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	<title>Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Batia &#038; parava</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Sep 2026 14:47:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[A liberdade veio com o home office. O algoritmo veio junto. Ele alcança e monitora — sem bater ponto, sem assinar saída. O relógio de ponto da fábrica tinha um defeito insuportável: parava às 18h. O algoritmo, não. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A liberdade veio com o <em>home office</em>. O algoritmo veio junto. Ele alcança e monitora — sem bater ponto, sem assinar saída. O relógio de ponto da fábrica tinha um defeito insuportável: parava às 18h. O algoritmo, não. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Os caminhos da transformação social em Wakanda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Sep 2026 11:07:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[Em qualquer dos projetos os trabalhadores, fossem os de Wakanda ou de qualquer outra parte do mundo, não foram convidados a participar. Por Michel Goulart da Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Goulart da Silva</h3>
<p style="text-align: justify;">Lançado em 2018, o filme <em>Pantera Negra</em> conseguiu algo quase inédito em um filme sobre super-heróis: ser, ao mesmo tempo, em estrondoso sucesso de público e largamente elogiado pela crítica especializada. Essa foi uma das razões pela qual pode ser considerado um marco desse gênero cinematográfico, tanto problematizando as produções sobre super-heróis como mostrando elementos culturais africanos.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme <em>Pantera Negra</em> equilibra os elementos formais e de efeitos especiais grandiosos com uma narrativa com densidade política e cultural. Na construção deste super-herói, são usadas “matrizes africanas, de modo que simboliza um arquétipo fantástico e parcial das identidades culturais existentes no continente”.<strong>[1]</strong> O filme se apropria “de referências culturais, como exemplo a tradição de se reverenciar constantemente aos ancestrais, sempre manifestada no âmbito espiritual da narrativa”, além de utilizar em sua estruturação imagética “retratos de guizos, conchas, vestes, máscaras, assim como a percepção dos hábitos e sonoridades expressados por tribos reais africanas”.<strong>[2]</strong> Em sua concepção, o filme parece ter uma influência do afrofuturismo, que pode ser “tanto uma estética artística quanto uma estrutura para a teoria crítica”, que combina:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“[…] os elementos de ficção científica, ficção histórica, ficção especulativa, fantasia, afrocentricidade e realismo mágico com crenças não ocidentais. Em alguns casos, trata-se de uma reinterpretação total do passado e especulações sobre o futuro repletas de críticas culturais”.<strong>[3]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159859" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/wakanda.jpg" alt="" width="453" height="443" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/wakanda.jpg 453w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/wakanda-300x293.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/wakanda-429x420.jpg 429w" sizes="(max-width: 453px) 100vw, 453px" />Para além das questões culturais, pode-se ver no filme tanto um elogio à ancestralidade africana como a reflexão sobre o permanente embate entre reforma e revolução, num contexto de lutas das populações negras. Essas estratégias em confronto são representadas pelos dois primos, T&#8217;Challa e Erik, oriundos da família que comanda Wakanda. Cada um desses dois personagens:</p>
<blockquote><p>“[…] representa uma visão política diferente. Erik passou sua juventude justamente em Oakland e depois foi agente do comando especial secreto do Exército estadunidense &#8211; seu universo é o da pobreza, da violência de rua e da brutalidade militar. T&#8217;Challa foi criado na opulência isolada da corte real de Wakanda”.<strong>[4]</strong></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">O filme acompanha T&#8217;Challa que, após a morte de seu pai, o Rei de Wakanda, precisa encarar a sucessão ao trono, para ocupar o seu lugar de direito. Faz parte desse legado vestir o manto do Pantera Negra. Wakanda é uma isolada e tecnologicamente avançada nação africana. Mas, com o aparecimento de um misterioso inimigo, Erik Killmonger, sobrinho do rei falecido, T&#8217;Challa é desafiado como monarca e como Pantera Negra. Esse embate coloca o destino de Wakanda, e do restante do planeta, em risco.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159857" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/BLAPDC2017001-dragged.webp" alt="" width="954" height="976" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/BLAPDC2017001-dragged.webp 954w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/BLAPDC2017001-dragged-293x300.webp 293w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/BLAPDC2017001-dragged-768x786.