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	Comentários sobre: Sobre a esquerda e as esquerdas (3ª parte)	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Exílio Mondrian		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/05/93837/#comment-227977</link>

		<dc:creator><![CDATA[Exílio Mondrian]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2014 03:29:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Em primeiro lugar, agradeço fortemente ao João Bernardo pela resposta e atenção dispensada ao meu comentário deveras confuso. O seu comentário, João Bernardo, ajudou-me a entender melhor o que eu estava tentando elaborar textualmente. De resto, o livro &quot;Dialéctica da Prática e da Ideologia&quot; é, ainda, um desafio concreto à minha ignorância. Li, reli, reli - e vou reler. A minha ignorância caminha, aos menos, a cada leitura - e novas perguntas e questões mais interessantes surgem a cada página que não entendo (ou que achava que entendia).

O que está em jogo, nessa terceira parte, é a questão da organização anticapitalista e o processo de burocratização. Nesse sentido, o comentário de Emerson foi de grande valia - assim como o comentário, logo em seguida, de João Bernardo.

Pensando a partir do que foi dito sobre as relações pessoais identitárias fixas (para que não sejam &quot;contaminadas&quot;) como a mola propulsora do pós-modernismo que se diz transformador, também a burocratização talvez tenha a ver com essa vontade de reprodução perpétua dessas novas elites - sem serem incomodadas com novas questões e processos que ultrapassam os seus enquadramentos organizativos. 

As obras do dramaturgo, poeta e romancista Luigi Pirandello pode ser um bom caminho para se pensar contra esse processo de paralisia da história e do novo pelas suas determinações. No romance &quot;O falecido Mattia Pascal&quot;, existe de forma gritante uma vontade de ser outro, de estar alhures. Mattia Pascal se finge de morto - passando assim a ser outra pessoa, um tal de Adriano Meis, vivendo desse modo uma outra vida.

Talvez a esquerda que queremos deva morrer para a esquerda clássica e para a esquerda pós-modernista. Nossa esquerda deve se fingir de morta - e não se agarrar em nenhuma identidade fixa congelada de preservação das tradições e diferenças culturais como critério político. Trata-se, como bem disse João Bernardo na segunda parte desse texto, de construir uma realidade de fato nova e mundialmente integradora das culturas e lutas sociais. Ou, glosando uma importante obra de Pirandello, uma esquerda capaz de ser &quot;Um, nenhum e cem mil&quot;.

