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	<title>Trabalho_e_sindicatos &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>[Goiás] Demandas dos estagiários do Tribunal de Justiça</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 14:41:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[just]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Essa luta é nossa, dos nossos antigos e futuros colegas. Por Estagiários do TJ de Goiás]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Estagiários do TJ de Goiás</strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://c.org/9cdpk5C2jd" target="_blank" rel="noopener"><em>Assine e compatilhe!!</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">Olá pessoal, eu e mais alguns colegas estamos organizando um requerimento formal para ser enviado ao Tribunal de Justiça com demandas ouvidas nesse grupo e por demais pessoas. Para esse envio ganhar mais força, fizemos um abaixo-assinado para acompanhar o requerimento formal com a possibilidade de uma reunião para sermos ouvidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pauta tratará das seguintes principais demandas:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1. Reajuste da bolsa-estágio</strong><br />
Atualização anual da bolsa conforme o aumento do salário mínimo, garantindo maior justiça financeira e melhores condições de permanência e desenvolvimento dos estagiários.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2. Vale-alimentação para estagiários</strong><br />
Realização de estudos para viabilizar a concessão de vale-alimentação, reduzindo os custos diários e assegurando alimentação adequada durante o estágio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>3. Calendário fixo de pagamentos</strong><br />
Estabelecimento de um calendário anual de pagamentos para evitar atrasos, facilitar o planejamento financeiro dos estagiários e assegurar o cumprimento de compromissos pessoais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>4. Revisão do recesso forense como férias</strong><br />
Reavaliação da contabilização do recesso forense como férias, garantindo aos estagiários o direito a um período efetivo e adequado de descanso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5. Melhoria na comunicação instituciona</strong>l<br />
Implementação de uma comunicação mais clara, eficiente e responsiva entre a instituição e os estagiários, com retorno efetivo às demandas e soluções concretas para as reivindicações apresentadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pedimos por gentileza que nos apoiem assinando a petição e compartilhem com todos os nobres colegas estagiários, obrigado!</p>
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		<title>Dez anos de uma quase-organização: entrevista com o Grupão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 14:23:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas. Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão</h3>
<p style="text-align: justify;">Após viagens ao Brasil entre 2024 e 2025, companheiros da editora militante chilena Pensamiento y Batalla (PyB) organizaram um livro reunindo entrevistas a coletivos com os quais tiveram contato, compondo um panorama de perspectivas e trajetórias diversas na militância anticapitalista e antiestatal em várias partes do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os grupos entrevistados, está o nosso: uma rede mais ou menos informal de camaradas que, desde 2016, se reúne duas ou mais vezes por ano para discutir teoria e prática da luta de classes. Sem a pretensão de criar uma cara pública, chamamos essas reuniões entre nós simplesmente de “Grupão”. Foi a forma que encontramos para que camaradas que se aproximaram no intenso período em torno de 2013 continuassem em contato: uma auto-organização de “resíduos” das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Grupão foi um espaço de reflexão sobre nossas derrotas, tanto da incorporação à ordem das organizações produzidas no ciclo dos anos 1970-80, quanto dos limites das revoltas deste século. Ao mesmo tempo, a existência da nossa articulação também permitiu que companheiros mantivessem esforços de investigação, ação e reflexão sobre a conjuntura e as novas lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando sintetizamos nossos debates em textos coletivos, a falta de uma identidade pública gerou um problema de apresentação. No livro <em>Incêndio</em>, de 2022, por exemplo, usamos a assinatura de “um grupo de militantes na neblina” (estamos “na neblina”, já que o horizonte revolucionário parece encoberto nesse tempo…). Com isso, tentamos preservar a característica difusa e as divergências que existem dentro do Grupão. Para a entrevista aos chilenos, a solução foi outra: reunimos cinco colegas de diferentes estados (Goiás, Minas Gerais e São Paulo), respondemos às perguntas oralmente e as transcrevemos, apresentando um pouco de nossas polêmicas e questões em aberto.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim, essa entrevista acabou sendo um dos primeiros documentos públicos que apresenta mais sistematicamente o Grupão nesses 10 anos. Se o texto já está circulando em espanhol, passou da hora de publicá-lo também em português, então enviamos ao Passa Palavra.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Em quais outras cidades ou estados brasileiros, além da grande São Paulo, há núcleos organizados da sua rede? Como se estrutura essa rede nacionalmente?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acho difícil falar assim. O termo “núcleos organizados” não necessariamente corresponde à nossa realidade. Tem coletivo de militantes em alguns lugares e, em outros, tem indivíduos militantes que se afinam com os diálogos que a gente desenrola.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Não tem esse nível de formalização. Em algumas cidades a gente tem uma coisa que é mais nucleada, em outras não. A gente se mantém junto garantindo dois encontros presenciais anuais, em locais onde tem mais pessoas organizadas. Fora isso, essas pessoas fazem reuniões, tanto para pensar a ação política, quanto estudos, reflexões de conjuntura etc. E também existem grupos<em> online</em> que estudam, que discutem junto, de diversos estados do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159297" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg" alt="" width="964" height="1045" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg 964w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-277x300.jpg 277w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-945x1024.jpg 945w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-768x833.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-387x420.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-640x694.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-681x738.jpg 681w" sizes="(max-width: 964px) 100vw, 964px" />PyB &#8211; Por que optaram por constituir uma rede mais ou menos informal, e não um grupo público de caráter formal?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Ai, essa é engraçada, hein?<em> [risos] </em>Porque carrega uma carga. Você tem várias formas. A galera já passou por um monte de coisas, de organização e tal. Ao mesmo tempo, existem vários formatos aí sendo construídos, com mais tempo, menos tempo. Na verdade, a gente não consegue encontrar algo que seja diferente do que a gente já viveu ou do que a gente conhece. Tem um excesso de organização no caso brasileiro, eu acho. E de formas específicas: de núcleos, de articulação de militantes, etc. No cardápio foi experimentado muita coisa. E, quando isso acontece, as possibilidades vão se esvaindo. A impressão que eu tenho é essa: a gente se mantém assim por não ter capacidade de responder essa questão e produzir algo que possa ser coerente e compatível com as coisas que a gente pensa e que a gente faz.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Eu daria um passo atrás também, no sentido de que não me parece que foi uma opção, num primeiro momento. No primeiro momento, nós saímos de organizações, sejam de caráter mais autonomista ou do marxismo tradicional, que vinham de formas estruturadas e mais bem estabelecidas, em alguns casos bem rígidas. E aí eu acho que o encontro desses militantes coloca a necessidade de pensar em alguma coisa diferente do que a gente tinha vivido antes. Então, acho que a gente é um pouco empurrado para isso. Mas, depois de um certo tempo, sim, se coloca a questão: se a gente deveria se conformar em algo mais formalizado ou não. Aí a gente não quer repetir mais o mesmo. A gente quer pensar em um formato de atuação política distinto. Mas, na verdade, nem o informal é muito claro para a gente, porque não tem nem definições do que seria uma rede informal tão bem estabelecida. Talvez esse seja até o nosso problema. A gente tem que formalizar o informal de alguma forma.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> É, seria uma boa formalizar. Porque daí, por exemplo, no 1º de Maio da CUT e da Força, poderia alguém do Grupão falar em nome da nossa estrutura!<em> [risos]</em> É, então é o dilema. Não dá, né?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> A gente pode também responder as perguntas com outra pergunta, sem problema nenhum. Por que a necessidade de fazer isso nesse tempo? A gente não vê a necessidade de pressa para isso. O Camarada Z ia dizer que foi uma condição. Não foi uma escolha. E essa condição é coerente com a situação do conjunto das lutas que operaram nos últimos anos no Brasil. E com a dificuldade mesmo de transpô-las. Como a gente não consegue atravessar esse tempo também, a gente não sabe o justo lugar de fazer formalmente uma nova organização. Nem sequer botar isso como uma pergunta. Talvez não seja uma questão para nós nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Eu acho que a gente se encontrou num momento que ainda o calor de junho de 2013 ainda estava no ar. Muito movimento na rua, ocupações. E a gente estava muito envolvido nas lutas e nas críticas, e vinha de trajetórias diferentes. Por outro lado, a gente não tinha pressupostos teóricos claramente definidos no grupo. Quando você tem uma teoria claramente definida, é muito mais simples, porque daí você coloca um programa escrito e todo mundo adere àquilo. Mas o que juntou a gente foi muito mais o movimento real. Então não é que a gente não queira se formalizar nunca. Eu acho que tínhamos uma intenção, talvez no começo, de virar uma organização mais definida. O problema é que fomos com muita cautela. O fato de termos saído de outras organizações, como os companheiros já falaram, fazia com que a gente não quisesse repetir algumas coisas que acontecem nesses espaços &#8211; por exemplo, você começar a prezar muito mais os símbolos daquela organização (o nome, a bandeira, as cores), e virar mais a imagem do que o conteúdo em si. E o conteúdo que queríamos era o movimento real. Se for fazer uma comparação com religiões, assim, a gente tentou tirar toda a carcaça de simbologia, de ícones e ficar com o momento do milagre, né? “Testemunhas do movimento real”. Queremos nos manter muito ligados e fiéis ao fenômeno do movimento e, nesse sentido, qualquer exagero de definições poderia afastar a gente do momento vivo da luta. Ao não se definir muito e não se fechar, é uma forma também de continuar aberto para formas novas de lutas, e adaptar a nossa forma de organização a elas. Então, eu acho que tinha essa preocupação em não virar uma seita em volta de símbolos e perder o conteúdo.</p>
<p style="text-align: justify;">E acho que tem medo também: será que se a gente definir muito, vai rachar? Então, fomos ficando numa indefinição. E isso também equilibrou posições divergentes dentro. Eu concordo que não foi uma opção consciente por completo. A gente foi fazendo assim e, quando viu, passou 10 anos. Até hoje funcionou. De certa forma, essa “quase-organização” também chama os participantes à responsabilidade. Porque você não pode dizer: “ah, a organização existe, está lá pronta”. Não. É uma condição permanentemente tensa, ela pode se desfazer. Como ela não é totalmente formalizada, ela não é estável, não independe da gente. Então, a gente está sempre também repensando ela, rediscutindo ela.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Apesar dessa rede ter esse caráter informal, a gente também tem grupos públicos que se mostram onde atuamos. Beleza, essa rede não se mostra de forma pública, enquanto um grupo, formalmente, etc. Mas, digamos assim, há subconjuntos dessa rede que se mostram publicamente, que se colocam nas lutas, que estão atuando em cidades, etc. Ao longo desse processo, vários grupos se criaram, surgiram, se dissolveram, acabaram. Essa rede é ativa e tem muita troca. Eu acho que as pessoas saem de lugares, vão para outras, e influenciam, incentivam, criam novos grupos. Então eu acho que essa questão da rede é meio dual. Talvez seja uma questão de escala. Numa escala maior, a gente é um grupo de caráter informal, não público, mas se a gente pensar no micro, em certos lugares, no tempo e no espaço, a gente adquire um caráter mais formal e forma grupo público.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Eu acho interessante essa coisa da treta em que a gente se envolveu. Nas tretas, eu acho que a gente produz a forma que tem a ver com a própria necessidade da treta. Por exemplo, no passado, O Mal Educado, as ocupações de escola. A gente produziu ali um tipo de organização.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> A gente vem de um conjunto de experiências, e em algum momento, se produz a necessidade de compreendê-las com uma perspectiva crítica. A gente foi tentando buscar outras possibilidades nas ações que a gente já se envolveu. Porém, isso complexificou muito nossa situação. Fomos buscar a resposta e encontramos mais contradições, e é com elas que nós estamos lidando hoje. O nosso problema não é falta de fazer, é que a gente fez bastante, dentro do que a gente pôde e tal. E isso trouxe contradições concretas, que a gente está agora tentando entender, tentando lidar. Inclusive, isso, em alguns casos, tem inviabilizado até a inserção em algumas coisas, porque estamos lidando com esse drama.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159299" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg" alt="" width="860" height="386" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg 860w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-768x345.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-640x287.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-681x306.jpg 681w" sizes="(max-width: 860px) 100vw, 860px" />PyB &#8211; Quais são as diversas origens e trajetórias daqueles que participam do espaço de vocês? Vieram de quais lutas e movimentos anteriores?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Talvez sejam duas origens. Tem uma geração mais velha, que são os que vieram ainda do ciclo de lutas que formou o PT. No caso, essa geração se formou dos anos 1980 para os 90 nos movimentos sociais territoriais: primeiro o Movimento Sem Terra (MST) e, depois, fundando o Movimento Sem Teto (MTST), inicialmente como um braço urbano do MST. O que liga essa história ao Grupão, era uma uma posição interna de defender a tática radical. De achar que era possível, apesar de uma estratégia oficial reformista, tensionar esses movimentos a partir de uma prática combativa, apostando que a radicalidade da ação direta poderia transformar o conteúdo também desses movimentos. Tinha a ver com o setor de “frente de massas”, que era o responsável por fazer a ocupação, por organizar as resistências aos despejos e outras ações diretas &#8211; expropriações, abrir pedágios, manifestações. A criação do MTST teve a ver com esse tensionamento no MST, de um setor que achava que não bastava o movimento no campo. Se a contradição estava explodindo nas cidades, então tinha que chegar nas periferias urbanas, começar a cercar as rodovias com ocupações de terras. Só que essa experiência, ao mesmo tempo, vinha sendo feita dentro desses movimentos que estavam incorporados na estratégia geral da esquerda, que acabou culminando na eleição do Lula em 2002.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Isso. A gente acreditava que a ação radical se sobrepunha ao programa reformista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> Das organizações formadas no ciclo de lutas dos anos 1970 e 80, o PT logo vai se incorporar ao Estado. O movimento sindical nos anos 1990 já estava entregando direitos para os patrões, a CUT aderiu às câmaras setoriais, as oposições sindicais perdiam espaço. E dos anos 90 para os 2000, os movimentos sociais como o MST eram ainda um ponto de radicalidade, onde o conflito continuou acirrado por mais tempo. Isso tensionava a própria estratégia institucional do PT. E aí, depois da eleição de 2002, tem uma baixa geral das lutas e greves. O MST passou um ano sem fazer ocupação de terra, e esses setores que defendiam uma posição mais radicalizada vão continuar tentando tensionar. Teve as ações contra empresas do agronegócio feitas pelos grupos de mulheres do MST em 2006, que destruiu as mudas da Aracruz e da Monsanto. Mas esses setores vão ficando isolados, e isso culmina na ruptura em 2011 na <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" href="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Carta dos 51”</a>, que foi um marco da saída de vários militantes, que fizeram caminhos diferentes. Alguns vieram aqui constituir o Grupão, outras fizeram outros caminhos. A carta falava da integração desses movimentos no regime de gestão democrático-popular.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> É um momento histórico específico ali em 2011, que junta com a outra geração do Grupão, que vem de uma juventude urbana mais autonomista, que vinha dos Ação Global dos Povos e do Centro de Mídia Independente (CMI), que formou aqui no Brasil o Movimento Passe Livre (MPL), que de alguma forma também estava tensionando a gestão pacificadora dos governos de esquerda. Era um movimento que lutava contra a tarifa do transporte coletivo, formado principalmente por secundaristas, universitários, punks… uma juventude urbana precária que não se enquadrou na institucionalidade. O MPL não se institucionalizou, talvez, porque o transporte não cria “base social”. Na moradia, tem ali uma base, e alguém pode fazer uma negociação em nome dela, forma-se uma relação dirigente e base. Nos sindicatos, os diretores sindicais representam a categoria. No transporte, talvez pela forma fluída, dinâmica, não dá tempo de conformar uma base ali e organizar ela a ponto de criar uma relação estável de dirigente, que pode estabelecer uma relação negocial com o Estado. Então a pauta do transporte ficou na mão dessa juventude mais anarquista/autonomista, que fazia ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2003 teve a primeira explosão em Salvador, que foi a Revolta do Buzú, e que foi uma luta com caráter de revolta. Parou a cidade de Salvador, mas tomou um golpe das entidades estudantis. O mesmo tipo de revolta se repetiu em Florianópolis em 2004 e 2005, as duas Revoltas da Catraca, que baixaram o preço da passagem dois anos seguidos. E isso formou o MPL, que era um movimento que tinha os princípios de autonomia, horizontalidade, ação direta, e que lutava contra a tarifa de ônibus. Esse movimento foi se conformando ao longo dos anos 2000 e ele vai ter o seu auge em 2013, quando ocorre a explosão em Porto Alegre, Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, tudo ao mesmo tempo, e vira um fenômeno nacional, revolta em todo canto. Teve protesto inclusive em cidades muito pequenas no interior, onde nem tem transporte coletivo. Esse momento entra no ciclo mundial de revoltas. O que aconteceu em 2013 no Brasil se conecta à nível global com a Primavera Árabe, com o que aconteceu na Turquia no mesmo ano, depois o Chile, Hong Kong, enfim…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Enfim, alguns que faziam esse caminho se encontraram ali, no pós-2013, já no refluxo da revolta, com críticas em comum… e em crise também. Se a geração mais velha carregava uma crise das lutas serem incorporadas, a geração mais nova carregava uma crise também da revolta ter quebrado, refluído, e o pouco que sobrou depois. A gente se encontrou naquele momento, já tínhamos feito alguns debates juntos. Um site importante para isso foi o Passa Palavra, no qual publicamos textos, tanto da saída do 51 do MST quanto também dos debates do MPL. Como o próprio MPL entrou em crise, a gente estava debatendo ali em busca de alguma coisa nova.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> No fim de 2015 vem as ocupações de escola, que a gente ajuda a organizar. Tem essa ferramenta na época, que foi O Mal Educado, um jornal secundarista que alguns companheiros organizaram. Muito baseado na experiência do Chile, a gente convoca as primeiras ocupações de escola. Tinham companheiros que eram secundaristas. A gente preparou duas, três, quatro ocupações em São Paulo, e isso explodiu e virou duzentas. De novo essa característica da luta explosiva, da aposta que a ação radical consegue um conteúdo de novo tipo. Não teve um trabalho de base prévio que preparou uma grande organização secundarista, foi uma tática radical de ocupar algumas escolas que contaminou. Essa experiência colou a gente. O Grupão surgiu nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Do ponto de vista teórico, tem uma coisa importante que é que os companheiros que vinham do movimento social clássico tinham uma formação muito mais marxista, leninista, que mistura maoísmo, Igreja Católica.. mas que era movimentista também, então esses “ismos” não importavam tanto, o debate era muito ligado ao concreto. E a geração mais jovem vinha de um pensamento parecido, mas com uma formação mais no autonomismo/anarquismo. Mas os dois lados vinham criticando as próprias posições, em crise, e a gente se encontrou nesse meio do caminho. Então acho que o Grupão tem um pouco a ver também com essa mistura teórica, pensando nas trajetórias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159301" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg" alt="" width="900" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-681x511.jpg 681w" sizes="(max-width: 900px) 100vw, 900px" />PyB &#8211; Quais são os acordos e as divergências mais importantes da militância que forma sua rede? Quais elementos teóricos e/ou práticos que os fizeram confluir?