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	<title>Repressão_e_liberdades &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Uma volta a 64? Não. A neocolônia de 1500</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Oct 2026 19:41:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O diagnóstico que devemos inferir é: hoje nós discutimos uma gramática que não é nossa. Um tipo de linguagem que não mais tem apelo. Um tipo de luta já perdida, combatida no campo de batalha dos inimigos. Por Sérgio Elia]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por Sérgio Elia</h3>
<p style="text-align: justify;">Dormimos em 2026, acordamos em 64 e, no dia 25, mesmo uma improvável virada apenas adiará um novo 22 de abril de 1500. Será uma inovação e tanto: um povo escolher voltar a ser colônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Vendida como algo revolucionário, vivemos uma ruptura reacionária da extrema direita com o fantasma moribundo da democracia liberal. Mas estamos tratando tudo como normal. Em nenhum momento reagimos à altura dessa ruptura, acreditando numa institucionalidade que já está morta.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a pergunta que devemos nos fazer é: qual a responsabilidade da esquerda brasileira nisso?</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160159 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967.jpg" alt="" width="417" height="420" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967.jpg 417w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967-298x300.jpg 298w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967-70x70.jpg 70w" sizes="(max-width: 417px) 100vw, 417px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Sim, a mídia corporativa, de forma escandalosa e calculada, deu muito menos destaque do que deveria aos fatos e denúncias sobre a trajetória de Flávio, enquanto ele se apresenta claramente como administrador de colônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, as redes sociais criaram um mundo em que a verdade factual perde relevância e as fake news se tornaram uma realidade normalizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, enfrentamos uma conjuntura geopolítica internacional marcada pela ascensão da extrema direita, com elites latino-americanas sabendo trabalhar para se tornarem suas representantes locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, a sociedade brasileira, com seu crescente neopentecostalismo que sequestrou boa parte do cristianismo, assim como os diversos projetos de guerra cultural, simbolizados por iniciativas como o Brasil Paralelo, além do cinturão do agronegócio que se expandiu para novas regiões do país, tornou-se cada vez mais conservadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também é verdade que a política econômica liderada por Haddad foi de uma ineptidão política colossal. Um erro desde o começo; uma tragédia anunciada: como ter tido como principal projeto de governo, no início do mandato com toda a força de uma nova gestão com o fôlego recente das urnas, uma reforma tributária cujos frutos, como a redução dos impostos da cesta básica ou o cashback, só apareceriam plenamente em 2027, podendo ser politicamente colhidos por Flávio?</p>
<p style="text-align: justify;">Como negociar a queda de um quase criminoso teto de gastos em prol de um arcabouço fiscal menos pior, capitulando mansamente diante da restrição da capacidade de investimento público em qualquer novo projeto digno de nota, seja de desenvolvimento, seja de política social?</p>
<p style="text-align: justify;">Como entrar em brigas totalmente impopulares, como a taxa das blusinhas?</p>
<p style="text-align: justify;">Como não encarar, sob o pretexto de manter o controle inflacionário, a desastrosa manutenção da política de juros do Banco Central sob Galípolo? Os juros estratosféricos tornaram o crédito inviável, e o endividamento do consumidor e do pequeno e médio empreendedor — tanto urbano quanto agrícola — tornou-se inevitável, o que poderia ajudar a explicar, em boa medida, o crescimento da rejeição a Lula nas pequenas cidades do cinturão agrícola.</p>
<p><img decoding="async" class="alignleft wp-image-160161" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994-300x273.jpg" alt="" width="400" height="364" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994-300x273.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994-462x420.jpg 462w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994.jpg 500w" sizes="(max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">E, sobretudo, como não olhar para 2022 e se dar conta de que as mulheres beneficiárias do BPC foram, de muitas maneiras, decisivas para evitar nossa derrota e a reeleição de Jair Bolsonaro? Em nome da redução do déficit fiscal e de uma tal “responsabilidade econômica” a ser vendida para um tal “mercado”, o governo fez questão de economizar bilhões, justamente prejudicando aquelas mulheres, chefes de família, que nos salvaram em 2022? Quem não conhece alguém que deixou de conseguir sacar esses benefícios abruptamente ou que, depois de uma doença, deficiência ou situação de extrema vulnerabilidade, encontrou todo tipo de dificuldade para receber um benefício?</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de ser eleito em 2022, Lula prometeu travar as boas batalhas. Prometeu governar “do seu jeito”. Pautar projetos de interesse nacional, como o fim da escala 6 x 1, ou enfrentar o criminoso orçamento secreto.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se tratava de dizer que seria fácil ou que dependia apenas de sua vontade, mas de assumir, percebendo os novos tempos, a necessidade de mobilizar uma narrativa em defesa de um projeto de nação. As prováveis derrotas no Congresso não significariam uma derrota para o seu governo. Significariam demonstrar claramente que, ao menos, assumia sem medo a disputa pelos interesses populares.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem sequer uma política minimamente ousada de democratização do acesso à terra e à moradia foi pautada, algo que poderia ter sido feito de forma bem menos traumática do que imaginamos, se houvesse disposição para avançar um pouco além da covardia e do comodismo da conciliação.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, como em 2004, 2005 ou 2009, tentou-se uma composição. Dessa vez, porém, com um Congresso que sequestrou uma parcela mais que expressiva do orçamento e que, em boa parte, já não representava apenas interesses fisiológicos: havia ali um inequívoco projeto ideológico de extrema direita, golpista, sedento de sangue e claramente antidemocrático.</p>
<p style="text-align: justify;">Lula tentou conciliar com quem já não queria conciliação.</p>
<p style="text-align: justify;">Lula não se deu conta de que os tempos mudaram e de que teria que responder diretamente, sem qualquer verniz, às urgências mais cotidianas, abraçando aquilo que, pejorativamente, se chama de “populismo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Falhou ao ser extremamente conciliador, responsável e pragmático. Falhou em sequer ter lutado por um mísero projeto de apelo popular que respondesse, por exemplo, ao anseio pela diminuição da criminalidade. Combater a lavagem de dinheiro enfrentando determinados agentes e setores do mercado financeiro é necessário e louvável, mas isso pouco ou nada ressoa para quem vive diariamente com medo da violência na rua. A cegueira da esquerda quanto à acusação de que compactuamos com o crime que tanto aflige aos trabalhadores brasileiros não deveria ser tão mansamente por nós aceita, o que está longe de significar defender qualquer política violenta ou puramente demagógica.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-160163" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959-300x193.jpg" alt="" width="500" height="321" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959-300x194.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959-341x220.jpg 341w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959.jpg 600w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez Lula tivesse perdido em todas essas empreitadas. Mas perderia de uma forma que não legitimaria propagarmos, com tanta certeza e prepotência, que há um pobre de direita burro e ignorante.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, se não fomos nós que pautamos o debate público, se desistimos de lutar por um projeto nacional assumidamente nosso, não sejamos nós os ignorantes e burros incapazes de compreender e aprender com os fatos.</p>
<p style="text-align: justify;">É bom repetirmos, em voz alta: não sejamos nós os ignorantes e burros incapazes de compreender e aprender com os fatos.</p>
<p style="text-align: justify;">A verdade é que a extrema direita capta, com cinismo, um diagnóstico verdadeiro: para milhões de pessoas, alguma coisa precisa romper com “tudo que está aí”. Ela percebe que a ordem existente já não consegue oferecer a promessa de integração, prosperidade e segurança que legitimava o capitalismo e a democracia liberal. E é justamente aí que ocorre uma inversão extraordinária e reveladora: a extrema direita passa a ocupar o lugar da ruptura, enquanto a esquerda passa a assumir, no imaginário popular, um lugar conservador e envelhecido.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles são, nesse sentido, mais sinceros no diagnóstico, não na solução. Dizem que nesse modelo de sociedade não há lugar para todos, que o Estado atrapalha, que os direitos sociais são falhos, que os conflitos não serão resolvidos pela conciliação e que, de uma forma ou outra, alguém terá de perder. A solução que oferecem para a crise é cínica, antidemocrática e destruidora.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas é apresentada como ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, a esquerda liberal responde à mesma crise defendendo os princípios falidos de uma democracia liberal corrupta e decadente prometendo com grande dose de derrotismo administrá-la com maior humanismo, sem enfrentar seus inequívocos limites e contradições.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, é verdade que eles oferecem uma saída que apenas intensifica a submissão popular.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160168" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963-215x300.jpg" alt="" width="315" height="440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963-215x300.jpg 215w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963-301x420.jpg 301w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963.jpg 344w" sizes="auto, (max-width: 315px) 100vw, 315px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas nós propomos mais conformismo, paciência e equilíbrio a uma população sem expectativas.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, quem hoje parece radical e quem parece conservador?</p>
<p style="text-align: justify;">Nós parecemos conservadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós desistimos de qualquer grande projeto. Não perseguimos qualquer utopia, sendo metralhados por um realismo refém do comodismo.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse sentido que a extrema-direita também ganha por parecer mais sincera: não porque revela qualquer solução viável para o mundo, mas porque explicita, sem qualquer verniz, um antagonismo que nós insistimos em esconder.</p>
<p style="text-align: justify;">Não por acaso, esse discurso encontra terreno fértil porque o cidadão comum, desgostoso com qualquer apelo a um corpo social — visto como armadilha para a letargia corruptora — e identificado com um conceito altamente neoliberal de liberdade, quer apenas não ser atrapalhado para poder “cuidar do próprio nariz em paz”. É aí que o conservadorismo moral e o discurso individualista neoliberal conseguem acomodar uma aparente contradição funcional: de um lado, a exigência de valores pétreos e sagrados na vida privada como refúgio diante da crueldade competitiva de um mundo corrompido; de outro, a legitimação de que, na selva da disputa capitalista, cada um seja implacável ao lutar pelos próprios interesses, sem que o Estado ou aqueles considerados culpados pela própria miséria e inércia o atrapalhem. O reacionarismo moral e o individualismo oferecem, assim, refúgios normativos que validam, sem culpa, um indivíduo ainda mais perverso, pois ele percebe, instintivamente e sem filtros, que vive no estado de natureza hobbesiano, sem que o Estado hobbesiano se ofereça para protegê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que estamos deixando de compreender quando parcelas expressivas dos mais jovens caminham para a extrema direita em diferentes partes do mundo? Quando os líderes mais boçais e mitômanos da extrema direita são justamente jovens que angariam apoio justamente por assumirem um tom que acomoda e identifica tão bem terrorismo moral, autoritarismo e um discurso aparentemente contraditório de insubordinação ao sistema?</p>
<p style="text-align: justify;">Por que insistimos em destacar a hipocrisia de tais discursos e não nos questionamos por que somos vistos como sendo o tal do “sistema”?</p>
<p style="text-align: justify;">Acordemos: nós parecemos ser o sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós parecemos envelhecidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o jovem sufocado por uma realidade sem horizontes do capitalismo digital, a extrema direita encarna a ousadia da recusa, de uma retórica ousada e aparentemente sincera.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, a esquerda, engessada em sua defesa mansa de uma institucionalidade decrépita, é percebida como velha, antiquada e hipócrita.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160170" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959-228x300.jpg" alt="" width="328" height="432" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959-228x300.jpg 228w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959-319x420.jpg 319w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959.jpg 361w" sizes="auto, (max-width: 328px) 100vw, 328px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Ela defende um horizonte social sem definir claramente o que almeja e insiste em lutar pelos arranjos de uma ordem que já faliu — querendo administrá-la com um pouco mais de traquejo retórico, aparentando querer assumir apenas um álibi de superioridade moral.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto às elites econômicas nacionais, todo o projeto da extrema direita representa, com novas roupagens de velhos projetos, os compromissos com aquela elite econômica que Florestan Fernandes, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Caio Prado Jr., cada um a seu modo, já haviam identificado: uma elite interessada na preservação de seus próprios privilégios, incapaz de converter desenvolvimento econômico e industrialização em um projeto autônomo de nação, e historicamente disposta a associar seus interesses aos do capital externo em vez de confrontar a posição dependente do país na ordem internacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não é novidade e sempre contou com o apoio das mídias tradicionais, que, em grande medida, trabalharam em favor desses interesses.</p>
