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	Comentários sobre: Língua do cacete	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Jan Cenek		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157336/#comment-1051855</link>

		<dc:creator><![CDATA[Jan Cenek]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Sep 2025 18:48:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Manolo, interessante. Várias cacetadas idiomáticas. Lembrei de uma crônica que eu usava quando atuava em cursinhos populares. Chama-se O gigolô das palavras. O autor é o agora saudoso Luís Fernando Veríssimo. Compartilho alguns trechos:

“Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, comover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.)”

[...]

“Sou um gigolô das palavras. Vivo à custa delas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Se bem que não tenha também o mínimo escrúpulo de roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo.”

[...]

“A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.”]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Manolo, interessante. Várias cacetadas idiomáticas. Lembrei de uma crônica que eu usava quando atuava em cursinhos populares. Chama-se O gigolô das palavras. O autor é o agora saudoso Luís Fernando Veríssimo. Compartilho alguns trechos:</p>
<p>“Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, comover&#8230; Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.)”</p>
<p>[&#8230;]</p>
<p>“Sou um gigolô das palavras. Vivo à custa delas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Se bem que não tenha também o mínimo escrúpulo de roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo.”</p>
<p>[&#8230;]</p>
<p>“A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.”</p>
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		<item>
		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157336/#comment-1051152</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Sep 2025 16:12:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Questões cacetes de etimologia, de divergência entre registros escrito e oral, estão presentes em qualquer língua. Não só na portuguesa; em qualquer língua.

É uma caceteação só. Veja-se, por exemplo, a dupla nomeação que se dá, na língua inglesa, ao mesmo animal vivo e abatido: &quot;pig&quot; (do protogermânico ocidental &lt;em&gt;*piggo&lt;/em&gt;) e &quot;pork&quot; (do francês &lt;em&gt;porc&lt;/em&gt;), &quot;cow&quot; (do protogermânico ocidental &lt;em&gt;*ko&lt;/em&gt;) e &quot;beef&quot; (do francês &lt;em&gt;boeuf&lt;/em&gt;), &quot;sheep&quot; (do protogermânico ocidental &lt;em&gt;*skap&lt;/em&gt;) e &quot;mutton&quot; (do francês &lt;em&gt;mouton&lt;/em&gt;), etc. Para simplificar um longo debate sociolinguístico: antes da invasão normanda as palavras de origem germânica (&quot;pig&quot;, &quot;cow&quot;, &quot;sheep&quot;, etc.), chegadas à ilha pelas vias saxônica ou danesa, denominavam tanto o animal vivo quanto a carne do mesmo animal; depois da invasão, como a nobreza invasora normanda falava uma variante do francês antigo, as palavras que usavam para exigir comida (&lt;em&gt;porc&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;boeuf&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;mouton&lt;/em&gt;, etc.) passaram a denominar a carne do animal abatido, enquanto o animal vivo seguia denominado pelas palavras de origem germânica usadas desde antes da invasão. 

O paralelo mais próximo em que consigo pensar no momento é o coreano, quando os bichos vivos têm nomes de origem coreana propriamente dita, e a carne dos bichos mortos têm nomes que, falados, soam muito parecidos com palavras em chinês tradicional. Poderia estender debate parecido para o português com os pares &quot;boi&quot; e &quot;bife&quot;, &quot;porco&quot; e &quot;suíno&quot;, &quot;galinha&quot; e &quot;frango&quot;, etc., mas o debate iria para outros lugares, pois no português os processos históricos de diferenciação foram outros -- o que deixaria a conversa mais cacete do que já está. 

Voltemos ao &lt;em&gt;cacete&lt;/em&gt;, que meu pai Houaiss indica vir de &lt;em&gt;caço&lt;/em&gt;, diz descender de &lt;em&gt;cazo&lt;/em&gt; em espanhol e galego, e define como &quot;frigideira geralmente de barro, com cabo&quot;, prima por sinal da &lt;em&gt;caçarola&lt;/em&gt;. Segue nisso o brasileiro Antônio Geraldo da Cunha e o português José Pedro Machado. &lt;a href=&quot;https://www.aulete.com.br/ca%C3%A7o&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Meu pai Aulete vai na mesma&lt;/a&gt;, e também &lt;a href=&quot;https://dicionario.priberam.org/ca%C3%A7o&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;meu pai Priberam&lt;/a&gt;. Sabendo disso, visualize alguém cacetando a cabeça de alguém com um caço -- muito apropriadamente, aliás, porque &lt;em&gt;cacetar&lt;/em&gt; também se pode entender como &quot;bater com um caço&quot;. Junte-se ao &lt;em&gt;caço&lt;/em&gt; o sufixo diminutivo &lt;em&gt;-ete&lt;/em&gt; e temos a linda cena de alguém sendo cacetado com um &quot;caço pequeno&quot; -- mais leve, mais ágil, mais fácil de manejar, a facilitar portanto maior frequência de pancadas por minuto. Eis aí o cacete, primo-irmão do porrete, da borduna, da cachaporra, do traulito...

