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	<title>Sexualidade &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Girada revolucionária (1)</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Dec 2025 00:06:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Todos da mesa do bar eram militantes do mesmo partido trotskista que naquele então vivia mais uma importantíssima empreitada de girar militantes de outros setores e cidades para cidades industriais, militância e trabalho nas fábricas, pois compreendiam que os sujeitos mais caros à revolução, depois dos militantes do partido, eram os trabalhadores das fábricas. Quando [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Todos da mesa do bar eram militantes do mesmo partido trotskista que naquele então vivia mais uma importantíssima empreitada de girar militantes de outros setores e cidades para cidades industriais, militância e trabalho nas fábricas, pois compreendiam que os sujeitos mais caros à revolução, depois dos militantes do partido, eram os trabalhadores das fábricas. Quando o assunto relacionamento amoroso apareceu, um dirigente afirmou: &#8220;Eu não consigo namorar uma prole. Se for prole mesmo, dessas que sempre trabalhou em fábrica, eu não consigo.&#8221; <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Sabedoria paterna (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Sep 2025 11:47:45 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Em mais um café da manhã, pai e filha conversavam. Ele lança então a máxima: “Na vida não existe meio certo ou meio errado, ou é certo ou é errado! É igual gay: ou o cara é gay ou não é, não existe meio gay.” Filha do pai]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em mais um café da manhã, pai e filha conversavam. Ele lança então a máxima: “Na vida não existe meio certo ou meio errado, ou é certo ou é errado! É igual gay: ou o cara é gay ou não é, não existe meio gay.” <strong>Filha do pai</strong></p>
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		<title>Sabedoria canina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Aug 2025 14:10:23 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
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					<description><![CDATA[ Desde criança que ele tem interesse pela história dos cães e dos gatos, sobretudo dos cães de função, ou cães de trabalho, em especial os de proteção, caça e pastoreio. Recentemente ele leu algumas palavras de uma proprietária de um molosso macho cuja a raça tem origem na região de Rottweil, Alemanha. Ela, travesti, disse que o cão também é uma travesti. Dizia ainda que ela é a dona e então é ela quem diz o que o cão é. Ele leu todo o texto e pensou: “O cão, ali, é o único que sabe que eles dois são indivíduos machos”. Dono de cachorro ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Desde criança que ele tem interesse pela história dos cães e dos gatos, sobretudo dos cães de função, ou cães de trabalho, em especial os de proteção, caça e pastoreio. Recentemente ele leu algumas palavras de uma proprietária de um molosso macho cuja a raça tem origem na região de Rottweil, Alemanha. Ela, travesti, disse que o cão também é uma travesti. Dizia ainda que ela é a dona e então é ela quem diz o que o cão é. Ele leu todo o texto e pensou: “O cão, ali, é o único que sabe que eles dois são indivíduos machos”. <strong>Dono de cachorro</strong></p>
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		<title>Pombajira devassa II</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Jul 2025 10:53:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Numa roda de conversa e cerveja na praia, ao lado da esposa, ele contava que normalmente gostava apenas de mulher, que estava muito bem casado e feliz, mas que às vezes tudo mudava: &#8220;Eu não sou de transar com homens, mas quando a pombajira baixa em mim, eu viro uma bichona, me relaciono com homens, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Numa roda de conversa e cerveja na praia, ao lado da esposa, ele contava que normalmente gostava apenas de mulher, que estava muito bem casado e feliz, mas que às vezes tudo mudava: &#8220;<em>Eu não sou de transar com homens, mas quando a pombajira baixa em mim, eu viro uma bichona, me relaciono com homens, viro uma outra pessoa</em>&#8220;. <strong>Passa Palavra</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Pombajira devassa I</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 12 Jul 2025 18:15:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Na festa dos universitários, numa conversa sobre casamento, fidelidade e traição, ela, ainda jovem mas já casada e mãe de uma menina, disse: &#8220;Normalmente eu não traio o meu marido. Mas quando a pombajira baixa em mim, aí eu traio&#8220;. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Na festa dos universitários, numa conversa sobre casamento, fidelidade e traição, ela, ainda jovem mas já casada e mãe de uma menina, disse: &#8220;<em>Normalmente eu não traio o meu marido. Mas quando a pombajira baixa em mim, aí eu traio</em>&#8220;. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Deus Proverá</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Jun 2025 11:31:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[O novo Fernando Henrique Cardoso gerou renda e progresso. Mas bom mesmo eram os sábados na Deus Proverá. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O progresso é incontrolável. Quando o governo federal construiu a ponte da Esperança sobre o rio Jaraqui, em Nova Brasília, o porto fluvial Presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) caiu no ostracismo. Carros, caminhões e motos começaram a passar direto pela região. O FHC virou um porto fantasma. O comércio local desapareceu. Comerciantes e vendedores perderam o emprego. Foram fechadas todas as pequenas lojas que vendiam peixes, bolos, bebidas, redes e artesanatos no porto. A borracharia e a oficina mecânica também baixaram as portas. Até as putas que atendiam na região do porto precisaram se deslocar para outros pontos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se ouviu mais a buzina da Deus Proverá em nenhuma das margens do Jaraqui. A velha balsa ficou encostada na beira do rio. Quem passava pelo porto Presidente Fernando Henrique Cardoso nos bons tempos da Deus Proverá se recordava com saudade da buzina do comandante Acácio. Era o sinal da partida. As pessoas ouviam a buzina e sabiam que tinham pouco tempo para embarcar e atravessar o Jaraqui. Era preciso engolir o café, acelerar as compras e concluir os papos. O comandante Acácio era milimetricamente pontual. Mais de uma vez aconteceu de motoristas serem separados dos seus caminhões porque se distraíram e a Deus Proverá partiu para o outro lado do rio. Quem ficava sem o veículo não precisava pagar duas viagens. Mas perdia tempo e levava esporro do comandante Acácio, que garantia que, da próxima vez, jogaria o veículo no rio. O que nunca aconteceu. Era exagero. O comandante Acácio tinha o coração do tamanho da Amazônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a construção da ponte da Esperança, a Deus Proverá ficou atracada e passou a ser frequentada pelos meninos que empinavam pipas e pelos pescadores da região. Quem visitava a Deus Proverá eram os saudosistas, que aproveitavam o espaço para fumar e lembrar dos bons tempos do porto: cafezinho, cachorro quente, causos contados pelas putas que captavam clientes no local. Quem também visitava o porto era o comandante Acácio, apesar da aposentadoria, que conquistou no tempo da construção da ponte da Esperança. Havia comandado a Deus Proverá por décadas. Ganhou a vida na velha balsa. Tudo que tinha devia à Deus Proverá. Naquele tempo já não precisava se preocupar em ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Mas cada veículo que passava sobre a ponte da Esperança era uma pontada no peito do ex-comandante, que nos sonhos se via pilotando a velha balsa, no rio Jaraqui.</p>
