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	<title>Brasil &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Os arquivos Epstein e a perspectiva de socialismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Feb 2026 20:12:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A maioria dos ditos socialistas naturaliza e aceita a mistura com a classe dominante, isto é, aceita que se constitua relações amistosas com ela. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<p style="text-align: justify;">A divulgação de mensagens eletrônicas e outros documentos ligados a Jeffrey Epstein causou perplexidade e certamente surpresa na esquerda, ao revelar de forma mais contundente o nível de proximidade e “amizade” entre Noam Chomsky e o bilionário. Para além ou aquém dos crimes sexuais, Epstein era a personificação de tudo que socialistas, incluindo o próprio Chomsky, oporiam à classe dominante em termo de valores.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo Epstein em entrevista a Steve Bannon, ele integrou a Comissão Trilateral a convite de seu fundador, David Rockefeller. Ainda segundo Epstein, a preocupação ou intenção de David Rockefeller era que houvesse uma classe empresarial que gerisse o capitalismo global de modo que este não fosse impactado por mudanças de governos. Jeffrey Epstein, portanto, se constituiu em um operador e gestor político e econômico do capitalismo transnacional. Produzia relações e se beneficiava disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Obscuramente, também se tornou bilionário. Para explicar sua fortuna, jornalistas apontam, por exemplo, golpes e operações de tráfico de armas e drogas para a CIA <strong>[1]</strong>. Mesmo um fascista como Steve Bannon, em entrevista que realizou com Epstein divulgada na última leva de arquivos liberados, pergunta a Epstein: “Você é o diabo?”. Que Chomsky tenha sido um amigo fiel dessa figura “demoníaca” por dez anos, como mostram as mensagens e suas declarações públicas desde quando se conheceram por volta de 2015, naturalmente causa perplexidade na esquerda. Até porque a esquerda, talvez mais que a direita, e em época de “cultura do cancelamento”, procura por santos e pecadores. Em Seminário em Chiapas no final de 2024, o Capitão Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional, soltou algumas palavras sobre esse tema que vêm bem a calhar:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Não idealizem os zapatistas. Somos igualmente ruins, baixos e merdas como vocês. Ocorre que estamos numa organização e num coletivo, que é o que equilibra, oculta e subordina essas baixezas e ruindades, e nos obriga a ser responsáveis. (Capitão Insurgente Marcos, 30 de dezembro de 2024)</p>
<p style="text-align: justify;">Chomsky não fazia parte de uma organização política, e embora não tenha cometido crime, defeitos seus, aos olhos dos socialistas, vieram à tona pela relação com Epstein.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158761" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/images-1.jpg" alt="" width="300" height="168" />O jornalista Chris Hedges, que conheceu pessoalmente Noam Chomsky, escreveu um curtíssimo texto sobre o assunto, após uma Nota publicada em 7 de fevereiro último por Valéria Chomsky, esposa de Noam. Chris Hedges termina escrevendo:</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não foi enganado por Epstein. Ele foi seduzido. Sua associação com Epstein é uma mancha terrível e, para muitos, imperdoável. Ela turva irreparavelmente seu legado. Se há uma lição aqui é essa. A classe dominante não oferece nada sem esperar algo em troca. Quanto mais perto você chega desses vampiros, mais você se torna escravo deles. Nosso papel não é socializar com eles, mas sim destruí-los <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Creio que a grande maioria dos autoproclamados socialistas (incluo nessa categoria os autodefinidos comunistas e anarquistas), concordariam com esse trecho. Consigo imaginar quase um consenso quanto à lição exposta por Chris Hedges: não se deve socializar com a classe dominante, nosso papel é destruí-los, pois são inimigos da nossa classe e do que há de humano em nós.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Quem discorda das “lições” acima expostas pelos zapatistas e por Chris Hedges, respectivamente, sobre a importância da organização coletiva e a importância da separação/distanciamento em relação à classe dominante?</p>
<p style="text-align: justify;">Se quase todos concordam, então por que a grande maioria dos autodenominados socialistas, principalmente os marxistas, quando constroem ou participam de organizações coletivas, é em última análise visando que seus quadros mais elevados se misturem à classe dominante, se tornando eles próprios gestores do capitalismo?</p>
<p style="text-align: justify;">E misturar-se pode significar tornar-se classe dominante ao tomar para si o poder do Estado, ou, como tem sido mais frequente, buscar cargos de governo e no parlamento nas democracias liberais. Nesse último caso, inevitavelmente, a aceitação das regras do jogo dessas instituições burguesas e toda espécie de encontros, reuniões, compromissos, jantares, tapinhas nas costas, inerentes à política nessas instituições, levam ao oposto da lição do caso Chomsky-Epstein, bem sintetizada por Chris Hedges. A relações de figurões do PT como Jaques Wagner, Rui Costa e Guido Mantega com o banqueiro bilionário Daniel Vorcaro são só o enésimo exemplo, que poderia ser encontrado também em qualquer outro país.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158760" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg" alt="" width="960" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-681x454.jpeg 681w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" />A clivagem ou hipocrisia, como se queira, é descomunal. Enquanto se condena (com pelo menos certa razão) as expressões de “amizade” de Chomsky com Epstein, se constrói e se sustenta organizações cujo objetivo é se misturar com a classe dominante. E frequentemente ainda colocam “socialista” ou “comunista” no nome da organização. Ainda pior, muitas vezes os membros ou simpatizantes da dita organização defendem ferrenhamente quando seus altos quadros, em posições nas instituições burguesas, como um Lula ou um Boulos, agem sem disfarces como operadores do grande capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Peguemos no Brasil o PT e o PSOL como exemplos, provavelmente duas entre as três maiores organizações políticas do país no quesito de filiados que se autodenominam socialistas (ou comunistas). Ambos partidos foram formados explicitamente para disputar espaço nas instituições burguesas. Segundo a racionalização de Lula na época da constituição do PT, ele teria se tornado necessário devido às lutas sindicais encontrarem um limite. Já o PSOL foi formado por uma cisão de parlamentares do PT. Ambos partidos fazem parte do atual governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Luiz Marinho, Ministro do Trabalho e quadro histórico do PT, tem utilizado seu cargo para, por exemplo, assediar auditores fiscais do trabalho que lavram flagrantes de trabalho escravo e para anular os flagrantes de trabalho escravo de grandes empresas como a JBS. Sequer o governo Bolsonaro chegou a esse ponto. Com exceção da CSP-Conlutas, nenhuma central sindical se manifestou contra esse ataque à política de combate ao trabalho escravo no Brasil, e que se dá de forma tão explícita em favor de grandes empresas.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato do Ministro do Trabalho, do Partido dos Trabalhadores, usar o cargo para beneficiar empresas flagradas explorando trabalho escravo, nem sequer abala sua posição no partido ou no governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Misturar-se com a classe dominante não é apenas meio, é objetivo do PT (e da CUT, seu braço sindical). De outro modo seria insustentável as práticas de Luiz Marinho (com aval do seu amigo Lula), assim como seria insustentável as práticas do Ministro da Educação do PT, Camilo Santana, com sua proximidade da Fundação Lemann. Evidentemente uma organização política que tivesse como princípio não se misturar à classe dominante mas destruí-la, não geraria e sustentaria esse padrão de figuras como Luiz Marinho, Camilo Santana, Jaques Wagner, José Dirceu etal. Partidos como o PT e o PSOL foram constituídos para se misturarem com a classe dominante. Na forma e no objetivo real principal (conseguir cargos parlamentares e no governo) são partidos burgueses, por mais apinhados de ditos socialistas que estejam. Banalidades básicas, alguém dirá com razão.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158763" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md.jpg" alt="" width="768" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" />No PSOL, temos agora o exemplo acachapante de Guilherme Boulos. Entrou no PSOL em 2018, já para ser candidato à presidência da república. Tem sido figura de ponta para levar o PSOL cada vez mais para perto do lulismo, a ponto de ter sido alçado por Lula a Ministro da Secretaria-Geral, cargo que nos governos do PT tem por função principal cooptar, enrolar, amansar e enganar movimentos sociais. E Boulos com pouco tempo no cargo tem desempenhado com esmero essa função. Está atualmente mentindo e tentando enganar os entregadores e os povos indígenas da Amazônia em favor do grande capital <strong>[3]</strong>. Ele e Sônia Guajajara, Ministra dos Povos Indígenas, também do PSOL, estão na linha de frente para garantir a efetivação do distópico Decreto nº 12600/2025, que coloca três importantíssimos rios amazônicos no “Plano Nacional de Desestatização”. Estão na linha de frente para garantir a destruição dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins-Araguaia, de modo a serem construídas hidrovias para o grande capital extrativista e do agronegócio. Nem Boulos nem Sônia Guajajara serão expulsos do PSOL. E não falta militantes do partido ou simpatizantes para defender Boulos. Ora, Boulos, no seu carreirismo e busca de poder pessoal entrou no PSOL evidentemente porque se trata de uma organização voltada ou propícia a isso: a ascensão social através das instituições burguesas. Em outras palavras, uma organização voltada e propícia a se misturar às classes dominantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Jones Manoel se filiando para se candidatar a deputado pelo PSOL, é só mais um que segue o caminho de buscar ascensão através de instituições burguesas, se misturar à classe dominante e ao mesmo tempo arrotar comunismo.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se trata de partidos disputando cargos ou de posse de cargos em instituições burguesas, a maioria dos ditos socialistas naturaliza e aceita a mistura com a classe dominante, isto é, aceita que se constitua relações amistosas com ela. Essa naturalização é o sintoma da maior derrota possível do campo que deveria ser antagônico à classe dominante. É uma derrota total, pois aqueles que se dizem antagônicos à classe dominante, e em geral acreditam mesmo que o sejam, se organizam para se tornar um amigo, um operador ou até mesmo um igual, isto é, parte da classe dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa naturalização é constitutiva de grande parte das organizações políticas que se dizem socialistas ou comunistas, e da totalidade delas que se organizam para conquistar cargos nos parlamentos e governos. É essa naturalização, essa normalização inerente a esses partidos, que mantém um Boulos e um Luiz Marinho nos seus respectivos partidos, ao mesmo tempo que usam seus cargos mesmo que explicitamente contra os direitos dos trabalhadores e dos de baixo em favor dos capitalistas. Ou, se se preferir, é essa naturalização que mantém a maioria dos filiados a esses partidos apesar das práticas de um Boulos, um Luiz Marinho, um Lula e tal.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158760" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg" alt="" width="960" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-681x454.jpeg 681w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A hegemonia dessa naturalização dentro da classe trabalhadora e dos de baixo significa a derrota contínua de qualquer perspectiva de socialismo. É a hegemonia do “misturar-se com a classe dominante”.</p>
<p style="text-align: justify;">A lição do caso particular Epstein-Chomsky já foi dada inúmeras vezes pela história das lutas sociais: é preciso organizar coletivamente, social e politicamente, a autonomia de classe. É preciso construir e manter organizações que são simplesmente o oposto das organizações que atraem a maioria dos ditos socialistas e comunistas nos dias de hoje; feitas para a ascensão de alguns em meio à construção de relações com a classe dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">O que os socialistas precisam não é se aproximar desses vampiros e se tornar seus escravos ou operadores. Os socialistas precisam é destruir a classe dominante. E isso se dará através da constituição de novas relações sociais, inclusive e fundamentalmente nas esferas da produção e reprodução.</p>
<h4 style="text-align: justify;">Notas</h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html" href="https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html" rel="ugc nofollow">https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html</a>; e ver <a class="urlextern" title="https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling" href="https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://substack.com/home/post/p-187347674" href="https://substack.com/home/post/p-187347674" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://substack.com/home/post/p-187347674</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/" href="https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/</a>; e ver <a class="urlextern" title="https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664" href="https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664</a></p>
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		<title>O padre e o pastor</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158734/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Feb 2026 00:34:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[O protestantismo no Brasil foi a amante que reacendeu a paixão no coração de quem vivia a mesmice com a esposa. Por Luís]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Luís</h3>
<p style="text-align: justify;">O Brasil mudou muito nos últimos 25-30 anos? Não sei dizer ao certo, até por não estar sequer neste mundo na época mas, pelo que dizem os relatos e demais fontes, não parece. Fato é que, se há algo que, notavelmente, não é mais como costumava ser é a composição religiosa do Brasil: o cristianismo continua predominante, como era de se esperar, porém em uma forma diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Naquele Brasil, já se pensava no batismo da criança recém-nascida nas mãos do padre assim que ela vinha ao mundo, quase como a sua consolidação como um ser humano pleno, um lavar-de-umbigo sacro. Se aprendia a rezar o ave-maria, o pai-nosso à maneira do alfabeto e das cantigas de roda. Os domingos eram os dias da missa, as festas populares pertenciam aos santos. Suas representações em barro circundavam o Brasil, à mostra e bem cuidadas ou embaladas em sacos de plástico nos comércios, sendo uma daquelas coisas que os vendedores têm sempre de ter no estoque, tão característicos quanto a fauna e a flora, elementos que se viam tanto nas residências mais humildes como no palácio presidencial, semelhante ao futebol, à música e tudo mais que nos é característico…</p>
<p style="text-align: justify;">Então, alguns poucos anos se passam e tudo se modifica: os santos não são mais unanimidade, muitos dos que são ferrenhamente apegados a Jesus Cristo até zombam de Maria, a mãe de Deus. As imagens já não vendem tanto, são mais produtos destinados a um nicho, até objetos de um gosto nostálgico. As crianças são mais <em>laicas</em> do que nunca e, apesar de ainda terem em seus vocabulários muitas referências cristãs, são bem diferentes daquelas tipicamente católicas: menos ave-marias e agradecimentos fazendo o sinal da cruz e mais “sangue de Jesus tem poder”, “glória” e agora se agradece apontando os dedos para o céu ou de joelhos… O que aconteceu?</p>
<p style="text-align: justify;">Há um tempo, existia uma estranha seita bem distante do centro. Acreditavam em Jesus Cristo, como já era de se esperar — quem além dos chamados “macumbeiros” negaria a Deus? <strong>[1]</strong> —, mas difamavam a Santa Igreja, a Virgem (ou talvez não tão virgem) Maria e tudo mais que havia de sagrado, um absurdo! Inaceitável!</p>
<p style="text-align: justify;">Houve inclusive um episódio em que um líder, que talvez tenha pouco poder para se equivaler ao padre, o <em>pastor</em>, de uma dessas igrejas chutou raivosamente uma imagem da santa em rede nacional enquanto dirigia palavras ofensivas a ela e às crenças católicas. Vale lembrar que a televisão nesses anos não era como é a televisão de hoje. Aliás, nem a comparação com a internet seria adequada: esta é fragmentada em vários nichos, cosmos. Não há unidade, unanimidade. Seria provavelmente correto dizer que há uma internet para cada um, onde cada um consome o seu mundo e nada é universalmente reconhecido. Há uma internet de um grupo de jovens, dos idosos, das pessoas de meia idade… A televisão, por outro lado, era restrita, para o povo, a uns quatro canais que monopolizavam a atenção e a cultura, se assim podemos dizer, do país. Com a imagem do religioso e seu gesto passando em todos os canais se viu, ali, sim, o verdadeiro cancelamento.</p>
<p style="text-align: justify;">É claro que a Igreja Católica se aproveitou da situação para alertar seu rebanho contra as blasfêmias e heresias dos <em>evangélicos</em>. Poderia haver imagem melhor que aquela para fazer com que qualquer um que se preze se afaste dessa religião? Obviamente os padres logo foram advertir energeticamente aqueles que assistiram a missa contra esse absurdo, com todos os fiéis uniformemente em silêncio expressando a concordância para com o sacerdócio, além do espanto e revolta notável de vários.</p>
<p style="text-align: justify;">E, logo, alguns anos se passam e milhões desses católicos se tornam evangélicos, e estes ameaçam até mesmo ultrapassá-los em número (pois em relevância talvez já tenham passado) num futuro próximo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os católicos mais apegados poderiam chamar essa revolução de inversão de valores quando não percebem que não há aí nenhuma inversão: mesmo que as referências ao catolicismo abundassem, o fato é que, desde muito antes do Brasil ser como nós o conhecemos hoje, ser católico — e, na mesma lógica, ser cristão — muito pouco diz sobre valores. Aderir a um esquema rígido de valores é complexo, difícil. Se há em todo ser humano uma adesão a um conjunto desse tipo, ele se constitui através das experiências, da educação, da vivência: é uma adaptação, um aprender-a-viver, um <em>habitus</em> ou personalidade. A virtude depende da necessidade, e ter uma virtude que não atende a uma necessidade não é natural, o corpo sente que algo está errado. A religião cristã, seguida à risca, não é para todo mundo (e bem se poderia dizer que não é para ninguém), e se se quer torná-la popular, é preciso que ela seja não voluntária, mas <em>útil</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Como poderia ser popular o que é rígido, o que exige um esforço que o corpo nem sequer consegue suportar, o que não faz sentido? Se adaptando, e os santos foram muito importantes nisso: esses semideuses que rondavam a terra, o imaginário e eram visados nas orações e nas preces mais ligadas à vida cotidiana, enquanto o Deus-Pai era sempre muito distante, sempre inacessível. Seus mandamentos não diziam respeito ao que era do interesse de suas ovelhas, sua sabedoria, como tudo nessa figura, muito mais respeitada do que compreendida, e tal respeito não se funda nas suas obras, no que fez de benéfico, mas se dá simplesmente pelo fato de ser o que é, na sua posição — não atoa o chamam de “pai”. Os santos, por outro lado, são de carne, são como nós, especialistas nas paixões humanas, no amor, no casamento…, e assim como os pequeninos pedem aos irmãos, tios ou quem é que pensem ser mais afável para que os “liberem”, quando têm chance, ao invés das figuras que detém mais poder dentro da dinâmica familiar, se pede aos santos quando não se quer ver de frente as faces das suas vergonhas falando com Deus. Os santos são como as amizades de bar (e por quanto tempo não estiveram lá, como talvez a única peça que não é efêmera e secular, bem postados por cima dos balcões…), sempre presentes para quando os brasileiros comuns, afetivamente pobres, pedem migalhas a quem quer que se coloque na posição de igual em seus momentos de cansaço, para que possam aguentar a labuta de todos os dias com o objetivo de se manter vivo. Podem até mesmo dizer que lutam pela sua família, pelo dinheiro, pelo futuro, mas é pouco provável: o movimento se dá pelo costume, pelo tédio, pelo vazio. A nostalgia dos tempos de criança não se dá por acaso: no Brasil, a maturidade e a depressão se confundem com enorme facilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O cristianismo talvez tenha sido palatável para diferentes classes sociais, por oferecer afirmação ao modo de vida — ou pelo menos cumprir importantes demandas — de grupos bastante diferentes. Os ricos, em sua vida mansa, ascética, pacífica, são cristãos; os pobres, quando revoltados, quando identificados enquanto humilhados, enquanto os últimos, são cristãos e, mais que isso, são afirmados como os primeiros. Essa, definitivamente, é uma grande virtude do que quer se tornar publicamente muito respeitado: permitir várias interpretações diferentes com as quais pode-se identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">Todavia, apesar de todas as simplificações e manobras que o clero fez ao longo do tempo para que mantivesse sua hegemonia, seu erro foi tornar-se cada vez mais distante, não acompanhar o ritmo da vida urbana. Como os casais apaixonados que põe o sentido da juventude na conquista do que veem como “amor” (e, assim como ocorre com os católicos, o conceito pelo qual se justifica a busca é opaco; o desejo de dominação, contudo, é muito concreto) e, depois de conseguirem o que tanto desejam, se deixam perder no costume, no tédio, na repetição, no ócio — tornando o companheiro um fardo a mais para se carregar e não, como se espera, um porto seguro, refúgio—, a Igreja esteve para com os fiéis: sempre com os mesmos rituais, assuntos, eventos… aquilo se tornava repetitivo, enfadonho, não fazia mais sentido em vista às urgências da vida das pessoas comuns.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158738 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr.jpg" alt="" width="900" height="530" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-300x177.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-768x452.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-713x420.jpg 713w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-640x377.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-681x400.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No mundo de hoje muito se fala no efeito destrutivo das comparações nas redes sociais: comparar o orgânico, real e cru àquilo que é artificialmente trabalhado para que pareça o melhor possível, que é fruto de um trabalho de dissimulação, de pinça. O que geralmente não é lembrado é que esse fenômeno não é novo, e os heróis demonstram isso muito bem. Para que se torne um herói é preciso entender de economia simbólica, ou pelo menos ter a sorte de se adequar às suas regras ao longo da trajetória.</p>
<p style="text-align: justify;">O tipo clássico de herói de carne e osso é aquele que, além de ter grandes feitos, sabe se manter à distância: proximidade, profundidade, opinião, relação íntima, tudo isso gera conflito, divergência. O herói precisa, primeiramente, estar acima das contradições, ser unânime, o seu reconhecimento se dá por não poder ser reconhecido por nada que seja questionável. Não se veem contradições, defeitos (que, dizem por aí, “todo mundo tem”, mas são <em>ignorados</em> no caso, nos dois sentidos da palavra), o seu ser se dissolve na imagem do bem, porque o bem é tudo que se sabe a respeito do ser — e sempre que só se sabe o bem, se sabe muito pouco —, a figura imaculada é um não-ser. Exemplo máximo são os que morrem logo depois de nascer: tudo que será comentado ao seu respeito é positivo, se pensa no que seria, no que poderia ter feito, no melhor sentido do seu potencial, é o eterno “ e se”, e não se critica justamente porque não há quem seja capaz de criticar na falta de obras concretas. O ditado diz que ou você morre herói ou vive o bastante para se tornar vilão, o que é verdadeiro, mas a frase passa longe de ser crítica: ela constata com um realismo cinza, que se vê frente às regras do mundo com passividade, não propõe ruptura — que seria um tanto necessária… <em>Only God can judge me</em>…</p>
