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	<title>Reflexões &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Meu pai, um país: um trotskista evangélico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Oct 2026 15:39:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[Meu pai não teve condições de lidar com as contradições que viveu. Será que nós temos tido condições? Por Isadora de Andrade Guerreiro ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Neste momento eleitoral, ter que escrever um texto pra coluna me deixou angustiada. Minha angústia vem da necessidade dos textos que estão saindo de ter que demonstrar certezas e apontar caminhos. Tenho dificuldade de apontar caminhos em meio ao desespero pois não quero ser heroína ou, como diz Tom Zé, para os olhos “de lá de dentro da escuridão” que esperam e querem que ele seja herói, saiba de tudo ou seja um Deus vingador: “eu sou inocente!”. No mesmo álbum, ele fala dos professores universitários como “aquela tal classe que ou passa a aprender com as ruas ou não vai sobreviver”. Então, esse texto é sobre o que estamos vivendo, e sobre um desejo de futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Também porque sei que a posição do <a class="urlextern" title="https://blogdaboitempo.com.br/2026/10/15/a-impotencia-do-eu-ja-sabia/" href="https://blogdaboitempo.com.br/2026/10/15/a-impotencia-do-eu-ja-sabia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“eu já sabia”</a>, que Douglas Barros descreveu como a maldição de Cassandra (profetiza em quem ninguém acreditava), não só não tem serventia, como ele disse, mas acho que tem que ser profundamente questionada por quem acha que sabe. Passado esse momento no qual cada pessoa tem feito o que pode para evitar o mal maior do retorno do período autoritário ao país, teremos que lidar com a situação de frente, seja qual for o resultado das eleições. Sem de fato entender o que se passa &#8211; e não aprenderemos isso nos livros &#8211; será muito difícil não entrarmos no jogo de guerra que está armado. Não há monstros do “lado de lá”, há pessoas vivendo outras experiências de vida, que muitas vezes não estamos dispostos a compartilhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu pai, falecido há dois anos em 20 de outubro, me disse há uns 15 anos que eu, intelectual da USP e cheia de certezas, não estava entendendo nada do país. Ele falava a partir do centro-oeste brasileiro, onde morava já fazia alguns anos, e de onde vinha, segundo ele, “a revolução”. Tal palavra, na boca do meu pai, tinha força &#8211; o que me fazia estremecer frente ao que aquilo de fato podia significar. Seria ele, e não eu, a Cassandra que Douglas Barros descreveu, me dizendo o futuro e eu não querendo acreditar?</p>
<p style="text-align: justify;">Muitas vezes, contar a trajetória das pessoas é também contar &#8211; e pensar sobre &#8211; a história do país. Vou então contar a história do meu pai, buscando mostrar o tamanho do desafio que temos adiante.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando nasci, meus pais eram trotskistas da Libelu (Liberdade e Luta), do movimento estudantil da USP, no final da ditadura. Meu pai entrou na Politécnica tendo vivido a maior parte da vida no interior de São Paulo, em Ribeirão Preto. O choque cultural foi imenso, como ele me contava, o que fez com que sua relação com a política sempre fosse meio que atravessada pelo trauma. Ele se tornou uma pessoa estranha, pois ao mesmo tempo em que se envolvia profundamente nas mobilizações e na organização política &#8211; de forma obsessiva &#8211; carregava uma crítica constante e mal formulada, que o deixava numa espécie de não-lugar frente aos colegas paulistas da elite intelectual, cheios de certezas. Em meio à obsessão, não se formou na universidade, diferente dos colegas, que depois viraram empresários e “gente grande” do PT &#8211; o que sempre o ressentiu. Virou estudante profissional. Foi pra Unesp, pra Fatec, nunca teve diploma.</p>
<p style="text-align: justify;">Participou do governo Erundina, num cargo comissionado na área de processamento de dados. Ao mesmo tempo que participou da construção de muita coisa interessante, a experiência de estar próximo ao poder e tudo o que isso significa o fez se desencantar pela política e pelo PT neste momento. A depressão foi profunda e sua vida se desmanchou em São Paulo. Ele não só não votava mais no PT, ele simplesmente deixou de votar: não ia e não justificava, por muitos anos. Para alguém que lutou contra a ditadura, era grave.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi morar na casa dos pais, que moravam em Goiânia &#8211; seu pai trabalhava na Petróleo Ipiranga, que sempre o enviava para fronteiras de desenvolvimento do país. O centro-oeste crescia na década de 1990. Foi lá que entrou para a igreja Batista e se casou novamente, com uma moça que vinha do interior do Tocantins. Os pais dela moravam na área rural, um lugar que só foi ter luz com o Programa Luz Para Todos, muitos anos depois. Um lugar impressionante, uma família enorme, forte e unida.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi quando eu, adolescente, conheci o centro-oeste. Quem acha que conhece o país e nunca viu as plantações de soja entre o Tocantins e a Bahia, de fato, não entendeu nada. De carro, você anda horas numa planície de linha do horizonte reta, com a estrada &#8211; maravilhosa, asfalto perfeito &#8211; fazendo o ponto de fuga. Máquinas gigantes são pontinhos que trabalham 24hs por dia. Os donos chegam de avião ou helicóptero. A cidade que era só um posto de gasolina no meio do deserto virou um polo regional. O nome dela? Luiz Eduardo Magalhães.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo mudou quando o PT ganhou o governo federal. Neste momento, meu pai já morava em Brasília, deslocado pela empresa de informática na qual trabalhava. Seus antigos amigos paulistas aportaram, e agora era ele quem conhecia o terreno. Meu pai mudou de vida. Andava de Corolla, recebia whisky em caixa de madeira com a estrela do PT. Sentia-se finalmente reconhecido. Não durou muito &#8211; Mensalão etc… em meio à queda, ele botou um processo contra a empresa pelo fato de ser PJ e ganhou. Arranjou inimigos por todos os lados e se refugiou no Tocantins.</p>
<p style="text-align: justify;">O retorno dele para Goiânia, alguns anos depois, marcou um enésimo recomeço de vida, agora marcado pelo empreendedorismo e pelo mergulho na igreja evangélica. Dizia que nunca mais queria ter patrão, pois foram os patrões que sempre o colocaram em maus lençóis. Fez casas do Minha Casa Minha Vida em Luiz Eduardo Magalhães, abriu uma lanchonete em Goiânia que não teve condições de tocar. Nunca conseguiu ganhar dinheiro com nada disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a comunidade da igreja e as dinâmicas desse meio davam sentido a tudo o que ele tinha passado na vida, e o reconheciam como alguém sábio, que “mostrava os caminhos”. Só não virou pastor porque era separado. A igreja que ele frequentava era organizada em células, e ele era responsável por uma delas, na sua casa. Dizia que aquilo funcionava como os <em>soviets</em>. E que era, portanto, “a revolução”. A estrutura e os números da igreja são de fato impressionantes. Ele acreditava que finalmente estava colocando em andamento uma transformação estrutural no país, e que a esquerda precisava fazer parte disso. Revirava com polêmicas e esperanças populares os grupos de whatsapp dos amigos paulistas esclarecidos. Não havia dúvidas, do nosso ponto de vista, ele tinha enlouquecido. Ninguém acreditou.</p>
<p style="text-align: justify;">A ascensão bolsonarista mudou muito toda essa história, mais uma vez. Ele lutava contra a extrema-direita e tudo o que aquilo significava como retorno da ditadura que ele tinha vivido na pele. Em Goiânia e na sua igreja, as pessoas também tinham dificuldade de entender sua postura. Voltou a ficar escanteado, se afastou sem nunca romper os vínculos, e depois voltou a receber a célula em casa até o último dia da vida que pôde. No final da vida, estava numa profunda depressão. Me telefonou um dia só para dizer que continuava de esquerda. Como se eu fosse um porto seguro que pudesse salvá-lo, me perguntou se eu acreditava. Eu disse que nunca duvidei disso, mas adianta a alcunha quando o que se vive é muito maior do que as classificações, prenhes de certezas?</p>
<p style="text-align: justify;">Meu pai não teve condições de lidar com as contradições que viveu. Será que nós temos tido condições? É bom duvidar quando achamos que estamos entendendo o que está acontecendo, sabemos o que vai acontecer e podemos dar caminhos certeiros para evitar o pior. A história é muito mais complexa do que isso. Mas as experiências de vida das pessoas são expressões concretas das contradições em que estamos imersos. Dar voz a tais experiências, dando sentido coletivo ao sofrimento individual, parece ser um caminho potente. O lado de lá tem sido muito eficaz em fazer isso, enquanto nós permanecemos presos às nossas certezas.</p>
<p style="text-align: justify;">Desejo, esta semana, que o virar-voto não seja de esclarecimento, mas de escuta; que a escuta possa criar boas questões que coloquem a semente da dúvida no outro. Que possamos dar sentido coletivo transformador na germinação dessas dúvidas, florescendo um projeto comum. Os desafios não terminam domingo, eles apenas começam &#8211; ou continuam, se aprofundando. Talvez o maior deles seja não produzir inimigos a partir das nossas certezas, para não terminarmos no apocalipse da guerra infinita, essa sim profetizada por todos aqueles que sempre quiseram subordinar a humanidade.</p>
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		<title>Professores do ensino fundamental debatem o 1º turno</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Oct 2026 19:10:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Um grupo de professores do ensino fundamental debate o resultado do 1º turno das eleições brasileiras de 2026, em que Flávio Bolsonaro venceu Lula. Por Professores do Primário]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 id="professores_do_ensino_fundamental_debatem_o_1_turno" class="sectionedit11" style="text-align: justify;"><strong>Por Professores do Primário</strong></h3>
<p id="professores_do_ensino_fundamental_debatem_o_1_turno" class="sectionedit11" style="text-align: justify;"><em>Um grupo de professores do ensino fundamental debate o resultado do 1º turno das eleições brasileiras de 2026, em que Flávio Bolsonaro venceu Lula.</em></p>
<div class="level3" style="text-align: justify;">
<p><strong>Lauretta: </strong>Bom dia, companheiros! Força que o novo sempre vem!</p>
<p><strong>Panfilo: </strong>Só tendo fé na geração futura mesmo, porque a dos nossos pais e a nossa falhou miseravelmente.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Educai a nova geração. A missão de vocês está árdua. Não estou muito otimista. Mesmo querendo ser! Acredito que a nossa geração nem vai a chegar ver um novo ciclo. Está só começando…</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160098" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-300x225.jpg" alt="" width="400" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005.jpg 640w" sizes="(max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p><strong>Filostrato:</strong> Como diz o Panfilo, falhamos miseravelmente! Não conseguimos nem mesmo convencer aqueles que sofrem as mazelas junto conosco.</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Sim. Mas nós lutamos tanto! Eu não consigo compreender a forma como tem que falar com essa galera.</p>
<p><strong>Dioneo: </strong>Será que é <em>falar</em>? Nem estou sabendo o que <em>pensar</em> e dizer…</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Eu percebi que nossos alunos que se manifestaram contra a direita… É principalmente a galera que entrou nas universidades federais. Inclusive serão muito afetados pela entrada do Flávio.</p>
<p><img decoding="async" class="alignleft wp-image-160099" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-223x300.jpg" alt="" width="323" height="435" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-223x300.jpg 223w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-312x420.jpg 312w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge.jpg 446w" sizes="(max-width: 323px) 100vw, 323px" /></p>
<p><strong>Filostrato: </strong>Precisamos reordenar os sindicatos. Eles se tornaram base de política institucional eleitoreira, e o pior de tudo, uma política fascista e individualista. Vejo os embates no nosso sindicato, puro interesse eleitoral. Elegemos agora mesmo, um presidente no sindicato para derrubar os sanguessugas de lá, o que ele faz? Vai apoiar a direita na eleição.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Fato! O <em>modus operandi</em> da esquerda tem falhado há muito tempo. É difícil resumir… Mas também é um reflexo da geopolítica mundial. A tendência ultra conversadora. O individualismo…</p>
<p><strong>Filostrato: </strong>Sim, a luta contra a mídia foi feroz.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>A lógica neoliberal vai engolindo tudo que passar pela frente. Vejo que o indivíduo está se reorganizando politicamente para também enfrentar esses desafios. De uma forma equivocada, mas sim… Muito mais subjetivo. Nem o próprio indivíduo se reconhece nesse processo.</p>
<p><img decoding="async" class="alignright wp-image-160100" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-227x300.jpg" alt="" width="327" height="433" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-317x420.jpg 317w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge.jpg 453w" sizes="(max-width: 327px) 100vw, 327px" /><br />
<strong>Panfilo: </strong>Eu acho que uma primeira observação é que não existe mais <em>uma</em> classe trabalhadora. A fragmentação do mercado de trabalho criou uma situação em que temos trabalhadores numa situação mais precarizada e outros numa situação menos precarizada. Ou seja, como criar uma consciência de classe, se a própria economia criou posições distintas? Todos são trabalhadores e são explorados, mas há distinções internas que impossibilitam uma identificação como parte de um todo coeso. Nesse cenário, o corporativismo domina. Uma coisa que poderia contornar essa fragmentação é a esquerda voltar a ser militante no sentido de ações de solidariedade, principalmente nas periferias. Quem faz solidariedade na periferia são ONGs e Igrejas, simples assim. A esquerda partidária e sindical não está nem aí. Não é à toa que o trabalhador da periferia não se identifica com a esquerda. Pelo contrário, ele vê uma esquerda que tem uma vida melhor, porque são pessoas que têm diploma universitário, fazendo discurso em prol da igualdade, mas não vê ações reais, então entende isso como hipocrisia e enxerga a esquerda como parte do <em>establishment</em>. O bolsonarismo nadou de braçada aí.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>Tem uma questão de falha de comunicação. Nós falamos uma língua, a classe trabalhadora fala outra, porque o dicionário da classe trabalhadora está vindo do discurso religioso, da meritocracia, do empreendedorismo, então não temos como dialogar. Vir falar de Karl Marx e mais-valia para quem está pensando em abrir um negócio ou trabalhar em aplicativo e, com a bênção de Deus, virar empreendedor, é chover no molhado.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Concordo plenamente!! Estou cansada de ver pesquisadores frequentando a região rural de onde eu vim até para dizer “como se planta mandioca”, mas bem distantes dessa realidade. Com toda a modernização, informatização… discursos “intelectuais” não estão colando mais.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>Outra coisa é que esquerda gosta de polemizar questões identitárias que para a maior parte dos trabalhadores não fazem sentido algum. Linguagem neutra de gênero é visto pela maior parte da classe trabalhadora como uma maluquice sem sentido.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160101" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977-300x149.jpg" alt="" width="400" height="199" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977-300x149.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977.jpg 570w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p><strong>Filomena: </strong>Quando estava no mestrado, falava muito sobre isso com meus professores. Gente!! Vocês estão muito distantes de nós! Um ativismo na produção intelectual muito grande. Longe da prática!</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Enquanto a gente desmerece <em>influencers</em> e comunicadores de Tiktok, é lá que eles estão nadando de braçada. Parece que vamos ter que emburrecer para nos comunicar.</p>
<p><strong>Panfilo: </strong>Eu acho que a questão não é emburrecer. Atos valem mais que palavras. O capitalismo tem um princípio fundamental que é o do individualismo/competição. Nós temos que nos contrapor a isso propondo ações coletivas/solidariedade. As pessoas irão perceber que a esquerda está propondo coisas do interesse delas quando elas perceberem que são parte de uma ação coletiva baseada na solidariedade.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Acredito demais na força do coletivo! As poucas ações que ainda consigo fazer são as ligadas à Igreja, e com muito sacrifício. Convenhamos, aqui entre nós, na nossa realidade de tanto trabalho, quem está conseguindo alcançar a comunidade? Nós também estamos imersos nesse capitalismo cruel. Muito trabalho! E quando pensamos em querer trabalhar menos, damos conta da realidade e as contas não fecham. Nós estamos vivendo na lei da sobrevivência. Sinceramente, não sei como as pessoas que ganham um salário mínimo estão sobrevivendo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160097 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro.jpg" alt="" width="247" height="510" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro.jpg 247w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro-145x300.jpg 145w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro-203x420.jpg 203w" sizes="auto, (max-width: 247px) 100vw, 247px" /></p>
<p><strong>Lauretta: </strong>O Flávio no seu discurso de ontem me impactou. “Acabou a era do PT”. Parece ser isso. A esquerda vai ter que se reconfigurar. Renovar o discurso.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Além de tudo já discutido. Tem um fator crucial que é a religiosidade do nosso país. O Brasil é um país cristão. O partido que sabe usar o discurso em “favor dos cristãos” conquista o eleitor. Pode estar tudo ruim, mas se você disser que Deus proverá tudo. Pronto! A esquerda radical tem atacado muito os cristãos. Não é um discurso que a população brasileira aceita bem.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>A pauta antirracista, ideologias de gênero, direitos iguais… por aí vai! Sobressaiu demais nos últimos anos. O povo quer é pagar as contas e comer bem.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>A esquerda sempre esteve muito distante. Quando estava cursando o mestrado. Ficava pensando “Meu Deus, quem são os alienados da história?” Esse povo está muito fora da casinha.“ É muito distante da realidade brasileira. Tem que reconfigurar o discurso e a prática.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160107 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/33316c4d-8d18-4da5-80c4-871da215da3b-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As imagens que ilustram este artigo são reproduções de obras de</em> Tōkō Shinoda (1913-2021).</p>
</div>
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		<title>A revolução burguesa no Brasil: formação dependente, poder agrário e modernização sem ruptura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Oct 2026 14:55:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando dizemos "burguês" e "burguesia", de que experiência histórica estamos falando? Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Florestan Fernandes, antes de ser um &#8220;nome&#8221;, teve uma trajetória social raríssima no Brasil. Nascido em São Paulo, em 22 de julho de 1920, filho de mãe imigrante portuguesa e criado em condições de pobreza, trabalhou desde criança e passou a juventude entre subempregos e instabilidade material, retomando os estudos mais tarde por meio de cursos de madureza <strong>[1]</strong> até chegar à universidade. Em 1941 ingressou na antiga FFCL da USP e, a partir de 1945, inicia carreira docente como assistente de Fernando de Azevedo, um dos organizadores da sociologia universitária paulista. Sua formação combina sociologia, etnologia e teoria social com uma disciplina de pesquisa incomum, se tornando mestre na Escola Livre de Sociologia e Política com estudo sobre os Tupinambás e doutor na USP com <em>A função social da guerra na sociedade tupinambá</em> (1951), obra que se torna referência no debate antropológico brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí em diante, Florestan organiza um programa intelectual de largo alcance que em que pensa o Brasil como formação social dependente, fundada por modernização desigual, heranças escravistas e uma ordem de classes que se constrói sem cumprir o mito liberal da cidadania universal. Nos anos 1960, consolida-se com a tese de cátedra <em>A integração do negro na sociedade de classes</em> (1964), que investiga a passagem do trabalho escravo ao trabalho livre e expõe a &#8220;integração&#8221; subordinada e seletiva, marcada por barreiras estruturais e reprodução de hierarquias. A ditadura militar interrompe sua atuação na USP; sendo aposentado compulsoriamente em 1969, passa a lecionar fora do país, entre outras experiências acadêmicas no exterior. A sociologia para Florestan funcionava como crítica das ilusões nacionais e isso está presente nas suas principais obras.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos anos 1980, ele cruza de modo direto a fronteira entre universidade e política institucional ao eleger-se deputado federal por São Paulo em 1986, como constituinte pelo PT, e é reeleito em 1990. Sua atuação parlamentar se concentrou, entre outros temas, em educação pública e direitos sociais, carregando para o Congresso uma argumentação intelectual pouco comum na cena legislativa brasileira. Não se trata de um &#8220;intelectual que virou político&#8221; por vaidade tardia, mas de alguém que entendeu que a crítica do capitalismo dependente no Brasil também passa pela disputa do Estado, ainda que essa disputa seja permanentemente contraditória.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159991 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1024x581.jpg" alt="" width="640" height="363" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1024x581.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-300x170.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-768x436.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-740x420.jpg 740w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-640x363.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-681x386.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1021x580.jpg 1021w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Feita essa apresentação, entra o problema que Florestan coloca logo no início da obra. Quando dizemos &#8220;burguês&#8221; e &#8220;burguesia&#8221;, de que experiência histórica estamos falando? Na tradição marxista clássica, a burguesia designa a classe historicamente vinculada à expansão da produção mercantil, centralidade do lucro, consolidação da propriedade privada moderna e reorganização do Estado segundo os critérios da reprodução ampliada do capital. O &#8220;burguês&#8221; é o sujeito social tipificado por esse novo regime de compra da força de trabalho, organização da produção sob comando, internalização da disciplina de fábrica, expansão dos mercados, disputa pelo poder político, e substituição das antigas legitimidades (sangue, tradição, corporações fechadas) por um universalismo formal (lei, contrato, cidadania abstrata), que ao mesmo tempo emancipa e subordina.</p>
<p style="text-align: justify;">O <em>Manifesto do Partido Comunista</em> apresenta o movimento histórico da burguesia como força revolucionária no interior da Europa. Ela dissolve relações tradicionais, derruba vínculos pessoais, substitui o mundo &#8220;encantado&#8221; por cálculo e equivalência, e cria um mercado mundial. A burguesia &#8220;revoluciona&#8221; por necessidade competitiva, pois o capital não sobrevive sem expandir, reconfigurar, integrar e acelerar. Leo Huberman, quando reconstitui a passagem do feudalismo ao capitalismo, ajuda a visualizar a base material desse processo mostrando o crescimento das cidades, o comércio de longa distância, a transformação de camponeses em trabalhadores &#8220;livres&#8221; pela expropriação, o nascimento de uma nova disciplina do tempo e do corpo. Daí em diante, &#8220;burguesia&#8221; não se define apenas por riqueza, mas por posição no processo de produção e relação com o Estado e o mercado mundial. O que Florestan propõe é que o Brasil não pode ser lido como fotocópia atrasada da Europa e isso ele apresenta logo nos primeiros parágrafos, principalmente quando afirma que o vocabulário europeu, quando aplicado sem mediações, se torna etnocentrismo travestido de conceito e a primeira vítima dessa transferência automática é a identificação, muito comum, entre senhor de engenho e burguês.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o objetivo é compreender o problema que Florestan Fernandes formula nas páginas iniciais de <em>A Revolução Burguesa no Brasil</em>, é inevitável trazer o olhar para uma temporalidade mais longa da história brasileira. A questão colocada por ele (saber em que condições históricas uma ordem social burguesa poderia emergir numa sociedade formada sob o regime colonial) não pode ser enfrentada se o ponto de partida da análise estiver restrito ao século XIX ou aos eventos políticos da Independência. Para compreender o problema, devemos observar o processo histórico mais amplo no qual o território americano foi incorporado à expansão econômica europeia a partir do século XVI, momento em que se estabelecem os fundamentos estruturais da formação social brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159992" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-191x300.jpg" alt="" width="391" height="615" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-191x300.jpg 191w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-651x1024.jpg 651w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-768x1208.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-977x1536.jpg 977w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-267x420.jpg 267w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-640x1007.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-681x1071.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 391px) 100vw, 391px" /> Caio Prado Jr., em uma das interpretações mais influentes da historiografia brasileira, insiste que a colonização portuguesa deve ser compreendida dentro de um movimento maior de expansão do capitalismo comercial europeu. Em <em>Formação do Brasil Contemporâneo</em>, ele formula uma hipótese que se tornaria clássica: a colonização brasileira teve como objetivo principal a organização de uma economia voltada para a produção de gêneros destinados ao mercado externo. Nas palavras do autor, a colonização portuguesa nos trópicos se orientava por um princípio bastante preciso de &#8220;produzir para o comércio europeu&#8221;. Esse &#8220;sentido da colonização&#8221; indica que a organização econômica da colônia não pode ser compreendida a partir de suas necessidades internas, mas a partir de sua inserção em um circuito mercantil que a ultrapassava.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde os primeiros séculos da colonização, a economia organizada no território colonial foi estruturada segundo um padrão produtivo relativamente estável tendo grandes unidades agrárias concentradoras de terra, mobilização de trabalho compulsório em larga escala e produção voltada para a exportação de gêneros tropicais. A plantation açucareira que se expande sobretudo no Nordeste ao longo dos séculos XVI e XVII sintetiza essa forma histórica de organização econômica. Grandes propriedades rurais, baseadas na monocultura e sustentadas pelo trabalho escravo africano, produziam açúcar destinado ao mercado europeu, integrando a colônia a um circuito mercantil internacional cuja direção se encontrava fora dela. Diversos historiadores procuraram demonstrar que essa organização econômica estava articulada ao funcionamento do sistema colonial mercantil. Ciro Flamarion Cardoso, ao estudar a dinâmica das economias coloniais americanas, enfatiza que o sistema colonial não pode ser compreendido apenas como uma estrutura administrativa de dominação política, mas como um mecanismo econômico voltado para a transferência sistemática de excedente das colônias para as metrópoles europeias. Nesse arranjo histórico, a colônia era espaço de produção de mercadorias tropicais, enquanto a metrópole e os centros mercantis europeus mantinham o controle sobre os mecanismos de circulação, financiamento e comercialização dessas mercadorias.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa organização econômica produziu no interior da colônia uma elite agrária poderosa, formada pelos grandes proprietários rurais que dominavam a produção agrícola e o controle da mão de obra escravizada <strong>[2]</strong>. O senhor de engenho tornou-se, nesse contexto, uma figura central da sociedade colonial. Sua autoridade não se limitava ao domínio econômico sobre a produção agrícola prolongando-se até a organização da vida social local, às relações de dependência que estruturavam o cotidiano da colônia e muitas vezes ao exercício de funções que, em outras formações sociais, seriam prerrogativas de instituições públicas. A casa-grande, como observou Gilberto Freyre, era centro de poder social, político e simbólico. Entretanto, a posição ocupada por esses grupos dominantes dentro da economia colonial apresentava limites. Ainda que controlassem a produção agrícola e exercessem poder social considerável no interior da colônia, os grandes proprietários rurais não dominavam os mecanismos da circulação mercantil. O comércio de exportação, o transporte marítimo, o crédito internacional e boa parte dos processos de comercialização permaneciam sob controle de agentes localizados fora da colônia. A riqueza produzida no espaço colonial era parcialmente apropriada por intermediários mercantis e financeiros vinculados ao sistema econômico europeu.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa situação histórica cria uma configuração peculiar. A sociedade colonial brasileira produziu elites agrárias extremamente poderosas no plano local, mas essas elites atuavam dentro de um sistema econômico cuja dinâmica geral não era por elas controlada. O poder do senhor de engenho era, ao mesmo tempo, imenso e limitado, imenso no interior da ordem social escravista que ele comandava diretamente, limitado quando se observava sua posição no circuito da economia mercantil internacional. Ao longo do século XVIII, algumas transformações começam a alterar parcialmente esse quadro. A descoberta de jazidas auríferas na região das Minas Gerais introduz um novo dinamismo econômico no interior da colônia. A mineração provoca o crescimento de núcleos urbanos, estimula o desenvolvimento de atividades comerciais e cria novas formas de circulação monetária. A sociedade colonial, que até então se organizava principalmente em torno da grande lavoura de exportação, passa a experimentar interações econômicas e social mais complexas. Ainda assim, essas transformações não chegam a alterar o padrão estrutural que havia se consolidado ao longo da colonização. A escravidão continua sendo a principal mobilização da força de trabalho, a grande propriedade rural permanece como eixo organizador da produção e a economia colonial segue profundamente vinculada ao comércio externo. Mesmo as regiões mineradoras, apesar de sua dinâmica interna mais intensa, continuam integradas ao sistema colonial mercantil que estrutura a relação entre metrópole e colônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se chega ao início do século XIX, o sistema colonial português enfrentava tensões crescentes. As guerras napoleônicas, a crise do antigo regime europeu e a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 introduziram alterações na organização política e econômica do império português. A abertura dos portos brasileiros às nações amigas, decretada no mesmo ano, representou uma ruptura significativa com o antigo sistema de exclusividade comercial que vinculava a colônia à metrópole. Nesse contexto mais amplo ocorre o processo que levaria à independência política do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">O rompimento formal com Portugal, proclamado em 1822, deve ser compreendido como um rearranjo político conduzido pelas elites que ocupavam posições dominantes na sociedade colonial. O novo Estado nacional surge preservando grande parte das estruturas econômicas e sociais que haviam se consolidado durante a colonização. A Independência preserva a grande propriedade agrária, conserva a escravidão como fundamento da economia e entrega à monarquia a organização do poder político. Décio Saes, ao analisar a formação do Estado burguês no Brasil, observa que a transição política ocorrida no início do século XIX não correspondeu àquilo que a tradição marxista europeia identificou como revolução burguesa clássica. Na Europa, processos revolucionários frequentemente envolveram confrontos abertos entre classes emergentes e estruturas aristocráticas do antigo regime. No caso brasileiro, a formação do Estado nacional ocorreu através de um processo no qual as elites agrárias escravistas desempenharam papel central na reorganização do poder político.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse percurso histórico fornece os elementos necessários para compreender a reflexão de Florestan Fernandes. Ao perguntar sobre as &#8220;origens da revolução burguesa no Brasil&#8221;, ele não está procurando identificar um momento específico em que uma burguesia teria surgido de repente no interior da sociedade brasileira. O problema que orienta sua investigação é compreender como uma formação social construída durante séculos sob o regime colonial escravista poderia, em determinado momento de sua trajetória histórica, comportar as condições necessárias para o desenvolvimento de uma ordem social capitalista. Para isso, é preciso considerar a longa duração dos processos históricos que moldaram a sociedade brasileira. As estruturas econômicas e sociais estabelecidas durante a colonização não desapareceram abruptamente com a independência política. Pelo contrário. Elas continuaram funcionando durante grande parte do século XIX, influenciando o desenvolvimento do capitalismo no país. A análise de Florestan procura justamente captar essa complexidade histórica, na qual modernização econômica, permanência de estruturas coloniais e reorganização das classes dominantes se entrelaçam de maneira intensa.</p>
