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	Comentários sobre: Ouro e o bezerro de ouro	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Primo Jonas		</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Primo Jonas]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Feb 2026 02:09:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Poucos dias atrás um camarada me compartilhou um conteúdo de um desses influencers marxistas que habitam as redes sociais, dizendo que o aumento do preço do ouro era a mais nova comprovação de que o dinheiro é uma mercadoria (Marx, Livro 1, Versículo 3). Talvez seja injusto da minha parte dar esse exemplo para fazer parecer que essa forma de pensamento é própria da profundidade dos influencers.
De todas formas, conectei com comentários de outra espécie que escutei recentemente e achei interessante fazer uma comparação que para muitos seria esdrúxula, pois o que vem ocorrendo com o preço do ouro também pode ser entendido como produto de uma característica que este compartilha, no mercado mundial, com o Bitcoin. Se trata do fato de que seu atesouramento pelos países, e também seu uso como meio de pagamento, pode ocorrer fora dos radares do sistema financeiro e organismos econômicos mundial. 

https://english.elpais.com/economy-and-business/2025-11-24/chinas-secret-gold-purchases-boost-price-by-40.html
https://moneyweek.com/investments/gold/cash-in-on-chinas-secret-gold-holdings
https://www.fxstreet.com/analysis/is-china-hiding-how-much-gold-it-really-has-202406211929]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Poucos dias atrás um camarada me compartilhou um conteúdo de um desses influencers marxistas que habitam as redes sociais, dizendo que o aumento do preço do ouro era a mais nova comprovação de que o dinheiro é uma mercadoria (Marx, Livro 1, Versículo 3). Talvez seja injusto da minha parte dar esse exemplo para fazer parecer que essa forma de pensamento é própria da profundidade dos influencers.<br />
De todas formas, conectei com comentários de outra espécie que escutei recentemente e achei interessante fazer uma comparação que para muitos seria esdrúxula, pois o que vem ocorrendo com o preço do ouro também pode ser entendido como produto de uma característica que este compartilha, no mercado mundial, com o Bitcoin. Se trata do fato de que seu atesouramento pelos países, e também seu uso como meio de pagamento, pode ocorrer fora dos radares do sistema financeiro e organismos econômicos mundial. </p>
<p><a href="https://english.elpais.com/economy-and-business/2025-11-24/chinas-secret-gold-purchases-boost-price-by-40.html" rel="nofollow ugc">https://english.elpais.com/economy-and-business/2025-11-24/chinas-secret-gold-purchases-boost-price-by-40.html</a><br />
<a href="https://moneyweek.com/investments/gold/cash-in-on-chinas-secret-gold-holdings" rel="nofollow ugc">https://moneyweek.com/investments/gold/cash-in-on-chinas-secret-gold-holdings</a><br />
<a href="https://www.fxstreet.com/analysis/is-china-hiding-how-much-gold-it-really-has-202406211929" rel="nofollow ugc">https://www.fxstreet.com/analysis/is-china-hiding-how-much-gold-it-really-has-202406211929</a></p>
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		<item>
		<title>
		Por: MarxGPT		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158274/#comment-1084760</link>

		<dc:creator><![CDATA[MarxGPT]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jan 2026 00:46:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O peso metálico das senhas [Marken] de prata ou de cobre é determinado arbitrariamente pela lei. Em seu curso, elas se desgastam ainda mais rapidamente do que as moedas de ouro. De modo que sua função como moeda se torna, na prática, totalmente independente de seu peso, isto é, de todo valor. Assim, a existência do ouro como moeda se separa radicalmente de sua substância de valor. Coisas relativamente sem valor, como notas de papel, podem, portanto, funcionar como moeda em seu lugar. Nas senhas metálicas, o caráter puramente simbólico ainda se encontra de certo modo escondido. No papel-moeda, ele se mostra com toda evidência. Como se vê, ce n’est que le premier pas que coûte [difícil é apenas o primeiro passo]. Trata-se, aqui, apenas de papel-moeda emitido pelo Estado e de circulação compulsória. Ele surge imediatamente da circulação metálica. O dinheiro creditício [Kreditgeld] implica, por outro lado, condições que nos são totalmente desconhecidas do ponto de vista da circulação simples de mercadorias. Cabe apenas observar, de passagem, que, assim como o papel-moeda surge da função do dinheiro como meio de circulação, também o dinheiro creditício possui suas raízes naturais-espontâneas na função do dinheiro como meio de pagamento. Cédulas de dinheiro, nas quais se imprimem denominações monetárias como £1, £5 etc., são lançadas no processo de circulação a partir de fora, pelo Estado. Enquanto circulam realmente em lugar da quantidade de ouro de mesma denominação, elas não fazem mais do que refletir, em seu movimento, as leis do próprio curso do dinheiro. Uma lei específica da circulação das cédulas de dinheiro só pode surgir de sua relação de representação com o ouro. E tal lei é simplesmente aquela que diz que a emissão de papel-moeda deve ser limitada à quantidade de ouro (ou prata) – simbolicamente representada pelas cédulas – que teria efetivamente de circular. É verdade que a quantidade de ouro que a esfera da circulação é capaz de absorver oscila constantemente acima ou abaixo de certo nível médio. Mas o volume do meio de circulação num dado país jamais diminui abaixo de um certo mínimo facilmente fixado pela experiência. Que essa quantidade mínima mude constantemente seus componentes, isto é, que ela seja sempre substituída por outras peças de ouro, não altera em nada sua grandeza e seu movimento constante na esfera da circulação. Desse modo, ela pode ser substituída por símbolos de papel. Se hoje todos os canais da circulação fossem preenchidos com papel-moeda até o máximo de sua capacidade de absorção, amanhã eles poderiam ter esse limite excedido em virtude das oscilações da circulação das mercadorias. Perder-se-ia, então, toda medida. Mas se o papel-moeda ultrapassasse a sua medida, isto é, a quantidade de moedas de ouro da mesma denominação que poderia estar em circulação, ele representaria, abstraindo do perigo de descrédito geral, apenas a quantidade de ouro determinada pelas leis da circulação das mercadorias, portanto, apenas a quantidade de ouro que pode ser representada pelo papel-moeda. Se a quantidade total de cédulas de papel passasse a representar, por exemplo, 2 onças de ouro em vez de 1 onça, então £1 se tornaria, por exemplo, a denominação monetária de 1/8 de onça de em vez de 1/4. O efeito seria o mesmo que se obteria caso o ouro sofresse uma alteração em sua função como medida dos preços. Os mesmos valores que antes se expressavam no preço de £1 seriam, agora, expressos no preço de £2. O papel-moeda é signo do ouro ou signo de dinheiro. Sua relação com os valores das mercadorias consiste apenas em que estes estão idealmente expressos nas mesmas quantidades de ouro simbólica e sensivelmente representadas pelo papel. O dinheiro de papel só é signo de valor na medida em que representa quantidades de ouro, que, como todas as outras mercadorias, são também quantidades de valor. Pergunta-se, por fim: como pode o ouro ser substituído por simples signos de si mesmo destituídos de valor? Porém, como vimos, ele só é substituível na medida em que é isolado ou autonomizado em sua função como moeda ou meio de circulação. Ora, a autonomização dessa função não ocorre com todas as moedas de ouro singulares, embora ela se manifeste nas moedas desgastadas que continuam a circular. Cada peça de ouro é simples moeda ou meio de circulação apenas na medida em que circula efetivamente. Todavia, o que não vale para as moedas de ouro singulares vale para a quantidade mínima de ouro que é substituível por papel-moeda. Ela permanece constantemente na esfera da circulação, funciona continuamente como meio de circulação e, assim, existe exclusivamente como portadora dessa função. Seu movimento expressa, portanto, a alternância contínua dos processos antitéticos da metamorfose das mercadorias M-D-M, na qual a mercadoria se confronta com sua figura de valor apenas para voltar a desaparecer imediatamente. A existência autônoma do valor de troca da mercadoria é aqui apenas um momento fugaz. Logo em seguida, ela é substituída por outra mercadoria. De modo que a mera existência simbólica do dinheiro é o suficiente nesse processo que o faz passar de uma mão a outra. Sua existência funcional absorve, por assim dizer, sua existência material. Como reflexo objetivo e transiente dos preços das mercadorias, ele funciona apenas como signo de si mesmo, podendo, por isso, ser substituído por outros signos. Mas o signo do dinheiro necessita de sua própria validade objetivamente social, e esta é conferida ao símbolo de papel por meio de sua circulação forçada. Essa obrigação estatal vale apenas no interior dos limites de uma comunidade ou na esfera da circulação interna, mas é somente aqui que o dinheiro corresponde plenamente à sua função de meio de circulação ou de moeda e pode, assim, assumir no papel-moeda um modo de existência meramente funcional, apartado de sua substância metálica.

(MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro 1: o processo de produção do capital. Capítulo 3, item 2.c (&quot;A moeda. O signo do valor&quot;). Edição Boitempo.)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O peso metálico das senhas [Marken] de prata ou de cobre é determinado arbitrariamente pela lei. Em seu curso, elas se desgastam ainda mais rapidamente do que as moedas de ouro. De modo que sua função como moeda se torna, na prática, totalmente independente de seu peso, isto é, de todo valor. Assim, a existência do ouro como moeda se separa radicalmente de sua substância de valor. Coisas relativamente sem valor, como notas de papel, podem, portanto, funcionar como moeda em seu lugar. Nas senhas metálicas, o caráter puramente simbólico ainda se encontra de certo modo escondido. No papel-moeda, ele se mostra com toda evidência. Como se vê, ce n’est que le premier pas que coûte [difícil é apenas o primeiro passo]. Trata-se, aqui, apenas de papel-moeda emitido pelo Estado e de circulação compulsória. Ele surge imediatamente da circulação metálica. O dinheiro creditício [Kreditgeld] implica, por outro lado, condições que nos são totalmente desconhecidas do ponto de vista da circulação simples de mercadorias. Cabe apenas observar, de passagem, que, assim como o papel-moeda surge da função do dinheiro como meio de circulação, também o dinheiro creditício possui suas raízes naturais-espontâneas na função do dinheiro como meio de pagamento. Cédulas de dinheiro, nas quais se imprimem denominações monetárias como £1, £5 etc., são lançadas no processo de circulação a partir de fora, pelo Estado. Enquanto circulam realmente em lugar da quantidade de ouro de mesma denominação, elas não fazem mais do que refletir, em seu movimento, as leis do próprio curso do dinheiro. Uma lei específica da circulação das cédulas de dinheiro só pode surgir de sua relação de representação com o ouro. E tal lei é simplesmente aquela que diz que a emissão de papel-moeda deve ser limitada à quantidade de ouro (ou prata) – simbolicamente representada pelas cédulas – que teria efetivamente de circular. É verdade que a quantidade de ouro que a esfera da circulação é capaz de absorver oscila constantemente acima ou abaixo de certo nível médio. Mas o volume do meio de circulação num dado país jamais diminui abaixo de um certo mínimo facilmente fixado pela experiência. Que essa quantidade mínima mude constantemente seus componentes, isto é, que ela seja sempre substituída por outras peças de ouro, não altera em nada sua grandeza e seu movimento constante na esfera da circulação. Desse modo, ela pode ser substituída por símbolos de papel. Se hoje todos os canais da circulação fossem preenchidos com papel-moeda até o máximo de sua capacidade de absorção, amanhã eles poderiam ter esse limite excedido em virtude das oscilações da circulação das mercadorias. Perder-se-ia, então, toda medida. Mas se o papel-moeda ultrapassasse a sua medida, isto é, a quantidade de moedas de ouro da mesma denominação que poderia estar em circulação, ele representaria, abstraindo do perigo de descrédito geral, apenas a quantidade de ouro determinada pelas leis da circulação das mercadorias, portanto, apenas a quantidade de ouro que pode ser representada pelo papel-moeda. Se a quantidade total de cédulas de papel passasse a representar, por exemplo, 2 onças de ouro em vez de 1 onça, então £1 se tornaria, por exemplo, a denominação monetária de 1/8 de onça de em vez de 1/4. O efeito seria o mesmo que se obteria caso o ouro sofresse uma alteração em sua função como medida dos preços. Os mesmos valores que antes se expressavam no preço de £1 seriam, agora, expressos no preço de £2. O papel-moeda é signo do ouro ou signo de dinheiro. Sua relação com os valores das mercadorias consiste apenas em que estes estão idealmente expressos nas mesmas quantidades de ouro simbólica e sensivelmente representadas pelo papel. O dinheiro de papel só é signo de valor na medida em que representa quantidades de ouro, que, como todas as outras mercadorias, são também quantidades de valor. Pergunta-se, por fim: como pode o ouro ser substituído por simples signos de si mesmo destituídos de valor? Porém, como vimos, ele só é substituível na medida em que é isolado ou autonomizado em sua função como moeda ou meio de circulação. Ora, a autonomização dessa função não ocorre com todas as moedas de ouro singulares, embora ela se manifeste nas moedas desgastadas que continuam a circular. Cada peça de ouro é simples moeda ou meio de circulação apenas na medida em que circula efetivamente. Todavia, o que não vale para as moedas de ouro singulares vale para a quantidade mínima de ouro que é substituível por papel-moeda. Ela permanece constantemente na esfera da circulação, funciona continuamente como meio de circulação e, assim, existe exclusivamente como portadora dessa função. Seu movimento expressa, portanto, a alternância contínua dos processos antitéticos da metamorfose das mercadorias M-D-M, na qual a mercadoria se confronta com sua figura de valor apenas para voltar a desaparecer imediatamente. A existência autônoma do valor de troca da mercadoria é aqui apenas um momento fugaz. Logo em seguida, ela é substituída por outra mercadoria. De modo que a mera existência simbólica do dinheiro é o suficiente nesse processo que o faz passar de uma mão a outra. Sua existência funcional absorve, por assim dizer, sua existência material. Como reflexo objetivo e transiente dos preços das mercadorias, ele funciona apenas como signo de si mesmo, podendo, por isso, ser substituído por outros signos. Mas o signo do dinheiro necessita de sua própria validade objetivamente social, e esta é conferida ao símbolo de papel por meio de sua circulação forçada. Essa obrigação estatal vale apenas no interior dos limites de uma comunidade ou na esfera da circulação interna, mas é somente aqui que o dinheiro corresponde plenamente à sua função de meio de circulação ou de moeda e pode, assim, assumir no papel-moeda um modo de existência meramente funcional, apartado de sua substância metálica.</p>
<p>(MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro 1: o processo de produção do capital. Capítulo 3, item 2.c (&#8220;A moeda. O signo do valor&#8221;). Edição Boitempo.)</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Gogol		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158274/#comment-1084624</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gogol]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 00:56:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Só lembrando que para Marx o capital fictício deixou de ter importância no sistema monetário pelo avanço dos meios de transporte e dos meios de comunicação:  
&quot;Essa prática fraudulenta se manteve pelo tempo em que as mercadorias tinham de ir e voltar da Índia contornando o Cabo da Boa Esperança. Desde que passaram a atravessar o canal de Suez e a ser transportadas em navios a vapor, esse método de fabricação de capital fictício perdeu sua base, que era a longa duração da viagem das mercadorias. Esse método tornou-se completamente impraticável desde que o telégrafo passou a informar no mesmo dia a situação do mercado da Índia ao comerciante inglês e a situação do mercado inglês ao comerciante indiano. – F. E.}&quot;
&quot;O Capital volume 3 - Seção 5 - Crédito e Capital fictício &quot;
***
O Capital Fictício foi histórico e não essencial ao modo de produção capitalista.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Só lembrando que para Marx o capital fictício deixou de ter importância no sistema monetário pelo avanço dos meios de transporte e dos meios de comunicação:<br />
&#8220;Essa prática fraudulenta se manteve pelo tempo em que as mercadorias tinham de ir e voltar da Índia contornando o Cabo da Boa Esperança. Desde que passaram a atravessar o canal de Suez e a ser transportadas em navios a vapor, esse método de fabricação de capital fictício perdeu sua base, que era a longa duração da viagem das mercadorias. Esse método tornou-se completamente impraticável desde que o telégrafo passou a informar no mesmo dia a situação do mercado da Índia ao comerciante inglês e a situação do mercado inglês ao comerciante indiano. – F. E.}&#8221;<br />
&#8220;O Capital volume 3 &#8211; Seção 5 &#8211; Crédito e Capital fictício &#8221;<br />
***<br />
O Capital Fictício foi histórico e não essencial ao modo de produção capitalista.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158274/#comment-1084587</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Jan 2026 14:33:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O comentário de Santos, muito fiel ao método do mestre, teria sido um verdadeiro &lt;i&gt;quod erat demonstrandum&lt;/i&gt; ao meu, não fosse a birra e a tresleitura. Uma pena! Talvez pudesse ter ajudado a decifrar o enigma do dinheiro, mas é o que é, e só isso.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O comentário de Santos, muito fiel ao método do mestre, teria sido um verdadeiro <i>quod erat demonstrandum</i> ao meu, não fosse a birra e a tresleitura. Uma pena! Talvez pudesse ter ajudado a decifrar o enigma do dinheiro, mas é o que é, e só isso.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Santos		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158274/#comment-1084464</link>

		<dc:creator><![CDATA[Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Jan 2026 22:42:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O texto em si é muito ruim — como o intuito é criticar Marx, transforma a posição de algum marxista em espantalho e passa ao ataque. Uma operação mistificadora! Que, inclusive, flerta com os “reformismos” contemporâneos, para os quais qualquer ativo financeiro pode ser dinheiro. Não explica por que os bancos centrais acumulam ouro em vez de bitcoins.

Mas o importante é o comentário do Manolo. Em certa parte do seu longo comentário, ele diz: “A polêmica movida por Primo Jonas, novamente, não diz respeito tanto a Marx, mas à posição de Rolando Astarita, comum a muitos marxistas e encontrável no próprio Marx em certas passagens, de que moedas fiduciárias e sua falta de lastro afastam-se da economia real e compõem a chamada ‘economia especulativa’”.

Pergunto-me em qual texto de Marx se pode chegar a essa absurda conclusão de uma “economia especulativa” e uma “economia real”. Aqui se confunde Marx com Keynes!

Segue Manolo com sua desonestidade: “Tal afastamento se deveria, para Astarita, justamente à falta de lastro da moeda em ouro”. Os textos de Astarita que versam sobre o dinheiro não se prendem, em momento algum, à questão jurídica do lastro, pois trata-se da lei econômica — o dinheiro como relação social é a forma de resolver a contradição da mercadoria entre valor e valor de uso, contradição essa que se expressa como contradição entre trabalho privado e social (coisa que o Primo Jones sequer faz noção).

Portanto, o dinheiro, para expressar o valor das mercadorias, é antes de tudo “corpo de valor”, e quem melhor encarna essas propriedades são os metais preciosos; contudo, com o desenvolvimento da circulação, o signo se separa do seu conteúdo. Mas, como o dinheiro também é tesouro, o ouro passa a ser entesourado, circulando em seu lugar notas de papel.

Segue Manolo: “Marx é, no que diz respeito à teoria da moeda, fundamentalmente um metalista”. Posição absurda, que não avança para a totalidade da teoria monetária de Marx — e sequer conhece a teoria do dinheiro de crédito de Marx, seção 5 do Livro III d’O Capital, onde Marx faz uma análise exaustiva da substituição do dinheiro pelo dinheiro de crédito e de como, na crise, o sistema de crédito tem que retornar à sua forma de sistema monetário. Marx foi um duro crítico dos metalistas — ou melhor, dos bullionistas, como Ricardo.

Segue Manolo em sua ignorância: “A teoria momentânea assumida por Marx foi tributária dos debates econômicos dos séculos XVI a XVIII, que giravam em torno das posições mercantilistas, fisiocratas e dos primórdios da economia liberal clássica. Ainda não havia dinheiro tal como o entendemos hoje (papel-moeda, dinheiro estritamente contábil, dinheiro eletrônico etc.), muito menos as instituições que hoje gerenciam o funcionamento da emissão e circulação de dinheiro (bancos centrais, o BIS, o sistema SWIFT etc.)”.

Primeiro, existe extensa elaboração de Marx sobre os debates monetários em torno da chamada Bank Act. Marx conheceu o papel-moeda — basta ver suas considerações sobre o taler alemão, que não tinha lastro —, e o Banco da Inglaterra era o protótipo do banco central. As posições de Marx no século XIX estavam a par com o que de mais moderno existia de teoria monetária, por exemplo, Tooke e Fullarton, críticos ferrenhos da teoria quantitativa que circula até hoje.

Segue Manolo: “Marx tratou o papel-moeda e o dinheiro a crédito (títulos de crédito, letras de câmbio, notas promissórias etc.) como meras expressões do valor do ouro”. Aqui é mentira deslavada — inclusive, desafio o autor a colocar a citação em que Marx diz essa bobagem! Para Marx, esses títulos de dívida são capital fictício: eles não têm valor, mas um preço calculado pelo rendimento que geram, dividido pela taxa de juros. Marx chama isso de capitalização — apropriação sobre direito futuro — e jamais vincula isso como expressão do ouro.

Paro por aqui, porque a desonestidade intelectual só aumenta.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto em si é muito ruim — como o intuito é criticar Marx, transforma a posição de algum marxista em espantalho e passa ao ataque. Uma operação mistificadora! Que, inclusive, flerta com os “reformismos” contemporâneos, para os quais qualquer ativo financeiro pode ser dinheiro. Não explica por que os bancos centrais acumulam ouro em vez de bitcoins.</p>
<p>Mas o importante é o comentário do Manolo. Em certa parte do seu longo comentário, ele diz: “A polêmica movida por Primo Jonas, novamente, não diz respeito tanto a Marx, mas à posição de Rolando Astarita, comum a muitos marxistas e encontrável no próprio Marx em certas passagens, de que moedas fiduciárias e sua falta de lastro afastam-se da economia real e compõem a chamada ‘economia especulativa’”.</p>
<p>Pergunto-me em qual texto de Marx se pode chegar a essa absurda conclusão de uma “economia especulativa” e uma “economia real”. Aqui se confunde Marx com Keynes!</p>
<p>Segue Manolo com sua desonestidade: “Tal afastamento se deveria, para Astarita, justamente à falta de lastro da moeda em ouro”. Os textos de Astarita que versam sobre o dinheiro não se prendem, em momento algum, à questão jurídica do lastro, pois trata-se da lei econômica — o dinheiro como relação social é a forma de resolver a contradição da mercadoria entre valor e valor de uso, contradição essa que se expressa como contradição entre trabalho privado e social (coisa que o Primo Jones sequer faz noção).</p>
<p>Portanto, o dinheiro, para expressar o valor das mercadorias, é antes de tudo “corpo de valor”, e quem melhor encarna essas propriedades são os metais preciosos; contudo, com o desenvolvimento da circulação, o signo se separa do seu conteúdo. Mas, como o dinheiro também é tesouro, o ouro passa a ser entesourado, circulando em seu lugar notas de papel.</p>
<p>Segue Manolo: “Marx é, no que diz respeito à teoria da moeda, fundamentalmente um metalista”. Posição absurda, que não avança para a totalidade da teoria monetária de Marx — e sequer conhece a teoria do dinheiro de crédito de Marx, seção 5 do Livro III d’O Capital, onde Marx faz uma análise exaustiva da substituição do dinheiro pelo dinheiro de crédito e de como, na crise, o sistema de crédito tem que retornar à sua forma de sistema monetário. Marx foi um duro crítico dos metalistas — ou melhor, dos bullionistas, como Ricardo.</p>
<p>Segue Manolo em sua ignorância: “A teoria momentânea assumida por Marx foi tributária dos debates econômicos dos séculos XVI a XVIII, que giravam em torno das posições mercantilistas, fisiocratas e dos primórdios da economia liberal clássica. Ainda não havia dinheiro tal como o entendemos hoje (papel-moeda, dinheiro estritamente contábil, dinheiro eletrônico etc.), muito menos as instituições que hoje gerenciam o funcionamento da emissão e circulação de dinheiro (bancos centrais, o BIS, o sistema SWIFT etc.)”.</p>
<p>Primeiro, existe extensa elaboração de Marx sobre os debates monetários em torno da chamada Bank Act. Marx conheceu o papel-moeda — basta ver suas considerações sobre o taler alemão, que não tinha lastro —, e o Banco da Inglaterra era o protótipo do banco central. As posições de Marx no século XIX estavam a par com o que de mais moderno existia de teoria monetária, por exemplo, Tooke e Fullarton, críticos ferrenhos da teoria quantitativa que circula até hoje.</p>
<p>Segue Manolo: “Marx tratou o papel-moeda e o dinheiro a crédito (títulos de crédito, letras de câmbio, notas promissórias etc.) como meras expressões do valor do ouro”. Aqui é mentira deslavada — inclusive, desafio o autor a colocar a citação em que Marx diz essa bobagem! Para Marx, esses títulos de dívida são capital fictício: eles não têm valor, mas um preço calculado pelo rendimento que geram, dividido pela taxa de juros. Marx chama isso de capitalização — apropriação sobre direito futuro — e jamais vincula isso como expressão do ouro.</p>
<p>Paro por aqui, porque a desonestidade intelectual só aumenta.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158274/#comment-1074534</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2025 18:55:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Porque sim, uai. E por que não?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Porque sim, uai. E por que não?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Nenli &#38; Nenlerei		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158274/#comment-1074522</link>

