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	<title>Revoluções &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Devagar e sempre</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Dec 2024 22:29:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O livro Teoria da Crise Catastrófica do Modo de Produção Capitalista, Base Vital da Previsão Revolucionária do Comunismo, previu a iminente crise catastrófica do capitalismo em sua primeira edição, em 1980. A reedição, certamente revista e ampliada, acaba de ser anunciada. Com todo este tempo de preparação, vai ser uma revolução caprichada. Passa Palavra.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O livro <em>Teoria da Crise Catastrófica do Modo de Produção Capitalista, Base Vital da Previsão Revolucionária do Comunismo</em>, previu a iminente crise catastrófica do capitalismo em sua primeira edição, em 1980. A reedição, certamente revista e ampliada, acaba de ser anunciada. Com todo este tempo de preparação, vai ser uma revolução caprichada. <strong>Passa Palavra</strong>.</p>
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		<title>Nós, a maioria (2)</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Aug 2024 05:00:30 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
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					<description><![CDATA[Estudantes de uma universidade brasileira convidaram um professor estrangeiro, histórico militante comunista, para ministrar um curso sobre a história do fascismo. Preocupados, comentaram que não sabiam o que fazer, pois havia 200 pessoas inscritas. “Ora, com duzentas pessoas não fazemos um curso, nós tomamos o país!”, arrematou o professor. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Estudantes de uma universidade brasileira convidaram um professor estrangeiro, histórico militante comunista, para ministrar um curso sobre a história do fascismo. Preocupados, comentaram que não sabiam o que fazer, pois havia 200 pessoas inscritas. “Ora, com duzentas pessoas não fazemos um curso, nós tomamos o país!”, arrematou o professor. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Nós, a maioria (1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Collika]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Aug 2024 05:00:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
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					<description><![CDATA[O jovem rapaz pergunta ao seu avô comunista: “Vô, quantas pessoas tinha na sua organização? Doze?”. O velho dá risada: “Doze? Quem dera! Se fossemos em doze nós tínhamos vencido!”. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O jovem rapaz pergunta ao seu avô comunista: “Vô, quantas pessoas tinha na sua organização? Doze?”. O velho dá risada: “Doze? Quem dera! Se fossemos em doze nós tínhamos vencido!”. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>O 25 de Abril está morto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Apr 2024 19:48:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Aceitar a derrota quando ela de fato ocorre é o mínimo que deve fazer um revolucionário. A crença em uma falsa vitória é sempre pior que uma derrota assimilada conscientemente. Por Dois imigrantes em Portugal]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Dois imigrantes em Portugal</strong></h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">O 25 de Abril está morto. Isto é o que pudemos constatar em poucos meses de vida e trabalho em Portugal. Isto é o que pudemos constatar em nosso primeiro “feriado” comemorativo desta data, que o 25 de Abril está morto. Afirmamos isso ao não notarmos sequer sombra do ímpeto contestatório do Processo Revolucionário em Curso (PREC) de outrora, entre os trabalhadores. A partir de nossas experiências imediatas e daquilo que acompanhamos da vida política recente em Portugal, não de um estudo sociológico, o que vemos é a total apatia dos trabalhadores, concomitantemente a uma ascensão considerável da extrema-direita fascistizada e da xenofobia, capitaneada eleitoralmente pelo Chega. Em nossos trabalhos, o que vemos são trabalhadores rindo dos colegas humilhados por seus chefes e gerentes, regozijando-se quando é o outro que teve seu salário descontado por um “pedido errado” ou uma taça quebrada. Uma total ausência de solidariedade e consciência de classe, mesmo que totalmente prática. Uma colega brasileira, fodida como todos nós, chegou a reclamar que o filho tinha que fazer um trabalho sobre o 25 de Abril, “aquela merda de revolução dos esquerdistas”. A mesma disse que sua maior contradição era gostar de Raul Seixas e Paulo Coelho, pois ela era de direita e ambos “eram comunistas”. Outro colega, português e tão fodido como nós, afirmou que o problema do 25 de Abril era “não ter matado todos os comunistas”. Enquanto isso os patrões podem dormir sossegados. Poderia o 25 de abril não estar morto?</p>
<p style="text-align: justify;">Os patrões jogam ainda com a questão dos contratos de trabalho, pois sabem que os setores como a Restauração (restaurantes, cafés, bares, etc.) e a Construção Civil são a porta de entrada para o trabalho de milhares de imigrantes em busca de trabalho. Ter um contrato de trabalho é condição primordial para tentar uma permanência legalizada no país, por meio das chamadas Manifestações de Interesse. Prometem-se contratos que nunca chegam e, quando chegam, são totalmente inferiores ao que de fato se trabalha, pagando-se “por fora” o restante de horas trabalhadas, o que é muitas vezes muito mais do que o número de horas previstas no contrato. Jornadas de 12 horas são comuns, pois “quanto mais você trabalhar, mais você irá ganhar”, dizem os patrões. Assim como toda a sonegação de impostos realizada com burlas diárias, chegamos a ouvir que “afinal, não estamos aqui a trabalhar para eles [o Estado], não é mesmo?! Prefiro pagá-los por fora do que dar dinheiro a eles!”. Um de nós chegou mesmo a ouvir do proprietário de um bar: “isto aqui é uma família!”. Certos setores econômicos de Portugal se encontram no futuro do pretérito, reproduzindo de forma modernizada relações trabalhistas que há muito já deveriam ter desaparecido, mesmo no capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Portugal vive ainda uma brutal crise habitacional, com aluguéis atingindo patamares sem antecendentes nas últimas décadas. Centenas de trabalhadores dividem apartamentos superlotados, alugando quartos individuais quando muito. Para se alugar um apartamento de 1 quarto, fora dos grandes centros, paga-se quase 1000 euros mensalmente. Mas, para conseguir esse “privilégio” de alugar uma moradia só para a sua família, pede-se de 4 a 6 meses de adiantamento, entre aluguéis e cauções, além de fiador em muitos casos. Isto pode representar um mínimo de 3500 euros só para conseguir começar a morar com um mínimo de decência. Fora a xenofobia. Não vamos gastar o tempo do leitor com longas descrições de situações vividas, mas sim, ela existe. No trabalho, no banco, no mercado, nas ruas, em todo lugar e em diversos níveis, do mais sútil ao mais grosseiro e violento. Aonde vive o 25 de Abril?</p>
<p style="text-align: justify;">Acordamos hoje para trabalhar no feriado (um de nós apenas, pois o outro quase partiu para a ação direta contra um gerente histérico ontem e pediu demissão), assistindo a cobertura do 25 de Abril nos jornais locais. O que vimos foi um “7 de Setembro à portuguesa”, com paradas militares celebrando a hierarquia na corporação e diante dos Chefes de Estado. A declaração do presidente português, que repercutiu pelos maiores jornais do mundo, que afirmou a “dívida histórica” e o “dever de reparação financeira” dos “povos escravizados”, demonstra que a luta anticolonial dos revolucionários de outrora também foi totalmente recuperada, apropriada pelo programa fascistoide “decolonialista” e identitário, hoje hegemônico na esquerda. Não sobra nada. Nas ruas, o que vimos foram apresentações escolares, cravos de papel sendo distribuídos e comemorações vazias. E turistas, muitos turistas circulando e consumindo, conforme já aguardavam os patrões da Restauração. Ontem não havia o menor “espírito” do 25 de Abril nas ruas, e amanhã já não haverá vestígios novamente. Transformando-se em uma “data cívica” como outra qualquer, o 25 de Abril morreu.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, não foi uma vitória para a Democracia, o 25 de Abril? Para aqueles que vendem sua força de trabalho, que insistimos em chamar de proletários, com certeza foi uma vitória a derrubada do fascismo salazarista. Sob o porrete fascista é muito mais difícil para a classe se organizar politicamente. Enfim, Portugal se tornou uma grande Democracia, de fato. Isto significa que instaurou-se um regime político mais adequado ao imperativo da mais-valia relativa, especialmente após o estabelecimento da União Europeia, que retirou Portugal do ostracismo econômico de 5 décadas de fascismo. No entanto, como toda Democracia surgida da derrocada de regimes totalitários, graças à luta de milhares de trabalhadores, trata-se de um regime inerente à dominação capitalista (burguesa e gestorial) de classe. Politicamente, as Democracias são de fato ambientes um pouco mais abertos à organização política. Mas, não nos emocionemos muito com isso, pois sabemos o que acontece com iniciativas que se ponham a questionar a ordem dominante, no “Estado Democrático de Direito”. Neste sentido, que é hoje o mais importante por ser aquele que constitui o real processo em curso, enquanto os democratas e muitos conservadores comemoram a “vitória da liberdade” conquistada pelo 25 de Abril, para os trabalhadores (de fato, independentemente, dos matizes ideológicos), assim como para as debilitadas forças sociais anticapitalistas, significa hoje uma grande derrota, pois foi completamente fagocitado pelo Estado e suas instituições.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata de uma reflexão ressentida ou derrotista. Aceitar a derrota quando ela realmente ocorre é o mínimo que deve fazer um revolucionário. A crença em uma falsa vitória é sempre pior que uma derrota assimilada conscientemente. Não temos “esperança”, um instrumento dos idealistas. Temos a certeza racional de que, enquanto o capitalismo existir, as contradições que lhe são inerentes podem eclodir em novas lutas e novas formas de organização da classe. Se isto ocorrer novamente em Portugal (não apenas), e é o que desejamos que aconteça, poderemos dizer que o 25 de Abril está vivo novamente.</p>
</div>
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		<title>Teses sobre a Comuna do Sudão</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Jan 2024 12:48:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<category><![CDATA[Sudão]]></category>
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					<description><![CDATA[A guerra social da qual a Revolução do Sudão foi um episódio ainda está sendo travada hoje. Provavelmente veremos novas tentativas de ultrapassar os limites da luta contemporânea. A cada novo experimento, poderemos ver emergir mais claramente os contornos da comuna e da autonomia proletária. Por Anônimo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Anônimo</strong></h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Nota do Passa Palavra:</strong> enquanto vemos certa euforia com novos regimes surgidos da mais recente onda de golpes militares no Burkina Faso, no Gabão, no Chade, na Guiné, no Sudão e no Mali, em especial pelos muitos vídeos que circulam pela internet com a população depositando nos novos ditadores militares altas esperanças de que acabem com a “corrupção” e com o “colonialismo”, poucos se debruçam sobre estes fatos tentando dissipar a neblina da guerra em busca das contradições e conflitos internos que contribuem para formar estes regimes. Mais raros ainda são os que olham para os militares de forma crítica, como parte de uma sociedade local muito mais complexa que certos olhares paternalistas e certas fantasias edênicas de uma África “pura” permitem conceber. O texto a seguir, de autor anônimo e publicado em 2021 pelo coletivo </em>Ill Will<em>, mesmo com suas limitações, é uma tentativa de remar contra a maré e lançar sondas para auscultar o trabalho das correntes sociais sob a superfície. Esperamos que sirva de provocação a outros leitores mais atentos ao que se passa na África que se disponham a estender o debate.</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: right;" align="right"><i>As revoluções proletárias&#8230; zombam impiedosamente das hesitações, fraquezas e inadequações de seus primeiros esforços, parecem derrubar seu adversário apenas para vê-lo extrair novas forças da terra e erguer-se novamente de forma formidável diante delas, recuam repetidamente diante da imensidão de suas tarefas, até que finalmente é criada uma situação que torna impossível qualquer retorno, e as próprias condições gritam: </i>&#8220;hic Rhodus, hic salta!&#8221;<br />
&#8212; Marx</p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2018, o Sudão estava em meio a uma crise econômica. O governo começou a implementar medidas de austeridade. Isso incluiu o corte de subsídios para combustível e trigo. Em resposta, houve tumultos em Atbar, uma cidade no norte. Os protestos se espalharam rapidamente para meia dúzia de cidades e, depois, para quase todos os lugares. Logo os manifestantes estavam exigindo não apenas o fim da austeridade, mas a queda do regime.</p>