Uma esquerda à altura desse desafio sempre colocará a questão da participação ativa e criativa do povo no controle das lutas e decisões como ponto primordial e decisivo. Ou, então, não merece o nome de esquerda.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em primeiro lugar, agradeço fortemente ao João Bernardo pela resposta e atenção dispensada ao meu comentário deveras confuso. O seu comentário, João Bernardo, ajudou-me a entender melhor o que eu estava tentando elaborar textualmente. De resto, o livro &#8220;Dialéctica da Prática e da Ideologia&#8221; é, ainda, um desafio concreto à minha ignorância. Li, reli, reli &#8211; e vou reler. A minha ignorância caminha, aos menos, a cada leitura &#8211; e novas perguntas e questões mais interessantes surgem a cada página que não entendo (ou que achava que entendia).</p>
<p>O que está em jogo, nessa terceira parte, é a questão da organização anticapitalista e o processo de burocratização. Nesse sentido, o comentário de Emerson foi de grande valia &#8211; assim como o comentário, logo em seguida, de João Bernardo.</p>
<p>Pensando a partir do que foi dito sobre as relações pessoais identitárias fixas (para que não sejam &#8220;contaminadas&#8221;) como a mola propulsora do pós-modernismo que se diz transformador, também a burocratização talvez tenha a ver com essa vontade de reprodução perpétua dessas novas elites &#8211; sem serem incomodadas com novas questões e processos que ultrapassam os seus enquadramentos organizativos. </p>
<p>As obras do dramaturgo, poeta e romancista Luigi Pirandello pode ser um bom caminho para se pensar contra esse processo de paralisia da história e do novo pelas suas determinações. No romance &#8220;O falecido Mattia Pascal&#8221;, existe de forma gritante uma vontade de ser outro, de estar alhures. Mattia Pascal se finge de morto &#8211; passando assim a ser outra pessoa, um tal de Adriano Meis, vivendo desse modo uma outra vida.</p>
<p>Talvez a esquerda que queremos deva morrer para a esquerda clássica e para a esquerda pós-modernista. Nossa esquerda deve se fingir de morta &#8211; e não se agarrar em nenhuma identidade fixa congelada de preservação das tradições e diferenças culturais como critério político. Trata-se, como bem disse João Bernardo na segunda parte desse texto, de construir uma realidade de fato nova e mundialmente integradora das culturas e lutas sociais. Ou, glosando uma importante obra de Pirandello, uma esquerda capaz de ser &#8220;Um, nenhum e cem mil&#8221;.</p>
<p>Uma esquerda à altura desse desafio sempre colocará a questão da participação ativa e criativa do povo no controle das lutas e decisões como ponto primordial e decisivo. Ou, então, não merece o nome de esquerda.</p>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/05/93837/#comment-227870</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 May 2014 22:05:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Miguel e Exílio Mondrian,
Em 1991 publiquei um livro de poucas páginas intitulado &lt;em&gt;Dialéctica da Prática e da Ideologia&lt;/em&gt; (São Paulo: Cortez, Porto: Afrontamento), onde procurei apresentar um modelo em que os indivíduos não são unidades constitutivas das instituições e nem sequer existem indivíduos na esfera das instituições. Nesse livro defini o indivíduo como «um percurso através de instituições distintas e contraditórias e através de campos distintos, sem que nenhuma instituição específica unifique ou fique a assinalar tal percurso», e acrescentei: «Os indivíduos não são sujeitos práticos, nem aspecto de sujeitos práticos» (pág. 61). Quanto à coerência deste modelo, oposto à visão corrente, remeto para o livro, já que não tenho possibilidade de me explicar mais longamente no espaço de um comentário. Limito-me aqui a assinalar a questão, mas penso que é o suficiente para indicar que estou de acordo com as vossas observações, se é que as entendi bem.
Quanto ao que escreveu o Exílio Mondrian, acrescento que para mim a luta contra o racismo, contra o sexismo, contra os preconceitos consiste em fazer com que a cor da pele e o formato do nariz, o facto de ter pénis ou vagina e de atingir o orgasmo por um lado ou por outro deixem de ser factores pertinentes. Assim, situo-me no oposto daqueles que pretendem erigir o sexo ou a taxa de melanina ou as preferências sexuais em grande factor definidor e estruturante. A função dos anticapitalistas é, na minha opinião, exactamente a contrária. Trata-se de fazer com que a cor da pele, o sexo e as preferências tenham a mesma falta de pertinência social que tem o facto de se ser gordo ou magro, careca ou cabeludo. Onde uns querem fundar a política na preservação destas diferenças, eu afirmo aqui a necessidade de as abolir.
