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	<title>Brasil &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Dez anos de uma quase-organização: entrevista com o Grupão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 14:23:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas. Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão</h3>
<p style="text-align: justify;">Após viagens ao Brasil entre 2024 e 2025, companheiros da editora militante chilena Pensamiento y Batalla (PyB) organizaram um livro reunindo entrevistas a coletivos com os quais tiveram contato, compondo um panorama de perspectivas e trajetórias diversas na militância anticapitalista e antiestatal em várias partes do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os grupos entrevistados, está o nosso: uma rede mais ou menos informal de camaradas que, desde 2016, se reúne duas ou mais vezes por ano para discutir teoria e prática da luta de classes. Sem a pretensão de criar uma cara pública, chamamos essas reuniões entre nós simplesmente de “Grupão”. Foi a forma que encontramos para que camaradas que se aproximaram no intenso período em torno de 2013 continuassem em contato: uma auto-organização de “resíduos” das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Grupão foi um espaço de reflexão sobre nossas derrotas, tanto da incorporação à ordem das organizações produzidas no ciclo dos anos 1970-80, quanto dos limites das revoltas deste século. Ao mesmo tempo, a existência da nossa articulação também permitiu que companheiros mantivessem esforços de investigação, ação e reflexão sobre a conjuntura e as novas lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando sintetizamos nossos debates em textos coletivos, a falta de uma identidade pública gerou um problema de apresentação. No livro <em>Incêndio</em>, de 2022, por exemplo, usamos a assinatura de “um grupo de militantes na neblina” (estamos “na neblina”, já que o horizonte revolucionário parece encoberto nesse tempo…). Com isso, tentamos preservar a característica difusa e as divergências que existem dentro do Grupão. Para a entrevista aos chilenos, a solução foi outra: reunimos cinco colegas de diferentes estados (Goiás, Minas Gerais e São Paulo), respondemos às perguntas oralmente e as transcrevemos, apresentando um pouco de nossas polêmicas e questões em aberto.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim, essa entrevista acabou sendo um dos primeiros documentos públicos que apresenta mais sistematicamente o Grupão nesses 10 anos. Se o texto já está circulando em espanhol, passou da hora de publicá-lo também em português, então enviamos ao Passa Palavra.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Em quais outras cidades ou estados brasileiros, além da grande São Paulo, há núcleos organizados da sua rede? Como se estrutura essa rede nacionalmente?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acho difícil falar assim. O termo “núcleos organizados” não necessariamente corresponde à nossa realidade. Tem coletivo de militantes em alguns lugares e, em outros, tem indivíduos militantes que se afinam com os diálogos que a gente desenrola.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Não tem esse nível de formalização. Em algumas cidades a gente tem uma coisa que é mais nucleada, em outras não. A gente se mantém junto garantindo dois encontros presenciais anuais, em locais onde tem mais pessoas organizadas. Fora isso, essas pessoas fazem reuniões, tanto para pensar a ação política, quanto estudos, reflexões de conjuntura etc. E também existem grupos<em> online</em> que estudam, que discutem junto, de diversos estados do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159297" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg" alt="" width="964" height="1045" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg 964w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-277x300.jpg 277w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-945x1024.jpg 945w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-768x833.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-387x420.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-640x694.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-681x738.jpg 681w" sizes="(max-width: 964px) 100vw, 964px" />PyB &#8211; Por que optaram por constituir uma rede mais ou menos informal, e não um grupo público de caráter formal?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Ai, essa é engraçada, hein?<em> [risos] </em>Porque carrega uma carga. Você tem várias formas. A galera já passou por um monte de coisas, de organização e tal. Ao mesmo tempo, existem vários formatos aí sendo construídos, com mais tempo, menos tempo. Na verdade, a gente não consegue encontrar algo que seja diferente do que a gente já viveu ou do que a gente conhece. Tem um excesso de organização no caso brasileiro, eu acho. E de formas específicas: de núcleos, de articulação de militantes, etc. No cardápio foi experimentado muita coisa. E, quando isso acontece, as possibilidades vão se esvaindo. A impressão que eu tenho é essa: a gente se mantém assim por não ter capacidade de responder essa questão e produzir algo que possa ser coerente e compatível com as coisas que a gente pensa e que a gente faz.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Eu daria um passo atrás também, no sentido de que não me parece que foi uma opção, num primeiro momento. No primeiro momento, nós saímos de organizações, sejam de caráter mais autonomista ou do marxismo tradicional, que vinham de formas estruturadas e mais bem estabelecidas, em alguns casos bem rígidas. E aí eu acho que o encontro desses militantes coloca a necessidade de pensar em alguma coisa diferente do que a gente tinha vivido antes. Então, acho que a gente é um pouco empurrado para isso. Mas, depois de um certo tempo, sim, se coloca a questão: se a gente deveria se conformar em algo mais formalizado ou não. Aí a gente não quer repetir mais o mesmo. A gente quer pensar em um formato de atuação política distinto. Mas, na verdade, nem o informal é muito claro para a gente, porque não tem nem definições do que seria uma rede informal tão bem estabelecida. Talvez esse seja até o nosso problema. A gente tem que formalizar o informal de alguma forma.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> É, seria uma boa formalizar. Porque daí, por exemplo, no 1º de Maio da CUT e da Força, poderia alguém do Grupão falar em nome da nossa estrutura!<em> [risos]</em> É, então é o dilema. Não dá, né?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> A gente pode também responder as perguntas com outra pergunta, sem problema nenhum. Por que a necessidade de fazer isso nesse tempo? A gente não vê a necessidade de pressa para isso. O Camarada Z ia dizer que foi uma condição. Não foi uma escolha. E essa condição é coerente com a situação do conjunto das lutas que operaram nos últimos anos no Brasil. E com a dificuldade mesmo de transpô-las. Como a gente não consegue atravessar esse tempo também, a gente não sabe o justo lugar de fazer formalmente uma nova organização. Nem sequer botar isso como uma pergunta. Talvez não seja uma questão para nós nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Eu acho que a gente se encontrou num momento que ainda o calor de junho de 2013 ainda estava no ar. Muito movimento na rua, ocupações. E a gente estava muito envolvido nas lutas e nas críticas, e vinha de trajetórias diferentes. Por outro lado, a gente não tinha pressupostos teóricos claramente definidos no grupo. Quando você tem uma teoria claramente definida, é muito mais simples, porque daí você coloca um programa escrito e todo mundo adere àquilo. Mas o que juntou a gente foi muito mais o movimento real. Então não é que a gente não queira se formalizar nunca. Eu acho que tínhamos uma intenção, talvez no começo, de virar uma organização mais definida. O problema é que fomos com muita cautela. O fato de termos saído de outras organizações, como os companheiros já falaram, fazia com que a gente não quisesse repetir algumas coisas que acontecem nesses espaços &#8211; por exemplo, você começar a prezar muito mais os símbolos daquela organização (o nome, a bandeira, as cores), e virar mais a imagem do que o conteúdo em si. E o conteúdo que queríamos era o movimento real. Se for fazer uma comparação com religiões, assim, a gente tentou tirar toda a carcaça de simbologia, de ícones e ficar com o momento do milagre, né? “Testemunhas do movimento real”. Queremos nos manter muito ligados e fiéis ao fenômeno do movimento e, nesse sentido, qualquer exagero de definições poderia afastar a gente do momento vivo da luta. Ao não se definir muito e não se fechar, é uma forma também de continuar aberto para formas novas de lutas, e adaptar a nossa forma de organização a elas. Então, eu acho que tinha essa preocupação em não virar uma seita em volta de símbolos e perder o conteúdo.</p>
<p style="text-align: justify;">E acho que tem medo também: será que se a gente definir muito, vai rachar? Então, fomos ficando numa indefinição. E isso também equilibrou posições divergentes dentro. Eu concordo que não foi uma opção consciente por completo. A gente foi fazendo assim e, quando viu, passou 10 anos. Até hoje funcionou. De certa forma, essa “quase-organização” também chama os participantes à responsabilidade. Porque você não pode dizer: “ah, a organização existe, está lá pronta”. Não. É uma condição permanentemente tensa, ela pode se desfazer. Como ela não é totalmente formalizada, ela não é estável, não independe da gente. Então, a gente está sempre também repensando ela, rediscutindo ela.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Apesar dessa rede ter esse caráter informal, a gente também tem grupos públicos que se mostram onde atuamos. Beleza, essa rede não se mostra de forma pública, enquanto um grupo, formalmente, etc. Mas, digamos assim, há subconjuntos dessa rede que se mostram publicamente, que se colocam nas lutas, que estão atuando em cidades, etc. Ao longo desse processo, vários grupos se criaram, surgiram, se dissolveram, acabaram. Essa rede é ativa e tem muita troca. Eu acho que as pessoas saem de lugares, vão para outras, e influenciam, incentivam, criam novos grupos. Então eu acho que essa questão da rede é meio dual. Talvez seja uma questão de escala. Numa escala maior, a gente é um grupo de caráter informal, não público, mas se a gente pensar no micro, em certos lugares, no tempo e no espaço, a gente adquire um caráter mais formal e forma grupo público.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Eu acho interessante essa coisa da treta em que a gente se envolveu. Nas tretas, eu acho que a gente produz a forma que tem a ver com a própria necessidade da treta. Por exemplo, no passado, O Mal Educado, as ocupações de escola. A gente produziu ali um tipo de organização.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> A gente vem de um conjunto de experiências, e em algum momento, se produz a necessidade de compreendê-las com uma perspectiva crítica. A gente foi tentando buscar outras possibilidades nas ações que a gente já se envolveu. Porém, isso complexificou muito nossa situação. Fomos buscar a resposta e encontramos mais contradições, e é com elas que nós estamos lidando hoje. O nosso problema não é falta de fazer, é que a gente fez bastante, dentro do que a gente pôde e tal. E isso trouxe contradições concretas, que a gente está agora tentando entender, tentando lidar. Inclusive, isso, em alguns casos, tem inviabilizado até a inserção em algumas coisas, porque estamos lidando com esse drama.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159299" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg" alt="" width="860" height="386" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg 860w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-768x345.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-640x287.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-681x306.jpg 681w" sizes="(max-width: 860px) 100vw, 860px" />PyB &#8211; Quais são as diversas origens e trajetórias daqueles que participam do espaço de vocês? Vieram de quais lutas e movimentos anteriores?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Talvez sejam duas origens. Tem uma geração mais velha, que são os que vieram ainda do ciclo de lutas que formou o PT. No caso, essa geração se formou dos anos 1980 para os 90 nos movimentos sociais territoriais: primeiro o Movimento Sem Terra (MST) e, depois, fundando o Movimento Sem Teto (MTST), inicialmente como um braço urbano do MST. O que liga essa história ao Grupão, era uma uma posição interna de defender a tática radical. De achar que era possível, apesar de uma estratégia oficial reformista, tensionar esses movimentos a partir de uma prática combativa, apostando que a radicalidade da ação direta poderia transformar o conteúdo também desses movimentos. Tinha a ver com o setor de “frente de massas”, que era o responsável por fazer a ocupação, por organizar as resistências aos despejos e outras ações diretas &#8211; expropriações, abrir pedágios, manifestações. A criação do MTST teve a ver com esse tensionamento no MST, de um setor que achava que não bastava o movimento no campo. Se a contradição estava explodindo nas cidades, então tinha que chegar nas periferias urbanas, começar a cercar as rodovias com ocupações de terras. Só que essa experiência, ao mesmo tempo, vinha sendo feita dentro desses movimentos que estavam incorporados na estratégia geral da esquerda, que acabou culminando na eleição do Lula em 2002.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Isso. A gente acreditava que a ação radical se sobrepunha ao programa reformista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> Das organizações formadas no ciclo de lutas dos anos 1970 e 80, o PT logo vai se incorporar ao Estado. O movimento sindical nos anos 1990 já estava entregando direitos para os patrões, a CUT aderiu às câmaras setoriais, as oposições sindicais perdiam espaço. E dos anos 90 para os 2000, os movimentos sociais como o MST eram ainda um ponto de radicalidade, onde o conflito continuou acirrado por mais tempo. Isso tensionava a própria estratégia institucional do PT. E aí, depois da eleição de 2002, tem uma baixa geral das lutas e greves. O MST passou um ano sem fazer ocupação de terra, e esses setores que defendiam uma posição mais radicalizada vão continuar tentando tensionar. Teve as ações contra empresas do agronegócio feitas pelos grupos de mulheres do MST em 2006, que destruiu as mudas da Aracruz e da Monsanto. Mas esses setores vão ficando isolados, e isso culmina na ruptura em 2011 na <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" href="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Carta dos 51”</a>, que foi um marco da saída de vários militantes, que fizeram caminhos diferentes. Alguns vieram aqui constituir o Grupão, outras fizeram outros caminhos. A carta falava da integração desses movimentos no regime de gestão democrático-popular.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> É um momento histórico específico ali em 2011, que junta com a outra geração do Grupão, que vem de uma juventude urbana mais autonomista, que vinha dos Ação Global dos Povos e do Centro de Mídia Independente (CMI), que formou aqui no Brasil o Movimento Passe Livre (MPL), que de alguma forma também estava tensionando a gestão pacificadora dos governos de esquerda. Era um movimento que lutava contra a tarifa do transporte coletivo, formado principalmente por secundaristas, universitários, punks… uma juventude urbana precária que não se enquadrou na institucionalidade. O MPL não se institucionalizou, talvez, porque o transporte não cria “base social”. Na moradia, tem ali uma base, e alguém pode fazer uma negociação em nome dela, forma-se uma relação dirigente e base. Nos sindicatos, os diretores sindicais representam a categoria. No transporte, talvez pela forma fluída, dinâmica, não dá tempo de conformar uma base ali e organizar ela a ponto de criar uma relação estável de dirigente, que pode estabelecer uma relação negocial com o Estado. Então a pauta do transporte ficou na mão dessa juventude mais anarquista/autonomista, que fazia ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2003 teve a primeira explosão em Salvador, que foi a Revolta do Buzú, e que foi uma luta com caráter de revolta. Parou a cidade de Salvador, mas tomou um golpe das entidades estudantis. O mesmo tipo de revolta se repetiu em Florianópolis em 2004 e 2005, as duas Revoltas da Catraca, que baixaram o preço da passagem dois anos seguidos. E isso formou o MPL, que era um movimento que tinha os princípios de autonomia, horizontalidade, ação direta, e que lutava contra a tarifa de ônibus. Esse movimento foi se conformando ao longo dos anos 2000 e ele vai ter o seu auge em 2013, quando ocorre a explosão em Porto Alegre, Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, tudo ao mesmo tempo, e vira um fenômeno nacional, revolta em todo canto. Teve protesto inclusive em cidades muito pequenas no interior, onde nem tem transporte coletivo. Esse momento entra no ciclo mundial de revoltas. O que aconteceu em 2013 no Brasil se conecta à nível global com a Primavera Árabe, com o que aconteceu na Turquia no mesmo ano, depois o Chile, Hong Kong, enfim…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Enfim, alguns que faziam esse caminho se encontraram ali, no pós-2013, já no refluxo da revolta, com críticas em comum… e em crise também. Se a geração mais velha carregava uma crise das lutas serem incorporadas, a geração mais nova carregava uma crise também da revolta ter quebrado, refluído, e o pouco que sobrou depois. A gente se encontrou naquele momento, já tínhamos feito alguns debates juntos. Um site importante para isso foi o Passa Palavra, no qual publicamos textos, tanto da saída do 51 do MST quanto também dos debates do MPL. Como o próprio MPL entrou em crise, a gente estava debatendo ali em busca de alguma coisa nova.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> No fim de 2015 vem as ocupações de escola, que a gente ajuda a organizar. Tem essa ferramenta na época, que foi O Mal Educado, um jornal secundarista que alguns companheiros organizaram. Muito baseado na experiência do Chile, a gente convoca as primeiras ocupações de escola. Tinham companheiros que eram secundaristas. A gente preparou duas, três, quatro ocupações em São Paulo, e isso explodiu e virou duzentas. De novo essa característica da luta explosiva, da aposta que a ação radical consegue um conteúdo de novo tipo. Não teve um trabalho de base prévio que preparou uma grande organização secundarista, foi uma tática radical de ocupar algumas escolas que contaminou. Essa experiência colou a gente. O Grupão surgiu nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Do ponto de vista teórico, tem uma coisa importante que é que os companheiros que vinham do movimento social clássico tinham uma formação muito mais marxista, leninista, que mistura maoísmo, Igreja Católica.. mas que era movimentista também, então esses “ismos” não importavam tanto, o debate era muito ligado ao concreto. E a geração mais jovem vinha de um pensamento parecido, mas com uma formação mais no autonomismo/anarquismo. Mas os dois lados vinham criticando as próprias posições, em crise, e a gente se encontrou nesse meio do caminho. Então acho que o Grupão tem um pouco a ver também com essa mistura teórica, pensando nas trajetórias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159301" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg" alt="" width="900" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-681x511.jpg 681w" sizes="(max-width: 900px) 100vw, 900px" />PyB &#8211; Quais são os acordos e as divergências mais importantes da militância que forma sua rede? Quais elementos teóricos e/ou práticos que os fizeram confluir?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Eu acho que o elemento teórico-prático que fez a gente convergir, que é o nosso primeiro ponto de concordância, foi o momento histórico do entorno de junho de 2013, em que a gente se encontrou na rua, nos conflitos daquele período. A gente se encontrou nesse contexto, fazendo críticas parecidas. A crítica da gestão e da pacificação petista. De que o ciclo de lutas dos anos 1970-80 resultou numa forma de contenção da classe na democracia. Essa crítica era teórica e também prática, já que encontrou tração no movimento de 2013 e na alta de greves daquele período. Isso correspondia à ideia de que a gente tinha que fazer lutas de enfrentamento que quebrassem o consenso. Uma aposta na revolta. Eu acho que nosso encontro foi aí, na posição anti-gestão. Isso convergiu com a conjuntura naquele momento, convergiu nas lutas e a gente quis continuar se reunindo e se encontrando.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, conforme a gente foi começando nossos debates, vimos que tinha, de fundo, nas nossas conversas, concepções teóricas divergentes. Indo para outro nível, saindo da conjuntura, indo para a estrutura, para a teoria mesmo. A caracterização do momento do capitalismo sempre foi uma polêmica, desde o começo no Grupão. Por um lado, uma posição que vê uma dinâmica cíclica do capitalismo, que sempre operou e continuaria operando, de ciclos de expansão e crise, que estão ligados também a ciclos de luta e recuperação das lutas, que a gente pode dizer que é mais inspirada no marxismo autonomista. E uma outra concepção que bebe mais da teoria da crítica do valor, que vê um colapso do capitalismo desde os anos 1970 &#8211; então, a dinâmica cíclica já não estaria mais operando e o capitalismo teria entrado numa crise estrutural, e hoje estaria girando em falso. Enfim, daí vai todo um debate. Mas eu acho que essa discussão teórica da crise, se é colapso ou são crises cíclicas, sempre foi um debate interno nosso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Eu tenho uma pergunta. Você acha que isso é causa de divergência? Ou é prolífico para o debate, na medida que também a gente se obriga a contrapor os termos… Eu imagino que na pergunta deles, “discordância” é sobre aquilo que cria uma dificuldade de caminhar junto. E, até hoje, essa discordância não foi uma coisa de dificuldade de caminhar junto. Na verdade, analisando a história do Grupão, isso permitiu um campo de debates interessante em que essas duas posições existem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Inclusive, várias pessoas, como eu, têm uma posição que a gente brinca que é “agnóstica”. Pra mim, qual é a situação atual do capitalismo: crise cíclica ou estrutural? Eu não sei, e tudo bem. A gente encontra convergência na luta concreta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem algum desdobramento nessa questão de crise terminal ou crise cíclica: a gente tem uma perspectiva revolucionária ou não tem uma perspectiva? Mas eu não diria que isso necessariamente está ligado puramente a uma concepção econômica. Porque se a gente pegar, por exemplo, a galera comunista de conselhos lá dos anos 20, eles já estavam com uma concepção de crise terminal do capital naquela época e tem a galera que continua com essa perspectiva até hoje. Eles estão, sei lá, quase 100 anos falando da crise terminal e isso faz parte de um longo ciclo. Eu acho que por mais que a gente pense na questão de ciclos longos, eu não sei se puramente a questão econômica leva a isso. Tanto é que você tem hoje, por exemplo, a galera aí da esquerda comunista defendendo ainda essa questão do capitalismo decadente e eles ainda têm uma concepção revolucionária. Ainda acreditam que, apesar disso, há possibilidade de revolução. Não sei se eu confundi muito, mas eu acho que talvez tenha uma questão econômica / política.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; Eu acho que você não está confundindo, não. Eu acho que, na verdade, essas coisas são conectadas. No limite, a importância de discutir se a crise é estrutural não é um preciosismo de uma análise econômica correta ou incorreta, ou identificar as verdades da dinâmica do capital. Isso está relacionado justamente com pensar as consequências para a questão política. Que transformação que está posta? Tenho mais afinidade com a ideia de uma crise estrutural &#8211; que é mais do que a ideia de terminal, porque “terminal” parece que já acabou, que vai ter um dia em que vai morrer, específico, quando vão desligar as máquinas, e não é bem assim. É um processo. Já a análise da crise cíclica está muito vinculada aos ciclos revolucionários que a gente viu ao longo do século XX. Então a questão é: é possível se repor? É possível se repor uma revolução nos velhos moldes? Curiosamente, eu acho que ninguém no Grupão defende isso efetivamente. Uma revolução nos velhos moldes da Revolução Socialista, por exemplo. Eu acho que tem uma crítica até razoável, que tem um acúmulo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; E aí tem uma outra questão também, que mesmo no campo que defende a crise estrutural, também tem diferenças em relação às consequências. Por exemplo, eu não entendo que a consequência é… “Ah, então, beleza, vamos ficar aqui vendo o capitalismo ruir e quando sobrar as ruínas e tudo, a gente tenta organizar uma nova sociedade.” “Porque o sujeito histórico morreu e não tem nada mais a ser feito, tudo é estrutura e tudo é uma determinação completamente insuperável.” Tem algumas pessoas da crítica do valor, não todo mundo, que chegam nessa consequência. E aí, nenhuma prática nunca é possível. Eu acho que é diferente a ideia de “vamos pensar a crítica da prática que a gente estabeleceu no passado e vamos experimentar coisas aqui e agora”. Porque, afinal de contas, estamos vivos e a história não está pré-determinada, ainda que a gente enxergue tendências nela. Estamos vivos e somos sujeitos da vida e as pessoas estão indignadas, estão revoltadas, querem fazer alguma coisa a respeito do mundo e do seu futuro. Será, e aí a pergunta, que é possível pensar alguma outra saída que não seja a extrema-direita, que não seja só a destruição? Enfim, eu acho que tanto no campo da crise cíclica quanto no campo da crise estrutural, existem diferentes leituras das consequências do entendimento do capitalismo nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Por isso é legal você levantar essa questão, que a gente consiga, de alguma forma, se manter junto, apesar das diferentes análises de crise, a priori. Porque eu acho que, quando chega na parte do “fazer alguma coisa”, tem algumas divergências, mas eu acho que tem um certo encontro ali, num sentimento de crítica das esquerdas e crítica do passado &#8211; que não é só uma crítica política da prática, é uma crítica também interpretativa do capitalismo que as organizações tradicionais carregam. Eu acho que a gente tem uma diferença em comum, digamos, em relação a esses conflitos tradicionais, ainda que os caminhos para nossas interpretações sejam diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A gente tem aqui uma convergência negativa, isso é muito interessante, o nosso espaço, ele consegue ser permeável a inúmeras experiências concretas, objetivas de luta da classe, a gente pôde participar dessas experiências, dessas lutas que aconteceram, foram inúmeras, trazer elas de volta para um lugar em que a gente também se sente livre e confortável em fazer a crítica radical delas, de apontar os limites.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a gente é permeável a uma série de experiências que as pessoas estão fazendo em inúmeros cantos, com inúmeras qualidades, com inúmeras intenções, a gente contribui com essas lutas, volta para um espaço e a gente se sente livre de poder criticar elas de uma maneira honesta e radical também. Eu acho que poucos espaços organizativos permitem isso. Na maior parte dos espaços organizativos que a gente tem conhecimento existe um certo pudor e um certo medo de implodir tudo, na medida em que a gente pega uma experiência que é cara a nós e passa um pente fino dela, apontando também os limites e aquilo que traz de qualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, quando a gente vai analisar a experiência das greves de entregadores, o quanto que ao mesmo tempo que elas podem ser disruptivas e também são uma confluência com o atual estágio de guerra de baixa intensidade de todos contra todos, de um capitalismo ultraviolento, essa lógica do auto empreendimento, etc. Ou seja, a gente tenta também manter a crítica como critério da nossa divergência e da nossa convergência. Me parece que aquilo que nos une é também aquilo que permite a nossa diferenciação no limite, que eu acho que é o que tem de mais virtuoso na lógica do Grupão. Justamente poder fazer do exercício da crítica o mais radical que a gente puder, o mais aberto que a gente puder, o lugar que a gente produziu.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu fico meio sem saber o quanto esse espaço aberto ao debate polarizado é de fato algo que pode ser entendido como divergência, o quanto que ele não é justamente aquilo que converge com o Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211; </strong>Talvez a gente tenha até dado um acento muito grande aqui na discussão para essa questão da leitura da crise. Na verdade, a gente nunca sentou e fez um debate especificamente sobre isso. Em geral, a gente está sempre discutindo as lutas concretas e aí essas posições estão de fundo. E muitos militantes nem têm uma definição exata sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Do ponto de vista mais prático, outra polêmica foi com companheiros que falavam da necessidade de se organizar no “centro da classe”. Isso marcou muito nossos primeiros debates. Uma discussão com correntes que defendem que a gente deveria se organizar nos setores do operariado fabril, porque esse seria o núcleo duro da classe trabalhadora, a partir do qual tem a maior produção de valor e, por isso, seria o ponto estratégico para a revolução: “pôr a classe ao centro e ir ao centro da classe”. No debate com essa galera, que acho que foi formativo no início do Grupão, a gente foi encontrando uma linha nossa, que começou como brincadeira, mas que era assim: “tem a galera do centro da classe e a galera do centro da treta”. A ênfase do Grupão era nas lutas. Então, se for pensar assim, onde se posicionar? Para nós, parecia às vezes menos importante essa discussão econômica crua que pensa: “esse setor de trabalhadores está num ponto estratégico porque aqui se produz não sei quanto de capital”. E, no caso, a gente dizia: “bom, tem setores que têm uma posição que é estratégica do ponto de vista social” &#8211; o setor de transporte, por exemplo. Setores com possibilidade de lutas mais dinâmicas. Os pontos a partir dos quais pode ter explosões que contaminem outros setores e que ganhem escala, que cresçam. Nossa centralidade é uma centralidade das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Dialogando com as perguntas colocadas para nós aqui, uma organização pressupõe o quê? Um programa? E, um programa pressupõe o quê? Uma leitura de mundo, uma visão de mundo, uma teoria da revolução, é o mínimo que se espera de uma organização política, uma leitura da realidade, uma apresentação das contradições dessa realidade e uma perspectiva revolucionária. Mas nós não temos. Eu não acho que nós não temos porque nós não queremos ter. Até porque a gente, apesar de fazer a crítica, não se aprofundou nesses meandros. Tem lá os democráticos populares, nós somos os revolucionários situacionistas, e está tudo certo? O buraco é mais embaixo. A tragédia é um pouco maior do que a gente imagina. Olhar para uma perspectiva estratégica, questionar, não concordar com ela, opôr-se a ela, não significa que no lugar onde você atua na revolta ou nas lutas não possa reproduzir aquilo que é a base da existência do que você está negando. Eu acho que essa é uma grande contradição nossa com a ação prática.</p>
<p style="text-align: justify;">A grande dificuldade é lidar com as coisas que a gente reproduz e que nos aproximam do que criticamos. E a gente faz isso em silêncio, porque a gente também não quer dar brecha para críticas externas. Mas o fato é que a prática como critério da verdade, na lógica maoísta, está longe de ser uma definição que realmente resolva nossos dilemas. E nem a teoria é este critério. Mas é preciso compreender que essas coisas não estão separadas, é preciso juntar, é preciso permanentemente revisá-las. Revisá-las é uma palavra complicada. Compreender, estudar, ler, repetir.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje em dia, por exemplo, o ponto parece fácil. A gente lê O Capital, daí todo mundo entendeu o que é mais valor, todo mundo sabe que o negócio é fazer uma revolução socialista, impor uma derrota ao capitalismo, implantar uma transição, uma mediação entre a ação radical e ação institucional. Esse é o problema geral, está aí. Mesmo não gostando, a gente acaba participando. Eu estou para dizer que nosso problema é um pouco mais profundo. Não é só uma questão de compreensão teórica se a crise é estrutural, se a crise é cíclica.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é porque a gente não gosta dessa coisa de programa. Ou que a gente não tem programa, porque a gente escolheu não ter. Eu acho que é mais complicado o assunto, que ter as coisas, produzir certas coisas, implica o conjunto de condicionamentos da forma pela qual você quer lidar com a ação. Então, a gente resolveu não criar amarras para a gente lidar com a ação. Isso traz outros problemas. O fato da gente não ter uma definição teórica, prática, uma leitura de mundo e atua no mundo sem ter isso. Eu sei que na cabeça de cada um tem alguma coisa. Eu acho que nós lidamos razoavelmente bem com isso. Ninguém vai para a luta sem saber nadar, “estou aqui só porque eu quero entender o que está acontecendo”. Não, quem está lá quer influenciar, quer levar para algum lugar a revolta. Está lá tentando potencializar o nível de aceleramento, de contradição dela, de enfrentamento. Está lá querendo dialogar com outros militantes para trazer junto para trocar ideia. Então, existe uma intencionalidade, sim, porém, isso não é programática. Está muito mais ligada à experiência de vivência de cada coletivo, cada espaço, cada lugar, porque é uma formulação complexa, vamos dizer assim, da leitura da revolução. Eu acho até que algumas pessoas têm vontade de ter um programa, uma teoria da revolução, uma proposta de onde a gente vai estar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; de alguma forma, essas coisas têm uma conexão com a questão da centralidade negativa do trabalho. Fiquei refletindo aqui sobre a ideia do Camarada K de que o trabalho seria como um centro da forma social, mas um trabalho que tem a ver com essa pessoa sem lugar, forma da forma tradicional de produtor de valor, etc. E, ao mesmo tempo, pessoas que trabalham insanamente, esfolação profunda da existência. Eu fiquei pensando se a gente, de alguma forma, não tem também uma centralidade negativa das lutas, à medida que a gente põe as lutas, mas essas lutas também se esfacelam e se negam e se repõem. Se a gente está conseguindo fazer isso, então, acho que até está interessante.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei, fiquei pensando nessa questão da luta como crítica das formas anteriores de luta. Então, propomos lutas que a esquerda em geral não entende muito, porque não tem clareza de quem é o dirigente, o formato é completamente outro de como a luta se dá. E, ao mesmo tempo, ao ela se dar, não se põe como uma forma, não se põe como uma forma permanente. Não é que a gente está, por exemplo, fizemos a luta do motoboy, agora a gente tem uma cartilha de como atuar, não se sabe. Tem uma experiência, obviamente, e essa experiência ela se perpetua no tempo como uma forma de olhar para trás e falar “a gente fez isso naquele momento, podemos fazer isso de novo aqui, ou não fazer e tal”. Mas não tem um formato estrito, como as organizações têm normalmente. Quais são as nossas táticas de luta? Qual a forma que a gente desenvolve a luta? Isso é interessante e fiquei pensando se a gente teria uma centralidade negativa das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu só queria fazer um comentário para Camarada Y. Eu acho que a centralidade negativa do trabalho é interessante porque acho que mesmo os que têm a leitura da crise estrutural no Grupão, que a princípio vão pensar um colapso do trabalho e da acumulação de valor a partir da mais-valia extraída do processo de trabalho, não tem uma leitura que acha que o trabalho acabou. No sentido de que, às vezes, pode parecer isso, de que não tem mais trabalho. Na verdade, essa perspectiva acaba se encontrando com o autonomismo operaísta, porque, no fundo, tem uma ideia de que o trabalho ainda é central, no sentido de que ele é o ponto de tortura nas nossas vidas, que todo mundo tem que acordar e ir trabalhar. E acho que é até uma leitura de que, com a crise estrutural, as pessoas estão se esfolando até mais, porque as formas ficam até mais pesadas e mais cruéis, e que, então, eu acho que é como quando falamos da centralidade negativa do trabalho. O trabalho é central, mas a gente quer se libertar dele.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente precisa ter um receituário, um programa, uma perspectiva de que a gente precisa cumprir certas etapas ou certos processos para que a revolução venha, mas sim uma ideia de fundo, uma perspectiva geral de rompimento com o sistema capitalista. Então eu não acho que simplesmente a gente nunca ter dialogado sobre ter um programa, sobre ter uma série de medidas a serem tomadas, nos coloca numa condição de que a gente não tem uma perspectiva revolucionária. No entanto, eu acho que isso ainda é uma questão em aberto. Eu já vi camaradas colocando isso: “não sei se eu acredito na perspectiva da revolução”. Eu acho que tem uma série de acúmulos teóricos sobre o pensamento do próprio desenvolvimento do capital e da revolução que, de certa forma, a gente vê na nossa prática, ela se relaciona muito com algumas teorias que já foram desenvolvidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito, sim, nessa questão de que tem momentos de baixa, momentos de alta e eu não acredito que a nossa atividade enquanto militantes nesse momento, que a gente poderia considerar talvez como contra-revolucionário, eu não acho que o nosso papel nesse momento é fazer a revolução, e eu acho que no Grupão a gente também não acha isso. Eu acho que a gente nunca pensou que as nossas práticas ou o nosso envolvimento nas lutas poderia desenvolver a revolução. Mas eu acho que a nossa inserção nos processos de luta vai muito mais nessa questão de investigação, no sentido de situar a gente no tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito que a gente deveria fazer essa separação. Ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente necessita de uma estratégia revolucionária, porque eu não acredito que a gente possa ter uma estratégia revolucionária nesse tempo. Não significa que isso vai ser uma constante, significa que agora a gente não pode ter isso, mas possivelmente em um momento de ápice das lutas pode vir a surgir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159302" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Quais as lutas sociais mais importantes que vocês se envolveram desde que o grupo se formou? Como foi a intervenção prática de vocês?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Então, naquele período de 2016-17 ainda teve muita luta estudantil secundarista, que foi uma coisa um pouco nova no Brasil. Nesse patamar, tinha o exemplo do Chile, que inspirou muito por aqui. A gente traduziu uma cartilha do Chile, que foi útil para preparar as ocupações de escolas. Foi um movimento muito dinâmico, muito vivo e muito autônomo também (os partidos não tinham muito espaço). Foi o período do impeachment, em que, do ponto de vista institucional, a direita estava se articulando para derrubar a Dilma. As ocupações aconteceram nesse período escaparam da dinâmica do jogo institucional.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Depois teve a luta do telemarketing, que era uma ideia do Disk Revolta. A gente começou a notar que estava explodindo de pequenas insatisfações, que tem a ver com a discussão sobre o trabalho em formas ultra precárias, os <em>bullshit jobs</em>, os trabalhos de merda, e que se expressavam em formas que os sindicatos e os partidos não tinham condições de dar vazão a essas insatisfações, a essas inquietações. Parecia que ali havia uma explosividade que talvez estivesse represada.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Mas eu acho que tem também um aspecto de 2013. A gente via os dados sobre as greves daquele período, que em 2013 teve o maior auge de greve da história do Brasil desde os anos 80. Então a gente falava, “bom, teve um ciclo lá nos anos 70, 80 e está tendo um novo ciclo agora”. Essas lutas estão acontecendo muitas vezes de forma subterrânea, tá cheio de conflitos nos locais de trabalho e a gente tem que investigar. O Disk Revolta teve a ver com isso: em um ano a gente descobriu um monte de pequenos conflitos que às vezes não são greves abertas. Um grupo de trabalhadores fizeram uma sabotagem desligando o cabo do fone para poder ter um tempo maior de mute e aumentar os espaços de não trabalho. A gente começou a buscar essas pequenas lutas dentro do trabalho para politizar elas. É um contexto de reforma trabalhista e isso também fazia os sindicatos se mobilizarem, chamarem greve geral e vira uma oportunidade para a gente também experimentar lutas nas categorias que a gente está ou em categorias que a gente conhece ou que a gente acha interessante ir lá e fazer algum contato.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essas pequenas lutas para além da explosividade foram importantes para a gente perceber o quanto um monte de coisa estava acontecendo, mas também para oxigenar nós mesmos. Foi muito importante para o próprio Grupão termos investigado um monte de pequenas lutinhas que até hoje a gente considera como importante. Deu uma centralidade para a nossa militância.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Na questão do local de trabalho, um ponto que para nós foi caro &#8211; sobretudo no diálogo contra as forças de esquerda &#8211; é que quase toda a esquerda no Brasil se organiza para tomar sindicato. Então o militante entra na empresa e começa a fazer um trabalho com o objetivo de ganhar a direção do sindicato. Temos companheiros que passaram anos trabalhando de forma clandestina na fábrica para mapear contatos no sentido de fazer uma chapa e disputar a direção do sindicato. Ao mesmo tempo, nesse período, vai acontecendo um monte de lutas e você não pode participar porque, se você se expõe, você é demitido e não consegue entrar na chapa e disputar a direção. É uma dinâmica totalmente voltada para a disputa eleitoral. Uma organização estruturada em volta do aparato sindical que, no Brasil, é ligado ao Estado. Por isso a gente queria tentar outras formas de organização nos locais de trabalho, fora das eleições e do aparato sindical.</p>