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Eu acho que o elemento teórico-prático que fez a gente convergir, que é o nosso primeiro ponto de concordância, foi o momento histórico do entorno de junho de 2013, em que a gente se encontrou na rua, nos conflitos daquele período. A gente se encontrou nesse contexto, fazendo críticas parecidas. A crítica da gestão e da pacificação petista. De que o ciclo de lutas dos anos 1970-80 resultou numa forma de contenção da classe na democracia. Essa crítica era teórica e também prática, já que encontrou tração no movimento de 2013 e na alta de greves daquele período. Isso correspondia à ideia de que a gente tinha que fazer lutas de enfrentamento que quebrassem o consenso. Uma aposta na revolta. Eu acho que nosso encontro foi aí, na posição anti-gestão. Isso convergiu com a conjuntura naquele momento, convergiu nas lutas e a gente quis continuar se reunindo e se encontrando.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, conforme a gente foi começando nossos debates, vimos que tinha, de fundo, nas nossas conversas, concepções teóricas divergentes. Indo para outro nível, saindo da conjuntura, indo para a estrutura, para a teoria mesmo. A caracterização do momento do capitalismo sempre foi uma polêmica, desde o começo no Grupão. Por um lado, uma posição que vê uma dinâmica cíclica do capitalismo, que sempre operou e continuaria operando, de ciclos de expansão e crise, que estão ligados também a ciclos de luta e recuperação das lutas, que a gente pode dizer que é mais inspirada no marxismo autonomista. E uma outra concepção que bebe mais da teoria da crítica do valor, que vê um colapso do capitalismo desde os anos 1970 &#8211; então, a dinâmica cíclica já não estaria mais operando e o capitalismo teria entrado numa crise estrutural, e hoje estaria girando em falso. Enfim, daí vai todo um debate. Mas eu acho que essa discussão teórica da crise, se é colapso ou são crises cíclicas, sempre foi um debate interno nosso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Eu tenho uma pergunta. Você acha que isso é causa de divergência? Ou é prolífico para o debate, na medida que também a gente se obriga a contrapor os termos… Eu imagino que na pergunta deles, “discordância” é sobre aquilo que cria uma dificuldade de caminhar junto. E, até hoje, essa discordância não foi uma coisa de dificuldade de caminhar junto. Na verdade, analisando a história do Grupão, isso permitiu um campo de debates interessante em que essas duas posições existem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Inclusive, várias pessoas, como eu, têm uma posição que a gente brinca que é “agnóstica”. Pra mim, qual é a situação atual do capitalismo: crise cíclica ou estrutural? Eu não sei, e tudo bem. A gente encontra convergência na luta concreta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem algum desdobramento nessa questão de crise terminal ou crise cíclica: a gente tem uma perspectiva revolucionária ou não tem uma perspectiva? Mas eu não diria que isso necessariamente está ligado puramente a uma concepção econômica. Porque se a gente pegar, por exemplo, a galera comunista de conselhos lá dos anos 20, eles já estavam com uma concepção de crise terminal do capital naquela época e tem a galera que continua com essa perspectiva até hoje. Eles estão, sei lá, quase 100 anos falando da crise terminal e isso faz parte de um longo ciclo. Eu acho que por mais que a gente pense na questão de ciclos longos, eu não sei se puramente a questão econômica leva a isso. Tanto é que você tem hoje, por exemplo, a galera aí da esquerda comunista defendendo ainda essa questão do capitalismo decadente e eles ainda têm uma concepção revolucionária. Ainda acreditam que, apesar disso, há possibilidade de revolução. Não sei se eu confundi muito, mas eu acho que talvez tenha uma questão econômica / política.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; Eu acho que você não está confundindo, não. Eu acho que, na verdade, essas coisas são conectadas. No limite, a importância de discutir se a crise é estrutural não é um preciosismo de uma análise econômica correta ou incorreta, ou identificar as verdades da dinâmica do capital. Isso está relacionado justamente com pensar as consequências para a questão política. Que transformação que está posta? Tenho mais afinidade com a ideia de uma crise estrutural &#8211; que é mais do que a ideia de terminal, porque “terminal” parece que já acabou, que vai ter um dia em que vai morrer, específico, quando vão desligar as máquinas, e não é bem assim. É um processo. Já a análise da crise cíclica está muito vinculada aos ciclos revolucionários que a gente viu ao longo do século XX. Então a questão é: é possível se repor? É possível se repor uma revolução nos velhos moldes? Curiosamente, eu acho que ninguém no Grupão defende isso efetivamente. Uma revolução nos velhos moldes da Revolução Socialista, por exemplo. Eu acho que tem uma crítica até razoável, que tem um acúmulo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; E aí tem uma outra questão também, que mesmo no campo que defende a crise estrutural, também tem diferenças em relação às consequências. Por exemplo, eu não entendo que a consequência é… “Ah, então, beleza, vamos ficar aqui vendo o capitalismo ruir e quando sobrar as ruínas e tudo, a gente tenta organizar uma nova sociedade.” “Porque o sujeito histórico morreu e não tem nada mais a ser feito, tudo é estrutura e tudo é uma determinação completamente insuperável.” Tem algumas pessoas da crítica do valor, não todo mundo, que chegam nessa consequência. E aí, nenhuma prática nunca é possível. Eu acho que é diferente a ideia de “vamos pensar a crítica da prática que a gente estabeleceu no passado e vamos experimentar coisas aqui e agora”. Porque, afinal de contas, estamos vivos e a história não está pré-determinada, ainda que a gente enxergue tendências nela. Estamos vivos e somos sujeitos da vida e as pessoas estão indignadas, estão revoltadas, querem fazer alguma coisa a respeito do mundo e do seu futuro. Será, e aí a pergunta, que é possível pensar alguma outra saída que não seja a extrema-direita, que não seja só a destruição? Enfim, eu acho que tanto no campo da crise cíclica quanto no campo da crise estrutural, existem diferentes leituras das consequências do entendimento do capitalismo nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Por isso é legal você levantar essa questão, que a gente consiga, de alguma forma, se manter junto, apesar das diferentes análises de crise, a priori. Porque eu acho que, quando chega na parte do “fazer alguma coisa”, tem algumas divergências, mas eu acho que tem um certo encontro ali, num sentimento de crítica das esquerdas e crítica do passado &#8211; que não é só uma crítica política da prática, é uma crítica também interpretativa do capitalismo que as organizações tradicionais carregam. Eu acho que a gente tem uma diferença em comum, digamos, em relação a esses conflitos tradicionais, ainda que os caminhos para nossas interpretações sejam diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A gente tem aqui uma convergência negativa, isso é muito interessante, o nosso espaço, ele consegue ser permeável a inúmeras experiências concretas, objetivas de luta da classe, a gente pôde participar dessas experiências, dessas lutas que aconteceram, foram inúmeras, trazer elas de volta para um lugar em que a gente também se sente livre e confortável em fazer a crítica radical delas, de apontar os limites.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a gente é permeável a uma série de experiências que as pessoas estão fazendo em inúmeros cantos, com inúmeras qualidades, com inúmeras intenções, a gente contribui com essas lutas, volta para um espaço e a gente se sente livre de poder criticar elas de uma maneira honesta e radical também. Eu acho que poucos espaços organizativos permitem isso. Na maior parte dos espaços organizativos que a gente tem conhecimento existe um certo pudor e um certo medo de implodir tudo, na medida em que a gente pega uma experiência que é cara a nós e passa um pente fino dela, apontando também os limites e aquilo que traz de qualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, quando a gente vai analisar a experiência das greves de entregadores, o quanto que ao mesmo tempo que elas podem ser disruptivas e também são uma confluência com o atual estágio de guerra de baixa intensidade de todos contra todos, de um capitalismo ultraviolento, essa lógica do auto empreendimento, etc. Ou seja, a gente tenta também manter a crítica como critério da nossa divergência e da nossa convergência. Me parece que aquilo que nos une é também aquilo que permite a nossa diferenciação no limite, que eu acho que é o que tem de mais virtuoso na lógica do Grupão. Justamente poder fazer do exercício da crítica o mais radical que a gente puder, o mais aberto que a gente puder, o lugar que a gente produziu.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu fico meio sem saber o quanto esse espaço aberto ao debate polarizado é de fato algo que pode ser entendido como divergência, o quanto que ele não é justamente aquilo que converge com o Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211; </strong>Talvez a gente tenha até dado um acento muito grande aqui na discussão para essa questão da leitura da crise. Na verdade, a gente nunca sentou e fez um debate especificamente sobre isso. Em geral, a gente está sempre discutindo as lutas concretas e aí essas posições estão de fundo. E muitos militantes nem têm uma definição exata sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Do ponto de vista mais prático, outra polêmica foi com companheiros que falavam da necessidade de se organizar no “centro da classe”. Isso marcou muito nossos primeiros debates. Uma discussão com correntes que defendem que a gente deveria se organizar nos setores do operariado fabril, porque esse seria o núcleo duro da classe trabalhadora, a partir do qual tem a maior produção de valor e, por isso, seria o ponto estratégico para a revolução: “pôr a classe ao centro e ir ao centro da classe”. No debate com essa galera, que acho que foi formativo no início do Grupão, a gente foi encontrando uma linha nossa, que começou como brincadeira, mas que era assim: “tem a galera do centro da classe e a galera do centro da treta”. A ênfase do Grupão era nas lutas. Então, se for pensar assim, onde se posicionar? Para nós, parecia às vezes menos importante essa discussão econômica crua que pensa: “esse setor de trabalhadores está num ponto estratégico porque aqui se produz não sei quanto de capital”. E, no caso, a gente dizia: “bom, tem setores que têm uma posição que é estratégica do ponto de vista social” &#8211; o setor de transporte, por exemplo. Setores com possibilidade de lutas mais dinâmicas. Os pontos a partir dos quais pode ter explosões que contaminem outros setores e que ganhem escala, que cresçam. Nossa centralidade é uma centralidade das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Dialogando com as perguntas colocadas para nós aqui, uma organização pressupõe o quê? Um programa? E, um programa pressupõe o quê? Uma leitura de mundo, uma visão de mundo, uma teoria da revolução, é o mínimo que se espera de uma organização política, uma leitura da realidade, uma apresentação das contradições dessa realidade e uma perspectiva revolucionária. Mas nós não temos. Eu não acho que nós não temos porque nós não queremos ter. Até porque a gente, apesar de fazer a crítica, não se aprofundou nesses meandros. Tem lá os democráticos populares, nós somos os revolucionários situacionistas, e está tudo certo? O buraco é mais embaixo. A tragédia é um pouco maior do que a gente imagina. Olhar para uma perspectiva estratégica, questionar, não concordar com ela, opôr-se a ela, não significa que no lugar onde você atua na revolta ou nas lutas não possa reproduzir aquilo que é a base da existência do que você está negando. Eu acho que essa é uma grande contradição nossa com a ação prática.</p>
<p style="text-align: justify;">A grande dificuldade é lidar com as coisas que a gente reproduz e que nos aproximam do que criticamos. E a gente faz isso em silêncio, porque a gente também não quer dar brecha para críticas externas. Mas o fato é que a prática como critério da verdade, na lógica maoísta, está longe de ser uma definição que realmente resolva nossos dilemas. E nem a teoria é este critério. Mas é preciso compreender que essas coisas não estão separadas, é preciso juntar, é preciso permanentemente revisá-las. Revisá-las é uma palavra complicada. Compreender, estudar, ler, repetir.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje em dia, por exemplo, o ponto parece fácil. A gente lê O Capital, daí todo mundo entendeu o que é mais valor, todo mundo sabe que o negócio é fazer uma revolução socialista, impor uma derrota ao capitalismo, implantar uma transição, uma mediação entre a ação radical e ação institucional. Esse é o problema geral, está aí. Mesmo não gostando, a gente acaba participando. Eu estou para dizer que nosso problema é um pouco mais profundo. Não é só uma questão de compreensão teórica se a crise é estrutural, se a crise é cíclica.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é porque a gente não gosta dessa coisa de programa. Ou que a gente não tem programa, porque a gente escolheu não ter. Eu acho que é mais complicado o assunto, que ter as coisas, produzir certas coisas, implica o conjunto de condicionamentos da forma pela qual você quer lidar com a ação. Então, a gente resolveu não criar amarras para a gente lidar com a ação. Isso traz outros problemas. O fato da gente não ter uma definição teórica, prática, uma leitura de mundo e atua no mundo sem ter isso. Eu sei que na cabeça de cada um tem alguma coisa. Eu acho que nós lidamos razoavelmente bem com isso. Ninguém vai para a luta sem saber nadar, “estou aqui só porque eu quero entender o que está acontecendo”. Não, quem está lá quer influenciar, quer levar para algum lugar a revolta. Está lá tentando potencializar o nível de aceleramento, de contradição dela, de enfrentamento. Está lá querendo dialogar com outros militantes para trazer junto para trocar ideia. Então, existe uma intencionalidade, sim, porém, isso não é programática. Está muito mais ligada à experiência de vivência de cada coletivo, cada espaço, cada lugar, porque é uma formulação complexa, vamos dizer assim, da leitura da revolução. Eu acho até que algumas pessoas têm vontade de ter um programa, uma teoria da revolução, uma proposta de onde a gente vai estar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; de alguma forma, essas coisas têm uma conexão com a questão da centralidade negativa do trabalho. Fiquei refletindo aqui sobre a ideia do Camarada K de que o trabalho seria como um centro da forma social, mas um trabalho que tem a ver com essa pessoa sem lugar, forma da forma tradicional de produtor de valor, etc. E, ao mesmo tempo, pessoas que trabalham insanamente, esfolação profunda da existência. Eu fiquei pensando se a gente, de alguma forma, não tem também uma centralidade negativa das lutas, à medida que a gente põe as lutas, mas essas lutas também se esfacelam e se negam e se repõem. Se a gente está conseguindo fazer isso, então, acho que até está interessante.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei, fiquei pensando nessa questão da luta como crítica das formas anteriores de luta. Então, propomos lutas que a esquerda em geral não entende muito, porque não tem clareza de quem é o dirigente, o formato é completamente outro de como a luta se dá. E, ao mesmo tempo, ao ela se dar, não se põe como uma forma, não se põe como uma forma permanente. Não é que a gente está, por exemplo, fizemos a luta do motoboy, agora a gente tem uma cartilha de como atuar, não se sabe. Tem uma experiência, obviamente, e essa experiência ela se perpetua no tempo como uma forma de olhar para trás e falar “a gente fez isso naquele momento, podemos fazer isso de novo aqui, ou não fazer e tal”. Mas não tem um formato estrito, como as organizações têm normalmente. Quais são as nossas táticas de luta? Qual a forma que a gente desenvolve a luta? Isso é interessante e fiquei pensando se a gente teria uma centralidade negativa das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu só queria fazer um comentário para Camarada Y. Eu acho que a centralidade negativa do trabalho é interessante porque acho que mesmo os que têm a leitura da crise estrutural no Grupão, que a princípio vão pensar um colapso do trabalho e da acumulação de valor a partir da mais-valia extraída do processo de trabalho, não tem uma leitura que acha que o trabalho acabou. No sentido de que, às vezes, pode parecer isso, de que não tem mais trabalho. Na verdade, essa perspectiva acaba se encontrando com o autonomismo operaísta, porque, no fundo, tem uma ideia de que o trabalho ainda é central, no sentido de que ele é o ponto de tortura nas nossas vidas, que todo mundo tem que acordar e ir trabalhar. E acho que é até uma leitura de que, com a crise estrutural, as pessoas estão se esfolando até mais, porque as formas ficam até mais pesadas e mais cruéis, e que, então, eu acho que é como quando falamos da centralidade negativa do trabalho. O trabalho é central, mas a gente quer se libertar dele.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente precisa ter um receituário, um programa, uma perspectiva de que a gente precisa cumprir certas etapas ou certos processos para que a revolução venha, mas sim uma ideia de fundo, uma perspectiva geral de rompimento com o sistema capitalista. Então eu não acho que simplesmente a gente nunca ter dialogado sobre ter um programa, sobre ter uma série de medidas a serem tomadas, nos coloca numa condição de que a gente não tem uma perspectiva revolucionária. No entanto, eu acho que isso ainda é uma questão em aberto. Eu já vi camaradas colocando isso: “não sei se eu acredito na perspectiva da revolução”. Eu acho que tem uma série de acúmulos teóricos sobre o pensamento do próprio desenvolvimento do capital e da revolução que, de certa forma, a gente vê na nossa prática, ela se relaciona muito com algumas teorias que já foram desenvolvidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito, sim, nessa questão de que tem momentos de baixa, momentos de alta e eu não acredito que a nossa atividade enquanto militantes nesse momento, que a gente poderia considerar talvez como contra-revolucionário, eu não acho que o nosso papel nesse momento é fazer a revolução, e eu acho que no Grupão a gente também não acha isso. Eu acho que a gente nunca pensou que as nossas práticas ou o nosso envolvimento nas lutas poderia desenvolver a revolução. Mas eu acho que a nossa inserção nos processos de luta vai muito mais nessa questão de investigação, no sentido de situar a gente no tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito que a gente deveria fazer essa separação. Ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente necessita de uma estratégia revolucionária, porque eu não acredito que a gente possa ter uma estratégia revolucionária nesse tempo. Não significa que isso vai ser uma constante, significa que agora a gente não pode ter isso, mas possivelmente em um momento de ápice das lutas pode vir a surgir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159302" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Quais as lutas sociais mais importantes que vocês se envolveram desde que o grupo se formou? Como foi a intervenção prática de vocês?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Então, naquele período de 2016-17 ainda teve muita luta estudantil secundarista, que foi uma coisa um pouco nova no Brasil. Nesse patamar, tinha o exemplo do Chile, que inspirou muito por aqui. A gente traduziu uma cartilha do Chile, que foi útil para preparar as ocupações de escolas. Foi um movimento muito dinâmico, muito vivo e muito autônomo também (os partidos não tinham muito espaço). Foi o período do impeachment, em que, do ponto de vista institucional, a direita estava se articulando para derrubar a Dilma. As ocupações aconteceram nesse período escaparam da dinâmica do jogo institucional.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Depois teve a luta do telemarketing, que era uma ideia do Disk Revolta. A gente começou a notar que estava explodindo de pequenas insatisfações, que tem a ver com a discussão sobre o trabalho em formas ultra precárias, os <em>bullshit jobs</em>, os trabalhos de merda, e que se expressavam em formas que os sindicatos e os partidos não tinham condições de dar vazão a essas insatisfações, a essas inquietações. Parecia que ali havia uma explosividade que talvez estivesse represada.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Mas eu acho que tem também um aspecto de 2013. A gente via os dados sobre as greves daquele período, que em 2013 teve o maior auge de greve da história do Brasil desde os anos 80. Então a gente falava, “bom, teve um ciclo lá nos anos 70, 80 e está tendo um novo ciclo agora”. Essas lutas estão acontecendo muitas vezes de forma subterrânea, tá cheio de conflitos nos locais de trabalho e a gente tem que investigar. O Disk Revolta teve a ver com isso: em um ano a gente descobriu um monte de pequenos conflitos que às vezes não são greves abertas. Um grupo de trabalhadores fizeram uma sabotagem desligando o cabo do fone para poder ter um tempo maior de mute e aumentar os espaços de não trabalho. A gente começou a buscar essas pequenas lutas dentro do trabalho para politizar elas. É um contexto de reforma trabalhista e isso também fazia os sindicatos se mobilizarem, chamarem greve geral e vira uma oportunidade para a gente também experimentar lutas nas categorias que a gente está ou em categorias que a gente conhece ou que a gente acha interessante ir lá e fazer algum contato.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essas pequenas lutas para além da explosividade foram importantes para a gente perceber o quanto um monte de coisa estava acontecendo, mas também para oxigenar nós mesmos. Foi muito importante para o próprio Grupão termos investigado um monte de pequenas lutinhas que até hoje a gente considera como importante. Deu uma centralidade para a nossa militância.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Na questão do local de trabalho, um ponto que para nós foi caro &#8211; sobretudo no diálogo contra as forças de esquerda &#8211; é que quase toda a esquerda no Brasil se organiza para tomar sindicato. Então o militante entra na empresa e começa a fazer um trabalho com o objetivo de ganhar a direção do sindicato. Temos companheiros que passaram anos trabalhando de forma clandestina na fábrica para mapear contatos no sentido de fazer uma chapa e disputar a direção do sindicato. Ao mesmo tempo, nesse período, vai acontecendo um monte de lutas e você não pode participar porque, se você se expõe, você é demitido e não consegue entrar na chapa e disputar a direção. É uma dinâmica totalmente voltada para a disputa eleitoral. Uma organização estruturada em volta do aparato sindical que, no Brasil, é ligado ao Estado. Por isso a gente queria tentar outras formas de organização nos locais de trabalho, fora das eleições e do aparato sindical.</p>
