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	<title>Brasil &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>E aí, combinou com os russos?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160208/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/10/160208/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2026 21:00:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Está claro que a classe dominante quer um pesado ajuste fiscal e não querem crescimento econômico, sabem bem que se a coisa continuar como está não teremos um pouso forçado, mas sim uma queda livre da economia. Por Charles Júnior e Antônio Carlos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior e Antônio Carlos</h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Feola, técnico do Brasil na Copa de 1958, antes do jogo contra os russos, apresentou um plano para a vitória, no que Garrincha teria levantado e dito: “O plano é ótimo, mas você combinou com os russos?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2026 a história se repete. Mudam os titulares e o campo de jogo, mas o causo se encaixa perfeitamente.</p>
<p style="text-align: justify;">O PT tinha o plano perfeito: derrotar Flávio nas urnas, muito porque seria “…mais fácil, porque Bolsonaro é também mais fácil do que Tarcísio” <strong>[1]</strong>. Endossando esse plano, um experiente dirigente do centrão disse: “<em>As pesquisas mostram, pela intenção de voto e pela rejeição, que Flávio Bolsonaro não vence a eleição. O PT não tem atacado essa candidatura pois está claro que é a mais fácil de ser batida no segundo turno. Lula quer Flávio </em><em>Bolsonaro, pois é vitória certa do PT.”</em> <strong>[2]</strong><em>. </em>Mas como Garrincha na Copa de 58, sempre há quem desconfie dos planos. Aquele que cravou sua posição foi um político petista que volta ao jogo depois de um tempo fora dos gramados, o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha. Observemos o que ele disse bem antes das eleições: “Do meu ponto de vista, a candidatura do Tarcísio era mais fácil de ser derrotada do que a do Flávio. É o contrário. A rejeição do Flávio, ou dos Bolsonaros, é uma rejeição já medida, precificada. Sabemos que qualquer coisa que a gente jogar no Flávio não vai pegar, porque a rejeição já está no limite, assim como a do Lula” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os resultados do primeiro turno mostraram quem estava certo. O PT apostou no desgaste de Flávio com seus costumeiros escândalos, mas ele já tinha alta rejeição. Quem já vota nele não deixaria de votar e, pior, Flávio conseguiu ampliar a porcentagem eleitoral, abrindo vantagem sobre Lula.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse texto vamos perseguir as peças que se moveram na economia política e quais os cenários futuros da corrida presidencial ao Estado Nacional Burguês.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os números do 1º Turno</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160219 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2.png" alt="" width="335" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2.png 335w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2-168x300.png 168w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2-236x420.png 236w" sizes="(max-width: 335px) 100vw, 335px" />Em uma primeira observação dos dados das duas últimas eleições, somados os dois candidatos principais, temos 92% dos votos, sobrando apenas 8% para os outros, ou seja, essa é uma eleição polarizada em apenas dois candidatos. Outra observação é que, em relação à eleição de 2022, Lula perdeu 3,27 pontos percentuais dos votos e Flávio Bolsonaro aumentou 3,83 p.p., ou seja, aproximadamente que o Lula perdeu, Flávio ganhou, além de tomar mais um tantinho dos outros candidatos. Na tabela 2 vemos que Lula perdeu por volta de 3% dos votos na região Sudeste e Nordeste.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1.</strong></p>
<div class="table sectionedit2" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Candidato</strong></td>
<td class="col1"><strong>votos válidos 2022</strong></td>
<td class="col2"><strong>votos válidos 2026</strong></td>
<td class="col3"><strong>variação</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>Lula</strong></td>
<td class="col1">48,43%</td>
<td class="col2">45,16%</td>
<td class="col3">-3,27p.p</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>Bolsonaros</strong></td>
<td class="col1">43,2%</td>
<td class="col2">47,03%</td>
<td class="col3">+3,83 p.p</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>outros</strong></td>
<td class="col1">8,37%</td>
<td class="col2">7,81%</td>
<td class="col3">-0,56</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fonte: poder 360</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Variação dos votos de LULA por região</strong></p>
<div class="table sectionedit3" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Região</strong></td>
<td class="col1"><strong>2022</strong></td>
<td class="col2"><strong>2026</strong></td>
<td class="col3"><strong>variação (p.p.)</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>Sudeste</strong></td>
<td class="col1">42,63%</td>
<td class="col2">39,68</td>
<td class="col3">-2,95%</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>Nordeste</strong></td>
<td class="col1">66,76%</td>
<td class="col2">63,77</td>
<td class="col3">-2,99%</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>Sul</strong></td>
<td class="col1">36,78%</td>
<td class="col2">31,28</td>
<td class="col3">-5,50%</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0"><strong>Norte</strong></td>
<td class="col1">47,09%</td>
<td class="col2">44,65</td>
<td class="col3">-2,44%</td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0"><strong>Centro-Oeste</strong></td>
<td class="col1">37,83%</td>
<td class="col2">32,62</td>
<td class="col3">-5,21%</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Poder 360</p>
<p style="text-align: justify;">Analisando as tabelas acima, podemos concluir que existem dois grupos consolidados e a eleição é definida pelo deslocamento de votos de uma pequena fração dos eleitores.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos estão tentando entender qual a causa desse deslocamento de votos e não faltam especialistas com explicações estatísticas, sociológicas, filosóficas, antropológicas, místicas, astrológicas, etc. A crise sistêmica, a crise estrutural, a financeirização, a saudade dos anos dourados do pós-guerra, o fim do padrão ouro-dólar. A tese do capital especulativo engolindo a tudo e a todos também é divertida.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160221" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3.png" alt="" width="720" height="932" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3.png 720w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-232x300.png 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-324x420.png 324w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-640x828.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-681x882.png 681w" sizes="(max-width: 720px) 100vw, 720px" />Voltando ao núcleo duro do governo, se o afastamento de um conselheiro como João Paulo Cunha já fez falta, imaginem 3. A perda de Luiz Gushiken e os tortuosos caminhos seguidos por Mantega deixaram um buraco grande no núcleo duro petista. E, como em toda inquisição cirandeira, logo se iniciou a caça às bruxas, afinal, é importante achar um culpado. A vítima foi o secretário de comunicação do Governo, Sidronio. Dizem que o Governo não soube comunicar bem suas realizações e os influencers de esquerda falam que a campanha perdeu a batalha nas redes, outros dizem que para ganhar a eleição Lula precisa comunicar a possibilidade de futuro. A velha desculpa de que a direita tem uma máquina de comunicação, assim, a esquerda precisa se adequar e montar uma máquina própria. Os “exércitos” de hoje em dia são espelhos dessa necessidade se concretizando.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto escrevíamos o texto, um desses especialistas do jornal da FIESP reforçou a perspectiva dominante. Em uma entrevista para o Estadão, ele nos disse o seguinte <strong>[4]</strong>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Minha experiência diz que o governo Lula deixou passar, <strong>desde 2024, incólume a percepção da maioria da opinião pública de que a economia do País seguia no rumo errado. </strong>Várias pesquisas detectaram isso. O governo Lula não enfrentou essa questão, não desenvolveu uma narrativa coerente, para dar conta dessa questão. Quando chega a campanha eleitoral, uma parte importante da população que via o País indo na direção errada e, como tal, reclamando por mudança, foi atraída com relativa facilidade pelo discurso de mudança, de transformação, do candidato oposicionista.”</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Bom, concordamos que a comunicação é uma arma política, utilizada para atingir determinados objetivos, concordamos que existe uma operação midiática para manufaturar a opinião pública, mas, afinal, se as condições de vida dessas pessoas estivessem realmente razoáveis, elas dificilmente acreditariam nas mentiras, pois teriam a realidade para contradizer.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos interlocutores podem argumentar que existe um grupo fiel ao bolsonarismo, mesmo com as mortes na pandemia, destruição ambiental, ataque aos direitos trabalhistas, etc. Mas, convenhamos, o PT tem uma quantidade de ataques bem ampla: liberação dos transgênico, flexibilização das leis ambientais, reformas da previdência, regularização da grilagem de terras na Amazônia, explosão da população carcerária no país, privatizações (pré-sal, rodovias, etc.), e por aí vai. A velocidade e o grau de intensidade foram lentas, com jeitinho, mas fez. A distinção entre eles é diferente do que se apresenta nas propagandas ideológicas. Como resumiu muito bem Gustavo Machado, do ILAESE, “…a nova direita, por ser ligada ao mercado exportador quer uma mudança radical, flexibilização total das leis trabalhistas e enxugamento máximo da máquina estatal a fim de baratear sua produção e direcionar os recursos públicos cada vez mais para si, leia-se: partir pro tudo ou nada, mudança pra pior &#8211; condições de trabalho análogas a escravidão, flexibilidade total de todas as condições de trabalho, nenhuma proteção social, extermínio dos serviços públicos existentes (SUS, educação pública, assistência social, etc), etc. Já o setor de esquerda se apresenta como mantenedor das instituições, as garantias legais, o Estado, a estrutura jurídica existente, etc., soando como a mantenedora da ordem” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">As questões culturais, religiosas, ideológicas, dentre outras, podem explicar parte da polarização, como falamos acima, mas a esquerda deixou muito a desejar aos trabalhadores quando governou e a vida concreta, o dia a dia mesmo, consolida as visões de mundo. Enfim, existem dois grupos consolidados, mas, para nossos amigos teóricos , falta explicar qual a motivação do deslocamento de uma parte que definiu as eleições.</p>
<p style="text-align: justify;">Para nós estão relacionados aos movimentos que ocorreram na economia no período anterior à eleição. Podemos estar errados, nem sempre acertamos, afinal, não temos bola de cristal, mas estamos com um bom placar à frente.</p>
<p style="text-align: justify;">Veremos agora como a economia moveu-se nos no período anterior ao fracasso do Plano perfeito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Por onde escaparam os votos da esquerda?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160220" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4.png" alt="" width="1181" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4.png 1181w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-295x300.png 295w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-1008x1024.png 1008w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-70x70.png 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-768x780.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-413x420.png 413w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-640x650.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-681x692.png 681w" sizes="(max-width: 1181px) 100vw, 1181px" />Em junho de 2025 escrevemos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Na imagem 03, vemos o último quadrimestre da indústria. Observemos que a capacidade instalada em utilização está parada nos últimos meses. Mesmo assim, nos 3 últimos meses houve um crescimento do faturamento, das horas trabalhadas e do emprego. E para somar a isto, redução da massa salarial e do rendimento médio real.</p>
<p style="text-align: justify;">(…) Didaticamente, o ciclo econômico brasileiro está chegando ao ápice, ou no topo da produção de riqueza e acumulação. Acumulação esta que é a parte da mais-valia reinjetada no processo produtivo, acumulando Capital e aumentando a máquina produtiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos perto do momento em que estas relações de produção de acumulação de capital chegarão ao ápice da contradição com as forças produtivas materiais da sociedade. “De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se nos seus entraves”. Queda da taxa de lucro em alto e bom som. A roda vai parar por produzir demais, abrindo um período de crise e destruição de capital, fixo e <strong>variável</strong>. Do nosso lado, fome, miséria e morte. Eles vão fazer de tudo para jogar a crise no nosso colo. <strong>[6]</strong>” [grifo nosso]</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>É meu amigos, com o arrocho salarial, inflação e aumento das horas trabalhadas: eles estão jogando a crise no nosso colo.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como identificamos naquele momento, a economia tinha atingido seu ápice, tinha produzido demais, consumo demais e empregos demais para os padrões da burguesia brasileira, e ela começou a reclamar. Pode parecer um contra senso, mas é assim que funciona na sociedade capitalista e em particular numa economia dominada. Para a burguesia era necessário pôr um fim nessa festa.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo texto citamos a fala do Presidente do Banco Central que cumpriria o papel de chato no rolê,aquele que acaba com a festa; Nas palavras do próprio Galipolo: <strong>“Quando a festa está ficando muito aquecida e o pessoal está subindo em cima da mesa, tira a bebida da festa”, </strong>foi exatamente o que aconteceu, como podemos ver nos dados do PIB segundo o IBGE.</p>
<p style="text-align: justify;">Principais resultados do PIB — do 2º trimestre de 2025 ao 2º trimestre de 2026</p>
<div class="table sectionedit4" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Taxas (%)</strong></td>
<td class="col1"><strong>2025.II</strong></td>
<td class="col2"><strong>2025.III</strong></td>
<td class="col3"><strong>2025.IV</strong></td>
<td class="col4"><strong>2026.I</strong></td>
<td class="col5"><strong>2026.II</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">Acumulado ao longo do ano / mesmo período do ano anterior</td>
<td class="col1">2,7</td>
<td class="col2">2,4</td>
<td class="col3">2,3</td>
<td class="col4">1,8</td>
<td class="col5">1,9</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">Últimos quatro trimestres / quatro trimestres imediatamente anteriores</td>
<td class="col1">3,3</td>
<td class="col2">2,7</td>
<td class="col3">2,3</td>
<td class="col4">2,0</td>
<td class="col5">1,9</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">Trimestre / mesmo trimestre do ano anterior</td>
<td class="col1">2,4</td>
<td class="col2">1,8</td>
<td class="col3">1,8</td>
<td class="col4">1,8</td>
<td class="col5">2,0</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0">Trimestre / trimestre imediatamente anterior (com ajuste sazonal)</td>
<td class="col1">0,4</td>
<td class="col2">0,1</td>
<td class="col3">0,2</td>
<td class="col4">1,1</td>
<td class="col5">0,5</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: IBGE — Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegar em uma eleição presidencial com a economia desacelerando não é uma boa notícia para um postulante à reeleição, por isso o governo lançou mão de várias medidas para segurar a queda: fim da escala 6×1, reajuste no Bolsa Família, proibição das bets, Desenrola 1, 2 e 3, divulgação da aprovação da distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS, Pé de Meia, Reforma Brasil, Gás do Povo, Luz do Povo, isenção do Imposto de Renda para quem recebe até cinco mil reais, reforma do Minha Casa, Minha Vida, uma singela quantia de a R$ 59,5 bilhões para o Plano Brasil Soberano e R$ 140 bilhões à <a class="urlextern" title="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/22/governo-federal-anuncia-politica-industrial-com-investimento-de-r-300-bilhoes-ate-2026/" href="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/22/governo-federal-anuncia-politica-industrial-com-investimento-de-r-300-bilhoes-ate-2026/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Nova Indústria Brasil (NIB)</a>, dentre outra medidas menores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo com tudo isso, acreditamos que a desaceleração da economia joga luz sob o deslocamento dos votos. E o que mais pode ter acontecido nos trimestres anteriores ao período eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">A flor que desabrocha, mesmo vermelho sangue, chega ao ápice e definha.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda bem que existem pessoas no país que buscam investigar a realidade, como o pesquisador da FGV Manoel Pires <strong>[7]</strong>. Intrigado com o fato de a inflação estar baixa, o desemprego baixo e mesmo assim a popularidade do Presidente da República não decolar, resolveu analisar os dados do índice de consumo das famílias e descobriu um dado interessante. Vamos a ele:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">(…) depois de uma boa recuperação na saída da pandemia,<strong> há uma quebra estrutural a partir do terceiro trimestre de 2024</strong> que indica que o comportamento mudou e o crescimento do consumo praticamente encontra-se estagnado desde então. De fato, entre o terceiro trimestre de 2024 e o segundo de 2026, ou seja, nos últimos sete trimestres, o consumo das famílias cresceu de forma acumulada &#8211; ponta contra ponta &#8211; apenas 0,84% ao passo que o PIB no mesmo período e na mesma métrica cresceu 3,65%.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160217" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico.png" alt="" width="751" height="451" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico.png 751w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-300x180.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-699x420.png 699w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-640x384.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-681x409.png 681w" sizes="auto, (max-width: 751px) 100vw, 751px" />(…) Se o PIB está crescendo mais de 3% de forma acumulada no período, mas o consumo está com esse comportamento, de onde vem o crescimento? O principal vetor de crescimento nesse período tem vindo das exportações que no mesmo período &#8211; ponta contra ponta &#8211; cresceu 8,3% oriundo da expansão da agropecuária e do setor extrativo mineral.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema é que esses setores não geram o famoso efeito gotejamento, (…) para os demais setores da economia. Além disso, outras variáveis são boas candidatas para explicar o comportamento do consumo, tais como o elevado endividamento das famílias. O que está acontecendo com o consumo das famílias deveria receber maior atenção.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, o Presidente Lula chegou nas eleições com quase 2 anos de consumo estagnado, leia-se: desaceleração da economia. Parece fazer sentido que esses fatores são suficientes para uma porcentagem de eleitores com expectativas de melhoria mudar o voto. Ou pensar assim seria muito economicismo? Muito para aqueles que esquecem que é do salário que vem os gastos com cultura, lazer, educação, igreja, supermercado, drogas lícitas e ilícitas e toda a vida dos trabalhadores, aposentados e seus agregados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Cenários</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No dia após o primeiro turno o clima era de velório entre os trabalhadores mais conscientes e de euforia no mercado. A bolsa de São Paulo subiu, o dólar e os juros futuros caíram. Rebbaca Nossig, estrategista de ações da Nomad <strong>[8]</strong>, explicou o motivo da euforia:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mais do que o alívio imediato, o resultado das urnas trouxe uma sensível melhora nas perspectivas para a trajetória da dívida pública, ancorando a confiança do mercado em um cenário econômico mais estável a partir de 2027 <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Traduzindo o vocabulário dos analistas de mercado, uma melhora na trajetória da dívida significa ajuste fiscal, cortes de gastos com saúde,educação e etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando no tempo, há um ano o editorial da Folha de Sẫo Paulo <strong>[10]</strong>, na seção “ O que a Folha Pensa”, era didático já pelo título <strong>“Desaceleração do PIB é necessária neste momento”. </strong>Nele, a Folha defende que a elevação da taxa de juros é necessária :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A tarefa dos juros, em português claro, é dificultar o consumo e o investimento, de modo que a queda da demanda tire o fôlego de uma inflação que está acima dos 5% em 12 meses, ante uma meta de 3%.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">E diz eufemisticamente que é necessário uma desaceleração da economia por muito tempo :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em tal cenário, não se pode considerar mau resultado a alta de 0,4% do Produto Interno Bruto no segundo trimestre, bem abaixo do 1,3% do primeiro. O desaquecimento, que não sugere uma guinada traumática, é necessário e, pela lógica, deve continuar por algum tempo.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Está claro que a classe dominante quer um pesado ajuste fiscal e não querem crescimento econômico, sabem bem que se a coisa continuar como está não teremos um pouso forçado, mas sim uma queda livre da economia. Como<strong> disse o amigo Armando há uns tempos atrás: “ A Argentina é a antessala do Brasil, acontece lá, tá chegando aqui!”, </strong>ou seja, a quebradeira e limpeza dos gastos públicos para o orçamento da união se voltar unicamente para as necessidades das classes dominantes é a demanda de uma parcela importante dela.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado das eleições do primeiro turno já definiu elementos fundamentais para o cenário dos próximos anos, o PL terá uma bancada importante de deputados na Câmara e maioria no senado, todos de prontidão para defender os interesses do grande capital exportador.<strong> Caso Flávio Bolsonaro ganhe as eleições,</strong> terá facilidade para passar todas as medidas contra os trabalhadores, como o ajuste fiscal já anunciado. Não que o centrão seja algo diferente, mas dentro do mesmo partido a coisa facilita, são menos acordos e conchavos nas festinhas privadas, tudo em casa já alinhado desde antes da eleição.</p>
<p style="text-align: justify;">Caso Lula vença, será um cenário parecido com a vitória da presidenta Dilma em 2014. A classe dominante com pressa e pressionando o governo para implementar medidas de ajuste fiscal, reforma da previdência, fim do aumento real do salário mínimo, contrato de trabalho por horas e o governo emparedado no congresso nacional. Do outro lado, pressionado pelos segmentos de trabalhadores que foram às ruas e às redes sociais para derrotar a extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Começamos o texto lembrando do técnico Feola, no final ele saiu vitorioso, levando a copa de 58 por 2×0 contra Rússia, pois ele tinha Didi, Nilton Santos, Belini, Vavá, Garrincha e Pelé. E nós, temos quem?</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo cheiro de revolta está no ar, a juventude cheira revolta, organiza autonomamente, mesmo que contra o 22, não tão revoltosos como na Europa <strong>[11]</strong>, mas milhões estão nas ruas. Negro Drama, é a hora de funcionar…e como bem disse mano Brown “… E de onde vem os diamante?”</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[1] </strong><a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[2] </strong><a class="urlextern" title="https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com" href="https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com</a></div>
<div class="content"><strong>[3] </strong><a class="urlextern" title="https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[4]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8" href="https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[5] </strong><a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/" href="https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/</a> &#8211; transcrição livre de fala de Gustavo Machado em Podcast não identificado e postado em seu canal.</div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[6] </strong>Publicado originalmente em <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156796/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156796/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2025/06/156796/</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[7] </strong>Observações sobre popularidade do governo e a economia <a class="urlextern" title="https://substack.com/home/post/p-215126029" href="https://substack.com/home/post/p-215126029" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://substack.com/home/post/p-215126029</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[8] </strong>A Nomad é uma fintech brasileira fundada em 2019 que permite a brasileiros abrir uma conta digital e de investimentos nos Estados Unidos diretamente pelo aplicativo Nomad Global.</div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[9] </strong><a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded" href="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[10]</strong> <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml" href="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[11] </strong><a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/</a></div>
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</div>
<div></div>
<div style="text-align: center;"><em>A pedido dos autores, as imagens que ilustram o artigo foram mantidas como no arquivo original</em></div>
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		<title>A mediocridade e superficialidade do primeiro debate presidencial</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2026 10:42:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[A explicação para essa mediocridade e superficialidade do debate não reside simplesmente na incapacidade, mas na própria natureza do processo eleitoral. Por O Jardineiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por O Jardineiro</h3>
<p style="text-align: right;"><em>“Por isso, quanto mais medíocre é um homem, mais prontamente triunfa; ele pode engolir sapos vivos, resignar-se a tudo, adular as pequenas paixões baixas” &#8211; Balzac, Ilusões perdidas.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>“As mediocracias negaram sempre as virtudes, as belezas, as grandezas; deram o veneno a Sócrates, o madeiro a Cristo, o punhal a César, o desterro a Dante, o cárcere a Galileu, o fogo a Bruno; e, enquanto escarneciam desses homens exemplares, esmagando-os com a sua sanha, ou armando contra eles algum braço enlouquecido, ofereciam o seu servilismo a governantes imbecis, ou davam o seu ombro para sustentar as mais torpes tiranias” &#8211; Ingenieros, O Homem Medíocre.</em></p>
<p style="text-align: justify;">O debate presidencial ocorrido no dia 18 de outubro de 2026 entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro ofereceu um retrato fiel da mediocridade e superficialidade geradas pela democracia burguesa. Para usar termos de Guy Debord, a política institucional se transformou na expressão máxima da “sociedade do espetáculo”, na qual a vida concreta foi substituída por sua representação contemplativa. Se a democracia burguesa fosse séria, esperaríamos um embate de propostas e discursos de como resolver problemas que enfrentamos concretamente; o que se assistiu, contudo, foi um “espetáculo” marcado pela extrema superficialidade, no qual nenhum dos candidatos demonstrou capacidade — ou melhor, interesse — de aprofundar-se nos problemas e as soluções necessárias para enfrentá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">A explicação para essa mediocridade e superficialidade do debate não reside simplesmente na incapacidade, mas na própria natureza do processo eleitoral. O objetivo de um debate televisivo contemporâneo entre candidatos das eleições não é expor visões de mundo; seu propósito único é a persuasão imediatista para a conquista de votos, e isso se dá agradando a maioria da população e dos financiadores. “Os candidatos devem satisfazer os interesses de seus financiadores, bem como da direção do partido e simultaneamente devem agradar grande parte da população por meio de discursos. O resultado dessa combinação são bordões repetitivos com novos penteados”<strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160213" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Em uma disputa acirrada, onde cada voto está importando, aprofundar temas reais representa um risco. Ao detalhar como pretende resolver um problema — seja ele qual for —, o candidato inevitavelmente contraria interesses, e cria flancos vulneráveis para os ataques do adversário. Sob essa lógica, o “ser” que foi substituído pelo “ter”, cede ao “parecer”: a imagem suplanta o conteúdo, e a exaltação da mediocridade passa a ser habitual. A estratégia para a vitória eleitoral torna-se a adesão a propostas genéricas, a discursos retóricos e a ataques pessoais <em>ad hominem</em>, cujo intuito é apenas produzir uma imagem de superioridade ética perante o seu competidor. Os candidatos no debate fazem um verdadeiro teatro, mas um teatro ruim, com bordões repetitivos e não têm conteúdo significativo. Um exemplo disso são as mudanças de propostas dos candidatos: Flávio se tornou defensor do fim da escala 6×1, Lula se tornou defensor da redução da maioridade penal para 16 anos. Nenhuma de suas propostas parece ser convicção frente a necessidade de conseguir votos, e cada um se parece mais com o outro discursivamente. Enganar é o objetivo final.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse teatro eleitoral nos faz questionar algo que ouvimos bastante: a de que a presença de uma autoridade governamental é indispensável para evitar o caos e manter a ordem na sociedade. Costuma-se argumentar que, sem a figura do governante e a do Estado, a convivência humana se tornaria inviável e desorganizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, esse “palco espetacular” do debate expõe uma forma de organização profundamente irracional. A alienação generalizada e a democracia burguesa legitimam que indivíduos frequentemente desqualificados, movidos por interesses pessoais e mesquinhos, concentrem em suas mãos o poder de decisão sobre a vida e o futuro da maioria da população. Longe de representar a racionalidade ou o bem comum, o Estado atua como uma forma de regular a vida das pessoas através da reprodução do capitalismo e de suas irracionalidades. E isso gera consequências para as pessoas, como o desejo fetichizado no qual as pessoas votam desejando alguma transformação, mas, posteriormente, se conformam com a manutenção da realidade.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160212" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">“O desejo fetichizado tem na democracia representativa a sua forma mais cristalina de existência, pois basta você escolher seu “representante” e governante e pronto, pode continuar alheio à vida política. A valoração da política se dá apenas no momento eleitoral, bem como a ação política se reduz ao voto. Depois de heroicamente, […] votar, o cidadão vai para casa e passa a cuidar de sua vida privada”<strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Superar essa dinâmica exige questionar a premissa de que precisamos ser governados. Uma forma genuinamente racional de organização encontra-se na autogestão social.</p>