<p style="text-align: justify;">O que é novo é assumirem tão escancaradamente que entregavam tudo do Brasil, resignando-se mansamente a que uma família assuma tal projeto sem qualquer constrangimento, permitindo que se perca o mínimo que esse povo levou com tanto sangue, suor e lágrimas para ser conquistado por séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto nos preocupávamos em denunciar a hipocrisia e as associações autoritárias do lema “Deus, pátria, família e liberdade”, apontando a contradição entre a defesa da liberdade, hipocrisia moral e o autoritarismo, talvez tenhamos subestimado sua contradição mais profunda: a pátria. O suposto patriotismo dessa extrema direita é um “patriotismo” que despreza o próprio povo, não reconhece suas conquistas históricas, desvaloriza sua cultura e desacredita sua capacidade de construir o próprio futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">É o patriotismo de uma elite que não se reconhece na beleza e esforço de seu povo, sonhando viver em Miami.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse aspecto, nossa extrema direita consegue ser ainda pior que suas congêneres estrangeiras: além de autoritária e excludente, é entreguista e profundamente antipatriótica. Sequer apresenta um projeto de desenvolvimento nacional. Sua pátria é uma abstração ideológica; o Brasil real e seu povo são obstáculos a serem superados.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, a derrota nas eleições legislativas e na disputa pelo Executivo, já no primeiro turno, pode se revelar o maior revés da nossa história. Vamos ser realistas, sabendo dimensioná-la agora para poder enfrentá-la com as armas certas. Não devemos nos iludir minimamente: foi nada menos que catastrófica.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa vez, a extrema direita não terá qualquer receio de destruir os ganhos sociais, econômicos e civilizatórios do país. Temer, ainda com a cínica retórica de quem sempre representou, já produziu estragos catastróficos nos direitos sociais, na Petrobras e na indústria da construção civil, sob o impulso do lavajatismo. Jair tentou ir muito além, promovendo não apenas a corrosão de direitos e da nossa infraestrutura econômica e social, mas também a degradação moral da própria sociedade brasileira, simbolizada pela tragédia da pandemia e pelas imagens de fome e adoecimento dos povos Yanomami. Se Bolsonaro pai não avançou ainda mais, foi apenas por sua própria inaptidão, preguiça ou incompetência.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas agora não há qualquer razão para supor que esta jovem e motivada extrema direita que chega ao poder terá a mesma timidez ou encontrará os mesmos limites institucionais.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160173" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-300x234.jpg" alt="" width="500" height="390" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-300x234.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-538x420.jpg 538w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-640x499.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-681x531.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-511x400.jpg 511w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge.jpg 750w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Há tempos, assumiram claramente sua face, declarando sua guerra. As mangas já estão arregaçadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles tentarão destruir e colocar sob seu controle, sem qualquer constrangimento, o STF; corroer a Polícia Federal; aparelhar joias nacionais como o IBGE; desidratar ainda mais as agências reguladoras, submetendo-as aos interesses financeiros; dinamitar os direitos conquistados pelas mulheres ao longo de décadas aprovando projetos que atentem contra os direitos de meninas vítimas de estupro; e perseguir, sem qualquer verniz, toda a elite intelectual representada pelas universidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem qualquer política ambiental, de apoio aos indígenas ou de proteção às populações mais vulneráveis, será uma destruição total.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles não serão covardes como em 2022. Aprenderam muito bem as lições. Não subestimemos sua inteligência nem sua habilidade. Não subestimemos quem, ao vivo, no Jornal Nacional, sabe explorar o peso de anunciar quem será seu ministro.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles sabem para quem trabalham e, com o apoio — e a chantagem — de quem quer nos recolonizar, não hesitarão em passar a boiada sobre o nosso povo.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, devemos deixar de temer a realidade e compreender, de uma vez por todas, que, historicamente, o limite da extrema-direita foram os tanques soviéticos em Berlim. Não há razão para esperar bom senso de quem leva seu projeto autoritário às últimas consequências.</p>
<p style="text-align: justify;">A diferença é que, agora, essa extrema direita pretende destruir até mesmo os compromissos sociais que o capitalismo foi obrigado a aceitar no pós-guerra graças à concorrência ideológica do estado soviético. Mas agora, já não há espaço ou barreira, em seu projeto, sequer para a social-democracia, um mínimo Estado de bem-estar social ou para políticas keynesianas. Eles não mais admitem conceder nada. Sua hipocrisia acabou; suas intenções estão escancaradas.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta de classes, como luta entre dois lados, nunca foi pretendida dentro da institucionalidade petista. Ela nunca existiu. E, até então, era compreensível.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160175" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-300x219.jpg" alt="" width="400" height="293" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-300x219.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-574x420.jpg 574w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas já há muito tempo tal luta só é uma guerra verdadeiramente organizada e ininterrupta vinda de um só lado. O lado de cima.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós nunca soubemos explicitá-la, e agora é nossa culpa se não o fizermos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois, para que exista uma luta, é preciso que haja quem resista. Senão, é apenas um massacre.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, para além disso, como pode haver uma guerra pelos fatos?</p>
<p style="text-align: justify;">Pois a tudo isso se soma a pós-verdade, que é muito mais sutil do que a simples mentira. É a decadência completa da relevância da verdade factual. O mundo informacional foi segmentado, sobretudo pelos algoritmos, em realidades que quase não precisam mais se encontrar. Parte da população simplesmente não toma conhecimento de determinados fatos da forma como eles realmente se apresentam — algo que, de outra maneira, já ocorria sob a mídia tradicional.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas agora há algo além: mesmo quando o fato chega, ele pode chegar recortado, deslocado de contexto, reinterpretado ou inteiramente reorganizado dentro de uma narrativa que lhe dá outro sentido. Já não é necessário esconder um fato para neutralizá-lo. Basta mudar a perspectiva a partir da qual ele mais facilmente fará sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">E disso não pode se subtrair uma sociedade cada vez mais conservadora, na qual parcelas significativas da população passaram a se mobilizar muito mais intensamente por pautas morais e de costumes do que pela conquista de ganhos materiais concretos para suas próprias vidas. Isso não aconteceu espontaneamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Para eles, basta uma guerra moral.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi resultado também de uma longa disputa pela formação do senso comum, pela linguagem e pelos valores através dos quais a realidade passa a ser interpretada.</p>
<p style="text-align: justify;">O diagnóstico que devemos inferir é: hoje nós discutimos uma gramática que não é nossa. Um tipo de linguagem que não mais tem apelo. Um tipo de luta já perdida, combatida no campo de batalha dos inimigos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas será que devemos continuar tentando disputar o discurso da extrema direita em seus próprios termos, ajustando o nosso ao deles? Ou devemos pautar, sem meias palavras nem pudor, de forma atualizada e sem anacronismos, a nossa própria gramática, o nosso discurso?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160179" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-300x229.jpg" alt="" width="400" height="305" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-551x420.jpg 551w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959.jpg 630w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Há nisso uma ironia histórica: a extrema direita, sob influência olavista de quem caçoávamos com presunção, parece ter compreendido muito bem uma lição gramsciana que parte da esquerda teve medo de colocar em prática por fleuma — o poder não se disputa apenas nas eleições ou dentro do Estado; disputa-se quando se revela sua soberania também na cultura, nas instituições, no humanismo do que é sagrado e religioso, na profundidade politizadora da mídia e na própria produção cotidiana do senso comum.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós não o fazemos por espírito democrático; eles agora o fazem declaradamente como libertadores “sagrados” do capital que se torna, ao modo de Benjamin, cada vez mais sagrado.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem nunca se assustou, por exemplo, ao descobrir que um prestador de serviço comum se informa a partir de documentários como os do Brasil Paralelo, que lhe revelariam a verdade secreta de um Brasil dominado pela esquerda? Ou com o fato de soar cada vez mais comum, sobretudo entre os mais jovens, dizer que o nazismo é de esquerda? Será que não percebemos o quanto isso ajuda a produzir uma sociedade progressivamente cega e alheia à própria relevância factual? Será que continuaremos debochando da ignorância alheia, ignorando que isso se torna cada vez mais um fato?</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a extrema direita travava essa guerra sem pudor, parte da esquerda recuava até mesmo diante da possibilidade de realizar, em sentido verdadeiramente emancipador, aquilo que o tão atacado e incompreendido Paulo Freire propunha: formar sujeitos capazes de compreender criticamente o mundo em que vivem. Para além do <a class="wikilink2" title="prouni" href="https://wiki.passapalavra.info/doku.php?id=prouni" rel="nofollow" data-wiki-id="prouni">ProUni</a>, do Pé-de-Meia e das políticas de cotas, iniciativas legítimas e importantes para a inclusão social, o PT termina seus governos sem deixar ao país um legado de formação crítica e emancipadora à altura de um partido que se diz de esquerda. Sem propor um projeto nacional de educação de base verdadeiramente transformador, capaz de elevar o patamar educacional brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado está diante de nós: uma sociedade em que parcelas da população podem se mobilizar apaixonadamente por uma guerra cultural mesmo quando dela não resulta qualquer melhoria concreta em sua renda, seu trabalho, sua segurança ou sua qualidade de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">E é por isso que a experiência da pandemia funcionou como marco estruturante desse processo. Pode parecer contraintuitivo que governos de extrema direita tenham embarcado no negacionismo sanitário, mas tal retórica legitimou profundamente um ideal de feroz liberdade individualista, capaz de romper com qualquer concepção de liberdade fundamentada em um corpo social coletivo. A mensagem deixada foi clara: absolutamente nada poderia impedir a economia de continuar funcionando, mesmo que isso significasse que o próprio indivíduo ou os outros ao seu redor morressem.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi a consagração da ideia de que essa liberdade não carrega mais nenhuma obrigação coletiva, apenas direitos absolutos sobre si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">É o caráter fatalista e predatório do capitalismo levado às últimas consequências, em uma lógica que remete ao realismo capitalista analisado por Mark Fisher.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi o golpe final contra qualquer ideia de corpo social. O erro do nosso discurso? Tratar o temor pela própria sobrevivência econômica dos cidadãos comuns como expressão dos interesses mesquinhos do empresário “malvado”, ignorando que todos, dos mais pobres à classe média, sofriam com os efeitos da paralisação econômica.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160181 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968.jpg" alt="" width="395" height="570" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968.jpg 395w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968-208x300.jpg 208w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968-291x420.jpg 291w" sizes="auto, (max-width: 395px) 100vw, 395px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A retórica conta. E ela perde votos.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, devemos compreender que a pandemia e o negacionismo das vacinas não representaram apenas um crime contra a população, mas também um profundo ataque ao espírito crítico do corpo social, cujo alcance simbólico muitos ainda ignoram.</p>
<p style="text-align: justify;">E tamanha perda jamais será recuperada apenas pela apresentação racional dos fatos. O que se atacou durante a pandemia foi a legitimidade da ciência, da razão e do bom senso, em prol de um discurso messiânico e altamente individualista que beirou o darwinismo social. A Dialética do Esclarecimento não nos ensinou que a própria racionalidade tem suas contradições? Nosso erro não pode ser achar que basta demonstrar os fatos para que a verdade se imponha. A razão não vence simplesmente porque dispõe dos fatos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois o que há de mais explícito nos fascismos — e que torna toda essa conjuntura tão próxima do neofascismo, do qual a extrema direita sabe se utilizar tão bem — não é apenas a linguagem ou qualquer outra característica forçosamente comparada com aquilo que se viu na Europa. É também a construção permanente de conflitos internos, de inimigos e de uma sensação de perigo iminente, crise contínua e decadência moral. Nada disso precisa ser materialmente experimentado por cada indivíduo para produzir efeitos políticos. As pessoas não precisam presenciar a ameaça em suas próprias vidas; basta que sejam mantidas sob a sensação permanente de que ela está em toda parte e pode alcançá-las a qualquer momento. E isso eles sabem fazer muito bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Se dormimos em 2026 e acordamos, no dia 4 de outubro, em 64, apenas um enfrentamento claro e incansável, a partir de agora e pelos próximos anos, poderá impedir que, no dia 25, despertemos novamente em 22 de abril de 1500, retrocedendo mais de cinco séculos em nossa história.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é nada fácil, mas, para lutarmos para além da retórica falida e insossa, devemos saber o que combatemos e como.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160183 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17fbeff1-6631-4864-89ed-e2c29b65c2e1.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Al Held (1928-2005).</em><span class="info-icon-circle-wrapper">  </span></p>
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		<title>[São Paulo] Liberdade para Alê!</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Oct 2026 11:33:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O que estamos fazendo diante da criminalização das lutas sociais que já acontece dentro da democracia? Por Favela do Moinho]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Favela do Moinho</h3>

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<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.instagram.com/p/DecxzyuFgEP/?img_index=2" target="_blank" rel="noopener">400 DIAS PRESA. EM PLENA DEMOCRACIA. ALÊ LIVRE!</a></p>
<p style="text-align: justify;">Todo mundo está preocupado com a possibilidade de o Brasil voltar a viver uma ditadura. Mas o que estamos fazendo diante da criminalização das lutas sociais que já acontece dentro da democracia?</p>
<p style="text-align: justify;">Esse cenário tende a piorar e precisamos fortalecer os nossos e nossas lutas AGORA!</p>
<p style="text-align: justify;">O que aconteceu com a Alê, da Favela do Moinho, deveria preocupar qualquer pessoa que participa de um movimento social.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2025, a Favela do Moinho, uma das últimas comunidades populares do centro de São Paulo, foi desmontada em meio a operações policiais, demolições e promessas de reassentamento feitas pelos governos federal e estadual.</p>
