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	<title>Religião &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>O padre e o pastor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Feb 2026 00:34:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[O protestantismo no Brasil foi a amante que reacendeu a paixão no coração de quem vivia a mesmice com a esposa. Por Luís]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Luís</h3>
<p style="text-align: justify;">O Brasil mudou muito nos últimos 25-30 anos? Não sei dizer ao certo, até por não estar sequer neste mundo na época mas, pelo que dizem os relatos e demais fontes, não parece. Fato é que, se há algo que, notavelmente, não é mais como costumava ser é a composição religiosa do Brasil: o cristianismo continua predominante, como era de se esperar, porém em uma forma diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Naquele Brasil, já se pensava no batismo da criança recém-nascida nas mãos do padre assim que ela vinha ao mundo, quase como a sua consolidação como um ser humano pleno, um lavar-de-umbigo sacro. Se aprendia a rezar o ave-maria, o pai-nosso à maneira do alfabeto e das cantigas de roda. Os domingos eram os dias da missa, as festas populares pertenciam aos santos. Suas representações em barro circundavam o Brasil, à mostra e bem cuidadas ou embaladas em sacos de plástico nos comércios, sendo uma daquelas coisas que os vendedores têm sempre de ter no estoque, tão característicos quanto a fauna e a flora, elementos que se viam tanto nas residências mais humildes como no palácio presidencial, semelhante ao futebol, à música e tudo mais que nos é característico…</p>
<p style="text-align: justify;">Então, alguns poucos anos se passam e tudo se modifica: os santos não são mais unanimidade, muitos dos que são ferrenhamente apegados a Jesus Cristo até zombam de Maria, a mãe de Deus. As imagens já não vendem tanto, são mais produtos destinados a um nicho, até objetos de um gosto nostálgico. As crianças são mais <em>laicas</em> do que nunca e, apesar de ainda terem em seus vocabulários muitas referências cristãs, são bem diferentes daquelas tipicamente católicas: menos ave-marias e agradecimentos fazendo o sinal da cruz e mais “sangue de Jesus tem poder”, “glória” e agora se agradece apontando os dedos para o céu ou de joelhos… O que aconteceu?</p>
<p style="text-align: justify;">Há um tempo, existia uma estranha seita bem distante do centro. Acreditavam em Jesus Cristo, como já era de se esperar — quem além dos chamados “macumbeiros” negaria a Deus? <strong>[1]</strong> —, mas difamavam a Santa Igreja, a Virgem (ou talvez não tão virgem) Maria e tudo mais que havia de sagrado, um absurdo! Inaceitável!</p>
<p style="text-align: justify;">Houve inclusive um episódio em que um líder, que talvez tenha pouco poder para se equivaler ao padre, o <em>pastor</em>, de uma dessas igrejas chutou raivosamente uma imagem da santa em rede nacional enquanto dirigia palavras ofensivas a ela e às crenças católicas. Vale lembrar que a televisão nesses anos não era como é a televisão de hoje. Aliás, nem a comparação com a internet seria adequada: esta é fragmentada em vários nichos, cosmos. Não há unidade, unanimidade. Seria provavelmente correto dizer que há uma internet para cada um, onde cada um consome o seu mundo e nada é universalmente reconhecido. Há uma internet de um grupo de jovens, dos idosos, das pessoas de meia idade… A televisão, por outro lado, era restrita, para o povo, a uns quatro canais que monopolizavam a atenção e a cultura, se assim podemos dizer, do país. Com a imagem do religioso e seu gesto passando em todos os canais se viu, ali, sim, o verdadeiro cancelamento.</p>
<p style="text-align: justify;">É claro que a Igreja Católica se aproveitou da situação para alertar seu rebanho contra as blasfêmias e heresias dos <em>evangélicos</em>. Poderia haver imagem melhor que aquela para fazer com que qualquer um que se preze se afaste dessa religião? Obviamente os padres logo foram advertir energeticamente aqueles que assistiram a missa contra esse absurdo, com todos os fiéis uniformemente em silêncio expressando a concordância para com o sacerdócio, além do espanto e revolta notável de vários.</p>
<p style="text-align: justify;">E, logo, alguns anos se passam e milhões desses católicos se tornam evangélicos, e estes ameaçam até mesmo ultrapassá-los em número (pois em relevância talvez já tenham passado) num futuro próximo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os católicos mais apegados poderiam chamar essa revolução de inversão de valores quando não percebem que não há aí nenhuma inversão: mesmo que as referências ao catolicismo abundassem, o fato é que, desde muito antes do Brasil ser como nós o conhecemos hoje, ser católico — e, na mesma lógica, ser cristão — muito pouco diz sobre valores. Aderir a um esquema rígido de valores é complexo, difícil. Se há em todo ser humano uma adesão a um conjunto desse tipo, ele se constitui através das experiências, da educação, da vivência: é uma adaptação, um aprender-a-viver, um <em>habitus</em> ou personalidade. A virtude depende da necessidade, e ter uma virtude que não atende a uma necessidade não é natural, o corpo sente que algo está errado. A religião cristã, seguida à risca, não é para todo mundo (e bem se poderia dizer que não é para ninguém), e se se quer torná-la popular, é preciso que ela seja não voluntária, mas <em>útil</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Como poderia ser popular o que é rígido, o que exige um esforço que o corpo nem sequer consegue suportar, o que não faz sentido? Se adaptando, e os santos foram muito importantes nisso: esses semideuses que rondavam a terra, o imaginário e eram visados nas orações e nas preces mais ligadas à vida cotidiana, enquanto o Deus-Pai era sempre muito distante, sempre inacessível. Seus mandamentos não diziam respeito ao que era do interesse de suas ovelhas, sua sabedoria, como tudo nessa figura, muito mais respeitada do que compreendida, e tal respeito não se funda nas suas obras, no que fez de benéfico, mas se dá simplesmente pelo fato de ser o que é, na sua posição — não atoa o chamam de “pai”. Os santos, por outro lado, são de carne, são como nós, especialistas nas paixões humanas, no amor, no casamento…, e assim como os pequeninos pedem aos irmãos, tios ou quem é que pensem ser mais afável para que os “liberem”, quando têm chance, ao invés das figuras que detém mais poder dentro da dinâmica familiar, se pede aos santos quando não se quer ver de frente as faces das suas vergonhas falando com Deus. Os santos são como as amizades de bar (e por quanto tempo não estiveram lá, como talvez a única peça que não é efêmera e secular, bem postados por cima dos balcões…), sempre presentes para quando os brasileiros comuns, afetivamente pobres, pedem migalhas a quem quer que se coloque na posição de igual em seus momentos de cansaço, para que possam aguentar a labuta de todos os dias com o objetivo de se manter vivo. Podem até mesmo dizer que lutam pela sua família, pelo dinheiro, pelo futuro, mas é pouco provável: o movimento se dá pelo costume, pelo tédio, pelo vazio. A nostalgia dos tempos de criança não se dá por acaso: no Brasil, a maturidade e a depressão se confundem com enorme facilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O cristianismo talvez tenha sido palatável para diferentes classes sociais, por oferecer afirmação ao modo de vida — ou pelo menos cumprir importantes demandas — de grupos bastante diferentes. Os ricos, em sua vida mansa, ascética, pacífica, são cristãos; os pobres, quando revoltados, quando identificados enquanto humilhados, enquanto os últimos, são cristãos e, mais que isso, são afirmados como os primeiros. Essa, definitivamente, é uma grande virtude do que quer se tornar publicamente muito respeitado: permitir várias interpretações diferentes com as quais pode-se identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">Todavia, apesar de todas as simplificações e manobras que o clero fez ao longo do tempo para que mantivesse sua hegemonia, seu erro foi tornar-se cada vez mais distante, não acompanhar o ritmo da vida urbana. Como os casais apaixonados que põe o sentido da juventude na conquista do que veem como “amor” (e, assim como ocorre com os católicos, o conceito pelo qual se justifica a busca é opaco; o desejo de dominação, contudo, é muito concreto) e, depois de conseguirem o que tanto desejam, se deixam perder no costume, no tédio, na repetição, no ócio — tornando o companheiro um fardo a mais para se carregar e não, como se espera, um porto seguro, refúgio—, a Igreja esteve para com os fiéis: sempre com os mesmos rituais, assuntos, eventos… aquilo se tornava repetitivo, enfadonho, não fazia mais sentido em vista às urgências da vida das pessoas comuns.<img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158738 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr.jpg" alt="" width="900" height="530" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-300x177.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-768x452.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-713x420.jpg 713w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-640x377.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-681x400.jpg 681w" sizes="(max-width: 900px) 100vw, 900px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No mundo de hoje muito se fala no efeito destrutivo das comparações nas redes sociais: comparar o orgânico, real e cru àquilo que é artificialmente trabalhado para que pareça o melhor possível, que é fruto de um trabalho de dissimulação, de pinça. O que geralmente não é lembrado é que esse fenômeno não é novo, e os heróis demonstram isso muito bem. Para que se torne um herói é preciso entender de economia simbólica, ou pelo menos ter a sorte de se adequar às suas regras ao longo da trajetória.</p>
<p style="text-align: justify;">O tipo clássico de herói de carne e osso é aquele que, além de ter grandes feitos, sabe se manter à distância: proximidade, profundidade, opinião, relação íntima, tudo isso gera conflito, divergência. O herói precisa, primeiramente, estar acima das contradições, ser unânime, o seu reconhecimento se dá por não poder ser reconhecido por nada que seja questionável. Não se veem contradições, defeitos (que, dizem por aí, “todo mundo tem”, mas são <em>ignorados</em> no caso, nos dois sentidos da palavra), o seu ser se dissolve na imagem do bem, porque o bem é tudo que se sabe a respeito do ser — e sempre que só se sabe o bem, se sabe muito pouco —, a figura imaculada é um não-ser. Exemplo máximo são os que morrem logo depois de nascer: tudo que será comentado ao seu respeito é positivo, se pensa no que seria, no que poderia ter feito, no melhor sentido do seu potencial, é o eterno “ e se”, e não se critica justamente porque não há quem seja capaz de criticar na falta de obras concretas. O ditado diz que ou você morre herói ou vive o bastante para se tornar vilão, o que é verdadeiro, mas a frase passa longe de ser crítica: ela constata com um realismo cinza, que se vê frente às regras do mundo com passividade, não propõe ruptura — que seria um tanto necessária… <em>Only God can judge me</em>…</p>
<p style="text-align: justify;">O outro tipo de herói é aquele que, do alto de seu pedestal, desce aos mortais e se abre à polêmica, à confusão. Deixa a mostra para o mundo as suas veias, artérias, entranhas, derrama o sangue pelo centro e não pelas margens <strong>[2]</strong>, justamente em um mundo que o corpo é vergonha e, o espírito, capital. Mas de onde vem o prestígio desta espécie?…</p>
<p style="text-align: justify;">A figura do padre ilustra bem o primeiro tipo e, também, o que deu origem ao vácuo que foi deixado no coração dos católicos: Ele é o espectro que se coloca ao centro e acima dos demais. Os ouvintes se assentam nos bancos, como iguais uns aos outros, para se submeterem ao que, ali, está mais próximo do Céu, próximo às figuras sagradas, das imagens e de toda aquela beleza cuidadosamente polida ao longo de séculos no palácio mais nobre que a cidade conhece. Tudo que se vê é a sua versão mais polida e gloriosa, e isso <em>constrange</em>, e constrange principalmente o povo. O povo é que tem de internalizar as disposições de violência, que se traumatiza, que vive sufocada pelas urgências, pelos medos e que se submete aos males da vida urbana. Ele é que vai olhar para dentro de si, para seus pecados e terá vergonha, se sentirá menos e abaixará a cabeça escondendo o rosto no confessionário para ser perdoado e disciplinado pelo padre, como um eterno educando, um eterno a-ser-lapidado que nunca chega à maturidade, o fiel é para sempre um menor a ser continuamente corrigido, mas sua correção não aponta para o crescimento, pois sua essência é a menoridade, enquanto a do sacerdote é a figura a quem o pai deixou parte de seu poder, é o que goza de parte da sua autoridade, um quase-pai.</p>
<p style="text-align: justify;">Os pastores aparecem nessa brecha deixada pelos católicos. Mas não os pastores das igrejas tradicionais, os presbiterianos, os batistas mais ortodoxos e semelhantes. Tais figuras não concentram tanto poder por si mesmos e são apenas parte de uma estrutura que é muito maior que os mesmos: são “somente” operários da fé. Adversários com quem a Igreja Católica não rivaliza, postados em lugares distantes dos grandes centros e das grandes margens, com frequentadores de classe-média, cultos e que conservam distância suficiente do resto para que não se pense além de seu próprio cosmo. Descendentes daqueles grandes europeus dos livros de história, vivem àquela maneira enquanto habitam o país tropical, mas muito, muito longe da selva…</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo distantes, sua semente chegou lá e cresceu entre os espinhos — e bem sabemos que o que cresce entre os espinhos é mais próspero do que o que cresce em solo pedregoso; aqui, os frutos católicos. Nos locais mais inóspitos, o pastor teve de aprender a se tornar herói. Porém, sem as regalias monetárias, sociais, culturais e outras, não poderia ser o herói tradicional, teve então de se tornar aquele que constrói com sangue seu capital. Ele não pode, como o primeiro tipo, se assentar na aura de Deus, da Igreja, ou da família, pois não herda nada. O padre é herdeiro de uma forte herança simbólica: geralmente oriundo de “boas famílias”, tem um sobrenome que vai além das letras, acumula respeito com seu nome e as posses que conquista no fluxo natural do mundo e, ao realizar sua vocação (ou pelo menos assim chamam…), é beneficiário de toda uma riqueza construída ao longo de séculos — e que foi construída em cima de muito mais sangue; porém, enquanto sangue for capital, não será visto como morte, mas como vida: <em>quem lembra do sangue derramado admirado com a Pirâmide de Quéops?</em> Se toda aura é trabalho de um acúmulo histórico, o pastor marginal terá de ser <em>duas vezes melhor</em>, mesmo estando há <em>500 anos atrasado</em>; é, por excelência, o <em>self-made man</em>. O seu maior feito? Ser o mais próximo de Deus na boca do inferno.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um cenário onde, para que se consiga viver (ou pelas dores da vida) se internaliza o “pior” <strong>[3]</strong>, o pastor consegue demonstrar ser bom. Mas não é bom por sua essência, não é alguém distante com quem se comparam os que comparecem ali — muitas vezes pela primeira vez ou após muito tempo sem qualquer experiência em Igrejas —, de quem não poderiam estar perto nem por sua menoridade moral, nem por sua inferioridade intelectual <strong>[4]</strong>. É um ser humano, muito humano, e que poderia muito bem ser amigo do ouvinte, familiar do ouvinte e, é claro, o próprio ouvinte. Não somente por sua origem simples, por sua aparência familiar — nisso Jesus também se enquadra e nós bem sabemos o quão longe está o mundo de Jesus — mas por sua carnalidade e abertura. Muitos não compreendem o sucesso que têm em seus empreendimentos aqueles que, na posição de líderes eclesiásticos, expõe os maiores horrores de seu passado: uso de drogas, vida na criminalidade, promiscuidade… “Como alguém vai respeitar assim?” perguntam; não veem que na quebra do teto de vidro, se quebra também o constrangimento, para de ser sobre domar e se começa a pensar em <em>engajamento</em>, o que é <em>muito mais prazeroso</em>, é <em>potência</em>, e de que carecem mais estes pequeninos que poder?… Mais que isso, ele rompe com o estéril, com o enfado do catolicismo deslocando o discurso do além para o <em>agora</em>. Não se fala em um Deus que está parado no céu, a esperar tranquilo pelo longínquo dia do julgamento final e sim do Deus que começa a ocupar o posto que era dos santos, ativo na vida cotidiana. É a ele que se recorre para se curar das doenças na falta de um sistema de saúde adequado, para que desvie os filhos do mau-caminho (que são muitos), para que se tenha recursos mínimo em um contexto de escassez. O pastor também participa ativamente do processo, conduzindo as doações, tocando nas feridas abertas de suas ovelhas, se infiltrando na sua vida pessoal, dando opiniões fortes… O pastor, como todo herói da sua espécie, é e tem que ser polêmico.</p>
<p style="text-align: justify;">Conseguimos perceber o desejo incontrolável por ascender socialmente nos dias atuais, e que exemplo melhor do que o pastor para mostrar que isso é possível? O padre tomou o “toco” até mesmo em seu discurso inflamado contra o protestantismo nos anos 90. Agora os pastores fazem o mesmo e seus antigos fiéis se deliciam no maior dos prazeres que o ressentimento pode proporcionar: difamar àquele que o atinge, mas a quem não consegue questionar.</p>
<p style="text-align: justify;">O protestantismo no Brasil foi a amante que reacendeu a paixão no coração de quem vivia a mesmice com a esposa. Ah, por que Jesus não advertiu, no seu apelo ao amor, que este não tem nada a ver com paixão… Não sei ao certo se é correto falar em morte ou metamorfose de Deus, mas, seja como for, se se amasse tanto a Deus por aí como se costuma dizer, isso aconteceria? Haveria mudança tão rápida e radical? E Maria, e os santos a quem diziam ter amor?…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Não se trata aqui de dar aval à tais declarações preconceituosas em relação às religiões de matriz africana, mas ilustrar o infeliz preconceito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Queria<br />
Queria ter te conhecido antes<br />
Pra não ver você endurecido ante<br />
O mundo escurecido, instantes<br />
Antes do delírio: sangue<br />
É o que você derrama pelas margens<br />
(Minha autoria)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> <em>Pior</em> aqui aparece entre aspas para destacar o caráter arbitrário, flexível e não rígido do valor dessas disposições. Disposições iguais ou semelhantes podem ser negativas em uma determinada sociedade e positivas em outra, como a maior aptidão à violência, reatividade. Dentro da mesma sociedade pode ocorrer o mesmo, a depender dos princípios de percepção e apreciação e das regras de cada campo, pensando em Pierre Bourdieu. Aqui, o “ruim” é o que não é cristão, o que é corpo e não espírito (sobre essa oposição nas sociedades ocidentais, ver <em>Como o Racismo Criou O Brasil</em>, de Jessé Souza).<br />
<strong>[4]</strong> A intenção não é, evidentemente, defender essa inferioridade como se fosse real. Se trata, na verdade, de colocar como essas questões poderiam ser erroneamente vistas por quem participa do processo, seja no “topo” ou na “base”. Aliás, seria um tanto ridículo falar em superioridade ou inferioridade moral visto o que foi desenvolvido até aqui, e também a diferença de capacidade intelectual entre classes.</p>
<blockquote><p>Ilustram o artigo cenas do filme <strong>O Pagador de Promessas</strong>, de Anselmo Duarte (1962).</p></blockquote>