<p style="text-align: justify;">Na categoria de professores da rede privada aqui em São Paulo, por exemplo, tivemos a experiência de puxar uma greve por fora do sindicato, organizando assembleias autoconvocadas e comissões nas escolas, às vezes mais abertas, às vezes clandesitnas. Tinha a questão de não ser uma categoria estável, porque eles estão no setor privado e podem ser demitidos. Ao longo de 2017 e 2018, teve uma experiência muito rica nesse setor. Recuperando uma tradição que tinha no Brasil durante a ditadura, de se organizar por fora do aparato. Acompanhamos processos de luta assim em diferentes categorias. Até essa última, que foi o Breque dos Apps com os entregadores de aplicativos durante a pandemia. Já estavam acontecendo pequenas greves de entregadores de aplicativos, fizemos contatos e ajudamos essa rede a conformar uma comunicação nacional que permitiu a convocatória desta data, que foi o breque dos aplicativos na pandemia. Também construímos grupos de algumas cidades com esses entregadores.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essa questão da crítica ao sindicalismo, talvez ela tenha levado a gente para essas perspectivas mais de trabalho precário, etc., justamente porque o sindicato não estava presente. Acho que tivemos uma facilidade de entrada em vários desses lugares justamente porque nada estava constituído. A possibilidade de criação e experimentação era muito maior.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159303" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Qual papel acreditam que as minorias revolucionárias &#8211; como a rede de vocês &#8211; deve cumprir, tanto nos processos de luta mais cotidianos, quanto em levantes espontâneos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; A minha resposta é rápida: é não atrapalhar. Isso é o mínimo, né? O mínimo é não atrapalhar. Porque, às vezes, a gente acha que está ajudando e atrapalha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; É… Mas, claro, dá para falar muito mais que isso. E também dá para questionar: será que a gente é uma minoria revolucionária? Não sei nem se a gente se entende como uma minoria revolucionária. Eu acho que começa por aí. Acho que esse debate ainda está em aberto. Eu não gostaria de falar minoria revolucionária. Gosto mais do “pró-revolucionário”. Mas, em relação ao nosso papel, acho que ainda está em aberto. A pergunta de como as minorias revolucionárias devem atuar, qual papel elas devem desempenhar, pode se confundir com o papel de guiar para a revolução. Quando coloca minorias revolucionárias nesse sentido, parece isso. E eu não acho que esse seja o nosso papel. Também não acho que a gente tenha se colocado nessa perspectiva nunca. De certa forma, a gente tenta não só não atrapalhar, mas também incentivar os processos espontâneos de luta que os trabalhadores estão colocando, estão se envolvendo, com todos os limites que isso implica. Acho que o papel aqui talvez seja muito mais de crítica e tentativa de potencializar do que necessariamente de dirigir ou tentar despertar a revolução.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong>&#8211; As lutas já estão acontecendo. A todo momento tem conflitos acontecendo e nosso papel tem muito mais a ver com registrar esses conflitos, publicizar eles, fazer a informação circular. Vou dar um exemplo. A gente acompanhou aqui em São Paulo um supermercado que faliu, o Seta Atacadista. Na verdade, não foi uma falência. O patrão simplesmente estava dando um calote. Ele foi fechar o mercado e estava tentando tirar a mercadoria de noite para os trabalhadores chegarem no dia seguinte e serem demitidos todos, não receber nada. Só que, de noite, os trabalhadores ficaram sabendo, porque alguém comentou no bairro que tinha caminhões lá indo esvaziar o supermercado. E eles foram e cercaram o mercado e ocuparam o mercado para não deixar a mercadoria sair e não deixar o patrão dar o calote. Então, de repente, descobre que tem um supermercado ocupado na periferia sul de São Paulo. Aí a gente foi lá, publicou uma notícia daquilo. Aí a gente falou: bom, o Seta é uma rede de supermercados. O patrão deve estar dando esse golpe na empresa inteira, ele vai falir e deixar todo mundo no vazio. Vamos encontrar outros e avisar que isso está acontecendo, tentar fazer informação circular. A gente vai em outros, descobre outras pequenas lutas e tenta potencializar o processo nesse sentido. Acho que é diferente de uma noção de dirigir ou de levar a consciência. É como fazer as lutas circularem, integrar elas e, nisso, potencializar elas. É fazer as coisas irem além de seu local, além de sua categoria</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Quais elementos da forma clássica de militância da esquerda, ou do anarquismo, que consideram obsoletos? O “trabalho de base”? O “acúmulo de forças”?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Tá, as duas. Com certeza.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; É, o trabalho de base, eu acho que nós temos coisas pra conversar. Trabalho de base. Mas essa de acúmulo de forças, eu acho que entre nós, eu não sei se alguém tem alguma expectativa com isso. Acho que a gente nem fala essa palavra, na verdade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu diria, além disso, a questão da “consciência”. Essa parte entra no acúmulo de forças: levar a consciência pra galera e acumulando gente até a gente fazer a revolução. A gente não acredita nisso. A questão da “estratégia revolucionária” entra aí, acho que a gente não entende que esse seja o momento para estratégia revolucionária. Estou falando um pouco por mim, mas eu acho que o fato da gente nunca ter se debruçado sobre isso, de certa forma, diz um pouco sobre isso também. A gente nunca acreditou que necessitava fazer um programa ou ter uma estratégia revolucionária porque a gente acha que isso está além de nós. Não é a gente que vai cumprir esse papel.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A coisa do trabalho de base, eu até fiquei pensando… Fiquei curioso porque eu não sabia se o termo “trabalho de base” existia da mesma forma em espanhol. Porque eu acho que em algumas línguas você não tem o equivalente direto. Eu acho que tem muito a ver com a formação da nossa esquerda atual a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A ideia de que você tem um trabalho de base pressupõe uma comunidade de base. O ciclo de lutas dos anos 70-80 foi muito baseado nisso. Se for pensar, o próprio MST surge disso. A ocupação forma uma comunidade ali. E, claro, tem todo um peso da igreja na formação do MST, mas ele surge disso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z </strong>&#8211; A ocupação forma uma comunidade e aquela comunidade é a base do movimento. Isso impõe a necessidade de um tipo de trabalho permanente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; O processo do acúmulo de forças tinha um pensamento um pouco gramsciano da esquerda desde os anos 70, que é de guerra de trincheiras. Guerra de posições. Vai aumentando as bases até você ter uma hegemonia. Essa é a ideia do acúmulo de forças. E a esquerda atuaria de um lado com uma luta institucional pelos partidos e do outro pelos movimentos, e com o “<em>movimento de pinça</em>” chegaria ao poder. Foi o que aconteceu no Brasil, aconteceu em outros lugares da América Latina e acho que a nossa reflexão também é pensar: “bom, esse acúmulo de forças a gente já fez”. Talvez não seja preciso do ponto de vista econômico, mas a gente dizia: “esse &#8216;acúmulo de forças&#8217; virou acúmulo de forças produtivas”. Não é que acumulou força para o nosso lado, acumulou para o capital no fim das contas. Os movimentos, e a gente viu isso acontecer, viraram tecnologia de gestão do capitalismo. Então o MST agora vai construir uma fábrica de tratores com capital chinês. São os maiores produtores de arroz orgânico da América Latina. As cooperativas têm ação na bolsa de valores. Sem falar do ponto de vista social, o quanto é funcional ao capital ter certos setores do proletariado empobrecido organizados pelas burocracias. Melhor do que deixar eles soltos para o caos social. Então os movimentos cumpriram um papel civilizatório. E aí até aquela base da comunidade de base perde seu conteúdo e vira um cadastro. O que é o MTST hoje? Tem ocupações onde quase ninguém mora: eles erguem pequenas barracas de lona preta, não deixam construir com madeirite ou bloco; fazem um cadastro e esse cadastro vira uma lista, a partir do qual o movimento repassa o bolsa aluguel do estado e faz um ranking para as pessoas ganharem a moradia com base na participação. Os movimentos viraram tecnologia de gestão. O “acúmulo de forças” virou isso, virou o acúmulo de forças produtivas. A reflexão que fica disso é: como que a gente se organiza? Será que é possível produzir um acúmulo que seja nosso? Talvez só um acúmulo de experiência, porque tudo que a gente vai construindo de estrutura para se reproduzir vai entrando na lógica da reprodução capitalista. Essa é uma crise nossa. É uma reflexão nossa também quando a gente pensa nas lutas que são mais sem estrutura, e justamente por isso elas acabam sendo mais descontínuas no tempo. É porque a reprodução no tempo também implica, de alguma forma, você entrar na lógica desse sistema.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Por outro lado, também essa ideia de acúmulo de forças, de acúmulo organizativo, entra naquilo que o Camarada Z falou. A gente não vive uma escassez organizativa da classe, vive uma superprodução de organizações da classe, e isso também entra em contradição com a lógica da própria luta. Não é mais uma questão de que não se acumulam processos organizativos, eles se acumulam em excesso! E acabam eles mesmos travando o processo da luta. É uma contradição de algo que deu certo, não só que deu errado. Não é que “faltou trabalho de base”: teve trabalho de base demais, e tem uma lógica de sustentação desse trabalho de base que começa também a competir entre si dentro da sua própria base. Ao ponto, e eu acho que é o máximo da esquizofrenia da esquerda, que é uma pessoa condensar quatro organizações. Eles se apresentam assim “eu estou aqui como fulano que é de tal, tal e tal organização…”. Uma mesma pessoa está em quatro organizações. Então é obsoleto o “acúmulo de forças”, o “trabalho de base”, ou é aquilo que é hoje hegemônico? Porque pra nós pode ser obsoleto, mas do ponto de vista da luta real, não parece que é obsoleto isso. Continua existindo, mas nessa perspectiva de gestão, de controle, de travar qualquer processo que desorganize a base na qual esses movimentos podem se manter existindo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Para voltar um pouco na discussão do “revolucionário”. A gente vê experiências que a gente teve muito acúmulo organizativo no Brasil e esse acúmulo jogou contra a revolução, porque ele vira um acúmulo de contenção. Os grandes movimentos sociais produziram contenção da classe. Se for pensar, os companheiros estavam nos anos 90 do MST pensando em formas de luta insurrecionais, pensando que a partir daquele movimento você ia ter a preparação do exército popular para fazer uma revolução no Brasil. No momento que tivesse uma explosão, eles estariam prontos para tomar o poder. Mas quando vem 2013, o que virou? O MST naquele momento, que já estava integrado ao mercado e ao Estado, foi uma ferramenta de contenção. No fundo, o acúmulo organizativo serviu muito mais para segurar a classe trabalhadora do que para permitir uma potencialização das lutas. Quando a gente fala que o papel do militante às vezes é não atrapalhar, é porque a gente sabe que, se a gente se organizar demais, pode até ter o efeito contrário. E várias vezes a gente entra em processos com a intenção de fortalecer e depois, quando vai fazer o balanço, vê que talvez tenha atrapalhado!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Tem uma palavrinha mágica que a galera colocou no jogo que não é nova, é antiga, e que eu acho que justificou um pouco esse tipo de movimento, vamos dizer assim, que é a “resistência”. Resistir passou a ser garantir a manutenção daquilo que a gente conquistou. Então ela e o acúmulo de força passava por um tipo de momento em que a luta se converteu no que o movimento chamava de resistência. Por exemplo, a intersindical dizia “nenhum direito a menos”, movimento sindical combativo. Mas isso foi mais ou menos um diálogo de derrotados bem sucedidos. Isso é o mais louco da dialética do processo. Ser bem sucedido não significa ter chegado a uma plenitude, vamos dizer assim, na sua tática, no resultado de suas lutas, mas é conseguir justificar no tempo e nas condições que ela existe. Se temos vontade de olhar para esse passado, agora a gente precisa olhar com as ferramentas que a gente adquiriu no processo das nossas experiências, não mais como a gente olhou. Eu não vejo disposição da galera olhar pra trás, pras experiências, e reformular a sua leitura. Eu vejo uma galera querendo reafirmar aquela crítica para sustentar algo que, inclusive, a gente já tá fracassado no que a gente buscou.</p>
<p style="text-align: justify;">Só faz sentido voltar lá pra ver se o que a gente produziu como política faz sentido. Olhar para trás, é olhar para os limites da nossa crítica, não da experiência em si, da forma generalizada, mas do específico, daquilo que a gente reafirmou no passado. Quando o passado vem atormentando a gente é porque tem alguma coisa lá que tá mal resolvida. Aquilo lá que a gente produziu explicou naquele momento, ajudou a gente a dar um passo, mas agora estamos tendo dificuldade, e aí há uma necessidade de olhar para aquilo e falar “olha isso aqui! Tem alguma coisa que nos incomoda”. E eu acho que passa por isso que nós estamos conversando aqui, essas leituras de fundo, de força, de resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso que eu falei do trabalho de base. Não que eu ache que a gente defenda o trabalho de base, é que eu acho que essa palavra apesar de parecer simples ela carrega o grau de complexidade dessa totalidade que vai ser vai ser a herança do seu passado, vai estar aí a possibilidade daquilo que o X falou, que nós não temos essa perspectiva de levar a consciência, de levar a formação. Mas nessa palavrinha condensa tudo isso. A palavrinha trabalho de base ela é pesada. Na verdade, as pessoas simplificam ela como se fosse “vamos ali convencer o cara a fazer uma greve”, “vamos ali fazer um programa de formação”, “vamos ali fazer uma luta x, e ajudar na resistência do moinho”, essa palavrinha ela carrega um conjunto de contradições que, pra mim, está a base do limite que a gente está vivendo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem uma questão também, que talvez seja mais um elemento de crítica nossa, é que de certa forma essa análise anterior, antiga, da perspectiva do trabalho de base era de “vamos montar organizações de massa”. Eu acho que a gente não tem essa perspectiva de organização de massa. Eu acho que essa é uma questão. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa de perspectiva radical nesse momento histórico porque criar uma organização de massa significa, no final, nos tornarmos gestores. Por mais que a gente acredite nas lutas de massa, a gente não acredita na solidificação disso. É interessante a gente ver às vezes para alguns agrupamentos anarquistas, autonomistas, que estão falando “a gente criou a nossa organização de massas aqui e tal” e aí quando a gente vai ver a organização de massas e a gente pergunta “quantas pessoas tem?” no final a gente vai ver que é o mesmo número de gente que tem no Grupão. A gente não tem essa perspectiva de que vamos acumular gente e a revolução vai vir. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa. Talvez no momento de ascensão das lutas essas formas se tornem possíveis. Mas agora não é esse momento, então não adianta a gente criar esses instrumentos que, no final, como o W falou, quando a luta vier na verdade vai servir para controle, para contenção.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu fiquei pensando na acusação, que a gente recebeu muito, de que o autonomismo que a gente representaria teria uma “centralidade da tática”. E, de fato, a gente reconhece isso. Quando a gente estava falando que a gente acreditava que pela tática radical era possível tensionar a realidade e produzir conteúdos que abriam caminho para uma ruptura anticapitalista, e que às vezes a tática é mais importante que o discurso da organização, que a ação concreta é mais importante, então de fato eu acho que tem um pensamento taticista nosso, “lutista”. Eu acho que isso é uma coisa em comum na nossa formação como Grupão. Só que eu acho que isso daí é uma condição do tempo. Tem organizações hoje que falam em “estratégia”, mas o que a gente está falando é que talvez não seja um momento de estratégia, que não tem mais lugar. Não é tempo histórico de estratégia. A gente acha que, no fundo, quem está falando que tem estratégia, tá meio iludido… teoricamente, estratégia é uma coisa que você está pensando em um plano para longo prazo. As estratégias hoje não são isso. Mesmo a suposta “estratégia democrática popular” que o PT teve, que formou aquela geração dos anos 70 para cá… se ela foi uma estratégia nos anos 70, desde os anos 2000 ela já não é uma estratégia mais. Ela foi bem sucedida, eles chegaram no governo. Ela virou o que? Ela virou uma ferramenta de gestão. Esse pensamento estratégico de acúmulo, de um ponto de vista proletário, de um ponto de vista que quer romper com esse mundo, ele não existe. Porque o acúmulo nunca é para a gente, o acúmulo sempre acaba sendo acúmulo de força produtiva. Vira um acúmulo dentro da lógica do capital. Então do nosso lado a gente não consegue acumular coisas duradouras assim, e isso talvez seja uma inviabilidade da estratégia, já que quando a gente acumula, vira contenção nossa. Então talvez o pensamento estratégico esteja ligado a algo quase contrarrevolucionário. O Grupão nunca disse isso com essas palavras, mas talvez seja um pouco isso que a gente intui e que nesse sentido o lugar mais potente é mesmo o da tática. O comunismo seja uma tática. Que nem a gente viu que ocupava uma escola e isso foi se reproduzindo como um meme. De uma, duas, três escolas ocupadas que a gente planejou de forma conspirativa, de repente explodiu duzentas escolas ocupadas em São Paulo, mil no Brasil no ano seguinte. Talvez um processo que vá romper com este mundo vai se dar assim também, uma propagação no nível tático, e acho que a gente sempre tenta extrair conteúdo político das táticas pensando assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Acho que são dois vícios diferentes a tática e a estratégia. Acho que ambos contêm os seus limites, não é que a estratégia por si é sempre contenção. Hoje ela funciona como contenção por essas inúmeras razões. Não é que ela esteja sempre obsoleta. No nosso tempo ela é obsoleta de fato, mas pode ser que ela se transforme um pouco no sentido do que o X estava falando. Nisso a gente poderia ter aproveitado muito mais os momentos de se posicionar politicamente nas outras lutas que a gente compôs, estimulando pensamentos que dessem vazão a outros questionamentos que são de ordem estratégica, além da luta concreta. Um pensamento de conteúdo, conteúdo do comunismo, ele não necessariamente é estratégia no sentido que a gente está falando. Mas ele pode servir de formulações autônomas de outros polos nesse viés, entende? E nesse sentido ele se compõe como um estímulo para a estratégia. Eu acho que a gente pecou em certa medida de não ter estipulado na formulação tática esses outros pensamentos que são para além daquela luta. A tática se resume naquela forma daquela luta, naquele tempo, naquele espaço. O que tem um caráter positivo e é bom porque ele mantém firme o conflito como central, porém é uma dialética entre esse momento, esse imediato, e o posterior. A gente também não sabe muito bem como jogar…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Sim, é verdade. A questão que fica é: será que isso não seria uma estratégia nossa? Talvez o fato da gente não ter estratégia, da gente se manter baixo, da gente ter o foco nas lutas, de se basear muito mais nas táticas de inserção, de potência, será que isso também não é uma estratégia nossa?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Eu acho que é um pouco a provocação do X, e também eu acho que é um pouco a ausência de uma compreensão. Você encontra num lugar de conforto mínimo que te mantém existindo, porém esse lugar já está esquentando. Na verdade, no nosso caso, essa porra já está saindo fumaça preta porque o cabeçote está rachado. Nós mesmos estamos incomodados com a nossa estratégia. Se é que a reflexão do X faz sentido, e eu acho que faz, porque eu acho que é esse o nosso tempo, é o tempo da crise daquilo que a gente constituiu como formas de se manter organizado, em movimento, articulando ações e reflexões. A gente vive como a música do Belchior “ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”. Mas o fato é que a gente morreu e a gente está tentando não morrer de novo. Como a gente sabe que não tem perspectiva de um horizonte, de uma revolução, isso ao mesmo tempo é trágico, porém nos dá uma condição de falar “opa, também não precisa ficar loucão assim, com essa ansiedade toda”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159298" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg" alt="" width="960" height="949" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-300x297.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-768x759.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-425x420.jpg 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-640x633.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-681x673.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />PyB &#8211; Quando afirmam que a “investigação” deve ser o centro da preocupação política, a que se referem concretamente? Tomam como referência a experiência da “investigação militante” desenvolvida pelo operaísmo italiano dos anos 60-70? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Deixa eu falar uma coisa engraçada para você. Outro dia o pessoal fez homenagem para o Toni Negri aqui em casa, aí eu falei assim “alguém precisa avisar os 51 do MST que a gente era negriano e não sabia”. Alguém precisava ter avisado a gente: “Olha o que vocês estão fazendo, tem um cara que pensava essas coisas, exatamente isso”. Eu olhei para lá e falei “pô a gente era negriano e não sabia”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu gostei disso, Z. Porque tem muita coisa que a gente está levando um pouco sem reflexão, mas tem um monte de gente que refletiu sobre isso, chegou ao mesmo ponto da gente e refletiu sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A gente encontrou algo em comum com os operaístas na questão da enquete operária. Para nós, pensar o local de trabalho que a gente está, mapear ele, organizar ele, buscar os pontos de conflito, isso é enquete. Então às vezes, inclusive, a própria investigação pode ser a própria luta. Por exemplo, quando eu estive aqui, o pessoal que trabalhava no metrô, percebeu que os terceirizados da bilheteria estavam fazendo uma greve selvagem e a gente organizou uma solidariedade a eles. Nesse processo a gente descobriu como funcionava o trabalho na bilheteria. Isso foi uma enquete operária no próprio processo de luta. A gente já lia antes o Castoriadis, o João Bernardo &#8211; a gente não falou dele, mas acho que é uma outra influência grande que veio de uma experiência em Portugal, do jornal Combate. Mas uma diferença com essa tradição dos anos 60-70 é que ali tinha uma expectativa muito positiva para o trabalho. Uma perspectiva de autogestão que cada pequena ação operária mostrava que o trabalhador podia controlar a fábrica se ele quisesse. E o auge disso foi nos anos 70, as lutas autogestionárias. Na revolução portuguesa de 74, teve um movimento que tomou uma porcentagem importante das fábricas do país. As empresas estavam sob o controle dos trabalhadores. Eu acho que esse era um horizonte das lutas no fordismo, e acho que a gente tinha uma intuição aqui &#8211; daí vocês me corrijam se vocês acham que eu não estou certo &#8211; de que essa tendência autogestionária não é a mesma coisa hoje. A gente viu isso na organização do call center, que no fundo a vontade era também explodir aquele lugar e sair de lá. Você não é o operário que está fazendo um avião que vai voar e fazer a sociedade ir para o futuro. Hoje o conteúdo das lutas no trabalho parece mais anti-trabalho do que autogestionário, e acho que a gente encontrou nisso uma afinidade também com o pensamento anti-gestão do Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Tem também um outro caminho, não sei se vocês tiveram o mesmo preconceito que a gente que é um pouco mais velho, teve, que era o seguinte: em certa medida, a gente foi vendo a degeneração das formas organizativas anteriores. Entendia elas como uma camada mais de reificação sobre os dilemas e as composições das lutas dos trabalhadores. Tinha até uma música do Tom Zé, que era muito boa: “não tem nenhum operário na platéia, não tem nenhum operário no palco, mas Tom Zé sabe muito bem aquilo que é bom para a classe operária”. Eram camadas de reificação que iam se afirmando na tentativa de buscar também um conflito. Foi meio intuitivo, a gente precisava investigar para além daquilo que é dito pela representação dos trabalhadores. Qual é o nível de conflituosidade que existe no chão, no quente daquelas contradições que não podem ser transmitidas pelas formas tradicionais? Não significa que os trabalhadores não reifiquem, só que a reificação imediata daquele processo é distinta da reificação que vai ser feita por uma organização que já quer se manter, já tem todo um laço, um entrelaçamento de posicionamentos, uma fauna organizativa que ele está preso e que ele é obrigado a idealizar ainda mais aquela parte da realidade. Então a idealização feita a quente pelo trabalho permitia a gente entender muito melhor quais eram as contradições que estavam postas e como potencializar elas no sentido anti-trabalho, não no sentido propriamente de tomada do lugar do trabalho. A gente entendia que as formas sindicais e partidárias não davam conta de dar vazão a isso, a gente precisava furar esse bloqueio. A gente não tinha uma formulação teórica sobre isso, ela veio comprimida por uma necessidade da própria luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; A pergunta fala especificamente do operaísmo italiano, que fez uma investigação entre o começo e auge das lutas se a gente pegar de 60 a 70. Se a gente vê a Tendência Johnson-Forest ou até a galera do Socialismo ou Barbárie, ali era algo mais de “estamos desiludidos com a nossa forma de organização atual e precisamos nos reencontrar”. Também era uma perspectiva de se reconectar, de entender a nova conjuntura, e eu acho que esse é o papel da enquete que de certa forma a gente pegou. É muito diferente de uma situação quente, como o jornal Combate, dentro de um processo revolucionário e de tentar potencializar isso. Nossa perspectiva de enquete foi muito mais se religar, entender o que está acontecendo e se inserir. Nossa crítica à esquerda era justamente essa, a esquerda chega lá e quer falar para a galera. A gente não quer falar <em>para</em> a galera, a gente quer falar <em>com</em> a galera, a gente quer entender o que a galera fala, e nesse sentido essa perspectiva da investigação tem muito mais a ver com uma autoformação nossa, do que necessariamente com a perspectiva da gente apontar para alguma solução. Uma crítica que um camarada fez foi: “vocês estão aí nessa coisa da enquete operária, e a diferença de vocês e dos leninistas é que os leninistas tem o partido e vocês estão com a enquete para poder fazer a revolução”, mas eu não acredito nisso. Eu não acredito na nossa possibilidade de fazer a revolução através da enquete, mas da gente entender o contexto atual e como a gente se insere nos processos que estão acontecendo, como a gente se liga a classe, qual o movimento da classe atualmente, muito mais do que o que a gente quer levar a classe a fazer. Eu acho que a gente também faz um pouco de confusão entre a própria ideia de enquete operária e copesquisa, mas eu acho que a ideia da investigação militante é mais interessante nesse sentido, que a investigação que a gente faz de certa forma coloca as duas coisas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; E isso permitiu a gente chegar mais a fundo em compreensões sobre o caráter ambíguo das explosões que aconteceram recentemente. O modo tradicional de caracterizar uma determinada luta pode ser muito perverso. Você recorta e joga essa luta parcialmente e isso vira um consenso num circuito grande da esquerda e acaba jogando tudo fora, na lata do lixo. Todas as possibilidades de quebra daquela realidade se transformam em uma coisa chapada, homogênea. Então acho que essa investigação também permitia a gente sair dessas formas que homogeneizavam a realidade, botavam a realidade com uma coisa preta no branco, mas é muito mais cinza, cheio de nuances. Os caras não esperavam ver da boca de caminhoneiros as demandas, por exemplo, dos pequenos caminhoneiros daqui da entrada de São Paulo. Não é a busca da verdade, mas é um pouco nesse sentido que você falou, reconexão com os processos reais de luta, compreender os limites e como eles também reificam a realidade, e como que a gente também conseguiria contribuir numa tendência que a gente acredita ser de ruptura, ou de contribuição com outras lutas de trabalhadores que estavam acontecendo. A investigação foi caindo no nosso colo. A gente não fez um caminho consciente…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu acho que tem uma coisa que liga também com a discussão de estratégia que a gente teve antes com a discussão de consciência, eu acho que o pensamento da investigação ele inverte o plano da consciência. Então, ao invés de você levar uma resposta pronta pra classe trabalhadora, é o movimento inverso. Você vai pra porta de uma empresa não pra dar um panfleto que vai contar uma verdade pro cara, mas pra descobrir, pra aprender alguma coisa. O que tem de mais importante nesse processo é você descobrir uma denúncia daquela fábrica, descobrir alguma coisa ali… O militante, no fundo, tá aprendendo, e não indo dizer alguma coisa e, claro, a partir desse aprendizado a gente faz elaborações que são importantes para nós e que também podem ser úteis pra luta. Eu acho que é um pouco por aí, e acho que liga com estratégia também porque aí tem uma discussão do conteúdo. Qual a relação entre a enquete e o conteúdo do comunismo? Pensar que o conteúdo do comunismo talvez não tenha sido estático ao longo da história e que cada composição de classe ao longo da história projetou uma certa perspectiva no horizonte. Quando os caras estavam discutindo lá no século XIX na Comuna de Paris como eles queriam que fosse o mundo depois da revolução, eles estavam fazendo isso com base no chão que eles pisavam, que era um certo capitalismo; e que foi outro em 1920 quando a galera formou os conselhos; foi outro nos anos 60, quando o tema era autogestão; e talvez seja outro no nosso tempo. Então eu acho que o papel da enquete é descobrir quais lutas estão acontecendo de fato para encontrar o conteúdo do comunismo do nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos pegar o exemplo dos entregadores. Para boa parte da esquerda tinha uma dificuldade de se relacionar com esse setor porque já vinha com uma resposta pronta que era baseada em formulações que a classe trabalhadora fez em outro ciclo, em outro período que tinha a ver com os marcos fordistas da CLT, que gerava muito rechaço nos entregadores. E por quê? A visão de antes vai dizer então eles são conservadores. Não. Na luta a gente entendeu: é não querer ter chefe, não querer ter hora para entrar e sair. Mas ao mesmo tempo os companheiros estavam fazendo greve e se organizando para bloquear McDonald&#8217;s. Vinha gente trabalhar e os caras estavam no piquete e falavam “não, a gente está brecando aqui hoje, não é dia de trabalhar”. E o cara que veio trabalhar ficava no breque. Uma ação de classe muito mais radical do que uma categoria como bancários faz hoje em dia, que coloca uma faixa na frente do banco da agência e finge que está fazendo uma greve. Eles queriam autonomia e estabilidade. Ou seja, não é que eles queriam simplesmente negar a CLT, não era negar a possibilidade de um salário bom, de uma vida boa, de ter um direito à saúde, um direito em caso de um acidente que acontecesse, era ao contrário. Era ter acesso a tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; E a crítica ao sindicalismo também é uma coisa de: “a gente não quer ninguém negociando pela gente” e no entanto cai essa coisa de “o trabalhador que rejeita o sindicato quer fazer negociação direta com o patrão”. Eu acho que de fato eles querem isso, mas não é uma negociação individual com o patrão, eles querem organização coletiva com pressão, a partir dos pontos que eles determinam ali. Eu lembro que eu conversava com uma companheira que falava “na verdade parece muito mais com aquele ciclo dos anarquistas no começo do século XX, aquela galera que não queria que as suas organizações fossem institucionalizadas pelo Estado e ao mesmo tempo queria fazer as lutas diretas, se auto-organizar”. O que a gente vê talvez seja mesmo uma questão de gestão da miséria, barbárie. Alguns grupinhos e iniciativas foram organizadas nesse sentido de “todo mundo coloca uma graninha e daí a gente ajuda quem se acidentar”, e tal. A gente pode ver isso dentro de uma dinâmica de que está tirando a responsabilidade da empresa. Mas ao mesmo tempo a gente também pode ver isso dentro de uma ótica de avanço de perspectiva de auto-organização, que é interessante. Só que a gente fica nessa contradição porque a gente não quer também potencializar a gestão da miséria. Mas ao mesmo tempo o desenvolvimento de novas relações e novas organizações, formas de se relacionar que surgem daquilo, são muito interessantes. Então como é que a gente junta isso? A esquerda só fala coisas como “precisa ter CLT”, “precisa de sindicato”, “precisa disso”, mas não olha para essas expressões mais orgânicas da classe, em buscar os conflitos e as formas de organização invisíveis, subterrâneas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159304" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg" alt="" width="1046" height="1493" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg 1046w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-210x300.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-717x1024.jpg 717w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-768x1096.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-294x420.jpg 294w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-640x913.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-681x972.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1046px) 100vw, 1046px" />PyB &#8211; Como surgiu a ideia de editar o livro “Incêndio”? Qual foi seu principal objetivo ao circular esses textos no meio autônomo/radical?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Tem dois textos nesse livro, né? O primeiro texto chama <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" href="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Olha como a coisa virou”</a>, que acho que foi o primeiro texto coletivo que a gente escreveu no Grupão. E a gente escreveu em 2018, que foi o ano que estava se elegendo o Bolsonaro, foi um ano muito tenso. Só que no Grupão tinha uma intuição, mesmo antes do Bolsonaro ser eleito, de que ele era de alguma forma um “candidato do tempo”. Porque tínhamos uma leitura de 2013 como a revolta que explodiu a guerra social, e que rompeu com a pacificação, com o regime de gestão petista e trouxe à tona o conflito. E o Bolsonaro, de alguma forma, era o candidato que trazia à tona o conflito também. Não era o mesmo conflito de classe que a gente queria em 2013, mas ele escancarava a guerra social em vários sentidos. Então parecia para gente que o espírito de revolta de 2013 ainda estaria vivo e eleitoralmente o Bolsonaro teria condições de sequestrar um pouco dessa energia de revolta. Ele vencer a eleição reforçou esse ponto.</p>