<p style="text-align: justify;">Alessandra Moja Cunha, a Alê, liderança histórica da comunidade e da luta por moradia, foi presa em 8 de setembro de 2025. A defesa contesta as acusações, denuncia graves violações de direitos e sustenta que sua atuação comunitária está sendo criminalizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, Alê completa 400 dias presa. Mais de um ano. Sem que sua situação deixe de exigir uma resposta pública.</p>
<p style="text-align: justify;">Quantas lideranças mais poderão passar por isso? O que acontece com uma comunidade quando suas principais referências são retiradas de circulação? E como impedir que situações semelhantes se repitam em outros movimentos?</p>
<p style="text-align: justify;">Tentaram nos calar. Mas a história do Moinho continua circulando.</p>
<p style="text-align: justify;">Acabamos de conquistar o 48º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, na categoria Multimídia, com &#8220;Moinho de Gente: a expulsão da última favela do centro de São Paulo&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse reconhecimento precisa se transformar em mais debate, mais informação e mais solidariedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Precisamos que essa história saia das telas e entre nas assembleias, nas associações, nos sindicatos, nas universidades, nas ocupações e nas ruas.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Falem sobre o caso nas redes sociais e façam informes nas assembleias dos seus movimentos.<br />
&#8211; Publiquem notas de solidariedade, cobrem esclarecimentos e providências das autoridades e dos representantes políticos.<br />
&#8211; Organizem exibições do documentário e cine-debates. Chamem a gente para participar!</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Revolução, poder dual e a rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 10 Oct 2026 08:59:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas se formou como uma operação de contrainteligência para deter a Gestapo de Trump. Por Connor O'Callaghan]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Connor O&#8217;Callaghan</h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">1º de julho de 2026</p>
<p style="text-align: justify;">O ensaio a seguir, primeiramente circulado de mão em mão em formato de zine, examina a insurgência popular contra a Operação Metro Surge em Minnesota durante o inverno de 2026. Nele, O&#8217;Callaghan argumenta que a rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas representou uma forma embrionária de poder dual, uma instituição popular que contestava diretamente o controle estatal sobre um território urbano. Embora a caracterização do autor sobre a rede como uma “força policial paralela” seja talvez discutível, o ensaio levanta questões fundamentais para os revolucionários que passaram por esse ciclo de luta. Quando a coalizão que sustenta o controle da classe dominante sobre um território se fragmenta (como quando o MPD e o ICE entraram em conflito aberto), quando massas de pessoas comuns começam a agir fora e contra a lei como algo natural, as condições para uma ruptura revolucionária começam a se delinear. No entanto, se tais potenciais não conseguem se aprofundar e se expandir para antagonismos mais amplos, é decisivo entender os limites que os mantêm sob controle, especialmente tendo em vista a próxima crise eleitoral. Enquanto Trump desmantela sistematicamente os mecanismos pelos quais as elites historicamente administraram seus conflitos, como os revolucionários podem intervir nessas situações para garantir que produzam não apenas mais uma rodada de rebelião, mas formas de contrapoder prontas para intervir quando a ordem liberal finalmente colapsar?</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p style="text-align: justify;">A Operação Metro Surge foi a maior operação de repressão à imigração da história. Em seu auge, 3.000 agentes do DHS cercaram as Cidades Gêmeas. Janeiro estava tão saturado de agentes que era impossível sair de casa sem encontrá-los. Mais de cem mil habitantes de Minnesota organizaram uma conspiração em massa contra a operação federal. A cada semana, voluntários em um sistema de entrega de comida alimentavam milhares de famílias abrigadas em suas casas. Inquilinos com intuição do que viria e chaves de fenda instalaram novas fechaduras em prédios de apartamentos para manter fora os federais e os proprietários. <em>Strippers</em> se recusaram a dançar para agentes e os expulsaram das boates. Mães de crianças se envolveram em perseguições em alta velocidade na rodovia. Médicos faziam visitas domiciliares para fazer partos. Professores juntavam dinheiro do aluguel para seus alunos. Uma enfermeira com uma pistola chutava lanternas traseiras. Um motorista de táxi patrulhava do nascer ao pôr do sol, à procura do ICE. Jovens com balaclavas faziam dos pneus de carros alugados seus inimigos. Crianças do Movimento Indígena Americano distribuíam máscaras de gás e sopa de arroz selvagem. Avós faziam vigília em escolas de ensino fundamental. Sofás e quartos vagos se enchiam quando os endereços precisavam mudar. Imigrantes escapavam da prisão entrando em becos e cortando caminho pelas salas de estar de estranhos. Manifestantes faziam o mesmo. Em massa, as pessoas tinham a experiência de estar fora da lei, e contra ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Contravigilância, perseguições em alta velocidade, redes clandestinas, comunicações criptografadas, postos de controle, nomes de código. Quando essas coisas são normalizadas e adotadas por massas de pessoas, é um salto qualitativo para a luta insurgente. Esta é a base a partir da qual os revolucionários podem avançar.</p>
</div>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Não existe uma fórmula mecânica para a revolução, mas existem condições particulares que dão aos revolucionários uma vantagem estratégica. Essas condições não são astrológicas, são dialéticas. São forjadas a partir de árvores de decisão reais, por muitos atores trabalhando com, contra e através uns dos outros.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma dessas condições é a desagregação da coalizão governante. O establishment não é monolítico em seus interesses. Muitas vezes eles se alinham, mas muitas vezes entram em conflito e divergem. O que realmente importa para as diferentes facções da classe dominante é que elas possam mediar seus interesses concorrentes dentro de um quadro confiável. Quando isso não é mais possível, quando surgem diferenças intratáveis e diferentes facções empregam meios irregulares para conseguir o que querem, abrem-se fissuras que as forças populares podem explorar para tornar a revolução possível. A Operação Metro Surge produziu antagonismos entre o governo estadual e o federal, levando à breve desunião de suas respectivas forças armadas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160050" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge.png" alt="" width="401" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge.png 601w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge-300x300.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge-70x70.png 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge-421x420.png 421w" sizes="auto, (max-width: 401px) 100vw, 401px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Outro germe inicial da revolução social é a mudança de lealdade de milhares de pessoas em suas ações. Em nenhum lugar isso foi mais verdade do que nas Cidades Gêmeas, onde todos os tipos imagináveis de pessoas participaram. A resistência ao ICE tornou-se a característica definidora da vida. Enquanto a rede clandestina mencionada ajudava as pessoas a escapar do desaparecimento, a rede de resposta rápida (RRN) ascendeu como a vanguarda confrontacional do movimento local. A RRN das Cidades Gêmeas era uma maneira simples de interpelar grandes números de pessoas em papéis funcionais que desafiavam diretamente os agentes federais. Milhares de pessoas aprenderam que isso era mais eficaz do que exigir algo das autoridades. Em vez disso, exigiram isso de si mesmas. Essa descoberta é uma pré-condição essencial para a luta revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a RRN ameaçava criar era um poder dual: uma instituição popular estabelecida contra o Estado, pronta para usurpá-lo. O poder dual não é um projeto “prefigurativo” aninhado confortavelmente, mas antagonicamente, dentro da ordem vigente. É um arranjo instável de forças que sufocam agressivamente umas às outras. Ocorre quando dois quadros políticos concorrentes existem no mesmo lugar, ao mesmo tempo, e apenas um pode vencer. Tais situações ocorrem durante movimentos revolucionários, quando as forças armadas e os corpos políticos do establishment governante são substituídos por novas instituições da própria iniciativa direta do povo. A RRN era uma infraestrutura maciçamente participativa que contestava quem controlava um terreno urbano específico. Era essencialmente uma força policial paralela de caráter popular de massa.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora a RRN nunca tenha realizado todo o seu potencial, foi um projeto realmente existente que os revolucionários devem estudar cuidadosamente, a fim de orientar nossas lutas futuras. Tais formações transformam expressões refletidas de recusa em lutas propositais pelo poder. Isso lhes permite facilitar o salto além da rebelião e em direção à reorganização em massa da sociedade, que marca uma revolução.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A rede de resposta rápida</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas se formou como uma operação de contrainteligência para deter a Gestapo de Trump. Postos diários na sede do ICE registravam placas de veículos, descrições e partidas de comboios, compilando essas informações em um banco de dados público de milhares de veículos, marcados como “confirmado-ICE”, “altamente suspeito” e “não-ICE”. Essas informações não eram coletadas para o objetivo abstrato de conscientizar ou documentar atrocidades; os dados de vigilância eram instrumentos de ataque na medida em que eram operacionais. Em vez de ficar em espera, os patrulheiros usavam essas informações para rastrear agentes e confrontá-los diretamente. Ao fazer isso, a RRN se tornou a maneira mais militante e também mais popular de participação.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda a região metropolitana foi dividida em zonas de vizinhança. Cada zona operava uma chamada de patrulha diária, rigorosamente organizada, com duração de um dia inteiro. Em turnos de duas horas, despachantes remotos facilitavam a cobertura completa de suas zonas. Eles realizavam chamada, atribuíam rotas, executavam verificações de placas, registravam encontros com o ICE e transmitiam informações entre zonas. O despachante não dava ordens; os patrulheiros mantinham um alto grau de autonomia <strong>[1]</strong>. Os melhores despachantes evitavam impulsos conservadores; incentivavam o discernimento e a coragem. As chamadas soavam como rádios de policiais, só que em vez dos policiais, é uma mãe transmitindo ao despache que sua rota será ponto a ponto, no sentido oeste na Franklin, enquanto busca sua filha na escola. Então, um casal aposentado pede para verificar uma placa de um veículo suspeito que estão seguindo para o norte na Hiawatha: “dois ocupantes do sexo masculino, rostos cobertos, em um Jeep Cherokee vermelho com placas de Nebraska. Despache, podemos fazer uma verificação de placa para Bravo, Charlie, Papa, Zero…” As placas voltam positivas: ICE confirmado. Os aposentados continuam na perseguição, e um patrulheiro próximo transmite que agora está indo para o leste como reforço.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160056" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-300x300.jpg" alt="" width="400" height="401" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-419x420.jpg 419w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge.jpg 599w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Tendo uma conta no Signal, a RRN era notavelmente fácil de aderir. Poucas habilidades básicas estavam envolvidas, e aquelas que estavam eram ensináveis. Em temperaturas abaixo de zero, pessoas comuns realizavam tarefas históricas importantes. No seu melhor, a RRN tornava muitas operações do ICE inviáveis ao seguir os agentes antes que eles pudessem montar uma batida. Isso levava a frequentes perseguições em alta velocidade e confrontos em becos. Isso irritava tanto os agentes que eles freavam bruscamente na frente dos patrulheiros, quebravam seus vidros, cortavam os cintos de segurança e jogavam os motoristas em montes de neve.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando não estavam sendo seguidos, os agentes comprimiam o tempo de sequestro para sete minutos, na expectativa da vinda dos patrulheiros. Nos bairros mais densos da resistência, o ICE treinava para entrar e sair em apenas uma fração de seu já reduzido prazo. Em Powderhorn, os <em>respondedores rápidos</em> frequentemente chegavam em menos de dois minutos.</p>
<p style="text-align: justify;">Após dois meses, a RRN acumulou um banco de dados de placas de código aberto e abrangente, usando-o para patrulhar toda a cidade com cobertura quase constante. A infraestrutura do movimento apoiava os patrulheiros com cartões de gasolina e comida grátis. Postos de controle começaram a surgir como patrulhas a pé mais confrontacionais. A RRN fez mais do que apenas forçar a questão de quem controlava as ruas: ao orquestrar uma força popular hostil ao governo federal, ela forneceu uma resposta inequívoca.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Desagregação da classe dominante</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As formações de poder dual frequentemente conseguem ascender aproveitando-se da desintegração das ordens estabelecidas. Este foi certamente o caso da RRN das Cidades Gêmeas. Por uma breve janela de tempo, a classe dominante estava dividida. O Condado de Hennepin instruiu as cadeias a não cooperarem com a repressão à imigração. Mais de uma dúzia de promotores federais renunciaram ao escritório do Procurador dos EUA em Minnesota após o assassinato de Renée Good, deixando-o dois terços vago. Agentes federais impediram o MPD de acessar o corpo de Alex Pretti. O ICE fez perfil racial de pelo menos um policial fora de serviço, sacando armas e exigindo ver seus documentos de imigração. Conforme o caos aumentava, o Comandante da Patrulha de Fronteira Greg Bovino e o Chefe de Polícia de Minneapolis Brian O&#8217;Hara apontavam os dedos um para o outro. O prefeito Jacob Frey viralizou ao dizer ao ICE para “cair fora de Minneapolis”, enquanto o governador Tim Walz chamou a operação de “uma invasão nazista”. Trump chamou ambos de terroristas, e o Departamento de Justiça os acusou de conspiração criminosa para impedir agentes federais.</p>
