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	<title>Brasil &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Bugio: cultura de trabalho intermitente e sem registro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 24 Sep 2026 16:09:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[O patronato nunca está satisfeito. Não basta a crueldade do trabalho intermitente ter sido legalizada. Para essa classe, a qual inclui a pequena-burguesia cujos donos do Bugio são bons representantes, é preciso negar qualquer direito vigente aos trabalhadores. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Leo Vinicius</h3>
<p style="text-align: justify;">Um bar que não assina a carteira de trabalho de funcionários, mantendo-os na informalidade, o que, em tese, configuraria fraude trabalhista e previdenciária. Certamente isso não surpreenderia ninguém, apesar da ilegalidade, dada a realidade do capitalismo, ainda mais em fase de supressão de direitos trabalhistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas quando se trata de um bar que se apresenta também como Centro Cultural ou Casa de Cultura, que recebe verba pública e que mantém atrações para manter um nicho de consumidores de esquerda ou progressistas para suas cervejas e bebidas, então essas práticas podem começar a surpreender um pouco.</p>
<figure id="attachment_159869" aria-describedby="caption-attachment-159869" style="width: 450px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-159869" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/charb.jpg" alt="Charge de Charb" width="450" height="450" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/charb.jpg 450w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/charb-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/charb-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/charb-420x420.jpg 420w" sizes="(max-width: 450px) 100vw, 450px" /><figcaption id="caption-attachment-159869" class="wp-caption-text">Charge de Charb</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O objetivo aqui não é causar surpresa a ninguém, mas sim trazer informação a eventuais frequentadores do bar, da mesma forma que eu gostaria de ser informado sobre sistemáticas violações de direitos dos trabalhadores em comércios que eu frequentasse ou consumisse. No capitalismo, a realidade do trabalho tende necessariamente a ser apagada assim como o próprio trabalhador. Apesar de ser através do trabalho humano que se gera riqueza e o lucro dos patrões, para os capitalistas tanto melhor quanto mais o trabalhador é tornado invisível.</p>
<p style="text-align: justify;">Bugio é uma cervejaria da região de Florianópolis, com dois bares de mesmo nome. O bar localizado no Centro da cidade é o que concentra mais público e atrações. Ele fica exatamente na mesma rua do prédio do Ministério do Trabalho, a apenas 85 metros de distância dele, ou seja, apenas 1 minuto a pé.</p>
<figure id="attachment_159870" aria-describedby="caption-attachment-159870" style="width: 722px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-159870 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/maps.png" alt="" width="722" height="364" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/maps.png 722w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/maps-300x151.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/maps-640x323.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/maps-681x343.png 681w" sizes="(max-width: 722px) 100vw, 722px" /><figcaption id="caption-attachment-159870" class="wp-caption-text">Imagem do Google Maps da fachada do Bugio Centro, em março de 2026.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Quando o Bugio do Centro foi aberto em 2021, essa região do centro-leste da cidade já tinha um histórico, desde a década anterior, de ter alguns bares frequentados por um perfil de público que, para facilitar, eu chamaria de progressista ou de esquerda. O tipo de atrações musicais e até mesmo debates co-promovidos pelo Bugio consolidaram um perfil de público, para consumir sua cerveja e suas bebidas, que tende a ser de esquerda. É um espaço frequentado até por políticos de esquerda da cidade quando certos eventos ocorrem lá.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma parte dos funcionários do bar e “Casa de Cultura” tem carteira assinada, mas a maior parte é mantida sem carteira assinada. Pessoas que exercem a mesma função, algumas estão formalizadas e outras não. Aqui temos que nos reportar à “reforma trabalhista” do governo de Michel Temer, que criou legalmente a categoria de trabalho intermitente. Isto é, uma categoria em que o trabalhador é chamado a trabalhar pelo patrão quando lhe convém e recebe apenas por aquelas horas trabalhadas. Assim, por exemplo, os trabalhadores e as trabalhadoras que atendem o público do Bugio trabalham no regime intermitente, seja com carteira assinada ou ilegalmente sem carteira assinada. O patronato nunca está satisfeito. Não basta a crueldade do trabalho intermitente ter sido legalizada. Para essa classe, a qual inclui a pequena-burguesia cujos donos do Bugio são bons representantes, é preciso negar qualquer direito vigente aos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o regime de trabalho intermitente o patrão cria um reservatório de força de trabalho. No Bugio esse reservatório tem a forma de um grupo de <em>Whatsapp</em>. Nele são postas dezenas de pessoas dispostas a vender sua força de trabalho para o Bugio, e que o Bugio esteja disposto a eventualmente comprá-la. O trabalho intermitente dá um poder enorme ao patrão. Isso porque o trabalhador, mesmo aquele com carteira assinada, pode ser posto na “geladeira”, isto é, ficar sem ser chamado para trabalhar por tempo indefinido como “castigo”. Ou seja, é um mecanismo que impõe uma subordinação ainda maior ao trabalhador e que, além disso, permite na prática que o patrão demita sem justa causa sem que tenha que pagar por isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas para os donos do Bugio não é suficiente a legalização do trabalho intermitente e nem a prática ilegal de ter empregados sem carteira assinada. Para eles também é necessário que os trabalhadores e trabalhadoras intermitentes com e sem carteira assinada vistam a camisa, abram o sorriso e vendam mais cerveja. A força de trabalho foi convocada a assistir a um “curso” dado pelos gestores sobre como os trabalhadores e trabalhadoras devem acrescentar trabalho afetivo no serviço, de modo a venderem mais cerveja. Questionados durante o “curso” se o tempo à disposição para assisti-lo seria remunerado, a impressão que ficou pela reação de incerteza dos gestores é de que a intenção era não remunerar. Não remunerar seria mais uma ilegalidade (eles acabaram remunerando essas horas), mas a insegurança do que responder e a falta de resposta dos gestores na ocasião é um indício da cultura de desrespeito dos direitos trabalhistas nessa empresa. A não resposta foi mais uma explicitação da normalização da negação de direitos básicos dos trabalhadores e trabalhadoras.</p>
<figure id="attachment_159871" aria-describedby="caption-attachment-159871" style="width: 850px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-full wp-image-159871" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/slide.png" alt="" width="850" height="408" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/slide.png 850w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/slide-300x144.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/slide-768x369.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/slide-640x307.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/slide-681x327.png 681w" sizes="(max-width: 850px) 100vw, 850px" /><figcaption id="caption-attachment-159871" class="wp-caption-text">Slide do “curso” dado a trabalhadoras do Bugio</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Imagine o trabalhador ou a trabalhadora que está em regime de trabalho intermitente, que possui seus direitos trabalhistas e previdenciários negados (não tem carteira assinada), assistindo a um “curso” com os gestores falando bordões para que acrescentem o ainda mais desgastante trabalho afetivo ao trabalho que já realizam. E imagine então que o trabalhador ou trabalhadora questione que, se eles querem o trabalhador motivado, não deveriam deixá-lo em regime de trabalho intermitente, deveriam valorizá-lo etc. etc.? Esse trabalhador ou trabalhadora será chamado novamente para vender sua força de trabalho? Será excluído do grupo de <em>Whatsapp?</em></p>
<p style="text-align: justify;">A forma de “demissão” do intermitente informal no Bugio é ser excluído do grupo de Whatsapp que funciona como reservatório de força de trabalho. O trabalhador reduzido a puro objeto, como puro número, como um número de telefone. Eu não me surpreenderia se o gerente que realiza essa exclusão/demissão for pejotizado – em tese uma outra modalidade de fraude trabalhista – uma vez que possui MEI em seu nome com atividade principal de organização de festas. A coisa toda ainda fica pior, uma vez que o Bugio recebe verba pública através de edital federal da Cultura. O edital da Funarte através do qual o Bugio foi agraciado exige certidão negativa de débitos trabalhistas. Quem não possui dívida trabalhista transitada em julgado e não quitada, consegue essa certidão negativa. Deve ter sido esse o caso. Porém, se os donos do Bugio estavam realizando fraude trabalhista quando se inscreveram no edital da Funarte e enquanto gastam a verba pública do edital, pode caracterizar, a meu ver, ação de má fé contra a Administração Pública. Ora, a certidão negativa é um documento exigido para que verba pública não vá para pessoas jurídicas que não cumprem obrigações trabalhistas! Simplesmente não era para o Bugio ter recebido verba pública nessa situação, tanto do ponto de vista moral quanto provavelmente também do ponto de vista legal.</p>
<p style="text-align: justify;">Para quem não é de Florianópolis, segue abaixo um exemplo de programação do Bugio Centro, que é a da semana em que estou escrevendo.</p>

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                    </div>

                </div>
                
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Através do título de algumas das atrações dessa semana não é difícil perceber uma ideia de protagonismo feminino, ou de valorização das mulheres. Mas por trás dos coloridos cartazes, por trás da elevação feminina como espetáculo, por quem e como a mercadoria é servida? Ela é servida por mulheres que têm seus direitos negados. Por mulheres que no carnaval têm que “se acostumar” ao assédio sexual de potenciais clientes enquanto vendem sua força de trabalho para sobreviver. Há que vender cerveja no meio da multidão aglomerada na rua do bar e suportar o assédio sexual dos foliões, sem direitos trabalhistas, sem direitos previdenciários, sem certeza de ter trabalho amanhã. O tom de preta que nunca aparecerá no espetáculo é o da preta trabalhadora, sem férias, sem direitos, que trabalha sem certeza de trabalho. Esse tom é invisível. E que o grupo de <em>Whatsapp</em> de reservatório de força de trabalho do Bugio se chame “colaboradores atives”, torna mais odiosa e repugnante a exclusão de todas as mulheres e todes os seres humanos dos direitos trabalhistas e previdenciários que o Bugio realiza. Por trás da inclusão espetacular na linguagem, mal se esconde a realidade da exclusão material dessas trabalhadoras e trabalhadores. Atualizando Bakunin, <em>a linguagem inclusiva quando não humaniza deprava, refina o crime e torna mais degradante a covardia.</em> Sim, crime. É bom lembrar que fraude trabalhista é crime, cabendo também processo penal.</p>
<figure id="attachment_159878" aria-describedby="caption-attachment-159878" style="width: 440px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159878" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/whats.jpg" alt="" width="440" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/whats.jpg 440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/whats-189x300.jpg 189w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/whats-264x420.jpg 264w" sizes="auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px" /><figcaption id="caption-attachment-159878" class="wp-caption-text">A forma de “demissão” de intermitentes sem registro em carteira</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A diferença entre cultura e alienação depende em parte da nossa atitude, da nossa prática. Não chamemos de cultura o entretenimento cujo objetivo é realizar a mais-valia da produção de cerveja, nem que seja de cerveja afetiva. O que os donos e gestores do Bugio chamam de cultura é mera atração (de consumidores), entretenimento. É uma engrenagem, aí sim, de uma verdadeira cultura. Uma cultura de regressão de direitos trabalhistas e da dignidade das trabalhadoras e trabalhadores. Uma cultura de classe, mas da classe dos capitalistas. O neofascismo em ascensão tem base material, e uma parte fundamental dessa base material é a precarização do trabalho e a insegurança econômica e laboral. Lugar de resistência ao neofascismo é onde os trabalhadores e trabalhadoras lutam ou onde eles e elas têm seus direitos respeitados. O resto é alienação e espetáculo.</p>
<p style="text-align: justify;">* <em>Este texto é baseado em relatos de ex-funcionários e em documentos obtidos pelo autor. Sobre o autor: em 1997 e 1998 foi membro da banda punk anarquista Guerra de Classes e nas décadas seguintes participou de movimentos sociais também em Florianópolis.</em></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>A Gestão do Conflito: ONGs e democracia empresarial no Brasil contemporâneo (1990-2024) &#8211; Parte I</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Sep 2026 19:42:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[Sob o mito da “cidadania autônoma”, as ONGs operam, na realidade, a renovação dos mecanismos de dominação de classe mediante a gramática dos direitos — e a evidência empírica o confirma. Por Marcelo Phintener]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Marcelo Phintener</h3>
<p><strong>Introdução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A tese liberal de que as Organizações Não-Governamentais (ONGs) constituem uma alternativa autônoma ao Estado e ao mercado colide contra a realidade material de sua função política no capitalismo contemporâneo. Elegendo o cenário brasileiro como foco analítico e amparando-se na tradição crítica de João Bernardo, Maurício Tragtenberg, Boltanski e Chiapello, constata-se que o terceiro setor atua, fundamentalmente, como um aparato de governança desenhado para a administração de vidas e de conflitos sociais. Por meio do exame dos microdados do Mapa das OSCs (Ipea) — compreendendo 1,09 milhão de registros —, descortina-se a engenharia que articula os interesses corporativos transnacionais ao poder estatal. O avanço vertiginoso desse ecossistema, cujo contingente de entidades ativas saltou de 105 mil em 1996 para 672 mil em 2026, marcha pari passu com a reconfiguração gerencial do Estado iniciada na década de 1990, revelando que a malha da filantropia se expande justamente para institucionalizar a retirada de direitos universais.</p>
<p style="text-align: justify;">A análise identifica 20 grupos corporativos nacionais com 141 unidades registradas — entre os quais a Fundação Bradesco (39 filiais, desde 1970) e a Fundação Vale (8 estados, coincidentes com suas concessões minerárias) — e 20 organizações internacionais com 235 unidades ativas, incluindo a Ford Foundation (desde 1966) e a Fundação Cargill (desde 1973). Os dados do Ipea revelam que apenas 2,7% das OSCs captaram os R$ 118,5 bilhões transferidos pelo governo federal entre 2010 e 2018, com as fundações privadas — 2% das entidades — movimentando proporcionalmente mais recursos do que as associações em todos os cortes analisados.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano global, o setor movimentou US$ 508 bilhões em 2026, com US$ 27 bilhões canalizados por governos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) via OSCs apenas em 2024. Sob o mito da “cidadania autônoma”, as ONGs operam, na realidade, a renovação dos mecanismos de dominação de classe mediante a gramática dos direitos — e a evidência empírica o confirma.</p>
<p><strong>1. O paradoxo do terceiro setor: a negação formal e a afirmação prática do governo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Há uma contradição inscrita no próprio nome. Uma organização que se define pelo que não é — não governamental — ocupa, há décadas, posições estratégicas no coração do aparato burocrático e perpassa transversalmente todo o tecido social. O rótulo esconde que sua penetração generalizada — que engloba desde as instâncias de formulação de políticas de topo até a gestão do cotidiano — não decorre de uma ausência estatal ou de um vácuo de poder, mas de uma estratégia deliberada de governança. O Estado metamorfoseia a sua forma: recua na garantia de direitos universais para avançar por meio de uma malha gerencial terceirizada que administra as contradições do conjunto das relações de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob essa nova engenharia, a organização executa serviços outrora públicos, capta recursos do orçamento, formula políticas e media conflitos. E, simultaneamente, sustenta sobre si a aura da sociedade civil autônoma, da cidadania engajada e do altruísmo desinteressado.</p>
<p style="text-align: justify;">As Organizações Não-Governamentais governam. Não a despeito de sua natureza jurídica, mas precisamente em função da cobertura ideológica que ela proporciona. O rótulo “não-governamental” funciona como um dispositivo discursivo que obscurece as reais relações de poder: aquelas que vinculam essas entidades, por um lado, ao financiamento de grandes corporações transnacionais e, por outro, à contratação, regulamentação e proteção do aparato estatal.</p>
<p style="text-align: justify;">A tese não é nova. Na anatomia da “multiplicação silenciosa do poder” traçada por João Bernardo, os gestores — incluídos os dirigentes do terceiro setor — configuram uma classe exploradora específica. Situados entre a burguesia e o proletariado, sua função histórica é mediar e gerir o conflito social, operando na ponta de lança da integração econômica global. O mecanismo ideológico dessa engrenagem foi detalhado por Boltanski e Chiapello: o “novo espírito do capitalismo” absorveu a crítica social dos anos 1960 e 1970, transformando a linguagem da autonomia, da participação e da responsabilidade em instrumentos de legitimação do próprio sistema que pretendiam contestar.</p>
<p style="text-align: justify;">A investigação se assenta na dimensão empírica brasileira. A partir da análise dos microdados do Mapa das OSCs (Ipea) — compreendendo 1,09 milhão de registros —, mapeia-se a expansão do setor, sua geografia, suas frentes de atuação e o funil do financiamento público sob o impacto da reforma gerencial iniciada na década de 1990. Indo além, a articulação desses registros com os dados de transferências federais e de cooperação internacional (OCDE, 2025) descortina, de forma sistemática, a simbiose entre grandes conglomerados corporativos e o estatuto das OSCs. O rastreamento evidencia que o fundo público irriga preferencialmente esse topo dinâmico, desmistificando a suposta horizontalidade do terceiro setor.</p>
<p style="text-align: justify;">A exposição estrutura-se em clave progressiva. O percurso inicia-se pela arqueologia das ONGs na filantropia oitocentista, avança pela sua instrumentalização geopolítica no pós-guerra e desagua na refundação gerencial do Estado brasileiro. Na sequência, os microdados são mobilizados para expor as assimetrias regionais e a centralização do capital no setor. O horizonte crítico desse movimento converge para a consolidação da democracia empresarial contemporânea, na qual o terceiro setor assume a função objetiva de conter e administrar os conflitos de classe.</p>
<p><strong>2. Gênese histórica: do médico rural ao terceiro setor</strong></p>
<p><strong>2.1 A lição de Balzac: a gestão filantrópica como infraestrutura da ordem</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em O Médico Rural (1833) e O Cura da Aldeia (1841), Honoré de Balzac constrói figuras de mediação social cuja intervenção na vida rural opera simultaneamente como generosidade e como disciplinamento. A fortuna crítica dessas obras sublinha como esses romances funcionam como retratos da gestão institucional da pobreza: seus protagonistas — o doutor Benassis e o abade Bonnet — agem sob a premissa de que a miséria, sem uma tutela racional, transforma-se em motor de insurreição. O empenho no bem-estar comunitário, na abertura de estradas, na organização produtiva e na moralização dos costumes desenha, portanto, um modelo de governança em que a solidariedade atua como o principal mecanismo de pacificação e estabilidade social.</p>
<p style="text-align: justify;">Balzac escrevia precisamente no momento em que a burguesia francesa assentava sua hegemonia face aos restos do Antigo Regime e ao proletariado urbano nascente. Seus romances revelam o que a melhor tradição crítica posterior viria a sistematizar: a dominação não se sustenta apenas na crueza da força — na lei, no exército ou na infantaria jurídica e policial. Ela carece de instâncias de mediação. São necessários agentes que convertam a assimetria social em retórica de solidariedade, capazes de gerir o descontentamento das franjas subalternas por meio do consenso e da pacificação cotidiana. É por essa razão que o médico rural e o cura da aldeia funcionam como antepassados literários que prefiguram, com precisão espantosa, o papel institucional do gestor do terceiro setor contemporâneo.</p>
<p style="text-align: justify;">A palavra “filantropia” traz na raiz grega o sentido literal de amor à humanidade. No entanto, a celebração dessa humanidade abstrata frequentemente mascara o desprezo pelas condições materiais concretas que geram a própria barbárie. A filantropia burguesa oitocentista — materializada nas sociedades de temperança, cozinhas populares e missões religiosas nas vilas operárias — divide com o terceiro setor contemporâneo a mesma matriz lógica. Nos dias atuais, a crítica não se direciona ao ato elementar de fornecer subsistência a quem padece nas ruas — uma necessidade incontornável de sobrevivência —, mas à sua captura sistêmica pelo capital gerencial. Ao absorver a urgência material e simbólica dos estratos mais pauperizados das classes trabalhadoras, a engrenagem do terceiro setor atua na reprodução rebaixada da força de trabalho, neutralizando os efeitos mais visíveis da exploração sem tocar em suas bases estruturais. Transforma-se, assim, o antagonismo social latente em laço de dependência e pedagogia da gratidão, assegurando a estabilidade e a reprodução da ordem vigente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2.2 Do pós-guerra à Guerra Fria: as ONGs como instrumento de política externa</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O termo “organização não-governamental” foi cunhado formalmente no artigo 71 da Carta das Nações Unidas, em 1945, para designar organizações da sociedade civil que poderiam ter status consultivo junto ao novo organismo internacional. Mas foi no contexto da Guerra Fria que as ONGs ganharam a dimensão geopolítica que as caracteriza até hoje. Em particular nos anos 1950 e 1960, fundações como a Ford, a Rockefeller e a Carnegie — originalmente instrumentos de gestão da riqueza acumulada pelas corporações norte-americanas — passaram a financiar agências da sociedade civil na periferia do sistema capitalista. Essa expansão filantrópica operava como dispositivo estratégico de contenção geopolítica, cujo objetivo era neutralizar focos de insurreição camponesa ou operária e garantir a integração subordinada dessas formações sociais à órbita de acumulação dos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">A história das relações internacionais no século XX demonstra como emergiu uma nova categoria de agentes cuja função era precisamente a de administrar o conflito social por dentro, integrando-o à própria ordem. Na Europa daquele período, essa necessidade histórica deu origem aos primeiros operadores desse tipo de intervenção: organizadores comunitários, planejadores e técnicos sociais que, sob o manto de fundações independentes ou da ação benfeitora, pacificavam as tensões locais. Esse processo revela o DNA político daquilo que viria a ser o terceiro setor: organizações que operam na zona cinzenta entre o público e o privado, o estatal e o civil, convertendo essa posição de fronteira em um mecanismo eficiente para circular recursos e exercer o poder de controle social.</p>
<p><strong>2.3 A explosão do terceiro setor nos anos 1980 e 1990</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se as décadas do pós-guerra foram o período de gestação das ONGs modernas, os anos 1980 e 1990 foram os de sua explosão demográfica. No Brasil, esse processo tem uma cronologia precisa: começa com a redemocratização nos anos 1980, quando organizações da sociedade civil desempenham papel central na reconstrução do espaço público; acelera com as reformas econômicas dos anos FHC, quando a reforma gerencial do Estado cria o marco legal e institucional para a terceirização das políticas sociais; e consolida-se ao longo dos governos Lula, quando o financiamento público das OSCs atinge seu auge.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dados do Mapa das OSCs (Ipea) permitem quantificar esse processo com precisão inédita. Como mostra a Tabela 1 e o Gráfico 1 a seguir, o número de OSCs fundadas por ano saltou de uma média de aproximadamente 11.855 entre 1990 e 1994 para 27.540 entre 1995 e 2002 — variação de 132% que coincide exatamente com o período de implementação da reforma gerencial do Estado.</p>
<p><strong>Tabela 1 — Evolução das Organizações da Sociedade Civil no Brasil: marcos históricos selecionados</strong></p>
<div class="table sectionedit14">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0 centeralign"><strong>Ano</strong></td>
<td class="col1 centeralign"><strong>Total acumulado (fundadas até o ano)</strong></td>
<td class="col2 centeralign"><strong>Fundadas no ano</strong></td>
<td class="col3 centeralign"><strong>Var. acumulado (período)</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0 centeralign">1990</td>
<td class="col1 centeralign">151.065</td>
<td class="col2 centeralign">10.546</td>
<td class="col3 centeralign">—</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0 centeralign">1994</td>
<td class="col1 centeralign">199.794</td>
<td class="col2 centeralign">14.269</td>
<td class="col3 centeralign">+32%</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0 centeralign"><strong>1998</strong></td>
<td class="col1 centeralign"><strong>306.937</strong></td>
<td class="col2 centeralign"><strong>25.407</strong></td>
<td class="col3 centeralign"><strong>+132%</strong></td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0 centeralign"><strong>2002</strong></td>
<td class="col1 centeralign"><strong>420.117</strong></td>
<td class="col2 centeralign"><strong>27.539</strong></td>
<td class="col3 centeralign"><strong>+37%</strong></td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0 centeralign">2006</td>
<td class="col1 centeralign">536.267</td>
<td class="col2 centeralign">29.432</td>
<td class="col3 centeralign">+28%</td>
</tr>
<tr class="row6">
<td class="col0 centeralign">2010</td>
<td class="col1 centeralign">670.385</td>
<td class="col2 centeralign">33.324</td>
<td class="col3 centeralign">+25%</td>
</tr>
<tr class="row7">
<td class="col0 centeralign">2014</td>
<td class="col1 centeralign">799.043</td>
<td class="col2 centeralign">30.577</td>
<td class="col3 centeralign">+19%</td>
</tr>
<tr class="row8">
<td class="col0 centeralign">2018</td>
<td class="col1 centeralign">908.696</td>
<td class="col2 centeralign">26.355</td>
<td class="col3 centeralign">+14%</td>
</tr>
<tr class="row9">
<td class="col0 centeralign">2022</td>
<td class="col1 centeralign">1.008.068</td>
<td class="col2 centeralign">27.710</td>
<td class="col3 centeralign">+11%</td>
</tr>
<tr class="row10">
<td class="col0 centeralign">2024</td>
<td class="col1 centeralign">1.067.877</td>
<td class="col2 centeralign">30.554</td>
<td class="col3 centeralign">+6%</td>
</tr>
<tr class="row11">
<td class="col0" colspan="4"><em>Fonte: Mapa das Organizações da Sociedade Civil / Ipea (2026). Total inclui todas as OSCs, independente da situação cadastral atual. Elaboração própria.</em></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p><em>Tabela 1 — Evolução do número de OSCs no Brasil por marcos históricos. Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). Elaboração própria.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159904 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-1024x486.jpg" alt="" width="640" height="304" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-1024x486.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-300x142.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-768x364.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-1536x729.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-2048x972.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-885x420.jpg 885w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-640x304.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_1-681x323.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p><em>Gráfico 1 — Fundações de OSCs no Brasil por ano (1980-2025). Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). Elaboração própria.</em></p>
<p><strong>3. A reforma gerencial do Estado e a criação do terceiro setor brasileiro</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em 1995, o então ministro da Administração Federal e Reforma do Estado, Luiz Carlos Bresser-Pereira, apresentou ao país o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado — documento que se tornaria o marco fundador do chamado “Estado gerencial” no Brasil. A proposta consistia em substituir a rigidez do modelo burocrático tradicional por uma lógica gerencial inspirada nas práticas corporativas: descentralização, foco em metas, contratos de desempenho e, crucialmente, a transferência de serviços sociais para o chamado “setor público não estatal”.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse conceito — “público não estatal” — constitui o núcleo da arquitetura institucional do terceiro setor brasileiro. Na formulação de Bresser-Pereira, desenhava-se uma zona de fronteira entre o Estado — atrelado ao orçamento e ao direito público — e o mercado, regido pelo lucro e pelo direito privado. Seria o espaço das organizações da sociedade civil, justificadas sob o argumento de uma suposta agilidade e proximidade com a comunidade, qualidades que as tornariam mais eficientes na execução de políticas sociais do que o pesado aparato burocrático estatal.</p>
<p style="text-align: justify;">O que essa formulação omite estrategicamente é que o terceiro setor não constitui um vácuo de controle público, mas a fronteira avançada da gestão corporativa. Uma escola ou equipamento gerido por uma ONG, por exemplo, subtrai a política social da órbita da disputa pública: seus diretores são prepostos gerenciais imunes ao concurso público e suas diretrizes respondem às amarras do contrato de gestão. Essa engenharia desvela a atuação conjugada entre o Estado Clássico — que dita as normas e direciona o fundo público — e o Estado Empresarial, que assume a execução física e ideológica da política. Trata-se da infiltração da ideologia gerencial no núcleo da própria administração pública, transmutando a burocracia estatal em uma agência de monitoramento de resultados de mercado. O chamado controle democrático empresarial — com seus conselhos de stakeholders e rituais de compliance — opera, assim, como o simulacro burocrático necessário para legitimar essa simbiose. No tabuleiro da luta de classes, o terceiro setor atua como o braço macio do capital, reconvertendo direitos universais em serviços contratualizados e ratificando a condição do trabalhador como cidadão votante e súdito tributário.</p>
<p style="text-align: justify;">A reforma gerencial pavimentou as condições institucionais para a engrenagem que João Bernardo define como “multiplicação silenciosa do poder”. Trata-se da proliferação de esferas de deliberação que funcionam fora dos circuitos tradicionais da representação democrática, estabelecendo uma governança fragmentada. É justamente essa natureza difusa que torna o terceiro setor mais difícil de ser emparedado politicamente do que o aparato estatal clássico, uma vez que o poder se dilui em uma rede indefinida de contratos e metas.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A obra que ilustra o artigo é da autoria de Luke Fildes (1843-1927).</em></p>
<p><strong>*</strong> <em>A publicação deste artigo foi dividida em duas partes, com publicação semanal.</em></p>
<p><em>Leia a Parte II <a href="https://passapalavra.info/2026/09/159955/">aqui</a>.</em></p>
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			</item>
		<item>
		<title>“Revolta dentro da ordem”: o caso do movimento “Desocupa” nas ocupações secundaristas em 2016</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/09/159825/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/09/159825/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Sep 2026 19:21:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[Se Junho de 2013 pode ser descrito como o fechamento de um ciclo, e a abertura de um novo com a ascensão das candidaturas bolsonaristas em 2018, que influência essa noção particular de revolta assume entre os anos de 2015 e 2016 sobre os sujeitos políticos? Por Alan Fernandes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Alan Fernandes</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;">E o que você está achando do movimento até agora?</p>
<p style="text-align: right;">&#8211; Parece que a escola é finalmente nossa.</p>
<p style="text-align: right;">(diálogo ocorrido entre um professor e um estudante dentro de uma escola ocupada)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Entre 2015 e 2016 o Brasil experimentava políticas de austeridade que se estendiam a vários setores, entre eles, as secretarias de educação. Inspirados na Revolta dos Pinguins no Chile, que aliou manifestações contundentes com ocupações de instituições de ensino, estudantes paulistas protagonizaram um movimento até então inédito no país que ocupou dezenas de escolas em todo o Estado em meio ao processo de reorganização escolar do então governador Geraldo Alckmin (PSDB), atualmente vice-presidente da república. O projeto capitaneado pelo então ‘‘tucano’’ teria como consequência a realocação dos estudantes nas escolas de modo que fosse possível fechar unidades de ensino. O movimento estampou as capas de jornais, forçou figuras públicas a tomarem partido, foi retratado de forma sensacionalista pela novela Malhação, e seu significado político foi capturado por instituições financeiras, como o Itaú, que explicitamente retratou a iniciativa privada como uma salvação para a educação e as demandas estudantis.</p>
<p style="text-align: justify;">Em fevereiro do ano seguinte, milhares de estudantes secundaristas fluminenses tomam as ruas do centro por melhores condições de estudo. Na ocasião, marchavam lado-a-lado com seus professores que na ocasião já ameaçavam greve <strong>[1]</strong>. Antes da última greve de professores pelo piso salarial (2023), que conquistou um aumento, mas ainda assim abaixo do piso nacional, os docentes denunciavam que o último reajuste teria sido em 2015, e que isso os fez ter o menor salário do Brasil. A greve de 2016 só não foi a maior que a de 2023 em termos de adesão, mas àquela altura tinha um componente político crucial – o amplo apoio da sociedade civil e especialmente dos estudantes secundaristas. Em março, estudantes de uma escola estadual na Zona Norte do Rio interromperam as aulas, cerraram os portões, e fizeram uma assembleia (LIMA 2019). Dalí, formaram-se pelo menos 6 comissões responsáveis por manter limpa, organizada, e operante, toda a escola, para que os alunos ali permanecessem até que suas pautas fossem atendidas. Entre elas, a falta de funcionários na escola <strong>[2]</strong>, não pagamento dos mesmos <strong>[3]</strong>, estrutura, acesso, e pautas mais gerais como currículo, avaliações de desempenho, etc. (Passa Palavra. 2016)</p>
<p style="text-align: justify;">Naquele mesmo ano o Impedimento de Dilma Roussef (PT) leva ao poder Michel Temer do então PMDB para a presidência e este promete passar importantes reformas de cunho neoliberal. Entre elas, o Projeto de Emenda Constitucional 55 (antiga 241) que estipulava um teto de gastos para as contas públicas e que diminuía a verba disponível para investimento em educação. Daí se seguiram protestos em Brasília e nas capitais, e um ato mais radical, a ocupação de centenas de escolas no Paraná. Deste fato também se seguiram as ocupações das unidades do Pedro II do Rio bem como Institutos Federais, faculdades e escolas em outros estados <strong>[4]</strong>. Ainda em 2016, estudantes secundaristas ocuparam suas escolas em Goiás contra o modelo de implementação de OSs na gestão do ensino. Destas experiências, outras em escala menor também ocorreram. Cabe situar neste terreno o saldo político que os estudantes deixaram para seus aliados mais velhos, os universitários. Militantes que gozaram de uma experiência e maturidade política foram ou direto para o mundo do trabalho, repensar seu papel na sociedade e nas empresas, e uma parte tentou sorte nas universidades de todo país. Tão logo se envolveriam em centros acadêmicos, chapas, ocupações de universidade, e outros movimentos sociais associados ou não a projetos de extensão dentro de seu próprio local de estudo. O que põem em causa, segundo Adoue (2016. S.p.), é uma ambiguidade política: “o que emergia da ação dos estudantes, com o nome “solidariedade”, que pouco contribuía a revelar a potência que os motivava [a categoria dos professores], era uma disputa política: disputa pelo poder na escola.”. Essa reflexão levaria a uma própria problematização do grêmio <strong>[5]</strong> . Dessa forma, em maior ou menor grau, os secundaristas mesclaram tradições de luta antigas com uma brilhante improvisação, tão cara aos movimentos sociais de hoje, que põe em causa o direcionamento político da contestação.</p>
<p style="text-align: justify;">O que subjaz essas iniciativas políticas é que,cada qual em sua cirrcunstância lidou com obstáculos para além dos próprios governos de quem cobravam reivindicações. Alguns desses adversários tornaram-se verdadeiros protagonistas na reação às lutas sociais ocorridas naquele evento que hoje marca uma década.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O ovo da serpente</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O militante e autor português João Bernardo denomina o fascismo como uma revolta dentro da ordem (apud MANOLO. 2022). Em uma de suas intervenções no website Passa Palavra (BERNARDO. 2013), distingue duas modalidades de luta social. Uma é a revolta e outra é a revolução. A revolta é agitação sob a bandeira dos lugares-comuns, que não põe em causa as relações sociais presentes no mundo; ao contrário da revolução, que é a liquidação dos lugares-comuns. A ousada ideia de que é preciso tomar as rédeas daquilo que está posto. Um grupo de militantes (2019. s.p.), sensível à escalada autoritária que democraticamente, por mais paradoxal que seja, põe em xeque a nossa concepção de democracia, faz um paralelo entre a ascensão de Jair Messias Bolsonaro (do antigo PSC e atualmente sem partido) e a experiência efervescente de junho de 2013 para salientar que os sentidos da revolta foram capturados pelo espectro político da direita:</p>
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<p style="text-align: justify;">Em meio à maior mobilização popular da história do país, nos vimos perplexos: se rompermos com a ordem democrática, o que pode acontecer? Não havia revolução no horizonte. Naquele momento, a esquerda se descobriu intimamente ligada ao regime. Não só porque era ela quem estava no governo, mas porque, desde o fim dos anos 1970, “construir a democracia” se tornara seu objetivo máximo. Desde 2013, a esquerda fugiu da revolta. E fez isso estendendo a bandeira da democracia. Por um lado, podia dizer que os protestos eram um perigo à ordem democrática e justificar a repressão; ao mesmo tempo, podia elogiar as manifestações e enquadrá-las nessa ordem – ao enxergar em junho um movimento por “mais direitos” e “mais democracia”, apagava o conteúdo concreto e contestatório dos protestos. A luta contra aquele aumento de 20 centavos não apenas tocou num aspecto crucial das condições materiais de vida na metrópole, como expôs os limites dos canais de participação que vinham sendo aperfeiçoados nos últimos governos. A violência que tomou as ruas deixou o discurso democrático sem lugar.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esse mesmo saldo político visto na Revolta dos Coxinhas, na greve dos caminhoneiros de 2018, e que tem como consumada a figura do líder Bolsonaro como um “mito”, desencadeia nas revoltas ocorridas no dia 8 de janeiro de 2023, e que viram nas últimas celebrações de 7 de setembro um presságio. Segundo estes mesmos militantes, o conteúdo dessa revolta “dentro da ordem” reflete a posição social dos trabalhadores no mercado de trabalho. Ao invés de se pautarem por relações solidárias, é sob outro mote que agem os atores políticos neste âmbito:</p>