<p style="text-align: justify;">Diferentemente da sociedade atual, em que a população entrega seu poder de decisão a uma burocracia estatal a cada quatro anos, a autogestão social seria uma sociedade na qual as próprias pessoas deliberam diretamente sobre as questões e problemas que afetam suas vidas. Esse processo ocorre por meio de discussões coletivas, fundamentadas em problemas concretos e reais da vida cotidiana — da produção à distribuição. Para isso, claro, as classes sociais e a relação entre elas devem ser abolidas, pois apenas seria possível a deliberação coletiva quando os interesses pessoais correspondessem aos interesses coletivos.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">“A revolução significa necessariamente a aniquilação da democracia. A autogestão social como conteúdo do modo de produção comunista necessariamente exclui a democracia. Democracia e autogestão são, portanto, antípodas. Uma é inversamente proporcional à outra. À medida que avança a democracia, a autogestão recua. À medida que avançam as lutas autogestionárias, recua a democracia, visto que esta é uma função direta do estado e aquelas são a negação deste. Só teremos comprovado o fim das relações de classe, portanto da exploração, quando o estado capitalista e suas formas de regime político (democracia e/ou ditadura) tiverem sido eliminados”<strong>[3].</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Neste segundo turno, portanto, os revolucionários, aqueles interessados em contribuir com este processo de abolição das classes sociais e, por conseguinte, do Estado, devem assumir a posição de não ser iludido pelo processo eleitoral — deve-se negá-lo —, mas isso seria insuficiente se não ressaltarmos a necessidade de lutar contra a sociedade capitalista. O voto nulo autogestionário parece ser uma resposta coerente.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">“A luta pelo voto nulo autogestionário (luta, pois se vincula ao objetivo final, que é a autogestão social, e não uma simples campanha) difere das demais formas de voto nulo, pois: a) não visa anular as eleições e sim criticar a democracia burguesa, o processo eleitoral e a sociedade capitalista como um todo; b) não se dirige como oposição aos candidatos e aos partidos do momento e sim faz a denúncia da burocracia partidária em geral, explicita seus vínculos com a reprodução do capitalismo e propõe a constituição de novas formas de organização, antagônicas aos partidos políticos; c) faz parte do processo mais amplo de luta pela superação do capitalismo, do qual a democracia burguesa, os partidos e o sistema eleitoral são partes integrantes. Dessa maneira, não se trata de uma atitude individual isolada, mas antes de um momento constitutivo do processo de luta mais amplo: a luta pelo voto nulo autogestionário faz parte da luta pela autogestão social, pois está articulada ao projeto revolucionário e à classe revolucionária de nossa época, o proletariado”<strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160214" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3.jpg" alt="" width="2500" height="1667" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3.jpg 2500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-2048x1366.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2500px) 100vw, 2500px" />Enquanto a política institucional reduz os indivíduos a “cidadãos”, a meros espectadores passivos de debates vazios e doadores de votos, a autogestão social devolve a ele a responsabilidade e o poder sobre a própria realidade. A verdadeira organização racionalmente determinada pelo humanismo concreto não virá da escolha de novos governantes no topo de uma estrutura hierárquica do aparato estatal, mas da capacidade da sociedade de se organizar por si mesma, fundamentalmente a partir da produção e da vida cotidiana. Não se vinculem à mediocridade e superficialidade dos candidatos: votem nulo e lutem pela autogestão social!</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Texto de Mateus Alexandre Alves intitulado “Para Além das Eleições” disponível aqui: <a class="urlextern" title="https://movaut.blogspot.com/2020/11/para-alem-das-eleicoes.html" href="https://movaut.blogspot.com/2020/11/para-alem-das-eleicoes.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://movaut.blogspot.com/2020/11/para-alem-das-eleicoes.html</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Texto de Nildo Viana intitulado “Psicanálise Da Ilusão Eleitoral”, disponível aqui: <a class="urlextern" title="https://informecritica.blogspot.com/2026/09/psicanalise-da-ilusao-eleitoral-nildo.html" href="https://informecritica.blogspot.com/2026/09/psicanalise-da-ilusao-eleitoral-nildo.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://informecritica.blogspot.com/2026/09/psicanalise-da-ilusao-eleitoral-nildo.html</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Texto de Lucas Maia intitulado “Teses Sobre Democracia, Eleições, Voto e Voto Nulo”, disponível aqui: <a class="urlextern" title="https://redelp.net/index.php/renf/article/view/751/718" href="https://redelp.net/index.php/renf/article/view/751/718" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://redelp.net/index.php/renf/article/view/751/718</a>.a</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Texto de Rubens Vinícius intitulado “Voto Nulo Autogestionário e Coerência Revolucionária”, disponível aqui: <a class="urlextern" title="https://redelp.net/index.php/rma/article/view/1006/954" href="https://redelp.net/index.php/rma/article/view/1006/954" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://redelp.net/index.php/rma/article/view/1006/954</a>.</p>
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		<title>Flávio Bolsonaro, a crise do lulismo  e os limites da resistência popular</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Oct 2026 15:09:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Notas para uma interpretação marxista da conjuntura brasileira. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Ensaio de conjuntura — 12 de outubro de 2026<strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ainda que estejamos no calor dos acontecimentos, há momentos históricos nos quais a reflexão crítica precisa interromper o ritmo frenético das notícias e das disputas imediatas para examinar com maior profundidade o movimento real da sociedade. A conjuntura brasileira nos coloca diante dessa necessidade imperativa, sobretudo quando as possibilidades de agravamento dos conflitos políticos alcançam dimensões que estão para além do calendário eleitoral. A luta pela emancipação humana, compreendida como superação das relações sociais fundadas na exploração do trabalho assalariado e na divisão da sociedade em classes antagônicas, pressupõe a organização coletiva dos trabalhadores e o conhecimento das condições históricas que sustentam sua subordinação ao capital. Pensar a conjuntura representa, nesse sentido, uma atividade vinculada à prática social, às experiências de resistência e à elaboração de alternativas capazes de enfrentar os fundamentos materiais da dominação burguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta análise é parte de um trabalho intelectual e político coletivo, que depende do confronto entre diferentes interpretações, pesquisas e experiências sociais. Meu objetivo é compartilhar uma elaboração ainda aberta, submetê-la à crítica e contribuir para um debate que se desenvolva para além dos limites deste ensaio e da minha perspectiva particular. Dito isso, adentremos ao debate.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Niterói, 2026</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Introdução</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 colocou a sociedade brasileira diante da possibilidade concreta de uma nova vitória da extrema direita. Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. As primeiras pesquisas do segundo turno confirmaram a vantagem do candidato do Partido Liberal, embora o resultado ainda esteja indefinido. O Datafolha registrou 52% contra 48% dos votos válidos, enquanto o levantamento Ipespe/Abrapel, divulgado neste 10 de outubro, apresentou Flávio com 52,7% e Lula com 47,3%. A eleição ocorrerá no dia 25 de outubro de 2026, mas a gravidade da conjuntura recomenda reconhecer desde agora a possibilidade de que o Brasil seja governado novamente pelo bolsonarismo, desta vez sob condições políticas e institucionais distintas daquelas existentes em 2018.</p>
<p style="text-align: justify;">A comparação com as eleições de 2018 acrescenta elementos importantes para compreender a gravidade do cenário atual. Naquele ano, Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad, candidato que substituiu Lula depois do impedimento judicial de sua candidatura, com 55,13% dos votos válidos no segundo turno, contra 44,87% do representante petista. A vitória ocorreu num ambiente de crise institucional, desgaste do Partido dos Trabalhadores e reorganização das forças conservadoras, que encontraram no bolsonarismo uma alternativa para ampliar sua influência política. Quatro anos depois, em 2022, Lula retornou à Presidência com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Jair Bolsonaro, numa disputa marcada pela intensa polarização política, consequências sociais da pandemia e uma ampla frente eleitoral que reuniu diferentes setores políticos em oposição à continuidade do governo. A pequena diferença entre os candidatos, de aproximadamente 2,1 milhões de votos, demonstrou a persistência de uma expressiva base social conservadora, apesar do desgaste provocado pela experiência governamental bolsonarista e dos conflitos institucionais acumulados naquele período. A derrota nas urnas foi seguida pela radicalização de setores da extrema direita, que contestaram o resultado eleitoral e participaram de iniciativas de ruptura institucional, culminando nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.</p>
<p style="text-align: justify;">Oito anos depois da primeira vitória de Jair Bolsonaro, a extrema direita alcança novamente o segundo turno, desta vez com Flávio Bolsonaro diante de Lula, após um período marcado pelas consequências judiciais da tentativa de golpe de Estado <a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a>(que ainda assim não responsabilizou todos os envolvidos, apenas, digamos, o “testa de ferro”). A capacidade eleitoral do bolsonarismo evidencia a profundidade de suas relações sociais e políticas diante das dificuldades do governo petista para ampliar sua base de apoio e enfrentar as condições históricas que favoreceram a expansão da extrema-direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160191" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1.jpg" alt="" width="410" height="412" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1.jpg 410w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1-70x70.jpg 70w" sizes="auto, (max-width: 410px) 100vw, 410px" />1 &#8211; A crise da Nova República e os limites históricos do lulismo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A vitória de Jair Bolsonaro em 2018 encontrou condições favoráveis na crise política aberta durante a década anterior. O esgotamento dos mecanismos de conciliação que sustentaram os governos petistas comprometeu sua capacidade de administrar os conflitos sociais e preservar as alianças estabelecidas entre diferentes setores da burguesia. As manifestações de Junho de 2013 evidenciaram contradições que escapavam aos limites tradicionais da representação partidária, mas a diversidade de interesses presentes naquele movimento também demonstrou a ausência de uma direção política capaz de unificar o descontentamento popular em torno de um projeto de transformação social.</p>
<p style="text-align: justify;">O agravamento da crise econômica a partir de 2014 e a intensificação das disputas entre frações das classes dominantes favoreceram a reorganização conservadora, que encontrou na ofensiva contra o governo Dilma Rousseff e na instrumentalização política do combate à corrupção instrumentos eficazes de mobilização social. Em conjunturas de crise, a reação burguesa frequentemente encontra na identificação de inimigos políticos um recurso para atribuir a determinados governos, partidos ou indivíduos a responsabilidade por contradições presentes na dinâmica da acumulação capitalista, alimentando a expectativa de que a substituição dos dirigentes políticos seria suficiente para solucionar os problemas estruturais da sociedade<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>. A construção desses espantalhos políticos integra os mecanismos ideológicos de preservação da ordem, mediante os quais o descontentamento produzido pela deterioração das condições materiais de existência pode ser canalizado contra adversários específicos, enquanto as relações sociais responsáveis pela reprodução periódica das crises continuam relativamente protegidas do questionamento público. No Brasil, a responsabilização do PT pela crise econômica e moral do país cumpriu um papel nesse processo, embora os governos petistas também estivessem implicados na administração das contradições do capitalismo brasileiro, circunstância que evidencia os limites de uma interpretação restrita à disputa entre representantes políticos das diferentes frações burguesas. A extrema direita desenvolveu nesse ambiente capacidade de organização e intervenção ideológica, articulada a setores empresariais, religiosos e políticos que identificaram no bolsonarismo uma alternativa para enfrentar a crise de legitimidade das instituições e radicalizar a ofensiva contra os trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo Bolsonaro aprofundou e radicalizou conflitos históricos da sociedade brasileira ao explorar as condições políticas e institucionais favoráveis à implementação de medidas autoritárias, expressas nos ataques às universidades, na hostilidade contra movimentos sociais e intensificação do discurso militarista em articulação com políticas econômicas favoráveis ao capital e uma condução desastrosa da crise sanitária<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a>. As centenas de milhares de mortes registradas durante a pandemia é parte fundamental dessa experiência histórica, diante das responsabilidades governamentais associadas à disseminação de informações falsas e à resistência contra medidas de proteção coletiva.</p>
<p style="text-align: justify;">A derrota eleitoral de 2022 limitou a capacidade política do bolsonarismo naquele momento, mas os anos seguintes houve avanço como movimento organizado. A responsabilização de Jair Bolsonaro pela tentativa de ruptura institucional produziu consequências jurídicas e modificou suas condições de atuação. Entretanto, a prisão do ex-presidente não comprometeu a capacidade eleitoral da extrema direita, que com o aumento da influência encontrou continuidade por intermédio de outras lideranças e estruturas políticas. A crise do lulismo manifesta-se diante dessa capacidade de reorganização conservadora.</p>
<p style="text-align: justify;">O Partido dos Trabalhadores nasceu de experiências importantes de organização operária, mobilização sindical e contestação política durante a ditadura e o processo de redemocratização. Entretanto, sua consolidação como força governamental reforçou relações com a administração estatal e estabeleceu compromissos econômicos e políticos que limitaram as possibilidades de transformação estrutural da sociedade brasileira. Os governos Lula produziram melhorias materiais efetivas para parcelas expressivas da população e ampliaram determinadas políticas sociais, mas preservaram fundamentos centrais da economia capitalista brasileira. A política de conciliação entre interesses antagônicos, historicamente vinculada à trajetória petista, encontrou condições favoráveis durante o ciclo de valorização internacional das commodities e expansão das exportações brasileiras para a China (2003-2011), que impulsionou o crescimento econômico, a arrecadação estatal, o crédito e o consumo interno, sustentando compromissos entre diferentes frações da burguesia e concessões materiais aos trabalhadores, enquanto a desaceleração econômica e a deterioração das condições internacionais de acumulação comprometeram progressivamente as bases materiais desse pacto, expondo os trabalhadores às contradições estruturais do capitalismo brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema contemporâneo tem consequências adicionais. A manutenção do lulismo como principal referência política do campo progressista deixa claro a dependência em relação à liderança individual de Lula, que se consolidou ao longo de um processo histórico de lutas sociais e disputas institucionais e que não resultou no desenvolvimento de organizações populares independentes com capacidade equivalente de mobilização nacional. Pelo contrário. O que houve foi um processo que acentuou a burocratização tornando a distância com as bases sociais ainda maior. A defesa da governabilidade interfere nas relações entre partidos, sindicatos e movimentos sociais, sobretudo quando a radicalização de determinados conflitos contraria compromissos estabelecidos com setores empresariais ou representantes parlamentares conservadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa relação contraditória com a mobilização popular encontra um exemplo significativo na comparação entre Junho de 2013 e a atual conjuntura eleitoral. Naquele período, manifestações inicialmente organizadas contra o aumento das tarifas de transporte desencadearam uma ampla contestação social, enfrentaram violenta repressão policial e foram submetidas a sucessivas tentativas de criminalização, enquanto o governo Dilma Rousseff subordinava sua resposta política à preservação da ordem institucional e à incorporação das reivindicações numa agenda governamental de conciliação. Treze anos depois, diante da possibilidade de derrota eleitoral de Lula, a mobilização popular é central no discurso das mesmas forças políticas que historicamente demonstraram dificuldades para conviver com movimentos independentes de contestação social. Entretanto, o chamado presidencial às ruas encontra limites na trajetória dessas organizações, que por estar vinculado à administração estatal enfraqueceu sua capacidade de intervenção cotidiana entre parcelas importantes dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A adesão de estudantes, professores e militantes à defesa da reeleição contrasta com as dificuldades de mobilização autônoma dos setores mais precarizados da classe trabalhadora, sendo essa uma contradição histórica; a convocação eleitoral pode reunir multidões em defesa de um governo, mas a construção de uma força social independente depende de relações organizativas, experiências coletivas e conflitos que se desenvolvem muito além das circunstâncias imediatas de uma eleição.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda institucional frequentemente demonstra grande capacidade de mobilização diante de ameaças à permanência de Lula no Executivo, mas têm dificuldades para sustentar conflitos relacionados à exploração do trabalho e às condições materiais de existência da população. Tem-se, portanto, a centralidade da preservação governamental em sua concepção de defesa da democracia e a posição subordinada atribuída à organização independente dos trabalhadores. A devoção à liderança presidencial agrava esse processo quando transforma a crítica ao governo em ameaça à unidade política do campo progressista. O reconhecimento das conquistas sociais produzidas durante os governos petistas não elimina a necessidade de investigar seus limites históricos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160197" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7.jpg" alt="" width="500" height="429" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7.jpg 500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7-300x257.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7-490x420.jpg 490w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" />A vitória eleitoral de Lula em 2022 não interrompeu a reorganização da extrema direita. O bolsonarismo conservou sua presença social, ampliou sua influência parlamentar e desenvolveu condições para disputar novamente a Presidência, enquanto a esquerda institucional esteve fortemente vinculada à defesa do governo e à expectativa de contenção do neofascismo mediante a atuação das instituições republicanas. A diferença entre essas estratégias tem importância histórica diante da conjuntura. A extrema direita construiu condições para preservar sua atividade política durante a ausência de Jair Bolsonaro no Executivo, ao mesmo tempo que parcelas expressivas das organizações progressistas continuaram dependentes da trajetória de Lula. A construção de uma sucessão familiar no bolsonarismo também apresenta limites e contradições internas, mas sua eficácia eleitoral em 2026 aponta para a continuidade de um movimento que alcançou setores importantes da sociedade brasileira.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>2 &#8211; Flávio Bolsonaro e a reorganização política da extrema direita</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A dimensão dessa ameaça se amplia quando examinamos os resultados parlamentares do cenário atual. O Partido Liberal elegeu 121 deputados federais, conquistou 19 cadeiras em disputa no Senado e deverá iniciar a próxima legislatura com uma bancada de 28 senadores. O fortalecimento conservador alcançou também os governos estaduais e os legislativos regionais, com a consolidação do bolsonarismo em unidades federativas economicamente estratégicas e a ampliação da presença institucional de partidos da direita tradicional. Esse fenômeno ilumina a capacidade dessas forças de articular sua influência eleitoral a estruturas da administração política e econômica da sociedade. Mesmo diante de uma eventual vitória de Lula, a nova composição do Congresso Nacional imporá dificuldades consideráveis à condução do governo e às organizações populares que pretendem defender direitos historicamente conquistados. A possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro, entretanto, acrescenta uma contradição grave: o fortalecimento simultâneo de uma liderança presidencial vinculada à extrema direita e de uma representação parlamentar capaz de sustentar parte importante de suas iniciativas.</p>
<p style="text-align: justify;">A candidatura de Flávio Bolsonaro representa uma demonstração da capacidade de reprodução política de um movimento que sobreviveu à derrota presidencial de 2022, às investigações sobre a tentativa de golpe de Estado e à prisão de Jair Bolsonaro. Durante os últimos anos, uma parcela expressiva das organizações progressistas depositou suas expectativas na atuação das instituições republicanas, especialmente no Supremo Tribunal Federal, como instrumento de contenção da extrema direita. A responsabilização criminal do ex-presidente teve consequências, mas a expansão eleitoral de seu campo político demonstra que a preservação da legalidade constitucional não resolveu as contradições sociais e institucionais responsáveis pelo crescimento do bolsonarismo. O movimento conservou relações com setores empresariais, organizações religiosas, agentes políticos e grupos sociais que reconhecem em suas lideranças uma alternativa para a direção do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">A expressiva votação obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026 coloca uma questão diante da desproporção entre sua trajetória política individual e a dimensão nacional da liderança que sua candidatura conseguiu reunir. Depois de quatro mandatos como deputado estadual no Rio de Janeiro e de sua eleição para o Senado em 2018, Flávio chegou à disputa presidencial sem experiência na administração do Executivo e sem um protagonismo histórico comparável ao de Lula, dirigente oriundo das grandes mobilizações operárias do final da ditadura, fundador do Partido dos Trabalhadores e presidente da República em diferentes períodos. A diferença entre essas trajetórias torna significativo o resultado eleitoral, que demonstra a capacidade de determinadas organizações e correntes políticas de reunir grandes parcelas da população em torno de candidaturas sustentadas por identificações coletivas, estruturas partidárias e expectativas sociais desenvolvidas ao longo de processos históricos anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;">A sucessão familiar no bolsonarismo é um elemento importante desse fenômeno, na medida em que o sobrenome Bolsonaro concentra uma identificação construída por meio de sucessivas campanhas eleitorais, conflitos institucionais, organizações conservadoras e redes de comunicação que conservaram sua atividade mesmo após a derrota presidencial de 2022. Flávio encontrou uma estrutura política relativamente consolidada, composta por dirigentes partidários, parlamentares, lideranças religiosas, organizações empresariais e comunicadores capazes de sustentar a continuidade do movimento, ao mesmo tempo que desenvolveu uma atuação voltada à ampliação de alianças com setores da direita tradicional. Sua experiência parlamentar e interlocução com diferentes dirigentes políticos favoreceram essa aproximação entre grupos interessados na recomposição de uma direção conservadora para o governo federal.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160198" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8.jpg" alt="" width="375" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8.jpg 375w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8-315x420.jpg 315w" sizes="auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px" />A especificidade dessa candidatura também se manifesta na tentativa de conciliar a fidelidade às principais bandeiras do bolsonarismo com uma apresentação pública mais moderada, construída por meio de uma linguagem institucional distinta daquela que caracterizou a atuação de Jair Bolsonaro. A defesa de alterações constitucionais, de mudanças no funcionamento do Judiciário e endurecimento da legislação penal demonstra, contudo, a continuidade de objetivos políticos vinculados à reorganização autoritária do Estado, agora articulados à promessa de maior capacidade administrativa e estabilidade governamental. Essa combinação encontra condições favoráveis na ampliação da representação conservadora no Congresso Nacional e na aproximação de partidos que identificam a candidatura como uma oportunidade de recuperar ou ampliar sua influência sobre a administração federal.</p>
<p style="text-align: justify;">As articulações realizadas após o primeiro turno confirmam a capacidade de Flávio de reunir forças políticas anteriormente distribuídas entre candidaturas distintas, com destaque para o apoio do Republicanos, do Novo, Podemos e da federação União Brasil-Progressistas, além das manifestações favoráveis de lideranças como Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Ronaldo Caiado. O apoio da direção da Frente Parlamentar da Agropecuária demonstra, por sua vez, a convergência entre segmentos organizados do grande capital agrário e a perspectiva de um governo conservador. Essas aproximações não eliminam os conflitos entre os diferentes grupos envolvidos, mas indicam a existência de interesses econômicos e políticos capazes de sustentar acordos em torno da ocupação do Executivo federal e da orientação das políticas governamentais. A dimensão econômica da campanha também é fator que lhe confere vantagem. Os registros eleitorais divulgados até o início de outubro indicavam uma arrecadação superior a 70 milhões de reais para a candidatura de Flávio, provenientes de fundos públicos, estruturas partidárias e contribuições privadas, enquanto o investimento declarado em impulsionamento digital alcançava aproximadamente 9 milhões de reais, com forte concentração nas últimas semanas anteriores ao primeiro turno. A existência desses recursos integra a análise das condições materiais da disputa política diante da importância que a comunicação digital conquistou na organização do bolsonarismo. A concentração empresarial das plataformas, a profissionalização das campanhas e a atuação de redes de influenciadores estabelecem condições específicas para a circulação de discursos políticos, com consequências para a relação entre representantes, organizações e eleitores.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>3 &#8211; A classe trabalhadora, o conservadorismo e os limites da resistência popular</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A dimensão mais complexa desse processo está na composição social do eleitorado conservador, na adesão de parcelas expressivas da classe trabalhadora. Os levantamentos divulgados pelo Datafolha durante a campanha indicaram vantagem de Flávio entre eleitores de renda familiar intermediária e entre evangélicos, além de uma presença significativa entre os segmentos mais pobres, nos quais Lula conservava a preferência majoritária. A heterogeneidade desse eleitorado recomenda cautela diante de explicações que atribuem sua orientação política exclusivamente à manipulação ideológica, ao conservadorismo religioso ou à oposição ao Partido dos Trabalhadores. A investigação precisa considerar as experiências concretas de trabalho, a insegurança econômica, o endividamento, a violência urbana e as relações estabelecidas pelos indivíduos com instituições religiosas, lideranças comunitárias, organizações políticas e meios de comunicação. A expansão do trabalho precarizado e das ocupações organizadas sob a ideologia do empreendedorismo acrescenta contradições à formação das identidades políticas contemporâneas, sobretudo quando trabalhadores submetidos a condições semelhantes de exploração desenvolvem expectativas divergentes acerca do Estado, dos direitos sociais e da organização coletiva. A identificação com discursos favoráveis à iniciativa individual, ao endurecimento penal e à autoridade política pode coexistir com reivindicações relacionadas à melhoria dos rendimentos, ao acesso a serviços públicos e à proteção social. Essas orientações resultam de experiências históricas e relações sociais que precisam ser examinadas concretamente, considerando também a capacidade das organizações conservadoras de estabelecer vínculos cotidianos com setores populares e de apresentar respostas imediatas a problemas que afetam suas condições de existência.</p>
<p style="text-align: justify;">O crescimento eleitoral da direita ocorre, portanto, num contexto em que parcelas consideráveis da população experimentam dificuldades materiais persistentes e encontram nas instituições tradicionais da esquerda uma capacidade limitada de organização cotidiana. O PT como principal referência progressista, fortemente vinculada à liderança individual de Lula, contrasta com a expansão de uma direita que conseguiu desenvolver mecanismos de reprodução política e eleitoral relativamente independentes da presença de Jair Bolsonaro no Executivo.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160193" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3.webp" alt="" width="966" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3.webp 966w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-300x217.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-768x557.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-580x420.webp 580w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-640x464.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-681x493.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 966px) 100vw, 966px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O problema se agrava diante da fragilidade das organizações populares. As manifestações recentes de estudantes, professores e trabalhadores da educação representam uma reação importante ao resultado eleitoral, mas se concentram em segmentos com limites consideráveis diante de uma ofensiva política mais ampla. A classe trabalhadora brasileira, submetida à fragmentação das relações de trabalho e ao enfraquecimento de seus instrumentos tradicionais de organização, enfrenta dificuldades para forjar uma força independente capaz de sustentar conflitos prolongados. A defesa da reeleição de Lula mobiliza setores expressivos da sociedade, mas também denuncia a dependência política de organizações progressistas em relação à continuidade de uma liderança cuja trajetória esteve vinculada à conciliação entre interesses antagônicos.</p>
<p style="text-align: justify;">A extrema direita brasileira alcançou um estágio de fortalecimento eleitoral, parlamentar e social que amplia suas possibilidades de intervenção sobre o Estado, enquanto parcelas importantes da esquerda estão subordinadas às disputas institucionais e aos limites da representação burguesa. A eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderá intensificar uma ofensiva contra as organizações dos trabalhadores, mas sua derrota eleitoral tampouco eliminará as condições históricas que sustentam esse movimento. A questão consiste em compreender como o bolsonarismo alcançou tamanha influência, quais relações favorecem seu avanço institucional e que condições efetivas existem para a construção de uma resistência popular capaz de sobreviver ao resultado das urnas.</p>