<p style="text-align: justify;">O outro tipo de herói é aquele que, do alto de seu pedestal, desce aos mortais e se abre à polêmica, à confusão. Deixa a mostra para o mundo as suas veias, artérias, entranhas, derrama o sangue pelo centro e não pelas margens <strong>[2]</strong>, justamente em um mundo que o corpo é vergonha e, o espírito, capital. Mas de onde vem o prestígio desta espécie?…</p>
<p style="text-align: justify;">A figura do padre ilustra bem o primeiro tipo e, também, o que deu origem ao vácuo que foi deixado no coração dos católicos: Ele é o espectro que se coloca ao centro e acima dos demais. Os ouvintes se assentam nos bancos, como iguais uns aos outros, para se submeterem ao que, ali, está mais próximo do Céu, próximo às figuras sagradas, das imagens e de toda aquela beleza cuidadosamente polida ao longo de séculos no palácio mais nobre que a cidade conhece. Tudo que se vê é a sua versão mais polida e gloriosa, e isso <em>constrange</em>, e constrange principalmente o povo. O povo é que tem de internalizar as disposições de violência, que se traumatiza, que vive sufocada pelas urgências, pelos medos e que se submete aos males da vida urbana. Ele é que vai olhar para dentro de si, para seus pecados e terá vergonha, se sentirá menos e abaixará a cabeça escondendo o rosto no confessionário para ser perdoado e disciplinado pelo padre, como um eterno educando, um eterno a-ser-lapidado que nunca chega à maturidade, o fiel é para sempre um menor a ser continuamente corrigido, mas sua correção não aponta para o crescimento, pois sua essência é a menoridade, enquanto a do sacerdote é a figura a quem o pai deixou parte de seu poder, é o que goza de parte da sua autoridade, um quase-pai.</p>
<p style="text-align: justify;">Os pastores aparecem nessa brecha deixada pelos católicos. Mas não os pastores das igrejas tradicionais, os presbiterianos, os batistas mais ortodoxos e semelhantes. Tais figuras não concentram tanto poder por si mesmos e são apenas parte de uma estrutura que é muito maior que os mesmos: são “somente” operários da fé. Adversários com quem a Igreja Católica não rivaliza, postados em lugares distantes dos grandes centros e das grandes margens, com frequentadores de classe-média, cultos e que conservam distância suficiente do resto para que não se pense além de seu próprio cosmo. Descendentes daqueles grandes europeus dos livros de história, vivem àquela maneira enquanto habitam o país tropical, mas muito, muito longe da selva…</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo distantes, sua semente chegou lá e cresceu entre os espinhos — e bem sabemos que o que cresce entre os espinhos é mais próspero do que o que cresce em solo pedregoso; aqui, os frutos católicos. Nos locais mais inóspitos, o pastor teve de aprender a se tornar herói. Porém, sem as regalias monetárias, sociais, culturais e outras, não poderia ser o herói tradicional, teve então de se tornar aquele que constrói com sangue seu capital. Ele não pode, como o primeiro tipo, se assentar na aura de Deus, da Igreja, ou da família, pois não herda nada. O padre é herdeiro de uma forte herança simbólica: geralmente oriundo de “boas famílias”, tem um sobrenome que vai além das letras, acumula respeito com seu nome e as posses que conquista no fluxo natural do mundo e, ao realizar sua vocação (ou pelo menos assim chamam…), é beneficiário de toda uma riqueza construída ao longo de séculos — e que foi construída em cima de muito mais sangue; porém, enquanto sangue for capital, não será visto como morte, mas como vida: <em>quem lembra do sangue derramado admirado com a Pirâmide de Quéops?</em> Se toda aura é trabalho de um acúmulo histórico, o pastor marginal terá de ser <em>duas vezes melhor</em>, mesmo estando há <em>500 anos atrasado</em>; é, por excelência, o <em>self-made man</em>. O seu maior feito? Ser o mais próximo de Deus na boca do inferno.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um cenário onde, para que se consiga viver (ou pelas dores da vida) se internaliza o “pior” <strong>[3]</strong>, o pastor consegue demonstrar ser bom. Mas não é bom por sua essência, não é alguém distante com quem se comparam os que comparecem ali — muitas vezes pela primeira vez ou após muito tempo sem qualquer experiência em Igrejas —, de quem não poderiam estar perto nem por sua menoridade moral, nem por sua inferioridade intelectual <strong>[4]</strong>. É um ser humano, muito humano, e que poderia muito bem ser amigo do ouvinte, familiar do ouvinte e, é claro, o próprio ouvinte. Não somente por sua origem simples, por sua aparência familiar — nisso Jesus também se enquadra e nós bem sabemos o quão longe está o mundo de Jesus — mas por sua carnalidade e abertura. Muitos não compreendem o sucesso que têm em seus empreendimentos aqueles que, na posição de líderes eclesiásticos, expõe os maiores horrores de seu passado: uso de drogas, vida na criminalidade, promiscuidade… “Como alguém vai respeitar assim?” perguntam; não veem que na quebra do teto de vidro, se quebra também o constrangimento, para de ser sobre domar e se começa a pensar em <em>engajamento</em>, o que é <em>muito mais prazeroso</em>, é <em>potência</em>, e de que carecem mais estes pequeninos que poder?… Mais que isso, ele rompe com o estéril, com o enfado do catolicismo deslocando o discurso do além para o <em>agora</em>. Não se fala em um Deus que está parado no céu, a esperar tranquilo pelo longínquo dia do julgamento final e sim do Deus que começa a ocupar o posto que era dos santos, ativo na vida cotidiana. É a ele que se recorre para se curar das doenças na falta de um sistema de saúde adequado, para que desvie os filhos do mau-caminho (que são muitos), para que se tenha recursos mínimo em um contexto de escassez. O pastor também participa ativamente do processo, conduzindo as doações, tocando nas feridas abertas de suas ovelhas, se infiltrando na sua vida pessoal, dando opiniões fortes… O pastor, como todo herói da sua espécie, é e tem que ser polêmico.</p>
<p style="text-align: justify;">Conseguimos perceber o desejo incontrolável por ascender socialmente nos dias atuais, e que exemplo melhor do que o pastor para mostrar que isso é possível? O padre tomou o “toco” até mesmo em seu discurso inflamado contra o protestantismo nos anos 90. Agora os pastores fazem o mesmo e seus antigos fiéis se deliciam no maior dos prazeres que o ressentimento pode proporcionar: difamar àquele que o atinge, mas a quem não consegue questionar.</p>
<p style="text-align: justify;">O protestantismo no Brasil foi a amante que reacendeu a paixão no coração de quem vivia a mesmice com a esposa. Ah, por que Jesus não advertiu, no seu apelo ao amor, que este não tem nada a ver com paixão… Não sei ao certo se é correto falar em morte ou metamorfose de Deus, mas, seja como for, se se amasse tanto a Deus por aí como se costuma dizer, isso aconteceria? Haveria mudança tão rápida e radical? E Maria, e os santos a quem diziam ter amor?…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Não se trata aqui de dar aval à tais declarações preconceituosas em relação às religiões de matriz africana, mas ilustrar o infeliz preconceito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Queria<br />
Queria ter te conhecido antes<br />
Pra não ver você endurecido ante<br />
O mundo escurecido, instantes<br />
Antes do delírio: sangue<br />
É o que você derrama pelas margens<br />
(Minha autoria)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> <em>Pior</em> aqui aparece entre aspas para destacar o caráter arbitrário, flexível e não rígido do valor dessas disposições. Disposições iguais ou semelhantes podem ser negativas em uma determinada sociedade e positivas em outra, como a maior aptidão à violência, reatividade. Dentro da mesma sociedade pode ocorrer o mesmo, a depender dos princípios de percepção e apreciação e das regras de cada campo, pensando em Pierre Bourdieu. Aqui, o “ruim” é o que não é cristão, o que é corpo e não espírito (sobre essa oposição nas sociedades ocidentais, ver <em>Como o Racismo Criou O Brasil</em>, de Jessé Souza).<br />
<strong>[4]</strong> A intenção não é, evidentemente, defender essa inferioridade como se fosse real. Se trata, na verdade, de colocar como essas questões poderiam ser erroneamente vistas por quem participa do processo, seja no “topo” ou na “base”. Aliás, seria um tanto ridículo falar em superioridade ou inferioridade moral visto o que foi desenvolvido até aqui, e também a diferença de capacidade intelectual entre classes.</p>
<blockquote><p>Ilustram o artigo cenas do filme <strong>O Pagador de Promessas</strong>, de Anselmo Duarte (1962).</p></blockquote>
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		<title>Do Jacarezinho à Penha: o narcoestado em sua maturidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Jan 2026 16:51:15 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
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					<description><![CDATA[A favela, reduzida à condição de campo de guerra, é também a expressão mais radical do fracasso — ou melhor, do sucesso — da ordem capitalista. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Em 5 de maio de 2021, o massacre do Jacarezinho marcou uma ruptura simbólica: pela primeira vez em décadas, o Estado brasileiro agiu sem qualquer pudor em exibir a face nua da sua função repressiva. Naquele episódio, vinte e oito pessoas foram executadas sob o pretexto de uma operação “contra o tráfico”, mas o que se viu foi o ensaio geral de uma nova forma de governar — um governo pela morte. O texto que escrevi então, intitulado <em>Jacarezinho e o Narcoestado</em>, já apontava esse caminho: o Estado não “falha” ao matar, ele cumpre sua função estrutural de defesa dos interesses das classes dominantes, transformando o controle social em fonte de lucro e poder. Aquele massacre foi o laboratório da doutrina que amadureceria quatro anos depois, nas favelas da Penha e do Alemão. O que mudou entre 2021 e 2025 não foi a natureza da violência, mas sua administração: a morte tornou-se um dado de gestão, planejada, mensurada, legitimada como política pública. O que era “excesso” virou método; o que era “ilegal” virou norma. Do Jacarezinho à Penha, percorremos o itinerário completo de um Estado que, em meio à crise estrutural do capitalismo dependente, já não disfarça sua fusão com as forças do crime, da milícia e do capital. A repressão não é resposta à desordem — é o próprio modo de produzir ordem. E essa ordem se ergue sobre o extermínio cotidiano de uma população negra e periférica, herdeira dos quilombos e das senzalas, hoje confinada em territórios de abandono onde o Estado se ausenta como direito e reaparece como bala. Se o Jacarezinho foi o ensaio, a Penha é a maturidade do narcoestado: o momento em que a barbárie deixa de ser exceção e se torna a linguagem administrativa do poder.</p>
<p style="text-align: justify;">A operação intitulada “Contenção”, deflagrada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha no Rio de Janeiro, responde a uma dinâmica que há décadas vem se reproduzindo. A novidade reside apenas na escala — o aparato mobilizado, os mortos contabilizados, a cobertura midiática — mas o núcleo da ação permanece intacto: a velha guerra contra o tráfico de drogas, as facções, o “poder paralelo”. O que muda, e com intensidade, é que essa guerra se converteu em política de Estado. Logo, para compreendê-la, devemos deslocar o foco da contenda imediata para o fundamento estrutural: por que essa guerra é vital ao Estado? Por que ela se realiza exatamente nos territórios periféricos? Quem são seus agentes reais — não apenas visíveis à luz da mídia, mas aqueles que continuam invisíveis porque se inserem no funcionamento do sistema?</p>
<p style="text-align: justify;">O Estado burguês, forma política do capital, tem por pressuposto a defesa dos interesses das classes dominantes e de suas classes auxiliares. O aparato repressivo, portanto, é componente ordinário. A Operação Contenção evidencia menos a “naturalização” abstrata da força letal e mais um regime de legalidade gerencial: dispositivos jurídicos, métricas operacionais e rotinas administrativas que <strong>convertem a </strong>morte e a coerção em indicadores de desempenho. As falas do secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, não apenas justificam a letalidade; elas a integram a um desenho de governo em que apreensões, autos de resistência arquivados, “neutralizações”, narrativas de “narcoterrorismo” e cooperação interagências funcionam como chaves de autorização para orçamento, compras públicas, blindagem política e expansão tecnológica. Ao declarar que o Rio “vive um estado de guerra”, Curi enuncia uma doutrina de gestão territorial: ausência social estruturada (sem escola de tempo integral, creche, saúde, renda, cultura) e hiperpresença policial como tecnologia de controle. Esse arranjo produz inimigos substituíveis (a mão de obra juvenil negra) e <strong>soberanias sobrepostas</strong> (Polícia Civil, PM, PRF, Forças Armadas, MP e Judiciário) que <strong>distribuem a exceção</strong>, mantendo-a lícita e repetível. Em termos materiais, isso <strong>reordena o espaço urbano</strong> (valorização fundiária seletiva, expulsões lentas, captura de serviços informais) e <strong>fornece fluxo de renda</strong> para a economia da segurança. A favela — <strong>quilombo contemporâneo de sobrevivência negra</strong> — é alvo preferencial porque <strong>o próprio Estado se retirou como garantidor de direitos</strong> e reaparece como <strong>gestor do risco e da punição</strong>, impondo à juventude negra — majoritariamente criada por <strong>mães solo</strong>, com pais mortos ou encarcerados — <strong>um cardápio de explorações equivalentes</strong>: o subemprego degradado ou o recrutamento por organizações armadas que <strong>disputam, com o Estado, a extração de valor</strong> dos mesmos corpos. A letalidade não é erro; <strong>é método contábil da ordem</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O uso da expressão <strong>“estado de guerra”</strong> também é revelador. Ela legitima a militarização total da vida civil, a suspensão prática das garantias constitucionais e a instauração de um regime de exceção permanente nos territórios periféricos. Ao afirmar que “a alta letalidade era previsível, mas não desejada”, ele naturaliza o massacre. A previsibilidade da morte é, para ele, um dado operacional — uma espécie de efeito colateral aceitável dentro da lógica da segurança. Essa frase contém toda a essência da racionalidade instrumental que domina o Estado capitalista em crise: a morte não é um erro, mas um custo calculado, inscrito na contabilidade da gestão social. A afirmação de que “as vítimas dessa operação foram os militares mortos ou feridos” é um gesto de desumanização total. Reduzir dezenas de civis executados a “criminosos que optaram por não se render” é uma forma moderna de eugenia política. A palavra “opção” desloca a responsabilidade: os mortos tornaram-se culpados de sua própria execução. A necropolítica de Estado transforma o poder de matar em ato administrativo. O secretário também reforça o velho argumento de que o governo estadual age “sozinho” contra o crime, reclamando da falta de apoio federal. Essa retórica é estratégica: produz a imagem de um Estado heroico e abandonado, lutando contra forças maiores. Mas, na prática, serve para esconder o verdadeiro abandono — o do povo pobre, o das favelas, o dos trabalhadores precarizados que vivem sob cerco. A disputa entre governo estadual e governo federal é apenas disputa de gestão da barbárie. Nenhum dos lados questiona o princípio fundamental da política de segurança: o de que a vida periférica é descartável e o território popular é zona militarizada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158561" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146.jpg" alt="" width="1392" height="835" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146.jpg 1392w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-300x180.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-1024x614.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-768x461.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-700x420.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-640x384.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-681x409.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1392px) 100vw, 1392px" />Quando Curi afirma que a operação foi “planejada” e que “cumpriu as normas legais”, temos a normalização do absurdo. Cumprir a lei enquanto se assassinam dezenas de pessoas é o sinal inequívoco de que a legalidade foi totalmente absorvida pela lógica da exceção. O problema não é o descumprimento da lei — é a lei que já incorporou o crime como sua função. A modernidade jurídica burguesa sempre conviveu com a violência como fundamento; mas agora, sob a decomposição do Estado burguês, essa violência emerge à luz do dia como princípio organizador. A lei e o fuzil são instrumentos complementares da mesma racionalidade de controle. O discurso de Felipe Curi não difere, em essência, das doutrinas contrainsurgentes elaboradas durante a ditadura militar. A ideia de “territórios hostis”, “guerra interna”, “poder paralelo” e “eliminação do inimigo” são as mesmas. Apenas mudaram o cenário e a semântica. O inimigo, antes identificado como “subversivo”, é hoje o “traficante”, o “criminoso”, o “narcoterrorista”. A função política é idêntica: manter a população aterrorizada, justificar o orçamento bélico, garantir a disciplina da força de trabalho e impedir a organização autônoma das classes subalternas. A favela é tratada como colônia interna — espaço de ocupação e saque, laboratório da política de exceção.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o secretário diz que “o Rio vive um estado de guerra”, ele não mente — apenas não diz quem declarou essa guerra. Não foram os moradores que invadiram as instituições; foi o Estado que invadiu os lares dos trabalhadores. A guerra não é entre “o bem e o mal”, como repete a imprensa, mas entre o capital e a vida. As forças de repressão são o braço armado da acumulação, necessárias para conter o excedente humano que o capital não absorve. Por isso, essa guerra não termina. Ela é vital ao funcionamento do sistema. Ela renova a legitimidade de governos que se sustentam pelo medo e pela promessa de ordem, e movimenta toda uma economia paralela de segurança, armas, blindados, vigilância, contratos e corrupção. A fala de Curi é exemplar de uma classe dirigente que governa pela violência e pela mentira. Seu discurso combina tecnocracia e brutalidade, moralismo e cinismo. Ao justificar o massacre em nome da legalidade, ele reafirma o dogma central do Estado burguês: a preservação da propriedade e da hierarquia social acima da vida. No fundo, o que Santos chama de “contenção” é a gestão da miséria. É a administração do excesso humano produzido pela crise estrutural do capitalismo dependente. É o modo pelo qual o Estado regula o fluxo da barbárie que ele mesmo produz.</p>
<p style="text-align: justify;">A guerra urbana é o instrumento de contenção da superpopulação relativa — uma massa de trabalhadores precarizados, racializados e confinados nos territórios periféricos, cuja existência excede as necessidades de valorização do capital, mas cuja disciplina é vital à estabilidade da ordem. O que se chama de “combate ao tráfico” é a máscara ideológica dessa contenção: um dispositivo que converte a pobreza em ameaça e a miséria em inimigo. A guerra contra o Comando Vermelho é o álibi que legitima o reordenamento social e territorial exigido pelo capital — reorganiza a cidade, valoriza o solo, desloca populações, reconfigura poderes locais e renova o pacto entre Estado, milícia e mercado. Desde meados da década de 1980, como mostram estudos de Loïc Wacquant, entre outros, o aparato estatal trata as favelas como zonas de exceção: territórios coloniais internos onde se exercita a soberania do extermínio. O que estamos diante, portanto, é de um Estado que internalizou a necropolítica; a chamada “guerra às drogas” é método de governo — uma política de morte administrada em nome da ordem. Por que esse confronto se realiza, e mais ainda, por que se concentra nos territórios como o Morro do Alemão/Penha? Esses espaços são exemplos paradigmáticos: densos assentamentos periféricos, população majoritariamente negra, renda per capita inferior à média da cidade, infra-estrutura pública deficiente — e historicamente sob o controle, parcial ou total, de facções armadas (como Comando Vermelho) ou de milícias que surgiram no vazio estatal. Esse entrelaçamento entre informalidade econômica, ausência estatal e violência organizada é largamente documentado. Ali se instaurou uma governança paralela — criminal, política, econômica — e o Estado, longe de erradicá-la de modo frontal, passa a disputá-la ou a se fundir com ela. O território da favela constitui, então, um laboratório de acumulação de exceção: nela a população é alvo de policiamento militarizado, desaparecimento de garantias, letalidade elevada e lucro mediante extração (direta ou indireta) das suas vidas. Vejamos a dinâmica concreta da operação: milhares de agentes (2.500 segundo fontes) mobilizados em blindados, drones, armas automáticas; a reivindicação governamental de “narcoterrorismo”; múltiplos corpos deixados nas ruas; escolas fechadas; transporte interrompido. Isso revela que a operação não se dirigia apenas a líderes do tráfico, mas visava um território como conjunto. Em tal operação, a morte é parte do desenho. A continuidade do projeto de Estado-guerra torna-se visível. O que ocorrera em 5 de maio de 2021 no Jacarezinho foi, portanto, ensaio: a maturidade se verifica agora. O que ocorre é uma política de contenção ativa, não um remendo de segurança pública. O aparato repressivo coincide com o “arranjo” do narcoestado: Estado, milícia/facção, capital imobiliário e burocracia de segurança rendem-se à lógica da excepção permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">O que o Estado chama de “território conflagrado” são, na verdade, territórios de sobrevivência negra — verdadeiros quilombos modernos, erguidos sobre as ruínas da cidadania negada. A favela, historicamente, foi o refúgio dos descendentes da escravidão, empurrados para os morros e para as franjas urbanas por um projeto sistemático de exclusão. Ao longo das décadas, o poder público se retirou desses espaços, abandonando gerações inteiras à sobrevivência e à violência cotidiana. Onde o Estado não constrói escolas de tempo integral, não garante creches, não oferece alternativas de renda ou de lazer, instala-se a lei do desespero. Os jovens negros, crescem entre duas únicas possibilidades: a exploração direta pelo capital, em trabalhos degradantes e sem futuro, ou a exploração pelas organizações criminosas que disputam o controle territorial com o próprio Estado. Ambas operam segundo a mesma lógica: a de extrair vida e energia de corpos negros descartáveis. A ausência de políticas públicas não é omissão; é método. O abandono é forma de dominação. A favela, reduzida à condição de campo de guerra, é também a expressão mais radical do fracasso — ou melhor, do sucesso — da ordem capitalista em manter um povo sob controle pela carência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158565" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-2048x1152.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Mas por que existe esse confronto, além da cobertura ideológica “combate ao tráfico”? Porque o território periférico habita duas funções para o capital: função de reserva de vida e função de acumulação através da precarização. O estado-capital, em crise estrutural, precisa disciplinar o excedente humano que o sistema econômico não absorveu: jovens negros descartados, desempregados, subempregados. A favela, então, deixa de ser apenas cenário de “crime” e passa a ser palco de uma reorganização da força de trabalho, da valorização fundiária das suas encostas, e da extração direta de renda — via transporte informal, gás, eletricidade paralela — gerida por milícias ou traficantes. A repressão violenta serve à contenção desse excedente e à reorganização disciplinar da periferia. Assim, esse confronto é componente estrutural da governança neoliberal tardia em contextos dependentes como o Brasil. A ideologia da “guerra às drogas” opera como mecanismo de racialização das periferias, legitimando o abate de corpos como política de Estado. Nessas condições, a guerra não “combate o crime”, ela produz o crime como vetor de disciplina. O que se chama “crime organizado” é ao mesmo tempo agente econômico e instrumento de governança.</p>
