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	<title>Reflexões &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Eduardo Marinho e a moral dos inocentes</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158842/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Mar 2026 19:56:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A fala de Eduardo Marinho nos serve não como exemplo a seguir, mas como alerta. Ela mostra o que acontece quando a crítica social é destituída de teoria, e quando a indignação substitui a análise. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">A fala de Eduardo Marinho publicada no dia 29 de outubro de 2025, em resposta ao massacre cometido pela polícia nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, no dia 28 do mesmo mês, é um documento importante da consciência política difusa que atravessa o campo popular contemporâneo. Seu enunciado mistura experiência concreta, indignação moral e lampejos de lucidez estrutural, compondo um discurso que seduz pela sinceridade e pela energia ética, mas que revela, sob exame mais rigoroso, as contradições e insuficiências de uma visão política fundada mais na catarse do que na análise. A tarefa aqui não é desqualificar um indivíduo, mas compreender a natureza do pensamento que sua fala representa — um pensamento incapaz de apreender o Estado como forma social e, portanto, condenado a oscilar entre denúncia e apelo moral, entre intuição crítica e impotência teórica.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto de partida de sua fala — “o Estado não pode ser bandido” — já contém a contradição que percorre todo o discurso. Há, nessa frase, uma expectativa de moralidade estatal, como se o Estado fosse uma instituição originalmente justa, corrompida por maus agentes ou por uma elite degenerada. Mas o Estado moderno, como Marx demonstrou, não é o árbitro neutro da sociedade civil, e sim a forma política da dominação de classe. O “banditismo” estatal não é acidente nem desvio, mas essência: a violência que ele exerce é a tradução institucional da violência originária do capital. O Estado é o monopólio legítimo da força que garante o monopólio ilegítimo da propriedade. Quando Marinho denuncia que o Estado “está lotado de gente doente e sádica”, acerta empiricamente, mas explica o fenômeno por uma causalidade moral — a falta de formação cívica, de ética, de “humanidade” — e não por uma causalidade estrutural. A brutalidade não deriva de um erro na formação dos agentes, mas da própria função que esses agentes cumprem. O treinamento é brutal porque o papel que a polícia desempenha na sociedade é o de conter, disciplinar e eliminar parcelas excedentes da população trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">O raciocínio de Marinho desloca constantemente as causas para o terreno da consciência e da vontade. Quando pergunta “por que não cercam os morros?” ou “por que não abafam as chegadas das drogas?”, pressupõe que o Estado <em>poderia</em> interromper o circuito do tráfico se quisesse, como se a conivência fosse uma questão de escolha moral. Essa formulação ignora que o tráfico, as milícias e o aparato repressivo são parte de uma mesma engrenagem de acumulação e controle social. O Estado não “tolera” o crime: ele o administra, regula e, muitas vezes, o produz, porque precisa dele como instrumento de governo. A “guerra às drogas” é o nome ideológico de uma política de contenção territorial e de gestão da superpopulação relativa — aquela massa de trabalhadores precarizados e racializados que excede as necessidades de valorização do capital, mas cuja disciplina é vital à estabilidade da ordem. “Abafar as chegadas” seria sabotagem ao próprio sistema, que depende dessas rotas ilícitas, integradas às redes de financiamento, armas e lavagem de dinheiro que atravessam a economia formal.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao afirmar que “é preciso fazer espetáculo matando pobre, preto, periférico”, Marinho toca o centro do problema. A violência policial é, de fato, uma forma de espetáculo, um ritual de reafirmação da soberania e de pacificação simbólica da classe média. A morte é encenada, filmada, justificada, e reapresentada como triunfo da lei. Nisso ele revela uma compreensão intuitiva da sociedade do espetáculo descrita por Guy Debord: a dominação se torna imagem, e a imagem reforça a dominação. O massacre opera como pedagogia do medo, ajustando as sensibilidades e redefinindo o inimigo. Mas, ao reduzir o espetáculo a uma vontade sádica, Marinho perde a dimensão de que essa encenação responde a uma necessidade material. O espetáculo do extermínio legitima o reordenamento urbano, a valorização fundiária, a militarização de territórios e a reprodução do capital no espaço metropolitano. A barbárie tem método: ela é o modo contemporâneo de administração das cidades. Quando Marinho lamenta a ausência de formação moral e cívica dos policiais, confunde consequência com causa. A ausência de reflexão crítica não é um defeito acidental do aparato policial; é sua condição de funcionamento. O que o discurso de Marinho chama de “doença” é a forma psicológica adequada à função repressiva. O sadismo individual existe, mas é instrumentalizado pela estrutura. A formação humanista seria incompatível com a tarefa histórica da polícia: garantir a ordem social de uma sociedade fundada na desigualdade. A demanda por uma “nova mentalidade de segurança pública” equivale, na prática, à tentativa de humanizar o inumano, de pedir à força que sustenta a propriedade que se volte contra seu próprio fundamento. É o apelo ético no lugar da revolução material.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um momento, porém, Marinho enuncia uma frase que rompe a superfície: “a cabeça do crime está dentro do próprio Estado.” Aqui a intuição toca o ponto mais elevado de verdade. A economia política da criminalidade — as milícias, o desvio de armas, a corrupção policial, a simbiose entre mercado imobiliário e poder armado — são manifestações de uma criminalidade estruturada na legalidade. O Estado e o crime não se opõem; se interpenetram. Essa constatação, entretanto, não se converte em teoria: ela se dissolve logo depois, quando o discurso retorna ao imperativo moral (“o Estado não pode ter bandido”). O lampejo estrutural se converte em lamento. A denúncia que poderia abrir caminho para uma análise da forma política do capital é capturada pelo sentimentalismo ético. O apelo final — “é preciso criar cidadania dentro das favelas” — fecha o círculo. Depois de denunciar o caráter criminoso do Estado, a solução proposta é a realização do ideal que o próprio Estado promete e nega: a cidadania. Mas a cidadania é a forma jurídica da dominação moderna, o modo pelo qual a desigualdade real se reveste de igualdade formal. A cidadania reconhece todos como sujeitos de direito, desde que aceitem as condições materiais que os fazem desiguais. Invocar a cidadania é, portanto, pedir inclusão numa ordem cujo princípio é a exclusão. O que falta nas favelas não é cidadania, mas emancipação — a abolição da forma social que produz a favela como espaço de contenção e o morador como corpo descartável. A cidadania é o horizonte político do humanismo burguês; o que se exige é outro horizonte, o da libertação humana, no sentido de Marx e Pannekoek: o poder dos produtores sobre suas próprias condições de vida.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158843 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/houses-district-six-19451.jpg" alt="Eduardo Marinho e a moral dos inocentes" width="600" height="522" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/houses-district-six-19451.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/houses-district-six-19451-300x261.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/houses-district-six-19451-483x420.jpg 483w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A fala de Marinho expressa, assim, uma forma peculiar de consciência política: empiricamente sensível, moralmente indignada, mas teoricamente cega. É um discurso que percebe os efeitos, mas não as causas; que enuncia a contradição, mas não a articula; que sente a opressão, mas não compreende a totalidade que a produz. Sua força reside na sinceridade e na experiência — a vivência de um homem que passou pela rua e viu a máquina por dentro —, mas sua fraqueza está em confundir o drama com o sistema. Há uma dimensão terapêutica na fala, uma catarse que tenta exorcizar a impotência coletiva através da indignação individual. O que se oferece ao público não é uma estratégia de transformação, mas uma descarga moral que confirma a sensação de que “algo está errado” sem indicar como o errado se produz. Essa forma de discurso cumpre uma função ideológica precisa no presente: serve de válvula de escape à consciência popular, permitindo-lhe reconhecer o horror sem ultrapassar o horizonte burguês. É o mesmo mecanismo que Marx identificava nas “revoltas morais” do pequeno-burguês: ele percebe a injustiça, mas teme a revolução. No contexto brasileiro, essa sensibilidade se traduz em figuras como Marinho, que fazem da crítica uma confissão pública, um ato de pureza ética diante do impuro. A política desaparece como prática coletiva e reaparece como gesto de consciência individual. É a crítica sem partido, a rebeldia sem organização, a lucidez sem teoria.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso o pensamento de Marinho é, no fundo, reacionário em sua impotência. Ele denuncia a barbárie, mas reforça o mito de que ela é acidente, e não forma. Deseja um Estado moral, não o fim do Estado. Quer uma polícia humana, não o desmonte do aparato repressivo. Clama por cidadania, não por autogoverno. É a voz da revolta sem direção, a dor social traduzida em moralismo. Seu discurso conforta o espectador progressista, que pode indignar-se sem arriscar-se, pode sentir-se justo sem comprometer-se com a luta. É a ideologia da pureza num tempo de decomposição. Entretanto, é preciso reconhecer que essa consciência “capenga”, como a chamaste, é sintoma de um período histórico em que a esquerda perdeu seu horizonte revolucionário e o campo popular foi reduzido à esfera da opinião. Marinho é produto dessa desertificação política: fala o que resta da crítica quando a crítica perdeu a organização. Sua limitação é a limitação do tempo. O erro é real, mas revelador. Ele é o espelho deformado de uma sociedade em que o pensamento se fragmentou em emoções, e a razão política se converteu em retórica terapêutica.</p>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Em última instância, a fala de Eduardo Marinho nos serve não como exemplo a seguir, mas como alerta. Ela mostra o que acontece quando a crítica social é destituída de teoria, e quando a indignação substitui a análise. É um testemunho honesto de uma consciência que sente o golpe, mas não encontra o inimigo. A tarefa, para quem busca reconstruir um pensamento radical, é superar essa consciência: sair do lamento ético e retornar à totalidade material, recolocar a questão do Estado, da violência e da emancipação em seus fundamentos históricos. Só assim o escândalo pode transformar-se em ação e a catarse em política.</p>
</div>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-158844 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/boy-and-the-candle-1943.jpg" alt="Eduardo Marinho e a moral dos inocentes" width="382" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/boy-and-the-candle-1943.jpg 382w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/boy-and-the-candle-1943-229x300.jpg 229w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/boy-and-the-candle-1943-321x420.jpg 321w" sizes="(max-width: 382px) 100vw, 382px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Gerard Sekoto (1913-1993).</em></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Terapia (2)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158765/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Mar 2026 03:05:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Procurou um terapeuta porque sofria assédio moral no trabalho. Depois de algumas sessões, sentiu-se empoderada para pedir demissão. Agora não tem dinheiro para pagar terapia. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Procurou um terapeuta porque sofria assédio moral no trabalho. Depois de algumas sessões, sentiu-se empoderada para pedir demissão. Agora não tem dinheiro para pagar terapia. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Velha Toupeira (39)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Feb 2026 12:59:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158743" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-681x227.jpg 681w" sizes="(max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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		<item>
		<title>A crítica de Lukács sob suspeita: a involução teórica da consciência da História</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158720/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Feb 2026 13:59:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O pensador que desvendou a reificação acabou, em sua correção, reificando a forma política. Por André D. Kingslayer]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por André D. Kingslayer</h3>
<p style="text-align: justify;">A obra <em>História e Consciência de Classe</em>, publicada por György Lukács em 1923, permanece como um marco incontornável no pensamento marxista. Nela, o filósofo húngaro não apenas resgatou a dialética, mas atribuiu ao proletariado um papel revolucionário, tanto do ponto de vista prático, mas também epistemológico: o de ser o sujeito-objeto da história, capaz de superar o problema da reificação e alcançar a totalidade. Anos depois, impulsionado pela pressão política e pela rigidez do ambiente stalinista, Lukács empreendeu uma severa autocrítica dessa obra, notavelmente no prefácio de 1967, qualificando-a como excessivamente “utópica” e influenciada por um “romantismo revolucionário”.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, é possível argumentar que essa autocrítica, frequentemente celebrada como um ato de maturidade política ou adequação teórica, representa, paradoxalmente, uma <strong>profunda regressão</strong>. Ao tentar corrigir o “utopismo”, Lukács substituiu a concretude da potencialidade proletária por uma abstração burocrática, aderindo a uma forma de pensamento que ele mesmo havia, brilhantemente, criticado.</p>
<p style="text-align: justify;">O Lukács de 1923 estava firmemente ancorado na concretude da organização e da experiência revolucionária da classe operária. A práxis transformadora não era uma mera ideia; era uma possibilidade real inscrita na sociedade capitalista. A capacidade do proletariado de ver e transformar radicalmente a sociedade advinha de sua posição única, onde a contradição entre sujeito (o trabalhador) e objeto (o produto reificado) se tornava aguda e superável através da revolução. O “utopismo” aqui residia, talvez, na expectativa imediata da realização dessa consciência &#8211; que pode ser explicado pelo contexto social de uma época em que todos estavam respirando um ar revolucionário -, mas não em identificar o proletariado como o primeiro sujeito revolucionário que surgiu na história.</p>
<p style="text-align: justify;">A autocrítica posterior, no entanto, trocou essa base material-dialética por uma lealdade institucional. Onde antes estava o proletariado organizado em sua luta de classes como o motor e a forma de superar a reificação, Lukács passou a colocar o <strong>Partido Comunista</strong>, entendido como a forma “adequada” e “mediata” de realizar a transição do capitalismo ao comunismo, especialmente sob a égide do leninismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta mudança é uma regressão conceitual e política. O que era criticado em <em>História e Consciência de Classe</em> &#8211; a separação entre teoria e prática, sujeito e objeto &#8211; ressurge de forma aguda na adesão à burocracia partidária. O Partido, uma vez tornado um aparato burocrático com seus próprios interesses, não é expressão da consciência proletária. O interesse da <strong>burocracia partidária</strong> não é, intrinsecamente, a transformação radical da realidade, mas a manutenção e expansão de seu próprio poder administrativo, exatamente pelo fato de não ocupar a posição que ocupa o proletariado na divisão social do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao transferir os atributos revolucionários do proletariado (que garantiam a superação do “falso problema” da dicotomia sujeito-objeto) para o Partido, Lukács recai na mesma concepção abstrata que condenava. Ele substitui a dinâmica da luta de classes por uma teleologia partidária. A concretude da experiência operária é trocada pelo imediatismo formal da disciplina e estratégia partidária, um interesse que, na prática histórica, revelou-se a expressão da necessidade de estabilização do novo Estado, e não de sua dissolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Em resumo, o que Lukács chamou de “utopismo” ou “messianismo” em <em>História e Consciência de Classe</em> era, na verdade, uma radicalidade que vislumbrava o potencial de superação total da alienação &#8211; da exploração do ser humano pelo próprio ser humano. Sua autocrítica, ao se render à ideia do Partido como vanguarda, abandonou a concretude da totalidade para abraçar uma abstração imediatista. Ao fazê-lo, Lukács, ironicamente, prestou serviço à ideologia, trocando a esperança revolucionária ancorada na práxis de uma classe pela justificação de um aparato de poder. O pensador que desvendou a reificação acabou, em sua correção, reificando a forma política. Ele trocou, ironicamente, o “utopismo abstrato” pelo “messianismo partidário”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é uma lição histórica que ressalta o valor da coragem e da integridade intelectual. Para nós, revolucionários, a postura de um Karl Korsch — que jamais transigiu com a crítica, colocando a verdade acima de seus interesses pessoais — tem um valor imensurável, muito superior à de um Lukács, que, interessado em se adequar às ideias dominantes, conviveu com o pesadelo de uma realidade demonstrando seu equívoco. A honestidade com a verdade demonstrada na prática vale muito mais do que a simples adaptação de linhas teóricas aos interesses editoriais e de reconhecimento. A crítica incisiva e afiada supera em importância o conformismo burguês.</p>