Emerson,
Estou de acordo com você. Uma organização que se perpetua para além do contexto que a gerou só pode ter uma existência burocratizada. A burocratização define-se como a passagem do &lt;em&gt;auto&lt;/em&gt; para o &lt;em&gt;hetero&lt;/em&gt;, ou seja, a passagem de uma situação em que os próprios mantêm o controlo sobre os assuntos que lhes dizem respeito para uma situação em que esse controlo é entregue a outros. Há tempos atrás escrevi aqui uma série de artigos sobre Marat e mostrei &lt;a href=&quot;http://passapalavra.info/2012/08/52523&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;num deles&lt;/a&gt; que para Marat o mecanismo básico da tirania não é o aparecimento do príncipe mas o facto de o povo deixar o príncipe aparecer. Simplificando, a burocracia não se deve à existência de burocratas mas ao facto de a base de uma organização permitir que se formem burocratas. É neste processo de formação que a crítica deve incidir, senão é tarde demais. No caso do Brasil, é esta a situação que hoje se vive nos movimentos sociais. Quanto aos sindicatos, eles são desde há muito grandes investidores capitalistas. Remeto para o livro que escrevi juntamente com Luciano Pereira, &lt;em&gt;Capitalismo Sindical&lt;/em&gt; (São Paulo: Xamã, 2008).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Miguel e Exílio Mondrian,<br />
Em 1991 publiquei um livro de poucas páginas intitulado <em>Dialéctica da Prática e da Ideologia</em> (São Paulo: Cortez, Porto: Afrontamento), onde procurei apresentar um modelo em que os indivíduos não são unidades constitutivas das instituições e nem sequer existem indivíduos na esfera das instituições. Nesse livro defini o indivíduo como «um percurso através de instituições distintas e contraditórias e através de campos distintos, sem que nenhuma instituição específica unifique ou fique a assinalar tal percurso», e acrescentei: «Os indivíduos não são sujeitos práticos, nem aspecto de sujeitos práticos» (pág. 61). Quanto à coerência deste modelo, oposto à visão corrente, remeto para o livro, já que não tenho possibilidade de me explicar mais longamente no espaço de um comentário. Limito-me aqui a assinalar a questão, mas penso que é o suficiente para indicar que estou de acordo com as vossas observações, se é que as entendi bem.<br />
Quanto ao que escreveu o Exílio Mondrian, acrescento que para mim a luta contra o racismo, contra o sexismo, contra os preconceitos consiste em fazer com que a cor da pele e o formato do nariz, o facto de ter pénis ou vagina e de atingir o orgasmo por um lado ou por outro deixem de ser factores pertinentes. Assim, situo-me no oposto daqueles que pretendem erigir o sexo ou a taxa de melanina ou as preferências sexuais em grande factor definidor e estruturante. A função dos anticapitalistas é, na minha opinião, exactamente a contrária. Trata-se de fazer com que a cor da pele, o sexo e as preferências tenham a mesma falta de pertinência social que tem o facto de se ser gordo ou magro, careca ou cabeludo. Onde uns querem fundar a política na preservação destas diferenças, eu afirmo aqui a necessidade de as abolir.<br />
Emerson,<br />
Estou de acordo com você. Uma organização que se perpetua para além do contexto que a gerou só pode ter uma existência burocratizada. A burocratização define-se como a passagem do <em>auto</em> para o <em>hetero</em>, ou seja, a passagem de uma situação em que os próprios mantêm o controlo sobre os assuntos que lhes dizem respeito para uma situação em que esse controlo é entregue a outros. Há tempos atrás escrevi aqui uma série de artigos sobre Marat e mostrei <a href="http://passapalavra.info/2012/08/52523" rel="nofollow">num deles</a> que para Marat o mecanismo básico da tirania não é o aparecimento do príncipe mas o facto de o povo deixar o príncipe aparecer. Simplificando, a burocracia não se deve à existência de burocratas mas ao facto de a base de uma organização permitir que se formem burocratas. É neste processo de formação que a crítica deve incidir, senão é tarde demais. No caso do Brasil, é esta a situação que hoje se vive nos movimentos sociais. Quanto aos sindicatos, eles são desde há muito grandes investidores capitalistas. Remeto para o livro que escrevi juntamente com Luciano Pereira, <em>Capitalismo Sindical</em> (São Paulo: Xamã, 2008).</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Emerson		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/05/93837/#comment-227283</link>