<p style="text-align: justify;">A Independência modificou a posição política das classes dominantes estabelecidas no território brasileiro. Até 1822, esses grupos exerciam seu poder dentro de uma ordem colonial cujo centro decisório estava vinculado à Coroa portuguesa. Com a constituição do Estado nacional, as elites agrárias e comerciais ocuparam diretamente os principais espaços de comando político, administrativo e jurídico, adquirindo maior capacidade para organizar instituições, regular conflitos internos e defender seus interesses diante do mercado internacional. Essa mudança não eliminou a escravidão, a concentração fundiária ou a dependência econômica, mas alterou a escala e os instrumentos de atuação dos grupos dominantes. A partir daí, a manutenção da ordem social herdada da colônia passou a depender de um aparato estatal sediado no próprio país, controlado por frações locais interessadas em combinar autonomia política, expansão mercantil e preservação das hierarquias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-159993" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-300x237.jpg" alt="" width="450" height="355" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-300x237.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-1024x808.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-768x606.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-532x420.jpg 532w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-640x505.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-681x538.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" />Durante todo o Império (1822-1889), a economia brasileira permaneceu ancorada no trabalho escravo, especialmente nas grandes lavouras de exportação, como o café, o açúcar e o algodão. Isso significa que o novo Estado nacional nasceu e se consolidou preservando um dos pilares centrais da ordem colonial. A escravidão só foi formalmente abolida em 1888, pela Lei Áurea, um ano antes da proclamação da República. A historiografia tem insistido que esse longo intervalo revela o caráter conservador da independência brasileira que na verdade foi uma ruptura política com Portugal conduzida pelas elites agrárias, cujo interesse principal era preservar a estrutura econômica e social existente. Assim, a transição para o trabalho livre ocorreu tardiamente e sem reformas estruturais capazes de integrar a população negra recém-liberta à nova ordem social. A abolição eliminou a instituição jurídica da escravidão, mas não desmantelou os mecanismos históricos de exploração e dominação que haviam sido construídos ao longo de mais de três séculos de regime escravista.</p>
<p style="text-align: justify;">A figura do senhor de engenho tem lugar central nas interpretações clássicas da formação social brasileira. Não por acaso, dois dos mais importantes intérpretes do Brasil (Gilberto Freyre e Florestan Fernandes) dedicaram atenção especial a esse personagem histórico. No entanto, cada um o faz a partir de perspectivas analíticas distintas. Enquanto Freyre descreve o engenho como núcleo civilizatório e cultural da sociedade colonial, Florestan procura compreender a posição desse agente no sistema econômico mais amplo que organizava a colonização. O contraste entre essas duas abordagens é extremamente fecundo para compreender a natureza da dominação colonial no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Casa-Grande &amp; Senzala</em>, Gilberto Freyre apresenta o engenho como o centro organizador da vida social na colônia. A casa-grande não era apenas a residência do senhor, mas o eixo em torno do qual se estruturava um sistema social complexo onde se articulava a produção econômica, a organização familiar, a vida religiosa e o poder político local. O engenho funcionava simultaneamente como unidade produtiva, instituição doméstica e centro de autoridade patriarcal. A escravidão era o fundamento material dessa organização, mas sua expressão social era mediada por relações pessoais de mando e dependência. O patriarca rural exercia autoridade sobre a família, escravizados e trabalhadores livres que gravitavam em torno do engenho. Nesse universo social, a casa-grande tinha um papel quase institucional, sendo ao mesmo tempo tribunal, igreja, centro administrativo e símbolo da hierarquia colonial. Freyre enfatiza sobretudo a dimensão cultural e social dessa estrutura. A sociedade colonial é vista como um sistema marcado pelo patriarcalismo, centralidade da família extensa e proximidade cotidiana entre senhores e escravizados enquanto a vida doméstica, a religiosidade, os costumes alimentares, a organização da casa e do trabalho são os elementos constitutivos de uma formação social singular. A casa-grande seria o espaço em que se consolidou uma sociabilidade específica brasileira, marcada por relações pessoais intensas, hierarquias rígidas e uma ordem social profundamente desigual, mas relativamente coesa do ponto de vista cultural. A análise de Florestan Fernandes, entretanto, estuda o problema por outro plano.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto Freyre enfatiza a centralidade social e cultural da casa-grande na organização da vida colonial, Florestan evidencia os limites do poder econômico do senhor de engenho. O patriarca rural descrito por Freyre tinha autoridade local, mas essa autoridade coexistia com uma dependência em relação ao circuito mercantil internacional que estruturava a economia colonial. Em outras palavras, o poder social do senhor de engenho não se traduzia necessariamente em autonomia econômica.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159989" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-1024x793.jpg" alt="" width="540" height="418" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-1024x793.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-300x232.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-768x595.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-542x420.jpg 542w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-640x496.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-681x528.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312.jpg 1035w" sizes="auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa diferença mostra também dois modos distintos de interpretar a formação social brasileira. Freyre trabalha sobretudo com uma perspectiva histórico-cultural, interessada em compreender os padrões de sociabilidade, os costumes e a organização da vida cotidiana na sociedade colonial. Seu objetivo é explicar como se formou uma civilização específica nos trópicos, marcada pela convivência entre portugueses, africanos e indígenas sob o regime da grande propriedade escravista. Florestan, por sua vez, mobiliza uma abordagem sociológica orientada pela análise das classes sociais e das estruturas econômicas. Para ele, compreender a formação da sociedade brasileira é necessário situar a colônia dentro do sistema mundial de mercantilização e analisar as relações de dependência que daí derivam. Essa tensão entre poder interno e dependência externa é um dos elementos fundamentais para compreender o processo histórico que Florestan denomina de revolução burguesa no Brasil. A sociedade colonial produziu elites agrárias extremamente poderosas, mas não gerou, naquele momento, uma burguesia capaz de organizar autonomamente o desenvolvimento capitalista. A modernização econômica posterior teria de surgir a partir da transformação dessas estruturas e da reorganização das classes dominantes dentro de novas condições históricas.</p>
<p style="text-align: justify;">A inserção da economia colonial no circuito mercantil internacional acabaria por introduzir tensões nesse universo social relativamente estabilizado. Ao longo do século XIX, o crescimento da produção cafeeira, a intensificação das trocas comerciais, o desenvolvimento de atividades financeiras e a expansão das cidades começaram a produzir novos tipos de agentes econômicos e novas expectativas de mobilidade social. Aos poucos, certas práticas ligadas ao cálculo econômico, à valorização do investimento e à busca de oportunidades de enriquecimento ganharam legitimidade em setores da sociedade que anteriormente se orientavam por códigos tradicionais de honra e autoridade. Florestan identifica a difusão de um comportamento que denomina &#8220;espírito burguês&#8221;, expressão que procura captar uma mudança nas disposições práticas dos indivíduos diante da atividade econômica e da organização da vida social.</p>
<p style="text-align: justify;">A difusão dessas práticas ocorre de maneira desigual entre os diferentes setores da sociedade. A estrutura social brasileira do século XIX apresenta uma composição profundamente heterogênea, na qual convivem relações escravistas, trabalho livre emergentes, atividades comerciais em expansão e experiências iniciais de industrialização. A sociedade colonial tardia e o Império brasileiro são um espaço no qual tradições senhoriais persistem ao lado de práticas econômicas que apontam para um tipo distinto de racionalidade social. Nesse contexto, a emergência do &#8220;espírito burguês&#8221; não significa a substituição imediata da dominação tradicional, mas a introdução de novas orientações de ação que passam a coexistir com as estruturas herdadas do passado colonial.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo entre os grandes proprietários rurais, a situação se revela mais complexa do que poderia sugerir uma leitura simplificada da história econômica brasileira. Parte das elites agrárias permanece ligada ao universo simbólico do antigo regime colonial, reproduzindo padrões de comportamento associados ao prestígio aristocrático e à autoridade patriarcal. Outros setores, contudo, incorporaram práticas econômicas mais próximas da lógica capitalista, investindo em infraestrutura, ampliando circuitos de comercialização e explorando novas oportunidades de acumulação abertas pela expansão do mercado mundial. O fazendeiro de café do século XIX frequentemente está situada entre dois mundos históricos distintos: herdeiro da tradição senhorial escravista e, ao mesmo tempo, participante de um processo mais amplo de reorganização econômica que gradualmente altera o funcionamento da sociedade brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;">A transformação que Florestan procura apreender não se reduz, portanto, à simples formação de uma burguesia nos moldes clássicos da experiência europeia. O que se observa é uma reconfiguração progressiva das práticas sociais e das estruturas econômicas que possibilita a expansão das relações capitalistas sem que as formas tradicionais de dominação desapareçam por completo. O capitalismo brasileiro se desenvolve por meio de uma reorganização das elites existentes, que adaptam suas estratégias de poder às novas condições históricas abertas pela expansão do mercado e consolidação do Estado nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa característica peculiar da formação brasileira foi posteriormente explorada por Francisco de Oliveira ao propor a conhecida metáfora do &#8220;ornitorrinco&#8221;, imagem utilizada para descrever uma sociedade na qual diferentes temporalidades históricas coexistem de maneira aparentemente incongruente. Assim como o animal que combina traços de espécies distintas, a sociedade brasileira apresenta uma articulação singular entre processos de modernização econômica e a persistência de estruturas sociais que remontam à ordem colonial.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159994" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-561x1024.jpg" alt="" width="361" height="659" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-561x1024.jpg 561w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-164x300.jpg 164w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-768x1402.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-841x1536.jpg 841w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-230x420.jpg 230w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-640x1168.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-681x1243.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345.jpg 889w" sizes="auto, (max-width: 361px) 100vw, 361px" />Logo no início do segundo capítulo, Florestan introduz uma formulação que, à primeira vista, parece estranha ao afirmar que &#8220;a Independência, não obstante a forma em que se desenrolou, foi a primeira grande revolução social que se operou no Brasil&#8221;. A frase exige de nós atenção porque o autor reconhece que o processo de separação de Portugal ocorreu sob direção das elites coloniais e preservou grande parte das estruturas econômicas e sociais herdadas do período anterior, não se tratando, portanto, de uma revolução política comparável às grandes revoluções burguesas europeias. Ainda assim, Florestan insiste na palavra &#8220;revolução&#8221; porque a questão central para ele é uma transformação de outra ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A ruptura com a metrópole alterou profundamente o quadro institucional dentro do qual a sociedade brasileira se organizava e a partir daquele momento, as classes dominantes instaladas na antiga colônia passaram a exercer diretamente funções de direção política que antes pertenciam ao aparato imperial português, abrindo-se, assim, um campo novo de disputas em torno da organização do Estado, da economia e da estrutura social. A independência não dissolveu o latifúndio, nem a escravidão, tampouco a dependência externa; mudou o eixo de comando dessas estruturas o que viabilizou a inauguração de uma nova etapa histórica em que as elites locais organizam um Estado nacional que, progressivamente, se tornaria o espaço político da transformação burguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de acompanhar o raciocínio de Florestan Fernandes sobre a Independência, convém deter-se brevemente no significado da palavra &#8220;revolução&#8221;, pois ela aparece em sua formulação carregada de um peso analítico que se perde no uso corrente do termo. No vocabulário das ciências sociais, e especialmente na tradição marxista, &#8220;revolução&#8221; não designa apenas um episódio político dramático, marcado por insurreições, barricadas ou derrubadas súbitas de governos. O conceito remete a transformações mais profundas na estrutura da sociedade, isto é, na maneira como a produção está organizada, como o poder político se distribui e como as classes sociais se constituem historicamente sendo mais do que um evento pontual, ou seja, a revolução refere-se a processos históricos de reconfiguração das relações sociais fundamentais, sobretudo no que diz respeito ao modo de produção e, consequentemente, às relações de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa distinção está clara em Marx e Engels. No <em>Manifesto do Partido Comunista</em>, ao descreverem o papel histórico da burguesia, eles observam que a ascensão dessa classe implicou uma reorganização completa da produção e das relações sociais herdadas do mundo feudal. A burguesia, escrevem eles, &#8220;desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário&#8221;, não porque tenha protagonizado apenas revoltas políticas, mas porque introduziu uma dinâmica econômica e social capaz de dissolver estruturas seculares e reorganizar a sociedade em torno da produção capitalista. A revolução burguesa designa o processo histórico pelo qual as relações de produção capitalistas se tornam dominantes e reorganizam as instituições políticas, jurídicas e culturais.</p>
<p style="text-align: justify;">A literatura marxista posterior ampliou essa compreensão. Autores como Lênin, por exemplo, insistiram que revoluções podem assumir ritmos históricos bastante distintos. Em algumas circunstâncias, a transformação das estruturas sociais ocorre através de processos abruptos de ruptura política; em outras, ela se desenvolve de maneira mais lenta, mediada por compromissos entre diferentes frações das classes dominantes e por instituições aparentemente moderadas. O elemento decisivo, portanto, não reside na intensidade imediata do conflito político, mas nas mudanças estruturais que se produzem no interior da sociedade. Essa perspectiva possibilita compreender por que Florestan Fernandes utiliza a categoria de revolução ao se referir à Independência do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a Independência, o espaço político no qual as classes dominantes atuavam sofreu uma transformação. A antiga colônia deixou de integrar diretamente o sistema administrativo e político do império português, e as elites instaladas no território organizaram um Estado nacional próprio. Essa mudança institucional abriu novas possibilidades históricas para a reorganização da economia, para a redefinição das relações entre as classes sociais e para a própria formação de uma burguesia nacional. A revolução de que fala Florestan não corresponde, portanto, a uma explosão política comparável à Revolução Francesa ou às revoluções europeias do século XIX. Ela se refere a uma transformação que muda o eixo de comando da sociedade brasileira e inaugura um novo horizonte histórico. Esse processo, portanto, foi longo e paulatino e, sobretudo, contraditório.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista conceitual, portanto, &#8220;revolução&#8221; se refere a uma categoria analítica destinada a captar processos de reorganização profunda das estruturas sociais. Ao empregar o termo dessa maneira, Florestan insere a experiência brasileira dentro de um problema clássico da teoria social que é compreender como determinadas formações históricas transitam de um tipo de organização social para outro. No caso brasileiro, esse movimento se desenvolve de maneira complexa, pois a emergência de relações capitalistas ocorre em uma sociedade que carrega, por longo tempo, as marcas estruturais do regime colonial e escravista.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa perspectiva, a Independência pressupunha, lado a lado, um elemento puramente revolucionário e outro elemento especificamente conservador. O elemento revolucionário aparecia nos propósitos de despojar a ordem social, herdada da sociedade colonial, dos caracteres heteronômicos aos quais fora moldada, requisito para que ela adquirisse a elasticidade e a autonomia exigidas por uma sociedade nacional. O elemento conservador evidenciava-se nos propósitos de preservar e fortalecer, a todo custo, uma ordem social que não possuía condições materiais e morais suficientes para engendrar o padrão de autonomia necessário à construção e ao florescimento de uma nação. A coexistência de elementos tão antagônicos provinha de uma realidade inexorável, percebida e apontada mesmo pelos homens que conduziam os acontecimentos (como José Bonifácio, por exemplo). (FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil)</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-159990" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-1024x720.jpg" alt="" width="440" height="310" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-1024x720.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-300x211.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-768x540.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-597x420.jpg 597w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-640x450.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-681x479.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314.jpg 1160w" sizes="auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px" />A presença do liberalismo no Brasil do início do século XIX deve ser compreendida dentro das condições em que se realizou a transição da ordem colonial para a formação do Estado nacional. Florestan chama atenção para o fato de que o liberalismo surge como um repertório político e ideológico apropriado pelas elites coloniais no momento em que se tornava necessário reorganizar o poder após a ruptura com a metrópole portuguesa. A circulação das ideias liberais no Brasil intensifica-se no final do século XVIII e início do XIX, acompanhando as transformações que atravessavam o mundo atlântico. As revoluções americana e francesa, a crise do antigo regime europeu e a expansão do comércio internacional difundiram no espaço luso-brasileiro conceitos como liberdade civil, representação política, direitos individuais e soberania nacional. No entanto, quando essas ideias são apropriadas pelas elites coloniais, elas passam por um processo de adaptação às condições concretas da sociedade brasileira. O liberalismo não chega como programa de transformação radical da ordem social, mas como instrumento político capaz de legitimar a reorganização do poder no interior de uma sociedade ainda profundamente marcada pela escravidão e a grande propriedade rural.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse liberalismo desempenha funções ambíguas no processo de formação do Estado nacional. De um lado, ele oferece uma linguagem política capaz de justificar a ruptura com a ordem colonial e de fundamentar a construção de instituições próprias de um Estado independente. A defesa da soberania nacional, da autonomia política e da reorganização administrativa do país mobiliza princípios que pertencem ao repertório liberal. Assim, o liberalismo participa da legitimação ideológica da independência e da constituição de uma ordem política nacional. Ao mesmo tempo, porém, esse liberalismo permanece condicionado pelos interesses das classes dominantes da sociedade escravista. A defesa das liberdades políticas não se traduz em questionamento da estrutura agrária nem do regime de trabalho que sustentava a economia de exportação. Os mesmos grupos que se apresentam como defensores da autonomia nacional e das instituições liberais são aqueles que procuram preservar, tanto quanto possível, as bases sociais da ordem colonial. A igualdade jurídica proclamada nos discursos liberais convive com uma sociedade na qual milhões de pessoas continuam submetidas ao regime da escravidão.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa situação revela o caráter instrumental que o liberalismo tem no contexto brasileiro, funcionando simultaneamente como linguagem de modernização política e mecanismo de acomodação das estruturas sociais existentes. A adoção de instituições representativas, constituições e parlamentos não implica necessariamente a democratização efetiva da sociedade, mas antes a reorganização do poder dentro de um quadro institucional mais compatível com as exigências do novo Estado nacional. Florestan identifica nesse processo duas orientações distintas no interior das elites. Uma delas busca adaptar o liberalismo às condições da sociedade colonial, utilizando seus princípios para legitimar a autonomia política sem alterar em profundidade as relações sociais existentes. A outra tende a ver no liberalismo um instrumento para ampliar a autonomia nacional e fortalecer o desenvolvimento interno da sociedade brasileira. A disputa entre essas duas orientações acompanha todo o processo de formação do Estado independente, resultando em um liberalismo marcado pela ambiguidade; participa da construção institucional da nação, ao mesmo tempo em que preserva os fundamentos sociais herdados da colonização. A linguagem da liberdade e da cidadania se difunde no plano político, mas permanece limitada pelas estruturas econômicas e sociais que continuam organizadas em torno do latifúndio e da escravidão. Nesse sentido, o liberalismo brasileiro do século XIX expressa uma tentativa de modernização política conduzida sob condições sociais que restringiam o alcance transformador dessas ideias.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a análise chega até aqui, o que se torna mais incômodo não é apenas a inadequação das categorias importadas, mas o fato de que a dominação que se consolida no Brasil prescinde de um sujeito histórico equivalente à burguesia clássica. A ordem capitalista se afirma sem ter produzido plenamente uma classe que concentre, de modo orgânico, direção econômica, projeto político e horizonte civilizatório próprios. O que se estabiliza é um arranjo em que frações dominantes atuam articuladas a centros externos de poder, enquanto internamente administram uma sociedade com desigualdades extremas e formas persistentes de expropriação.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso tira o problema para além da cronologia ou da tipologia das revoluções e obriga a encarar que tipo de capitalismo é esse que se organiza sem universalizar suas promessas e que, ainda assim, consegue se reproduzir com notável continuidade? A partir daí, a interpretação de Florestan excede os limites da reconstrução histórica e mostra a lógica de um capitalismo que organiza sua expansão incorporando antigas hierarquias sociais, em vez de suprimi-las.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Os chamados “cursos de madureza” eram uma modalidade de educação destinada a jovens e adultos que não haviam concluído o ensino regular na idade considerada adequada. Muito difundidos no Brasil entre as décadas de 1930 e 1960, funcionavam como uma forma de certificação supletiva, o estudante preparava-se de maneira autodidata ou em cursos preparatórios e realizava exames de madureza aplicados pelo sistema educacional, que avaliavam conhecimentos equivalentes ao ensino secundário. A aprovação nesses exames permitia obter o diploma necessário para o ingresso na universidade. Foi por esse caminho que Florestan Fernandes, após uma juventude marcada pelo trabalho precoce e interrupção dos estudos formais, conseguiu regularizar sua formação escolar e prestar o vestibular para a Universidade de São Paulo no início da década de 1940. Esse percurso biográfico é frequentemente destacado na literatura sobre o autor, pois evidencia a singularidade de sua trajetória social no interior da intelectualidade brasileira do período.<br />
<strong>[2]</strong> Uma representação cinematográfica expressiva das relações de poder no universo da grande propriedade cafeeira pode ser encontrada no filme Terra É Sempre Terra (Tom Payne, 1951), produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Embora seja uma obra de ficção, o filme oferece um retrato das hierarquias sociais, dos conflitos fundiários e das formas de autoridade presentes no meio rural brasileiro do pós-guerra.</p>
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		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (3)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Aug 2026 16:03:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Para que o trabalho não seja mais central, o que é necessário é um recuo da relação capital-trabalho sob o dinamismo de outra relação social, que finalmente a substituiria por ser mais proeminente do que as outras relações no campo de onde ela tira seu poder de expansão.  Por Michel Freyssenet.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Michel Freyssenet</h3>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">A Difusão da Relação Capital-Trabalho e a Universalização Naturalista do Trabalho</h3>
<p style="text-align: justify;">Se é assim, como esse termo pôde se difundir para designar atividades que não são realizadas sob nenhum aspecto social? Duas generalizações devem ser compreendidas: a do assalariado e dos empregados e, mais amplamente, a do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Os termos salário, assalariados e classe assalariada parecem ter se expandido posteriormente para situações das quais não provinham: por exemplo, o empregado doméstico ou comunitário que vende seus serviços por renda e não por capital e que é pago com salários; os funcionários públicos &#8211; &#8216;servidores civis&#8217; &#8211; cujas remunerações são a recompensa pela função social que exercem em nome da comunidade. Na verdade, apesar da homogeneização legal das condições de trabalho, o tipo de relação não é o mesmo. A subordinação não é do mesmo tipo e a incerteza da relação social não tem a mesma forma de acordo com a relação de emprego considerada. O objetivo do empregador nesses casos não é o enriquecimento pessoal nem a acumulação de capital. O empregador gasta sua renda obtendo os serviços que espera, sem intenção, esperança ou obrigação de recuperar seu capital. O objetivo é a satisfação com o serviço prestado.</p>
<p style="text-align: justify;">Se pode haver, e se realmente há, em intervalos mais ou menos regulares, notadamente por parte das comunidades (Estado, governos locais, associações, instituições etc.), a busca por melhor eficiência a um custo menor por meio de &#8216;reformas&#8217; ou &#8216;contratos&#8217;, é por pressão política de todos ou de alguns daqueles que pagam impostos ou contribuições e que desejam vê-los parar de aumentar ou vê-los diminuir por qualquer motivo, e não pela necessidade de reproduzir o capital para evitar que ele desapareça.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">O Trabalho Hoje se Tornou Central Porque a Relação Social que o Criou Está se Espalhando para Todas as Atividades e Porque Essa Relação é Totalmente Social</h3>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho foi percebida e considerada por muito tempo como uma simples relação mercantil: empresários e trabalhadores compravam e vendiam trabalho a preços de mercado. Foi necessário muitos debates e conflitos ao longo do século XIX para que os assalariados pudessem reconhecer e fazer reconhecer ao seu redor que se tratava de uma relação específica, sujeita a uma legislação especial distinta de outras leis, notadamente as leis comerciais. Não se tratava de um simples mal-entendido ou de um meio para os empregadores se isentarem de toda responsabilidade, notadamente em caso de um acidente. Existiriam, na realidade, formas muito amplamente ambíguas: subcontratação em domicílio e equipes de trabalho móveis lideradas por um trabalhador supervisor. Desde então, reconheceu-se que o contrato de trabalho não é uma troca entre iguais.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele sela a subordinação do trabalhador à autoridade do empregador, mas, ao mesmo tempo, abriga uma incerteza insuperável, a segunda característica essencial dessa relação &#8211; aquilo que cada pessoa considera como vendido ou comprado no ato da contratação é questionado diariamente nas relações de trabalho. O que exatamente cobre uma venda de capacidade de trabalho?</p>