<p style="text-align: justify;">Comandante Acácio carregava no peito a nostalgia dos bons tempos da Deus Proverá, mas, pelo menos, era um dos poucos moradores da região com a vida ganha. Não havia fome em Nova Brasília porque a Amazônia oferece peixes e frutas com fartura, mas, por outro lado, não havia renda. O dinheiro dos motoristas e caminhoneiros, que antes circulava por ali, passou a atravessar direto sobre o rio Jaraqui. Homens e mulheres que ganhavam a vida no porto Presidente FHC precisaram se virar após a construção da ponte da Esperança.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Amazônia há poucas possibilidades de emprego. É possível trabalhar nos portos fluviais, limpando os barcos ou carregando mercadorias. É possível partir para as grandes cidades e ocupar os piores empregos. São possibilidades limitadas e pouco atraentes. Quem quer ganhar dinheiro na Amazônia vai para os garimpos ou outras atividades ilegais. É verdade que, nos garimpos, os maiores ganhos ficam para os proprietários, que abocanham parcelas da produção e ainda vendem mercadorias aos garimpeiros. Mas também lucram os profissionais especializados, como os pilotos, que transportam mercadorias das regiões mais afastadas para as cidades, aterrissando e decolando em pistas improvisadas. Os garimpos também oferecem possibilidades para os homens e as mulheres sem capital e sem conhecimento especializado, mas com vontade e disposição para lucrar. Eles podem ganhar dinheiro cavoucando leitos, barrancas e beiras de rio. Elas podem ganhar dinheiro se prostituindo. Quanto maior o posto do cliente, maiores os lucros delas. No garimpo a pirâmide social vai dos garimpeiros aos donos do garimpo, passando pelos pilotos de avião e pelas putas mais requisitadas. Uma profissional do amor que arrebata um dono de garimpo ganha mais dinheiro. Mas os lucros com pilotos e garimpeiros também são altos. No caso dos últimos, especialmente se acabaram de bamburrar; que é um verbo intransitivo que significa enriquecer, fazer fortuna. Mas não é raro um garimpeiro bamburrar e torrar todo o ouro com prostitutas e bebidas importadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a região do porto Presidente Fernando Henrique Cardoso caiu no ostracismo, após a construção da ponte da Esperança, não poucos trabalhadores migraram para os garimpos da Amazônia. Especialmente um recém criado, a não muitos quilômetros dali, o Novo Livramento. Nova Brasília não produziu nenhum dono de garimpo, nem sequer um piloto de avião especializado nas precárias pistas da Amazônia, mas garimpeiros e putas a cidade produziu dezenas. Especialmente após a construção da ponte da Esperança e do ostracismo do porto Presidente FHC. Comerciantes, carregadores e putas de Nova Brasília se reencontraram no Novo Livramento.</p>
<p style="text-align: justify;">A história das putas da região do porto Fernando Henrique Cardoso é tema a ser explorado. Não apenas as histórias delas, também as que elas contavam. Havia quem se deliciava com os causos contados pelas mulheres nos intervalos de trabalho, quando o porto estava vazio e não havia clientes a captar. Elas conheciam cada canto da região, incluindo igarapés, cachoeiras, imóveis abandonados, motéis improvisados e outros logradouros utilizados para o ato amoroso. Algumas partiam com os caminhoneiros e voltavam só no final do dia, ou depois de semanas, quando conseguiam caronas e clientes para o retorno. Outras, mais apressadas e com mais tino comercial, trepavam na beira da estrada, para voltar rápido e captar mais clientes. Mas na balsa Deus Proverá ninguém transava, nem em caminhão com vidro escuro e cabine dupla. Se o comandante Acácio pegava puta atravessando o Jaraqui na boleia de caminhão, buzinava e dava esporro, não deixava mais viajar na balsa.</p>
<p style="text-align: justify;">Como podiam conversar, trepar e até viajar pelo país com clientes, que eram quase companheiros, dá para dizer que as putas gostavam do ofício. Algumas visitaram até cidades do sul do Brasil. Muitas conheceram a capital do país, a Brasília original, de Lúcio Costa e Oscar Niemayer. Iam com um, voltavam com outro. Tinham várias famílias, muitos filhos e vários parceiros. Ganhavam dinheiro que gastavam com roupas, sapatos, perfumes e mercadorias desconhecidas na bacia do Jaraqui. A prostituição era o recurso disponível para ampliar horizontes em Nova Brasília e outras cidades ribeirinhas. Mas as putas sempre voltavam e se reencontravam na região do porto Fernando Henrique Cardoso. Quem é do Jaraqui sempre volta aqui – brincavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Lindalva foi a puta mais famosa da bacia do Jaraqui e, quiçá, de toda a Amazônia. Ela vinha de uma família com história no ofício. Sabe-se que a mãe e a avó de Lindalva, ambas Lindalvas, foram profissionais do amor. Elas teriam ensinado os segredos do ofício para a menina. A avó de Lindalva foi tão famosa que chegou a ser citada nas memórias do poeta Thiago de Mello. Não há comprovação de que o bardo tenha utilizado os serviços da avó de Lindalva, mas a técnica desenvolvida por ela para lucrar nos garimpos ficou tão famosa que correu de boca em boca, sendo, posteriormente, registrada no livro do poeta intitulado <em>Amazônia – a menina dos olhos</em>. Lindalva – a neta – chegou a receber clientes do Peru, da Colômbia e até dos Estados Unidos. Os estrangeiros iam para a Amazônia atrás dela, todo o resto era só um detalhe. O encontro das águas do Solimões com Negro era só um detalhe. O encontro das águas do Amazonas com o Tapajós era só um detalhe. A biodiversidade amazônica era só um detalhe. Os povos isolados na mata eram só um detalhe. Lindalva é que importava, em todos os sentidos. Lindalva foi uma legítima filha da terra, uma potência tropical, um fruto raro da Amazônia. Tinha os cabelos pretos, como se tivessem sido pintados com tinta de jenipapo. Tinha a pele morena, no tom do cupuaçu. Tinha as coxas roliças e a bunda boleada, que se destacavam porque ela usava salto alto, apesar da lama e das estradas de terra. Conta-se que Lindalva atendia de salto alto, que tirava tudo, menos os sapatos. Os peitos eram firmes como dois punhos cerrados. Ela tinha a voz deliciosamente feminina e um gingado sinuoso, como bote de cobra peçonhenta. Reza a lenda que as partes íntimas de Lindalva eram fortemente avermelhadas – como se pintadas com tinta de urucum – e que se ela realmente gostasse do cliente, o sexo dela brilhava: como os rios da Amazônia, nas primeiras horas da manhã.</p>