<p style="text-align: justify;">Os protestos diminuíram e fluíram por meses até o início de abril, quando um acampamento em massa começou do lado de fora do quartel-general militar em Cartum. A ocupação rapidamente se tornou o local de confrontos com a polícia e, depois, entre diferentes facções das forças armadas. Os soldados começaram a desertar. Em uma semana, foi anunciado que o presidente al-Bashir havia sido preso e que um Conselho Militar de Transição (TMC) assumiria o poder para supervisionar a transição para a democracia.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151128" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people.jpg" alt="" width="1000" height="666" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people-768x511.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/Revolutionary_atbara_people-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1000px) 100vw, 1000px" />A revolução no Egito, que começou em 2011, teve um fim abrupto quando os militares tomaram o poder em um golpe. Determinado a não seguir o mesmo caminho, o movimento no Sudão tinha como objetivo derrubar também esse novo regime militar. “Vitória ou Egito” tornou-se a nova palavra de ordem da revolução. Seguiram-se meses de greves, manifestações e bloqueios. O acampamento em Cartum se expandiu até chegar a quase um quilômetro de comprimento, com mais de cem mil pessoas à noite. Isso culminou em uma greve geral no final de maio.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 3 de junho, o regime militar massacrou os manifestantes ocupantes e incendiou o acampamento de Cartum até o chão. O movimento reagiu com outra onda de greves e protestos em massa coordenados. Porém, logo em seguida, com medo de que levar as coisas adiante significasse o risco de uma guerra civil, os representantes do movimento entraram em negociações com o regime. Isso resultou em um acordo de compartilhamento de poder no qual um governo provisório composto por representantes militares e civis administraria a transição.</p>
<p style="text-align: justify;">A seguir, algumas reflexões sobre a revolta no Sudão e sua importância global.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>I.</strong><br />
<em>A revolução no Sudão nos dá o vislumbre mais claro da forma da revolução social que está por vir.</em> Ela também apresenta o maior contraste entre os limites e os potenciais da luta contemporânea.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>II.</strong><br />
<em>A Primavera Árabe levantou a questão da revolução pela primeira vez em uma geração e abriu uma nova sequência global de lutas. </em>Mas em quase todos os lugares essas revoluções terminaram em um golpe militar ou em uma guerra civil. Se as revoluções na Tunísia e no Egito inspiraram a sensação de que tudo era possível, a longa contrarrevolução que se seguiu indicou que qualquer tentativa de mudar a ordem das coisas levaria a uma catástrofe. Essa derrota lançou uma longa sombra sobre o mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>III.</strong><br />
<em>As revoluções no Sudão e na Argélia foram os primeiros esforços conscientes para ir além dos impasses alcançados pelo Egito.</em> Elas não conseguiram ultrapassar esses limites. Mas, em suas tentativas, mostraram que as tentativas revolucionárias não precisam inevitavelmente mergulhar a região no caos. Os historiadores que olham para trás provavelmente concluirão que isso foi necessário para que uma nova onda de lutas se abrisse da maneira que aconteceu em 2019.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151132" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121.jpg" alt="" width="813" height="558" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121.jpg 813w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121-300x206.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121-768x527.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121-612x420.jpg 612w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121-640x439.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/20211117163238056121-681x467.jpg 681w" sizes="(max-width: 813px) 100vw, 813px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>IV.</strong><br />
As lutas mais intensas de nosso tempo chegam a um precipício e depois voltam atrás. Ir além significaria dar um salto para o desconhecido. Ninguém quer ser o primeiro a pular e ver se descobre novas terras ou se simplesmente cai em queda livre. Ainda não sabemos como será criada uma situação que torne impossível voltar atrás e na qual as próprias condições clamem: “<em>hic Rhodus, hic salta!</em>”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>V.</strong><br />
<em>As lutas contra a austeridade tendem a se entender como uma crítica à corrupção do Estado.</em> Mas, na longa crise, o Estado de fato tem pouco espaço de manobra. Pode haver pouco que ele possa fazer além de implementar a austeridade, esteja ou não livre das amarras da corrupção. Os políticos que se aproveitam dessas ondas de agitação para assumir o cargo geralmente acabam implementando políticas notavelmente semelhantes às dos governos que substituíram.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VI.</strong><br />
<em>As revoluções de nosso século se encontram imediatamente emaranhadas em uma teia de geopolítica.</em> A Síria tornou-se o local de um conflito por procuração entre potências globais. O curso da revolução do Sudão foi sobredeterminado por outros conflitos mais regionais. Primeiro, a revolução terá de se espalhar rapidamente e encontrar sua escala adequada. Não existe revolução social em um único país. Em segundo lugar, uma onda revolucionária provavelmente terá de se espalhar e repercutir nas metrópoles capitalistas. Por enquanto, as lutas nesses locais são menos determinadas por manobras geopolíticas e podem ter a capacidade de destruir totalmente a arquitetura geopolítica.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VII.</strong><br />
<em>Uma situação revolucionária começa no momento em que as forças armadas se recusam a disparar contra a multidão. </em>As revoluções sociais dos séculos XIX e XX foram possíveis porque as forças armadas entraram em colapso, geralmente como resultado da perda de uma guerra interimperialista. No caos que se seguiu, parecia possível não apenas substituir o governo, mas destruir o Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, as revoluções de nosso século ocorreram em países onde os militares funcionam como um Estado dual. No Egito, na Argélia e no Sudão, isso levou a uma continuidade essencial entre o regime que caiu e o que o substituiu. Em outros lugares, como na Síria, os militares se dividiram ao longo da revolução, dando início a um período de guerra civil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VIII.</strong><br />
<em>Um dos principais limites das lutas contemporâneas tem sido a incapacidade de superar as separações reinantes nas sociedades das quais elas emergem. </em>O Sudão, um país predominantemente árabe muçulmano com grandes minorias étnicas africanas e religiosas, foi construído sobre uma base de separações raciais. Ele foi ainda mais dilacerado por décadas de guerras civis e limpeza étnica. As atrocidades em Darfur são apenas o exemplo mais infame.</p>
<p style="text-align: justify;">Os manifestantes se orgulhavam de ter superado essas divisões no decorrer da revolta. As origens africanas do antigo Sudão foram um dos principais temas de palestras e discussões no acampamento de Cartum. Quando, no início, o regime tentou culpar os estudantes de Darfur pela agitação em Cartum, o movimento respondeu com a palavra de ordem: somos todos Darfuri. Ainda não está claro até que ponto essas divisões voltarão a surgir agora que a onda revolucionária está recuando.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151131" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1.jpg" alt="" width="1429" height="1743" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1.jpg 1429w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-246x300.jpg 246w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-840x1024.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-768x937.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-1259x1536.jpg 1259w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-344x420.jpg 344w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-640x781.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/GPUEEJHCCX2VDFYVZ24LZFUO4Q-1-681x831.jpg 681w" sizes="(max-width: 1429px) 100vw, 1429px" />IX.</strong><br />
<em>Outras divisões, como as de classe e geração, ressurgiram de fato dentro do movimento.</em> O Conselho Militar de Transição conseguiu explorar essas tensões para abrir brechas entre a revolução e seu apoio popular, entre o acampamento e as favelas ao redor, e entre o movimento nas ruas e as organizações que o representavam. Essas separações e repúdios prepararam o cenário para o massacre de Cartum.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>X.</strong><br />
<em>As revoltas </em><em class="u"><em>geralmente</em></em><em> passam por uma sequência de “marcadores rítmicos” que servem como pivôs ou pontos de virada que catalisam novas energias.</em> A revolta do Sudão passou por pelo menos quatro: tumultos, não-violência em massa, ocupação do espaço público e uma greve geral. O ponto de ignição da revolta foi uma onda de tumultos espontâneos. Mas, para que ela se generalizasse, teve de assumir o caráter de não-violência em massa coordenada. A ocupação, as barricadas e sua defesa proporcionaram um contexto para a confraternização com os soldados, para a deserção deles e para a abertura de divisões dentro das forças armadas. A greve geral foi capaz de esclarecer até que ponto o movimento poderia mobilizar o apoio popular, mas não foi suficiente para paralisar o governo ou a economia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XI.</strong><br />
<em>As formações militantes forjadas em ondas anteriores de luta podem atuar como vetores de intensificação. </em>As revoltas contra a austeridade surgiram e desapareceram no passado. Uma diferença importante em 2018 foi a presença de organizações que se formaram após a repressão de um movimento antiausteridade em 2013. Isso inclui os comitês de resistência baseados em bairros e a Associação Profissional do Sudão (SPA). Por serem capazes de fornecer alguma infraestrutura, coordenação e determinação, esses grupos puderam contribuir para o salto do tumulto para a insurreição.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XII.</strong><br />
<em>Entretanto, essas formações também podem se tornar uma barreira que precisará ser superada. </em>As organizações que passaram a representar a revolução estavam muito mais ansiosas para entrar em negociações com o governo do que muitas das que estavam nas ruas. O SPA, por exemplo, foi formado para fazer lobby por um aumento no salário mínimo, não para liderar uma revolução, para a qual eles se sentiram arrastados pelos jovens. Eles estavam ansiosos para voltar ao normal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XIII.</strong><br />
<em>A proeminência da SPA deixa claro o papel de liderança das classes médias profissionais na revolução.</em> Sudaneses de quase todas as classes e grupos sociais participaram da revolução. Mas em sua vanguarda estavam os estudantes e os profissionais. Esses grupos foram motivados tanto por sua preocupação com as condições terríveis dos pobres quanto por suas próprias expectativas frustradas. Com as condições repressivas específicas, as classes médias profissionais foram mais capazes de se organizar, fornecer alguma coordenação para um movimento nacional e articular o que parecia ser um interesse geral. Paul Mason observa em algum lugar que a Revolução Francesa de 1789 “não foi produto de pessoas pobres, mas de advogados pobres”. A revolução, portanto, pode ter menos a ver com o aumento da pauperização e mais a ver com o aumento das expectativas que não podem ser atendidas pela situação atual.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XIV.</strong><br />
<em>No entanto, o curso da revolta aponta para a possibilidade de surgimento de uma política proletária autônoma. </em>Os tumultos que deram início à revolução começaram por causa do preço do pão. Os acampamentos eram habitados em grande parte pela população urbana pobre. Muitos deles tentaram ultrapassar os representantes do movimento que entraram em negociações. Em cada etapa da revolução, os proletários desempenharam um papel prático fundamental. Mas eles não conseguiram encontrar uma base para coordenar e articular suas próprias atividades de forma distinta. É possível, embora não seja certo, que surja um polo nitidamente proletário em futuros levantes que tenha confiança em sua própria iniciativa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151129" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM.jpg" alt="" width="1920" height="1920" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-1536x1536.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/QN7AL5BNPFKMLHTIEET7HBX2WM-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />XV.</strong><br />
Deve-se lembrar que foi necessário um ciclo inteiro de tumultos, insurreições e revoluções &#8211; de 1830 a 1848 &#8211; para que o proletariado de Paris começasse a hastear a bandeira vermelha em suas barricadas. Foi somente em 1871 que a escolha foi claramente colocada entre uma república burguesa e uma comuna proletária. Os eventos de nosso jovem século podem ser acelerados, mas essas coisas levam tempo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XVI.</strong><br />
<em>Nos acampamentos em todo o país, mas especialmente em Cartum, temos um vislumbre dos contornos emergentes da comuna.</em> Como disse um observador, esses acampamentos <em>“inadvertidamente… constituem um desafio político e social fundamental para o Estado”</em>. Ele explica melhor:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“A organização e as atividades do sit-in proporcionaram um modelo igualitário e democrático sobre o qual um modelo radicalmente diferente de governança e sociedade poderia ter sido construído. Assim, constituiu o alicerce da revolução social, mas poucos participantes o entenderam como tal, e a liderança da SPA e da FFC considerou as manifestações como meramente instrumentais.” </em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XVII.</strong><br />
