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	<title>Reflexões &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (3)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Aug 2026 16:03:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Para que o trabalho não seja mais central, o que é necessário é um recuo da relação capital-trabalho sob o dinamismo de outra relação social, que finalmente a substituiria por ser mais proeminente do que as outras relações no campo de onde ela tira seu poder de expansão.  Por Michel Freyssenet.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Michel Freyssenet</h3>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">A Difusão da Relação Capital-Trabalho e a Universalização Naturalista do Trabalho</h3>
<p style="text-align: justify;">Se é assim, como esse termo pôde se difundir para designar atividades que não são realizadas sob nenhum aspecto social? Duas generalizações devem ser compreendidas: a do assalariado e dos empregados e, mais amplamente, a do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Os termos salário, assalariados e classe assalariada parecem ter se expandido posteriormente para situações das quais não provinham: por exemplo, o empregado doméstico ou comunitário que vende seus serviços por renda e não por capital e que é pago com salários; os funcionários públicos &#8211; &#8216;servidores civis&#8217; &#8211; cujas remunerações são a recompensa pela função social que exercem em nome da comunidade. Na verdade, apesar da homogeneização legal das condições de trabalho, o tipo de relação não é o mesmo. A subordinação não é do mesmo tipo e a incerteza da relação social não tem a mesma forma de acordo com a relação de emprego considerada. O objetivo do empregador nesses casos não é o enriquecimento pessoal nem a acumulação de capital. O empregador gasta sua renda obtendo os serviços que espera, sem intenção, esperança ou obrigação de recuperar seu capital. O objetivo é a satisfação com o serviço prestado.</p>
<p style="text-align: justify;">Se pode haver, e se realmente há, em intervalos mais ou menos regulares, notadamente por parte das comunidades (Estado, governos locais, associações, instituições etc.), a busca por melhor eficiência a um custo menor por meio de &#8216;reformas&#8217; ou &#8216;contratos&#8217;, é por pressão política de todos ou de alguns daqueles que pagam impostos ou contribuições e que desejam vê-los parar de aumentar ou vê-los diminuir por qualquer motivo, e não pela necessidade de reproduzir o capital para evitar que ele desapareça.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">O Trabalho Hoje se Tornou Central Porque a Relação Social que o Criou Está se Espalhando para Todas as Atividades e Porque Essa Relação é Totalmente Social</h3>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho foi percebida e considerada por muito tempo como uma simples relação mercantil: empresários e trabalhadores compravam e vendiam trabalho a preços de mercado. Foi necessário muitos debates e conflitos ao longo do século XIX para que os assalariados pudessem reconhecer e fazer reconhecer ao seu redor que se tratava de uma relação específica, sujeita a uma legislação especial distinta de outras leis, notadamente as leis comerciais. Não se tratava de um simples mal-entendido ou de um meio para os empregadores se isentarem de toda responsabilidade, notadamente em caso de um acidente. Existiriam, na realidade, formas muito amplamente ambíguas: subcontratação em domicílio e equipes de trabalho móveis lideradas por um trabalhador supervisor. Desde então, reconheceu-se que o contrato de trabalho não é uma troca entre iguais.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele sela a subordinação do trabalhador à autoridade do empregador, mas, ao mesmo tempo, abriga uma incerteza insuperável, a segunda característica essencial dessa relação &#8211; aquilo que cada pessoa considera como vendido ou comprado no ato da contratação é questionado diariamente nas relações de trabalho. O que exatamente cobre uma venda de capacidade de trabalho?</p>
<p style="text-align: justify;">É um trabalhador colocando ao mesmo tempo sua energia, experiência, inteligência, motivação, devoção e imaginação à disposição de outrem? Ou, como a história atesta, é um conflito constante sobre o que cada um pode exigir do outro, em outras palavras, sobre a natureza da respectiva liberdade do trabalhador ou do empregador? O escopo do que se considera ter vendido e do que o outro estima ter comprado não difere apenas por causa de interesses divergentes entre o primeiro e o segundo, mas por causa de uma apreciação diferente sobre o que se julga passível de ser comprado e vendido: devoção e fidelidade fazem parte disso? Motivação, imaginação e inteligência também fazem parte e, em caso afirmativo, em que medida? A definição precisa do trabalho não é apenas uma tendência do empregador que se concretiza na forma de prescrição, é também a demanda do empregado de que sejam estabelecidos limites sobre o que pode ser exigido dele ou dela.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho exige a &#8216;liberdade&#8217; dos trabalhadores para vender suas capacidades de trabalho e o direito dos detentores de capital de comprá-las. Essas duas liberdades não são nem naturais nem permanentes, sem limites nem alterações. Tampouco todos desfrutam dessas liberdades. As crianças até a maioridade, e as esposas até recentemente, e ainda hoje em muitos países, devem ter a autorização de seus pais ou maridos para serem empregadas, e nem sempre dispõem &#8211; de fato ou de direito &#8211; do dinheiro proveniente da venda de suas capacidades. Essas &#8216;liberdades&#8217; estão em constante redefinição e limitação, tanto legal quanto pragmaticamente. Os debates e conflitos sobre a jornada de trabalho não podem ser reduzidos a divergências sobre a qualidade e o ritmo de vida necessários ou aceitáveis em respeito aos imperativos &#8216;econômicos&#8217; e às exigências de reprodução das capacidades de trabalho, mas jogam o trabalhador &#8216;livre&#8217; de volta à &#8216;política&#8217;.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159660 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1.jpg" alt="" width="735" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1.jpg 735w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-515x420.jpg 515w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-640x522.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-681x556.jpg 681w" sizes="(max-width: 735px) 100vw, 735px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho também implicava, se considerada moralmente aceitável, que a soma dos interesses egocêntricos pode sobrepujar ou competir com o interesse e no interesse do bem-estar geral. Verdade seja dita, o julgamento moral do capitalismo ainda permanece em aberto. O novo liberalismo econômico tem sido acompanhado por um discurso não apenas sobre sua eficiência, mas também sobre o fato de que seria mais justo.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, através do ato de vender sua capacidade de trabalho, o empregado reconhece a legitimidade do comprador, seja ela concedida temporária ou parcialmente, e na ambiguidade da autoridade que será exercida sobre o trabalhador. Esse reconhecimento deve ser reconfirmado diariamente no ato do trabalho para que a relação capital-trabalho possa se reproduzir. O trabalhador &#8216;livre&#8217; aceita a alienação de sua &#8216;liberdade&#8217; para trabalhar durante as horas de trabalho e limitar seus direitos de cidadão que lhe são exteriores ao tempo e espaço da empresa onde está empregado.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação de emprego, e notadamente a relação capital-trabalho, não se presta facilmente à análise em termos econômicos ou, inversamente, políticos ou simbólicos. Ela contém todas as dimensões do social. Ela não parece ser simplesmente uma relação social na ordem econômica, ou uma relação econômica imersa no social, mas uma relação totalmente social capaz de ordenar e estruturar toda ou grande parte do social, como outras relações sociais são capazes de fazer em outras sociedades.</p>
<p style="text-align: justify;">A incerteza, inerente ao contrato de trabalho, não se limita às condições imprevisíveis de realização que podem ocorrer, mas à própria natureza das capacidades de trabalho que se gostaria de comprar como mercadorias, e que não é possível. Isso explica a necessidade de regras materiais, legais, relacionais e sociais explícitas ou implícitas, sancionadas ou não pelo poder público, para que o detentor do capital tenha mais segurança em obter os produtos que espera dos empregados cujas capacidades de trabalho comprou.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira via consiste em estabelecer factualmente, ou mesmo legalmente, uma relação de confiança, através da qual, em troca da garantia de seus trabalhadores pelo volume esperado de produção, pelo crescimento da produtividade, pela qualidade da participação e invenção de novos processos graças à especialização profissional voluntária e mobilidade, o empregador, por sua vez, dá a seus empregados a garantia de aumentar o número de empregados e seus salários, bem como a capacidade de descobrir e verificar a pertinência das escolhas estratégicas das quais dependem as garantias obtidas. Ao longo dessa via, as divisões do trabalho ocorrem entre especialistas em diferentes áreas de conhecimento e saber-fazer, cada um dos especialistas sendo não apenas útil, mas, mais importante, indispensável para projetar, organizar e alcançar o resultado esperado. A divisão concepção/execução contradiz, a esse respeito, o pacto de confiança inicial, e é contraproducente. É essa a via seguida no passado? Ela está experimentando certo renascimento hoje? Deixando de lado uma análise renovada da história industrial, parece que há poucos exemplos do tipo de relação de emprego que esse pacto de confiança pressupõe, e que a partilha do trabalho entre especialistas de níveis semelhantes de capacidade é uma forma de dividir o trabalho que nunca se enraizou, mesmo que, ocasionalmente, alguns exemplos possam ser vistos.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda via consiste em intervir no desenho do processo produtivo, das ferramentas e máquinas, da organização do trabalho e das formas de cooperação entre os empregados para que esses mecanismos limitem a atividade ou se imponham, tanto quanto possível, àqueles que terão que realizar as tarefas, embora um enquadramento e uma prescrição absolutos sejam impossíveis. Uma parte essencial da inteligência do trabalho passa então para a autoridade do empregador e, por causa disso, muda de conteúdo e forma. A divisão da inteligência do trabalho substitui então a partilha do trabalho entre especialistas. Ela limita a variedade de técnicas de produção e as formas de organização do trabalho, regras, estruturação, classificação e treinamento. A intervenção do empregador no desenho do processo produtivo já é observável nas origens da relação capital-trabalho, bem como na construção de um grupo ou de vários grupos de empregados destinados a ajudá-lo nessa tarefa.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-159661 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1.jpg" alt="" width="403" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1.jpg 403w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1-202x300.jpg 202w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1-282x420.jpg 282w" sizes="(max-width: 403px) 100vw, 403px" /></p>
<h3 style="text-align: justify;">O Trabalho Está Perdendo a Centralidade que Adquiriu? Ele Não Estabelece Mais o Vínculo Social?</h3>
<p style="text-align: justify;">No debate atual sobre a perda da centralidade do trabalho, pelo menos três posições podem ser distinguidas, levando a conclusões práticas muito diferentes. Para alguns, o trabalho mudou de natureza e deve ser percebido, a partir de agora, como uma atividade que permite a cada um dar prova de suas capacidades. Para outros, o trabalho não é mais &#8211; se é que algum dia foi &#8211; a única fonte de riqueza e não é mais economicamente central. Finalmente, para outros ainda, os possíveis ganhos de produtividade são hoje tão grandes com as novas tecnologias que não será mais possível, no futuro, dar trabalho a todos. É uma oportunidade para praticar uma ampla divisão do trabalho e permitir que o maior número de pessoas tenha acesso a atividades de sua própria escolha.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o primeiro grupo, o trabalho representa uma atividade constrangedora, prescritiva e imposta, sem autonomia. Em outras palavras, é o trabalho taylorista, como foi descrito e generalizado de forma abusiva. Notando que esse tipo de trabalho está sendo substituído por uma atividade que envolve vigilância, intervenção e comunicação, capaz de dar lugar à iniciativa e invenção (o que decorre mais de afirmação ou desejo do que de observação e análise [Freyssenet, 1992]), eles concluem que uma nova realidade está emergindo, que não merece mais o nome de &#8216;trabalho&#8217;, na medida em que permite a realização pessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o segundo grupo, a teoria do valor fundada no trabalho é teórica e pragmaticamente invalidada. O trabalho não é mais &#8211; se é que algum dia foi &#8211; o elemento fundamental ou exclusivo da produção de valor. O desempenho econômico não pode ser ou não está mais diretamente ligado ao trabalho, em termos de seu volume, qualidade, organização no chão de fábrica, gestão da produção, organização do projeto, relacionamento com os clientes etc. Mas, em qualquer caso, o trabalho nunca foi conceitualmente limitado ao do chão de fábrica.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o terceiro grupo, o trabalho é fundamental e definitivamente constrangedor. É inútil esperar transformá-lo em um meio de realização. No entanto, é apropriado usar o máximo de seu potencial para a redução do tempo consagrado a ele para que cada um possa se concentrar nas atividades sociais e culturais de sua escolha e, assim, permitir que outras relações sociais emerjam. Isso pressupõe, antes de tudo, o crescimento dos ganhos de produtividade, que devem ser sempre mais importantes do que os dos concorrentes em potencial, para não ter que questionar a contínua redução do tempo de trabalho; em seguida, uma proibição do investimento de capital em novas atividades sociais que tenham revelado um mercado potencial <em>de fato</em>; finalmente, uma forte autoridade política dispondo de meios suficientes para garantir uma parte do trabalho que permanece socialmente necessário ou uma renda mínima de existência para todos, e o tempo para cuidar das conversões periódicas inerentes às mudanças técnicas e organizacionais da produção. Mas, nesse caso, o trabalho continuaria sendo a condição de existência e supremacia: ou seja, continuaria de fato central, objeto de toda a atenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o trabalho é analisado como uma invenção histórica, como se tentou aqui, então somos levados a pensar que o fim de sua centralidade não será visto tão cedo. Para que o trabalho não seja mais central, será necessário que a venda da capacidade de trabalho de cada pessoa ou do produto de seu trabalho &#8211; ainda que apenas parcialmente &#8211; não seja a condição para aceder ao que historicamente se tornou uma condição de vida, mesmo em nossa sociedade. Também seria necessário não investir mais capital em todas as áreas antigas ou novas da vida social, como é feito irresistivelmente, apesar das paradas temporárias que podem ser impostas a ele de tempos em tempos, pois essa expansão para novos campos é uma condição para a reprodução do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora o exercício pareça um tanto patético, pode-se arriscar algum raciocínio. Para que o trabalho não seja mais central, o que é necessário é um recuo da relação capital-trabalho sob o dinamismo de outra relação social, que finalmente a substituiria por ser mais proeminente do que as outras relações no campo de onde ela tira seu poder de expansão. Não é exagero dizer que muitos têm dificuldade em imaginar o processo.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-159662 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1.jpg" alt="" width="650" height="475" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1.jpg 650w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1-300x219.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1-575x420.jpg 575w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1-640x468.jpg 640w" sizes="(max-width: 650px) 100vw, 650px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Bibliografia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">BIDET, J. e TEXIER, J. (1995) <em>La crise du travail</em> (A Crise do Trabalho). Paris: PUF.</p>
<p style="text-align: justify;">BOYER, R. e FREYSSENET, M. (1995) &#8216;Emergence of New Industrial Models. Hypothesis&#8217;, <em>Actes du GERPISA</em> 15.</p>
<p style="text-align: justify;">BOYER, R. E FREYSSENET, M. (no prelo) <em>The World that Changed the Machine</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">CARTIER, Michel (org.) (1984) <em>Le travail et ses représentations</em> (O Trabalho e suas Representações). Paris: EAC.</p>
<p style="text-align: justify;">CHAMOUX, Marie-Noëlle (1994) &#8216;Société avec et sans concept de travail: remarques anthropologiques&#8217; (Sociedades com e sem o Conceito de Trabalho), edição especial, &#8216;Les énigmes du travail&#8217; (Os Enigmas do Trabalho), de <em>Sociologie du travail</em> outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">DESCOLA, Pierre (1986) <em>La Nature domestiquée. Symbolisme et praxis dans l&#8217;écologie des Achuars</em> (A Natureza Domesticada. Simbolismo e práxis na ecologia dos Achuar). Paris: Edition de la Maison des Sciences de l&#8217;Homme.</p>
<p style="text-align: justify;">DUMONT, Louis (1985) <em>Homo aequalis</em>. Paris: Gallimard.</p>
<p style="text-align: justify;">ENGELS, Friedrich e MARX, Karl (1968) <em>L&#8217;idéologie allemande</em> (A Ideologia Alemã). Paris: Editions Sociales.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, Michel (1972) <em>Travail productif et travail improductif</em> (Trabalho Produtivo e Trabalho Improdutivo). Paris: CSU.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, Michel (1992) &#8216;Processus et formes sociales d&#8217;automatisation. Le Paradigme sociologique&#8217; (Processos e Formas Sociais de Automação: O Paradigma Sociológico), <em>Sociologie du travail</em> 4: 469-96.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M. (1994) &#8216;Quelques pistes nouvelles de conceptualisation du travail&#8217; (Algumas Novas Pistas para a Conceituação do Trabalho), <em>Sociologie du travail</em>: 105-22.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M. e MAGRI, S. (orgs.) (1989) <em>Les rapports sociaux et leurs enjeux</em> (As Relações Sociais e suas Apostas), Vol. 1. Paris: CSU.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M. e MAGRI, S. (orgs.) (1990) <em>Les Rapports sociaux et leurs enjeux</em> (As Relações Sociais e suas Apostas), Vol. 2. Paris: CSU.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M., MAIR, A., SHIMIZU, K. E VOLPATO, G. (orgs.) (1998) <em>One Best Way? Trajectories and Industrial Models of the World&#8217;s Automobile Producers</em> (Um Melhor Caminho? Trajetórias e Modelos Industriais dos Produtores de Automóveis do Mundo). Oxford: Oxford University Press.</p>
<p style="text-align: justify;">GODELIER, M. (1984) <em>L&#8217;idéal et le matériel</em> (O Ideal e o Material). Paris: Fayard.</p>
<p style="text-align: justify;">GODELIER, M. (1990) &#8216;L&#8217;oeuvre de Marx&#8217; (A Obra de Marx), <em>Actual Marx</em> 7 (setembro).</p>
<p style="text-align: justify;">LE GOFF, J. (1986) <em>La bourse et la vie</em> (A Bolsa e a Vida). Paris: Hachette.</p>
<p style="text-align: justify;">MARX, Karl (1932) <em>Histoires des doctrines économiques</em> (História das Doutrinas Econômicas), Vol. 2. Paris: Costes.</p>
<p style="text-align: justify;">POLANYI, K. (1983) <em>La grande transformation</em> (A Grande Transformação). Paris: Gallimard.</p>
<p style="text-align: justify;">REYNAUD, B. (1992) <em>Le salaire, la règle et le marché</em> (O Salário, a Regra e o Mercado). Paris: Christian Bourgois Ed.</p>
<p style="text-align: justify;">ROLLE, P. (1971) <em>Introduction à la sociologie du travail</em> (Introdução à Sociologia do Trabalho). Paris: Larousse.</p>
<p style="text-align: justify;">SAHLINS, M. (1980) <em>Au coeur des sociétés. Raison utilitaire et raison culturelle</em> (No Coração das Sociedades. Razão Utilitária e Razão Cultural). Paris: Gallimard.</p>
<p style="text-align: justify;">VERNANT, J.-P. (1965) <em>Mythe et pensée chez les Grecs</em> (Mito e Pensamento entre os Gregos). Paris: Maspero.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Forrest Bess (1911-1977).</em></p>
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		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Aug 2026 11:57:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Hoje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso. Por Michel Freyssenet]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Michel Freyssenet</strong></h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As relações capital-trabalho e o trabalho que essa relação historicamente engendrou não estão ligadas conceitualmente à produção material</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em suas pesquisas sobre o trabalho produtivo e improdutivo, Marx mostrou que essa distinção só tem significado em relação a uma forma de acumulação social. Retomando a tese de Adam Smith e defendendo-a contra J. B. Say e os pós-clássicos, ele mostra que a definição de trabalhador produtivo como produtor de valores de uso não tem interesse científico, qualquer pessoa o sendo a partir do momento em que o produto material ou imaterial de sua atividade encontra algum uso, mesmo que seja fantasioso. O objetivo da produção capitalista não sendo a produção de valores de uso ou mercadorias por si mesmas, mas a reprodução do valor antigo e a criação de mais-valia, o trabalho produtivo é, portanto, aquele que é trocado por capital, enquanto o trabalho improdutivo é aquele que é trocado por renda, qualquer que seja sua forma (salário, lucro, anuidade, imposto e assim por diante).</p>
<p style="text-align: justify;">Marx diferencia-se de Smith em um ponto importante. Para Smith, o trabalho produtivo de capital corresponde à produção de bens materiais na forma de mercadorias, e o trabalho improdutivo na forma de &#8216;serviços&#8217;, definidos como trocas de pessoa para pessoa. Ele estabelece, portanto, a distinção produtivo-improdutivo não apenas na relação do trabalho com o capital, mas também em uma diferença na natureza da atividade. Ele introduz uma segunda determinação: a da materialidade do produto. Ao contrário, Marx mostra que, se é verdade que o trabalho produtivo de capital produz bens materiais na maioria das vezes, sua definição não tem nada a ver com seu conteúdo concreto, mas designa exclusivamente uma relação social. Uma pessoa exercendo a mesma atividade &#8211; cozinhar, por exemplo &#8211; será produtiva ou improdutiva do ponto de vista do capital, dependendo se vende sua capacidade de trabalho para um dono de restaurante ou para um indivíduo: isto é, dependendo se sua capacidade de trabalho é trocada por capital para valorizá-lo ou por renda para satisfazer as necessidades do detentor dessa renda. Um professor será produtivo (do ponto de vista do capital) se for empregado por uma instituição escolar com fins lucrativos, mas improdutivo de capital se der aulas particulares em uma família ou no sistema educacional nacional. Quando Marx diz que a característica dos “trabalhadores produtivos, o que significa trabalhadores que produzem capital, é que seu trabalho se manifesta em mercadorias ou riqueza material”, ele fala de mercadorias no sentido de valor de troca, ele designa “uma existência social fictícia e puramente social das mercadorias, absolutamente distinta de sua realidade física; … a ilusão decorre aqui de como uma relação social se manifesta na forma de um objeto” (Marx, 1932: 33-4).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159638" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749.jpg" alt="" width="1473" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749.jpg 1473w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-276x300.jpg 276w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-943x1024.jpg 943w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-768x834.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-1414x1536.jpg 1414w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-387x420.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-640x695.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-681x740.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1473px) 100vw, 1473px" />Ao considerar o conceito de relação capital-trabalho como uma relação puramente social, ao mostrar que ela não está ligada à produção material, Marx transforma, portanto, essa &#8216;relação social de produção&#8217;, historicamente datada, em uma relação cuja preeminência sobre outras relações não pode mais advir de atividades que servem à reprodução material de uma sociedade. Ele nunca parece ter tirado tal conclusão. Ainda assim, ela decorre logicamente de sua análise do trabalho produtivo do capital. Ela está, como foi visto, em contradição com o naturalismo materialista de <em>A Ideologia Alemã</em> <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, hoje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso.oje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas sociedades capitalistas, a mesma atividade pode ser trabalho ou não-trabalho. Sua natureza não faz diferença. Depende se a atividade é realizada ou não em uma das três relações sociais: a relação de emprego, a relação mercantil (nem em todos os casos) e a relação doméstica (que está começando a ser, mas não é admitida por todos). Deve-se finalmente notar que um número crescente de atividades, tidas como não fazendo parte da economia e não sendo trabalho, tornam-se trabalho com a difusão da relação de emprego e, particularmente, da relação capital-trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma dada atividade pode ser trabalho ou não-trabalho de acordo com o momento ou a pessoa que a realiza: jardinagem, dirigir, cozinhar, construir, cantar etc. A mesma atividade pode ser trabalho e não-trabalho ao mesmo tempo. Assim, uma pessoa com seus próprios filhos cuida simultaneamente dos filhos de outros em troca de remuneração. Portanto, só se pode dizer que uma atividade é trabalho se a relação social na qual é realizada for especificada. E hoje, há apenas três relações sociais que estimulam a reflexão sobre o trabalho: as relações de emprego, mercantil e doméstica.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159637" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288.jpg" alt="" width="474" height="474" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-420x420.jpg 420w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />As relações sociais que transformam atividades em trabalho não estão mais ligadas a uma área social particular. Elas são suscetíveis de organizar atividades muito diversas, muitas das quais não fazem parte do que é comumente acordado como produção, ou do campo econômico.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho, por exemplo, expandiu-se e continua a se expandir cada vez mais para atividades consideradas no passado como fora da esfera econômica: lazer, esportes, política, religião, símbolos, ciência, arte, filosofia, polícia etc. Ela não dizia respeito, originalmente, às atividades essenciais da vida material. Ela tardou em incluir as atividades agrícolas em alguns países. Seus limites variáveis no tempo e no espaço, as tentativas muitas vezes vãs de conter o expansionismo, mostram que é uma relação indiferente à natureza das atividades que organiza. Por exemplo, hoje, começam as discussões para descobrir sob qual relação social (doação, compensação, compra ou salário) toda ou parte da reprodução humana será realizada no futuro, ou mesmo o ato de &#8216;acompanhar&#8217; os moribundos. A relação capital-trabalho é, portanto, uma relação social capaz de se espalhar para todos os tipos de atividades. Nenhuma delas, <em>a priori</em>, pode escapar a essa relação por sua natureza. Mesmo essa expansão, ultrapassando todas as fronteiras atualmente estabelecidas nas sociedades ocidentais entre os tipos de atividades humanas, confirma o caráter puramente social e histórico da economia e do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Desse ponto de vista, pode-se dizer que o trabalho se torna sempre central: tanto porque é, para o maior número, a forma indispensável de atividade para acessar os recursos materiais e imateriais necessários para viver em nossas sociedades, quanto porque está se tornando cada vez mais a manifestação das atividades humanas. Hoje, cabe à sociedade descobrir se limites não deveriam ser impostos à mercantilização das relações humanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim que uma das relações sociais conhecidas como de produção &#8211; neste caso, a relação capital-trabalho &#8211; não está ligada conceitualmente à reprodução material da vida em sociedade, torna-se impossível fazer deste último o critério de definição e insistir na preeminência das relações sociais de produção em geral sobre outras relações sociais. Esse fato invalida a possibilidade de construir um conceito universal de relações sociais de produção e leva a considerar a relação capital-trabalho como uma relação &#8216;totalmente social&#8217; &#8211; ou seja, como uma relação que não pertence a uma área particular de atividade que existiria fora dela mesma; que não pertence a uma categoria particular de relações sociais; que é única como todas as relações sociais o são; que é capaz de organizar a quase-totalidade da vida social, como outras relações sociais na história parecem ter sido capazes de fazer; e, finalmente, que não apresenta uma dimensão que prevalece sobre as outras, como a própria análise da relação capital-trabalho mostra, sendo essa relação tão política e simbólica quanto econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalho seria então uma pura construção social sem nenhum vínculo com as exigências naturais? Como é possível compreender que uma relação social possa historicamente prevalecer sobre outras, e às vezes hegemonizar e homogeneizar todo o social, se ela não obtém controle sobre as atividades &#8216;vitais&#8217; das sociedades consideradas? É difícil acreditar que não existem condições necessárias para a reprodução de qualquer sociedade na espécie humana, e que as condições específicas de cada sociedade são as únicas que contam.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas essas condições gerais são múltiplas: comer e beber, claro, possivelmente vestir-se e abrigar-se, mas também procriar, respirar, comunicar-se, ser reconhecido, mover-se, não ser morto e muitas outras condições conhecidas ou desconhecidas. Essas condições &#8216;vitais&#8217; só se tornam vitais e são percebidas como tais a partir do momento em que não são mais dadas natural ou socialmente a todos ou ao maior número. É por isso que algumas (como respirar) são risíveis, porque até agora o ar, embora de qualidade variável, permanece diretamente acessível a todos. Esse exemplo, no entanto, tem o mérito de lembrar o caráter social e histórico das condições de reprodução da vida em sociedade. Elas só adquirem o status de condições se forem objetos de rarefação natural, de apropriação social ou de restrição coletiva. Nesse ponto, pode-se pensar que a reprodução material e o trabalho como uma atividade que lhe seria dedicada não puderam ser socialmente importantes ou fundantes, se outras condições igualmente essenciais para a vida em sociedade ou para tal ou qual sociedade fossem o objeto preferencial de apropriação privada ou de controle político por uma minoria.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159639" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893.jpg" alt="" width="900" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-300x233.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-768x597.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-540x420.jpg 540w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-640x498.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-681x530.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />Dessa perspectiva, cada relação social teria seu valor, sua economia, sua racionalidade, sua forma de repartição e divisão das atividades que governa, seus princípios técnicos, e assim por diante, podendo tornar-se os de uma sociedade, se essa relação social acabar prevalecendo sobre as outras historicamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, pode-se levantar a hipótese de que uma relação social se torna importante quando transforma alguns dados naturais ou culturais em questões sociais em jogo, em condições não garantidas de vida em sociedade e nos meios de diferenciação e controle. Essa relação social se torna fundamental quando é capaz de ser o caminho indispensável para aceder ao que se tornaram os recursos materiais e imateriais (de qualquer tipo) necessários à vida na sociedade considerada.</p>
<p style="text-align: justify;">O que se entende por economia e por trabalho não existiria e, portanto, só seria importante nas sociedades capitalistas. Eles herdariam suas características centrais do que são a manifestação e designação naturalizadas de uma relação social que se tornou hegemônica ao governar certas condições gerais necessárias à vida em sociedade e as condições particulares pertencentes às nossas próprias sociedades.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Pode ser necessário hoje reter esse esforço dos trabalhos científicos de Marx &#8211; que pode ser visto em sua escrita e ainda mais à medida que ele coloca suas próprias análises em questão, particularmente aquelas da desnaturalização e historicização de noções e realidades comuns &#8211; um esforço que está longe de ter sido perseguido, inclusive por aqueles que denunciaram o materialismo de Marx, como visto na convicção amplamente difundida em todos os tipos de correntes filosóficas e políticas de que o trabalho é inerente à condição humana.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Hélio Oiticia(1937-1980).</em></p>
<blockquote><p>Este artigo será publicado em três partes, a <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159546/" target="_blank" rel="noopener">parte 1</a> está aqui, e a parte 3 será publicada em uma semana.</p></blockquote>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (9)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Aug 2026 19:54:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[A mudança nas formas de ação coletiva é uma habilidade dialética. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 3: REVOLTA LINHA</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 7</strong></h5>
<h6 style="text-align: justify;"><strong>A Longa Crise</strong></h6>
<p style="text-align: justify;">A revolta e a crise chegam juntas, cada uma anunciando a outra. A nova era de revoltas surge não apenas com a intensificação das rebeliões urbanas e suburbanas, mas também com o eclipse dos movimentos operários, as linhas de tendência das revoltas e greves primeiro se cruzando e depois divergindo, em sincronia com o auge e o declínio do “longo século XX” da hegemonia americana. O que a crise tem a ver com as revoltas, além dessa coincidência e de uma sensação ansiosa e difusa de que as coisas estão desmoronando?</p>
<p style="text-align: justify;">A profunda relação entre revoltas e crises é o tema do restante deste livro, principalmente por causa de nosso argumento central: <em>a crise sinaliza uma mudança do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e as revoltas devem ser entendidas, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a luta pela fixação de preços e a rebelião do excedente são formas distintas, embora relacionadas</em>. Nos capítulos anteriores, isso foi aventado de forma fragmentada e agora merece um desdobramento sistemático. Isso é particularmente necessário, dado que a crise aparece na maioria das vezes como um evento pontual, mesmo que expresse um processo subjacente e contínuo no qual o capital encontra seus limites internos e luta violentamente para superá-los. A crise é o ponto de exclamação de uma profunda reorganização social. As revoltas expressam essa organização social alterada, dirigem-se a ela e procuram aboli-la e, assim, a si próprias.</p>
<p style="text-align: justify;">A Longa Recessão, para usar a linguagem de Brenner, é semelhante a declínios anteriores. Este livro argumenta, no entanto, que as últimas quatro décadas podem ser entendidas de forma um pouco diferente, como uma Longa Crise. O período atual distingue-se de passagens semelhantes em ciclos anteriores na medida em que as recuperações do tipo visto anteriormente permanecem invisíveis do nosso ponto de vista. Historicamente, o capital resolveu sua contradição em desenvolvimento realocando-se para outro lugar, buscando uma circunstância em que a produção ainda não tivesse se prejudicado e o processo de acumulação pudesse recomeçar em uma base nova e ampliada. Isso tem o efeito de restabilizar o sistema mundial capitalista volatilizado pela crise secular. Não está claro se isso aconteceu ou está em andamento nos anos desde a recessão econômica global do final dos anos 1960 e início dos anos 1970. As tentativas de uma nova hegemonia pelas economias do Leste Asiático e da zona do euro fracassaram no caminho; as “economias emergentes” parecem já estar muito avançadas em sua produtividade para impulsionar a acumulação em escala global, internalizando massas de nova mão de obra na indústria ou na categoria mais ampla da manufatura <strong>[1]</strong>. O mal-estar planetário persiste, e com ele a volatilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não significa que as realocações e restaurações da acumulação de capital sejam impossíveis. Só por sua conta e risco se faz afirmações contundentes sobre um período histórico enquanto ainda se vive nele. Portanto, essas observações devem ser um tanto provisórias, uma tentativa de desenvolver um relato razoavelmente unificado da época. Há, pelo menos, algum consenso sobre por onde começar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159614" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935.jpg" alt="" width="653" height="881" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935.jpg 653w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-222x300.jpg 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-311x420.jpg 311w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-640x863.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 653px) 100vw, 653px" />“E quanto a 1973-1974, então?”, questionou Fernand Braudel, grande historiador da <em>longue durée</em>. O ano de 1973 vê o primeiro de uma série de choques do petróleo, a retirada formal dos EUA de sua aventura no Sudeste Asiático e o colapso final do sistema monetário de Bretton Woods, preparando o terreno para o aumento dos desequilíbrios comerciais e da conta corrente; concomitantemente, há uma desaceleração global dos mercados. Este é apenas o começo do história. “Trata-se de uma crise conjuntural de curto prazo, como a maioria dos economistas parecem pensar assim? Ou tivemos o privilégio raro e nada invejável de ver com nossos próprios olhos o início da virada do século?” <strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As perguntas são retóricas. Braudel está avaliando os “ciclos seculares”, os períodos econômicos mais longos — o que Arrighi esclareceria como ciclos de acumulação liderados por um Estado capaz de impulsionar a expansão material de uma economia mundial, sobre a qual a nação líder alcança hegemonia na medida em que seus ganhos fazem parte dos lucros sistêmicos (e na medida em que é capaz de garantir estabilidade ao sistema interestadual). Ambos os escritores remontam aos impérios comerciais protocapitalistas para uma consideração de quatro ciclos cada vez maiores e mais rápidos, mas com padrões semelhantes. Para Braudel, um ciclo começa quando outro termina, à maneira dos reinados monárquicos. Na versão revisada de Arrighi, eles se sobrepõem, com uma hegemonia entrando em sua fase crepuscular de financeirização, descendo para a escuridão com crédito prolongado, mesmo enquanto financia a aceleração de uma hegemonia emergente em direção à decolagem industrial.</p>