<blockquote><p>A obra que ilustra o artigo é da autoria de Franz Marc (1880-1916).</p></blockquote>
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			</item>
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		<title>Breves notas sobre como salvar o marxismo da realidade (2)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158693/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 12:13:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Que tipo de rigor teórico é compatível com a contingência dos processos sociais reais? Por Gabriel Telles]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Gabriel Teles</strong></h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Leia <a href="https://passapalavra.info/2026/02/158658/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> a primeira parte</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na primeira parte desta reflexão, procurei reconstruir criticamente o funcionamento de certos coletivos políticos que, em nome da preservação do marxismo, acabam por isolá-lo da história concreta. Analisei ali como a busca por pureza teórica, a “rigidificação” conceitual e a transformação da crítica em mecanismo disciplinar produzem uma forma específica de fechamento político.</p>
<p style="text-align: justify;">A intenção inicial era encerrar a análise nesse ponto: no diagnóstico de um marxismo que sobrevive menos por sua capacidade de intervir na realidade social do que por sua eficácia em manter fronteiras simbólicas internas. Esse diagnóstico já permitiria compreender por que tais coletivos tendem a confundir radicalidade com isolamento, rigor com repetição e fidelidade teórica com recusa do presente histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, ao retomar esse percurso de forma mais distanciada, tornou-se evidente que a crítica, se permanecer apenas negativa, corre o risco de se limitar a descrever um impasse sem reabrir o horizonte político que ele bloqueia. Denunciar o fechamento defensivo desses coletivos é necessário, mas insuficiente, se não colocarmos simultaneamente a questão de uma outra relação possível entre marxismo e história <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158699" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570.jpeg" alt="" width="409" height="570" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570.jpeg 409w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570-215x300.jpeg 215w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570-301x420.jpeg 301w" sizes="auto, (max-width: 409px) 100vw, 409px" />É a partir desse ponto que esta segunda parte se inicia. Não para oferecer um modelo alternativo acabado, nem para propor uma nova ortodoxia em substituição às antigas, e sim para desenvolver um contraponto: como pensar um coletivo capaz de se deixar afetar pela história sem, com isso, dissolver-se? Que tipo de rigor teórico é compatível com a contingência dos processos sociais reais? E que formas de organização política podem sustentar uma crítica radical sem transformar a teoria em abrigo contra o mundo?</p>
<p style="text-align: justify;">Se antes a ênfase recaía sobre os mecanismos de autopreservação simbólica e fechamento teórico, agora trata-se de recolocar em cena a possibilidade de um coletivo assentado em um marxismo crítico-revolucionário que aceite o risco histórico como condição de existência, e não como ameaça a ser neutralizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse tipo de marxismo começa por renunciar à fantasia de exterioridade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não se coloca acima dos processos históricos, julgando-os a partir de um ponto supostamente privilegiado, mas reconhece que está implicado neles, atravessado pelas mesmas contradições que busca compreender. Isso implica aceitar que não há posição pura, nem garantia prévia de acerto. A teoria deixa de ser tribunal e passa a ser mediação: um esforço sempre incompleto de inteligibilidade, que só ganha densidade ao se confrontar com práticas reais, ainda que imperfeitas, ambíguas ou politicamente incômodas; sejam elas do passado ou do presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Um marxismo assim também precisa redefinir sua relação com o erro. O erro deixa de ser falha moral ou sinal de desvio ideológico e passa a ser parte constitutiva do processo político. Errar não significa trair a teoria, mas “testar” seus limites enquanto expressão da realidade. Sem essa disposição, a prática se reduz à aplicação mecânica de esquemas já conhecidos, e a teoria perde sua capacidade de aprender com a história. A possibilidade de errar, nesse sentido, não enfraquece o marxismo; ao contrário, devolve-lhe vitalidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto central diz respeito à divergência. Um marxismo que se deixa afetar pela história não pode tratar o dissenso como ameaça à coesão, mas como indicador de que algo real está em jogo. Divergências teóricas e estratégicas não são ruídos a serem eliminados, mas sintomas de conflitos objetivos que atravessam a luta de classes. Neutralizá-las em nome da clareza interna é, frequentemente, uma forma de negar esses conflitos em vez de enfrentá-los. Não se trata, portanto, de “dar o braço” ao “inimigo” nem de legitimar projetos políticos antagônicos, mas de aprender a elaborar politicamente a convivência entre coletivos e perspectivas divergentes que, apesar das diferenças, compartilham convergências estruturais no interior da luta de classes.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158694" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640.jpg" alt="" width="564" height="871" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640.jpg 564w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640-194x300.jpg 194w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640-272x420.jpg 272w" sizes="auto, (max-width: 564px) 100vw, 564px" />Esse deslocamento exige também uma relação menos fetichizada com os clássicos e com as linhagens teóricas. Marx, Engels e toda a tradição posterior deixam de funcionar como fonte de legitimação identitária e passam a ser lidos como interlocutores situados, que pensaram a partir de problemas concretos de seu tempo. Honrar essa tradição não é repeti-la corretamente, mas continuar o gesto que a constituiu: pensar a partir das contradições vivas do presente, mesmo quando isso implica tensionar categorias consagradas.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano organizativo, esse marxismo precisa aceitar graus mais altos de indeterminação. Coletivos politicamente vivos tendem a ser menos coesos no plano simbólico e mais expostos a conflitos internos, justamente porque estão em contato com processos sociais heterogêneos. A coesão não pode ser garantida pela exclusão sistemática nem pela vigilância discursiva permanente, mas por algum tipo de aposta comum que se renova na prática e não apenas na linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso implica, inevitavelmente, redefinir o lugar da universidade. Em vez de negá-la retoricamente enquanto dela depende materialmente, trata-se de assumir suas contradições como parte do problema. A produção teórica pode se beneficiar do espaço universitário, mas não pode se confundir com ele nem se encerrar em seus critérios de validação. A teoria só se mantém viva quando circula para além dos espaços que a reconhecem automaticamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Há, ainda, uma dimensão subjetiva incontornável. Um marxismo que se deixa afetar pela história precisa tolerar frustrações, perdas e deslocamentos. Precisa abrir mão do conforto de estar sempre certo, do prazer de antecipar derrotas alheias e da segurança de habitar um ponto avançado da história. Isso não significa abdicar da crítica radical, mas aceitar que a crítica, para ser efetiva, precisa atravessar o próprio sujeito que critica.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, talvez o ponto decisivo seja este: a revolução, entendida como processo histórico real, não pode ser protegida da experiência. Uma teoria que nunca se expõe ao risco de ser desmentida preserva sua pureza, mas perde sua razão de existir. Um marxismo capaz de se deixar afetar pela história é aquele que aceita que o mundo não cabe inteiramente em suas categorias — e que é justamente desse excesso, dessa resistência do real, que pode surgir algo novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Colocar esse contraponto não resolve o problema, mas recoloca a questão em outro patamar. Em vez de perguntar quem está certo, talvez seja mais produtivo perguntar que tipo de relação com a história estamos dispostos a sustentar. Porque, no limite, não é o marxismo que julga o mundo, mas o mundo que continuamente julga — e transforma — o marxismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Para fechar esse movimento, vale retomar explicitamente uma referência que ajuda a dar densidade histórica a esse contraponto: Karl Korsch. Não como autoridade a ser citada em busca de legitimação, mas como alguém que formulou, de maneira precoce e incisiva, o problema que atravessa todo o texto: a transformação do marxismo em doutrina separada da prática histórica que lhe deu origem.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158698" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura.jpg" alt="" width="506" height="470" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura.jpg 506w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura-300x279.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura-452x420.jpg 452w" sizes="auto, (max-width: 506px) 100vw, 506px" />Em Korsch, o marxismo só se mantém vivo enquanto teoria crítica da sociedade capitalista em ligação com a prática revolucionária. Quando essa ligação se rompe, a teoria não se torna neutra ou inofensiva; ela se converte em ideologia, ainda que preserve uma linguagem radical. O dogmatismo, para Korsch, não é simplesmente um erro intelectual, mas o sintoma de um deslocamento histórico: a teoria passa a sobreviver em condições nas quais a prática revolucionária foi bloqueada ou derrotada, e precisa então justificar sua própria permanência.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa leitura é particularmente importante porque evita duas saídas fáceis. De um lado, a idealização romântica da prática imediata, como se qualquer movimento real fosse automaticamente emancipatório. De outro, a sacralização da teoria como reserva de verdade à espera de um futuro indeterminado. O marxismo crítico-revolucionário que Korsch defende existe precisamente na tensão entre essas duas dimensões, sem resolver o conflito por decreto conceitual.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao insistir que o marxismo deve ser compreendido historicamente — inclusive em suas próprias categorias — Korsch antecipa a crítica à ideia de uma linhagem pura, contínua e sem fissuras. Para ele, não há marxismo fora das lutas concretas, nem teoria revolucionária que possa se colocar acima da história para julgá-la. Quando isso ocorre, o marxismo deixa de ser crítica da realidade existente e passa a funcionar como sistema fechado de interpretação, indiferente ao curso efetivo dos acontecimentos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158695" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9.jpg" alt="" width="600" height="401" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9-300x201.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9-537x360.jpg 537w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />Essa perspectiva ajuda a compreender por que o tipo de coletivo descrito ao longo do texto não é apenas politicamente ineficaz, mas teoricamente regressivo. Ao separar a teoria da experiência histórica real — especialmente quando esta é contraditória, ambígua ou decepcionante — ele repete exatamente o movimento que Korsch identifica como degeneração ideológica do marxismo. A fidelidade aos conceitos substitui a fidelidade ao movimento real da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto decisivo em Korsch, e que dialoga diretamente com o argumento desenvolvido aqui, é que não existe marxismo revolucionário sem risco histórico. A teoria precisa se expor à possibilidade de se tornar inadequada, parcial ou insuficiente diante de novas configurações da luta de classes. Essa exposição não garante sucesso político, mas é a única forma de evitar que o marxismo se transforme em linguagem ritualizada, funcional apenas à coesão interna de pequenos círculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Recuperar Korsch hoje não significa repetir suas posições nem ignorar os limites de seu contexto histórico. Significa retomar uma exigência metodológica e política fundamental: a recusa em separar crítica radical e historicidade concreta. Um marxismo não dogmático, nesse sentido, não é aquele que abdica de princípios, mas aquele que se recusa a transformá-los em abrigo contra a história.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez seja esse o fio que permite costurar toda a crítica anterior com uma saída possível. Não um novo modelo organizativo, nem uma síntese teórica definitiva, mas uma disposição: manter aberta a relação entre teoria e prática, aceitar a instabilidade como condição da crítica e reconhecer que a vitalidade do marxismo se afirma em sua capacidade de se transformar junto com o mundo que pretende transformar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong>: Ao longo do texto, “história” não é mobilizada como um conceito autônomo ou uma categoria teórica acabada. Na falta de um adjetivo melhor, ela funciona simplesmente como adjetivação de um fenômeno: a inscrição concreta, situada e contraditória dos processos sociais no tempo. Falar em história, aqui, é marcar que práticas, teorias e formas de organização existem sob condições determinadas, atravessadas por conflitos, deslocamentos e contingências que não podem ser antecipadas nem resolvidas por esquemas prévios. O termo não designa uma instância normativa ou um sentido imanente do processo social, mas a recusa de qualquer forma de abstração que pretenda se colocar a salvo do movimento real no qual essas práticas e teorias se produzem e se transformam.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Joaquín Torres Garcia.</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Mentiras que lhe dirão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 09:23:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras... Por Phil A. Neel]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Phil A. Neel</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><em>Traduzido do <a href="https://illwill.com/lies" target="_blank" rel="noopener">Inglês</a>.</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A cidade glacial está sob cerco. Nos longos e frios invernos no coração do Meio-Oeste, o ar pode ficar tão frio que dói respirar. Mercenários mascarados, em veículos sem identificação, percorrem os bancos de neve, sequestrando pessoas nas ruas e levando-as para centros de detenção por períodos indeterminados. Cada um dos mercenários recebe dezenas de milhares em um “bônus de assinatura” (até 50 mil e 60 mil dólares em perdão de empréstimos estudantis), simplesmente para pegar em armas em nome do regime em batalha. Diante de uma crise econômica em câmera lenta, na qual um boom surreal do mercado de ações, apoiado pelo Estado, é acompanhado por uma estagflação persistente na economia cotidiana, o puxa-saquismo é uma das poucas indústrias que apresentam algum crescimento real. Enquanto as ruas congelam em Minneapolis, a notação do Standard &amp; Poor atinge níveis recordes. Enquanto isso, o crescimento do emprego no ano passado foi tão desanimador que, após a divulgação dos números, o regime agiu rapidamente para demitir o chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho e ameaçar os meios de comunicação que divulgavam os números. <strong>[1]</strong> Além do declínio no emprego, devido ao congelamento da imigração, a profundidade da crise é sinalizada pela queda contínua na Taxa de Participação na Força de Trabalho, que serviu como o maior obstáculo ao crescimento do emprego no primeiro semestre de 2025 – indicando que um montante cada vez maior de pessoas está abandonando completamente a força de trabalho, mas não são contabilizadas nas estatísticas de desemprego. <strong>[2] </strong>O cerco pode, assim, ser entendido como uma espécie de keynesianismo mercenário, destinado a compensar a falta de emprego nos novos setores de defesa movidos a IA, que têm sido o foco da política institucional mais ampla de pilhagem-e-reestruturação.</p>
