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	<title>Rússia &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Nem John le Carré imaginaria</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Mar 2025 14:11:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Rússia]]></category>
		<category><![CDATA[Ucrânia]]></category>
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					<description><![CDATA[A China prepara-se para ser a principal beneficiária da enorme convulsão provocada pelo agente americano de Putin. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;">Nem John le Carré alguma vez imaginaria um agente do Kremlin na presidência dos Estados Unidos. Mas a realidade permite-se audácias que a ficção não ousa, e temos agora um representante de Putin na Casa Branca.</p>
<p style="text-align: justify;">O que deveria ser a primeira fase das negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia, assumindo-se os Estados Unidos como o intermediário único, imediatamente se converteu num acordo antecipado entre o governo americano e o russo, em que Washington adoptou a versão de Moscovo. Desde os primeiros dias, quando Trump declarou que Putin «tem as cartas na mão» e que Zelensky «não tem nenhuma carta para jogar», o <em>pocker</em> ficou decidido, tanto mais que os ucranianos não foram convidados. Trump está do mesmo lado que Putin, contra alguém que é de antemão considerado vencido.</p>
<p style="text-align: justify;">Há três anos Putin pensou que iria ocupar rapidamente a Ucrânia, entre os aplausos da população. Em vez disso, o exército russo deparou com uma forte resistência e a tentativa de avanço até Kiev sofreu uma derrota espectacular, que o obrigou a recuar para o Leste do país. Desde então, apesar de todos os esforços, os russos não conseguiram avanços significativos e a linha de frente manteve-se praticamente estacionária. Mas o que Putin não alcançou no campo de batalha, obteve-o agora, oferecido por Trump.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de mais, obteve a absolvição, porque o governo dos Estados Unidos recusa-se a considerar a Rússia como o agressor. Trump acusou a Ucrânia de ter iniciado a guerra e os diplomatas americanos vetam qualquer resolução que reconheça a Ucrânia como vítima de um ataque, mesmo que para isso tenham de votar ao lado da Rússia e da Coreia do Norte. E mais do que tudo, Putin foi consagrado vitorioso, porque Trump não teve pejo de dizer que «os russos controlam o terreno» e que «Putin, se quisesse, podia ocupar todo o país». Aliás, Trump, que se recusa a considerar Putin como um «ditador», reserva esta palavra para classificar Zelensky. Seria difícil reescrever mais completamente a História.</p>
<p style="text-align: justify;">A impostura culminou no extraordinário espectáculo, ou humilhante armadilha, que Trump e o vice-presidente Vance organizaram em 28 de Fevereiro, por ocasião da ida de Zelensky à Casa Branca, perante jornalistas e câmaras de televisão, para todo o mundo assistir e a corte de Putin aplaudir. E passados três dias, ao mesmo tempo que se confirmava a interrupção das operações cibernéticas americanas contra a Rússia, Trump suspendeu a entrega de ajuda militar à Ucrânia, uma decisão saudada com alegria pelo Kremlin. O que não conseguira no campo de batalha, Putin consegue-o agora. É impossível prever o que sucederá proximamente de um lado e do outro, e não sabemos como os políticos ucranianos e acima de tudo a população do país irão reagir a esta série de desastres, mas não é difícil acreditar que se agrave a situação política e militar na Ucrânia ou mesmo se abeire do caos. A única verdadeira certeza é que surgiu um só beneficiário — Putin. Com a chantagem da interrupção da ajuda militar Trump espera obrigar os ucranianos a aceitarem um plano de paz que corresponda a uma rendição, e assim revela-se ainda mais claramente não como o intermediário nas negociações, mas como um agente do Kremlin.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o êxito de Putin não se restringe à Ucrânia e tem um alcance muitíssimo mais amplo, porque Trump, ao pôr em dúvida que as forças armadas dos Estados Unidos possam necessariamente intervir em defesa de um país da NATO (OTAN) vítima de uma agressão militar, fez com que o Artigo 5 deixasse na prática de funcionar, esvaziando assim a Aliança que servira de base à hegemonia americana no confronto com a União Soviética e, depois, com a Federação Russa. Dificilmente se acreditaria, mas é pura verdade, que o futuro chanceler alemão tivesse previsto, alto e em bom som, que dentro de poucos meses a NATO estará extinta. Aliás, as calorosas palavras de apoio a Zelensky emitidas pela União Europeia e pelos principais dirigentes europeus e do Reino Unido logo depois dos acontecimentos de 28 de Fevereiro na Casa Branca, reforçadas pelas iniciativas que tomaram posteriormente, em explícito contraste com a suspensão da ajuda militar decidida por Trump, mais ainda agravam a divergência entre a Europa e os Estados Unidos. Aquela que foi uma ambição de muitas décadas, Putin realizou-a agora, oferecida numa bandeja pelo seu agente americano.</p>
<p style="text-align: justify;">O sucesso foi ainda mais profundo, porque o apoio que Putin tem concedido dissimuladamente à extrema-direita europeia e aos fascistas europeus foi agora reproduzido e ampliado, em alta voz e com muito maior repercussão, pelo vice-presidente americano e pelo bilionário <em>alter ego</em> de Trump, quando intervieram a favor da AfD na campanha eleitoral alemã. Ora, junto com o esvaziamento militar da NATO, o outro grande objectivo estratégico de Putin é a dissolução política da União Europeia, precisamente o que promovem na Europa os fascistas e a extrema-direita, auxiliados pelo que resta de herdeiros do comunismo soviético. Se o fascismo é sempre gerado num cruzamento, ou numa convergência, entre correntes oriundas da extrema-direita e outras oriundas da extrema-esquerda, também aqui o serviço prestado por Trump a Putin se insere numa das vertentes do fascismo europeu. Nunca a diplomacia russa esteve numa situação tão vantajosa.</p>