		<dc:creator><![CDATA[Nenli &#38; Nenlerei]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2025 17:04:52 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158274#comment-1074522</guid>

					<description><![CDATA[Manolo,

Se faltam braços, mãos e pernas neste site, por que insistir com comentários maiores que o texto original?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Manolo,</p>
<p>Se faltam braços, mãos e pernas neste site, por que insistir com comentários maiores que o texto original?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158274/#comment-1074508</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2025 16:28:42 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158274#comment-1074508</guid>

					<description><![CDATA[Liv,

David Graeber não é exatamente uma &quot;unanimidade&quot;, por razões que já falei: é ensaístico, fragmentário, pouco sistemático, tem umas ideias geniais que desenvolve pouco, pula de um assunto para outro sem estabelecer muito bem as conexões...

O que gosto muito nele é que escreve com graça -- mesmo que algumas piadas se percam nas traduções -- e escolhe sempre as polêmicas certas. Ele vai onde dói, revira tudo, sacaneia todo mundo e nos deixa com muito mais perguntas do que respostas. É a esculhambação como método científico de agitação política. Só quem já o viu ao vivo pega a visão -- e agora só via Youtube, porque infelizmente morreu cedo. Para se divertir bastante, procure lá um debate entre ele e Peter Thiel.

Que acadêmico &quot;sério&quot; se perguntaria &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2025/08/157205/&quot; rel=&quot;ugc&quot;&gt;por que entramos nos anos 2000 e ainda não andamos nos carros voadores que os Jetsons nos prometeram?&lt;/a&gt; 

Que acadêmico &quot;sério&quot; faria uma pesquisa sobre &quot;trabalhos de merda&quot; (&lt;i&gt;bullshit jobs&lt;/i&gt;) e &quot;vagas arrombadas&quot; (&lt;i&gt;shit jobs&lt;/i&gt;)? Que acadêmico &quot;sério&quot;, na mesma paulada, criaria categorias de &quot;trabalhos de merda&quot; extremamente operacionais como &quot;baba-ovo&quot; (&lt;i&gt;flunky&lt;/i&gt;), &quot;brabo&quot; (&lt;i&gt;goon&lt;/i&gt;), &quot;magáiver&quot; (&lt;i&gt;duct taper&lt;/i&gt;), &quot;enxugador de gelo&quot; (&lt;i&gt;box ticker&lt;/i&gt;) e &quot;coach de rolê&quot; (&lt;i&gt;taskmaster&lt;/i&gt;)?

É que Graeber estava esculhambando tudo de uma vez só. Ao mesmo tempo atacava o alvo, instabilizava a &quot;seriedade&quot; e o formalismo acadêmico, implodia a noção de que um vocabulário técnico para ciências sociais precisava ter cara de grego (&lt;i&gt;anomia&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;poliarquia&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;práxis&lt;/i&gt; etc.) ou latim (&lt;i&gt;habitus&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;persona&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;homo sacer&lt;/i&gt; etc.), e ria feito a porra com tudo isso.

Ao mesmo tempo, e talvez por isso mesmo, Graeber conseguia trazer para um público mais amplo problemas, debates, conceitos e categorias que, deslocadas de seu lugar acadêmico original e de sua função estritamente teórica, jogavam luzes diferentes sobre problemas políticos do presente. Permitia um olhar menos dogmático, menos &quot;quadradão&quot;, sobre tudo isso que estamos vivendo.

Mas é justamente por elevar a esculhambação a um patamar científico que Graeber se perde. Porque provocador, ele às vezes generaliza ou interpreta evidências históricas de forma um tanto simplista, às vezes mesmo especulativa. Ele tem aquela mania de antropólogo de fazer &quot;grande história universal&quot; com umas generalizações meio apressadas sobre “humanidade” ou “civilização” baseadas em estudos de casos específicos ou sociedades relativamente bem documentadas; com isso, tende a ignorar variações regionais e contextuais importantes. Suas análises, além disso, não incorporam plenamente modelos econômicos, sociológicos ou antropológicos complexos, correndo o risco de romantizar sociedades pré-capitalistas.

De um modo ou de outro, é uma leitura muito interessante para quem se deixa provocar. Foi o meu caso. Graças ao &lt;i&gt;Dívida: os primeiros 5.000 anos&lt;/i&gt;, fui atrás da antropologia econômica e saí encontrando tudo isso de que falei no comentário. Graças ao &lt;i&gt;Towards an anthropological theory of value&lt;/i&gt;, comecei a integrar essas leituras a uma crítica atualizada à teoria do valor, bem melhor do que seria se eu me prendesse -- em campos ideológicos e teóricos muito diferentes -- a Marshall Sahlins, Jürgen Habermas, Eduardo Viveiros de Castro ou Alfred Sohn-Rethel. Graças ao &lt;i&gt;Bullshit Jobs&lt;/i&gt; e ao &lt;i&gt;The utopia of rules&lt;/i&gt;, pude rever alguns elementos essenciais da crítica à burocracia, desta vez de modo muito mais direto e aplicável ao nosso dia-a-dia que, digamos, numa leitura de Max Weber. E me diverti muito, se é que se pode divertir com um livro de ciência social. São meus gostos estranhos, mas é isso. 

Recomendo muito ler David Graeber, com essas precauções. Ou nenhuma, senão a piada perde a graça.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Liv,</p>
<p>David Graeber não é exatamente uma &#8220;unanimidade&#8221;, por razões que já falei: é ensaístico, fragmentário, pouco sistemático, tem umas ideias geniais que desenvolve pouco, pula de um assunto para outro sem estabelecer muito bem as conexões&#8230;</p>
<p>O que gosto muito nele é que escreve com graça &#8212; mesmo que algumas piadas se percam nas traduções &#8212; e escolhe sempre as polêmicas certas. Ele vai onde dói, revira tudo, sacaneia todo mundo e nos deixa com muito mais perguntas do que respostas. É a esculhambação como método científico de agitação política. Só quem já o viu ao vivo pega a visão &#8212; e agora só via Youtube, porque infelizmente morreu cedo. Para se divertir bastante, procure lá um debate entre ele e Peter Thiel.</p>
<p>Que acadêmico &#8220;sério&#8221; se perguntaria <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157205/" rel="ugc">por que entramos nos anos 2000 e ainda não andamos nos carros voadores que os Jetsons nos prometeram?</a> </p>
<p>Que acadêmico &#8220;sério&#8221; faria uma pesquisa sobre &#8220;trabalhos de merda&#8221; (<i>bullshit jobs</i>) e &#8220;vagas arrombadas&#8221; (<i>shit jobs</i>)? Que acadêmico &#8220;sério&#8221;, na mesma paulada, criaria categorias de &#8220;trabalhos de merda&#8221; extremamente operacionais como &#8220;baba-ovo&#8221; (<i>flunky</i>), &#8220;brabo&#8221; (<i>goon</i>), &#8220;magáiver&#8221; (<i>duct taper</i>), &#8220;enxugador de gelo&#8221; (<i>box ticker</i>) e &#8220;coach de rolê&#8221; (<i>taskmaster</i>)?</p>
<p>É que Graeber estava esculhambando tudo de uma vez só. Ao mesmo tempo atacava o alvo, instabilizava a &#8220;seriedade&#8221; e o formalismo acadêmico, implodia a noção de que um vocabulário técnico para ciências sociais precisava ter cara de grego (<i>anomia</i>, <i>poliarquia</i>, <i>práxis</i> etc.) ou latim (<i>habitus</i>, <i>persona</i>, <i>homo sacer</i> etc.), e ria feito a porra com tudo isso.</p>
<p>Ao mesmo tempo, e talvez por isso mesmo, Graeber conseguia trazer para um público mais amplo problemas, debates, conceitos e categorias que, deslocadas de seu lugar acadêmico original e de sua função estritamente teórica, jogavam luzes diferentes sobre problemas políticos do presente. Permitia um olhar menos dogmático, menos &#8220;quadradão&#8221;, sobre tudo isso que estamos vivendo.</p>
<p>Mas é justamente por elevar a esculhambação a um patamar científico que Graeber se perde. Porque provocador, ele às vezes generaliza ou interpreta evidências históricas de forma um tanto simplista, às vezes mesmo especulativa. Ele tem aquela mania de antropólogo de fazer &#8220;grande história universal&#8221; com umas generalizações meio apressadas sobre “humanidade” ou “civilização” baseadas em estudos de casos específicos ou sociedades relativamente bem documentadas; com isso, tende a ignorar variações regionais e contextuais importantes. Suas análises, além disso, não incorporam plenamente modelos econômicos, sociológicos ou antropológicos complexos, correndo o risco de romantizar sociedades pré-capitalistas.</p>
<p>De um modo ou de outro, é uma leitura muito interessante para quem se deixa provocar. Foi o meu caso. Graças ao <i>Dívida: os primeiros 5.000 anos</i>, fui atrás da antropologia econômica e saí encontrando tudo isso de que falei no comentário. Graças ao <i>Towards an anthropological theory of value</i>, comecei a integrar essas leituras a uma crítica atualizada à teoria do valor, bem melhor do que seria se eu me prendesse &#8212; em campos ideológicos e teóricos muito diferentes &#8212; a Marshall Sahlins, Jürgen Habermas, Eduardo Viveiros de Castro ou Alfred Sohn-Rethel. Graças ao <i>Bullshit Jobs</i> e ao <i>The utopia of rules</i>, pude rever alguns elementos essenciais da crítica à burocracia, desta vez de modo muito mais direto e aplicável ao nosso dia-a-dia que, digamos, numa leitura de Max Weber. E me diverti muito, se é que se pode divertir com um livro de ciência social. São meus gostos estranhos, mas é isso. </p>
<p>Recomendo muito ler David Graeber, com essas precauções. Ou nenhuma, senão a piada perde a graça.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: liv		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158274/#comment-1074472</link>

		<dc:creator><![CDATA[liv]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2025 13:24:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Primo Jonas, ler não é só legal, é honesto. Se eu quero tecer críticas, eu preciso antes ler na fonte. Para criticar Schumpeter e seu estouro de boiada, eu também me propus a lê-lo. Para criticar Weber e Durkheim, idem. No campo do pensamento social brasileiro não me bastou ler Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes, deliciosos! Precisei também ler aqueles que me reviraram o estômago, como, por exemplo, o sociólogo da acomodação social nacional por dissolução aparente do conflito, o miscigenista Gilberto Freyre. Quando parei para ler Durkheim, o fiz movida por um sentimento enorme de má vontade pronta para atacá-lo a cada esquina. Li As Regras do Método Científico e Da Divisão do Trabalho Social, falta ler O Suicídio. E no final, olhem só que bizarrice, não posso dizer que saí da leitura convertida ao “Durkheimnianismo”, mas foi por pouco! Desde então passei a acionar Durkheim com frequência, principalmente para apontar que a esquerda deveria ser mais patológica do que criminosa, que a nossa esquerda, a sua ala mais radical, é, quando muito, apenas criminosa. A diferenciação que Durkheim faz entre aquilo que é crime (fato social não apenas espero, como desejado) e aquilo que é patológico (anomalia social a ser combatida) na sociedade é super útil! Enfim Primo Jonas, não é só legal: uma questão de honestidade intelectual. Além do mais, a colocação feita às tais prática exegética (o que em alguns casos pode até ser) está mal colocada, é reducionista, impertinente, afasta o leitor do tema principal e fere de forma desnecessária, sem objetividade, suscetibilidades.