<p style="text-align: justify;">Lindalva foi umas das primeiras a partir para o garimpo Novo Livramento. Sempre tinha ouvido a mãe e a avó falarem que lugar de puta é no garimpo, que é onde se ganha dinheiro para valer. Lindalva deixou a região do porto Fernando Henrique Cardoso assim que recebeu notícias vindas do Novo Livramento. Acostumada a faturar com caminhoneiros e viajantes pobretões, que pechinchavam antes de fechar negócio, lucrou alto no garimpo Novo Livramento. Ganhava infinitamente mais, trabalhando bem menos. Atendia um cliente por noite, não mais que isso. Havia semanas que nem aparecia no trabalho, preferia passar o tempo assistindo novelas. Mas quando ela surgia de salto alto era um alvoroço. Todos queriam Lindalva. Sabiam que ela não atendia mais de um cliente por noite. Quem realmente quisesse deitar com Lindalva devia estar disposto a gastar. Ela adaptou uma técnica que havia aprendido com a mãe e a avó: pagamentos só em ouro. Houve garimpeiros que ficaram ricos de dia e perderam tudo à noite. A técnica de Lindalva consistia em excitar o homem a ponto dele trocar toda a vida por uma noite. Ela dançava e bebia com o escolhido. Se o eleito realmente estivesse disposto a ter uma noite de amor como se fosse a última, iam para o quarto. O homem precisava portar uma boa quantidade de ouro. Se não, trocavam algumas palavras e ela dispensava o sujeito. Quem chegou a ir para a cama com Lindalva não esquece jamais. Ela não tinha a pressa das profissionais que ganham por produção. Tudo no seu tempo – dizia Lindalva. Tempo do uísque importado. Tempo de carícias ajustadas. Tempo de se despir delicadamente. A técnica dela consistia em só negociar valores no momento em que os clientes estavam excitados a ponto de trocar tudo por uma noite. Era quando ela terminava de tirar as roupas do homem e colocava o preservativo no membro ereto, lubrificava e mandava o macho besuntar com ouro.  Era isso ou nada. Lindalva deitava o homem na cama e montava sobre ele. Não havia posição que ela não conhecesse e dominasse. Lindalva gostava de concluir o trabalho por baixo, para testar o vigor do macho. Consumado o ato, o homem podia levar a camisinha, se quisesse e se lembrasse. O ouro que ficasse no preservativo era do cliente. O ouro que ficasse dentro de Lindalva era dela. Quando o macho se retirava, ela se posicionava de cócoras sobre uma bacia, lavava-se com um jato de água e recolhia o ouro que descia de dentro dela. Lindalva gostava de homens decididos, bem dotados e vigorosos. Em Nova Brasília e na Amazônia dizem que com Lindalva nenhum homem broxou.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o ouro do Novo Livramento começou escassear, apenas os mais otimistas continuaram na região, movidos por dourados sonhos de enriquecimento. Lindalva voltou para Nova Brasília. Outra lição que aprendeu com a mãe e a avó: saber o momento certo para abandonar o barco. Há quem diga que Lindalva ficou com cerca de cinquenta por cento do ouro do Novo Livramento. Metade da riqueza da região teria passado por dentro dela. É possível. Lindalva comprou terrenos, imóveis e boa parte do comércio de Nova Brasília, inclusive as lojas abandonadas no porto Presidente Fernando Henrique Cardoso. Dizem que ela tentou comprar até a ponte da Esperança, mas o negócio não avançou. Lindalva perdeu dinheiro empreendendo em Nova Brasília. Da Europa ela trazia ideias e produtos que não vingavam na Amazônia. A loja especializada em sapatos femininos fechou em poucos meses. Mesmo destino teve a relojoaria inaugurada no centro da cidade. Mas dinheiro não era problema para Lindalva. Até uma cafeteria ela abriu e manteve funcionando, apesar do negócio não se sustentar financeiramente. Lindalva dizia que Nova Brasília merecia contar com tertúlias literárias, como havia em Paris e Buenos Aires. Ela organizou saraus e lançamentos de livros na cafeteria.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem saber o que fazer com as lojas abandonadas no antigo porto Presidente Fernando Henrique Cardoso, Lindalva ouviu suas colegas de profissão e acatou as sugestões. Reformou todo o espaço. Criou uma grande sala de espetáculos com isolamento acústico. Transformou a antiga lanchonete num bar sofisticado, que oferecia drinks caribenhos. As lojas que vendiam peixes, bolos, bebidas, redes e artesanatos da Amazônia foram transformadas em quartos confortáveis. Até aparelhos de ar-condicionado ela mandou comprar e instalar. Não havia quarto sem refrigeração, porque o calor amazônico é inclemente. A única coisa que Lindalva não mudou foi o nome do lugar, que continuou se chamando porto Presidente Fernando Henrique Cardoso: para não despertar a atenção das autoridades e dos moralistas; para não contrariar os saudosistas e os nostálgicos; e, principalmente, porque daquele dia em diante nenhum “politiquinho” – o termo é da própria Lindalva – mudaria o nome do lugar para se promover. Aos poucos as pessoas começaram a chamar o lugar de novo porto, ou novo FHC, ou novo porto Fernando Henrique Cardoso. Ali se apresentaram bandas de música caribenha e amazônica. Lindalva fazia questão de pagar as diárias, as passagens e as acomodações dos artistas. As putas da região – que atendiam em garimpos, igarapés, cachoeiras, imóveis abandonados, motéis improvisados e na boleia dos caminhões – ganharam um espaço nobre para trabalhar. O novo porto Fernando Henrique Cardoso recebeu gente da América do Sul, do Caribe, da Europa, de todos os cantos do Brasil e até dos Estados Unidos. Os clientes vinham pelos rios e pela única estrada da região. Chegaram ser registrados engarrafamentos na ponte da Esperança. Foi preciso ampliar o estacionamento do porto.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o novo porto Fernando Henrique Cardoso começou a fazer dinheiro, Lindalva dobrou a aposta e os investimentos. Ela tinha tino comercial e era ousada. Negociou, adquiriu e reformou a velha balsa, que estava estacionada na margem do rio Jaraqui. Importou profissionais e peças da China para fazer a Deus Proverá funcionar novamente. Não foi um negócio da China para os chineses. Eles trabalhavam de dia na balsa e se divertiam à noite com as garotas do novo porto Fernando Henrique Cardoso. Lindalva teve superávit nas relações comerciais com a China, feito raro inclusive para países imperialistas como os Estados Unidos e blocos econômicos como a União Europeia.  Alguns chineses constituíram família e ficaram em Nova Brasília e região. O dinheiro que ganhavam de dia, gastavam à noite. A Deus Proverá ganhou bancos confortáveis nas laterais e na parte posterior, como se fosse uma espécie de arquibancada com dois andares. Lindalva mandou construir um palco virado para os bancos e doze suítes, sendo uma delas presidencial: com espelhos, mármore de primeira, banheira de hidromassagem e vista para o rio Jaraqui. A altura da cabine foi elevada para ampliar a visão do comandante. Banheiros foram reformados. Até uma cobertura móvel foi instalada sobre a balsa, para os dias de chuva. Lindalva exigiu a restauração – não era substituição, era restauração – da buzina da Deus Proverá. O som tinha que ser o mesmo dos tempos do comandante Acácio. Os chineses sozinhos não conseguiram restaurar a buzina da velha balsa, a tarefa era especializada demais para homens desgastados pelas noites amazônicas. Lindalva importou peças e profissionais do Japão e da Coreia para restaurar a buzina da Deus Proverá. Não foi fácil administrar chineses, japoneses e coreanos trabalhando no mesmo projeto e se divertindo com as mesmas garotas. Mas tudo saiu conforme o planejado. Ela pagava bem e em dia. Trabalho bem feito devia ser bem remunerado.