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	<title>Sri Lanka &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Aviões de Papel</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Jan 2023 03:11:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<category><![CDATA[Sri Lanka]]></category>
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					<description><![CDATA[Ao ocupar os salões do poder, a revolução no Sri Lanka entendeu como se tivesse tomado o poder. No entanto, o Estado simplesmente continuou a funcionar pelas suas costas. Por S. Prasad]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por S. Prasad</h3>
<blockquote><p>30 de agosto de 2022</p>
<p>Na Parte II da nossa cobertura da insurreição no Sri Lanka, S. Prasad situa a Comuna de <em>GotaGoGama</em> dentro do ciclo de lutas iniciado com a Primavera Árabe, que partilham um padrão familiar de limites. Considerando fatores como a consciência de classe, geografia, eleições e até o “choque da vitória”, Prasad traça o limite além do qual as insurreições de nosso tempo parecem incapazes de avançar.</p>
<p><em>Ill Will</em></p></blockquote>
<p style="padding-left: 80px; text-align: right;"><em>As revoluções desejam homens que tenham fé nelas. Duvidar dos seus triunfos já é traí-las. É através da lógica e da audácia que as lançamos e salvamos. Se você não tiver essas qualidades, seus inimigos as terão por sobre você; eles só verão uma coisa em suas fraquezas — a medida de suas próprias forças. E a coragem deles crescerá em proporção direta com a vossa tibieza. </em><br />
<em>– <strong>Blanqui</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">No início de 2022, o Sri Lanka estava em meio a uma crise econômica. A resposta do governo, liderada pelo presidente Gotabaya Rajapaksa, no início foi lenta e depois inepta. Protestos tiveram início no campo entre os agricultores e depois se espalharam para os subúrbios de Colombo, a capital. Em 9 de abril, um protesto em massa em Galle Face, no coração de Colombo, resultou em um extenso e crescente acampamento conhecido como <em>GotaGoGama</em> [em inglês: <em>Gota Go Home, </em>que em tradução literal quer dizer <em>&#8220;Gota, vá para casa&#8221;</em>]. As ocupações se espalharam à medida que novos acampamentos eram criados em Colombo e em outras cidades. O impulso avançou e recuou por meses. Em 9 de julho, centenas de milhares de srilanqueses inundaram a capital, entrando e ocupando a casa do presidente e vários edifícios do governo. O presidente fugiu. A casa do primeiro-ministro foi incendiada. O exército recuou. Em 13 de julho, manifestantes ocuparam o gabinete do primeiro-ministro, uma estação de televisão e tentaram sitiar o Parlamento. No dia seguinte, o presidente renunciou já no exílio. Em 20 de julho, o primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe foi eleito pelo Parlamento para terminar o mandato de Gota como presidente. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso concluiu o Ato Um da <em>Aragalaya</em>.<strong>[2]</strong> Não está claro o que virá no Ato Dois. A tarefa de hoje é tornar a insurreição irreversível. O caminho à frente é perigoso. O resultado é incerto. O futuro não está escrito.</p>
<p style="text-align: justify;">As reflexões abaixo destinam-se a contribuir para a conversa em curso sobre a próxima fase da <em>Aragalaya</em>, e são também uma tentativa de esclarecer as lições da experiência no Sri Lanka para as próximas insurreições em outros lugares.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>I.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A revolução social torna-se possível como resultado de uma <em>sequência</em> de lutas alcançando e ultrapassando seus limites. Essas sequências tendem a se desdobrar em uma série de <em>ondas</em>, na medida em que táticas, palavras de ordem e formas de organização se espalham rapidamente por diferentes países. Muitas vezes, essas ondas ocorrem em meio à uma turbulência econômica global, que cria um conjunto semelhante de condições em diferentes partes do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos no meio da sequência de lutas que se iniciou com a Primavera Árabe. O ciclo foi marcado por duas ondas: primeiro em 2011, depois em 2019. A turbulência econômica provocada pela pandemia e pela guerra na Ucrânia cria as condições possíveis para uma nova onda global de lutas. Neste ano, já houve protestos e tumultos em quase uma dúzia de países, desencadeados pelo aumento do custo de vida. O levante no Sri Lanka foi a luta mais intensa e duradoura deste ano e nos dá a indicação mais clara da dinâmica e dos limites do que pode vir a seguir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>II. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Por quase uma semana o Sri Lanka esteve a ponto de cair. Muitos dos principais edifícios do governo estavam ocupados, o presidente tinha fugido do país, as Forças Armadas haviam recuado. Mas se a revolução fosse adiante, havia o risco de o país mergulhar na anarquia. Não está claro quais condições serão necessárias para que as lutas ultrapassem esse ponto sem volta. Mas isso pode ser uma questão tanto de ideias quanto de circunstâncias materiais. Um passo para o desconhecido é sempre um salto de fé, feito por um sentimento de convicção, quando se acredita em algo tão firmemente que qualquer risco parece valer a pena. Navegar em mares tempestuosos sem naufragar também pode exigir um plano. Pode ser que sejam necessários revolucionários que possam dizer, com algum grau de confiança, como evitar que um processo insurrecional acabe em catástrofe.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>III. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">As lutas muitas vezes são derrotadas não pelo Estado, mas pelo <em>choque de sua própria vitória</em>. Uma vez que tenham pego impulso, os movimentos tendem a atingir os seus objetivos muito mais rapidamente do que qualquer um teria esperado. A queda do regime de Rajapaksa aconteceu tão rapidamente que ninguém considerou seriamente o que seria necessário em seguida. A janela que se abriu logo se fechou. O ar sufocante da normalidade encheu a sala.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146984 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy.jpg" alt="" width="1280" height="797" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-300x187.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-1024x638.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-768x478.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-675x420.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-640x399.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_24_-_Muvindu_Binoy-681x424.jpg 681w" sizes="(max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />IV. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma das primeiras palavras de ordem da <em>Aragalaya</em> foi <em>T</em><em>odos os 225 devem ir embora</em>, referindo-se aos membros do Parlamento. Foi um eco da presciente palavra de ordem do levante de 2001 na Argentina: <em>Que se vayan todos</em> &#8211; todos têm de ir. No caso da Argentina, ela surgiu em meio de uma crise econômica não muito diferente da crise atual no Sri Lanka. As multidões recusavam-se a sair das ruas até que todos os políticos que culpavam pela crise tivessem sido levados pela onda de tumultos. Ao longo de um mês, três governos diferentes foram derrubados. Hoje, a <em>Aragalaya</em> teme que continuar a exigir uma limpeza completa possa alienar grande parte do país e o mergulhe no caos. Mas a história ensina que é precisamente através desta anarquia que a Argentina conseguiu adquirir algum espaço para respirar. <strong>[3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>V. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">A <em>Aragalaya</em> se opôs à formação de um governo de todos os partidos ou de um governo de coalizão após a queda dos Rajapaksas. Apenas uma nova forma de poder — um Conselho Popular — poderia assegurar que as vitórias de 9 de julho não fossem revertidas. O Conselho seria composto por representantes da luta e teria o poder de vetar as decisões tomadas pelo governo interino. A proposta invoca o que no início do século XX teria sido chamado <em>Dualidade de Poder</em>. Nos primórdios da Revolução Russa de 1917, o Soviete atuou como um contrapeso à atividade do Governo Provisório, por vezes anulando suas decisões. Mas a dualidade de poderes reflete um verdadeiro equilíbrio de forças: o Soviete tinha por detrás dele uma verdadeira base social e uma força material. Esse equilíbrio de forças, no entanto, é sempre instável. Um poder sempre prevalece ao fim e suprime o outro. Dessa forma, <em>a dualidade de poder não pode ser separada da questão da insurreição</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VI.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez iniciada uma insurreição, qualquer eleição apenas irá conferir legitimidade ao velho regime, envolvendo-o com a legitimidade da revolução. A eleição de Ranil pelo Parlamento em 20 de julho ofereceu um caso exemplar dessa regra geral. Não há razão para acreditar que uma eleição geral, algo desejado por muitos participantes da <em>Aragalaya</em>, se desdobraria de forma muito diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente, Ben Ali e Mubarak fugiram dos seus países frente aos protestos populares. Na Tunísia e no Egito, o que foi chamado de um “processo constitucional” era, na verdade, um meio para os partidos no poder se reorganizarem, evitando qualquer ruptura decisiva. Ao realizar eleições com rapidez, o novo governo venceu duas vezes. Por um lado, ele estabelece uma legitimidade frágil que não pode ter a certeza de desfrutar enquanto ainda é autoproclamado. Mostra que as suas intenções são puras, que não pretende manter-se no poder. Por outro lado, impede que os “extremistas” tenham o tempo necessário para difundir as suas ideias. Após fevereiro de 1848, Blanqui tinha esses receios em mente quando convocou o adiamento das eleições, enquanto o governo provisório estava determinado a manter um ritmo acelerado. Blanqui conseguiu forçar ao menos um adiamento temporário quando cem mil proletários armados marcharam em frente ao Parlamento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VII.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma derrota política, e não militar, das Forças Armadas é possível, mas as suas condições de possibilidade precisam de ser repensadas para o nosso século. Uma situação revolucionária se abre quando as Forças Armadas são chamadas à rua mas se recusam a disparar contra a multidão. Tal situação ocorreu em 9 de julho, quando o exército acabou recuando enquanto multidões forçavam seu caminho para o Palácio Presidencial e o Secretariado. No entanto, o que muitas vezes acontece é que as mesmas Forças Armadas que recuaram durante o levante inicial ressurgem mais tarde como o árbitro final do destino da revolução, garantindo uma continuidade entre o velho regime e o que vem depois. Depois que as eleições de 20 de julho restauraram alguma legitimidade à presidência de Ranil, as Forças Armadas invadiram e desocuparam o Secretariado, o último edifício do governo que ainda estava ocupado. As revoluções do nosso século ocorreram em sua maioria em países onde os militares funcionam como um <em>Estado Dual</em>. As revoluções no Egito e no Sudão foram interrompidas abruptamente quando os militares tomaram o poder com um golpe de Estado. Pode ser menos provável que isso ocorra no Sri Lanka, onde, apesar de sua longa guerra civil, os militares não têm uma história de funcionamento como uma força política e econômica independente. Mas a revolução no Sri Lanka enfrenta outro risco. Países dilacerados pela guerra civil, como Sudão e Myanmar, viram a violência (que se espalhou por toda a periferia durante essas guerras) retornar ao centro durante o levante. Se as coisas continuarem a esquentar, esse é um destino possível da revolução no Sri Lanka.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-146985 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy.jpg" alt="" width="1280" height="797" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-300x187.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-1024x638.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-768x478.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-675x420.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-640x399.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_23_-_Muvindu_Binoy-681x424.jpg 681w" sizes="(max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />VIII.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As lutas encontram a sua força na sua capacidade de unir diferentes fragmentos do proletariado. A insurreição só foi bem sucedida porque, em todo o país, pessoas de todas as esferas da vida e comunidades encontraram a sua própria maneira de participar. Isso é particularmente importante numa sociedade como a do Sri Lanka, fundada em separações étnicas e religiosas e dilacerada por décadas de guerra civil. Essas tensões foram trazidas à tona mais uma vez após os atentados da Páscoa de 2019. Por outro lado, a <em>Aragalaya</em> entende-se como o primeiro movimento a reunir budistas cingaleses, tâmeis e muçulmanos numa luta contra o Estado. A luta também reuniu agricultores, pescadores, estudantes, motoristas de tuk tuk [triciclo], a esquerda tradicional e vários partidos da oposição. Monges budistas coabitavam com padres católicos e queers; profissionais com mobilidade social descendente lutavam ao lado dos pobres urbanos, imigrantes indianos trabalhavam lado a lado com os antigos partidários de partidos nacionalistas. No entanto, as separações presentes no resto da sociedade tendem a ressurgir dentro da luta, especialmente após seus primeiros sucessos. Esse tem sido um limite que as revoluções do nosso século não conseguiram ultrapassar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>IX.