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	<title>Saúde &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A vida é uma ordem?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Sep 2025 16:46:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[O suicídio não é um fenômeno unívoco e quem se mata não é necessariamente um doente, um alienado mental. Viver não é preciso. Morrer também não. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<div class="level1" style="text-align: justify;">
<p>Acrescentei um ponto de interrogação a um verso de Carlos Drummond de Andrade no título da coluna. Mas não é exatamente sobre poesia que escrevo. Pensei em intitular a coluna como <em>Um livro corajoso</em>. Porque é disso que se trata aqui, uma resenha sobre um livro corajoso, que, diga-se de passagem, carrega um verso de Fernando Pessoa como título. A poesia é sempre útil quando estamos diante de situações limite. Além disso, li o livro corajoso pensando no verso de Drummond. A pergunta &#8211; a vida é uma ordem? &#8211; pressupõe duas possibilidades, a positiva e a negativa. Enfim, sem mais delongas, o livro corajoso trata de um tema difícil: suicídio. Posto isso, caro leitor, não hesite em interromper a leitura neste parágrafo, se preferir.</p>
<p>Albert Camus <strong>[1]</strong> cravou: “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.” O escritor franco-argelino <strong>[2]</strong> sabia que “começar a pensar é começar a ser atormentado”, mas não recuou. É que um belo dia surge o “por quê?” e não há escapatória. O cenário desaba. Tudo se transforma em lassidão e assombro. O absurdo se impõe. O universo ignora homem e sua nostalgia de unidade, seu apetite de absoluto, sua fome de soluções, sua ânsia de coesão, seu desejo desvairado de clareza. Ainda Camus <strong>[3]</strong>: “o absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo.” É preciso julgar se vale a pena viver uma vida finita num universo privado de luzes. Mesmo caminhando entre os escombros do cenário e tomado pela sensibilidade absurda, Camus <strong>[4]</strong> avançou na reflexão, rejeitou o suicídio e disse sim à existência: “Anteriormente tratava-se de saber se a vida devia ter um sentido para ser vivida. Agora parece, pelo contrário, que será tanto melhor vivida quanto menos sentido tiver.” Para o escritor franco-argelino, a questão era viver irreconciliado: partir da sensibilidade absurda &#8211; jamais abrir mão dela &#8211; e viver.</p>
<p>Tivesse elaborado a mesma reflexão no século XXI, especialmente se fosse interrompido na primeira parte do percurso, na etapa da negação; se fosse um trabalhador precarizado e não um escritor consagrado; Camus seria encaminhado a um serviço de saúde mental e, provavelmente, medicado. É que a vida foi transformada numa ordem inquestionável. É preciso viver, produzir e consumir. A indústria farmacêutica precisa vender. O capital exige trabalhadores/consumidores dóceis e produtivos. Se começar a pensar é começar a ser atormentado, por que não abrir mão do pensamento? Simples. Porque o ser humano é fundamentalmente um bicho que pensa, e é preferível morrer como um homem do que viver como uma planta! A reflexão pode levar à conclusão de que a vida não vale a pena; é raro, mas há sim o que Camus definiu como “suicídio filosófico”, um possível abrir mão da existência partindo da razão. É uma possibilidade e um risco. E viver é exatamente isso. Por outro lado, apesar do desmoronamento dos cenários e sem abrir mão da sensibilidade absurda, é possível concluir que, exatamente por isso, a vida será melhor vivida. Suponhamos que Albert Camus fosse um trabalhador desempregado tomado por pensamentos sobre o silêncio irracional do mundo e o caráter absurdo da vida, poderia ser encaminhado a um serviço de saúde mental, medicado e &#8211; é este é ponto importante &#8211; impedido de avançar na reflexão e impossibilitado de chegar, posteriormente, na rejeição do suicídio e na afirmação da vida. O trabalhador desempregado poderia ficar travado na primeira etapa do raciocínio, na fase da negação. Importante registrar: a reflexão sobre o silêncio irracional do mundo e o caráter absurdo da vida é mais importante para os romancistas do que para os trabalhadores desempregados. No caso do trabalhador do exemplo, caso decidisse dar fim na vida por conta própria, o desemprego provavelmente seria mais determinante que a reflexão filosófica. O que não depõe a favor da medicalização e da indústria farmacêutica, porque nenhuma das duas resolve questões sociais e existenciais.</p>
<p>Diogo de Oliveira Boccardi <strong>[5]</strong> publicou um livro corajoso e intrigante: <em>Viver não é preciso: discursos sobre suicídio no século XXI</em>. O verso do poeta Fernando Pessoa &#8211; “viver não é preciso” &#8211; é um achado que encaixa perfeitamente. Não há precisão nem no viver nem no morrer, especialmente para quem decide por fim na própria vida. É o que aparece em todo o livro, desde o prefácio até a conclusão, passando pela introdução e os três capítulos, que são: 1. <em>Mais aquém ou mais além do suicídio: saber e subjetivação</em>; 2. <em>“Conjecturas”</em> <em>e “Refutações”: o suicídio segundo o Dr. Ubu; </em>3. <em>O suicídio que se vive e o que se narra: casos clínicos</em>. Boccardi mostra como o entendimento sobre o ato de se matar evoluiu até chegar na sociedade neoliberal do século XXI. O histórico não é aprofundado porque não é o objetivo do autor, mas serve para localizar as ideias, além de deixar pistas e referências interessantes para quem quiser se aprofundar. A crítica do terapeuta e pesquisador mira na medicalização e na biologização do fenômeno suicídio, que a sociedade neoliberal limitou a objeto de estudo e de intervenção para o saber médico. Por trás da manobra &#8211; encaixotamento do fenômeno suicídio na caixinha do saber médico &#8211; se esconde a demanda do capital por indivíduos adaptados, dóceis e produtivos. Só que, se é verdade que a indústria farmacêutica e o saber médico se desenvolveram intensamente nas últimas décadas; como explicar o crescimento paralelo da taxa de suicídios? A resposta é razoavelmente simples: o fenômeno suicídio é complexo e ultrapassa as possibilidades explicativas e de intervenção da indústria farmacêutica e do saber médico.</p>
<p>Na sociedade neoliberal o suicida é considerado um doente e um fora da lei. A ordem é viver para produzir e consumir. Se é assim, quem se mata não chega a subverter, mas descumpre um mandamento social. Corajosamente, o terapeuta e pesquisador Diogo de Oliveira Boccardi mostra como o discurso segundo o qual a vida indiscutivelmente vale a pena é socialmente construído e interessado, além de ser moralizante e limitado. A vida não é uma graça divina, indiscutível e irrecusável, ainda mais numa sociedade despedaçada pelo capital. Boccardi problematiza a abordagem sanitária e preventivista, questiona a compreensão do suicídio como fenômeno individual e obrigatoriamente patológico (às vezes atentar contra a própria vida não é a questão central, registrou, corajosamente, o pesquisador). Na sociedade neoliberal, ao contrário do que se poderia imaginar à primeira vista, até se discute o fenômeno suicídio. Mas sempre de uma perspectiva pré-determinada e patologizante, excluindo de antemão qualquer possibilidade de conceber o ato de tirar a própria vida como uma decisão possível. Boccardi problematiza o moralismo e senso comum neoliberal. O suicídio não é um fenômeno unívoco e quem se mata não é necessariamente um doente, um alienado mental. Viver não é preciso. Morrer também não. É necessário discutir o fenômeno suicídio, mas sem moralismos e mistificações que desconsideram quem desvia das normas e padrões.</p>
<p>O encaixotamento do fenômeno suicídio na caixinha do saber médico leva a pensar a questão de forma patologizante. Daí o emprego de termos como “contágio” e a utilização dos “fatores de risco”. Se é assim, trata-se de identificar fatores de risco e meios de prevenção, que em geral passam por confinar, conter e vigiar. As práticas e os discursos moralistas e patologizantes transformam “os sujeitos em objetos do manejo dos clínicos” <strong>[6]</strong>. Boccardi discute dois dos principais fatores de risco para suicídio referenciados pela literatura especializada &#8211; os transtornos mentais e o uso de substâncias psicoativas &#8211; de uma perspectiva teórica. Outros fatores risco &#8211; idade, gênero, desesperança, desemprego, doenças crônicas, conflitos familiares, eventos adversos na infância e na adolescência &#8211; são problematizados nos casos clínicos recriados pelo pesquisador. Destaco dois: <em>A mulher mais bonita da quebrada</em> e <em>O retorno de Diógenes</em>.</p>
<p>Cassiana é o nome fictício da mulher mais bonita da quebrada. Sofreu abusos sexuais do pai, do irmão e de um amigo deste. “Por ser bonita meu pai me estuprava” <strong>[7]</strong>. Fugiu de casa aos 12 anos. “Casou” com um homem quase vinte anos mais velho. Não escapou da violência, passou a sofrer com abusos praticados pelo “marido”. Pariu um menino quando tinha 15 anos e uma menina antes de completar 18 anos. Conseguiu se separar e foi morar com uma amiga aos 23 anos. Com 30 anos casou com um traficante possivelmente homossexual e interessado em manter uma relação de fachada para ocultar a própria sexualidade. Mas tempos depois se envolveu com outro homem e começou a apanhar do marido traficante. Isolada e sem rede de apoio, enforcou-se em casa, com as cordas do varal <strong>[8]</strong>: “o corpo desnudo mostrava as marcas de um espancamento recente.” Num grupo de mulheres organizado pelo serviço de saúde mental &#8211; quando se discutiam questões como autoestima, autocuidado e beleza -, a mulher mais bonita da quebrada comentou <strong>[9]</strong>: “Não quero pensar em ficar bonita, sabe? Quero ficar invisível um pouquinho…” Impossível isolar o caso de questões de gênero, do machismo, do patriarcado, do tráfico, da pobreza, do desemprego, da falta de acesso. Os limites do saber médico são evidentes no caso da mulher mais bonita da quebrada.</p>
<p>Oscar é o nome fictício do morador de rua de 62 anos. O título do caso clínico &#8211; <em>O retorno de Diógenes</em> &#8211; é uma referência ao filósofo homônimo. Oscar tinha sotaque lusitano e percorria a cidade com um carrinho de supermercado, ferramentas e dois gatos. Tirando a vontade de morrer, não havia indícios de transtornos psiquiátricos. Não atentava com violência contra a própria vida, buscava a morte se privando de comer e beber. A situação se repetia: desmaiava, era socorrido, se recuperava e se frustrava por continuar vivo. Mesmo informando que não havia nada de errado, que apenas gostaria de morrer, foi encaminhado para o serviço de saúde mental. Discutia tranquilamente com os profissionais de saúde <strong>[10]</strong>: “As pessoas dizem se preocupar comigo, mas só se preocupam que meu corpo esteja funcionando. Não me permitem ser quem sou hoje, um homem que quer morrer. Também não se permitem ser elas mesmas. Acho que as pessoas precisam mudar a importância que dão para as coisas, as regras que seguem sem pensar.” Chegou a ser encaminhado para um hospital psiquiátrico, recebeu alta e o diagnóstico de transtorno depressivo, “mas os próprios psiquiatras não estavam muito convencidos.” <strong>[11] </strong>Oscar morreu mais ou menos como Diógenes. Estava enrolado numa manta fina, atrás de um supermercado, numa manhã fria. Amigos e profissionais de saúde improvisaram um funeral para o homem que queria morrer <strong>[12]</strong>: “a impressão de todos era que Oscar havia finalmente alcançado o que por tanto tempo contemplara.” Diogo Boccardi aproximou a história do homem que queria morrer do filósofo homônimo. Já eu fiquei pensando em Camus, no <em>Mito de Sísifo</em> e em Oscar, que julgou que, naquele momento, que a vida não valia a pena. Era o tal “suicídio filosófico”.</p>
<p>Nos anos 1930, Carlos Drummond de Andrade <strong>[13] </strong>escreveu um poema marcante, <em>Os ombros suportam o mundo</em>:</p>
<p style="text-align: center;">[…]</p>
<p style="text-align: center;"><em>Alguns, achando bárbaro o espetáculo,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>prefeririam (os delicados) morrer.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Chegou um tempo em que não adianta morrer. </em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>A vida apenas, sem mistificação. </em></p>
<p>Quanto mais avançava na leitura de <em>Viver não é preciso: discursos sobre suicídio no século XXI</em>, de Diogo Boccardi, mais me ocorriam os versos de Drummond e a sensação de que, no tempo presente, a vida é uma grande desordem. A imposição da vida como uma ordem é uma mistificação, como sabem os “delicados”. O que fazer quando os ombros não suportam o mundo? Como lidar com os delicados que preferem morrer? Com respeito e sem mistificações! Boccardi <strong>[14]</strong>: “Não há acolhimento possível sem reconhecimento da liberdade e da singularidade, sem garantia de cidadania àquilo que legitimamente pode divergir, sem respeito à alteridade. Assim, não deve surpreender que as estratégias coercitivas-compassivas não tenham logrado reduzir a incidência de suicídios.” Boccardi <strong>[15]</strong> novamente: “Deve haver solidariedade e abertura para compreender, em cada ocorrência suicida &#8211; sejam pensamentos vagos, tentativas não letais, mortes -, sua singularidade &#8211; como, singulares são as vidas”. O tema é espinhoso e difícil, mas a coragem e o humanismo de Diogo Boccardi recompensam com vantagem. A vida não é uma ordem, especialmente no tempo presente, mas ainda há livros corajosos.</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p><strong>[1] </strong>Albert Camus. <em>O mito de Sísifo</em>. 34. ed. Rio de Janeiro: Record, 2025. p. 17.</p>
<p><strong>[2] </strong>Camus, op. cit., p. 19.</p>
<p><strong>[3] </strong>Camus, op. cit., p. 42.</p>
<p><strong>[4] </strong>Camus, op. cit., p. 67.</p>
<p><strong>[5] </strong>Diogo Oliveira Boccardi. <em>Viver não é preciso: discursos sobre suicídio no século XXI. </em>Rio de janeiro: Via Verita, 2024.</p>
<p><strong>[6] </strong>Boccardi, op. cit., p. 177.</p>
<p><strong>[7]</strong> Boccardi, op. cit., p. 138.</p>
<p><strong>[8] </strong>Boccardi, op. cit., 144.</p>
<p><strong>[9] </strong>Boccardi, op. cit., 143.</p>
<p><strong>[10] </strong>Boccardi, op. cit., 157.</p>
<p><strong>[11]</strong> Boccardi, op. cit., 158.</p>
<p><strong>[12] </strong>Boccardi, op. cit., 160.</p>
<p><strong>[13] </strong>Carlos Drummond de Andrade. <em>Nova reunião: 23 livros de poesia</em> &#8211; volume 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p. 99.</p>
<p><strong>[14] </strong>Boccardi, op. cit., 131.</p>
<p><strong>[15] </strong>Boccardi, op. cit., 178.</p>
</div>
<div class="clearer" style="text-align: justify;"></div>
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		<title>[Campinas] Nota oficial do Comando de Greve da Saúde Mental</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Jul 2025 20:00:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve pode acabar, mas a luta coletiva continua. Por Comando de Greve do Coletivo de Trabalhadores do Candido Ferreira]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Comando de Greve do Coletivo de Trabalhadores do Candido Ferreira</h3>
<p style="text-align: justify;">Ao Coletivo de Trabalhadores, Associação de Pessoas Usuárias da RAPS de Campinas, Conselho Municipal de Saúde, Movimento Popular de Saúde, Movimento da Luta Antimanicomial, familiares e aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">Companheiras e companheiros,</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje foi realizada reunião entre representantes do Comando de Greve e direção do Serviço de Saúde Dr. Candido Ferreira (SSCF), onde foi apresentado documento &#8212; Termo de Compromisso &#8212; elaborado em assembleia do Coletivo de Trabalhadores do SSCF no dia 29/07. Foram esclarecidas todas as questões e compartilhado os apontamentos do coletivo, assim como as condições mínimas para negociar a saída da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre os esclarecimentos, recebemos afirmação que o novo Plano de Trabalho sendo elaborado, referente ao repasse de R$ 6.900.000,00, envolve manutenção da alimentação, transporte, supervisão institucional, direitos trabalhistas, e também manutenção dos postos de trabalho e de todos os serviços, mas com realocamentos e remodelamentos. Sobre o cronograma de &#8220;municipalização&#8221;, entendendo esse como processo de transferência dos serviços administrados pelo SSCF para gestão direta da Prefeitura Municipal de Campinas (PMC) &#8212; também chamado de &#8220;primarização&#8221;, segue sem um apontamento oficial da PMC e não está incluso neste momento na elaboração do Plano de Trabalho. Porém, há ainda possibilidade de um cronograma de municipalização ser incluído no plano, a depender da PMC para isso, possibilitando retirada de serviços da gestão do SSCF. A renovação do convênio será para dois anos e mais detalhes sobre isso serão compartilhados em assembleia e reunião com os demais coletivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre as condições mínimas de saída da greve, foi acordado que a direção do SSCF avaliaria o Termo de Compromisso, podendo colocar uma contra proposta. Essa será avaliada em Assembleia do coletivo amanhã, dia 31/07 as 09:00, para apreciação e possível aprovação, a fim de ser assinado por todas as partes e seus representantes jurídicos no período da tarde. Sendo assim, a assembleia chamada pelo SSCF, que aconteceria no mesmo dia da assembleia dos trabalhadores está cancelada e será reagendada para próxima semana pela instituição.</p>