<p style="text-align: justify;">É um trabalhador colocando ao mesmo tempo sua energia, experiência, inteligência, motivação, devoção e imaginação à disposição de outrem? Ou, como a história atesta, é um conflito constante sobre o que cada um pode exigir do outro, em outras palavras, sobre a natureza da respectiva liberdade do trabalhador ou do empregador? O escopo do que se considera ter vendido e do que o outro estima ter comprado não difere apenas por causa de interesses divergentes entre o primeiro e o segundo, mas por causa de uma apreciação diferente sobre o que se julga passível de ser comprado e vendido: devoção e fidelidade fazem parte disso? Motivação, imaginação e inteligência também fazem parte e, em caso afirmativo, em que medida? A definição precisa do trabalho não é apenas uma tendência do empregador que se concretiza na forma de prescrição, é também a demanda do empregado de que sejam estabelecidos limites sobre o que pode ser exigido dele ou dela.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho exige a &#8216;liberdade&#8217; dos trabalhadores para vender suas capacidades de trabalho e o direito dos detentores de capital de comprá-las. Essas duas liberdades não são nem naturais nem permanentes, sem limites nem alterações. Tampouco todos desfrutam dessas liberdades. As crianças até a maioridade, e as esposas até recentemente, e ainda hoje em muitos países, devem ter a autorização de seus pais ou maridos para serem empregadas, e nem sempre dispõem &#8211; de fato ou de direito &#8211; do dinheiro proveniente da venda de suas capacidades. Essas &#8216;liberdades&#8217; estão em constante redefinição e limitação, tanto legal quanto pragmaticamente. Os debates e conflitos sobre a jornada de trabalho não podem ser reduzidos a divergências sobre a qualidade e o ritmo de vida necessários ou aceitáveis em respeito aos imperativos &#8216;econômicos&#8217; e às exigências de reprodução das capacidades de trabalho, mas jogam o trabalhador &#8216;livre&#8217; de volta à &#8216;política&#8217;.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159660 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1.jpg" alt="" width="735" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1.jpg 735w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-515x420.jpg 515w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-640x522.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-681x556.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 735px) 100vw, 735px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho também implicava, se considerada moralmente aceitável, que a soma dos interesses egocêntricos pode sobrepujar ou competir com o interesse e no interesse do bem-estar geral. Verdade seja dita, o julgamento moral do capitalismo ainda permanece em aberto. O novo liberalismo econômico tem sido acompanhado por um discurso não apenas sobre sua eficiência, mas também sobre o fato de que seria mais justo.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, através do ato de vender sua capacidade de trabalho, o empregado reconhece a legitimidade do comprador, seja ela concedida temporária ou parcialmente, e na ambiguidade da autoridade que será exercida sobre o trabalhador. Esse reconhecimento deve ser reconfirmado diariamente no ato do trabalho para que a relação capital-trabalho possa se reproduzir. O trabalhador &#8216;livre&#8217; aceita a alienação de sua &#8216;liberdade&#8217; para trabalhar durante as horas de trabalho e limitar seus direitos de cidadão que lhe são exteriores ao tempo e espaço da empresa onde está empregado.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação de emprego, e notadamente a relação capital-trabalho, não se presta facilmente à análise em termos econômicos ou, inversamente, políticos ou simbólicos. Ela contém todas as dimensões do social. Ela não parece ser simplesmente uma relação social na ordem econômica, ou uma relação econômica imersa no social, mas uma relação totalmente social capaz de ordenar e estruturar toda ou grande parte do social, como outras relações sociais são capazes de fazer em outras sociedades.</p>
<p style="text-align: justify;">A incerteza, inerente ao contrato de trabalho, não se limita às condições imprevisíveis de realização que podem ocorrer, mas à própria natureza das capacidades de trabalho que se gostaria de comprar como mercadorias, e que não é possível. Isso explica a necessidade de regras materiais, legais, relacionais e sociais explícitas ou implícitas, sancionadas ou não pelo poder público, para que o detentor do capital tenha mais segurança em obter os produtos que espera dos empregados cujas capacidades de trabalho comprou.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira via consiste em estabelecer factualmente, ou mesmo legalmente, uma relação de confiança, através da qual, em troca da garantia de seus trabalhadores pelo volume esperado de produção, pelo crescimento da produtividade, pela qualidade da participação e invenção de novos processos graças à especialização profissional voluntária e mobilidade, o empregador, por sua vez, dá a seus empregados a garantia de aumentar o número de empregados e seus salários, bem como a capacidade de descobrir e verificar a pertinência das escolhas estratégicas das quais dependem as garantias obtidas. Ao longo dessa via, as divisões do trabalho ocorrem entre especialistas em diferentes áreas de conhecimento e saber-fazer, cada um dos especialistas sendo não apenas útil, mas, mais importante, indispensável para projetar, organizar e alcançar o resultado esperado. A divisão concepção/execução contradiz, a esse respeito, o pacto de confiança inicial, e é contraproducente. É essa a via seguida no passado? Ela está experimentando certo renascimento hoje? Deixando de lado uma análise renovada da história industrial, parece que há poucos exemplos do tipo de relação de emprego que esse pacto de confiança pressupõe, e que a partilha do trabalho entre especialistas de níveis semelhantes de capacidade é uma forma de dividir o trabalho que nunca se enraizou, mesmo que, ocasionalmente, alguns exemplos possam ser vistos.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda via consiste em intervir no desenho do processo produtivo, das ferramentas e máquinas, da organização do trabalho e das formas de cooperação entre os empregados para que esses mecanismos limitem a atividade ou se imponham, tanto quanto possível, àqueles que terão que realizar as tarefas, embora um enquadramento e uma prescrição absolutos sejam impossíveis. Uma parte essencial da inteligência do trabalho passa então para a autoridade do empregador e, por causa disso, muda de conteúdo e forma. A divisão da inteligência do trabalho substitui então a partilha do trabalho entre especialistas. Ela limita a variedade de técnicas de produção e as formas de organização do trabalho, regras, estruturação, classificação e treinamento. A intervenção do empregador no desenho do processo produtivo já é observável nas origens da relação capital-trabalho, bem como na construção de um grupo ou de vários grupos de empregados destinados a ajudá-lo nessa tarefa.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159661 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1.jpg" alt="" width="403" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1.jpg 403w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1-202x300.jpg 202w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1-282x420.jpg 282w" sizes="auto, (max-width: 403px) 100vw, 403px" /></p>
<h3 style="text-align: justify;">O Trabalho Está Perdendo a Centralidade que Adquiriu? Ele Não Estabelece Mais o Vínculo Social?</h3>
<p style="text-align: justify;">No debate atual sobre a perda da centralidade do trabalho, pelo menos três posições podem ser distinguidas, levando a conclusões práticas muito diferentes. Para alguns, o trabalho mudou de natureza e deve ser percebido, a partir de agora, como uma atividade que permite a cada um dar prova de suas capacidades. Para outros, o trabalho não é mais &#8211; se é que algum dia foi &#8211; a única fonte de riqueza e não é mais economicamente central. Finalmente, para outros ainda, os possíveis ganhos de produtividade são hoje tão grandes com as novas tecnologias que não será mais possível, no futuro, dar trabalho a todos. É uma oportunidade para praticar uma ampla divisão do trabalho e permitir que o maior número de pessoas tenha acesso a atividades de sua própria escolha.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o primeiro grupo, o trabalho representa uma atividade constrangedora, prescritiva e imposta, sem autonomia. Em outras palavras, é o trabalho taylorista, como foi descrito e generalizado de forma abusiva. Notando que esse tipo de trabalho está sendo substituído por uma atividade que envolve vigilância, intervenção e comunicação, capaz de dar lugar à iniciativa e invenção (o que decorre mais de afirmação ou desejo do que de observação e análise [Freyssenet, 1992]), eles concluem que uma nova realidade está emergindo, que não merece mais o nome de &#8216;trabalho&#8217;, na medida em que permite a realização pessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o segundo grupo, a teoria do valor fundada no trabalho é teórica e pragmaticamente invalidada. O trabalho não é mais &#8211; se é que algum dia foi &#8211; o elemento fundamental ou exclusivo da produção de valor. O desempenho econômico não pode ser ou não está mais diretamente ligado ao trabalho, em termos de seu volume, qualidade, organização no chão de fábrica, gestão da produção, organização do projeto, relacionamento com os clientes etc. Mas, em qualquer caso, o trabalho nunca foi conceitualmente limitado ao do chão de fábrica.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o terceiro grupo, o trabalho é fundamental e definitivamente constrangedor. É inútil esperar transformá-lo em um meio de realização. No entanto, é apropriado usar o máximo de seu potencial para a redução do tempo consagrado a ele para que cada um possa se concentrar nas atividades sociais e culturais de sua escolha e, assim, permitir que outras relações sociais emerjam. Isso pressupõe, antes de tudo, o crescimento dos ganhos de produtividade, que devem ser sempre mais importantes do que os dos concorrentes em potencial, para não ter que questionar a contínua redução do tempo de trabalho; em seguida, uma proibição do investimento de capital em novas atividades sociais que tenham revelado um mercado potencial <em>de fato</em>; finalmente, uma forte autoridade política dispondo de meios suficientes para garantir uma parte do trabalho que permanece socialmente necessário ou uma renda mínima de existência para todos, e o tempo para cuidar das conversões periódicas inerentes às mudanças técnicas e organizacionais da produção. Mas, nesse caso, o trabalho continuaria sendo a condição de existência e supremacia: ou seja, continuaria de fato central, objeto de toda a atenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o trabalho é analisado como uma invenção histórica, como se tentou aqui, então somos levados a pensar que o fim de sua centralidade não será visto tão cedo. Para que o trabalho não seja mais central, será necessário que a venda da capacidade de trabalho de cada pessoa ou do produto de seu trabalho &#8211; ainda que apenas parcialmente &#8211; não seja a condição para aceder ao que historicamente se tornou uma condição de vida, mesmo em nossa sociedade. Também seria necessário não investir mais capital em todas as áreas antigas ou novas da vida social, como é feito irresistivelmente, apesar das paradas temporárias que podem ser impostas a ele de tempos em tempos, pois essa expansão para novos campos é uma condição para a reprodução do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora o exercício pareça um tanto patético, pode-se arriscar algum raciocínio. Para que o trabalho não seja mais central, o que é necessário é um recuo da relação capital-trabalho sob o dinamismo de outra relação social, que finalmente a substituiria por ser mais proeminente do que as outras relações no campo de onde ela tira seu poder de expansão. Não é exagero dizer que muitos têm dificuldade em imaginar o processo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159662 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1.jpg" alt="" width="650" height="475" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1.jpg 650w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1-300x219.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1-575x420.jpg 575w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1-640x468.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Bibliografia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">BIDET, J. e TEXIER, J. (1995) <em>La crise du travail</em> (A Crise do Trabalho). Paris: PUF.</p>
<p style="text-align: justify;">BOYER, R. e FREYSSENET, M. (1995) &#8216;Emergence of New Industrial Models. Hypothesis&#8217;, <em>Actes du GERPISA</em> 15.</p>
<p style="text-align: justify;">BOYER, R. E FREYSSENET, M. (no prelo) <em>The World that Changed the Machine</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">CARTIER, Michel (org.) (1984) <em>Le travail et ses représentations</em> (O Trabalho e suas Representações). Paris: EAC.</p>
<p style="text-align: justify;">CHAMOUX, Marie-Noëlle (1994) &#8216;Société avec et sans concept de travail: remarques anthropologiques&#8217; (Sociedades com e sem o Conceito de Trabalho), edição especial, &#8216;Les énigmes du travail&#8217; (Os Enigmas do Trabalho), de <em>Sociologie du travail</em> outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">DESCOLA, Pierre (1986) <em>La Nature domestiquée. Symbolisme et praxis dans l&#8217;écologie des Achuars</em> (A Natureza Domesticada. Simbolismo e práxis na ecologia dos Achuar). Paris: Edition de la Maison des Sciences de l&#8217;Homme.</p>
<p style="text-align: justify;">DUMONT, Louis (1985) <em>Homo aequalis</em>. Paris: Gallimard.</p>
<p style="text-align: justify;">ENGELS, Friedrich e MARX, Karl (1968) <em>L&#8217;idéologie allemande</em> (A Ideologia Alemã). Paris: Editions Sociales.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, Michel (1972) <em>Travail productif et travail improductif</em> (Trabalho Produtivo e Trabalho Improdutivo). Paris: CSU.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, Michel (1992) &#8216;Processus et formes sociales d&#8217;automatisation. Le Paradigme sociologique&#8217; (Processos e Formas Sociais de Automação: O Paradigma Sociológico), <em>Sociologie du travail</em> 4: 469-96.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M. (1994) &#8216;Quelques pistes nouvelles de conceptualisation du travail&#8217; (Algumas Novas Pistas para a Conceituação do Trabalho), <em>Sociologie du travail</em>: 105-22.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M. e MAGRI, S. (orgs.) (1989) <em>Les rapports sociaux et leurs enjeux</em> (As Relações Sociais e suas Apostas), Vol. 1. Paris: CSU.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M. e MAGRI, S. (orgs.) (1990) <em>Les Rapports sociaux et leurs enjeux</em> (As Relações Sociais e suas Apostas), Vol. 2. Paris: CSU.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M., MAIR, A., SHIMIZU, K. E VOLPATO, G. (orgs.) (1998) <em>One Best Way? Trajectories and Industrial Models of the World&#8217;s Automobile Producers</em> (Um Melhor Caminho? Trajetórias e Modelos Industriais dos Produtores de Automóveis do Mundo). Oxford: Oxford University Press.</p>
<p style="text-align: justify;">GODELIER, M. (1984) <em>L&#8217;idéal et le matériel</em> (O Ideal e o Material). Paris: Fayard.</p>
<p style="text-align: justify;">GODELIER, M. (1990) &#8216;L&#8217;oeuvre de Marx&#8217; (A Obra de Marx), <em>Actual Marx</em> 7 (setembro).</p>
<p style="text-align: justify;">LE GOFF, J. (1986) <em>La bourse et la vie</em> (A Bolsa e a Vida). Paris: Hachette.</p>
<p style="text-align: justify;">MARX, Karl (1932) <em>Histoires des doctrines économiques</em> (História das Doutrinas Econômicas), Vol. 2. Paris: Costes.</p>
<p style="text-align: justify;">POLANYI, K. (1983) <em>La grande transformation</em> (A Grande Transformação). Paris: Gallimard.</p>
<p style="text-align: justify;">REYNAUD, B. (1992) <em>Le salaire, la règle et le marché</em> (O Salário, a Regra e o Mercado). Paris: Christian Bourgois Ed.</p>
<p style="text-align: justify;">ROLLE, P. (1971) <em>Introduction à la sociologie du travail</em> (Introdução à Sociologia do Trabalho). Paris: Larousse.</p>
<p style="text-align: justify;">SAHLINS, M. (1980) <em>Au coeur des sociétés. Raison utilitaire et raison culturelle</em> (No Coração das Sociedades. Razão Utilitária e Razão Cultural). Paris: Gallimard.</p>
<p style="text-align: justify;">VERNANT, J.-P. (1965) <em>Mythe et pensée chez les Grecs</em> (Mito e Pensamento entre os Gregos). Paris: Maspero.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Forrest Bess (1911-1977).</em></p>
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		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Aug 2026 11:57:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Hoje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso. Por Michel Freyssenet]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Michel Freyssenet</strong></h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As relações capital-trabalho e o trabalho que essa relação historicamente engendrou não estão ligadas conceitualmente à produção material</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em suas pesquisas sobre o trabalho produtivo e improdutivo, Marx mostrou que essa distinção só tem significado em relação a uma forma de acumulação social. Retomando a tese de Adam Smith e defendendo-a contra J. B. Say e os pós-clássicos, ele mostra que a definição de trabalhador produtivo como produtor de valores de uso não tem interesse científico, qualquer pessoa o sendo a partir do momento em que o produto material ou imaterial de sua atividade encontra algum uso, mesmo que seja fantasioso. O objetivo da produção capitalista não sendo a produção de valores de uso ou mercadorias por si mesmas, mas a reprodução do valor antigo e a criação de mais-valia, o trabalho produtivo é, portanto, aquele que é trocado por capital, enquanto o trabalho improdutivo é aquele que é trocado por renda, qualquer que seja sua forma (salário, lucro, anuidade, imposto e assim por diante).</p>
<p style="text-align: justify;">Marx diferencia-se de Smith em um ponto importante. Para Smith, o trabalho produtivo de capital corresponde à produção de bens materiais na forma de mercadorias, e o trabalho improdutivo na forma de &#8216;serviços&#8217;, definidos como trocas de pessoa para pessoa. Ele estabelece, portanto, a distinção produtivo-improdutivo não apenas na relação do trabalho com o capital, mas também em uma diferença na natureza da atividade. Ele introduz uma segunda determinação: a da materialidade do produto. Ao contrário, Marx mostra que, se é verdade que o trabalho produtivo de capital produz bens materiais na maioria das vezes, sua definição não tem nada a ver com seu conteúdo concreto, mas designa exclusivamente uma relação social. Uma pessoa exercendo a mesma atividade &#8211; cozinhar, por exemplo &#8211; será produtiva ou improdutiva do ponto de vista do capital, dependendo se vende sua capacidade de trabalho para um dono de restaurante ou para um indivíduo: isto é, dependendo se sua capacidade de trabalho é trocada por capital para valorizá-lo ou por renda para satisfazer as necessidades do detentor dessa renda. Um professor será produtivo (do ponto de vista do capital) se for empregado por uma instituição escolar com fins lucrativos, mas improdutivo de capital se der aulas particulares em uma família ou no sistema educacional nacional. Quando Marx diz que a característica dos “trabalhadores produtivos, o que significa trabalhadores que produzem capital, é que seu trabalho se manifesta em mercadorias ou riqueza material”, ele fala de mercadorias no sentido de valor de troca, ele designa “uma existência social fictícia e puramente social das mercadorias, absolutamente distinta de sua realidade física; … a ilusão decorre aqui de como uma relação social se manifesta na forma de um objeto” (Marx, 1932: 33-4).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159638" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749.jpg" alt="" width="1473" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749.jpg 1473w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-276x300.jpg 276w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-943x1024.jpg 943w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-768x834.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-1414x1536.jpg 1414w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-387x420.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-640x695.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-681x740.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1473px) 100vw, 1473px" />Ao considerar o conceito de relação capital-trabalho como uma relação puramente social, ao mostrar que ela não está ligada à produção material, Marx transforma, portanto, essa &#8216;relação social de produção&#8217;, historicamente datada, em uma relação cuja preeminência sobre outras relações não pode mais advir de atividades que servem à reprodução material de uma sociedade. Ele nunca parece ter tirado tal conclusão. Ainda assim, ela decorre logicamente de sua análise do trabalho produtivo do capital. Ela está, como foi visto, em contradição com o naturalismo materialista de <em>A Ideologia Alemã</em> <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, hoje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso.oje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas sociedades capitalistas, a mesma atividade pode ser trabalho ou não-trabalho. Sua natureza não faz diferença. Depende se a atividade é realizada ou não em uma das três relações sociais: a relação de emprego, a relação mercantil (nem em todos os casos) e a relação doméstica (que está começando a ser, mas não é admitida por todos). Deve-se finalmente notar que um número crescente de atividades, tidas como não fazendo parte da economia e não sendo trabalho, tornam-se trabalho com a difusão da relação de emprego e, particularmente, da relação capital-trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma dada atividade pode ser trabalho ou não-trabalho de acordo com o momento ou a pessoa que a realiza: jardinagem, dirigir, cozinhar, construir, cantar etc. A mesma atividade pode ser trabalho e não-trabalho ao mesmo tempo. Assim, uma pessoa com seus próprios filhos cuida simultaneamente dos filhos de outros em troca de remuneração. Portanto, só se pode dizer que uma atividade é trabalho se a relação social na qual é realizada for especificada. E hoje, há apenas três relações sociais que estimulam a reflexão sobre o trabalho: as relações de emprego, mercantil e doméstica.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159637" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288.jpg" alt="" width="474" height="474" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-420x420.jpg 420w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />As relações sociais que transformam atividades em trabalho não estão mais ligadas a uma área social particular. Elas são suscetíveis de organizar atividades muito diversas, muitas das quais não fazem parte do que é comumente acordado como produção, ou do campo econômico.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho, por exemplo, expandiu-se e continua a se expandir cada vez mais para atividades consideradas no passado como fora da esfera econômica: lazer, esportes, política, religião, símbolos, ciência, arte, filosofia, polícia etc. Ela não dizia respeito, originalmente, às atividades essenciais da vida material. Ela tardou em incluir as atividades agrícolas em alguns países. Seus limites variáveis no tempo e no espaço, as tentativas muitas vezes vãs de conter o expansionismo, mostram que é uma relação indiferente à natureza das atividades que organiza. Por exemplo, hoje, começam as discussões para descobrir sob qual relação social (doação, compensação, compra ou salário) toda ou parte da reprodução humana será realizada no futuro, ou mesmo o ato de &#8216;acompanhar&#8217; os moribundos. A relação capital-trabalho é, portanto, uma relação social capaz de se espalhar para todos os tipos de atividades. Nenhuma delas, <em>a priori</em>, pode escapar a essa relação por sua natureza. Mesmo essa expansão, ultrapassando todas as fronteiras atualmente estabelecidas nas sociedades ocidentais entre os tipos de atividades humanas, confirma o caráter puramente social e histórico da economia e do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Desse ponto de vista, pode-se dizer que o trabalho se torna sempre central: tanto porque é, para o maior número, a forma indispensável de atividade para acessar os recursos materiais e imateriais necessários para viver em nossas sociedades, quanto porque está se tornando cada vez mais a manifestação das atividades humanas. Hoje, cabe à sociedade descobrir se limites não deveriam ser impostos à mercantilização das relações humanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim que uma das relações sociais conhecidas como de produção &#8211; neste caso, a relação capital-trabalho &#8211; não está ligada conceitualmente à reprodução material da vida em sociedade, torna-se impossível fazer deste último o critério de definição e insistir na preeminência das relações sociais de produção em geral sobre outras relações sociais. Esse fato invalida a possibilidade de construir um conceito universal de relações sociais de produção e leva a considerar a relação capital-trabalho como uma relação &#8216;totalmente social&#8217; &#8211; ou seja, como uma relação que não pertence a uma área particular de atividade que existiria fora dela mesma; que não pertence a uma categoria particular de relações sociais; que é única como todas as relações sociais o são; que é capaz de organizar a quase-totalidade da vida social, como outras relações sociais na história parecem ter sido capazes de fazer; e, finalmente, que não apresenta uma dimensão que prevalece sobre as outras, como a própria análise da relação capital-trabalho mostra, sendo essa relação tão política e simbólica quanto econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalho seria então uma pura construção social sem nenhum vínculo com as exigências naturais? Como é possível compreender que uma relação social possa historicamente prevalecer sobre outras, e às vezes hegemonizar e homogeneizar todo o social, se ela não obtém controle sobre as atividades &#8216;vitais&#8217; das sociedades consideradas? É difícil acreditar que não existem condições necessárias para a reprodução de qualquer sociedade na espécie humana, e que as condições específicas de cada sociedade são as únicas que contam.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas essas condições gerais são múltiplas: comer e beber, claro, possivelmente vestir-se e abrigar-se, mas também procriar, respirar, comunicar-se, ser reconhecido, mover-se, não ser morto e muitas outras condições conhecidas ou desconhecidas. Essas condições &#8216;vitais&#8217; só se tornam vitais e são percebidas como tais a partir do momento em que não são mais dadas natural ou socialmente a todos ou ao maior número. É por isso que algumas (como respirar) são risíveis, porque até agora o ar, embora de qualidade variável, permanece diretamente acessível a todos. Esse exemplo, no entanto, tem o mérito de lembrar o caráter social e histórico das condições de reprodução da vida em sociedade. Elas só adquirem o status de condições se forem objetos de rarefação natural, de apropriação social ou de restrição coletiva. Nesse ponto, pode-se pensar que a reprodução material e o trabalho como uma atividade que lhe seria dedicada não puderam ser socialmente importantes ou fundantes, se outras condições igualmente essenciais para a vida em sociedade ou para tal ou qual sociedade fossem o objeto preferencial de apropriação privada ou de controle político por uma minoria.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159639" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893.jpg" alt="" width="900" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-300x233.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-768x597.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-540x420.jpg 540w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-640x498.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-681x530.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />Dessa perspectiva, cada relação social teria seu valor, sua economia, sua racionalidade, sua forma de repartição e divisão das atividades que governa, seus princípios técnicos, e assim por diante, podendo tornar-se os de uma sociedade, se essa relação social acabar prevalecendo sobre as outras historicamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, pode-se levantar a hipótese de que uma relação social se torna importante quando transforma alguns dados naturais ou culturais em questões sociais em jogo, em condições não garantidas de vida em sociedade e nos meios de diferenciação e controle. Essa relação social se torna fundamental quando é capaz de ser o caminho indispensável para aceder ao que se tornaram os recursos materiais e imateriais (de qualquer tipo) necessários à vida na sociedade considerada.</p>
<p style="text-align: justify;">O que se entende por economia e por trabalho não existiria e, portanto, só seria importante nas sociedades capitalistas. Eles herdariam suas características centrais do que são a manifestação e designação naturalizadas de uma relação social que se tornou hegemônica ao governar certas condições gerais necessárias à vida em sociedade e as condições particulares pertencentes às nossas próprias sociedades.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Pode ser necessário hoje reter esse esforço dos trabalhos científicos de Marx &#8211; que pode ser visto em sua escrita e ainda mais à medida que ele coloca suas próprias análises em questão, particularmente aquelas da desnaturalização e historicização de noções e realidades comuns &#8211; um esforço que está longe de ter sido perseguido, inclusive por aqueles que denunciaram o materialismo de Marx, como visto na convicção amplamente difundida em todos os tipos de correntes filosóficas e políticas de que o trabalho é inerente à condição humana.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Hélio Oiticia(1937-1980).</em></p>
<blockquote><p>Este artigo será publicado em três partes, a <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159546/" target="_blank" rel="noopener">parte 1</a> está aqui, e a parte 3 será publicada em uma semana.</p></blockquote>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (9)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Aug 2026 19:54:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[A mudança nas formas de ação coletiva é uma habilidade dialética. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 3: REVOLTA LINHA</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 7</strong></h5>
<h6 style="text-align: justify;"><strong>A Longa Crise</strong></h6>
<p style="text-align: justify;">A revolta e a crise chegam juntas, cada uma anunciando a outra. A nova era de revoltas surge não apenas com a intensificação das rebeliões urbanas e suburbanas, mas também com o eclipse dos movimentos operários, as linhas de tendência das revoltas e greves primeiro se cruzando e depois divergindo, em sincronia com o auge e o declínio do “longo século XX” da hegemonia americana. O que a crise tem a ver com as revoltas, além dessa coincidência e de uma sensação ansiosa e difusa de que as coisas estão desmoronando?</p>