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<p style="text-align: justify;">Quando a nova direita fez da Avenida Paulista sua passarela, entre 2015 e 2016, a socióloga Silvia Viana observou que as dimensões daquela indignação com a corrupção podiam ter uma conexão com a experiência no mercado de trabalho. O que o ódio verde-amarelo via em comum, perguntava ela, em alvos tão diferentes como o corrupto, o cotista, o movimento de moradia, o assaltante, o mendigo e o bolsista? Furam a fila. Aproveitam-se de atalhos e proteções na luta pela sobrevivência, recorrem a vantagens competitivas que produzem uma concorrência desleal numa arena onde cada um deveria correr por si. Num contexto de esgotamento econômico, a nova direita forneceu uma forma política ao acirramento da competição entre trabalhadores. Ao assumir sem pudores a lei do mais forte, traça um programa de ação adequado ao nível de selvageria do mundo do trabalho gestado ao longo das últimas décadas. A sobrevivência depende da resiliência e força de vontade individual, e qualquer forma de assistência é vista como “vitimismo“</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Se Junho de 2013 pode ser descrito como o fechamento de um ciclo, e a abertura de um novo com a ascensão das candidaturas bolsonaristas em 2018, que influência essa noção particular de revolta assume entre os anos de 2015 e 2016 sobre os sujeitos políticos?</p>
<p style="text-align: justify;">Remetendo ao caso das ocupações, as pautas elencadas pelos estudantes refletem sua insatisfação com a gestão da escola e os mecanismos de controle interno. Era isso o que estampava os panfletos, por exemplo, os manifestos das escolas ocupadas. Mas o ineditismo da tática das ocupações se deve à ação direta sobre elas. Os estudantes não estavam pedindo nada, mas impondo, e trabalhando para que isso se concretizasse. Enquanto mantinham reivindicações gerais, operacionalizavam a escola e fizeram dela um embrião de algo novo, daquilo que gostariam de ter sem intermediários. Assim exprime também um militante em Goiás que participou das ocupações nas escolas:</p>
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<p style="text-align: justify;">Não se pode pedir de uma escola que ela vá formar pessoas desconectadas das demandas da sociedade em que vive — mas ela pode certamente fazê-lo de maneira que contribua para o fortalecimento de relações alternativas às atuais relações de produção. Uma escola a serviço dos trabalhadores — não os que projetamos ou idealizamos, mas os atuais trabalhadores que aprendem a conquistar o que precisam a partir da sua própria força. (GROUXO MARXISTA, 2016. S.p.)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Desse modo, as ocupações que eram um meio, como demonstram experiências anteriores de ocupação-susto, convertem-se em instrumentos de educação coletiva sobre o papel dos sujeitos na escola, ou seja, também uma finalidade da luta política autogerida.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, não tardariam a aparecer obstáculos externos. Em São Paulo, o governo Geraldo Alckmin foi hostil desde o início às ocupações e a polícia militar constantemente era convocada para dissolver protestos, reprimir os estudantes e mesmo assediar as ocupações. O então secretário de segurança do governo, atual ministro do STF Alexandre de Moraes, desferiu duras decisões judiciais contrárias às ocupações, permitindo inclusive a reintegração de posse sem recurso à justiça, o que dava à polícia militar o respaldo para desocupar os estudantes quando houvesse a ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">No Rio de Janeiro, a SEEDUC fez de tudo para deslegitimar o movimento, conforme os meses iam passando a pressão pública se tornou cada vez maior e dois secretários foram exonerados. Quando a SEEDUC foi ocupada pela 3ª vez (durando um mês), no primeiro dia a Juíza Glória emitiu parecer que reconhecia a legitimidade do movimento, mas, que para que prosseguisse, deveria permitir as aulas regulares, restabelecendo a gestão dos diretores. Mesmo esse vai-e-vem é bem constitutivo do jogo de forças com que os estudantes ocupados se deparam. Anteriormente o Ministério Público e a Defensoria do estado legitimaram as ocupações, contrariando os alunos contrários à ocupação, seus responsáveis legais, professores ‘fura-greve’ e a própria Secretaria de Educação. A segunda decisão atinge em cheio o movimento e o suspiro final é dado aos estudantes do Desocupa, que seguiriam suas aulas da maneira que gostariam.</p>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Desocupa Já <strong>[6]</strong>, que ganha força no Rio de Janeiro, Goiás, e depois se expande para as outras escolas eventualmente ocupadas durante aquele período, faz uma crítica frontal às ocupações, que consiste no argumento de que estas cerceiam as aulas já precárias a que os estudantes têm acesso. Em muitos casos, estes alunos lançaram mão de formas agressivas visando a desocupação das escolas. Inspirados na tentativa de desocupação de uma escola localizada na Zona Norte do município do Rio, a E.E. Heitor Lira, o movimento invade e consegue desocupar o OcupaMendes <strong>[7]</strong> , primeira ocupação do Estado do Rio de Janeiro. Uma apoiadora do movimento, em seu facebook, registrou seu apoio aos ocupantes da seguinte maneira:</p>
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<p style="text-align: justify;">Ao #desocupamendes, parabéns. Agora vocês têm uma escola desocupada!!! Mas… seus professores ainda não receberam salários, os aposentados estão apavorados sem saber se o salário virá, vocês não têm voz na escola, os diretores continuam sendo indicados, vocês não têm direito a voto, a merenda continua precária, a educação pública continua sucateada, o material didático vai permanecer trancado naquela sala dos fundos que vocês nunca tiveram acesso, mas… vocês têm uma escola desocupada! Façam bom proveito!</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A autora do relato se refere ao desejo dos estudantes voltarem às suas aulas com a consciência de que estão inibindo a possibilidade de melhoria de suas próprias condições na escola. No Rio de Janeiro, nenhuma escola foi desocupada diretamente pela polícia no exercício de sua função. Em escolas como a Prefeito Mendes de Moraes, foram os próprios estudantes, contrários ao movimento, que pulavam as grades e, aos socos, expulsavam os alunos. Na semana fatídica em que a escola supracitada é desocupada, muitas postagens de alunos no Facebook comemoram o ato como uma vitória política <strong>[8]</strong> . A página de Facebook de uma das ocupações que ocorria em uma periferia da zona norte, comentou o caso dizendo que “[é] triste e revoltante ver o Estado, a mídia, as direções de escola e professores fura-greve incitarem a violência entre estudantes que são igualmente prejudicados em seus direitos” (OCUPACAIC/REVERENDO HUGH CLARENCE TUCKER. 2016).</p>
<p style="text-align: justify;">Martins (2022) situa o movimento Desocupa na esteira das novas mobilizações da direita que, ao contrário da direita clássica que conhecíamos, se situa no léxico das lutas concretas e locais:</p>
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<p style="text-align: justify;">Após junho de 2013 a direita redescobriu às ruas, mobilizando-se desde então em manifestações nacionais, às vezes caracterizadas por atos massivos, como os atos anticorrupções e pró-impeachment convocados por grupos que ganharam notoriedade, como o Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem pra Rua. Outrora, caracterizada por atos minúsculos, como os em defesa da ditadura militar convocados por pequenos grupos de extrema-direita. O movimento desocupa pode ser considerado uma mudança qualitativa nestas mobilizações, a expressão de um embrião de enraizamento desta direita que passou a atuar em mobilizações menores, contínuas, locais, com pautas imediatas e concretas e usando as redes sociais como ferramenta fundamental, o que não significa que os grandes grupos estivessem alheios a tais mobilizações e nem que haja uma oposição entre tais táticas.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Apesar de seu foco no caso da PEC 55 <strong>[9]</strong> , Martins consegue delimitar o eixo psicossocial destes estudantes que, ao colocarem seus problemas singulares, descuram sobre a própria continuidade da escola e da educação em geral:</p>
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<p style="text-align: justify;">É muito significativo nestas falas a ênfase na primeira pessoa e um apelo ao próprio futuro, que contém uma noção de mérito e esforço pessoal que está sendo desrespeitado. Há uma contraposição entre os direitos individuais e coletivos, no qual reivindica-se a primazia do primeiro. Há um centro no Eu, “minha escola, meu direito, minha filha, meu esforço”, evidenciando a centralidade do antrophos do cotidiano. Não há um projeto coletivo enquanto movimento que vise mudar a realidade de algum modo. A causa é a permanência da competição por meio de esforços particulares. Pode-se dizer que há o que Nascimento (1997) chamou de ações coletivas. Um grupo de Eus aglutinados pragmaticamente por interesses comuns que não possuem projeto de transformação e sim de uma reorganização da desigualdade, no qual a particularidade se sobrepõe ao genérico</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O Desocupa se alimenta desse antagonismo e desprovido de assistência externa não exprime força política de contestação. Mas onde existe o antagonismo ocupa x desocupa, sendo a ocupação um imbróglio de uma mudança efetiva e a desocupação uma reivindicação pelo lugar-comum, ou seja, “queremos nossas aulas da maneira que estão”, o segundo efetivamente se encaixa em nossa descrição de uma revolta dentro da ordem. Para satisfazer suas vontades, beberam da mesma improvisação política e formaram suas bases onde mora o coração de uma ocupação pública, na comunidade local.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O governo e as polícias</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O movimento de ocupação de escolas só prosperou no Rio de Janeiro (e em outros trópicos) porque, se de um lado dava caldo para a greve dos professores, a permanência da paralisação dos docentes também implicava em uma solidariedade como força coletiva que buscou a conquista do apoio popular. Só diante às mobilizações do Rio de Janeiro e São Paulo cantores se reuniram para cantar em solidariedade aos ocupantes e nestes e em outros espaços alguns documentários ajudam a lembrar do exemplo da luta e inspiram outros movimentos sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Da parte dos alunos contrários ao movimento, é surpreendente que o movimento tenha sido espontâneo, mas, ao mesmo tempo, coordenado. No Paraná, por exemplo, não chegou ao nosso conhecimento uma oposição ferrenha às ocupações senão aquela capitaneada pelo Movimento Brasil Livre, que assediou estudantes, entrou em conflito físico em manifestações, entre outras situações. Já no Rio de Janeiro e especialmente em Goiás, essa oposição se serviu de elementos que podem ser descritos como “comunitarismo conservador”. Em grande medida, alunos contrários às ocupações só puderam ter suas demandas atendidas quando intermediados por policiais fora do expediente, lideranças comunitárias e as próprias direções que na maioria dos casos era indicada pela própria Secretaria de Educação.</p>
<p style="text-align: justify;">No Estado de Goiás, o “Desocupa” assumiu os seguintes contornos:</p>
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<p style="text-align: justify;">Depois de repetidas derrotas judiciais e políticas e vendo que a tática do cansaço não iria surtir efeito, o governo fugiu do roteiro. Inspirado também no exemplo de São Paulo, em que o governo estimulou o “movimento” Devolve Minha Escola, surgiu o movimento Pais Pela Educação – GO. Esse movimento não só emulou o nome (COISA-GO) como também a estratégia de capilarização das ocupações: grupos de whatsapp locais e páginas foram criadas para mobilizar em cada escola: Desocupa Castelo Branco, Desocupa Anápolis, Desocupe Ismael entre inúmeras outras páginas. O objetivo desse movimento era inicialmente criar um clima no qual as comunidades desaprovassem as ocupações — o que facilitaria uma reintegração judicial — e que aprovassem as Organizações Sociais (OSs) — dificultando resistências posteriores. Eles começaram a realizar manifestações nas portas das escolas, com o auxílio da estrutura oficial de comunicação dos grupos gestores e dos professores contrários às ocupações. Pouco antes, e durante esse processo, a Secretaria de Educação começou a realizar reuniões com os grupos gestores de todas as escolas ocupadas e depois com os trabalhadores, especialmente o professorado, dessas escolas. Essas reuniões serviam para difundir boatos sobre o iminente fechamento e militarização, caso as escolas continuassem ocupadas, e para garantir a lealdade dos poucos diretores que tinham posição mais ambígua frente ao movimento. Além de ameaçar com corte de ponto e do bônus que era dado aos professores por assiduidade. (…) Um pretendente a conselheiro tutelar e “lideranças do bairro”, ou burocratas do bairro, um deles vizinho da escola, todos vinculados ao PSDB, foram importantes na pressão na porta da escola e na articulação do bairro contra a ocupação. Eles mobilizavam três noções básicas: 1) “essa ocupação é coisa de gente da universidade, nem é dessa escola ou desse bairro”; 2) “dentro dessa escola só ficam os alunos vagabundos praticando imoralidades e atrapalhando os vizinhos”; 3) “a escola deveria estar funcionando, mas está trancada”. Eles também conseguiram cooptar uma aluna que participou do início da ocupação e depois passou a entregar informações internas para o movimento desocupa, fazer depoimentos que confirmavam as acusações dessas lideranças, além de criar intrigas e boatos dentro da escola ocupada para desestabilizá-la.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dito de outra maneira, o Desocupa ocupou a função de desestabilização e desmoralização do movimento, levando seus espectadores a crer que as ocupações não almejavam uma melhoria educacional nas escolas, ocasionando fatalmente no atraso curricular. O terceiro argumento, o de que “a escola deveria estar funcionando”, é muito sintomático para o que descrevemos. Naquela altura os argumentos eram precisamente que as pautas dos ocupantes eram incompatíveis com a realidade, e o sujeito coletivo inspirado pela luta social era convertido no direito do sujeito singular que “precisa estudar, custe o que custar”. O argumento tem um fundo de verdade, mas que não reflete o sentido da educação, e por isso representa não a vontade estudantil de fato, mas como vimos reflete a posição dos trabalhadores em meio à competição no mercado de trabalho. O estudante argumenta que as aulas paralisadas desafiam seu desempenho no ENEM, quando muitas vezes os próprios estudantes se desdobravam para garantir aulas extra-curriculares voltadas para o ENEM, desde que não fossem nos moldes tradicionais. O segundo argumento é que dificultava a aquisição do diploma, uma vez que as secretarias impunham como chantagem a esses estudantes o argumento de que sem as aulas durante esse período o mais correto seria que reprovassem, às vezes até ameaçando cancelar a matrícula dos mesmos. Isso serviu para dissipar laços de solidariedade dentro da escola e advertir que não há atalhos no mundo do estudo e do trabalho, “é cada um por si”.</p>
<p style="text-align: justify;">No Ceará, integrantes do movimento Desocupa Já <strong>[10]</strong> conseguiram uma reunião com o Secretario de Educação e avaliam como “positiva” a conversa. Nela, firmam laços e conseguem uma devolutiva do governo que não está poupando esforços para desocupar as escolas.</p>
<p style="text-align: justify;">Valendo-se do apoio de uma parte dos estudantes do Rio, a SEEDUC endossa uma convocação do Desocupa em que este chama a comunidade escolar para desocupar a E.E. Heitor Lira. O jornalista Diego Felipe Souza (2016) denuncia que o então secretário que sucedeu Antônio Vieira Neto, Caio Castro, atendeu ao chamado do Desocupa e procurou ajudar a coordenar a desocupação.</p>
<figure id="attachment_159828" aria-describedby="caption-attachment-159828" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159828" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-300x166.jpg" alt="" width="400" height="222" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-300x166.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-1024x568.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-768x426.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-1536x851.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-758x420.jpg 758w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-640x355.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-681x377.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive.jpg 1575w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-159828" class="wp-caption-text">De camisa social, O Secretário de Educação Caio Castro se reúne com integrantes do Desocupa Heitor Lira</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Na ocasião da tentativa de desocupação do Heitor Lira, o Desocupa havia previamente conversado com a SEEDUC seu descontentamento com o movimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Surpreendentemente, quando já havia parecer favorável às ocupações na justiça, é a própria Secretaria que divulga a manifestação, em perfil oficial. A postagem foi apagada pouco tempo depois. Nunca com retratação.</p>
<figure id="attachment_159831" aria-describedby="caption-attachment-159831" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159831" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-300x249.jpg" alt="" width="400" height="332" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-300x249.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-1024x849.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-768x637.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-507x420.jpg 507w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-640x531.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-681x565.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive.jpg 1247w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-159831" class="wp-caption-text">Postagens no Twitter oficial da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro convocando alunos contrários à ocupação para desocupá-la.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A convocatória partiu do líder do Desocupa e este estreitou laços com os membros do DesocupaMendes. É neste olhar cronológico que deve ser entendido o ataque ao Mendes de Moraes que causou inúmeros feridos e causou a comoção do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (SEPE) que decidiu realizar uma de suas assembleias lá, para que fosse feita uma vigília impedindo e desincentivando novos ataques. Na semana da primeira ocupação no Rio, estudantes flagram e fotografam o diretor se reunindo ao lado da escola com o Desocupa.</p>
<figure id="attachment_159839" aria-describedby="caption-attachment-159839" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159839" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-300x276.jpg" alt="" width="400" height="368" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-300x276.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-768x707.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-457x420.jpg 457w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-640x589.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-681x627.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive.jpg 950w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-159839" class="wp-caption-text">Marcos Madeira, diretor da E.E. Prefeito Mendes de Moraes se reúne com o movimento “Desocupa”, ao lado dos muros da escola.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Tais flagrantes advertiram aos ocupantes das escolas sobre a potencialidade radical do movimento contrário e mais, que tais ações não pudessem ser separadas da orientação e empoderamento oferecido por parte dos aparelhos de Estado, incluindo a polícia. Na imagem a seguir, policiais posicionados em frente à E.E. Prefeito Mendes de Moraes impedem os ocupantes de entrar nas instalações.</p>
<figure id="attachment_159845" aria-describedby="caption-attachment-159845" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159845" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-300x174.jpg" alt="" width="400" height="231" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-300x174.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-1024x592.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-768x444.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-726x420.jpg 726w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-640x370.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-681x394.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive.jpg 1250w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-159845" class="wp-caption-text">Dia da desocupação do Mendes de Moraes. Ao lado dos policiais militares, ao lado da porta, está uma aluna da escola vinculada ao Desocupa. Sentados estão os alunos que ocupavam o colégio.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A fotografia mostra os alunos que então ocupavam a escola de frente para os policiais, mas não mostra que o Desocupa está lá dentro <strong>[11]</strong>, impedindo a retomada do espaço. A polícia não se mobilizou durante a invasão naquele dia, e somente se posicionou na porta após a retirada de todos os integrantes do movimento OcupaMendes, demonstrando estarem coordenados com o Desocupa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Considerações finais</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário da revolta, inspirada na agitação dos lugares-comuns, a revolução, ou seja, a mudança do que está posto, se insere em dinâmicas solidárias de pensar o lugar dos sujeitos no mundo. À lógica da competição e militarização <strong>[12]</strong> dos espaços, quaisquer movimentos de cunho político que almejem uma mudança significativa deverão daqui extrair seus limites e suas potencialidades. Aprender com o improviso e descartar tudo aquilo que tende ao fracasso.</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica autogerida nas escolas, a forma de repensar as relações sociais e hierarquias pedagógicas parece um ponto inegociável, ao passo que os limites servem para advertir sobre o perigo de pautas serem capturadas ou reprimidas duramente. Após duras penas, muitas pautas foram conquistas, mas nem metade delas teve vida longa. A utopia de uma escola mais humana deu espaço para mais grades, construídas pela nova direção, no intuito de coibir novas ações semelhantes. Às ocupações do Paraná e Goiás se seguiu a proposta de escolas cívico-militares cujo horizonte era coibir “as ideologias”. Mas a ideologia não é uma coisa que se põe ou que se tira. A forma de organização, já ideológica, pressupunha uma escola nova, diferente do modelo hetero-organizado, não-transparente. Essa resposta política reflete o desejo da democracia dentro e para fora da escola.</p>
<p style="text-align: justify;">Castoriadis (1991.p.45) postula que o traço mais característico da disposição revolucionária nas lutas autônomas não é sua direção intelectual, mas sua condição auto-organizada. Ao falar sobre os movimentos dos anos 60, em especial o Maio de 68, diz algo de grande valia:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Gostaria que alguém contestasse um segundo, com argumentos racionais, o direito dos alunos perguntarem, logo que fossem capazes: por que e em que medida o que vocês nos ensinam é interessante ou importante? Gostaria que alguém refutasse a ideia de que a verdadeira educação consiste também em levar os alunos a terem a coragem e a capacidade de fazer esse tipo de perguntas e de sustenta-las com argumentos.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">São estas perguntas, sem ressalvas, as que ameaçam o modelo hetero-organizado e a mobilização conservadora dos agentes fascistas. Martins (2022) nota em seu estudo que nem todos os integrantes do Desocupa se diziam de direita, e uns poucos eram diretamente vinculados ao MBL. No Rio de Janeiro, houve muitos que votaram em Bolsonaro, dentro e fora das ocupações. Mas nenhum dos ataques ao OcupaMendes foi protagonizado por quaisquer lideranças de direita conhecidas, mas pelos próprios estudantes mancomunados com uma rede comunitária conservadora. Tais redes lembram, ainda que do avesso do espectro político, as comunidades eclesiais de base. Os alunos vangloriavam-se de lutar não somente por si, mas pela sua comunidade local, e alguns inclusive evocavam os comércios que seriam prejudicados pelas ocupações uma vez que com as aulas canceladas haviam estudantes dentro da escola, mas a transitoriedade pelo bairro (na visão deles) diminuía. Em Goiás, vereadores e representantes de comunidades interferiram diretamente nas ocupações.</p>
<p style="text-align: justify;">Falava-se de defender o interesse dos estudantes, e muitas vezes estes interesses refletiam a dinâmica social desses alunos fora de sala (emprego, vestibular, etc.) mas a questão das melhorias da educação era uma lacuna evidente. Mesmo o imaginário político se vê preso muitas das vezes à lógica da assistência do Estado em detrimento da autonomia política (FERNANDES. 2022). Por isso os sentidos do movimento estudantil autônomo tendem a se pautar contra a barbárie em direção a um mundo novo, dentro e fora da escola, enquanto as expectativas de atenuar a barbárie só ocorriam em consequência desta, se conformando em uma revolta conservadora.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Sobre o desfecho da greve, ver aqui: <a href="https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/07/apos-quase-5-meses-professores-decidem-suspender-greve-no-rj.html">https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/07/apos-quase-5-meses-professores-decidem-suspender-greve-no-rj.html</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Sobre a falta de porteiros, ver aqui: <a href="https://cbn.globoradio.globo.com/rio-de-janeiro/2016/04/01/ESCOLAS-DA-REDE-ESTADUAL-DO-RJ-ESTAO-DESDE-O-INICIO-DO-ANO-SEM-PORTEIROS.htm">https://cbn.globoradio.globo.com/rio-de-janeiro/2016/04/01/ESCOLAS-DA-REDE-ESTADUAL-DO-RJ-ESTAO-DESDE-O-INICIO-DO-ANO-SEM-PORTEIROS.htm</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Por exemplo, aqui: <a href="https://midiaindependente.org/?q=node%2F257">https://midiaindependente.org/?q=node%2F257</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Ver aqui: <a href="https://g1.globo.com/educacao/noticia/pelo-menos-21-estados-tem-escolas-e-institutos-ocupados-por-estudantes.ghtml">https://g1.globo.com/educacao/noticia/pelo-menos-21-estados-tem-escolas-e-institutos-ocupados-por-estudantes.ghtml</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Ver aqui: <a href="https://www.esquerdadiario.com.br/Fugindo-da-chapa-Novos-modos-de-se-pensar-e-gerir-um-Gremio-Estudantil">https://www.esquerdadiario.com.br/Fugindo-da-chapa-Novos-modos-de-se-pensar-e-gerir-um-Gremio-Estudantil</a> e aqui <a href="http://solimoes.tachanka.org/?q=gremioautonomo">http://solimoes.tachanka.org/?q=gremioautonomo</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Reportagem que retrata a reivindicação do Desocupa: <a href="https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/04/alunos-criam-movimento-desocupa-ja-contra-ocupacao-de-escolas-no-rj.html">https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/04/alunos-criam-movimento-desocupa-ja-contra-ocupacao-de-escolas-no-rj.html</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Ver aqui: <a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2016/05/06/alunos-do-movimento-desocupa-ja-invadem-primeira-escola-ocupada-do-rio.htm">https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2016/05/06/alunos-do-movimento-desocupa-ja-invadem-primeira-escola-ocupada-do-rio.htm</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ver por exemplo aqui: (<a href="https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=pfbid0PsyspjKYhax6BDGkD97Hbn9VVTkTBSP5G1r2aSfYanMb5txCaMCJbjsHbUzJzVSsl&amp;id=100003796024251">https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=pfbid0PsyspjKYhax6BDGkD97Hbn9VVTkTBSP5G1r2aSfYanMb5txCaMCJbjsHbUzJzVSsl&amp;id=100003796024251</a>) e aqui (<a href="https://www.facebook.com/Freeitas.05/posts/pfbid02devFpteysyMxjXisEYEDhji9gRX4C959TXDszD6H5p1UvpoGm5tRwnPcqRcy2ZBl">https://www.facebook.com/Freeitas.05/posts/pfbid02devFpteysyMxjXisEYEDhji9gRX4C959TXDszD6H5p1UvpoGm5tRwnPcqRcy2ZBl</a>)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ver aqui: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/29/politica/1477698231_566717.html</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Ver aqui: <a href="https://infonet.com.br/noticias/educacao/secretario-recebe-comissao-do-movimento-desocupa-ja/">https://infonet.com.br/noticias/educacao/secretario-recebe-comissao-do-movimento-desocupa-ja/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ver nota nº 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Por exemplo, aqui: <a href="https://passapalavra.info/2020/11/135137/">https://passapalavra.info/2020/11/135137/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Bibliografia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">ADOUE, Silvia Beatriz. Ocupações de Escola (II): Da autocracia para a autogestão. Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2016/01/107343/">https://passapalavra.info/2016/01/107343/</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">BERNARDO, João. Revolta/Revolução. PassaPalavra. 2013. Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2013/07/81647/">https://passapalavra.info/2013/07/81647/</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">CASTORIADIS, Cornelius. A criação histórica: o projeto da autonomia. Porto Alegre: Livraria Palmarinca. 1991.</p>
<p style="text-align: justify;">FERNANDES, Alan. DO PATERNALISMO À AUTONOMIA. READ–Revista de Estudos Anarquistas e Decoloniais, v. 2, n. 3.</p>
<p style="text-align: justify;">FREITAS, María. Texto sobre a desocupação da E.E. Prefeito Mendes de Moraes. 11 de Mai. 2016. Facebook: maira.freitas.14 Disponível em: <a href="https://www.facebook.com/maira.freitas.14/posts/pfbid0MZsUJcsCpkmbmFVYWmWfwCbKQ2MvDfQ7Y53ZwTo8MeeU9NvT3j41e1e8diLE6srzl">https://www.facebook.com/maira.freitas.14/posts/pfbid0MZsUJcsCpkmbmFVYWmWfwCbKQ2MvDfQ7Y53ZwTo8MeeU9NvT3j41e1e8diLE6srzl</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">LIMA, Alfredo. O calor do Rio de Janeiro é uma coisa absurda. Passa Palavra. 2019 Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2018/12/124567/">https://passapalavra.info/2018/12/124567/</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">MANOLO. Resenha: Labirintos do fascismo. Estilhaço. 2022. Disponível em: <a href="https://www.estilhaço.com.br/labirintosdofascismo">https://www.estilhaço.com.br/labirintosdofascismo</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">MARTINS, Karina Oliveira. Desocupa já! Eu quero aula: Aspectos psicossociais que motivam o Movimento Desocupa. Rev. psicol. polít., São Paulo , v. 22, n. 53, p. 105-122, abr. 2022. Disponível em: &lt;<a href="http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519549X2022000100008&amp;lng=pt&amp;nrm=iso">http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519549X2022000100008&amp;lng=pt&amp;nrm=iso</a>&gt;. acesso em 20 jul. 2023</p>
<p style="text-align: justify;">MARXISTA, Grouxo. O Estado e as ocupações: a autogestão possível e a autogestão necessária. Passa Palavra. 2016. Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2016/05/108235/">https://passapalavra.info/2016/05/108235/</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">OCUPACAIC/REVERENDO HUGH CLARENCE TUCKER Texto sobre a desocupação da E.E Prefeito Mendes de Moraes. 10 de Mai. 2016. Facebook: Ocupa CAIC/Reverendo Hugh Clarence Tucker. Disponível em: <a href="https://www.facebook.com/photo/?fbid=1079535732119299&amp;set=a.1064257276980478">https://www.facebook.com/photo/?fbid=1079535732119299&amp;set=a.1064257276980478</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">PASSA PALAVRA. Entrevista com estudante da #OcupaMendes Passa Palavra. 2016. Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2016/03/107881/">https://passapalavra.info/2016/03/107881/</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">SOUZA, Diego Felipe. Texto sobre o protesto do Desocupa contra a ocupação da escola. 20 de Abr. 2016. Facebook: FelipeQ2 Disponível em: <a href="https://www.facebook.com/FelipeQ2/posts/pfbid0c8W4v3zAqJK6jkoDXXQcFru5nYYUvDqf6ZDFWMn8UKhYvCACynMBPxGs5WaMGbTpl">https://www.facebook.com/FelipeQ2/posts/pfbid0c8W4v3zAqJK6jkoDXXQcFru5nYYUvDqf6ZDFWMn8UKhYvCACynMBPxGs5WaMGbTpl</a> Acesso em: 07/2023</p>
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		<title>Embiras &#8211; entre a rua e as redes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Sep 2026 15:30:15 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
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					<description><![CDATA[Cada experiência, inclusive as mais frustrantes, serviu para demonstrar na prática quais caminhos tendem a fortalecer a auto-organização e quais caminhos tendem a enfraquecê-la. Por Embiras]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Embiras</h3>
<p style="text-align: justify;">O Embiras nasceu de mais uma experiência frustrada, resultado de burocratização, formação de personalidade e pressão por visualizações nas redes sociais. As pessoas que viriam a fundar o grupo participaram brevemente de uma outra equipe <strong>[1]</strong>, focada nas “cobranças” em relação aos problemas enfrentados pelos entregadores de aplicativo. “Cobranças” aqui é definido como as formas que os trabalhadores de app encontraram para se contrapor aos esculachos de clientes e donos de estabelecimento, fazendo buzinaços em suas portas e divulgando os ocorridos nas redes sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse grupo em questão, essa equipe, destoava por se apresentar como um grupo organizado dessas cobranças, embora nas redes sociais a página do grupo tenha tentado se apresentar como uma página de notícias, uma estratégia para compartilhar os vídeos das cobranças. E esses vídeos viralizaram. Nada como a treta para garantir visualização e repercussão nas redes sociais. Junte-se isso ao fato da equipe em questão se posicionar firme em oposição a outra equipe, nascida da luta da categoria em Goiânia contra os aplicativos, mas que havia se degenerado em instrumento de gestão e de defesa das empresas de aplicativo &#8212; com alguns dos seus líderes inclusive recebendo dinheiro de uma dessas empresas <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o tempo as contradições foram se mostrando. O dono do grupo, que se apresentava como mais um, mas era quem controlava a página no instagram, não tardou a deixar claro seus interesses de influencer. Na realidade, o dono da página nem mesmo era um trabalhador de aplicativo &#8212; embora afirmasse que já havia sido um &#8212; e sim um empresário dono de empresa de aluguel de moto.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como na burocratização daquela equipe que se tornou instrumento das empresas, essa também viu o processo coletivo ser cada vez mais direcionado para o personalismo. Os vídeos que até então focavam na categoria em luta cederam lugar cada vez mais a vídeos do dono posando como influencer da categoria. E a sanha por likes transformou a página cada vez mais em página de fofocas sobre qualquer coisa que gerava engajamento. Aqueles trabalhadores que se opunham à linha empurrada foram queimados e difamados, muitas vezes em vídeos públicos, num reforço ao espírito de seita.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi após a saída de alguns &#8212; e expulsão de outros &#8212; dessa experiência que o Embiras foi formado. Ao contrário da forma organizativa surgida e adotada de forma espontânea pela categoria, que cria suas equipes à partir de grupos de afinidade dos trabalhadores de aplicativo, o Embiras nasce com uma perspectiva de ser uma minoria com posições políticas claras em defesa da auto-organização, contra a institucionalização e burocratização das lutas. O grupo não foi formado apenas por trabalhadores de aplicativo, mas também por trabalhadores de outras categorias apoiadores da luta desses trabalhadores &#8212; nenhum patrão, é importante frisar.</p>
<p style="text-align: justify;">Como primeira iniciativa do grupo, foi lançado o “Avalie os Estabelecimentos”, uma plataforma que servia como repositório de relatos sobre os estabelecimentos em que os trabalhadores coletam para posteriormente entregar. A aplicação recebeu dezenas de relatos sobre práticas abusivas, tratamentos desumanos, e mapeou aqueles lugares que ofereciam condições básicas para os trabalhadores (como água, banheiro e local para carregar o celular) com o objetivo de auxiliar os trabalhadores na sua labuta diária. Tivemos vários relatos interessantes e vimos em grupos tentativas de organização de breques em estabelecimentos que estavam sendo mal avaliados na plataforma. Mas o fato dessa plataforma rodar em um site mostrou uma dificuldade em sua adoção. O grupo construído em torno dessa plataforma, via whatsapp, de certa forma era mais dinâmico e acabava por centralizar mais os desabafos e os relatos do que a plataforma em si. A iniciativa da forma como foi concebida a princípio foi abandonada, deixando para depois repensá-la em outros moldes (como ferramenta interna no whatsapp parece ser a alternativa mais condizente com a “cultura cibernética” da categoria).</p>
<p style="text-align: justify;">Eis que uma das empresas lança uma atualização forçando a adoção de rotas curtas. Junta-se esse fato de atualização do app ao debate em torno da PLP 152/25, rejeitada amplamente pela categoria. Essas questões dão impulso a um processo de descontentamento crescente na categoria, e um trabalhador de aplicativo, resolve jogar a ideia de uma paralisação em grupos de whatsapp. Essa ideia viraliza por grupos, e o apoio se torna massivo. Uma outra equipe pega para si a chamada do movimento e cria um grupo chamando a paralisação. Esse trabalhador que deu o pontapé no processo é firme em criticar esse movimento (que contava com a equipe em questão utilizar os materiais criados por esse colega mas colocar o emblema de sua equipe). A crítica foi acatada, e os grupos de whatsapp criados para a paralisação removeram o emblema da equipe e passaram a defender a união das equipes em torno da luta, sem personalismos e sem ênfase em grupos particulares. Representantes do grupo de cobrança e do grupo burocratizado (inimigos mortais, é importante frisar) foram procurados para compor a luta. O primeiro aceitou, para logo em seguida abandonar inventando mentiras em suas redes. O segundo se absteve, e também partiu para o ataque contra o movimento, que não se encontrava em sua direção e seu controle.</p>
<p style="text-align: justify;">O ataque de ambos os grupos foi lamacento, com mentiras, manipulações e, enfim, a aliança entre os nossos heróis para acabar com a mobilização. As equipes, inimigas mortais, se uniram e fizeram uso de suas grandes páginas para criação de conteúdo unificado com objetivo de acabar com a luta, usando videos fora de contexto, informações velhas, e um monte de fake news. Apesar do dano sofrido, a piada se fez presente &#8212; o movimento foi tão inovador que conseguiu unir arqui-inimigos. As grandes páginas se uniram para acabar com o movimento descentralizado surgido da união de diversas equipes que não contavam com seus grandes números de curtidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159781 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243.jpg" alt="" width="1500" height="1243" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-300x249.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-1024x849.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-768x636.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-507x420.jpg 507w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-640x530.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-681x564.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />Apesar dos ataques constantes a luta ocorreu. É verdade que o clima nada amistoso e cheio de assédios de todo tipo, com direito a denúncias à polícia e ameaças de morte, enfraqueceu a demonstração de rua. Mas a adesão foi enorme, com grande quantidade de trabalhadores ficando em casa e pedidos acumulando em estabelecimentos por falta de trabalhadores na rua. Apesar da falta do breque, os fura-greves conseguiram produzir cenas espetaculares: Por conta das denúncias que fizeram à policia de que os grevistas pretendiam partir para a violência, a polícia atuou abordando aqueles entregadores que trabalhavam durante a paralisação, aplicando multas, recolhendo motos com documentos atrasados e, inclusive, segundo relatos, detendo trabalhadores que furavam a greve e portavam facas para se defender da ameaça dos vândalos inexistentes. Na falta do breque pela categoria, os fura-greve conseguiram fazer com que a polícia realizasse os breques, afetando diretamente quem trabalhava naquele dia de paralisação.</p>