<em>Essa comuna parece não ter nada do formalismo democrático que deu às comunas e aos conselhos do movimento operário a qualidade de parlamentos operários adjuntos.</em> Isso talvez nos permita distinguir a futura <em>comuna destituinte</em> das <em>comunas constituintes</em> do passado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XVIII.</strong><br />
<em>Os observadores frequentemente comentavam que o acampamento de Cartum tinha mais a </em><em>sensação de um festival do que de uma </em><em>manifestação</em><em> política.</em> Palcos para apresentações de música, teatro e poesia e tendas para arte estavam espalhados por todo o acampamento. Era um lugar para fazer experimentos sobre como viver. Isso assume um caráter particularmente urgente e subversivo em um país dominado por um regime islâmico. A observação da Internacional Situacionista sobre a Comuna de Paris poderia muito bem ter se aplicado a Cartum: “A Comuna foi o maior festival do século XIX. Subjacente aos eventos daquela primavera de 1871, pode-se ver o sentimento dos insurgentes de que se tornaram os mestres de sua própria história, não tanto no nível da política &#8216;governamental&#8217;, mas no nível de sua vida cotidiana”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XIX.</strong><br />
<em>Ninguém teve a coragem ou a previsão de reconhecer esse desenvolvimento pelo que ele era. </em>Para C. L. R. James, o papel dos pró-revolucionários era registrar e refletir as inovações espontâneas que surgiam no decorrer da luta. Para ele, essa era a genialidade das <em>Teses de Abril</em> de Lênin, que reconhecia um salto adiante que a classe ainda não via em suas próprias ações e tirava as conclusões necessárias: <em>todo poder aos sovietes</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XX.</strong><br />
<em>O regime militar percebeu claramente a ameaça representada pelo acampamento, o que explica a intensidade com que foi reprimido.</em> A comuna emergente é o principal inimigo do Estado. Onde quer que a comuna se reúna, haverá uma Tiananmen e, mais cedo ou mais tarde, os tanques aparecerão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151127" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/sudan_london_revolution_wp.jpg" alt="" width="600" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/sudan_london_revolution_wp.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/sudan_london_revolution_wp-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />XXI.</strong><br />
<em>Com o surgimento da comuna, suas tarefas imediatas são claras: expansão da área de autonomia, bloqueio da economia e defesa contra seus inimigos.</em> A cada novo ataque da polícia, o movimento respondia expandindo o acampamento e barricando novas estradas e pontes. Essa estratégia se torna quase intuitiva quando existe um acampamento como esse.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XXII.</strong><br />
<em>O surgimento da comuna levanta imediatamente o espectro da insurreição e, portanto, da guerra civil. </em>A dinâmica básica é a seguinte: o surgimento de acampamentos como esse aponta para a possibilidade de uma revolução social. Isso é claramente reconhecido pelo Estado, que tenta reprimi-la. Em resposta, os acampamentos tentam intuitivamente se expandir. Isso levanta a questão da insurreição. A comuna deve suprimir o Estado para evitar ser suprimida por ele. Mas a insurreição sempre implica o risco de guerra civil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XXIII.</strong><br />
<em>Um, dois, muitos Sudões.</em> A guerra social da qual a Revolução do Sudão foi um episódio ainda está sendo travada hoje. Provavelmente veremos novas tentativas de ultrapassar os limites da luta contemporânea. A cada novo experimento, poderemos ver emergir mais claramente os contornos da comuna e da autonomia proletária. Em algum momento, pode haver um avanço, em que a revolução política dê lugar à revolução social. Então, à medida que esse avanço repercute no exterior, poderemos ver a propagação de uma onda revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Todo o poder para as comunas.</em></p>
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		<title>A necessidade da revolução brasileira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Apr 2023 11:15:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Indígena]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[Numa conversa sobre a conjuntura política atual, a pesquisadora de cultura indígena defendeu a necessidade de uma revolução brasileira e, para já, que o Estado crie mecanismos para manter apenas ao alcance de um público rigorosamente selecionado os resultados das pesquisas sobre os indígenas brasileiros. Assim, dizia ela, o conhecimento não será roubado pelos imperialistas. Por Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Numa conversa sobre a conjuntura política atual, a pesquisadora de cultura indígena defendeu a necessidade de uma revolução brasileira e, para já, que o Estado crie mecanismos para manter apenas ao alcance de um público rigorosamente selecionado os resultados das pesquisas sobre os indígenas brasileiros. Assim, dizia ela, o conhecimento não será roubado pelos imperialistas. <strong>Por Passa Palavra<br />
</strong></p>
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		<title>Aviões de Papel</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Jan 2023 03:11:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<category><![CDATA[Sri Lanka]]></category>
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					<description><![CDATA[Ao ocupar os salões do poder, a revolução no Sri Lanka entendeu como se tivesse tomado o poder. No entanto, o Estado simplesmente continuou a funcionar pelas suas costas. Por S. Prasad]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por S. Prasad</h3>
<blockquote><p>30 de agosto de 2022</p>
<p>Na Parte II da nossa cobertura da insurreição no Sri Lanka, S. Prasad situa a Comuna de <em>GotaGoGama</em> dentro do ciclo de lutas iniciado com a Primavera Árabe, que partilham um padrão familiar de limites. Considerando fatores como a consciência de classe, geografia, eleições e até o “choque da vitória”, Prasad traça o limite além do qual as insurreições de nosso tempo parecem incapazes de avançar.</p>
<p><em>Ill Will</em></p></blockquote>
<p style="padding-left: 80px; text-align: right;"><em>As revoluções desejam homens que tenham fé nelas. Duvidar dos seus triunfos já é traí-las. É através da lógica e da audácia que as lançamos e salvamos. Se você não tiver essas qualidades, seus inimigos as terão por sobre você; eles só verão uma coisa em suas fraquezas — a medida de suas próprias forças. E a coragem deles crescerá em proporção direta com a vossa tibieza. </em><br />
<em>– <strong>Blanqui</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">No início de 2022, o Sri Lanka estava em meio a uma crise econômica. A resposta do governo, liderada pelo presidente Gotabaya Rajapaksa, no início foi lenta e depois inepta. Protestos tiveram início no campo entre os agricultores e depois se espalharam para os subúrbios de Colombo, a capital. Em 9 de abril, um protesto em massa em Galle Face, no coração de Colombo, resultou em um extenso e crescente acampamento conhecido como <em>GotaGoGama</em> [em inglês: <em>Gota Go Home, </em>que em tradução literal quer dizer <em>&#8220;Gota, vá para casa&#8221;</em>]. As ocupações se espalharam à medida que novos acampamentos eram criados em Colombo e em outras cidades. O impulso avançou e recuou por meses. Em 9 de julho, centenas de milhares de srilanqueses inundaram a capital, entrando e ocupando a casa do presidente e vários edifícios do governo. O presidente fugiu. A casa do primeiro-ministro foi incendiada. O exército recuou. Em 13 de julho, manifestantes ocuparam o gabinete do primeiro-ministro, uma estação de televisão e tentaram sitiar o Parlamento. No dia seguinte, o presidente renunciou já no exílio. Em 20 de julho, o primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe foi eleito pelo Parlamento para terminar o mandato de Gota como presidente. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso concluiu o Ato Um da <em>Aragalaya</em>.<strong>[2]</strong> Não está claro o que virá no Ato Dois. A tarefa de hoje é tornar a insurreição irreversível. O caminho à frente é perigoso. O resultado é incerto. O futuro não está escrito.</p>
<p style="text-align: justify;">As reflexões abaixo destinam-se a contribuir para a conversa em curso sobre a próxima fase da <em>Aragalaya</em>, e são também uma tentativa de esclarecer as lições da experiência no Sri Lanka para as próximas insurreições em outros lugares.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>I.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A revolução social torna-se possível como resultado de uma <em>sequência</em> de lutas alcançando e ultrapassando seus limites. Essas sequências tendem a se desdobrar em uma série de <em>ondas</em>, na medida em que táticas, palavras de ordem e formas de organização se espalham rapidamente por diferentes países. Muitas vezes, essas ondas ocorrem em meio à uma turbulência econômica global, que cria um conjunto semelhante de condições em diferentes partes do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos no meio da sequência de lutas que se iniciou com a Primavera Árabe. O ciclo foi marcado por duas ondas: primeiro em 2011, depois em 2019. A turbulência econômica provocada pela pandemia e pela guerra na Ucrânia cria as condições possíveis para uma nova onda global de lutas. Neste ano, já houve protestos e tumultos em quase uma dúzia de países, desencadeados pelo aumento do custo de vida. O levante no Sri Lanka foi a luta mais intensa e duradoura deste ano e nos dá a indicação mais clara da dinâmica e dos limites do que pode vir a seguir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>II. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Por quase uma semana o Sri Lanka esteve a ponto de cair. Muitos dos principais edifícios do governo estavam ocupados, o presidente tinha fugido do país, as Forças Armadas haviam recuado. Mas se a revolução fosse adiante, havia o risco de o país mergulhar na anarquia. Não está claro quais condições serão necessárias para que as lutas ultrapassem esse ponto sem volta. Mas isso pode ser uma questão tanto de ideias quanto de circunstâncias materiais. Um passo para o desconhecido é sempre um salto de fé, feito por um sentimento de convicção, quando se acredita em algo tão firmemente que qualquer risco parece valer a pena. Navegar em mares tempestuosos sem naufragar também pode exigir um plano. Pode ser que sejam necessários revolucionários que possam dizer, com algum grau de confiança, como evitar que um processo insurrecional acabe em catástrofe.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>III. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">As lutas muitas vezes são derrotadas não pelo Estado, mas pelo <em>choque de sua própria vitória</em>. Uma vez que tenham pego impulso, os movimentos tendem a atingir os seus objetivos muito mais rapidamente do que qualquer um teria esperado. A queda do regime de Rajapaksa aconteceu tão rapidamente que ninguém considerou seriamente o que seria necessário em seguida. A janela que se abriu logo se fechou. O ar sufocante da normalidade encheu a sala.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146984 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy.jpg" alt="" width="1280" height="797" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-300x187.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-1024x638.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-768x478.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-675x420.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-640x399.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-681x424.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />IV. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma das primeiras palavras de ordem da <em>Aragalaya</em> foi <em>T</em><em>odos os 225 devem ir embora</em>, referindo-se aos membros do Parlamento. Foi um eco da presciente palavra de ordem do levante de 2001 na Argentina: <em>Que se vayan todos</em> &#8211; todos têm de ir. No caso da Argentina, ela surgiu em meio de uma crise econômica não muito diferente da crise atual no Sri Lanka. As multidões recusavam-se a sair das ruas até que todos os políticos que culpavam pela crise tivessem sido levados pela onda de tumultos. Ao longo de um mês, três governos diferentes foram derrubados. Hoje, a <em>Aragalaya</em> teme que continuar a exigir uma limpeza completa possa alienar grande parte do país e o mergulhe no caos. Mas a história ensina que é precisamente através desta anarquia que a Argentina conseguiu adquirir algum espaço para respirar. <strong>[3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>V. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">A <em>Aragalaya</em> se opôs à formação de um governo de todos os partidos ou de um governo de coalizão após a queda dos Rajapaksas. Apenas uma nova forma de poder — um Conselho Popular — poderia assegurar que as vitórias de 9 de julho não fossem revertidas. O Conselho seria composto por representantes da luta e teria o poder de vetar as decisões tomadas pelo governo interino. A proposta invoca o que no início do século XX teria sido chamado <em>Dualidade de Poder</em>. Nos primórdios da Revolução Russa de 1917, o Soviete atuou como um contrapeso à atividade do Governo Provisório, por vezes anulando suas decisões. Mas a dualidade de poderes reflete um verdadeiro equilíbrio de forças: o Soviete tinha por detrás dele uma verdadeira base social e uma força material. Esse equilíbrio de forças, no entanto, é sempre instável. Um poder sempre prevalece ao fim e suprime o outro. Dessa forma, <em>a dualidade de poder não pode ser separada da questão da insurreição</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VI.