<p style="text-align: justify;">É fácil reduzir essas brigas a meros espetáculos da mídia. De certa forma, elas o eram. A Casa Branca e os Democratas de Minnesota estavam ambos implorando para “baixar a temperatura”. Ainda assim, não é frequente que promotores, cadeias, políticos estaduais e federais, a polícia e o DHS estejam tão desunidos. O aspecto mais significativo desse conflito foi entre o MPD e o ICE. Desde que um de seus policiais linchou George Floyd em 2020, o departamento de polícia de Minneapolis tem buscado desesperadamente reabilitar sua imagem pública. Um mês de ICE invadindo as Cidades Gêmeas como uma campanha de <em>Call of Duty</em> desfez quase seis anos de relações públicas contrainsurgentes. O efeito foi que, por dois meses, a polícia local preferiu ficar de fora. Isso criou uma abertura crítica para que a RRN preenchesse o vazio deixado pela aplicação da lei municipal.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160051" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-300x300.png" alt="" width="400" height="401" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-300x300.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-70x70.png 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-419x420.png 419w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge.png 598w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Em janeiro, a Metro Surge tornou-se insustentável tanto para o governo estadual quanto para o federal. Na primeira semana, quando o ICE assassinou Renée Good, a rede de resposta rápida cresceu em milhares. Na semana seguinte, o ICE atirou no migrante venezuelano Julio Sosa-Celis. Manifestantes forçaram os agentes a recuar e saquearam seus veículos, roubando documentos do FBI, identidades governamentais e pelo menos duas armas de agentes do DHS. Uma greve geral importante na semana seguinte precedeu agentes da BORTAC matando Alex Pretti. Uma coletiva de imprensa mal conduzida tentando justificar sua morte com base em que Pretti estava armado gerou reação conservadora contra a Casa Branca. Os erros da administração, combinados com o crescente tamanho e militância da resistência, ameaçavam tornar a operação um atoleiro para o governo federal. Os Democratas estaduais também devem ter percebido que estavam perdendo o controle da situação. Em seu pico, estima-se que a rede de resposta rápida tivesse 80.000 participantes, em comparação com os míseros 600 policiais do MPD. Mesmo com os 3.000 agentes federais, a RRN excedia dramaticamente a presença combinada das forças de segurança. O resultado foi uma séria crise de legitimidade para o estado. O presidente do Sindicato da Polícia de Minneapolis reconheceu isso como tal, <a class="urlextern" title="https://www.reddit.com/r/altmpls/comments/1qv7bup/statement_issued_by_minneapolis_police_federation/#lightbox" href="https://www.reddit.com/r/altmpls/comments/1qv7bup/statement_issued_by_minneapolis_police_federation/#lightbox" rel="ugc nofollow">escrevendo</a> em fevereiro que:</p>
<p style="text-align: justify;">A Federação de Policiais de Minneapolis não apoia indivíduos ou grupos privados que estabeleçam postos de controle, bloqueios ou zonas de patrulha não autorizados em vias públicas. Ninguém tem autoridade legal para parar, deter, interrogar ou revistar pessoas ou veículos fora dos poderes legais do governo. Quando os policiais se movem e solicitam a remoção de bloqueios ilegais, eles não são recebidos com cooperação, mas com hostilidade aberta. O protesto pacífico é um direito constitucional. Personificar a aplicação da lei não é.</p>
<p style="text-align: justify;">Walz e Frey precisavam restaurar a ordem em Minneapolis, para não serem usurpados pelo poder popular; o DHS precisava transformar as forças de segurança locais em braços de sua agenda de imigração e reprimir a resistência. Assim, os Democratas se resignaram ao papel de parceiro júnior, em troca de uma operação de repressão à imigração menos teatral. Dois dias após o assassinato de Pretti, Walz e Trump fizeram concessões para ficar “na mesma sintonia”. Como parte do acordo, Bovino foi demitido, uma redução da operação foi planejada e os agentes foram instruídos a diminuir o gás lacrimogêneo. Em troca, Tom Homan anunciou um “nível sem precedentes de cooperação” da polícia local. Walz sugeriu que as cadeias deveriam começar a colaborar com a repressão à imigração. A polícia municipal começou a parar suspeitos de serem <em>respondedores rápidos</em> por “obstruir investigações federais”. Policiais de choque com escavadeiras destruíram postos de controle. Ambos os lados reivindicaram vitória.</p>
<p style="text-align: justify;">Reentrando em uma aliança, a classe dominante buscou esmagar a resistência antes que ela pudesse amadurecer para se tornar uma administradora legítima da cidade. Para que a RRN se tornasse um verdadeiro poder dual, ela teria que superar pelo menos três limites.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Limites da rede de resposta rápida</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, se a RRN era uma organização extremamente embrionária que poderia amadurecer para suplantar a polícia, seu potencial revolucionário era limitado por não ter uma instituição popular acompanhante para reorganizar a vida econômica e política. Embora essa segunda instituição de poder dual pudesse ter assumido várias formas, uma oportunidade perdida para que ela se desenvolvesse foi a greve de aluguéis cancelada para 1º de março.</p>
<p style="text-align: justify;">A organização de inquilinos proliferou durante toda a Metro Surge. Prédios inteiros se reuniram pela primeira vez e conversaram politicamente. Prédios já organizados redobraram seus esforços. Em janeiro, várias associações de inquilinos se uniram como um sindicato em toda a cidade. Juntos, o recém-formado Sindicato dos Inquilinos das Cidades Gêmeas <a class="urlextern" title="https://inthesetimes.com/article/ice-minnesota-rent-strike-twin-cities-labor-unions" href="https://inthesetimes.com/article/ice-minnesota-rent-strike-twin-cities-labor-unions" rel="ugc nofollow">anunciou</a> uma meta audaciosa: 10.000 inquilinos reteriam milhões de dólares dos proprietários a partir de 1º de março. Infelizmente, o sindicato não cumpriu sua cota de compromissos e <a class="urlextern" title="https://twincitiestenants.org/" href="https://twincitiestenants.org/" rel="ugc nofollow">votou contra</a> a greve.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160054" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-297x300.jpg" alt="" width="397" height="402" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-297x300.jpg 297w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-415x420.jpg 415w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge.jpg 593w" sizes="auto, (max-width: 397px) 100vw, 397px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uma autópsia completa da organização que precedeu a votação da greve é necessária, mas está além do escopo deste ensaio. Ainda assim, não vamos assumir que o resultado era inevitável. Um número muito menor de grevistas poderia ter sobrecarregado os tribunais de despejo, criando um para-choque para aqueles involuntariamente pegos no processo. Talvez o início do movimento teria gerado impulso suficiente para que milhares se juntassem até abril. Claro, trata-se de especulação. Mas o fato de que o governador imediatamente implorou aos organizadores que cancelassem a greve sugere um poder não alavancado no exato momento em que a disrupção econômica estava se tornando o próximo terreno de luta. Depois que o ICE foi forçado a se retirar das Cidades Gêmeas, a Casa Branca retaliou negando a Minnesota US$ 250 milhões em reembolsos do Medicaid. Inquilinos em greve teriam pressionado a classe política local por duas frentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Independentemente disso, mesmo que a greve ocorresse, os revolucionários teriam que imediatamente reconfigurar sua natureza. Os sindicatos são ligados por uma relação essencialmente reformista. São corpos mediadores, defendendo reformas específicas em nome dos trabalhadores perante o establishment. Os sindicatos não são um poder dual. Durante uma greve, os revolucionários que buscam um poder dual teriam que avançar para a tomada das propriedades diretamente para as pessoas que nelas vivem. Não haveria mais uma “exigência” à velha guarda da cidade; o próprio povo socializaria imediatamente sua habitação. Uma RRN em ascensão defenderia a habitação expropriada da polícia que tentasse restabelecer as velhas relações de propriedade. As duas organizações do poder dual se uniriam e, com base nisso, contestariam o regime. Isso parece um tanto fantástico. Mas há momentos que suspendem completamente o julgamento comum, em que tudo está em jogo. As revoluções emanam desses momentos e dependem de visões fantásticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso nos leva ao próximo limite: todo o movimento, e a RRN em particular, condenou-se ao se orientar em torno do slogan “FORA ICE!”<strong>[2]</strong>. O slogan em si não caracteriza o potencial revolucionário do movimento. “FORA ICE!” é indiferente quanto a se o ICE saiu porque foi forçado ou porque cumpriu sua missão. Como uma demanda, encolhe a imaginação. Mas para a RRN, “FORA ICE!” precipitou o fim prematuro de sua própria existência. Sob tal bandeira, não havia necessidade de vislumbrar a RRN <em>após</em> a ocupação. De fato, à medida que os agentes do DHS se retiravam das Cidades Gêmeas, a RRN se atrofiou.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160052" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge-189x300.jpg" alt="" width="289" height="460" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge-189x300.jpg 189w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge-264x420.jpg 264w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge.jpg 377w" sizes="auto, (max-width: 289px) 100vw, 289px" />A RRN sempre esteve vinculada a uma relação forma-função. Antes da Metro Surge, uma organização sem fins lucrativos de direitos dos imigrantes operava uma linha direta centralizada para denunciar grandes operações do ICE. Em dezembro, esse modelo era completamente inefetivo. As chamadas de patrulha de bairro descentralizadas substituíram a antiga linha direta para capturar ou impedir sequestros rápidos em nível de rua. Foi construída em resposta a uma supersaturação de agentes, otimizada para confirmação visual e fortemente dependente de conjuntos de dados precisos de contravigilância. Mas cada um desses pilares foi minado em meados de fevereiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob Homan, o ICE tentou ser menos visível. Os agentes trocaram equipamento tático por roupas civis e aumentaram o número de motoristas mulheres e latinos. Patinhos de borracha, adesivos de “mãe de cachorro” e frases de para-choques inócuas buscavam disfarçar veículos como amigáveis. Novos carregamentos de carros chegavam a cada semana, e agentes foram pegos instalando placas novas em áreas de preparação. Enquanto isso, carros alugados usados em semanas anteriores eram devolvidos à Enterprise. Visitantes dirigindo Nissans “confirmados ICE” eram parados por patrulheiros, levando a muitas discussões constrangedoras resolvidas por algum tipo de verificação de identidade. A ofuscação intencional do ICE coincidiu com a redução do número de agentes. Milhares de agentes deixaram o estado, e os que permaneceram eram mais difíceis de identificar. Tornava-se mais comum pegar um falso positivo do que interromper uma batida. Havia desconfiança beirando a paranoia. A RRN perdeu o bonde.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a RRN fez quando o ICE estava “fora”, mas não totalmente? Os revolucionários (o autor incluído) não forneceram direção clara. O movimento colidiu com o limite de seu slogan orientador: sem um motivo claro, os números diminuíram e a RRN se desintegrou.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, nada suplantará realmente a polícia enquanto se permanecer desarmado<strong>[3]</strong>. Para ser claro, o ponto não é que os patrulheiros <em>deveriam</em> estar armados; apenas que a RRN seria inibida de alcançar o pleno poder dual até que fosse capaz de contestar também o monopólio estatal da violência com uma capacidade de violência própria. Como em todos os conflitos assimétricos, a revolução será, em última instância, uma vitória política, não militar. No entanto, as armas são uma parte de fato de qualquer revolução, sejam elas disparadas contra o inimigo ou estabeleçam um <em>détente</em>. Nesse aspecto, os revolucionários americanos estão em uma posição única. Enquanto nossos camaradas em outros países precisam contrabandear armas através das fronteiras ou imprimi-las em 3D nas montanhas, milhões de americanos já possuem AR-15s. Aqueles que não têm podem comprar uma no Walmart.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas se a questão de adquirir armas é descomplicada, organizá-las é uma questão completamente diferente. Depois que Alex Pretti foi morto, um grupo desconhecido de defensores da Segunda Emenda anunciou uma “marcha armada” em Minneapolis. O grupo denunciou o DHS por executar Pretti sob o pretexto de que seu porte oculto legal representava uma ameaça iminente à aplicação da lei. Em 24 horas, a marcha foi cancelada devido à enorme suspeita pública. A reação pública teve pouco a ver com as armas; quase ninguém no movimento parecia se importar que Pretti estivesse armado. A controvérsia era que ninguém conhecia o grupo armado. Isso foi particularmente alarmante no contexto de uma organização hiperlocal em toda a cidade que atraiu dezenas de milhares de pessoas para um contato próximo. Quem eram aqueles caras? É possível que fossem pessoas honestas e bem-intencionadas; é possível que não fossem. Independentemente disso, quando o movimento popular não tinha nenhum vínculo estabelecido com eles, a suspeita de que fossem atores maliciosos foi tão forte que os forçou a marcha a ser cancelada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160057" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge-247x300.jpg" alt="" width="347" height="422" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge-247x300.jpg 247w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge-345x420.jpg 345w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge.jpg 493w" sizes="auto, (max-width: 347px) 100vw, 347px" />Com armas, a confiança em seu uso disciplinado e contido é essencial. Um alto grau de trabalho relacional será tão necessário quanto o conhecimento técnico. Se o movimento popular algum dia chegasse ao ponto de se armar, teria que emanar de dentro da própria RRN.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O espectro da guerra civil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se a RRN tivesse conseguido superar esses limites antes de ser eclipsada pela redução e disfarce dos agentes do ICE, poderia ter exacerbado os conflitos jurisdicionais entre as forças armadas do estado, criando uma situação ainda mais instável.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante toda a Metro Surge, o bloco liberal da classe dominante temia abertamente essa exata escalada. Em janeiro, <em>The Guardian</em> <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/commentisfree/2026/jan/21/ice-minnesota-trump" href="https://www.theguardian.com/commentisfree/2026/jan/21/ice-minnesota-trump" rel="ugc nofollow">publicou</a> a manchete: “Fizemos Simulações de Guerra Civil nos EUA de Alto Nível. Minnesota é Exatamente Como Elas Começam.” O artigo descreve o conflito armado entre forças estaduais e federais em uma grande cidade como um dos eventos precipitantes de uma guerra civil. Mesmo antes da publicação do artigo, Trump já havia ameaçado invocar a Lei da Insurreição. À medida que a resistência crescia, ele colocou 1.500 soldados ativos prontos para o inverno em alerta no Alasca. Policiais militares em Fort Bragg também foram preparados para possível ação. Tim Walz <a class="urlextern" title="https://www.theatlantic.com/politics/2026/01/tim-walz-fort-sumter-minneapolis-ice/685801/" href="https://www.theatlantic.com/politics/2026/01/tim-walz-fort-sumter-minneapolis-ice/685801/" rel="ugc nofollow">comparou</a> a situação a Fort Sumter, os primeiros tiros confederados da Guerra Civil (ele também alertou que John Brown “certamente não é para onde queremos ir”). Se Walz lamentava possíveis John Browns, Frey continha soldados da União. Apesar de um influxo de pedidos para que o prefeito mobilizasse o MPD contra as operações do ICE, ele não estava disposto a autorizar, <a class="urlextern" title="https://www.politico.com/news/2026/01/18/jacob-frey-minneapolis-intimidated-ice-00735659" href="https://www.politico.com/news/2026/01/18/jacob-frey-minneapolis-intimidated-ice-00735659" rel="ugc nofollow">afirmando</a> que “não podemos estar em um lugar onde duas entidades governamentais estão literalmente lutando entre si”.</p>