<p style="text-align: justify;">Inevitavelmente, “1973” é uma metonímia para mudanças demasiado amplas para serem contidas num único ano. No entanto, esta datação do “ponto em que a tendência secular começa a entrar em declínio, ou seja, o momento da crise” tornou-se um assunto de amplo consenso entre historiadores e teóricos da <em>longue durée</em>, apesar de diferenças relativamente pequenas <strong>[3]</strong>. Já encontramos o fato mais dramático, da perspectiva da acumulação e da hegemonia: o colapso secular da lucratividade e do crescimento, liderado pelo declínio da indústria manufatureira dos EUA, de tal forma que os melhores anos da recessão são piores do que os melhores anos do <em>boom</em> (com apenas uma ou duas pequenas exceções). Podemos, portanto, datar a ascensão cíclica das finanças a partir desse momento, embora não porque as finanças tenham “expulsado” o capital industrial — um modelo conceitual que abre caminho para a ideia catastrófica de capitalismo bom e ruim, ou capitalismo saudável e doentio. O capital é um espaço unitário de fluxos que buscam oportunidades de investimento que retornem a taxa média de lucro. Quando essa exigência não pode mais ser satisfeita por um setor industrial em crescimento, os lucros são armazenados em refúgios seguros ou reinvestidos em outros lugares em empreendimentos comerciais e/ou instrumentos financeiros. Financeirização é simplesmente o nome dado a essa mudança nos fluxos de capital. Quando observamos a publicação da obra mais célebre da engenharia financeira, o modelo de precificação de opções de Black-Scholes, ou a abertura do primeiro grande mercado de derivativos, a Chicago Board Options Exchange, ambos em 1973, devemos ter claro que essas não são novas armas que permitem às forças financeiras derrubar as paredes da indústria. Elas são consequências da necessidade do capital de espaço para ir além do setor industrial.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>O Arco da Acumulação</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A teoria da crise aborda a questão de por que a expansão industrial deve terminar e dar lugar às longas especulações financeiras em um grande redirecionamento dos fluxos de capital pontuado por uma desvalorização maciça. Arrighi e Brenner, possivelmente os dois historiadores econômicos mais convincentes do período que atingiu seu auge em 1973, oferecem explicações divergentes para esse declínio específico da acumulação, com base em suas diferentes percepções do que é o capitalismo; ambos também divergem em alguns detalhes da teoria abstrata da crise de Marx.</p>
<p style="text-align: justify;">O modelo de Arrighi é pouco teorizado, em consonância com sua abordagem mais descritiva das economias mundiais. Ele sugere uma causalidade um tanto eclética, baseada em uma teoria da crise amplamente smithiana, que pressupõe que a concorrência de mercado corrói constantemente a margem de lucro. As lutas trabalhistas (entendidas à maneira de Karl Polanyi) oferecem outra pressão sobre os lucros, assim como o custo das funções hegemônicas de guarda global. Isso motiva o investimento a se afastar do nexo Estado-Indústria, que se encontra em dificuldades, em direção aos mercados financeiros internacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">A teorização mais sistemática de Brenner baseia-se em um modelo de superprodução no qual a capacidade industrial incontestável dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial acaba enfrentando a concorrência de produtores internacionais mais eficientes, notadamente Alemanha e Japão. Com altos níveis de investimento já imobilizados em capital fixo, cujo valor só pode ser recuperado por meio da fabricação de mais commodities, as empresas americanas são incapazes de reduzir a produção e, portanto, ficam presas em uma concorrência fratricida por participação no mercado. As empresas que deveriam ser eliminadas de um setor em uma onda de destruição criativa destinada a abrir canais para um novo crescimento, em vez disso, cambaleiam para frente, muitas vezes apoiadas pelo Estado, que precisa de sua riqueza e gestão de mão de obra para sua estabilidade. Isso leva ao “que foi efetivamente um processo de superinvestimento, levando ao excesso de capacidade e à superprodução na manufatura em escala internacional”, iniciando uma turbulência sistêmica que ainda não diminuiu <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ambas as análises permanecem no nível dos preços, o nível quantitativo que descreve a manifestação efetiva da crise. Para a análise do valor de Marx, os movimentos dos lucros são fenômenos superficiais que correspondem a uma mudança subjacente no equilíbrio entre capital constante e variável: meios de produção e trabalho assalariado, ou trabalho morto e vivo. Apesar das forças contrárias, essa chamada composição orgânica do capital tende a aumentar com o tempo, à medida que a concorrência obriga a aumentar a produtividade, substituindo iterativamente o trabalho por máquinas e processos de trabalho mais eficientes (o que o século XX conheceu como fordismo e taylorismo, respectivamente).</p>
<p style="text-align: justify;">Esse domínio crescente do trabalho morto sobre o vivo é uma expressão em toda a sociedade da lei do valor, à medida que o aumento da produtividade diminui a quantidade média de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir mercadorias. As consequências econômicas ocorrem de forma desigual. Inicialmente, os aumentos na produtividade geram lucros elevados que atraem mais investimentos e mais mão de obra para a produção. Isso, em combinação, produz uma expansão ainda maior. Com o tempo, porém, o aumento na proporção entre trabalho morto e vivo prejudica a capacidade de produção de valor, sendo o trabalho vivo no processo de produção a única fonte de mais-valia. A mesma dinâmica que originalmente impulsiona a acumulação — o aumento da produtividade no nexo entre salário e mercadoria — também a prejudica, até que a capacidade de produção e a capacidade de trabalho não possam mais ser reunidas e, em vez disso, fábricas vazias e populações desempregadas se acumulem lado a lado. Esse processo ampliado é o que chamamos de <em>produção da não produção</em>. A crise e o declínio não vêm de choques extrínsecos, mas dos limites internos do capital. Podemos chamar isso de “arco de acumulação”, que traça as contradições do capital ao longo do eixo do tempo histórico. Chamá-lo de arco sem dúvida suaviza uma trajetória irregular <strong>[5]</strong>. Além disso, o enredo não expressa algum fato simplesmente quantitativo sobre taxas de crescimento ou similares. Os dois lados do arco, embora ainda sejam arranjos do capitalismo e expressões da dinâmica do valor, são qualitativamente diferentes em sua organização social em uma dialética de continuidade e ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159611" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155.jpg" alt="" width="640" height="448" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155-300x210.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155-600x420.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />No longo século XX, o arco de acumulação viu primeiro a “transferência sem precedentes da população da agricultura para a indústria” e, em seguida, em uma grande reversão, a desindustrialização, afastando a população da indústria e do processo de produção de maneira mais geral, levando-a para o trabalho no setor de serviços ou para o subemprego e o desemprego <strong>[6]</strong>. Essas são reorganizações sociais em escala global.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de suas diferentes análises de causalidade, tanto Brenner quanto Arrighi conseguem escavar a forte relação entre a explicação <em>lógica</em> da acumulação autodestrutiva e a explicação <em>histórica</em> dos ciclos capitalistas, particularmente do ciclo atual em que se concentram. Ou seja, apesar de todas as suas sutilezas metafísicas, o debate sobre a chamada Lei da Tendência da Queda da Taxa de Lucro tem uma correspondência suficiente com as ascensões e quedas que Arrighi apresentou de forma tão abrangente. A explicação de Arrighi começa com a fórmula de Marx para a reprodução ampliada do capital, D-M-D&#8217; (dinheiro-mercadoria-dinheiro&#8217;): o itinerário obrigatório do dinheiro da perspectiva do capitalista, passando para a produção de mercadorias se, e somente se, as mercadorias resultantes puderem ser vendidas a um preço mais alto — pois o capitalista só continua sendo capitalista se isso for possível. A novidade de Arrighi é, então, transferir esse processo lógico para a história empírica de seus “longos séculos”. Ele identifica “a alternância de épocas de expansão material (fases D-M de acumulação de capital) com fases de renascimento e expansão financeira (fases M-D&#8217;)”. Ele narra essa mudança de fase por meio de sua oposição temporal dos períodos D-M e M-D&#8217;:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nas fases de expansão material, o capital monetário “coloca em movimento” uma massa crescente de mercadorias (incluindo a força de trabalho mercantilizada e os dons da natureza); e nas fases de expansão financeira, uma massa crescente de capital monetário “se liberta” de sua forma mercantil, e a acumulação prossegue por meio de transações financeiras (como na fórmula resumida de Marx, D-D´). Juntas, as duas épocas ou fases constituem um ciclo sistêmico completo de acumulação (D-M-D&#8217;) <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na era do capitalismo moderno, essa fase de expansão material é cognata com o crescimento industrial. Nessa fase, a ação principal é a compra de força de trabalho e de meios de produção para a fabricação de mercadorias — ou seja, a valorização dentro do processo de produção. No período de expansão financeira, a principal ação é a venda dessas mercadorias para a realização do valor que elas carregam — ou seja, o capital se recentra no mercado, na troca e no consumo. Esse é o sentido de uma era de circulação da perspectiva do capital: à medida que a capacidade da produção de gerar altos lucros diminui, o capital muda seus investimentos para a realização no presente imediato tanto do valor existente quanto do valor que supostamente está por ser gerado no futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser formulado de outra maneira. A crise irrompe no momento em que o lucro e a expectativa de lucro deixam de fluir da manufatura. Nesse momento, os credores procuram cobrar suas dívidas antes que os devedores fiquem sem recursos; as empresas devedoras, por sua vez, são obrigadas a deixar de reinvestir na produção, enquanto vendem freneticamente seus produtos no mercado para cumprir suas obrigações. Ou podemos narrar os fatos como mencionado anteriormente: o dinheiro disponível para reinvestimento deixa de circular quando os lucros da produção caem abaixo de um certo limite e fica cada vez mais parado nos bancos, marcando passo enquanto aguarda oportunidades de investimento suficientemente tentadoras. Esse momento de imobilidade é o momento da crise; quando o capital começa a circular novamente, ele busca tanto o comércio quanto os créditos sobre o valor futuro, o que Marx chama de capital fictício. Um exemplo sugestivo do presente é a medida em que as montadoras americanas sobreviventes obtêm cada vez mais lucros não da produção, mas do financiamento de compras de consumidores por meio de braços de crédito internos. Mais uma vez, vemos que a expansão financeira é a contração industrial vista de uma posição diferente. E, mais uma vez, narramos em termos indiferentes a mesma mudança da valorização para a realização, da produção para a circulação.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo moderno passou por dois arcos, centrados na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, com o segundo surgindo à medida que o primeiro declinava. Cada um tem suas particularidades. Ao mesmo tempo, eles podem ser sintetizados em um arco mais longo. Desde a primeira decolagem até o recente declínio, sempre houve um motor de acumulação global em funcionamento. De aproximadamente 1830 a 1973, houve um núcleo de capital produtivo no Ocidente com sua expansão sistêmica crescente. É de acordo com isso que anteriormente chamamos o período do século XVIII até o presente de metaciclo, um grande arco de acumulação no sistema mundial capitalista seguindo o curso de <em>circulação-produção-circulação linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159612" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881.jpg" alt="" width="1152" height="1352" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881.jpg 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-256x300.jpg 256w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-873x1024.jpg 873w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-768x901.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-358x420.jpg 358w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-640x751.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-681x799.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-341x400.jpg 341w" sizes="auto, (max-width: 1152px) 100vw, 1152px" />O período de <em>circulação linha</em>, a reorganização social da Longa Crise, condiciona o declínio da greve e a nova era de revoltas de duas maneiras distintas, embora inevitavelmente relacionadas: a espacialização da economia e a recomposição da relação capital/classe. Vamos analisá-las uma de cada vez, antes de reuni-las no final.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>A Espacialização da Luta</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">As revoltas são, originalmente, lutas pelo preço dos bens, ou seja, lutas pela reprodução fora do salário, mas ainda suspensas no mercado. São “lutas para controlar o espaço” e a passagem por ele; há uma rima inclinada entre a revolta paradigmática de exportação em King&#8217;s Lynn em 1347 e o bloqueio maciço no porto de Oakland em 2011 <strong>[8]</strong>. O controle sobre o espaço assume muitas formas, muitas vezes envolvendo esforços para expulsar a polícia dos distritos comerciais que ela defende. As revoltas são obcecadas por edifícios, praças e passagens, com aglomerações na praça e nas ruas. Hobsbawm dedica um capítulo de seu livro <em>Revolutionaries</em> ao papel do urbanismo na insurreição. Há algo de arquitetônico em uma revolta, ou seja, algo espacial. A barricada, esse grande instrumento da revolta, tem suas origens no isolamento de bairros contra incursões; o surgimento da barricada nada mais é do que o surgimento da primeira era de revoltas, que recuou após a Primavera das Nações em 1848 <strong>[9]</strong>. As novas avenidas largas do século XIX são, em relatos sucessivos, projetadas para pôr fim às barricadas e as revoltas; o crescimento industrial acabará por fazer um trabalho melhor nisso.</p>
<p style="text-align: justify;">A espacialidade prática da revolta corresponde a uma distinção teórica. A lógica abstrata da produção é temporal, a lógica abstrata da circulação é espacial. A produção é organizada pelo valor, pela valorização das mercadorias, e esse valor é regulado pelo tempo de trabalho socialmente necessário. É através desse tempo que ambos os lados se reproduzem. Na produção, tanto o capital quanto seus antagonistas lutam por esse tempo — sua duração, seu preço. A greve é uma luta temporal.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez que o valor temporal do trabalho vivo repousa na mercadoria, ele se torna objetivado, espacializado. A circulação é organizada pelo preço, pela realização da mais-valia como lucro quando as mercadorias trocam de lugar. Esta é uma formulação conceitualmente espinhosa, como fica evidente na exposição de Marx:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O dinheiro é agora trabalho <em>objetivado</em>, quer possua a forma de dinheiro ou de uma mercadoria particular. Nenhum modo objetivo de ser do trabalho se opõe ao capital, mas todos eles aparecem como modos possíveis de existência para ele, que ele pode assumir através de uma simples mudança de forma, passando da forma monetária para a forma mercadoria. A única antítese do trabalho <em>objetivado</em> é o trabalho <em>não objetivado</em>; em antítese ao trabalho <em>objetivado</em>, o trabalho subjetivado. Ou aquele trabalho que está presente no tempo, vivo, em antítese ao trabalho passado no tempo, mas existente no espaço. Como trabalho presente no tempo, não objetivado (e, portanto, também ainda não objetivado), ele só pode estar presente como <em>capacidade</em>, possibilidade, habilidade, como <em>capacidade de trabalho</em> do sujeito vivo <strong>[10]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao refletir sobre a relação lógica entre trabalho e mercadorias, Marx chega à antítese entre trabalho não objetivado e trabalho objetivado. De um lado, a força de trabalho que ainda não foi transferida para uma mercadoria no processo de produção; do outro, o valor objetivado nas mercadorias que agora entram no espaço de circulação, elas próprias objetos espaciais. O aumento da proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e vivo, é o próprio processo de espacialização e, portanto, a transformação das lutas temporais em espaciais. Essa distinção existe também no nível prático, no que diz respeito à circulação no sentido concreto: transporte, comunicações, finanças. Marx fala da famosa “aniquilação do espaço pelo tempo”. Isso tem sido frequentemente entendido como uma afirmação da crescente irrelevância das relações espaciais para o capital. O oposto é verdadeiro. Marx argumenta que o espaço se apresenta como o problema fundamental para a troca, e quanto mais o capital depende da troca, mais o espaço apresenta problemas a serem superados:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O capital, por sua natureza, ultrapassa todas as barreiras espaciais. Assim, a criação das condições físicas de troca — dos meios de comunicação e transporte — a aniquilação do espaço pelo tempo — torna-se uma necessidade extraordinária para ele. Somente na medida em que o produto direto possa ser realizado em mercados distantes em quantidades massivas, proporcionalmente à redução dos custos de transporte, e somente na medida em que, ao mesmo tempo, os meios de comunicação e transporte possam produzir esferas de realização para o trabalho, impulsionado pelo capital; somente na medida em que o tráfego comercial ocorra em volume massivo — no qual mais do que o trabalho necessário é substituída — apenas nessa medida a produção de meios baratos de comunicação e transporte é uma condição para a produção baseada no capital e, por essa razão, promovida por ele <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os leitores provavelmente conhecem os debates muitas vezes tediosos sobre se essa passagem sugere que a circulação é internalizada à produção, ou se isso é apenas uma aparência e as obras e mercadorias da circulação são, como Marx continua, “uma <em>condição</em> para o processo de produção” — uma afirmação bastante diferente <strong>[12]</strong>. Para nossos propósitos, o significado é o mesmo. Esse é particularmente o caso, pois não estamos afirmando que as lutas na circulação têm uma relação privilegiada com a produção de valor. Na mudança que se segue à crise, o capital, incapaz de gerar mais-valia ou crescimento adequados por meio da produção industrial convencional, é compelido a entrar no espaço da circulação para competir por lucros, diminuindo seus custos e aumentando o tempo de rotatividade para um volume cada vez maior de mercadorias. As lutas nesse espaço são, portanto, centrais para a existência contínua de cada capital. Há poucas indicações de que isso gere acumulação da mesma forma que a produção industrial.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, esse é o destino inconfundível do capital pós-1973, tornando “nosso presente fundamentalmente um <em>tempo de espaço logístico</em>” <strong>[13]</strong>. Essa reorganização sistêmica, observa Jasper Bernes, “indexa a subordinação da produção às condições de circulação, o tornar-se hegemônico dos aspectos do processo de produção que envolvem a circulação”. Haverá implicações nesse desenvolvimento para as lutas contemporâneas. “A logística é a arte da guerra do capital, uma série de técnicas para a competição intercapitalista e interestatal” <strong>[14]</strong>. Será necessária uma contra-arte que se adapte a esse terreno transformado, mas que também reconheça o espaço logístico como peculiarmente estruturado pelas necessidades do capital, o tipo de maquinaria que o proletariado não pode simplesmente apreender e utilizar para seus próprios fins.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159609" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573.jpg" alt="" width="1000" height="1000" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A construção maciça, impulsionada pelas finanças, do transporte marítimo global e da conteinerização, possivelmente o projeto mais fundamental para o capital nessa época, sinaliza a mudança radical. Ela é prenunciada pela regularização dos contêineres de transporte intermodal (aperfeiçoados para resolver os problemas logísticos da Guerra do Vietnã) por meio de uma série de acordos de 1968 a 1970 e pela desregulamentação do transporte na década seguinte <strong>[15]</strong>. O Centro de Transporte e Logística é criado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em 1973: “líder mundial em educação e pesquisa em gestão da cadeia de suprimentos” <strong>[16]</strong>. A fabricação Just-In-Time, que se generalizou na década de 1970, é o aspecto metodológico da mesma mudança. Desenvolvida na indústria automobilística japonesa, ela é o oposto do paradigma fordista da indústria automobilística dos Estados Unidos, descobrindo eficiências menos na organização da produção do que na circulação, no estoque e na troca: um conjunto interligado de práticas cujo núcleo constitui uma espécie de taylorismo da cadeia de suprimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A correspondência desses desenvolvimentos com a crise industrial é quase absoluta. As expressões desse movimento interligado são numerosas. Em abril de 1973, a Federal Express entrega seu primeiro pacote; quarenta anos após o início da Longa Crise, a FedEx terá a quarta maior frota e será a maior companhia aérea de carga do mundo <strong>[17]</strong>.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>O Fim do Programa</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A mudança na circulação é uma reestruturação econômica que impulsiona e se baseia em uma reorganização social maciça, uma recomposição do capital e da classe. Isso transforma profundamente os horizontes políticos e, com eles, as formas de luta. As mudanças subjacentes se mostraram opacas para alguns observadores. Um deles, escrevendo na revista socialista democrática <em>Jacobin</em>, descobre em 2015 que “a economia dos EUA gira em torno da expansiva indústria de logística” e só consegue concluir que, “após três décadas de mudanças dolorosas na economia industrial, acredito que os socialistas podem, mais uma vez, ter uma estratégia industrial nos Estados Unidos” <strong>[18]</strong>. Outra proposta do mesmo local observa a mesma transformação “particularmente na produção enxuta e nos estoques <em>just-in-time</em>” e reconhece a importância resultante de “focar nesses pontos de distribuição” para “bloquear a distribuição”. O autor recomenda, para esse fim, a organização de “grupos de trabalhadores estrategicamente posicionados”.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses exemplos reconhecem corretamente a vasta transferência de força de trabalho da produção industrial para o espaço de circulação, distribuição e troca. No entanto, a importância disso como um aspecto de uma reestruturação social profunda é negligenciada. É compreensível que o leitor fique perplexo quanto ao motivo pelo qual o esvaziamento do setor industrial, base histórica da organização socialista, exigiria mais uma vez uma “estratégia industrial”. Por sua vez, pode-se perguntar por que o “bloqueio da distribuição”, precisamente a tática dos não trabalhadores tanto lógica quanto historicamente, exige “grupos de trabalhadores”. Dessa perspectiva, não importa o problema, a solução é sempre a mesma: organização do trabalho industrial. É sempre tempo de greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se argumentar que os trabalhadores da circulação são de alguma forma mais difíceis de organizar, que algo peculiar ao novo local de trabalho exclui essa possibilidade. Há razões para acreditar nisso. Além da desagregação e da desqualificação como barreiras à organização, a tradicional paralisação do trabalho pressupõe um senso de posse moral dos trabalhadores sobre seus equipamentos, um resquício das culturas artesanais e manuais que fornece uma função legitimadora estranha ao âmbito da circulação. Dito isso, não há aqui nenhum argumento contra tal organização. A greve da UPS em 1997 mostra que tais coisas são possíveis. É inevitável que uma porcentagem crescente das poucas greves que estão desaparecendo seja na circulação e que as ações trabalhistas mudem para lutas de circulação, como uma questão prática. Considere a mudança tática ilustrativa por parte dos sindicatos franceses, por exemplo, quando as refinarias de petróleo e os depósitos de petróleo franceses foram bloqueados por duas semanas em 2010 <strong>[19]</strong>. De forma mais ampla, os argumentos normativos sobre o que as pessoas que lutam devem fazer ignoram a verdade mais básica. As pessoas lutarão onde estiverem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nosso argumento é que as pessoas estão em outro lugar. E, além disso, que a explosão desses locais de trabalho é sintomática de uma reestruturação maior que augura mal para o potencial dessa organização. O trabalho no mundo superdesenvolvido não mudou simplesmente seu centro de gravidade em algum sentido neutro. Sua relação com a acumulação mudou profundamente e, diante dessa mudança, a exigência de formas inalteradas de ação parece, na melhor das hipóteses, uma falha de compreensão. Mesmo a política de classe mais recôndita ou reducionista é agora obrigada a se reconfigurar de acordo com essas grandes transformações político-econômicas ou se condenar ao interminável papel de um romance ultrapassado ao qual o perfume de 1917 sempre se apega.</p>
<p style="text-align: justify;">O editor da Jacobin, Bhaskar Sunkara, resume essa política ritualística. Ele reconhece que “pode ser útil considerar as maneiras pelas quais a situação atual se assemelha a um retorno ao pré-fordismo”; dada a semelhança, a política oferecida então certamente ainda deve prevalecer, e “às vezes novas crises precisam ser enfrentadas com o vocabulário antigo” <strong>[20]</strong>. Mas qual é esse vocabulário antigo e por que exigiria o mesmo conjunto de estratégias que esses pensadores vêm propondo há mais de um século, sem variações? Podemos notar aqui um erro simples na compreensão do caráter do arco de acumulação. Ele supõe que um ponto na descida seria historicamente idêntico a um ponto na ascensão simplesmente porque estavam na mesma altura (de lucro ou taxa de desemprego, etc.). Esse equívoco não leva em conta o vetor: a diferença entre ascensão e queda, entre mercados de trabalho restritos e flexíveis, entre a capacidade de dinamismo e expansão e o curso da estagnação e contração. As condições que historicamente possibilitaram o vocabulário socialista —acumulação real, um mercado de trabalho tenso, a possibilidade de ganhar poder apropriando-se de uma parte dessa acumulação, um proletariado industrial em expansão — não existem mais. Os ganhos progressivos que poderiam fortalecer e encorajar o partido de massa dependente da organização sindical não estão mais ao alcance, como estavam durante o crescimento econômico, a expansão e o boom. Isso faz parte de uma mudança mais ampla: “O ano de 1978”, como observou sucintamente um historiador de negócios, foi o “Waterloo para sindicatos, reguladores e reformadores tributários keynesianos” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159615" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605.jpg" alt="" width="2000" height="1363" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-1024x698.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-1536x1047.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-616x420.jpg 616w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />Talvez possamos admitir que Sunkara está parcialmente certo. É inevitável que compreendamos novos momentos primeiro através de vocabulários antigos. Mas estamos mais adiantados no arco do que ele pode supor e, portanto, talvez precisemos recorrer a um léxico bastante mais antigo e renová-lo. É mais cedo do que pensamos. Ou seja, é bem mais tarde.</p>
<p style="text-align: justify;">O declínio do movimento trabalhista no Ocidente dispensa explicações. As narrativas contrárias, especialmente aquelas que sugerem que o declínio é resultado de combates ideológicos, falhas de vontade ou erros estratégicos, já foram submetidas ao que Marx chamou de crítica prática do real. Os dados básicos são bem conhecidos. Provavelmente, o mais claro é o colapso para zero das greves envolvendo mais de 1.000 trabalhadores a partir do final dos anos 1970. Para aqueles que duvidam dessa medida (que tem pouca correlação com a sindicalização), a situação pode ser resumida assim: nos Estados Unidos, após 1981, apenas três anos excederam 10 milhões de dias acumulados de paralisação por greves, com vários anos abaixo de 1 milhão. De 1947 a 1981, o número excedeu 10 milhões todos os anos, com uma média de mais do dobro disso <strong>[22]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos encontrar um momento decisivo voltando mais uma vez a Detroit e a 1973, onde “pela primeira vez na história do UAW, o sindicato se mobilizou para manter uma fábrica aberta” <strong>[23]</strong>. Isso se tornará rapidamente o paradigma para a organização trabalhista, quer se queira ou não. Com o esvaziamento do setor industrial e a perda de lucratividade, a principal ameaça tanto para o capital quanto para o trabalho é que uma determinada empresa deixe de existir. E, em uma escala maior, a própria capacidade de autorreprodução do capital entrará em colapso. A partir desse ponto, as lutas contra o capital só podem ser <em>contra</em> a existência do capital, em vez de <em>pelo</em> empoderamento do trabalho. Capital e trabalho se encontram agora em colaboração para preservar a autorreprodução do capital, para preservar a relação de trabalho juntamente com a viabilidade da empresa. Isso impõe limites quase absolutos à negociação.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos chamá-la de “armadilha da afirmação”, na qual o trabalho fica preso à posição de afirmar sua própria exploração sob o pretexto da sobrevivência. É uma versão do que Lauren Berlant chama de “otimismo cruel”. O otimismo é cruel em uma situação cada vez mais comum:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O objeto/cena que desperta uma sensação de possibilidade na verdade torna impossível alcançar a transformação expansiva pela qual uma pessoa ou um povo se arrisca a lutar; e, duplamente, é cruel na medida em que os próprios prazeres de estar dentro de uma relação se tornaram sustentáveis, independentemente do conteúdo da relação <strong>[24]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Certamente isso descreve com exatidão não apenas qualquer relação, mas as exigências da relação de trabalho na Longa Crise. A armadilha da afirmação é o otimismo cruel em seu estrato mais obstinado, existindo independentemente de apegos libidinosos, suas compulsões não envolvendo nenhum reconhecimento errôneo. Os prazeres sustentadores são comida e abrigo.</p>
<p style="text-align: justify;">Preso na armadilha da afirmação, o trabalho deixa de ser a antítese do capital. Isso pode ser visto como o final irônico da própria afirmação que define o horizonte socialista da luta, em que “a revolução é, portanto, a afirmação do proletariado, seja como ditadura do proletariado, conselhos operários, libertação do trabalho, período de transição, definhamento do Estado, autogestão generalizada ou uma &#8216;sociedade de produtores associados&#8217;” <strong>[25]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses são os termos em que o grupo Théorie Communiste define o “programatismo”, o modelo central da luta revolucionária de classe no século XX. Moishe Postone identifica o programatismo (ele não usa o termo) com o “marxismo tradicional” que, segundo ele, reconhece erroneamente a base do capitalismo como a propriedade dos meios de produção, enquanto trata o trabalho produtivo como “a fonte transhistórica da riqueza e a base da constituição social”. A apropriação dos meios de produção, portanto, preserva <em>a forma capitalista de riqueza</em> enquanto a redistribui socialmente, e assim “o marxismo tradicional substitui a crítica de Marx ao modo de produção e distribuição por uma crítica apenas ao modo de distribuição” <strong>[26]</strong>. Daí a distinção usada aqui entre socialismo e comunismo: o primeiro indicando esse modelo distributivo, o segundo indicando a abolição da economia e o fim da relação indexical entre o trabalho de cada um e qualquer relação ou acesso à riqueza social.</p>
<p style="text-align: justify;">Este “marxismo tradicional” deve ser entendido historicamente. O horizonte socialista do programatismo não deve ser entendido como uma falha analítica ou moral, nem como uma espécie de paralisação; haveria uma passagem do socialismo para o comunismo (ou de uma fase inferior para uma fase superior do comunismo, como Marx afirma em <em>Crítica ao Programa de Gotha</em>). Em vez disso, ele reflete com precisão as condições reais do mundo em que surge. É uma luta contra o capital “vista do ponto de vista do trabalhador, ou seja, do ponto de vista do ciclo do capitalismo produtivo”, nas palavras de Gilles Dauvé <strong>[27]</strong>. Ou seja, surge com o aumento do poder do trabalho industrial, razão pela qual os trabalhadores desse setor são capazes de se posicionar como a fração revolucionária da classe. Seu crescimento é a expansão do capital. Isso, no entanto, não implica um ponto de vista ou forma de luta imutável: “a centralidade do trabalho proletário na análise de Marx sobre o capitalismo não deve ser tomada como uma avaliação afirmativa de sua parte sobre sua primazia ontológica na vida social, ou como parte de um argumento de que os trabalhadores são o grupo mais oprimido da sociedade” <strong>[28]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É do outro lado do arco-íris da acumulação que os limites históricos do programatismo se tornam evidentes. Quando a fração de classe que centralizou a era do programa não exerce mais um poder peculiar sobre o capital, tal curso de luta é excluído. Esse resultado não é consequência de artimanhas políticas, de alguma política nefasta sob o título de “neoliberalismo”. É a própria autotransformação do capital da perspectiva do trabalho — trabalho agora forçado a afirmar o capital no mesmo gesto pelo qual afirma seu próprio ser. É precisamente essa luta pela autopreservação, o que a Théorie Communiste chama de “pertencimento de classe como uma restrição externa”, que é o limite das lutas trabalhistas como motor revolucionário <strong>[29]</strong>. As reivindicações salariais, outrora imaginadas como uma vantagem ou mesmo uma alavanca para a abolição da classe, devem agora ser adaptadas às necessidades de autorreprodução do capital, à medida que essa autorreprodução entra em crise. Em sua lassidão crepuscular, a classe trabalhadora é reduzida a reproduzir pouco além das condições de sua própria miséria. A luta salarial mantém sua legitimidade como reivindicação de sobrevivência — salário, salário contra a morte da luz —, mas ao mesmo tempo legitima o capital. Não há além.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159610" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959.jpg" alt="" width="1214" height="850" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959.jpg 1214w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-300x210.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-1024x717.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-768x538.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-600x420.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-640x448.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-681x477.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1214px) 100vw, 1214px" /></p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>Sobredeterminação</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A revolta não busca preservar nada, não afirma nada, exceto talvez um antagonista comum, uma miséria comum, uma negação comum. Ela carece de um programa. Sob o título “Isso não foi um movimento”, um comentarista sobre as revoltas de Londres em 2011 escreve:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nos distúrbios de agosto, nada na situação de seus protagonistas valia a pena ser defendido: vizinhança, residência, comunidade, etnia e raça, todos se revelaram aspectos da reprodução do capital, que produz esses proletários como verdadeiros indigentes. […] A linguagem da revolta não era a linguagem positiva do “movimento”, da mudança social, das reivindicações ou da política, mas sim a linguagem negativa do vandalismo. O que aconteceu foi muita destruição, nada foi construído, não houve planos, nem estratégias <strong>[30]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para muitos observadores, essa é a característica mais perturbadora das revoltas. Diante disso, a exigência de um programa, a exigência de exigências, é em si uma exigência familiar, o estertor da política prescritiva. Ela não será atendida. Mas isso não quer dizer que as revoltas careçam de determinações. Na verdade, as revoltas são surpreendentemente sobredeterminadas pela série de transformações históricas que tornam inevitável o gênero particular de antagonismo que chamamos de lutas de circulação.</p>
<p style="text-align: justify;">Um resumo será útil. O excedente social que acompanha a acumulação diminuiu e, com ele, a capacidade do capital e do Estado de atender às demandas por salários diretos e sociais, apesar de exceções ocasionais. A demanda salarial é excluída como nada mais do que uma ação de retaguarda inseparável da afirmação da existência do capital. O capital transferiu suas esperanças de lucro para o espaço da circulação e, assim, transferiu sua vulnerabilidade para lá. O trabalho mudou para a circulação com ele. O mesmo aconteceu com o não trabalho: os subempregados e desempregados, aqueles deixados para as economias informais, aqueles deixados para apodrecer. Essa desindustrialização foi dramaticamente racializada.</p>
<p style="text-align: justify;">A morte da demanda salarial significa o desaparecimento das lutas de produção unificadas pelo papel comum dos participantes como trabalhadores assalariados. Ao mesmo tempo, a luta pela circulação não tem nenhuma exigência lógica de que seus participantes sejam trabalhadores. Se o trabalho tem acesso imediato e legitimidade para interromper a produção na fábrica, qualquer pessoa pode liberar um mercado, fechar uma estrada, fechar um porto. Como no século XVIII, os manifestantes podem ser trabalhadores, mas não aparecem <em>como</em> trabalhadores; os participantes não estão unificados pela posse de empregos, mas por sua desapropriação mais geral. Eles entram no espaço do mercado, lutando pela reprodução além do salário. Esta é a definição que oferecemos na introdução, repetida novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez, então, a “sobredeterminação” esteja errada. Uma nova situação para a disputa social foi gerada. Um novo arranjo da população por meio do mesmo movimento gera trabalhadores e não trabalhadores circulantes, que por acaso compartilham uma relação com essa situação de disputa. Essa mudança nas formas de ação coletiva é uma habilidade dialética. Mas a dialética precisa do proletariado, e não acabamos de declarar a morte da classe trabalhadora?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ver Joshua Clover e Aaron Benanav, “Can Dialectics Break BRICS?” <em>The South Atlantic Quarterly</em> 113: 4, outono de 2014, 743-59.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Fernand Braudel, <em>The Perspective of the World: Civilisation and Capitalism</em>, vol. 3, Berkeley: University of California Press, 1982, 80.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ibid., 77.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Brenner, <em>Turbulence</em>, 38.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Para uma imagem do movimento crescente de acumulação e crise, ver Henryk Grossman, <em>Law of Accumulation and Breakdown of the Capitalist System</em>, Londres: Pluto Press, 1992, 84.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Aaron Benanav e John Clegg, “Misery and Debt: On the Logic and History of Surplus Populations and Surplus Capital,” <em>Contemporary Marxist Theory</em>, eds. Andrew Pendakis et al., New York: Bloomsbury, 2014, 585.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Arrighi, <em>Long Twentieth Century</em>, 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Abu-Lughod, <em>Race, Space</em>, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Mark Traugott, <em>The Insurgent Barricade</em>, Berkeley: University of California Press, 2010, 81-82.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Karl Marx, “Fragment des Urtexts von &#8216;Zur Kritik der politischen Ökonomie,&#8217;” Grundrisse der Kritik der PolitischenÖkonomie, Berlim: Dietz Verlag, 1858/1953, 942 (ênfase no original). Citado em Jacques Camatte, <em>Capital and Community: The Results of the Immediate Process of Production and the Economic Work of Marx</em>, trad. David Brown, Londres: Unpopular Books, 1988, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 524-5 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Ibid., 525 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Deborah Cowen, <em>The Deadly Life of Logistics: Mapping Violence in Global Trade</em>, Minneapolis: University of Minnesota Press, 2014, 5 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Jasper Bernes, “Logistics, Counterlogistics and the Communist Prospect,” <em>Endnotes</em> 3, 2013, 185.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Marc Levinson, <em>The Box: How the Shipping Container Made the World Smaller and the World Economy Bigger</em>, Princeton: Princeton University Press, 2006, 147-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Consulte o site do MIT Center for Transportation &amp; Logistics MIT, ctl.mit.edu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Consulte a página da FedEx, “Nossa história: história e cronologia”, about.van.fedex.com; e a página da IATA Publicações e ferramentas interativas, <a href="https://web.archive.org/web/20120427115854/http://www.iata.org/ps/publications/pages/wats-freight-km.aspx." target="_blank" rel="noopener">https://web.archive.org/web/20120427115854/http://www.iata.org/ps/publications/pages/wats-freight-km.aspx.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Joe Allen, “Studying Logistics”,<em> Jacobin</em>, 12 de fevereiro de 2015, jacobinmag.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Para um estudo abrangente desse fenômeno em relação aos distúrbios, consulte Blaumachen, “The Transitional Phase of the Crisis: The Era of Riots” (A fase de transição da crise: a era dos distúrbios), blaumachen.gr.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Bhaskar Sunkara, “Precarious Thought”, <em>Jacobin</em>, 13 de janeiro de 2012, jacobinmag.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Jefferson Cowie, <em>Stayin&#8217; Alive: The 1970s and the Last Days of the Working Class</em>, Nova York: New Press, 2010, 292. A fonte citada é Kim McQuaid, <em>Uneasy Partners: Big Business in American Politics, 1945-1990</em>, Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1994, 156.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Consulte o banco de dados online do Bureau of Labor Statistics, “Economic News Release: Table 1. Work stoppages involving 1,000 or more workers, 1947-2014” (versão atualizada em 11 de fevereiro de 2015), bls.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Bill Bonds, WXYZ-TV News, falando sobre os eventos na fábrica de estampagem Mack, 16 de agosto de 1973. Citado em Georgakas e Sunkin, Detroit, 189.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Lauren Berlant, <em>Cruel Optimism</em> Durham: Duke University Press, 2011, 2.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Théorie Communiste, “Much Ado About Nothing,”<em> Endnotes</em> 1, 2008, 155.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> Moishe Postone, <em>Time, Labor, and Social Domination</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 1993, 69 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[27]</strong> Gilles Dauvé, <em>Ni Parlement ni syndicats: les Conseils ouvriers</em>, Paris: Editions Les Nuits rouges, 2008, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[28]</strong> Postone, <em>Social Domination</em>, 356 n.120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[29]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense,” <em>Communization and Its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles</em>, ed. Benjamin Noys, Wivenhoe: Minor Compositions, 2011, 53.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[30]</strong> Rocamadur/Blaumachen, “The Feral Underclass Hits the Streets: On the English Riots and Other Ordeals,” SIC, n.º 2, janeiro de 2014, 113-4.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Mario Sironi.</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (8)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Aug 2026 11:17:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[ É difícil enfatizar a importância do esforço para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.  Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h3 style="text-align: justify;">CAPÍTULO 6</h3>