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez iniciada uma insurreição, qualquer eleição apenas irá conferir legitimidade ao velho regime, envolvendo-o com a legitimidade da revolução. A eleição de Ranil pelo Parlamento em 20 de julho ofereceu um caso exemplar dessa regra geral. Não há razão para acreditar que uma eleição geral, algo desejado por muitos participantes da <em>Aragalaya</em>, se desdobraria de forma muito diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente, Ben Ali e Mubarak fugiram dos seus países frente aos protestos populares. Na Tunísia e no Egito, o que foi chamado de um “processo constitucional” era, na verdade, um meio para os partidos no poder se reorganizarem, evitando qualquer ruptura decisiva. Ao realizar eleições com rapidez, o novo governo venceu duas vezes. Por um lado, ele estabelece uma legitimidade frágil que não pode ter a certeza de desfrutar enquanto ainda é autoproclamado. Mostra que as suas intenções são puras, que não pretende manter-se no poder. Por outro lado, impede que os “extremistas” tenham o tempo necessário para difundir as suas ideias. Após fevereiro de 1848, Blanqui tinha esses receios em mente quando convocou o adiamento das eleições, enquanto o governo provisório estava determinado a manter um ritmo acelerado. Blanqui conseguiu forçar ao menos um adiamento temporário quando cem mil proletários armados marcharam em frente ao Parlamento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VII.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma derrota política, e não militar, das Forças Armadas é possível, mas as suas condições de possibilidade precisam de ser repensadas para o nosso século. Uma situação revolucionária se abre quando as Forças Armadas são chamadas à rua mas se recusam a disparar contra a multidão. Tal situação ocorreu em 9 de julho, quando o exército acabou recuando enquanto multidões forçavam seu caminho para o Palácio Presidencial e o Secretariado. No entanto, o que muitas vezes acontece é que as mesmas Forças Armadas que recuaram durante o levante inicial ressurgem mais tarde como o árbitro final do destino da revolução, garantindo uma continuidade entre o velho regime e o que vem depois. Depois que as eleições de 20 de julho restauraram alguma legitimidade à presidência de Ranil, as Forças Armadas invadiram e desocuparam o Secretariado, o último edifício do governo que ainda estava ocupado. As revoluções do nosso século ocorreram em sua maioria em países onde os militares funcionam como um <em>Estado Dual</em>. As revoluções no Egito e no Sudão foram interrompidas abruptamente quando os militares tomaram o poder com um golpe de Estado. Pode ser menos provável que isso ocorra no Sri Lanka, onde, apesar de sua longa guerra civil, os militares não têm uma história de funcionamento como uma força política e econômica independente. Mas a revolução no Sri Lanka enfrenta outro risco. Países dilacerados pela guerra civil, como Sudão e Myanmar, viram a violência (que se espalhou por toda a periferia durante essas guerras) retornar ao centro durante o levante. Se as coisas continuarem a esquentar, esse é um destino possível da revolução no Sri Lanka.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146985 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy.jpg" alt="" width="1280" height="797" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-300x187.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-1024x638.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-768x478.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-675x420.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-640x399.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-681x424.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />VIII.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As lutas encontram a sua força na sua capacidade de unir diferentes fragmentos do proletariado. A insurreição só foi bem sucedida porque, em todo o país, pessoas de todas as esferas da vida e comunidades encontraram a sua própria maneira de participar. Isso é particularmente importante numa sociedade como a do Sri Lanka, fundada em separações étnicas e religiosas e dilacerada por décadas de guerra civil. Essas tensões foram trazidas à tona mais uma vez após os atentados da Páscoa de 2019. Por outro lado, a <em>Aragalaya</em> entende-se como o primeiro movimento a reunir budistas cingaleses, tâmeis e muçulmanos numa luta contra o Estado. A luta também reuniu agricultores, pescadores, estudantes, motoristas de tuk tuk [triciclo], a esquerda tradicional e vários partidos da oposição. Monges budistas coabitavam com padres católicos e queers; profissionais com mobilidade social descendente lutavam ao lado dos pobres urbanos, imigrantes indianos trabalhavam lado a lado com os antigos partidários de partidos nacionalistas. No entanto, as separações presentes no resto da sociedade tendem a ressurgir dentro da luta, especialmente após seus primeiros sucessos. Esse tem sido um limite que as revoluções do nosso século não conseguiram ultrapassar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>IX.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As lutas antiausteridade tendem a adotar uma crítica à corrupção como uma ideologia espontânea. Num mundo cada vez mais dominado por homens fortes e autoritários, isso faz certo sentido, e particularmente no Sri Lanka, dada a forma como o clã Rajapaksa dominou a política nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, as críticas à corrupção deturpam a agência que o Estado realmente possui nas crises econômicas e sociais, uma vez que presume que o Estado poderia encontrar uma saída para a crise atual, que poderia optar por evitar a aplicação da austeridade, se quisesse. Essa confusão também ocorre porque as lutas antiausteridade tendem a resultar em um embaralhamento das cartas em vez de mudar o jogo. Após a queda do regime, as pessoas são confrontadas com o fato de a lógica estrutural da sociedade capitalista permanece em vigor. Os governos inaugurados pela revolução frequentemente se veem implementando medidas de austeridade semelhantes às que inicialmente desencadearam os protestos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse pode ser um passo necessário no caminho para uma crítica mais sistêmica. Os organizadores da <em>Aragalaya</em> falaram sobre isso como o desenvolvimento da <em>consciência de classe</em>. Após das eleições de 20 de julho, ficou claro para todos a unidade essencial de interesses entre a classe dominante. No entanto, pode ser correto pensar nisso como o desenvolvimento de uma <em>consciência do capital</em>. Para que a insurreição tivesse ido mais longe, teria de enfrentar a incerteza de como o país iria comer e viver enquanto a sua relação com o mercado mundial era interrompida. Afinal, somente através e dentro das relações da sociedade capitalista é que os proletários são capazes de se reproduzir. Esse é precisamente o limite e o que é posto em xeque pelas lutas de hoje. <strong>[4]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>X.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas são muitas vezes desencadeadas pela luta de um determinado grupo social. No entanto, à medida que o centro geográfico de uma luta muda, mudanças na composição de classe tendem a ocorrer. À medida que os protestos avançam para as grandes cidades, as classes médias urbanas inicialmente se tornam o centro de gravidade. Por exemplo, o levante no Sri Lanka começou inicialmente com protestos de agricultores no interior, depois mudou para os subúrbios ao redor de Colombo, depois para o coração da capital. Lá, as classes médias urbanas desempenharam um papel importante no início, especialmente nas ocupações. À medida que os protestos e as ocupações ganharam ainda mais força, Colombo foi então inundada por proletários de toda a cidade e do país, principalmente em 9 de julho. Após alcançar a capital, os protestos começaram a se espalhar por todo o país, mesmo que a capital mantivesse uma certa atração centrípeta. Essa concentração geográfica pode dificultar a participação de populações minoritárias, como os tâmeis, que se concentram no norte e leste do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a geografia da luta não se enquadra perfeitamente na geografia do poder. Alguns dos revolucionários do Sri Lanka argumentam que a próxima fase da luta terá que se descentralizar de Colombo e distribuir a atividade por todo o país. Isso levanta a questão de como seria realmente tomar e manter o poder e, portanto, o que a cartografia de uma futura insurreição poderia implicar. <strong>[5]</strong> Ao ocupar os salões do poder, a <em>Aragalaya</em> entendeu como se tivesse, em certo sentido, tomado o poder. No entanto, o Estado simplesmente continuou a funcionar pelas suas costas. Talvez esse tenha sido um passo necessário na revolução, mas inadequado para a tornar irreversível. Para alguns, o poder reside na infraestrutura, na “organização física da sociedade que constitui o seu verdadeiro poder.” <strong>[6]</strong> Mas qual infraestrutura, e o que significaria ocupá-la e reaproveitá-la, em vez de simplesmente bloqueá-la, especialmente em meio a um colapso econômico e uma potencial catástrofe?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XI.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas tendem a ser seguidas por um processo de organização, à medida que os militantes moldados pela onda de luta se encontram e desenvolvem formas de se preparar para as lutas que estão por vir. O Sri Lanka se beneficia de uma década de experimentos recentes noutras partes do globo. Talvez a experiência mais potente seja a do Sudão. Após um levante em 2013, ocorreu uma proliferação de comitês de resistência que se encarregaram de preparar a próxima onda de lutas. Isso significava, especificamente: manter os centros sociais dos bairros; construir a infraestrutura e armazenar materiais que achavam necessários; desenvolver redes nacionais e municipais de camaradas e simpatizantes; e testar a capacidade dessas redes por meio de campanhas coordenadas. Quando a revolução de fato chegou, no final de 2018, esses grupos puderam atuar como vetores de sua intensificação. Os comités de resistência também foram capazes de sustentar a revolução na sua fase seguinte, depois de o presidente Al-Bashir ter sido forçado a renunciar. <strong>[7]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146986 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy.jpg" alt="" width="1280" height="797" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-300x187.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-1024x638.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-768x478.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-675x420.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-640x399.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-681x424.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />Essa sequência de lutas também gerou experiências que não valem a pena imitar. Movimentos de massas são frequentemente seguidos por um impulso para formar partidos políticos capazes de disputar as eleições, como na Grécia ou na Espanha. Os seus primeiros êxitos tendem a esconder uma certa armadilha. À medida que a crise se aprofunda o suficiente, o Estado e o capital querem empurrar o peso de governar para os movimentos. Não há saída para a crise, então os movimentos se tornam responsáveis pela sua gestão. Uma vez que o movimento está no poder, ele rapidamente é desacreditado. Às vezes, a esquerda é até capaz de promover reformas ou políticas de austeridade que outro governo não seria capaz de fazer. No interior desse ciclo, os revolucionários descobriram a forma adequada para intervir nas lutas, mas não para tomar o poder.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XII. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">A crise não pode ser resolvida apenas no Sri Lanka. Com escassez de alimentos, combustível, dinheiro e outros produtos básicos, a ajuda de alguma forma terá de vir de fora da ilha. Por enquanto, a única ajuda disponível vem sob a forma de um resgate de emergência do FMI e ajuda de países como China e Índia. Um resgate do FMI é como jogarem uma boia salva-vidas enquanto se está boiando no meio do oceano. Pode oferecer um alívio temporário, mas não é uma solução e certamente não garante a sua sobrevivência. Ele simplesmente garante mais do mesmo: lutar para manter a cabeça acima da água.</p>
<p style="text-align: justify;">Os esforços revolucionários de hoje começam no isolamento, abandonados à repressão porque não é do interesse de nenhum poder existente apoiá-los. As explosões esporádicas de contestação revolucionária são combatidas por uma organização internacional da repressão, operando com uma divisão global de tarefas. Até agora, não existe uma organização prática do internacionalismo revolucionário para apoiar o movimento no Sri Lanka. No entanto, é somente através do aprofundamento dessa sequência de lutas, e dentro das constelações de forças que dela possam emergir, que um internacionalismo prático, capaz de quebrar o isolamento dos esforços revolucionários, pode tornar-se possível. <strong>[8]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XIII.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As revoluções sempre encontram uma forma adequada ao seu conteúdo e à sua situação. No <em>GotaGoGama</em> e na proliferação de ocupações que dela se irradiaram, vislumbramos o contorno emergente daquilo que alguns começaram a chamar de Comuna de Galle Face. A comuna fornece uma base possível para a revolução social. Ela pode ser vista nas práticas com as quais o movimento se preocupa e através das quais se reproduz; em seus esforços para superar as separações da sociedade capitalista; e em sua tendência a se expandir. A cada passo em frente na luta, o movimento das ocupações se expandia: o acampamento em Galle Face crescia, novos acampamentos surgiam, novos edifícios eram ocupados. Alguns manifestantes reclamaram que os protestos eram caracterizados pela mídia como uma festa na praia. Mas a declaração da comuna é sempre marcada por um festival.</p>