<p style="text-align: justify;">A profunda relação entre revoltas e crises é o tema do restante deste livro, principalmente por causa de nosso argumento central: <em>a crise sinaliza uma mudança do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e as revoltas devem ser entendidas, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a luta pela fixação de preços e a rebelião do excedente são formas distintas, embora relacionadas</em>. Nos capítulos anteriores, isso foi aventado de forma fragmentada e agora merece um desdobramento sistemático. Isso é particularmente necessário, dado que a crise aparece na maioria das vezes como um evento pontual, mesmo que expresse um processo subjacente e contínuo no qual o capital encontra seus limites internos e luta violentamente para superá-los. A crise é o ponto de exclamação de uma profunda reorganização social. As revoltas expressam essa organização social alterada, dirigem-se a ela e procuram aboli-la e, assim, a si próprias.</p>
<p style="text-align: justify;">A Longa Recessão, para usar a linguagem de Brenner, é semelhante a declínios anteriores. Este livro argumenta, no entanto, que as últimas quatro décadas podem ser entendidas de forma um pouco diferente, como uma Longa Crise. O período atual distingue-se de passagens semelhantes em ciclos anteriores na medida em que as recuperações do tipo visto anteriormente permanecem invisíveis do nosso ponto de vista. Historicamente, o capital resolveu sua contradição em desenvolvimento realocando-se para outro lugar, buscando uma circunstância em que a produção ainda não tivesse se prejudicado e o processo de acumulação pudesse recomeçar em uma base nova e ampliada. Isso tem o efeito de restabilizar o sistema mundial capitalista volatilizado pela crise secular. Não está claro se isso aconteceu ou está em andamento nos anos desde a recessão econômica global do final dos anos 1960 e início dos anos 1970. As tentativas de uma nova hegemonia pelas economias do Leste Asiático e da zona do euro fracassaram no caminho; as “economias emergentes” parecem já estar muito avançadas em sua produtividade para impulsionar a acumulação em escala global, internalizando massas de nova mão de obra na indústria ou na categoria mais ampla da manufatura <strong>[1]</strong>. O mal-estar planetário persiste, e com ele a volatilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não significa que as realocações e restaurações da acumulação de capital sejam impossíveis. Só por sua conta e risco se faz afirmações contundentes sobre um período histórico enquanto ainda se vive nele. Portanto, essas observações devem ser um tanto provisórias, uma tentativa de desenvolver um relato razoavelmente unificado da época. Há, pelo menos, algum consenso sobre por onde começar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159614" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935.jpg" alt="" width="653" height="881" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935.jpg 653w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-222x300.jpg 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-311x420.jpg 311w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-640x863.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 653px) 100vw, 653px" />“E quanto a 1973-1974, então?”, questionou Fernand Braudel, grande historiador da <em>longue durée</em>. O ano de 1973 vê o primeiro de uma série de choques do petróleo, a retirada formal dos EUA de sua aventura no Sudeste Asiático e o colapso final do sistema monetário de Bretton Woods, preparando o terreno para o aumento dos desequilíbrios comerciais e da conta corrente; concomitantemente, há uma desaceleração global dos mercados. Este é apenas o começo do história. “Trata-se de uma crise conjuntural de curto prazo, como a maioria dos economistas parecem pensar assim? Ou tivemos o privilégio raro e nada invejável de ver com nossos próprios olhos o início da virada do século?” <strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As perguntas são retóricas. Braudel está avaliando os “ciclos seculares”, os períodos econômicos mais longos — o que Arrighi esclareceria como ciclos de acumulação liderados por um Estado capaz de impulsionar a expansão material de uma economia mundial, sobre a qual a nação líder alcança hegemonia na medida em que seus ganhos fazem parte dos lucros sistêmicos (e na medida em que é capaz de garantir estabilidade ao sistema interestadual). Ambos os escritores remontam aos impérios comerciais protocapitalistas para uma consideração de quatro ciclos cada vez maiores e mais rápidos, mas com padrões semelhantes. Para Braudel, um ciclo começa quando outro termina, à maneira dos reinados monárquicos. Na versão revisada de Arrighi, eles se sobrepõem, com uma hegemonia entrando em sua fase crepuscular de financeirização, descendo para a escuridão com crédito prolongado, mesmo enquanto financia a aceleração de uma hegemonia emergente em direção à decolagem industrial.</p>
<p style="text-align: justify;">Inevitavelmente, “1973” é uma metonímia para mudanças demasiado amplas para serem contidas num único ano. No entanto, esta datação do “ponto em que a tendência secular começa a entrar em declínio, ou seja, o momento da crise” tornou-se um assunto de amplo consenso entre historiadores e teóricos da <em>longue durée</em>, apesar de diferenças relativamente pequenas <strong>[3]</strong>. Já encontramos o fato mais dramático, da perspectiva da acumulação e da hegemonia: o colapso secular da lucratividade e do crescimento, liderado pelo declínio da indústria manufatureira dos EUA, de tal forma que os melhores anos da recessão são piores do que os melhores anos do <em>boom</em> (com apenas uma ou duas pequenas exceções). Podemos, portanto, datar a ascensão cíclica das finanças a partir desse momento, embora não porque as finanças tenham “expulsado” o capital industrial — um modelo conceitual que abre caminho para a ideia catastrófica de capitalismo bom e ruim, ou capitalismo saudável e doentio. O capital é um espaço unitário de fluxos que buscam oportunidades de investimento que retornem a taxa média de lucro. Quando essa exigência não pode mais ser satisfeita por um setor industrial em crescimento, os lucros são armazenados em refúgios seguros ou reinvestidos em outros lugares em empreendimentos comerciais e/ou instrumentos financeiros. Financeirização é simplesmente o nome dado a essa mudança nos fluxos de capital. Quando observamos a publicação da obra mais célebre da engenharia financeira, o modelo de precificação de opções de Black-Scholes, ou a abertura do primeiro grande mercado de derivativos, a Chicago Board Options Exchange, ambos em 1973, devemos ter claro que essas não são novas armas que permitem às forças financeiras derrubar as paredes da indústria. Elas são consequências da necessidade do capital de espaço para ir além do setor industrial.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>O Arco da Acumulação</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A teoria da crise aborda a questão de por que a expansão industrial deve terminar e dar lugar às longas especulações financeiras em um grande redirecionamento dos fluxos de capital pontuado por uma desvalorização maciça. Arrighi e Brenner, possivelmente os dois historiadores econômicos mais convincentes do período que atingiu seu auge em 1973, oferecem explicações divergentes para esse declínio específico da acumulação, com base em suas diferentes percepções do que é o capitalismo; ambos também divergem em alguns detalhes da teoria abstrata da crise de Marx.</p>
<p style="text-align: justify;">O modelo de Arrighi é pouco teorizado, em consonância com sua abordagem mais descritiva das economias mundiais. Ele sugere uma causalidade um tanto eclética, baseada em uma teoria da crise amplamente smithiana, que pressupõe que a concorrência de mercado corrói constantemente a margem de lucro. As lutas trabalhistas (entendidas à maneira de Karl Polanyi) oferecem outra pressão sobre os lucros, assim como o custo das funções hegemônicas de guarda global. Isso motiva o investimento a se afastar do nexo Estado-Indústria, que se encontra em dificuldades, em direção aos mercados financeiros internacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">A teorização mais sistemática de Brenner baseia-se em um modelo de superprodução no qual a capacidade industrial incontestável dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial acaba enfrentando a concorrência de produtores internacionais mais eficientes, notadamente Alemanha e Japão. Com altos níveis de investimento já imobilizados em capital fixo, cujo valor só pode ser recuperado por meio da fabricação de mais commodities, as empresas americanas são incapazes de reduzir a produção e, portanto, ficam presas em uma concorrência fratricida por participação no mercado. As empresas que deveriam ser eliminadas de um setor em uma onda de destruição criativa destinada a abrir canais para um novo crescimento, em vez disso, cambaleiam para frente, muitas vezes apoiadas pelo Estado, que precisa de sua riqueza e gestão de mão de obra para sua estabilidade. Isso leva ao “que foi efetivamente um processo de superinvestimento, levando ao excesso de capacidade e à superprodução na manufatura em escala internacional”, iniciando uma turbulência sistêmica que ainda não diminuiu <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ambas as análises permanecem no nível dos preços, o nível quantitativo que descreve a manifestação efetiva da crise. Para a análise do valor de Marx, os movimentos dos lucros são fenômenos superficiais que correspondem a uma mudança subjacente no equilíbrio entre capital constante e variável: meios de produção e trabalho assalariado, ou trabalho morto e vivo. Apesar das forças contrárias, essa chamada composição orgânica do capital tende a aumentar com o tempo, à medida que a concorrência obriga a aumentar a produtividade, substituindo iterativamente o trabalho por máquinas e processos de trabalho mais eficientes (o que o século XX conheceu como fordismo e taylorismo, respectivamente).</p>
<p style="text-align: justify;">Esse domínio crescente do trabalho morto sobre o vivo é uma expressão em toda a sociedade da lei do valor, à medida que o aumento da produtividade diminui a quantidade média de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir mercadorias. As consequências econômicas ocorrem de forma desigual. Inicialmente, os aumentos na produtividade geram lucros elevados que atraem mais investimentos e mais mão de obra para a produção. Isso, em combinação, produz uma expansão ainda maior. Com o tempo, porém, o aumento na proporção entre trabalho morto e vivo prejudica a capacidade de produção de valor, sendo o trabalho vivo no processo de produção a única fonte de mais-valia. A mesma dinâmica que originalmente impulsiona a acumulação — o aumento da produtividade no nexo entre salário e mercadoria — também a prejudica, até que a capacidade de produção e a capacidade de trabalho não possam mais ser reunidas e, em vez disso, fábricas vazias e populações desempregadas se acumulem lado a lado. Esse processo ampliado é o que chamamos de <em>produção da não produção</em>. A crise e o declínio não vêm de choques extrínsecos, mas dos limites internos do capital. Podemos chamar isso de “arco de acumulação”, que traça as contradições do capital ao longo do eixo do tempo histórico. Chamá-lo de arco sem dúvida suaviza uma trajetória irregular <strong>[5]</strong>. Além disso, o enredo não expressa algum fato simplesmente quantitativo sobre taxas de crescimento ou similares. Os dois lados do arco, embora ainda sejam arranjos do capitalismo e expressões da dinâmica do valor, são qualitativamente diferentes em sua organização social em uma dialética de continuidade e ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159611" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155.jpg" alt="" width="640" height="448" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155-300x210.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155-600x420.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />No longo século XX, o arco de acumulação viu primeiro a “transferência sem precedentes da população da agricultura para a indústria” e, em seguida, em uma grande reversão, a desindustrialização, afastando a população da indústria e do processo de produção de maneira mais geral, levando-a para o trabalho no setor de serviços ou para o subemprego e o desemprego <strong>[6]</strong>. Essas são reorganizações sociais em escala global.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de suas diferentes análises de causalidade, tanto Brenner quanto Arrighi conseguem escavar a forte relação entre a explicação <em>lógica</em> da acumulação autodestrutiva e a explicação <em>histórica</em> dos ciclos capitalistas, particularmente do ciclo atual em que se concentram. Ou seja, apesar de todas as suas sutilezas metafísicas, o debate sobre a chamada Lei da Tendência da Queda da Taxa de Lucro tem uma correspondência suficiente com as ascensões e quedas que Arrighi apresentou de forma tão abrangente. A explicação de Arrighi começa com a fórmula de Marx para a reprodução ampliada do capital, D-M-D&#8217; (dinheiro-mercadoria-dinheiro&#8217;): o itinerário obrigatório do dinheiro da perspectiva do capitalista, passando para a produção de mercadorias se, e somente se, as mercadorias resultantes puderem ser vendidas a um preço mais alto — pois o capitalista só continua sendo capitalista se isso for possível. A novidade de Arrighi é, então, transferir esse processo lógico para a história empírica de seus “longos séculos”. Ele identifica “a alternância de épocas de expansão material (fases D-M de acumulação de capital) com fases de renascimento e expansão financeira (fases M-D&#8217;)”. Ele narra essa mudança de fase por meio de sua oposição temporal dos períodos D-M e M-D&#8217;:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nas fases de expansão material, o capital monetário “coloca em movimento” uma massa crescente de mercadorias (incluindo a força de trabalho mercantilizada e os dons da natureza); e nas fases de expansão financeira, uma massa crescente de capital monetário “se liberta” de sua forma mercantil, e a acumulação prossegue por meio de transações financeiras (como na fórmula resumida de Marx, D-D´). Juntas, as duas épocas ou fases constituem um ciclo sistêmico completo de acumulação (D-M-D&#8217;) <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na era do capitalismo moderno, essa fase de expansão material é cognata com o crescimento industrial. Nessa fase, a ação principal é a compra de força de trabalho e de meios de produção para a fabricação de mercadorias — ou seja, a valorização dentro do processo de produção. No período de expansão financeira, a principal ação é a venda dessas mercadorias para a realização do valor que elas carregam — ou seja, o capital se recentra no mercado, na troca e no consumo. Esse é o sentido de uma era de circulação da perspectiva do capital: à medida que a capacidade da produção de gerar altos lucros diminui, o capital muda seus investimentos para a realização no presente imediato tanto do valor existente quanto do valor que supostamente está por ser gerado no futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser formulado de outra maneira. A crise irrompe no momento em que o lucro e a expectativa de lucro deixam de fluir da manufatura. Nesse momento, os credores procuram cobrar suas dívidas antes que os devedores fiquem sem recursos; as empresas devedoras, por sua vez, são obrigadas a deixar de reinvestir na produção, enquanto vendem freneticamente seus produtos no mercado para cumprir suas obrigações. Ou podemos narrar os fatos como mencionado anteriormente: o dinheiro disponível para reinvestimento deixa de circular quando os lucros da produção caem abaixo de um certo limite e fica cada vez mais parado nos bancos, marcando passo enquanto aguarda oportunidades de investimento suficientemente tentadoras. Esse momento de imobilidade é o momento da crise; quando o capital começa a circular novamente, ele busca tanto o comércio quanto os créditos sobre o valor futuro, o que Marx chama de capital fictício. Um exemplo sugestivo do presente é a medida em que as montadoras americanas sobreviventes obtêm cada vez mais lucros não da produção, mas do financiamento de compras de consumidores por meio de braços de crédito internos. Mais uma vez, vemos que a expansão financeira é a contração industrial vista de uma posição diferente. E, mais uma vez, narramos em termos indiferentes a mesma mudança da valorização para a realização, da produção para a circulação.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo moderno passou por dois arcos, centrados na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, com o segundo surgindo à medida que o primeiro declinava. Cada um tem suas particularidades. Ao mesmo tempo, eles podem ser sintetizados em um arco mais longo. Desde a primeira decolagem até o recente declínio, sempre houve um motor de acumulação global em funcionamento. De aproximadamente 1830 a 1973, houve um núcleo de capital produtivo no Ocidente com sua expansão sistêmica crescente. É de acordo com isso que anteriormente chamamos o período do século XVIII até o presente de metaciclo, um grande arco de acumulação no sistema mundial capitalista seguindo o curso de <em>circulação-produção-circulação linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159612" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881.jpg" alt="" width="1152" height="1352" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881.jpg 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-256x300.jpg 256w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-873x1024.jpg 873w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-768x901.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-358x420.jpg 358w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-640x751.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-681x799.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-341x400.jpg 341w" sizes="auto, (max-width: 1152px) 100vw, 1152px" />O período de <em>circulação linha</em>, a reorganização social da Longa Crise, condiciona o declínio da greve e a nova era de revoltas de duas maneiras distintas, embora inevitavelmente relacionadas: a espacialização da economia e a recomposição da relação capital/classe. Vamos analisá-las uma de cada vez, antes de reuni-las no final.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>A Espacialização da Luta</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">As revoltas são, originalmente, lutas pelo preço dos bens, ou seja, lutas pela reprodução fora do salário, mas ainda suspensas no mercado. São “lutas para controlar o espaço” e a passagem por ele; há uma rima inclinada entre a revolta paradigmática de exportação em King&#8217;s Lynn em 1347 e o bloqueio maciço no porto de Oakland em 2011 <strong>[8]</strong>. O controle sobre o espaço assume muitas formas, muitas vezes envolvendo esforços para expulsar a polícia dos distritos comerciais que ela defende. As revoltas são obcecadas por edifícios, praças e passagens, com aglomerações na praça e nas ruas. Hobsbawm dedica um capítulo de seu livro <em>Revolutionaries</em> ao papel do urbanismo na insurreição. Há algo de arquitetônico em uma revolta, ou seja, algo espacial. A barricada, esse grande instrumento da revolta, tem suas origens no isolamento de bairros contra incursões; o surgimento da barricada nada mais é do que o surgimento da primeira era de revoltas, que recuou após a Primavera das Nações em 1848 <strong>[9]</strong>. As novas avenidas largas do século XIX são, em relatos sucessivos, projetadas para pôr fim às barricadas e as revoltas; o crescimento industrial acabará por fazer um trabalho melhor nisso.</p>
<p style="text-align: justify;">A espacialidade prática da revolta corresponde a uma distinção teórica. A lógica abstrata da produção é temporal, a lógica abstrata da circulação é espacial. A produção é organizada pelo valor, pela valorização das mercadorias, e esse valor é regulado pelo tempo de trabalho socialmente necessário. É através desse tempo que ambos os lados se reproduzem. Na produção, tanto o capital quanto seus antagonistas lutam por esse tempo — sua duração, seu preço. A greve é uma luta temporal.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez que o valor temporal do trabalho vivo repousa na mercadoria, ele se torna objetivado, espacializado. A circulação é organizada pelo preço, pela realização da mais-valia como lucro quando as mercadorias trocam de lugar. Esta é uma formulação conceitualmente espinhosa, como fica evidente na exposição de Marx:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O dinheiro é agora trabalho <em>objetivado</em>, quer possua a forma de dinheiro ou de uma mercadoria particular. Nenhum modo objetivo de ser do trabalho se opõe ao capital, mas todos eles aparecem como modos possíveis de existência para ele, que ele pode assumir através de uma simples mudança de forma, passando da forma monetária para a forma mercadoria. A única antítese do trabalho <em>objetivado</em> é o trabalho <em>não objetivado</em>; em antítese ao trabalho <em>objetivado</em>, o trabalho subjetivado. Ou aquele trabalho que está presente no tempo, vivo, em antítese ao trabalho passado no tempo, mas existente no espaço. Como trabalho presente no tempo, não objetivado (e, portanto, também ainda não objetivado), ele só pode estar presente como <em>capacidade</em>, possibilidade, habilidade, como <em>capacidade de trabalho</em> do sujeito vivo <strong>[10]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao refletir sobre a relação lógica entre trabalho e mercadorias, Marx chega à antítese entre trabalho não objetivado e trabalho objetivado. De um lado, a força de trabalho que ainda não foi transferida para uma mercadoria no processo de produção; do outro, o valor objetivado nas mercadorias que agora entram no espaço de circulação, elas próprias objetos espaciais. O aumento da proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e vivo, é o próprio processo de espacialização e, portanto, a transformação das lutas temporais em espaciais. Essa distinção existe também no nível prático, no que diz respeito à circulação no sentido concreto: transporte, comunicações, finanças. Marx fala da famosa “aniquilação do espaço pelo tempo”. Isso tem sido frequentemente entendido como uma afirmação da crescente irrelevância das relações espaciais para o capital. O oposto é verdadeiro. Marx argumenta que o espaço se apresenta como o problema fundamental para a troca, e quanto mais o capital depende da troca, mais o espaço apresenta problemas a serem superados:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O capital, por sua natureza, ultrapassa todas as barreiras espaciais. Assim, a criação das condições físicas de troca — dos meios de comunicação e transporte — a aniquilação do espaço pelo tempo — torna-se uma necessidade extraordinária para ele. Somente na medida em que o produto direto possa ser realizado em mercados distantes em quantidades massivas, proporcionalmente à redução dos custos de transporte, e somente na medida em que, ao mesmo tempo, os meios de comunicação e transporte possam produzir esferas de realização para o trabalho, impulsionado pelo capital; somente na medida em que o tráfego comercial ocorra em volume massivo — no qual mais do que o trabalho necessário é substituída — apenas nessa medida a produção de meios baratos de comunicação e transporte é uma condição para a produção baseada no capital e, por essa razão, promovida por ele <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os leitores provavelmente conhecem os debates muitas vezes tediosos sobre se essa passagem sugere que a circulação é internalizada à produção, ou se isso é apenas uma aparência e as obras e mercadorias da circulação são, como Marx continua, “uma <em>condição</em> para o processo de produção” — uma afirmação bastante diferente <strong>[12]</strong>. Para nossos propósitos, o significado é o mesmo. Esse é particularmente o caso, pois não estamos afirmando que as lutas na circulação têm uma relação privilegiada com a produção de valor. Na mudança que se segue à crise, o capital, incapaz de gerar mais-valia ou crescimento adequados por meio da produção industrial convencional, é compelido a entrar no espaço da circulação para competir por lucros, diminuindo seus custos e aumentando o tempo de rotatividade para um volume cada vez maior de mercadorias. As lutas nesse espaço são, portanto, centrais para a existência contínua de cada capital. Há poucas indicações de que isso gere acumulação da mesma forma que a produção industrial.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, esse é o destino inconfundível do capital pós-1973, tornando “nosso presente fundamentalmente um <em>tempo de espaço logístico</em>” <strong>[13]</strong>. Essa reorganização sistêmica, observa Jasper Bernes, “indexa a subordinação da produção às condições de circulação, o tornar-se hegemônico dos aspectos do processo de produção que envolvem a circulação”. Haverá implicações nesse desenvolvimento para as lutas contemporâneas. “A logística é a arte da guerra do capital, uma série de técnicas para a competição intercapitalista e interestatal” <strong>[14]</strong>. Será necessária uma contra-arte que se adapte a esse terreno transformado, mas que também reconheça o espaço logístico como peculiarmente estruturado pelas necessidades do capital, o tipo de maquinaria que o proletariado não pode simplesmente apreender e utilizar para seus próprios fins.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159609" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573.jpg" alt="" width="1000" height="1000" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A construção maciça, impulsionada pelas finanças, do transporte marítimo global e da conteinerização, possivelmente o projeto mais fundamental para o capital nessa época, sinaliza a mudança radical. Ela é prenunciada pela regularização dos contêineres de transporte intermodal (aperfeiçoados para resolver os problemas logísticos da Guerra do Vietnã) por meio de uma série de acordos de 1968 a 1970 e pela desregulamentação do transporte na década seguinte <strong>[15]</strong>. O Centro de Transporte e Logística é criado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em 1973: “líder mundial em educação e pesquisa em gestão da cadeia de suprimentos” <strong>[16]</strong>. A fabricação Just-In-Time, que se generalizou na década de 1970, é o aspecto metodológico da mesma mudança. Desenvolvida na indústria automobilística japonesa, ela é o oposto do paradigma fordista da indústria automobilística dos Estados Unidos, descobrindo eficiências menos na organização da produção do que na circulação, no estoque e na troca: um conjunto interligado de práticas cujo núcleo constitui uma espécie de taylorismo da cadeia de suprimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A correspondência desses desenvolvimentos com a crise industrial é quase absoluta. As expressões desse movimento interligado são numerosas. Em abril de 1973, a Federal Express entrega seu primeiro pacote; quarenta anos após o início da Longa Crise, a FedEx terá a quarta maior frota e será a maior companhia aérea de carga do mundo <strong>[17]</strong>.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>O Fim do Programa</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A mudança na circulação é uma reestruturação econômica que impulsiona e se baseia em uma reorganização social maciça, uma recomposição do capital e da classe. Isso transforma profundamente os horizontes políticos e, com eles, as formas de luta. As mudanças subjacentes se mostraram opacas para alguns observadores. Um deles, escrevendo na revista socialista democrática <em>Jacobin</em>, descobre em 2015 que “a economia dos EUA gira em torno da expansiva indústria de logística” e só consegue concluir que, “após três décadas de mudanças dolorosas na economia industrial, acredito que os socialistas podem, mais uma vez, ter uma estratégia industrial nos Estados Unidos” <strong>[18]</strong>. Outra proposta do mesmo local observa a mesma transformação “particularmente na produção enxuta e nos estoques <em>just-in-time</em>” e reconhece a importância resultante de “focar nesses pontos de distribuição” para “bloquear a distribuição”. O autor recomenda, para esse fim, a organização de “grupos de trabalhadores estrategicamente posicionados”.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses exemplos reconhecem corretamente a vasta transferência de força de trabalho da produção industrial para o espaço de circulação, distribuição e troca. No entanto, a importância disso como um aspecto de uma reestruturação social profunda é negligenciada. É compreensível que o leitor fique perplexo quanto ao motivo pelo qual o esvaziamento do setor industrial, base histórica da organização socialista, exigiria mais uma vez uma “estratégia industrial”. Por sua vez, pode-se perguntar por que o “bloqueio da distribuição”, precisamente a tática dos não trabalhadores tanto lógica quanto historicamente, exige “grupos de trabalhadores”. Dessa perspectiva, não importa o problema, a solução é sempre a mesma: organização do trabalho industrial. É sempre tempo de greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se argumentar que os trabalhadores da circulação são de alguma forma mais difíceis de organizar, que algo peculiar ao novo local de trabalho exclui essa possibilidade. Há razões para acreditar nisso. Além da desagregação e da desqualificação como barreiras à organização, a tradicional paralisação do trabalho pressupõe um senso de posse moral dos trabalhadores sobre seus equipamentos, um resquício das culturas artesanais e manuais que fornece uma função legitimadora estranha ao âmbito da circulação. Dito isso, não há aqui nenhum argumento contra tal organização. A greve da UPS em 1997 mostra que tais coisas são possíveis. É inevitável que uma porcentagem crescente das poucas greves que estão desaparecendo seja na circulação e que as ações trabalhistas mudem para lutas de circulação, como uma questão prática. Considere a mudança tática ilustrativa por parte dos sindicatos franceses, por exemplo, quando as refinarias de petróleo e os depósitos de petróleo franceses foram bloqueados por duas semanas em 2010 <strong>[19]</strong>. De forma mais ampla, os argumentos normativos sobre o que as pessoas que lutam devem fazer ignoram a verdade mais básica. As pessoas lutarão onde estiverem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nosso argumento é que as pessoas estão em outro lugar. E, além disso, que a explosão desses locais de trabalho é sintomática de uma reestruturação maior que augura mal para o potencial dessa organização. O trabalho no mundo superdesenvolvido não mudou simplesmente seu centro de gravidade em algum sentido neutro. Sua relação com a acumulação mudou profundamente e, diante dessa mudança, a exigência de formas inalteradas de ação parece, na melhor das hipóteses, uma falha de compreensão. Mesmo a política de classe mais recôndita ou reducionista é agora obrigada a se reconfigurar de acordo com essas grandes transformações político-econômicas ou se condenar ao interminável papel de um romance ultrapassado ao qual o perfume de 1917 sempre se apega.</p>
<p style="text-align: justify;">O editor da Jacobin, Bhaskar Sunkara, resume essa política ritualística. Ele reconhece que “pode ser útil considerar as maneiras pelas quais a situação atual se assemelha a um retorno ao pré-fordismo”; dada a semelhança, a política oferecida então certamente ainda deve prevalecer, e “às vezes novas crises precisam ser enfrentadas com o vocabulário antigo” <strong>[20]</strong>. Mas qual é esse vocabulário antigo e por que exigiria o mesmo conjunto de estratégias que esses pensadores vêm propondo há mais de um século, sem variações? Podemos notar aqui um erro simples na compreensão do caráter do arco de acumulação. Ele supõe que um ponto na descida seria historicamente idêntico a um ponto na ascensão simplesmente porque estavam na mesma altura (de lucro ou taxa de desemprego, etc.). Esse equívoco não leva em conta o vetor: a diferença entre ascensão e queda, entre mercados de trabalho restritos e flexíveis, entre a capacidade de dinamismo e expansão e o curso da estagnação e contração. As condições que historicamente possibilitaram o vocabulário socialista —acumulação real, um mercado de trabalho tenso, a possibilidade de ganhar poder apropriando-se de uma parte dessa acumulação, um proletariado industrial em expansão — não existem mais. Os ganhos progressivos que poderiam fortalecer e encorajar o partido de massa dependente da organização sindical não estão mais ao alcance, como estavam durante o crescimento econômico, a expansão e o boom. Isso faz parte de uma mudança mais ampla: “O ano de 1978”, como observou sucintamente um historiador de negócios, foi o “Waterloo para sindicatos, reguladores e reformadores tributários keynesianos” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159615" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605.jpg" alt="" width="2000" height="1363" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-1024x698.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-1536x1047.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-616x420.jpg 616w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />Talvez possamos admitir que Sunkara está parcialmente certo. É inevitável que compreendamos novos momentos primeiro através de vocabulários antigos. Mas estamos mais adiantados no arco do que ele pode supor e, portanto, talvez precisemos recorrer a um léxico bastante mais antigo e renová-lo. É mais cedo do que pensamos. Ou seja, é bem mais tarde.</p>
