outro general. O novo governo regressou à ortodoxia económica e apelou para o capital estrangeiro e, na política externa, aproximou-se dos Estados Unidos. A agitação social cresceu, com seis greves gerais no período de 1977 a 1979, mas a minha digressão terminaria em 1975, porque seria à luz da experiência de Belaúnde que eu analisaria o projecto de Velasco Alvarado, não para encontrar nele qualquer indício de fascismo, porque não me parece ter havido nenhum, mas para iluminar <em>a posteriori</em> o governo de Belaúnde. Aliás, embora os apoiantes de Belaúnde, tal como os apristas, se opusessem ao regime de Velasco Alvarado por ter emanado de um golpe militar, dificilmente poderiam discordar de medidas que eles mesmos defendiam e nunca haviam conseguido implementar. Assim, a digressão pelo Peru exigiria longas circunvoluções.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-147270" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-2-300x169.jpg" alt="" width="620" height="349" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-2-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-2-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-2-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-2-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-2-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-2-681x383.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-2.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px" />Exigi-las-ia mais ainda porque, como o peruano José Carlos Mariátegui inaugurou uma linha de pensamento marxista que ainda hoje tem repercussão em toda a América do Sul, eu encontraria ali uma oportunidade para ampliar a análise das encruzilhadas políticas e ideológicas que de maneira ampla classifiquei como nacional-bolchevismo. Neste caso seria um indígeno-bolchevismo, um etno-bolchevismo que esclareceria não só o século passado, mas até os dias de hoje ou mesmo de amanhã, porque Pedro Castillo foi eleito presidente em Julho de 2021 proposto pelo partido Perú Libre, que a si mesmo se define como marxista-leninista-mariateguista. Rapidamente Castillo se distanciou deste partido para se lançar numa busca acelerada de apoios sem outro critério além da utilidade imediata, com uma rotação de mais de quatro e meio ministros por mês, que afinal lhe precipitou um estrondoso fim político em Dezembro de 2022 e deixou o país num caos sangrento. Durante o ano e meio do seu mandato, porém, destaca-se o facto de ele ter apressado a saída de prisão do fascista Antauro Humala, chefe do Movimiento Etnocacerista, uma libertação aplaudida por Vladimir Cerrón, fundador e dirigente do Perú Libre. Com efeito, os seguidores de Antauro Humala haviam apoiado Castillo na segunda volta das eleições de 2021. O aparente ziguezague tem raízes profundas, porque o etnocacerismo é uma ideologia racialista, ou mesmo francamente racista, baseada numa referência mítica aos Incas, e defende um nacionalismo étnico, propondo como figuras inspiradoras o general Andrés Avelino Cáceres, que lutou na guerra contra o Chile, e o general Velasco Alvarado. Esta convergência de extrema-esquerda com extrema-direita numa plataforma etno-racial resulta, por sua vez, de outra convergência, já que Isaac Humala, pai de Antauro e fundador do etnocacerismo em 1989, havia militado no Partido Comunista Peruano e depois no MIR, antes de formular o seu socialismo racial. Os desdobramentos são infindáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois das circunvoluções desta longa digressão, voltaria ao ponto de partida para constatar que foi sobre uma rede cujas malhas abarcaram vários países da América Latina que se repercutiram as influências do peronismo. Se eu tivesse ampliado assim o <em>Labirintos</em> teria podido analisar cruzamentos e interferências que matizaram o fascismo sul-americano, porque seria mais fácil entender o marxismo específico deste continente em que, de uma forma ou de outra, o nacional-desenvolvimentismo usa o argumento anti-imperialista para reforçar as credenciais nacionalistas, deixando aberta a possibilidade de uma convergência com a extrema-direita, geradora de novas formas de fascismo. O caleidoscópio ficaria mais subtil. Basta pensar que se compreenderia melhor a influência que as ideias do principal mestre do corporativismo fascista, Mihail Manoilescu, tiveram sobre Raúl Prebisch e a formação da CEPAL e, por aí, sobre o nacional-desenvolvimentismo e sobre o marxismo latino-americano. E também me seria possível tecer uma rede mais estreita entre os fascismos clássicos e os fascismos do pós-fascismo que proliferam no Terceiro Mundo, hoje crismado de Sul Global.</p>
<p style="text-align: justify;">Por que motivo, então, não segui o percurso que agora esbocei?</p>