<p style="text-align: justify;">A possibilidade de retorno do bolsonarismo à Presidência produziu um sentimento de vulnerabilidade entre parcelas expressivas da população identificadas com o campo progressista. Esse receio se fundamenta na experiência acumulada durante o governo de Jair Bolsonaro e no reconhecimento das condições institucionais mais favoráveis à extrema direita depois das eleições parlamentares de 2026. Entretanto, a insegurança também está relacionada à percepção de que as organizações populares disponíveis apresentam dificuldades para sustentar uma resistência prolongada diante de uma ofensiva política mais sistemática. A questão se manifesta com intensidade nas universidades. Depois do primeiro turno, estudantes e professores organizaram manifestações em diferentes cidades brasileiras, com destaque para a mobilização realizada no centro do Rio de Janeiro em 7 de outubro. Milhares de participantes ocuparam as ruas para expressar oposição à candidatura de Flávio Bolsonaro e defender as liberdades democráticas. A iniciativa se mostrou capaz de convocar e disposição de luta entre segmentos que reconhecem os riscos associados ao fortalecimento da extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160201" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11.jpg" alt="" width="1133" height="732" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11.jpg 1133w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-300x194.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-1024x662.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-768x496.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-650x420.jpg 650w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-341x220.jpg 341w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-640x413.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-681x440.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1133px) 100vw, 1133px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A importância histórica do movimento estudantil brasileiro também deve ser pensado. As universidades concentraram experiências relevantes de resistência durante a ditadura militar, participaram de mobilizações pela democratização e desempenharam papel significativo em diferentes conflitos sociais. A produção acadêmica também contribuiu para a elaboração de conhecimentos críticos sobre a sociedade brasileira mediante investigações relacionadas à exploração econômica, violência estatal e às desigualdades sociais. Entretanto, o reconhecimento dessa importância não elimina os limites políticos da resistência concentrada no setor educacional. As universidades integram a estrutura institucional do Estado e dependem de mecanismos administrativos, orçamentários e jurídicos que interferem diretamente nas condições de organização de seus trabalhadores e estudantes. Parte significativa das entidades representativas mantém relações históricas com partidos e organizações sindicais vinculadas à administração estatal, circunstância que pode condicionar suas estratégias e limitar a independência das mobilizações.</p>
<p style="text-align: justify;">A assembleia de docentes da Universidade Federal Fluminense realizada em 8 de outubro oferece um exemplo concreto dessa relação. A categoria deliberou pelo apoio à candidatura de Lula no segundo turno, ao mesmo tempo que aprovou uma agenda de mobilizações e incentivou a realização de plenárias nos diferentes campi. A decisão expressa o reconhecimento da gravidade da conjuntura, mas também demonstra a centralidade da disputa eleitoral na orientação imediata da organização sindical.  Há, contudo, outra contradição. As instituições universitárias reúnem pesquisadores dedicados ao estudo do fascismo, da desigualdade social e dos mecanismos históricos da dominação capitalista, mas a elaboração intelectual desses problemas não resulta necessariamente em participação política organizada. A burocratização da atividade acadêmica, a pressão produtivista e a fragmentação das relações profissionais podem favorecer uma distância considerável entre o reconhecimento teórico da gravidade política e a disposição coletiva de reorganizar a rotina institucional diante dos conflitos sociais. Essa situação não autoriza uma condenação generalizada de professores e pesquisadores, muitos dos quais desenvolvem atividades políticas relevantes e participam diretamente de organizações populares. Entretanto, demonstra que a existência de conhecimento crítico no interior das universidades não assegura sua incorporação à prática social. A produção intelectual pode alcançar elevado nível de sofisticação enquanto as relações institucionais continuam subordinadas às prioridades administrativas e profissionais que organizam a vida acadêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">É preciso, no entanto, ampliar a resistência para além dos setores universitários. A classe trabalhadora brasileira experimentou transformações nas últimas décadas, mediante a expansão da terceirização, da informalidade e do trabalho subordinado às plataformas digitais e essas relações modificaram as experiências cotidianas de organização contribuindo para enfraquecer determinados mecanismos tradicionais de solidariedade coletiva. As manifestações estudantis podem estimular processos importantes de reorganização política entre gerações que tiveram experiências limitadas de participação em grandes movimentos populares. Sua eficácia histórica, entretanto, dependerá da capacidade de estabelecer relações com categorias profissionais, associações territoriais e organizações comunitárias que atuam fora do ambiente universitário.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma diferença material entre a visibilidade de uma manifestação e sua capacidade de interferir na reprodução econômica da sociedade. Mobilizações concentradas em determinadas instituições podem produzir repercussão pública, mas encontram dificuldades para sustentar conflitos quando isoladas de trabalhadores organizados em outros setores. A interrupção coletiva de atividades produtivas, a organização nos locais de trabalho e a articulação entre categorias profissionais ampliam as possibilidades de intervenção social diante de governos pouco dispostos à negociação. O problema estratégico é compreender como a disposição de luta demonstrada por estudantes e professores poderá contribuir para uma reorganização mais ampla das relações entre trabalhadores. A defesa da universidade pública tem maior densidade política quando vinculada às condições de vida das populações que sustentam essas instituições, inclusive daquelas excluídas do ensino superior.</p>
<p style="text-align: justify;">A fragilidade dessa articulação contribui para explicar o sentimento de vulnerabilidade que acompanha a conjuntura. A extrema direita demonstrou capacidade de organização eleitoral, influência social e expansão parlamentar, enquanto a resistência mais visível se concentra em segmentos que encontra obstáculos para sustentar uma ofensiva de maior amplitude. O risco gira em torno de transformar a mobilização atual numa resposta estritamente eleitoral que para ter continuidade dependa da vitória ou derrota de Lula em 25 de outubro.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160200" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer10.jpg" alt="" width="210" height="281" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>4 &#8211; O fascismo e as particularidades da sociedade brasileira</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A análise do fascismo demanda uma investigação histórica de suas condições de formação, de seus vínculos com o desenvolvimento capitalista e das relações políticas que favorecem a mobilização reacionária. O emprego indiscriminado do conceito utilizado para designar qualquer manifestação de autoritarismo ou conservadorismo, dificulta a identificação de suas características específicas<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a>. Entretanto, o cuidado conceitual também não pode funcionar como obstáculo ao reconhecimento de processos históricos concretos nos quais movimentos de extrema direita ampliam sua capacidade de mobilização social, legitimam a violência política e conquistam posições institucionais favoráveis à repressão das organizações trabalhadoras.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Introdução ao fascismo, Leandro Konder, que considera o fascismo “um dos fenômenos políticos mais significativos do nosso século”, desenvolve sua interpretação a partir das contradições do capitalismo monopolista e das condições históricas que favoreceram a reorganização da direita radical no século XX. Sua análise identifica no fascismo um movimento político anticomunista, vinculado à preservação das relações capitalistas de propriedade, capaz de mobilizar setores populares mediante uma linguagem de contestação à ordem existente. Essa capacidade de elaborar ideologicamente as insatisfações sociais é importante para compreender a expansão contemporânea do bolsonarismo. O movimento fascista não depende de uma população inteiramente satisfeita com o capitalismo; sua intervenção política encontra possibilidades precisamente nas crises que comprometem a legitimidade das instituições e alimentam expectativas de transformação social. O conteúdo dessa transformação, entretanto, está subordinado à preservação da propriedade privada e à reorganização das relações de dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">A experiência brasileira apresenta particularidades que impedem sua identificação imediata com os movimentos fascistas europeus. José Chasin, em O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio, publicado em 1978, demonstra a importância de investigar as especificidades do capitalismo brasileiro antes de estabelecer equivalências entre manifestações ideológicas historicamente distintas. Sua crítica à caracterização automática do integralismo como fascismo brasileiro decorre da investigação das condições materiais que sustentaram o pensamento de Plínio Salgado, com atenção a formação tardia e subordinada do capitalismo nacional. A regressividade integralista precisava ser compreendida dentro das contradições de uma sociedade marcada pela herança colonial, assim como da centralidade da propriedade agrária e ausência de uma transformação burguesa equivalente àquela experimentada pelas principais potências europeias.</p>
<p style="text-align: justify;">A contribuição de Chasin é fundamental para a investigação contemporânea, embora o Brasil de 2026 apresente condições econômicas diferentes daquelas existentes durante a ascensão integralista. Fatores como o desenvolvimento industrial, a urbanização, a financeirização da economia e a expansão das tecnologias digitais modificaram as relações sociais, os mecanismos de dominação e as possibilidades de organização política. A concentração da propriedade, da dependência econômica e de uma estrutura estatal coercitiva, entretanto, demonstra que a modernização capitalista brasileira conservou fundamentos históricos de desigualdade e autoritarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A formação do Estado burguês brasileiro também precisa ser compreendida a partir da incorporação das classes dominantes aos mecanismos de modernização econômica, sem que isso tenha resultado na destruição das relações sociais responsáveis pela exploração e subordinação política dos trabalhadores. A expansão do capitalismo ocorreu mediante transformações produtivas acompanhadas pela preservação de estruturas repressivas e participação do Estado na organização dos interesses empresariais. A democratização política ampliou direitos e estabeleceu garantias constitucionais, mas a concentração do poder econômico continuou a condicionar a experiência social da população.</p>
<p style="text-align: justify;">José Paulo Netto acrescenta elementos importantes a essa investigação ao relacionar a ofensiva conservadora às contradições do capitalismo contemporâneo e às dificuldades históricas das organizações trabalhadoras. Em entrevista concedida a Milton Pinheiro, publicada em maio de 2021, Netto examinou o fortalecimento da extrema direita brasileira a partir de sua relação com a crise capitalista internacional e com as consequências políticas da conciliação de classes praticada pelos governos petistas. Naquela ocasião, advertiu também contra a identificação automática entre os milhões de eleitores de Bolsonaro e militantes fascistas organizados, distinção fundamental para compreender a composição social heterogênea do movimento.  O apoio eleitoral a uma candidatura reacionária não significa necessariamente a adesão integral de seus eleitores a um programa fascista. Entretanto, a legitimidade conferida por milhões de votos pode ampliar substancialmente a capacidade de atuação das organizações que defendem esse programa. Aqui, destaco um dos pontos fundamentais da entrevista de Netto (2021):</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Ao contrário do que alguém já disse, nas sociedades capitalistas, as lutas de classes não tiram férias. Desenvolvem-se muito irregularmente e nunca de forma linear – às vezes aberta e espetacularmente, outras vezes subterrânea e discretamente. E, com frequência, sem se expressar no nível especificamente político. Mas estão sempre – insista-se: sempre – operantes. São vetores reais e objetivos nas organizações societárias regidas pelo capital – a sua efetividade não depende da vontade dos sujeitos políticos, ainda que deles dependa a sua direção e, em boa medida, o seu desenlace.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">O bolsonarismo reúne segmentos sociais diferentes, cujas motivações políticas não são homogêneas, mas sua direção estabelece relações concretas com o anticomunismo, o militarismo, o nacionalismo conservador e a hostilidade contra organizações populares independentes.</p>
<p style="text-align: justify;">A caracterização do movimento precisa considerar ainda sua inserção histórica. O fascismo europeu alcançou o governo mediante uma combinação de violência política, colaboração de setores conservadores tradicionais e utilização de procedimentos institucionais reconhecidos. A nomeação de Hitler para a chancelaria alemã em 1933 e a ascensão de Mussolini ao governo italiano em 1922 demonstram a importância das alianças estabelecidas entre movimentos reacionários e representantes da ordem burguesa. A violência contra organizações operárias integrou esses processos antes da conquista do poder e teve dimensões muito superiores depois dela. A legalidade, portanto, participou da reorganização dos Estados, mesmo quando os movimentos fascistas atuaram simultaneamente por intermédio de práticas extralegais.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160199" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9.jpg" alt="" width="1367" height="608" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9.jpg 1367w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-300x133.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-1024x455.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-768x342.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-944x420.jpg 944w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-640x285.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-681x303.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1367px) 100vw, 1367px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, a extrema direita dispõe de relações importantes com setores parlamentares, agentes policiais, lideranças religiosas e organizações empresariais ao passo em que constrói bases sociais populares e se infiltra nas expressões artísticas e culturais. O bolsonarismo desenvolveu também uma infraestrutura própria de comunicação e consolidou vínculos com segmentos da população que reconhecem em suas lideranças representantes legítimos de determinadas expectativas sociais. Essas características indicam tendências de fascistização, mas não autorizam a identificação automática entre a conjuntura brasileira e os regimes europeus do século XX. A questão fundamental se relaciona à composição histórica da dominação burguesa nacional. A expansão conservadora encontra um Estado que preservou, mesmo depois da Constituição de 1988, estruturas coercitivas enraizadas na vida social. A repressão contra trabalhadores, a violência policial nas periferias e a criminalização de movimentos populares integram relações historicamente estabelecidas, sobre as quais uma eventual administração bolsonarista poderá atuar com recursos institucionais ampliados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>5 &#8211; Os sinais concretos de uma disposição repressiva</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A análise da extrema direita brasileira precisa investigar as condições efetivas de intensificação dos conflitos políticos. A existência de discursos reacionários é uma dimensão importante, mas a demonstração de uma disposição concreta para o enfrentamento depende da identificação de práticas, organizações e iniciativas que interferem diretamente na liberdade de atuação dos adversários. Os acontecimentos registrados depois do primeiro turno revelam um ambiente de tensão grave nas instituições de ensino. Em 8 de outubro, a Universidade Federal Fluminense encaminhou à Polícia Federal denúncias de ameaças contra estudantes e instalações universitárias. As mensagens mencionavam a possibilidade de incendiar a instituição e agredir participantes de manifestações políticas. A universidade solicitou providências aos órgãos competentes e adotou medidas internas de proteção, diante do receio de episódios de violência contra integrantes da comunidade acadêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">A gravidade da conjuntura também se manifesta em episódios de intimidação política contra estudantes, professores e eleitores identificados com a esquerda. Em Arapiraca, no interior de Alagoas, um grupo de apoiadores de Flávio Bolsonaro entrou no campus da Universidade Federal de Alagoas, em veículos identificados com a candidatura, e tentou retirar cartazes críticos ao candidato e ao seu vice, Alfredo Gaspar. A intervenção de uma professora provocou um confronto verbal com os integrantes do grupo, enquanto a universidade solicitou providências às autoridades responsáveis pela segurança e investigação do episódio. A situação teve contornos ainda mais preocupantes diante do incêndio de grandes proporções que atingiu a Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, na noite de 7 de outubro, destruindo laboratórios, equipamentos e acervos científicos acumulados ao longo de décadas, com prejuízos preliminarmente estimados em 100 milhões de reais. O acontecimento ocorreu após relatos de ameaças contra estudantes e instalações universitárias, algumas delas acompanhadas de referências à candidatura de Flávio Bolsonaro, circunstâncias que motivaram pedidos de investigação sobre uma possível origem criminosa, ainda sem comprovação pericial. A Universidade Federal Fluminense, em Niterói, também encaminhou à Polícia Federal mensagens divulgadas em grupos identificados com o bolsonarismo que mencionavam planos de incendiar instalações universitárias e agredir estudantes envolvidos em manifestações políticas. A sucessão desses acontecimentos provocou a reação do Ministério da Educação e de entidades representativas da comunidade acadêmica, diante do crescimento das ameaças à integridade física de estudantes, docentes e trabalhadores das universidades.</p>
<p style="text-align: justify;">A intimidação política alcançou também brasileiros residentes no exterior, com a divulgação de informações pessoais de eleitores de Lula e o incentivo a denúncias perante autoridades estrangeiras, inclusive mediante ameaças de deportação. Na Polônia, um parlamentar europeu publicamente vinculado ao campo bolsonarista participou da exposição de duas brasileiras identificadas com a candidatura petista, episódio que evidencia a dimensão internacional dessas articulações conservadoras. A ausência de comprovação de orientações diretas da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro para a execução dessas iniciativas é uma distinção necessária à apuração das responsabilidades individuais e institucionais, mas está longe de encerrar sua interpretação política. A reprodução de práticas autoritárias depende também de relações sociais, referências ideológicas e mecanismos de identificação coletiva por meio dos quais militantes e simpatizantes reconhecem determinadas condutas como legítimas, mesmo na ausência de comandos explícitos de suas lideranças. A responsabilidade política dos dirigentes conservadores precisa ser examinada, portanto, em relação aos discursos que difundem, às organizações com as quais estabelecem vínculos e às atitudes que adotam diante da violência praticada por seus apoiadores. Esses episódios indicam a existência de setores radicalizados dispostos a utilizar a intimidação e a ameaça como instrumentos de intervenção política, comprometendo as condições de participação pública de seus adversários e ampliando os riscos enfrentados pelas organizações populares numa conjuntura de fortalecimento da extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160194" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4.webp" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />A importância desses acontecimentos reside nas relações que podem estabelecer com o ambiente político criado pelo fortalecimento eleitoral bolsonarista. Determinados grupos interpretam a expectativa de vitória conservadora como legitimação para interferir diretamente na atividade de seus adversários. A intimidação de estudantes, a tentativa de remover manifestações políticas e a exposição pública de opositores indicam uma disposição para restringir liberdades que estão além da disputa argumentativa. A retórica repressiva também tem posição relevante na campanha de Flávio Bolsonaro. Neste 10 de outubro, durante atividade eleitoral em São Gonçalo, o candidato reiterou propostas de endurecimento penal, defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos e prestou continência a policiais militares presentes no evento. A aproximação pública com integrantes das corporações policiais integra uma linguagem política que relaciona autoridade estatal, segurança e ampliação das punições.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa orientação encontra correspondência em uma sociedade marcada pela naturalização da violência policial. A repressão contra trabalhadores e populações periféricas integra práticas historicamente perpetradas pelo Estado brasileiro, que não depende exclusivamente da presença da extrema direita no governo. Entretanto, a ascensão de lideranças que legitimam publicamente o endurecimento coercitivo pode ampliar a influência de setores interessados em intensificar essas políticas. Um episódio recente em Niterói contribui para compreender a profundidade dessas contradições. Em setembro de 2026, o trabalhador Danilo Jander Francisco Alves morreu depois de ser baleado na cabeça por um policial militar durante uma abordagem em Icaraí. Sua morte provocou indignação e mobilizações em defesa da responsabilização do agente, expondo novamente a violência policial como realidade concreta na vida de trabalhadores que dependem das ruas para garantir sua sobrevivência. O episódio também suscita uma questão relacionada à influência conservadora entre segmentos de motociclistas e entregadores da região. A aproximação política de determinados trabalhadores com lideranças como Douglas Gomes e Carlos Jordy, ambos vinculados ao Partido Liberal, requer investigação específica, sobretudo diante da defesa de políticas de segurança que valorizam o fortalecimento da autoridade policial. A extensão dessa aproximação não pode ser generalizada para toda a categoria sem documentação correspondente, mas sua existência como problema político ilumina uma contradição importante que é quando a experiência cotidiana da exploração e da violência estatal coexiste com identificações ideológicas favoráveis ao endurecimento repressivo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160196" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6.jpeg" alt="" width="900" height="643" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6.jpeg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-300x214.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-768x549.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-588x420.jpeg 588w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-640x457.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-681x487.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />A compreensão dessa relação depende das condições concretas de vida dos trabalhadores. As jornadas extensas, a instabilidade econômica e a insegurança profissional não produzem espontaneamente uma consciência antagônica ao capital. A extrema direita desenvolveu capacidade de conferir sentido político a determinadas experiências sociais mediante a valorização do esforço individual, a defesa da propriedade e a promessa de restauração da autoridade. A identificação com representantes conservadores pode expressar expectativas de proteção e estabilidade, mesmo quando as políticas defendidas por essas lideranças favorecem estruturas responsáveis pela reprodução da desigualdade. O problema da fascistização precisa ser compreendido dentro dessas relações sociais. A disposição repressiva de determinados grupos encontra condições favoráveis quando discursos reacionários conquistam legitimidade pública, quando as organizações populares apresentam fragilidades e quando parcelas dos aparelhos estatais reconhecem vantagens na colaboração com forças reacionárias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>6 &#8211; O que pode acontecer com uma vitória de Flávio Bolsonaro?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro precisa ser examinada a partir das condições institucionais concretas que encontrará em 2027. O fortalecimento parlamentar conservador cria oportunidades políticas importantes, mas a implementação de seu programa dependerá das negociações entre partidos, das condições econômicas e da capacidade de resistência social, elemento este fundamental que em sua ausência facilitará o fortalecimento ultra-conservador e a implementação das suas políticas econômicas principalmente. Um primeiro cenário envolve a reorganização das relações entre Executivo e Congresso. A formação de uma coalizão conservadora poderá favorecer a aprovação de reformas administrativas, medidas econômicas orientadas à ampliação da participação empresarial e alterações na legislação penal. A direção dessas iniciativas dependerá dos compromissos estabelecidos com partidos aliados e dos interesses representados pelas diferentes bancadas, com atenção aquelas vinculadas ao agronegócio, ao setor financeiro e organizações empresariais. A composição do Supremo Tribunal Federal também será objeto de disputa. A ampliação da bancada conservadora no Senado favorece pressões sobre a Corte, propostas de alteração de suas competências e de iniciativas relacionadas à responsabilização de ministros. A possibilidade de futuras nomeações presidenciais acrescenta uma dimensão importante à reorganização institucional, embora a composição do tribunal não possa ser modificada livremente pelo Executivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Na segurança pública, o programa apresentado por Flávio indica a possibilidade de intensificação das políticas de encarceramento e endurecimento penal. A classificação de facções criminosas como organizações narcoterroristas, a redução da maioridade penal e a expansão das unidades prisionais integram uma orientação que valoriza a ampliação do poder coercitivo do Estado. Suas consequências precisam ser avaliadas diante de uma sociedade na qual a repressão policial se concentra sobre determinados segmentos da classe trabalhadora. Já as universidades poderão enfrentar novas disputas relacionadas ao financiamento, autonomia administrativa e orientação das políticas educacionais, assim como a criminalização direta do movimento estudantil. A defesa de escolas cívico-militares e a possibilidade de alterações nas prioridades orçamentárias indicam pontos de conflito. Entretanto, a efetiva implementação dessas iniciativas dependerá das decisões governamentais e das relações estabelecidas com o Congresso e os governos estaduais.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160195" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer5.jpg" alt="" width="480" height="416" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer5.jpg 480w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer5-300x260.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px" />Há ainda a possibilidade de aprofundamento das pressões sobre organizações populares diante de políticas que ampliem a criminalização dos protestos ou restrinjam determinadas atividades associativas. Essa hipótese encontra fundamentos no histórico do primeiro governo Bolsonaro e nas manifestações de segmentos de seus apoiadores. A experiência internacional demonstra que governos de extrema direita podem combinar procedimentos eleitorais regulares com iniciativas graduais de concentração de poder. A reorganização das instituições ocorre mediante disputas legislativas, alterações administrativas e conflitos em torno da aplicação das garantias constitucionais. A violência política pode integrar esse processo, mas suas características concretas dependem das relações estabelecidas entre movimentos sociais, governos e aparelhos repressivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vitória de Flávio Bolsonaro poderá modificar a correlação de forças, sobretudo se sua administração conseguir estabelecer alianças duradouras com setores tradicionais da burguesia e conquistar influência ampliada sobre mecanismos de controle institucional. Entretanto, a intensidade de uma eventual ofensiva também dependerá das resistências encontradas e das contradições internas do bloco conservador. O ponto decisivo está na possibilidade de que a extrema direita utilize sua legitimidade eleitoral para aprofundar a influência sobre o Estado, ampliando progressivamente os recursos necessários à contenção dos adversários políticos. A história do fascismo demonstra a importância desse processo.</p>
<p style="text-align: justify;">O fortalecimento conservador também alcançou as disputas pelas presidências da Câmara e do Senado. O favoritismo eleitoral de Flávio Bolsonaro estimulou novas negociações entre o PL e partidos tradicionalmente vinculados ao chamado Centrão, com consequências potenciais para a permanência de Hugo Motta e Davi Alcolumbre nas direções das respectivas Casas. O controle dessas posições interfere diretamente na definição da pauta legislativa, na tramitação de propostas e na organização das relações entre Executivo e Congresso. A eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia reunir, portanto, condições institucionais favoráveis à implementação de parte de seu programa político. Entretanto, seria inadequado imaginar que a ampliação parlamentar conservadora resultaria automaticamente em um governo sem contradições internas. As relações entre partidos burgueses são condicionadas por disputas econômicas, interesses regionais e negociações relacionadas à distribuição de recursos públicos. O próprio bolsonarismo reúne segmentos diferentes, cujas expectativas nem sempre coincidem com aquelas defendidas por representantes tradicionais das classes dominantes.</p>
<p style="text-align: justify;">A possibilidade de colaboração entre essas forças, contudo, é um ponto sensível. O fascismo histórico demonstrou que setores conservadores podem contribuir para a ascensão de movimentos dessa natureza mesmo sem compartilhar integralmente seus objetivos ideológicos. A perspectiva de estabilidade política, contenção das organizações operárias e preservação das relações capitalistas pode favorecer alianças entre grupos que anteriormente mantinham conflitos. A convergência de interesses não elimina as disputas internas, mas cria condições para iniciativas comuns contra adversários identificados como ameaças à ordem existente. Essa possibilidade precisa ser examinada diante das propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro. Seu programa eleitoral prevê modificações na legislação penal, ampliação da infraestrutura prisional, expansão de escolas cívico-militares e alterações em regras relacionadas ao funcionamento do Judiciário. Na economia, defende a redução de despesas administrativas, a retomada de privatizações e reformas orientadas à ampliação da participação empresarial. O candidato também promete preservar programas sociais existentes, aspecto que demonstra a preocupação de sua campanha em conquistar legitimidade entre trabalhadores dependentes dessas políticas. Há combinação entre preservação seletiva de benefícios sociais, defesa do investimento privado e endurecimento repressivo.</p>
<p style="text-align: justify;">O Estado burguês apresenta, portanto, uma contradição que a esquerda institucional frequentemente encontra dificuldades para enfrentar. As garantias jurídicas podem ser fundamentais para preservar liberdades políticas e proteger organizações populares diante de ameaças concretas. Sua existência, entretanto, não substitui a capacidade social de resistência dos trabalhadores. A proteção institucional dos direitos depende também das relações políticas que sustentam sua aplicação e da força coletiva daqueles que necessitam dessas garantias para preservar suas condições de organização.</p>
<p style="text-align: justify;"><em> As imagens que ilustram o artigo são obras de Anselm Kiefer.</em></p>