<h3 style="text-align: justify;">Fios cruzados, Ou da Greve para a Revolta</h3>
<p style="text-align: justify;">Em 1963, a revista socialista <em>Monthly Review</em> dedicou uma edição dupla a um trabalhador da indústria automobilística de Detroit: uma descrição precisa que ressalta a qualidade comum da trajetória de James Boggs, inseparável de sua vida notável. Em 1937, seguindo o caminho da primeira Grande Migração de negros americanos do sul rural para o norte e o meio-oeste industrial, Boggs mudou-se do Alabama para Detroit, onde viveria o resto de sua vida. Ele acabaria se casando com Grace Lee, a terceira líder e teórica da Tendência Johnson-Forrest, juntamente com C. L. R. James e Raya Dunayevskaya. A tendência teve origem no Partido dos Trabalhadores e no Partido Socialista dos Trabalhadores, dois grupos trotskistas; ela preservava uma perspectiva obreirista e dava atenção especial às greves selvagens militantes entre mineiros e trabalhadores automotivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Dado esse conjunto de circunstâncias, afiliações e compromissos, o breve prefácio de Boggs para seu livro <em>The American Revolution: Pages From a Negro Worker&#8217;s Notebook</em> (<em>A Revolução Americana: Páginas do Caderno de um Trabalhador Negro</em>) é surpreendente. Ele conclui:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sou um operário de fábrica, mas sei mais do que apenas o trabalho na fábrica. Sei a diferença entre o que soaria certo se vivêssemos em uma sociedade de pessoas lógicas e o que é certo quando se vive em uma sociedade de pessoas reais com diferenças reais. Pode parecer perfeitamente natural para uma pessoa altamente educada e lógica, mesmo quando ouve as pessoas dizerem que haverá uma grande revolta, supor que não haverá uma grande revolta porque as autoridades têm tudo sob controle. Mas se eu continuasse ouvindo as pessoas dizerem que haveria uma grande revolta e visse uma dessas pessoas lógicas parada no meio, <em>eu </em>diria a ela que era melhor sair do caminho, porque com certeza seria morta.</p>
<p style="text-align: justify;">Reformas e revoluções são criadas pelas ações ilógicas das pessoas. Muito poucas pessoas lógicas fazem reformas e nenhuma faz revoluções. Direitos são o que você faz e o que você toma <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">É uma passagem curiosa, e não apenas por seu gesto final do que poderíamos chamar de <em>instrumental irracionalidade</em>. Por um lado, é um pouco opaca; o surgimento repentino da revolta é, no mínimo, sem motivo, ou desorientadoramente presciente. 1963 é quatro anos antes da Grande Rebelião de Detroit, na época a revolta de maior escala na história nacional. E é um ano antes das rebeliões no Harlem e em outros lugares inaugurarem o período em que a “revolta racial” ascende como uma característica central do cenário político dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, o raciocínio que permeia a passagem é familiar, se você já passou alguns momentos com a história implícita do debate. Ele associa tacitamente a organização operária à “lógica”, a um tipo de ordem que não pode deixar de refletir a racionalidade congelada da linha de montagem da fábrica. A revolta vem acompanhada de desordem, ilógica, o espaço social ambiente do boato. Não menos significativo, o texto recupera a superação da política prescritiva por Luxemburg. Sua distinção entre “o que soaria certo se vivêssemos em uma sociedade de pessoas lógicas” e “o real” do que realmente acontece em determinadas condições sociais é uma versão da oposição de Luxemburg entre o politicamente “desejável” e o “historicamente inevitável”.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada um deles encontra a particularidade de seu momento, de sua abertura, incerteza, possibilidade. Os anos 1960 dão origem a uma situação única de revoltas e greves, que se concentra principalmente em Detroit. A situação lá tem duas características distintas. Uma é a racialização da revolta, ou melhor, a relação entre revolta e racialização. Esse é o tema de um capítulo posterior. A outra, que difícilmente pode ser dissociável da questão racial, é a proximidade entre as duas formas de ação coletiva — sua coexistência, adjacência, confronto. Esse é um enigma revelador da década, um emaranhado que, à medida que se desenvolve e se esclarece, começa a revelar como a revolta não apenas expressará, mas explicará seu momento histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">As associações mais reveladoras e preditivas entre revolta e greve são aquelas com determinadas condições político-econômicas que orientam o capital como um todo e mudam ao longo do tempo, permitindo que as formas de ação mudem em seu significado e seu poder. Essa indexação não é absoluta; as condições político-econômicas não são absolutamente determinantes. Em vez disso, elas sugerem possibilidades e limites. O campo da disputa social é mantido em tensão, por um lado, pela capacidade dos seres humanos de “fazer sua própria história” e, por outro, pelas “circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas do passado”. É por causa da tensão entre essas forças, entre agência e determinação, que encontramos múltiplas formas de ação coletiva dentro de uma determinada conjuntura. Ao mesmo tempo, como um determinado conjunto de condições se inclina para um lado e não para outro, uma das formas de ação tenderá a se tornar a tática dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">Em períodos de transformação sistêmica, haverá necessariamente mudanças nas táticas dominantes e competições entre táticas, à medida que diferentes frações da sociedade, posicionadas de maneira diferente, empreendem lutas emancipatórias. Os anos 1960 e 1970 nos Estados Unidos oferecem um estudo extraordinário desse fenômeno de transformação, equivalente ao que vimos no início do século XIX na Grã-Bretanha — embora aqui o vento da mudança sopre na direção oposta, da fábrica de volta para o porto, o mercado, a praça pública. Apesar de todas as diferenças manifestas, há ressonâncias da destruição de máquinas do século XIX, à medida que mudanças radicais na produção social se manifestam como indecisão e transformação dentro do repertório de táticas. Com a greve agora uma tática distinta e popular, o retorno da revolta aparece a princípio como um esforço estranho e heróico de unir as duas formas de ação em um processo revolucionário no qual a luta operária e a revolta parecem duas frentes de um único antagonismo. “Sou um operário de fábrica, mas sei mais do que apenas o trabalho na fábrica”, diz Boggs; poderia ser a década falando. A luta e a invenção incessantes da década, em grande parte centradas entre a população negra que suportava o peso inicial da desindustrialização, só são possíveis dentro de uma janela muito estreita. É um esforço perseguido de lado, desesperadamente, talvez às escondidas da consciência, e que, em última análise, é incapaz de se realizar.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159561 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1.jpg" alt="Revolta, greve, revolta" width="734" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1.jpg 734w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-514x420.jpg 514w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-640x523.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-681x557.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 734px) 100vw, 734px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;"><em>Luta e Lucro</em></h3>
<p style="text-align: justify;">A greve sobrevive como tática principal no ocidente industrializado ao longo dos anos 1960. Tal como Engels sugeriu, está ligada à expansão económica. Ao longo do século XX, a greve não acompanha a catástrofe econômica, mas sim o crescimento, um fato que não é menos verdadeiro nos anos 1930 da Depressão e da Frente Popular do que durante o boom do pós-guerra, como observou o sociólogo Roberto Franzosi:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Pesquisas quantitativas mostraram, sem sombra de dúvida, em diferentes contextos institucionais (períodos de amostragem e países), que a frequência das greves acompanha o ciclo econômico e, em particular, o movimento do desemprego — quanto maior o nível de desemprego, menor o nível de greves <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar da clareza dessa correlação, a associação tradicional da greve com o baixo desemprego faz parte de uma dinâmica mais ampla de acumulação sistêmica e industrialização em expansão, inexoravelmente ligada a altas taxas de lucro. A acumulação, deve-se observar, não é um processo fluido e sem complicações, mesmo quando vista à distância. O longo metaciclo do capital produtivo no Ocidente, de cerca de 1830 a 1973, é repleto de volatilidade, crises, recessões e uma transferência entre potências hegemônicas. No entanto, dentro desse cenário histórico variado, a correlação entre greves, mercados de trabalho tensos, expansão industrial e altas taxas de lucro é impressionante; a causalidade é logicamente necessária. Ela se baseia nas dificuldades relativas em substituir a mão de obra, na relutância do capital em interromper atividades altamente lucrativas, na capacidade do Estado de comprar a paz interna com salários sociais e na capacidade da força de trabalho de aumentar sua posição e seu poder de compra, na medida em que há excedente social a ser apropriado.</p>
<p style="text-align: justify;">Os anos 1960, nesse aspecto, são um período incomum. As taxas de lucro permanecem historicamente altas. O crescimento real do PIB mundial na década é superior a 5%, mais de um ponto percentual acima das décadas anteriores e posteriores, impulsionado pela Anglosfera e pelo norte da Europa, com o Japão crescendo ainda mais rapidamente em sua recuperação acelerada. As taxas de lucro líquido da indústria nos EUA apresentam picos iguais e médias superiores a qualquer outro período de expansão <strong>[3]</strong>. Consequentemente, o “desaparecimento das greves” no norte da Europa, no Reino Unido, nos EUA e no Canadá, previsto por alguns economistas — apostando que, dentro de um “movimento trabalhista maduro… os membros não estão tão predispostos a greves como antes” — não se concretizou <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, começa a aparecer a fraqueza macroeconômica, com a expansão desacelerando à medida que os lucros acumulados buscam, cada vez mais em vão, uma saída produtiva, iniciando “a crise sinalizadora do regime de acumulação dos EUA no final da década de 1960 e início da década de 1970” <strong>[5]</strong>. As tentativas correspondentes de aumentar o poder de compra não levam à renovação da produção, mas à inflação e à fuga de capitais, no caminho para a crise de 1973 que sinalizaria o declínio do ciclo de acumulação liderado pelos EUA. Brenner acompanha o declínio do setor industrial dos EUA, e da manufatura em geral, diante da concorrência internacional, um fenômeno do qual as montadoras são, como sempre, os principais exemplos. O efeito desse declínio, “especialmente dada a enorme fração do total das economias capitalistas avançadas representada pela produção dos EUA, foi uma grande queda na lucratividade agregada das economias capitalistas avançadas, localizadas principalmente na manufatura, nos anos entre 1965 e 1973” <strong>[6]</strong>. O fato de a desaceleração global ter sua base no motor industrial dos EUA sugere que pode ser possível generalizar, pelo menos de forma limitada, a partir da experiência dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma economia paradoxal, com alta produtividade ofuscada pela desindustrialização incipiente. As greves persistem: no Reino Unido, a década de 1960 veria um aumento notável tanto nas paralisações quanto no total de dias de trabalho perdidos. Nos Estados Unidos, as greves experimentariam um surto no outono, começando por volta de 1964 e durando até os anos 1970 — não se sabia que esse seria o último brilho dourado antes do inverno chegar para o movimento operário no coração do sistema capitalista mundial <strong>[7]</strong>. Ao mesmo tempo, há uma visibilidade rapidamente crescente de revoltas em todas as escalas, mais notavelmente na série de “Long Hot Summers” (Longos Verões Quentes). A nova era de revoltas ainda não chegou de fato, mas a transição desigual já começou.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seu estudo sobre o estado carcerário na Califórnia, Ruth Wilson Gilmore descreve a maneira como uma população racializada se mobiliza entre opressões locais e colapso sistemático:</p>
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<p style="text-align: justify;">A Rebelião de Watts de 1965 foi uma encenação consciente de oposição (mesmo que “espontânea” no sentido leninista) à desigualdade em Los Angeles, onde o apartheid cotidiano era renovado à força pela polícia sob a direção do chefe William Parker, um supremacista branco assumido. Em Oakland, o Partido dos Panteras Negras foi concebido como um desafio dramático, altamente disciplinado e fácil de imitar à brutalidade policial local. A organização militante urbana antirracista negra, que se concentrava em atacar as formas concretas pelas quais “a raça… é a modalidade através da qual a classe é vivida”, surgiu de muitas décadas de luta no caldeirão sangrento da revolução contra o apartheid do sul <em>e seu</em> sósia nas cidades do norte…</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1967, o sistema começou a desmoronar simbolicamente e materialmente. Durante o Verão do Amor, enquanto milhares de hippies se reuniam em São Francisco para repudiar o establishment, a Califórnia alinhou suas forças coercivas antirracistas por trás <em>da vanguardista Panther Gun Bill</em> (Lei dos Panteras Armados) — tudo isso ao mesmo tempo em que a taxa de lucro começou seu espetacular declínio <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Mesmo o famoso e anódino Relatório Kerner, encomendado por Lyndon Johnson após os distúrbios de Newark e a Grande Rebelião de 1967, registra “uma mudança gradual tanto nas táticas quanto nos objetivos” dos protestos negros, “de ações legais para ações diretas, da classe média e alta para ações em massa… de apelar para o senso de justiça dos americanos brancos para demandas baseadas no poder do gueto negro” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os contornos da revolta moderna, a <em>revolta linha</em>, começam aqui a ficar claros. Embora compartilhe certas características e lógicas com revoltas mais antigas, ela entra em uma situação histórica muito diferente e enfrenta um cenário estranho. Portanto, é crucial observar que a sequência <em>revota-greve-revolta linha</em> não sugere uma simples oscilação histórica, mas um desenvolvimento longo e abrangente que esgota e recupera formas à medida que o conteúdo e o contexto da luta mudam. Como essa trajetória traça mudanças sociais mais amplas que ocorrem em diferentes graus em todo o mundo superdesenvolvido, certas semelhanças podem ser observadas apesar das diferenças nacionais ou regionais, por exemplo, entre as revoltas no Reino Unido e na França.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta nos Estados Unidos é uma nova fase da luta racializada que emerge da e contra a história do movimento pelos direitos civis, mais orientado para as reformas, que em 1965 já havia conquistado grande parte das vitórias que conquistaria. A racialização da nova revolta se destaca ainda mais claramente no contexto do trabalho organizado, sobretudo pela branquitude codificada desse contexto. Rotineiramente precipitado pela violência dos atores estatais e sua consequente impunidade, o auge das revoltas deve ser pensado não apenas no contexto da violência racial do Estado, mas também, por exemplo, no do racismo agressivo dos sindicatos da AFL, que conseguiram adiar a formação de qualquer sindicato liderado por negros até a carta de 1925 da Brotherhood of Sleeping Car Porters. Ou seja, a negritude da revolta aparece não apenas como uma continuidade conturbada do movimento pelos direitos civis contra a anti-negritude do Estado, mas também contra a branquitude da greve. Isso acaba por estruturar o próprio senso comum — apesar da longa história de exemplos contrários em ambos os lados da suposta dicotomia, desde as revoltas “nativistas” de brancos contra brancos no século XIX e a onda de ataques anti-asiáticos após a Lei de Exclusão Chinesa até a Greve dos Viticultores de Delano.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um paradoxo evidente. Por um lado, o tema das revoltas contemporâneas no Ocidente é consistentemente racializado, e os padrões de longa data de violência racializada, contenção e abjeção são inseparáveis do desenvolvimento das revoltas modernas. Por outro lado, a identificação absoluta e eventualmente naturalizada da tática com a raça acabará sendo um erro destrutivo, uma confusão entre correlação e causa — como se a própria negritude fosse a origem das revoltas. Janet Abu-Lughod ressalta os limites do termo “revolta racial”, observando a construção da <em>raça</em> e, além disso, a inadequação do termo <em>revolta</em> em relação aos sentidos mais abertamente políticos disponíveis para a linguagem de revolta e rebelião. No final, ela o mantém “porque tem uma referência aparentemente clara na literatura à violência inter-racial, seja iniciada por coletividades de brancos contra negros ou por coletividades de negros contra brancos” <strong>[10]</strong>. Significativamente, a história das revoltas raciais nos Estados Unidos começa com os brancos disciplinando outras populações insubordinadas. O “Verão Vermelho” de 1919, que ajudaria a forjar laços profundos, mas agora amplamente esquecidos, entre os negros dos EUA e as organizações socialistas e comunistas, é o exemplo mais conhecido, mas dificilmente o único, inserido em “uma onda extraordinária de violência em massa dirigida aos negros entre 1919 e 1923” <strong>[11]</strong>. Na segunda metade do século XX, <em>as revoltas raciais</em> evocam imagens de violência espontânea dos negros. É só então que o termo passa a significar revoltas como tal. A convergência retórica é grosseira e eficaz. O caráter supostamente irracional e natural das revoltas, sem razão, organização e mediação política, está alinhado com a tradição racista em que os sujeitos racializados são considerados naturais, animalescos, irracionais e imediatos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159562 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="486" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2.jpg 486w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-243x300.jpg 243w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-340x420.jpg 340w" sizes="auto, (max-width: 486px) 100vw, 486px" /></p>
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<h3 style="text-align: justify;"><em><strong>Revoluções Por Minuto</strong></em></h3>
<p style="text-align: justify;">Em 1968, o Partido Socialista Italiano da Unidade Proletária ficou em um impasse sobre um convite para sua conferência internacional em 1968: um membro dos Panteras Negras ou alguém do movimento operário radical de Detroit? Sua grande sorte foi descobrir que John Watson era um membro central tanto do Movimento Revolucionário da União Dodge (DRUM) quanto do principal grupo do Black Power. Essa situação não duraria muito. “A filiação de Watson a duas organizações revolucionárias distintas, o DRUM e os Panteras Negras, representou um compromisso de curta duração entre as forças revolucionárias em Detroit e na Califórnia”, que entraria em colapso logo em seguida <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse momento é o ponto crucial de uma sequência política volátil. Mesmo o relato mais resumido oferece uma noção da rápida mudança das formações revolucionárias. A pré-história deve incluir a ascensão da industrialização dos EUA em Detroit, bem como a fundação da Nação do Islã, liderada pelo trabalhador automotivo desempregado Elijah Muhammad. Entre 1920 e 1970, a população negra de Detroit aumentou de 4% para 45%; este é o local mais dramático de uma internalização mais ampla da mão de obra negra no proletariado industrial, ele próprio uma força motriz nos sucessos do movimento pelos direitos civis e no desgaste da lei formal de Jim Crow <strong>[13]</strong>. O início dos anos 1960 vê o desenvolvimento da UHURU, uma filial ativa do Movimento de Ação Revolucionária (RAM) nacional, e em 1966 a fundação da filial de Detroit do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa. Em seguida, a Grande Rebelião no verão de 1967, caracterizada, entre outras coisas, por vários atiradores nos telhados repelindo a polícia. No outono do descontentamento de Detroit, o Inner City Voice, um jornal militante negro liderado por Watson nos escritórios da Wayne State University, torna-se um nexo para várias lutas militantes; sua equipe inclui figuras centrais em todos os grupos do período. No ano seguinte, forma-se o DRUM e, em seguida, vários outros RUMs; em 1969, eles se unem como Liga dos Trabalhadores Negros Revolucionários (LRBW). Em 1970, a seção de Detroit dos Panteras é fechada, talvez por ordem da poderosa seção de Chicago; bem antes disso, “as tensões ideológicas entre os Panteras e a Liga haviam se tornado de conhecimento público” <strong>[14]</strong>. Em 1970, a LRBW inicia uma longa e dolorosa cisão, dividida entre tendências que apoiam a luta na frente cultural, o engajamento parlamentar, a formação de conselhos operários e um partido vanguardista negro. Em 1972, o que restava da LRBW se afilia à Liga Comunista e deixa de existir como entidade autônoma. Na medida em que é possível fazer afirmações pontuais, a sequência terminou e, com ela, os longos anos 1960 <strong>[15]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito se escreveu sobre essa ascensão e queda. Menos atenção foi dada à característica mais notável da sequência, que é justamente o que a torna uma sequência, em vez de um agregado caótico de grupos, partidos, interesses e contrainstituições, cada um sincronicamente relacionado a fenômenos díspares em outros lugares. Trata-se da tênue mistura entre o trabalho militante organizado e o Black Power.</p>
<p style="text-align: justify;">As condições que possibilitaram a sequência, em primeiro lugar, incluem a entrada simultânea da mão de obra negra no núcleo do setor industrial e sua marginalização dentro dele. Por um lado, “a revolução negra da década de 1960 finalmente chegou a um dos elos mais vulneráveis do sistema econômico americano — o ponto da produção em massa, a linha de montagem” <strong>[16]</strong>. Por outro lado, a força dessa chegada foi atenuada pelos sindicatos tradicionais, cujo sistema de antiguidade efetivamente deu “força legal ao monopólio dos homens brancos dos melhores empregos”, nas palavras de um autor anônimo, que continua:</p>
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<p style="text-align: justify;">Neste deserto de esperanças distorcidas dos trabalhadores, de onde mais poderia vir a redenção senão daqueles cujos interesses eram sacrificados a cada passo para que outro grupo mais favorecido pudesse fazer as pazes com os patrões? De onde mais, senão dos trabalhadores negros das fábricas infernais de automóveis da cidade de Detroit? <strong>[17]</strong></p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Tudo isso contribui para contextualizar o que poderíamos chamar de “greve militante negra”. Trata-se de uma versão da greve selvagem que vai além dos sindicatos tradicionais centrados nos brancos. Sua autoridade deriva, em grande parte, das revoltas urbanas em Detroit e em outros lugares — ou seja, de lutas que não se baseiam em condições de trabalho comuns, mas sim na distância do mercado de trabalho, na luta confrontadora pela reprodução social fora da esfera da produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Na mesma linha, os distúrbios tiram lições da tradição da greve. Escrevendo na primavera de 1967, o teórico do Black Panther Huey P. Newton mostra-se cético em relação às revoltas:</p>
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<p style="text-align: justify;">Ainda estamos no estágio elementar de jogar pedras, paus, garrafas de vinho vazias e latas de cerveja em policiais racistas que esperam uma chance de assassinar negros desarmados… Não podemos mais nos dar ao luxo duvidoso das terríveis baixas infligidas arbitrariamente a nós pelos policiais durante essas rebeliões <strong>[18]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Ele não é, porém, um defensor das lutas trabalhistas. Sua questão é como <em>passar</em> da revolta para um combate mais eficaz e, para isso, ele convoca o “Partido de Vanguarda” — ou seja, por tipos de ordem e disciplina herdados da organização do trabalho proletário e do campesinato agrícola. É característico do período que tanto a revolta quanto a greve, buscando ultrapassar seus próprios limites, ocorram simultaneamente. Cada uma parece precisar da outra para parecer revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa coincidência não pode ser reconhecida como tal pelos observadores oficiais. O <em>Relatório Kerner</em>, usando a rubrica “desordens”, oferece esta descrição da Grande Rebelião: “Um espírito de niilismo despreocupado estava se instalando. Revoltas e destruição pareciam cada vez mais se tornar fins em si mesmos. No final da tarde de domingo, pareceu a um observador que os jovens estavam &#8216;dançando em meio às chamas&#8217;” <strong>[19]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não pode deixar de harmonizar-se com os “infernos” do trabalho descritos acima. Tudo está a arder. A par do aumento em grande escala da força de trabalho negra, o desemprego entre os negros após a Segunda Guerra Mundial oscila entre 150 e 400 por cento acima do dos brancos e significativamente acima do dos hispânicos não brancos também <strong>[20]</strong>. A população total de Detroit atinge o seu pico em 1950 e começa um declínio bastante acentuado; a cidade deixa de crescer economicamente por volta de 1960, mesmo com a continuação da mudança demográfica <strong>[21]</strong>. O fardo racial da desindustrialização é ainda mais agravado pelas políticas sindicais de “último contratado, primeiro demitido”, que revertem a segunda Grande Migração em uma Grande Exclusão contínua. Assim, vemos duas tendências: uma economia manufatureira ainda dominante que internaliza a força de trabalho negra, mas que começa seu declínio e é incapaz de absorver totalmente o influxo demográfico. Isso implica um aumento tanto da população negra empregada quanto da excedente, sujeita a desapropriações diferenciadas. Mas essas tendências estão se movendo em direções opostas. No período de 1965 a 1973, as linhas de tendência se cruzam como fios elétricos, e Detroit testemunha <em>a intensificação das condições para revoltas e greves</em>, centradas na comunidade negra. Essa é a situação à medida que os anos 1960 se aceleram e a base para a sequência política que se desenrola, mesmo que não possa durar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1970, o início da sequência já havia começado a se encerrar:</p>
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<p style="text-align: justify;">[A Liga] acreditava que o Partido dos Panteras Negras, com sede em Oakland, estava indo na direção errada ao se concentrar em organizar elementos lumpen da comunidade negra. A Liga não acreditava que um movimento bem-sucedido pudesse se basear nos lumpen, pois eles carecem de uma fonte potencial de poder. A Liga acreditava que os trabalhadores negros eram a base mais promissora para um movimento negro bem-sucedido devido ao poder potencial derivado da capacidade de interromper a produção industrial <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">O debate ideológico sobre o sujeito revolucionário adequado (ao qual voltaremos), com suas aparentes diferenças regionais, repousa sobre o destino dos próprios sujeitos. Já em 1963, Boggs havia diagnosticado a produção da não produção e o excedente populacional, e até que ponto isso estava fadado a desmantelar a organização trabalhista. Suas observações marcam a distância desde 1919, quando a Irmandade de Sangue Africana (a primeira liga de comunistas negros nos EUA) pôde incluir como parte de seu programa básico uma reivindicação por “Desenvolvimento Industrial” <strong>[23]</strong> Ele escreve:</p>
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<p style="text-align: justify;">A automação substitui os homens. É claro que isso não é novidade. O que é novo é que agora, ao contrário da maioria dos períodos anteriores, os homens deslocados não têm para onde ir. Os agricultores deslocados pela mecanização das fazendas na década de 1920 podiam ir para as cidades e trabalhar na linha de montagem […] nos Estados Unidos, com a automação chegando quando a indústria já atingiu o ponto em que pode suprir a demanda do consumidor, a questão do que fazer com o excedente de pessoas que são dispensáveis pela automação se torna cada vez mais crítica a cada dia <strong>[24]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Os editores da edição especial se esforçam para discordar, insistindo que “à medida que o trabalho produtivo se torna cada vez mais frutífero e menos necessário”, o capital desenvolverá outros setores, criará “direta e indiretamente, outras áreas de emprego — em vendas, entretenimento, especulação (legal e ilegal), serviços pessoais e assim por diante. Alguns dos empregos assim criados também sucumbem à automação, mas o processo de proliferação não é interrompido” <strong>[25]</strong>. Isso tem alguma verdade; esses setores, em geral, passam por períodos de crescimento à medida que a desindustrialização avança. No entanto, não o suficiente para gerar os mercados de trabalho tensos que as greves exigem — muito menos para restaurar a acumulação de capital em níveis suficientes, sendo esse trabalho, em primeiro lugar, amplamente improdutivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Detroit é única neste período, não pela medida em que é uma exceção na trajetória histórica das condições para motins e greves, mas pela forma como é uma clarificação laboratorial de um processo dinâmico que ocorre de forma desigual em todo o mundo superdesenvolvido, uma dinâmica baseada na grande transformação do capitalismo que será conhecida como desindustrialização, acompanhada pelo declínio da acumulação e por mudanças na divisão global do trabalho e do não trabalho. Se a organização militante dos trabalhadores parece prevalecer em Detroit por volta de 1970, ela é minada a longo prazo. Em 2005, os afro-americanos representarão mais de 80% da população de Detroit, e pelo menos um quarto deles estará desempregado <strong>[26]</strong>. A previsão de Boggs acabará captando a realidade da situação.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo isso, é difícil enfatizar adequadamente a importância do esforço nesse período para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159563 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="750" height="457" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-300x183.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-689x420.jpg 689w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-640x390.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-681x415.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;"><em>A Revolta como Modalidade</em></h3>
<p style="text-align: justify;">O que pode significar, depois de ter trabalhado para rearticular o significado da revolta como uma forma de ação coletiva, sugerir agora que ela é uma modalidade política? Por exemplo, o que pode significar sugerir que os Panteras estão do lado da revolta, mesmo que Huey Newton tivesse pouca fé em tais atividades? Essa ambiguidade permeia as páginas do jornal <em>The Black Panther</em>. Um mês após o assassinato de Martin Luther King Jr. (e o assassinato separado do Pantera Lil&#8217; Bobby Hutton pela polícia) e a cascata imediata de revoltas, Eldridge Cleaver intitula sua coluna “Dig This” de “Credo para revoltosos e saqueadores” e oferece uma narrativa entusiasticamente apocalíptica; a página oposta apresenta um grande desenho de Matilaba em que dois policiais prendem ou possivelmente lincham um jovem negro, enquanto três militantes com boinas, jaquetas e rifles se preparam em uma esquina. Letras em negrito na parte superior da ilustração dizem “NO MORE RIOTS” (NÃO MAIS REVOLTAS); ao lado, “TWO&#8217;S AND THREE&#8217;S” (DOIS E TRÊS) <strong>[27]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Um primeiro passo pode ser observar que as revoltas já têm uma base em tipos alternativos de cooperação social. Robin D. G. Kelley observa sobre a revolta de Watts em 1965 que “a rebelião não surgiu do caos, mas de uma comunidade mobilizada” que abrigava uma ampla variedade de grupos, clubes e organizações mais ou menos formais; como observado acima, o mesmo aconteceu em Detroit (e certamente em outros lugares). Em Watts, as revoltas sinalizaram uma mudança em que “a orientação anterior pelos direitos civis deu lugar a uma cultura política do Black Power e alternativas culturais à assimilação da classe média”. As revoltas foram contínuas, acompanhando um desenvolvimento político mais amplo. Assim, em um caso, “logo após a revolta, gangues de rua radicalizadas formaram os Sons of Watts (Filhos de Watts) e mais tarde se juntaram ao Partido dos Panteras Negras” <strong>[28]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa continuidade entre o Black Power e os distúrbios permanece sob a superfície das políticas e dos planos. Eles compartilham uma circunstância e um propósito: “Os distúrbios que estão acontecendo são uma festa de autodefesa”, nas palavras de Fred Moten, ele próprio um teórico da negritude como excedente <strong>[29]</strong>. O sentido de ligação talvez fique mais claro se voltarmos à formulação básica das revoltas e greves como lutas de circulação e produção, respectivamente. É isso que os dados deste capítulo têm narrado: o declínio inicial e velado da produção nos Estados Unidos e no mundo, a mudança germinativa de corpos e capital para o mundo da circulação. A sequência política narra isso com igual clareza; o status da dinâmica revolta/greve nesse período serve como uma janela clara para a economia política da época. De fato, as revoltas e as greves têm todo o seu poder social porque carregam — junto com os desejos de seus participantes, suas misérias e negações — a lógica dessas categorias mais amplas. Pode-se dizer que, no limite, as revoltas e as greves são personificações coletivas da circulação e da produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a passagem central do poema “Riot”, de Gwendolyn Brooks, em que John Cabot, de nome brâmane e pertences luxuosos, “todo branco e azul sob seus cabelos dourados”, enfrenta seu fim:</p>
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<p style="text-align: justify;">Porque os negros estavam descendo a rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque os pobres estavam suados e feios</p>
<p style="text-align: justify;">(não como os dois negros delicados em Winnetka)</p>
<p style="text-align: justify;">e vinham em direção a ele em fileiras desordenadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em mares. Em ventos fortes. Eles eram negros e barulhentos.</p>
<p style="text-align: justify;">E não podiam ser detidos. E não eram discretos <strong>[30]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O poema segue as revoltas de Chicago de 1968. Não há trabalho, apenas negritude; é o futuro de Boggs, não o de seus editores. Há o consumo conspícuo de John Cabot e o movimento incontrolável dos “negros” pelas passagens urbanas. Mercado e via pública. Dificilmente se poderia pedir uma figura melhor de corpos movidos à circulação, da circulação como tal. A rima diferida carrega isso, <em>descendo a rua sem poder ser detida e sem discrição</em>. Nem são discretos. Ao mesmo tempo ordenados e não, “fileiras desordenadas”, eles se tornam negritude ambiente, negritude preenchendo e transbordando o espaço da existência social. Cabot reza para que “a negritude” não o toque, mas “Ela o impulsionou / e soprou sobre ele: e o tocou”.</p>