<p style="text-align: justify;">O declínio do movimento trabalhista no Ocidente dispensa explicações. As narrativas contrárias, especialmente aquelas que sugerem que o declínio é resultado de combates ideológicos, falhas de vontade ou erros estratégicos, já foram submetidas ao que Marx chamou de crítica prática do real. Os dados básicos são bem conhecidos. Provavelmente, o mais claro é o colapso para zero das greves envolvendo mais de 1.000 trabalhadores a partir do final dos anos 1970. Para aqueles que duvidam dessa medida (que tem pouca correlação com a sindicalização), a situação pode ser resumida assim: nos Estados Unidos, após 1981, apenas três anos excederam 10 milhões de dias acumulados de paralisação por greves, com vários anos abaixo de 1 milhão. De 1947 a 1981, o número excedeu 10 milhões todos os anos, com uma média de mais do dobro disso <strong>[22]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos encontrar um momento decisivo voltando mais uma vez a Detroit e a 1973, onde “pela primeira vez na história do UAW, o sindicato se mobilizou para manter uma fábrica aberta” <strong>[23]</strong>. Isso se tornará rapidamente o paradigma para a organização trabalhista, quer se queira ou não. Com o esvaziamento do setor industrial e a perda de lucratividade, a principal ameaça tanto para o capital quanto para o trabalho é que uma determinada empresa deixe de existir. E, em uma escala maior, a própria capacidade de autorreprodução do capital entrará em colapso. A partir desse ponto, as lutas contra o capital só podem ser <em>contra</em> a existência do capital, em vez de <em>pelo</em> empoderamento do trabalho. Capital e trabalho se encontram agora em colaboração para preservar a autorreprodução do capital, para preservar a relação de trabalho juntamente com a viabilidade da empresa. Isso impõe limites quase absolutos à negociação.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos chamá-la de “armadilha da afirmação”, na qual o trabalho fica preso à posição de afirmar sua própria exploração sob o pretexto da sobrevivência. É uma versão do que Lauren Berlant chama de “otimismo cruel”. O otimismo é cruel em uma situação cada vez mais comum:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O objeto/cena que desperta uma sensação de possibilidade na verdade torna impossível alcançar a transformação expansiva pela qual uma pessoa ou um povo se arrisca a lutar; e, duplamente, é cruel na medida em que os próprios prazeres de estar dentro de uma relação se tornaram sustentáveis, independentemente do conteúdo da relação <strong>[24]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Certamente isso descreve com exatidão não apenas qualquer relação, mas as exigências da relação de trabalho na Longa Crise. A armadilha da afirmação é o otimismo cruel em seu estrato mais obstinado, existindo independentemente de apegos libidinosos, suas compulsões não envolvendo nenhum reconhecimento errôneo. Os prazeres sustentadores são comida e abrigo.</p>
<p style="text-align: justify;">Preso na armadilha da afirmação, o trabalho deixa de ser a antítese do capital. Isso pode ser visto como o final irônico da própria afirmação que define o horizonte socialista da luta, em que “a revolução é, portanto, a afirmação do proletariado, seja como ditadura do proletariado, conselhos operários, libertação do trabalho, período de transição, definhamento do Estado, autogestão generalizada ou uma &#8216;sociedade de produtores associados&#8217;” <strong>[25]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses são os termos em que o grupo Théorie Communiste define o “programatismo”, o modelo central da luta revolucionária de classe no século XX. Moishe Postone identifica o programatismo (ele não usa o termo) com o “marxismo tradicional” que, segundo ele, reconhece erroneamente a base do capitalismo como a propriedade dos meios de produção, enquanto trata o trabalho produtivo como “a fonte transhistórica da riqueza e a base da constituição social”. A apropriação dos meios de produção, portanto, preserva <em>a forma capitalista de riqueza</em> enquanto a redistribui socialmente, e assim “o marxismo tradicional substitui a crítica de Marx ao modo de produção e distribuição por uma crítica apenas ao modo de distribuição” <strong>[26]</strong>. Daí a distinção usada aqui entre socialismo e comunismo: o primeiro indicando esse modelo distributivo, o segundo indicando a abolição da economia e o fim da relação indexical entre o trabalho de cada um e qualquer relação ou acesso à riqueza social.</p>
<p style="text-align: justify;">Este “marxismo tradicional” deve ser entendido historicamente. O horizonte socialista do programatismo não deve ser entendido como uma falha analítica ou moral, nem como uma espécie de paralisação; haveria uma passagem do socialismo para o comunismo (ou de uma fase inferior para uma fase superior do comunismo, como Marx afirma em <em>Crítica ao Programa de Gotha</em>). Em vez disso, ele reflete com precisão as condições reais do mundo em que surge. É uma luta contra o capital “vista do ponto de vista do trabalhador, ou seja, do ponto de vista do ciclo do capitalismo produtivo”, nas palavras de Gilles Dauvé <strong>[27]</strong>. Ou seja, surge com o aumento do poder do trabalho industrial, razão pela qual os trabalhadores desse setor são capazes de se posicionar como a fração revolucionária da classe. Seu crescimento é a expansão do capital. Isso, no entanto, não implica um ponto de vista ou forma de luta imutável: “a centralidade do trabalho proletário na análise de Marx sobre o capitalismo não deve ser tomada como uma avaliação afirmativa de sua parte sobre sua primazia ontológica na vida social, ou como parte de um argumento de que os trabalhadores são o grupo mais oprimido da sociedade” <strong>[28]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É do outro lado do arco-íris da acumulação que os limites históricos do programatismo se tornam evidentes. Quando a fração de classe que centralizou a era do programa não exerce mais um poder peculiar sobre o capital, tal curso de luta é excluído. Esse resultado não é consequência de artimanhas políticas, de alguma política nefasta sob o título de “neoliberalismo”. É a própria autotransformação do capital da perspectiva do trabalho — trabalho agora forçado a afirmar o capital no mesmo gesto pelo qual afirma seu próprio ser. É precisamente essa luta pela autopreservação, o que a Théorie Communiste chama de “pertencimento de classe como uma restrição externa”, que é o limite das lutas trabalhistas como motor revolucionário <strong>[29]</strong>. As reivindicações salariais, outrora imaginadas como uma vantagem ou mesmo uma alavanca para a abolição da classe, devem agora ser adaptadas às necessidades de autorreprodução do capital, à medida que essa autorreprodução entra em crise. Em sua lassidão crepuscular, a classe trabalhadora é reduzida a reproduzir pouco além das condições de sua própria miséria. A luta salarial mantém sua legitimidade como reivindicação de sobrevivência — salário, salário contra a morte da luz —, mas ao mesmo tempo legitima o capital. Não há além.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159610" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959.jpg" alt="" width="1214" height="850" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959.jpg 1214w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-300x210.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-1024x717.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-768x538.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-600x420.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-640x448.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-681x477.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1214px) 100vw, 1214px" /></p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>Sobredeterminação</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A revolta não busca preservar nada, não afirma nada, exceto talvez um antagonista comum, uma miséria comum, uma negação comum. Ela carece de um programa. Sob o título “Isso não foi um movimento”, um comentarista sobre as revoltas de Londres em 2011 escreve:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nos distúrbios de agosto, nada na situação de seus protagonistas valia a pena ser defendido: vizinhança, residência, comunidade, etnia e raça, todos se revelaram aspectos da reprodução do capital, que produz esses proletários como verdadeiros indigentes. […] A linguagem da revolta não era a linguagem positiva do “movimento”, da mudança social, das reivindicações ou da política, mas sim a linguagem negativa do vandalismo. O que aconteceu foi muita destruição, nada foi construído, não houve planos, nem estratégias <strong>[30]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para muitos observadores, essa é a característica mais perturbadora das revoltas. Diante disso, a exigência de um programa, a exigência de exigências, é em si uma exigência familiar, o estertor da política prescritiva. Ela não será atendida. Mas isso não quer dizer que as revoltas careçam de determinações. Na verdade, as revoltas são surpreendentemente sobredeterminadas pela série de transformações históricas que tornam inevitável o gênero particular de antagonismo que chamamos de lutas de circulação.</p>
<p style="text-align: justify;">Um resumo será útil. O excedente social que acompanha a acumulação diminuiu e, com ele, a capacidade do capital e do Estado de atender às demandas por salários diretos e sociais, apesar de exceções ocasionais. A demanda salarial é excluída como nada mais do que uma ação de retaguarda inseparável da afirmação da existência do capital. O capital transferiu suas esperanças de lucro para o espaço da circulação e, assim, transferiu sua vulnerabilidade para lá. O trabalho mudou para a circulação com ele. O mesmo aconteceu com o não trabalho: os subempregados e desempregados, aqueles deixados para as economias informais, aqueles deixados para apodrecer. Essa desindustrialização foi dramaticamente racializada.</p>
<p style="text-align: justify;">A morte da demanda salarial significa o desaparecimento das lutas de produção unificadas pelo papel comum dos participantes como trabalhadores assalariados. Ao mesmo tempo, a luta pela circulação não tem nenhuma exigência lógica de que seus participantes sejam trabalhadores. Se o trabalho tem acesso imediato e legitimidade para interromper a produção na fábrica, qualquer pessoa pode liberar um mercado, fechar uma estrada, fechar um porto. Como no século XVIII, os manifestantes podem ser trabalhadores, mas não aparecem <em>como</em> trabalhadores; os participantes não estão unificados pela posse de empregos, mas por sua desapropriação mais geral. Eles entram no espaço do mercado, lutando pela reprodução além do salário. Esta é a definição que oferecemos na introdução, repetida novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez, então, a “sobredeterminação” esteja errada. Uma nova situação para a disputa social foi gerada. Um novo arranjo da população por meio do mesmo movimento gera trabalhadores e não trabalhadores circulantes, que por acaso compartilham uma relação com essa situação de disputa. Essa mudança nas formas de ação coletiva é uma habilidade dialética. Mas a dialética precisa do proletariado, e não acabamos de declarar a morte da classe trabalhadora?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ver Joshua Clover e Aaron Benanav, “Can Dialectics Break BRICS?” <em>The South Atlantic Quarterly</em> 113: 4, outono de 2014, 743-59.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Fernand Braudel, <em>The Perspective of the World: Civilisation and Capitalism</em>, vol. 3, Berkeley: University of California Press, 1982, 80.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ibid., 77.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Brenner, <em>Turbulence</em>, 38.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Para uma imagem do movimento crescente de acumulação e crise, ver Henryk Grossman, <em>Law of Accumulation and Breakdown of the Capitalist System</em>, Londres: Pluto Press, 1992, 84.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Aaron Benanav e John Clegg, “Misery and Debt: On the Logic and History of Surplus Populations and Surplus Capital,” <em>Contemporary Marxist Theory</em>, eds. Andrew Pendakis et al., New York: Bloomsbury, 2014, 585.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Arrighi, <em>Long Twentieth Century</em>, 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Abu-Lughod, <em>Race, Space</em>, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Mark Traugott, <em>The Insurgent Barricade</em>, Berkeley: University of California Press, 2010, 81-82.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Karl Marx, “Fragment des Urtexts von &#8216;Zur Kritik der politischen Ökonomie,&#8217;” Grundrisse der Kritik der PolitischenÖkonomie, Berlim: Dietz Verlag, 1858/1953, 942 (ênfase no original). Citado em Jacques Camatte, <em>Capital and Community: The Results of the Immediate Process of Production and the Economic Work of Marx</em>, trad. David Brown, Londres: Unpopular Books, 1988, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 524-5 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Ibid., 525 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Deborah Cowen, <em>The Deadly Life of Logistics: Mapping Violence in Global Trade</em>, Minneapolis: University of Minnesota Press, 2014, 5 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Jasper Bernes, “Logistics, Counterlogistics and the Communist Prospect,” <em>Endnotes</em> 3, 2013, 185.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Marc Levinson, <em>The Box: How the Shipping Container Made the World Smaller and the World Economy Bigger</em>, Princeton: Princeton University Press, 2006, 147-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Consulte o site do MIT Center for Transportation &amp; Logistics MIT, ctl.mit.edu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Consulte a página da FedEx, “Nossa história: história e cronologia”, about.van.fedex.com; e a página da IATA Publicações e ferramentas interativas, <a href="https://web.archive.org/web/20120427115854/http://www.iata.org/ps/publications/pages/wats-freight-km.aspx." target="_blank" rel="noopener">https://web.archive.org/web/20120427115854/http://www.iata.org/ps/publications/pages/wats-freight-km.aspx.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Joe Allen, “Studying Logistics”,<em> Jacobin</em>, 12 de fevereiro de 2015, jacobinmag.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Para um estudo abrangente desse fenômeno em relação aos distúrbios, consulte Blaumachen, “The Transitional Phase of the Crisis: The Era of Riots” (A fase de transição da crise: a era dos distúrbios), blaumachen.gr.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Bhaskar Sunkara, “Precarious Thought”, <em>Jacobin</em>, 13 de janeiro de 2012, jacobinmag.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Jefferson Cowie, <em>Stayin&#8217; Alive: The 1970s and the Last Days of the Working Class</em>, Nova York: New Press, 2010, 292. A fonte citada é Kim McQuaid, <em>Uneasy Partners: Big Business in American Politics, 1945-1990</em>, Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1994, 156.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Consulte o banco de dados online do Bureau of Labor Statistics, “Economic News Release: Table 1. Work stoppages involving 1,000 or more workers, 1947-2014” (versão atualizada em 11 de fevereiro de 2015), bls.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Bill Bonds, WXYZ-TV News, falando sobre os eventos na fábrica de estampagem Mack, 16 de agosto de 1973. Citado em Georgakas e Sunkin, Detroit, 189.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Lauren Berlant, <em>Cruel Optimism</em> Durham: Duke University Press, 2011, 2.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Théorie Communiste, “Much Ado About Nothing,”<em> Endnotes</em> 1, 2008, 155.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> Moishe Postone, <em>Time, Labor, and Social Domination</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 1993, 69 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[27]</strong> Gilles Dauvé, <em>Ni Parlement ni syndicats: les Conseils ouvriers</em>, Paris: Editions Les Nuits rouges, 2008, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[28]</strong> Postone, <em>Social Domination</em>, 356 n.120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[29]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense,” <em>Communization and Its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles</em>, ed. Benjamin Noys, Wivenhoe: Minor Compositions, 2011, 53.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[30]</strong> Rocamadur/Blaumachen, “The Feral Underclass Hits the Streets: On the English Riots and Other Ordeals,” SIC, n.º 2, janeiro de 2014, 113-4.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Mario Sironi.</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (8)</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Aug 2026 11:17:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ É difícil enfatizar a importância do esforço para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.  Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h3 style="text-align: justify;">CAPÍTULO 6</h3>
<h3 style="text-align: justify;">Fios cruzados, Ou da Greve para a Revolta</h3>
<p style="text-align: justify;">Em 1963, a revista socialista <em>Monthly Review</em> dedicou uma edição dupla a um trabalhador da indústria automobilística de Detroit: uma descrição precisa que ressalta a qualidade comum da trajetória de James Boggs, inseparável de sua vida notável. Em 1937, seguindo o caminho da primeira Grande Migração de negros americanos do sul rural para o norte e o meio-oeste industrial, Boggs mudou-se do Alabama para Detroit, onde viveria o resto de sua vida. Ele acabaria se casando com Grace Lee, a terceira líder e teórica da Tendência Johnson-Forrest, juntamente com C. L. R. James e Raya Dunayevskaya. A tendência teve origem no Partido dos Trabalhadores e no Partido Socialista dos Trabalhadores, dois grupos trotskistas; ela preservava uma perspectiva obreirista e dava atenção especial às greves selvagens militantes entre mineiros e trabalhadores automotivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Dado esse conjunto de circunstâncias, afiliações e compromissos, o breve prefácio de Boggs para seu livro <em>The American Revolution: Pages From a Negro Worker&#8217;s Notebook</em> (<em>A Revolução Americana: Páginas do Caderno de um Trabalhador Negro</em>) é surpreendente. Ele conclui:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sou um operário de fábrica, mas sei mais do que apenas o trabalho na fábrica. Sei a diferença entre o que soaria certo se vivêssemos em uma sociedade de pessoas lógicas e o que é certo quando se vive em uma sociedade de pessoas reais com diferenças reais. Pode parecer perfeitamente natural para uma pessoa altamente educada e lógica, mesmo quando ouve as pessoas dizerem que haverá uma grande revolta, supor que não haverá uma grande revolta porque as autoridades têm tudo sob controle. Mas se eu continuasse ouvindo as pessoas dizerem que haveria uma grande revolta e visse uma dessas pessoas lógicas parada no meio, <em>eu </em>diria a ela que era melhor sair do caminho, porque com certeza seria morta.</p>
<p style="text-align: justify;">Reformas e revoluções são criadas pelas ações ilógicas das pessoas. Muito poucas pessoas lógicas fazem reformas e nenhuma faz revoluções. Direitos são o que você faz e o que você toma <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">É uma passagem curiosa, e não apenas por seu gesto final do que poderíamos chamar de <em>instrumental irracionalidade</em>. Por um lado, é um pouco opaca; o surgimento repentino da revolta é, no mínimo, sem motivo, ou desorientadoramente presciente. 1963 é quatro anos antes da Grande Rebelião de Detroit, na época a revolta de maior escala na história nacional. E é um ano antes das rebeliões no Harlem e em outros lugares inaugurarem o período em que a “revolta racial” ascende como uma característica central do cenário político dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, o raciocínio que permeia a passagem é familiar, se você já passou alguns momentos com a história implícita do debate. Ele associa tacitamente a organização operária à “lógica”, a um tipo de ordem que não pode deixar de refletir a racionalidade congelada da linha de montagem da fábrica. A revolta vem acompanhada de desordem, ilógica, o espaço social ambiente do boato. Não menos significativo, o texto recupera a superação da política prescritiva por Luxemburg. Sua distinção entre “o que soaria certo se vivêssemos em uma sociedade de pessoas lógicas” e “o real” do que realmente acontece em determinadas condições sociais é uma versão da oposição de Luxemburg entre o politicamente “desejável” e o “historicamente inevitável”.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada um deles encontra a particularidade de seu momento, de sua abertura, incerteza, possibilidade. Os anos 1960 dão origem a uma situação única de revoltas e greves, que se concentra principalmente em Detroit. A situação lá tem duas características distintas. Uma é a racialização da revolta, ou melhor, a relação entre revolta e racialização. Esse é o tema de um capítulo posterior. A outra, que difícilmente pode ser dissociável da questão racial, é a proximidade entre as duas formas de ação coletiva — sua coexistência, adjacência, confronto. Esse é um enigma revelador da década, um emaranhado que, à medida que se desenvolve e se esclarece, começa a revelar como a revolta não apenas expressará, mas explicará seu momento histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">As associações mais reveladoras e preditivas entre revolta e greve são aquelas com determinadas condições político-econômicas que orientam o capital como um todo e mudam ao longo do tempo, permitindo que as formas de ação mudem em seu significado e seu poder. Essa indexação não é absoluta; as condições político-econômicas não são absolutamente determinantes. Em vez disso, elas sugerem possibilidades e limites. O campo da disputa social é mantido em tensão, por um lado, pela capacidade dos seres humanos de “fazer sua própria história” e, por outro, pelas “circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas do passado”. É por causa da tensão entre essas forças, entre agência e determinação, que encontramos múltiplas formas de ação coletiva dentro de uma determinada conjuntura. Ao mesmo tempo, como um determinado conjunto de condições se inclina para um lado e não para outro, uma das formas de ação tenderá a se tornar a tática dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">Em períodos de transformação sistêmica, haverá necessariamente mudanças nas táticas dominantes e competições entre táticas, à medida que diferentes frações da sociedade, posicionadas de maneira diferente, empreendem lutas emancipatórias. Os anos 1960 e 1970 nos Estados Unidos oferecem um estudo extraordinário desse fenômeno de transformação, equivalente ao que vimos no início do século XIX na Grã-Bretanha — embora aqui o vento da mudança sopre na direção oposta, da fábrica de volta para o porto, o mercado, a praça pública. Apesar de todas as diferenças manifestas, há ressonâncias da destruição de máquinas do século XIX, à medida que mudanças radicais na produção social se manifestam como indecisão e transformação dentro do repertório de táticas. Com a greve agora uma tática distinta e popular, o retorno da revolta aparece a princípio como um esforço estranho e heróico de unir as duas formas de ação em um processo revolucionário no qual a luta operária e a revolta parecem duas frentes de um único antagonismo. “Sou um operário de fábrica, mas sei mais do que apenas o trabalho na fábrica”, diz Boggs; poderia ser a década falando. A luta e a invenção incessantes da década, em grande parte centradas entre a população negra que suportava o peso inicial da desindustrialização, só são possíveis dentro de uma janela muito estreita. É um esforço perseguido de lado, desesperadamente, talvez às escondidas da consciência, e que, em última análise, é incapaz de se realizar.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159561 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1.jpg" alt="Revolta, greve, revolta" width="734" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1.jpg 734w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-514x420.jpg 514w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-640x523.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-681x557.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 734px) 100vw, 734px" /></p>
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<h3 style="text-align: justify;"><em>Luta e Lucro</em></h3>
<p style="text-align: justify;">A greve sobrevive como tática principal no ocidente industrializado ao longo dos anos 1960. Tal como Engels sugeriu, está ligada à expansão económica. Ao longo do século XX, a greve não acompanha a catástrofe econômica, mas sim o crescimento, um fato que não é menos verdadeiro nos anos 1930 da Depressão e da Frente Popular do que durante o boom do pós-guerra, como observou o sociólogo Roberto Franzosi:</p>
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<p style="text-align: justify;">Pesquisas quantitativas mostraram, sem sombra de dúvida, em diferentes contextos institucionais (períodos de amostragem e países), que a frequência das greves acompanha o ciclo econômico e, em particular, o movimento do desemprego — quanto maior o nível de desemprego, menor o nível de greves <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Apesar da clareza dessa correlação, a associação tradicional da greve com o baixo desemprego faz parte de uma dinâmica mais ampla de acumulação sistêmica e industrialização em expansão, inexoravelmente ligada a altas taxas de lucro. A acumulação, deve-se observar, não é um processo fluido e sem complicações, mesmo quando vista à distância. O longo metaciclo do capital produtivo no Ocidente, de cerca de 1830 a 1973, é repleto de volatilidade, crises, recessões e uma transferência entre potências hegemônicas. No entanto, dentro desse cenário histórico variado, a correlação entre greves, mercados de trabalho tensos, expansão industrial e altas taxas de lucro é impressionante; a causalidade é logicamente necessária. Ela se baseia nas dificuldades relativas em substituir a mão de obra, na relutância do capital em interromper atividades altamente lucrativas, na capacidade do Estado de comprar a paz interna com salários sociais e na capacidade da força de trabalho de aumentar sua posição e seu poder de compra, na medida em que há excedente social a ser apropriado.</p>
<p style="text-align: justify;">Os anos 1960, nesse aspecto, são um período incomum. As taxas de lucro permanecem historicamente altas. O crescimento real do PIB mundial na década é superior a 5%, mais de um ponto percentual acima das décadas anteriores e posteriores, impulsionado pela Anglosfera e pelo norte da Europa, com o Japão crescendo ainda mais rapidamente em sua recuperação acelerada. As taxas de lucro líquido da indústria nos EUA apresentam picos iguais e médias superiores a qualquer outro período de expansão <strong>[3]</strong>. Consequentemente, o “desaparecimento das greves” no norte da Europa, no Reino Unido, nos EUA e no Canadá, previsto por alguns economistas — apostando que, dentro de um “movimento trabalhista maduro… os membros não estão tão predispostos a greves como antes” — não se concretizou <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, começa a aparecer a fraqueza macroeconômica, com a expansão desacelerando à medida que os lucros acumulados buscam, cada vez mais em vão, uma saída produtiva, iniciando “a crise sinalizadora do regime de acumulação dos EUA no final da década de 1960 e início da década de 1970” <strong>[5]</strong>. As tentativas correspondentes de aumentar o poder de compra não levam à renovação da produção, mas à inflação e à fuga de capitais, no caminho para a crise de 1973 que sinalizaria o declínio do ciclo de acumulação liderado pelos EUA. Brenner acompanha o declínio do setor industrial dos EUA, e da manufatura em geral, diante da concorrência internacional, um fenômeno do qual as montadoras são, como sempre, os principais exemplos. O efeito desse declínio, “especialmente dada a enorme fração do total das economias capitalistas avançadas representada pela produção dos EUA, foi uma grande queda na lucratividade agregada das economias capitalistas avançadas, localizadas principalmente na manufatura, nos anos entre 1965 e 1973” <strong>[6]</strong>. O fato de a desaceleração global ter sua base no motor industrial dos EUA sugere que pode ser possível generalizar, pelo menos de forma limitada, a partir da experiência dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma economia paradoxal, com alta produtividade ofuscada pela desindustrialização incipiente. As greves persistem: no Reino Unido, a década de 1960 veria um aumento notável tanto nas paralisações quanto no total de dias de trabalho perdidos. Nos Estados Unidos, as greves experimentariam um surto no outono, começando por volta de 1964 e durando até os anos 1970 — não se sabia que esse seria o último brilho dourado antes do inverno chegar para o movimento operário no coração do sistema capitalista mundial <strong>[7]</strong>. Ao mesmo tempo, há uma visibilidade rapidamente crescente de revoltas em todas as escalas, mais notavelmente na série de “Long Hot Summers” (Longos Verões Quentes). A nova era de revoltas ainda não chegou de fato, mas a transição desigual já começou.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seu estudo sobre o estado carcerário na Califórnia, Ruth Wilson Gilmore descreve a maneira como uma população racializada se mobiliza entre opressões locais e colapso sistemático:</p>