<p style="text-align: justify;">As ocupações proporcionam espaço e contexto para que os participantes se encontrem, se organizem e tomem a iniciativa. Elas fornecem a infraestrutura necessária para que o movimento se reproduza; para se manter acima d’água durante as calmarias; e para subir com a maré, ganhando impulso através de momentos mais intensos de agitação. Sempre é mais fácil manter estes espaços do que retomá-los. O raio raramente cai duas vezes no mesmo lugar. Os revolucionários no Egito e Sudão aprenderam essa lição da maneira mais difícil.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida em comum que foi tentada em Galle Face Greene, em tendas, no frio, na chuva, cercada pela polícia sob a mais sombria das torres de Colombo, definitivamente não foi uma implementação completa da <em>vita nova</em> &#8211; foi apenas o ponto em que a tristeza da existência metropolitana começou a ser flagrante.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo que as últimas ocupações sejam eliminadas, isso não significa que a comuna tenha sido erradicada. Deve-se lembrar que os sovietes apareceram pela primeira vez na Revolução de 1905, apenas para ressurgirem novamente em 1917.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Todo o poder às comunas.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Agosto de 2022</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Imagens: Muvindu Binoy</em></p>
<p style="text-align: right;">Tradução de Marco Tulio Vieira a partir do original em <a href="https://illwill.com/paper-planes" target="_blank" rel="noopener">inglês</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Para uma cronologia mais detalhada do levante, ver <a href="https://passapalavra.info/2022/12/146826/" target="_blank" rel="noopener">“Notas sobre o Sri Lanka”</a>, Ill Will, 10 de agosto de 2022. Online <a class="urlextern" title="https://illwill.com/dispatches-from-sri-lanka]" href="https://illwill.com/dispatches-from-sri-lanka" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui.</a><br />
<strong>[2]</strong> A palavra cingalesa para luta.<br />
<strong>[3]</strong> Ver David Graeber, “The Shock of Victory” (2008). Online <a class="urlextern" title="https://crimethinc.com/2020/09/03/the-shock-of-victory-an-essay-by-david-graeber-and-a-eulogy-for-him]" href="https://crimethinc.com/2020/09/03/the-shock-of-victory-an-essay-by-david-graeber-and-a-eulogy-for-him" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.<br />
<strong>[4]</strong>. Ver Endnotes, “L.A. Theses” (2015). Online <a class="urlextern" title="https://endnotes.org.uk/posts/endnotes-la-theses]" href="https://endnotes.org.uk/posts/endnotes-la-theses" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.<br />
<strong>[5]</strong>. Sobre a geografia da insurreição, ver “The Kazakh Insurrection,” Ill Will, 23 de fevereiro de 2022. Online <a class="urlextern" title="https://illwill.com/the-kazakh-insurrection]" href="https://illwill.com/the-kazakh-insurrection" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.<br />
<strong>[6]</strong> .O Comitê Invisível, “Spread Anarchy, Live Communism.” Online <a class="urlextern" title="https://illwill.com/spread-anarchy-live-communism]" href="https://illwill.com/spread-anarchy-live-communism" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.<br />
<strong>[7]</strong>. Para mais informações sobre o Sudão, ver “Theses on the Sudan Commune,” Ill Will, 16 de abril de 2021. Online <a class="urlextern" title="https://illwill.com/theses-on-the-sudan-commune]" href="https://illwill.com/theses-on-the-sudan-commune" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.<br />
<strong>[8]</strong> Para mais informações, ver “The Kazakh Insurrection.”</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Dentro das prisões de Sisi: Alaa Abd el-Fattah luta por liberdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Dec 2022 12:45:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Egito]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[Há dezenas de prisioneiros políticos no Egito, não é apenas sobre Alaa. Mas se ele for libertado, isso significa uma vitória e uma mudança significativa. Por Shireen Akram-Boshar ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Shireen Akram-Boshar entrevista Sharif Abdel Kouddous</strong></h3>
<blockquote><p>Enquanto gestores dos mais variados matizes se reuniam na COP27 no Egito, o revolucionário Alaa Abd el-Fattah, intensificava sua greve de fome, que teve fim no dia 17 de novembro quando ele precisou ser reanimado. O Passa Palavra traduziu <a href="https://spectrejournal.com/inside-sisis-prisons-alaa-abd-el-fattahs-fight-for-freedom/" target="_blank" rel="noopener">esta entrevista, publicada em 18 de outubro,</a> feita com um apoiador e publicada em outubro pelo jornal <em>Spectre</em>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Desde 2013 o Egito contra-revolucionário ficou conhecido por suas prisões em massa, que tornaram os ativistas da revolução de 2011 a “geração da cadeia”. Grupos de direitos humanos estimam que o Egito tem 60.000 prisioneiros políticos, muitos deles encarcerados sem julgamento. Esse número pode ser, na realidade, muito maior. Entre eles está Alaa Abd el-Fattah, um dos organizadores dos protestos e escritor esquerdista preso repetidas vezes por seu ativismo e seus escritos políticos. Alaa está atualmente em uma greve de fome na prisão que já dura seis meses, sua condição é crítica. De muitas maneiras seu caso reflete a realidade do Egito desde a contra-revolução de Sisi em 2013. A jornalista do <em>Spectre</em> Shireen Akram-Boshar entrevistou Sharif Abdel Kouddous, um jornalista que trabalhou no caso de Alaa, sobre a campanha pela liberdade de Alaa, a repressão da contra-revolução, e a esperança para este caso, assim como sobre o fim do regime de Sisi.</p>
<p style="text-align: justify;">Sharif Abdel Kouddous é um jornalista independente no Cairo. Ele trabalha como editor e repórter no <em>Mada Masr</em>, e cobriu de perto o caso de Alaa e a campanha pela sua libertação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-146667" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k.jpg" alt="" width="1820" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k.jpg 1820w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-300x115.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-1024x394.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-768x295.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-1536x591.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-1092x420.jpg 1092w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-640x246.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-681x262.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1820px) 100vw, 1820px" />Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Alaa Abd el-Fattah é possivelmente o mais conhecido prisioneiro político do Egito, ao mesmo tempo, por ser escritor e dissidente político. Ele esteve preso a maior parte dos últimos dez anos, desde a revolução egípcia de 2011, e sua atual greve de fome dura seis meses. Por que ele foi preso tantas vezes pelo regime? Como o sofrimento dele coincide com a trajetória da contra-revolução egípcia?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous</strong>: Hoje, 29 de setembro de 2022, é o terceiro aniversário da última prisão de Alaa, quando ele foi pego da delegacia de polícia onde ele era forçado a passar 12 horas por dia depois da sentença anterior a qual ele foi condenado. Então, se passaram três anos desde o dia de sua última prisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Alaa é um escritor, um tecnólogo e um ativista político. Ele começou inicialmente no começo dos anos 2000 como um programador e blogueiro, e trabalhava com tecnologia de localização, com arabização da terminologia e traduzindo a interface do usuário para o árabe. Ele e sua esposa fizeram um dos primeiros agregadores de blogs árabes, com a criação de uma plataforma que foi o eixo inicial do ativismo online no Egito.</p>
<p style="text-align: justify;">Alaa foi preso ou processado, a vida toda, por todos os regimes políticos que já existiram no Egito. Sua primeira detenção e prisão ocorreu em 2006 durante o regime de Mubarak. Ele participou dos protestos que reivindicavam a independência do Judiciário. Porém, foi durante a revolução que irrompeu em janeiro de 2011, quando Alaa voltou da África do Sul — onde vivia com sua esposa — para o Egito com o intuito de participar do levante, que ele apareceu como um ativista incrivelmente engajado e eficiente. Ele esteve entre os mais eloquentes revolucionários e pensadores políticos, e ele estava sempre olhando para as margens e para os marginalizados em busca de inspiração. Por conta disso, ele pagou um preço muito alto.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo de Mohamad Morsi emitiu um mandado de prisão contra ele, porém não o prendeu. Foi mesmo quando Abdel Fattah el-Sisi deu um golpe substituindo Morsi, marcando o início do regime Sisi, que nós vimos esse massivo movimento contra-revolucionário aparecer e bloquear toda forma de dissenso, quebrar toda oposição política, e fechar todas as vias para a organização política. Parte disso incluiu mirar nos ícones de 2011, e, provavelmente, não existe um ícone do período maior que Alaa. Depois do golpe em 2013, ele foi preso pelo Conselho Supremo das Forças Armadas por conta da agitação em torno do assassinato de 27 manifestantes, de maioria cristã copta, em outubro de 2011, conhecido como massacre de Maspero, e ele passou cinquenta e poucos dias na prisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Alaa entrou e saiu da prisão, porém em 2013 ele foi preso por um protesto contra uma lei draconiana sobre manifestações, que ele, de fato, não foi um dos organizadores, mas ainda assim foi condenado e sentenciado a 5 anos de prisão. Ele cumpriu estes cinco anos, foi libertado no início de 2019, mas ainda precisava cumprir mais cinco anos de liberdade condicional. As estritas medidas da condicional obrigavam ele a se apresentar a uma delegacia de polícia por 12 horas diárias, das 6 da noite às 6 da manhã. Ele estava vivendo uma espécie de meia liberdade. Ele falava sobre como era difícil se entregar. Não era como quando ele era levado de sua casa, ou pego na rua como tinha acontecido antes, ele devia espontaneamente entregar-se às autoridades diariamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Em setembro de 2019, pequenos, mas relevantes, <a class="urlextern" title="https://www.aljazeera.com/news/2019/9/21/in-rare-protests-egyptians-demand-president-el-sisis-removal" href="https://www.aljazeera.com/news/2019/9/21/in-rare-protests-egyptians-demand-president-el-sisis-removal" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">protestos</a> contra o regime de Sisi foram provocados em parte por um ex-empregado militar. Esse agentes publicou vídeos dando nomes de generais e os acusando de corrupção. Os protestos se depararam com o <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2019/10/04/world/middleeast/egypt-protest-sisi-arrests.html" href="https://www.nytimes.com/2019/10/04/world/middleeast/egypt-protest-sisi-arrests.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">maior número de prisões em massa</a> desde que Sisi chegou ao poder. Mais de 4.000 pessoas foram presas: pessoas comuns na rua, ativistas proeminentes, assim como pessoas que nunca antes foram alvos de detenções, como professores universitários, advogados, jornalistas — todos foram arrastados em prisões em massa. Alaa foi um deles.</p>
<p style="text-align: justify;">As forças de segurança do Estado, também chamadas de Segurança Nacional, vieram e prenderam ele na delegacia de polícia perto das seis da manhã, no exato momento em que ele foi liberado. Ele foi levado para a prisão de Tora, onde, pela primeira vez, foi submetido ao que se chama, em árabe, de “al Tashreefa,” pobremente traduzido como “festa de boas-vindas” [corredor polonês], na qual você apanha e é torturado na entrada da prisão por duas fileiras de guardas e você é obrigado a andar no meio desse corredor de violência. Por causa de sua altura, sua classe, e seu destaque político, ele, no passado, foi poupado desse tipo de coisa que é regularmente aplicado em outros prisioneiros. Porém, desta vez, um oficial da Segurança Nacional, de acordo com ele, falou: “Nós odiamos a revolução. Você nunca irá sair dessa vez.” E ele foi, então, submetido às piores condições prisionais que encarou até o momento. Ele foi colocado na ala de segurança máxima da prisão de Tora, ali, foi privado da luz do Sol e do ar fresco, assim como qualquer tempo fora da cela. Ele foi proibido de ler qualquer tipo de material, escutar o rádio, usar papel e caneta, até mesmo de ter um colchão para dormir. E ele ficou nessa prisão, nesse estado, até abril deste ano.</p>