<p style="text-align: justify;">Se todo esse processo for concretizado, o Coletivo de Trabalhadores se reunirá em Assembleia na sexta-feira de manhã, dia 01/08 as 09:00, no auditório da Estação Cultura para discussão do fim da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">O Comando de Greve compreende como fundamental a continuidade da aliança com os coletivos e controle social. Sabemos que o desmonte &#8212; a contra reforma psiquiatrica &#8212; não é um processo que se dá de uma vez, mas esgarça aos poucos o modelo de cuidado que defendemos, o modelo do cuidado em liberdade, laico, que se da no vínculo e no território, de acordo com as diretrizes do SUS, da reforma psiquiatrica e da Luta Antimanicomial. A greve pode acabar, mas a luta coletiva continua.</p>
<p style="text-align: justify;">A SAÚDE MENTAL É NOSSA!</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>&#8220;Morreu na contramão atrapalhando o tráfego&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Jun 2025 07:29:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[Meio-dia de uma Quarta-feira qualquer e um corpo cai do prédio em queda livre. Uma estudante havia se jogado de uma das janelas da universidade. Dentro do elevador, havia quem dissesse que a situação lhe “atrasaria o dia”. Do lado de fora, recolheram o corpo e o expediente da universidade seguiu normalmente. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Meio-dia de uma Quarta-feira qualquer e um corpo cai do prédio em queda livre. Uma estudante havia se jogado de uma das janelas da universidade. Dentro do elevador, havia quem dissesse que a situação lhe “<em>atrasaria o dia</em>”. Do lado de fora, recolheram o corpo e o expediente da universidade seguiu normalmente. <strong>Passa Palavra</strong></p>
</div>
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<h3 id="e_quem_nao_erra" class="sectionedit8"></h3>
</div>
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		<title>Suicídio na Fundacentro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Dec 2024 10:49:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Não se tratou apenas de uma escolha de Pedro Tourinho e de José Cloves da Silva de imporem esse risco psicossocial com suas previsíveis consequências, tratou-se de uma escolha informada. Leo Vinicius Liberato]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Leo Vinicius Liberato</h3>
<p style="text-align: justify;">No Primeiro Ato ficava claro para razoável entendedor que aquela ópera era uma tragédia, isto é, terminava em uma. Foi no intervalo do Segundo para o último Ato naquele fim de 14 de novembro que vi a mensagem no celular: “Nossa colega do [estado em que estava lotada], [nome dela] faleceu. Encontraram o corpo dela hoje à tarde. Parece que se suicidou na segunda ou terça”. O Terceiro Ato era o abraço do personagem na morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Em tempos de home office um suicídio em casa é no local de trabalho? Embora para efeito de nexo com o trabalho não se possa afirmar e nem negar que tenha sido no local de trabalho, os servidores da Fundacentro com os quais tenho contato sentiram, receberam, assumiram como relacionado ao trabalho. Impossível não pensar isso diante do que temos sido submetidos há quase seis anos… diante de todos os alertas dados… diante do conhecimento sobre organização do trabalho e riscos psicossociais que os gestores do governo passado e do atual governo fazem questão de negar continuamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Já era sabido <strong>[1]</strong>, e motivo de indignação <strong>[2]</strong> e denúncia pública <strong>[3]</strong> que a gestão de Pedro Tourinho de Siqueira — que se tornou presidente da Fundacentro em 2023 e saiu em 2024 para se candidatar a prefeito de Campinas pelo PT — estabeleceu uma política sistemática e agressiva de impedimento de atividades que vários Analistas em C&amp;T [Ciência e Tecnologia] sempre desenvolveram ou participavam na Fundacentro. Política essa que continua com o atual presidente José Cloves da Silva. Se a prudência manda deixar neste momento ainda no campo da hipótese e da probabilidade essa política de assédio sobre Analistas em C&amp;T ter sido um fator para o suicídio de uma Analista em C&amp;T que também estava tendo suas atividades impedidas, no entanto é inequívoco que essa política de assédio sobre Analistas em C&amp;T foi o fator mais importante para o adoecimento e afastamento de um outro Analista em C&amp;T da Fundacentro. Não se tratou apenas de uma escolha de Pedro Tourinho e de José Cloves da Silva de imporem esse risco psicossocial com suas previsíveis consequências, tratou-se de uma escolha <em>informada</em>, o que acrescenta muito à responsabilidade deles, para além da responsabilidade inerente ao cargo. A escolha informada de colocar em risco a saúde e vida dos trabalhadores foi e é uma escolha (necro)política de Pedro Tourinho e José Cloves da Silva.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui é pertinente abrir um parêntese. O suicídio relacionado ao trabalho é só o topo do iceberg num órgão público. Abaixo desse pico haverá quase certamente uma quantidade bem maior de adoecimentos, e abaixo dos adoecimentos uma quantidade ainda maior, potencialmente englobando a maioria ou quase totalidade, de trabalhadores desmotivados e desengajados do trabalho como forma de defesa.</p>
<p style="text-align: justify;">A tragédia ocorreu na semana seguinte do prazo para os servidores em home office incluírem o planejamento de atividades para o próximo ciclo do PGD (Programa de Gestão e Demandas). Pode ser mera coincidência, mas qualquer investigação que busque o nexo com o trabalho deve investigar essa possível relação, e com ela o fato das Unidades Descentralizadas da Fundacentro (todas as Unidades menos a sede em São Paulo) estarem desde o governo anterior subordinadas à Coordenação Geral de Gestão Corporativa (CGGC), inclusive para aprovação do planejamento do PGD. É a CGGC que opera esse impedimento de atividades de Analistas em C&amp;T. Em fevereiro de 2023, período em que a Fundacentro estava sem presidente, 74 servidores (hoje são cerca de 160 na Fundacentro) subscreveram uma carta ao Ministro do Trabalho, Luiz Marinho. Nela escreveram: “a CGGC foi criada no governo anterior e vem tendo um papel avassalador na gestão de nossa instituição, impondo práticas de assédio institucional”, e solicitaram que “a CGGC seja extinta em um contexto de alteração regimental e reestruturação da instituição” <strong>[4]</strong>. Mas não só a CGGC, uma espécie de RH com superpoderes, foi mantida por Pedro Tourinho, como a vocação e tendência totalitária da CGGC e seu “papel avassalador na gestão (…), impondo práticas de assédio institucional” teve respaldo de Pedro Tourinho e de José Cloves da Silva, com a CGGC minando a autonomia e o regimento da Comissão Interna de Saúde do Servidor Público (CISSP) e da Comissão Interna da Fundacentro (ambas possuem parte de seus membros eleitos pelos servidores). Extremamente expressivo dessa continuidade e amplificação “do papel avassalador” e totalitário da CGGC é o fato de, em setembro de 2024, a chefe da CGGC ter se tornado substituta do presidente da Fundacentro, José Cloves da Silva.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155332" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/6fc04d2d9cb82c0347bb8daad40efe5bj-247202886.jpg" alt="" width="2500" height="1656" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/6fc04d2d9cb82c0347bb8daad40efe5bj-247202886.jpg 2500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/6fc04d2d9cb82c0347bb8daad40efe5bj-247202886-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/6fc04d2d9cb82c0347bb8daad40efe5bj-247202886-1024x678.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/6fc04d2d9cb82c0347bb8daad40efe5bj-247202886-768x509.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/6fc04d2d9cb82c0347bb8daad40efe5bj-247202886-1536x1017.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/6fc04d2d9cb82c0347bb8daad40efe5bj-247202886-2048x1357.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/6fc04d2d9cb82c0347bb8daad40efe5bj-247202886-634x420.jpg 634w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/6fc04d2d9cb82c0347bb8daad40efe5bj-247202886-640x424.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/6fc04d2d9cb82c0347bb8daad40efe5bj-247202886-681x451.jpg 681w" sizes="(max-width: 2500px) 100vw, 2500px" />A colega Analista em C&amp;T que tirou a própria vida também respondia a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), junto com outros colegas. PAD esse aberto pela presidência da Fundacentro no atual governo, referente a fato ocorrido durante o governo anterior, quando os servidores tentavam trabalhar e manter a saúde sob um assédio institucional de natureza organizacional que atingia principalmente os servidores das Unidades Descentralizadas. Pelo que foi levantado informalmente até o momento junto a colegas próximos dela, é provável que esse PAD tenha sido também um fator relacionado ao trabalho a levar ao trágico desfecho. A abertura de PADs na Fundacentro por si só perpetua o contexto de assédio quando seus conteúdos não possuem fundamento ou são claramente persecutórios, ou, como no caso desse PAD, não levam em conta o próprio contexto de desmonte e assédio organizacional no qual os servidores estavam e estão submetidos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A política deliberada de manter fatores de risco grave e iminente</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No atual governo, isto é, nas gestões de Pedro Tourinho e José Cloves da Silva, têm sido abertos Inquéritos e PADs contra servidores por terem denunciado o assédio ocorrido durante o governo passado. Pode ser difícil de acreditar, mas Pedro Tourinho e José Cloves da Silva abriram Inquérito e PAD, respectivamente, contra uma servidora que, em licença do trabalho, criticou em 2022 figuras que já eram ex-presidentes da Fundacentro durante o governo Bolsonaro. A servidora, utilizando seu direito constitucional de livre manifestação do pensamento, afirmou em vídeo que aqueles ex-presidentes eram exemplos de má gestão no serviço público e que sob a gestão deles foi estabelecido assédio institucional. Um desses ex-presidentes se tornou réu em Ação Civil Pública do MPT sobre o assédio institucional na Fundacentro. Em suma, Pedro Tourinho e José Cloves da Silva continuaram utilizando a máquina pública para perseguir servidores, em cumplicidade no mínimo tácita com os gestores do governo Bolsonaro. Um claro desvio de finalidade do aparato correcional da Fundacentro, buscando impedir que os servidores da Fundacentro exerçam o direito de livre manifestação do pensamento, conforme o Artigo 5º da Constituição, mesmo fora do trabalho. Evidentemente, aguardo um Inquérito e um PAD por ter escrito este texto.</p>
<p style="text-align: justify;">A imagem abaixo é muito simbólica da continuidade do assédio na Fundacentro e da cumplicidade entre gestores do governo Bolsonaro e do atual governo do PT. Nela o corregedor que serviu na gestão Bolsonaro agradece o ex-presidente Felipe Portela, réu por assédio institucional na Ação Civil Pública do MPT, assim como agradece a Pedro Tourinho, que o premiou com o cargo de Auditor da Fundacentro, dobrando o valor do cargo comissionado recebido por ele. Mais uma escolha política e informada de Pedro Tourinho que expõe a adesão e continuidade das práticas estabelecidas pelos gestores do governo anterior. Continuidade essa diretamente relacionada ao sofrimento psíquico imposto aos servidores da Fundacentro ainda hoje.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-155343 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/LV.jpg" alt="" width="554" height="762" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/LV.jpg 554w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/LV-218x300.jpg 218w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/LV-305x420.jpg 305w" sizes="(max-width: 554px) 100vw, 554px" />José Cloves da Silva tem ignorado os pedidos de servidores para revogar a abertura do absurdo PAD contra a referida servidora que afirmou em vídeo que os gestores do governo anterior fizeram má gestão e estabeleceram assédio institucional na Fundacentro. <em class="u"><strong>Se existe uma ação urgente, necessária e prioritária para reduzir o risco de outro suicídio na Fundacentro, é a suspensão de todos os PADs abertos.</strong></em> Risco esse ainda maior do que antes, pois, como é sabido, a ocorrência de um suicídio aumenta a probabilidade de ocorrerem outros, seja pelo efeito de contágio ou pela deterioração ainda maior do tecido social e do sentimento de impotência. Colocar o conteúdo de um PAD acima da vida e saúde dos trabalhadores é algo indefensável por alguém que esteja gerindo uma instituição dedicada à segurança e saúde no trabalho. O contexto de assédio contínuo, por anos na Fundacentro, e o risco à saúde e vida dos servidores numa situação em que chegamos ao ponto do adoecimento e suicídio, é fundamento mais do que suficiente para José Cloves da Silva suspender os PADs. Novamente, trata-se de uma <em>escolha política</em>, uma escolha política <em>informada</em>. <em class="u"><strong>A escolha política de manter os PADs constitui uma política deliberada de colocar a saúde e a vida dos trabalhadores em risco grave e iminente</strong></em>. Em nome de que?</p>
<p style="text-align: justify;">Alertas não faltaram antes que o primeiro suicídio ocorresse, vindo de diferentes servidores. Para dar um exemplo, em 2023 fui à primeira reunião do Grupo de Trabalho de Saúde Mental que estava sendo montado na Fundacentro. Na presença de vários servidores e do Diretor de Pesquisa Aplicada, Rogério Bezerra da Silva (ex-assessor de Pedro Tourinho quando foi vereador de Campinas), apontei, com a veemência necessária, que o risco de suicídio era iminente na Fundacentro, que os fatores estavam dados, principalmente com a abertura de Inquéritos e PADs persecutórios pela atual gestão contra quem resistiu e denunciou o assédio no governo passado. Salvo engano, apontei o histórico recente de ideações suicidas de servidores da Fundacentro. Rogério Bezerra da Silva ignorou solenemente o alerta, sem sequer uma palavra. O negacionismo dos fatores de risco psicossociais estabelecidos por eles próprios e pela gestão passada tem sido o tom das gestões de Pedro Tourinho e José Cloves da Silva. As pessoas que foram postas na Fundacentro pelo partido que a controla demonstram um desprezo pela vida e saúde dos trabalhadores tão grande quanto o desprezo pelo conhecimento estabelecido no campo da saúde do trabalhador. Algo irrefutável diante das trágicas e alertadas consequências.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma lição também fica bem clara. Os servidores de uma instituição especializada em segurança e saúde no trabalho estarem sendo submetidos a situações extremamente degradantes para a saúde, demonstra que, principalmente no momento histórico no qual nos encontramos, o conhecimento técnico dissociado da organização e luta dos trabalhadores para mudar a realidade tem menos serventia que um papel higiênico.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A próxima tragédia já está anunciada</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Um caso de suicídio arquivado sem consequências aumenta consideravelmente os riscos para a saúde mental de todos os que “permaneceram” (…). Não raro — vários são os casos recenseados — um suicídio agrava brutalmente a degradação do tecido social da empresa no seio da qual, em um lapso de tempo relativamente breve, se assiste a outro, ou a vários suicídios que se encadeiam (Dejours e Bègue, <em>Suicídio e Trabalho: o que fazer?</em> Brasília: Paralelo 15, 2010, p. 23).</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155333" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/81b266740ccb73867f6bb289a4d994f1e008fd51-1100x744-958663980.jpg" alt="" width="1100" height="744" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/81b266740ccb73867f6bb289a4d994f1e008fd51-1100x744-958663980.jpg 1100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/81b266740ccb73867f6bb289a4d994f1e008fd51-1100x744-958663980-300x203.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/81b266740ccb73867f6bb289a4d994f1e008fd51-1100x744-958663980-1024x693.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/81b266740ccb73867f6bb289a4d994f1e008fd51-1100x744-958663980-768x519.