<h4><strong>Notas</strong></h4>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> A responsabilização judicial pela tentativa de golpe de Estado alcançou integrantes importantes da cúpula político-militar do governo Jair Bolsonaro, incluindo os generais Walter Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, o almirante Almir Garnier, o ex-ministro Anderson Torres, o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem e Mauro Cid, além do ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses de prisão. Ao final dos julgamentos dos quatro núcleos principais, em dezembro de 2025, o STF havia condenado 29 acusados e absolvido dois. Entretanto, essas condenações não desarticularam as organizações políticas, as relações empresariais e as bases sociais que sustentam o bolsonarismo, sendo que principal partido, o PL, ampliou expressivamente sua representação parlamentar nas eleições de 2026. A contradição evidencia os limites da responsabilização criminal individual diante de um movimento político enraizado nas próprias instituições republicanas e articulado a setores das classes dominantes, preservando condições para disputar novamente a direção do Estado, inclusive com a perspectiva de rever politicamente os efeitos das condenações.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> As contradições entre as organizações conservadoras também se manifestam nas disputas contemporâneas pela direção política da direita brasileira. O Movimento Brasil Livre (MBL), que desempenhou papel destacado na ofensiva contra o governo Dilma Rousseff, encontra-se atualmente em conflito com a hegemonia bolsonarista. Após sua derrota no primeiro turno de 2026, Renan Santos, uma das principais lideranças do movimento, recusou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro e sinalizou disposição para dialogar com setores da esquerda, embora tenha descartado apoio eleitoral a Lula. O episódio evidencia a instabilidade das alianças conservadoras e os conflitos entre organizações que participaram de uma mesma ofensiva política, mas desenvolveram interesses próprios na disputa pela representação institucional e influência social.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> A atuação do governo Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022, sobretudo durante a pandemia de covid-19, foi objeto de sucessivas denúncias e investigações. Em junho de 2021, a Câmara dos Deputados acumulava 122 pedidos de impeachment, enquanto a CPI da Pandemia, concluída em outubro daquele ano, recomendou a responsabilização criminal do presidente por diferentes condutas relacionadas à crise sanitária. O STF também instaurou investigações durante seu mandato, mas essas iniciativas não resultaram em seu afastamento, e Bolsonaro continuou na Presidência até dezembro de 2022. Sua condenação criminal pela tentativa de golpe de Estado ocorreu somente em setembro de 2025. O episódio demonstra os limites políticos e institucionais da responsabilização de dirigentes do Estado quando a continuidade governamental encontra sustentação parlamentar e apoio de setores das classes dominantes.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> “Nem todo movimento reacionário é fascista. Nem toda repressão – por mais feroz que seja – exercida em nome da conservação de privilégios de classe ou casta é fascista. O conceito de fascismo não se deixa reduzir, por outro lado, aos conceitos de ditadura ou de autoritarismo.” Konder, Leandro. Introdução ao Fascismo, 1977.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências centrais para a leitura</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">KONDER, Leandro. Introdução ao fascismo. Rio de Janeiro: Graal, 1977.</p>
<p style="text-align: justify;">CHASIN, José. O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1978.</p>
<p style="text-align: justify;">Arquivo Internet Marxista</p>
<p style="text-align: justify;">NETTO, José Paulo. Pequena história da ditadura brasileira (1964–1985). São Paulo: Cortez, 2014.</p>
<p style="text-align: justify;">NETTO, José Paulo. <a href="https://pcb.org.br/portal2/27275">Entrevista do Momento, concedida a Milton Pinheiro, 12 de maio de 2021</a>. Partido Comunista Brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Sobre o autor</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Arthur Moura é historiador, cineasta, músico e pesquisador. Doutorando em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Educação pela Faculdade de Formação de Professores da UERJ e graduado em História pela UFF. Realizador de quase trinta filmes autorais, desenvolve pesquisas sobre cinema político independente, luta de classes, Estado, cultura e comunicação popular. Sua produção intelectual e audiovisual articula a crítica marxista da sociedade capitalista à investigação histórica das relações de dominação, das organizações políticas e experiências de resistência dos trabalhadores. É responsável pelo Canal Arthur Moura, espaço independente de produção audiovisual, análise política e debate crítico.</p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>Uma volta a 64? Não. A neocolônia de 1500</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Oct 2026 19:41:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
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					<description><![CDATA[O diagnóstico que devemos inferir é: hoje nós discutimos uma gramática que não é nossa. Um tipo de linguagem que não mais tem apelo. Um tipo de luta já perdida, combatida no campo de batalha dos inimigos. Por Sérgio Elia]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por Sérgio Elia</h3>
<p style="text-align: justify;">Dormimos em 2026, acordamos em 64 e, no dia 25, mesmo uma improvável virada apenas adiará um novo 22 de abril de 1500. Será uma inovação e tanto: um povo escolher voltar a ser colônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Vendida como algo revolucionário, vivemos uma ruptura reacionária da extrema direita com o fantasma moribundo da democracia liberal. Mas estamos tratando tudo como normal. Em nenhum momento reagimos à altura dessa ruptura, acreditando numa institucionalidade que já está morta.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a pergunta que devemos nos fazer é: qual a responsabilidade da esquerda brasileira nisso?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160159 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967.jpg" alt="" width="417" height="420" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967.jpg 417w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967-298x300.jpg 298w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967-70x70.jpg 70w" sizes="auto, (max-width: 417px) 100vw, 417px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Sim, a mídia corporativa, de forma escandalosa e calculada, deu muito menos destaque do que deveria aos fatos e denúncias sobre a trajetória de Flávio, enquanto ele se apresenta claramente como administrador de colônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, as redes sociais criaram um mundo em que a verdade factual perde relevância e as fake news se tornaram uma realidade normalizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, enfrentamos uma conjuntura geopolítica internacional marcada pela ascensão da extrema direita, com elites latino-americanas sabendo trabalhar para se tornarem suas representantes locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, a sociedade brasileira, com seu crescente neopentecostalismo que sequestrou boa parte do cristianismo, assim como os diversos projetos de guerra cultural, simbolizados por iniciativas como o Brasil Paralelo, além do cinturão do agronegócio que se expandiu para novas regiões do país, tornou-se cada vez mais conservadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também é verdade que a política econômica liderada por Haddad foi de uma ineptidão política colossal. Um erro desde o começo; uma tragédia anunciada: como ter tido como principal projeto de governo, no início do mandato com toda a força de uma nova gestão com o fôlego recente das urnas, uma reforma tributária cujos frutos, como a redução dos impostos da cesta básica ou o cashback, só apareceriam plenamente em 2027, podendo ser politicamente colhidos por Flávio?</p>
<p style="text-align: justify;">Como negociar a queda de um quase criminoso teto de gastos em prol de um arcabouço fiscal menos pior, capitulando mansamente diante da restrição da capacidade de investimento público em qualquer novo projeto digno de nota, seja de desenvolvimento, seja de política social?</p>
<p style="text-align: justify;">Como entrar em brigas totalmente impopulares, como a taxa das blusinhas?</p>
<p style="text-align: justify;">Como não encarar, sob o pretexto de manter o controle inflacionário, a desastrosa manutenção da política de juros do Banco Central sob Galípolo? Os juros estratosféricos tornaram o crédito inviável, e o endividamento do consumidor e do pequeno e médio empreendedor — tanto urbano quanto agrícola — tornou-se inevitável, o que poderia ajudar a explicar, em boa medida, o crescimento da rejeição a Lula nas pequenas cidades do cinturão agrícola.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160161" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994-300x273.jpg" alt="" width="400" height="364" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994-300x273.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994-462x420.jpg 462w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994.jpg 500w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">E, sobretudo, como não olhar para 2022 e se dar conta de que as mulheres beneficiárias do BPC foram, de muitas maneiras, decisivas para evitar nossa derrota e a reeleição de Jair Bolsonaro? Em nome da redução do déficit fiscal e de uma tal “responsabilidade econômica” a ser vendida para um tal “mercado”, o governo fez questão de economizar bilhões, justamente prejudicando aquelas mulheres, chefes de família, que nos salvaram em 2022? Quem não conhece alguém que deixou de conseguir sacar esses benefícios abruptamente ou que, depois de uma doença, deficiência ou situação de extrema vulnerabilidade, encontrou todo tipo de dificuldade para receber um benefício?</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de ser eleito em 2022, Lula prometeu travar as boas batalhas. Prometeu governar “do seu jeito”. Pautar projetos de interesse nacional, como o fim da escala 6 x 1, ou enfrentar o criminoso orçamento secreto.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se tratava de dizer que seria fácil ou que dependia apenas de sua vontade, mas de assumir, percebendo os novos tempos, a necessidade de mobilizar uma narrativa em defesa de um projeto de nação. As prováveis derrotas no Congresso não significariam uma derrota para o seu governo. Significariam demonstrar claramente que, ao menos, assumia sem medo a disputa pelos interesses populares.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem sequer uma política minimamente ousada de democratização do acesso à terra e à moradia foi pautada, algo que poderia ter sido feito de forma bem menos traumática do que imaginamos, se houvesse disposição para avançar um pouco além da covardia e do comodismo da conciliação.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, como em 2004, 2005 ou 2009, tentou-se uma composição. Dessa vez, porém, com um Congresso que sequestrou uma parcela mais que expressiva do orçamento e que, em boa parte, já não representava apenas interesses fisiológicos: havia ali um inequívoco projeto ideológico de extrema direita, golpista, sedento de sangue e claramente antidemocrático.</p>
<p style="text-align: justify;">Lula tentou conciliar com quem já não queria conciliação.</p>
<p style="text-align: justify;">Lula não se deu conta de que os tempos mudaram e de que teria que responder diretamente, sem qualquer verniz, às urgências mais cotidianas, abraçando aquilo que, pejorativamente, se chama de “populismo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Falhou ao ser extremamente conciliador, responsável e pragmático. Falhou em sequer ter lutado por um mísero projeto de apelo popular que respondesse, por exemplo, ao anseio pela diminuição da criminalidade. Combater a lavagem de dinheiro enfrentando determinados agentes e setores do mercado financeiro é necessário e louvável, mas isso pouco ou nada ressoa para quem vive diariamente com medo da violência na rua. A cegueira da esquerda quanto à acusação de que compactuamos com o crime que tanto aflige aos trabalhadores brasileiros não deveria ser tão mansamente por nós aceita, o que está longe de significar defender qualquer política violenta ou puramente demagógica.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160163" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959-300x193.jpg" alt="" width="500" height="321" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959-300x194.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959-341x220.jpg 341w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez Lula tivesse perdido em todas essas empreitadas. Mas perderia de uma forma que não legitimaria propagarmos, com tanta certeza e prepotência, que há um pobre de direita burro e ignorante.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, se não fomos nós que pautamos o debate público, se desistimos de lutar por um projeto nacional assumidamente nosso, não sejamos nós os ignorantes e burros incapazes de compreender e aprender com os fatos.</p>
<p style="text-align: justify;">É bom repetirmos, em voz alta: não sejamos nós os ignorantes e burros incapazes de compreender e aprender com os fatos.</p>
<p style="text-align: justify;">A verdade é que a extrema direita capta, com cinismo, um diagnóstico verdadeiro: para milhões de pessoas, alguma coisa precisa romper com “tudo que está aí”. Ela percebe que a ordem existente já não consegue oferecer a promessa de integração, prosperidade e segurança que legitimava o capitalismo e a democracia liberal. E é justamente aí que ocorre uma inversão extraordinária e reveladora: a extrema direita passa a ocupar o lugar da ruptura, enquanto a esquerda passa a assumir, no imaginário popular, um lugar conservador e envelhecido.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles são, nesse sentido, mais sinceros no diagnóstico, não na solução. Dizem que nesse modelo de sociedade não há lugar para todos, que o Estado atrapalha, que os direitos sociais são falhos, que os conflitos não serão resolvidos pela conciliação e que, de uma forma ou outra, alguém terá de perder. A solução que oferecem para a crise é cínica, antidemocrática e destruidora.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas é apresentada como ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, a esquerda liberal responde à mesma crise defendendo os princípios falidos de uma democracia liberal corrupta e decadente prometendo com grande dose de derrotismo administrá-la com maior humanismo, sem enfrentar seus inequívocos limites e contradições.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, é verdade que eles oferecem uma saída que apenas intensifica a submissão popular.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160168" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963-215x300.jpg" alt="" width="315" height="440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963-215x300.jpg 215w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963-301x420.jpg 301w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963.jpg 344w" sizes="auto, (max-width: 315px) 100vw, 315px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas nós propomos mais conformismo, paciência e equilíbrio a uma população sem expectativas.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, quem hoje parece radical e quem parece conservador?</p>
<p style="text-align: justify;">Nós parecemos conservadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós desistimos de qualquer grande projeto. Não perseguimos qualquer utopia, sendo metralhados por um realismo refém do comodismo.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse sentido que a extrema-direita também ganha por parecer mais sincera: não porque revela qualquer solução viável para o mundo, mas porque explicita, sem qualquer verniz, um antagonismo que nós insistimos em esconder.</p>
<p style="text-align: justify;">Não por acaso, esse discurso encontra terreno fértil porque o cidadão comum, desgostoso com qualquer apelo a um corpo social — visto como armadilha para a letargia corruptora — e identificado com um conceito altamente neoliberal de liberdade, quer apenas não ser atrapalhado para poder “cuidar do próprio nariz em paz”. É aí que o conservadorismo moral e o discurso individualista neoliberal conseguem acomodar uma aparente contradição funcional: de um lado, a exigência de valores pétreos e sagrados na vida privada como refúgio diante da crueldade competitiva de um mundo corrompido; de outro, a legitimação de que, na selva da disputa capitalista, cada um seja implacável ao lutar pelos próprios interesses, sem que o Estado ou aqueles considerados culpados pela própria miséria e inércia o atrapalhem. O reacionarismo moral e o individualismo oferecem, assim, refúgios normativos que validam, sem culpa, um indivíduo ainda mais perverso, pois ele percebe, instintivamente e sem filtros, que vive no estado de natureza hobbesiano, sem que o Estado hobbesiano se ofereça para protegê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que estamos deixando de compreender quando parcelas expressivas dos mais jovens caminham para a extrema direita em diferentes partes do mundo? Quando os líderes mais boçais e mitômanos da extrema direita são justamente jovens que angariam apoio justamente por assumirem um tom que acomoda e identifica tão bem terrorismo moral, autoritarismo e um discurso aparentemente contraditório de insubordinação ao sistema?</p>
<p style="text-align: justify;">Por que insistimos em destacar a hipocrisia de tais discursos e não nos questionamos por que somos vistos como sendo o tal do “sistema”?</p>
<p style="text-align: justify;">Acordemos: nós parecemos ser o sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós parecemos envelhecidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o jovem sufocado por uma realidade sem horizontes do capitalismo digital, a extrema direita encarna a ousadia da recusa, de uma retórica ousada e aparentemente sincera.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, a esquerda, engessada em sua defesa mansa de uma institucionalidade decrépita, é percebida como velha, antiquada e hipócrita.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160170" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959-228x300.jpg" alt="" width="328" height="432" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959-228x300.jpg 228w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959-319x420.jpg 319w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959.jpg 361w" sizes="auto, (max-width: 328px) 100vw, 328px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Ela defende um horizonte social sem definir claramente o que almeja e insiste em lutar pelos arranjos de uma ordem que já faliu — querendo administrá-la com um pouco mais de traquejo retórico, aparentando querer assumir apenas um álibi de superioridade moral.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto às elites econômicas nacionais, todo o projeto da extrema direita representa, com novas roupagens de velhos projetos, os compromissos com aquela elite econômica que Florestan Fernandes, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Caio Prado Jr., cada um a seu modo, já haviam identificado: uma elite interessada na preservação de seus próprios privilégios, incapaz de converter desenvolvimento econômico e industrialização em um projeto autônomo de nação, e historicamente disposta a associar seus interesses aos do capital externo em vez de confrontar a posição dependente do país na ordem internacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não é novidade e sempre contou com o apoio das mídias tradicionais, que, em grande medida, trabalharam em favor desses interesses.</p>
<p style="text-align: justify;">O que é novo é assumirem tão escancaradamente que entregavam tudo do Brasil, resignando-se mansamente a que uma família assuma tal projeto sem qualquer constrangimento, permitindo que se perca o mínimo que esse povo levou com tanto sangue, suor e lágrimas para ser conquistado por séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto nos preocupávamos em denunciar a hipocrisia e as associações autoritárias do lema “Deus, pátria, família e liberdade”, apontando a contradição entre a defesa da liberdade, hipocrisia moral e o autoritarismo, talvez tenhamos subestimado sua contradição mais profunda: a pátria. O suposto patriotismo dessa extrema direita é um “patriotismo” que despreza o próprio povo, não reconhece suas conquistas históricas, desvaloriza sua cultura e desacredita sua capacidade de construir o próprio futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">É o patriotismo de uma elite que não se reconhece na beleza e esforço de seu povo, sonhando viver em Miami.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse aspecto, nossa extrema direita consegue ser ainda pior que suas congêneres estrangeiras: além de autoritária e excludente, é entreguista e profundamente antipatriótica. Sequer apresenta um projeto de desenvolvimento nacional. Sua pátria é uma abstração ideológica; o Brasil real e seu povo são obstáculos a serem superados.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, a derrota nas eleições legislativas e na disputa pelo Executivo, já no primeiro turno, pode se revelar o maior revés da nossa história. Vamos ser realistas, sabendo dimensioná-la agora para poder enfrentá-la com as armas certas. Não devemos nos iludir minimamente: foi nada menos que catastrófica.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa vez, a extrema direita não terá qualquer receio de destruir os ganhos sociais, econômicos e civilizatórios do país. Temer, ainda com a cínica retórica de quem sempre representou, já produziu estragos catastróficos nos direitos sociais, na Petrobras e na indústria da construção civil, sob o impulso do lavajatismo. Jair tentou ir muito além, promovendo não apenas a corrosão de direitos e da nossa infraestrutura econômica e social, mas também a degradação moral da própria sociedade brasileira, simbolizada pela tragédia da pandemia e pelas imagens de fome e adoecimento dos povos Yanomami. Se Bolsonaro pai não avançou ainda mais, foi apenas por sua própria inaptidão, preguiça ou incompetência.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas agora não há qualquer razão para supor que esta jovem e motivada extrema direita que chega ao poder terá a mesma timidez ou encontrará os mesmos limites institucionais.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160173" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-300x234.jpg" alt="" width="500" height="390" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-300x234.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-538x420.jpg 538w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-640x499.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-681x531.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-511x400.jpg 511w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge.jpg 750w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Há tempos, assumiram claramente sua face, declarando sua guerra. As mangas já estão arregaçadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles tentarão destruir e colocar sob seu controle, sem qualquer constrangimento, o STF; corroer a Polícia Federal; aparelhar joias nacionais como o IBGE; desidratar ainda mais as agências reguladoras, submetendo-as aos interesses financeiros; dinamitar os direitos conquistados pelas mulheres ao longo de décadas aprovando projetos que atentem contra os direitos de meninas vítimas de estupro; e perseguir, sem qualquer verniz, toda a elite intelectual representada pelas universidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem qualquer política ambiental, de apoio aos indígenas ou de proteção às populações mais vulneráveis, será uma destruição total.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles não serão covardes como em 2022. Aprenderam muito bem as lições. Não subestimemos sua inteligência nem sua habilidade. Não subestimemos quem, ao vivo, no Jornal Nacional, sabe explorar o peso de anunciar quem será seu ministro.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles sabem para quem trabalham e, com o apoio — e a chantagem — de quem quer nos recolonizar, não hesitarão em passar a boiada sobre o nosso povo.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, devemos deixar de temer a realidade e compreender, de uma vez por todas, que, historicamente, o limite da extrema-direita foram os tanques soviéticos em Berlim. Não há razão para esperar bom senso de quem leva seu projeto autoritário às últimas consequências.</p>
<p style="text-align: justify;">A diferença é que, agora, essa extrema direita pretende destruir até mesmo os compromissos sociais que o capitalismo foi obrigado a aceitar no pós-guerra graças à concorrência ideológica do estado soviético. Mas agora, já não há espaço ou barreira, em seu projeto, sequer para a social-democracia, um mínimo Estado de bem-estar social ou para políticas keynesianas. Eles não mais admitem conceder nada. Sua hipocrisia acabou; suas intenções estão escancaradas.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta de classes, como luta entre dois lados, nunca foi pretendida dentro da institucionalidade petista. Ela nunca existiu. E, até então, era compreensível.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160175" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-300x219.jpg" alt="" width="400" height="293" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-300x219.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-574x420.jpg 574w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas já há muito tempo tal luta só é uma guerra verdadeiramente organizada e ininterrupta vinda de um só lado. O lado de cima.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós nunca soubemos explicitá-la, e agora é nossa culpa se não o fizermos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois, para que exista uma luta, é preciso que haja quem resista. Senão, é apenas um massacre.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, para além disso, como pode haver uma guerra pelos fatos?</p>
<p style="text-align: justify;">Pois a tudo isso se soma a pós-verdade, que é muito mais sutil do que a simples mentira. É a decadência completa da relevância da verdade factual. O mundo informacional foi segmentado, sobretudo pelos algoritmos, em realidades que quase não precisam mais se encontrar. Parte da população simplesmente não toma conhecimento de determinados fatos da forma como eles realmente se apresentam — algo que, de outra maneira, já ocorria sob a mídia tradicional.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas agora há algo além: mesmo quando o fato chega, ele pode chegar recortado, deslocado de contexto, reinterpretado ou inteiramente reorganizado dentro de uma narrativa que lhe dá outro sentido. Já não é necessário esconder um fato para neutralizá-lo. Basta mudar a perspectiva a partir da qual ele mais facilmente fará sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">E disso não pode se subtrair uma sociedade cada vez mais conservadora, na qual parcelas significativas da população passaram a se mobilizar muito mais intensamente por pautas morais e de costumes do que pela conquista de ganhos materiais concretos para suas próprias vidas. Isso não aconteceu espontaneamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Para eles, basta uma guerra moral.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi resultado também de uma longa disputa pela formação do senso comum, pela linguagem e pelos valores através dos quais a realidade passa a ser interpretada.</p>
<p style="text-align: justify;">O diagnóstico que devemos inferir é: hoje nós discutimos uma gramática que não é nossa. Um tipo de linguagem que não mais tem apelo. Um tipo de luta já perdida, combatida no campo de batalha dos inimigos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas será que devemos continuar tentando disputar o discurso da extrema direita em seus próprios termos, ajustando o nosso ao deles? Ou devemos pautar, sem meias palavras nem pudor, de forma atualizada e sem anacronismos, a nossa própria gramática, o nosso discurso?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160179" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-300x229.jpg" alt="" width="400" height="305" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-551x420.jpg 551w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959.jpg 630w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Há nisso uma ironia histórica: a extrema direita, sob influência olavista de quem caçoávamos com presunção, parece ter compreendido muito bem uma lição gramsciana que parte da esquerda teve medo de colocar em prática por fleuma — o poder não se disputa apenas nas eleições ou dentro do Estado; disputa-se quando se revela sua soberania também na cultura, nas instituições, no humanismo do que é sagrado e religioso, na profundidade politizadora da mídia e na própria produção cotidiana do senso comum.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós não o fazemos por espírito democrático; eles agora o fazem declaradamente como libertadores “sagrados” do capital que se torna, ao modo de Benjamin, cada vez mais sagrado.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem nunca se assustou, por exemplo, ao descobrir que um prestador de serviço comum se informa a partir de documentários como os do Brasil Paralelo, que lhe revelariam a verdade secreta de um Brasil dominado pela esquerda? Ou com o fato de soar cada vez mais comum, sobretudo entre os mais jovens, dizer que o nazismo é de esquerda? Será que não percebemos o quanto isso ajuda a produzir uma sociedade progressivamente cega e alheia à própria relevância factual? Será que continuaremos debochando da ignorância alheia, ignorando que isso se torna cada vez mais um fato?</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a extrema direita travava essa guerra sem pudor, parte da esquerda recuava até mesmo diante da possibilidade de realizar, em sentido verdadeiramente emancipador, aquilo que o tão atacado e incompreendido Paulo Freire propunha: formar sujeitos capazes de compreender criticamente o mundo em que vivem. Para além do <a class="wikilink2" title="prouni" href="https://wiki.passapalavra.info/doku.php?id=prouni" rel="nofollow" data-wiki-id="prouni">ProUni</a>, do Pé-de-Meia e das políticas de cotas, iniciativas legítimas e importantes para a inclusão social, o PT termina seus governos sem deixar ao país um legado de formação crítica e emancipadora à altura de um partido que se diz de esquerda. Sem propor um projeto nacional de educação de base verdadeiramente transformador, capaz de elevar o patamar educacional brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado está diante de nós: uma sociedade em que parcelas da população podem se mobilizar apaixonadamente por uma guerra cultural mesmo quando dela não resulta qualquer melhoria concreta em sua renda, seu trabalho, sua segurança ou sua qualidade de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">E é por isso que a experiência da pandemia funcionou como marco estruturante desse processo. Pode parecer contraintuitivo que governos de extrema direita tenham embarcado no negacionismo sanitário, mas tal retórica legitimou profundamente um ideal de feroz liberdade individualista, capaz de romper com qualquer concepção de liberdade fundamentada em um corpo social coletivo. A mensagem deixada foi clara: absolutamente nada poderia impedir a economia de continuar funcionando, mesmo que isso significasse que o próprio indivíduo ou os outros ao seu redor morressem.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi a consagração da ideia de que essa liberdade não carrega mais nenhuma obrigação coletiva, apenas direitos absolutos sobre si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">É o caráter fatalista e predatório do capitalismo levado às últimas consequências, em uma lógica que remete ao realismo capitalista analisado por Mark Fisher.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi o golpe final contra qualquer ideia de corpo social. O erro do nosso discurso? Tratar o temor pela própria sobrevivência econômica dos cidadãos comuns como expressão dos interesses mesquinhos do empresário “malvado”, ignorando que todos, dos mais pobres à classe média, sofriam com os efeitos da paralisação econômica.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160181 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968.jpg" alt="" width="395" height="570" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968.jpg 395w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968-208x300.jpg 208w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968-291x420.jpg 291w" sizes="auto, (max-width: 395px) 100vw, 395px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A retórica conta. E ela perde votos.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, devemos compreender que a pandemia e o negacionismo das vacinas não representaram apenas um crime contra a população, mas também um profundo ataque ao espírito crítico do corpo social, cujo alcance simbólico muitos ainda ignoram.</p>
