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	Comentários sobre: Classe e conflitos: um debate entre camaradas	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Legume		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137866/#comment-742543</link>

		<dc:creator><![CDATA[Legume]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 08 May 2021 21:58:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O diálogo presente no artigo e continuado por parte dos comentaristas me parece relevante, embora nas discussões, por vezes, se desdobrem questões menores e isso ganhe mais volume que o debate original em si. 
Me parece que as divisões internas entre os trabalhadores seja por estratos de rendimento, seja por padrões de consumo, ou pela localidade que moram é algo que em geral os capitalistas se apoiam para fragmentar as lutas.
Quando olhamos para 2013 podemos ver que existiu ali uma mobilização particular da classe trabalhadora. A pauta era essencialmente proletária, os 40 centavos diários impactavam mormente a parcela mais pobre dos trabalhadores – por mais que se tente apagar o que foi aquele momento as pesquisas indicam que a maioria dos que lá estava se mobilizava pelo transporte. Entretanto, as mesmas pesquisas indicam que um número significativo dos participantes eram pessoas cursando o Ensino Superior, o que nos leva a pensar que existia ali uma dissolução temporária dessas distinções dentro das classes. Pena que após aquele momento o MPL tenha optado por abrir mão disso ao se focar na “luta periférica”.
 Sobre as perspectivas de união entre diferentes setores explorados poderia se retornar até a Conjura dos Alfaiates, quando os setores mais qualificados dos escravos se mobilizaram para que a escravidão fosse abolida.
Porém, acho melhor nos atermos a exemplos mais recentes. Ao longo da discussão se citou os entregadores, comumente a esquerda os qualifica como os mais precarizados dos serviços, será que isso é exato? Se o trabalhador de aplicativo tinha uma inserção como metalúrgico e passa a ser entregador certamente, já se fazia bicos para a loja da esquina e agora passa a trabalhar para uma rede maior de restaurantes, parece se inserir em um mecanismo mais sofisticado de exploração. Agora se formos olhar para a luta que esses fizeram iremos notar que o apoio externo à categoria, por parte dos usuários de aplicativos foi essencial para que as empresas dessem respostas, ao mesmo tempo, para se produzir maiores transformações seria necessária uma articulação mais orgânica entre os entregadores. Como ela pode se dar em um trabalho que é tão rotativo e disperso? Essa parece ser uma questão que precisaremos ainda enfrentar.
O comentarista que aqui se colocou como defensor da centralidade do conflito falou muito em revoltas. Sempre que a discussão sobre estas aparecem me lembro desse &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2013/07/81647/&quot; rel=&quot;noopener&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;texto&lt;/a&gt; e da proposta da a ação do revolucionário ser a negação da revolta em favor da revolução. Em um outro debate com camaradas disse que achava que as vezes se reduz o escopo do que é conflito, por exemplo uma ação de organização solidária entre trabalhadores para conseguir alimentos, ou roupas, está inserida para mim em atividades de conflito de classe, afinal são iniciativas de organizar pelos próprios trabalhadores sua vida. Isso me parece longe de algo que “não deva ser levado a sério”. 
Só tem sentido não levar a sério essas iniciativas dos trabalhadores se achamos que a aposta deve ser apenas na destruição do capitalismo e não na construção da sociedade autogerida.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O diálogo presente no artigo e continuado por parte dos comentaristas me parece relevante, embora nas discussões, por vezes, se desdobrem questões menores e isso ganhe mais volume que o debate original em si.<br />
Me parece que as divisões internas entre os trabalhadores seja por estratos de rendimento, seja por padrões de consumo, ou pela localidade que moram é algo que em geral os capitalistas se apoiam para fragmentar as lutas.<br />
Quando olhamos para 2013 podemos ver que existiu ali uma mobilização particular da classe trabalhadora. A pauta era essencialmente proletária, os 40 centavos diários impactavam mormente a parcela mais pobre dos trabalhadores – por mais que se tente apagar o que foi aquele momento as pesquisas indicam que a maioria dos que lá estava se mobilizava pelo transporte. Entretanto, as mesmas pesquisas indicam que um número significativo dos participantes eram pessoas cursando o Ensino Superior, o que nos leva a pensar que existia ali uma dissolução temporária dessas distinções dentro das classes. Pena que após aquele momento o MPL tenha optado por abrir mão disso ao se focar na “luta periférica”.<br />
 Sobre as perspectivas de união entre diferentes setores explorados poderia se retornar até a Conjura dos Alfaiates, quando os setores mais qualificados dos escravos se mobilizaram para que a escravidão fosse abolida.<br />
Porém, acho melhor nos atermos a exemplos mais recentes. Ao longo da discussão se citou os entregadores, comumente a esquerda os qualifica como os mais precarizados dos serviços, será que isso é exato? Se o trabalhador de aplicativo tinha uma inserção como metalúrgico e passa a ser entregador certamente, já se fazia bicos para a loja da esquina e agora passa a trabalhar para uma rede maior de restaurantes, parece se inserir em um mecanismo mais sofisticado de exploração. Agora se formos olhar para a luta que esses fizeram iremos notar que o apoio externo à categoria, por parte dos usuários de aplicativos foi essencial para que as empresas dessem respostas, ao mesmo tempo, para se produzir maiores transformações seria necessária uma articulação mais orgânica entre os entregadores. Como ela pode se dar em um trabalho que é tão rotativo e disperso? Essa parece ser uma questão que precisaremos ainda enfrentar.<br />
O comentarista que aqui se colocou como defensor da centralidade do conflito falou muito em revoltas. Sempre que a discussão sobre estas aparecem me lembro desse <a href="https://passapalavra.info/2013/07/81647/" rel="noopener" target="_blank">texto</a> e da proposta da a ação do revolucionário ser a negação da revolta em favor da revolução. Em um outro debate com camaradas disse que achava que as vezes se reduz o escopo do que é conflito, por exemplo uma ação de organização solidária entre trabalhadores para conseguir alimentos, ou roupas, está inserida para mim em atividades de conflito de classe, afinal são iniciativas de organizar pelos próprios trabalhadores sua vida. Isso me parece longe de algo que “não deva ser levado a sério”.<br />
Só tem sentido não levar a sério essas iniciativas dos trabalhadores se achamos que a aposta deve ser apenas na destruição do capitalismo e não na construção da sociedade autogerida.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
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		<title>
		Por: Castro		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137866/#comment-741572</link>

		<dc:creator><![CDATA[Castro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 May 2021 23:37:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Pronto. O JMC colocou as pantufas nos pés do Sr. Estrôncio e a conversa dos meninos e meninas segue muda aninhada à beira da lareira. Silêncio, pantufas, bocejos e a &quot;mais-valia&quot; ardendo nas brasas mansas daquelas poucas cavacas que um desgraçado qualquer, prestando serviços domésticos à casa, lá deixou no finalzinho da manhã de ontem...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pronto. O JMC colocou as pantufas nos pés do Sr. Estrôncio e a conversa dos meninos e meninas segue muda aninhada à beira da lareira. Silêncio, pantufas, bocejos e a &#8220;mais-valia&#8221; ardendo nas brasas mansas daquelas poucas cavacas que um desgraçado qualquer, prestando serviços domésticos à casa, lá deixou no finalzinho da manhã de ontem&#8230;</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: arkx Brasil		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137866/#comment-741177</link>

		<dc:creator><![CDATA[arkx Brasil]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 May 2021 22:00:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Zé da Silva
Esclarecendo:
• essa articulação atua a partir de 2012, composta também por integrantes do MST, desde a origem deste, que ocuparam ou ainda ocupam, funções em sua direção nacional ou estadual.
• uma das diferenças é a prática de se ir além do ponto no qual o MST se deixou paralisar.
• não se trata de nenhum racha do MST.
• a coordenação da articulação é formada inteiramente por lideranças históricas de base, tanto da luta pela terra, quanto dos povos indígenas, dos povos quilombolas, do movimento dos trabalhadores urbanos sem teto.
abraços 
.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Zé da Silva<br />
Esclarecendo:<br />
• essa articulação atua a partir de 2012, composta também por integrantes do MST, desde a origem deste, que ocuparam ou ainda ocupam, funções em sua direção nacional ou estadual.<br />
• uma das diferenças é a prática de se ir além do ponto no qual o MST se deixou paralisar.<br />
• não se trata de nenhum racha do MST.<br />
• a coordenação da articulação é formada inteiramente por lideranças históricas de base, tanto da luta pela terra, quanto dos povos indígenas, dos povos quilombolas, do movimento dos trabalhadores urbanos sem teto.<br />
abraços<br />
.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Zé da Silva		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137866/#comment-741129</link>

		<dc:creator><![CDATA[Zé da Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 May 2021 18:49:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A respeito dos novos grupos que promovem retomada de terras para plantio agroecológico.

