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	<title>Repressão_e_liberdades &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A última declaração de Zoe Rogers do Palestine Action perante o júri</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 May 2026 10:58:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
		<category><![CDATA[Reino Unido]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Vocês podem achar estranho que o que está acontecendo na Palestina tenha passado completamente despercebido, podem ter notado certas palavras que foram censuradas, e que, até nossas declarações finais, a palavra genocídio não foi dita uma única vez. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Leo Vinicius</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Em 6 de agosto de 2024, ativistas do <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/07/156892/" href="https://passapalavra.info/2025/07/156892/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Palestine Action</a> entraram na fábrica da Elbit em Filton, na Inglaterra, e destruíram equipamentos da concreta máquina de genocídio, como um carregamento de quadricópteros usados para matar a população em Gaza. A Elbit Systems é a maior empresa bélica israelense, e possui uma subsidiária no Brasil, <a class="urlextern" title="https://www.ael.com.br/" href="https://www.ael.com.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">chamada AEL</a>, com sede em Porto Alegre.</p>
<p style="text-align: justify;">Seis ativistas foram presos no local. Outros ligados a essa ação foram presos em novembro de 2024 e junho de 2025, totalizando 24, que ficaram conhecidos como os Filton24. É o primeiro caso na história da Grã Bretanha em que o Estado tenta considera a destruição de propriedade como terrorismo. Alguns ficaram presos 18 meses antes do julgamento, em condições e violações de direitos que fizeram muitos deles entrarem em greve de fome.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159216" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk.jpg" alt="" width="1536" height="1024" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1536px) 100vw, 1536px" />Em fevereiro de 2026 os seis primeiros ativistas foram julgados, e não foram condenados pelos jurados em nenhuma das acusações, sendo libertados. Dos 24, apenas um não foi solto. Porém, não satisfeito com o resultado, o Estado obrigou que eles fossem novamente julgados. Um novo julgamento com uma série de <a class="urlextern" title="https://thegrayzone.com/2026/04/12/uk-jail-palestine-action-terrorism-uk/" href="https://thegrayzone.com/2026/04/12/uk-jail-palestine-action-terrorism-uk/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">violações de direitos que a imprensa britânica foi proibida de divulgar</a>, como, por exemplo, os jurados não serem informados de que os réus estão sendo acusados de terrorismo e a imprensa britânica proibida de noticiar isso por ordem judicial.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de uma de uma série de ações estatais para criminalizar e impedir ações e movimentos contra o genocídio e o apartheid na Palestina. A proscrição do Palestine Action como grupo terrorista, que levou milhares de britânicos a serem presos por terrorismo por se manifestarem contra essa proscrição expressando apoio verbal ao Palestine Action, foi uma dessas ações estatais. A tentativa atual pelo Estado e por grande parte da imprensa burguesa de proibir passeatas contra o genocídio cometido por Israel é outra. Acabar com julgamentos de júri para a maioria dos processos penais também está em pauta. Ora, as pessoas comuns que formam os júris normalmente compreendem as motivações dos ativistas e empatizam com seus objetivos. Por isso também no novo julgamento dos 6 de Filton foi proibido que os acusados se defendessem propriamente, explicando aos jurados suas motivações por trás da ação.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 5 de maio de 2026, saiu o resultado do novo julgamento. Charlotte Head, Samuel Corner, Leona Kamio e Fatema Rajwani foram considerados culpados por destruição de propriedade. Zoe Rogers e Jordan Devlin foram inocentados. Samuel Corner também foi condenado por lesão corporal grave contra um policial. No momento em que escrevo as penas ainda não foram proferidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Até mesmo nos seus discursos finais aos jurados, os ativistas foram <a class="urlextern" title="https://thegrayzone.com/2026/04/29/uk-palestine-action-defendants-terror/" href="https://thegrayzone.com/2026/04/29/uk-palestine-action-defendants-terror/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">proibidos pelo juiz de falar aos jurados sobre o princípio da equidade do júri</a>, isto é, o princípio de que os jurados podem absolver um réu a partir de suas consciências, mesmo que seja provado que ele fez algo ilegal.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159217" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-2048x1152.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-681x383.jpg 681w" sizes="(max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Abaixo, segue a <a class="urlextern" title="https://filtonactionists.com/zoes-closing-speech/" href="https://filtonactionists.com/zoes-closing-speech/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">última declaração de Zoe Rogers diante do júri</a> em 29 de abril de 2026:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Como vocês provavelmente já perceberam, decidi me representar neste julgamento. Não porque minha advogada estivesse fazendo um trabalho ruim ou algo do tipo &#8211; na verdade, nos tornamos amigas próximas &#8211; e estou sempre dizendo aos outros que tenho a melhor advogada. Sou muito grata por tudo o que ela fez por mim, neste julgamento e no anterior. Mas desta vez eu queria poder falar com vocês pessoalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante este julgamento, vocês ouviram algumas evidências muito importantes. Ouviram que existem fábricas em solo britânico produzindo armas para enviar a Israel. Ouviram que os drones que eles fabricam incluem quadricópteros Thor VTOL usados ​​para lançar granadas, drones que são anunciados como “testados em combate” contra palestinos. Ouviram que drones usam inteligência artificial para alvejar crianças, que drones de vigilância Magni X funcionam em conjunto com “drones assassinos” e que a Pesquisa &amp; Desenvolvimento realizada no Reino Unido é vital para as forças armadas israelenses. Vocês também já devem ter ouvido falar que a unidade de Filton foi inaugurada pelo embaixador israelense, que possui licenças de exportação para Israel e que a própria Elbit é a “espinha dorsal” das forças armadas israelenses.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês ouviram como tentamos todos os meios democráticos disponíveis, incluindo manifestações, arrecadação de fundos, acampamentos, petições, cartas para parlamentares, adesivos com informações da Anistia Internacional sobre o apartheid, vigílias, piquetes em fábricas de armas, e a lista continua. E como nada disso funcionou. Vocês ouviram como a ação direta é eficaz, como ela pôs fim ao apartheid durante o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, como ela está sendo usada hoje no Reino Unido para fechar fábricas de armas, quatro das quais foram fechadas permanentemente.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês ouviram que, depois de destruirmos esses drones, fomos presos por terrorismo &#8211; mantidos incomunicáveis ​​- e passamos 18 meses na prisão sem julgamento. Vocês ouviram que este é um novo julgamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de ouvir o depoimento de nós seis, vocês podem achar estranho que o que está acontecendo na Palestina tenha passado completamente despercebido, podem ter notado certas palavras que foram censuradas, e que, até nossas declarações finais, a palavra genocídio não foi dita uma única vez. Houve interrupções por parte da acusação, mudanças repentinas de assunto por parte dos nossos advogados &#8211; é quase como se tópicos inteiros de conversa tivessem sido proibidos. A acusação sabe muito bem que estamos certos ao afirmar que essa fábrica está fornecendo armas a Israel para serem usadas em Gaza. É por isso que eles estão optando por suprimir essa informação em vez de contestá-la. A acusação decidiu que a legalidade das ações de Israel é irrelevante neste julgamento. Porque eles sabem que vocês não poderiam, em sã consciência, nos considerar culpados de nada se tivessem a oportunidade de ouvir toda a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Para nos considerar culpados de dano criminal, é preciso ter certeza. Vocês talvez reconheçam a expressão “além de qualquer dúvida razoável”, é a mesma coisa. E vou usar uma analogia para explicar isso, porque, ao contrário deste grupo, eu não tenho formação em Direito.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos imaginar que você e alguém que você ama foram passar férias juntos. E um dia vocês decidem saltar de paraquedas. Agora, você quer ter certeza de que esse paraquedas vai te segurar. Você não compraria um barato na Amazon, nem pegaria emprestado um de um amigo que estivesse mofando no galpão há tempos. Porque você quer saber tudo sobre esse paraquedas! Sua história, quem o fabricou, como foi usado, talvez até mesmo suas motivações? Porque você quer ter certeza de que, enquanto estiver caindo em direção ao chão, quando acionar o mecanismo, o paraquedas vai te segurar, porque se você não tiver certeza, bem, isso é um erro irreparável. E essa decisão não é diferente. É algo permanente, com consequências que mudam a vida, e o mais importante, não há como voltar atrás.</p>
<p style="text-align: justify;">A acusação precisa te convencer para que você possa condenar. Mas como ter certeza se você sabe que não ouviu toda a verdade?</p>
<p style="text-align: justify;">Sou uma pessoa comum, com amigos, família, uma vaga na universidade, um gato que amo, basicamente muita coisa a perder indo para a prisão. Mas vocês sabem que todos nós tínhamos a intenção de ser presos no dia 6 de agosto. Tínhamos a intenção de ir a julgamento. E não vou falar pelos outros aqui, mas a razão pela qual eu estava disposta e confiante o suficiente para permitir isso foi porque eu sabia que agora, 20 meses depois, eu estaria diante de 12 pessoas comuns como vocês. Não políticos, não especialistas em Direito, não advogados e juízes com crinas de cavalo de 400 anos na cabeça, mas um painel de iguais a mim. Vocês são o melhor contrapeso ao poder e à tirania dentro do sistema jurídico como ele existe hoje. É um privilégio ser julgado por vocês. E não digo isso para bajulá-los, mas porque, como você já deve ter ouvido, o direito ao julgamento por júri está ameaçado, com um projeto de lei tramitando na Câmara dos Comuns neste exato momento. Os júris como os conhecemos hoje podem não existir por muito mais tempo, justamente porque seus bolsos não podem ser subornados por pessoas ricas e poderosas. (E também porque os júris frequentemente se recusam a condenar nesses tipos de casos). E essa é uma posição de grande poder para vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém pode obrigá-los a condenar neste caso, nem mesmo o juiz. Aliás, o juiz está expressamente proibido de lhes dizer para condenar! Vocês, e somente vocês, podem decidir sobre seus veredictos. Mas não só podem nos absolver, como têm o DIREITO de nos absolver. Ninguém pode puni-los por sua decisão. Ninguém pode sequer lhes perguntar porquê.</p>
<p style="text-align: justify;">Quero que saibam, porém, que, seja qual for a sua decisão, não os culparei. Como poderia, se foram mantidos tão no escuro? Mas podem ter certeza de uma coisa. Estou orgulhosa, muito orgulhosa de ter participado disso. Estou orgulhosa de ter superado o meu medo e de ter agido, porque é claro que estava com medo, ninguém invade uma fábrica de armas israelense por diversão! E posso afirmar com absoluta certeza que essa foi a melhor coisa que já fiz, porque há uma grande probabilidade de que, graças às nossas ações naquela noite, vidas inocentes tenham sido salvas.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, jamais terei vergonha de ter sido julgada, de ter passado 18 meses na prisão e de poder enfrentar muitos mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês sabem que fomos tratados como terroristas durante todo esse processo. Uma assistente social que trabalha com vítimas de violência doméstica, duas professoras de jardim de infância, uma graduada de Oxford, uma artista e eu. Parece distópico, mas é verdade, assim como a proscrição do Palestine Action.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas desta vez, vocês são os que decidem. Ao contrário do que a promotoria e o governo querem que vocês sejam, vocês não são meros instrumentos de aprovação. Não caiam na armadilha deles.”</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
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		<title>Ferramentas de Controle Parental</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2026 14:39:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O controle parental deve ser entendido como um mecanismo de orientação e cuidado, não como uma ferramenta de vigilância e desrespeito à privacidade. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana [1]</h3>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos meses vimos alguns países tomarem medidas fortes em relação ao uso de redes sociais por menores de idade, como Austrália e Dinamarca proibindo o uso, devido a diversos riscos que surgiram ao longo do tempo. No Brasil, além dos problemas das redes sociais, também temos as apostas digitais que estão inclusive viciando crianças e adolescentes que estão cada vez mais conectados, utilizando <em>smartphones</em>, <em>tablets</em> e computadores como ferramentas de aprendizado, entretenimento e socialização. Conteúdos inadequados, exposição excessiva às telas, contato com desconhecidos, <em>cyberbullying</em> e coleta indevida de dados são apenas alguns dos desafios que pais e responsáveis enfrentam dia a dia. Nesse contexto, o controle parental surge como uma estratégia essencial para equilibrar liberdade e segurança, permitindo que os jovens explorem o ambiente digital de forma saudável e protegida.</p>
<p style="text-align: justify;">O controle parental deve ser entendido como um mecanismo de orientação e cuidado, não como uma ferramenta de vigilância e desrespeito à privacidade. Assim como no mundo físico, onde limites são estabelecidos para garantir o bem-estar das crianças, no ambiente digital também é necessário criar regras e acompanhar o uso da tecnologia. Isso inclui definir horários, restringir conteúdos impróprios e monitorar interações. No entanto, tão importante quanto as ferramentas técnicas é o diálogo constante entre pais e filhos, construindo consciência sobre o uso responsável da Internet.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse cenário, ferramentas digitais específicas foram desenvolvidas para auxiliar os responsáveis nessa tarefa. Uma das mais conhecidas e amplamente utilizadas é o Family Link, uma solução gratuita que permite gerenciar o uso de dispositivos por crianças e adolescentes no sistema Android e, em menor escala, também no iOS. Apesar da crítica que se possa ter em relação a ferramentas de <em>big techs</em>, entende-se que esse é um momento em que a segurança e o desenvolvimento saudável dos menores de idade devem ser priorizados sobre outros aspectos das relações sociais com essas empresas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Family Link foi projetado para oferecer aos pais um conjunto robusto de recursos que possibilitam acompanhar, orientar e limitar o uso da tecnologia de forma prática e acessível e funciona a partir da criação de uma conta Google para a criança, vinculada à conta do responsável (sim, é preciso entregar um pouco de dados da criança para fazer o controle de dispositivos). Esse vínculo permite que o adulto tenha acesso a informações e controles sobre o dispositivo da criança. O processo de configuração é relativamente simples: o responsável instala o aplicativo em seu próprio celular e também no dispositivo da criança, seguindo as instruções para vincular as contas. A partir daí, diversas funcionalidades ficam disponíveis para gerenciamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos principais recursos do Family Link é o controle de tempo de uso. Com ele, os pais podem definir limites diários para o uso dos dispositivos, por exemplo, determinando que a criança pode utilizar telas por duas horas por dia entre todos os dispositivos com a conta dela; se usar uma hora de <em>smartphone</em>, só poderá usar uma hora de <em>tablet</em>. Quando esse limite é atingido, os dispositivos são bloqueados automaticamente, impedindo o uso até o dia seguinte. Além disso, é possível definir um horário de dormir, durante o qual os aparelhos ficarão indisponíveis. Essa funcionalidade é especialmente útil para evitar o uso excessivo de telas à noite, contribuindo para a qualidade do sono e para a manutenção de uma rotina saudável.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro recurso importante é o monitoramento de atividades. O Family Link fornece relatórios detalhados sobre o uso de aplicativos, mostrando quanto tempo a criança passa em cada aplicativo ao longo do dia, da semana ou do mês. Essas informações permitem que os responsáveis compreendam melhor os hábitos digitais dos filhos e identifiquem possíveis excessos ou comportamentos preocupantes. Com base nesses dados, é possível tomar decisões mais informadas sobre restrições ou ajustes nas regras de uso.</p>