<p style="text-align: justify;">Enviados de cidades distantes, eles algemam os detidos e os espancam quando mais nenhuma reação é possível. Disparam munições “não letais” com clara intenção de mutilar. Repetidas vezes, atropelam pessoas por veículos. Indivíduos que simplesmente estão voltando do trabalho para casa têm suas janelas quebradas e são arrastados para fora de seus veículos para serem espancados e detidos por horas, às vezes dias. Agora, eles estão atirando em pessoas com munição letal. Invadiram o estacionamento de uma escola de ensino fundamental. Tiraram uma mãe de seu carro, colocaram-na em uma van sem identificação e foram embora, deixando seu bebê em uma cadeirinha, com a porta aberta, em temperaturas negativas (felizmente, resgatado por pessoas da multidão). Lançaram gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral em um carro cheio de crianças, hospitalizando todas elas, incluindo um bebê de seis meses que não conseguia respirar. <strong>[3] </strong>Em represália à resposta da comunidade, eles começaram a invadir as casas de cidadãos também, muitas vezes errando os endereços. O prefeito diz que não há nada a ser feito. O governador convocou a Guarda Nacional – destacada não contra os mercenários, é claro, mas contra aqueles que protestam contra eles. As autoridades judiciais da nação não apenas se recusaram a abrir processos, mas, além disso, foram ordenadas a investigar as vítimas e seus familiares. Todas as noites, o mundo inteiro assiste a vídeos de corpos envoltos em sombras, movendo-se na escuridão gelada da cidade sitiada. Nas lives, as pessoas gritam e choram, os mercenários berram suas ameaças, disparam suas armas e, diante de uma multidão grande o suficiente, recuam. Os hotéis que os hospedam são pichados. Os carros que abandonam são saqueados. Em resposta, mais tropas são enviadas pelo presidente, um rei louco, num corpo em decomposição, berrando ordens incoerentes do seu palácio no pântano. O sol nasce e acordamos com o sabor amargo de novas atrocidades à nossa espera.</p>
<p style="text-align: justify;">Há cinco anos, a poucos quarteirões de onde Renee Good foi assassinada pelo covarde Jonathan Ross, um assassinato semelhante desencadeou a maior revolta popular em mais de uma geração. Logo depois, nos contaram uma série de mentiras sobre essa rebelião. Disseram-nos que era um “movimento social não violento”, mesmo com a imagem de uma delegacia de polícia em chamas piscando ao fundo. Disseram-nos que, embora houvesse alguma violência, ela havia sido iniciada por agitadores externos, talvez policiais, ou até mesmo nacionalistas brancos. Quem quer que fossem, eles não eram membros da “comunidade”, mas sim indivíduos apenas “querendo causar confusão”. Disseram-nos que o plano desde sempre foi processar o assassino, e que foi apenas uma coincidência que as acusações só foram feitas depois que quase todas as grandes cidades do país viram seus centros saqueados e incendiados. Disseram-nos para irmos para casa, que tudo tinha acabado. Disseram-nos que os distúrbios eram apenas a desculpa de que Trump precisava para declarar a lei marcial e cancelar as próximas eleições. Disseram-nos que, se eleito, Biden iria arrumar as coisas. Disseram-nos que as deportações iriam acabar e que as políticas de Trump seriam revertidas. As crianças seriam libertadas das jaulas. Disseram-nos que devíamos voltar ao mais do mesmo da política — que essa era a única maneira de “fazer as coisas acontecerem”. No conjunto, essas mentiras resultaram em uma única grande inverdade: a revolta nunca ocorreu e nunca poderá ocorrer novamente. <strong>[4]</strong> Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras:</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Se você está aqui legalmente, não precisa se preocupar…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa é sempre a primeira mentira, que apenas os mais tresloucados ou os mais irracionais acreditam. Mesmo para os defensores ferrenhos do Estado, essa primeira mentira foi destruída no momento em que o tiro foi disparado. Por isso, ela foi reconfigurada: “se você não estiver obstruindo os agentes federais…”. E logo acrescentaram os adendos habituais: “por que você estava em um motim, para começar?” (dito às pessoas que moram no bairro); “por que você trouxe seus filhos para um protesto?” (para as famílias que buscavam os filhos na escola); “esses cidadãos têm ligações com grupos radicais de esquerda” (válido automaticamente para todos os que se opõem à agência). Eventualmente, a ladainha de mentiras proferidas por qualquer força tirânica tende a se normalizar em torno do guia de estilo das Forças de Defesa de Israel (IDF), refinado no solo bombardeado da Palestina, que há muito serve como laboratório para novos horrores. E, claro, como até uma rápida olhada na história demonstraria, os horrores nunca permanecem confinados à terra sagrada. Quando o bumerangue imperial retorna à mão que o lançou, o processo sempre começa com o chamado “elemento criminoso”. E então passa a ser os esquerdistas e os sindicalistas. E depois seus simpatizantes. E depois qualquer inimigo. Eventualmente, eles têm como alvo os inimigos inerentes da nação, figurados em termos de sangue e solo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158686 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="932" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-768x511.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-631x420.webp 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-640x426.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-681x453.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo completamente alheios aos protestos, cidadãos americanos foram detidos em batidas policiais e tiveram a validade de suas certidões de nascimento negada. Indígenas americanos foram mantidos em cativeiro por dias — usados, em parte, como moeda de troca para forçar as lideranças tribais a abrir seus territórios à agência. Isso não é um exagero: na cidade sitiada, qualquer pessoa que não pareça suficientemente branca (e branca da maneira certa) deve portar sua prova de cidadania o tempo todo, sob pena de ser detida e sequestrada. Este é, quase palavra por palavra, o cenário que foi profetizado pelos “esquerdistas radicais” com o advento de agências como o Departamento de Segurança Interna (DHS) e o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), após a aprovação da Patriot Act por uma coalizão bipartidária durante a Guerra ao Terror. Foi nessa mesma época que a Agência de Segurança Nacional (NSA) ganhou novos e amplos poderes. A primeira operação interagências para combater “gangues transnacionais violentas” foi iniciada em 2005, sob o governo Bush, e antecipa grande parte da linguagem ainda usada hoje. Mas o novo estado de segurança foi um esforço conjunto. Na verdade, embora tenha sido iniciado durante um governo republicano, foram os democratas que transformaram essas agências em órgãos operacionais e expandiram amplamente seus poderes.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto o ICE quanto o DHS foram rapidamente expandidos sob Obama, que supervisionou o maior aumento nas deportações e de campos de deportação, construídos, em parte, por meio de um acordo de US$ 1 bilhão sem licitação com a empreiteira prisional privada Core Civic (na época, Corrections Corporation of America). <strong>[5]</strong> Na verdade, Jonathan Ross, o agente que assassinou Good, foi contratado pela agência no auge dessa onda de deportações da era Obama. Nos mesmos anos, houve uma expansão dos centros de dados da NSA, incluindo a cerimônia de inauguração do Centro de Dados da Iniciativa Nacional Abrangente de Segurança Cibernética em Utah, que é talvez o núcleo da infraestrutura moderna de vigilância em massa. <strong>[6]</strong> Da mesma forma, foi o governo Obama que assinou os primeiros acordos com a Palantir para rastrear crimes transfronteiriços, estabelecendo as bases para a colaboração de longa data da empresa com o ICE. <strong>[7]</strong> Hoje, a empresa foi contratada para construir um aplicativo “que preenche um mapa com alvos potenciais de deportação, traz um dossiê sobre cada pessoa e fornece uma ‘pontuação de confiança’ sobre o endereço atual da pessoa…”. <strong>[8]</strong> Esses foram os mesmos anos em que os apelos para “abolir o ICE” ganharam força, juntamente com os apelos para reverter os programas de vigilância da NSA e desmantelar a Segurança Interna. Não é preciso dizer que essas demandas foram rejeitadas tanto por democratas quanto por republicanos como sendo nada mais do que reclamações estridentes de radicais irrealistas renitentes. Agora, enfrentamos precisamente a “realidade” que nos foi prometida.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O assassino será processado…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira é o bote salva-vidas para os muitos milhões que ainda se agarram a algum resquício de fé em um estado de direito outrora flutuante que, segundo qualquer critério razoável, já submergiu até o fundo do mar escuro e revolto. Vão nos dizer para esperar, para deixar o sistema funcionar, como se a ordem cívica submersa fosse ressurgir. Na realidade, essa ordem sempre foi uma gentileza temporária, possibilitada apenas pelas águas calmas de uma ordem imperial bem estabelecida. Lançado na crise, a probidade do Estado é sempre sacrificada pela efervescência do puro poder subjacente. Aqueles que baseiam sua fé nessa probidade simplesmente não conseguem entender o novo mundo em que se encontram. O que estamos testemunhando, então, é o lento e constrangedor crepúsculo da ingenuidade política bem-educada que definiu toda uma geração de liberais. Os liberais são, em sua essência, uma espécie de adoradores da legalidade. Tire-lhes a legislação e os processos judiciais e você ficará com penitentes confusos, cegos pelos horrores sombrios vislumbrados brevemente por trás de sua fé destruída. No curto prazo, eles continuarão como antes, só que com mais fervor. Confrontados com evidências incontestáveis de sua realidade política, os liberais se agarrarão ainda mais fortemente às ruínas de sua civilidade desmoronada, entrando com ação judicial após ação judicial, escrevendo para os seus deputados, indo de porta em porta para defender candidatos medíocres nas eleições de meio de mandato, tais como fanáticos cheios de feridas se flagelando em penitência pela praga.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem demora, vimos uma série interminável de ações judiciais movidas contra quase todos os aspectos do programa trumpista. Em 20 de janeiro de 2026, havia um total de 253 processos ativos de contestação de ações do governo. Porém, mesmo quando obtêm decisões favoráveis, elas se mostram inexequíveis. Por um lado, com controle decisivo sobre a Suprema Corte, bem como sobre as nomeações federais em todas as agências relevantes, qualquer contestação legal pode ser, em última instância, anulada. A Suprema Corte já anulou as ordens de tribunais inferiores em 17 ocasiões.<strong> [9]</strong> Por outro lado, os poderes executivos podem ser mobilizados para simplesmente anular decisões judiciais por decreto, seja de forma direta (por meio da proliferação de indultos presidenciais, concedidos a licitantes nos bastidores, por exemplo) ou buscando os mesmos fins, por meio de canais diferentes. Por exemplo, quando a deportação de Kilmar Abrego Garcia foi considerada ilegal por um tribunal inferior (e, em um caso raro, a decisão foi mantida pela Suprema Corte), o governo federal procurou indiciá-lo por acusações espúrias, a fim de justificar tentativas subsequentes de deportação. No entanto, precisamente porque esses casos acabam por seguir seu curso nos tribunais e, de fato, geram um certo atrito administrativo, os liberais conseguem manter uma fé mágica de que podem, eventualmente, ter êxito.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158687 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso deixa pouca esperança para uma resposta judicial aos assassinatos de Renee Good e Alex Pretti. Pouco depois do assassinato de Good, Ross foi evacuado do local, que foi limpo sem registro de provas ou investigação. Da mesma forma, outras agências foram proibidas de proteger o local do assassinato de Pretti. O Departamento de Justiça não apresentou nenhuma acusação, tampouco as autoridades municipais ou estaduais. O regime tem afirmado que Ross e todos os seus outros mercenários têm imunidade total. Eles têm repetido mentiras descaradas sobre o assassinato de Pretti, imediatamente refutadas por inúmeros vídeos. Neste momento, como em qualquer assassinato cometido pela polícia, as denúncias só serão formalizadas em qualquer uma dessas mortes caso houver mobilizações em massa de escala e intensidade suficientes. Passeatas pacíficas, mesmo que enormes ou disfarçadas de “greve geral” (mas que não fecham nenhuma empresa de grande porte da cidade), não têm como alcançar esse objetivo. Neste momento, simplesmente não há nenhum mecanismo imaginável pelo qual passeatas de protesto a fim de ganhar atenção política possam encorajar alguém no poder a levar esses assuntos a julgamento. Ataques à propriedade inimiga, bloqueios totais e greves podem forçar tal resultado, à maneira dos distúrbios no caso de George Floyd, vários anos antes. Nesse caso, porém, mesmo um julgamento e uma condenação poderiam ser facilmente anulados por meio de um indulto presidencial e, se os casos de 6 de janeiro servirem de indício, tudo indica que o executivo iria atrás disso. Não se pode mais confiar que o Estado nem mesmo finja fazer justiça. Os liberais são deixados a chorar, chicoteando suas costas feridas em atos fúteis de penitência, na esperança de reconquistar a atenção de seu deus delinquente. Eventualmente, seus furúnculos estouram e a peste os leva, como aos demais.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O ICE não é bem-vindo aqui…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Talvez isso seja verdade em algum sentido espiritual — na mente do político progressista convencido de que, no fundo do coração, o ICE não tem influência. No entanto, se você permite que atrocidades sejam cometidas na sua frente e não toma nenhuma medida substantiva para impedi-las, além de um discurso forte e talvez uma ou duas ações judiciais sem efeito, você não está, na verdade, cedendo também em espírito? Essa mentira se tornou um refrão comum entre os políticos locais. O prefeito disse isso. O governador também. E, apesar de claramente “não ser bem-vindo”, o ICE se sentiu bem à vontade. Os mercenários do ICE vagam pelas ruas. Arrombam as portas das pessoas, instruídos por seus superiores de que não precisam de um mandado assinado por um juiz. A ordem é claramente ilegal, mas isso parece não importar mais. <strong>[10]</strong> As únicas forças que minimamente se mobilizam contra essa invasão são pessoas comuns, que arriscam prisão, mutilação e morte para enfrentar os homens armados enviados para levar seus vizinhos para campos de prisioneiros. Redes robustas de defesa comunitária se espalham pela cidade congelada, enraizadas na infraestrutura criada justamente por essa incansável “extrema-esquerda” que tanto incomoda o regime. Por causa dessas redes, os mercenários raramente conseguem se mover sem serem rastreados, raramente param em algum lugar sem serem cercados e raramente tomam qualquer atitude sem serem filmados.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem dúvida, as redes de resposta comunitária desse tipo estão entre as formas mais importantes de organização de classe que os EUA viram nas últimas décadas. Conforme explicado por Adrian Wohlleben:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Com a construção de eixos de defesa, ou “centros”, combinados com outras práticas autônomas de rastreamento, perseguição e interrupção, a luta atual contra o ICE iniciou uma repolitização da inteligência infraestrutural, juntamente com uma inversão de sua orientação “cinegética” (de presa para predador). Esse fato, combinado com a notável tendência de restituir o político nos espaços da vida cotidiana, aponta para uma superação dos limites de 2020… <strong>[11]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">No entanto, parece improvável que até mesmo essa inteligência infraestrutural distribuída e incorporada ao tecido urbano da vida cotidiana seja suficiente. Embora seja um primeiro passo necessário, o andamento da história muitas vezes ultrapassa nossos esforços. Para acompanhar, é necessário dar um salto para o desconhecido.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Vá lá e vote…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Estamos diante de uma realidade sombria: a invasão está aqui, a santificada “resistência” da classe política nunca chegou e o poder bruto que governa o mundo está escancarado para todos. Os democratas já recusaram, em larga medida, os apelos para pressionar pela abolição do ICE e, em vez disso, defenderam sua fórmula desgastada de câmeras corporais e melhor treinamento. <strong>[12]</strong> Diante de tudo isso, como uma mentira tão simples pode persistir? Como alguém poderia estar legitimamente convencido de que votar, ainda mais nas eleições de meio de mandato, enfraqueceria o poder do regime? No entanto, mesmo para os ex-liberais desiludidos com sua fé nos canais legais, que agora perseguem o ICE em seus Honda Fit, soprando seus pequenos apitos e brandindo seus celulares como um escudo — e, apesar do disparate da imagem, legitimamente arriscando a morte para fazê-lo —, uma fé residual no sistema eleitoral permanecerá, mesmo depois que qualquer crença na ordem judicial tiver sido destruída. As eleições são, para os liberais, precisamente a maneira pela qual os erros sistêmicos são corrigidos. Elas oferecem um caminho de volta aos domínios legislativo e executivo, de onde o poder parece ser exercido. Assim, apoderar-se do legislativo em 2026 e, com sorte, o executivo em 2028, parece ser um meio razoável pelo qual o regime poderia ser deposto e seus erros, corrigidos. No entanto, mesmo para os liberais agora mobilizados, o medo paira no fundo da mente: e se isso for, afinal, uma mentira?</p>