Observando à distância parece que tentam emular o que o MST faz há alguma dúzia de anos, inclusive os argumentos são semelhantes: desinchar as cidades, produção de alimentos para a população mais empobrecida por meio da agricultura familiar agroecológica etc. etc. Aparentemente, um dos pontos de distinção reside na composição da direção dos novos grupos: professores universitários e servidores públicos  anarquistas e ligados à ecologia.

Bem.. toda a experiência acumulada pelo MST em décadas de luta está aí para ser analisada.

Quando arkx fala, por exemplo: &quot;É disto que se trata. (...) de retomada de terra. Não como propriedade privada, e sim meio de produção coletivizado.&quot; é possível evocar a experiência do MST desde as cooperativas agroindustriais dos anos 80/90 até a propriedade individual focada na agricultura familiar agroecológica dos últimos 10 ou 15 anos do movimento. 

Isso foi narrado aqui mesmo neste site: https://passapalavra.info/2012/03/53997/

Enfim...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A respeito dos novos grupos que promovem retomada de terras para plantio agroecológico.</p>
<p>Observando à distância parece que tentam emular o que o MST faz há alguma dúzia de anos, inclusive os argumentos são semelhantes: desinchar as cidades, produção de alimentos para a população mais empobrecida por meio da agricultura familiar agroecológica etc. etc. Aparentemente, um dos pontos de distinção reside na composição da direção dos novos grupos: professores universitários e servidores públicos  anarquistas e ligados à ecologia.</p>
<p>Bem.. toda a experiência acumulada pelo MST em décadas de luta está aí para ser analisada.</p>
<p>Quando arkx fala, por exemplo: &#8220;É disto que se trata. (&#8230;) de retomada de terra. Não como propriedade privada, e sim meio de produção coletivizado.&#8221; é possível evocar a experiência do MST desde as cooperativas agroindustriais dos anos 80/90 até a propriedade individual focada na agricultura familiar agroecológica dos últimos 10 ou 15 anos do movimento. </p>
<p>Isso foi narrado aqui mesmo neste site: <a href="https://passapalavra.info/2012/03/53997/" rel="ugc">https://passapalavra.info/2012/03/53997/</a></p>
<p>Enfim&#8230;</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: arkx Brasil		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137866/#comment-741088</link>

		<dc:creator><![CDATA[arkx Brasil]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 May 2021 16:42:57 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=137866#comment-741088</guid>

					<description><![CDATA[Caiu a obturação. Dente da frente. O sorriso que já era muito pouco apresentável, até mesmo pelo uso da máscara, se inviabilizou.
Foi ao dentista, que lhe vendeu seu trabalho prestando um serviço.

Houve produção de mercadoria incorporando trabalho não-pago, a ser realizado como lucro na comercialização?

Chega em casa. Dia de faxina. Ao pagar pelo serviço, constatou a diferença de remuneração entre a faxineira e o dentista.
Ainda assim, alguma mercadoria fora produzida?

Liga o notebook. Estava concluindo um trabalho intelectual.
O aparelho deu defeito. Chama o técnico, empregado da empresa de assistência. 
O notebook volta a funcionar. Termina o trabalho.

Ao receber seu pagamento não sabe como considerar o serviço do técnico. Sem dúvida contabilmente era um custo, mas teria havido extração de mais-valia?
E o seu próprio serviço?  

A campanhia toca. O moto-boy chegara prá pegar a encomenda da confecção. 
Sua mulher desenha roupas sob medida, corte e costura ficam por conta de costureiras terceirizadas.
Mesmo sem o vínculo empregatício lhe parecia clara a mais-valia. Mas restava um dúvida: absoluta ou relativa?

Consulta o celular. Trabalha em regime de home-office. 
Verifica várias demandas vindas pelo aplicativo de mensagens instantâneas, cobrando tarefas pendentes. 
Seria mais um dia de jornada de trabalho noite adentro. Uma combinação de mais-valia aboluta e relativa?

Diante de tantas dúvidas e frente as muitas tarefas a cumprir, volta ao trabalho com a certeza que aquele jogo de espelhos, refletindo infinitamente exploração, precisava ser quebrado.

Como fazê-lo?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caiu a obturação. Dente da frente. O sorriso que já era muito pouco apresentável, até mesmo pelo uso da máscara, se inviabilizou.<br />
Foi ao dentista, que lhe vendeu seu trabalho prestando um serviço.</p>
<p>Houve produção de mercadoria incorporando trabalho não-pago, a ser realizado como lucro na comercialização?</p>
<p>Chega em casa. Dia de faxina. Ao pagar pelo serviço, constatou a diferença de remuneração entre a faxineira e o dentista.<br />
Ainda assim, alguma mercadoria fora produzida?</p>
<p>Liga o notebook. Estava concluindo um trabalho intelectual.<br />
O aparelho deu defeito. Chama o técnico, empregado da empresa de assistência.<br />
O notebook volta a funcionar. Termina o trabalho.</p>
<p>Ao receber seu pagamento não sabe como considerar o serviço do técnico. Sem dúvida contabilmente era um custo, mas teria havido extração de mais-valia?<br />
E o seu próprio serviço?  </p>
<p>A campanhia toca. O moto-boy chegara prá pegar a encomenda da confecção.<br />
Sua mulher desenha roupas sob medida, corte e costura ficam por conta de costureiras terceirizadas.<br />
Mesmo sem o vínculo empregatício lhe parecia clara a mais-valia. Mas restava um dúvida: absoluta ou relativa?</p>
<p>Consulta o celular. Trabalha em regime de home-office.<br />
Verifica várias demandas vindas pelo aplicativo de mensagens instantâneas, cobrando tarefas pendentes.<br />
Seria mais um dia de jornada de trabalho noite adentro. Uma combinação de mais-valia aboluta e relativa?</p>
<p>Diante de tantas dúvidas e frente as muitas tarefas a cumprir, volta ao trabalho com a certeza que aquele jogo de espelhos, refletindo infinitamente exploração, precisava ser quebrado.</p>
<p>Como fazê-lo?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: JMC		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137866/#comment-741049</link>

		<dc:creator><![CDATA[JMC]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 May 2021 14:39:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Temo ser um dos contribuidores (como comentador) para que o debate tenha sido improfícuo. Hesitei em voltar a comentar, tanto mais que me debruçaria apenas sobre o último comentário de Estrôncio. Mas os erros contidos no seu comentário são de tal ordem que resolvi correr o risco de tornar o debate ainda mais descentrado do tema principal e assim eventualmente ainda mais improfícuo. Correndo o risco, vejamos então.