<p style="text-align: justify;">A tensão aguda nas Cidades Gêmeas se desenrolou em meio a ações altamente irregulares das forças armadas dos EUA. No início do ano, Trump <a class="urlextern" title="https://thehill.com/homenews/administration/5528730-trump-military-training-cities-crime-crackdown/" href="https://thehill.com/homenews/administration/5528730-trump-military-training-cities-crime-crackdown/" rel="ugc nofollow">disse</a> aos líderes militares para usar cidades americanas “perigosas” como “campos de treinamento”. Ao contrário do levante de 2020, quando seu então Secretário de Defesa se recusou à sugestão de Trump de “atirar nas pernas dos manifestantes”, agentes do DHS em Minneapolis assassinaram dois <em>respondedores rápidos</em> em plena luz do dia. Trump caracterizou ambos postumamente como terroristas, enquanto se vangloriava de conceder imunidade para agentes federais. O senador Mark Kelly, veterano da Marinha e membro do Comitê de Serviços Armados do Congresso, gravou um vídeo bizarro com cinco colegas lembrando oficiais militares de recusar ordens ilegais da Casa Branca. A mensagem ou sugere conhecimento de ordens ilegais ou as presume prováveis. Independentemente disso, prenuncia duas possibilidades que os revolucionários devem levar a sério: operações militares dos EUA contra seus próprios cidadãos, ou as forças armadas se recusando a obedecer a ordens presidenciais.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a guerra civil está nas manchetes das principais publicações, na boca de uma classe dominante combativa e na mente de milhões de pessoas, os revolucionários não devem recuar da ideia nem descartá-la como hipérbole. Precisamos engajar o debate diretamente e reformulá-lo a partir da perspectiva de um caminho popular viável. A guerra civil assusta as pessoas. Para muitos, evoca imagens de violência fratricida, morte em massa sem sentido e devastação total. Parte de nossa tarefa é transformar a ansiedade sobre uma guerra civil em convicção por uma revolução. Fazer isso é parte fundamental das nossas obrigações. Em vez de nos situarmos contra um conflito que pode ocorrer de qualquer maneira, temos que organizar um polo dentro dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Walz e Trump, obviamente, negociaram para chegar a um patamar inferior a esse cenário específico. As forças populares também não estavam organizadas o suficiente para levar essa situação a um desfecho. Ainda assim, embora tenham conseguido evitar o pior que imaginavam, tensões significativas entre a classe dominante persistem. Os revolucionários precisam rastreá-las estrategicamente e agir.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160055" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge-209x300.jpg" alt="" width="309" height="444" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge-209x300.jpg 209w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge-293x420.jpg 293w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge.jpg 418w" sizes="auto, (max-width: 309px) 100vw, 309px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A próxima eleição</strong></p>
<p style="text-align: justify;">É significativo que a classe dominante narre sua desunião por meio da guerra civil, não apenas pelo conflito dramático que evoca, mas por sua ressonância histórica com o presente. As eleições são a principal maneira pela qual a classe dominante americana compartilha seu turno de governo. Em dois séculos e meio, a única vez que a democracia burguesa americana falhou em mediar o conflito de elites foi a Guerra Civil, na qual abolicionistas e africanos escravizados em greve transformaram com sucesso uma guerra pela União em uma revolução social pela emancipação. Pela primeira vez desde então, as eleições podem não ser mais uma força estabilizadora suficiente para a coalizão governante. A janela para a revolução está se abrindo novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Trump nunca concedeu a eleição de 2020. Nos últimos dias de seu primeiro mandato, ele tentou desesperadamente manter o poder, convencendo milhões de pessoas a duvidar da integridade das eleições dos EUA. Ele entrou com mais de sessenta processos judiciais, organizou eleitores falsos e instruiu aliados a forjar contagens de votos. Como esforço de última hora, 2.000 apoiadores de Trump invadiram o Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021 para impedir a certificação. Apesar dessas tentativas sem precedentes de manter o poder, Trump falhou.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma teoria da conspiração fundamental dos negacionistas das eleições de 2020 é de que pessoas votaram ilegalmente. Por exemplo, Trump <a class="urlextern" title="https://kstp.com/kstp-news/top-news/no-truth-to-claims-trump-won-minnesota-3-times-or-even-once/" href="https://kstp.com/kstp-news/top-news/no-truth-to-claims-trump-won-minnesota-3-times-or-even-once/" rel="ugc nofollow">afirma</a> falsamente ter vencido em Minnesota em todas as suas três eleições, “se você contar os votos legais”. Cinco anos após o motim do Capitólio, ele enviou 2.000 agentes do ICE para as Cidades Gêmeas, tornando-a a maior operação de repressão à imigração já realizada. No mesmo dia em que Alex Pretti foi assassinado, a Procuradora-Geral Pam Bondi extorquiu Tim Walz, afirmando que o acesso ao cadastro eleitoral do estado seria uma pré-condição para a retirada dos agentes federais. Ao fazer isso, ela vinculou a suposta fraude somali (o pretexto para a Operação Metro Surge) às dúvidas sobre a integridade das eleições em Minnesota.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, Trump exigiu que 48 estados apresentassem seus cadastros eleitorais para “depuração” federal, na qual a administração eliminará eleitores que considerar inelegíveis. O governo federal <a class="urlextern" title="https://www.brennancenter.org/our-work/research-reports/tracker-justice-department-requests-voter-information" href="https://www.brennancenter.org/our-work/research-reports/tracker-justice-department-requests-voter-information" rel="ugc nofollow">jamais</a> fez isso antes. Algumas dezenas de estados se recusaram e estão sendo processados pelo Departamento de Justiça. Em agosto, Trump postou no Truth Social que “Os estados são meramente um &#8216;agente&#8217; do Governo Federal na contagem e tabulação dos votos. Eles devem fazer o que o Governo Federal, representado pelo Presidente dos Estados Unidos, lhes diz, PARA O BEM DO NOSSO PAÍS, para fazer.” Em fevereiro, o assessor de Trump, Steve Bannon, sugeriu que o ICE guardasse locais de votação para as eleições de meio de mandato de 2026. Em seguida, Trump assinou uma ordem executiva estabelecendo uma lista federal de eleitores elegíveis, a ser mantida pelo DHS.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160053" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge-216x300.jpg" alt="" width="316" height="440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge-216x300.jpg 216w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge-302x420.jpg 302w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge.jpg 431w" sizes="auto, (max-width: 316px) 100vw, 316px" />Essa manipulação eleitoral descarada, da qual o DHS é um executor, distingue a próxima eleição das de 2016, 2020 e 2024. Trump está desmantelando os guardrails que mal o impediram de reverter sua derrota eleitoral anterior. Pessoal do DOJ, FBI e DHS que investigaram Trump, processaram os invasores de 6 de janeiro ou confirmaram os resultados das eleições de 2020 foram substituídos. Todos as três dezenas de especialistas eleitorais da Agência de Segurança Cibernética e Infraestrutura foram demitidos. O novo Diretor de Segurança Eleitoral tentou ajudar Trump a reverter os resultados de 2020. O FBI desmantelou sua Equipe de Corrupção Pública e invadiu o escritório eleitoral do Condado de Fulton, GA, em busca de evidências de fraude eleitoral. Trump perdoou os réus de 6 de janeiro e agora está tentando criar um fundo federal para compensá-los. Ao contrário de 2020, ele está mais preparado para manter o poder se for derrotado. Ao contrário de 2016 e 2024, a eleição está perdendo qualquer aspecto remanescente de “livre e justa”. Especialmente se Trump buscasse um terceiro mandato — algo sobre o qual ele tem especulado repetidamente —, isso estaria totalmente fora dos limites da ordem e, portanto, seria um ultraje para a elite. No entanto, o establishment Democrata não tem plano; tem apenas uma fidelidade fútil às normas moribundas do liberalismo através das quais originalmente chegou ao poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Se as eleições não são mais um vetor para equilibrar o conflito de elites, podemos imaginar um cenário em que a agitação popular em torno das eleições possa evoluir para uma situação revolucionária? Devemos ser capazes disso. A recente decisão da Suprema Corte que esvaziou a Lei dos Direitos de Voto foi usada para erradicar distritos de maioria negra em todo o Sul. Milhões de eleitores negros do Sul — alguns dos quais ainda carregam as cicatrizes deixadas pelos pastores-alemães durante o Movimento pelos Direitos Civis — estão indignados. Foram as suas campanhas armadas de registro de eleitores e a sua mobilização em massa que deram origem aos grupos revolucionários das décadas de 1960 e 1970, nos quais muitos de nós buscamos inspiração. De fato, daquele período até a Guerra Civil — e remontando à primeira Revolução Americana —, o <em>sufrágio</em> é um fio condutor da tradição revolucionária americana.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora a luta anti-ICE tenha sido o movimento mais combativo do segundo mandato de Trump, os protestos “No Kings” têm sido os maiores. Cada marcha sucessiva atraiu milhões de pessoas a mais que a anterior, culminando em 8 milhões de americanos em mais de 2.000 cidades. Os revolucionários precisarão unir essas duas lutas e organizar-se dentro do “No Kings” para transformar seu horizonte de integridade eleitoral em uma força inteiramente nova pelo comunismo. Podemos até nos inspirar no movimento original “No Kings” de 250 anos atrás, que afirmou corretamente que quando um governo se torna destrutivo para seu povo, é nosso dever aboli-lo e organizar um novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Como um polo revolucionário na ordem liberal em desintegração, devemos oferecer ao movimento de massa mais do que um repertório tático combativo. A rebelião certamente será necessária, e devemos incentivá-la e participar. Mas, sem uma organização revolucionária pronta para inaugurar algo novo, os “motins eleitorais” serão apenas a face mais extrema do protesto, uma maneira mais militante de “fazer nossas vozes serem ouvidas”. Em vez disso, um poder dual, com a participação ativa de centenas de milhares, idealmente milhões, de pessoas deve estar pronto para assumir o controle onde as facções de elite em guerra falharem.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido de: </em><a class="urlextern" title="https://illwill.com/dual-power#fn1" href="https://illwill.com/dual-power#fn1" rel="ugc nofollow">https://illwill.com/dual-power#fn1</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Como a rede de resposta rápida não era uma organização, mas uma forma memética, seu caráter político mudava entre os bairros. É verdade que em algumas áreas &#8211; especialmente nos subúrbios &#8211; os despachantes davam instruções, geralmente para deixar de lado ou permanecer observando. Dessa forma, é essencial que os militantes sejam os que compõem funções como a de despachante, que são altamente influentes no caráter das interações com os agentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Apesar de suas limitações, o slogan foi, afinal, aquele sob o qual mais de 100.000 habitantes de Minnesota organizaram sua conspiração. Se esse slogan em particular era necessário para uma mobilização tão ampla, então talvez o que fosse necessário fosse a organização autoconsciente dos revolucionários para antecipar o limite do slogan e estar prontos para superá-lo com um novo princípio organizador, muito parecido com o que é sugerido em relação à greve de aluguéis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> É claro, alguns <em>respondedores rápidos</em> estavam armados. Alex Pretti é um exemplo. Mas a questão da defesa armada revolucionária vai além de uma questão de propensão individual a portar armas e requer seu uso organizado.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160067 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kazimir-malevich.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kazimir-malevich.jpgPortrait-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kazimir-malevich.jpgPortrait-355x350.jpg 355w" sizes="auto, (max-width: 70px) 100vw, 70px" /> As imagens que ilustram esse artigo são reproduções de obras de</em> Kasimir Malevitch (1879-1935).</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<h3><span class="info-icon-circle-wrapper">  </span></h3>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Nota em solidariedade ao Autistici/Inventati</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Sep 2026 18:57:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
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					<description><![CDATA[Neste momento em que vivemos, a consolidação de infraestruturas autônomas, federadas, decentralizadas e resilientes é vital para que possamos lutar e resistir às opressões sistêmicas e cada vez mais explícitas da extrema direita.  Por CryptoRave]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por CryptoRave</h3>
<p style="text-align: justify;">No dia 26 de agosto de 2026 o Escritório de Controle de Ativos Financeiros <strong>[0]</strong> do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos da América sancionou o coletivo italiano Autistici/Inventati (A/I) designando a entidade como Terrorista Global Especialmente Designada. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A/I é uma organização que se apresenta como antifascista, antirracista, antisexista e antimilitarista, contrária ao capitalismo e ao autoritarismo. Ela provê infraestrutura gratuita, como hospedagem de sites e servidores e clientes de email, para outras pessoas e organizações que, de algum modo, compactuem com estes princípios.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas sanções não se tratam de uma atitude isolada ou reativa, mas sim de um aspecto de um plano maior de poder e dominação por parte do governo estadunidense e da extrema direita, de uma forma geral.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo governo de Donald Trump é a consolidação e materialização de uma extrema direita contemporânea que age de forma descarada, sem se preocupar em esconder seus objetivos e opiniões mais perversas. Sendo abertamente racista, misógina, transfóbica, financiando e executando genocídios, políticas anti-imigratórias, apoiando regimes e interferindo em processos eleitorais.</p>
<p style="text-align: justify;">A tipificação de movimentos autônomos como terroristas na tentativa de criminalizá-los não é algo novo, nem exclusivo da extrema direita. Mas se tratando de uma potência econômica como os Estados Unidos, essa postura, em conjunto com sanções políticas e econômicas, tem um grande potencial destrutivo. Dado o poderio econômico da potência estadunidense, tais sanções podem acarretar um efetivo estrangulamento econômico dos movimentos autônomos, ao passo que diferentes instituições que mantém relações com estas organizações podem se utilizar dessas penalizações como pretexto para cortá-las.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 28 de agosto, o domínio autistici.org deixou de estar acessível por meio de resolução pelo Domain Name System (DNS). Logo em seguida, no dia 04 de setembro, a instituição bancária italiana “Banca Etica” encerrou a conta bancária do coletivo e reteve seus fundos. Em 06 de setembro, Autistici/Inventati declarou estar encerrando suas atividades. :(</p>