Por outro lado, meu pai Houaiss também registra verdadeira confusão entre etimólogos -- como o brasileiro Antenor Nascentes e a portuguesa Carolina Michaëlis -- que registram o parentesco do &lt;em&gt;cacete&lt;/em&gt; com o francês &lt;em&gt;casse-tête&lt;/em&gt; desde pelo menos 1706 como &quot;vinho que sobe à cabeça&quot; (!!) e, desde 1762 como &quot;trabalho que exige uma grande aplicação&quot; (!!!). Nos dois casos, quebra-se a cabeça com o cacete do cacete, ainda que figurativamente.

Para piorar, o cacete do registro escrito nunca é totalmente arbitrário. Nem sempre um som é representado somente por um e um único sinal gráfico. Inversamente, o mesmo sinal gráfico pode ser sonorizado de diversos modos. Voltando ao inglês: &lt;em&gt;house&lt;/em&gt; (&quot;ráus&quot;, &quot;casa&quot;) e &lt;em&gt;house&lt;/em&gt; (&quot;ráuz&quot;, &quot;hospedar&quot;) não são a mesma coisa, assim como &lt;em&gt;tear&lt;/em&gt; (&quot;té-er&quot;, &quot;rasgar&quot;) e &lt;em&gt;tear&lt;/em&gt; (&quot;tíer&quot;, &quot;lágrima&quot;). No mandarim, por diversão, vale reler o hoje clássico poema-piada &lt;em&gt;&lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2020/09/134300/#comment-667362&quot; rel=&quot;ugc&quot;&gt;O Poeta Comedor de Leões na Cova de Pedra&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;, de &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Yuen_Ren_Chao&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Zhào Yuánrèn (趙元任)&lt;/a&gt;. As confusões entre o que se diz e o que se escreve são a graça do políptoto, da antanáclase, da antimetábole...

A distinção gráfica entre homófonos -- como quase são &quot;cacete&quot; e &quot;cassetete&quot; -- costuma conter elementos de registro histórico, etimológico. É como o velho &quot;ph&quot; de &quot;pharmácia&quot; usado até 1943 no Brasil e 1911 em Portugal, que registrava a origem grega da palavra distinguindo entre o &quot;φ&quot; (&quot;phi&quot;) grego de &quot;pharmácia&quot; (&lt;em&gt;φαρμακεία&lt;/em&gt;, &quot;pharmakeía&quot;) e, por exemplo, o &quot;f&quot; latino de &quot;felino&quot; (&lt;em&gt;felinus&lt;/em&gt;). 

(O &quot;h&quot; em &quot;ph&quot;, mais ou menos como o &quot;ь&quot; eslavo por meios diferentes, como que &quot;suavizava&quot; o &quot;p&quot;, transformando-o de oclusivo -- &quot;pão&quot;, &quot;peteca&quot;, &quot;pinico&quot;, etc. -- num &quot;quase f&quot; que, de oclusivo aspirado, foi ficando fricativo até se transformar de vez num &quot;f&quot; -- e lá vou eu em digressões! Voltemos ao cacete do cacete, cacete!)

É o caso de &quot;cassetete&quot;: os &quot;ss&quot; persistem por razões  estritamente etimológicas, para &quot;lembrar&quot; do verbo francês &lt;em&gt;casser&lt;/em&gt; (&quot;quebrar&quot;, &quot;romper&quot;). Sabe o &quot;-bol&quot; de futebol, voleibol, basquetebol, beisebol? Então. Ele não é &quot;-bó&quot; de &quot;futibó&quot;, nem &quot;-bóu&quot; de &quot;beisibóu&quot;; é &quot;-bol&quot;, e é isso. É para lembrar de onde veio a &lt;em&gt;ball&lt;/em&gt;. Saber algo dessa etimologia também serve como marcador de posição de classe social. &quot;Falar certo&quot;, &quot;escrever certo&quot;, também é para isso que serve.