<p style="text-align: justify;">A gente tinha uma hipótese para explicar a eleição que era que o bolsonarismo sequestrava parte daquela energia de revolta social de 2013 de forma muito louca porque ao mesmo tempo também era a expressão da repressão em 2013, das forças policiais, do exército que estava no Haiti reprimindo nas favelas e que veio pra cá reprimir, fazer garantia de lei e ordem. Então o Bolsonaro condensava esses dois lados da coisa: a repressão e também o sequestro da energia de revolta, tirando essa revolta de termos de classe e levando pra uma coisa mais ambígua &#8211; justamente por isso fascista, porque como o João Bernardo define, fascismo é uma revolta dentro da ordem. Então o texto continha uma hipótese para o período: “se o Bolsonaro expressa uma energia de revolta social que era nossa em 2013 e que agora foi sequestrada por uma extrema direita, quer dizer que existe algum conteúdo que nos interessa no meio dessa coisa toda” . E isso nos fez, durante o período seguinte, ter uma posição que fez a gente se afastar do conjunto da esquerda que adotou uma posição “se unir contra o fascismo”. A gente tinha muita ressalva com esse discurso antifascista no sentido de que ele poderia simplesmente significar uma defesa daquela democracia, do consenso e do apaziguamento que estávamos combatendo anos antes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K </strong>&#8211; De certa forma, a gente tentou traçar durante o Bolsonaro uma postura que não era exatamente antifascista, ou ela o era em outros termos, que não era de defender a civilização e a ordem capitalista contra a irracionalidade fascista, mas sim de buscar no proletariado, inclusive nos trabalhadores que apoiavam o Bolsonaro, uma energia de revolta que agora a insurgência de direita estava sequestrando. Eu acho que o texto tinha um pouco essa aposta: tentar escapar da polarização Bolsonaro-PT e entender as lutas nos seus próprios termos. Levar elas para o plano trabalhadores versus capital, colocar uma oposição em termos de classe. A gente teve essa experiência em várias categorias, como os entregadores. O segundo texto do <em>Incêndio</em>, que é o <a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">“</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Masterclass de fim do mundo</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">”</a>, é uma compilação, um balanço do conjunto dessa experiência que a gente teve durante o bolsonarismo, que foi agravada obviamente pela pandemia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Vale a pena falar que no período da pandemia o Grupão teve algumas diferenças internas. Chegou praticamente a rachar, apesar de que não completamente. O texto acabou sendo escrito por um lado, digamos, dessa divisão. Quais eram os lados dessa polarização interna? O primeiro dizia: “tem um vírus mortal rolando aí e a nossa tarefa é criar redes de solidariedade para se proteger contra a pandemia.” A auto-organização da quarentena e das medidas sanitárias vinha em primeiro lugar. O outro setor &#8211; e eu estava mais desse lado &#8211; argumentava que para muitos trabalhadores a quarentena não seria uma opção. Você vai se proteger na medida em que você consegue, mas se as pessoas ainda tem que sair para trabalhar, ainda precisam lutar contra o seu patrão, e quem está em casa também. Por isso, nossa primeira tarefa deveria ser apoiar o conflito. O texto do Incêndio coloca essa questão nas entrelinhas em muitos momentos: a ênfase na solidariedade ou no conflito? Depois da pandemia e com o texto publicado, hoje para nós está claro que essas coisas não se excluem completamente. Para você ter conflito você tem que ter uma rede de solidariedade mínima entre os trabalhadores que estão em conflito, e que certas redes de solidariedade, em certas situações, também podem ser conflituosas para o capital. Enfim, o grupo que escreveu o incêndio, e daí assinou como “militantes na neblina” &#8211; foi uma forma também de não colocar o nome “Grupão” &#8211; era o setor que estava criticando as redes de solidariedade como um embrião de gestão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Só para explicar um pouco, por exemplo, no caso específico dos entregadores, uma fração que foi alçada à categoria de imprescindíveis para a reprodução, chamados de trabalhos “essenciais”. Como também não tinham muita organização formal, era uma linha de frente para o capital. Daí a galera discutiu se poderia se organizar para entregar EPIs para os trabalhadores ou então fazer com que a própria luta se voltasse contra o iFood, contra a Rappi, e obrigar que essas empresas fizessem a proteção dos trabalhadores, aumentando o pagamento salarial. Óbvio que a gente estava pensando “é importante fazer a segurança, ter EPI de qualidade”, mas dentro disso saber que não adianta a gente, enquanto grupo externo, ficar fazendo “vamos lá levar máscara para os caras”, “vamos lá fazer vaquinha para ajudar o cara”, era quebrar com essa lógica de uma forma específica e botar isso como conteúdo objetivo da luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Eu acho que o W apresentou dois extremos ali do debate sobre solidariedade e conflito, que é anterior à pandemia e ele se desenvolve na pandemia. De certa forma, acaba se radicalizando. Mas eu não acho que a ruptura se deu nesses termos exatamente. Até porque eu fiquei mais do lado da galera que estava vendo outras formas de luta e resistência dentro de processos de solidariedade, que também eram conflituosos. Acompanhamos e apoiamos a greve dos entregadores da Loggi no Rio de Janeiro, que foi anterior ao Breque dos Apps. O mesmo com rodoviários fazendo greve selvagem. Lá em Paraty, a gente estava de olho no desenvolvimento das barreiras sanitárias organizadas por moradores de bairros afastados, que tinham treta com o poder público. Divulgando a galera que estava nos locais de trabalho, com raiva de seus patrões que estavam se utilizando das políticas sanitárias a bel prazer, sem nenhum tipo de fiscalização por parte do poder público, enquanto o mesmo poder público censurava trabalhadores precarizados do centro que estavam lá vendendo artesanato, fazendo arte, música, enfim. Aqui em Goiânia, um dos pontos que foi interessante é que a gente conseguiu uma inserção com os entregadores, que foi a galera que já estava recebendo kit de entrega de máscara e álcool gel, mas era uma máscara de pano escrota. A gente se juntou, fez uma vaquinha e foi lá distribuir pra galera. E foi super massa ter essa troca. Isso abriu nossa inserção para a greve contra o agendamento de corridas nos apps, por exemplo, que a gente construiu junto na pandemia. As coisas ficaram um pouco misturadas em certo momento. Eu acho que essas questões não ficaram tão pretas ou brancas assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Isso é uma coisa engraçada dessa experiência: foi uma divisão funcional de tarefas também. No momento em que o auxílio emergencial produziu revoltas de rua, a gente se envolveu. Quando virou uma coisa de redes de solidariedade a gente falou “isso aí é pelego”, aí vocês se envolveram. Então, de alguma forma, a gente pôde acompanhar o movimento inteiro. Quando a gente voltou a se encontrar, deu para conversar e os dois produziram sínteses.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Voltando à questão do <em>Incêndio</em>, eu já estava no Grupão no processo da escrita dos dois textos. Não participei do <em>“Olha como a coisa virou”</em>, mas é o que eu tenho mais acordo. Em relação ao <em>“Masterclass do fim do mundo”</em>, a minha discordância além de questões chaves, terminológicas ou de definições de certos processos (como por exemplo as barreiras sanitárias e tal, que também foi dual, tinha coisa muito pelega, mas tinha coisa muito interessante de combatividade), é o tom final do texto de “chegamos ao fim da linha” &#8211; que deu um tom também no próprio Grupão. O Masterclass caiu numa coisa completamente niilista, que reforçou uma questão, que eu acho que a gente está tentando sair agora, de: “é o fim, talvez a gente nem deve mais pensar em revolução, talvez seja uma questão de pensar apenas resistência”. Na minha visão, a gente tinha muito claro, muito estabelecido entre a gente, por mais que não falasse muito, que a nossa perspectiva era revolucionária. A partir do <em>Masterclass</em> eu comecei a pensar que talvez esse não fosse o caso, que talvez realmente haviam camaradas que pensassem que não tem mais pra onde ir, que é o fim mesmo, e agora é sobre puxar o freio e segurar essa porra. Eu acho que isso levou o Grupão por um lado meio negativo. Dessa coisa meio da gente simplesmente achar que é o fim da linha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em certa medida, são textos que se propõem a fazer sínteses do tempo histórico. Não sei se a gente poderia falar em conjuntura, como uma coisa bem dividida: “o que acontece no âmbito da política”, “da cultura”, “da economia”, uma coisa meio escolarizada fordista, isso já foi pro saco. A gente não se importa com isso. A gente se importa em tentar captar aquilo que você chamou do “espírito da revolta” no processo. O sequestro desse espírito da revolta, e um certo apogeu dessas forças de extrema direita. É uma tendência a uma dessocialização que agrava uma forma violenta das relações cotidianas. Mas acho que o ponto é que ambos são, e daí entro numa reflexão que a gente precisa fazer entre nós, que ambos são expressões de transições de conjunturas. A gente pode pegar um texto anterior, da crise do MPL, que é o <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Revolta popular: o limite da tática”</a> que expressa um tempo histórico. Expressa a luta conscientemente contra o consenso e quebramos a janela do consenso, fizemos o consenso se desdobrar e se esvair em um processo aberto. Capta como que esse processo aberto poderia escorregar para uma revolta de vernizes de extrema direita, que foi o <em>“Olha como a coisa virou”</em>, e a gente até termina meio “otimista”, perguntando para onde caminha a revolta. Pode ser que ela volte para outro campo, mas a tônica era que é possível passar o calhamaço da extrema direita durante um tempo. E o <em>“Masterclass do fim do mundo” </em>combina o combo de tragédias. Era a tragédia de uma população relativamente encantada com discursos que, para a gente, se assimilavam ao que foi o fascismo histórico, chama-se lá como foi. Tinha a expressão de violências e estratégias bárbaras de deixar ou dirigir o genocídio mediado por um vírus, tinha experiências políticas, no caso do Amazonas, de deixar as pessoas sem oxigênio. Enfim, aquela marcha fúnebre que passava tudo. Aquilo deu a tônica de um apogeu em um momento histórico. Só que isso também passou. Então ambos os textos, apesar de serem textos de propósito de síntese, não tem a pretensão de ser algo manualesco, algo que dê um caminho. São sínteses de tempo histórico. De dizer um pouco, do ponto de vista sintético, qual é a experiência que a gente tem visto na luta de classes no Brasil nesses dois tempos. Nesse sentido é bom, mas no outro sentido é datado. O problema de você generalizar coisas a partir das lutas concretas de um momento é que fica um pouco impressionista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu entendo a preocupação do Camarada X e eu concordo com ela. Politicamente o texto tem uma conclusão muito pessimista. Aquele livro termina muito pessimista. Só que de fato a gente viu a maior onda de revoltas da história da humanidade globalmente, a maior onda de greves da história do Brasil. Na China também houve um ciclo de greves enorme, e isso não deu em revolução, tampouco em saldo organizativo. No fundo, essa constatação tem a ver com o problema do acúmulo organizativo. A gente estava escrevendo esse texto na ressaca das greves de motoboys e das lutas da pandemia, que tinham sido derrotadas. O Revolucionários dos Apps, grupo de entregadores de app em Goiânia foi cooptado. Em São Paulo o grupo do Treta no Trampo implodiu com brigas internas. Foi péssimo aquele momento. A gente escreveu esse texto em um tom de derrota. E vendo também as revoltas pelo mundo não encontrando o horizonte… por isso que é “neblina”, porque não vê horizonte revolucionário. A gente até brincou: “quando tiver um horizonte revolucionário a gente muda o nome da assinatura”. Só que o problema é que o balanço que você faz nessa situação é muito pessimista, e isso tem uma implicação política. Por um lado é levar a sério o que se está analisando, falar de não ter horizonte, e de fato a gente tem que entender que pode ser sinistra a consequência de dizer que não tem acúmulo de forças hoje. Então por que eu vou militar? É o problema político do texto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em geral os livros políticos tem propostas de ação, o nosso não tem, o nosso é só uma lamentação. No final é o chamado a quem percebe essa lamentação, é uma proposta de encontrar um chamado às outras organizações que percebem nesse momento histórico a gravidade do tempo. Eu acho que é um ponto. Ele não teve um papel organizador como os livros podem ter. Foi uma síntese nossa, e aí a gente ficou lidando com essa síntese, com esse balanço muito pessimista. Eu acho que tem um pouco a ver com a situação do Grupão hoje, que a gente está num momento difícil do nosso espaço, que tem muita gente que está muito desiludida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acredito que a gente deve resgatar o horizonte revolucionário, não como uma coisa a ser construída por nós, mas uma coisa que considerando todo o processo histórico é uma possibilidade, não é a negação dessa possibilidade. A gente não pode dizer que vai acontecer, mas a gente não pode dizer também que não vai acontecer. Então é melhor que a gente segure a possibilidade e avance para isso, até porque têm outras lutas que trazem conteúdos importantes para a perspectiva revolucionária hoje. Por exemplo, me trouxeram a referência do Irã em 2021 quando teve uma greve gigante de trabalhadores de óleo e petroquímica, 100 mil trabalhadores organizados e criação de conselhos. Eles estavam fazendo defesa de conselhos. Eles estavam defendendo uma perspectiva que a gente pensou que havia acabado, mas aconteceu. Mostra uma continuidade. Eu não vou falar que mostra uma “invariância”, mas mostra que há uma atualidade ainda em formas clássicas que podem se atualizar, como os grupos de WhatsApp, a perspectiva das equipes dos entregadores, enfim. Eu acho que são elementos que a gente precisa pensar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A crítica sempre é posicionada, por mais que ela seja radicalmente negativa, ela é sempre posicionada. A gente parte do pressuposto, ainda que não tenha as condições objetivas de realizar, de que existe a necessidade e a possibilidade, talvez não a probabilidade, da humanidade viver uma humanidade sem classes. A gente parte desse pressuposto. Ele é a onde a gente joga a âncora para fazer a crítica. A gente não faz a crítica no vazio. Ela é posicional. Nesse sentido, acho que isso ajuda a gente a entender que mesmo que uma revolução, uma ruptura, não esteja na ordem do dia ou aquilo que organiza o nosso cotidiano, ela serve mesmo no exercício da imaginação. Ela serve para a gente criar a negativa desse mundo. Óbvio, uma negativa imanente, a gente parte do pressuposto de que existem as contradições. As condições de vida tendem às lógicas mais irracionais, mais destrutivas, mais bárbaras. A gente só consegue perceber isso quando a gente alça no oposto, ou seja, talvez não seja provável, mas é possível uma humanidade sem classes, uma humanidade livre das determinações da sua auto-escravidão. Eu acho que isso é o que faz com que a gente possa pensar. Então, de certa maneira, é também inegável que a gente tenha o pressuposto revolucionário para fazer a crítica do capital. Sem o pressuposto revolucionário a gente não consegue fazer a crítica efetiva do capital. Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico sinistro de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas.</p>
<p><em>As obras que ilustram o artigo são de Theo v</em><em>an Doesburg </em></p>
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		<title>Não olhe para a Lei Rouanet!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 12:58:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[ O meteoro do incentivo à cultura. E o que os trabalhadores da arte da cultura deveriam aprender com as lições catastróficas da  dependência política do fomento. Por Manoel J de Souza Neto]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Manoel J. de Souza Neto</h3>
<p style="text-align: justify;">Após anos de pesquisas sobre o fomento à cultura no Brasil, coordenando estudos independentes e cooperando com o Observatório da Cultura do Brasil em análises sobre a Lei Aldir Blanc, o MinC, o CNPC e a Lei Rouanet, encerro este ciclo com a sensação de tarefa cumprida. Nosso objetivo sempre foi diferente do de muitos que apenas desejam atacar a arte ou captar recursos. Queríamos provocar reflexão sobre falhas na execução das políticas públicas e expor contradições que incentivassem melhorias nos mecanismos de fomento à cultura. Não imaginávamos que, apenas por observarmos o cenário com a lente do Observatório e identificarmos o objeto em queda e a catástrofe que poderia provocar, seríamos perseguidos e hostilizados por alertar a sociedade sobre a tragédia iminente. Descobrimos, de forma amarga, como grupos de interesse, parte da mídia e a política podem ser medíocres. Depois de anos de <a class="urlextern" title="https://diplomatique.org.br/crise-cultura/" href="https://diplomatique.org.br/crise-cultura/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">artigos</a>, pesquisas e <a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">relatórios</a>, o que revelamos sobre problemas na aplicação de recursos e ineficácia das políticas públicas tornou-se menos importante do que o objeto secundário da própria pesquisa, que são as razões pelas quais o cenário não muda. E elas passam pelas pressões de partidos, grandes empresas, atravessadores, máfias de editais e setores da mídia, somando-se à anti-cultura promovida por conservadores e ultraliberais que tentam desmontar os instrumentos de fomento. Ambos os lados carregam responsabilidade semelhante pela falência estrutural do financiamento à cultura no Brasil. Descobrimos isso porque tentaram silenciar estudos que poderiam ajudar a sociedade, revelando justamente as razões pelas quais nada muda, justamente os interesses excessivos de poucos grupos beneficiados. As pressões políticas e <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/coluna/radar/observatorio-denuncia-perseguicao-no-ministerio-da-cultura/" href="https://veja.abril.com.br/coluna/radar/observatorio-denuncia-perseguicao-no-ministerio-da-cultura/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">perseguições aos pesquisadores</a> levaram membros do Observatório da Cultura do Brasil ao limite, resultando em queda de canais. Considerando que auditorias e autoridades confirmaram nossos estudos, o grupo se desfez e este tema está encerrado para nós, mas não antes de apresentarmos as provas e auditorias que encerram o caso.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise contemporânea do financiamento cultural brasileiro deixou de ser apenas um debate técnico sobre renúncia fiscal, incentivos culturais e gestão administrativa para se transformar em uma guerra simbólica permanente entre campos políticos rivais. Nos últimos anos, a Lei Rouanet passou a ocupar espaço semelhante ao de outros temas polarizadores nacionais, funcionando simultaneamente como símbolo de democratização cultural para setores progressistas e como representação de privilégios e desperdício de recursos públicos para grupos conservadores, enquanto especialistas apontam contradições sociais e baixa efetividade administrativa. O problema central é que ambos os lados passaram a operar com narrativas simplificadas que, embora contenham elementos reais, frequentemente produzem interpretações distorcidas da realidade para fins políticos. O bolsonarismo construiu a retórica de que a Rouanet teria sido capturada por artistas de esquerda, celebridades e elites culturais alinhadas ao PT, enquanto o governo Lula, o Ministério da Cultura e setores ligados à defesa institucional da gestão cultural passaram a tratar grande parte das críticas estruturais ao mecanismo como fake news, demonização ou perseguição ideológica. Entre essas narrativas extremadas, o debate técnico sobre concentração regional, passivos bilionários, fragilidade de fiscalização, dependência do capital privado e desigualdade estrutural de acesso acabou obscurecido por disputas eleitorais e simbólicas. A dinâmica das redes sociais agravou o processo, transformando dados incompletos, tabelas isoladas, projetos aprovados sem captação, fotos, mentiras sobre contas públicas, cachês municipais e contratos culturais em peças de propaganda e ataque político. Nesse ambiente, cada grupo passou a construir sua própria realidade paralela. O centro-esquerda no governo enfatizou quase exclusivamente os impactos positivos da cultura na economia, os empregos gerados e a defesa da cidadania cultural, enquanto setores da direita resumiram o sistema a corrupção, mamata e privilégio ideológico. Ambos possuem parcialmente razão em pontos específicos, mas ambos simplificam um sistema muito mais complexo, marcado por relevância econômica real, forte demanda social por financiamento cultural e problemas históricos de controle, transparência e distribuição. O resultado é um ambiente comunicacional em que fatos técnicos são absorvidos pela lógica da guerra cultural, impedindo análises equilibradas e produzindo ciclos permanentes de boatos, desinformação, agressões, seletividade narrativa e exploração eleitoral do tema.</p>
<p style="text-align: justify;">O caso do filme Dark Horse sintetizou de forma emblemática a nova guerra política sobre financiamento cultural no Brasil. A produção sobre Jair Bolsonaro passou a funcionar como espelho invertido das antigas críticas da direita à Lei Rouanet. Reportagens do Intercept Brasil revelaram mensagens, contratos e áudios envolvendo Flávio Bolsonaro, Mário Frias e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, indicando negociações para financiar o longa com cifras de até US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões. Setores de centro-esquerda exploraram o episódio para denunciar contradições da direita bolsonarista, que durante anos atacou o fomento cultural via Rouanet, mas passou a defender um financiamento milionário ligado a um banqueiro investigado no maior escândalo financeiro do país. O secretário-executivo do MinC, Márcio Tavares, afirmou que bolsonaristas condenariam o financiamento público cultural, mas aceitariam grandes aportes privados quando destinados a obras ideologicamente alinhadas. A Ancine informou que investigaria o caso, embora auditorias do TCU apontem falhas históricas da agência justamente na fiscalização dos recursos do setor audiovisual. Ao mesmo tempo, Mário Frias inicialmente negou qualquer relação financeira de Vorcaro com o projeto, afirmando que não existiria “um centavo” do banqueiro no filme, mas depois recuou e admitiu recursos ligados a empresas associadas ao empresário. CNN, Folha, G1, BBC e Metrópoles passaram então a explorar as contradições das versões apresentadas pela defesa do projeto. O orçamento do filme superaria os valores totais de captação da Rouanet em diversos estados brasileiros, transformando o episódio em poderosa arma retórica contra o discurso anti-Rouanet da direita. A defesa bolsonarista passou a sustentar que o financiamento era privado, sem renúncia fiscal e sem uso da Rouanet, argumentando que não haveria ilegalidade no recebimento de capital privado para uma produção audiovisual, mesmo diante de suspeitas ligadas a corrupção e fraude financeira. O debate deixou de girar apenas em torno da Rouanet e passou a questionar a legitimidade de financiamentos culturais ligados a grandes empresários investigados, diante de suspeitas de finalidade eleitoral, favorecimento político e estruturas financeiras opacas. O episódio revelou que tanto mecanismos públicos quanto privados de financiamento cultural podem se transformar em instrumentos de disputa ideológica, influência política e produção de narrativas seletivas. Enquanto o centro-esquerda apontava o “escândalo” do financiamento privado bolsonarista, a extrema-direita acusava o governo de hipocrisia por condenar recursos privados enquanto defendia bilhões em renúncia fiscal via Rouanet. O caso demonstrou que o centro real da disputa não é apenas a origem do dinheiro, mas quem controla a narrativa cultural, quais projetos recebem legitimidade institucional e quais grupos conseguem transformar financiamento cultural em capital simbólico e eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse cenário, o Ministério da Cultura, a ministra Margareth Menezes e setores ligados ao PT passaram a desenvolver uma defesa fortemente positiva e muitas vezes incondicional da liberal Lei Rouanet. A atual gestão sustenta que o mecanismo representa um instrumento constitucional de democratização cultural, desenvolvimento econômico e reconstrução do setor após o período bolsonarista. Estudos da Fundação Getulio Vargas passaram a ser usados como principal base de legitimação da política pública. Segundo dados divulgados pelo MinC, a Rouanet movimentou cerca de R$ 25,7 bilhões na economia, gerou ou sustentou aproximadamente 228 mil empregos diretos e indiretos e produziria retorno de R$ 7,59 para cada R$ 1 investido via renúncia fiscal. O governo também passou a enfatizar recordes de propostas submetidas, crescimento de projetos nas regiões Norte e Nordeste e expansão territorial da política cultural (<a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" rel="ugc nofollow">ainda que estudos revelem as contradições</a>). Margareth Menezes afirma frequentemente que “o povo brasileiro tem direito à cultura”, enquanto Márcio Tavares sustenta que “a cultura constrói pontes, não celas” (e tem razão), reforçando a ideia de que a Rouanet teria deixado de atender apenas grandes espetáculos para alcançar iniciativas periféricas, regionais e comunitárias. O problema é que essa defesa institucional frequentemente opera como blindagem discursiva, evitando reconhecer contradições históricas do modelo e problemas no gerenciamento dos mecanismos. Em reação aos ataques bolsonaristas e às fake news contra a Rouanet, parte do governo passou a tratar quase toda crítica estrutural à lei como simples “demonização da cultura” vinda de Bolsonaristas (<a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">como se a lei não fosse liberal e excludente</a>). Com isso, problemas reais como concentração regional, dependência de grandes patrocinadores privados, desigualdade de acesso, concentração de recursos em grandes produtoras e fragilidade de fiscalização passaram a ser antagonizados pelo discurso oficial como “discurso de ódio”. A própria estrutura da Rouanet continua baseada na lógica da renúncia fiscal, ou seja, na escolha privada sobre quais projetos receberão apoio conforme interesses de marketing e retorno reputacional em favor de grandes empresas patrocinadoras. Assim, embora seja uma política pública, sua operacionalização concreta permanece subordinada ao poder econômico e à lógica de mercado. O discurso oficial enfatiza democratização e descentralização, mas frequentemente evita discutir que a <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">distribuição histórica dos recursos permaneceu profundamente desigual</a> por décadas e que o aumento do número de projetos aprovados não significa distribuição proporcional da captação efetiva. A defesa institucional da Rouanet acabou assumindo um caráter quase totalizante, em que impactos econômicos positivos são usados como argumento suficiente para neutralizar críticas estruturais sobre transparência, fiscalização e concentração (<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">O que não silencia as pesquisas que revelam a realidade</a>).</p>
<p style="text-align: justify;">O episódio envolvendo o senador Randolfe Rodrigues e artistas sertanejos mostrou como a Rouanet passou a funcionar como arma retórica dentro da polarização política brasileira. Em discurso no Senado, Randolfe respondeu a Magno Malta listando artistas ligados à direita que teriam recebido dezenas de milhões vinculados à Rouanet, entre eles Gusttavo Lima, Bruno &amp; Marrone, Leonardo, Chitãozinho &amp; Xororó, César Menotti &amp; Fabiano e Zezé Di Camargo &amp; Luciano. A fala repercutiu amplamente e foi usada para denunciar a seletividade moral da extrema-direita, que atacaria artistas de esquerda enquanto ignoraria benefícios recebidos por nomes conservadores. Porém, surgiram rapidamente contestações técnicas de jornalistas e especialistas em gestão cultural. O principal argumento era que Randolfe misturava conceitos distintos, tratando valores autorizados para captação como dinheiro efetivamente recebido via Rouanet. Especialistas lembraram que aprovação de projeto não equivale a captação integral nem a recebimento de recursos públicos. O caso de Luan Santana tornou-se emblemático, pois o cantor teve projeto aprovado, mas afirmou nunca ter captado os recursos autorizados. Paralelamente, investigações passaram a mostrar que o verdadeiro fluxo bilionário ligado ao universo sertanejo ocorreria muitas vezes por outra via, de cachês milionários pagos por pequenas e médias prefeituras com recursos de emendas parlamentares, especialmente as emendas Pix. Reportagens da IstoÉ Dinheiro, do portal O Fator e de veículos independentes mostraram que prefeituras utilizavam verbas de baixa rastreabilidade para contratar artistas sertanejos, inclusive em municípios com graves carências em saúde, saneamento e educação. A CGU e o STF passaram então a analisar o tema em auditorias e decisões relacionadas à transparência das emendas. Assim, a discussão deixou de ser apenas “Rouanet versus sertanejo” para revelar uma estrutura muito mais ampla de circulação de dinheiro público na cultura e no entretenimento vindo de deputados, prefeituras e agronegócio. Randolfe acertou ao expor a hipocrisia de setores que demonizam a Rouanet enquanto ignoram outros mecanismos públicos ligados à direita, mas sua argumentação equivocada por difundir informações e fontes contraditórias. Ao mesmo tempo, setores conservadores passaram a tratar críticas aos cachês sertanejos como perseguição ideológica, ignorando evidências sobre uso de verbas públicas em contratações suspeitas. O episódio tornou-se retrato da comunicação política contemporânea, como um lado transforma números autorizados em dinheiro “embolsado da Rouanet” e o outro transforma investigações sobre recursos públicos em “ataque à cultura”. Entre essas narrativas, desaparece o debate técnico sobre transparência, rastreabilidade, distribuição de recursos e fiscalização efetiva do dinheiro público.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a briga circula entre centro-esquerda e extrema-direta, outra perspectiva é a realista, visando as políticas públicas e efetividade da gestão pública, visando o interesse da população. As contradições entre a narrativa oficial do Ministério da Cultura e os <a class="urlextern" title="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" href="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">estudos produzidos pelo Observatório da Cultura do Brasil</a> tornaram-se um dos principais pontos de inflexão do debate contemporâneo sobre a Lei Rouanet. O MinC passou a sustentar que o mecanismo estaria entrando em uma nova fase de regularidade, transparência e modernização administrativa. A pasta afirma ter criado forças-tarefa para enfrentar o passivo histórico de prestações de contas, reduzindo gargalos e acelerando análises represadas. A Operação Abre Caminhos foi apresentada como símbolo dessa nova etapa, com divulgação de números expressivos de triagens, relatórios, análises conclusivas e encaminhamentos administrativos. O governo também passou a divulgar painéis públicos, sistemas digitais e medidas de simplificação como prova de transparência institucional. Contudo, estudos do Observatório da Cultura do Brasil e artigos publicados na Folha de S.Paulo, Congresso em Foco, Passa Palavra, Bem Paraná e veículos independentes começaram a confrontar diretamente essa narrativa. Os pesquisadores da OCB sustentaram em <a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">relatórios</a> que o Ministério apresentava uma visão excessivamente otimista e, em alguns casos, enganosa <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">sobre o tamanho real do passivo histórico da Rouanet</a>. Segundo os estudos críticos, ainda existiriam dezenas de milhares de processos sem conclusão definitiva e bilhões de reais vinculados a prestações de contas pendentes. O ponto central da crítica é que o governo frequentemente tropeça em ações administrativas preliminares sem efetivo encerramento das contas de processos dos projetos, deixando ocorrer ampliação do passivo. Triagens, relatórios internos e reclassificações processuais como Instrução Normativa nº 29/2026 e normativas anteriores (como a IN nº 23/2025) são apresentados como “solução do problema”, quando muitos casos continuam sem julgamento definitivo, recuperação de valores ou responsabilização financeira clara. Outro ponto explorado pelo Observatório é a suposta flexibilização excessiva das regras de análise financeira sob a justificativa de modernização. Ministério da Cultura (MinC) alterou as normativas de prestação de contas, estabelecendo que projetos culturais de até R$ 5 milhões não estão mais sujeitos ao detalhamento exaustivo de execução financeira. A fiscalização passou a focar na comprovação de entrega do objeto, adotando análises simplificadas. O Tribunal de Contas da União (TCU), vedou a conduta do órgão e apontou que essa flexibilização reduziu o índice de reprovação de contas a zero, o que mascara o problema.</p>
<figure id="attachment_159287" aria-describedby="caption-attachment-159287" style="width: 571px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159287 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.35-36.jpg" alt="" width="571" height="395" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.35-36.jpg 571w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.35-36-300x208.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 571px) 100vw, 571px" /><figcaption id="caption-attachment-159287" class="wp-caption-text">TCU, 2026, P.35-36.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura" href="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">TCU passou a apontar riscos ligados ao enfraquecimento de controles, ausência de prazos adequados para análise e risco de prescrição de processos</a>. Relatórios do TCU identificaram ainda estoque bilionário de prestações pendentes, falhas de monitoramento e baixa efetividade de mecanismos de cobrança e responsabilização (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>). Além disso, os estudos críticos questionam a narrativa de descentralização apresentada pelo MinC. Embora o número de projetos aprovados tenha aumentado em regiões historicamente menos atendidas, os dados agregados não eliminam a concentração efetiva de grandes volumes de captação no eixo econômico tradicional e em grandes proponentes profissionalizados. Assim, enquanto o governo enfatiza crescimento quantitativo e impacto macroeconômico, os estudos críticos apontam permanência de desigualdades estruturais, <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">concentração territorial</a> e dificuldades reais de <a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">acesso para a absoluta maioria dos pequenos produtores independentes</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Preocupados com a opinião pública o governo, e mais especialmente o <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/" href="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Ministério da Cultura lançaram artigo para a Revista Veja questionando os dados do Observatório da Cultura do Brasil</a>, sem no entanto apresentar informações que efetivamente demonstrassem que dados estavam errados. A crítica não passou de um descontentamento sem efetiva demonstração de que o MinC tinha qualquer dado que pudesse contraditar os dados da OCB.</p>