<p style="text-align: justify;">Esta saga opressora baseada em uma correlação de forças totalmente assimétrica foi documentada pelo coletivo. <strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A CryptoRave repudia estas ações do governo estadunidense, assim como qualquer tentativa de criminalização de movimentos e organizações autônomas, antifascistas, antirracistas, anti sexistas, antimilitaristas ou anticapitalistas simplesmente por conta de seus posicionamentos políticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste momento em que vivemos, a consolidação de infraestruturas autônomas, federadas, decentralizadas e resilientes é vital para que possamos lutar e resistir às opressões sistêmicas e cada vez mais explícitas da extrema direita. Nesse sentido, nos solidarizamos com Autistici/Inventati, que está nesta luta há mais de 25 anos, assim como com todas as pessoas que lutam abaixo e à esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">O Departamento de Estado estadunidense já declarou abertamente seus planos de consolidar uma esfera de influência da extrema direita na América Latina, por meio de interferência direta e coação econômica e militar aos países latinos e suas soberanias. E este plano já está em curso, com a ascensão da extrema direita ao poder na maioria destes países.</p>
<p style="text-align: justify;">Organizações autônomas e solidárias são as que proporcionam o tipo de resistência que a extrema direita quer enfraquecer e eliminar, e não podemos deixar que isso aconteça.</p>
<p style="text-align: justify;">Fazemos das palavras de Autistici/Inventati as nossas: “Se queremos resistir a este tecno-facismo, precisamos de um amplo esforço de solidariedade internacional para construir estruturas que protejam espaços e infraestruturas autônomas que sejam livres de qualquer intento autoritário”. <strong>[3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em 2019, tivemos o prazer de receber uma integrante da A/I para que pudesse compartilhar suas experiências com o público da CryptoRave. E esperamos poder fazê-lo novamente, assim que possível. Precisamos nos unir e nos organizar para lutar contra a tirania dos poderosos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em solidariedade,<br />
CryptoRave</p>
<p style="text-align: justify;">São Paulo, setembro de 2026</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[0] </strong>Tradução livre de Office of Foreign Assets Control (OFAC)<br />
<strong>[1] </strong>Tradução livre de Specially Designated Global Terrorist (SDGT)<br />
<strong>[2] </strong>https://web.archive.org/web/20260913130043/https://keepitfree.ai/<br />
<strong>[3]</strong> https://web.archive.org/web/20260913130541/https://keepitfree.ai/announcements/go-forth-and-multiply-may-10-100-1000-servers-spark-up/</p>
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		<title>Proteção aos animais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2026 22:03:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Um Tribunal em Israel suspendeu a construção de fossos destinados a abrigar crocodilos ao redor de prisões onde estão encerrados prisioneiros palestinos. O juiz responsável pelo caso afirmou que “as alegações relativas aos danos previsíveis para os crocodilos justificam uma investigação e a emissão de uma ordem que proíba a sua transferência”. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um Tribunal em Israel suspendeu a construção de fossos destinados a abrigar crocodilos ao redor de prisões onde estão encerrados prisioneiros palestinos. O juiz responsável pelo caso afirmou que “as alegações relativas aos danos previsíveis para os crocodilos justificam uma investigação e a emissão de uma ordem que proíba a sua transferência”. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Carlos Liscano e a tortura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jul 2026 12:09:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Uruguai]]></category>
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					<description><![CDATA[O terror é “indizível”. Mas, de qualquer forma, é preciso dizer o que for possível. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Carlos Liscano (1949 – 2023) foi um escritor uruguaio que escreveu poemas, ensaios, contos, traduções, manuais de espanhol, matérias jornalísticas, peças de teatro e romances. Integrou o Movimento de Libertação Nacional &#8211; Tupamaros (MLN-T). Ficou encarcerado por treze anos (1972 &#8211; 1985). No cárcere da ditadura civil-militar uruguaia, se definiu como escritor e iniciou sua produção literária. Quando foi solto, para se sustentar como escritor, Liscano trabalhou como faxineiro e professor, entre outras ocupações. Mais que isso, aprofundou a separação entre o escritor (Carlos Liscano que escreve) e o outro (Carlos Liscano que sustenta o escritor). Daí o título de um dos seus livros: <em>El escritor y el otro </em><strong>[1]. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Foi publicada no Brasil uma coletânea <strong>[2]</strong> que reúne ensaios, em português e espanhol, sobre <em>El escritor y el otro</em>, mas o texto original não está disponível em português. Por considerar que pode interessar aos leitores do Passa Palavra devido à força e ao humanismo da reflexão, digitei trechos do texto em espanhol, traduzi o material utilizando o Google, revisei e ajustei a tradução cotejando-a com o original e com sentido do livro <em>El escritor y el otro</em>. No <a href="https://passapalavra.info/2026/06/159317/">mês passado</a>, publiquei trechos de Liscano relacionados à escrita.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o próximo mês, preparei um ensaio que discute as ideias de Carlos Liscano (<em>Uno y el otro</em>) e Ernesto Sabato (<em>O escritor e seus fantasmas</em> <strong>[3]</strong>) sobre a escrita. Como registrei anteriormente, foi a semelhança entre os títulos que me chamou a atenção, inicialmente. Depois, fui percebendo diferenças entre ambos e resolvi escrever.</p>
<p style="text-align: justify;">Para este mês, compartilho trechos de Liscano sobre a tortura praticada pela ditadura civil-militar uruguaia. O próprio escritor registrou que uma parte da tortura é “indizível”, porque o terror é “indizível”. Mas, de qualquer forma, é preciso dizer o que for possível. Abaixo, em itálico, algumas palavras de Carlos Liscano sobre a tortura. A numeração é a mesma presente no livro <em>El escritor y el otro</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>18</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vivi à margem da sociedade por muito tempo. Passei dois anos na Academia Militar e quatro anos na Força Aérea, o que é uma forma de viver à margem. Quando me deram baixa, após três meses na prisão, entrei para o ativismo clandestino por dois anos. Depois, treze anos na cadeia. Em seguida, dez anos e meio na Suécia. No total, vivi quase trinta anos à margem da sociedade uruguaia. Tenho amigos dentro e fora do Uruguai, mas não tenho nenhum amigo da adolescência, nenhum colega de classe. Por muitos anos, fui um viajante sedentário. Minha mente viajava, mas eu estava sempre preso ao mesmo lugar. Acho que isso me acostumou a viver mais no pensamento do que na realidade. Tenho uma grande capacidade de ficar sozinho. Não apenas sozinho: em solidão, sem ouvir música, sem atender o telefone, sem sequer existir. Não é o que busquei: é o que sou. Na solidão, no silêncio e na quietude: sou.</em><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>19 </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A sensação de ser estrangeiro é sempre a mesma. Foi o que senti naquela noite de 14 de março de 1985, viajando por Montevidéu na van que levava homens para casa depois de saírem da prisão. Naquela época, eu não tinha casa, nem emprego, nem profissão, nem família.</em><em> </em><em>Eu ia escrever: “naquela época eu não tinha cara”, em vez de “não tinha casa”, minha mão me corrigiu a tempo. Mas seria uma boa definição daquele período. De tanto não ter nada, de tanto que me faltava: naquela noite eu não tinha nem cara.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>38</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Muito se escreveu sobre a repressão no Uruguai durante a última ditadura. Muito se escreveu e muito foi publicado. Parecia não haver nada “indizível” sobre o que ocorreu. Essa é a imagem que se tem. Eu também escrevi sobre o que passou. No entanto, o que se diz é o que está na superfície. Toda a violência, o medo, o terror, as humilhações, nunca serão ditos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>É difícil falar da tortura porque ela é uma intimidade. É como a própria vida sexual, não há motivo para contá-la a não ser na intimidade ou na terapia. Fora desses momentos, é apenas obscenidade, exibicionismo, talvez doença. Na tortura há duas partes, dois corpos: o do torturado e o do carrasco. Esses corpos se enfrentam, se tocam, transmitem seus odores, as bocas gritam, há choro, gemido, insultos. O carrasco sente que o corpo do outro lhe pertence. E, porque lhe pertence, pode fazer o que quiser com ele. Nem sequer considera ruim que o corpo do outro lhe resista. É bom que o faça. Para isso ele está ali: para exigir a entrega. Se não há resistência, não há entrega.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A mentira do torturado é, para o torturador, o falso orgasmo do sexo comprado. Quando o torturador descobre que o outro mentiu, se indigna. O torturado não se entregou, ou seja, não resistiu de verdade, em algum ponto cortou caminho, simulou a entrega. Então, tudo recomeça de onde havia parado, mas com mais rigor. Agora, a entrega deverá ser maior do que antes. Chega um momento em que é notório, mas intransmissível, que não é a entrega que o torturador busca – a declaração, a aceitação da culpa –, mas sim o jogo que conduz a ela, o confronto dos corpos. O torturador quer a resistência. Tanto é assim que despreza o prisioneiro que não resiste. Para o torturador, a boca fechada do prisioneiro é o símbolo do corpo que não pôde conseguir, apesar de seus esforços. Quando o tempo passa, o torturador não odeia quem não se entregou a ele. Não se entregou, mas lutou. Resta-lhe essa lembrança, e ele até o respeita. Talvez também o admire.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Tudo isso, claro, é uma reconstrução da minha cabeça trinta anos depois. Sei que “O furgão dos loucos” não disse tudo o que aconteceu. Pode ser por minha imperícia, mas há uma parte que é indizível. O terror é indizível: a perspectiva de que a tortura não tem tempo, que começa e não terminará nunca, que se pode ser torturado durante dias, semanas, meses&#8230; isso é indizível. A qualquer momento, cinco, seis, oito anos depois, podiam tirar um preso da cela para torturá-lo.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Uma noite me levaram à sala de tortura. Havia outro preso a quem eu não conhecia. Nem sequer pude vê-lo naquela noite. A diversão deles consistia em fazer com que um preso conseguisse quebrar o outro. Aquilo era a obscenidade maior. Era a violação do corpo outra vez, mas agora como espetáculo. À dor misturava-se o pudor, a vergonha, o estar obrigado a mostrar ao companheiro a própria debilidade e miséria. Não considerávamos que o desamparo fosse uma desculpa. Não sentíamos que estar encapuzado, algemado pelas costas, poderia mitigar a vergonha.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Passaram-se trinta anos daquela noite miserável. Há poucos dias estive na casa daquele companheiro, conheci sua mulher, seus netos. Compartilhou comigo sua mesa e em sua casa fiquei para dormir. Nestes anos, tínhamos falado duas vezes, rapidamente. Ninguém tocou no assunto, mas sei que aquela noite de 1972 esteve presente nas horas que passei na casa dele. Tivemos a sorte de transformar a antiga violação em irmandade. Porque aquela noite a tortura, pela primeira vez, não tinha sido solitária. Eu tinha sentido seu corpo arrebentado junto ao meu. Ele ouviu meus gritos. Não recordo detalhes, mas nós dois sabemos que não conseguiram nos fazer quebrar, não aconteceu o espetáculo que eles esperavam. Não sei como foi para ele, mas para mim foi a sua presença, a vergonha, o que me ajudou a não me entregar.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Carlos Liscano. <em>El escritor y el otro.</em> Montevideo: Editorial Planeta, 2016.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Liliana Reales e Roberto Ferro (organizadores). <em>Carlos Liscano: ficções do eu e ficções do outro</em>. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2013.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ernesto Sabato. <em>O escritor e seus fantasmas.</em> Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.</p>
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		<title>A greve da USP e o anjo da história</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159393/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Jun 2026 13:39:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve deixou claro, para quem ainda tinha dúvidas, que o acesso ao mundo da elite não apenas não seria fácil, mas principalmente não seria possível nem politicamente desejável.  Por Isadora de Andrade Guerreiro ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<div class="preview" style="text-align: justify;">
<div class="pad">
<div class="level2">
<p>A USP passou neste primeiro semestre por uma de suas mais longas greves estudantis dos últimos anos, com 54 dias parados. Haveria muito o que dizer sobre ela, mas vou me deter apenas sobre um aspecto que creio relevante neste meu lugar de colunista de Cidades do Passa Palavra: a alteração na forma de uso das forças de repressão pelo Estado de São Paulo e suas consequências nas lutas, seja na organização popular, seja na estudantil. Tenho comentado sobre o assunto particularmente no que tange às favelas, mas veremos a seguir que os métodos de abordagem em territórios distintos parecem estar se aproximando.</p>
<p>Em especial, a forma de remoção da Favela do Moinho foi amplamente comentada por mim (<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" href="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" href="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/05/159159/" href="https://passapalavra.info/2026/05/159159/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>), mostrando ali uma articulação empresarial-militar específica, na qual a repressão é conformada em incursões armadas que espalham terror tanto indiscriminadamente, quanto de maneira direcionada quando se quer desbaratar núcleos dirigentes. O dispositivo é a criminalização generalizada, buscando relacionar narrativamente a organização popular ao tráfico de drogas, colocando o território, sua população e sua rede de apoio como parte do “ecossistema do crime”. O braço armado do Estado usado na forma de milícia aqui é relevante, bem como sua ampla aceitação pela sociedade, que dorme tranquila sabendo que a ordem do “cidadão de bem” está acima de qualquer direito humano.</p>
<p>Bem, eu já dizia ali que o sono não deveria ser tão tranquilo, já que o dispositivo de generalização indiscriminada do terror estava apenas em fase laboratorial, claro, no seu território preferencial, as favelas que atrapalham os circuitos de valorização. Como dispositivo político, no entanto, o pesadelo não tarda a chegar em territórios menos evidentes, como a Universidade de São Paulo. Na noite de 10 de maio, a mesma <a class="urlextern" title="https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/em-acao-violenta-pM-invade-campus-da-uSP-para-acabar-com-ocupacao-da-reitoria1" href="https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/em-acao-violenta-pM-invade-campus-da-uSP-para-acabar-com-ocupacao-da-reitoria1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">polícia militar paulista invadiu violentamente o prédio da Reitoria</a> ocupado por estudantes em greve, que reivindicavam melhorias de <em>permanência</em>. As cenas de terror são estarrecedoras. Qualquer semelhança com a Favela do Moinho &#8211; cujos moradores reivindicavam melhorias urbanas e habitacionais para morar e trabalhar, ou seja, <em>permanecer</em> numa área privilegiada de São Paulo &#8211; não é mera coincidência.</p>