<p style="text-align: justify;">A ilusão do “vá lá e vote” persiste, em parte, porque os EUA agora se transformaram totalmente no que Ernst Fraenkel, um advogado trabalhista que viveu a ascensão dos nazistas, chamou de “estado duplo”, no qual o regime é capaz de “manter uma economia capitalista governada por leis estáveis — e manter uma normalidade cotidiana para muitos de seus cidadãos — ao mesmo tempo em que estabelece um domínio de ilegalidade e violência estatal”, nas palavras do acadêmico Aziz Huq. Nessa modalidade de duas vias, um “Estado normativo”, marcado por um “sistema jurídico comum de regras, procedimentos e precedentes”, continua a operar, enquanto, paralelamente, um “Estado prerrogativo”, definido por “arbitrariedade ilimitada e violência sem controle por garantias legais”, se torna a norma em certas áreas geográficas ou na governança de grupos demográficos específicos. Para Fraenkel, essa zona “sem lei” não nega totalmente a zona legal, mas opera em conjunto com ela, mesmo que os “dois estados coabitem de forma incômoda e instável” porque “pessoas ou casos podem ser arrancados do estado normativo e jogados no estado prerrogativo” por um capricho político. Mas a tendência é clara: com o tempo, o ditatorial “estado prerrogativo distorceria e lentamente desmantelaria os procedimentos legais do estado normativo, deixando um domínio cada vez menor para a lei comum”. <strong>[13]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso é possível, em parte, porque o poder social não opera principalmente por meio do Estado. Na sua raiz, o poder da elite sobre as massas populares é econômico. O Estado e toda a classe política que o dirige são, em última análise, uma emanação dessa forma mais fundamental de poder de classe, definida pelo controle sobre a riqueza social. Essa é a chave para compreender o comportamento aparentemente suicida do regime: o Estado nunca teve a intenção de servir como uma instituição representativa universal que defende os direitos do “povo” de forma abstrata. Ele sempre foi projetado para ser, em última análise, uma máquina para negociar entre segmentos da elite proprietária e defender seus interesses. Em certos períodos de prosperidade imperial, os interesses gerais da população estão vagamente alinhados com os da elite. Mas esses são pactos temporários. Embora Fraenkel, nascido e criado em uma dessas épocas, veja o Estado prerrogativo como uma exceção, esse está, na verdade, mais próximo da norma histórica. O mistério do comportamento bizarro do regime se dissipa quando o vemos como uma luta faccional entre os quadros existentes das elites — em outras palavras, como um mecanismo de poder e pilhagem, empregado por certas facções do capital contra a população em geral, e potencialmente em detrimento de outras facções — e uma tentativa frenética dessas elites, desafiadas por blocos ascendentes de capital em outros lugares, de definir um curso estratégico que permita que seu poder sobreviva em um futuro geopolítico incerto.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158688 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez a tendência mais importante por trás do surgimento de um estado dual ditatorial seja esta: mesmo enquanto a inflação dizima os salários e os custos da energia disparam na economia cotidiana, o mercado de ações atingiu níveis sem precedentes. Como resultado, os quinze capitalistas mais ricos do país ganharam quase US$ 1 trilhão em riqueza ao longo de 2025 (de US$ 2,4 trilhões para US$ 3,2 trilhões), enquanto todos os 935 bilionários dos EUA juntos agora controlam o dobro da riqueza (US$ 8,1 trilhões) da metade mais pobre da população (170 milhões de pessoas). <strong>[14]</strong> Tampouco isso é uma exceção trumpista. É, ao contrário, parte de uma tendência que vem se consolidando desde a era Obama, no início da década de 2010 — que, por sua vez, reviveu uma tendência que começou no final da década de 1990 com a primeira bolha da internet, antes de ser interrompida por seu colapso — e que se acelerou em níveis sem precedentes, não sob Trump, mas sob Biden. No total, os 0,01% mais ricos dos americanos (cerca de 16 mil famílias de elite) controlam agora cerca de 12% da riqueza nacional, três vezes mais do que a mesma parcela da população controlava no auge da Era Dourada do século XIX. <strong>[15]</strong> Apesar dos contínuos alertas de que Trump está “destruindo a economia”, a realidade é que a economia está funcionando muito bem. Dada essa realidade sombria, não devemos imaginar que eleger democratas, em distritos eleitorais já grotescamente manipulados pelo gerrymandering, resultaria em um regime substancialmente diferente do atual.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Não dê a Trump um pretexto…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Aqui chegamos ao cerne da questão. Uma vez que a ilusão da civilidade desmorona, revelando a força e a fraude do poder como tal, novas mentiras surgem para servir a funções clássicas de contra-insurgência. Seu objetivo é atenuar a resposta imediata ao Estado tirânico, auxiliá-lo em sua repressão expondo militantes e impedir qualquer preparação para o que está por vir. “Não dê a eles um pretexto”, “Não morda a isca”, “Não dê a eles o que querem” — tudo isso acompanhado de novas teorias da conspiração sobre tijolos pré-plantados e agentes provocadores. Como em 2020, essas mentiras giram em torno da alegação de que lutar contra o exército invasor de mercenários acabará por dar ao governo uma desculpa para invocar a Lei de Insurreição e impor a lei marcial. Essa mentira parece ter integridade porque o regime ameaçou repetidas vezes fazer exatamente isso. Mas logo qualquer traço de lógica evapora-se. O que seria um “pretexto” suficiente e por que um regime que não tem absolutamente nenhum escrúpulo em violar a constituição, falsificar provas e perseguir seus oponentes precisaria de tal desculpa? Por que simplesmente não inventar uma? Agentes federais invadiram uma cidade e estão atacando e assassinando civis ativamente — isso já é uma forma de lei marcial, só que não no papel. Mais importante ainda, o objetivo principal da lei marcial é impor a quietude. Recompensar preventivamente o regime com exatamente o que ele quer não evita tanto a lei marcial, mas a torna desnecessária. Se as pessoas continuarem a se recusar a ficar quietas e o regime acabar invocando os poderes normativos adequados para declarar a lei marcial, isso não será culpa de ninguém além do próprio regime, independentemente do que ele escolher como gatilho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também temos que perguntar se a lei marcial é, de fato, necessária. Como sugere o modelo de estado duplo de Fraenkel, não há um momento em que um governo eleito se torna repentinamente autoritário. Em vez disso, formas prerrogativas de poder coexistem com as normativas e expandem progressivamente seu domínio de influência ao longo do tempo. O cerco às Cidades Gêmeas é uma evidência clara de que tal processo está bem encaminhado. Manifestar-se pacificamente contra o poder prerrogativo não faz nada para impedir seu progresso. Portanto, nos deparamos com uma escolha: ou não fazer nada além de protestar e registrar o aumento da repressão lentamente nas sombras, ou resistir abertamente e, assim, forçar essa repressão a se revelar para que todos vejam. A primeira opção traz menos riscos imediatos. Ela pode ser justificada como uma pausa estratégica enquanto construímos nossas capacidades. Mas tal afirmação requer então apontar onde essas capacidades estão sendo construídas. Enquanto isso, resistir abertamente acarreta enormes riscos imediatos: prisões em massa, tortura e assassinatos seletivos de ativistas, além de abrir as portas para uma aplicação ainda mais ampla do poder prerrogativo contra uma parcela maior da população. A principal diferença entre as duas opções é que a resistência aberta pelo menos traz consigo a possibilidade de desencadear a mobilização em massa necessária para construir o poder popular e derrubar uma elite tirânica, enquanto a petição por meio de canais normativos restritos não traz essa possibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A história demonstra claramente que tentar esperar que a situação se agrave ainda mais, na esperança de que o estado normativo seja restaurado por meio da intervenção de seus adeptos remanescentes (neste caso, políticos democratas, certos republicanos de centro e tecnocratas do governo, como Jerome Powell), apenas fortalece as elites que se beneficiam da ordem prerrogativa. A questão é, portanto, dupla: primeiro, o que deve ser feito? Segundo, o que será feito conosco independentemente disso? É aqui que surge a questão da guerra civil. A política americana pode ser entendida como sempre existindo em um estado latente de guerra civil. Sob certas condições, essa latência então cai por terra e o espectro de uma guerra civil real torna-se amplamente visível. Já em 2020, esse “espectro sempre presente de uma segunda guerra civil, mais balcanizada” havia entrado na consciência pública. <strong>[16]</strong> A visão da guerra civil tende a acompanhar as mudanças no exercício do poder estatal, particularmente em resposta a revoltas emancipatórias. Conforme explicado por Idris Robinson:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">O funcionamento do Estado se dá, fundamentalmente, afastando a ameaça onipresente de guerra civil. O Estado, como tal, pode ser considerado como aquilo que bloqueia e inibe a guerra civil. O que é único neste país é a nossa tradição emancipatória singular, que está ligada à nossa compreensão da guerra civil. <strong>[17]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, a reestruturação aparentemente suicida do Estado em duas vias é um meio padrão através do qual as revoltas populares e outros conflitos sociais incendiários são inibidos e a ordem existente, restaurada.</p>
<p style="text-align: justify;">No passado, os poderes prerrogativos foram invocados precisamente para afastar o espectro da guerra civil e da revolução. Desde a sua aprovação em 1807, a Lei da Insurreição foi invocada pelo menos 30 vezes por quinze presidentes, formal e informalmente. Da mesma forma, a lei marcial foi declarada pelo menos 68 vezes. Embora ambos tenham sido usados para conter ameaças da direita (particularmente durante a Reconstrução e o movimento pelos direitos civis do pós-guerra) ou conflitos violentos entre grupos de trabalhadores, os usos mais comuns da força militar federal têm sido, de longe, a repressão de revoltas de escravos, greves e outras revoltas. Uma das primeiras grandes mobilizações internas das forças armadas dos EUA foi realizada pelo genocida Andrew Jackson para reprimir a rebelião de escravos de Nat Turner, em 1831. Da mesma forma, a Lei de Insurreição foi invocada por Rutherford Hayes para encerrar a Grande Greve Ferroviária de 1877, por Warren Harding durante a Batalha de Blair Mountain, em 1921, — a maior revolta armada desde a Guerra Civil —, por Lyndon Johnson, em resposta aos distúrbios que se seguiram ao assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968, e por George H.W. Bush, em resposta à revolta em Los Angeles, em 1992. <strong>[18]</strong> Em outras palavras, nem invocar a Lei de Insurreição nem declarar lei marcial sinaliza necessariamente uma guerra civil iminente, ou mesmo a suspensão do poder normativo.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Um agente provocador começou tudo…”</h3>
<p style="text-align: justify;">À medida que o cerco continua, as atrocidades se acumulam e os apelos e protestos dos políticos progressistas provam ser impotentes, algo vai acontecer. Mais e mais pessoas vão começar a destruir propriedades do ICE sempre que puderem. Cada vez mais pessoas verão a necessidade de fechar e destruir a infraestrutura econômica central através da qual o poder da elite opera. Por exemplo, o UnitedHealth Group, com sede nos subúrbios de Minneapolis, foi um dos principais doadores da campanha de Trump (mais de US$ 5 milhões, juntamente com Musk) e é um dos principais beneficiários das políticas do Projeto 2025 de Trump. <strong>[19]</strong> Da mesma forma, a corporação Target, também sediada nos subúrbios das Cidades Gêmeas — e conhecida por operar um dos maiores bancos de dados de reconhecimento facial do mundo, compartilhando esses dados com o governo — doou US$ 1 milhão para o fundo de posse de Trump e tem colaborado ativamente com as forças de ocupação. <strong>[20]</strong> À medida que a polícia e a Guarda Nacional entrarem em cena para apoiar o ICE, as pessoas se insurgirão. As greves se espalharão. Eventualmente, quando ficar claro que o ICE pode e vai matar você sem consequências, alguém revidará. É aí que surge a mentira final, dizendo-nos que a revolta em si não foi iniciada pela população, mas por “agitadores externos”, policiais à paisana ou até mesmo supremacistas brancos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira tem uma longa história, já bem documentada. <strong>[21]</strong> E, no entanto, a mentira persiste, perpetuada ativamente por ativistas que agem como informantes autoproclamados dentro de qualquer movimento em curso. Ao alegar que qualquer ação agressiva praticada contra o inimigo é cometida por agentes da polícia secreta, esses informantes, de fato, perseguem, vigiam e, às vezes, detêm manifestantes para entregá-los à polícia. Muitas vezes, a própria polícia incentiva esse mito, como durante a Rebelião de George Floyd, em 2020, quando se espalharam rumores de que a primeira janela havia sido quebrada por um policial à paisana ou um supremacista branco, e a polícia então divulgou uma declaração juramentada, fingindo tê-lo identificado como membro dos Hells Angels, para, pouco depois, abandonar discretamente tal alegação — nenhuma acusação foi apresentada, enquanto as evidências dos registros de prisão mostravam claramente que a maioria dos detidos nos distúrbios vinha das imediações. <strong>[22]</strong> Dois outros casos de 2020 mostram as consequências da disseminação de tais rumores.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro ocorreu em Seattle: depois que a polícia abandonou a delegacia leste da cidade, a área foi ocupada por manifestantes. Houve intensos debates sobre se a delegacia seria incendiada, como em Minneapolis. Muitos alegaram que qualquer tentativa de fazê-lo seria uma ação de um agente provocador. Então, em 12 de junho, um homem com roupa colorida decidiu tentar, empilhando detritos contra a lateral do prédio, ateando fogo e indo embora. Ativistas no local apagaram o fogo, enquanto outros perseguiram e filmaram o homem, alegando que ele era um agente provocador. Embora ele tenha escapado, esses ativistas-informantes postaram as imagens online e as divulgaram até que fossem compartilhadas com a polícia, que as usou para identificar Isaiah Thomas Willoughby como suspeito. Willoughby se declarou culpado por incêndio criminoso no ano seguinte e foi condenado a dois anos de prisão e mais alguns anos de liberdade condicional depois disso. Logo, foi revelado que Willoughby não era um agente provocador, mas sim o companheiro de casa enlutado de Manuel Ellis, um homem desarmado assassinado pela polícia na cidade vizinha de Tacoma, no início daquele ano. <strong>[23]</strong></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158689 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo caso ocorreu em Atlanta: depois que Rayshard Brooks foi morto pela polícia de Atlanta do lado de fora de um Wendy’s local, pessoas do bairro ocuparam o terreno e, posteriormente, incendiaram o prédio. Informantes-ativistas imediatamente alegaram que o incêndio criminoso foi um ato de um agente provocador e vasculharam a internet para encontrar vídeos de uma mulher branca supostamente ateando fogo, que foram então entregues à polícia. A mulher branca, porém, não era uma agente provocadora. Ela era, na verdade, a namorada de Rayshard Brooks e, por causa desses informantes, foi acusada e declarada culpada por incêndio criminoso. <strong>[24]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso não quer dizer que policiais à paisana ou informantes não participem dos protestos. Há evidências bem documentadas de que eles o fazem. Da mesma forma, agentes federais se infiltram em grupos ativistas, onde sugerem e ajudam a coordenar ações altamente ilegais como forma de armadilha — isso é algo absolutamente a se prestar atenção dentro de assembleias públicas e espaços fechados para planejamento e preparação. Mas isso não ocorre no meio de um protesto ativo. Como qualquer veterano das lutas políticas nos Estados Unidos pode dizer, os policiais à paisana colocados no meio dos protestos quase sempre têm a tarefa de gravar secretamente, comunicar-se com a polícia do outro lado e, em certos casos, deter participantes que se preparam para atirar objetos ou empunhar armas. Em outras palavras, os policiais à paisana desempenham praticamente a mesma função que os próprios ativistas informantes. O objetivo final do mito do agente provocador é, portanto, fazer com que os ativistas desempenhem o papel de contra-insurgentes.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Estamos em desvantagem…”</h3>