<figure id="attachment_159288" aria-describedby="caption-attachment-159288" style="width: 571px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159288" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.18.jpg" alt="" width="571" height="253" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.18.jpg 571w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.18-300x133.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 571px) 100vw, 571px" /><figcaption id="caption-attachment-159288" class="wp-caption-text">TCU, 2026, P.18.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O caso transformou-se em um raro “plot twist” institucional na política cultural brasileira porque começou como uma disputa narrativa entre o Ministério da Cultura e pesquisadores independentes do Observatório da Cultura do Brasil sobre a situação real da Lei Rouanet, mas terminou com o Tribunal de Contas da União confirmando oficialmente, em auditoria e julgamento plenário (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>), exatamente os problemas que haviam sido denunciados anteriormente pelo Observatório, por articulistas e por parte da imprensa. A cronologia é reveladora. Ao longo de 2024 e 2025, o MinC, sob gestão de Margareth Menezes e Márcio Tavares, passou a defender que a Rouanet estaria em processo de modernização, transparência e superação do histórico passivo de prestações de contas. O discurso institucional enfatizava a “Operação Nise da Silveira”, a “Operação Abre Caminhos”, a simplificação de procedimentos e a ideia de que o gargalo herdado de governos anteriores estaria sendo resolvido, chegando a anunciar o “<a class="urlextern" title="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/o-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas-do-ministerio-da-cultura" href="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/o-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas-do-ministerio-da-cultura" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">fim do passivo</a>”. Paralelamente, artigos do Observatório da Cultura do Brasil, análises da imprensa e estudos independentes começaram a apontar contradições entre o discurso oficial e os dados reais de controle. Textos publicados na Folha de S.Paulo, Congresso em Foco, Passa Palavra e outros veículos sustentavam que o Ministério estaria criando uma narrativa otimista incompatível com a realidade das prestações de contas, marcada por milhares de processos sem análise final, ausência de controle prescricional, afrouxamento normativo e mudanças regulatórias que simplificavam aprovações sem resolver o estoque histórico. O Observatório afirmava existir uma “normalização estatística” do problema, pois novas instruções normativas reduziam a profundidade das análises financeiras para projetos de até R$ 5 milhões, permitindo aprovações simplificadas mesmo diante de inconsistências. O Ministério reagiu recusando as críticas e classificando parte das denúncias como desinformação ou leitura distorcida dos dados públicos. Em entrevistas e notas oficiais, o MinC insistiu que o sistema era auditável, transparente e economicamente eficiente, apoiando-se em estudos da FGV que apontavam retorno de R$ 7,59 para cada R$ 1 incentivado.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto o debate se polarizava entre defensores e críticos da Rouanet, o TCU abriu acompanhamento técnico justamente sobre prestações de contas e riscos prescricionais. O resultado do <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a> foi devastador para a narrativa oficial. No Acórdão 726/2026 do Plenário, relatado pelo ministro Augusto Nardes, o Tribunal concluiu que o MinC “não dispõe de mecanismos, ferramentas ou sistemas voltados ao monitoramento dos prazos prescricionais”, constatando inclusive casos concretos de prescrição mesmo após a Resolução TCU 344/2022. O relatório técnico apontou baixa efetividade das medidas adotadas para redução do passivo, fragilidade nos controles, ausência de integração adequada entre sistemas como Salic e SEI, uso de planilhas manuais, ausência de módulos de recursos e revisão, inexistência de normas internas claras e incapacidade estrutural de acompanhar adequadamente dezenas de milhares de processos. O TCU revelou um passivo aproximado de 30 mil processos envolvendo mais de R$ 22 bilhões e identificou que a Ancine levava em média 1.168 dias para analisar prestações de contas cujo prazo regulamentar seria de 180 dias. Mais grave ainda, a auditoria identificou problemas de integridade, primariedade e confiabilidade das informações públicas, afirmando que os próprios sistemas utilizados pelo MinC não garantiam dados íntegros e plenamente auditáveis. Em outra frente, o Tribunal também criticou diretamente o enfraquecimento das regras de análise financeira introduzidas em normativas recentes do Ministério. O relatório menciona que a IN MinC 17/2024 passou a permitir aprovação de projetos com análise financeira simplificada ou até dispensada em determinados casos inferiores a R$ 750 mil, inclusive admitindo aprovação com ressalvas sem análise financeira aprofundada quando não houvesse indício de dolo ou fraude. O que antes era tratado politicamente como “ataque ideológico à cultura”, longe dos partidos, passou então a existir formalmente como achado técnico de auditoria do órgão máximo de controle externo do país. O efeito simbólico foi imediato, quando o mesmo Ministério que havia rebatido publicamente estudos críticos de pesquisadores independentes, agora se viu oficialmente obrigado pelo TCU a criar, em 120 dias, mecanismos efetivos de controle prescricional, sistemas de alerta e gestão de risco, além de priorizar em 60 dias todos os processos próximos da prescrição. A auditoria consolidou uma reviravolta institucional típica de “instant karma” administrativo, porque demonstrou que as denúncias não eram apenas retórica oposicionista (absurdo já que os estudos vieram de alas progressistas), mas questões técnicas, legais e estruturais efetivamente existentes. A consequência política mais relevante talvez seja justamente o deslocamento do debate, quando o problema da Lei Rouanet deixa de ser mera guerra ideológica entre “defensores da cultura” e “inimigos da cultura” para se tornar uma discussão concreta sobre governança, compliance, transparência, sistemas de informação, rastreabilidade, análise financeira e responsabilidade administrativa. Ao final do processo, ficou oficialmente demonstrado pelo Tribunal de Contas da União (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>) que existem falhas estruturais na gestão das prestações de contas da cultura brasileira, exatamente como pesquisadores, jornalistas independentes e o Observatório da Cultura do Brasil vinham alertando havia anos. O MinC agora não apenas enfrenta constrangimento político por ter negado ou minimizado o problema, mas também passa a ter obrigações formais perante o TCU para corrigir mecanismos, apresentar soluções, aprimorar controles e efetivamente entregar a transparência e a regularidade que antes afirmava já existirem.</p>
<p style="text-align: justify;">A comparação entre auditorias do Tribunal de Contas da União, estudos do Observatório da Cultura do Brasil e notas do Ministério da Cultura revela que o núcleo da crise da Rouanet não é apenas ideológico, mas técnico, administrativo e jurídico. O TCU identificou falhas estruturais ligadas ao passivo de prestações de contas, ausência de mecanismos eficazes de monitoramento, risco de prescrição, enfraquecimento da análise financeira e baixa capacidade de recuperação de recursos. <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Estudos do Observatório argumentam que o discurso oficial do &#8220;fim do passivo&#8221;</a> estaria sendo sustentado por simplificações normativas que reduzem exigências de controle e permitem apresentar redução estatística sem resolver o problema estrutural. Ao mesmo tempo, auditorias e pesquisas demonstram que existem demandas sociais legítimas por políticas públicas de cultura, especialmente em regiões periféricas, municípios pequenos e cadeias produtivas fragilizadas. Isso significa que as críticas estruturais à Rouanet não anulam sua importância econômica e social. O problema é que a polarização transformou um debate técnico complexo em disputa moral simplificada. A extrema-direita reduz o sistema cultural a corrupção e privilégio ideológico, enquanto setores ligados ao governo frequentemente tratam toda crítica como ataque autoritário à cultura. No entanto, auditorias públicas mostram problemas reais de larga escala envolvendo concentração de recursos, fragilidade de controle, passivos bilionários, riscos jurídicos, dificuldades de fiscalização e desigualdades históricas na distribuição. A realidade revelada pelas auditorias está justamente entre as duas narrativas extremas. Nem a Rouanet é apenas “mamata”, como afirmam setores radicais da direita, nem o sistema está plenamente regularizado e transparente, como sugerem peças institucionais do governo. O que existe é um modelo complexo, economicamente relevante e socialmente necessário, mas atravessado por problemas estruturais históricos ainda sem solução definitiva. A crise da política cultural brasileira revela, portanto, os motivos políticos das tensões, como a incapacidade do debate público de separar investigação técnica, controle institucional e política pública da guerra ideológica e da disputa eleitoral permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">A polemica da Lei Rouanet encerrou, não é polemica, mas fatos comprovados em auditorias do TCU (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>). A gestão da lei tem graves problemas que perpassam governos diversos, e seguem sem soluções. Não são os argumentos favoráveis ou contra, que grupos de interesses e ideologias em disputas tentam impor como narrativas para a opinião pública, mas questões técnica, legais, tributarias, orçamentárias, de transparência, prestações de contas, má gestão de recursos, e aspectos técnicos, como por anos a equipe do Observatório da Cultura do Brasil informou tecnicamente em reportagens, entrevista, artigos e relatórios. Como dizem personagens filmes e seriados policiais, “caso encerrado”. A Rouanet precisa de uma solução real.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">AGÊNCIA BRASIL. <em>MinC recebe mais de 22,5 mil propostas culturais da Lei Rouanet</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2025-11/minc-recebe-mais-de-225-mil-propostas-culturais-da-lei-rouanet?utm_source=chatgpt.com" href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2025-11/minc-recebe-mais-de-225-mil-propostas-culturais-da-lei-rouanet?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Agência Brasil</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
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<p style="text-align: justify;">MOURA, Eduardo; ROCHA, Matheus. Ministério da Cultura oculta realidade de passivo gigante que se arrasta há décadas. Folha de S.Paulo, 21 abr. 2025. Disponível em: Folha de S.Paulo</p>
<p style="text-align: justify;">NATELINHA. <em>Como a Lei Rouanet reacendeu debate ao expor uso por sertanejos</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://natelinha.uol.com.br/famosos/2025/12/20/como-a-lei-rouanet-reacendeu-debate-ao-expor-uso-por-sertanejos-235532.php?utm_source=chatgpt.com" href="https://natelinha.uol.com.br/famosos/2025/12/20/como-a-lei-rouanet-reacendeu-debate-ao-expor-uso-por-sertanejos-235532.php?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">NaTelinha</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">O FATOR. <em>Produtoras de sertanejo, forró e gospel somaram R$ 89,8 milhões em renúncias fiscais e receberam emendas Pix</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://ofator.com.br/informacao/produtoras-de-sertanejo-forro-e-gospel-somaram-r-898-mi-em-renuncias-fiscais-e-receberam-emendas-pix/?utm_source=chatgpt.com" href="https://ofator.com.br/informacao/produtoras-de-sertanejo-forro-e-gospel-somaram-r-898-mi-em-renuncias-fiscais-e-receberam-emendas-pix/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">O Fator</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Análise do comunicado público do Ministério da Cultura sobre as contas da Lei Rouanet. Passa Palavra, 08 maio 2025. Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" target="_blank" rel="noopener">Passa Palavra</a></p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Os números contraditórios da Rouanet não mentem. Congresso em Foco, 12 jan. 2026. Disponível em: <a href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="noopener">Congresso em Foco</a></p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Lei Rouanet entre polarização (amores e ódios) e demanda de reforma por evidências empíricas. Cooperação técnica de Manoel J. de Souza Neto. 13 dez. 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Resposta do Observatório da Cultura do Brasil ao Ministério da Cultura. 02 jan. 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Análise do comunicado público do Ministério da Cultura sobre as contas da Lei Rouanet. 08 maio 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">PASSA PALAVRA. <em>Lei Rouanet e os limites da política cultural</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156539/?utm_source=chatgpt.com" href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Passa Palavra</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">PIPOCA MODERNA. <em>Sertanejos de direita lideram Lei Rouanet com Gusttavo Lima, Bruno &amp; Marrone e Leonardo</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://pipocamoderna.com.br/2025/12/sertanejos-direita-lideram-lei-rouanet-gusttavo-lima-bruno-marrone-leonardo/?utm_source=chatgpt.com" href="https://pipocamoderna.com.br/2025/12/sertanejos-direita-lideram-lei-rouanet-gusttavo-lima-bruno-marrone-leonardo/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Pipoca Moderna</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">PODER360. <em>Presidente do TCU vê risco em regras da Cultura sobre fiscalização</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.poder360.com.br/poder-justica/presidente-do-tcu-ve-risco-em-regras-da-cultura-sobre-fiscalizacao/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.poder360.com.br/poder-justica/presidente-do-tcu-ve-risco-em-regras-da-cultura-sobre-fiscalizacao/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Poder360</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">PRERRÔ. <em>40 anos de MinC: da redemocratização à centralidade no desenvolvimento</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://prerro.com.br/40-anos-de-minc-da-redemocratizacao-a-centralidade-no-desenvolvimento/?utm_source=chatgpt.com" href="https://prerro.com.br/40-anos-de-minc-da-redemocratizacao-a-centralidade-no-desenvolvimento/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Prerrô</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">REUTERS. <em>Senator Bolsonaro says he met with disgraced Brazilian banker after arrest</em>. Londres, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/world/americas/senator-bolsonaro-says-he-met-with-disgraced-brazilian-banker-after-arrest-2026-05-19/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.reuters.com/world/americas/senator-bolsonaro-says-he-met-with-disgraced-brazilian-banker-after-arrest-2026-05-19/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Reuters</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">SOUZA NETO, Manoel J. Mérito no julgamento de projetos nas leis de incentivo à cultura. Observatório da Cultura, 2012.</p>
<p style="text-align: justify;">SOUZA NETO, Manoel J. Lei Rouanet precisa de reforma urgente. Congresso em Foco, 07 nov. 2025. Disponível em: Congresso em Foco</p>
<p style="text-align: justify;">TRIBUNA DO SERTÃO. <em>MinC divulga informação falsa ao falar de fim do passivo de prestação de contas</em>. Alagoas, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.tribunadosertao.com.br/geral/2025/04/12/735523-minc-divulga-informacao-falsa-ao-falar-de-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.tribunadosertao.com.br/geral/2025/04/12/735523-minc-divulga-informacao-falsa-ao-falar-de-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Tribuna do Sertão</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO (TCU). <em>Tribunal aponta falhas em prestações de contas na área da Cultura</em>. Brasília: TCU, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura?utm_source=chatgpt.com" href="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Portal TCU</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Acórdão 726/2026-Plenário, TC 014.873/2025-7. Auditoria sobre Ministério da Cultura e Ancine.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. <em>Dez artistas do sertanejo e de direita beneficiados pela Lei Rouanet</em>. São Paulo: Abril, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/dez-artistas-do-sertanejo-e-de-direita-beneficiados-pela-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/dez-artistas-do-sertanejo-e-de-direita-beneficiados-pela-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Veja</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. <em>Ministério da Cultura rebate estudo sobre falhas da Lei Rouanet</em>. São Paulo: Abril, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Veja</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. <em>Secretário do MinC fala de Flávio Bolsonaro e Vorcaro sem Lei Rouanet</em>. São Paulo: Abril, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/brasil/secretario-do-minc-fala-de-flavio-bolsonaro-e-vorcaro-sem-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/brasil/secretario-do-minc-fala-de-flavio-bolsonaro-e-vorcaro-sem-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Veja</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. Pesquisador lança estudo sobre crise estrutural da Lei Rouanet. Revista Veja, 29 dez. 2025. Disponível em: Veja</p>
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		<title>A entrevista de Paulo Galo no Três Irmãos: notas críticas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 May 2026 14:04:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[A entrevista de Paulo Galo não pode ser reduzida a um episódio isolado, nem tampouco a um conjunto de opiniões mais ou menos acertadas, mas deve ser situada como expressão de uma configuração histórica na qual experiência de luta, mediação comunicacional e formas políticas herdadas se entrelaçam de maneira tensa e, muitas vezes, contraditória. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Já tem um tempo que venho maturando a necessidade de escrever um texto sobre Paulo Galo. Com esforço considerável, assisti à sua entrevista no podcast “Três Irmãos”, conduzido por Rodrigão e Robertinho (duas antas do ponto de vista político e comunicacional). Pensar sua atuação pública e as polêmicas em que vem se envolvendo exige um debate de grande densidade, capaz de atravessar as tradições políticas da esquerda e suas contradições históricas, os processos de luta engendrados por setores autônomos da classe, a midiatização dessas experiências e a captura progressiva de personagens forjados no calor do conflito por estruturas comunicacionais interessadas em administrar suas aparições, reorganizar seus sentidos e colaborar ativamente para a institucionalização da política, isto é, para a conversão de experiências reais de enfrentamento em mercadoria discursiva, circulação controlada e esvaziamento estratégico. Sendo Paulo Galo uma figura de peso na cena política recente, torna-se necessário submeter seu pensamento e sua prática a um exame, atento tanto aos seus méritos quanto aos seus limites, sem concessões afetivas, sem blindagens militantes e sem a indulgência típica de um tempo em que a crítica é frequentemente sacrificada em nome da adesão, da torcida ou da conveniência circunstancial.</p>
<p style="text-align: justify;">Quero iniciar este texto situando quem é Paulo Galo e de que modo se constitui o seu processo de politização, compreendendo sua trajetória como parte de uma configuração histórica específica em que o trabalho urbano, reconfigurado pela expansão das plataformas digitais e intensificação da precarização, produz formas de consciência que não emergem de tradições organizativas estáveis, mas de experiências fragmentadas que, ao se acumularem, passam a exigir elaboração política. Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como Paulo Galo, se forma no interior das periferias de São Paulo, espaço em que a inserção no mundo do trabalho se dá sob condições marcadas pela instabilidade, informalidade persistente e necessidade constante de adaptação a atividades que garantam a reprodução imediata da vida, sem oferecer qualquer horizonte de segurança. Esse percurso é uma regra para amplos setores da classe trabalhadora brasileira nas últimas décadas, especialmente após a reestruturação produtiva que dissolveu formas relativamente estáveis de emprego e expandiu um universo de ocupações desprovidas de proteção institucional.</p>
<p style="text-align: justify;">A entrada de Galo no trabalho por aplicativos representa a inserção em uma forma de exploração que reorganiza a relação entre capital e trabalho, substituindo a figura clássica do patrão por sistemas de gestão baseados em algoritmos, avaliações e mecanismos de controle indireto que operam com alto grau de opacidade. A experiência cotidiana do entregador, marcada por jornadas extensas, remuneração variável, riscos constantes e possibilidade permanente de bloqueio unilateral, produz um tipo de percepção social que tende a romper com a ideia de autonomia propagada pelas plataformas, revelando a dependência que sustenta esse modelo. Nesse contexto, se desenvolve o processo de politização de Galo, sem uma formação teórica sistemática previamente consolidada, elaborando progressivamente uma experiência compartilhada, na qual problemas inicialmente percebidos como individuais passam a ser reconhecidos como expressão de uma condição comum, o que força um processo amplo de politização e conflitos evidentes. A convivência com outros trabalhadores, a troca de relatos sobre bloqueios, quedas de rendimento e estratégias de sobrevivência, assim como a percepção de que essas experiências se repetem de forma recorrente, criam as bases para uma compreensão mais ampla da exploração, abrindo espaço para a construção de práticas coletivas.</p>
<p style="text-align: justify;">A emergência dos Entregadores Antifascistas, no contexto da pandemia de 2020, foi um momento de condensação desse processo. A intensificação da demanda por entregas, associada à exposição ampliada desses trabalhadores no espaço público, produz uma visibilidade inédita para uma categoria até então relativamente invisibilizada, ao mesmo tempo em que evidencia de maneira aguda as condições sob as quais esse trabalho é realizado. A organização de paralisações, manifestações e ações coordenadas surge como resposta a um acúmulo de tensões que encontram naquele momento uma possibilidade de expressão coletiva. Galo se projeta nesse cenário como uma figura capaz de articular linguagem e experiência, transformando vivências dispersas em discurso politizado, sem recorrer a mediações excessivamente abstratas. Sua fala se caracteriza por uma combinação de referências práticas, memória recente de luta e uma disposição para confrontar diretamente estruturas de poder, o que lhe confere ressonância junto a setores que não se reconhecem nos formatos tradicionais de organização política. Essa capacidade de comunicação, entretanto, não pode ser dissociada das condições que a tornam possível, uma vez que sua circulação se dá majoritariamente por meio de plataformas que operam segundo critérios de visibilidade e engajamento, introduzindo desde o início uma tensão entre expressão política e captura midiática.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo desse percurso, a trajetória de Galo passa a atravessar diferentes campos de disputa, articulando a questão do trabalho precarizado com debates mais amplos sobre violência estatal, racismo estrutural e memória histórica, especialmente após o episódio envolvendo a estátua de Borba Gato. Essa ampliação do campo de intervenção torna visíveis relações que já atravessavam a experiência social que o constitui, uma vez que a precarização do trabalho, a repressão policial e a produção de narrativas históricas oficiais integram um mesmo conjunto de determinações que estruturam a vida nas periferias urbanas. A compreensão de quem é Paulo Galo exige, portanto, uma abordagem que considere simultaneamente as condições materiais que estruturam sua trajetória, os processos de politização que emergem dessas condições e as formas de mediação que reconfiguram sua atuação no espaço público, produzindo uma figura que concentra, em si, tanto a potência de uma experiência coletiva em movimento quanto os limites impostos por um ambiente político e comunicacional que tende a absorver, reorganizar e, em última instância, neutralizar aquilo que nele aparece como força de ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159192" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962.jpg" alt="" width="1200" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-300x133.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-1024x455.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-768x341.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-946x420.jpg 946w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-640x284.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-681x302.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Se a trajetória de Paulo Galo só pode ser compreendida a partir das condições materiais que a engendram, a análise de sua entrevista no podcast “Três Irmãos” exige compreender a questão em outro plano, não mais centrado apenas na formação de sua experiência política, mas na forma através da qual essa experiência passa a circular, ser interpretada e, sobretudo, reorganizada no interior de um dispositivo comunicacional que não opera de maneira neutra, obviamente. A entrevista, na verdade, é uma estrutura que condiciona previamente o modo como essas ideias podem aparecer, estabelecendo limites, ritmos e registros que incidem diretamente sobre o conteúdo do que é dito. O ambiente construído ao longo da conversa, marcado por um tom de informalidade constante, pela presença recorrente de interrupções, comentários laterais e momentos de descontração forçada, cria uma sensação de proximidade que, à primeira vista, pode sugerir abertura e espontaneidade, mas que, sob análise mais detida, revela um mecanismo de regulação da fala que impede o aprofundamento das questões colocadas. A crítica, quando emerge, não encontra condições de desenvolvimento contínuo, sendo frequentemente absorvida por uma dinâmica que privilegia a leveza, a fluidez e a manutenção do ritmo, elementos fundamentais para a retenção da audiência, mas profundamente limitadores do ponto de vista da elaboração política.</p>
<p style="text-align: justify;">A atuação dos âncoras não pode ser reduzida a uma suposta falta de preparo ou a uma limitação individual de compreensão, ainda que tais aspectos se manifestem de forma evidente em diversas intervenções. O papel dos entrevistadores consiste em garantir a estabilidade do ambiente, evitando rupturas, conduzindo o diálogo para zonas de conforto discursivo e mantendo a conversa dentro de parâmetros que assegurem sua continuidade como produto consumível. A recorrência de formulações genéricas, ancoradas no senso comum mais imediato, não é apenas expressão de superficialidade, mas elemento constitutivo de uma forma de mediação que substitui a complexidade por familiaridade, tornando o conteúdo rapidamente assimilável e, por isso mesmo, desprovido de maior densidade. É nesse ambiente que a fala de Galo opera, carregando consigo uma tensão constante entre a experiência concreta que a sustenta e as condições de sua circulação. Ao mencionar sua participação em greves, manifestações e ações diretas, sua fala insere na entrevista uma dimensão que escapa à lógica predominante do debate, remetendo a práticas organizadas em torno da intervenção direta sobre as condições de trabalho, e não da representação. Essa dimensão, no entanto, não se desenvolve plenamente, sendo continuamente atravessada por uma dinâmica que a reconduz ao nível da opinião, da comparação com outros atores e da disputa por reconhecimento no interior de um campo já estruturado pela visibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica que Galo dirige às estruturas partidárias e a determinadas figuras públicas surge com uma força que deriva de sua posição externa a esses circuitos, mas também com limites evidentes, na medida em que permanece, em grande parte, no plano da denúncia, sem alcançar uma formulação mais sistemática das formas de organização que poderiam efetivamente superar os problemas apontados. Essa limitação não pode ser atribuída exclusivamente ao indivíduo, devendo ser compreendida em relação às condições em que sua fala se produz, uma vez que o espaço em que ela se insere não favorece a construção de mediações mais complexas, operando antes como um filtro que privilegia a imediaticidade e a resposta rápida.</p>
<p style="text-align: justify;">A própria dinâmica do podcast contribui para esse efeito, ao organizar a entrevista como uma sequência de estímulos que se sucedem em ritmo acelerado, impedindo que qualquer questão seja levada às últimas consequências. O pensamento aparece fragmentado, constantemente interrompido por risos, comentários ou mudanças de assunto, configurando uma forma de discurso que se mantém em movimento permanente, mas que raramente se aprofunda, forjando um campo em que a política se apresenta como fluxo, como circulação contínua de falas que se sucedem sem necessariamente se desenvolverem, produzindo uma sensação de debate que, no entanto, não se traduz em avanço efetivo da compreensão.</p>
<p style="text-align: justify;">A passagem para o debate que se desdobra fora da entrevista, especialmente nas intervenções de figuras como Chavoso da USP e Humberto Matos, permite observar com ainda mais nitidez as tensões que atravessam o campo político no qual Galo passa a operar, uma vez que aquilo que, no interior do podcast, aparece de forma fragmentada e muitas vezes diluída, ganha contornos mais definidos quando confrontado com posições que procuram dar sentido e direção ao episódio.</p>
<p style="text-align: justify;">Chavoso afirmou em vídeo que as críticas dirigidas a determinados atores deveriam ter sido feitas em âmbito privado, refletindo uma concepção de política que pressupõe a existência de um campo relativamente coeso, no qual a exposição pública de divergências seria prejudicial à luta. Essa posição se ancora em uma ideia de unidade que, ao invés de resultar de um processo de elaboração comum, antecede o próprio debate, funcionando como critério que regula aquilo que pode ou não ser dito em determinadas condições. O efeito dessa orientação é a contenção da crítica justamente nos pontos em que ela incide sobre formas de atuação já consolidadas no interior do próprio campo que se pretende transformador, criando uma espécie de zona protegida em que determinadas posições circulam sem serem efetivamente tensionadas. Chavoso também sugere que a visibilidade proporcionada por um podcast deveria ser utilizada prioritariamente para atacar ideologias dominantes, o que direciona a discussão para outro registro, igualmente revelador. Parte-se de uma compreensão segundo a qual o espaço midiático pode ser instrumentalizado de maneira relativamente direta, como se bastasse ocupar esse espaço com determinado conteúdo para produzir efeitos proporcionais à sua radicalidade. Isso diz muito sobre o “bom uso” de fachadas como as CPI´s… Essa leitura ignora que o próprio formato em questão opera segundo uma lógica que reorganiza as falas, submetendo-as a critérios de circulação, retenção e engajamento que não são definidos pelos participantes, mas pela estrutura que os abriga. A crítica, ao ingressar nesse circuito, não se mantém intacta, sendo traduzida, condensada e redistribuída de acordo com essas exigências, o que altera profundamente sua eficácia.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de que haveria uma ordem adequada de enfrentamento (primeiro os inimigos externos, depois as contradições internas), reforça uma visão estratégica que, embora compreensível em determinados contextos históricos, encontra dificuldades quando aplicada a um cenário em que as formas de mediação política já se encontram profundamente integradas às dinâmicas de reprodução do capital. A distinção entre campos opostos perde nitidez quando setores que se apresentam como críticos operam, na prática, dentro de estruturas que reproduzem as mesmas lógicas de separação, especialização e gestão da política. Nessa situação, a crítica dirigida ao interior desse campo deixa de ser um desvio ou uma fragilidade e passa a constituir uma dimensão necessária da própria luta.</p>
<p style="text-align: justify;">A intervenção de Humberto Matos explicita uma forma de compreensão da política que se apresenta como estratégica, responsável e orientada por um horizonte definido, mas que, examinada com mais atenção, mostra a permanência de uma estrutura que concentra a elaboração em instâncias separadas da prática social imediata. Ao enfatizar a necessidade de unidade, de maturidade no debate e de preservação de determinadas trincheiras, constrói-se um campo em que o conflito tende a ser regulado antes de se desenvolver, sendo traduzido em diferenças de tom, de abordagem ou de oportunidade, ao invés de ser tratado como expressão de divergências muito mais profundas. A referência constante à estratégia como elemento central da ação política introduz uma concepção na qual a definição dos rumos da luta aparece como tarefa de sujeitos ou instâncias dotadas de maior capacidade de elaboração, reforçando a divisão entre aqueles que pensam e aqueles que executam. Essa divisão, historicamente associada a determinadas leituras do bolchevismo, encontra, no contexto contemporâneo, novas formas de manifestação, especialmente quando articulada à centralidade da comunicação. A política passa a se organizar como campo de produção e circulação de discurso, no qual a capacidade de formular, ajustar e difundir posições assume um papel central, frequentemente em detrimento da construção de práticas coletivas mais enraizadas.</p>
<p style="text-align: justify;">A distinção estabelecida entre manter princípios e modular o discurso de acordo com as condições de circulação evidencia a adaptação dessa forma de política às exigências do meio em que ela se realiza. A possibilidade de ajustar a forma sem alterar o conteúdo permite uma flexibilidade que facilita a inserção em diferentes espaços, mas também contribui para a separação entre discurso e prática, uma vez que a radicalidade pode ser preservada no plano da intenção enquanto sua expressão é continuamente calibrada. Esse movimento se articula com a lógica das plataformas digitais, onde a visibilidade depende de uma constante negociação com formatos, públicos e algoritmos, reforçando a tendência à especialização de determinados sujeitos na gestão dessa comunicação. Essa especialização produz uma camada de mediadores que operam em relativa autonomia em relação às bases sociais que dizem representar, consolidando uma divisão do trabalho político em que diferentes funções são distribuídas entre sujeitos distintos. Alguns se ocupam da intervenção direta, outros da elaboração teórica, outros da comunicação, outros da atuação institucional. Embora essa divisão possa ser apresentada como necessária à complexidade da luta contemporânea, ela tende a reproduzir, no interior do próprio campo político, a separação entre direção e base.</p>
<p style="text-align: justify;">A contraposição a essa forma de organização encontra expressão nas tradições que colocam a autoatividade da classe no centro do processo de transformação. A experiência dos conselhos operários, em diferentes momentos históricos, aponta para a possibilidade de formas de organização em que a deliberação sobre as condições de vida e de trabalho não é delegada a instâncias separadas, mas realizada diretamente pelos próprios trabalhadores. Nesse modelo, a distinção rígida entre elaboração e execução perde sentido, uma vez que a prática coletiva incorpora, simultaneamente, momentos de reflexão e decisão. O contraste entre essas duas perspectivas não se resolve no plano da retórica, nem pode ser reduzido a uma divergência de opiniões sobre táticas ou estratégias específicas. Ele se manifesta na própria forma que a política assume em cada caso, seja como direção concentrada, mediação e representação, seja como processo aberto de auto-organização e deliberação coletiva. A análise das falas que emergem a partir da entrevista de Paulo Galo permite identificar, com relativa clareza, a coexistência e o choque dessas formas no interior de um mesmo campo, evidenciando que as disputas contemporâneas não se limitam à escolha de alvos ou à definição de prioridades, mas dizem respeito à própria estrutura da ação política e às possibilidades efetivas de transformação social.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159191" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled.jpg" alt="" width="1460" height="655" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled.jpg 1460w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-1024x459.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-768x345.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-936x420.jpg 936w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-640x287.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-681x306.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1460px) 100vw, 1460px" />A entrevista permite ainda avançar para um nível mais profundo de análise, no qual as próprias categorias mobilizadas por Galo passam a exigir um exame, não apenas pelo que afirmam, mas pelo modo como se articulam com as condições históricas em que são formuladas. A afirmação de que “não tem como vencer a máquina, tem como quebrar a máquina”, longe de ser apenas uma frase de efeito, condensa uma percepção real acerca da assimetria estrutural entre os trabalhadores e os sistemas que organizam sua exploração, especialmente no contexto das plataformas digitais, onde o controle se realiza por meio de mecanismos opacos, descentralizados e de difícil apreensão imediata. A intuição de que a disputa não pode se limitar à tentativa de operar dentro dessas regras aponta para um reconhecimento, ainda que não sistematizado, dos limites das estratégias que se restringem à adaptação. Essa percepção, no entanto, convive com uma ausência de mediações que permitiriam transformar essa intuição em um horizonte político mais consistente. A ideia de “quebrar a máquina” aparece como gesto, como imagem de ruptura, mas não se desdobra em uma análise das condições concretas sob as quais essa ruptura poderia ocorrer, nem das formas de organização capazes de sustentá-la. O problema não reside na radicalidade da formulação, mas na distância entre essa radicalidade e a construção de um processo histórico efetivo. A crítica atinge o alvo, mas permanece no nível da negação imediata, sem produzir uma elaboração que a conecte a práticas duradouras. Esse limite se articula com outro aspecto recorrente na entrevista, que é a tendência à generalização difusa, na qual questões complexas são condensadas em formulações amplas que produzem reconhecimento imediato, mas não avançam na determinação concreta dos problemas. O debate frequentemente desliza para um plano em que categorias como “esquerda”, “povo”, “política” ou “revolta” aparecem de maneira pouco diferenciada, criando uma espécie de campo homogêneo que obscurece as mediações internas, as divisões e as contradições que estruturam essas próprias categorias. A crítica ganha amplitude, mas perde precisão, e essa perda de precisão limita sua capacidade de intervenção.</p>