<p style="text-align: justify;">E mais: esse confronto se concentra em territórios como Alemão/Penha porque ali a resistência institucional é débito — presença estatal fragilizada, burocracia limitada, infraestrutura deficiente. A facção domina, sim, mas justamente porque o Estado permitiu o vácuo. Projetos como as Unidade de Polícia Pacificadora (UPPs) foram tentativas de ocupação pacificadora, sobretudo em função de mega-eventos, mas não alteraram profundamente os mecanismos estruturais — com retorno da violência e da repressão militarizada. O confronto cresce justamente quando o Estado decide que não tolera mais a autonomia paralela da facção — não para “libertar” o território, mas para assumir ou cooptar esse domínio e inseri-lo no arranjo da acumulação capitalista dependente. A facção é parte da engrenagem: tráfico, milícia, mercado imobiliário, transporte informal — tudo isso absorve a favela no ciclo. O ataque, portanto, não é contra a “criminalidade” puramente, mas contra um rival que precisa ser disciplinado para que a ordem funcional prossiga. Essa contenção, contudo, não se dá num lúdico vazio: ela se dá pela normalização da exceção. A operação reafirma que o Estado opera segundo nova lógica: a exceção não é suspensa, é internalizada. O direito democrático, a jurisdição civil, tornam-se acessórios. Como analisa a teoria crítica da necropolítica, o Estado define quem “pode viver” e quem “deve morrer”. Isso é visível nas favelas onde jovens negros são mortos por operações policiais com quase nenhuma responsabilização. O sistema de garantias tampouco opera com intensidade. A impunidade é parte integrante: a letalidade elevada se legitima pela ausência de consequências reais. É certo como o nascer do dia que as forças responsáveis sairão incólumes. A operação de 2025 confirma: seletividade letal + impunidade = regime de guerra permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">E nesse ponto se impõe: nem a esquerda institucional nem a direita resolverão o problema — porque ambas são parte da lógica da barbárie criminosa promovida pelo Estado. A direita homenageia o exterminador, a esquerda pede “menos letalidade”, “reforma policial”, “mais direitos humanos” — mas mantém intacta a compreensão de que o Estado-segurança pode curar o mal social. Essa crença é falsa. O que temos é o próprio Estado-segurança agindo como gestor da violência e da disciplina social. A esquerda institucional replica a confiança no Estado e na fórmula de policiamento, apenas com cor diferente. A direita replica com maior virulência. Em ambos os casos, reproduz-se o narcoestado. Quando examinamos a gestão de Cláudio Castro no Rio de Janeiro, percebemos que ele não inaugura o modelo — ele o aprofunda. Não é a causa, mas o operador consciente de uma maturidade do modelo. Ele governa por meio da guerra, faz da operação letal sua marca, contabiliza mortos como troféus de poder. E mais importante: institucionaliza a lógica da exceção. A mídia anuncia “a maior operação em 15 anos”, os jornais festejam o aparato, os analistas falam em “choque de ordem”. Mas a verdade é que esta operação diz menos sobre um governo, e mais sobre o funcionamento avançado do regime capitalista dependente brasileiro — em que a periferia é zona de sacrifício, de extração, de experimentação da governança de exceção. A letalidade não é falha da democracia — é parte da sua fibra repressiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda mais: esse modelo de controle e exceção está intrinsecamente ligado à acumulação de capital — imobiliário, transporte, serviços informais, gás, eletricidade clandestina. As facções e milícias operam com o apoio tácito do Estado ou sob sua tolerância. Elas fornecem canais de lucro, controlam territórios, garantem “serviços” e absorvem o excedente. O Estado, quando entra com a operação, não entra para “erradicar” esse sistema — entra para reorganizá-lo sob sua tutela ou sob nova hegemonia. A Operação Contenção é momento em que o Estado reivindica esse território como seu e anuncia que a lógica é “ou o Estado ou o criminoso”, mas o criminoso já é parte do Estado. Logo, o que se anuncia é: “Nós tomamos o comando”. E o comando exige espetáculo, letalidade, vigilância e medo. Para os moradores da favela, essa guerra não traz segurança — traz terror. Para o capital, traz oportunidade: valores fundiários das encostas sob risco caem; investidores especulam; transporte informal é controlado; violência gera terceirização de segurança privada; o aparato repressivo justifica verbas, contratações e negócios de guerra urbana. No final, a favela torna-se duplamente explorada: pela facção/mercado e pelo Estado repressivo. A cura prometida jamais vem, porque o caminho escolhido foi o da guerra, não da inclusão.</p>
<p style="text-align: justify;">O que está em jogo não é “menos letalidade” ou “melhor polícia”: é a superação do regime de segurança como política social. A solução não está no Estado, mas contra o Estado da segurança. A tarefa para a vanguarda política não é reformar a polícia, mas superar o regime de acumulação e disciplina que justifica sua letalidade. O inimigo não é apenas o traficante nem apenas o policial: é o arranjo que transforma corpos (principalmente corpos negros e periféricos) em território de guerra, lucro e impunidade. A Operação Contenção mostra que o tempo do narcoestado já alcançou sua maturidade: não é mais fratura ou exceção — é forma de governo. É essencial que reconheçamos isso para que possamos pensar uma saída que rompe com a lógica da contenção, que substitui a guerra por democracia substancial, reparação, transformação estrutural e protagonismo da classe trabalhadora periférica. Sem isso, estaremos sempre dizendo “menos letalidade” enquanto a guerra avança, e estaremos sempre constatando os corpos mortos sem investigar o sistema que os produz.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há como combater essa lógica com reformas. A esquerda institucional, ao clamar por “aperfeiçoamento da polícia”, “respeito aos direitos humanos” ou “nova política de segurança”, apenas reforça o edifício da dominação. Querem humanizar a barbárie, sem abolir sua causa. A direita, por outro lado, faz da barbárie sua bandeira, exigindo mais armas, mais fuzis, mais sangue. Ambas são faces do mesmo projeto: a manutenção da ordem capitalista e a perpetuação da miséria. A saída não está entre essas alternativas. A saída está na recusa radical dessa estrutura — na organização autônoma dos trabalhadores e dos povos periféricos, na construção de uma política de libertação que não dependa do Estado, mas o confronte. A história cobrará caro por essa normalização do horror. Quando o Estado chama de “guerra” o que é massacre, quando chama de “contenção” o que é extermínio, quando chama de “planejamento” o que é barbárie, já não restam dúvidas sobre o caminho percorrido. O Rio de Janeiro, sob Cláudio Castro e Felipe Curi, tornou-se o espelho mais límpido da degradação do Estado burguês brasileiro: um regime de segurança que não protege, uma democracia que mata, uma lei que justifica a exceção. E enquanto não rompermos esse círculo infernal, o país inteiro seguirá sendo governado pela morte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158560" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879.jpg" alt="" width="900" height="613" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-617x420.jpg 617w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />As forças armadas, inseridas nesse processo, cumprem o papel de guardiãs da propriedade e da estabilidade social, não o de defensores do povo. Sua função é assegurar que a guerra interna permaneça confinada às fronteiras invisíveis que separam o mundo legal do mundo descartável. São elas que definem onde o sangue pode ser derramado e onde deve haver silêncio. Essa estrutura vem se sofisticando. Desde as campanhas coloniais, a força armada do Estado se orienta menos pela defesa da soberania nacional e mais pela repressão das insurreições internas. É um exército voltado para dentro, para o controle de sua própria população. A operação de 2025 é apenas a face atualizada dessa função histórica. A verdadeira função das forças armadas nessa guerra é, portanto, política. Elas não combatem drogas, nem defendem vidas: asseguram a permanência de um regime de dominação. Funcionam como mediadoras entre as elites econômicas, o capital financeiro e os aparelhos policiais. Sua presença é a garantia de que a violência não transborde, de que a revolta popular não encontre brecha, de que a guerra permaneça controlada e produtiva. A militarização da vida cotidiana é a resposta preventiva à ameaça latente de desobediência social. É uma forma de neutralizar qualquer possibilidade de ruptura. O terror é método. É necessário compreender que a economia do tráfico e a economia formal não são mundos separados. O dinheiro do tráfico circula por bancos, financia campanhas, compra imóveis, sustenta empresas de fachada. A fronteira entre o legal e o ilegal é apenas uma convenção ideológica. O que existe, de fato, é uma divisão funcional do trabalho violento. O Estado regula quem pode matar, quem pode lucrar e quem deve morrer. Essa regulação é o coração da política de segurança. Por isso as operações nunca atingem os circuitos superiores do narcotráfico. A guerra é travada contra o elo mais fraco, contra a mão de obra precarizada, contra o corpo que serve de escudo para a economia da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A reorganização promovida pelo Estado por meio da Operação Contenção é um ajuste na topografia do poder. Não se trata de restaurar a ordem, mas de redistribuir o caos. A cada massacre, as linhas de comando se redesenham, as alianças se refazem, o equilíbrio se recompõe. O que se vende como vitória é, na verdade, a manutenção do mesmo sistema em novas bases. A operação funciona como ritual de purificação: o Estado demonstra força, a mídia celebra, a classe média sente-se protegida, e o capital respira aliviado. A violência cumpre sua função simbólica de renovar a fé na autoridade, ao mesmo tempo em que reconfigura as relações de poder dentro da própria máquina estatal. O combate ao tráfico é uma ficção necessária. Ele alimenta o mito da autoridade moral e a crença na neutralidade das instituições. Mas o que se esconde sob esse discurso é o velho funcionamento da dominação de classe: o uso da violência seletiva como instrumento de governo. A operação não combate o crime; combate a possibilidade de emancipação. A cada corpo abatido, a cada casa invadida, o Estado reafirma que não há saída fora da sua tutela. A guerra é o modo de impedir que o povo perceba que o verdadeiro inimigo é o sistema que o extermina em nome da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A contenção, portanto, é mais do que uma política de segurança: é uma política de classe. Seu objetivo não é proteger, mas preservar. Preservar o lucro, preservar o medo, preservar o silêncio. O Estado se reorganiza quando as contradições sociais ameaçam escapar ao seu controle. Ele recalibra suas engrenagens, desloca o foco da crise econômica para o inimigo interno, e oferece à sociedade o espetáculo da guerra como catarse. Cada operação é uma pedagogia de submissão: ensina que a paz é privilégio, que a vida é concessão e que a morte é merecida. Ao fim, o que a Operação Contenção revela é o rosto nu do poder: o Estado como administrador do crime, o exército como tutor da ordem, a polícia como mediadora entre o legal e o ilegal. E enquanto a sociedade continuar acreditando que o problema é o “tráfico”, e não o sistema que o produz e o regula, a barbárie continuará sendo a linguagem oficial da política. A verdadeira contenção é a do povo: contido pelo medo, pela miséria e pela morte. É essa a vitória silenciosa do Estado sobre a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">A guerra interna brasileira é um projeto de Estado, não de governo. Sua permanência através das décadas revela que a repressão é uma necessidade funcional. O capital precisa de ordem para continuar existindo; e o Estado, sua forma política, se encarrega de garantir que essa ordem seja mantida pela violência legalizada. Mudam-se os governos, alternam-se os discursos, mas a estrutura permanece. Quando se fala em “forças de segurança”, fala-se na coluna vertebral da dominação burguesa. Ela é o verdadeiro partido permanente do Estado. O governo federal, em qualquer de suas versões, não se limitou a reproduzir essa estrutura — ele a expandiu. A crença de que o fortalecimento das instituições republicanas implicaria uma democracia mais robusta serviu de justificativa para a ampliação inédita dos aparatos repressivos. Durante os anos de euforia desenvolvimentista, a aposta era clara: blindar o Estado contra qualquer ameaça de ruptura social. Quando Dilma Rousseff inaugurou a chamada “Cidade da Polícia”, não estava promovendo modernização técnica ou eficiência administrativa; estava consolidando a centralização do controle policial e militar sobre o território urbano. Aquele complexo de delegacias especializadas, laboratórios e forças táticas sintetizava o projeto do Estado brasileiro pós-2003: sofisticar a repressão sob a estética da gestão.</p>
<p style="text-align: justify;">A construção da “Cidade da Polícia” foi apresentada como símbolo de racionalidade e de combate à corrupção dentro das corporações. Mas o que ela de fato instituiu foi um modelo de integração entre inteligência policial, poder judiciário e tecnologia militar — um salto qualitativo na coordenação das forças repressivas. Sob o pretexto de combater o crime organizado, o Estado organizou a sua própria estrutura de guerra permanente. A esquerda institucional chamou isso de “segurança cidadã”; a direita, de “ordem e progresso”. Na realidade, tratava-se de consolidar a vigilância sobre os corpos e as vozes que ameaçavam a estabilidade da acumulação. O projeto político de “pacificação” dos territórios periféricos, as UPPs, e o investimento em infraestrutura policial foram faces da mesma moeda. A suposta integração social das favelas serviu de laboratório para a gestão militar da pobreza.</p>
<p style="text-align: justify;">O compromisso do governo federal com as Forças Armadas jamais foi de confronto, mas de conciliação e recompensa. O orçamento da defesa, ao longo de duas décadas, cresceu exponencialmente. Nenhum governo ousou reduzir a influência política dos militares; ao contrário, todos procuraram reconvertê-la em força estabilizadora. As Forças Armadas foram mantidas como poder tutelar da república. Receberam verbas, cargos, homenagens e um papel central na legitimação moral do Estado. A velha casta fardada foi incorporada à máquina administrativa como símbolo de eficiência e patriotismo, ocultando sua função real: garantir que o povo permaneça no seu lugar. O fortalecimento das estruturas repressivas, nesse contexto, não é uma falha dos governos populares, mas sua contradição interna. Ao buscar governar para todos, mantiveram intactas as bases da dominação de classe. A conciliação com os militares e com a polícia foram o preço pago para assegurar a estabilidade institucional. Mas o preço cobrado foi alto: a militarização da vida. A retórica da “cidadania armada” e da “guerra ao crime” substituiu o horizonte de emancipação pela promessa de ordem. Assim, o Estado ampliou seus instrumentos de controle sobre as massas ao mesmo tempo em que se apresentava como seu protetor. A repressão deixou de ser atributo da direita e tornou-se política de Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo federal atua como fiador moral e financeiro dessa estrutura. É quem garante o fluxo de recursos, os programas de modernização, os convênios de tecnologia e a retaguarda política para as operações de guerra interna. Mesmo quando critica as chacinas, o faz dentro dos limites da legalidade que ele próprio sustenta. Os governos progressistas e conservadores divergem no discurso, mas convergem na prática: nenhum rompeu com o pacto armado. O exército segue controlando a Amazônia sob a lógica da segurança nacional, as polícias seguem militarizadas e os territórios urbanos seguem vigiados por câmeras, drones e bases móveis. O Estado democrático de direito é, na prática, um Estado de exceção administrado. Nesse quadro, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, é apenas a personificação regional dessa engrenagem. Advogado, católico militante e aliado orgânico da extrema-direita, Castro é a expressão mais nítida do consenso repressivo. Herdou o cargo após o impeachment de Witzel e foi reeleito com o apoio das milícias políticas, dos empresários da segurança e do clero fundamentalista. Seu governo se sustenta sobre três pilares: a repressão armada, o moralismo religioso e a aliança com o capital imobiliário. Ele governa pela guerra e através da fé. Cada operação policial é um sermão sobre a necessidade da morte para garantir a paz.</p>
<p style="text-align: justify;">Castro governa como um síndico do narcoestado. Administra o pacto entre o Estado formal e as forças ilegais que realmente controlam o território. Sua função é coordenar a convivência entre polícia, milícia e facções, equilibrando interesses e redistribuindo lucros. Quando um desses elementos se torna disfuncional — quando a violência escapa do script, quando o tráfico desafia a hierarquia ou quando a opinião pública exige espetáculo — o governador autoriza a chacina. A Operação Contenção é parte desse mecanismo de ajuste. Sob o pretexto de combater o “narcoterrorismo”, o Estado redefine as fronteiras da sua soberania e reestabelece a hierarquia do medo. A figura de Cláudio Castro representa a síntese perfeita do Estado burguês em sua fase de decomposição moral. Um homem de fé que abençoa o fuzil, um gestor que transforma o massacre em estatística, um político que governa com o evangelho numa mão e o decreto de morte na outra. Sua retórica de “guerra justa” legitima o genocídio e confere aparência de virtude à barbárie. Ele se apresenta como defensor da ordem, mas sua ordem é o caos administrado. É a mesma lógica que permeia todo o sistema: o poder não quer eliminar a violência, quer monopolizá-la.</p>
<p style="text-align: justify;">As forças do Estado, do governo federal e do governo estadual estão articuladas por uma divisão de tarefas. O governo central fornece o enquadramento legal, o financiamento e o discurso de modernização. O governo estadual executa, com brutalidade, a política de contenção. As Forças Armadas garantem o pano de fundo moral e o respaldo simbólico da autoridade. Essa divisão mantém o equilíbrio entre as classes dominantes, ao mesmo tempo em que reprime qualquer movimento de ruptura. A violência se distribui de modo racional: o centro formula, a periferia morre. Essa estrutura revela o verdadeiro compromisso do Estado com as Forças Armadas. O pacto é simples: estabilidade em troca de autonomia. O exército preserva sua influência, sua estrutura corporativa, seus privilégios e seu papel de árbitro; em troca, garante que a república não seja atravessada por forças populares incontroláveis. Esse pacto, firmado na transição democrática e reafirmado por todos os governos subsequentes, é a espinha dorsal do regime. Ele explica por que a militarização da política é tão profunda e por que as chacinas se repetem com regularidade burocrática. O Estado aprendeu a governar pela exceção.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a essa engrenagem, o povo é o material de sacrifício. Cada operação policial é um ato litúrgico: celebra a união da nação em torno da violência e renova a fé nas instituições. A imagem de soldados patrulhando favelas, de helicópteros cruzando os céus e de blindados nas ruas serve como espetáculo de poder. O medo torna-se a cola ideológica da sociedade. O trabalhador, o morador, o corpo negro e pobre, são o preço da estabilidade. O Estado, ao matar, reafirma sua legitimidade. Enquanto a sociedade continuar acreditando que a mudança virá de dentro dessa estrutura, a guerra continuará sendo a política oficial. O compromisso do governo federal com as forças armadas é o compromisso do capital com sua própria guarda. O papel do governador é o de gestor local da violência. E o papel do povo, imposto pela força, é o de espectador e vítima. O verdadeiro combate não se trava entre Estado e tráfico, mas entre dominação e emancipação, entre vida e morte. E, nesse campo, o Estado escolheu seu lado há muito tempo.</p>
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		<title>Cláudio Castro: fé, bala e capital</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jan 2026 13:36:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A violência de Estado não é mais instrumento ocasional, mas política de regulação da força de trabalho excedente. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">A ascensão de Cláudio Castro ao governo do Estado do Rio de Janeiro constitui um fenômeno de relevância singular para compreender o estágio atual do conservadorismo brasileiro e a reconfiguração contemporânea do Estado burguês em contexto de crise estrutural do capital. Não me refiro à sua importância enquanto político, mas seu papel na máquina do poder. Politicamente, Castro é nada mais que um político vulgar, sem qualquer destaque ou relevância social, representando apenas a continuidade de um projeto devastador. Sua trajetória e a orientação de seu governo expressam, de forma concentrada, tendências que atravessam o país: a fusão entre religião e política, a centralidade do aparato repressivo como eixo de governabilidade e a naturalização do autoritarismo como resposta à decomposição social.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto de partida dessa análise exige reconhecer que o Rio de Janeiro, historicamente, ocupa uma posição peculiar na formação social brasileira. A cidade sempre funcionou como espelho concentrado das contradições nacionais: um espaço onde a modernidade e a barbárie coexistem de modo visceral. Desde o século XVIII, sua condição de porto estratégico e sede administrativa da colônia transformou-a no principal elo entre o mundo colonial e o circuito mercantil internacional. O Rio não foi apenas capital política, mas o centro nervoso de um sistema de extração e circulação de riquezas fundado na escravidão. Nela se cruzavam os fluxos da mercadoria, do capital e da carne humana. A urbanização fluminense nasceu sob o signo do tráfico negreiro, e sua paisagem social foi moldada pela presença massiva da população escravizada, pela hierarquia racial e pela violência cotidiana. Essa estrutura de poder, ancorada na exploração e no controle dos corpos, impregnou as formas posteriores de dominação e permanece como substrato invisível da vida política e policial da cidade. Essa condição moldou uma estrutura social profundamente hierarquizada, na qual a violência estatal constituiu o principal instrumento de regulação das relações entre as classes. A escravidão urbana, as forças de segurança e o controle territorial das camadas subalternas criaram um padrão de dominação que se atualiza, com diferentes roupagens, ao longo dos séculos. No século XXI, o Rio converte-se novamente em laboratório de experimentação política: um espaço onde se testam formas de gestão da pobreza e de administração do medo.</p>