<p style="text-align: justify;">E essa vantagem não se limita ao âmbito europeu, mas conseguiu ampliar-se mundialmente no minuto em que, com um simples gesto de mão, Trump desarticulou a USAID. Para quem tivesse dúvidas sobre o significado profundo desta decisão, o governo americano evidenciou publicamente o seu desprezo pelo G20, abrindo assim, ou mesmo escancarando as portas à diplomacia russa nos países em desenvolvimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Como se tudo isto não fosse suficientemente aparatoso, Trump justifica a sua orientação política invocando interesses económicos definidos mediante uma contabilização imediata de ganhos e perdas, e não, como deveria suceder num capitalismo desenvolvido, mediante projecções a longo prazo assentes no crescimento da produtividade. Decerto que se não necessitassem de recuperar as reivindicações laborais os capitalistas não aprofundariam o processo de exploração consoante a mais-valia relativa, que constitui o eixo do progresso económico. Mas o mecanismo da mais-valia relativa é a produtividade, e ela exige infra-estruturas, condições técnicas e sistemas de organização do trabalho impossíveis de alcançar em economias fechadas por barreiras tarifárias e outras medidas protecionistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Paradoxalmente, os Estados Unidos, o país mais rico e aparentemente mais poderoso, regressou às noções do mercantilismo pré-capitalista. Em vez de uma prosperidade conjunta, em que o aumento da produtividade num dado sector, num dado país, pressiona os outros a competirem mais produtivamente, pretende-se que a produtividade num sector e num país seja garantida pelos travões colocados à produtividade nesses sectores dos outros países. Esta adopção de uma perspectiva em que os ganhos económicos de um país só podem ocorrer devido às perdas económicas dos outros países terá necessariamente como consequência a estagnação, mesmo no país que se pretendia beneficiado, porque ficaram cancelados os estímulos ao aumento da produtividade.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, as consequências serão piores ainda do que a estagnação, porque neste neomercantilismo não se trata já de assegurar os ganhos de um país à custa dos prejuízos dos outros países, mas apenas de conseguir que os prejuízos sofridos por um país sejam menores do que os sofridos pelos restantes. Foi assim que, por exemplo, os Estados-Unidos abandonaram a Organização Mundial de Saúde, como se a proliferação de epidemias noutros lugares não tivesse consequências imediatamente negativas sobre a população americana.</p>
<p style="text-align: justify;">Este tipo de cálculo de ganhos e perdas está subjacente à guerra de tarifas aduaneiras, em que se concentrou agora a política externa norte-americana. Ora, como David Ricardo demonstrou há mais de dois séculos, o mercantilismo é inadequado para reger uma economia capitalista. O que está em causa no comércio entre países, argumentou ele, são as vantagens comparativas, cada um produzindo certos bens de forma mais eficiente do que os outros e, portanto, tendo interesse em se especializar nessa produção. Em vez de ser uma relação de soma zero, em que o ganho de um participante se faz obrigatoriamente à custa dos outros, um comércio externo assente no aproveitamento das vantagens comparativas beneficia todos os países intervenientes, porque cada um se especializa nos sectores em que for mais eficaz. É certo que a função económica dos bens não é equiparável, porque podem inserir-se em diferentes fases de cadeias de produção que, por sua vez, podem ocupar posições dominantes ou subordinadas num quadro global. Mas as vantagens comparativas definem que todos os países intervenientes beneficiam da relação comercial, embora eventualmente em graus diferentes, enquanto na perspectiva mercantilista um país tinha de obrigar os outros a perder para que ele pudesse ganhar. Ora, um país que consiga proteger-se com barreiras aduaneiras dificilmente superáveis ou um sector que consiga escudar-se no proteccionismo isolam-se da concorrência de países ou sectores mais produtivos, que os levaria por seu turno a aumentar a produtividade, e sem essa concorrência os preços sobem e a economia estagna. Por isso, ao longo do tempo, não foram as barreiras alfandegárias, mas a globalização e a deslocalização a converter-se no eixo do desenvolvimento capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-156032" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-1-300x200.jpg" alt="" width="580" height="387" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-1-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-1-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-1-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-1-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-1-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-1.jpg 1920w" sizes="(max-width: 580px) 100vw, 580px" />A tardia ressurreição do mercantilismo — despropositada se considerarmos que vivemos num contexto inteiramente distinto — é mais flagrante ainda quando a noção de conquista de territórios é incorporada aos presumidos ganhos económicos. Mas a conquista territorial, que caracterizou a formação dos antigos impérios, foi progressivamente substituída no capitalismo por um imperialismo económico, assente na desigual distribuição da mais-valia no âmbito mundial entre empresas e empresários, e não entre nações. Foi o desenvolvimento deste imperialismo estritamente empresarial que, ao longo do tempo, gerou a globalização e ultrapassou as entidades nacionais enquanto espaços económicos, deslocalizando as cadeias de produção e integrando-as por cima das fronteiras. Assim, se nestas circunstâncias já é absurda uma guerra de tarifas aduaneiras, mais absurdo ainda é o desejo, expresso por Trump, de anexação do Canadá pelos Estados Unidos, quando em muitos sectores industriais de grande importância as cadeias de produção, que estão estreitamente ligadas entre estes dois países, encontram-se igualmente ligadas a centros de fabrico estabelecidos noutros lugares. O paradoxo não é menor quando Trump ameaça repetidamente conquistar a Gronelândia.</p>
<p style="text-align: justify;">Do mesmo modo, Trump deixou claro que o seu plano de paz para a Ucrânia, ou seja, de rendição da Ucrânia à Rússia, suporia necessariamente o acesso à receita decorrente da extracção de minérios ucranianos e de outras riquezas como o gás natural e o petróleo e também de infra-estruturas, nomeadamente portuárias, sem que, por seu lado, os Estados Unidos concedessem à Ucrânia quaisquer garantias efectivas de segurança. Nem seriam necessárias, aliás, já que Trump não se cansa de repetir que acredita na palavra de Putin e que «Putin está a comportar-se muito bem». Assim, não só a iminente atenuação das sanções económicas impostas à Rússia é vista por Trump como uma oportunidade de negócio, mas também o dinheiro gasto pelos Estados Unidos no apoio à Ucrânia é contabilizado como justificativa para a apropriação de uma grande parte das riquezas desse país. Pressionado por esta chantagem, Zelensky mostrou-se relutante, mas quando finalmente se dispunha a aceitar a espoliação de 50% da receita daqueles recursos, a humilhante sessão pública de insultos a que Trump e Vance o submeteram em 28 de Fevereiro levou a suspender a assinatura do acordo. E como Zelensky insiste que continua disponível para assinar, é verosímil que Trump o imponha em breve, talvez ainda mais oneroso do que anteriormente. Não custa deduzir que Putin assegurara Trump de que o negócio seria retomado se — ou quando — a Rússia conquistar a Ucrânia. Em vez de uma globalização que distribui as funções económicas, haveria uma divisão do trabalho entre conquistadores. Zelensky não se iludiu com a situação quando observou que, enquanto Putin quer o solo da Ucrânia, Trump quer o subsolo, mas engana-se muito se pensar que os ucranianos ficarão com o solo depois de venderem o subsolo.</p>