<p style="text-align: justify;">E tamanha perda jamais será recuperada apenas pela apresentação racional dos fatos. O que se atacou durante a pandemia foi a legitimidade da ciência, da razão e do bom senso, em prol de um discurso messiânico e altamente individualista que beirou o darwinismo social. A Dialética do Esclarecimento não nos ensinou que a própria racionalidade tem suas contradições? Nosso erro não pode ser achar que basta demonstrar os fatos para que a verdade se imponha. A razão não vence simplesmente porque dispõe dos fatos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois o que há de mais explícito nos fascismos — e que torna toda essa conjuntura tão próxima do neofascismo, do qual a extrema direita sabe se utilizar tão bem — não é apenas a linguagem ou qualquer outra característica forçosamente comparada com aquilo que se viu na Europa. É também a construção permanente de conflitos internos, de inimigos e de uma sensação de perigo iminente, crise contínua e decadência moral. Nada disso precisa ser materialmente experimentado por cada indivíduo para produzir efeitos políticos. As pessoas não precisam presenciar a ameaça em suas próprias vidas; basta que sejam mantidas sob a sensação permanente de que ela está em toda parte e pode alcançá-las a qualquer momento. E isso eles sabem fazer muito bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Se dormimos em 2026 e acordamos, no dia 4 de outubro, em 64, apenas um enfrentamento claro e incansável, a partir de agora e pelos próximos anos, poderá impedir que, no dia 25, despertemos novamente em 22 de abril de 1500, retrocedendo mais de cinco séculos em nossa história.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é nada fácil, mas, para lutarmos para além da retórica falida e insossa, devemos saber o que combatemos e como.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160183 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17fbeff1-6631-4864-89ed-e2c29b65c2e1.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Al Held (1928-2005).</em><span class="info-icon-circle-wrapper">  </span></p>
</div>
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		<title>A emenda ficou pior que o soneto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Oct 2026 11:14:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[Dilemas e perspectivas para o segundo turno de 2026. Por vidaventovela]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por vidaventovela</h3>
<p style="text-align: justify;">10 de outubro de 2026</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O mesmo dilema, oito anos depois</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Estamos a poucos dias do segundo turno das eleições de 2026, entre Lula e Flávio Bolsonaro. Flávio está na frente. O campo bolsonarista tem maioria no Congresso.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós vivemos de novo o dilema de oito anos atrás. Naquela época, a esquerda afirmou que, se Bolsonaro ganhasse, o terror tomaria conta de tudo e toda perspectiva de ganho social seria perdida. Depois, mobilizou-se pela prisão de Bolsonaro, com uma postura que lembra o populismo penal que as gestões petistas praticam nos governos estaduais.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato é que, mesmo com Bolsonaro preso e apenas o filho como porta-voz, o Flávio venceu o primeiro turno e chega ao segundo com vantagem. A pergunta, então, é uma só: qual é a visão estratégica que devemos ter para este momento?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160131" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro.jpg" alt="" width="362" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro.jpg 362w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro-217x300.jpg 217w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro-304x420.jpg 304w" sizes="auto, (max-width: 362px) 100vw, 362px" />Um saldo negativo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O saldo das organizações e dos movimentos sociais que se mobilizaram para fins eleitorais é, em geral, negativo. O melhor exemplo é a última eleição presidencial: foi seguida essa mesma lógica e hoje o povo está ainda mais à direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Se for repetida a fórmula, daqui a quatro anos a tendência é piorar ainda mais. Já vivemos um período difícil no país. Os movimentos sociais perderam credibilidade, assim como a maioria das instituições sindicais e associativas da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo não corresponde aos anseios das pessoas frente a seus problemas. O voto no Flávio Bolsonaro, muitas vezes, é mais um voto contra o governo.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nem mais nem menos ingênuos</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">É preciso ter claro: os milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro não são nem mais nem menos ingênuos que os que votaram em Lula. São, em sua maioria, trabalhadores muito explorados. Estão buscando construir uma interpretação da realidade, muitas vezes movidos por uma indignação que nasce da sua própria condição de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Do outro lado, quem vota no candidato do PT não está, necessariamente, despertando uma consciência de classe. Muitas vezes esse voto também está ligado a visões ingênuas ou simplistas da realidade, por mais que agradem ao gosto da esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, a questão não é louvar quem aposta no governo Lula, com voto crítico ou não, e demonizar quem vota em Bolsonaro. A questão é: os movimentos vão às ruas disputar a consciência do povo? E de que forma?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160134" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5.webp" alt="" width="940" height="1249" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5.webp 940w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-226x300.webp 226w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-771x1024.webp 771w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-768x1020.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-316x420.webp 316w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-640x850.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-681x905.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px" />O limite da campanha do medo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A campanha não diz “o governo Lula tem vários problemas, mas o projeto de Bolsonaro é pior”. Diz “Lula, Lula, Lula, é 13, para sonhar de novo, para ser feliz”. E completa: se for o Flávio, vai acabar o bolsa família, as universidades, vai acabar tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que vimos? Houve desmontes, sim, só que nem sempre generalizados como foi alarmado. Que conquistas são essas que se desmancham logo nos primeiros meses do governo Bolsonaro. São como casas sem fundamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, o melhor movimento estratégico não é tentar virar o voto de quem não votou em Lula. No curto prazo pode render um benefício momentâneo. No médio prazo, traz enormes contradições: a massa convencida agora tende, como nos últimos anos, a se decepcionar, se frustrar e migrar para os candidatos da direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Também é preciso dizer: esse clima de terror e alarmismo tem, muitas vezes, influência de quem ocupa cargos no governo federal e nos partidos. Gente que teme perder o posto e ter que procurar outro emprego ou se pendurar em outro governo.</p>
<p style="text-align: justify;">E quando a base, passada a eleição, começar a ver as capitulações, a corrupção e a miséria que continua, ficará mais indignada ainda com o processo eleitoral. Mesmo que houvesse intenção de mudar, o Estado não tem capacidade de responder. Parte dessa base irá para a abstenção; outra parte, para a direita. Não à toa a abstenção é alta, mesmo enquanto deputados mantêm verdadeiros currais no interior, levando gente para votar como gado em troca de cargos e contratos temporários nas prefeituras.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160135" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images.jpg" alt="" width="397" height="503" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images.jpg 397w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images-237x300.jpg 237w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images-331x420.jpg 331w" sizes="auto, (max-width: 397px) 100vw, 397px" />A luta não é entre esquerda e direita</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Não é a disputa entre esquerda e direita que rege a história. É a luta de classes. A democracia representativa está em frangalhos e já não dá conta das necessidades do povo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se gastarmos nossa energia tentando convencer, pelo mal menor, o trabalhador que votou em Bolsonaro, o resultado será pequeno. E quem for convencido tem grande chance de voltar para a direita daqui a quatro anos. Essa dinâmica já se esgotou.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós, lutadores do povo, não podemos ser os funcionários mal pagos de partido, que irão arcar com a ressaca pós-eleição enquanto outros estão em seus cargos. Precisamos construir uma alternativa a partir da organização de base, que não caia no mesmo ciclo da redemocratização da década de 1980, quando grande grande parte do acúmulo dos movimentos sociais foi absorvida pela institucionalidade para disputar o Estado. Basta disso.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que barra um golpe</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Um dos argumentos para deixar de lado qualquer questão para a campanha de Lula é a ameaça de um golpe de Estado e intervenção estrangeira. Mas a história mostra que o golpe pode vir com a direita no poder ou com a esquerda eleita. Na Espanha, em fevereiro de 1936, a Frente Popular venceu as eleições. Em julho, os militares deram o golpe mesmo assim. O mesmo se repetiu em outros momentos da história.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Espanha, o que impediu o golpe militar foi os trabalhadores, em sua maioria envolvidos pelo anarquismo e sindicalismo revolucionário, que fez frente aos ataques dos poderosos com greves, barricadas e confrontos nas ruas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o que pode barrar um golpe, ou resistir a ele, é justamente o que ainda temos de mais fraco: a organização de base. É nela que precisamos focar para sair de um ciclo que só tende a piorar. Daqui a quatro anos, se nada mudar, será muito pior.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160133" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU.avif" alt="" width="1200" height="1597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU.avif 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-225x300.avif 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-769x1024.avif 769w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-768x1022.avif 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-1154x1536.avif 1154w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-316x420.avif 316w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-640x852.avif 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-681x906.avif 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Organize-se</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Lula ou Flávio eleitos, a perspectiva para o futuro é de mais arrocho salarial, precarização das condições de vida e perda de direitos. Desse modo, seja o trabalhador que votou em Lula, o que votou em Bolsonaro, o que votou em outro candidato ou o que se absteve: nosso papel é construir a organização de base. Organização de classe, no local de trabalho e no local de moradia, fortalecendo as lutas e a solidariedade nas comunidades, independente do voto de cada um. Esse é o nosso grande desafio.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito mais do que dizer “vote” ou “não vote”, temos que dizer: organize-se.</p>
<ul>
<li class="li">Participe da assembleia na sua comunidade e no seu local de trabalho.</li>
<li class="li">Apoie as greves e as paralisações.</li>
<li class="li">Apoie as ocupações de terra e a construção de hortas.</li>
<li class="li">Construa grupos de autodefesa das mulheres nas favelas, nas comunidades rurais e nos territórios indígenas, em todos os cantos.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">É assim que vamos criar o futuro, sem cair no imediatismo nem no alarmismo que querem nos impor.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>MAIS DO QUE VOTAR OU NÃO VOTAR, É PRECISO SE ORGANIZAR.</strong></p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de Ismael Nery.</em></p>
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		<title>Professores do ensino fundamental debatem o 1º turno</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Oct 2026 19:10:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Um grupo de professores do ensino fundamental debate o resultado do 1º turno das eleições brasileiras de 2026, em que Flávio Bolsonaro venceu Lula. Por Professores do Primário]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 id="professores_do_ensino_fundamental_debatem_o_1_turno" class="sectionedit11" style="text-align: justify;"><strong>Por Professores do Primário</strong></h3>
<p id="professores_do_ensino_fundamental_debatem_o_1_turno" class="sectionedit11" style="text-align: justify;"><em>Um grupo de professores do ensino fundamental debate o resultado do 1º turno das eleições brasileiras de 2026, em que Flávio Bolsonaro venceu Lula.</em></p>
<div class="level3" style="text-align: justify;">
<p><strong>Lauretta: </strong>Bom dia, companheiros! Força que o novo sempre vem!</p>
<p><strong>Panfilo: </strong>Só tendo fé na geração futura mesmo, porque a dos nossos pais e a nossa falhou miseravelmente.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Educai a nova geração. A missão de vocês está árdua. Não estou muito otimista. Mesmo querendo ser! Acredito que a nossa geração nem vai a chegar ver um novo ciclo. Está só começando…</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160098" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-300x225.jpg" alt="" width="400" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p><strong>Filostrato:</strong> Como diz o Panfilo, falhamos miseravelmente! Não conseguimos nem mesmo convencer aqueles que sofrem as mazelas junto conosco.</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Sim. Mas nós lutamos tanto! Eu não consigo compreender a forma como tem que falar com essa galera.</p>
<p><strong>Dioneo: </strong>Será que é <em>falar</em>? Nem estou sabendo o que <em>pensar</em> e dizer…</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Eu percebi que nossos alunos que se manifestaram contra a direita… É principalmente a galera que entrou nas universidades federais. Inclusive serão muito afetados pela entrada do Flávio.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160099" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-223x300.jpg" alt="" width="323" height="435" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-223x300.jpg 223w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-312x420.jpg 312w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge.jpg 446w" sizes="auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px" /></p>
<p><strong>Filostrato: </strong>Precisamos reordenar os sindicatos. Eles se tornaram base de política institucional eleitoreira, e o pior de tudo, uma política fascista e individualista. Vejo os embates no nosso sindicato, puro interesse eleitoral. Elegemos agora mesmo, um presidente no sindicato para derrubar os sanguessugas de lá, o que ele faz? Vai apoiar a direita na eleição.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Fato! O <em>modus operandi</em> da esquerda tem falhado há muito tempo. É difícil resumir… Mas também é um reflexo da geopolítica mundial. A tendência ultra conversadora. O individualismo…</p>
<p><strong>Filostrato: </strong>Sim, a luta contra a mídia foi feroz.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>A lógica neoliberal vai engolindo tudo que passar pela frente. Vejo que o indivíduo está se reorganizando politicamente para também enfrentar esses desafios. De uma forma equivocada, mas sim… Muito mais subjetivo. Nem o próprio indivíduo se reconhece nesse processo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160100" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-227x300.jpg" alt="" width="327" height="433" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-317x420.jpg 317w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge.jpg 453w" sizes="auto, (max-width: 327px) 100vw, 327px" /><br />
<strong>Panfilo: </strong>Eu acho que uma primeira observação é que não existe mais <em>uma</em> classe trabalhadora. A fragmentação do mercado de trabalho criou uma situação em que temos trabalhadores numa situação mais precarizada e outros numa situação menos precarizada. Ou seja, como criar uma consciência de classe, se a própria economia criou posições distintas? Todos são trabalhadores e são explorados, mas há distinções internas que impossibilitam uma identificação como parte de um todo coeso. Nesse cenário, o corporativismo domina. Uma coisa que poderia contornar essa fragmentação é a esquerda voltar a ser militante no sentido de ações de solidariedade, principalmente nas periferias. Quem faz solidariedade na periferia são ONGs e Igrejas, simples assim. A esquerda partidária e sindical não está nem aí. Não é à toa que o trabalhador da periferia não se identifica com a esquerda. Pelo contrário, ele vê uma esquerda que tem uma vida melhor, porque são pessoas que têm diploma universitário, fazendo discurso em prol da igualdade, mas não vê ações reais, então entende isso como hipocrisia e enxerga a esquerda como parte do <em>establishment</em>. O bolsonarismo nadou de braçada aí.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>Tem uma questão de falha de comunicação. Nós falamos uma língua, a classe trabalhadora fala outra, porque o dicionário da classe trabalhadora está vindo do discurso religioso, da meritocracia, do empreendedorismo, então não temos como dialogar. Vir falar de Karl Marx e mais-valia para quem está pensando em abrir um negócio ou trabalhar em aplicativo e, com a bênção de Deus, virar empreendedor, é chover no molhado.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Concordo plenamente!! Estou cansada de ver pesquisadores frequentando a região rural de onde eu vim até para dizer “como se planta mandioca”, mas bem distantes dessa realidade. Com toda a modernização, informatização… discursos “intelectuais” não estão colando mais.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>Outra coisa é que esquerda gosta de polemizar questões identitárias que para a maior parte dos trabalhadores não fazem sentido algum. Linguagem neutra de gênero é visto pela maior parte da classe trabalhadora como uma maluquice sem sentido.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160101" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977-300x149.jpg" alt="" width="400" height="199" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977-300x149.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977.jpg 570w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p><strong>Filomena: </strong>Quando estava no mestrado, falava muito sobre isso com meus professores. Gente!! Vocês estão muito distantes de nós! Um ativismo na produção intelectual muito grande. Longe da prática!</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Enquanto a gente desmerece <em>influencers</em> e comunicadores de Tiktok, é lá que eles estão nadando de braçada. Parece que vamos ter que emburrecer para nos comunicar.</p>
<p><strong>Panfilo: </strong>Eu acho que a questão não é emburrecer. Atos valem mais que palavras. O capitalismo tem um princípio fundamental que é o do individualismo/competição. Nós temos que nos contrapor a isso propondo ações coletivas/solidariedade. As pessoas irão perceber que a esquerda está propondo coisas do interesse delas quando elas perceberem que são parte de uma ação coletiva baseada na solidariedade.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Acredito demais na força do coletivo! As poucas ações que ainda consigo fazer são as ligadas à Igreja, e com muito sacrifício. Convenhamos, aqui entre nós, na nossa realidade de tanto trabalho, quem está conseguindo alcançar a comunidade? Nós também estamos imersos nesse capitalismo cruel. Muito trabalho! E quando pensamos em querer trabalhar menos, damos conta da realidade e as contas não fecham. Nós estamos vivendo na lei da sobrevivência. Sinceramente, não sei como as pessoas que ganham um salário mínimo estão sobrevivendo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160097 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro.jpg" alt="" width="247" height="510" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro.jpg 247w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro-145x300.jpg 145w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro-203x420.jpg 203w" sizes="auto, (max-width: 247px) 100vw, 247px" /></p>
<p><strong>Lauretta: </strong>O Flávio no seu discurso de ontem me impactou. “Acabou a era do PT”. Parece ser isso. A esquerda vai ter que se reconfigurar. Renovar o discurso.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Além de tudo já discutido. Tem um fator crucial que é a religiosidade do nosso país. O Brasil é um país cristão. O partido que sabe usar o discurso em “favor dos cristãos” conquista o eleitor. Pode estar tudo ruim, mas se você disser que Deus proverá tudo. Pronto! A esquerda radical tem atacado muito os cristãos. Não é um discurso que a população brasileira aceita bem.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>A pauta antirracista, ideologias de gênero, direitos iguais… por aí vai! Sobressaiu demais nos últimos anos. O povo quer é pagar as contas e comer bem.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>A esquerda sempre esteve muito distante. Quando estava cursando o mestrado. Ficava pensando “Meu Deus, quem são os alienados da história?” Esse povo está muito fora da casinha.“ É muito distante da realidade brasileira. Tem que reconfigurar o discurso e a prática.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160107 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/33316c4d-8d18-4da5-80c4-871da215da3b-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As imagens que ilustram este artigo são reproduções de obras de</em> Tōkō Shinoda (1913-2021).</p>
</div>
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		<title>A urna e a luta de classes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Oct 2026 11:31:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[Em que condições a classe trabalhadora pode voltar a se organizar como classe? Por Gabriel Teles]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Gabriel Teles</h3>
<blockquote><p>Este texto surgiu originalmente como uma sequência de postagens em uma rede social. A sugestão de alguns integrantes do Passa Palavra de transformar aquelas notas em um texto deu origem à versão que segue. Preferi preservar parte da forma original, inclusive seu caráter fragmentário, em vez de reconstruir retrospectivamente o argumento como se tivesse nascido como um ensaio.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">O crescimento eleitoral da extrema direita tornou visível um processo político que vinha sendo construído havia anos. Sua expansão não começou durante a campanha. Erros de comunicação, desempenho de candidatos e circulação de vídeos nas redes podem explicar movimentos conjunturais; não explicam um processo construído ao longo de anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela foi construída durante anos, enquanto parte da esquerda se acostumava a identificar política com disputa eleitoral, administração de governos e circulação institucional. A cada eleição, mobilizam-se militantes, reorganizam-se alianças, aperfeiçoam-se estratégias de comunicação e procuram-se os segmentos do eleitorado que precisam ser conquistados. Quando as urnas fecham, grande parte dessa mobilização também termina.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema dessa temporalidade é simples: aquilo que aparece eleitoralmente em um domingo foi produzido socialmente durante anos. A urna apenas apresentou a conta.</p>
<h4 style="text-align: justify;"></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A classe trabalhadora não deixou de ser politizada</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Uma das explicações recorrentes para esse processo é a “despolitização”. A classe trabalhadora teria perdido interesse pela política, abandonado antigas referências coletivas e se tornado disponível para discursos simplistas e autoritários.</p>
<p style="text-align: justify;">“Despolitização”, porém, é uma palavra confortável porque transforma uma mudança nas formas e nos agentes da politização em ausência de política.</p>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores continuaram sendo politizados todos os dias. Essa politização continuou ocorrendo nos locais de trabalho e nas igrejas, atravessando relações familiares e redes sociais, sob a influência de empresários, organizações políticas e outros agentes. A questão relevante é que essa politização passou a ocorrer cada vez menos através de organizações constituídas pelos próprios trabalhadores em torno de seus conflitos e interesses.</p>
<p style="text-align: justify;">O chamado “vazio” nunca esteve realmente vazio. Enquanto determinadas formas de organização de classe recuavam, outras instituições, relações e agentes continuavam produzindo interpretações sobre trabalho, família, violência, mérito, Estado, autoridade e desigualdade. Por isso, talvez seja mais preciso falar em transformação das formas de politização do que simplesmente em despolitização.</p>
<h4 style="text-align: justify;"></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quando a política se torna gestão</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Esse processo possui uma história. Durante décadas, parte considerável da esquerda deslocou progressivamente o centro de sua atividade para o interior das instituições. Eleições, mandatos parlamentares, governos, ministérios e a gestão de políticas públicas passaram a absorver uma parcela crescente de suas energias, quadros e expectativas.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema não está simplesmente em ocupar essas instituições. A questão decisiva é com que grau de autonomia as organizações de classe conseguem relacionar-se com governos, partidos, parlamentos e aparelhos burocráticos, inclusive quando estes são dirigidos por forças consideradas aliadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando essa autonomia se enfraquece, ocorre uma inversão importante: são as necessidades de conservação das posições institucionais que começam a estabelecer os limites da mobilização social. A temporalidade eleitoral passa a ordenar prioridades, alianças e conflitos; reivindicações são filtradas segundo as possibilidades da gestão; mobilizações podem ser contidas para não desgastar governos aliados. Aquilo que deveria constituir uma mediação passa a organizar o horizonte da própria política.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda um problema anterior. A representação introduz uma separação entre aqueles que lutam e aqueles que passam a falar, negociar e decidir em seu nome. Quanto mais essa separação se estabiliza, mais a atividade autônoma dos trabalhadores tende a aparecer como algo que deve ser traduzido, administrado ou contido por organizações especializadas. A burocratização, nesse sentido, não decorre apenas de um afastamento posterior das organizações em relação aos trabalhadores; encontra condições para se desenvolver na própria separação entre representantes e representados.</p>
<p style="text-align: justify;">A consequência não é simplesmente uma esquerda “afastada do povo”. O processo é mais profundo: organizações que deveriam constituir fontes relativamente autônomas de poder social tornam-se dependentes dos ritmos, recursos e limites das instituições burocráticas às quais se vinculam. A capacidade de agir independentemente delas diminui justamente quando essa independência se torna necessária, seja para pressionar um governo aliado, seja para resistir a um governo adversário.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse sentido que a autonomia importa. Ela pressupõe a capacidade de manter organizações, conflitos e decisões cuja existência não dependa do calendário eleitoral, dos cargos disponíveis ou das necessidades administrativas de um governo. Isso não implica uma idealização de uma exterioridade pura em relação ao Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma força social organizada pode utilizar posições institucionais sem se reduzir a elas. Quando a relação se inverte, ministérios, gabinetes e eleições deixam de ser terrenos particulares de uma luta mais ampla e passam a definir seus limites. A política profissionaliza-se precisamente quando a capacidade autônoma de organização da classe perde densidade.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160022" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3-240x300.jpeg" alt="" width="560" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3-240x300.jpeg 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3-336x420.jpeg 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3.jpeg 432w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Enquanto isso, a vida material piorou</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação política ocorreu enquanto as condições materiais de parcelas extensas da classe trabalhadora também se modificavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Precarização, terceirização, endividamento, jornadas extensas, insegurança econômica, deterioração de serviços públicos e novas formas de controle sobre o trabalho passaram a organizar uma parte crescente da experiência cotidiana.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas condições não possuem consequências políticas automáticas. Quem está endividado não encontra dentro do boleto uma explicação para o sistema de crédito. Quem passa horas no transporte não recebe junto com a passagem uma interpretação da organização capitalista das cidades. Quem trabalha sob metas cada vez mais intensas não deduz espontaneamente das metas as determinações da exploração.</p>
<p style="text-align: justify;">As pessoas vivem imediatamente as consequências das relações sociais. Suas determinações são muito menos imediatamente visíveis. É nessa distância entre experiência e explicação que a disputa política encontra um de seus terrenos.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Organizar ressentimentos reais</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A extrema direita demonstrou capacidade para atuar nesse terreno. Ela não precisa inventar o desemprego, a dívida, a insegurança, a deterioração dos serviços ou a sensação de que a vida se tornou mais difícil. Essas experiências possuem bases materiais bastante concretas. O que ela oferece são explicações para sofrimentos verdadeiros.</p>
<p style="text-align: justify;">
O responsável pode ser o imigrante, o comunista, a mulher, o professor, o STF, os impostos, uma suposta “ideologia” ou qualquer outro personagem capaz de condensar contradições cujas determinações efetivas são muito mais difíceis de identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">O inimigo pode mudar. O mecanismo permanece semelhante: experiências inicialmente dispersas recebem uma explicação comum e passam a ser organizadas politicamente.</p>
<p style="text-align: justify;">
É nesse sentido que a extrema direita consegue organizar ressentimentos reais. O ressentimento não precisa ser fabricado artificialmente. Ele pode nascer de experiências concretas de deterioração da vida e ser reorganizado contra agentes que pouco ou nada têm a ver com suas causas. O ressentimento, evidentemente, não explica sozinho a expansão da extrema direita. Interesses materiais, valores, formas de sociabilidade e adesões conscientes a determinados projetos políticos também estão em jogo. Aqui, interessa tratá-lo como uma das matérias que podem ser politicamente organizadas, e não como chave geral do fenômeno.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>“O povo ficou fascista”</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, surge uma explicação ainda mais confortável: “o povo ficou fascista”. A formulação possui uma vantagem para quem a utiliza. Se o problema fundamental está numa deficiência moral ou intelectual da população, pouco resta a explicar. Basta denunciar a ignorância, o ressentimento ou a manipulação daqueles que votaram de determinada maneira.</p>