<p style="text-align: justify;">A paralisação de Goiânia também teve sucesso em alcançar outros estados, gerar conteúdo para incentivo de outras cidades a aderirem à luta, fortalecendo a luta geral tanto contra a nova modalidade de trabalho (que já se colocava em outros aplicativos e se expandia territorialmente) quanto contra a PLP. O posicionamento da equipe burocrática também trouxe contradições internas que se tornaram impossíveis de conciliação. Muitos do grupo defendiam a paralisação e vendo os líderes adotando a campanha difamatória entraram em confronto direto, o que acabou gerando brigas e rachas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, o fim do processo e o recuo trouxeram novamente a separação. Aquele grupo que unificou equipes e possibilitou uma construção mais coletiva daquele processo não durou. Os embates entre equipes se fortificaram, reforçando a divisão já existente na categoria.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo o que foi vivido até aqui, essa trajetória não deve ser vista apenas como um relato de confusões, derrotas ou disputas internas. Pelo contrário. Cada experiência, inclusive as mais frustrantes, serviu para demonstrar na prática quais caminhos tendem a fortalecer a auto-organização e quais caminhos tendem a enfraquecê-la. Os ataques sofridos, as tentativas de cooptação, os personalismos, as campanhas de difamação e as disputas por protagonismo não fizeram desaparecer os problemas enfrentados diariamente pelos entregadores. As taxas continuam baixas, os bloqueios arbitrários continuam acontecendo, as mudanças unilaterais das plataformas seguem impactando a vida de milhares de trabalhadores e a ausência de qualquer controle real sobre as condições de trabalho permanece sendo uma realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Da parte do Embiras, a proposta segue sendo a mesma: fortalecer a auto-organização e combater a burocratização e a pessoalização das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> &#8211; Equipe é uma forma organizativa presente na categoria em Goiânia, onde os entregadores se organizam em grupos, criam suas camisas personalizadas e se auxiliam</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> &#8211; Uma trajetória dessa outra equipe pode ser encontrada <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/04/152631/" href="https://passapalavra.info/2024/04/152631/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/05/152678/" href="https://passapalavra.info/2024/05/152678/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/05/152788/" href="https://passapalavra.info/2024/05/152788/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Filippo Tommaso Marinetti (1876 &#8211; 1944)</em></p>
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		<title>A Gramática sem Dono &#8211; Parte II</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159568/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2026 17:42:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A gramática de classe não exige aparatos burocráticos, exige enraizamento no chão do bairro, da fábrica, do escritório, precisamente o chão que a esquerda evacuou.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Phintener</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>O sintoma tomado como explicação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159515/">Parte I</a> desta série demonstrou a emergência de uma gramática totalitária que atravessa o bolsonarismo e atinge, por homologia formal, as vertentes identitárias que se pretendem sua antítese. Resta enfrentar a questão central: por que o trabalhador precarizado adere à gramática que o subjuga? Recorrer aos clichês da “alienação” ou do “pobre de direita” é apenas a recusa da esquerda em olhar para a própria omissão. Esta Parte II toma a reação do eleitorado periférico não como um desvio moral, mas como um fato social a ser explicado.</p>
<p style="text-align: justify;">A análise cruza três fontes de dados: os registros eleitorais por zona do TSE (2024), os microdados de mobilidade da Pesquisa Origem-Destino (2023) e os setores censitários do Censo 2022. A cartografia que emerge desse mapeamento desmorona as ficções confortáveis da esquerda de Estado sobre o território que julgava dominar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>I. A disputa — três candidatos, 57 zonas, nenhuma vitória fácil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A eleição municipal de São Paulo em 2024 produziu, no primeiro turno, um resultado que contrariou as expectativas de todos os campos. Ricardo Nunes (MDB), Guilherme Boulos (PSOL) e Pablo Marçal (PRTB) chegaram ao resultado final separados por menos de dois pontos percentuais entre si — uma diferença estatisticamente estreita para uma cidade com mais de seis milhões de eleitores.</p>
<figure id="attachment_159575" aria-describedby="caption-attachment-159575" style="width: 346px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159575 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1.png" alt="" width="346" height="176" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1.png 346w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1-300x153.png 300w" sizes="auto, (max-width: 346px) 100vw, 346px" /><figcaption id="caption-attachment-159575" class="wp-caption-text">Gráfico 1 — Participação dos três principais candidatos no total de votos válidos (1º turno). Fonte: TSE, Votação nominal por município e zona, 2024.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O equilíbrio agregado, no entanto, oculta uma geografia interna profundamente assimétrica. Das 57 zonas eleitorais da capital, Boulos e Marçal venceram 20 cada; Nunes venceu apenas 17 — apesar de ter obtido a maior votação nominal total. A distribuição territorial, e não os números brutos, é onde o argumento da Parte II começa.</p>
<figure id="attachment_159576" aria-describedby="caption-attachment-159576" style="width: 265px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159576 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem2.png" alt="" width="265" height="180" /><figcaption id="caption-attachment-159576" class="wp-caption-text">Gráfico 2 — Zonas eleitorais vencidas por cada candidato. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong> II. O paradoxo da Zona Leste: espoliação material e captura gramatical</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que os totais agregados, é a cartografia do voto de Marçal que revela o nó analítico deste trabalho. Das 20 zonas eleitorais que conquistou, a esmagadora maioria concentra-se na Zona Leste histórica: Vila Formosa, Vila Matilde, Tatuapé, Sapopemba, Penha de França, Cangaíba, São Miguel Paulista, Itaquera, Ermelino Matarazzo e Vila Prudente. Falamos do tradicional cinturão produtivo paulistano — uma geografia ligada por contiguidade física e social ao ABC Paulista, matriz do sindicalismo combativo que gestou o PT e a CUT entre o fim dos anos 1970 e o início dos 1980. Com uma média de 31,2% de votos no quadrante leste — superando seu índice geral na capital —, a campanha de Marçal penetrou na medula desse território de trabalhadores. A escolha da Zona Leste como laboratório analítico central justifica-se precisamente por isso: ela condensa em estado puro o curto-circuito em tela — o mesmo tecido operário que Kowarick (1994) consagrou como epicentro das lutas urbanas da metrópole agora sob o domínio da teologia do empreendedor individual.</p>
<figure id="attachment_159577" aria-describedby="caption-attachment-159577" style="width: 398px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159577 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3.png" alt="" width="398" height="229" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3.png 398w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3-300x173.png 300w" sizes="auto, (max-width: 398px) 100vw, 398px" /><figcaption id="caption-attachment-159577" class="wp-caption-text">Gráfico 3 — Percentual médio de votos em Marçal por perfil territorial. A Zona Leste e a Zona Norte apresentam os maiores índices. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O Censo 2022 permite dimensionar o peso demográfico desse território. A Zona Leste concentra 3,57 milhões de habitantes — o segundo maior contingente entre as regiões da cidade, atrás apenas da Zona Sul — e registra a maior média de moradores por domicílio: 2,42 pessoas, contra 1,75 no Centro Expandido e 1,90 na Zona Oeste. Famílias maiores em domicílios menores, com renda familiar mediana de R$ 4.600 mensais: é a combinação que amplifica o impacto de qualquer confisco do rendimento real — cada real a menos no salário divide-se por 2,42 pessoas.</p>
<figure id="attachment_159578" aria-describedby="caption-attachment-159578" style="width: 420px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159578" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4.png" alt="" width="420" height="203" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4.png 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4-300x145.png 300w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /><figcaption id="caption-attachment-159578" class="wp-caption-text">Gráfico 4 — Perfil territorial de São Paulo: população e moradores por domicílio por região. Fonte: Censo IBGE 2022. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A Pesquisa Origem-Destino do Metrô de São Paulo (2023) confirma e detalha esse quadro. Com renda familiar mediana de apenas 3,5 salários mínimos por família, a Zona Leste fica muito abaixo da Zona Oeste (R$ 9.433) e do Centro Expandido (R$ 7.646) — e 42,7% de seus domicílios vivem com menos de R$ 4.000 mensais. Para uma família mediana de 2,42 pessoas, o valor per capita é de R$ 1.901 — um rendimento de subsistência frente ao estrangulamento do custo de vida paulistano. O dado mais revelador não reside nas médias agregadas por região, mas no estrangulamento por faixa de renda: trabalhadores com renda per capita de até 1 salário mínimo despendem em média de 85 a 88 minutos por deslocamento, contra 61 minutos gastos por aqueles posicionados acima de 3 salários mínimos — uma assimetria do tempo de 40%. A distância percorrida expõe a mesma fratura territorial: são 17,1 km de percurso para a fração de menor rendimento contra 10,1 km para as faixas de maior renda, uma disparidade de 70%. Na Zona Leste, essa desigualdade materializa-se no fato de que mais de 83% das viagens de trabalho dependem exclusivamente do transporte coletivo, sem qualquer flexibilidade modal. A dependência estrita do ônibus não é apenas uma métrica de tempo — é a expressão territorial da ausência de margem: não há automóvel próprio, não há orçamento para transporte por aplicativo, tampouco folga na renda que autorize outra escolha.</p>
<figure id="attachment_159579" aria-describedby="caption-attachment-159579" style="width: 403px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159579" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5.png" alt="" width="403" height="187" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5.png 403w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5-300x139.png 300w" sizes="auto, (max-width: 403px) 100vw, 403px" /><figcaption id="caption-attachment-159579" class="wp-caption-text">Gráfico 5 — Tempo e distância de deslocamento ao trabalho por faixa de renda per capita. Trabalhadores com renda de até 1 SM percorrem trajetos 70% mais longos e despendem 40% mais tempo do que trabalhadores com renda acima de 3 SM. Fonte: Pesquisa Origem-Destino Metrô SP 2023. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O gráfico abaixo sintetiza as quatro dimensões do território cruzadas nesta análise: população, renda, voto em Marçal e composição domiciliar. O padrão é inequívoco — as regiões de maior votação em Marçal são exatamente as de menor renda e maior densidade familiar.</p>
<figure id="attachment_159580" aria-describedby="caption-attachment-159580" style="width: 420px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159580 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6.png" alt="" width="420" height="315" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6.png 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-300x225.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-100x75.png 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-180x135.png 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-238x178.png 238w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /><figcaption id="caption-attachment-159580" class="wp-caption-text">Gráfico 6 — Síntese: quatro dimensões do território e do voto por região (renda: mediana familiar). Fontes: Censo IBGE 2022, Pesquisa OD Metrô SP 2023 e TSE 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Os dados da RAIS 2024 esmiúçam a natureza do vínculo de trabalho que serviu de alicerce histórico à região. Na capital paulista, o setor industrial lidera o índice de formalização com 95,3% de empregos celetistas. Contudo, essa cobertura contratual traduz-se em um salário mediano de escassos R$ 2.950 (2,09 salários mínimos), sendo que 48,3% dos operários não atingem a faixa de 2 mínimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Estrutura análoga verifica-se no setor de transportes, engrenagem vital da Zona Leste: com 94,4% de vínculos formais sob a CLT, o setor registra remuneração mediana de R$ 3.350 (2,37 SM), acumulando 41,4% de seus profissionais situados abaixo de 2 salários mínimos. O quadro expõe o drama do trabalhador de carteira assinada cuja remuneração sequer cobre os custos de reprodução da sua própria força de trabalho frente ao encarecimento da habitação e da mobilidade metropolitana. Longe de mitigar a espoliação material, a formalidade do contrato apenas a quantifica com precisão matemática no contracheque<strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente nesse chão material que a gramática do coaching encontra seu solo mais fértil. Sob a lógica da economia narrativa, prevalecem as linguagens capazes de oferecer a estrutura mais eficaz para processar as angústias da experiência vivida. O coach entrega ao trabalhador da Zona Leste a arquitetura clássica da gramática autoritária: o arco de decadência e redenção, a identificação nítida do inimigo (o &#8216;sistema&#8217;, o Estado, a burocracia), a promessa de um protagonismo individual imediato e a completa dispensa de mediações corporativas. Trata-se de uma sintaxe que opera abaixo da consciência reflexiva do sujeito — não é necessário dominar suas regras formais para reproduzi-la no cotidiano da sobrevivência.</p>
<figure id="attachment_159581" aria-describedby="caption-attachment-159581" style="width: 340px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159581" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7.png" alt="" width="340" height="191" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7.png 340w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7-300x169.png 300w" sizes="auto, (max-width: 340px) 100vw, 340px" /><figcaption id="caption-attachment-159581" class="wp-caption-text">Gráfico 7 — Top 10 zonas de Marçal: comparativo com Boulos e Nunes. Destacam-se as zonas da Zona Leste histórica. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>III. Do chão batido aos gabinetes: a retração da esquerda ao Centro e a tutela na periferia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A distribuição territorial do eleitorado de Guilherme Boulos projeta o espelho inverso daquilo que a narrativa progressista tradicional esperava. O candidato do PSOL não fincou suas maiores estacas na Zona Leste histórica, mas em dois polos sociologicamente antagônicos: o Centro Expandido (Pinheiros, Vila Mariana, Perdizes, Bela Vista) e a franja periférica de formação mais recente (Capão Redondo, Guaianases, Cidade Tiradentes, São Mateus e Campo Limpo).</p>
<figure id="attachment_159582" aria-describedby="caption-attachment-159582" style="width: 323px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159582" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8.png" alt="" width="323" height="186" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8.png 323w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8-300x173.png 300w" sizes="auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px" /><figcaption id="caption-attachment-159582" class="wp-caption-text">Gráfico 8 — Percentual médio de votos em Boulos por perfil territorial. Desempenho mais forte no Centro Expandido e na periferia distante. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Essa periferia distante — onde Boulos registrou seu melhor desempenho popular — caracteriza-se pela urbanização recente, pela baixa densidade de postos de trabalho e pela ausência de uma tradição fabril territorializada. <strong>[2]</strong> Ocorre que esse isolamento não constitui um mero detalhe geográfico, mas o resultado direto da metamorfose da esquerda combativa em esquerda de Estado: encerradas no formalismo corporativo dos setores organizados, as estruturas sindicais deram as costas aos trabalhadores informais, enquanto os quadros partidários de esquerda, convertidos em técnicos e gestores do Estado, desativaram a presença no território por considerarem a mobilização popular incompatível com a sua nova função de administradores da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante desse duplo deslocamento — corporativo e partidário —, a presença da esquerda nesses territórios deu-se quase exclusivamente pela via das lutas por moradia, das redes de solidariedade comunitária e da cobertura da assistência social, e não pelo enfrentamento direto do conflito entre patrão e trabalhador no local de produção ou de moradia. Nesses bairros, portanto, a atuação da esquerda governista estruturou-se na chave da tutela institucional, substituindo a solidariedade autônoma de classe pela intermediação burocrática junto às próprias instâncias do aparato público. Em contrapartida, a força de Boulos no Centro Expandido — cujo ápice registrou-se na Bela Vista, com 43,65% dos votos válidos — revela que seu núcleo eleitoral mais denso advém das zonas de alta renda e elevada escolaridade. Trata-se da geografia de reprodução das novas elites intelectuais e tecnocráticas, onde o discurso identitário e a pauta da gestão progressista da cidade encontram ressonância imediata — operando em um plano abstrato, blindado das agruras materiais e do confisco do tempo que martirizam o cotidiano do trabalhador no trecho metropolitano.</p>
<figure id="attachment_159583" aria-describedby="caption-attachment-159583" style="width: 292px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159583" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9.png" alt="" width="292" height="222" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9.png 292w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9-100x75.png 100w" sizes="auto, (max-width: 292px) 100vw, 292px" /><figcaption id="caption-attachment-159583" class="wp-caption-text">Gráfico 9 — Dispersão por zona eleitoral: Marçal × Boulos. Zonas acima da linha diagonal = Boulos à frente; abaixo = Marçal à frente. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>IV. O voto como escolha gramatical racional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A reação habitual da esquerda a estes números insiste no diagnóstico que a Parte I caracterizou como sintoma: o recurso preguiçoso à ideia de que o trabalhador periférico &#8216;não sabe votar&#8217; ou é refém de &#8216;alienação&#8217;. Trata-se de uma manobra típica da moralidade identitária — transmutar o estrangulamento material do sujeito em defeito de sua consciência. Se Faye explica a circulação da gramática do coaching, falta decifrar por que a linguagem de classe atrofiou. A gramática totalitária reproduz-se sem necessidade de regência central: ganha escala porque cada indivíduo, ao utilizá-la, a ratifica no espaço social. O inverso é verdadeiro: a gramática de classe não exige aparatos burocráticos para pulsar — exige enraizamento no chão do bairro, da fábrica, do escritório – das relações sociais de trabalho. E foi precisamente esse chão que a esquerda evacuou.</p>
<p style="text-align: justify;">O nó do problema é claro: a gramática totalitária não triunfou por superioridade teórica na Zona Leste, mas por ter herdado o vazio deixado pela retirada das lutas sociais. O operário da Vila Matilde não se tornou um convertido; ficou desprovido de linguagem de classe. Esse deserto gramatical constitui o desfecho inescapável do acoplamento do sindicalismo e dos partidos de esquerda às engrenagens do Estado Amplo. Trata-se de um longo processo de assimilação no qual os órgãos de combate, ao se converterem em burocracias, abandonaram a organização autônoma do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a entidade sindical assume o controle de fundos de investimento, o trabalhador que a rejeita não está alienado: está formulando um diagnóstico lúcido sobre uma estrutura que se virou contra ele. O problema é que essa recusa justa é tragada por uma narrativa que perpetua a sua espoliação.</p>
<p style="text-align: justify;">A derrocada do sindicalismo tradicional não gerou um vácuo inerte, mas uma zona gramatical desprotegida. A gramática totalitária — leve, descentralizada e viral — move-se com desenvoltura nesses espaços abandonados. O coach não derrotou a burocracia sindical na arena das ideias; simplesmente ocupou o espaço que esta desocupou ao se metamorfosear em capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador que reage contra esse ecossistema exerce uma leitura precisa da sua estagnação — ainda que o seu voto acabe prisioneiro de uma gramática autoritária. O rótulo de &#8216;pobre de direita&#8217; serve apenas para blindar a esquerda governista de sua própria falência territorial, recusando-se a enxergar a razão material do protesto. Com isso, cumpre-se rigorosamente a máxima de Faye: quando a linguagem de libertação deixa de habitar o cotidiano, a gramática totalitária não precisa vencer o debate de ideias — basta-lhe a posse do terreno vago.</p>
<p style="text-align: justify;">A narrativa do coach-empreendedor converteu-se na única gramática de agência que o sistema manteve aberta para quem vive sob o confisco do rendimento real, a expulsão do mercado formal e a desregulamentação absoluta. Diante do cinismo das linguagens institucionais herdeiras do iluminismo gerencial, a teologia do empreendedorismo de si performa uma falsa liberdade — mas entrega o único simulacro de protagonismo disponível no ecossistema criado pela própria gramática totalitária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>V. A acusação moral como escudo da burocracia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O insulto revela a estrutura. Ao rotular o espoliado periférico de “alienado” ou “pobre de direita”, a esquerda identitária reproduz o exato dispositivo que a Parte I identificou como marca do pós-fascismo: a essencialização do sujeito, a substituição da análise materialista pelo veredicto moral, a recusa da mediação em favor da condenação. O que torna esse dispositivo particularmente revelador é que ele opera nos dois polos do campo de esquerda — e de formas simétricas. A esquerda governista, assimilada pelo Estado Amplo, converte a crítica de classe em gestão identitária de conflitos: administra as diferenças sem tocar nas relações de exploração que as produzem. A extrema-esquerda, encastelada em sua pureza doutrinária, recusa o contato com a classe real porque a classe real não corresponde ao sujeito histórico que seus textos prescrevem. Ambas produzem o mesmo resultado prático: o terreno vago. Uma o produz por integração ao capital; a outra, por horror ao chão.</p>
<p style="text-align: justify;">Reed Jr. e Michaels dissecaram o mecanismo nos Estados Unidos: a centralidade identitária desloca o conflito de classe para um terreno perfeitamente palatável às elites corporativas. No caso brasileiro, o deslocamento tem uma especificidade: foi operado em parte pelas mesmas estruturas que deveriam ser seu antídoto. A burocracia sindical que gere fundos de pensão e senta em conselhos de administração não apenas deixou de representar o trabalhador — tornou-se parte do sistema que o explora. O rótulo de “pobre de direita” é a última linha de defesa dessa burocracia: enquanto o trabalhador da Zona Leste for visto como problema cognitivo, não será necessário enfrentar a ruptura estrutural que a própria esquerda produziu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VI. A gramática e o território</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A eleição de 2024 em São Paulo traduz no território o que a análise teórica demonstrou no plano discursivo: a gramática totalitária encontrou no antigo cinturão operário o seu solo mais fértil precisamente porque as instâncias de mediação de classe se retiraram do chão da fábrica e do bairro.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a evidência empírica confirma não é uma mera correlação estatística entre espoliação e voto — isso qualquer regressão linear produziria. O que os dados escancaram é um paradoxo histórico: a Zona Leste, berço da maior densidade de organização trabalhadora desta metrópole, tornou-se o epicentro de adesão a uma narrativa que dissolve a consciência de classe no empreendedorismo de si. Não se trata de coincidência, mas de causalidade funcional: a gramática totalitária não penetrou apesar da tradição operária, mas através da casca em que essa tradição se converteu ao integrar-se às funções gerenciais do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O contradiscurso possível não virá da tutela moral de uma burocracia partidária. Virá da reconstrução de uma linguagem enraizada no chão da vida cotidiana — no tempo espoliado no transporte, na conta que não fecha, no rendimento real confiscado pela metrópole. Somente uma gramática que coloque a exploração material no centro, oferecendo pertencimento sem exigir submissão à etiqueta gerencial, poderá romper os labirintos digitais do capital. A disputa decisiva não é pela conversão moral do indivíduo, mas pela posse das palavras que dão sentido à dor do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">E aqui está o verdadeiro paradoxo que os dados revelam: a Zona Leste não foi capturada pela gramática do coach apesar de ter sido o berço do sindicalismo combativo. Foi capturada por causa do que esse sindicalismo se tornou. O fascismo pós-fascista não precisou vencer a tradição operária da Vila Matilde — bastou-lhe aguardar que ela se desintegrasse por dentro. O triunfo da gramática totalitária no antigo cinturão operário de São Paulo não é uma vitória ideológica: é o resultado de uma vacância. Enquanto essa vacância não for preenchida por uma gramática que nomeie a exploração com a precisão com que os dados a revelam, o ônibus das cinco da manhã continuará sendo o veículo em que a gramática sem dono faz seus recrutamentos. Até quando os gabinetes continuarão culpando os trabalhadores pelo deserto que eles próprios produziram?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Nota metodológica: Os dados setoriais da RAIS referem-se ao município de São Paulo como um todo. O geocruzamento RAIS × distrito — que estabelece a densidade de postos de trabalho por unidade territorial e sua correlação com o resultado eleitoral por zona.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A assimetria entre distritos-polo e distritos-dormitório constitui o dado estrutural que ancora empiricamente o argumento desta seção. Enquanto Itaim Bibi registra densidade de emprego formal equivalente a 420% de sua PEA residente — absorvendo, portanto, força de trabalho de outros territórios —, Itaim Paulista e Cidade Tiradentes, distritos nucleares da Zona Leste, operam com densidades de 15% e 16%, respectivamente. O trabalhador residente nesses distritos não apenas recebe menos: trabalha em outro território, percorrendo diariamente a distância entre o dormitório periférico e o polo atrator, o que explica de forma estrutural, e não apenas estatística, os 83% de dependência exclusiva do transporte coletivo registrados pela OD 2023.</p>
<p><em><strong>*</strong> A publicação deste artigo foi dividida em duas partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2026/07/159515/">Parte 1</a></em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">BERNARDO, João. Capital, gestores, sindicato. São Paulo: Vértice, 1987.<br />
BERNARDO, João. Labirintos do Fascismo. Porto: Afrontamento, 2015.<br />
BERNARDO, João. Do sindicalismo de negócios ao negócio sindical. Passa Palavra, 3 jul. 2019. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/07/127156" href="https://passapalavra.info/2019/07/127156" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2019/07/127156</a>.<br />
BERNARDO, João; PEREIRA, Luciano. Capitalismo Sindical. São Paulo: Xamã, 2008.<br />
COMPANHIA DO METROPOLITANO DE SÃO PAULO. Pesquisa Origem e Destino 2023. São Paulo: Metrô, 2025.<br />
FAYE, Jean-Pierre. Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative. Paris: Hermann, 1972.<br />
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2022: Agregados por Setores Censitários. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.<br />
KOWARICK, Lúcio (org.). As lutas sociais e a cidade: São Paulo, passado e presente. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1994.<br />
REED JR., Adolph; MICHAELS, Walter Benn. No Politics but Class Politics. Londres: ERIS, 2023.<br />
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Votação nominal por município e zona — Eleições 2024. Disponível em: &lt;<a class="urlextern" title="https://dadosabertos.tse.jus.br" href="https://dadosabertos.tse.jus.br" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://dadosabertos.tse.jus.br</a>&gt;. Acesso em: jul. 2026.</p>
<p style="text-align: center;"><em>A obra que ilustra o artigo é da autoria de Paulo Ito (1978-).</em></p>
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		<title>A gramática sem dono &#8211; Parte I</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 15:46:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando ambos os polos passam a falar rigorosamente a mesma língua, a gramática totalitária se consuma. Por Marcelo Phintener]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Phintener</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Coerência sem coordenação: a gramática totalitária do Partido Digital Bolsonarista</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Há um enigma no centro de qualquer análise do bolsonarismo: como um movimento sem estrutura formal, sem programa unificado e sem disciplina institucional clássica produz uma coerência discursiva que partidos tradicionais raramente conseguem manter?</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta a esse enigma encontra um marco fundamental na pesquisa do CCI/Cebrap publicada em <em>O Partido Digital Bolsonarista</em>. O livro demonstra que o movimento possui uma arquitetura organizativa real: hierarquias informais, cadeias de lealdade consolidadas e uma coordenação capilarizada pelas redes. É o mapeamento indispensável da engrenagem do ecossistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas há uma coerência que se manifesta mesmo onde a coordenação direta não alcança. Um pastor no Maranhão, um general em Brasília, um influenciador em São Paulo e um vereador no interior do Paraná podem nunca ter operado na mesma cadeia de comando e, ainda assim, produzem variações precisas do mesmo texto profundo.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse horizonte que Jean-Pierre Faye, em <em>Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative</em> (1972), oferece o instrumental para nomear o que cimenta esse ecossistema: não apenas a coordenação, mas a existência de uma gramática que opera num nível anterior a qualquer articulação consciente.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que é uma gramática política</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Faye usa o termo “gramática” num sentido estrito: não como as regras formais da língua, mas como a estrutura subterrânea que determina o que pode ser dito, como pode ser dito e quais combinações de imagens e narrativas são possíveis dentro de um campo. Uma gramática política é o conjunto de regras implícitas que organiza a produção e a circulação do discurso: define quem é o inimigo, quais emoções são legítimas, que narrativas fazem sentido e quais imagens mobilizam.</p>
<p style="text-align: justify;">O crucial é que essa gramática opera abaixo da consciência política dos falantes. Ninguém precisa conhecer suas regras para aplicá-las. Ela circula — de meme em meme, de sermão em sermão — e se reproduz porque cada falante, ao usá-la, a confirma para os demais. Produz coerência por si mesma, prescindindo de um centro distribuidor ou de uma hierarquia que a imponha.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A gramática bolsonarista: elementos estruturais</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O ecossistema bolsonarista possui uma gramática identificável. Seus elementos têm precedentes históricos — Faye os rastreou na República de Weimar —, mas se manifestam em roupagens novas, adaptadas ao cenário brasileiro e à arquitetura digital.</p>
<p style="text-align: justify;">A gramática bolsonarista é estruturada em torno do inimigo que opera por dentro, não por fora: o infiltrado, o corrompido, o traidor que ocupa posições de poder para destruir a nação. Comunismo, globalismo, “marxismo cultural” e “ideologia de gênero” compartilham a mesma estrutura: forças que contaminam o tecido social a partir de dentro. Disso decorre a necessidade de vigilância, denúncia e expurgo permanentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Em oposição ao infiltrado, constrói-se a imagem de uma comunidade idílica pré-contaminação — o Brasil cristão, patriota, trabalhador e de família. Não se trata de uma construção política ou de uma aliança de interesses: é essência. E essências não negociam, restauram-se.</p>
<p style="text-align: justify;">O tempo é organizado em três momentos: um passado de ordem, um presente de decadência e um futuro de purificação — o mito de queda e redenção que Faye identifica nas linguagens totalitárias. Essa temporalidade possui uma eficácia mobilizadora que o reformismo progressista não consegue igualar: cria urgência absoluta, personifica os culpados e oferece salvação pela ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">A violência raramente é celebrada de forma explícita, mas é pressuposta como necessidade lógica: se a restauração exige o expurgo do elemento corruptor, o horizonte final é a eliminação simbólica ou física do inimigo. O líder, por sua vez, não representa a comunidade no sentido político-formal; ele a encarna, sem mediações. Daí a impossibilidade da crítica: contestar o líder não é exercer um direito democrático, é atacar a comunidade — e o crítico automaticamente se torna inimigo interno.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159519" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960.jpg" alt="" width="410" height="615" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960.jpg 410w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 410px) 100vw, 410px" />Como a gramática circula: a simbiose digital</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Embora os elementos dessa gramática remontem ao início do século XX, seu ambiente de circulação é inédito. As plataformas digitais funcionam como máquinas de replicação: não distribuem programas políticos complexos, mas fragmentos discursivos de alta velocidade — memes, cortes de vídeo, frases de efeito e reações.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada fragmento é pequeno demais para carregar uma posição ideológica completa, mas transporta os genes da gramática. É essa circulação molecular acumulada que satura o debate público. O algoritmo não possui ideologia partidária, mas sua lógica de engajamento favorece reações emocionais intensas, polarização e pânico moral. A gramática totalitária se ajusta a esse ecossistema não por coordenação prévia, mas por afinidade estrutural com a arquitetura das redes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A antropofagia reacionária: a captura do identitarismo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O avanço desse ecossistema revela uma das operações mais sofisticadas do fascismo pós-fascista: ele não combate as pautas identitárias da esquerda, ele as deglute, mimetiza sua estrutura discursiva e as devolve como um espelho invertido. Essa captura opera por dispositivos gramaticais precisos.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, ocorre a inversão do lugar de fala. A extrema-direita se apropria da gramática que estrutura o debate em torno de opressão e vulnerabilidade para posicionar sua própria base — o homem comum, trabalhador, heterossexual, cristão — como a verdadeira minoria perseguida. As pautas de inclusão passam a ser lidas como privilégios outorgados por elites burocráticas (o consórcio entre imprensa, judiciário e academia). O ressentimento é assim legitimado: o cidadão comum reivindica o estatuto de vítima de um sistema que confisca seu rendimento e seu tempo em nome do politicamente correto.</p>
<p style="text-align: justify;">A gramática totalitária não se esquiva da fragmentação promovida pela esquerda; instrumentaliza-a como contraexemplo para erigir um identitarismo de sinal invertido — o hiperidentitarismo nacional-cristão. Em vez de atomizar o sujeito político, oferece uma essência unificada e excludente: o “verdadeiro patriota”. É uma matriz de pertencimento de consumo imediato, projetada para purificar o indivíduo de suas contradições materiais.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador precarizado — submetido diariamente a longos deslocamentos e à espoliação de seu rendimento — sofre, ao absorver esse código, uma mutação perceptiva: deixa de interpretar sua condição pelo prisma da exploração e passa a se ver como célula de uma comunidade orgânica ameaçada. É um curto-circuito analítico que sequestra o ressentimento material legítimo e o canaliza para a defesa metafísica da ordem que o explora.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Coordenação e gramática</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O mapeamento de Nobre e Teixeira evidencia com rigor as cadeias de lealdade, a engenharia do financiamento e os mecanismos de disciplina informal que dão corpo ao PDB. São achados fundamentais para desmistificar a tese de um movimento caótico ou espontâneo. Mas, sob a perspectiva de Faye, essa coordenação é, em grande medida, uma sofisticação secundária da própria gramática — não sua causa primeira.</p>
<p style="text-align: justify;">O PDB alcança tamanha eficácia de coordenação porque seus membros — dispersos, moleculares, muitas vezes desconectados entre si — já compartilham um código comum. É esse código que torna a ação conjunta imediata e orgânica, prescindindo de ordens explícitas ou de uma burocracia centralizada. A gramática funciona como condição de possibilidade da própria organização técnica.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí decorre uma implicação crucial: o movimento é mais resiliente do que o modelo organizacional sugere. Tratá-lo apenas como organização leva à suposição de que, ao cortar o financiamento ou decapitar a liderança, o ecossistema colapsa. No entanto, a gramática existe de forma distribuída, em milhões de fragmentos que circulam de maneira autônoma.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que a derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022 não desmantelou o movimento — e nem mesmo a ameaça ou a consumação da prisão de suas figuras de proa tem esse poder. A hierarquia foi perturbada, novas lideranças regionais emergiram, as cadeias de lealdade sofreram disputas internas, mas o texto profundo continuou intacto. A punição jurídica ou a inelegibilidade operam no plano dos indivíduos e da superfície institucional; porém, enquanto a gramática circula e continua a fundar a topografia do aceitável, o campo de força permanece vivo, pronto para ser reativado e performado por novos agentes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159520" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516.jpg" alt="" width="474" height="329" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516-300x208.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />A gramática e o coach: Marçal como caso analítico</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Pablo Marçal é o caso que melhor ilustra a autonomia da gramática frente à coordenação partidária. Outsider, desafiou a hierarquia estabelecida do PDB, disputou o espólio digital do bolsonarismo e emparedou o campo tradicional na eleição municipal de São Paulo em 2024 — à revelia e contra a vontade dos caciques do movimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob a lente da coordenação e das cadeias de lealdade, Marçal é uma anomalia inexplicável. Sob a lente de Faye, é a comprovação da tese: ele não precisou de autorização partidária porque dominava a gramática bolsonarista — a narrativa de decadência e redenção, o ataque ao inimigo interno e a promessa de conexão direta com o líder. Sua inovação foi traduzir essa gramática para o registro do empreendedorismo de si e do <em>coach</em> de autoajuda. Quem domina o código discursivo constrói legitimidade própria no ecossistema, imune ao veto da burocracia organizacional.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O impasse das gramáticas da esquerda e a conversão totalitária</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O exame da realidade concreta demonstra que o impasse da esquerda contemporânea não decorre de uma mera “falta de estratégia”, mas de uma conversão gramatical já consumada. O campo progressista fraturou-se em dois polos discursivos que, embora não tenham como objetivo deliberado o fortalecimento do fascismo, terminam por alimentá-lo: um deles por incapacidade de formular o contradiscurso materialista, e o outro por converter-se, ele mesmo, em uma nova modalidade de controle burocrático e totalitário.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro polo, o do universalismo abstrato, esvaziou-se de materialidade social. É uma linguagem institucional herdada do iluminismo jurídico, que articula categorias neutras como “direitos”, “justiça” e “democracia”, mas padece de anemia estética e afetiva. Ao converter a exploração em relatórios gerenciais e a política em gestão tecnocrática, torna-se ininteligível para a classe trabalhadora precarizada, cujo tempo e rendimento são diariamente corroídos. Frente à crueza da sobrevivência, soa como simulacro cínico.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo polo, o da fragmentação identitária, opera a inversão mais trágica. Ao abandonar a crítica da economia política em nome de micropolíticas de nicho, adota uma estrutura homóloga à do próprio fascismo. Sob uma retórica emancipatória, a linguagem identitária contemporânea passa a funcionar como um fascismo pós-fascista.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mutação formal encontra genealogia histórica precisa nas teses de Zeev Sternhell em <em>O Nascimento da Ideologia Fascista</em>. Sternhell demonstra que o fascismo histórico não emerge de uma herança pura da direita conservadora, mas de uma revisão antimaterialista do marxismo e de uma dissidência interna ao sindicalismo revolucionário do início do século XX. Intelectuais como Georges Sorel, ao repudiarem o economicismo e o racionalismo do marxismo, operaram um entrecruzamento radical: substituíram as leis objetivas do desenvolvimento econômico pelo culto ao mito, à identidade orgânica e à violência regeneradora. Sob essa ótica, Mussolini não traiu o socialismo; ele consumou a premissa antimaterialista que permitiu fundar uma nova topografia de controle.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda identitária contemporânea mimetiza essa rota, fazendo as vezes de um novo tipo de nacionalismo. Se o nacionalismo clássico erguia o mito de uma comunidade de sangue e solo para neutralizar as fraturas de classe e exigir lealdade absoluta a uma essência abstrata, o identitarismo contemporâneo opera o mesmíssimo cercamento sob a forma de uma comunidade de trauma e biologia.</p>