<p style="text-align: justify;">Alaa foi mantido, assim como milhares de prisioneiros políticos no Egito, em prisão preventiva. A prisão preventiva tem sido usada por este regime, em vez de como uma ferramenta legal para investigar crimes, como uma ferramenta para a repressão em massas. A vasta, vasta maioria de presos políticos no Egito está sendo mantida em prisões preventivas sem nunca ter sido condenada por um crime. De acordo com Código Penal egípcio, você pode ser mantido em prisão preventiva por dois anos. E o que usualmente acontece é, se eles querem manter você dentro, quando os dois anos estão se aproximando do fim, eles fazem algo chamado “tadweer”, que significa rotação ou reciclagem, e eles acrescentam novas acusações contra você, então sua contagem da prisão preventiva é reiniciada e você é mantido na prisão. Há muitos casos de pessoas que são mantidas por anos nesta situação. No caso de Alaa, eles finalmente o encaminharam para o julgamento, ele e Mohamed Baker — seu advogado que foi preso junto com ele — e o blogueiro Mohamed Oxygen. Eles foram julgados em uma corte emergencial de segurança do Estado, que é uma corte de exceção, na qual não se pode apelar das sentenças.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi um procedimento absurdo, eu acompanhei isso. Os advogados de defesa não eram autorizados a ver o arquivo do caso. Eles não sabiam realmente quais acusações enfrentariam e quais eram as evidências para elas. Dentro das três sessões da corte ele foi condenado a cinco anos de prisão, essencialmente por um <em>retweet</em> sobre a tortura de um preso pelo mesmo tipo de oficial da Segurança Nacional que supervisiona ele na prisão agora. Esse é o absurdo disso. Os mais de dois anos que ele passou preso até aquele momento, não contaram como pena para a sentença, então a primeira vez que ele poderá sair de lá será em 2027. Eles claramente querem manter ele na prisão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-146666" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social.jpg" alt="" width="1024" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-840x420.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-681x341.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-1021x512.jpg 1021w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Quando e por que Alaa decidiu começar uma greve de fome?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous</strong>: Alaa decidiu no dia 2 de abril deste ano começar uma greve de fome. Foi um ato não de desespero, mas de resiliência. Naquele momento ele estava na ala de segurança máxima da prisão de Tora, e ele meio que tinha chegado ao seu limite, pela primeira vez expressava pensamentos suicidas. Sua greve de fome foi uma maneira dele usar seu o próprio corpo como forma de resistência, tomando a agência sobre si próprio da única maneira que um prisioneiro pode fazê-lo. E então ele começou uma greve de fome ainda em aberto, clamando por acesso consular e por alguns outros direitos, e por fim, por sua libertação. Ele iniciou essa greve de fome primeiramente com uma técnica que os prisioneiros egípcios aprenderam com os prisioneiros palestinos, que é usar apenas sal e água — o sal mantém sua pressão sanguínea e ajuda a sustentar a greve de fome.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de alguns ganhos em seu caso, melhorias nas suas condições, e alguma pressão do Reino Unido, Alaa decidiu trocar a greve de fome pela ingestão de 100 calorias por dia, o que é mais como uma greve de fome do estilo Gandhi. Alaa estuda essas coisas muito de perto. Então ele toma algo como uma colher cheia de mel em seu chá, e faz isso há muitos meses agora. Hoje é o 181º dia. Porém, um homem adulto de tamanho médio precisa de em torno de 2,000-2,500 calorias por dia, então 100 calorias por dia é realmente nada, apesar de ajudar a sustentar a greve de fome. A última vez que sua irmã, Mona, o viu em uma visita, ela ficou surpresa e chocada com sua aparência física. Seus olhos estão afundados para dentro da cabeça, ela disse que os braços dele estão extremamente finos, ele está muito frágil, e mal consegue parar em pé. Mas ela disse que sua mente continua rápida e ativa. Então, isso está cobrando um preço alto para ele. Porém, ele jurou que não irá terminar a greve de fome. Eu acho que ele está determinado a não cumprir cinco anos de pena. Ou ele será libertado, ou ele irá morrer.</p>
<p style="text-align: justify;">Alaa está preso e pagando um preço muito alto porque o regime quer fazê-lo de exemplo; ele é um símbolo que eles estão tentando quebrar. Ele é um símbolo de 2011, e isto é um elemento para o modo vingativo que o regime o está tratando. Ironicamente, por meio da repressão do regime a Alaa e sua família, eles também reforçaram o <em>status</em> dele e de sua família. O regime transformou-os em símbolos de resistência também.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Como está sendo a campanha pela libertação de Alaa? Eu entendi que a irmã dele, Sanaa, foi detida e presa também durante a campanha, e que a família deles lutou muito para garantir sua libertação.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sharif Abdel Kouddous</em>: A família de Alaa tem sido defendida por ele durante todo o processo. A irmã dele, Sanaa, foi presa três vezes ao longo de três anos e três meses. Ela foi presa por tentar entregar uma carta para Alaa. O regime cortou toda a comunicação, então ela e sua mãe fizeram um <em>sit-in</em> em frente à prisão para exigir a entrega de uma carta. Por causa disso elas foram agredidas pelos capangas do regime, e Sanaa foi detida e presa por um ano e meio.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso está acontecendo, a família trabalhou para garantir a cidadania britânica para Alaa. Alaa e seus irmãos têm o direito à cidadania britânica porque a mãe deles nasceu em Londres e tem cidadania. Por isso, quando eles perceberam que o regime não ia deixar Alaa sair, e provavelmente nunca iria libertá-lo, a família solicitou a cidadania como forma de outro governo colocar pressão no regime em defesa desse caso. Alaa conseguiu a cidadania britânica em algum momento do final de 2021. No entanto, até o momento, Alaa não teve garantido o acesso consular pela embaixada britânica, que é seu direito legal. As autoridades egípcias se recusaram a conceder isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém, uma coisa que mudou com a maior cobertura internacional da campanha por Alaa, e alguma pressão do governo britânico, foi que ele foi transferido da ala de segurança máxima da prisão de Tora para um estabelecimento prisional em Wadi Natrun, que fica cerca de cem quilômetros ao norte do Cairo. Esse estabelecimento prisional não é oficialmente chamado de prisão, mas de “centro de reabilitação”. Em setembro de 2021, Sisi disse que o Egito iria construir oito ou nove “prisões de estilo americano”, e essa prisão foi lançada com um vídeo chique no <a class="wikilink2" title="youtube" href="https://wiki.passapalavra.info/doku.php?id=youtube" rel="nofollow" data-wiki-id="youtube">YouTube</a>, mostrando prisioneiros recebendo formação e aulas, trabalhando em uma fazenda, mostrando aparentemente boas condições.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, as condições de Alaa mudaram agora; ele está com dois outros presos, e é autorizado a ler e utilizar papel e caneta. Ele pode sair da cela vinte minutos por dia, não pode ir para o pátio tomar Sol, mas não não está totalmente enclausurado. A visitação continua restrita a uma por mês, por vinte minutos de trás de uma barreira de vidro. É assim que nós podemos saber de Alaa, de acordo com os relatos de sua família, o que ele fala nessas visitas, ou por meio das cartas que ele escreve, que podem ser enviadas uma vez por semana. Em algumas das cartas mais recentes, ele falou que não pode continuar dessa maneira, que ele não tem certeza se tem forças para afastar o sentimento de desespero. E ele começa a crer firmemente que eles nunca o deixarão sair com vida da prisão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Você pode falar sobre outros elementos da campanha de libertação de Alaa? Como esse caso repercute globalmente? O que você acha que será necessário para libertar Alaa e as dezenas de milhares de presos políticos nas prisões do regime?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous</strong>: Houve diferentes ondas da campanha por Alaa ao longo de suas várias prisões.</p>
<p style="text-align: justify;">No último estágio da campanha por ele, seus amigos e familiares, junto com outros ativistas, compilaram uma seleção dos escritos dele, discursos, suas publicações nas redes sociais, e publicaram o livro <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=QdUpDKJ7tKg&amp;t=24s" href="https://www.youtube.com/watch?v=QdUpDKJ7tKg&amp;t=24s" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">You Have Not Yet Been Defeated</a> [Você ainda não foi derrotado]. Isso levou a voz de Alaa para um público que não fala árabe. Sanaa disse que, se Alaa foi encarcerado por conta de sua voz, então publicar este livro foi uma forma romper com a prisão dele, fazendo sua voz ser ouvida. A maior parte dos escritos já foi impressa em árabe, mas também está compilada em um livro chamado <em>The Ghost of Spring</em> [O Fantasma da Primavera]. Isto marca o começo de um novo impulso para a libertação de Alaa, e também coincide com sua sentença, onde ficou claro que o regime não o deixará sair.</p>
<p style="text-align: justify;">Sanaa e eu fizemos uma turnê do livro, e falamos em diferentes universidades enquanto construímos a campanha de solidariedade no exterior, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Há muito da campanha sendo feito pela família em relação ao Parlamento Britânico, por conta da cidadania britânica de Alaa. Dezenas de deputados assinaram cartas pedindo que Alaa seja liberado ou que tenha a visita consular garantida. Tem havido uma campanha no Egito, na medida do possível. Existe algo chamado Conselho Nacional de Direitos Humanos, que tem seus membros indicados pelo Estado, que é bastante ineficaz como órgão de direitos humanos, mas o chefe do Conselho levou em conta o caso de Alaa, e eu acho que isso ajudou a conseguir a transferência da prisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso ser importante perceber que o Egito, pelo menos nos últimos quarenta anos, depende de seus aliados ocidentais para existir, e isso não é diferente no regime de Sisi. O Egito é o segundo maior destinatário de verbas militares dos EUA no mundo, tem no Reino Unido seu maior parceiro comercial, o país depende de apoio econômico, militar e diplomático do Ocidente para sobreviver. Por isso, pressionar os EUA e o Reino Unido para agir e solicitar a libertação de Alaa é uma campanha tática. É um esforço multi-facetado.</p>
<p style="text-align: justify;">E há dezenas de prisioneiros políticos no Egito, não é apenas sobre Alaa. Mas se Alaa for libertado, isso significa uma vitória e uma mudança significativa. Se o regime sucumbir e tiver de libertá-lo, quando eles absolutamente não querem fazê-lo, isto pode potencialmente marcar uma espécie de virada sobre como o regime lida com presos políticos, e o que ele acha que pode fazer.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, esse regime é muito suscetível à pressão. Ele parece muito forte e repressivo, mas embora seja repressivo, não é forte. É governado por um minúsculo círculo interno, pelos serviços de inteligência e pela polícia. A insatisfação e inquietação popular surgem em diferentes momentos, e eles não podem conter isso por completo, apesar da repressão massiva. Um sistema instável pode durar bastante tempo, mas é instável e necessariamente surgirão oportunidades de mudar isso. Agora mesmo a situação econômica é absolutamente terrível. Existe uma combinação da tomada de empréstimos em massa ao longo dos últimos anos, e uma crise de moeda estrangeira precipitada e agravada pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, além de uma série de outros fatores. Mas o governo se colocou em uma situação tão precária que o Egito pode ser obrigado a pagar esses empréstimos. A libra egípcia já atingiu um recorde de desvalorização perante o dólar. Por isso, eles estão muito desesperados de diferentes maneiras. O Egito também irá sediar a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, COP27, em novembro em Sharm el-Sheikh.</p>
<p style="text-align: justify;">Os últimos esforços na campanha por Alaa estão focados em encorajar os movimentos de justiça climática a integrar as preocupações com os direitos humanos em seus discursos e demandas ao longo da COP27. Ativistas estão determinados a não deixar a conferência do clima ser uma oportunidade de fazer um <em>greenwash</em> em todas as formas de repressão utilizadas pelo Egito. O Egito está tentando posicionar-se como um país relevante na campanha do Sul Global por reparações climáticas e financiamento para a transição para a energia verde. Eles contrataram duas firmas de relações públicas nos EUA para ajudá-los a mandar essa mensagem. Eles têm trabalhado muito duro nisso, e têm sido eficazes em alguns aspectos. Então, esse também é um espaço que temos uma oportunidade para pressionar, pois o Egito está recebendo esse evento, abriu portas para muitos grupos diferentes virem, e se as pessoas conseguirem amarrar essas demandas umas com as outras, pode ser uma fonte de pressão ao governo também.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas essas coisas levaram as autoridades a se comportarem um pouco melhor, pois elas precisam do apoio do Ocidente para conseguir sobreviver econômica e politicamente. Então, nós vimos no último ano elas anunciarem o lançamento do que chamaram de Estratégia Nacional de Direitos Humanos, que foi divulgada com muita pompa e circunstância, abordando a situação dos direitos humanos no Egito, e elas também criaram um comitê presidencial de anistia, para avaliar o caso de prisioneiros.</p>