De resto, me calo satisfeita pelos comentários muito bem colocados, inclusive naquilo que fica em aberto, por Manolo.

Que por sinal… O que seriam dos autores sem os seus tradutores, não é mesmo? Manolo, novamente você nos sai um bom tradutor (muito mais do isso, melhor!) e eu só teria ficado mais satisfeita se o teu comentário estivesse ocupando o espaço de artigo e o artigo de Primo Jonas o espaço de comentário. Talvez eu não tivesse nem entrado nesta polêmica! O meu comentário foi justamente no sentido de que, com uma frequência ruim a tradução se confunde com autoria ao ponto de não conseguirmos mais localizar o que de fato o autor disse (e seu comentário foi ótimo para desanuviar a polêmica) e acabamos orbitando em torno do que são apenas ruminações de tradutores que se limitaram a ler outros tradutores (o que não é só comum entre trotskistas, mas é também um hábito que notei nos departamentos de ciências sociais das universidades que já frequentei: USP e UNICAMP). 

De qualquer forma, e talvez ao menos nisso estejamos de acordo, depois de Aristóteles e Hegel, Marx nos oferece um próximo passo. O grande trunfo da teoria de Marx é seu método histórico-materialista-dialético. Em nenhum momento defendi que Marx é a última palavra para tudo (disse apenas que Marx, além de nos oferecer um método, nos faz perguntas incômodas e nos abre algumas portinhas de continuidade ou, quem sabe, correções, o que de forma alguma contradiz seu método), e tampouco disse que é possível aplicar ipsis litteris o que se disse há mais de um século a realidade material atual. E eu jamais diria isso, até porque uma fala como essa seria anti-dialética, anti-marxista. Me parece que nem Marx se defenderia com tanto fervor religioso, até porque Marx tem por princípio se debruçar sobre a história, sobre a realidade (e não sobre a ficção, sobre a abstração, e não é por acaso que copiei aqui especificamente a crítica que Marx faz à dialética Hegeliana).

Não tenho mais comentários. Não li David Graeber. Vou ler para só então, em uma próxima oportunidade (e espero que o Passa Palavra continue a nos oferece-las), comentar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Primo Jonas, ler não é só legal, é honesto. Se eu quero tecer críticas, eu preciso antes ler na fonte. Para criticar Schumpeter e seu estouro de boiada, eu também me propus a lê-lo. Para criticar Weber e Durkheim, idem. No campo do pensamento social brasileiro não me bastou ler Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes, deliciosos! Precisei também ler aqueles que me reviraram o estômago, como, por exemplo, o sociólogo da acomodação social nacional por dissolução aparente do conflito, o miscigenista Gilberto Freyre. Quando parei para ler Durkheim, o fiz movida por um sentimento enorme de má vontade pronta para atacá-lo a cada esquina. Li As Regras do Método Científico e Da Divisão do Trabalho Social, falta ler O Suicídio. E no final, olhem só que bizarrice, não posso dizer que saí da leitura convertida ao “Durkheimnianismo”, mas foi por pouco! Desde então passei a acionar Durkheim com frequência, principalmente para apontar que a esquerda deveria ser mais patológica do que criminosa, que a nossa esquerda, a sua ala mais radical, é, quando muito, apenas criminosa. A diferenciação que Durkheim faz entre aquilo que é crime (fato social não apenas espero, como desejado) e aquilo que é patológico (anomalia social a ser combatida) na sociedade é super útil! Enfim Primo Jonas, não é só legal: uma questão de honestidade intelectual. Além do mais, a colocação feita às tais prática exegética (o que em alguns casos pode até ser) está mal colocada, é reducionista, impertinente, afasta o leitor do tema principal e fere de forma desnecessária, sem objetividade, suscetibilidades.</p>
<p>De resto, me calo satisfeita pelos comentários muito bem colocados, inclusive naquilo que fica em aberto, por Manolo.</p>
<p>Que por sinal… O que seriam dos autores sem os seus tradutores, não é mesmo? Manolo, novamente você nos sai um bom tradutor (muito mais do isso, melhor!) e eu só teria ficado mais satisfeita se o teu comentário estivesse ocupando o espaço de artigo e o artigo de Primo Jonas o espaço de comentário. Talvez eu não tivesse nem entrado nesta polêmica! O meu comentário foi justamente no sentido de que, com uma frequência ruim a tradução se confunde com autoria ao ponto de não conseguirmos mais localizar o que de fato o autor disse (e seu comentário foi ótimo para desanuviar a polêmica) e acabamos orbitando em torno do que são apenas ruminações de tradutores que se limitaram a ler outros tradutores (o que não é só comum entre trotskistas, mas é também um hábito que notei nos departamentos de ciências sociais das universidades que já frequentei: USP e UNICAMP). </p>
<p>De qualquer forma, e talvez ao menos nisso estejamos de acordo, depois de Aristóteles e Hegel, Marx nos oferece um próximo passo. O grande trunfo da teoria de Marx é seu método histórico-materialista-dialético. Em nenhum momento defendi que Marx é a última palavra para tudo (disse apenas que Marx, além de nos oferecer um método, nos faz perguntas incômodas e nos abre algumas portinhas de continuidade ou, quem sabe, correções, o que de forma alguma contradiz seu método), e tampouco disse que é possível aplicar ipsis litteris o que se disse há mais de um século a realidade material atual. E eu jamais diria isso, até porque uma fala como essa seria anti-dialética, anti-marxista. Me parece que nem Marx se defenderia com tanto fervor religioso, até porque Marx tem por princípio se debruçar sobre a história, sobre a realidade (e não sobre a ficção, sobre a abstração, e não é por acaso que copiei aqui especificamente a crítica que Marx faz à dialética Hegeliana).</p>
<p>Não tenho mais comentários. Não li David Graeber. Vou ler para só então, em uma próxima oportunidade (e espero que o Passa Palavra continue a nos oferece-las), comentar.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158274/#comment-1074403</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2025 03:28:51 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158274#comment-1074403</guid>

					<description><![CDATA[Liv,

me desculpe, mas acho que você abordou o problema pelo lado errado. Você defende o &lt;i&gt;método&lt;/i&gt; de Marx, e está correta nisso; Primo Jonas -- e eu também, como demonstrarei mais para a frente -- trata não do método, mas dos &lt;i&gt;resultados&lt;/i&gt; a que Marx chegou em sua pesquisa sobre a história e natureza do dinheiro. Deixe-me ver se me explico melhor.

Primo Jonas, que tem um ou dois pés lá pela bacia do Prata, polemiza não com Marx diretamente, mas com &lt;a href=&quot;https://rolandoastarita.blog/2025/11/14/la-permanencia-de-la-barbara-reliquia/&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;este artigo de Rolando Astarita&lt;/a&gt;, aliás indicado explicitamante no texto. Ao fazê-lo, polemiza com um campo do trotskismo argentino próximo ao PTS/FT-QI, que no Brasil se representa pelo MRT que anima o Esquerda Diário. (Astarita saiu do PTS nos anos 1990 criticando-o, mas, convenhamos, é fruta que não caiu muito longe do pé.)

A polêmica movida por Primo Jonas, novamente, não diz respeito tanto a Marx, mas com a posição de Rolando Astarita, comum a muitos marxistas e encontrável no próprio Marx em certas passagens, de que moedas fiduciárias e sua falta de lastro afastam-se da economia real e compõem a chamada &quot;economia especulativa&quot;.

Tal afastamento se deveria, para Astarita, justamente à falta de lastro da moeda em ouro -- que Astarita tenta argumentar, com base em flutuações do mercado de ouro, que &quot;segue tendo um papel monetário no capitalismo contemporâneo&quot;. Daí Astarita recorrer a uma expressão de Keynes, para quem o lastro do dinheiro em ouro seria uma &quot;bárbara relíquia&quot;, mas entra em contradição ao dizer seguir uma afirmação do trotskista belga Ernest Mandel, para quem &quot;o preço do ouro... é o recíproco do papel moeda. No atual regime de troca de ouro, o preço do ouro representa o valor do dólar fixado pela Reserva Federal dos Estadus Unidos relativamente ao ouro&quot;. Bastou isso para a coisa toda começar a dar voltas em falso, porque, para Astarita (seguindo Mandel), o preço do ouro expressa o valor que lhe é dado por uma moeda fiduciária. Daí em diante, o artigo já está perdido no que se propunha a defender. 

Mas voltemos a Marx, citado muito de passagem por Astarita. Que tem ele a ver com essa polêmica?

Na obra de Marx, sobre moeda, assim como há passagens, digamos, &quot;relacionistas&quot; tanto nos &lt;i&gt;Grundrisse&lt;/i&gt; quanto em &lt;i&gt;O Capital&lt;/i&gt;, há outras claramente &quot;essencialistas&quot;, que estabelecem certas mercadorias como tendo &lt;i&gt;propriedades naturais&lt;/i&gt; que as fariam o equivalente geral ideal. Veja-se algumas passagens nessa mesma linha &quot;essencialista&quot; tiradas do capítulo &quot;O processo de troca&quot; do livro I de &lt;i&gt;O Capital&lt;/i&gt;, na tradução da Boitempo (copiei do PDF, por isso as citações vão sem páginas):

&lt;blockquote&gt;Agora, o tipo específico de mercadoria em cuja forma natural, a forma de equivalente, se funde socialmente torna-se mercadoria-dinheiro ou funciona como dinheiro. Desempenhar o papel do equivalente universal no mundo das mercadorias torna-se sua função especificamente social e, assim, seu monopólio social. Entre as mercadorias que, na forma II, figuram como equivalentes particulares do linho e que, na forma III, expressam conjuntamente no linho seu valor relativo, uma mercadoria determinada conquistou historicamente esse lugar privilegiado: o ouro.&lt;/blockquote&gt;

&lt;blockquote&gt;Até aqui, no entanto, conhecemos apenas a função do dinheiro de servir como forma de manifestação do valor das mercadorias ou como o material, no qual as grandezas de valor das mercadorias se expressam socialmente. A forma adequada de manifestação do valor ou da materialidade do trabalho humano abstrato – e, portanto, igual – só pode ser encontrada numa matéria cujos exemplares possuam todos a mesma qualidade uniforme. Por outro lado, como a diferença das grandezas de valor é puramente quantitativa, a mercadoria-dinheiro tem de ser capaz de expressar diferenças puramente quantitativas, podendo ser dividida e ter suas partes novamente reunidas como se queira. O ouro e a prata possuem essas propriedades por natureza.&lt;/blockquote&gt;