<p style="text-align: justify;">A nação cede lugar ao gueto identitário, mas a mecânica política é idêntica: o pertencimento cultural ou biológico sobrepõe-se à condição material de classe. Dentro das fronteiras desse novo nacionalismo molecular, aciona-se o dispositivo da pureza e do expurgo permanente: o debate é substituído por tribunais inquisitoriais digitais, onde a dissidência conceitual é tratada como traição à pátria-identidade, um crime de contaminação moral que exige o cancelamento e a eliminação reputacional do indivíduo. Não há espaço para a contradição ou para a mediação: a essência do grupo é sagrada; o outro é o infiltrado permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse arranjo, a universidade contemporânea atua como um dos mais potentes aparelhos privados de hegemonia do Estado Amplo: o cancelamento não constitui um acaso ou excesso isolado, mas sim uma tecnologia institucionalizada de poder. No interior da academia, o desvio conceitual é formalmente tipificado como heresia, mobilizando processos administrativos, a censura de linhas de pesquisa, a exclusão de bancas, reprovações sumárias e o bloqueio preventivo de contratações e publicações. A universidade passa a funcionar, portanto, como a alfândega ideológica que valida quem possui a pureza linguística necessária para ascender às novas elites.</p>
<p style="text-align: justify;">É a incompreensão dessa captura que alimenta o senso comum de certa esquerda contemporânea, cuja resposta tem sido a defenestração sumária e o desprezo pelo chamado “pobre de direita”. Ao converter captura linguística em falha moral do trabalhador, essa esquerda desconversa as razões de sua própria falência. Cancela-se o sujeito real para não enfrentar a realidade material — e esse moralismo valida a narrativa bolsonarista do inimigo infiltrado. Quando o discurso progressista rotula o espoliado periférico como “alienado” por buscar refúgio na teologia da prosperidade, carimba seu próprio divórcio das bases materiais. O vazio é preenchido por um policiamento de costumes que empurra o trabalhador para o único espaço que lhe oferece pertencimento místico e explicação totalizante para sua dor: o laboratório digital do pós-fascismo.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159518" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676.jpg" alt="" width="474" height="316" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />A plasticidade estrutural e a captura das elites</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">É neste ponto que se revela o verdadeiro pulo do gato do fascismo pós-fascista: sua plasticidade estrutural, um fenômeno que remete diretamente às teses de João Bernardo em <em>Labirintos do Fascismo</em>. Bernardo desfaz a ilusão liberal e descortina o mito da virgindade das democracias representativas, demonstrando que estas jamais estiveram imunes ou descomprometidas com o fascismo. Longe de haver uma separação estanque entre o Estado Restrito (o aparato político-jurídico clássico de governos, parlamentos e tribunais) e o Estado Amplo (a rede difusa de corporações, fundações, aparelhos de hegemonia e, contemporaneamente, as plataformas digitais), o fascismo não destrói essas esferas: integra-as numa totalidade funcional.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, desaba a objeção convencional de que a esquerda identitária careceria do aparato de força estatal para constituir uma modalidade pós-fascista. A posse do aparato clássico de coerção não é o critério que distingue a homologia formal, pois ambos os campos mobilizam instâncias de poder complementares. O que unifica a extrema-direita bolsonarista e a esquerda identitária é operarem como projetos agressivos de circulação e remodelação das elites no capitalismo. Ambas visam à ocupação dos postos de comando; o que muda é a distribuição de suas forças no interior do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a extrema-direita bolsonarista prioriza a colonização do Estado Restrito acoplada às milícias digitais do Estado Amplo, a gramática identitária de esquerda opera uma hibridização simétrica:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li class="level1">
<div class="li"><strong>No Estado Amplo:</strong> a remodelagem ocorre pela via positiva da ocupação gerencial: o domínio do código identitário vira critério de recrutamento e ascensão em diretorias, conselhos, fundações e oligopólios de mídia. E pela via negativa, contra os dissidentes do código: demissões por pressão empresarial, boicotes econômicos, exclusão dos circuitos editoriais e acadêmicos.</div>
</li>
<li class="level1">
<div class="li"><strong>No Estado Restrito:</strong> a estratégia é homóloga: opera-se a ocupação de cargos de confiança nos altos escalões — ministérios, secretarias e conselhos reguladores —, transformando o jargão identitário em pré-requisito de governança e critério de fomento estatal, até a positivação jurídica de seus códigos. Capturado, o aparato punitivo do tribunal clássico passa a sancionar o desvio conceitual, fundindo a coerção penal do Estado Restrito com o linchamento moral do Estado Amplo.</div>
</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">A convergência não se esgota na infraestrutura digital das redes, mas se consuma na sua articulação com o próprio território. As plataformas e as <em>Big Techs</em> lucram com a extração de valor dessa guerra cultural permanente enquanto as novas elites burocráticas — públicas e privadas — disputam os postos de comando. Enquanto isso, a exploração do trabalho, a expropriação do tempo e o confisco do rendimento real permanecem intocados à sombra do espetáculo discursivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Bernardo, o traço distintivo do fascismo pós-fascista dos identitarismos está menos na ideologia declarada e mais nas modalidades organizativas: os antigos métodos de intimidação corporal cedem lugar às engrenagens virtuais do linchamento digital e do isolamento reputacional (BERNARDO, 2024). O fascismo sobrevive e se sofistica na exata medida em que transfere sua eficácia coercitiva para a esfera das interações em rede — renovando-se por meio de aparências e vocabulários que simulam o oposto de sua matriz histórica.</p>
<p style="text-align: justify;">Bernardo não está isolado nessa constatação, embora a formule com mais radicalidade. A crítica de dentro da própria esquerda à gramática identitária fragmentada tem genealogia própria. O teórico britânico Mark Fisher, num ensaio de 2013, descreveu o que chamou de “Castelo dos Vampiros”: uma cultura de denúncia pública movida por um desejo quase sacerdotal de excomungar, na qual toda a identidade de alguém pode ser reduzida a um deslize de linguagem. Para Fisher, essa cultura torna a solidariedade impossível, substituindo a ação coletiva pela vigilância recíproca do comportamento individual.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos Estados Unidos, Adolph Reed Jr. e Walter Benn Michaels sustentam tese semelhante por outro caminho: a centralidade dada às disparidades identitárias obscurece o que produz a desigualdade material, deslocando o conflito de classe para um terreno gerenciável pelas próprias elites. Não é acidental que o próprio Reed, socialista negro com décadas de militância, tenha tido uma palestra cancelada em 2020 por um núcleo da <em>Democratic Socialists of America</em>, que classificou sua intervenção como reacionária e reducionista de classe. O episódio ilustra com precisão o mecanismo: a crítica interna tratada não como divergência legítima, mas como contaminação a expurgar.</p>
<p style="text-align: justify;">O mecanismo se repete em padrões reconhecíveis: o intelectual de longa trajetória que, ao formular uma divergência tática, é reclassificado retroativamente como inimigo da causa; o professor que, pela imprecisão didática de uma aula, é denunciado a partir de um fragmento de vídeo descontextualizado; a escritora que, ao discordar de uma ortodoxia vocabular, é banida de festivais. Em todos os casos, a estrutura é a mesma que Bernardo descreve para o fascismo clássico: o expurgo não precisa de prova, precisa de suspeita; a pureza do grupo importa mais que a verdade; a punição serve menos para corrigir o indivíduo e mais para reafirmar os limites coercitivos da comunidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O padrão encontrou um caso emblemático em fevereiro de 2025. A psicanalista Maria Rita Kehl — figura histórica da esquerda brasileira e membra da Comissão Nacional da Verdade — foi alvo de linchamento virtual após criticar o “nicho narcísico” do movimento identitário. Os detratores não refutaram seu argumento: resgataram a figura de seu avô, um eugenista do início do século XX, e passaram a editar sua biografia na Wikipédia para sublinhar uma suposta “degenerescência hereditária” — termo retirado do próprio vocabulário eugenista que a esquerda historicamente combateu. Décadas de produção intelectual e militância foram substituídas pela genealogia biológica. É o mecanismo de Bernardo: não importa o que o sujeito fez, importa a contaminação essencialista que ele supostamente carrega.</p>
<p style="text-align: justify;">No ambiente das plataformas digitais — que extraem valor da fratura, do pânico moral e do engajamento pelo ódio —, a fragmentação identitária da esquerda e o hiperidentitarismo nacional-cristão da direita operam em simbiose algorítmica real. É o processo de convergência que Bernardo identifica como gerador do fascismo, atualizado para o ecossistema digital. A esquerda identitária, ao adotar a gramática do expurgo e da pureza, fornece ao pós-fascismo uma de suas modalidades renovadas, enquanto a exploração do trabalho e a expropriação do tempo seguem operando à sombra do espetáculo, em ambos os campos.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159521" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1223" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-300x143.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-1024x489.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-768x367.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-1536x734.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-2048x978.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-879x420.jpg 879w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-640x306.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-681x325.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />A gramática sem dono</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Partido Digital Bolsonarista é, na superfície, a máquina de coordenação descrita por Nobre e Teixeira: hierarquia, lealdades e mobilização digital. Sob essa camada, contudo, opera o texto profundo de uma gramática totalitária que, nos termos de João Bernardo, já não pertence a um único espectro político. O fascismo pós-fascista é o nome do resultado quando essa gramática atravessa, por convergência, tanto o bolsonarismo quanto os identitarismos que se imaginam seus opostos.</p>
<p style="text-align: justify;">O diagnóstico do presente revela que o fascismo pós-fascista não é um quartel-general a ser sitiado, nem uma organização a ser desmontada por decretos judiciais ou pela regulação de plataformas. É, antes de tudo, uma gramática consolidada por uma arquitetura digital que favorece a exclusão, a essencialização do sujeito, a paranoia do inimigo interno e o linchamento molecular — uma gramática cuja origem e função histórica recente pertencem ao bolsonarismo, mas cuja circulação já não respeita fronteiras ideológicas.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda identitária fragmentada revela-se uma modalidade desse fenômeno. Não se trata de uma analogia retórica ou de uma provocação, mas do reconhecimento de uma homologia formal: a reprodução exata dos dispositivos de essencialização, paranoia do inimigo interno e expurgo permanente, transpostos para o Estado Amplo, para a arena virtual e para os escalões do Estado Restrito. Isso não apaga as distinções de escala e método que separam o gueto inquisitorial identitário da violência miliciana bolsonarista; mas a diferença de dinâmica não autoriza a recusa do nome.</p>
<p style="text-align: justify;">A coerência do ecossistema dispensa coordenação centralizada porque a gramática que o atravessa possui uma capacidade de circulação molecular que excede qualquer filiação política declarada, colonizando inclusive a inteligência discursiva de quem se imagina seu opositor. O verdadeiro triunfo do fascismo pós-fascista não está na eliminação física dos adversários, mas na sua conversão formal. Quando ambos os polos passam a falar rigorosamente a mesma língua — a da pureza mística, do linchamento reputacional e da aniquilação do outro —, a gramática totalitária se consuma. Enquanto essa guerra cultural permanente satura as redes e remodela as elites burocráticas, as engrenagens materiais da exploração do trabalho, da expropriação do tempo e do confisco do rendimento real permanecem blindadas, à sombra dos labirintos digitais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159516" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513.jpg" alt="" width="474" height="355" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-238x178.jpg 238w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" /></strong></h4>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Damian Ortega.</em></p>
<p><em><strong>* </strong>A publicação deste artigo foi dividida em XX partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2026/08/159568/">Parte 2</a></em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></h4>
<ul>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">BERNARDO, João. <em>Labirintos do Fascismo</em>. Porto: Afrontamento, 2015.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">BERNARDO, João. “Quem é o quê?”. <em>Passa Palavra</em>, 19 dez. 2024. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/12/155419/" href="https://passapalavra.info/2024/12/155419/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2024/12/155419/</a>.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">FAYE, Jean-Pierre. <em>Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative</em>. Paris: Hermann, 1972.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">FISHER, Mark. “Exiting the Vampire Castle”. <em>The North Star</em>, 2013.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">NOBRE, Marcos; TEIXEIRA, Ana Claudia (org.). <em>O Partido Digital Bolsonarista</em>. São Paulo: CCI/Cebrap, 2026.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">TONIOL, Rodrigo. “O cancelamento de Maria Rita Kehl e as armadilhas do identitarismo”. <em>Folha de S. Paulo</em>, 12 fev. 2025. Republicado no <em>Blog da Boitempo</em>.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">REED JR., Adolph; MICHAELS, Walter Benn. <em>No Politics but Class Politics</em>. Londres: ERIS, 2023.</div>
</li>
<li class="level1">
<div class="li" style="text-align: justify;">STERNHELL, Zeev; SZNAJDER, Mario; ASHÉRI, Maia. <em>The Birth of Fascist Ideology: from cultural rebellion to political revolution</em>. Princeton: Princeton University Press, 1994.</div>
</li>
</ul>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Dez anos de uma quase-organização: entrevista com o Grupão</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159296/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 14:23:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas. Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão</h3>
<p style="text-align: justify;">Após viagens ao Brasil entre 2024 e 2025, companheiros da editora militante chilena Pensamiento y Batalla (PyB) organizaram um livro reunindo entrevistas a coletivos com os quais tiveram contato, compondo um panorama de perspectivas e trajetórias diversas na militância anticapitalista e antiestatal em várias partes do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os grupos entrevistados, está o nosso: uma rede mais ou menos informal de camaradas que, desde 2016, se reúne duas ou mais vezes por ano para discutir teoria e prática da luta de classes. Sem a pretensão de criar uma cara pública, chamamos essas reuniões entre nós simplesmente de “Grupão”. Foi a forma que encontramos para que camaradas que se aproximaram no intenso período em torno de 2013 continuassem em contato: uma auto-organização de “resíduos” das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Grupão foi um espaço de reflexão sobre nossas derrotas, tanto da incorporação à ordem das organizações produzidas no ciclo dos anos 1970-80, quanto dos limites das revoltas deste século. Ao mesmo tempo, a existência da nossa articulação também permitiu que companheiros mantivessem esforços de investigação, ação e reflexão sobre a conjuntura e as novas lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando sintetizamos nossos debates em textos coletivos, a falta de uma identidade pública gerou um problema de apresentação. No livro <em>Incêndio</em>, de 2022, por exemplo, usamos a assinatura de “um grupo de militantes na neblina” (estamos “na neblina”, já que o horizonte revolucionário parece encoberto nesse tempo…). Com isso, tentamos preservar a característica difusa e as divergências que existem dentro do Grupão. Para a entrevista aos chilenos, a solução foi outra: reunimos cinco colegas de diferentes estados (Goiás, Minas Gerais e São Paulo), respondemos às perguntas oralmente e as transcrevemos, apresentando um pouco de nossas polêmicas e questões em aberto.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim, essa entrevista acabou sendo um dos primeiros documentos públicos que apresenta mais sistematicamente o Grupão nesses 10 anos. Se o texto já está circulando em espanhol, passou da hora de publicá-lo também em português, então enviamos ao Passa Palavra.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Em quais outras cidades ou estados brasileiros, além da grande São Paulo, há núcleos organizados da sua rede? Como se estrutura essa rede nacionalmente?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acho difícil falar assim. O termo “núcleos organizados” não necessariamente corresponde à nossa realidade. Tem coletivo de militantes em alguns lugares e, em outros, tem indivíduos militantes que se afinam com os diálogos que a gente desenrola.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Não tem esse nível de formalização. Em algumas cidades a gente tem uma coisa que é mais nucleada, em outras não. A gente se mantém junto garantindo dois encontros presenciais anuais, em locais onde tem mais pessoas organizadas. Fora isso, essas pessoas fazem reuniões, tanto para pensar a ação política, quanto estudos, reflexões de conjuntura etc. E também existem grupos<em> online</em> que estudam, que discutem junto, de diversos estados do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159297" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg" alt="" width="964" height="1045" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg 964w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-277x300.jpg 277w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-945x1024.jpg 945w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-768x833.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-387x420.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-640x694.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-681x738.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 964px) 100vw, 964px" />PyB &#8211; Por que optaram por constituir uma rede mais ou menos informal, e não um grupo público de caráter formal?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Ai, essa é engraçada, hein?<em> [risos] </em>Porque carrega uma carga. Você tem várias formas. A galera já passou por um monte de coisas, de organização e tal. Ao mesmo tempo, existem vários formatos aí sendo construídos, com mais tempo, menos tempo. Na verdade, a gente não consegue encontrar algo que seja diferente do que a gente já viveu ou do que a gente conhece. Tem um excesso de organização no caso brasileiro, eu acho. E de formas específicas: de núcleos, de articulação de militantes, etc. No cardápio foi experimentado muita coisa. E, quando isso acontece, as possibilidades vão se esvaindo. A impressão que eu tenho é essa: a gente se mantém assim por não ter capacidade de responder essa questão e produzir algo que possa ser coerente e compatível com as coisas que a gente pensa e que a gente faz.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Eu daria um passo atrás também, no sentido de que não me parece que foi uma opção, num primeiro momento. No primeiro momento, nós saímos de organizações, sejam de caráter mais autonomista ou do marxismo tradicional, que vinham de formas estruturadas e mais bem estabelecidas, em alguns casos bem rígidas. E aí eu acho que o encontro desses militantes coloca a necessidade de pensar em alguma coisa diferente do que a gente tinha vivido antes. Então, acho que a gente é um pouco empurrado para isso. Mas, depois de um certo tempo, sim, se coloca a questão: se a gente deveria se conformar em algo mais formalizado ou não. Aí a gente não quer repetir mais o mesmo. A gente quer pensar em um formato de atuação política distinto. Mas, na verdade, nem o informal é muito claro para a gente, porque não tem nem definições do que seria uma rede informal tão bem estabelecida. Talvez esse seja até o nosso problema. A gente tem que formalizar o informal de alguma forma.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> É, seria uma boa formalizar. Porque daí, por exemplo, no 1º de Maio da CUT e da Força, poderia alguém do Grupão falar em nome da nossa estrutura!<em> [risos]</em> É, então é o dilema. Não dá, né?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> A gente pode também responder as perguntas com outra pergunta, sem problema nenhum. Por que a necessidade de fazer isso nesse tempo? A gente não vê a necessidade de pressa para isso. O Camarada Z ia dizer que foi uma condição. Não foi uma escolha. E essa condição é coerente com a situação do conjunto das lutas que operaram nos últimos anos no Brasil. E com a dificuldade mesmo de transpô-las. Como a gente não consegue atravessar esse tempo também, a gente não sabe o justo lugar de fazer formalmente uma nova organização. Nem sequer botar isso como uma pergunta. Talvez não seja uma questão para nós nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Eu acho que a gente se encontrou num momento que ainda o calor de junho de 2013 ainda estava no ar. Muito movimento na rua, ocupações. E a gente estava muito envolvido nas lutas e nas críticas, e vinha de trajetórias diferentes. Por outro lado, a gente não tinha pressupostos teóricos claramente definidos no grupo. Quando você tem uma teoria claramente definida, é muito mais simples, porque daí você coloca um programa escrito e todo mundo adere àquilo. Mas o que juntou a gente foi muito mais o movimento real. Então não é que a gente não queira se formalizar nunca. Eu acho que tínhamos uma intenção, talvez no começo, de virar uma organização mais definida. O problema é que fomos com muita cautela. O fato de termos saído de outras organizações, como os companheiros já falaram, fazia com que a gente não quisesse repetir algumas coisas que acontecem nesses espaços &#8211; por exemplo, você começar a prezar muito mais os símbolos daquela organização (o nome, a bandeira, as cores), e virar mais a imagem do que o conteúdo em si. E o conteúdo que queríamos era o movimento real. Se for fazer uma comparação com religiões, assim, a gente tentou tirar toda a carcaça de simbologia, de ícones e ficar com o momento do milagre, né? “Testemunhas do movimento real”. Queremos nos manter muito ligados e fiéis ao fenômeno do movimento e, nesse sentido, qualquer exagero de definições poderia afastar a gente do momento vivo da luta. Ao não se definir muito e não se fechar, é uma forma também de continuar aberto para formas novas de lutas, e adaptar a nossa forma de organização a elas. Então, eu acho que tinha essa preocupação em não virar uma seita em volta de símbolos e perder o conteúdo.</p>
<p style="text-align: justify;">E acho que tem medo também: será que se a gente definir muito, vai rachar? Então, fomos ficando numa indefinição. E isso também equilibrou posições divergentes dentro. Eu concordo que não foi uma opção consciente por completo. A gente foi fazendo assim e, quando viu, passou 10 anos. Até hoje funcionou. De certa forma, essa “quase-organização” também chama os participantes à responsabilidade. Porque você não pode dizer: “ah, a organização existe, está lá pronta”. Não. É uma condição permanentemente tensa, ela pode se desfazer. Como ela não é totalmente formalizada, ela não é estável, não independe da gente. Então, a gente está sempre também repensando ela, rediscutindo ela.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Apesar dessa rede ter esse caráter informal, a gente também tem grupos públicos que se mostram onde atuamos. Beleza, essa rede não se mostra de forma pública, enquanto um grupo, formalmente, etc. Mas, digamos assim, há subconjuntos dessa rede que se mostram publicamente, que se colocam nas lutas, que estão atuando em cidades, etc. Ao longo desse processo, vários grupos se criaram, surgiram, se dissolveram, acabaram. Essa rede é ativa e tem muita troca. Eu acho que as pessoas saem de lugares, vão para outras, e influenciam, incentivam, criam novos grupos. Então eu acho que essa questão da rede é meio dual. Talvez seja uma questão de escala. Numa escala maior, a gente é um grupo de caráter informal, não público, mas se a gente pensar no micro, em certos lugares, no tempo e no espaço, a gente adquire um caráter mais formal e forma grupo público.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Eu acho interessante essa coisa da treta em que a gente se envolveu. Nas tretas, eu acho que a gente produz a forma que tem a ver com a própria necessidade da treta. Por exemplo, no passado, O Mal Educado, as ocupações de escola. A gente produziu ali um tipo de organização.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> A gente vem de um conjunto de experiências, e em algum momento, se produz a necessidade de compreendê-las com uma perspectiva crítica. A gente foi tentando buscar outras possibilidades nas ações que a gente já se envolveu. Porém, isso complexificou muito nossa situação. Fomos buscar a resposta e encontramos mais contradições, e é com elas que nós estamos lidando hoje. O nosso problema não é falta de fazer, é que a gente fez bastante, dentro do que a gente pôde e tal. E isso trouxe contradições concretas, que a gente está agora tentando entender, tentando lidar. Inclusive, isso, em alguns casos, tem inviabilizado até a inserção em algumas coisas, porque estamos lidando com esse drama.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159299" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg" alt="" width="860" height="386" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg 860w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-768x345.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-640x287.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-681x306.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 860px) 100vw, 860px" />PyB &#8211; Quais são as diversas origens e trajetórias daqueles que participam do espaço de vocês? Vieram de quais lutas e movimentos anteriores?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Talvez sejam duas origens. Tem uma geração mais velha, que são os que vieram ainda do ciclo de lutas que formou o PT. No caso, essa geração se formou dos anos 1980 para os 90 nos movimentos sociais territoriais: primeiro o Movimento Sem Terra (MST) e, depois, fundando o Movimento Sem Teto (MTST), inicialmente como um braço urbano do MST. O que liga essa história ao Grupão, era uma uma posição interna de defender a tática radical. De achar que era possível, apesar de uma estratégia oficial reformista, tensionar esses movimentos a partir de uma prática combativa, apostando que a radicalidade da ação direta poderia transformar o conteúdo também desses movimentos. Tinha a ver com o setor de “frente de massas”, que era o responsável por fazer a ocupação, por organizar as resistências aos despejos e outras ações diretas &#8211; expropriações, abrir pedágios, manifestações. A criação do MTST teve a ver com esse tensionamento no MST, de um setor que achava que não bastava o movimento no campo. Se a contradição estava explodindo nas cidades, então tinha que chegar nas periferias urbanas, começar a cercar as rodovias com ocupações de terras. Só que essa experiência, ao mesmo tempo, vinha sendo feita dentro desses movimentos que estavam incorporados na estratégia geral da esquerda, que acabou culminando na eleição do Lula em 2002.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Isso. A gente acreditava que a ação radical se sobrepunha ao programa reformista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> Das organizações formadas no ciclo de lutas dos anos 1970 e 80, o PT logo vai se incorporar ao Estado. O movimento sindical nos anos 1990 já estava entregando direitos para os patrões, a CUT aderiu às câmaras setoriais, as oposições sindicais perdiam espaço. E dos anos 90 para os 2000, os movimentos sociais como o MST eram ainda um ponto de radicalidade, onde o conflito continuou acirrado por mais tempo. Isso tensionava a própria estratégia institucional do PT. E aí, depois da eleição de 2002, tem uma baixa geral das lutas e greves. O MST passou um ano sem fazer ocupação de terra, e esses setores que defendiam uma posição mais radicalizada vão continuar tentando tensionar. Teve as ações contra empresas do agronegócio feitas pelos grupos de mulheres do MST em 2006, que destruiu as mudas da Aracruz e da Monsanto. Mas esses setores vão ficando isolados, e isso culmina na ruptura em 2011 na <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" href="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Carta dos 51”</a>, que foi um marco da saída de vários militantes, que fizeram caminhos diferentes. Alguns vieram aqui constituir o Grupão, outras fizeram outros caminhos. A carta falava da integração desses movimentos no regime de gestão democrático-popular.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> É um momento histórico específico ali em 2011, que junta com a outra geração do Grupão, que vem de uma juventude urbana mais autonomista, que vinha dos Ação Global dos Povos e do Centro de Mídia Independente (CMI), que formou aqui no Brasil o Movimento Passe Livre (MPL), que de alguma forma também estava tensionando a gestão pacificadora dos governos de esquerda. Era um movimento que lutava contra a tarifa do transporte coletivo, formado principalmente por secundaristas, universitários, punks… uma juventude urbana precária que não se enquadrou na institucionalidade. O MPL não se institucionalizou, talvez, porque o transporte não cria “base social”. Na moradia, tem ali uma base, e alguém pode fazer uma negociação em nome dela, forma-se uma relação dirigente e base. Nos sindicatos, os diretores sindicais representam a categoria. No transporte, talvez pela forma fluída, dinâmica, não dá tempo de conformar uma base ali e organizar ela a ponto de criar uma relação estável de dirigente, que pode estabelecer uma relação negocial com o Estado. Então a pauta do transporte ficou na mão dessa juventude mais anarquista/autonomista, que fazia ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2003 teve a primeira explosão em Salvador, que foi a Revolta do Buzú, e que foi uma luta com caráter de revolta. Parou a cidade de Salvador, mas tomou um golpe das entidades estudantis. O mesmo tipo de revolta se repetiu em Florianópolis em 2004 e 2005, as duas Revoltas da Catraca, que baixaram o preço da passagem dois anos seguidos. E isso formou o MPL, que era um movimento que tinha os princípios de autonomia, horizontalidade, ação direta, e que lutava contra a tarifa de ônibus. Esse movimento foi se conformando ao longo dos anos 2000 e ele vai ter o seu auge em 2013, quando ocorre a explosão em Porto Alegre, Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, tudo ao mesmo tempo, e vira um fenômeno nacional, revolta em todo canto. Teve protesto inclusive em cidades muito pequenas no interior, onde nem tem transporte coletivo. Esse momento entra no ciclo mundial de revoltas. O que aconteceu em 2013 no Brasil se conecta à nível global com a Primavera Árabe, com o que aconteceu na Turquia no mesmo ano, depois o Chile, Hong Kong, enfim…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Enfim, alguns que faziam esse caminho se encontraram ali, no pós-2013, já no refluxo da revolta, com críticas em comum… e em crise também. Se a geração mais velha carregava uma crise das lutas serem incorporadas, a geração mais nova carregava uma crise também da revolta ter quebrado, refluído, e o pouco que sobrou depois. A gente se encontrou naquele momento, já tínhamos feito alguns debates juntos. Um site importante para isso foi o Passa Palavra, no qual publicamos textos, tanto da saída do 51 do MST quanto também dos debates do MPL. Como o próprio MPL entrou em crise, a gente estava debatendo ali em busca de alguma coisa nova.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> No fim de 2015 vem as ocupações de escola, que a gente ajuda a organizar. Tem essa ferramenta na época, que foi O Mal Educado, um jornal secundarista que alguns companheiros organizaram. Muito baseado na experiência do Chile, a gente convoca as primeiras ocupações de escola. Tinham companheiros que eram secundaristas. A gente preparou duas, três, quatro ocupações em São Paulo, e isso explodiu e virou duzentas. De novo essa característica da luta explosiva, da aposta que a ação radical consegue um conteúdo de novo tipo. Não teve um trabalho de base prévio que preparou uma grande organização secundarista, foi uma tática radical de ocupar algumas escolas que contaminou. Essa experiência colou a gente. O Grupão surgiu nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Do ponto de vista teórico, tem uma coisa importante que é que os companheiros que vinham do movimento social clássico tinham uma formação muito mais marxista, leninista, que mistura maoísmo, Igreja Católica.. mas que era movimentista também, então esses “ismos” não importavam tanto, o debate era muito ligado ao concreto. E a geração mais jovem vinha de um pensamento parecido, mas com uma formação mais no autonomismo/anarquismo. Mas os dois lados vinham criticando as próprias posições, em crise, e a gente se encontrou nesse meio do caminho. Então acho que o Grupão tem um pouco a ver também com essa mistura teórica, pensando nas trajetórias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159301" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg" alt="" width="900" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />PyB &#8211; Quais são os acordos e as divergências mais importantes da militância que forma sua rede? Quais elementos teóricos e/ou práticos que os fizeram confluir?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Eu acho que o elemento teórico-prático que fez a gente convergir, que é o nosso primeiro ponto de concordância, foi o momento histórico do entorno de junho de 2013, em que a gente se encontrou na rua, nos conflitos daquele período. A gente se encontrou nesse contexto, fazendo críticas parecidas. A crítica da gestão e da pacificação petista. De que o ciclo de lutas dos anos 1970-80 resultou numa forma de contenção da classe na democracia. Essa crítica era teórica e também prática, já que encontrou tração no movimento de 2013 e na alta de greves daquele período. Isso correspondia à ideia de que a gente tinha que fazer lutas de enfrentamento que quebrassem o consenso. Uma aposta na revolta. Eu acho que nosso encontro foi aí, na posição anti-gestão. Isso convergiu com a conjuntura naquele momento, convergiu nas lutas e a gente quis continuar se reunindo e se encontrando.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, conforme a gente foi começando nossos debates, vimos que tinha, de fundo, nas nossas conversas, concepções teóricas divergentes. Indo para outro nível, saindo da conjuntura, indo para a estrutura, para a teoria mesmo. A caracterização do momento do capitalismo sempre foi uma polêmica, desde o começo no Grupão. Por um lado, uma posição que vê uma dinâmica cíclica do capitalismo, que sempre operou e continuaria operando, de ciclos de expansão e crise, que estão ligados também a ciclos de luta e recuperação das lutas, que a gente pode dizer que é mais inspirada no marxismo autonomista. E uma outra concepção que bebe mais da teoria da crítica do valor, que vê um colapso do capitalismo desde os anos 1970 &#8211; então, a dinâmica cíclica já não estaria mais operando e o capitalismo teria entrado numa crise estrutural, e hoje estaria girando em falso. Enfim, daí vai todo um debate. Mas eu acho que essa discussão teórica da crise, se é colapso ou são crises cíclicas, sempre foi um debate interno nosso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Eu tenho uma pergunta. Você acha que isso é causa de divergência? Ou é prolífico para o debate, na medida que também a gente se obriga a contrapor os termos… Eu imagino que na pergunta deles, “discordância” é sobre aquilo que cria uma dificuldade de caminhar junto. E, até hoje, essa discordância não foi uma coisa de dificuldade de caminhar junto. Na verdade, analisando a história do Grupão, isso permitiu um campo de debates interessante em que essas duas posições existem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Inclusive, várias pessoas, como eu, têm uma posição que a gente brinca que é “agnóstica”. Pra mim, qual é a situação atual do capitalismo: crise cíclica ou estrutural? Eu não sei, e tudo bem. A gente encontra convergência na luta concreta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem algum desdobramento nessa questão de crise terminal ou crise cíclica: a gente tem uma perspectiva revolucionária ou não tem uma perspectiva? Mas eu não diria que isso necessariamente está ligado puramente a uma concepção econômica. Porque se a gente pegar, por exemplo, a galera comunista de conselhos lá dos anos 20, eles já estavam com uma concepção de crise terminal do capital naquela época e tem a galera que continua com essa perspectiva até hoje. Eles estão, sei lá, quase 100 anos falando da crise terminal e isso faz parte de um longo ciclo. Eu acho que por mais que a gente pense na questão de ciclos longos, eu não sei se puramente a questão econômica leva a isso. Tanto é que você tem hoje, por exemplo, a galera aí da esquerda comunista defendendo ainda essa questão do capitalismo decadente e eles ainda têm uma concepção revolucionária. Ainda acreditam que, apesar disso, há possibilidade de revolução. Não sei se eu confundi muito, mas eu acho que talvez tenha uma questão econômica / política.