<p style="text-align: justify;">É difícil discernir se essa série de transferências existe no nível da consciência de Cabot ou do poema. Ambos, no final. Cabot não está, de fato, enganado sobre seu destino. Os negros são a negritude que é a revolta. Pelo menos em 1968. Na medida em que a revolta é uma categoria reconhecida pelo Estado, pela lei e pelo mercado, os negros descendo a rua sempre serão uma revolta, ou o momento antes, ou o momento depois. Tanto social quanto economicamente, a negritude aqui é excedente — para o Estado, para a lei, para o mercado. Ela promete sempre exceder a ordem, a regulamentação. A revolta é um exemplo da vida negra em suas exclusões e, ao mesmo tempo, em seu caráter de excedente, isolada na esfera barulhenta da circulação, forçada a se defender contra a morte social e corporal que lhe é oferecida. Uma rebelião excedente.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de se admirar que ela forneça a base para um imaginário de luta. Essa visão circula na ficção da época, que apresentou “uma notável proliferação de romances de autores afro-americanos projetando a possibilidade de uma guerra racial catastrófica em grande escala, de meados da década de 1960 ao início da década de 1970” <strong>[31]</strong>. Esse salto especulativo pode esclarecer de forma útil a posição de Newton. Ele é cético em relação aos limites da revolta, mas por razões bastante contrárias às razões daqueles que insistem no curso da organização trabalhista. Newton, assim como Boggs em sua análise, reconhece que o terreno de disputa marcado pela revolta é inevitável &#8211; que a revolta não é um desvio de algum caminho verdadeiro, mas existe no curso ao longo do qual a luta se desenvolverá. Ela não pode ser recusada. A revolta só pode fazer uma coisa: expandir-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizer que se está alojado em um mundo no qual a revolta é a forma de ação coletiva pela qual a luta deve passar &#8211; que é uma <em>instância</em> de uma coletividade social completa e complexa &#8211; é encontrar a revolta como modalidade social. Quando o substrato material da vida cotidiana é a concentração de populações na circulação, em economias informais &#8211; uma população coletiva tornada excedente e forçada a enfrentar o problema da reprodução no mercado em vez de no salário formal &#8211; nessa situação, qualquer reunião na esquina, na rua, na praça pode ser entendida como uma revolta. Ao contrário da greve, é difícil dizer quando e onde a revolta começa e termina. Isso é parte do que permite que a revolta funcione tanto como um evento específico quanto como uma espécie de miniatura holográfica de toda uma situação, uma imagem do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se esse relato parece aerossolizar a revolta, isso está de acordo com a circunstância com a qual a revolta se confronta. A revolta pré-industrial encontra o mercado imediatamente à sua frente, um fenômeno concreto; encontra a própria economia. Ao mesmo tempo, não encontra a polícia, o estado armado, exceto nas formas mais atenuadas. Essas tecnologias de controle permanecem incompletas e distantes em 1740. Por outro lado, a revolta pós-industrial encontra apenas uma amostra de mercadorias nas lojas locais. Os saques se aproveitam disso como devem: a verdade da antiga revolta, a fixação de preços em zero. Como Tom Hayden reconheceu no primeiro tratamento extenso da rebelião de 1967 em Newark:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A revolta foi mais eficaz contra os comerciantes que praticavam preços abusivos do que os protestos organizados jamais haviam sido. No ano anterior, foi iniciada uma pesquisa para verificar os comerciantes que pesavam suas balanças. A pesquisa fracassou devido ao desinteresse: as pessoas precisavam de poder, não de provas <strong>[32]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Ela continua sendo uma atividade central, claramente contínua com as intervenções do século XVIII. No entanto, a nova revolta descobre, ao definir o preço das mercadorias, que a economia como tal regrediu para a logística planetária e a divisão global do trabalho para o éter das finanças. A polícia, no entanto, pode ser encontrada em cada esquina.</p>
<p style="text-align: justify;">A distância entre a revolta e a <em>revolta linha</em>, os dois emissários das lutas pela circulação, parece, a princípio, ser a diferença entre a fixação de preços e a não fixação, ou entre a luta no mercado e a luta com o Estado. Esses aspectos, como sugerimos, não são tão facilmente separados, seja na prática ou teoricamente. Ao analisar a nova revolta, Georgakas e Surkin concluem que</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A violência de 1967 foi significativamente diferente daquela das explosões anteriores de Detroit. As revoltas de 1833, 1863 e 1943 foram conflitos entre raças. A rebelião de 1967 foi um conflito entre os negros e o poder do Estado. Em 1943, os brancos estavam na ofensiva e andavam pela cidade em carros à procura de alvos negros fáceis. Em 1967, os negros estavam na ofensiva e seu principal alvo era a propriedade. Em alguns bairros, os Apalaches, estudantes e outros brancos participavam da ação ao lado dos negros como seus parceiros. Diversas fotos mostram saques sistemáticos e integrados, que os rebeldes chamavam de “compras de graça” <strong>[33]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Janet Abu-Lughod observa que essa mudança no objeto da revolta também descreve as rebeliões no Harlem e em Watts, embora insista que essas rebeliões “não se tratavam apenas de brutalidade policial. Ambas ocorreram no contexto de uma recessão econômica cujo efeito apareceu primeiro nas áreas negras, mas depois se espalhou para a economia mais ampla dos EUA”, assim como em Detroit <strong>[34]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, a distinção conceitual entre violência estatal e econômica é elusiva. Guy Debord, avaliando a rebelião de Watts, teoriza o duplo confronto com o Estado e a propriedade e suas posições mutáveis. “A sociedade encontra no saque sua resposta<em> natural</em> à abundância antinatural e desumana de mercadorias”, escreve ele. Isso tem sido constantemente mal interpretado como uma sugestão de que o saque é uma realização hiperbólica da ideologia do consumo (um refrão comum dos comentaristas liberais), apesar do que Debord diz logo em seguida: “Ele [o saque] instantaneamente mina a mercadoria como tal e também expõe sua lógica última: o exército, a polícia e as outras forças especializadas que detêm o monopólio estatal da violência armada” <strong>[35]</strong>. Talvez essa exposição seja o propósito do saque, como argumentou Bruno Bosteels, caso se busque na teoria francesa a importância discursiva da revolta <strong>[36]</strong>. Ao mesmo tempo, o saque é certamente contínuo com a história prática da fixação de preços. De qualquer forma, Debord capta algo sobre o mundo superdesenvolvido e sua aparente abstração. A polícia agora ocupa <em>o lugar</em> da economia, a violência da mercadoria encarnada. No mundo em chamas da última instância, eles são fungíveis:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que é um policial? Ele é o servo ativo da mercadoria, o homem totalmente subjugado pela mercadoria, por cujos esforços um determinado produto do trabalho humano continua sendo uma mercadoria com a propriedade mágica de ser paga, e não apenas uma geladeira ou um rifle &#8211; algo cego, passivo, insensível, sujeito à primeira pessoa pronta para fazer uso dele. Por trás da humilhação de serem submetidos à polícia, os negros rejeitam a humilhação de serem submetidos a mercadorias <strong>[37]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">A fórmula mais simples é a seguinte. Para a revolta, a economia está próxima, o Estado está distante. Para a <em>revolta linha</em>, a economia está longe, o Estado está perto. De qualquer forma, é o mercado e a rua. <em>Hic Rhodus, hic salta!</em></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159564 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="750" height="573" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-550x420.jpg 550w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-640x489.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-681x520.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> James Boggs, <em>Pages from a Black Radical&#8217;s Notebook: A James Boggs Reader</em>, Detroit: Wayne State University Press, 2011,84-5.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Roberto Franzosi, “One Hundred Years of Strike Statistics: Data, Methodology, and Theoretical Issues in Quantitative Strike Research”, CRSO Working Paper No. 257, Ann Arbor: Center for Research on Social Organization, 1982, 15, 17.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs,” prologue to T<em>he Economics of Global Turbulence</em>, Madrid: Akal, 2009, page numbers taken from typescript provided by author, 8, 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Arthur M. Ross e Paul T. Hartman, <em>Changing Patterns of Industrial Conflict</em>, Nova York: Wiley, 1960, 71, 43.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century</em>, 315.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Brenner, <em>Turbulence</em>, 38.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Dados do Reino Unido do Office for National Statistics, “Labour Disputes Annual Estimates; United Kingdom; 1891-2014” (versão atualizada em 16 de julho de 2015), ons.gov.uk; Dados dos EUA do Bureau of Labor Statistics, “Comunicado de Notícias Econômicas: Tabela 1. Paralisação de trabalho envolvendo 1.000 ou mais trabalhadores, 1947-2014” (versão atualizada em 11 de fevereiro de 2015), bls.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ruth Wilson Gilmore, <em>Golden Gulag: Prisons, Surplus, Crisis, and Opposition in Globalizing California</em>, Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 2007, 39-40 (emphases in original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Otto Kerner et al., <em>Report of the National Advisory Commission on Civil Disorders</em>, Nova York: Bantam, 1968, 227.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Janet Abu-Lughod, <em>Race, Space, and Riots in Chicago, New York, and Los Angeles</em>, Oxford: Oxford University Press, 2007,7, 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Michael C. Dawson, <em>Blacks In and Out of the Left</em>, Cambridge: Harvard University Press, 2013, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Dan Georgakas e Marvin Surkin, <em>Detroit: I Do Mind Dying: A Study in Urban Revolution</em>, Chicago: Haymarket Books,2012, 50.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Dados disponíveis na página da web Detroit History, “Population of Various Ethnic Groups” (População de vários grupos étnicos), historydetroit.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 119.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> A narrativa foi compilada a partir de Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>; Joshua Bloom e Waldo E. Martin, Black Against Empire: <em>The History and Politics of the Black Panther Party</em>, Berkeley: University of California Press, 2013; e A. Muhammad Ahmad, “The League of Revolutionary Black Workers: A Historical Study”, historyisa weapon.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Trabalhador anônimo escrevendo no <em>Inner City Voice</em>, outubro de 1970, citado em Georgakas e Surkin, Detroit, 37.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Huey P. Newton, <em>The Huey P. Newton Reader</em>, eds. David Hilliard e Donald Weise, Nova York: Seven Stories Press, 2011, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Otto Kerner et al., <em>National Advisory Commission</em>, 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Joe T. Darden, Richard C. Hill e June M. Thomas, <em>Detroit: Race and Uneven Development</em>, Filadélfia: Temple University Press, 1990, 107.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Campbell Gibson e Kay Jung, “Tabela 23. Michigan — Raça e Origem Hispânica para Grandes Cidades Selecionadas e Outros Locais: Censo Mais Antigo até 1990”, PDF, Departamento do Censo dos Estados Unidos, fevereiro de 2005, census.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> James A. Geschwender, “The League of Revolutionary Black Workers,” <em>The Journal of Ethnic Studies</em>, 2: 3, outono de 1974, 9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Dawson, <em>Blacks In and Out</em>, 50.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Boggs, <em>Boggs Reader</em>, 102.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Leo Huberman e Paul Sweezy, “Editor&#8217;s Forward” (Prefácio do editor), history isaweapon.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> Joe T. Darden e Richard W. Thomas, <em>Detroit: Race Riots, Racial Conflicts, and Efforts to Bridge the Racial Divide</em>, East Lansing: Michigan State University Press, 2013, sem paginação, Tabela 15. Observe que todos os dados sobre desemprego neste capítulo são baseados na categoria U3 do Bureau of Labor Statistics, que não inclui os subempregados, os desanimados em procurar trabalho, os encarcerados e assim por diante. O número total U6 de Detroit em 2005 provavelmente está mais próximo de 45%.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[27]</strong> <em>The Black Panther</em>, 2: 2, 4 de maio de 1968: 4-5.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[28]</strong> Robin D. G. Kelley, “Watts: Remember What They Built, not What They Burned” (Watts: Lembre-se do que eles construíram, não do que queimaram), Los Angeles Times, 11 de agosto de 2015, latimes.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[29]</strong> Fred Moten, “Necessity, Immensity, and Crisis (Many Edges/Seeing Things)” (Necessidade, imensidão e crise (muitas facetas/vendo as coisas)), Floor, 2011. floorjournal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[30]</strong> Gwendolyn Brooks,<em> Riot</em>, Detroit: Broadside Press, 1969, 9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[31]</strong> Julie A. Fiorelli, “Imagination Run Riot: Apocalyptic Race-War Novels of the Late 1960s”, <em>Mediations</em>, 28: 1, outono de 2014, 127.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[32]</strong> Tom Hayden, <em>Rebellion in Newark: Official Violence and Ghetto Response</em>, Nova York: Random House, 1967, 30.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[33]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 155.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[34]</strong> Abu-Lughod, <em>Race, Space</em>, 25.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[35]</strong> Guy Debord, “Le déclin et la chute de l&#8217;économie spectaculaire-marchande”, <em>Internationale Situationiste</em> 1958-69: Éditionaugementée, Paris: Librarie Arthème Fayard, 2004, 418. Tradução minha. Este ensaio não estava assinado no original, mas mais tarde foi atribuído a Guy Debord.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[36]</strong> Bruno Bosteels, <em>Marx and Freud in Latin America: Politics, Psychoanalysis, and Religion in Times of Terror</em>, Londres: Verso, 2012, 292.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[37]</strong> Debord, “<em>Déclin</em>”, 418.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Edvard Munch (1863-1944).</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 11:24:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Essa representação do trabalho como uma atividade universal coloca um problema, por várias razões. Por Michel Freyssenet]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Freyssenet</h3>
<p style="text-align: justify;">Há algum tempo, nas ciências sociais, recorre-se prontamente à expressão &#8216;a invenção de…&#8217; para significar o caráter histórico e localizado da noção em discussão, como, por exemplo, o mercado ou o desemprego. Pode parecer mais arriscado usar o termo para o trabalho, na medida em que o trabalho aparece como uma necessidade óbvia da condição humana.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalho poderia ser definido e delimitado, após eliminar as particularidades que apresenta em todas as sociedades conhecidas, como atividades que contribuem para as necessidades da vida humana e social. Ele pode, de alguma forma, existir independentemente de qualquer relação social para organizá-lo. As necessidades são percebidas &#8211; por nosso senso comum e pelo pensamento econômico &#8211; como o mínimo necessário para a existência humana. Por causa disso, atribui-se ao trabalho uma preeminência sobre todas as outras atividades.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa representação do trabalho como uma atividade universal coloca um problema, por várias razões <strong>[1]</strong>.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O Trabalho Nem Sempre Existiu. Ele Foi Inventado</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Dois argumentos provocam reflexão: a ausência do termo ou noção de trabalho em inúmeras sociedades, e a obrigação de admitir a hipótese do <em>homo faber</em> como fundamento da universalidade do trabalho na natureza.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Apenas Nossas Sociedades Distinguem o Trabalho de Outras Atividades</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">O estudo realizado por Marie-Noëlle Chamoux (1994) sobre os termos usados para se referir ao &#8216;trabalho&#8217; em muitas sociedades é bastante perturbador para a visão universalista do trabalho. Ou o termo e a noção estão ausentes; ou estão divididos em várias palavras e realidades; ou seus antônimos não são nem &#8216;repouso&#8217; nem &#8216;lazer&#8217;; ou são invariavelmente e explicitamente ligados a atos mágicos ou religiosos; ou ainda, não incluem atividades necessárias à vida material, como a caça etc. Tampouco a noção de esforço, encontrada em muitas sociedades, apresenta qualquer homogeneidade na definição ou nas atividades assim mencionadas. A categoria trabalho revelou-se, portanto, difícil de compreender empiricamente. Chamoux então faz a pergunta: pode-se dizer que o trabalho existe quando ele não é pensado nem vivido como tal?</p>
<p style="text-align: justify;">Historiadores e antropólogos parecem quase todos concordar que hoje, economia, produção, trabalho e assim por diante, como são entendidos na sociedade ocidental, são noções e áreas que surgiram claramente no século XVIII na Europa, com a diferenciação de um mercado capitalista dentro do mercado que o precedeu. Antes, economia, produção e trabalho estavam, por assim dizer, imersos &#8211; misturados com a política e a religião ou fundidos com elas. Pode-se tentar representar essa imersão da economia e do trabalho considerando, por exemplo, a esfera familiar como é pensada hoje. Muitas atividades ainda provêm indissoluvelmente da educação, afeição, necessidades, submissão, reconhecimento e assim por diante. A partir dessa constatação comum, as orientações de pesquisa divergem.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159550" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2.jpg" alt="" width="387" height="516" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2-315x420.jpg 315w" sizes="auto, (max-width: 387px) 100vw, 387px" />Karl Polanyi (1983), citando e desenvolvendo observações feitas anteriormente por Karl Marx e Max Weber, notadamente sobre o caráter &#8216;não segregado&#8217; dos aspectos econômicos em relação a outros aspectos da vida em todas as sociedades, exceto no Ocidente, conclui que não há definição &#8216;conceitual&#8217; universal possível para a economia. Cada época experimenta formas econômicas distintas. Por outro lado, ele acredita que é possível dar definições &#8216;substantivas&#8217; de economia, produção e trabalho que sejam válidas para todas as sociedades conhecidas: ou seja, a atividade necessária à vida material das pessoas e da sociedade. Mas essa atividade, distinguida em algumas ou firmemente imersa em outras, não é necessariamente determinante por sua natureza sobre as outras atividades. Dependendo da época, pode ter importância variável na vida social em geral. Karl Polanyi aproveita essa ocasião para denunciar o economicismo que, em sua opinião, estava invadindo as ciências históricas e sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Maurice Godelier, em sua obra <em>The Mental and the Material</em> (Godelier, 1984), cita a tese polanyiana, mas sem compartilhar as conclusões. Ele escreve que, ao contrário, isso permite reexaminar a noção marxista de relação social de produção e separar dela qualquer referência a uma sociedade particular, notadamente a sociedade ocidental, que autonomizou a economia. Acima de tudo, permite compreender &#8211; em oposição ao que o próprio Polanyi afirma &#8211; por que as relações sociais chamadas &#8216;superestruturais&#8217; (como as relações de parentesco ou políticas) podem fundar e organizar conjuntamente toda uma sociedade. A produção está inserida nessas relações e, consequentemente, elas funcionam como relações de produção. É até mesmo graças à exceção que a sociedade capitalista ocidental tem sido desde o final do século XVIII, que revelou e designou a economia como tal, que se tornou possível “compreender a importância das atividades materiais e das relações econômicas no movimento de produção e reprodução das sociedades” (Godelier, 1984: 32). O fato de as relações econômicas, uma vez autonomizadas, aparecerem como determinantes na vida social seria a prova de que as relações políticas e simbólicas que reinaram sobre certas sociedades só puderam fazê-lo porque integram as relações sociais de produção. Esse raciocínio, então conduzido por Godelier <strong>[2]</strong>, restabeleceu, portanto, estas últimas como fundamento de todas as sociedades, diferentemente do afirmado por Polanyi.</p>
<p style="text-align: justify;">Louis Dumont propõe desenvolver a tese polanyiana até o que lhe parecia ser sua conclusão lógica: ou seja, renunciar definitivamente a qualquer economicismo, inclusive, nas sociedades capitalistas, para:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…] recusar o compartimentalismo que nossa sociedade sozinha oferece obstinadamente e, em vez de buscar o significado da totalidade social na economia &#8211; ao que Polanyi é certamente contrário -, procurar antes na totalidade social o significado do que a economia é dentro de nossa sociedade e para nós <strong>[3].</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, muitos antropólogos consideram que a cultura já está presente no ponto em que a história começa. A produção é simbólica desde o início. A sociedade burguesa é, antes de tudo, uma cultura antes de ser uma economia: &#8216;Considerar o comércio como vantajoso para ambas as partes representou uma mudança fundamental e sinalizou a ascensão à categoria econômica&#8217; (Dumont, 1985: 45).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Duas grandes orientações podem, portanto, ser distinguidas. Para a primeira, a relação capital-trabalho autonomizou atividades que fazem uso da reprodução material e, assim, permitiu a definição da economia em geral, para além de sua forma capitalista. Então, o trabalho teria sempre sido essa atividade que consistia em usar, dominar e controlar a natureza para produzir a partir dela as utilidades necessárias à humanidade. Consequentemente, haveria uma definição substantiva possível para o trabalho, permitindo analisar essa forma de atividade em toda sociedade com critérios comuns e determinar o lugar que ela foi capaz de ocupar na estruturação das relações sociais. Enquanto para Polanyi a economia e o trabalho seriam estruturantes apenas nas sociedades capitalistas, para Marx e Godelier (1984) as relações capital-trabalho também teriam revelado que elas são estruturantes em todas as sociedades.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159553" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark.jpg" alt="" width="2000" height="1234" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-300x185.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-1024x632.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-768x474.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-1536x948.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-681x420.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-640x395.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />De acordo com a segunda orientação, uma cultura &#8211; e até agora uma única cultura, a burguesa &#8211; inventou uma área chamada econômica. Uma definição universal do econômico é, portanto, impossível tanto conceitual quanto substantivamente. O trabalho, como é entendido hoje, corresponde, nessa perspectiva, ao surgimento da relação de trabalho e do &#8216;trabalhador livre&#8217; que vende sua capacidade de trabalho. A progressiva difusão e hegemonia dessa relação social tornaram-se a referência para perceber, pensar e organizar uma série de atividades. A consequência teria sido uma extensão do termo trabalho a atividades que não eram designadas como tal e que não decorrem da relação de trabalho, como o &#8216;trabalho doméstico&#8217; e o &#8216;trabalho autônomo&#8217;. Uma naturalização do trabalho teria, assim, resultado. Desse ponto de vista, o trabalho é percebido como uma realidade universal e como tendo sempre existido. Ele teria sido projetado no passado e em outras sociedades, em vez de ter se realizado por meio das condições históricas que o fizeram emergir há três séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma boa maneira de avançar em tal debate é buscar os pressupostos de ambas as posições.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Hipótese do Desvelamento do Trabalho e da Economia Através da Relação Capital-Trabalho e, Portanto, de sua Universalidade, Supõe Concordância com um Materialismo Naturalista Inaceitável Hoje</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Um jornalista americano já havia objetado a Karl Marx, após ler o prefácio da <em>Contribuição à Crítica da Economia Política</em>, no qual Marx expunha sua distinção entre relações que fundam uma sociedade (infraestruturas) e aquelas que a governam (superestruturas), que a determinação da vida social por meio das relações sociais de produção não pode ser considerada universal. As sociedades antiga e feudal, ele lembrou, eram fundadas em relações essencialmente políticas. Marx responde, em uma nota em <em>O Capital</em>, que, durante o colapso das relações feudais, Dom Quixote ainda precisava encontrar por si mesmo algo para comer e beber. Em outras palavras, privados das relações que em algumas sociedades tanto abrangem quanto mascaram as relações pelas quais a reprodução material de uma sociedade é garantida, as pessoas se veem confrontadas com sua obrigação física primária: a alimentação. A determinação pelo econômico teria, portanto, claramente se originado de necessidades vitais inevitáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria útil lembrar de onde vem essa posição natural-materialista. Ela se enraizou nos primeiros trabalhos filosóficos de Karl Marx. Reagindo contra o idealismo e o universalismo hegeliano, Marx e Engels escreveram em <em>A Ideologia Alemã</em> que o humano em geral não existe e que os humanos só existem como indivíduos históricos reais.</p>
<p style="text-align: justify;">São os homens que produzem suas representações, suas ideias, etc., mas [eles são] homens reais, ativos, tais como são condicionados por um desenvolvimento determinado de suas forças produtivas e do modo de relações que a elas correspondem, incluindo as formas mais amplas que estas podem assumir. A consciência nunca pode ser outra coisa senão o ser consciente, e o ser dos homens é seu processo de vida real. (Engels e Marx, 1968: 50)</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, para “dissipar as fantasmagorias universalistas do pensamento e libertar-se delas”, eles propõem um programa de trabalho que visa estudar os seres humanos históricos concretos, as relações que mantinham entre si, suas condições de vida e o processo de vida real. Para justificar esse programa, apresentam três argumentos. Primeiro, um argumento metodológico: a vida material dos seres humanos reais pode ser verificada por meios puramente empíricos. É um argumento importante se tenta denunciar a omissão das condições de vida reais e suas relações com as diferenças comuns e formas de reflexão no pensamento universalista. É também um argumento, no entanto, insuficiente para justificar a primazia concedida à vida material para compreender outras manifestações humanas. Nesse ponto, entra em jogo um segundo argumento: pode-se provar que há um elo na história humana entre os diferentes estágios de desenvolvimento na divisão do trabalho e as formas de propriedade, ou seja, as relações dos indivíduos entre si. Mas essa correlação perceptível não implica, logicamente, que a produção material seja, por isso, mais determinante. Finalmente, intervém um terceiro argumento, claramente naturalista:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…]somos levados a começar pela primeira observação de qualquer existência humana, em qualquer história; isto é, que os homens devem viver para poderem &#8216;fazer história&#8217;. Mas, para viver, o homem deve antes de mais nada beber, comer, habitar e vestir-se, entre outras coisas. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que lhe permitem satisfazer essas necessidades, a produção da própria vida material, e mesmo isso é um fato histórico, uma condição prévia fundamental de qualquer história que hoje deve ser preenchida dia após dia, hora após hora, assim como há milhares de anos, simplesmente para manter o homem vivo.</p>
<p style="text-align: justify;">[…] Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião ou por qualquer outra coisa que se deseje. Eles próprios começam a se distinguir dos animais assim que começam a produzir seus meios de existência, um passo adiante que é a própria consequência de sua organização corporal. (Engels e Marx, 1968: 57, 45)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Engels e Marx acrescentam que muito rapidamente outras necessidades e, de fato, todo um estilo de vida se desenvolve. No entanto, eles fundam a preeminência da atividade produtiva nas necessidades vitais, uma evidência que não é realmente uma prova, e através de um discurso sobre as origens da humanidade, que na verdade é um discurso sobre o que os humanos eram em sua origem.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159552" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images.jpg" alt="" width="655" height="468" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images.jpg 655w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-300x214.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-588x420.jpg 588w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-640x457.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 655px) 100vw, 655px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os pressupostos da tese do &#8216;primeiro fato histórico&#8217;, em outras palavras, a produção dos meios que permitem a satisfação das necessidades de alimento, são numerosos e incertos demais para serem mantidos hoje. Seria necessário que, na espécie animal, o proto-humano não encontrasse nada para comer ou beber em seu ecossistema. Teria sido essa necessidade vital &#8211; sendo uma restrição absoluta &#8211; e não qualquer outra que teria desencadeado a invenção e a reflexão humana, bem como as primeiras relações sociais. Seria necessário buscar recurso em um meio &#8216;artificial&#8217; para a aquisição de alimentos, sendo essa a peculiaridade dos humanos, o que sabidamente não é o caso.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, não parece mais possível estabelecer uma tese tão carregada de consequências teóricas e práticas como a das relações sociais de produção estar na base de qualquer sociedade sobre a frágil hipótese do <em>homo faber</em>. Podemos razoavelmente postular que existia um ser social &#8216;completo&#8217;, livre de qualquer primitivismo. As condições de existência são uma sociedade, uma linguagem, a transmissão de conhecimento, razões para viver e morrer etc., assim como comer e beber, sem entrar em outras condições naturais ou culturais, igualmente essenciais, mas que são simplesmente ignoradas por serem dadas como certas.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de um retrocesso à posição de Dumont? É-se obrigado a buscar as razões para a divisão e a designação de atividades em cada sociedade? Seria necessário representar a sociedade como um organismo, dotado de um princípio único de existência, ordem e regulação, que daria sentido a cada uma de suas partes; em vez de tentar construir tal &#8216;totalidade&#8217;, pareceria mais prudente e heuristicamente mais frutífero partir do reconhecimento primário da existência de relações sociais, tendo sua própria lógica &#8211; atualizada, acionada e modificável pelos atores sociais que cada uma dessas relações institui, coexistindo ou articulando-se entre elas, criando campos sociais, cuja designação e fronteiras se deslocam em relação ao lugar e ao tamanho que essas relações sociais adquirem, cada uma em relação à outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosamente, Marx oferece a oportunidade e a possibilidade de se comprometer com esse caminho e pensar que o conceito de relação social se desvincula de qualquer determinação &#8216;substantiva&#8217;.</p>
<p><em>Artigo publicado no volume 47 (2) da revista Current Sociology em abril de 1999 e foi traduzido por Leo Vinicius. Acesse aqui a parte <a href="https://passapalavra.info/2026/08/159635/" target="_blank" rel="noopener">2</a>.</em></p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são da série Bichos de Lygia Clark</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Este artigo cita e expande uma série de textos publicados desde 1987: &#8216;Le concept de rapport social peut-il fonder une autre conception de l&#8217;objectivité et une autre conception du social?&#8217; (O Conceito de Relações Sociais Pode Fundar Outra Concepção de Objetividade e Outra Concepção do Social?) (Freyssenet e Magri, 1989: 9-23) e &#8216;Le rapport capital-travail et l&#8217;économique&#8217; (A Relação Capital-Trabalho e a Economia) (Freyssenet e Magri, 1990: 5-16); &#8216;L&#8217;invention du travail&#8217; (A Invenção do Trabalho), (Futur Antérieur, 1993-2: 17-26); &#8216;Historicité et centralité du travail&#8217; (Historicidade e Centralidade do Trabalho) (Bidet e Texier, 1995: 227-44).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A posição de Godelier mudou desde então, como ele explicou em seu prefácio a &#8216;La Transformation dans la nature et rapports sociaux&#8217; (A Transformação na Natureza e Relações Sociais) (Freyssenet e Magri, 1990: 19-20). Citando um texto intitulado &#8216;L&#8217;Oeuvre de Marx&#8217; (A Obra de Marx) publicado em &#8216;Le Marxisme analytique anglosaxon&#8217; (O Marxismo Analítico Anglo-Saxão), ele escreve:</p>
<p style="text-align: justify;">Quando, por exemplo, as relações de parentesco em uma sociedade tribal também funcionam internamente como relações de produção &#8211; portanto, tanto como infraestrutura quanto como superestrutura &#8211; deve-se explicar por quê. … [Agora], a antropologia social nunca descobriu até hoje a relação causal direta entre um modo de produção e um modo de filiação e aliança. Na verdade, se as relações de parentesco não dependem diretamente, por suas outras aparências, de um modo de produção, é porque elas têm suas próprias funções distintas e possuem &#8211; o único paradoxo aqui é na aparência &#8211; uma base material independente: relações biológicas entre sexos e gerações, condições materiais de produção de novos indivíduos às quais as regras de filiação e aliança dos diversos sistemas de parentesco dão um sentido e usos sociais etc. Assim, a hipótese central de Marx, que faz dos meios de produção materiais e sociais a base geral da vida social, não foi confirmada. Ela mantém uma capacidade mais restrita — embora ainda impressionante — de explicar o funcionamento e a evolução das sociedades. (Godelier, 1990: ???)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Prefácio de Louis Dumont à obra de Karl Polanyi <em>A Grande Transformação</em> (Polanyi, 1983: xxvi).</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (3)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 14:42:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 1: REVOLTA</strong></h4>
<p><strong>CAPÍTULO 1</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Que é Uma Revolta?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que está em jogo na definição de revolta não é simplesmente a possibilidade de fazer distinções históricas úteis, mas também a decifração do significado e do potencial político da revolta. Esse também é um problema para a pesquisa. Certamente, as revoltas frequentemente apresentam violência, direta, indireta ou como ameaça. Os problemas surgem quando os dois [revolta e violência] são atrelados um ao outro. Se alguém estiver, por exemplo, analisando registros públicos e selecionar <em>violência</em> e palavras relacionadas como termos de pesquisa, essa correlação terá um profundo efeito nos resultados. Da mesma forma, o pressuposto de que a violência indica uma revolta apresentará instantaneamente desafios para qualquer conceituação útil da atividade em questão.</p>
<p style="text-align: justify;">Considere as confusões que se proliferam quando se faz a fusão, neste exemplo do texto de abertura de <em>“Rioting in America”</em> de Gilje:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mesmo nos primeiros anos do século XIX, à medida que os trabalhadores refinavam suas táticas de greve, a coerção era necessária para impor a unidade e persuadir os proprietários quanto à legitimidade das exigências dos trabalhadores. Essa coerção frequentemente assumia a forma de revoltas &#8211; seja cobrindo de piche e penas um sapateiro recalcitrante em Baltimore ou brigando com os fura-greves nas docas de Nova York. A força era frequentemente usada para enfrentar a força, e as revoltas e a violência representam os sinais da história trabalhista americana desde a década de 1830 até o século XX. Antes de 1865, a maioria das greves violentas se limitava a cabeças rachadas e eram assuntos locais. Depois de 1865, as revoltas passaram a ter alcance nacional. Na grande greve ferroviária de 1877, os trabalhadores lutaram contra os militares de Baltimore a São Francisco. As dimensões dessas guerras trabalhistas continuaram a ganhar as manchetes nacionais com as batalhas em Homestead em 1892, Pullman em 1894, Ludlow em 1914 e Blair Mountain, West Virginia, em 1921. Acrescente a esses grandes cataclismos inúmeras escaramuças nas cidades, vilas e no campo, e veremos que grande parte da história do trabalho americano está escrita com sangue, como revoltas <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ficamos um pouco surpresos ao saber que a revolta é um aspecto marcante da história do trabalho. É um complemento da greve, seu braço armado. Ou talvez a revolta seja simplesmente uma subcategoria, a <em>greve violenta</em>; às vezes, elas se elevam ao status de “guerras trabalhistas”, chegando enfim ao último floreio gramaticalmente desajeitado, determinado a aproximar o máximo possível as palavras “revoltas” e “sangue”.</p>