<p style="text-align: justify;">Seria um trabalho enorme se medido em esforço e em número de páginas, demasiado ambicioso para uma obra que cada vez ficava mais volumosa, e sobretudo exigindo muito tempo, quando já não tenho idade para me lançar em longas aventuras. Não sou Jacques Barzun, que aos oitenta e quatro anos começou a escrever um livro imenso, <em>From Dawn to Decadence</em>, uma jóia da historiografia. De qualquer modo, a minha justificação já estava apresentada, pois eu começara por prevenir que o <em>Labirintos do Fascismo</em> permaneceria sempre inacabado. E permanecerá.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-147257" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-foto-200x300.jpg" alt="" width="67" height="100" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-foto-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-foto-280x420.jpg 280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Maximo-Laura-foto.jpg 375w" sizes="auto, (max-width: 67px) 100vw, 67px" /><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147258 alignleft" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-foto1-300x300.jpg" alt="" width="100" height="100" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-foto1-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-foto1-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-foto1-421x420.jpg 421w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-foto1-640x638.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-foto1-681x679.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-1-Alfredo-da-Silva-foto1.jpg 720w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem quadros do pintor boliviano Alfredo da Silva (1935-2020) e tapeçarias do artista tecelão peruano Máximo Laura (n. 1959).</p>
<p style="text-align: center;"><em>Pode ler o segundo percurso </em><a href="https://passapalavra.info/2023/03/147230/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> <em>e </em><a href="https://passapalavra.info/2023/03/147232/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> <em>o terceiro percurso</em>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2023/03/147227/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>9</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Peru: um golpe parlamentar revertido pelas maiores mobilizações populares em quatro décadas</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/11/135192/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2020/11/135192/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Nov 2020 10:54:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Perú]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=135192</guid>

					<description><![CDATA[Que os jovens se aliem às lutas indígenas e camponesas e às lutas feministas e se inicie um processo global e plural de fortalecimento da rebeldia. Por Danilo Assis Clímaco, Inés Olivera e Luis Reyes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Danilo Assis Clímaco, Inés Olivera e Luis Reyes</h3>
<p style="text-align: justify;">Com a queda do então ditador Alberto Fujimori, deposto por levantamentos populares no ano de 2000, a economia peruana cresceu com regularidade, e inclusive a crise de 2008 foi superada com relativa facilidade. Uma destruição territorial sem precedentes através de megaprojetos extrativistas e uma população muito disciplinada no trabalho, explorada nas que talvez sejam as mais longas jornadas laborais no continente, são a base desta constância. Politicamente, aconteceu uma aliança inquietante. A esquerda, que nos anos 80 parecia ser a mais forte do continente, caiu em desgraça por erros próprios e, diminuída, aceitou tacitamente participar nos governos neoliberais, em ministérios de maior contato direto com a população (Educação, Mulher e Desenvolvimento Social, Saúde, etc., sempre longe dos da Economia ou Minas e Energia, onde se tomam as grandes decisões…). Com isso o crescimento econômico foi acompanhado por uma gestão da pobreza razoável, comparável à dos “governos progressistas” nos outros países da América Latina, diminuindo de forma considerável as mazelas da população <strong>[*]</strong>. Em muitas zonas atingidas pelos megaprojetos há conflitos sociais e resistências importantes da população; no entanto, não há uma expressão nacional de descontentamento e os donos do poder se esforçam para que pareça haver uma acalmia social de 20 anos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-135195" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/2020-11-11t232510z_930858138_rc2b1k9xlego_rtrmadp_3_peru-politics-300x206.jpg" alt="" width="376" height="258" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/2020-11-11t232510z_930858138_rc2b1k9xlego_rtrmadp_3_peru-politics-300x206.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/2020-11-11t232510z_930858138_rc2b1k9xlego_rtrmadp_3_peru-politics-611x420.jpg 611w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/2020-11-11t232510z_930858138_rc2b1k9xlego_rtrmadp_3_peru-politics-640x440.