<p style="text-align: justify;">Aparentemente, a expansão territorial tornou-se inseparável dos projectos estratégicos de Trump, interessado em colaborar com Putin no desenho de uma nova geopolítica. Este delírio assume na Palestina dimensões catastróficas, já que se — ou quando — Israel tiver ocupado inteiramente Gaza, completando o genocídio com a emigração forçada, Trump quer que esse território lhe seja entregue para erguer aí um resort de luxo. Como seria de esperar, ele adoptou o mercantilismo numa versão <em>kitsch</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Este neomercantilismo constitui uma verdadeira mudança de paradigma, e não poderia ter prevalecido tão abruptamente nos Estados Unidos se não assentasse numa profunda reorganização governamental, com um desequilíbrio de poderes em benefício do executivo e em detrimento do legislativo, e com um judiciário que só de maneira isolada e dispersa consegue no máximo atrasar algumas decisões presidenciais. No que diz respeito à política interna, parece que Trump não tem feito outra coisa senão testar os limites à sua autoridade, e em todas as provas saiu vitorioso. Aliás, como seria possível que o homem mais poderoso do governo de Trump não pertencesse oficialmente aos quadros governativos, se não bastasse o <em>diktat</em> do presidente para legitimar um cargo? E esta legitimação é tão absoluta que — algo sem precedentes! — no dia 26 de Fevereiro Elon Musk esteve presente no primeiro conselho de ministros convocado por Trump, apesar de não exercer funções oficiais, e teve direito à palavra durante mais tempo do que qualquer membro do governo excepto, claro, o presidente. Que um assessor extra-governamental supere os membros do governo mostra até que ponto Trump beneficia de uma autoridade discricionária. O novo paradigma político interno sustenta a mudança de paradigma no exterior. Mas tem uma certa lógica, aliás, que o agente de Putin comece a fundar um outro sistema de poder, porque só um autocrata representará bem outro autocrata.</p>
<p style="text-align: justify;">A Rússia, porém, não tem capacidade para se aproveitar plenamente da situação. Putin conseguiu ter um ascendente político sobre Trump, mas faltam à Rússia condições internas de desenvolvimento, económicas e sociais, que lhe permitam competir com os Estados Unidos. Aliás, também ali vigora um tipo arcaico de mercantilismo, porque em vez do imperialismo económico característico do capitalismo desenvolvido, o governo de Putin recorre à conquista territorial. Ora, a expansão pela mera força das armas revela uma economia estagnada.</p>
<p style="text-align: justify;">E assim, enquanto se desarticula aquela que até há pouco tempo foi a esfera de hegemonia dos Estados Unidos e enquanto a Rússia mostra os seus limites, a China observa pacientemente. Procurando manter o equilíbrio interno entre o capitalismo de Estado e o capitalismo de mercado e evitando que as posições políticas interfiram nas suas relações com o estrangeiro, a China continua a inserir-se nas redes da globalização económica e a esforçar-se por estimulá-las sempre que são ameaçadas. Afinal, a China prepara-se para ser ela a principal beneficiária da enorme convulsão provocada pelo agente americano de Putin, e é este o resultado mais avassalador daquilo que nem John le Carré teria sido capaz de conceber.</p>
<p style="text-align: justify;">Não será, por exemplo, evocando a Doutrina Monroe que Trump conseguirá opor-se ao avanço económico chinês na América Latina. As tarifas aduaneiras, que funcionaram no mercantilismo, são um instrumento não só débil, como prejudicial na concorrência capitalista, onde o que conta é a produtividade. Ora, desde o final da segunda guerra mundial até 1973 a produtividade nos Estados Unidos cresceu a uma taxa média anual de 2,8%, mas de então até 1995 essa taxa caiu para 1,4% e, depois de ter subido para 3,0% até 2005, manteve-se até agora ligeiramente acima de 1,5%. A estagnação parece duradoura, porque o Congressional Budget Office prevê que o crescimento médio anual da produtividade se mantenha em 1,4% até 2054. É sem dúvida exacto dizer que o neomercantilismo adoptado por Trump não conseguirá resolver esta situação, porque inclui medidas que só prejudicam a produtividade, mas podemos levar o raciocínio muito mais longe se invertermos os termos da relação e dissermos que é precisamente devido a esse longo declínio da produtividade na economia dos Estado Unidos que Trump se vê levado a adoptar aquele tipo de neomercantilismo. Para colocar a questão no âmbito mundial em que ela deve ser entendida, remeto para uma parte de um ensaio que escrevi há já quinze anos, <a href="https://passapalavra.info/2010/09/28241/" target="_blank" rel="noopener"><em>Ainda acerca da crise económica. 4) O problema da produtividade</em></a>, e verificamos então que o <em>decoupling</em> que pudéramos observar aquando da crise financeira de 2008 e 2009 confirmou definitivamente o declínio dos Estados Unidos e a nova hegemonia chinesa. Trump insere-se num longo caminho.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-156046" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-300x225.jpg" alt="" width="580" height="435" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-1536x1152.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-2048x1536.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/le-Carre-21-681x511.jpg 681w" sizes="(max-width: 580px) 100vw, 580px" />É assim que o capitalismo avança, destruindo para criar, tanto em pequena escala como no maior âmbito possível, e muito se ilude quem tome as crises sectoriais ou mesmo nacionais como expressão de qualquer crise geral e julgue que se avizinha o fim deste sistema económico. Em vez de estar em crise — terminal ou estrutural ou o que quer que se pretenda — o capitalismo está em desenvolvimento, numa expansão tal que gerou um espaço inteiramente novo, independente das geografias.</p>