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/81b266740ccb73867f6bb289a4d994f1e008fd51-1100x744-958663980-621x420.jpg 621w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/81b266740ccb73867f6bb289a4d994f1e008fd51-1100x744-958663980-640x433.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/81b266740ccb73867f6bb289a4d994f1e008fd51-1100x744-958663980-681x461.jpg 681w" sizes="(max-width: 1100px) 100vw, 1100px" />Pedro Tourinho foi nomeado como presidente da Fundacentro em 2023, já com a previsão de que sairia em 2024 para ser candidato a prefeito de Campinas pelo PT. Portanto, diferentemente do que diz o slogan do governo, ele não foi posto na Fundacentro para reconstruí-la. Nunca se tratou de intenção de gerir a Fundacentro, de reconstruí-la, mas de usá-la. Isso ficou claro quando se viu a velocidade com que projetos da presidência foram estabelecidos em 2023, sem preocupação com absolutamente nenhuma mudança organizacional numa instituição que vivia (e vive) um assédio organizacional dos mais severos, e sem preocupação com regras de fluxo de projetos. Na própria fala do Diretor Rogério Bezerra da Silva em uma reunião com servidores, a relação utilitária desse grupo que controla atualmente a Fundacentro foi explicitada. Segundo ele próprio, a Fundacentro estava sendo usada como plataforma para esse projeto da presidência lançado rapidamente em 2023. A estrutura e as possibilidades jurídicas de uma fundação pública também estão sendo instrumentalizadas para gerir verba e concessão de bolsas da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes). Inclusive faria bem o Ministério Público Federal olhar com lupa os editais dessas bolsas e as seleções dos bolsistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Evidentemente, as mudanças organizacionais mais do que necessárias e já tardias, para desfazer o assédio organizacional e os fatores de risco psicossociais na Fundacentro não serão realizadas por um grupo político que veio para a Fundacentro como abutres na carniça. Com os pactos <strong>[5]</strong> que realizaram e que só agravaram os riscos psicossociais ao ponto da tragédia, esse grupo que controla a Fundacentro é um impedimento para que as mudanças organizacionais ocorram e os fatores de risco sejam eliminados ou reduzidos. É uma ilusão achar que qualquer mudança significativa virá dos gestores atuais da Fundacentro. Na ausência de capacidade dos servidores de impor as mudanças necessárias, só uma intervenção externa, que afaste esses gestores e coloque pessoas comprometidas com a Fundacentro, com uma organização racional e com a saúde dos trabalhadores, e não com uma farra de cargos comissionados e do uso patrimonialista da instituição, pode evitar que as tragédias e adoecimentos se repitam.</p>
<p style="text-align: justify;">Embebedadas com seus pequenos poderes, as pessoas em cargos de gestão na Fundacentro não são capazes de ouvir e se dar conta do risco que elas estão colocando a si mesmas. Existem formas diferentes de suicídio. Ele pode ser, por exemplo, associado a tentativas de matar aqueles que são vistos como fonte do sofrimento. Das ideações de violência e/ou suicidas no trabalho que testemunhei de servidores da Fundacentro nos últimos anos, o uso de taco de beisebol, arma de fogo e explosivos faziam parte da ideação em que gestores também faziam parte da cena. O suicídio é a forma encontrada de cessar um sofrimento que se torna insuportável. Esse sofrimento, associado ou desassociado de ideação suicida, pode levar também a ideações e ações de vingança. De 2000 a 2019, 40,5% dos atiradores em massa nos Estados Unidos tentaram ou cometeram suicídio na ação <strong>[6]</strong>. Quase o dobro das duas décadas anteriores. O número de atiradores em massa que concebem essa ação como uma forma ou etapa do suicídio deve ser muito maior, uma vez que a metodologia da pesquisa não permite apurar o desejo de ser morto pela polícia ou por outra pessoa durante a ação.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo as óperas que terminam em tragédia não têm sempre o mesmo final.</p>
<p style="text-align: justify;">Repito:</p>
<ul>
<li class="li">Se existe uma ação urgente, necessária e prioritária para reduzir risco de outro suicídio na Fundacentro, é a suspensão de todos os PADs abertos.</li>
<li class="li">A escolha política de manter os PADs constitui uma política deliberada de colocar a saúde e a vida dos trabalhadores em risco grave e iminente.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Além disso, qualquer outra medida que não vise uma mudança organizacional, desfazendo a organização assediadora estabelecida a partir de 2019, será mera perfumaria. Mudança que deve começar pela extinção da CGGC, um pleito dos servidores desde o início do atual governo. É difícil imaginar que as medidas necessárias ocorram sem o afastamento das pessoas em cargos de gestão e influência na Fundacentro, comprometidos que estão com uma necrorganização do trabalho, com uma necropolítica e com o ocultamento dos adoecimentos e tragédias que ocorrem na Fundacentro. Embebedados por pequenos poderes, ambições pessoais ou ressentimentos, estão presos a um negacionismo que não lhes permite perceber nem sequer o risco que uma política tão doentia gera a suas próprias vidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Leo Vinicius Liberato é Tecnologista da Fundacentro. Foi membro eleito da Comissão Interna de Saúde do Servidor Público (CISSP) da Fundacentro durante dois mandatos, de 2018 a 2022, durante os quais foi presidente da CISSP por dois anos. É doutor em Sociologia Política pela UFSC, com pós-doutorado no Departamento de Filosofia da USP.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Servidores da Fundacentro em Santa Catarina escreveram Comunicação a Pedro Tourinho apontando o impedimento do trabalho de Analistas em C&amp;T entre outras situações expostas que “demonstram quão doentia e retrógrada está nossa instituição”. Como se sabe, Pedro Tourinho ignorou tudo, assumindo responsabilidade pelos acontecimentos subsequentes. A Comunicação pode ser lida aqui: <a class="urlextern" title="https://drive.google.com/file/d/1auVEtweBho9H7np356Sqm1TmQ5RaR-h1/view?usp=sharing" href="https://drive.google.com/file/d/1auVEtweBho9H7np356Sqm1TmQ5RaR-h1/view?usp=sharing" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://drive.google.com/file/d/1auVEtweBho9H7np356Sqm1TmQ5RaR-h1/view?usp=sharing</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Como por exemplo a denúncia feita durante apresentação na XII Semana de Pesquisa da Fundacentro em 14 de dezembro de 2024. Ver a partir de 2h27min no vídeo <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=7qxXQVOvWA4" href="https://www.youtube.com/watch?v=7qxXQVOvWA4" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.youtube.com/watch?v=7qxXQVOvWA4</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Uma seção inteira do artigo de título <em>O Caso da Fundacentro</em>, publicizado em março de 2024, tratava da política de assédio sobre Analistas em C&amp;T na Fundacentro. Ver: <a class="urlextern" title="https://aterraeredonda.com.br/o-caso-da-fundacentro/" href="https://aterraeredonda.com.br/o-caso-da-fundacentro/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://aterraeredonda.com.br/o-caso-da-fundacentro/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> A carta pode ser lida aqui: <a class="urlextern" title="https://drive.google.com/file/d/1-hyFUlaifgcrG9-Q45-EzEXO1IacFx-E/view?usp=drive_link" href="https://drive.google.com/file/d/1-hyFUlaifgcrG9-Q45-EzEXO1IacFx-E/view?usp=drive_link" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://drive.google.com/file/d/1-hyFUlaifgcrG9-Q45-EzEXO1IacFx-E/view?usp=drive_link</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Sobre esses pactos, sem esgotar o tema, escrevi com certos detalhes em <em>O Caso da Fundacentro</em>, disponível aqui: <a class="urlextern" title="https://aterraeredonda.com.br/o-caso-da-fundacentro/" href="https://aterraeredonda.com.br/o-caso-da-fundacentro/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://aterraeredonda.com.br/o-caso-da-fundacentro/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Girgis, R. R., Hesson, H., Brucato, G., Lieberman, J. A., Appelbaum, P. S., &amp; Mann, J. J. (2024). Changes in Rates of Suicide by Mass Shooters, 1980-2019. <em>Archives of Suicide Research</em>, 1-10. https://doi.org/10.1080/13811118.2024.2345166</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram o artigo são de Henri Cartier-Bresson (1908-2004)</em></p>
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		<title>Mais um dia de trabalho normal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Aug 2024 03:01:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[A advogada foi ao presídio conversar com a nova cliente pela primeira vez. Lhe preveniram que esta tinha problemas mentais. Entretanto, no decorrer do atendimento pareceu-lhe uma pessoa bastante lúcida, até que resolveu tirar a blusa e mostrar-lhe os seios. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A advogada foi ao presídio conversar com a nova cliente pela primeira vez. Lhe preveniram que esta tinha problemas mentais. Entretanto, no decorrer do atendimento pareceu-lhe uma pessoa bastante lúcida, até que resolveu tirar a blusa e mostrar-lhe os seios. <strong>Passa Palavra</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A terapia do pobre</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jul 2024 05:15:01 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[Queixava-se do dinheiro que gastava todo mês em terapia. O outro respondeu: “Eu não faço terapia, eu bebo. Cerveja é a terapia do pobre.” Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Queixava-se do dinheiro que gastava todo mês em terapia. O outro respondeu: “Eu não faço terapia, eu bebo. Cerveja é a terapia do pobre.” <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Favela pós-pandêmica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jul 2024 12:26:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[A comunidade, cada vez mais inquilina, não tem mais relação com as lutas pelo território, a conquista de coisas virá pelo consumo. Por Isadora de Andrade Guerreiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Numa favela já bastante antiga e consolidada de São Paulo, mas não muito grande, em plena pandemia, durante a madrugada, a quadra esportiva é tomada por construtores que começam rapidamente a quebrar o chão para fazer fundações. Não são famílias desesperadas após mais um despejo por falta de pagamento de aluguel, em meio à crise instalada. A quadra não estava abandonada, muito pelo contrário: uma forte associação esportiva dos moradores, liderada por uma jovem mulher, a mantinha em funcionamento com cursos e espaço aberto principalmente para crianças, adolescentes e idosos, que usavam equipamentos de academia ao ar livre que ali se encontravam, em bom estado. Imediatamente a liderança da associação tenta reverter o quadro, e não consegue.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, a quadra está totalmente rodeada por edifícios de 4 a 5 andares, com camarotes, comércio e algumas unidades de aluguel residencial viradas para fora da quadra. O espaço foi tomado pelo baile funk, numa articulação de empresários locais com os de outra favela da região. A reserva dos camarotes é caríssima e disputada. Durante a noite, nos contam que os grupos pedem vários baldes com garrafas de whisky, cada um a mais de R$ 400. São disponibilizadas “mulheres troféu” na conta, pagas para circularem ao lado dos pagantes – e nada mais, o que importa é a ostentação. Muito dinheiro circula ali, e muitas pessoas de toda a região.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é mais uma comunidade fechada nos seus expedientes de sobrevivência e lazer comunitários, conquistados com lutas coletivas e suados financiamentos de mandatos legislativos e do terceiro setor. As calçadas, durante e após a pandemia, estão sendo tomadas por pequenos edifícios de dois ou três andares super estreitos, que acomodam lojas para alugar. A maioria dos novos comerciantes não é morador da favela – não se trata mais da mercearia na própria garagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem dá mais para as crianças pensarem em colocar algo na rua para fazer de gol. Já há alguns anos, as estreitas ruas são disputadas por carros que não tem onde estacionar, já que, quando as casas foram construídas, nem se pensava na possibilidade de ter um carro. Muitos espaços de estacionamento na rua são pagos e fechados com correntes. Foram instaladas pelos moradores nas fachadas das suas casas barras de ferro apontadas para a rua, na tentativa de impedir que os carros estacionem – algumas delas, retiráveis com cadeado, reservam vagas. Outras soluções são enormes vasos de plantas em tambores de máquinas de lavar roupa, colocados ao longo do meio-fio. São mais bonitos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais à frente, um enorme barranco com risco de desabamento. Não era uma área de risco antes da pandemia. No seu topo, havia uma praça muito movimentada, utilizada também para os saraus de rap que forjaram a identidade da geração anterior. Durante a pandemia, também do dia para a noite, começaram a retirar terra do barranco, tentando abrir espaço para o que seria um grande prédio feito em consórcio entre pessoas da comunidade e também de fora. Dizem que foram pagos cerca de R$ 120 mil para a Polícia Ambiental se omitir. Depois de muitos caminhões de terra, o dinheiro e a sociedade acabaram, não seria possível construir o muro de arrimo necessário para sustentar aquilo. Abandonaram, e a comunidade perdeu a praça e ganhou uma nova área de risco.</p>
<p style="text-align: justify;">A grande área coberta onde as crianças e adolescentes da geração anterior se formaram com cursos variados, da prefeitura e gerenciada por uma ONG, foi depredada durante a pandemia. Uns diziam que era para tomar posse com mais construções, pois é uma área bem localizada. Outros diziam que era para pegar material para a nova ocupação que se fazia no terreno ao lado, durante a pandemia – por pessoas que não conseguiam mais pagar o aluguel, mas também por muitas outras que passaram a negociar os terrenos. Um misto necessário para ter apoio de estudantes, partidos e coletivos e, afinal, uma articulação que conseguiu impedir sua reintegração de posse. Hoje, a área tem um mercado imobiliário aquecido, mas muita precariedade – numa tarde, a UBS local recolheu uma quantidade de escorpiões suficiente para encher uma garrafa PET. Pessoas que ocuparam para fugir do aluguel se misturam a uma quantidade cada vez maior de inquilinos de cômodos minúsculos – são um <span style="color: #0563c1;"><u><a href="https://passapalavra.info/2020/10/134839/" target="_blank" rel="noopener">novo grupo social nas favelas</a></u></span>, que tem cada vez mais moradores temporários, sem nenhum vínculo com o território.</p>
<p style="text-align: justify;">Visito um prédio em construção, no miolo da parte consolidada da favela. Boa construção, rápida. O investidor é o dono da pizzaria no final da rua, que cresceu muito na pandemia com delivery pelo IFood – diz ele que os consumidores não sabiam que seu estabelecimento é na favela, o que os afastaria. Agora já está abrindo uma filial na outra grande favela da região, essa já urbanizada, mais valorizada. E constrói prédios para alugar, mas não entende nada disso. Contratou para tanto um empreiteiro, que não mora nem nunca morou ali, que foi para o ramo como diversificação do seu negócio original. Começou com TV a Cabo nesta favela e depois foi para a provisão de Internet. Primeiramente com monopólio local, mas depois “dos debates” que transformaram o ramo em “mercado aberto”, achou que dava muito trabalho ter que disputar os consumidores. Partiu para a construção de prédios para locação residencial. São bons os prédios dele. Força de trabalho toda contratada “de fora” – “os daqui não querem trabalhar”.</p>