<p style="text-align: justify;">Na categoria de professores da rede privada aqui em São Paulo, por exemplo, tivemos a experiência de puxar uma greve por fora do sindicato, organizando assembleias autoconvocadas e comissões nas escolas, às vezes mais abertas, às vezes clandesitnas. Tinha a questão de não ser uma categoria estável, porque eles estão no setor privado e podem ser demitidos. Ao longo de 2017 e 2018, teve uma experiência muito rica nesse setor. Recuperando uma tradição que tinha no Brasil durante a ditadura, de se organizar por fora do aparato. Acompanhamos processos de luta assim em diferentes categorias. Até essa última, que foi o Breque dos Apps com os entregadores de aplicativos durante a pandemia. Já estavam acontecendo pequenas greves de entregadores de aplicativos, fizemos contatos e ajudamos essa rede a conformar uma comunicação nacional que permitiu a convocatória desta data, que foi o breque dos aplicativos na pandemia. Também construímos grupos de algumas cidades com esses entregadores.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essa questão da crítica ao sindicalismo, talvez ela tenha levado a gente para essas perspectivas mais de trabalho precário, etc., justamente porque o sindicato não estava presente. Acho que tivemos uma facilidade de entrada em vários desses lugares justamente porque nada estava constituído. A possibilidade de criação e experimentação era muito maior.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159303" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Qual papel acreditam que as minorias revolucionárias &#8211; como a rede de vocês &#8211; deve cumprir, tanto nos processos de luta mais cotidianos, quanto em levantes espontâneos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; A minha resposta é rápida: é não atrapalhar. Isso é o mínimo, né? O mínimo é não atrapalhar. Porque, às vezes, a gente acha que está ajudando e atrapalha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; É… Mas, claro, dá para falar muito mais que isso. E também dá para questionar: será que a gente é uma minoria revolucionária? Não sei nem se a gente se entende como uma minoria revolucionária. Eu acho que começa por aí. Acho que esse debate ainda está em aberto. Eu não gostaria de falar minoria revolucionária. Gosto mais do “pró-revolucionário”. Mas, em relação ao nosso papel, acho que ainda está em aberto. A pergunta de como as minorias revolucionárias devem atuar, qual papel elas devem desempenhar, pode se confundir com o papel de guiar para a revolução. Quando coloca minorias revolucionárias nesse sentido, parece isso. E eu não acho que esse seja o nosso papel. Também não acho que a gente tenha se colocado nessa perspectiva nunca. De certa forma, a gente tenta não só não atrapalhar, mas também incentivar os processos espontâneos de luta que os trabalhadores estão colocando, estão se envolvendo, com todos os limites que isso implica. Acho que o papel aqui talvez seja muito mais de crítica e tentativa de potencializar do que necessariamente de dirigir ou tentar despertar a revolução.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong>&#8211; As lutas já estão acontecendo. A todo momento tem conflitos acontecendo e nosso papel tem muito mais a ver com registrar esses conflitos, publicizar eles, fazer a informação circular. Vou dar um exemplo. A gente acompanhou aqui em São Paulo um supermercado que faliu, o Seta Atacadista. Na verdade, não foi uma falência. O patrão simplesmente estava dando um calote. Ele foi fechar o mercado e estava tentando tirar a mercadoria de noite para os trabalhadores chegarem no dia seguinte e serem demitidos todos, não receber nada. Só que, de noite, os trabalhadores ficaram sabendo, porque alguém comentou no bairro que tinha caminhões lá indo esvaziar o supermercado. E eles foram e cercaram o mercado e ocuparam o mercado para não deixar a mercadoria sair e não deixar o patrão dar o calote. Então, de repente, descobre que tem um supermercado ocupado na periferia sul de São Paulo. Aí a gente foi lá, publicou uma notícia daquilo. Aí a gente falou: bom, o Seta é uma rede de supermercados. O patrão deve estar dando esse golpe na empresa inteira, ele vai falir e deixar todo mundo no vazio. Vamos encontrar outros e avisar que isso está acontecendo, tentar fazer informação circular. A gente vai em outros, descobre outras pequenas lutas e tenta potencializar o processo nesse sentido. Acho que é diferente de uma noção de dirigir ou de levar a consciência. É como fazer as lutas circularem, integrar elas e, nisso, potencializar elas. É fazer as coisas irem além de seu local, além de sua categoria</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Quais elementos da forma clássica de militância da esquerda, ou do anarquismo, que consideram obsoletos? O “trabalho de base”? O “acúmulo de forças”?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Tá, as duas. Com certeza.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; É, o trabalho de base, eu acho que nós temos coisas pra conversar. Trabalho de base. Mas essa de acúmulo de forças, eu acho que entre nós, eu não sei se alguém tem alguma expectativa com isso. Acho que a gente nem fala essa palavra, na verdade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu diria, além disso, a questão da “consciência”. Essa parte entra no acúmulo de forças: levar a consciência pra galera e acumulando gente até a gente fazer a revolução. A gente não acredita nisso. A questão da “estratégia revolucionária” entra aí, acho que a gente não entende que esse seja o momento para estratégia revolucionária. Estou falando um pouco por mim, mas eu acho que o fato da gente nunca ter se debruçado sobre isso, de certa forma, diz um pouco sobre isso também. A gente nunca acreditou que necessitava fazer um programa ou ter uma estratégia revolucionária porque a gente acha que isso está além de nós. Não é a gente que vai cumprir esse papel.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A coisa do trabalho de base, eu até fiquei pensando… Fiquei curioso porque eu não sabia se o termo “trabalho de base” existia da mesma forma em espanhol. Porque eu acho que em algumas línguas você não tem o equivalente direto. Eu acho que tem muito a ver com a formação da nossa esquerda atual a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A ideia de que você tem um trabalho de base pressupõe uma comunidade de base. O ciclo de lutas dos anos 70-80 foi muito baseado nisso. Se for pensar, o próprio MST surge disso. A ocupação forma uma comunidade ali. E, claro, tem todo um peso da igreja na formação do MST, mas ele surge disso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z </strong>&#8211; A ocupação forma uma comunidade e aquela comunidade é a base do movimento. Isso impõe a necessidade de um tipo de trabalho permanente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; O processo do acúmulo de forças tinha um pensamento um pouco gramsciano da esquerda desde os anos 70, que é de guerra de trincheiras. Guerra de posições. Vai aumentando as bases até você ter uma hegemonia. Essa é a ideia do acúmulo de forças. E a esquerda atuaria de um lado com uma luta institucional pelos partidos e do outro pelos movimentos, e com o “<em>movimento de pinça</em>” chegaria ao poder. Foi o que aconteceu no Brasil, aconteceu em outros lugares da América Latina e acho que a nossa reflexão também é pensar: “bom, esse acúmulo de forças a gente já fez”. Talvez não seja preciso do ponto de vista econômico, mas a gente dizia: “esse &#8216;acúmulo de forças&#8217; virou acúmulo de forças produtivas”. Não é que acumulou força para o nosso lado, acumulou para o capital no fim das contas. Os movimentos, e a gente viu isso acontecer, viraram tecnologia de gestão do capitalismo. Então o MST agora vai construir uma fábrica de tratores com capital chinês. São os maiores produtores de arroz orgânico da América Latina. As cooperativas têm ação na bolsa de valores. Sem falar do ponto de vista social, o quanto é funcional ao capital ter certos setores do proletariado empobrecido organizados pelas burocracias. Melhor do que deixar eles soltos para o caos social. Então os movimentos cumpriram um papel civilizatório. E aí até aquela base da comunidade de base perde seu conteúdo e vira um cadastro. O que é o MTST hoje? Tem ocupações onde quase ninguém mora: eles erguem pequenas barracas de lona preta, não deixam construir com madeirite ou bloco; fazem um cadastro e esse cadastro vira uma lista, a partir do qual o movimento repassa o bolsa aluguel do estado e faz um ranking para as pessoas ganharem a moradia com base na participação. Os movimentos viraram tecnologia de gestão. O “acúmulo de forças” virou isso, virou o acúmulo de forças produtivas. A reflexão que fica disso é: como que a gente se organiza? Será que é possível produzir um acúmulo que seja nosso? Talvez só um acúmulo de experiência, porque tudo que a gente vai construindo de estrutura para se reproduzir vai entrando na lógica da reprodução capitalista. Essa é uma crise nossa. É uma reflexão nossa também quando a gente pensa nas lutas que são mais sem estrutura, e justamente por isso elas acabam sendo mais descontínuas no tempo. É porque a reprodução no tempo também implica, de alguma forma, você entrar na lógica desse sistema.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Por outro lado, também essa ideia de acúmulo de forças, de acúmulo organizativo, entra naquilo que o Camarada Z falou. A gente não vive uma escassez organizativa da classe, vive uma superprodução de organizações da classe, e isso também entra em contradição com a lógica da própria luta. Não é mais uma questão de que não se acumulam processos organizativos, eles se acumulam em excesso! E acabam eles mesmos travando o processo da luta. É uma contradição de algo que deu certo, não só que deu errado. Não é que “faltou trabalho de base”: teve trabalho de base demais, e tem uma lógica de sustentação desse trabalho de base que começa também a competir entre si dentro da sua própria base. Ao ponto, e eu acho que é o máximo da esquizofrenia da esquerda, que é uma pessoa condensar quatro organizações. Eles se apresentam assim “eu estou aqui como fulano que é de tal, tal e tal organização…”. Uma mesma pessoa está em quatro organizações. Então é obsoleto o “acúmulo de forças”, o “trabalho de base”, ou é aquilo que é hoje hegemônico? Porque pra nós pode ser obsoleto, mas do ponto de vista da luta real, não parece que é obsoleto isso. Continua existindo, mas nessa perspectiva de gestão, de controle, de travar qualquer processo que desorganize a base na qual esses movimentos podem se manter existindo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Para voltar um pouco na discussão do “revolucionário”. A gente vê experiências que a gente teve muito acúmulo organizativo no Brasil e esse acúmulo jogou contra a revolução, porque ele vira um acúmulo de contenção. Os grandes movimentos sociais produziram contenção da classe. Se for pensar, os companheiros estavam nos anos 90 do MST pensando em formas de luta insurrecionais, pensando que a partir daquele movimento você ia ter a preparação do exército popular para fazer uma revolução no Brasil. No momento que tivesse uma explosão, eles estariam prontos para tomar o poder. Mas quando vem 2013, o que virou? O MST naquele momento, que já estava integrado ao mercado e ao Estado, foi uma ferramenta de contenção. No fundo, o acúmulo organizativo serviu muito mais para segurar a classe trabalhadora do que para permitir uma potencialização das lutas. Quando a gente fala que o papel do militante às vezes é não atrapalhar, é porque a gente sabe que, se a gente se organizar demais, pode até ter o efeito contrário. E várias vezes a gente entra em processos com a intenção de fortalecer e depois, quando vai fazer o balanço, vê que talvez tenha atrapalhado!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Tem uma palavrinha mágica que a galera colocou no jogo que não é nova, é antiga, e que eu acho que justificou um pouco esse tipo de movimento, vamos dizer assim, que é a “resistência”. Resistir passou a ser garantir a manutenção daquilo que a gente conquistou. Então ela e o acúmulo de força passava por um tipo de momento em que a luta se converteu no que o movimento chamava de resistência. Por exemplo, a intersindical dizia “nenhum direito a menos”, movimento sindical combativo. Mas isso foi mais ou menos um diálogo de derrotados bem sucedidos. Isso é o mais louco da dialética do processo. Ser bem sucedido não significa ter chegado a uma plenitude, vamos dizer assim, na sua tática, no resultado de suas lutas, mas é conseguir justificar no tempo e nas condições que ela existe. Se temos vontade de olhar para esse passado, agora a gente precisa olhar com as ferramentas que a gente adquiriu no processo das nossas experiências, não mais como a gente olhou. Eu não vejo disposição da galera olhar pra trás, pras experiências, e reformular a sua leitura. Eu vejo uma galera querendo reafirmar aquela crítica para sustentar algo que, inclusive, a gente já tá fracassado no que a gente buscou.</p>
<p style="text-align: justify;">Só faz sentido voltar lá pra ver se o que a gente produziu como política faz sentido. Olhar para trás, é olhar para os limites da nossa crítica, não da experiência em si, da forma generalizada, mas do específico, daquilo que a gente reafirmou no passado. Quando o passado vem atormentando a gente é porque tem alguma coisa lá que tá mal resolvida. Aquilo lá que a gente produziu explicou naquele momento, ajudou a gente a dar um passo, mas agora estamos tendo dificuldade, e aí há uma necessidade de olhar para aquilo e falar “olha isso aqui! Tem alguma coisa que nos incomoda”. E eu acho que passa por isso que nós estamos conversando aqui, essas leituras de fundo, de força, de resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso que eu falei do trabalho de base. Não que eu ache que a gente defenda o trabalho de base, é que eu acho que essa palavra apesar de parecer simples ela carrega o grau de complexidade dessa totalidade que vai ser vai ser a herança do seu passado, vai estar aí a possibilidade daquilo que o X falou, que nós não temos essa perspectiva de levar a consciência, de levar a formação. Mas nessa palavrinha condensa tudo isso. A palavrinha trabalho de base ela é pesada. Na verdade, as pessoas simplificam ela como se fosse “vamos ali convencer o cara a fazer uma greve”, “vamos ali fazer um programa de formação”, “vamos ali fazer uma luta x, e ajudar na resistência do moinho”, essa palavrinha ela carrega um conjunto de contradições que, pra mim, está a base do limite que a gente está vivendo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem uma questão também, que talvez seja mais um elemento de crítica nossa, é que de certa forma essa análise anterior, antiga, da perspectiva do trabalho de base era de “vamos montar organizações de massa”. Eu acho que a gente não tem essa perspectiva de organização de massa. Eu acho que essa é uma questão. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa de perspectiva radical nesse momento histórico porque criar uma organização de massa significa, no final, nos tornarmos gestores. Por mais que a gente acredite nas lutas de massa, a gente não acredita na solidificação disso. É interessante a gente ver às vezes para alguns agrupamentos anarquistas, autonomistas, que estão falando “a gente criou a nossa organização de massas aqui e tal” e aí quando a gente vai ver a organização de massas e a gente pergunta “quantas pessoas tem?” no final a gente vai ver que é o mesmo número de gente que tem no Grupão. A gente não tem essa perspectiva de que vamos acumular gente e a revolução vai vir. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa. Talvez no momento de ascensão das lutas essas formas se tornem possíveis. Mas agora não é esse momento, então não adianta a gente criar esses instrumentos que, no final, como o W falou, quando a luta vier na verdade vai servir para controle, para contenção.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu fiquei pensando na acusação, que a gente recebeu muito, de que o autonomismo que a gente representaria teria uma “centralidade da tática”. E, de fato, a gente reconhece isso. Quando a gente estava falando que a gente acreditava que pela tática radical era possível tensionar a realidade e produzir conteúdos que abriam caminho para uma ruptura anticapitalista, e que às vezes a tática é mais importante que o discurso da organização, que a ação concreta é mais importante, então de fato eu acho que tem um pensamento taticista nosso, “lutista”. Eu acho que isso é uma coisa em comum na nossa formação como Grupão. Só que eu acho que isso daí é uma condição do tempo. Tem organizações hoje que falam em “estratégia”, mas o que a gente está falando é que talvez não seja um momento de estratégia, que não tem mais lugar. Não é tempo histórico de estratégia. A gente acha que, no fundo, quem está falando que tem estratégia, tá meio iludido… teoricamente, estratégia é uma coisa que você está pensando em um plano para longo prazo. As estratégias hoje não são isso. Mesmo a suposta “estratégia democrática popular” que o PT teve, que formou aquela geração dos anos 70 para cá… se ela foi uma estratégia nos anos 70, desde os anos 2000 ela já não é uma estratégia mais. Ela foi bem sucedida, eles chegaram no governo. Ela virou o que? Ela virou uma ferramenta de gestão. Esse pensamento estratégico de acúmulo, de um ponto de vista proletário, de um ponto de vista que quer romper com esse mundo, ele não existe. Porque o acúmulo nunca é para a gente, o acúmulo sempre acaba sendo acúmulo de força produtiva. Vira um acúmulo dentro da lógica do capital. Então do nosso lado a gente não consegue acumular coisas duradouras assim, e isso talvez seja uma inviabilidade da estratégia, já que quando a gente acumula, vira contenção nossa. Então talvez o pensamento estratégico esteja ligado a algo quase contrarrevolucionário. O Grupão nunca disse isso com essas palavras, mas talvez seja um pouco isso que a gente intui e que nesse sentido o lugar mais potente é mesmo o da tática. O comunismo seja uma tática. Que nem a gente viu que ocupava uma escola e isso foi se reproduzindo como um meme. De uma, duas, três escolas ocupadas que a gente planejou de forma conspirativa, de repente explodiu duzentas escolas ocupadas em São Paulo, mil no Brasil no ano seguinte. Talvez um processo que vá romper com este mundo vai se dar assim também, uma propagação no nível tático, e acho que a gente sempre tenta extrair conteúdo político das táticas pensando assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Acho que são dois vícios diferentes a tática e a estratégia. Acho que ambos contêm os seus limites, não é que a estratégia por si é sempre contenção. Hoje ela funciona como contenção por essas inúmeras razões. Não é que ela esteja sempre obsoleta. No nosso tempo ela é obsoleta de fato, mas pode ser que ela se transforme um pouco no sentido do que o X estava falando. Nisso a gente poderia ter aproveitado muito mais os momentos de se posicionar politicamente nas outras lutas que a gente compôs, estimulando pensamentos que dessem vazão a outros questionamentos que são de ordem estratégica, além da luta concreta. Um pensamento de conteúdo, conteúdo do comunismo, ele não necessariamente é estratégia no sentido que a gente está falando. Mas ele pode servir de formulações autônomas de outros polos nesse viés, entende? E nesse sentido ele se compõe como um estímulo para a estratégia. Eu acho que a gente pecou em certa medida de não ter estipulado na formulação tática esses outros pensamentos que são para além daquela luta. A tática se resume naquela forma daquela luta, naquele tempo, naquele espaço. O que tem um caráter positivo e é bom porque ele mantém firme o conflito como central, porém é uma dialética entre esse momento, esse imediato, e o posterior. A gente também não sabe muito bem como jogar…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Sim, é verdade. A questão que fica é: será que isso não seria uma estratégia nossa? Talvez o fato da gente não ter estratégia, da gente se manter baixo, da gente ter o foco nas lutas, de se basear muito mais nas táticas de inserção, de potência, será que isso também não é uma estratégia nossa?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Eu acho que é um pouco a provocação do X, e também eu acho que é um pouco a ausência de uma compreensão. Você encontra num lugar de conforto mínimo que te mantém existindo, porém esse lugar já está esquentando. Na verdade, no nosso caso, essa porra já está saindo fumaça preta porque o cabeçote está rachado. Nós mesmos estamos incomodados com a nossa estratégia. Se é que a reflexão do X faz sentido, e eu acho que faz, porque eu acho que é esse o nosso tempo, é o tempo da crise daquilo que a gente constituiu como formas de se manter organizado, em movimento, articulando ações e reflexões. A gente vive como a música do Belchior “ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”. Mas o fato é que a gente morreu e a gente está tentando não morrer de novo. Como a gente sabe que não tem perspectiva de um horizonte, de uma revolução, isso ao mesmo tempo é trágico, porém nos dá uma condição de falar “opa, também não precisa ficar loucão assim, com essa ansiedade toda”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159298" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg" alt="" width="960" height="949" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-300x297.