<p style="text-align: justify;">Por que chamamos virtual a essa nova dimensão do capitalismo? A economia virtual tornou-se mais real do que a outra. É no seu âmbito e consoante as suas regras que se definirão as novas relações e, portanto, as novas lutas e com elas as novas ideias. Não se pode falar de lutas sociais sem reflectir sobre a recomposição sociológica das classes. E mesmo para quem não goste de reflectir, é flagrante que nos últimos anos a ascensão política da extrema-direita e do fascismo se deve em grande medida àquelas camadas de trabalhadores que a extrema-esquerda se habituara a considerar como a sua base inerente. Ora, esta complexa reorganização sociológica fundou também o novo alicerce dos poderes, porque a economia virtual permitiu à repressão uma expansão ilimitada. Estamos ainda no começo do processo, e já as redes sociais ditaram o fim da privacidade e os novos modos de pagamento impedem qualquer tentativa de iludir a identificação. Todos sabem tudo sobre toda a gente, e as autoridades estatais e empresariais sabem mais ainda. As formas de luta terão de ser outras, nascidas nestas novas relações, frustrando a nova fiscalização, visando esta nova realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas aquela escassa extrema-esquerda que se pretende anticapitalista prefere agarrar-se ao que conhece e sonhar que o que já sucedeu acontecerá de novo. Todavia, a História nunca se repete. O que se repete não é História, é ainda o presente. A História que estamos a viver é para nós o desconhecido, e só os que vierem depois saberão traçar-lhe o caminho. Assim, muitas das palavras que usamos referem-se a uma realidade defunta — mas quais são elas? Quais são as palavras que ainda podemos usar? E de que novos sentidos devemos revestir as palavras antigas? O perigo é maior ainda, porque ao empregarmos as palavras como conceitos damos-lhes um valor genérico, supra-histórico, mas ao mesmo tempo perdemos o concreto. Ora, as lutas são feitas de concreto e exigem palavras novas, que possamos depois transformar em novos conceitos.</p>
<p style="text-align: justify;">Que paradoxo! O capitalismo abriu uma nova dimensão e horizontes que nem sequer somos capazes de imaginar, mas esta extrema-esquerda entoa cada dia o seu <em>de profundis. </em>Afinal, é o <em>de profundis</em> de quem?</p>
<p style="text-align: center;"><strong>*</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Post Scriptum:</em> Mal este artigo acabara de ser publicado, a CIA anunciou que suspendera o fornecimento de informações militares à Ucrânia, o que põe em risco todo o esforço de guerra deste país.</p>
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		<title>Ucrânia — quase três anos depois</title>
		<link>https://passapalavra.info/2024/10/155008/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Oct 2024 07:53:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Rússia]]></category>
		<category><![CDATA[Ucrânia]]></category>
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					<description><![CDATA[O facto de a guerra na Ucrânia permanecer sem resposta prática mostra até que ponto de irrelevância chegou a extrema-esquerda. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>1.</strong> A invasão da Ucrânia ocorreu há mais de dois anos e meio e a guerra ameaça ultrapassar os três anos, embora Trump seja aqui a grande incógnita, bem como o é a ascensão da extrema-direita e dos fascistas na Alemanha. De qualquer modo, o que de início Putin apresentava como uma simples operação militar, que se destinaria a substituir um governo apelidado de «nazi» e contaria com o aplauso geral da população, deparou, em vez disso, com a resistência dos ucranianos e transformou-se numa guerra clássica de longa duração, transformada numa guerra de atrito. Esta foi a mais espectacular derrota política de Putin — mas será também uma derrota militar?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2.</strong> No caso da invasão russa da Ucrânia, a célebre norma formulada por Clausewitz, de que o exército atacante está numa posição mais difícil do que o exército encarregado da defesa, porque as suas linhas logísticas são mais extensas e deparam com mais obstáculos, é minorada pelo facto de os atacantes serem fronteiriços dos territórios invadidos. E há ainda outros factores.</p>
<p style="text-align: justify;">A Federação Russa dispõe de muito maior profundidade territorial, tem mais do quádruplo da população da Ucrânia e a sua economia é mais volumosa. É certo que a Ucrânia recebe armas dos seus aliados, mas a Rússia recebe-as também dos aliados dela, nomeadamente do Irão e da Coreia do Norte, além de as produzir em muito maior quantidade. A superioridade de fogo da artilharia russa relativamente à ucraniana varia, consoante as zonas da frente de combate, entre 3:1 e 10:1. Ora, saberá alguém em que proporções exactas uma guerra depende dos factores materiais ou dos factores humanos e em que medida eles estão interligados? Em 16 de Setembro de 2024, Putin decretou um recrutamento suplementar de 180.000 soldados, elevando o total das forças armadas russas a um milhão e meio de pessoas, o que as converte no segundo maior contingente mundial de forças de combate, logo depois da China e à frente da Índia e dos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>3.</strong> Além disso, o desequilíbrio militar entre a Rússia invasora e a Ucrânia invadida não foi invertido pelas sanções económicas ocidentais, que tiveram um resultado contrário ao pretendido.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo russo adoptou uma política de expansão do crédito e de investimentos nas infra-estruturas, o Produto Interno Bruto continua a crescer rapidamente em termos reais, ou até acelerou nos últimos meses, e a taxa de desemprego aproxima-se do seu nível mais baixo. E como, para combater a inflação, o banco central tem aumentado bastante as taxas de juro, o rublo reforçou-se mediante a atracção do investimento estrangeiro, nomeadamente oriundo da China e da Índia, o que mais ainda contribui para acelerar a economia. «Numa economia normal, taxas de juro mais elevadas prejudicariam as famílias e empresas endividadas, devido ao aumento do custo de reembolso da dívida», observou <em>The Economist</em> num artigo de 11 de Agosto de 2024. «O governo, porém, protegeu quase completamente a economia real dos efeitos de uma política monetária mais restritiva». Aliás, os indicadores relativos ao consumo e às empresas revelam a confiança da população russa na situação económica.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, não só as sanções ocidentais não prejudicaram substancialmente o funcionamento da economia da Federação Russa como beneficiaram países não alinhados, ou não inteiramente alinhados, com os Estados Unidos e que servem de intermediários para o comércio externo russo. Com efeito, desde início as sanções não foram aplicadas por um conjunto de países representando mais de 80% da população mundial e 40% do Produto Interno Bruto mundial, o que dá à Federação Russa amplas possibilidades de as contornar. Neste contexto, consolidou-se a hegemonia económica e política da China sobre a Rússia e reforçou-se a posição mundial da China, exactamente o contrário do que pretende a estratégia dos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, propiciou-se o desenvolvimento de toda uma rede dissimulada de países ou agentes privados que lucram ajudando a Rússia a obviar às sanções, fornecendo chorudas oportunidades às várias formas de economia paralela.</p>