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/2020-11-11t232510z_930858138_rc2b1k9xlego_rtrmadp_3_peru-politics-681x468.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/2020-11-11t232510z_930858138_rc2b1k9xlego_rtrmadp_3_peru-politics.jpg 754w" sizes="auto, (max-width: 376px) 100vw, 376px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os primeiros três governos quinquenais no século, de Alejandro Toledo, de Alan García e de Ollanta Humala, foram muito parecidos entre si, contentando-se em “seguir o modelo” que se acreditava estar dando certo. Participaram também em esquemas de corrupção semelhantes e hoje são todos investigados pela Lava-Jato peruana. García se suicidou para não passar meses na prisão, como tiveram de o fazer os outros dois. Alberto Fujimori, condenado por diferentes crimes, está preso há mais de dez anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Na disputa pela presidência de 2016, a candidatura favorita para ganhar o primeiro turno era a de Keiko Fujimori, filha biológica e política do ditador, representante de grupos de poder variados, incluindo os de negócios ilícitos (mineração em média escala e narcotráfico) e os que advogam por uma dura repressão às mobilizações antimineiras. Candidaturas menores disputavam o segundo turno, incluindo uma interessante frente de esquerda, que chegou em terceiro lugar. Mas o rival final de Keiko foi Pedro Pablo Kucinski (PPK), ministro de economia de Toledo, também muito apreciado por grupos empresariais, porém muito ligado à racista cidade de Lima e com pouco apoio popular nas zonas andinas. Assim, como mais tarde diria de forma calculadamente racista um de seus ex-assessores, por serem de um entorno com muitas pessoas “brancas”, era necessário encontrar um “provinciano” (termo que poderíamos traduzir por “caipira”, mas que antes de tudo é um eufemismo para indígena), com o qual foi chamado para vice-presidente o ex-governador do estado andino de Moquegua, Martín Vizcarra.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Keiko Fujimori não só saiu vencedora do primeiro turno, como conseguiu a maioria absoluta na câmara única de congressistas (não há distinção entre deputados e senadores no país). No entanto, uma parte do país não admitia a hipótese de uma volta do entorno político do ditador e fez-se uma vitoriosa campanha popular contra a eleição de Keiko. Assim, PPK, o candidato branco das elites, com carisma zero, acabou sendo eleito presidente, para governar não somente com minoria parlamentar, mas com a hostilidade da maioria. E Keiko e seu partido, de forma deliberada, procuraram e conseguiram uma instabilidade permanente em torno do governo, levando-o a uma série de erros — incluindo pactuar um indulto anticonstitucional ao pai de Keiko. À incapacidade de governar se juntaram denúncias de a campanha de PPK ter recebido dinheiro da empresa Odebrecht e, finalmente, não lhe restou outra possibilidade senão renunciar em março de 2018, após 19 meses no cargo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-135193 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/image1170x530cropped-300x136.jpg" alt="" width="543" height="246" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/image1170x530cropped-300x136.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/image1170x530cropped-1024x464.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/image1170x530cropped-768x348.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/image1170x530cropped-927x420.jpg 927w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/image1170x530cropped-640x290.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/image1170x530cropped-681x308.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/image1170x530cropped.jpg 1170w" sizes="auto, (max-width: 543px) 100vw, 543px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o “provinciano” Vizcarra se tornou presidente. Sem sequer ter o apoio da base parlamentar de PPK, sua sina parecia a de ser ciceroneado pela base de Keiko. No entanto, Vizcarra percebeu a crescente impopularidade dos vassalos fujimoristas e passou a combatê-los, recebendo grande apoio popular. Por dois anos resistiu às tentativas de sabotagem de Keiko, muitas vezes com a população na rua (mais para defender-se a si mesma de Keiko do que para apoiar Vizcarra). Desta vez, os erros políticos foram se acumulando do lado da bancada de Keiko, a qual acabou incorrendo em sucessivas manobras ilegais, levando a que Vizcarra tivesse ocasião de (forçando um pouco a lei) dissolver legalmente o congresso e convocar novas eleições para o mesmo, para uma espécie de mandato-tampão de um ano e meio. A população estava profundamente agradecida ao presidente e parecia que ele tinha conseguido a paz até o final de seu mandato, mas o congresso que tomou posse em janeiro deste ano jogaria ainda mais sujo que o anterior.</p>