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; Eu acho que você não está confundindo, não. Eu acho que, na verdade, essas coisas são conectadas. No limite, a importância de discutir se a crise é estrutural não é um preciosismo de uma análise econômica correta ou incorreta, ou identificar as verdades da dinâmica do capital. Isso está relacionado justamente com pensar as consequências para a questão política. Que transformação que está posta? Tenho mais afinidade com a ideia de uma crise estrutural &#8211; que é mais do que a ideia de terminal, porque “terminal” parece que já acabou, que vai ter um dia em que vai morrer, específico, quando vão desligar as máquinas, e não é bem assim. É um processo. Já a análise da crise cíclica está muito vinculada aos ciclos revolucionários que a gente viu ao longo do século XX. Então a questão é: é possível se repor? É possível se repor uma revolução nos velhos moldes? Curiosamente, eu acho que ninguém no Grupão defende isso efetivamente. Uma revolução nos velhos moldes da Revolução Socialista, por exemplo. Eu acho que tem uma crítica até razoável, que tem um acúmulo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; E aí tem uma outra questão também, que mesmo no campo que defende a crise estrutural, também tem diferenças em relação às consequências. Por exemplo, eu não entendo que a consequência é… “Ah, então, beleza, vamos ficar aqui vendo o capitalismo ruir e quando sobrar as ruínas e tudo, a gente tenta organizar uma nova sociedade.” “Porque o sujeito histórico morreu e não tem nada mais a ser feito, tudo é estrutura e tudo é uma determinação completamente insuperável.” Tem algumas pessoas da crítica do valor, não todo mundo, que chegam nessa consequência. E aí, nenhuma prática nunca é possível. Eu acho que é diferente a ideia de “vamos pensar a crítica da prática que a gente estabeleceu no passado e vamos experimentar coisas aqui e agora”. Porque, afinal de contas, estamos vivos e a história não está pré-determinada, ainda que a gente enxergue tendências nela. Estamos vivos e somos sujeitos da vida e as pessoas estão indignadas, estão revoltadas, querem fazer alguma coisa a respeito do mundo e do seu futuro. Será, e aí a pergunta, que é possível pensar alguma outra saída que não seja a extrema-direita, que não seja só a destruição? Enfim, eu acho que tanto no campo da crise cíclica quanto no campo da crise estrutural, existem diferentes leituras das consequências do entendimento do capitalismo nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Por isso é legal você levantar essa questão, que a gente consiga, de alguma forma, se manter junto, apesar das diferentes análises de crise, a priori. Porque eu acho que, quando chega na parte do “fazer alguma coisa”, tem algumas divergências, mas eu acho que tem um certo encontro ali, num sentimento de crítica das esquerdas e crítica do passado &#8211; que não é só uma crítica política da prática, é uma crítica também interpretativa do capitalismo que as organizações tradicionais carregam. Eu acho que a gente tem uma diferença em comum, digamos, em relação a esses conflitos tradicionais, ainda que os caminhos para nossas interpretações sejam diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A gente tem aqui uma convergência negativa, isso é muito interessante, o nosso espaço, ele consegue ser permeável a inúmeras experiências concretas, objetivas de luta da classe, a gente pôde participar dessas experiências, dessas lutas que aconteceram, foram inúmeras, trazer elas de volta para um lugar em que a gente também se sente livre e confortável em fazer a crítica radical delas, de apontar os limites.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a gente é permeável a uma série de experiências que as pessoas estão fazendo em inúmeros cantos, com inúmeras qualidades, com inúmeras intenções, a gente contribui com essas lutas, volta para um espaço e a gente se sente livre de poder criticar elas de uma maneira honesta e radical também. Eu acho que poucos espaços organizativos permitem isso. Na maior parte dos espaços organizativos que a gente tem conhecimento existe um certo pudor e um certo medo de implodir tudo, na medida em que a gente pega uma experiência que é cara a nós e passa um pente fino dela, apontando também os limites e aquilo que traz de qualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, quando a gente vai analisar a experiência das greves de entregadores, o quanto que ao mesmo tempo que elas podem ser disruptivas e também são uma confluência com o atual estágio de guerra de baixa intensidade de todos contra todos, de um capitalismo ultraviolento, essa lógica do auto empreendimento, etc. Ou seja, a gente tenta também manter a crítica como critério da nossa divergência e da nossa convergência. Me parece que aquilo que nos une é também aquilo que permite a nossa diferenciação no limite, que eu acho que é o que tem de mais virtuoso na lógica do Grupão. Justamente poder fazer do exercício da crítica o mais radical que a gente puder, o mais aberto que a gente puder, o lugar que a gente produziu.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu fico meio sem saber o quanto esse espaço aberto ao debate polarizado é de fato algo que pode ser entendido como divergência, o quanto que ele não é justamente aquilo que converge com o Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211; </strong>Talvez a gente tenha até dado um acento muito grande aqui na discussão para essa questão da leitura da crise. Na verdade, a gente nunca sentou e fez um debate especificamente sobre isso. Em geral, a gente está sempre discutindo as lutas concretas e aí essas posições estão de fundo. E muitos militantes nem têm uma definição exata sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Do ponto de vista mais prático, outra polêmica foi com companheiros que falavam da necessidade de se organizar no “centro da classe”. Isso marcou muito nossos primeiros debates. Uma discussão com correntes que defendem que a gente deveria se organizar nos setores do operariado fabril, porque esse seria o núcleo duro da classe trabalhadora, a partir do qual tem a maior produção de valor e, por isso, seria o ponto estratégico para a revolução: “pôr a classe ao centro e ir ao centro da classe”. No debate com essa galera, que acho que foi formativo no início do Grupão, a gente foi encontrando uma linha nossa, que começou como brincadeira, mas que era assim: “tem a galera do centro da classe e a galera do centro da treta”. A ênfase do Grupão era nas lutas. Então, se for pensar assim, onde se posicionar? Para nós, parecia às vezes menos importante essa discussão econômica crua que pensa: “esse setor de trabalhadores está num ponto estratégico porque aqui se produz não sei quanto de capital”. E, no caso, a gente dizia: “bom, tem setores que têm uma posição que é estratégica do ponto de vista social” &#8211; o setor de transporte, por exemplo. Setores com possibilidade de lutas mais dinâmicas. Os pontos a partir dos quais pode ter explosões que contaminem outros setores e que ganhem escala, que cresçam. Nossa centralidade é uma centralidade das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Dialogando com as perguntas colocadas para nós aqui, uma organização pressupõe o quê? Um programa? E, um programa pressupõe o quê? Uma leitura de mundo, uma visão de mundo, uma teoria da revolução, é o mínimo que se espera de uma organização política, uma leitura da realidade, uma apresentação das contradições dessa realidade e uma perspectiva revolucionária. Mas nós não temos. Eu não acho que nós não temos porque nós não queremos ter. Até porque a gente, apesar de fazer a crítica, não se aprofundou nesses meandros. Tem lá os democráticos populares, nós somos os revolucionários situacionistas, e está tudo certo? O buraco é mais embaixo. A tragédia é um pouco maior do que a gente imagina. Olhar para uma perspectiva estratégica, questionar, não concordar com ela, opôr-se a ela, não significa que no lugar onde você atua na revolta ou nas lutas não possa reproduzir aquilo que é a base da existência do que você está negando. Eu acho que essa é uma grande contradição nossa com a ação prática.</p>
<p style="text-align: justify;">A grande dificuldade é lidar com as coisas que a gente reproduz e que nos aproximam do que criticamos. E a gente faz isso em silêncio, porque a gente também não quer dar brecha para críticas externas. Mas o fato é que a prática como critério da verdade, na lógica maoísta, está longe de ser uma definição que realmente resolva nossos dilemas. E nem a teoria é este critério. Mas é preciso compreender que essas coisas não estão separadas, é preciso juntar, é preciso permanentemente revisá-las. Revisá-las é uma palavra complicada. Compreender, estudar, ler, repetir.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje em dia, por exemplo, o ponto parece fácil. A gente lê O Capital, daí todo mundo entendeu o que é mais valor, todo mundo sabe que o negócio é fazer uma revolução socialista, impor uma derrota ao capitalismo, implantar uma transição, uma mediação entre a ação radical e ação institucional. Esse é o problema geral, está aí. Mesmo não gostando, a gente acaba participando. Eu estou para dizer que nosso problema é um pouco mais profundo. Não é só uma questão de compreensão teórica se a crise é estrutural, se a crise é cíclica.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é porque a gente não gosta dessa coisa de programa. Ou que a gente não tem programa, porque a gente escolheu não ter. Eu acho que é mais complicado o assunto, que ter as coisas, produzir certas coisas, implica o conjunto de condicionamentos da forma pela qual você quer lidar com a ação. Então, a gente resolveu não criar amarras para a gente lidar com a ação. Isso traz outros problemas. O fato da gente não ter uma definição teórica, prática, uma leitura de mundo e atua no mundo sem ter isso. Eu sei que na cabeça de cada um tem alguma coisa. Eu acho que nós lidamos razoavelmente bem com isso. Ninguém vai para a luta sem saber nadar, “estou aqui só porque eu quero entender o que está acontecendo”. Não, quem está lá quer influenciar, quer levar para algum lugar a revolta. Está lá tentando potencializar o nível de aceleramento, de contradição dela, de enfrentamento. Está lá querendo dialogar com outros militantes para trazer junto para trocar ideia. Então, existe uma intencionalidade, sim, porém, isso não é programática. Está muito mais ligada à experiência de vivência de cada coletivo, cada espaço, cada lugar, porque é uma formulação complexa, vamos dizer assim, da leitura da revolução. Eu acho até que algumas pessoas têm vontade de ter um programa, uma teoria da revolução, uma proposta de onde a gente vai estar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; de alguma forma, essas coisas têm uma conexão com a questão da centralidade negativa do trabalho. Fiquei refletindo aqui sobre a ideia do Camarada K de que o trabalho seria como um centro da forma social, mas um trabalho que tem a ver com essa pessoa sem lugar, forma da forma tradicional de produtor de valor, etc. E, ao mesmo tempo, pessoas que trabalham insanamente, esfolação profunda da existência. Eu fiquei pensando se a gente, de alguma forma, não tem também uma centralidade negativa das lutas, à medida que a gente põe as lutas, mas essas lutas também se esfacelam e se negam e se repõem. Se a gente está conseguindo fazer isso, então, acho que até está interessante.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei, fiquei pensando nessa questão da luta como crítica das formas anteriores de luta. Então, propomos lutas que a esquerda em geral não entende muito, porque não tem clareza de quem é o dirigente, o formato é completamente outro de como a luta se dá. E, ao mesmo tempo, ao ela se dar, não se põe como uma forma, não se põe como uma forma permanente. Não é que a gente está, por exemplo, fizemos a luta do motoboy, agora a gente tem uma cartilha de como atuar, não se sabe. Tem uma experiência, obviamente, e essa experiência ela se perpetua no tempo como uma forma de olhar para trás e falar “a gente fez isso naquele momento, podemos fazer isso de novo aqui, ou não fazer e tal”. Mas não tem um formato estrito, como as organizações têm normalmente. Quais são as nossas táticas de luta? Qual a forma que a gente desenvolve a luta? Isso é interessante e fiquei pensando se a gente teria uma centralidade negativa das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu só queria fazer um comentário para Camarada Y. Eu acho que a centralidade negativa do trabalho é interessante porque acho que mesmo os que têm a leitura da crise estrutural no Grupão, que a princípio vão pensar um colapso do trabalho e da acumulação de valor a partir da mais-valia extraída do processo de trabalho, não tem uma leitura que acha que o trabalho acabou. No sentido de que, às vezes, pode parecer isso, de que não tem mais trabalho. Na verdade, essa perspectiva acaba se encontrando com o autonomismo operaísta, porque, no fundo, tem uma ideia de que o trabalho ainda é central, no sentido de que ele é o ponto de tortura nas nossas vidas, que todo mundo tem que acordar e ir trabalhar. E acho que é até uma leitura de que, com a crise estrutural, as pessoas estão se esfolando até mais, porque as formas ficam até mais pesadas e mais cruéis, e que, então, eu acho que é como quando falamos da centralidade negativa do trabalho. O trabalho é central, mas a gente quer se libertar dele.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente precisa ter um receituário, um programa, uma perspectiva de que a gente precisa cumprir certas etapas ou certos processos para que a revolução venha, mas sim uma ideia de fundo, uma perspectiva geral de rompimento com o sistema capitalista. Então eu não acho que simplesmente a gente nunca ter dialogado sobre ter um programa, sobre ter uma série de medidas a serem tomadas, nos coloca numa condição de que a gente não tem uma perspectiva revolucionária. No entanto, eu acho que isso ainda é uma questão em aberto. Eu já vi camaradas colocando isso: “não sei se eu acredito na perspectiva da revolução”. Eu acho que tem uma série de acúmulos teóricos sobre o pensamento do próprio desenvolvimento do capital e da revolução que, de certa forma, a gente vê na nossa prática, ela se relaciona muito com algumas teorias que já foram desenvolvidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito, sim, nessa questão de que tem momentos de baixa, momentos de alta e eu não acredito que a nossa atividade enquanto militantes nesse momento, que a gente poderia considerar talvez como contra-revolucionário, eu não acho que o nosso papel nesse momento é fazer a revolução, e eu acho que no Grupão a gente também não acha isso. Eu acho que a gente nunca pensou que as nossas práticas ou o nosso envolvimento nas lutas poderia desenvolver a revolução. Mas eu acho que a nossa inserção nos processos de luta vai muito mais nessa questão de investigação, no sentido de situar a gente no tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito que a gente deveria fazer essa separação. Ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente necessita de uma estratégia revolucionária, porque eu não acredito que a gente possa ter uma estratégia revolucionária nesse tempo. Não significa que isso vai ser uma constante, significa que agora a gente não pode ter isso, mas possivelmente em um momento de ápice das lutas pode vir a surgir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159302" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Quais as lutas sociais mais importantes que vocês se envolveram desde que o grupo se formou? Como foi a intervenção prática de vocês?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Então, naquele período de 2016-17 ainda teve muita luta estudantil secundarista, que foi uma coisa um pouco nova no Brasil. Nesse patamar, tinha o exemplo do Chile, que inspirou muito por aqui. A gente traduziu uma cartilha do Chile, que foi útil para preparar as ocupações de escolas. Foi um movimento muito dinâmico, muito vivo e muito autônomo também (os partidos não tinham muito espaço). Foi o período do impeachment, em que, do ponto de vista institucional, a direita estava se articulando para derrubar a Dilma. As ocupações aconteceram nesse período escaparam da dinâmica do jogo institucional.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Depois teve a luta do telemarketing, que era uma ideia do Disk Revolta. A gente começou a notar que estava explodindo de pequenas insatisfações, que tem a ver com a discussão sobre o trabalho em formas ultra precárias, os <em>bullshit jobs</em>, os trabalhos de merda, e que se expressavam em formas que os sindicatos e os partidos não tinham condições de dar vazão a essas insatisfações, a essas inquietações. Parecia que ali havia uma explosividade que talvez estivesse represada.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Mas eu acho que tem também um aspecto de 2013. A gente via os dados sobre as greves daquele período, que em 2013 teve o maior auge de greve da história do Brasil desde os anos 80. Então a gente falava, “bom, teve um ciclo lá nos anos 70, 80 e está tendo um novo ciclo agora”. Essas lutas estão acontecendo muitas vezes de forma subterrânea, tá cheio de conflitos nos locais de trabalho e a gente tem que investigar. O Disk Revolta teve a ver com isso: em um ano a gente descobriu um monte de pequenos conflitos que às vezes não são greves abertas. Um grupo de trabalhadores fizeram uma sabotagem desligando o cabo do fone para poder ter um tempo maior de mute e aumentar os espaços de não trabalho. A gente começou a buscar essas pequenas lutas dentro do trabalho para politizar elas. É um contexto de reforma trabalhista e isso também fazia os sindicatos se mobilizarem, chamarem greve geral e vira uma oportunidade para a gente também experimentar lutas nas categorias que a gente está ou em categorias que a gente conhece ou que a gente acha interessante ir lá e fazer algum contato.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essas pequenas lutas para além da explosividade foram importantes para a gente perceber o quanto um monte de coisa estava acontecendo, mas também para oxigenar nós mesmos. Foi muito importante para o próprio Grupão termos investigado um monte de pequenas lutinhas que até hoje a gente considera como importante. Deu uma centralidade para a nossa militância.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Na questão do local de trabalho, um ponto que para nós foi caro &#8211; sobretudo no diálogo contra as forças de esquerda &#8211; é que quase toda a esquerda no Brasil se organiza para tomar sindicato. Então o militante entra na empresa e começa a fazer um trabalho com o objetivo de ganhar a direção do sindicato. Temos companheiros que passaram anos trabalhando de forma clandestina na fábrica para mapear contatos no sentido de fazer uma chapa e disputar a direção do sindicato. Ao mesmo tempo, nesse período, vai acontecendo um monte de lutas e você não pode participar porque, se você se expõe, você é demitido e não consegue entrar na chapa e disputar a direção. É uma dinâmica totalmente voltada para a disputa eleitoral. Uma organização estruturada em volta do aparato sindical que, no Brasil, é ligado ao Estado. Por isso a gente queria tentar outras formas de organização nos locais de trabalho, fora das eleições e do aparato sindical.</p>
<p style="text-align: justify;">Na categoria de professores da rede privada aqui em São Paulo, por exemplo, tivemos a experiência de puxar uma greve por fora do sindicato, organizando assembleias autoconvocadas e comissões nas escolas, às vezes mais abertas, às vezes clandesitnas. Tinha a questão de não ser uma categoria estável, porque eles estão no setor privado e podem ser demitidos. Ao longo de 2017 e 2018, teve uma experiência muito rica nesse setor. Recuperando uma tradição que tinha no Brasil durante a ditadura, de se organizar por fora do aparato. Acompanhamos processos de luta assim em diferentes categorias. Até essa última, que foi o Breque dos Apps com os entregadores de aplicativos durante a pandemia. Já estavam acontecendo pequenas greves de entregadores de aplicativos, fizemos contatos e ajudamos essa rede a conformar uma comunicação nacional que permitiu a convocatória desta data, que foi o breque dos aplicativos na pandemia. Também construímos grupos de algumas cidades com esses entregadores.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essa questão da crítica ao sindicalismo, talvez ela tenha levado a gente para essas perspectivas mais de trabalho precário, etc., justamente porque o sindicato não estava presente. Acho que tivemos uma facilidade de entrada em vários desses lugares justamente porque nada estava constituído. A possibilidade de criação e experimentação era muito maior.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159303" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Qual papel acreditam que as minorias revolucionárias &#8211; como a rede de vocês &#8211; deve cumprir, tanto nos processos de luta mais cotidianos, quanto em levantes espontâneos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; A minha resposta é rápida: é não atrapalhar. Isso é o mínimo, né? O mínimo é não atrapalhar. Porque, às vezes, a gente acha que está ajudando e atrapalha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; É… Mas, claro, dá para falar muito mais que isso. E também dá para questionar: será que a gente é uma minoria revolucionária? Não sei nem se a gente se entende como uma minoria revolucionária. Eu acho que começa por aí. Acho que esse debate ainda está em aberto. Eu não gostaria de falar minoria revolucionária. Gosto mais do “pró-revolucionário”. Mas, em relação ao nosso papel, acho que ainda está em aberto. A pergunta de como as minorias revolucionárias devem atuar, qual papel elas devem desempenhar, pode se confundir com o papel de guiar para a revolução. Quando coloca minorias revolucionárias nesse sentido, parece isso. E eu não acho que esse seja o nosso papel. Também não acho que a gente tenha se colocado nessa perspectiva nunca. De certa forma, a gente tenta não só não atrapalhar, mas também incentivar os processos espontâneos de luta que os trabalhadores estão colocando, estão se envolvendo, com todos os limites que isso implica. Acho que o papel aqui talvez seja muito mais de crítica e tentativa de potencializar do que necessariamente de dirigir ou tentar despertar a revolução.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong>&#8211; As lutas já estão acontecendo. A todo momento tem conflitos acontecendo e nosso papel tem muito mais a ver com registrar esses conflitos, publicizar eles, fazer a informação circular. Vou dar um exemplo. A gente acompanhou aqui em São Paulo um supermercado que faliu, o Seta Atacadista. Na verdade, não foi uma falência. O patrão simplesmente estava dando um calote. Ele foi fechar o mercado e estava tentando tirar a mercadoria de noite para os trabalhadores chegarem no dia seguinte e serem demitidos todos, não receber nada. Só que, de noite, os trabalhadores ficaram sabendo, porque alguém comentou no bairro que tinha caminhões lá indo esvaziar o supermercado. E eles foram e cercaram o mercado e ocuparam o mercado para não deixar a mercadoria sair e não deixar o patrão dar o calote. Então, de repente, descobre que tem um supermercado ocupado na periferia sul de São Paulo. Aí a gente foi lá, publicou uma notícia daquilo. Aí a gente falou: bom, o Seta é uma rede de supermercados. O patrão deve estar dando esse golpe na empresa inteira, ele vai falir e deixar todo mundo no vazio. Vamos encontrar outros e avisar que isso está acontecendo, tentar fazer informação circular. A gente vai em outros, descobre outras pequenas lutas e tenta potencializar o processo nesse sentido. Acho que é diferente de uma noção de dirigir ou de levar a consciência. É como fazer as lutas circularem, integrar elas e, nisso, potencializar elas. É fazer as coisas irem além de seu local, além de sua categoria</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Quais elementos da forma clássica de militância da esquerda, ou do anarquismo, que consideram obsoletos? O “trabalho de base”? O “acúmulo de forças”?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Tá, as duas. Com certeza.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; É, o trabalho de base, eu acho que nós temos coisas pra conversar. Trabalho de base. Mas essa de acúmulo de forças, eu acho que entre nós, eu não sei se alguém tem alguma expectativa com isso. Acho que a gente nem fala essa palavra, na verdade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu diria, além disso, a questão da “consciência”. Essa parte entra no acúmulo de forças: levar a consciência pra galera e acumulando gente até a gente fazer a revolução. A gente não acredita nisso. A questão da “estratégia revolucionária” entra aí, acho que a gente não entende que esse seja o momento para estratégia revolucionária. Estou falando um pouco por mim, mas eu acho que o fato da gente nunca ter se debruçado sobre isso, de certa forma, diz um pouco sobre isso também. A gente nunca acreditou que necessitava fazer um programa ou ter uma estratégia revolucionária porque a gente acha que isso está além de nós. Não é a gente que vai cumprir esse papel.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A coisa do trabalho de base, eu até fiquei pensando… Fiquei curioso porque eu não sabia se o termo “trabalho de base” existia da mesma forma em espanhol. Porque eu acho que em algumas línguas você não tem o equivalente direto. Eu acho que tem muito a ver com a formação da nossa esquerda atual a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A ideia de que você tem um trabalho de base pressupõe uma comunidade de base. O ciclo de lutas dos anos 70-80 foi muito baseado nisso. Se for pensar, o próprio MST surge disso. A ocupação forma uma comunidade ali. E, claro, tem todo um peso da igreja na formação do MST, mas ele surge disso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z </strong>&#8211; A ocupação forma uma comunidade e aquela comunidade é a base do movimento. Isso impõe a necessidade de um tipo de trabalho permanente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; O processo do acúmulo de forças tinha um pensamento um pouco gramsciano da esquerda desde os anos 70, que é de guerra de trincheiras. Guerra de posições. Vai aumentando as bases até você ter uma hegemonia. Essa é a ideia do acúmulo de forças. E a esquerda atuaria de um lado com uma luta institucional pelos partidos e do outro pelos movimentos, e com o “<em>movimento de pinça</em>” chegaria ao poder. Foi o que aconteceu no Brasil, aconteceu em outros lugares da América Latina e acho que a nossa reflexão também é pensar: “bom, esse acúmulo de forças a gente já fez”. Talvez não seja preciso do ponto de vista econômico, mas a gente dizia: “esse &#8216;acúmulo de forças&#8217; virou acúmulo de forças produtivas”. Não é que acumulou força para o nosso lado, acumulou para o capital no fim das contas. Os movimentos, e a gente viu isso acontecer, viraram tecnologia de gestão do capitalismo. Então o MST agora vai construir uma fábrica de tratores com capital chinês. São os maiores produtores de arroz orgânico da América Latina. As cooperativas têm ação na bolsa de valores. Sem falar do ponto de vista social, o quanto é funcional ao capital ter certos setores do proletariado empobrecido organizados pelas burocracias. Melhor do que deixar eles soltos para o caos social. Então os movimentos cumpriram um papel civilizatório. E aí até aquela base da comunidade de base perde seu conteúdo e vira um cadastro. O que é o MTST hoje? Tem ocupações onde quase ninguém mora: eles erguem pequenas barracas de lona preta, não deixam construir com madeirite ou bloco; fazem um cadastro e esse cadastro vira uma lista, a partir do qual o movimento repassa o bolsa aluguel do estado e faz um ranking para as pessoas ganharem a moradia com base na participação. Os movimentos viraram tecnologia de gestão. O “acúmulo de forças” virou isso, virou o acúmulo de forças produtivas. A reflexão que fica disso é: como que a gente se organiza? Será que é possível produzir um acúmulo que seja nosso? Talvez só um acúmulo de experiência, porque tudo que a gente vai construindo de estrutura para se reproduzir vai entrando na lógica da reprodução capitalista. Essa é uma crise nossa. É uma reflexão nossa também quando a gente pensa nas lutas que são mais sem estrutura, e justamente por isso elas acabam sendo mais descontínuas no tempo. É porque a reprodução no tempo também implica, de alguma forma, você entrar na lógica desse sistema.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Por outro lado, também essa ideia de acúmulo de forças, de acúmulo organizativo, entra naquilo que o Camarada Z falou. A gente não vive uma escassez organizativa da classe, vive uma superprodução de organizações da classe, e isso também entra em contradição com a lógica da própria luta. Não é mais uma questão de que não se acumulam processos organizativos, eles se acumulam em excesso! E acabam eles mesmos travando o processo da luta. É uma contradição de algo que deu certo, não só que deu errado. Não é que “faltou trabalho de base”: teve trabalho de base demais, e tem uma lógica de sustentação desse trabalho de base que começa também a competir entre si dentro da sua própria base. Ao ponto, e eu acho que é o máximo da esquizofrenia da esquerda, que é uma pessoa condensar quatro organizações. Eles se apresentam assim “eu estou aqui como fulano que é de tal, tal e tal organização…”. Uma mesma pessoa está em quatro organizações. Então é obsoleto o “acúmulo de forças”, o “trabalho de base”, ou é aquilo que é hoje hegemônico? Porque pra nós pode ser obsoleto, mas do ponto de vista da luta real, não parece que é obsoleto isso. Continua existindo, mas nessa perspectiva de gestão, de controle, de travar qualquer processo que desorganize a base na qual esses movimentos podem se manter existindo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Para voltar um pouco na discussão do “revolucionário”. A gente vê experiências que a gente teve muito acúmulo organizativo no Brasil e esse acúmulo jogou contra a revolução, porque ele vira um acúmulo de contenção. Os grandes movimentos sociais produziram contenção da classe. Se for pensar, os companheiros estavam nos anos 90 do MST pensando em formas de luta insurrecionais, pensando que a partir daquele movimento você ia ter a preparação do exército popular para fazer uma revolução no Brasil. No momento que tivesse uma explosão, eles estariam prontos para tomar o poder. Mas quando vem 2013, o que virou? O MST naquele momento, que já estava integrado ao mercado e ao Estado, foi uma ferramenta de contenção. No fundo, o acúmulo organizativo serviu muito mais para segurar a classe trabalhadora do que para permitir uma potencialização das lutas. Quando a gente fala que o papel do militante às vezes é não atrapalhar, é porque a gente sabe que, se a gente se organizar demais, pode até ter o efeito contrário. E várias vezes a gente entra em processos com a intenção de fortalecer e depois, quando vai fazer o balanço, vê que talvez tenha atrapalhado!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Tem uma palavrinha mágica que a galera colocou no jogo que não é nova, é antiga, e que eu acho que justificou um pouco esse tipo de movimento, vamos dizer assim, que é a “resistência”. Resistir passou a ser garantir a manutenção daquilo que a gente conquistou. Então ela e o acúmulo de força passava por um tipo de momento em que a luta se converteu no que o movimento chamava de resistência. Por exemplo, a intersindical dizia “nenhum direito a menos”, movimento sindical combativo. Mas isso foi mais ou menos um diálogo de derrotados bem sucedidos. Isso é o mais louco da dialética do processo. Ser bem sucedido não significa ter chegado a uma plenitude, vamos dizer assim, na sua tática, no resultado de suas lutas, mas é conseguir justificar no tempo e nas condições que ela existe. Se temos vontade de olhar para esse passado, agora a gente precisa olhar com as ferramentas que a gente adquiriu no processo das nossas experiências, não mais como a gente olhou. Eu não vejo disposição da galera olhar pra trás, pras experiências, e reformular a sua leitura. Eu vejo uma galera querendo reafirmar aquela crítica para sustentar algo que, inclusive, a gente já tá fracassado no que a gente buscou.</p>
<p style="text-align: justify;">Só faz sentido voltar lá pra ver se o que a gente produziu como política faz sentido. Olhar para trás, é olhar para os limites da nossa crítica, não da experiência em si, da forma generalizada, mas do específico, daquilo que a gente reafirmou no passado. Quando o passado vem atormentando a gente é porque tem alguma coisa lá que tá mal resolvida. Aquilo lá que a gente produziu explicou naquele momento, ajudou a gente a dar um passo, mas agora estamos tendo dificuldade, e aí há uma necessidade de olhar para aquilo e falar “olha isso aqui! Tem alguma coisa que nos incomoda”. E eu acho que passa por isso que nós estamos conversando aqui, essas leituras de fundo, de força, de resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso que eu falei do trabalho de base. Não que eu ache que a gente defenda o trabalho de base, é que eu acho que essa palavra apesar de parecer simples ela carrega o grau de complexidade dessa totalidade que vai ser vai ser a herança do seu passado, vai estar aí a possibilidade daquilo que o X falou, que nós não temos essa perspectiva de levar a consciência, de levar a formação. Mas nessa palavrinha condensa tudo isso. A palavrinha trabalho de base ela é pesada. Na verdade, as pessoas simplificam ela como se fosse “vamos ali convencer o cara a fazer uma greve”, “vamos ali fazer um programa de formação”, “vamos ali fazer uma luta x, e ajudar na resistência do moinho”, essa palavrinha ela carrega um conjunto de contradições que, pra mim, está a base do limite que a gente está vivendo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem uma questão também, que talvez seja mais um elemento de crítica nossa, é que de certa forma essa análise anterior, antiga, da perspectiva do trabalho de base era de “vamos montar organizações de massa”. Eu acho que a gente não tem essa perspectiva de organização de massa. Eu acho que essa é uma questão. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa de perspectiva radical nesse momento histórico porque criar uma organização de massa significa, no final, nos tornarmos gestores. Por mais que a gente acredite nas lutas de massa, a gente não acredita na solidificação disso. É interessante a gente ver às vezes para alguns agrupamentos anarquistas, autonomistas, que estão falando “a gente criou a nossa organização de massas aqui e tal” e aí quando a gente vai ver a organização de massas e a gente pergunta “quantas pessoas tem?” no final a gente vai ver que é o mesmo número de gente que tem no Grupão. A gente não tem essa perspectiva de que vamos acumular gente e a revolução vai vir. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa. Talvez no momento de ascensão das lutas essas formas se tornem possíveis. Mas agora não é esse momento, então não adianta a gente criar esses instrumentos que, no final, como o W falou, quando a luta vier na verdade vai servir para controle, para contenção.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu fiquei pensando na acusação, que a gente recebeu muito, de que o autonomismo que a gente representaria teria uma “centralidade da tática”. E, de fato, a gente reconhece isso. Quando a gente estava falando que a gente acreditava que pela tática radical era possível tensionar a realidade e produzir conteúdos que abriam caminho para uma ruptura anticapitalista, e que às vezes a tática é mais importante que o discurso da organização, que a ação concreta é mais importante, então de fato eu acho que tem um pensamento taticista nosso, “lutista”. Eu acho que isso é uma coisa em comum na nossa formação como Grupão. Só que eu acho que isso daí é uma condição do tempo. Tem organizações hoje que falam em “estratégia”, mas o que a gente está falando é que talvez não seja um momento de estratégia, que não tem mais lugar. Não é tempo histórico de estratégia. A gente acha que, no fundo, quem está falando que tem estratégia, tá meio iludido… teoricamente, estratégia é uma coisa que você está pensando em um plano para longo prazo. As estratégias hoje não são isso. Mesmo a suposta “estratégia democrática popular” que o PT teve, que formou aquela geração dos anos 70 para cá… se ela foi uma estratégia nos anos 70, desde os anos 2000 ela já não é uma estratégia mais. Ela foi bem sucedida, eles chegaram no governo. Ela virou o que? Ela virou uma ferramenta de gestão. Esse pensamento estratégico de acúmulo, de um ponto de vista proletário, de um ponto de vista que quer romper com esse mundo, ele não existe. Porque o acúmulo nunca é para a gente, o acúmulo sempre acaba sendo acúmulo de força produtiva. Vira um acúmulo dentro da lógica do capital. Então do nosso lado a gente não consegue acumular coisas duradouras assim, e isso talvez seja uma inviabilidade da estratégia, já que quando a gente acumula, vira contenção nossa. Então talvez o pensamento estratégico esteja ligado a algo quase contrarrevolucionário. O Grupão nunca disse isso com essas palavras, mas talvez seja um pouco isso que a gente intui e que nesse sentido o lugar mais potente é mesmo o da tática. O comunismo seja uma tática. Que nem a gente viu que ocupava uma escola e isso foi se reproduzindo como um meme. De uma, duas, três escolas ocupadas que a gente planejou de forma conspirativa, de repente explodiu duzentas escolas ocupadas em São Paulo, mil no Brasil no ano seguinte. Talvez um processo que vá romper com este mundo vai se dar assim também, uma propagação no nível tático, e acho que a gente sempre tenta extrair conteúdo político das táticas pensando assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Acho que são dois vícios diferentes a tática e a estratégia. Acho que ambos contêm os seus limites, não é que a estratégia por si é sempre contenção. Hoje ela funciona como contenção por essas inúmeras razões. Não é que ela esteja sempre obsoleta. No nosso tempo ela é obsoleta de fato, mas pode ser que ela se transforme um pouco no sentido do que o X estava falando. Nisso a gente poderia ter aproveitado muito mais os momentos de se posicionar politicamente nas outras lutas que a gente compôs, estimulando pensamentos que dessem vazão a outros questionamentos que são de ordem estratégica, além da luta concreta. Um pensamento de conteúdo, conteúdo do comunismo, ele não necessariamente é estratégia no sentido que a gente está falando. Mas ele pode servir de formulações autônomas de outros polos nesse viés, entende? E nesse sentido ele se compõe como um estímulo para a estratégia. Eu acho que a gente pecou em certa medida de não ter estipulado na formulação tática esses outros pensamentos que são para além daquela luta. A tática se resume naquela forma daquela luta, naquele tempo, naquele espaço. O que tem um caráter positivo e é bom porque ele mantém firme o conflito como central, porém é uma dialética entre esse momento, esse imediato, e o posterior. A gente também não sabe muito bem como jogar…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Sim, é verdade. A questão que fica é: será que isso não seria uma estratégia nossa? Talvez o fato da gente não ter estratégia, da gente se manter baixo, da gente ter o foco nas lutas, de se basear muito mais nas táticas de inserção, de potência, será que isso também não é uma estratégia nossa?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Eu acho que é um pouco a provocação do X, e também eu acho que é um pouco a ausência de uma compreensão. Você encontra num lugar de conforto mínimo que te mantém existindo, porém esse lugar já está esquentando. Na verdade, no nosso caso, essa porra já está saindo fumaça preta porque o cabeçote está rachado. Nós mesmos estamos incomodados com a nossa estratégia. Se é que a reflexão do X faz sentido, e eu acho que faz, porque eu acho que é esse o nosso tempo, é o tempo da crise daquilo que a gente constituiu como formas de se manter organizado, em movimento, articulando ações e reflexões. A gente vive como a música do Belchior “ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”. Mas o fato é que a gente morreu e a gente está tentando não morrer de novo. Como a gente sabe que não tem perspectiva de um horizonte, de uma revolução, isso ao mesmo tempo é trágico, porém nos dá uma condição de falar “opa, também não precisa ficar loucão assim, com essa ansiedade toda”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159298" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg" alt="" width="960" height="949" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-300x297.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-768x759.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-425x420.jpg 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-640x633.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-681x673.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />PyB &#8211; Quando afirmam que a “investigação” deve ser o centro da preocupação política, a que se referem concretamente? Tomam como referência a experiência da “investigação militante” desenvolvida pelo operaísmo italiano dos anos 60-70? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Deixa eu falar uma coisa engraçada para você. Outro dia o pessoal fez homenagem para o Toni Negri aqui em casa, aí eu falei assim “alguém precisa avisar os 51 do MST que a gente era negriano e não sabia”. Alguém precisava ter avisado a gente: “Olha o que vocês estão fazendo, tem um cara que pensava essas coisas, exatamente isso”. Eu olhei para lá e falei “pô a gente era negriano e não sabia”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu gostei disso, Z. Porque tem muita coisa que a gente está levando um pouco sem reflexão, mas tem um monte de gente que refletiu sobre isso, chegou ao mesmo ponto da gente e refletiu sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A gente encontrou algo em comum com os operaístas na questão da enquete operária. Para nós, pensar o local de trabalho que a gente está, mapear ele, organizar ele, buscar os pontos de conflito, isso é enquete. Então às vezes, inclusive, a própria investigação pode ser a própria luta. Por exemplo, quando eu estive aqui, o pessoal que trabalhava no metrô, percebeu que os terceirizados da bilheteria estavam fazendo uma greve selvagem e a gente organizou uma solidariedade a eles. Nesse processo a gente descobriu como funcionava o trabalho na bilheteria. Isso foi uma enquete operária no próprio processo de luta. A gente já lia antes o Castoriadis, o João Bernardo &#8211; a gente não falou dele, mas acho que é uma outra influência grande que veio de uma experiência em Portugal, do jornal Combate. Mas uma diferença com essa tradição dos anos 60-70 é que ali tinha uma expectativa muito positiva para o trabalho. Uma perspectiva de autogestão que cada pequena ação operária mostrava que o trabalhador podia controlar a fábrica se ele quisesse. E o auge disso foi nos anos 70, as lutas autogestionárias. Na revolução portuguesa de 74, teve um movimento que tomou uma porcentagem importante das fábricas do país. As empresas estavam sob o controle dos trabalhadores. Eu acho que esse era um horizonte das lutas no fordismo, e acho que a gente tinha uma intuição aqui &#8211; daí vocês me corrijam se vocês acham que eu não estou certo &#8211; de que essa tendência autogestionária não é a mesma coisa hoje. A gente viu isso na organização do call center, que no fundo a vontade era também explodir aquele lugar e sair de lá. Você não é o operário que está fazendo um avião que vai voar e fazer a sociedade ir para o futuro. Hoje o conteúdo das lutas no trabalho parece mais anti-trabalho do que autogestionário, e acho que a gente encontrou nisso uma afinidade também com o pensamento anti-gestão do Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Tem também um outro caminho, não sei se vocês tiveram o mesmo preconceito que a gente que é um pouco mais velho, teve, que era o seguinte: em certa medida, a gente foi vendo a degeneração das formas organizativas anteriores. Entendia elas como uma camada mais de reificação sobre os dilemas e as composições das lutas dos trabalhadores. Tinha até uma música do Tom Zé, que era muito boa: “não tem nenhum operário na platéia, não tem nenhum operário no palco, mas Tom Zé sabe muito bem aquilo que é bom para a classe operária”. Eram camadas de reificação que iam se afirmando na tentativa de buscar também um conflito. Foi meio intuitivo, a gente precisava investigar para além daquilo que é dito pela representação dos trabalhadores. Qual é o nível de conflituosidade que existe no chão, no quente daquelas contradições que não podem ser transmitidas pelas formas tradicionais? Não significa que os trabalhadores não reifiquem, só que a reificação imediata daquele processo é distinta da reificação que vai ser feita por uma organização que já quer se manter, já tem todo um laço, um entrelaçamento de posicionamentos, uma fauna organizativa que ele está preso e que ele é obrigado a idealizar ainda mais aquela parte da realidade. Então a idealização feita a quente pelo trabalho permitia a gente entender muito melhor quais eram as contradições que estavam postas e como potencializar elas no sentido anti-trabalho, não no sentido propriamente de tomada do lugar do trabalho. A gente entendia que as formas sindicais e partidárias não davam conta de dar vazão a isso, a gente precisava furar esse bloqueio. A gente não tinha uma formulação teórica sobre isso, ela veio comprimida por uma necessidade da própria luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; A pergunta fala especificamente do operaísmo italiano, que fez uma investigação entre o começo e auge das lutas se a gente pegar de 60 a 70. Se a gente vê a Tendência Johnson-Forest ou até a galera do Socialismo ou Barbárie, ali era algo mais de “estamos desiludidos com a nossa forma de organização atual e precisamos nos reencontrar”. Também era uma perspectiva de se reconectar, de entender a nova conjuntura, e eu acho que esse é o papel da enquete que de certa forma a gente pegou. É muito diferente de uma situação quente, como o jornal Combate, dentro de um processo revolucionário e de tentar potencializar isso. Nossa perspectiva de enquete foi muito mais se religar, entender o que está acontecendo e se inserir. Nossa crítica à esquerda era justamente essa, a esquerda chega lá e quer falar para a galera. A gente não quer falar <em>para</em> a galera, a gente quer falar <em>com</em> a galera, a gente quer entender o que a galera fala, e nesse sentido essa perspectiva da investigação tem muito mais a ver com uma autoformação nossa, do que necessariamente com a perspectiva da gente apontar para alguma solução. Uma crítica que um camarada fez foi: “vocês estão aí nessa coisa da enquete operária, e a diferença de vocês e dos leninistas é que os leninistas tem o partido e vocês estão com a enquete para poder fazer a revolução”, mas eu não acredito nisso. Eu não acredito na nossa possibilidade de fazer a revolução através da enquete, mas da gente entender o contexto atual e como a gente se insere nos processos que estão acontecendo, como a gente se liga a classe, qual o movimento da classe atualmente, muito mais do que o que a gente quer levar a classe a fazer. Eu acho que a gente também faz um pouco de confusão entre a própria ideia de enquete operária e copesquisa, mas eu acho que a ideia da investigação militante é mais interessante nesse sentido, que a investigação que a gente faz de certa forma coloca as duas coisas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; E isso permitiu a gente chegar mais a fundo em compreensões sobre o caráter ambíguo das explosões que aconteceram recentemente. O modo tradicional de caracterizar uma determinada luta pode ser muito perverso. Você recorta e joga essa luta parcialmente e isso vira um consenso num circuito grande da esquerda e acaba jogando tudo fora, na lata do lixo. Todas as possibilidades de quebra daquela realidade se transformam em uma coisa chapada, homogênea. Então acho que essa investigação também permitia a gente sair dessas formas que homogeneizavam a realidade, botavam a realidade com uma coisa preta no branco, mas é muito mais cinza, cheio de nuances. Os caras não esperavam ver da boca de caminhoneiros as demandas, por exemplo, dos pequenos caminhoneiros daqui da entrada de São Paulo. Não é a busca da verdade, mas é um pouco nesse sentido que você falou, reconexão com os processos reais de luta, compreender os limites e como eles também reificam a realidade, e como que a gente também conseguiria contribuir numa tendência que a gente acredita ser de ruptura, ou de contribuição com outras lutas de trabalhadores que estavam acontecendo. A investigação foi caindo no nosso colo. A gente não fez um caminho consciente…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu acho que tem uma coisa que liga também com a discussão de estratégia que a gente teve antes com a discussão de consciência, eu acho que o pensamento da investigação ele inverte o plano da consciência. Então, ao invés de você levar uma resposta pronta pra classe trabalhadora, é o movimento inverso. Você vai pra porta de uma empresa não pra dar um panfleto que vai contar uma verdade pro cara, mas pra descobrir, pra aprender alguma coisa. O que tem de mais importante nesse processo é você descobrir uma denúncia daquela fábrica, descobrir alguma coisa ali… O militante, no fundo, tá aprendendo, e não indo dizer alguma coisa e, claro, a partir desse aprendizado a gente faz elaborações que são importantes para nós e que também podem ser úteis pra luta. Eu acho que é um pouco por aí, e acho que liga com estratégia também porque aí tem uma discussão do conteúdo. Qual a relação entre a enquete e o conteúdo do comunismo? Pensar que o conteúdo do comunismo talvez não tenha sido estático ao longo da história e que cada composição de classe ao longo da história projetou uma certa perspectiva no horizonte. Quando os caras estavam discutindo lá no século XIX na Comuna de Paris como eles queriam que fosse o mundo depois da revolução, eles estavam fazendo isso com base no chão que eles pisavam, que era um certo capitalismo; e que foi outro em 1920 quando a galera formou os conselhos; foi outro nos anos 60, quando o tema era autogestão; e talvez seja outro no nosso tempo. Então eu acho que o papel da enquete é descobrir quais lutas estão acontecendo de fato para encontrar o conteúdo do comunismo do nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos pegar o exemplo dos entregadores. Para boa parte da esquerda tinha uma dificuldade de se relacionar com esse setor porque já vinha com uma resposta pronta que era baseada em formulações que a classe trabalhadora fez em outro ciclo, em outro período que tinha a ver com os marcos fordistas da CLT, que gerava muito rechaço nos entregadores. E por quê? A visão de antes vai dizer então eles são conservadores. Não. Na luta a gente entendeu: é não querer ter chefe, não querer ter hora para entrar e sair. Mas ao mesmo tempo os companheiros estavam fazendo greve e se organizando para bloquear McDonald&#8217;s. Vinha gente trabalhar e os caras estavam no piquete e falavam “não, a gente está brecando aqui hoje, não é dia de trabalhar”. E o cara que veio trabalhar ficava no breque. Uma ação de classe muito mais radical do que uma categoria como bancários faz hoje em dia, que coloca uma faixa na frente do banco da agência e finge que está fazendo uma greve. Eles queriam autonomia e estabilidade. Ou seja, não é que eles queriam simplesmente negar a CLT, não era negar a possibilidade de um salário bom, de uma vida boa, de ter um direito à saúde, um direito em caso de um acidente que acontecesse, era ao contrário. Era ter acesso a tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; E a crítica ao sindicalismo também é uma coisa de: “a gente não quer ninguém negociando pela gente” e no entanto cai essa coisa de “o trabalhador que rejeita o sindicato quer fazer negociação direta com o patrão”. Eu acho que de fato eles querem isso, mas não é uma negociação individual com o patrão, eles querem organização coletiva com pressão, a partir dos pontos que eles determinam ali. Eu lembro que eu conversava com uma companheira que falava “na verdade parece muito mais com aquele ciclo dos anarquistas no começo do século XX, aquela galera que não queria que as suas organizações fossem institucionalizadas pelo Estado e ao mesmo tempo queria fazer as lutas diretas, se auto-organizar”. O que a gente vê talvez seja mesmo uma questão de gestão da miséria, barbárie. Alguns grupinhos e iniciativas foram organizadas nesse sentido de “todo mundo coloca uma graninha e daí a gente ajuda quem se acidentar”, e tal. A gente pode ver isso dentro de uma dinâmica de que está tirando a responsabilidade da empresa. Mas ao mesmo tempo a gente também pode ver isso dentro de uma ótica de avanço de perspectiva de auto-organização, que é interessante. Só que a gente fica nessa contradição porque a gente não quer também potencializar a gestão da miséria. Mas ao mesmo tempo o desenvolvimento de novas relações e novas organizações, formas de se relacionar que surgem daquilo, são muito interessantes. Então como é que a gente junta isso? A esquerda só fala coisas como “precisa ter CLT”, “precisa de sindicato”, “precisa disso”, mas não olha para essas expressões mais orgânicas da classe, em buscar os conflitos e as formas de organização invisíveis, subterrâneas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159304" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg" alt="" width="1046" height="1493" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg 1046w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-210x300.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-717x1024.jpg 717w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-768x1096.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-294x420.jpg 294w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-640x913.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-681x972.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1046px) 100vw, 1046px" />PyB &#8211; Como surgiu a ideia de editar o livro “Incêndio”? Qual foi seu principal objetivo ao circular esses textos no meio autônomo/radical?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Tem dois textos nesse livro, né? O primeiro texto chama <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" href="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Olha como a coisa virou”</a>, que acho que foi o primeiro texto coletivo que a gente escreveu no Grupão. E a gente escreveu em 2018, que foi o ano que estava se elegendo o Bolsonaro, foi um ano muito tenso. Só que no Grupão tinha uma intuição, mesmo antes do Bolsonaro ser eleito, de que ele era de alguma forma um “candidato do tempo”. Porque tínhamos uma leitura de 2013 como a revolta que explodiu a guerra social, e que rompeu com a pacificação, com o regime de gestão petista e trouxe à tona o conflito. E o Bolsonaro, de alguma forma, era o candidato que trazia à tona o conflito também. Não era o mesmo conflito de classe que a gente queria em 2013, mas ele escancarava a guerra social em vários sentidos. Então parecia para gente que o espírito de revolta de 2013 ainda estaria vivo e eleitoralmente o Bolsonaro teria condições de sequestrar um pouco dessa energia de revolta. Ele vencer a eleição reforçou esse ponto.</p>
<p style="text-align: justify;">A gente tinha uma hipótese para explicar a eleição que era que o bolsonarismo sequestrava parte daquela energia de revolta social de 2013 de forma muito louca porque ao mesmo tempo também era a expressão da repressão em 2013, das forças policiais, do exército que estava no Haiti reprimindo nas favelas e que veio pra cá reprimir, fazer garantia de lei e ordem. Então o Bolsonaro condensava esses dois lados da coisa: a repressão e também o sequestro da energia de revolta, tirando essa revolta de termos de classe e levando pra uma coisa mais ambígua &#8211; justamente por isso fascista, porque como o João Bernardo define, fascismo é uma revolta dentro da ordem. Então o texto continha uma hipótese para o período: “se o Bolsonaro expressa uma energia de revolta social que era nossa em 2013 e que agora foi sequestrada por uma extrema direita, quer dizer que existe algum conteúdo que nos interessa no meio dessa coisa toda” . E isso nos fez, durante o período seguinte, ter uma posição que fez a gente se afastar do conjunto da esquerda que adotou uma posição “se unir contra o fascismo”. A gente tinha muita ressalva com esse discurso antifascista no sentido de que ele poderia simplesmente significar uma defesa daquela democracia, do consenso e do apaziguamento que estávamos combatendo anos antes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K </strong>&#8211; De certa forma, a gente tentou traçar durante o Bolsonaro uma postura que não era exatamente antifascista, ou ela o era em outros termos, que não era de defender a civilização e a ordem capitalista contra a irracionalidade fascista, mas sim de buscar no proletariado, inclusive nos trabalhadores que apoiavam o Bolsonaro, uma energia de revolta que agora a insurgência de direita estava sequestrando. Eu acho que o texto tinha um pouco essa aposta: tentar escapar da polarização Bolsonaro-PT e entender as lutas nos seus próprios termos. Levar elas para o plano trabalhadores versus capital, colocar uma oposição em termos de classe. A gente teve essa experiência em várias categorias, como os entregadores. O segundo texto do <em>Incêndio</em>, que é o <a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">“</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Masterclass de fim do mundo</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">”</a>, é uma compilação, um balanço do conjunto dessa experiência que a gente teve durante o bolsonarismo, que foi agravada obviamente pela pandemia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Vale a pena falar que no período da pandemia o Grupão teve algumas diferenças internas. Chegou praticamente a rachar, apesar de que não completamente. O texto acabou sendo escrito por um lado, digamos, dessa divisão. Quais eram os lados dessa polarização interna? O primeiro dizia: “tem um vírus mortal rolando aí e a nossa tarefa é criar redes de solidariedade para se proteger contra a pandemia.” A auto-organização da quarentena e das medidas sanitárias vinha em primeiro lugar. O outro setor &#8211; e eu estava mais desse lado &#8211; argumentava que para muitos trabalhadores a quarentena não seria uma opção. Você vai se proteger na medida em que você consegue, mas se as pessoas ainda tem que sair para trabalhar, ainda precisam lutar contra o seu patrão, e quem está em casa também. Por isso, nossa primeira tarefa deveria ser apoiar o conflito. O texto do Incêndio coloca essa questão nas entrelinhas em muitos momentos: a ênfase na solidariedade ou no conflito? Depois da pandemia e com o texto publicado, hoje para nós está claro que essas coisas não se excluem completamente. Para você ter conflito você tem que ter uma rede de solidariedade mínima entre os trabalhadores que estão em conflito, e que certas redes de solidariedade, em certas situações, também podem ser conflituosas para o capital. Enfim, o grupo que escreveu o incêndio, e daí assinou como “militantes na neblina” &#8211; foi uma forma também de não colocar o nome “Grupão” &#8211; era o setor que estava criticando as redes de solidariedade como um embrião de gestão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Só para explicar um pouco, por exemplo, no caso específico dos entregadores, uma fração que foi alçada à categoria de imprescindíveis para a reprodução, chamados de trabalhos “essenciais”. Como também não tinham muita organização formal, era uma linha de frente para o capital. Daí a galera discutiu se poderia se organizar para entregar EPIs para os trabalhadores ou então fazer com que a própria luta se voltasse contra o iFood, contra a Rappi, e obrigar que essas empresas fizessem a proteção dos trabalhadores, aumentando o pagamento salarial. Óbvio que a gente estava pensando “é importante fazer a segurança, ter EPI de qualidade”, mas dentro disso saber que não adianta a gente, enquanto grupo externo, ficar fazendo “vamos lá levar máscara para os caras”, “vamos lá fazer vaquinha para ajudar o cara”, era quebrar com essa lógica de uma forma específica e botar isso como conteúdo objetivo da luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Eu acho que o W apresentou dois extremos ali do debate sobre solidariedade e conflito, que é anterior à pandemia e ele se desenvolve na pandemia. De certa forma, acaba se radicalizando. Mas eu não acho que a ruptura se deu nesses termos exatamente. Até porque eu fiquei mais do lado da galera que estava vendo outras formas de luta e resistência dentro de processos de solidariedade, que também eram conflituosos. Acompanhamos e apoiamos a greve dos entregadores da Loggi no Rio de Janeiro, que foi anterior ao Breque dos Apps. O mesmo com rodoviários fazendo greve selvagem. Lá em Paraty, a gente estava de olho no desenvolvimento das barreiras sanitárias organizadas por moradores de bairros afastados, que tinham treta com o poder público. Divulgando a galera que estava nos locais de trabalho, com raiva de seus patrões que estavam se utilizando das políticas sanitárias a bel prazer, sem nenhum tipo de fiscalização por parte do poder público, enquanto o mesmo poder público censurava trabalhadores precarizados do centro que estavam lá vendendo artesanato, fazendo arte, música, enfim. Aqui em Goiânia, um dos pontos que foi interessante é que a gente conseguiu uma inserção com os entregadores, que foi a galera que já estava recebendo kit de entrega de máscara e álcool gel, mas era uma máscara de pano escrota. A gente se juntou, fez uma vaquinha e foi lá distribuir pra galera. E foi super massa ter essa troca. Isso abriu nossa inserção para a greve contra o agendamento de corridas nos apps, por exemplo, que a gente construiu junto na pandemia. As coisas ficaram um pouco misturadas em certo momento. Eu acho que essas questões não ficaram tão pretas ou brancas assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Isso é uma coisa engraçada dessa experiência: foi uma divisão funcional de tarefas também. No momento em que o auxílio emergencial produziu revoltas de rua, a gente se envolveu. Quando virou uma coisa de redes de solidariedade a gente falou “isso aí é pelego”, aí vocês se envolveram. Então, de alguma forma, a gente pôde acompanhar o movimento inteiro. Quando a gente voltou a se encontrar, deu para conversar e os dois produziram sínteses.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Voltando à questão do <em>Incêndio</em>, eu já estava no Grupão no processo da escrita dos dois textos. Não participei do <em>“Olha como a coisa virou”</em>, mas é o que eu tenho mais acordo. Em relação ao <em>“Masterclass do fim do mundo”</em>, a minha discordância além de questões chaves, terminológicas ou de definições de certos processos (como por exemplo as barreiras sanitárias e tal, que também foi dual, tinha coisa muito pelega, mas tinha coisa muito interessante de combatividade), é o tom final do texto de “chegamos ao fim da linha” &#8211; que deu um tom também no próprio Grupão. O Masterclass caiu numa coisa completamente niilista, que reforçou uma questão, que eu acho que a gente está tentando sair agora, de: “é o fim, talvez a gente nem deve mais pensar em revolução, talvez seja uma questão de pensar apenas resistência”. Na minha visão, a gente tinha muito claro, muito estabelecido entre a gente, por mais que não falasse muito, que a nossa perspectiva era revolucionária. A partir do <em>Masterclass</em> eu comecei a pensar que talvez esse não fosse o caso, que talvez realmente haviam camaradas que pensassem que não tem mais pra onde ir, que é o fim mesmo, e agora é sobre puxar o freio e segurar essa porra. Eu acho que isso levou o Grupão por um lado meio negativo. Dessa coisa meio da gente simplesmente achar que é o fim da linha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em certa medida, são textos que se propõem a fazer sínteses do tempo histórico. Não sei se a gente poderia falar em conjuntura, como uma coisa bem dividida: “o que acontece no âmbito da política”, “da cultura”, “da economia”, uma coisa meio escolarizada fordista, isso já foi pro saco. A gente não se importa com isso. A gente se importa em tentar captar aquilo que você chamou do “espírito da revolta” no processo. O sequestro desse espírito da revolta, e um certo apogeu dessas forças de extrema direita. É uma tendência a uma dessocialização que agrava uma forma violenta das relações cotidianas. Mas acho que o ponto é que ambos são, e daí entro numa reflexão que a gente precisa fazer entre nós, que ambos são expressões de transições de conjunturas. A gente pode pegar um texto anterior, da crise do MPL, que é o <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Revolta popular: o limite da tática”</a> que expressa um tempo histórico. Expressa a luta conscientemente contra o consenso e quebramos a janela do consenso, fizemos o consenso se desdobrar e se esvair em um processo aberto. Capta como que esse processo aberto poderia escorregar para uma revolta de vernizes de extrema direita, que foi o <em>“Olha como a coisa virou”</em>, e a gente até termina meio “otimista”, perguntando para onde caminha a revolta. Pode ser que ela volte para outro campo, mas a tônica era que é possível passar o calhamaço da extrema direita durante um tempo. E o <em>“Masterclass do fim do mundo” </em>combina o combo de tragédias. Era a tragédia de uma população relativamente encantada com discursos que, para a gente, se assimilavam ao que foi o fascismo histórico, chama-se lá como foi. Tinha a expressão de violências e estratégias bárbaras de deixar ou dirigir o genocídio mediado por um vírus, tinha experiências políticas, no caso do Amazonas, de deixar as pessoas sem oxigênio. Enfim, aquela marcha fúnebre que passava tudo. Aquilo deu a tônica de um apogeu em um momento histórico. Só que isso também passou. Então ambos os textos, apesar de serem textos de propósito de síntese, não tem a pretensão de ser algo manualesco, algo que dê um caminho. São sínteses de tempo histórico. De dizer um pouco, do ponto de vista sintético, qual é a experiência que a gente tem visto na luta de classes no Brasil nesses dois tempos. Nesse sentido é bom, mas no outro sentido é datado. O problema de você generalizar coisas a partir das lutas concretas de um momento é que fica um pouco impressionista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu entendo a preocupação do Camarada X e eu concordo com ela. Politicamente o texto tem uma conclusão muito pessimista. Aquele livro termina muito pessimista. Só que de fato a gente viu a maior onda de revoltas da história da humanidade globalmente, a maior onda de greves da história do Brasil. Na China também houve um ciclo de greves enorme, e isso não deu em revolução, tampouco em saldo organizativo. No fundo, essa constatação tem a ver com o problema do acúmulo organizativo. A gente estava escrevendo esse texto na ressaca das greves de motoboys e das lutas da pandemia, que tinham sido derrotadas. O Revolucionários dos Apps, grupo de entregadores de app em Goiânia foi cooptado. Em São Paulo o grupo do Treta no Trampo implodiu com brigas internas. Foi péssimo aquele momento. A gente escreveu esse texto em um tom de derrota. E vendo também as revoltas pelo mundo não encontrando o horizonte… por isso que é “neblina”, porque não vê horizonte revolucionário. A gente até brincou: “quando tiver um horizonte revolucionário a gente muda o nome da assinatura”. Só que o problema é que o balanço que você faz nessa situação é muito pessimista, e isso tem uma implicação política. Por um lado é levar a sério o que se está analisando, falar de não ter horizonte, e de fato a gente tem que entender que pode ser sinistra a consequência de dizer que não tem acúmulo de forças hoje. Então por que eu vou militar? É o problema político do texto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em geral os livros políticos tem propostas de ação, o nosso não tem, o nosso é só uma lamentação. No final é o chamado a quem percebe essa lamentação, é uma proposta de encontrar um chamado às outras organizações que percebem nesse momento histórico a gravidade do tempo. Eu acho que é um ponto. Ele não teve um papel organizador como os livros podem ter. Foi uma síntese nossa, e aí a gente ficou lidando com essa síntese, com esse balanço muito pessimista. Eu acho que tem um pouco a ver com a situação do Grupão hoje, que a gente está num momento difícil do nosso espaço, que tem muita gente que está muito desiludida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acredito que a gente deve resgatar o horizonte revolucionário, não como uma coisa a ser construída por nós, mas uma coisa que considerando todo o processo histórico é uma possibilidade, não é a negação dessa possibilidade. A gente não pode dizer que vai acontecer, mas a gente não pode dizer também que não vai acontecer. Então é melhor que a gente segure a possibilidade e avance para isso, até porque têm outras lutas que trazem conteúdos importantes para a perspectiva revolucionária hoje. Por exemplo, me trouxeram a referência do Irã em 2021 quando teve uma greve gigante de trabalhadores de óleo e petroquímica, 100 mil trabalhadores organizados e criação de conselhos. Eles estavam fazendo defesa de conselhos. Eles estavam defendendo uma perspectiva que a gente pensou que havia acabado, mas aconteceu. Mostra uma continuidade. Eu não vou falar que mostra uma “invariância”, mas mostra que há uma atualidade ainda em formas clássicas que podem se atualizar, como os grupos de WhatsApp, a perspectiva das equipes dos entregadores, enfim. Eu acho que são elementos que a gente precisa pensar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A crítica sempre é posicionada, por mais que ela seja radicalmente negativa, ela é sempre posicionada. A gente parte do pressuposto, ainda que não tenha as condições objetivas de realizar, de que existe a necessidade e a possibilidade, talvez não a probabilidade, da humanidade viver uma humanidade sem classes. A gente parte desse pressuposto. Ele é a onde a gente joga a âncora para fazer a crítica. A gente não faz a crítica no vazio. Ela é posicional. Nesse sentido, acho que isso ajuda a gente a entender que mesmo que uma revolução, uma ruptura, não esteja na ordem do dia ou aquilo que organiza o nosso cotidiano, ela serve mesmo no exercício da imaginação. Ela serve para a gente criar a negativa desse mundo. Óbvio, uma negativa imanente, a gente parte do pressuposto de que existem as contradições. As condições de vida tendem às lógicas mais irracionais, mais destrutivas, mais bárbaras. A gente só consegue perceber isso quando a gente alça no oposto, ou seja, talvez não seja provável, mas é possível uma humanidade sem classes, uma humanidade livre das determinações da sua auto-escravidão. Eu acho que isso é o que faz com que a gente possa pensar. Então, de certa maneira, é também inegável que a gente tenha o pressuposto revolucionário para fazer a crítica do capital. Sem o pressuposto revolucionário a gente não consegue fazer a crítica efetiva do capital. Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico sinistro de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas.</p>
<p><em>As obras que ilustram o artigo são de Theo v</em><em>an Doesburg </em></p>
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		<title>Não olhe para a Lei Rouanet!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 12:58:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
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					<description><![CDATA[ O meteoro do incentivo à cultura. E o que os trabalhadores da arte da cultura deveriam aprender com as lições catastróficas da  dependência política do fomento. Por Manoel J de Souza Neto]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Manoel J. de Souza Neto</h3>
<p style="text-align: justify;">Após anos de pesquisas sobre o fomento à cultura no Brasil, coordenando estudos independentes e cooperando com o Observatório da Cultura do Brasil em análises sobre a Lei Aldir Blanc, o MinC, o CNPC e a Lei Rouanet, encerro este ciclo com a sensação de tarefa cumprida. Nosso objetivo sempre foi diferente do de muitos que apenas desejam atacar a arte ou captar recursos. Queríamos provocar reflexão sobre falhas na execução das políticas públicas e expor contradições que incentivassem melhorias nos mecanismos de fomento à cultura. Não imaginávamos que, apenas por observarmos o cenário com a lente do Observatório e identificarmos o objeto em queda e a catástrofe que poderia provocar, seríamos perseguidos e hostilizados por alertar a sociedade sobre a tragédia iminente. Descobrimos, de forma amarga, como grupos de interesse, parte da mídia e a política podem ser medíocres. Depois de anos de <a class="urlextern" title="https://diplomatique.org.br/crise-cultura/" href="https://diplomatique.org.br/crise-cultura/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">artigos</a>, pesquisas e <a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">relatórios</a>, o que revelamos sobre problemas na aplicação de recursos e ineficácia das políticas públicas tornou-se menos importante do que o objeto secundário da própria pesquisa, que são as razões pelas quais o cenário não muda. E elas passam pelas pressões de partidos, grandes empresas, atravessadores, máfias de editais e setores da mídia, somando-se à anti-cultura promovida por conservadores e ultraliberais que tentam desmontar os instrumentos de fomento. Ambos os lados carregam responsabilidade semelhante pela falência estrutural do financiamento à cultura no Brasil. Descobrimos isso porque tentaram silenciar estudos que poderiam ajudar a sociedade, revelando justamente as razões pelas quais nada muda, justamente os interesses excessivos de poucos grupos beneficiados. As pressões políticas e <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/coluna/radar/observatorio-denuncia-perseguicao-no-ministerio-da-cultura/" href="https://veja.abril.com.br/coluna/radar/observatorio-denuncia-perseguicao-no-ministerio-da-cultura/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">perseguições aos pesquisadores</a> levaram membros do Observatório da Cultura do Brasil ao limite, resultando em queda de canais. Considerando que auditorias e autoridades confirmaram nossos estudos, o grupo se desfez e este tema está encerrado para nós, mas não antes de apresentarmos as provas e auditorias que encerram o caso.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise contemporânea do financiamento cultural brasileiro deixou de ser apenas um debate técnico sobre renúncia fiscal, incentivos culturais e gestão administrativa para se transformar em uma guerra simbólica permanente entre campos políticos rivais. Nos últimos anos, a Lei Rouanet passou a ocupar espaço semelhante ao de outros temas polarizadores nacionais, funcionando simultaneamente como símbolo de democratização cultural para setores progressistas e como representação de privilégios e desperdício de recursos públicos para grupos conservadores, enquanto especialistas apontam contradições sociais e baixa efetividade administrativa. O problema central é que ambos os lados passaram a operar com narrativas simplificadas que, embora contenham elementos reais, frequentemente produzem interpretações distorcidas da realidade para fins políticos. O bolsonarismo construiu a retórica de que a Rouanet teria sido capturada por artistas de esquerda, celebridades e elites culturais alinhadas ao PT, enquanto o governo Lula, o Ministério da Cultura e setores ligados à defesa institucional da gestão cultural passaram a tratar grande parte das críticas estruturais ao mecanismo como fake news, demonização ou perseguição ideológica. Entre essas narrativas extremadas, o debate técnico sobre concentração regional, passivos bilionários, fragilidade de fiscalização, dependência do capital privado e desigualdade estrutural de acesso acabou obscurecido por disputas eleitorais e simbólicas. A dinâmica das redes sociais agravou o processo, transformando dados incompletos, tabelas isoladas, projetos aprovados sem captação, fotos, mentiras sobre contas públicas, cachês municipais e contratos culturais em peças de propaganda e ataque político. Nesse ambiente, cada grupo passou a construir sua própria realidade paralela. O centro-esquerda no governo enfatizou quase exclusivamente os impactos positivos da cultura na economia, os empregos gerados e a defesa da cidadania cultural, enquanto setores da direita resumiram o sistema a corrupção, mamata e privilégio ideológico. Ambos possuem parcialmente razão em pontos específicos, mas ambos simplificam um sistema muito mais complexo, marcado por relevância econômica real, forte demanda social por financiamento cultural e problemas históricos de controle, transparência e distribuição. O resultado é um ambiente comunicacional em que fatos técnicos são absorvidos pela lógica da guerra cultural, impedindo análises equilibradas e produzindo ciclos permanentes de boatos, desinformação, agressões, seletividade narrativa e exploração eleitoral do tema.</p>
<p style="text-align: justify;">O caso do filme Dark Horse sintetizou de forma emblemática a nova guerra política sobre financiamento cultural no Brasil. A produção sobre Jair Bolsonaro passou a funcionar como espelho invertido das antigas críticas da direita à Lei Rouanet. Reportagens do Intercept Brasil revelaram mensagens, contratos e áudios envolvendo Flávio Bolsonaro, Mário Frias e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, indicando negociações para financiar o longa com cifras de até US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões. Setores de centro-esquerda exploraram o episódio para denunciar contradições da direita bolsonarista, que durante anos atacou o fomento cultural via Rouanet, mas passou a defender um financiamento milionário ligado a um banqueiro investigado no maior escândalo financeiro do país. O secretário-executivo do MinC, Márcio Tavares, afirmou que bolsonaristas condenariam o financiamento público cultural, mas aceitariam grandes aportes privados quando destinados a obras ideologicamente alinhadas. A Ancine informou que investigaria o caso, embora auditorias do TCU apontem falhas históricas da agência justamente na fiscalização dos recursos do setor audiovisual. Ao mesmo tempo, Mário Frias inicialmente negou qualquer relação financeira de Vorcaro com o projeto, afirmando que não existiria “um centavo” do banqueiro no filme, mas depois recuou e admitiu recursos ligados a empresas associadas ao empresário. CNN, Folha, G1, BBC e Metrópoles passaram então a explorar as contradições das versões apresentadas pela defesa do projeto. O orçamento do filme superaria os valores totais de captação da Rouanet em diversos estados brasileiros, transformando o episódio em poderosa arma retórica contra o discurso anti-Rouanet da direita. A defesa bolsonarista passou a sustentar que o financiamento era privado, sem renúncia fiscal e sem uso da Rouanet, argumentando que não haveria ilegalidade no recebimento de capital privado para uma produção audiovisual, mesmo diante de suspeitas ligadas a corrupção e fraude financeira. O debate deixou de girar apenas em torno da Rouanet e passou a questionar a legitimidade de financiamentos culturais ligados a grandes empresários investigados, diante de suspeitas de finalidade eleitoral, favorecimento político e estruturas financeiras opacas. O episódio revelou que tanto mecanismos públicos quanto privados de financiamento cultural podem se transformar em instrumentos de disputa ideológica, influência política e produção de narrativas seletivas. Enquanto o centro-esquerda apontava o “escândalo” do financiamento privado bolsonarista, a extrema-direita acusava o governo de hipocrisia por condenar recursos privados enquanto defendia bilhões em renúncia fiscal via Rouanet. O caso demonstrou que o centro real da disputa não é apenas a origem do dinheiro, mas quem controla a narrativa cultural, quais projetos recebem legitimidade institucional e quais grupos conseguem transformar financiamento cultural em capital simbólico e eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse cenário, o Ministério da Cultura, a ministra Margareth Menezes e setores ligados ao PT passaram a desenvolver uma defesa fortemente positiva e muitas vezes incondicional da liberal Lei Rouanet. A atual gestão sustenta que o mecanismo representa um instrumento constitucional de democratização cultural, desenvolvimento econômico e reconstrução do setor após o período bolsonarista. Estudos da Fundação Getulio Vargas passaram a ser usados como principal base de legitimação da política pública. Segundo dados divulgados pelo MinC, a Rouanet movimentou cerca de R$ 25,7 bilhões na economia, gerou ou sustentou aproximadamente 228 mil empregos diretos e indiretos e produziria retorno de R$ 7,59 para cada R$ 1 investido via renúncia fiscal. O governo também passou a enfatizar recordes de propostas submetidas, crescimento de projetos nas regiões Norte e Nordeste e expansão territorial da política cultural (<a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" rel="ugc nofollow">ainda que estudos revelem as contradições</a>). Margareth Menezes afirma frequentemente que “o povo brasileiro tem direito à cultura”, enquanto Márcio Tavares sustenta que “a cultura constrói pontes, não celas” (e tem razão), reforçando a ideia de que a Rouanet teria deixado de atender apenas grandes espetáculos para alcançar iniciativas periféricas, regionais e comunitárias. O problema é que essa defesa institucional frequentemente opera como blindagem discursiva, evitando reconhecer contradições históricas do modelo e problemas no gerenciamento dos mecanismos. Em reação aos ataques bolsonaristas e às fake news contra a Rouanet, parte do governo passou a tratar quase toda crítica estrutural à lei como simples “demonização da cultura” vinda de Bolsonaristas (<a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">como se a lei não fosse liberal e excludente</a>). Com isso, problemas reais como concentração regional, dependência de grandes patrocinadores privados, desigualdade de acesso, concentração de recursos em grandes produtoras e fragilidade de fiscalização passaram a ser antagonizados pelo discurso oficial como “discurso de ódio”. A própria estrutura da Rouanet continua baseada na lógica da renúncia fiscal, ou seja, na escolha privada sobre quais projetos receberão apoio conforme interesses de marketing e retorno reputacional em favor de grandes empresas patrocinadoras. Assim, embora seja uma política pública, sua operacionalização concreta permanece subordinada ao poder econômico e à lógica de mercado. O discurso oficial enfatiza democratização e descentralização, mas frequentemente evita discutir que a <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">distribuição histórica dos recursos permaneceu profundamente desigual</a> por décadas e que o aumento do número de projetos aprovados não significa distribuição proporcional da captação efetiva. A defesa institucional da Rouanet acabou assumindo um caráter quase totalizante, em que impactos econômicos positivos são usados como argumento suficiente para neutralizar críticas estruturais sobre transparência, fiscalização e concentração (<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">O que não silencia as pesquisas que revelam a realidade</a>).</p>