<p>Foi invasão pois, agindo como milícia, a polícia não realizou uma ação de reintegração de posse, autorizada por um juiz a partir de um mandado judicial requerido pela proprietária do prédio, como pede o rito democrático. Sem mandado algum, nem extrajudicial, a ação policial não tinha nenhuma relação administrativa com a USP, que pode inclusive inicialmente dizer oficialmente que “sem comunicação prévia à Reitoria, houve a desocupação do espaço público pela Polícia Militar”. No entanto, no mesmo comunicado, a Reitoria dizia que “informou sobre a ocupação à Secretaria de Segurança Pública (SSP), no mesmo dia do ocorrido (7/5), com vistas à adoção dos protocolos de proteção e de preservação da ordem de competência das autoridades policiais” &#8211; ou seja, lavando ao mãos quanto ao que poderia ser feito, se retirando de qualquer responsabilidade causada por uma ação certamente violenta.</p>
<p>O que é isso senão a contratação de um serviço miliciano oficial por uma elite universitária que não quer sujar as mãos? Por que a USP não se utilizou do amparo legal para realizar essa desocupação, pedindo a reintegração de posse? Estaria com medo de ser questionada na justiça sobre os motivos da ocupação estudantil? Por que uma ação política dos estudantes é respondida com violência estatal ilegal, sem nenhuma comissão de negociação, como sempre ocorreu em outras situações como esta e que certamente seriam requeridas pela justiça em situações de mediação? São perguntas que ficaram sem resposta.</p>
<p>A USP não queria mediação, não queria colocar em questão o fato de que não sabia mais o que fazer com estudantes aos quais não concederia mais nada. Aos quais queria impor uma derrota que os colocasse “no seu lugar”, aquele de receber passivamente as benesses desenhadas para transforma-los em… cidadãos de bem.</p>
<p>A culpa passou a dominar o debate político diante do silêncio atordoante dos gestores acadêmicos, que se colocam acima de qualquer necessidade de dar resposta à comunidade ou à sociedade. Com força crescente pelo apoio de setores docentes, os estudantes passaram a ser criminalizados pela gestão universitária por suas atitudes consideradas violentas. Quem diria. O trauma está instalado e, com ele, o ódio, sentimento novo entre docentes e estudantes e que se renova cotidianamente no retorno às aulas em pequenas ou grandes retaliações mais ou menos administrativas (notas, faltas…), mais ou menos explícitas ou violentas, mas nem um pouco racionais.</p>
<p>A semelhança com a remoção da Favela do Moinho não é mera coincidência também na medida em que se tratam de situações nas quais há uma população pobre e racializada, que carrega seus modos, experiências e necessidades de vida, instalada no seio do território das elites, resultado de lutas por acesso e <em>permanência</em>. Sim, pois essa greve &#8211; nas suas pautas e estratégias de luta &#8211; é um marco da transformação do corpo discente após a política de cotas. Texto muito revelador desta questão, escrito por estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU-USP), foi publicado <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/05/159199/" href="https://passapalavra.info/2026/05/159199/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui no Passa Palavra</a>.</p>
<p>Foi uma greve de enorme choque de diversas culturas políticas, para a qual a gestão universitária literalmente não estava preparada, não entende e, claro, não parava de julgar como “erradas” dentro de seus próprios parâmetros &#8211; e limites &#8211; históricos. Ora, não existe “errado” na política. Existem experiências, necessidades de vida e interesses divergentes em jogo, que entram em conflito. Se tais elementos não entram em jogo com o mesmo formato ou linguagem esperados pelas elites, como foram até então, entra-se em território desconhecido onde a barbárie parece estar autorizada, já que os velhos instrumentos não comportam uma reivindicação que, no limite, coloca em jogo a própria existência da Universidade como é conhecida.</p>
<p>Do lado do corpo estudantil, tais contradições vieram também à tona, pois a greve deixou claro, para quem ainda tinha dúvidas, que o acesso ao mundo da elite não apenas não seria fácil, mas principalmente não seria possível nem politicamente desejável: ao entrar no seu território, este corpo discente transforma-o. Por isso, percebeu que precisa assumir a tarefa política histórica de construir a nova forma universitária, que ainda não existe. Uma forma universitária que carregue uma verdade difícil para aqueles que achavam que tinham sido aceitos no paraíso: a de que este corpo estudantil faz parte da sociedade como sem-teto, como população em insegurança alimentar, no limite da saúde mental, tal qual aqueles fora dos muros. Estudante: lute como um sem-teto! É necessário articular lutas. É tarefa muito mais árdua, mas muito mais promissora, do que a reivindicação de acesso a uma forma que não comporta a sua existência. Isso ficou explícito na derrota que foi imposta violentamente ao corpo estudantil.</p>
<p>Derrota sim, é necessário assumir isso, assim como no caso da Favela do Moinho é necessário reiterar que as soluções habitacionais conquistadas não podem jamais ser consideradas uma vitória &#8211; o que seria assumir o discurso do seu algoz. No caso do movimento estudantil da USP, assumir a derrota, negando qualquer tipo de meia-vitória propagandeada pelos gestores docentes ou discentes, é ganhar a possibilidade de construir sua própria história, carregando consigo para o futuro a história dos vencidos, como diz Walter Benjamin (Teses sobre o conceito de história), e não aquela dos vencedores. Estes últimos são a classe dominante que, imbuída da noção de progresso, marcham adiante violentamente sem olhar para trás. Os vencidos devem olhar para trás e encarar seu próprio terror, pois apenas ele construirá a sua história. Segundo Benjamin, na Tese 9:</p>
<blockquote><p>Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.</p></blockquote>
<p>Para criar uma nova Universidade, não guiada pela noção de progresso, será preciso não se identificar com o mundo dos vencedores, mas construir seus próprios caminhos entre as ruínas. Neste sentido, é necessário que mostrem o cinismo da célebre frase inscrita na Praça do Relógio do Campus da Capital da USP “No universo da cultura, o centro está em toda parte”. Que todas as partes são essas, constantemente tendo negadas as suas existências? Benjamin lembra, na Tese 7, para que nunca nos esqueçamos:</p>
<blockquote><p>(…) Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes génios que os criaram, como à corveia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.</p></blockquote>
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		<title>Nota ao Comitê Nacional da LSR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jun 2026 11:55:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O enfrentamento das opressões exige métodos coletivos, transparentes e emancipatórios, capazes de proteger as pessoas envolvidas sem reproduzir lógicas punitivistas, arbitrariedades ou mecanismos de destruição política de indivíduos. Por Militantes da Célula do Rio Grande do Sul (LSR)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Militantes da Célula do Rio Grande do Sul (LSR)</h3>
<p style="text-align: justify;">Nós, militantes da célula do Rio Grande do Sul, dirigimo-nos ao Comitê Nacional para manifestar nossa discordância em relação ao processo conduzido pela Comissão de Conduta responsável por apurar o caso envolvendo os camaradas FL e GA.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossa divergência não se limita ao mérito da decisão tomada, mas diz respeito principalmente aos métodos políticos e organizativos empregados durante todo o processo. Entendemos que a forma como a questão foi conduzida revela problemas que extrapolam um caso específico e apontam para fragilidades democráticas que precisam ser debatidas por toda a organização.</p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, cabe recordar que o Congresso deliberou a construção de uma <em>Comissão de Conduta </em>justamente em razão de experiências anteriores vividas pela organização. Tratava-se de uma tarefa estratégica, destinada a estabelecer critérios claros, transparentes e coletivamente construídos para a mediação de conflitos, apuração de denúncias e proteção dos direitos políticos e individuais dos militantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, o trabalho deliberado pelo Congresso não foi concluído nos termos aprovados. A direção assumiu a condução do processo e indicou novos responsáveis para a tarefa, alterando, na prática, uma deliberação congressual sem amplo debate com a militância. Ainda que se considerasse necessária a constituição de uma nova comissão, entendemos que sua escolha deveria ter ocorrido pelos mesmos mecanismos democráticos utilizados anteriormente, com participação ampliada da militância, e não apenas por indicação do Comitê Nacional. Tal procedimento enfraquece o princípio da soberania das instâncias coletivas e cria precedentes preocupantes para a vida interna da organização.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, observamos que o processo foi marcado por forte peso de percepções subjetivas, avaliações morais e pressões externas. <strong>Em vez de privilegiar critérios políticos claros, evidências verificáveis e garantias de contraditório</strong>, a condução da apuração parece ter sido influenciada por narrativas e interpretações que não puderam ser devidamente debatidas pelo conjunto da militância, tampouco contou com a escuta de testemunhas indicadas por ambos os lados.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica que apresentamos não significa minimizar denúncias ou desconsiderar a importância de combater qualquer forma de violência, abuso ou opressão. Pelo contrário. <strong>A tradição do feminismo marxista</strong><strong> </strong><strong>nos</strong><strong> </strong><strong>ensina</strong><strong> </strong><strong>que</strong><strong> </strong><strong>o</strong><strong> </strong><strong>enfrentamento</strong><strong> </strong><strong>das</strong><strong> </strong><strong>opressões</strong><strong> </strong><strong>exige métodos coletivos, transparentes e emancipatórios, capazes de proteger as pessoas envolvidas sem reproduzir lógicas punitivistas, arbitrariedades ou mecanismos de destruição política de indivíduos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma organização revolucionária não pode substituir a investigação séria pelo julgamento moral, nem transformar conflitos complexos em processos simplistas. O combate às opressões e às violências deve caminhar junto à defesa da democracia operária, do direito de defesa, da presunção política de boa-fé e da construção coletiva da verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Também consideramos grave que o processo tenha desconsiderado elementos relacionados às condições emocionais e à saúde mental dos envolvidos. Uma organização que se reivindica socialista deve ser capaz de combinar firmeza política com solidariedade humana, especialmente diante de situações de sofrimento psíquico e vulnerabilidade. A responsabilização política não pode significar abandono, isolamento ou negação do dever coletivo de cuidado.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma, preocupa-nos a ausência de uma reflexão crítica por parte da direção acerca de suas próprias responsabilidades na condução do caso. <strong>Ao</strong><strong> </strong><strong>concentrar</strong><strong> </strong><strong>a</strong><strong> </strong><strong>análise exclusivamente sobre indivíduos, corre-se o risco de obscurecer problemas estruturais, falhas de acompanhamento político e limitações dos mecanismos internos de mediação de conflitos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Também nos parece insuficiente a reflexão realizada pela direção sobre as consequências políticas e organizativas do processo para a célula de Goiás. Durante um período prolongado, a célula viu-se submetida a forte pressão externa, ao mesmo tempo em que ficou privada da atuação de um de seus principais dirigentes e referências políticas. Diante dessa situação excepcional, consideramos legítimo questionar quais foram os encaminhamentos concretos adotados pelo Comitê Nacional para garantir acompanhamento político, sustentação organizativa e apoio aos militantes diretamente impactados pelos acontecimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o próprio CN reconhecia estar sobrecarregado pela complexidade da situação, cabe perguntar quais mecanismos foram acionados para suprir essa limitação. Houve solicitação formal de apoio à Internacional? A Internacional foi informada das dificuldades enfrentadas pelo Conselho Nacional para responder adequadamente às demandas políticas, organizativas e humanas decorrentes do caso? Caso tenha sido informada, quais medidas de apoio foram oferecidas? Caso não tenha sido, por que tal necessidade não foi apresentada?</p>
<p style="text-align: justify;">Essas questões não têm caráter secundário. Para uma organização marxista, a responsabilidade coletiva sobre seus quadros e organismos não pode ser substituída pela simples gestão administrativa de crises. Quando uma célula enfrenta pressões extraordinárias, cabe ao conjunto da organização mobilizar recursos políticos para sustentá-la, garantindo que seus militantes não sejam deixados isolados diante de conflitos que ultrapassam sua capacidade local de enfrentamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Também entendemos que uma organização socialista não pode adotar uma postura abstrata de neutralidade diante de situações concretas. <strong>O método marxista exige uma análise materialista da realidade, capaz de compreender não apenas os fatos em si, mas também as relações de força, os interesses em disputa e as consequências objetivas produzidas por cada decisão política.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, consideramos insuficiente a reflexão apresentada pela direção acerca dos efeitos concretos que suas deliberações e comunicações públicas produzem na vida dos militantes envolvidos. Os camaradas atingidos pelo processo não eram figuras isoladas, mas quadros que, durante anos, assumiram tarefas de direção, exposição pública e defesa das posições da organização em diferentes espaços políticos e institucionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Por essa razão, uma avaliação materialista da situação deveria considerar que acusações, sanções organizativas e notas públicas não produzem efeitos apenas no interior da organização, mas também repercutem em um contexto político mais amplo. Ignorar essa dimensão significa tratar como abstrata uma realidade profundamente concreta. Uma organização revolucionária deve ser capaz de avaliar como suas decisões podem ser apropriadas, amplificadas ou instrumentalizadas por forças externas, bem como os impactos que isso produz sobre seus militantes e sobre sua própria intervenção política.</p>
<p style="text-align: justify;">Consideramos igualmente problemática a forma como a organização apresentou à militância a saída da camarada BF. Em sua comunicação oficial, a direção afirmou que não teria havido debate suficiente sobre suas posições. Entretanto, ocorreram diversas instâncias de discussão, incluindo reuniões nacionais e internacionais, além da apresentação de um documento escrito no qual a camarada expôs de forma detalhada suas divergências políticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, os motivos que fundamentaram sua decisão foram reduzidos ou apresentados de forma parcial, sendo resumidos a desacordos relacionados à questão da saúde mental, quando suas críticas abrangiam aspectos muito mais amplos da condução do processo, da ausência de respaldo aos próprios militantes da organização e da priorização de pressões externas em detrimento do debate interno, da responsabilidade coletiva e do cuidado político com seus quadros.</p>