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		<title>Cláudio Castro: fé, bala e capital</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Jan 2026 13:36:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A violência de Estado não é mais instrumento ocasional, mas política de regulação da força de trabalho excedente. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">A ascensão de Cláudio Castro ao governo do Estado do Rio de Janeiro constitui um fenômeno de relevância singular para compreender o estágio atual do conservadorismo brasileiro e a reconfiguração contemporânea do Estado burguês em contexto de crise estrutural do capital. Não me refiro à sua importância enquanto político, mas seu papel na máquina do poder. Politicamente, Castro é nada mais que um político vulgar, sem qualquer destaque ou relevância social, representando apenas a continuidade de um projeto devastador. Sua trajetória e a orientação de seu governo expressam, de forma concentrada, tendências que atravessam o país: a fusão entre religião e política, a centralidade do aparato repressivo como eixo de governabilidade e a naturalização do autoritarismo como resposta à decomposição social.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto de partida dessa análise exige reconhecer que o Rio de Janeiro, historicamente, ocupa uma posição peculiar na formação social brasileira. A cidade sempre funcionou como espelho concentrado das contradições nacionais: um espaço onde a modernidade e a barbárie coexistem de modo visceral. Desde o século XVIII, sua condição de porto estratégico e sede administrativa da colônia transformou-a no principal elo entre o mundo colonial e o circuito mercantil internacional. O Rio não foi apenas capital política, mas o centro nervoso de um sistema de extração e circulação de riquezas fundado na escravidão. Nela se cruzavam os fluxos da mercadoria, do capital e da carne humana. A urbanização fluminense nasceu sob o signo do tráfico negreiro, e sua paisagem social foi moldada pela presença massiva da população escravizada, pela hierarquia racial e pela violência cotidiana. Essa estrutura de poder, ancorada na exploração e no controle dos corpos, impregnou as formas posteriores de dominação e permanece como substrato invisível da vida política e policial da cidade. Essa condição moldou uma estrutura social profundamente hierarquizada, na qual a violência estatal constituiu o principal instrumento de regulação das relações entre as classes. A escravidão urbana, as forças de segurança e o controle territorial das camadas subalternas criaram um padrão de dominação que se atualiza, com diferentes roupagens, ao longo dos séculos. No século XXI, o Rio converte-se novamente em laboratório de experimentação política: um espaço onde se testam formas de gestão da pobreza e de administração do medo.</p>
<p style="text-align: justify;">A biografia política de Cláudio Castro deve ser compreendida dentro desse contexto. Nascido em 1979, formou-se no interior da Renovação Carismática Católica, movimento que desde os anos 1980 vem assumindo crescente influência na vida pública brasileira. A Renovação constitui um tipo de religiosidade alinhado ao individualismo neoliberal: substitui a crítica social pela moralização da conduta e transforma a fé em instrumento de autoajuda e empreendedorismo espiritual. A Renovação Carismática Católica surgiu no final da década de 1960, nos Estados Unidos, como um desdobramento interno do catolicismo diante da expansão do pentecostalismo e da crise das instituições religiosas tradicionais. Em 1967, um grupo de estudantes da Universidade de Duquesne, em Pittsburgh, afirmou ter vivido uma experiência direta com o “Batismo no Espírito Santo”, fenômeno que desencadeou a difusão de práticas de oração em línguas, cura e louvor espontâneo. Rapidamente, o movimento se expandiu pela América Latina, chegando ao Brasil em 1969, quando padres e leigos de Campinas organizaram os primeiros grupos de oração carismáticos. Desde então, a RCC consolidou-se como uma das principais forças de renovação religiosa dentro da Igreja Católica, reorganizando seu modo de inserção no mundo moderno.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a “renovação” que propõe não diz respeito à crítica das estruturas sociais, mas à intensificação da experiência individual de fé. A ênfase no “encontro pessoal com Deus”, na cura espiritual e na libertação interior desloca a religião da esfera coletiva e histórica para o campo da subjetividade e da moralidade privada. Sob a aparência de fervor popular, a RCC realiza uma profunda adequação do catolicismo à lógica neoliberal: substitui a solidariedade de classe pela fraternidade emocional, a crítica social pela autoajuda espiritual, o sofrimento histórico pela culpa pessoal. Em vez de questionar as causas da miséria, ensina a suportá-la com resignação e disciplina. Sua liturgia espetacular — marcada pela música, pelo êxtase e pela emoção — transforma a fé em mercadoria simbólica, ajustando a religião ao mercado da experiência e à indústria cultural. Trata-se de uma pedagogia da adaptação: ensina o fiel a obedecer, a competir, a vencer espiritualmente no mesmo mundo que o oprime materialmente. Essa religiosidade emocional, que moldou gerações de jovens católicos nas últimas décadas, produziu um tipo de subjetividade dócil e empreendedora, ideal para a nova forma de dominação que combina fé e capital. É nesse caldo cultural que se forma Cláudio Castro — um político cuja trajetória sintetiza a conversão da espiritualidade em instrumento de poder.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158492" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre.jpg" alt="" width="1600" height="1061" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-1024x679.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-768x509.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-1536x1019.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-633x420.jpg 633w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-640x424.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-681x452.jpg 681w" sizes="(max-width: 1600px) 100vw, 1600px" />O ingresso de Castro nesse universo corresponde à formação de uma subjetividade disciplinada e adaptada à ordem. Sua atuação inicial como músico em comunidades católicas revela essa pedagogia: a política é convertida em liturgia, o coletivo é dissolvido na ideia de salvação pessoal. A passagem para a vida institucional ocorre de modo gradual. Castro inicia-se na política como assessor e chefe de gabinete de parlamentares ligados ao Partido Social Cristão (PSC), legenda que se caracteriza pela defesa de pautas morais e pelo trânsito entre o conservadorismo católico e o pentecostalismo evangélico. Em 2016, elege-se vereador pelo PSC e, dois anos depois, compõe a chapa de Wilson Witzel como vice-governador. Essa ascensão coincide com a hegemonia do bolsonarismo e com a expansão de um campo político unificado por três elementos fundamentais: a deslegitimação da esquerda institucional, o moralismo religioso como linguagem popular de mobilização e a militarização das políticas públicas. Castro herda esse tripé e o consolida.</p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória de Witzel, ex-juiz federal que assumiu o governo com discurso de extermínio (“atirar na cabeça”), foi interrompida por denúncias de corrupção e disputas internas no bloco de poder. Sua ascensão ao governo do Rio, em 2018 foi expressão local da onda reacionária que atravessou o país. A figura do ex-magistrado emergiu como produto direto do colapso do sistema político tradicional e da legitimação midiática da “guerra contra o crime” e da “guerra contra a corrupção”. O capital político que o sustentou veio da fusão entre o moralismo punitivista e o ressentimento social, catalisados pelo bolsonarismo. Witzel representava a crença de que a violência de Estado poderia restaurar a ordem perdida; encarnava o juiz-justiceiro que, vindo das fileiras do sistema judicial, prometia aplicar ao governo a mesma lógica de sentença e castigo que marcara a Operação Lava Jato. Seu triunfo eleitoral simbolizou o deslocamento da autoridade civil para a autoridade policial-jurídica — o governo como tribunal, o povo como réu. O Rio de Janeiro, historicamente terreno fértil para a retórica da “mão dura”, tornou-se o laboratório dessa política de extermínio legitimada pela fé na punição e pela espetacularização da violência. A ascensão de Castro à chefia do Executivo estadual, em 2020, significou continuidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário de Witzel, cuja retórica era agressiva, Castro representa o mesmo projeto em versão administrativamente apaziguada. A mudança de estilo não implicou alteração de conteúdo. O núcleo ideológico &#8211; a guerra permanente às favelas, a repressão como política de Estado e o conservadorismo moral como linguagem de legitimação &#8211; manteve-se intacto. O governo Castro deve ser interpretado como desdobramento lógico do processo de desintegração do pacto social-democrata brasileiro. Após a crise de 2014-2016, marcada pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela ruptura do arranjo de conciliação que sustentava os governos anteriores, a direita brasileira reorganizou-se em torno de uma agenda de restauração autoritária. O enfraquecimento das mediações políticas, a fragmentação do sistema partidário e o avanço da precarização do trabalho criaram condições para o predomínio de uma racionalidade securitária e moralizante. O Estado, esvaziado de sua função social, voltou-se a exercer, de maneira direta, sua função coercitiva. O Rio, por sua composição social e por sua posição simbólica, tornou-se o epicentro dessa transformação.</p>
<p style="text-align: justify;">O caráter religioso do governo Castro é elemento constitutivo de sua legitimidade. Ao se apresentar como homem de fé, ele mobiliza um ethos conservador que naturaliza a desigualdade e converte o sofrimento social em questão de mérito ou culpa individual. O discurso religioso fornece a linguagem através da qual a violência de Estado é justificada: a polícia aparece como instrumento de “purificação” do mal, as operações letais como atos necessários para restabelecer a ordem moral. Trata-se de uma reconfiguração ideológica na qual a repressão assume estatuto ético. Essa religiosidade de massas cumpre, portanto, função política. No contexto de esgotamento das promessas de ascensão social e de destruição dos direitos trabalhistas, a fé surge como substituto simbólico da cidadania. A religião, nesse caso, não se opõe ao mercado, mas o complementa. O Estado, desobrigado de garantir direitos, passa a oferecer conforto espiritual. O governante torna-se uma espécie de mediador entre a fé e a gestão, legitimando políticas de austeridade e repressão sob a retórica da responsabilidade moral. O neoliberalismo, em sua fase avançada, incorpora a religião como dispositivo de controle subjetivo.</p>
<p style="text-align: justify;">A política de segurança pública implementada sob sua gestão explicita essa lógica. As operações policiais em favelas e periferias atingiram, no período recente, níveis recordes de letalidade, com grande repercussão nacional e internacional. A “Operação Contenção”, deflagrada em 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, sintetiza a política de Estado baseada no extermínio de populações racializadas. O governo justifica tais ações sob o argumento de combate ao tráfico, mas os dados indicam uma estratégia de militarização permanente do território. A repressão deixa de ser resposta a episódios de violência e passa a constituir a própria forma de presença do Estado em determinadas áreas. O objetivo subjacente não é eliminar o crime, mas manter a guerra. A guerra, neste caso, cumpre função de coesão social: ela cria um inimigo interno que unifica os setores médios, fornece legitimidade ao aparato repressivo e reafirma a hierarquia racial e de classe. Essa dinâmica revela a continuidade histórica entre a escravidão e o Estado penal contemporâneo. A violência seletiva é a tradução moderna do velho princípio de dominação que estrutura a formação brasileira. Ao deslocar o foco da política social para a política de segurança, o governo redefine o sentido da cidadania: o cidadão é aquele que pode ser protegido; o inimigo, aquele que pode ser eliminado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158493" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM.png" alt="" width="567" height="380" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM.png 567w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM-300x201.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM-537x360.png 537w" sizes="(max-width: 567px) 100vw, 567px" />A legitimidade do governo Castro não se sustenta apenas na força do aparato repressivo ou na manipulação midiática — ela se enraíza num consenso difuso, tecido pela ideologia da segurança e pela naturalização da violência. As pesquisas que apontam ampla aprovação às operações policiais revelam um fenômeno mais profundo que o simples apoio a medidas duras: expressam a adesão a uma forma de vida administrada pela ameaça. A guerra permanente às favelas converte-se em espetáculo moral e pedagógico, no qual as classes médias e parte dos trabalhadores aprendem a reconhecer no Estado armado o guardião da normalidade. Essa adesão, contudo, não nasce de convicção política, mas do desamparo estrutural. A decomposição das relações de trabalho, o isolamento social e a sensação de insegurança generalizada produzem sujeitos fatigados, incapazes de imaginar uma alternativa coletiva. Nessa paisagem, a polícia aparece como encarnação de uma ordem desejada — ainda que imposta pelo medo. A classe média, habituada a se perceber como centro da sociedade, vê na repressão a garantia de seu status vacilante; teme o colapso das fronteiras entre “gente de bem” e “perigo social” e por isso exige a manutenção da distância pela bala. A burguesia, por sua vez, transforma a guerra interna em mercado: lucra com o caos que administra, convertendo a violência em ativo financeiro e espetáculo de governabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o dado mais inquietante é a participação de segmentos populares nesse consenso. Nas favelas, onde o Estado só chega armado, a promessa de segurança, ainda que ilusória, pode soar como redenção. O medo da violência cotidiana, somado à ausência de alternativas, gera uma adesão ambígua: o oprimido aplaude o opressor porque perdeu a crença na possibilidade de libertação. Trata-se de uma inversão trágica do sentimento de classe — um momento em que a consciência se dobra sob o peso da sobrevivência e o desejo de ordem substitui o desejo de justiça. O aplauso às viaturas não é mera alienação; é o sintoma de uma sociabilidade corroída, em que o extermínio torna-se aceitável quando promete estabilidade. Castro soube instrumentalizar essa atmosfera de desespero e ressentimento. Ao apresentar-se como gestor sereno, homem de fé e defensor da segurança, converteu o massacre em prova de eficiência administrativa e de moralidade pública. A violência policial, nesse contexto, opera como política de comunicação: cada operação é um espetáculo de poder que reativa o vínculo entre governo e sociedade. O tiro torna-se linguagem; o sangue, forma de legitimidade. A popularidade de Castro após a chacina da Penha é o efeito lógico de um sistema que aprendeu a governar pela comoção e pelo medo. A adesão social à barbárie revela, assim, o triunfo de uma racionalidade cínica: um Estado incapaz de garantir a vida, mas plenamente capaz de administrar a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação entre conservadorismo e neoliberalismo manifesta-se, no caso fluminense, de modo particularmente claro. O Estado enfrenta uma crise fiscal crônica desde meados da década de 2010, agravada pela dependência dos royalties do petróleo e pela desindustrialização. A crise do Estado do Rio de Janeiro é o resultado de um longo processo de esgotamento de seu modelo econômico e político. Desde o início dos anos 2000, o Estado passou a depender crescentemente dos royalties e participações especiais do petróleo, convertendo-se em uma espécie de Estado rentista, sustentado por uma renda volátil e vinculada à exploração de recursos naturais. Essa dependência foi agravada pela desindustrialização e pela financeirização das atividades urbanas, que reduziram drasticamente a base produtiva e a arrecadação tributária. Quando o preço do barril despencou em 2014 e a Lava Jato atingiu as principais empreiteiras, o modelo desabou. O colapso fiscal foi a expressão imediata de uma crise mais ampla: a falência de uma forma de acumulação baseada na extração de renda e na intermediação político-empresarial. Diante disso, o Rio tornou-se o primeiro estado a aderir ao Regime de Recuperação Fiscal, em 2017, submetendo-se a um programa de austeridade que congelou investimentos, privatizou ativos estratégicos e transformou a dívida pública em eixo de toda a política estadual. O Estado deixou de ser promotor de desenvolvimento e converteu-se em gestor da própria falência. A partir daí, o neoliberalismo assumiu forma de governo permanente, e a repressão tornou-se o instrumento de estabilidade. Cláudio Castro herda e aprofunda esse arranjo: governa um Estado financeiramente tutelado, incapaz de oferecer políticas sociais, mas plenamente funcional para o capital financeiro e o mercado da segurança. Sua administração combina austeridade fiscal e expansão policial, traduzindo no plano local a síntese contemporânea entre neoliberalismo e autoritarismo moral. O Rio de Janeiro é hoje o laboratório onde se experimenta a forma mais avançada do Estado em crise — aquele que, sem meios para reproduzir a vida, reproduz apenas a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta dos governos tem sido a adoção de políticas de ajuste, privatizações e parcerias público-privadas, acompanhadas da repressão aos movimentos sociais e da criminalização da pobreza. Cláudio Castro aprofunda esse modelo ao combinar austeridade orçamentária e expansão do aparato policial. Enquanto reduz investimentos sociais, amplia os recursos destinados às forças de segurança. A retórica da “ordem” serve para legitimar a gestão da escassez. O Rio de Janeiro, nesse sentido, é a expressão concentrada de um fenômeno nacional: a transformação do Estado em administrador da crise. A incapacidade de promover desenvolvimento econômico converte o governo em gestor da desintegração. A violência deixa de ser um desvio e torna-se instrumento funcional de regulação. As chacinas periódicas, as incursões militares e o encarceramento em massa operam como mecanismos de controle da população excedente, isto é, daquela fração do proletariado que já não é absorvida pelo mercado de trabalho. A repressão é, assim, uma política econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">Diferentemente de figuras autoritárias de perfil militar, Castro apresenta-se como político civil moderado, capaz de dialogar com a burguesia financeira, com o clero e com as corporações policiais. Essa convergência define uma nova configuração de poder, na qual o autoritarismo é exercido de forma difusa e institucionalizada, sem necessidade de ruptura formal da ordem democrática. O significado histórico de sua permanência no governo, em um momento de suposta recomposição democrática em nível federal, é revelador. O país vive um duplo movimento: enquanto o Executivo nacional tenta restaurar a normalidade institucional e reabilitar o pacto entre capital e trabalho, governos estaduais como o do Rio consolidam a normalização da exceção. Essa coexistência demonstra a plasticidade do Estado burguês: ele é capaz de operar simultaneamente com linguagem democrática e prática autoritária. O discurso dos direitos convive com a prática do massacre. O governo Castro representa a face local dessa contradição.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158490" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7.jpg" alt="" width="1024" height="697" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-617x420.jpg 617w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O conservadorismo fluminense também cumpre papel de vanguarda na recomposição ideológica da direita brasileira. Após a derrota eleitoral de 2022, o campo bolsonarista perdeu a capacidade de mobilização nacional, mas manteve forte influência nos estados. No Rio, essa influência se institucionalizou. A aliança entre o Partido Liberal, as forças de segurança e setores religiosos consolidou uma base de poder estável, ancorada na gestão cotidiana do medo. O bolsonarismo, aqui, deixou de ser apenas movimento e tornou-se governo permanente. Castro é o operador desse processo. Do ponto de vista teórico, pode-se afirmar que seu governo expressa a passagem do Estado neoliberal para um Estado securitário-devocional. A racionalidade econômica, centrada na austeridade e na privatização, é reforçada por uma racionalidade moral que reorganiza a hegemonia em torno de valores tradicionais. A fusão dessas duas dimensões &#8211; mercado e moral &#8211; garante ao regime uma legitimidade paradoxal: promete ordem e espiritualidade num contexto de dissolução social. O Estado não oferece futuro, mas oferece pertencimento. Essa é a fórmula contemporânea do autoritarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em termos sociológicos, a manutenção desse modelo depende da convergência entre três campos: o econômico, o religioso e o militar. O campo econômico fornece a base material &#8211; o rentismo e a especulação; o religioso fornece o sentido &#8211; a legitimação moral; e o militar fornece a força &#8211; o poder coercitivo. A articulação entre esses elementos explica a estabilidade relativa de governos como o de Castro, mesmo diante de índices elevados de violência e desigualdade. A população, submetida à insegurança cotidiana, tende a apoiar medidas repressivas em nome da autopreservação. O medo se transforma em política. A experiência fluminense mostra, portanto, que o conservadorismo atual não é resquício do passado, mas forma moderna de governar a crise. Ele se apoia em tecnologias avançadas de vigilância, em aparatos midiáticos sofisticados e em discursos religiosos adaptados à era digital. A repressão, longe de ser apenas física, é também simbólica: atua na produção de subjetividades dóceis e conformadas. O resultado é a consolidação de uma cultura política autoritária, que naturaliza a violência e banaliza a desigualdade.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença de Cláudio Castro no poder, nesse contexto, expressa a maturidade de um projeto que combina dependência econômica, regressão política e reacionarismo moral. O Rio de Janeiro, por sua posição histórica, serve de vitrine e advertência. A política fluminense antecipa tendências que se expandem nacionalmente: o esvaziamento das instituições representativas, a militarização da vida cotidiana, a instrumentalização da religião e a fusão entre crime e Estado. O governo atual é, assim, menos uma anomalia e mais um diagnóstico. Concluir que o Estado fluminense cumpre uma função de laboratório não significa reduzir sua complexidade a determinismos locais. Ao contrário, trata-se de reconhecer que o capitalismo dependente brasileiro produz, em diferentes escalas, formas específicas de dominação. No Rio, essas formas se tornam visíveis. A figura de Cláudio Castro, ao articular a administração pública à lógica religiosa e securitária, revela o grau de aprofundamento da crise de hegemonia. A política deixa de ser mediação entre interesses e passa a ser mera gestão da sobrevivência.</p>