<p style="text-align: justify;">Como costuma acontecer até mesmo com as concatenações mais arbitrárias, uma verdade é, no entanto, capturada. O eco de “escrito em letras de sangue e fogo” é sugestivo. A famosa descrição de Marx da acumulação primitiva insiste na violência das expropriações que produzem as condições para o capitalismo. À medida que os cavaleiros da indústria substituírem os cavaleiros da espada, parecerá que a apropriação do excedente sob o capital, diferentemente de todos os modos anteriores de produção, é garantida por meio de consentimento livre. Mas essa dupla liberdade do trabalho — <em>dos</em> meios de subsistência e <em>para</em> dispor de suas capacidades à vontade — é precisamente o que foi assegurado por essa violência originária, que não é dissolvida, mas sim sublinhada e preservada dentro da dominação impessoal da relação de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de se admirar, portanto, que a violência ronde o mundo do trabalho. Esse é o núcleo da verdade no relato de Gilje e o momento em que a violência poderia ter sido reconhecida como analiticamente independente da constituição da revolta. Com essa separação esclarecedora, a força ideológica dessa associação exclusiva poderia ser inspecionada. Mas é exatamente o que não acontece. É do caráter do pensamento burguês preservar uma compreensão mais moral do que prática do antagonismo social. Assim, em vez disso, encontramos a notável insistência de que a violência é sempre e em todos os casos um sinal da revolta — mesmo quando envolve “brigas com fura-greves”, um absurdo evidente. Citando “alguns precedentes legais”, Gilje acabará chegando à sua definição completa de revolta como “qualquer grupo de doze ou mais pessoas tentando fazer valer sua vontade imediatamente por meio do uso da força fora dos limites normais da lei” <strong>[2]</strong>. Uma revolta, não podemos deixar de notar, é o anverso perfeito de um júri.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é, nesse sentido, sempre e em toda parte ilegítima, o que pode não nos surpreender, a não ser pela alegação inicial de que ela serviu “para persuadir os proprietários da legitimidade das demandas dos trabalhadores”. A partir daí, os problemas categoriais só se proliferam. A consequência desse relato em particular é reduzir a greve em sua totalidade ao aspecto mais mínimo e ascético, a inação encontrada ao abandonar as ferramentas. Ela é sempre pacífica e sempre dentro da lei — apesar dos longos períodos da história durante os quais até mesmo a greve ou “reunião” mais moderadas eram ilegais, e apesar dos inúmeros exemplos de lutas com piquetes e outras formas de violência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159420" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg" alt="" width="1504" height="1157" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg 1504w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-300x231.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-1024x788.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-768x591.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-546x420.jpg 546w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-640x492.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-681x524.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1504px) 100vw, 1504px" /> Por meio de tais construções contrafactuais, obtemos um modelo de greve severamente limitado, tanto em termos de quais ações ela pode incluir, quanto em relação a seu escopo histórico e geográfico. De fato, a greve contemplada aqui quase não existe. Essa definição também tem o efeito contrário de ampliar e desfigurar nosso conceito de revolta para além de qualquer particularidade; ele pode ser encontrado em todos os tempos e lugares como algo que beira a essência trans-histórica. Uma definição mais persuasiva, mas ainda limitada, é oferecida por David Halle e Kevin Rafter:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[A revolta] envolve publicamente pelo menos um grupo, que com pouca ou nenhuma tentativa de ocultação, agride ilegalmente pelo menos um outro grupo ou ataca ou invade ilegalmente uma propriedade… de forma que se indique que as autoridades perderam o controle… os ataques a outro grupo ou à propriedade devem atingir um determinado limite de intensidade <strong>[3]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser útil em comparação com a avaliação de William Sewell, um dos principais historiadores da ação coletiva. Embora se baseie em Tilly, Sewell também dá à violência um lugar de destaque em sua estrutura analítica em todos os períodos históricos, concluindo que “o argumento essencial de Tilly ainda pode ser explicado de forma mais econômica com o uso de sua tipologia de violência competitiva, reativa e proativa” <strong>[4]</strong>. O que diferencia Sewell de Gilje é que, ao deslocar os termos revolta/greve para os registros de violência em vez de sobrepor as duas estruturas à força, ele é capaz de avaliar a mudança de uma orientação dominante para outra dentro de um repertório de ações aberto à transformação histórica. Ou seja, ele mantém a possibilidade de periodização como tal. Isso é exatamente o que Gilje efetivamente abandona ao obscurecer totalmente metade do trabalho da história. Tilly observa,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O repertório de ações coletivas evolui de duas maneiras diferentes: o conjunto de meios disponíveis para as pessoas muda em função de transformações sociais, econômicas e políticas, enquanto cada meio de ação individual se adapta a novos interesses e oportunidades de ação. Rastrear essa dupla evolução do repertório é uma tarefa fundamental para a história social <strong>[5]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A descrição da revolta como expressão multifacetada da violência social geral que muda de forma a torto e a direito, conforme ditam as circunstâncias, ressalta a segunda enquanto apaga a primeira — e, com ela, qualquer chance de compreender a importância sistemática do retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Econômico e o Político</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">O confusão entre revolta e violência tem sido uma ferramenta essencial para a redução política da revolta, seu isolamento da política propriamente dita, cuja medida se baseia implicitamente em um modelo de auto-consciência ou em sua ausência. Foi isso que Thompson começou a criticar, chamando-a de “visão espasmódica da história popular:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">De acordo com essa visão, as pessoas comuns dificilmente podem ser consideradas agentes históricos antes da Revolução Francesa. Antes desse período, elas se intrometem ocasionalmente em momentos de súbita perturbação social. Essas irrupções são compulsivas, em vez de autoconscientes ou autoativadas: são simples respostas a estímulos econômicos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas conceitualizações são renovadas na ciência positivista e quantitativa, por exemplo, do New England Complex Systems Institute. Seu estudo de 2011, focado em nações com baixos salários, traça uma correlação de explicação única [single-bullet] em que os autores “identificam um limite específico de preço dos alimentos acima do qual os protestos se tornam prováveis” <strong>[7]</strong>. Há desvios mais matizados dessas suposições subjacentes, articulando aumentos insuportáveis nos preços das mercaorias com mudanças econômicas mais amplas, como a reestruturação do FMI, programas e relações comerciais forçadas, que fornecem as condições para regimes alimentares precários. Enfatizando a construção da fome e da escassez, esses relatos, no entanto, assumem um verdadeiro mecanismo autonômico [autonomic] de encadeamento entre estímulo e resposta. A definição efetiva de revolta aqui é condicional. É simplesmente o que acontece quando os preços dos alimentos atingem um certo apogeu, uma versão da abordagem dos “historiadores do crescimento”, rejeitada por Thompson por “obliterar as complexidades do motivo, do comportamento e da função, que, se fossem notados pelo estudo de seus análogos marxistas, os fariam protestar” <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa abordagem encontra seu contraponto de forma um tanto perversa em Alain Badiou. Ele oferece um sentido qualitativo e abstrato do momento político. Em muitos aspectos, seu relato transcende os limites de seus contemporâneos, intelectuais de esquerda que, confrontados com as revoltas de Tottenham em 2011, aprenderam pouco. Na melhor das hipóteses, fomos levados a pensar que as revoltas alcançaram um espontaneísmo lamentável, aquela acusação que é a reanimação do pensamento socialista da tropa “espasmódico”. Foi um espetáculo estranho ver uma teoria política outrora moderna ser apresentada como um truísmo, como se o debate entre Lênin e Luxemburg tivesse sido resolvido e suas conclusões fossem válidas para sempre, sem necessidade de análise real. Em geral, os relatórios foram ainda menos generosos. Os participantes eram farsantes da sociedade antes deles, movidos pelas compulsões de autocancelamento da época, avatares do individualismo materialista momentaneamente liberados, talvez aptos a escapar de explosões sem sentido se lhes fosse fornecido um programa político. Como Slavoj Žižek perguntou, queixoso, do recinto de papel da <em>London Review of Books</em>: “Quem conseguirá direcionar a raiva dos pobres?” Era difícil não temer que um filósofo quisesse se encarregar dessa tarefa.</p>
<p style="text-align: justify;">Badiou, no entanto, deixa claro que as revoltas para as quais ele volta sua atenção não estão em busca de uma direção de vanguarda, sem a qual só podem afirmar a sociedade da qual surgiram. Ele as identifica como um fato periodizante em meio à sua própria realização:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…] vários povos e situações estão nos dizendo, em uma linguagem ainda indistinta, que esse período acabou; que há um renascimento da História. Devemos então nos lembrar da Ideia revolucionária, inventando sua nova forma ao aprender com o que está acontecendo <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A Ideia surge do evento da revolta, que então fornece uma força e duração organizacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse esquema, há uma certa alternância entre períodos em que “a concepção revolucionária de ação política foi suficientemente esclarecida (…) e, com base nisso, garantiu apoio maciço e disciplinado” e “períodos intervalares [quando], em contraste, a ideia revolucionária do período anterior (…) está dormente” <strong>[10]</strong>. Na falta de uma ideia ordenadora (muitas vezes aparecendo como a Ideia majestosa), esses últimos períodos dão origem à expressão dessa desordem no modo protopolítico da revolta. Badiou vê uma “estranha semelhança” entre nosso passado recente e a Restauração Francesa após a derrota final do espírito republicano: “desde o início da década de 1830, foi um grande período de revoltas, que muitas vezes foram momentânea ou aparentemente vitoriosas… Essas foram precisamente as revoltas, às vezes imediatas, às vezes mais históricas, características de um período intervalar” <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159422" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O puramente econômico e o puramente político, como era de se esperar, mostram os limites um do outro em negativo. O conto indexical do New England Complex Systems Institute não pode fazer muito além de atender certas quantidades à medida que elas se aproximam de determinados níveis e aguardar a revolta que inevitavelmente seguirá. O método deles parece ser relativamente preciso, depois de dados concretos, mas dificilmente é explicativo em relação à revolta como fenômeno social.</p>
<p style="text-align: justify;">O relato de Badiou, ao contrário, é admiravelmente explicativo, mas impreciso. Ou seja, ele fornece um contexto social reconhecível para a revolta em oposição a outras formas de ação, uma demanda por periodização, e está preparado para aceitar a revolta como um testemunho sério sobre a transformação histórica. No entanto, há imprecisões em sua pesquisa histórica, o que deriva de periodizações um tanto arbitrárias da história francesa a partir de desejos políticos imputados, em direção a uma trajetória global de revolta, à qual essa distribuição histórica não corresponde. O movimento oscilante que ele deduz para a França, com fases que duram décadas, tem pouca força de periodização; provavelmente preciso para seu país natal, ele combina pouco ou nada com as tendências da história em outros lugares. Além disso, qualquer revolta de importância política (uma “revolta histórica”, em sua tipologia) aparece como um evento praticamente sem determinação, fora do tempo. Os analistas quantitativos nos dão causalidade demais; Badiou, de menos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas duas abordagens estão diante de nós como Scylla e Charybdis, os duros bancos de areia do economicismo vulgar e o redemoinho da abstração política. Como navegar entre elas, entre a revolta como jogo de fome e a revolta como emanação de uma estrutura diáfana de sentimento político? Sem dúvida, cada um deles é, de certa forma, informativo, mas ainda insuficiente. Se enfatizamos a periodização, é primeiro porque mudanças fundamentais e duradouras no repertório da ação coletiva sugerem que a periodização é possível em formas mais completas do que espasmos ou oscilações, tanto em escalas infranacionais quanto supranacionais. Se a revolta olha para a periodização, o período, por sua vez, olha de volta para a revolta pelo buraco da fechadura dialética. É difícil, talvez impossível, estabelecer o que é uma revolta sem a periodização; com ela, a revolta (e também a greve) pode ser entendida como um conjunto de práticas diante de circunstâncias práticas, com ou sem um imaginário sobre a autoconsciência reflexiva dos participantes em que se baseiam tantos relatos.</p>
<p style="text-align: justify;">É na prática que Thompson baseia sua análise. Sua conclusão agrega um conjunto de outras práticas, incluindo bloqueio, confisco, revenda, ameaça e violência real contra comerciantes e transportadores. É a partir dessas práticas, em relação a um senso personalizado do custo de se manter vivo, que ele deduz a prática de fixação de preços como a atividade unificadora. Thompson, por sua vez, foi criticado pelo peso que ele dá ao costume e ao direito presumido de transformar o costume em uma arma, que é aproveitada pela multidão. No entanto, o caso mais básico que ele constrói se aproxima do indiscutível: o caso de reconhecer que a situação de revolta não é nem a simples fome nem a “emoção” política (como a revolta já foi chamada), mas sim o domínio do mercado. Se o mercado era “o ponto em que os trabalhadores mais frequentemente sentiam sua exposição à exploração, era também o ponto &#8211; especialmente em distritos manufatureiros rurais ou dispersos &#8211; em que eles podiam se organizar mais facilmente” e, portanto, era “tanto na arena da guerra de classes quanto na fábrica e na mina que se deu a revolução industrial” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Falar de guerra de classes não pode deixar de tender a um certo reducionismo. Não parece, pelo menos no sentido ortodoxo que adquiriu, totalmente adequado ao mundo protoindustrial em questão, nem ao presente quando o pertencimento de classe fornece não tanto um limite, mas uma lógica para a mobilização política. Apenas assim, como nossa introdução observa, a “fixação de preços de mercadorias no mercado” descreve apenas uma fração da revolta contemporânea. Thompson, e ele não está sozinho, aponta uma saída em um momento de atenção ao tema da revolta. Ele faz uma pausa em sua pesquisa para observar: “Os iniciadores das revoltas eram, com muita frequência, as mulheres”, pela razão evidente de que “elas também eram, é claro, as mais envolvidas no comércio cara a cara, mais sensíveis aos significados dos preços, mais experientes em detectar baixo peso ou qualidade inferior” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é apenas razoável, no caso das excluídas antecipadamente do “patriarcado do salário” <strong>[14]</strong> encontrarem mais intensamente a luta no mercado, uma vez que a agricultura de subsistência é minada e a questão básica da sobrevivência é forçada a entrar em uma esfera de troca em expansão. E isso nos oferece, mais do que uma lógica de circulação, a esfera do consumo e da troca. Além disso, gera uma lógica de reprodução como tal.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Dilema da Reprodução</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A reprodução social tem sempre dois lados. Do lado dos despossuídos do capital, ela é tanto a venda da força de trabalho quanto a compra do que é necessário para reproduzir essa força de trabalho. Do lado do próprio capital, é a valorização das mercadorias na produção e a realização desse valor na troca. Essas são as mesmas atividades, evidentemente, vistas de posições diferentes. A ilustração mais clara do caráter duplo da reprodução, sua unidade contraditória, é a chamada <em>double moulinet</em> ou, em alemão, <em>zwickmühle</em>, uma palavra que o inglês traduz como “dilema”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na narrativa tradicional desse dilema, trata-se de uma história do trabalho: da força de trabalho refeita e revendida pelo salário, e do trabalho reprodutivo infinitamente apropriado para esse processo, mais comumente referido como “trabalho feminino” não remunerado. O que Thompson vislumbra é que esse trabalho reprodutivo acontece não apenas em casa &#8211; cozinha, quarto, berçário &#8211; mas também, no período pesquisado por ele, é encaminhado pelo mercado. Quando o mercado parece ser a principal condição para a reprodução, as lutas pela reprodução inevitavelmente se situarão nele. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de notar que essa situação não se aplica a todos os sujeitos igualmente &#8211; que aqueles que são os últimos a entrar e os primeiros a sair do assalariamento, aqueles que nunca foram incluídos, aqueles que, na melhor das hipóteses, conseguem acesso secundário, estarão na vanguarda daqueles que se encontram lutando pela reprodução de maneiras que vão além do salário. Nessa divisão dos participantes, encontramos outra maneira de ver a conjuntura das épocas marcadas como “revolta” e “revolta linha”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159419 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png" alt="" width="198" height="340" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png 198w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922-175x300.png 175w" sizes="auto, (max-width: 198px) 100vw, 198px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Na introdução, estabelecemos uma definição tripartite de greve como a forma de ação coletiva que luta para definir o preço da força de trabalho, é unificada pela identidade do trabalhador e se desenvolve no contexto da produção; a revolta luta para definir os preços no mercado, é unificada pela desapropriação compartilhada e se desenvolve no contexto do consumo. A greve e a revolta são distinguidas mais ainda como táticas principais dentro das categorias genéricas de lutas pela produção e circulação. Podemos agora reafirmar e elaborar essas táticas como sendo cada uma delas um conjunto de práticas usadas pelas pessoas quando sua reprodução é ameaçada. A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Seus pontos fortes são igualmente seus pontos fracos. Eles fazem usos estruturados e improvisados do terreno dado, mas esse é um terreno que eles não criaram nem escolheram. A revolta é uma luta pela circulação porque tanto o capital quanto os seus despossuídos foram levados a buscar a reprodução nesse terreno.</p>
<p style="text-align: justify;">Se essa parece ser uma linguagem um tanto técnica para uma experiência sensorialmente carregada &#8211; um antagonismo social dramático carregado de perigo, fúria, desespero e certo prazer social -, isso é apenas uma resposta às rejeições convencionais da revolta já encontradas, por meio da apresentação de um argumento que não deveria ter sido necessário. A revolta, que compreende práticas organizadas contra ameaças à reprodução social, não pode ser nada além de política. Isso não quer dizer que a contradição da reprodução possa ser resolvida na circulação mais do que na produção. Na verdade, é a existência dessas duas esferas, em sua unidade e contradição, que garante a existência e dá forma às lutas pela reprodução. Se as vastas expansões da revolução industrial fornecem os excedentes para o desenvolvimento de aparatos militares e policiais modernos, elas também fornecem excedentes que podem ser usados para comprar a paz social. À medida que esses excedentes derretem e parcelas cada vez maiores da população se tornam excedentes para a economia, o Estado se volta cada vez mais para a coerção como estilo de gestão: o salário social do compromisso keynesiano é retirado em favor da ocupação policial das comunidades excluídas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a polícia e a revolta passam a se pressupor mutuamente. A revolta passa a se reconhecer por meio dessa imbricação. Caminhando por Hackney durante as revoltas de 2011, passando por cenas de angústia e excitação, passando por latas de lixo em chamas e os detritos de saques, alguns observadores concluíram que “uma luta coerente estava sendo travada aqui … para insistir no respeito dos policiais, forçar o reconhecimento de um assunto em que a rotina diária vê apenas um abjeto”. <strong>[15]</strong> A passagem aponta para a revolta como uma relação necessária com a estrutura atual do Estado e do capital, travada pelos abjetos &#8211; pelos excluídos da produtividade. Mas também aponta para a dependência da revolta em relação ao seu antagonista. No momento, a polícia aparece como necessidade e limite.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o tema dialético, esse dilema de necessidade e limite. O mercado, a polícia, circulação. Essas não são situações em que qualquer superação final é possível; é onde as lutas começam e florescem, desesperadamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Gilje, <em>Rioting in America</em>, 3.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ibid., 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> David Halle e Kevin Rafter, “Riots in New York and Los Angeles: 1935-2002”, em <em>New York and Los Angeles: Politics, Society, and Culture—A Comparative View</em>, ed. David Halle, Chicago: University of Chicago Press, 2003, 347.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> William Sewell, “Violência coletiva e lealdades coletivas na França: por que a Revolução Francesa fez a diferença”, <em>Política e Sociedade,</em> n.º 18, 1990, 529.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Charles Tilly, “Getting It Together in Burgundy, 1675-1975” (Unindo forças na Borgonha, 1675-1975), Teoria e Sociedade, 4: 4, 1977, 493.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Thompson, “Economia moral”, 76.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Marco Lagi, Karla Z. Bertrand e Yaneer Bar-Yam, “As crises alimentares e a instabilidade política no Norte da África e no Oriente Médio”, Cambridge, MA: Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra, 10 de agosto de 2011, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 78.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Badiou, <em>The Rebirth of History</em>, 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Ibid., 38-39.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ibid., 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 134, 120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Ibid., 115; 116</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Silvia Federici, <em>Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation</em>, Nova York: Autonomedia, 2004, 68,97-100.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> “A Rising Tide Lifts All Boats”, <em>Endnotes</em> 3 2011, 102.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As gravuras que ilustram este artigo são, respectivamente, das greves de Baltimore (1877), Homestead (1892) e Pullman (1894).</em></p>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Thiagson e UOL: quais os limites?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Jun 2026 21:32:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Contribuindo para a valorização do funk, Thiagson deixa de fazer uma crítica à contradição em que ele próprio está envolto: um intelectual orgânico do funk, numa tentativa de conquistar mercado e surfar na onda de empresas cool, “SPLASH” e “conscientes”. Por Luís]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Luís</h3>
<p style="text-align: justify;">No início de junho de 2026, a página do Toca UOL publicou um vídeo em sua página do Instagram onde Thiagson entrevista MC Hariel, divulgando o novo trabalho do funkeiro no Red Bull Symphonic — uma mistura inédita ou no mínimo rara entre o funk e a música clássica em um evento de grandes proporções. A ocasião abre espaço para que Thiagson, que é consagrado como um intelectual no meio do funk e da música periférica, principalmente através da sua crítica ao etnocentrismo, o desvelamento da arbitrariedade e do racismo no estigma colocado na música periférica por parte da mídia e outras instâncias; o que, de fato, é uma contribuição importantíssima. O problema não é a reflexão proposta a partir da situação: é a função de legitimador irrefletido do funk; Thiagson é, na sua atuação, a anti-autocrítica.</p>
<p style="text-align: justify;">A tônica do vídeo se dá com a reflexão sobre o julgamento social do valor das expressões artísticas e como Hariel, sendo oriundo de um meio estigmatizado no campo cultural, “bagunça” a ordem e consegue atrair a admiração e julgamentos positivos de setores socialmente distanciados do seu. Explicita, também, a teoria de Pierre Bourdieu sobre como as correlações de força e lutas na sociedade influenciam o julgamento e o universo simbólico a partir do exemplo que dá sobre a recepção e abordagem que recebe dos mesmos setores, no seu elogio que, enquanto exalta o MC, “desmerece” e rebaixa o campo no qual ele está inserido.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ah, mano… Tipo, esses Cavalo de Tróia, eu lido com isso diariamente. Quando as pessoas às vezes tentam me elogiar, aí […] desmerecem todo mundo. Tipo: “ah, eu curto seu som… mas o resto eu não gosto, não!”. É uma parada que a gente vê a ignorância da pessoa no elogio. A pessoa é tão ignorante que ela não consegue elogiar uma pessoa ou olhar pra uma parada assim sem querer legitimar outra. Sei que vai vim vários assim com esse ponto de vista, mas eu tô mais preocupado com o rapaziada do funk mesmo que pode olhar pro lado da orquestra e conhecer alguns números, conhecer mais sobre esse universo, tá ligado?… Não tô preocupado com esses que vão vim nesse embalo assim. Pode chegar com pensamentos diferentes, mas se for ficar pra acompanhar mesmo, vai ter que pegar a visão, vai ter que ter o respeito.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tal atitude ajuda a desvelar os <em>princípios de percepção e apreciação</em> dos agentes: quando se está inserido num campo periférico, refletindo valores periféricos, uma estética periférica, enfim, um <em>ethos</em> típico da periferia, o valor é negativo; a partir do momento em que começa a haver uma aproximação com os valores “bons”, no sentido de mais valorizados socialmente, na hierarquia social — o que até mesmo a cor de pele mais clara pode significar para alguns —, começa-se a valorar positivamente. No caso, Hariel sendo um dos poucos que fazem esse último movimento, é enxergado por muitos como “o único bom”, um funkeiro de valor entre outros rebaixados.</p>
<p style="text-align: justify;">No movimento (novamente, acertado) de fazer (novamente) a crítica ao etnocentrismo, entra a contradição central: o problema não é o que Thiagson diz, <em>é o que ele deixa de dizer. </em>Enquanto usa Bourdieu para dar legitimidade — e, no fim das contas, jogar com esse mesmo movimento que Hariel fez, talvez de forma menos pensada, de brincar com a economia simbólica — ao seu ponto e atrair esse novo mercado (pode-se falar de mercado?) de pessoas das frações mais cultas da classe-média que tentam se aproximar dos guetos através de objetos culturais advindos deles, contribuindo para a valorização do funk, deixa de fazer uma crítica à contradição que, nesse caso, se torna até mesmo inconveniente, já que o próprio está envolto nela: um intelectual orgânico do funk, dentro dos maiores portais online do país, anunciando o contrato de um funcionário da Warner e CEO da Xaolin Records com uma gigante capitalista como a Red Bull numa tentativa de conquistar mercado e surfar na onda de empresas <em>cool, “SPLASH” </em>e “conscientes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Longe de ser um caso isolado, é uma constante em sua atuação pública: caso notório é sua entrevista — também mediada pelo Toca UOL — com Criolo. Ao ser perguntado sobre a ascensão do chamado “rap de direita”, o artista responde conciliando: diz que isso sempre existiu, fala da pluralidade de visões na periferia, no movimento hip-hop etc. Diante disso, não há contraponto ou ao menos instigação por parte de Thiagson, o que revela seu limite: por mais que, de fato, seja impossível dizer que, hoje, a cultura hip-hop ou o rap é “de esquerda” ou “de direita”, o que vai definir a quem a cultura serve, nas suas tendências dominantes — pois sempre podem existir “guetos” dentro de um campo com visões diferentes das dominantes, mas com atuação quase sempre limitada — são justamente as lutas, as disputas, os debates. Quando deixa a afirmação de Criolo passar sem sequer uma constatação (o que, vale lembrar, muitos outros não deixaram de fazer, questionando a fala do rapper), Thiagson deixa de ter compromisso com a própria posição de esquerda que assume, abre alas às tendências direitistas dentro da cultura e ainda por cima as legitima para um público potencialmente crítico, emprestando sua legitimidade acadêmica, cultural e própria do universo da música periférica para uma posição conciliadora, que esvazia o potencial crítico e emancipatório do rap e do funk.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, é importante salientar algumas coisas: primeiramente, quando falamos nos “limites” da atuação de Thiagson, não queremos dizer que o sujeito em questão é alguém preso eternamente a esses limites, desonesto ou mesmo que o indivíduo tenha planejado cinicamente os efeitos das suas ações. Não é um ataque, como existem aos montes pela internet, que questiona o próprio valor do funk, das expressões periféricas, seja como “não-música” ou cultura inferior — argumento que o próprio ajuda a desmontar, por exemplo, na sua tese de doutoramento e por diversas outras vezes. É uma crítica que quer disputar os rumos da cultura e abrir espaço à discussão justamente porque acredita no potencial emancipatório da mesma e porque tem apreço por ela.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159361 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1.webp" alt="" width="883" height="1170" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1.webp 883w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-226x300.webp 226w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-773x1024.webp 773w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-768x1018.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-317x420.webp 317w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-640x848.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-681x902.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 883px) 100vw, 883px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Falando em limites, é fundamental perguntar: o que pode ser dito dentro da UOL? Thiagson, enquanto funcionário (e não enquanto indivíduo, ressaltamos novamente) da UOL se encaixa muito bem na categoria de <em>fast thinker</em> descrita pelo próprio Bourdieu em <em>Sobre a Televisão:</em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sobre a televisão, o índice de audiência exerce um efeito inteiramente particular: ele se retraduz na pressão da urgência. A concorrência entre os jornais, a concorrência entre os jornais e a televisão, a concorrência entre as televisões toma a forma de uma concorrência pelo furo, para ser o primeiro. Por exemplo, em um livro em que apresenta certo número de entrevistas com jornalistas, Alain Accardo mostra como os jornalistas de televisão são levados, porque tal televisão concorrente “cobriu” uma inundação, a ir “cobrir” essa inundação tentando obter algo que o outro não obteve. Em suma, há objetos que são impostos aos telespectadores porque se impõem aos produtores; e se impõem aos produtores porque são impostos pela concorrência com outros produtores. Essa espécie de pressão cruzada que os jornalistas exercem uns sobre os outros é geradora de toda uma série de conseqüências que se retraduzem por escolhas, por ausências e presenças. Eu dizia ao começar que a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento. […] E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão das relações entre o pensamento e a velocidade. Pode-se pensar com velocidade? Será que a televisão, ao dar a palavra a pensadores que supostamente pensam em velocidade acelerada, não está condenada a ter apenas <em>fast-thinkers</em>, pensadores que pensam mais rápido que sua sombra…? Com efeito, é preciso perguntar por que eles são capazes de responder a essas condições inteiramente particulares, por que conseguem pensar em condições nas quais ninguém mais pensa. A resposta é, ao que me parece, que eles pensam por “idéias feitas”. As “idéias feitas” de que fala Flaubert são idéias aceitas por todo mundo, banais, convencionais, comuns; mas são também idéias que, quando as aceitamos, já estão aceitas, de sorte que o problema da recepção não se coloca. Ora, trate-se de um discurso, de um livro ou de uma mensagem televisual, o problema maior da comunicação é de saber se as condições de recepção são preenchidas; aquele que escuta tem o código para decodificar o que estou dizendo? Quando emitimos uma “idéia feita” é como se isso estivesse dado; o problema está resolvido. A comunicação é instantânea porque, em certo sentido, ela não existe. Ou é apenas aparente. A troca de lugares-comuns é uma comunicação sem outro conteúdo que não o fato mesmo da comunicação. Os “lugares-comuns” que desempenham um papel enorme na conversação cotidiana têm a virtude de que todo mundo pode admiti-los e admiti-los instantaneamente: por sua banalidade, são comuns ao emissor e ao receptor. Ao contrário, o pensamento é, por definição, subversivo: deve começar por desmontar as “idéias feitas” e deve em seguida demonstrar. […] Se a televisão privilegia certo número de fast-thinkers que propõem fast-food cultural, alimento cultural pré-digerido, pré-pensado, não é apenas porque (e isso faz parte também da submissão à urgência) eles têm uma caderneta de endereços, aliás sempre a mesma (sobre a Rússia, são o sr. ou a sra. X, sobre a Alemanha, é o sr. Y)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Cumpre a mesma função descrita, estando sempre pronto a intervir nas oportunidades que aparecem, nas polêmicas e no que viraliza, no que o canal de mídia precisa <em>cobrir</em> com as chamadas “ideias feitas”: argumentos rápidos, reciclagem de parte de suas teses sem um aprofundamento na questão em si e nem desdobramentos que se coloquem além da crítica ao etnocentrismo que já é esperada da sua parte. Além de, por parte desse novo público, citado anteriormente, com capital cultural relativamente alto e potencial consumidor de obras com “caráter popular”, serem ideias, geralmente, já superficialmente pré-aceitas, ainda que com ressalvas ou a um certo contragosto, como a fala de MC Hariel explicita. Além do que se encaixa com mais precisão ao que foi descrito por Bourdieu há algumas décadas, observamos as práticas e roteiros que expressam adaptação à dinâmica atual da internet e às estratégias impostas para o sucesso — já que, pelo menos pelo que nós deduzimos, o Toca UOL tem como orientação a rentabilidade, o lucro — dentro deste contexto: vídeos relativamente curtos, facilmente polemizáveis e que servem de propaganda e ao mesmo tempo exploram a imagem tanto de um artista consagrado quanto a de um influencer.</p>
<p style="text-align: justify;">Encerrando, gostaria de perguntar a quem por acaso tenha concordado com o que foi colocado aqui: o seu acordo se dá pelo compromisso ou pelo ressentimento?</p>
<blockquote><p>As imagens que ilustram o artigo são da autoria de Ron English (1959-).</p></blockquote>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Jun 2026 12:55:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[Esta é, portanto, a necessidade mais básica: uma teorização propriamente materialista da revolta. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Joshua Clover</h3>
<blockquote><p>Este livro foi publicado originalmente em inglês pela editora Verso (2016). Esta é uma tradução coletiva feita por alguns camaradas no âmbito de um grupo de estudos. A revisão da tradução é do Passa Palavra.</p></blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>para Oakland, para a comuna</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A. Uma ordem violenta é desordem; e</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>B. Uma grande desordem é uma ordem.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Estas duas coisas são uma. (Páginas de ilustrações.)</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>—“The Connoisseur of Chaos,” Wallace Stevens</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Você sabe como conseguir, sem entrada, sem dinheiro nunca, dinheiro não dá em árvore de jeito nenhum, só os brancos têm, fazem com uma máquina, para te controlar, você não pode roubar nada de um homem branco, ele já roubou, ele te deve tudo o que você quiser, até a vida dele. Todas as lojas abrirão se você disser as palavras mágicas. As palavras mágicas são: Contra a parede, filho da puta, isso é um assalto! Ou: Quebre a janela à noite (essas são ações mágicas), quebre as janelas durante o dia, a qualquer hora, juntos, vamos quebrar a janela e tirar a merda de lá. Sem entrada. Sem tempo para pagar. Pegue o que quiser.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>—“Black People!”, Amiri Baraka</em></strong></p>
<hr />
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Agradecimentos</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Como muitos outros livros de teoria política, este livro é fruto de mobilizações políticas que, por sua vez, orientaram grupos de leitura, pesquisas e inúmeras discussões. Em todas essas variadas circunstâncias, tenho sido grato pela amizade, discernimento e diligência — literal e figurativa — de Ian Balfour, Ali Bektaş, Lauren Berlant, Sean Bonney, Bruno Bosteels, Shane Boyle, Sarah Brouillette, Lainie Cassel, Maya Gonzalez, Virginia Jackson, Neil Larsen, Laura Martin, Phil Neel, Sianne Ngai, Will O&#8217;Connor, Simone Pinet, Nina Power, Louis-Georges Schwartz, Tim Simons, Michael Szalay, Alberto Toscano, Wendy Trevino e Derek Zika. Provavelmente esqueci alguns. As formulações iniciais foram propostas por Beverly Silver, incentivadas por William Sewell, e desenvolvidas posteriormente em visitas ao Centro de Teoria Social e História Comparada de Robert Brenner e ao Centro Arrighi de Estudos Globais. A produção deste livro não teria sido possível sem o apoio de Sebastian Budgen e do pessoal da Verso, de David Theo Goldberg e do Instituto de Pesquisa em Humanidades da Universidade da Califórnia, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Warwick e da assistência editorial de Deborah Young.</p>
<p style="text-align: justify;">Seeta Chaganti e Carol Clover proporcionaram as condições de possibilidade. Sou particularmente grato aos camaradas cujos pensamentos e ações são os nervos e tendões deste livro, incluindo Aaron Benanav, Jasper Bernes, Chris Chen, Tim Kreiner, Colleen Lye, Annie McClanahan, Chris Nealon e Juliana Spahr. <em>E quando tudo estiver terminado, dê-me sua mão para que possamos recomeçar do início.</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Uma Teoria da Revolta</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas estão chegando, já estão aqui, outros estão a caminho, ninguém duvida disso. Eles merecem uma teoria adequada.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma teoria da revolta é uma teoria da crise. Isso é verdade em uma dimensão específica e local, em momentos de vidros quebrados e incêndios, em que a revolta é considerada a irrupção de uma situação desesperadora, a pauperização até o limite, a crise de uma determinada comunidade ou cidade, de algumas horas ou dias. Entretanto, a revolta só pode ser compreendida como tendo uma significação estrutural e imanente, para parafrasear Frantz Fanon, na medida em que pudermos descobrir o movimento histórico que fornece sua forma e substância. Devemos, então, passar para outros níveis, nos quais as instâncias aglutinadoras próprias das revoltas são indissociáveis da crise capitalista contínua e sistêmica. Além disso, a revolta como uma forma particular de luta ilumina o caráter da crise, torna-a novamente pensável e oferece uma perspectiva a partir da qual podemos ver seu desdobramento.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira relação entre a revolta e a crise é a do excedente. Isso já parece um paradoxo, pois tanto a crise quanto a revolta são comumente entendidos como decorrentes de escassez, carência, privação. Ao mesmo tempo, a revolta é a própria experiência do excesso. Excesso de perigo, excesso de informação, excesso de equipamento militar. Excesso de emoção. De fato, as revoltas já foram conhecidas como “emoções”, uma história ainda visível na palavra francesa: <em>émeute</em>. O excesso crucial no momento da revolta é simplesmente o dos participantes, da população. O momento em que os partidários da revolta excedem a capacidade de gerenciamento da polícia, quando os policiais fazem sua primeira retirada, é o momento em que a revolta se torna totalmente ela mesma, se afasta da continuidade sombria da vida cotidiana. A incessante regulação social que parecia ideológica, onipresente e abstrata é, nesse momento de excesso, revelada como uma questão prática, aberta à contestação social.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos esses excessos correspondem a transformações sociais mais amplas, das quais essas experiências de excesso afetivo e prático são indissociáveis. Essas transformações são as reestruturações materiais que respondem à crise capitalista e a constituem, e que apresentam excedentes de capital e população como características centrais. E são elas que propõem a revolta como uma forma necessária de luta.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158125 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017.jpg" alt="" width="928" height="627" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017.jpg 928w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-300x203.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-768x519.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-622x420.jpg 622w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-640x432.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-681x460.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 928px) 100vw, 928px" /></p>
<p style="text-align: justify;">“Qualquer população tem um repertório limitado de ação coletiva”, observa Charles Tilly, grande historiador dessas questões. Escrevendo em 1983, ele mede uma transformação histórica singular, uma mudança oceânica cujas marés se espalharam logo ou tarde pelo mundo industrializado:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em algum momento do século XIX, as pessoas da maioria dos países ocidentais abandonaram o repertório de ação coletiva que vinham usando há cerca de dois séculos e adotaram o repertório que usam até hoje <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A mudança em questão foi da revolta para a greve. Desde a passagem marcada por Tilly, ambas as táticas existem no repertório; a questão é saber qual delas predomina, fornecendo a orientação principal na guerra incessante pela sobrevivência e pela emancipação. A percepção de um recuo da revolta nessa narrativa tem sido um lugar-comum. A frase de abertura do popular volume <em>Rioting in America</em>, de 1996, nos informa: “As revoltas fazem parte do passado americano” <strong>[2]</strong>. Mas o passado nunca está morto. Ele sequer é passado.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, outra transformação já estava em andamento: desde os anos 60 ou 70, a grande mudança histórica se inverteu. À medida que as nações superdesenvolvidas entraram em uma crise contínua, ainda que irregular, a revolta voltou a ser a principal tática no repertório da ação coletiva. Isso é verdade tanto no imaginário popular quanto no domínio dos dados (na medida em que tais questões permitem a comparação estatística). Independentemente da perspectiva, as revoltas alcançaram uma resoluta centralidade social. As lutas trabalhistas foram, em sua maioria, reduzidas a ações defensivas esfarrapadas, enquanto a revolta aparece cada vez mais como a figura central do antagonismo político, um espectro que surge em debates insurrecionais, em estudos governamentais ansiosos e em reluzentes capas de revistas. Os nomes se tornaram pontos cardeais de nosso tempo. A nova era de revoltas tem raízes em Watts, Newark, Detroit; passa pela Praça Tiananmen em 1989 e Los Angeles em 1992, chegando ao presente global de São Paulo, Gezi Park, San Lázaro. A revolta proto-revolucionária da Praça Tahrir, a revolta quase permanente da Exarcheia, a virada reacionária da Euromaidan. No núcleo crepuscular: Clichy-sous-Bois, Tottenham, Oakland, Ferguson, Baltimore. São muitos para contar.</p>