<p style="text-align: justify;">A biografia política de Cláudio Castro deve ser compreendida dentro desse contexto. Nascido em 1979, formou-se no interior da Renovação Carismática Católica, movimento que desde os anos 1980 vem assumindo crescente influência na vida pública brasileira. A Renovação constitui um tipo de religiosidade alinhado ao individualismo neoliberal: substitui a crítica social pela moralização da conduta e transforma a fé em instrumento de autoajuda e empreendedorismo espiritual. A Renovação Carismática Católica surgiu no final da década de 1960, nos Estados Unidos, como um desdobramento interno do catolicismo diante da expansão do pentecostalismo e da crise das instituições religiosas tradicionais. Em 1967, um grupo de estudantes da Universidade de Duquesne, em Pittsburgh, afirmou ter vivido uma experiência direta com o “Batismo no Espírito Santo”, fenômeno que desencadeou a difusão de práticas de oração em línguas, cura e louvor espontâneo. Rapidamente, o movimento se expandiu pela América Latina, chegando ao Brasil em 1969, quando padres e leigos de Campinas organizaram os primeiros grupos de oração carismáticos. Desde então, a RCC consolidou-se como uma das principais forças de renovação religiosa dentro da Igreja Católica, reorganizando seu modo de inserção no mundo moderno.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a “renovação” que propõe não diz respeito à crítica das estruturas sociais, mas à intensificação da experiência individual de fé. A ênfase no “encontro pessoal com Deus”, na cura espiritual e na libertação interior desloca a religião da esfera coletiva e histórica para o campo da subjetividade e da moralidade privada. Sob a aparência de fervor popular, a RCC realiza uma profunda adequação do catolicismo à lógica neoliberal: substitui a solidariedade de classe pela fraternidade emocional, a crítica social pela autoajuda espiritual, o sofrimento histórico pela culpa pessoal. Em vez de questionar as causas da miséria, ensina a suportá-la com resignação e disciplina. Sua liturgia espetacular — marcada pela música, pelo êxtase e pela emoção — transforma a fé em mercadoria simbólica, ajustando a religião ao mercado da experiência e à indústria cultural. Trata-se de uma pedagogia da adaptação: ensina o fiel a obedecer, a competir, a vencer espiritualmente no mesmo mundo que o oprime materialmente. Essa religiosidade emocional, que moldou gerações de jovens católicos nas últimas décadas, produziu um tipo de subjetividade dócil e empreendedora, ideal para a nova forma de dominação que combina fé e capital. É nesse caldo cultural que se forma Cláudio Castro — um político cuja trajetória sintetiza a conversão da espiritualidade em instrumento de poder.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158492" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre.jpg" alt="" width="1600" height="1061" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-1024x679.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-768x509.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-1536x1019.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-633x420.jpg 633w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-640x424.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-681x452.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" />O ingresso de Castro nesse universo corresponde à formação de uma subjetividade disciplinada e adaptada à ordem. Sua atuação inicial como músico em comunidades católicas revela essa pedagogia: a política é convertida em liturgia, o coletivo é dissolvido na ideia de salvação pessoal. A passagem para a vida institucional ocorre de modo gradual. Castro inicia-se na política como assessor e chefe de gabinete de parlamentares ligados ao Partido Social Cristão (PSC), legenda que se caracteriza pela defesa de pautas morais e pelo trânsito entre o conservadorismo católico e o pentecostalismo evangélico. Em 2016, elege-se vereador pelo PSC e, dois anos depois, compõe a chapa de Wilson Witzel como vice-governador. Essa ascensão coincide com a hegemonia do bolsonarismo e com a expansão de um campo político unificado por três elementos fundamentais: a deslegitimação da esquerda institucional, o moralismo religioso como linguagem popular de mobilização e a militarização das políticas públicas. Castro herda esse tripé e o consolida.</p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória de Witzel, ex-juiz federal que assumiu o governo com discurso de extermínio (“atirar na cabeça”), foi interrompida por denúncias de corrupção e disputas internas no bloco de poder. Sua ascensão ao governo do Rio, em 2018 foi expressão local da onda reacionária que atravessou o país. A figura do ex-magistrado emergiu como produto direto do colapso do sistema político tradicional e da legitimação midiática da “guerra contra o crime” e da “guerra contra a corrupção”. O capital político que o sustentou veio da fusão entre o moralismo punitivista e o ressentimento social, catalisados pelo bolsonarismo. Witzel representava a crença de que a violência de Estado poderia restaurar a ordem perdida; encarnava o juiz-justiceiro que, vindo das fileiras do sistema judicial, prometia aplicar ao governo a mesma lógica de sentença e castigo que marcara a Operação Lava Jato. Seu triunfo eleitoral simbolizou o deslocamento da autoridade civil para a autoridade policial-jurídica — o governo como tribunal, o povo como réu. O Rio de Janeiro, historicamente terreno fértil para a retórica da “mão dura”, tornou-se o laboratório dessa política de extermínio legitimada pela fé na punição e pela espetacularização da violência. A ascensão de Castro à chefia do Executivo estadual, em 2020, significou continuidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário de Witzel, cuja retórica era agressiva, Castro representa o mesmo projeto em versão administrativamente apaziguada. A mudança de estilo não implicou alteração de conteúdo. O núcleo ideológico &#8211; a guerra permanente às favelas, a repressão como política de Estado e o conservadorismo moral como linguagem de legitimação &#8211; manteve-se intacto. O governo Castro deve ser interpretado como desdobramento lógico do processo de desintegração do pacto social-democrata brasileiro. Após a crise de 2014-2016, marcada pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela ruptura do arranjo de conciliação que sustentava os governos anteriores, a direita brasileira reorganizou-se em torno de uma agenda de restauração autoritária. O enfraquecimento das mediações políticas, a fragmentação do sistema partidário e o avanço da precarização do trabalho criaram condições para o predomínio de uma racionalidade securitária e moralizante. O Estado, esvaziado de sua função social, voltou-se a exercer, de maneira direta, sua função coercitiva. O Rio, por sua composição social e por sua posição simbólica, tornou-se o epicentro dessa transformação.</p>
<p style="text-align: justify;">O caráter religioso do governo Castro é elemento constitutivo de sua legitimidade. Ao se apresentar como homem de fé, ele mobiliza um ethos conservador que naturaliza a desigualdade e converte o sofrimento social em questão de mérito ou culpa individual. O discurso religioso fornece a linguagem através da qual a violência de Estado é justificada: a polícia aparece como instrumento de “purificação” do mal, as operações letais como atos necessários para restabelecer a ordem moral. Trata-se de uma reconfiguração ideológica na qual a repressão assume estatuto ético. Essa religiosidade de massas cumpre, portanto, função política. No contexto de esgotamento das promessas de ascensão social e de destruição dos direitos trabalhistas, a fé surge como substituto simbólico da cidadania. A religião, nesse caso, não se opõe ao mercado, mas o complementa. O Estado, desobrigado de garantir direitos, passa a oferecer conforto espiritual. O governante torna-se uma espécie de mediador entre a fé e a gestão, legitimando políticas de austeridade e repressão sob a retórica da responsabilidade moral. O neoliberalismo, em sua fase avançada, incorpora a religião como dispositivo de controle subjetivo.</p>
<p style="text-align: justify;">A política de segurança pública implementada sob sua gestão explicita essa lógica. As operações policiais em favelas e periferias atingiram, no período recente, níveis recordes de letalidade, com grande repercussão nacional e internacional. A “Operação Contenção”, deflagrada em 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, sintetiza a política de Estado baseada no extermínio de populações racializadas. O governo justifica tais ações sob o argumento de combate ao tráfico, mas os dados indicam uma estratégia de militarização permanente do território. A repressão deixa de ser resposta a episódios de violência e passa a constituir a própria forma de presença do Estado em determinadas áreas. O objetivo subjacente não é eliminar o crime, mas manter a guerra. A guerra, neste caso, cumpre função de coesão social: ela cria um inimigo interno que unifica os setores médios, fornece legitimidade ao aparato repressivo e reafirma a hierarquia racial e de classe. Essa dinâmica revela a continuidade histórica entre a escravidão e o Estado penal contemporâneo. A violência seletiva é a tradução moderna do velho princípio de dominação que estrutura a formação brasileira. Ao deslocar o foco da política social para a política de segurança, o governo redefine o sentido da cidadania: o cidadão é aquele que pode ser protegido; o inimigo, aquele que pode ser eliminado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158493" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM.png" alt="" width="567" height="380" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM.png 567w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM-300x201.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM-537x360.png 537w" sizes="auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px" />A legitimidade do governo Castro não se sustenta apenas na força do aparato repressivo ou na manipulação midiática — ela se enraíza num consenso difuso, tecido pela ideologia da segurança e pela naturalização da violência. As pesquisas que apontam ampla aprovação às operações policiais revelam um fenômeno mais profundo que o simples apoio a medidas duras: expressam a adesão a uma forma de vida administrada pela ameaça. A guerra permanente às favelas converte-se em espetáculo moral e pedagógico, no qual as classes médias e parte dos trabalhadores aprendem a reconhecer no Estado armado o guardião da normalidade. Essa adesão, contudo, não nasce de convicção política, mas do desamparo estrutural. A decomposição das relações de trabalho, o isolamento social e a sensação de insegurança generalizada produzem sujeitos fatigados, incapazes de imaginar uma alternativa coletiva. Nessa paisagem, a polícia aparece como encarnação de uma ordem desejada — ainda que imposta pelo medo. A classe média, habituada a se perceber como centro da sociedade, vê na repressão a garantia de seu status vacilante; teme o colapso das fronteiras entre “gente de bem” e “perigo social” e por isso exige a manutenção da distância pela bala. A burguesia, por sua vez, transforma a guerra interna em mercado: lucra com o caos que administra, convertendo a violência em ativo financeiro e espetáculo de governabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o dado mais inquietante é a participação de segmentos populares nesse consenso. Nas favelas, onde o Estado só chega armado, a promessa de segurança, ainda que ilusória, pode soar como redenção. O medo da violência cotidiana, somado à ausência de alternativas, gera uma adesão ambígua: o oprimido aplaude o opressor porque perdeu a crença na possibilidade de libertação. Trata-se de uma inversão trágica do sentimento de classe — um momento em que a consciência se dobra sob o peso da sobrevivência e o desejo de ordem substitui o desejo de justiça. O aplauso às viaturas não é mera alienação; é o sintoma de uma sociabilidade corroída, em que o extermínio torna-se aceitável quando promete estabilidade. Castro soube instrumentalizar essa atmosfera de desespero e ressentimento. Ao apresentar-se como gestor sereno, homem de fé e defensor da segurança, converteu o massacre em prova de eficiência administrativa e de moralidade pública. A violência policial, nesse contexto, opera como política de comunicação: cada operação é um espetáculo de poder que reativa o vínculo entre governo e sociedade. O tiro torna-se linguagem; o sangue, forma de legitimidade. A popularidade de Castro após a chacina da Penha é o efeito lógico de um sistema que aprendeu a governar pela comoção e pelo medo. A adesão social à barbárie revela, assim, o triunfo de uma racionalidade cínica: um Estado incapaz de garantir a vida, mas plenamente capaz de administrar a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação entre conservadorismo e neoliberalismo manifesta-se, no caso fluminense, de modo particularmente claro. O Estado enfrenta uma crise fiscal crônica desde meados da década de 2010, agravada pela dependência dos royalties do petróleo e pela desindustrialização. A crise do Estado do Rio de Janeiro é o resultado de um longo processo de esgotamento de seu modelo econômico e político. Desde o início dos anos 2000, o Estado passou a depender crescentemente dos royalties e participações especiais do petróleo, convertendo-se em uma espécie de Estado rentista, sustentado por uma renda volátil e vinculada à exploração de recursos naturais. Essa dependência foi agravada pela desindustrialização e pela financeirização das atividades urbanas, que reduziram drasticamente a base produtiva e a arrecadação tributária. Quando o preço do barril despencou em 2014 e a Lava Jato atingiu as principais empreiteiras, o modelo desabou. O colapso fiscal foi a expressão imediata de uma crise mais ampla: a falência de uma forma de acumulação baseada na extração de renda e na intermediação político-empresarial. Diante disso, o Rio tornou-se o primeiro estado a aderir ao Regime de Recuperação Fiscal, em 2017, submetendo-se a um programa de austeridade que congelou investimentos, privatizou ativos estratégicos e transformou a dívida pública em eixo de toda a política estadual. O Estado deixou de ser promotor de desenvolvimento e converteu-se em gestor da própria falência. A partir daí, o neoliberalismo assumiu forma de governo permanente, e a repressão tornou-se o instrumento de estabilidade. Cláudio Castro herda e aprofunda esse arranjo: governa um Estado financeiramente tutelado, incapaz de oferecer políticas sociais, mas plenamente funcional para o capital financeiro e o mercado da segurança. Sua administração combina austeridade fiscal e expansão policial, traduzindo no plano local a síntese contemporânea entre neoliberalismo e autoritarismo moral. O Rio de Janeiro é hoje o laboratório onde se experimenta a forma mais avançada do Estado em crise — aquele que, sem meios para reproduzir a vida, reproduz apenas a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta dos governos tem sido a adoção de políticas de ajuste, privatizações e parcerias público-privadas, acompanhadas da repressão aos movimentos sociais e da criminalização da pobreza. Cláudio Castro aprofunda esse modelo ao combinar austeridade orçamentária e expansão do aparato policial. Enquanto reduz investimentos sociais, amplia os recursos destinados às forças de segurança. A retórica da “ordem” serve para legitimar a gestão da escassez. O Rio de Janeiro, nesse sentido, é a expressão concentrada de um fenômeno nacional: a transformação do Estado em administrador da crise. A incapacidade de promover desenvolvimento econômico converte o governo em gestor da desintegração. A violência deixa de ser um desvio e torna-se instrumento funcional de regulação. As chacinas periódicas, as incursões militares e o encarceramento em massa operam como mecanismos de controle da população excedente, isto é, daquela fração do proletariado que já não é absorvida pelo mercado de trabalho. A repressão é, assim, uma política econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">Diferentemente de figuras autoritárias de perfil militar, Castro apresenta-se como político civil moderado, capaz de dialogar com a burguesia financeira, com o clero e com as corporações policiais. Essa convergência define uma nova configuração de poder, na qual o autoritarismo é exercido de forma difusa e institucionalizada, sem necessidade de ruptura formal da ordem democrática. O significado histórico de sua permanência no governo, em um momento de suposta recomposição democrática em nível federal, é revelador. O país vive um duplo movimento: enquanto o Executivo nacional tenta restaurar a normalidade institucional e reabilitar o pacto entre capital e trabalho, governos estaduais como o do Rio consolidam a normalização da exceção. Essa coexistência demonstra a plasticidade do Estado burguês: ele é capaz de operar simultaneamente com linguagem democrática e prática autoritária. O discurso dos direitos convive com a prática do massacre. O governo Castro representa a face local dessa contradição.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158490" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7.jpg" alt="" width="1024" height="697" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-617x420.jpg 617w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O conservadorismo fluminense também cumpre papel de vanguarda na recomposição ideológica da direita brasileira. Após a derrota eleitoral de 2022, o campo bolsonarista perdeu a capacidade de mobilização nacional, mas manteve forte influência nos estados. No Rio, essa influência se institucionalizou. A aliança entre o Partido Liberal, as forças de segurança e setores religiosos consolidou uma base de poder estável, ancorada na gestão cotidiana do medo. O bolsonarismo, aqui, deixou de ser apenas movimento e tornou-se governo permanente. Castro é o operador desse processo. Do ponto de vista teórico, pode-se afirmar que seu governo expressa a passagem do Estado neoliberal para um Estado securitário-devocional. A racionalidade econômica, centrada na austeridade e na privatização, é reforçada por uma racionalidade moral que reorganiza a hegemonia em torno de valores tradicionais. A fusão dessas duas dimensões &#8211; mercado e moral &#8211; garante ao regime uma legitimidade paradoxal: promete ordem e espiritualidade num contexto de dissolução social. O Estado não oferece futuro, mas oferece pertencimento. Essa é a fórmula contemporânea do autoritarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em termos sociológicos, a manutenção desse modelo depende da convergência entre três campos: o econômico, o religioso e o militar. O campo econômico fornece a base material &#8211; o rentismo e a especulação; o religioso fornece o sentido &#8211; a legitimação moral; e o militar fornece a força &#8211; o poder coercitivo. A articulação entre esses elementos explica a estabilidade relativa de governos como o de Castro, mesmo diante de índices elevados de violência e desigualdade. A população, submetida à insegurança cotidiana, tende a apoiar medidas repressivas em nome da autopreservação. O medo se transforma em política. A experiência fluminense mostra, portanto, que o conservadorismo atual não é resquício do passado, mas forma moderna de governar a crise. Ele se apoia em tecnologias avançadas de vigilância, em aparatos midiáticos sofisticados e em discursos religiosos adaptados à era digital. A repressão, longe de ser apenas física, é também simbólica: atua na produção de subjetividades dóceis e conformadas. O resultado é a consolidação de uma cultura política autoritária, que naturaliza a violência e banaliza a desigualdade.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença de Cláudio Castro no poder, nesse contexto, expressa a maturidade de um projeto que combina dependência econômica, regressão política e reacionarismo moral. O Rio de Janeiro, por sua posição histórica, serve de vitrine e advertência. A política fluminense antecipa tendências que se expandem nacionalmente: o esvaziamento das instituições representativas, a militarização da vida cotidiana, a instrumentalização da religião e a fusão entre crime e Estado. O governo atual é, assim, menos uma anomalia e mais um diagnóstico. Concluir que o Estado fluminense cumpre uma função de laboratório não significa reduzir sua complexidade a determinismos locais. Ao contrário, trata-se de reconhecer que o capitalismo dependente brasileiro produz, em diferentes escalas, formas específicas de dominação. No Rio, essas formas se tornam visíveis. A figura de Cláudio Castro, ao articular a administração pública à lógica religiosa e securitária, revela o grau de aprofundamento da crise de hegemonia. A política deixa de ser mediação entre interesses e passa a ser mera gestão da sobrevivência.</p>
<p style="text-align: justify;">O estudo do seu governo permite observar o funcionamento atual do Estado burguês em sua dimensão mais direta. Quando as condições de reprodução do capital se tornam críticas, o Estado intensifica suas funções coercitivas e ideológicas. O conservadorismo, portanto, é funcional à crise. No Rio de Janeiro, essa resposta assume o rosto de um governador que governa com a Bíblia numa mão e o aparato policial na outra. Em síntese, a figura de Cláudio Castro condensa três processos estruturais: a consolidação de uma direita religiosa e moralista como base de massas da ordem, a institucionalização do Estado penal como forma dominante de regulação social e a subordinação completa do poder público aos interesses do capital financeiro e das corporações militares.</p>
<p style="text-align: justify;">A intensificação da violência estatal no Rio de Janeiro, culminando na chamada Operação Contenção, deflagrada em 28 de outubro de 2025, evidencia a consolidação de um modelo de governo baseado na militarização permanente da vida social. O evento, que resultou em centenas de mortes e foi classificado por organizações de direitos humanos como a operação mais letal da história do estado, não pode ser compreendido como episódio isolado. Ele representa o ponto de maturação de um projeto político que articula religião, moral conservadora e repressão como fundamentos da governabilidade. Nesse sentido, o governo de Cláudio Castro constitui um caso paradigmático do processo de reorganização autoritária do Estado burguês em contexto de crise estrutural do capital. A Operação Contenção apenas tornou explícito um padrão de atuação previamente estabelecido: incursões em larga escala, uso de armamento pesado, bloqueio de áreas inteiras e a suspensão fática de direitos constitucionais.</p>