<p style="text-align: justify;">O estudo do seu governo permite observar o funcionamento atual do Estado burguês em sua dimensão mais direta. Quando as condições de reprodução do capital se tornam críticas, o Estado intensifica suas funções coercitivas e ideológicas. O conservadorismo, portanto, é funcional à crise. No Rio de Janeiro, essa resposta assume o rosto de um governador que governa com a Bíblia numa mão e o aparato policial na outra. Em síntese, a figura de Cláudio Castro condensa três processos estruturais: a consolidação de uma direita religiosa e moralista como base de massas da ordem, a institucionalização do Estado penal como forma dominante de regulação social e a subordinação completa do poder público aos interesses do capital financeiro e das corporações militares.</p>
<p style="text-align: justify;">A intensificação da violência estatal no Rio de Janeiro, culminando na chamada Operação Contenção, deflagrada em 28 de outubro de 2025, evidencia a consolidação de um modelo de governo baseado na militarização permanente da vida social. O evento, que resultou em centenas de mortes e foi classificado por organizações de direitos humanos como a operação mais letal da história do estado, não pode ser compreendido como episódio isolado. Ele representa o ponto de maturação de um projeto político que articula religião, moral conservadora e repressão como fundamentos da governabilidade. Nesse sentido, o governo de Cláudio Castro constitui um caso paradigmático do processo de reorganização autoritária do Estado burguês em contexto de crise estrutural do capital. A Operação Contenção apenas tornou explícito um padrão de atuação previamente estabelecido: incursões em larga escala, uso de armamento pesado, bloqueio de áreas inteiras e a suspensão fática de direitos constitucionais.</p>
<p style="text-align: justify;">O elemento novo da operação foi o nível de integração entre as forças estaduais e o discurso de defesa nacional. Ao afirmar que o Rio estaria “sozinho nesta guerra” e insinuar a necessidade de apoio das Forças Armadas, Castro procurou elevar o conflito à condição de ameaça à soberania, deslocando o eixo da segurança pública para o campo da segurança nacional. Essa retórica inscreve a política fluminense na tradição latino-americana dos estados de exceção militarizados, nos quais a repressão das classes subalternas é apresentada como defesa da pátria. A aproximação simbólica com as Forças Armadas não deve ser lida como simples busca de apoio operacional, mas como tentativa de redefinir o estatuto político da repressão. O emprego potencial do Exército em tarefas policiais, mesmo sem a formalização da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), sinaliza o desejo de transformar a exceção em norma. O governo estadual age dentro de uma racionalidade que ultrapassa a dimensão local: ao naturalizar a presença militar no cotidiano urbano, contribui para consolidar um modelo nacional de governo da crise pela força. Do ponto de vista institucional, a Operação Contenção reflete a fusão progressiva entre polícia, exército e capital. O aparato repressivo, tradicionalmente estatal, passa a funcionar segundo lógicas empresariais, alimentando um mercado de segurança que inclui empresas privadas de vigilância, indústrias de armamentos e contratos de tecnologia de monitoramento. A militarização não é apenas política, é também econômica: a violência transforma-se em setor produtivo, integrando o circuito de acumulação capitalista. O Estado assume o papel de mediador entre o capital financeiro e o capital militar, administrando a guerra como negócio.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, a relação de Castro com as Forças Armadas possui duplo caráter: simbólico e funcional. No plano simbólico, o governador recorre à imagem da autoridade militar como metáfora de ordem e disciplina, elementos centrais de seu discurso moral. A figura do soldado funciona como extensão da figura do fiel — ambos obedientes, abnegados e submissos à hierarquia. No plano funcional, essa aproximação legitima a ampliação de investimentos em armamentos, veículos blindados e novas tecnologias de vigilância, financiadas por fundos públicos e por parcerias privadas. O Estado, sob o pretexto de combater o crime, expande o mercado da repressão. A operação de 2025 também revela o papel do Rio de Janeiro como laboratório político. Historicamente, o estado tem sido campo de experimentação de políticas de segurança e de gestão da pobreza. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implantadas a partir de 2008, já haviam testado a ocupação militar de territórios populares com apoio de organismos internacionais e de empresas privadas. A Operação Contenção retoma essa experiência sob nova roupagem: substitui a retórica da pacificação pela da aniquilação. Se as UPPs prometiam integração social, a nova política assume explicitamente a segregação como método. O que se observa é a transição de um modelo de controle territorial para um modelo de extermínio territorial.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação deve ser interpretada à luz da crise do neoliberalismo e da reconfiguração das formas de dominação nas economias dependentes. O esgotamento das políticas de inclusão e o avanço da precarização criam uma massa de trabalhadores supérfluos, cuja existência torna-se disfuncional para o processo de valorização do capital. Diante disso, o Estado desloca sua função: de mediador de conflitos, converte-se em gestor da eliminação social. A violência de Estado não é mais instrumento ocasional, mas política de regulação da força de trabalho excedente. As favelas e periferias, onde se concentra essa população, são tratadas como zonas de sacrifício. A militarização, portanto, cumpre função estrutural. Ela garante a reprodução de um sistema que já não pode prometer progresso, apenas segurança. O autoritarismo religioso de Castro fornece o revestimento moral necessário a esse arranjo. Ao apresentar as operações como “batalhas do bem contra o mal”, o governo converte o conflito de classes em conflito espiritual, deslocando a crítica social para o terreno da fé. A barbárie torna-se aceitável porque se disfarça de purificação. O resultado é uma sociedade que legitima a violência em nome da moralidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158491" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md.jpg" alt="" width="512" height="768" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" />A aproximação entre governo, forças de segurança e segmentos religiosos produz uma nova forma de hegemonia conservadora. Essa hegemonia não se baseia em consenso racional, mas em adesão afetiva. A fé e o medo constituem seus dois pilares: a fé oferece sentido num mundo sem horizonte; o medo garante obediência num mundo sem garantias. Essa combinação explica a relativa estabilidade do governo Castro, mesmo diante das repetidas chacinas e denúncias de corrupção. A violência não ameaça o poder; ela o consolida. A análise da Operação Contenção permite compreender também a relação entre o Estado fluminense e o Estado nacional. O embate entre Castro e o governo federal, em torno da ausência de pedido formal de GLO, expressa a tensão entre dois projetos distintos de gestão da crise. De um lado, a tentativa de recompor a normalidade institucional e reafirmar a autoridade civil; de outro, a consolidação de uma governabilidade baseada na exceção. O Rio de Janeiro opera como ponta avançada do segundo projeto. A retórica de isolamento — “estamos sozinhos nesta guerra” — cumpre papel político: apresenta o governo estadual como defensor da população abandonada por Brasília, reforçando sua legitimidade junto às classes médias e setores conservadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A militarização da política estadual também possui implicações federativas. A criação do “Consórcio da Paz”, reunindo governadores de diferentes regiões, indica a intenção de disseminar o modelo fluminense para outros estados. Sob o discurso de integração e cooperação, constrói-se uma rede interestadual de repressão, capaz de articular informações de inteligência, técnicas de vigilância e protocolos de uso da força. O Rio, assim, exporta sua experiência de guerra interna, transformando-a em padrão de governança. Essa difusão reforça o caráter nacional da tendência autoritária, demonstrando que a barbárie não é fenômeno localizado, mas expressão de uma racionalidade estatal em expansão. No plano teórico, a Operação Contenção revela o ponto de fusão entre neoliberalismo e militarismo. A lógica de mercado, que exige desregulamentação e redução de custos sociais, precisa da coerção para garantir a ordem. O Estado neoliberal, em sua fase tardia, torna-se simultaneamente mínimo na proteção e máximo na repressão. A austeridade e o autoritarismo não são contradições, mas complementos. O mesmo governo que reduz investimentos em saúde e educação amplia o orçamento da segurança. O mesmo Estado que prega responsabilidade fiscal financia o aparato militar. Essa é a economia política da violência.</p>
<p style="text-align: justify;">A figura de Cláudio Castro condensa esses processos. Sua combinação de religiosidade carismática, discurso moralista e pragmatismo administrativo oferece a síntese ideológica perfeita para o Estado em crise. A análise empírica das operações recentes mostra que a política de segurança pública do Rio não busca reduzir a criminalidade, mas produzir visibilidade política. Cada incursão é acompanhada de ampla cobertura midiática e de discursos oficiais que reforçam a imagem do governo como guardião da ordem. A morte torna-se performance de poder. O Estado demonstra sua autoridade através da destruição. Essa teatralização da repressão cumpre papel comunicativo fundamental: em tempos de descrença nas instituições, a violência é o único ato estatal que ainda produz efeito de realidade. O tiro substitui o argumento. O vínculo entre repressão e capital aparece também nas relações com empresas de mídia e com o setor de tecnologia. O governo investe em sistemas de câmeras, drones e softwares de reconhecimento facial, frequentemente contratados sem licitação e associados a grandes corporações transnacionais. Essas parcerias demonstram que a militarização do Estado se articula a um complexo econômico que envolve desde a indústria bélica até a economia de dados. A vigilância converte-se em novo campo de acumulação. O controle da informação, das imagens e das narrativas complementa o controle dos corpos.</p>
<p style="text-align: justify;">A Operação Contenção, ao escancarar o caráter estrutural da violência, revela também o esgotamento das formas tradicionais de oposição. A esquerda institucional, presa à lógica eleitoral e parlamentar, mostra-se incapaz de responder a um Estado que opera pela exceção. As organizações populares, por sua vez, enfrentam repressão crescente e dificuldades de mobilização. O resultado é o predomínio de uma racionalidade autoritária sem contrapeso efetivo. O consenso em torno da “segurança” atravessa classes e ideologias, demonstrando o sucesso do projeto conservador em redefinir o imaginário coletivo. Do ponto de vista histórico, a atual conjuntura repõe a velha aliança entre religião e força, típica dos períodos de transição e crise. A fé fornece legitimidade simbólica à violência, enquanto a violência garante materialidade à fé. Essa simbiose cria uma cultura política na qual a obediência é virtude e a dissidência, pecado. O Estado aparece como instrumento da vontade divina e o governante como intérprete autorizado dessa vontade. Cláudio Castro insere-se nessa tradição. Em conclusão, a relação entre Castro, as Forças Armadas e a Operação Contenção aponta para a consolidação de uma nova fase do conservadorismo brasileiro. Trata-se de uma forma de poder que não depende mais de rupturas institucionais explícitas, mas da administração contínua da exceção. O Rio de Janeiro cumpre, nesse processo, função exemplar: demonstra como o Estado burguês, diante da inviabilidade de um projeto de desenvolvimento, recorre à violência para manter sua autoridade. A fé e a repressão tornam-se, assim, instrumentos complementares de dominação. O governo de Cláudio Castro, ao militarizar a crise e espiritualizar a violência, oferece ao país uma síntese perversa de seu tempo histórico. A Operação Contenção não é apenas um episódio policial: é o retrato do Estado em sua forma contemporânea — um Estado que governa pela morte, moraliza a desigualdade e transforma a barbárie em método de gestão.</p>
<p><em>As obras que ilustram o artigo são de Maxwell Alexandre.</em></p>
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		<title>[Brasil] Mística na CPT?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Jul 2025 14:22:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[O que mais me incomodava era o discurso ecumênico que não se refletia na prática. Por ex-trabalhadora da CPT]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por ex-trabalhadora da CPT<br />
</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Quando entrei na CPT, me disseram que se tratava de uma instituição ecumênica, que respeitava todas as fés e também a não fé, e que eu não seria obrigada a professar o catolicismo ou qualquer outra forma religiosa com a qual não me identificasse. Porém, isso se mostrou mentiroso.</p>
<p style="text-align: justify;">Sou ateia, não professo nenhuma religião e não me sinto confortável em permanecer em ambientes religiosos ou onde tudo gira em torno de uma crença. Percebi logo que a manutenção do meu emprego dependia também da participação no ritual religioso semanal que acontece na secretaria nacional, todas as segundas-feiras, nas primeiras horas do expediente, e em todas as atividades realizadas pela instituição.</p>
<p style="text-align: justify;">Dão o nome de “mística” a esse momento nos encontros e de “oração” ao que ocorre na secretaria nacional, sempre atrelado aos avisos semanais, o que nos obrigava, sumariamente, a participar.</p>
<p style="text-align: justify;">Como funciona a oração:<br />
Toda segunda-feira, a oração é de responsabilidade de um departamento, que elege uma ou mais pessoas para conduzi-la — quase sempre com conteúdo cristão: leituras da Bíblia, textos católicos, como cartas do papa ou materiais da Campanha da Fraternidade da CNBB.<br />
Sempre termina com palavras de outras religiões (“axé”, “awê”, “saravá”), mas ficam limitadas a esse breve momento.</p>
<p style="text-align: justify;">No mais, é cristianismo compulsório. Às vezes, alguns membros substituem por músicas ou vídeos sobre protestos relacionados a minorias sociais e do campo, mas nada muito distante do discurso oficial da instituição.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo após as orações, cada departamento dá avisos sobre suas atividades e agendas, o que prejudica quem se recusa a participar do momento religioso.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante anos, discutimos esse tema, deixando claro que não era um momento confortável ou acolhedor para quem não era cristão. As respostas, porém, sempre reiteravam que o momento era “imprescindível” para a instituição, e quem o questionava era lembrado de que a CPT tinha origem no catolicismo — um discurso distorcido que usa a história da instituição como justificativa para a imposição.</p>
<p style="text-align: justify;">O que mais me incomodava era o discurso ecumênico que não se refletia na prática, especialmente para quem não professava o catolicismo. Se nos atrasássemos ou faltássemos à oração, éramos cobrados. Criamos até o hábito de justificar antecipadamente os dias e motivos de ausência, mas mesmo isso gerava constrangimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve um dia, por exemplo, em que o coordenador nacional reclamou publicamente da demora, dizendo que esperava há 20 minutos na sala de oração — embora houvesse o costume de aguardarmos o sinal para ir ao local e dar início ao ritual. Segue o print da cobrança do coordenador, que comprova: a oração (ou “mística”, ou qualquer nome que lhe dessem) era obrigatória e cobrada quando não cumprida conforme o esperado.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156899" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/0d764c88-9b33-4a3d-b179-0204ef0d3546.jpeg" alt="" width="1080" height="1350" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/0d764c88-9b33-4a3d-b179-0204ef0d3546.jpeg 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/0d764c88-9b33-4a3d-b179-0204ef0d3546-240x300.jpeg 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/0d764c88-9b33-4a3d-b179-0204ef0d3546-819x1024.jpeg 819w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/0d764c88-9b33-4a3d-b179-0204ef0d3546-768x960.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/0d764c88-9b33-4a3d-b179-0204ef0d3546-336x420.jpeg 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/0d764c88-9b33-4a3d-b179-0204ef0d3546-640x800.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/0d764c88-9b33-4a3d-b179-0204ef0d3546-681x851.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
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		<title>A ultradireita evangélica faz o seu ensaio em Moçambique</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jan 2025 03:24:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[ O problema da ameaça de líderes populistas esconde um problema maior e mais profundo que diz respeito à incapacidade das elites políticas e dos partidos tradicionais de satisfazer as demandas da sociedade, abrindo espaço para que discursos e atitudes populistas ganhem saliência. Por José de Sousa Miguel Lopes ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por José de Sousa Miguel Lopes</h3>
<p style="text-align: justify;">Tirando a primeira década de independência, assistiu-se em Moçambique, nas últimas quatro décadas, a um progressivo aumento da pobreza (ver <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/01/155613/" href="https://passapalavra.info/2025/01/155613/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>). O país enquadra-se, certamente, na previsão feita recentemente pela revista <em>The Economist</em> que aponta para o aumento da lacuna econômica entre a África e o resto do mundo. Segundo a <em>The Economist</em>, até 2030 estima-se que os africanos representarão mais de 80% dos pobres do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Tentar sair desse empobrecimento, desse caminho perigoso, exige políticas radicalmente diferentes das adotadas até ao momento. Torna-se imperativa uma verdadeira mudança e a implementação de justiça social. Para o efeito, em momentos de crise tão profunda como a que está ocorrendo, Moçambique precisa estar atento e tentar se resguardar da onda ultradireitista que se está ampliando pelo globo. Com efeito, líderes populistas proliferam como cogumelos após forte chuvada, apresentando-se como Salvadores da Pátria. Alimentados por falsas narrativas, anunciam, com a maior desfaçatez, a eliminação rápida de todas as mazelas. No entendimento de Ferrajoli (2025):</p>