</p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém imaginava o que Lindalva pretendia reformando a Deus Proverá. Havia quem dissesse que ela queria entrar no ramo de transportes fluviais, desbancando as empresas de Manaus e de Belém. Havia quem dissesse que ela pretendia interligar comunidades ribeirinhas, para depois construir pontes e estradas. Talvez porque chineses, japoneses e coreanos mantiveram segredo. Talvez porque eles não conseguiam se comunicar em português. Ninguém conheceu os planos para a Deus Proverá antes da hora. A última e mais difícil etapa do projeto precisou ser encabeçada diretamente por Lindalva, porque ninguém conseguiu convencer o comandante Acácio a voltar ao trabalho. Estava aposentado e desaprovava o novo porto Fernando Henrique Cardoso.  Lindalva precisou procurar o comandante Acácio e explicar que ninguém conhecia a Deus Proverá e o rio Jaraqui tanto quanto ele; que o empreendimento traria turistas e divisas para Nova Brasília; que se eles não tomassem a frente, algum europeu ou chinês dominaria o negócio. Além de tudo, Acácio só trabalharia um dia por semana, apenas aos sábados. Até a buzina da Deus Proverá havia sido restaurada para que ficasse perfeita para o comandante, como nos velhos tempos.</p>
<p style="text-align: justify;">As boas lembranças e a saudade derrotaram a resistência moral do comandante Acácio. Ele aceitou pilotar a embarcação. Lindalva venceu, mais uma vez. Quando faltava pouco para concluir a reforma da Deus Proverá, quando os profissionais que trabalhariam embarcados estavam contratados, apareceram cartazes em Nova Brasília e região anunciando a grande festa caribenha: com drinks e música ao vivo, porções e lanches, queima de fogos e sorteio de prêmios, tudo sobre as águas do rio Jaraqui. Reformada, a Deus Proverá se transformou numa arena da luxúria, com pista de dança, bar, restaurante, palco, arquibancada, suítes e cobertura móvel.</p>
<p style="text-align: justify;">A cabine de comando se destacava sobre a estrutura flutuante. Foi de lá que o comandante Acácio apertou a buzina anunciado a partida quando toda a tripulação estava devidamente embarcada. O pequeno atraso no embarque não prejudicou a noite de festa, apesar de incomodar o comandante. A música ao vivo começou na sequência. Os drinks de cortesia foram servidos. Quem era de dança foi para pista. Os mais contidos se acomodaram nos bancos. Quando a banda fez o primeiro intervalo, Lindalva subiu no palco e, como estava combinado, o comandante Acácio apertou a buzina da Deus Proverá. Lindalva apresentou os músicos e a tripulação. Agradeceu ao comandante por ter aceitado o novo desafio profissional. Comentou o empreendimento. Explicou que a Deus Proverá contava com bar, restaurante, funcionários treinados, equipe de segurança e suítes para os casais apaixonados, que poderiam reservar os quartos previamente com a equipe responsável. Ninguém pagou em ouro para fazer amor nas suítes da Deus Proverá, como nos tempos em que Lindalva atendeu no garimpo Novo Livramento, mas ela faturou alto com o negócio, mesmo sem atender diretamente os clientes. Demanda Lindalva tinha de sobra, mas recusava alegando que o tempo dela tinha passado, que os desafios eram outros, que deixaria espaço para a nova geração.</p>
<p style="text-align: justify;">A Deus Proverá partia do novo porto Fernando Henrique Cardoso todo sábado, às 22h00 – após o másculo fonfom da buzina –, voltando no dia seguinte, quando os primeiros raios de sol surgiam no horizonte e as águas do rio Jaraqui brilhavam. Os nostálgicos garantiam que, quando Lindalva atendia e realmente gostava de um cliente: o sexo dela brilhava como as águas do Jaraqui nas primeiras horas da manhã. A Deus Proverá voltou a movimentar Nova Brasília. Músicos, garçons, seguranças, salva-vidas, socorristas e, principalmente, as putas ganharam um bom dinheiro. Algumas compraram carros, outras viajaram e conheceram a Europa. Houve até quem abriu negócios próprios. O grande exemplo a ser seguido era Lindalva, indiscutivelmente.</p>
<p style="text-align: justify;">O novo Fernando Henrique Cardoso gerou renda e progresso. As bandas se apresentavam na sala de espetáculos, o bar vendia drinks e as profissionais atendiam nos quartos com ar-condicionado, sete dias por semana, de segunda a segunda. Mas bom mesmo eram os sábados na Deus Proverá. Os corações batiam mais forte quando a buzina do comandante Acácio apitava anunciando a partida. Vieram turistas do Peru e da Colômbia, do Rio de Janeiro e de São Paulo, da Argentina, da Europa e até dos Estados Unidos. Músicos locais e estrangeiros se apresentaram na Deus Proverá. Mulheres embarcavam sem outras intenções que não fosse dançar sobre as águas do rio Jaraqui. Os homens eram cavalheiros o suficiente para diferenciar as garotas de programa das turistas e outras mulheres embarcadas. Não houve problemas nem desencontros. Até casamentos foram celebrados na Deus Proverá, com direito a banda escolhida pelos noivos, cerimônia religiosa, refeições, sobremesas, drinks, dança e, principalmente: noite de núpcias na suíte presidencial, com visão para as águas do rio Jaraqui – que brilham nas primeiras horas da manhã.</p>
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		<title>Iceberg Incel: conheça o mundo que a série &#8220;Adolescência&#8221; mostra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 May 2025 22:23:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Temos que conhecer os sinais de quem pode estar submergindo nesse imenso bloco de conteúdo doentio. Por Ademar Lourenço]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Ademar Lourenço</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">A série “<a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=mh48KXaCSxM" href="https://www.youtube.com/watch?v=mh48KXaCSxM" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Adolescência</a>” segue entre as mais vistas na Netflix mesmo um mês depois de lançada. Ela chama a atenção para o universo dos chamados “celibatários involuntários” ou “incels”. A história é sobre um garoto de 13 anos acusado de cometer um crime contra uma menina. Os investigadores acabam tendo que entrar em um mundo de frustrações masculinas e misoginia pra desvendar o que aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;">O roteiro é muito elogiado por não simplificar a tragédia que assola a vítima, o agressor, a família e a comunidade envolvida. Os episódios em plano-sequência exploram o ambiente e entram na intimidade dos personagens, uma ideia genial do diretor Philip Barantini. A atuação do protagonista, o estreante Jamie Miller, é espetacular e foge de estereótipos.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema que a obra aborda existe desde os primórdios da internet, no final dos anos 90. Naquela época, foi montada uma rede sofisticada para atacar mulheres e espalhar mensagens machistas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156516" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/serie-adolescencia-conversas-dificeis-com-os-filhos-1-750x375-1.jpg" alt="" width="750" height="375" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/serie-adolescencia-conversas-dificeis-com-os-filhos-1-750x375-1.