<p style="text-align: justify;">O controle de aplicativos também é uma funcionalidade central da ferramenta. Os pais podem aprovar ou bloquear a instalação de aplicativos diretamente da loja, impedindo que a criança baixe conteúdos inadequados. Sempre que a criança tenta instalar um novo aplicativo, uma solicitação é enviada ao responsável, que pode aprovar ou recusar. Além disso, aplicativos já instalados podem ser bloqueados individualmente, caso sejam considerados impróprios ou estejam sendo usados de forma excessiva.</p>
<p style="text-align: justify;">No que diz respeito à navegação na Internet, o Family Link oferece integração com o Chrome e com o mecanismo de busca do Google, permitindo a ativação de filtros de conteúdo. Esses filtros ajudam a bloquear sites impróprios ou inadequados para a faixa etária da criança, embora não sejam infalíveis. É possível também criar listas de sites permitidos ou bloqueados manualmente, oferecendo um controle mais personalizado. Ou seja, nesse momento da evolução tecnológica, ter um controle parental robusto pode significar usar ferramentas de uma única empresa.</p>
<p style="text-align: justify;">O Family Link também permite que os pais visualizem a localização do dispositivo da criança em tempo real, desde que o aparelho esteja ligado e conectado à Internet. O bloqueio remoto do dispositivo está disponível, assim como o desbloqueio. O aplicativo também permite gerenciar configurações da conta da criança, como permissões de aplicativos, configurações de privacidade e acesso a determinados serviços do Google. Isso inclui, por exemplo, a possibilidade de desativar a personalização de anúncios ou restringir o uso de determinados recursos, contribuindo para uma experiência mais segura e adequada à idade.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto a ser considerado no controle parental é a adaptação das regras conforme a idade e maturidade da criança. O nível de controle necessário para uma criança de oito anos é diferente daquele adequado para um adolescente de quinze. O Family Link permite ajustar gradualmente as permissões, oferecendo mais autonomia à medida que o jovem demonstra responsabilidade. Esse processo é essencial para preparar os filhos para o uso independente da tecnologia no futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de todas essas funcionalidades, é importante reconhecer que nenhuma ferramenta de controle parental é completamente eficaz por si só. Crianças mais velhas e adolescentes podem encontrar maneiras de contornar restrições, especialmente se tiverem conhecimentos técnicos mais avançados. Por isso, o controle parental deve ser complementado com educação digital e diálogo aberto. Explicar os motivos das regras, ouvir as opiniões dos filhos e negociar limites são práticas fundamentais para o desenvolvimento de uma relação saudável com a tecnologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o controle parental deve ser visto como parte de uma abordagem mais ampla de educação digital. Isso inclui ensinar sobre segurança <em>online</em>, privacidade, respeito nas interações virtuais e pensamento crítico em relação às informações encontradas na Internet. O objetivo final não é apenas restringir, mas capacitar as crianças para que se tornem usuários conscientes e responsáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Atenção! Alguns aplicativos, como jogos, têm suas próprias redes sociais através dos <em>chats </em>entre os usuários, quem podem ser usados para estabelecer diálogo com os menores de idade. Esse tipo de recurso interno aos aplicativos não será descoberto pelo Family Link, um vez que o tempo de uso é liberado pode ser possível até receber <em>links </em>de outros locais maliciosos na Internet, talvez até para transferências financeiras. Portanto, é recomendável que cada aplicativo autorizado seja um pouco usado pelo responsável, para conhecimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o controle parental é uma necessidade na era digital, e o Family Link é uma ferramenta prática para auxiliar os responsáveis nessa tarefa. No entanto, seu uso deve ser sempre acompanhado de diálogo, educação e adaptação às necessidades individuais de cada família, para que a tecnologia seja uma aliada no desenvolvimento das crianças, não uma fonte de riscos ou conflitos. No próximo artigo trataremos de controle parental no Linux.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom diálogo a todos!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Gente rica sendo presa (9)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Apr 2026 21:12:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A advogada comenta: &#8220;é por isso que eu não faço nada de errado. Imagina não poder tomar banho de água quente!&#8221;. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A advogada comenta: &#8220;é por isso que eu não faço nada de errado. Imagina não poder tomar banho de água quente!&#8221;. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>ECA Digital e o desafio do controle parental</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Mar 2026 16:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Juventude]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
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					<description><![CDATA[O ECA Digital aumenta a responsabilidade das empresas na identificação de quem usa suas plataformas, mas é importante que os responsáveis acompanhem tudo que as crianças e os adolescentes usam nesses equipamentos. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level1">
<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana</h3>
<p style="text-align: justify;">Há poucas semanas foi aprovada a Lei 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, que torna a legislação de proteção de crianças e adolescentes mais rígida em relação às plataformas digitais, redes sociais e jogos <em>online</em>, ou seja, qualquer ambiente em que um adulto possa entrar em contato com uma criança ou adolescente. Coincidentemente, estive em uma discussão escolar sobre o uso de aplicativos de mensagens por pré-adolescentes que criaram um grupo de discussão para trabalhos escolares mas ocorreu também a prática de <em>bullying</em>; na prática os aplicativos de mensagens funcionam como redes sociais pois permitem que sejam formados grupos e o encaminhamento de conteúdos multimídia, que equivalem a você fazer uma postagem ou enviar um <em>link</em> de conteúdo entre os membros, assim cada contato fica equivalente a uma página em rede social.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a discussão alguns pais tinham a expectativa de que a escola faria o acompanhamento dos pré-adolescentes no uso do aplicativo de mensagens, mas depois de mais de uma hora de discussão alguns pontos legais foram colocados em relação a essa questão. O uso de celular na escola é proibido por lei federal, exceto para questões pedagógicas, além disso a Lei de Diretrizes e Bases da Educação protege a decisão sobre métodos e ferramentas de ensino como sendo dos professores, e assim foi dito de forma bem objetiva que a escola não estaria acompanhando os pré-adolescentes nesses grupos de mensagem, inclusive nem teria recursos humanos para entrar nesses grupos e acompanhar tudo estaria sendo escrito; tudo isso sem falar na questão da privacidade. De certa forma é preciso que todos entendam que a responsabilidade e o cuidado quanto ao uso de equipamentos digitais e Internet é de quem entrega esses dispositivos, logo se um responsável dá um <em>smartphone</em> para uma criança a responsabilidade no uso desse equipamento é de que o entregou nas mãos dela.</p>
<p style="text-align: justify;">O ECA Digital aumenta a responsabilidade das empresas na identificação de quem usa suas plataformas, mas é importante que os responsáveis acompanhem tudo que as crianças e os adolescentes usam nesses equipamentos. As empresas terão responsabilidade de garantir com maior eficácia na identificação da idade de quem se cadastrar, no entanto, tudo converge para um assunto já abordado nesta coluna que é o controle parental dos sistemas. Vale lembrar pelo menos um exemplo dos riscos que as crianças correm nesses ambientes, que é quando um adulto mal intencionado finge ser uma criança por, ganhando a confiança de quem conversa com ele para que, após todo esse tempo, comece a dizer o quê a criança deve fazer e até mesmo ameaçar para que ela não conte a ninguém o quê eles estão conversando, a partir daí os mais inimagináveis abusos podem acontecer e por isso é tão importante que os responsáveis pelas crianças estejam envolvidos nisso tudo pois o ECA Digital por mais rígido que pareça, não vai ser o suficiente.</p>
<p style="text-align: justify;">As ferramentas de controle parental podem ser tanto oferecidas com sistemas ou equipamentos, como pelas plataformas que estão implicadas na atualização do ECA, e talvez devido ao movimento internacional na gestão de riscos dos mais jovens essas ferramentas comecem a ter uma evolução mais acelerada. Nelas podemos encontrar recursos de controles do que pode ser instalado, quanto tempo os aplicativos podem ser usados de modo individualizado e até de modo geral. Durante a conversa na escola também houve o debate sobre quais aplicativos, sobre questões de privacidade neles, de serem ou não controlados por grandes empresas, etc. Infelizmente, por ser uma área em evolução não há um ecossistema de aplicativos de controle parental que nos permitam ampla liberdade de escolha, nem tenho uma boa revisão desses aplicativos para recomendar, ainda é um assunto em estudo. Mas é urgente que o controle é parental aconteça e abordaremos somente dois exemplos dessas aplicações. No entanto, o site <a href="https://alternativeto.net/browse/all/?tag=parental-control" target="_blank" rel="noopener">Alternativeto.net</a>, tem uma lista de programas de controle parental e uma classificação por curtidas, além da possibilidade de classificar entre tipos de licenças e plataformas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Google Family Link é uma ferramenta de controle parental desenvolvida pela Google para dispositivos Android que permite aos responsáveis acompanhar e gerenciar o uso digital de crianças e adolescentes. Entre suas principais características está a possibilidade de criar e supervisionar contas Google para menores, garantindo que o acesso a conteúdos e serviços seja mais seguro e adequado à idade. Na matéria <a href="https://passapalavra.info/2025/02/155827/" target="_blank" rel="noopener">“Tutorando crianças no uso de smartphones”</a> é apresentada uma sugestão de como usar esse recurso. Outro recurso importante é o rastreamento de localização, que permite verificar onde o dispositivo da criança está em tempo real, desde que ele esteja conectado à Internet; normalmente é necessário uma conta de celular com dados móveis.</p>
<p style="text-align: justify;">No Linux, para o ambiente GNOME, pode-se usar o programa &#8216;malcontent-gui&#8217;, que é a interface gráfica do sistema de controle parental dele, projetado para permitir que administradores e responsáveis gerenciem o acesso de usuários — especialmente crianças — a aplicativos e conteúdos no sistema. Ele funciona como uma camada amigável sobre o serviço de controle parental do sistema, oferecendo uma forma simples e visual de configurar restrições sem a necessidade de comandos avançados no terminal. De forma similar o Windows também possuí controle parental junto às configurações de contas de usuário. Recentemente o serviço de mensagens WhatsApp também lançou mecanismos de controle parental que pode restringir que crianças e adolescentes estabeleçam contatos com pessoas, ou entre em grupos sem autorização dos responsáveis; apesar das <a href="https://passapalavra.info/2025/05/156722/" target="_blank" rel="noopener">discussões sobre privacidade nesse aplicativo</a>, proteger nossas crianças parece uma prioridade e outros aplicativos de mensagens instantâneas podem não ter esse recurso.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de o ECA Digital aumentar as responsabilidades das empresas na proteção de crianças e adolescentes, sempre vai ter alguém tentando burlar a legislação, e uma camada de proteção gerenciada pelos responsáveis deles será também necessária. Como diz Mario Sérgio Cortella “a tarefa de educação dos filhos é da família em primeiro lugar, e do poder público de forma secundária. A escola faz escolarização. Por isso, se a família não cumpre aquilo que precisa cumprir, a escola não dará conta”. Parece ser imprescindível o uso de programas de controle parental, assim como a responsabilização das empresas em suas plataformas, a melhoria dessas ferramentas, assim como seu aprendizado. Vai ser um caminho árduo para todos, mas temos um caminho (o qual me incluo). Conforme aprender melhor sobre elas, teremos matérias sobre como as usar e configurar.</p>
<p style="text-align: justify;">Boa luta para nós!</p>
</div>
<div class="footnotes">
<div class="fn">
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong><em>Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</em></strong></div>
</div>
</div>
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		<title>Eduardo Marinho e a moral dos inocentes</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158842/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Mar 2026 19:56:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A fala de Eduardo Marinho nos serve não como exemplo a seguir, mas como alerta. Ela mostra o que acontece quando a crítica social é destituída de teoria, e quando a indignação substitui a análise. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">A fala de Eduardo Marinho publicada no dia 29 de outubro de 2025, em resposta ao massacre cometido pela polícia nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, no dia 28 do mesmo mês, é um documento importante da consciência política difusa que atravessa o campo popular contemporâneo. Seu enunciado mistura experiência concreta, indignação moral e lampejos de lucidez estrutural, compondo um discurso que seduz pela sinceridade e pela energia ética, mas que revela, sob exame mais rigoroso, as contradições e insuficiências de uma visão política fundada mais na catarse do que na análise. A tarefa aqui não é desqualificar um indivíduo, mas compreender a natureza do pensamento que sua fala representa — um pensamento incapaz de apreender o Estado como forma social e, portanto, condenado a oscilar entre denúncia e apelo moral, entre intuição crítica e impotência teórica.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto de partida de sua fala — “o Estado não pode ser bandido” — já contém a contradição que percorre todo o discurso. Há, nessa frase, uma expectativa de moralidade estatal, como se o Estado fosse uma instituição originalmente justa, corrompida por maus agentes ou por uma elite degenerada. Mas o Estado moderno, como Marx demonstrou, não é o árbitro neutro da sociedade civil, e sim a forma política da dominação de classe. O “banditismo” estatal não é acidente nem desvio, mas essência: a violência que ele exerce é a tradução institucional da violência originária do capital. O Estado é o monopólio legítimo da força que garante o monopólio ilegítimo da propriedade. Quando Marinho denuncia que o Estado “está lotado de gente doente e sádica”, acerta empiricamente, mas explica o fenômeno por uma causalidade moral — a falta de formação cívica, de ética, de “humanidade” — e não por uma causalidade estrutural. A brutalidade não deriva de um erro na formação dos agentes, mas da própria função que esses agentes cumprem. O treinamento é brutal porque o papel que a polícia desempenha na sociedade é o de conter, disciplinar e eliminar parcelas excedentes da população trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">O raciocínio de Marinho desloca constantemente as causas para o terreno da consciência e da vontade. Quando pergunta “por que não cercam os morros?” ou “por que não abafam as chegadas das drogas?”, pressupõe que o Estado <em>poderia</em> interromper o circuito do tráfico se quisesse, como se a conivência fosse uma questão de escolha moral. Essa formulação ignora que o tráfico, as milícias e o aparato repressivo são parte de uma mesma engrenagem de acumulação e controle social. O Estado não “tolera” o crime: ele o administra, regula e, muitas vezes, o produz, porque precisa dele como instrumento de governo. A “guerra às drogas” é o nome ideológico de uma política de contenção territorial e de gestão da superpopulação relativa — aquela massa de trabalhadores precarizados e racializados que excede as necessidades de valorização do capital, mas cuja disciplina é vital à estabilidade da ordem. “Abafar as chegadas” seria sabotagem ao próprio sistema, que depende dessas rotas ilícitas, integradas às redes de financiamento, armas e lavagem de dinheiro que atravessam a economia formal.