<blockquote><p>Estamos assistindo a uma mutação do próprio capitalismo neoliberal, que até agora devastou a esfera pública e submeteu a política à economia, mantendo, contudo, a separação formal entre as duas esferas. O fenômeno Musk sinaliza uma involução adicional: uma espécie de regressão pré-moderna ao estado patrimonial da época feudal, quando a política não tinha se separado da economia como esfera pública acima dela. Hoje estamos diante do direto governo privado e, ao mesmo tempo, global de setores fundamentais da vida civil e pública. Como se trata de um governo privado, ele também consiste em um poder absoluto. Esfera pública, separação de poderes e direitos fundamentais são conceitos estranhos a ele e incompatíveis com ele.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A nova direita global, que tem uma visão imperialista, mas tem como líder não uma nação, mas um homem fabulosamente rico: <strong>Elon Musk</strong>. Trump será imperador por quatro anos. Mas o império de Musk está apenas começando, e durará muito mais. Se os liberais não souberem se unir, a Internacional reacionária poderá fazer da democracia uma curiosa recordação.</p>
<p style="text-align: justify;">Em várias partes do mundo, governos progressistas assumiram o poder, mas sem possuírem uma estratégia clara para reconstruir suas sociedades a partir dos restos do neoliberalismo. Muitas vezes, não têm um programa político concreto capaz de superar tal regime de forma contundente. Incapazes de desenvolver uma política que rompa totalmente com o neoliberalismo, muitos desses governos progressistas voltam à imobilidade neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos cinquenta anos, durante o auge do Consenso de Washington, a maioria das nações mais pobres, como Moçambique, caiu em ciclos de dívida e austeridade, altas taxas de pobreza e profundo desespero.</p>
<p style="text-align: justify;">É neste quadro que a extrema-direita se encontra em ascensão eleitoral no mundo. Sua máxima expressão, Donald Trump, ocupa o cargo mais poderoso do planeta. A direita passou a fazer intensa (des)educação política do povo. As forças progressistas perderam a capacidade de promover grandes mobilizações populares diante da falta de educação política do povo, da excessiva burocratização dos partidos progressistas, da perda de referências históricas. Essa extrema direita fala em nome do povo, mas não constrói políticas que ajudem o povo.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando esses partidos políticos chegaram ao poder, não romperam fundamentalmente com o consenso neoliberal, já que a maioria deles continuou a adotar as políticas de desregulamentação empresarial, austeridade social e compromisso com o mercado. Esses partidos não adotaram políticas fortes de protecionismo econômico e bem-estar social.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa extrema direita rompeu com o liberalismo social e com formas de libertarianismo convencional com sua religiosidade fortemente conservadora (antiaborto, antifeminismo, homofobia e transfobia) e tradicionalismo geral (seu enraizamento na família nuclear patriarcal e na Igreja, que se transpôs para uma crença no forte líder masculino na sociedade).</p>
<p style="text-align: justify;">Essa extrema-direita, com muita frequência, assume carácter fascizante. Saliente-se que a palavra “fascista” assumiu uma carga moral, que é útil para fins eleitorais, mas não para entender adequadamente a extrema direita. Essa extrema direita não apareceu, como o fascismo fez cem anos atrás, para derrotar as lutas da classe trabalhadora e o movimento comunista, nem tem qualquer problema com as instituições formais da democracia. Tanto os fascistas italianos quanto os alemães queriam suspender os sistemas democráticos e eleitorais e usar todo o aparato repressivo do estado para dizimar o movimento dos trabalhadores e as instituições comunistas. Nenhuma ameaça desse tipo enfrenta atualmente o capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso específico dos Estados Unidos, a eleição de Trump, um protofascista egomaníaco, como dirigente no país mais poderoso do mundo não pode deixar de ser um alento à ultradireita de todo o mundo, como se viu, por exemplo, no primeiro mandato quanto às relações entre Trump e Bolsonaro.</p>
<figure id="attachment_155769" aria-describedby="caption-attachment-155769" style="width: 225px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-155769 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-1.jpg" alt="" width="225" height="225" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-1.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-1-70x70.jpg 70w" sizes="auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px" /><figcaption id="caption-attachment-155769" class="wp-caption-text">Daniel Chapo e Venâncio Mondlane | Fonte: Instagram</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">As débeis forças progressistas, acuadas pelo fundamentalismo religioso, sobretudo, de Venâncio Mondlane, dotado de inegável poder eleitoral, ainda não sabem como enfrentar esse desafio. Um governo que, a partir de agora, pretendesse seguir uma política progressista precisaria encontrar uma estratégia que se pudesse contrapor ao fenômeno do conservadorismo religioso, cujo impacto cultural e político é significativo. O eventual fracasso da extrema direita forneceria uma tremenda oportunidade para os progressistas — contanto que estivessem preparados para assumir a responsabilidade. Infelizmente, parecem ser poucas as esperanças para que os progressistas tenham condições de aproveitar essa oportunidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Moçambique estamos agora em presença de um conflito entre duas direitas: a frelimista, de Daniel Chapo e a personificada por Venâncio Mondlane, embora esta última seja uma clara extrema-direita</p>
<p style="text-align: justify;">
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A juventude moçambicana e seus desafios</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Vemos hoje adolescentes e jovens perdidos, que adotam ideologias que os fazem sentir que têm um lugar no mundo. Os poderes mais miseráveis manipulam-nos em relação às suas necessidades, à solidão e àquela falta de identidade, de saber quem é, de se sentir acompanhado, de pertencer a alguma coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">O eleitor em geral e os jovens em particular, desprovidos de consciência de classe, de relações corporativas (como as sindicais) e imunizados pelos impactos da grande mídia graças às suas bolhas digitais, buscam eleger quem lhes possa garantir um lugar ao sol na praia das oportunidades. Na falta de referências revolucionárias eles votam pensando, primeiro, na prosperidade individual, e não na coletiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses eleitores pobres manifestam seu inconformismo ao dar apoio aos que ostentam a bandeira da “antipolítica”. Decepcionados com os políticos tradicionais, preferem os arrivistas, os messiânicos, os que ousam contrariar o perfil da institucionalidade política e se glamourizam pelo histrionismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A juventude, que tem participado massivamente nas revoltas contra as políticas da Frelimo, está demonstrando seu justo e profundo descontentamento. Como silenciar a alta de desemprego, a fome, a ausência de perspectivas entre muitos outros problemas? Num quadro desta natureza, em que tudo se faz urgente, um perigo pode rondar a genuína vontade de mudança. A juventude moçambicana, com justa razão, apresenta-se bastante agressiva e impaciente. No entanto, como aponta o Editorial do <em>Savana</em>, um dos principais jornais moçambicanos:</p>
<blockquote><p>A volatilidade da sociedade moçambicana é simplesmente impressionante: a obediência quase que canina com que cidadãos acatam ordens para a desobediência civil, resultando numa revolta de carácter violento de saque, mortes em massa e destruição de propriedade, é típica de um ambiente em que de tão descomandadas e desesperadas, as pessoas já não têm tempo nem espaço para pensar que o que estão a destruir hoje, lhes fará imensa falta no dia seguinte. A intensidade da violência contra seus semelhantes mostra um nível de desumanidade de pessoas que de tanto terem sido desumanizadas elas próprias, perderam qualquer grão de respeito pela vida humana. A manipulação pública, inerente a regimes de inspiração autocrática, só contribui para adensar ainda mais os níveis de violência. (<em>Savana</em>, 03/01/2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Neste cenário, será a juventude tão conhecedora das questões políticas, ideológicas, históricas e dos nebulosos meandros da situação que neste momento perpassa o tecido social moçambicano? Será que ela tem um mínimo de conhecimento sobre questões geopolíticas e como elas interferem ou podem vir a interferir no processo moçambicano? Será que ela sabe quem é Trump e Bolsonaro, ambos cultuados por Mondlane? Se não sabem é grave, mas se sabem é mais grave ainda. Conhecem o líder da extrema direita André Ventura, único dirigente partidário português com quem Mondlane se encontrou na sua campanha? E o argentino Javier Millei, o mais feroz defensor de Israel na América Latina? Ou então, ignorando tudo isso, entra de cabeça no anúncio que lhe fazem de que agora tudo vai mudar para melhor, sustentada no argumento de que “pior não pode ficar”.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Venâncio Mondlane e Daniel Chapo: os perigos do evangelismo conservador e da teoria do domínio</strong></h4>
<figure id="attachment_155771" aria-describedby="caption-attachment-155771" style="width: 199px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-155771" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-2.jpg" alt="" width="199" height="253" /><figcaption id="caption-attachment-155771" class="wp-caption-text">Presidente moçambicano Daniel Chapo | Fonte: Facebook</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Os dois principais opositores na recente disputa eleitoral são evangélicos. Venâncio Mondlane é pastor e na sua campanha difundiu aberta e fortemente suas posições religiosas fundamentalistas (para mais informações sobre estas suas posições veja <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/01/155681/" href="https://passapalavra.info/2025/01/155681/" rel="ugc nofollow">aqui</a>). Daniel Chapo, que foi empossado no dia 15/01/2025 “escondeu”, durante sua campanha, seu lado evangélico. Ele pertence à IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), a famosa congregação do bispo brasileiro Edir Macedo. Só agora, na tomada de posse e nos dias subsequentes, decidiu revelar esse seu lado evangélico difundindo fotos onde aparece ajoelhado e orando e também participando em entrevistas onde manifesta sua filiação e suas crenças.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentindo-se acossado pela forte religiosidade do seu opositor Venâncio Mondlane e das multidões de apaniguados que o seguem, Daniel Chapo tenta mostrar que também segue os preceitos de Deus, afim de ganhar simpatizantes. Começou timidamente se ajoelhando entre muros, mas deve ter percebido que precisa de escancarar em público seu lado evangélico. Só que é uma luta desigual neste campo. Daniel Chapo está a lutar contra um pastor e seu vasto rebanho já consolidado e ele só agora descobriu que deveria copiar o pastor para tentar trazer para seu lado, alguns indecisos. Repito, no campo religioso, parece-me que para Daniel Chapo é uma batalha perdida.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o que parece estar a emergir em Moçambique é o evangelismo conservador, uma versão reacionária do cristianismo. O horizonte político moçambicano parece estar a dar os primeiros passos para mergulhar mais fortemente numa visão de mundo que se está espalhando por todo o planeta através das missões que as organizações evangélicas estadunidenses exportam para muitas partes do mundo. São mensagens populares apoiadas em agressivas campanhas de penetração em comunidades locais, através de redes sociais, rádios, televisões e publicações por onde difundem seu credo para dominar o mercado religioso.</p>
<figure id="attachment_155770" aria-describedby="caption-attachment-155770" style="width: 1440px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-155770" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3.jpg" alt="" width="1440" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3.jpg 1440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-1024x512.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-840x420.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-681x341.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1440px) 100vw, 1440px" /><figcaption id="caption-attachment-155770" class="wp-caption-text">Venâncio Mondlane | Fonte: Observador.pt</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">E agem com astúcia, combinando as tradições patriarcais com as agendas nacionalistas locais mais retrógradas. Querem restaurar um país e ordenar a sociedade segundo as leis de Deus. Isto se traduz em uma ênfase hierárquica da autoridade masculina e uma política baseada “na lei e na ordem”.</p>
<p style="text-align: justify;">São pessoas que se opõem aos direitos de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais, ao aborto, à imigração, à redistribuição de renda e a qualquer tentativa de abordar as desigualdades sociais, pois apoiam sem rodeios o capitalismo de livre mercado. Também são muito propensos a negar a existência do racismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, enquanto muitos defendem a democracia liberal, o evangelismo conservador está cada vez mais inclinado a tendências autoritárias. Apoiam as lideranças fortes, mostram muito pouca preocupação com a supressão de direitos civis e acreditam que a violência política pode ser justificada se é para proteger sua visão do que deve ser um país. Venâncio Mondlane expressa, com clareza, sua posição quanto ao uso da violência política:</p>
<blockquote><p>No dia 18/01/2025, uma das 25 medidas propostas pelo líder opositor Venâncio Mondlane para os primeiros cem dias de governação em Moçambique é mandar matar um polícia por cada manifestante morto. Recorre, assim, à Lei de Talião do Antigo Testamento: “Chamem-me agitador: o povo está sendo morto!”, afirma ele. (RODRIGUES. 17/01/2025)</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dominam com habilidade a tecnologia moderna para disseminarem mensagens e são incrivelmente acolhedores quando as pessoas entram pela porta de sua igreja desencantadas com um Estado que não lhes oferece qualquer resposta.</p>
<p style="text-align: justify;">Os evangélicos oferecem um senso de comunidade e identidade a seus fiéis, em uma época caracterizada pela incerteza econômica e de mudanças culturais. São formados na crença divina da prosperidade, que promete sucesso aos seus adeptos, tanto neste mundo como no próximo.</p>
<p style="text-align: justify;">Transmitem a ideia de que se alguém é “obediente” e busca a bênção de Deus, receberá sua recompensa na forma de felicidade pessoal e sucesso financeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Misturam habilmente a caridade com a evangelização. Distribuem refeições gratuitas, elaboram programas extraescolares e oferecem ajuda individual à margem das políticas estatais contra a pobreza e a desigualdade. Venâncio Mondlane já participou nesse tipo de atividade.</p>
<p style="text-align: justify;">Aproveitam-se da devoção de seus seguidores para se apresentarem como a única opção política realmente cristã.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma grande quantidade de dinheiro por trás dessas igrejas, suas redes e organizações, que reúne destacados pastores que se aliam a bilionários para obterem elevadas doações privadas. Por outro lado, milhares de evangélicos em vários lugares do mundo, doam 10% de sua renda mensal para suas congregações.</p>
<p style="text-align: justify;">E esse dinheiro é usado para pagar os pastores (que enriquecem de forma desmedida) e a toda a sua equipe de assessores, para construir edifícios, financiar missionários, comprar recursos educacionais e alimentar a divulgação. Além disso, as editoras evangélicas são um grande negócio. Os <em>best-sellers</em> evangélicos costumam vender milhões de cópias, apesar de serem bastante simples e de qualidade questionável. Os circuitos de conferências que organizam também são extremamente lucrativos, e a música e suas rádios se transformaram em indústrias com um gigantesco alcance.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O evangelismo faz emergir um sinal de alerta na defesa da democracia</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">No país mais poderoso do mundo, na tomada de posse de Donald Trump no dia 20/01/2015, podemos constatar como ele está rodeado de inúmeras lideranças religiosas. Com efeito:</p>
<blockquote><p>“A bênção será dada pelo rabino Ari Berman, reitor da Universidade Yeshiva; pelo imã Husham Al-Husainy, do Centro Islâmico Karbalaa em Dearborn, Michigan; pelo pastor Lorenzo Sewell, da Igreja 180 em Detroit; e pelo reverendo Frank Mann, padre da Diocese de NovaYork”, observa a José Lorenzo (15/01/2025). O comitê inaugural de Trump também informou que o presidente eleito participará novamente dos cultos inaugurais na Igreja Episcopal de St. John, no centro de Washington, bem como de um culto de oração na Catedral Nacional de Washington. (IDEM).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até mesmo em meio à guerra na Ucrânia se pode constatar como a força da religião evangélica consegue que promover alianças entre os inimigos que se digladiam no campo de batalha. Com efeito, após a invasão russa à Ucrânia, os Estados Unidos e a Europa encontraram-se na linha da frente da batalha contra a Rússia quando, até nessa guerra, existia uma forte aliança de interesses entre evangélicos estadunidenses e empresários russos ortodoxos. Algo similar acontece com a religião: a Internacional reacionária produziu alianças inesperadas entre religiões, não só dentro do próprio cristianismo — católico, ortodoxo ou neopentecostal — mas até estabelecendo acordos contingentes com o Islã, contornando na ponta dos pés a contradição de que muitos dos partidos europeus de extrema direita têm propostas claramente islamofóbicas.</p>
<blockquote><p>Desde 2010, as instituições europeias registaram um aumento muito significativo na atividade de grupos de pressão religiosos. Igrejas e organizações confessionais realizaram mais reuniões políticas em Bruxelas do que grandes empresas como a Google ou a gigante do tabaco Phillip Morris. Os dados refletem a preponderância do cristianismo — que inclui católicos e protestantes — cuja capacidade de influência é apoiada por um sólido apoio econômico. O <em>lobby</em> da Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia (Comece) contava um orçamento de mais de um milhão de euros em 2019, segundo dados do Registo da Transparência da EU. (ALABAO, 2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Constata-se, pois, um espantoso crescimento das Igrejas evangélicas, cuja maioria de fiéis faz uma leitura salvacionista da Bíblia (pauta de costumes) e não libertária o que faz perigar as democracias. Os pobres estão optando pelas Igrejas evangélicas, nas quais encontram acolhimento e suporte social, inexistentes na maioria das paróquias católicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dois principais políticos de Moçambique, Daniel Chapo e Venâncio Mondlane, são ambos evangélicos, sendo o último pastor. No início do atual governo verificam-se sinais de que estes opositores começaram a dialogar. Nas questões religiosas, certamente, a sintonia será perfeita.</p>
<p style="text-align: justify;">Face a essa sintonia, uma pergunta perturbadora não pode deixar de ser feita: estará se desenhando, a curto ou médio prazo, a edificação de um Estado Teocrático em Moçambique, à boa maneira iraniana?</p>
<p style="text-align: justify;">Um Estado Teocrático ajuda a imposição ilegítima do controle político, diminui o espaço de liberdade que resta aos cidadãos. Com ele a Bíblia se sobrepõe à Constituição. Contra os mitos e a crença nos milagres ou aparições sobrenaturais, temos a ciência e a democracia. Saibamos usá-las em prol do pacífico convívio, sem perseguições e mentiras, santas ou seculares. Se a democracia ostenta defeitos, suas mazelas confessadamente têm origem em seres humanos que erram e podem corrigir seus equívocos. Com a teocracia nenhum limite obriga o governante, pois seus decretos são divinos. No fundo de todo teocrata dormita um totalitário. É tempo de aprender tal lição da história religiosa e política.</p>
<p style="text-align: justify;">As forças progressistas, acuadas pelo fundamentalismo religioso dotado de inegável poder eleitoral, ainda não sabem como enfrentar esse fator que constitui o substrato cultural.</p>