1) Confusão entre desigualdade e exploração. Então o que é a exploração se não o resultado de um troca desigual de valor, de apropriação de valor do trabalho alheio? A exploração não foi, nem é, exclusivo do capitalismo. Por isso na sociedade capitalista (porque não há outra) não existe apenas exploração capitalista, mas existe exploração quando o trabalho com um determinado valor é comprado e pago com um valor menor (representado pelo valor comprado pelo salário). Não é o tipo de produto em cuja produção o trabalho comprado é consumido que determina a existência de exploração. É a desigualdade da relação de troca que permite ao comprador apropriar-se de trabalho alheio, praticando a exploração do vendedor desse trabalho. O que caracteriza a exploração capitalista, contudo, não é apenas a apropriação de valor sob a forma de trabalho, mas a transformação do valor apropriado como trabalho em valor apropriado como lucro do capital, e isso só é possível quando o trabalho comprado é consumido na produção de mercadorias e, assim, volta a ser vendido.
Os exemplos apresentados por Estrôncio de que a desigualdade de rendimentos dos trabalhadores provém da concorrência não têm qualquer fundamento sólido, porque os vendedores de mercadorias, sejam trabalhadores assalariados, sejam capitalistas, concorrem entre si e uns contra os outros. Mas o exemplo da concorrência entre taxistas e motoristas da Uber não tem qualquer cabimento. Nem todos os taxistas são trabalhadores assalariados, mas a esmagadora maioria é, mas todos os trabalhadores da Uber e congéneres não são certamente trabalhadores assalariados, mas trabalhadores independentes que vendem um serviço (o de transporte, ou trabalho+instrumento de trabalho+outros meios de produção), em exclusividade, à Uber ou a outra congénere, que o revende ao comprador e consumidor do serviço.
2) Trabalhadores sujeitos à mais-valia relativa. Fico novamente a saber que há trabalhadores assalariados sujeitos à mais-valia relativa e outros que não o são. Sempre julguei, acompanhando de lado Marx nesta questão, que a “mais-valia” relativa consistia no aumento do valor apropriado por redução do valor retribuído (por redução do preço das mercadorias compradas pelo salário inferior à redução do seu valor, de modo que o salário compra maior quantidade de mercadorias, mas menos valor) e, neste sentido, era comum aos trabalhadores de uma dada formação social (porque não há supermercados distintos para uns e outros se abastecerem de meios de subsistência) e beneficiava os capitalistas dessa formação social. Designar como trabalhadores sujeitos à “mais-valia” relativa os que trabalham nas empresas mais produtivas foi inovação introduzida pelos discursos dos auto designados marxistas “heterodoxos”, entre eles o seu guru João Bernardo, aqui representados por Estrôncio. A confusão dos marxistas “heterodoxos” é grande e vem de há muitos anos. Eles identificam, erradamente, a chamada “mais-valia” relativa, e o aumento da exploração da generalidade dos trabalhadores que ela proporciona, com um outro efeito do aumento da produtividade dos processos produtivos, induzido pela concorrência inter capitalista, e que faz com que uns capitalistas adquiram vantagens competitivas em relação aos seus concorrentes e ainda lhes permita obter lucros extra ou sobrelucros pela apropriação como seus lucros de parte do valor apropriado pelos capitalistas de empresas menos produtivas compradores das suas mercadorias ou vendedores de mercadorias por si compradas. Lucros extra que lhes permitem ainda pagar salários mais elevados aos seus trabalhadores. A confusão nas cabeças dos chamados marxistas “heterodoxos” é tal que nesta questão eles nem marxistas são.
3) Porquê os investimentos directos estrangeiros vão para a Suécia e não para o Haiti. O destino do investimento directo estrangeiro é talvez o caso em que as condições gerais de produção têm grande relevância (ainda que não a exclusiva), mas contrapor o Haiti à Suécia até parece caricatura. Pergunto eu: porquê o investimento directo estrangeiro, nos últimos trinta anos, procurou em maior quantidade a China e não a Suécia? Terá alguma coisa a ver produtividade possibilitada pela elevada composição técnica do capital dos processos produtivos por si introduzida conjugada com os baixos salários, os elevados períodos e ritmos de trabalho, a menor restrição às agressões ambientais, a falta de liberdades, incluindo a de organização sindical, e as benesses fiscais na China? E, em geral, porquê a produção, através do investimento directo, é deslocalizada dos países mais desenvolvidos para os países menos desenvolvidos? Eu ainda estou escrevendo e comunicando através de um desktop produzido por uma empresa americana na Checa, depois do abandono do comunismo, mas muitos dos comentadores utilizarão equipamentos mais modernos e sofisticados já produzidos na China por empresas (muitas delas não chinesas ou de capitais mistos) subcontratadas por empresas de outros países. Se o exemplo da China não é o de um pequeno paraíso para o capital, o que é?
4) Diferenças de rendimentos e exploração. A diferença de salários é apresentada como diferença de rendimentos. Deixemos a lapalissada e fixemo-nos no essencial, que é essa diferença de rendimentos favorável aos trabalhadores das empresas mais produtivas ser apresentada como proveniente da maior exploração a que eles estariam sujeitos em relação aos trabalhadores das empresas menos produtivas. Se aqueles trabalhadores, que até poderão trabalhar por períodos menores e auferirem salários maiores, isto é, venderem trabalho com menor valor e receberem salários que lhes permitem comprar mercadorias com maior valor, são mais explorados do que os trabalhadores das empresas menos produtivas, que trabalham mais horas e recebem salários menores, então vou ali e já volto. Mas isto sou eu, que eventualmente estarei confundindo a realidade com a sua aparência (logo eu, que como passatempo me dediquei a desvendar estes mistérios das aparências sob que que se apresenta a realidade social e em 2006 criei um blog chamado aparências do real!). E quanto ao imperialismo se caracterizar por os capitalistas de empresas mais produtivas das metrópoles expandirem as suas mercadorias pelas suas colónias ou, mais modernamente, por países menos desenvolvidos, e a exploração colonial ter sido em muitos casos deficitária, são histórias da carochinha. O imperialismo, e não o colonialismo, há mais de um século foi pelos marxistas (não vale a pena nomear outros, bastando dos mais categorizados a Rosa, Lenine, Hilferding) caracterizado pela exportação de capitais, não pela exportação de outras mercadorias. Mas mesmo o caso da exploração colonial ter sido deficitária isso ficou a dever-se em grande medida (para além de outras causas) ao fraco investimento directo noutras produções que não a extracção ou o cultivo de matérias-primas para exportação para as metrópoles, chegando inclusive à proibição de produções locais (mesmo artesanais) que pudessem vir a concorrer com as mercadorias industriais produzidas nas metrópoles ou a limitar-lhes o mercado. Bastaria lembrarmo-nos de uma das causas da revolução americana, mas o caso da Índia sob a colonização britânica é paradigmático a este respeito.
O facto de as empresas multinacionais e transnacionais pagarem nos países menos desenvolvidos salários mais elevados do que os praticados pelos capitalistas locais é apenas risível. Porque não haveriam de fazê-lo se o podem; e poderiam até pagar salários mais elevados, se os governos locais o permitissem, devido aos impactos no incentivo da luta reivindicativa por melhores salários dos trabalhadores das empresas locais (como aconteceu aqui em Portugal entre os finais dos anos sessenta e os meados dos anos setenta, situação que constatei ao vivo). A comparação fundamental é entre os salários praticados pelas multinacionais nos países de origem onde faziam a produção das suas mercadorias e os salários que passaram a praticar nos países menos desenvolvidos para onde deslocaram parte ou a totalidade dessa produção. Foram essas e outras diferenças, que apontei a propósito da China, que conduziram à constituição das multinacionais primeiro e depois das transnacionais. Os gestores do capital são parvos ou quê?
5) O imperialismo diz exclusivamente respeito à desigual distribuição da mais-valia. Mas é claro, o imperialismo moderno, não colonial, respeita à desigual distribuição do valor apropriado a nível internacional por entre as diferentes fracções nacionais da burguesia mundial. Que haveria de ser? E cada vez mais, com a globalização capitalista, a livre circulação dos capitais e de estabelecimento da produção, o imperialismo se caracteriza pela exportação de capitais para investimento directo em países menos desenvolvidos, aproveitando as condições mais propícias para a redução dos seus custos e preços de produção, adquirindo as vantagens competitivas daí resultantes, exportando as suas mercadorias para todo o mundo e obtendo maiores taxas de lucro. Com a deslocalização da produção para países menos desenvolvidos, os efeitos nos países mais desenvolvidos têm sido o aumento do desemprego, a redução dos salários, a precarização da prestação do trabalho e a informalização dos contratos, e, a nível global, o crescimento do emprego sem aumento dos salários ou até a regressão da parte dos salários no valor da produção mundial. E os sobrelucros obtidos pelas empresas mais produtivas até lhes permitem aumentar os salários dos trabalhadores altamente qualificados empregados na investigação, criação e desenvolvimento de novos produtos, assim como de outros não necessariamente tão qualificados dos departamentos de marketing e de vendas, da gestão da produção e dos capitais, para além de elevarem as retribuições que os gestores se atribuem, contribuindo para que os seus rendimentos ultrapassem os dos capitalistas individuais integrantes dos grupos de proprietários da maioria do capital. 
Mas, para falar verdade, não sei mesmo a que propósito Estrôncio lançou a atoarda de que “essa errada noção de imperialismo tem como único objectivo arrastar a classe trabalhadora dos países considerados periféricos numa aliança de tipo nacionalista com os capitalistas desses países periféricos”. Enfim, uma velha táctica quando faltam os argumentos…
Termino dizendo que me surpreendeu a participação de poucos comentadores na discussão de questões tão importantes, que poderão contribuir para dar alguma consistência às práticas das lutas reivindicativas dos trabalhadores assalariados, porque se não lutarem estarão bem lixados, assim como os erros e as confusões manifestadas por Estrôncio nos seus comentários.
Apesar deste comentário ser longo, julgo que poderá ser aprovado para publicação.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Temo ser um dos contribuidores (como comentador) para que o debate tenha sido improfícuo. Hesitei em voltar a comentar, tanto mais que me debruçaria apenas sobre o último comentário de Estrôncio. Mas os erros contidos no seu comentário são de tal ordem que resolvi correr o risco de tornar o debate ainda mais descentrado do tema principal e assim eventualmente ainda mais improfícuo. Correndo o risco, vejamos então.</p>