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-768x759.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-425x420.jpg 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-640x633.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-681x673.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />PyB &#8211; Quando afirmam que a “investigação” deve ser o centro da preocupação política, a que se referem concretamente? Tomam como referência a experiência da “investigação militante” desenvolvida pelo operaísmo italiano dos anos 60-70? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Deixa eu falar uma coisa engraçada para você. Outro dia o pessoal fez homenagem para o Toni Negri aqui em casa, aí eu falei assim “alguém precisa avisar os 51 do MST que a gente era negriano e não sabia”. Alguém precisava ter avisado a gente: “Olha o que vocês estão fazendo, tem um cara que pensava essas coisas, exatamente isso”. Eu olhei para lá e falei “pô a gente era negriano e não sabia”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu gostei disso, Z. Porque tem muita coisa que a gente está levando um pouco sem reflexão, mas tem um monte de gente que refletiu sobre isso, chegou ao mesmo ponto da gente e refletiu sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A gente encontrou algo em comum com os operaístas na questão da enquete operária. Para nós, pensar o local de trabalho que a gente está, mapear ele, organizar ele, buscar os pontos de conflito, isso é enquete. Então às vezes, inclusive, a própria investigação pode ser a própria luta. Por exemplo, quando eu estive aqui, o pessoal que trabalhava no metrô, percebeu que os terceirizados da bilheteria estavam fazendo uma greve selvagem e a gente organizou uma solidariedade a eles. Nesse processo a gente descobriu como funcionava o trabalho na bilheteria. Isso foi uma enquete operária no próprio processo de luta. A gente já lia antes o Castoriadis, o João Bernardo &#8211; a gente não falou dele, mas acho que é uma outra influência grande que veio de uma experiência em Portugal, do jornal Combate. Mas uma diferença com essa tradição dos anos 60-70 é que ali tinha uma expectativa muito positiva para o trabalho. Uma perspectiva de autogestão que cada pequena ação operária mostrava que o trabalhador podia controlar a fábrica se ele quisesse. E o auge disso foi nos anos 70, as lutas autogestionárias. Na revolução portuguesa de 74, teve um movimento que tomou uma porcentagem importante das fábricas do país. As empresas estavam sob o controle dos trabalhadores. Eu acho que esse era um horizonte das lutas no fordismo, e acho que a gente tinha uma intuição aqui &#8211; daí vocês me corrijam se vocês acham que eu não estou certo &#8211; de que essa tendência autogestionária não é a mesma coisa hoje. A gente viu isso na organização do call center, que no fundo a vontade era também explodir aquele lugar e sair de lá. Você não é o operário que está fazendo um avião que vai voar e fazer a sociedade ir para o futuro. Hoje o conteúdo das lutas no trabalho parece mais anti-trabalho do que autogestionário, e acho que a gente encontrou nisso uma afinidade também com o pensamento anti-gestão do Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Tem também um outro caminho, não sei se vocês tiveram o mesmo preconceito que a gente que é um pouco mais velho, teve, que era o seguinte: em certa medida, a gente foi vendo a degeneração das formas organizativas anteriores. Entendia elas como uma camada mais de reificação sobre os dilemas e as composições das lutas dos trabalhadores. Tinha até uma música do Tom Zé, que era muito boa: “não tem nenhum operário na platéia, não tem nenhum operário no palco, mas Tom Zé sabe muito bem aquilo que é bom para a classe operária”. Eram camadas de reificação que iam se afirmando na tentativa de buscar também um conflito. Foi meio intuitivo, a gente precisava investigar para além daquilo que é dito pela representação dos trabalhadores. Qual é o nível de conflituosidade que existe no chão, no quente daquelas contradições que não podem ser transmitidas pelas formas tradicionais? Não significa que os trabalhadores não reifiquem, só que a reificação imediata daquele processo é distinta da reificação que vai ser feita por uma organização que já quer se manter, já tem todo um laço, um entrelaçamento de posicionamentos, uma fauna organizativa que ele está preso e que ele é obrigado a idealizar ainda mais aquela parte da realidade. Então a idealização feita a quente pelo trabalho permitia a gente entender muito melhor quais eram as contradições que estavam postas e como potencializar elas no sentido anti-trabalho, não no sentido propriamente de tomada do lugar do trabalho. A gente entendia que as formas sindicais e partidárias não davam conta de dar vazão a isso, a gente precisava furar esse bloqueio. A gente não tinha uma formulação teórica sobre isso, ela veio comprimida por uma necessidade da própria luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; A pergunta fala especificamente do operaísmo italiano, que fez uma investigação entre o começo e auge das lutas se a gente pegar de 60 a 70. Se a gente vê a Tendência Johnson-Forest ou até a galera do Socialismo ou Barbárie, ali era algo mais de “estamos desiludidos com a nossa forma de organização atual e precisamos nos reencontrar”. Também era uma perspectiva de se reconectar, de entender a nova conjuntura, e eu acho que esse é o papel da enquete que de certa forma a gente pegou. É muito diferente de uma situação quente, como o jornal Combate, dentro de um processo revolucionário e de tentar potencializar isso. Nossa perspectiva de enquete foi muito mais se religar, entender o que está acontecendo e se inserir. Nossa crítica à esquerda era justamente essa, a esquerda chega lá e quer falar para a galera. A gente não quer falar <em>para</em> a galera, a gente quer falar <em>com</em> a galera, a gente quer entender o que a galera fala, e nesse sentido essa perspectiva da investigação tem muito mais a ver com uma autoformação nossa, do que necessariamente com a perspectiva da gente apontar para alguma solução. Uma crítica que um camarada fez foi: “vocês estão aí nessa coisa da enquete operária, e a diferença de vocês e dos leninistas é que os leninistas tem o partido e vocês estão com a enquete para poder fazer a revolução”, mas eu não acredito nisso. Eu não acredito na nossa possibilidade de fazer a revolução através da enquete, mas da gente entender o contexto atual e como a gente se insere nos processos que estão acontecendo, como a gente se liga a classe, qual o movimento da classe atualmente, muito mais do que o que a gente quer levar a classe a fazer. Eu acho que a gente também faz um pouco de confusão entre a própria ideia de enquete operária e copesquisa, mas eu acho que a ideia da investigação militante é mais interessante nesse sentido, que a investigação que a gente faz de certa forma coloca as duas coisas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; E isso permitiu a gente chegar mais a fundo em compreensões sobre o caráter ambíguo das explosões que aconteceram recentemente. O modo tradicional de caracterizar uma determinada luta pode ser muito perverso. Você recorta e joga essa luta parcialmente e isso vira um consenso num circuito grande da esquerda e acaba jogando tudo fora, na lata do lixo. Todas as possibilidades de quebra daquela realidade se transformam em uma coisa chapada, homogênea. Então acho que essa investigação também permitia a gente sair dessas formas que homogeneizavam a realidade, botavam a realidade com uma coisa preta no branco, mas é muito mais cinza, cheio de nuances. Os caras não esperavam ver da boca de caminhoneiros as demandas, por exemplo, dos pequenos caminhoneiros daqui da entrada de São Paulo. Não é a busca da verdade, mas é um pouco nesse sentido que você falou, reconexão com os processos reais de luta, compreender os limites e como eles também reificam a realidade, e como que a gente também conseguiria contribuir numa tendência que a gente acredita ser de ruptura, ou de contribuição com outras lutas de trabalhadores que estavam acontecendo. A investigação foi caindo no nosso colo. A gente não fez um caminho consciente…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu acho que tem uma coisa que liga também com a discussão de estratégia que a gente teve antes com a discussão de consciência, eu acho que o pensamento da investigação ele inverte o plano da consciência. Então, ao invés de você levar uma resposta pronta pra classe trabalhadora, é o movimento inverso. Você vai pra porta de uma empresa não pra dar um panfleto que vai contar uma verdade pro cara, mas pra descobrir, pra aprender alguma coisa. O que tem de mais importante nesse processo é você descobrir uma denúncia daquela fábrica, descobrir alguma coisa ali… O militante, no fundo, tá aprendendo, e não indo dizer alguma coisa e, claro, a partir desse aprendizado a gente faz elaborações que são importantes para nós e que também podem ser úteis pra luta. Eu acho que é um pouco por aí, e acho que liga com estratégia também porque aí tem uma discussão do conteúdo. Qual a relação entre a enquete e o conteúdo do comunismo? Pensar que o conteúdo do comunismo talvez não tenha sido estático ao longo da história e que cada composição de classe ao longo da história projetou uma certa perspectiva no horizonte. Quando os caras estavam discutindo lá no século XIX na Comuna de Paris como eles queriam que fosse o mundo depois da revolução, eles estavam fazendo isso com base no chão que eles pisavam, que era um certo capitalismo; e que foi outro em 1920 quando a galera formou os conselhos; foi outro nos anos 60, quando o tema era autogestão; e talvez seja outro no nosso tempo. Então eu acho que o papel da enquete é descobrir quais lutas estão acontecendo de fato para encontrar o conteúdo do comunismo do nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos pegar o exemplo dos entregadores. Para boa parte da esquerda tinha uma dificuldade de se relacionar com esse setor porque já vinha com uma resposta pronta que era baseada em formulações que a classe trabalhadora fez em outro ciclo, em outro período que tinha a ver com os marcos fordistas da CLT, que gerava muito rechaço nos entregadores. E por quê? A visão de antes vai dizer então eles são conservadores. Não. Na luta a gente entendeu: é não querer ter chefe, não querer ter hora para entrar e sair. Mas ao mesmo tempo os companheiros estavam fazendo greve e se organizando para bloquear McDonald&#8217;s. Vinha gente trabalhar e os caras estavam no piquete e falavam “não, a gente está brecando aqui hoje, não é dia de trabalhar”. E o cara que veio trabalhar ficava no breque. Uma ação de classe muito mais radical do que uma categoria como bancários faz hoje em dia, que coloca uma faixa na frente do banco da agência e finge que está fazendo uma greve. Eles queriam autonomia e estabilidade. Ou seja, não é que eles queriam simplesmente negar a CLT, não era negar a possibilidade de um salário bom, de uma vida boa, de ter um direito à saúde, um direito em caso de um acidente que acontecesse, era ao contrário. Era ter acesso a tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; E a crítica ao sindicalismo também é uma coisa de: “a gente não quer ninguém negociando pela gente” e no entanto cai essa coisa de “o trabalhador que rejeita o sindicato quer fazer negociação direta com o patrão”. Eu acho que de fato eles querem isso, mas não é uma negociação individual com o patrão, eles querem organização coletiva com pressão, a partir dos pontos que eles determinam ali. Eu lembro que eu conversava com uma companheira que falava “na verdade parece muito mais com aquele ciclo dos anarquistas no começo do século XX, aquela galera que não queria que as suas organizações fossem institucionalizadas pelo Estado e ao mesmo tempo queria fazer as lutas diretas, se auto-organizar”. O que a gente vê talvez seja mesmo uma questão de gestão da miséria, barbárie. Alguns grupinhos e iniciativas foram organizadas nesse sentido de “todo mundo coloca uma graninha e daí a gente ajuda quem se acidentar”, e tal. A gente pode ver isso dentro de uma dinâmica de que está tirando a responsabilidade da empresa. Mas ao mesmo tempo a gente também pode ver isso dentro de uma ótica de avanço de perspectiva de auto-organização, que é interessante. Só que a gente fica nessa contradição porque a gente não quer também potencializar a gestão da miséria. Mas ao mesmo tempo o desenvolvimento de novas relações e novas organizações, formas de se relacionar que surgem daquilo, são muito interessantes. Então como é que a gente junta isso? A esquerda só fala coisas como “precisa ter CLT”, “precisa de sindicato”, “precisa disso”, mas não olha para essas expressões mais orgânicas da classe, em buscar os conflitos e as formas de organização invisíveis, subterrâneas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159304" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg" alt="" width="1046" height="1493" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg 1046w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-210x300.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-717x1024.jpg 717w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-768x1096.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-294x420.jpg 294w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-640x913.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-681x972.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1046px) 100vw, 1046px" />PyB &#8211; Como surgiu a ideia de editar o livro “Incêndio”? Qual foi seu principal objetivo ao circular esses textos no meio autônomo/radical?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Tem dois textos nesse livro, né? O primeiro texto chama <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" href="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Olha como a coisa virou”</a>, que acho que foi o primeiro texto coletivo que a gente escreveu no Grupão. E a gente escreveu em 2018, que foi o ano que estava se elegendo o Bolsonaro, foi um ano muito tenso. Só que no Grupão tinha uma intuição, mesmo antes do Bolsonaro ser eleito, de que ele era de alguma forma um “candidato do tempo”. Porque tínhamos uma leitura de 2013 como a revolta que explodiu a guerra social, e que rompeu com a pacificação, com o regime de gestão petista e trouxe à tona o conflito. E o Bolsonaro, de alguma forma, era o candidato que trazia à tona o conflito também. Não era o mesmo conflito de classe que a gente queria em 2013, mas ele escancarava a guerra social em vários sentidos. Então parecia para gente que o espírito de revolta de 2013 ainda estaria vivo e eleitoralmente o Bolsonaro teria condições de sequestrar um pouco dessa energia de revolta. Ele vencer a eleição reforçou esse ponto.</p>
<p style="text-align: justify;">A gente tinha uma hipótese para explicar a eleição que era que o bolsonarismo sequestrava parte daquela energia de revolta social de 2013 de forma muito louca porque ao mesmo tempo também era a expressão da repressão em 2013, das forças policiais, do exército que estava no Haiti reprimindo nas favelas e que veio pra cá reprimir, fazer garantia de lei e ordem. Então o Bolsonaro condensava esses dois lados da coisa: a repressão e também o sequestro da energia de revolta, tirando essa revolta de termos de classe e levando pra uma coisa mais ambígua &#8211; justamente por isso fascista, porque como o João Bernardo define, fascismo é uma revolta dentro da ordem. Então o texto continha uma hipótese para o período: “se o Bolsonaro expressa uma energia de revolta social que era nossa em 2013 e que agora foi sequestrada por uma extrema direita, quer dizer que existe algum conteúdo que nos interessa no meio dessa coisa toda” . E isso nos fez, durante o período seguinte, ter uma posição que fez a gente se afastar do conjunto da esquerda que adotou uma posição “se unir contra o fascismo”. A gente tinha muita ressalva com esse discurso antifascista no sentido de que ele poderia simplesmente significar uma defesa daquela democracia, do consenso e do apaziguamento que estávamos combatendo anos antes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K </strong>&#8211; De certa forma, a gente tentou traçar durante o Bolsonaro uma postura que não era exatamente antifascista, ou ela o era em outros termos, que não era de defender a civilização e a ordem capitalista contra a irracionalidade fascista, mas sim de buscar no proletariado, inclusive nos trabalhadores que apoiavam o Bolsonaro, uma energia de revolta que agora a insurgência de direita estava sequestrando. Eu acho que o texto tinha um pouco essa aposta: tentar escapar da polarização Bolsonaro-PT e entender as lutas nos seus próprios termos. Levar elas para o plano trabalhadores versus capital, colocar uma oposição em termos de classe. A gente teve essa experiência em várias categorias, como os entregadores. O segundo texto do <em>Incêndio</em>, que é o <a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">“</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Masterclass de fim do mundo</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">”</a>, é uma compilação, um balanço do conjunto dessa experiência que a gente teve durante o bolsonarismo, que foi agravada obviamente pela pandemia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Vale a pena falar que no período da pandemia o Grupão teve algumas diferenças internas. Chegou praticamente a rachar, apesar de que não completamente. O texto acabou sendo escrito por um lado, digamos, dessa divisão. Quais eram os lados dessa polarização interna? O primeiro dizia: “tem um vírus mortal rolando aí e a nossa tarefa é criar redes de solidariedade para se proteger contra a pandemia.” A auto-organização da quarentena e das medidas sanitárias vinha em primeiro lugar. O outro setor &#8211; e eu estava mais desse lado &#8211; argumentava que para muitos trabalhadores a quarentena não seria uma opção. Você vai se proteger na medida em que você consegue, mas se as pessoas ainda tem que sair para trabalhar, ainda precisam lutar contra o seu patrão, e quem está em casa também. Por isso, nossa primeira tarefa deveria ser apoiar o conflito. O texto do Incêndio coloca essa questão nas entrelinhas em muitos momentos: a ênfase na solidariedade ou no conflito? Depois da pandemia e com o texto publicado, hoje para nós está claro que essas coisas não se excluem completamente. Para você ter conflito você tem que ter uma rede de solidariedade mínima entre os trabalhadores que estão em conflito, e que certas redes de solidariedade, em certas situações, também podem ser conflituosas para o capital. Enfim, o grupo que escreveu o incêndio, e daí assinou como “militantes na neblina” &#8211; foi uma forma também de não colocar o nome “Grupão” &#8211; era o setor que estava criticando as redes de solidariedade como um embrião de gestão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Só para explicar um pouco, por exemplo, no caso específico dos entregadores, uma fração que foi alçada à categoria de imprescindíveis para a reprodução, chamados de trabalhos “essenciais”. Como também não tinham muita organização formal, era uma linha de frente para o capital. Daí a galera discutiu se poderia se organizar para entregar EPIs para os trabalhadores ou então fazer com que a própria luta se voltasse contra o iFood, contra a Rappi, e obrigar que essas empresas fizessem a proteção dos trabalhadores, aumentando o pagamento salarial. Óbvio que a gente estava pensando “é importante fazer a segurança, ter EPI de qualidade”, mas dentro disso saber que não adianta a gente, enquanto grupo externo, ficar fazendo “vamos lá levar máscara para os caras”, “vamos lá fazer vaquinha para ajudar o cara”, era quebrar com essa lógica de uma forma específica e botar isso como conteúdo objetivo da luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Eu acho que o W apresentou dois extremos ali do debate sobre solidariedade e conflito, que é anterior à pandemia e ele se desenvolve na pandemia. De certa forma, acaba se radicalizando. Mas eu não acho que a ruptura se deu nesses termos exatamente. Até porque eu fiquei mais do lado da galera que estava vendo outras formas de luta e resistência dentro de processos de solidariedade, que também eram conflituosos. Acompanhamos e apoiamos a greve dos entregadores da Loggi no Rio de Janeiro, que foi anterior ao Breque dos Apps. O mesmo com rodoviários fazendo greve selvagem. Lá em Paraty, a gente estava de olho no desenvolvimento das barreiras sanitárias organizadas por moradores de bairros afastados, que tinham treta com o poder público. Divulgando a galera que estava nos locais de trabalho, com raiva de seus patrões que estavam se utilizando das políticas sanitárias a bel prazer, sem nenhum tipo de fiscalização por parte do poder público, enquanto o mesmo poder público censurava trabalhadores precarizados do centro que estavam lá vendendo artesanato, fazendo arte, música, enfim. Aqui em Goiânia, um dos pontos que foi interessante é que a gente conseguiu uma inserção com os entregadores, que foi a galera que já estava recebendo kit de entrega de máscara e álcool gel, mas era uma máscara de pano escrota. A gente se juntou, fez uma vaquinha e foi lá distribuir pra galera. E foi super massa ter essa troca. Isso abriu nossa inserção para a greve contra o agendamento de corridas nos apps, por exemplo, que a gente construiu junto na pandemia. As coisas ficaram um pouco misturadas em certo momento. Eu acho que essas questões não ficaram tão pretas ou brancas assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Isso é uma coisa engraçada dessa experiência: foi uma divisão funcional de tarefas também. No momento em que o auxílio emergencial produziu revoltas de rua, a gente se envolveu. Quando virou uma coisa de redes de solidariedade a gente falou “isso aí é pelego”, aí vocês se envolveram. Então, de alguma forma, a gente pôde acompanhar o movimento inteiro. Quando a gente voltou a se encontrar, deu para conversar e os dois produziram sínteses.