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	<title>Nicolas Lorca &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A ilusão da radicalidade: Jones Manoel e o teatro da revolução (5)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nicolas Lorca]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Oct 2025 11:08:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Arthur Moura Desde os Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844) até O Capital (1867), Marx foi inflexível em demonstrar que a raiz da exploração não está em distorções episódicas da circulação, mas no modo de produção fundado na extração de mais-valia. É contra esse núcleo que ele dirige seu golpe: enquanto utópicos como Saint-Simon, Fourier e Owen [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Desde os <em>Manuscritos Econômico-Filosóficos</em> (1844) até <em>O Capital</em> (1867), Marx foi inflexível em demonstrar que a raiz da exploração não está em distorções episódicas da circulação, mas no modo de produção fundado na extração de mais-valia. É contra esse núcleo que ele dirige seu golpe: enquanto utópicos como Saint-Simon, Fourier e Owen concebiam alternativas baseadas na moralidade, na cooperação voluntária ou em comunidades-modelo, Marx denunciava que tais projetos, embora generosos, permaneciam dentro da lógica da sociedade burguesa. Eles não compreendiam a contradição objetiva entre capital e trabalho, tratando a dominação de classe como problema de vontade e não como estrutura histórica. Por isso, no <em>Manifesto Comunista</em> (1848), Marx e Engels afirmam que os socialistas utópicos “procuram remediar as misérias sociais para assegurar a existência da sociedade burguesa”, enquanto o socialismo científico nasce para dissolver essa própria ordem. Sua crítica a Proudhon, em <em>A Miséria da Filosofia</em> (1847), é emblemática: Proudhon acreditava que bastaria reformar o crédito, instituir um “Banco do Povo” e reorganizar as trocas para que a exploração fosse superada. Marx mostra que tais soluções atacam apenas a esfera da circulação, sem tocar na produção. Reformar a troca não elimina a exploração porque o núcleo da exploração não está no mercado, mas no trabalho assalariado como forma histórica específica de escravização do trabalhador ao capital. Aqui Marx inaugura o que José Chasin chama de ontologia da vida social: compreender que a emancipação não é produto de arranjos jurídicos ou morais, mas da transformação radical da base material de produção.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class=" wp-image-158034 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/frank-crowninshield-1928-268x300.jpg" alt="" width="315" height="353" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/frank-crowninshield-1928-268x300.jpg 268w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/frank-crowninshield-1928.jpg 322w" sizes="(max-width: 315px) 100vw, 315px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Esse embate atravessa todo o século XIX. Contra o socialismo vulgar, que reduzia o problema da exploração a injustiças pontuais — salários baixos, abusos individuais, más condições de trabalho —, Marx insistia na contradição estrutural: ainda que o salário subisse, a forma assalariada continuaria reproduzindo a alienação, pois o trabalhador não controla o produto de sua atividade. Contra os socialistas de cátedra (como Lassalle e mais tarde Bernstein), que defendiam reformas graduais dentro do Estado burguês, Marx reforça que o Estado é expressão da dominação de classe e que sua lógica não pode ser “neutra” frente ao conflito social. O reformismo não é apenas insuficiente, mas funcional ao capital porque adapta a luta dos trabalhadores à lógica da ordem, impedindo que a contradição se eleve ao patamar da totalidade. Por isso Marx, em suas críticas a Lassalle, ataca a ideia de que bastaria o Estado financiar cooperativas para “gradualmente” substituir o capital. A “ilusão do crédito” reaparece aqui: a tentativa de eliminar o capital sem suprimir a lógica da mercadoria. No cerne de todas essas críticas, Marx sempre retorna a três pilares:</p>
<ul>
<li class="li" style="text-align: justify;">Totalidade &#8211; o capitalismo não é um conjunto de abusos a corrigir, mas uma forma histórica da sociabilidade, fundada na produção de valor. Quem ataca apenas os efeitos (juros, preços, crédito) deixa intacta a essência.</li>
<li class="li" style="text-align: justify;">Centralidade da produção &#8211; a exploração não nasce na troca desigual, mas na produção, no fato de que o trabalhador cria mais valor do que recebe em salário. Sem abolir o trabalho assalariado, a exploração persiste.</li>