		<dc:creator><![CDATA[Emerson]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 May 2014 19:29:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João, esses dias conversando com um companheiro chegamos à conclusão de que a burocratização não teria a ver com a existência de dirigentes, mas sim com o fato de manter uma organização que já não corresponde às necessidades do momento atual. Ou seja, uma organização que se perpetua apesar de não ter mais nenhum sentido para a sua existência. Isso seria a burocratização - a sobrevivência da forma sobre o conteúdo. E a burocracia seria justamente esse setor do movimento que trabalharia para a manutenção do aparelho. Creio que seja isso o que você diz quando fala do &quot;fetiche da forma de organização&quot;.

Se essa análise estiver correta, gostaria de saber qual a sua posição quanto às organizações hierárquicas (sindicatos, partidos, certos movimentos sociais, etc). Seriam elas &quot;formas de organização que são, sempre e em todas as circunstâncias, nocivas para a acção anticapitalista&quot;? Ou elas simplesmente não correspondem ao atual contexto da luta de classes?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João, esses dias conversando com um companheiro chegamos à conclusão de que a burocratização não teria a ver com a existência de dirigentes, mas sim com o fato de manter uma organização que já não corresponde às necessidades do momento atual. Ou seja, uma organização que se perpetua apesar de não ter mais nenhum sentido para a sua existência. Isso seria a burocratização &#8211; a sobrevivência da forma sobre o conteúdo. E a burocracia seria justamente esse setor do movimento que trabalharia para a manutenção do aparelho. Creio que seja isso o que você diz quando fala do &#8220;fetiche da forma de organização&#8221;.</p>
<p>Se essa análise estiver correta, gostaria de saber qual a sua posição quanto às organizações hierárquicas (sindicatos, partidos, certos movimentos sociais, etc). Seriam elas &#8220;formas de organização que são, sempre e em todas as circunstâncias, nocivas para a acção anticapitalista&#8221;? Ou elas simplesmente não correspondem ao atual contexto da luta de classes?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Passa Palavra		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/05/93837/#comment-225940</link>

		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 May 2014 14:12:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Informamos que o autor responderá aos comentários no final da semana.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Informamos que o autor responderá aos comentários no final da semana.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Exílio Mondrian		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/05/93837/#comment-225881</link>

		<dc:creator><![CDATA[Exílio Mondrian]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 May 2014 11:22:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Na mesma toada do que disse Miguel Serras Pereira - e pedindo licença, caso minha interpretação do que ele escreveu estiver equivocada -, uma das principais contribuições do pensamento crítico (e da ação crítica) seria a análise e questionamento das determinações que vivemos. Não para eliminá-las - como num passe de mágica. E sim para que, a partir delas, alcancemos na análise (e na prática) o que realmente faz sentido na história e na política como criação constante - o tornar-se outro, sempre.

Desse modo, não sou gay, ou negro. Posso até se isso tudo aí - mas sou muito mais. Deve ser indiferente à essas diferenças. Uma pessoa não se define, em todas as suas potencialidades políticas e limites históricos, pela sua cor ou orientação sexual. E não se trata, bom esclarecer, de um tal &quot;puro devir&quot; pós-moderno - no qual a realidade não existe tudo torna-se outro porque sim e pelos discursos. É justamente nas práticas, na realidade em suas relações, que observamos esse movimento - de torna-se outro, de uma certa experiência de indeterminação que vivemos na história, mesmo quando nos deparamos com a reafirmação da hegemonia (que, na verdade, se renova para continuar sua hegemonia) que parece sugar qualquer capacidade de mudança e criação.

Posso não ter sido nada claro no que disse - isso tudo ainda não está tão bem elaborado textualmente, por esse motivo peço desculpas. Mas, de verdade, é duro para minha cabeça aceitar que uma pessoa (ou movimento/organização) de esquerda goste de reafirmar fortemente - bem ao gosto do pós-modernismo - a identidade como motivo ou afeto político central de sua luta. É quase inacreditável. Não tem nada que ver com uma história da esquerda que buscava mudar, concretamente, o mundo em que vivemos. 