<p style="text-align: justify;">E do outro lado? A transformação da invasão russa numa guerra de longa duração tem efeitos económicos muito negativos para a Ucrânia, que podem ser ilustrados por uma única série de dados. Antes da invasão, a produção de aço assegurava um terço das exportações ucranianas. Para avaliarmos o que isso significava no âmbito mundial, basta recordar que em 2021 a Ucrânia produziu 21,4 milhões de toneladas de aço bruto, situando-se em 14º lugar entre os maiores produtores mundiais de aço, uma posição que caiu para 24º lugar em 2023, quando a produção se limitou a 6,2 milhões de toneladas. E agora prevê-se que em 2024 os resultados sejam ainda inferiores, entre 2 e 3 milhões de toneladas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>4.</strong> A situação económica é inseparável da situação política. Durante estes quase três anos de guerra a democraticidade na Ucrânia tem-se reduzido e a centralização tem aumentado, assim como se agravou o controle exercido sobre a população e sobre os canais de informação. É a própria guerra que pressiona a esta evolução. E como todos os conflitos militares são não só um grande negócio, mas ainda uma oportunidade de outros negócios, a corrupção herdada da época soviética encontrou novas ocasiões para prosperar.</p>
<p style="text-align: justify;">As vítimas da guerra não são só os mortos e feridos e as ruínas das cidades e instalações arrasadas, porque entre as destruições conta-se a deterioração da vida social e política. Quanto mais a guerra durar, tanto mais a vida cívica da Ucrânia tenderá a decair.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-155018" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/Ucrania-John-Moore-2-300x200.jpg" alt="" width="600" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/Ucrania-John-Moore-2-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/Ucrania-John-Moore-2-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/Ucrania-John-Moore-2-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/Ucrania-John-Moore-2-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/Ucrania-John-Moore-2-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/Ucrania-John-Moore-2-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/10/Ucrania-John-Moore-2.jpg 1500w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" />5.</strong> Perante a situação complexa desencadeada pela invasão da Ucrânia, uma parte considerável da extrema-esquerda defende Putin e aceita sem hesitar o seu argumento de que ele se teria limitado a responder a uma agressão iniciada pela Nato (Otan).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>a)</strong> Ora, se este argumento já nasceu frágil, porque desde o início da invasão russa tanto os Estados Unidos como os outros países da esfera norte-americana têm imposto sucessivas restrições à capacidade defensiva da Ucrânia, mais frágil é agora, depois da visita de Zelensky aos Estados Unidos em Setembro de 2024, que deixou visíveis os limites do apoio ocidental. Conviria que a extrema-esquerda não confundisse proclamações com factos, mas seria pedir-lhe demais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>b)</strong> Mais paradoxalmente ainda, se Putin desencadeou a invasão para evitar que a Nato incorporasse a Ucrânia e chegasse assim às fronteiras da Federação Russa, só conseguiu, de imediato, reforçar a coesão interna da Nato, que estava em risco de decomposição na sequência da presidência de Trump. Pior ainda para os planos de Putin, alguns países que tradicionalmente tinham respeitado uma certa neutralidade integraram-se na Nato, ampliando-se a presença da aliança ocidental às portas da Federação Russa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>c)</strong> Por outro lado, ao aceitar a tese de que historicamente a Ucrânia faria parte da Rússia, essa extrema-esquerda mostra desconhecer a História, em especial a acção dos cossacos na vasta e vaga zona de fronteira que separava a Polónia da Rússia e, no sul, do Império Otomano. Só em 1764, com o afastamento do hetman Razumovski e o estabelecimento de uma administração centralizadora, é que Catarina II deu início à russificação sistemática da Ucrânia. Nos seus planos geopolíticos Putin apresenta-se como herdeiro de Catarina a Grande e de Stalin, e é precisamente nestes planos que a parte mais vociferante da extrema-esquerda o apoia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>d)</strong> Em conclusão, essa extrema-esquerda, que abandonou o tema da exploração do trabalho, do mesmo modo trocou a noção económica de imperialismo por uma noção geopolítica. O imperialismo passou simplesmente a designar um dos lados do tabuleiro, enquanto o outro lado seria, por definição, anti-imperialista, embora inclua o mais dinâmico imperialismo económico da actualidade — a China. Aliás, já nem se trata só de esquecer a questão da exploração, porque são mesmo esquecidas as liberdades individuais que estamos habituados a considerar indispensáveis, e essa extrema-esquerda apoia ditaduras abjectas desde que se classifiquem como anti-americanas. O eixo que lhe merece o aplauso passa por Moscovo, Pyongyang e Teherão. É o stalinismo reduzido à sua caricatura.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>6.</strong> Outra parte da extrema-esquerda defende o fim da guerra na Ucrânia através da deserção maciça. Recorda assim o que se passou há mais de um século, na primeira guerra mundial, quando em França os sindicatos organizavam à luz do dia o movimento de deserção e, segundo um relatório do serviço de informações do exército, só na região de Paris havia dez mil desertores; quando entre as tropas portuguesas as fugas e as deserções eram muito frequentes; quando na Rússia a frente de combate se desagregou em 1917; quando no Canadá, no final de 1917 e início de 1918, pediram dispensa mais de 90% dos convocados para irem combater na frente francesa; quando as insubordinações se converteram em deserções nos impérios alemão e austro-húngaro, atingindo o número de desertores mais de setecentos e cinquenta mil na Alemanha e calculando-se em quatrocentos mil o número de desertores do exército austro-húngaro em Setembro de 1918, na mesma ocasião em que na Bulgária a linha da frente se desintegrava completamente; quando, no final da guerra, a quinta parte dos soldados italianos havia desertado.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas esta extrema-esquerda que apela agora à deserção está congelada no tempo, e já na segunda guerra mundial esses apelos haviam sido inúteis, porque só um lado os fizera.</p>