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Voltando à questão do <em>Incêndio</em>, eu já estava no Grupão no processo da escrita dos dois textos. Não participei do <em>“Olha como a coisa virou”</em>, mas é o que eu tenho mais acordo. Em relação ao <em>“Masterclass do fim do mundo”</em>, a minha discordância além de questões chaves, terminológicas ou de definições de certos processos (como por exemplo as barreiras sanitárias e tal, que também foi dual, tinha coisa muito pelega, mas tinha coisa muito interessante de combatividade), é o tom final do texto de “chegamos ao fim da linha” &#8211; que deu um tom também no próprio Grupão. O Masterclass caiu numa coisa completamente niilista, que reforçou uma questão, que eu acho que a gente está tentando sair agora, de: “é o fim, talvez a gente nem deve mais pensar em revolução, talvez seja uma questão de pensar apenas resistência”. Na minha visão, a gente tinha muito claro, muito estabelecido entre a gente, por mais que não falasse muito, que a nossa perspectiva era revolucionária. A partir do <em>Masterclass</em> eu comecei a pensar que talvez esse não fosse o caso, que talvez realmente haviam camaradas que pensassem que não tem mais pra onde ir, que é o fim mesmo, e agora é sobre puxar o freio e segurar essa porra. Eu acho que isso levou o Grupão por um lado meio negativo. Dessa coisa meio da gente simplesmente achar que é o fim da linha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em certa medida, são textos que se propõem a fazer sínteses do tempo histórico. Não sei se a gente poderia falar em conjuntura, como uma coisa bem dividida: “o que acontece no âmbito da política”, “da cultura”, “da economia”, uma coisa meio escolarizada fordista, isso já foi pro saco. A gente não se importa com isso. A gente se importa em tentar captar aquilo que você chamou do “espírito da revolta” no processo. O sequestro desse espírito da revolta, e um certo apogeu dessas forças de extrema direita. É uma tendência a uma dessocialização que agrava uma forma violenta das relações cotidianas. Mas acho que o ponto é que ambos são, e daí entro numa reflexão que a gente precisa fazer entre nós, que ambos são expressões de transições de conjunturas. A gente pode pegar um texto anterior, da crise do MPL, que é o <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Revolta popular: o limite da tática”</a> que expressa um tempo histórico. Expressa a luta conscientemente contra o consenso e quebramos a janela do consenso, fizemos o consenso se desdobrar e se esvair em um processo aberto. Capta como que esse processo aberto poderia escorregar para uma revolta de vernizes de extrema direita, que foi o <em>“Olha como a coisa virou”</em>, e a gente até termina meio “otimista”, perguntando para onde caminha a revolta. Pode ser que ela volte para outro campo, mas a tônica era que é possível passar o calhamaço da extrema direita durante um tempo. E o <em>“Masterclass do fim do mundo” </em>combina o combo de tragédias. Era a tragédia de uma população relativamente encantada com discursos que, para a gente, se assimilavam ao que foi o fascismo histórico, chama-se lá como foi. Tinha a expressão de violências e estratégias bárbaras de deixar ou dirigir o genocídio mediado por um vírus, tinha experiências políticas, no caso do Amazonas, de deixar as pessoas sem oxigênio. Enfim, aquela marcha fúnebre que passava tudo. Aquilo deu a tônica de um apogeu em um momento histórico. Só que isso também passou. Então ambos os textos, apesar de serem textos de propósito de síntese, não tem a pretensão de ser algo manualesco, algo que dê um caminho. São sínteses de tempo histórico. De dizer um pouco, do ponto de vista sintético, qual é a experiência que a gente tem visto na luta de classes no Brasil nesses dois tempos. Nesse sentido é bom, mas no outro sentido é datado. O problema de você generalizar coisas a partir das lutas concretas de um momento é que fica um pouco impressionista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu entendo a preocupação do Camarada X e eu concordo com ela. Politicamente o texto tem uma conclusão muito pessimista. Aquele livro termina muito pessimista. Só que de fato a gente viu a maior onda de revoltas da história da humanidade globalmente, a maior onda de greves da história do Brasil. Na China também houve um ciclo de greves enorme, e isso não deu em revolução, tampouco em saldo organizativo. No fundo, essa constatação tem a ver com o problema do acúmulo organizativo. A gente estava escrevendo esse texto na ressaca das greves de motoboys e das lutas da pandemia, que tinham sido derrotadas. O Revolucionários dos Apps, grupo de entregadores de app em Goiânia foi cooptado. Em São Paulo o grupo do Treta no Trampo implodiu com brigas internas. Foi péssimo aquele momento. A gente escreveu esse texto em um tom de derrota. E vendo também as revoltas pelo mundo não encontrando o horizonte… por isso que é “neblina”, porque não vê horizonte revolucionário. A gente até brincou: “quando tiver um horizonte revolucionário a gente muda o nome da assinatura”. Só que o problema é que o balanço que você faz nessa situação é muito pessimista, e isso tem uma implicação política. Por um lado é levar a sério o que se está analisando, falar de não ter horizonte, e de fato a gente tem que entender que pode ser sinistra a consequência de dizer que não tem acúmulo de forças hoje. Então por que eu vou militar? É o problema político do texto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em geral os livros políticos tem propostas de ação, o nosso não tem, o nosso é só uma lamentação. No final é o chamado a quem percebe essa lamentação, é uma proposta de encontrar um chamado às outras organizações que percebem nesse momento histórico a gravidade do tempo. Eu acho que é um ponto. Ele não teve um papel organizador como os livros podem ter. Foi uma síntese nossa, e aí a gente ficou lidando com essa síntese, com esse balanço muito pessimista. Eu acho que tem um pouco a ver com a situação do Grupão hoje, que a gente está num momento difícil do nosso espaço, que tem muita gente que está muito desiludida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acredito que a gente deve resgatar o horizonte revolucionário, não como uma coisa a ser construída por nós, mas uma coisa que considerando todo o processo histórico é uma possibilidade, não é a negação dessa possibilidade. A gente não pode dizer que vai acontecer, mas a gente não pode dizer também que não vai acontecer. Então é melhor que a gente segure a possibilidade e avance para isso, até porque têm outras lutas que trazem conteúdos importantes para a perspectiva revolucionária hoje. Por exemplo, me trouxeram a referência do Irã em 2021 quando teve uma greve gigante de trabalhadores de óleo e petroquímica, 100 mil trabalhadores organizados e criação de conselhos. Eles estavam fazendo defesa de conselhos. Eles estavam defendendo uma perspectiva que a gente pensou que havia acabado, mas aconteceu. Mostra uma continuidade. Eu não vou falar que mostra uma “invariância”, mas mostra que há uma atualidade ainda em formas clássicas que podem se atualizar, como os grupos de WhatsApp, a perspectiva das equipes dos entregadores, enfim. Eu acho que são elementos que a gente precisa pensar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A crítica sempre é posicionada, por mais que ela seja radicalmente negativa, ela é sempre posicionada. A gente parte do pressuposto, ainda que não tenha as condições objetivas de realizar, de que existe a necessidade e a possibilidade, talvez não a probabilidade, da humanidade viver uma humanidade sem classes. A gente parte desse pressuposto. Ele é a onde a gente joga a âncora para fazer a crítica. A gente não faz a crítica no vazio. Ela é posicional. Nesse sentido, acho que isso ajuda a gente a entender que mesmo que uma revolução, uma ruptura, não esteja na ordem do dia ou aquilo que organiza o nosso cotidiano, ela serve mesmo no exercício da imaginação. Ela serve para a gente criar a negativa desse mundo. Óbvio, uma negativa imanente, a gente parte do pressuposto de que existem as contradições. As condições de vida tendem às lógicas mais irracionais, mais destrutivas, mais bárbaras. A gente só consegue perceber isso quando a gente alça no oposto, ou seja, talvez não seja provável, mas é possível uma humanidade sem classes, uma humanidade livre das determinações da sua auto-escravidão. Eu acho que isso é o que faz com que a gente possa pensar. Então, de certa maneira, é também inegável que a gente tenha o pressuposto revolucionário para fazer a crítica do capital. Sem o pressuposto revolucionário a gente não consegue fazer a crítica efetiva do capital. Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico sinistro de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas.</p>
<p><em>As obras que ilustram o artigo são de Theo v</em><em>an Doesburg </em></p>
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		<title>Mini-Manual de organização e autodefesa contra a violência institucional no SUS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 15:32:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[Este manual serve para alertar os trabalhadores da saúde da existência de práticas e informações que podem e devem te ajudar a se defender de determinadas violências institucionais. Por Viva SUS]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Viva SUS</h3>
<p style="text-align: justify;">Trabalhadoras do SUS:</p>
<p style="text-align: justify;">Este manual serve para alertar você da existência de práticas e informações que podem e devem te ajudar a se defender de determinadas violências institucionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Organizar-se coletivamente contra essas mesmas violências, sistematicamente praticadas dentro dos serviços de saúde do SUS.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas as informações compartilhadas neste material são, ou de lastro público (como os processos trabalhistas e matérias veiculadas), ou denúncias relatadas na escuta dos serviços ao longo dos últimos 4 anos de organização do VivaSUS. Todo o seu conteúdo é de interesse público (!!!)</p>
<p>TRABALHADORAS DO SUS, É HORA DE PERDER A PACIÊNCIA!!!</p>
<p><strong>Para baixar o manual, clique no link que está na Bio: <a href="https://www.instagram.com/vivasus_?utm_source=ig_web_button_share_sheet&amp;igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==" target="_blank" rel="noopener">@vivasus_</a></strong></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DY1onBGqTny/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DY1onBGqTny/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por VivaSUS (@vivasus_)</a></p>
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		<title>Primeiro de Maio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 May 2026 00:07:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Onde eu vim parar? Por Lucas Gomes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Lucas Gomes</h3>
<p style="text-align: justify;">Ela sentiu o coração acelerar, mas foi antes do estrondo. Foi quando o elevador começou a descer lentamente, uma gaiola apertada e barulhenta, ela nunca tinha entrado em um elevador tão antigo. A porta era uma malha de metal articulada e os cabos estavam todos à vista. Fosse outra a situação ela talvez chegasse a sentir medo de ser transportada por um mecanismo tão rústico, ainda que o hotel aparentasse ser um lugar respeitável. Enquanto descia veio o estrondo. A repressão já havia começado?</p>
<p style="text-align: justify;">Com um freio brusco o elevador a deixou no térreo. Por um momento ela desejou que a porta se abrisse sozinha, como fazem os elevadores modernos. Mas não. Ele te trouxe até aqui, você pode inclusive ver a mecânica que explica a comodidade do transporte vertical nas grandes cidades, mas quem abre a porta é você, ninguém fará isso em teu lugar. Uma pequena preguiça se apossou dela, uma que voltaria para assombrá-la uma e outra vez nos anos seguintes. Tanta iniciativa ela já havia tomado: gastou seu dinheiro suado, rompeu laços, chorou, amou pela primeira última vez, teve medo, teve esperança, pegou o ônibus sozinha ao aeroporto carregando suas malas. Até a porta do elevador ela teria que abrir com a força dos braços?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159239" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062.jpg" alt="" width="1200" height="800" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />A ausência de Rodri oprimia levemente seu peito e estimulava sua mente. Ela fantasiava que seus óculos eram como a câmera de um celular que mostraria a ele tudo o que ela estava por ver naquela nova cidade. Mas dentro do elevador ela podia apenas escutar, com enorme intriga, o som disforme de uma multidão, instrumentos de sopro, um ritmo grave e constante dos tambores, apitos distantes, e finalmente um estrondo que pareceu ter ocorrido a poucos quarteirões de distância. Abriu a porta do elevador um pouco desajeitada e esquadrinhou o pequeno saguão para interpretar os rostos dos presentes. Não havia pânico, ninguém corria para fechar as portas e janelas. O hotel estava movimentado devido ao feriado mas em aparente desconexão com o que ocorria lá fora. Ela deixou sua chave com o recepcionista, que lhe respondeu com o tom enfático mas afável dos porteños recomendando evitar a região da praça Congresso e a Avenida de Mayo. Certamente, então, é onde ela gostaria de estar. Se lançou à rua como quem mergulha no mar, pressentindo a força das correntes. Na madrugada, quando chegou ao hotel, aquela estreita rua estava deserta e iluminada com luzes alaranjadas. Agora a luz do dia mostrava melhor a sua sujeira e também uma boa quantidade de pessoas andando em ambos sentidos. Quase todos estavam caracterizados com alguma cor, alguns de branco, outros de verde, outros de azul, por meio de camisetas, coletes ou abrigos, como se fossem torcedores de alguma equipe esportiva. Elas andavam tranquilas, em pequenos grupos, sem nenhum sinal de preocupação. Um novo estrondo, forte como o anterior, fez vibrar seus tímpanos e suas tripas e ela pode conectá-lo com outros mais fracos, mais agudos que o seguiram. Eram fogos que os próprios manifestantes estavam soltando, não eram bombas da polícia.</p>
<p style="text-align: justify;">Tomou rumo em direção a esquina mais próxima, onde a rua Libertad cruzava a Bartolomé Mitre, na intersecção vislumbrou um fragmento de massas, dois quarteirões adiante, de onde o rugido vinha. As apertadas ruas do centro criavam uma sensação de labirinto por mais que os mapas garantissem o frio cálculo de um bairro quadriculado. Não era o labirintismo de caminhos sinuosos e o medo de se perder. Era a sensação de que havia uma visão superior, uma presença grande e alta que unificava toda aquela massa de gente, mas para os seres humanos a visão total estava bloqueada e só restava as perspectivas parciais das ruas finas, com os quarteirões históricos de Buenos Aires projetados sobre nossas cabeças. A passo decidido ela foi de encontro com a manifestação. Cruzou a rua Rivadavia, que naquele trecho é apenas uma rua mais, e foi forçando o passo até o limite da famosa avenida de Maio, quando viu que aquele rio de gente era caudaloso demais para ela entrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Posicionou-se apertada entre outras pessoas para observar a manifestação, mas logo as cenas vividas na sua mente se tornaram mais fortes que as que ela absorvia pelos seus olhos. Os tempos todos de sua vida se misturaram. Presentes paralelos, memórias do passado, memórias futuras do presente, construção de memória presente projetada sobre o futuro… Aflita, protegida atrás de uma banca de jornal com sua prima e companheiras dela da escola onde trabalhava. Elas observavam a uma distância prudente os enfrentamentos entre a polícia e os manifestantes. O chão ao redor todo molhado como se o inverno de Santiago tivesse se adiantado um mês e meio. Todas cobriam suas bocas e narizes com panos para diminuir os efeitos do mar de gás lacrimogêneo lançado pelos blindados que no Chile são chamados de<em> zorrillos</em>, gambás &#8211; os que atiram jatos d&#8217;água são chamados de <em>guanacos</em>, animal semelhante à lhama e igualmente conhecido por seus poderosos cuspes. Pobres animaizinhos, merecem homenagens melhores de nossa parte. Nenhum cachorro nasce policial!, brincávamos sempre com minha prima. Cada vez que via um manifestante se aproximar dos blindados para arremessar pedras, molotovs, ou o que fosse, seu coração se apertava em uma mistura de sentimentos. Esse pode ser o Rodri, tem mais ou menos a altura dele. A matilha de vira-latas se misturava à confusão, corria atrás da figura vestida toda de preto que arremessava uma pedra e logo retornava para a distância segura onde mais manifestantes desafiavam as forças repressivas. Algumas barricadas precárias tentavam diminuir a capacidade de manobra da polícia na ampla avenida Alameda. Talvez seu principal valor era expressar uma ação mancomunada de quem mostrava valentia contra os covardes fardados. As colunas haviam saído da avenida Brasil mas nunca puderam chegar ao lugar onde ocorreria o ato combativo do Primeiro de Maio, na intersecção com a avenida Matucana.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159236" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908.jpg" alt="" width="1200" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Na manhã daquele primeiro de Maio ela havia acordado na casa de Rodri com a primeira luz do dia e uma pequena ressaca. Sentia um sabor estranho, mas não na boca, em algum lugar mais fundo, mais difícil de descrever com anatomia. Uma lágrima escapou de seu olho enquanto este encarava absorto a janela. Eu não sou uma vítima. Eu sou o que eu escolho ser. Ela se permitiu dissociar entre o calor que vinha do corpo de Rodri e o céu pálido que amanhecia. Voar, renascer. Odiar-se. Repetir, repetir, repetir. Fazendo o menor barulho possível ela se sentou na cama e olhou o rosto inexpressivo e inchado de Rodri enquanto dormia, a sua barba rala, o seu cabelo intensamente negro. Quantas vezes mais ela aguentaria acordar sentindo-se assim? Estúpida. Eu sou uma estúpida. Outras lágrimas cairam de seus olhos ao perceber que não podia deixar de sentir carinho por aquele com quem compartilhou a cama, com quem havia tido uma noite de bebedeira, briga e tentativa de sexo. Por que eu ainda sinto isso por este imbecil? Um imbecil que de vez em quando sabe ser doce, de vez em quando diz meu nome como se fosse um feitiço, eriçando os pelos de minha nuca, um imbecil com um abraço que visto como se fosse uma segunda pele. Esquivando a garrafa de pisco e as latas de cerveja no chão ela buscou seus pertences, suas roupas e foi embora sem despertá-lo. Queria tomar um banho e comer antes de ir à casa da prima para que fossem juntas à manifestação.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro que chamou sua atenção foi a ausência da cor vermelha. Ela sempre achou graça da fixação de alguns companheiros com aqueles rostos desenhados como fotos antigas, símbolos de outros séculos que ninguém mais conhecia. Antes de 2019 ela nunca tinha dado muita bola para tudo isso, que diferença poderia haver entre uma cor e outra? Foi só depois que ela entendeu o sentido histórico das cores vermelha e preta, que se a bandeira do Chile era um símbolo importante, que se a bandeira mapuche, a Wenufoye, tinha uma importância histórica, também o vermelho e o preto tinham seu motivo de ser. Naquela grande festa da classe trabalhadora argentina não havia bandeiras da cor vermelha. Era estranho pois não chovia e no entanto ela via no meio da multidão da avenida muitas pessoas com guarda-chuvas, das mesmas cores que predominavam nas faixas que naquele momento passavam adiante dela, o azul e o branco. Nas faixas ela reconheceu um símbolo e uma sigla que se repetia, “C.G.T.”. Conseguiu ler também “<em>La Fraternidad”</em>, um nome bonito, mas depois uma série de siglas sem detalhe que pareciam não se importar com o leitor das faixas: UPCN, UOM, UOCRA, SATSAID, SADOP. Não havia palavras de ordem, não havia mensagens políticas, não havia referência à data que estava sendo celebrada. Eram apenas siglas, estampadas em faixas sustentadas por hastes grossas nos braços de homens igualmente grossos. Uma faixa em particular chamou sua atenção: ao lado das palavras<em> Confederación General del Trabajo,</em> o desenho de um abraço. Era isso mesmo? Sim, um abraço peculiar desenhado em uma faixa sindical. Um homem alto acolhe em seu peito a cabeça de cabelos claros e trançados de uma mulher, ambos rostos escondidos pela perspectiva com que foram desenhados. Essa imagem disparou uma pequena carga elétrica nela, que então percebeu a pouca quantidade de mulheres naquela multidão. Quem eram aquelas duas pessoas de rostos escondidos? E por quê estampavam uma faixa sindical num primeiro de Maio?</p>