<p style="text-align: justify;">A respeito da Estratégia Nacional de Direitos Humanos, tanto a Human Rights Watch quanto a Anistia Internacional, e quase todas as organizações locais de direitos humanos no Egito denunciaram isto como nada mais que um documento cosmético, que realmente não aborda nenhuma das violações de direitos humanos no Egito. O Egito acabou no ano passado com a Lei de Emergência, que durou quase toda a existência moderna do país. Porém, muito rapidamente depois disso, Sisi consagrou em lei muitos dos poderes extra-judiciais que a Lei de Emergência lhe outorgava. Nós temos visto muitos presos políticos de alto perfil e outros presos de perfil mais baixo serem libertados nos últimos meses por causa desse comitê presidencial de anistia. A maioria desses ativistas foram detidos na onda de prisões de 2019, e a maioria estava em prisão preventiva. Então, o Departamento de Estado dos EUA e pessoas no Congresso aplaudiram isso, mas ao mesmo tempo eles continuam prendendo dezenas de pessoas por atos menores que eles percebam como dissidência, alguns deles sequer isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-146669" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X.jpg" alt="" width="1800" height="1800" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X.jpg 1800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-1536x1536.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1800px) 100vw, 1800px" />Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>[O site de notícias] Mada Masr, onde você trabalha, também foi participante ativo de toda a campanha de Alaa. Como a repressão de Sisi afetou o Mada, e qual a conexão com Alaa?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous:</strong> Em relação ao Mada Masr, a repressão não aconteceu somente por conta da campanha por Alaa. O Mada cobre uma variedade de assuntos, e sofreu diferentes formas de repressão. O Mada foi um dos primeiros sites a serem bloqueados no Egito, está bloqueado desde maço de 2017. Desde então, mais de 600 sites de organização de direitos humanos e meios de comunicação foram bloqueados no país. Então, em novembro de 2019, depois de nós publicarmos um artigo sobre o filho de Sisi e seu envolvimento com serviços de inteligência, e algumas tensões com o regime, eles prenderam um de nossos editores na sua própria casa, essencialmente sequestraram ele, e no dia seguinte invadiram o nosso escritório, nos seguraram lá por muitas horas, e então detiveram o nosso chefe de redação, nossa chefe de redação e outro jornalista. Eles foram rapidamente libertados, após uma pressão massiva, tanto nacional quanto internacionalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde então, Lina Atallah, chefe de redação, foi presa novamente quando ela tentou entrevistar a mãe de Alaa do lado de fora da cadeia de Tora. Ela passou a noite na prisão, mas conseguiu sair. E recentemente, depois de um artigo falando das tensões entre o principal partido no parlamento, que é um partido fantoche dos serviços de inteligência, eles apresentaram acusações contra três dos jornalistas, e conta Lina Atallah também. Eles não foram detidos, mas foram interrogados e liberados sob fiança.</p>
<p style="text-align: justify;">O Mada é um dos últimos veículos de mídia independentes funcionando no Egito, e funciona em um espaço muito, muito restrito. Provavelmente, o mais fechado desde o Egito de Gamal Abdel Nasser. Os serviços de inteligência, por meio da censura e da aquisição, tomaram o completo controle do restante da mídia. Os serviços de inteligência são, agora, o maior dono de veículos de comunicação do Egito. Eles compraram jornais e emissora de TV através de uma empresa de capital privado, e isso foi algo que o Mada expôs. Nós sempre atuamos em um espaço muito restrito. E nós não sabemos quando estas ondas repressivas irão acontecer.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Anteriormente você descreveu brevemente a instabilidade do regime. Você pode falar mais especificamente sobre a fraqueza política, econômica, ou militar, ou sobre lutas sociais causando tensões no regime neste momento? Há caminhos abertos por aí, ou razões para ter esperança de que o regime de Sisi caminha para o fim?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous:</strong> O regime parece muito vulnerável agora e assustado por conta da situação econômica. A desigualdade econômica foi muito aprofundada através de uma série de medidas de austeridade e políticas econômicas neoliberais, muitas das quais foram contrapartidas do empréstimo do FMI em 2016. Esses 12 bilhões de dólares de empréstimo vieram com um pacote de reforma que envolveram as exigências usuais do FMI de aumento de impostos, cortes de subsídios e privatizações. Subsídios aos combustíveis e à eletricidade foram suspensos, as taxas aumentaram, a moeda perdeu mais da metade do seu valor. E ao mesmo tempo o governo gastou bilhões de libras nestes luxuosos megaprojetos como construir uma nova capital administrativa, construir cidades, construir milhares de quilômetros de pontes e estradas por todo o país. Muitas dessas novas cidades estão majoritariamente desabitadas, por que elas estão no meio do deserto e longe das redes de comércio local e de onde as pessoas cresceram. As pessoas não querem se mudar. Eles demoliram casas de bairros, e destruíram áreas inteiras para começar este novo projeto. Então, as pessoas estão muito irritadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente o Egito é o segundo maior devedor do FMI, atrás apenas da Argentina, e está negociando seriamente mais um empréstimo por conta da crise cambial. Ele tem tentado retirar o último subsídio, que é sobre o pão. A última vez que alguém tentou fazer isso foi Sadat em 1977, e isso causou três dias de revolta e quase derrubou seu governo, forçando-o a voltar com o subsídio. Temos de ver se essa vulnerabilidade se traduz em mais abertura política, porque eles precisam ganhar aliados e afastar as críticas muito silenciosas que vêm dos governos ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o Egito solidificou todas essas relações ao se tornar, também, o terceiro maior importador de armas do mundo. À frente do Egito na compra de armas estão apenas a Índia e a Arábia Saudita. Nós nos tornamos o maior comprador de armas da Alemanha, o maior comprador de armas da França e um dos maiores parceiros comerciais da Grã-Bretanha. Compramos algumas dezenas de caças Rafale da França, que ninguém quer. Compramos submarinos e satélites de comunicação e tudo mais. Então, isso realmente solidifica os relacionamentos porque, por falta de um termo melhor, estamos comprando a merda deles. E é lucrativo para governos estrangeiros, então eles olham para o outro lado. Angela Merkel, pouco antes de deixar o cargo, assinou um acordo de 5 bilhões de euros com o Egito para contratos de armas. Então esse é o outro lado da moeda, uma fonte da força do regime.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>E muitos desses governos estão marchando para a direita de qualquer maneira.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous:</strong> Sim. Eles falam sobre certas coisas e podem ser úteis, mas acho que todos nós temos de perceber onde está o relacionamento real. O Egito também recebe centenas de milhões de euros para vigiar suas fronteiras e impedir que os egípcios atravessem o Mediterrâneo e cheguem às costas da Europa, que é o grande medo dos políticos europeus. A migração do Egito, do mar e da costa do Egito parou em grande parte. Eles têm sido muito eficazes em pará-la. O que vimos são centenas, senão milhares de jovens atravessando a Líbia, que tem uma fronteira muito mais porosa, e tentando chegar à Europa de lá. A agência de migração da ONU, a Organização Internacional para Migração (OIM), disse recentemente que o segundo maior número de migrantes sem documentos que chegam à costa da Europa, depois dos afegãos, são egípcios. Isso aconteceu nos últimos dois anos. Portanto, estamos vendo esse êxodo massivo de homens, principalmente jovens, que não têm oportunidade econômica, enfrentam uma repressão política muito severa e não têm esperança. Eles estão apenas fugindo do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, você sabe onde o país está. Não é uma situação muito boa, mas acho que sempre há espaço para esperança. A primeira coisa em que todos trabalham é em tirar as pessoas da prisão. Isso em primeiro lugar. Mas não temos sequer o número exato de presos políticos. O número de 60.000 presos políticos foi estimado ao longo dos anos. O New York Times fez uma investigação muito louvável sobre a prisão preventiva, tentando também chegar a números.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-146670" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/221106181656-alaa-abd-el-fattah-110622-medium-plus-169.jpg" alt="" width="307" height="173" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/221106181656-alaa-abd-el-fattah-110622-medium-plus-169.jpg 307w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/221106181656-alaa-abd-el-fattah-110622-medium-plus-169-300x169.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 307px) 100vw, 307px" />Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Você poderia dizer mais sobre o livro de Alaa, </em>You Have Not Yet Been Defeated<em>, e o significado do título do livro? O que Alaa pode nos ensinar sobre a revolução e o processo revolucionário?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous:</strong> Acho que o livro é um texto importante para um público que lê inglês, por vários motivos. Em primeiro lugar, Alaa é um pensador muito versátil e aborda muitas ideias e questões políticas diferentes. Seu livro entra no cânone da literatura prisional de uma forma muito real. Ele lida com a vida na prisão, seus efeitos no corpo e na psique, bem como ideias sobre cura e regeneração.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas ele é um tecnólogo em primeiro lugar e, de alguma forma, de sua cela na prisão, ele meio que previu o mundo em que vivemos agora ou o que aconteceu durante a pandemia, onde tudo está a um clique de distância e um trabalhador traz algo à sua porta e desaparece e estamos todos presos na frente de nossas telas e o que significa esse tipo de capitalismo. Depois de sair de sua primeira passagem de cinco anos na prisão, ele ficou chocado com a forma como nos comunicamos, como escrevemos uns aos outros em emojis e abreviações em vez de um discurso completo. Embora ele seja um tecnólogo e muito experiente em tecnologia, é claro, tudo isso foi um choque para ele. Acho que é uma mudança com a qual todos estamos acostumados porque aconteceu devagar. Mas, para ele que não teve acesso a um telefone celular por cinco anos, saiu dizendo que isso é problemático, que não estamos nos falando, e que não há mais espaço para um discurso adequado.</p>
<p style="text-align: justify;">A mensagem central do livro, no entanto, diz respeito ao título. Em “você ainda não foi derrotado”, o “você” é o leitor, o leitor de língua inglesa no exterior. Alaa foi uma das poucas pessoas a enfrentar a derrota da Revolução Egípcia de uma forma muito honesta e real. A maioria dos ativistas envolvidos ou está traumatizada e não quer enfrentar, não quer discutir, ou afirma que a revolução não foi derrotada e que estamos apenas em alguma fase difícil e assim por diante. Mas Alaa o confronta com muita coragem e diz: “fomos derrotados, vamos examinar por que fomos derrotados, quais foram nossos erros, o que podemos aprender com essa derrota e como podemos seguir em frente”. E acho que a mensagem para um público ocidental maior, de língua inglesa, é: “você ainda não foi derrotado e, portanto, essas são algumas das lições que você pode aprender conosco, antes que sua derrota chegue”. Na verdade, uma de suas mensagens é que a maneira de ajudar o Egito é consertar sua própria democracia. Como o Egito depende de suas relações com as potências ocidentais, se as pessoas nesses países tornassem seus governos genuinamente democráticos, essas relações seriam, forçosamente, totalmente diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[*]</strong> <a class="urlextern" title="https://spectrejournal.com/author/shireen/" href="https://spectrejournal.com/author/shireen/" rel="ugc nofollow">Shireen Akram-Boshar</a> é uma ativista e escritora socialista que mora em Boston e faz parte do conselho editorial do <em>Spectre</em>.</p>
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		<title>Extraño despertar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Apr 2022 13:49:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Traduções]]></category>
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					<description><![CDATA[D-503 padece el amor como un despertar, donde todo lo que uno creía y valoraba se da vuelta, y se le revelan las razones en la locura. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Primo Jonas</h3>
<blockquote><p><em>No, no la entiendo. Pero asiento con la cabeza, en silencio. Yo estoy disuelto, soy un valor infinitesimal, soy un punto…<br />
Al fin y al cabo, este estado puntuado tiene su propia lógica (la de hoy): en el punto radica la mayor cantidad de incógnitas y basta que el punto se mueva, se desplace, para que pueda transformarse en miles de curvas, en centenares de cuerpos sólidos.<br />
Tengo miedo de moverme: ¿en qué me voy a transformar?…</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Yevgueni Zamiatin fue un escritor ruso que vivió la Revolución Rusa (la de 1905 y también la de 1917) del lado de los bolcheviques. Hijo de un sacerdote de la iglesia ortodoxa, estudió ingeniería naval y además desarrolló el oficio de escritor: inauguró con su obra <em>Nosotros</em> lo que hoy se conoce como el género distópico. En ella encontramos el diario de D-503, el constructor jefe de la nave INTEGRAL, que tendrá por misión llevar al espacio todo el conocimiento liberador alcanzado por la sociedad de este futuro fantasioso. El protagonista parece encarnar, en su forma de actuar y de pensar, los valores centrales de tal sociedad: la racionalidad, la impersonalidad, la entrega plena al orden colectivo. Hasta que D-503 conoce a una mujer misteriosa, I-330, de quien se enamora, y todo empieza a cambiar…</p>