<p style="text-align: justify;">No novo congresso não houve uma força política clara, nenhum partido conseguiu mais de 20 dos 130 lugares. Porém, a grande maioria devia suas campanhas a diversos setores da <em>lumpen</em>-burguesia nacional, que se sentiam incomodados com os limites que o governo de Vizcarra impunha a suas garras. Também os grandes empresários mineiros, que demandam maior repressão contra as populações que resistem à expropriação de seus territórios, viam com maus olhos o razoável bom senso do presidente “provinciano”, sempre preocupado em evitar conflitos sociais que gerassem mortos. Assim, quando a popularidade do presidente começou a cair pela incompetência de sua resposta à covid, começaram também a pulular nos meios de comunicação associados a estes grupos de poder uma série de denúncias de corrupção contra o mandatário. Em outubro, Manuel Merino, o então presidente do congresso — e encarregado de substituir o presidente caso fosse necessário —, tentou um primeiro impeachment <em>express</em>. Conseguiu os votos necessários para votá-lo no plenário, mas não foi aprovado. Parecia que a aventura golpista teria chegado ao fim, mas na primeira semana de novembro teve lugar uma operação coordenada entre os diferentes meios de comunicação, claramente associados às <em>lumpen</em>-burguesias, para minar a imagem de Vizcarra. Uma combinação de três depoimentos de trabalhadores de uma empresa colocavam Vizcarra como receptor de verbas ilegais, enquanto trechos de conversas de WhatsApp o comprovariam. Nesse fim de semana somente se falou sobre isso nos jornais e na noite de segunda-feira, 9 de novembro, o impeachment <em>express</em> se consumou.</p>
<p style="text-align: justify;">A grande maioria da população não acredita na inocência de Vizcarra, mas entendia que ele era uma garantia de eleições justas dentro de seis meses. Já o novo presidente e seu entorno eram vistos como o que realmente são: um conjunto de políticos do baixo clero à procura de satisfazer os desejos de lucro imediatos de seus patrocinadores, os quais dificilmente seriam realizados por um governo eleito democraticamente. Além do mais, um processo de desarticulação da luta contra a corrupção do poder judicial (não tão parcelizado como o brasileiro) estava em jogo.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo dia 9 de novembro iniciaram-se mobilizações através de panelaços e de convocatórias espontâneas nas redes sociais para uma marcha na próxima tarde. Na terça-feira, já com Manuel Merino como presidente, um heteróclito grupo de manifestantes que se encontrava no centro de Lima foi recebido por uma torrente de balas de borracha, gás lacrimogêneo, empurrões, murros, detenções arbitrárias e “água” lançada pelos <em>roca-bus</em> anti-desordem. Era o início da repressão. Houve manifestações em outros bairros da capital e também em outras cidades do país. Ainda que heterogêneas, as mobilizações compartiam uma profunda indignação contra o governo, mas também contra figuras políticas que ousavam assistir: “Não queremos nenhum partido político”, “A única bandeira que defendemos é a peruana”, “Fora políticos oportunistas” foram algumas das frases repetidas por manifestantes. No entanto, enquanto os protestos se multiplicavam a cada noite, a repressão e a violência policial se intensificavam, principalmente no centro de Lima. As balas de borracha se converteram em balas de vidro e chumbo, os empurrões e murros em golpes de cassetetes e os gases lacrimogêneos miravam agora na cara e na cabeça dos manifestantes. Os <em>ternas</em> (policiais encobertos) passaram a espancar e sequestrar jovens manifestantes. Além disso, a polícia bloqueou a internet em todo o centro de Lima, apagou as luzes e colocou tanques e helicópteros para amedrontar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-135194 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra-300x225.jpg" alt="" width="432" height="324" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra-681x511.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/el-presidente-interino-de-peru-dimite-tras-dos-muertes-en-las-protestas-en-su-contra.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 432px) 100vw, 432px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A escalada no número de manifestações e no nível de repressão policial teve seu clímax na noite de sábado, 14 de novembro, em que dezenas de milhares de pessoas saíram a protestar, simultaneamente, em diferentes lugares de Lima e do país. Desde o meio dia foram marcadas passeatas pela população em diferentes bairros, muitas delas chegaram algumas horas depois ao Centro. Era notável ver crianças, velhos e pessoas de todos os setores, em todos os bairros, caminhando ou apoiando as passeatas desde as casas e prédios com panelaços. Nunca tínhamos visto nada parecido nesta cidade. Mas foi no Centro de Lima, especificamente na zona resguardada pelo comandante Luis Castañeda Urbina, em que a violência policial chegou a níveis inauditos. A imoderada repressão resultou