Termino meu comentário quebrando um pouco mais a cabeça do autor e dos leitores. O autor diz que &quot;a polícia bate com um cacetinho&quot;. Se o disser na Bahia, os circunstantes imaginarão, muito intrigados, a polícia -- justo na Bahia, Estado com a polícia mais assassina do Brasil! -- a espancar alguém com... um &lt;em&gt;pão francês&lt;/em&gt;. Já os ouço: &quot;Ói, véi, você mim dêche, vú? Baratínu da pôrra!&quot; Se disser o mesmo em Alagoas, a cena será ainda mais intrigante: lá, cacetinho é... um &lt;em&gt;biscoito&lt;/em&gt;.

Cacetada! É isso mesmo: toda língua é &quot;a um tempo, esplendor e sepultura&quot;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Questões cacetes de etimologia, de divergência entre registros escrito e oral, estão presentes em qualquer língua. Não só na portuguesa; em qualquer língua.</p>
<p>É uma caceteação só. Veja-se, por exemplo, a dupla nomeação que se dá, na língua inglesa, ao mesmo animal vivo e abatido: &#8220;pig&#8221; (do protogermânico ocidental <em>*piggo</em>) e &#8220;pork&#8221; (do francês <em>porc</em>), &#8220;cow&#8221; (do protogermânico ocidental <em>*ko</em>) e &#8220;beef&#8221; (do francês <em>boeuf</em>), &#8220;sheep&#8221; (do protogermânico ocidental <em>*skap</em>) e &#8220;mutton&#8221; (do francês <em>mouton</em>), etc. Para simplificar um longo debate sociolinguístico: antes da invasão normanda as palavras de origem germânica (&#8220;pig&#8221;, &#8220;cow&#8221;, &#8220;sheep&#8221;, etc.), chegadas à ilha pelas vias saxônica ou danesa, denominavam tanto o animal vivo quanto a carne do mesmo animal; depois da invasão, como a nobreza invasora normanda falava uma variante do francês antigo, as palavras que usavam para exigir comida (<em>porc</em>, <em>boeuf</em>, <em>mouton</em>, etc.) passaram a denominar a carne do animal abatido, enquanto o animal vivo seguia denominado pelas palavras de origem germânica usadas desde antes da invasão. </p>
<p>O paralelo mais próximo em que consigo pensar no momento é o coreano, quando os bichos vivos têm nomes de origem coreana propriamente dita, e a carne dos bichos mortos têm nomes que, falados, soam muito parecidos com palavras em chinês tradicional. Poderia estender debate parecido para o português com os pares &#8220;boi&#8221; e &#8220;bife&#8221;, &#8220;porco&#8221; e &#8220;suíno&#8221;, &#8220;galinha&#8221; e &#8220;frango&#8221;, etc., mas o debate iria para outros lugares, pois no português os processos históricos de diferenciação foram outros &#8212; o que deixaria a conversa mais cacete do que já está. </p>
<p>Voltemos ao <em>cacete</em>, que meu pai Houaiss indica vir de <em>caço</em>, diz descender de <em>cazo</em> em espanhol e galego, e define como &#8220;frigideira geralmente de barro, com cabo&#8221;, prima por sinal da <em>caçarola</em>. Segue nisso o brasileiro Antônio Geraldo da Cunha e o português José Pedro Machado. <a href="https://www.aulete.com.br/ca%C3%A7o" rel="nofollow ugc">Meu pai Aulete vai na mesma</a>, e também <a href="https://dicionario.priberam.org/ca%C3%A7o" rel="nofollow ugc">meu pai Priberam</a>. Sabendo disso, visualize alguém cacetando a cabeça de alguém com um caço &#8212; muito apropriadamente, aliás, porque <em>cacetar</em> também se pode entender como &#8220;bater com um caço&#8221;. Junte-se ao <em>caço</em> o sufixo diminutivo <em>-ete</em> e temos a linda cena de alguém sendo cacetado com um &#8220;caço pequeno&#8221; &#8212; mais leve, mais ágil, mais fácil de manejar, a facilitar portanto maior frequência de pancadas por minuto. Eis aí o cacete, primo-irmão do porrete, da borduna, da cachaporra, do traulito&#8230;</p>