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao afirmar que “é preciso fazer espetáculo matando pobre, preto, periférico”, Marinho toca o centro do problema. A violência policial é, de fato, uma forma de espetáculo, um ritual de reafirmação da soberania e de pacificação simbólica da classe média. A morte é encenada, filmada, justificada, e reapresentada como triunfo da lei. Nisso ele revela uma compreensão intuitiva da sociedade do espetáculo descrita por Guy Debord: a dominação se torna imagem, e a imagem reforça a dominação. O massacre opera como pedagogia do medo, ajustando as sensibilidades e redefinindo o inimigo. Mas, ao reduzir o espetáculo a uma vontade sádica, Marinho perde a dimensão de que essa encenação responde a uma necessidade material. O espetáculo do extermínio legitima o reordenamento urbano, a valorização fundiária, a militarização de territórios e a reprodução do capital no espaço metropolitano. A barbárie tem método: ela é o modo contemporâneo de administração das cidades. Quando Marinho lamenta a ausência de formação moral e cívica dos policiais, confunde consequência com causa. A ausência de reflexão crítica não é um defeito acidental do aparato policial; é sua condição de funcionamento. O que o discurso de Marinho chama de “doença” é a forma psicológica adequada à função repressiva. O sadismo individual existe, mas é instrumentalizado pela estrutura. A formação humanista seria incompatível com a tarefa histórica da polícia: garantir a ordem social de uma sociedade fundada na desigualdade. A demanda por uma “nova mentalidade de segurança pública” equivale, na prática, à tentativa de humanizar o inumano, de pedir à força que sustenta a propriedade que se volte contra seu próprio fundamento. É o apelo ético no lugar da revolução material.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um momento, porém, Marinho enuncia uma frase que rompe a superfície: “a cabeça do crime está dentro do próprio Estado.” Aqui a intuição toca o ponto mais elevado de verdade. A economia política da criminalidade — as milícias, o desvio de armas, a corrupção policial, a simbiose entre mercado imobiliário e poder armado — são manifestações de uma criminalidade estruturada na legalidade. O Estado e o crime não se opõem; se interpenetram. Essa constatação, entretanto, não se converte em teoria: ela se dissolve logo depois, quando o discurso retorna ao imperativo moral (“o Estado não pode ter bandido”). O lampejo estrutural se converte em lamento. A denúncia que poderia abrir caminho para uma análise da forma política do capital é capturada pelo sentimentalismo ético. O apelo final — “é preciso criar cidadania dentro das favelas” — fecha o círculo. Depois de denunciar o caráter criminoso do Estado, a solução proposta é a realização do ideal que o próprio Estado promete e nega: a cidadania. Mas a cidadania é a forma jurídica da dominação moderna, o modo pelo qual a desigualdade real se reveste de igualdade formal. A cidadania reconhece todos como sujeitos de direito, desde que aceitem as condições materiais que os fazem desiguais. Invocar a cidadania é, portanto, pedir inclusão numa ordem cujo princípio é a exclusão. O que falta nas favelas não é cidadania, mas emancipação — a abolição da forma social que produz a favela como espaço de contenção e o morador como corpo descartável. A cidadania é o horizonte político do humanismo burguês; o que se exige é outro horizonte, o da libertação humana, no sentido de Marx e Pannekoek: o poder dos produtores sobre suas próprias condições de vida.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-158843 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/houses-district-six-19451.jpg" alt="Eduardo Marinho e a moral dos inocentes" width="600" height="522" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/houses-district-six-19451.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/houses-district-six-19451-300x261.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/houses-district-six-19451-483x420.jpg 483w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A fala de Marinho expressa, assim, uma forma peculiar de consciência política: empiricamente sensível, moralmente indignada, mas teoricamente cega. É um discurso que percebe os efeitos, mas não as causas; que enuncia a contradição, mas não a articula; que sente a opressão, mas não compreende a totalidade que a produz. Sua força reside na sinceridade e na experiência — a vivência de um homem que passou pela rua e viu a máquina por dentro —, mas sua fraqueza está em confundir o drama com o sistema. Há uma dimensão terapêutica na fala, uma catarse que tenta exorcizar a impotência coletiva através da indignação individual. O que se oferece ao público não é uma estratégia de transformação, mas uma descarga moral que confirma a sensação de que “algo está errado” sem indicar como o errado se produz. Essa forma de discurso cumpre uma função ideológica precisa no presente: serve de válvula de escape à consciência popular, permitindo-lhe reconhecer o horror sem ultrapassar o horizonte burguês. É o mesmo mecanismo que Marx identificava nas “revoltas morais” do pequeno-burguês: ele percebe a injustiça, mas teme a revolução. No contexto brasileiro, essa sensibilidade se traduz em figuras como Marinho, que fazem da crítica uma confissão pública, um ato de pureza ética diante do impuro. A política desaparece como prática coletiva e reaparece como gesto de consciência individual. É a crítica sem partido, a rebeldia sem organização, a lucidez sem teoria.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso o pensamento de Marinho é, no fundo, reacionário em sua impotência. Ele denuncia a barbárie, mas reforça o mito de que ela é acidente, e não forma. Deseja um Estado moral, não o fim do Estado. Quer uma polícia humana, não o desmonte do aparato repressivo. Clama por cidadania, não por autogoverno. É a voz da revolta sem direção, a dor social traduzida em moralismo. Seu discurso conforta o espectador progressista, que pode indignar-se sem arriscar-se, pode sentir-se justo sem comprometer-se com a luta. É a ideologia da pureza num tempo de decomposição. Entretanto, é preciso reconhecer que essa consciência “capenga”, como a chamaste, é sintoma de um período histórico em que a esquerda perdeu seu horizonte revolucionário e o campo popular foi reduzido à esfera da opinião. Marinho é produto dessa desertificação política: fala o que resta da crítica quando a crítica perdeu a organização. Sua limitação é a limitação do tempo. O erro é real, mas revelador. Ele é o espelho deformado de uma sociedade em que o pensamento se fragmentou em emoções, e a razão política se converteu em retórica terapêutica.</p>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Em última instância, a fala de Eduardo Marinho nos serve não como exemplo a seguir, mas como alerta. Ela mostra o que acontece quando a crítica social é destituída de teoria, e quando a indignação substitui a análise. É um testemunho honesto de uma consciência que sente o golpe, mas não encontra o inimigo. A tarefa, para quem busca reconstruir um pensamento radical, é superar essa consciência: sair do lamento ético e retornar à totalidade material, recolocar a questão do Estado, da violência e da emancipação em seus fundamentos históricos. Só assim o escândalo pode transformar-se em ação e a catarse em política.</p>
</div>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158844 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/boy-and-the-candle-1943.jpg" alt="Eduardo Marinho e a moral dos inocentes" width="382" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/boy-and-the-candle-1943.jpg 382w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/boy-and-the-candle-1943-229x300.jpg 229w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/boy-and-the-candle-1943-321x420.jpg 321w" sizes="auto, (max-width: 382px) 100vw, 382px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Gerard Sekoto (1913-1993).</em></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Como vai o seu backup?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158797/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Mar 2026 14:01:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O backup não evita que problemas aconteçam, mas permite que os danos sejam reversíveis. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana [1]</h3>
<p style="text-align: justify;">Alguns assuntos são sempre importantes de serem revistos e com certeza <em>backup</em> é um deles. Pensava em rever esse assunto no final do ano passado, mas como costuma ser férias, verão, carnaval, vamos rever nesse momento e torcer para que mais pessoas pratiquem segurança de dados mesmo que trabalhem na escala 6×1 e tenham pouco tempo para cuidar de si próprios e de sua vida digital.</p>
<p style="text-align: justify;">O <em>backup</em> caseiro é uma prática essencial em um mundo cada vez mais digitalizado, no qual fotos de família, documentos pessoais, trabalhos acadêmicos, registros financeiros e lembranças afetivas existem principalmente em formato digital. Apesar disso, muitas pessoas só percebem a importância do <em>backup</em> quando já enfrentaram a perda de arquivos por falha no disco rígido, defeito em SSD, roubo do aparelho, ataque de vírus ou simples erro humano. Computadores quebram, celulares são perdidos, contas podem ser invadidas e arquivos podem ser apagados sem intenção. O <em>backup</em> não evita que problemas aconteçam, mas permite que os danos sejam reversíveis, permitindo a recuperação de dados.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante distinguir <em>backup</em> de sincronização de arquivos. Serviços de arquivos em nuvem funcionam principalmente como plataformas de sincronização, mantendo os mesmos arquivos atualizados em diferentes dispositivos, portanto, se um arquivo é apagado por engano na origem, ele também é apagado na nuvem. Embora muitos desses serviços ofereçam histórico de versões e lixeira temporária, o ideal é pensar em <em>backup</em> como um processo com cópias adicionais e independentes. Um arquivo sincronizado é uma cópia de trabalho, não uma cópia de segurança.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos cuidados mais importantes no <em>backup</em> caseiro é não confiar em apenas um único local de armazenamento das cópias de dados. Manter todos os arquivos apenas no computador principal é um risco considerável, pois qualquer falha de <em>hardware</em> pode resultar em perda total. Também não é prudente deixar todas as cópias no mesmo ambiente físico, já que um furto, incêndio ou dano elétrico pode afetar simultaneamente o computador e o dispositivo de <em>backup</em>. Por isso, a prática mais segura envolve manter pelo menos uma cópia fora do local principal, preferencialmente num dispositivo não conectado à Internet.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro cuidado fundamental é proteger dados sensíveis com senhas fortes e, quando possível, criptografia. Além disso, é necessário verificar periodicamente se os <em>backups</em> realmente funcionam, restaurando alguns arquivos de teste para confirmar que estão íntegros e acessíveis. Um <em>backup</em> que nunca foi testado pode gerar falsa sensação de segurança.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a maioria das pessoas, o método mais confortável de <em>backup</em> é aquele que equilibra simplicidade e eficiência, sem exigir conhecimentos técnicos avançados ou rotinas complexas. Um bom ponto de partida é organizar os arquivos importantes em uma única pasta principal no computador, concentrando ali documentos, fotos, planilhas, PDFs e outros conteúdos relevantes. Essa organização facilita tanto a sincronização quanto a cópia periódica.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda ação deste método consiste em manter uma cópia local em um HD externo ou SSD portátil. Uma vez por semana, ou em intervalos regulares que façam sentido para sua rotina, a pasta principal pode ser copiada ou sincronizada para esse dispositivo. O ideal é que o HD externo permaneça desconectado quando não estiver em uso, reduzindo o risco de que um eventual <em>malware</em> ou <em>ransomware</em> alcance também a cópia de segurança. Esse hábito simples aumenta significativamente a proteção dos dados, pois cria uma camada adicional independente da Internet e das contas <em>online</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Para completar e ter alta segurança de dados, é preciso um segundo HD externo e criptografado num local remoto, pode ser a casa de um parente ou o trabalho, e de tempos em tempos você troca o HD externo local com o remoto, sempre levando o primeiro para trocar no local remoto, e trazendo o segundo para funcionar como HD local. O importante é não ter as três cópias no mesmo local físico durante o processo. Essa prática é conhecida como Backup 3-2-1: três cópias, dois <em>backups</em>, um <em>backup</em> remoto.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso dos celulares, que hoje concentram grande parte das fotos e conversas pessoais, procure de tempos em tempos conectar o aparelho ao computador e copiar manualmente arquivos importantes. Essa prática amplia a segurança e evita surpresas desagradáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Em resumo, um sistema caseiro de <em>backup</em> eficiente não precisa ser complicado nem caro. Ele pode ser construído com organização básica dos arquivos e uma cópia periódica em dispositivo externo guardado com segurança. Ao adotar essa combinação simples e sustentável, a maioria das pessoas consegue reduzir drasticamente o risco de perder documentos, memórias e informações valiosas. Mais importante do que buscar a solução perfeita é estabelecer uma rotina realista e mantê-la ao longo do tempo. O <em>backup</em>, quando integrado de forma natural à vida digital, transforma-se em um hábito de cuidado com a própria história e de tranquilidade no futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, processos de automação facilitam e previnem falhas na rotina de <em>backup</em>, mas exigem mais tempo de configuração e uma seleção cuidadosa de <em>softwares</em>; isso será objeto de um artigo específico. Segue uma lista de artigos importantes para uma melhor prática para nossas cópias de segurança:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/09/128394/" href="https://passapalavra.info/2019/09/128394/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Cuidados digitais com senhas e chaves criptográficas</a> ;</li>
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/08/139682/" href="https://passapalavra.info/2021/08/139682/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mapa de Segurança Digital (1)</a> ;</li>
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/09/140182/" href="https://passapalavra.info/2021/09/140182/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mapa de Segurança Digital (2)</a> ;</li>
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/10/140642/" href="https://passapalavra.info/2021/10/140642/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mapa de Segurança Digital (3)</a> .</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Bom <em>backup</em> a todos!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Agente secreto, o desconforto dos acomodados</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158745/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/02/158745/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Feb 2026 13:28:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Ao tentar denunciar o Brasil autoritário, O Agente Secreto acaba oferecendo um recorte distorcido da história, menos complexa e menos incômoda. Por Gustavo Emygdio Halfen e Joacy Ghizzi Neto]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Gustavo Emygdio Halfen e Joacy Ghizzi Neto</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong><br />