nos assassinatos, ocasionados por uma dezena de balas de chumbo e vidro nas cabeças e nas costas, de Inti Sotelo (24) e Bryan Pintado (22), e nos sequestros e torturas de mais de 100 manifestantes; alguns deles, como Luis Fernando Araujo e Edwar Nicándor, somente foram soltos três dias depois, sem sequer terem recebido comida. Outras centenas de manifestantes foram feridos. Dada a gravidade destes crimes — cometidos com frequência contra populações indígenas e camponesas mobilizadas contra o neoextrativismo, mas há muito não cometidos em Lima — e para não serem processados como responsáveis solidários das violações de direitos, todos os ministros do gabinete Merino renunciaram na mesma noite de sábado. Ao redor do meio dia de domingo, Merino também teve de fazê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-135198 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/115475374_mediaitem115475373-300x169.jpg" alt="" width="425" height="239" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/115475374_mediaitem115475373-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/115475374_mediaitem115475373.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Entre a madrugada de sábado e a manhã de domingo, diferentes setores da sociedade peruana chegaram à conclusão de que havia somente uma saída minimamente constitucional: obrigar à renúncia do presidente Manuel Merino e à eleição, pelo próprio congresso, de um presidente entre um dos congressistas que tinha votado contra o impeachment <em>express</em>. Acuado em um processo mais do que tragicômico, patético-estapafúrdico (vejam o apêndice) acabou-se por escolher como novo presidente Francisco Sagasti, um representante de um partido de centro-direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a juventude continua na rua exigindo justiça para Inti e Bryan, uma reforma policial profunda, a derrogação da constituição fujimorista de 1993 e o estabelecimento de uma Assembleia Constituinte para redigir uma nova <em>carta magna</em>. Estão muito antenados com outros movimentos estudantis da região e não somente acreditam em uma luta horizontal, como estão conscientes de que isso entranha certa ilusão, sendo necessário fortalecer-se de outras formas para não repetir erros dos movimentos juvenis deste século. O exemplo e o diálogo com a juventude chilena parecem ser importantes. Segundo dizem em seus cantos e discursos, seguirão na rua e em pé de luta até, como disse Jacinta Francisco, a dignidade virar costume e, acrescentaríamos, que o poder seja do povo.</p>
<p style="text-align: justify;">O contexto político imediato é pouco previsível e marcado pelas eleições de abril. Os grupos econômicos e políticos que motivaram o Golpe tentarão de diferentes formas emplacar um candidato que se apresente como moderado, mas esteja comprometido com um capitalismo selvagem. A direita moderada tentará emplacar um projeto “republicano” que, no entanto, não poderá levar à prática, pois nunca logrou uma independência suficiente da <em>lumpen</em>-burguesia. A esquerda moderada, principalmente ao redor da candidata Verónica Mendoza (terceiro lugar nas eleições presidenciais de 2016, quando liderou a hoje extinta frente de esquerdas), também é difícil que ofereça um projeto de país realmente alternativo ao dos últimos 20 anos. A saída mais à esquerda é a de que os jovens de hoje se aliem às lutas indígenas e camponesas e às lutas feministas e se inicie um processo global e plural de fortalecimento da rebeldia. Processos como estes são longos e sinuosos, mas não parece haver alternativa mais otimista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Apêndice: quando os golpistas escolheram uma feminista, esquerdista incorruptível, como presidenta do país</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez que o golpista-mor Manuel Meriano “foi renunciado”, ao meio-dia do domingo, dia 10 de novembro, o Peru passou da tragédia à tragicomédia ou, mais exatamente, ao drama-estapafúrdico, confirmando García Márquez uma vez mais: na América Latina a realidade sempre supera a ficção. O congresso — humilhado pelas ruas, pressionado inclusive pelos poderes econômicos que tinham insuflado o golpismo, temerosos de que os protestos saíssem ainda mais do controle — se reuniu na tarde deste dia com a missão imposta de dar um presidente ao país naquela mesma noite.</p>