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As lutas antiausteridade tendem a adotar uma crítica à corrupção como uma ideologia espontânea. Num mundo cada vez mais dominado por homens fortes e autoritários, isso faz certo sentido, e particularmente no Sri Lanka, dada a forma como o clã Rajapaksa dominou a política nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, as críticas à corrupção deturpam a agência que o Estado realmente possui nas crises econômicas e sociais, uma vez que presume que o Estado poderia encontrar uma saída para a crise atual, que poderia optar por evitar a aplicação da austeridade, se quisesse. Essa confusão também ocorre porque as lutas antiausteridade tendem a resultar em um embaralhamento das cartas em vez de mudar o jogo. Após a queda do regime, as pessoas são confrontadas com o fato de a lógica estrutural da sociedade capitalista permanece em vigor. Os governos inaugurados pela revolução frequentemente se veem implementando medidas de austeridade semelhantes às que inicialmente desencadearam os protestos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse pode ser um passo necessário no caminho para uma crítica mais sistêmica. Os organizadores da <em>Aragalaya</em> falaram sobre isso como o desenvolvimento da <em>consciência de classe</em>. Após das eleições de 20 de julho, ficou claro para todos a unidade essencial de interesses entre a classe dominante. No entanto, pode ser correto pensar nisso como o desenvolvimento de uma <em>consciência do capital</em>. Para que a insurreição tivesse ido mais longe, teria de enfrentar a incerteza de como o país iria comer e viver enquanto a sua relação com o mercado mundial era interrompida. Afinal, somente através e dentro das relações da sociedade capitalista é que os proletários são capazes de se reproduzir. Esse é precisamente o limite e o que é posto em xeque pelas lutas de hoje. <strong>[4]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>X.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas são muitas vezes desencadeadas pela luta de um determinado grupo social. No entanto, à medida que o centro geográfico de uma luta muda, mudanças na composição de classe tendem a ocorrer. À medida que os protestos avançam para as grandes cidades, as classes médias urbanas inicialmente se tornam o centro de gravidade. Por exemplo, o levante no Sri Lanka começou inicialmente com protestos de agricultores no interior, depois mudou para os subúrbios ao redor de Colombo, depois para o coração da capital. Lá, as classes médias urbanas desempenharam um papel importante no início, especialmente nas ocupações. À medida que os protestos e as ocupações ganharam ainda mais força, Colombo foi então inundada por proletários de toda a cidade e do país, principalmente em 9 de julho. Após alcançar a capital, os protestos começaram a se espalhar por todo o país, mesmo que a capital mantivesse uma certa atração centrípeta. Essa concentração geográfica pode dificultar a participação de populações minoritárias, como os tâmeis, que se concentram no norte e leste do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a geografia da luta não se enquadra perfeitamente na geografia do poder. Alguns dos revolucionários do Sri Lanka argumentam que a próxima fase da luta terá que se descentralizar de Colombo e distribuir a atividade por todo o país. Isso levanta a questão de como seria realmente tomar e manter o poder e, portanto, o que a cartografia de uma futura insurreição poderia implicar. <strong>[5]</strong> Ao ocupar os salões do poder, a <em>Aragalaya</em> entendeu como se tivesse, em certo sentido, tomado o poder. No entanto, o Estado simplesmente continuou a funcionar pelas suas costas. Talvez esse tenha sido um passo necessário na revolução, mas inadequado para a tornar irreversível. Para alguns, o poder reside na infraestrutura, na “organização física da sociedade que constitui o seu verdadeiro poder.” <strong>[6]</strong> Mas qual infraestrutura, e o que significaria ocupá-la e reaproveitá-la, em vez de simplesmente bloqueá-la, especialmente em meio a um colapso econômico e uma potencial catástrofe?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XI.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas tendem a ser seguidas por um processo de organização, à medida que os militantes moldados pela onda de luta se encontram e desenvolvem formas de se preparar para as lutas que estão por vir. O Sri Lanka se beneficia de uma década de experimentos recentes noutras partes do globo. Talvez a experiência mais potente seja a do Sudão. Após um levante em 2013, ocorreu uma proliferação de comitês de resistência que se encarregaram de preparar a próxima onda de lutas. Isso significava, especificamente: manter os centros sociais dos bairros; construir a infraestrutura e armazenar materiais que achavam necessários; desenvolver redes nacionais e municipais de camaradas e simpatizantes; e testar a capacidade dessas redes por meio de campanhas coordenadas. Quando a revolução de fato chegou, no final de 2018, esses grupos puderam atuar como vetores de sua intensificação. Os comités de resistência também foram capazes de sustentar a revolução na sua fase seguinte, depois de o presidente Al-Bashir ter sido forçado a renunciar. <strong>[7]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-146986 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy.jpg" alt="" width="1280" height="797" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-300x187.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-1024x638.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-768x478.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-675x420.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-640x399.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/SL_21_-_Muvindu_Binoy-681x424.jpg 681w" sizes="(max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />Essa sequência de lutas também gerou experiências que não valem a pena imitar. Movimentos de massas são frequentemente seguidos por um impulso para formar partidos políticos capazes de disputar as eleições, como na Grécia ou na Espanha. Os seus primeiros êxitos tendem a esconder uma certa armadilha. À medida que a crise se aprofunda o suficiente, o Estado e o capital querem empurrar o peso de governar para os movimentos. Não há saída para a crise, então os movimentos se tornam responsáveis pela sua gestão. Uma vez que o movimento está no poder, ele rapidamente é desacreditado. Às vezes, a esquerda é até capaz de promover reformas ou políticas de austeridade que outro governo não seria capaz de fazer. No interior desse ciclo, os revolucionários descobriram a forma adequada para intervir nas lutas, mas não para tomar o poder.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XII. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">A crise não pode ser resolvida apenas no Sri Lanka. Com escassez de alimentos, combustível, dinheiro e outros produtos básicos, a ajuda de alguma forma terá de vir de fora da ilha. Por enquanto, a única ajuda disponível vem sob a forma de um resgate de emergência do FMI e ajuda de países como China e Índia. Um resgate do FMI é como jogarem uma boia salva-vidas enquanto se está boiando no meio do oceano. Pode oferecer um alívio temporário, mas não é uma solução e certamente não garante a sua sobrevivência. Ele simplesmente garante mais do mesmo: lutar para manter a cabeça acima da água.</p>
<p style="text-align: justify;">Os esforços revolucionários de hoje começam no isolamento, abandonados à repressão porque não é do interesse de nenhum poder existente apoiá-los. As explosões esporádicas de contestação revolucionária são combatidas por uma organização internacional da repressão, operando com uma divisão global de tarefas. Até agora, não existe uma organização prática do internacionalismo revolucionário para apoiar o movimento no Sri Lanka. No entanto, é somente através do aprofundamento dessa sequência de lutas, e dentro das constelações de forças que dela possam emergir, que um internacionalismo prático, capaz de quebrar o isolamento dos esforços revolucionários, pode tornar-se possível. <strong>[8]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>XIII.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As revoluções sempre encontram uma forma adequada ao seu conteúdo e à sua situação. No <em>GotaGoGama</em> e na proliferação de ocupações que dela se irradiaram, vislumbramos o contorno emergente daquilo que alguns começaram a chamar de Comuna de Galle Face. A comuna fornece uma base possível para a revolução social. Ela pode ser vista nas práticas com as quais o movimento se preocupa e através das quais se reproduz; em seus esforços para superar as separações da sociedade capitalista; e em sua tendência a se expandir. A cada passo em frente na luta, o movimento das ocupações se expandia: o acampamento em Galle Face crescia, novos acampamentos surgiam, novos edifícios eram ocupados. Alguns manifestantes reclamaram que os protestos eram caracterizados pela mídia como uma festa na praia. Mas a declaração da comuna é sempre marcada por um festival.</p>
<p style="text-align: justify;">As ocupações proporcionam espaço e contexto para que os participantes se encontrem, se organizem e tomem a iniciativa. Elas fornecem a infraestrutura necessária para que o movimento se reproduza; para se manter acima d’água durante as calmarias; e para subir com a maré, ganhando impulso através de momentos mais intensos de agitação. Sempre é mais fácil manter estes espaços do que retomá-los. O raio raramente cai duas vezes no mesmo lugar. Os revolucionários no Egito e Sudão aprenderam essa lição da maneira mais difícil.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida em comum que foi tentada em Galle Face Greene, em tendas, no frio, na chuva, cercada pela polícia sob a mais sombria das torres de Colombo, definitivamente não foi uma implementação completa da <em>vita nova</em> &#8211; foi apenas o ponto em que a tristeza da existência metropolitana começou a ser flagrante.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo que as últimas ocupações sejam eliminadas, isso não significa que a comuna tenha sido erradicada. Deve-se lembrar que os sovietes apareceram pela primeira vez na Revolução de 1905, apenas para ressurgirem novamente em 1917.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Todo o poder às comunas.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Agosto de 2022</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Imagens: Muvindu Binoy</em></p>
<p style="text-align: right;">Tradução de Marco Tulio Vieira a partir do original em <a href="https://illwill.com/paper-planes" target="_blank" rel="noopener">inglês</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Para uma cronologia mais detalhada do levante, ver <a href="https://passapalavra.info/2022/12/146826/" target="_blank" rel="noopener">“Notas sobre o Sri Lanka”</a>, Ill Will, 10 de agosto de 2022. Online <a class="urlextern" title="https://illwill.com/dispatches-from-sri-lanka]" href="https://illwill.com/dispatches-from-sri-lanka" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui.</a><br />
<strong>[2]</strong> A palavra cingalesa para luta.<br />
<strong>[3]</strong> Ver David Graeber, “The Shock of Victory” (2008). Online <a class="urlextern" title="https://crimethinc.com/2020/09/03/the-shock-of-victory-an-essay-by-david-graeber-and-a-eulogy-for-him]" href="https://crimethinc.com/2020/09/03/the-shock-of-victory-an-essay-by-david-graeber-and-a-eulogy-for-him" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.<br />
<strong>[4]</strong>. Ver Endnotes, “L.A. Theses” (2015). Online <a class="urlextern" title="https://endnotes.org.uk/posts/endnotes-la-theses]" href="https://endnotes.org.uk/posts/endnotes-la-theses" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.<br />
<strong>[5]</strong>. Sobre a geografia da insurreição, ver “The Kazakh Insurrection,” Ill Will, 23 de fevereiro de 2022. Online <a class="urlextern" title="https://illwill.com/the-kazakh-insurrection]" href="https://illwill.com/the-kazakh-insurrection" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.<br />
<strong>[6]</strong> .O Comitê Invisível, “Spread Anarchy, Live Communism.” Online <a class="urlextern" title="https://illwill.com/spread-anarchy-live-communism]" href="https://illwill.com/spread-anarchy-live-communism" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.<br />
<strong>[7]</strong>. Para mais informações sobre o Sudão, ver “Theses on the Sudan Commune,” Ill Will, 16 de abril de 2021. Online <a class="urlextern" title="https://illwill.com/theses-on-the-sudan-commune]" href="https://illwill.com/theses-on-the-sudan-commune" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.<br />
<strong>[8]</strong> Para mais informações, ver “The Kazakh Insurrection.”</p>
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		<title>Notas sobre o Sri Lanka</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 Dec 2022 13:45:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Sri Lanka]]></category>
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					<description><![CDATA[Depois de anos de opressão e apenas ter medo do Estado, ver jovens em pé nas barricadas gritando “não temos medo”, foi uma coisa enorme. Ill Will entrevista anarquistas no Sri Lanka]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Ill Will entrevista anarquistas no Sri Lanka</h3>
<h4></h4>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: center;">10 de agosto de 2022</h4>
<h4 style="text-align: center;">Anônimo</h4>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Em 9 de julho, centenas de milhares de birmaneses invadiram e ocuparam vários prédios importantes do governo, forçando o presidente Gotabaya [Rajapaksa] a renunciar e fugir do país. Esse foi o clímax de uma revolta de meses desencadeada pela pior crise econômica que o país viu desde a independência. No centro dos protestos está uma ocupação em expansão no coração de Colombo, a capital do país insular.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a poeira baixou, o então primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe, um aliado próximo da família Rajapaksa, foi eleito presidente pelo Parlamento em 20 de julho. Na noite seguinte, o último prédio do governo ocupado foi desocupado por soldados, assim como uma parte do principal acampamento dos protestos. Nas semanas seguintes, uma onda de repressão foi desencadeada, com numerosos ativistas sendo presos ou se escondendo. No momento em que publicamos isto, a polícia ameaça despejar a ocupação.</p>