<p style="text-align: justify;">É preciso que se reaja a essa escalada bíblica, antes que tenhamos todo poder político tomado por pessoas terrivelmente evangélicas! Como reagir é a questão. Tendo em conta a aceitação que se deve ter pelo diálogo inter-religioso, pode parecer uma quebra de respeito à diversidade o combate a uma vertente religiosa específica. O caso reside no conhecido paradoxo: só não podemos ser tolerantes com os que desejam abolir a tolerância. Só não podemos abrir diálogo com os que pretendem abolir o diálogo, a diversidade, a liberdade. Faz-se necessário pensar estratégias de libertar a consciência do povo enganado e cooptado e denunciar e combater os falsos líderes que o exploram e oprimem.</p>
<p style="text-align: justify;">Não menos importante é o crescente alastramento da chamada “teologia do domínio” que defende a subordinação das esferas pública e privada aos preceitos religiosos. É uma doutrina que prega a necessidade de os cristãos assumirem o controle sobre todas as áreas da sociedade, incluindo governo, educação e cultura, para implementar uma nação sob “princípios bíblicos”. Essa ideologia ameaça diretamente a laicidade do Estado e a diversidade religiosa, fundamentais em uma sociedade democrática. A adoção dessa teologia por líderes religiosos e políticos em Moçambique gera preocupações sobre os riscos de uma agenda que busca impor valores religiosos específicos a toda a população.</p>
<p style="text-align: justify;">O papel da família, a essência da educação e o significado da liberdade, tudo é defendido numa perspectiva cristã. Apoiar candidaturas fundamentalistas que defendam pautas moralistas e antiestatais é algo fora do ordenamento democrático.</p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, por exemplo, muitas igrejas incentivam os jovens a ingressar em cursos-chaves para ocupar posições de influência. O objetivo é contrapor o criacionismo “bíblico” àquilo que designam como “ensino ateu”. Pretende-se que os alunos que se envolvem nestes cursos se tornem palestrantes equilibrados, pesquisadores curiosos e defensores resilientes de uma cosmovisão bíblica.</p>
<figure id="attachment_155772" aria-describedby="caption-attachment-155772" style="width: 320px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-155772" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-4.jpg" alt="" width="320" height="213" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-4.jpg 320w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-4-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px" /><figcaption id="caption-attachment-155772" class="wp-caption-text">Foto: Publico.pt</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Os promotores do “legado cristão” defendem um Estado mínimo e o “autogoverno”, principalmente no que se refere à educação e à cultura (o que favorece o domínio da manipulação e doutrinação para as quais são treinados incansavelmente). Em sua maioria, são inimigos das políticas públicas, principalmente as que buscam o acolhimento e dignidade das minorias e a “diversidade”.</p>
<p style="text-align: justify;">A “teoria do domínio” prega que os cristãos têm a missão de governar todas as esferas da sociedade — incluindo política, educação, mídia e economia — para estabelecer os valores cristãos como padrão universal. A execução dessa teologia ameaça o princípio do Estado laico e pode retirar os direitos de minorias religiosas e sociais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O Salvador da Pátria como elemento central do Populismo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Entramos no século XXI como uma era sinistra, em que paixões de um escuro passado estão sendo mobilizadas novamente contra as forças da democracia de um modo diferente de tudo que vimos desde os anos 1930.</p>
<p style="text-align: justify;">Os moçambicanos não estão imunes aos atentados conta a democracia e parecem sentir um quase vazio de poder, que possibilita o surgimento de líderes populistas que se apresentam como Salvadores da Pátria.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma coisa é dizer, com toda a justiça, que o “prazo de validade” da Frelimo terminou há muito tempo, outra coisa é receber de braços abertos qualquer aventureiro que aparece prometendo este mundo e o outro. Que Venâncio Mondlane fala muito bem, como muitos dizem, é evidente. Aliás, se o modelo de comparação for o último presidente do país, Filipe Nyusi, então Venâncio Mondlane é um génio da oratória. Mas não basta falar bem e fazer belas promessas. É fundamental fazer uma espécie de Raio X daqueles que se propõem ser os Salvadores da Pátria. Basta analisar um pouco a geopolítica mundial, sobretudo após a I Guerra Mundial nas últimas décadas, para encontrarmos dezenas de Salvadores da Pátria e populistas. Dois exemplos, entre muitos outros, de “salvadores da pátria” foram Benito Mussolini na Itália e de Adolf Hitler na Alemanha, nas décadas de 1920 e 1930.</p>
<p style="text-align: justify;">Como sabemos, Salvadores da Pátria não existem. São como o Homem Aranha ou a Mulher Maravilha, maravilhosos nos filmes e desenhos animados, mas não fazem parte do mundo real. Neste ninguém colocou em risco a humanidade mais do que esses salvadores da pátria, cheios de verdadeiras ou supostas boas intenções.</p>
<p style="text-align: justify;">Os que acreditam nesses facínoras, por ignorância e fé, são os maiores prejudicados. Os que realmente criam valor e oportunidades são transformados em bodes expiatórios e acabam sacrificados após serem difamados, demonizados e humilhados. Os salvadores da pátria querem mesmo é enriquecer e manter o poder. Esses aventureiros nada produzem, nada criam, não conseguem nem exercer suas funções mais básicas, porque estão preocupados em controlar o povo para espoliá-lo. Infelizmente, o povo não percebe como o sistema é perverso e ele é a vítima. Somente quando a situação chega num ponto ultrajante, alguns se revoltam e recomeça o ciclo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o <em>establishment</em> hoje é o centro neoliberal, então certamente qualquer desafio a ele será populista.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, o termo populismo precisa ser ampliado para incluir alguns aspectos-chave, como a necessidade de aceitar o capitalismo como eterno, encolher os aspectos do Estado que fornecem bem-estar social e regulam os negócios, expandir o aparato repressivo do Estado para evitar qualquer desafio ao status quo e reconhecer a centralidade dos Estados Unidos como líder do sistema mundial.</p>
<p style="text-align: justify;">Presenciamos o suporte crescente direcionado a um populismo de direita que vê a democracia liberal como um anacronismo. Os sinais são claros. Ao redor do mundo, indivíduos, grupos e políticos vomitam desordenadas incitações de ódio e intolerância, legitimando e apoiando abertamente o racismo, a homofobia e outras selvagens formas de nacionalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que tem surgido desse abismo do poder autoritário é uma atualizada versão da política demagógica e a normalização de uma maré de ignorância com naturalização da crueldade. Um resultado direto é o crescente apoio de um populismo de direita, que trata com ódio e desdém tanto os indivíduos privados de necessidades básicas para sua subsistência &#8211; incluindo moradia, alimentação e água limpa — como as populações imigrantes deslocadas de sua terra natal por conflitos e expropriações das forças globais do capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O populismo de direita oferece uma noção pseudodemocrática de política, em que as decisões não são informadas por evidências e a ação coletiva desaparece diante do simbólico mito de um líder totalitário e poderoso. Nesse discurso, a política torna-se personalizada na imagem de um demagogo, sustentada graças à suposta ignorância das massas, tratadas como um verdadeiro “rebanho”. A emergência desses líderes da extrema direita pode ser exemplificada com a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos e de Jair Bolsonaro no Brasil. Mas também já podemos notar a capilarização desse fenômeno, com versões regionais e locais dessas figuras na política. Constata-se que se articulam perfeitamente com os evangélicos quase como se fossem irmãos siameses. Aí estão Daniel Chapo, mas, sobretudo, Venâncio Mondlane conduzindo os seus rebanhos em terras moçambicanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Promessas de benefícios e privilégios são a chave que denuncia o populista demagogo. Quando chegam ao governo, grande parte dessas lideranças se limita a propor mudanças do <em>status quo</em> centradas em políticas públicas. É o caso, por exemplo, das regras mais restritivas sobre imigração — como nas normas sobre pedidos de asilo, visto de permanência para trabalho, e a expulsão nas fronteiras. Ou seja, populistas usualmente são reformistas, não querem subverter o regime vigente.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejam-se algumas das promessas que Venâncio Mondlane já anunciou:</p>
<blockquote><p>Imensa gente em Moçambique vê Venâncio Mondlane como o salvador da pátria. Ele acha-se um novo messias que, como Moisés a conduzir os hebreus através das águas apartadas do Mar Vermelho, fugindo do exército do faraó, vem libertar os moçambicanos do jugo da Frelimo para transformar o país na terra que mana leite e mel, em que ele vai construir três milhões de casas em cinco anos, uma linha férrea da Ponta do Ouro até Mocímboa da Praia, e criar uma linha de crédito de 600 milhões de dólares para os empresários e investidores que viram os seus armazéns e infraestruturas destruídos pelos “manifestantes” nos dias de Natal (VAZ. <em>NPCTB</em>, 13/01/2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Portanto, o problema das falsas promessas e da ameaça de líderes populistas esconde um problema maior e mais profundo que diz respeito à incapacidade das elites políticas e dos partidos tradicionais de satisfazer as demandas da sociedade, abrindo espaço para que discursos e atitudes populistas ganhem saliência. É o que está acontecendo agora em Moçambique. Segundo Costa (2025):</p>
<blockquote><p>Mas o que vejo dele [Venâncio Mondlane] é um discurso populista primário, de instrumentalização do justo descontentamento em relação ao poder estabelecido, mas sem fornecer qualquer alternativa programática ou propostas objetivas. É um discurso comum a todas as variantes do fascismo dos tempos atuais que vemos eclodirem por todo o mundo.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mesmo no interior do Podemos, partido com o qual Mondlane firmou um Acordo, os conflitos internos não demoraram a surgir e se apresentam de forma contínua. Nesses conflitos, a imagem de Mondlane revela um personagem pouco confiável. Para Albino Forquilha, líder do Partido Podemos que aceitou o ingresso de Mondlane no seu Partido: “Venâncio Mondlane violou reiteradamente, e de forma grave, os termos do referido acordo, em múltiplas ocasiões, desde o período da campanha” (MUSSANHANE, (06/01/2025, p. 2).</p>
<p style="text-align: justify;">O problema está na decisão do Podemos de tomar posse no dia 15/01/2025 e Mondlane afirmar que o Podemos não pode aceitar tomar posse, porque ainda se está a lutar pela verdade eleitoral. Conforme o investigador do Centro de Integridade Pública (CIP), Lázaro Mabunda:</p>
<blockquote><p>O Podemos diz que essa luta já se esgotou, porque os acordos do Conselho Constitucional são irrecorríveis, mas Mondlane está a dizer que não. Ele não está contra a tomada de posse, mas está contra a tomada de posse neste momento em que ainda se está a lutar pela verdade eleitoral. (MABUNDA, <em>apud</em> NÁDIA, 2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, o que Mondlane deseja mesmo é ser Presidente da República de imediato. No entendimento de Vaz (18/01/2025):</p>
<blockquote><p>E para atingir esse objetivo, vale tudo — se necessário, destruir infra-estruturas públicas e privadas, promover o caos nas cidades e vilas, apunhalar a economia, incendiar o país. Desde meados de outubro, já lá vão três meses, Venâncio, o messias moçambicano, o iluminado, tem conseguido provocar sucessivas paralisações em Maputo e em algumas outras cidades moçambicanas, causando muito mais do que incómodos pessoais passageiros, ele tem causado danos sérios à nossa economia.</p></blockquote>
<figure id="attachment_155773" aria-describedby="caption-attachment-155773" style="width: 686px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-155773 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5.jpg" alt="" width="686" height="386" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5.jpg 686w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 686px) 100vw, 686px" /><figcaption id="caption-attachment-155773" class="wp-caption-text">Fonte da imagem: Youtube</figcaption></figure>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Um possível e urgente caminho para a resolução dos problemas que Moçambique enfrenta</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Para provocar aquilo que se designa por Transformação do Conflito é preciso que uns percebam o problema dos outros. Perceber — um exercício básico — não significa concordar. Significa, tão somente, recolher informação para ajudar as partes a resolverem os seus diferendos. É sempre bom lembrar que a paz se faz com o inimigo. Na opinião de Vaz (13/01/2025):</p>
<blockquote><p>Sejamos, porém, optimistas, iremos ultrapassar esta tormenta que estamos a viver no nosso país, como já superámos outras. Apesar de salteadores mafiosos no poder, apesar de messias fascizantes a quererem substituí-los. Iremos curar as feridas e voltar a viver unidos. Com visões diferentes, mas com o mesmo amor pelo país.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">O revolucionário africano Amílcar Cabral nos ensinou que o objetivo da libertação nacional é “a libertação do processo de desenvolvimento das forças produtivas nacionais”. Portanto, a formulação de uma nova teoria do desenvolvimento para o Sul Global, em geral, e para Moçambique, em particular, também é um retorno à origem de nossas lutas pela libertação do imperialismo e do neocolonialismo. É a partir do resgate dessas lutas que urge traçar o caminho para as aspirações de justiça social de Moçambique.</p>
<p style="text-align: justify;">Como diz o ditado, <em>“a arrogância precede a queda”</em>. Quando se juntam apoiadores de salvadores diferentes, o resultado só pode ser catastrófico, mesmo. Quando a arrogância de apoiadores são reflexos do candidato, então, este só tem a perder. Não se desejam deuses inatingíveis no poder. Respeite-se o slogan “Não somos servos, somos povo”. Deseja-se na governança quem olhe para o povo como uma entidade merecedora de respeito e não como servidores fiéis.</p>
<p style="text-align: justify;">São ainda milhões os que preferem a sensatez, o diálogo, a busca por soluções realistas, não fantasiosas. São eles os que rechaçam a política da vingança, que acaba arrastando a situação para o pior.</p>
<p style="text-align: justify;">É compreensível a revolta dos jovens moçambicanos. A frustração tinha que ter uma válvula de escape, mas agora é preciso ir em busca de serenidade. É preciso um intenso e genuíno diálogo entre as principais forças em disputa.</p>
<p style="text-align: justify;">É fundamental reforçar a educação cívica e a conscientização sobre os valores democráticos para impedir que visões teocráticas comprometam os direitos fundamentais de todos os cidadãos. Para muitos, o desafio está em equilibrar a liberdade religiosa com a necessidade de preservar um Estado laico e inclusivo, garantindo que nenhum grupo imponha suas crenças sobre toda a sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">O vocábulo “sensatez”, oposto de insensatez, deve começar a aparecer, ainda que temeroso, na boca de quem prefere pensar numa solução viável da crise, que implique limar arestas, juntar ideias distintas, dialogar até à exaustão.</p>
<p style="text-align: justify;">A célebre frase do pensador italiano, Giuseppe Tomasi di Lampedusa fez-me soar um alerta. Diz ele que <em>“Algo deve mudar para que tudo continue como está”</em>. Mesmo com esse alerta, eu desejo fortemente ser contrariado pela frase de Lampedusa. O povo moçambicano merece dias melhores.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando uma crise ocorre, as ações tomadas dependem das ideias circulando no seu entorno. Então, talvez a função básica seja desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne o politicamente inevitável.</p>
<p style="text-align: justify;">Um aspecto da maior relevância que deve ser observado numa democracia é a transparência. Se não fizermos um esforço para uma renovação, reinvenção e reinstalação dos valores democráticos, o que vencerá serão as trevas. Às vezes, as sociedades optam por cometer suicídio por ignorância. Há cinquenta anos ninguém dizia que a Terra era plana, o que aconteceu para que nos dias de hoje haja tanta falta de cérebro, tanto desespero?</p>
<p style="text-align: justify;">E o que fazer com o desespero, com a sensação física do desespero? O que fazer quando parece não haver mais saída, que nada vai mudar substancialmente a situação em que nos encontramos, que nada pode ser feito? Segundo Franco Berardi, esta é a principal questão da política hoje. Mas uma política que vá além da política. Porque o desespero não vai desaparecer por decreto-lei, argumentos ou explicações. É algo do corpo, está ligado ao corpo, que contamina toda a alma, e a possui. Um desespero que se traduz em todos os lugares em agressão. A prepotência dos fortes — “nada é como antes” — transforma-se em guerra contra os mais fracos. E o desespero dos fracos procura retribuir, vingar-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Como é possível interromper uma psicose (um delírio) em massa? Ou seja, como escapar do contágio do desespero agressivo ou vingativo?</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma questão central de uma política que vai além da política, uma política que sabe ouvir e dialogar com os corpos, com o que acontece nos corpos e através de suas necessidades básicas, chegar ao espírito! Todos os que enlouqueceram fascinados pela linguagem do triunfo sobre o próximo, se farão a pergunta: Ganhar o quê? O mundo é controlado, manipulado pelo 1% de milionários e estes, teleguiados por 0,1% dos mesmos! Somente eles podem ganhar! A ilusão, como sempre, termina em decepção. Grandes expectativas levam a novas frustrações. A Esperança recaiu no Desespero. Um desespero que hoje, como no passado, dá um giro para a direita. É sabido que desesperados votaram massivamente em Trump, em Bolsonaro, em Milei: os humilhados, os quebrados, os arruinados, material e mentalmente. Não estaremos vendo em Moçambique um quadro semelhante?</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos tempos estão doentes com o “sim, é possível”. Diante do “querer é poder” como mandato da época que nos estressa e esgota, assumir a impotência como alavanca, comparar-se com o impossível e o trágico é algo perturbador.</p>
<p style="text-align: justify;">Resignação? Radicalização do desespero, isso sim. A descrença em todas as consolações, nas ilusões voluntárias, nas promessas políticas. É possível imaginar um político que não peça a nossa ilusão, a nossa fé? Um político que diga “não é possível”, decepcionando crenças e libertando-se assim dos deveres?</p>
<p style="text-align: justify;">Destruir a Esperança como expectativa e crença, para que as esperanças possam talvez ressurgir em letras minúsculas, como atividade e a partir do vazio. Somente no extremo do desespero, uma vez destruídas todas as ilusões, é possível reencontrar a esperança novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Para finalizar, o grande desafio, para enfrentar a pobreza e a miséria visando um Moçambique verdadeiramente soberano, é unir as forças progressistas capazes de imaginar e lutar por um Moçambique no qual o fascismo neoliberal não mais exista e onde a promessa de uma genuína democracia se torne mais que um sonho utópico ou um discurso oportunista.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação do país apresenta tal complexidade que falar em forças progressistas parece algo fora do lugar. Claro que tem gente progressista, mas que, no momento atual está acuada, pois a onda da extrema-direita incute medo. Mas quando a situação se acalmar, quem sabe não vão começar a ouvir-se essas vozes?</p>