<p style="text-align: justify;">Para chegar até o limiar da torrente de pessoas na avenida de Mayo ela precisou forçar a passagem entre alguns grupos e outras pessoas que também observavam a manifestação no remanso das ruas transversais. A ideia de entrar no meio da avenida para participar da manifestação foi naturalmente eliminada de seus planos. Retrocedeu quinze metros até um lugar no quarteirão com mais espaço e consultou o seu celular para ver o mapa. O sinal estava saturado, era possível ver o mapa da cidade mas não sua localização. Ela teve que traçar mentalmente o plano: deveria ir até a avenida 9 de Julio, muito larga e que provavelmente permitiria a ela cruzar para o outro lado da manifestação, e de do outro lado da avenida de Mayo subir alguma das ruas até a altura da praça Congresso. Guardou o celular na pochete e caminhou de volta o pequeno trecho de rua até a Rivadavia, observando as curvas e o estilo garboso das esquinas do centro. Ao virar à direita com o corpo sua cabeça ainda admirava o chamativo edifício de três andares e grandes janelas que ornava aquela esquina, com parapeitos na terraça que lembravam uma torre medieval. Achou engraçado como o estilo dessas esquinas lembrava um pouco os edifícios históricos pomposos do centro de Santiago, mas em uma escala pequenina, despretensiosa, como se estivessem conscientes de estar escondidos naquelas ruelas apertadas. Teve vontade de parar para observar com mais tempo os detalhes e cada elemento daquelas fachadas. Haveria oportunidade para isso nos próximos dias, semanas, meses. Anos?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159238" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571.jpg" alt="" width="800" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" />Das sombras da pequena Rivadavia ela viu se desabrochar lentamente a avenida 9 de Julio, com todo o céu que ela ainda não tinha conseguido ver, suas árvores frondosas e a linha de edifícios baixos do outro lado. Pela primeira vez avistou carros da polícia, mas nenhum blindado, nenhum cordão policial com escudos, nenhuma tensão no ar. Naquele momento ela se sentiu uma turista e não soube concluir se isso era algo bom ou algo ruim. Para não dar muita pinta ela decidiu seguir andando como se soubesse o que estava fazendo. Em direção à avenida de Mayo ela foi se unindo a um volume cada vez maior de pessoas e então pode ver muito melhor as grandes colunas coloridas de manifestantes, um carnaval barulhento, que ela conseguiria atravessar devido às proporções enormes da avenida central. No cruzamento entre a avenida 9 de Julio e a avenida de Mayo não existem árvores e é possível ver os edifícios ao longo de muitos quarteirões. Enquanto observava algumas das grandes faixas de uma coluna toda verde, na qual os integrantes usavam coletes que diziam <em>Camioneros</em>, ela divisou num prédio que parecia estar sobre as pistas da avenida, alguns quarteirões mais adiante, o rosto daquela mulher do abraço! A loira sindicalista! Nessa imagem, espécie de gigantografia estampada num alto edifício, a loira parecia falar com um microfone antigo, o seu penteado arrumado em um coque ou trançado sobre a nuca, seu rosto portando uma expressão severa. Ela não entendia se a mulher cantava ou se dava um discurso, que talvez fosse então transmitido pela antena da torre bem alta que havia na terraça do mesmo edifício. Para observar melhor essa cena ela subiu na borda de uma fonte que estava seca, ali naquela intersecção das avenidas, no boulevard entre a pista principal e a pista local da 9 de Julio. Após alguns poucos segundos observando intrigada a loira sindicalista estampada no prédio, uma nuvem grossa de fumaça invadiu os seus olhos e o cheiro de gordura queimada penetrou profundamente em seu nariz, quase derrubando-a da fonte. Não era o gás lacrimogêneo que ela respirou em Santiago, era um dos vários postos de churrasco de rua vendendo comida para os manifestantes. Sua curiosidade era mais forte que sua recusa moral à carne, então procedeu a estudar mais de perto a famosa culinária argentina. Se aproximou lateralmente, misturando-se com os clientes, e viu as grelhas sobre as bacias cheias de carvão em seu interior, montadas como mesas onde a carne era cozinhada e aguardava os compradores. Havia o setor de <em>patis</em>, hambúrgueres finos que eram acompanhados com cebola e às vezes com um ovo frito; os <em>choris</em>, linguiças alinhadas em pequenas filas, derrubando as gotas de gordura que faziam as brasas assobiar uma música de luxúria e êxtase; e por fim os bifes de <em>bondiola</em>, o corte mais gorduroso e macio da carne de porco. Os <em>patis </em>e <em>choris</em> já cozinhados eram amontoados na parte menos quente da grelha – que aparentava ser um pedaço qualquer de grade metálica improvisada – e eram servidos, assim como a <em>bondiola</em>, na forma de um sanduíche, abraçados por um pão. Os comensais, depois de receber em mãos sua porção, se deslocavam alguns passos mais à direita para a mesa de molhos, podendo arriscar-se com as grandes bisnagas de ketchup, mostarda e maionese, ou então com o <em>chimichurri</em> ou com uma variedade local de vinagrete. Depois de analisar a cadeia produtiva ela passou a observar a perícia do churrasqueiro daquele posto. Era um homem avultado de pele escura, mais escura que a média naquela manifestação, tinha um bigode branco bem ralo assim como alguns poucos cabelos brancos ao redor da careca. Vestia uma camiseta branca, já bastante suja àquela altura, com letras verdes que diziam <em>Sindicato de Camioneros</em>, acompanhadas de um desenho das fronteiras da Argentina na mesma cor. As letras e o desenho se deformavam pela circunferência de sua barriga. De cima de seus olhos parecia derramar, junto com o suor, uma tensão que aparentava ser permanente em seu rosto enquanto manipulava a comida: quebrava um ovo na pequena chapa, dava voltas aos <em>patis</em>, pedia ao seu ajudante que buscasse mais <em>choris</em>, mexia na cebola que se caramelizava lentamente com a temperatura, escolhia um pedaço de <em>bondiola</em> e o envolvia com pão. Em uma de suas mãos sujas havia uma pequena faca com a qual cortava o pão, os <em>choris </em>preparados em sua versão “borboleta” (a linguiça cortada na metade horizontalmente), também os pedaços de <em>bondiola</em> e o que mais precisasse ser cortado: plásticos, papéis, algum engraçadinho que se recusasse a pagar.</p>
<p style="text-align: justify;">Com ímpeto ela atravessou a manifestação aproveitando o espaço aberto entre duas colunas: FATCA, toda de verde, avançava já em direção à praça do Congresso, enquanto UOYEP, em azul, ainda aguardava sobre o cruzamento carregando uma enorme faixa que dizia “<em>Amor y Lealtad. Alberto Murua conducción</em>”, e ao lado o rosto de um senhor careca usando óculos. Ímpeto e pressa, antes que o mar se fechasse novamente sobre ela, arrastando-a para o turbilhão inexplicável de afeto pelo sr. Murua. Ela poderia virar em qualquer paralela da avenida de Mayo, mas decidiu estender a caminhada até o prédio da loira sindicalista para aproveitar o dia de céu azul. Olhou no celular e viu que poderia tomar a avenida Belgrano até a avenida Entre Rios, que passava em frente ao Congresso. Afastada da concentração, do golpe ininterrupto dos bombos carregados por homens de torso nu, dos estrondos pirotécnicos, se sentiu mais relaxada e segura. Caminhava pela pista local da avenida 9 de Julio junto a alguns pequenos grupos, como na frente do seu hotel. Não era apenas a ausência da cor vermelha. Até na manifestação pelega da CUT o vermelho era a cor predominante. Bem, os argentinos não tem a cor vermelha em sua bandeira, isso pode ser um fator. Mas não havia nenhum sinal de símbolos comunistas, ela não pode ver nenhuma referência a partidos políticos, movimentos sociais, as colunas se pareciam mais a torcidas organizadas, com uma forte presença de homens parrudos e mal encarados, alguns deles saltando com vigor ao som dos instrumentos de seu sindicato. Uma repressão policial seria fortemente resistida por gente assim. Será por isso que a polícia aqui parece estar tão distante e tranquila? Mas se são tantos e estão tão organizados, por quê não tomam o poder? Ela passou por um pequeno grupo de homens vestindo os coletes verdes dos <em>Camioneros</em> que compartilhavam garrafas de cerveja parados ao lado de um banco do boulevard. Um deles segurava algo no centro da roda, ela logo entendeu que eram carreiras de pó sobre uma pequena tábua e viu como um a um foram compartilhando também das carreiras. Algumas coisas não são tão diferentes entre nossos países, apesar da vulgaridade excessiva desta cena, pensou ela. Rodri voltou à sua mente. Ele não era um operário rude e corpulento como esses sujeitos que hoje tomavam as ruas do centro de Buenos Aires. Ele é um rapaz franzino que muda de trabalho com frequência, nunca pisou em uma fábrica. Ele… nós, nós não saíamos às ruas para festejar e demonstrar esse excesso de disposição. Menos ainda os pelegos do sindicalismo oficial. Não vamos às ruas para expor essa despreocupação grosseira. Não, essa nós guardamos para os momentos íntimos, quando pensamos que ninguém nos olha. Na marcha somos combatentes, os alcoólatras que cheiram pó são quem chega em casa de noite, dois personagens diferentes em um mesmo corpo. Eu já chorei demais. Não importa se aqui as pessoas cheiram pó na rua, não importa agora quem são os pelegos, não importa a cor das bandeiras no primeiro de Maio. Importa conseguir se matricular na faculdade, conseguir equivalências dos anos que já estudei em Santiago, importa começar a buscar trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">O edifício do antigo Ministério de Obras Públicas, onde habita a loira, é de um estilo extremamente sóbrio: um volume pesado aferrado ao chão por seu enorme rodapé feito de placas de pedras adestradas para vestir as arestas e também as curvas das esquinas. Sua entrada está escondida, de costas à avenida 9 de Julio, onde foram instaladas escadas externas que provavelmente remediaram a falta desse elemento de segurança no projeto original. O rosto dela está formado por uma grande estrutura metálica apoiada na parte mais alta da face norte do prédio, cobrindo algumas das janelas dos últimos andares. Como a maior parte da estrutura é vazada, pois a figura foi realizada com linhas sutis, o efeito não é pesado e de longe é possível pensar que se trata de linhas pintadas sobre a fachada. Ela seguiu até a avenida Belgrano e antes de virar a esquina quis olhar uma última vez o edifício. Para sua surpresa, do lado oposto, na face sul, havia uma outra imagem da loira sindicalista. Desta vez mais tranquila, com um discreto sorriso no rosto, o coque que parecia ser uma marca pessoal e uma flor adornando sua roupa. Era notável a intenção de manter viva aquela imagem antiga na mente dos argentinos. Novamente ela se lembrou da fileira de rostos estampados nas bandeiras de alguns partidos comunistas. Quando será que começou essa moda de fazer propaganda política com rostos de pessoas? O que há de tão imortal num rosto, em uma forma, que as ideias não são suficientes para transmitir?</p>
<p style="text-align: justify;">Pela avenida Belgrano fluíam outras torrentes da sopa de letras. Esse trecho também estava fechado para o trânsito de carros, estava repleta de ônibus estacionados. Pelo asfalto algumas colunas subiam com ela em direção ao Congresso. FATUN, FATQYP, UPFPARA, FOECYT. SOMRA, SUTERH, AGOEC, SUTECBA, UTEDYC, UTICRA. A caminhada pela avenida estava muito agradável, sem o aperto que ela viu na avenida de Mayo mas com o som de algumas bandas sindicais à distância, uma maior quantidade de pessoas que não pareciam estar fantasiadas para um jogo de futebol. Ali haviam árvores nas calçadas, a parede de edifícios contíguos repleta de varandas, dando a ela uma sensação de proximidade e diálogo entre a vida das pessoas e as ruas. Sua vontade era conseguir bisbilhotar por alguma daquelas janelas para entender como vive uma pessoa naquela cidade, como é a sala, como é o quarto de uma argentina em Buenos Aires, com quantas pessoas vivem, que tipo de quadros penduram em suas paredes, que comidas cozinham em seus fogões. Alguns quarteirões adiante ela sentiu que já não havia tanta gente, então decidiu voltar para as imediações da avenida de Mayo virando na rua San José. Novamente ela se encontrava no ambiente sombreado e estreito das ruas do centro, onde já não era possível observar tranquilamente as fachadas dos edifícios que agora se erguiam vertiginosamente de ambos lados. Apenas nas esquinas, com a abertura dos ângulos e o descanso transversal da parede de edifícios daqueles quarteirões todos contíguos e apertados, nas esquinas era possível admirar as curvas, os adornos de serralheria nos parapeitos e portões. Na medida em que se aproximava da avenida de Mayo o ruído da multidão crescia, as explosões se tornavam mais frequentes, o ritmo grave dos bombos sendo surrados retumbava. Uma vez mais seu coração se acelerou desmedido. Já conseguia ver aquele fragmento de dez ou quinze metros de manifestação no enquadramento das esquinas da rua San José com a avenida: as bandeiras e faixas sobre a multidão, um grupo de pessoas observando na borda da intersecção. Mas sua visão se nublou por uma fração de segundo. Um novo estrondo grave e profundo inconscientemente a fez buscar alguma parede, para isso foi preciso desviar de algumas pessoas até encontrar um pequeno recuo da entrada de um dos prédios. Seu coração palpitava, a respiração era rápida, descontrolada. O cheiro de gordura queimada entrava novamente em seu nariz e era como se lhe tapasse o ar, como se a intoxicasse. Lembrou-se de que não havia comido nada desde que se levantou, ansiosa para ver o primeiro de Maio argentino. Aos poucos foi deixando de escutar, grandes manchas brancas apareceram em sua visão e ela precisou apoiar-se na parede. Sem que ela tivesse notado antes, uma grande coluna se dirigia à avenida vindo atrás dela pela mesma rua, toda de verde com as grande letras ATE em suas bandeiras, empurrando e espremendo quem estivesse em seu caminho, e foi então que ela foi ao chão.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159237" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540.jpg" alt="" width="987" height="555" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540.jpg 987w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 987px) 100vw, 987px" />Sic vos, non vobis mellificatis apes</em>. <em>Apes</em>, abelhas. <em>Mellificatis</em>, segunda do plural. Vocês produzem mel, mas não para vocês mesmas,<em> vobis</em>, dativo. Elas são como a classe trabalhadora, não é mesmo? Isso é Virgílio, acho. Já começaram as aulas? Aos poucos sua visão periférica foi retornando, uma rajada de explosões agudas despertou sua audição. Menina, ei, menina, você me escuta? Está acordada? Ela percebe que está deitada no chão. Duas mulheres a estão olhando de cima, agachadas uma de cada lado seu. Sente um pouco de água caindo sobre sua testa e descendo em meio ao seu cabelo. Você vai ficar bem, companheira, não se preocupe. Você veio sozinha? Uma delas é morena, de pele escura e rosto já marcado pela idade, está usando um colete azul. A outra tem o cabelo pintado de loiro, tem um aspecto mais jovial, está usando um colete e um boné verdes. Do lado de fora ela escuta mais forte do que nunca o ruído dos manifestantes, a poucos metros de distância, mas ela está em um lugar amplo. Sente o chão frio e vê sobre as duas mulheres abóbadas altas, com arcos e ornamentos de alvenaria em relevo, e também uma frase em latim escrita no teto abobadado? Sim, ali estava em letras grandes. Suas pernas estão erguidas por uma terceira mulher, que veste uma camiseta com o rosto… da loira sindicalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Onde eu vim parar?</p>
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		<title>A luta não é pra todos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nicolas Lorca]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 16 May 2026 10:07:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Militava em um coletivo da cidade e seu rosto estampava todas as publicações do grupo como liderança. Dentre as reivindicações, estava o fim da jornada de trabalho na escala 6×1. Fora das redes sociais, cobrava que seus funcionários trabalhassem de domingo a domingo. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Militava em um coletivo da cidade e seu rosto estampava todas as publicações do grupo como liderança. Dentre as reivindicações, estava o fim da jornada de trabalho na escala 6×1. Fora das redes sociais, cobrava que seus funcionários trabalhassem de domingo a domingo. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>[Rondônia] O latifúndio no banco dos réus</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158923/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Mar 2026 22:43:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Tribunal Popular organizado por entidades irá realizar julgamento sobre crimes cometidos em áreas de conflito agrário e contra advogados e defensores de direitos humanos. Por ABRAPO, CEBRASPO, COMSOLUTE, CPT, OPIROMA, MAB e LCP]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por ABRAPO, CEBRASPO, COMSOLUTE, CPT, OPIROMA, MAB e LCP</h3>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">Nos próximos dias 28 e 29 de março de 2026 ocorrerá em Porto Velho, capital do estado de Rondônia será instaurado um <b>TRIBUNAL POPULAR</b> que julgará crimes cometidos pelo latifúndio em Rondônia ao longo de décadas e, sobretudo, nos últimos anos onde se observou um crescente processo de assassinatos, despejos ilegais, ameaças, contra camponeses sem-terra, posseiros, indígenas, extrativistas, ribeirinhos e quilombolas. Nos últimos anos, em Rondônia, a escalada de violações praticadas por latifundiários e grupos paramilitares contou com a ação efetiva de forças policiais que passaram a atuar de forma a criminalizar milhares de famílias e advogados que atuam na área agrária.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O ano de 2024, cujos dados consolidados foram publicados em abril de 2025 pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), marcou um período paradoxal na dinâmica agrária brasileira. Embora tenha ocorrido uma redução quantitativa no número de assassinatos diretos, os indicadores de conflitos por terra atingiram o maior patamar da última década, totalizando aproximadamente 1.768 ocorrências. Esse dado sinaliza uma cristalização das tensões territoriais, consolidando 2024 como o segundo ano mais violento da série histórica iniciada em 1985.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O cenário de conflitos agrários no Brasil apresentou um agravamento crítico em 2025, caracterizado pelo incremento da letalidade nas disputas territoriais. Dados preliminares da Comissão Pastoral da Terra (CPT) indicam que o número de assassinatos no campo duplicou em relação ao ano anterior, saltando de 13 óbitos em 2024 para 26 registros até dezembro de 2025. O estado de Rondônia é uma das Unidades da Federação que lidera esse ranking macabro.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">Em virtude da situação fática e jurídica que engloba os inúmeros assassinatos e conflitos agrários que marcam a história recente de Rondônia, a Associação Brasileira de Advogados do Povo (ABRAPO), o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (CEBRASPO), o Comitê de Solidariedade à Luta pela Terra (COMSOLUTE), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Organização dos Povos Indígenas de Rondônia, Noroeste do Mato Grosso e Sul do Amazonas (OPIROMA), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Comitê de Apoio à Luta pela Terra – Rondônia, Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental (LCP) e outras organizações propõem o Tribunal Popular que colocará o latifúndio no banco dos réus.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O Tribunal será presidido pelo Dr. Jorge Moreno (juiz aposentado do TJMA e vice-presidente da ABRAPO) e contará com um corpo de jurados integrado por juristas de Rondônia, de outros estados da Amazônia, do Nordeste, do Centro-Oeste, Sul e Sudeste do país; pesquisadores da UNIR, do IFRO e de outras Universidades Federais do Brasil; além de jornalistas, representantes sindicais, associações e movimentos sociais que irão compor o Júri Popular.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">Entre esses destaca-se a Prof.ª Drª Helena Angélica de Mesquita (Professora aposentada da UFG, que pesquisou à fundo o Massacre de Corumbiara), o Dr. Siro Darlan (Desembargador aposentado do RJ), representante da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB, a histórica líder seringueira Dercy Teles, de Xapuri (AC), primeira mulher a presidir um sindicato na Amazônia Acreana, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais &#8211; STR de Xapuri, em 1981. É uma das figuras centrais nos empates organizados pelos seringueiros em Xapuri, juntamente com figuras históricas tais quais Chico Mendes e Wilson de Souza Pinheiro.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O Tribunal Popular também terá a cobertura da imprensa popular e democrática, com jornalistas que escrevem para vários veículos de comunicação de todo o Brasil como Ópera Mundi, Intercept Brasil, Repórter Brasil, A Nova Democracia, Rondônia Plural, Voz da Terra, e outros. Outras representações de entidades e movimentos como a Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP), Campanha Nacional Despejo Zero, Movimento Bem Viver e Global Sumud Brasil também estarão participando. Na condição de testemunhas de acusação estarão presentes lideranças indígenas, camponesas, ribeirinhas, de associações e movimentos de chacareiros, extrativistas e ocupações camponesas e urbanas.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;"><b>O &#8220;TRIBUNAL POPULAR CONTRA CRIMES DO LATIFÚNDIO&#8221; será realizado no AUDITÓRIO DO SINTERO (rua Rui Barbosa, nº 713, Bairro Arigolândia) com início no sábado, 28/03, às 08h e se estenderá até o domingo, 29/03,</b> onde na última sessão, serão apresentadas as alegações finais da acusação e defesa, a reunião de corpo de jurados e leitura da sentença dos acusados. As inscrições serão realizadas no local.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-158925 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal.jpeg" alt="" width="1080" height="1350" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal.jpeg 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-240x300.jpeg 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-819x1024.jpeg 819w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-768x960.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-336x420.jpeg 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-640x800.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-681x851.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
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		<title>Operários da indústria de armas italiana dizem não à guerra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Mar 2026 14:16:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
		<category><![CDATA[Itália]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[ Com base em um histórico de resistência à militarização, os trabalhadores da Leonardo estão se organizando contra a cumplicidade da empresa no genocídio em Gaza. Por Futura D’Aprile]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Futura D’Aprile</h3>
<p style="text-align: justify;">Quando Israel recomeçou os bombardeios a Gaza em outubro de 2023, ativistas da solidariedade à Palestina na Itália imediatamente fizeram a ligação com a empresa nacional de armamentos, a Leonardo, e lançaram uma campanha contra ela. A corporação é uma das maiores produtoras de armas do mundo e desempenha um papel importante na produção de componentes para os aviões F-35, usados ​​por Israel no genocídio em Gaza, além de trabalhar em conjunto com empresas israelenses de armamentos como a Elbit Systems.</p>