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/serie-adolescencia-conversas-dificeis-com-os-filhos-1-750x375-1-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/serie-adolescencia-conversas-dificeis-com-os-filhos-1-750x375-1-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/serie-adolescencia-conversas-dificeis-com-os-filhos-1-750x375-1-681x341.jpg 681w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" />Os meninos da “<a class="urlextern" title="https://www.meioemensagem.com.br/proxxima/geracao-alpha" href="https://www.meioemensagem.com.br/proxxima/geracao-alpha" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">geração alpha</a>” estão chegando na adolescência. Infelizmente, alguns estão sendo atraídos pela rede de ódio que já existia antes deles nascerem. O Iceberg Incel é um dos maiores perigos do mundo digital. Cada professor, cada pai, cada mãe e cada militante feminista deve conhecer a linguagem, os símbolos e comportamentos dessa rede masculinista. Não adianta “não querer divulgar”. Temos que conhecer os sinais de quem pode estar submergindo nesse imenso bloco de conteúdo doentio. Isso pode salvar vidas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Duas décadas de masculinismo organizado na internet</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os mais jovens dificilmente vão entender o que era a Internet nos anos 2000. O acesso era feito pelos computadores, os smartphones só se popularizaram depois. Qualquer série ou filme poderia ser baixado de graça no Megaupload. Os chamados “internautas” procuravam conteúdo “navegando” de site em site.</p>
<p style="text-align: justify;">Muita besteira se espalhava nas listas de e-mails ou no “Orkut”, primeira rede social que ficou popular no Brasil. Vídeos e músicas com um humor escatológico e violento viralizavam muito rápido. Não existia a ditadura dos <a class="urlextern" title="https://esquerdaonline.com.br/2020/10/07/o-dilema-das-redes-e-a-desigualdade-na-internet/" href="https://esquerdaonline.com.br/2020/10/07/o-dilema-das-redes-e-a-desigualdade-na-internet/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">algoritmos</a>, tudo era repassado de pessoa para pessoa. Muitos dos que espalhavam esses conteúdos eram apenas curiosos que achavam o máximo ver coisas que jamais passaria na televisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas já existia o chorume ideológico que iria “politizar” a curiosidade mórbida de uma juventude deslumbrada com a diversidade de conteúdo da Internet. Olavo de Carvalho começava a organizar seu fã-clube virtual. O antipetismo tomava conta da comunidade “Brasil” do Orkut, com mais de um milhão de participantes. E os “masculinistas” faziam suas primeiras vítimas.</p>
<p style="text-align: justify;">A inspiração inicial foi o crime cometido por dois adolescentes em <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Columbine" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Columbine" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Columbine</a> no ano de 1999. Os jovens, que tinham problemas de saúde mental e sofriam bullying, promoveram um massacre na escola em que estudavam. Ali já estavam presentes a inspiração em filmes de ação, o machismo, o extremismo de direita e a desesperança com a humanidade. Foi o primeiro <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/03/27/relembra-os-principais-ataques-a-tiros-em-escolas-dos-eua-nas-ultimas-duas-decadas.ghtml" href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/03/27/relembra-os-principais-ataques-a-tiros-em-escolas-dos-eua-nas-ultimas-duas-decadas.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">massacre escolar</a> a ficar famoso. Infelizmente, crimes como esse se tornaram comuns nos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não demorou para a “moda” chegar ao Brasil. Em 2005, um jovem <a class="urlextern" title="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2018/05/10/interna_cidadesdf,679704/brasiliense-que-planejou-ataque-a-festa-da-unb-volta-a-ser-preso.shtml" href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2018/05/10/interna_cidadesdf,679704/brasiliense-que-planejou-ataque-a-festa-da-unb-volta-a-ser-preso.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">chocou Brasília</a> ao ameaçar estudantes de sociologia da UnB, especialmente as mulheres. Em 2011, um jovem fez um <a class="urlextern" title="https://www.vice.com/pt/article/zm8v3e/incel-massacre-realengo-dogolachan-homini-sanctus-marcello-valle-silveira-mello" href="https://www.vice.com/pt/article/zm8v3e/incel-massacre-realengo-dogolachan-homini-sanctus-marcello-valle-silveira-mello" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">massacre</a> em uma escola no Realengo, bairro do Rio de Janeiro. A violência foi especialmente dirigida às meninas. Foi aí que ficaram famosos os “chans”, fóruns em que o usuário permanece anônimo e as mensagens podem ter pouca duração. Era a festa de quem espalhava pornografia infantil ou planejava atentados. E de quem queria recrutar pessoas doentes para uma cruzada antifeminista.</p>
<p style="text-align: justify;">A blogueira Lola Aranovich sofre <a class="urlextern" title="https://midianinja.org/news/desse-ano-voce-nao-passa-lola-aronovich-sofre-novas-ameacas-de-morte-e-de-estupro/" href="https://midianinja.org/news/desse-ano-voce-nao-passa-lola-aronovich-sofre-novas-ameacas-de-morte-e-de-estupro/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ameaças</a> desde essa época. Ela foi alvo de homens violentos e antissociais. Alguns tinham simpatias por coisas como nazismo e pedofilia. Ou seja, não havia a menor possibilidade de eles conquistarem um público amplo. Mas a rede machista da internet passou a usar uma tática que, devemos reconhecer, foi bem inteligente e bem aplicada.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Os algoritmos ajudam a radicalizar as pessoas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em um vídeo que viralizou recentemente no TikTok, um adolescente dá uma flor a uma menina da mesma idade. Ele se abaixa para amarrar o sapato, pega a flor e vai embora. A menina fica com cara de tacho. Pode parecer só uma besteira de um menino imaturo, não é? <img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156515" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/images.jpg" alt="" width="324" height="155" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/images.jpg 324w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/images-300x144.jpg 300w" sizes="(max-width: 324px) 100vw, 324px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O vídeo é parte da primeira camada do Iceberg Incel. Aquela em que não há apologia à violência e a exposição das frustrações masculinas pode até despertar empatia. Em um vídeo, é dito que o homem não pode criar dependência emocional em seus relacionamentos. Outro sugere que, ao descobrir uma traição, o homem deve terminar o namoro. Até aí, nada parece suspeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas se olharmos as hashtags desses vídeos, vemos que tudo é parte de uma rede maior de conteúdos. As hashtags são palavras-chave que ajudam os algoritmos das redes sociais a “entender” os gostos das pessoas. Se alguém ouve vídeos sobre a banda Iron Maiden e nesse conteúdo tem a hashtag #heavymetal, o algoritmo vai registrar o gosto do usuário por este estilo musical.</p>