<p style="text-align: justify;">O elemento novo da operação foi o nível de integração entre as forças estaduais e o discurso de defesa nacional. Ao afirmar que o Rio estaria “sozinho nesta guerra” e insinuar a necessidade de apoio das Forças Armadas, Castro procurou elevar o conflito à condição de ameaça à soberania, deslocando o eixo da segurança pública para o campo da segurança nacional. Essa retórica inscreve a política fluminense na tradição latino-americana dos estados de exceção militarizados, nos quais a repressão das classes subalternas é apresentada como defesa da pátria. A aproximação simbólica com as Forças Armadas não deve ser lida como simples busca de apoio operacional, mas como tentativa de redefinir o estatuto político da repressão. O emprego potencial do Exército em tarefas policiais, mesmo sem a formalização da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), sinaliza o desejo de transformar a exceção em norma. O governo estadual age dentro de uma racionalidade que ultrapassa a dimensão local: ao naturalizar a presença militar no cotidiano urbano, contribui para consolidar um modelo nacional de governo da crise pela força. Do ponto de vista institucional, a Operação Contenção reflete a fusão progressiva entre polícia, exército e capital. O aparato repressivo, tradicionalmente estatal, passa a funcionar segundo lógicas empresariais, alimentando um mercado de segurança que inclui empresas privadas de vigilância, indústrias de armamentos e contratos de tecnologia de monitoramento. A militarização não é apenas política, é também econômica: a violência transforma-se em setor produtivo, integrando o circuito de acumulação capitalista. O Estado assume o papel de mediador entre o capital financeiro e o capital militar, administrando a guerra como negócio.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, a relação de Castro com as Forças Armadas possui duplo caráter: simbólico e funcional. No plano simbólico, o governador recorre à imagem da autoridade militar como metáfora de ordem e disciplina, elementos centrais de seu discurso moral. A figura do soldado funciona como extensão da figura do fiel — ambos obedientes, abnegados e submissos à hierarquia. No plano funcional, essa aproximação legitima a ampliação de investimentos em armamentos, veículos blindados e novas tecnologias de vigilância, financiadas por fundos públicos e por parcerias privadas. O Estado, sob o pretexto de combater o crime, expande o mercado da repressão. A operação de 2025 também revela o papel do Rio de Janeiro como laboratório político. Historicamente, o estado tem sido campo de experimentação de políticas de segurança e de gestão da pobreza. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implantadas a partir de 2008, já haviam testado a ocupação militar de territórios populares com apoio de organismos internacionais e de empresas privadas. A Operação Contenção retoma essa experiência sob nova roupagem: substitui a retórica da pacificação pela da aniquilação. Se as UPPs prometiam integração social, a nova política assume explicitamente a segregação como método. O que se observa é a transição de um modelo de controle territorial para um modelo de extermínio territorial.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação deve ser interpretada à luz da crise do neoliberalismo e da reconfiguração das formas de dominação nas economias dependentes. O esgotamento das políticas de inclusão e o avanço da precarização criam uma massa de trabalhadores supérfluos, cuja existência torna-se disfuncional para o processo de valorização do capital. Diante disso, o Estado desloca sua função: de mediador de conflitos, converte-se em gestor da eliminação social. A violência de Estado não é mais instrumento ocasional, mas política de regulação da força de trabalho excedente. As favelas e periferias, onde se concentra essa população, são tratadas como zonas de sacrifício. A militarização, portanto, cumpre função estrutural. Ela garante a reprodução de um sistema que já não pode prometer progresso, apenas segurança. O autoritarismo religioso de Castro fornece o revestimento moral necessário a esse arranjo. Ao apresentar as operações como “batalhas do bem contra o mal”, o governo converte o conflito de classes em conflito espiritual, deslocando a crítica social para o terreno da fé. A barbárie torna-se aceitável porque se disfarça de purificação. O resultado é uma sociedade que legitima a violência em nome da moralidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158491" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md.jpg" alt="" width="512" height="768" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" />A aproximação entre governo, forças de segurança e segmentos religiosos produz uma nova forma de hegemonia conservadora. Essa hegemonia não se baseia em consenso racional, mas em adesão afetiva. A fé e o medo constituem seus dois pilares: a fé oferece sentido num mundo sem horizonte; o medo garante obediência num mundo sem garantias. Essa combinação explica a relativa estabilidade do governo Castro, mesmo diante das repetidas chacinas e denúncias de corrupção. A violência não ameaça o poder; ela o consolida. A análise da Operação Contenção permite compreender também a relação entre o Estado fluminense e o Estado nacional. O embate entre Castro e o governo federal, em torno da ausência de pedido formal de GLO, expressa a tensão entre dois projetos distintos de gestão da crise. De um lado, a tentativa de recompor a normalidade institucional e reafirmar a autoridade civil; de outro, a consolidação de uma governabilidade baseada na exceção. O Rio de Janeiro opera como ponta avançada do segundo projeto. A retórica de isolamento — “estamos sozinhos nesta guerra” — cumpre papel político: apresenta o governo estadual como defensor da população abandonada por Brasília, reforçando sua legitimidade junto às classes médias e setores conservadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A militarização da política estadual também possui implicações federativas. A criação do “Consórcio da Paz”, reunindo governadores de diferentes regiões, indica a intenção de disseminar o modelo fluminense para outros estados. Sob o discurso de integração e cooperação, constrói-se uma rede interestadual de repressão, capaz de articular informações de inteligência, técnicas de vigilância e protocolos de uso da força. O Rio, assim, exporta sua experiência de guerra interna, transformando-a em padrão de governança. Essa difusão reforça o caráter nacional da tendência autoritária, demonstrando que a barbárie não é fenômeno localizado, mas expressão de uma racionalidade estatal em expansão. No plano teórico, a Operação Contenção revela o ponto de fusão entre neoliberalismo e militarismo. A lógica de mercado, que exige desregulamentação e redução de custos sociais, precisa da coerção para garantir a ordem. O Estado neoliberal, em sua fase tardia, torna-se simultaneamente mínimo na proteção e máximo na repressão. A austeridade e o autoritarismo não são contradições, mas complementos. O mesmo governo que reduz investimentos em saúde e educação amplia o orçamento da segurança. O mesmo Estado que prega responsabilidade fiscal financia o aparato militar. Essa é a economia política da violência.</p>
<p style="text-align: justify;">A figura de Cláudio Castro condensa esses processos. Sua combinação de religiosidade carismática, discurso moralista e pragmatismo administrativo oferece a síntese ideológica perfeita para o Estado em crise. A análise empírica das operações recentes mostra que a política de segurança pública do Rio não busca reduzir a criminalidade, mas produzir visibilidade política. Cada incursão é acompanhada de ampla cobertura midiática e de discursos oficiais que reforçam a imagem do governo como guardião da ordem. A morte torna-se performance de poder. O Estado demonstra sua autoridade através da destruição. Essa teatralização da repressão cumpre papel comunicativo fundamental: em tempos de descrença nas instituições, a violência é o único ato estatal que ainda produz efeito de realidade. O tiro substitui o argumento. O vínculo entre repressão e capital aparece também nas relações com empresas de mídia e com o setor de tecnologia. O governo investe em sistemas de câmeras, drones e softwares de reconhecimento facial, frequentemente contratados sem licitação e associados a grandes corporações transnacionais. Essas parcerias demonstram que a militarização do Estado se articula a um complexo econômico que envolve desde a indústria bélica até a economia de dados. A vigilância converte-se em novo campo de acumulação. O controle da informação, das imagens e das narrativas complementa o controle dos corpos.</p>
<p style="text-align: justify;">A Operação Contenção, ao escancarar o caráter estrutural da violência, revela também o esgotamento das formas tradicionais de oposição. A esquerda institucional, presa à lógica eleitoral e parlamentar, mostra-se incapaz de responder a um Estado que opera pela exceção. As organizações populares, por sua vez, enfrentam repressão crescente e dificuldades de mobilização. O resultado é o predomínio de uma racionalidade autoritária sem contrapeso efetivo. O consenso em torno da “segurança” atravessa classes e ideologias, demonstrando o sucesso do projeto conservador em redefinir o imaginário coletivo. Do ponto de vista histórico, a atual conjuntura repõe a velha aliança entre religião e força, típica dos períodos de transição e crise. A fé fornece legitimidade simbólica à violência, enquanto a violência garante materialidade à fé. Essa simbiose cria uma cultura política na qual a obediência é virtude e a dissidência, pecado. O Estado aparece como instrumento da vontade divina e o governante como intérprete autorizado dessa vontade. Cláudio Castro insere-se nessa tradição. Em conclusão, a relação entre Castro, as Forças Armadas e a Operação Contenção aponta para a consolidação de uma nova fase do conservadorismo brasileiro. Trata-se de uma forma de poder que não depende mais de rupturas institucionais explícitas, mas da administração contínua da exceção. O Rio de Janeiro cumpre, nesse processo, função exemplar: demonstra como o Estado burguês, diante da inviabilidade de um projeto de desenvolvimento, recorre à violência para manter sua autoridade. A fé e a repressão tornam-se, assim, instrumentos complementares de dominação. O governo de Cláudio Castro, ao militarizar a crise e espiritualizar a violência, oferece ao país uma síntese perversa de seu tempo histórico. A Operação Contenção não é apenas um episódio policial: é o retrato do Estado em sua forma contemporânea — um Estado que governa pela morte, moraliza a desigualdade e transforma a barbárie em método de gestão.</p>
<p><em>As obras que ilustram o artigo são de Maxwell Alexandre.</em></p>
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		<title>Coletivos influenciam meios digitais do MinC, obtendo privilégios</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Dec 2025 12:53:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[Redes de agentes externos obtiveram acesso privilegiado a sistemas digitais do Ministério da Cultura, tendo influência em recursos públicos para articulação política. Por Observatório da Cultura do Brasil]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Observatório da Cultura do Brasil</h3>
<p style="text-align: justify;">Análises realizadas a partir de auditorias de órgãos de controle como TCU (Tribunal de Contas da União) e CGU (Controladoria Geral da União), outros documentos públicos, reportagens, relatos de testemunhas e estudos, chegaram a uma apuração que remonta a um quadro que revela um rearranjo pouco usual na forma como o Ministério da Cultura (MinC) estruturou sua área de tecnologia nos últimos anos através de contratos e convênios ineficazes, sem economicidade e repassados sem licitação para aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo apuração jornalística que chegou a um <a class="urlextern" title="https://mega.nz/folder/B2EViIBK#rDRp-PsRgYiPqr5ZqHWgPw" href="https://mega.nz/folder/B2EViIBK#rDRp-PsRgYiPqr5ZqHWgPw" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">dossiê</a>, estes agentes políticos externos passaram a ter influência em informações estratégicas do Ministério da Cultura, tais como o banco de dados, o sistema de cadastro e prestação de contas, de consulta e transparência das informações, mapas digitais, sites e arquitetura de software digital da pasta (em conclusões do estudo do <a class="urlextern" title="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" href="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Observatório da Cultura do Brasil</a>, realizado em 2025).</p>
<p style="text-align: justify;">Auditorias da CGU sobre o MinC, referentes aos exercícios de <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/orUHmSxA#4lQ26SvI1Zw-oaNsuaQz-56HVWVIM2rrTd8le4cfGKw" href="https://mega.nz/file/orUHmSxA#4lQ26SvI1Zw-oaNsuaQz-56HVWVIM2rrTd8le4cfGKw" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">2015</a> (Relatório nº: 201601439) e <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/AnEwHB7Q#v3h1PQdYqq56u5maP43FYY39kTTg7qpcVW2BZriUDDI" href="https://mega.nz/file/AnEwHB7Q#v3h1PQdYqq56u5maP43FYY39kTTg7qpcVW2BZriUDDI" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">2016</a> (Certificado 201700874) trazem achados sobre convênios para prestação de serviços de Tecnologia da Informação (TI) na categoria Termos de Execução Descentralizada (TEDs) com universidades (UFPR, UFABC, UFPB e UFG), negociados entre 2008-2010, 2015-2016 (retomando em 2023). Os convênios firmados entre 2015 e 2016 somam um pacote de cerca de R$ 4,3 milhões para desenvolver serviços digitais e o (naquela época) novo site do CNPC &#8211; Conselho Nacional de Política Cultural, além de novos convênios assinados na atual gestão, com montantes em milhões, ainda em fase de apuração.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os principais problemas, segundo auditorias da CGU estavam o fato de que os projetos não tinham objetos claros nem planos de trabalho, não previam multas, careciam de controles, não havia estudo prévio de viabilidade, falta de critérios de economicidade, falta de sanções claras por descumprimento e com fragilidades de prestação de contas. Por fim, as auditorias apontam os resultados como “sem economicidade ou eficácia”. O ministério pagou caro por soluções que não entregaram o que prometiam, e ainda assim abriu portas sensíveis da sua infraestrutura para aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">A pasta desembolsou cerca de R$ 4,3 milhões nestes convênios por sistemas que apresentaram resultados limitados, ao mesmo tempo em que ampliou o acesso de atores externos a fluxos internos de informação. Quando se segue o rastro desses agentes, a partir do começo dos anos 2000, ficam tênues as fronteiras entre prestação de serviços, atividades de mobilização digital, articulação cultural, representação estadual do MinC, ativismo nas redes sociais, “consultoria técnica”, gestão de banco de dados e informações, militância política governamental, formulação de políticas culturais, captação de recursos de editais e atuação política, ou seja, atuando em todas as posições, numa confusão entre público e privado.</p>
<p style="text-align: justify;">A Rede Livre funciona como uma malha tecnológica que conecta iniciativas culturais, redes de comunicação e projetos de incidência social. Em depoimentos aos quais a reportagem teve acesso, seu coordenador descreve o grupo como uma “organização política”, ainda que sua apresentação pública seja a de uma plataforma de serviços digitais. Estranhamente, no site existem doações para sua construção, e até <a href="https://redelivre.org.br/produto/doe/" target="_blank" rel="noopener">campanhas coletivas para sustento do empreendimento</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Seu domínio (<a class="urlextern" title="http://redelivre.org.br/" href="http://redelivre.org.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">redelivre.org.br</a>) engloba diversas iniciativas, entre elas, o <a class="urlextern" title="https://labculturadigital.redelivre.org.br/" href="https://labculturadigital.redelivre.org.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">LAB Cultura Digital</a>, projeto que funciona dentro da própria<a class="urlextern" title="https://labculturadigital.redelivre.org.br/" href="https://labculturadigital.redelivre.org.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> Rede Livre</a>, agraciado por convênio TED na UFPR (conforme relatado na <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/orUHmSxA#4lQ26SvI1Zw-oaNsuaQz-56HVWVIM2rrTd8le4cfGKw" href="https://mega.nz/file/orUHmSxA#4lQ26SvI1Zw-oaNsuaQz-56HVWVIM2rrTd8le4cfGKw" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">auditoria nº 201601439 da CGU</a>), tendo a Rede Livre e o Lab Cultura Digital o mesmo coordenador, que hoje está à frente do <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/?srsltid=AfmBOoqYBcYTdcxiFxZ8KD_fyGaRtNatKtIccQMcunx-L2rJMFWSMEsE" href="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/?srsltid=AfmBOoqYBcYTdcxiFxZ8KD_fyGaRtNatKtIccQMcunx-L2rJMFWSMEsE" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Comitê de Cultura do Paraná</a>. Um percurso institucional que, no mínimo, suscita questionamentos sobre compatibilidade de funções e conflitos de interesses. Entre outras iniciativas conectadas ao domínio da Rede Livre no ambiente virtual (muitas iniciativas no mesmo endereço físico, no bairro Hugo Lange, em Curitiba), estão:</p>
<figure id="attachment_158389" aria-describedby="caption-attachment-158389" style="width: 911px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-158389" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2.png" alt="" width="911" height="670" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2.png 911w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-300x221.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-768x565.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-571x420.png 571w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-100x75.png 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-640x471.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-681x501.png 681w" sizes="auto, (max-width: 911px) 100vw, 911px" /><figcaption id="caption-attachment-158389" class="wp-caption-text">Ecossistema político que opera na Rede Livre (fonte: redelivre.org.br)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Há ainda registros na imprensa em reportagem publicada na <a class="urlextern" title="https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/estudo-revela-atuacao-de-grupos-de-interesses-em-verbas-de-cultura-3242892e.html?d=1" href="https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/estudo-revela-atuacao-de-grupos-de-interesses-em-verbas-de-cultura-3242892e.html?d=1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Folha de Londrina em 2023</a> com críticas envolvendo a Rede Livre, o Lab Cultura Digital (ambos questionados na matéria sobre problemas envolvendo a produção do site do CNPC) e o Soy Loco Por Ti, que “à luz da teoria política são reconhecidos aparelhos ideológicos”, conforme explica a reportagem. Outra reportagem, no <a class="urlextern" title="https://diplomatique.org.br/editais-de-cultura-no-parana-campo-de-influencia-na-capital-controla-o-estadual/" href="https://diplomatique.org.br/editais-de-cultura-no-parana-campo-de-influencia-na-capital-controla-o-estadual/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Le Monde Diplomatique Brasil em 2022</a>, confirma as conexões entre estes agrupamentos e coletivos. Enquanto uma reportagem do <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/" href="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Estadão em 2024</a>, cita o SoyLocoPorTi como ONG que coordena o<a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/?srsltid=AfmBOoqYBcYTdcxiFxZ8KD_fyGaRtNatKtIccQMcunx-L2rJMFWSMEsE" href="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/?srsltid=AfmBOoqYBcYTdcxiFxZ8KD_fyGaRtNatKtIccQMcunx-L2rJMFWSMEsE" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> Comitê de Cultura do Paraná</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentro desse ecossistema, estão inseridos os coletivos ou organizações que fazem parte do núcleo gestor da Rede Livre: Mutirão, Hacklab, SoyLocoPorTi, Mídia Ninja e Fora do Eixo. Este último, formado em 2005, teve grande atuação nas <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=5yjvo9RJ50U" href="https://www.youtube.com/watch?v=5yjvo9RJ50U" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">jornadas de junho de 2013</a>, quando lançou uma de sua rede de comunicação <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=kmvgDn-lpNQ" href="https://www.youtube.com/watch?v=kmvgDn-lpNQ" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mídia Ninja</a>, braço de jornalismo ativista midiático. O <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2014/05/95606/" href="https://passapalavra.info/2014/05/95606/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">FdE</a> já foi descrito pela grande imprensa como uma rede de coletivos de ativistas e produtores culturais que surgiu para articular a produção independente, conectando artistas, produtores e eventos. Conexão atenuada por meio de festivais (que captam recursos públicos de editais de cultura) ligados a uma de suas iniciativas, a <a class="urlextern" title="http://abrafin.redelivre.org.br/" href="http://abrafin.redelivre.org.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Abrafin &#8211; Associação Brasileira de Festivais Independentes</a>, que em seu site se apresenta com uma iniciativa com “o objetivo de dialogar com o poder público ações em favor do segmento de música ao vivo”.</p>
<figure id="attachment_158388" aria-describedby="caption-attachment-158388" style="width: 936px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-158388" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3.png" alt="" width="936" height="228" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3.png 936w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3-300x73.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3-768x187.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3-640x156.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3-681x166.png 681w" sizes="auto, (max-width: 936px) 100vw, 936px" /><figcaption id="caption-attachment-158388" class="wp-caption-text">Núcleo gestor da Rede Livre (fonte: redelivre.org.br)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">No entanto, uma série de polêmicas envolveu tanto o Fora do Eixo (vide <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2014/05/95606/" href="https://passapalavra.info/2014/05/95606/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Dossiê no Passa Palavra</a>) quanto a ABRAFIN, como por exemplo o não pagamento de cachês de artistas, mesmo em <a class="urlextern" title="https://screamyell.com.br/site/2010/04/13/carta-aos-musicos-e-artistas/" href="https://screamyell.com.br/site/2010/04/13/carta-aos-musicos-e-artistas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">festivais agraciados com recursos públicos em editais</a> (tema tratado na “carta aberta aos músicos e artistas”, publicada no site de música Scream &amp; Yell, 2010), <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/fora-do-eixo-a-seita-totalitaria-1-mais-uma-vitima-torna-publico-o-seu-depoimento-ou-a-diferenca-de-capile-digo-nao-me-sigam" href="https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/fora-do-eixo-a-seita-totalitaria-1-mais-uma-vitima-torna-publico-o-seu-depoimento-ou-a-diferenca-de-capile-digo-nao-me-sigam" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">acusações de “trabalho semalhente à escravidão”</a>, entre outros episódios que apontam indícios de utilização questionável de recursos públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses agrupamentos iniciaram sua inserção institucional junto ao poder público federal através do Ministério da Cultura, tendo mais atuação em 2015, segundo a Folha de São Paulo, apontando <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/01/1573759-grupo-fora-do-eixo-da-expediente-no-minc-antes-da-posse-de-novo-ministro.shtml?mobile" href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/01/1573759-grupo-fora-do-eixo-da-expediente-no-minc-antes-da-posse-de-novo-ministro.shtml?mobile" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">práticas do FdE dentro do Ministério da Cultura</a>, como dar expediente dentro do MinC (sem serem funcionários, nem terem qualquer vínculo formal). No ano seguinte, convênios na modalidade TED de TI foram firmados com universidades, permitindo que estruturas tecnológicas do MinC fossem executadas por laboratórios vinculados a integrantes dessas redes.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos convênios, firmado com a UFPR, tinha como objetivo a construção do <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/07/157057/" href="https://passapalavra.info/2025/07/157057/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">site do CNPC &#8211; Conselho Nacional de Política Cultural, em 2016, no valor de R$ 1,4 milhão</a>, sendo intermediado por um responsável técnico do Lab Cultura Digital (o mesmo da Rede Livre e do Comitê de Cultura do Paraná) que, segundo documentos, negociou aspectos do convênio como se integrasse o quadro do próprio Ministério, sendo ao final o próprio beneficiário dos recursos (algo vedado em leis de licitações). Quando um conselheiro levantou dúvidas sobre a condução do projeto, enfrentou constrangimentos, retaliações políticas e dificuldades para apresentar formalmente seus apontamentos na plenária do Conselho após manobra política dos comissionados no MinC (situação registrada no <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/pzswiKTD#07Vbv80YJKZunmGE-f5J0SIAzUEX38qI2S_3_FIi8VM" href="https://mega.nz/file/pzswiKTD#07Vbv80YJKZunmGE-f5J0SIAzUEX38qI2S_3_FIi8VM" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mandado de Segurança MS 22794</a> no STJ). Anos depois, as denúncias do conselheiro foram confirmadas pela auditorias da CGU e do TCU (que foram publicizadas neste ano de 2025 em estudo do Observatório da Cultura do Brasil sobre o MinC), que trouxeram achados sobre falhas estruturais nos TEDs de TI firmados com as universidades, apontados como “sem economicidade ou eficácia”. Em 2023, após denúncia do caso em reunião de conselheiros, o site do CNPC saiu do ar por um mês. Embora o ministério tenha atribuído o fato a ataque hacker, reportagens levantaram suspeita de possível apagamento de dados relacionadas ao convênio. Tempos depois, o site foi alienado, e o CNPC voltou a ter páginas dentro das estrutura gov.br.