<p style="text-align: justify;">A mentira final afirma que, mesmo que tentássemos, não há como revidar. Essa é a desculpa já mobilizada pelo prefeito, que justificou não mobilizar a polícia para impedir ou investigar os mercenários com alegações de que o ICE superaria em número e armamento as forças policiais locais. <strong>[25]</strong> Da mesma forma, o governador sabe que chamar a Guarda Nacional contra uma agência federal seria um ato criminoso, resultando na federalização das tropas estaduais, o que, se resultar em divisões nas cadeias de comando, é convencionalmente visto como o caminho mais provável para confrontos entre as forças estaduais e federais e, portanto, o início de uma guerra civil — como é explicado em um artigo amplamente compartilhado que documenta simulações de potenciais conflitos civis, realizadas por acadêmicos da Universidade da Pensilvânia. [26] No entanto, todas essas considerações são incapazes de compreender dois fatos cruciais. Primeiro, elas aceitam a suposta oposição entre “democratas” e “republicanos” tal como essa se apresenta e, assim, superestimam a disposição dos políticos locais — muitos financiados por exatamente os mesmos interesses corporativos que Trump — de se comprometerem com qualquer coisa que se assemelhe remotamente a uma resistência significativa a uma invasão federal. Segundo, eles assumem que a resistência deve vir de dentro do próprio estado, talvez apoiada por instituições afiliadas, como sindicatos e organizações sem fins lucrativos. Ao fazer isso, eles ignoram completamente o papel de uma população mobilizada.</p>
<p style="text-align: justify;">A perspectiva de uma guerra civil real surge quando conflitos materiais estabelecidos entre as elites coincidem com a agitação popular, permitindo que esta última sirva de veículo para os primeiros. As guerras civis podem escalar para conflitos revolucionários quando sua dimensão popular é organizada independentemente dessas elites e assume um caráter partisan <strong>[*]</strong> — ou seja, que busca não apenas uma redistribuição de bens ou direitos dentro do sistema existente, mas a transformação social desse próprio sistema, em direção a fins emancipadores. No momento, os conflitos entre grupos de elite não são suficientes para incentivar qualquer rebelião liderada por políticos locais. É muito improvável que o conflito simulado entre as forças estaduais e federais realmente ocorra, a menos que seja desencadeado de fora, ou seja, pela agitação popular vinda de baixo. E é precisamente aí que as previsões existentes falham, recusando-se a levar em conta a perspectiva de um conflito mais geral, em toda a sociedade, com as forças de ocupação. A realidade que os políticos liberais estão tentando desesperadamente disfarçar é que o povo supera em número a força invasora, que o poder das elites econômicas por trás de Trump depende dos trabalhadores e que, mesmo que minimamente organizados, esses trabalhadores têm, portanto, a capacidade de derrotar a invasão por conta própria.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158690 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota da tradução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">[*] Para Phil A. Neel, partisan refere-se ao indivíduo ou grupo que participa ativamente nas lutas que emergem de conflitos de classe cotidianos e localizados. Trata-se, portanto, do projeto comunista que visa intervir diretamente nas lutas, e não teorizar o movimento de forma abstrata. Ver “Teoria do Partido” (disponível em <a href="https://antipoda.comrades.sbs/traducao/2025/09/21/teoriadopartido.html" target="_blank" rel="noopener">Antípoda</a> ).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas do autor</strong></p>
<p style="text-align: justify;">1.Peter Hart, “Trump’s Attacks on Jobs Numbers Are Noise – And Still Dangerous”, Center for Economic and Policy Research, 23 de setembro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">2. Leila Bengali, Ingrid Chen, Addie New-Schmidt e Nicolas Petrosky-Nadeau, “The Recent Slowdown in Labor Supply in Demand”, Federal Reserve Bank of San Francisco, 12 de janeiro de 2026. Figura 4.</p>
<p style="text-align: justify;">3. Kilat Fitzgerald, “North Minneapolis ICE shooting: Children hospitalized after flash bang, tear gas hits van”, Fox9 KMSP, 15 de janeiro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">4. Identificando essa resposta desde o início, Idris Robinson afirmou a verdade: “De fato, uma revolta militante ocorreu em todo o país. A ala progressista da contra-insurgência visa negar e desarticular esse acontecimento.” (“How it Might Should be Done”, Ill Will, 16 de janeiro de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">5. Eric Levitz, “The Obama Administration’s $1 Billion Giveaway to the Private Prison Industry”, New York Magazine Intelligencer, 15 de agosto de 2016 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">6. Ingrid Burrington, “A Visit to the NSA’s Data Center in Utah”, The Atlantic, 19 de novembro de 2015. Disponível online aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">7. Palantir, “Sobre a Palantir”, Palantir, 21 de agosto de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">8. Joseph Cox, “‘ELITE’: The Palantir App ICE Uses to Find Neighborhoods to Raid”, 404 Media, 15 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">9. Lawfare, “Trump Administration Litigation Tracker”, Lawfare, 20 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">10. Luke Barr, “ICE memo allows agents to enter homes without judicial warrant: Whistleblower complaint”, ABC News, 22 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">11. Adrian Wohlleben, “Revolts Without Revolution”, Ill Will, 14 de novembro de 2025 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">12. Mychal Denzel Smith, “‘Abolish ICE’ Is More Popular Than Ever. How Will Democrats Drop the Ball This Time?”, The Intercept, 18 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">13. Aziz Huq, “America is Watching the Rise of a Dual State”, The Atlantic, 23 de março de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">14. Sharon Zhang, “Top 15 US Billionaires Gained Nearly $1 Trillion in Wealth in Trump’s First Year”, Truthout, 7 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">15. Marcus Nunes, “The Great Reconcentration: Why America’s Ultra-Wealthy Now Control 12% of National Wealth”, Money Fetish, 20 de janeiro de 2026. Disponível online aqui. (O número citado por Nunes 2026 usa a metodologia estabelecida em: Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, “The Rise of Income and Wealth Inequality in America: Evidence from Distributional Macroeconomic Accounts”, Journal of Economic Perspectives, 34(4), outono de 2020 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">16. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">17. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">18. Joseph Nunn, Elizabeth Goitein, “Guide to Invocations of the Insurrection Act”, Brennan Center for Justice, 25 de abril de 2022 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">19. Ian Vandewalker, “Unprecedented Big Money Surge for Super PAC Tied to Trump”, Brennan Center for Justice, 5 de agosto de 2025. Disponível online aqui; People’s Action, “UnitedHealth Will Be a Top Beneficiary of Trump’s Project 2025”, People’s Action, 15 de outubro de 2024 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">20. KPFA, “The Hidden Side of Target: Surveillance, Policing, and a Call for Scrutiny”, KPFA, 20 de fevereiro de 2025. Disponível online aqui; Mike Hughlett, “Target gave $1M to Trump inauguration fund, a first for the company”, The Minnesota Star Tribune, 29 de abril de 2025 (disponível online aqui); Louis Casiano, “Anti-ICE agitators occupy Minnesota Target store, demand retailer stop helping federal agents”, Fox News, 19 de janeiro de 2026 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">21. Dave Zirin, “The Fiction of the ‘Outside Agitator”, The Nation, 3 de maio de 2024 (online aqui); Code Switch, “Unmasking the ‘Outside Agitator’”, NPR, 10 de junho de 2020 (online aqui); Glenn Houlihan, “The ‘Outside Agitator’ Is a Myth Used to Weaken Protest Movements”, In These Times, 3 de junho de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">22. Logan Anderson, “Who was Umbrella Man, who smashed windows before ‘first fire’ in 2020 Minneapolis protests?”, The Minnesota Star Tribune, 30 de maio de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">23. Mike Carter, “CHOP protester who pleaded guilty to arson was Manuel Ellis’ housemate, lawyer says”, The Seattle Times, 9 de junho de 2021 (online aqui); Procuradoria dos Estados Unidos, “Tacoma man sentenced to two years in prison for early morning fire in ‘CHOP’ zone”, United States Attorney’s Office Western District of Washington, 5 de outubro de 2021 (online aqui). 24. Para uma visão geral dos protestos em Atlanta, consulte: Anônimo, “At the Wendy’s: Armed Struggle at the End of the World”, Ill Will, 9 de novembro de 2020 (online aqui). Para saber mais sobre as consequências legais, consulte: Kate Brumback, “2 Plea Guilty in Fire at Atlanta Wendy’s During Protest After Rayshard Brooks Killing”, Claims Journal, 7 de dezembro de 2023 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">25.Tim Miller e Anne Applebaum, “Anne Applebaum and Jacob Frey: Using Lies to Justify Violence”, The Bulwark, 9 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">26.Claire Finkelstein, “We ran high-level US civil war simulations. Minnesota is exactly how they start”, The Guardian, 21 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Breves notas sobre como salvar o marxismo da realidade (1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Feb 2026 13:24:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Enquanto o mundo social insiste em se mover de forma imperfeita, contraditória e indisciplinada, a seita permanece intacta, satisfeita e correta.  Por Gabriel Teles]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Gabriel Teles</strong></h3>
<blockquote><p><strong>Nota:</strong> <em>Neste texto, não se trata de acusar coletivos específicos, muito menos de fazer ajustes de contas nominais. As situações descritas ao longo do texto são composições analíticas, construídas a partir de traços que se repetem com frequência suficiente para dispensar nomes próprios. Se alguém ou algum coletivo sentir que a descrição se encaixa com precisão excessiva, convém lembrar que a crítica não foi escrita sob encomenda. A carapuça circula, e não pede autorização antes de servir.</em></p>
<p><em>Quando a ironia aparece, ela não tem função ornamental. Serve para tensionar um pouco o tom de seriedade excessiva com que certos discursos se protegem de qualquer contestação. Afinal, nada indica vitalidade teórica com tanta clareza quanto a incapacidade de rir de si mesmo — especialmente quando essa incapacidade vem acompanhada de citações impecáveis.</em></p>
<p><em>Por fim, vale um esclarecimento final, talvez desnecessário: este ensaio não oferece soluções prontas, caminhos corretos ou garantias de sucesso. Ele se limita a apontar alguns problemas recorrentes e a sugerir que, antes de salvar o marxismo da realidade, talvez fosse o caso de verificar se não estamos apenas tentando salvar a nós mesmos do desconforto que ela provoca.</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Há coletivos políticos que desenvolveram uma forma muito peculiar de sobrevivência intelectual em tempos de refluxo histórico. Apresentam-se como guardiões de uma tradição revolucionária rigorosamente depurada, ao mesmo tempo em que organizam sua prática cotidiana em torno de um circuito fechado de textos, debates e intervenções que raramente ultrapassam os limites do próprio grupo. A chamada “luta cultural”, nesse contexto, adquire uma feição quase doméstica. Ela acontece em revistas lidas pelos mesmos autores que as escrevem, em eventos frequentados por quem já concorda previamente com as conclusões e em discussões internas cuja principal função é reafirmar pertencimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A coesão do grupo depende menos da relação com o mundo social do que da manutenção de uma fronteira simbólica rígida. O exterior aparece como ameaça difusa, povoada por marxistas imperfeitos, acadêmicos excessivamente contaminados, sujeitos teóricos ambíguos e politicamente limitados. A crítica, longe de operar como instrumento de esclarecimento, converte-se em mecanismo disciplinar. Nomear o desvio alheio torna-se uma forma de organizar o próprio campo interno, garantindo que cada um saiba exatamente onde pisa e o que pode ou não pensar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158661 size-full aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1.jpg" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Essa fronteira simbólica, uma vez erguida, passa a funcionar como o verdadeiro eixo organizador do coletivo. O pertencimento deixa de ser resultado de uma prática política compartilhada e passa a depender da adesão irrestrita a um léxico específico, a um repertório conceitual rigidamente codificado e a um conjunto de operações discursivas reconhecíveis. A militância, nesse registro, já não se mede pela capacidade de intervir em processos sociais concretos (mesmo que em âmbito intelectual), mas pela habilidade de repetir corretamente as fórmulas consagradas. O erro mais grave deixa de ser político e passa a ser semântico.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse ambiente, a divergência perde qualquer estatuto produtivo. Discordar não é entendido como parte do trabalho teórico ou da elaboração coletiva, mas como sinal de insuficiência intelectual ou, em casos mais “graves”, de falha moral. A crítica interna, quando existe, é cuidadosamente controlada para não abalar o edifício conceitual já estabilizado. Tudo o que ameaça introduzir complexidade excessiva, mediação histórica ou ambivalência prática é rapidamente neutralizado. A clareza, entendida como ausência de tensão, converte-se em valor supremo.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, o coletivo passa a operar segundo uma lógica de auto-observação permanente. Cada intervenção pública, cada texto, cada comentário é avaliado menos por seu impacto externo do que por sua conformidade interna. Fala-se olhando para os lados, atento às reações do próprio grupo, em um exercício constante de ajuste fino que garante reconhecimento e evita sanções simbólicas. O mundo social, com suas contradições e imprevisibilidades, torna-se um pano de fundo distante. O verdadeiro campo de batalha está dentro, na vigilância recíproca, na reafirmação cotidiana das fronteiras e na manutenção de uma coesão que se sustenta mais pela exclusão do que pela construção de algo comum.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa necessidade de pureza encontra sua expressão mais elaborada na invenção de uma linhagem marxista supostamente contínua, coerente e sem fissuras, que partiria de Marx e desembocaria, com surpreendente naturalidade, nas formulações contemporâneas do próprio coletivo. Trata-se de uma narrativa reconfortante, pois elimina o incômodo da disputa teórica, da contradição interna e dos impasses históricos que atravessaram o marxismo revolucionário desde sua origem. As grandes controvérsias, as rupturas políticas, os conflitos estratégicos e as divergências profundas que marcaram esse campo ao longo de décadas aparecem diluídas ou simplesmente apagadas, como se o marxismo tivesse caminhado serenamente em linha reta rumo à sua forma definitiva, agora finalmente alcançada.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa operação exige um esforço considerável de esquecimento seletivo. Afinal, reconhecer que o marxismo sempre foi um terreno de conflito teórico e político implicaria admitir que não existe uma posição exterior à disputa, um ponto arquimediano a partir do qual se possa julgar os outros com a tranquilidade de quem já chegou ao fim da história. Ao suprimir essas tensões, o coletivo preserva a imagem de uma tradição homogênea, da qual se apresenta como herdeiro legítimo e intérprete autorizado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158660 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930.jpg" alt="" width="736" height="915" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930.jpg 736w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930-241x300.jpg 241w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930-338x420.jpg 338w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930-640x796.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930-681x847.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 736px) 100vw, 736px" />O problema é que essa pureza teórica cobra seu preço. Os conceitos e categorias produzidas tendem a assumir um caráter marcadamente essencialista. Parte-se da convicção de que é possível atingir a essência dos fenômenos sociais de forma direta, rápida e definitiva. A essência, contudo, deixa de ser ponto de chegada de um movimento analítico que passa pelo concreto e retorna a ele enriquecido. Ela se transforma em ponto de partida, em chave explicativa total, aplicada sobre a realidade com notável indiferença às suas mediações, ambiguidades e contradições concretas.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é uma teoria que se julga profunda, mas que frequentemente se choca com a falta de concretude. Os conceitos são puros, elegantes, internamente coerentes. O mundo social, por sua vez, insiste em ser confuso, contraditório, atravessado por práticas imperfeitas e processos históricos que não pedem licença a essa teoria para acontecer. Diante desse descompasso, a escolha costuma ser previsível.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse ponto entram em cena os epígonos dos grandes teóricos do coletivo. Com devoção quase religiosa, dedicam-se a aplicar os esquemas conceituais herdados sobre situações concretas, como quem encaixa peças previamente moldadas. O procedimento lembra menos uma análise dialética do que um exercício classificatório de inspiração positivista. A realidade é observada apenas na medida em que confirma os conceitos. Quando resiste, é descartada. A teoria permanece intacta, protegida de qualquer contaminação pelo real.</p>