&lt;blockquote&gt;Como todas as mercadorias são apenas equivalentes particulares do dinheiro, que é seu equivalente universal, elas se relacionam com o dinheiro como mercadorias particulares com a mercadoria universal. Vimos que a forma-dinheiro é apenas o reflexo, concentrado numa única mercadoria, das relações de todas as outras mercadorias. Que o dinheiro seja mercadoria é, portanto, uma descoberta que só realiza aquele que toma sua forma pronta para, a partir dela, empreender uma análise mais profunda desse objeto. O processo de troca confere à mercadoria, que ele transforma em dinheiro, não seu valor, mas sua forma de valor específica. A confusão entre essas duas determinações gerou o equívoco de considerar o valor do ouro e da prata como imaginário.&lt;/blockquote&gt;

&lt;blockquote&gt;Do fato de o dinheiro, em funções determinadas, poder ser substituído por simples signos de si mesmo, derivou outro erro, segundo o qual ele seria um mero signo. Por outro lado, nisso residia a noção de que a forma-dinheiro da coisa é externa a ela mesma, não sendo mais do que a forma de manifestação de relações humanas que se escondem por trás dela. Nesse sentido, cada mercadoria seria um signo, uma vez que, como valor, ela é tão somente um invólucro reificado do trabalho humano nela despendido47. Mas considerar como meros signos os caracteres sociais que, num determinado modo de produção, aplicam-se às coisas – ou aos caracteres reificados que as determinações sociais do trabalho recebem nesse modo de produção – significa considerá-las, ao mesmo tempo, produtos arbitrários da reflexão [Reflexion] dos homens.&lt;/blockquote&gt;

&lt;blockquote&gt;Quando, já no início da análise do valor, nos últimos decênios do século XVII, concluiu-se que o dinheiro era mercadoria, tal conhecimento dava apenas seus primeiros passos. A dificuldade não está em compreender que dinheiro é mercadoria, mas em descobrir como, por que e por quais meios a mercadoria é dinheiro.&lt;/blockquote&gt;

Daí em diante, Marx começa o capítulo sobre &quot;O dinheiro ou a circulação de mercadorias&quot; dizendo que &quot;neste escrito, para fins de simplificação, pressuponho sempre o ouro como a mercadoria-dinheiro&quot;, e assim segue pelo resto inteiro de &lt;i&gt;O Capital&lt;/i&gt;.

Em resumo: para Marx, o ouro e a prata são a forma de equivalente universal &lt;i&gt;por natureza&lt;/i&gt;, porque precedidas historicamente por trocas de mercadorias particulares que, por sucessivas abstrações e comparações entre seus respectivos valores, conduziram a um equivalente universal de valor cujas &lt;i&gt;propriedades físicas&lt;/i&gt; teriam-no tornado o candidato ideal a tal lugar. Tais trocas, é claro, teriam se dado mediante relações sociais historicamente determinadas, pela ação social; tal afirmação, verdadeira quanto à &lt;i&gt;forma&lt;/i&gt;, quanto o &lt;i&gt;método&lt;/i&gt; com que Marx apreende o processo histórico, não diz muito quanto aos &lt;em&gt;resultados&lt;/em&gt; dessas descobertas, que ele expôs o mais pormenorizadamente possível &lt;i&gt;em O Capital&lt;/i&gt;. Para usar um vocabulário técnico da economia: Marx é, no que diz respeito à teoria da moeda, fundamentalmente um &lt;i&gt;metalista&lt;/i&gt;.

Marx aplicou um método &lt;i&gt;correto&lt;/i&gt; a pressupostos &lt;i&gt;equivocados&lt;/i&gt;, ainda que historicamente condicionados; por isso, chegou a más conclusões quanto ao dinheiro. Algumas razões:

&lt;b&gt;1)&lt;/b&gt; A teoria momentária assumida por Marx foi tributária dos debates econômicos dos séculos XVI a XVIII, que giravam em torno das posições mercantilistas, fisiocratas e dos primórdios da economia liberal clássica. Ainda não havia dinheiro tal como o entendemos hoje (papel-moeda, dinheiro estritamente contábil, dinheiro eletrônico, etc.), muito menos as instituições que hoje gerenciam o funcionamento da emissão e circulação de dinheiro (bancos centrais, o BIS, o sistema SWIFT, etc.), em que a ruptura com o padrão-ouro em 1971 tornou inútil o debate sobre o lastro em ouro, porque transformou toda moeda, na prática, em moeda fiduciária. Os problemas colocados para Marx naquele momento histórico diziam respeito -- por exemplo -- à desvalorização do ouro e da prata pelo influxo de metais preciosos extraídos nas Américas pelas potências coloniais; ao debate sobre o chamado chamado &lt;i&gt;debasement&lt;/i&gt;, ou seja, a desvalorização da cunhagem pela redução da porcentagem de ouro ou prata em moedas circulantes que mantinham o mesmo valor nominal, debatendo os economistas se isso resultava ou não em inflação; entre outros. Marx não tinha a menor condição de responder a problemas que são nossos; invertendo a via, não podemos assumir &lt;i&gt;todos&lt;/i&gt; os problemas postos a Marx como se fossem nossos, sem um mínimo de reflexão crítica sobre sua pertinência atual, ou sobre os vieses próprios daquele tempo. A teoria monetária assumida por Marx pressupunha que o dinheiro resulta do intercâmbio de mercadorias até a formação de um equivalente geral; que esse equivalente geral ficou estabelecido como sendo o ouro (e também a prata), porque (historicamente, segundo Marx) se tratava de metais capazes de suportar enorme fracionamento sem perdas expressivas; que ouro e prata foram sendo paulatinamente desusados como mercadorias propriamente ditas (porque seria impossível valorar o ouro com base no ouro), até se cristalizar seu uso como equivalente geral e depois dinheiro cunhado.

&lt;b&gt;2)&lt;/b&gt; Como corolário da teoria econômica que adotou (seja para assumir, seja para criticar), Marx tratou o papel-moeda e o dinheiro a crédito (títulos de crédito, letras de câmbio, notas promissórias, etc.) como meras &lt;i&gt;expressões do valor do ouro&lt;/i&gt;, criticando pesadamente John Locke e &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/John_Law_(economist)&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;John Law&lt;/a&gt; por considerarem &quot;imaginário&quot; o valor do ouro e da prata, e &lt;a href=&quot;https://fr.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7ois_V%C3%A9ron_Duverger_de_Forbonnais&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;V. de Forbonnais&lt;/a&gt;, Montesquieu e Hegel por considerarem o valor do dinheiro como &quot;estritamente simbólico&quot; (ou seja, sem lastro em metais preciosos); acusou-os todos, com base em &lt;a href=&quot;https://www.treccani.it/enciclopedia/giovanni-francesco-pagnini_%28Enciclopedia-Italiana%29/&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Giovanni Francesco Pagnini&lt;/a&gt;, de &quot;sicofantas para o poder real, cujo direito de falsificação de moedas eles sustentaram, durante toda a Idade Média, com base nas tradições do Império Romano e no conceito de dinheiro dos Pandectas&quot;. Esse pressuposto metalista é assumido acriticamente por qualquer marxista ortodoxo que se preze (incluindo Rolando Astarita, cujo artigo Primo Jonas critica), resultando daí, ainda em Marx, uma crítica ferrenha a qualquer forma de &quot;capital fictício&quot; (assunto que já rendeu bastante debate &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2023/02/147372/&quot; rel=&quot;ugc&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2024/04/152054/&quot; rel=&quot;ugc&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2023/04/148098/&quot; rel=&quot;ugc&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2012/08/62764/&quot; rel=&quot;ugc&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2020/06/132188/&quot; rel=&quot;ugc&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;...).

&lt;b&gt;3)&lt;/b&gt; Marx estudou a formação do dinheiro a partir de fontes que não avançaram muito além do que se sabia sobre história econômica por volta dos anos 1850; se estudou o que talvez existisse então de mais avançado e interessante sobre o assunto, tudo isso hoje é completamente ultrapassado. A historiografia econômica e a antropologia econômica posteriores a Marx, em especial a partir do final do século XIX, foi construindo muito robustamente provas históricas de que a troca de mercadorias pressuposta por Marx e pelos economistas que o antecederam nunca existiu historicamente (esse pressuposto é conhecido hoje como &quot;mito do escambo primitivo&quot;). Conferir especialmente, para ficar apenas nos clássicos, Philip Grierson (&lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://archive.org/details/cu31924030139095&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;The silent trade&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, 1903), Bronislaw Malinowski (&lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://sci-hub.se/http://www.jstor.org/stable/2223283&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;The primitive economics of the Trobriand islanders&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, 1911), Gustav Cassel (&lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://archive.org/details/bwb_KV-186-015_2&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Theory of Social Economy&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, 1918), Georges Davy (&lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://archive.org/details/lafoijuretud00davy&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;La foi jurée&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, 1922) e, mais famosamente, Marcel Mauss no polêmico, fragmentário e incompleto &lt;i&gt;Essai sur le don&lt;/i&gt; (1925), onde chegou a dizer: &quot;Jamais parece ter havido, nem até uma época bastante próxima de nós, nem nas sociedades muito erradamente confundidas sob o nome de primitivas ou inferiores, algo que se assemelhasse ao que chamam a Economia Natural&quot;, sendo &quot;economia natural&quot; outro nome para uma economia baseada no escambo. Mais recentemente, Jean-Michel Servet, economista radicado no CNRS francês, chegou a fazer uma historiografia do &quot;mito do escambo primitivo&quot; (&lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://www.persee.fr/doc/dhs_0070-6760_1994_num_26_1_1974&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;La fable du troc&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, 1994, e &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://www.persee.fr/doc/numi_0484-8942_2001_num_6_157_2314&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Le troc primitif&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, 2001), mostrando como ele só surgiu a partir do século XVIII pelas mãos de Cesare Beccaria, Adam Smith e do fisiocrata Turgot, que o haviam adotado de relatos de viajantes que retornavam das Américas, da África e da Oceania; naqueles relatos, o mito fora criado para &quot;explicar&quot; a existência de certas formas de moeda e de crédito nessas sociedades, sempre por meio de abstrações baseadas no comportamento individual de pessoas baseadas naquelas das sociedades europeias de onde vinham esses viajantes. Na antropologia econômica atual, o mito é maldito; para apresentar um exemplo entre muitos, Anne Chapman (&lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://sci-hub.se/https://www.jstor.org/stable/25131676&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Barter as a universal mode of exchange&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, 1980) esmiúça o problema do &quot;mito do escambo&quot; até demonstrar que o dinheiro e o crédito sempre foram mais generalizados do que se imaginava, que muito do que se apresentava como &quot;escambo&quot; eram, na verdade, relações já medidadas por formas muito específicas de dinheiro próprias a cada sociedade, e que o escambo provavelmente nunca existiu na forma como o mito o apresenta, porque sempre se tratou de um &quot;leito de Procusto&quot; (expressão minha), de um modelo abstrato que nunca levou em consideração os fatos realmente verificados. Caroline Humphrey levou a questão mais adiante, demonstrando (em &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://sci-hub.se/10.2307/2802221&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Barter and economic disintegration&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, 1985) que o escambo só é verificável empiricamente em condições socioeconômicas específicas lá onde já existia dinheiro, e que nunca foi descrito um só exemplo de economia realmente existente baseada no escambo puro e simples, quanto mais a emergência do dinheiro a partir dele. 