Políticas pós-identitárias (pós, nesse caso, ultrapassando justamente afirmação das diferenças culturais como motivação de uma luta política que deve ser pela igualdade econômica e política radical, nada a ver com o pós-modernismo) e internacionalistas - não seria essa a luta de uma parte da luta da esquerda que merece (ainda?) ser chamada por esse nome.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na mesma toada do que disse Miguel Serras Pereira &#8211; e pedindo licença, caso minha interpretação do que ele escreveu estiver equivocada -, uma das principais contribuições do pensamento crítico (e da ação crítica) seria a análise e questionamento das determinações que vivemos. Não para eliminá-las &#8211; como num passe de mágica. E sim para que, a partir delas, alcancemos na análise (e na prática) o que realmente faz sentido na história e na política como criação constante &#8211; o tornar-se outro, sempre.</p>
<p>Desse modo, não sou gay, ou negro. Posso até se isso tudo aí &#8211; mas sou muito mais. Deve ser indiferente à essas diferenças. Uma pessoa não se define, em todas as suas potencialidades políticas e limites históricos, pela sua cor ou orientação sexual. E não se trata, bom esclarecer, de um tal &#8220;puro devir&#8221; pós-moderno &#8211; no qual a realidade não existe tudo torna-se outro porque sim e pelos discursos. É justamente nas práticas, na realidade em suas relações, que observamos esse movimento &#8211; de torna-se outro, de uma certa experiência de indeterminação que vivemos na história, mesmo quando nos deparamos com a reafirmação da hegemonia (que, na verdade, se renova para continuar sua hegemonia) que parece sugar qualquer capacidade de mudança e criação.</p>
<p>Posso não ter sido nada claro no que disse &#8211; isso tudo ainda não está tão bem elaborado textualmente, por esse motivo peço desculpas. Mas, de verdade, é duro para minha cabeça aceitar que uma pessoa (ou movimento/organização) de esquerda goste de reafirmar fortemente &#8211; bem ao gosto do pós-modernismo &#8211; a identidade como motivo ou afeto político central de sua luta. É quase inacreditável. Não tem nada que ver com uma história da esquerda que buscava mudar, concretamente, o mundo em que vivemos. </p>
<p>Políticas pós-identitárias (pós, nesse caso, ultrapassando justamente afirmação das diferenças culturais como motivação de uma luta política que deve ser pela igualdade econômica e política radical, nada a ver com o pós-modernismo) e internacionalistas &#8211; não seria essa a luta de uma parte da luta da esquerda que merece (ainda?) ser chamada por esse nome.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: miguel serras pereira		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/05/93837/#comment-224800</link>

		<dc:creator><![CDATA[miguel serras pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 May 2014 10:34:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João,

subscrevo todas as ideias mestras desta terceira parte do teu Manifesto. As poucas observações que se seguem devem ser lidas como propostas de desenvolvimento e explicitação de certos pontos da tua análise que creio dever sublinhar.
 
1. O facto de as relações pessoais estarem presentes em qualquer forma de organização não permite reduzir a organização e muito menos a política de que ela pretende ocupar-se a relações pessoais ou &quot;intersubjectivas&quot;. Ao mesmo tempo que a redução às relações interpessoais ou intersubjectivas da organização acaba por equivaler à recusa desta última como necessariamente inautêntica ou opressiva. 

2. Um outro aspecto desta deriva é que faz perder de vista que tanto a &quot;pessoa&quot; como as &quot;relações pessoais&quot; são institucionalmente configuradas, e garantidas por suportes social e historicamente instituídos. E estas instituições e suportes institucionais não são por seu turno produtos da subjectividade inter-pessoal, mas suas condições sociais e históricas (relevando da acção política). 

3. O &quot;fetichismo&quot; que descreves tem assim por consequência escamotear a questão do poder que aquilo a que chamas — e muito bem — a &quot;democracia revolucionária&quot; não pode deixar de pôr sem renunciar a si própria. Ou melhor, quando não escamoteia a questão do poder, representa este como o domínio do mal por excelência, ao qual só poderíamos resistir, em nome da &quot;cultura de si&quot; ou da autenticidade intersubjectiva, mas sem reivindicarmos o seu exercício, necessariamente impessoal, enquanto cidadãos governantes, e não enquanto esta pessoa, e mais esta, e mais esta, membro desta ou daquela rede afinitária particular. Que se esqueça assim que a melhor garantia da liberdade subjectiva, e das relações pessoais afinitárias escolhidas por cada um, é justamente a participação de todos — enquanto ninguém em particular — no exercício político do poder sobre as condições comuns de existência de todos e cada um — tal esquecimento é um efeito particularmente perverso do &quot;fetichismo&quot; que assinalas. E aproxima certas concepções e práticas da esquerda &quot;pós-moderna&quot; da célebre divisa de Margaret Thatcher, quando afirmava que a sociedade não existia, mas só existiam indivíduos e famílias (se dissesse &quot;grupos afinitários&quot;, a coisa viria a dar quase no mesmo) — ao mesmo tempo que, através do exercício do poder instituído e da transformação das instituições, se esforçava, com o afinco que se sabe, por &quot;validar&quot; a sua ideia, &quot;convertendo as almas&quot;.