<li class="li" style="text-align: justify;">Emancipação pela prática de classe &#8211; a superação do capital não virá da moralidade, da boa vontade ou da intervenção estatal conciliatória, mas da ação autônoma da classe trabalhadora organizada enquanto sujeito histórico.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">É nesse sentido que Marx, já em 1850, ironiza os reformistas: “O crédito público e as formas de poupança não emancipam o trabalhador, apenas o tornam acionista de sua própria escravidão.” A crítica não é apenas econômica, mas ontológica: qualquer teoria que trate a exploração como defeito técnico ou moral acaba reproduzindo o horizonte da mercadoria.</p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, a tradição do reformismo encontrou terreno fértil. O Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1922, já nasceu sob a ambiguidade: reivindicava a revolução, mas sua prática esteve quase sempre orientada por um etapismo que postergava indefinidamente o horizonte socialista. O PCB assumiu a defesa da democracia burguesa como pré-condição, apostou em alianças com setores progressistas da burguesia e buscou ocupar espaços de mediação institucional. A retórica revolucionária nunca desapareceu de seus documentos e discursos, mas serviu cada vez mais como ornamento para uma prática legalista, parlamentar e integradora. O resultado foi a construção de uma esquerda que aprendeu a falar em revolução enquanto se movia no registro da conciliação. O marxismo, nesse contexto, tornou-se doutrina pedagógica, catecismo de partido, discurso moralizante que servia para formar militantes disciplinados, mas não sujeitos autônomos da luta de classes.</p>
<p><img decoding="async" class="wp-image-158033 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/romulus-and-remus-1928-300x197.jpg" alt="" width="370" height="243" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/romulus-and-remus-1928-300x197.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/romulus-and-remus-1928.jpg 490w" sizes="(max-width: 370px) 100vw, 370px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A crítica dos conselhistas ajuda a compreender esse processo com clareza. Otto Rühle advertia que a emancipação da classe não poderia vir de um partido que se colocava acima dela. Pannekoek insistia que o partido centralizado substitui a auto-atividade proletária por uma burocracia que decide em nome da base. Paul Mattick demonstrou como a social-democracia e os partidos comunistas se tornaram gestores da ordem, integrando-se à engrenagem do capital. Maurício Tragtenberg, em solo brasileiro, mostrou que o mesmo se dava nos sindicatos: a burocracia se autonomiza, transforma-se em carreira, passa a gerir a insatisfação ao invés de enfrentá-la. A forma partido, absolutizada, se converteu em aparelho de gestão da classe. O reformismo se justifica sempre pelo atraso da consciência de classe. Como os trabalhadores estariam marcados pela ideologia dominante e pela fragmentação social, diz-se que é preciso rebaixar a crítica para dialogar com eles. Em nome de “não se isolar”, abdica-se da radicalidade. Em nome de falar às massas, adapta-se a teoria ao senso comum. Assim, o reformismo não só nasce do atraso, mas o reforça: legitima o rebaixamento como critério e neutraliza qualquer esforço de elevação da consciência. O que se apresenta como realismo político é, na verdade, a forma ideológica da rendição.</p>
<p style="text-align: justify;">A polêmica entre Rosa Luxemburgo e Eduard Bernstein ilumina de modo exemplar a diferença entre a popularização revolucionária e a vulgarização reformista. Bernstein afirmava, no final do século XIX, que o capitalismo se tornara mais estável, menos sujeito a crises, e que o socialismo poderia ser alcançado pelo acúmulo de reformas no interior da democracia burguesa. Para ele, o movimento era tudo, o fim nada. Rosa demonstrou a falsidade dessa lógica, provando que as crises não haviam desaparecido, mas apenas se deslocavam para a periferia do sistema, sustentadas pela expansão colonial e pelo crédito. Mostrou também que as reformas, quando convertidas em horizonte, não preparam a revolução, mas a desarmam. Elas servem como válvula de escape, estabilizam o sistema e impedem o transbordamento da luta. Sua conclusão foi clara: reforma e revolução não se somam, mas se opõem. A primeira, erigida em estratégia, integra a classe ao capital; a segunda exige ruptura com a totalidade do sistema. Rosa deixou explícito que não se tratava de escolher entre dois caminhos igualmente válidos, mas de afirmar que a via reformista dissolve o próprio sentido da luta socialista.</p>
<p><img decoding="async" class="wp-image-158031 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-300x225.jpg" alt="" width="436" height="327" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930.jpg 480w" sizes="(max-width: 436px) 100vw, 436px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Esse ensinamento mantém sua força ao longo do século XX. No Brasil, o PCB seguiu à risca a lógica bernsteiniana sob a roupagem leninista. Defendia a revolução em palavras, mas subordinava toda sua prática a etapas democrático-burguesas. As alianças com setores da burguesia nacional, a confiança na democracia formal e a busca pela legalidade foram os pilares de sua linha política. O partido oferecia às massas um horizonte de cidadania e progresso, mas não de ruptura. A cada momento decisivo, optava pela integração: em 1935, com a Aliança Nacional Libertadora; no pós-guerra, com a defesa da legalidade democrática; na ditadura, com o projeto de frente ampla; na transição, com o apoio ao pacto que manteve intactas as estruturas da ordem. O discurso