<p style="text-align: justify;">A defesa da revolta popular como única via capaz de transformar a realidade expressa, por sua vez, uma leitura que reconhece o papel da ação coletiva, mas que tende a operar numa perspectiva imediata, no qual a explosão do conflito aparece como solução em si mesma. A história das lutas sociais, no entanto, mostra que a irrupção de movimentos de massa, por mais intensos que sejam, não se traduz automaticamente em transformação estrutural, sobretudo quando não encontram formas de organização capazes de sustentar, aprofundar e orientar esse movimento. A revolta, enquanto momento, pode romper a normalidade, mas a ausência de estruturas que permitam sua continuidade frequentemente abre espaço para recomposições que reconduzem o processo aos seus limites anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;">A tradição marxista, especialmente em suas vertentes mais críticas ao estatismo e ao centralismo partidário, oferece elementos fundamentais para compreender o impasse. A ênfase na autoatividade da classe, presente em autores como Marx e retomada por correntes posteriores, não se limita à afirmação de que a transformação deve ser protagonizada pelos próprios trabalhadores, mas implica uma crítica às formas que tendem a separar essa atividade de instâncias de direção externas. A emancipação não pode ser concebida como resultado de uma ação conduzida por sujeitos especializados, nem como efeito automático de explosões espontâneas, exigindo a construção de formas organizativas nas quais a própria classe seja capaz de deliberar sobre seus caminhos. O que se observa, na fala de Galo, é a presença simultânea de uma crítica à delegação da política, expressa na desconfiança em relação aos partidos e à representação, e a ausência de uma formulação mais precisa das formas que poderiam substituir esse modelo. A recusa da mediação institucional não se traduz automaticamente na afirmação de uma mediação alternativa, deixando aberto um espaço em que a crítica corre o risco de se esgotar na denúncia. Esse vazio histórico é resultado de um período em que as formas tradicionais de organização perderam capacidade de mobilização, sem que novas formas tenham se consolidado de maneira estável.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a circulação dessa crítica no interior de um ambiente mediado por plataformas digitais introduz uma nova camada de complexidade. A própria capacidade de comunicação de Galo, que constitui um de seus principais atributos políticos, se realiza dentro de estruturas que tendem a transformar essa comunicação em mercadoria, submetendo-a a critérios de visibilidade, engajamento e circulação que escapam ao controle direto dos sujeitos. A disputa pela consciência, nesse cenário, passa a se dar em um terreno no qual a forma de apresentação tem tanto peso quanto o conteúdo, criando uma situação em que a política se aproxima cada vez mais da lógica da produção de discurso.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão que se coloca, portanto, não se limita a avaliar se determinadas falas estão corretas ou equivocadas, mas a compreender como elas se inscrevem em uma configuração histórica na qual experiência, comunicação e organização se encontram profundamente tensionadas. A entrevista de Paulo Galo, tomada em sua totalidade, oferece um material privilegiado para observar esse entrelaçamento, evidenciando tanto a potência de uma experiência que emerge de condições reais de exploração quanto os limites impostos por formas de mediação que tendem a reorganizar essa experiência segundo uma lógica que não coincide com as exigências de uma transformação efetiva. Se o percurso desenvolvido até aqui permite apreender algo com maior nitidez, é o fato de que a entrevista de Paulo Galo não pode ser reduzida a um episódio isolado, nem tampouco a um conjunto de opiniões mais ou menos acertadas, mas deve ser situada como expressão de uma configuração histórica na qual experiência de luta, mediação comunicacional e formas políticas herdadas se entrelaçam de maneira tensa e, muitas vezes, contraditória. A força de sua fala reside justamente no vínculo com uma experiência concreta de exploração que não se deixa dissolver completamente, que insiste em reaparecer sob a forma de denúncia, de inconformismo e de recusa, apontando para limites reais das estruturas existentes; ao mesmo tempo, essa força encontra obstáculos quando atravessa um campo em que a política se realiza cada vez mais como linguagem, como circulação e como gestão de posições. A coexistência de uma crítica à representação com a ausência de formas consolidadas de auto-organização, a presença de uma radicalidade discursiva que não se traduz automaticamente em prática coletiva, a centralidade crescente da comunicação em detrimento da construção de estruturas materiais de luta, tudo isso aponta para um momento em que as mediações tradicionais se encontram desgastadas, mas continuam operando, enquanto alternativas efetivas ainda se apresentam de maneira fragmentária e instável.</p>
<p style="text-align: justify;">A tentação de resolver o impasse por meio de atalhos, seja pela aposta exclusiva na revolta imediata, seja pela confiança na direção estratégica de instâncias especializadas, seja pela crença na capacidade de disputar o espaço midiático como se ele fosse neutro, tende a reproduzir, sob novas formas, os limites já identificados. O desafio que se coloca não é escolher entre esses caminhos como se fossem alternativas isoladas, mas enfrentar a tarefa mais complexa de pensar e construir formas de organização que consigam articular experiência, elaboração e prática sem reintroduzir as separações que caracterizam a própria sociabilidade capitalista. A entrevista de Paulo Galo adquire um valor que ultrapassa o seu conteúdo imediato, funcionando como ponto de condensação de tensões que atravessam o presente: a distância entre palavra e ação, a captura de experiências de luta por circuitos de visibilidade, a persistência de formas políticas que já não respondem às condições atuais e a dificuldade de produzir novas formas que consigam se afirmar com consistência. Pensar essas tensões com rigor, sem concessões fáceis e sem simplificações, talvez seja uma das tarefas mais urgentes para qualquer projeto que pretenda ir além da reprodução das formas existentes e enfrentar, em termos efetivos, as condições que sustentam a dominação contemporânea.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Francis Bacon (1909 &#8211; 1992)</em></p>
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		<title>Professores e indígenas na Paulista: relato de uma mobilização fora do roteiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Apr 2026 21:41:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A mobilização indígena forçou que o sindicato chamasse os professores a se incorporar ao ato até a Secretaria Estadual de Educação. Por Tomé Moraes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 id="magicdomid4" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z">Por Tomé Moraes</span></h3>
<p style="text-align: justify;">Na última sexta-feira, 10 de abril, a Avenida Paulista foi palco de um encontro inusitado. À assembleia dos professores da rede estadual convocada pela Apeoesp (sindicato oficial da categoria) em frente ao Masp, somou-se uma manifestação de indígenas. Alunos, professores e apoiadores de comunidades guarani de São Paulo, Vale do Ribeira e Itanhaém se juntaram à mobilização para denunciar que as escolas indígenas estão enfrentando a mesma precarização vivida por toda educação no estado, com a faixa: &#8220;aldeias pelas escolas, escolas pelas aldeias&#8221;.</p>
<h4 id="magicdomid6" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>A situação da escola do Jaraguá</b></span></h4>
<p style="text-align: justify;">A data do ato foi simbólica. Exatamente um mês antes, em 10 de março, a Escola Estadual Indígena Djekupé Amba Arandy, na Terra Indígena Jaraguá, zona norte de São Paulo, foi interditada pela Defesa Civil. Desde então, 250 alunos e professores guarani vem tentando manter as aulas de forma improvisada em um centro de convivência da aldeia. No entanto, o espaço não possui água filtrada, portas nos banheiros, nem ventilação adequada. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Longe de ser um  simples acidente, a interdição da escola era um desastre anunciado. Os guarani do Jaraguá denunciavam as condições precárias do prédio há anos. Em 2021, pais e alunos realizaram um protesto, impedindo que engenheiros da Secretaria de Educação deixassem a escola até que o governo garantisse que realizaria a reforma do local. <b>[2]</b></p>
<p style="text-align: justify;">De lá pra cá, o Governo Estadual deu início à construção de uma nova unidade escolar na T.I. Jaraguá. A obra, no entanto, já custou 3,5 milhões e não tem previsão de conclusão. A primeira etapa está prometida para o segundo semestre. Mas como ficam as aulas até lá?</p>
<p style="text-align: justify;">Além dos problemas de espaço físico, a educação na aldeia já vinha sendo afetada pelas mesmas medidas desestruturantes que o Governo aplicou em toda a rede estadual como falta de merenda, fechamento dos cursos de EJA, do ciclo noturno e das salas de leitura.</p>
<div id="magicdomid15" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<h4 id="magicdomid16" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159037" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09.jpeg" alt="" width="1280" height="960" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09.jpeg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-300x225.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-1024x768.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-768x576.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-560x420.jpeg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-80x60.jpeg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-100x75.jpeg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-180x135.jpeg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-238x178.jpeg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-640x480.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-681x511.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />O ato de sexta-feira, 10/04</b></span></h4>
<p style="text-align: justify;">Os últimos eventos da rede estadual de São Paulo parecem testar os limites do sucateamento da educação pública: baseado em uma plataforma de avaliação aplicada de forma duvidosa no final do ano passado, mais de 40 mil professores (foram demitidos)não puderam assumir aulas em 2026. São professores &#8220;categoria O&#8221;, isto é, subcontratados a partir de processos seletivos temporários — sem estabilidade na carreira ou vínculo com as unidades escolares, esses trabalhadores já representam mais de metade do corpo docente desde a pandemia. <b>[3]</b> E enfrentam, agora, uma demissão em massa.<strong>[4]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para o absurdo da situação, a reação das entidades sindicais foi, no mínimo, tímida: moveram uma ação judicial (que agora obteve resultado) e agendaram dois dias de paralisação com assembleia para abril. Não é de se surpreender que, em tal cenário de desagregação e desmobilização, com uma minoria de trabalhadores estáveis nas escolas, a adesão ao chamado tenha sido realmente baixa.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, a organização das comunidades escolares guarani foi uma surpresa positiva, já que sacudiu o marasmo e apontou novos caminhos. A possibilidade de uma mobilização real que fugia do script, contudo, parece ter assustado a burocracia da Apeoesp. Temendo perder o controle da situação, os diretores sindicais se prontificaram em tratar a presença indígena como um &#8220;movimento social&#8221; diferente da luta dos professores, associando sua participação a um &#8220;paralelismo sindical&#8221; arquitetado pelos setores de oposição. Mas, afinal, quem dá aula nas escolas das aldeias? A tentativa de confusão se esclareceu quando o microfone foi cedido a uma professora indígena.<strong>[5]</strong> Exemplo vivo da precarização, pois ela precisou assumir suas aulas de forma voluntária (!) para compensar o fechamento da sala de leitura.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o plano inicial do sindicato era encerrar o ato após o fim da assembleia na Av. Paulista, a mobilização indígena forçou que recalculassem a rota: com o término da votação, os guarani e professores seguiram em caminhada até a Secretaria Estadual de Educação. O caminhão de som da Apeoesp tentou acompanhar o trajeto e tentou atropelar os manifestantes para assumir frente, mas não conseguiu e teve que ficar no fundo.</p>
<div id="magicdomid25" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<h4 id="magicdomid26" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>Continuidade da luta</b></span></h4>
<div id="magicdomid27" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid28" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159039 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911.jpeg" alt="" width="1100" height="960" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911.jpeg 1100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-300x262.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-1024x894.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-768x670.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-481x420.jpeg 481w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-640x559.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-681x594.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1100px) 100vw, 1100px" /></span></div>
<p style="text-align: justify;">Com baixa adesão, a assembleia votou por um &#8220;calendário de mobilizações&#8221;. O próximo ato está marcado para dia 2<span class="author-a-esxz82zip2oiz87zz70zz69zz81zz67zz79zl">8</span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z">/04 em frente à Assembleia Legislativa. Professores da rede municipal, que também paralisaram na semana passada, devem voltar às ruas na mesma data.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse processo de mobilização, um pequeno coletivo vem se formando em busca de caminhos para se organizar de forma autônoma, para além da estrutura do sinidicalismo estatal. Os &#8220;Professores Autônomos Contra o Estado&#8221;<b>[6]</b>formaram-se em diálogo com trabalhadores da educação que tentam desenvolver experiências no mesmo sentido na prefeitura e na rede privada de São Paulo, com os coletivos EMA (Educadores Municipais Auto-organizados) e A Voz Rouca.<b>[7]</b></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, nas aldeias, as comunidades escolares guarani preparam os próximos passos da luta para conquistar uma solução não só para sua escola, mas também para todas as escola estaduais como indicava a bandeira de ordem: Aldeias pelas Escolas, Escolas pelas Aldeias.</p>
<div id="magicdomid33" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<h4 id="magicdomid34" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>Notas</b></span></h4>
<div id="magicdomid35" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[1] </b></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Alunos indígenas de SP têm aulas em espaço sem bebedouro e banheiro sem porta; secretaria diz não haver prejuízo de aprendizagem </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/03/26/alunos-indigenas-de-sp-tem-aulas-em-espaco-sem-bebedouro-e-banheiro-sem-porta-secretaria-diz-nao-haver-prejuizo-de-aprendizagem.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/03/26/alunos-indigenas-de-sp-tem-aulas-em-espaco-sem-bebedouro-e-banheiro-sem-porta-secretaria-diz-nao-haver-prejuizo-de-aprendizagem.ghtml</a></span></div>
<div id="magicdomid36" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[2] </b></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Comunidade indígena do Jaraguá libera engenheiros após chegada da Defesa Civil para avaliação de escola com rachaduras </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/03/10/comunidade-indigena-do-jaragua-impede-saida-de-engenheiros-do-local-ate-que-haja-solucao-sobre-escola-com-rachaduras.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/03/10/comunidade-indigena-do-jaragua-impede-saida-de-engenheiros-do-local-ate-que-haja-solucao-sobre-escola-com-rachaduras.ghtml</a></span></div>
<div id="magicdomid37" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[3]</b></span> <span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Rede estadual de ensino de SP tem mais professores temporários do que contratados </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/04/25/rede-estadual-de-ensino-de-sp-tem-mais-professores-temporarios-do-que-contratados.ghtml#" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/04/25/rede-estadual-de-ensino-de-sp-tem-mais-professores-temporarios-do-que-contratados.ghtml#</a></span></div>
<div id="magicdomid38" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[4]</b></span> <span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Rede estadual de SP deixa cerca de 40 mil professores sem aulas; sindicato denuncia precarização</i></span></div>
<div id="magicdomid39" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://www.brasildefato.com.br/2026/02/06/cerca-de-40-mil-professores-da-rede-estadual-de-sao-paulo-ficam-sem-aulas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.brasildefato.com.br/2026/02/06/cerca-de-40-mil-professores-da-rede-estadual-de-sao-paulo-ficam-sem-aulas/</a></span></div>
<div id="magicdomid40" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[5] </b><a href="https://www.instagram.com/p/DXCZ_lNjrzP/?igsh=MWJwczZqcWxwZTd0MA==" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/DXCZ_lNjrzP/?igsh=MWJwczZqcWxwZTd0MA==</a></span></div>
<div class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[6]</b></span> Professores Contra o Estado </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://www.instagram.com/profs_x_estado/" rel="noreferrer noopener">https://www.instagram.com/profs_x_estado/</a></span></div>
<div id="magicdomid41" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[7] </b></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Encontro Autônomo de Trabalhadores da Educação  </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://passapalavra.info/2025/10/157816/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://passapalavra.info/2025/10/157816/</a></span></div>
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		<title>Os arquivos Epstein e a perspectiva de socialismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Feb 2026 20:12:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A maioria dos ditos socialistas naturaliza e aceita a mistura com a classe dominante, isto é, aceita que se constitua relações amistosas com ela. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<p style="text-align: justify;">A divulgação de mensagens eletrônicas e outros documentos ligados a Jeffrey Epstein causou perplexidade e certamente surpresa na esquerda, ao revelar de forma mais contundente o nível de proximidade e “amizade” entre Noam Chomsky e o bilionário. Para além ou aquém dos crimes sexuais, Epstein era a personificação de tudo que socialistas, incluindo o próprio Chomsky, oporiam à classe dominante em termo de valores.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo Epstein em entrevista a Steve Bannon, ele integrou a Comissão Trilateral a convite de seu fundador, David Rockefeller. Ainda segundo Epstein, a preocupação ou intenção de David Rockefeller era que houvesse uma classe empresarial que gerisse o capitalismo global de modo que este não fosse impactado por mudanças de governos. Jeffrey Epstein, portanto, se constituiu em um operador e gestor político e econômico do capitalismo transnacional. Produzia relações e se beneficiava disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Obscuramente, também se tornou bilionário. Para explicar sua fortuna, jornalistas apontam, por exemplo, golpes e operações de tráfico de armas e drogas para a CIA <strong>[1]</strong>. Mesmo um fascista como Steve Bannon, em entrevista que realizou com Epstein divulgada na última leva de arquivos liberados, pergunta a Epstein: “Você é o diabo?”. Que Chomsky tenha sido um amigo fiel dessa figura “demoníaca” por dez anos, como mostram as mensagens e suas declarações públicas desde quando se conheceram por volta de 2015, naturalmente causa perplexidade na esquerda. Até porque a esquerda, talvez mais que a direita, e em época de “cultura do cancelamento”, procura por santos e pecadores. Em Seminário em Chiapas no final de 2024, o Capitão Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional, soltou algumas palavras sobre esse tema que vêm bem a calhar:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Não idealizem os zapatistas. Somos igualmente ruins, baixos e merdas como vocês. Ocorre que estamos numa organização e num coletivo, que é o que equilibra, oculta e subordina essas baixezas e ruindades, e nos obriga a ser responsáveis. (Capitão Insurgente Marcos, 30 de dezembro de 2024)</p>
<p style="text-align: justify;">Chomsky não fazia parte de uma organização política, e embora não tenha cometido crime, defeitos seus, aos olhos dos socialistas, vieram à tona pela relação com Epstein.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158761" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/images-1.jpg" alt="" width="300" height="168" />O jornalista Chris Hedges, que conheceu pessoalmente Noam Chomsky, escreveu um curtíssimo texto sobre o assunto, após uma Nota publicada em 7 de fevereiro último por Valéria Chomsky, esposa de Noam. Chris Hedges termina escrevendo:</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não foi enganado por Epstein. Ele foi seduzido. Sua associação com Epstein é uma mancha terrível e, para muitos, imperdoável. Ela turva irreparavelmente seu legado. Se há uma lição aqui é essa. A classe dominante não oferece nada sem esperar algo em troca. Quanto mais perto você chega desses vampiros, mais você se torna escravo deles. Nosso papel não é socializar com eles, mas sim destruí-los <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Creio que a grande maioria dos autoproclamados socialistas (incluo nessa categoria os autodefinidos comunistas e anarquistas), concordariam com esse trecho. Consigo imaginar quase um consenso quanto à lição exposta por Chris Hedges: não se deve socializar com a classe dominante, nosso papel é destruí-los, pois são inimigos da nossa classe e do que há de humano em nós.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Quem discorda das “lições” acima expostas pelos zapatistas e por Chris Hedges, respectivamente, sobre a importância da organização coletiva e a importância da separação/distanciamento em relação à classe dominante?</p>
<p style="text-align: justify;">Se quase todos concordam, então por que a grande maioria dos autodenominados socialistas, principalmente os marxistas, quando constroem ou participam de organizações coletivas, é em última análise visando que seus quadros mais elevados se misturem à classe dominante, se tornando eles próprios gestores do capitalismo?</p>
<p style="text-align: justify;">E misturar-se pode significar tornar-se classe dominante ao tomar para si o poder do Estado, ou, como tem sido mais frequente, buscar cargos de governo e no parlamento nas democracias liberais. Nesse último caso, inevitavelmente, a aceitação das regras do jogo dessas instituições burguesas e toda espécie de encontros, reuniões, compromissos, jantares, tapinhas nas costas, inerentes à política nessas instituições, levam ao oposto da lição do caso Chomsky-Epstein, bem sintetizada por Chris Hedges. A relações de figurões do PT como Jaques Wagner, Rui Costa e Guido Mantega com o banqueiro bilionário Daniel Vorcaro são só o enésimo exemplo, que poderia ser encontrado também em qualquer outro país.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158760" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg" alt="" width="960" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-681x454.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />A clivagem ou hipocrisia, como se queira, é descomunal. Enquanto se condena (com pelo menos certa razão) as expressões de “amizade” de Chomsky com Epstein, se constrói e se sustenta organizações cujo objetivo é se misturar com a classe dominante. E frequentemente ainda colocam “socialista” ou “comunista” no nome da organização. Ainda pior, muitas vezes os membros ou simpatizantes da dita organização defendem ferrenhamente quando seus altos quadros, em posições nas instituições burguesas, como um Lula ou um Boulos, agem sem disfarces como operadores do grande capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Peguemos no Brasil o PT e o PSOL como exemplos, provavelmente duas entre as três maiores organizações políticas do país no quesito de filiados que se autodenominam socialistas (ou comunistas). Ambos partidos foram formados explicitamente para disputar espaço nas instituições burguesas. Segundo a racionalização de Lula na época da constituição do PT, ele teria se tornado necessário devido às lutas sindicais encontrarem um limite. Já o PSOL foi formado por uma cisão de parlamentares do PT. Ambos partidos fazem parte do atual governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Luiz Marinho, Ministro do Trabalho e quadro histórico do PT, tem utilizado seu cargo para, por exemplo, assediar auditores fiscais do trabalho que lavram flagrantes de trabalho escravo e para anular os flagrantes de trabalho escravo de grandes empresas como a JBS. Sequer o governo Bolsonaro chegou a esse ponto. Com exceção da CSP-Conlutas, nenhuma central sindical se manifestou contra esse ataque à política de combate ao trabalho escravo no Brasil, e que se dá de forma tão explícita em favor de grandes empresas.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato do Ministro do Trabalho, do Partido dos Trabalhadores, usar o cargo para beneficiar empresas flagradas explorando trabalho escravo, nem sequer abala sua posição no partido ou no governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Misturar-se com a classe dominante não é apenas meio, é objetivo do PT (e da CUT, seu braço sindical). De outro modo seria insustentável as práticas de Luiz Marinho (com aval do seu amigo Lula), assim como seria insustentável as práticas do Ministro da Educação do PT, Camilo Santana, com sua proximidade da Fundação Lemann. Evidentemente uma organização política que tivesse como princípio não se misturar à classe dominante mas destruí-la, não geraria e sustentaria esse padrão de figuras como Luiz Marinho, Camilo Santana, Jaques Wagner, José Dirceu etal. Partidos como o PT e o PSOL foram constituídos para se misturarem com a classe dominante. Na forma e no objetivo real principal (conseguir cargos parlamentares e no governo) são partidos burgueses, por mais apinhados de ditos socialistas que estejam. Banalidades básicas, alguém dirá com razão.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158763" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md.jpg" alt="" width="768" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" />No PSOL, temos agora o exemplo acachapante de Guilherme Boulos. Entrou no PSOL em 2018, já para ser candidato à presidência da república. Tem sido figura de ponta para levar o PSOL cada vez mais para perto do lulismo, a ponto de ter sido alçado por Lula a Ministro da Secretaria-Geral, cargo que nos governos do PT tem por função principal cooptar, enrolar, amansar e enganar movimentos sociais. E Boulos com pouco tempo no cargo tem desempenhado com esmero essa função. Está atualmente mentindo e tentando enganar os entregadores e os povos indígenas da Amazônia em favor do grande capital <strong>[3]</strong>. Ele e Sônia Guajajara, Ministra dos Povos Indígenas, também do PSOL, estão na linha de frente para garantir a efetivação do distópico Decreto nº 12600/2025, que coloca três importantíssimos rios amazônicos no “Plano Nacional de Desestatização”. Estão na linha de frente para garantir a destruição dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins-Araguaia, de modo a serem construídas hidrovias para o grande capital extrativista e do agronegócio. Nem Boulos nem Sônia Guajajara serão expulsos do PSOL. E não falta militantes do partido ou simpatizantes para defender Boulos. Ora, Boulos, no seu carreirismo e busca de poder pessoal entrou no PSOL evidentemente porque se trata de uma organização voltada ou propícia a isso: a ascensão social através das instituições burguesas. Em outras palavras, uma organização voltada e propícia a se misturar às classes dominantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Jones Manoel se filiando para se candidatar a deputado pelo PSOL, é só mais um que segue o caminho de buscar ascensão através de instituições burguesas, se misturar à classe dominante e ao mesmo tempo arrotar comunismo.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se trata de partidos disputando cargos ou de posse de cargos em instituições burguesas, a maioria dos ditos socialistas naturaliza e aceita a mistura com a classe dominante, isto é, aceita que se constitua relações amistosas com ela. Essa naturalização é o sintoma da maior derrota possível do campo que deveria ser antagônico à classe dominante. É uma derrota total, pois aqueles que se dizem antagônicos à classe dominante, e em geral acreditam mesmo que o sejam, se organizam para se tornar um amigo, um operador ou até mesmo um igual, isto é, parte da classe dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa naturalização é constitutiva de grande parte das organizações políticas que se dizem socialistas ou comunistas, e da totalidade delas que se organizam para conquistar cargos nos parlamentos e governos. É essa naturalização, essa normalização inerente a esses partidos, que mantém um Boulos e um Luiz Marinho nos seus respectivos partidos, ao mesmo tempo que usam seus cargos mesmo que explicitamente contra os direitos dos trabalhadores e dos de baixo em favor dos capitalistas. Ou, se se preferir, é essa naturalização que mantém a maioria dos filiados a esses partidos apesar das práticas de um Boulos, um Luiz Marinho, um Lula e tal.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158760" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg" alt="" width="960" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-681x454.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A hegemonia dessa naturalização dentro da classe trabalhadora e dos de baixo significa a derrota contínua de qualquer perspectiva de socialismo. É a hegemonia do “misturar-se com a classe dominante”.</p>
<p style="text-align: justify;">A lição do caso particular Epstein-Chomsky já foi dada inúmeras vezes pela história das lutas sociais: é preciso organizar coletivamente, social e politicamente, a autonomia de classe. É preciso construir e manter organizações que são simplesmente o oposto das organizações que atraem a maioria dos ditos socialistas e comunistas nos dias de hoje; feitas para a ascensão de alguns em meio à construção de relações com a classe dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">O que os socialistas precisam não é se aproximar desses vampiros e se tornar seus escravos ou operadores. Os socialistas precisam é destruir a classe dominante. E isso se dará através da constituição de novas relações sociais, inclusive e fundamentalmente nas esferas da produção e reprodução.</p>
<h4 style="text-align: justify;">Notas</h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html" href="https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html" rel="ugc nofollow">https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html</a>; e ver <a class="urlextern" title="https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling" href="https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://substack.com/home/post/p-187347674" href="https://substack.com/home/post/p-187347674" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://substack.com/home/post/p-187347674</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/" href="https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/</a>; e ver <a class="urlextern" title="https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664" href="https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664</a></p>
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		<title>O padre e o pastor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Feb 2026 00:34:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[O protestantismo no Brasil foi a amante que reacendeu a paixão no coração de quem vivia a mesmice com a esposa. Por Luís]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Luís</h3>
<p style="text-align: justify;">O Brasil mudou muito nos últimos 25-30 anos? Não sei dizer ao certo, até por não estar sequer neste mundo na época mas, pelo que dizem os relatos e demais fontes, não parece. Fato é que, se há algo que, notavelmente, não é mais como costumava ser é a composição religiosa do Brasil: o cristianismo continua predominante, como era de se esperar, porém em uma forma diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Naquele Brasil, já se pensava no batismo da criança recém-nascida nas mãos do padre assim que ela vinha ao mundo, quase como a sua consolidação como um ser humano pleno, um lavar-de-umbigo sacro. Se aprendia a rezar o ave-maria, o pai-nosso à maneira do alfabeto e das cantigas de roda. Os domingos eram os dias da missa, as festas populares pertenciam aos santos. Suas representações em barro circundavam o Brasil, à mostra e bem cuidadas ou embaladas em sacos de plástico nos comércios, sendo uma daquelas coisas que os vendedores têm sempre de ter no estoque, tão característicos quanto a fauna e a flora, elementos que se viam tanto nas residências mais humildes como no palácio presidencial, semelhante ao futebol, à música e tudo mais que nos é característico…</p>
<p style="text-align: justify;">Então, alguns poucos anos se passam e tudo se modifica: os santos não são mais unanimidade, muitos dos que são ferrenhamente apegados a Jesus Cristo até zombam de Maria, a mãe de Deus. As imagens já não vendem tanto, são mais produtos destinados a um nicho, até objetos de um gosto nostálgico. As crianças são mais <em>laicas</em> do que nunca e, apesar de ainda terem em seus vocabulários muitas referências cristãs, são bem diferentes daquelas tipicamente católicas: menos ave-marias e agradecimentos fazendo o sinal da cruz e mais “sangue de Jesus tem poder”, “glória” e agora se agradece apontando os dedos para o céu ou de joelhos… O que aconteceu?</p>
<p style="text-align: justify;">Há um tempo, existia uma estranha seita bem distante do centro. Acreditavam em Jesus Cristo, como já era de se esperar — quem além dos chamados “macumbeiros” negaria a Deus? <strong>[1]</strong> —, mas difamavam a Santa Igreja, a Virgem (ou talvez não tão virgem) Maria e tudo mais que havia de sagrado, um absurdo! Inaceitável!</p>
<p style="text-align: justify;">Houve inclusive um episódio em que um líder, que talvez tenha pouco poder para se equivaler ao padre, o <em>pastor</em>, de uma dessas igrejas chutou raivosamente uma imagem da santa em rede nacional enquanto dirigia palavras ofensivas a ela e às crenças católicas. Vale lembrar que a televisão nesses anos não era como é a televisão de hoje. Aliás, nem a comparação com a internet seria adequada: esta é fragmentada em vários nichos, cosmos. Não há unidade, unanimidade. Seria provavelmente correto dizer que há uma internet para cada um, onde cada um consome o seu mundo e nada é universalmente reconhecido. Há uma internet de um grupo de jovens, dos idosos, das pessoas de meia idade… A televisão, por outro lado, era restrita, para o povo, a uns quatro canais que monopolizavam a atenção e a cultura, se assim podemos dizer, do país. Com a imagem do religioso e seu gesto passando em todos os canais se viu, ali, sim, o verdadeiro cancelamento.</p>
<p style="text-align: justify;">É claro que a Igreja Católica se aproveitou da situação para alertar seu rebanho contra as blasfêmias e heresias dos <em>evangélicos</em>. Poderia haver imagem melhor que aquela para fazer com que qualquer um que se preze se afaste dessa religião? Obviamente os padres logo foram advertir energeticamente aqueles que assistiram a missa contra esse absurdo, com todos os fiéis uniformemente em silêncio expressando a concordância para com o sacerdócio, além do espanto e revolta notável de vários.</p>