<p style="text-align: justify;">Após o ataque de 22 de julho, <em>Ill Will</em> realizou duas entrevistas com anarquistas no Sri Lanka acerca de suas opiniões sobre o levante: seus limites, seus horizontes e como pode se dar a próxima fase. A primeira entrevista foi realizada por correspondência com um anarquista e jornalista que vive em Kandy, a segunda maior cidade do Sri Lanka. A segunda foi feita num café dos subúrbios de Colombo com J. e Z., dois anarquistas envolvidos numa tenda de distribuição de ajuda mútua na ocupação e que estiveram na linha de frente dos protestos desde o início.</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<div class="level3">
<h4 style="text-align: center;">Kandy</h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Ill Will: Você pode compartilhar a sua opinião sobre a situação atual? </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Mesmo após a renúncia de Gota [diminutivo de Gotabaya], o Sri Lanka continua preso ao mesmo grupo de políticos. O novo presidente, Ranil Wickremesinghe, manobrou para chegar ao poder por trás desse golpe público e reinstalou o mesmo gabinete. Milhões de birmaneses estão desapontados com essa reviravolta após meses de protestos. Alguns até acusam o movimento de protesto de ser uma espécie de quinta-coluna para Wickremesinghe e os seus apoiadores ocidentais. Enquanto isso, Wickremesinghe está exercendo todo o poder do Estado ao declarar um estado de emergência que dá aos militares e policiais poderes para reprimir os dissidentes. Os manifestantes dizem que vão continuar a lutar, mas ninguém sabe ao certo como, dado o talento extraordinário de Wickremesinghe como político astuto e sua reputação feroz por ter neutralizado brutalmente militantes de esquerda e ativistas durante a insurreição do Janatha Vimukthi Peramuna <strong>[1]</strong> (JVP) no final dos anos 1980 <strong>[2]</strong>.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Você pode falar um pouco sobre si mesmo e sua história?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Antes do <em>Occupy Colombo</em>, eu participava da cena ambientalista local. Muitas pessoas dos grupos ambientalistas eram ativistas sociais. Muitas vezes tínhamos conversas sobre política radical e de extrema-esquerda. Então, antes dos protestos <em>Gota Go Home</em> [Gota vá para casa], tínhamos afinidade com pessoas com ideias semelhantes, mas não tínhamos um “grupo” em si.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como você foi exposto pela primeira vez à política anarquista?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em 2016 entrei para o mercado de trabalho e rapidamente fiquei descontente com o meu trabalho. Isso me empurrou para grupos de esquerda no <em>Facebook</em>. Comecei a ler literatura comunista e durante esse tempo toda a onda populista de direita, com Trump, Bolsonaro, Duterte e Le Penn, se desenvolveu. À medida que me aprofundava na política de esquerda, comecei a ler Kropotkin e as obras de outros escritores anarquistas. Eu também descobri sites como <em>Crimethinc</em> e <em>Adbusters</em>, que me deram uma visão sobre a esquerda libertária. Quanto mais eu pesquisava a rica história do anarquismo, como a Guerra Civil Espanhola e o movimento do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) no Sul do México, mais eu estava convencido de que outro mundo era possível.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Existe uma tradição ou cena anarquista no Sri Lanka? Existem outros grupos com os quais você está em contato?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Não há movimento anarquista no Sri Lanka, mas há uma longa história da esquerda no país. Houve duas insurreições de inspiração maoista lançadas pela JVP no início dos anos 1970 e no final dos anos 1980. A maioria dos partidos políticos no Sri Lanka são progressistas e de esquerda apenas no nome, e foram formados como uma reação contra o imperialismo ocidental e o passado colonial do país. No entanto, assim como os regimes socialistas na América do Sul, estes chamados governos e partidos progressistas sempre foram reacionários e estatistas até o caroço e não se preocupam de verdade com a classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas há tendências anarquistas na sociedade do Sri Lanka. Essas tendências surgiram abertamente como resultado da crise financeira deste ano e do movimento de protesto. Mas nenhuma facção, partido ou grupo se inscreve abertamente no anarquismo ou mantém visões anarquistas no Sri Lanka. Não estamos em contato com grupos anarquistas no estrangeiro porque não estamos devidamente organizados e só seguimos ativistas individuais nas redes sociais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como foi o seu envolvimento nos protestos e na ocupação?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Participei de pequenas manifestações de rua às vésperas da insurreição em Mirihana, mas não estava pessoalmente lá no momento em que começou <strong>[3]</strong>. Ajudei os ativistas e os manifestantes quando a ocupação <em>Gota Go Gama</em> [Gama vá para casa] foi formada. As primeiras semanas foram fenomenais – foi provavelmente a primeira vez que os birmaneses testemunharam um protesto de ocupação em massa. Havia tendas de suprimentos que distribuíam comida gratuita para os manifestantes, ocupantes e visitantes; era um bom exemplo de ajuda mútua e solidariedade. Os protestos geralmente eram pacíficos, com apenas alguns confrontos com a tropa de choque da polícia.</p>
<p style="text-align: justify;">A maioria dos birmaneses não sabe que a polícia e os soldados estão lá para proteger o Estado. Como resultado, muitos estavam confraternizando abertamente com a polícia e pensaram que os policiais estavam “apenas fazendo o seu trabalho”. Os sentimentos antipolícia começaram a crescer quando a crise financeira realmente começou a pegar. Em seguida, a mão pesada do Estado apareceu com força total.</p>
<p style="text-align: justify;">Com exceção da extrema-esquerda, os birmaneses geralmente simpatizam com a polícia e as forças de segurança. De forma perturbadora, muitos, na maioria cingalesa, veem os militares como seus “salvadores” por esmagarem o separatismo tâmil durante a guerra civil. Mas, quando os cassetetes começaram a descer em suas cabeças em 22 de julho, eles ficaram perplexos. Alguns gritaram: “Vocês deveriam nos proteger!” Ignoravam o fato que a polícia e os militares são instrumentos do Estado.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146834 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-1024x683.jpg" alt="" width="640" height="427" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Que debates e divergências de perspectiva surgiram no movimento, ou dentro do seu próprio grupo?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Nós tivemos debates sobre tática e política. Tentei educar alguns dos ocupantes nas ideias anarquistas, mas isso não deu nenhum resultado. Os poucos que afirmavam ser anarquistas não se preocuparam em ser informados ou não tinham uma inclinação para serem organizados. Os manifestantes pensavam mais ou menos que o seu movimento popular tinha poder de barganha depois de deporem Gota. Eles presumiram que as tropas e a polícia se retirariam e os deixariam ocupar os prédios do Estado e ditar mudanças. Mas chegar até aqui é um milagre. Vejo como um primeiro passo para vencer muitas batalhas.</p>
<p style="text-align: justify;">A política de esquerda, como eu disse, foi tornada impopular aqui por partidos e grupos pseudo-esquerdistas, como a JVP. A maioria dos jovens vê a ideologia socialista com desprezo. Para eles, o socialismo é para professores universitários enfadonhos, estudantes universitários irritantes e políticos mentirosos que choramingam de cima de palanques por causa do “imperialismo ocidental”. Para os jovens, a República Democrática Socialista do Sri Lanka é um fracasso em comparação com as nações capitalistas mais prósperas. Os Tigres Asiáticos, como Hong Kong e Singapura, são vistos como o que o Sri Lanka poderia ter sido se tivesse adotado plenamente as políticas de livre mercado. Mas os birmaneses tendem a ignorar o fato de Hong Kong e Singapura serem Estados policiais brutais, incompatíveis com ilhéus descontraídos e tranquilos como eles. Os birmaneses não conhecem a esquerda libertária. Eles não ouviram falar de lugares como Rojava, o Estado Livre Ucraniano de 1918, a Catalunha na década de 1930 ou a atual Chiapas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais foram alguns dos grandes pontos de inflexão do movimento?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os maiores pontos de inflexão no movimento foram os dias 9 de maio e 9 de julho. No dia 9 de maio, o ex-primeiro-ministro Mahinda Rajapaksa mandou seus bandidos para desmantelar os locais de protesto em frente de Temple Trees e Galle Face <strong>[4]</strong>. Assim que esses capangas começaram a atacar o <em>Gota Go Gama</em>, pessoas de escritórios e bairros próximos e até trabalhadores portuários vieram em socorro dos ocupantes <strong>[5]</strong>. O que se seguiu foi uma noite de retribuição, quando muitas mansões e propriedades de políticos do governo foram incendiadas. Os apoiantes de Rajapaksa foram espancados e jogados no Lago da Beira, em Colombo. O dia 9 de julho foi apelidado de “Ultimato” [Endgame], por causa do filme da Marvel, e com razão. Milhares convergiram para o Palácio Presidencial e para o Secretariado Presidencial e o resto é história.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong> O que você vê como oportunidades perdidas durante a luta? Quais foram alguns dos limites ou obstáculos que a luta não conseguiu superar?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os anarquistas, ou aqueles com ideias anarquistas, não se organizaram bem para participar coletivamente dos protestos e apoiar a luta contra o Estado, ou para educar as pessoas que chegavam à ocupação. Os liberais e outras tendências políticas no movimento de protesto só queriam reformar o Estado, expulsando o grupo atual e escrevendo uma nova Constituição. Nós, anarquistas, entendemos que, se tudo o que conseguirmos forem acordos de curto prazo com os capitalistas que realmente controlam o Estado, os problemas do Sri Lanka apenas continuarão. Vimos o quanto essas corporações estão devastando o meio ambiente para dar lugar a plantações, fábricas e <em>resorts</em>. Entendemos que qualquer compromisso com a burguesia terminará em fracasso. A linguagem é uma das principais barreiras à difusão da nossa mensagem. Precisamos de encontrar tradutores dedicados que possam colocar literatura anarquista nos meios de comunicação cingaleses e tâmeis. Os anarquistas no Sri Lanka, sendo um grupo pequeno, e vendo a relutância das pessoas em relação ao anarquismo, geralmente postergam a confecção de quaisquer zines em cingalês ou tâmil.</p>
<p style="text-align: justify;">Formas de anarquismo verde, anarco-primitivismo e <em>guerrilla gardening</em> têm atraído os birmaneses, dada a nossa cultura pastoril e ao ambiente verde na ilha. Muitos do nosso povo anseiam pelos tempos simplistas em que a vida estava em equilíbrio com a natureza.</p>
<p style="text-align: justify;">Oficialmente, o movimento de protesto adere ao princípio da não-violência. Mas, ironicamente, os seus momentos mais importantes, 9 de maio e 9 de julho, foram definidos pela violência e pela ação direta. As “tropas da linha de frente” mais importantes nestes protestos são a Federação Interuniversitária de Estudantes (IUSF), coloquialmente chamada <em>Anthare</em>. A <em>Anthare</em> emprega um estilo muito agressivo de protesto e muitas vezes lidera o ataque contra a tropa de choque. A <em>Anthare</em> é formada pelos resquícios dos movimentos estudantis de extrema-esquerda da JVP e são acusados pelos liberais de tenderem para uma postura destrutiva. Os liberais, no entanto, marcham atrás da <em>Anthare</em> até que todo o gás lacrimogêneo desapareça e a luta mais dura acabe, e depois levam todo o crédito.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como você espera que seja a próxima fase da luta?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Dada a reputação de Ranil Wickremsinghe como um repressor brutal e político astuto, o movimento enfrentará muitos desafios que não enfrentou nos meses anteriores. As forças reacionárias e fascistas estão se reagrupando neste momento e vão lançar contra-ataques para se vingar da humilhação que sofreram no dia 9 de maio. Ouvimos dizer que o aparato estatal está identificando os principais líderes dos protestos na esperança de intimidar ou subornar. Sabemos também que os agentes políticos e as fábricas governamentais estão trabalhando duro para desviar e desacreditar a dissidência pública.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que significaria vencer?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A vitória final seria que o povo do Sri Lanka se levantasse como um só, derrubasse os seus senhores e se apoderasse dos meios de produção. A ilha seria organizada em torno de coletivos de trabalhadores e agricultores totalmente autônomos, livres para tomar suas próprias decisões e construir uma terra verdadeiramente libertária. O Sri Lanka existiu de forma autossuficiente durante séculos. Se o país estiver livre da tirania do Estado e do capital, seria praticamente uma utopia onde as pessoas vivem para si mesmas e não para a baboseira de um Estado-nação.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais são as lições do Sri Lanka para as lutas em outros lugares?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Sri Lanka ensina que os protestos espontâneos podem enfraquecer a vontade de um regime tirânico. Também ensina a importância da solidariedade porque uniu muitas correntes políticas e ideologias em torno de um propósito, como a Guerra Civil Espanhola.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que as pessoas fora do Sri Lanka podem fazer para apoiá-los?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Precisamos que mais anarquistas do exterior nos visitem e nos ensinem sobre organização. Aprender com os livros é bom, mas estamos severamente limitados quando se trata de experiência. Gostaríamos muito de aprender com levantes indígenas como o de Chiapas, no México; e com anarquistas na Grécia, sobre como eles se organizaram durante a crise financeira lá.</p>