<p style="text-align: justify;">A responsabilidade pelo fenômeno retorna aos próprios indivíduos que precisam ser explicados. Isso não exige negar a existência de racismo, misoginia, autoritarismo, ou adesões efetivas a projetos de extrema direita entre trabalhadores. Também não há qualquer razão para supor que posições de classe produzam espontaneamente posições políticas radicalizadas.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão começa justamente aí: como determinadas experiências sociais são transformadas em determinadas identificações políticas?</p>
<p style="text-align: justify;">Chamar milhões de pessoas de fascistas pode expressar indignação diante de posições efetivamente autoritárias. Como explicação, entretanto, deixa intacto o problema que deveria explicar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma classe fragmentada não se constitui espontaneamente como classe</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Uma classe fragmentada no trabalho, desorganizada politicamente e submetida diariamente às formas dominantes de interpretação da sociedade não desenvolverá espontaneamente uma consciência correspondente aos seus interesses coletivos.</p>
<p style="text-align: justify;">A exploração não ensina automaticamente quem explora. A precarização tampouco produz necessariamente radicalização.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela pode produzir o contrário: medo de perder o emprego, competição entre trabalhadores, rotatividade, isolamento e redução do tempo disponível para construir relações coletivas. Pessoas submetidas a condições semelhantes podem viver essas condições durante anos sem constituí-las como experiência política comum.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma contradição particularmente importante no capitalismo contemporâneo. Empresas conseguem coordenar milhares de trabalhadores por sistemas digitais, metas, aplicativos e algoritmos. O processo produtivo pode adquirir níveis extraordinários de integração enquanto aqueles que o realizam permanecem fragmentados política e organizativamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ser reunido pelo capital no processo de trabalho e constituir-se politicamente como classe são processos distintos. A organização, portanto, não consiste simplesmente em reunir politicamente uma classe que já estaria pronta à espera de sua representação. É na própria experiência do conflito, na criação de solidariedades e na elaboração comum dos antagonismos que trabalhadores dispersos podem constituir-se como força coletiva. A classe não precisa apenas encontrar uma organização que a represente; precisa produzir formas de organização através das quais possa agir por si mesma.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A pergunta menos interessante</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Depois de uma derrota eleitoral, quase toda discussão tende a convergir para uma pergunta: como derrotar a extrema direita na próxima eleição?</p>
<p style="text-align: justify;">É uma pergunta necessária para partidos que disputam eleições. É muito menos suficiente como problema estratégico e para aqueles que pensam numa transformação radical da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Se todo o diagnóstico termina perguntando como produzir outro resultado eleitoral, continuamos examinando o fenômeno exatamente no terreno em que ele apareceu, e não naquele em que foi produzido.</p>
<p style="text-align: justify;">Evidentemente, campanhas, alianças e governos interferem nos resultados e nas próprias condições em que os trabalhadores se organizam. Isso não elimina uma diferença fundamental entre conquistar votos e constituir força social.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada disso elimina uma diferença fundamental entre conquistar votos e constituir força social.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma eleição pode ser vencida sem que se tenha alterado significativamente a capacidade autônoma de organização da classe trabalhadora. Também é possível administrar o Estado durante anos enquanto relações sociais que alimentam forças adversárias continuam sendo reproduzidas fora dele.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Outra pergunta</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Talvez a pergunta deva ser deslocada: em que condições a classe trabalhadora pode voltar a se organizar como classe?</p>
<p style="text-align: justify;">Isso recoloca no centro os locais de trabalho, os bairros, os conflitos cotidianos, as organizações próprias e as formas concretas de luta.</p>
<p style="text-align: justify;">A formulação também exige cuidado. “Voltar às bases” não pode significar simplesmente reconstruir uma imagem idealizada da organização operária do passado. A própria composição da classe mudou, assim como seus locais de trabalho, seus deslocamentos, sua estabilidade ocupacional e suas formas de sociabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda um problema na própria palavra “base”. Uma base costuma pressupor algo situado acima dela. Muitas vezes a fórmula conserva a divisão entre uma direção que produz a política e trabalhadores que precisam ser conscientizados, mobilizados ou conquistados por essa direção.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez o problema, portanto, não seja simplesmente como a esquerda pode “voltar às bases”. A própria formulação conserva aquilo que deveria ser posto em questão: de um lado, organizações que elaboram estratégias; de outro, uma base à qual é preciso retornar, organizar e conscientizar. Uma política da auto-organização começa quando essa divisão entre dirigentes e dirigidos deixa de ser tomada como natural.</p>
<p style="text-align: justify;">A organização de classe coloca então outro problema: criar condições para que aqueles que vivem os conflitos possam produzir coletivamente interpretações sobre eles, decidir suas formas de ação e construir organizações capazes de permanecer para além de uma conjuntura eleitoral.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160024" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-300x235.jpg" alt="" width="560" height="439" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-300x235.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-768x602.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-536x420.jpg 536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-640x502.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-681x534.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-511x400.jpg 511w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5.jpg 800w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Uma sociedade não é disputada apenas nas eleições</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Talvez uma das lições mais incômodas desse processo seja justamente esta: ninguém disputa uma sociedade apenas disputando eleições.</p>
<p style="text-align: justify;">Eleições condensam relações sociais que continuam existindo antes e depois delas. Uma campanha pode modificar conjunturalmente essas relações; dificilmente consegue substituí-las.</p>
<p style="text-align: justify;">Não existe, portanto, um atalho eleitoral capaz de resolver uma derrota produzida durante anos nas formas de organização, nas relações cotidianas e na capacidade de diferentes forças oferecerem interpretações para experiências reais de sofrimento social.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não torna as eleições irrelevantes. Apenas impede que confundamos o resultado eleitoral com o conjunto das relações de força que o produziram. A questão decisiva é onde se encontra a capacidade organizada de agir para além do momento eleitoral e, sobretudo, em que medida os próprios trabalhadores conseguem constituir organizações relativamente autônomas diante do Estado, dos governos, dos partidos e das burocracias que pretendem representá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">Auto-organização, nesse sentido, não é uma palavra de ordem abstrata. É o processo pelo qual experiências dispersas de exploração podem ser transformadas em experiência coletiva, produzindo formas próprias de organização e capacidade de intervenção sobre as relações que as engendram. A classe não se constitui politicamente pela simples existência de milhões de indivíduos submetidos à exploração. Ela se constitui nas lutas através das quais esses indivíduos reconhecem interesses comuns e desenvolvem capacidade coletiva de agir.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse processo que a luta de classes adquire uma existência propriamente política. Não porque todo conflito entre capital e trabalho produza imediatamente consciência ou organização, e sim porque determinadas lutas podem romper o isolamento em que a exploração é vivida, produzir solidariedades e criar organizações que sobrevivam ao conflito que lhes deu origem. A questão decisiva é a constituição de uma força social capaz de agir com continuidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A auto-organização, porém, não diz respeito apenas aos meios da luta. Há uma relação entre as formas pelas quais uma transformação é produzida e as relações sociais que podem emergir dela. Se a emancipação dos trabalhadores pressupõe que eles assumam coletivamente o controle sobre suas próprias condições de existência, essa capacidade não pode ser simplesmente delegada durante a luta para reaparecer depois de uma ruptura. As formas de organização construídas no presente já colocam, portanto, o problema de quem decide, quem executa e quem controla as decisões coletivas.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa capacidade exige autonomia. Organizações dos trabalhadores podem se relacionar com partidos, governos e instituições sem encontrar neles seu princípio de organização. Quando passam a depender de seus calendários, recursos e necessidades, a lógica se inverte: em vez de a representação institucional expressar uma força constituída na luta, é a reprodução das instituições que passa a estabelecer os limites daquilo que pode ser reivindicado, organizado e enfrentado.</p>
<p style="text-align: justify;">A disputa eleitoral desloca a capacidade política para um terreno em que a ação dos trabalhadores assume necessariamente a forma da representação: escolhe-se quem decidirá, legislará e administrará. O problema, portanto, não está apenas na importância excessiva concedida às eleições. Está na substituição recorrente da capacidade coletiva de agir pela capacidade de escolher quem agirá em seu nome. Uma vitória eleitoral pode modificar as condições em que a luta se desenvolve; não elimina essa separação.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta de classes não começa na urna e tampouco encontra nela sua forma privilegiada. Sua força reside na capacidade dos trabalhadores de constituírem relações, organizações e formas de decisão que ampliem seu poder de agir diretamente sobre as próprias condições de existência. A urna pode registrar uma relação de forças; não pode criá-la. Nenhuma urna corrige aquilo que não foi construído na luta de classes.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160026" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a-285x300.jpeg" alt="" width="100" height="105" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a-285x300.jpeg 285w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a-399x420.jpeg 399w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a.jpeg 600w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />Este artigo está ilustrado com desenhos de Roland Topor (1938-1997)</em>.</p>
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		<title>A revolução burguesa no Brasil: formação dependente, poder agrário e modernização sem ruptura</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/159988/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Oct 2026 14:55:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando dizemos "burguês" e "burguesia", de que experiência histórica estamos falando? Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Florestan Fernandes, antes de ser um &#8220;nome&#8221;, teve uma trajetória social raríssima no Brasil. Nascido em São Paulo, em 22 de julho de 1920, filho de mãe imigrante portuguesa e criado em condições de pobreza, trabalhou desde criança e passou a juventude entre subempregos e instabilidade material, retomando os estudos mais tarde por meio de cursos de madureza <strong>[1]</strong> até chegar à universidade. Em 1941 ingressou na antiga FFCL da USP e, a partir de 1945, inicia carreira docente como assistente de Fernando de Azevedo, um dos organizadores da sociologia universitária paulista. Sua formação combina sociologia, etnologia e teoria social com uma disciplina de pesquisa incomum, se tornando mestre na Escola Livre de Sociologia e Política com estudo sobre os Tupinambás e doutor na USP com <em>A função social da guerra na sociedade tupinambá</em> (1951), obra que se torna referência no debate antropológico brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí em diante, Florestan organiza um programa intelectual de largo alcance que em que pensa o Brasil como formação social dependente, fundada por modernização desigual, heranças escravistas e uma ordem de classes que se constrói sem cumprir o mito liberal da cidadania universal. Nos anos 1960, consolida-se com a tese de cátedra <em>A integração do negro na sociedade de classes</em> (1964), que investiga a passagem do trabalho escravo ao trabalho livre e expõe a &#8220;integração&#8221; subordinada e seletiva, marcada por barreiras estruturais e reprodução de hierarquias. A ditadura militar interrompe sua atuação na USP; sendo aposentado compulsoriamente em 1969, passa a lecionar fora do país, entre outras experiências acadêmicas no exterior. A sociologia para Florestan funcionava como crítica das ilusões nacionais e isso está presente nas suas principais obras.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos anos 1980, ele cruza de modo direto a fronteira entre universidade e política institucional ao eleger-se deputado federal por São Paulo em 1986, como constituinte pelo PT, e é reeleito em 1990. Sua atuação parlamentar se concentrou, entre outros temas, em educação pública e direitos sociais, carregando para o Congresso uma argumentação intelectual pouco comum na cena legislativa brasileira. Não se trata de um &#8220;intelectual que virou político&#8221; por vaidade tardia, mas de alguém que entendeu que a crítica do capitalismo dependente no Brasil também passa pela disputa do Estado, ainda que essa disputa seja permanentemente contraditória.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159991 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1024x581.jpg" alt="" width="640" height="363" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1024x581.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-300x170.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-768x436.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-740x420.jpg 740w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-640x363.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-681x386.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1021x580.jpg 1021w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Feita essa apresentação, entra o problema que Florestan coloca logo no início da obra. Quando dizemos &#8220;burguês&#8221; e &#8220;burguesia&#8221;, de que experiência histórica estamos falando? Na tradição marxista clássica, a burguesia designa a classe historicamente vinculada à expansão da produção mercantil, centralidade do lucro, consolidação da propriedade privada moderna e reorganização do Estado segundo os critérios da reprodução ampliada do capital. O &#8220;burguês&#8221; é o sujeito social tipificado por esse novo regime de compra da força de trabalho, organização da produção sob comando, internalização da disciplina de fábrica, expansão dos mercados, disputa pelo poder político, e substituição das antigas legitimidades (sangue, tradição, corporações fechadas) por um universalismo formal (lei, contrato, cidadania abstrata), que ao mesmo tempo emancipa e subordina.</p>
<p style="text-align: justify;">O <em>Manifesto do Partido Comunista</em> apresenta o movimento histórico da burguesia como força revolucionária no interior da Europa. Ela dissolve relações tradicionais, derruba vínculos pessoais, substitui o mundo &#8220;encantado&#8221; por cálculo e equivalência, e cria um mercado mundial. A burguesia &#8220;revoluciona&#8221; por necessidade competitiva, pois o capital não sobrevive sem expandir, reconfigurar, integrar e acelerar. Leo Huberman, quando reconstitui a passagem do feudalismo ao capitalismo, ajuda a visualizar a base material desse processo mostrando o crescimento das cidades, o comércio de longa distância, a transformação de camponeses em trabalhadores &#8220;livres&#8221; pela expropriação, o nascimento de uma nova disciplina do tempo e do corpo. Daí em diante, &#8220;burguesia&#8221; não se define apenas por riqueza, mas por posição no processo de produção e relação com o Estado e o mercado mundial. O que Florestan propõe é que o Brasil não pode ser lido como fotocópia atrasada da Europa e isso ele apresenta logo nos primeiros parágrafos, principalmente quando afirma que o vocabulário europeu, quando aplicado sem mediações, se torna etnocentrismo travestido de conceito e a primeira vítima dessa transferência automática é a identificação, muito comum, entre senhor de engenho e burguês.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o objetivo é compreender o problema que Florestan Fernandes formula nas páginas iniciais de <em>A Revolução Burguesa no Brasil</em>, é inevitável trazer o olhar para uma temporalidade mais longa da história brasileira. A questão colocada por ele (saber em que condições históricas uma ordem social burguesa poderia emergir numa sociedade formada sob o regime colonial) não pode ser enfrentada se o ponto de partida da análise estiver restrito ao século XIX ou aos eventos políticos da Independência. Para compreender o problema, devemos observar o processo histórico mais amplo no qual o território americano foi incorporado à expansão econômica europeia a partir do século XVI, momento em que se estabelecem os fundamentos estruturais da formação social brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159992" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-191x300.jpg" alt="" width="391" height="615" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-191x300.jpg 191w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-651x1024.jpg 651w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-768x1208.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-977x1536.jpg 977w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-267x420.jpg 267w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-640x1007.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-681x1071.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 391px) 100vw, 391px" /> Caio Prado Jr., em uma das interpretações mais influentes da historiografia brasileira, insiste que a colonização portuguesa deve ser compreendida dentro de um movimento maior de expansão do capitalismo comercial europeu. Em <em>Formação do Brasil Contemporâneo</em>, ele formula uma hipótese que se tornaria clássica: a colonização brasileira teve como objetivo principal a organização de uma economia voltada para a produção de gêneros destinados ao mercado externo. Nas palavras do autor, a colonização portuguesa nos trópicos se orientava por um princípio bastante preciso de &#8220;produzir para o comércio europeu&#8221;. Esse &#8220;sentido da colonização&#8221; indica que a organização econômica da colônia não pode ser compreendida a partir de suas necessidades internas, mas a partir de sua inserção em um circuito mercantil que a ultrapassava.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde os primeiros séculos da colonização, a economia organizada no território colonial foi estruturada segundo um padrão produtivo relativamente estável tendo grandes unidades agrárias concentradoras de terra, mobilização de trabalho compulsório em larga escala e produção voltada para a exportação de gêneros tropicais. A plantation açucareira que se expande sobretudo no Nordeste ao longo dos séculos XVI e XVII sintetiza essa forma histórica de organização econômica. Grandes propriedades rurais, baseadas na monocultura e sustentadas pelo trabalho escravo africano, produziam açúcar destinado ao mercado europeu, integrando a colônia a um circuito mercantil internacional cuja direção se encontrava fora dela. Diversos historiadores procuraram demonstrar que essa organização econômica estava articulada ao funcionamento do sistema colonial mercantil. Ciro Flamarion Cardoso, ao estudar a dinâmica das economias coloniais americanas, enfatiza que o sistema colonial não pode ser compreendido apenas como uma estrutura administrativa de dominação política, mas como um mecanismo econômico voltado para a transferência sistemática de excedente das colônias para as metrópoles europeias. Nesse arranjo histórico, a colônia era espaço de produção de mercadorias tropicais, enquanto a metrópole e os centros mercantis europeus mantinham o controle sobre os mecanismos de circulação, financiamento e comercialização dessas mercadorias.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa organização econômica produziu no interior da colônia uma elite agrária poderosa, formada pelos grandes proprietários rurais que dominavam a produção agrícola e o controle da mão de obra escravizada <strong>[2]</strong>. O senhor de engenho tornou-se, nesse contexto, uma figura central da sociedade colonial. Sua autoridade não se limitava ao domínio econômico sobre a produção agrícola prolongando-se até a organização da vida social local, às relações de dependência que estruturavam o cotidiano da colônia e muitas vezes ao exercício de funções que, em outras formações sociais, seriam prerrogativas de instituições públicas. A casa-grande, como observou Gilberto Freyre, era centro de poder social, político e simbólico. Entretanto, a posição ocupada por esses grupos dominantes dentro da economia colonial apresentava limites. Ainda que controlassem a produção agrícola e exercessem poder social considerável no interior da colônia, os grandes proprietários rurais não dominavam os mecanismos da circulação mercantil. O comércio de exportação, o transporte marítimo, o crédito internacional e boa parte dos processos de comercialização permaneciam sob controle de agentes localizados fora da colônia. A riqueza produzida no espaço colonial era parcialmente apropriada por intermediários mercantis e financeiros vinculados ao sistema econômico europeu.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa situação histórica cria uma configuração peculiar. A sociedade colonial brasileira produziu elites agrárias extremamente poderosas no plano local, mas essas elites atuavam dentro de um sistema econômico cuja dinâmica geral não era por elas controlada. O poder do senhor de engenho era, ao mesmo tempo, imenso e limitado, imenso no interior da ordem social escravista que ele comandava diretamente, limitado quando se observava sua posição no circuito da economia mercantil internacional. Ao longo do século XVIII, algumas transformações começam a alterar parcialmente esse quadro. A descoberta de jazidas auríferas na região das Minas Gerais introduz um novo dinamismo econômico no interior da colônia. A mineração provoca o crescimento de núcleos urbanos, estimula o desenvolvimento de atividades comerciais e cria novas formas de circulação monetária. A sociedade colonial, que até então se organizava principalmente em torno da grande lavoura de exportação, passa a experimentar interações econômicas e social mais complexas. Ainda assim, essas transformações não chegam a alterar o padrão estrutural que havia se consolidado ao longo da colonização. A escravidão continua sendo a principal mobilização da força de trabalho, a grande propriedade rural permanece como eixo organizador da produção e a economia colonial segue profundamente vinculada ao comércio externo. Mesmo as regiões mineradoras, apesar de sua dinâmica interna mais intensa, continuam integradas ao sistema colonial mercantil que estrutura a relação entre metrópole e colônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se chega ao início do século XIX, o sistema colonial português enfrentava tensões crescentes. As guerras napoleônicas, a crise do antigo regime europeu e a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 introduziram alterações na organização política e econômica do império português. A abertura dos portos brasileiros às nações amigas, decretada no mesmo ano, representou uma ruptura significativa com o antigo sistema de exclusividade comercial que vinculava a colônia à metrópole. Nesse contexto mais amplo ocorre o processo que levaria à independência política do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">O rompimento formal com Portugal, proclamado em 1822, deve ser compreendido como um rearranjo político conduzido pelas elites que ocupavam posições dominantes na sociedade colonial. O novo Estado nacional surge preservando grande parte das estruturas econômicas e sociais que haviam se consolidado durante a colonização. A Independência preserva a grande propriedade agrária, conserva a escravidão como fundamento da economia e entrega à monarquia a organização do poder político. Décio Saes, ao analisar a formação do Estado burguês no Brasil, observa que a transição política ocorrida no início do século XIX não correspondeu àquilo que a tradição marxista europeia identificou como revolução burguesa clássica. Na Europa, processos revolucionários frequentemente envolveram confrontos abertos entre classes emergentes e estruturas aristocráticas do antigo regime. No caso brasileiro, a formação do Estado nacional ocorreu através de um processo no qual as elites agrárias escravistas desempenharam papel central na reorganização do poder político.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse percurso histórico fornece os elementos necessários para compreender a reflexão de Florestan Fernandes. Ao perguntar sobre as &#8220;origens da revolução burguesa no Brasil&#8221;, ele não está procurando identificar um momento específico em que uma burguesia teria surgido de repente no interior da sociedade brasileira. O problema que orienta sua investigação é compreender como uma formação social construída durante séculos sob o regime colonial escravista poderia, em determinado momento de sua trajetória histórica, comportar as condições necessárias para o desenvolvimento de uma ordem social capitalista. Para isso, é preciso considerar a longa duração dos processos históricos que moldaram a sociedade brasileira. As estruturas econômicas e sociais estabelecidas durante a colonização não desapareceram abruptamente com a independência política. Pelo contrário. Elas continuaram funcionando durante grande parte do século XIX, influenciando o desenvolvimento do capitalismo no país. A análise de Florestan procura justamente captar essa complexidade histórica, na qual modernização econômica, permanência de estruturas coloniais e reorganização das classes dominantes se entrelaçam de maneira intensa.</p>
<p style="text-align: justify;">A Independência modificou a posição política das classes dominantes estabelecidas no território brasileiro. Até 1822, esses grupos exerciam seu poder dentro de uma ordem colonial cujo centro decisório estava vinculado à Coroa portuguesa. Com a constituição do Estado nacional, as elites agrárias e comerciais ocuparam diretamente os principais espaços de comando político, administrativo e jurídico, adquirindo maior capacidade para organizar instituições, regular conflitos internos e defender seus interesses diante do mercado internacional. Essa mudança não eliminou a escravidão, a concentração fundiária ou a dependência econômica, mas alterou a escala e os instrumentos de atuação dos grupos dominantes. A partir daí, a manutenção da ordem social herdada da colônia passou a depender de um aparato estatal sediado no próprio país, controlado por frações locais interessadas em combinar autonomia política, expansão mercantil e preservação das hierarquias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-159993" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-300x237.jpg" alt="" width="450" height="355" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-300x237.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-1024x808.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-768x606.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-532x420.jpg 532w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-640x505.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-681x538.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" />Durante todo o Império (1822-1889), a economia brasileira permaneceu ancorada no trabalho escravo, especialmente nas grandes lavouras de exportação, como o café, o açúcar e o algodão. Isso significa que o novo Estado nacional nasceu e se consolidou preservando um dos pilares centrais da ordem colonial. A escravidão só foi formalmente abolida em 1888, pela Lei Áurea, um ano antes da proclamação da República. A historiografia tem insistido que esse longo intervalo revela o caráter conservador da independência brasileira que na verdade foi uma ruptura política com Portugal conduzida pelas elites agrárias, cujo interesse principal era preservar a estrutura econômica e social existente. Assim, a transição para o trabalho livre ocorreu tardiamente e sem reformas estruturais capazes de integrar a população negra recém-liberta à nova ordem social. A abolição eliminou a instituição jurídica da escravidão, mas não desmantelou os mecanismos históricos de exploração e dominação que haviam sido construídos ao longo de mais de três séculos de regime escravista.</p>
<p style="text-align: justify;">A figura do senhor de engenho tem lugar central nas interpretações clássicas da formação social brasileira. Não por acaso, dois dos mais importantes intérpretes do Brasil (Gilberto Freyre e Florestan Fernandes) dedicaram atenção especial a esse personagem histórico. No entanto, cada um o faz a partir de perspectivas analíticas distintas. Enquanto Freyre descreve o engenho como núcleo civilizatório e cultural da sociedade colonial, Florestan procura compreender a posição desse agente no sistema econômico mais amplo que organizava a colonização. O contraste entre essas duas abordagens é extremamente fecundo para compreender a natureza da dominação colonial no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Casa-Grande &amp; Senzala</em>, Gilberto Freyre apresenta o engenho como o centro organizador da vida social na colônia. A casa-grande não era apenas a residência do senhor, mas o eixo em torno do qual se estruturava um sistema social complexo onde se articulava a produção econômica, a organização familiar, a vida religiosa e o poder político local. O engenho funcionava simultaneamente como unidade produtiva, instituição doméstica e centro de autoridade patriarcal. A escravidão era o fundamento material dessa organização, mas sua expressão social era mediada por relações pessoais de mando e dependência. O patriarca rural exercia autoridade sobre a família, escravizados e trabalhadores livres que gravitavam em torno do engenho. Nesse universo social, a casa-grande tinha um papel quase institucional, sendo ao mesmo tempo tribunal, igreja, centro administrativo e símbolo da hierarquia colonial. Freyre enfatiza sobretudo a dimensão cultural e social dessa estrutura. A sociedade colonial é vista como um sistema marcado pelo patriarcalismo, centralidade da família extensa e proximidade cotidiana entre senhores e escravizados enquanto a vida doméstica, a religiosidade, os costumes alimentares, a organização da casa e do trabalho são os elementos constitutivos de uma formação social singular. A casa-grande seria o espaço em que se consolidou uma sociabilidade específica brasileira, marcada por relações pessoais intensas, hierarquias rígidas e uma ordem social profundamente desigual, mas relativamente coesa do ponto de vista cultural. A análise de Florestan Fernandes, entretanto, estuda o problema por outro plano.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto Freyre enfatiza a centralidade social e cultural da casa-grande na organização da vida colonial, Florestan evidencia os limites do poder econômico do senhor de engenho. O patriarca rural descrito por Freyre tinha autoridade local, mas essa autoridade coexistia com uma dependência em relação ao circuito mercantil internacional que estruturava a economia colonial. Em outras palavras, o poder social do senhor de engenho não se traduzia necessariamente em autonomia econômica.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159989" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-1024x793.jpg" alt="" width="540" height="418" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-1024x793.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-300x232.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-768x595.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-542x420.jpg 542w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-640x496.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-681x528.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312.jpg 1035w" sizes="auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa diferença mostra também dois modos distintos de interpretar a formação social brasileira. Freyre trabalha sobretudo com uma perspectiva histórico-cultural, interessada em compreender os padrões de sociabilidade, os costumes e a organização da vida cotidiana na sociedade colonial. Seu objetivo é explicar como se formou uma civilização específica nos trópicos, marcada pela convivência entre portugueses, africanos e indígenas sob o regime da grande propriedade escravista. Florestan, por sua vez, mobiliza uma abordagem sociológica orientada pela análise das classes sociais e das estruturas econômicas. Para ele, compreender a formação da sociedade brasileira é necessário situar a colônia dentro do sistema mundial de mercantilização e analisar as relações de dependência que daí derivam. Essa tensão entre poder interno e dependência externa é um dos elementos fundamentais para compreender o processo histórico que Florestan denomina de revolução burguesa no Brasil. A sociedade colonial produziu elites agrárias extremamente poderosas, mas não gerou, naquele momento, uma burguesia capaz de organizar autonomamente o desenvolvimento capitalista. A modernização econômica posterior teria de surgir a partir da transformação dessas estruturas e da reorganização das classes dominantes dentro de novas condições históricas.</p>