<p style="text-align: justify;">A teoria é imanente à luta; muitas vezes ela precisa se apressar para alcançar uma realidade que se acelera. Uma teoria do presente surgirá de seus confrontos vividos, em vez de chegar à cena carregada de homilias e prescrições retroativas a respeito de como a guerra contra o Estado e o capital deve ser travada, programas que, segundo nos dizem, alguma vez funcionaram e que agora podem ser renovados e impostos mais uma vez em nosso momento bastante distinto. O subjuntivo é um modo adorável, mas não é procedimento do materialismo histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui chegamos a uma espécie de encruzilhada. De forma muito esquemática, a associação da estrutura analítica de Marx com uma descrição leninista da estratégia política — centrada na organização proletária em direção ao partido revolucionário e na tomada do Estado e da produção — está profundamente sedimentada. A revolta não tem lugar nesse cenário conceitual. Com frequência, entende-se que a revolta não tem política alguma, é uma irrupção espasmódica que deve ser lida de forma sintomática e talvez receba uma dose paternalista de simpatia. Aqueles que atribuíram à revolta o potencial de uma abertura insurrecional para uma ruptura social geralmente vêm de tradições intelectuais e políticas indiferentes ou até mesmo antitéticas ao comando do Estado e da economia, mais notoriamente (mas não exclusivamente) as de algumas vertentes do anarquismo <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso expressa uma ligação subterrânea do comunismo, tanto por céticos quanto por adeptos, com a “organização” como tal, e mais ainda com algum partido de esquerda da ordem, com um senso científico do progresso da história, com a modernidade pela qual devemos passar com toda sua barbárie maquinada. Ao contrário, a revolta, como é amplamente aceito até mesmo entre seus partidários, é uma grande desordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a oposição entre greve e revolta passa a representar, por meio de um silogismo velado, a oposição do marxismo <em>tout court</em> a outras tradições intelectuais e políticas, geralmente aquelas que são antidialéticas, se não diretamente anticomunistas. A maioria, se não todos os lados, compartilharam dessa visão. Não faltaram livros à esquerda e à direita para nos informar, ora em tons melancólicos, ora comemorativos, que o declínio do movimento trabalhista e do binômio classe revolucionária &#8211; partido de massa, ou a suposta transcendência de qualquer teoria do valor-trabalho, significam que podemos finalmente deixar a análise de Marx e suas categorias para o século XX, se não para o século XIX. Você já deve estar familiarizado com a narrativa. Os países de origem do capitalismo não apresentam mais uma classe trabalhadora industrial com poder ou magnitude crescentes, que pudesse servir como uma vanguarda para as classes exploradas em geral, muito menos tomar as rédeas da produção. Além disso, o foco original no trabalhador fabril inglês e a contabilização desse trabalho como particularmente produtor de valor e, portanto, mais próximo do coração do capital, representou o sujeito da política inevitavelmente como branco e masculino. Dada a globalização do capital, seu salto para todos os cantos da existência social e os desenvolvimentos vitais da política anticolonial (para abreviar uma série de intervenções cruciais e complexas), será necessário um novo sujeito revolucionário e um novo desdobramento revolucionário.</p>
<p style="text-align: justify;">Decerto isso é uma caricatura. Essas sugestões são, de fato, em muitos aspectos, instrutivas, se não simplesmente verdadeiras. Isso não significa uma refutação do materialismo histórico, mas põe um conjunto de problemas para ele. O enfraquecimento dos movimentos trabalhistas tradicionais no Ocidente e a intensificação de uma desapropriação mais completa não apontam para o fim do antagonismo anticapitalista potencialmente revolucionário nem da força analítica do materialismo histórico. Além disso, ainda precisaremos do último para compreender o primeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal de contas, o materialismo histórico é uma teoria da transformação, se é que é alguma coisa. Isso não quer dizer que toda mudança histórica deva ser apoiada. Mas um marxismo que só consegue entender a tendência da realidade como um erro não é marxismo algum. O significado da revolta mudou radicalmente. Ela não será entendida se não nomearmos as determinações e forças segundo as quais ela assume seu novo papel e pelas quais ela é impelida irresistivelmente para o futuro, mesmo quando olha para trás, para os séculos XVII e XVIII. Esta é, portanto, a necessidade mais básica: uma <em>teorização propriamente materialista da revolta</em>. A revolta para os comunistas, digamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não está claro se esse livro existe. Talvez a abordagem mais próxima seja <em>The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings</em>, de Alain Badiou: “Eu também sou marxista — na íntegra, completamente e, portanto, naturalmente, não há necessidade de reiterar isso”, insiste ele, reiterando-o em várias ocasiões ao mesmo tempo em que observa que ele é</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">bem ciente dos problemas que foram resolvidos e que é inútil reexaminá-los; e dos problemas que permanecem pendentes e que exigem de nós uma retificação radical e uma esforço inventivo. Todo conhecimento vivo é composto de problemas que precisam ser construídos ou reconstruídos, e não de descrições repetitivas <strong>[4]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Depois de oferecer essa nota promissória, ele não se preocupa muito com a problemática do capital, nem faz muito uso das categorias que nos foram legadas pela crítica da economia política. Ficamos com “a Ideia” desempenhando o papel deixado pelo partido, fornecendo uma coordenação do espírito revolucionário que procede a certa distância dos desenvolvimentos dialéticos das forças sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Badiou organiza seu livro como uma taxonomia de revoltas organizada em torno da Primavera Árabe. Essa é uma das abordagens genéricas que se sobrepõem a esses estudos, dividindo as revoltas de acordo com o status político, a causa disparadora principal ou eventual, a composição dos participantes. Outra é o estudo sociológico dos manifestantes e suas condições imediatas, e seu primo próximo, a fenomenologia (geralmente em primeira pessoa). Há também os estudos de caso de revoltas famosas, além de pesquisas e atlas menos glamourosos. Independentemente de suas lacunas, a biblioteca das revoltas é escura e profunda; apenas uma fração pode ser abordada aqui. Este livro tem outras promessas a cumprir. Ele também se baseia na teoria do valor de Marx e na teoria da crise, da qual a primeira não pode ser desvinculada, em relatos de como os setores urbanos se esvaziam, como setores inteiros da economia se erguem e caem, e como o sistema-mundo se organiza e desorganiza; a tradição da análise dos sistemas mundiais fornece uma estrutura de amplitude global e de <em>longue durée</em> para pensar o evento localizado da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">Há limites para essa extensão, necessariamente. É evidente que as revoltas na Índia e na China, para escolher apenas dois exemplos contemporâneos, têm suas próprias características distintas (e seus próprios estudos em desenvolvimento). Minhas alegações se referem principalmente às nações do Ocidente de desenvolvimento industrial precoce e agora em processo de desindustrialização. Esses lugares não têm um apelo privilegiado para as revoltas; eles são, na verdade, o terreno em que uma lógica específica se torna visível, uma lógica tanto da revolta quanto do capital em seu outono catastrófico. Espero que essas reflexões sejam, de certa forma, adaptáveis, pois estão inseridas em mudanças político-econômicas que, por sua vez, estão fadadas a viajar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158124" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before.webp" alt="" width="2000" height="1335" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before.webp 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-1024x684.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-768x513.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-1536x1025.webp 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-629x420.webp 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-681x455.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />Além disso, assim como a nova era de revoltas expressa as transformações globais do capital e, portanto, carrega suas condições objetivas, ela se torna uma ocasião para examinar mais profundamente essas transformações. Se este livro oferece alguma novidade, elas são as seguintes: primeiro, definições mais claras de <em>revolta</em> e <em>greve</em>, que padecem de mais confusão do que se poderia esperar. Em segundo lugar, uma explicação de por que a revolta voltou e por que ele assume a forma que tem no presente. E, em terceiro lugar, uma vez que a lógica da revolta e sua relação com as transformações do capital tenham sido apreendidas, fornecer algumas previsões sobre o futuro da luta. Uma teoria do presente, portanto. No mínimo, a teoria deve ser capaz de explicar por que, após o fracasso em apresentar uma acusação contra o policial que assassinou Michael Brown em Ferguson, Missouri, houve uma onda nacional de revoltas — e por que, como se por uma telepatia entre os empobrecidos, as revoltas em cidade após cidade assumiram a forma de bloqueio da rodovia disponível mais próxima.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta-Greve-Revolta Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Este livro está organizado mais ou menos em ordem cronológica, desde a era de ouro das revoltas até a era das greves e vice-versa, com foco especial nas passagens de transição. No entanto, não se trata de uma crônica. Em vez disso, ele aproveita a oportunidade para desenvolver uma série de conceitos e argumentos sobre revolta e economia política à medida que avança. Ele constrói um modelo explicativo que pode coordenar os principais fatos do presente, de modo que eles possam se manifestar de forma um pouco mais eloquente. Ao se aproximar da era atual, os capítulos inevitavelmente se tornam um pouco mais detalhados. No entanto, o todo será necessariamente uma simplificação das infinitas complexidades da realidade; assim são os modelos heurísticos. Pelo menos, isso faz com que os livros sejam mais curtos.</p>
<p style="text-align: justify;">O Riot Act do Rei George I em 1714, em resposta, em parte, às revoltas da Coroação que acompanharam sua ascensão, se apresentava como “Um ato para prevenir revoltas e assembleias desordeiras, e para punir os desordeiros de forma mais rápida e eficaz”. Isso levanta uma questão sobre o estatuto comunicativo da revolta desde seu início. Trata-se, em grande parte, de uma declaração, de um discurso — ele prescreve a linguagem que deve ser lida para declarar uma reunião ilegal (daí a expressão, “ler o Riot Act”). Com ele, o termo <em>riot</em> muda decisivamente de seu sentido mais antigo de “vida desregrada, solta ou esbanjadora; deboche, dissipação, extravagância” e até mesmo “folia, alegria ou barulho desenfreados” para seu significado contemporâneo de “uma violenta perturbação da paz por uma assembleia ou grupo de pessoas; um surto de ilegalidade ativa ou desordem entre a população”. Chaucer, como tantas vezes, antecipa a modernidade da palavra. “Roubos e revoltas são conversíveis”, escreve ele em <em>The Cook&#8217;s Tale</em>, observando que o mestre paga o preço pela folia do aprendiz <strong>[5]</strong>. Ele associa a palavra à reviravolta das hierarquias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">A transição da revolta para a greve ocorre de forma irregular. A chegada da greve como fato social ocorre entre 1790 e 1842, data da primeira greve em massa na Inglaterra. Assim como muitas mudanças marítimas, é difícil reconhecê-las em sua primeira aparição, mas elas se mostrarão com clareza em um exame posterior. Será útil reconhecer a continuidade, bem como a oposição, a maneira como o novo conteúdo para a luta emerge de formas mais antigas de ação e, portanto, passa por períodos de indefinição. O mesmo pode ser dito sobre o retorno das revoltas; ainda é cedo. Com o declínio do movimento trabalhista no Ocidente, a revolta aumenta, tanto relativa quanto absolutamente. Inevitavelmente, há um intervalo em que as duas táticas coexistem uma ao lado da outra. De uma perspectiva, elas parecem disputar a primazia; de outra, a volatilidade de sua presença dual durante essa segunda transição produz uma situação revolucionária, que é amplamente conhecida com o nome, não totalmente preciso, de “1968”. O ano histórico-mundial de 1973 é o ano da virada, com o colapso dos lucros industriais sinalizando o início do que deveria ser corretamente chamado de Longa Crise, com suas recomposições de classe e divisão global do trabalho que progressivamente minam as possibilidades de organização militante dos trabalhadores no Ocidente. Na década de 80, a transição está praticamente concluída. Se isso aparece inicialmente como parte de um fechamento mais amplo das fronteiras revolucionárias — como o fim da história concomitante com a saída do comunismo do século XX —, o veredicto é mais uma vez aberto ao debate. O debate está intrinsecamente ligado ao retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Revolta-greve-revolta</em>, portanto. Mas isso não é suficiente. Tal formulação pode sugerir uma simples oscilação, ou pior, uma regressão. Essa narrativa tem seu apelo, dadas as tonalidades afetivas do presente, as insinuações de um colapso civilizacional acelerado por uma catástrofe ecológica. No entanto, isto é apenas um contorno, não uma teoria. Ela não é explicativa nem precisa. A nova era de revoltas, em muitos aspectos não se assemelha à sua antecessora. Antes do século XIX, as dificuldades gerais enfrentadas pelos pobres para administrar a subsistência, incluindo não apenas as revoltas pelo pão, mas também as revoltas contra os cercamentos das terras comuns, proporcionavam a ocasião para o surgimento do antagonismo social. Notavelmente, esses eventos incluíam as “revoltas contra exportações”, revoltas em que o transporte de grãos para fora do condado, especialmente em épocas de fome, era interrompido por esforços combinados e coordenados. De acordo com muitos relatos, essa configuração básica das necessidades é mantida até hoje; estudos empíricos que relacionam os preços dos alimentos a revoltas continuam sendo comuns e, de certa forma, persuasivos, principalmente em países com baixos salários. No entanto, as revoltas começam agora não no celeiro, mas na delegacia de polícia, literal ou figurativamente, incitados pelo assassinato de um jovem de pele escura pela polícia, ou em decorrência do fracasso do aparato legal em responsabilizar adequadamente a polícia por sua violência. A nova era encontra seu paradigma nas revoltas de Los Angeles de 1992, após a absolvição dos policiais que foram gravados espancando brutalmente Rodney King após uma parada de trânsito — revoltas que se espalharam por várias outras cidades e continuaram por cinco dias. Cada vez mais, as revoltas contemporâneas ocorrem dentro de uma lógica de racialização e têm o Estado, e não a economia, como seu antagonista direto. A revolta retorna não apenas a um mundo mudado, mas ela mesma se transformou.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Revolta-greve-revolta linha</em>. Assim fica melhor. Esses termos compõem as três seções do livro. Cada uma delas tem não apenas um período apropriado, mas também um lugar apropriado. Para a primeira era de revoltas, o mercado, mas sobretudo o porto; para a era da greve, o chão de fábrica; e, para a nova era de revoltas, a praça e a rua. Para cumprir essa sequência tripartite, este livro precisará descobrir tanto a continuidade das duas eras de revoltas quanto suas diferenças: a unidade de uma revolta no mercado e os levantes frequentemente racializados dirigidos aparentemente contra o Estado. Aqui está o argumento, em sua forma condensada e abstrata, ao qual o restante do livro acrescentará detalhes e digressões, bem como uma estrutura político-econômica e um olhar para o futuro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Charles Tilly, “Expressando sua opinião sem eleições, pesquisas ou movimentos sociais”, <em>The Public Opinion Quarterly</em> 47: 4, inverno de 1983, 464.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Paul A. Gilje,<em> Rioting in America</em>, Bloomington: Indiana University Press, 1999, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> The Invisible Committee, <em>The Coming Insurrection</em>, Cambridge: Semiotext(e), 2009, e sua continuação To Our Friends, trad. Semiotext(e), Cambridge: Semiotext(e), 2015, são as versões mais incisivas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Alain Badiou, <em>The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings</em>, trad. Gregory Elliot, Nova York: Verso, 2012, 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> “For thefte and riot, they been convertible.” Geoffrey Chaucer, <em>The Riverside Chaucer</em>, 3ª ed., Larry D. Benson, ed. geral, Boston: Houghton Mifflin, 1987, 85.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de Los Angeles, em 1992</em></p>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Dez anos de uma quase-organização: entrevista com o Grupão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 14:23:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas. Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão</h3>
<p style="text-align: justify;">Após viagens ao Brasil entre 2024 e 2025, companheiros da editora militante chilena Pensamiento y Batalla (PyB) organizaram um livro reunindo entrevistas a coletivos com os quais tiveram contato, compondo um panorama de perspectivas e trajetórias diversas na militância anticapitalista e antiestatal em várias partes do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os grupos entrevistados, está o nosso: uma rede mais ou menos informal de camaradas que, desde 2016, se reúne duas ou mais vezes por ano para discutir teoria e prática da luta de classes. Sem a pretensão de criar uma cara pública, chamamos essas reuniões entre nós simplesmente de “Grupão”. Foi a forma que encontramos para que camaradas que se aproximaram no intenso período em torno de 2013 continuassem em contato: uma auto-organização de “resíduos” das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Grupão foi um espaço de reflexão sobre nossas derrotas, tanto da incorporação à ordem das organizações produzidas no ciclo dos anos 1970-80, quanto dos limites das revoltas deste século. Ao mesmo tempo, a existência da nossa articulação também permitiu que companheiros mantivessem esforços de investigação, ação e reflexão sobre a conjuntura e as novas lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando sintetizamos nossos debates em textos coletivos, a falta de uma identidade pública gerou um problema de apresentação. No livro <em>Incêndio</em>, de 2022, por exemplo, usamos a assinatura de “um grupo de militantes na neblina” (estamos “na neblina”, já que o horizonte revolucionário parece encoberto nesse tempo…). Com isso, tentamos preservar a característica difusa e as divergências que existem dentro do Grupão. Para a entrevista aos chilenos, a solução foi outra: reunimos cinco colegas de diferentes estados (Goiás, Minas Gerais e São Paulo), respondemos às perguntas oralmente e as transcrevemos, apresentando um pouco de nossas polêmicas e questões em aberto.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim, essa entrevista acabou sendo um dos primeiros documentos públicos que apresenta mais sistematicamente o Grupão nesses 10 anos. Se o texto já está circulando em espanhol, passou da hora de publicá-lo também em português, então enviamos ao Passa Palavra.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Em quais outras cidades ou estados brasileiros, além da grande São Paulo, há núcleos organizados da sua rede? Como se estrutura essa rede nacionalmente?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acho difícil falar assim. O termo “núcleos organizados” não necessariamente corresponde à nossa realidade. Tem coletivo de militantes em alguns lugares e, em outros, tem indivíduos militantes que se afinam com os diálogos que a gente desenrola.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Não tem esse nível de formalização. Em algumas cidades a gente tem uma coisa que é mais nucleada, em outras não. A gente se mantém junto garantindo dois encontros presenciais anuais, em locais onde tem mais pessoas organizadas. Fora isso, essas pessoas fazem reuniões, tanto para pensar a ação política, quanto estudos, reflexões de conjuntura etc. E também existem grupos<em> online</em> que estudam, que discutem junto, de diversos estados do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159297" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg" alt="" width="964" height="1045" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg 964w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-277x300.jpg 277w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-945x1024.jpg 945w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-768x833.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-387x420.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-640x694.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-681x738.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 964px) 100vw, 964px" />PyB &#8211; Por que optaram por constituir uma rede mais ou menos informal, e não um grupo público de caráter formal?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Ai, essa é engraçada, hein?<em> [risos] </em>Porque carrega uma carga. Você tem várias formas. A galera já passou por um monte de coisas, de organização e tal. Ao mesmo tempo, existem vários formatos aí sendo construídos, com mais tempo, menos tempo. Na verdade, a gente não consegue encontrar algo que seja diferente do que a gente já viveu ou do que a gente conhece. Tem um excesso de organização no caso brasileiro, eu acho. E de formas específicas: de núcleos, de articulação de militantes, etc. No cardápio foi experimentado muita coisa. E, quando isso acontece, as possibilidades vão se esvaindo. A impressão que eu tenho é essa: a gente se mantém assim por não ter capacidade de responder essa questão e produzir algo que possa ser coerente e compatível com as coisas que a gente pensa e que a gente faz.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Eu daria um passo atrás também, no sentido de que não me parece que foi uma opção, num primeiro momento. No primeiro momento, nós saímos de organizações, sejam de caráter mais autonomista ou do marxismo tradicional, que vinham de formas estruturadas e mais bem estabelecidas, em alguns casos bem rígidas. E aí eu acho que o encontro desses militantes coloca a necessidade de pensar em alguma coisa diferente do que a gente tinha vivido antes. Então, acho que a gente é um pouco empurrado para isso. Mas, depois de um certo tempo, sim, se coloca a questão: se a gente deveria se conformar em algo mais formalizado ou não. Aí a gente não quer repetir mais o mesmo. A gente quer pensar em um formato de atuação política distinto. Mas, na verdade, nem o informal é muito claro para a gente, porque não tem nem definições do que seria uma rede informal tão bem estabelecida. Talvez esse seja até o nosso problema. A gente tem que formalizar o informal de alguma forma.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> É, seria uma boa formalizar. Porque daí, por exemplo, no 1º de Maio da CUT e da Força, poderia alguém do Grupão falar em nome da nossa estrutura!<em> [risos]</em> É, então é o dilema. Não dá, né?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> A gente pode também responder as perguntas com outra pergunta, sem problema nenhum. Por que a necessidade de fazer isso nesse tempo? A gente não vê a necessidade de pressa para isso. O Camarada Z ia dizer que foi uma condição. Não foi uma escolha. E essa condição é coerente com a situação do conjunto das lutas que operaram nos últimos anos no Brasil. E com a dificuldade mesmo de transpô-las. Como a gente não consegue atravessar esse tempo também, a gente não sabe o justo lugar de fazer formalmente uma nova organização. Nem sequer botar isso como uma pergunta. Talvez não seja uma questão para nós nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Eu acho que a gente se encontrou num momento que ainda o calor de junho de 2013 ainda estava no ar. Muito movimento na rua, ocupações. E a gente estava muito envolvido nas lutas e nas críticas, e vinha de trajetórias diferentes. Por outro lado, a gente não tinha pressupostos teóricos claramente definidos no grupo. Quando você tem uma teoria claramente definida, é muito mais simples, porque daí você coloca um programa escrito e todo mundo adere àquilo. Mas o que juntou a gente foi muito mais o movimento real. Então não é que a gente não queira se formalizar nunca. Eu acho que tínhamos uma intenção, talvez no começo, de virar uma organização mais definida. O problema é que fomos com muita cautela. O fato de termos saído de outras organizações, como os companheiros já falaram, fazia com que a gente não quisesse repetir algumas coisas que acontecem nesses espaços &#8211; por exemplo, você começar a prezar muito mais os símbolos daquela organização (o nome, a bandeira, as cores), e virar mais a imagem do que o conteúdo em si. E o conteúdo que queríamos era o movimento real. Se for fazer uma comparação com religiões, assim, a gente tentou tirar toda a carcaça de simbologia, de ícones e ficar com o momento do milagre, né? “Testemunhas do movimento real”. Queremos nos manter muito ligados e fiéis ao fenômeno do movimento e, nesse sentido, qualquer exagero de definições poderia afastar a gente do momento vivo da luta. Ao não se definir muito e não se fechar, é uma forma também de continuar aberto para formas novas de lutas, e adaptar a nossa forma de organização a elas. Então, eu acho que tinha essa preocupação em não virar uma seita em volta de símbolos e perder o conteúdo.</p>
<p style="text-align: justify;">E acho que tem medo também: será que se a gente definir muito, vai rachar? Então, fomos ficando numa indefinição. E isso também equilibrou posições divergentes dentro. Eu concordo que não foi uma opção consciente por completo. A gente foi fazendo assim e, quando viu, passou 10 anos. Até hoje funcionou. De certa forma, essa “quase-organização” também chama os participantes à responsabilidade. Porque você não pode dizer: “ah, a organização existe, está lá pronta”. Não. É uma condição permanentemente tensa, ela pode se desfazer. Como ela não é totalmente formalizada, ela não é estável, não independe da gente. Então, a gente está sempre também repensando ela, rediscutindo ela.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Apesar dessa rede ter esse caráter informal, a gente também tem grupos públicos que se mostram onde atuamos. Beleza, essa rede não se mostra de forma pública, enquanto um grupo, formalmente, etc. Mas, digamos assim, há subconjuntos dessa rede que se mostram publicamente, que se colocam nas lutas, que estão atuando em cidades, etc. Ao longo desse processo, vários grupos se criaram, surgiram, se dissolveram, acabaram. Essa rede é ativa e tem muita troca. Eu acho que as pessoas saem de lugares, vão para outras, e influenciam, incentivam, criam novos grupos. Então eu acho que essa questão da rede é meio dual. Talvez seja uma questão de escala. Numa escala maior, a gente é um grupo de caráter informal, não público, mas se a gente pensar no micro, em certos lugares, no tempo e no espaço, a gente adquire um caráter mais formal e forma grupo público.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Eu acho interessante essa coisa da treta em que a gente se envolveu. Nas tretas, eu acho que a gente produz a forma que tem a ver com a própria necessidade da treta. Por exemplo, no passado, O Mal Educado, as ocupações de escola. A gente produziu ali um tipo de organização.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> A gente vem de um conjunto de experiências, e em algum momento, se produz a necessidade de compreendê-las com uma perspectiva crítica. A gente foi tentando buscar outras possibilidades nas ações que a gente já se envolveu. Porém, isso complexificou muito nossa situação. Fomos buscar a resposta e encontramos mais contradições, e é com elas que nós estamos lidando hoje. O nosso problema não é falta de fazer, é que a gente fez bastante, dentro do que a gente pôde e tal. E isso trouxe contradições concretas, que a gente está agora tentando entender, tentando lidar. Inclusive, isso, em alguns casos, tem inviabilizado até a inserção em algumas coisas, porque estamos lidando com esse drama.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159299" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg" alt="" width="860" height="386" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg 860w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-768x345.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-640x287.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-681x306.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 860px) 100vw, 860px" />PyB &#8211; Quais são as diversas origens e trajetórias daqueles que participam do espaço de vocês? Vieram de quais lutas e movimentos anteriores?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Talvez sejam duas origens. Tem uma geração mais velha, que são os que vieram ainda do ciclo de lutas que formou o PT. No caso, essa geração se formou dos anos 1980 para os 90 nos movimentos sociais territoriais: primeiro o Movimento Sem Terra (MST) e, depois, fundando o Movimento Sem Teto (MTST), inicialmente como um braço urbano do MST. O que liga essa história ao Grupão, era uma uma posição interna de defender a tática radical. De achar que era possível, apesar de uma estratégia oficial reformista, tensionar esses movimentos a partir de uma prática combativa, apostando que a radicalidade da ação direta poderia transformar o conteúdo também desses movimentos. Tinha a ver com o setor de “frente de massas”, que era o responsável por fazer a ocupação, por organizar as resistências aos despejos e outras ações diretas &#8211; expropriações, abrir pedágios, manifestações. A criação do MTST teve a ver com esse tensionamento no MST, de um setor que achava que não bastava o movimento no campo. Se a contradição estava explodindo nas cidades, então tinha que chegar nas periferias urbanas, começar a cercar as rodovias com ocupações de terras. Só que essa experiência, ao mesmo tempo, vinha sendo feita dentro desses movimentos que estavam incorporados na estratégia geral da esquerda, que acabou culminando na eleição do Lula em 2002.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Isso. A gente acreditava que a ação radical se sobrepunha ao programa reformista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> Das organizações formadas no ciclo de lutas dos anos 1970 e 80, o PT logo vai se incorporar ao Estado. O movimento sindical nos anos 1990 já estava entregando direitos para os patrões, a CUT aderiu às câmaras setoriais, as oposições sindicais perdiam espaço. E dos anos 90 para os 2000, os movimentos sociais como o MST eram ainda um ponto de radicalidade, onde o conflito continuou acirrado por mais tempo. Isso tensionava a própria estratégia institucional do PT. E aí, depois da eleição de 2002, tem uma baixa geral das lutas e greves. O MST passou um ano sem fazer ocupação de terra, e esses setores que defendiam uma posição mais radicalizada vão continuar tentando tensionar. Teve as ações contra empresas do agronegócio feitas pelos grupos de mulheres do MST em 2006, que destruiu as mudas da Aracruz e da Monsanto. Mas esses setores vão ficando isolados, e isso culmina na ruptura em 2011 na <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" href="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Carta dos 51”</a>, que foi um marco da saída de vários militantes, que fizeram caminhos diferentes. Alguns vieram aqui constituir o Grupão, outras fizeram outros caminhos. A carta falava da integração desses movimentos no regime de gestão democrático-popular.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> É um momento histórico específico ali em 2011, que junta com a outra geração do Grupão, que vem de uma juventude urbana mais autonomista, que vinha dos Ação Global dos Povos e do Centro de Mídia Independente (CMI), que formou aqui no Brasil o Movimento Passe Livre (MPL), que de alguma forma também estava tensionando a gestão pacificadora dos governos de esquerda. Era um movimento que lutava contra a tarifa do transporte coletivo, formado principalmente por secundaristas, universitários, punks… uma juventude urbana precária que não se enquadrou na institucionalidade. O MPL não se institucionalizou, talvez, porque o transporte não cria “base social”. Na moradia, tem ali uma base, e alguém pode fazer uma negociação em nome dela, forma-se uma relação dirigente e base. Nos sindicatos, os diretores sindicais representam a categoria. No transporte, talvez pela forma fluída, dinâmica, não dá tempo de conformar uma base ali e organizar ela a ponto de criar uma relação estável de dirigente, que pode estabelecer uma relação negocial com o Estado. Então a pauta do transporte ficou na mão dessa juventude mais anarquista/autonomista, que fazia ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2003 teve a primeira explosão em Salvador, que foi a Revolta do Buzú, e que foi uma luta com caráter de revolta. Parou a cidade de Salvador, mas tomou um golpe das entidades estudantis. O mesmo tipo de revolta se repetiu em Florianópolis em 2004 e 2005, as duas Revoltas da Catraca, que baixaram o preço da passagem dois anos seguidos. E isso formou o MPL, que era um movimento que tinha os princípios de autonomia, horizontalidade, ação direta, e que lutava contra a tarifa de ônibus. Esse movimento foi se conformando ao longo dos anos 2000 e ele vai ter o seu auge em 2013, quando ocorre a explosão em Porto Alegre, Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, tudo ao mesmo tempo, e vira um fenômeno nacional, revolta em todo canto. Teve protesto inclusive em cidades muito pequenas no interior, onde nem tem transporte coletivo. Esse momento entra no ciclo mundial de revoltas. O que aconteceu em 2013 no Brasil se conecta à nível global com a Primavera Árabe, com o que aconteceu na Turquia no mesmo ano, depois o Chile, Hong Kong, enfim…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Enfim, alguns que faziam esse caminho se encontraram ali, no pós-2013, já no refluxo da revolta, com críticas em comum… e em crise também. Se a geração mais velha carregava uma crise das lutas serem incorporadas, a geração mais nova carregava uma crise também da revolta ter quebrado, refluído, e o pouco que sobrou depois. A gente se encontrou naquele momento, já tínhamos feito alguns debates juntos. Um site importante para isso foi o Passa Palavra, no qual publicamos textos, tanto da saída do 51 do MST quanto também dos debates do MPL. Como o próprio MPL entrou em crise, a gente estava debatendo ali em busca de alguma coisa nova.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> No fim de 2015 vem as ocupações de escola, que a gente ajuda a organizar. Tem essa ferramenta na época, que foi O Mal Educado, um jornal secundarista que alguns companheiros organizaram. Muito baseado na experiência do Chile, a gente convoca as primeiras ocupações de escola. Tinham companheiros que eram secundaristas. A gente preparou duas, três, quatro ocupações em São Paulo, e isso explodiu e virou duzentas. De novo essa característica da luta explosiva, da aposta que a ação radical consegue um conteúdo de novo tipo. Não teve um trabalho de base prévio que preparou uma grande organização secundarista, foi uma tática radical de ocupar algumas escolas que contaminou. Essa experiência colou a gente. O Grupão surgiu nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Do ponto de vista teórico, tem uma coisa importante que é que os companheiros que vinham do movimento social clássico tinham uma formação muito mais marxista, leninista, que mistura maoísmo, Igreja Católica.. mas que era movimentista também, então esses “ismos” não importavam tanto, o debate era muito ligado ao concreto. E a geração mais jovem vinha de um pensamento parecido, mas com uma formação mais no autonomismo/anarquismo. Mas os dois lados vinham criticando as próprias posições, em crise, e a gente se encontrou nesse meio do caminho. Então acho que o Grupão tem um pouco a ver também com essa mistura teórica, pensando nas trajetórias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159301" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg" alt="" width="900" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />PyB &#8211; Quais são os acordos e as divergências mais importantes da militância que forma sua rede? Quais elementos teóricos e/ou práticos que os fizeram confluir?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Eu acho que o elemento teórico-prático que fez a gente convergir, que é o nosso primeiro ponto de concordância, foi o momento histórico do entorno de junho de 2013, em que a gente se encontrou na rua, nos conflitos daquele período. A gente se encontrou nesse contexto, fazendo críticas parecidas. A crítica da gestão e da pacificação petista. De que o ciclo de lutas dos anos 1970-80 resultou numa forma de contenção da classe na democracia. Essa crítica era teórica e também prática, já que encontrou tração no movimento de 2013 e na alta de greves daquele período. Isso correspondia à ideia de que a gente tinha que fazer lutas de enfrentamento que quebrassem o consenso. Uma aposta na revolta. Eu acho que nosso encontro foi aí, na posição anti-gestão. Isso convergiu com a conjuntura naquele momento, convergiu nas lutas e a gente quis continuar se reunindo e se encontrando.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, conforme a gente foi começando nossos debates, vimos que tinha, de fundo, nas nossas conversas, concepções teóricas divergentes. Indo para outro nível, saindo da conjuntura, indo para a estrutura, para a teoria mesmo. A caracterização do momento do capitalismo sempre foi uma polêmica, desde o começo no Grupão. Por um lado, uma posição que vê uma dinâmica cíclica do capitalismo, que sempre operou e continuaria operando, de ciclos de expansão e crise, que estão ligados também a ciclos de luta e recuperação das lutas, que a gente pode dizer que é mais inspirada no marxismo autonomista. E uma outra concepção que bebe mais da teoria da crítica do valor, que vê um colapso do capitalismo desde os anos 1970 &#8211; então, a dinâmica cíclica já não estaria mais operando e o capitalismo teria entrado numa crise estrutural, e hoje estaria girando em falso. Enfim, daí vai todo um debate. Mas eu acho que essa discussão teórica da crise, se é colapso ou são crises cíclicas, sempre foi um debate interno nosso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Eu tenho uma pergunta. Você acha que isso é causa de divergência? Ou é prolífico para o debate, na medida que também a gente se obriga a contrapor os termos… Eu imagino que na pergunta deles, “discordância” é sobre aquilo que cria uma dificuldade de caminhar junto. E, até hoje, essa discordância não foi uma coisa de dificuldade de caminhar junto. Na verdade, analisando a história do Grupão, isso permitiu um campo de debates interessante em que essas duas posições existem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Inclusive, várias pessoas, como eu, têm uma posição que a gente brinca que é “agnóstica”. Pra mim, qual é a situação atual do capitalismo: crise cíclica ou estrutural? Eu não sei, e tudo bem. A gente encontra convergência na luta concreta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem algum desdobramento nessa questão de crise terminal ou crise cíclica: a gente tem uma perspectiva revolucionária ou não tem uma perspectiva? Mas eu não diria que isso necessariamente está ligado puramente a uma concepção econômica. Porque se a gente pegar, por exemplo, a galera comunista de conselhos lá dos anos 20, eles já estavam com uma concepção de crise terminal do capital naquela época e tem a galera que continua com essa perspectiva até hoje. Eles estão, sei lá, quase 100 anos falando da crise terminal e isso faz parte de um longo ciclo. Eu acho que por mais que a gente pense na questão de ciclos longos, eu não sei se puramente a questão econômica leva a isso. Tanto é que você tem hoje, por exemplo, a galera aí da esquerda comunista defendendo ainda essa questão do capitalismo decadente e eles ainda têm uma concepção revolucionária. Ainda acreditam que, apesar disso, há possibilidade de revolução. Não sei se eu confundi muito, mas eu acho que talvez tenha uma questão econômica / política.