<p style="text-align: justify;">O episódio envolvendo o senador Randolfe Rodrigues e artistas sertanejos mostrou como a Rouanet passou a funcionar como arma retórica dentro da polarização política brasileira. Em discurso no Senado, Randolfe respondeu a Magno Malta listando artistas ligados à direita que teriam recebido dezenas de milhões vinculados à Rouanet, entre eles Gusttavo Lima, Bruno &amp; Marrone, Leonardo, Chitãozinho &amp; Xororó, César Menotti &amp; Fabiano e Zezé Di Camargo &amp; Luciano. A fala repercutiu amplamente e foi usada para denunciar a seletividade moral da extrema-direita, que atacaria artistas de esquerda enquanto ignoraria benefícios recebidos por nomes conservadores. Porém, surgiram rapidamente contestações técnicas de jornalistas e especialistas em gestão cultural. O principal argumento era que Randolfe misturava conceitos distintos, tratando valores autorizados para captação como dinheiro efetivamente recebido via Rouanet. Especialistas lembraram que aprovação de projeto não equivale a captação integral nem a recebimento de recursos públicos. O caso de Luan Santana tornou-se emblemático, pois o cantor teve projeto aprovado, mas afirmou nunca ter captado os recursos autorizados. Paralelamente, investigações passaram a mostrar que o verdadeiro fluxo bilionário ligado ao universo sertanejo ocorreria muitas vezes por outra via, de cachês milionários pagos por pequenas e médias prefeituras com recursos de emendas parlamentares, especialmente as emendas Pix. Reportagens da IstoÉ Dinheiro, do portal O Fator e de veículos independentes mostraram que prefeituras utilizavam verbas de baixa rastreabilidade para contratar artistas sertanejos, inclusive em municípios com graves carências em saúde, saneamento e educação. A CGU e o STF passaram então a analisar o tema em auditorias e decisões relacionadas à transparência das emendas. Assim, a discussão deixou de ser apenas “Rouanet versus sertanejo” para revelar uma estrutura muito mais ampla de circulação de dinheiro público na cultura e no entretenimento vindo de deputados, prefeituras e agronegócio. Randolfe acertou ao expor a hipocrisia de setores que demonizam a Rouanet enquanto ignoram outros mecanismos públicos ligados à direita, mas sua argumentação equivocada por difundir informações e fontes contraditórias. Ao mesmo tempo, setores conservadores passaram a tratar críticas aos cachês sertanejos como perseguição ideológica, ignorando evidências sobre uso de verbas públicas em contratações suspeitas. O episódio tornou-se retrato da comunicação política contemporânea, como um lado transforma números autorizados em dinheiro “embolsado da Rouanet” e o outro transforma investigações sobre recursos públicos em “ataque à cultura”. Entre essas narrativas, desaparece o debate técnico sobre transparência, rastreabilidade, distribuição de recursos e fiscalização efetiva do dinheiro público.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a briga circula entre centro-esquerda e extrema-direta, outra perspectiva é a realista, visando as políticas públicas e efetividade da gestão pública, visando o interesse da população. As contradições entre a narrativa oficial do Ministério da Cultura e os <a class="urlextern" title="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" href="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">estudos produzidos pelo Observatório da Cultura do Brasil</a> tornaram-se um dos principais pontos de inflexão do debate contemporâneo sobre a Lei Rouanet. O MinC passou a sustentar que o mecanismo estaria entrando em uma nova fase de regularidade, transparência e modernização administrativa. A pasta afirma ter criado forças-tarefa para enfrentar o passivo histórico de prestações de contas, reduzindo gargalos e acelerando análises represadas. A Operação Abre Caminhos foi apresentada como símbolo dessa nova etapa, com divulgação de números expressivos de triagens, relatórios, análises conclusivas e encaminhamentos administrativos. O governo também passou a divulgar painéis públicos, sistemas digitais e medidas de simplificação como prova de transparência institucional. Contudo, estudos do Observatório da Cultura do Brasil e artigos publicados na Folha de S.Paulo, Congresso em Foco, Passa Palavra, Bem Paraná e veículos independentes começaram a confrontar diretamente essa narrativa. Os pesquisadores da OCB sustentaram em <a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">relatórios</a> que o Ministério apresentava uma visão excessivamente otimista e, em alguns casos, enganosa <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">sobre o tamanho real do passivo histórico da Rouanet</a>. Segundo os estudos críticos, ainda existiriam dezenas de milhares de processos sem conclusão definitiva e bilhões de reais vinculados a prestações de contas pendentes. O ponto central da crítica é que o governo frequentemente tropeça em ações administrativas preliminares sem efetivo encerramento das contas de processos dos projetos, deixando ocorrer ampliação do passivo. Triagens, relatórios internos e reclassificações processuais como Instrução Normativa nº 29/2026 e normativas anteriores (como a IN nº 23/2025) são apresentados como “solução do problema”, quando muitos casos continuam sem julgamento definitivo, recuperação de valores ou responsabilização financeira clara. Outro ponto explorado pelo Observatório é a suposta flexibilização excessiva das regras de análise financeira sob a justificativa de modernização. Ministério da Cultura (MinC) alterou as normativas de prestação de contas, estabelecendo que projetos culturais de até R$ 5 milhões não estão mais sujeitos ao detalhamento exaustivo de execução financeira. A fiscalização passou a focar na comprovação de entrega do objeto, adotando análises simplificadas. O Tribunal de Contas da União (TCU), vedou a conduta do órgão e apontou que essa flexibilização reduziu o índice de reprovação de contas a zero, o que mascara o problema.</p>
<figure id="attachment_159287" aria-describedby="caption-attachment-159287" style="width: 571px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159287 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.35-36.jpg" alt="" width="571" height="395" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.35-36.jpg 571w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.35-36-300x208.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 571px) 100vw, 571px" /><figcaption id="caption-attachment-159287" class="wp-caption-text">TCU, 2026, P.35-36.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura" href="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">TCU passou a apontar riscos ligados ao enfraquecimento de controles, ausência de prazos adequados para análise e risco de prescrição de processos</a>. Relatórios do TCU identificaram ainda estoque bilionário de prestações pendentes, falhas de monitoramento e baixa efetividade de mecanismos de cobrança e responsabilização (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>). Além disso, os estudos críticos questionam a narrativa de descentralização apresentada pelo MinC. Embora o número de projetos aprovados tenha aumentado em regiões historicamente menos atendidas, os dados agregados não eliminam a concentração efetiva de grandes volumes de captação no eixo econômico tradicional e em grandes proponentes profissionalizados. Assim, enquanto o governo enfatiza crescimento quantitativo e impacto macroeconômico, os estudos críticos apontam permanência de desigualdades estruturais, <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">concentração territorial</a> e dificuldades reais de <a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">acesso para a absoluta maioria dos pequenos produtores independentes</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Preocupados com a opinião pública o governo, e mais especialmente o <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/" href="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Ministério da Cultura lançaram artigo para a Revista Veja questionando os dados do Observatório da Cultura do Brasil</a>, sem no entanto apresentar informações que efetivamente demonstrassem que dados estavam errados. A crítica não passou de um descontentamento sem efetiva demonstração de que o MinC tinha qualquer dado que pudesse contraditar os dados da OCB.</p>
<figure id="attachment_159288" aria-describedby="caption-attachment-159288" style="width: 571px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159288" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.18.jpg" alt="" width="571" height="253" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.18.jpg 571w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.18-300x133.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 571px) 100vw, 571px" /><figcaption id="caption-attachment-159288" class="wp-caption-text">TCU, 2026, P.18.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O caso transformou-se em um raro “plot twist” institucional na política cultural brasileira porque começou como uma disputa narrativa entre o Ministério da Cultura e pesquisadores independentes do Observatório da Cultura do Brasil sobre a situação real da Lei Rouanet, mas terminou com o Tribunal de Contas da União confirmando oficialmente, em auditoria e julgamento plenário (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>), exatamente os problemas que haviam sido denunciados anteriormente pelo Observatório, por articulistas e por parte da imprensa. A cronologia é reveladora. Ao longo de 2024 e 2025, o MinC, sob gestão de Margareth Menezes e Márcio Tavares, passou a defender que a Rouanet estaria em processo de modernização, transparência e superação do histórico passivo de prestações de contas. O discurso institucional enfatizava a “Operação Nise da Silveira”, a “Operação Abre Caminhos”, a simplificação de procedimentos e a ideia de que o gargalo herdado de governos anteriores estaria sendo resolvido, chegando a anunciar o “<a class="urlextern" title="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/o-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas-do-ministerio-da-cultura" href="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/o-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas-do-ministerio-da-cultura" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">fim do passivo</a>”. Paralelamente, artigos do Observatório da Cultura do Brasil, análises da imprensa e estudos independentes começaram a apontar contradições entre o discurso oficial e os dados reais de controle. Textos publicados na Folha de S.Paulo, Congresso em Foco, Passa Palavra e outros veículos sustentavam que o Ministério estaria criando uma narrativa otimista incompatível com a realidade das prestações de contas, marcada por milhares de processos sem análise final, ausência de controle prescricional, afrouxamento normativo e mudanças regulatórias que simplificavam aprovações sem resolver o estoque histórico. O Observatório afirmava existir uma “normalização estatística” do problema, pois novas instruções normativas reduziam a profundidade das análises financeiras para projetos de até R$ 5 milhões, permitindo aprovações simplificadas mesmo diante de inconsistências. O Ministério reagiu recusando as críticas e classificando parte das denúncias como desinformação ou leitura distorcida dos dados públicos. Em entrevistas e notas oficiais, o MinC insistiu que o sistema era auditável, transparente e economicamente eficiente, apoiando-se em estudos da FGV que apontavam retorno de R$ 7,59 para cada R$ 1 incentivado.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto o debate se polarizava entre defensores e críticos da Rouanet, o TCU abriu acompanhamento técnico justamente sobre prestações de contas e riscos prescricionais. O resultado do <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a> foi devastador para a narrativa oficial. No Acórdão 726/2026 do Plenário, relatado pelo ministro Augusto Nardes, o Tribunal concluiu que o MinC “não dispõe de mecanismos, ferramentas ou sistemas voltados ao monitoramento dos prazos prescricionais”, constatando inclusive casos concretos de prescrição mesmo após a Resolução TCU 344/2022. O relatório técnico apontou baixa efetividade das medidas adotadas para redução do passivo, fragilidade nos controles, ausência de integração adequada entre sistemas como Salic e SEI, uso de planilhas manuais, ausência de módulos de recursos e revisão, inexistência de normas internas claras e incapacidade estrutural de acompanhar adequadamente dezenas de milhares de processos. O TCU revelou um passivo aproximado de 30 mil processos envolvendo mais de R$ 22 bilhões e identificou que a Ancine levava em média 1.168 dias para analisar prestações de contas cujo prazo regulamentar seria de 180 dias. Mais grave ainda, a auditoria identificou problemas de integridade, primariedade e confiabilidade das informações públicas, afirmando que os próprios sistemas utilizados pelo MinC não garantiam dados íntegros e plenamente auditáveis. Em outra frente, o Tribunal também criticou diretamente o enfraquecimento das regras de análise financeira introduzidas em normativas recentes do Ministério. O relatório menciona que a IN MinC 17/2024 passou a permitir aprovação de projetos com análise financeira simplificada ou até dispensada em determinados casos inferiores a R$ 750 mil, inclusive admitindo aprovação com ressalvas sem análise financeira aprofundada quando não houvesse indício de dolo ou fraude. O que antes era tratado politicamente como “ataque ideológico à cultura”, longe dos partidos, passou então a existir formalmente como achado técnico de auditoria do órgão máximo de controle externo do país. O efeito simbólico foi imediato, quando o mesmo Ministério que havia rebatido publicamente estudos críticos de pesquisadores independentes, agora se viu oficialmente obrigado pelo TCU a criar, em 120 dias, mecanismos efetivos de controle prescricional, sistemas de alerta e gestão de risco, além de priorizar em 60 dias todos os processos próximos da prescrição. A auditoria consolidou uma reviravolta institucional típica de “instant karma” administrativo, porque demonstrou que as denúncias não eram apenas retórica oposicionista (absurdo já que os estudos vieram de alas progressistas), mas questões técnicas, legais e estruturais efetivamente existentes. A consequência política mais relevante talvez seja justamente o deslocamento do debate, quando o problema da Lei Rouanet deixa de ser mera guerra ideológica entre “defensores da cultura” e “inimigos da cultura” para se tornar uma discussão concreta sobre governança, compliance, transparência, sistemas de informação, rastreabilidade, análise financeira e responsabilidade administrativa. Ao final do processo, ficou oficialmente demonstrado pelo Tribunal de Contas da União (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>) que existem falhas estruturais na gestão das prestações de contas da cultura brasileira, exatamente como pesquisadores, jornalistas independentes e o Observatório da Cultura do Brasil vinham alertando havia anos. O MinC agora não apenas enfrenta constrangimento político por ter negado ou minimizado o problema, mas também passa a ter obrigações formais perante o TCU para corrigir mecanismos, apresentar soluções, aprimorar controles e efetivamente entregar a transparência e a regularidade que antes afirmava já existirem.</p>
<p style="text-align: justify;">A comparação entre auditorias do Tribunal de Contas da União, estudos do Observatório da Cultura do Brasil e notas do Ministério da Cultura revela que o núcleo da crise da Rouanet não é apenas ideológico, mas técnico, administrativo e jurídico. O TCU identificou falhas estruturais ligadas ao passivo de prestações de contas, ausência de mecanismos eficazes de monitoramento, risco de prescrição, enfraquecimento da análise financeira e baixa capacidade de recuperação de recursos. <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Estudos do Observatório argumentam que o discurso oficial do &#8220;fim do passivo&#8221;</a> estaria sendo sustentado por simplificações normativas que reduzem exigências de controle e permitem apresentar redução estatística sem resolver o problema estrutural. Ao mesmo tempo, auditorias e pesquisas demonstram que existem demandas sociais legítimas por políticas públicas de cultura, especialmente em regiões periféricas, municípios pequenos e cadeias produtivas fragilizadas. Isso significa que as críticas estruturais à Rouanet não anulam sua importância econômica e social. O problema é que a polarização transformou um debate técnico complexo em disputa moral simplificada. A extrema-direita reduz o sistema cultural a corrupção e privilégio ideológico, enquanto setores ligados ao governo frequentemente tratam toda crítica como ataque autoritário à cultura. No entanto, auditorias públicas mostram problemas reais de larga escala envolvendo concentração de recursos, fragilidade de controle, passivos bilionários, riscos jurídicos, dificuldades de fiscalização e desigualdades históricas na distribuição. A realidade revelada pelas auditorias está justamente entre as duas narrativas extremas. Nem a Rouanet é apenas “mamata”, como afirmam setores radicais da direita, nem o sistema está plenamente regularizado e transparente, como sugerem peças institucionais do governo. O que existe é um modelo complexo, economicamente relevante e socialmente necessário, mas atravessado por problemas estruturais históricos ainda sem solução definitiva. A crise da política cultural brasileira revela, portanto, os motivos políticos das tensões, como a incapacidade do debate público de separar investigação técnica, controle institucional e política pública da guerra ideológica e da disputa eleitoral permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">A polemica da Lei Rouanet encerrou, não é polemica, mas fatos comprovados em auditorias do TCU (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>). A gestão da lei tem graves problemas que perpassam governos diversos, e seguem sem soluções. Não são os argumentos favoráveis ou contra, que grupos de interesses e ideologias em disputas tentam impor como narrativas para a opinião pública, mas questões técnica, legais, tributarias, orçamentárias, de transparência, prestações de contas, má gestão de recursos, e aspectos técnicos, como por anos a equipe do Observatório da Cultura do Brasil informou tecnicamente em reportagens, entrevista, artigos e relatórios. Como dizem personagens filmes e seriados policiais, “caso encerrado”. A Rouanet precisa de uma solução real.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">AGÊNCIA BRASIL. <em>MinC recebe mais de 22,5 mil propostas culturais da Lei Rouanet</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2025-11/minc-recebe-mais-de-225-mil-propostas-culturais-da-lei-rouanet?utm_source=chatgpt.com" href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2025-11/minc-recebe-mais-de-225-mil-propostas-culturais-da-lei-rouanet?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Agência Brasil</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">BAND. <em>Ancine investiga produção de filme sobre a vida de Jair Bolsonaro</em>. São Paulo, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.band.com.br/noticias/jornal-da-noite/ultimas/ancine-investiga-producao-de-filme-sobre-a-vida-de-jair-bolsonaro-202605220037?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.band.com.br/noticias/jornal-da-noite/ultimas/ancine-investiga-producao-de-filme-sobre-a-vida-de-jair-bolsonaro-202605220037?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Band</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">BBC NEWS BRASIL. <em>Dark Horse: por que orçamento de filme sobre Bolsonaro é considerado desproporcional</em>. Londres, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx2g8z5e9yvo?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx2g8z5e9yvo?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">BBC News Brasil</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">BEM PARANÁ. <em>Em artigo, Observatório da Cultura questiona ministra sobre Lei Rouanet</em>. Curitiba, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.bemparana.com.br/cultura/em-artigo-observatorio-da-cultura-questiona-ministra-sobre-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.bemparana.com.br/cultura/em-artigo-observatorio-da-cultura-questiona-ministra-sobre-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Bem Paraná</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">BLOG PROSAS. <em>Lei Rouanet 2025 bate recorde de incentivo cultural</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://blog.prosas.com.br/lei-rouanet-2025-recorde-incentivo-cultural/?utm_source=chatgpt.com" href="https://blog.prosas.com.br/lei-rouanet-2025-recorde-incentivo-cultural/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Blog Prosas</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">BRASIL. Ministério da Cultura. <em>Lei Rouanet movimenta R$ 25,7 bilhões e gera 228 mil empregos em 2024, aponta estudo da FGV</em>. Brasília: MinC, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/lei-rouanet-movimenta-r-25-7-bilhoes-e-gera-228-mil-empregos-em-2024-aponta-estudo-da-fgv?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/lei-rouanet-movimenta-r-25-7-bilhoes-e-gera-228-mil-empregos-em-2024-aponta-estudo-da-fgv?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Gov.br Cultura</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">BRASIL. Ministério da Cultura. <em>Ministério da Cultura realiza operação com mais de 16 mil ações para agilizar prestação de contas</em>. Brasília: MinC, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/ministerio-da-cultura-realiza-operacao-com-mais-de-16-mil-acoes-para-agilizar-prestacao-de-contas?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/ministerio-da-cultura-realiza-operacao-com-mais-de-16-mil-acoes-para-agilizar-prestacao-de-contas?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Gov.br Cultura</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">BRASIL. Ministério da Cultura. <em>Nota oficial do Ministério da Cultura</em>. Brasília: MinC, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.gov.br/cultura/pt-br/centrais-de-conteudo/sala-de-imprensa/notas-do-ministerio-da-cultura/nota-oficial-do-ministerio-da-cultura-1?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.gov.br/cultura/pt-br/centrais-de-conteudo/sala-de-imprensa/notas-do-ministerio-da-cultura/nota-oficial-do-ministerio-da-cultura-1?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Gov.br Cultura</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">BRASIL. Ministério da Cultura. <em>O fim do passivo de prestação de contas do Ministério da Cultura</em>. Brasília: MinC, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/o-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas-do-ministerio-da-cultura?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/o-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas-do-ministerio-da-cultura?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Gov.br Cultura</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">BRASIL. Tribunal de Contas da União. <em>Auditoria na Lei Rouanet</em>. Brasília: TCU, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/publicacoes-institucionais/ficha-sintese/auditoria-na-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" href="https://portal.tcu.gov.br/publicacoes-institucionais/ficha-sintese/auditoria-na-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Portal TCU</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">BRASIL. Tribunal de Contas da União. <em>TCU lança caderno de fiscalizações na área da cultura</em>. Brasília: TCU, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tcu-lanca-caderno-de-fiscalizacoes-na-area-da-cultura.htm?utm_source=chatgpt.com" href="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tcu-lanca-caderno-de-fiscalizacoes-na-area-da-cultura.htm?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Portal TCU</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">BRASIL. Tribunal de Contas da União. <em>Tribunal aponta falhas em prestações de contas na área da cultura</em>. Brasília: TCU, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura?utm_source=chatgpt.com" href="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Portal TCU</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">CNN BRASIL. <em>Análise: PL critica Lei Rouanet para defender Flávio Bolsonaro</em>. São Paulo, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/politica/analise-pl-critica-lei-rouanet-para-defender-flavio-bolsonaro/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.cnnbrasil.com.br/politica/analise-pl-critica-lei-rouanet-para-defender-flavio-bolsonaro/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">CNN Brasil</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">CNN BRASIL. <em>Flávio Bolsonaro negou relação com Vorcaro a banqueiro</em>. São Paulo, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/politica/flavio-bolsonaro-negou-relacao-com-vorcaro-a-banqueiro/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.cnnbrasil.com.br/politica/flavio-bolsonaro-negou-relacao-com-vorcaro-a-banqueiro/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">CNN Brasil</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">CNN BRASIL. <em>Mário Frias recua e admite dinheiro de Vorcaro em filme sobre Bolsonaro</em>. São Paulo, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/politica/mario-frias-recua-e-admite-dinheiro-de-vorcaro-em-filme-sobre-bolsonaro/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.cnnbrasil.com.br/politica/mario-frias-recua-e-admite-dinheiro-de-vorcaro-em-filme-sobre-bolsonaro/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">CNN Brasil</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">CONGRESSO EM FOCO. <em>Lei Rouanet completa 34 anos</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115161/lei-rouanet-completa-34-anos?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115161/lei-rouanet-completa-34-anos?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Congresso em Foco</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">CONGRESSO EM FOCO. <em>Lei Rouanet urge revisão da legislação</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/113801/lei-rouanet-urge-revisao-da-legislacao?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/113801/lei-rouanet-urge-revisao-da-legislacao?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Congresso em Foco</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">CONGRESSO EM FOCO. <em>Os números contraditórios da Rouanet não mentem</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Congresso em Foco</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">ESTADÃO. <em>Cultura afrouxou fiscalização de uso de verba pública via leis de incentivo, diz TCU</em>. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/cultura-afrouxou-fiscalizacao-de-uso-de-verba-publica-via-leis-de-incentivo-diz-tcu/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.estadao.com.br/politica/cultura-afrouxou-fiscalizacao-de-uso-de-verba-publica-via-leis-de-incentivo-diz-tcu/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Estadão</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">FOLHA DE S.PAULO. <em>Dona de produtora de filme sobre Bolsonaro buscou Lei Rouanet para projetos de R$ 8,6 milhões</em>. São Paulo, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/05/dona-de-produtora-de-filme-sobre-bolsonaro-buscou-lei-rouanet-para-projetos-de-r-86-milhoes.shtml?utm_source=chatgpt.com" href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/05/dona-de-produtora-de-filme-sobre-bolsonaro-buscou-lei-rouanet-para-projetos-de-r-86-milhoes.shtml?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Folha de S.Paulo</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">FOLHA DE S.PAULO. <em>Mário Frias defende verba de Vorcaro e diz que Flávio não tem sociedade em filme sobre pai</em>. São Paulo, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/05/mario-frias-defende-verba-de-vorcaro-e-diz-que-flavio-nao-tem-sociedade-em-filme-sobre-pai.shtml?utm_source=chatgpt.com" href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/05/mario-frias-defende-verba-de-vorcaro-e-diz-que-flavio-nao-tem-sociedade-em-filme-sobre-pai.shtml?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Folha de S.Paulo</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">FOLHA DE S.PAULO. <em>Ministério da Cultura completa quatro décadas confrontado por pressões</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/03/ministerio-da-cultura-completa-quatro-decadas-confrontado-por-pressoes.shtml?utm_source=chatgpt.com" href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/03/ministerio-da-cultura-completa-quatro-decadas-confrontado-por-pressoes.shtml?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Folha de S.Paulo</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">FOLHA DE S.PAULO. <em>Ministério da Cultura diz ter reduzido gargalo das prestações de contas em 2025</em>. São Paulo, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2026/02/ministerio-da-cultura-diz-ter-reduzido-gargalo-das-prestacoes-de-contas-em-2025.shtml?utm_source=chatgpt.com" href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2026/02/ministerio-da-cultura-diz-ter-reduzido-gargalo-das-prestacoes-de-contas-em-2025.shtml?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Folha de S.Paulo</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">FOLHA DE S.PAULO. <em>Ministério da Cultura oculta realidade de passivo gigante que se arrasta há décadas</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/04/ministerio-da-cultura-oculta-realidade-de-passivo-gigante-que-se-arrasta-ha-decadas.shtml?utm_source=chatgpt.com" href="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/04/ministerio-da-cultura-oculta-realidade-de-passivo-gigante-que-se-arrasta-ha-decadas.shtml?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Folha de S.Paulo</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. <em>Lei Rouanet movimenta R$ 25,7 bilhões e sustenta 228 mil empregos, aponta estudo da FGV</em>. Rio de Janeiro: FGV, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://portal.fgv.br/noticias/lei-rouanet-movimenta-r-257-bilhoes-e-sustenta-228-mil-empregos-aponta-estudo-da-fgv?utm_source=chatgpt.com" href="https://portal.fgv.br/noticias/lei-rouanet-movimenta-r-257-bilhoes-e-sustenta-228-mil-empregos-aponta-estudo-da-fgv?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">FGV</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">G1. <em>Daniel Vorcaro e filme de Bolsonaro: políticos reagem a denúncia</em>. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/16/daniel-vorcaro-e-filme-de-bolsonaro-politicos-reagem-a-denuncia.ghtml?utm_source=chatgpt.com" href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/16/daniel-vorcaro-e-filme-de-bolsonaro-politicos-reagem-a-denuncia.ghtml?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">G1</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
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<p style="text-align: justify;">G1. <em>Luan Santana esclarece que não utilizou recurso da Lei Rouanet aprovado para projeto</em>. Rio de Janeiro, 2018. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2018/11/05/luan-santana-esclarece-que-nao-utilizou-recurso-da-lei-rouanet-aprovado-para-projeto.ghtml?utm_source=chatgpt.com" href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2018/11/05/luan-santana-esclarece-que-nao-utilizou-recurso-da-lei-rouanet-aprovado-para-projeto.ghtml?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">G1</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
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<p style="text-align: justify;">INTERCEPT BRASIL. <em>Dark Horse: evangélicos e filme de Bolsonaro ligados a contrato milionário</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.intercept.com.br/2025/12/10/dark-horse-evangelicos-filme-bolsonaro-contrato-108-milhoes-ricardo-nunes/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.intercept.com.br/2025/12/10/dark-horse-evangelicos-filme-bolsonaro-contrato-108-milhoes-ricardo-nunes/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Intercept Brasil</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">INTERCEPT BRASIL. <em>Eduardo Bolsonaro teria poder sobre verba do filme e atuava como produtor-executivo</em>. São Paulo, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.intercept.com.br/2026/05/15/eduardo-bolsonaro-poder-dinheiro-dark-horse-contrato/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.intercept.com.br/2026/05/15/eduardo-bolsonaro-poder-dinheiro-dark-horse-contrato/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Intercept Brasil</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">INTERCEPT BRASIL. <em>Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro milhões para filme sobre Jair Bolsonaro</em>. São Paulo, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.intercept.com.br/2026/05/13/audio-flavio-negociou-vorcaro-milhoes/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.intercept.com.br/2026/05/13/audio-flavio-negociou-vorcaro-milhoes/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Intercept Brasil</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">ISTOÉ DINHEIRO. <em>O que é a emenda Pix e o que os sertanejos têm a ver com esse tipo de corrupção</em>. São Paulo, 2022. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://istoedinheiro.com.br/o-que-e-a-emenda-pix-e-o-que-os-sertanejos-tem-a-ver-com-esse-tipo-de-corrupcao?utm_source=chatgpt.com" href="https://istoedinheiro.com.br/o-que-e-a-emenda-pix-e-o-que-os-sertanejos-tem-a-ver-com-esse-tipo-de-corrupcao?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">IstoÉ Dinheiro</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">JOTA. <em>Dino aponta alta renúncia fiscal e cobra dados sobre emendas a empresas no Perse</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.jota.info/stf/do-supremo/dino-aponta-alta-renuncia-fiscal-e-cobra-dados-sobre-emendas-a-empresas-no-perse?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.jota.info/stf/do-supremo/dino-aponta-alta-renuncia-fiscal-e-cobra-dados-sobre-emendas-a-empresas-no-perse?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">JOTA</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">JUSTIÇA EM FOCO. <em>Ministro Augusto Nardes alerta: R$ 22 bi sob risco no MinC</em>. Brasília, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.justicaemfoco.com.br/noticias/ministro-augusto-nardes-alerta-r-22-bi-sob-risco-no-minc?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.justicaemfoco.com.br/noticias/ministro-augusto-nardes-alerta-r-22-bi-sob-risco-no-minc?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Justiça em Foco</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">MATINAL JORNALISMO. <em>A cultura constrói pontes, não celas</em>. Porto Alegre, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/pensata/a-cultura-constroi-pontes-nao-celas/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/pensata/a-cultura-constroi-pontes-nao-celas/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Matinal Jornalismo</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">MAIS GOIÁS. <em>Veja o top 10 de sertanejos beneficiados pela Lei Rouanet</em>. Goiânia, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.maisgoias.com.br/entretenimento/de-gusttavo-lima-a-zeze-di-camargo-veja-o-top-10-de-sertanejos-que-mais-receberam-recursos-publicos/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.maisgoias.com.br/entretenimento/de-gusttavo-lima-a-zeze-di-camargo-veja-o-top-10-de-sertanejos-que-mais-receberam-recursos-publicos/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mais Goiás</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">METRÓPOLES. <em>Orçamento do filme de Bolsonaro supera Lei Rouanet em 21 estados e DF</em>. Brasília, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.metropoles.com/colunas/tacio-lorran/orcamento-do-filme-de-bolsonaro-supera-lei-rouanet-em-21-estados-e-df?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.metropoles.com/colunas/tacio-lorran/orcamento-do-filme-de-bolsonaro-supera-lei-rouanet-em-21-estados-e-df?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Metrópoles</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">MOURA, Eduardo; ROCHA, Matheus. Ministério da Cultura oculta realidade de passivo gigante que se arrasta há décadas. Folha de S.Paulo, 21 abr. 2025. Disponível em: Folha de S.Paulo</p>
<p style="text-align: justify;">NATELINHA. <em>Como a Lei Rouanet reacendeu debate ao expor uso por sertanejos</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://natelinha.uol.com.br/famosos/2025/12/20/como-a-lei-rouanet-reacendeu-debate-ao-expor-uso-por-sertanejos-235532.php?utm_source=chatgpt.com" href="https://natelinha.uol.com.br/famosos/2025/12/20/como-a-lei-rouanet-reacendeu-debate-ao-expor-uso-por-sertanejos-235532.php?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">NaTelinha</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">O FATOR. <em>Produtoras de sertanejo, forró e gospel somaram R$ 89,8 milhões em renúncias fiscais e receberam emendas Pix</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://ofator.com.br/informacao/produtoras-de-sertanejo-forro-e-gospel-somaram-r-898-mi-em-renuncias-fiscais-e-receberam-emendas-pix/?utm_source=chatgpt.com" href="https://ofator.com.br/informacao/produtoras-de-sertanejo-forro-e-gospel-somaram-r-898-mi-em-renuncias-fiscais-e-receberam-emendas-pix/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">O Fator</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Análise do comunicado público do Ministério da Cultura sobre as contas da Lei Rouanet. Passa Palavra, 08 maio 2025. Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" target="_blank" rel="noopener">Passa Palavra</a></p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Os números contraditórios da Rouanet não mentem. Congresso em Foco, 12 jan. 2026. Disponível em: <a href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="noopener">Congresso em Foco</a></p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Lei Rouanet entre polarização (amores e ódios) e demanda de reforma por evidências empíricas. Cooperação técnica de Manoel J. de Souza Neto. 13 dez. 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Resposta do Observatório da Cultura do Brasil ao Ministério da Cultura. 02 jan. 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Análise do comunicado público do Ministério da Cultura sobre as contas da Lei Rouanet. 08 maio 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">PASSA PALAVRA. <em>Lei Rouanet e os limites da política cultural</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156539/?utm_source=chatgpt.com" href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Passa Palavra</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">PIPOCA MODERNA. <em>Sertanejos de direita lideram Lei Rouanet com Gusttavo Lima, Bruno &amp; Marrone e Leonardo</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://pipocamoderna.com.br/2025/12/sertanejos-direita-lideram-lei-rouanet-gusttavo-lima-bruno-marrone-leonardo/?utm_source=chatgpt.com" href="https://pipocamoderna.com.br/2025/12/sertanejos-direita-lideram-lei-rouanet-gusttavo-lima-bruno-marrone-leonardo/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Pipoca Moderna</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">PODER360. <em>Presidente do TCU vê risco em regras da Cultura sobre fiscalização</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.poder360.com.br/poder-justica/presidente-do-tcu-ve-risco-em-regras-da-cultura-sobre-fiscalizacao/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.poder360.com.br/poder-justica/presidente-do-tcu-ve-risco-em-regras-da-cultura-sobre-fiscalizacao/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Poder360</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
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<p style="text-align: justify;">REUTERS. <em>Senator Bolsonaro says he met with disgraced Brazilian banker after arrest</em>. Londres, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/world/americas/senator-bolsonaro-says-he-met-with-disgraced-brazilian-banker-after-arrest-2026-05-19/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.reuters.com/world/americas/senator-bolsonaro-says-he-met-with-disgraced-brazilian-banker-after-arrest-2026-05-19/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Reuters</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">SOUZA NETO, Manoel J. Mérito no julgamento de projetos nas leis de incentivo à cultura. Observatório da Cultura, 2012.</p>
<p style="text-align: justify;">SOUZA NETO, Manoel J. Lei Rouanet precisa de reforma urgente. Congresso em Foco, 07 nov. 2025. Disponível em: Congresso em Foco</p>
<p style="text-align: justify;">TRIBUNA DO SERTÃO. <em>MinC divulga informação falsa ao falar de fim do passivo de prestação de contas</em>. Alagoas, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.tribunadosertao.com.br/geral/2025/04/12/735523-minc-divulga-informacao-falsa-ao-falar-de-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.tribunadosertao.com.br/geral/2025/04/12/735523-minc-divulga-informacao-falsa-ao-falar-de-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Tribuna do Sertão</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO (TCU). <em>Tribunal aponta falhas em prestações de contas na área da Cultura</em>. Brasília: TCU, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura?utm_source=chatgpt.com" href="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Portal TCU</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Acórdão 726/2026-Plenário, TC 014.873/2025-7. Auditoria sobre Ministério da Cultura e Ancine.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. <em>Dez artistas do sertanejo e de direita beneficiados pela Lei Rouanet</em>. São Paulo: Abril, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/dez-artistas-do-sertanejo-e-de-direita-beneficiados-pela-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/dez-artistas-do-sertanejo-e-de-direita-beneficiados-pela-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Veja</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. <em>Ministério da Cultura rebate estudo sobre falhas da Lei Rouanet</em>. São Paulo: Abril, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Veja</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. <em>Secretário do MinC fala de Flávio Bolsonaro e Vorcaro sem Lei Rouanet</em>. São Paulo: Abril, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/brasil/secretario-do-minc-fala-de-flavio-bolsonaro-e-vorcaro-sem-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/brasil/secretario-do-minc-fala-de-flavio-bolsonaro-e-vorcaro-sem-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Veja</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. Pesquisador lança estudo sobre crise estrutural da Lei Rouanet. Revista Veja, 29 dez. 2025. Disponível em: Veja</p>