revolucionário se manteve, mas esvaziado, funcionando apenas como identidade simbólica. O resultado foi uma tradição que moldou gerações inteiras de militantes, habituados a falar em socialismo mas a agir como gestores da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A recente movimentação de Jones Manoel em direção à disputa eleitoral de 2026, com o projeto de construir uma frente denominada “esquerda radical” — formada por UP, PSOL, PSTU, PCO e o próprio PCBR — não pode ser analisada em seus próprios termos, como se representasse uma novidade histórica ou a emergência de um polo revolucionário na política brasileira, como busquei demonstrar nos parágrafos anteriores. Pelo contrário: trata-se de mais uma atualização do velho reformismo, travestido em radicalidade retórica e midiatização militante; é a tentativa de canalizar a indignação popular e a juventude proletária para dentro da velha forma burguesa do Estado, reeditando as armadilhas que já levaram ao fracasso o PT e toda a esquerda social-democrata do século XX. Do ponto de vista marxista libertário, como já advertira Nildo Viana em seu texto <em>Direita e Esquerda: duas faces da mesma moeda</em>, a divisão convencional entre esquerda e direita é apenas uma disputa interna no campo burguês. A esquerda aparece como o polo que promete reformas, mas sempre nos marcos do capital e do Estado, funcionando como mecanismo de absorção das demandas populares. Jones Manoel, ao tentar reconstituir uma “unidade radical” entre partidos notoriamente burocráticos, nada mais faz do que reafirmar essa lógica. Trata-se de uma “radicalidade” de vitrine, cuja função é mobilizar o descontentamento social e redirecioná-lo para o terreno seguro das eleições, das candidaturas, das alianças de cúpula e da manutenção da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A falácia central das teses de Jones está em acreditar que uma candidatura presidencial comunista poderia alterar qualitativamente a correlação de forças no Brasil. O máximo que poderia ocorrer seria uma reedição farsesca das velhas candidaturas de esquerda, com um programa inflado de retórica anticapitalista, mas funcionalmente integrado ao jogo institucional. Não há qualquer perspectiva de ruptura real no interior de um Estado burguês dependente como o brasileiro: a máquina estatal é estruturada para reprimir a auto-organização popular e preservar a acumulação capitalista. Fingir que se pode “usar” o Estado para fins emancipatórios é a mais antiga das ilusões reformistas — e também a mais perigosa, porque naturaliza o poder burguês e disciplina a classe trabalhadora sob a bandeira da legalidade. O PCBR de Jones Manoel não passa, até aqui, de um coletivo sem registro, dependente da filiação a partidos já existentes. Isso significa que toda a sua “radicalidade” será imediatamente submetida às regras eleitorais da burocracia estatal. Sua força real reside menos em bases proletárias organizadas e mais em sua presença midiática, construída no algoritmo das redes e no jogo da atenção digital. Eis a contradição: Jones apresenta-se como porta-voz do marxismo revolucionário, mas atua como gestor de uma marca política, igualando-se aos webcomunistas que transformam a crítica em carreira. A candidatura, nesse sentido, é apenas a extensão natural de sua trajetória como influencer: ampliar alcance, consolidar autoridade e buscar institucionalidade, ainda que à custa da autonomia popular.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158032 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/portrait-of-a-man-1929-207x300.jpg" alt="" width="318" height="461" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/portrait-of-a-man-1929-207x300.jpg 207w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/portrait-of-a-man-1929-289x420.jpg 289w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/portrait-of-a-man-1929.jpg 310w" sizes="auto, (max-width: 318px) 100vw, 318px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Cada um desses partidos possui um longo histórico de disputas internas, personalismos e submissão à via eleitoral. A aliança entre eles não aponta para uma revolução, mas para a tentativa de construir uma terceira via reformista, uma espécie de “PT rejuvenescido”, capaz de disputar espaço com o lulismo e com outras frações. A retórica da radicalidade serve apenas como embalagem de marketing, vendendo ao público juvenil e militante a sensação de novidade, enquanto repete velhas fórmulas gastas. O que Jones Manoel ignora — ou deliberadamente esconde — é que a emancipação proletária não pode se dar pela via do Estado. O Estado é a forma política da dominação de classe, e não pode ser apropriado para outros fins. A verdadeira alternativa não está em alianças partidárias ou candidaturas presidenciais, mas na construção da autogestão: conselhos de trabalhadores, redes de solidariedade popular, experiências de democracia direta que escapem à lógica institucional. A história mostra que toda vez que o movimento operário confiou na via eleitoral e nos partidos de cúpula, foi derrotado, cooptado ou massacrado. O destino de uma eventual candidatura de Jones não será diferente: ou recua para a moderação, ou é esmagada pelo aparato repressivo, restando apenas como peça de museu do radicalismo domesticado.