<p style="text-align: justify;">Também temos grande falta de recursos políticos, como o acesso à literatura política. Estamos procurando uma boa impressora para podermos fazer zines, cartazes e adesivos para espalhar informações. Pessoalmente, penso que o primeiro passo para nos organizarmos aqui seria construirmos um pequeno centro de comunicação social com uma impressora e computadores para podermos interagir com anarquistas no estrangeiro e imprimir material. Aí, uma vez que os nossos grupos sejam suficientemente grandes, podemos avançar para ações diretas. Antes de julho, alguns de nós tinham planos de fazer grandes pinturas nos prédios, mas é especialmente desafiador devido ao atual estado de emergência. Mesmo pequenos delitos podem ser punidos desproporcionalmente, com ativistas tendo de enfrentar longas batalhas judiciais e longas penas de prisão. As viagens e a mobilidade são enormes problemas que enfrentamos neste momento devido à escassez de combustível no Sri Lanka. Alguns de nós estão usando bicicletas para se locomoverem, mas mesmo o preço das bicicletas subiu devido à enorme procura.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que planeja fazer agora?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Nos organizarmos em grupos de afinidade para planejar os nossos próximos passos e decidir o que é necessário fazer agora.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>(26 de julho de 2022)</em></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146836 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-1024x754.jpg" alt="" width="640" height="471" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-1024x754.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-300x221.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-768x566.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-1536x1131.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-570x420.jpg 570w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-640x471.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-681x502.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: center;">Colombo <strong>[6]</strong></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Em primeiro lugar, você pode compartilhar a sua opinião sobre a situação atual?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Honestamente, todos nós estamos experimentando algum nível de medo por causa da repressão conduzida pelo Estado e da recente caça às bruxas. Mas também estamos frustrados e irritados pelo fato de, após quase quatro meses de protestos, não termos chegado nem perto de alcançar o que nos propusemos a fazer. Ainda há uma grande parte da população que sente que ganhamos simplesmente porque mandamos Gotabaya e os Rajapaksas para casa. Em primeiro lugar, aquela foi uma vitória simbólica. E em segundo lugar, eles não foram realmente mandados para casa; enquanto Ranil Wickremesinghe permanecer no poder, eles estão apenas nos bastidores, esperando o momento certo para voltar. Então, estamos numa espécie de fase de esperar para ver.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece um jogo premeditado que eles estão jogando com os Rajapaksas e Ranil no poder agora. Há tantas coisas que poderiam ser feitas neste momento para resolver a crise em que este país se encontra. No entanto, o foco deles tem sido principalmente reprimir as manifestações e ir atrás dos manifestantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Ranil, que é um dos políticos mais fracassados da história do Sri Lanka, esteve envolvido em inúmeras fraudes e alegações de fraudes, além de estar ligado aos campos de tortura dos anos 1980. Ele nem sequer foi eleito para o Parlamento no seu próprio distrito eleitoral. Ninguém queria que Ranil chegasse ao poder. As pessoas sabiam que ele estava lá apenas para proteger os Rajapaksas. As cartas acabaram de ser embaralhadas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Você pode falar um pouco sobre como tem sido a repressão?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">As pessoas estão sendo presas pelo seu envolvimento na Aragalaya [palavra que significa “luta” e tem sido usada para definir os protestos de 2022]. Foi declarado um estado de emergência, que está sendo usado como pretexto para prender quem quer que seja a qualquer momento. Eles não precisam nem de um mandado de busca para te levar. Vimos aquele cara, o Danish Ali, sendo arrastado para fora de um avião. Eles vão atrás de qualquer um que tenha se destacado, qualquer um que apareça nos vídeos que viralizaram. Até mesmo o cara que contou e entregou o dinheiro que foi encontrado no Palácio Presidencial foi preso, junto com seus quatro amigos. Estão indo atrás de pessoas que roubaram o ferro de passar do presidente ou a bandeira dele. Coisas assim, entende? É bem estúpido.</p>
<p style="text-align: justify;">Começou assim. Mas agora eles têm uma equipe trabalhando para rever todas as imagens de todos os protestos e identificar os rostos das pessoas que apareceram em vários protestos, qualquer pessoa que esteja mais ativamente envolvida. Querem apenas nos arrastar para o sistema judicial, mesmo que não sejamos necessariamente presos. Eles só querem fazer da nossa vida um inferno. Na verdade, não há espaço suficiente nas prisões e há pessoas demais envolvidas neste movimento para poderem prender todo mundo. É mais para fazer com que todos tenham medo, para que deem um passo para trás e o movimento se dissipe lentamente.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como tem sido o envolvimento de vocês?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Nós estivemos envolvidos na organização de alguns protestos. Houve os “protestos de bolso” para elevar o moral. As pessoas sentiam que a Aragalaya estava muito limitada aos locais da ocupação, que se tornaram muito politizados de várias maneiras. Por isso, fizemos uma pressão para que as pessoas começassem a protestar de novo nos seus bairros e em entroncamentos. Fizemos uma série de protestos chamados “Sextas-feiras de Liberdade” [FreedomFridays]. Vários grupos foram formados nos bairros, separados da Aragalaya.</p>
<p style="text-align: justify;">O nosso grupo organizou um protesto na porta do Ministério da Eletricidade e do Alto Comissariado Indiano contra as relações corruptas entre Gotabaya e o primeiro-ministro indiano [Narendra] Modi. Porque parecia que eles estavam explorando a crise para assumir e monopolizar os projetos de energia no Sri Lanka. Sem o nosso grupo, isso não teria acontecido. Podemos ser processados pela Índia. De acordo com a Anistia [Internacional], eles têm um arquivo sobre todas as pessoas que estavam na porta do Alto Comissariado Indiano naquele dia. Mas foi um protesto específico muito importante que teve de acontecer.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como foi tocar uma tenda de distribuição de alimentos?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Meu Deus, super agitado. No início, eles tentaram fazer uma escala para os voluntários. Mas simplesmente não deu certo. Então as pessoas apenas vinham sempre que podiam. Havia muitos egos conflitantes, muitas picuinhas e brigas. Porque as pessoas estavam sem dormir. As pessoas passavam a noite acordadas há muito tempo. As pessoas estavam frustradas.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi uma loucura. Havia filas, filas e filas de pessoas querendo comer. Não estávamos alimentando apenas as pessoas no protesto. Havia outras pessoas das aldeias e dos limites da cidade de Colombo que simplesmente vinham porque havia comida de graça. Com a crise alimentar, Galle Face tornou-se um lugar para conseguir comida de graça. A principal prioridade da tenda de distribuição em que estávamos envolvidos era sustentar as pessoas que estavam ocupando o espaço. Sempre havia coisas reservadas para as pessoas que estavam participando da ocupação. Todo o resto era distribuído para as pessoas que passavam em Galle Face.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse momento, estava fervendo. Havia filas de pessoas do lado de fora da tenda. Nós distribuíamos pacotes de arroz, pães, bebidas e pacotes de biscoitos. Havia também produtos de limpeza, roupas, capas de chuva, tudo o que você puder pensar. Álcool em gel, medicamentos, tudo. E era frenético. As pessoas se aglomeravam em volta da tenda. Tínhamos de ter pessoas na frente e atrás da tenda para manter as pessoas nas filas, para evitar que as pessoas roubassem, para impedi-las de furar a fila. Havia também a batalha constante contra o clima, o telhado voando, manter toda a comida seca e retirar a comida a tempo para que não estragasse. Os voluntários caíam constantemente entre os <em>pallets</em> no chão, quase quebrando os tornozelos. Foi uma loucura. No seu auge, Galle Face estava explodindo de gente, as tendas de distribuição de alimentos estavam completamente lotadas. Tínhamos de continuar expandindo e a reorganizando tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia tanta coisa acontecendo lá. A ocupação ficava agitada e depois calma, agitada e calma. O cinema passava filmes. Havia shows. A biblioteca tinha um fluxo constante de pessoas. Havia uma universidade, uma universidade popular, com aulas todos os dias. Diria que tudo atingiu seu auge entre abril e maio. Então tivemos de reconstruir após o ataque do dia 9 de maio. Também foi como um espaço em constante mudança e evolução. Estávamos lá todos os dias e havia muito o que fazer… Tudo isso enquanto respirávamos gás lacrimogêneo.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais foram os grandes pontos de inflexão do movimento? </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O primeiro protesto em massa em toda a ilha foi planejado para o dia 3 de abril. O governo acionou a repressão com um toque de recolher em toda a ilha. Derrubaram as redes telefônicas e bloquearam o acesso às redes sociais. Isso galvanizou as pessoas: até os que estavam em cima do muro no dia 2 de abril e não tinham certeza se iriam para a rua apareceram no dia 3. A repressão desse Estado ao nosso direito de protestar realmente acendeu um fogo. Então, quando esse toque de recolher foi encerrado no dia 4 de abril, foi enorme. Também no dia 3 de abril, quando esse toque de recolher foi imposto, muitas pessoas ainda se aventuravam nas ruas, protestando nos seus territórios, nos seus bairros, nas suas ruas, fora de suas casas. Levando em consideração o nível de medo em que as pessoas viviam no regime de Rajapaksa, minar o poder de Gotabaya quebrando o toque de recolher foi um grande ponto de inflexão. As pessoas estavam começando lentamente a perder o medo e a sentir o seu próprio poder. O sentimento era: “OK, somos parte de algo muito maior”.</p>
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</div>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Depois disso, foi em 9 de abril, quando o protesto em massa começou em Galle Face, virando mais tarde uma ocupação. As pessoas estavam lá durante uns dois ou três dias para protestar, e algumas não saíram mais. Elas tinham vindo de fora de Colombo, por isso não podiam simplesmente voltar para a sua cidade ou para as suas casas à noite. Então, muitas passaram a noite e começaram a ocupar o espaço. E então a ocupação se converteu numa aldeia. Não ficamos sabendo de nenhum plano para uma ocupação, e ninguém que eu conheço ficou sabendo. Acabou virando uma ocupação espontaneamente. Isso estimulou a formação de ocupações semelhantes em todo o país. Outro grande ponto de inflexão foi em 9 de maio, quando houve um ataque patrocinado pelo Estado contra os manifestantes em Galle Face e outros locais em todo o país. Capangas armados destruíram o acampamento, queimaram coisas e atacaram os manifestantes. Vimos estas forças com os nossos próprios olhos, e a polícia estava apenas deixando tudo isso acontecer. A barricada da polícia deixou eles entrarem. Metade da multidão de Colombo apenas se aproximou e atacou os capangas pró-governo. E muitas pessoas fugiram de volta para as suas aldeias. O exército estava abrigando esses capangas pró-governo quando nosso pessoal começou a atacá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso realmente atraiu um apoio maciço do resto do público. As pessoas que ocupavam esses espaços eram vistas como os jovens da nação que lutavam pelos direitos de todos. Toda a manobra realmente saiu pela culatra para eles, e o 9 de maio acabou reforçando o movimento. Nesse dia muita gente ficou com raiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Então veio o 9 de julho, quando tivemos o Ratama colombata, o protesto “todo o país para Colombo”. Alguns jornalistas informaram que até dois milhões de pessoas estavam nas ruas naquele dia <strong>[7]</strong>. Foi um grande ponto de inflexão. A poeira não baixou por alguns dias. Os manifestantes ficaram por lá e continuaram a protestar. Estávamos bem na frente do portão do Palácio Presidencial quando as pessoas começaram a derrubá-lo. Havia tantas pessoas que não podíamos nos mover, por isso, quando fomos atingidos pelo gás lacrimogêneo, não podíamos fugir. Foi realmente agitado. Esse foi o dia em que os três prédios do Estado foram tomados. E então, em 13 de julho, um quarto edifício foi tomado.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto de inflexão ocorreu em 22 de julho, quando tropas sob as ordens de Ranil entraram no GGG [<em>Gota Go Gama</em>] e destruíram metade do acampamento e atacaram os manifestantes novamente. Uma coisa que também tem de ser dita é que, mesmo antes de 3 de abril, a partir de fevereiro, houve protestos esporádicos em todo o país, principalmente nas zonas rurais. Protestos de pescadores e de agricultores. Esta é a primeira vez que uma crise dessa magnitude une a todos numa frustração comum, porque de uma forma ou de outra afeta a todos nós. Não era algo isolado que o resto pudesse simplesmente ignorar porque não os afetava. Mas os protestos começaram a acontecer mesmo em fevereiro.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como foi o momento anterior ao 9 de julho?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Fizemos inúmeras reuniões para elaborar estratégias para angariar apoio público e envolver mais as pessoas, mesmo que não fosse necessariamente para visitarem o local de ocupação.</p>