<p style="text-align: justify;">A inserção da economia colonial no circuito mercantil internacional acabaria por introduzir tensões nesse universo social relativamente estabilizado. Ao longo do século XIX, o crescimento da produção cafeeira, a intensificação das trocas comerciais, o desenvolvimento de atividades financeiras e a expansão das cidades começaram a produzir novos tipos de agentes econômicos e novas expectativas de mobilidade social. Aos poucos, certas práticas ligadas ao cálculo econômico, à valorização do investimento e à busca de oportunidades de enriquecimento ganharam legitimidade em setores da sociedade que anteriormente se orientavam por códigos tradicionais de honra e autoridade. Florestan identifica a difusão de um comportamento que denomina &#8220;espírito burguês&#8221;, expressão que procura captar uma mudança nas disposições práticas dos indivíduos diante da atividade econômica e da organização da vida social.</p>
<p style="text-align: justify;">A difusão dessas práticas ocorre de maneira desigual entre os diferentes setores da sociedade. A estrutura social brasileira do século XIX apresenta uma composição profundamente heterogênea, na qual convivem relações escravistas, trabalho livre emergentes, atividades comerciais em expansão e experiências iniciais de industrialização. A sociedade colonial tardia e o Império brasileiro são um espaço no qual tradições senhoriais persistem ao lado de práticas econômicas que apontam para um tipo distinto de racionalidade social. Nesse contexto, a emergência do &#8220;espírito burguês&#8221; não significa a substituição imediata da dominação tradicional, mas a introdução de novas orientações de ação que passam a coexistir com as estruturas herdadas do passado colonial.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo entre os grandes proprietários rurais, a situação se revela mais complexa do que poderia sugerir uma leitura simplificada da história econômica brasileira. Parte das elites agrárias permanece ligada ao universo simbólico do antigo regime colonial, reproduzindo padrões de comportamento associados ao prestígio aristocrático e à autoridade patriarcal. Outros setores, contudo, incorporaram práticas econômicas mais próximas da lógica capitalista, investindo em infraestrutura, ampliando circuitos de comercialização e explorando novas oportunidades de acumulação abertas pela expansão do mercado mundial. O fazendeiro de café do século XIX frequentemente está situada entre dois mundos históricos distintos: herdeiro da tradição senhorial escravista e, ao mesmo tempo, participante de um processo mais amplo de reorganização econômica que gradualmente altera o funcionamento da sociedade brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;">A transformação que Florestan procura apreender não se reduz, portanto, à simples formação de uma burguesia nos moldes clássicos da experiência europeia. O que se observa é uma reconfiguração progressiva das práticas sociais e das estruturas econômicas que possibilita a expansão das relações capitalistas sem que as formas tradicionais de dominação desapareçam por completo. O capitalismo brasileiro se desenvolve por meio de uma reorganização das elites existentes, que adaptam suas estratégias de poder às novas condições históricas abertas pela expansão do mercado e consolidação do Estado nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa característica peculiar da formação brasileira foi posteriormente explorada por Francisco de Oliveira ao propor a conhecida metáfora do &#8220;ornitorrinco&#8221;, imagem utilizada para descrever uma sociedade na qual diferentes temporalidades históricas coexistem de maneira aparentemente incongruente. Assim como o animal que combina traços de espécies distintas, a sociedade brasileira apresenta uma articulação singular entre processos de modernização econômica e a persistência de estruturas sociais que remontam à ordem colonial.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159994" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-561x1024.jpg" alt="" width="361" height="659" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-561x1024.jpg 561w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-164x300.jpg 164w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-768x1402.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-841x1536.jpg 841w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-230x420.jpg 230w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-640x1168.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-681x1243.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345.jpg 889w" sizes="auto, (max-width: 361px) 100vw, 361px" />Logo no início do segundo capítulo, Florestan introduz uma formulação que, à primeira vista, parece estranha ao afirmar que &#8220;a Independência, não obstante a forma em que se desenrolou, foi a primeira grande revolução social que se operou no Brasil&#8221;. A frase exige de nós atenção porque o autor reconhece que o processo de separação de Portugal ocorreu sob direção das elites coloniais e preservou grande parte das estruturas econômicas e sociais herdadas do período anterior, não se tratando, portanto, de uma revolução política comparável às grandes revoluções burguesas europeias. Ainda assim, Florestan insiste na palavra &#8220;revolução&#8221; porque a questão central para ele é uma transformação de outra ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A ruptura com a metrópole alterou profundamente o quadro institucional dentro do qual a sociedade brasileira se organizava e a partir daquele momento, as classes dominantes instaladas na antiga colônia passaram a exercer diretamente funções de direção política que antes pertenciam ao aparato imperial português, abrindo-se, assim, um campo novo de disputas em torno da organização do Estado, da economia e da estrutura social. A independência não dissolveu o latifúndio, nem a escravidão, tampouco a dependência externa; mudou o eixo de comando dessas estruturas o que viabilizou a inauguração de uma nova etapa histórica em que as elites locais organizam um Estado nacional que, progressivamente, se tornaria o espaço político da transformação burguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de acompanhar o raciocínio de Florestan Fernandes sobre a Independência, convém deter-se brevemente no significado da palavra &#8220;revolução&#8221;, pois ela aparece em sua formulação carregada de um peso analítico que se perde no uso corrente do termo. No vocabulário das ciências sociais, e especialmente na tradição marxista, &#8220;revolução&#8221; não designa apenas um episódio político dramático, marcado por insurreições, barricadas ou derrubadas súbitas de governos. O conceito remete a transformações mais profundas na estrutura da sociedade, isto é, na maneira como a produção está organizada, como o poder político se distribui e como as classes sociais se constituem historicamente sendo mais do que um evento pontual, ou seja, a revolução refere-se a processos históricos de reconfiguração das relações sociais fundamentais, sobretudo no que diz respeito ao modo de produção e, consequentemente, às relações de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa distinção está clara em Marx e Engels. No <em>Manifesto do Partido Comunista</em>, ao descreverem o papel histórico da burguesia, eles observam que a ascensão dessa classe implicou uma reorganização completa da produção e das relações sociais herdadas do mundo feudal. A burguesia, escrevem eles, &#8220;desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário&#8221;, não porque tenha protagonizado apenas revoltas políticas, mas porque introduziu uma dinâmica econômica e social capaz de dissolver estruturas seculares e reorganizar a sociedade em torno da produção capitalista. A revolução burguesa designa o processo histórico pelo qual as relações de produção capitalistas se tornam dominantes e reorganizam as instituições políticas, jurídicas e culturais.</p>
<p style="text-align: justify;">A literatura marxista posterior ampliou essa compreensão. Autores como Lênin, por exemplo, insistiram que revoluções podem assumir ritmos históricos bastante distintos. Em algumas circunstâncias, a transformação das estruturas sociais ocorre através de processos abruptos de ruptura política; em outras, ela se desenvolve de maneira mais lenta, mediada por compromissos entre diferentes frações das classes dominantes e por instituições aparentemente moderadas. O elemento decisivo, portanto, não reside na intensidade imediata do conflito político, mas nas mudanças estruturais que se produzem no interior da sociedade. Essa perspectiva possibilita compreender por que Florestan Fernandes utiliza a categoria de revolução ao se referir à Independência do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a Independência, o espaço político no qual as classes dominantes atuavam sofreu uma transformação. A antiga colônia deixou de integrar diretamente o sistema administrativo e político do império português, e as elites instaladas no território organizaram um Estado nacional próprio. Essa mudança institucional abriu novas possibilidades históricas para a reorganização da economia, para a redefinição das relações entre as classes sociais e para a própria formação de uma burguesia nacional. A revolução de que fala Florestan não corresponde, portanto, a uma explosão política comparável à Revolução Francesa ou às revoluções europeias do século XIX. Ela se refere a uma transformação que muda o eixo de comando da sociedade brasileira e inaugura um novo horizonte histórico. Esse processo, portanto, foi longo e paulatino e, sobretudo, contraditório.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista conceitual, portanto, &#8220;revolução&#8221; se refere a uma categoria analítica destinada a captar processos de reorganização profunda das estruturas sociais. Ao empregar o termo dessa maneira, Florestan insere a experiência brasileira dentro de um problema clássico da teoria social que é compreender como determinadas formações históricas transitam de um tipo de organização social para outro. No caso brasileiro, esse movimento se desenvolve de maneira complexa, pois a emergência de relações capitalistas ocorre em uma sociedade que carrega, por longo tempo, as marcas estruturais do regime colonial e escravista.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa perspectiva, a Independência pressupunha, lado a lado, um elemento puramente revolucionário e outro elemento especificamente conservador. O elemento revolucionário aparecia nos propósitos de despojar a ordem social, herdada da sociedade colonial, dos caracteres heteronômicos aos quais fora moldada, requisito para que ela adquirisse a elasticidade e a autonomia exigidas por uma sociedade nacional. O elemento conservador evidenciava-se nos propósitos de preservar e fortalecer, a todo custo, uma ordem social que não possuía condições materiais e morais suficientes para engendrar o padrão de autonomia necessário à construção e ao florescimento de uma nação. A coexistência de elementos tão antagônicos provinha de uma realidade inexorável, percebida e apontada mesmo pelos homens que conduziam os acontecimentos (como José Bonifácio, por exemplo). (FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil)</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-159990" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-1024x720.jpg" alt="" width="440" height="310" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-1024x720.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-300x211.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-768x540.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-597x420.jpg 597w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-640x450.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-681x479.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314.jpg 1160w" sizes="auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px" />A presença do liberalismo no Brasil do início do século XIX deve ser compreendida dentro das condições em que se realizou a transição da ordem colonial para a formação do Estado nacional. Florestan chama atenção para o fato de que o liberalismo surge como um repertório político e ideológico apropriado pelas elites coloniais no momento em que se tornava necessário reorganizar o poder após a ruptura com a metrópole portuguesa. A circulação das ideias liberais no Brasil intensifica-se no final do século XVIII e início do XIX, acompanhando as transformações que atravessavam o mundo atlântico. As revoluções americana e francesa, a crise do antigo regime europeu e a expansão do comércio internacional difundiram no espaço luso-brasileiro conceitos como liberdade civil, representação política, direitos individuais e soberania nacional. No entanto, quando essas ideias são apropriadas pelas elites coloniais, elas passam por um processo de adaptação às condições concretas da sociedade brasileira. O liberalismo não chega como programa de transformação radical da ordem social, mas como instrumento político capaz de legitimar a reorganização do poder no interior de uma sociedade ainda profundamente marcada pela escravidão e a grande propriedade rural.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse liberalismo desempenha funções ambíguas no processo de formação do Estado nacional. De um lado, ele oferece uma linguagem política capaz de justificar a ruptura com a ordem colonial e de fundamentar a construção de instituições próprias de um Estado independente. A defesa da soberania nacional, da autonomia política e da reorganização administrativa do país mobiliza princípios que pertencem ao repertório liberal. Assim, o liberalismo participa da legitimação ideológica da independência e da constituição de uma ordem política nacional. Ao mesmo tempo, porém, esse liberalismo permanece condicionado pelos interesses das classes dominantes da sociedade escravista. A defesa das liberdades políticas não se traduz em questionamento da estrutura agrária nem do regime de trabalho que sustentava a economia de exportação. Os mesmos grupos que se apresentam como defensores da autonomia nacional e das instituições liberais são aqueles que procuram preservar, tanto quanto possível, as bases sociais da ordem colonial. A igualdade jurídica proclamada nos discursos liberais convive com uma sociedade na qual milhões de pessoas continuam submetidas ao regime da escravidão.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa situação revela o caráter instrumental que o liberalismo tem no contexto brasileiro, funcionando simultaneamente como linguagem de modernização política e mecanismo de acomodação das estruturas sociais existentes. A adoção de instituições representativas, constituições e parlamentos não implica necessariamente a democratização efetiva da sociedade, mas antes a reorganização do poder dentro de um quadro institucional mais compatível com as exigências do novo Estado nacional. Florestan identifica nesse processo duas orientações distintas no interior das elites. Uma delas busca adaptar o liberalismo às condições da sociedade colonial, utilizando seus princípios para legitimar a autonomia política sem alterar em profundidade as relações sociais existentes. A outra tende a ver no liberalismo um instrumento para ampliar a autonomia nacional e fortalecer o desenvolvimento interno da sociedade brasileira. A disputa entre essas duas orientações acompanha todo o processo de formação do Estado independente, resultando em um liberalismo marcado pela ambiguidade; participa da construção institucional da nação, ao mesmo tempo em que preserva os fundamentos sociais herdados da colonização. A linguagem da liberdade e da cidadania se difunde no plano político, mas permanece limitada pelas estruturas econômicas e sociais que continuam organizadas em torno do latifúndio e da escravidão. Nesse sentido, o liberalismo brasileiro do século XIX expressa uma tentativa de modernização política conduzida sob condições sociais que restringiam o alcance transformador dessas ideias.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a análise chega até aqui, o que se torna mais incômodo não é apenas a inadequação das categorias importadas, mas o fato de que a dominação que se consolida no Brasil prescinde de um sujeito histórico equivalente à burguesia clássica. A ordem capitalista se afirma sem ter produzido plenamente uma classe que concentre, de modo orgânico, direção econômica, projeto político e horizonte civilizatório próprios. O que se estabiliza é um arranjo em que frações dominantes atuam articuladas a centros externos de poder, enquanto internamente administram uma sociedade com desigualdades extremas e formas persistentes de expropriação.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso tira o problema para além da cronologia ou da tipologia das revoluções e obriga a encarar que tipo de capitalismo é esse que se organiza sem universalizar suas promessas e que, ainda assim, consegue se reproduzir com notável continuidade? A partir daí, a interpretação de Florestan excede os limites da reconstrução histórica e mostra a lógica de um capitalismo que organiza sua expansão incorporando antigas hierarquias sociais, em vez de suprimi-las.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Os chamados “cursos de madureza” eram uma modalidade de educação destinada a jovens e adultos que não haviam concluído o ensino regular na idade considerada adequada. Muito difundidos no Brasil entre as décadas de 1930 e 1960, funcionavam como uma forma de certificação supletiva, o estudante preparava-se de maneira autodidata ou em cursos preparatórios e realizava exames de madureza aplicados pelo sistema educacional, que avaliavam conhecimentos equivalentes ao ensino secundário. A aprovação nesses exames permitia obter o diploma necessário para o ingresso na universidade. Foi por esse caminho que Florestan Fernandes, após uma juventude marcada pelo trabalho precoce e interrupção dos estudos formais, conseguiu regularizar sua formação escolar e prestar o vestibular para a Universidade de São Paulo no início da década de 1940. Esse percurso biográfico é frequentemente destacado na literatura sobre o autor, pois evidencia a singularidade de sua trajetória social no interior da intelectualidade brasileira do período.<br />
<strong>[2]</strong> Uma representação cinematográfica expressiva das relações de poder no universo da grande propriedade cafeeira pode ser encontrada no filme Terra É Sempre Terra (Tom Payne, 1951), produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Embora seja uma obra de ficção, o filme oferece um retrato das hierarquias sociais, dos conflitos fundiários e das formas de autoridade presentes no meio rural brasileiro do pós-guerra.</p>
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		<title>Voto Nulo e a Luta pela Autogestão Social</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 11:42:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[Esse fenômeno é reflexo do profundo desinteresse popular em decidir quem será o próximo gerente das engrenagens do aparato estatal. Por O Jardineiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align: justify;">Por O Jardineiro*</h4>
<p style="text-align: justify;">A democracia burguesa, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, bem como a própria República — especialmente a brasileira —, encontram-se em ruínas. Hoje, a maior parte da população já se recusa a legitimar essa forma de participação política: seja engrossando as fileiras do abstencionismo, seja invalidando o pleito por meio do voto branco ou nulo. Esse fenômeno não ocorre por acaso; ele é, primeiramente, o reflexo do profundo desinteresse popular em decidir quem será o próximo gerente das engrenagens do aparato estatal.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde a redemocratização do Brasil, as massas recebem apenas discursos vazios, projetados para convencer e iludir, enquanto a vida material nunca muda substancialmente. Como um grande teatro onde mudam-se os atores, mas o roteiro de exploração permanece o mesmo, esse desinteresse é a consequência direta da generalização da alienação para todas as esferas das relações sociais. No fim das contas, a política institucional, canalizada pelas eleições, representa a expropriação política da nossa capacidade de ação: é a terceirização do nosso controle sobre a forma como nos inserimos na luta de classes. Consequentemente, a autonomia dos indivíduos das classes inferiores para intervir na realidade é reduzida ao mínimo, enquanto a autonomia da burguesia cresce de maneira inversamente proporcional — o que garante, na prática, a manutenção de sua dominação enquanto classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez que a capacidade de intervenção das classes inferiores, que são a maioria da população, é asfixiada, o desinteresse surge como uma forma espontânea, ainda que despolitizada, de resistência contra a democracia burguesa. É um instinto de recusa em entregar as chaves da própria prisão. Nesse cenário, cabe aos revolucionários o papel de transformar essa insatisfação latente em combustível político. É preciso levar os indivíduos das classes inferiores, especialmente o proletariado, a perceberem que a nossa autonomia relativa para intervir na luta de classes é infinitamente maior do que a ilusão da representatividade tenta nos fazer crer. Para romper com essa lógica, um dos caminhos mais potentes é a afirmação do voto nulo, aliada ao estímulo incansável da luta pela autogestão social.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159975" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og.webp" alt="" width="840" height="630" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og.webp 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-300x225.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-768x576.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-560x420.webp 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-80x60.webp 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-100x75.webp 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-180x135.webp 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-238x178.webp 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-640x480.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-681x511.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 840px) 100vw, 840px" />Na sociedade capitalista, onde impera o controle do trabalho e a expropriação de seus frutos, a classe dominante cria mecanismos para que essa lógica se infiltre em todas as relações sociais. Eis a verdadeira face da democracia burguesa e de sua ideologia de representação: não um espaço de liberdade, mas uma válvula de escape desenhada para manter a luta de classes estritamente sob o controle da classe dominante, domesticando as classes inferiores e especialmente o proletariado.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, a nossa energia não pode ser desperdiçada na tentativa de usar as ferramentas da própria burguesia para fazer imperar interesses não-burgueses. Tentar vencer o jogo capitalista usando as regras criadas por ele é como tentar apagar um incêndio jogando gasolina. Cada gota de esforço dedicada à via institucional-burocrática apenas fortalece a manutenção da burguesia. Mais do que isso, legitima a continuidade do controle sobre as classes inferiores e prepara o terreno para uma ditadura aberta, que será acionada sem hesitação no momento em que a crise de acumulação do capital exigir a extração de mais sangue e suor do trabalhador.</p>
<p style="text-align: justify;">Contra a democracia burguesa e contra a ameaça de uma ditadura, a única força real é um proletariado unido e politizado. Continuar iludindo o mesmo sobre o poder transformador do voto, mascarando a nossa própria falta de autonomia, significa tornar-se mais uma engrenagem na dominação burguesa. A democracia, nesses moldes, ao semear o desinteresse e a despolitização, adormece as classes inferiores e cria as condições sociais perfeitas para que uma ditadura se instale sem enfrentar resistência real.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, frente a uma sociedade que nos exige assinar um cheque em branco aos nossos próprios algozes, os revolucionários devem reagir de forma contundente: afirmando o voto nulo e estimulando a luta direta pela Autogestão Social.</p>
<p style="text-align: justify;">*<em>Formado nos jardins revolucionários, aprendeu a regar as plantas e ter paciência para colher frutos do que antes era semente e gérmen.</em></p>
<p><em>As obras que ilustram esse artigo são de Bansky.</em></p>
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		<title>A Gestão do Conflito: ONGs e democracia empresarial no Brasil contemporâneo (1990-2024) Parte II</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Sep 2026 17:20:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[As ONGs operam como o veículo institucional por excelência dessa dinâmica: organizações cuja função histórica não se estruturou na contestação da ordem, mas na sua legitimação e salvaguarda. Por Marcelo Phintener]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Phintener</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>4. O Brasil em números: 672 mil organizações e o que elas revelam</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>4.1 Crescimento histórico e seus marcos</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Os dados do Mapa das Organizações da Sociedade Civil permitem reconstituir com precisão a trajetória quantitativa do setor. O universo empírico que sustenta as teses aqui desenvolvidas compreende 1.097.694 registros de organizações da sociedade civil, ativas e inativas, extraídos em março de 2026. A magnitude dessa base de dados bruta permite uma radiografia exaustiva da estrutura e da evolução histórica do terceiro setor brasileiro, oferecendo uma ancoragem material imune a distorções amostrais.</p>
<p style="text-align: justify;">O número de OSCs ativas em janeiro de 2026 era de 672.215, a que se somam 273.576 inaptas, 145.972 nulas ou baixadas e 5.931 suspensas. O total histórico de organizações já criadas supera 1,06 milhão. O pico de fundações ocorreu em 2009, com 40.265 novas OSCs — ano que coincide com o auge do ciclo de expansão dos governos Lula e com o boom do PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) <strong>[1]</strong> e de outras políticas de financiamento do terceiro setor.</p>
<p style="text-align: justify;">A curva do Gráfico 1 conta uma história política com clareza inequívoca: há uma inflexão acentuada a partir de 1995, ano do Plano Diretor de Reforma do Estado, quando as fundações anuais saltam de patamares de 10-14 mil para 20-35 mil. Essa inflexão precede a aprovação da Lei das Organizações Sociais (1998) e da Lei OSCIP (1999), que consolidaram o marco legal da terceirização social. A reforma Bresser não apenas reformou o Estado — criou um mercado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>4.2 Distribuição regional: desigualdade e conflito</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A distribuição geográfica das 672.215 OSCs ativas reflete, em linhas gerais, a distribuição da população e da riqueza — mas com desvios significativos que merecem atenção. A região Sudeste concentra 287.122 organizações (42,7% do total), seguida pelo Nordeste com 150.431 (22,4%), Sul com 128.518 (19,1%), Centro-Oeste com 59.602 (8,9%) e Norte com 46.342 (6,9%).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159956 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2.jpg" alt="" width="2203" height="1069" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2.jpg 2203w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-300x146.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-1024x497.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-768x373.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-1536x745.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-2048x994.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-866x420.jpg 866w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-640x311.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_2-681x330.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2203px) 100vw, 2203px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Gráfico 2 — Distribuição regional das OSCs ativas no Brasil (jan. 2026). Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). N = 672.215. Elaboração própria.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A distribuição espacial dos registros expõe a magnitude dessa assimetria: o estado de São Paulo concentra 142.522 OSCs ativas, seguido por Minas Gerais (73.874), Rio de Janeiro (55.175), Rio Grande do Sul (49.065) e Bahia (45.828). Esta severa concentração no eixo Sudeste-Sul reproduz, na órbita do terceiro setor, a mesma hierarquia regional que estrutura o conjunto da economia brasileira. O dado desmistifica a narrativa oficial das ONGs como vetores de redistribuição e equidade, revelando que a malha da filantropia msse adensa justamente onde o capital está mais concentrado.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais revelador ainda é o ritmo diferenciado de crescimento recente. Segundo dados do Ipea, entre 2021 e 2023 as regiões Centro-Oeste e Norte registraram os maiores crescimentos relativos — 11% e 9,9%, respectivamente. Essas são justamente as regiões onde os conflitos fundiários, a pressão sobre territórios indígenas e quilombolas e os impactos do agronegócio sobre populações tradicionais são mais intensos. O crescimento de ONGs nessas regiões pode ser lido, a partir de nossa perspectiva, como um indicador da intensificação dos conflitos sociais — e da necessidade, sentida pelo poder, de criar mecanismos de sua administração.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>4.3 Áreas de atuação: religião, direitos e o que fica de fora</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A análise das áreas de atuação é o dado mais politicamente denso do conjunto. Como mostra a Tabela 2 e o Gráfico 3 a seguir, as duas maiores categorias são Religião (235.916 OSCs, 35,1% do total ativo) e Desenvolvimento e defesa de direitos (204.466 OSCs, 30,4%). Juntas, essas duas categorias respondem por quase dois terços de todas as OSCs ativas no Brasil.</p>
<table width="643" cellspacing="0" cellpadding="2">
<tbody>
<tr>
<td colspan="4" width="639"><strong>Tabela 2 — Áreas de atuação das OSCs ativas no Brasil (2026)</strong></td>
</tr>
<tr>
<td width="255"><strong>Área de atuação</strong></td>
<td width="124"><strong>N.º de OSCs</strong></td>
<td width="138"><strong>% do total ativo</strong></td>
<td width="110"><strong>Ranking</strong></td>
</tr>
<tr>
<td width="255"><strong>Religião</strong></td>
<td width="124"><strong>235.916</strong></td>
<td width="138"><strong>35,1%</strong></td>
<td width="110">1º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255"><strong>Desenv. e defesa de direitos</strong></td>
<td width="124"><strong>204.466</strong></td>
<td width="138"><strong>30,4%</strong></td>
<td width="110">2º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Outras ativ. associativas</td>
<td width="124">92.069</td>
<td width="138">13,7%</td>
<td width="110">3º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Cultura e recreação</td>
<td width="124">69.853</td>
<td width="138">10,4%</td>
<td width="110">4º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Assistência social</td>