<p>1) Confusão entre desigualdade e exploração. Então o que é a exploração se não o resultado de um troca desigual de valor, de apropriação de valor do trabalho alheio? A exploração não foi, nem é, exclusivo do capitalismo. Por isso na sociedade capitalista (porque não há outra) não existe apenas exploração capitalista, mas existe exploração quando o trabalho com um determinado valor é comprado e pago com um valor menor (representado pelo valor comprado pelo salário). Não é o tipo de produto em cuja produção o trabalho comprado é consumido que determina a existência de exploração. É a desigualdade da relação de troca que permite ao comprador apropriar-se de trabalho alheio, praticando a exploração do vendedor desse trabalho. O que caracteriza a exploração capitalista, contudo, não é apenas a apropriação de valor sob a forma de trabalho, mas a transformação do valor apropriado como trabalho em valor apropriado como lucro do capital, e isso só é possível quando o trabalho comprado é consumido na produção de mercadorias e, assim, volta a ser vendido.<br />
Os exemplos apresentados por Estrôncio de que a desigualdade de rendimentos dos trabalhadores provém da concorrência não têm qualquer fundamento sólido, porque os vendedores de mercadorias, sejam trabalhadores assalariados, sejam capitalistas, concorrem entre si e uns contra os outros. Mas o exemplo da concorrência entre taxistas e motoristas da Uber não tem qualquer cabimento. Nem todos os taxistas são trabalhadores assalariados, mas a esmagadora maioria é, mas todos os trabalhadores da Uber e congéneres não são certamente trabalhadores assalariados, mas trabalhadores independentes que vendem um serviço (o de transporte, ou trabalho+instrumento de trabalho+outros meios de produção), em exclusividade, à Uber ou a outra congénere, que o revende ao comprador e consumidor do serviço.<br />
2) Trabalhadores sujeitos à mais-valia relativa. Fico novamente a saber que há trabalhadores assalariados sujeitos à mais-valia relativa e outros que não o são. Sempre julguei, acompanhando de lado Marx nesta questão, que a “mais-valia” relativa consistia no aumento do valor apropriado por redução do valor retribuído (por redução do preço das mercadorias compradas pelo salário inferior à redução do seu valor, de modo que o salário compra maior quantidade de mercadorias, mas menos valor) e, neste sentido, era comum aos trabalhadores de uma dada formação social (porque não há supermercados distintos para uns e outros se abastecerem de meios de subsistência) e beneficiava os capitalistas dessa formação social. Designar como trabalhadores sujeitos à “mais-valia” relativa os que trabalham nas empresas mais produtivas foi inovação introduzida pelos discursos dos auto designados marxistas “heterodoxos”, entre eles o seu guru João Bernardo, aqui representados por Estrôncio. A confusão dos marxistas “heterodoxos” é grande e vem de há muitos anos. Eles identificam, erradamente, a chamada “mais-valia” relativa, e o aumento da exploração da generalidade dos trabalhadores que ela proporciona, com um outro efeito do aumento da produtividade dos processos produtivos, induzido pela concorrência inter capitalista, e que faz com que uns capitalistas adquiram vantagens competitivas em relação aos seus concorrentes e ainda lhes permita obter lucros extra ou sobrelucros pela apropriação como seus lucros de parte do valor apropriado pelos capitalistas de empresas menos produtivas compradores das suas mercadorias ou vendedores de mercadorias por si compradas. Lucros extra que lhes permitem ainda pagar salários mais elevados aos seus trabalhadores. A confusão nas cabeças dos chamados marxistas “heterodoxos” é tal que nesta questão eles nem marxistas são.<br />
3) Porquê os investimentos directos estrangeiros vão para a Suécia e não para o Haiti. O destino do investimento directo estrangeiro é talvez o caso em que as condições gerais de produção têm grande relevância (ainda que não a exclusiva), mas contrapor o Haiti à Suécia até parece caricatura. Pergunto eu: porquê o investimento directo estrangeiro, nos últimos trinta anos, procurou em maior quantidade a China e não a Suécia? Terá alguma coisa a ver produtividade possibilitada pela elevada composição técnica do capital dos processos produtivos por si introduzida conjugada com os baixos salários, os elevados períodos e ritmos de trabalho, a menor restrição às agressões ambientais, a falta de liberdades, incluindo a de organização sindical, e as benesses fiscais na China? E, em geral, porquê a produção, através do investimento directo, é deslocalizada dos países mais desenvolvidos para os países menos desenvolvidos? Eu ainda estou escrevendo e comunicando através de um desktop produzido por uma empresa americana na Checa, depois do abandono do comunismo, mas muitos dos comentadores utilizarão equipamentos mais modernos e sofisticados já produzidos na China por empresas (muitas delas não chinesas ou de capitais mistos) subcontratadas por empresas de outros países. Se o exemplo da China não é o de um pequeno paraíso para o capital, o que é?<br />
4) Diferenças de rendimentos e exploração. A diferença de salários é apresentada como diferença de rendimentos. Deixemos a lapalissada e fixemo-nos no essencial, que é essa diferença de rendimentos favorável aos trabalhadores das empresas mais produtivas ser apresentada como proveniente da maior exploração a que eles estariam sujeitos em relação aos trabalhadores das empresas menos produtivas. Se aqueles trabalhadores, que até poderão trabalhar por períodos menores e auferirem salários maiores, isto é, venderem trabalho com menor valor e receberem salários que lhes permitem comprar mercadorias com maior valor, são mais explorados do que os trabalhadores das empresas menos produtivas, que trabalham mais horas e recebem salários menores, então vou ali e já volto. Mas isto sou eu, que eventualmente estarei confundindo a realidade com a sua aparência (logo eu, que como passatempo me dediquei a desvendar estes mistérios das aparências sob que que se apresenta a realidade social e em 2006 criei um blog chamado aparências do real!). E quanto ao imperialismo se caracterizar por os capitalistas de empresas mais produtivas das metrópoles expandirem as suas mercadorias pelas suas colónias ou, mais modernamente, por países menos desenvolvidos, e a exploração colonial ter sido em muitos casos deficitária, são histórias da carochinha. O imperialismo, e não o colonialismo, há mais de um século foi pelos marxistas (não vale a pena nomear outros, bastando dos mais categorizados a Rosa, Lenine, Hilferding) caracterizado pela exportação de capitais, não pela exportação de outras mercadorias. Mas mesmo o caso da exploração colonial ter sido deficitária isso ficou a dever-se em grande medida (para além de outras causas) ao fraco investimento directo noutras produções que não a extracção ou o cultivo de matérias-primas para exportação para as metrópoles, chegando inclusive à proibição de produções locais (mesmo artesanais) que pudessem vir a concorrer com as mercadorias industriais produzidas nas metrópoles ou a limitar-lhes o mercado. Bastaria lembrarmo-nos de uma das causas da revolução americana, mas o caso da Índia sob a colonização britânica é paradigmático a este respeito.<br />
O facto de as empresas multinacionais e transnacionais pagarem nos países menos desenvolvidos salários mais elevados do que os praticados pelos capitalistas locais é apenas risível. Porque não haveriam de fazê-lo se o podem; e poderiam até pagar salários mais elevados, se os governos locais o permitissem, devido aos impactos no incentivo da luta reivindicativa por melhores salários dos trabalhadores das empresas locais (como aconteceu aqui em Portugal entre os finais dos anos sessenta e os meados dos anos setenta, situação que constatei ao vivo). A comparação fundamental é entre os salários praticados pelas multinacionais nos países de origem onde faziam a produção das suas mercadorias e os salários que passaram a praticar nos países menos desenvolvidos para onde deslocaram parte ou a totalidade dessa produção. Foram essas e outras diferenças, que apontei a propósito da China, que conduziram à constituição das multinacionais primeiro e depois das transnacionais. Os gestores do capital são parvos ou quê?<br />
5) O imperialismo diz exclusivamente respeito à desigual distribuição da mais-valia. Mas é claro, o imperialismo moderno, não colonial, respeita à desigual distribuição do valor apropriado a nível internacional por entre as diferentes fracções nacionais da burguesia mundial. Que haveria de ser? E cada vez mais, com a globalização capitalista, a livre circulação dos capitais e de estabelecimento da produção, o imperialismo se caracteriza pela exportação de capitais para investimento directo em países menos desenvolvidos, aproveitando as condições mais propícias para a redução dos seus custos e preços de produção, adquirindo as vantagens competitivas daí resultantes, exportando as suas mercadorias para todo o mundo e obtendo maiores taxas de lucro. Com a deslocalização da produção para países menos desenvolvidos, os efeitos nos países mais desenvolvidos têm sido o aumento do desemprego, a redução dos salários, a precarização da prestação do trabalho e a informalização dos contratos, e, a nível global, o crescimento do emprego sem aumento dos salários ou até a regressão da parte dos salários no valor da produção mundial. E os sobrelucros obtidos pelas empresas mais produtivas até lhes permitem aumentar os salários dos trabalhadores altamente qualificados empregados na investigação, criação e desenvolvimento de novos produtos, assim como de outros não necessariamente tão qualificados dos departamentos de marketing e de vendas, da gestão da produção e dos capitais, para além de elevarem as retribuições que os gestores se atribuem, contribuindo para que os seus rendimentos ultrapassem os dos capitalistas individuais integrantes dos grupos de proprietários da maioria do capital.<br />
Mas, para falar verdade, não sei mesmo a que propósito Estrôncio lançou a atoarda de que “essa errada noção de imperialismo tem como único objectivo arrastar a classe trabalhadora dos países considerados periféricos numa aliança de tipo nacionalista com os capitalistas desses países periféricos”. Enfim, uma velha táctica quando faltam os argumentos…<br />
Termino dizendo que me surpreendeu a participação de poucos comentadores na discussão de questões tão importantes, que poderão contribuir para dar alguma consistência às práticas das lutas reivindicativas dos trabalhadores assalariados, porque se não lutarem estarão bem lixados, assim como os erros e as confusões manifestadas por Estrôncio nos seus comentários.<br />
Apesar deste comentário ser longo, julgo que poderá ser aprovado para publicação.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Estrôncio		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137866/#comment-740805</link>