<p style="text-align: justify;">No período que antecedeu o dia 9 de julho, vimos muitas pessoas compartilhando coisas nas redes sociais. Mas já tínhamos visto isso ao longo desses quatro meses. Foi somente na manhã do dia 9 que realmente percebemos o quão grande seria. Mesmo quando chegamos lá, acho que não imaginávamos o quão grande era ou ia ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos estavam preocupados de que o apoio popular estivesse diminuindo e que iríamos perder. Eu mantive um diário durante todo o tempo. E quando volto e leio, há algumas páginas onde escrevi: <em>“Tive muita esperança no início deste movimento, mas agora estamos perdendo. Não temos mais apoio. O GGG está vazio. Os protestos estão cada vez menores e mais raros”.</em> E então, no dia 9 de julho, houve um comparecimento enorme.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi então uma surpresa agradável para muitos de nós. Mas houve muita celebração desnecessária, na minha opinião. Nessa altura, ainda não tínhamos visto a demissão de Gotabaya ou qualquer uma das mudanças que esperávamos que viessem desse movimento. As pessoas estavam celebrando mais o fato de tantos terem ido às ruas, o que era um motivo para celebrar. Mas ainda não tinha acabado naquele momento.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong> Por que você acha que muitas pessoas vieram no dia 9? </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Houve um entusiasmo muito grande. Houve muita tração nas redes sociais por volta do dia 9. A informação circulou muito dessa forma. E mais, havia muitos grupos envolvidos na divulgação de informações.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a situação econômica tinha acabado de piorar ainda mais. As pessoas estavam desesperadas. Para começar, o fato de esse movimento ter florescido foi inteiramente por causa da frustração e do desespero ter chegado a este nível: sentar-se em filas, não poder alimentar seus filhos, não ter acesso a cuidados médicos ou aos medicamentos necessários. De todos os ângulos, as pessoas estavam completamente fartas. Quando o protesto “todo o país para Colombo” começou a se espalhar, as pessoas sentiram que “OK, este será o último empurrão” para realmente tirar esses narcisistas do poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Já tínhamos pobreza no Sri Lanka antes dessa crise econômica. Mas só piorou. Falamos de uma perspectiva privilegiada de classe média. Mas a maioria das pessoas que foram para a rua no dia 9 não eram. Éramos uma minoria muito pequena. Foi a frustração que levou as pessoas a usarem sua última gasolina e diesel para irem a Colombo para esse protesto.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Havia um plano para ocupar os prédios ou isso aconteceu espontaneamente?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Acho que foi meio a meio. Há muitos grupos dentro do Galle Face com ideias diferentes sobre qual deve ser o objetivo principal. Mas todo mundo sabia que íamos marchar para aquele prédio, mesmo que ninguém soubesse que tipo de resistência iríamos ver das forças do Estado. Elas nos receberam com gás lacrimogêneo e canhões de água. Houve policiais em trajes civis que atacaram brutalmente os manifestantes com cassetetes enquanto eles pulavam as barreiras. Mas todos esses obstáculos foram tornando-se inúteis porque havia tantas pessoas, então a multidão superou tudo e rompeu todas as barricadas. E depois da última barricada, tudo o que restava era apenas chegar lá, o que as pessoas acabaram conseguindo. O Estado estava disparando com munições de verdade e as pessoas ficaram feridas. Mas, quando a multidão chegou à entrada do prédio, não havia mais nada a fazer a não ser entrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós nem sequer sabíamos que o Secretariado e o <em>Temple Trees</em> haviam sido tomados até tentarmos atravessar essa multidão e voltar para a estrada principal. Só então nos demos conta de toda a extensão do que tinha acontecido naquele dia. Já que todos os prédios ocupados foram tomados aproximadamente ao mesmo tempo, é tentador dizer que tinha de haver algum nível de organização e comunicação. Mas foi meio a meio.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que aconteceu entre 9 e 13 de julho? </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Nos dias seguintes ao dia 9, a máquina de propaganda do Estado trabalhou arduamente para destacar os saques e danos às propriedades do Estado ocorridos durante esses poucos dias. Algumas pessoas que estiveram ao redor do movimento por algum tempo argumentaram que isso é propriedade pública, que os reparos sairiam do dinheiro dos contribuintes e fizeram tudo ao seu alcance para proteger essas propriedades e evitar saques, roubos e danos. Mas, honestamente, era apenas anarquia. Estava completamente fora de controle e aqueles que tentaram controlar a multidão estavam em menor número.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146835 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-1024x683.jpeg" alt="" width="640" height="427" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-1024x683.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-1536x1024.jpeg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-681x454.jpeg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp.jpeg 1920w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Sempre que os manifestantes ocupavam prédios do Estado, havia sempre um grupo de pessoas super violentas que tentavam destruir a propriedade do Estado. Além de quebrarem as barricadas, <a href="https://www.cnn.com/videos/world/2022/07/09/sri-lanka-prime-minister-ranil-wickremesinghe-house-fire-protest-vpx.cnn" target="_blank" rel="noopener">houve incidentes</a> em que algumas pessoas simplesmente invadiram os prédios e colocaram fogo. Isso aconteceu na casa do Ranil no dia 9. Havia o risco de o incêndio se espalhar para as casas ao redor, mas essas mesmas pessoas não deixaram os caminhões de bombeiros entrarem.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso nos fez perder muito apoio da população em geral, que disse: “Veja o que esses manifestantes fizeram. Eles foram lá e destruíram esses prédios”. Alguns acham que isso impactou negativamente no apoio ao movimento aos olhos do público. Durante semanas, tudo o que falaram no Parlamento era o fato de as casas desses ministros terem sido incendiadas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que você vê como oportunidades perdidas </strong><strong>pelo movimento até agora?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Naquele momento, me pareceu um erro ter desistido dos prédios que tinham sido ocupados no dia 9. Parecia ser a nossa única alavanca para alcançar qualquer uma das mudanças que queríamos, especialmente porque Gotabata não tinha renunciado ainda. Talvez os prédios pudessem ter sido usados como um trunfo para se livrar de Ranil?</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, com a visão retrospectiva de algumas semanas, provavelmente isso está equivocado. Não havia outra opção. Com a pressão da Ordem dos Advogados na época, e o fato de, entre os dias 9 e 13, termos perdido muito apoio popular, não houve escolha. Especialmente porque era quase impossível controlar as multidões dentro dos prédios ocupados. O público desenvolvia uma visão cada vez mais negativa da Aragalay todos os dias, vendo os protestos como a destruição da lei e da ordem. Além disso, se as forças do Estado tivessem decidido entrar e usado a força contra as pessoas que ocupavam os prédios, poderíamos ter visto derramamento de sangue. Então, será que foi uma jogada inteligente, pensando na vida das pessoas envolvidas no movimento? Mas, naquele momento, me pareceu um erro.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais são os principais debates que ocorreram no interior do movimento?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Desde o início, havia divisões abertas entre apartidários e esquerdistas, e entre uma ideologia mais anarquista e tipos mais constitucionais que queriam ver as coisas sendo feitas de acordo com o Estado de Direito e tal <span class="ILfuVd" lang="pt"><span class="hgKElc">–</span></span> mesmo que nossa Constituição seja uma merda arcaica. Há um grande debate sobre se o movimento foi tomado ou sequestrado pela esquerda. Ao longo dos períodos de insurgência na nossa história, muitas pessoas perderam a vida. A geração mais velha que viveu esses períodos ainda tem memórias de sangue nos rios e corpos em todos os lugares. Esse medo da esquerda foi capitalizado por grupos que queriam que perdêssemos o apoio popular. Houve uma forte presença de esquerda em toda a Aragalaya desde o início. E ainda há.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem grupos como a Federação Interuniversitária de Estudantes (IUSF, também conhecida como <em>Anthare</em>) e as federações de professores, sem os sindicatos que organizaram um <em>hartel</em> (uma greve em toda a ilha), nada disso teria sido possível. Tudo isto contribuiu para pressionar o governo. As pessoas ficavam felizes em usar tais grupos quando parecia útil, e depois se viravam no dia seguinte e diziam: “Oh, a esquerda está sequestrando esse movimento”. É como aquela coisa do Scooby-Doo, onde eles tiram a máscara e revelam que “na verdade, foi a JVP o tempo todo”. De fato, eles estiveram presentes, mas o movimento não foi todo dirigido pela JVP, nem foi tomado pela JVP ou pela esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe ainda, de certa forma, uma ocupação militar do Norte e do Leste [do país]. Essa é uma das questões mais importantes do orçamento do governo, já que desde o fim da guerra civil, que foi apenas em 2009, não houve diminuição do orçamento militar. Os tâmeis do Norte e do Leste são oprimidos há gerações. Eles lidam com este tipo de questões há gerações. Os cortes de energia, a falta de combustível, a falta de acesso a remédios, a opressão do Estado, a brutalidade policial. Eles lidavam com tudo isto antes da guerra, e ainda estão lidando agora que a guerra terminou. Essas são coisas contra as quais eles vêm protestando há gerações também. Mas quase não houve nenhuma cobertura disso nos meios de comunicação que atingem o resto do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando esse movimento começou, muitos desses grupos do Norte e do Leste, a minoria tâmeis, olharam para ele e acharam engraçado. São coisas com as quais eles lidam desde a infância. Agora que afetou a maioria cingalesa, as pessoas do sul, de repente tornou-se este movimento em toda a ilha e que foi colocado em um pedestal. “Uau, veja o que estas pessoas conseguiram protestando. Que coragem elas tiveram para protestar”. Mas, na verdade, éramos pessoas privilegiadas que sabiam que haveria segurança de certa forma.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia um memorial no GGG para o massacre de Mullaitivu, que aconteceu no final da guerra civil. Houve muita resistência em torno disso. Alguns pensaram que iria desacreditar a Aragalay associando-o aos LTTE <strong>[8].</strong> Afinal, tudo o que pode é tirado do contexto e usado contra nós. Outras pessoas argumentaram que, se não podemos ter um memorial desse tipo, como podemos dizer que o GGG e este movimento trouxeram a unidade que todos estão celebrando?</p>