<p style="text-align: justify;">A camarada BF relatou ter se sentido violentada politicamente e descredibilizada ao longo de todo o processo. Entendemos que apresentar publicamente os argumentos que contestam sua posição sem expor de maneira clara, completa e honesta as razões políticas por ela defendidas não constitui um tratamento respeitoso de sua trajetória militante.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O método marxista de construção política exige que as divergências sejam apresentadas em sua totalidade, permitindo que o conjunto da militância tenha acesso aos diferentes argumentos em disputa. Uma organização</strong><strong> </strong><strong>revolucionária</strong><strong> </strong><strong>deve confiar na capacidade política de sua base para analisar criticamente os debates, formular suas próprias conclusões e participar conscientemente da elaboração coletiva de sua linha política.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Também cabe ressaltar que o debate sobre feminismo marxista e seus desdobramentos organizativos não é um tema novo em nossa organização. Trata-se de uma discussão presente há pelo menos dois congressos e que envolve divergências políticas legítimas acerca da construção de uma perspectiva feminista de classe, dos métodos de combate às opressões e da forma como esses</strong><strong> </strong><strong>princípios devem orientar a vida interna da organização.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Em um desses congressos, justamente os militantes</strong><strong> </strong><strong>e</strong><strong> </strong><strong>dirigentes</strong><strong> </strong><strong>que</strong><strong> </strong><strong>posteriormente seriam os mais atingidos pelos acontecimentos recentes apresentaram</strong><strong> </strong><strong>propostas</strong><strong> </strong><strong>de acréscimo ao documento que orientava o debate sobre feminismo marxista. Na ocasião, fomos orientados pela direção nacional a retirar essas contribuições, sob a avaliação de que não seria o momento adequado para incorporá-las ao texto.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>No congresso seguinte, emergiu uma discussão acerca das contradições presentes em qualquer processo político que envolva conflitos, denúncias e disputas de interpretação</strong><strong> </strong><strong>da</strong><strong> </strong><strong>realidade.</strong><strong> </strong><strong>Entre</strong><strong> </strong><strong>os</strong><strong> </strong><strong>temas</strong><strong> </strong><strong>levantados</strong><strong> </strong><strong>estava</strong><strong> </strong><strong>a</strong><strong> </strong><strong>necessidade</strong><strong> </strong><strong>de</strong><strong> </strong><strong>refletir sobre a possibilidade de instrumentalização de pautas legítimas em conflitos</strong><strong> </strong><strong>políticos concretos. Embora reconheçamos que o debate ocorreu já ao final dos trabalhos congressuais, a orientação da direção foi no sentido de não aprofundar aquela discussão naquele momento.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Retomamos esse episódio não para questionar as circunstâncias em que tal</strong><strong> </strong><strong>decisão foi tomada, mas porque a experiência acumulada posteriormente demonstra que se tratava de um debate necessário. Os acontecimentos recentes evidenciam que a organização carece de uma elaboração mais aprofundada sobre a relação entre combate às opressões, democracia interna, garantias políticas e métodos de apuração de conflitos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Do ponto de vista do feminismo marxista, essa reflexão é indispensável. A tradição marxista sempre rejeitou qualquer concepção idealizada dos sujeitos sociais. O materialismo histórico parte do entendimento de que todas</strong><strong> </strong><strong>as</strong><strong> </strong><strong>relações</strong><strong> </strong><strong>humanas</strong><strong> </strong><strong>são atravessadas por contradições, interesses, pressões sociais e determinações históricas concretas. A luta contra a opressão das mulheres não exige a suspensão da análise crítica da realidade, mas justamente o seu aprofundamento.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Por essa</strong><strong> </strong><strong>razão,</strong><strong> </strong><strong>o</strong><strong> </strong><strong>feminismo</strong><strong> </strong><strong>marxista</strong><strong> </strong><strong>busca</strong><strong> </strong><strong>combater</strong><strong> </strong><strong>simultaneamente</strong><strong> </strong><strong>dois</strong><strong> </strong><strong>desvios: de um lado, a minimização ou negação das opressões efetivamente existentes; de outro, a substituição da análise concreta dos fatos por pressupostos abstratos</strong><strong> </strong><strong>acerca dos sujeitos envolvidos. A defesa intransigente das mulheres e das pessoas oprimidas não pode significar a renúncia aos métodos de investigação, ao contraditório, à avaliação das evidências e à compreensão das múltiplas determinações presentes em cada situação concreta.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Em nossa avaliação, a experiência recente</strong><strong> </strong><strong>demonstra</strong><strong> </strong><strong>a</strong><strong> </strong><strong>necessidade</strong><strong> </strong><strong>de</strong><strong> </strong><strong>retomar</strong><strong> </strong><strong>esse debate de forma mais</strong><strong> </strong><strong>profunda</strong><strong> </strong><strong>e</strong><strong> </strong><strong>sistemática.</strong><strong> </strong><strong>Não</strong><strong> </strong><strong>porque</strong><strong> </strong><strong>as</strong><strong> </strong><strong>opressões</strong><strong> </strong><strong>sejam</strong><strong> </strong><strong>menos reais ou menos importantes, mas justamente porque o enfrentamento consequente das opressões exige métodos políticos sólidos, democráticos e compatíveis com a tradição marxista de análise concreta da realidade concreta.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, consideramos importante registrar que o debate realizado em nossa célula ocorreu por iniciativa e insistência dos próprios militantes que a compõem, e não como resultado de uma orientação política da organização voltada a promover um amplo processo de discussão e elaboração coletiva sobre os acontecimentos. Entendemos que tal fato reforça nossa preocupação com os limites democráticos observados ao longo de todo o processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante do conjunto desses acontecimentos, chegamos à conclusão de que a confiança política necessária para a continuidade de nossa construção militante encontra-se profundamente abalada. Uma organização revolucionária sustenta-se não apenas pela concordância programática, mas também pela confiança em seus métodos, em sua capacidade de ouvir posições divergentes e em sua disposição para realizar avaliações críticas de seus próprios erros.</p>
<p style="text-align: justify;">Em não encontrando ressonância junto a essa Direção Nacional, estamos nos afastando do quadro militante da LSR.</p>
<p style="text-align: justify;">Não descartamos a possibilidade de, no futuro, voltarmos a construir conjuntamente este projeto político. Contudo, entendemos que isso dependeria de uma reflexão crítica séria por parte da organização acerca dos problemas aqui apontados. No momento presente, não enxergamos condições concretas para a disputa de nosso posicionamento político no interior da organização. A experiência recente demonstra que, mesmo tendo ocupado responsabilidades nacionais e apresentado suas críticas em diversas instâncias formais de debate, a camarada BF não encontrou espaço efetivo para que suas posições fossem consideradas e respondidas politicamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, reafirmamos nossa solidariedade aos camaradas atingidos pelo processo e nosso compromisso com a construção de uma organização socialista fundada na democracia interna, na transparência, na responsabilidade coletiva e na confiança política entre seus militantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Atenciosamente CD, JB e MB.</p>
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		<title>Entretanto, em África&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Jun 2026 12:59:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[ «O parlamento do Gana aprovou um projeto de lei que torna ilegal declarar-se LGBT+ ou ter relações homossexuais. Também criminaliza ser “aliado” e torna obrigatória a denúncia de violações da lei. Um projeto de lei semelhante fora já aprovado em 2024, mas o então presidente, Nana Akufo-Addo, não o promulgou. O atual presidente, John Mahama, anunciara previamente que poderia decretar essa lei». (The Economist, The World in Brief, 30 de Maio de 2026) Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">«O parlamento do Gana aprovou um projeto de lei que torna ilegal declarar-se LGBT+ ou ter relações homossexuais. Também criminaliza ser “aliado” e torna obrigatória a denúncia de violações da lei. Um projeto de lei semelhante fora já aprovado em 2024, mas o então presidente, Nana Akufo-Addo, não o promulgou. O atual presidente, John Mahama, anunciara previamente que poderia decretar essa lei». (<em>The Economist</em>, The World in Brief, 30 de Maio de 2026) <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Ferramentas de controle parental (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 May 2026 16:30:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Marcelo Tavares de Santana Continuando nosso desafio de controle parental em dispositivos digitais, neste artigo trataremos desse tipo de recurso em ambientes Linux, portanto, um sistema operacional para computadores de mesa, portáteis e afins. O ecossistema Linux é muito diverso em distribuições, como Ubuntu e Fedora, e também em ambientes gráficos de trabalho, como [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Marcelo Tavares de Santana</h3>
<p style="text-align: justify;">Continuando nosso desafio de controle parental em dispositivos digitais, neste artigo trataremos desse tipo de recurso em ambientes Linux, portanto, um sistema operacional para computadores de mesa, portáteis e afins. O ecossistema Linux é muito diverso em distribuições, como Ubuntu e Fedora, e também em ambientes gráficos de trabalho, como GNOME, KDE, XFCE, etc. Apesar da grande diversidade, há esforços em padronizar funcionalidades desses ambientes para facilitar, inclusive, compatibilidade entre eles e a usabilidade pelo usuário. No entanto, não foi encontrado um padrão comum de controle parental no universo Linux que funcionasse em qualquer ambiente e distribuição, mas há uma solução simples para isso que é instalar o ambiente gráfico com o controle parental que mais gostar. Na prática, significa que nossos filhos podem usar um ambiente gráfico diferente do nosso, por exemplo, podemos usar o ambiente KDE e para eles usamos o GNOME, pois a grande maioria das distribuições Linux permitem a instalação de mais de um ambiente gráfico. Portanto, se você uma Linux Mint com o ambiente Cinnamon, pode instalar outro ambiente para seu filho para o usuário dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse primeiro momento de controle parental no Linux, usaremos o ambiente GNOME e suas ferramentas como proposta, pois, apesar de ter não recursos comparáveis ao de soluções mais maduras (que recebem mais investimentos), é de simples instalação e utilização. Dessa forma, o uso de computador com Linux precisará também de diálogo e acordos de uso entre crianças e tutores, da mesma forma que precisa ser com qualquer dispositivo. Alguns podem pensar que seria melhor manter as crianças só usando<em> tablet</em> ou<em> smartphone</em>, mas conheço um caso de criança que foi alfabetizada com o Linux, usando jogos específicos para isso, e também há programas educacionais nas áreas de matemática, geografia, química e outros, que podem ser mais interessantes que os encontrados nesses equipamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de tudo, seja qual for a distribuição Linux que alguém usa, será preciso estar numa versão atualizada e deverá procurar como instalar o ambiente GNOME Shell com o Controle Parental no teu computador. Em seguida, deverá criar um usuário padrão para a criança, portanto sem permissões de administração. Por exemplo, se for no Debian, via terminal como usuário <em>root</em>, o comando abaixo instala os aplicativos necessários:</p>
<p style="text-align: justify;"># apt install gnome-session gnome-software malcontent-gui</p>
<p style="text-align: justify;">O &#8216;gnome-session&#8217; é para instalar o ambiente gráfico de trabalho, o &#8216;gnome-software&#8217; é um instalador de aplicativos para o GNOME, e o &#8216;malcontent-gui&#8217; é a ferramenta de controle parental. O instalador também é chamado de “Programas”: nele pesquisamos por aplicativos instalados, novos aplicativos e também encontramos classificação indicativa de idade em vários programas; nem todo instalador de aplicativos possui essa classificação. Uma vez com tudo instalado, deve-se procurar a configuração chamada “Controle parental” no GNOME e selecionar as opções desejadas. Note que será necessário colocar a senha de um usuário administrador para desbloquear as configurações para o controle. A figura a seguir mostra, à esquerda, a tela de “Controle parental” para um usuário chamado &#8216;Criança&#8217;; se houver mais usuários não-administradores, esses também aparecerão nessa tela. Para criar usuários no GNOME, poderá ir na aplicativo “Configurações”, escolha “Sistema” e depois “Usuários”. À direita na figura é mostrada a tela de restrição de aplicativos, que é trabalhosa, pois é preciso escolher todos que deseja bloquear, normalmente a maioria, e deixar desabilitado somente os que forem permitidos; no exemplo, somente o jogo 2048 está permitido e, assim, no menu de aplicativos do ambiente da criança, só vai existir essa opção. Um jeito rápido de habilitar tudo é usar as teclas &#8216;Tab&#8217; e barra de espaço alternadamente para restringir tudo e depois tirar a restrição somente dos aplicativos permitidos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159251" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1.png" alt="" width="724" height="555" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1.png 724w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-300x230.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-548x420.png 548w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-640x491.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-681x522.png 681w" sizes="auto, (max-width: 724px) 100vw, 724px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse momento, o melhor é restringir o uso de navegadores, pois permiti-los dá acesso a todos os conteúdos imagináveis na Web; assunto cujo controle parental será tratado num próximo artigo. Mais abaixo há as opções de restrição de instalação de programas, onde parece ser mais interessante deixar sempre restrito, pois assim qualquer programa novo a ser instalado precisará que um adulto participe dessa instalação. É importante sempre lembrar que, a cada novo aplicativo instalado, será necessário voltar nessa configuração e selecionar se ele será restrito ou não. Na primeira vez que a criança for usar seu usuário no computador, provavelmente um adulto deverá escolher para ela usar o ambiente GNOME, para que as restrições funcionem; o &#8216;malcontent&#8217; funciona parcialmente em outros ambientes gráficos, mas o melhor é usar o GNOME.</p>
<p style="text-align: justify;">No momento, o que dispomos nessa solução é só o controle de aplicativos, portanto, será necessário acordos de horários e limites de tempo para completar o controle. Existem soluções para Linux que permitem controle de tempo e de sites, mas são soluções separadas que exigem mais configurações e mais trabalho para manter; provavelmente uma boa conversa e acordos bem definidos supram a necessidade desses controles para um ambiente Linux. Com o tempo, novos recursos de controle parental devem aparecer, independente de existirem ou não investimentos no universo do Software Livre. De qualquer forma, as conversas entre crianças e adultos sempre deverão existir.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom diálogo a todos!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
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