<p style="text-align: justify;">Politicamente, quando esses mesmos sujeitos ensaiam alguma iniciativa de ação, seja no local de trabalho, seja na relação com outros trabalhadores, o movimento costuma morrer no nascedouro. A pureza conceitual funciona como freio de emergência. Nada pode ser feito porque nada jamais estará à altura do modelo ideal. Qualquer iniciativa concreta é imediatamente rebaixada a obreirismo, praticismo ou ingenuidade política. A experiência viva das lutas é tratada como contaminação. O erro, como crime teórico.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, outros coletivos, parte do próprio bloco revolucionário, arriscam-se no terreno instável da prática, tentam, falham, recuam, recomeçam. É nesse momento que os guardiões da pureza entram em cena. Não para construir, mas para julgar. Observam à distância, braços cruzados, prontos para converter cada derrota, inevitável em qualquer processo real, em prova definitiva de que tinham razão desde o início. A crítica, assim, torna-se confortável, asséptica e moralmente superior. Nunca se compromete, nunca se expõe e, sobretudo, nunca precisa responder pelas consequências de sua própria impotência política.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158664 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/show-photo_3_f31d1c6a-eda2-462d-8473-a6fa306f0c93.jpg" alt="" width="400" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/show-photo_3_f31d1c6a-eda2-462d-8473-a6fa306f0c93.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/show-photo_3_f31d1c6a-eda2-462d-8473-a6fa306f0c93-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/show-photo_3_f31d1c6a-eda2-462d-8473-a6fa306f0c93-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Essa forma de pensar e agir se articula de maneira curiosamente harmoniosa com a relação do coletivo com a universidade. Embora o discurso assuma um tom ruidosamente antiacadêmico, o vínculo institucional é estrutural e incontornável. Não se trata de uma tática consciente de disputa dos espaços de trabalho e estudo, nem de uma estratégia de intervenção crítica “a partir de dentro”. O que está em jogo é dependência. É na universidade que se concentra o tempo social protegido para a elaboração de teorias totalizantes, o reconhecimento simbólico que sustenta hierarquias internas e os dispositivos formais de legitimação que asseguram a circulação do discurso. A crítica à universidade, nesse contexto, opera como retórica de distinção, não como prática de enfrentamento. Ela consolida uma identidade sem jamais ameaçar as bases materiais de sua própria reprodução.</p>
<p style="text-align: justify;">Em alguns casos, essa contradição torna-se ainda mais explícita. Há quem vocifere contra a universidade enquanto constrói toda a sua trajetória no interior dela. Bolsas, projetos financiados, orientações de mestrado e doutorado oferecidas por membros do próprio coletivo já estabilizados institucionalmente compõem o percurso. Forma-se, assim, um circuito fechado, um verdadeiro trampolim acadêmico, no qual o anti-academicismo não expressa conflito, mas funcionalidade. Não se trata de ocupar o espaço para tensioná-lo, nem de extrair recursos para devolvê-los à luta social. Trata-se de converter a negação discursiva da universidade em capital simbólico e trajetória profissional. A crítica, nesse ponto, perde qualquer sentido de risco ou ruptura e se transforma em rotina, em meio de vida, em gestão calculada da própria inserção acadêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida interna do coletivo completa esse quadro com um mecanismo disciplinar particularmente eficiente. Quem decide sair não simplesmente se afasta. É expurgado. A saída é reinterpretada como prova retrospectiva de falha moral, teórica ou política. Passa-se a falar mal do dissidente com método e insistência, não por ressentimento individual (se bem que também pode o ser), mas como estratégia coletiva de coesão. O ex-membro converte-se em exemplo negativo, em advertência silenciosa dirigida aos que permanecem. A mensagem é clara. Fora do grupo há confusão. Dentro dele, clareza e rigor.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso produz uma cena final que beira o cômico, na medida em que revela, sem disfarces, a posição histórica desse coletivo. Em um cenário real de intensificação da luta de classes, com trabalhadores organizando-se de forma contraditória, inventiva e historicamente situada, esse coletivo provavelmente se encontraria em posição de espera. Observando, avaliando, classificando. Talvez reconhecesse a existência do conflito, mas dificilmente o consideraria à altura do tipo ideal revolucionário cuidadosamente elaborado em seus textos. A história avançaria sem seguir o roteiro esperado, e isso seria, aos seus olhos, um erro grave.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim, o que se apresenta como radicalidade extrema revela-se uma forma refinada de autopreservação simbólica. O marxismo vira adereço, a política se estetiza, a revolução se adia indefinidamente. E o coletivo, protegido em sua fortaleza discursiva, segue convencido de que está à frente do tempo… mesmo quando já ficou, há muito, falando sozinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse isolamento progressivo costuma ser interpretado internamente como prova de coerência histórica. O fato de quase ninguém escutar, dialogar ou responder é convertido em sinal de que a crítica é dura demais, verdadeira demais, radical demais para um mundo supostamente incapaz de compreendê-la. O fracasso em comunicar deixa de ser um problema político e passa a ser apresentado como virtude ética. Quanto menor o público, maior a convicção de que se está certo. A marginalidade, longe de gerar inquietação, reforça a sensação de eleição.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o tempo, essa postura produz uma relação curiosa com a própria história. O coletivo passa a se imaginar sempre adiantado, sempre à frente de processos que ainda não se realizaram e que, quando finalmente se realizam, já não correspondem ao modelo ideal cuidadosamente elaborado. O presente aparece apenas como atraso. O passado, como erro. O futuro, como promessa eternamente adiada. A política real, situada no tempo histórico concreto, torna-se um inconveniente permanente, pois insiste em se mover sem obedecer às expectativas teóricas previamente fixadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse deslocamento tem efeitos subjetivos claros. A militância se transforma em vigilância, o engajamento em observação crítica à distância, a intervenção em comentário permanente. O esforço de transformação cede lugar ao conforto da análise correta. A satisfação não vem de alterar relações sociais, mas de reconhecer, antes dos outros, por que elas não poderiam ter sido alteradas daquela maneira. A derrota alheia confirma a inteligência própria. O erro do mundo reafirma a superioridade da sua teoria.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158663" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14.jpg" alt="" width="900" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14-300x233.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14-768x597.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14-540x420.jpg 540w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14-640x498.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14-681x530.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />Ao final, resta um coletivo que se conserva com zelo, mesmo quando tudo ao redor se move. A radicalidade, esvaziada de risco, converte-se em postura. A crítica, privada de mediação, transforma-se em ornamento. A revolução permanece intacta justamente porque nunca é testada. Convencido de habitar um ponto avançado da história, o grupo passa a falar sobretudo consigo mesmo, enquanto o tempo social avança por outros caminhos, carregando contradições, improvisações e conflitos que jamais caberão em suas categorias puras, ainda que sigam acontecendo, com ou sem sua autorização teórica.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada disso, contudo, tem a ver com coerência política, firmeza de convicções ou recusa do ecletismo oportunista. Ser consequente é outra coisa. O que se descreve aqui não é rigor, mas fechamento. Não é radicalidade, mas imunização. Não é crítica intransigente, mas autopreservação doutrinária. O nome disso é mais simples e menos nobre: sectarismo. Um sectarismo estéril, que confunde isolamento com profundidade e pretensa pureza teórica com superioridade histórica. Uma seita, no sentido estrito do termo, organizada menos para intervir no mundo do que para confirmar continuamente a si mesma. Seus rituais são previsíveis, suas fronteiras bem policiadas, suas verdades imunes à experiência. Tudo o que vem de fora é erro. Tudo o que “dá errado” do lado de fora é prova.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, enquanto o mundo social insiste em se mover de forma imperfeita, contraditória e indisciplinada, a seita permanece intacta, satisfeita e correta. Não transforma nada, não se arrisca a nada, mas conserva com zelo aquilo que mais importa: a certeza de estar certa. Afinal, poucas coisas são tão reconfortantes quanto uma revolução que nunca acontece, uma prática que nunca começa e uma teoria que, justamente por isso, jamais pode falhar.</p>
<blockquote><p>Leia, <a href="https://passapalavra.info/2026/02/158693/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>,  a segunda parte do artigo.</p></blockquote>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Joaquín Torres Garcia.</em></p>
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		<title>Sharenting: um perigo da tecnologia em família</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2026 13:48:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[É importante refletir sobre a real necessidade de cada publicação: ela beneficia a criança ou atende principalmente ao desejo de validação social dos adultos?  Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana</h3>
<div class="level2" style="text-align: justify;">
<p>É muito bom reunir família e amigos para criar e relembrar momentos, conversar, ver vídeos e fotos, porém com o avanço das redes sociais e das tecnologias digitais, a forma como as famílias registram e compartilham momentos da vida cotidiana mudou bastante. Fotografias que antes ficavam restritas a álbuns físicos agora circulam instantaneamente por plataformas digitais. Nesse contexto surge o fenômeno conhecido como <em>sharenting</em> — termo derivado da junção de <em>sharing</em> (compartilhar) e <em>parenting</em> (parentalidade) — que descreve o hábito de publicar conteúdos envolvendo crianças e adolescentes na internet, geralmente por seus próprios responsáveis.</p>
<p>À primeira vista, o <em>sharenting</em> parece uma prática inofensiva. Pais e mães compartilham conquistas escolares, aniversários, primeiros passos ou situações engraçadas como forma de celebrar o crescimento dos filhos e manter vínculos sociais com amigos e familiares. Para muitos, essas publicações representam uma extensão natural do afeto, funcionando como um diário digital da infância. Além disso, as redes oferecem facilidades a essa troca de experiências e sensação de pertencimento, pois são projetadas e planejadas para reter os usuários em suas diversas formas de relações sociais.</p>
<p>No entanto, apesar de suas motivações positivas, o <em>sharenting</em> levanta questões éticas, jurídicas e psicológicas relevantes. Um dos principais pontos de debate diz respeito à privacidade infantil. Crianças pequenas não possuem maturidade para compreender as implicações de longo prazo da exposição digital, tampouco podem consentir de forma informada sobre a divulgação de sua imagem e de dados pessoais. Assim, decisões tomadas hoje pelos adultos podem afetar diretamente a vida dessas crianças no futuro.</p>
<p>A chamada “pegada digital” começa a ser construída muito antes de o indivíduo ter consciência dela. Fotos, vídeos e relatos permanecem armazenados em servidores, que podem ser replicados por terceiros e, em muitos casos, tornam-se praticamente impossíveis de remover completamente da Internet. Esse histórico digital pode influenciar relações sociais, oportunidades profissionais e até a autoestima na vida adulta. Situações embaraçosas, problemas de saúde ou dificuldades escolares, quando expostos publicamente, podem gerar constrangimentos duradouros.</p>
<p>Outro aspecto preocupante é o uso indevido dessas informações. Imagens de crianças podem ser apropriadas por desconhecidos, utilizadas fora de contexto ou até mesmo exploradas em ambientes inadequados. Além disso, a publicação frequente de rotinas, locais visitados e detalhes pessoais pode facilitar práticas como engenharia social, golpes ou assédio. Em um cenário de crescente sofisticação tecnológica, inclusive com o avanço de <em>deepfakes</em> e clonagem de voz, qualquer material compartilhado amplia as probabilidades de risco; vide as ferramentas de Inteligência Artificial que estão trocando as roupas de mulheres por peças íntimas e até nus sem autorização.</p>
<p>Do ponto de vista psicológico, o <em>sharenting</em> também pode impactar o desenvolvimento da identidade infantil. À medida que crescem, crianças e adolescentes podem sentir que sua história foi construída publicamente sem sua participação. Isso pode gerar conflitos familiares, sensação de perda de controle sobre da própria imagem e dificuldades na construção da autonomia. Para alguns jovens, descobrir que momentos íntimos foram amplamente divulgados pode provocar sentimentos de vergonha ou traição.</p>
<p>No Brasil, o debate ganha contornos específicos à luz do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Ambas reconhecem a criança como sujeito de direitos, incluindo o direito à privacidade e à proteção de dados pessoais. Embora ainda haja lacunas na aplicação prática dessas normas ao <em>sharenting</em> cotidiano, cresce o entendimento de que responsáveis devem agir sempre considerando o melhor interesse da criança, mesmo quando se trata de postagens aparentemente banais.</p>
<p>Isso não significa que toda forma de compartilhamento seja prejudicial ou deva ser proibida. O ponto central está no equilíbrio e na responsabilidade. Algumas práticas podem ajudar a reduzir riscos, como evitar a divulgação de informações sensíveis, limitar o alcance das publicações, não expor situações constrangedoras e, sempre que possível, envolver crianças maiores na decisão sobre o que será postado. Também é importante refletir sobre a real necessidade de cada publicação: ela beneficia a criança ou atende principalmente ao desejo de validação social dos adultos?</p>
<p>Educar para o uso consciente das redes é parte essencial desse processo. Pais e responsáveis são modelos de comportamento digital, e suas atitudes influenciam diretamente como crianças irão se relacionar com a tecnologia no futuro.</p>
<p>Em resumo, o <em>sharenting</em> é um fenômeno complexo, situado entre o afeto familiar e os desafios da era digital. Embora seja motivado, em grande parte, por amor e orgulho, ele exige reflexão sobre limites, consentimento e consequências de longo prazo. Diante desse cenário algo radical precisa ser proposto:</p>
<ul>
<li class="li">encerre todos os compartilhamentos colocando todos os conteúdos no modo privado de cada rede social;</li>
<li class="li">mostre fotos e vídeos nos encontros presenciais através de celular, <em>tablet</em> ou TVs (alguns modelos <em>smart</em> aceitam compartilhamento de tela do celular);</li>
<li class="li">se decidirem conscientemente fazer um grupo com a família para compartilhar momentos da criança, faça em aplicativos com criptografia ponta-a-ponta e configure a opção de conteúdo efêmero que apague automaticamente em até uma semana &#8211; não use redes sociais.</li>
</ul>
<p>As plataformas digitais sempre trarão ferramentas que facilitem seus usos para capturar nosso cotidiano e encher suas bases de dados com informações que possam ser analisadas e vendidas, exigindo de nós um certo comportamento anti-modernidade usando aparelhos sofisticados como um álbum em papel em encontros presenciais. O lado bom é que teremos que fazer mais esforço em nos encontrarmos fora do meio digital e trocar o compartilhamento de memes por risadas presenciais.</p>
<p>Boas reuniões a todos!</p>
</div>
<div class="footnotes">
<div class="fn" style="text-align: justify;"><strong><em>Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</em></strong></div>
</div>
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		<title>Terapia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 Jan 2026 19:22:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Não fazia terapia porque achava que isso é coisa de quem tem a cabeça fraca. Algum tempo depois, pôs fim a uma relação seguindo instruções do Chat GPT. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Não fazia terapia porque achava que isso é coisa de quem tem a cabeça fraca. Algum tempo depois, pôs fim a uma relação seguindo instruções do Chat GPT. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>A escola continua conservadora</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jan 2026 13:51:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[O que se exige na escola, onde se define o futuro daquelas crianças, não são os conhecimentos, as disposições típicas das classes mais despossuídas, são as das frações mais cultas, mais ricas em capital cultural. Por Luís]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Luís</h3>