<p style="text-align: justify;">Houve muitas discussões menores que surgiram ao longo de todo o movimento. Mesmo sobre a ocupação dos prédios nas últimas fases. Algumas pessoas estavam em conflito sobre como as coisas eram tratadas e como as multidões eram controladas.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas pessoas discordaram da forma como a comida gratuita era distribuída. “OK, agora isso está se tornando quase um sopão para pessoas que nem necessariamente são manifestantes. Elas só vão lá para comer”. Mas como não dar comida a pessoas famintas que estão famintas por causa da crise econômica contra a qual estamos lutando, só porque não são manifestantes como nós? E de qualquer forma, mais pessoas foram trazidas para Galle Face.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146839 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-1024x683.jpg" alt="" width="640" height="427" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Qual o papel que a esquerda e os vários partidos políticos desempenharam nos acampamentos e no movimento em geral?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Quantidade. Eles agregaram pessoas, com certeza. Mas também, devido à natureza da IUSF e de facções semelhantes, tendo estado envolvidos neste tipo de protestos durante anos, enfrentar o gás lacrimogêneo, as barricadas e os canhões não era realmente novidade para eles. Até certo ponto, eles assumiram um papel de liderança no início, estando na linha de frente, porque isso não era nada novo para eles. Eles fazem isso há anos. Para muitos de nós que aderiram a este movimento, foi a primeira vez que experimentamos a sensação de gás lacrimogêneo, ou de batalhar cara a cara com um oficial de polícia. Eles nos mostraram que não há nada a temer, que podemos fazer isso. Sempre que estes grupos entravam, vinham com milhares de pessoas. Realmente nos deu a moral e os números de que necessitávamos para conseguir tudo isto. Mas isso de modo algum significa que se tratava de um movimento da JVP. Porque havia tantos outros grupos, facções e indivíduos presentes por toda parte.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais são alguns dos debates que ocorreram no interior do seu próprio grupo?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Algumas pessoas recusaram-se firmemente a sentar na mesa com os políticos, e se mantiveram firmes nessa posição. Outros mudaram de ideia e juntaram-se a reuniões com políticos, à excepção do partido Pohottuwa <strong>[9]</strong>. Ninguém sabia realmente qual era a coisa certa a fazer. Mas surgiu uma barreira entre as pessoas que se encontraram com os políticos e as que não se encontraram.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais foram os principais limites que o movimento encontrou?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Essa é a primeira vez no Sri Lanka que grupos de pessoas com diferentes identidades de gênero, classe e contexto socioeconômico se reúnem. Era uma mistura de pessoas diferentes. Naturalmente, pessoas que eram semelhantes se uniram. Mas houve muita contaminação cruzada e composições. Muitas barreiras de gênero, idade e classe também foram quebradas, o que foi uma coisa enorme. Penso que esta foi uma das maiores consequências destes protestos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas dentro do GGG, vimos as mesmas questões da sociedade em geral refletidas lá. Embora houvesse um nível de unidade sem precedentes e a quebra de barreiras de classe, gênero e raça, o movimento ainda era dominado por homens falantes de cingalês. Ainda havia uma minoria de mulheres nos megafones. E as minorias ainda eram minorias, mesmo dentro do movimento. Mesmo que houvesse definitivamente mais aceitação e mais inclusão, há um longo caminho a percorrer antes de enxergamos o tipo de país que queremos ver.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Essas divisões tornaram-se mais intensas ou mesmo rachas em algum momento?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Acho que foi um pouco sutil. Estávamos num protesto em Fort e tínhamos muitos amigos da comunidade LGBT conosco. Eles estavam sendo discriminados por outros manifestantes por carregarem a bandeira do orgulho LGBT [bandeira arco-íris]. Então, havia pequenos problemas como esse. Eu não diria que são mesmo grandes desentendimentos, mas meio que desentendimentos menores e mais sutis, onde ainda não há unidade possível.</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre era uma minoria que ficava irritada, e eles nunca causaram um escândalo grande o suficiente sobre isso, porque queriam priorizar os principais objetivos do movimento. Faço parte do círculo de mulheres do GGG. Têm havido queixas constantes feitas por mulheres de que poucas mulheres falam em conferências de imprensa, poucas mulheres falam no megafone, poucas mulheres estão envolvidas na organização e na elaboração de estratégias. Então essas queixas existiram. A tenda comunitária LGBTQIA+ só foi montada recentemente. Havia amigos trans que eram discriminados e enfrentavam muitas dificuldades e assédio apenas por estarem lá. Havia coisas assim por toda a parte. Todo mundo meio que trabalhou nisso com o melhor de suas capacidades. Mas não foi como se todas essas questões desaparecessem por completo. Era como se a sociedade em geral estivesse exatamente refletida lá.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas das pessoas no GGG que estavam armando tendas e a ficando por lá não eram receptivas às ideias de pessoas como nós. Porque nunca ficávamos lá fisicamente nas tendas. Já que estávamos lá desde o início, ganhamos o respeito e viramos camaradas das pessoas da biblioteca e pessoas da cozinha e outros grupos. Nos ajudamos mutuamente. Mas certas tendas sempre nos olhavam como forasteiros.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve uma certa desconexão na comunicação entre os manifestantes que ocupavam e os que não ocupavam. Para alguns de nós que não estavam lá ocupando, parecia que estávamos sendo excluídos de certos processos de tomada de decisão e reuniões.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Você sentiu que as pessoas se radicalizaram ao longo do movimento?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Definitivamente. Muitas dessas pessoas nunca teriam pensado que iriam quebrar barricadas e enfrentar gás lacrimogêneo e sofrimento. Depois de anos de opressão e apenas ter medo do Estado, ver jovens em pé nas barricadas gritando <em>Api baya nah!</em> <span class="ILfuVd" lang="pt"><span class="hgKElc">–</span></span> o que significa <em>não temos medo</em> <span class="ILfuVd" lang="pt"><span class="hgKElc">–</span></span> foi uma coisa enorme.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma coisa que eu testemunhei pessoalmente: havia uma garota que era uma atriz de teatro que estava envolvida nesses protestos. Ela era muito pequena e um dia eu a vi ser atingida por um canhão de água. Ela caiu no chão, seus óculos voaram e ela ficou gravemente ferida. Mas naquela tarde no acampamento, eu a vi sorrindo e falando sobre outras coisas, como se não fosse grande coisa. É uma coisa tão bonita de se ver, porque as pessoas foram tão radicalizadas por este movimento. É como se fosse uma coisa normal para eles.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como pensa que será a próxima fase da luta agora que Ranil está no poder?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Penso que é definitivamente uma mudança de capítulo. Não creio que as estratégias que usamos para nos livrar dos Rajapaksas possam ser aplicadas a Ranil, porque ele tem a fama de ser um político sagaz na forma como faz as coisas. Então, atualmente, é com a guerra de propaganda que estamos tendo de lidar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais são as lições do Sri Lanka que podem ser úteis em outros lugares?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Se as pessoas se encontram em situações econômicas e políticas semelhantes, não esperem. Comecem a se organizar e planejar estratégias agora.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que planeja fazer agora?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Estamos analisando outros modos, não de dissidência, mas de revolucionar a vida por fora do sistema; para criar essas comunidades <em>off-grid</em> autossustentadas, onde podemos cultivar nossa própria comida e nos autogovernar. Fomos arrastados e inspirados pela ideia do nosso camarada de criar uma comunidade <em>off-grid</em>, com permacultura baseada em plantas, para nos libertarmos do sistema e, com a iminente crise alimentar, possamos cultivar os nossos próprios alimentos e viver em harmonia com a natureza, utilizando métodos de construção sustentáveis e ecológicos. Estamos ansiosos por isso. Foda-se a Constituição e as leis. Porque vamos cultivar a nossa própria comida e gerar a nossa própria energia. Não teremos de nos preocupar mais com o dinheiro e as flutuações da moeda.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o plano por enquanto, então vamos ver como vai ser e se podemos realmente encontrar uma terra onde seja possível começar esse estilo de vida sustentável que estamos procurando, longe do sistema e da opressão. É revolucionário à sua maneira.</p>
<p style="text-align: justify;">Não acreditamos que a Aragalay vai parar. Ela vai evoluir para o que é necessário ser agora sob Ranil. É uma fase de esperar para ver, durante a qual podemos traçar novas estratégias. Mas isso não significa que vamos parar. Vamos continuar a criar [produtos] gráficos e a encontrar formas de divulgar informações e ideias. E nós dois vamos continuar a lutar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Alguma conclusão?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Foda-se a polícia.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>(31 de julho de 2022)</em></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146837 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-1024x683.jpg" alt="" width="640" height="427" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2.jpg 1500w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas do Ill Will</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Frente de Libertação Popular. Um partido marxista-leninista que é agora o terceiro maior partido no Parlamento do Sri Lanka.<br />
<strong>[2]</strong> Ranil é acusado de supervisionar o centro de detenção de Batalanda, usado para interrogar e matar dissidentes e pessoas de esquerda durante a segunda insurreição da JVP. As muitas torturas em Batalanda incluíam esfolar, espancar, arrancar os olhos, queimar, violar e desmembrar. Especula-se que as histórias horríveis de Batalanda foram propositadamente vazadas para causar medo e desmoralizar a população.<br />
<strong>[3]</strong> Mirihana é um subúrbio de Colombo, onde a residência pessoal de Gotabaya está localizada. Em 31 de março, milhares protestaram do lado de fora da casa de Gota. Durante os confrontos com a polícia e os soldados, os manifestantes destruíram uma barricada e um ônibus e vários veículos da polícia foram incendiados. Naquela noite, protestos espontâneos se espalharam por toda a cidade.<br />
<strong>[4]</strong> O ex-primeiro-ministro Mahinda Rajapaksa é irmão mais velho de Gotabaya Rajapaksa e amplamente visto como o patriarca da família. Ele foi forçado a renunciar ao cargo de primeiro-ministro em 9 de maio.<br />
<strong>[5]</strong> <em>Gota Go Gama</em> [Gama vá para casa], ou GGG, é o nome do principal local de ocupação, localizado em Galle Face Green, em Colombo.<br />
<strong>[6]</strong> Z. é um designer gráfico. Eles [Z. e J.] costumavam fazer <em>graffiti</em> quando estavam na escola e sempre tiveram intuitivamente uma atitude de <em>foda-se o sistema</em>. Depois de se perderem em um emprego corporativo por uma década, começaram a trabalhar como <em>freelancers</em>, voltaram para Colombo durante a epidemia de Covid, e se viram no meio da Aragalaya. Sem saber da ocupação, Z. passou por Galle Face um dia no início de abril e, por acaso, encontrou um amigo que havia iniciado uma tenda de distribuição de alimentos para os protestos. Desde então, estão fortemente envolvidos. A primeira incursão de J. no ativismo foi quando ela colocou cartazes no aquário de sua escola porque achava que os peixes estavam sendo maltratados. Quando nada foi feito a respeito, ela começou a roubar um peixe por semana. Ela esteve envolvida em movimentos feministas e ambientais, e por isso tinha alguma conexão com outras pessoas na Aragalaya quando tudo começou. Ela vivia no Sul do Sri Lanka na época, mas quando percebeu que isso estava se tornando algo enorme, ela sabia que tinha de estar no centro de tudo e desistiu de sua casa e emprego e voltou para Colombo. Ela foi morar com os pais para garantir que não tivesse outros compromissos e pudesse estar o mais envolvida possível. Ela passava a noite, mas nunca montou uma barraca na ocupação, porque “é engraçado que eu diga isso agora, mas toda vez que eu sentia que &#8216;OK, vou armar minha barraca e me mudar para cá&#8217;, parecia que &#8216;oh, é tarde demais, vai acabar a qualquer semana&#8217;. E então, um mês depois, eu pensava: &#8216;merda, eu deveria ter acabado de armar a tenda quando pensei sobre isso da última vez&#8217;”. Tanto Z. como J. estiveram envolvidos na administração de uma tenda de distribuição de alimentos de ajuda mútua durante a ocupação e estiveram na linha de frente dos protestos. Z. tem feito designs e cartazes anônimos para o movimento, embora muitos dos que foram impressos tenham sido destruídos durante o ataque de 9 de maio. J. tem filmado e transmitido ao vivo a partir da linha de frente, para fornecer uma alternativa ao enquadramento dos meios de comunicação. Esta entrevista foi ligeiramente editada para maior clareza e concisão. As respostas de Z. e J. foram editadas em conjunto.<br />
<strong>[7]</strong> Para contextualizar, o Sri Lanka tem uma população de 22 milhões.<br />
<strong>[8]</strong> Os Tigres de Libertação do Tâmil Eelam.<br />
<strong>[9]</strong> O partido associado aos Rajapaksas.</p>
<blockquote><p>Traduzido, a partir do original em inglês publicado no site Ill Will (<a href="https://illwill.com/dispatches-from-sri-lanka" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), por Marco Tulio Vieira. As fotografias que ilustram as entrevistas são da autoria de Atul Loke e outros fotógrafos anônimos.</p></blockquote>
</div>
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		<title>A falência do Sri Lanka. O que temos a ver com isso?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jul 2022 03:00:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Sri Lanka]]></category>
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					<description><![CDATA[ O movimento ecológico anti-crescimento tem muita culpa no cartório. Por Michael Shellenberger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michael Shellenberger</h3>
<p style="text-align: justify;">O Sri Lanka faliu. No sábado, milhares de manifestantes invadiram o palácio presidencial. Enquanto a multidão ressentida e enfurecida <a class="urlextern" title="https://twitter.com/Hezbolsonaro/status/1545694520402014208" href="https://twitter.com/Hezbolsonaro/status/1545694520402014208" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">nadava</a> na piscina do presidente, cozinhava em seu gramado, relaxava em sua cama e punha fogo em sua casa, o presidente era evacuado por um navio na costa do Sri Lanka.</p>