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso do Paraná, com base em informações obtidas, especula-se que há indícios de que parte dos recursos destinados ao convênio apoiou (financiou direta ou indiretamente) iniciativas políticas, como a <a class="urlextern" title="https://mega.nz/folder/Rn8U3AgT#oSHKZzEJUwyooNfv18zUgA" href="https://mega.nz/folder/Rn8U3AgT#oSHKZzEJUwyooNfv18zUgA" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">vinda do ex-presidente uruguaio José Mujica a Curitiba</a>, um evento chamado <a class="urlextern" title="https://mega.nz/folder/l31ASJwa#rdD8lk7xYM_L2ExUAdBMOA" href="https://mega.nz/folder/l31ASJwa#rdD8lk7xYM_L2ExUAdBMOA" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Circo da Democracia</a> (ambos em 2016, em que o nome do Lab Cultura Digital aparecia como realizador em materiais de divulgação) e uma <a class="urlextern" title="https://mega.nz/folder/I7khASJC#holQXprMilJF5z9qmjkgPg" href="https://mega.nz/folder/I7khASJC#holQXprMilJF5z9qmjkgPg" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">campanha de candidato a reitoria na UFPR</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo entre as gestões do governo federal de 2016 a 2022, as articulações dos agrupamentos continuaram avançando. Em 2020, durante a <a class="urlextern" title="https://redelivre.org.br/project/conferencia-popular-de-cultura/" href="https://redelivre.org.br/project/conferencia-popular-de-cultura/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Conferência Popular de Cultura</a>, declarações <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/live/MSooztZUBmw?si=uefoSYccm13drPCT&amp;t=4775" href="https://www.youtube.com/live/MSooztZUBmw?si=uefoSYccm13drPCT&amp;t=4775" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">proferidas pelo líder do Fora do Eixo</a>, Pablo Capilé, sugerem o uso estratégico de recursos da cultura, especialmente da LAB (que era assistencial e emergencial durante a pandemia de Covid-19), como combustível para a disputa eleitoral de 2022. O fato, que ocasiona um possível desvio de finalidade da verba emergencial (em todo Brasil, já que são centenas de coletivos espalhados que integram estas redes), tema que foi abordado em <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2022/11/146385/" href="https://passapalavra.info/2022/11/146385/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">matéria publicada no Passa Palavra</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">As conexões se adensam quando se observa a atuação dessas mesmas redes na aplicação da Lei Aldir Blanc (LAB, criada para socorrer trabalhadores da cultura durante a pandemia) no Paraná, descrita na série <a class="urlextern" title="https://diplomatique.org.br/especial/a-crise-da-cultura/" href="https://diplomatique.org.br/especial/a-crise-da-cultura/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“A Crise da Cultura”</a> no Le Monde Diplomatique Brasil com cobertura na imprensa. Núcleos ligados à Rede Livre como Rede Coragem (<a class="urlextern" title="http://coragem.redelivre.org.br" href="http://coragem.redelivre.org.br" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">coragem.redelivre.org.br</a>) e Fórum de Emergência Cultural (<a class="urlextern" title="http://observatorio.redelivre.org.br" href="http://observatorio.redelivre.org.br" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">observatorio.redelivre.org.br</a>), com sites hospedados na Rede Livre), participaram da formatação de editais em reuniões com órgãos públicos de cultura e, mais tarde, apareceram entre os principais premiados. Estudos mostram concentração expressiva de recursos em poucos proponentes, em grande parte localizados em bairros nobres de Curitiba, enquanto trabalhadores vulneráveis ficaram à margem do recebimento de recursos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2024, uma reportagem do Estadão revelou a existência do chamado <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/planalto-despacha-com-gabinete-da-ousadia-do-pt-para-pautar-redes-e-influenciadores-governistas/?srsltid=AfmBOormOKu0z_ioNDGFNONXquIczuNdTM9GOkSfdlOV_daHsFb35OIb" href="https://www.estadao.com.br/politica/planalto-despacha-com-gabinete-da-ousadia-do-pt-para-pautar-redes-e-influenciadores-governistas/?srsltid=AfmBOormOKu0z_ioNDGFNONXquIczuNdTM9GOkSfdlOV_daHsFb35OIb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“gabinete da ousadia”</a>, uma rede abstrata de grupos de influenciadores e coletivos digitais que atuam politicamente na comunicação em redes sociais em prol do governo. Fontes apontam que agentes atuaram em redes políticas anteriores (citados nesta reportagem) participaram dessas mediações de narrativas de guerra cultural e polarização política como exército digital, em ações descentralizadas de propaganda governamental nas mídias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo jornal noticiou contradições no programa de <a href="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/?srsltid=AfmBOoqYBcYTdcxiFxZ8KD_fyGaRtNatKtIccQMcunx-L2rJMFWSMEsE" target="_blank" rel="noopener">Comitês Estaduais de Cultura</a>, apontando que essas estruturas passaram a beneficiar organizações e coletivos com vínculos políticos com o partido do governo. No Amazonas, o Comitê de Cultura usado para as eleições de 2024, foi descredenciado pelo Minc. No Paraná, em caso ainda mais grave, o MinC não reagiu mesmo com as vinculações reveladas de que o comando do Comitê de Cultura do Paraná ficou com um de seus articuladores mais conhecidos, que coordenou a Rede Livre e o Lab Cultura Digital, sendo candidato nas eleições de 2024, utilizando comitê eleitoral que funcionava no mesmo endereço do comitê de cultura do MinC. Episódio que reforça o padrão de repetição dos mesmos atores e conexão com agrupamentos de apoio com agenda governamental</p>
<p style="text-align: justify;">O padrão que emerge ao se analisar auditorias, depoimentos e demais documentos é o de uma estrutura com elevado grau de integração interna e externa, ocasionando evidentes conflitos de interesses: convênios de TI alimentam laboratórios ligados a redes culturais; essas redes operam plataformas digitais do MinC; as plataformas influenciam a formulação de políticas públicas e editais; os editais financiam coletivos que participaram dessa mesma cadeia decisória; e esses coletivos, por fim, atuam na comunicação pública e política governamental em ambientes digitais.</p>
<figure id="attachment_158387" aria-describedby="caption-attachment-158387" style="width: 1774px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-158387" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4.jpg" alt="" width="1774" height="1774" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4.jpg 1774w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-1536x1536.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1774px) 100vw, 1774px" /><figcaption id="caption-attachment-158387" class="wp-caption-text">Grafo aponta conexões ator-rede entre lideranças, partidos políticos e beneficiados em editais do Paraná</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista legal, ainda faltam investigações conclusivas das autoridades competentes que carimbem esse arranjo como ilícito. Mas, sob a ótica da ética pública, da impessoalidade e do interesse coletivo, a pergunta se impõe: é aceitável que grupos que controlam sistemas, dados e fluxos digitais do Estado sejam, ao mesmo tempo, beneficiários recorrentes de verbas públicas, participem da formulação de políticas, operem campanhas e façam militância orgânico governamental e partidário de um projeto de poder?</p>
<p style="text-align: justify;">Quando um modelo de serviço de TI de um órgão público escolhido sem estudos prévios, sem sanções por descumprimentos e sem garantias de economicidade transfere recursos e informação estratégica a um ecossistema politicamente identificado, não estamos apenas diante de um problema técnico. Estamos diante da hipótese incômoda de um Estado hackeado por dentro. Não por inimigos externos, mas por aliados que aprenderam a usar a nuvem pública como extensão e subsistência de sua própria nuvem ativista.</p>
<p style="text-align: justify;">O dossiê completo e documentos da apuração podem ser <a class="urlextern" title="https://mega.nz/folder/B2EViIBK#rDRp-PsRgYiPqr5ZqHWgPw" href="https://mega.nz/folder/B2EViIBK#rDRp-PsRgYiPqr5ZqHWgPw" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">acessados neste link</a>.</p>
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		<title>Auto-enquete no cu do mundo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Nov 2025 16:42:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Ou eu descanso ou me divirto. Me tornei um animal deprimido... Por Um trabalhador de uma fábrica em Goiás]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Um trabalhador de uma fábrica em Goiás</h3>
<p style="text-align: justify;">Nesse clima quente, da sua área dentro da fábrica faz um calor que te esgotou e esgota, o ar condicionado é insuficiente e não há possibilidades de pausas necessárias para esfriar o corpo, você é um não garantido, não se sabe se suportará o trabalho de segunda a sábado (ou de domingo a domingo, sensação do trabalho noturno) por conta do calor extremo ou por conta da rotina que se repete, de pé, numa máquina, apertando botões, vigiando uma esteira, montando caixas, num fluxo ininterrupto, a combinação dos dois fatores te garante a fadiga…</p>
<p style="text-align: justify;">Problemas com o RH, uma constante; à noite não possui atendimento presencial, e eles buscam escapar do contato presencial com burocracias, abre-se um chamado, a demora em ser atendido, a resposta é insatisfatória, não se resolve o problema, é preciso repetir o procedimento, mais 48 horas de espera, o app não presta, a senha não acessa mais, e os dados estão corretos, mas essa merda não funciona, você quer saber quando receberá o seu adicional noturno, quando chegará seu cartão do vale alimentação, já está atrasado há quatro meses, observou que no seu contracheque veio faltando, mas não há faltas, a máquina de ponto está novamente com problema, é preciso bater o ponto duas vezes, uma na máquina e outra no aplicativo, mas os dois dão problema, a incerteza de ter seu ponto registrado, a demora em ter sua digital reconhecida no aparelho, e aplicativo que não funciona, reset várias vezes no mês para atualizar a senha no aplicativo, a maioria desiste do app…</p>
<p style="text-align: justify;">A comida é dada, tem que aceitar o que é dado, diz que pode reclamar, mas será que prejudicaremos os trabalhadores da cozinha? Numa cidade onde a principal fonte de trabalho é o setor de indústria, todos estão confinados dentro das fábricas, 8 horas sem contato com luz natural, 6 dias na semana, sob regras que às vezes não fazem sentido, sob um discurso que o culpa enquanto eles dizem fazer tudo por nossa segurança, eles têm medo dos processos trabalhistas e da fiscalização e transferem a culpa para os trabalhadores, é preciso estar o tempo todo atento, a máquina desregulada pode prensar seu dedo, um operador de máquina desorientado pelo calor pode bater o carrinho em alguém, trabalho na roda de hamster, repete-se a rotina atrás da recompensa do salário, assim que paga as contas, as dívidas continuam, é preciso continuar a trabalhar, sem qualificação, é preciso buscar uma formação para poder subir de vaga, puxar sacos, aguentar humilhação, menos um dia aproveitado para si, o lazer são momentos fugazes em que se sacrifica o descanso para se ter lazer. Há um dilema inédito: ou eu descanso ou me divirto, me tornei um animal deprimido…</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158056" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17.webp" alt="" width="1228" height="1637" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17.webp 1228w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-225x300.webp 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-768x1024.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-1152x1536.webp 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-315x420.webp 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-640x853.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-681x908.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1228px) 100vw, 1228px" />Mas eles oferecem petiscos, as migalhas da produção são jogadas nas mãos, são de presente, tudo aquilo que você produziu vira lucro e te dão de volta umas coisas que vocês fizeram, não é visto como um mínimo, você é convencido que recebeu uma dádiva, lá de cima olharam e jogaram alguns kits. Assim tu és convencido da bondade dos seus senhores… Mas a rotina se repete, transformados em polícia uns dos outros, vigiando a postura e relembrando das regras, vivendo regulado na rotina, mas ganhei alguns produtos, que eu não posso comprar com meu salário, produtos que eu ajudei a produzir, você participa em uma etapa do processo de produção, faz dez mil itens por dia, e tem de volta um copo que tu fabricou entre os milhares, eis a grande gentileza!!!</p>
<p style="text-align: justify;">Supervisionado, vigiado, governado, preso na rotina por um salário. O temporário não consegue entregar o atestado por conta do aplicativo que não funciona… a falta é descontada no contracheque, é preciso fazer a contestação, guardar provas de que se foi trabalhar, mas a máquina não funciona direito, está desregulada e não conseguiu ter acesso ao app, está dando problema…</p>
<p style="text-align: justify;">É por esse meio que eles evitam a dor de cabeça, terceirizando o trabalho de administração para o funcionário através dos dispositivos em sua mão, mas e se você estiver sem celular, sem internet, ou não sabe lidar com tecnologia e precisa de ajuda? Precisa contar com a ajuda e boa vontade dos outros, dos colegas de trabalho, dos filhos, do vizinho…</p>
<p style="text-align: justify;">Tenta contato humano, mas não há mais humanos no RH, cada vez mais sendo substituído por máquinas, quanto tempo mais até a sua função não ser mais necessária? Quando a máquina vai tomar o seu lugar? Precisa buscar qualificação, mas há tempo ou força pra estudar com qualidade? Recorre a EAD, curso técnico e tendo seu horizonte de superação limitado à promoção na fábrica, crescimento para a empresa, não para você, não tem mais tempo pra si.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida acabou, é necessário sobreviver. Não há vida mais, apenas uma escala 6×1!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram o artigo são de Jacques-André Boiffard (1902-1961)</em></p>
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		<title>Quatro anos da greve dos entregadores de São José dos Campos: Entrevista com Elisson de Lima (Cabeça).</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 27 Sep 2025 21:11:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Depois daquela paralisação de seis dias, houve uma paralisação esse ano. Depois daquela de seis dias foi muito difícil parar de novo. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 id="quatro_anos_da_greve_dos_entregadores_de_sao_jose_dos_campos_entrevista_com_lideranca" class="sectionedit9" style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<div class="level3" style="text-align: justify;">
<p>Em 11 de setembro de 2021 os motoboys que trabalhavam com aplicativo em São José dos Campos, São Paulo, iniciaram uma greve por tempo indeterminado. A paralisação durou seis dias e foi a mais longa da categoria no país até então. Foi um marco, pois as paralisações de motoboys não costumam ser por tempo indeterminado e em geral são de um ou dois dias. Essa greve inspirou que motoboys de outras cidades, principalmente do interior de São Paulo, iniciassem as suas também com tempo indeterminado nas semanas seguintes. Foram os casos de Jundiaí, que também durou seis dias, e de Paulínia, que resultou na greve mais longa da categoria até hoje: nove dias.</p>
<p>No início de 2020 os motoboys de São José dos Campos criaram um grupo de Whastapp chamado Buzinaço, para organizar manifestações em estabelecimentos em que algum motoboy reportava problema com pagamento ou de outro tipo. Essa experiência de ação coletiva foi importante para desencadear a greve de setembro de 2021.</p>
<p>Completando 4 anos daquela marcante greve em São José dos Campos, conversei sobre ela com Elisson de Lima, conhecido como Cabeça, que teve papel destacado na organização.</p>
<p><strong>Leo Vinicius</strong>: Eu vi que você comentou numa live no Youtube que aquela greve só tinha rolado porque “os motoboys acreditaram no pessoal que agitou a nossa greve”. Deu a entender que as pessoas que tomaram essa iniciativa já tinham um respaldo da categoria, eram uma referência pro pessoal ter confiança. Como foi construída essa referência? Eu sei que tem a história do grupo do Buzinaço. Foi só o Buzinaço ou teve algo para além do Buzinaço que fez ter respaldo da categoria?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157697" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-i-primavera-1994.jpgPinterestSmall.jpg" alt="" width="310" height="514" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-i-primavera-1994.jpgPinterestSmall.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-i-primavera-1994.jpgPinterestSmall-181x300.jpg 181w" sizes="auto, (max-width: 310px) 100vw, 310px" /></p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Eu acho que o que ajudou bastante [para] o pessoal pegar confiança foi o trabalho que faço em grupos de motoboys. A gente faz ação social. A gente vai na comunidade, entrega brinquedo, faz Natal solidário, dia de Páscoa, essas coisas. Depois tivemos problema com um estabelecimento aqui. Um amigo nosso teve uns problemas. Foi quando foi criado o grupo do Buzinaço. E depois do grupo do Buzinaço eu joguei esses negócios que estavam acontecendo, o pessoal reclamando, e como eu era OL, então… tipo assim, &#8216;se o cara que é OL tá reclamando, achando que tá ruim e vão parar, então vamos abraçar a causa&#8217;. Então acho que o que ajudou mais, além dessas coisas, foi devido na época eu ser OL, Operador Logístico. E puxar esse bonde aí, porque se eu não fosse Operador Logístico não sei se eu teria conseguido puxar tão forte assim não.</p>
<p><strong>Leo</strong>: O que a gente via nos Breques e nas paralisações é que era mais difícil os OLs pararem do que os Nuvens, porque OLs tem o supervisor e tal. E aí em São José dos Campos todo mundo fez a greve junto, participou, os Nuvens e os OLs. Mas a iniciativa foi dos OLs. Pra você, o que explicaria essa diferença em relação a SJC com os OLs? Que relação vocês tinham com os chefes, supervisores? Eu imagino que vocês deviam ter uma relação melhor com os chefes. Foi combinado com os chefes das OLs, com os supervisores, eles apoiarem de certa forma a greve?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Apoiar, apoiar eles não apoiaram. Porque querendo ou não mexeu no bolso deles. Mas eles respeitaram porque a gente sempre teve um bom diálogo. Nos três primeiros dias eles respeitaram muito a gente. Disseram &#8216;a gente vai respeitar, não vamos logar ninguém&#8217;. Quando chegou no quarto, no quinto dia aí começou a choradeira. Começaram a querer falar, &#8216;ah vamos precisar logar&#8217; e que não sei quê. Falei, beleza, se quiser logar os caras você loga, mas o seguinte, os caras não vão pegar pedido. Vieram com o &#8216;ah que eu to passando fome&#8217;. Dissemos que se tiver passando fome, qualquer coisa dá um toque, a gente dá um jeito de fazer um rateio, tá todo mundo quebrado aqui, mas num rateio a gente ajuda você aí&#8217;. Mas não logaram, não logaram. Até então. Mas isso foi na minha base. Na base da qual eu prestava serviço [havia quatro bases de OL em SJC]. A outra tinha um motoboy que estava com a gente, que também conseguiu travar. Outra logou os caras, só que os caras não conseguiram pegar pedido.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Então eles não apoiaram mas também não ficaram pressionando. Só depois que começou a pesar no bolso…</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Foi. Porque até então eles também tinham umas dores. Pra você ter uma ideia, quando o iFood na época veio através do Johnny [funcionário do iFood] pra vir falar comigo, os caras da base de OL pediram o contato com o cara. Porque eles não tinham contato com o iFood. Eles também abraçaram a causa no início por causa disso.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-157698" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-ii-estate-1994.jpgPinterestSmall.jpg" alt="" width="310" height="481" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-ii-estate-1994.jpgPinterestSmall.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-ii-estate-1994.jpgPinterestSmall-193x300.jpg 193w" sizes="auto, (max-width: 310px) 100vw, 310px" /></p>
<p><strong>Leo</strong>: Essa decisão de não trabalhar e continuar a greve, dentro das equipes era tomada só pelos motoboys, não era tomada pelo chefe da equipe, né? Ele não participava das decisões, certo?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Não, quem participava era só nós os motoboys. Acabava o dia, dava dez horas da noite, dez e meia que era a hora que fechava o shopping, a gente tinha um ponto específico pra se reunir. Era onze horas e ali a gente decidia entre nós, os motoboys. E aí o líder de base mandava mensagem pra gente perguntando, ou então chegava vídeo pra ele que a rapaziada gravava, e aí que ele ficava sabendo.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Por que os estabelecimentos apoiaram e de que forma eles apoiaram? Como eles foram convencidos a apoiar a greve e fechar o delivery? Já havia laços com os estabelecimentos antes?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: A gente tinha bastante contato com os estabelecimentos. Só que até então começou a ter muita discussão. Apoio, apoio de estabelecimento a gente não teve. Foi muito pouco estabelecimento. Depois do terceiro dia é que começou a dar uma crescida, de alguns estabelecimentos nos apoiarem. Porque a gente chegava lá, conversava com o dono no máximo respeito possível, &#8216;nós estamos aqui, fazendo a paralisação assim, assim, assado, se o senhor puder desligar o aplicativo de vocês desliga; se puder pegar pedido somente pelo Whatsapp qualquer coisa a gente arruma um motoboy pra fazer as entregas pra vocês, pra vocês não ficarem prejudicados&#8217;. [Eles diziam] &#8216;não não, a gente vai desligar&#8217;. Teve dois ou três estabelecimentos que acabaram aceitando, pegando motoboy pra fazer entrega. A fama de motoboy é aquela coisa, que motoboy é arruaceiro, quebra tudo, e acelera, empina… Essa é a fama do motoboy. E aqui na nossa cidade, devido ao Buzinaço… muitos estabelecimentos ficaram sabendo dos Buzinaços que estavam acontecendo, que a gente tava indo na porta dos estabelecimentos, que a gente tava indo cobrar os donos de estabelecimentos. Então creio eu que isso ajudou bastante para fazer eles desligarem. Até porque também no segundo ou no terceiro dia o iFood mesmo desligou a plataforma.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Teve estabelecimento que no final pressionou vocês pelo fim da greve? Ameaçou chamar polícia, esse tipo de coisa?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157699" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iii-autunno-1994.jpgPinterestSmall-179x300.jpg" alt="" width="281" height="471" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iii-autunno-1994.jpgPinterestSmall-179x300.jpg 179w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iii-autunno-1994.jpgPinterestSmall.jpg 210w" sizes="auto, (max-width: 281px) 100vw, 281px" /></p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Não, não. Teve alguns que chegaram a falar que se o iFood liberar a plataforma ia ter que ligar. Falamos que podiam ligar só que ninguém ia pegar pedido. Teve um estabelecimento sim que chegou a falar que ia chamar a polícia. Falou &#8216;vou ter que abrir o meu estabelecimento, vou ligar a plataforma, e o motoboy vai vir aqui retirar o pedido&#8217;. Aí falamos, &#8216;beleza, pode vir, mas se ele vier pegar o pedido a gente não vai deixar ele sair. Se ele tentar sair o prejudicado vai ser ele e o seu pedido&#8217;. [Ele respondeu} &#8216;eu vou chamar a polícia, vou colocar a polícia na porta&#8217;. [Respondemos que] &#8216;não tem problema pra nós, a gente pega ele na esquina ali, na rua de trás, isso é o de menos, fica tranquilo&#8217;. Foi só um mesmo que teve essa pressão. Teve dono de estabelecimento que chegou a ir nos pontos de paralisação que a gente tava. Os estabelecimentos estavam tentando entrar em contato com o iFood para o iFood entrar em conta com a gente, pra poder resolver essa situação.</p>
<p>Os estabelecimentos começaram a fazer isso porque eles começaram a ter problema com o iFood. Naquela época aqui, o iFood soltava muita promoção pra cliente. Então uma coquinha de 200ml saía por 50 centavos, 1 real. O cara ia na plataforma do iFood, pedia cinco, seis, sete. Estourava de entrega. Só que os estabelecimentos não tavam tendo os recursos de volta, não tavam recebendo. E na época também não tinha o código de coleta, o código pra pegar com o cliente. Então tinha muita gente que agia de má fé, e aí o pedido sumia… Então os estabelecimentos também estavam com problema com o iFood. Isso ajudou bastante.</p>