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a postura de Jones reforça uma dimensão profundamente autoritária da política. Ele se apresenta como líder intelectual e carismático, portador da “linha correta” do marxismo, e pretende concentrar em sua figura a representação de uma suposta esquerda radical. Essa centralização personalista é típica das burocracias que se erigem em nome da classe, mas atuam acima dela, falando em seu lugar e silenciando suas expressões autônomas. Ao invés de estimular a auto-organização das massas, a candidatura de Jones reproduz o velho esquema: massas como base de apoio, partido como vanguarda dirigente, candidato como rosto midiático. O resultado é o oposto da emancipação: a substituição da classe por seus representantes.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-158030 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/babe-ruth-c-1936.jpegLarge-169x300.jpeg" alt="" width="241" height="428" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/babe-ruth-c-1936.jpegLarge-169x300.jpeg 169w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/babe-ruth-c-1936.jpegLarge-237x420.jpeg 237w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/babe-ruth-c-1936.jpegLarge.jpeg 338w" sizes="auto, (max-width: 241px) 100vw, 241px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A crítica marxista libertária nos obriga a denunciar essa mistificação. A candidatura de Jones Manoel não é a emergência de uma esquerda radical, mas a repetição do ciclo reformista, agora embalado pelo marketing digital e pela estética comunista. A função histórica de tal projeto é conter, domesticar e desviar a energia das lutas sociais para o terreno seguro das urnas. É, em última instância, uma operação de neutralização: transformar a indignação proletária em combustível eleitoral para partidos que não têm qualquer horizonte real de ruptura com o capital. Aos trabalhadores, à juventude e aos militantes que buscam transformação, cabe não se iludir com tais projetos. O desafio não é apoiar uma candidatura “radical” em 2026, mas reconstruir práticas autônomas de organização popular, capazes de romper com o capital e o Estado. A revolução não virá das urnas, mas das ruas, das fábricas, das escolas, das periferias. O comunismo não é uma candidatura, mas um movimento real de destruição das formas de dominação. Contra a farsa da esquerda institucional, cabe afirmar a necessidade da autogestão e da revolução social.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 7 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157738/">Parte 1</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157779/">Parte 2</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157823/">Parte 3</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157989/">Parte 4</a><br />
Parte 5<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158060/" target="_blank" rel="noopener">Parte 6</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158100/" target="_blank" rel="noopener">Parte 7</a></em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são do artista Alexander Calder</em></p>
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		<title>A ilusão da radicalidade: Jones Manoel e o teatro da revolução (4)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nicolas Lorca]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Oct 2025 10:52:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A vulgarização da teoria, ainda que vestida de pragmatismo, nada mais é do que a escolha pelo caminho da reforma. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Uma das posições mais recorrentes no campo da esquerda é aquela que defende a adaptação da crítica revolucionária ao nível de consciência imediata das massas. O argumento central é simples: como as massas se encontram em atraso político, qualquer esforço que vá além de sua consciência atual corre o risco de isolamento; por isso, seria necessário vulgarizar a teoria, simplificar a crítica e atuar nos limites do possível. Essa posição, no entanto, expressa um desvio fundamental do ponto de vista marxista: transforma a limitação objetiva do presente em justificativa para a renúncia da perspectiva revolucionária. Para o marxismo, a consciência das massas não é uma essência imutável, mas uma determinação histórica e social. O atraso político não é um dado natural, mas o resultado da dominação ideológica da burguesia, do peso das tradições conservadoras, da fragmentação do proletariado e do papel das instituições reformistas em amortecer os conflitos de classe. Adaptar-se a esse atraso significa, em última instância, reproduzi-lo. O papel da teoria revolucionária nunca foi simplesmente espelhar a consciência existente, mas desvelar a realidade objetiva das relações sociais e apontar para sua superação. Marx não escreveu <em>O Capital</em> para confirmar o que o operário já sabia, mas para revelar a essência oculta da exploração capitalista, mostrando que o salário não é a remuneração justa do trabalho, mas a forma mascarada da extração de mais-valia.</p>