<p style="text-align: justify;">O motivo imediato para o caos é a falência do país, que sofre sua <a class="urlextern" title="https://www.cnn.com/2022/04/05/asia/sri-lanka-economic-crisis-explainer-intl-hnk/index.html" href="https://www.cnn.com/2022/04/05/asia/sri-lanka-economic-crisis-explainer-intl-hnk/index.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">pior crise financeira em décadas</a>. Milhões de pessoas pelejam para comprar alimentos, medicamentos e combustível. Entre junho de 2021 e junho de 2022, os <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/markets/commodities/sri-lanka-rows-back-organic-farming-goal-removes-ban-chemical-fertilisers-2021-11-24/" href="https://www.reuters.com/markets/commodities/sri-lanka-rows-back-organic-farming-goal-removes-ban-chemical-fertilisers-2021-11-24/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">preços dos alimentos</a> subiu em 80%. No último mês, a <a class="urlextern" title="https://tradingeconomics.com/sri-lanka/inflation-cpi" href="https://tradingeconomics.com/sri-lanka/inflation-cpi" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">inflação anual</a> atingiu quase 55%. Desde o começo da pandemia, meio milhão de pessoas <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/world/2022/jan/02/covid-crisis-sri-lanka-bankruptcy-poverty-pandemic-food-prices" href="https://www.theguardian.com/world/2022/jan/02/covid-crisis-sri-lanka-bankruptcy-poverty-pandemic-food-prices" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">caíram na pobreza</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Se você nunca prestou atenção à ilha junto ao litoral sudeste da Índia, pode pensar que as coisas são assim mesmo em países em desenvolvimento. Mas a verdade é que o Sri Lanka vinha se reconstruindo gradualmente — depois de décadas de guerra civil e autoritarismo – e então isso aconteceu. Nós, o Ocidente, temos muito a ver com isso.</p>
<p style="text-align: justify;">A razão subjacente para a falência do Sri Lanka e a queda de seus líderes — começando pelo ex-presidente, Maithripala Sirisena, e depois seu sucessor, o recém-deposto Gotabaya Rajapaksa — tem a ver com o encanto das elites verdes do Ocidente, que promovem a agricultura orgânica e a ESG <strong>[1]</strong>, que diz respeito a investimentos pautados em critérios mais nobres: ambientais, sociais e de governança. O Sri Lanka possui um <em>score</em> ESG <a class="urlextern" title="https://worldeconomics.com/ESG/Environment/Sri%20Lanka.aspx" href="https://worldeconomics.com/ESG/Environment/Sri%20Lanka.aspx" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">quase perfeito</a> (98) — mais alto que o da Suécia (96) e o dos Estados Unidos (51).</p>
<p style="text-align: justify;">O que significa ter um <em>score</em> ESG tão alto? Em suma, significa que os dois milhões de agricultores do Sri Lanka foram forçados a deixar de usar fertilizantes e pesticidas, arruinando este setor fundamental da economia (pouco importa que o Índice ESG S&amp;P <a class="urlextern" title="https://time.com/6180638/tesla-esg-index-musk/" href="https://time.com/6180638/tesla-esg-index-musk/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">tenha excluído a Tesla</a>, mantendo a Exxon Mobil no top 10, nada disso faz muito sentido).</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, outros fatores estão por trás da falência do Sri Lanka. Lockdowns causados pela covid e um atentado a bomba em 2019 prejudicaram o turismo — um ramo que costuma gerar entre <a class="urlextern" title="https://www.economist.com/asia/2021/10/16/a-rush-to-farm-organically-has-plunged-sri-lankas-economy-into-crisis" href="https://www.economist.com/asia/2021/10/16/a-rush-to-farm-organically-has-plunged-sri-lankas-economy-into-crisis" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">3 bilhões</a> e <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2021/12/07/world/asia/sri-lanka-organic-farming-fertilizer.html" href="https://www.nytimes.com/2021/12/07/world/asia/sri-lanka-organic-farming-fertilizer.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">5 bilhões</a> de dólares ao ano. O Sri Lanka contraiu uma enorme dívida externa, tomando emprestados bilhões de dólares à China, como parte da <em>Belt and Road Iniciative</em> <strong>[2]</strong>. Os custos do transporte decolaram, aumentando 128% desde maio, devido ao aumento do preço do petróleo. Tendências econômicas de fundo também não têm ajudado: desde 2012, tem havido uma <a class="urlextern" title="https://twitter.com/ramakumarr/status/1508163736841777156?s=20&amp;t=EyBbqP2HwHo_QDpLp4VCtw" href="https://twitter.com/ramakumarr/status/1508163736841777156?s=20&amp;t=EyBbqP2HwHo_QDpLp4VCtw" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">queda no crescimento</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o principal problema do Sri Lanka é o banimento, aprovado no ano passado, de fertilizantes químicos, central para o esforço do país de adequar-se à ESG.</p>
<p style="text-align: justify;">As estatísticas são chocantes.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-145136" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/07/imagem2.jpg" alt="" width="728" height="486" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/07/imagem2.jpg 728w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-681x455.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Um terço das terras cultiváveis do país <a class="urlextern" title="https://www.aljazeera.com/news/2022/1/26/sri-lanka-200-million-compensation-farmers-organic-crops-drive#:~:text=News%7CAgriculture-,Sri%20Lanka%20to%20pay%20%24200m%20compensation%20for%20failed%20organic,farming%20nation%20will%20be%20compensated." href="https://www.aljazeera.com/news/2022/1/26/sri-lanka-200-million-compensation-farmers-organic-crops-drive#:~:text=News%7CAgriculture-,Sri%20Lanka%20to%20pay%20%24200m%20compensation%20for%20failed%20organic,farming%20nation%20will%20be%20compensated." target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">permaneceu ocioso</a> em 2021 devido à proibição do uso de fertilizantes. 90% dos agricultores do Sri Lanka usavam fertilizantes químicos antes da proibição. Depois da proibição, houve uma <a class="urlextern" title="https://www.economist.com/asia/2021/10/16/a-rush-to-farm-organically-has-plunged-sri-lankas-economy-into-crisis" href="https://www.economist.com/asia/2021/10/16/a-rush-to-farm-organically-has-plunged-sri-lankas-economy-into-crisis" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">surpreendente queda</a> de 85% nas colheitas. A produção de arroz caiu em 20% e os preços subiram vertiginosamente em seis meses, <a class="urlextern" title="https://economynext.com/sri-lanka-seeks-rice-bailout-from-china-after-fertilizer-ban-89819/" href="https://economynext.com/sri-lanka-seeks-rice-bailout-from-china-after-fertilizer-ban-89819/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">para 50%</a>. O Sri Lanka teve de importar 450 milhões de dólares em arroz, embora fosse autossuficiente poucos meses antes. O preço das cenouras e dos tomates <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2021/12/07/world/asia/sri-lanka-organic-farming-fertilizer.html" href="https://www.nytimes.com/2021/12/07/world/asia/sri-lanka-organic-farming-fertilizer.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aumentou em cinco vezes</a>. Tudo isso <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/markets/commodities/sri-lanka-rows-back-organic-farming-goal-removes-ban-chemical-fertilisers-2021-11-24/" href="https://www.reuters.com/markets/commodities/sri-lanka-rows-back-organic-farming-goal-removes-ban-chemical-fertilisers-2021-11-24/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">abalou drasticamente</a> as vidas de mais de 15 milhões de pessoas, num país de <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/markets/commodities/sri-lanka-rows-back-organic-farming-goal-removes-ban-chemical-fertilisers-2021-11-24/" href="https://www.reuters.com/markets/commodities/sri-lanka-rows-back-organic-farming-goal-removes-ban-chemical-fertilisers-2021-11-24/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">22 milhões de habitantes</a>, que dependem direta ou indiretamente da agricultura.</p>
<p style="text-align: justify;">As coisas ficaram ainda piores para os pequenos agricultores. Na região de Rajanganaya, onde a maioria dos agricultores cultivava lotes de dois acres e meio <strong>[3]</strong>, famílias de agricultores relataram uma queda de 50% a 60% nas colheitas. “Antes da proibição, este era um dos maiores mercados do país, com toneladas e toneladas de arroz e legumes”, <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/world/2022/apr/20/sri-lanka-fertiliser-ban-president-rajapaksa-farmers-harvests-collapse" href="https://www.theguardian.com/world/2022/apr/20/sri-lanka-fertiliser-ban-president-rajapaksa-farmers-harvests-collapse" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">declarou um agricultor</a> no início do ano. “Mas depois da proibição, chegou a quase zero. Se você entra em contato com os fornecedores de arroz, eles não têm nada no estoque, porque as colheitas caíram muito. Os rendimentos desta comunidade inteira caíram para um nível extremamente baixo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas os danos causados à produção de chá são a chave para a falência do Sri Lanka. Antes de 2021, a produção de chá gerava 1,3 bilhão de dólares em exportações anualmente. As <a class="urlextern" title="https://www.fao.org/3/i4485e/i4485e.pdf" href="https://www.fao.org/3/i4485e/i4485e.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">exportações de chá</a> pagavam por 71% das importações de alimentos antes de 2021.</p>
<p style="text-align: justify;">A proibição de fertilizantes, a partir de abril de 2021, mudou tudo. Quatro meses depois de ela entrar em vigor, o presidente, percebendo que as coisas não iam de acordo com o planejado, <a class="urlextern" title="https://www.france24.com/en/live-news/20210805-sri-lanka-walks-back-fertiliser-ban-over-political-fallout-fears" href="https://www.france24.com/en/live-news/20210805-sri-lanka-walks-back-fertiliser-ban-over-political-fallout-fears" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">revogou a proibição</a> à importação de fertilizantes químicos — e então, dois dias depois, a reinstituiu.</p>
<p style="text-align: justify;">Os resultados foram devastadores e amplamente antecipados pelos produtores de chá, com as exportações <a class="urlextern" title="https://www.thehindu.com/news/international/why-have-sri-lankas-tea-exports-plummeted/article65466215.ece" href="https://www.thehindu.com/news/international/why-have-sri-lankas-tea-exports-plummeted/article65466215.ece" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">desabando</a> 18% entre novembro de 2021 e fevereiro de 2022 — chegando ao seu <a class="urlextern" title="https://www.france24.com/en/live-news/20220504-sri-lanka-tea-exports-lowest-in-23-years" href="https://www.france24.com/en/live-news/20220504-sri-lanka-tea-exports-lowest-in-23-years" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">menor nível em mais de duas décadas</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">“Não temos fertilizantes químicos o suficiente”, <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2021/12/07/world/asia/sri-lanka-organic-farming-fertilizer.html" href="https://www.nytimes.com/2021/12/07/world/asia/sri-lanka-organic-farming-fertilizer.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">admitiu</a> Rajapaksa em dezembro de 2021, “porque não os importamos. Existe uma escassez”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em maio de 2022, o Sri Lanka <a class="urlextern" title="https://www.bmj.com/content/377/bmj.o1543" href="https://www.bmj.com/content/377/bmj.o1543" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">deixou de amortizar</a> 77 milhões de dólares de sua dívida externa. A soma pode parecer pequena, levando em conta o quadro geral, mas a inadimplência dificultou a contração de novos empréstimos pelo Sri Lanka. Logo, a moeda do país desvalorizou, a inflação subiu para 30% e o governo ficou sem o dinheiro que precisava para importar combustível, alimentos e medicamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">O que exatamente tinham Rajapaksa e outros líderes do Sri Lanka na cabeça? Porque se engajaram num experimento tão radical com o ramo mais importante da economia do país?</p>
<p style="text-align: justify;">Depois da Segunda Guerra Mundial, o Sri Lanka, como muitos outros países pobres, <a class="urlextern" title="https://www.canr.msu.edu/prci/publications/Policy-Research-Notes/PRCI_PRN_3.pdf" href="https://www.canr.msu.edu/prci/publications/Policy-Research-Notes/PRCI_PRN_3.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">subsidiou</a> os agricultores para que deixassem de usar biofertilizantes, como o estrume, e passassem a usar fertilizantes químicos, no que ficou conhecido como Revolução Verde (popularizada por <a class="urlextern" title="https://www.nobelprize.org/prizes/peace/1970/borlaug/biographical/" href="https://www.nobelprize.org/prizes/peace/1970/borlaug/biographical/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Norman Borlaug</a>, agrônomo vencedor do Prêmio Nobel). A produção de arroz subiu rapidamente, e o país superou a <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/1974/05/13/archives/sri-lanka-short-of-food-faces-an-economic-crisis-people-are-well.html" href="https://www.nytimes.com/1974/05/13/archives/sri-lanka-short-of-food-faces-an-economic-crisis-people-are-well.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">escassez crônica</a> de alimentos e começou a obter receitas externas com a <a class="urlextern" title="https://www.cbsl.gov.lk/sites/default/files/cbslweb_documents/publications/otherpub/60th_anniversary_managing_sri_lankas_foreign_reserves.pdf" href="https://www.cbsl.gov.lk/sites/default/files/cbslweb_documents/publications/otherpub/60th_anniversary_managing_sri_lankas_foreign_reserves.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">exportação de borracha e chá</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o crescimento da produção, jovens foram capazes de arranjar empregos nas cidades. Os <a class="urlextern" title="https://blogs.worldbank.org/opendata/new-country-classifications-income-level-2019-2020?fbclid=IwAR3gkSoxhIjTSuxJzaLmwI6rMKhLwOY-vT_-vIVutL1OoW_AQuvcuqw5Dww" href="https://blogs.worldbank.org/opendata/new-country-classifications-income-level-2019-2020?fbclid=IwAR3gkSoxhIjTSuxJzaLmwI6rMKhLwOY-vT_-vIVutL1OoW_AQuvcuqw5Dww" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">salários aumentaram</a> tanto que o Sri Lanka tornou-se um país de renda média.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que parecia um sonho para a maior parte do Sri Lanka era mais parecido com um pesadelo para ambientalistas do Ocidente. Em 1970, Paul Ehrlich, biólogo de Stanford, e outros ativistas passaram a denunciar a Revolução Verde. Eles alegavam que a superpopulação causaria sofrimento e extinção em massa e que a humanidade precisava de uma “triagem”. Em outras palavras, tínhamos de deixar alguns morrerem para que o resto de nós pudesse viver.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido pelo Passa Palavra, a partir do <a class="urlextern" title="https://www.commonsense.news/p/sri-lanka-just-fell-what-do-we-have?s=r" href="https://www.commonsense.news/p/sri-lanka-just-fell-what-do-we-have?s=r" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">original em inglês</a> publicado no site</em> Common Sense. <em>A imagem de destaque é da autoria de Ishara S. Kodikara. A outra, cuja autoria desconhecemos, foi divulgada pela AFP.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Sigla para <em>Environmental, social, and corporate governance</em>. Em português, Governança ambiental, social e corporativa.<br />