<p style="text-align: justify;">É aí que começa o problema. O usuário começa a receber não apenas vídeos sobre Iron Maiden, mas também sobre a banda Cannibal Corpse, que tem um ritmo mais frenético e fala de temas mais sombrios em suas letras. O maldito algoritmo “sabe” que o usuário quer algo parecido com o que já curtiu, compartilhou e comentou. Mas o conteúdo deve ser cada vez mais intenso para manter o usuário na rede social.</p>
<p style="text-align: justify;">Os masculinistas de Internet também sabem disso. Por isso propagam seu conteúdo em camadas. Tal como um Iceberg, a maioria enxerga penas a superfície. Mas podemos ir cada vez mais fundo. Ao submergir nesse mundo, a podridão vai aumentando de intensidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, um homem que acabou de terminar um relacionamento curte um vídeo no TikTok com a mensagem “siga em frente, você vai superar”. Mas aí o vídeo é marcado com a hashtag #redpill, um emoji com uma imagem de copo de vinho e outro emoji com um Moal da Ilha de Páscoa. São símbolos da cultura Incel. Depois da curtida, o algoritmo vai entregar ao usuário vídeos que tem as mesmas marcações, mas com um conteúdo mais extremo, permitindo ir mais fundo no iceberg.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse exemplo, a simbologia usada é voltada a um público mais velho. Se o vídeo for voltado para a “geração alpha”, os emojis e hashtags serão <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/shorts/PRuLVuww7NE" href="https://www.youtube.com/shorts/PRuLVuww7NE" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">outros</a>. E garotos de 11 a 13 anos poderão ter acesso a todo tipo de bizarrice voltada a ensiná-los a odiar mulheres desde cedo.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As camadas do Iceberg Incel </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A primeira camada é apenas chamariz para criar engajamento com as hashtags e servir de porta de entrada para conteúdos mais machistas. Na segunda, o sujeito já vai se deparar com o discurso “redpill”, que coloca nas mulheres e no feminismo a culpa pelas frustrações masculinas.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo o discurso “redpill”, os homens são “feitos de otários” ao demonstrarem afeto por mulheres. Por isso, devem “tomar a pílula vermelha”, se livrando da “Matrix” que é o romantismo. Para esses influenciadores, o homem tem que ter uma postura autoritária e emocionalmente distante para manter a mulher “na linha”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2023, viralizou o vídeo do “<a class="urlextern" title="https://www.terra.com.br/amp/story/diversao/gente/entenda-a-polemica-envolvendo-livia-la-gatto-e-o-calvo-da-campari,ebdf2760b04f6a7df2f1bfc7b365d559u4nzsmr1.html" href="https://www.terra.com.br/amp/story/diversao/gente/entenda-a-polemica-envolvendo-livia-la-gatto-e-o-calvo-da-campari,ebdf2760b04f6a7df2f1bfc7b365d559u4nzsmr1.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">calvo do Campari</a>”, um sujeito que dizia saber o segredo para “conquistar as mulheres”. Ele é um dos <a class="urlextern" title="https://buzzfeed.com.br/post/8-sinais-que-voce-pode-estar-sendo-abordada-por-um-pickup-artist" href="https://buzzfeed.com.br/post/8-sinais-que-voce-pode-estar-sendo-abordada-por-um-pickup-artist" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">pick-up artists</a>, ou “artistas da sedução”. Alguns ficam ricos vendendo cursos com “técnicas” para um homem conseguir abordar uma mulher. Nessa camada do iceberg, ainda há uma preocupação em não cometer crimes. Mas o discurso de ódio já é bem presente.</p>
<p style="text-align: justify;">O sujeito que viu vídeos do “calvo do Campari” às vezes não fica mais chocado com esse tipo de conteúdo e precisa de algo mais intenso para continuar preso na rede social. Aí o algoritmo vai entregar a ele algo sobre “MGTOW”. É uma sigla que quer dizer “Men Going on The Own Way”, ou “homens seguindo seu próprio caminho”. Esses aí já desistiram de ter uma relação funcional com as mulheres. Alguns pregam que o sexo só é compensatório se for com uma prostituta ou em um relacionamento de curta duração. A apologia à violência contra as mulheres já aparece, mas, na maioria das vezes, de forma implícita.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156516" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/serie-adolescencia-conversas-dificeis-com-os-filhos-1-750x375-1.jpg" alt="" width="750" height="375" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/serie-adolescencia-conversas-dificeis-com-os-filhos-1-750x375-1.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/serie-adolescencia-conversas-dificeis-com-os-filhos-1-750x375-1-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/serie-adolescencia-conversas-dificeis-com-os-filhos-1-750x375-1-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/serie-adolescencia-conversas-dificeis-com-os-filhos-1-750x375-1-681x341.jpg 681w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" />Se o sujeito já está viciado nesse tipo de conteúdo e realmente for um doente, ele acaba indo mais fundo e encontrando seus semelhantes. São os que não conseguem ter nenhum contato sexual com mulheres. Por isso o termo “incel”, ou “involuntary celibatarian” (celibatário involuntário).</p>
<p style="text-align: justify;">Aí a coisa começa a ficar mais perigosa, pois nessa camada já tem homens dispostos a promover ataques reais. Alguns têm conhecimento de informática e podem, por exemplo, roubar dados bancários de mulheres, especialmente feministas. Outros se organizam para fazer ameaças em massa. E tem aqueles que acabam indo para escolas assassinar pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">Advogados que defendem homens que estão sendo processados pela Lei Maria da Penha usam as comunidades dessa parte do Iceberg para divulgar seu trabalho. É realmente bem bizarro. Ali a apologia à violência é explícita e agressores são “acolhidos”. Inclusive nesses grupos foi organizado um abaixo-assinado para a revogação da lei que protege mulheres vítimas de violência doméstica.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso ainda não é o que existe de pior no Iceberg Incel. Os “homini sanctus” são exemplos do que a Internet tem de pior. Na camada onde eles se encontram, é comum o uso do fundamentalismo cristão. Na intepretação que essa gente tem da Bíblia, a mulher deve ser escrava do homem. Eles também falam do resgate de um passado idealizado, onde o gênero feminino estava no seu “devido lugar”.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156517" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/image.jpg" alt="" width="300" height="168" />Masculinidade exagerada e resgate de um passado idealizado são duas características do fascismo. E nessa camada, coisas como a defesa de Hitler, memes tirando sarro da morte de Marielle Franco, apologia às torturas contra mulheres grávidas na Ditadura Militar, entre outras coisas, são bem comuns. Os psicopatas assumidos se reúnem nas profundezas. Mas os conteúdos que eles produzem podem chegar a um público maior por meio das camadas mais superficiais do Iceberg.</p>