<p style="text-align: justify;">A vulgarização do marxismo surge justamente quando, em nome da comunicação com as massas, a teoria é reduzida a slogans, frases de efeito e conteúdos adaptados ao consumo imediato. Não se trata de tornar a teoria acessível — tarefa legítima —, mas de amputar sua densidade ontológica para transformá-la em produto pedagógico e, cada vez mais, em mercadoria comunicacional. O marxismo, então, deixa de ser instrumento de organização da luta de classes e se converte em linguagem de identidade, em espetáculo de conhecimento. Essa adaptação, apresentada como aproximação das massas, cumpre a função inversa: preserva o atraso, bloqueia o salto da consciência e mantém o horizonte político dentro da ordem estabelecida. O problema do isolamento é, nesse sentido, mal colocado. A história mostra que todo movimento revolucionário verdadeiro nasce em isolamento relativo. Marx e Engels, no século XIX, eram minoritários frente às correntes dominantes do socialismo utópico e do reformismo. Lenin, antes de 1917, era isolado não só frente à burguesia, mas também dentro do próprio movimento operário russo, dividido entre mencheviques e populistas. Rosa Luxemburgo enfrentou o isolamento dentro da social-democracia alemã quando denunciou a traição parlamentar do SPD. Em todos esses casos, o isolamento não foi sinal de erro, mas de coerência diante da hegemonia burguesa e reformista. O verdadeiro perigo não está em ser minoria, mas em renunciar à crítica para evitar o isolamento. Isso conduz ao reformismo, que se dissolve na ordem e abdica da revolução em nome de uma integração supostamente pragmática.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-157995 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1955-300x193.jpg" alt="" width="412" height="265" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1955-300x194.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1955-341x220.jpg 341w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1955.jpg 544w" sizes="auto, (max-width: 412px) 100vw, 412px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista marxista, portanto, a posição que defende a adaptação ao atraso das massas não é uma estratégia de inserção, mas uma forma de legitimação da ordem. Ela naturaliza a debilidade da esquerda revolucionária e a transforma em argumento contra a radicalidade. Em vez de trabalhar pela elevação da consciência, reforça a lógica segundo a qual é preciso falar “apenas o que as massas querem ouvir”, mesmo que isso signifique renunciar à crítica do Estado, da mercadoria e da democracia burguesa. Essa é a essência do progressismo: oferecer às massas um simulacro de radicalidade que não ultrapassa os limites da sociedade capitalista. O marxismo exige outra postura. Reconhece as limitações do presente, mas não se adapta a elas. Mantém a crítica radical mesmo em isolamento, porque sabe que a função da teoria não é reproduzir a consciência existente, mas abrir caminho para sua superação. Como afirmou Rosa Luxemburgo, a alternativa segue posta: reforma ou revolução, socialismo ou barbárie. A vulgarização da teoria, ainda que vestida de pragmatismo, nada mais é do que a escolha pelo caminho da reforma — um caminho que, em última instância, leva à derrota histórica do proletariado. Essa discussão sobre reforma e revolução, sobre manter a crítica radical mesmo em meio ao isolamento, ajuda a iluminar também o uso histórico da própria sigla PCBR. Se hoje ela reaparece como desdobramento da crise recente do PCB, é preciso lembrar que já em 1968 o nome Partido Comunista Brasileiro Revolucionário carregava o peso de uma dissidência contra o etapismo e o pacifismo do velho Partidão.</p>
<p style="text-align: justify;">O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), surgido em 1968, inscreve-se em um momento histórico de crise da esquerda brasileira após o golpe de 1964. Sua fundação por Jacob Gorender, Mário Alves e Apolônio de Carvalho expressa uma cisão real com o PCB no plano programático, já que suas teses etapistas e a orientação pacifista se mostraram incapazes de enfrentar a ditadura militar. O PCBR nasce, portanto, sob o signo de uma radicalidade retórica: recusava a via democrático-burguesa e a estratégia de aliança com a burguesia nacional, defendendo a imediaticidade da revolução socialista e a centralidade da luta armada. No entanto, à luz do materialismo histórico dialético, essa ruptura mostrou-se parcial: apesar do discurso intransigente, o PCBR permaneceu preso às formas e ao imaginário burocrático do movimento comunista do século XX, reproduzindo a lógica do partido de vanguarda centralizado e hierárquico.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-157994 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/hyperbola-1954-300x241.jpg" alt="" width="413" height="332" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/hyperbola-1954-300x241.