&lt;b&gt;4)&lt;/b&gt; O modelo abstrato imposto pelo &quot;mito do escambo primitivo&quot; pressupunha que &lt;i&gt;dentro&lt;/i&gt; de uma determinada comunidade dita &quot;primitiva&quot; as pessoas faziam trocas entre si tal qual se faz hoje numa cidade moderna. A evidência historiográfica, arqueológica, linguística e cultural (mitos, lendas, história oral, etc.) demonstra, ao contrário disso, que dentro de uma mesma comunidade não havia escambo (ou seja: troca com base em equivalência de valor de objetos diferentes), reservando-se o tipo de troca mais próxima do que previa o modelo do escambo -- mediante inúmeros rituais e precauções -- para encontros com comunidades mais distantes, onde era literalmente impossível (por muitas razões: violência, guerra, dádiva, hospitalidade, &lt;i&gt;potlacht&lt;/i&gt;, etc.) estabelecer equivalências de valor entre &quot;isso&quot; e &quot;aquilo&quot;. O que se verifica como fenômeno mais geral, com pretensão de universalidade, não é o surgimento de um equivalente geral como resultado de relações de trocas reiteradas, mas sim o aparecimento de &lt;i&gt;unidades de conta&lt;/i&gt; com as quais se registrava obrigações, tributos, multas, compensações; em outras palavras, &lt;i&gt;não é a troca de mercadorias quem exigiu um equivalente universal, mas a dívida social quem exigiu um denominador comum&lt;/i&gt;. Dívida e crédito precedem a mercadoria em milênios. Sociedades antigas funcionaram milhares de anos com moedas puramente contábeis, sem metal envolvido. Sistemas monetários lastreados em muitas formas de contabilidade de dívida e crédito podem funcionar sem lastro físico -- e efetivamente funcionaram por milhares de anos antes da emergência do mercantilismo de onde Marx herdou seu metalismo. A estabilidade desses sistemas monetários dependeu de redes de confiança, rituais de compensação, mecanismos de crédito moral, não da produtividade do ouro ou de trocas reiteradas. Por essa via, a troca de mercadorias é apenas uma &lt;i&gt;forma muito tardia de relação econômica&lt;/i&gt;, não o fundamento de todas. O foco marxista na mercadoria e sua troca obscurece práticas não-mercantis, economias de dádiva e instituições sociais baseadas em honra, dívida moral e reciprocidade verificadas empiricamente por todos os lados onde surgiram sistemas monetários muito anteriores ao lastro em ouro. Por esta perspectiva -- muito próxima, aliás, da de Piotr Kropotkin, que não chegou a avançar tanto na mesma linha mas chegou quase lá -- o dinheiro é sempre, desde o início, &lt;i&gt;regulação de dívidas em um contexto de autoridade política baseada na força e na violência atual ou potencial&lt;/i&gt;. Deste modo, porque dependente de uma concepção equivocada quanto à origem histórica da mercadoria e da troca, a teoria marxista da moeda não se pode pretender &lt;i&gt;geral&lt;/i&gt;, mas apenas -- ao contrário do que o próprio Marx pretendeu -- como teoria &lt;i&gt;ad hoc&lt;/i&gt; para explicar o surgimento do capitalismo em certas áreas da Europa, não em outras. Teorias ainda mais recentes -- p. ex., Patrick Spread em &lt;i&gt;Economics, anthropology and the origin of money as a bargaining counter&lt;/i&gt; (2022) -- vão numa linha bastante diferente (dinheiro como &lt;i&gt;métrica de influência social em ambiente competitivo&lt;/i&gt;, não como meio de troca), mas partem da mesma crítica ao &quot;mito do escambo primitivo&quot; e da &quot;economia natural&quot; que está na raiz da teoria marxista da moeda.

&lt;b&gt;5)&lt;/b&gt; Esse tipo de crítica ao mesmo tempo historiográfica e antropológica bate de frente com certos marxistas que, na tentativa de salvar a teoria marxista do dinheiro, argumentam que Marx nunca pretendeu criar uma &quot;teoria geral&quot; do dinheiro e da mercadoria; argumentam que se trata de uma teoria local, historicamente situada, construída por Marx apenas para demonstrar os limites da teoria econômica &lt;i&gt;mainstream&lt;/i&gt; e conceituar o capitalismo por contraste com outros modos de produção meramente esboçados. O próprio Marx demonstra o contrário; além de fazer muitos elogios à teoria do valor de... &lt;i&gt;Aristóteles&lt;/i&gt; (sim, o filósofo grego), buscou fundar sua teoria da mercadoria e da moeda em dois exemplos históricos muito anteriores ao capitalismo -- e &lt;i&gt;errou nos dois&lt;/i&gt;, por falha das fontes. Quando Marx repetiu o mantra da &quot;antiga comunidade indiana&quot; onde &quot;o trabalho é socialmente dividido sem que os produtos se tornem mercadorias&quot;, teve como fonte os &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://archive.org/details/historicalsketc01wilk/page/n7/mode/2up&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Historical Sketches on the South of India&lt;/a&gt;&lt;/i&gt; (1810) de Mark Wilks e a &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://archive.org/details/dli.csl.7252/mode/2up&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Modern India&lt;/a&gt;&lt;/i&gt; (1852) de George Campbell; são dois livros fundamentais para a construção do mito da &quot;aldeia indiana autárcica milenar&quot;, verdadeiros &quot;fósseis vivos&quot; infensos a fatores como mobilidade social, migrações, colapso de unidades aldeãs por guerras, secas, expansão agrícola, castas, patriarcado, servidão por dívida, resistência camponesa, conflitos agrários, insurgências rurais etc., bastante destacados pela historiografia hindu mais recente -- p. ex., &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://archive.org/details/in.gov.ignca.5421&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Introduction to the study of Indian history&lt;/a&gt;&lt;/i&gt; (1956), de &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Damodar_Dharmananda_Kosambi&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Damodar Dharmananda Kosambi&lt;/a&gt;; &lt;a href=&quot;https://archive.org/details/the-agrarian-system-of-mughal-india-1556-to-1707/mode/2up&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;The agrarian system of Mughal India, 1556–1707&lt;/a&gt;&lt;/i&gt; (1963), de &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Irfan_Habib&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Irfan Habib&lt;/a&gt;; e &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://archive.org/details/materialcultureandsocialformationsinancientindiaramsharansharma_41_e/mode/2up&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Material culture and social formations in Ancient India&lt;/a&gt;&lt;/i&gt; (1983), de &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Ram_Sharan_Sharma&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;Ram Sharan Sharma&lt;/a&gt;. Com efeito, se Marx jamais poderia saber do que se escreveu depois de sua morte, não se pode dar crédito acrítico a historiografia ultrapassada sem ser cúmplice de erro. Na mesma linha, Marx tratou muito de passagem da formação de mercadorias no &quot;Estado inca&quot;, mas errou tanto ao considerar aquele ente político como um Estado, quanto ao desconhecer como a contabilidade avançada de um sistema complexo de reciprocidades nos &lt;i&gt;khipu&lt;/i&gt; dispensou o uso de moeda no regime da &lt;i&gt;mita&lt;/i&gt;, sendo pouquíssimos vestígios arqueológicos do que pode ter sido algum dinheiro encontrados apenas na costa dos Andes centrais e do norte, onde pode ter sido usado apenas para que uma incipiente classe de mercadores (p. ex., da cultura Chincha) realizasse comércio de longa distância com povos polinésios e do atual México para abastecer &lt;i&gt;kurakas&lt;/i&gt; com bens de prestígio de circulação quase nula. (Sobre esse assunto, segui &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2020/09/133628/#comment-886890&quot; rel=&quot;ugc&quot;&gt;boas pistas de um comentário escrito por &quot;Chaski&quot; aqui no Passa Palavra&lt;/a&gt;.) Se Marx errou nos dois exemplos particulares, ao tentar situar historicamente a transformação de valores de uso em valores de troca acertou parcialmente ao estabelecer que &quot;a troca de mercadorias começa onde as comunidades terminam: no ponto de seu contato com comunidades estrangeiras ou com membros de comunidades estrangeiras&quot;; mas errou ao supor que se tratasse de &quot;mercadorias&quot;, pois não havia troca equivalente com o estrangeiro, nem circulação mercantil interna ampla dos bens nas comunidades. Ao estabelecer que &quot;a partir de então, as coisas que são mercadorias no estrangeiro também se tornam mercadorias na vida interna da comunidade&quot;, errou mais uma vez.

Já me estendi bastante, e creio ter demonstrado o que precisava. Apesar de a teoria da moeda em Marx ser completamente ultrapassada no que diz respeito aos &lt;i&gt;resultados&lt;/i&gt; a que Marx chegou aplicando seu método, isso não implica superação de sua &lt;i&gt;teoria da exploração&lt;/i&gt;, tampouco do próprio &lt;i&gt;método&lt;/i&gt;. Resta aplicá-lo aos resultados a que novas investigações chegaram para tentar recompor uma teoria monetária digna desse nome -- pois assim a teoria da exploração seria a base de toda a economia, não apenas uma decorrência da transformação do trabalho em mercadoria. Quem tentou, ainda que fragmentariamente, avançar no sentido de uma nova teoria do valor que levasse em conta esses novos desenvolvimentos foi o finado David Graeber, ainda que de modo ensaístico, pouco sistemático e bastante fragmentário. É uma boa trabalheira, para quem se interessa pelo assunto.

Que tem tudo isso a ver com o acúmulo de ouro pela China &lt;a href=&quot;https://www.newsweek.com/china-hoarding-gold-central-bank-reserves-investment-1840020&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;desde pelo menos 2023&lt;/a&gt;? A meu ver, tudo. Em termos estritamente geoeconômicos, basta olhar o que deixou o governo americano mais preocupado: esse acúmulo de ouro (que é &lt;a href=&quot;https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-12-07/china-s-pboc-extends-gold-buying-streak-as-metal-s-rally-cools&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;real&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://asiamarkets.com/reason-china-gold-reserves-are-soaring/&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;factual&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;https://www.ft.com/content/abc39431-1755-4906-b11e-ee9e53baadfe&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;incontroverso&lt;/a&gt;)? Ou a simples possibilidade que o dólar deixasse de ser usado em transações comerciais bilaterais entre países, com a possível criação de uma &quot;moeda dos BRICS&quot;? Os dois fenômenos são parte de um mesmo processo, mas quem percorrer o noticiário recente encontrará facilmente a resposta.