1.</strong> Em <em>O Agente Secreto</em>, Kleber Mendonça Filho reafirma um cinema autoral reconhecível: atmosfera sensorial e uma leitura do Brasil mediada por memória política e tensões sociais. A reconstrução dos anos 1970 é sedutora, a direção de arte é precisa, o desenho de som envolve, e Wagner Moura sustenta o drama, obviamente. A brasilidade aparece nos detalhes — da coxinha à capivara — compondo um cotidiano afetivo e reconhecível.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2.</strong> Quando a análise avança da estética para a ambição política do filme, surgem limites relevantes. Como em outros trabalhos do diretor, a camada média ocupa o centro moral da narrativa, apresentada como espaço ambíguo de acomodação e resistência frente ao autoritarismo e a expansão do capital (<em>Aquarius</em>, 2016)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>3.</strong> O problema é que <em>O Agente Secreto</em> recorre a atalhos simbólicos. Ao eleger um pesquisador universitário como alvo central da repressão, o filme se afasta da materialidade histórica da ditadura brasileira, que perseguiu e assassinou majoritariamente militantes comunistas, sindicalistas, estudantes organizados, lideranças populares, do campo e da cidade, e agentes políticos. O conflito sai da esfera do coletivo e vai para a do individual, despolitizando a repressão e tornando-a mais confortável ao olhar contemporâneo das camadas médias esclarecidas, consumidoras em potencial do filme. Destaca-se que o professor é perseguido não por algum enfrentamento ao regime, mas tão somente pelas pesquisas que realiza em seu trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>4.</strong> Essa lógica reaparece na construção dos antagonistas. Ao associar o grande empresário e o assassino de aluguel ao Sul do país, o filme reforça um estereótipo que sugere que o autoritarismo teria região definida, talvez apenas invertendo os sinais do senso comum brasileiro. Trata-se de uma leitura historicamente frágil. Houve e há resistência organizada nos três estados do Sul, assim como em todo o Brasil. Movimentos estudantis, sindicatos urbanos e rurais e organizações políticas enfrentaram dura repressão. Operários, professores e estudantes foram perseguidos, presos e cassados. Militantes de esquerda, lideranças sindicais e setores da Igreja progressista sofreram vigilância, tortura e desaparecimentos. O Sul não foi exceção: foi também território de luta, repressão e resistência.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5.</strong> No filme, o filho do empresário desenha um mapa que separa o “Brasil” do Nordeste/Norte, e o ostenta contra o protagonista. O assassino de aluguel, executado por outro local, ganha manchete no jornal como “Turista sulista”. Na verdade, essa fórmula Sul x Nordeste já está em <em>Bacurau</em>, (2019) no qual o sulista é o turista ignorante e assassino por prazer, enquanto o nordestino é o símbolo da diversidade e da resistência criativa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>6.</strong> Ora, mais interessante para uma estética da resistência brasileira seria articular Leonel Brizola e Miguel Arraes ao mesmo tempo, ou seja, RS e PE, ou ainda, a Guerra de Canudos (BA) com a Guerra do Contestado (SC/PR), a Revolta da Catraca (SC) com a Revolta do Buzu (BA), o poeta Cruz e Sousa (SC) com o Augusto dos Anjos (PB), do que reforçar um estereótipo separatista.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158750" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/THE_SECRET_AGENT_Still_31.jpg" alt="" width="2000" height="857" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/THE_SECRET_AGENT_Still_31.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/THE_SECRET_AGENT_Still_31-300x129.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/THE_SECRET_AGENT_Still_31-1024x439.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/THE_SECRET_AGENT_Still_31-768x329.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/THE_SECRET_AGENT_Still_31-1536x658.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/THE_SECRET_AGENT_Still_31-980x420.jpg 980w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/THE_SECRET_AGENT_Still_31-640x274.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/THE_SECRET_AGENT_Still_31-681x292.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>7.</strong> Da mesma forma, o conservadorismo e o autoritarismo não são exclusividade do Sul. Movimentos separatistas, elites econômicas alinhadas ao regime militar e projetos políticos profundamente conservadores atravessam diversos estados brasileiros. Regionalizar a opressão é apagar seu caráter de classe e aliviar a responsabilidade nacional das elites civis que sustentaram a ditadura, ontem e hoje, em todos os estados brasileiros. No limite, o ressentimento regionalista de Kleber Mendonça Filho parece mais preocupado com balanço das urnas nas últimas eleições do que com a riqueza da história brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>8.</strong> Esse deslocamento ganha uma imagem quase didática na casa de Sebastiana. Ali, todos estão reunidos em harmonia por motivos aparentemente aleatórios. O espaço funciona como uma utopia reduzida na casa: miniatura idealizada, a própria Bacurau dentro de <em>O Agente Secreto</em>, um refúgio moral onde as contradições internas parecem suspensas. É uma lógica semelhante à de Pantera Negra e sua Wakanda: aqui dentro está tudo bem; o problema são os de fora. Os conflitos não nascem ali, eles chegam. São os turistas, os empresários do Sul e os estadunidenses. O mal é sempre externo, invasor, estrangeiro. Em Bacurau, seu Manoel, proprietário de muitos cavalos, é visto com simpatia pelos moradores locais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>9.</strong> É nesse ponto que emerge um problema mais amplo do cinema recente de Mendonça Filho. Tanto em <em>O Agente Secreto</em> quanto em <em>Bacurau</em>, constrói-se um modelo interpretativo da luta social como tensão entre regiões, e não entre classes. O Nordeste surge como espaço moralmente preservado, quase imune às próprias contradições, enquanto a responsabilidade histórica é deslocada para “os outros”. Esse recurso isenta o Nordeste de seus próprios problemas estruturais, de suas elites locais, de seus pactos de poder, de suas desigualdades e violências internas, e oferece uma explicação confortável para o fracasso social brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>10.</strong> O efeito é um recurso subjetivo tranquilizador: a culpa é sempre externa. Como se bastasse eliminar um suposto inimigo de fora — outra região do país — para que o Brasil se tornasse um paraíso. Ao substituir a luta de classes por um embate regional, o filme empobrece a análise social e transforma um problema em drama moral: a fórmula possível é um orgulho nordestino que sublima seus problemas locais, e uma culpa sulista, reduzida a resignação e auto-flagelo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>11.</strong> Sendo original o roteiro, a questão até se agrava. Não é mais uma memória da ditadura restrita às camadas médias, é a elaboração de uma nova. O diretor criou intencionalmente uma história que fortalece esse conflito regional. Kleber escolheu seu protagonista acadêmico que não tinha nenhum conflito com a ditadura, seu problema era individual, econômico e profissional com o empresário “do Sudeste”. O conflito entre o protagonista e o antagonista não é político, é somente econômico, devido a uma disputa de mercado entre patentes. De costumes também, devido ao cabelo comprido.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>12.</strong> Destaca-se que a regulamentação da privatização das patentes criadas em universidades públicas foi feita pelo governo Lula, pela Lei 10.972/2004. O embate só existe porque o governo eleito “pelo nordeste” criou uma lei que facilita empresários de obter patentes criadas em universidades, com dinheiro público, ou que pesquisadores transformem sua pesquisa em patente particular, caso do protagonista do filme, conforme acusa seu antagonista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>13.</strong> Ao regionalizar o autoritarismo e deslocar a luta de classes para um conflito entre regiões, o filme escolhe caminhos confortáveis. O espectador sai satisfeito, sem nenhuma tarefa política. Afirmar que essa não é a função do cinema não faz sentido para uma produção que se apresenta exatamente assim, política. E é justamente aí que revela seu principal limite: ao tentar denunciar o Brasil autoritário, acaba oferecendo uma crítica reduzida, um recorte distorcido da história e da realidade, menos complexa e menos incômoda do que o nosso papel histórico exigiu na ditadura e segue exigindo atualmente.</p>
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		<title>[São Paulo] Favela do Moinho lança a campanha &#8220;Alê livre&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 21:00:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Em defesa da liberdade e da integridade física e psíquica de Alessandra Moja Cunha. Por Comitê em Defesa do Moinho e pela Liberdade das Pessoas Presas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Comitê em Defesa do Moinho e pela Liberdade das Pessoas Presas</h3>
<p style="text-align: justify;">Localizada entre os distritos da Santa Cecília e do Bom Retiro, há mais de 3 décadas a Favela do Moinho resiste a inúmeras tentativas de expulsão, incêndios, abusos, execuções policiais e criminalização generalizada da comunidade <strong>[1]</strong>. Trata-se, como se sabe, da última favela remanescente na região central de São Paulo.</p>
<p>Recentemente, o governo estadual escolheu a região, uma das mais valorizadas na cidade, para construir a sua nova sede administrativa. No mesmo pacote, incluiu a construção de um parque e de uma estação privatizada de trem precisamente no terreno em que as famílias do Moinho encontraram um modo viável de viver na região central, perto das oportunidades de trabalho e de serviços públicos.</p>
<p>O projeto, que é declaradamente a ponta de lança para favorecer os diversos empreendimentos imobiliários e empresariais que invadiram a região na última década <strong>[2]</strong>, impulsionou uma brutal escalada de assédios e ataques à comunidade.</p>
<p>Com coragem e articulada com movimentos sociais e apoiadores voluntários de longa data (todos eles signatários desta carta), a Favela do Moinho conseguiu arrancar aos governos estadual e federal um compromisso de subsídio integral de moradias para toda a comunidade <strong>[3]</strong>.</p>
<p>Foi nesse contexto de reivindicação legítima do direito à moradia que se deu a vexaminosa operação policial do dia 8 de setembro de 2025 coordenada pelo GAECO, do Ministério Público, e executada por dezenas de policiais.</p>
<p>A reação institucional à vitória significativa da comunidade foi a prisão decretada contra Alessandra Moja Cunha, uma das lideranças históricas do movimento de moradia do centro de São Paulo e desde sempre engajada na associação de moradores do Moinho, sob absurdas acusações de participação em organização criminosa, prática de extorsão, receptação, crime ambiental e associação para o tráfico.</p>
<p>Na ocasião, a sua casa foi arrombada pelos policiais que, sem respeitar a obrigatoriedade do uso câmeras corporais, a agrediram com um soco e ameaçaram dar choques com o fio desencapado que extraíram do televisor. Certos de que tinham guarida, os policiais ainda forjaram uma mochila de entorpecentes ilegais contra ela e o marido <strong>[4]</strong>.</p>
<p>Para agravar o quadro de explícita perseguição política, Alê foi transferida, sem qualquer motivação idônea, para uma penitenciária situada em Tupi Paulista, a 700 quilômetros da capital. Lá, próximo à divisa com o estado do Mato Grosso do Sul, Alê tem somente quatro horas diárias de banho de sol e não tem recebido visitas pessoais em razão da dificuldade de locomoção dos familiares.</p>
<p>Contra toda essa covardia e terror, estamos aqui para exigir verdade e justiça.</p>
<p>Alê tem uma história de que deve se orgulhar. Sempre se dedicou ao trabalho honesto e cotidiano, à subsistência de suas filhas e filhos, às diversas ações de apoio mútuo entre vizinhos e na luta pelos direitos da comunidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo dos últimos 15 anos, Alê foi ativa na defesa dos direitos básicos da comunidade relacionados, sobretudo, à regularização fundiária, ao fornecimento de água e luz e ao saneamento básico. É notória e amplamente documentada a sua participação em inúmeras negociações com órgãos públicos e na articulação com agentes da sociedade civil organizada <strong>[5]</strong>. Internamente, foi uma das principais responsáveis por promover e cuidar de espaços coletivos para atividades culturais, como a Casa Pública, o Parque Vermelhão, o Cine Moinho etc.</p>
<p>É preciso que todos saibam que há muito tempo a Alê era intimidada em razão de seu engajamento direto na luta por moradia digna. Como sempre de cabeça erguida, Alê jamais deixou de atuar à luz do dia e reivindicar legitimamente os direitos dos moradores <strong>[6]</strong>.</p>
<p>Agora está sendo acusada por uma série de fatos que jamais cometeu única e exclusivamente em razão da sua atuação como líder de movimento de moradia. Uma acusação fajuta, baseada em laços de parentesco e sem nenhuma prova concreta, hoje a mantém presa injustamente e em condições desumanas de isolamento.</p>
<p>Felizmente, dois escritórios renomados (Tofic Advogados e Toron Advogados) e o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD) assumiram gratuitamente a defesa da Alê. Mas a sua família não tem condições financeiras de bancar viagens para visitá-la do outro lado do estado e só com sacrifícios imensos tem conseguido enviar o jumbo mensal.</p>
<p>Desse modo, a presente carta serve de endosso à campanha permanente pela liberdade da Alê <strong>[7]</strong> e igualmente de pedido de contribuição financeira para arcar com os custos para garantir visitas e jumbos até ela ser libertada. <a href="https://apoia.se/faveladomoinho" target="_blank" rel="noopener">CONTRIBUA COM O APOIA-SE</a>.</p>
<p>Somos muitas ao lado da Alê. Há mais de década conhecemos sua história, sua força e sua imensa dignidade. Enquanto ela estiver presa, estaremos reunidos em solidariedade pela preservação de sua integridade e por sua liberdade.</p>
<p>Alê livre!</p>
<p><a href="https://apoia.se/faveladomoinho" target="_blank" rel="noopener">https://apoia.se/faveladomoinho</a></p>
<p style="text-align: justify;">ASSINAM ESSA CAMPANHA:</p>
<ol style="text-align: justify;">
<li>Comitê em Defesa do Moinho e pela Liberdade das Pessoas Presas</li>
<li>Associação de amigos e familiares de presos/as (AMPARAR)</li>
<li>Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste</li>
<li>Campanha Despejo Zero São Paulo</li>
<li>Central de Movimentos Populares &#8211; CMP</li>
<li>Central Sindical e Popular CSP-Conlutas</li>
<li>Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários Suely Yumiko (CAELL) &#8211; Letras USP</li>
<li>Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos</li>
<li>Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP</li>
<li>Comitê Brasilândia Nossas Vidas Importam</li>
<li>Defemde &#8211; Rede Feminista de Juristas</li>
<li>DHCTEM &#8211; Grupo de Pesquisa de Direitos Humanos, Centralidade do Trabalho e Marxismo (FDUSP)</li>
<li>Equipe São Paulo do Conselho Indigenista Missionário &#8211; CIMI</li>
<li>FACESP &#8211; Federação das Associações Comunitárias do Estado de São Paulo</li>
<li>Frente Nacional de Luta Campo e Cidade &#8211; FNL</li>
<li>GPTC &#8211; Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital (FDUSP)</li>
<li>Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC</li>
<li>LabCidade – Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo</li>
<li>Luta Popular</li>
<li>Mandela Free</li>
<li>Movimento de Familiares das Vítimas do Massacre de Paraisópolis</li>
<li>Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB)</li>
<li>Movimento de Moradia do Centro de São Paulo – MMRC</li>
<li>Movimento de Mulheres Olga Benário</li>
<li>Movimento Esquerda Socialista (MES) &#8211; PSOL</li>
<li>Movimento Mulheres em Luta &#8211; MML</li>
<li>Movimento Negro Unificado (MNU)</li>
<li>MRFU &#8211; Movimento de Regularização Fundiária e Urbanização</li>
<li>MRT &#8211; Movimento Revolucionário de Trabalhadores</li>
<li>Observatório da Violência Policial e Direitos Humanos (OVP-DH)</li>
<li>Organização Socialista Libertária (OSL)</li>
<li>Programa de Assessoria, Garantia e Defesa de Direitos do Instituto das Irmãs da Santa Cruz (ADDIISC)</li>
<li>PSTU &#8211; Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado</li>
<li>Rede Emancipa de Educação Popular</li>
<li>Resistência &#8211; PSOL</li>
<li>SAJU Cidade &#8211; Serviço de Assessoria Jurídica Universitária, frente cidade (FDUSP)</li>
<li>Secretaria de Mulheres da União dos Movimentos de Moradia &#8211; UMM-SP</li>
<li>Sindicato Dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo – SINTUSP</li>
<li>Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal do Estado de São Paulo &#8211; SINDSEF-SP</li>