		<dc:creator><![CDATA[Estrôncio]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 May 2021 21:26:47 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=137866#comment-740805</guid>

					<description><![CDATA[A discussão está a ficar demasiado confusa.

&lt;strong&gt;1)&lt;/strong&gt; Alguns comentadores confundem &lt;em&gt;desigualdade&lt;/em&gt; com &lt;em&gt;exploração&lt;/em&gt;. A complexidade orgânica da classe trabalhadora significa precisamente que os trabalhadores ocupam posições diferentes no mercado de trabalho. O mercado de trabalho não se limita a opor dois conjuntos, os patrões por um lado e os trabalhadores por outro, que formulados deste modo são abstracções úteis para certos níveis da análise económica, mas improcedentes para outros tipos de análise. Ora, um dos aspectos do mercado de trabalho é a concorrência dos trabalhadores entre eles. Os sindicatos surgiram precisamente para evitar essa concorrência entre os trabalhadores, de modo a que eles se opusessem em bloco aos patrões, mas depressa se converteram em instrumentos corporativos que pretendem proteger certas camadas da força de trabalho da concorrência exercida por camadas menos qualificadas ou mais recentes. Um dos comentadores deu um exemplo que ilustra este tipo de concorrência, entre o pessoal de enfermagem e os auxiliares. Outro exemplo é o que em muitos países opõe os taxistas, que são sindicalizados, aos motoristas da Uber, que não o são. Há uma infinidade de exemplos, mas trata-se sempre de desigualdade no mercado de trabalho e não de exploração, a não ser que se dê ao conceito de exploração uma acepção tão lata que o torna inútil para qualquer análise séria.

&lt;strong&gt;2)&lt;/strong&gt; Outros comentadores assumem que os trabalhadores mais mal pagos são, só por isso, mais explorados, ou seja, que os trabalhadores sujeitos a formas desenvolvidas de mais-valia relativa seriam menos explorados do que os sujeitos a formas extremas de mais-valia absoluta. Esta é uma noção muito divulgada, que toma as aparências por realidades, impedindo-se de compreender o mecanismo fundamental do capitalismo e que, se fosse exacta, inverteria a dinâmica deste modo de produção. O capitalismo evolui sempre no sentido da mais-valia relativa e sofre crises, gerais ou sectoriais, quando não consegue desenvolver a mais-valia relativa no ritmo necessário. É precisamente a distinção entre &lt;em&gt;bens de uso&lt;/em&gt;, incluindo serviços, no seu sentido material ou individual, e o &lt;em&gt;valor enquanto tempo de trabalho despendido ou incorporado&lt;/em&gt; que fundamenta os mecanismos internos do capital. A noção de que os trabalhadores sujeitos à mais-valia relativa seriam menos explorados impede a compreensão desses mecanismos internos.

&lt;strong&gt;3)&lt;/strong&gt; Transcrevo um trecho de &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2020/09/133661/&quot; rel=&quot;noopener&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;um artigo&lt;/a&gt; de João Bernardo que me parece esclarecedor: «[...] comparemos dois países com populações equivalentes, o Haiti, com pouco mais de 11 milhões de habitantes, e a Suécia, com quase 10,5 milhões de habitantes. Ora, o capitalismo está interessado na Suécia, não no Haiti, como mostra a orientação seguida pelos investimentos externos directos. Medidos em milhões de dólares, os fluxos de investimentos externos directos para o Haiti tiveram um pico de 375 em 2017, em 2018 desceram para 105 e em 2019 para 75. Em comparação, para a Suécia os fluxos de investimentos externos directos, medidos igualmente em milhões de dólares, atingiram um pico em 2019, quando chegaram a 20.568, foram de 3.857 em 2018 e de 14.249 em 2017. Se os avaliarmos em stocks, medidos em milhões de dólares, os investimentos externos directos no Haiti foram de 95 em 2000, subindo para 625 em 2010 e para 1.925 em 2019. Na Suécia, nas mesmas datas, foram de 93.791, 352.646 e 339.543. Porquê, então, existe o Haiti, ou antes, por que motivo o Haiti, se não é rentável, não se transformou numa Suécia?»