Eis por que, Liv, desse ponto de vista que adoto, acho que você abordou o problema pelo lado errado. Espero que tenha conseguido me fazer entender, porque o assunto é, realmente, meio nebuloso, tanto em seus detalhes quanto em suas consequências práticas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Liv,</p>
<p>me desculpe, mas acho que você abordou o problema pelo lado errado. Você defende o <i>método</i> de Marx, e está correta nisso; Primo Jonas &#8212; e eu também, como demonstrarei mais para a frente &#8212; trata não do método, mas dos <i>resultados</i> a que Marx chegou em sua pesquisa sobre a história e natureza do dinheiro. Deixe-me ver se me explico melhor.</p>
<p>Primo Jonas, que tem um ou dois pés lá pela bacia do Prata, polemiza não com Marx diretamente, mas com <a href="https://rolandoastarita.blog/2025/11/14/la-permanencia-de-la-barbara-reliquia/" rel="nofollow ugc">este artigo de Rolando Astarita</a>, aliás indicado explicitamante no texto. Ao fazê-lo, polemiza com um campo do trotskismo argentino próximo ao PTS/FT-QI, que no Brasil se representa pelo MRT que anima o Esquerda Diário. (Astarita saiu do PTS nos anos 1990 criticando-o, mas, convenhamos, é fruta que não caiu muito longe do pé.)</p>
<p>A polêmica movida por Primo Jonas, novamente, não diz respeito tanto a Marx, mas com a posição de Rolando Astarita, comum a muitos marxistas e encontrável no próprio Marx em certas passagens, de que moedas fiduciárias e sua falta de lastro afastam-se da economia real e compõem a chamada &#8220;economia especulativa&#8221;.</p>
<p>Tal afastamento se deveria, para Astarita, justamente à falta de lastro da moeda em ouro &#8212; que Astarita tenta argumentar, com base em flutuações do mercado de ouro, que &#8220;segue tendo um papel monetário no capitalismo contemporâneo&#8221;. Daí Astarita recorrer a uma expressão de Keynes, para quem o lastro do dinheiro em ouro seria uma &#8220;bárbara relíquia&#8221;, mas entra em contradição ao dizer seguir uma afirmação do trotskista belga Ernest Mandel, para quem &#8220;o preço do ouro&#8230; é o recíproco do papel moeda. No atual regime de troca de ouro, o preço do ouro representa o valor do dólar fixado pela Reserva Federal dos Estadus Unidos relativamente ao ouro&#8221;. Bastou isso para a coisa toda começar a dar voltas em falso, porque, para Astarita (seguindo Mandel), o preço do ouro expressa o valor que lhe é dado por uma moeda fiduciária. Daí em diante, o artigo já está perdido no que se propunha a defender. </p>
<p>Mas voltemos a Marx, citado muito de passagem por Astarita. Que tem ele a ver com essa polêmica?</p>
<p>Na obra de Marx, sobre moeda, assim como há passagens, digamos, &#8220;relacionistas&#8221; tanto nos <i>Grundrisse</i> quanto em <i>O Capital</i>, há outras claramente &#8220;essencialistas&#8221;, que estabelecem certas mercadorias como tendo <i>propriedades naturais</i> que as fariam o equivalente geral ideal. Veja-se algumas passagens nessa mesma linha &#8220;essencialista&#8221; tiradas do capítulo &#8220;O processo de troca&#8221; do livro I de <i>O Capital</i>, na tradução da Boitempo (copiei do PDF, por isso as citações vão sem páginas):</p>
<blockquote><p>Agora, o tipo específico de mercadoria em cuja forma natural, a forma de equivalente, se funde socialmente torna-se mercadoria-dinheiro ou funciona como dinheiro. Desempenhar o papel do equivalente universal no mundo das mercadorias torna-se sua função especificamente social e, assim, seu monopólio social. Entre as mercadorias que, na forma II, figuram como equivalentes particulares do linho e que, na forma III, expressam conjuntamente no linho seu valor relativo, uma mercadoria determinada conquistou historicamente esse lugar privilegiado: o ouro.</p></blockquote>
<blockquote><p>Até aqui, no entanto, conhecemos apenas a função do dinheiro de servir como forma de manifestação do valor das mercadorias ou como o material, no qual as grandezas de valor das mercadorias se expressam socialmente. A forma adequada de manifestação do valor ou da materialidade do trabalho humano abstrato – e, portanto, igual – só pode ser encontrada numa matéria cujos exemplares possuam todos a mesma qualidade uniforme. Por outro lado, como a diferença das grandezas de valor é puramente quantitativa, a mercadoria-dinheiro tem de ser capaz de expressar diferenças puramente quantitativas, podendo ser dividida e ter suas partes novamente reunidas como se queira. O ouro e a prata possuem essas propriedades por natureza.</p></blockquote>
<blockquote><p>Como todas as mercadorias são apenas equivalentes particulares do dinheiro, que é seu equivalente universal, elas se relacionam com o dinheiro como mercadorias particulares com a mercadoria universal. Vimos que a forma-dinheiro é apenas o reflexo, concentrado numa única mercadoria, das relações de todas as outras mercadorias. Que o dinheiro seja mercadoria é, portanto, uma descoberta que só realiza aquele que toma sua forma pronta para, a partir dela, empreender uma análise mais profunda desse objeto. O processo de troca confere à mercadoria, que ele transforma em dinheiro, não seu valor, mas sua forma de valor específica. A confusão entre essas duas determinações gerou o equívoco de considerar o valor do ouro e da prata como imaginário.</p></blockquote>
<blockquote><p>Do fato de o dinheiro, em funções determinadas, poder ser substituído por simples signos de si mesmo, derivou outro erro, segundo o qual ele seria um mero signo. Por outro lado, nisso residia a noção de que a forma-dinheiro da coisa é externa a ela mesma, não sendo mais do que a forma de manifestação de relações humanas que se escondem por trás dela. Nesse sentido, cada mercadoria seria um signo, uma vez que, como valor, ela é tão somente um invólucro reificado do trabalho humano nela despendido47. Mas considerar como meros signos os caracteres sociais que, num determinado modo de produção, aplicam-se às coisas – ou aos caracteres reificados que as determinações sociais do trabalho recebem nesse modo de produção – significa considerá-las, ao mesmo tempo, produtos arbitrários da reflexão [Reflexion] dos homens.</p></blockquote>
<blockquote><p>Quando, já no início da análise do valor, nos últimos decênios do século XVII, concluiu-se que o dinheiro era mercadoria, tal conhecimento dava apenas seus primeiros passos. A dificuldade não está em compreender que dinheiro é mercadoria, mas em descobrir como, por que e por quais meios a mercadoria é dinheiro.</p></blockquote>
<p>Daí em diante, Marx começa o capítulo sobre &#8220;O dinheiro ou a circulação de mercadorias&#8221; dizendo que &#8220;neste escrito, para fins de simplificação, pressuponho sempre o ouro como a mercadoria-dinheiro&#8221;, e assim segue pelo resto inteiro de <i>O Capital</i>.</p>
<p>Em resumo: para Marx, o ouro e a prata são a forma de equivalente universal <i>por natureza</i>, porque precedidas historicamente por trocas de mercadorias particulares que, por sucessivas abstrações e comparações entre seus respectivos valores, conduziram a um equivalente universal de valor cujas <i>propriedades físicas</i> teriam-no tornado o candidato ideal a tal lugar. Tais trocas, é claro, teriam se dado mediante relações sociais historicamente determinadas, pela ação social; tal afirmação, verdadeira quanto à <i>forma</i>, quanto o <i>método</i> com que Marx apreende o processo histórico, não diz muito quanto aos <em>resultados</em> dessas descobertas, que ele expôs o mais pormenorizadamente possível <i>em O Capital</i>. Para usar um vocabulário técnico da economia: Marx é, no que diz respeito à teoria da moeda, fundamentalmente um <i>metalista</i>.</p>
<p>Marx aplicou um método <i>correto</i> a pressupostos <i>equivocados</i>, ainda que historicamente condicionados; por isso, chegou a más conclusões quanto ao dinheiro. Algumas razões:</p>
<p><b>1)</b> A teoria momentária assumida por Marx foi tributária dos debates econômicos dos séculos XVI a XVIII, que giravam em torno das posições mercantilistas, fisiocratas e dos primórdios da economia liberal clássica. Ainda não havia dinheiro tal como o entendemos hoje (papel-moeda, dinheiro estritamente contábil, dinheiro eletrônico, etc.), muito menos as instituições que hoje gerenciam o funcionamento da emissão e circulação de dinheiro (bancos centrais, o BIS, o sistema SWIFT, etc.), em que a ruptura com o padrão-ouro em 1971 tornou inútil o debate sobre o lastro em ouro, porque transformou toda moeda, na prática, em moeda fiduciária. Os problemas colocados para Marx naquele momento histórico diziam respeito &#8212; por exemplo &#8212; à desvalorização do ouro e da prata pelo influxo de metais preciosos extraídos nas Américas pelas potências coloniais; ao debate sobre o chamado chamado <i>debasement</i>, ou seja, a desvalorização da cunhagem pela redução da porcentagem de ouro ou prata em moedas circulantes que mantinham o mesmo valor nominal, debatendo os economistas se isso resultava ou não em inflação; entre outros. Marx não tinha a menor condição de responder a problemas que são nossos; invertendo a via, não podemos assumir <i>todos</i> os problemas postos a Marx como se fossem nossos, sem um mínimo de reflexão crítica sobre sua pertinência atual, ou sobre os vieses próprios daquele tempo. A teoria monetária assumida por Marx pressupunha que o dinheiro resulta do intercâmbio de mercadorias até a formação de um equivalente geral; que esse equivalente geral ficou estabelecido como sendo o ouro (e também a prata), porque (historicamente, segundo Marx) se tratava de metais capazes de suportar enorme fracionamento sem perdas expressivas; que ouro e prata foram sendo paulatinamente desusados como mercadorias propriamente ditas (porque seria impossível valorar o ouro com base no ouro), até se cristalizar seu uso como equivalente geral e depois dinheiro cunhado.</p>
<p><b>2)</b> Como corolário da teoria econômica que adotou (seja para assumir, seja para criticar), Marx tratou o papel-moeda e o dinheiro a crédito (títulos de crédito, letras de câmbio, notas promissórias, etc.) como meras <i>expressões do valor do ouro</i>, criticando pesadamente John Locke e <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/John_Law_(economist)" rel="nofollow ugc">John Law</a> por considerarem &#8220;imaginário&#8221; o valor do ouro e da prata, e <a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7ois_V%C3%A9ron_Duverger_de_Forbonnais" rel="nofollow ugc">V. de Forbonnais</a>, Montesquieu e Hegel por considerarem o valor do dinheiro como &#8220;estritamente simbólico&#8221; (ou seja, sem lastro em metais preciosos); acusou-os todos, com base em <a href="https://www.treccani.it/enciclopedia/giovanni-francesco-pagnini_%28Enciclopedia-Italiana%29/" rel="nofollow ugc">Giovanni Francesco Pagnini</a>, de &#8220;sicofantas para o poder real, cujo direito de falsificação de moedas eles sustentaram, durante toda a Idade Média, com base nas tradições do Império Romano e no conceito de dinheiro dos Pandectas&#8221;. Esse pressuposto metalista é assumido acriticamente por qualquer marxista ortodoxo que se preze (incluindo Rolando Astarita, cujo artigo Primo Jonas critica), resultando daí, ainda em Marx, uma crítica ferrenha a qualquer forma de &#8220;capital fictício&#8221; (assunto que já rendeu bastante debate <a href="https://passapalavra.info/2023/02/147372/" rel="ugc">aqui</a>, <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152054/" rel="ugc">aqui</a>, <a href="https://passapalavra.info/2023/04/148098/" rel="ugc">aqui</a>, <a href="https://passapalavra.info/2012/08/62764/" rel="ugc">aqui</a>, <a href="https://passapalavra.info/2020/06/132188/" rel="ugc">aqui</a>&#8230;).</p>