<li>União dos Movimentos de Moradia de São Paulo &#8211; UMMSP</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p><strong>[1]</strong> Cf. documento da Fiocruz “Favela do Moinho luta por políticas públicas que priorizem sua permanência, a urbanização e o respeito aos direitos dos moradores”, de 2025”: <a href="https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/favela-do-moinho-luta-por-politicas-publicas-que-priorizem-sua-permanencia-a-urbanizacao-e-o-respeito-aos-direitos-dos-moradores/" target="_blank" rel="noopener">https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/favela-do-moinho-luta-por-politicas-publicas-que-priorizem-sua-permanencia-a-urbanizacao-e-o-respeito-aos-direitos-dos-moradores/</a></p>
<p><strong>[2]</strong> Nas palavras do vice-governador e líder da “política de desestatização” do governo estadual, o objetivo é que o projeto seja o “motor de revitalização da região central, atraindo investimentos, promovendo infraestrutura moderna e gerando um novo dinamismo econômico&#8221; [cf.: <a href="https://www.instagram.com/reels/DKS5TawyEjP/" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/reels/DKS5TawyEjP/</a>]</p>
<p><strong>[3]</strong> Cf.: <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2025-06/familias-da-favela-do-moinho-receberao-r-250-mil-para-comprar-imovel" target="_blank" rel="noopener">https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2025-06/familias-da-favela-do-moinho-receberao-r-250-mil-para-comprar-imovel</a></p>
<p><strong>[4]</strong> Cf.: <a href="https://ponte.org/operacao-que-prendeu-lideres-no-moinho-mandou-pms-sem-camera-para-suposto-flagrante-de-drogas/" target="_blank" rel="noopener">https://ponte.org/operacao-que-prendeu-lideres-no-moinho-mandou-pms-sem-camera-para-suposto-flagrante-de-drogas/</a></p>
<p><strong>[5]</strong> Para ilustrar: (1) participação em reportagem publicada pela Reporter Brasil em 18 de outubro de 2013: <a href="https://outraspalavras.net/outrasmidias/a-longa-resistencia-da-favela-do-moinho/" target="_blank" rel="noopener">https://outraspalavras.net/outrasmidias/a-longa-resistencia-da-favela-do-moinho/</a>; (2) reunião com o prefeito de São Paulo em 14 de dezembro de 2014: <a href="https://prefeitura.sp.gov.br/web/habitacao/w/noticias/187584" target="_blank" rel="noopener">https://prefeitura.sp.gov.br/web/habitacao/w/noticias/187584</a>; (3) participação na produção do documentário “Moinho 14”: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=3-Jq5nQw-bM" target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=3-Jq5nQw-bM</a>; (4) entrevista à BBC sobre a luta por água e esgoto, publicada em 26 de abril de 2022: <a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61197414" target="_blank" rel="noopener">https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61197414</a></p>
<p><strong>[6]</strong> Em outubro de 2014, Alê foi detida arbitrariamente, sem qualquer acusação, ameaçada e conduzida à Delegacia. Como nada havia contra ela, foi &#8220;liberada&#8221;. Procurou a Defensoria Pública e através dela ajuizou e ganhou, em sentença proferida em 2023, ação de indenização contra o Estado e de responsabilização criminal dos policiais envolvidos. Nas palavras do juiz do caso, foi tão flagrante a &#8220;ocorrência de ilegalidade, que no inquérito em que se analisava a ocorrência de crime de abuso de autoridade, foi proposta pelo Ministério Público, aceita pelos [policiais] autores do fato e acolhida pelo juízo transação penal”, o que demonstra cabalmente que se tratava “de situação que não se admitia arquivamento e que existia justa causa para deflagração ação penal&#8221; [cf. ação indenizatória n. 1054878-29.2019.8.26.0053, 2ª Vara do Juizado Especial da Fazenda Pública de SP]</p>
<p><strong>[7]</strong> O manifesto público da campanha foi lançado em dezembro de 2025 e pode ser acessado e republicado a partir daqui: <a href="https://www.instagram.com/p/DSnBI1Rjccf/?hl=pt" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/DSnBI1Rjccf/?hl=pt</a></p>
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		<title>Mentiras que lhe dirão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 09:23:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras... Por Phil A. Neel]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Phil A. Neel</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><em>Traduzido do <a href="https://illwill.com/lies" target="_blank" rel="noopener">Inglês</a>.</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A cidade glacial está sob cerco. Nos longos e frios invernos no coração do Meio-Oeste, o ar pode ficar tão frio que dói respirar. Mercenários mascarados, em veículos sem identificação, percorrem os bancos de neve, sequestrando pessoas nas ruas e levando-as para centros de detenção por períodos indeterminados. Cada um dos mercenários recebe dezenas de milhares em um “bônus de assinatura” (até 50 mil e 60 mil dólares em perdão de empréstimos estudantis), simplesmente para pegar em armas em nome do regime em batalha. Diante de uma crise econômica em câmera lenta, na qual um boom surreal do mercado de ações, apoiado pelo Estado, é acompanhado por uma estagflação persistente na economia cotidiana, o puxa-saquismo é uma das poucas indústrias que apresentam algum crescimento real. Enquanto as ruas congelam em Minneapolis, a notação do Standard &amp; Poor atinge níveis recordes. Enquanto isso, o crescimento do emprego no ano passado foi tão desanimador que, após a divulgação dos números, o regime agiu rapidamente para demitir o chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho e ameaçar os meios de comunicação que divulgavam os números. <strong>[1]</strong> Além do declínio no emprego, devido ao congelamento da imigração, a profundidade da crise é sinalizada pela queda contínua na Taxa de Participação na Força de Trabalho, que serviu como o maior obstáculo ao crescimento do emprego no primeiro semestre de 2025 – indicando que um montante cada vez maior de pessoas está abandonando completamente a força de trabalho, mas não são contabilizadas nas estatísticas de desemprego. <strong>[2] </strong>O cerco pode, assim, ser entendido como uma espécie de keynesianismo mercenário, destinado a compensar a falta de emprego nos novos setores de defesa movidos a IA, que têm sido o foco da política institucional mais ampla de pilhagem-e-reestruturação.</p>
<p style="text-align: justify;">Enviados de cidades distantes, eles algemam os detidos e os espancam quando mais nenhuma reação é possível. Disparam munições “não letais” com clara intenção de mutilar. Repetidas vezes, atropelam pessoas por veículos. Indivíduos que simplesmente estão voltando do trabalho para casa têm suas janelas quebradas e são arrastados para fora de seus veículos para serem espancados e detidos por horas, às vezes dias. Agora, eles estão atirando em pessoas com munição letal. Invadiram o estacionamento de uma escola de ensino fundamental. Tiraram uma mãe de seu carro, colocaram-na em uma van sem identificação e foram embora, deixando seu bebê em uma cadeirinha, com a porta aberta, em temperaturas negativas (felizmente, resgatado por pessoas da multidão). Lançaram gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral em um carro cheio de crianças, hospitalizando todas elas, incluindo um bebê de seis meses que não conseguia respirar. <strong>[3] </strong>Em represália à resposta da comunidade, eles começaram a invadir as casas de cidadãos também, muitas vezes errando os endereços. O prefeito diz que não há nada a ser feito. O governador convocou a Guarda Nacional – destacada não contra os mercenários, é claro, mas contra aqueles que protestam contra eles. As autoridades judiciais da nação não apenas se recusaram a abrir processos, mas, além disso, foram ordenadas a investigar as vítimas e seus familiares. Todas as noites, o mundo inteiro assiste a vídeos de corpos envoltos em sombras, movendo-se na escuridão gelada da cidade sitiada. Nas lives, as pessoas gritam e choram, os mercenários berram suas ameaças, disparam suas armas e, diante de uma multidão grande o suficiente, recuam. Os hotéis que os hospedam são pichados. Os carros que abandonam são saqueados. Em resposta, mais tropas são enviadas pelo presidente, um rei louco, num corpo em decomposição, berrando ordens incoerentes do seu palácio no pântano. O sol nasce e acordamos com o sabor amargo de novas atrocidades à nossa espera.</p>
<p style="text-align: justify;">Há cinco anos, a poucos quarteirões de onde Renee Good foi assassinada pelo covarde Jonathan Ross, um assassinato semelhante desencadeou a maior revolta popular em mais de uma geração. Logo depois, nos contaram uma série de mentiras sobre essa rebelião. Disseram-nos que era um “movimento social não violento”, mesmo com a imagem de uma delegacia de polícia em chamas piscando ao fundo. Disseram-nos que, embora houvesse alguma violência, ela havia sido iniciada por agitadores externos, talvez policiais, ou até mesmo nacionalistas brancos. Quem quer que fossem, eles não eram membros da “comunidade”, mas sim indivíduos apenas “querendo causar confusão”. Disseram-nos que o plano desde sempre foi processar o assassino, e que foi apenas uma coincidência que as acusações só foram feitas depois que quase todas as grandes cidades do país viram seus centros saqueados e incendiados. Disseram-nos para irmos para casa, que tudo tinha acabado. Disseram-nos que os distúrbios eram apenas a desculpa de que Trump precisava para declarar a lei marcial e cancelar as próximas eleições. Disseram-nos que, se eleito, Biden iria arrumar as coisas. Disseram-nos que as deportações iriam acabar e que as políticas de Trump seriam revertidas. As crianças seriam libertadas das jaulas. Disseram-nos que devíamos voltar ao mais do mesmo da política — que essa era a única maneira de “fazer as coisas acontecerem”. No conjunto, essas mentiras resultaram em uma única grande inverdade: a revolta nunca ocorreu e nunca poderá ocorrer novamente. <strong>[4]</strong> Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras:</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Se você está aqui legalmente, não precisa se preocupar…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa é sempre a primeira mentira, que apenas os mais tresloucados ou os mais irracionais acreditam. Mesmo para os defensores ferrenhos do Estado, essa primeira mentira foi destruída no momento em que o tiro foi disparado. Por isso, ela foi reconfigurada: “se você não estiver obstruindo os agentes federais…”. E logo acrescentaram os adendos habituais: “por que você estava em um motim, para começar?” (dito às pessoas que moram no bairro); “por que você trouxe seus filhos para um protesto?” (para as famílias que buscavam os filhos na escola); “esses cidadãos têm ligações com grupos radicais de esquerda” (válido automaticamente para todos os que se opõem à agência). Eventualmente, a ladainha de mentiras proferidas por qualquer força tirânica tende a se normalizar em torno do guia de estilo das Forças de Defesa de Israel (IDF), refinado no solo bombardeado da Palestina, que há muito serve como laboratório para novos horrores. E, claro, como até uma rápida olhada na história demonstraria, os horrores nunca permanecem confinados à terra sagrada. Quando o bumerangue imperial retorna à mão que o lançou, o processo sempre começa com o chamado “elemento criminoso”. E então passa a ser os esquerdistas e os sindicalistas. E depois seus simpatizantes. E depois qualquer inimigo. Eventualmente, eles têm como alvo os inimigos inerentes da nação, figurados em termos de sangue e solo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158686 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="932" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-768x511.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-631x420.webp 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-640x426.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-681x453.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo completamente alheios aos protestos, cidadãos americanos foram detidos em batidas policiais e tiveram a validade de suas certidões de nascimento negada. Indígenas americanos foram mantidos em cativeiro por dias — usados, em parte, como moeda de troca para forçar as lideranças tribais a abrir seus territórios à agência. Isso não é um exagero: na cidade sitiada, qualquer pessoa que não pareça suficientemente branca (e branca da maneira certa) deve portar sua prova de cidadania o tempo todo, sob pena de ser detida e sequestrada. Este é, quase palavra por palavra, o cenário que foi profetizado pelos “esquerdistas radicais” com o advento de agências como o Departamento de Segurança Interna (DHS) e o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), após a aprovação da Patriot Act por uma coalizão bipartidária durante a Guerra ao Terror. Foi nessa mesma época que a Agência de Segurança Nacional (NSA) ganhou novos e amplos poderes. A primeira operação interagências para combater “gangues transnacionais violentas” foi iniciada em 2005, sob o governo Bush, e antecipa grande parte da linguagem ainda usada hoje. Mas o novo estado de segurança foi um esforço conjunto. Na verdade, embora tenha sido iniciado durante um governo republicano, foram os democratas que transformaram essas agências em órgãos operacionais e expandiram amplamente seus poderes.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto o ICE quanto o DHS foram rapidamente expandidos sob Obama, que supervisionou o maior aumento nas deportações e de campos de deportação, construídos, em parte, por meio de um acordo de US$ 1 bilhão sem licitação com a empreiteira prisional privada Core Civic (na época, Corrections Corporation of America). <strong>[5]</strong> Na verdade, Jonathan Ross, o agente que assassinou Good, foi contratado pela agência no auge dessa onda de deportações da era Obama. Nos mesmos anos, houve uma expansão dos centros de dados da NSA, incluindo a cerimônia de inauguração do Centro de Dados da Iniciativa Nacional Abrangente de Segurança Cibernética em Utah, que é talvez o núcleo da infraestrutura moderna de vigilância em massa. <strong>[6]</strong> Da mesma forma, foi o governo Obama que assinou os primeiros acordos com a Palantir para rastrear crimes transfronteiriços, estabelecendo as bases para a colaboração de longa data da empresa com o ICE. <strong>[7]</strong> Hoje, a empresa foi contratada para construir um aplicativo “que preenche um mapa com alvos potenciais de deportação, traz um dossiê sobre cada pessoa e fornece uma ‘pontuação de confiança’ sobre o endereço atual da pessoa…”. <strong>[8]</strong> Esses foram os mesmos anos em que os apelos para “abolir o ICE” ganharam força, juntamente com os apelos para reverter os programas de vigilância da NSA e desmantelar a Segurança Interna. Não é preciso dizer que essas demandas foram rejeitadas tanto por democratas quanto por republicanos como sendo nada mais do que reclamações estridentes de radicais irrealistas renitentes. Agora, enfrentamos precisamente a “realidade” que nos foi prometida.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O assassino será processado…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira é o bote salva-vidas para os muitos milhões que ainda se agarram a algum resquício de fé em um estado de direito outrora flutuante que, segundo qualquer critério razoável, já submergiu até o fundo do mar escuro e revolto. Vão nos dizer para esperar, para deixar o sistema funcionar, como se a ordem cívica submersa fosse ressurgir. Na realidade, essa ordem sempre foi uma gentileza temporária, possibilitada apenas pelas águas calmas de uma ordem imperial bem estabelecida. Lançado na crise, a probidade do Estado é sempre sacrificada pela efervescência do puro poder subjacente. Aqueles que baseiam sua fé nessa probidade simplesmente não conseguem entender o novo mundo em que se encontram. O que estamos testemunhando, então, é o lento e constrangedor crepúsculo da ingenuidade política bem-educada que definiu toda uma geração de liberais. Os liberais são, em sua essência, uma espécie de adoradores da legalidade. Tire-lhes a legislação e os processos judiciais e você ficará com penitentes confusos, cegos pelos horrores sombrios vislumbrados brevemente por trás de sua fé destruída. No curto prazo, eles continuarão como antes, só que com mais fervor. Confrontados com evidências incontestáveis de sua realidade política, os liberais se agarrarão ainda mais fortemente às ruínas de sua civilidade desmoronada, entrando com ação judicial após ação judicial, escrevendo para os seus deputados, indo de porta em porta para defender candidatos medíocres nas eleições de meio de mandato, tais como fanáticos cheios de feridas se flagelando em penitência pela praga.