<p style="text-align: justify;">El mundo futurista que Zamiatin inventa está basado en una escisión fuerte y determinante entre el campo y la ciudad. La ciudad ganó la “batalla final” en una importante guerra, alejando a la sociedad de toda naturaleza campestre por medio de un muro físico y de un código ético estrictamente racionalista. El libro empieza a ser escrito en 1920, aunque sólo llega a ser publicado en el Reino Unido en 1924. La escisión entre campo y ciudad refleja las difíciles condiciones de los primeros años de la Revolución Rusa y el conflicto entre los sectores sociales y políticos por la dirección de esta. Además, Zamiatin, a pesar de haber sido un bolchevique en los años de la clandestinidad, creía en la importancia de la postura crítica e independiente de los escritores, por lo cual no escatimaba críticas a los que le parecían ser los peores aspectos de la revolución.</p>
<p style="text-align: justify;">Se trata de un libro marcadamente expresionista, y la poca o nula descripción de los ambientes y lugares coincide, primero, con la sobriedad de los materiales y de las formas de las avenidas y edificios futuristas, así como con el flujo de pensamiento del protagonista que escribe en su diario. Sea por medio de las metáforas matemáticas y de la belleza apolínea que alumbra los pensamientos de D-503, sea a través de torbellinos de sensualidad que hunden el protagonista en una loca pasión, es un libro que bucea por el improbable mundo subjetivo de este personaje. Es la pasión lo que finalmente le movió el piso de abajo al constructor jefe de la nave INTEGRAL, lo que lo saca de quicio y lo confunde hasta el punto de poder ver la locura de la sociedad donde vive, de cuestionarse sus hábitos, las reglas, la autoridad, el fundamento mismo del orden social. No es el amor romántico, el amor del verdadero individuo recluido en su foro interno. Este tipo de amor es el objeto de búsqueda del salvaje John, de la famosa distopía de Aldous Huxley, <em>Un Mundo Feliz</em>. Para John, educado por los valores tradicionales de los clásicos de la literatura, el admirable mundo nuevo adonde lo llevan está basado en la superficialidad, la promiscuidad sexual, los placeres mundanos fáciles, mientras él reivindica el valor de poder ser infeliz. Este amor es como la última trinchera del sujeto contra el mundo, y por lo tanto le reafirma su lugar, su existencia, un amor sumamente cuerdo.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto el libro de Huxley como el último clásico del género, <em>1984</em>, fueron profundamente influenciados por la obra de Zamiatin en diversos aspectos estructurales, pero el rol del amor en <em>Nosotros</em> es una particularidad. D-503 padece el amor como un despertar, donde todo lo que uno creía y valoraba se da vuelta, y se le revelan las razones en la locura. Tirado a los pies de su terrible amante, el orden social traslúcido se vuelve opaco, y lo que es podría bien ya no ser.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-142955 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-1024x755.jpg" alt="Estranhos Despertares" width="640" height="472" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-1024x755.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-300x221.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-768x566.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-569x420.jpg 569w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-640x472.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-681x502.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">La última gran referencia de esta tradición distópica ya es parte de su desviación hacia otros problemas. En la película <em>Matrix</em>, al protagonista se le da la elección entre despertar o seguir durmiendo. Pero ambos mundos son cristalizados: en el mundo de la píldora azul, nuestro mundo vivido actual, no hay contradicciones y no se propone criticar sus fundamentos, mientras en el mundo de la píldora roja se lucha contra una aniquilación física de los humanos, que están bajo el ataque de una inteligencia artificial enajenada del hombre. Y lo que es peor, dando el tono cristiano y gnoseológico del guion, el amor del protagonista por una mujer no es el elemento que lo sacude y le plantea preguntas fundamentales sobre su condición, sino que le da un sentido de antemano, su predestinación. Es ya un adelanto de las distopías catastrofistas que pululan hoy en las listas de las empresas de videos bajo demanda, como Amazon Prime y Netflix: el mundo se impone de forma aplastante a los sujetos, no hay forma de resignificarlo.</p>
<p style="text-align: justify;">La temática de un despertar que nos aleja de las falsedades y nos acerca a la verdad fue planteada por Platón, en su famosa Alegoría de la Caverna, en la cual se contraponen las sombras proyectadas en la pared de una caverna (las ilusiones) a la luz solar (la verdad). Los posteriores desarrollos de la filosofía neoplatónica se tomaron el trabajo de complejizar este camino y llenarlo con muchas capas y misterios, y es a partir de este paradigma que <em>Matrix</em> organiza su narrativa. Es el mundo desvelado en su identidad el que ofrece al sujeto su nuevo rol, su misión. Es curioso que en la cultura de internet de nuestra época sea tan común la referencia al despertar, tanto por izquierda como por derecha, especialmente en los EE.UU. Por izquierda, en los últimos años se ha popularizado la expresión “woke”, o “stay woke” (despierto, mantenerse despierto) como consigna para mantener encendida la consciencia social para las causas identitarias. Por derecha, la expresión “red pill” (píldora roja) vino a significar las verdades “desveladas” de las narrativas antisistema o típicas de la nueva derecha, que chocan con las posiciones liberales sobre temáticas históricas, incluido ahí todo el repertorio conspiranoico.</p>
<p style="text-align: justify;">La historia de D-503 nos da otra versión del despertar. Mucho más existencialista, más cercana a la realidad cruda de una revolución. Lejos de disipar dudas, el despertar debería sembrarlas.</p>
<p><em>Las imágenes que ilustran este artículo son monotipos de Edgar Degas (1834 &#8211; 1917).</em></p>
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		<title>Estranhos Despertares</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Apr 2022 13:41:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[D-503 sofre o amor como um despertar, onde tudo o que se acreditava e valorava dá volta, e lhe são reveladas as razões da loucura. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Primo Jonas</h3>
<blockquote><p><em>Não, não a entendo. Mas faço que sim com a cabeça, em silêncio. Eu estou dissolvido, sou um valor infinitesimal, sou um ponto…<br />
Ao fim e ao cabo, este estado pontuado tem sua própria lógica (a de hoje): no ponto reside a maior quantidade de incógnitas e basta que o ponto se mova, se traslade, para que possa transformar-se em milhares de curvas, em centenas de corpos sólidos.<br />
Tenho medo de me mover: em quê me irei transformar?</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Evgéni Zamiatin foi um escritor russo que viveu a Revolução Russa (a de 1905 e também a de 1917) do lado dos bolcheviques. Filho de um sacerdote da igreja ortodoxa, estudou engenharia naval e também se desempenhou no ofício de escritor: com sua obra <em>Nós</em> inaugurou o que hoje se conhece como o gênero distópico. Nesta obra encontramos o diário de D-503, o construtor-chefe da nave INTEGRAL, cuja missão será a de levar ao espaço todo o conhecimento liberador alcançado pela sociedade deste futuro fantasioso. O protagonista parece encarnar, na sua forma de atuar e de pensar, os valores centrais de tal sociedade: a racionalidade, a impessoalidade, a entrega total à ordem coletiva. Até que D-503 conhece uma misteriosa mulher, I-330, a quem se apaixona, e então tudo começa a mudar…</p>
<p style="text-align: justify;">O mundo futurista que Zamiatin inventa está baseado em uma forte e determinante cisão entre campo e cidade. A cidade ganhou a “batalha final” em uma importante guerra, afastando a sociedade de toda natureza campestre por meio de um muro físico e um código ético estritamente racionalista. O livro começa a ser escrito em 1920, embora só tenha sido publicado em 1924, no Reino Unido. A cisão entre campo e cidade reflete as difíceis condições dos primeiros anos da Revolução Russa e o conflito entre os setores sociais e políticos pela direção dela. Além disso, Zamiatin, apesar de ter sido um bolchevique nos anos da clandestinidade, acreditava na importância da postura crítica e independente dos escritores, e por isso não poupava críticas a tudo aquilo que lhe parecia ser os piores aspectos da revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Se trata de um livro marcadamente expressionista, e a pouca ou nula descrição dos ambientes e lugares coincide, primeiro, com a sobriedade dos materiais e das formas das avenidas e edifícios futuristas, mas também com o fluxo de pensamento do protagonista que escreve em seu diário. Seja por meio das metáforas matemáticas e da beleza apolínea que ilumina os pensamentos de D-503, seja através dos turbilhões de sensualidade que afundam o protagonista em uma louca paixão, é um livro que mergulha no improvável mundo subjetivo deste personagem. É a paixão o que finalmente deixa sem chão o construtor-chefe da nave INTEGRAL, abala sua razão e o confunde ao ponto de poder ver a loucura da sociedade onde ele vive, de questionar seus hábitos, as regras, a autoridade, o fundamento mesmo da ordem social. Não é o amor romântico, o amor do verdadeiro indivíduo recolhido ao seu foro íntimo. Este tipo de amor é o objeto de busca do selvagem John, da famosa distopia de Aldous Huxley, <em>Admirável Mundo Novo</em>. Para John, educado pelos valores tradicionais dos clássicos da literatura, o mundo feliz aonde o levam está baseado na superficialidade, na promiscuidade sexual, nos prazeres mundanos fáceis, enquanto ele reivindica o valor de poder ser infeliz. Este amor é como a última trincheira do sujeito contra o mundo, e portanto lhe reafirma seu lugar, sua existência, um amor extremamente centrado.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto o livro de Huxley como o último clássico do gênero, <em>1984</em>, foram profundamente influenciados pela obra de Zamiatin em diversos aspectos estruturais, mas o papel do amor em <em>Nós</em> é uma particularidade. D-503 sofre o amor como um despertar, onde tudo o que se acreditava e valorava dá volta, e lhe são reveladas as razões da loucura. Jogado aos pés de sua terrível amante, a ordem social translúcida se torna opaca, e o que é poderia simplesmente não ser.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-142955 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-1024x755.jpg" alt="Estranhos Despertares" width="640" height="472" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-1024x755.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-300x221.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-768x566.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-569x420.jpg 569w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-640x472.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros-681x502.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/nosotros.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A última grande referência desta tradição distópica é já parte de seu desvio em direção a outros problemas. No filme <em>Matrix</em>, ao protagonista é dada a escolha entre acordar ou seguir dormindo. Mas ambos mundos são cristalizados: no mundo da pílula azul, nosso mundo vivido atual, não há contradições e não é proposto criticar seus fundamentos, enquanto que no mundo da pílula vermelha ocorre uma luta contra a aniquilação física dos seres humanos, que estão sob ataque de uma inteligência artificial alienada do homem. E o que é pior, dando o tom cristão e gnoseológico do roteiro, o amor do protagonista por uma mulher não é o elemento que o sacode e lhe coloca questões fundamentais sobre sua condição, senão que lhe dá um sentido de antemão, sua predestinação. É já uma antecipação das distopias catastróficas que abundam hoje nas listas das empresas de vídeos <em>on demand</em>, como Amazon Prime e Netflix: o mundo se impõe de forma esmagadora aos sujeitos, não há forma de ressignificá-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">A temática de um despertar que nos afasta das falsidades e nos aproxima da verdade já está em Platão, na sua famosa Alegoria da Caverna, na qual são contrapostas as sombras projetadas na parede de uma caverna (as ilusões) com a luz solar (a verdade). Os desenvolvimentos posteriores da filosofia neoplatônica realizaram o trabalho de complexificar este caminho e enchê-lo com muitas camadas e mistérios, e é a partir deste paradigma que <em>Matrix</em> organiza sua narrativa. É o próprio mundo desvelado quem oferece ao sujeito o seu novo papel, sua missão. É curioso que na cultura da internet de nossa época seja tão comum a referência ao despertar, tanto pela esquerda como pela direita, especialmente nos Estados Unidos. Por esquerda, nos últimos anos tem se popularizado a expressão <em>woke</em>, ou <em>stay woke</em> (acordado, manter-se acordado), como palavra de ordem para manter acesa a consciência social para as causas identitárias. Pela direita, a expressão <em>red pill</em> (pílula vermelha) veio significar as narrativas antissistema ou típicas na nova direita, que chocam com as posições liberais sobre temáticas históricas, incluído aí todo o repertório conspiranóico.</p>
<p style="text-align: justify;">A história de D-503 nos dá outra versão do despertar. Muito mais existencialista, mais próxima da realidade crua de uma revolução. Longe de dissipar dúvidas, o despertar deveria semeá-las.</p>
<p><em>As imagens que ilustram este artigo são monotipos de Edgar Degas (1834 &#8211; 1917)</em></p>
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