<p><b>3)</b> Marx estudou a formação do dinheiro a partir de fontes que não avançaram muito além do que se sabia sobre história econômica por volta dos anos 1850; se estudou o que talvez existisse então de mais avançado e interessante sobre o assunto, tudo isso hoje é completamente ultrapassado. A historiografia econômica e a antropologia econômica posteriores a Marx, em especial a partir do final do século XIX, foi construindo muito robustamente provas históricas de que a troca de mercadorias pressuposta por Marx e pelos economistas que o antecederam nunca existiu historicamente (esse pressuposto é conhecido hoje como &#8220;mito do escambo primitivo&#8221;). Conferir especialmente, para ficar apenas nos clássicos, Philip Grierson (<i><a href="https://archive.org/details/cu31924030139095" rel="nofollow ugc">The silent trade</a></i>, 1903), Bronislaw Malinowski (<i><a href="https://sci-hub.se/http://www.jstor.org/stable/2223283" rel="nofollow ugc">The primitive economics of the Trobriand islanders</a></i>, 1911), Gustav Cassel (<i><a href="https://archive.org/details/bwb_KV-186-015_2" rel="nofollow ugc">Theory of Social Economy</a></i>, 1918), Georges Davy (<i><a href="https://archive.org/details/lafoijuretud00davy" rel="nofollow ugc">La foi jurée</a></i>, 1922) e, mais famosamente, Marcel Mauss no polêmico, fragmentário e incompleto <i>Essai sur le don</i> (1925), onde chegou a dizer: &#8220;Jamais parece ter havido, nem até uma época bastante próxima de nós, nem nas sociedades muito erradamente confundidas sob o nome de primitivas ou inferiores, algo que se assemelhasse ao que chamam a Economia Natural&#8221;, sendo &#8220;economia natural&#8221; outro nome para uma economia baseada no escambo. Mais recentemente, Jean-Michel Servet, economista radicado no CNRS francês, chegou a fazer uma historiografia do &#8220;mito do escambo primitivo&#8221; (<i><a href="https://www.persee.fr/doc/dhs_0070-6760_1994_num_26_1_1974" rel="nofollow ugc">La fable du troc</a></i>, 1994, e <i><a href="https://www.persee.fr/doc/numi_0484-8942_2001_num_6_157_2314" rel="nofollow ugc">Le troc primitif</a></i>, 2001), mostrando como ele só surgiu a partir do século XVIII pelas mãos de Cesare Beccaria, Adam Smith e do fisiocrata Turgot, que o haviam adotado de relatos de viajantes que retornavam das Américas, da África e da Oceania; naqueles relatos, o mito fora criado para &#8220;explicar&#8221; a existência de certas formas de moeda e de crédito nessas sociedades, sempre por meio de abstrações baseadas no comportamento individual de pessoas baseadas naquelas das sociedades europeias de onde vinham esses viajantes. Na antropologia econômica atual, o mito é maldito; para apresentar um exemplo entre muitos, Anne Chapman (<i><a href="https://sci-hub.se/https://www.jstor.org/stable/25131676" rel="nofollow ugc">Barter as a universal mode of exchange</a></i>, 1980) esmiúça o problema do &#8220;mito do escambo&#8221; até demonstrar que o dinheiro e o crédito sempre foram mais generalizados do que se imaginava, que muito do que se apresentava como &#8220;escambo&#8221; eram, na verdade, relações já medidadas por formas muito específicas de dinheiro próprias a cada sociedade, e que o escambo provavelmente nunca existiu na forma como o mito o apresenta, porque sempre se tratou de um &#8220;leito de Procusto&#8221; (expressão minha), de um modelo abstrato que nunca levou em consideração os fatos realmente verificados. Caroline Humphrey levou a questão mais adiante, demonstrando (em <i><a href="https://sci-hub.se/10.2307/2802221" rel="nofollow ugc">Barter and economic disintegration</a></i>, 1985) que o escambo só é verificável empiricamente em condições socioeconômicas específicas lá onde já existia dinheiro, e que nunca foi descrito um só exemplo de economia realmente existente baseada no escambo puro e simples, quanto mais a emergência do dinheiro a partir dele. </p>
<p><b>4)</b> O modelo abstrato imposto pelo &#8220;mito do escambo primitivo&#8221; pressupunha que <i>dentro</i> de uma determinada comunidade dita &#8220;primitiva&#8221; as pessoas faziam trocas entre si tal qual se faz hoje numa cidade moderna. A evidência historiográfica, arqueológica, linguística e cultural (mitos, lendas, história oral, etc.) demonstra, ao contrário disso, que dentro de uma mesma comunidade não havia escambo (ou seja: troca com base em equivalência de valor de objetos diferentes), reservando-se o tipo de troca mais próxima do que previa o modelo do escambo &#8212; mediante inúmeros rituais e precauções &#8212; para encontros com comunidades mais distantes, onde era literalmente impossível (por muitas razões: violência, guerra, dádiva, hospitalidade, <i>potlacht</i>, etc.) estabelecer equivalências de valor entre &#8220;isso&#8221; e &#8220;aquilo&#8221;. O que se verifica como fenômeno mais geral, com pretensão de universalidade, não é o surgimento de um equivalente geral como resultado de relações de trocas reiteradas, mas sim o aparecimento de <i>unidades de conta</i> com as quais se registrava obrigações, tributos, multas, compensações; em outras palavras, <i>não é a troca de mercadorias quem exigiu um equivalente universal, mas a dívida social quem exigiu um denominador comum</i>. Dívida e crédito precedem a mercadoria em milênios. Sociedades antigas funcionaram milhares de anos com moedas puramente contábeis, sem metal envolvido. Sistemas monetários lastreados em muitas formas de contabilidade de dívida e crédito podem funcionar sem lastro físico &#8212; e efetivamente funcionaram por milhares de anos antes da emergência do mercantilismo de onde Marx herdou seu metalismo. A estabilidade desses sistemas monetários dependeu de redes de confiança, rituais de compensação, mecanismos de crédito moral, não da produtividade do ouro ou de trocas reiteradas. Por essa via, a troca de mercadorias é apenas uma <i>forma muito tardia de relação econômica</i>, não o fundamento de todas. O foco marxista na mercadoria e sua troca obscurece práticas não-mercantis, economias de dádiva e instituições sociais baseadas em honra, dívida moral e reciprocidade verificadas empiricamente por todos os lados onde surgiram sistemas monetários muito anteriores ao lastro em ouro. Por esta perspectiva &#8212; muito próxima, aliás, da de Piotr Kropotkin, que não chegou a avançar tanto na mesma linha mas chegou quase lá &#8212; o dinheiro é sempre, desde o início, <i>regulação de dívidas em um contexto de autoridade política baseada na força e na violência atual ou potencial</i>. Deste modo, porque dependente de uma concepção equivocada quanto à origem histórica da mercadoria e da troca, a teoria marxista da moeda não se pode pretender <i>geral</i>, mas apenas &#8212; ao contrário do que o próprio Marx pretendeu &#8212; como teoria <i>ad hoc</i> para explicar o surgimento do capitalismo em certas áreas da Europa, não em outras. Teorias ainda mais recentes &#8212; p. ex., Patrick Spread em <i>Economics, anthropology and the origin of money as a bargaining counter</i> (2022) &#8212; vão numa linha bastante diferente (dinheiro como <i>métrica de influência social em ambiente competitivo</i>, não como meio de troca), mas partem da mesma crítica ao &#8220;mito do escambo primitivo&#8221; e da &#8220;economia natural&#8221; que está na raiz da teoria marxista da moeda.</p>
<p><b>5)</b> Esse tipo de crítica ao mesmo tempo historiográfica e antropológica bate de frente com certos marxistas que, na tentativa de salvar a teoria marxista do dinheiro, argumentam que Marx nunca pretendeu criar uma &#8220;teoria geral&#8221; do dinheiro e da mercadoria; argumentam que se trata de uma teoria local, historicamente situada, construída por Marx apenas para demonstrar os limites da teoria econômica <i>mainstream</i> e conceituar o capitalismo por contraste com outros modos de produção meramente esboçados. O próprio Marx demonstra o contrário; além de fazer muitos elogios à teoria do valor de&#8230; <i>Aristóteles</i> (sim, o filósofo grego), buscou fundar sua teoria da mercadoria e da moeda em dois exemplos históricos muito anteriores ao capitalismo &#8212; e <i>errou nos dois</i>, por falha das fontes. Quando Marx repetiu o mantra da &#8220;antiga comunidade indiana&#8221; onde &#8220;o trabalho é socialmente dividido sem que os produtos se tornem mercadorias&#8221;, teve como fonte os <i><a href="https://archive.org/details/historicalsketc01wilk/page/n7/mode/2up" rel="nofollow ugc">Historical Sketches on the South of India</a></i> (1810) de Mark Wilks e a <i><a href="https://archive.org/details/dli.csl.7252/mode/2up" rel="nofollow ugc">Modern India</a></i> (1852) de George Campbell; são dois livros fundamentais para a construção do mito da &#8220;aldeia indiana autárcica milenar&#8221;, verdadeiros &#8220;fósseis vivos&#8221; infensos a fatores como mobilidade social, migrações, colapso de unidades aldeãs por guerras, secas, expansão agrícola, castas, patriarcado, servidão por dívida, resistência camponesa, conflitos agrários, insurgências rurais etc., bastante destacados pela historiografia hindu mais recente &#8212; p. ex., <i><a href="https://archive.org/details/in.gov.ignca.5421" rel="nofollow ugc">Introduction to the study of Indian history</a></i> (1956), de <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Damodar_Dharmananda_Kosambi" rel="nofollow ugc">Damodar Dharmananda Kosambi</a>; <a href="https://archive.org/details/the-agrarian-system-of-mughal-india-1556-to-1707/mode/2up" rel="nofollow ugc">The agrarian system of Mughal India, 1556–1707</a> (1963), de <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Irfan_Habib" rel="nofollow ugc">Irfan Habib</a>; e <i><a href="https://archive.org/details/materialcultureandsocialformationsinancientindiaramsharansharma_41_e/mode/2up" rel="nofollow ugc">Material culture and social formations in Ancient India</a></i> (1983), de <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Ram_Sharan_Sharma" rel="nofollow ugc">Ram Sharan Sharma</a>. Com efeito, se Marx jamais poderia saber do que se escreveu depois de sua morte, não se pode dar crédito acrítico a historiografia ultrapassada sem ser cúmplice de erro. Na mesma linha, Marx tratou muito de passagem da formação de mercadorias no &#8220;Estado inca&#8221;, mas errou tanto ao considerar aquele ente político como um Estado, quanto ao desconhecer como a contabilidade avançada de um sistema complexo de reciprocidades nos <i>khipu</i> dispensou o uso de moeda no regime da <i>mita</i>, sendo pouquíssimos vestígios arqueológicos do que pode ter sido algum dinheiro encontrados apenas na costa dos Andes centrais e do norte, onde pode ter sido usado apenas para que uma incipiente classe de mercadores (p. ex., da cultura Chincha) realizasse comércio de longa distância com povos polinésios e do atual México para abastecer <i>kurakas</i> com bens de prestígio de circulação quase nula. (Sobre esse assunto, segui <a href="https://passapalavra.info/2020/09/133628/#comment-886890" rel="ugc">boas pistas de um comentário escrito por &#8220;Chaski&#8221; aqui no Passa Palavra</a>.) Se Marx errou nos dois exemplos particulares, ao tentar situar historicamente a transformação de valores de uso em valores de troca acertou parcialmente ao estabelecer que &#8220;a troca de mercadorias começa onde as comunidades terminam: no ponto de seu contato com comunidades estrangeiras ou com membros de comunidades estrangeiras&#8221;; mas errou ao supor que se tratasse de &#8220;mercadorias&#8221;, pois não havia troca equivalente com o estrangeiro, nem circulação mercantil interna ampla dos bens nas comunidades. Ao estabelecer que &#8220;a partir de então, as coisas que são mercadorias no estrangeiro também se tornam mercadorias na vida interna da comunidade&#8221;, errou mais uma vez.</p>
<p>Já me estendi bastante, e creio ter demonstrado o que precisava. Apesar de a teoria da moeda em Marx ser completamente ultrapassada no que diz respeito aos <i>resultados</i> a que Marx chegou aplicando seu método, isso não implica superação de sua <i>teoria da exploração</i>, tampouco do próprio <i>método</i>. Resta aplicá-lo aos resultados a que novas investigações chegaram para tentar recompor uma teoria monetária digna desse nome &#8212; pois assim a teoria da exploração seria a base de toda a economia, não apenas uma decorrência da transformação do trabalho em mercadoria. Quem tentou, ainda que fragmentariamente, avançar no sentido de uma nova teoria do valor que levasse em conta esses novos desenvolvimentos foi o finado David Graeber, ainda que de modo ensaístico, pouco sistemático e bastante fragmentário. É uma boa trabalheira, para quem se interessa pelo assunto.</p>
<p>Que tem tudo isso a ver com o acúmulo de ouro pela China <a href="https://www.newsweek.com/china-hoarding-gold-central-bank-reserves-investment-1840020" rel="nofollow ugc">desde pelo menos 2023</a>? A meu ver, tudo. Em termos estritamente geoeconômicos, basta olhar o que deixou o governo americano mais preocupado: esse acúmulo de ouro (que é <a href="https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-12-07/china-s-pboc-extends-gold-buying-streak-as-metal-s-rally-cools" rel="nofollow ugc">real</a>, <a href="https://asiamarkets.com/reason-china-gold-reserves-are-soaring/" rel="nofollow ugc">factual</a> e <a href="https://www.ft.com/content/abc39431-1755-4906-b11e-ee9e53baadfe" rel="nofollow ugc">incontroverso</a>)? Ou a simples possibilidade que o dólar deixasse de ser usado em transações comerciais bilaterais entre países, com a possível criação de uma &#8220;moeda dos BRICS&#8221;? Os dois fenômenos são parte de um mesmo processo, mas quem percorrer o noticiário recente encontrará facilmente a resposta.</p>
<p>Eis por que, Liv, desse ponto de vista que adoto, acho que você abordou o problema pelo lado errado. Espero que tenha conseguido me fazer entender, porque o assunto é, realmente, meio nebuloso, tanto em seus detalhes quanto em suas consequências práticas.</p>
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