<p style="text-align: justify;">E, logo, alguns anos se passam e milhões desses católicos se tornam evangélicos, e estes ameaçam até mesmo ultrapassá-los em número (pois em relevância talvez já tenham passado) num futuro próximo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os católicos mais apegados poderiam chamar essa revolução de inversão de valores quando não percebem que não há aí nenhuma inversão: mesmo que as referências ao catolicismo abundassem, o fato é que, desde muito antes do Brasil ser como nós o conhecemos hoje, ser católico — e, na mesma lógica, ser cristão — muito pouco diz sobre valores. Aderir a um esquema rígido de valores é complexo, difícil. Se há em todo ser humano uma adesão a um conjunto desse tipo, ele se constitui através das experiências, da educação, da vivência: é uma adaptação, um aprender-a-viver, um <em>habitus</em> ou personalidade. A virtude depende da necessidade, e ter uma virtude que não atende a uma necessidade não é natural, o corpo sente que algo está errado. A religião cristã, seguida à risca, não é para todo mundo (e bem se poderia dizer que não é para ninguém), e se se quer torná-la popular, é preciso que ela seja não voluntária, mas <em>útil</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Como poderia ser popular o que é rígido, o que exige um esforço que o corpo nem sequer consegue suportar, o que não faz sentido? Se adaptando, e os santos foram muito importantes nisso: esses semideuses que rondavam a terra, o imaginário e eram visados nas orações e nas preces mais ligadas à vida cotidiana, enquanto o Deus-Pai era sempre muito distante, sempre inacessível. Seus mandamentos não diziam respeito ao que era do interesse de suas ovelhas, sua sabedoria, como tudo nessa figura, muito mais respeitada do que compreendida, e tal respeito não se funda nas suas obras, no que fez de benéfico, mas se dá simplesmente pelo fato de ser o que é, na sua posição — não atoa o chamam de “pai”. Os santos, por outro lado, são de carne, são como nós, especialistas nas paixões humanas, no amor, no casamento…, e assim como os pequeninos pedem aos irmãos, tios ou quem é que pensem ser mais afável para que os “liberem”, quando têm chance, ao invés das figuras que detém mais poder dentro da dinâmica familiar, se pede aos santos quando não se quer ver de frente as faces das suas vergonhas falando com Deus. Os santos são como as amizades de bar (e por quanto tempo não estiveram lá, como talvez a única peça que não é efêmera e secular, bem postados por cima dos balcões…), sempre presentes para quando os brasileiros comuns, afetivamente pobres, pedem migalhas a quem quer que se coloque na posição de igual em seus momentos de cansaço, para que possam aguentar a labuta de todos os dias com o objetivo de se manter vivo. Podem até mesmo dizer que lutam pela sua família, pelo dinheiro, pelo futuro, mas é pouco provável: o movimento se dá pelo costume, pelo tédio, pelo vazio. A nostalgia dos tempos de criança não se dá por acaso: no Brasil, a maturidade e a depressão se confundem com enorme facilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O cristianismo talvez tenha sido palatável para diferentes classes sociais, por oferecer afirmação ao modo de vida — ou pelo menos cumprir importantes demandas — de grupos bastante diferentes. Os ricos, em sua vida mansa, ascética, pacífica, são cristãos; os pobres, quando revoltados, quando identificados enquanto humilhados, enquanto os últimos, são cristãos e, mais que isso, são afirmados como os primeiros. Essa, definitivamente, é uma grande virtude do que quer se tornar publicamente muito respeitado: permitir várias interpretações diferentes com as quais pode-se identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">Todavia, apesar de todas as simplificações e manobras que o clero fez ao longo do tempo para que mantivesse sua hegemonia, seu erro foi tornar-se cada vez mais distante, não acompanhar o ritmo da vida urbana. Como os casais apaixonados que põe o sentido da juventude na conquista do que veem como “amor” (e, assim como ocorre com os católicos, o conceito pelo qual se justifica a busca é opaco; o desejo de dominação, contudo, é muito concreto) e, depois de conseguirem o que tanto desejam, se deixam perder no costume, no tédio, na repetição, no ócio — tornando o companheiro um fardo a mais para se carregar e não, como se espera, um porto seguro, refúgio—, a Igreja esteve para com os fiéis: sempre com os mesmos rituais, assuntos, eventos… aquilo se tornava repetitivo, enfadonho, não fazia mais sentido em vista às urgências da vida das pessoas comuns.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158738 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr.jpg" alt="" width="900" height="530" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-300x177.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-768x452.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-713x420.jpg 713w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-640x377.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-681x400.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No mundo de hoje muito se fala no efeito destrutivo das comparações nas redes sociais: comparar o orgânico, real e cru àquilo que é artificialmente trabalhado para que pareça o melhor possível, que é fruto de um trabalho de dissimulação, de pinça. O que geralmente não é lembrado é que esse fenômeno não é novo, e os heróis demonstram isso muito bem. Para que se torne um herói é preciso entender de economia simbólica, ou pelo menos ter a sorte de se adequar às suas regras ao longo da trajetória.</p>
<p style="text-align: justify;">O tipo clássico de herói de carne e osso é aquele que, além de ter grandes feitos, sabe se manter à distância: proximidade, profundidade, opinião, relação íntima, tudo isso gera conflito, divergência. O herói precisa, primeiramente, estar acima das contradições, ser unânime, o seu reconhecimento se dá por não poder ser reconhecido por nada que seja questionável. Não se veem contradições, defeitos (que, dizem por aí, “todo mundo tem”, mas são <em>ignorados</em> no caso, nos dois sentidos da palavra), o seu ser se dissolve na imagem do bem, porque o bem é tudo que se sabe a respeito do ser — e sempre que só se sabe o bem, se sabe muito pouco —, a figura imaculada é um não-ser. Exemplo máximo são os que morrem logo depois de nascer: tudo que será comentado ao seu respeito é positivo, se pensa no que seria, no que poderia ter feito, no melhor sentido do seu potencial, é o eterno “ e se”, e não se critica justamente porque não há quem seja capaz de criticar na falta de obras concretas. O ditado diz que ou você morre herói ou vive o bastante para se tornar vilão, o que é verdadeiro, mas a frase passa longe de ser crítica: ela constata com um realismo cinza, que se vê frente às regras do mundo com passividade, não propõe ruptura — que seria um tanto necessária… <em>Only God can judge me</em>…</p>
<p style="text-align: justify;">O outro tipo de herói é aquele que, do alto de seu pedestal, desce aos mortais e se abre à polêmica, à confusão. Deixa a mostra para o mundo as suas veias, artérias, entranhas, derrama o sangue pelo centro e não pelas margens <strong>[2]</strong>, justamente em um mundo que o corpo é vergonha e, o espírito, capital. Mas de onde vem o prestígio desta espécie?…</p>
<p style="text-align: justify;">A figura do padre ilustra bem o primeiro tipo e, também, o que deu origem ao vácuo que foi deixado no coração dos católicos: Ele é o espectro que se coloca ao centro e acima dos demais. Os ouvintes se assentam nos bancos, como iguais uns aos outros, para se submeterem ao que, ali, está mais próximo do Céu, próximo às figuras sagradas, das imagens e de toda aquela beleza cuidadosamente polida ao longo de séculos no palácio mais nobre que a cidade conhece. Tudo que se vê é a sua versão mais polida e gloriosa, e isso <em>constrange</em>, e constrange principalmente o povo. O povo é que tem de internalizar as disposições de violência, que se traumatiza, que vive sufocada pelas urgências, pelos medos e que se submete aos males da vida urbana. Ele é que vai olhar para dentro de si, para seus pecados e terá vergonha, se sentirá menos e abaixará a cabeça escondendo o rosto no confessionário para ser perdoado e disciplinado pelo padre, como um eterno educando, um eterno a-ser-lapidado que nunca chega à maturidade, o fiel é para sempre um menor a ser continuamente corrigido, mas sua correção não aponta para o crescimento, pois sua essência é a menoridade, enquanto a do sacerdote é a figura a quem o pai deixou parte de seu poder, é o que goza de parte da sua autoridade, um quase-pai.</p>
<p style="text-align: justify;">Os pastores aparecem nessa brecha deixada pelos católicos. Mas não os pastores das igrejas tradicionais, os presbiterianos, os batistas mais ortodoxos e semelhantes. Tais figuras não concentram tanto poder por si mesmos e são apenas parte de uma estrutura que é muito maior que os mesmos: são “somente” operários da fé. Adversários com quem a Igreja Católica não rivaliza, postados em lugares distantes dos grandes centros e das grandes margens, com frequentadores de classe-média, cultos e que conservam distância suficiente do resto para que não se pense além de seu próprio cosmo. Descendentes daqueles grandes europeus dos livros de história, vivem àquela maneira enquanto habitam o país tropical, mas muito, muito longe da selva…</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo distantes, sua semente chegou lá e cresceu entre os espinhos — e bem sabemos que o que cresce entre os espinhos é mais próspero do que o que cresce em solo pedregoso; aqui, os frutos católicos. Nos locais mais inóspitos, o pastor teve de aprender a se tornar herói. Porém, sem as regalias monetárias, sociais, culturais e outras, não poderia ser o herói tradicional, teve então de se tornar aquele que constrói com sangue seu capital. Ele não pode, como o primeiro tipo, se assentar na aura de Deus, da Igreja, ou da família, pois não herda nada. O padre é herdeiro de uma forte herança simbólica: geralmente oriundo de “boas famílias”, tem um sobrenome que vai além das letras, acumula respeito com seu nome e as posses que conquista no fluxo natural do mundo e, ao realizar sua vocação (ou pelo menos assim chamam…), é beneficiário de toda uma riqueza construída ao longo de séculos — e que foi construída em cima de muito mais sangue; porém, enquanto sangue for capital, não será visto como morte, mas como vida: <em>quem lembra do sangue derramado admirado com a Pirâmide de Quéops?</em> Se toda aura é trabalho de um acúmulo histórico, o pastor marginal terá de ser <em>duas vezes melhor</em>, mesmo estando há <em>500 anos atrasado</em>; é, por excelência, o <em>self-made man</em>. O seu maior feito? Ser o mais próximo de Deus na boca do inferno.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um cenário onde, para que se consiga viver (ou pelas dores da vida) se internaliza o “pior” <strong>[3]</strong>, o pastor consegue demonstrar ser bom. Mas não é bom por sua essência, não é alguém distante com quem se comparam os que comparecem ali — muitas vezes pela primeira vez ou após muito tempo sem qualquer experiência em Igrejas —, de quem não poderiam estar perto nem por sua menoridade moral, nem por sua inferioridade intelectual <strong>[4]</strong>. É um ser humano, muito humano, e que poderia muito bem ser amigo do ouvinte, familiar do ouvinte e, é claro, o próprio ouvinte. Não somente por sua origem simples, por sua aparência familiar — nisso Jesus também se enquadra e nós bem sabemos o quão longe está o mundo de Jesus — mas por sua carnalidade e abertura. Muitos não compreendem o sucesso que têm em seus empreendimentos aqueles que, na posição de líderes eclesiásticos, expõe os maiores horrores de seu passado: uso de drogas, vida na criminalidade, promiscuidade… “Como alguém vai respeitar assim?” perguntam; não veem que na quebra do teto de vidro, se quebra também o constrangimento, para de ser sobre domar e se começa a pensar em <em>engajamento</em>, o que é <em>muito mais prazeroso</em>, é <em>potência</em>, e de que carecem mais estes pequeninos que poder?… Mais que isso, ele rompe com o estéril, com o enfado do catolicismo deslocando o discurso do além para o <em>agora</em>. Não se fala em um Deus que está parado no céu, a esperar tranquilo pelo longínquo dia do julgamento final e sim do Deus que começa a ocupar o posto que era dos santos, ativo na vida cotidiana. É a ele que se recorre para se curar das doenças na falta de um sistema de saúde adequado, para que desvie os filhos do mau-caminho (que são muitos), para que se tenha recursos mínimo em um contexto de escassez. O pastor também participa ativamente do processo, conduzindo as doações, tocando nas feridas abertas de suas ovelhas, se infiltrando na sua vida pessoal, dando opiniões fortes… O pastor, como todo herói da sua espécie, é e tem que ser polêmico.</p>
<p style="text-align: justify;">Conseguimos perceber o desejo incontrolável por ascender socialmente nos dias atuais, e que exemplo melhor do que o pastor para mostrar que isso é possível? O padre tomou o “toco” até mesmo em seu discurso inflamado contra o protestantismo nos anos 90. Agora os pastores fazem o mesmo e seus antigos fiéis se deliciam no maior dos prazeres que o ressentimento pode proporcionar: difamar àquele que o atinge, mas a quem não consegue questionar.</p>
<p style="text-align: justify;">O protestantismo no Brasil foi a amante que reacendeu a paixão no coração de quem vivia a mesmice com a esposa. Ah, por que Jesus não advertiu, no seu apelo ao amor, que este não tem nada a ver com paixão… Não sei ao certo se é correto falar em morte ou metamorfose de Deus, mas, seja como for, se se amasse tanto a Deus por aí como se costuma dizer, isso aconteceria? Haveria mudança tão rápida e radical? E Maria, e os santos a quem diziam ter amor?…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Não se trata aqui de dar aval à tais declarações preconceituosas em relação às religiões de matriz africana, mas ilustrar o infeliz preconceito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Queria<br />
Queria ter te conhecido antes<br />
Pra não ver você endurecido ante<br />
O mundo escurecido, instantes<br />
Antes do delírio: sangue<br />
É o que você derrama pelas margens<br />
(Minha autoria)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> <em>Pior</em> aqui aparece entre aspas para destacar o caráter arbitrário, flexível e não rígido do valor dessas disposições. Disposições iguais ou semelhantes podem ser negativas em uma determinada sociedade e positivas em outra, como a maior aptidão à violência, reatividade. Dentro da mesma sociedade pode ocorrer o mesmo, a depender dos princípios de percepção e apreciação e das regras de cada campo, pensando em Pierre Bourdieu. Aqui, o “ruim” é o que não é cristão, o que é corpo e não espírito (sobre essa oposição nas sociedades ocidentais, ver <em>Como o Racismo Criou O Brasil</em>, de Jessé Souza).<br />
<strong>[4]</strong> A intenção não é, evidentemente, defender essa inferioridade como se fosse real. Se trata, na verdade, de colocar como essas questões poderiam ser erroneamente vistas por quem participa do processo, seja no “topo” ou na “base”. Aliás, seria um tanto ridículo falar em superioridade ou inferioridade moral visto o que foi desenvolvido até aqui, e também a diferença de capacidade intelectual entre classes.</p>
<blockquote><p>Ilustram o artigo cenas do filme <strong>O Pagador de Promessas</strong>, de Anselmo Duarte (1962).</p></blockquote>
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		<title>Do Jacarezinho à Penha: o narcoestado em sua maturidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Jan 2026 16:51:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A favela, reduzida à condição de campo de guerra, é também a expressão mais radical do fracasso — ou melhor, do sucesso — da ordem capitalista. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Em 5 de maio de 2021, o massacre do Jacarezinho marcou uma ruptura simbólica: pela primeira vez em décadas, o Estado brasileiro agiu sem qualquer pudor em exibir a face nua da sua função repressiva. Naquele episódio, vinte e oito pessoas foram executadas sob o pretexto de uma operação “contra o tráfico”, mas o que se viu foi o ensaio geral de uma nova forma de governar — um governo pela morte. O texto que escrevi então, intitulado <em>Jacarezinho e o Narcoestado</em>, já apontava esse caminho: o Estado não “falha” ao matar, ele cumpre sua função estrutural de defesa dos interesses das classes dominantes, transformando o controle social em fonte de lucro e poder. Aquele massacre foi o laboratório da doutrina que amadureceria quatro anos depois, nas favelas da Penha e do Alemão. O que mudou entre 2021 e 2025 não foi a natureza da violência, mas sua administração: a morte tornou-se um dado de gestão, planejada, mensurada, legitimada como política pública. O que era “excesso” virou método; o que era “ilegal” virou norma. Do Jacarezinho à Penha, percorremos o itinerário completo de um Estado que, em meio à crise estrutural do capitalismo dependente, já não disfarça sua fusão com as forças do crime, da milícia e do capital. A repressão não é resposta à desordem — é o próprio modo de produzir ordem. E essa ordem se ergue sobre o extermínio cotidiano de uma população negra e periférica, herdeira dos quilombos e das senzalas, hoje confinada em territórios de abandono onde o Estado se ausenta como direito e reaparece como bala. Se o Jacarezinho foi o ensaio, a Penha é a maturidade do narcoestado: o momento em que a barbárie deixa de ser exceção e se torna a linguagem administrativa do poder.</p>
<p style="text-align: justify;">A operação intitulada “Contenção”, deflagrada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha no Rio de Janeiro, responde a uma dinâmica que há décadas vem se reproduzindo. A novidade reside apenas na escala — o aparato mobilizado, os mortos contabilizados, a cobertura midiática — mas o núcleo da ação permanece intacto: a velha guerra contra o tráfico de drogas, as facções, o “poder paralelo”. O que muda, e com intensidade, é que essa guerra se converteu em política de Estado. Logo, para compreendê-la, devemos deslocar o foco da contenda imediata para o fundamento estrutural: por que essa guerra é vital ao Estado? Por que ela se realiza exatamente nos territórios periféricos? Quem são seus agentes reais — não apenas visíveis à luz da mídia, mas aqueles que continuam invisíveis porque se inserem no funcionamento do sistema?</p>
<p style="text-align: justify;">O Estado burguês, forma política do capital, tem por pressuposto a defesa dos interesses das classes dominantes e de suas classes auxiliares. O aparato repressivo, portanto, é componente ordinário. A Operação Contenção evidencia menos a “naturalização” abstrata da força letal e mais um regime de legalidade gerencial: dispositivos jurídicos, métricas operacionais e rotinas administrativas que <strong>convertem a </strong>morte e a coerção em indicadores de desempenho. As falas do secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, não apenas justificam a letalidade; elas a integram a um desenho de governo em que apreensões, autos de resistência arquivados, “neutralizações”, narrativas de “narcoterrorismo” e cooperação interagências funcionam como chaves de autorização para orçamento, compras públicas, blindagem política e expansão tecnológica. Ao declarar que o Rio “vive um estado de guerra”, Curi enuncia uma doutrina de gestão territorial: ausência social estruturada (sem escola de tempo integral, creche, saúde, renda, cultura) e hiperpresença policial como tecnologia de controle. Esse arranjo produz inimigos substituíveis (a mão de obra juvenil negra) e <strong>soberanias sobrepostas</strong> (Polícia Civil, PM, PRF, Forças Armadas, MP e Judiciário) que <strong>distribuem a exceção</strong>, mantendo-a lícita e repetível. Em termos materiais, isso <strong>reordena o espaço urbano</strong> (valorização fundiária seletiva, expulsões lentas, captura de serviços informais) e <strong>fornece fluxo de renda</strong> para a economia da segurança. A favela — <strong>quilombo contemporâneo de sobrevivência negra</strong> — é alvo preferencial porque <strong>o próprio Estado se retirou como garantidor de direitos</strong> e reaparece como <strong>gestor do risco e da punição</strong>, impondo à juventude negra — majoritariamente criada por <strong>mães solo</strong>, com pais mortos ou encarcerados — <strong>um cardápio de explorações equivalentes</strong>: o subemprego degradado ou o recrutamento por organizações armadas que <strong>disputam, com o Estado, a extração de valor</strong> dos mesmos corpos. A letalidade não é erro; <strong>é método contábil da ordem</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O uso da expressão <strong>“estado de guerra”</strong> também é revelador. Ela legitima a militarização total da vida civil, a suspensão prática das garantias constitucionais e a instauração de um regime de exceção permanente nos territórios periféricos. Ao afirmar que “a alta letalidade era previsível, mas não desejada”, ele naturaliza o massacre. A previsibilidade da morte é, para ele, um dado operacional — uma espécie de efeito colateral aceitável dentro da lógica da segurança. Essa frase contém toda a essência da racionalidade instrumental que domina o Estado capitalista em crise: a morte não é um erro, mas um custo calculado, inscrito na contabilidade da gestão social. A afirmação de que “as vítimas dessa operação foram os militares mortos ou feridos” é um gesto de desumanização total. Reduzir dezenas de civis executados a “criminosos que optaram por não se render” é uma forma moderna de eugenia política. A palavra “opção” desloca a responsabilidade: os mortos tornaram-se culpados de sua própria execução. A necropolítica de Estado transforma o poder de matar em ato administrativo. O secretário também reforça o velho argumento de que o governo estadual age “sozinho” contra o crime, reclamando da falta de apoio federal. Essa retórica é estratégica: produz a imagem de um Estado heroico e abandonado, lutando contra forças maiores. Mas, na prática, serve para esconder o verdadeiro abandono — o do povo pobre, o das favelas, o dos trabalhadores precarizados que vivem sob cerco. A disputa entre governo estadual e governo federal é apenas disputa de gestão da barbárie. Nenhum dos lados questiona o princípio fundamental da política de segurança: o de que a vida periférica é descartável e o território popular é zona militarizada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158561" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146.jpg" alt="" width="1392" height="835" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146.jpg 1392w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-300x180.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-1024x614.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-768x461.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-700x420.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-640x384.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-681x409.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1392px) 100vw, 1392px" />Quando Curi afirma que a operação foi “planejada” e que “cumpriu as normas legais”, temos a normalização do absurdo. Cumprir a lei enquanto se assassinam dezenas de pessoas é o sinal inequívoco de que a legalidade foi totalmente absorvida pela lógica da exceção. O problema não é o descumprimento da lei — é a lei que já incorporou o crime como sua função. A modernidade jurídica burguesa sempre conviveu com a violência como fundamento; mas agora, sob a decomposição do Estado burguês, essa violência emerge à luz do dia como princípio organizador. A lei e o fuzil são instrumentos complementares da mesma racionalidade de controle. O discurso de Felipe Curi não difere, em essência, das doutrinas contrainsurgentes elaboradas durante a ditadura militar. A ideia de “territórios hostis”, “guerra interna”, “poder paralelo” e “eliminação do inimigo” são as mesmas. Apenas mudaram o cenário e a semântica. O inimigo, antes identificado como “subversivo”, é hoje o “traficante”, o “criminoso”, o “narcoterrorista”. A função política é idêntica: manter a população aterrorizada, justificar o orçamento bélico, garantir a disciplina da força de trabalho e impedir a organização autônoma das classes subalternas. A favela é tratada como colônia interna — espaço de ocupação e saque, laboratório da política de exceção.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o secretário diz que “o Rio vive um estado de guerra”, ele não mente — apenas não diz quem declarou essa guerra. Não foram os moradores que invadiram as instituições; foi o Estado que invadiu os lares dos trabalhadores. A guerra não é entre “o bem e o mal”, como repete a imprensa, mas entre o capital e a vida. As forças de repressão são o braço armado da acumulação, necessárias para conter o excedente humano que o capital não absorve. Por isso, essa guerra não termina. Ela é vital ao funcionamento do sistema. Ela renova a legitimidade de governos que se sustentam pelo medo e pela promessa de ordem, e movimenta toda uma economia paralela de segurança, armas, blindados, vigilância, contratos e corrupção. A fala de Curi é exemplar de uma classe dirigente que governa pela violência e pela mentira. Seu discurso combina tecnocracia e brutalidade, moralismo e cinismo. Ao justificar o massacre em nome da legalidade, ele reafirma o dogma central do Estado burguês: a preservação da propriedade e da hierarquia social acima da vida. No fundo, o que Santos chama de “contenção” é a gestão da miséria. É a administração do excesso humano produzido pela crise estrutural do capitalismo dependente. É o modo pelo qual o Estado regula o fluxo da barbárie que ele mesmo produz.</p>
<p style="text-align: justify;">A guerra urbana é o instrumento de contenção da superpopulação relativa — uma massa de trabalhadores precarizados, racializados e confinados nos territórios periféricos, cuja existência excede as necessidades de valorização do capital, mas cuja disciplina é vital à estabilidade da ordem. O que se chama de “combate ao tráfico” é a máscara ideológica dessa contenção: um dispositivo que converte a pobreza em ameaça e a miséria em inimigo. A guerra contra o Comando Vermelho é o álibi que legitima o reordenamento social e territorial exigido pelo capital — reorganiza a cidade, valoriza o solo, desloca populações, reconfigura poderes locais e renova o pacto entre Estado, milícia e mercado. Desde meados da década de 1980, como mostram estudos de Loïc Wacquant, entre outros, o aparato estatal trata as favelas como zonas de exceção: territórios coloniais internos onde se exercita a soberania do extermínio. O que estamos diante, portanto, é de um Estado que internalizou a necropolítica; a chamada “guerra às drogas” é método de governo — uma política de morte administrada em nome da ordem. Por que esse confronto se realiza, e mais ainda, por que se concentra nos territórios como o Morro do Alemão/Penha? Esses espaços são exemplos paradigmáticos: densos assentamentos periféricos, população majoritariamente negra, renda per capita inferior à média da cidade, infra-estrutura pública deficiente — e historicamente sob o controle, parcial ou total, de facções armadas (como Comando Vermelho) ou de milícias que surgiram no vazio estatal. Esse entrelaçamento entre informalidade econômica, ausência estatal e violência organizada é largamente documentado. Ali se instaurou uma governança paralela — criminal, política, econômica — e o Estado, longe de erradicá-la de modo frontal, passa a disputá-la ou a se fundir com ela. O território da favela constitui, então, um laboratório de acumulação de exceção: nela a população é alvo de policiamento militarizado, desaparecimento de garantias, letalidade elevada e lucro mediante extração (direta ou indireta) das suas vidas. Vejamos a dinâmica concreta da operação: milhares de agentes (2.500 segundo fontes) mobilizados em blindados, drones, armas automáticas; a reivindicação governamental de “narcoterrorismo”; múltiplos corpos deixados nas ruas; escolas fechadas; transporte interrompido. Isso revela que a operação não se dirigia apenas a líderes do tráfico, mas visava um território como conjunto. Em tal operação, a morte é parte do desenho. A continuidade do projeto de Estado-guerra torna-se visível. O que ocorrera em 5 de maio de 2021 no Jacarezinho foi, portanto, ensaio: a maturidade se verifica agora. O que ocorre é uma política de contenção ativa, não um remendo de segurança pública. O aparato repressivo coincide com o “arranjo” do narcoestado: Estado, milícia/facção, capital imobiliário e burocracia de segurança rendem-se à lógica da excepção permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">O que o Estado chama de “território conflagrado” são, na verdade, territórios de sobrevivência negra — verdadeiros quilombos modernos, erguidos sobre as ruínas da cidadania negada. A favela, historicamente, foi o refúgio dos descendentes da escravidão, empurrados para os morros e para as franjas urbanas por um projeto sistemático de exclusão. Ao longo das décadas, o poder público se retirou desses espaços, abandonando gerações inteiras à sobrevivência e à violência cotidiana. Onde o Estado não constrói escolas de tempo integral, não garante creches, não oferece alternativas de renda ou de lazer, instala-se a lei do desespero. Os jovens negros, crescem entre duas únicas possibilidades: a exploração direta pelo capital, em trabalhos degradantes e sem futuro, ou a exploração pelas organizações criminosas que disputam o controle territorial com o próprio Estado. Ambas operam segundo a mesma lógica: a de extrair vida e energia de corpos negros descartáveis. A ausência de políticas públicas não é omissão; é método. O abandono é forma de dominação. A favela, reduzida à condição de campo de guerra, é também a expressão mais radical do fracasso — ou melhor, do sucesso — da ordem capitalista em manter um povo sob controle pela carência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158565" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-2048x1152.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Mas por que existe esse confronto, além da cobertura ideológica “combate ao tráfico”? Porque o território periférico habita duas funções para o capital: função de reserva de vida e função de acumulação através da precarização. O estado-capital, em crise estrutural, precisa disciplinar o excedente humano que o sistema econômico não absorveu: jovens negros descartados, desempregados, subempregados. A favela, então, deixa de ser apenas cenário de “crime” e passa a ser palco de uma reorganização da força de trabalho, da valorização fundiária das suas encostas, e da extração direta de renda — via transporte informal, gás, eletricidade paralela — gerida por milícias ou traficantes. A repressão violenta serve à contenção desse excedente e à reorganização disciplinar da periferia. Assim, esse confronto é componente estrutural da governança neoliberal tardia em contextos dependentes como o Brasil. A ideologia da “guerra às drogas” opera como mecanismo de racialização das periferias, legitimando o abate de corpos como política de Estado. Nessas condições, a guerra não “combate o crime”, ela produz o crime como vetor de disciplina. O que se chama “crime organizado” é ao mesmo tempo agente econômico e instrumento de governança.</p>
<p style="text-align: justify;">E mais: esse confronto se concentra em territórios como Alemão/Penha porque ali a resistência institucional é débito — presença estatal fragilizada, burocracia limitada, infraestrutura deficiente. A facção domina, sim, mas justamente porque o Estado permitiu o vácuo. Projetos como as Unidade de Polícia Pacificadora (UPPs) foram tentativas de ocupação pacificadora, sobretudo em função de mega-eventos, mas não alteraram profundamente os mecanismos estruturais — com retorno da violência e da repressão militarizada. O confronto cresce justamente quando o Estado decide que não tolera mais a autonomia paralela da facção — não para “libertar” o território, mas para assumir ou cooptar esse domínio e inseri-lo no arranjo da acumulação capitalista dependente. A facção é parte da engrenagem: tráfico, milícia, mercado imobiliário, transporte informal — tudo isso absorve a favela no ciclo. O ataque, portanto, não é contra a “criminalidade” puramente, mas contra um rival que precisa ser disciplinado para que a ordem funcional prossiga. Essa contenção, contudo, não se dá num lúdico vazio: ela se dá pela normalização da exceção. A operação reafirma que o Estado opera segundo nova lógica: a exceção não é suspensa, é internalizada. O direito democrático, a jurisdição civil, tornam-se acessórios. Como analisa a teoria crítica da necropolítica, o Estado define quem “pode viver” e quem “deve morrer”. Isso é visível nas favelas onde jovens negros são mortos por operações policiais com quase nenhuma responsabilização. O sistema de garantias tampouco opera com intensidade. A impunidade é parte integrante: a letalidade elevada se legitima pela ausência de consequências reais. É certo como o nascer do dia que as forças responsáveis sairão incólumes. A operação de 2025 confirma: seletividade letal + impunidade = regime de guerra permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">E nesse ponto se impõe: nem a esquerda institucional nem a direita resolverão o problema — porque ambas são parte da lógica da barbárie criminosa promovida pelo Estado. A direita homenageia o exterminador, a esquerda pede “menos letalidade”, “reforma policial”, “mais direitos humanos” — mas mantém intacta a compreensão de que o Estado-segurança pode curar o mal social. Essa crença é falsa. O que temos é o próprio Estado-segurança agindo como gestor da violência e da disciplina social. A esquerda institucional replica a confiança no Estado e na fórmula de policiamento, apenas com cor diferente. A direita replica com maior virulência. Em ambos os casos, reproduz-se o narcoestado. Quando examinamos a gestão de Cláudio Castro no Rio de Janeiro, percebemos que ele não inaugura o modelo — ele o aprofunda. Não é a causa, mas o operador consciente de uma maturidade do modelo. Ele governa por meio da guerra, faz da operação letal sua marca, contabiliza mortos como troféus de poder. E mais importante: institucionaliza a lógica da exceção. A mídia anuncia “a maior operação em 15 anos”, os jornais festejam o aparato, os analistas falam em “choque de ordem”. Mas a verdade é que esta operação diz menos sobre um governo, e mais sobre o funcionamento avançado do regime capitalista dependente brasileiro — em que a periferia é zona de sacrifício, de extração, de experimentação da governança de exceção. A letalidade não é falha da democracia — é parte da sua fibra repressiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda mais: esse modelo de controle e exceção está intrinsecamente ligado à acumulação de capital — imobiliário, transporte, serviços informais, gás, eletricidade clandestina. As facções e milícias operam com o apoio tácito do Estado ou sob sua tolerância. Elas fornecem canais de lucro, controlam territórios, garantem “serviços” e absorvem o excedente. O Estado, quando entra com a operação, não entra para “erradicar” esse sistema — entra para reorganizá-lo sob sua tutela ou sob nova hegemonia. A Operação Contenção é momento em que o Estado reivindica esse território como seu e anuncia que a lógica é “ou o Estado ou o criminoso”, mas o criminoso já é parte do Estado. Logo, o que se anuncia é: “Nós tomamos o comando”. E o comando exige espetáculo, letalidade, vigilância e medo. Para os moradores da favela, essa guerra não traz segurança — traz terror. Para o capital, traz oportunidade: valores fundiários das encostas sob risco caem; investidores especulam; transporte informal é controlado; violência gera terceirização de segurança privada; o aparato repressivo justifica verbas, contratações e negócios de guerra urbana. No final, a favela torna-se duplamente explorada: pela facção/mercado e pelo Estado repressivo. A cura prometida jamais vem, porque o caminho escolhido foi o da guerra, não da inclusão.</p>
<p style="text-align: justify;">O que está em jogo não é “menos letalidade” ou “melhor polícia”: é a superação do regime de segurança como política social. A solução não está no Estado, mas contra o Estado da segurança. A tarefa para a vanguarda política não é reformar a polícia, mas superar o regime de acumulação e disciplina que justifica sua letalidade. O inimigo não é apenas o traficante nem apenas o policial: é o arranjo que transforma corpos (principalmente corpos negros e periféricos) em território de guerra, lucro e impunidade. A Operação Contenção mostra que o tempo do narcoestado já alcançou sua maturidade: não é mais fratura ou exceção — é forma de governo. É essencial que reconheçamos isso para que possamos pensar uma saída que rompe com a lógica da contenção, que substitui a guerra por democracia substancial, reparação, transformação estrutural e protagonismo da classe trabalhadora periférica. Sem isso, estaremos sempre dizendo “menos letalidade” enquanto a guerra avança, e estaremos sempre constatando os corpos mortos sem investigar o sistema que os produz.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há como combater essa lógica com reformas. A esquerda institucional, ao clamar por “aperfeiçoamento da polícia”, “respeito aos direitos humanos” ou “nova política de segurança”, apenas reforça o edifício da dominação. Querem humanizar a barbárie, sem abolir sua causa. A direita, por outro lado, faz da barbárie sua bandeira, exigindo mais armas, mais fuzis, mais sangue. Ambas são faces do mesmo projeto: a manutenção da ordem capitalista e a perpetuação da miséria. A saída não está entre essas alternativas. A saída está na recusa radical dessa estrutura — na organização autônoma dos trabalhadores e dos povos periféricos, na construção de uma política de libertação que não dependa do Estado, mas o confronte. A história cobrará caro por essa normalização do horror. Quando o Estado chama de “guerra” o que é massacre, quando chama de “contenção” o que é extermínio, quando chama de “planejamento” o que é barbárie, já não restam dúvidas sobre o caminho percorrido. O Rio de Janeiro, sob Cláudio Castro e Felipe Curi, tornou-se o espelho mais límpido da degradação do Estado burguês brasileiro: um regime de segurança que não protege, uma democracia que mata, uma lei que justifica a exceção. E enquanto não rompermos esse círculo infernal, o país inteiro seguirá sendo governado pela morte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158560" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879.jpg" alt="" width="900" height="613" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-617x420.jpg 617w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />As forças armadas, inseridas nesse processo, cumprem o papel de guardiãs da propriedade e da estabilidade social, não o de defensores do povo. Sua função é assegurar que a guerra interna permaneça confinada às fronteiras invisíveis que separam o mundo legal do mundo descartável. São elas que definem onde o sangue pode ser derramado e onde deve haver silêncio. Essa estrutura vem se sofisticando. Desde as campanhas coloniais, a força armada do Estado se orienta menos pela defesa da soberania nacional e mais pela repressão das insurreições internas. É um exército voltado para dentro, para o controle de sua própria população. A operação de 2025 é apenas a face atualizada dessa função histórica. A verdadeira função das forças armadas nessa guerra é, portanto, política. Elas não combatem drogas, nem defendem vidas: asseguram a permanência de um regime de dominação. Funcionam como mediadoras entre as elites econômicas, o capital financeiro e os aparelhos policiais. Sua presença é a garantia de que a violência não transborde, de que a revolta popular não encontre brecha, de que a guerra permaneça controlada e produtiva. A militarização da vida cotidiana é a resposta preventiva à ameaça latente de desobediência social. É uma forma de neutralizar qualquer possibilidade de ruptura. O terror é método. É necessário compreender que a economia do tráfico e a economia formal não são mundos separados. O dinheiro do tráfico circula por bancos, financia campanhas, compra imóveis, sustenta empresas de fachada. A fronteira entre o legal e o ilegal é apenas uma convenção ideológica. O que existe, de fato, é uma divisão funcional do trabalho violento. O Estado regula quem pode matar, quem pode lucrar e quem deve morrer. Essa regulação é o coração da política de segurança. Por isso as operações nunca atingem os circuitos superiores do narcotráfico. A guerra é travada contra o elo mais fraco, contra a mão de obra precarizada, contra o corpo que serve de escudo para a economia da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A reorganização promovida pelo Estado por meio da Operação Contenção é um ajuste na topografia do poder. Não se trata de restaurar a ordem, mas de redistribuir o caos. A cada massacre, as linhas de comando se redesenham, as alianças se refazem, o equilíbrio se recompõe. O que se vende como vitória é, na verdade, a manutenção do mesmo sistema em novas bases. A operação funciona como ritual de purificação: o Estado demonstra força, a mídia celebra, a classe média sente-se protegida, e o capital respira aliviado. A violência cumpre sua função simbólica de renovar a fé na autoridade, ao mesmo tempo em que reconfigura as relações de poder dentro da própria máquina estatal. O combate ao tráfico é uma ficção necessária. Ele alimenta o mito da autoridade moral e a crença na neutralidade das instituições. Mas o que se esconde sob esse discurso é o velho funcionamento da dominação de classe: o uso da violência seletiva como instrumento de governo. A operação não combate o crime; combate a possibilidade de emancipação. A cada corpo abatido, a cada casa invadida, o Estado reafirma que não há saída fora da sua tutela. A guerra é o modo de impedir que o povo perceba que o verdadeiro inimigo é o sistema que o extermina em nome da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A contenção, portanto, é mais do que uma política de segurança: é uma política de classe. Seu objetivo não é proteger, mas preservar. Preservar o lucro, preservar o medo, preservar o silêncio. O Estado se reorganiza quando as contradições sociais ameaçam escapar ao seu controle. Ele recalibra suas engrenagens, desloca o foco da crise econômica para o inimigo interno, e oferece à sociedade o espetáculo da guerra como catarse. Cada operação é uma pedagogia de submissão: ensina que a paz é privilégio, que a vida é concessão e que a morte é merecida. Ao fim, o que a Operação Contenção revela é o rosto nu do poder: o Estado como administrador do crime, o exército como tutor da ordem, a polícia como mediadora entre o legal e o ilegal. E enquanto a sociedade continuar acreditando que o problema é o “tráfico”, e não o sistema que o produz e o regula, a barbárie continuará sendo a linguagem oficial da política. A verdadeira contenção é a do povo: contido pelo medo, pela miséria e pela morte. É essa a vitória silenciosa do Estado sobre a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">A guerra interna brasileira é um projeto de Estado, não de governo. Sua permanência através das décadas revela que a repressão é uma necessidade funcional. O capital precisa de ordem para continuar existindo; e o Estado, sua forma política, se encarrega de garantir que essa ordem seja mantida pela violência legalizada. Mudam-se os governos, alternam-se os discursos, mas a estrutura permanece. Quando se fala em “forças de segurança”, fala-se na coluna vertebral da dominação burguesa. Ela é o verdadeiro partido permanente do Estado. O governo federal, em qualquer de suas versões, não se limitou a reproduzir essa estrutura — ele a expandiu. A crença de que o fortalecimento das instituições republicanas implicaria uma democracia mais robusta serviu de justificativa para a ampliação inédita dos aparatos repressivos. Durante os anos de euforia desenvolvimentista, a aposta era clara: blindar o Estado contra qualquer ameaça de ruptura social. Quando Dilma Rousseff inaugurou a chamada “Cidade da Polícia”, não estava promovendo modernização técnica ou eficiência administrativa; estava consolidando a centralização do controle policial e militar sobre o território urbano. Aquele complexo de delegacias especializadas, laboratórios e forças táticas sintetizava o projeto do Estado brasileiro pós-2003: sofisticar a repressão sob a estética da gestão.</p>