<p>Esse estabelecimento [que falou de chamar a polícia] fica próximo da [rodovia] Dutra e de uma base da Polícia Federal, e esses policiais vão muito lá. E vai Polícia Militar também, então ele se achou no direito de fazer isso. Só que não adiantou nada.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Os estabelecimentos então nem chegaram a pressionar os motoboys para o fim da greve?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-157700" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iv-inverno-1994.jpgPinterestSmall-181x300.jpg" alt="" width="381" height="633" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iv-inverno-1994.jpgPinterestSmall-181x300.jpg 181w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iv-inverno-1994.jpgPinterestSmall.jpg 210w" sizes="auto, (max-width: 381px) 100vw, 381px" /></p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Não, não, não [não chegaram a pressionar] O fim da greve só aconteceu mesmo devido a gente ter conseguido… Aqui em São José na época da greve existia uma promoção, só que essa promoção era limitada. Tipo num raio de 3 km, de um ponto da cidade. Então se você fosse pegar um pedido desse ponto da cidade e fosse entregar pra outro, lá tocava entrega mas não tocava promoção. Era promoção de 1,50 ou 2 reais, alguma coisa assim. E aí como a gente ficou seis dias parados, a negociação foi assim: &#8216;vocês soltam promoção pra gente, pra gente recuperar esses seis dias aí, durante o final de semana inteiro mas pra cidade inteira, qualquer parte da cidade&#8217;. E aí eles aceitaram esse acordo e aceitaram fazer uma reunião com a gente presencialmente.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Essa era uma questão que eu ia fazer. Quais foram os resultados da greve? Teve a reunião dia 28 de setembro de 2021. Saiu alguma coisa da reunião do dia 28?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Da reunião do dia 28 saiu a taxa mínima, o valor da taxa mínima. Só que só foi reajustado no ano seguinte.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Fizeram esse compromisso na reunião de ajustar a taxa mínima.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157701" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-primavera-1995.jpgPinterestSmall-179x300.jpg" alt="" width="379" height="633" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-primavera-1995.jpgPinterestSmall-179x300.jpg 179w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-primavera-1995.jpgPinterestSmall.jpg 210w" sizes="auto, (max-width: 379px) 100vw, 379px" /></p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Isso, fizeram esse compromisso com a gente. Depois teve o Fórum dos entregadores [Fórum organizado pelo iFood] no final do ano, que foi onde a gente pressionou também. Mas o reajuste foi só no ano seguinte que teve. Na época a gente tava brigando também… era a taxa mínima, o fim dos bloqueios indevidos, a promoção &#8211; a gente conseguiu a liberação da promoção pra cidade inteira &#8211; , e o código de coleta. Essas quatro foram coisas que a gente conseguiu conquistar. Não através dessa reunião especificamente. Essa reunião a gente conseguiu só o valor da taxa mínima. Esses outros pontos que falei a gente foi conseguindo depois, no decorrer. Lá no Fórum dos entregadores a gente conseguiu tudo isso daí. Só que também o iFood demorou. Demorou um ano pra soltar o reajuste. O código de coleta eles colocaram até rápido. O fim dos bloqueios demorou um pouco, mas conseguimos recuperar essas contas de pessoas bloqueadas indevidamente. Fizemos um acordo com o iFood e o iFood deu uma oportunidade de novo pra esse pessoal. E foi isso.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Essa questão dos bloqueios indevidos, como é que está isso hoje em dia? Melhorou bastante em relação ao iFood pelo menos, com o fato também de ter o código? Aqueles problemas que davam com os clientes, melhorou bastante ou continua mais ou menos…?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Melhorou. Melhorou muito isso daí. Melhorou demais, por causa do código de coleta. A gente tem um código de coleta que a gente passa pro estabelecimento e pegamos um código com o cliente, que é os quatro últimos números do telefone. Quando colocou esse negócio do código aqui em São José caiu de uns 90 pra uns 10%. Não vi mais os caras reclamando aqui em São José &#8216;ah minha conta foi bloqueada&#8217;. Teve um ou outro que teve a conta bloqueada, mas quando a gente descobriu foi porque o cara que fez coisa errada mesmo. Injustamente hoje em dia nem se ouve mais falar disso.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157695" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-estate-1995-1.jpgPinterestSmall-205x300.jpg" alt="" width="305" height="446" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-estate-1995-1.jpgPinterestSmall-205x300.jpg 205w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-estate-1995-1.jpgPinterestSmall.jpg 210w" sizes="auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px" /></p>
<p><strong>Leo</strong>: Ocorreram outras paralisações depois daquela aí em São José dos Campos?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Depois daquela paralisação de seis dias, houve uma paralisação esse ano. Depois daquela de seis dias foi muito difícil parar de novo. Porque o iFood liberou um monte de conta, não teve mais problema com bloqueio, essas coisas. E então a rapaziada pegou e ficou de boa: &#8216;tá de boa pra trabalhar, tá sossegado&#8217;. Agora nessa paralisação que teve foi de dois dias. Até porque muitas pessoas que participaram do breque de seis dias, a maioria não está mais trabalhando de motoboy. Muitos já saíram fora já. Porque foi na época de pandemia, logo depois da pandemia a greve, então tinha muita gente que era de fábrica, essas coisas, que tava rodando com a gente. Mas esse [Breque nacional] que teve agora do dia 31 de março ao dia 1º de abril, a gente conseguiu fazer tranquilo. Só que a gente tomou a decisão, todos nós… perguntei pro pessoal &#8216;ei pessoal vai fazer a greve de um dia, vai fazer a paralisação nacional ou a gente vai ficar mais dias?&#8217;. Teve uma porcentagem de pessoas que queria ficar mais dias. A gente fez uma votação e de 150 motoboys, 50 queria fazer mais dias e os outros 100 não. E como a gente sempre teve uma democracia, o que vale é o maior, o que der maior voto já era. E o que acontece, se eu levantasse a mão primeiro, eu ia puxar todo mundo. Aí pensei, &#8216;não, não vou levantar a minha mão, vou deixar o pessoal votar pra eu depois dar o meu voto&#8217;. Porque muita gente vai no embalo. Aí deu essa votação, 100 pessoas queriam participar do primeiro dia só. E foi bacana, pessoal respeitou bastante. Tivemos muita rapaziada nova, que tinha seis meses, um ano de iFood e já percebeu como o iFood tava arregaçando. E não duvido muito não se logo logo não vai ter uma paralisação também não. Porque esse aumento que o iFood deu de 1 real foi meio que uma enganação pro motoboy. Complicado. Mas, estamos esperando aí pra ver.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Greve em geral tem os seus limites por vários fatores, né? É grana que o pessoal deixa de ganhar, que imagino que tenha sido um fator para o término. Mas além disso teve alguns outros fatores? Claro, vai desgastando, o pessoal vai cansando… Quais fatores você elencaria como determinantes praquela greve ser encerrada no sexto dia?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Primeiro foi o que você falou, a questão financeira. Isso aí foi o que pegou bastante. Você tá sentado e você tá ali na base com o pessoal e você vê o pessoal com o semblante caído, preocupado porque tem algo pra pagar e tal. E o cansaço. O cansaço foi bem puxado. Porque no começo foi eu sozinho. Hoje aqui em São José eu não puxo sozinho um breque, porque hoje tenho outros aliados, que vieram comigo daquele primeiro breque [a greve de seis dias]. Mas no primeiro era tudo eu. O estabelecimento ligava, &#8216;ah, fala com o Cabeça&#8217;, &#8216;ah o iFood tá ligando, fala com o Cabeça&#8217;, &#8216;ah o motoboy tá com problema, fala com o Cabeça&#8217;. Era tudo eu, então era muita coisa pra pensar. Aí a mulher dentro de casa cobrando… Foi um negócio muito louco. Parar [a greve] foi uma decisão coletiva, não foi só minha não. A gente chegou no dia lá e falou &#8216;rapaziada, é o seguinte, o iFood entrou em contato, o iFood aceitou a nossa proposta de aumentar o valor da promoção e soltar pra cidade inteira&#8217;, porque na época era 1,50 se não me engano a promoção. E o iFood aumentou pra 3 reais a promoção. E aí o pessoal falou &#8216;ó Cabeça, a gente conseguiu o que a gente queria, a gente queria é um contato do iFood, a gente queria que o iFood desse uma atenção pra gente. A gente conseguiu uma coisa que várias capitais não tinham conseguido. O pessoal lá de São Paulo os motoboys tinham ido na porta do iFood e o iFood não deu atenção pros caras, e nós conseguimos um contato do iFood aqui. O cara falou com a gente e soltou. Então a gente cumpriu o nosso papel, vamos voltar&#8217;.</p>
<p>O cansaço falou muito alto. O estresse emocional foi cabuloso. Depois eu acho que fiquei uma semana sem falar em grupo de motoboy, sem falar com ninguém, porque foi bem puxado.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157694" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-autunno-1995.jpgPinterestSmall-205x300.jpg" alt="" width="305" height="447" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-autunno-1995.jpgPinterestSmall-205x300.jpg 205w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-autunno-1995.jpgPinterestSmall.jpg 210w" sizes="auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px" /></p>
<p><strong>Leo</strong>: No início de outubro daquele ano, algumas semanas após o fim da greve, foi criada a Associação aí de vocês, ou pelo menos no CNPJ, a Associação dos Motoboys do Vale do Paraíba e do Litoral Norte. Você participou da criação da Associação? E por que viram a necessidade ou acharam que era uma boa ideia criar a Associação?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Na época eu não participei da criação. Fui até convidado pra participar. O cara que criou a associação, ele tava junto comigo no Buzinaço. Era eu e ele. Mas quando foi na greve do iFood eu fui sozinho, ele não me acompanhou. Até porque ele trabalha de CLT também. Aí depois ele criou essa Associação. Hoje é que a galera aqui em São José tá começando a aceitar essa Associação. Porque entrei como vice-diretor dessa Associação nesse mês de maio agora. Quando eu entrei na Associação só tinha três associados. A Associação foi criada em 2021, mas a categoria não aceita o presidente. Porque, tipo assim, não é motoboy conhecido, motoboy visto. Ele é um cara que trabalha de CLT e faz uns bicos de moto. Então a rapaziada não aceitou. Agora que eu entrei como vice-diretor, puxei uns meninos que participaram comigo da greve, hoje a Associação tá com 89 pessoas. Graças a Deus. Já conseguimos dar uma erguida nela. E estamos devagar, mas hoje a gente entende que pra gente conseguir conquistar alguma coisa a gente precisa de uma Associação. Isso aí a gente vê pelos outros estados e cidades. Teve uma época logo depois da greve, no mesmo ano da greve, que o iFood ofereceu me ajudar a criar uma Associação aqui na minha cidade, me ofereceram uma base de OL e tudo. Mas não aceitei. Não aceitei porque achei que se eu aceitasse eu estaria me vendendo pra eles. Então eu procurei não aceitar isso daí. Que nem outros colegas meus que acabaram aceitando em outros estados, infelizmente. Hoje a gente entende que a gente precisa de uma Associação pra conquistar algo pra categoria. Hoje através dessa Associação a gente conseguiu aqueles bolsões em frente do semáforo pra moto. A gente conseguiu também a faixa azul [faixa exclusiva pra motos]. Já tem um ano que ela foi aprovada, só não colocaram ainda, estamos pressionando eles.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Ela serve para ser uma referência, na hora que tem que dialogar com o poder público, essas coisas, né?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Até o próprio iFood tinha falado pra gente que só ia conversar com a gente quando a gente tivesse uma Associação, que ele não conversaria mais diretamente com entregador.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Na greve de vocês, vocês conseguiram parar mesmo os estabelecimentos. Eu não sei se em Jundiaí e Paulínia eles tiveram essa mesma capacidade.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-157696" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-estate-1995.jpgPinterestSmall.jpg" alt="" width="310" height="443" /></p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Eles tiveram um êxito bastante bom. Se eu não me engano Paulínia teve apoio dos estabelecimentos. Os estabelecimentos apoiaram. Jundiaí eu sei que teve um probleminha, mas os caras conseguiram segurar. Mas sei que Paulínia foi, modo de dizer, um pouco mais fácil porque eles tiveram os estabelecimentos do lado.</p>
<p><strong>Leo</strong>: O que que você acha que fez essa diferença aí em São José dos Campos ou mesmo nessas cidades que você teve algum contato com o pessoal &#8211; Jundiaí, Paulínia &#8211; para conseguir fazer essa greve de seis dias? Qual o “segredo”? Porque na maioria das cidades já é difícil paralisar um dia, dois. Por que vocês acham que conseguiram fazer essa diferença aí?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Creio eu que o que fez a diferença da gente conseguir segurar bastante tempo essa greve foi justamente devido aos problemas que estavam tendo aqui na cidade. Questão de bloqueios, estabelecimentos maltratando o motoboy. Porque essa greve também foi pra gente poder dar um choque de realidade nos estabelecimentos, porque a gente tava tendo muito problema com estabelecimento aqui. Eles estavam maltratando a gente demais. Qualquer coisinha eles falavam que iam mandar pro iFood bloquear a conta. Aí o cara já ficava com medo. E tinha um estabelecimento aqui em São José, que o irmão da dona do estabelecimento trabalhava dentro do iFood, então teve muita conta boqueada devido a esse estabelecimento. E foi um dos estabelecimentos que a gente travou e travou mesmo. Inclusive eu fui lá pessoalmente nesse estabelecimento, porque eu falei pros caras: &#8216;eu não tenho medo de ser bloqueado, se eu for bloqueado eu boto os caras todos no pau&#8217;. Então isso serviu também. O porquê deu certo é porque todo mundo pensou a mesma coisa: &#8216;tamo fodido, fodido e meio, vamo embora, botar o pé na jaca&#8217;. Foi isso. Não tem um “por que” assim.</p>
<p>As outras cidades eu creio que tentaram fazer também uma greve longa porque, por São José dos</p>
</div>
<div class="level3" style="text-align: justify;">
<p>Campos ter sido a primeira cidade que fez a greve mais longa da história dos motoboys, foi a primeira cidade que conseguiu contato diretamente com o iFood e com a Associação das plataformas, que é a Amobitec. A Amobitec também entrou em contato comigo. Então a gente foi a primeira que conseguiu. Na cabeça dos caras foi &#8216;bom, se os caras conseguiram promoção pra cidade, pra gente conseguir também vamos ter que fazer a mesma coisa&#8217;. E o iFood entendeu isso e depois soltou a nota dizendo pro pessoal que não ia mais entrar em contato com ninguém, que ia criar um Fórum dos entregadores e isso e aquilo e tal, e aquela embromação…</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-157693 size-thumbnail alignleft" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/cy-twombly.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><em>As ilustrações reproduzem obras de Cy Twombly (1928-2011).</em></p>
<p>&nbsp;</p>
</div>
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		<title>A doença infantil do jornalismo brasileiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Sep 2025 20:32:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Sem uma investigação mais apurada e a contextualização dos fatos, pode-se divulgar facilmente duas mentiras – ou uma mentira e uma verdade, como se ambas fossem verdadeiras. Por Celso Vicenzi]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Celso Vicenzi</h3>
<p style="text-align: justify;">O jornalismo brasileiro tem sofrido de uma doença infantil, mas que também atinge veículos de idade avançada, que é, como alguém já definiu, o &#8220;doisladismo&#8221;. Apresentadores de telejornais, de programas de entrevistas, analistas políticos e até mesmo repórteres, têm dedicado boa parte de suas reportagens e análises a ouvir &#8220;os dois lados&#8221;. Como se apenas isto bastasse.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, jornalistas devem ser mais do que &#8220;gravadores de luxo&#8221;, que reproduzem o que quer que seja sem contextualizar, minimamente, a informação. Sem uma investigação mais apurada e a contextualização dos fatos, pode-se divulgar facilmente duas mentiras – ou uma mentira e uma verdade, como se ambas fossem verdadeiras. Cabe justamente ao jornalismo desnudar quem é quem no cipoal do &#8220;opinionismo&#8221; que trafega por todas as plataformas. E impedir que ideias abjetas circulem travestidas de liberdade de expressão. Há muitos riscos quando se empodera o fascismo, o nazismo e todos os &#8220;ismos&#8221; que podem comprometer a dignidade humana.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157639" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/2.jpg" alt="" width="426" height="486" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/2.jpg 526w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/2-263x300.jpg 263w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/2-368x420.jpg 368w" sizes="auto, (max-width: 426px) 100vw, 426px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É a síndrome do &#8220;jornalismo declaratório&#8221; que tomou conta dos espaços midiáticos e que diariamente junta, em várias plataformas, com o mesmo espaço ou tempo, democratas e defensores de regimes ditatoriais; milicianos com pacifistas; pastores estelionatários e religiosos abnegados às causas sociais; propagadores de fake news com pessoas éticas e responsáveis no trato da informação. E assim, ao fim e ao cabo, esse jornalismo que se nega a pensar e assumir responsabilidades civilizatórias, empodera as milícias e gangues políticas que tomaram de assalto a democracia brasileira e a ameaçam, interna e externamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta balança do &#8220;doisladismo&#8221; cabe tudo, sempre com aquele tom comportado de quem parece defender a ética, quando no fundo e no raso, propaga tão somente a tese capenga de que todos merecem o mesmo espaço midiático para debate. O jornalismo brasileiro teria colocado frente a frente, para debater o nazismo, Hitler e Churchill, por exemplo. Para debater direitos humanos, o torturador e o torturado; para debater ciência, o negacionista e o cientista; quem é contra ou a favor da ideia de que a Terra é plana&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que, até hoje, a mídia tem dificuldade de chamar de genocídio o que ocorre em Gaza, onde os ataques que matam mais de 80% de civis palestinos – principalmente mulheres e crianças – são ações de &#8220;defesa&#8221; de Israel.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157640" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/untitled-brown-and-gray.jpgPinterestSmall.jpg" alt="" width="390" height="550" /></p>
<p style="text-align: justify;">E é assim que se propagam pautas na imprensa como: quem é a favor ou contra arrochar ainda mais a população mais pobre (travestidas de eufemismos para que o público não a perceba claramente); quem é a favor ou contra taxar os super ricos; quem é a favor ou contra a liberdade de cátedra; quem é a favor ou contra a liberdade de expressão sem limites e que, portanto, permite a pedofilia, a exploração sexual, as fake news etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse emaranhado que embaralha milênios de construção da razão, da paz, da solidariedade e dos direitos humanos, o jornalismo torna-se refém do banditismo ideológico, que só porque usa terno e gravata e, às vezes, enganosamente tem bons modos, não deixa de ser o perigo que de fato é, e que, por ingenuidade ou má-fé, jornalistas e brasileiros de todas as profissões, alimentam o monstro disposto a destruir o que de melhor a civilização construiu para a convivência livre, justa e pacífica entre os seres humanos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157642 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/9ffd4a12-fb03-49a5-9e10-e66fe9b11792.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/9ffd4a12-fb03-49a5-9e10-e66fe9b11792.jpgPortrait-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/9ffd4a12-fb03-49a5-9e10-e66fe9b11792.jpgPortrait-350x350.jpg 350w" sizes="auto, (max-width: 70px) 100vw, 70px" /> As ilustrações reproduzem obras de Mark Rothko (1903-1970).</em></p>
<h3></h3>
<h3></h3>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/09/157635/feed/</wfw:commentRss>
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		<title>Itaú: relato de um demitido</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Sep 2025 01:32:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
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					<description><![CDATA[Mais de mil pessoas estão vivendo um dia de cada vez, com os rumos de vida completamente alterados do dia para a noite. Por bancário anônimo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por bancário anônimo</h3>
<p style="text-align: justify;">Na segunda-feira passada, dia 8 de setembro de 2025, o Itaú Unibanco realizou no Brasil uma demissão em massa de mais de mil funcionários que estavam no regime de trabalho híbrido ou remoto, alegando quebra de confiança por terem registro de ponto incompatível com as jornadas de home office. O banco diz que os funcionários ficavam inativos do computador por longos períodos de tempo durante os 6 meses em que o monitoramento foi realizado, utilizando um programa “espião” de gestão do trabalho que contabiliza cliques na tela, alternância entre abas, dígitos, conversas e reuniões. Essa talvez tenha sido a maior demissão em massa do sistema bancário brasileiro em um só dia, junto da demissão de mais de<a class="urlextern" title="https://www.agravo.com.br/2012/12/05/sem-aviso-previo-santander-demite-mais-de-mil-funcionarios-em-todo-brasil/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.agravo.com.br/2012/12/05/sem-aviso-previo-santander-demite-mais-de-mil-funcionarios-em-todo-brasil/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> mil funcionários no Santander</a> em dezembro de 2012.</p>