<p style="text-align: justify;">Instalações da Leonardo têm sido alvo de protestos, interrompendo a produção e aumentando a conscientização sobre o papel que a Itália e seu setor de defesa desempenham na destruição em curso. Crucialmente, a oposição também está crescendo dentro da empresa, com trabalhadores se manifestando contra a venda de armas para Israel e lutando para impedir que uma fábrica da Leonardo no sul do país seja convertida em produção militar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Trabalhadores se posicionam</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em outubro, um grupo de trabalhadores de uma unidade de produção da Leonardo em Grottaglie, no sul da Itália, publicou uma petição exigindo que a empresa e suas subsidiárias suspendessem todo o fornecimento de material bélico a Israel. A petição pedia o fim de todos os acordos comerciais e relações de investimento com instituições, startups, universidades e organizações de pesquisa israelenses envolvidas em operações militares contra a população palestina.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de 23.000 pessoas assinaram a petição, que dizia: “A Itália repudia a guerra como instrumento de agressão contra a liberdade de outros povos e como meio de resolver disputas internacionais”.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de Roberto Cingolan, presidente da Leonardo, ter declarado em setembro que a empresa não havia autorizado novas exportações para Israel “desde o início do conflito”, a declaração dos trabalhadores afirmava que a empresa mantinha uma sólida cooperação comercial e militar com Israel e que as licenças de exportação aprovadas antes de outubro de 2023 nunca foram canceladas.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos peticionários de Grottaglie, que pediu para permanecer anônimo, afirma que essa declaração pública ajudou a abrir um diálogo com trabalhadores de outras fábricas da Leonardo: “Mais do que um aumento imediato na oposição explícita, o resultado mais importante foi trazer o assunto para o centro das discussões, fomentando momentos de debate e análise aprofundada.”</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns meses depois, um grupo de trabalhadores da Divisão de Helicópteros de Turim, no norte da Itália, redigiu um boletim sobre a cumplicidade da Leonardo no genocídio em Gaza, que foi distribuído entre seus colegas. A mobilização contra a empresa os inspirou a investigar as relações da Leonardo com seus parceiros estratégicos, particularmente com Israel. Eles estudaram as leis sobre exportações, importações e o trânsito de produtos de defesa na Itália.</p>
<p style="text-align: justify;">“Os relatos amenizados ou flagrantemente distorcidos oferecidos pela grande mídia sobre os eventos em Gaza estão se enraizando entre nossos colegas”, explica um dos trabalhadores de Turim. “Eles não compreendem a gravidade desses eventos, especialmente no que diz respeito aos usuários finais do produto de seu trabalho.”</p>
<p style="text-align: justify;">“Em relação a Israel, nunca tivemos conhecimento dos contratos assinados e das relações internacionais envolvidas.” Eles continuam explicando que, em parte devido a restrições de sigilo industrial, os trabalhadores não têm uma ideia clara de quem usará os equipamentos que produzem; a empresa usa nomes fictícios para os projetos e dá indicações vagas sobre para onde os equipamentos são enviados.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa falta de transparência deixou os trabalhadores profundamente despreparados diante da indignação pública contra a empresa para a qual trabalham.</p>
<p style="text-align: justify;">O que esses funcionários querem é reafirmar sua integridade, explica o trabalhador de Turim: “Fomos ensinados que é nosso dever denunciar irregularidades, desfalques e violações do código de ética em nosso local de trabalho. Existe algo mais repreensível do ponto de vista ético do que colaborar com um governo criminoso que viola abertamente o direito internacional e cujos crimes contra a humanidade são flagrantes e notórios?”</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158860" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL.png" alt="" width="678" height="455" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL.png 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-300x201.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-626x420.png 626w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-537x360.png 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-640x429.png 640w" sizes="auto, (max-width: 678px) 100vw, 678px" />Não aos aviões de guerra</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores de Grottaglie também enfrentam outra luta, enquanto fazem campanha para impedir que sua fábrica se torne uma engrenagem ativa na máquina de guerra. A fábrica faz parte da Divisão de Aeronáutica do Grupo Leonardo e produz as seções da fuselagem da aeronave Boeing 787, empregando aproximadamente 1.200 pessoas diretamente e 300 em indústrias relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde 2020, quando a pandemia de Covid-19 atingiu duramente a indústria aeronáutica, a produção despencou e a unidade corre o risco de fechar. Em julho de 2024, os sindicatos conseguiram evitar uma paralisação temporária, mas a produção ainda diminuiu. Para evitar o fechamento, a Leonardo quer redirecionar a produção para o setor militar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um documento compartilhado “offline” entre os trabalhadores, juntamente com a petição sobre ligações com a violência de Israel, os trabalhadores denunciam essa mudança de prioridades. Para os trabalhadores que assinaram a petição, a Leonardo está fazendo uma escolha política.</p>
<p style="text-align: justify;">“O setor civil sempre foi mais estável e resiliente do que o militar, que tem encomendas mais limitadas e é muito mais influenciado por flutuações geopolíticas e decisões governamentais”, explica um dos peticionários, que pediu para permanecer anônimo. “A aviação civil, por outro lado, responde a uma demanda estrutural por mobilidade global, que estagnou durante a pandemia, mas agora retornou a níveis recordes, com previsão de crescimento ainda maior nas próximas décadas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para os trabalhadores de Turim e Grottaglie, o objetivo tem sido promover o diálogo e a conscientização sobre a cumplicidade das empresas com a violência israelense, visando construir uma massa crítica de trabalhadores motivados e bem informados, capazes de se engajar e se mobilizar para mudar a empresa. Eles também buscaram apoio dos principais sindicatos, mas receberam uma resposta morna.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Turim, os sindicatos estão focados na renovação dos contratos metalúrgicos e não estão dando atenção à petição, enquanto em Grottaglie os sindicalistas criticaram abertamente a oposição dos trabalhadores à empresa, pois temem que isso coloque ainda mais em risco o futuro da unidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, os trabalhadores se organizaram fora dessas estruturas tradicionais, compartilhando suas petições com outras unidades de produção da Leonardo na Itália. E estão recebendo uma resposta positiva. A campanha também encontrou eco nos movimentos mais amplos de solidariedade à Palestina e pela paz.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Aprendendo com o passado</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores da Leonardo estão construindo sobre um legado de oposição dentro da indústria de defesa italiana. Na década de 1980, Elio Pagani, um funcionário da Aermacchi (agora Leonardo), documentou como a empresa forneceu aeronaves à Força Aérea Sul-Africana em janeiro de 1980, durante o apartheid, em violação ao embargo da ONU ratificado pela Itália em 1977. A denúncia de Pagani desencadeou um movimento popular que, em 1990, levou à aprovação pelo parlamento da primeira legislação italiana sobre controle de exportação e importação de armas: a Lei 185/90.</p>
<p style="text-align: justify;">Na década de 1980, a Valsella Meccanotecnica &#8211; empresa conhecida por vender minas antitanque ao Iraque durante a guerra com o Irã &#8211; foi abalada por 18 meses de greves. As trabalhadoras, lideradas por Franca Faita, finalmente venceram: a empresa perdeu importantes parceiros de produção e foi forçada a se dedicar à fabricação para o setor civil devido a uma moratória governamental de 1994 sobre a produção de minas terrestres. A empresa foi liquidada e, em 2005, fundiu-se com uma fabricante de caminhões.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, alguns fatores contextuais fizeram das décadas de 1980 e 1990 um contexto muito diferente para os trabalhadores rebeldes. O sentimento antiguerra na sociedade civil italiana era mais forte nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, e os sindicatos também eram mais independentes e mais antagônicos à política.</p>
<p style="text-align: justify;">“O que favoreceu essas iniciativas foi a presença de fortes movimentos de desarmamento e a existência de conselhos de fábrica abertos à discussão interna entre os trabalhadores e eleitos diretamente por eles”, explica Pagani.</p>
<p style="text-align: justify;">“Delegados, trabalhadores e conselhos de fábrica foram incentivados a questionar o verdadeiro significado do trabalho nas instalações militares e os efeitos das exportações de armamentos. Agora, estamos vivenciando mais de 30 anos de desertificação cultural que afetou tanto as pessoas &#8211; tornando-as mais individualistas &#8211; quanto os sindicatos, cuja atuação enfraqueceu o ímpeto dos trabalhadores.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, as conquistas das décadas de 1980 e 1990 foram fruto de muitos anos de trabalho, afirma Pagani. “Os trabalhadores da Leonardo em Grottaglie e Turim devem persistir e buscar apoio em outras unidades de produção da empresa e em outras empresas de defesa. Sua iniciativa deve estar ligada à luta contra a logística bélica travada por estivadores, trabalhadores aeroportuários, ferroviários e de terminais intermodais na Itália.”</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, à medida que os Estados continuam a aumentar os gastos militares em meio a novas e devastadoras guerras, os trabalhadores de fábricas de armamentos em todo o mundo fariam bem em seguir as táticas italianas para desmantelar a militarização a partir de dentro.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a guerra sempre à espreita e os Estados aumentando os gastos militares, os trabalhadores do negócio de armas podem ter um papel fundamental a desempenhar, conforme o movimento global contra a militarização grita: Não em nosso nome.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido do original que pode ser acessado aqui: <a class="urlextern" title="https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war" href="https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war</a></em></p>
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		<title>[RJ] UERJ: Calendário de lutas dos vigilantes e auxiliares administrativos da Conquista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Mar 2026 20:08:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Funcionários terceirizados que pretam serviço para a UERJ, denunciam atrasos no salário. Por Invisíveis]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Invisíveis</h3>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/p/DVWSEt1DnKW/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
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<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/p/DVWSEt1DnKW/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Invisíveis (@invisiveistrabalhador)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script>CALENDÁRIO DE LUTAS CONTRA CALOTES EM SALÁRIOS DE VIGILANTES E AUXILIARES ADMINISTRATIVOS PELA <a class="x1i10hfl xjbqb8w x1ejq31n x18oe1m7 x1sy0etr xstzfhl x972fbf x10w94by x1qhh985 x14e42zd x9f619 x1ypdohk xt0psk2 x3ct3a4 xdj266r x14z9mp xat24cr x1lziwak xexx8yu xyri2b x18d9i69 x1c1uobl x16tdsg8 x1hl2dhg xggy1nq x1a2a7pz notranslate _a6hd" tabindex="0" role="link" href="https://www.instagram.com/conquista.grupo/">@conquista.grupo</a> NA UERJ</p>
<p>2 e 3 de março: 9h rua Teixeira Ribeiro 229.na sede da empresa, para cobrar o pagamento, já que a diretoria disse que tem &#8220;explicações&#8221;. com o <a class="x1i10hfl xjbqb8w x1ejq31n x18oe1m7 x1sy0etr xstzfhl x972fbf x10w94by x1qhh985 x14e42zd x9f619 x1ypdohk xt0psk2 x3ct3a4 xdj266r x14z9mp xat24cr x1lziwak xexx8yu xyri2b x18d9i69 x1c1uobl x16tdsg8 x1hl2dhg xggy1nq x1a2a7pz notranslate _a6hd" tabindex="0" role="link" href="https://www.instagram.com/sindicatodosvigilantesrj/" target="_blank" rel="noopener">@sindicatodosvigilantesrj</a></p>
<p>3 de março: 18h, reunião online para pensar a mobilização e luta com trabalhadores terceirizados (link por dm) CHAMANDO ESTUDANTES, PROFESSORES, SERVIDORES E MAIS QUISER APOIAR A LUTA.</p>
<p>12 de março, 18h no hall do queijo, UERJ MARACANÃ: contra o calote da empresa CONQUISTA,<br />
REITORIA deve pagar salários!</p>
<p>3 MESES SEM SALÁRIO PARA VIGILANTES A E 2 MESES PARA AUXILIARES ADMINISTRATIVOS!</p>
<p>Não ESPERE articulação com Ministério do Trabalho, que é do presidente, que vai demorar para exigir decisão do poder judiciário! PROTESTE E PARALISE!</p>
<p>REITORIA GULNAR E DEUSDARÁ se coloca como &#8220;boazinha&#8221; por ter pago todas as FATURAS para a empresa CONQUISTA. MAS ELA QUE CONTRATOU UMA EMPRESA ENVOLVIDA EM CORRUPÇÃO E QUE DÁ CALOTES CONSTANTES EM TRABALHADORES TERCEIRIZADOS!</p>
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		<title>&#8220;As pessoas lutam onde estão&#8221;: entrevista com Joshua Clover</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Feb 2026 14:37:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Entrevista realizada em 2024 com Joshua Clover sobre revoltas, greves e comunas que já existem agora.   Por Ronja Mälström]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3 style="text-align: justify;"> Por Ronja Mälström</h3>
<p style="text-align: justify;"><em>“Riot. Strike. Riot</em> : <em>The New Era of Uprisings”</em> foi o livro que consagrou Joshua Clover como um dos principais pensadores contemporâneos sobre revoltas (<em>riots</em>) como métodos de luta política. Mantendo-se fiel às questões que teoriza, Clover acredita que teoria e prática não devem estar tão distantes uma da outra, ao contrário do que o meio acadêmico muitas vezes sugere. Por exemplo, Clover oferece treinamentos sobre “Conheça seus direitos” para pessoas que têm pouca experiência e não conhecem os riscos legais dos protestos — ele não é alheio aos métodos de luta que analisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Na conversa a seguir, Ronja Mälström faz a Clover todas as perguntas, por mais simples que fossem, que ela gostaria de ter feito antes de ler o livro dele. Como você verá, Clover argumenta convincentemente por que as greves (<em>strikes</em>) não são mais a principal forma de luta e sobre a importância de explorar métodos políticos que alguns podem considerar desconfortáveis ​​ou perigosos. Sua perspectiva oferece uma estrutura para entendermos as formas pelas quais as pessoas lutam por justiça e pela paz, tanto hoje quanto historicamente. Começando pelo motivo pelo qual as pessoas lutam, em primeiro lugar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>JOSHUA CLOVER</strong>: Minha primeira regra absoluta é que as pessoas enfrentam seus problemas onde estão. Eu não ofereço soluções prontas, nem digo: “Não, vá para lá e faça isso”. As pessoas lutam onde estão. Se você odeia seu trabalho e ele te deixa infeliz, você luta nesse espaço para mudar isso. Minha impressão é que as pessoas estão em um lugar diferente agora do que estavam na década de 1950. A era do industrialismo, do trabalho fabril, declinou, especialmente no Ocidente superdesenvolvido. Para cada vez mais pessoas, o lugar onde encontram sua própria infelicidade é frequentemente fora do trabalho, e o lugar onde elas podem ter alguma influência para mudar o mundo também é frequentemente fora do trabalho. Então, vemos mais lutas fora do ambiente de trabalho. Este é o contexto social onde eu acho que as revoltas acontecem. Para mim, o que categorizamos como uma revolta está ligado a um contexto social e histórico muito amplo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>RONJA MÄLSTRÖM: Como podemos então dar sentido a essa categoria? Por que ocorre uma revolta, como ocorre uma revolta, quando ocorre uma revolta?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Meu objetivo era criar uma categoria que abrangesse diversos tipos de eventos, em vez de uma categoria específica e restrita. Acho que há quem olhe para uma determinada revolta e diga: “Isso não é uma revolta, é um levantamento, é uma insurreição”, para lhe conferir mais legitimidade política. Mas, na minha opinião, todos são politicamente importantes, certo? Não quero selecionar algumas formas e deixar outras de lado — dizer “essa não conta, não faz parte da vida política”. Eu queria incluir tudo o que faz parte da vida política. O que eu não queria era discutir sobre palavras. Simplesmente aceitei a palavra comum “riot”<strong>[1]</strong> e decidi tentar resgatá-la como categoria política.</p>
<p style="text-align: justify;">O termo sofisticado que criei é “lutas da circulação”. Não preciso me aprofundar na economia política desse termo, exceto para dizer que “circulação” significa, mais ou menos, o mercado. Não apenas o supermercado literal, mas o mundo onde trocamos mercadorias, compramos e consumimos coisas para tentar sobreviver. Especialmente para pessoas que não têm um emprego fixo, que trabalham em casa ou, em geral, que não têm oportunidade de lutar no ambiente de trabalho. Elas ainda podem estar tendo dificuldades para sobreviver, conseguir comida para suas famílias, sentir-se seguras da polícia. Todas as coisas que acontecem na praça pública e no mercado, é lá que elas vão lutar. E é isso que uma revolta representa para mim. Qualquer tipo de luta que se desenrola nesse espaço. O mercado, a praça pública, o espaço de troca, de transporte, de consumo.</p>
<p style="text-align: justify;">As pessoas que lutam ali podem ser trabalhadores, mas não estão se apresentando <em>como</em> trabalhadores. Esse é um ponto crucial. Eu posso ter um emprego, mas se eu bloquear uma rodovia porque quero paralisar o mundo porque a situação é intolerável, não estou fazendo isso como trabalhador, mas sim como alguém que pode bloquear uma rodovia. Esses são os parâmetros da categoria que uso para definir revolta — é uma definição bastante ampla, como você pode ver. Espero que isso comece a responder à sua pergunta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Com certeza, entendo como isso inclui métodos como ocupações, bloqueios e inúmeras outras formas de luta.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso é importante. Se você reduzir as revoltas a “pessoas quebrando janelas”, não será explicado nada do que está acontecendo ou como a história mudou. Mas se você começar a observar todas essas lutas — o bloqueio, a ocupação, a barricada, os tumultos e os saques — todas essas coisas juntas, e como elas mudaram, surgiram e desapareceram, você pode começar a entender uma história de luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158729" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c.jpg" alt="" width="1692" height="2391" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c.jpg 1692w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-212x300.jpg 212w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-725x1024.jpg 725w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-768x1085.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-1087x1536.jpg 1087w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-1449x2048.jpg 1449w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-297x420.jpg 297w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-640x904.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/ae3ccdddc65b455fb769ff4ff63c778c-681x962.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1692px) 100vw, 1692px" />Então, temos as lutas da circulação — o que vocês chamam de formas de resistência das quais participamos fora de nossos locais de trabalho e não como trabalhadores. E como você chamaria as lutas no local de trabalho? </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para manter nosso vocabulário pseudotécnico, se chamamos revoltas de “lutas da circulação”, deveríamos chamar as lutas no trabalho de “lutas da produção”. Lutas no local onde você produz bens, serviços ou gera lucros para o seu chefe. A greve é ​​a mais famosa delas, mas não a única. Podemos também pensar na sabotagem e desfalque no local de trabalho, operações-tartaruga e até mesmo participação em reuniões de organização sindical.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Voltando às perguntas bobas, por que as greves têm boa reputação e as revoltas, má reputação?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Depende a quem você pergunta, haha. Em geral, acho que as greves têm maior legitimidade, mesmo entre quem não participa delas. Os participantes geralmente acham que o que estão fazendo é justificado, ou pelo menos espero que sim, seja uma greve ou um protesto.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, acho que as pessoas têm um respeito bastante sensato pelo trabalho e pelos sofrimentos inerentes a ele. Elas o compreendem, inclusive as greves, nesse contexto. Muitas pessoas têm experiência com o trabalho, com salários baixos, tédio, exaustão, lesões, assédio do chefe; obrigação de trabalhar quando precisam cuidar da família. Todas essas coisas horríveis do trabalho. Por isso, elas simpatizam com as greves.</p>