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/BLAPDC2017001-dragged-411x420.webp 411w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/BLAPDC2017001-dragged-640x655.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/BLAPDC2017001-dragged-681x697.webp 681w" sizes="(max-width: 954px) 100vw, 954px" />No filme mostra-se a luta entre distintas perspectivas políticas. T&#8217;Challa se propõe a dar continuidade ao projeto político do pai, ou seja, manter o isolamento de Wakanda em relação ao mundo. Esse isolamento teria sido a razão de Wakanda conseguir alcançar seu desenvolvimento econômico, mantendo o país a salvo de interesses estrangeiros e coloniais.</p>
<p style="text-align: justify;">Um projeto alternativo é apresentado por Killmonger, para o qual Wakanda deveria apoiar as lutas das populações negras pelo mundo. Para ele, os negros, com o apoio material de Wakanda, poderiam se vingar de todo o sofrimento imposto por gerações de exploração e humilhação. Killmonger, contudo, não propõe uma mudança de regime, procurando encabeçar a monarquia.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Pantera Negra</em>, se confrontam o projeto de abrir Wakanda para o mundo com o de manter o país em segredo diante de possíveis investidas externas. O projeto de abertura, por sua vez, mostra ainda dois caminhos, um de fazê-lo pela diplomacia e outra pelas armas. Nesse sentido,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Erik advoga uma solidariedade global militante e defende que Wakanda deveria colocar sua riqueza, seu conhecimento e seu poder à disposição dos oprimidos de todos os países para que eles possam derrubar a ordem mundial existente. T&#8217;Challa, ao longo do arco narrativo do filme, lentamente passa de uma postura isolacionista tradicional (do tipo “Wakanda em primeiro lugar!”) para um globalismo gradual e pacífico, que operaria no interior das coordenadas da ordem mundial existente e suas instituições, disseminando educação e auxílio tecnológico, e ao mesmo tempo preservando a cultura e o modo de vida singulares de Wakanda”.<strong>[5]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Contudo, a alternativa de mudança profunda também apresenta problemas, por duas razões. Primeiro, por usar a tradição para tomar o poder e depois literalmente queimá-la, sem problematizar seus pressupostos conservadores. Segundo, por não ser uma mudança baseada na organização e mobilização dos trabalhadores, de Wakanda ou dos demais países em uma unidade internacional, mas uma política autoritária, feita por cima, centralizada numa figura da família real. No filme, Killmonger é mostrado como “uma espécie de revolucionário Pantera Negra dos anos 1960 contra o nobre e mítico Pantera Negra de nosso universo de super-heróis de quadrinhos”.<strong>[6]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No enfrentamento entre os projetos políticos representados por T&#8217;Challa e por Killmonger &#8211; a manutenção da ordem isolacionista governada pela família real ou a promoção de guerras civis nos demais países &#8211; não vence nenhuma das propostas, mas a de conciliação, mediada pela ONU. No final do filme, T&#8217;Challa divulga para o mundo parte dos segredos de Wakanda, dando início também a projetos de assistência voltados para as populações negras de diversas partes do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159858" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1_WY1vLud1-QglG7DTYyaGFw.jpg" alt="" width="640" height="251" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1_WY1vLud1-QglG7DTYyaGFw.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1_WY1vLud1-QglG7DTYyaGFw-300x118.jpg 300w" sizes="(max-width: 640px) 100vw, 640px" />No final, o filme defende que, a despeito dos problemas que possam existir nas tradições monárquicas de Wakanda, as mudanças rápidas e profundas também podem representar problemas. O próprio espaço escolhido para divulgar as ações de Wakanda, durante uma conferência da ONU, mostra o conservadorismo da proposta e a busca de uma conciliação com o imperialismo. Por outro lado, a forma como se mostra a revolução defendida por Killmonger, que se confunde com uma vingança pessoal, baseada na raiva, mostra uma compreensão equivocada do que possa ser uma radical transformação social.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há revolução no filme, mas apenas uma reforma superficial. Em qualquer dos projetos, tanto o defendido por T&#8217;Challa como o de Killmonger, os trabalhadores, fossem os de Wakanda ou de qualquer outra parte do mundo, não foram convidados a participar.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são da história em quadrinho do Pantera Negra.</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Rodrigo Sérgio Ferreira de Paiva. Panther is the new Black: representação e cultura na comunicação do filme Pantera Negra. Poro Alegre: PLUS, 2019, p. 93.