<p style="text-align: justify;">A construção da “Cidade da Polícia” foi apresentada como símbolo de racionalidade e de combate à corrupção dentro das corporações. Mas o que ela de fato instituiu foi um modelo de integração entre inteligência policial, poder judiciário e tecnologia militar — um salto qualitativo na coordenação das forças repressivas. Sob o pretexto de combater o crime organizado, o Estado organizou a sua própria estrutura de guerra permanente. A esquerda institucional chamou isso de “segurança cidadã”; a direita, de “ordem e progresso”. Na realidade, tratava-se de consolidar a vigilância sobre os corpos e as vozes que ameaçavam a estabilidade da acumulação. O projeto político de “pacificação” dos territórios periféricos, as UPPs, e o investimento em infraestrutura policial foram faces da mesma moeda. A suposta integração social das favelas serviu de laboratório para a gestão militar da pobreza.</p>
<p style="text-align: justify;">O compromisso do governo federal com as Forças Armadas jamais foi de confronto, mas de conciliação e recompensa. O orçamento da defesa, ao longo de duas décadas, cresceu exponencialmente. Nenhum governo ousou reduzir a influência política dos militares; ao contrário, todos procuraram reconvertê-la em força estabilizadora. As Forças Armadas foram mantidas como poder tutelar da república. Receberam verbas, cargos, homenagens e um papel central na legitimação moral do Estado. A velha casta fardada foi incorporada à máquina administrativa como símbolo de eficiência e patriotismo, ocultando sua função real: garantir que o povo permaneça no seu lugar. O fortalecimento das estruturas repressivas, nesse contexto, não é uma falha dos governos populares, mas sua contradição interna. Ao buscar governar para todos, mantiveram intactas as bases da dominação de classe. A conciliação com os militares e com a polícia foram o preço pago para assegurar a estabilidade institucional. Mas o preço cobrado foi alto: a militarização da vida. A retórica da “cidadania armada” e da “guerra ao crime” substituiu o horizonte de emancipação pela promessa de ordem. Assim, o Estado ampliou seus instrumentos de controle sobre as massas ao mesmo tempo em que se apresentava como seu protetor. A repressão deixou de ser atributo da direita e tornou-se política de Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo federal atua como fiador moral e financeiro dessa estrutura. É quem garante o fluxo de recursos, os programas de modernização, os convênios de tecnologia e a retaguarda política para as operações de guerra interna. Mesmo quando critica as chacinas, o faz dentro dos limites da legalidade que ele próprio sustenta. Os governos progressistas e conservadores divergem no discurso, mas convergem na prática: nenhum rompeu com o pacto armado. O exército segue controlando a Amazônia sob a lógica da segurança nacional, as polícias seguem militarizadas e os territórios urbanos seguem vigiados por câmeras, drones e bases móveis. O Estado democrático de direito é, na prática, um Estado de exceção administrado. Nesse quadro, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, é apenas a personificação regional dessa engrenagem. Advogado, católico militante e aliado orgânico da extrema-direita, Castro é a expressão mais nítida do consenso repressivo. Herdou o cargo após o impeachment de Witzel e foi reeleito com o apoio das milícias políticas, dos empresários da segurança e do clero fundamentalista. Seu governo se sustenta sobre três pilares: a repressão armada, o moralismo religioso e a aliança com o capital imobiliário. Ele governa pela guerra e através da fé. Cada operação policial é um sermão sobre a necessidade da morte para garantir a paz.</p>
<p style="text-align: justify;">Castro governa como um síndico do narcoestado. Administra o pacto entre o Estado formal e as forças ilegais que realmente controlam o território. Sua função é coordenar a convivência entre polícia, milícia e facções, equilibrando interesses e redistribuindo lucros. Quando um desses elementos se torna disfuncional — quando a violência escapa do script, quando o tráfico desafia a hierarquia ou quando a opinião pública exige espetáculo — o governador autoriza a chacina. A Operação Contenção é parte desse mecanismo de ajuste. Sob o pretexto de combater o “narcoterrorismo”, o Estado redefine as fronteiras da sua soberania e reestabelece a hierarquia do medo. A figura de Cláudio Castro representa a síntese perfeita do Estado burguês em sua fase de decomposição moral. Um homem de fé que abençoa o fuzil, um gestor que transforma o massacre em estatística, um político que governa com o evangelho numa mão e o decreto de morte na outra. Sua retórica de “guerra justa” legitima o genocídio e confere aparência de virtude à barbárie. Ele se apresenta como defensor da ordem, mas sua ordem é o caos administrado. É a mesma lógica que permeia todo o sistema: o poder não quer eliminar a violência, quer monopolizá-la.</p>
<p style="text-align: justify;">As forças do Estado, do governo federal e do governo estadual estão articuladas por uma divisão de tarefas. O governo central fornece o enquadramento legal, o financiamento e o discurso de modernização. O governo estadual executa, com brutalidade, a política de contenção. As Forças Armadas garantem o pano de fundo moral e o respaldo simbólico da autoridade. Essa divisão mantém o equilíbrio entre as classes dominantes, ao mesmo tempo em que reprime qualquer movimento de ruptura. A violência se distribui de modo racional: o centro formula, a periferia morre. Essa estrutura revela o verdadeiro compromisso do Estado com as Forças Armadas. O pacto é simples: estabilidade em troca de autonomia. O exército preserva sua influência, sua estrutura corporativa, seus privilégios e seu papel de árbitro; em troca, garante que a república não seja atravessada por forças populares incontroláveis. Esse pacto, firmado na transição democrática e reafirmado por todos os governos subsequentes, é a espinha dorsal do regime. Ele explica por que a militarização da política é tão profunda e por que as chacinas se repetem com regularidade burocrática. O Estado aprendeu a governar pela exceção.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a essa engrenagem, o povo é o material de sacrifício. Cada operação policial é um ato litúrgico: celebra a união da nação em torno da violência e renova a fé nas instituições. A imagem de soldados patrulhando favelas, de helicópteros cruzando os céus e de blindados nas ruas serve como espetáculo de poder. O medo torna-se a cola ideológica da sociedade. O trabalhador, o morador, o corpo negro e pobre, são o preço da estabilidade. O Estado, ao matar, reafirma sua legitimidade. Enquanto a sociedade continuar acreditando que a mudança virá de dentro dessa estrutura, a guerra continuará sendo a política oficial. O compromisso do governo federal com as forças armadas é o compromisso do capital com sua própria guarda. O papel do governador é o de gestor local da violência. E o papel do povo, imposto pela força, é o de espectador e vítima. O verdadeiro combate não se trava entre Estado e tráfico, mas entre dominação e emancipação, entre vida e morte. E, nesse campo, o Estado escolheu seu lado há muito tempo.</p>
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		<title>Cláudio Castro: fé, bala e capital</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jan 2026 13:36:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A violência de Estado não é mais instrumento ocasional, mas política de regulação da força de trabalho excedente. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">A ascensão de Cláudio Castro ao governo do Estado do Rio de Janeiro constitui um fenômeno de relevância singular para compreender o estágio atual do conservadorismo brasileiro e a reconfiguração contemporânea do Estado burguês em contexto de crise estrutural do capital. Não me refiro à sua importância enquanto político, mas seu papel na máquina do poder. Politicamente, Castro é nada mais que um político vulgar, sem qualquer destaque ou relevância social, representando apenas a continuidade de um projeto devastador. Sua trajetória e a orientação de seu governo expressam, de forma concentrada, tendências que atravessam o país: a fusão entre religião e política, a centralidade do aparato repressivo como eixo de governabilidade e a naturalização do autoritarismo como resposta à decomposição social.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto de partida dessa análise exige reconhecer que o Rio de Janeiro, historicamente, ocupa uma posição peculiar na formação social brasileira. A cidade sempre funcionou como espelho concentrado das contradições nacionais: um espaço onde a modernidade e a barbárie coexistem de modo visceral. Desde o século XVIII, sua condição de porto estratégico e sede administrativa da colônia transformou-a no principal elo entre o mundo colonial e o circuito mercantil internacional. O Rio não foi apenas capital política, mas o centro nervoso de um sistema de extração e circulação de riquezas fundado na escravidão. Nela se cruzavam os fluxos da mercadoria, do capital e da carne humana. A urbanização fluminense nasceu sob o signo do tráfico negreiro, e sua paisagem social foi moldada pela presença massiva da população escravizada, pela hierarquia racial e pela violência cotidiana. Essa estrutura de poder, ancorada na exploração e no controle dos corpos, impregnou as formas posteriores de dominação e permanece como substrato invisível da vida política e policial da cidade. Essa condição moldou uma estrutura social profundamente hierarquizada, na qual a violência estatal constituiu o principal instrumento de regulação das relações entre as classes. A escravidão urbana, as forças de segurança e o controle territorial das camadas subalternas criaram um padrão de dominação que se atualiza, com diferentes roupagens, ao longo dos séculos. No século XXI, o Rio converte-se novamente em laboratório de experimentação política: um espaço onde se testam formas de gestão da pobreza e de administração do medo.</p>
<p style="text-align: justify;">A biografia política de Cláudio Castro deve ser compreendida dentro desse contexto. Nascido em 1979, formou-se no interior da Renovação Carismática Católica, movimento que desde os anos 1980 vem assumindo crescente influência na vida pública brasileira. A Renovação constitui um tipo de religiosidade alinhado ao individualismo neoliberal: substitui a crítica social pela moralização da conduta e transforma a fé em instrumento de autoajuda e empreendedorismo espiritual. A Renovação Carismática Católica surgiu no final da década de 1960, nos Estados Unidos, como um desdobramento interno do catolicismo diante da expansão do pentecostalismo e da crise das instituições religiosas tradicionais. Em 1967, um grupo de estudantes da Universidade de Duquesne, em Pittsburgh, afirmou ter vivido uma experiência direta com o “Batismo no Espírito Santo”, fenômeno que desencadeou a difusão de práticas de oração em línguas, cura e louvor espontâneo. Rapidamente, o movimento se expandiu pela América Latina, chegando ao Brasil em 1969, quando padres e leigos de Campinas organizaram os primeiros grupos de oração carismáticos. Desde então, a RCC consolidou-se como uma das principais forças de renovação religiosa dentro da Igreja Católica, reorganizando seu modo de inserção no mundo moderno.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a “renovação” que propõe não diz respeito à crítica das estruturas sociais, mas à intensificação da experiência individual de fé. A ênfase no “encontro pessoal com Deus”, na cura espiritual e na libertação interior desloca a religião da esfera coletiva e histórica para o campo da subjetividade e da moralidade privada. Sob a aparência de fervor popular, a RCC realiza uma profunda adequação do catolicismo à lógica neoliberal: substitui a solidariedade de classe pela fraternidade emocional, a crítica social pela autoajuda espiritual, o sofrimento histórico pela culpa pessoal. Em vez de questionar as causas da miséria, ensina a suportá-la com resignação e disciplina. Sua liturgia espetacular — marcada pela música, pelo êxtase e pela emoção — transforma a fé em mercadoria simbólica, ajustando a religião ao mercado da experiência e à indústria cultural. Trata-se de uma pedagogia da adaptação: ensina o fiel a obedecer, a competir, a vencer espiritualmente no mesmo mundo que o oprime materialmente. Essa religiosidade emocional, que moldou gerações de jovens católicos nas últimas décadas, produziu um tipo de subjetividade dócil e empreendedora, ideal para a nova forma de dominação que combina fé e capital. É nesse caldo cultural que se forma Cláudio Castro — um político cuja trajetória sintetiza a conversão da espiritualidade em instrumento de poder.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158492" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre.jpg" alt="" width="1600" height="1061" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-1024x679.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-768x509.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-1536x1019.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-633x420.jpg 633w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-640x424.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-681x452.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" />O ingresso de Castro nesse universo corresponde à formação de uma subjetividade disciplinada e adaptada à ordem. Sua atuação inicial como músico em comunidades católicas revela essa pedagogia: a política é convertida em liturgia, o coletivo é dissolvido na ideia de salvação pessoal. A passagem para a vida institucional ocorre de modo gradual. Castro inicia-se na política como assessor e chefe de gabinete de parlamentares ligados ao Partido Social Cristão (PSC), legenda que se caracteriza pela defesa de pautas morais e pelo trânsito entre o conservadorismo católico e o pentecostalismo evangélico. Em 2016, elege-se vereador pelo PSC e, dois anos depois, compõe a chapa de Wilson Witzel como vice-governador. Essa ascensão coincide com a hegemonia do bolsonarismo e com a expansão de um campo político unificado por três elementos fundamentais: a deslegitimação da esquerda institucional, o moralismo religioso como linguagem popular de mobilização e a militarização das políticas públicas. Castro herda esse tripé e o consolida.</p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória de Witzel, ex-juiz federal que assumiu o governo com discurso de extermínio (“atirar na cabeça”), foi interrompida por denúncias de corrupção e disputas internas no bloco de poder. Sua ascensão ao governo do Rio, em 2018 foi expressão local da onda reacionária que atravessou o país. A figura do ex-magistrado emergiu como produto direto do colapso do sistema político tradicional e da legitimação midiática da “guerra contra o crime” e da “guerra contra a corrupção”. O capital político que o sustentou veio da fusão entre o moralismo punitivista e o ressentimento social, catalisados pelo bolsonarismo. Witzel representava a crença de que a violência de Estado poderia restaurar a ordem perdida; encarnava o juiz-justiceiro que, vindo das fileiras do sistema judicial, prometia aplicar ao governo a mesma lógica de sentença e castigo que marcara a Operação Lava Jato. Seu triunfo eleitoral simbolizou o deslocamento da autoridade civil para a autoridade policial-jurídica — o governo como tribunal, o povo como réu. O Rio de Janeiro, historicamente terreno fértil para a retórica da “mão dura”, tornou-se o laboratório dessa política de extermínio legitimada pela fé na punição e pela espetacularização da violência. A ascensão de Castro à chefia do Executivo estadual, em 2020, significou continuidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário de Witzel, cuja retórica era agressiva, Castro representa o mesmo projeto em versão administrativamente apaziguada. A mudança de estilo não implicou alteração de conteúdo. O núcleo ideológico &#8211; a guerra permanente às favelas, a repressão como política de Estado e o conservadorismo moral como linguagem de legitimação &#8211; manteve-se intacto. O governo Castro deve ser interpretado como desdobramento lógico do processo de desintegração do pacto social-democrata brasileiro. Após a crise de 2014-2016, marcada pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela ruptura do arranjo de conciliação que sustentava os governos anteriores, a direita brasileira reorganizou-se em torno de uma agenda de restauração autoritária. O enfraquecimento das mediações políticas, a fragmentação do sistema partidário e o avanço da precarização do trabalho criaram condições para o predomínio de uma racionalidade securitária e moralizante. O Estado, esvaziado de sua função social, voltou-se a exercer, de maneira direta, sua função coercitiva. O Rio, por sua composição social e por sua posição simbólica, tornou-se o epicentro dessa transformação.</p>
<p style="text-align: justify;">O caráter religioso do governo Castro é elemento constitutivo de sua legitimidade. Ao se apresentar como homem de fé, ele mobiliza um ethos conservador que naturaliza a desigualdade e converte o sofrimento social em questão de mérito ou culpa individual. O discurso religioso fornece a linguagem através da qual a violência de Estado é justificada: a polícia aparece como instrumento de “purificação” do mal, as operações letais como atos necessários para restabelecer a ordem moral. Trata-se de uma reconfiguração ideológica na qual a repressão assume estatuto ético. Essa religiosidade de massas cumpre, portanto, função política. No contexto de esgotamento das promessas de ascensão social e de destruição dos direitos trabalhistas, a fé surge como substituto simbólico da cidadania. A religião, nesse caso, não se opõe ao mercado, mas o complementa. O Estado, desobrigado de garantir direitos, passa a oferecer conforto espiritual. O governante torna-se uma espécie de mediador entre a fé e a gestão, legitimando políticas de austeridade e repressão sob a retórica da responsabilidade moral. O neoliberalismo, em sua fase avançada, incorpora a religião como dispositivo de controle subjetivo.</p>
<p style="text-align: justify;">A política de segurança pública implementada sob sua gestão explicita essa lógica. As operações policiais em favelas e periferias atingiram, no período recente, níveis recordes de letalidade, com grande repercussão nacional e internacional. A “Operação Contenção”, deflagrada em 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, sintetiza a política de Estado baseada no extermínio de populações racializadas. O governo justifica tais ações sob o argumento de combate ao tráfico, mas os dados indicam uma estratégia de militarização permanente do território. A repressão deixa de ser resposta a episódios de violência e passa a constituir a própria forma de presença do Estado em determinadas áreas. O objetivo subjacente não é eliminar o crime, mas manter a guerra. A guerra, neste caso, cumpre função de coesão social: ela cria um inimigo interno que unifica os setores médios, fornece legitimidade ao aparato repressivo e reafirma a hierarquia racial e de classe. Essa dinâmica revela a continuidade histórica entre a escravidão e o Estado penal contemporâneo. A violência seletiva é a tradução moderna do velho princípio de dominação que estrutura a formação brasileira. Ao deslocar o foco da política social para a política de segurança, o governo redefine o sentido da cidadania: o cidadão é aquele que pode ser protegido; o inimigo, aquele que pode ser eliminado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158493" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM.png" alt="" width="567" height="380" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM.png 567w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM-300x201.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM-537x360.png 537w" sizes="auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px" />A legitimidade do governo Castro não se sustenta apenas na força do aparato repressivo ou na manipulação midiática — ela se enraíza num consenso difuso, tecido pela ideologia da segurança e pela naturalização da violência. As pesquisas que apontam ampla aprovação às operações policiais revelam um fenômeno mais profundo que o simples apoio a medidas duras: expressam a adesão a uma forma de vida administrada pela ameaça. A guerra permanente às favelas converte-se em espetáculo moral e pedagógico, no qual as classes médias e parte dos trabalhadores aprendem a reconhecer no Estado armado o guardião da normalidade. Essa adesão, contudo, não nasce de convicção política, mas do desamparo estrutural. A decomposição das relações de trabalho, o isolamento social e a sensação de insegurança generalizada produzem sujeitos fatigados, incapazes de imaginar uma alternativa coletiva. Nessa paisagem, a polícia aparece como encarnação de uma ordem desejada — ainda que imposta pelo medo. A classe média, habituada a se perceber como centro da sociedade, vê na repressão a garantia de seu status vacilante; teme o colapso das fronteiras entre “gente de bem” e “perigo social” e por isso exige a manutenção da distância pela bala. A burguesia, por sua vez, transforma a guerra interna em mercado: lucra com o caos que administra, convertendo a violência em ativo financeiro e espetáculo de governabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o dado mais inquietante é a participação de segmentos populares nesse consenso. Nas favelas, onde o Estado só chega armado, a promessa de segurança, ainda que ilusória, pode soar como redenção. O medo da violência cotidiana, somado à ausência de alternativas, gera uma adesão ambígua: o oprimido aplaude o opressor porque perdeu a crença na possibilidade de libertação. Trata-se de uma inversão trágica do sentimento de classe — um momento em que a consciência se dobra sob o peso da sobrevivência e o desejo de ordem substitui o desejo de justiça. O aplauso às viaturas não é mera alienação; é o sintoma de uma sociabilidade corroída, em que o extermínio torna-se aceitável quando promete estabilidade. Castro soube instrumentalizar essa atmosfera de desespero e ressentimento. Ao apresentar-se como gestor sereno, homem de fé e defensor da segurança, converteu o massacre em prova de eficiência administrativa e de moralidade pública. A violência policial, nesse contexto, opera como política de comunicação: cada operação é um espetáculo de poder que reativa o vínculo entre governo e sociedade. O tiro torna-se linguagem; o sangue, forma de legitimidade. A popularidade de Castro após a chacina da Penha é o efeito lógico de um sistema que aprendeu a governar pela comoção e pelo medo. A adesão social à barbárie revela, assim, o triunfo de uma racionalidade cínica: um Estado incapaz de garantir a vida, mas plenamente capaz de administrar a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação entre conservadorismo e neoliberalismo manifesta-se, no caso fluminense, de modo particularmente claro. O Estado enfrenta uma crise fiscal crônica desde meados da década de 2010, agravada pela dependência dos royalties do petróleo e pela desindustrialização. A crise do Estado do Rio de Janeiro é o resultado de um longo processo de esgotamento de seu modelo econômico e político. Desde o início dos anos 2000, o Estado passou a depender crescentemente dos royalties e participações especiais do petróleo, convertendo-se em uma espécie de Estado rentista, sustentado por uma renda volátil e vinculada à exploração de recursos naturais. Essa dependência foi agravada pela desindustrialização e pela financeirização das atividades urbanas, que reduziram drasticamente a base produtiva e a arrecadação tributária. Quando o preço do barril despencou em 2014 e a Lava Jato atingiu as principais empreiteiras, o modelo desabou. O colapso fiscal foi a expressão imediata de uma crise mais ampla: a falência de uma forma de acumulação baseada na extração de renda e na intermediação político-empresarial. Diante disso, o Rio tornou-se o primeiro estado a aderir ao Regime de Recuperação Fiscal, em 2017, submetendo-se a um programa de austeridade que congelou investimentos, privatizou ativos estratégicos e transformou a dívida pública em eixo de toda a política estadual. O Estado deixou de ser promotor de desenvolvimento e converteu-se em gestor da própria falência. A partir daí, o neoliberalismo assumiu forma de governo permanente, e a repressão tornou-se o instrumento de estabilidade. Cláudio Castro herda e aprofunda esse arranjo: governa um Estado financeiramente tutelado, incapaz de oferecer políticas sociais, mas plenamente funcional para o capital financeiro e o mercado da segurança. Sua administração combina austeridade fiscal e expansão policial, traduzindo no plano local a síntese contemporânea entre neoliberalismo e autoritarismo moral. O Rio de Janeiro é hoje o laboratório onde se experimenta a forma mais avançada do Estado em crise — aquele que, sem meios para reproduzir a vida, reproduz apenas a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta dos governos tem sido a adoção de políticas de ajuste, privatizações e parcerias público-privadas, acompanhadas da repressão aos movimentos sociais e da criminalização da pobreza. Cláudio Castro aprofunda esse modelo ao combinar austeridade orçamentária e expansão do aparato policial. Enquanto reduz investimentos sociais, amplia os recursos destinados às forças de segurança. A retórica da “ordem” serve para legitimar a gestão da escassez. O Rio de Janeiro, nesse sentido, é a expressão concentrada de um fenômeno nacional: a transformação do Estado em administrador da crise. A incapacidade de promover desenvolvimento econômico converte o governo em gestor da desintegração. A violência deixa de ser um desvio e torna-se instrumento funcional de regulação. As chacinas periódicas, as incursões militares e o encarceramento em massa operam como mecanismos de controle da população excedente, isto é, daquela fração do proletariado que já não é absorvida pelo mercado de trabalho. A repressão é, assim, uma política econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">Diferentemente de figuras autoritárias de perfil militar, Castro apresenta-se como político civil moderado, capaz de dialogar com a burguesia financeira, com o clero e com as corporações policiais. Essa convergência define uma nova configuração de poder, na qual o autoritarismo é exercido de forma difusa e institucionalizada, sem necessidade de ruptura formal da ordem democrática. O significado histórico de sua permanência no governo, em um momento de suposta recomposição democrática em nível federal, é revelador. O país vive um duplo movimento: enquanto o Executivo nacional tenta restaurar a normalidade institucional e reabilitar o pacto entre capital e trabalho, governos estaduais como o do Rio consolidam a normalização da exceção. Essa coexistência demonstra a plasticidade do Estado burguês: ele é capaz de operar simultaneamente com linguagem democrática e prática autoritária. O discurso dos direitos convive com a prática do massacre. O governo Castro representa a face local dessa contradição.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158490" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7.jpg" alt="" width="1024" height="697" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-617x420.jpg 617w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O conservadorismo fluminense também cumpre papel de vanguarda na recomposição ideológica da direita brasileira. Após a derrota eleitoral de 2022, o campo bolsonarista perdeu a capacidade de mobilização nacional, mas manteve forte influência nos estados. No Rio, essa influência se institucionalizou. A aliança entre o Partido Liberal, as forças de segurança e setores religiosos consolidou uma base de poder estável, ancorada na gestão cotidiana do medo. O bolsonarismo, aqui, deixou de ser apenas movimento e tornou-se governo permanente. Castro é o operador desse processo. Do ponto de vista teórico, pode-se afirmar que seu governo expressa a passagem do Estado neoliberal para um Estado securitário-devocional. A racionalidade econômica, centrada na austeridade e na privatização, é reforçada por uma racionalidade moral que reorganiza a hegemonia em torno de valores tradicionais. A fusão dessas duas dimensões &#8211; mercado e moral &#8211; garante ao regime uma legitimidade paradoxal: promete ordem e espiritualidade num contexto de dissolução social. O Estado não oferece futuro, mas oferece pertencimento. Essa é a fórmula contemporânea do autoritarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em termos sociológicos, a manutenção desse modelo depende da convergência entre três campos: o econômico, o religioso e o militar. O campo econômico fornece a base material &#8211; o rentismo e a especulação; o religioso fornece o sentido &#8211; a legitimação moral; e o militar fornece a força &#8211; o poder coercitivo. A articulação entre esses elementos explica a estabilidade relativa de governos como o de Castro, mesmo diante de índices elevados de violência e desigualdade. A população, submetida à insegurança cotidiana, tende a apoiar medidas repressivas em nome da autopreservação. O medo se transforma em política. A experiência fluminense mostra, portanto, que o conservadorismo atual não é resquício do passado, mas forma moderna de governar a crise. Ele se apoia em tecnologias avançadas de vigilância, em aparatos midiáticos sofisticados e em discursos religiosos adaptados à era digital. A repressão, longe de ser apenas física, é também simbólica: atua na produção de subjetividades dóceis e conformadas. O resultado é a consolidação de uma cultura política autoritária, que naturaliza a violência e banaliza a desigualdade.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença de Cláudio Castro no poder, nesse contexto, expressa a maturidade de um projeto que combina dependência econômica, regressão política e reacionarismo moral. O Rio de Janeiro, por sua posição histórica, serve de vitrine e advertência. A política fluminense antecipa tendências que se expandem nacionalmente: o esvaziamento das instituições representativas, a militarização da vida cotidiana, a instrumentalização da religião e a fusão entre crime e Estado. O governo atual é, assim, menos uma anomalia e mais um diagnóstico. Concluir que o Estado fluminense cumpre uma função de laboratório não significa reduzir sua complexidade a determinismos locais. Ao contrário, trata-se de reconhecer que o capitalismo dependente brasileiro produz, em diferentes escalas, formas específicas de dominação. No Rio, essas formas se tornam visíveis. A figura de Cláudio Castro, ao articular a administração pública à lógica religiosa e securitária, revela o grau de aprofundamento da crise de hegemonia. A política deixa de ser mediação entre interesses e passa a ser mera gestão da sobrevivência.</p>
<p style="text-align: justify;">O estudo do seu governo permite observar o funcionamento atual do Estado burguês em sua dimensão mais direta. Quando as condições de reprodução do capital se tornam críticas, o Estado intensifica suas funções coercitivas e ideológicas. O conservadorismo, portanto, é funcional à crise. No Rio de Janeiro, essa resposta assume o rosto de um governador que governa com a Bíblia numa mão e o aparato policial na outra. Em síntese, a figura de Cláudio Castro condensa três processos estruturais: a consolidação de uma direita religiosa e moralista como base de massas da ordem, a institucionalização do Estado penal como forma dominante de regulação social e a subordinação completa do poder público aos interesses do capital financeiro e das corporações militares.</p>
<p style="text-align: justify;">A intensificação da violência estatal no Rio de Janeiro, culminando na chamada Operação Contenção, deflagrada em 28 de outubro de 2025, evidencia a consolidação de um modelo de governo baseado na militarização permanente da vida social. O evento, que resultou em centenas de mortes e foi classificado por organizações de direitos humanos como a operação mais letal da história do estado, não pode ser compreendido como episódio isolado. Ele representa o ponto de maturação de um projeto político que articula religião, moral conservadora e repressão como fundamentos da governabilidade. Nesse sentido, o governo de Cláudio Castro constitui um caso paradigmático do processo de reorganização autoritária do Estado burguês em contexto de crise estrutural do capital. A Operação Contenção apenas tornou explícito um padrão de atuação previamente estabelecido: incursões em larga escala, uso de armamento pesado, bloqueio de áreas inteiras e a suspensão fática de direitos constitucionais.</p>