<strong>[2]</strong> Nova Rota da Seda.<br />
<strong>[3]</strong> Aproximadamente 1,01 hectare.</p>
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		<title>Os trabalhadores precários estão inseguros, assustados e mal conseguem sobreviver</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/10/140397/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Oct 2021 11:28:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[África_do_Sul]]></category>
		<category><![CDATA[Colômbia]]></category>
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					<description><![CDATA[O modelo de trabalho das plataformas está reformulando economias, setores, estilos de vida e meios de subsistência.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por <a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/the-global-gig-workers/" href="https://restofworld.org/2021/the-global-gig-workers/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Rest of World</a></h3>
<p style="text-align: justify;">21 de setembro de 2021</p>
<p style="text-align: justify;">Em Seul, os aplicativos de entrega de comida competem entre si para entregar uma refeição na “velocidade da luz”, enviando entregadores como Jang Hyuk pela cidade, correndo contra o relógio em rotas pré-planejadas por um algoritmo. O mesmo acontece em Bogotá, onde o imigrante venezuelano Lisandro Linarez corre contra o tempo, o crime e alguns cães irritados por $9/dia, se ele tiver sorte, trabalhando para a Rappi, o super aplicativo de entrega de comida.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalho precário mediado digitalmente aumentou ao longo da última década. A Organização Internacional do Trabalho <a href="https://www.ilo.org/infostories/en-GB/Campaigns/WESO/World-Employment-Social-Outlook-2021#digital-labour-platform/types" target="_blank" rel="noopener">contou</a> 489 plataformas de corridas e entregas ativas  em todo o mundo em 2020, dez vezes o número que existia em 2010. A natureza fluida da força de trabalho significa que há poucas estimativas consistentes de quantas pessoas estão envolvidas nesta categoria de trabalho, mas alguns pesquisadores acreditam que cerca de 10% da força de trabalho global agora se envolve em algum tipo de trabalho precário em plataformas.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto o modelo de “economia de compartilhamento” realmente começou a decolar nos EUA, <a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-investors-behind-gig-work-model/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-investors-behind-gig-work-model/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">as plataformas agora são globais</a>, adaptando — ou não — seus modelos para contextos totalmente diferentes. Para tentar entender como é este tipo de trabalho fora do Ocidente, <em>Rest of World</em> falou com trabalhadores de plataforma em todo o mundo. Através de <a class="urlextern" title="https://restofworld.org/collection/global-gig-work-a-deep-data-dive/" href="https://restofworld.org/collection/global-gig-work-a-deep-data-dive/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">uma pesquisa com mais de 4.900 trabalhadores</a>, realizada em parceria com a empresa de pesquisa Premise, e de entrevistas com dezenas de outros trabalhadores, temos tentado captar suas experiências. Encontramos grandes semelhanças: o trabalho precário em plataformas é<a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-index-mixed-emotions-dim-prospects/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-index-mixed-emotions-dim-prospects/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> estressante e frágil</a>; paga relativamente bem, mas também tem custos elevados devido aos gastos com combustível, internet e seguros. Os trabalhadores, seja dirigindo um táxi na Etiópia ou um caminhão na Indonésia, não sentem que podem recusar as demandas, o que significa que raramente o trabalho é tão flexível como as empresas dizem.</p>
<p style="text-align: justify;">Os problemas em comum que os trabalhadores precários em plataformas enfrentam, seja em Manhattan ou Mumbai, Joanesburgo ou Londres, estão estimulando a criação de um verdadeiro movimento global. Motoristas e entregadores estão se juntando através das fronteiras, pressionando as empresas e governos a reconhecerem um fato simples: trabalho precário é trabalho, e precisa ser melhor remunerado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Médicos, motoristas, entregadores: as verdadeiras vozes do trabalho precário em plataformas</strong></p>
<h4></h4>
<h4 style="text-align: justify;">Colômbia</h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-140404" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/colombia.jpg" alt="" width="768" height="432" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/colombia.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/colombia-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/colombia-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/colombia-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/colombia-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-delivery-biker-rappi-colombia/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-delivery-biker-rappi-colombia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">53,9 quilômetros</a></p>
<p style="text-align: justify;">A distância percorrida em um dia por Lisandro Linarez, <strong>entregador</strong> da Rappi na Colômbia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;">Sri Lanka</h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-140403" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/srilanka2.jpg" alt="" width="768" height="432" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/srilanka2.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/srilanka2-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/srilanka2-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/srilanka2-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/srilanka2-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-tuktuk-driver-srilanka/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-tuktuk-driver-srilanka/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">25%</a></p>
<p style="text-align: justify;">O valor pago por Nangahami Premawathi, <strong>motorista de tuk-tuk</strong>, para os aplicativos de corrida no Sri Lanka.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;">Indonésia</h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-140402" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/indonseia.jpg" alt="" width="768" height="432" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/indonseia.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/indonseia-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/indonseia-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/indonseia-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/indonseia-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-truck-driver-indonesia/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-truck-driver-indonesia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">5.0</a></p>
<p style="text-align: justify;">A avaliação perfeita do <strong>motorista de caminhão</strong> Apriansa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4>Índia</h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-140401" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/India.jpg" alt="" width="768" height="432" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/India.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/India-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/India-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/India-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/India-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-telemedicine-doctor-india/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-telemedicine-doctor-india/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">1.000 chamadas</a></p>
<p style="text-align: justify;">O número de consultas online feitas em um mês pelo <strong>médico</strong> indiano Girikumar Venati.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;">Coréia do Sul</h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-140400" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/coreiadosul.jpg" alt="" width="768" height="432" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/coreiadosul.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/coreiadosul-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/coreiadosul-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/coreiadosul-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/coreiadosul-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-delivery-driver-south-korea/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-delivery-driver-south-korea/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">21.300 won</a></p>
<p style="text-align: justify;">Cerca de $18,50. Isso é quanto o <strong>entregador</strong> Jang Hyuk ganha por hora na Coréia do Sul.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;">África do Sul</h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-140399" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/africadosul.jpg" alt="" width="768" height="432" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/africadosul.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/africadosul-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/africadosul-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/africadosul-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/africadosul-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-on-demand-cleaner-south-africa/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-on-demand-cleaner-south-africa/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">400 rand</a></p>
<p style="text-align: justify;">Cerca de $28,00. Isso é quanto o <strong>faxineiro</strong> Nomagugu Sibanda ganha por dia na África do Sul.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;">Etiópia</h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-140398" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/etiopia.jpg" alt="" width="600" height="1066" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/etiopia.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/etiopia-169x300.jpg 169w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/etiopia-576x1024.jpg 576w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/10/etiopia-236x420.jpg 236w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-ride-hailing-driver-ethiopia/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-ride-hailing-driver-ethiopia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">13 horas</a></p>
<p style="text-align: justify;">A jornada de trabalho do <strong>motorista</strong> Ashenafi Alemseged na Etiópia.</p>
<h4></h4>
<h4 style="text-align: justify;">&#8212;</h4>
<p style="text-align: justify;">O trabalho nas plataformas é precário por natureza. Mesmo que mais da metade de todos os trabalhadores dependam dele para a maior parte de sua renda, 40% deles ganham menos do que o salário mínimo. Mas não se trata apenas de dinheiro. É sobre fragilidade e insegurança. Dia a dia, <a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-index-mixed-emotions-dim-prospects/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-index-mixed-emotions-dim-prospects/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">os trabalhadores precários se preocupam</a> com sua saúde, sua segurança, e se eles vão ou não fazer o suficiente para cobrir seus custos. Mais de <strong>60%</strong> dos trabalhadores querem desistir dentro de um ano. Esse tipo de trabalho <a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-how-platforms-set-women-up-to-fail/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-how-platforms-set-women-up-to-fail/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">é pior para as mulheres</a>, que ganham menos nas plataformas do que os homens. Enquanto isso, embora as maiores plataformas estejam remodelando a força de trabalho global, poucas dessas <a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-investors-behind-gig-work-model/" href="https://restofworld.org/2021/global-gig-workers-investors-behind-gig-work-model/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">empresas mostraram</a> que podem ter lucro de forma sustentável, dependendo de investidores para estimular seu crescimento.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido por Marco Túlio Vieira.</em></p>
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