<p>Por outro lado, meu pai Houaiss também registra verdadeira confusão entre etimólogos &#8212; como o brasileiro Antenor Nascentes e a portuguesa Carolina Michaëlis &#8212; que registram o parentesco do <em>cacete</em> com o francês <em>casse-tête</em> desde pelo menos 1706 como &#8220;vinho que sobe à cabeça&#8221; (!!) e, desde 1762 como &#8220;trabalho que exige uma grande aplicação&#8221; (!!!). Nos dois casos, quebra-se a cabeça com o cacete do cacete, ainda que figurativamente.</p>
<p>Para piorar, o cacete do registro escrito nunca é totalmente arbitrário. Nem sempre um som é representado somente por um e um único sinal gráfico. Inversamente, o mesmo sinal gráfico pode ser sonorizado de diversos modos. Voltando ao inglês: <em>house</em> (&#8220;ráus&#8221;, &#8220;casa&#8221;) e <em>house</em> (&#8220;ráuz&#8221;, &#8220;hospedar&#8221;) não são a mesma coisa, assim como <em>tear</em> (&#8220;té-er&#8221;, &#8220;rasgar&#8221;) e <em>tear</em> (&#8220;tíer&#8221;, &#8220;lágrima&#8221;). No mandarim, por diversão, vale reler o hoje clássico poema-piada <em><a href="https://passapalavra.info/2020/09/134300/#comment-667362" rel="ugc">O Poeta Comedor de Leões na Cova de Pedra</a></em>, de <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Yuen_Ren_Chao" rel="nofollow ugc">Zhào Yuánrèn (趙元任)</a>. As confusões entre o que se diz e o que se escreve são a graça do políptoto, da antanáclase, da antimetábole&#8230;</p>
<p>A distinção gráfica entre homófonos &#8212; como quase são &#8220;cacete&#8221; e &#8220;cassetete&#8221; &#8212; costuma conter elementos de registro histórico, etimológico. É como o velho &#8220;ph&#8221; de &#8220;pharmácia&#8221; usado até 1943 no Brasil e 1911 em Portugal, que registrava a origem grega da palavra distinguindo entre o &#8220;φ&#8221; (&#8220;phi&#8221;) grego de &#8220;pharmácia&#8221; (<em>φαρμακεία</em>, &#8220;pharmakeía&#8221;) e, por exemplo, o &#8220;f&#8221; latino de &#8220;felino&#8221; (<em>felinus</em>). </p>
<p>(O &#8220;h&#8221; em &#8220;ph&#8221;, mais ou menos como o &#8220;ь&#8221; eslavo por meios diferentes, como que &#8220;suavizava&#8221; o &#8220;p&#8221;, transformando-o de oclusivo &#8212; &#8220;pão&#8221;, &#8220;peteca&#8221;, &#8220;pinico&#8221;, etc. &#8212; num &#8220;quase f&#8221; que, de oclusivo aspirado, foi ficando fricativo até se transformar de vez num &#8220;f&#8221; &#8212; e lá vou eu em digressões! Voltemos ao cacete do cacete, cacete!)</p>
<p>É o caso de &#8220;cassetete&#8221;: os &#8220;ss&#8221; persistem por razões  estritamente etimológicas, para &#8220;lembrar&#8221; do verbo francês <em>casser</em> (&#8220;quebrar&#8221;, &#8220;romper&#8221;). Sabe o &#8220;-bol&#8221; de futebol, voleibol, basquetebol, beisebol? Então. Ele não é &#8220;-bó&#8221; de &#8220;futibó&#8221;, nem &#8220;-bóu&#8221; de &#8220;beisibóu&#8221;; é &#8220;-bol&#8221;, e é isso. É para lembrar de onde veio a <em>ball</em>. Saber algo dessa etimologia também serve como marcador de posição de classe social. &#8220;Falar certo&#8221;, &#8220;escrever certo&#8221;, também é para isso que serve.</p>
<p>Termino meu comentário quebrando um pouco mais a cabeça do autor e dos leitores. O autor diz que &#8220;a polícia bate com um cacetinho&#8221;. Se o disser na Bahia, os circunstantes imaginarão, muito intrigados, a polícia &#8212; justo na Bahia, Estado com a polícia mais assassina do Brasil! &#8212; a espancar alguém com&#8230; um <em>pão francês</em>. Já os ouço: &#8220;Ói, véi, você mim dêche, vú? Baratínu da pôrra!&#8221; Se disser o mesmo em Alagoas, a cena será ainda mais intrigante: lá, cacetinho é&#8230; um <em>biscoito</em>.</p>
<p>Cacetada! É isso mesmo: toda língua é &#8220;a um tempo, esplendor e sepultura&#8221;.</p>
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