<p style="text-align: justify;">Em França, num artigo célebre de Maio de 1939 Marcel Déat, que em breve haveria de chefiar um dos principais partidos fascistas do seu país, perguntava retoricamente se valeria a pena «morrer por Danzig», do mesmo modo que oito meses antes o semanário fascizante <em>Gringoire</em> proclamara a sua falta de vontade de «morrer pelos Sudetas», enquanto do outro lado do leque político o Partido Socialista Operário e Camponês, mobilizando a extrema-esquerda socialista, afirmara em Setembro de 1938 que «julgamos morrer pela pátria e em vez disso morremos pela Skoda». O terreno estava assim preparado para que nos primeiros dias da guerra o anarquista Louis Lecoin redigisse um abaixo-assinado intitulado <em>Paz Imediata</em>, apelando à deposição das armas pelos exércitos beligerantes, e subscrito também por outros anarquistas, como Henry Poulaille, por catorze sindicalistas, por Marceau Pivert, que era a personalidade mais destacada da extrema-esquerda socialista e mentor do Partido Socialista Operário e Camponês, e pela mesma grande figura do fascismo que há pouco mencionei, Marcel Déat, além de alguns personagens próximos de Gaston Bergery, promotor da constituição de um fascismo francês. Ao mesmo tempo, também o Partido Comunista Francês se opunha à guerra, devido ao pacto germano-soviético. O grande problema é que do lado do Terceiro Reich não havia uma posição similar e ninguém apelava para o pacifismo e a deserção.</p>
<p style="text-align: justify;">A mesma assimetria repete-se hoje na Ucrânia. Pelo menos 80.000 soldados abandonaram as unidades em que combatiam, mais de metade deles nos primeiros oito meses de 2024. Acresce que apesar das leis e das fiscalizações, além dos perigos do percurso, desde o começo da invasão russa mais de 44.000 ucranianos atravessaram ilegalmente a fronteira para fugir antecipadamente ao recrutamento militar. A estes números somam-se os 6,7 milhões de ucranianos refugiados no estrangeiro, entre os quais 1,5 milhões de homens em idade de servir no exército, uma situação que tende a ampliar-se porque, se nos primeiros oito meses de 2023 haviam emigrado do país 231.000 pessoas, emigraram 400.000 em igual período de 2024. Chegou-se a tal ponto que em Outubro de 2024 Zelensky decidiu criar um Ministério da Unidade, destinado a contrapor-se à propaganda russa e manter os emigrantes na esfera cultural e política do país, com o objectivo de que, terminada a guerra, vários milhões de emigrados regressem à Ucrânia. Talvez mais importante ainda seja o facto de as deserções beneficiarem de um respaldo popular porque, segundo uma sondagem de opinião recente, só menos de 30% dos ucranianos consideram a deserção como um acto vergonhoso. Mas o mesmo não se passa do lado russo, onde o aparelho repressivo é muitíssimo mais forte, a ponto de recorrer ao fuzilamento de desertores, e as fugas e deserções são pouco frequentes, contando-se pelas dezenas ou centenas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, não é com palavras de ordem bem-intencionadas, mas fora do contexto, que se resolve a situação. Elas servem apenas para tranquilizar a consciência de quem as profere.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>7.</strong> Uns abdicaram de tudo o que deveria caracterizar os anti-capitalistas, os outros abdicaram da realidade e vivem na nostalgia. Que caminho se abre então à extrema-esquerda, para além de repetir aquilo que deveria ser uma verdade óbvia — que qualquer país tem o direito de não ser invadido? O facto de esta questão permanecer sem resposta prática mostra, uma vez mais, até que ponto de irrelevância nós chegámos.</p>
<p><strong>Algumas referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para a questão da superioridade da artilharia russa relativamente à ucraniana, ver <a href="https://www.economist.com/europe/2024/09/08/danger-in-donbas-as-ukraines-front-line-falters" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> e <a href="https://www.economist.com/briefing/2024/09/26/ukraine-is-on-the-defensive-militarily-economically-and-diplomatically" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a questão da dimensão humana das forças militares russas, ver <a href="https://elpais.com/internacional/2024-09-16/putin-ordena-aumentar-el-ejercito-de-rusia-hasta-los-15-millones-de-militares.html" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> e <a href="https://www.economist.com/the-world-this-week/2024/09/19/politics" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a questão da ineficácia das sanções ocidentais e a situação económica da Federação Russa, ver <a href="https://www.economist.com/finance-and-economics/2024/03/10/russias-economy-once-again-defies-the-doomsayers" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>, <a href="https://www.economist.com/leaders/2024/03/14/rogue-russia-threatens-the-world-not-just-ukraine" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>, <a href="https://www.economist.com/asia/2024/04/11/how-indias-imports-of-russian-oil-have-lubricated-global-markets" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>, <a href="https://www.economist.com/finance-and-economics/2024/08/11/vladimir-putin-spends-big-and-sends-russias-economy-soaring" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>, <a href="https://www.economist.com/europe/2024/08/19/the-mysterious-middlemen-helping-russias-war-machine" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> e <a href="https://www.economist.com/finance-and-economics/2024/08/28/how-vladimir-putin-hopes-to-transform-russian-trade" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a questão da produção ucraniana de aço, ver <a