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		<title>A entrevista de Paulo Galo no Três Irmãos: notas críticas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 May 2026 14:04:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[A entrevista de Paulo Galo não pode ser reduzida a um episódio isolado, nem tampouco a um conjunto de opiniões mais ou menos acertadas, mas deve ser situada como expressão de uma configuração histórica na qual experiência de luta, mediação comunicacional e formas políticas herdadas se entrelaçam de maneira tensa e, muitas vezes, contraditória. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Já tem um tempo que venho maturando a necessidade de escrever um texto sobre Paulo Galo. Com esforço considerável, assisti à sua entrevista no podcast “Três Irmãos”, conduzido por Rodrigão e Robertinho (duas antas do ponto de vista político e comunicacional). Pensar sua atuação pública e as polêmicas em que vem se envolvendo exige um debate de grande densidade, capaz de atravessar as tradições políticas da esquerda e suas contradições históricas, os processos de luta engendrados por setores autônomos da classe, a midiatização dessas experiências e a captura progressiva de personagens forjados no calor do conflito por estruturas comunicacionais interessadas em administrar suas aparições, reorganizar seus sentidos e colaborar ativamente para a institucionalização da política, isto é, para a conversão de experiências reais de enfrentamento em mercadoria discursiva, circulação controlada e esvaziamento estratégico. Sendo Paulo Galo uma figura de peso na cena política recente, torna-se necessário submeter seu pensamento e sua prática a um exame, atento tanto aos seus méritos quanto aos seus limites, sem concessões afetivas, sem blindagens militantes e sem a indulgência típica de um tempo em que a crítica é frequentemente sacrificada em nome da adesão, da torcida ou da conveniência circunstancial.</p>
<p style="text-align: justify;">Quero iniciar este texto situando quem é Paulo Galo e de que modo se constitui o seu processo de politização, compreendendo sua trajetória como parte de uma configuração histórica específica em que o trabalho urbano, reconfigurado pela expansão das plataformas digitais e intensificação da precarização, produz formas de consciência que não emergem de tradições organizativas estáveis, mas de experiências fragmentadas que, ao se acumularem, passam a exigir elaboração política. Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como Paulo Galo, se forma no interior das periferias de São Paulo, espaço em que a inserção no mundo do trabalho se dá sob condições marcadas pela instabilidade, informalidade persistente e necessidade constante de adaptação a atividades que garantam a reprodução imediata da vida, sem oferecer qualquer horizonte de segurança. Esse percurso é uma regra para amplos setores da classe trabalhadora brasileira nas últimas décadas, especialmente após a reestruturação produtiva que dissolveu formas relativamente estáveis de emprego e expandiu um universo de ocupações desprovidas de proteção institucional.</p>
<p style="text-align: justify;">A entrada de Galo no trabalho por aplicativos representa a inserção em uma forma de exploração que reorganiza a relação entre capital e trabalho, substituindo a figura clássica do patrão por sistemas de gestão baseados em algoritmos, avaliações e mecanismos de controle indireto que operam com alto grau de opacidade. A experiência cotidiana do entregador, marcada por jornadas extensas, remuneração variável, riscos constantes e possibilidade permanente de bloqueio unilateral, produz um tipo de percepção social que tende a romper com a ideia de autonomia propagada pelas plataformas, revelando a dependência que sustenta esse modelo. Nesse contexto, se desenvolve o processo de politização de Galo, sem uma formação teórica sistemática previamente consolidada, elaborando progressivamente uma experiência compartilhada, na qual problemas inicialmente percebidos como individuais passam a ser reconhecidos como expressão de uma condição comum, o que força um processo amplo de politização e conflitos evidentes. A convivência com outros trabalhadores, a troca de relatos sobre bloqueios, quedas de rendimento e estratégias de sobrevivência, assim como a percepção de que essas experiências se repetem de forma recorrente, criam as bases para uma compreensão mais ampla da exploração, abrindo espaço para a construção de práticas coletivas.</p>
<p style="text-align: justify;">A emergência dos Entregadores Antifascistas, no contexto da pandemia de 2020, foi um momento de condensação desse processo. A intensificação da demanda por entregas, associada à exposição ampliada desses trabalhadores no espaço público, produz uma visibilidade inédita para uma categoria até então relativamente invisibilizada, ao mesmo tempo em que evidencia de maneira aguda as condições sob as quais esse trabalho é realizado. A organização de paralisações, manifestações e ações coordenadas surge como resposta a um acúmulo de tensões que encontram naquele momento uma possibilidade de expressão coletiva. Galo se projeta nesse cenário como uma figura capaz de articular linguagem e experiência, transformando vivências dispersas em discurso politizado, sem recorrer a mediações excessivamente abstratas. Sua fala se caracteriza por uma combinação de referências práticas, memória recente de luta e uma disposição para confrontar diretamente estruturas de poder, o que lhe confere ressonância junto a setores que não se reconhecem nos formatos tradicionais de organização política. Essa capacidade de comunicação, entretanto, não pode ser dissociada das condições que a tornam possível, uma vez que sua circulação se dá majoritariamente por meio de plataformas que operam segundo critérios de visibilidade e engajamento, introduzindo desde o início uma tensão entre expressão política e captura midiática.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo desse percurso, a trajetória de Galo passa a atravessar diferentes campos de disputa, articulando a questão do trabalho precarizado com debates mais amplos sobre violência estatal, racismo estrutural e memória histórica, especialmente após o episódio envolvendo a estátua de Borba Gato. Essa ampliação do campo de intervenção torna visíveis relações que já atravessavam a experiência social que o constitui, uma vez que a precarização do trabalho, a repressão policial e a produção de narrativas históricas oficiais integram um mesmo conjunto de determinações que estruturam a vida nas periferias urbanas. A compreensão de quem é Paulo Galo exige, portanto, uma abordagem que considere simultaneamente as condições materiais que estruturam sua trajetória, os processos de politização que emergem dessas condições e as formas de mediação que reconfiguram sua atuação no espaço público, produzindo uma figura que concentra, em si, tanto a potência de uma experiência coletiva em movimento quanto os limites impostos por um ambiente político e comunicacional que tende a absorver, reorganizar e, em última instância, neutralizar aquilo que nele aparece como força de ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159192" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962.jpg" alt="" width="1200" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-300x133.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-1024x455.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-768x341.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-946x420.jpg 946w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-640x284.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-681x302.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Se a trajetória de Paulo Galo só pode ser compreendida a partir das condições materiais que a engendram, a análise de sua entrevista no podcast “Três Irmãos” exige compreender a questão em outro plano, não mais centrado apenas na formação de sua experiência política, mas na forma através da qual essa experiência passa a circular, ser interpretada e, sobretudo, reorganizada no interior de um dispositivo comunicacional que não opera de maneira neutra, obviamente. A entrevista, na verdade, é uma estrutura que condiciona previamente o modo como essas ideias podem aparecer, estabelecendo limites, ritmos e registros que incidem diretamente sobre o conteúdo do que é dito. O ambiente construído ao longo da conversa, marcado por um tom de informalidade constante, pela presença recorrente de interrupções, comentários laterais e momentos de descontração forçada, cria uma sensação de proximidade que, à primeira vista, pode sugerir abertura e espontaneidade, mas que, sob análise mais detida, revela um mecanismo de regulação da fala que impede o aprofundamento das questões colocadas. A crítica, quando emerge, não encontra condições de desenvolvimento contínuo, sendo frequentemente absorvida por uma dinâmica que privilegia a leveza, a fluidez e a manutenção do ritmo, elementos fundamentais para a retenção da audiência, mas profundamente limitadores do ponto de vista da elaboração política.</p>
<p style="text-align: justify;">A atuação dos âncoras não pode ser reduzida a uma suposta falta de preparo ou a uma limitação individual de compreensão, ainda que tais aspectos se manifestem de forma evidente em diversas intervenções. O papel dos entrevistadores consiste em garantir a estabilidade do ambiente, evitando rupturas, conduzindo o diálogo para zonas de conforto discursivo e mantendo a conversa dentro de parâmetros que assegurem sua continuidade como produto consumível. A recorrência de formulações genéricas, ancoradas no senso comum mais imediato, não é apenas expressão de superficialidade, mas elemento constitutivo de uma forma de mediação que substitui a complexidade por familiaridade, tornando o conteúdo rapidamente assimilável e, por isso mesmo, desprovido de maior densidade. É nesse ambiente que a fala de Galo opera, carregando consigo uma tensão constante entre a experiência concreta que a sustenta e as condições de sua circulação. Ao mencionar sua participação em greves, manifestações e ações diretas, sua fala insere na entrevista uma dimensão que escapa à lógica predominante do debate, remetendo a práticas organizadas em torno da intervenção direta sobre as condições de trabalho, e não da representação. Essa dimensão, no entanto, não se desenvolve plenamente, sendo continuamente atravessada por uma dinâmica que a reconduz ao nível da opinião, da comparação com outros atores e da disputa por reconhecimento no interior de um campo já estruturado pela visibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica que Galo dirige às estruturas partidárias e a determinadas figuras públicas surge com uma força que deriva de sua posição externa a esses circuitos, mas também com limites evidentes, na medida em que permanece, em grande parte, no plano da denúncia, sem alcançar uma formulação mais sistemática das formas de organização que poderiam efetivamente superar os problemas apontados. Essa limitação não pode ser atribuída exclusivamente ao indivíduo, devendo ser compreendida em relação às condições em que sua fala se produz, uma vez que o espaço em que ela se insere não favorece a construção de mediações mais complexas, operando antes como um filtro que privilegia a imediaticidade e a resposta rápida.</p>
<p style="text-align: justify;">A própria dinâmica do podcast contribui para esse efeito, ao organizar a entrevista como uma sequência de estímulos que se sucedem em ritmo acelerado, impedindo que qualquer questão seja levada às últimas consequências. O pensamento aparece fragmentado, constantemente interrompido por risos, comentários ou mudanças de assunto, configurando uma forma de discurso que se mantém em movimento permanente, mas que raramente se aprofunda, forjando um campo em que a política se apresenta como fluxo, como circulação contínua de falas que se sucedem sem necessariamente se desenvolverem, produzindo uma sensação de debate que, no entanto, não se traduz em avanço efetivo da compreensão.</p>
<p style="text-align: justify;">A passagem para o debate que se desdobra fora da entrevista, especialmente nas intervenções de figuras como Chavoso da USP e Humberto Matos, permite observar com ainda mais nitidez as tensões que atravessam o campo político no qual Galo passa a operar, uma vez que aquilo que, no interior do podcast, aparece de forma fragmentada e muitas vezes diluída, ganha contornos mais definidos quando confrontado com posições que procuram dar sentido e direção ao episódio.</p>
<p style="text-align: justify;">Chavoso afirmou em vídeo que as críticas dirigidas a determinados atores deveriam ter sido feitas em âmbito privado, refletindo uma concepção de política que pressupõe a existência de um campo relativamente coeso, no qual a exposição pública de divergências seria prejudicial à luta. Essa posição se ancora em uma ideia de unidade que, ao invés de resultar de um processo de elaboração comum, antecede o próprio debate, funcionando como critério que regula aquilo que pode ou não ser dito em determinadas condições. O efeito dessa orientação é a contenção da crítica justamente nos pontos em que ela incide sobre formas de atuação já consolidadas no interior do próprio campo que se pretende transformador, criando uma espécie de zona protegida em que determinadas posições circulam sem serem efetivamente tensionadas. Chavoso também sugere que a visibilidade proporcionada por um podcast deveria ser utilizada prioritariamente para atacar ideologias dominantes, o que direciona a discussão para outro registro, igualmente revelador. Parte-se de uma compreensão segundo a qual o espaço midiático pode ser instrumentalizado de maneira relativamente direta, como se bastasse ocupar esse espaço com determinado conteúdo para produzir efeitos proporcionais à sua radicalidade. Isso diz muito sobre o “bom uso” de fachadas como as CPI´s… Essa leitura ignora que o próprio formato em questão opera segundo uma lógica que reorganiza as falas, submetendo-as a critérios de circulação, retenção e engajamento que não são definidos pelos participantes, mas pela estrutura que os abriga. A crítica, ao ingressar nesse circuito, não se mantém intacta, sendo traduzida, condensada e redistribuída de acordo com essas exigências, o que altera profundamente sua eficácia.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de que haveria uma ordem adequada de enfrentamento (primeiro os inimigos externos, depois as contradições internas), reforça uma visão estratégica que, embora compreensível em determinados contextos históricos, encontra dificuldades quando aplicada a um cenário em que as formas de mediação política já se encontram profundamente integradas às dinâmicas de reprodução do capital. A distinção entre campos opostos perde nitidez quando setores que se apresentam como críticos operam, na prática, dentro de estruturas que reproduzem as mesmas lógicas de separação, especialização e gestão da política. Nessa situação, a crítica dirigida ao interior desse campo deixa de ser um desvio ou uma fragilidade e passa a constituir uma dimensão necessária da própria luta.</p>
<p style="text-align: justify;">A intervenção de Humberto Matos explicita uma forma de compreensão da política que se apresenta como estratégica, responsável e orientada por um horizonte definido, mas que, examinada com mais atenção, mostra a permanência de uma estrutura que concentra a elaboração em instâncias separadas da prática social imediata. Ao enfatizar a necessidade de unidade, de maturidade no debate e de preservação de determinadas trincheiras, constrói-se um campo em que o conflito tende a ser regulado antes de se desenvolver, sendo traduzido em diferenças de tom, de abordagem ou de oportunidade, ao invés de ser tratado como expressão de divergências muito mais profundas. A referência constante à estratégia como elemento central da ação política introduz uma concepção na qual a definição dos rumos da luta aparece como tarefa de sujeitos ou instâncias dotadas de maior capacidade de elaboração, reforçando a divisão entre aqueles que pensam e aqueles que executam. Essa divisão, historicamente associada a determinadas leituras do bolchevismo, encontra, no contexto contemporâneo, novas formas de manifestação, especialmente quando articulada à centralidade da comunicação. A política passa a se organizar como campo de produção e circulação de discurso, no qual a capacidade de formular, ajustar e difundir posições assume um papel central, frequentemente em detrimento da construção de práticas coletivas mais enraizadas.</p>
<p style="text-align: justify;">A distinção estabelecida entre manter princípios e modular o discurso de acordo com as condições de circulação evidencia a adaptação dessa forma de política às exigências do meio em que ela se realiza. A possibilidade de ajustar a forma sem alterar o conteúdo permite uma flexibilidade que facilita a inserção em diferentes espaços, mas também contribui para a separação entre discurso e prática, uma vez que a radicalidade pode ser preservada no plano da intenção enquanto sua expressão é continuamente calibrada. Esse movimento se articula com a lógica das plataformas digitais, onde a visibilidade depende de uma constante negociação com formatos, públicos e algoritmos, reforçando a tendência à especialização de determinados sujeitos na gestão dessa comunicação. Essa especialização produz uma camada de mediadores que operam em relativa autonomia em relação às bases sociais que dizem representar, consolidando uma divisão do trabalho político em que diferentes funções são distribuídas entre sujeitos distintos. Alguns se ocupam da intervenção direta, outros da elaboração teórica, outros da comunicação, outros da atuação institucional. Embora essa divisão possa ser apresentada como necessária à complexidade da luta contemporânea, ela tende a reproduzir, no interior do próprio campo político, a separação entre direção e base.</p>
<p style="text-align: justify;">A contraposição a essa forma de organização encontra expressão nas tradições que colocam a autoatividade da classe no centro do processo de transformação. A experiência dos conselhos operários, em diferentes momentos históricos, aponta para a possibilidade de formas de organização em que a deliberação sobre as condições de vida e de trabalho não é delegada a instâncias separadas, mas realizada diretamente pelos próprios trabalhadores. Nesse modelo, a distinção rígida entre elaboração e execução perde sentido, uma vez que a prática coletiva incorpora, simultaneamente, momentos de reflexão e decisão. O contraste entre essas duas perspectivas não se resolve no plano da retórica, nem pode ser reduzido a uma divergência de opiniões sobre táticas ou estratégias específicas. Ele se manifesta na própria forma que a política assume em cada caso, seja como direção concentrada, mediação e representação, seja como processo aberto de auto-organização e deliberação coletiva. A análise das falas que emergem a partir da entrevista de Paulo Galo permite identificar, com relativa clareza, a coexistência e o choque dessas formas no interior de um mesmo campo, evidenciando que as disputas contemporâneas não se limitam à escolha de alvos ou à definição de prioridades, mas dizem respeito à própria estrutura da ação política e às possibilidades efetivas de transformação social.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159191" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled.jpg" alt="" width="1460" height="655" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled.jpg 1460w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-1024x459.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-768x345.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-936x420.jpg 936w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-640x287.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-681x306.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1460px) 100vw, 1460px" />A entrevista permite ainda avançar para um nível mais profundo de análise, no qual as próprias categorias mobilizadas por Galo passam a exigir um exame, não apenas pelo que afirmam, mas pelo modo como se articulam com as condições históricas em que são formuladas. A afirmação de que “não tem como vencer a máquina, tem como quebrar a máquina”, longe de ser apenas uma frase de efeito, condensa uma percepção real acerca da assimetria estrutural entre os trabalhadores e os sistemas que organizam sua exploração, especialmente no contexto das plataformas digitais, onde o controle se realiza por meio de mecanismos opacos, descentralizados e de difícil apreensão imediata. A intuição de que a disputa não pode se limitar à tentativa de operar dentro dessas regras aponta para um reconhecimento, ainda que não sistematizado, dos limites das estratégias que se restringem à adaptação. Essa percepção, no entanto, convive com uma ausência de mediações que permitiriam transformar essa intuição em um horizonte político mais consistente. A ideia de “quebrar a máquina” aparece como gesto, como imagem de ruptura, mas não se desdobra em uma análise das condições concretas sob as quais essa ruptura poderia ocorrer, nem das formas de organização capazes de sustentá-la. O problema não reside na radicalidade da formulação, mas na distância entre essa radicalidade e a construção de um processo histórico efetivo. A crítica atinge o alvo, mas permanece no nível da negação imediata, sem produzir uma elaboração que a conecte a práticas duradouras. Esse limite se articula com outro aspecto recorrente na entrevista, que é a tendência à generalização difusa, na qual questões complexas são condensadas em formulações amplas que produzem reconhecimento imediato, mas não avançam na determinação concreta dos problemas. O debate frequentemente desliza para um plano em que categorias como “esquerda”, “povo”, “política” ou “revolta” aparecem de maneira pouco diferenciada, criando uma espécie de campo homogêneo que obscurece as mediações internas, as divisões e as contradições que estruturam essas próprias categorias. A crítica ganha amplitude, mas perde precisão, e essa perda de precisão limita sua capacidade de intervenção.</p>
<p style="text-align: justify;">A defesa da revolta popular como única via capaz de transformar a realidade expressa, por sua vez, uma leitura que reconhece o papel da ação coletiva, mas que tende a operar numa perspectiva imediata, no qual a explosão do conflito aparece como solução em si mesma. A história das lutas sociais, no entanto, mostra que a irrupção de movimentos de massa, por mais intensos que sejam, não se traduz automaticamente em transformação estrutural, sobretudo quando não encontram formas de organização capazes de sustentar, aprofundar e orientar esse movimento. A revolta, enquanto momento, pode romper a normalidade, mas a ausência de estruturas que permitam sua continuidade frequentemente abre espaço para recomposições que reconduzem o processo aos seus limites anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;">A tradição marxista, especialmente em suas vertentes mais críticas ao estatismo e ao centralismo partidário, oferece elementos fundamentais para compreender o impasse. A ênfase na autoatividade da classe, presente em autores como Marx e retomada por correntes posteriores, não se limita à afirmação de que a transformação deve ser protagonizada pelos próprios trabalhadores, mas implica uma crítica às formas que tendem a separar essa atividade de instâncias de direção externas. A emancipação não pode ser concebida como resultado de uma ação conduzida por sujeitos especializados, nem como efeito automático de explosões espontâneas, exigindo a construção de formas organizativas nas quais a própria classe seja capaz de deliberar sobre seus caminhos. O que se observa, na fala de Galo, é a presença simultânea de uma crítica à delegação da política, expressa na desconfiança em relação aos partidos e à representação, e a ausência de uma formulação mais precisa das formas que poderiam substituir esse modelo. A recusa da mediação institucional não se traduz automaticamente na afirmação de uma mediação alternativa, deixando aberto um espaço em que a crítica corre o risco de se esgotar na denúncia. Esse vazio histórico é resultado de um período em que as formas tradicionais de organização perderam capacidade de mobilização, sem que novas formas tenham se consolidado de maneira estável.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a circulação dessa crítica no interior de um ambiente mediado por plataformas digitais introduz uma nova camada de complexidade. A própria capacidade de comunicação de Galo, que constitui um de seus principais atributos políticos, se realiza dentro de estruturas que tendem a transformar essa comunicação em mercadoria, submetendo-a a critérios de visibilidade, engajamento e circulação que escapam ao controle direto dos sujeitos. A disputa pela consciência, nesse cenário, passa a se dar em um terreno no qual a forma de apresentação tem tanto peso quanto o conteúdo, criando uma situação em que a política se aproxima cada vez mais da lógica da produção de discurso.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão que se coloca, portanto, não se limita a avaliar se determinadas falas estão corretas ou equivocadas, mas a compreender como elas se inscrevem em uma configuração histórica na qual experiência, comunicação e organização se encontram profundamente tensionadas. A entrevista de Paulo Galo, tomada em sua totalidade, oferece um material privilegiado para observar esse entrelaçamento, evidenciando tanto a potência de uma experiência que emerge de condições reais de exploração quanto os limites impostos por formas de mediação que tendem a reorganizar essa experiência segundo uma lógica que não coincide com as exigências de uma transformação efetiva. Se o percurso desenvolvido até aqui permite apreender algo com maior nitidez, é o fato de que a entrevista de Paulo Galo não pode ser reduzida a um episódio isolado, nem tampouco a um conjunto de opiniões mais ou menos acertadas, mas deve ser situada como expressão de uma configuração histórica na qual experiência de luta, mediação comunicacional e formas políticas herdadas se entrelaçam de maneira tensa e, muitas vezes, contraditória. A força de sua fala reside justamente no vínculo com uma experiência concreta de exploração que não se deixa dissolver completamente, que insiste em reaparecer sob a forma de denúncia, de inconformismo e de recusa, apontando para limites reais das estruturas existentes; ao mesmo tempo, essa força encontra obstáculos quando atravessa um campo em que a política se realiza cada vez mais como linguagem, como circulação e como gestão de posições. A coexistência de uma crítica à representação com a ausência de formas consolidadas de auto-organização, a presença de uma radicalidade discursiva que não se traduz automaticamente em prática coletiva, a centralidade crescente da comunicação em detrimento da construção de estruturas materiais de luta, tudo isso aponta para um momento em que as mediações tradicionais se encontram desgastadas, mas continuam operando, enquanto alternativas efetivas ainda se apresentam de maneira fragmentária e instável.</p>
<p style="text-align: justify;">A tentação de resolver o impasse por meio de atalhos, seja pela aposta exclusiva na revolta imediata, seja pela confiança na direção estratégica de instâncias especializadas, seja pela crença na capacidade de disputar o espaço midiático como se ele fosse neutro, tende a reproduzir, sob novas formas, os limites já identificados. O desafio que se coloca não é escolher entre esses caminhos como se fossem alternativas isoladas, mas enfrentar a tarefa mais complexa de pensar e construir formas de organização que consigam articular experiência, elaboração e prática sem reintroduzir as separações que caracterizam a própria sociabilidade capitalista. A entrevista de Paulo Galo adquire um valor que ultrapassa o seu conteúdo imediato, funcionando como ponto de condensação de tensões que atravessam o presente: a distância entre palavra e ação, a captura de experiências de luta por circuitos de visibilidade, a persistência de formas políticas que já não respondem às condições atuais e a dificuldade de produzir novas formas que consigam se afirmar com consistência. Pensar essas tensões com rigor, sem concessões fáceis e sem simplificações, talvez seja uma das tarefas mais urgentes para qualquer projeto que pretenda ir além da reprodução das formas existentes e enfrentar, em termos efetivos, as condições que sustentam a dominação contemporânea.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Francis Bacon (1909 &#8211; 1992)</em></p>
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		<title>Professores e indígenas na Paulista: relato de uma mobilização fora do roteiro</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/04/159036/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Apr 2026 21:41:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[A mobilização indígena forçou que o sindicato chamasse os professores a se incorporar ao ato até a Secretaria Estadual de Educação. Por Tomé Moraes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 id="magicdomid4" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z">Por Tomé Moraes</span></h3>
<p style="text-align: justify;">Na última sexta-feira, 10 de abril, a Avenida Paulista foi palco de um encontro inusitado. À assembleia dos professores da rede estadual convocada pela Apeoesp (sindicato oficial da categoria) em frente ao Masp, somou-se uma manifestação de indígenas. Alunos, professores e apoiadores de comunidades guarani de São Paulo, Vale do Ribeira e Itanhaém se juntaram à mobilização para denunciar que as escolas indígenas estão enfrentando a mesma precarização vivida por toda educação no estado, com a faixa: &#8220;aldeias pelas escolas, escolas pelas aldeias&#8221;.</p>
<h4 id="magicdomid6" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>A situação da escola do Jaraguá</b></span></h4>
<p style="text-align: justify;">A data do ato foi simbólica. Exatamente um mês antes, em 10 de março, a Escola Estadual Indígena Djekupé Amba Arandy, na Terra Indígena Jaraguá, zona norte de São Paulo, foi interditada pela Defesa Civil. Desde então, 250 alunos e professores guarani vem tentando manter as aulas de forma improvisada em um centro de convivência da aldeia. No entanto, o espaço não possui água filtrada, portas nos banheiros, nem ventilação adequada. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Longe de ser um  simples acidente, a interdição da escola era um desastre anunciado. Os guarani do Jaraguá denunciavam as condições precárias do prédio há anos. Em 2021, pais e alunos realizaram um protesto, impedindo que engenheiros da Secretaria de Educação deixassem a escola até que o governo garantisse que realizaria a reforma do local. <b>[2]</b></p>
<p style="text-align: justify;">De lá pra cá, o Governo Estadual deu início à construção de uma nova unidade escolar na T.I. Jaraguá. A obra, no entanto, já custou 3,5 milhões e não tem previsão de conclusão. A primeira etapa está prometida para o segundo semestre. Mas como ficam as aulas até lá?</p>
<p style="text-align: justify;">Além dos problemas de espaço físico, a educação na aldeia já vinha sendo afetada pelas mesmas medidas desestruturantes que o Governo aplicou em toda a rede estadual como falta de merenda, fechamento dos cursos de EJA, do ciclo noturno e das salas de leitura.</p>
<div id="magicdomid15" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<h4 id="magicdomid16" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159037" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09.jpeg" alt="" width="1280" height="960" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09.jpeg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-300x225.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-1024x768.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-768x576.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-560x420.jpeg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-80x60.jpeg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-100x75.jpeg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-180x135.jpeg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-238x178.jpeg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-640x480.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-681x511.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />O ato de sexta-feira, 10/04</b></span></h4>
<p style="text-align: justify;">Os últimos eventos da rede estadual de São Paulo parecem testar os limites do sucateamento da educação pública: baseado em uma plataforma de avaliação aplicada de forma duvidosa no final do ano passado, mais de 40 mil professores (foram demitidos)não puderam assumir aulas em 2026. São professores &#8220;categoria O&#8221;, isto é, subcontratados a partir de processos seletivos temporários — sem estabilidade na carreira ou vínculo com as unidades escolares, esses trabalhadores já representam mais de metade do corpo docente desde a pandemia. <b>[3]</b> E enfrentam, agora, uma demissão em massa.<strong>[4]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para o absurdo da situação, a reação das entidades sindicais foi, no mínimo, tímida: moveram uma ação judicial (que agora obteve resultado) e agendaram dois dias de paralisação com assembleia para abril. Não é de se surpreender que, em tal cenário de desagregação e desmobilização, com uma minoria de trabalhadores estáveis nas escolas, a adesão ao chamado tenha sido realmente baixa.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, a organização das comunidades escolares guarani foi uma surpresa positiva, já que sacudiu o marasmo e apontou novos caminhos. A possibilidade de uma mobilização real que fugia do script, contudo, parece ter assustado a burocracia da Apeoesp. Temendo perder o controle da situação, os diretores sindicais se prontificaram em tratar a presença indígena como um &#8220;movimento social&#8221; diferente da luta dos professores, associando sua participação a um &#8220;paralelismo sindical&#8221; arquitetado pelos setores de oposição. Mas, afinal, quem dá aula nas escolas das aldeias? A tentativa de confusão se esclareceu quando o microfone foi cedido a uma professora indígena.<strong>[5]</strong> Exemplo vivo da precarização, pois ela precisou assumir suas aulas de forma voluntária (!) para compensar o fechamento da sala de leitura.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o plano inicial do sindicato era encerrar o ato após o fim da assembleia na Av. Paulista, a mobilização indígena forçou que recalculassem a rota: com o término da votação, os guarani e professores seguiram em caminhada até a Secretaria Estadual de Educação. O caminhão de som da Apeoesp tentou acompanhar o trajeto e tentou atropelar os manifestantes para assumir frente, mas não conseguiu e teve que ficar no fundo.</p>
<div id="magicdomid25" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<h4 id="magicdomid26" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>Continuidade da luta</b></span></h4>
<div id="magicdomid27" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid28" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159039 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911.jpeg" alt="" width="1100" height="960" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911.jpeg 1100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-300x262.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-1024x894.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-768x670.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-481x420.jpeg 481w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-640x559.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-681x594.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1100px) 100vw, 1100px" /></span></div>
<p style="text-align: justify;">Com baixa adesão, a assembleia votou por um &#8220;calendário de mobilizações&#8221;. O próximo ato está marcado para dia 2<span class="author-a-esxz82zip2oiz87zz70zz69zz81zz67zz79zl">8</span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z">/04 em frente à Assembleia Legislativa. Professores da rede municipal, que também paralisaram na semana passada, devem voltar às ruas na mesma data.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse processo de mobilização, um pequeno coletivo vem se formando em busca de caminhos para se organizar de forma autônoma, para além da estrutura do sinidicalismo estatal. Os &#8220;Professores Autônomos Contra o Estado&#8221;<b>[6]</b>formaram-se em diálogo com trabalhadores da educação que tentam desenvolver experiências no mesmo sentido na prefeitura e na rede privada de São Paulo, com os coletivos EMA (Educadores Municipais Auto-organizados) e A Voz Rouca.<b>[7]</b></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, nas aldeias, as comunidades escolares guarani preparam os próximos passos da luta para conquistar uma solução não só para sua escola, mas também para todas as escola estaduais como indicava a bandeira de ordem: Aldeias pelas Escolas, Escolas pelas Aldeias.</p>
<div id="magicdomid33" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<h4 id="magicdomid34" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>Notas</b></span></h4>
<div id="magicdomid35" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[1] </b></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Alunos indígenas de SP têm aulas em espaço sem bebedouro e banheiro sem porta; secretaria diz não haver prejuízo de aprendizagem </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/03/26/alunos-indigenas-de-sp-tem-aulas-em-espaco-sem-bebedouro-e-banheiro-sem-porta-secretaria-diz-nao-haver-prejuizo-de-aprendizagem.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/03/26/alunos-indigenas-de-sp-tem-aulas-em-espaco-sem-bebedouro-e-banheiro-sem-porta-secretaria-diz-nao-haver-prejuizo-de-aprendizagem.ghtml</a></span></div>
<div id="magicdomid36" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[2] </b></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Comunidade indígena do Jaraguá libera engenheiros após chegada da Defesa Civil para avaliação de escola com rachaduras </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/03/10/comunidade-indigena-do-jaragua-impede-saida-de-engenheiros-do-local-ate-que-haja-solucao-sobre-escola-com-rachaduras.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/03/10/comunidade-indigena-do-jaragua-impede-saida-de-engenheiros-do-local-ate-que-haja-solucao-sobre-escola-com-rachaduras.ghtml</a></span></div>
<div id="magicdomid37" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[3]</b></span> <span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Rede estadual de ensino de SP tem mais professores temporários do que contratados </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/04/25/rede-estadual-de-ensino-de-sp-tem-mais-professores-temporarios-do-que-contratados.ghtml#" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/04/25/rede-estadual-de-ensino-de-sp-tem-mais-professores-temporarios-do-que-contratados.ghtml#</a></span></div>
<div id="magicdomid38" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[4]</b></span> <span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Rede estadual de SP deixa cerca de 40 mil professores sem aulas; sindicato denuncia precarização</i></span></div>
<div id="magicdomid39" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://www.brasildefato.com.br/2026/02/06/cerca-de-40-mil-professores-da-rede-estadual-de-sao-paulo-ficam-sem-aulas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.brasildefato.com.br/2026/02/06/cerca-de-40-mil-professores-da-rede-estadual-de-sao-paulo-ficam-sem-aulas/</a></span></div>
<div id="magicdomid40" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[5] </b><a href="https://www.instagram.com/p/DXCZ_lNjrzP/?igsh=MWJwczZqcWxwZTd0MA==" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/DXCZ_lNjrzP/?igsh=MWJwczZqcWxwZTd0MA==</a></span></div>
<div class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[6]</b></span> Professores Contra o Estado </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://www.instagram.com/profs_x_estado/" rel="noreferrer noopener">https://www.instagram.com/profs_x_estado/</a></span></div>
<div id="magicdomid41" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[7] </b></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Encontro Autônomo de Trabalhadores da Educação  </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://passapalavra.info/2025/10/157816/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://passapalavra.info/2025/10/157816/</a></span></div>
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