<p style="text-align: justify;">Fomos visitar seu primeiro prédio construído naquela favela. Uma viela bem estreita, sem saída. No final dela, o prédio, seis andares. Uma unidade por andar, com varanda. No topo, um grande salão, janelões enormes, vista sensacional. Só ele tem a chave, e diz que ali ele não aluga. Ele empresta para os amigos. Tem uma banheira de hidromassagem, diz que é seu SPA particular. E mostra no celular um clip de um rapper famoso na região, usando a tal banheira rodeado de mulheres – tipo ostentação. Sensacional. Descemos, viela escura, favela.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto ele corta o cabelo, conversamos sobre o mercado imobiliário local. Pergunto se ele não vai investir na frente de expansão imobiliária da quadra de esportes – agora, “do funk”. Diz que não, que ali é muito inseguro o investimento, por ser área de fronteira, nova, tomada. Pergunto então por que estão investindo tanto ali, são prédios enormes. O cabeleireiro é jovem, morador dali, e corta o cabelo e a entrevista: “Porque eles não têm apenas dinheiro. Eles <i>podem</i>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois então, lembro da conversa com a liderança da associação de esportes que perdeu a quadra. Ela disse que foi recorrer com os “irmãos” do PCC de hierarquia superior (a “Torre”), que não fizeram nada a respeito. Disse que “a Torre não sabe nada do que está se passando aqui. Diz que não interfere nos negócios dos irmãos”. “Irmãos” esses que promoveram a tal “abertura de mercado”, através de “debates”, eles mesmos diversificando seus negócios com a produção imobiliária.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a promoção imobiliária não é apenas um negócio a mais. É conquista de espaço, é alteração de comportamentos, do cotidiano, da forma da comunidade se relacionar entre si e com o território. Todos os espaços comuns da comunidade estão sendo perdidos; crianças, mulheres e idosos(as) são quem perde mais, e vão ficando cada vez mais em casa, com medo. Os relatos se repetem: “não posso mais ir na praça, é perigoso”, “eu ia na quadrinha, não posso mais”, “os brinquedos foram quebrados, ninguém pode consertar”, “as crianças brincavam na rua, mas não deixo mais meus filhos brincarem, precisam ficar em casa, agora tenho que cuidar”, “tinha forró, todo mundo ia, mas agora é só o funk” – não deixo de pensar que o forró vem do “for-all”, e agora só os adolescentes tem lugar de lazer, mesmo assim (bem) pago: dizem que precisam de no mínimo R$ 200 para ir no baile. O campo grande de futebol continua intacto – esse, ninguém mexe. Parece haver um masculinização dos espaços comuns, e a disputa por eles faz parte desse processo de afirmação social, plasmada em grandes edifícios.</p>
<p style="text-align: justify;">Ficamos sabendo que a tomada de novas áreas para a promoção imobiliária é disputada entre as biqueiras locais. Quem tem mais, quem constrói mais, ganha mais poder. Lembrei-me de San Gimignano, uma cidade medieval italiana, que tem algumas torres muito altas que se sobressaem na paisagem de casas baixas. Foram fruto da disputa entre as famílias nobres locais: quem construía mais alto, demonstrava mais poder. A relação entre riqueza e poder passa pela produção do espaço, inevitavelmente. Não seria diferente por aqui. Na comunidade revirada, a associação de moradores perde força e legitimidade, não tem voz para barrar mais nada. Onde está a comunidade? Cada vez mais inquilina, não tem mais relação com as lutas pelo território. Não acham que nada mais precisa mudar, e a conquista de coisas virá pelo consumo, e não pela luta política.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, o córrego enche em dias de chuva. O lixo se amontoa em montanhas (literalmente) ao lado da frente de expansão imobiliária: o caminhão vai, mas não consegue passar toda semana, por conta dos carros estacionados na esquina que impedem sua passagem. Encontramos ali moradores, toda terça-feira, quando o caminhão chega, brigando com quem estacionou os carros, buscando seus donos, gerenciando o trânsito, um caos. Converso com uma liderança, camisa do mandato da vereadora do PT local. “Você faz isso toda semana?” “Sim, ninguém respeita, não tem jeito”. Marcamos mutirão para pintar faixas de proibido estacionar na esquina. No dia do mutirão, aparecem lideranças com seus celulares: enquanto pintamos o chão, elas fazem vídeos mostrando a ação nas suas redes. <span style="color: #0563c1;"><u><a href="https://passapalavra.info/2020/04/130963/" target="_blank" rel="noopener">Há algo de produtivo no caminhão não passar</a></u></span>. A tinta no chão não durou muito.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o lixo é implacável. Ele se acumula rapidamente, vai tomando a rua, chega uma hora que não dá mais para passar. Atrapalha as vans escolares, que não conseguem mais pegar as crianças do outro lado da favela. Ao lado, o prédio novo é pintado. Muitas moscas, vez ou outra, ratos. Lembro-me de Chico Buarque&#8230; em “Ode aos Ratos”, os ratos parecem simbolizar a verdade oculta por detrás da riqueza da cidade:</p>
<blockquote><p>Saqueador da metrópole</p>
<p>Tenaz roedor</p>
<p>De toda esperança</p>
<p>Estuporador da ilusão</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mais um final de semana, mais um baile. A liderança da associação de esportes acabou investindo também, para não perder espaço de disputa. Quando enfrentou os caras tomando a quadra, teve que ouvir que eles só falariam com o marido dela. Ela é separada. Agora está à frente do negócio, com a mãe e as filhas, que cuida sozinha. Sua vida está mudando, está fazendo cursos para se atualizar, quer sair dali. Disse que não se mete mais com a associação de moradores: durante a pandemia, viu muita coisa que não gostou na entrega de cestas básicas. Arranjou inimizades, que parecem estar generalizadas por toda parte.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto os bailes acontecem, as reuniões do Fórum de Entidades não conseguem ser nem marcadas. Ninguém responde. Quando há reunião, poucos aparecem. Parece que essa situação começou a acontecer depois da pandemia&#8230; quando muitos olhos se fecharam.</p>
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		<title>Coisa de loucos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Jun 2024 08:03:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[O homem entrou numa esquadra (delegacia) da polícia, disse que se sentia enlouquecer e que o levassem a um hospital. Poucos dias depois telefonou-me de um hospital psiquiátrico, para eu o visitar. Pediu-me para avisar a família. Passado mais de um ano disseram-me que ele tinha saído do hospital e estava a participar num grupo [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O homem entrou numa esquadra (delegacia) da polícia, disse que se sentia enlouquecer e que o levassem a um hospital. Poucos dias depois telefonou-me de um hospital psiquiátrico, para eu o visitar. Pediu-me para avisar a família. Passado mais de um ano disseram-me que ele tinha saído do hospital e estava a participar num grupo político. Um dia encontrei-o, perguntei-lhe se ainda militava nesse grupo. «Eh pá», respondeu. «Saí. Aquilo parecia um manicómio». <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Reflexões sobre o Assombroso de Paraty</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Apr 2024 11:29:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[É correto dizer que o Assombroso não morreu mas está em sono profundo. Por Sabiá]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Sabiá</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>As reflexões seguintes foram escritas em meados de 2021, quando o coletivo Assombroso de Paraty</em> <em>(no</em> <em>Facebook,</em> <em>Assombroso</em> <em>Prefeito</em> <em>de</em> <em>Paraty)</em> <em>tinha</em> <em>pouco</em> <em>mais</em> <em>de</em> <em>2</em> <em>anos</em> <em>e</em> <em>foram</em> <em>elaboradas</em> <em>com</em> <em>propósito de</em> <em>ser</em> <em>um disparador</em> <em>para um</em> <em>debate</em> <em>interno</em> <em>do coletivo.</em> <em>No</em> <em>entanto,</em> <em>devido ao</em> <em>momento de refluxo e ao hiato imposto, seguido de fim do coletivo, este documento ficou na gaveta</em> <em>e acabou esquecido até que um camarada me perguntou recentemente sobre militância em cidades</em> <em>pequenas. Encaminho esse texto da forma como foi escrito, mesmo tendo leves desacordos com</em> <em>alguns</em> <em>pontos que</em> <em>escrevi</em> <em>naquela</em> <em>época.</em></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Com pouco mais de 2 anos de existência, podemos dizer que o Assombroso teve uma participação considerável na vida política da cidade, principalmente no que se refere à política por fora dos âmbitos institucionais. Se isso foi possível, diz mais sobre a incapacidade das forças institucionais, principalmente aquelas que se dizem defensoras dos trabalhadores e/ou do socialismo, que se encontram completamente apartadas do cotidiano da luta dos trabalhadores da cidade. Por outro lado, a incapacidade do Assombroso de promover um avanço organizativo nos processos que se desenvolveram dos quais participou parece, de forma oposta, também apontar para uma desconexão (ou uma defasagem) do coletivo em relação ao cotidiano dessas mesmas lutas. Pode-se considerar que essa desconexão é tanto fruto da própria fragmentação da classe trabalhadora e suas especificidades em Paraty, quanto da própria fragmentação imposta pela dinâmica do trabalho através de um regime de intermitência, intensa rotatividade e elevado grau de informalidade &#8211; principalmente para o setor de turismo, onde a atuação do coletivo teve mais foco e se reflete no próprio caráter do Assombroso, de ter uma atuação mais clandestina e invisível.</p>
<p style="text-align: justify;">Para pensar o futuro do coletivo é necessário antes refletir sobre os processos passados, as atuações em conjunto com as organizações de classe, os erros e os acertos. Só à partir de um acerto de contas com o passado (mesmo que curto e recente) é que se pode pensar o futuro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Cassação de mandato e surgimento do Assombroso</h3>
<p style="text-align: justify;">Em abril de 2019, frente a cassação da chapa do então prefeito da cidade pelo TSE por “abuso de poder político para realçar a imagem do candidato na eleição de 2016”, um grupo de trabalhadores e ex-trabalhadores do turismo de Paraty que já tiveram envolvimento com outros processos de luta na cidade resolveram criar um personagem para “explanar o que não é explanado”. Com uma proposta satírica, decidem por utilizar o nome Assombroso, como uma forma de homenagear aos carnavais da cidade e ao bloco “Assombrosos do Morro” &#8211; conhecido por suas máscaras assustadoras. Devido à proximidade de uma eleição suplementar convocada pelo TRE em razão da cassação do prefeito e vice-prefeito da cidade, esse grupo resolve “lançar” seu próprio candidato às eleições, o Assombroso.</p>
<p style="text-align: justify;">Após o contato com um artista da cidade que resolveu ceder imagem de sua máscara para ser “a cara” do coletivo, o Assombroso cria então uma página no Facebook e começa a sua anticampanha. As suas primeiras postagens relativas à problemas já conhecidos da cidade, como o aeroporto e denuncias que circulavam das ações da guarda municipal em relação à moradores de rua, a página consegue conquistar uma boa visibilidade, sendo inclusive replicada por alguns portais da cidade. Ao mesmo tempo, por parte de alguns, havia uma necessidade maior de utilizar a página e a atenção recém adquirida para focar nas condições de vida e experiências que esses trabalhadores organizados conheciam bem: as condições de trabalho na cidade. É nessa contradição inicial entre uma anticampanha afirmada na divulgação irrestrita dos problemas identificados na cidade, de forma genérica, e dos conflitos no local de trabalho, de forma específica que o Assombroso se desenvolve e lança o que viria a ser uma série dentro da página, os Relatos Assombrosos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152515 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp1.jpg" alt="Reflexões sobre o Assombroso de Paraty" width="750" height="42" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp1.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp1-300x17.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp1-640x36.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp1-681x38.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os Relatos Assombrosos apontaram para uma direção interessante que tocava especificamente nas condições de vida daqueles trabalhadores e ex-trabalhadores do setor de turismo do coletivo. Foram constituídos inteiramente por um diálogo constante com trabalhadores da cidade que chegaram à página para denunciar os diversos abusos a que foram submetidos em seus locais de trabalho. O que parecia ser uma relação impensável (afinal, por que as pessoas divulgam seus problemas para uma página da qual não se tem sequer informação de seus organizadores?) se mostrou potência. Os trabalhadores da cidade diariamente enfrentam uma batalha invisível e subterrânea e ninguém, até então, havia oferecido uma plataforma para que esses problemas pudessem submergir e serem publicizados.</p>
<p style="text-align: justify;">Se por um lado crescia o interesse dos membros do coletivo em se aprofundar na investigação dos problemas nos locais de trabalho, por outro crescia também uma preocupação com a garantia do anonimato. Em um primeiro momento a preocupação era em manter o anonimato dos membros do coletivo, mas com a divulgação dos Relatos Assombrosos a preocupação passa a ser a garantia de anonimato das fontes, ou seja, dos trabalhadores. Nesse sentido, uma série de ações foram tomadas para evitar a exposição dos que denunciavam seus problemas, e isso teve um impacto também em como as informações eram apresentadas. Embora o Assombroso tivesse uma preocupação de publicizar os relatos EXATAMENTE como eram escritos, acabou-se optando por tornar anônimo os locais de trabalho de onde vinham esses relatos, o que rendeu várias críticas ao coletivo por parte dos seguidores da página que queriam muito saber de onde vinham para não mais consumir esses serviços.</p>
<p style="text-align: justify;">A opção pelo anonimato das empresas teve uma certa resistência interna no coletivo, mas no final foi o caminho decidido já que era sabido que a exposição dos locais poderia levar a reconhecimento fácil de trabalhadores e desenvolver outros problemas. Por outro lado, interessava também que a “insatisfação anonimizada” encontrasse eco em outros trabalhadores de outras empresas e pudesse iniciar um processo generalizado de explanações dos locais de trabalho, colocando na ordem do dia a divulgação das experiências dos trabalhadores como política. Mesmo anonimizando os relatos, percebeu-se na prática que não estavam livres da identificação. Vários seguidores ao lerem os relatos conseguiram descobrir quais eram os estabelecimentos citados. Alguns relatos, inclusive, brincavam um pouco com essa relação direta nos comentários e jogavam algumas dicas. Alguns trabalhadores acabaram também reconhecidos e cobrados por seus patrões.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Viralização dos Relatos Assombrosos e a questão da recomposição</h3>
<p style="text-align: justify;">Enquanto os Relatos Assombrosos viralizavam e mais trabalhadores enviavam seus relatos, a ideia inicial do lançamento de uma campanha satírica do Assombroso acabou perdendo um pouco o espaço &#8211; que agora já contava com o mote “Vote em quem quiser, vote em ninguém, vote em Assombroso!”. A seriedade dos relatos começou a contrastar com a ideia jocosa que havia no começo do coletivo. Mas isso não impediu o coletivo de levar questões no bom humor e na base da sacanagem, quando havia o entendimento de que isso poderia impulsionar algumas ações.</p>
<p style="text-align: justify;">A viralização dos Relatos Assombrosos foi tanta que o coletivo passou a receber relatos de dentro dos locais de trabalho. Alguns trabalhadores, se juntavam e escreviam relatando o que estava passando por lá. Dentre esses casos, um emblemático foi de uma gestora de uma pousada famosa pertencente à uma família “importante” no cenário nacional de telecomunicações que decidiu reunir seus trabalhadores e tentar convencê-los à não aderir ao espectro de explanação que rondava a cidade, afinal “ninguém sabe quem é esse Assombroso”. A figura era conhecida por aterrorizar os trabalhadores e essa reunião foi vista por muitos como um sinal de fraqueza e medo de cair na boca do público. Não deu outra, as divulgações do local bombaram, as pessoas começaram a divulgar o nome do estabelecimento e os trabalhadores se sentiram pela primeira vez no controle da situação à partir da assombração.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152516 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp2.jpg" alt="Reflexões sobre o Assombroso de Paraty" width="750" height="262" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp2.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp2-300x105.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp2-640x224.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp2-681x238.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É à partir dessa virada de chave para a investigação no local de trabalho que parte da esquerda paratiense começa a ter certo interesse no Assombroso. Com a ideia de uma Greve Geral chamada e uma articulação da esquerda em construção, entraram em contato com o coletivo solicitando a participação de alguém indicado para falar sobre o trabalho em Paraty, o que para o Assombroso foi sintoma de uma fragilidade da esquerda uma vez que a página havia sido recém criada e cujo trabalho político era basicamente uma página de agitação no Facebook, mas que também apontava para um interesse real no processo em curso desses setores. À parte desse estranhamento inicial, e através do conhecimento do que estava sendo gestado pelo campo de esquerda para o dia, não houve uma crença de que o Assombroso poderia contribuir com uma Greve Geral nos moldes que até então se desenhavam. O convite foi respondido apresentando as preocupações com o processo, que em resumo pode ser entendido como a divergência em relação à uma noção de recomposição &#8211; mesmo que para esses setores isso não era colocado dessa forma. Enquanto era claro que havia uma tentativa de recomposição da esquerda paratiense (que se tornou mais claro com a união de PT e PSOL nas eleições suplementares daquele ano, e a fragilidade desta união em 2020 com PT aliando- se ao MDB e PSOL lançando candidaturas próprias), para o Assombroso o importante era a recomposição de classe, entendida aqui como o processo de tentar, à luz dos desafios impostos pela globalidade (e pelas especificidades) do trabalho, pensar e auxiliar no desenvolvimento das formas de luta dos trabalhadores pelos próprios trabalhadores. Isso implica desenvolver um trabalho que considere a experiência dos trabalhadores entendida enquanto classe, e não com as divisões impostas pelo sufrágio e reforçadas por uma imagética de esquerda que não encontra mais seu correspondente na materialidade, apenas em suas palavras de ordem e cores.</p>