href="https://www.economist.com/europe/2024/10/13/why-russia-is-trying-to-seize-a-vital-ukrainian-coal-mine" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a questão das deserções e da emigração na Ucrânia e da escassez de deserções na Rússia, ver <a href="https://libcom.org/article/long-hot-summer-ukrainian-and-russian-soldiers-broke-records-growth-desertions" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>,  <a href="https://elpais.com/internacional/2024-09-09/robustos-controles-fronterizos-y-montanas-pedregosas-el-viaje-de-miles-de-jovenes-ucranios-que-desertan.html" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>, <a href="https://www.economist.com/briefing/2024/09/26/ukraine-is-on-the-defensive-militarily-economically-and-diplomatically" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>, <a href="https://elpais.com/internacional/2024-10-10/zelenski-ultima-la-creacion-de-un-ministerio-de-la-unidad-para-salvar-a-ucrania-del-desastre-demografico.html" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> e <a href="https://elpais.com/internacional/2024-10-14/alarma-en-ucrania-por-el-aumento-de-las-deserciones-en-el-ejercito.html" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: center;"><em>A fotografia de destaque é de Libkos e a inserida no texto é de John Moore</em>.</p>
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		<title>Velha Toupeira (22)</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Oct 2024 09:50:15 +0000</pubDate>
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		<title>Humanismo sob medida (1)</title>
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		<pubDate>Wed, 15 May 2024 05:00:07 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
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					<description><![CDATA[O assessor especial do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva para assuntos internacionais, Celso Amorim, criticou o uso de Inteligência Artificial na ofensiva de Israel contra os palestinos em Gaza, e defendeu a aplicação do direito internacional ao ciberespaço. “Isso é especialmente verdadeiro no que diz respeito às questões humanitárias e aos direitos humanos”, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O assessor especial do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva para assuntos internacionais, Celso Amorim, criticou o uso de Inteligência Artificial na ofensiva de Israel contra os palestinos em Gaza, e defendeu a aplicação do direito internacional ao ciberespaço. “Isso é especialmente verdadeiro no que diz respeito às questões humanitárias e aos direitos humanos”, disse Amorim durante uma conferência internacional sobre segurança promovida pelo Kremlin, em São Petersburgo. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Velha Toupeira (15)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Mar 2024 16:34:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
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		<title>Velha Toupeira (14)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Feb 2024 03:01:10 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-151854" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/02/VT15-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/02/VT15-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/02/VT15-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/02/VT15-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/02/VT15-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/02/VT15-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/02/VT15-2048x683.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/02/VT15-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/02/VT15-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/02/VT15-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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		<title>Velha Toupeira (8)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Sep 2023 07:46:58 +0000</pubDate>
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		<title>Crise da moeda russa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Aug 2023 20:07:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Rússia]]></category>
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					<description><![CDATA[Os gastos crescentes com uma guerra que não tem solução só vão agravar a situação econômica.  Por Maurílio Botelho]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><a href="https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=pfbid02JWXf8SDyTkVpE9X8xFzJgBb13hhxwKtwAe9bp92rTr5FCYDcqiziJUCZTh1iUsAYl&amp;id=100002880508242" target="_blank" rel="noopener">Por Maurílio Botelho</a></h3>
<p style="text-align: justify;">O rublo está no seu pior momento, no século XXI. Excluindo o breve momento de pânico logo no início da Guerra da Ucrânia (fevereiro de 2022), quando a cotação despencou subitamente mas logo foi restaurada, o rublo está no nível mais baixo de sua história recente. Em relação às três moedas mais fortes do mundo, o rublo só não está em sua cotação mais frágil em relação ao iene (mesmo assim, muito próximo do pior patamar em 2020).</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a &#8220;operação especial&#8221; começou e logo se seguiram as sanções econômicas do Ocidente, os especialistas em &#8220;geopolítica&#8221; alertaram para o uso da &#8220;bomba-dólar&#8221;, isto é, as restrições lançadas pelos EUA e sua capacidade de minar, economicamente, o inimigo. Mas essas mesmas análises apontavam para a emergência de uma nova era monetária em que outras moedas poderiam contornar os efeitos destrutivos da estratégia norte-americana (&#8220;desdolarização&#8221;). A expansão da relação comercial com a Índia e China (desde 2014 esta é sua maior parceria) seria um modo de compensar os efeitos de sua vinculação ao Ocidente. Esses destinos ampliados de exportação, junto com o impacto da guerra nos preços do petróleo e gás, levaram a um salto no saldo comercial russo. O câmbio arrefeceu e o rublo voltou a se fortalecer.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas um dos motivos reais da retomada do rublo, em meados de 2022, foi pouco discutido: o uso sistemático das reservas cambiais. O Banco Central russo despejou seu estoque de divisas estrangeiras no mercado para contrabalançar a fuga de capitais e a súbita queda da sua moeda.