<p style="text-align: justify;">Os requisitos exigidos por diferentes setores da sociedade para este presidente não eram muitos: deveria ser alguém que votou contra o Golpe, não deveria estar respondendo a nenhum processo judicial e deveria ser uma pessoa íntegra, capaz de não impor uma agenda própria, mas assumir um governo de consenso, consciente de seu caráter transitório, sem impor mudanças drásticas ao neoliberalismo econômico.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-135199 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/602x338_cmsv2_97586a49-71d5-5b3c-a2d5-1a45b8e98a27-5131352-300x168.jpg" alt="" width="506" height="283" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/602x338_cmsv2_97586a49-71d5-5b3c-a2d5-1a45b8e98a27-5131352-300x168.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/602x338_cmsv2_97586a49-71d5-5b3c-a2d5-1a45b8e98a27-5131352.jpg 602w" sizes="auto, (max-width: 506px) 100vw, 506px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Francisco Sagasti, de centro-direita, por ser um homem dialogante, septuagenário, com uma trajetória política sem escândalos, parecia ser o nome idôneo. Mas o congresso o vetou veementemente, por uma singela razão: o presidente de seu partido é um importante candidato à presidência nas eleições de 2021 e temiam que ter um presidente interino de seu partido no governo facilitaria sua vitória.</p>
<p style="text-align: justify;">A escolha então recaiu em Rocío Silva Santisteban, poeta, feminista, doutora em literatura, advogada, pesquisadora, professora universitária, ecologista, aguerrida defensora de mulheres e homens que se encontram contra os projetos extrativistas, e também absolutamente incorruptível e íntegra, vista inclusive pelos inclassificáveis golpistas como alguém que cumpriria sua palavra de guiar o governo de consenso até a posse do novo presidente em julho próximo.</p>
<p style="text-align: justify;">Era algo assim como se o Centrão do Eduardo Cunha tivesse sido obrigado a escolher um presidente do Brasil para colocar no lugar do Temer e, no lugar de optar por alguém do PSDB por achar que ajudaria o Geraldo Alckmin, escolhesse o Jean Wyllys. Era esse o nível de estupefacção que tínhamos no Peru naquela tarde de domingo.</p>
<p style="text-align: justify;">E havia alegria, não podemos negar! Sabíamos que Rocío seria vítima de enormes pressões e que seu governo poderia inclusive trazer ainda mais confusão à fragmentada esquerda peruana. Mas sabíamos que com ela estaria representada a dignidade peruana, das mulheres em particular. Uma mulher que defende o aborto em quaisquer circunstâncias, que escreveu sobre os orgasmos que sentia nas manhãs quando grávida pelos movimentos que fazia sua filha em seu ventre, que comandou as lutas contra Keiko Fujimori já em 2011 quando era a máxima representante da Comissão Nacional de Direitos Humanos e lidava diariamente com as vítimas da ditadura… Seriam inumeráveis os exemplos de suas múltiplas virtudes. A Dignidade estaria na presidência e ela se transformaria em um referente feminista para toda América Latina.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas os setores econômicos e conservadores também entenderam isso. Após a sessão do congresso que colocou Rocío Silva como candidata de consenso para a presidência, houve um intervalo de duas horas para que ocorresse a votação que referendasse formalmente a primeira presidenta do país. Mas havia um intervalo entre uma sessão e outra. O que aconteceu neste lapso de tempo, não poderemos comprovar, mas o sabemos: grupos econômicos e conservadores de diferente ordem começaram a se comunicar diretamente com as e os congressistas para que votassem contra Rocío. Nas redes sociais, ela era apresentada como defensora de terroristas, “aborteira”, seguidora do Sendero Luminoso… Assim, no início da noite, o congresso votou contra sua própria lista de consenso, recebendo Rocío somente 44 votos dos 66 necessários. O Peru foi dormir sem presidência, expandindo a instabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia seguinte, uma vez mais humilhados, os congressistas aceitaram o inicialmente mais factível, que Francisco Sagasti fosse o presidente. Sem dúvida, uma pessoa decente, mas comprometida com “o modelo” de neoliberalismo peruano. A presidência de Rocío seria um enigma, talvez não a deixassem governar, mas talvez sua forma de ser franca, juvenil, despreocupada levasse a que ela tivesse uma relação muito positiva com a população, sendo um elemento inspirador nas articulações dos movimentos sociais no país.</p>
<p style="text-align: justify;">Em todo caso, é importante fechar esta nota lembrando que Rocío Silva e sua companheira de lutas há anos, Mirtha Vásquez, se transformaram nos maiores referentes da esquerda durante este período de crise. Ambas se negaram — contra a indicação de seu partido, realmente inocente útil — a aprovar o impeachment <em>express</em>, defendendo o direito de Vizcarra a ter um julgamento justo. Após a consumação do Golpe, saíram às ruas para apoiar à população, visitaram as delegacias para procurar os jovens sequestrados, denunciaram todos os envolvidos no processo. Depois da renúncia de Merino, foram as políticas com maior capacidade de defender os interesses das pessoas dentro do congresso. É interessante que nenhuma das duas seja política por convicção e tenham aceitado entrar nestas eleições somente porque o mandato era curto, de um ano e meio. Incorporam a politicidade feminista que está nas ruas da América Latina, assim como a das mulheres camponesas e indígenas que lutam pela terra e a água.