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem demora, vimos uma série interminável de ações judiciais movidas contra quase todos os aspectos do programa trumpista. Em 20 de janeiro de 2026, havia um total de 253 processos ativos de contestação de ações do governo. Porém, mesmo quando obtêm decisões favoráveis, elas se mostram inexequíveis. Por um lado, com controle decisivo sobre a Suprema Corte, bem como sobre as nomeações federais em todas as agências relevantes, qualquer contestação legal pode ser, em última instância, anulada. A Suprema Corte já anulou as ordens de tribunais inferiores em 17 ocasiões.<strong> [9]</strong> Por outro lado, os poderes executivos podem ser mobilizados para simplesmente anular decisões judiciais por decreto, seja de forma direta (por meio da proliferação de indultos presidenciais, concedidos a licitantes nos bastidores, por exemplo) ou buscando os mesmos fins, por meio de canais diferentes. Por exemplo, quando a deportação de Kilmar Abrego Garcia foi considerada ilegal por um tribunal inferior (e, em um caso raro, a decisão foi mantida pela Suprema Corte), o governo federal procurou indiciá-lo por acusações espúrias, a fim de justificar tentativas subsequentes de deportação. No entanto, precisamente porque esses casos acabam por seguir seu curso nos tribunais e, de fato, geram um certo atrito administrativo, os liberais conseguem manter uma fé mágica de que podem, eventualmente, ter êxito.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158687 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso deixa pouca esperança para uma resposta judicial aos assassinatos de Renee Good e Alex Pretti. Pouco depois do assassinato de Good, Ross foi evacuado do local, que foi limpo sem registro de provas ou investigação. Da mesma forma, outras agências foram proibidas de proteger o local do assassinato de Pretti. O Departamento de Justiça não apresentou nenhuma acusação, tampouco as autoridades municipais ou estaduais. O regime tem afirmado que Ross e todos os seus outros mercenários têm imunidade total. Eles têm repetido mentiras descaradas sobre o assassinato de Pretti, imediatamente refutadas por inúmeros vídeos. Neste momento, como em qualquer assassinato cometido pela polícia, as denúncias só serão formalizadas em qualquer uma dessas mortes caso houver mobilizações em massa de escala e intensidade suficientes. Passeatas pacíficas, mesmo que enormes ou disfarçadas de “greve geral” (mas que não fecham nenhuma empresa de grande porte da cidade), não têm como alcançar esse objetivo. Neste momento, simplesmente não há nenhum mecanismo imaginável pelo qual passeatas de protesto a fim de ganhar atenção política possam encorajar alguém no poder a levar esses assuntos a julgamento. Ataques à propriedade inimiga, bloqueios totais e greves podem forçar tal resultado, à maneira dos distúrbios no caso de George Floyd, vários anos antes. Nesse caso, porém, mesmo um julgamento e uma condenação poderiam ser facilmente anulados por meio de um indulto presidencial e, se os casos de 6 de janeiro servirem de indício, tudo indica que o executivo iria atrás disso. Não se pode mais confiar que o Estado nem mesmo finja fazer justiça. Os liberais são deixados a chorar, chicoteando suas costas feridas em atos fúteis de penitência, na esperança de reconquistar a atenção de seu deus delinquente. Eventualmente, seus furúnculos estouram e a peste os leva, como aos demais.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O ICE não é bem-vindo aqui…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Talvez isso seja verdade em algum sentido espiritual — na mente do político progressista convencido de que, no fundo do coração, o ICE não tem influência. No entanto, se você permite que atrocidades sejam cometidas na sua frente e não toma nenhuma medida substantiva para impedi-las, além de um discurso forte e talvez uma ou duas ações judiciais sem efeito, você não está, na verdade, cedendo também em espírito? Essa mentira se tornou um refrão comum entre os políticos locais. O prefeito disse isso. O governador também. E, apesar de claramente “não ser bem-vindo”, o ICE se sentiu bem à vontade. Os mercenários do ICE vagam pelas ruas. Arrombam as portas das pessoas, instruídos por seus superiores de que não precisam de um mandado assinado por um juiz. A ordem é claramente ilegal, mas isso parece não importar mais. <strong>[10]</strong> As únicas forças que minimamente se mobilizam contra essa invasão são pessoas comuns, que arriscam prisão, mutilação e morte para enfrentar os homens armados enviados para levar seus vizinhos para campos de prisioneiros. Redes robustas de defesa comunitária se espalham pela cidade congelada, enraizadas na infraestrutura criada justamente por essa incansável “extrema-esquerda” que tanto incomoda o regime. Por causa dessas redes, os mercenários raramente conseguem se mover sem serem rastreados, raramente param em algum lugar sem serem cercados e raramente tomam qualquer atitude sem serem filmados.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem dúvida, as redes de resposta comunitária desse tipo estão entre as formas mais importantes de organização de classe que os EUA viram nas últimas décadas. Conforme explicado por Adrian Wohlleben:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Com a construção de eixos de defesa, ou “centros”, combinados com outras práticas autônomas de rastreamento, perseguição e interrupção, a luta atual contra o ICE iniciou uma repolitização da inteligência infraestrutural, juntamente com uma inversão de sua orientação “cinegética” (de presa para predador). Esse fato, combinado com a notável tendência de restituir o político nos espaços da vida cotidiana, aponta para uma superação dos limites de 2020… <strong>[11]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">No entanto, parece improvável que até mesmo essa inteligência infraestrutural distribuída e incorporada ao tecido urbano da vida cotidiana seja suficiente. Embora seja um primeiro passo necessário, o andamento da história muitas vezes ultrapassa nossos esforços. Para acompanhar, é necessário dar um salto para o desconhecido.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Vá lá e vote…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Estamos diante de uma realidade sombria: a invasão está aqui, a santificada “resistência” da classe política nunca chegou e o poder bruto que governa o mundo está escancarado para todos. Os democratas já recusaram, em larga medida, os apelos para pressionar pela abolição do ICE e, em vez disso, defenderam sua fórmula desgastada de câmeras corporais e melhor treinamento. <strong>[12]</strong> Diante de tudo isso, como uma mentira tão simples pode persistir? Como alguém poderia estar legitimamente convencido de que votar, ainda mais nas eleições de meio de mandato, enfraqueceria o poder do regime? No entanto, mesmo para os ex-liberais desiludidos com sua fé nos canais legais, que agora perseguem o ICE em seus Honda Fit, soprando seus pequenos apitos e brandindo seus celulares como um escudo — e, apesar do disparate da imagem, legitimamente arriscando a morte para fazê-lo —, uma fé residual no sistema eleitoral permanecerá, mesmo depois que qualquer crença na ordem judicial tiver sido destruída. As eleições são, para os liberais, precisamente a maneira pela qual os erros sistêmicos são corrigidos. Elas oferecem um caminho de volta aos domínios legislativo e executivo, de onde o poder parece ser exercido. Assim, apoderar-se do legislativo em 2026 e, com sorte, o executivo em 2028, parece ser um meio razoável pelo qual o regime poderia ser deposto e seus erros, corrigidos. No entanto, mesmo para os liberais agora mobilizados, o medo paira no fundo da mente: e se isso for, afinal, uma mentira?</p>
<p style="text-align: justify;">A ilusão do “vá lá e vote” persiste, em parte, porque os EUA agora se transformaram totalmente no que Ernst Fraenkel, um advogado trabalhista que viveu a ascensão dos nazistas, chamou de “estado duplo”, no qual o regime é capaz de “manter uma economia capitalista governada por leis estáveis — e manter uma normalidade cotidiana para muitos de seus cidadãos — ao mesmo tempo em que estabelece um domínio de ilegalidade e violência estatal”, nas palavras do acadêmico Aziz Huq. Nessa modalidade de duas vias, um “Estado normativo”, marcado por um “sistema jurídico comum de regras, procedimentos e precedentes”, continua a operar, enquanto, paralelamente, um “Estado prerrogativo”, definido por “arbitrariedade ilimitada e violência sem controle por garantias legais”, se torna a norma em certas áreas geográficas ou na governança de grupos demográficos específicos. Para Fraenkel, essa zona “sem lei” não nega totalmente a zona legal, mas opera em conjunto com ela, mesmo que os “dois estados coabitem de forma incômoda e instável” porque “pessoas ou casos podem ser arrancados do estado normativo e jogados no estado prerrogativo” por um capricho político. Mas a tendência é clara: com o tempo, o ditatorial “estado prerrogativo distorceria e lentamente desmantelaria os procedimentos legais do estado normativo, deixando um domínio cada vez menor para a lei comum”. <strong>[13]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso é possível, em parte, porque o poder social não opera principalmente por meio do Estado. Na sua raiz, o poder da elite sobre as massas populares é econômico. O Estado e toda a classe política que o dirige são, em última análise, uma emanação dessa forma mais fundamental de poder de classe, definida pelo controle sobre a riqueza social. Essa é a chave para compreender o comportamento aparentemente suicida do regime: o Estado nunca teve a intenção de servir como uma instituição representativa universal que defende os direitos do “povo” de forma abstrata. Ele sempre foi projetado para ser, em última análise, uma máquina para negociar entre segmentos da elite proprietária e defender seus interesses. Em certos períodos de prosperidade imperial, os interesses gerais da população estão vagamente alinhados com os da elite. Mas esses são pactos temporários. Embora Fraenkel, nascido e criado em uma dessas épocas, veja o Estado prerrogativo como uma exceção, esse está, na verdade, mais próximo da norma histórica. O mistério do comportamento bizarro do regime se dissipa quando o vemos como uma luta faccional entre os quadros existentes das elites — em outras palavras, como um mecanismo de poder e pilhagem, empregado por certas facções do capital contra a população em geral, e potencialmente em detrimento de outras facções — e uma tentativa frenética dessas elites, desafiadas por blocos ascendentes de capital em outros lugares, de definir um curso estratégico que permita que seu poder sobreviva em um futuro geopolítico incerto.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158688 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez a tendência mais importante por trás do surgimento de um estado dual ditatorial seja esta: mesmo enquanto a inflação dizima os salários e os custos da energia disparam na economia cotidiana, o mercado de ações atingiu níveis sem precedentes. Como resultado, os quinze capitalistas mais ricos do país ganharam quase US$ 1 trilhão em riqueza ao longo de 2025 (de US$ 2,4 trilhões para US$ 3,2 trilhões), enquanto todos os 935 bilionários dos EUA juntos agora controlam o dobro da riqueza (US$ 8,1 trilhões) da metade mais pobre da população (170 milhões de pessoas). <strong>[14]</strong> Tampouco isso é uma exceção trumpista. É, ao contrário, parte de uma tendência que vem se consolidando desde a era Obama, no início da década de 2010 — que, por sua vez, reviveu uma tendência que começou no final da década de 1990 com a primeira bolha da internet, antes de ser interrompida por seu colapso — e que se acelerou em níveis sem precedentes, não sob Trump, mas sob Biden. No total, os 0,01% mais ricos dos americanos (cerca de 16 mil famílias de elite) controlam agora cerca de 12% da riqueza nacional, três vezes mais do que a mesma parcela da população controlava no auge da Era Dourada do século XIX. <strong>[15]</strong> Apesar dos contínuos alertas de que Trump está “destruindo a economia”, a realidade é que a economia está funcionando muito bem. Dada essa realidade sombria, não devemos imaginar que eleger democratas, em distritos eleitorais já grotescamente manipulados pelo gerrymandering, resultaria em um regime substancialmente diferente do atual.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Não dê a Trump um pretexto…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Aqui chegamos ao cerne da questão. Uma vez que a ilusão da civilidade desmorona, revelando a força e a fraude do poder como tal, novas mentiras surgem para servir a funções clássicas de contra-insurgência. Seu objetivo é atenuar a resposta imediata ao Estado tirânico, auxiliá-lo em sua repressão expondo militantes e impedir qualquer preparação para o que está por vir. “Não dê a eles um pretexto”, “Não morda a isca”, “Não dê a eles o que querem” — tudo isso acompanhado de novas teorias da conspiração sobre tijolos pré-plantados e agentes provocadores. Como em 2020, essas mentiras giram em torno da alegação de que lutar contra o exército invasor de mercenários acabará por dar ao governo uma desculpa para invocar a Lei de Insurreição e impor a lei marcial. Essa mentira parece ter integridade porque o regime ameaçou repetidas vezes fazer exatamente isso. Mas logo qualquer traço de lógica evapora-se. O que seria um “pretexto” suficiente e por que um regime que não tem absolutamente nenhum escrúpulo em violar a constituição, falsificar provas e perseguir seus oponentes precisaria de tal desculpa? Por que simplesmente não inventar uma? Agentes federais invadiram uma cidade e estão atacando e assassinando civis ativamente — isso já é uma forma de lei marcial, só que não no papel. Mais importante ainda, o objetivo principal da lei marcial é impor a quietude. Recompensar preventivamente o regime com exatamente o que ele quer não evita tanto a lei marcial, mas a torna desnecessária. Se as pessoas continuarem a se recusar a ficar quietas e o regime acabar invocando os poderes normativos adequados para declarar a lei marcial, isso não será culpa de ninguém além do próprio regime, independentemente do que ele escolher como gatilho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também temos que perguntar se a lei marcial é, de fato, necessária. Como sugere o modelo de estado duplo de Fraenkel, não há um momento em que um governo eleito se torna repentinamente autoritário. Em vez disso, formas prerrogativas de poder coexistem com as normativas e expandem progressivamente seu domínio de influência ao longo do tempo. O cerco às Cidades Gêmeas é uma evidência clara de que tal processo está bem encaminhado. Manifestar-se pacificamente contra o poder prerrogativo não faz nada para impedir seu progresso. Portanto, nos deparamos com uma escolha: ou não fazer nada além de protestar e registrar o aumento da repressão lentamente nas sombras, ou resistir abertamente e, assim, forçar essa repressão a se revelar para que todos vejam. A primeira opção traz menos riscos imediatos. Ela pode ser justificada como uma pausa estratégica enquanto construímos nossas capacidades. Mas tal afirmação requer então apontar onde essas capacidades estão sendo construídas. Enquanto isso, resistir abertamente acarreta enormes riscos imediatos: prisões em massa, tortura e assassinatos seletivos de ativistas, além de abrir as portas para uma aplicação ainda mais ampla do poder prerrogativo contra uma parcela maior da população. A principal diferença entre as duas opções é que a resistência aberta pelo menos traz consigo a possibilidade de desencadear a mobilização em massa necessária para construir o poder popular e derrubar uma elite tirânica, enquanto a petição por meio de canais normativos restritos não traz essa possibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A história demonstra claramente que tentar esperar que a situação se agrave ainda mais, na esperança de que o estado normativo seja restaurado por meio da intervenção de seus adeptos remanescentes (neste caso, políticos democratas, certos republicanos de centro e tecnocratas do governo, como Jerome Powell), apenas fortalece as elites que se beneficiam da ordem prerrogativa. A questão é, portanto, dupla: primeiro, o que deve ser feito? Segundo, o que será feito conosco independentemente disso? É aqui que surge a questão da guerra civil. A política americana pode ser entendida como sempre existindo em um estado latente de guerra civil. Sob certas condições, essa latência então cai por terra e o espectro de uma guerra civil real torna-se amplamente visível. Já em 2020, esse “espectro sempre presente de uma segunda guerra civil, mais balcanizada” havia entrado na consciência pública. <strong>[16]</strong> A visão da guerra civil tende a acompanhar as mudanças no exercício do poder estatal, particularmente em resposta a revoltas emancipatórias. Conforme explicado por Idris Robinson:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">O funcionamento do Estado se dá, fundamentalmente, afastando a ameaça onipresente de guerra civil. O Estado, como tal, pode ser considerado como aquilo que bloqueia e inibe a guerra civil. O que é único neste país é a nossa tradição emancipatória singular, que está ligada à nossa compreensão da guerra civil. <strong>[17]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, a reestruturação aparentemente suicida do Estado em duas vias é um meio padrão através do qual as revoltas populares e outros conflitos sociais incendiários são inibidos e a ordem existente, restaurada.</p>