<p style="text-align: justify;">Não haverá justiça social sem mobilização popular nem futuro em que valha a pena viver sem luta coletiva. É preciso tratar a questão da democratização do poder a sério, com esforços contínuos para desenvolver uma forte aliança republicana e democrática contra a aliança evangélico-populista.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda gente pretende saber, de imediato, quais os rumos que o país vai tomar. O que atrás apresentamos são apenas meras sugestões sobre o que deveria ser feito de acordo com nossos valores e nossa visão de mundo. Assegurar certezas num momento político tão complexo é algo que pode acabar no “reino das frustrações”.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">ALABAO, Nuria. Internacional Antifeminista, uma radiografia In: <em>Outras Palavras</em>. <a class="urlextern" title="https://outraspalavras.net/direita-assanhada/internacional-antifeminista-uma-radiografia/" href="https://outraspalavras.net/direita-assanhada/internacional-antifeminista-uma-radiografia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://outraspalavras.net/direita-assanhada/internacional-antifeminista-uma-radiografia/</a> (17/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">COSTA, João Vasconcelos. #15 &#8211; No Moleskine, “Europa 2025” e “Depois de Moçambique, Angola?”, mais as secções habituais. <em>Por baixo da espuma</em>. <a class="urlextern" title="https://joovasconceloscosta.substack.com/p/15-no-moleskine-europa-2025-e-depois" href="https://joovasconceloscosta.substack.com/p/15-no-moleskine-europa-2025-e-depois" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://joovasconceloscosta.substack.com/p/15-no-moleskine-europa-2025-e-depois</a> (04/01/2025)</p>
<p style="text-align: justify;">FERRAJOLI, Luigi. Fascismo-liberal, também o espaço é privatizado. In: <em>IHU &#8211; UNISINOS</em> <a class="urlextern" title="https://www.ihu.unisinos.br/647771-fascismo-liberal-tambem-o-espaco-e-privatizado-artigo-de-luigi-ferrajoli?utm_campaign=newsletter_ihu__13-01-2025&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station" href="https://www.ihu.unisinos.br/647771-fascismo-liberal-tambem-o-espaco-e-privatizado-artigo-de-luigi-ferrajoli?utm_campaign=newsletter_ihu__13-01-2025&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.ihu.unisinos.br/647771-fascismo-liberal-tambem-o-espaco-e-privatizado-artigo-de-luigi-ferrajoli?</a> (13/01/2025)</p>
<p style="text-align: justify;">LORENZO, José. In: <em>Religion Digital</em> <a class="urlextern" title="https://www.religiondigital.org/jose_lorenzo/" href="https://www.religiondigital.org/jose_lorenzo/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.religiondigital.org/jose_lorenzo/</a> (15-01-2025).</p>
<p style="text-align: justify;">LORY, Gregoire. Interferência de Elon Musk nos debates nacionais irrita a Europa. <em>Euronews</em>. In: <a class="urlextern" title="https://pt.euronews.com/my-europe/2025/01/08/interferencia-de-elon-musk-nos-debates-nacionais-irrita-a-europa" href="https://pt.euronews.com/my-europe/2025/01/08/interferencia-de-elon-musk-nos-debates-nacionais-irrita-a-europa" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://pt.euronews.com/my-europe/2025/01/08/interferencia-de-elon-musk-nos-debates-nacionais-irrita-a-europa</a> (08/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">MUSSANHANE, Sebastião. Comunicado de Imprensa. (06/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">NÁDIA, Issufo. Acordo entre VM e PODEMOS: “Não houve transparência”. In: <em>DW África</em>, 2025. <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-002/n%C3%A3o-houve-transpar%C3%AAncia-nem-do-ven%C3%A2ncio-nem-do-podemos/a-71267996" href="https://www.dw.com/pt-002/n%C3%A3o-houve-transpar%C3%AAncia-nem-do-ven%C3%A2ncio-nem-do-podemos/a-71267996" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.dw.com/pt-002/n%C3%A3o-houve-transpar%C3%AAncia-nem-do-ven%C3%A2ncio-nem-do-podemos/a-71267996</a> (10/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">RODRIGUES, António. <em>O Público</em>, (17/01/2025) <a class="urlextern" title="https://www.publico.pt/2025/01/17/mundo/noticia/venancio-mondlane-manda-matar-policia-manifestante-morto-2119194" href="https://www.publico.pt/2025/01/17/mundo/noticia/venancio-mondlane-manda-matar-policia-manifestante-morto-2119194" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.publico.pt/2025/01/17/mundo/noticia/venancio-mondlane-manda-matar-policia-manifestante-morto-2119194</a></p>
<p style="text-align: justify;">SAVANA. <em>Editorial.</em> Maputo, (03/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">ST.CLAIR Jeffrey. In: Counter Punch. <a class="urlextern" title="https://www.counterpunch.org/2025/01/10/roaming-charges-hurricane-of-fire/" href="https://www.counterpunch.org/2025/01/10/roaming-charges-hurricane-of-fire/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.counterpunch.org/2025/01/10/roaming-charges-hurricane-of-fire/</a> (11/01/2025)</p>
<p style="text-align: justify;">VAZ. Álvaro Carmo. <em>NPCTB</em>, 1/25, (13/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">_____________<em>NPCTB</em>, 2/25, (18/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">VIRISSIMO, Vivian. Cinco mais ricos do mundo dobram patrimônio em 3 anos enquanto 60% ficam mais pobres. <em>Brasil de Fato. </em><a class="urlextern" title="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/15/cinco-mais-ricos-do-mundo-dobram-patrimonio-em-3-anos-enquanto-60-ficam-mais-pobres" href="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/15/cinco-mais-ricos-do-mundo-dobram-patrimonio-em-3-anos-enquanto-60-ficam-mais-pobres" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.brasildefato.com.br/2024/01/15/cinco-mais-ricos-do-mundo-dobram-patrimonio-em-3-anos-enquanto-60-ficam-mais-pobres</a> (15/01/2024).</p>
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		<title>Surrealismo político em Moçambique</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Jan 2025 11:53:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[Para onde caminha Moçambique? Por José Miguel de Sousa Lopes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por José Miguel de Sousa Lopes</strong></h3>
<blockquote><p>O que vai ser abordado neste texto diz respeito a um episódio ocorrido no dia 09/01/2025.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Quero, desde já, chamar a atenção para três questões.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira diz respeito ao uso que faço da palavra surrealismo no título deste trabalho. O surrealismo é um movimento literário e artístico, lançado em 1924 pelo escritor francês André Breton (1896-1966), que se caracterizava pela expressão espontânea e automática do pensamento (ditada apenas pelo inconsciente) e, deliberadamente incoerente, proclamava a prevalência absoluta do sonho, do inconsciente, do instinto e do desejo e pregava a renovação de todos os valores, inclusive os morais, políticos, científicos e filosóficos. Não é este sentido ligado à arte que utilizo no título, mas sim o sentido de presente em algo estranho, absurdo, que não corresponde à realidade. Dizer que algum acontecimento é surreal significa que foge à realidade, que é bizarro ou absurdo.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda para o facto de que o texto, em alguns momentos, está carregado de forte ironia. A tragédia que está ocorrendo em Moçambique é de tal magnitude, que esta foi a forma que encontrei para não cair na insanidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A terceira diz respeito ao fato de estas reflexões se referirem a um episódio ocorrido num determinado dia e hora. Para quem desejar ter mais informações sobre o contexto político e os tumultos violentos que Moçambique atravessa no momento, clique <strong><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/01/155613/" href="https://passapalavra.info/2025/01/155613/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O que me “incentivou” a escrever estas breves considerações foi o episódio que ocorreu no dia 09/01/2025, às 8:20h da manhã, no momento da chegada ao aeroporto de Maputo, do candidato Venâncio Mondlane, que há uns meses se tinha auto proclamado Presidente da República. Ao colocar os pés em solo moçambicano não só reafirmou sua autoproclamação como foi mais além, montou uma cerimónia de tomada de posse, levando assim à prática o seu desejo. Alguns dirão que essa tomada de posse foi apenas uma forma simbólica. Tudo bem, mas também sabemos que um símbolo é qualquer coisa usada para representar ou substituir outra, estabelecendo uma correspondência ou relação entre elas. Tem um valor evocatório ou místico. Então, isso não invalida o propósito de Mondlane.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155684" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1.jpg" alt="" width="1080" height="591" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1.jpg 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1-300x164.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1-1024x560.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1-768x420.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1-640x350.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique1-681x373.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Já vi muita coisa na vida. Ingenuamente, pensei que já tinha visto de tudo. Ledo engano. Depois disto, só me falta ver boi voando. Descobri que um cidadão não precisa respeitar um mínimo de regras constitucionais. Basta uma Bíblia bem encadernada, novinha em folha como se pode ver nas fotos. Provavelmente este exemplar do seu possuidor nunca foi aberto! Precisa também ter habilidade para fazer genuflexões, que o caminho do Senhor fará o resto. Como se sentirão os moçambicanos pertencentes a outros credos religiosos, ou sem credo religioso, ao verem estas imagens? Pois, foi isto que os moçambicanos, e não só, tiveram o “privilégio” de assistir esta manhã, um momento que vai ficar registado não apenas na História de Moçambique, mas na História Mundial. Afinal, apenas em duas ocasiões ocorreram “autoproclamações” políticas no planeta Terra.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O surgimento das autoproclamações políticas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O fenômeno de autoproclamação ocorreu pela primeira vez na Venezuela, em 2019, quando Juan Guiadó acusou as autoridades venezuelanas de fraude eleitoral. Incentivado pelos Estados Unidos, seguido depois pelo Parlamento Europeu, se autoproclamou Presidente da República. Durante dois anos, fez um périplo por vários países para receber apoio e derrubar o presidente Nicolás Maduro, mas todas as tentativas fracassaram. Guaidó, além de ocultar ou falsificar dados de sua declaração de patrimônio, recebeu dinheiro de fontes internacionais e nacionais sem justificar, tendo também conseguido desviar 2 bilhões de dólares a contas próprias. Registe-se que o ato da tomada de posse ocorreu fora do país. Agiu em conjunto com o governo dos EUA para ativos venezuelanos apropriados no exterior. A movimentação financeira incluía contas do governo da Venezuela ou do Banco Central Venezuelano sediadas no Federal Reserve Bank de Nova York, mas o controle destes ativos era aplicável a contas semelhantes em qualquer banco segurado ou garantido pelo governo americano. Guaidó tem cerca de vinte processos abertos contra si por crimes de usurpação de funções, corrupção, branqueamento de capitais, incitação pública continuada à desobediência às leis, peculato agravado, utilização fraudulenta de fundos públicos, conspiração com governos estrangeiros, terrorismo, rebelião, tráfico de armas de guerra, traição e associação para cometer um crime.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda ocorreu em 2024, também na Venezuela, no processo eleitoral para Presidente da República com o surgimento do candidato Edmundo González Urrutia, que também acusou as autoridades venezuelanas de fraude eleitoral. Na esteira de Guaidó, também se autoproclamou Presidente. Sua estratégia assenta na negação da Quinta República, no financiamento espúrio, na pressão política internacional e em medidas coercivas unilaterais, combinadas com cenários de violência nas ruas e, como aconteceu em 2019, a montagem de uma arquitetura institucional paralela, que, como o tempo demonstrou, tinha como objetivo a apropriação da herança venezuelana no exterior. Entre os vários encontros de Urrutia devem salientar-se os que ocorreram com Trump e Milei. Na América Latina, apenas Costa Rica, Panamá, Equador — que provavelmente mudará de governo em fevereiro —, Peru, Argentina e o governo cessante do Uruguai, são os países que reconheceram a autoproclamação de Urrutia. Mesmo com tensões, o Plano “Guaidó 2.0” parece ter muito menos atores envolvidos. É verdade que nem o mundo nem a região são os mesmos de 2019.</p>
<p style="text-align: justify;">O “rio” da autoproclamação parece vir engrossando com novos afluentes que surgem cada vez com maior frequência e intensidade. Diria que parece estar virando moda esse tipo de ato na política, ou melhor, na antipolítica. Eu próprio começo a dar sinais esperançosos para me aventurar também nesse sedutor e atraente caminho da autoproclamação para Presidente da República. De que país? Ora… qualquer um. O que não falta são países no mundo. Talvez a escolha da República das Bananas seja a mais interessante!</p>
<p style="text-align: justify;">Feita a escolha, só é necessário um estalar de dedos e abrir, ao acaso, uma página da Bíblia. Este é, certamente, um dos livros mais banhados de sangue da literatura mundial, principalmente o Antigo Testamento. É este livro que acompanha o pastor Mondlane dia e noite, livro sem o qual ele se sentiria à deriva, completamente sem rumo.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante destacar que Moçambique é agora o único país do mundo que tem dois presidentes: um proclamado e outro autoproclamado. Lembro que Urrutia, ao contrário de Mondlane, se autoproclamou, mas não tomou posse. Assim, Moçambique entrou para o Guiness Book com esta façanha indesmentível. Finalmente, toda a comunidade internacional vai passar a respeitar Moçambique! Que orgulho!</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma pequena digressão bíblica</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">No mundo ocidental a Bíblia é o livro mais famoso e o mais citado. Atenção, eu disse citado, não disse lido. Nos Estados Unidos, por exemplo, praticamente todos os americanos possuem este livro que, inclusive, é colocado na mesinha de cabeceira. Mas, a esmagadora maioria, nunca o leu. No púlpito das igrejas do Ocidente, os padres sempre citam passagens da Bíblia, mas apenas aquelas poucas impregnadas de valores humanos. Daí que, ininterrupta e sistematicamente, sejam sempre as mesmas citações que os paroquianos são “obrigados” a ouvir até serem fixadas na memória para serem passadas adiante.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155685" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3.jpg" alt="" width="1440" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3.jpg 1440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-1024x512.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-840x420.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique3-681x341.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1440px) 100vw, 1440px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: Que Deus é esse que o livro nos mostra? A Bíblia apresenta-nos um Deus tirano, vingador, caprichoso, que manda exterminar povos inteiros. E pede que se façam essas ações sem compaixão. Vejamos apenas alguns exemplos, dentre centenas, que fazem parte do livro mais famoso do mundo ocidental.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando Deus fala a Saul para que acabe com o povo de Amaleque, ordena-lhe: “<em>Vá, pois, e fira Amaleque e destrua tudo o que tem e não tenha piedade dele. Mate homens, mulheres e crianças, mesmo as de colo, vacas, ovelhas, camelos e burros</em>. (1. Samuel, 15:3).</p>
<p style="text-align: justify;">Outro exemplo:</p>
<blockquote><p><em>Quando no meio de ti, em alguma das tuas portas que te dá o senhor teu Deus, se achar algum homem ou mulher que fizer mal aos olhos do senhor teu Deus, transgredindo a sua aliança, Que se for, e servir a outros deuses, e se encurvar a eles ou ao sol, ou à lua, ou a todo o exército do céu, o que eu não ordenei, E te for denunciado, e o ouvires; então bem o inquirirás; e eis que, sendo verdade, e certo que se fez tal abominação em Israel, Então tirarás o homem ou a mulher que fez este malefício, às tuas portas, e apedrejarás o tal homem ou mulher, até que morra </em>(Deuteronómio 17, 2-5).</p></blockquote>
<p>E para finalizar mais um exemplo:</p>
<blockquote><p><em>Tudo o que for achado será transpassado; e tudo o que se unir a ele cairá à espada. E suas crianças serão despedaçadas perante os seus olhos; as suas casas serão saqueadas, e as suas mulheres violadas</em>“ (Isaías 13, 15-16).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">É este livro um dos principais suportes do projeto político de Mondlane. Numa época em que a questão da violência se coloca para toda a humanidade e em que diversos setores da sociedade buscam soluções não violentas para o drama da violência, coloca-se para o cristão, que baseia sua fé na revelação bíblica, o seguinte dilema: Como ser não violento e crer num Deus violento? Há que fazer uma escolha necessariamente empobrecedora, qual seja, escolher ou a imagem do Deus bíblico ou o ideal da não violência? Ou ainda, há que escolher entre o Deus do Antigo Testamento, que se envolve em práticas de violência e o Deus de Jesus, que se revela como amor redentor na impotência da cruz?</p>
<p style="text-align: justify;">Saberá Mondlane responder a este dilema?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As sinalizações da política-espetáculo de Venâncio Mondlane</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Na sociedade do espetáculo, a imagem desempenha um papel central na política. Os políticos que adotam estratégias teatrais se preocupam mais com sua própria imagem e como são percebidos pelos eleitores do que com a qualidade das políticas que estão sendo discutidas. Assim, a construção de uma persona midiática atraente se torna prioritária em detrimento do trabalho legislativo sério e da busca por soluções efetivas para os problemas enfrentados pela sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155683" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2.jpg" alt="" width="1140" height="739" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2.jpg 1140w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-300x194.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-1024x664.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-768x498.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-648x420.jpg 648w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-341x220.jpg 341w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-640x415.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/mocambique2-681x441.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" />Contudo, essa utilização de estratégias teatrais na política contribui para a alienação e a superficialidade do debate público. Ao buscar momentos dramáticos e polêmicos, os políticos desviam a atenção dos problemas reais e complexos que requerem abordagens aprofundadas. A simplificação excessiva e a busca por slogans de efeito resultam em uma compreensão superficial e distorcida das questões políticas, comprometendo o diálogo construtivo e a tomada de decisões informadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos numa época em que o método de divulgação de uma ideia, de um projeto e de uma liderança deve ser transmitido às massas em uma linguagem semelhante à de um produto de consumo, em que o discurso emotivo deve predominar. Nesse processo, no qual nós ainda vivemos, resta saber quem sobrevirá — a política ou a propaganda.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso em análise podemos ver como, num golpe de mágica, um novo Salvador, ou melhor, pastor, se apresenta perante o seu rebanho, que está inteiramente disponível para seguir toda e qualquer orientação messiânica.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua arrogância chega ao ponto de afirmar, um dia antes da sua chegada a Moçambique, que “Gostaria de convidar o próprio Presidente da República, o Procurador-Geral da República, a presidente do Conselho Constitucional e o presidente do Supremo Tribunal a irem receber-me”. Diria eu, não só recebê-lo, mas a prestar-lhe vassalagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Importa salientar que Mondlane transporta consigo vários processos-crime por incitação às manifestações violentas que têm vindo a acontecer no País desde 21 de outubro e que causaram danos materiais e vários mortos.</p>
<p style="text-align: justify;">O sociólogo João Feijó assevera que: “Venâncio Mondlane já nos habituou a um tipo de política-espetáculo, em que tem de criar acontecimentos que provocam grande comoção social, para manter viva a chamada luta na rua, e é nessa onda que ele navega, mantendo as massas ativas, exaltadas e emotivas” (FEIJÓ, 09/01/2025). Aliás, essa é a estratégia adotada pela extrema-direita mundial, sendo as mais representativas as dos EUA, Argentina, Itália, Hungria.</p>
<p style="text-align: justify;">Nestas considerações procuro, em alguma medida, mostrar o elo entre a mídia e a política, pois, como é óbvio, o que proporcionou minhas reflexões sobre este texto foram, exatamente, os vídeos e fotos da “tomada de posse” do pastor Mondlane na sua chegada a Moçambique.</p>