<p style="text-align: justify;">Em relação ao ponto da recomposição, é também interessante notar como se deu a relação com os seguidores da página do Assombroso. Embora existisse muito apoio de trabalhadores em seu sentido geral (sejam eles “de direita”, sejam eles “de esquerda” ou sejam eles “apolíticos”, como adoram definir os partidos para seus cálculos eleitorais) e houvesse um grande repúdio por parte dos patrões (por motivos óbvios), houveram algumas interações no mínimo inusitadas com alguns “patrões de esquerda” que se sentiam ameaçados pelo fato da página não citar os estabelecimentos, afinal, “ao não dar nomes aos bois o Assombroso faz parecer que todos os patrões de Paraty são exploradores”, ou ainda que “há aqueles patrões que tratam muito bem seus funcionários”, afinal “quando eles estão bem, produzem mais”. O conceito de exploração aqui apresentado por esses setores pode ser resumido em “trabalhador submetido a humilhação” (com xingamentos, abusos psicológicos, etc) e não o processo de obtenção de mais-valia. Na nova equação, exploração é só aquela fundada sob os regimes de intensificação do trabalho, dos abusos psicológicos, etc e não do desenvolvimento de novas tecnologias e métodos “humanizados” de aproveitamento da força de trabalho. Tal equação, todavia, não é fruto da cabeça dos “patrões de esquerda”. É quase um consenso. Só essa contradição já é suficiente para justificar o receio, afinal como disse um camarada na época “para o patrão participar de Greve Geral é fácil, difícil mesmo é ele dar folga para os trabalhadores nesse dia”.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer forma, mesmo esses pontos poderiam ser ignorados nesse primeiro momento, considerando que o coletivo era recente e que um chamado nesses moldes também poderia sair do roteiro. Depois de uma carta reposta ao convite enviado, demonstrando algumas das preocupações, algumas mensagens copiadas do grupo que organizava a Greve Geral foram recebidas. Não havia um consenso sobre a carta resposta, com pessoas apoiando o conteúdo e outras criticando. Mas, no geral, prevaleceu a não-participação do Assombroso, tanto pelo incomodo que provavelmente foi criado quanto pela própria falta de preparação para participar de um evento público, mesmo que não usando necessariamente o nome do Assombroso. De qualquer forma, esse processo foi importante para se começar a debater as aparições públicas do coletivo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Reuniões ampliadas e Boletim Assombroso</h3>
<p style="text-align: justify;">Se por um lado o convite à participação de atividade de uma “Frente de esquerda” em Paraty reforçou a tendência à uma atuação invisível e clandestina, de outro lado o desejo de dar um passo além das simples explanações virtuais das condições de trabalho se apresentou. Na época o sentimento era que não bastava fazer agitação, era necessário aprender com os processos e as lutas subterrâneas já existentes e através desse aprendizado ser capaz de apontar para algum horizonte organizativo. Desse processo surgiu a ideia de reuniões ampliadas com trabalhadores que não fizessem parte do Assombroso. Mas como fazer isso ao mesmo tempo em que se mantém o anonimato? A resposta foi em “confiar em quem confia”. Um primeiro chamado foi feito às pessoas que haviam confiado no coletivo com seus relatos e mensagens para comparecerem em uma reunião presencial e, pela primeira vez, o bloco virtual tirou as máscaras.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro processo contou com trabalhadores do turismo, e mesmo com uma baixa adesão em um primeiro momento, a primeira reunião serviu para apontar para um horizonte que até então não era muito claro. Foi decidido criar um boletim de trabalhadores levando o nome do Assombroso, e nesse primeiro boletim o foco foi uma questão que aparecia muito nos relatos recebidos até então: o não repasse &#8211; ou o repasse incorreto &#8211; dos 10% da taxa de serviço. A questão foi dividida em três: “O problema”, “seu direito”, e “na prática”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em “o problema”, foi exposto um relato em que o trabalhador desabafava nunca ter recebido os 10% corretamente, em nenhum lugar que trabalhou em Paraty. Em “seu direito” foi apresentado o que na época diziam advogados trabalhistas ligados às lutas de garçons no Rio de Janeiro em relação às questões das gorjetas e da taxa de serviço. Em seguida, em “na prática”, foi decidido desenvolver uma solução para o problema apresentado. Mas como apontar para alguma perspectiva à partir do reconhecimento inicial desse problema generalizado sem cair no vislumbre institucional como resolutor dos conflitos? Como apostar na auto-organização dos trabalhadores enquanto saída para o abuso? A resposta encontrava-se em um relato recebido relacionado à uma experiência de organização no local de trabalho para impedir que a empresa fizesse a gestão dos 10%. De acordo com esse trabalhador:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>“No lugar que eu trabalhava eles nem falavam pra gente quanto que a gente fazia na noite, era tudo fechado, e aí no final do mês eles passavam um valor x pra gente, mas a gente sabia (que esse valor x) era menos. Aí começamos a organizar meio que um motim. Na hora de levar a conta na mesa do cliente a gente pedia para eles pagarem o serviço em dinheiro e aí já ficava direto pra gente. Passava pra casa só o dos clientes que pagavam tudo no cartão mesmo.”</em></p>
</blockquote>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152517 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp3.jpg" alt="Reflexões sobre o Assombroso de Paraty" width="750" height="233" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp3.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp3-300x93.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp3-640x199.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp3-681x212.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Com os materiais prontos, estes foram imprimidos, repartidos e deixados em alguns lugares cujos trabalhadores apoiavam o coletivo. Também foi divulgado o material com um pequeno vídeo ensinando a imprimir, recortar e montar o informativo.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo processo contou com trabalhadores da cultura, e levantou algumas questões interessantes sobre a composição desses trabalhadores. Muito foi falado sobre a dificuldade de articulação, além do entendimento de que muitos desses trabalhadores não se viam como trabalhadores, mas sim como “artistas”, como se não houvesse relação entre uma coisa e outra. Também se falou sobre os problemas enfrentados pelos músicos nos estabelecimentos, prelos problemas e a gestão destes a nível municipal, e uma certa sensação de incapacidade de avançar em um sentido organizativo em perspectiva de demanda. Decidiu-se, então, publicizar esses casos de abuso, além de desenvolver um novo boletim especificamente voltado para os trabalhadores da cultura. No entanto, o processo teve uma pausa que se estendeu durante tanto tempo que o boletim não pôde ser concluído.</p>
<p style="text-align: justify;">É durante esses dois processos, também, que o Assombroso começa a ampliar o debate para fora de Paraty, trocando experiência com outros coletivos e organizações de trabalhadores que tinham os mesmos objetivos e mesmo foco na investigação dos locais de trabalho a nível nacional. Se entende-se que a classe trabalhadora é internacional, as resoluções para os conflitos de classe não serão realizadas apenas em Paraty. É importante, portanto, criar redes de apoio e de trocas de experiência para que, ao mesmo tempo que os trabalhadores paratienses possam através de suas experiências influenciar outros trabalhadores fora da cidade, possam também ser influenciados por estes. A luta de classes é uma troca constante de experiências tanto a nível nacional quanto a nível internacional. E o interesse do Assombroso em não se deixar confundir com qualquer perspectiva nacionalista &#8211; e bairrista &#8211; e de se opor à xenofobia, era tão forte que o coletivo decidiu divulgar um relato de um trabalhador nascido e criado em Paraty que encontrava-se na Europa trabalhando em uma Pousada para que este contasse os problemas que passava por lá, assim como compartilhar o processo de luta que lá se desenvolveu. Obviamente os problemas eram muito parecidos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">A pandemia e o desenvolvimento de novas formas de luta</h3>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário do que se sucedeu com várias organizações com as quais o Assombroso manteve contato, a pandemia não trouxe muitas distinções na forma de articulação do coletivo, muito porque a maior parte de sua atuação já se dava de forma virtual. No entanto, o passo à frente que entendia- se necessário, que se iniciaram com as reuniões virtuais e o desenvolvimento do boletim, acabaram adiados indefinidamente. O foco voltou a ser a explanação virtual e os Relatos Assombrosos voltaram com o nome de “Relatos Assombrosos em tempos de pandemia”.</p>
<p style="text-align: justify;">Cresciam os conflitos nos locais de trabalho que agora contavam com alguns trabalhadores batendo de frente com seus patrões em relação às condições impostas pelo COVID. Professores tinham os valores de suas “dobras” cortadas enquanto alguns trabalhadores do turismo estavam sendo demitidos sem nenhum direito e tomando calote de seus patrões. Outros identificavam a desobediência dos patrões em cumprir os decretos da prefeitura, além de contarem com a complacência das autoridades competentes ao simplesmente fecharem os olhos à fiscalização.</p>
<p style="text-align: justify;">Barqueiros do cais começavam a se movimentar e a exigir apoio por parte da prefeitura uma vez que foram “os primeiros a parar e serão os últimos a retornar”, como era muito falado entre a categoria. Aliado à esses processos, comunidades tradicionais na cidade começaram a erguer barreiras sanitárias com o objetivo de impedir a grande circulação em seus territórios e, assim, evitar o contágio.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152518 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp4.jpg" alt="Reflexões sobre o Assombroso de Paraty" width="750" height="233" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp4.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp4-300x93.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp4-640x199.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp4-681x212.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É nesse caos imposto pelo COVID que novas explanações começam a surgir, aliadas à uma generalização dos processos de luta. O Assombroso segue então divulgando os casos de abusos em locais de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma série de denúncias são feitas por professores em Paraty de que, com a pandemia, os professores do município tiveram a regência cortada, além do corte nas “dobra”. Essas dobras são um dispositivo usado pela própria prefeitura para garantir que não há falta de professores, uma vez que há falta de concursos na cidade e uma demanda de força de trabalho. Soma-se a isso o PCCR (Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração), que estabelece, entre outras coisas, a remuneração dos professores de acordo com a legislação, que não é cumprido a anos. Os educadores partem para a ofensiva e divulgam seus problemas nas redes sociais, criticando em peso a secretaria de educação (a cargo do Partido dos Trabalhadores). À partir dessas exposições que viralizam nas redes, o presidente do Partido dos Trabalhadores, bem como a responsável pela Secretaria de Educação &#8211; também do partido &#8211; fazem uma live na página do Partido dos Trabalhadores anunciando que “tecnicamente não houve redução de salário, pois o mesmo não foi alterado, mas houve perda significativa de receitas” que significaram uma supressão de “20% de regência de 100% de professores, o valor referente a difícil e dificílimo acesso para os professores que gozam desse direito e a aula extra, ou dobra” e que os argumentos utilizados pela prefeitura para efetuar o corte “não foram de ordem econômica, não tendo a ver com contenção de despesas, mas com questões jurídicas e burocráticas”, também que para o Partido dos Trabalhadores o corte “foi uma derrota”, e que são todas essas questões que o Partido expôs em carta para o governo do MDB “do qual estamos” &#8211; reforçam os apresentadores &#8211; e que entendem que a derrota não foi devido à força ou vontade do prefeito, mas pelo “entendimento majoritário do conjunto de atores que compõe o corpo jurídico e administrativo da prefeitura municipal de Paraty”. A live serviu para tentar limpar a imagem pública da gestão petista, mas acabou sendo também uma forma de tentar limpar a gestão do MDB através das várias defesas ao governo e ao próprio prefeito, afirmadas pelo próprio presidente do Partido dos Trabalhadores ao dizer que “defendemos o governo Vidal” o mesmo que em diversos momentos atacou professores em suas próprias redes, além de espalhar mentiras de que estes ganham por volta de 8 mil reais, talvez para justificar os ataques à categoria.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto os professores tinham seus salários cortados, trabalhadores do setor de serviços tomavam calotes de seus patrões, além de serem demitidos. Uma dessas trabalhadoras entrou em contato com o coletivo e, através de debate inicial, foi desenvolvido uma material divulgando o que tinha acabado de acontecer. A ideia inicial era subir o tom das explanações e, caso não houvesse qualquer resposta, pela primeira vez publicizar os casos dando nome aos bois. No entanto, não foi necessário. Logo após a divulgação e em seguida a viralização do caso as trabalhadoras foram chamadas de volta pela patroa que pontuou ter visto a repercussão do caso e que elas “haviam entendido errado”. Resultado, as trabalhadoras foram readmitidas.</p>