<p style="text-align: justify;">No passado, os poderes prerrogativos foram invocados precisamente para afastar o espectro da guerra civil e da revolução. Desde a sua aprovação em 1807, a Lei da Insurreição foi invocada pelo menos 30 vezes por quinze presidentes, formal e informalmente. Da mesma forma, a lei marcial foi declarada pelo menos 68 vezes. Embora ambos tenham sido usados para conter ameaças da direita (particularmente durante a Reconstrução e o movimento pelos direitos civis do pós-guerra) ou conflitos violentos entre grupos de trabalhadores, os usos mais comuns da força militar federal têm sido, de longe, a repressão de revoltas de escravos, greves e outras revoltas. Uma das primeiras grandes mobilizações internas das forças armadas dos EUA foi realizada pelo genocida Andrew Jackson para reprimir a rebelião de escravos de Nat Turner, em 1831. Da mesma forma, a Lei de Insurreição foi invocada por Rutherford Hayes para encerrar a Grande Greve Ferroviária de 1877, por Warren Harding durante a Batalha de Blair Mountain, em 1921, — a maior revolta armada desde a Guerra Civil —, por Lyndon Johnson, em resposta aos distúrbios que se seguiram ao assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968, e por George H.W. Bush, em resposta à revolta em Los Angeles, em 1992. <strong>[18]</strong> Em outras palavras, nem invocar a Lei de Insurreição nem declarar lei marcial sinaliza necessariamente uma guerra civil iminente, ou mesmo a suspensão do poder normativo.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Um agente provocador começou tudo…”</h3>
<p style="text-align: justify;">À medida que o cerco continua, as atrocidades se acumulam e os apelos e protestos dos políticos progressistas provam ser impotentes, algo vai acontecer. Mais e mais pessoas vão começar a destruir propriedades do ICE sempre que puderem. Cada vez mais pessoas verão a necessidade de fechar e destruir a infraestrutura econômica central através da qual o poder da elite opera. Por exemplo, o UnitedHealth Group, com sede nos subúrbios de Minneapolis, foi um dos principais doadores da campanha de Trump (mais de US$ 5 milhões, juntamente com Musk) e é um dos principais beneficiários das políticas do Projeto 2025 de Trump. <strong>[19]</strong> Da mesma forma, a corporação Target, também sediada nos subúrbios das Cidades Gêmeas — e conhecida por operar um dos maiores bancos de dados de reconhecimento facial do mundo, compartilhando esses dados com o governo — doou US$ 1 milhão para o fundo de posse de Trump e tem colaborado ativamente com as forças de ocupação. <strong>[20]</strong> À medida que a polícia e a Guarda Nacional entrarem em cena para apoiar o ICE, as pessoas se insurgirão. As greves se espalharão. Eventualmente, quando ficar claro que o ICE pode e vai matar você sem consequências, alguém revidará. É aí que surge a mentira final, dizendo-nos que a revolta em si não foi iniciada pela população, mas por “agitadores externos”, policiais à paisana ou até mesmo supremacistas brancos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira tem uma longa história, já bem documentada. <strong>[21]</strong> E, no entanto, a mentira persiste, perpetuada ativamente por ativistas que agem como informantes autoproclamados dentro de qualquer movimento em curso. Ao alegar que qualquer ação agressiva praticada contra o inimigo é cometida por agentes da polícia secreta, esses informantes, de fato, perseguem, vigiam e, às vezes, detêm manifestantes para entregá-los à polícia. Muitas vezes, a própria polícia incentiva esse mito, como durante a Rebelião de George Floyd, em 2020, quando se espalharam rumores de que a primeira janela havia sido quebrada por um policial à paisana ou um supremacista branco, e a polícia então divulgou uma declaração juramentada, fingindo tê-lo identificado como membro dos Hells Angels, para, pouco depois, abandonar discretamente tal alegação — nenhuma acusação foi apresentada, enquanto as evidências dos registros de prisão mostravam claramente que a maioria dos detidos nos distúrbios vinha das imediações. <strong>[22]</strong> Dois outros casos de 2020 mostram as consequências da disseminação de tais rumores.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro ocorreu em Seattle: depois que a polícia abandonou a delegacia leste da cidade, a área foi ocupada por manifestantes. Houve intensos debates sobre se a delegacia seria incendiada, como em Minneapolis. Muitos alegaram que qualquer tentativa de fazê-lo seria uma ação de um agente provocador. Então, em 12 de junho, um homem com roupa colorida decidiu tentar, empilhando detritos contra a lateral do prédio, ateando fogo e indo embora. Ativistas no local apagaram o fogo, enquanto outros perseguiram e filmaram o homem, alegando que ele era um agente provocador. Embora ele tenha escapado, esses ativistas-informantes postaram as imagens online e as divulgaram até que fossem compartilhadas com a polícia, que as usou para identificar Isaiah Thomas Willoughby como suspeito. Willoughby se declarou culpado por incêndio criminoso no ano seguinte e foi condenado a dois anos de prisão e mais alguns anos de liberdade condicional depois disso. Logo, foi revelado que Willoughby não era um agente provocador, mas sim o companheiro de casa enlutado de Manuel Ellis, um homem desarmado assassinado pela polícia na cidade vizinha de Tacoma, no início daquele ano. <strong>[23]</strong></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158689 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo caso ocorreu em Atlanta: depois que Rayshard Brooks foi morto pela polícia de Atlanta do lado de fora de um Wendy’s local, pessoas do bairro ocuparam o terreno e, posteriormente, incendiaram o prédio. Informantes-ativistas imediatamente alegaram que o incêndio criminoso foi um ato de um agente provocador e vasculharam a internet para encontrar vídeos de uma mulher branca supostamente ateando fogo, que foram então entregues à polícia. A mulher branca, porém, não era uma agente provocadora. Ela era, na verdade, a namorada de Rayshard Brooks e, por causa desses informantes, foi acusada e declarada culpada por incêndio criminoso. <strong>[24]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso não quer dizer que policiais à paisana ou informantes não participem dos protestos. Há evidências bem documentadas de que eles o fazem. Da mesma forma, agentes federais se infiltram em grupos ativistas, onde sugerem e ajudam a coordenar ações altamente ilegais como forma de armadilha — isso é algo absolutamente a se prestar atenção dentro de assembleias públicas e espaços fechados para planejamento e preparação. Mas isso não ocorre no meio de um protesto ativo. Como qualquer veterano das lutas políticas nos Estados Unidos pode dizer, os policiais à paisana colocados no meio dos protestos quase sempre têm a tarefa de gravar secretamente, comunicar-se com a polícia do outro lado e, em certos casos, deter participantes que se preparam para atirar objetos ou empunhar armas. Em outras palavras, os policiais à paisana desempenham praticamente a mesma função que os próprios ativistas informantes. O objetivo final do mito do agente provocador é, portanto, fazer com que os ativistas desempenhem o papel de contra-insurgentes.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Estamos em desvantagem…”</h3>
<p style="text-align: justify;">A mentira final afirma que, mesmo que tentássemos, não há como revidar. Essa é a desculpa já mobilizada pelo prefeito, que justificou não mobilizar a polícia para impedir ou investigar os mercenários com alegações de que o ICE superaria em número e armamento as forças policiais locais. <strong>[25]</strong> Da mesma forma, o governador sabe que chamar a Guarda Nacional contra uma agência federal seria um ato criminoso, resultando na federalização das tropas estaduais, o que, se resultar em divisões nas cadeias de comando, é convencionalmente visto como o caminho mais provável para confrontos entre as forças estaduais e federais e, portanto, o início de uma guerra civil — como é explicado em um artigo amplamente compartilhado que documenta simulações de potenciais conflitos civis, realizadas por acadêmicos da Universidade da Pensilvânia. [26] No entanto, todas essas considerações são incapazes de compreender dois fatos cruciais. Primeiro, elas aceitam a suposta oposição entre “democratas” e “republicanos” tal como essa se apresenta e, assim, superestimam a disposição dos políticos locais — muitos financiados por exatamente os mesmos interesses corporativos que Trump — de se comprometerem com qualquer coisa que se assemelhe remotamente a uma resistência significativa a uma invasão federal. Segundo, eles assumem que a resistência deve vir de dentro do próprio estado, talvez apoiada por instituições afiliadas, como sindicatos e organizações sem fins lucrativos. Ao fazer isso, eles ignoram completamente o papel de uma população mobilizada.</p>
<p style="text-align: justify;">A perspectiva de uma guerra civil real surge quando conflitos materiais estabelecidos entre as elites coincidem com a agitação popular, permitindo que esta última sirva de veículo para os primeiros. As guerras civis podem escalar para conflitos revolucionários quando sua dimensão popular é organizada independentemente dessas elites e assume um caráter partisan <strong>[*]</strong> — ou seja, que busca não apenas uma redistribuição de bens ou direitos dentro do sistema existente, mas a transformação social desse próprio sistema, em direção a fins emancipadores. No momento, os conflitos entre grupos de elite não são suficientes para incentivar qualquer rebelião liderada por políticos locais. É muito improvável que o conflito simulado entre as forças estaduais e federais realmente ocorra, a menos que seja desencadeado de fora, ou seja, pela agitação popular vinda de baixo. E é precisamente aí que as previsões existentes falham, recusando-se a levar em conta a perspectiva de um conflito mais geral, em toda a sociedade, com as forças de ocupação. A realidade que os políticos liberais estão tentando desesperadamente disfarçar é que o povo supera em número a força invasora, que o poder das elites econômicas por trás de Trump depende dos trabalhadores e que, mesmo que minimamente organizados, esses trabalhadores têm, portanto, a capacidade de derrotar a invasão por conta própria.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158690 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota da tradução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">[*] Para Phil A. Neel, partisan refere-se ao indivíduo ou grupo que participa ativamente nas lutas que emergem de conflitos de classe cotidianos e localizados. Trata-se, portanto, do projeto comunista que visa intervir diretamente nas lutas, e não teorizar o movimento de forma abstrata. Ver “Teoria do Partido” (disponível em <a href="https://antipoda.comrades.sbs/traducao/2025/09/21/teoriadopartido.html" target="_blank" rel="noopener">Antípoda</a> ).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas do autor</strong></p>
<p style="text-align: justify;">1.Peter Hart, “Trump’s Attacks on Jobs Numbers Are Noise – And Still Dangerous”, Center for Economic and Policy Research, 23 de setembro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">2. Leila Bengali, Ingrid Chen, Addie New-Schmidt e Nicolas Petrosky-Nadeau, “The Recent Slowdown in Labor Supply in Demand”, Federal Reserve Bank of San Francisco, 12 de janeiro de 2026. Figura 4.</p>
<p style="text-align: justify;">3. Kilat Fitzgerald, “North Minneapolis ICE shooting: Children hospitalized after flash bang, tear gas hits van”, Fox9 KMSP, 15 de janeiro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">4. Identificando essa resposta desde o início, Idris Robinson afirmou a verdade: “De fato, uma revolta militante ocorreu em todo o país. A ala progressista da contra-insurgência visa negar e desarticular esse acontecimento.” (“How it Might Should be Done”, Ill Will, 16 de janeiro de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">5. Eric Levitz, “The Obama Administration’s $1 Billion Giveaway to the Private Prison Industry”, New York Magazine Intelligencer, 15 de agosto de 2016 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">6. Ingrid Burrington, “A Visit to the NSA’s Data Center in Utah”, The Atlantic, 19 de novembro de 2015. Disponível online aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">7. Palantir, “Sobre a Palantir”, Palantir, 21 de agosto de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">8. Joseph Cox, “‘ELITE’: The Palantir App ICE Uses to Find Neighborhoods to Raid”, 404 Media, 15 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">9. Lawfare, “Trump Administration Litigation Tracker”, Lawfare, 20 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">10. Luke Barr, “ICE memo allows agents to enter homes without judicial warrant: Whistleblower complaint”, ABC News, 22 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">11. Adrian Wohlleben, “Revolts Without Revolution”, Ill Will, 14 de novembro de 2025 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">12. Mychal Denzel Smith, “‘Abolish ICE’ Is More Popular Than Ever. How Will Democrats Drop the Ball This Time?”, The Intercept, 18 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">13. Aziz Huq, “America is Watching the Rise of a Dual State”, The Atlantic, 23 de março de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">14. Sharon Zhang, “Top 15 US Billionaires Gained Nearly $1 Trillion in Wealth in Trump’s First Year”, Truthout, 7 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">15. Marcus Nunes, “The Great Reconcentration: Why America’s Ultra-Wealthy Now Control 12% of National Wealth”, Money Fetish, 20 de janeiro de 2026. Disponível online aqui. (O número citado por Nunes 2026 usa a metodologia estabelecida em: Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, “The Rise of Income and Wealth Inequality in America: Evidence from Distributional Macroeconomic Accounts”, Journal of Economic Perspectives, 34(4), outono de 2020 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">16. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">17. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">18. Joseph Nunn, Elizabeth Goitein, “Guide to Invocations of the Insurrection Act”, Brennan Center for Justice, 25 de abril de 2022 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">19. Ian Vandewalker, “Unprecedented Big Money Surge for Super PAC Tied to Trump”, Brennan Center for Justice, 5 de agosto de 2025. Disponível online aqui; People’s Action, “UnitedHealth Will Be a Top Beneficiary of Trump’s Project 2025”, People’s Action, 15 de outubro de 2024 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">20. KPFA, “The Hidden Side of Target: Surveillance, Policing, and a Call for Scrutiny”, KPFA, 20 de fevereiro de 2025. Disponível online aqui; Mike Hughlett, “Target gave $1M to Trump inauguration fund, a first for the company”, The Minnesota Star Tribune, 29 de abril de 2025 (disponível online aqui); Louis Casiano, “Anti-ICE agitators occupy Minnesota Target store, demand retailer stop helping federal agents”, Fox News, 19 de janeiro de 2026 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">21. Dave Zirin, “The Fiction of the ‘Outside Agitator”, The Nation, 3 de maio de 2024 (online aqui); Code Switch, “Unmasking the ‘Outside Agitator’”, NPR, 10 de junho de 2020 (online aqui); Glenn Houlihan, “The ‘Outside Agitator’ Is a Myth Used to Weaken Protest Movements”, In These Times, 3 de junho de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">22. Logan Anderson, “Who was Umbrella Man, who smashed windows before ‘first fire’ in 2020 Minneapolis protests?”, The Minnesota Star Tribune, 30 de maio de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">23. Mike Carter, “CHOP protester who pleaded guilty to arson was Manuel Ellis’ housemate, lawyer says”, The Seattle Times, 9 de junho de 2021 (online aqui); Procuradoria dos Estados Unidos, “Tacoma man sentenced to two years in prison for early morning fire in ‘CHOP’ zone”, United States Attorney’s Office Western District of Washington, 5 de outubro de 2021 (online aqui). 24. Para uma visão geral dos protestos em Atlanta, consulte: Anônimo, “At the Wendy’s: Armed Struggle at the End of the World”, Ill Will, 9 de novembro de 2020 (online aqui). Para saber mais sobre as consequências legais, consulte: Kate Brumback, “2 Plea Guilty in Fire at Atlanta Wendy’s During Protest After Rayshard Brooks Killing”, Claims Journal, 7 de dezembro de 2023 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">25.Tim Miller e Anne Applebaum, “Anne Applebaum and Jacob Frey: Using Lies to Justify Violence”, The Bulwark, 9 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">26.Claire Finkelstein, “We ran high-level US civil war simulations. Minnesota is exactly how they start”, The Guardian, 21 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Como os hackers estão revidando contra o ICE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Feb 2026 22:47:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Mesmo diante de uma forte presença policial interna com ampla capacidade de vigilância e tecnologias de ponta, ainda existem maneiras de nos defendermos da vigilância. Por Cooper Quintin]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Cooper Quintin</h3>