<p style="text-align: justify;">A política não se esvazia necessariamente com a crescente importância dos meios de comunicação. Em primeiro lugar porque uma grande parte dela se faz longe destes meios e, depois, porque, mesmo na mídia, a política pode se realizar sem perder em conteúdo. Modificam-se as formas de interação entre os cidadãos e o sistema político, assim como se modificam as formas de interação em sentido mais geral nas sociedades contemporâneas. Os meios de comunicação oferecem novas possibilidades de ação para os movimentos que interagem e competem para tornarem as suas demandas assuntos de interesse público. Nesse sentido, a democracia corre o risco de morrer democraticamente porque a própria democracia está elegendo antidemocratas para o poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Não foi um espetáculo político, estrategicamente bem pensado, o que Mondlane proporcionou aos seus seguidores?</p>
<p style="text-align: justify;">Para onde caminha Moçambique? Fazer futurologia política, como se sabe, é um exercício muito arriscado. Mas Deus e Mondlane sabem o caminho. Confiemos na indesmentível sabedoria de ambos.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">FEIJÓ, João. Que Esperar do Regresso de Venâncio Mondlane a Moçambique: Prisão, Mais Manifestações ou um Regresso à Normalidade? In: <em><a href="https://www.diarioeconomico.co.mz/2025/01/08/economia/desenvolvimento/o-que-esperar-do-regresso-de-venancio-mondlane-a-mocambique-prisao-mais-manifestacoes-ou-um-regresso-a-normalidade/?utm_source=mailpoet&amp;utm_medium=email&amp;utm_source_platform=mailpoet&amp;utm_campaign=Janeiro%202025" target="_blank" rel="noopener">Diário Económico</a>. </em>(09/01/2025).</p>
<p><em>Fotografias retiradas de Diário Económico e O Observador</em></p>
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		<title>De boa índole</title>
		<link>https://passapalavra.info/2024/10/155117/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Oct 2024 10:04:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[ Saiu do bar, totalmente bêbado. Pegou a direção do veículo. Atropelou três pessoas na calçada. Uma delas, prensada contra um muro, teve duas costelas fraturadas, um pulmão perfurado, fêmur quebrado em cinco pontos, bacia trincada, lesões nos rins. O encontraram desacordado, cervejas espalhadas pelo carro. No julgamento, a testemunha de defesa: “ele é casado, de boa índole, trabalhador e… cristão!”.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Saiu do bar, totalmente bêbado. Pegou a direção do veículo. Atropelou três pessoas na calçada. Uma delas, prensada contra um muro, teve duas costelas fraturadas, um pulmão perfurado, fêmur quebrado em cinco pontos, bacia trincada, lesões nos rins. O encontraram desacordado, cervejas espalhadas pelo carro. No julgamento, a testemunha de defesa: “ele é casado, de boa índole, trabalhador e… <em>cristão</em>!”. <strong>Passa Palavra</strong>.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O sionismo pentecostal e neopentecostal</title>
		<link>https://passapalavra.info/2024/07/153448/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jul 2024 03:01:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[Os evangélicos pentecostais e neopentecostais acreditam que Jesus Cristo só voltará à terra quando todos os judeus estiverem reunidos em Israel. Por Samuel Kilsztajn]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Samuel Kilsztajn</h3>
<p style="text-align: justify;">A grande maioria dos 20 milhões de judeus em Israel e na diáspora, de diferentes matizes políticas, defendem o estado de Israel, isto é, são sionistas; e consideram antissemitas todos os judeus dissidentes, isto é, os antissionistas, tanto os judeus laicos como os hassídicos Satmar e os ultra-ortodoxos Naturei Karta.</p>
<p style="text-align: justify;">As medidas policialescas das instituições e governos que visam silenciar os antissionistas não-judeus e os judeus dissidentes, com o pretexto de estarem combatendo o antissemitismo, não só são inócuas, como, ao contrário do que preconizam, são contraproducentes. O antissemitismo milenar foi disseminado nos países ocidentais que hoje aderem, por interesses próprios, à dissimulada definição de antissemitismo da IHRA &#8211; Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, que identifica antissionismo a antissemitismo. Apesar de sua denominação, a IHRA não foi criada por sobreviventes do Holocausto, nem por judeus, foi criada por Hans Göran Persson, membro do partido sueco Democratas Cristãos, politicamente conservador de direita e adepto do liberalismo econômico.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso quero dizer que não é o<em> lobby</em> judeu que determina a política dos Estados Unidos e da OTAN, mas, ao contrário, que são os Estados Unidos/OTAN que utilizam Israel, com o apoio da grande maioria dos judeus, em sua guerra pela hegemonia internacional contra a China, a Rússia e o Islã.</p>
<p style="text-align: justify;">O antissionismo tem como objetivo se contrapor à desastrosa violência dos sionistas contra o povo palestino, em sua grande maioria de origem árabe e de fé muçulmana. Ao contrário da milenar discriminação dos judeus nos países ocidentais, os judeus, até o advento do moderno sionismo político no início do século XX, sempre viveram em harmonia com as populações árabes e muçulmanas, que hoje somam, respectivamente, 500 milhões e 2 bilhões de habitantes no planeta.</p>
<p style="text-align: justify;">Em relação ao uso do termo terrorista, o que mais me impressiona não são os episódios pontuais que mobilizam a mídia, tal qual o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 e a carnificina israelense em curso, mas a desumanização e a violência a que é submetida a população civil palestina em seu cotidiano por décadas por parte das autoridades, exército e civis israelenses, um terrorismo de Estado naturalizado que não causa indignação nem ganha cobertura na grande mídia ocidental.</p>
<p style="text-align: justify;">O próprio <em>slogan</em> de que a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra tem como pressuposto a desumanização do povo palestino, que foi expulso de sua terra natal e, mesmo antes do atual massacre, vivia aprisionado em Gaza por terra, ar e mar (tema de <em>Nascido em Gaza</em>, de Hermán Zin <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=wKYysYySMEE" href="https://www.youtube.com/watch?v=wKYysYySMEE" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.youtube.com/watch?v=wKYysYySMEE</a>); e em unidades isoladas na Cisjordânia, cercadas por muros e cortadas por estradas militarizadas e assentamentos israelenses (tema de <em>Budrus</em>, de Julia Bacha <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=indmoqA7K1Y" href="https://www.youtube.com/watch?v=indmoqA7K1Y" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.youtube.com/watch?v=indmoqA7K1Y</a>).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-153451 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/07/por-que-eventos-bolsonaristas-t-m-bandeiras-de-israel-e-falas-de-apoio-1567885480573689856.webp" alt="" width="1280" height="624" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/07/por-que-eventos-bolsonaristas-t-m-bandeiras-de-israel-e-falas-de-apoio-1567885480573689856.webp 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/07/por-que-eventos-bolsonaristas-t-m-bandeiras-de-israel-e-falas-de-apoio-1567885480573689856-300x146.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/07/por-que-eventos-bolsonaristas-t-m-bandeiras-de-israel-e-falas-de-apoio-1567885480573689856-1024x499.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/07/por-que-eventos-bolsonaristas-t-m-bandeiras-de-israel-e-falas-de-apoio-1567885480573689856-768x374.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/07/por-que-eventos-bolsonaristas-t-m-bandeiras-de-israel-e-falas-de-apoio-1567885480573689856-862x420.webp 862w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/07/por-que-eventos-bolsonaristas-t-m-bandeiras-de-israel-e-falas-de-apoio-1567885480573689856-640x312.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/07/por-que-eventos-bolsonaristas-t-m-bandeiras-de-israel-e-falas-de-apoio-1567885480573689856-681x332.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />O governador do estado de São Paulo aderiu à definição de antissemitismo da IHRA. Mas engana-se quem acha que ele tenha levado em consideração os votos do reduzido número de judeus no Brasil (100 mil). Os evangélicos pentecostais e neopentecostais são hoje o grupo religioso que mais cresce no país, que já se aproxima da casa dos 50 milhões de brasileiros, um quarto da população total. A maior parte desses evangélicos são filo-semitas e sionistas, que utilizam símbolos judeus e apoiam o estado de Israel e sua expansão em território palestino.</p>
<p style="text-align: justify;">Se você percorrer a Rua Conde de Sarzedas, que liga a região da Praça da Sé à Baixada do Glicério em São Paulo, você vai achar que está em Israel, você vai encontrar todos os símbolos usados pelos judeus em Israel, estrelas de David, bandeiras de Israel, bandejas para o <em>pessah</em>, <em>mezuzah</em> (com versos da Torah para os umbrais das portas), solidéus, <em>talit</em> (mantos sagrados), <em>menorahs</em> (candelabros de sete braços de todos os tamanhos) etc. O Terceiro Templo de Salomão já foi erigido, logo mais adiante, na Rua Celso Garcia 605, construído com pedras e tamareiras gigantes vindas diretamente de Israel. Os evangélicos pentecostais e neopentecostais acreditam que Jesus Cristo só voltará à terra quando todos os judeus estiverem reunidos em Israel, condição necessária para que os judeus passem a acreditar que Jesus Cristo é o verdadeiro Messias e se convertam em leais cristãos.</p>
<p style="text-align: justify;">A atual ofensiva militar a Gaza tem, entre outros, o objetivo de unificar os israelenses, pouco tempo atrás divididos entre partidários e opositores ao governo de Netanyahu. Para uma solução da questão palestina, por sua vez, qualquer proposta honesta por parte de Israel deveria necessariamente partir do reconhecimento da al-Nakba em curso desde 1948, tema levado ao ar pela Rede Universitária de Solidariedade ao Povo Palestino que reuniu Gihad Mohamad e Arlene Clemesha <a class="urlextern" title="https://youtube.com/live/YqYiFvtc8zk" href="https://youtube.com/live/YqYiFvtc8zk" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://youtube.com/live/YqYiFvtc8zk</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">O Hamas declara que quer acabar com os israelenses e o primeiro-ministro de Israel declara que quer acabar com os palestinos, enquanto segue exterminando-os efetivamente a todo vapor, com o risco de envolver o mundo numa Terceira Guerra Mundial. Todo judeu dissidente (antissionista), fiel à cultura humanista, internacionalista e pacifista dos judeus da diáspora, considera que não poderia viver consigo mesmo sem denunciar a violência e o massacre do povo palestino perpetrado pelos sionistas. Mesmo sendo rechaçado como antissemita, desafia os governos ocidentais e o estado de Israel, com risco de ser penalizado pelos sionistas e repelido pelos palestinos. Qualquer judeu antissionista é pior do que um palestino, porque os palestinos antissionistas advogam em causa própria, enquanto os judeus antissionistas são traidores. E, afinal, como é que um palestino poderia confiar em um judeu, se a grande maioria dos judeus é sionista?</p>
<p style="text-align: justify;">Os sionistas acreditam que lamentar que o Holocausto não ensinou nada aos judeus é racismo e consideram, por definição, antissemita toda e qualquer manifestação antissionista, o que os leva a crer que o antissemitismo está crescendo assustadoramente. As medidas policialescas dos sionistas, ao invés de inibir o antissemitismo, também têm o poder de fortalecê-lo, na medida em que a maior parte dos judeus apoia ou naturaliza a violência e o massacre do povo palestino veiculados pela grande mídia. Por ironia, só as manifestações antissionistas dos judeus dissidentes, fiéis à cultura dos judeus da diáspora, é que têm o poder de contrarrestar o antissemitismo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[*]</strong> Samuel Kilsztajn <em>é professor titular em economia política da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de </em>Jaffa <a class="urlextern" title="https://amz.run/7C8V" href="https://amz.run/7C8V" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">amz.run/7C8V</a>.</p>
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		<title>Não há tripas que cheguem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Jan 2024 07:57:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
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					<description><![CDATA[ Dizem que ele disse que a religião é o ópio do povo. Não sei se disse, poderia ter dito, mas o certo é que os discípulos transformaram as ideias dele numa religião. E dizem que outro disse que era necessário enforcar o último rei nas tripas do último padre. Também não sei se disse, mas se já tínhamos os padres do marxismo, temos também uma monarquia marxista, em que foi agora anunciada a quarta geração. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Dizem que ele disse que a religião é o ópio do povo. Não sei se disse, poderia ter dito, mas o certo é que os discípulos transformaram as ideias dele numa religião. E dizem que outro disse que era necessário enforcar o último rei nas tripas do último padre. Também não sei se disse, mas se já tínhamos os padres do marxismo, temos também uma monarquia marxista, em que foi agora anunciada a quarta geração. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Al-Aqsa-Flut: Blutbad, Opfergabe und Einladung zum Selbstmord</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Jan 2024 01:10:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Für den gegenwärtigen „Antiimperialismus“ sind die russischen und arabischen Eliten objektive Verbündete, ebenso wie das israelische und amerikanische Proletariat natürliche Feinde sind.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><a href="https://www.exit-online.org/textanz1.php?tabelle=aktuelles&amp;index=0&amp;posnr=883" target="_blank" rel="noopener">Felipe Catalani</a></h3>
<p style="text-align: justify;">Der Krieg in der Ukraine, der seit dem russischen Einmarsch Anfang 2022 rund eine halbe Million Tote<strong>[1]</strong> verursacht hat, wird nun im gleichen Tempo wie die globale Feuersbrunst einer Welt am Rande des Abgrunds von einem nicht weniger zerstörerischen Konflikt begleitet, der durch den massiven Angriff der Hamas auf Israel am 7. Oktober ausgelöst wurde. Erstaunlicherweise gab es keinen Mangel an Personen, die die Ermordung von 1.300 Menschen als glorreichen &#8220;Volksaufstand&#8221; des Widerstands gegen die Unterdrückung feierten, wozu auch ein Blutbad auf einer Party und Szenen wie die einer Gruppe von Männern gehörten, die den blutigen Körper einer Frau wie eine Trophäe hochhielten und &#8220;Allahu Akbar&#8221; (Gott ist der Größte) riefen, während sie in einen Jeep gestoßen wurde. Diese hemmungslose Freude derjenigen, die dieses Megapogrom bejubelten, die sich nur durch die antisemitische Begeisterung über das vergossene jüdische Blut (das Gegenstück zu jedem Terrorakt) erklären lässt, ist umso absurder, als es klar und absolut vorhersehbar war, dass die unmittelbare militärische Reaktion Netanjahus folgen würde, der in sechs Tagen mehr Bomben auf den Gazastreifen abwarf als die Vereinigten Staaten in einem Jahr auf Afghanistan und dabei ununterbrochen Tausende von Toten fordert. Auf den Armen der Kinder, die noch leben, stehen ihre Namen, damit sie identifiziert werden können, wenn sie unter den Trümmern sterben. Wenn diese Vergeltungsschläge für diejenigen, die die &#8220;Ereignisse&#8221; aus der Ferne verfolgen, vorhersehbar waren, so waren sie es sicherlich auch für die Hamas.</p>
<p style="text-align: justify;">Für viele sogenannte &#8220;Nahost-Experten&#8221; war eine solche Aktion der Hamas &#8220;unvermeidlich&#8221;, &#8220;der einzig mögliche Ausweg&#8221;, wenn sie sie nicht sogar mit einer organischen Reaktion verglichen, fast wie ein Hund, der in die Hand beißt, wenn man an seinem Schwanz zieht &#8211; als ob es sich wirklich um &#8220;menschliche Tiere&#8221; handelte, wie Netanjahus Verteidigungsminister sie charakterisierte, oder sogar um ein natürliches Phänomen und nicht um eine politische Struktur, in der es Entscheidungen, Befehle, Programm und Projekt gibt. Kurz gesagt, die menschliche Fähigkeit zu abstrahieren und zu planen, und nicht nur triebhaft zu reagieren. Um die schrecklichen Ereignisse zu verstehen, tauchten die üblichen automatischen Erklärungen auf: 1948, die Nakba (ein Begriff, der 1998 von Jassir Arafat offiziell gemacht wurde), die tägliche Gewalt, die Übergriffe und all die Tragödien des Lebens in Gaza, von denen wir wissen; und als Rechtfertigung, nicht weniger automatisch, die Phrase &#8220;verwechsle nicht die Reaktion der Unterdrückten&#8230;&#8221;. &#8211; ist zu einem Klischee geworden und wird bis zum Überdruss wiederholt.</p>
<p style="text-align: justify;">Diese Erklärungen sind erstaunlich, weil sie so schnell und einfach angewandt wurden und weil sie angesichts der sich beschleunigenden Abfolge von Katastrophen, deren Zeugen wir sind, eine relative Ruhe ausstrahlen. Wie ein Führer einer palästinensischen Organisation in Brasilien sagte: &#8220;Gaza ist wie ein Slum, nur ein Slum, der den Dritten Weltkrieg auslösen könnte&#8221;. Als „gute Materialisten“ könnten wir sogar auf &#8220;materielle Ursachen&#8221; verweisen: Unterdrückung, Not, der Kampf um Anerkennung. Doch seltsamerweise schenkte niemand den offiziellen Verlautbarungen der Hamas selbst viel Aufmerksamkeit. In ihrer &#8220;Pressemitteilung&#8221; vom &#8220;Central Media Office&#8221;, die am 7. Oktober herausgegeben wurde, lesen wir &#8220;eine Einladung zur Berichterstattung über die Operation &#8216;Al-Aqsa Flut&#8221;, die wie folgt beginnt:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Angesichts der von den siegreichen Izz al-Din al-Qassam-Märtyrerbrigaden angekündigten gesegneten Militäroperation &#8220;Al-Aqsa-Flut&#8221;, die heute Morgen als Antwort auf die zionistische Aggression gegen unser Volk, unsere Gefangenen, unser Land und unsere Heiligtümer begonnen hat, die trotz der Warnungen der Hamas-Bewegung und der Widerstandsgruppen nicht aufgehört hat, dass der zionistische Feind mit dem Feuer spielt, indem er seine Verbrechen und seine faschistische Politik fortsetzt, die sich gegen die palästinensische Existenz und ihre islamischen und christlichen Heiligtümer richtet, in deren Mittelpunkt die gesegnete Al-Aqsa-Moschee steht, die Ziel der verzweifelten Kolonisierungsversuche ist, die darauf abzielen, sie zeitlich und räumlich zu teilen und unser Volk daran zu hindern, in ihr zu beten, indem sie den Bau ihres angeblichen Tempels kennzeichnen. &#8221; Weiter heißt es: &#8220;Die Priorität dieser Operation besteht darin, Jerusalem und die Al-Aqsa-Moschee zu schützen und die Pläne der Besatzer zu verhindern, sie zu judaisieren und ihren angeblichen Tempel auf den Ruinen der ersten Qibla [Gebetsrichtung] der Muslime zu errichten.<strong>[2]</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Einem Bericht von Reuters zufolge sagte eine &#8220;Hamas-nahe Quelle&#8221;, dass &#8220;es im Mai 2021 war, nach einer Invasion der drittheiligsten Stätte des Islams, die die arabische und muslimische Welt erzürnte, als [Mohammed] Deif mit der Planung der Operation begann&#8221;. Mit anderen Worten, etwa zweieinhalb Jahre Vorbereitung für die &#8220;gesegnete Operation Al-Aqsa-Flut&#8221;, eine Anspielung auf die berühmte Moschee in Jerusalem. Der Quelle aus Gaza zufolge &#8220;wurde dies durch Szenen und Filmaufnahmen ausgelöst, die zeigen, wie Israel während des Ramadan die Al-Aqsa-Moschee stürmt, die Gläubigen verprügelt und angreift [&#8230;], was die Wut schürte und entfachte.”<strong>[3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Die Dummheit von Polizeibeamten, die in ein Gotteshaus eindringen und betende Menschen verprügeln, ist schockierend. Aber es ist nicht irrelevant, darauf hinzuweisen, dass die Haupttriebfeder der &#8220;Al-Aqsa-Flut&#8221;, insofern als es auch viel Engagement seitens vieler Menschen erfordert, sich auf so etwas einzulassen (mit zu erwartenden selbstmörderischen Folgen), vielleicht ein Gefühl <em>der moralischen und religiösen Beleidigung</em> war &#8211; etwas, das sich unseren klassischen agnostischen<strong>/</strong>atheistischen Analysen entzieht &#8211; obwohl all die angehäuften Erniedrigungen und Leiden gleichzeitig als Ballast dienen müssen. Nun, wir müssen uns daran erinnern, dass es in Brasilien im Jahr 2018 trotz all der materiellen Voraussetzungen, die Bolsonaro geschaffen hat, vor allem das Gefühl des moralischen Schreckens und der Unanständigkeit war (mobilisiert durch die empörenden Bilder des Gegners, auch wenn sie letztlich mit viel Fiktion verbunden waren), das zu einer gigantischen politischen Kraft wurde und die Menschen zum Handeln mobilisierte, auch gegen ihre objektiven Interessen. Im Jahr 2020 gingen in Pakistan Zehntausende von Muslimen auf die Straße, um gegen den Nachdruck von Mohammed-Karikaturen durch die französische Zeitung Charlie Hebdo zu protestieren<strong>[4]</strong>, auf die 2015 ein Terroranschlag verübt wurde, bei dem 12 Journalisten starben. Ist die marxistische These von Hunger und Freiheitsdrang als politischer Motor der Revolte obsolet geworden? In derselben von Reuters zitierten Aufnahme von Mohammed Deif bezeichnet der Chef des bewaffneten Flügels der Hamas Israel als eine &#8220;Orgie&#8221;. Die Tatsache, dass in dieser komplexen und sorgfältig geplanten Operation ein Rave als Hauptziel eines Massakers ausgewählt wurde, als vermeintlicher Ort der Unmoral und der westlichen Verdorbenheit, ist kein Zufall.</p>