<p style="text-align: justify;">As greves muitas vezes foram e são muito violentas, tanto por parte da polícia quanto dos grevistas, ou de ambos. E essa é uma história esquecida. Mas a reputação de serem mais organizadas, mais pacíficas, mais voltadas a uma retirada do que a um ataque, faz com que as pessoas se sintam melhor em relação a elas de muitas maneiras. A greve parece algo passivo. “O que estou fazendo? <em>Não</em> estou trabalhando!” E não há nada que pareça imediatamente agressivo ou ameaçador quando meu vizinho diz: “Não estou trabalhando”.</p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas são vistas como caóticas, incontroláveis ​​e voláteis, e você sabe que o bom liberal sempre se oporá a qualquer tipo de luta social que, de alguma forma, ameace chegar à sua porta. Portanto, o caráter indisciplinado de uma revolta, que faz parte de seu poder, também faz parte de sua ameaça e de seu risco. Isso faz com que o centrista, o liberal, seja naturalmente antipático às revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Só mais uma coisa sobre greves. Em países como a Suécia e a Finlândia, com uma longa história de fortes movimentos operários e de social-democracia, houve muitas ameaças ao direito de greve nos últimos anos e tentativas claras de limitar essa possibilidade. Gostaria de saber sua opinião sobre isso. Como isso se encaixa no contexto geral? Se seguirmos sua posição de que as lutas por direitos circulatórios, ou revoltas, são os principais focos de protesto hoje em dia, mas ao mesmo tempo observarmos que aqueles no poder estão visando as “lutas por direitos da produção”, limitando a possibilidade de greve. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Boa pergunta. Quer dizer, uma razão pode ser que as revoltas já são completamente ilegais. Não dá para torná-las <em>ainda mais</em> ilegais. Embora nos EUA haja grandes esforços para legalizar, por exemplo, atropelar pessoas que bloqueiam a rua. Várias novas leis foram aprovadas, assim como o aumento das penalidades contra protestos de qualquer tipo. Então, acho que é possível tentar criminalizar ainda mais as revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece haver bastante espaço para restringir as proteções legais para uma greve. Então, consigo entender porque isso poderia ser um interesse. Aqui chegamos talvez a um pouco do meu ceticismo, não em relação ao movimento operário histórico, mas em relação aos sindicatos e ao seu funcionamento. Acredito que deixar espaço legal e legitimidade para as greves foi, na verdade, uma estratégia útil para os capitalistas no período de expansão econômica massiva após a Segunda Guerra Mundial. Chamamos isso de “comprar a paz social”. É possível aumentar os salários para que as pessoas continuem indo trabalhar, porque o trabalho gera lucros enormes para os capitalistas e, por isso, há mais espaço para os trabalhadores se movimentarem e conquistarem ganhos correspondentes. Ficou claro que era do interesse do capital ceder a algumas demandas em vez de deixar a economia parar de crescer.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Você diria que mesmo antes do capitalismo já víamos revoltas ao longo da história? E que greves são, na verdade, a nova categoria?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso é absolutamente correto. Greves realmente não existiam antes do século XVII. Por outro lado, se observarmos atividades mais ou menos revoltosas, confrontos violentos com as autoridades, com o governo, elas estão quase se tornando “trans-históricas”. Sempre nos dizem para nunca começar uma redação com “Desde o início dos tempos”. Então, estou tentando evitar isso. Mas as lutas antiautoritárias são bastante constantes.</p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas camponesas e as revoltas de escravos são categorias humanas, políticas e históricas incrivelmente importantes. Estou tentando diferenciá-las das lutas por circulação, que são mais específicas historicamente e mais restritas. Elas podem parecer muito semelhantes às revoltas camponesas e de escravos, mas acredito que têm uma base diferente. Surgem de algo específico do capitalismo, na forma como ele estrutura os mercados locais e globais e como organiza nossas vidas para o lucro; como nos torna dependentes desses mercados para sobreviver. Na forma como inclui algumas pessoas e exclui outras, e nas formas particulares pelas quais coloca as pessoas umas contra as outras. Portanto, acho útil fazer essa distinção.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também quero chamar a atenção para as semelhanças entre levantes camponeses ou de escravos e revoltas. As lutas pela circulação de mercadorias podem girar em torno do custo de vida, o preço da sobrevivência em um contexto de mercado, mas inevitavelmente envolvem confrontos com a polícia, uma vez que ela aparece. É importante lembrar que a polícia é uma invenção moderna. Nos Estados Unidos, a polícia só surgiu no século XVII ou provavelmente no XVIII. Sua origem está ligada a dois fatores: no Sul, como patrulhas de escravos, e no Nordeste, como forma de disciplinar a mão de obra.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas é também nesse sentido que se veem as ligações com todas essas lutas históricas, porque o confronto com a força coercitiva também faz parte dos levantes camponeses e de escravos. O confronto com a polícia conecta o levante de escravos à greve, à revolta. Todas elas têm a ver com a busca pela liberdade. Todas elas têm a ver com a luta no contexto em que se está inserido. Envolvem especificamente a tentativa de superar a força coercitiva que os aprisiona em um determinado modo de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha grande referência intelectual, Fredric Jameson [que faleceu entre a realização desta entrevista e sua publicação], escreveu que é preciso sempre ter em mente a continuidade e a ruptura simultaneamente. Esse é o melhor conselho intelectual que já recebi. Aprendi isso em um livro — as pessoas deveriam ler livros.</p>
<p style="text-align: justify;">Tento abordar isso com a sua pergunta, sobre se as revoltas sempre existiram. Há uma ruptura, que é a integração do mercado mundial, o fato de você ter que se vender para comprar mercadorias nesse mercado, mesmo enquanto o grão local é enviado para outro lugar onde pode gerar mais lucro. Isso transforma vidas. Acho que isso merece sua própria história e é diferente dos levantes camponeses e de escravos. Mas, como ambas inevitavelmente envolvem o confronto com forças coercitivas de violência que impõem a sua miséria, também existe uma continuidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158728" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII.jpg" alt="" width="1447" height="1532" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII.jpg 1447w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-283x300.jpg 283w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-967x1024.jpg 967w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-768x813.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-397x420.jpg 397w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-640x678.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Theo_van_Doesburg_Composition_XXII-681x721.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1447px) 100vw, 1447px" />Você disse no início que queria resgatar as revoltas como categoria política. Pelo menos para mim, foi isso que aconteceu. Na época em que seu livro foi lançado, eu estava cercada por amigos que eram muito céticos em relação à ideia de revoltas, dizendo “revoltas não levam a lugar nenhum mesmo”. E, por outro lado, amigos achavam que não precisávamos de nenhuma teoria para as revoltas, mas que “as pessoas simplesmente as fazem”. </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Eu estava insatisfeita com ambas as posições. Achei que poderíamos encontrar uma maneira de não criar uma lacuna tão grande entre o pensamento e a prática, de integrá-los. Através do seu livro, encontrei uma forma de conversar sobre revoltas com todos os meus amigos a partir de uma perspectiva mais metodológica e menos moralista. Pensando na luta como diferentes ferramentas, e nas revoltas como uma delas, e baseando nossa análise em quando fez sentido para as pessoas usar uma ou outra. Isso foi incrível, obrigada. </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Agora, a conexão entre teoria e prática me leva à ideia de comuna, sobre a qual ainda não falamos, mas talvez possamos começar com o básico: o que a comuna significa para você?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Comecei a pensar nisso perto do final do livro. Para o próximo livro em que estou trabalhando, introduzo uma terceira categoria que acompanha as revoltas e greves, e sim, é a comuna.</p>
<p style="text-align: justify;">Reprodução é o nome dado a tudo o que fazemos para que nossos amigos, nossa família e nossa comunidade possam existir de um dia para o outro, de um mês para o outro, de uma geração para a outra. Inclui tudo, desde cozinhar e cuidar uns dos outros até gerar e criar filhos, e tudo o que há entre esses dois extremos. O capitalismo precisa disso porque precisa de trabalhadores e de consumidores. Não se trata de algo para você e para mim, não é para proporcionar uma vida boa para nossos amigos e parentes em nossas comunidades, é para criar consumidores e trabalhadores para o capitalismo. Mas não precisa ser assim — a comuna aponta para essa possibilidade de outra vida.</p>
<p style="text-align: justify;">A produção industrial em uma fábrica pode desaparecer com o fim do capitalismo. Fazer compras no supermercado ou na IKEA é circulação. Isso também é capitalismo, e quando o capitalismo acabar, isso também pode acabar. Mas o nosso cuidado mútuo, cozinhar uns para os outros, gerar e criar filhos juntos não vai acabar. Isso pode ser externo ao capital. Então, todo esse esforço que chamaremos de trabalho reprodutivo para reconstruir nossas comunidades dia após dia, geração após geração, é a base da comuna. Essa atividade é o que a comuna faz. Essa é a vida comunitária. A comuna é apenas um nome para a atividade reprodutiva separada do capitalismo, e acabamos pensando que, bem, isso é algo para o futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos exemplos famosos no passado: a Comuna de Paris, mas também a Comuna de Xangai e a Comuna de Morelos durante a Revolução Mexicana, entre várias outras. Mas, na maioria das vezes, pensamos: “Bem, a comuna é algo do futuro. Vamos superar o capitalismo algum dia, mas a comuna não existe no presente.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ela existe, sim, no presente. E não me refiro àqueles grupinhos de 12 ricos com barbas e tudo mais que vão morar no campo e dizem que aquilo é um país. Não é disso que estou falando. O que quero dizer quando penso em comuna, e particularmente na comuna como tática, é o seguinte:</p>
<p style="text-align: justify;">Para o meu livro, estou lendo bastante sobre os bloqueios de oleodutos — uma luta clássica da circulação, né? É a circulação desse recurso. Você não chega lá como um trabalhador dizendo “Estou em greve por causa do oleoduto”. Você chega dizendo: “Não vou deixar esse oleoduto passar pela minha terra, meu território, o território dos meus amigos, nossa terra comunitária. Não vou deixar que ele destrua os rios e o solo. Não vou deixar isso acontecer. Vou bloqueá-lo com mil dos meus amigos”. O que acontece?</p>
<p style="text-align: justify;">Se você pretende permanecer lá e manter o bloqueio não apenas na segunda-feira, mas também na terça, quarta, quinta, sexta e pelo resto do ano, algumas coisas precisam acontecer. É preciso começar a cozinhar, então monta-se uma cozinha comunitária. As pessoas precisam descansar. Providenciam-se lugares para dormir e abrigo. As pessoas precisam receber cuidados médicos. Monta-se uma tenda médica e outras estruturas. Isso é o acampamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata de um acampamento de protesto tentando chamar a atenção para algo e dizendo: “Estamos indignados”. É algo muito prático. E o que esse acampamento prático está fazendo? Está fazendo exatamente o que chamávamos de trabalho reprodutivo há pouco tempo. Está fornecendo comida, abrigo, cuidados e comunidade para as pessoas que estão bloqueando o oleoduto. É uma comuna que começa a se formar como parte de uma tática de luta. Está realizando esse trabalho comunitário que identificamos com a comuna ou o trabalho reprodutivo, não para produzir mão de obra para o capitalismo, não para produzir consumidores para o capitalismo, mas para produzir um bloqueio ao oleoduto. E, na verdade, o bloqueio ao oleoduto não existe sem essa pequena comuna, e a comuna não existe sem o bloqueio. Eles estão totalmente ligados. São um só. Não é um ou outro. Você não precisa escolher entre militância e trabalho de cuidado. São a mesma coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">É aí que a comuna se encaixa, não como uma visão do futuro, o que é ótimo, mas como uma tática prática no presente em que todos já estamos envolvidos. E como sempre, meu trabalho não é dizer às pessoas o que fazer, mas sim tentar nomear as coisas corretamente, tentar descrever o que já está acontecendo. Os grandes teóricos são as pessoas que estão bloqueando os oleodutos e cuidando dos acampamentos. São eles que estão descobrindo como fazer isso e o que fazer para se libertar, e eu tenho a sorte de ter a oportunidade de tentar pensar sobre isso e formular as ideias em palavras.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158730" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ.jpg" alt="" width="2000" height="1982" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-300x297.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-1024x1015.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-768x761.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-1536x1522.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-424x420.jpg 424w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-640x634.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/W1siZiIsIjE2MjY1OCJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MjAwMFx1MDAzZSJdXQ-681x675.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />Essa visão da comuna me parece muito promissora, traz esperança. Tenho sentido falta de reflexões sobre continuidade e reprodução relacionadas à luta, nesse sentido.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Se você não tem salário ou está vinculado a um emprego, não pode fazer greve, ou pode tentar, mas o que vai acontecer? Se você não tem muita saúde, o que acontece com todos nós em algum momento da vida, é difícil participar de uma revolta. Mas como é numa comuna? O que é preciso para fazer parte dela ou para lutar dessa forma? </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Essa é uma ótima pergunta, sobre a qual não tenho certeza se refleti tanto quanto deveria, mas acho que você já ofereceu uma maneira útil de pensar a respeito. Se dividirmos, de forma redutiva, todos os tipos de luta no mundo em três categorias: revolta, greve e comuna; ou lutas da circulação, lutas da produção e lutas da reprodução, isso abre um amplo espaço para diversos tipos de atividade. E, idealmente, se pensarmos nelas como parte de uma unidade, em vez de escolhas opostas, isso significa que há muitas maneiras diferentes pelas quais as pessoas podem se posicionar em termos de como desejam participar.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitas vezes alguém diz que não, que a única tática correta é esta. Mas, como você apontou, haverá muitas pessoas que dirão que isso não é possível para elas. Mesmo que eu acreditasse nessa tática, mesmo que esse fosse o meu desejo, por vários motivos ela não é possível para mim: por causa de onde moro, da minha situação de cidadania, da minha situação laboral, das minhas capacidades físicas, entre outras coisas. E estar atento ao fato de que nem todas as formas de luta são possíveis para todas as pessoas é fundamental. Se pudermos pensar em todos nós juntos, com nossas diferentes capacidades, formando uma espécie de unidade, isso abre um leque enorme de caminhos que as pessoas podem seguir.</p>
<p style="text-align: justify;">E é por isso que é importante não inventar oposições. Uma das mais destrutivas é o debate entre militância e cuidado. Alguém diz: “Vamos fazer algo muito militante” — algo codificado como militante, algo violento, arriscado ou simplesmente fisicamente ambicioso. E então alguém diz: “Bem, na verdade, deveríamos estar mais atentos ao trabalho de cuidado e nos concentrar nisso, sem cair na armadilha de tentar ser ultrarradicais e assim por diante”. Esse debate é frequentemente marcado por questões de gênero, com a militância codificada como masculina e o trabalho de cuidado como feminino. Mas também evoca outras diferenças, incluindo quem é <em>capaz</em> e de que maneira. Assim, surge uma oposição real entre militância e cuidado, apresentada como um debate ético. Qual é a coisa certa a fazer? E enquanto você escolher uma dessas opções, acabará com um conjunto incompleto de táticas e com pessoas excluídas.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos pensar nessas coisas como uma unidade, como tenho tentado sugerir. A comuna e o bloqueio são um ótimo exemplo. Não se trata de uma coisa contra a outra, elas formam um todo. No fim, quero que as três — revolta, greve, comuna — formem um todo no qual as pessoas possam participar de diversas maneiras. A poetisa Diane di Prima tem um poema que termina com a frase: “Será preciso que todos nós empurremos a coisa por todos os lados para derrubá-la”. Essa é uma forma de colocar a situação.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra forma de dizer isso é: é isso que significa uma greve geral. Porque uma greve geral não é, na verdade, uma greve no sentido técnico de paralisação dos trabalhadores; envolve muito mais coisas. Greve geral é o nome dado quando a revolta, a greve e a comuna acontecem simultaneamente. É isso que a greve geral realmente é. E esse é o dia, a semana ou o ano em que haverá um papel para todos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Obrigado, Joshua Clover. Chegar à greve geral é a maneira perfeita de encerrar esta entrevista e mal posso esperar que esse ano chegue. Você deu pistas essenciais sobre como compreender as várias formas de luta possíveis</strong> — <strong>ou impossíveis</strong> — <strong>para as pessoas e por que faz sentido usá-las em contextos e momentos específicos. Como você disse, as pessoas lutam onde estão e, idealmente, todas as diversas táticas juntas criam uma unidade. </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Aguardo ansiosamente seu livro sobre a comuna [2], para entender ainda melhor essa tática nos dias de hoje. Só a ideia de algo que permanecerá mesmo após o fim do capitalismo já é poderosa. </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As futuras revoltas, greves e comunas promovidas por aqueles que vocês chamam de “grandes teóricos” terão uma aparência um pouco diferente para mim, agora que tenho um arcabouço que permite conectar todos os pontos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ronja Mälström é escritora e editora do Turning Point. Ela se dedica a temas como comunidades organizadas, movimentos de resistência e alternativas para uma vida além do capitalismo e do patriarcado</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Traduzido de: <a class="urlextern" title="https://turningpointmag.org/2024/11/24/people-struggle-where-they-are-joshua-clover-on-riots-strikes-and-commune-that-are-already-here/" href="https://turningpointmag.org/2024/11/24/people-struggle-where-they-are-joshua-clover-on-riots-strikes-and-commune-that-are-already-here/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://turningpointmag.org/2024/11/24/people-struggle-where-they-are-joshua-clover-on-riots-strikes-and-commune-that-are-already-here/</a></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> <em>Riot</em> em inglês possuem um sentido que seria melhor traduzido como uma revolta na forma de um tumulto ou motim. Uma ação de uma multidão indignada que age normalmente nas ruas enfrentando forças do Estado, muitas vezes danificando propriedade. Traduzimos riot por revolta, embora revolta não carregue o sentido negativo que <em>riot</em> possui na sociedade (Nota do Tradutor).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Joshua Clover faleceu em abril de 2025, o livro sobre a comuna que eles estava escrevendo acabou não sendo publicado (Nota do Tradutor).</p>
</div>
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<div class="no"><em>As imagens que ilustram o artigo são de  Theo Van Doesburg</em></div>
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<h3 id="entrevista_com_nildo_viana_critica_das_plataformas_e_da_politica_progressista" class="sectionedit26" style="text-align: justify;"></h3>
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		<title>[São Paulo] O avesso da educação: relatos da destruição</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Feb 2026 16:18:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Este questionário procura coletar depoimentos dos educadores que trabalham no Estado e passaram pelos processos de avaliação de desempenho 360° em 2025. Por Coletivo de Professores Autônomos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Coletivo de Professores Autônomos</h3>
<p style="text-align: justify;">Olá!!</p>
<p style="text-align: justify;">Somos um coletivo de professores da rede de ensino do estado de São Paulo. Compartilhamos as dificuldades e o inconformismo com a precarização do trabalho docente e este ambiente feito de pressão e ameaça permanente. Neste sentido, este questionário procura coletar depoimentos dos educadores que trabalham no Estado e passaram pelos processos de avaliação de desempenho 360° em 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma forma difícil, mas necessária para compartilharmos nossas dificuldades e denunciarmos o cenário tenebroso que hoje é o nosso trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, esperamos reunir informações e relatos que nos ajudem a preparar materiais e pensarmos em ações conjuntas.</p>
<p style="text-align: justify;">Agradecemos muito por aceitarem colaborar relatando sua experiência. Trata-se de um formulário bem reduzido. Você levará no máximo 7 minutos para preencher.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://forms.gle/mZksN9bj3Ya4BRVZA" target="_blank" rel="noopener">https://forms.gle/mZksN9bj3Ya4BRVZA</a></p>
<p style="text-align: justify;">
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