<p style="text-align: justify;">O Iceberg Incel é uma sofisticada rede de conteúdos de mídia que trabalha em cima de um ideal de masculinidade que já existia na vida real. Os masculinistas da internet não inventaram o machismo. Mas o usam para recrutar um exército de fanáticos. E são ajudados pelos algoritmos das redes sociais. E quem lucra com o Iceberg Incel são as Big Techs, as grandes empresas de informática. Em resumo: o menino doente encontra seus pares, meninas ficam expostas a ataques e Mark Zuckerberg aumenta o seu já bilionário patrimônio.</p>
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		<title>Meninas na escola</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 08 Feb 2025 20:18:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[ Fatah é um jovem que deixou o Afeganistão para ganhar a vida na França trabalhando na construção civil. Ao ser perguntado sobre o que pensava do Talibã disse: “Só não concordo em proibir as meninas de ir à escola. O resto é tranquilo”. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Fatah é um jovem que deixou o Afeganistão para ganhar a vida na França trabalhando na construção civil. Ao ser perguntado sobre o que pensava do Talibã disse: “Só não concordo em proibir as meninas de ir à escola. O resto é tranquilo”. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Bro Revolution e o futuro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Feb 2025 09:58:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Secundado pelas religiões, pelo Exército, pela Justiça, pelo esgoto da internet, por influencers rasteiros, este papel masculino tradicional simplesmente não parece encaixar num desenvolvimento aparentemente óbvio do capitalismo. Por lucas gomes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por lucas gomes</strong></h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">They call it <em>bro</em>&#8211;<em>revolution</em>. The normal men return to the history. The age of prescribed perversion is over. Trump, pls, don&#8217;t stop.</p>
<p style="text-align: justify;">“Eles chamam de <em>bro-revolution</em>. O retorno dos homens normais à história. A era da perversão prescrita se acabou. Trump, não pare, por favor.”</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em novembro do ano passado Alexandr Dugin comentou com a mensagem acima o resultado das eleições nos EUA por meio da rede social X (ex-twitter), fazendo referências ao termo “bro-revolution”. Ele também fez referencias ao termo em janeiro, em <a class="urlextern" title="https://www.rt.com/russia/610441-dugin-trump-sanctions-shift/" href="https://www.rt.com/russia/610441-dugin-trump-sanctions-shift/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">uma matéria do portal de notícias do governo russo</a>, inclusive falando de um giro woke à direita. Outro entusiasta de Trump na órbita da propaganda putinista é Constantin von Hoffmeister, autor de um livro sobre o “Trumpismo esotérico”. Ele argumenta que a união entre Trump e Elon Musk representa a oportunidade de começar uma <a class="urlextern" title="https://www.rt.com/news/610491-musk-trump-technology-tradition/" href="https://www.rt.com/news/610491-musk-trump-technology-tradition/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">nova era de encontro entre tecnologia e tradição</a>, uma espécie de capitalismo acelerado sob um comando conservador.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, como seria possível que uma <em>bro-revolution</em> ajude a criar o contexto capitalista de desenvolvimento tecnológico em uma ordem moral socialmente restritiva? Se encontra tal mundo no horizonte de possibilidades do nosso presente, ou é uma quimera impossível?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155861" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/french_chardin.jpg" alt="" width="309" height="390" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/french_chardin.jpg 309w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/french_chardin-238x300.jpg 238w" sizes="auto, (max-width: 309px) 100vw, 309px" />Para abordar essa problemática convém pensar em termos de família. Primeiro porque a família é um dos principais lugares de afirmação dos “homens normais”. Segundo porque o salário, desde a revolução industrial até nossa época, está vinculado com as unidades familiares. As formas familiares são históricas, e as suas tendências dialogam diretamente com a forma do salário de cada etapa da economia capitalista. Num livro publicado em 1963,<em> Revolução mundial e padrões de família</em>, o sociólogo William J. Goode entendia que, contra a ideologia conservadora que sustenta os resquícios das famílias em rede, junto com a sociedade industrial surgiu a ideologia da família conjugal, centrada no núcleo marido-esposa. De forma resumida, essa nova ideologia se baseia em uma maior valorização da autonomia dos indivíduos na escolha de seus pares, em menores deveres para com familiares longínquos, uma maior facilidade para a mobilidade geográfica e a possibilidade de terminar o vínculo conjugal quando os indivíduos já não queiram seguir juntos. Com os devidos cuidados de um estudo comparativo, William J. Goode afirma que todas as sociedades humanas, em 1963, tendiam à família conjugal, ainda que não existisse um fator único de causalidade. Ele discorre sobre como as distintas formas familiares também moldaram e determinaram o desenvolvimento da sociedade industrial, em cada geografia onde essa começava a germinar.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora bem, uma maior autonomia também se expressa como maior independência, e isso foi se expressando no direito ao divórcio, especialmente nas leis que permitiram o divórcio iniciado pela mulher. O século XX soube diminuir a discrepância entre a educação dos homens e das mulheres no mundo todo, aumentou a proporção de mulheres que podiam ganhar e viver de seu próprio salário. Estas tendências, constatadas por Goode, aumentaram e muito desde a publicação de seu livro. Segundo a matéria “Por que homens e mulheres jovens estão se distanciando?”, da revista <em>The Economist</em> de Março de 2024 <strong>[1]</strong>, nos países da OCDE existe hoje uma maior quantidade de mulheres graduando-se no ensino superior em comparação com os homens. A família conjugal também está vinculada com um maior período de formação educativa dos jovens antes de entrar no mercado de trabalho. Se o único destino da pequena menina aborígene é casar-se ao menstruar e servir a seu marido, prenhar e parir, então escolarizar-se parece um esforço inútil. Se as mulheres em muitas partes do mundo hoje tem uma maior qualificação de mão de obra, então uma grande mudança ocorreu nas possibilidades de compor um salário familiar. Sem dúvida os homens perderam uma grande parte do controle sobre esse salário dentro das unidades familiares. Não apenas isso. As tarefas de cuidado, antes justificadas com tradição, biologia ou misticismo, eram esperadas das mulheres, limitando seu tempo e sua independência <strong>[2]</strong>. Se pensarmos em termos de obsolescência da força de trabalho, a gestação, parto, puerpério e os primeiros meses de amamentação obriga às mulheres a afastarem-se da atividade econômica e possivelmente perder o emprego por demissão ao final desse período. Também as afasta rapidamente de trabalhos que exigem diferentes formas de