<p style="text-align: justify;">Ein Angriff dieses Ausmaßes erfordert eine Organisation, an der notwendigerweise die politische und wirtschaftliche Elite der &#8220;Achse des Widerstands&#8221; beteiligt ist, an deren einem Ende die Hamas steht, eine Miliz, deren Gründungsdokument auf den Protokollen der Weisen von Zion beruht (dieselbe Verschwörungstheorie, die von den Nazis zur Ausrottung der Juden benutzt wurde), und auf der anderen Seite das Regime der Ajatollahs im Iran, deren Staatsoberhaupt den Holocaust als historische Tatsache leugnet &#8211; es ist klar, was die &#8220;gesegnete Mission&#8221; ist, die sie eint (und die tagtäglich öffentlich verkündet wird). Auf jeden Fall war für die Durchführung dieses Massakers ein Mechanismus der Beteiligung erforderlich &#8211; nicht von den Leitern der Organisation, die sich in Katar in Sicherheit befinden -, sondern von denen, die bereit waren, sich als Kanonenfutter für einen Akt zu verwenden, der sowohl extrem gewalttätig als auch selbstmörderisch war (der größte seit Jahrzehnten) und der auf kalkulierte Weise den militärischen Gegenschlag Israels vorwegnahm, der nun nichts Geringeres als die militärische Vernichtung der Hamas und einen blutigen Einmarsch in den Gazastreifen anstrebt. Unter den medialen Beobachtern der Zerstörung fehlt es nicht an aktiven Befürwortern, die sich aufteilen in diejenigen, die wollen, dass die kleine Enklave am Mittelmeer in einen großen Parkplatz verwandelt wird, und diejenigen, die hoffen, dass der Iran und die Hisbollah &#8220;den Spieß umdrehen&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Das Vorgehen der Hamas mit den klassischen Strategien der revolutionären nationalen Befreiungsguerilla zu vergleichen, macht wenig oder gar keinen Sinn. Um eine barbarische Tat rot zu schmücken, wurden die heroischen Zeiten der Epoche von Mandela, Algerien, Vietnam und sogar Che Guevara beschworen. Wir mögen uns irren, aber vielleicht ist die Botschaft der Hamas selbst, dass die palästinensische Sache, zumindest im Gazastreifen, eine verlorene Sache ist<strong>[5] </strong>&#8211; daher die Bereitschaft, die eigene Bevölkerung in einem selbstzerstörerischen militärischen Akt zu opfern. Natürlich geht ein solcher &#8220;Amok&#8221;-Nihilismus über Gaza und die Hamas hinaus und müsste sowohl auf eine allgemeine soziale Logik des zeitgenössischen Kapitalismus als auch auf die Logik des politischen Islams verwiesen werden, die nichts Archaisches oder Vormodernes an sich hat, sondern vielmehr ein ideologisches Symptom unserer historischen Endstation ist &#8211; es ist nicht unüblich, die Israel/Palästina-Frage so zu diskutieren, als ob dieser Konflikt einen historischen Mikrokosmos darstellte, der gegen allgemeine soziale Prozesse immun ist.</p>
<p style="text-align: justify;">Um die subjektive Bereitschaft zu solchen Handlungen zu verstehen, selbst bei direkt selbstmörderischen Einsätzen wie denen der Selbstmordattentäter (die, wenn schon nicht eine große Portion Mut, so doch zumindest die Unterdrückung der grundlegenden und instinktiven Angst vor dem Tod erfordern), darf man die Figur des <em>Märtyrers</em> nicht außer Acht lassen &#8211; etwas, das in jeder militärischen Kultur vorhanden ist, im politischen Islam aber eine eigene Form annimmt.<strong>[6]</strong> Hier ist der Märtyrer nicht nur derjenige, der handelt, sondern jeder, der in irgendeiner Weise durch den Angriff des Gegners umkommt: Ein Kind, das bei einem Bombenangriff getötet wird, wird ebenfalls zum Märtyrer. Die Witwe eines Hisbollah-Märtyrers sagte zu einem Journalisten, der jahrelang auf Reisen war und zu diesem Thema recherchiert hatte: &#8220;Mein Mann ist ein Märtyrer. Nun, jetzt ist er im Paradies. Es war sehr traurig für ihn, dass er über dreißig war und immer noch kein Märtyrer. An seinem Geburtstag war er sehr traurig. Also sagte ich zu ihm: Mach dir keine Sorgen, du wirst bekommen, was du willst. [&#8230;] Für uns ist es normal, so zu leben&#8230; wenn mein Sohn beschließt, denselben Weg zu gehen, werde ich ihm dabei helfen.&#8221; Wir haben natürlich große Schwierigkeiten, eine solche Argumentation zu verstehen. Vielleicht so: Ein solche Ideologie kann nur einer Situation „Sinn“ ergeben, in der eine Vorstellung von einer Zukunft (im irdischen Sinne natürlich) nicht mehr eine historische und subjektive Möglichkeit ist, so dass der symbolische Ruhm des Märtyrers tatsächlich anziehend werden kann. Ein antisemitischer Todeskult als „Ende der Geschichte“ sozusagen. Im Fall der Hamas wird dieser „Ruhm“ durch eine Reihe von Praktiken (Fernseh- und Radiowerbung usw.) und Dokumenten (Biografien) erzeugt, welche die Märtyrer als „Heilige“ charakterisieren, die das zeitliche Leben als sinnlos und den Tod als einzigen Weg zu einer sinnvollen Existenz ansehen.</p>
<p style="text-align: justify;">Die Gewalt, die eine solche &#8220;Askese&#8221; zulässt, die ebenso zerstörerisch wie potenziell selbstmörderisch ist, hat nichts mit unkontrollierten &#8220;tierischen Trieben&#8221; zu tun, wie stereotyp (und &#8220;orientalistisch&#8221;) gedacht wird, als wären sie &#8220;wilde Barbaren&#8221; ohne jede zivilisatorische Zügelung. Ganz im Gegenteil: Es handelt sich um ein Übermaß an Abstraktion, um eine enorme Kraft der Transzendenz. Wer sich vorstellt, dass die &#8220;Rekruten&#8221; solcher Taten immer &#8220;ungebildete&#8221; Menschen in materieller Armut sind, irrt ebenfalls. Um einen alten Fall aufzugreifen: Einer der Piloten des Attentats vom 11. September, Mohamed Atta, hat beispielsweise in Kairo Architektur studiert und einen Master in Deutschland abgeschlossen. Ironischerweise (oder auch nicht) war er ein Kritiker des architektonischen Modernismus und mochte die hohen Gebäude der ägyptischen Hauptstadt nicht. Die akademische Welt ist nicht so weit entfernt, sodass Ismail Haniyeh, einer der Führer der Hamas (der Organisation, die unter den Palästinensern diese Art von Anschlägen am meisten gefördert hat), sogar Rektor der Islamischen Universität von Gaza war. Die Hamas als Tyrannen zu bezeichnen, die die Palästinenser unterjochen, ist zwar sinnvoll, aber nur zur Hälfte, denn man muss bedenken, dass sie es tatsächlich geschafft haben, eine Hegemonie in dem Gebiet aufzubauen &#8211; denn selbst wenn wir von einer &#8220;Mafia&#8221; (und allen Formen von <em>Rackets</em>) sprechen, geht es nicht nur um eine bewaffnete Bande, sondern um Menschen, die tatsächlich Schutz bieten, auch sozialen Schutz, Vertrauen usw.</p>
<p style="text-align: justify;">Die &#8220;dekoloniale&#8221; Relativierung oder gar die &#8220;antiimperialistische&#8221; Positivierung solcher Gruppen ist deprimierend. Neben dem üblichen Antisemitismus (meist getarnt in Form von manichäischen &#8220;Analysen&#8221; oder sentimentalen Hetzreden), der nun verstärkt und enthemmt wird, gibt es eine gewisse Faszination für das Spektakel der Gewalt als kompensatorischen Rausch in einer Situation verschärfter politischer Ohnmacht (was bereits bei der Welle von Teenagern zu beobachten war, die in den sozialen Netzwerken riefen &#8220;Stalin hat zu wenig getötet&#8221; usw.). Matthew Bolton bemerkte vor einigen Jahren in Bezug auf das Lob für die Hamas, dass &#8220;die öffentliche Unterstützung von (antisemitischer) politischer Gewalt gegen (jüdische) Zivilisten bei einem bestimmten Typus von Linken eine stellvertretende Nervenkitzel hervorzurufen scheint: ein Schauer narzisstischer Bewunderung für die eigene revolutionäre Härte, Stolz auf die Kultivierung einer emotionalen Verhärtung und einer &#8216;überlegenen&#8217; Moral, die erforderlich ist, um Tod und Zerstörung in Kauf zu nehmen, wenn dies für die Verfolgung der Sache notwendig ist.&#8221; <strong>[7]</strong> So ist es, wenn es nicht sogar zur schieren Grausamkeit des ressentimentgeladenen Spottes verkommt, wie im Fall der so genannten (linken) Expertin für den Israel/Palästina-Konflikt, die das Foto der toten brasilianischen Frau auf der Party, auf der der Angriff stattfand, mit den Worten veröffentlichte: &#8220;Es war spät&#8221;. Ähnliche Dinge wurden von verschiedenen Seiten veröffentlicht, von der bedauernswerten PCO<strong>[8]</strong> bis zu Black Lives Matter Chicago. Es ist erstaunlich, wie schnell man sowohl auf der Linken als auch auf der Rechten vom hypersensiblen Ultramoralismus zur grotesken, gedankenlosen Verrohung übergeht.<strong>[9]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Dass die Linke das Massaker vom 7.10. feiert, ist auch deshalb erstaunlich, weil sie sich einbildet, dass eine solch gigantische, von der Hamas vorgeschlagene Militäroperation &#8220;demokratische Entscheidungsgremien&#8221; durchlaufen hätte (was unmöglich wäre) und dass es daher eine Unterstützung der Bevölkerung für die Entscheidung gäbe, einen Angriff durchzuführen, der die palästinensische Bevölkerung dem mehr als vorhersehbaren Sturm an Bomben und Raketen aussetzt, der seither in Gaza tobt.<strong>[10]</strong> Man fragt sich, ob solche Leute wirklich so viel Liebe für die Palästinenser empfinden oder ob sie nur ihren Traum von der Vernichtung Israels als Erfüllung der ultimativen Gerechtigkeit auf sie projizieren. Eine kürzlich veröffentlichte Umfrage, deren Daten vor dem Krieg erhoben wurden, zeigt, dass &#8220;die Bewohner des Gazastreifens im Allgemeinen das Ziel der Hamas, den Staat Israel zu vernichten, nicht teilen. [&#8230;] Insgesamt sprechen sich 73 % der Gazaner für eine friedliche Lösung des israelisch-palästinensischen Konflikts aus. Am Vorabend des Hamas-Angriffs am 7. Oktober sprachen sich nur 20 % der Bewohner des Gazastreifens für eine militärische Lösung aus, die zur Zerstörung des Staates Israel führen könnte.&#8221; Nun, Ideologien finden ihre Grenzen auch in der materiellen Realität, und wie man sich vorstellen kann, ist nicht jeder Mensch von der wunderbaren Idee überzeugt, Märtyrer zu werden. Dieselbe Umfrage ergab, dass nur 29 Prozent der Palästinenser Vertrauen in die Hamas haben, und in den unteren Schichten war die Ablehnung noch größer. Die Gesamtdaten zeigen, dass die Bevölkerung nicht nur dem regierenden Clan, sondern dem gesamten politischen Apparat skeptisch gegenübersteht. Das hat aber nicht verhindert, dass viele Menschen mit dem aufgestauten Hass eines Lebens, in dem sie &#8220;wohlhabende Dörfer mit Wasser, Swimmingpools und Partys&#8221; auf der anderen Seite des Zauns gesehen haben, spontan am 7.10. mitgemacht haben, um einfach zu töten und zu plündern.<strong>[11]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Auf der israelischen Seite des Zauns hat die kriegerische Tendenz, die sowohl aggressiv als auch selbstmörderisch ist, mit Netanjahu ein apokalyptisches Niveau erreicht. Abgesehen von der ständigen Bedrohung von außen (von allem durch den Iran und sein Atomwaffenprogramm) ist ebenfalls eine große Bedrohung für Israel und das Überleben der Juden heute wahrscheinlich die entropische Tendenz seines rechtspopulistischen Regimes, das in dem Maße, wie es mit seinen Banden, die palästinensischen Araber im Westjordanland töten und terrorisieren, Eroberungsideale aufgreift, auch eine absolut selbstzerstörerische Entwicklung nimmt. Was die Haltung gegenüber Palästina betrifft, so ist das, was wir jetzt erleben, die Wiederholung und Bestätigung einer Entscheidung, die bereits getroffen wurde, seit Netanjahu sich für eine technokratische und militärische statt für eine politische Lösung des Konflikts entschieden hat. Diese muss notwendigerweise durch die bewaffnete Verwaltung einer bereits wirtschaftlich überflüssigen Bevölkerung aufrechterhalten werden, die dazu verurteilt ist, ständig zwischen Bomben, NGOs und Milizen, inmitten von Ruinen und Flüchtlingslagern zu leben (und zu sterben). Alles im Namen der &#8220;Sicherheit&#8221;, die sich ebenfalls als nicht existent erwiesen hat. Die israelische Soziologin Eva Illouz hat festgestellt, dass Netanjahu mit seiner technologischen Utopie einer automatisierten Sicherheit im Gazastreifen &#8220;die Armee in eine Besatzungsarmee verwandelt hat, die darauf trainiert ist, die Zivilbevölkerung zu kontrollieren, anstatt die Grenzen zu bewachen&#8221;, und die wie eine Bande von Kriminellen funktioniert, die sich nicht um das Gesetz schert &#8211; es ist kein Zufall, dass sie seit langem dazu benutzt wird, privaten Interessen zu dienen, indem sie vollständig zum Schutz und zur Unterstützung der Siedler im Westjordanland eingesetzt wird.<strong>[12]</strong>  Vor mehr als zwanzig Jahren, nicht lange nach der Ermordung von Yitzhak Rabin, stellten zwei israelische Autoren fest: &#8220;Das Land, so sehen es die Israelis immer wieder, sitze auf einem Pulverfass mit brennender Lunte. Als größte Bedrohung gilt ihnen nicht der fundamentalistische Terrorismus oder ein Krieg mit den Nachbarn, sondern die Auflösung von innen her […] Als bei einer Gallup-Erhebung für Ma’ariv am zweiten Jahrestag des Attentats die Frage gestellt wurde, ob das Land der Einheit oder dem Bürgerkrieg näher sei, urteilten mehr als doppelt so viele Israelis (56 gegenüber 21 Prozent), es sei dem nationalen Geschwistermord näher als dem inneren Frieden.&#8221;<strong>[13]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Heute bereiten sich diejenigen, die sich nicht im Krieg befinden, auf diesen vor. Vielleicht ist die Welt selbst zu diesem &#8220;Pulverfass mit angezündeter Lunte&#8221; geworden, das nicht nur die Staaten, sondern auch die Zivilgesellschaft und die öffentliche Meinung selbst in Mitleidenschaft zieht &#8211; wann haben wir das letzte Mal so etwas gesehen wie die Menschenmenge, die bei der Nachricht, dass ein Flugzeug aus Tel Aviv kommt, den Flughafen in jener kleinen russischen Stadt in Dagestan stürmte, alle Tore umging und auf der Jagd nach Juden die Startbahn betrat? Nach der Ära der &#8220;Weltordnungskriege&#8221;, in der die bewaffneten Konflikte den Anschein gigantischer Polizeieinsätze erweckten (und umgekehrt: die Polizeieinsätze in den Städten wurden militarisiert und kriegerisch), scheint es, spätestens seit dem Krieg in der Ukraine, eine Rückkehr der &#8220;alten Konflikte&#8221; und das Ende der &#8220;postnationalen&#8221; kapitalistischen Utopie zu geben, die seit 1990 in Kraft ist. Aber diese alten Konflikte gewinnen gerade in einem Szenario wieder an Bedeutung, in dem die politische Logik, die sich auf die Welt der Arbeit (d.h. den Klassenkampf) stützt, zerfällt und die Bindung an nationale Identitäten (und ihre jeweiligen Megablöcke) an Konsistenz gewinnt. Für den heutigen &#8220;Antiimperialismus&#8221;, der eher ein Alternativ-Imperialismus ist, sind die russischen und arabischen Eliten objektive Verbündete, so wie das israelische und amerikanische Proletariat natürliche Feinde sind. Im Klima der Kriegsvorbereitung mit seinen vielfältigen medialen Mitteln zur Anwerbung wird jeder, der wie Lenin 1914 den &#8220;revolutionären Defätismus&#8221; verteidigt, als naiv oder anachronistisch angesehen.</p>
<section class="footnotes" role="doc-endnotes">
<hr />
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong>https://www.nytimes.com/2023/08/18/us/politics/ukraine-russia-war-casualties.html</p>
<p style="text-align: justify;"><u><strong>[2]</strong>https://hamas.ps/ar/p/18188</u> Zugang: 20.10.2023</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong>https://www.reuters.com/world/middle-east/how-secretive-hamas-commander-masterminded-attack-israel-2023-10-10/</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong>https://www.reuters.com/article/us-pakistan-protest-cartoons-idUSKBN25V2KJ</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong>Robert Kurz sagte, dass der im Entstehen begriffene palästinensische Staat bereits vor seiner Gründung als ein <em>failed state</em> funktionierte, wie jeder andere in der zusammengebrochenen Peripherie des globalen Kapitalismus (eine Situation, die nicht nur durch die allgemeine kapitalistische Dynamik bedingt ist, sondern durch die israelische Militärbesatzung noch verschärft wird): &#8220;Der palästinensische Phantomstaat ist folgerichtig der erste, der schon vor seiner offiziellen Gründung in den Prozess der Zersetzung und Verwesung übergegangen ist. Staatsbildung und Entstaatlichung fallen unmittelbar zusammen, ein historisches Paradoxon. Noch bevor sich ein übergreifender Staatsapparat mit eigener Legitimation und Geschichte herausbilden konnte, treten Clanstrukturen, Warlords und Mafia-Strukturen an dessen Stelle.&#8221; Robert Kurz, <em>Weltordnungskrieg</em>, Springe 2021, 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong>Für eine Studie über die Idee des Märtyrers als ideologisches Fundament der Hamas siehe zum Beispiel: Eli Alschech, “Egoistic Martyrdom and Hamas’ Success in the 2005 Municipal Elections: A Study of Hamas Matyrs’ Ethical Wills, Biographies, and Eulogies.” <em>Die Welt des Islams</em> 48 (2008).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong>Matthew Bolton, “Climate catastrophe, the ‘Zionist Entity’ and ‘The German guy’: An anatomy of the Malm-Jappe dispute”:https://www.academia.edu/108026972/Climate_catastrophe_the_Zionist_Entity_and_The_German_guy_An_anatomy_of_the_Malm_Jappe_dispute</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong>PCO (Partico da Causa Operária) ist eine kleine und irrelevante linke Partei in Brasilien, die aber berühmt für deren abstruse Positionen ist. In den Pro-Palästina Demos haben sie Hamas-Fahnen und T-shirts verkauft, außerdem schreien sie Rufe, in denen auch Hezbollah, Taliban und das iranische Regime gelobt wird. Sie sind auch besonders berühmt für ihre “Fußball-Analysen”, in denen sie stark nationalistisch den Milliardär und Fußballspieler Neymar vehement verteidigen, auch wenn er der Vergewaltigung und Steuerhinterziehung beschuldigt wird. Nach PCO sind Neymar-Kritiken eine Kollaboration mit dem “imperialistischen Angriff auf den brasilianischen Fußball”. Nachdem dieser Text auf portugiesisch veröffentlich wurde, hat PCO einen Text geschrieben, in dem der Autor des vorliegenden Textes als “Verteidiger der zionistischen Unterdrückung” charakterisiert wird.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> In der Linken gab es nur wenige wie die Zapatisten, die dem libertären Horizont treu blieben und in der Lage waren, dem morbiden Treiben der Zeit das Wesentliche entgegenzusetzen. Mit den Worten des Subcomandante Insurgente Moisés: &#8220;Weder Hamas noch Netanyahu. Das Volk von Israel wird überleben. Das Volk von Palästina wird überleben.&#8221; https://enlacezapatista.ezln.org.mx/2023/10/16/de-siembras-y-cosechas/</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10] </strong>Auch Tariq Ali gehörte zu den ersten, die das Megapogrom als &#8220;Aufstand&#8221; feierten: https://newleftreview.org/sidecar/posts/uprising-in-palestine</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/10/israel-retraumatiza-criancas-sobre-holocausto-e-constroi-figura-do-inimigo-diz-ativista.shtml</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12] </strong>https://jornalggn.com.br/oriente-medio/podera-israel-acordar-do-pesadelo-e-fazer-o-certo-por-eva-illouz/</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Karpin, Michael/Friedman, Ina. <em>Der Tod des Jitzhak Rabin. Anatomie einer Verschwörung</em>. Reinbek bei Hamburg, 1998, pS 427, zit. nach Robert Kurz, <em>Weltornungskrieg</em>, Springe 2021, 148.</p>
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		<title>O Vudu</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Jan 2024 03:20:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ele foi ao Haiti integrado num grupo do MST, na época em que se reclamava contra a presença do exército brasileiro. Regressou entusiasmado com a herança das culturas africanas e escreveu um artigo para o Passa Palavra enaltecendo o Vudu. Quando objectámos que o Vudu havia sido uma das bases da sanguinária ditadura de Duvalier, o Papa Doc, respondeu que não o tinham informado, iria averiguar e remodelaria o artigo. Pouco tempo depois disse que o artigo fora aceite noutro lugar, já não era necessário reescrevê-lo. Para quê incomodar-se? <strong>Passa Palavra</strong></p>
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