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/hyperbola-1954.jpg 435w" sizes="auto, (max-width: 413px) 100vw, 413px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O contraste entre o PCBR histórico e o PCBR de Jones Manoel é revelador: se o primeiro, fundado em 1968 por Mário Alves, Apolônio de Carvalho e Jacob Gorender, surgiu como cisão contra o etapismo e o pacifismo do PCB, reivindicando a imediaticidade da revolução socialista e a centralidade da luta armada, o segundo nasce como seu avesso, em plena adaptação à institucionalidade burguesa. Enquanto o PCBR original buscava negar as alianças com a burguesia nacional e recusava a via eleitoral, ainda que preso ao imaginário burocrático do partido de vanguarda, o projeto encabeçado por Jones assume a burocracia como forma e o reformismo como conteúdo, apostando numa frente eleitoral de “esquerda radical” que reedita, em chave digital, as velhas ilusões da conciliação. A ironia histórica é que, se o PCBR dos anos 1960 pecava pelo voluntarismo e pelo excesso de radicalidade estratégica, o PCBR de Jones se caracteriza pela ausência completa de horizonte revolucionário, limitando-se a administrar sua imagem midiática e a negociar alianças dentro da ordem. Trata-se, portanto, não de continuidade, mas de negação farsesca: a radicalidade histórica é substituída por um personalismo domesticado, que faz da ruptura apenas uma retórica vendável.</p>
<p style="text-align: justify;">O marxismo libertário de Otto Rühle e Anton Pannekoek fornece um ponto de partida decisivo para essa análise. Ambos denunciavam a burocratização do marxismo a partir do stalinismo, mas já em Lenin identificavam o germe de uma concepção autoritária da organização, que reduz a classe trabalhadora a massa de manobra de um partido dirigente. O PCBR, ao mesmo tempo em que criticava o etapismo e a conciliação do PCB, mantinha-se dentro do mesmo paradigma de vanguarda dirigente e centralização partidária, transferindo a mediação da emancipação para uma estrutura organizativa fechada, clandestina, hierárquica, incapaz de se constituir como auto-organização do proletariado. Nesse sentido, embora se apresentasse como alternativa revolucionária, não rompeu com o núcleo fundamental da ideologia da representação, que Nildo Viana aponta como uma das formas centrais de alienação política. A defesa da luta armada, embora historicamente compreensível diante da violência da ditadura, assume no PCBR um caráter militarista que carecia de lastro orgânico nas lutas concretas da classe. Maurício Tragtenberg, em sua crítica à burocracia sindical e partidária, mostrou como as organizações revolucionárias podem degenerar em aparelhos separados da classe, funcionando como substitutos ao invés de instrumentos da autoatividade popular. O voluntarismo armado do PCBR, ao não enraizar-se no cotidiano das lutas proletárias urbanas e camponesas, transformou a luta revolucionária em uma operação de comandos, mais próxima de um esquema militar do que de um processo de emancipação. Aqui se evidencia uma contradição central: ao pretender superar o reformismo, o PCBR acaba por cair no isolamento de pequenos grupos armados, afastando-se da perspectiva de massificação e auto-organização da classe trabalhadora.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-157993 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-300x226.jpg" alt="" width="414" height="312" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-300x226.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958.jpg 439w" sizes="auto, (max-width: 414px) 100vw, 414px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O documento do PCBR, ao propor a revolução socialista imediata, rejeita explicitamente a noção de “burguesia nacional progressista” e denuncia o imperialismo como núcleo da dominação. Trata-se de um avanço em relação à linha do PCB. No entanto, José Chasin nos lembra que o marxismo, enquanto ontologia da vida social, não pode ser reduzido a um receituário estratégico ou a um plano de poder. O PCBR ainda concebia a revolução como conquista de Estado e como reorganização da sociedade a partir de cima, sem romper com a forma-Estado e sem projetar a auto-emancipação do proletariado como sujeito histórico. Dessa forma, mesmo ao se colocar contra a conciliação, permanecia atado à lógica da reprodução da dominação por meio de novas formas de centralização política.</p>
<p style="text-align: justify;">A herança stalinista se manifesta também na concepção de partido. O PCBR defendia uma organização centralizada, com disciplina férrea e clandestinidade permanente. Essa forma, ainda que compreensível em face da repressão, reproduzia a ideia de que a consciência revolucionária deveria ser introduzida de fora da classe, cabendo a um núcleo dirigente a tarefa de conduzir as massas. Rühle já advertia que o partido político, nesse molde, deixa de ser instrumento e torna-se fim em si mesmo, desenvolvendo interesses próprios e afastando-se da autoatividade dos trabalhadores. O PCBR não rompeu com essa lógica; apenas a revestiu de um discurso mais radical e intransigente. À luz do materialismo histórico dialético, podemos compreender o PCBR como síntese de um movimento contraditório: representava, de um lado, a justa recusa ao reformismo do PCB e a tentativa de recuperar a perspectiva revolucionária; de outro, reincidia nos limites da tradição burocrática e militarista do comunismo do século XX. Como observa Nildo Viana, o marxismo revolucionário não se confunde com as formas degeneradas que se cristalizaram em partidos burocráticos e Estados socialistas, pois sua essência é a emancipação humana integral e a auto-organização do proletariado. O PCBR não foi capaz de realizar essa ruptura essencial.