<p style="text-align: justify;">O tema tem repercutido bastante na última semana, com diversas reportagens, publicações com relatos pessoais em redes sociais, vídeos de youtubers com reflexões sobre essa medida e o impacto no mercado de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Venho relatar o meu caso pessoal com algumas reflexões sobre a dinâmica de trabalho no banco. Não poderei me aprofundar em detalhes do meu trabalho para dificultar a identificação.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Trajetória</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Fui funcionário por três anos, começando como estagiário de análise de dados em uma área bem dinâmica ligada a clientes pessoa física. O interesse em entrar na empresa, enquanto estudante de ciências exatas, foi pela fama de ter no mercado os melhores benefícios, estabilidade e bom “clima” organizacional comparado aos bancos pares. Ao entrar, fui bem recebido pela equipe, que tinha média de idade parecida, além da maioria ser egresso de faculdades públicas. Usávamos a “metodologia ágil” pelo método Kanban, que é um sistema de acompanhamento de atividades intenso, em que todos os dias mostrávamos as atividades despriorizadas, as em andamento e as por fazer. Nosso trabalho consistia em análise de grande quantidade de dados financeiros de virtualmente todos os brasileiros, monitorando indicadores como inadimplência, comprometimento de renda, problemas com impeditivos e traçando estratégias para rentabilizar mais o negócio.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-157607 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0016.jpg" alt="" width="449" height="358" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0016.jpg 449w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0016-300x239.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 449px) 100vw, 449px" />A dinâmica da equipe propiciou que a relação entre meus colegas se fortalecesse. Logo descobri que vários também eram de esquerda, tinham críticas ao banco e aos seus valores propagados pela área de endomarketing &#8212; que usa termos como “Itubers” e “CredLovers” para se referir aos funcionários, algo que sempre ironizamos. Em 2022, estávamos todos em home office por consequência da pandemia. No segundo semestre de 2023 foi anunciada a implementação gradual do modelo híbrido, em que teríamos que trabalhar 2 dias semanais no escritório em São Paulo a partir de 2024. Isso gerou bastante revolta entre os funcionários do banco, pois muitos teriam que se mudar de cidade para frequentar o escritório ou começar a fazer longas viagens. A medida foi encarada como um retrocesso, mas ainda assim o banco estava à frente dos seus pares em termos de benefícios, então a indignação foi acompanhada por certa resignação.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao conhecer melhor meus colegas nos dias de trabalho presencial, ficaram ainda mais claras nossas afinidades. Boa parte desses dias de escritório eram de conversas aleatórias, que poderiam variar de gostos pessoais até temas espinhosos como política. Via o hábito de trabalho de meus colegas de cargos superiores, que tinham um método consolidado de “enrolação” de atividades. Nesse período criamos um grupo sem chefes no WhatsApp.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o passar do tempo, a minha relação com a gestão foi se deteriorando um pouco, pois o período máximo de 2 anos de estágio estava se encerrando e não havia sinalização de que seria efetivado como CLT. Decorrente disso e de alguns atritos ligados ao microgerenciamento &#8212; já me foi chamada a atenção até por “não sorrir” numa reunião &#8212; organizei com meus colegas uma espécie de boicote. O banco tem uma métrica de avaliação de satisfação dos funcionários chamada eNPS (Employee Net Promoter Score), que impacta os bônus recebidos pelos gestores diretos. Escolhemos dar em conjunto avaliações baixas nesse questionário como forma de crítica ao retorno do trabalho presencial, ao isolamento da área em relação à visibilidade no trabalho, à hipocrisia dos valores do banco e falta de perspectivas de carreira. Foi uma das possibilidades que tínhamos para “causar”. O resultado foi que ficamos com a nota mais baixa de nossa Comunidade (mais de 400 funcionários), nossa gerente se viu obrigada a se mudar rapidamente para não sofrer represálias e a nossa equipe foi desmembrada em equipes separadas, gerando uma reestruturação interna.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar disso, continuamos em contato pelo nosso grupo, que começou a funcionar como uma “rádio peão”, compartilhando fofocas, desabafos e novidades de nossas áreas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pouco depois desses eventos recebi uma proposta para atuar como efetivo CLT em uma outra área do banco ligada às finanças, entrando em contato com o sistema de orçamento e questões regulatórias. A dinâmica nessa nova área era muito diferente da equipe anterior, com uma equipe bem mais enxuta e um ritmo de trabalho bem menos intenso. A equipe tinha problemas para contratar profissionais com meu perfil técnico e trabalhava um tema e processo muito específico, que dificilmente alguém aprenderia a fazer estudando apenas a teoria. Dado isso, meu gestor tinha um perfil muito mais “relaxado”, dando prazos de dias ou semanas para realização de algumas atividades, sem realizar comunicação tempestiva comigo e com meus pares, nos dando um voto de confiança para realizar o trabalho e resolver os “B.O.s” que eventualmente surgissem. Não era uma equipe com muita visibilidade e não havia grandes projetos ou perspectivas de crescimento acelerado, então o clima mais flexível era informalmente uma moeda de troca, gerando piadas inclusive do gestor sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Após o ciclo anual de 2024, recebi uma avaliação positiva do meu trabalho pelos meus pares e pelo gestor, que disse que me considerava um membro importante da equipe e sugeriu que continuasse no caminho que estava seguindo. Pessoalmente, estava com desejo de migrar de área para uma com um escopo mais interessante e outras perspectivas de carreira. Entretanto, me sentia confortável na equipe e planejava fazer essa mudança no médio prazo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157608" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0015.jpg" alt="" width="431" height="270" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0015.jpg 431w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0015-300x188.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 431px) 100vw, 431px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Reflexões sobre as demissões</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">As coisas transcorriam normalmente até que fui surpreendido com a notícia do meu desligamento no dia 8 de setembro, pouco mais de um ano como CLT. Eram 10h e meu gestor me chamou para uma videochamada. Disse que a notícia era ruim, que foi avisado no final de semana que havia um registro incompatível de meu tempo de tela e meu ponto eletrônico, e que por isso eu seria desligado. Disse também que não deram detalhes das situações envolvidas, mas que ele “entendia os dois lados”. O irônico é que meu chefe já comentou que enquanto coordenador foi para Balneário Camboriú para “trabalhar” (com olhar irônico) durante sua despedida de solteiro, e mandava mensagens do tipo “sexta-feira, 15h: quem fez, fez…” brincando num grupo do Teams. A rescisão foi sem justa causa e eu não precisaria trabalhar o restante do mês, recebendo minhas verbas rescisórias integralmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Abandonei imediatamente os projetos que estava envolvido e as outras três pessoas da equipe teriam que se virar para assumir o que eu fazia e cumprir uma meta de eficiência irrealista que a superintendência havia definido para nós. Após cerca de 1 hora, percebi que meu caso não havia sido individual, e começaram a pipocar nos grupos os relatos de pessoas demitidas e que receberam apontamentos (registro negativo) sobre a falta de tempo de tela no home office. A repercussão começou a ser crítica à decisão do banco, que sem nunca ter anunciado um critério claro de tempo de tela irregular, soltou uma nota dizendo que a decisão foi por sua “ética inegociável”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em termos práticos, foi uma jogada inteligente. Eles avaliaram que necessitavam realizar um corte de pessoas, e inclusive sinalizaram isso diversas vezes em reuniões de diretoria. Nelas, já ouvi de executivos coisas como “a IA não vai roubar seu emprego, mas alguém que sabe usar IA vai roubar”, “nossa despesa com pessoal pode diminuir” e elogios ao Santander por ter uma política eficiente de redução de custos. Depois, precisavam de um critério e uma justificativa “ética” para tal decisão, lembrando bastante outras demissões menores que fizeram em anos recentes, como a demissão por<a class="urlextern" title="https://noticias.r7.com/economia/fraude-no-uso-do-plano-de-saude-leva-itau-a-demitir-80-funcionarios-24032023/#:~:text=Segundo%20o%20banco%2C%20os%20trabalhadores,uso%20dos%20planos%20de%20saúde." href="https://noticias.r7.com/economia/fraude-no-uso-do-plano-de-saude-leva-itau-a-demitir-80-funcionarios-24032023/#:~:text=Segundo%20o%20banco%2C%20os%20trabalhadores,uso%20dos%20planos%20de%20saúde." target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> fraudes no plano de saúde</a>, por inconsistência de geolocalização no ponto eletrônico e até política de outras empresas como a Meta, que realizou um layoff no fim de 2024 sob a justificativa de<a class="urlextern" title="https://forbes.com.br/carreira/2024/10/meta-demite-funcionarios-por-mau-uso-de-vale-refeicao/" href="https://forbes.com.br/carreira/2024/10/meta-demite-funcionarios-por-mau-uso-de-vale-refeicao/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> “fraudes no vale refeição”</a>. Ao fazer isso, também tenta criar a ideia na cabeça das pessoas que ficaram de que “é só fazer a coisa certa que não serei atingido”. Houve um comunicado interno do banco justificando a decisão e os gestores diretos se esforçaram para melhorar o clima nos dias após o ocorrido.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém, o ponto fraco da estratégia e que forma uma grande fissura na narrativa foi o método usado: a demissão em massa, indiscriminada, num só dia. Vários dos relatos indicam que boa parte dos funcionários tinham boas avaliações, foram recém promovidos ou ganharam prêmios por desempenho recentemente. Indicam também que muitas pessoas com deficiência foram afetadas, algumas com problemas de mobilidade e paralisia, como pude testemunhar num depoimento. Por que o Itaú se recusou a realizar um diálogo anteriormente?</p>
<p style="text-align: justify;">Por trás da decisão “ética” está a “eficiência”, o “fazer mais com menos”. Agora a intensidade do trabalho tende a aumentar para quem ficou, que pode se encontrar num estado de alerta paranoico sobre seus próprios movimentos no computador, sem conseguir se sentir seguro mesmo com boas avaliações da gestão direta. Para a surpresa de ninguém, descobri que minha vaga não será reposta.</p>
<p style="text-align: justify;">E no tema da produtividade, essa decisão representa um novo pacto no teletrabalho, com possíveis repercussões no mercado. Ela é a repressão de uma das supostas facetas do home office: uma maior autonomia do trabalhador sobre a forma de se trabalhar, que pode propiciar um efetivo menor tempo de trabalho. Não se estará mais a mensurar apenas as entregas como produção, mas o quanto você investe de energia vital na sua máquina as 8 ou 10 horas de trabalho diário que você realiza. No fundo se trata da contínua luta entre capital e tempo de vida, que tem tido diferentes repercussões a<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/10/140751/" href="https://passapalavra.info/2021/10/140751/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> nível mundial nos últimos tempos</a>, com as lutas pela<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/11/155259/" href="https://passapalavra.info/2024/11/155259/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> diminuição do tempo de trabalho tomando cena</a>. Foram publicados alguns relatos de demitidos no fórum brasileiro<a class="urlextern" title="https://www.reddit.com/r/antitrampo/" href="https://www.reddit.com/r/antitrampo/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> r/antitrampo</a>, no Reddit, que é a versão brasileira do fórum norte americano <a class="urlextern" title="https://www.reddit.com/r/antiwork/" href="https://www.reddit.com/r/antiwork/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">r/antiwork</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente o sindicato não tem tentado desenvolver esse potencial no atual contexto do Itaú, realizando falas e ações protocolares, mais visando a projeção de sua direção do que as vozes dos trabalhadores. Até o momento as únicas propostas são uma ação judicial pela readmissão dos demitidos, sob a alegação de que uma demissão massiva deveria ser discutida com o sindicato antes e outra ação de danos morais coletivos contra o banco por ter justificado as demissões por quebra de confiança e abstencionismo. Na reunião online que fizeram 11/09 disseram para quem tivesse dúvidas “favor procurar atendimento individual junto ao sindicato”.</p>
<figure id="attachment_157606" aria-describedby="caption-attachment-157606" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-157606" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0017.jpg" alt="" width="800" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0017.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0017-300x188.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0017-768x480.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0017-672x420.jpg 672w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0017-640x400.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0017-681x426.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><figcaption id="caption-attachment-157606" class="wp-caption-text">Paralisação do sindicato 17/09/2025</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">No dia de hoje, 17/09, o sindicato realizou um bloqueio no CEIC (Centro Empresarial Itaú Conceição), o maior escritório do banco em São Paulo. Entendo como uma radicalização que responde à uma demanda dos trabalhadores em realizar denúncias, buscar auxílio jurídico e pedir ações de reparação. Porém, poderiam fazer reuniões mais abertas para chamar os atingidos para apoiar esse protesto de alguma forma.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a repressão a uma forma individual de luta dos trabalhadores &#8212; a diminuição da intensidade e duração do trabalho &#8212; leva-os a buscar formas mais coletivas e explícitas de enfrentamento. Em certo sentido é surpreendente o crescente número de relatos dos atingidos em sites como o LinkedIn, tendo coragem de levar o ocorrido a público, criticar a empresa e se defender. Talvez seja a oportunidade de ligar essa indignação com as realidades das agências físicas e digitais, que são a linha de frente do banco, onde a pressão por metas faz com que os bancários tenham que empurrar produtos desnecessários ou enganar clientes para atingi-las. Um ex-trabalhador do banco demitido de agência criou uma página de relatos anônimos chamada <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/vozesbancarias?igsh=aTB2Y2ZyeDlna2o5" href="https://www.instagram.com/vozesbancarias?igsh=aTB2Y2ZyeDlna2o5" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">@vozesbancarias</a> há pouco tempo, tendo algumas publicações que dialogam com a situação das demissões em massa.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, a própria resistência individual muda de forma: agora os colegas de banco já comentam: “não copio mais nenhum código, dígito tudo!”, “vale a pena ressuscitar os processos manuais, acabou o estímulo para a automatização”. Novas artimanhas são criadas para simular produtividade e evitar represálias.</p>
<p style="text-align: justify;">Os problemas dos trabalhadores no setor bancário e de tecnologia tendem a ser canalizados para vias individuais de solução: busca de novos empregos e cargos que paguem mais, qualificações e certificações constantes. No limite do enfrentamento, vem as vias judiciais. A maioria dos trabalhadores que trabalham mais de 6 horas para bancos podem realizar o processo trabalhista pela 7° e 8° hora, sob a pena de ficarem na lista negra das instituições financeiras em caso de vitória. Geralmente alguém faz isso quando está decidido a sair do setor bancário.</p>
<p style="text-align: justify;">O momento atual propiciou uma oportunidade para imaginar ações além disso. Vêm, contudo, as questões: terão os trabalhadores disposição e coragem para romper o controle do sindicato e se organizar de forma direta por um objetivo de reparação, denúncia ou até reintegração? Os trabalhadores que ficaram tendem a participar nesse processo de denúncia ou ficarão acuados, mais pressionados pela mudança de contexto e absorvendo o discurso do banco que tem como consequência um esquecimento conveniente da situação?</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de mil pessoas estão vivendo um dia de cada vez, com os rumos de vida completamente alterados do dia para a noite. É nesse dia-a-dia que as respostas vão sendo construídas. A indignação é forte e pede uma resposta à altura.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157605" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018.jpg" alt="" width="1280" height="960" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/IMG-20250917-WA0018-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" /></p>
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		<title>O que a greve dos caminhoneiros de 2018 nos diz</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Sep 2025 11:30:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
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					<description><![CDATA[O fator mais importante do que as variáveis econômicas e político-institucionais  é relação com a ação coletiva dos trabalhadores. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<p style="text-align: justify;">A greve nacional dos caminhoneiros em 2018 durou onze dias, e com mais de 750 bloqueios de estradas, teve um impacto imenso na economia do Brasil. Estima-se que reduziu 0,2% do PIB e tenha causado perdas de 75 a 100 bilhões de reais. No entanto, essa impressionante demonstração de força e de imenso potencial de barganha resultante da posição estratégica dos caminhoneiros no fluxo da produção e circulação de mercadorias, não se reverteu e não tem se revertido em condições de trabalho e remuneração. As demandas, que giravam em torno do preço do diesel e do preço dos fretes, foram atendidas de forma pouco efetiva. A redução do preço do diesel durou apenas seis meses e, apesar de uma tabela de frete mínimo ter virado lei, ela sofreu suspensões judiciais e hoje depende de vontade e capacidade do governo da vez de fiscalizar e usar seu poder coercitivo para que a tabela tenha efeito real.</p>
<p style="text-align: justify;">Jörg Nowak escreveu um artigo enquanto a tabela do frete estava suspensa judicialmente &#8211; publicado em 2022 &#8211; em que argumenta, com base no exemplo dessa greve e de seus resultados, que o poder estrutural ou estratégico de uma categoria de trabalhadores não é explicativo ou preditivo, ou não suficientemente explicativo ou preditivo, das conquistas materiais dessa categoria <strong>[1]</strong>. Poder estrutural ou poder estratégico entendido como o poder de um grupo ou categoria de trabalhadores de paralisar o processo ou fluxo produtivo devido a sua posição nesse processo ou fluxo. Nowak tenta mostrar que uma análise da economia política envolvendo o setor é necessária para explicar o pouco resultado daquela greve dos caminhoneiros.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157575" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26.jpeg" alt="" width="1280" height="960" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26.jpeg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26-300x225.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26-1024x768.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26-768x576.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26-560x420.jpeg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26-80x60.jpeg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26-100x75.jpeg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26-180x135.jpeg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26-238x178.jpeg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26-640x480.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2018-05-23-at-08.46.26-681x511.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />Certamente o nível de conquistas de uma categoria de trabalhadores é determinado por uma equação complexa, cujas variáveis não são apenas a dimensão da ação coletiva e a posição estratégica ou não dessa categoria no fluxo de produção e circulação (o poder de barganha de local de trabalho). Há uma série de variáveis que se reportam a contextos institucionais, econômicos, culturais, políticos, tanto setoriais quanto locais e globais. Nowak tem sem dúvida o mérito de apresentar algumas dessas variáveis e contextos explicativos, deixando claro que conseguir um impacto econômico significativo com a ação coletiva não é condição suficiente para conquistas efetivas. Porém, trago aqui a hipótese de que um fator mais importante do que as variáveis econômicas e político-institucionais apresentadas por Nowak para o fraco resultado daquela greve dos caminhoneiros, tem relação sim com a ação coletiva dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Peguemos o conceito de <em>capacidade de gerar disposição de agir</em>, de Claus Offe e Helmut Wiesenthal. No modelo deles, uma organização dos trabalhadores exerce poder através da capacidade de gerar disposição de agir de seus membros <strong>[2]</strong>. Geralmente esse poder se exerce na forma de sanção ao capital por meio da paralisação da produção. Para os objetivos de Offe e Wiesenthal, não era necessário pensar essa capacidade de gerar disposição de agir ao longo do tempo. Porém, na prática a questão que se coloca é que a capacidade de gerar disposição de agir varia no tempo. Disposição de agir por quanto tempo? Em quais intervalos de tempo? Em termos matemáticos, para calcular o poder dessa organização ou categoria de trabalhadores seria necessário calcular a integral da capacidade de gerar disposição de agir num intervalo de tempo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157573" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/greve-SO-Ajus-1080x675-1.png" alt="" width="1080" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/greve-SO-Ajus-1080x675-1.png 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/greve-SO-Ajus-1080x675-1-300x188.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/greve-SO-Ajus-1080x675-1-1024x640.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/greve-SO-Ajus-1080x675-1-768x480.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/greve-SO-Ajus-1080x675-1-672x420.png 672w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/greve-SO-Ajus-1080x675-1-640x400.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/greve-SO-Ajus-1080x675-1-681x426.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" />O que a greve dos caminhoneiros de 2018 e seus resultados talvez nos apontem, é que a capacidade de efetivar mobilização disruptiva da produção quando se quer ou quando se acha necessário &#8211; ou pelo menos a capacidade de fazer o adversário achar que a categoria possui esse poder de paralisar com certa frequência &#8211; , é mais importante do que uma mobilização gigantesca e com ares de revolta. Na medida que os patrões e o Estado não acreditam que ela possa ser desencadeada novamente por organização da categoria, o potencial de reverter em ganhos para a categoria se mantém relativamente reduzido, mesmo que tenha causado bilhões em prejuízo. Um caso que também fortalece essa hipótese é o do pior lançamento de ações na bolsa de valores da história do Reino Unido, no qual estima-se que a Deliveroo tenha deixado de capitalizar cerca de 2 bilhões de libras, resultado de uma campanha sindical. Apesar dessa desastrosa capitalização, isso não reverteu diretamente e nem proporcionalmente em conquistas para os entregadores. Pode-se supor que acabou sendo mais uma em um somatório de ações dos entregadores, uma vez que essa “perda” de 2 bilhões não poderia ocorrer uma segunda vez.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa dimensão temporal, de continuidade ou frequência da ação coletiva, é determinante do poder dos trabalhadores e dos resultados obtidos. Em última análise, é a percepção por parte do Estado e dos patrões da capacidade da organização dos trabalhadores de gerar disposição de agir ao longo do tempo, que irá predispô-los a concessões. Podemos supor que essa percepção é influenciada não apenas pela disposição de agir da categoria de trabalhadores em questão, mas também pelo estado de força da classe trabalhadora como um todo na sociedade. Períodos históricos de ascensão das lutas e da hegemonia da classe trabalhadora na sociedade tendem a forjar um contexto social e político em que as reivindicações dos trabalhadores são melhor aceitas e incorporadas às estratégias de aumento da produtividade e de crescimento econômico.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, a hipótese aqui exposta, portanto, é que a capacidade de gerar disposição de agir de uma ou de várias organizações de trabalhadores, <em>quando se deseja ou se considera necessário</em>, é tão ou mais importante do que a dimensão do prejuízo de uma mobilização pontual aos patrões ou à economia.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Nowak, J. (2022). Do choke points provide workers in logistics with power? A critique of the power resources approach in light of the 2018 truckers&#8217; strike in Brazil, <em>Review of International Political Economy</em>, 29:5, 1675-1697, DOI: 10.1080/09692290.2021.1931940</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Offe, C. &amp; Wiesenthal, H. (1984). Duas lógicas de ação coletiva: anotações teóricas sobre classe social e forma organizacional. In: Offe, C. (1984). Problemas Estruturais do Estado Capitalista. (pp. 56-118). Tempo Brasileiro.</p>
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