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Inés Olivera é doutora em antropologia pela Universidad Nacional Autónoma de México. Danilo Assis Clímaco e Luis Reyes são profesores da Escuela de Antropología na Universidad Nacional Mayor de San Marcos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[*]</strong> Para esta relação entre esquerda e neoliberalismo, ver Quijano, Aníbal. “El fujimorismo del gobierno de Alejandro Toledo”. Em: Santiago: Archivo Chile, CEME, 2001, <a href="http://www.archivochile.cl/Ideas_Autores/quijanoa/quijanoa00008.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a>. Como notou Raúl Zibechi, o decrescimento da pobreza nestes últimos 20 anos no Peru significa uma profunda afronta às narrativas dos governos progressistas na região: se um país que não questionou sequer simbolicamente o neoliberalismo conseguiu uma importante redução da pobreza, quais seriam as diferenças significativa dos governos progressistas na América Latina?</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2020/11/135192/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A encruzilhada peruana</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/07/61894/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2012/07/61894/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Jul 2012 04:40:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Perú]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=61894</guid>

					<description><![CDATA[O movimento popular peruano foi dizimado à bala pela direita e pela esquerda. Agora retomou o caminho e está voltando a falar em voz alta.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Raúl Zibechi </strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Diversos intelectuais e políticos latino-americanos e peruanos têm criticado duramente o presidente Ollanta Humala, por considerar que ele traiu o mandato para o qual foi eleito. Razões não lhes faltam, já que o presidente está governando para a direita, mesmo sendo eleito pela esquerda, e reprime os setores populares, quando foram eles os que se mobilizaram para evitar o triunfo de Keiko Fujimori.</p>
<p style="text-align: justify;">O ex-guerrilheiro e atual sociólogo Héctor Béjar sustenta que se trata de golpe de Estado caracterizado pela ocupação militar de cidades e estados de emergência, o que denota a inserção da lógica de guerra no governo e o estilo castrense na condução política. (<em>Alai</em>, 6 de junho de 2012).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-145051" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/genteatoindigena-300x193-1.jpg" alt="" width="300" height="193" />O economista Oscar Ugarteche se queixa do engano eleitoral de quem anteriormente participou no Foro de São Paulo e assegura que o governo atual é um regime mafioso e mantonesco, não muito distinto do de Fujimori (<em>Alai</em>, 4 de junho de 2012). Prognostica que está em marcha uma aliança com as hostes do ex-ditador, para sustentar os quatro anos que restam do mandato, já que a repressão fez com que ele perdesse sua maioria parlamentar (<em>Alai</em>, 8 de junho de 2012).</p>
<p style="text-align: justify;">O deputado Javier Diez Canseco traça seu balanço dos dez meses de governo de Humala: 12 mortes em conflitos sociais, várias zonas em estado de emergência com suspensão dos direitos democráticos, governos municipais e regionais hostilizados e sofrendo a intervenção ilegal por parte do Executivo e a renúncia de cerca de 10 por cento da bancada governista no Congresso (<em>La República</em>, 11 de junho de 2012).</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos perante a segunda viragem para a direita do governo, ambas pelas mesmas razões: o contundente protesto social contra a mineração e os megaempreendimentos. Em novembro e dezembro de 2011 a população que resiste em Cajamarca ao projeto mineiro de extração do ouro Conga se revoltou com a declaração do estado de emergência e a militarização de várias zonas, ao que se seguiu uma mudança do gabinete, com a saída de boa parte dos ministros mais progressistas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-145050" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/perumarcha-300x197-1.jpg" alt="" width="300" height="197" />Agora as coisas se agravaram. Em maio a mobilização antimineradoras de Cajamarca se estendeu aos demais departamentos do norte, Piura, Lambayeque e La Libertad, com uma paralisação massiva e numerosas mobilizações. No sul, a repressão na província de Espinar, no departamento de Cusco, contra as comunidades que questionavam a presença da mina de Tintaya, da empresa australiana XStrata, terminou com o saldo de dois mortos, o prefeito foi preso e dezenas de militantes sociais perseguidos, entre eles o pessoal da Vicaría de Solidaridad de Sicuani.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta dos povos andinos e amazônicos alcançou níveis notáveis. Em Bambamarca, cidade do departamento de Cajamarca, a população impediu que os soldados pudessem realizar a cerimônia de saudação à bandeira e em Celendín, epicentro do conflito por Conga, os soldados foram expulsos da praça pela população (<em>Lucha Indígena</em>, junho de 2012). As rondas camponesas detiveram soldados pela tentativa, por parte destes, de prostituição de menores.</p>