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<p style="text-align: justify;">A Rebelião de Watts de 1965 foi uma encenação consciente de oposição (mesmo que “espontânea” no sentido leninista) à desigualdade em Los Angeles, onde o apartheid cotidiano era renovado à força pela polícia sob a direção do chefe William Parker, um supremacista branco assumido. Em Oakland, o Partido dos Panteras Negras foi concebido como um desafio dramático, altamente disciplinado e fácil de imitar à brutalidade policial local. A organização militante urbana antirracista negra, que se concentrava em atacar as formas concretas pelas quais “a raça… é a modalidade através da qual a classe é vivida”, surgiu de muitas décadas de luta no caldeirão sangrento da revolução contra o apartheid do sul <em>e seu</em> sósia nas cidades do norte…</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1967, o sistema começou a desmoronar simbolicamente e materialmente. Durante o Verão do Amor, enquanto milhares de hippies se reuniam em São Francisco para repudiar o establishment, a Califórnia alinhou suas forças coercivas antirracistas por trás <em>da vanguardista Panther Gun Bill</em> (Lei dos Panteras Armados) — tudo isso ao mesmo tempo em que a taxa de lucro começou seu espetacular declínio <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Mesmo o famoso e anódino Relatório Kerner, encomendado por Lyndon Johnson após os distúrbios de Newark e a Grande Rebelião de 1967, registra “uma mudança gradual tanto nas táticas quanto nos objetivos” dos protestos negros, “de ações legais para ações diretas, da classe média e alta para ações em massa… de apelar para o senso de justiça dos americanos brancos para demandas baseadas no poder do gueto negro” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os contornos da revolta moderna, a <em>revolta linha</em>, começam aqui a ficar claros. Embora compartilhe certas características e lógicas com revoltas mais antigas, ela entra em uma situação histórica muito diferente e enfrenta um cenário estranho. Portanto, é crucial observar que a sequência <em>revota-greve-revolta linha</em> não sugere uma simples oscilação histórica, mas um desenvolvimento longo e abrangente que esgota e recupera formas à medida que o conteúdo e o contexto da luta mudam. Como essa trajetória traça mudanças sociais mais amplas que ocorrem em diferentes graus em todo o mundo superdesenvolvido, certas semelhanças podem ser observadas apesar das diferenças nacionais ou regionais, por exemplo, entre as revoltas no Reino Unido e na França.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta nos Estados Unidos é uma nova fase da luta racializada que emerge da e contra a história do movimento pelos direitos civis, mais orientado para as reformas, que em 1965 já havia conquistado grande parte das vitórias que conquistaria. A racialização da nova revolta se destaca ainda mais claramente no contexto do trabalho organizado, sobretudo pela branquitude codificada desse contexto. Rotineiramente precipitado pela violência dos atores estatais e sua consequente impunidade, o auge das revoltas deve ser pensado não apenas no contexto da violência racial do Estado, mas também, por exemplo, no do racismo agressivo dos sindicatos da AFL, que conseguiram adiar a formação de qualquer sindicato liderado por negros até a carta de 1925 da Brotherhood of Sleeping Car Porters. Ou seja, a negritude da revolta aparece não apenas como uma continuidade conturbada do movimento pelos direitos civis contra a anti-negritude do Estado, mas também contra a branquitude da greve. Isso acaba por estruturar o próprio senso comum — apesar da longa história de exemplos contrários em ambos os lados da suposta dicotomia, desde as revoltas “nativistas” de brancos contra brancos no século XIX e a onda de ataques anti-asiáticos após a Lei de Exclusão Chinesa até a Greve dos Viticultores de Delano.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um paradoxo evidente. Por um lado, o tema das revoltas contemporâneas no Ocidente é consistentemente racializado, e os padrões de longa data de violência racializada, contenção e abjeção são inseparáveis do desenvolvimento das revoltas modernas. Por outro lado, a identificação absoluta e eventualmente naturalizada da tática com a raça acabará sendo um erro destrutivo, uma confusão entre correlação e causa — como se a própria negritude fosse a origem das revoltas. Janet Abu-Lughod ressalta os limites do termo “revolta racial”, observando a construção da <em>raça</em> e, além disso, a inadequação do termo <em>revolta</em> em relação aos sentidos mais abertamente políticos disponíveis para a linguagem de revolta e rebelião. No final, ela o mantém “porque tem uma referência aparentemente clara na literatura à violência inter-racial, seja iniciada por coletividades de brancos contra negros ou por coletividades de negros contra brancos” <strong>[10]</strong>. Significativamente, a história das revoltas raciais nos Estados Unidos começa com os brancos disciplinando outras populações insubordinadas. O “Verão Vermelho” de 1919, que ajudaria a forjar laços profundos, mas agora amplamente esquecidos, entre os negros dos EUA e as organizações socialistas e comunistas, é o exemplo mais conhecido, mas dificilmente o único, inserido em “uma onda extraordinária de violência em massa dirigida aos negros entre 1919 e 1923” <strong>[11]</strong>. Na segunda metade do século XX, <em>as revoltas raciais</em> evocam imagens de violência espontânea dos negros. É só então que o termo passa a significar revoltas como tal. A convergência retórica é grosseira e eficaz. O caráter supostamente irracional e natural das revoltas, sem razão, organização e mediação política, está alinhado com a tradição racista em que os sujeitos racializados são considerados naturais, animalescos, irracionais e imediatos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159562 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="486" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2.jpg 486w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-243x300.jpg 243w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-340x420.jpg 340w" sizes="auto, (max-width: 486px) 100vw, 486px" /></p>
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<h3 style="text-align: justify;"><em><strong>Revoluções Por Minuto</strong></em></h3>
<p style="text-align: justify;">Em 1968, o Partido Socialista Italiano da Unidade Proletária ficou em um impasse sobre um convite para sua conferência internacional em 1968: um membro dos Panteras Negras ou alguém do movimento operário radical de Detroit? Sua grande sorte foi descobrir que John Watson era um membro central tanto do Movimento Revolucionário da União Dodge (DRUM) quanto do principal grupo do Black Power. Essa situação não duraria muito. “A filiação de Watson a duas organizações revolucionárias distintas, o DRUM e os Panteras Negras, representou um compromisso de curta duração entre as forças revolucionárias em Detroit e na Califórnia”, que entraria em colapso logo em seguida <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse momento é o ponto crucial de uma sequência política volátil. Mesmo o relato mais resumido oferece uma noção da rápida mudança das formações revolucionárias. A pré-história deve incluir a ascensão da industrialização dos EUA em Detroit, bem como a fundação da Nação do Islã, liderada pelo trabalhador automotivo desempregado Elijah Muhammad. Entre 1920 e 1970, a população negra de Detroit aumentou de 4% para 45%; este é o local mais dramático de uma internalização mais ampla da mão de obra negra no proletariado industrial, ele próprio uma força motriz nos sucessos do movimento pelos direitos civis e no desgaste da lei formal de Jim Crow <strong>[13]</strong>. O início dos anos 1960 vê o desenvolvimento da UHURU, uma filial ativa do Movimento de Ação Revolucionária (RAM) nacional, e em 1966 a fundação da filial de Detroit do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa. Em seguida, a Grande Rebelião no verão de 1967, caracterizada, entre outras coisas, por vários atiradores nos telhados repelindo a polícia. No outono do descontentamento de Detroit, o Inner City Voice, um jornal militante negro liderado por Watson nos escritórios da Wayne State University, torna-se um nexo para várias lutas militantes; sua equipe inclui figuras centrais em todos os grupos do período. No ano seguinte, forma-se o DRUM e, em seguida, vários outros RUMs; em 1969, eles se unem como Liga dos Trabalhadores Negros Revolucionários (LRBW). Em 1970, a seção de Detroit dos Panteras é fechada, talvez por ordem da poderosa seção de Chicago; bem antes disso, “as tensões ideológicas entre os Panteras e a Liga haviam se tornado de conhecimento público” <strong>[14]</strong>. Em 1970, a LRBW inicia uma longa e dolorosa cisão, dividida entre tendências que apoiam a luta na frente cultural, o engajamento parlamentar, a formação de conselhos operários e um partido vanguardista negro. Em 1972, o que restava da LRBW se afilia à Liga Comunista e deixa de existir como entidade autônoma. Na medida em que é possível fazer afirmações pontuais, a sequência terminou e, com ela, os longos anos 1960 <strong>[15]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito se escreveu sobre essa ascensão e queda. Menos atenção foi dada à característica mais notável da sequência, que é justamente o que a torna uma sequência, em vez de um agregado caótico de grupos, partidos, interesses e contrainstituições, cada um sincronicamente relacionado a fenômenos díspares em outros lugares. Trata-se da tênue mistura entre o trabalho militante organizado e o Black Power.</p>
<p style="text-align: justify;">As condições que possibilitaram a sequência, em primeiro lugar, incluem a entrada simultânea da mão de obra negra no núcleo do setor industrial e sua marginalização dentro dele. Por um lado, “a revolução negra da década de 1960 finalmente chegou a um dos elos mais vulneráveis do sistema econômico americano — o ponto da produção em massa, a linha de montagem” <strong>[16]</strong>. Por outro lado, a força dessa chegada foi atenuada pelos sindicatos tradicionais, cujo sistema de antiguidade efetivamente deu “força legal ao monopólio dos homens brancos dos melhores empregos”, nas palavras de um autor anônimo, que continua:</p>
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<p style="text-align: justify;">Neste deserto de esperanças distorcidas dos trabalhadores, de onde mais poderia vir a redenção senão daqueles cujos interesses eram sacrificados a cada passo para que outro grupo mais favorecido pudesse fazer as pazes com os patrões? De onde mais, senão dos trabalhadores negros das fábricas infernais de automóveis da cidade de Detroit? <strong>[17]</strong></p>
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<p style="text-align: justify;">Tudo isso contribui para contextualizar o que poderíamos chamar de “greve militante negra”. Trata-se de uma versão da greve selvagem que vai além dos sindicatos tradicionais centrados nos brancos. Sua autoridade deriva, em grande parte, das revoltas urbanas em Detroit e em outros lugares — ou seja, de lutas que não se baseiam em condições de trabalho comuns, mas sim na distância do mercado de trabalho, na luta confrontadora pela reprodução social fora da esfera da produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Na mesma linha, os distúrbios tiram lições da tradição da greve. Escrevendo na primavera de 1967, o teórico do Black Panther Huey P. Newton mostra-se cético em relação às revoltas:</p>
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<p style="text-align: justify;">Ainda estamos no estágio elementar de jogar pedras, paus, garrafas de vinho vazias e latas de cerveja em policiais racistas que esperam uma chance de assassinar negros desarmados… Não podemos mais nos dar ao luxo duvidoso das terríveis baixas infligidas arbitrariamente a nós pelos policiais durante essas rebeliões <strong>[18]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Ele não é, porém, um defensor das lutas trabalhistas. Sua questão é como <em>passar</em> da revolta para um combate mais eficaz e, para isso, ele convoca o “Partido de Vanguarda” — ou seja, por tipos de ordem e disciplina herdados da organização do trabalho proletário e do campesinato agrícola. É característico do período que tanto a revolta quanto a greve, buscando ultrapassar seus próprios limites, ocorram simultaneamente. Cada uma parece precisar da outra para parecer revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa coincidência não pode ser reconhecida como tal pelos observadores oficiais. O <em>Relatório Kerner</em>, usando a rubrica “desordens”, oferece esta descrição da Grande Rebelião: “Um espírito de niilismo despreocupado estava se instalando. Revoltas e destruição pareciam cada vez mais se tornar fins em si mesmos. No final da tarde de domingo, pareceu a um observador que os jovens estavam &#8216;dançando em meio às chamas&#8217;” <strong>[19]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não pode deixar de harmonizar-se com os “infernos” do trabalho descritos acima. Tudo está a arder. A par do aumento em grande escala da força de trabalho negra, o desemprego entre os negros após a Segunda Guerra Mundial oscila entre 150 e 400 por cento acima do dos brancos e significativamente acima do dos hispânicos não brancos também <strong>[20]</strong>. A população total de Detroit atinge o seu pico em 1950 e começa um declínio bastante acentuado; a cidade deixa de crescer economicamente por volta de 1960, mesmo com a continuação da mudança demográfica <strong>[21]</strong>. O fardo racial da desindustrialização é ainda mais agravado pelas políticas sindicais de “último contratado, primeiro demitido”, que revertem a segunda Grande Migração em uma Grande Exclusão contínua. Assim, vemos duas tendências: uma economia manufatureira ainda dominante que internaliza a força de trabalho negra, mas que começa seu declínio e é incapaz de absorver totalmente o influxo demográfico. Isso implica um aumento tanto da população negra empregada quanto da excedente, sujeita a desapropriações diferenciadas. Mas essas tendências estão se movendo em direções opostas. No período de 1965 a 1973, as linhas de tendência se cruzam como fios elétricos, e Detroit testemunha <em>a intensificação das condições para revoltas e greves</em>, centradas na comunidade negra. Essa é a situação à medida que os anos 1960 se aceleram e a base para a sequência política que se desenrola, mesmo que não possa durar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1970, o início da sequência já havia começado a se encerrar:</p>
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<p style="text-align: justify;">[A Liga] acreditava que o Partido dos Panteras Negras, com sede em Oakland, estava indo na direção errada ao se concentrar em organizar elementos lumpen da comunidade negra. A Liga não acreditava que um movimento bem-sucedido pudesse se basear nos lumpen, pois eles carecem de uma fonte potencial de poder. A Liga acreditava que os trabalhadores negros eram a base mais promissora para um movimento negro bem-sucedido devido ao poder potencial derivado da capacidade de interromper a produção industrial <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">O debate ideológico sobre o sujeito revolucionário adequado (ao qual voltaremos), com suas aparentes diferenças regionais, repousa sobre o destino dos próprios sujeitos. Já em 1963, Boggs havia diagnosticado a produção da não produção e o excedente populacional, e até que ponto isso estava fadado a desmantelar a organização trabalhista. Suas observações marcam a distância desde 1919, quando a Irmandade de Sangue Africana (a primeira liga de comunistas negros nos EUA) pôde incluir como parte de seu programa básico uma reivindicação por “Desenvolvimento Industrial” <strong>[23]</strong> Ele escreve:</p>
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<p style="text-align: justify;">A automação substitui os homens. É claro que isso não é novidade. O que é novo é que agora, ao contrário da maioria dos períodos anteriores, os homens deslocados não têm para onde ir. Os agricultores deslocados pela mecanização das fazendas na década de 1920 podiam ir para as cidades e trabalhar na linha de montagem […] nos Estados Unidos, com a automação chegando quando a indústria já atingiu o ponto em que pode suprir a demanda do consumidor, a questão do que fazer com o excedente de pessoas que são dispensáveis pela automação se torna cada vez mais crítica a cada dia <strong>[24]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Os editores da edição especial se esforçam para discordar, insistindo que “à medida que o trabalho produtivo se torna cada vez mais frutífero e menos necessário”, o capital desenvolverá outros setores, criará “direta e indiretamente, outras áreas de emprego — em vendas, entretenimento, especulação (legal e ilegal), serviços pessoais e assim por diante. Alguns dos empregos assim criados também sucumbem à automação, mas o processo de proliferação não é interrompido” <strong>[25]</strong>. Isso tem alguma verdade; esses setores, em geral, passam por períodos de crescimento à medida que a desindustrialização avança. No entanto, não o suficiente para gerar os mercados de trabalho tensos que as greves exigem — muito menos para restaurar a acumulação de capital em níveis suficientes, sendo esse trabalho, em primeiro lugar, amplamente improdutivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Detroit é única neste período, não pela medida em que é uma exceção na trajetória histórica das condições para motins e greves, mas pela forma como é uma clarificação laboratorial de um processo dinâmico que ocorre de forma desigual em todo o mundo superdesenvolvido, uma dinâmica baseada na grande transformação do capitalismo que será conhecida como desindustrialização, acompanhada pelo declínio da acumulação e por mudanças na divisão global do trabalho e do não trabalho. Se a organização militante dos trabalhadores parece prevalecer em Detroit por volta de 1970, ela é minada a longo prazo. Em 2005, os afro-americanos representarão mais de 80% da população de Detroit, e pelo menos um quarto deles estará desempregado <strong>[26]</strong>. A previsão de Boggs acabará captando a realidade da situação.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo isso, é difícil enfatizar adequadamente a importância do esforço nesse período para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159563 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="750" height="457" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-300x183.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-689x420.jpg 689w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-640x390.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-681x415.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;"><em>A Revolta como Modalidade</em></h3>
<p style="text-align: justify;">O que pode significar, depois de ter trabalhado para rearticular o significado da revolta como uma forma de ação coletiva, sugerir agora que ela é uma modalidade política? Por exemplo, o que pode significar sugerir que os Panteras estão do lado da revolta, mesmo que Huey Newton tivesse pouca fé em tais atividades? Essa ambiguidade permeia as páginas do jornal <em>The Black Panther</em>. Um mês após o assassinato de Martin Luther King Jr. (e o assassinato separado do Pantera Lil&#8217; Bobby Hutton pela polícia) e a cascata imediata de revoltas, Eldridge Cleaver intitula sua coluna “Dig This” de “Credo para revoltosos e saqueadores” e oferece uma narrativa entusiasticamente apocalíptica; a página oposta apresenta um grande desenho de Matilaba em que dois policiais prendem ou possivelmente lincham um jovem negro, enquanto três militantes com boinas, jaquetas e rifles se preparam em uma esquina. Letras em negrito na parte superior da ilustração dizem “NO MORE RIOTS” (NÃO MAIS REVOLTAS); ao lado, “TWO&#8217;S AND THREE&#8217;S” (DOIS E TRÊS) <strong>[27]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Um primeiro passo pode ser observar que as revoltas já têm uma base em tipos alternativos de cooperação social. Robin D. G. Kelley observa sobre a revolta de Watts em 1965 que “a rebelião não surgiu do caos, mas de uma comunidade mobilizada” que abrigava uma ampla variedade de grupos, clubes e organizações mais ou menos formais; como observado acima, o mesmo aconteceu em Detroit (e certamente em outros lugares). Em Watts, as revoltas sinalizaram uma mudança em que “a orientação anterior pelos direitos civis deu lugar a uma cultura política do Black Power e alternativas culturais à assimilação da classe média”. As revoltas foram contínuas, acompanhando um desenvolvimento político mais amplo. Assim, em um caso, “logo após a revolta, gangues de rua radicalizadas formaram os Sons of Watts (Filhos de Watts) e mais tarde se juntaram ao Partido dos Panteras Negras” <strong>[28]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa continuidade entre o Black Power e os distúrbios permanece sob a superfície das políticas e dos planos. Eles compartilham uma circunstância e um propósito: “Os distúrbios que estão acontecendo são uma festa de autodefesa”, nas palavras de Fred Moten, ele próprio um teórico da negritude como excedente <strong>[29]</strong>. O sentido de ligação talvez fique mais claro se voltarmos à formulação básica das revoltas e greves como lutas de circulação e produção, respectivamente. É isso que os dados deste capítulo têm narrado: o declínio inicial e velado da produção nos Estados Unidos e no mundo, a mudança germinativa de corpos e capital para o mundo da circulação. A sequência política narra isso com igual clareza; o status da dinâmica revolta/greve nesse período serve como uma janela clara para a economia política da época. De fato, as revoltas e as greves têm todo o seu poder social porque carregam — junto com os desejos de seus participantes, suas misérias e negações — a lógica dessas categorias mais amplas. Pode-se dizer que, no limite, as revoltas e as greves são personificações coletivas da circulação e da produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a passagem central do poema “Riot”, de Gwendolyn Brooks, em que John Cabot, de nome brâmane e pertences luxuosos, “todo branco e azul sob seus cabelos dourados”, enfrenta seu fim:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Porque os negros estavam descendo a rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque os pobres estavam suados e feios</p>
<p style="text-align: justify;">(não como os dois negros delicados em Winnetka)</p>
<p style="text-align: justify;">e vinham em direção a ele em fileiras desordenadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em mares. Em ventos fortes. Eles eram negros e barulhentos.</p>
<p style="text-align: justify;">E não podiam ser detidos. E não eram discretos <strong>[30]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O poema segue as revoltas de Chicago de 1968. Não há trabalho, apenas negritude; é o futuro de Boggs, não o de seus editores. Há o consumo conspícuo de John Cabot e o movimento incontrolável dos “negros” pelas passagens urbanas. Mercado e via pública. Dificilmente se poderia pedir uma figura melhor de corpos movidos à circulação, da circulação como tal. A rima diferida carrega isso, <em>descendo a rua sem poder ser detida e sem discrição</em>. Nem são discretos. Ao mesmo tempo ordenados e não, “fileiras desordenadas”, eles se tornam negritude ambiente, negritude preenchendo e transbordando o espaço da existência social. Cabot reza para que “a negritude” não o toque, mas “Ela o impulsionou / e soprou sobre ele: e o tocou”.</p>
<p style="text-align: justify;">É difícil discernir se essa série de transferências existe no nível da consciência de Cabot ou do poema. Ambos, no final. Cabot não está, de fato, enganado sobre seu destino. Os negros são a negritude que é a revolta. Pelo menos em 1968. Na medida em que a revolta é uma categoria reconhecida pelo Estado, pela lei e pelo mercado, os negros descendo a rua sempre serão uma revolta, ou o momento antes, ou o momento depois. Tanto social quanto economicamente, a negritude aqui é excedente — para o Estado, para a lei, para o mercado. Ela promete sempre exceder a ordem, a regulamentação. A revolta é um exemplo da vida negra em suas exclusões e, ao mesmo tempo, em seu caráter de excedente, isolada na esfera barulhenta da circulação, forçada a se defender contra a morte social e corporal que lhe é oferecida. Uma rebelião excedente.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de se admirar que ela forneça a base para um imaginário de luta. Essa visão circula na ficção da época, que apresentou “uma notável proliferação de romances de autores afro-americanos projetando a possibilidade de uma guerra racial catastrófica em grande escala, de meados da década de 1960 ao início da década de 1970” <strong>[31]</strong>. Esse salto especulativo pode esclarecer de forma útil a posição de Newton. Ele é cético em relação aos limites da revolta, mas por razões bastante contrárias às razões daqueles que insistem no curso da organização trabalhista. Newton, assim como Boggs em sua análise, reconhece que o terreno de disputa marcado pela revolta é inevitável &#8211; que a revolta não é um desvio de algum caminho verdadeiro, mas existe no curso ao longo do qual a luta se desenvolverá. Ela não pode ser recusada. A revolta só pode fazer uma coisa: expandir-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizer que se está alojado em um mundo no qual a revolta é a forma de ação coletiva pela qual a luta deve passar &#8211; que é uma <em>instância</em> de uma coletividade social completa e complexa &#8211; é encontrar a revolta como modalidade social. Quando o substrato material da vida cotidiana é a concentração de populações na circulação, em economias informais &#8211; uma população coletiva tornada excedente e forçada a enfrentar o problema da reprodução no mercado em vez de no salário formal &#8211; nessa situação, qualquer reunião na esquina, na rua, na praça pode ser entendida como uma revolta. Ao contrário da greve, é difícil dizer quando e onde a revolta começa e termina. Isso é parte do que permite que a revolta funcione tanto como um evento específico quanto como uma espécie de miniatura holográfica de toda uma situação, uma imagem do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se esse relato parece aerossolizar a revolta, isso está de acordo com a circunstância com a qual a revolta se confronta. A revolta pré-industrial encontra o mercado imediatamente à sua frente, um fenômeno concreto; encontra a própria economia. Ao mesmo tempo, não encontra a polícia, o estado armado, exceto nas formas mais atenuadas. Essas tecnologias de controle permanecem incompletas e distantes em 1740. Por outro lado, a revolta pós-industrial encontra apenas uma amostra de mercadorias nas lojas locais. Os saques se aproveitam disso como devem: a verdade da antiga revolta, a fixação de preços em zero. Como Tom Hayden reconheceu no primeiro tratamento extenso da rebelião de 1967 em Newark:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A revolta foi mais eficaz contra os comerciantes que praticavam preços abusivos do que os protestos organizados jamais haviam sido. No ano anterior, foi iniciada uma pesquisa para verificar os comerciantes que pesavam suas balanças. A pesquisa fracassou devido ao desinteresse: as pessoas precisavam de poder, não de provas <strong>[32]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Ela continua sendo uma atividade central, claramente contínua com as intervenções do século XVIII. No entanto, a nova revolta descobre, ao definir o preço das mercadorias, que a economia como tal regrediu para a logística planetária e a divisão global do trabalho para o éter das finanças. A polícia, no entanto, pode ser encontrada em cada esquina.</p>
<p style="text-align: justify;">A distância entre a revolta e a <em>revolta linha</em>, os dois emissários das lutas pela circulação, parece, a princípio, ser a diferença entre a fixação de preços e a não fixação, ou entre a luta no mercado e a luta com o Estado. Esses aspectos, como sugerimos, não são tão facilmente separados, seja na prática ou teoricamente. Ao analisar a nova revolta, Georgakas e Surkin concluem que</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A violência de 1967 foi significativamente diferente daquela das explosões anteriores de Detroit. As revoltas de 1833, 1863 e 1943 foram conflitos entre raças. A rebelião de 1967 foi um conflito entre os negros e o poder do Estado. Em 1943, os brancos estavam na ofensiva e andavam pela cidade em carros à procura de alvos negros fáceis. Em 1967, os negros estavam na ofensiva e seu principal alvo era a propriedade. Em alguns bairros, os Apalaches, estudantes e outros brancos participavam da ação ao lado dos negros como seus parceiros. Diversas fotos mostram saques sistemáticos e integrados, que os rebeldes chamavam de “compras de graça” <strong>[33]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Janet Abu-Lughod observa que essa mudança no objeto da revolta também descreve as rebeliões no Harlem e em Watts, embora insista que essas rebeliões “não se tratavam apenas de brutalidade policial. Ambas ocorreram no contexto de uma recessão econômica cujo efeito apareceu primeiro nas áreas negras, mas depois se espalhou para a economia mais ampla dos EUA”, assim como em Detroit <strong>[34]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, a distinção conceitual entre violência estatal e econômica é elusiva. Guy Debord, avaliando a rebelião de Watts, teoriza o duplo confronto com o Estado e a propriedade e suas posições mutáveis. “A sociedade encontra no saque sua resposta<em> natural</em> à abundância antinatural e desumana de mercadorias”, escreve ele. Isso tem sido constantemente mal interpretado como uma sugestão de que o saque é uma realização hiperbólica da ideologia do consumo (um refrão comum dos comentaristas liberais), apesar do que Debord diz logo em seguida: “Ele [o saque] instantaneamente mina a mercadoria como tal e também expõe sua lógica última: o exército, a polícia e as outras forças especializadas que detêm o monopólio estatal da violência armada” <strong>[35]</strong>. Talvez essa exposição seja o propósito do saque, como argumentou Bruno Bosteels, caso se busque na teoria francesa a importância discursiva da revolta <strong>[36]</strong>. Ao mesmo tempo, o saque é certamente contínuo com a história prática da fixação de preços. De qualquer forma, Debord capta algo sobre o mundo superdesenvolvido e sua aparente abstração. A polícia agora ocupa <em>o lugar</em> da economia, a violência da mercadoria encarnada. No mundo em chamas da última instância, eles são fungíveis:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que é um policial? Ele é o servo ativo da mercadoria, o homem totalmente subjugado pela mercadoria, por cujos esforços um determinado produto do trabalho humano continua sendo uma mercadoria com a propriedade mágica de ser paga, e não apenas uma geladeira ou um rifle &#8211; algo cego, passivo, insensível, sujeito à primeira pessoa pronta para fazer uso dele. Por trás da humilhação de serem submetidos à polícia, os negros rejeitam a humilhação de serem submetidos a mercadorias <strong>[37]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">A fórmula mais simples é a seguinte. Para a revolta, a economia está próxima, o Estado está distante. Para a <em>revolta linha</em>, a economia está longe, o Estado está perto. De qualquer forma, é o mercado e a rua. <em>Hic Rhodus, hic salta!</em></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159564 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="750" height="573" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-550x420.jpg 550w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-640x489.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-681x520.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> James Boggs, <em>Pages from a Black Radical&#8217;s Notebook: A James Boggs Reader</em>, Detroit: Wayne State University Press, 2011,84-5.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Roberto Franzosi, “One Hundred Years of Strike Statistics: Data, Methodology, and Theoretical Issues in Quantitative Strike Research”, CRSO Working Paper No. 257, Ann Arbor: Center for Research on Social Organization, 1982, 15, 17.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs,” prologue to T<em>he Economics of Global Turbulence</em>, Madrid: Akal, 2009, page numbers taken from typescript provided by author, 8, 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Arthur M. Ross e Paul T. Hartman, <em>Changing Patterns of Industrial Conflict</em>, Nova York: Wiley, 1960, 71, 43.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century</em>, 315.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Brenner, <em>Turbulence</em>, 38.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Dados do Reino Unido do Office for National Statistics, “Labour Disputes Annual Estimates; United Kingdom; 1891-2014” (versão atualizada em 16 de julho de 2015), ons.gov.uk; Dados dos EUA do Bureau of Labor Statistics, “Comunicado de Notícias Econômicas: Tabela 1. Paralisação de trabalho envolvendo 1.000 ou mais trabalhadores, 1947-2014” (versão atualizada em 11 de fevereiro de 2015), bls.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ruth Wilson Gilmore, <em>Golden Gulag: Prisons, Surplus, Crisis, and Opposition in Globalizing California</em>, Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 2007, 39-40 (emphases in original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Otto Kerner et al., <em>Report of the National Advisory Commission on Civil Disorders</em>, Nova York: Bantam, 1968, 227.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Janet Abu-Lughod, <em>Race, Space, and Riots in Chicago, New York, and Los Angeles</em>, Oxford: Oxford University Press, 2007,7, 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Michael C. Dawson, <em>Blacks In and Out of the Left</em>, Cambridge: Harvard University Press, 2013, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Dan Georgakas e Marvin Surkin, <em>Detroit: I Do Mind Dying: A Study in Urban Revolution</em>, Chicago: Haymarket Books,2012, 50.