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, as reservas estrangeiras não são ilimitadas e um gradual declínio passou a ser sentido pelo rublo a partir de outubro, principalmente pelo fato de que a entrada de divisas estrangeiras, após a alta inicial das commodities, foi diminuindo de ritmo. Agora chegamos ao pior desempenho da moeda russa não apenas em relação às moedas da tríade (dólar, euro e iene), mas também em relação ao renminbi (yuan) e à rupia da Índia (como fica visível nos gráficos). Apesar da desdolarização em curso e da prova de força da autoridade monetária estatal, o comportamento do sistema de preços mundial tende a ser o mesmo porque a globalização criou cadeias transfonteiriças de produção e o capital mundial trata as fronteiras nacionais como limites porosos por onde fluem os fluxos monetários. Ou seja, não importa a vontade de Putin, Xi ou Pepe Escobar, o movimento do mercado mundial paira sobre todos. Notícias no mercado financeiro, meses atrás, davam conta de que magnatas russos usavam fundos de investimentos árabes para fazer investimentos em títulos em moeda forte, usando o anônimo sistema de reciclagem de petrodólares para contornar a queda de sua moeda nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">O Banco da Rússia informou essa semana que o problema cambial se deve à contração da balança comercial do país (o superávit em conta corrente da Rússia caiu 85% de janeiro a julho, comparando 2023 ao ano passado) e suspendeu a compra de moedas estrangeiras para tentar conter a sangria.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, os gastos crescentes com uma guerra que não tem solução só vão agravar a situação econômica. Tudo isso, claro, alimenta ainda mais a inquietação social interna e o uso da guerra como mecanismo para extravasar essa tensão aparece na ameaça de escalar o conflito para a Polônia e Europa Ocidental.</p>
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		<title>Não à extradição de ativistas russos refugiados!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Aug 2023 03:01:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Quirguistão]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Rússia]]></category>
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					<description><![CDATA[ Uma campanha de solidariedade a ativistas refugiados no Quirguistão está sendo organizada. Por Comité Internacional de Enlace e Intercambio]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Comité Internacional de Enlace e Intercambio</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Nós, KSD [Social Democrata Clássico], LevSD [Ação Socialista de Esquerda], Levyï Blok [Bloco de Esquerda], protestamos contra a detenção no Quirguistão de ativistas antiguerra de esquerda e sua extradição ilegal a pedido da Federação Russa. Apelamos à solidariedade do povo quirguiz, dos trabalhadores e das organizações sociais e políticas progressistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Alexei Rojkov (anarquista), Lev Skoriakin (Bloco de Esquerda) e Aliona Krylova (Resistência de Esquerda), que defendem os interesses das classes trabalhadoras contra o regime oligárquico autoritário de Putin, denunciando a “operação especial” e lutando ativamente contra ela, foram processados. Para permanecerem livres, eles emigraram para o Quirguistão.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas neste verão eles foram presos. Rojkov foi extraditado para a Federação Russa sob ameaça de tortura e em violação de todos os regulamentos legais. Krylova e Skoriakine conseguiram solicitar asilo no Quirguistão. Eles estão presos preventivamente, aguardando uma decisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós, ativistas de esquerda e democratas russos, acompanhamos com entusiasmo a luta do povo quirguiz amante da liberdade e tentamos aprender junto com eles.</p>
<p style="text-align: justify;">Ativistas russos extraditados para a Federação Russa correm o risco de serem presos e até torturados em seu próprio país.</p>
<p style="text-align: justify;">Por muitos anos, o Quirguistão foi um país com tradições revolucionárias, uma ilha de democracia na Ásia Central. Em várias ocasiões, revoltas do povo do Quirguistão levaram à derrubada de um regime autoritário corrupto. No entanto, a extradição de ativistas de esquerda e anti-imperialistas para a Rússia vai contra os interesses dos próprios trabalhadores do Quirguistão e a preservação de suas conquistas democráticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, o imperialismo russo, que comprometeu suas relações com muitos povos, apega-se aos poucos países que a ele se vinculam econômica e/ou politicamente.</p>
<p style="text-align: justify;">A crescente influência da Rússia de Putin sobre o Quirguistão está levando à perda de soberania do povo quirguiz e à deriva gradual da situação política em direção a uma ditadura aberta como a russa.</p>
<p style="text-align: justify;">Apelamos ao povo, à opinião pública do Quirguistão e a todas as organizações de esquerda e democráticas para pressionar as autoridades a garantir a segurança dos migrantes anti-Putin e antiguerra, libertá-los dos centros de detenção preventivas e garantir-lhes a possibilidade de obter o estatuto de refugiado político ou de sair sem obstáculos para um terceiro país.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, a defesa da democracia e da independência no Quirguistão está intimamente ligada à solidariedade internacional com os opositores russos.</p>
<p style="text-align: justify;">O apelo está aberto para assinatura: <a href="mailto:eit.ile@fr.oleane.com" target="_blank" rel="noopener noreferrer">eit.ile@fr.oleane.com</a><br />
<em>Traduzido por Luã Copillilo</em></p>
<p><em>A imagem de destaque é um detalhe da tapeçaria shyrdak.</em></p>
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		<title>Velha Toupeira (5)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Jun 2023 09:31:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Rússia]]></category>
		<category><![CDATA[Ucrânia]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-148995 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/06/velhatoupeira5-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/06/velhatoupeira5-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/06/velhatoupeira5-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/06/velhatoupeira5-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/06/velhatoupeira5-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/06/velhatoupeira5-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/06/velhatoupeira5-2048x683.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/06/velhatoupeira5-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/06/velhatoupeira5-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/06/velhatoupeira5-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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