<p style="text-align: justify;">No cais da cidade, barqueiros se organizavam para cobrar da prefeitura um auxílio municipal que pudesse ajudá-los a enfrentar o processo. Enquanto vários barcos afundavam e davam problema, sem grana para as retiradas, esses trabalhadores foram até a prefeitura exigir a criação de um auxílio por parte do governo municipal, que disse ser impossível criar uma vez que os dispositivos institucionais o impediam, podendo apenas aguardar algo que viesse da união. No entanto, enquanto os burocratas da prefeitura falavam da impossibilidade, em Salvador, Macaé e Niterói (para dar apenas alguns exemplos), as prefeituras criavam dispositivos de auxilio para os trabalhadores informais e autônomos, indo na contramão do que era afirmado pelos representantes locais. Por outro lado a prefeitura criava linha de crédito com juros zero para auxiliar os comerciantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Fora do centro urbano da cidade, nas comunidades tradicionais, caiçaras organizavam barreiras sanitárias para impedir a circulação. O decreto de lockdown em varias cidades do Brasil fizeram com que moradores simplesmente abandonassem suas cidades, aproveitando do home-office e da impossibilidade de trabalho presencial, para procurar os lugares pacatos, em geral as comunidades caiçaras. Acontece que esse processo levou uma massa desenfreada para esses lugares, que começaram a se articular para impedir essa entrada. A comunidade de Trindade, desde o começo da pandemia, já havia se articulado para fechar sua entrada, visto que é um dos lugares mais visitados da cidade. A decisão precoce dos moradores foi acertada, e mobilizou por volta de 160 voluntários na manutenção da barreira, do início até seu fim. A experiência de auto-organização e retomada territorial das barreiras sanitárias, contudo, não se limitou à Trindade. A comunidade do Sono e da Ilha do Araújo, além de outras comunidades, também se organizaram para enfrentar o movimento massivo de visitantes em meio ao caos. Com uma política de fiscalização fraca, a cidade de Paraty foi tomada por turistas que tentaram fugir das restrições impostas em suas cidades. Enquanto várias comunidades conseguiram controlar e impedir o acesso em suas comunidades, o centro urbano de Paraty foi tomado e o caos se espalhou pelos trabalhadores, que desabafavam sobre o medo de contaminação. Como relatado por uma trabalhadora através de uma mensagem para o coletivo:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>“Estou</em> <em>trabalhando,</em> <em>tenho</em> <em>muito</em> <em>medo</em> <em>de</em> <em>pegar</em> <em>esse</em> <em>vírus,</em> <em>tenho</em> <em>reumatismo</em> <em>e</em> <em>a</em> <em>imunidade</em> <em>baixa,</em> <em>tomo muitos medicamentos e estou exposta. Sinto dores pelo corpo todo e não posso pegar esse</em> <em>vírus.</em> <em>E</em> <em>a</em> <em>prefeitura</em> <em>abrindo</em> <em>as</em> <em>pernas</em> <em>pro</em> <em>turismo</em> <em>entrar</em> <em>fica difícil</em> <em>para</em> <em>nós…”.</em></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse contexto, mais ou menos na metade de junho de 2020, que o Assombroso lança o minimanual “como organizar uma barreira sanitária no seu bairro”, apostando nas experiências da área rural como potenciais para a área urbana da cidade. Apesar de algumas tentativas de organização nesse sentido, elas foram insuficientes de se generalizarem e só puderam se constituir de fato nas áreas rurais. Mesmo assim, em agosto, após 147 dias, e o crescimento de contradições internas territoriais, além da falta de apoio do poder público, que parecia mais interessado em potencializar o caos, a barreira de Trindade chega ao fim.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152519 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp5.jpg" alt="Reflexões sobre o Assombroso de Paraty" width="750" height="218" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp5.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp5-300x87.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp5-640x186.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp5-681x198.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Com o começo da desarticulação das experiências das barreiras sanitárias, e a generalização da falta de fiscalização, a prefeitura começa um processo de “reabertura da cidade” (como se ela tivesse de fato fechada). Os trabalhadores, que já estavam trabalhando normalmente mesmo antes da tal flexibilização, continuaram a manter suas jornadas normais mesmo com “imposição de restrições” decretada pela prefeitura, como uma espécie de contraponto legal à “abertura” do comércio. Isso ocorreu porque muitas empresas começaram a se aproveitar da falta de fiscalização e utilizar como desculpa para seus empregados, e para a “legalidade”, que seus empreendimentos encontravam-se em várias categorias ao mesmo tempo. Sendo assim, por exemplo, várias sorveterias e bares começaram a se apropriar da classificação de loja de conveniência, se esta categoria de empreendimento pudesse ficar aberto até mais tarde em um final de semana. Na prática, então, não foi o decreto que classificou os estabelecimento, os estabelecimentos é que se classificavam de acordo com o decreto. Aliado à isso estava a falta de fiscalização e fiscais que se omitiam em bater de frente com os patrões enquanto, ao mesmo tempo, repreendiam músicos que tocavam na rua em meio ao fluxo de turistas. Como bem dito por um trabalhador em um relato enviado ao coletivo:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>“A guarda só serve pra isso, querer tirar as pessoas que estão trabalhando na rua, como os</em> <em>músicos. Agora quando nois trabalhadores liga pra denunciar que os turistas n estão andando de</em> <em>máscaras no centro histórico aí não vai ninguém. E que os patrões tem até 8 horas pra fechar</em> <em>comércio aí chega no sábado eles estão fechando meia noite aí você liga e ninguém vai fiscalizar.</em> <em>Não tô entendendo nada. E que tem muitas coisa errada sobre esse decreto e nois que somos</em> <em>trabalhadores estamos a mercê. Estou indignada com muitas coisas estão acontecendo no centro</em> <em>histórico de Paraty. Chega n sexta-feira todos os comércio e pra fechar as 8 aí fica todo mundo</em> <em>aberto</em> <em>até</em> <em>tarde</em> <em>aí</em> <em>você</em> <em>liga</em> <em>pra</em> <em>guarda</em> <em>cadê</em> <em>n</em> <em>vem</em> <em>ninguém</em> <em>mandar</em> <em>fechar.</em> <em>Mal</em> <em>abriu</em> <em>a</em> <em>cidade</em> <em>e</em> <em>já está assim imagina depois estamos a mercê nois trabalhadores. Porque patrões estão pouco se</em> <em>lixando o que</em> <em>importa</em> <em>é</em> <em>o dinheiro</em> <em>só isso infelizmente”</em></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Entre essas duas forças, uma representando o poder público e a outra o setor privado, encontravam- se os trabalhadores que temiam por suas vidas frente ao elevado número de contaminações. É à partir desse medo que o coletivo começa a receber fotos tiradas pelos próprios trabalhadores divulgando os estabelecimentos que encontravam-se abertos até mais tarde. Essa tática de fiscalização “por baixo”, desenvolvida pelos próprios trabalhadores dessas empresas, começou a ser divulgada pelo Assombroso na forma de “Fiscalize a sua empresa” e também teve uma boa repercussão. De acordo com uma trabalhadora envolvida na experiência de fiscalização dos locais de trabalho que relatou ter ouvido a conversa de seu patrão com outros comerciantes, através da viralização dos chamados para a fiscalização dos locais de trabalho:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>“Parece que a denuncia que fizemos deu certo. Ontem o patrão chamou eu e os colegas para</em> <em>conversar</em> <em>e</em> <em>disse</em> <em>que</em> <em>vai</em> <em>voltar</em> <em>ao</em> <em>horário</em> <em>normal</em> <em>do</em> <em>decreto</em> <em>mesmo.</em> <em>Quando</em> <em>eu</em> <em>saí</em> <em>do</em> <em>trabalho,</em> <em>vi que vários estabelecimentos voltaram a fechar as portas na hora certa depois da publicação,</em> <em>mas</em> <em>alguns poucos ainda permaneceram abertos…”</em></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O fato desses “alguns poucos” terem se mantido abertos e não terem sofrido qualquer punição da fiscalização foi o suficiente para encorajar o restante a ignorar de vez o decreto. Nessa relação de forças, a solidariedade entre os patrões venceu a perspectiva de fiscalização “por baixo” dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo que várias experiências interessantes tivessem ocorrido, não parece ter acontecido nenhuma articulação entre elas, que pudesse oferecer um gás para a manutenção e posterior generalização.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto o Assombroso e algumas outras forças políticas/sociais divulgavam a palavra de ordem “Auxílio municipal e barreiras sanitárias para garantir a vida”, faltou uma articulação que pudesse dar conta de aproximar essas experiências e pautar, de fato, uma política sanitária baseada nas lutas concretas dos trabalhadores. A pauta do auxílio municipal dos barqueiros, por exemplo, foi visto por muitos trabalhadores como uma pauta específica da categoria quando, em realidade, ao ser reivindicada pelo conjunto da classe poderia apontar para um horizonte mais amplo. Mesmo a experiência de fiscalização dos locais de trabalho “por baixo” pode ser entendida como uma readaptação da ideia de barreiras sanitárias adaptadas para a área urbana da cidade. Faltou também qualquer tipo de troca e reflexões mais profundas entre essas experiências. A bem da verdade, lutas aconteceram e foram coletivas, mas coletivas na medida em que organizava-se com seus pares.</p>
<p style="text-align: justify;">Faltou a coletivização dessas lutas e o entendimento de que todas estavam inscritas em uma só.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152520 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp6.jpg" alt="Reflexões sobre o Assombroso de Paraty" width="750" height="240" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp6.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp6-300x96.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp6-640x205.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp6-681x218.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">As redes e o futuro</h3>
<p style="text-align: justify;">O Assombroso teve uma forte divulgação na cidade. Além das redes sociais, que eram os canais oficiais, outras páginas e sites replicaram em diversos momentos suas informações. Isso se deu devido à viralização dessas postagens, e a uma intensa participação dos usuários com as redes do coletivo. No entanto, é possível identificar que cada vez mais crescia nos usuários da página a ideia de que o Assombroso era uma espécie de “prestadora de serviço”. Não foram poucas as mensagens solicitando que o coletivo fizesse uma lista de boicote de empresas, ou que informasse quais serviços as pessoas deveriam consumir, por serem “boas empresas” as prestadoras desses serviços. Para os trabalhadores que entravam em contato com a página para enviar seus relatos a página também não deixou de escapar da ideia de “prestadora de serviço”. No entanto, ela também serviu como ferramenta de resistência aos abusos nos locais de trabalho, servindo como um amplificador da voz daqueles trabalhadores ao invés de tomar para si a frente dos processos.</p>
<p style="text-align: justify;">Como toda organização surgida nas redes sociais e dependente delas, já era sabido dos limites de controle do coletivo sobre essas ferramentas. Em algum momento haviam três redes de atuação: Facebook, Whatsapp e Instagram. Houve perda no acesso ao Whatsapp e, logo depois, a conta do Assombroso no Instagram foi apagada pela plataforma. O que restou foi o acesso ao Facebook, que limitou bastante os canais de comunicação e divulgação. Além disso, ao não conseguir expandir e dar continuidade às experiências para fora das redes (como as iniciadas através das reuniões ampliadas e os boletins), houve uma limitação ao âmbito virtual, o que acabou desestimulando o coletivo. Embora no processo da pandemia houve aproximação de outros coletivos de trabalhadores, e trabalhadores em luta, não foi oferecida qualquer perspectiva de construção, muito porque, talvez, não houvesse reflexão coletiva acerca das experiências vivenciadas até ali.</p>
<p style="text-align: justify;">A perspectiva mal elaborada sobre o Assombroso também é uma questão que deixa transparecer uma multiplicidade de entendimentos sobre o que é o coletivo. Se em um primeiro momento a ideia era tentar aproximar trabalhadores do coletivo, e ampliar o Assombroso, em um segundo momento o processo pareceu considerar o Assombroso em si já uma pequena rede de trabalhadores, a qual deveria se unir com outros coletivos de trabalhadores para, juntos ser possível desenvolver um movimento baseado em suas experiências nos locais de trabalho. Nesse sentido o Assombroso era, ao mesmo tempo, um coletivo de atuação clandestina e, de outro, um movimento que contava como participante qualquer um que estivesse em seu local de trabalho explanando seu patrão e seus problemas através dos relatos. Essa contradição &#8211; entre os assombrosos membros do coletivo e os assombrosos trabalhadores que explanavam seus locais de trabalho &#8211; parece que sempre foi uma aposta, melhor sistematizada na palavra de ordem “somos todos assombrosos”. A defasagem entre estes e aqueles, no entanto, parece ser uma questão que precisa ser melhor desenvolvida.</p>
<p style="text-align: justify;">É correto dizer que o Assombroso não morreu mas está em sono profundo. Parece que o coletivo espera por novas explanações ou novos processos de luta para, então, voltar a se movimentar. No entanto, há muitas coisas acontecendo no subterrâneo dos processos de trabalho, o que sempre foi o foco do coletivo investigar. Há também, de forma mais animadora, algumas experiências que estão começando a surgir, como é o caso de um grupo de trabalhadores do turismo que desenvolveu um questionário com outros trabalhadores do turismo sobre o trabalho na pandemia e, até onde foi informado ao coletivo, havia o interesse de desenvolver melhor a questão e avançar em um sentido organizacional. Também a luta dos professores de Paraty (que a bem da verdade nunca deixou de existir) acabou sendo bastante sentida e mais explanada durante a pandemia, com direito a ataques do prefeito e de secretários à professores que começaram a atormentar as redes dos políticos locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Para se reerguer, o Assombroso &#8211; enquanto coletivo &#8211; precisa inovar, pensar em outros canais e em outras formas de se reconectar com o cotidiano. E talvez o papel do Assombroso seja de fato esse, de ser um megafone, tentando se dissolver nas experiências que já existem, ou que buscam se constituir. Por outro lado, será que haveria uma forma de fomentar a apropriação dos trabalhadores sobre a “plataforma” do Assombroso, de forma a dinamizar os processos e diminuir a intervenção e controle dos membros do coletivo sobre esta plataforma? Haveria ainda uma forma de pensar o Assombroso em (ou enquanto) rede? Se sim, como? Se não, por quê?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-152521 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp7.jpg" alt="Reflexões sobre o Assombroso de Paraty" width="750" height="218" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp7.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp7-300x87.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp7-640x186.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/pp7-681x198.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de </em><em>M.C. Escher (1898-1972).<br />
</em></p>
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		<title>Le Brésil n’est pas au Brésil, il est dans le monde.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Mar 2024 11:02:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Traduções]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[Le Covid-19 soulève de nouveaux problèmes qui exigent une nouvelle réflexion, de nouvelles réponses et, surtout, d’autres questions. Par João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Par<a href="https://passapalavra.info/2020/04/130709/" target="_blank" rel="noopener"> João Bernardo</a></strong></h3>
<h4 style="text-align: justify;">1.</h4>
<p style="text-align: justify;">Le Brésil n’est pas au Brésil, il est dans le monde. Il serait bon que les Brésiliens prennent conscience de ce fait. En fait, tous les peuples devraient penser la même chose de leur pays, mais surtout les Brésiliens – j’y reviendrai plus tard. Aujourd’hui, plus que jamais, le monde ne doit pas être confondu avec le Brésil.</p>
<p style="text-align: justify;">Nous vivons, ou mourons, dans une situation nouvelle. En plus de toutes les précautions physiques, des mesures indispensables de confinement et de distanciation sociale, deux précautions mentales me semblent urgentes. La première est qu’il ne faut pas procéder à des généralisations (que ce soit sur le Covid-19 ou sur le capitalisme) à partir du cas brésilien sans vérifier au préalable si elles sont valables pour les autres pays. La seconde est qu’il ne faut pas s’accrocher à de vieilles idées sans vérifier si elles correspondent, ou pas, au nouveau contexte.</p>
<p style="text-align: justify;">Ces deux précautions sont toujours nécessaires, mais aujourd’hui plus que jamais, car la pandémie soulève de nouveaux problèmes qui exigent une nouvelle réflexion, de nouvelles réponses et, surtout, d’autres questions. Mieux vaut placer en quarantaine, sinon physique, du moins mentale, toute personne qui veut appliquer à la situation actuelle les réponses – si souvent erronées – formulées dans des situations antérieures. Comme toutes les grandes convulsions, le Covid-19 éliminera ou laissera sur la touche les idées et les pratiques qui ne servent plus à rien et il sera un laboratoire pour de nouvelles formes d’action et de nouvelles conceptions.</p>
<h4 style="text-align: justify;">2.</h4>
<p style="text-align: justify;">Mais la situation résultant de la pandémie actuelle est-elle vraiment nouvelle ?<br />
Il y a presque un siècle, à la fin de la Première Guerre mondiale, une pandémie a fait rage. Que cela soit dû, ou pas, aux millions de cadavres qui pourrissaient sans sépulture au bord des tranchées, elle a infecté environ un tiers de la population mondiale et a causé au moins 50 millions de morts. Appelée « grippe espagnole » dans certains pays, « pneumonie grippale <strong>[1]</strong> » dans d’autres, cette pandémie est largement oubliée dans l’historiographie et, pour autant que je sache, ignorée par les ouvrages d’histoire économique. Elle n’a pas pu cependant laisser l’économie intacte. Dans une étude très récente, les auteurs calculent que dans un « pays typique », la grippe espagnole réduisit le PIB réel de 6 à 8 % et que, aux États-Unis, la production industrielle diminua en moyenne d’environ 18 %.</p>