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; Eu acho que você não está confundindo, não. Eu acho que, na verdade, essas coisas são conectadas. No limite, a importância de discutir se a crise é estrutural não é um preciosismo de uma análise econômica correta ou incorreta, ou identificar as verdades da dinâmica do capital. Isso está relacionado justamente com pensar as consequências para a questão política. Que transformação que está posta? Tenho mais afinidade com a ideia de uma crise estrutural &#8211; que é mais do que a ideia de terminal, porque “terminal” parece que já acabou, que vai ter um dia em que vai morrer, específico, quando vão desligar as máquinas, e não é bem assim. É um processo. Já a análise da crise cíclica está muito vinculada aos ciclos revolucionários que a gente viu ao longo do século XX. Então a questão é: é possível se repor? É possível se repor uma revolução nos velhos moldes? Curiosamente, eu acho que ninguém no Grupão defende isso efetivamente. Uma revolução nos velhos moldes da Revolução Socialista, por exemplo. Eu acho que tem uma crítica até razoável, que tem um acúmulo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; E aí tem uma outra questão também, que mesmo no campo que defende a crise estrutural, também tem diferenças em relação às consequências. Por exemplo, eu não entendo que a consequência é… “Ah, então, beleza, vamos ficar aqui vendo o capitalismo ruir e quando sobrar as ruínas e tudo, a gente tenta organizar uma nova sociedade.” “Porque o sujeito histórico morreu e não tem nada mais a ser feito, tudo é estrutura e tudo é uma determinação completamente insuperável.” Tem algumas pessoas da crítica do valor, não todo mundo, que chegam nessa consequência. E aí, nenhuma prática nunca é possível. Eu acho que é diferente a ideia de “vamos pensar a crítica da prática que a gente estabeleceu no passado e vamos experimentar coisas aqui e agora”. Porque, afinal de contas, estamos vivos e a história não está pré-determinada, ainda que a gente enxergue tendências nela. Estamos vivos e somos sujeitos da vida e as pessoas estão indignadas, estão revoltadas, querem fazer alguma coisa a respeito do mundo e do seu futuro. Será, e aí a pergunta, que é possível pensar alguma outra saída que não seja a extrema-direita, que não seja só a destruição? Enfim, eu acho que tanto no campo da crise cíclica quanto no campo da crise estrutural, existem diferentes leituras das consequências do entendimento do capitalismo nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Por isso é legal você levantar essa questão, que a gente consiga, de alguma forma, se manter junto, apesar das diferentes análises de crise, a priori. Porque eu acho que, quando chega na parte do “fazer alguma coisa”, tem algumas divergências, mas eu acho que tem um certo encontro ali, num sentimento de crítica das esquerdas e crítica do passado &#8211; que não é só uma crítica política da prática, é uma crítica também interpretativa do capitalismo que as organizações tradicionais carregam. Eu acho que a gente tem uma diferença em comum, digamos, em relação a esses conflitos tradicionais, ainda que os caminhos para nossas interpretações sejam diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A gente tem aqui uma convergência negativa, isso é muito interessante, o nosso espaço, ele consegue ser permeável a inúmeras experiências concretas, objetivas de luta da classe, a gente pôde participar dessas experiências, dessas lutas que aconteceram, foram inúmeras, trazer elas de volta para um lugar em que a gente também se sente livre e confortável em fazer a crítica radical delas, de apontar os limites.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a gente é permeável a uma série de experiências que as pessoas estão fazendo em inúmeros cantos, com inúmeras qualidades, com inúmeras intenções, a gente contribui com essas lutas, volta para um espaço e a gente se sente livre de poder criticar elas de uma maneira honesta e radical também. Eu acho que poucos espaços organizativos permitem isso. Na maior parte dos espaços organizativos que a gente tem conhecimento existe um certo pudor e um certo medo de implodir tudo, na medida em que a gente pega uma experiência que é cara a nós e passa um pente fino dela, apontando também os limites e aquilo que traz de qualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, quando a gente vai analisar a experiência das greves de entregadores, o quanto que ao mesmo tempo que elas podem ser disruptivas e também são uma confluência com o atual estágio de guerra de baixa intensidade de todos contra todos, de um capitalismo ultraviolento, essa lógica do auto empreendimento, etc. Ou seja, a gente tenta também manter a crítica como critério da nossa divergência e da nossa convergência. Me parece que aquilo que nos une é também aquilo que permite a nossa diferenciação no limite, que eu acho que é o que tem de mais virtuoso na lógica do Grupão. Justamente poder fazer do exercício da crítica o mais radical que a gente puder, o mais aberto que a gente puder, o lugar que a gente produziu.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu fico meio sem saber o quanto esse espaço aberto ao debate polarizado é de fato algo que pode ser entendido como divergência, o quanto que ele não é justamente aquilo que converge com o Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211; </strong>Talvez a gente tenha até dado um acento muito grande aqui na discussão para essa questão da leitura da crise. Na verdade, a gente nunca sentou e fez um debate especificamente sobre isso. Em geral, a gente está sempre discutindo as lutas concretas e aí essas posições estão de fundo. E muitos militantes nem têm uma definição exata sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Do ponto de vista mais prático, outra polêmica foi com companheiros que falavam da necessidade de se organizar no “centro da classe”. Isso marcou muito nossos primeiros debates. Uma discussão com correntes que defendem que a gente deveria se organizar nos setores do operariado fabril, porque esse seria o núcleo duro da classe trabalhadora, a partir do qual tem a maior produção de valor e, por isso, seria o ponto estratégico para a revolução: “pôr a classe ao centro e ir ao centro da classe”. No debate com essa galera, que acho que foi formativo no início do Grupão, a gente foi encontrando uma linha nossa, que começou como brincadeira, mas que era assim: “tem a galera do centro da classe e a galera do centro da treta”. A ênfase do Grupão era nas lutas. Então, se for pensar assim, onde se posicionar? Para nós, parecia às vezes menos importante essa discussão econômica crua que pensa: “esse setor de trabalhadores está num ponto estratégico porque aqui se produz não sei quanto de capital”. E, no caso, a gente dizia: “bom, tem setores que têm uma posição que é estratégica do ponto de vista social” &#8211; o setor de transporte, por exemplo. Setores com possibilidade de lutas mais dinâmicas. Os pontos a partir dos quais pode ter explosões que contaminem outros setores e que ganhem escala, que cresçam. Nossa centralidade é uma centralidade das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Dialogando com as perguntas colocadas para nós aqui, uma organização pressupõe o quê? Um programa? E, um programa pressupõe o quê? Uma leitura de mundo, uma visão de mundo, uma teoria da revolução, é o mínimo que se espera de uma organização política, uma leitura da realidade, uma apresentação das contradições dessa realidade e uma perspectiva revolucionária. Mas nós não temos. Eu não acho que nós não temos porque nós não queremos ter. Até porque a gente, apesar de fazer a crítica, não se aprofundou nesses meandros. Tem lá os democráticos populares, nós somos os revolucionários situacionistas, e está tudo certo? O buraco é mais embaixo. A tragédia é um pouco maior do que a gente imagina. Olhar para uma perspectiva estratégica, questionar, não concordar com ela, opôr-se a ela, não significa que no lugar onde você atua na revolta ou nas lutas não possa reproduzir aquilo que é a base da existência do que você está negando. Eu acho que essa é uma grande contradição nossa com a ação prática.</p>
<p style="text-align: justify;">A grande dificuldade é lidar com as coisas que a gente reproduz e que nos aproximam do que criticamos. E a gente faz isso em silêncio, porque a gente também não quer dar brecha para críticas externas. Mas o fato é que a prática como critério da verdade, na lógica maoísta, está longe de ser uma definição que realmente resolva nossos dilemas. E nem a teoria é este critério. Mas é preciso compreender que essas coisas não estão separadas, é preciso juntar, é preciso permanentemente revisá-las. Revisá-las é uma palavra complicada. Compreender, estudar, ler, repetir.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje em dia, por exemplo, o ponto parece fácil. A gente lê O Capital, daí todo mundo entendeu o que é mais valor, todo mundo sabe que o negócio é fazer uma revolução socialista, impor uma derrota ao capitalismo, implantar uma transição, uma mediação entre a ação radical e ação institucional. Esse é o problema geral, está aí. Mesmo não gostando, a gente acaba participando. Eu estou para dizer que nosso problema é um pouco mais profundo. Não é só uma questão de compreensão teórica se a crise é estrutural, se a crise é cíclica.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é porque a gente não gosta dessa coisa de programa. Ou que a gente não tem programa, porque a gente escolheu não ter. Eu acho que é mais complicado o assunto, que ter as coisas, produzir certas coisas, implica o conjunto de condicionamentos da forma pela qual você quer lidar com a ação. Então, a gente resolveu não criar amarras para a gente lidar com a ação. Isso traz outros problemas. O fato da gente não ter uma definição teórica, prática, uma leitura de mundo e atua no mundo sem ter isso. Eu sei que na cabeça de cada um tem alguma coisa. Eu acho que nós lidamos razoavelmente bem com isso. Ninguém vai para a luta sem saber nadar, “estou aqui só porque eu quero entender o que está acontecendo”. Não, quem está lá quer influenciar, quer levar para algum lugar a revolta. Está lá tentando potencializar o nível de aceleramento, de contradição dela, de enfrentamento. Está lá querendo dialogar com outros militantes para trazer junto para trocar ideia. Então, existe uma intencionalidade, sim, porém, isso não é programática. Está muito mais ligada à experiência de vivência de cada coletivo, cada espaço, cada lugar, porque é uma formulação complexa, vamos dizer assim, da leitura da revolução. Eu acho até que algumas pessoas têm vontade de ter um programa, uma teoria da revolução, uma proposta de onde a gente vai estar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; de alguma forma, essas coisas têm uma conexão com a questão da centralidade negativa do trabalho. Fiquei refletindo aqui sobre a ideia do Camarada K de que o trabalho seria como um centro da forma social, mas um trabalho que tem a ver com essa pessoa sem lugar, forma da forma tradicional de produtor de valor, etc. E, ao mesmo tempo, pessoas que trabalham insanamente, esfolação profunda da existência. Eu fiquei pensando se a gente, de alguma forma, não tem também uma centralidade negativa das lutas, à medida que a gente põe as lutas, mas essas lutas também se esfacelam e se negam e se repõem. Se a gente está conseguindo fazer isso, então, acho que até está interessante.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei, fiquei pensando nessa questão da luta como crítica das formas anteriores de luta. Então, propomos lutas que a esquerda em geral não entende muito, porque não tem clareza de quem é o dirigente, o formato é completamente outro de como a luta se dá. E, ao mesmo tempo, ao ela se dar, não se põe como uma forma, não se põe como uma forma permanente. Não é que a gente está, por exemplo, fizemos a luta do motoboy, agora a gente tem uma cartilha de como atuar, não se sabe. Tem uma experiência, obviamente, e essa experiência ela se perpetua no tempo como uma forma de olhar para trás e falar “a gente fez isso naquele momento, podemos fazer isso de novo aqui, ou não fazer e tal”. Mas não tem um formato estrito, como as organizações têm normalmente. Quais são as nossas táticas de luta? Qual a forma que a gente desenvolve a luta? Isso é interessante e fiquei pensando se a gente teria uma centralidade negativa das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu só queria fazer um comentário para Camarada Y. Eu acho que a centralidade negativa do trabalho é interessante porque acho que mesmo os que têm a leitura da crise estrutural no Grupão, que a princípio vão pensar um colapso do trabalho e da acumulação de valor a partir da mais-valia extraída do processo de trabalho, não tem uma leitura que acha que o trabalho acabou. No sentido de que, às vezes, pode parecer isso, de que não tem mais trabalho. Na verdade, essa perspectiva acaba se encontrando com o autonomismo operaísta, porque, no fundo, tem uma ideia de que o trabalho ainda é central, no sentido de que ele é o ponto de tortura nas nossas vidas, que todo mundo tem que acordar e ir trabalhar. E acho que é até uma leitura de que, com a crise estrutural, as pessoas estão se esfolando até mais, porque as formas ficam até mais pesadas e mais cruéis, e que, então, eu acho que é como quando falamos da centralidade negativa do trabalho. O trabalho é central, mas a gente quer se libertar dele.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente precisa ter um receituário, um programa, uma perspectiva de que a gente precisa cumprir certas etapas ou certos processos para que a revolução venha, mas sim uma ideia de fundo, uma perspectiva geral de rompimento com o sistema capitalista. Então eu não acho que simplesmente a gente nunca ter dialogado sobre ter um programa, sobre ter uma série de medidas a serem tomadas, nos coloca numa condição de que a gente não tem uma perspectiva revolucionária. No entanto, eu acho que isso ainda é uma questão em aberto. Eu já vi camaradas colocando isso: “não sei se eu acredito na perspectiva da revolução”. Eu acho que tem uma série de acúmulos teóricos sobre o pensamento do próprio desenvolvimento do capital e da revolução que, de certa forma, a gente vê na nossa prática, ela se relaciona muito com algumas teorias que já foram desenvolvidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito, sim, nessa questão de que tem momentos de baixa, momentos de alta e eu não acredito que a nossa atividade enquanto militantes nesse momento, que a gente poderia considerar talvez como contra-revolucionário, eu não acho que o nosso papel nesse momento é fazer a revolução, e eu acho que no Grupão a gente também não acha isso. Eu acho que a gente nunca pensou que as nossas práticas ou o nosso envolvimento nas lutas poderia desenvolver a revolução. Mas eu acho que a nossa inserção nos processos de luta vai muito mais nessa questão de investigação, no sentido de situar a gente no tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito que a gente deveria fazer essa separação. Ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente necessita de uma estratégia revolucionária, porque eu não acredito que a gente possa ter uma estratégia revolucionária nesse tempo. Não significa que isso vai ser uma constante, significa que agora a gente não pode ter isso, mas possivelmente em um momento de ápice das lutas pode vir a surgir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159302" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Quais as lutas sociais mais importantes que vocês se envolveram desde que o grupo se formou? Como foi a intervenção prática de vocês?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Então, naquele período de 2016-17 ainda teve muita luta estudantil secundarista, que foi uma coisa um pouco nova no Brasil. Nesse patamar, tinha o exemplo do Chile, que inspirou muito por aqui. A gente traduziu uma cartilha do Chile, que foi útil para preparar as ocupações de escolas. Foi um movimento muito dinâmico, muito vivo e muito autônomo também (os partidos não tinham muito espaço). Foi o período do impeachment, em que, do ponto de vista institucional, a direita estava se articulando para derrubar a Dilma. As ocupações aconteceram nesse período escaparam da dinâmica do jogo institucional.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Depois teve a luta do telemarketing, que era uma ideia do Disk Revolta. A gente começou a notar que estava explodindo de pequenas insatisfações, que tem a ver com a discussão sobre o trabalho em formas ultra precárias, os <em>bullshit jobs</em>, os trabalhos de merda, e que se expressavam em formas que os sindicatos e os partidos não tinham condições de dar vazão a essas insatisfações, a essas inquietações. Parecia que ali havia uma explosividade que talvez estivesse represada.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Mas eu acho que tem também um aspecto de 2013. A gente via os dados sobre as greves daquele período, que em 2013 teve o maior auge de greve da história do Brasil desde os anos 80. Então a gente falava, “bom, teve um ciclo lá nos anos 70, 80 e está tendo um novo ciclo agora”. Essas lutas estão acontecendo muitas vezes de forma subterrânea, tá cheio de conflitos nos locais de trabalho e a gente tem que investigar. O Disk Revolta teve a ver com isso: em um ano a gente descobriu um monte de pequenos conflitos que às vezes não são greves abertas. Um grupo de trabalhadores fizeram uma sabotagem desligando o cabo do fone para poder ter um tempo maior de mute e aumentar os espaços de não trabalho. A gente começou a buscar essas pequenas lutas dentro do trabalho para politizar elas. É um contexto de reforma trabalhista e isso também fazia os sindicatos se mobilizarem, chamarem greve geral e vira uma oportunidade para a gente também experimentar lutas nas categorias que a gente está ou em categorias que a gente conhece ou que a gente acha interessante ir lá e fazer algum contato.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essas pequenas lutas para além da explosividade foram importantes para a gente perceber o quanto um monte de coisa estava acontecendo, mas também para oxigenar nós mesmos. Foi muito importante para o próprio Grupão termos investigado um monte de pequenas lutinhas que até hoje a gente considera como importante. Deu uma centralidade para a nossa militância.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Na questão do local de trabalho, um ponto que para nós foi caro &#8211; sobretudo no diálogo contra as forças de esquerda &#8211; é que quase toda a esquerda no Brasil se organiza para tomar sindicato. Então o militante entra na empresa e começa a fazer um trabalho com o objetivo de ganhar a direção do sindicato. Temos companheiros que passaram anos trabalhando de forma clandestina na fábrica para mapear contatos no sentido de fazer uma chapa e disputar a direção do sindicato. Ao mesmo tempo, nesse período, vai acontecendo um monte de lutas e você não pode participar porque, se você se expõe, você é demitido e não consegue entrar na chapa e disputar a direção. É uma dinâmica totalmente voltada para a disputa eleitoral. Uma organização estruturada em volta do aparato sindical que, no Brasil, é ligado ao Estado. Por isso a gente queria tentar outras formas de organização nos locais de trabalho, fora das eleições e do aparato sindical.</p>
<p style="text-align: justify;">Na categoria de professores da rede privada aqui em São Paulo, por exemplo, tivemos a experiência de puxar uma greve por fora do sindicato, organizando assembleias autoconvocadas e comissões nas escolas, às vezes mais abertas, às vezes clandesitnas. Tinha a questão de não ser uma categoria estável, porque eles estão no setor privado e podem ser demitidos. Ao longo de 2017 e 2018, teve uma experiência muito rica nesse setor. Recuperando uma tradição que tinha no Brasil durante a ditadura, de se organizar por fora do aparato. Acompanhamos processos de luta assim em diferentes categorias. Até essa última, que foi o Breque dos Apps com os entregadores de aplicativos durante a pandemia. Já estavam acontecendo pequenas greves de entregadores de aplicativos, fizemos contatos e ajudamos essa rede a conformar uma comunicação nacional que permitiu a convocatória desta data, que foi o breque dos aplicativos na pandemia. Também construímos grupos de algumas cidades com esses entregadores.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essa questão da crítica ao sindicalismo, talvez ela tenha levado a gente para essas perspectivas mais de trabalho precário, etc., justamente porque o sindicato não estava presente. Acho que tivemos uma facilidade de entrada em vários desses lugares justamente porque nada estava constituído. A possibilidade de criação e experimentação era muito maior.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159303" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Qual papel acreditam que as minorias revolucionárias &#8211; como a rede de vocês &#8211; deve cumprir, tanto nos processos de luta mais cotidianos, quanto em levantes espontâneos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; A minha resposta é rápida: é não atrapalhar. Isso é o mínimo, né? O mínimo é não atrapalhar. Porque, às vezes, a gente acha que está ajudando e atrapalha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; É… Mas, claro, dá para falar muito mais que isso. E também dá para questionar: será que a gente é uma minoria revolucionária? Não sei nem se a gente se entende como uma minoria revolucionária. Eu acho que começa por aí. Acho que esse debate ainda está em aberto. Eu não gostaria de falar minoria revolucionária. Gosto mais do “pró-revolucionário”. Mas, em relação ao nosso papel, acho que ainda está em aberto. A pergunta de como as minorias revolucionárias devem atuar, qual papel elas devem desempenhar, pode se confundir com o papel de guiar para a revolução. Quando coloca minorias revolucionárias nesse sentido, parece isso. E eu não acho que esse seja o nosso papel. Também não acho que a gente tenha se colocado nessa perspectiva nunca. De certa forma, a gente tenta não só não atrapalhar, mas também incentivar os processos espontâneos de luta que os trabalhadores estão colocando, estão se envolvendo, com todos os limites que isso implica. Acho que o papel aqui talvez seja muito mais de crítica e tentativa de potencializar do que necessariamente de dirigir ou tentar despertar a revolução.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong>&#8211; As lutas já estão acontecendo. A todo momento tem conflitos acontecendo e nosso papel tem muito mais a ver com registrar esses conflitos, publicizar eles, fazer a informação circular. Vou dar um exemplo. A gente acompanhou aqui em São Paulo um supermercado que faliu, o Seta Atacadista. Na verdade, não foi uma falência. O patrão simplesmente estava dando um calote. Ele foi fechar o mercado e estava tentando tirar a mercadoria de noite para os trabalhadores chegarem no dia seguinte e serem demitidos todos, não receber nada. Só que, de noite, os trabalhadores ficaram sabendo, porque alguém comentou no bairro que tinha caminhões lá indo esvaziar o supermercado. E eles foram e cercaram o mercado e ocuparam o mercado para não deixar a mercadoria sair e não deixar o patrão dar o calote. Então, de repente, descobre que tem um supermercado ocupado na periferia sul de São Paulo. Aí a gente foi lá, publicou uma notícia daquilo. Aí a gente falou: bom, o Seta é uma rede de supermercados. O patrão deve estar dando esse golpe na empresa inteira, ele vai falir e deixar todo mundo no vazio. Vamos encontrar outros e avisar que isso está acontecendo, tentar fazer informação circular. A gente vai em outros, descobre outras pequenas lutas e tenta potencializar o processo nesse sentido. Acho que é diferente de uma noção de dirigir ou de levar a consciência. É como fazer as lutas circularem, integrar elas e, nisso, potencializar elas. É fazer as coisas irem além de seu local, além de sua categoria</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Quais elementos da forma clássica de militância da esquerda, ou do anarquismo, que consideram obsoletos? O “trabalho de base”? O “acúmulo de forças”?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Tá, as duas. Com certeza.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; É, o trabalho de base, eu acho que nós temos coisas pra conversar. Trabalho de base. Mas essa de acúmulo de forças, eu acho que entre nós, eu não sei se alguém tem alguma expectativa com isso. Acho que a gente nem fala essa palavra, na verdade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu diria, além disso, a questão da “consciência”. Essa parte entra no acúmulo de forças: levar a consciência pra galera e acumulando gente até a gente fazer a revolução. A gente não acredita nisso. A questão da “estratégia revolucionária” entra aí, acho que a gente não entende que esse seja o momento para estratégia revolucionária. Estou falando um pouco por mim, mas eu acho que o fato da gente nunca ter se debruçado sobre isso, de certa forma, diz um pouco sobre isso também. A gente nunca acreditou que necessitava fazer um programa ou ter uma estratégia revolucionária porque a gente acha que isso está além de nós. Não é a gente que vai cumprir esse papel.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A coisa do trabalho de base, eu até fiquei pensando… Fiquei curioso porque eu não sabia se o termo “trabalho de base” existia da mesma forma em espanhol. Porque eu acho que em algumas línguas você não tem o equivalente direto. Eu acho que tem muito a ver com a formação da nossa esquerda atual a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A ideia de que você tem um trabalho de base pressupõe uma comunidade de base. O ciclo de lutas dos anos 70-80 foi muito baseado nisso. Se for pensar, o próprio MST surge disso. A ocupação forma uma comunidade ali. E, claro, tem todo um peso da igreja na formação do MST, mas ele surge disso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z </strong>&#8211; A ocupação forma uma comunidade e aquela comunidade é a base do movimento. Isso impõe a necessidade de um tipo de trabalho permanente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; O processo do acúmulo de forças tinha um pensamento um pouco gramsciano da esquerda desde os anos 70, que é de guerra de trincheiras. Guerra de posições. Vai aumentando as bases até você ter uma hegemonia. Essa é a ideia do acúmulo de forças. E a esquerda atuaria de um lado com uma luta institucional pelos partidos e do outro pelos movimentos, e com o “<em>movimento de pinça</em>” chegaria ao poder. Foi o que aconteceu no Brasil, aconteceu em outros lugares da América Latina e acho que a nossa reflexão também é pensar: “bom, esse acúmulo de forças a gente já fez”. Talvez não seja preciso do ponto de vista econômico, mas a gente dizia: “esse &#8216;acúmulo de forças&#8217; virou acúmulo de forças produtivas”. Não é que acumulou força para o nosso lado, acumulou para o capital no fim das contas. Os movimentos, e a gente viu isso acontecer, viraram tecnologia de gestão do capitalismo. Então o MST agora vai construir uma fábrica de tratores com capital chinês. São os maiores produtores de arroz orgânico da América Latina. As cooperativas têm ação na bolsa de valores. Sem falar do ponto de vista social, o quanto é funcional ao capital ter certos setores do proletariado empobrecido organizados pelas burocracias. Melhor do que deixar eles soltos para o caos social. Então os movimentos cumpriram um papel civilizatório. E aí até aquela base da comunidade de base perde seu conteúdo e vira um cadastro. O que é o MTST hoje? Tem ocupações onde quase ninguém mora: eles erguem pequenas barracas de lona preta, não deixam construir com madeirite ou bloco; fazem um cadastro e esse cadastro vira uma lista, a partir do qual o movimento repassa o bolsa aluguel do estado e faz um ranking para as pessoas ganharem a moradia com base na participação. Os movimentos viraram tecnologia de gestão. O “acúmulo de forças” virou isso, virou o acúmulo de forças produtivas. A reflexão que fica disso é: como que a gente se organiza? Será que é possível produzir um acúmulo que seja nosso? Talvez só um acúmulo de experiência, porque tudo que a gente vai construindo de estrutura para se reproduzir vai entrando na lógica da reprodução capitalista. Essa é uma crise nossa. É uma reflexão nossa também quando a gente pensa nas lutas que são mais sem estrutura, e justamente por isso elas acabam sendo mais descontínuas no tempo. É porque a reprodução no tempo também implica, de alguma forma, você entrar na lógica desse sistema.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Por outro lado, também essa ideia de acúmulo de forças, de acúmulo organizativo, entra naquilo que o Camarada Z falou. A gente não vive uma escassez organizativa da classe, vive uma superprodução de organizações da classe, e isso também entra em contradição com a lógica da própria luta. Não é mais uma questão de que não se acumulam processos organizativos, eles se acumulam em excesso! E acabam eles mesmos travando o processo da luta. É uma contradição de algo que deu certo, não só que deu errado. Não é que “faltou trabalho de base”: teve trabalho de base demais, e tem uma lógica de sustentação desse trabalho de base que começa também a competir entre si dentro da sua própria base. Ao ponto, e eu acho que é o máximo da esquizofrenia da esquerda, que é uma pessoa condensar quatro organizações. Eles se apresentam assim “eu estou aqui como fulano que é de tal, tal e tal organização…”. Uma mesma pessoa está em quatro organizações. Então é obsoleto o “acúmulo de forças”, o “trabalho de base”, ou é aquilo que é hoje hegemônico? Porque pra nós pode ser obsoleto, mas do ponto de vista da luta real, não parece que é obsoleto isso. Continua existindo, mas nessa perspectiva de gestão, de controle, de travar qualquer processo que desorganize a base na qual esses movimentos podem se manter existindo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Para voltar um pouco na discussão do “revolucionário”. A gente vê experiências que a gente teve muito acúmulo organizativo no Brasil e esse acúmulo jogou contra a revolução, porque ele vira um acúmulo de contenção. Os grandes movimentos sociais produziram contenção da classe. Se for pensar, os companheiros estavam nos anos 90 do MST pensando em formas de luta insurrecionais, pensando que a partir daquele movimento você ia ter a preparação do exército popular para fazer uma revolução no Brasil. No momento que tivesse uma explosão, eles estariam prontos para tomar o poder. Mas quando vem 2013, o que virou? O MST naquele momento, que já estava integrado ao mercado e ao Estado, foi uma ferramenta de contenção. No fundo, o acúmulo organizativo serviu muito mais para segurar a classe trabalhadora do que para permitir uma potencialização das lutas. Quando a gente fala que o papel do militante às vezes é não atrapalhar, é porque a gente sabe que, se a gente se organizar demais, pode até ter o efeito contrário. E várias vezes a gente entra em processos com a intenção de fortalecer e depois, quando vai fazer o balanço, vê que talvez tenha atrapalhado!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Tem uma palavrinha mágica que a galera colocou no jogo que não é nova, é antiga, e que eu acho que justificou um pouco esse tipo de movimento, vamos dizer assim, que é a “resistência”. Resistir passou a ser garantir a manutenção daquilo que a gente conquistou. Então ela e o acúmulo de força passava por um tipo de momento em que a luta se converteu no que o movimento chamava de resistência. Por exemplo, a intersindical dizia “nenhum direito a menos”, movimento sindical combativo. Mas isso foi mais ou menos um diálogo de derrotados bem sucedidos. Isso é o mais louco da dialética do processo. Ser bem sucedido não significa ter chegado a uma plenitude, vamos dizer assim, na sua tática, no resultado de suas lutas, mas é conseguir justificar no tempo e nas condições que ela existe. Se temos vontade de olhar para esse passado, agora a gente precisa olhar com as ferramentas que a gente adquiriu no processo das nossas experiências, não mais como a gente olhou. Eu não vejo disposição da galera olhar pra trás, pras experiências, e reformular a sua leitura. Eu vejo uma galera querendo reafirmar aquela crítica para sustentar algo que, inclusive, a gente já tá fracassado no que a gente buscou.</p>
<p style="text-align: justify;">Só faz sentido voltar lá pra ver se o que a gente produziu como política faz sentido. Olhar para trás, é olhar para os limites da nossa crítica, não da experiência em si, da forma generalizada, mas do específico, daquilo que a gente reafirmou no passado. Quando o passado vem atormentando a gente é porque tem alguma coisa lá que tá mal resolvida. Aquilo lá que a gente produziu explicou naquele momento, ajudou a gente a dar um passo, mas agora estamos tendo dificuldade, e aí há uma necessidade de olhar para aquilo e falar “olha isso aqui! Tem alguma coisa que nos incomoda”. E eu acho que passa por isso que nós estamos conversando aqui, essas leituras de fundo, de força, de resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso que eu falei do trabalho de base. Não que eu ache que a gente defenda o trabalho de base, é que eu acho que essa palavra apesar de parecer simples ela carrega o grau de complexidade dessa totalidade que vai ser vai ser a herança do seu passado, vai estar aí a possibilidade daquilo que o X falou, que nós não temos essa perspectiva de levar a consciência, de levar a formação. Mas nessa palavrinha condensa tudo isso. A palavrinha trabalho de base ela é pesada. Na verdade, as pessoas simplificam ela como se fosse “vamos ali convencer o cara a fazer uma greve”, “vamos ali fazer um programa de formação”, “vamos ali fazer uma luta x, e ajudar na resistência do moinho”, essa palavrinha ela carrega um conjunto de contradições que, pra mim, está a base do limite que a gente está vivendo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem uma questão também, que talvez seja mais um elemento de crítica nossa, é que de certa forma essa análise anterior, antiga, da perspectiva do trabalho de base era de “vamos montar organizações de massa”. Eu acho que a gente não tem essa perspectiva de organização de massa. Eu acho que essa é uma questão. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa de perspectiva radical nesse momento histórico porque criar uma organização de massa significa, no final, nos tornarmos gestores. Por mais que a gente acredite nas lutas de massa, a gente não acredita na solidificação disso. É interessante a gente ver às vezes para alguns agrupamentos anarquistas, autonomistas, que estão falando “a gente criou a nossa organização de massas aqui e tal” e aí quando a gente vai ver a organização de massas e a gente pergunta “quantas pessoas tem?” no final a gente vai ver que é o mesmo número de gente que tem no Grupão. A gente não tem essa perspectiva de que vamos acumular gente e a revolução vai vir. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa. Talvez no momento de ascensão das lutas essas formas se tornem possíveis. Mas agora não é esse momento, então não adianta a gente criar esses instrumentos que, no final, como o W falou, quando a luta vier na verdade vai servir para controle, para contenção.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu fiquei pensando na acusação, que a gente recebeu muito, de que o autonomismo que a gente representaria teria uma “centralidade da tática”. E, de fato, a gente reconhece isso. Quando a gente estava falando que a gente acreditava que pela tática radical era possível tensionar a realidade e produzir conteúdos que abriam caminho para uma ruptura anticapitalista, e que às vezes a tática é mais importante que o discurso da organização, que a ação concreta é mais importante, então de fato eu acho que tem um pensamento taticista nosso, “lutista”. Eu acho que isso é uma coisa em comum na nossa formação como Grupão. Só que eu acho que isso daí é uma condição do tempo. Tem organizações hoje que falam em “estratégia”, mas o que a gente está falando é que talvez não seja um momento de estratégia, que não tem mais lugar. Não é tempo histórico de estratégia. A gente acha que, no fundo, quem está falando que tem estratégia, tá meio iludido… teoricamente, estratégia é uma coisa que você está pensando em um plano para longo prazo. As estratégias hoje não são isso. Mesmo a suposta “estratégia democrática popular” que o PT teve, que formou aquela geração dos anos 70 para cá… se ela foi uma estratégia nos anos 70, desde os anos 2000 ela já não é uma estratégia mais. Ela foi bem sucedida, eles chegaram no governo. Ela virou o que? Ela virou uma ferramenta de gestão. Esse pensamento estratégico de acúmulo, de um ponto de vista proletário, de um ponto de vista que quer romper com esse mundo, ele não existe. Porque o acúmulo nunca é para a gente, o acúmulo sempre acaba sendo acúmulo de força produtiva. Vira um acúmulo dentro da lógica do capital. Então do nosso lado a gente não consegue acumular coisas duradouras assim, e isso talvez seja uma inviabilidade da estratégia, já que quando a gente acumula, vira contenção nossa. Então talvez o pensamento estratégico esteja ligado a algo quase contrarrevolucionário. O Grupão nunca disse isso com essas palavras, mas talvez seja um pouco isso que a gente intui e que nesse sentido o lugar mais potente é mesmo o da tática. O comunismo seja uma tática. Que nem a gente viu que ocupava uma escola e isso foi se reproduzindo como um meme. De uma, duas, três escolas ocupadas que a gente planejou de forma conspirativa, de repente explodiu duzentas escolas ocupadas em São Paulo, mil no Brasil no ano seguinte. Talvez um processo que vá romper com este mundo vai se dar assim também, uma propagação no nível tático, e acho que a gente sempre tenta extrair conteúdo político das táticas pensando assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Acho que são dois vícios diferentes a tática e a estratégia. Acho que ambos contêm os seus limites, não é que a estratégia por si é sempre contenção. Hoje ela funciona como contenção por essas inúmeras razões. Não é que ela esteja sempre obsoleta. No nosso tempo ela é obsoleta de fato, mas pode ser que ela se transforme um pouco no sentido do que o X estava falando. Nisso a gente poderia ter aproveitado muito mais os momentos de se posicionar politicamente nas outras lutas que a gente compôs, estimulando pensamentos que dessem vazão a outros questionamentos que são de ordem estratégica, além da luta concreta. Um pensamento de conteúdo, conteúdo do comunismo, ele não necessariamente é estratégia no sentido que a gente está falando. Mas ele pode servir de formulações autônomas de outros polos nesse viés, entende? E nesse sentido ele se compõe como um estímulo para a estratégia. Eu acho que a gente pecou em certa medida de não ter estipulado na formulação tática esses outros pensamentos que são para além daquela luta. A tática se resume naquela forma daquela luta, naquele tempo, naquele espaço. O que tem um caráter positivo e é bom porque ele mantém firme o conflito como central, porém é uma dialética entre esse momento, esse imediato, e o posterior. A gente também não sabe muito bem como jogar…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Sim, é verdade. A questão que fica é: será que isso não seria uma estratégia nossa? Talvez o fato da gente não ter estratégia, da gente se manter baixo, da gente ter o foco nas lutas, de se basear muito mais nas táticas de inserção, de potência, será que isso também não é uma estratégia nossa?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Eu acho que é um pouco a provocação do X, e também eu acho que é um pouco a ausência de uma compreensão. Você encontra num lugar de conforto mínimo que te mantém existindo, porém esse lugar já está esquentando. Na verdade, no nosso caso, essa porra já está saindo fumaça preta porque o cabeçote está rachado. Nós mesmos estamos incomodados com a nossa estratégia. Se é que a reflexão do X faz sentido, e eu acho que faz, porque eu acho que é esse o nosso tempo, é o tempo da crise daquilo que a gente constituiu como formas de se manter organizado, em movimento, articulando ações e reflexões. A gente vive como a música do Belchior “ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”. Mas o fato é que a gente morreu e a gente está tentando não morrer de novo. Como a gente sabe que não tem perspectiva de um horizonte, de uma revolução, isso ao mesmo tempo é trágico, porém nos dá uma condição de falar “opa, também não precisa ficar loucão assim, com essa ansiedade toda”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159298" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg" alt="" width="960" height="949" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-300x297.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-768x759.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-425x420.jpg 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-640x633.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-681x673.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />PyB &#8211; Quando afirmam que a “investigação” deve ser o centro da preocupação política, a que se referem concretamente? Tomam como referência a experiência da “investigação militante” desenvolvida pelo operaísmo italiano dos anos 60-70? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Deixa eu falar uma coisa engraçada para você. Outro dia o pessoal fez homenagem para o Toni Negri aqui em casa, aí eu falei assim “alguém precisa avisar os 51 do MST que a gente era negriano e não sabia”. Alguém precisava ter avisado a gente: “Olha o que vocês estão fazendo, tem um cara que pensava essas coisas, exatamente isso”. Eu olhei para lá e falei “pô a gente era negriano e não sabia”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu gostei disso, Z. Porque tem muita coisa que a gente está levando um pouco sem reflexão, mas tem um monte de gente que refletiu sobre isso, chegou ao mesmo ponto da gente e refletiu sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A gente encontrou algo em comum com os operaístas na questão da enquete operária. Para nós, pensar o local de trabalho que a gente está, mapear ele, organizar ele, buscar os pontos de conflito, isso é enquete. Então às vezes, inclusive, a própria investigação pode ser a própria luta. Por exemplo, quando eu estive aqui, o pessoal que trabalhava no metrô, percebeu que os terceirizados da bilheteria estavam fazendo uma greve selvagem e a gente organizou uma solidariedade a eles. Nesse processo a gente descobriu como funcionava o trabalho na bilheteria. Isso foi uma enquete operária no próprio processo de luta. A gente já lia antes o Castoriadis, o João Bernardo &#8211; a gente não falou dele, mas acho que é uma outra influência grande que veio de uma experiência em Portugal, do jornal Combate. Mas uma diferença com essa tradição dos anos 60-70 é que ali tinha uma expectativa muito positiva para o trabalho. Uma perspectiva de autogestão que cada pequena ação operária mostrava que o trabalhador podia controlar a fábrica se ele quisesse. E o auge disso foi nos anos 70, as lutas autogestionárias. Na revolução portuguesa de 74, teve um movimento que tomou uma porcentagem importante das fábricas do país. As empresas estavam sob o controle dos trabalhadores. Eu acho que esse era um horizonte das lutas no fordismo, e acho que a gente tinha uma intuição aqui &#8211; daí vocês me corrijam se vocês acham que eu não estou certo &#8211; de que essa tendência autogestionária não é a mesma coisa hoje. A gente viu isso na organização do call center, que no fundo a vontade era também explodir aquele lugar e sair de lá. Você não é o operário que está fazendo um avião que vai voar e fazer a sociedade ir para o futuro. Hoje o conteúdo das lutas no trabalho parece mais anti-trabalho do que autogestionário, e acho que a gente encontrou nisso uma afinidade também com o pensamento anti-gestão do Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Tem também um outro caminho, não sei se vocês tiveram o mesmo preconceito que a gente que é um pouco mais velho, teve, que era o seguinte: em certa medida, a gente foi vendo a degeneração das formas organizativas anteriores. Entendia elas como uma camada mais de reificação sobre os dilemas e as composições das lutas dos trabalhadores. Tinha até uma música do Tom Zé, que era muito boa: “não tem nenhum operário na platéia, não tem nenhum operário no palco, mas Tom Zé sabe muito bem aquilo que é bom para a classe operária”. Eram camadas de reificação que iam se afirmando na tentativa de buscar também um conflito. Foi meio intuitivo, a gente precisava investigar para além daquilo que é dito pela representação dos trabalhadores. Qual é o nível de conflituosidade que existe no chão, no quente daquelas contradições que não podem ser transmitidas pelas formas tradicionais? Não significa que os trabalhadores não reifiquem, só que a reificação imediata daquele processo é distinta da reificação que vai ser feita por uma organização que já quer se manter, já tem todo um laço, um entrelaçamento de posicionamentos, uma fauna organizativa que ele está preso e que ele é obrigado a idealizar ainda mais aquela parte da realidade. Então a idealização feita a quente pelo trabalho permitia a gente entender muito melhor quais eram as contradições que estavam postas e como potencializar elas no sentido anti-trabalho, não no sentido propriamente de tomada do lugar do trabalho. A gente entendia que as formas sindicais e partidárias não davam conta de dar vazão a isso, a gente precisava furar esse bloqueio. A gente não tinha uma formulação teórica sobre isso, ela veio comprimida por uma necessidade da própria luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; A pergunta fala especificamente do operaísmo italiano, que fez uma investigação entre o começo e auge das lutas se a gente pegar de 60 a 70. Se a gente vê a Tendência Johnson-Forest ou até a galera do Socialismo ou Barbárie, ali era algo mais de “estamos desiludidos com a nossa forma de organização atual e precisamos nos reencontrar”. Também era uma perspectiva de se reconectar, de entender a nova conjuntura, e eu acho que esse é o papel da enquete que de certa forma a gente pegou. É muito diferente de uma situação quente, como o jornal Combate, dentro de um processo revolucionário e de tentar potencializar isso. Nossa perspectiva de enquete foi muito mais se religar, entender o que está acontecendo e se inserir. Nossa crítica à esquerda era justamente essa, a esquerda chega lá e quer falar para a galera. A gente não quer falar <em>para</em> a galera, a gente quer falar <em>com</em> a galera, a gente quer entender o que a galera fala, e nesse sentido essa perspectiva da investigação tem muito mais a ver com uma autoformação nossa, do que necessariamente com a perspectiva da gente apontar para alguma solução. Uma crítica que um camarada fez foi: “vocês estão aí nessa coisa da enquete operária, e a diferença de vocês e dos leninistas é que os leninistas tem o partido e vocês estão com a enquete para poder fazer a revolução”, mas eu não acredito nisso. Eu não acredito na nossa possibilidade de fazer a revolução através da enquete, mas da gente entender o contexto atual e como a gente se insere nos processos que estão acontecendo, como a gente se liga a classe, qual o movimento da classe atualmente, muito mais do que o que a gente quer levar a classe a fazer. Eu acho que a gente também faz um pouco de confusão entre a própria ideia de enquete operária e copesquisa, mas eu acho que a ideia da investigação militante é mais interessante nesse sentido, que a investigação que a gente faz de certa forma coloca as duas coisas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; E isso permitiu a gente chegar mais a fundo em compreensões sobre o caráter ambíguo das explosões que aconteceram recentemente. O modo tradicional de caracterizar uma determinada luta pode ser muito perverso. Você recorta e joga essa luta parcialmente e isso vira um consenso num circuito grande da esquerda e acaba jogando tudo fora, na lata do lixo. Todas as possibilidades de quebra daquela realidade se transformam em uma coisa chapada, homogênea. Então acho que essa investigação também permitia a gente sair dessas formas que homogeneizavam a realidade, botavam a realidade com uma coisa preta no branco, mas é muito mais cinza, cheio de nuances. Os caras não esperavam ver da boca de caminhoneiros as demandas, por exemplo, dos pequenos caminhoneiros daqui da entrada de São Paulo. Não é a busca da verdade, mas é um pouco nesse sentido que você falou, reconexão com os processos reais de luta, compreender os limites e como eles também reificam a realidade, e como que a gente também conseguiria contribuir numa tendência que a gente acredita ser de ruptura, ou de contribuição com outras lutas de trabalhadores que estavam acontecendo. A investigação foi caindo no nosso colo. A gente não fez um caminho consciente…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu acho que tem uma coisa que liga também com a discussão de estratégia que a gente teve antes com a discussão de consciência, eu acho que o pensamento da investigação ele inverte o plano da consciência. Então, ao invés de você levar uma resposta pronta pra classe trabalhadora, é o movimento inverso. Você vai pra porta de uma empresa não pra dar um panfleto que vai contar uma verdade pro cara, mas pra descobrir, pra aprender alguma coisa. O que tem de mais importante nesse processo é você descobrir uma denúncia daquela fábrica, descobrir alguma coisa ali… O militante, no fundo, tá aprendendo, e não indo dizer alguma coisa e, claro, a partir desse aprendizado a gente faz elaborações que são importantes para nós e que também podem ser úteis pra luta. Eu acho que é um pouco por aí, e acho que liga com estratégia também porque aí tem uma discussão do conteúdo. Qual a relação entre a enquete e o conteúdo do comunismo? Pensar que o conteúdo do comunismo talvez não tenha sido estático ao longo da história e que cada composição de classe ao longo da história projetou uma certa perspectiva no horizonte. Quando os caras estavam discutindo lá no século XIX na Comuna de Paris como eles queriam que fosse o mundo depois da revolução, eles estavam fazendo isso com base no chão que eles pisavam, que era um certo capitalismo; e que foi outro em 1920 quando a galera formou os conselhos; foi outro nos anos 60, quando o tema era autogestão; e talvez seja outro no nosso tempo. Então eu acho que o papel da enquete é descobrir quais lutas estão acontecendo de fato para encontrar o conteúdo do comunismo do nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos pegar o exemplo dos entregadores. Para boa parte da esquerda tinha uma dificuldade de se relacionar com esse setor porque já vinha com uma resposta pronta que era baseada em formulações que a classe trabalhadora fez em outro ciclo, em outro período que tinha a ver com os marcos fordistas da CLT, que gerava muito rechaço nos entregadores. E por quê? A visão de antes vai dizer então eles são conservadores. Não. Na luta a gente entendeu: é não querer ter chefe, não querer ter hora para entrar e sair. Mas ao mesmo tempo os companheiros estavam fazendo greve e se organizando para bloquear McDonald&#8217;s. Vinha gente trabalhar e os caras estavam no piquete e falavam “não, a gente está brecando aqui hoje, não é dia de trabalhar”. E o cara que veio trabalhar ficava no breque. Uma ação de classe muito mais radical do que uma categoria como bancários faz hoje em dia, que coloca uma faixa na frente do banco da agência e finge que está fazendo uma greve. Eles queriam autonomia e estabilidade. Ou seja, não é que eles queriam simplesmente negar a CLT, não era negar a possibilidade de um salário bom, de uma vida boa, de ter um direito à saúde, um direito em caso de um acidente que acontecesse, era ao contrário. Era ter acesso a tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; E a crítica ao sindicalismo também é uma coisa de: “a gente não quer ninguém negociando pela gente” e no entanto cai essa coisa de “o trabalhador que rejeita o sindicato quer fazer negociação direta com o patrão”. Eu acho que de fato eles querem isso, mas não é uma negociação individual com o patrão, eles querem organização coletiva com pressão, a partir dos pontos que eles determinam ali. Eu lembro que eu conversava com uma companheira que falava “na verdade parece muito mais com aquele ciclo dos anarquistas no começo do século XX, aquela galera que não queria que as suas organizações fossem institucionalizadas pelo Estado e ao mesmo tempo queria fazer as lutas diretas, se auto-organizar”. O que a gente vê talvez seja mesmo uma questão de gestão da miséria, barbárie. Alguns grupinhos e iniciativas foram organizadas nesse sentido de “todo mundo coloca uma graninha e daí a gente ajuda quem se acidentar”, e tal. A gente pode ver isso dentro de uma dinâmica de que está tirando a responsabilidade da empresa. Mas ao mesmo tempo a gente também pode ver isso dentro de uma ótica de avanço de perspectiva de auto-organização, que é interessante. Só que a gente fica nessa contradição porque a gente não quer também potencializar a gestão da miséria. Mas ao mesmo tempo o desenvolvimento de novas relações e novas organizações, formas de se relacionar que surgem daquilo, são muito interessantes. Então como é que a gente junta isso? A esquerda só fala coisas como “precisa ter CLT”, “precisa de sindicato”, “precisa disso”, mas não olha para essas expressões mais orgânicas da classe, em buscar os conflitos e as formas de organização invisíveis, subterrâneas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159304" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg" alt="" width="1046" height="1493" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg 1046w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-210x300.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-717x1024.jpg 717w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-768x1096.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-294x420.jpg 294w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-640x913.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-681x972.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1046px) 100vw, 1046px" />PyB &#8211; Como surgiu a ideia de editar o livro “Incêndio”? Qual foi seu principal objetivo ao circular esses textos no meio autônomo/radical?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Tem dois textos nesse livro, né? O primeiro texto chama <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" href="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Olha como a coisa virou”</a>, que acho que foi o primeiro texto coletivo que a gente escreveu no Grupão. E a gente escreveu em 2018, que foi o ano que estava se elegendo o Bolsonaro, foi um ano muito tenso. Só que no Grupão tinha uma intuição, mesmo antes do Bolsonaro ser eleito, de que ele era de alguma forma um “candidato do tempo”. Porque tínhamos uma leitura de 2013 como a revolta que explodiu a guerra social, e que rompeu com a pacificação, com o regime de gestão petista e trouxe à tona o conflito. E o Bolsonaro, de alguma forma, era o candidato que trazia à tona o conflito também. Não era o mesmo conflito de classe que a gente queria em 2013, mas ele escancarava a guerra social em vários sentidos. Então parecia para gente que o espírito de revolta de 2013 ainda estaria vivo e eleitoralmente o Bolsonaro teria condições de sequestrar um pouco dessa energia de revolta. Ele vencer a eleição reforçou esse ponto.</p>
<p style="text-align: justify;">A gente tinha uma hipótese para explicar a eleição que era que o bolsonarismo sequestrava parte daquela energia de revolta social de 2013 de forma muito louca porque ao mesmo tempo também era a expressão da repressão em 2013, das forças policiais, do exército que estava no Haiti reprimindo nas favelas e que veio pra cá reprimir, fazer garantia de lei e ordem. Então o Bolsonaro condensava esses dois lados da coisa: a repressão e também o sequestro da energia de revolta, tirando essa revolta de termos de classe e levando pra uma coisa mais ambígua &#8211; justamente por isso fascista, porque como o João Bernardo define, fascismo é uma revolta dentro da ordem. Então o texto continha uma hipótese para o período: “se o Bolsonaro expressa uma energia de revolta social que era nossa em 2013 e que agora foi sequestrada por uma extrema direita, quer dizer que existe algum conteúdo que nos interessa no meio dessa coisa toda” . E isso nos fez, durante o período seguinte, ter uma posição que fez a gente se afastar do conjunto da esquerda que adotou uma posição “se unir contra o fascismo”. A gente tinha muita ressalva com esse discurso antifascista no sentido de que ele poderia simplesmente significar uma defesa daquela democracia, do consenso e do apaziguamento que estávamos combatendo anos antes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K </strong>&#8211; De certa forma, a gente tentou traçar durante o Bolsonaro uma postura que não era exatamente antifascista, ou ela o era em outros termos, que não era de defender a civilização e a ordem capitalista contra a irracionalidade fascista, mas sim de buscar no proletariado, inclusive nos trabalhadores que apoiavam o Bolsonaro, uma energia de revolta que agora a insurgência de direita estava sequestrando. Eu acho que o texto tinha um pouco essa aposta: tentar escapar da polarização Bolsonaro-PT e entender as lutas nos seus próprios termos. Levar elas para o plano trabalhadores versus capital, colocar uma oposição em termos de classe. A gente teve essa experiência em várias categorias, como os entregadores. O segundo texto do <em>Incêndio</em>, que é o <a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">“</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Masterclass de fim do mundo</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">”</a>, é uma compilação, um balanço do conjunto dessa experiência que a gente teve durante o bolsonarismo, que foi agravada obviamente pela pandemia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Vale a pena falar que no período da pandemia o Grupão teve algumas diferenças internas. Chegou praticamente a rachar, apesar de que não completamente. O texto acabou sendo escrito por um lado, digamos, dessa divisão. Quais eram os lados dessa polarização interna? O primeiro dizia: “tem um vírus mortal rolando aí e a nossa tarefa é criar redes de solidariedade para se proteger contra a pandemia.” A auto-organização da quarentena e das medidas sanitárias vinha em primeiro lugar. O outro setor &#8211; e eu estava mais desse lado &#8211; argumentava que para muitos trabalhadores a quarentena não seria uma opção. Você vai se proteger na medida em que você consegue, mas se as pessoas ainda tem que sair para trabalhar, ainda precisam lutar contra o seu patrão, e quem está em casa também. Por isso, nossa primeira tarefa deveria ser apoiar o conflito. O texto do Incêndio coloca essa questão nas entrelinhas em muitos momentos: a ênfase na solidariedade ou no conflito? Depois da pandemia e com o texto publicado, hoje para nós está claro que essas coisas não se excluem completamente. Para você ter conflito você tem que ter uma rede de solidariedade mínima entre os trabalhadores que estão em conflito, e que certas redes de solidariedade, em certas situações, também podem ser conflituosas para o capital. Enfim, o grupo que escreveu o incêndio, e daí assinou como “militantes na neblina” &#8211; foi uma forma também de não colocar o nome “Grupão” &#8211; era o setor que estava criticando as redes de solidariedade como um embrião de gestão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Só para explicar um pouco, por exemplo, no caso específico dos entregadores, uma fração que foi alçada à categoria de imprescindíveis para a reprodução, chamados de trabalhos “essenciais”. Como também não tinham muita organização formal, era uma linha de frente para o capital. Daí a galera discutiu se poderia se organizar para entregar EPIs para os trabalhadores ou então fazer com que a própria luta se voltasse contra o iFood, contra a Rappi, e obrigar que essas empresas fizessem a proteção dos trabalhadores, aumentando o pagamento salarial. Óbvio que a gente estava pensando “é importante fazer a segurança, ter EPI de qualidade”, mas dentro disso saber que não adianta a gente, enquanto grupo externo, ficar fazendo “vamos lá levar máscara para os caras”, “vamos lá fazer vaquinha para ajudar o cara”, era quebrar com essa lógica de uma forma específica e botar isso como conteúdo objetivo da luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Eu acho que o W apresentou dois extremos ali do debate sobre solidariedade e conflito, que é anterior à pandemia e ele se desenvolve na pandemia. De certa forma, acaba se radicalizando. Mas eu não acho que a ruptura se deu nesses termos exatamente. Até porque eu fiquei mais do lado da galera que estava vendo outras formas de luta e resistência dentro de processos de solidariedade, que também eram conflituosos. Acompanhamos e apoiamos a greve dos entregadores da Loggi no Rio de Janeiro, que foi anterior ao Breque dos Apps. O mesmo com rodoviários fazendo greve selvagem. Lá em Paraty, a gente estava de olho no desenvolvimento das barreiras sanitárias organizadas por moradores de bairros afastados, que tinham treta com o poder público. Divulgando a galera que estava nos locais de trabalho, com raiva de seus patrões que estavam se utilizando das políticas sanitárias a bel prazer, sem nenhum tipo de fiscalização por parte do poder público, enquanto o mesmo poder público censurava trabalhadores precarizados do centro que estavam lá vendendo artesanato, fazendo arte, música, enfim. Aqui em Goiânia, um dos pontos que foi interessante é que a gente conseguiu uma inserção com os entregadores, que foi a galera que já estava recebendo kit de entrega de máscara e álcool gel, mas era uma máscara de pano escrota. A gente se juntou, fez uma vaquinha e foi lá distribuir pra galera. E foi super massa ter essa troca. Isso abriu nossa inserção para a greve contra o agendamento de corridas nos apps, por exemplo, que a gente construiu junto na pandemia. As coisas ficaram um pouco misturadas em certo momento. Eu acho que essas questões não ficaram tão pretas ou brancas assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Isso é uma coisa engraçada dessa experiência: foi uma divisão funcional de tarefas também. No momento em que o auxílio emergencial produziu revoltas de rua, a gente se envolveu. Quando virou uma coisa de redes de solidariedade a gente falou “isso aí é pelego”, aí vocês se envolveram. Então, de alguma forma, a gente pôde acompanhar o movimento inteiro. Quando a gente voltou a se encontrar, deu para conversar e os dois produziram sínteses.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Voltando à questão do <em>Incêndio</em>, eu já estava no Grupão no processo da escrita dos dois textos. Não participei do <em>“Olha como a coisa virou”</em>, mas é o que eu tenho mais acordo. Em relação ao <em>“Masterclass do fim do mundo”</em>, a minha discordância além de questões chaves, terminológicas ou de definições de certos processos (como por exemplo as barreiras sanitárias e tal, que também foi dual, tinha coisa muito pelega, mas tinha coisa muito interessante de combatividade), é o tom final do texto de “chegamos ao fim da linha” &#8211; que deu um tom também no próprio Grupão. O Masterclass caiu numa coisa completamente niilista, que reforçou uma questão, que eu acho que a gente está tentando sair agora, de: “é o fim, talvez a gente nem deve mais pensar em revolução, talvez seja uma questão de pensar apenas resistência”. Na minha visão, a gente tinha muito claro, muito estabelecido entre a gente, por mais que não falasse muito, que a nossa perspectiva era revolucionária. A partir do <em>Masterclass</em> eu comecei a pensar que talvez esse não fosse o caso, que talvez realmente haviam camaradas que pensassem que não tem mais pra onde ir, que é o fim mesmo, e agora é sobre puxar o freio e segurar essa porra. Eu acho que isso levou o Grupão por um lado meio negativo. Dessa coisa meio da gente simplesmente achar que é o fim da linha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em certa medida, são textos que se propõem a fazer sínteses do tempo histórico. Não sei se a gente poderia falar em conjuntura, como uma coisa bem dividida: “o que acontece no âmbito da política”, “da cultura”, “da economia”, uma coisa meio escolarizada fordista, isso já foi pro saco. A gente não se importa com isso. A gente se importa em tentar captar aquilo que você chamou do “espírito da revolta” no processo. O sequestro desse espírito da revolta, e um certo apogeu dessas forças de extrema direita. É uma tendência a uma dessocialização que agrava uma forma violenta das relações cotidianas. Mas acho que o ponto é que ambos são, e daí entro numa reflexão que a gente precisa fazer entre nós, que ambos são expressões de transições de conjunturas. A gente pode pegar um texto anterior, da crise do MPL, que é o <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Revolta popular: o limite da tática”</a> que expressa um tempo histórico. Expressa a luta conscientemente contra o consenso e quebramos a janela do consenso, fizemos o consenso se desdobrar e se esvair em um processo aberto. Capta como que esse processo aberto poderia escorregar para uma revolta de vernizes de extrema direita, que foi o <em>“Olha como a coisa virou”</em>, e a gente até termina meio “otimista”, perguntando para onde caminha a revolta. Pode ser que ela volte para outro campo, mas a tônica era que é possível passar o calhamaço da extrema direita durante um tempo. E o <em>“Masterclass do fim do mundo” </em>combina o combo de tragédias. Era a tragédia de uma população relativamente encantada com discursos que, para a gente, se assimilavam ao que foi o fascismo histórico, chama-se lá como foi. Tinha a expressão de violências e estratégias bárbaras de deixar ou dirigir o genocídio mediado por um vírus, tinha experiências políticas, no caso do Amazonas, de deixar as pessoas sem oxigênio. Enfim, aquela marcha fúnebre que passava tudo. Aquilo deu a tônica de um apogeu em um momento histórico. Só que isso também passou. Então ambos os textos, apesar de serem textos de propósito de síntese, não tem a pretensão de ser algo manualesco, algo que dê um caminho. São sínteses de tempo histórico. De dizer um pouco, do ponto de vista sintético, qual é a experiência que a gente tem visto na luta de classes no Brasil nesses dois tempos. Nesse sentido é bom, mas no outro sentido é datado. O problema de você generalizar coisas a partir das lutas concretas de um momento é que fica um pouco impressionista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu entendo a preocupação do Camarada X e eu concordo com ela. Politicamente o texto tem uma conclusão muito pessimista. Aquele livro termina muito pessimista. Só que de fato a gente viu a maior onda de revoltas da história da humanidade globalmente, a maior onda de greves da história do Brasil. Na China também houve um ciclo de greves enorme, e isso não deu em revolução, tampouco em saldo organizativo. No fundo, essa constatação tem a ver com o problema do acúmulo organizativo. A gente estava escrevendo esse texto na ressaca das greves de motoboys e das lutas da pandemia, que tinham sido derrotadas. O Revolucionários dos Apps, grupo de entregadores de app em Goiânia foi cooptado. Em São Paulo o grupo do Treta no Trampo implodiu com brigas internas. Foi péssimo aquele momento. A gente escreveu esse texto em um tom de derrota. E vendo também as revoltas pelo mundo não encontrando o horizonte… por isso que é “neblina”, porque não vê horizonte revolucionário. A gente até brincou: “quando tiver um horizonte revolucionário a gente muda o nome da assinatura”. Só que o problema é que o balanço que você faz nessa situação é muito pessimista, e isso tem uma implicação política. Por um lado é levar a sério o que se está analisando, falar de não ter horizonte, e de fato a gente tem que entender que pode ser sinistra a consequência de dizer que não tem acúmulo de forças hoje. Então por que eu vou militar? É o problema político do texto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em geral os livros políticos tem propostas de ação, o nosso não tem, o nosso é só uma lamentação. No final é o chamado a quem percebe essa lamentação, é uma proposta de encontrar um chamado às outras organizações que percebem nesse momento histórico a gravidade do tempo. Eu acho que é um ponto. Ele não teve um papel organizador como os livros podem ter. Foi uma síntese nossa, e aí a gente ficou lidando com essa síntese, com esse balanço muito pessimista. Eu acho que tem um pouco a ver com a situação do Grupão hoje, que a gente está num momento difícil do nosso espaço, que tem muita gente que está muito desiludida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acredito que a gente deve resgatar o horizonte revolucionário, não como uma coisa a ser construída por nós, mas uma coisa que considerando todo o processo histórico é uma possibilidade, não é a negação dessa possibilidade. A gente não pode dizer que vai acontecer, mas a gente não pode dizer também que não vai acontecer. Então é melhor que a gente segure a possibilidade e avance para isso, até porque têm outras lutas que trazem conteúdos importantes para a perspectiva revolucionária hoje. Por exemplo, me trouxeram a referência do Irã em 2021 quando teve uma greve gigante de trabalhadores de óleo e petroquímica, 100 mil trabalhadores organizados e criação de conselhos. Eles estavam fazendo defesa de conselhos. Eles estavam defendendo uma perspectiva que a gente pensou que havia acabado, mas aconteceu. Mostra uma continuidade. Eu não vou falar que mostra uma “invariância”, mas mostra que há uma atualidade ainda em formas clássicas que podem se atualizar, como os grupos de WhatsApp, a perspectiva das equipes dos entregadores, enfim. Eu acho que são elementos que a gente precisa pensar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A crítica sempre é posicionada, por mais que ela seja radicalmente negativa, ela é sempre posicionada. A gente parte do pressuposto, ainda que não tenha as condições objetivas de realizar, de que existe a necessidade e a possibilidade, talvez não a probabilidade, da humanidade viver uma humanidade sem classes. A gente parte desse pressuposto. Ele é a onde a gente joga a âncora para fazer a crítica. A gente não faz a crítica no vazio. Ela é posicional. Nesse sentido, acho que isso ajuda a gente a entender que mesmo que uma revolução, uma ruptura, não esteja na ordem do dia ou aquilo que organiza o nosso cotidiano, ela serve mesmo no exercício da imaginação. Ela serve para a gente criar a negativa desse mundo. Óbvio, uma negativa imanente, a gente parte do pressuposto de que existem as contradições. As condições de vida tendem às lógicas mais irracionais, mais destrutivas, mais bárbaras. A gente só consegue perceber isso quando a gente alça no oposto, ou seja, talvez não seja provável, mas é possível uma humanidade sem classes, uma humanidade livre das determinações da sua auto-escravidão. Eu acho que isso é o que faz com que a gente possa pensar. Então, de certa maneira, é também inegável que a gente tenha o pressuposto revolucionário para fazer a crítica do capital. Sem o pressuposto revolucionário a gente não consegue fazer a crítica efetiva do capital. Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico sinistro de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas.</p>
<p><em>As obras que ilustram o artigo são de Theo v</em><em>an Doesburg </em></p>
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		<title>O desencantamento em Black Sabbath</title>
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		<pubDate>Thu, 28 May 2026 14:19:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Em meio ao desencantamento com a utopia e a persistência do sofrimento e da exploração, não deixam de denunciar os problemas que os afetavam. Por Michel Goulart da Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Michel Goulart da Silva</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Embora mais conhecida como um dos principais nomes do <em>heavy metal</em>, a banda Black Sabbath também se mostrou atenta a temas políticos e sociais de sua época. Criada no contexto da Guerra do Vietnã, os membros da banda, ainda jovens, viram sua geração sendo impactada pelos horrores que o circundavam. O processo de transformações econômicas, políticas e sociais parece ter sido um importante elemento que afetou sua percepção do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os jovens de sua geração viviam os impactos da libertação sexual e se embrenhavam na contracultura, mas também viam amigos e parentes sendo arrastados para a guerra ou, no caso dos que ficavam, ao mundo da pobreza e do desemprego. Os quatro jovens que criaram Black Sabbath pareceriam encarar esse cenário em sua cidade. Birmingham, na Inglaterra, onde a banda foi criada, era “<em>uma pequena e decadente cidade industrial, sobrevivendo à época em que a Europa já não se orgulhava dessa indústria</em>”. <strong>[</strong><strong>1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159264" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-223x300.webp" alt="" width="323" height="434" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-223x300.webp 223w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-312x420.webp 312w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1.webp 595w" sizes="auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa realidade parece ter forjado na banda um certo desencanto. Os quatro jovens trabalhadores de Birmingham pareciam estar desacreditados dessa utopia que muito ressoava na classe média. Nos anos 1960, “<em>a celebração das drogas, dos sonhos e da imaginação procurava reduzir a pedacinhos uma realidade sufocante</em>”. <strong>[</strong><strong>2]</strong> Mas, apesar das lutas encampadas pela juventude, não se conseguia transformar essa realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O rock expressou muito dessa percepção da realidade. Nos anos 1960, os astros do rock “<em>haviam encantado a opinião pública com flores, desfiles e promessas de mudar o mundo. Black Sabbath avançou ao fim da procissão, ainda professando a necessidade do amor, mas avisando aos errantes que não haveria volta a um ingênuo estado de graça</em>”. <strong>[</strong><strong>3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O desencanto parece ser a base que levou à criação de uma versão mais sombria do rock, com uma guitarra que expressava acordes tensos e um baixo que amplificava essas distorções. O heavy metal pode ser entendido “<em>como um catalisador de oposição e contestação ao status quo vigente, cujo estilo de vida entra em confronto com os conceitos convencionais de legalidade e moralidade</em>”. <strong>[</strong><strong>4]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Observa-se nas letras da banda Black Sabbath não apenas imagens sombrias, como as de Lúcifer na música título do primeiro álbum, mas também do desânimo em relação à sociedade e mesmo à vida. Uma de suas músicas mais famosas, “Paranoid”, ainda que bastante agitada em sua harmonia e melodia, traz uma letra que pode ser interpretada como a descrição de um estado depressivo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-159265" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-300x300.webp" alt="" width="400" height="399" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-300x300.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-70x70.webp 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-768x765.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-422x420.webp 422w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-640x638.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-681x678.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2.webp 803w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Contudo, ao mesmo tempo em que mostram o desencanto com a utopia, suas músicas não deixam de questionar a realidade e mesmo criticar a sociedade. Os temas políticos, embora sejam minoritários em meio à exacerbação de uma subjetividade sombria e mesmo depressiva, atravessaram a carreira da banda, em especial em seus primeiros álbuns. Um exemplo é Paranoid, de 1970.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse álbum encontra-se aquela que talvez seja a mais explícita letra política da banda, na música “War Pigs”. Sua letra, escrita sob o impacto da guerra no Vietnã, “<em>foi baseada em relatos que a própria banda ouvia enquanto tocavam em bases militares norte americanas na Alemanha, vindo de pessoas que tinham retornado da guerra, ou daqueles que tinham parentes que estavam lutando em nome dos Estados Unidos</em>”. <strong>[</strong><strong>5]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nessa música, faz-se uma crítica direta aos líderes militares e políticos, comparando-os a “bruxas em missas negras”. Essa imagem associa os generais a figuras tradicionalmente vistas como maléficas e manipuladoras, destacando a perversidade de quem comanda guerras.</p>
<p>Generais reuniram seus exércitos<br />
Assim como as bruxas durante as missas negras<br />
Mentes malignas que tramam destruição<br />
Feiticeiros que edificam a morte</p>
<p style="text-align: justify;">Denuncia-se também a manipulação que se faz para justificar as guerras.</p>
<p>No campo, os corpos queimam<br />
Enquanto a máquina de guerra continua funcionando<br />
Morte e ódio à humanidade<br />
Envenenando as mentes daqueles que sofreram lavagem cerebral</p>
<p style="text-align: justify;">Na letra de “War Pigs” denuncia-se como os poderosos iniciam guerras, mas se escondem das consequências, deixando que os pobres lutem e morram em seu lugar.</p>
<p>Políticos se escondem<br />
Eles só iniciaram a guerra<br />
Por que eles deveriam lutar?<br />
Eles deixam esse papel para os pobres, sim!</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159266 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-1024x785.webp" alt="" width="640" height="491" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-1024x785.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-300x230.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-768x589.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-548x420.webp 548w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-80x60.webp 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-640x491.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-681x522.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3.webp 1043w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Outro exemplo são duas músicas do álbum Master of Reality, de 1971. Em “Children Of The Grave” faz-se um apelo à juventude, diante das ameaças atômicas em meio à Guerra Fria.</p>
<p>Revolução em suas mentes<br />
As crianças começam a marchar<br />
Contra o mundo que têm de viver<br />
E todo ódio que está em seus corações<br />
Elas estão cansadas de serem empurradas<br />
E apenas ouvir e obedecer<br />
Elas enfrentarão o mundo até que vençam<br />
E o amor venha a fluir</p>
<p style="text-align: justify;">Procura-se mostrar como os atos de resistência do presente podem impactar nesse futuro, ainda que persista a dúvida de se conseguirão transformar a realidade.</p>
<p>As crianças do amanhã vivem<br />
Nas lágrimas que caem hoje<br />
O Sol se erguerá amanhã<br />
Trazendo a paz de alguma forma?<br />
O mundo tem que viver<br />
Na sombra do medo atômico?<br />
Elas conseguirão ganhar a batalha pela paz<br />
Ou irão desaparecer? Yeah</p>
<p style="text-align: justify;">Para que se conquista esse mudo, a música faz um chamado à ação.</p>
<p>Então crianças do mundo<br />
Ouçam o que eu digo<br />
Se vocês querem um lugar melhor para viverem<br />
Espalhem as palavras hoje<br />
Mostrem ao mundo que o amor<br />
Ainda está vivo e vocês devem ser fortes<br />
Ou vocês crianças do hoje<br />
Serão as crianças da sepultura</p>
<p style="text-align: justify;">Na música “Into the Void”, retrata-se um futuro sombrio para a humanidade, muito parecido com uma distopia. O desenvolvimento tecnológico, em suas contradições, é pensado a partir de seu impacto sobre a vida no planeta.</p>
<p>Motores de foguetes queimam o combustível muito rápido<br />
Subindo ao céu à noite, eles explodem<br />
Pelo universo, os motores gritam<br />
Esse poderia ser o fim do homem e do tempo?<br />
De volta à terra a chama da vida queima lentamente<br />
Em todos os lugares, miséria e aflição<br />
A poluição mata o ar, a terra e o mar<br />
O homem se prepara para encontrar seu destino</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159267" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-300x297.webp" alt="" width="400" height="396" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-300x297.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-70x70.webp 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-768x760.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-424x420.webp 424w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-640x634.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-681x674.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4.webp 808w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa exploração dos céus deixa para os sofrimentos, mas não os apaga, permanecendo entre as pessoas.</p>
<p>Motores de foguetes queimam o combustível muito rápido<br />
Subindo ao céu à noite tão vasto<br />
Metal ardente atravessando a atmosfera<br />
A terra permanece com preocupação, ódio e medo<br />
Com as batalhas cheias de ódio e enfurecidas<br />
Foguetes que voam em direção ao Sol incandescente<br />
Pelos impérios do vazio eterno<br />
Liberdade para o suicídio final</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são alguns exemplos que mostra seu olhar sobre a realidade. Em suas músicas, Black Sabbath “<em>cantava as crianças sem pai e o absurdo do mundo</em>”. <strong>[</strong><strong>6]</strong> Em meio ao desencantamento com a utopia e a persistência do sofrimento e da exploração, não deixam de denunciar os problemas que os afetavam. São a expressão de preocupações daquela geração de jovens, que não enxergavam o futuro, diante tanto da ameaça da guerra como da pobreza deixada pela exploração capitalista.</p>
<p>&nbsp;</p>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>CHRISTE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: ARX, Saraiva, 2010, p. 13.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> JACOBY, Russell. O fim da utopia: política e cultura na era da apatia. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 235.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> CHRISTE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: ARX, Saraiva, 2010, p. 17.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> CERBELERA NETO, Diogo Ramos. O heavy metal sob a ótica da criminologia cultural: o cenário underground e seus aspectos criminológicos. In: Paulo Silas Filho; Matheus Belló; Gabriel Teixeira Santos. (Org.). Heavy Metal e Criminologia. Londrina: Thoth, 2020, p. 48.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5</strong><strong>] </strong>KELLES, Monique Pena. “War Pigs”: heavy metal e criminologia: um diálogo possível. In: Paulo Sillas Filho, Matheus Beló Moraes, Gabriel Teixeira Santos. (Org.). Heavy Metal e Criminologia. Londrina: Thoth, 2020, p. 160.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> CHRISTE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: ARX, Saraiva, 2010, p. 18.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159279 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1000025838-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Ilustramos este artigo com fotografias de </em>Vo Anh Khanh<em>  (1936-2023).</em></p>
</div>
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