&lt;strong&gt;4)&lt;/strong&gt; O erro que consiste em confundir diferenças de rendimentos com exploração agrava-se quando se mistura com a questão do imperialismo. O imperialismo consiste numa dinâmica de expansão do capitalismo das metrópoles, propiciada pelo grau superior de exploração que exerce sobre os seus próprios trabalhadores. Por outras palavras, e contrariamente à versão corrente, é a sobre-exploração resultante da mais-valia relativa, e de patamares cada vez mais elevados de mais-valia relativa, que permite ao capitalismo das metrópoles expandir-se sobre as regiões menos desenvolvidas. Se se estudar a história dos processos de expansão imperialista propriamente capitalistas (não da época do mercantilismo pré-capitalista, mas do capitalismo) no século XIX em África, na Índia e na China, verifica-se como durante décadas esse colonialismo não foi rentável. O mecanismo motor desse colonialismo foi a mais-valia relativa extorquida aos trabalhadores das metrópoles e não a mais-valia absoluta a que desejava submeter os trabalhadores das colónias. Mais tarde, pode verificar-se que quando as companhias multinacionais, depois as transnacionais, estabelecem ramos e filiais nos países menos desenvolvidos, os salários aí praticados são invariavelmente superiores aos salários médios desses países. Este é um facto estatístico facilmente verificável para quem se dê ao esforço de analisar a realidade, em vez de repetir lugares-comuns.

&lt;strong&gt;5)&lt;/strong&gt; Essa errada noção de imperialismo tem como único objectivo arrastar a classe trabalhadora dos países considerados periféricos numa aliança de tipo nacionalista com os capitalistas desses países periféricos. O imperialismo diz exclusivamente respeito à desigual distribuição da mais-valia entre os vários grupos componentes das classes capitalistas mundiais. A desigualdade do imperialismo é uma desigualdade entre capitalistas e não uma exploração praticada por qualquer fictício conjunto de capitalistas e trabalhadores das metrópoles sobre outro fictício conjunto formado por capitalistas e trabalhadores dos países periféricos.

&lt;strong&gt;6)&lt;/strong&gt; Assim, este debate pouco tem contribuído — contribuiu alguma coisa, mas pouco — para esclarecer o que me parecia ser a questão fundamental, a da complexidade orgânica da classe trabalhadora, relacionada com a complexidade das lutas sociais.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A discussão está a ficar demasiado confusa.</p>
<p><strong>1)</strong> Alguns comentadores confundem <em>desigualdade</em> com <em>exploração</em>. A complexidade orgânica da classe trabalhadora significa precisamente que os trabalhadores ocupam posições diferentes no mercado de trabalho. O mercado de trabalho não se limita a opor dois conjuntos, os patrões por um lado e os trabalhadores por outro, que formulados deste modo são abstracções úteis para certos níveis da análise económica, mas improcedentes para outros tipos de análise. Ora, um dos aspectos do mercado de trabalho é a concorrência dos trabalhadores entre eles. Os sindicatos surgiram precisamente para evitar essa concorrência entre os trabalhadores, de modo a que eles se opusessem em bloco aos patrões, mas depressa se converteram em instrumentos corporativos que pretendem proteger certas camadas da força de trabalho da concorrência exercida por camadas menos qualificadas ou mais recentes. Um dos comentadores deu um exemplo que ilustra este tipo de concorrência, entre o pessoal de enfermagem e os auxiliares. Outro exemplo é o que em muitos países opõe os taxistas, que são sindicalizados, aos motoristas da Uber, que não o são. Há uma infinidade de exemplos, mas trata-se sempre de desigualdade no mercado de trabalho e não de exploração, a não ser que se dê ao conceito de exploração uma acepção tão lata que o torna inútil para qualquer análise séria.</p>
<p><strong>2)</strong> Outros comentadores assumem que os trabalhadores mais mal pagos são, só por isso, mais explorados, ou seja, que os trabalhadores sujeitos a formas desenvolvidas de mais-valia relativa seriam menos explorados do que os sujeitos a formas extremas de mais-valia absoluta. Esta é uma noção muito divulgada, que toma as aparências por realidades, impedindo-se de compreender o mecanismo fundamental do capitalismo e que, se fosse exacta, inverteria a dinâmica deste modo de produção. O capitalismo evolui sempre no sentido da mais-valia relativa e sofre crises, gerais ou sectoriais, quando não consegue desenvolver a mais-valia relativa no ritmo necessário. É precisamente a distinção entre <em>bens de uso</em>, incluindo serviços, no seu sentido material ou individual, e o <em>valor enquanto tempo de trabalho despendido ou incorporado</em> que fundamenta os mecanismos internos do capital. A noção de que os trabalhadores sujeitos à mais-valia relativa seriam menos explorados impede a compreensão desses mecanismos internos.</p>
<p><strong>3)</strong> Transcrevo um trecho de <a href="https://passapalavra.info/2020/09/133661/" rel="noopener" target="_blank">um artigo</a> de João Bernardo que me parece esclarecedor: «[&#8230;] comparemos dois países com populações equivalentes, o Haiti, com pouco mais de 11 milhões de habitantes, e a Suécia, com quase 10,5 milhões de habitantes. Ora, o capitalismo está interessado na Suécia, não no Haiti, como mostra a orientação seguida pelos investimentos externos directos. Medidos em milhões de dólares, os fluxos de investimentos externos directos para o Haiti tiveram um pico de 375 em 2017, em 2018 desceram para 105 e em 2019 para 75. Em comparação, para a Suécia os fluxos de investimentos externos directos, medidos igualmente em milhões de dólares, atingiram um pico em 2019, quando chegaram a 20.568, foram de 3.857 em 2018 e de 14.249 em 2017. Se os avaliarmos em stocks, medidos em milhões de dólares, os investimentos externos directos no Haiti foram de 95 em 2000, subindo para 625 em 2010 e para 1.925 em 2019. Na Suécia, nas mesmas datas, foram de 93.791, 352.646 e 339.543. Porquê, então, existe o Haiti, ou antes, por que motivo o Haiti, se não é rentável, não se transformou numa Suécia?»</p>
<p><strong>4)</strong> O erro que consiste em confundir diferenças de rendimentos com exploração agrava-se quando se mistura com a questão do imperialismo. O imperialismo consiste numa dinâmica de expansão do capitalismo das metrópoles, propiciada pelo grau superior de exploração que exerce sobre os seus próprios trabalhadores. Por outras palavras, e contrariamente à versão corrente, é a sobre-exploração resultante da mais-valia relativa, e de patamares cada vez mais elevados de mais-valia relativa, que permite ao capitalismo das metrópoles expandir-se sobre as regiões menos desenvolvidas. Se se estudar a história dos processos de expansão imperialista propriamente capitalistas (não da época do mercantilismo pré-capitalista, mas do capitalismo) no século XIX em África, na Índia e na China, verifica-se como durante décadas esse colonialismo não foi rentável. O mecanismo motor desse colonialismo foi a mais-valia relativa extorquida aos trabalhadores das metrópoles e não a mais-valia absoluta a que desejava submeter os trabalhadores das colónias. Mais tarde, pode verificar-se que quando as companhias multinacionais, depois as transnacionais, estabelecem ramos e filiais nos países menos desenvolvidos, os salários aí praticados são invariavelmente superiores aos salários médios desses países. Este é um facto estatístico facilmente verificável para quem se dê ao esforço de analisar a realidade, em vez de repetir lugares-comuns.</p>
<p><strong>5)</strong> Essa errada noção de imperialismo tem como único objectivo arrastar a classe trabalhadora dos países considerados periféricos numa aliança de tipo nacionalista com os capitalistas desses países periféricos. O imperialismo diz exclusivamente respeito à desigual distribuição da mais-valia entre os vários grupos componentes das classes capitalistas mundiais. A desigualdade do imperialismo é uma desigualdade entre capitalistas e não uma exploração praticada por qualquer fictício conjunto de capitalistas e trabalhadores das metrópoles sobre outro fictício conjunto formado por capitalistas e trabalhadores dos países periféricos.</p>
<p><strong>6)</strong> Assim, este debate pouco tem contribuído — contribuiu alguma coisa, mas pouco — para esclarecer o que me parecia ser a questão fundamental, a da complexidade orgânica da classe trabalhadora, relacionada com a complexidade das lutas sociais.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Nova Toupeira		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137866/#comment-740778</link>