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-157990 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ear-of-earth-1960-300x241.jpg" alt="" width="465" height="374" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ear-of-earth-1960-300x241.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ear-of-earth-1960.jpg 435w" sizes="auto, (max-width: 465px) 100vw, 465px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O saldo histórico do PCBR é, portanto, ambivalente. Seu heroísmo diante da ditadura e sua recusa à conciliação merecem ser reconhecidos. Mas a análise crítica nos obriga a perceber que sua derrota não se deveu apenas à repressão brutal do regime militar, mas também às suas próprias insuficiências teóricas e práticas: ausência de enraizamento de classe, concepção de partido burocrática, fetichização da luta armada e subordinação da emancipação à conquista do Estado. Em última instância, o PCBR é testemunho de como a radicalidade aparente pode conviver com a permanência de estruturas ideológicas herdadas, reforçando a necessidade de um marxismo antiautoritário e libertário. Hoje, revisitar esse documento é essencial para compreender a genealogia do reformismo e do radicalismo no Brasil. Ao passo que o PCB persistiu como força conciliadora, e figuras como Jones Manoel atualizam essa função em chave midiática e institucional, o PCBR representa a memória de uma ruptura inacabada. Sua crítica ao etapismo foi justa, mas sua prática não logrou realizar a emancipação. Para que a história não se repita como farsa, é preciso retomar o fio do marxismo libertário, que recusa tanto a conciliação parlamentar quanto a substituição militarista e recoloca no centro a autoatividade da classe trabalhadora como sujeito da emancipação.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 7 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157738/">Parte 1</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157779/">Parte 2</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157823/">Parte 3</a><br />
Parte 4<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/158027/" target="_blank" rel="noopener">Parte 5</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158060/" target="_blank" rel="noopener">Parte 6</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158100/" target="_blank" rel="noopener">Parte 7</a></em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são do pintor Nicolas Carone</em></p>
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		<title>“Alô… já copiamos a tua voz”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nicolas Lorca]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Oct 2025 11:43:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[O que muitos não se atentam é que nós já temos a nossa voz copiada em vários lugares, principalmente nos aplicativos de mensagem, pois é muito conveniente mandar mensagem de voz. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>[1]</sup></a></h3>
<p style="text-align: justify;">Toda tecnologia costuma ficar mais acessível com o passar do tempo, com <em>softwares</em> cada vez mais simples de usar e baratos para se adquirir; com os de inteligência artificial não é diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos agora as primeiras notícias da cópia de voz utilizando inteligência artificial (IA) por golpistas e parte de amostras de som que precisam, nós mesmos damos a eles. Um exemplo que foi dado recentemente é de quando recebemos uma ligação em que ninguém fala e nós respondemos com “alô”, “tem alguém aí”, “quem tá falando?” e só essas palavras são suficientes para funcionarem como amostra de voz para reproduzirem com grande grau de similaridade qualquer conversa, quanto mais amostras alguém tiver da fala de uma pessoa mas ela consegue reproduzir a mesma, e isso já era conhecido nas tecnologias chamadas de <em>deep fake</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">O quê muitos não se atentam é que nós já temos a nossa voz copiada em vários lugares, principalmente nos aplicativos de mensagem, pois é muito conveniente mandar mensagem de voz. Alguns que se valem da propaganda de criptografia ponta a ponta agora compartilham nossos dados com suas IAs, como é o caso do WhatsApp, outros nunca foram criptografados de fato e então qualquer mensagem de voz pode ser utilizada, sem falar a possibilidade de alguém acessar as mensagens de um conhecido tanto no aplicativo de origem quanto de destino, ou seja, se formos pensar já temos a nossa voz copiada em muitos lugares com muitas pessoas e empresas diferentes, portanto a possibilidade de conseguirem amostras de voz é muito grande.</p>