força física. Isso quando a mulher não termina confinada no trabalho doméstico em sua própria casa, incluídas as tarefas de cuidado das crianças e outros parentes. Essas tarefas são um bom exemplo da diferença entre gênero e sexo, dado que não se trataram sempre das mesmas tarefas aquelas que cada sociedade impunha sobre as mulheres das diferentes classes sociais. Embora o sexo fosse o mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que ocorre então quando o trabalho doméstico e as tarefas de cuidado passam a ser um campo de negociação entre pares, e não um mandato social, imposto com doçura ou com violência? Oras, certamente custa muito mais tempo e esforço definir critérios e contemplar individualidades nas questões cotidianas, intensamente permeadas pelos afetos dos indivíduos que se escolhem. A divisão do trabalho na família conjugal tradicional existe, e embora seja injusta e baseada na opressão, é uma divisão que pode resultar produtiva em termos de “output” de trabalho doméstico. Enquanto a nova divisão, com mulheres mais qualificadas e portanto com expectativas mais altas (como ilustra muito bem o artigo da <em>The Economist</em>), se dá por meio de uma negociação contínua, sem papeis pré-determinados ou mandatos sociais tradicionais. Quais efeitos isso tem sobre o “output” de trabalho doméstico nas novas famílias proletárias?</p>
<p style="text-align: justify;">A taxa de fertilidade mundial é em grande medida decorrência das dinâmicas familiares. Seu último pico foi, coincidentemente talvez, em 1963 com 5,32 filhos por mulher, e desde então vem declinando até os 2,26 de 2022 (dados do Banco Mundial). Entendemos que as formas familiares são históricas. Mas algum dia a humanidade poderá libertar-se desta instituição, deixar de depender dela para a reprodução? Seria isso algo desejável? As famílias conjugais hoje têm cada vez menos filhos, é uma tendência mundial. A explicação deste fenômeno seria essencial para entender os problemas de nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Como então seria possível reverter esse cenário, e trazer de volta o papel masculino como figura central da administração do salário nas famílias? Secundado pelas religiões, pelo Exército, pela Justiça, pelo esgoto da internet, por influencers rasteiros, este papel masculino tradicional simplesmente não parece encaixar num desenvolvimento aparentemente óbvio do capitalismo. Para que o homem volte a determinar os termos das negociações do trabalho doméstico e das tarefas de cuidado as mulheres teriam que baixar enormemente suas expectativas de liberdade individual e de qualificação de sua mão de obra. Um exemplo claro dos efeitos desta desigualdade são as mulheres que se divorciam de seus maridos após muitos anos de desempenhar-se como “donas de casa”. Elas se encontram em grandes apertos para encontrar trabalho e sustentar-se (e os filhos!), enquanto o homem somou anos de qualificação e portanto se encontra nesse momento mais apto para ser empregado do que quando se casou.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155862" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/Jean-Baptiste_Simeon_Chardin_003.jpg" alt="" width="1200" height="1561" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/Jean-Baptiste_Simeon_Chardin_003.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/Jean-Baptiste_Simeon_Chardin_003-231x300.jpg 231w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/Jean-Baptiste_Simeon_Chardin_003-787x1024.jpg 787w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/Jean-Baptiste_Simeon_Chardin_003-768x999.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/Jean-Baptiste_Simeon_Chardin_003-1181x1536.jpg 1181w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/Jean-Baptiste_Simeon_Chardin_003-323x420.jpg 323w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/Jean-Baptiste_Simeon_Chardin_003-640x833.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/Jean-Baptiste_Simeon_Chardin_003-681x886.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Podemos entender a situação nos termos de um cálculo tecnocrático: uma exigência de maior quantidade de trabalhadores, em paralelo com uma menor oferta de trabalhadores qualificados (mulheres à casa!). São os capitalistas da mais-valia absoluta oferecendo o seu plano econômico global para os próximos 100 anos (quando o<a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=fOCWBhuDdDo&amp;pp=ygUUdHVja2VyIGNhcmxzb24gcHV0aW4%3D" href="https://www.youtube.com/watch?v=fOCWBhuDdDo&amp;pp=ygUUdHVja2VyIGNhcmxzb24gcHV0aW4%3D" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> entrevistador Tucker Calrson pergunta a Putin sobre o conflito na Ucrânia</a>, o pequeno líder russo se remete ao século IX). O que fica claro é que este programa, que precisaria rebaixar as expectativas de enormes contingentes da massa humana trabalhadora, pretende sustentar os aumentos de produtividade e as expectativas crescentes em um grupo limitado de indivíduos da classe trabalhadora. Não se parece isso com as organizações de trabalhadores brancos que buscavam impedir os negros de chegar aos mesmos postos de trabalho, aos mesmos níveis de estudos? Isso só será possível com muita violência, e violência não é o que falta em nossos tempos.</p>
<h3 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.bresserpereira.org.br/24.03.why-young-men-and-women-are-drifting-apart.pdf" href="https://www.bresserpereira.org.br/24.03.why-young-men-and-women-are-drifting-apart.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.bresserpereira.org.br/24.03.why-young-men-and-women-are-drifting-apart.pdf</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Emma Goldman entendia que uma família grande “paraliza o cérebro e entumece os músculos das massas de trabalhadores”. Ao se refererir aos companheiros homens que começavam a entender isso: “Lento pero seguro, estos hombres han aprendido que si la mujer consume su organismo en embarazos eternos, en los partos y en lavar pañales, poco tiempo tendrá para nada más. Pocas tienen el tiempo para las cuestiones que absorben y excitan a los padres de sus hijos. Producto del agotamiento físico y del estrés nervioso, ellas se convierten en un obstáculo en el devenir del hombre y, en ocasiones, en su más profundo enemigo. Es, por tanto, por su propia protección y también por su necesidad de compañía y amistad de la mujer que ama, que numerosos hombres quieren que esta se libere de la terrible imposición de la constante reproducción y, en consecuencia, están a favor del control de natalidad.” Em inglês <a href="https://theanarchistlibrary.org/library/emma-goldman-the-social-aspects-of-birth-control" target="_blank" rel="noopener">aqui</a></p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são obras de Jean-Baptiste-Siméon Chardin </em></p>
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		<title>Programa de transição</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Jan 2025 20:25:23 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Dizia ser a primeira advogada mulher trans daquela região. Perguntarem-lhe qual era a diferença entre mulher trans e travesti, então respondeu: &#8220;Os travestis são aqueles que estão na rua se prostituindo.&#8221; <strong>Passa Palavra</strong>.</p>
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