		<dc:creator><![CDATA[Nova Toupeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 May 2021 19:54:31 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=137866#comment-740778</guid>

					<description><![CDATA[Pergunto aos camaradas acima: Vocês são trabalhadores em homeoffice, o computador de vocês para de funcionar, vocês teriam coragem de explorar a força de trabalho de técnicos de informática sob o risco de serem demitidos de onde trabalham? Poderão dizer; &quot;ah, mas a questão não é o tempo de trabalho estimado, mas o vínculo&quot;. Então pensem que vocês são de um coletivo de esquerda que depende em certa medida de servidores ativos, para comunicarem-se internamente ou para disseminarem conteúdo via internet, e não há dentre vocês camarada algum com conhecimento para isso, vocês &quot;explorariam&quot; algum profissional da área para manter o servidor ativo? Poderão dizer: &quot;Ah, mas esse tipo de vínculo não é responsável pela burocratização do coletivo?&quot; Se assentirem sobre essa afirmação estarão condicionando esses trabalhadores a um trabalho mais precário ainda, o não-pago. Retomo a questão anterior. Por que a insistência em compreender como problemático o vínculo empírico e não o trabalho precário como condição geral de produção? Acho que é muito mais produtivo do que condenar o trabalhador mais suscetível à mais-valia relativa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pergunto aos camaradas acima: Vocês são trabalhadores em homeoffice, o computador de vocês para de funcionar, vocês teriam coragem de explorar a força de trabalho de técnicos de informática sob o risco de serem demitidos de onde trabalham? Poderão dizer; &#8220;ah, mas a questão não é o tempo de trabalho estimado, mas o vínculo&#8221;. Então pensem que vocês são de um coletivo de esquerda que depende em certa medida de servidores ativos, para comunicarem-se internamente ou para disseminarem conteúdo via internet, e não há dentre vocês camarada algum com conhecimento para isso, vocês &#8220;explorariam&#8221; algum profissional da área para manter o servidor ativo? Poderão dizer: &#8220;Ah, mas esse tipo de vínculo não é responsável pela burocratização do coletivo?&#8221; Se assentirem sobre essa afirmação estarão condicionando esses trabalhadores a um trabalho mais precário ainda, o não-pago. Retomo a questão anterior. Por que a insistência em compreender como problemático o vínculo empírico e não o trabalho precário como condição geral de produção? Acho que é muito mais produtivo do que condenar o trabalhador mais suscetível à mais-valia relativa.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: JMC		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137866/#comment-740761</link>

		<dc:creator><![CDATA[JMC]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 May 2021 18:59:13 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=137866#comment-740761</guid>

					<description><![CDATA[O serviço doméstico, mesmo na sociedade capitalista, nem sempre é comprado como serviço, mas como trabalho assalariado para ser consumido na produção do serviço. Isto acontece quando o consumidor do serviço contrata como trabalhador assalariado o produtor do trabalho produtor do serviço. Tanto faz a qualidade do comprador desse trabalho, seja capitalista, seja outro trabalhador. E, sim, neste caso, o trabalhador assalariado, sendo pago pelos salários correntes, é alvo de exploração, de uma troca desigual de valor, devido à diferença entre o maior valor do trabalho que vende face ao menor valor que recebe como salário. O conceito marxista de mais-valia como mais valor criado na produção mostra também aqui a sua invalidade, porque a apropriação de valor ocorre na esfera da circulação, pela diferença entre o maior valor do trabalho comprado e o menor valor do trabalho com que é pago.
É claro, a troca desigual não é originalidade atribuível ao capitalismo, é uma ocorrência comum na troca de produtos, desde que a troca é troca. Aí, o que importava não era o valor do custo dos produtos, mas o seu valor de uso, a sua utilidade e pertinência para os intervenientes. E tampouco se pode dizer que a transformação do valor apropriado em lucro do capital seja também sua originalidade, porque ocorre desde que a troca foi transformada em troca mercantil, a troca de mercadorias, tudo o que se merca ou compra e vende no mercado. Aqui, o que importava também não era o valor do custo de produção das mercadorias (desconhecido para o comprador), mas os preços de venda poderem ser superiores aos preços de compra, sendo a diferença o lucro mercantil, no caso, comercial. 
A originalidade do capitalismo é a generalização da troca da mercadoria trabalho assalariado para ser usada na produção de mercadorias, transformando o valor apropriado como trabalho em valor apropriado como lucro do capital. Aqui, mais uma vez, o que interessa é vender por preço superior ao preço de compra. A diferença, neste caso, é que o capitalista industrial para que evoluíram o capitalista mercantil e o mestre da oficina corporativa conhece o valor do custo de produção da mercadoria trabalho, que é o valor das mercadorias produzidas com o seu consumo, ou o seu preço, e trata de efectuar com o produtor do trabalho uma troca desigual, revendendo-lhe o seu próprio trabalho, através das mercadorias com ele produzidas, a um preço superior ao preço de compra.
Apesar da troca desigual e da exploração que ocorre na compra de trabalho assalariado para a produção de serviços para consumo dos compradores daquele trabalho, não se pode falar em exploração capitalista, visto o objectivo do capitalista ser a apropriação de valor sob a forma de lucro do seu capital e não sob a forma de trabalho. Mas que é exploração, lá isso é. É claro, quem não quiser ser lobo não lhe vista a pele. 