<p style="text-align: justify;">Como podemos perceber, com tantas amostras de nossa voz espalhadas a maior preocupação nesse momento, e neste artigo, é o que podemos fazer para mitigarmos os efeitos de alguém tentar se passar pela gente. É pouco eficaz utilizar diversos aplicativos de segurança porque além aumentar a complexidade de programas de segurança que precisamos manter atualizados, os golpes vão ficando cada vez mais sofisticados. Nesse sentido a melhor coisa é termos boa organização e gestão sobre aquilo que interessa a eventuais golpistas, que são os bens que eles podem usar e os mais comum são os financeiros obtidos pela Internet, pois o dinheiro digital é fácil de movimentar.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma boa prática já abordada em outros artigos é cuidar das suas finanças somente em meios escolhidos para isso, por exemplo, fazer transações de alto volume por computador em local confiável e  em períodos específicos como o diurno. Além disso, também estabelecer uma lista de confiança das pessoas ou entidades com quem faz transações. No caso das entidades, já costumamos ter um aplicativo específico, como os bancos, mas com pessoas é melhor criar uma lista de favoritos. Mas criar essa lista não é tão simples quanto pegar o papel e usar uma caneta, é necessário usar aplicativos confiáveis com métodos confiáveis, como exemplo vamos usar o Signal pois, diferente de outros aplicativos de mensagem, ele permite marcar as pessoas como verificadas (como na figura a seguir), colocando no contato inclusive um símbolo de escudo com a palavra “Verificado” para nos ajudar a recordar que é essa pessoa já foi conferida.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-157802 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/aaa-300x43.jpg" alt="" width="300" height="43" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/aaa-300x43.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/aaa-1024x145.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/aaa-768x109.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/aaa-640x91.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/aaa-681x96.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/aaa.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Toda vez que o Signal cria uma conversa, ele estabelece uma chave de comunicação com a pessoa vinculada ao aparelho, ou seja, se ela trocar de aparelho, vai ser uma outra chave de comunicação e se uma outra pessoa fingir ser o nosso contato, também vai ter uma chave de comunicação diferente. Para verificar uma pessoa, o ideal é que ambos se encontrem presencialmente, troque uma mensagem para cada lado tipo “oi” ou “alô”, e depois da conversa, cada um clica no nome do usuário da conversa em seu <em>smartphone</em>, e escolhe a opção “Ver número de segurança”. Este número deve ser conferido pelos dois, os 12 conjuntos, mas tem a facilidade de usar a câmera e verificar o QR Code. Uma vez feita a conferência e confirmados os números, pode-se selecionar a opção “Marcar como verificado”. Feito isso você já pode dizer para seu contato que só vai aceitar fazer transações com ele por esse aplicativo, podendo continuar utilizando outros aplicativos para conversa do dia a dia. Assim, supondo que um golpista converse com você, na hora que ele pedir para transferir para uma chave PIX você diz para mandar pelo outro aplicativo conforme combinado, o golpista provavelmente não vai saber qual é esse outro aplicativo e isso já vai ser um indicativo que você não está conversando com o seu contato verdadeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Naturalmente é muito difícil fazer isso para todas as pessoas de nossas vidas mas a gente pode reduzir para aquelas pessoas mais próximas e para as demais dizemos para esperar um ou dois dias, pois uma das necessidades desses golpistas que usam voz por IA é conseguirem fazer a transação em poucos minutos. No futuro talvez a gente consiga ter um <em>software</em> livre que funciona apenas localmente no nosso smartphone com digitação por voz, o quê ajudaria evitar que em todo lugar exista amostras de nossa voz, mas no momento infelizmente não temos como garantir isso. O recomendável é usar cada vez menos mensagem por voz e digitar o texto sempre que precisar conversar, mas se acharem que isso é pouco prático fica mais importante fazer os acordos para aqueles que eventualmente possam precisar de uma transferência bancária rápida. No mais, valem outras recomendações: se for empresa prefira pagar por boleto, no PIX presencial sempre confirme o destinatário que aparece no seu aplicativo antes de enviar, e para um PIX feito de modo totalmente digital e que a chave veio por aplicativo confirme nome e a instituição financeira que vai receber e se possível CPF também.</p>
<p style="text-align: justify;">Segue sugestão de ações para melhoria de segurança:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>conversem com família é amigo sobre esses golpes de voz com IA;</li>
<li>faça uma lista de pessoas próximas com quem pretende ter transações financeiras;</li>
<li>combine e crie com elas meios e processos de comunicação confiáveis para fazer essas transições e outras atividades.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Boa comunicação a todos!</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>[1]</sup></a> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</p>
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