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Dados disponíveis na página da web Detroit History, “Population of Various Ethnic Groups” (População de vários grupos étnicos), historydetroit.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 119.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> A narrativa foi compilada a partir de Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>; Joshua Bloom e Waldo E. Martin, Black Against Empire: <em>The History and Politics of the Black Panther Party</em>, Berkeley: University of California Press, 2013; e A. Muhammad Ahmad, “The League of Revolutionary Black Workers: A Historical Study”, historyisa weapon.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Trabalhador anônimo escrevendo no <em>Inner City Voice</em>, outubro de 1970, citado em Georgakas e Surkin, Detroit, 37.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Huey P. Newton, <em>The Huey P. Newton Reader</em>, eds. David Hilliard e Donald Weise, Nova York: Seven Stories Press, 2011, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Otto Kerner et al., <em>National Advisory Commission</em>, 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Joe T. Darden, Richard C. Hill e June M. Thomas, <em>Detroit: Race and Uneven Development</em>, Filadélfia: Temple University Press, 1990, 107.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Campbell Gibson e Kay Jung, “Tabela 23. Michigan — Raça e Origem Hispânica para Grandes Cidades Selecionadas e Outros Locais: Censo Mais Antigo até 1990”, PDF, Departamento do Censo dos Estados Unidos, fevereiro de 2005, census.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> James A. Geschwender, “The League of Revolutionary Black Workers,” <em>The Journal of Ethnic Studies</em>, 2: 3, outono de 1974, 9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Dawson, <em>Blacks In and Out</em>, 50.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Boggs, <em>Boggs Reader</em>, 102.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Leo Huberman e Paul Sweezy, “Editor&#8217;s Forward” (Prefácio do editor), history isaweapon.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> Joe T. Darden e Richard W. Thomas, <em>Detroit: Race Riots, Racial Conflicts, and Efforts to Bridge the Racial Divide</em>, East Lansing: Michigan State University Press, 2013, sem paginação, Tabela 15. Observe que todos os dados sobre desemprego neste capítulo são baseados na categoria U3 do Bureau of Labor Statistics, que não inclui os subempregados, os desanimados em procurar trabalho, os encarcerados e assim por diante. O número total U6 de Detroit em 2005 provavelmente está mais próximo de 45%.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[27]</strong> <em>The Black Panther</em>, 2: 2, 4 de maio de 1968: 4-5.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[28]</strong> Robin D. G. Kelley, “Watts: Remember What They Built, not What They Burned” (Watts: Lembre-se do que eles construíram, não do que queimaram), Los Angeles Times, 11 de agosto de 2015, latimes.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[29]</strong> Fred Moten, “Necessity, Immensity, and Crisis (Many Edges/Seeing Things)” (Necessidade, imensidão e crise (muitas facetas/vendo as coisas)), Floor, 2011. floorjournal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[30]</strong> Gwendolyn Brooks,<em> Riot</em>, Detroit: Broadside Press, 1969, 9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[31]</strong> Julie A. Fiorelli, “Imagination Run Riot: Apocalyptic Race-War Novels of the Late 1960s”, <em>Mediations</em>, 28: 1, outono de 2014, 127.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[32]</strong> Tom Hayden, <em>Rebellion in Newark: Official Violence and Ghetto Response</em>, Nova York: Random House, 1967, 30.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[33]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 155.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[34]</strong> Abu-Lughod, <em>Race, Space</em>, 25.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[35]</strong> Guy Debord, “Le déclin et la chute de l&#8217;économie spectaculaire-marchande”, <em>Internationale Situationiste</em> 1958-69: Éditionaugementée, Paris: Librarie Arthème Fayard, 2004, 418. Tradução minha. Este ensaio não estava assinado no original, mas mais tarde foi atribuído a Guy Debord.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[36]</strong> Bruno Bosteels, <em>Marx and Freud in Latin America: Politics, Psychoanalysis, and Religion in Times of Terror</em>, Londres: Verso, 2012, 292.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[37]</strong> Debord, “<em>Déclin</em>”, 418.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Edvard Munch (1863-1944).</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (1)</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 11:24:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Essa representação do trabalho como uma atividade universal coloca um problema, por várias razões. Por Michel Freyssenet]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Freyssenet</h3>
<p style="text-align: justify;">Há algum tempo, nas ciências sociais, recorre-se prontamente à expressão &#8216;a invenção de…&#8217; para significar o caráter histórico e localizado da noção em discussão, como, por exemplo, o mercado ou o desemprego. Pode parecer mais arriscado usar o termo para o trabalho, na medida em que o trabalho aparece como uma necessidade óbvia da condição humana.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalho poderia ser definido e delimitado, após eliminar as particularidades que apresenta em todas as sociedades conhecidas, como atividades que contribuem para as necessidades da vida humana e social. Ele pode, de alguma forma, existir independentemente de qualquer relação social para organizá-lo. As necessidades são percebidas &#8211; por nosso senso comum e pelo pensamento econômico &#8211; como o mínimo necessário para a existência humana. Por causa disso, atribui-se ao trabalho uma preeminência sobre todas as outras atividades.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa representação do trabalho como uma atividade universal coloca um problema, por várias razões <strong>[1]</strong>.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O Trabalho Nem Sempre Existiu. Ele Foi Inventado</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Dois argumentos provocam reflexão: a ausência do termo ou noção de trabalho em inúmeras sociedades, e a obrigação de admitir a hipótese do <em>homo faber</em> como fundamento da universalidade do trabalho na natureza.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Apenas Nossas Sociedades Distinguem o Trabalho de Outras Atividades</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">O estudo realizado por Marie-Noëlle Chamoux (1994) sobre os termos usados para se referir ao &#8216;trabalho&#8217; em muitas sociedades é bastante perturbador para a visão universalista do trabalho. Ou o termo e a noção estão ausentes; ou estão divididos em várias palavras e realidades; ou seus antônimos não são nem &#8216;repouso&#8217; nem &#8216;lazer&#8217;; ou são invariavelmente e explicitamente ligados a atos mágicos ou religiosos; ou ainda, não incluem atividades necessárias à vida material, como a caça etc. Tampouco a noção de esforço, encontrada em muitas sociedades, apresenta qualquer homogeneidade na definição ou nas atividades assim mencionadas. A categoria trabalho revelou-se, portanto, difícil de compreender empiricamente. Chamoux então faz a pergunta: pode-se dizer que o trabalho existe quando ele não é pensado nem vivido como tal?</p>
<p style="text-align: justify;">Historiadores e antropólogos parecem quase todos concordar que hoje, economia, produção, trabalho e assim por diante, como são entendidos na sociedade ocidental, são noções e áreas que surgiram claramente no século XVIII na Europa, com a diferenciação de um mercado capitalista dentro do mercado que o precedeu. Antes, economia, produção e trabalho estavam, por assim dizer, imersos &#8211; misturados com a política e a religião ou fundidos com elas. Pode-se tentar representar essa imersão da economia e do trabalho considerando, por exemplo, a esfera familiar como é pensada hoje. Muitas atividades ainda provêm indissoluvelmente da educação, afeição, necessidades, submissão, reconhecimento e assim por diante. A partir dessa constatação comum, as orientações de pesquisa divergem.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159550" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2.jpg" alt="" width="387" height="516" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2-315x420.jpg 315w" sizes="auto, (max-width: 387px) 100vw, 387px" />Karl Polanyi (1983), citando e desenvolvendo observações feitas anteriormente por Karl Marx e Max Weber, notadamente sobre o caráter &#8216;não segregado&#8217; dos aspectos econômicos em relação a outros aspectos da vida em todas as sociedades, exceto no Ocidente, conclui que não há definição &#8216;conceitual&#8217; universal possível para a economia. Cada época experimenta formas econômicas distintas. Por outro lado, ele acredita que é possível dar definições &#8216;substantivas&#8217; de economia, produção e trabalho que sejam válidas para todas as sociedades conhecidas: ou seja, a atividade necessária à vida material das pessoas e da sociedade. Mas essa atividade, distinguida em algumas ou firmemente imersa em outras, não é necessariamente determinante por sua natureza sobre as outras atividades. Dependendo da época, pode ter importância variável na vida social em geral. Karl Polanyi aproveita essa ocasião para denunciar o economicismo que, em sua opinião, estava invadindo as ciências históricas e sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Maurice Godelier, em sua obra <em>The Mental and the Material</em> (Godelier, 1984), cita a tese polanyiana, mas sem compartilhar as conclusões. Ele escreve que, ao contrário, isso permite reexaminar a noção marxista de relação social de produção e separar dela qualquer referência a uma sociedade particular, notadamente a sociedade ocidental, que autonomizou a economia. Acima de tudo, permite compreender &#8211; em oposição ao que o próprio Polanyi afirma &#8211; por que as relações sociais chamadas &#8216;superestruturais&#8217; (como as relações de parentesco ou políticas) podem fundar e organizar conjuntamente toda uma sociedade. A produção está inserida nessas relações e, consequentemente, elas funcionam como relações de produção. É até mesmo graças à exceção que a sociedade capitalista ocidental tem sido desde o final do século XVIII, que revelou e designou a economia como tal, que se tornou possível “compreender a importância das atividades materiais e das relações econômicas no movimento de produção e reprodução das sociedades” (Godelier, 1984: 32). O fato de as relações econômicas, uma vez autonomizadas, aparecerem como determinantes na vida social seria a prova de que as relações políticas e simbólicas que reinaram sobre certas sociedades só puderam fazê-lo porque integram as relações sociais de produção. Esse raciocínio, então conduzido por Godelier <strong>[2]</strong>, restabeleceu, portanto, estas últimas como fundamento de todas as sociedades, diferentemente do afirmado por Polanyi.</p>
<p style="text-align: justify;">Louis Dumont propõe desenvolver a tese polanyiana até o que lhe parecia ser sua conclusão lógica: ou seja, renunciar definitivamente a qualquer economicismo, inclusive, nas sociedades capitalistas, para:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…] recusar o compartimentalismo que nossa sociedade sozinha oferece obstinadamente e, em vez de buscar o significado da totalidade social na economia &#8211; ao que Polanyi é certamente contrário -, procurar antes na totalidade social o significado do que a economia é dentro de nossa sociedade e para nós <strong>[3].</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, muitos antropólogos consideram que a cultura já está presente no ponto em que a história começa. A produção é simbólica desde o início. A sociedade burguesa é, antes de tudo, uma cultura antes de ser uma economia: &#8216;Considerar o comércio como vantajoso para ambas as partes representou uma mudança fundamental e sinalizou a ascensão à categoria econômica&#8217; (Dumont, 1985: 45).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Duas grandes orientações podem, portanto, ser distinguidas. Para a primeira, a relação capital-trabalho autonomizou atividades que fazem uso da reprodução material e, assim, permitiu a definição da economia em geral, para além de sua forma capitalista. Então, o trabalho teria sempre sido essa atividade que consistia em usar, dominar e controlar a natureza para produzir a partir dela as utilidades necessárias à humanidade. Consequentemente, haveria uma definição substantiva possível para o trabalho, permitindo analisar essa forma de atividade em toda sociedade com critérios comuns e determinar o lugar que ela foi capaz de ocupar na estruturação das relações sociais. Enquanto para Polanyi a economia e o trabalho seriam estruturantes apenas nas sociedades capitalistas, para Marx e Godelier (1984) as relações capital-trabalho também teriam revelado que elas são estruturantes em todas as sociedades.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159553" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark.jpg" alt="" width="2000" height="1234" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-300x185.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-1024x632.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-768x474.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-1536x948.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-681x420.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-640x395.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />De acordo com a segunda orientação, uma cultura &#8211; e até agora uma única cultura, a burguesa &#8211; inventou uma área chamada econômica. Uma definição universal do econômico é, portanto, impossível tanto conceitual quanto substantivamente. O trabalho, como é entendido hoje, corresponde, nessa perspectiva, ao surgimento da relação de trabalho e do &#8216;trabalhador livre&#8217; que vende sua capacidade de trabalho. A progressiva difusão e hegemonia dessa relação social tornaram-se a referência para perceber, pensar e organizar uma série de atividades. A consequência teria sido uma extensão do termo trabalho a atividades que não eram designadas como tal e que não decorrem da relação de trabalho, como o &#8216;trabalho doméstico&#8217; e o &#8216;trabalho autônomo&#8217;. Uma naturalização do trabalho teria, assim, resultado. Desse ponto de vista, o trabalho é percebido como uma realidade universal e como tendo sempre existido. Ele teria sido projetado no passado e em outras sociedades, em vez de ter se realizado por meio das condições históricas que o fizeram emergir há três séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma boa maneira de avançar em tal debate é buscar os pressupostos de ambas as posições.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Hipótese do Desvelamento do Trabalho e da Economia Através da Relação Capital-Trabalho e, Portanto, de sua Universalidade, Supõe Concordância com um Materialismo Naturalista Inaceitável Hoje</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Um jornalista americano já havia objetado a Karl Marx, após ler o prefácio da <em>Contribuição à Crítica da Economia Política</em>, no qual Marx expunha sua distinção entre relações que fundam uma sociedade (infraestruturas) e aquelas que a governam (superestruturas), que a determinação da vida social por meio das relações sociais de produção não pode ser considerada universal. As sociedades antiga e feudal, ele lembrou, eram fundadas em relações essencialmente políticas. Marx responde, em uma nota em <em>O Capital</em>, que, durante o colapso das relações feudais, Dom Quixote ainda precisava encontrar por si mesmo algo para comer e beber. Em outras palavras, privados das relações que em algumas sociedades tanto abrangem quanto mascaram as relações pelas quais a reprodução material de uma sociedade é garantida, as pessoas se veem confrontadas com sua obrigação física primária: a alimentação. A determinação pelo econômico teria, portanto, claramente se originado de necessidades vitais inevitáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria útil lembrar de onde vem essa posição natural-materialista. Ela se enraizou nos primeiros trabalhos filosóficos de Karl Marx. Reagindo contra o idealismo e o universalismo hegeliano, Marx e Engels escreveram em <em>A Ideologia Alemã</em> que o humano em geral não existe e que os humanos só existem como indivíduos históricos reais.</p>
<p style="text-align: justify;">São os homens que produzem suas representações, suas ideias, etc., mas [eles são] homens reais, ativos, tais como são condicionados por um desenvolvimento determinado de suas forças produtivas e do modo de relações que a elas correspondem, incluindo as formas mais amplas que estas podem assumir. A consciência nunca pode ser outra coisa senão o ser consciente, e o ser dos homens é seu processo de vida real. (Engels e Marx, 1968: 50)</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, para “dissipar as fantasmagorias universalistas do pensamento e libertar-se delas”, eles propõem um programa de trabalho que visa estudar os seres humanos históricos concretos, as relações que mantinham entre si, suas condições de vida e o processo de vida real. Para justificar esse programa, apresentam três argumentos. Primeiro, um argumento metodológico: a vida material dos seres humanos reais pode ser verificada por meios puramente empíricos. É um argumento importante se tenta denunciar a omissão das condições de vida reais e suas relações com as diferenças comuns e formas de reflexão no pensamento universalista. É também um argumento, no entanto, insuficiente para justificar a primazia concedida à vida material para compreender outras manifestações humanas. Nesse ponto, entra em jogo um segundo argumento: pode-se provar que há um elo na história humana entre os diferentes estágios de desenvolvimento na divisão do trabalho e as formas de propriedade, ou seja, as relações dos indivíduos entre si. Mas essa correlação perceptível não implica, logicamente, que a produção material seja, por isso, mais determinante. Finalmente, intervém um terceiro argumento, claramente naturalista:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…]somos levados a começar pela primeira observação de qualquer existência humana, em qualquer história; isto é, que os homens devem viver para poderem &#8216;fazer história&#8217;. Mas, para viver, o homem deve antes de mais nada beber, comer, habitar e vestir-se, entre outras coisas. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que lhe permitem satisfazer essas necessidades, a produção da própria vida material, e mesmo isso é um fato histórico, uma condição prévia fundamental de qualquer história que hoje deve ser preenchida dia após dia, hora após hora, assim como há milhares de anos, simplesmente para manter o homem vivo.</p>
<p style="text-align: justify;">[…] Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião ou por qualquer outra coisa que se deseje. Eles próprios começam a se distinguir dos animais assim que começam a produzir seus meios de existência, um passo adiante que é a própria consequência de sua organização corporal. (Engels e Marx, 1968: 57, 45)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Engels e Marx acrescentam que muito rapidamente outras necessidades e, de fato, todo um estilo de vida se desenvolve. No entanto, eles fundam a preeminência da atividade produtiva nas necessidades vitais, uma evidência que não é realmente uma prova, e através de um discurso sobre as origens da humanidade, que na verdade é um discurso sobre o que os humanos eram em sua origem.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159552" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images.jpg" alt="" width="655" height="468" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images.jpg 655w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-300x214.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-588x420.jpg 588w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-640x457.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 655px) 100vw, 655px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os pressupostos da tese do &#8216;primeiro fato histórico&#8217;, em outras palavras, a produção dos meios que permitem a satisfação das necessidades de alimento, são numerosos e incertos demais para serem mantidos hoje. Seria necessário que, na espécie animal, o proto-humano não encontrasse nada para comer ou beber em seu ecossistema. Teria sido essa necessidade vital &#8211; sendo uma restrição absoluta &#8211; e não qualquer outra que teria desencadeado a invenção e a reflexão humana, bem como as primeiras relações sociais. Seria necessário buscar recurso em um meio &#8216;artificial&#8217; para a aquisição de alimentos, sendo essa a peculiaridade dos humanos, o que sabidamente não é o caso.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, não parece mais possível estabelecer uma tese tão carregada de consequências teóricas e práticas como a das relações sociais de produção estar na base de qualquer sociedade sobre a frágil hipótese do <em>homo faber</em>. Podemos razoavelmente postular que existia um ser social &#8216;completo&#8217;, livre de qualquer primitivismo. As condições de existência são uma sociedade, uma linguagem, a transmissão de conhecimento, razões para viver e morrer etc., assim como comer e beber, sem entrar em outras condições naturais ou culturais, igualmente essenciais, mas que são simplesmente ignoradas por serem dadas como certas.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de um retrocesso à posição de Dumont? É-se obrigado a buscar as razões para a divisão e a designação de atividades em cada sociedade? Seria necessário representar a sociedade como um organismo, dotado de um princípio único de existência, ordem e regulação, que daria sentido a cada uma de suas partes; em vez de tentar construir tal &#8216;totalidade&#8217;, pareceria mais prudente e heuristicamente mais frutífero partir do reconhecimento primário da existência de relações sociais, tendo sua própria lógica &#8211; atualizada, acionada e modificável pelos atores sociais que cada uma dessas relações institui, coexistindo ou articulando-se entre elas, criando campos sociais, cuja designação e fronteiras se deslocam em relação ao lugar e ao tamanho que essas relações sociais adquirem, cada uma em relação à outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosamente, Marx oferece a oportunidade e a possibilidade de se comprometer com esse caminho e pensar que o conceito de relação social se desvincula de qualquer determinação &#8216;substantiva&#8217;.</p>
<p><em>Artigo publicado no volume 47 (2) da revista Current Sociology em abril de 1999 e foi traduzido por Leo Vinicius. Acesse aqui a parte <a href="https://passapalavra.info/2026/08/159635/" target="_blank" rel="noopener">2</a>.</em></p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são da série Bichos de Lygia Clark</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Este artigo cita e expande uma série de textos publicados desde 1987: &#8216;Le concept de rapport social peut-il fonder une autre conception de l&#8217;objectivité et une autre conception du social?&#8217; (O Conceito de Relações Sociais Pode Fundar Outra Concepção de Objetividade e Outra Concepção do Social?) (Freyssenet e Magri, 1989: 9-23) e &#8216;Le rapport capital-travail et l&#8217;économique&#8217; (A Relação Capital-Trabalho e a Economia) (Freyssenet e Magri, 1990: 5-16); &#8216;L&#8217;invention du travail&#8217; (A Invenção do Trabalho), (Futur Antérieur, 1993-2: 17-26); &#8216;Historicité et centralité du travail&#8217; (Historicidade e Centralidade do Trabalho) (Bidet e Texier, 1995: 227-44).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A posição de Godelier mudou desde então, como ele explicou em seu prefácio a &#8216;La Transformation dans la nature et rapports sociaux&#8217; (A Transformação na Natureza e Relações Sociais) (Freyssenet e Magri, 1990: 19-20). Citando um texto intitulado &#8216;L&#8217;Oeuvre de Marx&#8217; (A Obra de Marx) publicado em &#8216;Le Marxisme analytique anglosaxon&#8217; (O Marxismo Analítico Anglo-Saxão), ele escreve:</p>
<p style="text-align: justify;">Quando, por exemplo, as relações de parentesco em uma sociedade tribal também funcionam internamente como relações de produção &#8211; portanto, tanto como infraestrutura quanto como superestrutura &#8211; deve-se explicar por quê. … [Agora], a antropologia social nunca descobriu até hoje a relação causal direta entre um modo de produção e um modo de filiação e aliança. Na verdade, se as relações de parentesco não dependem diretamente, por suas outras aparências, de um modo de produção, é porque elas têm suas próprias funções distintas e possuem &#8211; o único paradoxo aqui é na aparência &#8211; uma base material independente: relações biológicas entre sexos e gerações, condições materiais de produção de novos indivíduos às quais as regras de filiação e aliança dos diversos sistemas de parentesco dão um sentido e usos sociais etc. Assim, a hipótese central de Marx, que faz dos meios de produção materiais e sociais a base geral da vida social, não foi confirmada. Ela mantém uma capacidade mais restrita — embora ainda impressionante — de explicar o funcionamento e a evolução das sociedades. (Godelier, 1990: ???)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Prefácio de Louis Dumont à obra de Karl Polanyi <em>A Grande Transformação</em> (Polanyi, 1983: xxvi).</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (3)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 14:42:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 1: REVOLTA</strong></h4>
<p><strong>CAPÍTULO 1</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Que é Uma Revolta?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que está em jogo na definição de revolta não é simplesmente a possibilidade de fazer distinções históricas úteis, mas também a decifração do significado e do potencial político da revolta. Esse também é um problema para a pesquisa. Certamente, as revoltas frequentemente apresentam violência, direta, indireta ou como ameaça. Os problemas surgem quando os dois [revolta e violência] são atrelados um ao outro. Se alguém estiver, por exemplo, analisando registros públicos e selecionar <em>violência</em> e palavras relacionadas como termos de pesquisa, essa correlação terá um profundo efeito nos resultados. Da mesma forma, o pressuposto de que a violência indica uma revolta apresentará instantaneamente desafios para qualquer conceituação útil da atividade em questão.</p>
<p style="text-align: justify;">Considere as confusões que se proliferam quando se faz a fusão, neste exemplo do texto de abertura de <em>“Rioting in America”</em> de Gilje:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mesmo nos primeiros anos do século XIX, à medida que os trabalhadores refinavam suas táticas de greve, a coerção era necessária para impor a unidade e persuadir os proprietários quanto à legitimidade das exigências dos trabalhadores. Essa coerção frequentemente assumia a forma de revoltas &#8211; seja cobrindo de piche e penas um sapateiro recalcitrante em Baltimore ou brigando com os fura-greves nas docas de Nova York. A força era frequentemente usada para enfrentar a força, e as revoltas e a violência representam os sinais da história trabalhista americana desde a década de 1830 até o século XX. Antes de 1865, a maioria das greves violentas se limitava a cabeças rachadas e eram assuntos locais. Depois de 1865, as revoltas passaram a ter alcance nacional. Na grande greve ferroviária de 1877, os trabalhadores lutaram contra os militares de Baltimore a São Francisco. As dimensões dessas guerras trabalhistas continuaram a ganhar as manchetes nacionais com as batalhas em Homestead em 1892, Pullman em 1894, Ludlow em 1914 e Blair Mountain, West Virginia, em 1921. Acrescente a esses grandes cataclismos inúmeras escaramuças nas cidades, vilas e no campo, e veremos que grande parte da história do trabalho americano está escrita com sangue, como revoltas <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ficamos um pouco surpresos ao saber que a revolta é um aspecto marcante da história do trabalho. É um complemento da greve, seu braço armado. Ou talvez a revolta seja simplesmente uma subcategoria, a <em>greve violenta</em>; às vezes, elas se elevam ao status de “guerras trabalhistas”, chegando enfim ao último floreio gramaticalmente desajeitado, determinado a aproximar o máximo possível as palavras “revoltas” e “sangue”.</p>