Há mais de cinquenta anos, muitos marxistas ficaram escandalizados quando Arghiri Emmanuel lançou o conceito de troca desigual nas trocas internacionais e afirmou que os trabalhadores dos países mais desenvolvidos beneficiavam dessa troca desigual e dos lucros que proporcionava, o que possibilitava a sua falta de solidariedade para com os trabalhadores dos países menos desenvolvidos. Não era novidade, pois Lenine e outros marxistas, também mais de cinquenta anos dele, já tinham afirmado que a aristocracia operária (os trabalhadores mais qualificados que auferiam salários superiores a outros trabalhadores qualificados e aos trabalhadores indiferenciados) dos países coloniais beneficiava dos lucros provenientes da exploração dos trabalhadores das colónias, daí as suas posições políticas reaccionárias.
Surpreende-me, por isto, que alguns comentadores afirmem que os “trabalhadores da mais-valia relativa”, seja lá isto o que for, são mais explorados do que outros trabalhadores que auferem salários mais baixos e que trabalham durante jornadas maiores. Esses comentadores poderiam ter razão se considerassem tais trabalhadores os que prestam trabalho mais intenso e não os que prestam trabalho mais complexo (no sentido de trabalho mais intelectual do que manual). Mas, nesse caso, eles não seriam “trabalhadores da mais-valia relativa”, mas “trabalhadores da mais-valia absoluta”, porque a maior intensidade, a par da extensão da jornada de trabalho, aumenta o valor do trabalho produzido e a taxa de exploração ou de valor apropriado. Mas parece-me um mito, oriundo das muitas contradições e concepções erradas de Marx, isso de considerar o trabalho complexo como sendo trabalho “criador” de maior “mais-valia”. 
Trabalhos complexos, trabalhos qualificados e trabalhos indiferenciados têm utilidade para os trabalhos em que serão consumidos, doutro modo não seriam comprados; e se prestados com intensidade e ritmo e em jornadas similares terão todos eles valores similares. A maior utilidade de trabalhos do mesmo tipo e qualificação poderá reflectir-se em maior produtividade dos processos produtivos, pela redução da quantidade de trabalho necessária, mas a utilidade não é factor do custo de produção, a utilidade produz utilidade, não produz custo de produção.
Por fim, parece-me outro mito, desta vez criado por neo-marxistas e por marxistas “heterodoxos” (Estrôncio incluído), a identificação dos “trabalhadores da mais-valia relativa” como sendo os trabalhadores mais explorados, e outro mito ainda como sendo a vanguarda dos trabalhadores, nos quais residiria a capacidade de luta contra o capitalismo. Quem pensa que sejam, esqueceu-se de onde provém parte dos seus salários mais elevados, agora que não há colónias. 
Acabei por alongar-me, não intencionalmente, porque estes assuntos são interessantes, e remeto os eventuais interessados para os meus textos “Troca desigual, fundamento da exploração”  (https://aparenciasdoreal.blogspot.com/2012/08/troca-desigual-fundamento-da-exploracao_6858.html ) e “Acerca do marxismo “heterodoxo” de João Bernardo (II) ( https://aparenciasdoreal.blogspot.com/2020/12/acerca-do-marxismo-heterodoxo-de-joao.html ).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O serviço doméstico, mesmo na sociedade capitalista, nem sempre é comprado como serviço, mas como trabalho assalariado para ser consumido na produção do serviço. Isto acontece quando o consumidor do serviço contrata como trabalhador assalariado o produtor do trabalho produtor do serviço. Tanto faz a qualidade do comprador desse trabalho, seja capitalista, seja outro trabalhador. E, sim, neste caso, o trabalhador assalariado, sendo pago pelos salários correntes, é alvo de exploração, de uma troca desigual de valor, devido à diferença entre o maior valor do trabalho que vende face ao menor valor que recebe como salário. O conceito marxista de mais-valia como mais valor criado na produção mostra também aqui a sua invalidade, porque a apropriação de valor ocorre na esfera da circulação, pela diferença entre o maior valor do trabalho comprado e o menor valor do trabalho com que é pago.<br />
É claro, a troca desigual não é originalidade atribuível ao capitalismo, é uma ocorrência comum na troca de produtos, desde que a troca é troca. Aí, o que importava não era o valor do custo dos produtos, mas o seu valor de uso, a sua utilidade e pertinência para os intervenientes. E tampouco se pode dizer que a transformação do valor apropriado em lucro do capital seja também sua originalidade, porque ocorre desde que a troca foi transformada em troca mercantil, a troca de mercadorias, tudo o que se merca ou compra e vende no mercado. Aqui, o que importava também não era o valor do custo de produção das mercadorias (desconhecido para o comprador), mas os preços de venda poderem ser superiores aos preços de compra, sendo a diferença o lucro mercantil, no caso, comercial.<br />
A originalidade do capitalismo é a generalização da troca da mercadoria trabalho assalariado para ser usada na produção de mercadorias, transformando o valor apropriado como trabalho em valor apropriado como lucro do capital. Aqui, mais uma vez, o que interessa é vender por preço superior ao preço de compra. A diferença, neste caso, é que o capitalista industrial para que evoluíram o capitalista mercantil e o mestre da oficina corporativa conhece o valor do custo de produção da mercadoria trabalho, que é o valor das mercadorias produzidas com o seu consumo, ou o seu preço, e trata de efectuar com o produtor do trabalho uma troca desigual, revendendo-lhe o seu próprio trabalho, através das mercadorias com ele produzidas, a um preço superior ao preço de compra.<br />
Apesar da troca desigual e da exploração que ocorre na compra de trabalho assalariado para a produção de serviços para consumo dos compradores daquele trabalho, não se pode falar em exploração capitalista, visto o objectivo do capitalista ser a apropriação de valor sob a forma de lucro do seu capital e não sob a forma de trabalho. Mas que é exploração, lá isso é. É claro, quem não quiser ser lobo não lhe vista a pele. </p>
<p>Há mais de cinquenta anos, muitos marxistas ficaram escandalizados quando Arghiri Emmanuel lançou o conceito de troca desigual nas trocas internacionais e afirmou que os trabalhadores dos países mais desenvolvidos beneficiavam dessa troca desigual e dos lucros que proporcionava, o que possibilitava a sua falta de solidariedade para com os trabalhadores dos países menos desenvolvidos. Não era novidade, pois Lenine e outros marxistas, também mais de cinquenta anos dele, já tinham afirmado que a aristocracia operária (os trabalhadores mais qualificados que auferiam salários superiores a outros trabalhadores qualificados e aos trabalhadores indiferenciados) dos países coloniais beneficiava dos lucros provenientes da exploração dos trabalhadores das colónias, daí as suas posições políticas reaccionárias.<br />
Surpreende-me, por isto, que alguns comentadores afirmem que os “trabalhadores da mais-valia relativa”, seja lá isto o que for, são mais explorados do que outros trabalhadores que auferem salários mais baixos e que trabalham durante jornadas maiores. Esses comentadores poderiam ter razão se considerassem tais trabalhadores os que prestam trabalho mais intenso e não os que prestam trabalho mais complexo (no sentido de trabalho mais intelectual do que manual). Mas, nesse caso, eles não seriam “trabalhadores da mais-valia relativa”, mas “trabalhadores da mais-valia absoluta”, porque a maior intensidade, a par da extensão da jornada de trabalho, aumenta o valor do trabalho produzido e a taxa de exploração ou de valor apropriado. Mas parece-me um mito, oriundo das muitas contradições e concepções erradas de Marx, isso de considerar o trabalho complexo como sendo trabalho “criador” de maior “mais-valia”.<br />
Trabalhos complexos, trabalhos qualificados e trabalhos indiferenciados têm utilidade para os trabalhos em que serão consumidos, doutro modo não seriam comprados; e se prestados com intensidade e ritmo e em jornadas similares terão todos eles valores similares. A maior utilidade de trabalhos do mesmo tipo e qualificação poderá reflectir-se em maior produtividade dos processos produtivos, pela redução da quantidade de trabalho necessária, mas a utilidade não é factor do custo de produção, a utilidade produz utilidade, não produz custo de produção.<br />
Por fim, parece-me outro mito, desta vez criado por neo-marxistas e por marxistas “heterodoxos” (Estrôncio incluído), a identificação dos “trabalhadores da mais-valia relativa” como sendo os trabalhadores mais explorados, e outro mito ainda como sendo a vanguarda dos trabalhadores, nos quais residiria a capacidade de luta contra o capitalismo. Quem pensa que sejam, esqueceu-se de onde provém parte dos seus salários mais elevados, agora que não há colónias.<br />
Acabei por alongar-me, não intencionalmente, porque estes assuntos são interessantes, e remeto os eventuais interessados para os meus textos “Troca desigual, fundamento da exploração”  (<a href="https://aparenciasdoreal.blogspot.com/2012/08/troca-desigual-fundamento-da-exploracao_6858.html" rel="nofollow ugc">https://aparenciasdoreal.blogspot.com/2012/08/troca-desigual-fundamento-da-exploracao_6858.html</a> ) e “Acerca do marxismo “heterodoxo” de João Bernardo (II) ( <a href="https://aparenciasdoreal.blogspot.com/2020/12/acerca-do-marxismo-heterodoxo-de-joao.html" rel="nofollow ugc">https://aparenciasdoreal.blogspot.com/2020/12/acerca-do-marxismo-heterodoxo-de-joao.html</a> ).</p>
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		Por: Paulo Guedes		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/04/137866/#comment-740759</link>

		<dc:creator><![CDATA[Paulo Guedes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 May 2021 18:54:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Concordo plenamente com Nióbio. Esses traidores de classe, debilitados e muitas vezes já velhos e caducos, pelo egoísmo de quererem viver mais e sobrecarregar nosso sistema de saúde acabam por encontrar a fuga de seus problemas ao se tornarem patrões de gente que irá ter que cuidar da bagunça que eles mesmos já não têm capacidade de arrumar. Agora todo mundo quer ser patrão no Brasil? Quer conseguir ser patrão ganhando R$2500 de aposentadoria? Por isso já estou encaminhando um projeto que regulamenta a eutanásia compulsória para esses individualistas. E que a façam depois de cavar a própria cova, para não explorarem os coveiros...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Concordo plenamente com Nióbio. Esses traidores de classe, debilitados e muitas vezes já velhos e caducos, pelo egoísmo de quererem viver mais e sobrecarregar nosso sistema de saúde acabam por encontrar a fuga de seus problemas ao se tornarem patrões de gente que irá ter que cuidar da bagunça que eles mesmos já não têm capacidade de arrumar. Agora todo mundo quer ser patrão no Brasil? Quer conseguir ser patrão ganhando R$2500 de aposentadoria? Por isso já estou encaminhando um projeto que regulamenta a eutanásia compulsória para esses individualistas. E que a façam depois de cavar a própria cova, para não explorarem os coveiros&#8230;</p>
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