<p style="text-align: justify;">A participação das rondas camponesas no conflito pela água e contra a mineração antecipa o fracasso do governo, apesar do envio de militares. Instrumento das comunidades camponesas, as rondas desempenharam um papel determinante na derrota militar do Sendero Luminoso na década de 1990. Possuem um enorme prestígio, organização consolidada, forte respaldo entre os de baixo que as integram e dirigem e não se deixam impressionar pelos inimigos armados.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-145053" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/policías-pegan-funeral-300x200-1.jpeg" alt="" width="300" height="200" />Como vimos, é certo que Humala realizou uma acentuada viragem para a direita, mesmo sendo considerado ainda progressista em comparação com o fascismo de Keiko. O essencial está em outro lugar. O triunfo de Humala criou uma nova situação política no Peru, que foi interpretada pelos setores populares como o momento para dar um salto adiante na já longa resistência contra os projetos de mineração.</p>
<p style="text-align: justify;">O olfato político de Hugo Blanco, que observa e sente a política a partir de baixo, sintetizou recentemente a nova conjuntura durante o Fórum Nacional de Educação para a Mudança Social, realizado na cidade de Rosário, Argentina: Se Keiko tivesse ganhado as eleições, as pessoas estariam muito desmoralizadas; porém, com a vitória de Humala a população sentiu que também saiu vitoriosa. Por isso, agora se sentem traídos e com o direito de protestar. A Marcha da Água nunca poderia acontecer caso Humala não tivesse triunfado nas eleições.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, a Marcha da Água, realizada em fevereiro entre as cidades de Cajamarca e Lima, foi a maior ação coletiva realizada na capital, desde a última fase de resistência, há mais de uma década, ao regime de Fujimori.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-145049" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/policiaindios-300x225-1.jpg" alt="" width="300" height="225" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/policiaindios-300x225-1.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/policiaindios-300x225-1-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/policiaindios-300x225-1-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/policiaindios-300x225-1-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/policiaindios-300x225-1-238x178.jpg 238w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />O presidente da Central de Rondas Camponesas de Ayavaca, província de Piura, onde está assentada a resistência contra a mineradora chinesa Zijin, destacou durante a marcha do dia 31 de maio: O principal motivo por que estamos aqui é a traição que o governo nos fez. Optamos por dar a oportunidade a Ollanta Humala, porque ele prometeu nos defender; porém, lamentavelmente, nos demos conta de que ele nos traiu (<em>Lucha Indígena</em>, junho de 2012).</p>
<p style="text-align: justify;">Neste momento, duas questões estão em jogo no Peru. No plano das relações interestatais, a disputa pelo Peru é chave tanto para os Estados Unidos como para o Brasil. O Peru participa da Aliança do Pacífico, com o Chile, a Colômbia e o México, que é a principal cunha de Washington na Unasur e na Celac. Para o Brasil, a aliança política e militar com o Peru é decisiva para consolidar sua saída ao Pacífico, rota de seu considerável comércio com a China.</p>
<p style="text-align: justify;">Para os setores populares, a conjuntura aberta com a eleição de Humala está significando a maior reconstrução de sua capacidade de organização e mobilização, depois da década terrível de [Alberto] Fujimori (1990) e dos governos neoliberais da década de 2000, de Alejandro Toledo e Alan Garcia. O movimento popular peruano, tanto em sua vertente urbana como em sua faceta camponesa-indígena, foi o mais potente da região [América Latina] durante os anos 1980. Foi dizimado à bala pela direita e pela esquerda. Agora retomou o caminho e está voltando a falar em voz alta. É um momento crítico.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Original <a href="http://www.jornada.unam.mx/2012/06/15/opinion/025a1pol" target="_blank" rel="noopener">aqui</a></em>. <em>Tradução do Passa Palavra</em>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2012/07/61894/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