<td width="124">42.166</td>
<td width="138">6,3%</td>
<td width="110">5º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Educação e pesquisa</td>
<td width="124">29.414</td>
<td width="138">4,4%</td>
<td width="110">6º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Assoc. patronais e profissionais</td>
<td width="124">28.375</td>
<td width="138">4,2%</td>
<td width="110">7º</td>
</tr>
<tr>
<td width="255">Saúde</td>
<td width="124">18.412</td>
<td width="138">2,7%</td>
<td width="110">8º</td>
</tr>
<tr>
<td colspan="4" width="639"><em>Nota: uma OSC pode ser classificada em mais de uma área de atuação simultaneamente, portanto os percentuais não somam 100%. Base: 672.215 OSCs ativas. Fonte: Mapa das OSCs / Ipea (2026). Elaboração própria.</em></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p style="text-align: justify;"><em>Tabela 2 — Áreas de atuação das OSCs ativas (2026). Uma OSC pode atuar em mais de uma área. Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). Elaboração própria.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159963 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3.jpg" alt="" width="2325" height="1114" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3.jpg 2325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-300x144.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-1024x491.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-768x368.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-1536x736.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-2048x981.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-877x420.jpg 877w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-640x307.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/imagem_3-681x326.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2325px) 100vw, 2325px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Gráfico 3 — Áreas de atuação das OSCs ativas no Brasil (jan. 2026). Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). Elaboração própria.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A categoria &#8216;Desenvolvimento e defesa de direitos&#8217; é particularmente ambígua — e essa ambiguidade é constitutiva de sua eficácia ideológica. Ela abarca desde organizações focadas na mediação e na pauta de demandas básicas de minorias até entidades diretamente integradas aos conselhos de governança corporativa, operando ambas sob a mesma gramática de direitos que capta financiamento sem alterar as relações de poder que produzem a marginalização. Não é possível, a partir dos dados agregados disponíveis, distinguir quantitativamente entre esses dois perfis — e essa impossibilidade é, ela mesma, um problema político: a opacidade da categoria &#8216;sociedade civil&#8217; atua como uma blindagem homogênea, dissolvendo as frentes de conflito aberto em um emaranhado burocrático e estatístico que atende à própria reprodução do aparato gerencial.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença maciça de organizações religiosas — especialmente evangélicas, cujo crescimento acelerou nas últimas duas décadas — acrescenta outra dimensão ao quadro. No contexto brasileiro, as igrejas evangélicas construíram um verdadeiro complexo organizacional que combina assistência social, educação, saúde, comunicação de massa e atuação política partidária. Sua presença no terceiro setor não é a de aparatos de mobilização ideológica com capacidade de interlocução direta com o Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Notável também é o que fica em posição secundária: Saúde (2,7%) e Educação e pesquisa (4,4%) — justamente as duas áreas onde a privatização dos serviços públicos é mais intensa e onde a substituição do Estado clássico por ONGs tem consequências mais diretas sobre a vida da população trabalhadora. O dado sugere que a maior parte das organizações formalmente registradas nessas categorias são, na prática, entidades prestadoras de serviços já integradas ao sistema de contratação pública — invisíveis como &#8220;ONGs&#8221; no imaginário social, mas centrais na arquitetura real do Estado gerencial.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>4.4 Fundações corporativas e organizações internacionais: o capital que financia a &#8220;sociedade civil&#8221;</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">A análise do Mapa das OSCs permite identificar um estrato específico que raramente aparece nos debates sobre &#8220;sociedade civil&#8221;: as fundações e institutos mantidos diretamente por grandes corporações nacionais e transnacionais. Com base no cruzamento dos registros cadastrais ativos, foi possível mapear 20 grupos corporativos nacionais com 141 unidades registradas e 20 organizações de origem internacional com 235 unidades ativas no país. São números modestos em relação ao universo total de 672 mil OSCs ativas — mas seu peso político e financeiro é desproporcional ao seu número, como os dados de financiamento demonstram.</p>
<p style="text-align: justify;">O fluxo de financiamento originado em fundações corporativas transnacionais e organismos de cooperação (como a OCDE) canaliza a agenda do ecologismo para a lógica do valor e dos novos nichos de acumulação. O ideário ESG e a transição ecológica administrada convertem a pauta ambiental em um dinâmico mercado de licenças operacionais, consultorias e créditos de carbono. Trata-se de uma governança que permite às grandes corporações chancelar sua imagem pública e gerir riscos reputacionais enquanto impõe à massa trabalhadora uma rotina de contenção e custos crescentes de reprodução. Oculta-se, assim, o nexo causal fundamental: a degradação ambiental não deriva do consumo de sobrevivência da classe que trabalha.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre as corporações nacionais, a Fundação Bradesco lidera com 39 filiais distribuídas por todos os estados da federação — fundada em 1970, em plena ditadura militar, dado que não é trivial: a expansão das fundações corporativas no Brasil historicamente coincide com períodos de repressão da organização autônoma dos trabalhadores. A Fundação Vale opera em 8 estados — precisamente aqueles onde a empresa detém concessões de mineração e enfrenta conflitos socioambientais. A Fundação CSN existe desde 1966, cobrindo os municípios do entorno de suas usinas siderúrgicas em Minas Gerais e Rio de Janeiro. O padrão é sistemático: a presença territorial das fundações corporativas acompanha, com notável precisão, a geografia operacional das próprias empresas. Trata-se da montagem de um aparato de controle e pacificação territorial, realizado sob a linguagem asséptica da &#8220;responsabilidade social corporativa&#8221; para neutralizar os atritos gerados pela exploração econômica local.</p>
<p style="text-align: justify;">A pesquisa de Liliana Rolfsen Petrilli Segnini — realizada ao longo de quatro anos no interior da sede do Bradesco e publicada como <em>A Liturgia do Poder: Trabalho e Disciplina</em> (EDUC, 1988), originalmente tese de mestrado defendida na PUC-SP em 1986 sob orientação de Maurício Tragtenberg — documenta com precisão etnográfica os mecanismos de poder disciplinar que estruturam a maior organização bancária privada do país. O que Segnini encontrou no cotidiano do Bradesco vai muito além da gestão de recursos humanos: uma arquitetura de controle que combina seleção de pessoal por critérios de homogeneização social e moral, treinamento orientado à submissão hierárquica, vigilância permanente através de sistemas de visibilidade organizacional, e uma função ideológica explícita da Fundação Bradesco — entendida pela própria organização como instrumento de formação de &#8220;força de trabalho dócil e produtiva&#8221;, capaz de selecionar, entre os filhos das classes trabalhadoras, aqueles que demonstrem as virtudes de obediência, corretude e dedicação valorizadas pelo banco. Nessa lógica, a filantropia educacional não é externa ao processo de exploração — é constitutiva dele: forma o trabalhador antes de empregá-lo, molda o consentimento antes de exigi-lo, e converte a gratidão em disciplina. O livro, orientado por Tragtenberg e publicado pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, é também um documento político: demonstra empiricamente, para um caso paradigmático do capitalismo brasileiro, o que este ensaio argumenta teoricamente sobre o conjunto do terceiro setor.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano internacional, o mapeamento revela uma presença capilarizada. A Cruz Vermelha opera com 136 filiais em 22 estados desde 1970. A World Vision — agência evangélica norte-americana — mantém 29 unidades no país desde 1975, concentradas no Norte e Nordeste, regiões onde disputou influência histórica com a vertente progressista da Teologia da Libertação. Por sua vez, a Ford Foundation estabeleceu-se no país em 1966 — dois anos após o golpe militar, no exato período em que canalizava recursos para a contenção geopolítica em toda a América Latina. Sua atuação, contudo, revela uma sofisticação que ultrapassa o mero repasse financeiro: a fundação investiu sistematicamente na produção do conhecimento que legitima o próprio campo em que opera.</p>
<p style="text-align: justify;">O caso mais emblemático é o do CEBRAP, fundado em 1969 por intelectuais cassados pelo regime, entre eles o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. A Ford financiou a criação do centro e, em 1975, estabeleceu um <em>endowment</em> equivalente a US$ 3,47 milhões em valores atuais, mantendo os aportes até meados dos anos 1990 — com fluxos que persistem no presente, a exemplo de US$ 240 mil em 2021 e US$ 250 mil em 2023. O mecanismo revela-se milimétrico: intelectuais críticos foram abrigados e institucionalizados por um aparato vinculado à política cultural norte-americana, e o quadro que o centro acolheu tornou-se o gestor que implementou a reforma gerencial do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mesma racionalidade se reproduz na atualidade. O programa <em>Gender, Racial, and Ethnic Justice International</em> da Ford Foundation distribuiu, entre julho de 2020 e novembro de 2024, US$ 266,5 milhões para organizações parceiras na América Latina, África e Ásia. Longe de representar uma inflexão disruptiva, a canalização de recursos para as agendas de justiça demográfica e representatividade cumpre uma função objetiva na reorganização do mercado de trabalho contemporâneo. Ao converter contradições estruturais de classe em pautas focalizadas de &#8220;diversidade e inclusão&#8221;, o grande capital transnacional modela uma nova subjetividade operária. O financiamento da crítica segmentada não contradiz o interesse corporativo; complementa-o, na medida em que instrumentaliza a gramática dos direitos para legitimar novas formas de flexibilização, precarização e segmentação da força de trabalho, deixando intactas as hierarquias econômicas e as taxas de exploração que sustentam as próprias corporações financiadoras. É o que Boltanski e Chiapello chamaram de absorção da crítica — aqui operada em escala global e com orçamento de centenas de milhões de dólares. Polese e Bernardo (2021) radicalizam esse diagnóstico: ao contrário do que ocorre com as lutas dos trabalhadores — que precisam ser primeiramente derrotadas e deformadas antes de serem assimiladas pelo capital —, os identitarismos são incorporados tal e qual, sem deturpação de sua forma originária, convertendo-se diretamente em fator de produtividade e de legitimação empresarial. O financiamento Ford da pesquisa antirracista é o caso empírico que confirma a tese: a aparência da luta é preservada; seu horizonte de classe, suprimido. A crítica é tolerada — e até financiada — desde que se limite ao plano discursivo, sem transbordar para a mobilização capaz de alterar as estruturas. A Fundação Cargill — braço filantrópico do maior exportador de commodities agrícolas do mundo — opera no Brasil desde 1973, justamente quando a expansão da fronteira agrícola sobre o Cerrado e a Amazônia começava a gerar os conflitos fundiários que se arrastam até hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo mecanismo opera no campo do ambientalismo organizado — com uma peculiaridade estrutural que o torna analiticamente relevante: aqui, o inimigo de classe permanece oculto sob a gramática da crise planetária. Organizações como o Greenpeace e o WWF pautam a questão ambiental sob o signo do decrescimento econômico como imperativo de sobrevivência planetária, sem nomear quem paga a conta. O Greenpeace Internacional — cuja receita consolidada atingiu €111 milhões em 2023, segundo seu relatório financeiro oficial — capta recursos majoritariamente de classes médias e altas do hemisfério norte. Simultaneamente, a rede global Greenpeace movimenta um orçamento estimado em US$ 400 milhões anuais. O WWF recebe financiamento de conglomerados como Coca-Cola, HSBC, Cargill, Alcoa e BP — as mesmas corporações responsáveis pela degradação ambiental que a organização pretende combater.</p>
<p style="text-align: justify;">O decrescimento formulado sob esse financiamento não incide sobre os padrões de consumo das classes dominantes que o patrocinam: recai diretamente sobre a classe trabalhadora global. Traduz-se no bloqueio de infraestruturas essenciais, na estagnação das condições de vida e no confisco do rendimento real via tributações regressivas sobre energia e combustíveis — rebaixando o custo de reprodução da força de trabalho sob o pretexto da salvaguarda climática, sem jamais arranhar a acumulação corporativa. O ambientalismo de ONG opera, assim, como mais uma tecnologia de administração de vidas: neutraliza-se o antagonismo entre a exploração e a dilapidação do trabalho ao transformá-lo em uma rotina de restrições disciplinares aplicadas indistintamente aos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A dimensão financeira desse fenômeno é de uma magnitude que o debate público sobre o terceiro setor sistematicamente subestima. No plano global, segundo dados da OCDE, em 2024 os países membros do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento canalizaram US$ 27 bilhões de ajuda oficial ao desenvolvimento através de ou para organizações da sociedade civil — 12,9% de toda a ajuda bilateral — com Estados Unidos (US$ 10,3 bilhões), União Europeia (US$ 2,8 bilhões) e Alemanha (US$ 2,1 bilhões) respondendo por 57% do total. Somando o financiamento governamental ao privado, o setor global de ONGs e organizações filantrópicas movimentou US$ 508 bilhões em 2026 — volume superior ao PIB da Argentina, com projeção de duplicar até 2035. Não é um fenômeno marginal: é um eixo estruturante da globalização.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dados do Ipea fornecem a métrica exata dessa concentração no Brasil. Do montante de R$ 118,5 bilhões transferidos pelo governo federal às OSCs entre 2010 e 2018, somente 2,7% das entidades ativas foram contempladas. Na prática, 22 mil organizações confiscaram a quase totalidade das verbas de um universo de 820 mil. O funil é ainda mais estreito por natureza jurídica: as fundações privadas (2% do total) gerenciaram R$ 23 bilhões, enquanto as associações (86% do total) retiveram R$ 65 bilhões. Em 2016, sob severo corte de gastos públicos, as fundações abocanharam 40% do orçamento federal destinado ao setor. Diante da escassez, o Estado opera uma escolha de classe, blindando as estruturas de maior porte e densidade corporativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A divisão territorial corrobora esse privilégio: o Sudeste, detentor de 42% das OSCs, açambarcou 61% do caixa federal, enquanto o Distrito Federal tragou 83% do orçamento do Centro-Oeste, restando às demais unidades da federação uma participação marginal. O cenário recente confirma a tendência: em 2023, R$ 9,6 bilhões federais concentraram-se em apenas 5.224 CNPJs. Esse desenho joga por terra o mito da horizontalidade da sociedade civil. O terceiro setor estrutura-se como um mercado oligopolizado: um topo dinâmico de fundações transnacionais que monopoliza recursos e pauta políticas, assentado sobre uma base atomizada de associações locais precarizadas e dependentes do clientelismo municipal. Longe de constituir um desvio, essa pirâmide revela que o campo opera de forma perfeitamente homóloga à estrutura de poder do capitalismo que o engendra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5. ONGs como multiplicação silenciosa do poder</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Estado: A Silenciosa Multiplicação do Poder</em> (1998), João Bernardo desenvolve uma tese que vai na contramão da sociologia política convencional: o Estado contemporâneo não se fortalece concentrando poder, mas se reproduz dispersando-o. A multiplicação de instâncias de decisão — conselhos, comissões, fóruns, parcerias público-privadas, organizações da sociedade civil — não enfraquece o poder estatal: o amplia, ao criar novos pontos de contato e negociação entre a esfera pública e os interesses privados, novos mecanismos de cooptação e neutralização das oposições, novas linguagens de legitimação que tornam a dominação mais palatável porque mais participativa.</p>
<p style="text-align: justify;">As ONGs são, nesse quadro, agentes privilegiados da multiplicação silenciosa do poder. Sua presença nos conselhos de políticas públicas — de saúde, de assistência social, de educação, de direitos humanos — não representa a chegada da sociedade civil ao poder: representa a chegada de determinadas organizações, com determinados perfis de financiamento, determinadas agendas e determinadas relações com o Estado e com o capital, a espaços de decisão que antes eram exclusivamente governamentais. A pergunta relevante não é se essas organizações participam do poder — é quais organizações participam, em nome de quem, financiadas por quem e com quais consequências para quem.</p>
<p style="text-align: justify;">Boltanski e Chiapello, em <em>O Novo Espírito do Capitalismo</em>, oferecem uma chave complementar. Sua análise da &#8220;crítica artística&#8221; e da &#8220;crítica social&#8221; absorvidas pelo capitalismo dos anos 1990 — a transformação da demanda por autonomia, autenticidade e participação em recursos de gestão empresarial — ilumina o mecanismo pelo qual a linguagem da contestação se torna linguagem da legitimação.<strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As ONGs operam como o veículo institucional por excelência dessa dinâmica: organizações cuja função histórica não se estruturou na contestação da ordem, mas na sua legitimação e salvaguarda. Longe de representarem uma força rebelde capturada a posteriori pelo sistema, essas agências nasceram umbilicalmente atreladas à necessidade de institucionalizar e pacificar as pressões sociais. Sua atuação como instrumentos de reprodução do Estado gerencial e do mercado não decorre de desvios morais ou da má-fé de seus integrantes, mas da própria lógica estrutural de sua inserção genética no campo do poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Maurício Tragtenberg, em <em>Administração, Poder e Ideologia</em>, já havia identificado, nos anos 1970, o mecanismo central desse processo: a ideologia administrativa — a crença de que os problemas sociais são, em última instância, problemas de gestão, solucionáveis por técnicas corretas aplicadas por pessoas competentes — é o dispositivo que transforma questões políticas em questões técnicas. As ONGs são, em grande medida, o braço operacional dessa ideologia: organizações que se apresentam como técnicas, neutras, orientadas por evidências, enquanto fazem escolhas que são, inerentemente, políticas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>6. Democracia empresarial e administração do descontentamento</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A engenharia institucional do Terceiro Setor materializa aquilo que a literatura crítica define como &#8220;democracia empresarial&#8221; — um modelo que encontra a sua anatomia teórica mais radical no conceito de &#8220;democracia totalitária&#8221; formulado por João Bernardo (2004). Trata-se de uma forma de organização política que combina procedimentos formais de participação com a preservação substantiva das hierarquias de classe. O sistema governa e administra vidas não a despeito da participação, mas por meio dela: ao incluir as classes trabalhadoras em espaços de deliberação cujos limites são delimitados pela classe dos gestores, produz-se um consentimento difuso, muito mais difícil de contestar do que qualquer autocracia tradicional.</p>
<p style="text-align: justify;">As ONGs são um componente central da democracia empresarial. Sua função não é simplesmente a de prestar serviços que o Estado não presta — é a de articular, no nível da comunidade, uma relação entre classes que é ao mesmo tempo de assistência e de controle. A ONG que oferece cursos de qualificação profissional num bairro popular não está apenas treinando trabalhadores para o mercado de trabalho: está construindo, nesse processo, uma linguagem da cidadania e da responsabilidade individual que naturaliza a precariedade do mercado de trabalho e desvia a energia social do conflito coletivo para a competição individual.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa administração gerencial do conflito social materializa-se, de forma exemplar, na conversão de políticas de emprego em dispositivos de controle disciplinar da força de trabalho. O laboratório histórico dessa engrenagem na cidade de São Paulo revela-se na execução de programas públicos de transferência de renda e qualificação, como o Programa Operação Trabalho (POT). Em vez da garantia de emprego ou de direitos trabalhistas universais, o Estado delega a gestão do contingente de desempregados a uma malha terceirizada de ONGs. Incumbe a essas agências gerenciais administrar o descontentamento das frações mais espoliadas da classe trabalhadora: a urgência material da sobrevivência é capturada por uma rotina de bolsas-auxílio sub-remuneradas, desprovidas de seguridade, onde o potencial de contestação é neutralizado por pedagogias de resiliência, empreendedorismo e conformismo produtivo. A ONG atua, assim, como o capataz terceirizado que disciplina e pacifica a força de trabalho excedente com o próprio fundo público — devolvendo ao Estado a aparência de intervenção social sem os custos políticos de uma política de emprego universal.</p>
<p style="text-align: justify;">No cinema brasileiro, a crueza satírica de <em>Quanto Vale ou É por Quilo?</em> (Sérgio Bianchi, 2005) capta com exatidão essa homologia, escancarando a continuidade histórica entre a filantropia colonial e o terceiro setor contemporâneo. A tese do filme converge perfeitamente com a crítica materialista: a transição de um período ao outro altera as representações discursivas — transmutando a &#8220;caridade&#8221; jesuítica em &#8220;cidadania&#8221; empresarial —, mas preserva intacta a estrutura de intervenção das classes dominantes sobre a reprodução das classes trabalhadoras, mediada por aparatos que operam sob o simulacro da neutralidade técnica.</p>
<p style="text-align: justify;">O romance<em> O Jardineiro Fiel</em>, de John Le Carré (2001) — e sua posterior adaptação cinematográfica por Fernando Meirelles (2005) — oferece a radiografia literária mais precisa desse mecanismo. No enredo, uma ONG humanitária opera como braço operacional de uma multinacional farmacêutica, fornecendo acesso territorial, confiança comunitária e cobertura institucional para testes ilegais de medicamentos em populações pobres do Quênia. Le Carré estruturou a obra a partir de rigorosa investigação sobre casos reais de experimentação clínica no continente africano — a ficção, portanto, não atua como metáfora, mas como documentação sob outra forma. Quando uma ativista que opera nas margens dessas redes descobre o esquema e ameaça expô-lo, é eliminada. A narrativa desmonta dois mitos simultaneamente: o da ONG como espaço neutro de solidariedade, e o da contestação individual como alternativa viável ao poder corporativo organizado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>7. Nomear para desnaturalizar</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Evita-se aqui o psicologismo das boas intenções. A dinâmica das Organizações Não-Governamentais não é determinada pelas motivações morais de seus quadros técnicos, mas pelas funções objetivas que o capitalismo contemporâneo delega a esse aparato. O eixo analítico recai estritamente sobre as determinações estruturais: na racionalidade sistêmica que captura, canaliza e instrumentaliza a força de trabalho social, convertendo-a em engrenagem de governança e contenção dos conflitos de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dados, quando lidos sob a perspectiva crítica aqui adotada, revelam uma imagem que a ideologia oficial do terceiro setor ativamente obscurece. Trata-se de um campo cuja expansão histórica acompanhou o sufocamento dos direitos sociais e o rebaixamento das condições de vida da classe trabalhadora. Financiado majoritariamente pelo próprio Estado que supostamente não o comanda, o setor opera na execução de serviços públicos convertidos em nichos gerenciais; sua função instrumentaliza a gramática da cidadania para naturalizar relações de dependência e hierarquia, convertendo-as em ferramentas eficazes de subordinação social e contenção política.</p>
<p style="text-align: justify;">A existência de 672 mil organizações ativas no país em 2026 — extraídas de um universo histórico de mais de 1 milhão de registros cadastrados — está longe de atestar o vigor da democracia. Essa proliferação desenha, ao contrário, a cartografia de uma sofisticada rede de contenção e administração do descontentamento social. A multiplicação das entidades pressupõe e conserva as assimetrias que estruturam o capitalismo. Nesse cenário, o vocabulário asséptico da gestão gerencial opera como o verniz ideológico necessário para dissolver o antagonismo de classes em conciliação, demarcando o limite exato onde a crítica social deixa de ser contestação para se tornar engrenagem da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Lista de Siglas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>CAD</strong> — Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (OCDE)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>CEBRAP</strong> — Centro Brasileiro de Análise e Planejamento</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>CIA</strong> — Central Intelligence Agency (Agência Central de Inteligência dos EUA)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>CSN</strong> — Companhia Siderúrgica Nacional</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ESG</strong> — Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>FHC</strong> — Fernando Henrique Cardoso</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Ipea</strong> — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>OCDE</strong> — Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ODA</strong> — Official Development Assistance (Ajuda Oficial ao Desenvolvimento)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ONG</strong> — Organização Não-Governamental</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>OSC</strong> — Organização da Sociedade Civil</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>OSCIP</strong> — Organização da Sociedade Civil de Interesse Público</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PIB</strong> — Produto Interno Bruto</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>POT</strong> — Programa Operação Trabalho (Prefeitura de São Paulo)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PRONASCI </strong>— Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">BALZAC, Honoré. O Médico Rural. In: A Comédia Humana. Estudos de Costumes &#8211; Cenas da Vida Parisiense. Rio de Janeiro: Editora Globo, v. XIII, 1954.</p>
<p style="text-align: justify;">______. O Cura da Aldeia. In: A Comédia Humana. Estudos de Costumes &#8211; Cenas da Vida Rural. Rio de Janeiro: Editora Globo, v. XIV, 1954.</p>
<p style="text-align: justify;">BERNARDO, João. Economia dos Conflitos Sociais. São Paulo: Cortez, 1991.</p>
<p style="text-align: justify;">______. Estado: A Silenciosa Multiplicação do Poder. São Paulo: Escrituras, 1998.</p>
<p style="text-align: justify;">______. Democracia Totalitária. São Paulo: Cortez, 2004.</p>
<p style="text-align: justify;">______. A salvação da burguesia pelos gestores. In: Labirintos do fascismo: na encruzilhada da ordem e da revolta. 3. ed. 2015. Cap. 3.</p>
<p style="text-align: justify;">______. O inimigo oculto: ensaio sobre a luta de classes &#8212; manifesto anti-ecológico. Porto, Afrontamento, 1979.</p>
<p style="text-align: justify;">BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Ève. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;">BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Reforma do Estado para a cidadania: a reforma gerencial brasileira na perspectiva internacional. São Paulo: Ed. 34, 1998.</p>
<p style="text-align: justify;">IPEA. Mapa das Organizações da Sociedade Civil — Base Resumida (extrato de mar. 2026). Disponível em: <a href="https://mapaosc.ipea.gov.br">https://mapaosc.ipea.gov.br</a> Acesso em: mar. 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">______. Brasil possui mais de 897 mil organizações da sociedade civil ativas. Brasília: Ipea, fev. 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">______. Afinal, o que os dados mostram sobre a atuação das ONGs? Análise de transferências federais e projetos executados pelas Organizações da Sociedade Civil no Brasil. Brasília: Ipea (Diest), 2019.</p>
<p style="text-align: justify;">OCDE. Final OECD Statistics on Official Development Assistance (ODA) and Other Resource Flows to Developing Countries in 2024. Paris: OECD Publishing, dez. 2025. Disponível em: <a href="https://www.oecd.org/en/data/insights/data-explainers/2025/12/final-oecd-statistics-on-oda">https://www.oecd.org/en/data/insights/data-explainers/2025/12/final-oecd-statistics-on-oda</a> Acesso em: maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">LE CARRÉ, John. O Jardineiro Fiel. Rio de Janeiro: Record, 2005.</p>
<p style="text-align: justify;">POLESE, Pablo. Machismo, Racismo, Capitalismo Identitário: as estratégias das empresas para as questões de gênero, raça e sexualidade. São Paulo: Hedra, 2021.</p>
<p style="text-align: justify;">SEGNINI, Liliana Rolfsen Petrilli. A Liturgia do Poder: Trabalho e Disciplina. São Paulo: EDUC, 1988.</p>
<p style="text-align: justify;">SAUNDERS, Frances Stonor. The Cultural Cold War: The CIA and the World of Arts and Letters. New York: The New Press, 1999.</p>
<p style="text-align: justify;">RESOURCE — ROCKEFELLER ARCHIVE CENTER. &#8220;Distasteful Regimes&#8221;: Authoritarianism, the Ford Foundation, and Social Sciences in Brazil. Sleepy Hollow: Rockefeller Archive Center, jul. 2025. Disponível em: <a href="https://resource.rockarch.org/story/authoritarianism-and-ford-foundation-social-sciences-in-brazil">https://resource.rockarch.org/story/authoritarianism-and-ford-foundation-social-sciences-in-brazil</a> Acesso em: maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">FORD FOUNDATION. Evaluation of Ford&#8217;s Gender, Racial, and Ethnic Justice International Strategy. Nova York: Ford Foundation, dez. 2025. Disponível em: <a href="https://www.fordfoundation.org/learning/library/program-evaluations/evaluation-of-fords-gender-racial-and-ethnic-justice-international-strategy">https://www.fordfoundation.org/learning/library/program-evaluations/evaluation-of-fords-gender-racial-and-ethnic-justice-international-strategy</a> Acesso em: maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">TRAGTENBERG, Maurício. Administração, Poder e Ideologia. São Paulo: Editora UNESP, 2005.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Filmografia citada</strong></p>
<p style="text-align: justify;">QANTO VALE OU É POR QUILO? Direção: Sérgio Bianchi. Brasil, 2005.</p>
<p style="text-align: justify;">O JARDINEIRO FIEL. Direção: Fernando Meirelles. Reino Unido/Brasil, 2005.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Projeto federal instituído para articular ações de segurança pública com políticas sociais, com forte engajamento e parcerias junto do terceiro setor e governos locais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A distinção entre &#8220;crítica artística&#8221; (centrada na autonomia, autenticidade e criatividade) e &#8220;crítica social&#8221; (centrada na igualdade e na solidariedade) é desenvolvida por Boltanski e Chiapello na Parte I de O Novo Espírito do Capitalismo, onde os autores analisam como o capitalismo dos anos 1990 incorporou seletivamente a primeira para neutralizar a segunda. A discussão dos mecanismos de absorção dessas críticas está concentrada especialmente nos capítulos 2 e 3 da obra.</p>
<p><em>A obra que ilustra o artigo é da autoria de Jean-François Millet (1814-1875).</em></p>
<p><strong>*</strong> <em>A publicação deste artigo foi dividida em duas partes, com publicação semanal.</em></p>
<p><span class="info-icon-circle-wrapper"><em>Leia a Parte I <a href="https://passapalavra.info/2026/09/159892/">aqui</a></em>.</span></p>
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