<p style="text-align: justify;">O ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) tem invadido cidades americanas, buscando, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.brennancenter.org/our-work/research-reports/ice-wants-go-after-dissenters-well-immigrants" href="https://www.brennancenter.org/our-work/research-reports/ice-wants-go-after-dissenters-well-immigrants" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">vigiando</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.propublica.org/article/immigration-dhs-american-citizens-arrested-detained-against-will" href="https://www.propublica.org/article/immigration-dhs-american-citizens-arrested-detained-against-will" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">assediando</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.opb.org/article/2025/12/06/vancouver-ice-alleged-crushing-legs/" href="https://www.opb.org/article/2025/12/06/vancouver-ice-alleged-crushing-legs/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">agredindo</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://kstp.com/kstp-news/local-news/woman-says-she-was-detained-by-ice-in-minneapolis-for-being-a-citizen-observer/" href="https://kstp.com/kstp-news/local-news/woman-says-she-was-detained-by-ice-in-minneapolis-for-being-a-citizen-observer/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">detendo</a> e <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.amnesty.org/en/latest/news/2025/12/estados-unidos-nuevas-investigaciones-revelan-violaciones-de-derechos-humanos-en-los-centros-de-detencion-de-alligator-alcatraz-y-krome-en-florida/" href="https://www.amnesty.org/en/latest/news/2025/12/estados-unidos-nuevas-investigaciones-revelan-violaciones-de-derechos-humanos-en-los-centros-de-detencion-de-alligator-alcatraz-y-krome-en-florida/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">torturando</a> imigrantes indocumentados. Também tem <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.propublica.org/article/immigration-dhs-american-citizens-arrested-detained-against-will" href="https://www.propublica.org/article/immigration-dhs-american-citizens-arrested-detained-against-will" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">como alvo pessoas</a> com <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.opb.org/article/2025/10/30/tacoma-hillsboro-victor-cruz-ice-immigration-oregon-law-enforcement/" href="https://www.opb.org/article/2025/10/30/tacoma-hillsboro-victor-cruz-ice-immigration-oregon-law-enforcement/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">autorização de trabalho</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://truthout.org/articles/ice-kidnapped-my-neighbor-in-broad-daylight-the-aftermath-left-me-reeling/" href="https://truthout.org/articles/ice-kidnapped-my-neighbor-in-broad-daylight-the-aftermath-left-me-reeling/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">solicitantes de asilo</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.theguardian.com/us-news/2025/dec/15/ice-lawsuit-violent-assault" href="https://www.theguardian.com/us-news/2025/dec/15/ice-lawsuit-violent-assault" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">residentes permanentes</a> (portadores de “green card”), <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://sahanjournal.com/immigration/ice-arrest-cedar-riverside-minneapolis-somali-man/" href="https://sahanjournal.com/immigration/ice-arrest-cedar-riverside-minneapolis-somali-man/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">cidadãos naturalizados</a> e <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.houstonchronicle.com/opinion/outlook/article/i-m-citizen-ice-wrongfully-detained-me-21244415.php" href="https://www.houstonchronicle.com/opinion/outlook/article/i-m-citizen-ice-wrongfully-detained-me-21244415.php" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">até mesmo cidadãos por nascimento.</a> O ICE gastou <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=http://www.eff.org/deeplinks/2026/01/ice-going-surveillance-shopping-spree" href="http://www.eff.org/deeplinks/2026/01/ice-going-surveillance-shopping-spree" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">centenas de milhões de dólares em tecnologia de vigilância</a> para espionar qualquer pessoa — e potencialmente todos — nos Estados Unidos. Pode ser difícil imaginar como se defender contra uma força tão avassaladora. Mas alguns hackers criativos iniciaram projetos para realizar contra-vigilância contra o ICE e, com sorte, proteger suas comunidades por meio do uso inteligente da tecnologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos começar com a Flock, a empresa por trás de diversas tecnologias <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://sls.eff.org/technologies/automated-license-plate-readers-alprs" href="https://sls.eff.org/technologies/automated-license-plate-readers-alprs" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">de leitura automática de placas de veículos</a> (ALPR) e outras câmeras. Você pode se surpreender com a quantidade de câmeras da Flock em sua comunidade. Muitas prefeituras, grandes e pequenas, em todo o país, fecharam contratos com a Flock para que os leitores de placas rastreiem a movimentação de todos os carros em suas cidades. Embora esses contratos sejam firmados por departamentos de polícia locais, muitas vezes o ICE <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.404media.co/ice-taps-into-nationwide-ai-enabled-camera-network-data-shows/" href="https://www.404media.co/ice-taps-into-nationwide-ai-enabled-camera-network-data-shows/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">também obtém acesso às informações</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Devido à sua onipresença, as pessoas têm interesse em descobrir onde e quantas câmeras Flock existem em suas comunidades. Um projeto que pode ajudar com isso é o <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.hackster.io/news/colonel-panic-s-oui-spy-is-a-slick-bluetooth-low-energy-scanner-or-a-foxhunting-handset-c16927adad71" href="https://www.hackster.io/news/colonel-panic-s-oui-spy-is-a-slick-bluetooth-low-energy-scanner-or-a-foxhunting-handset-c16927adad71" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">OUI-SPY</a>, um pequeno dispositivo de hardware de código aberto. O OUI-SPY funciona com um chip barato compatível com Arduino, chamado ESP-32. Existem vários programas disponíveis para serem carregados no chip, como o “Flock You”, que permite detectar câmeras Flock, e o “Sky-Spy”, para detectar drones sobrevoando a área. Há também o “BLE Detect”, que detecta vários sinais Bluetooth, incluindo os da Axon, dos óculos Ray-Ban da Meta que <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://github.com/sh4d0wm45k/glass-detect/blob/main/glass-detect/glass-detect.ino" href="https://github.com/sh4d0wm45k/glass-detect/blob/main/glass-detect/glass-detect.ino" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">gravam você secretamente</a> e muito mais. Ele também possui um modo conhecido como “caça à raposa” para rastrear um dispositivo específico. Ativistas e pesquisadores podem usar essa ferramenta para mapear diferentes tecnologias e quantificar a disseminação da vigilância.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe também o <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://wigle.net/" href="https://wigle.net/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aplicativo de código aberto Wigle</a>, projetado principalmente para mapear redes Wi-Fi, mas que também possui a capacidade de emitir um alerta sonoro quando um identificador específico de Wi-Fi ou Bluetooth é detectado. Isso significa que você pode configurá-lo para receber uma notificação quando detectar produtos da Flock, Axon ou outros dispositivos indesejados nas proximidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Um YouTuber criativo, Benn Jordan, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.youtube.com/watch?v%3DPp9MwZkHiMQ" href="https://www.youtube.com/watch?v%3DPp9MwZkHiMQ" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">descobriu uma maneira de enganar as câmeras Flock</a> para que não gravassem sua placa, simplesmente pintando um pequeno ruído visual sobre ela. Isso é inofensivo o suficiente para que qualquer pessoa ainda consiga ler a placa, mas impediu totalmente que os dispositivos Flock a reconhecessem como tal naquele momento. <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://codes.findlaw.com/ca/vehicle-code/veh-sect-5201/" href="https://codes.findlaw.com/ca/vehicle-code/veh-sect-5201/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Alguns estados americanos</a> proíbem motoristas de ocultar suas placas. Portanto, essa prática não é recomendada.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais tarde, Jordan descobriu <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.youtube.com/watch?v%3DvU1-uiUlHTo" href="https://www.youtube.com/watch?v%3DvU1-uiUlHTo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">centenas de câmeras Flock mal configuradas</a> que expunham sua interface de administrador sem senha na internet pública. Isso permitia que qualquer pessoa com conexão à internet visualizasse transmissões de vigilância ao vivo, baixasse 30 dias de vídeo, visualizasse registros e muito mais. As câmeras estavam apontadas para parques, trilhas públicas, cruzamentos movimentados e até mesmo um parquinho infantil. Isso representou uma enorme quebra de confiança pública e uma grande falha para uma empresa que alega trabalhar pela segurança pública.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158677" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/logo-footer.png" alt="" width="557" height="752" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/logo-footer.png 557w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/logo-footer-222x300.png 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/logo-footer-311x420.png 311w" sizes="auto, (max-width: 557px) 100vw, 557px" />Também foram lançados diversos aplicativos para denúncia de avistamentos de agentes do ICE, incluindo aplicativos para relatar avistamentos de agentes do ICE em sua área, como <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://stopice.net" href="https://stopice.net" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Stop ICE Alerts</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://iceout.org" href="https://iceout.org" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ICEOUT.org</a> e ICE Block. O ICEBlock foi <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://9to5mac.com/2025/10/02/following-doj-pressure-apple-pulls-iceblock-from-the-app-store/" href="https://9to5mac.com/2025/10/02/following-doj-pressure-apple-pulls-iceblock-from-the-app-store/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">removido da lista de aplicativos da Apple a pedido da Procuradora-Geral Pam Bondi</a>, fato pelo qual <a class="urlextern" title="https://www-eff-org.translate.goog/cases/eff-v-doj-dhs-ice-tracking-apps?_x_tr_sl=auto&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt-BR&amp;_x_tr_pto=wapp" href="https://www.eff.org/cases/eff-v-doj-dhs-ice-tracking-apps" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">estamos processando a empresa</a>. Há também o Eyes Up, um aplicativo para gravar e arquivar com segurança operações do ICE, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://mashable.com/article/apple-removes-app-archiving-videos-of-ice" href="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://mashable.com/article/apple-removes-app-archiving-videos-of-ice" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">que foi retirado do ar pela Apple no início deste ano.</a></p>
<p style="text-align: justify;">Outro projeto interessante que documenta o ICE e cria um acervo de informações de código aberto é <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://wiki.icelist.is/index.php?title%3DMain_Page" href="https://wiki.icelist.is/index.php?title=Main_Page" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">o ICE List Wiki</a>, que contém informações sobre empresas que têm contratos com o ICE, incidentes e encontros com o ICE e veículos que o ICE utiliza.</p>
<p style="text-align: justify;">Pessoas sem conhecimento de programação também podem se envolver. <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.chicagotribune.com/2025/10/20/whistles-chicago-ice/" href="https://www.chicagotribune.com/2025/10/20/whistles-chicago-ice/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Em Chicago, as pessoas usavam apitos para alertar seus vizinhos sobre a presença</a> de agentes do ICE ou que eles estão na área. Muitas pessoas imprimiram apitos em 3D, juntamente com folhetos de instruções, para distribuir em suas comunidades, permitindo uma distribuição mais ampla dos apitos e, consequentemente, alertas mais precoces para os vizinhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos hackers começaram a oferecer treinamentos de segurança digital para suas comunidades ou a criar <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://activistchecklist.org/" href="https://activistchecklist.org/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">sites com dicas de segurança</a>, incluindo como <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.reclaimcontrol.tech/" href="https://www.reclaimcontrol.tech/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">proteger seus dados dos olhares atentos da indústria de vigilância</a>. Para alcançar um público mais amplo, instrutores até começaram a oferecer treinamentos sobre como defender suas comunidades e o que fazer em uma operação da imigração em <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.404media.co/ice-defense-training-on-fortnite-new-save-collective/" href="https://www.404media.co/ice-defense-training-on-fortnite-new-save-collective/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">videogames, como Fortnite</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe também o projeto Rayhunter da EFF (Electronic Frontier Foundation) para detecção de simuladores de antenas de celular, sobre o qual <a class="urlextern" title="https://www-eff-org.translate.goog/deeplinks/2025/03/meet-rayhunter-new-open-source-tool-eff-detect-cellular-spying?_x_tr_sl=auto&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt-BR&amp;_x_tr_pto=wapp" href="https://www.eff.org/deeplinks/2025/03/meet-rayhunter-new-open-source-tool-eff-detect-cellular-spying" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">já escrevemos bastante</a>. O Rayhunter funciona em um hotspot móvel barato e não exige conhecimento técnico aprofundado para ser usado.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante lembrar que não somos impotentes. Mesmo diante de uma forte presença policial interna com ampla capacidade de vigilância e tecnologias de ponta, ainda existem maneiras de nos defendermos da vigilância. Não podemos ceder ao niilismo e ao medo. Devemos continuar buscando pequenas formas de nos proteger e proteger nossas comunidades e, quando possível, revidar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>A EFF não tem qualquer vínculo com esses projetos (exceto o Rayhunter) e não os endossa. Não fazemos nenhuma declaração sobre a legalidade do uso de qualquer um desses projetos. Consulte um advogado para determinar os riscos envolvidos.</em></strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Tradução a partir do original que pode ser acessado aqui: <a class="urlextern" title="https://www.eff.org/deeplinks/2026/01/how-hackers-are-fighting-back-against-ice" href="https://www.eff.org/deeplinks/2026/01/how-hackers-are-fighting-back-against-ice" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.eff.org/deeplinks/2026/01/how-hackers-are-fighting-back-against-ice</a></em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">
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