<p style="text-align: justify;">Este texto não pretende ser meramente biográfico ou um apanhado de experiências individuais, porém, pelo menos para mim, a partir de um determinado momento da vida, conhecer as palavras é um meio para se autoconhecer — e esse autoconhecimento envolve também o conhecer o outro, o mundo que te cerca e se reconhecer como parte de um todo. Portanto, acredito ser útil trazer um pouco da minha vivência aqui, afinal, sem ela sequer haveria o tal “conteúdo” do texto. Este texto que é, na verdade, não muito mais do que uma forma de sintetizar o que pensei ao longo desse tempo e abrir espaço para a discussão, além de, claro, trazer uma crítica comprometida.</p>
<p style="text-align: justify;">O caminho do autoconhecer pelo saber é satisfatório: o “difícil” — os textos densos, os conceitos, as reflexões e os demais obstáculos desse caminho nebuloso — fica mais leve quando a tarefa faz sentido. Apesar do meu interesse, sempre me senti apartado disso que chamam “conhecimento”. Aliás, não só me sentia como objetivamente estava. Mas, se eu frequentava a escola, como poderia afirmar que estava “objetivamente” apartado?…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Acreditar na Ciência: Por quê?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Bem, nos últimos anos muitos tem falado em “acreditar na ciência”, especialmente na pandemia, tendo em vista as ações do à época presidente do Brasil e de seu grupo de apoiadores, que demonstravam hostilidade em relação à “ciência”. Isso, em um contexto de emergência onde milhões de pessoas temiam pelas suas vidas e a de seus entes queridos, inflamou especialmente os ânimos dos defensores do discurso científico. “Como pode?! Achar que a opinião refuta o estudo, dar menos credibilidade a um especialista do que a alguém que não conhece nada do assunto?”. Mas essa indignação, apesar de legítima, não percebe que o problema não tem necessariamente relação com a inteligência ou com o bom-senso dos indivíduos. Tem a ver, sim, com o privilégio — podemos chamar de privilégio — do contato mais íntimo com o campo científico que, ao que parece, constitui normalidade, via de regra, apenas a partir das frações mais ricas em capital cultural da classe-média urbana. Ora, quando se tem contato com as fontes primárias, com o rigor dos trabalhos, dos dados, métodos, quando se está incluído no mundo da produção de conhecimento, se entende a profundidade dele e reconhece a seriedade do que é verdadeiramente científico, confiar nos seus pares, ainda que de outras áreas, como da biologia, da química ou da medicina — ainda mais em uma situação alarmante e tendo em vista que, entre os agentes que atuam no campo científico, a vacina representa um <em>consenso</em> — é o que se espera. Porém, a relação das escolas públicas brasileiras — onde estão as massas — não é de integração no mundo científico, mas de submissão distante: o “consenso científico” é transmitido como uma informação rasa, ou seja, sem o desenvolvimento e comprovação da veracidade, ou melhor, da probabilidade da veracidade daquilo que está sendo transmitido (como se se soubesse da existência de uma civilização na Mesopotâmia porque Deus disse que existe). Geralmente, em sala de aula, se confia na informação com base na <em>autoridade</em> de quem está transmitindo (“ele é o professor”). Essa autoridade se baseia não na confiança nessa figura como representante do meio científico: os alunos, em sua maioria, não possuem familiaridade alguma com a universidade. Dando um exemplo pessoal, durante o fundamental, a maior parte dos alunos não cogitavam fazer alguma faculdade, muito menos pública — como uma USP ou, do jeito que a gente lia, “U-S-P” — e a ideia que se tinha da universidade era muito mais fruto de especulação imaginativa do que qualquer outra coisa e, claro, o <em>negócio </em>era <em>largar a escola e ir ganhar um dinheiro</em>. A fonte da autoridade de que dispunha professor era a visão que se tinha dele como um grandioso acumulador de informação, assim como os ditos “inteligentes” da sala. Se a função desse profissional é servir ao “currículo escolar”, de que serve a sua qualificação? Talvez por isso, por muito tempo tenha tido pouca importância que parte dos corpos docentes não tivesse formação adequada e hoje não tem importância alguma que alguém formado em educação física “ensine” geografia, por exemplo. Na verdade, talvez fosse mais fácil colocar um palhaço ou animador qualquer para seguir o currículo: assim as crianças poderiam ficar mais interessadas e melhorar os índices de acúmulo de informação, ou “educação”.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158504" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/588618382_18189676843339783_6551467291672555647_n-1.jpg" alt="" width="1253" height="1475" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/588618382_18189676843339783_6551467291672555647_n-1.jpg 1253w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/588618382_18189676843339783_6551467291672555647_n-1-255x300.jpg 255w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/588618382_18189676843339783_6551467291672555647_n-1-870x1024.jpg 870w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/588618382_18189676843339783_6551467291672555647_n-1-768x904.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/588618382_18189676843339783_6551467291672555647_n-1-357x420.jpg 357w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/588618382_18189676843339783_6551467291672555647_n-1-640x753.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/588618382_18189676843339783_6551467291672555647_n-1-681x802.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/588618382_18189676843339783_6551467291672555647_n-1-341x400.jpg 341w" sizes="auto, (max-width: 1253px) 100vw, 1253px" />A forma como “esclarecidos” se portam também não ajuda, sempre tendendo a alguma espécie de dirigismo para com a classe trabalhadora e apostando no que Paulo Freire chama de “educação bancária” não só em sala de aula, mas até quando pretende atuar politicamente, em suas ações “humanitárias”, como por exemplo naquelas palestras feitas em escolas, onde os setores mais cultos se assentam na sua <em>aura</em> para falarem sobre questões “humanas” com as criancinhas de até 18 anos de idade — todas sentadas e ouvindo passivamente a palavra dos mestres, o que é um dos elementos que constituem essa <em>aura</em>. Os garotos já estão bem acostumados com esse tipo de educação baseada no constrangimento dentro do ambiente doméstico, e, como se vê, essa criação “a pancadas” têm principalmente o efeito de distância: a mãe bate no filho para que ele não faça isso ou aquilo, ele não reflete sobre sua ação, mas se distancia da mãe e toma cuidado para fazer escondido; nisso, muitas vezes, o filho encontra conforto e a autoestima em “guetos” onde encontra o espaço para liberar o que está reprimido, e aí, dizem, é o começo de sua ruína; porém, se pensarmos bem, é somente a sua consumação. Hoje, quem assume o papel da má-influência é a extrema direita: não precisa agregar, “mudar o mundo” objetivamente como promete, mas oferece autoestima e conforto psicológico — e isso já é mais que o suficiente… Bolsonaro é como bandido que surgiu da negligência e destrói tudo pela frente, na sua desastrosa atuação durante a pandemia, sem fazer distinção de classe social (na pandemia, não sempre, é claro…). Emerge como os personagens de “Isso Aqui É Uma Guerra”, do Facção Central, porém dessa vez a simples censura não é o suficiente para livrar a consciência da “madame” em quem eles miram. A música (que, novamente, não faz apologia ao crime e nem serve de apoio a alguém como Bolsonaro) nos lembra que é cômodo achar um único culpado pela tragédia — ainda que este tenha a sua parcela de responsabilidade — sem analisar o contexto social, a totalidade e ver o indivíduo como um sintoma maior do que deu errado na educação e pensar, a partir disso, uma saída. São muitas mãos sujas de sangue, será que elas podem se reconhecer assim e lutar para que menos sangue escorra no futuro? Ou a arrogância e o comodismo falarão mais alto novamente? Bem, talvez não seja arrogância nem comodismo: o racismo e o “racismo de classe” dessas classes pode ter mais a ver com o distanciamento no espaço social e pela sua recusa em ter experiências com as outras classes, se bem que realmente pode ser muito para seus estômagos — e isso não é uma distinção moral.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo, se a única fonte de “conhecimento” que está à vista de boa parte da classe trabalhadora é a versão que dá A ou B sobre os fatos, tudo vira opinião. Nada diferencia o que um especialista diz do que um canal conspiracionista cria, são somente duas versões e você escolhe a sua verdade. Apelar para que se acredite na ciência sem dar motivos para isso é apelar à fé: ter certeza daquilo que não se vê. Nisso, a versão escolhida provavelmente será a de quem melhor conseguir agradar psicologicamente, jogar o jogo da propaganda, quem tem a “lábia”. E nós sabemos que quem sabe seduzir, hoje, é a extrema-direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Segregação Escolar</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Desde bastante jovem, fui considerado um “bom aluno”, mas isso não teve o impacto em mim que costumava ter nas outras crianças. Muito porque eu percebia que isso não tinha bem a ver com “inteligência” e, principalmente, com esforço ou mérito. Eu não era esforçado e nem me sentia muito diferente dos meus outros colegas, fazer bem as atividades que me eram propostas era natural, fluía, sem precisar fazer força e, por isso, não entendia bem o motivo dos elogios, dos carinhos que recebia dos adultos: parecia (e era) algo muito desproporcional. Também não é pelo fato de outros colegas terem mais dificuldade ou menos <em>disposição </em>para aquelas tarefas que eram propostas ou até mesmo para o “bom comportamento” em sala de aula que eles mereceriam um tratamento tão ruim e repreensões tão severas. Será que há motivo para gritar tanto com uma criança, chamar de “burro”, “palhaço”, “capeta”…? Havia algo errado aí.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos poucos ia conseguindo perceber algumas arbitrariedades, mesmo dentro desse contexto de escola pública municipal ou estadual do interior, onde se pode pensar erroneamente haver uma grande homogeneidade internamente, o que não ocorre. As escolas onde estive separavam as salas de “bons” e “maus” alunos, com base em nota e comportamento, e aos poucos era possível perceber que, para além do critério do comportamento, havia algo a mais implícito — e que era implícito até mesmo para quem fazia essas escolhas, antes que isso pareça um julgamento sobre o caráter dos professores ou demais profissionais da escola; não que eles sejam intocáveis… —, as salas de “bons alunos” geralmente tinham mais crianças brancas, com arranjo familiar mais ou menos estável, uma renda razoável (2 &#8211; 5 salários mínimos) ou, em, alguns casos, até consideravelmente acima da média, como no caso de filhos de pequenos/médios empresários. Enquanto isso, as salas dos “maus alunos” tinham mais negros, pessoas com renda, em média, mais baixa, e um arranjo familiar bem menos organizado e mais problemático. Isso se tornou ainda mais escandaloso quando ingressei em um Instituto Federal. A essa altura eu já havia entrado em contato com algumas leituras que me deram uma compreensão melhor do assunto, notavelmente Bourdieu, que estudei muito durante meu primeiro ano. O que eu já esperava era que lidaria com um perfil bastante diferente do que costumava lidar no primeiro ano, e, de fato, havia muito mais brancos, quase todos tinham nomes “estranhos” e um apego ao “nome da família” — aliás, achei interessante conviver com esse pessoal com o sobrenome cheio de consoantes: para eles, a família é uma estrutura, ela compartilha um patrimônio em comum, regras, costumes, um “nome” além das letras… Isso nunca foi assim para mim, meus familiares são só indivíduos aleatórios com quem eu tenho alguma consanguinidade; somos bastardos do Brasil —, ser oriundo de escola particular era algo normal, as cifras eram mais altas nas conversas de corredor, alguns gastavam mais de R$1000 numa noite, pagavam muito mais do que a renda da maior parte das casas no Brasil em diversões… era diferente, enfim.</p>
<p style="text-align: justify;">50% das vagas de lá eram destinadas à ampla concorrência e 50% eram para cotistas — escola pública, renda, raça. Parando para pensar, já é absurdo que aqui, na chamada democracia, a metade das vagas (AC) seja destinada a indivíduos que fazem parte de um recorte que talvez represente não muito mais do que os 20-15% mais privilegiados do país. Quanto às vagas destinadas às cotas, bem… Primeiramente, vários, se não a maioria dos autodeclarados pretos e pardos não eram vistos e nem se consideravam como negros. Na minha turma, no primeiro ano, os negros reprovaram mais que os brancos (uns 40% mais, inclusive), inclusive dois amigos próximos que eu tive ali. Eu já sabia que as coisas iam além daquela velha aparência da preguiça, do descomprometimento e da falta de inteligência, e vê-los sendo moídos pela máquina doeu, doeu muito. Logo nesses tempos o onde fracasso escolar é quase sinônimo de fracasso social.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158506" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/559228721_18529222393018347_4999180276022242983_n.jpg" alt="" width="1440" height="1219" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/559228721_18529222393018347_4999180276022242983_n.jpg 1440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/559228721_18529222393018347_4999180276022242983_n-300x254.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/559228721_18529222393018347_4999180276022242983_n-1024x867.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/559228721_18529222393018347_4999180276022242983_n-768x650.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/559228721_18529222393018347_4999180276022242983_n-496x420.jpg 496w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/559228721_18529222393018347_4999180276022242983_n-640x542.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/559228721_18529222393018347_4999180276022242983_n-681x576.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1440px) 100vw, 1440px" />Indo mais no cerne do problema e deixando, por hora, minha experiência: esse tipo de “ensino” mecânico, alienado, do qual já falei anteriormente, por mais defeituoso que seja, ainda consegue despertar o mínimo de interesse daqueles que possuem alguns dos privilégios de classe necessários para que se obtenha um bom desempenho escolar e, consequentemente, um futuro melhor. Muitos costumam se esquecer, mas, para um bom desenvolvimento escolar, são feitas muitas exigências, explícitas ou não: espera-se que o aluno possua a capacidade de se concentrar nas atividades, maior facilidade em abrir mão dos prazeres mais imediatos para a realização destas e para um comportamento mais calmo e dócil — disposições ascéticas, autocontrole. Para parte dos “pobres remediados”, frações mais ricas em capital cultural das classes médias e acima, essas habilidades parecem naturais, quando tudo isso é adquirido. São disposições e privilégios internalizados com base nas condições de existência de cada um. Não se fala em <em>capital</em> cultural atoa. O capital cultural é um <em><strong>ativo</strong></em>: são disposições como as que citamos anteriormente, conhecimentos, habilidades, e até posses culturais e uma relação específica com elas que são valorizadas socialmente, que geram ganhos materiais e simbólicos. O que se exige na escola, onde se define o futuro daquelas crianças, não são os conhecimentos, as disposições típicas das classes mais despossuídas, são as das frações mais cultas, mais <em>ricas</em> em capital cultural. É o contato com as letras transmitida dentro do ambiente doméstico, o que quase não acontece com os mais pobres, uma educação dada em um contexto de menos urgência, perigo e risco, o que, no Brasil, é um privilégio tanto econômico quanto local, o desenvolvimento de uma linguagem “culta”… Isso é capital, e é capital na medida em que o que as instituições, as empresas e tudo mais que importa na sociedade exige é <em>isso</em>, e isso é arbitrário. São privilégios que dificilmente alguém “de fora” de um círculo específico consegue, que é transmitido como herança, assim como as posses econômicas, que podem estar monopolizadas por uma classe e distanciadas de outra; no caso da escola, é o que Bourdieu chama de arbitrário cultural. Grande parte dessas formulações do francês, como o próprio conceito de capital cultural, veio da necessidade de explicar as desigualdades que se viam também na escola, mesmo em sua aparência de neutralidade, ainda mais onde começava a se pensar em ascender socialmente através do estudo — uma pena que, por conta de tudo isso e do mal-estar que a escola gera, os jovens estejam parando de pensar em uma saída através do estudo e apostar mais em caminhos “baratos”, em promessas de enriquecimento fácil; não é que seja burrice, se nossa vida fosse boa, o escapismo não seria tão vendável: e se é vendável é porque também é lucrativo para alguém…</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, na aparência “neutra” da escola, ela não somente contribui para a desigualdade