<p style="text-align: justify;">Après une analyse statistique, et en tenant compte de divers facteurs, les auteurs de cette étude concluent que les effets économiques de la pandémie actuelle seront plus faibles que ceux de la grippe espagnole <strong>[2]</strong>. Malgré cela, l’historiographie économique a oublié un phénomène aussi considérable. Dans les annales de l’histoire, le Covid-19 connaîtra-t-il le même sort ? Dans un siècle, sera-t-il réduit à une note de bas de page dans un petit nombre d’ouvrages savants ? Ou restera-t-il une référence obligatoire, établissant la ligne de démarcation entre deux époques ?</p>
<p style="text-align: justify;">Comme nous ne vivons pas dans l’Histoire, mais dans le présent, l’attention se concentre pour l’instant sur le Covid-19. Que cela nous plaise ou non, nous sommes obligés de réfléchir à cette situation.</p>
<h4 style="text-align: justify;">3.</h4>
<p style="text-align: justify;">Bolsonaro et Trump se sont distingués des autres chefs de gouvernement en sous-estimant (ou en niant) les effets du coronavirus. Trump a apparemment changé de cap, poursuivant les zigzags qui le caractérisent, et il a reconnu le danger de la pandémie ; malgré cela, il continue à éviter de prendre des mesures suffisamment énergiques <strong>[3].</strong> L’attitude de ces deux présidents bénéficie du soutien d’une partie importante de la population de leurs pays respectifs ; pour comprendre cette convergence, il faut se rappeler qu’il existe certaines similitudes culturelles entre la société américaine et la société brésilienne.<br />
Deux d’entre elles méritent d’être soulignées ici.</p>
<p style="text-align: justify;">Tout d’abord, ce sont des pays immenses, confrontés à eux-mêmes, qui comptent une population qui est peu éduquée (y compris parmi les élites) et ignore ce qui se passe à l’étranger. Des mesures que la population rejetterait comme étant stupides, si elle connaissait la situation dans d’autres pays, sont acceptées, faute de pouvoir établir des comparaisons.</p>
<p style="text-align: justify;">Deuxièmement, aux États-Unis et au Brésil, le fondamentalisme biblique revêt une importance énorme, surtout dans les milieux populaires ; tant les églises évangéliques que le catholicisme charismatique propagent des conceptions obscurantistes, antiscientifiques, sur le Coronavirus, comme sur bien d’autres choses.</p>
<p style="text-align: justify;">Néanmoins, si les États-Unis possèdent des institutions fortes, capables de faire face aux dérives du pouvoir central, ce n’est pas du tout le cas au Brésil.</p>
<p style="text-align: justify;">En supposant que la position prise par Bolsonaro concernant le Covid-19 soit dotée d’une certaine rationalité et ne soit pas uniquement due aux fantasmes d’un certain astrologue <strong>[4],</strong> de quelle rationalité pourrait-il s’agir ? Au Brésil, la population pauvre, autrement dit la plupart des gens, croit que le Covid-19 « est une maladie de riches ». Si c’était le cas, les mesures prises par Bolsonaro, ou plutôt le fait qu’il refuse de prendre des mesures, constitueraient un extraordinaire programme de nivellement social qui condamnerait à mort les riches. Le problème est que ce virus est transmis par tous les individus, qu’ils possèdent ou pas un compte bancaire, et que les riches contaminent les pauvres, et réciproquement.</p>
<p style="text-align: justify;">Dans de telles circonstances, le refus d’adopter des mesures généralisées de confinement et de distanciation sociale, refus susceptible de propager la maladie, peut avoir une explication rationnelle simple – la prévision que les riches, parce qu’ils sont bien nourris et jouissent d’un logement qui permet le confinement et d’un accès facile aux hôpitaux, auront un taux de survie bien plus élevé que les pauvres. Ces derniers apprendraient ainsi, à leurs dépens, que le Covid-19 n’est pas une maladie de riches.</p>
<p style="text-align: justify;">À la mi-mars, des simulations mathématiques réalisées par des scientifiques de l’Imperial College de Londres ont admis que, si des mesures de confinement et de distanciation sociale n’étaient pas prises, le Covid-19 pourrait toucher 81% de la population britannique, ce qui correspond à près de 55 millions de personnes, et causerait un maximum de 500 000 décès, soit 0,9% des personnes touchées. Dans le monde entier, et si aucune mesure n’était prise, le même modèle a calculé que 7 milliards de personnes, soit 91% de la population mondiale, seraient infectés, avec jusqu’à 40,6 millions de décès, ce qui représente un taux de létalité de 0,58% <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Fin mars, une estimation très générale considérait qu’en l’absence d’une campagne de confinement et de distanciation sociale, entre 25 et 80 % de la population seraient infectés et, parmi ceux-ci, 4,4 % tomberaient gravement malade, dont un tiers aurait besoin de soins intensifs<strong> [6]</strong>. Ce sont des simulations et des projections mathématiques, pas des prévisions, mais pour l’instant nous n’avons pas de données plus précises. Il est important de considérer que ceux qui, comme les conseillers de Bolsonaro, défendent l’inutilité des mesures de confinement et de distanciation sociale, s’appuient sur les mêmes simulations et projections. Mais si nous en tirons certaines conclusions, ils en tirent des conclusions opposées. Lesquelles ?</p>
<p style="text-align: justify;">Si nous appliquons aux 210 millions de Brésiliens les simulations que l’Imperial College a réalisées pour le Royaume-Uni et le monde, en l’absence de mesures de confinement et de distanciation sociale, nous pouvons en déduire que le Covid-19 toucherait environ 170 à 190 millions de personnes, tuant entre un maximum de 1,5 million d’individus et un minimum de 1,1 million. Si les mesures de Bolsonaro – ou plutôt l’absence de mesures –se poursuivent, et vu les conditions actuelles de logement, de nutrition, d’hygiène et de santé du Brésil, les décès se produiront, dans leur écrasante majorité, parmi les travailleurs les plus pauvres, à côté de quelques personnes âgées riches, dont les héritiers attendent anxieusement l’héritage. Est-ce là l’explication rationnelle ?</p>
<p style="text-align: justify;">Ce serait une expérience eugénique moins meurtrière, après tout, que la proposition lancée aux États-Unis, entre les deux guerres mondiales, par des eugénistes qui préconisaient d’éliminer rapidement 10 % de la population du pays, ainsi qu’un pourcentage équivalent dans les autres pays. Et le processus devrait être continu, car la santé biologique de la race nécessiterait l’extermination progressive des nouvelles catégories inférieures, toujours calculée sur la base d’une proportion de 10% <strong>[7]</strong>. Après tout, si nous adoptions pour le Brésil les simulations du Collège Impérial, alors que les eugénistes nord-américains auraient proposé l’élimination de 21 millions de Brésiliens, la politique actuelle de Bolsonaro ne ferait pas plus d’un million et demi de victimes.<br />
Un véritable acte de charité évangélique.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-130716" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/04/Coronavírus-7.jpeg" alt="" width="990" height="660" /></p>
<h4 style="text-align: justify;">4.</h4>
<p style="text-align: justify;">Face à la menace du coronavirus, le plus tragique est qu’une grande partie de la population pauvre collabore activement à la politique de Bolsonaro.</p>
<p style="text-align: justify;">Tout d’abord, elle collabore lorsqu’elle ne suit pas les normes de la distanciation sociale. J’ai été vraiment inquiet en voyant que des grévistes, qui manifestaient dans la rue contre le manque de conditions sanitaires sur leurs lieux de travail, se touchaient, se donnaient l’accolade et se passaient des micros de main en main et de bouche en bouche. On a vu un cas encore plus grave, ridicule s’il n’était pas funeste, au Pernambouc, où, lors d’un défilé visant à sensibiliser la population aux mesures à prendre, les participants se sont comportés exactement comme il ne fallait pas <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Pour contrebalancer cela, il faut signaler aussi que divers mouvements et organisations de lutte, et même des ONG, des patrons et des réseaux de télévision, ont lancé des campagnes de sensibilisation sur les précautions à prendre contre le Coronavirus ; parmi d’autres initiatives, on peut citer, par exemple, la campagne animée par la CUFA, Central Única das Favelas <strong>[9].</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mais ces campagnes vont rencontrer beaucoup de difficultés, car elles vont devoir affronter des traits culturels évidents et indéniables enracinés dans la population brésilienne, à savoir la convivialité, le caractère festif, l’indiscipline et l’exigence de contacts physiques. Et dire, comme le font beaucoup de militants d’extrême gauche, qu’il n’existe au Brésil aucune condition de logement, d’hygiène ou de santé permettant de prendre des mesures de confinement et de distanciation sociale ne fait qu’aggraver la situation, car cela stimule le défaitisme et l’indifférence.</p>
<p style="text-align: justify;">Comme l’a écrit Deivison Nkosi <strong>[10]</strong> sur sa page Facebook, « continuer à répéter que &#8220;pour les banlieues, la quarantaine est un luxe inaccessible&#8221; est contre-productif et ne résoudra pas le problème à venir ; en fait, cela finit par révéler une sorte de négationnisme irrationnel ». Se plaignant de cette attitude très répandue, Deivison Nkosi a indiqué la voie que doit emprunter toute la gauche et, après avoir prévenu « qu’un jour peut-être, le degré d’efficacité de ces mesures que j’indique sera discuté, ou les épidémiologistes indiqueront d’autres moyens plus efficaces », il a déclaré que « pour le moment, la question la plus sensée devrait être : &#8220;Quels sont les moyens disponibles dans chaque endroit et que nous pouvons utiliser pour réduire au maximum la vulnérabilité face à la contagion ? » Et Deivison Nkosi de conclure : « Ce débat est aussi important que de constater que la quarantaine n’est pas appliquée dans la favela<strong> [11].</strong> »</p>
<p style="text-align: justify;">Mais le pire est qu’une grande partie de la population brésilienne pauvre collabore également avec Bolsonaro en exigeant que l’économie fonctionne pleinement. Sans travail, comment les gens pourraient-ils survivre ? Et comment peuvent-ils survivre lorsque les mesures compensatoires annoncées suscitent le doute ou sont reportées ? Le 2 avril 2020, une mesure provisoire est entrée en vigueur, mais, compte tenu du différend entre le Congrès et le gouvernement, on ne sait toujours pas à quoi ressemblera la loi sous sa forme définitive.</p>
<p style="text-align: justify;">Pour l’instant, il me semble qu’une des conséquences sera l’aplatissement de la pyramide des revenus des travailleurs, accompagnée d’une réduction significative des salaires au sommet. Dans le même temps, cependant, pour les plus pauvres, les incertitudes persistent en raison du retard des paiements. Tout cela augmente la pression économique, et dans cette situation, il ne s’agit plus de « négationnisme irrationnel », car c’est la misère qui pousse au mépris des précautions élémentaires. Ainsi, une grande partie de la population, souvent stimulée par les Églises évangéliques ou charismatiques, soutient Bolsonaro lorsqu’il affirme que le confinement n’est pas nécessaire et que la vie quotidienne doit continuer. L’autre solution alternative est le vol et le pillage, la lutte de tous contre tous. Il n’y a pas de rationalité plus tragique, parce que la situation qui la suscite prendra beaucoup plus de temps à se résoudre que la pandémie.</p>
<h4 style="text-align: justify;">5.</h4>
<p style="text-align: justify;">Le Brésil est dans le monde, et c’est vers le monde que nous devons nous tourner si nous voulons comprendre le Brésil. C’est pourquoi nous ne devrions pas procéder à des généralisations hâtives, en considérant que la situation du Brésil nous offre un exemple typique de tout le capitalisme, ou même de tous les pays où une partie considérable de la population vit dans la pauvreté.</p>
<p style="text-align: justify;">Comparons la position adoptée par Bolsonaro face au Covid-19 avec la décision de Narendra Modi, chef du gouvernement indien, d’appliquer des mesures sanitaires strictes à l’ensemble de son pays. Aujourd’hui, l’Inde a une population six fois plus importante que le Brésil ; une misère équivalente, voire pire ; et des pauvres qui vivent les uns sur les autres dans les grandes villes. Et alors qu’au Brésil il y a 2,15 médecins et 2,2 lits d’hôpital pour 1 000 habitants, en Inde, il n’y a que 0,78 médecin et 0,7 lit d’hôpital pour 1 000 habitants et 1 lit de confinement pour 84 000 habitants. Malgré cela, ou pour cette raison même, le gouvernement indien a décrété une quarantaine dans tout le pays et annoncé qu’il allait dépenser l’équivalent de 23 milliards de dollars en nourriture et en subventions pour la population la plus pauvre et qu’il investira environ 2 milliards de dollars pour améliorer le système de santé. Le problème a atteint de telles proportions que, dans le seul État de Delhi, le gouvernement de l’État prévoit de distribuer quotidiennement de la nourriture gratuite à plus d’un million de personnes que la suspension de l’activité économique a laissé sans emploi <strong>[12, 13, 14]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">En effectuant cette rapide comparaison, il me semble utile de souligner que le gouvernement de Narendra Modi est fasciste, tout comme le parti qui lui a servi à arriver au gouvernement et à consolider son pouvoir, encore plus clairement fasciste que le Bolsonaro et ses amis. Cela suffit pour vérifier que la différence entre les mesures sanitaires prises par les différents gouvernements ne correspond pas aux différences politiques qui existent entre eux. Ce n’est pas le monde qui se limite au Brésil, c’est le Brésil qui existe dans le monde. Si nous voulons analyser le capitalisme, nous devons le voir dans sa diversité et sa complexité.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-130725" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/04/Coronavírus-3-1.jpg" alt="" width="1600" height="900" />6.</h4>
<p style="text-align: justify;">La lutte contre la pandémie a une fois de plus rappelé la nécessité d’une centralisation sociale. Dans un article récent, j’ai appelé à l’autodiscipline pour maintenir les normes de confinement et de distanciation sociale. J’ai fait valoir que sans l’expérience fournie par l’autogestion des luttes, il sera impossible de fonder une société autogérée, et que l’autodiscipline fait partie de ce processus <strong>[15].</strong> Mais c’est là que réside le problème. Aujourd’hui, et partout dans le monde, c’est seulement dans certaines luttes que l’on détecte des éléments embryonnaires d’autogestion ; quant à l’autodiscipline dans cette pandémie, on a pu l’observer seulement dans quelques situations et certains pays.</p>
<p style="text-align: justify;">En outre, si même dans les années 1960 et 1970, lorsque les expériences autonomes se sont généralisées, les travailleurs ont été incapables de coordonner les comités de lutte et les entreprises autogérées en des collectifs nationaux, et encore moins internationaux, il est également impossible aujourd’hui de penser que les travailleurs puissent coordonner de manière centralisée les mesures nécessaires pour lutter contre le Covid-19. Mais ce n’est pas parce que les travailleurs sont incapables d’y parvenir que la coordination centrale n’est plus indispensable.</p>
<p style="text-align: justify;">Alors comment cette centralisation peut-elle se faire sans les gouvernements ? Dans un forum libertaire francophone, j’ai trouvé un débat comique sur le thème « Comment une société anarchiste gèrerait-elle cette épidémie <strong>[16]</strong> ? » Le problème est que le coronavirus n’a pas attendu l’avènement de l’anarchisme, et qu’une certaine extrême gauche élude la réponse en refusant la question. Les anarchistes français ont nié que ce virus constitue une menace importante <strong>[17]</strong> et ont qualifié les mesures sanitaires prises pour empêcher sa propagation d’ « autoritarisme hygiéniste », les considérant comme des « décisions liberticides <strong>[18]</strong> ».</p>
<p style="text-align: justify;">Dans la même perspective, identique à celle de Bolsonaro – et il serait peut-être utile que les anarchistes brésiliens réfléchissent à cette coïncidence – les autonomes du GARAP, Groupe d’action pour la recomposition de l’autonomie prolétarienne, ont affirmé que la pandémie était une invention des médias, promue par les gouvernements et les forces répressives, et ont jugé que l’imposition de la quarantaine et de la distanciation sociale étaient de simples mesures de réduction des libertés. Le délire a été poussé au point de prétendre que : « certains gouvernants adeptes de la stratégie du choc ont tenté un coup de poker inédit, révolutionnaire à bien des égards : prendre prétexte du Covid-19 pour faire naître la crise économique par césarienne, plutôt que d’attendre passivement sa venue au monde. Le coronavirus fit ainsi office de deus ex machina. Et le confinement fut, lui, l’instrument permettant cette tentative de reboot <strong>[19]</strong> du mode de production capitaliste, aussi audacieuse dans son principe qu’incertaine quant à ses résultats <strong>[20]</strong>. »</p>