<p style="text-align: justify;">O elemento novo da operação foi o nível de integração entre as forças estaduais e o discurso de defesa nacional. Ao afirmar que o Rio estaria “sozinho nesta guerra” e insinuar a necessidade de apoio das Forças Armadas, Castro procurou elevar o conflito à condição de ameaça à soberania, deslocando o eixo da segurança pública para o campo da segurança nacional. Essa retórica inscreve a política fluminense na tradição latino-americana dos estados de exceção militarizados, nos quais a repressão das classes subalternas é apresentada como defesa da pátria. A aproximação simbólica com as Forças Armadas não deve ser lida como simples busca de apoio operacional, mas como tentativa de redefinir o estatuto político da repressão. O emprego potencial do Exército em tarefas policiais, mesmo sem a formalização da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), sinaliza o desejo de transformar a exceção em norma. O governo estadual age dentro de uma racionalidade que ultrapassa a dimensão local: ao naturalizar a presença militar no cotidiano urbano, contribui para consolidar um modelo nacional de governo da crise pela força. Do ponto de vista institucional, a Operação Contenção reflete a fusão progressiva entre polícia, exército e capital. O aparato repressivo, tradicionalmente estatal, passa a funcionar segundo lógicas empresariais, alimentando um mercado de segurança que inclui empresas privadas de vigilância, indústrias de armamentos e contratos de tecnologia de monitoramento. A militarização não é apenas política, é também econômica: a violência transforma-se em setor produtivo, integrando o circuito de acumulação capitalista. O Estado assume o papel de mediador entre o capital financeiro e o capital militar, administrando a guerra como negócio.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, a relação de Castro com as Forças Armadas possui duplo caráter: simbólico e funcional. No plano simbólico, o governador recorre à imagem da autoridade militar como metáfora de ordem e disciplina, elementos centrais de seu discurso moral. A figura do soldado funciona como extensão da figura do fiel — ambos obedientes, abnegados e submissos à hierarquia. No plano funcional, essa aproximação legitima a ampliação de investimentos em armamentos, veículos blindados e novas tecnologias de vigilância, financiadas por fundos públicos e por parcerias privadas. O Estado, sob o pretexto de combater o crime, expande o mercado da repressão. A operação de 2025 também revela o papel do Rio de Janeiro como laboratório político. Historicamente, o estado tem sido campo de experimentação de políticas de segurança e de gestão da pobreza. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implantadas a partir de 2008, já haviam testado a ocupação militar de territórios populares com apoio de organismos internacionais e de empresas privadas. A Operação Contenção retoma essa experiência sob nova roupagem: substitui a retórica da pacificação pela da aniquilação. Se as UPPs prometiam integração social, a nova política assume explicitamente a segregação como método. O que se observa é a transição de um modelo de controle territorial para um modelo de extermínio territorial.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação deve ser interpretada à luz da crise do neoliberalismo e da reconfiguração das formas de dominação nas economias dependentes. O esgotamento das políticas de inclusão e o avanço da precarização criam uma massa de trabalhadores supérfluos, cuja existência torna-se disfuncional para o processo de valorização do capital. Diante disso, o Estado desloca sua função: de mediador de conflitos, converte-se em gestor da eliminação social. A violência de Estado não é mais instrumento ocasional, mas política de regulação da força de trabalho excedente. As favelas e periferias, onde se concentra essa população, são tratadas como zonas de sacrifício. A militarização, portanto, cumpre função estrutural. Ela garante a reprodução de um sistema que já não pode prometer progresso, apenas segurança. O autoritarismo religioso de Castro fornece o revestimento moral necessário a esse arranjo. Ao apresentar as operações como “batalhas do bem contra o mal”, o governo converte o conflito de classes em conflito espiritual, deslocando a crítica social para o terreno da fé. A barbárie torna-se aceitável porque se disfarça de purificação. O resultado é uma sociedade que legitima a violência em nome da moralidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158491" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md.jpg" alt="" width="512" height="768" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" />A aproximação entre governo, forças de segurança e segmentos religiosos produz uma nova forma de hegemonia conservadora. Essa hegemonia não se baseia em consenso racional, mas em adesão afetiva. A fé e o medo constituem seus dois pilares: a fé oferece sentido num mundo sem horizonte; o medo garante obediência num mundo sem garantias. Essa combinação explica a relativa estabilidade do governo Castro, mesmo diante das repetidas chacinas e denúncias de corrupção. A violência não ameaça o poder; ela o consolida. A análise da Operação Contenção permite compreender também a relação entre o Estado fluminense e o Estado nacional. O embate entre Castro e o governo federal, em torno da ausência de pedido formal de GLO, expressa a tensão entre dois projetos distintos de gestão da crise. De um lado, a tentativa de recompor a normalidade institucional e reafirmar a autoridade civil; de outro, a consolidação de uma governabilidade baseada na exceção. O Rio de Janeiro opera como ponta avançada do segundo projeto. A retórica de isolamento — “estamos sozinhos nesta guerra” — cumpre papel político: apresenta o governo estadual como defensor da população abandonada por Brasília, reforçando sua legitimidade junto às classes médias e setores conservadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A militarização da política estadual também possui implicações federativas. A criação do “Consórcio da Paz”, reunindo governadores de diferentes regiões, indica a intenção de disseminar o modelo fluminense para outros estados. Sob o discurso de integração e cooperação, constrói-se uma rede interestadual de repressão, capaz de articular informações de inteligência, técnicas de vigilância e protocolos de uso da força. O Rio, assim, exporta sua experiência de guerra interna, transformando-a em padrão de governança. Essa difusão reforça o caráter nacional da tendência autoritária, demonstrando que a barbárie não é fenômeno localizado, mas expressão de uma racionalidade estatal em expansão. No plano teórico, a Operação Contenção revela o ponto de fusão entre neoliberalismo e militarismo. A lógica de mercado, que exige desregulamentação e redução de custos sociais, precisa da coerção para garantir a ordem. O Estado neoliberal, em sua fase tardia, torna-se simultaneamente mínimo na proteção e máximo na repressão. A austeridade e o autoritarismo não são contradições, mas complementos. O mesmo governo que reduz investimentos em saúde e educação amplia o orçamento da segurança. O mesmo Estado que prega responsabilidade fiscal financia o aparato militar. Essa é a economia política da violência.</p>
<p style="text-align: justify;">A figura de Cláudio Castro condensa esses processos. Sua combinação de religiosidade carismática, discurso moralista e pragmatismo administrativo oferece a síntese ideológica perfeita para o Estado em crise. A análise empírica das operações recentes mostra que a política de segurança pública do Rio não busca reduzir a criminalidade, mas produzir visibilidade política. Cada incursão é acompanhada de ampla cobertura midiática e de discursos oficiais que reforçam a imagem do governo como guardião da ordem. A morte torna-se performance de poder. O Estado demonstra sua autoridade através da destruição. Essa teatralização da repressão cumpre papel comunicativo fundamental: em tempos de descrença nas instituições, a violência é o único ato estatal que ainda produz efeito de realidade. O tiro substitui o argumento. O vínculo entre repressão e capital aparece também nas relações com empresas de mídia e com o setor de tecnologia. O governo investe em sistemas de câmeras, drones e softwares de reconhecimento facial, frequentemente contratados sem licitação e associados a grandes corporações transnacionais. Essas parcerias demonstram que a militarização do Estado se articula a um complexo econômico que envolve desde a indústria bélica até a economia de dados. A vigilância converte-se em novo campo de acumulação. O controle da informação, das imagens e das narrativas complementa o controle dos corpos.</p>
<p style="text-align: justify;">A Operação Contenção, ao escancarar o caráter estrutural da violência, revela também o esgotamento das formas tradicionais de oposição. A esquerda institucional, presa à lógica eleitoral e parlamentar, mostra-se incapaz de responder a um Estado que opera pela exceção. As organizações populares, por sua vez, enfrentam repressão crescente e dificuldades de mobilização. O resultado é o predomínio de uma racionalidade autoritária sem contrapeso efetivo. O consenso em torno da “segurança” atravessa classes e ideologias, demonstrando o sucesso do projeto conservador em redefinir o imaginário coletivo. Do ponto de vista histórico, a atual conjuntura repõe a velha aliança entre religião e força, típica dos períodos de transição e crise. A fé fornece legitimidade simbólica à violência, enquanto a violência garante materialidade à fé. Essa simbiose cria uma cultura política na qual a obediência é virtude e a dissidência, pecado. O Estado aparece como instrumento da vontade divina e o governante como intérprete autorizado dessa vontade. Cláudio Castro insere-se nessa tradição. Em conclusão, a relação entre Castro, as Forças Armadas e a Operação Contenção aponta para a consolidação de uma nova fase do conservadorismo brasileiro. Trata-se de uma forma de poder que não depende mais de rupturas institucionais explícitas, mas da administração contínua da exceção. O Rio de Janeiro cumpre, nesse processo, função exemplar: demonstra como o Estado burguês, diante da inviabilidade de um projeto de desenvolvimento, recorre à violência para manter sua autoridade. A fé e a repressão tornam-se, assim, instrumentos complementares de dominação. O governo de Cláudio Castro, ao militarizar a crise e espiritualizar a violência, oferece ao país uma síntese perversa de seu tempo histórico. A Operação Contenção não é apenas um episódio policial: é o retrato do Estado em sua forma contemporânea — um Estado que governa pela morte, moraliza a desigualdade e transforma a barbárie em método de gestão.</p>
<p><em>As obras que ilustram o artigo são de Maxwell Alexandre.</em></p>
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		<title>Coletivos influenciam meios digitais do MinC, obtendo privilégios</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Dec 2025 12:53:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[Redes de agentes externos obtiveram acesso privilegiado a sistemas digitais do Ministério da Cultura, tendo influência em recursos públicos para articulação política. Por Observatório da Cultura do Brasil]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Observatório da Cultura do Brasil</h3>
<p style="text-align: justify;">Análises realizadas a partir de auditorias de órgãos de controle como TCU (Tribunal de Contas da União) e CGU (Controladoria Geral da União), outros documentos públicos, reportagens, relatos de testemunhas e estudos, chegaram a uma apuração que remonta a um quadro que revela um rearranjo pouco usual na forma como o Ministério da Cultura (MinC) estruturou sua área de tecnologia nos últimos anos através de contratos e convênios ineficazes, sem economicidade e repassados sem licitação para aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo apuração jornalística que chegou a um <a class="urlextern" title="https://mega.nz/folder/B2EViIBK#rDRp-PsRgYiPqr5ZqHWgPw" href="https://mega.nz/folder/B2EViIBK#rDRp-PsRgYiPqr5ZqHWgPw" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">dossiê</a>, estes agentes políticos externos passaram a ter influência em informações estratégicas do Ministério da Cultura, tais como o banco de dados, o sistema de cadastro e prestação de contas, de consulta e transparência das informações, mapas digitais, sites e arquitetura de software digital da pasta (em conclusões do estudo do <a class="urlextern" title="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" href="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Observatório da Cultura do Brasil</a>, realizado em 2025).</p>
<p style="text-align: justify;">Auditorias da CGU sobre o MinC, referentes aos exercícios de <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/orUHmSxA#4lQ26SvI1Zw-oaNsuaQz-56HVWVIM2rrTd8le4cfGKw" href="https://mega.nz/file/orUHmSxA#4lQ26SvI1Zw-oaNsuaQz-56HVWVIM2rrTd8le4cfGKw" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">2015</a> (Relatório nº: 201601439) e <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/AnEwHB7Q#v3h1PQdYqq56u5maP43FYY39kTTg7qpcVW2BZriUDDI" href="https://mega.nz/file/AnEwHB7Q#v3h1PQdYqq56u5maP43FYY39kTTg7qpcVW2BZriUDDI" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">2016</a> (Certificado 201700874) trazem achados sobre convênios para prestação de serviços de Tecnologia da Informação (TI) na categoria Termos de Execução Descentralizada (TEDs) com universidades (UFPR, UFABC, UFPB e UFG), negociados entre 2008-2010, 2015-2016 (retomando em 2023). Os convênios firmados entre 2015 e 2016 somam um pacote de cerca de R$ 4,3 milhões para desenvolver serviços digitais e o (naquela época) novo site do CNPC &#8211; Conselho Nacional de Política Cultural, além de novos convênios assinados na atual gestão, com montantes em milhões, ainda em fase de apuração.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os principais problemas, segundo auditorias da CGU estavam o fato de que os projetos não tinham objetos claros nem planos de trabalho, não previam multas, careciam de controles, não havia estudo prévio de viabilidade, falta de critérios de economicidade, falta de sanções claras por descumprimento e com fragilidades de prestação de contas. Por fim, as auditorias apontam os resultados como “sem economicidade ou eficácia”. O ministério pagou caro por soluções que não entregaram o que prometiam, e ainda assim abriu portas sensíveis da sua infraestrutura para aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">A pasta desembolsou cerca de R$ 4,3 milhões nestes convênios por sistemas que apresentaram resultados limitados, ao mesmo tempo em que ampliou o acesso de atores externos a fluxos internos de informação. Quando se segue o rastro desses agentes, a partir do começo dos anos 2000, ficam tênues as fronteiras entre prestação de serviços, atividades de mobilização digital, articulação cultural, representação estadual do MinC, ativismo nas redes sociais, “consultoria técnica”, gestão de banco de dados e informações, militância política governamental, formulação de políticas culturais, captação de recursos de editais e atuação política, ou seja, atuando em todas as posições, numa confusão entre público e privado.</p>
<p style="text-align: justify;">A Rede Livre funciona como uma malha tecnológica que conecta iniciativas culturais, redes de comunicação e projetos de incidência social. Em depoimentos aos quais a reportagem teve acesso, seu coordenador descreve o grupo como uma “organização política”, ainda que sua apresentação pública seja a de uma plataforma de serviços digitais. Estranhamente, no site existem doações para sua construção, e até <a href="https://redelivre.org.br/produto/doe/" target="_blank" rel="noopener">campanhas coletivas para sustento do empreendimento</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Seu domínio (<a class="urlextern" title="http://redelivre.org.br/" href="http://redelivre.org.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">redelivre.org.br</a>) engloba diversas iniciativas, entre elas, o <a class="urlextern" title="https://labculturadigital.redelivre.org.br/" href="https://labculturadigital.redelivre.org.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">LAB Cultura Digital</a>, projeto que funciona dentro da própria<a class="urlextern" title="https://labculturadigital.redelivre.org.br/" href="https://labculturadigital.redelivre.org.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> Rede Livre</a>, agraciado por convênio TED na UFPR (conforme relatado na <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/orUHmSxA#4lQ26SvI1Zw-oaNsuaQz-56HVWVIM2rrTd8le4cfGKw" href="https://mega.nz/file/orUHmSxA#4lQ26SvI1Zw-oaNsuaQz-56HVWVIM2rrTd8le4cfGKw" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">auditoria nº 201601439 da CGU</a>), tendo a Rede Livre e o Lab Cultura Digital o mesmo coordenador, que hoje está à frente do <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/?srsltid=AfmBOoqYBcYTdcxiFxZ8KD_fyGaRtNatKtIccQMcunx-L2rJMFWSMEsE" href="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/?srsltid=AfmBOoqYBcYTdcxiFxZ8KD_fyGaRtNatKtIccQMcunx-L2rJMFWSMEsE" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Comitê de Cultura do Paraná</a>. Um percurso institucional que, no mínimo, suscita questionamentos sobre compatibilidade de funções e conflitos de interesses. Entre outras iniciativas conectadas ao domínio da Rede Livre no ambiente virtual (muitas iniciativas no mesmo endereço físico, no bairro Hugo Lange, em Curitiba), estão:</p>
<figure id="attachment_158389" aria-describedby="caption-attachment-158389" style="width: 911px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-158389" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2.png" alt="" width="911" height="670" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2.png 911w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-300x221.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-768x565.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-571x420.png 571w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-100x75.png 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-640x471.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB2-681x501.png 681w" sizes="auto, (max-width: 911px) 100vw, 911px" /><figcaption id="caption-attachment-158389" class="wp-caption-text">Ecossistema político que opera na Rede Livre (fonte: redelivre.org.br)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Há ainda registros na imprensa em reportagem publicada na <a class="urlextern" title="https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/estudo-revela-atuacao-de-grupos-de-interesses-em-verbas-de-cultura-3242892e.html?d=1" href="https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/estudo-revela-atuacao-de-grupos-de-interesses-em-verbas-de-cultura-3242892e.html?d=1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Folha de Londrina em 2023</a> com críticas envolvendo a Rede Livre, o Lab Cultura Digital (ambos questionados na matéria sobre problemas envolvendo a produção do site do CNPC) e o Soy Loco Por Ti, que “à luz da teoria política são reconhecidos aparelhos ideológicos”, conforme explica a reportagem. Outra reportagem, no <a class="urlextern" title="https://diplomatique.org.br/editais-de-cultura-no-parana-campo-de-influencia-na-capital-controla-o-estadual/" href="https://diplomatique.org.br/editais-de-cultura-no-parana-campo-de-influencia-na-capital-controla-o-estadual/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Le Monde Diplomatique Brasil em 2022</a>, confirma as conexões entre estes agrupamentos e coletivos. Enquanto uma reportagem do <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/" href="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Estadão em 2024</a>, cita o SoyLocoPorTi como ONG que coordena o<a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/?srsltid=AfmBOoqYBcYTdcxiFxZ8KD_fyGaRtNatKtIccQMcunx-L2rJMFWSMEsE" href="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/?srsltid=AfmBOoqYBcYTdcxiFxZ8KD_fyGaRtNatKtIccQMcunx-L2rJMFWSMEsE" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> Comitê de Cultura do Paraná</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentro desse ecossistema, estão inseridos os coletivos ou organizações que fazem parte do núcleo gestor da Rede Livre: Mutirão, Hacklab, SoyLocoPorTi, Mídia Ninja e Fora do Eixo. Este último, formado em 2005, teve grande atuação nas <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=5yjvo9RJ50U" href="https://www.youtube.com/watch?v=5yjvo9RJ50U" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">jornadas de junho de 2013</a>, quando lançou uma de sua rede de comunicação <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=kmvgDn-lpNQ" href="https://www.youtube.com/watch?v=kmvgDn-lpNQ" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mídia Ninja</a>, braço de jornalismo ativista midiático. O <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2014/05/95606/" href="https://passapalavra.info/2014/05/95606/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">FdE</a> já foi descrito pela grande imprensa como uma rede de coletivos de ativistas e produtores culturais que surgiu para articular a produção independente, conectando artistas, produtores e eventos. Conexão atenuada por meio de festivais (que captam recursos públicos de editais de cultura) ligados a uma de suas iniciativas, a <a class="urlextern" title="http://abrafin.redelivre.org.br/" href="http://abrafin.redelivre.org.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Abrafin &#8211; Associação Brasileira de Festivais Independentes</a>, que em seu site se apresenta com uma iniciativa com “o objetivo de dialogar com o poder público ações em favor do segmento de música ao vivo”.</p>
<figure id="attachment_158388" aria-describedby="caption-attachment-158388" style="width: 936px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-158388" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3.png" alt="" width="936" height="228" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3.png 936w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3-300x73.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3-768x187.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3-640x156.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB3-681x166.png 681w" sizes="auto, (max-width: 936px) 100vw, 936px" /><figcaption id="caption-attachment-158388" class="wp-caption-text">Núcleo gestor da Rede Livre (fonte: redelivre.org.br)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">No entanto, uma série de polêmicas envolveu tanto o Fora do Eixo (vide <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2014/05/95606/" href="https://passapalavra.info/2014/05/95606/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Dossiê no Passa Palavra</a>) quanto a ABRAFIN, como por exemplo o não pagamento de cachês de artistas, mesmo em <a class="urlextern" title="https://screamyell.com.br/site/2010/04/13/carta-aos-musicos-e-artistas/" href="https://screamyell.com.br/site/2010/04/13/carta-aos-musicos-e-artistas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">festivais agraciados com recursos públicos em editais</a> (tema tratado na “carta aberta aos músicos e artistas”, publicada no site de música Scream &amp; Yell, 2010), <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/fora-do-eixo-a-seita-totalitaria-1-mais-uma-vitima-torna-publico-o-seu-depoimento-ou-a-diferenca-de-capile-digo-nao-me-sigam" href="https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/fora-do-eixo-a-seita-totalitaria-1-mais-uma-vitima-torna-publico-o-seu-depoimento-ou-a-diferenca-de-capile-digo-nao-me-sigam" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">acusações de “trabalho semalhente à escravidão”</a>, entre outros episódios que apontam indícios de utilização questionável de recursos públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses agrupamentos iniciaram sua inserção institucional junto ao poder público federal através do Ministério da Cultura, tendo mais atuação em 2015, segundo a Folha de São Paulo, apontando <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/01/1573759-grupo-fora-do-eixo-da-expediente-no-minc-antes-da-posse-de-novo-ministro.shtml?mobile" href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/01/1573759-grupo-fora-do-eixo-da-expediente-no-minc-antes-da-posse-de-novo-ministro.shtml?mobile" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">práticas do FdE dentro do Ministério da Cultura</a>, como dar expediente dentro do MinC (sem serem funcionários, nem terem qualquer vínculo formal). No ano seguinte, convênios na modalidade TED de TI foram firmados com universidades, permitindo que estruturas tecnológicas do MinC fossem executadas por laboratórios vinculados a integrantes dessas redes.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos convênios, firmado com a UFPR, tinha como objetivo a construção do <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/07/157057/" href="https://passapalavra.info/2025/07/157057/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">site do CNPC &#8211; Conselho Nacional de Política Cultural, em 2016, no valor de R$ 1,4 milhão</a>, sendo intermediado por um responsável técnico do Lab Cultura Digital (o mesmo da Rede Livre e do Comitê de Cultura do Paraná) que, segundo documentos, negociou aspectos do convênio como se integrasse o quadro do próprio Ministério, sendo ao final o próprio beneficiário dos recursos (algo vedado em leis de licitações). Quando um conselheiro levantou dúvidas sobre a condução do projeto, enfrentou constrangimentos, retaliações políticas e dificuldades para apresentar formalmente seus apontamentos na plenária do Conselho após manobra política dos comissionados no MinC (situação registrada no <a class="urlextern" title="https://mega.nz/file/pzswiKTD#07Vbv80YJKZunmGE-f5J0SIAzUEX38qI2S_3_FIi8VM" href="https://mega.nz/file/pzswiKTD#07Vbv80YJKZunmGE-f5J0SIAzUEX38qI2S_3_FIi8VM" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mandado de Segurança MS 22794</a> no STJ). Anos depois, as denúncias do conselheiro foram confirmadas pela auditorias da CGU e do TCU (que foram publicizadas neste ano de 2025 em estudo do Observatório da Cultura do Brasil sobre o MinC), que trouxeram achados sobre falhas estruturais nos TEDs de TI firmados com as universidades, apontados como “sem economicidade ou eficácia”. Em 2023, após denúncia do caso em reunião de conselheiros, o site do CNPC saiu do ar por um mês. Embora o ministério tenha atribuído o fato a ataque hacker, reportagens levantaram suspeita de possível apagamento de dados relacionadas ao convênio. Tempos depois, o site foi alienado, e o CNPC voltou a ter páginas dentro das estrutura gov.br.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso do Paraná, com base em informações obtidas, especula-se que há indícios de que parte dos recursos destinados ao convênio apoiou (financiou direta ou indiretamente) iniciativas políticas, como a <a class="urlextern" title="https://mega.nz/folder/Rn8U3AgT#oSHKZzEJUwyooNfv18zUgA" href="https://mega.nz/folder/Rn8U3AgT#oSHKZzEJUwyooNfv18zUgA" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">vinda do ex-presidente uruguaio José Mujica a Curitiba</a>, um evento chamado <a class="urlextern" title="https://mega.nz/folder/l31ASJwa#rdD8lk7xYM_L2ExUAdBMOA" href="https://mega.nz/folder/l31ASJwa#rdD8lk7xYM_L2ExUAdBMOA" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Circo da Democracia</a> (ambos em 2016, em que o nome do Lab Cultura Digital aparecia como realizador em materiais de divulgação) e uma <a class="urlextern" title="https://mega.nz/folder/I7khASJC#holQXprMilJF5z9qmjkgPg" href="https://mega.nz/folder/I7khASJC#holQXprMilJF5z9qmjkgPg" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">campanha de candidato a reitoria na UFPR</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo entre as gestões do governo federal de 2016 a 2022, as articulações dos agrupamentos continuaram avançando. Em 2020, durante a <a class="urlextern" title="https://redelivre.org.br/project/conferencia-popular-de-cultura/" href="https://redelivre.org.br/project/conferencia-popular-de-cultura/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Conferência Popular de Cultura</a>, declarações <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/live/MSooztZUBmw?si=uefoSYccm13drPCT&amp;t=4775" href="https://www.youtube.com/live/MSooztZUBmw?si=uefoSYccm13drPCT&amp;t=4775" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">proferidas pelo líder do Fora do Eixo</a>, Pablo Capilé, sugerem o uso estratégico de recursos da cultura, especialmente da LAB (que era assistencial e emergencial durante a pandemia de Covid-19), como combustível para a disputa eleitoral de 2022. O fato, que ocasiona um possível desvio de finalidade da verba emergencial (em todo Brasil, já que são centenas de coletivos espalhados que integram estas redes), tema que foi abordado em <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2022/11/146385/" href="https://passapalavra.info/2022/11/146385/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">matéria publicada no Passa Palavra</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">As conexões se adensam quando se observa a atuação dessas mesmas redes na aplicação da Lei Aldir Blanc (LAB, criada para socorrer trabalhadores da cultura durante a pandemia) no Paraná, descrita na série <a class="urlextern" title="https://diplomatique.org.br/especial/a-crise-da-cultura/" href="https://diplomatique.org.br/especial/a-crise-da-cultura/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“A Crise da Cultura”</a> no Le Monde Diplomatique Brasil com cobertura na imprensa. Núcleos ligados à Rede Livre como Rede Coragem (<a class="urlextern" title="http://coragem.redelivre.org.br" href="http://coragem.redelivre.org.br" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">coragem.redelivre.org.br</a>) e Fórum de Emergência Cultural (<a class="urlextern" title="http://observatorio.redelivre.org.br" href="http://observatorio.redelivre.org.br" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">observatorio.redelivre.org.br</a>), com sites hospedados na Rede Livre), participaram da formatação de editais em reuniões com órgãos públicos de cultura e, mais tarde, apareceram entre os principais premiados. Estudos mostram concentração expressiva de recursos em poucos proponentes, em grande parte localizados em bairros nobres de Curitiba, enquanto trabalhadores vulneráveis ficaram à margem do recebimento de recursos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2024, uma reportagem do Estadão revelou a existência do chamado <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/planalto-despacha-com-gabinete-da-ousadia-do-pt-para-pautar-redes-e-influenciadores-governistas/?srsltid=AfmBOormOKu0z_ioNDGFNONXquIczuNdTM9GOkSfdlOV_daHsFb35OIb" href="https://www.estadao.com.br/politica/planalto-despacha-com-gabinete-da-ousadia-do-pt-para-pautar-redes-e-influenciadores-governistas/?srsltid=AfmBOormOKu0z_ioNDGFNONXquIczuNdTM9GOkSfdlOV_daHsFb35OIb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“gabinete da ousadia”</a>, uma rede abstrata de grupos de influenciadores e coletivos digitais que atuam politicamente na comunicação em redes sociais em prol do governo. Fontes apontam que agentes atuaram em redes políticas anteriores (citados nesta reportagem) participaram dessas mediações de narrativas de guerra cultural e polarização política como exército digital, em ações descentralizadas de propaganda governamental nas mídias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo jornal noticiou contradições no programa de <a href="https://www.estadao.com.br/politica/programa-de-r-58-milhoes-para-cultura-beneficia-ongs-ligadas-a-assessores-de-ministerio-e-petistas/?srsltid=AfmBOoqYBcYTdcxiFxZ8KD_fyGaRtNatKtIccQMcunx-L2rJMFWSMEsE" target="_blank" rel="noopener">Comitês Estaduais de Cultura</a>, apontando que essas estruturas passaram a beneficiar organizações e coletivos com vínculos políticos com o partido do governo. No Amazonas, o Comitê de Cultura usado para as eleições de 2024, foi descredenciado pelo Minc. No Paraná, em caso ainda mais grave, o MinC não reagiu mesmo com as vinculações reveladas de que o comando do Comitê de Cultura do Paraná ficou com um de seus articuladores mais conhecidos, que coordenou a Rede Livre e o Lab Cultura Digital, sendo candidato nas eleições de 2024, utilizando comitê eleitoral que funcionava no mesmo endereço do comitê de cultura do MinC. Episódio que reforça o padrão de repetição dos mesmos atores e conexão com agrupamentos de apoio com agenda governamental</p>
<p style="text-align: justify;">O padrão que emerge ao se analisar auditorias, depoimentos e demais documentos é o de uma estrutura com elevado grau de integração interna e externa, ocasionando evidentes conflitos de interesses: convênios de TI alimentam laboratórios ligados a redes culturais; essas redes operam plataformas digitais do MinC; as plataformas influenciam a formulação de políticas públicas e editais; os editais financiam coletivos que participaram dessa mesma cadeia decisória; e esses coletivos, por fim, atuam na comunicação pública e política governamental em ambientes digitais.</p>
<figure id="attachment_158387" aria-describedby="caption-attachment-158387" style="width: 1774px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-158387" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4.jpg" alt="" width="1774" height="1774" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4.jpg 1774w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-1536x1536.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/OCB4-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1774px) 100vw, 1774px" /><figcaption id="caption-attachment-158387" class="wp-caption-text">Grafo aponta conexões ator-rede entre lideranças, partidos políticos e beneficiados em editais do Paraná</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista legal, ainda faltam investigações conclusivas das autoridades competentes que carimbem esse arranjo como ilícito. Mas, sob a ótica da ética pública, da impessoalidade e do interesse coletivo, a pergunta se impõe: é aceitável que grupos que controlam sistemas, dados e fluxos digitais do Estado sejam, ao mesmo tempo, beneficiários recorrentes de verbas públicas, participem da formulação de políticas, operem campanhas e façam militância orgânico governamental e partidário de um projeto de poder?</p>
<p style="text-align: justify;">Quando um modelo de serviço de TI de um órgão público escolhido sem estudos prévios, sem sanções por descumprimentos e sem garantias de economicidade transfere recursos e informação estratégica a um ecossistema politicamente identificado, não estamos apenas diante de um problema técnico. Estamos diante da hipótese incômoda de um Estado hackeado por dentro. Não por inimigos externos, mas por aliados que aprenderam a usar a nuvem pública como extensão e subsistência de sua própria nuvem ativista.</p>
<p style="text-align: justify;">O dossiê completo e documentos da apuração podem ser <a class="urlextern" title="https://mega.nz/folder/B2EViIBK#rDRp-PsRgYiPqr5ZqHWgPw" href="https://mega.nz/folder/B2EViIBK#rDRp-PsRgYiPqr5ZqHWgPw" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">acessados neste link</a>.</p>
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		<title>Auto-enquete no cu do mundo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Nov 2025 16:42:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Ou eu descanso ou me divirto. Me tornei um animal deprimido... Por Um trabalhador de uma fábrica em Goiás]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Um trabalhador de uma fábrica em Goiás</h3>
<p style="text-align: justify;">Nesse clima quente, da sua área dentro da fábrica faz um calor que te esgotou e esgota, o ar condicionado é insuficiente e não há possibilidades de pausas necessárias para esfriar o corpo, você é um não garantido, não se sabe se suportará o trabalho de segunda a sábado (ou de domingo a domingo, sensação do trabalho noturno) por conta do calor extremo ou por conta da rotina que se repete, de pé, numa máquina, apertando botões, vigiando uma esteira, montando caixas, num fluxo ininterrupto, a combinação dos dois fatores te garante a fadiga…</p>
<p style="text-align: justify;">Problemas com o RH, uma constante; à noite não possui atendimento presencial, e eles buscam escapar do contato presencial com burocracias, abre-se um chamado, a demora em ser atendido, a resposta é insatisfatória, não se resolve o problema, é preciso repetir o procedimento, mais 48 horas de espera, o app não presta, a senha não acessa mais, e os dados estão corretos, mas essa merda não funciona, você quer saber quando receberá o seu adicional noturno, quando chegará seu cartão do vale alimentação, já está atrasado há quatro meses, observou que no seu contracheque veio faltando, mas não há faltas, a máquina de ponto está novamente com problema, é preciso bater o ponto duas vezes, uma na máquina e outra no aplicativo, mas os dois dão problema, a incerteza de ter seu ponto registrado, a demora em ter sua digital reconhecida no aparelho, e aplicativo que não funciona, reset várias vezes no mês para atualizar a senha no aplicativo, a maioria desiste do app…</p>
<p style="text-align: justify;">A comida é dada, tem que aceitar o que é dado, diz que pode reclamar, mas será que prejudicaremos os trabalhadores da cozinha? Numa cidade onde a principal fonte de trabalho é o setor de indústria, todos estão confinados dentro das fábricas, 8 horas sem contato com luz natural, 6 dias na semana, sob regras que às vezes não fazem sentido, sob um discurso que o culpa enquanto eles dizem fazer tudo por nossa segurança, eles têm medo dos processos trabalhistas e da fiscalização e transferem a culpa para os trabalhadores, é preciso estar o tempo todo atento, a máquina desregulada pode prensar seu dedo, um operador de máquina desorientado pelo calor pode bater o carrinho em alguém, trabalho na roda de hamster, repete-se a rotina atrás da recompensa do salário, assim que paga as contas, as dívidas continuam, é preciso continuar a trabalhar, sem qualificação, é preciso buscar uma formação para poder subir de vaga, puxar sacos, aguentar humilhação, menos um dia aproveitado para si, o lazer são momentos fugazes em que se sacrifica o descanso para se ter lazer. Há um dilema inédito: ou eu descanso ou me divirto, me tornei um animal deprimido…</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158056" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17.webp" alt="" width="1228" height="1637" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17.webp 1228w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-225x300.webp 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-768x1024.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-1152x1536.webp 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-315x420.webp 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-640x853.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-681x908.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1228px) 100vw, 1228px" />Mas eles oferecem petiscos, as migalhas da produção são jogadas nas mãos, são de presente, tudo aquilo que você produziu vira lucro e te dão de volta umas coisas que vocês fizeram, não é visto como um mínimo, você é convencido que recebeu uma dádiva, lá de cima olharam e jogaram alguns kits. Assim tu és convencido da bondade dos seus senhores… Mas a rotina se repete, transformados em polícia uns dos outros, vigiando a postura e relembrando das regras, vivendo regulado na rotina, mas ganhei alguns produtos, que eu não posso comprar com meu salário, produtos que eu ajudei a produzir, você participa em uma etapa do processo de produção, faz dez mil itens por dia, e tem de volta um copo que tu fabricou entre os milhares, eis a grande gentileza!!!</p>
<p style="text-align: justify;">Supervisionado, vigiado, governado, preso na rotina por um salário. O temporário não consegue entregar o atestado por conta do aplicativo que não funciona… a falta é descontada no contracheque, é preciso fazer a contestação, guardar provas de que se foi trabalhar, mas a máquina não funciona direito, está desregulada e não conseguiu ter acesso ao app, está dando problema…</p>
<p style="text-align: justify;">É por esse meio que eles evitam a dor de cabeça, terceirizando o trabalho de administração para o funcionário através dos dispositivos em sua mão, mas e se você estiver sem celular, sem internet, ou não sabe lidar com tecnologia e precisa de ajuda? Precisa contar com a ajuda e boa vontade dos outros, dos colegas de trabalho, dos filhos, do vizinho…</p>
<p style="text-align: justify;">Tenta contato humano, mas não há mais humanos no RH, cada vez mais sendo substituído por máquinas, quanto tempo mais até a sua função não ser mais necessária? Quando a máquina vai tomar o seu lugar? Precisa buscar qualificação, mas há tempo ou força pra estudar com qualidade? Recorre a EAD, curso técnico e tendo seu horizonte de superação limitado à promoção na fábrica, crescimento para a empresa, não para você, não tem mais tempo pra si.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida acabou, é necessário sobreviver. Não há vida mais, apenas uma escala 6×1!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram o artigo são de Jacques-André Boiffard (1902-1961)</em></p>
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