como a legitima, a culpa é sempre direcionada ao indivíduo e assim aparece, tanto para o próprio quanto para seus pares. Em resumo, por mais que a educação se coloque como “neutra”, como aquela que serve a todos sem discriminação, no fundo legitimando um discurso meritocrático que não serve para outra coisa senão para mascarar os privilégios de classe, como, por exemplo, a transmissão do pensamento prospectivo, do autocontrole e de algumas outras habilidades mais específicas relacionadas, por exemplo, à leitura e à escrita e à familiaridade com a tecnologia, que farão com que os alunos das classes mais bem servidas saiam na frente na corrida escolar e cheguem de antemão como “vencedores” na escola, e também dissimula as desvantagens de classe que outros alunos levam de casa, fazendo com que estes já cheguem estigmatizados na escola, sem muitas das disposições exigidas explicitamente ou não pela instituição escolar [ler <em>A Ralé Brasileira</em>, de Jessé Souza]. São os “capetinhas”, os “burros” e os “preguiçosos” que, vítimas de condições degradantes, ou simplesmente de um ambiente que, mesmo com maior ou menor conforto econômico, não tem grande capital cultural — como, ao que parece, ocorre bastante com filhos de pessoas que ascenderam recentemente ou oriundas de ambientes rurais — desenvolvem um <em>habitus </em>que não se adapta bem ao modelo educacional tradicional; estes chegam na escola já vencidos. Essa é a injustiça social que relega ao fracasso um mar de pessoas que, culpabilizadas pelo seu mau desempenho socialmente produzido, adquirirão quiçá o conhecimento necessário para possuírem alguma profissão desvalorizada que exige pouco do “conhecimento” (se é que pode ser assim chamado) mecânico e alienado que se é aprendido na escola, como a matemática básica e a alfabetização. É isso que divide aquelas salas de aulas entre “bons” e “maus” alunos, como fala Bourdieu, em entrevista a Maria Andréa Loyola: <a class="urlextern" title="https://youtu.be/-u2lXGYppec?si=sI-OMi66QU6x338n" href="https://youtu.be/-u2lXGYppec?si=sI-OMi66QU6x338n" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">&#8220;A escola dirá que uma criança é boa em matemática sem ver que há 5 matemáticos em sua árvore genealógica. Ou então diz que é ruim em línguas, sem ver que vem de um meio de imigrantes”</a>: A gramática com a qual a educação fala é a gramática da falsa neutralidade, da superficialidade e da meritocracia, que contamina tanto os docentes quanto os alunos, que identificam os “inteligentes e comportados”, sem identificar que, por trás deles, há, quase sempre, uma razoável educação familiar, boas condições materiais e tudo o que proporciona a produção de um <em>habitus</em> adequado ao sucesso escolar e profissional. Uma provocação útil para se deixar claro que a educação, definitivamente, não é neutra, e, de fato, serve como um aparelho para reproduzir as desigualdades sociais, pode ser exemplificada quando Mariana Mandelli, se baseando em alguns artigos, coloca que <a class="urlextern" title="https://www.geledes.org.br/fracasso-escolar-e-mais-recorrente-entre-alunos-negros/" href="https://www.geledes.org.br/fracasso-escolar-e-mais-recorrente-entre-alunos-negros/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“entre as crianças autodeclaradas pretas, 43% já tiveram algum tipo de fracasso escolar – entre as que se dizem brancas, essa taxa é de 27%[dentro da mesma classe social]”.</a> Ora, a partir disto, podemos chegar a duas conclusões: Ou a escola não é neutra, e acaba reproduzindo algumas das desigualdades sociais (como o racismo que, além de uma questão que diz respeito ao preconceito e ao caráter individual, diz respeito também — e principalmente, no caso brasileiro — à classe e à desigualdade), ou a escola é neutra e devemos explicar essa desigualdade entre os pretos e brancos a partir de teorias racistas, à maneira das teorias pseudocientíficas eugenistas do século XIX, o que, claro, não é uma alternativa. Mesmo assim, é difícil convencer os outros quando, pelo mundo todo, se acredita no “livre-arbítrio” e estamos falando, aqui, de bens que são incorporados. Ah, o livre-arbítrio, que nos dá a liberdade e a responsabilidade sobre nossas escolhas: e depois de todos usarem a sua liberdade, as coisas ficam exatamente como já se espera que elas estejam. É muita liberdade para um mundo tão previsível, que pode ser desvelado…</p>
<p style="text-align: justify;">Os defensores irreflexivos da ideologia meritocrática — e na maioria das vezes eles nem sequer percebem que o são, ou pensam se opor a ela — e os grandes canais de mídia que vendem a mesma, adoram recorrer às exceções, dissimulando o fato de serem, obviamente, <em>exceções</em> à regra. Algum determinado indivíduo que, por algum motivo, ascendeu socialmente de uma classe mais despossuída por conta de alguma habilidade excepcional (como se houvesse algum mérito nisso), por meio do estudo intensivo ou por quaisquer outros meios que, inclusive, não são necessários e/ou não exigem o mesmo esforço de pessoas das classes médias e altas para que galguem a mesma posição — sem que isso nunca seja utilizado para desvalorizá-las. As exceções não devem, jamais, servir como “régua” para os demais sujeitos pertencentes à mesma classe de origem, e exigir o mesmo desempenho de um sujeito com base na trajetória excepcional de outro seria digno de ser chamado de cínico não fosse a inconsciência com que atuam os agentes envolvidos nisso — e este texto não se propõe a julgar o caráter destes. É como se passassem a exigir aos alunos da classe média que escrevessem poemas como Carlos Drummond de Andrade ou prosperassem financeiramente como Silvio Santos, apenas porque partiram de condições sociais semelhantes. Curiosamente, esse sadismo dos defensores, conscientes ou inconscientes, da meritocracia, parece ter escolhido os pobres como algoz preferido.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os Guetos</strong></p>
<p style="text-align: right;"><em>Mas deixa o destino, deixa o acaso<br />
</em><em>(Tudo é pra sempre agora)<br />
Já que nada passa mais<br />
E tudo passa rápido<br />
Deixa o passado por hora<br />
(Tudo é pra sempre agora)<br />
Já que cê não vai ficar<br />
E o que vai ser agora<br />
(Tudo é pra sempre agora)<br />
Vai ficar pra sempre<br />
Na memória<br />
(Flash)<br />
(Tudo é pra sempre agora)</em></p>
<p style="text-align: right;">Tudo É Pra Sempre Agora; Don L &amp; Luiza de Alexandre</p>
<p style="text-align: justify;">Para além de questões relacionadas aos privilégios de classe que conseguem mais facilmente aparecer nas pesquisas, o fator das experiências traumática pelas quais se pode passar tanto dentro do ambiente doméstico como na “rua” ou com outros familiares, com certeza afetam, também, no desempenho escolar, especialmente os mais graves e, além de boa parte da população ser vulnerável a vários tipos de abuso, eles, muitas vezes, permanecem ocultos, em segredo e não são tratados como devem, pela falta de conhecimento ou acesso aos serviços ou mesmo por outras questões, o que relega casos de estupro, violência doméstica e outros tantos aos <em>guetos</em>, guetos que não são só locais, que se tornam simbólicos, corporais, como se a marginalidade fosse quase um estado de espírito, um jeito de se existir no mundo — e tudo isso também é <em>habitus. “Só quem é de lá sabe o que acontece” … </em>Fato é que a escola poderia, tanto oferecer um outro ponto de vista sobre situações nefastas pelas quais passam os alunos sem que, dentro do lar ou de sua comunidade mais próxima, se tenha qualquer acesso à crítica, o que de fato ocorre, como quando as crianças percebem, através das aulas, estarem sofrendo algum tipo de abuso, principalmente sexual, e reportam esses casos. Criticar não é fácil, menos ainda quando se está preso às regras de um cosmo, quando não se conhece nada fora desse universo em particular: tudo parece <em>dado</em>, até mesmo o incômodo. Um grande serviço que a escola poderia prestar seria o de ser essa abertura, uma porta para que se conheça outras realidades, para a sensibilidade — um antídoto à estereotipia que fez, faz e ainda há de fazer muito mal ao mundo nessa alienação em relação ao outro, nesse não-envolvimento — tanto para docentes e discentes: se bem que não gosto dessa separação, preferiria que houvesse <em>educadores-educandos</em> e <em>educandos-educadores</em>, como propõe Paulo Freire. Claro, não é tudo responsabilidade dos professores, para um bom desenvolvimento disso que está sendo proposto também é necessário que se haja, estrutura, apoio…, é humanamente impossível <em>cuidar</em>, verdadeiramente, de várias turmas, cada uma com mais de 40 alunos, quando se trabalha numa jornada exaustiva para que se consiga ter uma renda minimamente razoável, como é o caso de várias e vários profissionais na escola pública municipal e estadual, em especial quando quase nenhum desses alunos quer estar ali e seu comportamento não costuma ser dos mais adequados, partindo até mesmo para formas explícitas de desrespeito. Porém, acredito que o papel dessa figura é extremamente subestimado e que vários desses problemas também deveriam ser tratados no interior da escola. Um professor que atua com <em>amor </em>pode ser revolucionário, mas dizer isso por si só seria somente uma construção poética vazia como várias que existem por aí: quando se reflete acerca do desrespeito para com o professor em sala de aula e compara o tratamento que este profissional recebe com o que tem outro como um médico, por exemplo, não leva em consideração que, para além da diferença salarial, o médico quase sempre é <em>buscado</em>, o contato com ele costuma ser curto e ter objetivos bem definidos e que são entendidos tanto pelo paciente quanto pelo doutor. No caso dos professores não é assim que funciona: além de nenhuma criança pedir para ir à escola — o que pode também acontecer com o médico —, o tempo que se passa lá é bastante considerável e, além disso, o próprio “ensino” é, além de alienado, como já foi discutido, descontextualizado, ou seja, não se consegue conectar aquilo que está sendo falado em sala de aula ao cotidiano do aluno: uma coisa é chegar, a partir de uma dúvida, de um incômodo com alguma situação vivida por você ou por outro — o que não contraria a ideia do conhecimento ser sinônimo do autoconhecimento, se levarmos em conta que ser é ser com os outros —, em alguma matéria específica, tentar entender a história da escravidão nos últimos 500 anos para se ter uma visão mais aprofundada do fenômeno do racismo no Brasil e no mundo, ou, como eu fiz, na época, ler Bourdieu para entender o porquê da reprodução das desigualdades mesmo dentro de um ambiente escolar que se coloca como neutro. Reivindicar maior qualificação dos professores para que eles consigam fazer essa ponte entre as questões que os educandos colocam e o debate no campo da ciência (porque os educandos não podem, também, contribuir na produção do conhecimento?) e da política é legítimo, mas pensar que o fato do docente ter mestrado ou doutorado por si só quer dizer que ele oferece mais aos alunos é ingenuidade, fazer propaganda de uma instituição de ensino básico sob a narrativa da melhor qualificação dos professores é cínico, oportunista, como a propaganda costuma ser sempre, aliás. Ou, mesmo que não se queira se aprofundar em algo relacionado aos problemas sociais, mas simplesmente fazer, aprender pelo prazer, a escola dificilmente dará espaço para esse desenvolvimento, é mais provável que afaste o indivíduo de uma área na qual, talvez, ele pudesse se engajar. Nada faz sentido, nada aponta para lugar nenhum, tudo é nada e a resposta ao nada é sempre um “não”, que também é uma forma de… nada. A revolta, o mau-comportamento, as agressões são, muito mais que simples desvios de caráter (ainda que possam existir, seria muito útil se a qualificação do professor exigisse, por exemplo, uma formação que compreendesse transtornos psicológicos), respostas de quem tem urgências, preocupações, paranoias, traumas e muito mais na cabeça a um ambiente que o prende, a um silêncio esmagador, é uma tentativa de ter a potência que é continuamente negada, o grito de alguém tanto cultural quanto afetivamente pobre. É compreendendo isso que se percebe a importância de educar com amor, que o educador tem o poder de mudar a vida daquelas pessoas com as quais entra em contato. É preciso abertura, sim; emancipação, sim; e também ternura, porque ela também é uma riqueza.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158507" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/469207547_1968718963637097_7185104836297382744_n.jpg" alt="" width="1440" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/469207547_1968718963637097_7185104836297382744_n.jpg 1440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/469207547_1968718963637097_7185104836297382744_n-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/469207547_1968718963637097_7185104836297382744_n-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/469207547_1968718963637097_7185104836297382744_n-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/469207547_1968718963637097_7185104836297382744_n-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/469207547_1968718963637097_7185104836297382744_n-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/469207547_1968718963637097_7185104836297382744_n-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/469207547_1968718963637097_7185104836297382744_n-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1440px) 100vw, 1440px" />Outro ponto importante a se salientar nessa dinâmica vertical é que quando se força que crianças e adolescentes tenham como pares, como iguais, e constituam uma convivência quase que somente com pessoas da mesma idade acaba fechando as portas para que os menores tratem e tragam os problemas com que convivem tanto dentro de casa quanto nos limites do muro da escola. O adulto é distante, intocável, misterioso, infalível, e a escola e o ambiente doméstico contribuem para isso continuamente, com o professor também infalível, distante, que se coloca à frente, num espaço (até fisicamente) vertical, como maior, legítimo, autoridade… o efeito disso é constranger, não engajar — algo que a ascensão das igrejas evangélicas, em especial pentecostais e neopentecostais em detrimento do catolicismo revela, pensando na figura do pastor e do padre, porém não irei me deter aqui no momento. Cria-se um ambiente simbólico entre os jovens, quase como um campo, onde se retarda o amadurecimento e a tomada de responsabilidade pelo mundo e pelos outros pois estes se veem em um espaço de disputa por poder simbólico, com troféus que orientados pela desorientação dos jovens em relação às suas próprias fases e mudanças, eles acabam por viver em um mundo que é só deles, no seu próprio cosmos — e esse universo é um dos pais do bullying, com toda certeza —, o que é fruto desse distanciamento e dessa separação forçada com o “mundo adulto”. É preciso conjunto, aproximação, porque a distância é uma das maiores facilitadoras da barbaridade. Encerro com versos que escrevi há um tempo:</p>
<p style="text-align: justify;">Eu sei de abusos, vícios, dores, dúvidas, depressões e várias e várias mágoas, sequelas, traumas e doenças que integram a vida das pessoas antes dos 18 anos. E como foi que eu soube? Bem, porque eu estava lá, porque era óbvio, porque se sentiam minimamente confortáveis comigo.</p>
<p style="text-align: justify;">MI-NI-MA-MEN-TE. Não necessariamente melhores amigos, parentes…</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que eu poderia fazer por qualquer um deles? Somente aconselhar, acalmar, pedir pra não se matar, não matar alguém, não roubar, não usar drogas…</p>
<p style="text-align: justify;">E às vezes com uma certa vergonha de não dar aquele “SIM” pelo qual ansiavam, o que seus subterfúgios “malignos” os ofereciam a um custo alto, nos tragos e nos gritos, aquela potência sem a qual ninguém vive. E por que sempre a “solução” — solução? — estava nas escondidas?</p>
<p style="text-align: justify;">Por que a Escola não poderia observar que talvez houvesse algo além da suposta “burrice”, da “preguiça” que, eu sabia, eram os sintomas de dores que essas crianças sofriam e não tinham a estrutura pra suportar.? Seria tão fácil de saber, ela, sim, conseguiria fazer algo a respeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, tudo que colocou em nós foi medo, como a “educação” que nossos pais nos deram: a pancadas. E nós, naturalmente, fugimos dali. Nós escondemos no “Céu” do Inferno pra não viver o Inferno do “Céu”. Deus e o Diabo se misturam.</p>
<p style="text-align: justify;">E o que eu faço agora?</p>
<p style="text-align: justify;">Vou fazer o céu no escuro, no resto, eu quero criar algo como o redemoinho que surge do monte de nada e deslumbra.</p>
<p style="text-align: justify;">Underground, né?</p>
<p style="text-align: right;"><em>Porque aqui não te enchem de nada que dê sentido ou dê luz</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Só uma vida merda e uma estátua do Menino Jesus</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E quando você vê o trem, ou a desgraça que o destino reluz</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Precisa de um refúgio, e qualquer conto de fadas, de início, seduz</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">As obras que ilustram este artigo são de <a href="https://www.instagram.com/marciafalcao__?utm_source=ig_web_button_share_sheet&amp;igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==" target="_blank" rel="noopener">Márcia Falcão</a> (1985 &#8212; )</p>
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