Espero que estes meus sublinhados do teu Manifesto não te pareçam excessivos ou demasiado equivocados. 

Abraço

miguel serras pereira]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João,</p>
<p>subscrevo todas as ideias mestras desta terceira parte do teu Manifesto. As poucas observações que se seguem devem ser lidas como propostas de desenvolvimento e explicitação de certos pontos da tua análise que creio dever sublinhar.</p>
<p>1. O facto de as relações pessoais estarem presentes em qualquer forma de organização não permite reduzir a organização e muito menos a política de que ela pretende ocupar-se a relações pessoais ou &#8220;intersubjectivas&#8221;. Ao mesmo tempo que a redução às relações interpessoais ou intersubjectivas da organização acaba por equivaler à recusa desta última como necessariamente inautêntica ou opressiva. </p>
<p>2. Um outro aspecto desta deriva é que faz perder de vista que tanto a &#8220;pessoa&#8221; como as &#8220;relações pessoais&#8221; são institucionalmente configuradas, e garantidas por suportes social e historicamente instituídos. E estas instituições e suportes institucionais não são por seu turno produtos da subjectividade inter-pessoal, mas suas condições sociais e históricas (relevando da acção política). </p>
<p>3. O &#8220;fetichismo&#8221; que descreves tem assim por consequência escamotear a questão do poder que aquilo a que chamas — e muito bem — a &#8220;democracia revolucionária&#8221; não pode deixar de pôr sem renunciar a si própria. Ou melhor, quando não escamoteia a questão do poder, representa este como o domínio do mal por excelência, ao qual só poderíamos resistir, em nome da &#8220;cultura de si&#8221; ou da autenticidade intersubjectiva, mas sem reivindicarmos o seu exercício, necessariamente impessoal, enquanto cidadãos governantes, e não enquanto esta pessoa, e mais esta, e mais esta, membro desta ou daquela rede afinitária particular. Que se esqueça assim que a melhor garantia da liberdade subjectiva, e das relações pessoais afinitárias escolhidas por cada um, é justamente a participação de todos — enquanto ninguém em particular — no exercício político do poder sobre as condições comuns de existência de todos e cada um — tal esquecimento é um efeito particularmente perverso do &#8220;fetichismo&#8221; que assinalas. E aproxima certas concepções e práticas da esquerda &#8220;pós-moderna&#8221; da célebre divisa de Margaret Thatcher, quando afirmava que a sociedade não existia, mas só existiam indivíduos e famílias (se dissesse &#8220;grupos afinitários&#8221;, a coisa viria a dar quase no mesmo) — ao mesmo tempo que, através do exercício do poder instituído e da transformação das instituições, se esforçava, com o afinco que se sabe, por &#8220;validar&#8221; a sua ideia, &#8220;convertendo as almas&#8221;.</p>
<p>Espero que estes meus sublinhados do teu Manifesto não te pareçam excessivos ou demasiado equivocados. </p>
<p>Abraço</p>
<p>miguel serras pereira</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Exílio Caravaggio		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/05/93837/#comment-224657</link>

		<dc:creator><![CDATA[Exílio Caravaggio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 10 May 2014 23:31:47 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93837#comment-224657</guid>

					<description><![CDATA[&quot;formar organizações de luta que obtenham vitórias nas suas reivindicações sem com isto serem incorporadas nas instituições estatais&quot;

No Brasil, o polo anarquista sempre caminhou neste sentido. Lembrando que há vários anarquismos no país. Aquele de caráter não meramente teórico e caçador de bolsas e carreiras universitárias, foi o que mais trabalhou nessa linha.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;formar organizações de luta que obtenham vitórias nas suas reivindicações sem com isto serem incorporadas nas instituições estatais&#8221;</p>
<p>No Brasil, o polo anarquista sempre caminhou neste sentido. Lembrando que há vários anarquismos no país. Aquele de caráter não meramente teórico e caçador de bolsas e carreiras universitárias, foi o que mais trabalhou nessa linha.</p>
]]></content:encoded>
		
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