<p style="text-align: justify;">Et ils ne sont pas les seuls à raisonner de cette façon. En juillet 2013, ce même site, Passa Palavra, a publié un court texte rappelant que, cinquante ans après la publication du premier volume du Capital, Lénine avait publié un ouvrage dont le titre annonçait déjà que l’impérialisme était Le stade suprême du capitalisme, et quarante-huit ans plus tard, Nkrumah avait publié un livre sur le néocolonialisme, en l’intitulant Neo-Colonialism, Last Stage of Imperialism (Le néocolonialisme, dernier stade de l’impérialisme). « Quarante-huit ans plus tard, écrivit Passa Palavra il y a sept ans, on attend la publication prochaine d’un livre sur la période finale de la dernière étape de la phase suprême <strong>[21]</strong> ».</p>
<p style="text-align: justify;">Passa Palavra avait tort, car certains considèrent même que le capitalisme n’est pas sur le point de mourir, puisqu’il a déjà dépassé ce stade. La lutte des classes a été remplacée par un capitalisme qui se détruit lui-même et le Covid-19 le laisse sur son lit de mort, peut-être sans même la présence d’un ventilateur. Ainsi, pendant que les travailleurs tentent de résoudre, pour le meilleur ou pour le pire, les vrais problèmes auxquels ils sont confrontés, une certaine extrême gauche (confinée dans les départements de sciences sociales des universités, qui sont devenues son lieu de prédilection, sinon le seul) se consacre à l’hystérie apocalyptique.</p>
<p style="text-align: justify;">Parmi la plupart (je ne dis pas tous, mais la plupart ) de ceux qui animent les milieux anarchistes et libertaires, et aussi ceux du marxisme conseilliste et du marxisme de l’autonomie, la réponse au problème de la nécessité d’une coordination centrale est simple : dans la société que nous souhaitons (c’est-à-dire dans des sociétés différentes, puisque chaque tendance a son idée) l’être humain sera différent. Bien sûr, si l’on transforme ainsi les données du problème tout est résolu, la seule difficulté est de savoir comment les individus existant aujourd’hui parviendront à construire une société dans laquelle les êtres humains ne seront pas comme ceux d’aujourd’hui.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais laissons les anarchistes, les libertaires et les autonomes se pencher sur le problème de l’œuf et de la poule, et revenons à la question urgente, à savoir qu’ici et maintenant la lutte contre la pandémie nécessite une centralisation. Et comme les travailleurs n’ont pas encore réussi à établir une société autogérée, cette centralisation doit être gérée par d’autres. Ainsi, le rôle des gouvernements en tant qu’agents centralisateurs est aujourd’hui non seulement accepté, mais exigé par la pratique unanime des citoyens.</p>
<h4 style="text-align: justify;">7.</h4>
<p style="text-align: justify;">Cette légitimation de la fonction centralisatrice des gouvernements a permis, selon les termes d’un prestigieux organe du libéralisme, « l’expansion la plus spectaculaire du pouvoir de l’État depuis la Seconde Guerre mondiale <strong>[22]</strong> ».</p>
<p style="text-align: justify;">Mais le renforcement de l’intervention de l’État dans la vie quotidienne des citoyens n’a-t-il pas commencé bien plus tôt ? Pendant la guerre froide, la liberté individuelle a été l’un des thèmes constants de la propagande occidentale, contrairement aux régimes de type soviétique, où chacun était tenu de signaler ses allées et venues. Cependant, au cours des dernières décennies, la grande différence entre les démocraties et les dictatures réside dans le fait que les démocraties, au lieu d’intervenir directement, le font indirectement et secrètement. Ainsi, cette « expansion spectaculaire du pouvoir de l’État » ne diffère de la situation précédente que parce qu’elle est spectaculaire, c’est-à-dire parce qu’elle est visible au lieu d’opérer subrepticement. Cela est-il préjudiciable ?</p>
<p style="text-align: justify;">Si, jusqu’ici, chaque étape de notre vie était surveillée et méticuleusement suivie par des moyens [électroniques de surveillance] cachés, que perdons-nous maintenant que cette ingérence dans notre vie quotidienne est menée par des militaires, clairement identifiés par leur uniforme, qui, non seulement mettent leurs capacités logistiques au service du système de santé, mais contrôlent aussi l’application des règles de confinement et de distanciation sociale ?</p>
<p style="text-align: justify;">Il est curieux qu’une grande partie de l’extrême gauche, qui semblait s’être habituée à la surveillance [électronique] secrète, n’ait exprimé son inquiétude que lorsqu’elle a vu les soldats descendre dans la rue. Dans une convergence de raisonnement intéressante, The Economist a fait remarquer que « les forces armées ont été conçues avant tout pour tuer des gens et non pour imposer des amendes au coin des rues ou pour distribuer de la nourriture aux supermarchés ». Et après avoir considéré que le « Covid-19 affectera, directement et indirectement, l’état de préparation de l’armée <strong>[23]</strong> », ce bastion de la pensée libérale a conclu que « l’attention des troupes peut avoir été [momentanément] détournée, mais la guerre ne s’arrête pas à cause des virus ». Avec des arguments contradictoires, on assiste à une singulière coïncidence des opinions.</p>
<p style="text-align: justify;">Tout aussi curieuse est l’inquiétude suscitée par la façon dont les téléphones portables sont utilisés en Chine (y compris à Hong Kong), à Taïwan, en Corée du Sud, à Singapour et en Israël pour surveiller le respect des mesures de quarantaine et suivre les processus de transmission du coronavirus <strong>[23]</strong>, alors que, en réalité, des mécanismes de surveillance par l’intermédiaire des téléphones portables étaient déjà en place avant la pandémie.</p>
<p style="text-align: justify;">En outre, ce qui devrait nous inquiéter ce n’est pas le fait que les gouvernements utilisent les téléphones portables et les ordinateurs personnels pour nous surveiller, ni que les entreprises utilisent ces moyens pour orienter leurs lignes de production en fonction des préférences exprimées par les consommateurs, faire de la publicité et fidéliser leurs clients. Les gouvernements et les entreprises remplissent ainsi leur rôle.</p>
<p style="text-align: justify;">Ce qui devrait nous inquiéter, c’est que ce sont les individus eux-mêmes qui ont commencé à fournir de manière obsessionnelle leurs données personnelles aux plateformes des réseaux sociaux. Le mécanisme était en place depuis de nombreuses années, et les conséquences désastreuses de cette idée fixe de fournir et de partager des données personnelles ne datent pas d’aujourd’hui – elles n’ont fait que s’accentuer. Comme d’habitude, quand quelque chose devient visible, il est déjà trop tard.</p>
<h4 style="text-align: justify;">8.</h4>
<p style="text-align: justify;">Une fois la pandémie terminée, elle consolidera sûrement, par de vastes moyens, non seulement chez les patrons et les hommes politiques de droite, mais aussi dans une certaine extrême gauche, la séduction pour le modèle chinois de contrôle de la population.</p>
<p style="text-align: justify;">Et ne nous faisons pas d’illusions. Cette séduction s’exercera également sur de nombreuses personnes ordinaires, éloignées de la vie politique, qui verront dans l’aliénation de leur liberté privée une condition pour vaincre efficacement les menaces qui les dépassent. Il convient de noter que, depuis le début de la pandémie, le taux de popularité des dirigeants qui prennent des mesures drastiques a considérablement augmenté, tandis que la popularité des dirigeants qui refusent plus explicitement de prendre de telles mesures a diminué.</p>
<p style="text-align: justify;">Il est d’autant plus urgent de lutter contre la militarisation de la société et les dispositifs de surveillance électronique installés, mais sans compromettre les mesures nécessaires de confinement et de distanciation sociale. Comment poursuivre cette double tâche dès maintenant ?</p>
<p style="text-align: justify;">Dans leurs relations de travail, qu’ils soient physiquement présents dans les locaux de l’entreprise ou qu’ils travaillent par ordinateur depuis leur domicile ou par téléphone portable dans un véhicule, il est essentiel que les travailleurs combinent<br />
1) la lutte pour établir des conditions sanitaires acceptables et pour une rémunération et des indemnités leur permettant de respecter les mesures de confinement et de distanciation,<br />
avec 2) la démonstration pratique que, pour lutter contre la pandémie, ils sont capables de s’autodiscipliner dans la sphère individuelle et de se coordonner au sein des entreprises.</p>
<p style="text-align: justify;">L’autre facette de la lutte contre la militarisation de la société et l’expansion de la surveillance électronique est l’auto-coordination et l’autodiscipline, qui sont les fondements de l’autogestion de la société.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://npnf.eu/spip.php?article723" target="_blank" rel="noopener"><em>Traduit par Y.C.</em></a></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-130718" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/04/Coronavírus-6.jpg" alt="" width="800" height="445" />NOTES</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> On parla aussi en France de « pneumonie des Annamites » parce qu’on avança l’hypothèse qu’elle aurait commencé en Indochine et aurait été importée par des soldats venant de ces colonies françaises (NdT).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Sergio Correia, Stephan Luck e Emil Verner, Pandemics Depress the Economy, Public Health Interventions Do Not. Evidence from the 1918 Flu, 26 mars 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Linda Qiu, « Analyzing the patterns in Trump’s falsehoods about coronavirus », The New York Times, 27 mars 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Allusion sans doute au philosophe-pamphlétaire-journaliste-astrologue Olavo de Carvalho qui cherche à pousser Bolsonaro encore plus à droite&#8230; si c’est possible. Cf. l’article de Gilberto Calil dans le numéro du Monde diplomatique de février 2020 https://www.monde-diplomatique.fr/2020/02/CALIL/61307 (NdT)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> « Instituto britânico diz que coronavírus poderá provocar 1,8 milhões de mortes em todo o mundo », Diário de Notícias, 26 mars 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> « The coronavirus could devastate poor countries », The Economist, 26 mars 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong>. Edwin Black, War against the Weak. Eugenics and America’s Campaign to Create a Master Race, Four Walls Eight Windows, 2003, pp. 52, 59 et 225.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> « Manifestação contra o coronavírus », Passa Palavra, 29 mars 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Selon le site de cette ONG brésilienne « La CUFA (Central Única das Favelas) est une organisation brésilienne, reconnue au niveau national et international dans les domaines politique, social, sportif et culturel, et qui existe depuis vingt ans. Elle est née de l’union entre des jeunes de plusieurs favelas, principalement noirs, qui cherchaient des espaces pour exprimer leurs attitudes, leurs questions ou simplement leur volonté de vivre (&#8230;). La CUFA encourage des activités dans les domaines de l’éducation, des loisirs, des sports, de la culture et de la citoyenneté, comme les graffitis, les DJ, le break, le rap, l’audiovisuel, le basket de rue, la littérature et d’autres projets sociaux. En outre, elle promeut, produit, distribue et diffuse la culture hip hop par le biais de publications, disques, vidéos, programmes radio, concerts, concours, festivals de musique, cinéma, ateliers artistiques, expositions, débats, séminaires et autres médias. Telles sont les principales formes d’expression de la CUFA et elles servent d’outils d’intégration et d’inclusion sociale. »</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Docteur en sociologie, chanteur et musicien, militant de la cause afro-brésilienne, très actif notamment contre le racisme et le racisme institutionnel dans son pays. Plus d’informations sont disponibles sur son site : http://deivisonnkosi.kilombagem.net.br/biografia/. On remarquera aussi qu’il n’hésite pas à colporter de fausses nouvelles sur le Coronavirus et Israël (comme si les vraies ne suffisaient pas !), quitte à se rétracter ensuite (cf. le 7 avril à 14 :24 sur Facebook), et à tolérer des insultes homophobes de certains de ses 3094 amis, comme celles d’un certain Paredes Paredes dans un post qui s’exclame « Que crève cette tapette – ou cette gouine – (sic) d’Israël ! » tout en dénonçant l’homophobie sur sa propre page FB&#8230; Décidément, la confusion politique et mentale est universelle dans les milieux « radicaux » (NdT).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Deivison Nkosi, Facebook, 17 mars 2020, 09:33.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> « South America : Brazil », The World Factbook, Central Intelligence Agency (actualisé le 11 mars 2020).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> « India and Pakistan try to keep a fifth of humanity at home », The Economist, 26 mars 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> « Lockdowns in Asia have sparked a stampede home », The Economist, 2 de Abril de 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> João Bernardo, « A autodisciplina no combate à pandemia », Passa Palavra, 19 mars 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> « Coronavirus… et anarchisme ? », Libertaire.net, 15 mars 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Si l’on veut être tout à fait précis, « les anarchistes français » sont loin d’avoir été unanimes, y compris au sein de la Fédération anarchiste, comme en témoigne ce communiqué https://monde-libertaire.fr/?article=Lentraide_nest_pas_un_vain_mot et bien d’autres articles.<br />
« Les anarchistes français » n’ont surtout pas été les seuls à minimiser la pandémie, à commencer par l’épidémiologiste Didier Raoult, objet de tant d’adulation dans toutes sortes de cercles politiques, qui a préconisé l’utilisation de l’hydrochloroquine et un dépistage systématique.<br />
Pour ceux qui n’ont pas fait l’effort d’aller sur le site de son IHU Méditerrannée Infection, voici quelques propos de cet infectiologue et professeur de microbiologie, tenus entre le 23 janvier et le 17 février 2020. Ces déclarations ahurissantes illustrent bien quel a été le climat idéologique pendant les deux premiers mois de l’année, y compris dans des milieux censés être parfaitement informés puisque c’est leur seul objet de recherche depuis des années :<br />
– « Le fait que des gens soient morts en Chine du Coronavirus, je ne me sens pas tellement concerné. » (Didier Raoult.)<br />
Source : « Coronavirus en Chine : doit-on se sentir concerné ? » 23 janvier 2020 Nous avons le droit d’être intelligents – Bulletin d’information scientifique de l’IHU<br />
– « Maintenant il y le Corona chinois (&#8230;) Tout ça réuni, c’est moins que le nombre de morts en trottinette. La mortalité du virus est surestimée. (..) Ces virus qui tous les deux ans mettent le feu à la planète, cela occupe les gens et cela ne correspond pas pour le moment à quelque chose qui est plus particulièrement inquiétant (&#8230;) Je suis un scientifique, prêt à changer d’avis sous la force des événements mais pour l’instant les événements ne justifient pas que l’on ait que l’on ait une telle inquiétude. » (Didier Raoult.)<br />
Source : « Coronavirus Chinois : Quelle place dans l’histoire des épidémies ? » 29 janvier 2020 (Idem).<br />
– « L’expérience montre que l’épidémie n’est pas mondiale du tout. Il y a eu 5 morts en dehors de Chine. (&#8230;) C’est beaucoup de bruit pour pas grand-chose. (&#8230;) La chose la plus intelligente qui ait été dite c’est par Trump quand il a dit au printemps cela va disparaître (&#8230;) Le seul cas français est un Chinois arrivé à Paris (&#8230;) »<br />
Source : « Coronavirus : Moins de morts que par accident de trottinette » 17 février 2020 (Idem).<br />
(NdT)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong>. « Coronavirus ou l’autoritarisme hygiéniste », Le Monde Libertaire, 3 mars 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Reboot : redémarrage (NdT).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> « Certidão de óbito adiada », Passa Palavra, 7 juillet 2013.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> « The state in the time of Covid-19 », The Economist, 26 mars 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> « Armies are mobilising against the coronavirus », The Economist, 23 mars 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> « Countries are using apps and data networks to keep tabs on the pandemic », The Economist, 26 mars 2020.</p>
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