<p style="text-align: justify;">Como costuma acontecer até mesmo com as concatenações mais arbitrárias, uma verdade é, no entanto, capturada. O eco de “escrito em letras de sangue e fogo” é sugestivo. A famosa descrição de Marx da acumulação primitiva insiste na violência das expropriações que produzem as condições para o capitalismo. À medida que os cavaleiros da indústria substituírem os cavaleiros da espada, parecerá que a apropriação do excedente sob o capital, diferentemente de todos os modos anteriores de produção, é garantida por meio de consentimento livre. Mas essa dupla liberdade do trabalho — <em>dos</em> meios de subsistência e <em>para</em> dispor de suas capacidades à vontade — é precisamente o que foi assegurado por essa violência originária, que não é dissolvida, mas sim sublinhada e preservada dentro da dominação impessoal da relação de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de se admirar, portanto, que a violência ronde o mundo do trabalho. Esse é o núcleo da verdade no relato de Gilje e o momento em que a violência poderia ter sido reconhecida como analiticamente independente da constituição da revolta. Com essa separação esclarecedora, a força ideológica dessa associação exclusiva poderia ser inspecionada. Mas é exatamente o que não acontece. É do caráter do pensamento burguês preservar uma compreensão mais moral do que prática do antagonismo social. Assim, em vez disso, encontramos a notável insistência de que a violência é sempre e em todos os casos um sinal da revolta — mesmo quando envolve “brigas com fura-greves”, um absurdo evidente. Citando “alguns precedentes legais”, Gilje acabará chegando à sua definição completa de revolta como “qualquer grupo de doze ou mais pessoas tentando fazer valer sua vontade imediatamente por meio do uso da força fora dos limites normais da lei” <strong>[2]</strong>. Uma revolta, não podemos deixar de notar, é o anverso perfeito de um júri.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é, nesse sentido, sempre e em toda parte ilegítima, o que pode não nos surpreender, a não ser pela alegação inicial de que ela serviu “para persuadir os proprietários da legitimidade das demandas dos trabalhadores”. A partir daí, os problemas categoriais só se proliferam. A consequência desse relato em particular é reduzir a greve em sua totalidade ao aspecto mais mínimo e ascético, a inação encontrada ao abandonar as ferramentas. Ela é sempre pacífica e sempre dentro da lei — apesar dos longos períodos da história durante os quais até mesmo a greve ou “reunião” mais moderadas eram ilegais, e apesar dos inúmeros exemplos de lutas com piquetes e outras formas de violência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159420" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg" alt="" width="1504" height="1157" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg 1504w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-300x231.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-1024x788.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-768x591.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-546x420.jpg 546w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-640x492.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-681x524.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1504px) 100vw, 1504px" /> Por meio de tais construções contrafactuais, obtemos um modelo de greve severamente limitado, tanto em termos de quais ações ela pode incluir, quanto em relação a seu escopo histórico e geográfico. De fato, a greve contemplada aqui quase não existe. Essa definição também tem o efeito contrário de ampliar e desfigurar nosso conceito de revolta para além de qualquer particularidade; ele pode ser encontrado em todos os tempos e lugares como algo que beira a essência trans-histórica. Uma definição mais persuasiva, mas ainda limitada, é oferecida por David Halle e Kevin Rafter:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[A revolta] envolve publicamente pelo menos um grupo, que com pouca ou nenhuma tentativa de ocultação, agride ilegalmente pelo menos um outro grupo ou ataca ou invade ilegalmente uma propriedade… de forma que se indique que as autoridades perderam o controle… os ataques a outro grupo ou à propriedade devem atingir um determinado limite de intensidade <strong>[3]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser útil em comparação com a avaliação de William Sewell, um dos principais historiadores da ação coletiva. Embora se baseie em Tilly, Sewell também dá à violência um lugar de destaque em sua estrutura analítica em todos os períodos históricos, concluindo que “o argumento essencial de Tilly ainda pode ser explicado de forma mais econômica com o uso de sua tipologia de violência competitiva, reativa e proativa” <strong>[4]</strong>. O que diferencia Sewell de Gilje é que, ao deslocar os termos revolta/greve para os registros de violência em vez de sobrepor as duas estruturas à força, ele é capaz de avaliar a mudança de uma orientação dominante para outra dentro de um repertório de ações aberto à transformação histórica. Ou seja, ele mantém a possibilidade de periodização como tal. Isso é exatamente o que Gilje efetivamente abandona ao obscurecer totalmente metade do trabalho da história. Tilly observa,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O repertório de ações coletivas evolui de duas maneiras diferentes: o conjunto de meios disponíveis para as pessoas muda em função de transformações sociais, econômicas e políticas, enquanto cada meio de ação individual se adapta a novos interesses e oportunidades de ação. Rastrear essa dupla evolução do repertório é uma tarefa fundamental para a história social <strong>[5]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A descrição da revolta como expressão multifacetada da violência social geral que muda de forma a torto e a direito, conforme ditam as circunstâncias, ressalta a segunda enquanto apaga a primeira — e, com ela, qualquer chance de compreender a importância sistemática do retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Econômico e o Político</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">O confusão entre revolta e violência tem sido uma ferramenta essencial para a redução política da revolta, seu isolamento da política propriamente dita, cuja medida se baseia implicitamente em um modelo de auto-consciência ou em sua ausência. Foi isso que Thompson começou a criticar, chamando-a de “visão espasmódica da história popular:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">De acordo com essa visão, as pessoas comuns dificilmente podem ser consideradas agentes históricos antes da Revolução Francesa. Antes desse período, elas se intrometem ocasionalmente em momentos de súbita perturbação social. Essas irrupções são compulsivas, em vez de autoconscientes ou autoativadas: são simples respostas a estímulos econômicos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas conceitualizações são renovadas na ciência positivista e quantitativa, por exemplo, do New England Complex Systems Institute. Seu estudo de 2011, focado em nações com baixos salários, traça uma correlação de explicação única [single-bullet] em que os autores “identificam um limite específico de preço dos alimentos acima do qual os protestos se tornam prováveis” <strong>[7]</strong>. Há desvios mais matizados dessas suposições subjacentes, articulando aumentos insuportáveis nos preços das mercaorias com mudanças econômicas mais amplas, como a reestruturação do FMI, programas e relações comerciais forçadas, que fornecem as condições para regimes alimentares precários. Enfatizando a construção da fome e da escassez, esses relatos, no entanto, assumem um verdadeiro mecanismo autonômico [autonomic] de encadeamento entre estímulo e resposta. A definição efetiva de revolta aqui é condicional. É simplesmente o que acontece quando os preços dos alimentos atingem um certo apogeu, uma versão da abordagem dos “historiadores do crescimento”, rejeitada por Thompson por “obliterar as complexidades do motivo, do comportamento e da função, que, se fossem notados pelo estudo de seus análogos marxistas, os fariam protestar” <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa abordagem encontra seu contraponto de forma um tanto perversa em Alain Badiou. Ele oferece um sentido qualitativo e abstrato do momento político. Em muitos aspectos, seu relato transcende os limites de seus contemporâneos, intelectuais de esquerda que, confrontados com as revoltas de Tottenham em 2011, aprenderam pouco. Na melhor das hipóteses, fomos levados a pensar que as revoltas alcançaram um espontaneísmo lamentável, aquela acusação que é a reanimação do pensamento socialista da tropa “espasmódico”. Foi um espetáculo estranho ver uma teoria política outrora moderna ser apresentada como um truísmo, como se o debate entre Lênin e Luxemburg tivesse sido resolvido e suas conclusões fossem válidas para sempre, sem necessidade de análise real. Em geral, os relatórios foram ainda menos generosos. Os participantes eram farsantes da sociedade antes deles, movidos pelas compulsões de autocancelamento da época, avatares do individualismo materialista momentaneamente liberados, talvez aptos a escapar de explosões sem sentido se lhes fosse fornecido um programa político. Como Slavoj Žižek perguntou, queixoso, do recinto de papel da <em>London Review of Books</em>: “Quem conseguirá direcionar a raiva dos pobres?” Era difícil não temer que um filósofo quisesse se encarregar dessa tarefa.</p>
<p style="text-align: justify;">Badiou, no entanto, deixa claro que as revoltas para as quais ele volta sua atenção não estão em busca de uma direção de vanguarda, sem a qual só podem afirmar a sociedade da qual surgiram. Ele as identifica como um fato periodizante em meio à sua própria realização:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…] vários povos e situações estão nos dizendo, em uma linguagem ainda indistinta, que esse período acabou; que há um renascimento da História. Devemos então nos lembrar da Ideia revolucionária, inventando sua nova forma ao aprender com o que está acontecendo <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A Ideia surge do evento da revolta, que então fornece uma força e duração organizacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse esquema, há uma certa alternância entre períodos em que “a concepção revolucionária de ação política foi suficientemente esclarecida (…) e, com base nisso, garantiu apoio maciço e disciplinado” e “períodos intervalares [quando], em contraste, a ideia revolucionária do período anterior (…) está dormente” <strong>[10]</strong>. Na falta de uma ideia ordenadora (muitas vezes aparecendo como a Ideia majestosa), esses últimos períodos dão origem à expressão dessa desordem no modo protopolítico da revolta. Badiou vê uma “estranha semelhança” entre nosso passado recente e a Restauração Francesa após a derrota final do espírito republicano: “desde o início da década de 1830, foi um grande período de revoltas, que muitas vezes foram momentânea ou aparentemente vitoriosas… Essas foram precisamente as revoltas, às vezes imediatas, às vezes mais históricas, características de um período intervalar” <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159422" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O puramente econômico e o puramente político, como era de se esperar, mostram os limites um do outro em negativo. O conto indexical do New England Complex Systems Institute não pode fazer muito além de atender certas quantidades à medida que elas se aproximam de determinados níveis e aguardar a revolta que inevitavelmente seguirá. O método deles parece ser relativamente preciso, depois de dados concretos, mas dificilmente é explicativo em relação à revolta como fenômeno social.</p>
<p style="text-align: justify;">O relato de Badiou, ao contrário, é admiravelmente explicativo, mas impreciso. Ou seja, ele fornece um contexto social reconhecível para a revolta em oposição a outras formas de ação, uma demanda por periodização, e está preparado para aceitar a revolta como um testemunho sério sobre a transformação histórica. No entanto, há imprecisões em sua pesquisa histórica, o que deriva de periodizações um tanto arbitrárias da história francesa a partir de desejos políticos imputados, em direção a uma trajetória global de revolta, à qual essa distribuição histórica não corresponde. O movimento oscilante que ele deduz para a França, com fases que duram décadas, tem pouca força de periodização; provavelmente preciso para seu país natal, ele combina pouco ou nada com as tendências da história em outros lugares. Além disso, qualquer revolta de importância política (uma “revolta histórica”, em sua tipologia) aparece como um evento praticamente sem determinação, fora do tempo. Os analistas quantitativos nos dão causalidade demais; Badiou, de menos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas duas abordagens estão diante de nós como Scylla e Charybdis, os duros bancos de areia do economicismo vulgar e o redemoinho da abstração política. Como navegar entre elas, entre a revolta como jogo de fome e a revolta como emanação de uma estrutura diáfana de sentimento político? Sem dúvida, cada um deles é, de certa forma, informativo, mas ainda insuficiente. Se enfatizamos a periodização, é primeiro porque mudanças fundamentais e duradouras no repertório da ação coletiva sugerem que a periodização é possível em formas mais completas do que espasmos ou oscilações, tanto em escalas infranacionais quanto supranacionais. Se a revolta olha para a periodização, o período, por sua vez, olha de volta para a revolta pelo buraco da fechadura dialética. É difícil, talvez impossível, estabelecer o que é uma revolta sem a periodização; com ela, a revolta (e também a greve) pode ser entendida como um conjunto de práticas diante de circunstâncias práticas, com ou sem um imaginário sobre a autoconsciência reflexiva dos participantes em que se baseiam tantos relatos.</p>
<p style="text-align: justify;">É na prática que Thompson baseia sua análise. Sua conclusão agrega um conjunto de outras práticas, incluindo bloqueio, confisco, revenda, ameaça e violência real contra comerciantes e transportadores. É a partir dessas práticas, em relação a um senso personalizado do custo de se manter vivo, que ele deduz a prática de fixação de preços como a atividade unificadora. Thompson, por sua vez, foi criticado pelo peso que ele dá ao costume e ao direito presumido de transformar o costume em uma arma, que é aproveitada pela multidão. No entanto, o caso mais básico que ele constrói se aproxima do indiscutível: o caso de reconhecer que a situação de revolta não é nem a simples fome nem a “emoção” política (como a revolta já foi chamada), mas sim o domínio do mercado. Se o mercado era “o ponto em que os trabalhadores mais frequentemente sentiam sua exposição à exploração, era também o ponto &#8211; especialmente em distritos manufatureiros rurais ou dispersos &#8211; em que eles podiam se organizar mais facilmente” e, portanto, era “tanto na arena da guerra de classes quanto na fábrica e na mina que se deu a revolução industrial” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Falar de guerra de classes não pode deixar de tender a um certo reducionismo. Não parece, pelo menos no sentido ortodoxo que adquiriu, totalmente adequado ao mundo protoindustrial em questão, nem ao presente quando o pertencimento de classe fornece não tanto um limite, mas uma lógica para a mobilização política. Apenas assim, como nossa introdução observa, a “fixação de preços de mercadorias no mercado” descreve apenas uma fração da revolta contemporânea. Thompson, e ele não está sozinho, aponta uma saída em um momento de atenção ao tema da revolta. Ele faz uma pausa em sua pesquisa para observar: “Os iniciadores das revoltas eram, com muita frequência, as mulheres”, pela razão evidente de que “elas também eram, é claro, as mais envolvidas no comércio cara a cara, mais sensíveis aos significados dos preços, mais experientes em detectar baixo peso ou qualidade inferior” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é apenas razoável, no caso das excluídas antecipadamente do “patriarcado do salário” <strong>[14]</strong> encontrarem mais intensamente a luta no mercado, uma vez que a agricultura de subsistência é minada e a questão básica da sobrevivência é forçada a entrar em uma esfera de troca em expansão. E isso nos oferece, mais do que uma lógica de circulação, a esfera do consumo e da troca. Além disso, gera uma lógica de reprodução como tal.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Dilema da Reprodução</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A reprodução social tem sempre dois lados. Do lado dos despossuídos do capital, ela é tanto a venda da força de trabalho quanto a compra do que é necessário para reproduzir essa força de trabalho. Do lado do próprio capital, é a valorização das mercadorias na produção e a realização desse valor na troca. Essas são as mesmas atividades, evidentemente, vistas de posições diferentes. A ilustração mais clara do caráter duplo da reprodução, sua unidade contraditória, é a chamada <em>double moulinet</em> ou, em alemão, <em>zwickmühle</em>, uma palavra que o inglês traduz como “dilema”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na narrativa tradicional desse dilema, trata-se de uma história do trabalho: da força de trabalho refeita e revendida pelo salário, e do trabalho reprodutivo infinitamente apropriado para esse processo, mais comumente referido como “trabalho feminino” não remunerado. O que Thompson vislumbra é que esse trabalho reprodutivo acontece não apenas em casa &#8211; cozinha, quarto, berçário &#8211; mas também, no período pesquisado por ele, é encaminhado pelo mercado. Quando o mercado parece ser a principal condição para a reprodução, as lutas pela reprodução inevitavelmente se situarão nele. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de notar que essa situação não se aplica a todos os sujeitos igualmente &#8211; que aqueles que são os últimos a entrar e os primeiros a sair do assalariamento, aqueles que nunca foram incluídos, aqueles que, na melhor das hipóteses, conseguem acesso secundário, estarão na vanguarda daqueles que se encontram lutando pela reprodução de maneiras que vão além do salário. Nessa divisão dos participantes, encontramos outra maneira de ver a conjuntura das épocas marcadas como “revolta” e “revolta linha”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159419 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png" alt="" width="198" height="340" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png 198w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922-175x300.png 175w" sizes="auto, (max-width: 198px) 100vw, 198px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Na introdução, estabelecemos uma definição tripartite de greve como a forma de ação coletiva que luta para definir o preço da força de trabalho, é unificada pela identidade do trabalhador e se desenvolve no contexto da produção; a revolta luta para definir os preços no mercado, é unificada pela desapropriação compartilhada e se desenvolve no contexto do consumo. A greve e a revolta são distinguidas mais ainda como táticas principais dentro das categorias genéricas de lutas pela produção e circulação. Podemos agora reafirmar e elaborar essas táticas como sendo cada uma delas um conjunto de práticas usadas pelas pessoas quando sua reprodução é ameaçada. A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Seus pontos fortes são igualmente seus pontos fracos. Eles fazem usos estruturados e improvisados do terreno dado, mas esse é um terreno que eles não criaram nem escolheram. A revolta é uma luta pela circulação porque tanto o capital quanto os seus despossuídos foram levados a buscar a reprodução nesse terreno.</p>
<p style="text-align: justify;">Se essa parece ser uma linguagem um tanto técnica para uma experiência sensorialmente carregada &#8211; um antagonismo social dramático carregado de perigo, fúria, desespero e certo prazer social -, isso é apenas uma resposta às rejeições convencionais da revolta já encontradas, por meio da apresentação de um argumento que não deveria ter sido necessário. A revolta, que compreende práticas organizadas contra ameaças à reprodução social, não pode ser nada além de política. Isso não quer dizer que a contradição da reprodução possa ser resolvida na circulação mais do que na produção. Na verdade, é a existência dessas duas esferas, em sua unidade e contradição, que garante a existência e dá forma às lutas pela reprodução. Se as vastas expansões da revolução industrial fornecem os excedentes para o desenvolvimento de aparatos militares e policiais modernos, elas também fornecem excedentes que podem ser usados para comprar a paz social. À medida que esses excedentes derretem e parcelas cada vez maiores da população se tornam excedentes para a economia, o Estado se volta cada vez mais para a coerção como estilo de gestão: o salário social do compromisso keynesiano é retirado em favor da ocupação policial das comunidades excluídas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a polícia e a revolta passam a se pressupor mutuamente. A revolta passa a se reconhecer por meio dessa imbricação. Caminhando por Hackney durante as revoltas de 2011, passando por cenas de angústia e excitação, passando por latas de lixo em chamas e os detritos de saques, alguns observadores concluíram que “uma luta coerente estava sendo travada aqui … para insistir no respeito dos policiais, forçar o reconhecimento de um assunto em que a rotina diária vê apenas um abjeto”. <strong>[15]</strong> A passagem aponta para a revolta como uma relação necessária com a estrutura atual do Estado e do capital, travada pelos abjetos &#8211; pelos excluídos da produtividade. Mas também aponta para a dependência da revolta em relação ao seu antagonista. No momento, a polícia aparece como necessidade e limite.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o tema dialético, esse dilema de necessidade e limite. O mercado, a polícia, circulação. Essas não são situações em que qualquer superação final é possível; é onde as lutas começam e florescem, desesperadamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Gilje, <em>Rioting in America</em>, 3.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ibid., 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> David Halle e Kevin Rafter, “Riots in New York and Los Angeles: 1935-2002”, em <em>New York and Los Angeles: Politics, Society, and Culture—A Comparative View</em>, ed. David Halle, Chicago: University of Chicago Press, 2003, 347.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> William Sewell, “Violência coletiva e lealdades coletivas na França: por que a Revolução Francesa fez a diferença”, <em>Política e Sociedade,</em> n.º 18, 1990, 529.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Charles Tilly, “Getting It Together in Burgundy, 1675-1975” (Unindo forças na Borgonha, 1675-1975), Teoria e Sociedade, 4: 4, 1977, 493.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Thompson, “Economia moral”, 76.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Marco Lagi, Karla Z. Bertrand e Yaneer Bar-Yam, “As crises alimentares e a instabilidade política no Norte da África e no Oriente Médio”, Cambridge, MA: Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra, 10 de agosto de 2011, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 78.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Badiou, <em>The Rebirth of History</em>, 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Ibid., 38-39.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ibid., 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 134, 120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Ibid., 115; 116</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Silvia Federici, <em>Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation</em>, Nova York: Autonomedia, 2004, 68,97-100.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> “A Rising Tide Lifts All Boats”, <em>Endnotes</em> 3 2011, 102.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As gravuras que ilustram este artigo são, respectivamente, das greves de Baltimore (1877), Homestead (1892) e Pullman (1894).</em></p>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Thiagson e UOL: quais os limites?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Jun 2026 21:32:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
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					<description><![CDATA[Contribuindo para a valorização do funk, Thiagson deixa de fazer uma crítica à contradição em que ele próprio está envolto: um intelectual orgânico do funk, numa tentativa de conquistar mercado e surfar na onda de empresas cool, “SPLASH” e “conscientes”. Por Luís]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Luís</h3>
<p style="text-align: justify;">No início de junho de 2026, a página do Toca UOL publicou um vídeo em sua página do Instagram onde Thiagson entrevista MC Hariel, divulgando o novo trabalho do funkeiro no Red Bull Symphonic — uma mistura inédita ou no mínimo rara entre o funk e a música clássica em um evento de grandes proporções. A ocasião abre espaço para que Thiagson, que é consagrado como um intelectual no meio do funk e da música periférica, principalmente através da sua crítica ao etnocentrismo, o desvelamento da arbitrariedade e do racismo no estigma colocado na música periférica por parte da mídia e outras instâncias; o que, de fato, é uma contribuição importantíssima. O problema não é a reflexão proposta a partir da situação: é a função de legitimador irrefletido do funk; Thiagson é, na sua atuação, a anti-autocrítica.</p>
<p style="text-align: justify;">A tônica do vídeo se dá com a reflexão sobre o julgamento social do valor das expressões artísticas e como Hariel, sendo oriundo de um meio estigmatizado no campo cultural, “bagunça” a ordem e consegue atrair a admiração e julgamentos positivos de setores socialmente distanciados do seu. Explicita, também, a teoria de Pierre Bourdieu sobre como as correlações de força e lutas na sociedade influenciam o julgamento e o universo simbólico a partir do exemplo que dá sobre a recepção e abordagem que recebe dos mesmos setores, no seu elogio que, enquanto exalta o MC, “desmerece” e rebaixa o campo no qual ele está inserido.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ah, mano… Tipo, esses Cavalo de Tróia, eu lido com isso diariamente. Quando as pessoas às vezes tentam me elogiar, aí […] desmerecem todo mundo. Tipo: “ah, eu curto seu som… mas o resto eu não gosto, não!”. É uma parada que a gente vê a ignorância da pessoa no elogio. A pessoa é tão ignorante que ela não consegue elogiar uma pessoa ou olhar pra uma parada assim sem querer legitimar outra. Sei que vai vim vários assim com esse ponto de vista, mas eu tô mais preocupado com o rapaziada do funk mesmo que pode olhar pro lado da orquestra e conhecer alguns números, conhecer mais sobre esse universo, tá ligado?… Não tô preocupado com esses que vão vim nesse embalo assim. Pode chegar com pensamentos diferentes, mas se for ficar pra acompanhar mesmo, vai ter que pegar a visão, vai ter que ter o respeito.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tal atitude ajuda a desvelar os <em>princípios de percepção e apreciação</em> dos agentes: quando se está inserido num campo periférico, refletindo valores periféricos, uma estética periférica, enfim, um <em>ethos</em> típico da periferia, o valor é negativo; a partir do momento em que começa a haver uma aproximação com os valores “bons”, no sentido de mais valorizados socialmente, na hierarquia social — o que até mesmo a cor de pele mais clara pode significar para alguns —, começa-se a valorar positivamente. No caso, Hariel sendo um dos poucos que fazem esse último movimento, é enxergado por muitos como “o único bom”, um funkeiro de valor entre outros rebaixados.</p>
<p style="text-align: justify;">No movimento (novamente, acertado) de fazer (novamente) a crítica ao etnocentrismo, entra a contradição central: o problema não é o que Thiagson diz, <em>é o que ele deixa de dizer. </em>Enquanto usa Bourdieu para dar legitimidade — e, no fim das contas, jogar com esse mesmo movimento que Hariel fez, talvez de forma menos pensada, de brincar com a economia simbólica — ao seu ponto e atrair esse novo mercado (pode-se falar de mercado?) de pessoas das frações mais cultas da classe-média que tentam se aproximar dos guetos através de objetos culturais advindos deles, contribuindo para a valorização do funk, deixa de fazer uma crítica à contradição que, nesse caso, se torna até mesmo inconveniente, já que o próprio está envolto nela: um intelectual orgânico do funk, dentro dos maiores portais online do país, anunciando o contrato de um funcionário da Warner e CEO da Xaolin Records com uma gigante capitalista como a Red Bull numa tentativa de conquistar mercado e surfar na onda de empresas <em>cool, “SPLASH” </em>e “conscientes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Longe de ser um caso isolado, é uma constante em sua atuação pública: caso notório é sua entrevista — também mediada pelo Toca UOL — com Criolo. Ao ser perguntado sobre a ascensão do chamado “rap de direita”, o artista responde conciliando: diz que isso sempre existiu, fala da pluralidade de visões na periferia, no movimento hip-hop etc. Diante disso, não há contraponto ou ao menos instigação por parte de Thiagson, o que revela seu limite: por mais que, de fato, seja impossível dizer que, hoje, a cultura hip-hop ou o rap é “de esquerda” ou “de direita”, o que vai definir a quem a cultura serve, nas suas tendências dominantes — pois sempre podem existir “guetos” dentro de um campo com visões diferentes das dominantes, mas com atuação quase sempre limitada — são justamente as lutas, as disputas, os debates. Quando deixa a afirmação de Criolo passar sem sequer uma constatação (o que, vale lembrar, muitos outros não deixaram de fazer, questionando a fala do rapper), Thiagson deixa de ter compromisso com a própria posição de esquerda que assume, abre alas às tendências direitistas dentro da cultura e ainda por cima as legitima para um público potencialmente crítico, emprestando sua legitimidade acadêmica, cultural e própria do universo da música periférica para uma posição conciliadora, que esvazia o potencial crítico e emancipatório do rap e do funk.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, é importante salientar algumas coisas: primeiramente, quando falamos nos “limites” da atuação de Thiagson, não queremos dizer que o sujeito em questão é alguém preso eternamente a esses limites, desonesto ou mesmo que o indivíduo tenha planejado cinicamente os efeitos das suas ações. Não é um ataque, como existem aos montes pela internet, que questiona o próprio valor do funk, das expressões periféricas, seja como “não-música” ou cultura inferior — argumento que o próprio ajuda a desmontar, por exemplo, na sua tese de doutoramento e por diversas outras vezes. É uma crítica que quer disputar os rumos da cultura e abrir espaço à discussão justamente porque acredita no potencial emancipatório da mesma e porque tem apreço por ela.</p>
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<p style="text-align: justify;">Falando em limites, é fundamental perguntar: o que pode ser dito dentro da UOL? Thiagson, enquanto funcionário (e não enquanto indivíduo, ressaltamos novamente) da UOL se encaixa muito bem na categoria de <em>fast thinker</em> descrita pelo próprio Bourdieu em <em>Sobre a Televisão:</em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sobre a televisão, o índice de audiência exerce um efeito inteiramente particular: ele se retraduz na pressão da urgência. A concorrência entre os jornais, a concorrência entre os jornais e a televisão, a concorrência entre as televisões toma a forma de uma concorrência pelo furo, para ser o primeiro. Por exemplo, em um livro em que apresenta certo número de entrevistas com jornalistas, Alain Accardo mostra como os jornalistas de televisão são levados, porque tal televisão concorrente “cobriu” uma inundação, a ir “cobrir” essa inundação tentando obter algo que o outro não obteve. Em suma, há objetos que são impostos aos telespectadores porque se impõem aos produtores; e se impõem aos produtores porque são impostos pela concorrência com outros produtores. Essa espécie de pressão cruzada que os jornalistas exercem uns sobre os outros é geradora de toda uma série de conseqüências que se retraduzem por escolhas, por ausências e presenças. Eu dizia ao começar que a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento. […] E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão das relações entre o pensamento e a velocidade. Pode-se pensar com velocidade? Será que a televisão, ao dar a palavra a pensadores que supostamente pensam em velocidade acelerada, não está condenada a ter apenas <em>fast-thinkers</em>, pensadores que pensam mais rápido que sua sombra…? Com efeito, é preciso perguntar por que eles são capazes de responder a essas condições inteiramente particulares, por que conseguem pensar em condições nas quais ninguém mais pensa. A resposta é, ao que me parece, que eles pensam por “idéias feitas”. As “idéias feitas” de que fala Flaubert são idéias aceitas por todo mundo, banais, convencionais, comuns; mas são também idéias que, quando as aceitamos, já estão aceitas, de sorte que o problema da recepção não se coloca. Ora, trate-se de um discurso, de um livro ou de uma mensagem televisual, o problema maior da comunicação é de saber se as condições de recepção são preenchidas; aquele que escuta tem o código para decodificar o que estou dizendo? Quando emitimos uma “idéia feita” é como se isso estivesse dado; o problema está resolvido. A comunicação é instantânea porque, em certo sentido, ela não existe. Ou é apenas aparente. A troca de lugares-comuns é uma comunicação sem outro conteúdo que não o fato mesmo da comunicação. Os “lugares-comuns” que desempenham um papel enorme na conversação cotidiana têm a virtude de que todo mundo pode admiti-los e admiti-los instantaneamente: por sua banalidade, são comuns ao emissor e ao receptor. Ao contrário, o pensamento é, por definição, subversivo: deve começar por desmontar as “idéias feitas” e deve em seguida demonstrar. […] Se a televisão privilegia certo número de fast-thinkers que propõem fast-food cultural, alimento cultural pré-digerido, pré-pensado, não é apenas porque (e isso faz parte também da submissão à urgência) eles têm uma caderneta de endereços, aliás sempre a mesma (sobre a Rússia, são o sr. ou a sra. X, sobre a Alemanha, é o sr. Y)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Cumpre a mesma função descrita, estando sempre pronto a intervir nas oportunidades que aparecem, nas polêmicas e no que viraliza, no que o canal de mídia precisa <em>cobrir</em> com as chamadas “ideias feitas”: argumentos rápidos, reciclagem de parte de suas teses sem um aprofundamento na questão em si e nem desdobramentos que se coloquem além da crítica ao etnocentrismo que já é esperada da sua parte. Além de, por parte desse novo público, citado anteriormente, com capital cultural relativamente alto e potencial consumidor de obras com “caráter popular”, serem ideias, geralmente, já superficialmente pré-aceitas, ainda que com ressalvas ou a um certo contragosto, como a fala de MC Hariel explicita. Além do que se encaixa com mais precisão ao que foi descrito por Bourdieu há algumas décadas, observamos as práticas e roteiros que expressam adaptação à dinâmica atual da internet e às estratégias impostas para o sucesso — já que, pelo menos pelo que nós deduzimos, o Toca UOL tem como orientação a rentabilidade, o lucro — dentro deste contexto: vídeos relativamente curtos, facilmente polemizáveis e que servem de propaganda e ao mesmo tempo exploram a imagem tanto de um artista consagrado quanto a de um influencer.</p>
<p style="text-align: justify;">Encerrando, gostaria de perguntar a quem por acaso tenha concordado com o que foi colocado aqui: o seu acordo se dá pelo compromisso ou pelo ressentimento?</p>
<blockquote><p>As imagens que ilustram o artigo são da autoria de Ron English (1959-).</p></blockquote>
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