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Rodrigo Sérgio Ferreira de Paiva. Panther is the new Black: representação e cultura na comunicação do filme Pantera Negra. Poro Alegre: PLUS, 2019, p. 97.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ytasha L. Womack. Afrofuturismo: o mundo da ficção científica preta e a cultura da fantasia. São Paulo: Ananse, 2024, p. 19.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Slavoj Zizek. Lacrimae Rerum: ensaios sobre cinema moderno. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 212.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Slavoj Zizek. Lacrimae Rerum: ensaios sobre cinema moderno. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 212.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Slavoj Zizek. Lacrimae Rerum: ensaios sobre cinema moderno. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 213.</p>
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		<title>“Revolta dentro da ordem”: o caso do movimento “Desocupa” nas ocupações secundaristas em 2016</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Sep 2026 19:21:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[Se Junho de 2013 pode ser descrito como o fechamento de um ciclo, e a abertura de um novo com a ascensão das candidaturas bolsonaristas em 2018, que influência essa noção particular de revolta assume entre os anos de 2015 e 2016 sobre os sujeitos políticos? Por Alan Fernandes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Alan Fernandes</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;">E o que você está achando do movimento até agora?</p>
<p style="text-align: right;">&#8211; Parece que a escola é finalmente nossa.</p>
<p style="text-align: right;">(diálogo ocorrido entre um professor e um estudante dentro de uma escola ocupada)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Entre 2015 e 2016 o Brasil experimentava políticas de austeridade que se estendiam a vários setores, entre eles, as secretarias de educação. Inspirados na Revolta dos Pinguins no Chile, que aliou manifestações contundentes com ocupações de instituições de ensino, estudantes paulistas protagonizaram um movimento até então inédito no país que ocupou dezenas de escolas em todo o Estado em meio ao processo de reorganização escolar do então governador Geraldo Alckmin (PSDB), atualmente vice-presidente da república. O projeto capitaneado pelo então ‘‘tucano’’ teria como consequência a realocação dos estudantes nas escolas de modo que fosse possível fechar unidades de ensino. O movimento estampou as capas de jornais, forçou figuras públicas a tomarem partido, foi retratado de forma sensacionalista pela novela Malhação, e seu significado político foi capturado por instituições financeiras, como o Itaú, que explicitamente retratou a iniciativa privada como uma salvação para a educação e as demandas estudantis.</p>
<p style="text-align: justify;">Em fevereiro do ano seguinte, milhares de estudantes secundaristas fluminenses tomam as ruas do centro por melhores condições de estudo. Na ocasião, marchavam lado-a-lado com seus professores que na ocasião já ameaçavam greve <strong>[1]</strong>. Antes da última greve de professores pelo piso salarial (2023), que conquistou um aumento, mas ainda assim abaixo do piso nacional, os docentes denunciavam que o último reajuste teria sido em 2015, e que isso os fez ter o menor salário do Brasil. A greve de 2016 só não foi a maior que a de 2023 em termos de adesão, mas àquela altura tinha um componente político crucial – o amplo apoio da sociedade civil e especialmente dos estudantes secundaristas. Em março, estudantes de uma escola estadual na Zona Norte do Rio interromperam as aulas, cerraram os portões, e fizeram uma assembleia (LIMA 2019). Dalí, formaram-se pelo menos 6 comissões responsáveis por manter limpa, organizada, e operante, toda a escola, para que os alunos ali permanecessem até que suas pautas fossem atendidas. Entre elas, a falta de funcionários na escola <strong>[2]</strong>, não pagamento dos mesmos <strong>[3]</strong>, estrutura, acesso, e pautas mais gerais como currículo, avaliações de desempenho, etc. (Passa Palavra. 2016)</p>
<p style="text-align: justify;">Naquele mesmo ano o Impedimento de Dilma Roussef (PT) leva ao poder Michel Temer do então PMDB para a presidência e este promete passar importantes reformas de cunho neoliberal. Entre elas, o Projeto de Emenda Constitucional 55 (antiga 241) que estipulava um teto de gastos para as contas públicas e que diminuía a verba disponível para investimento em educação. Daí se seguiram protestos em Brasília e nas capitais, e um ato mais radical, a ocupação de centenas de escolas no Paraná. Deste fato também se seguiram as ocupações das unidades do Pedro II do Rio bem como Institutos Federais, faculdades e escolas em outros estados <strong>[4]</strong>. Ainda em 2016, estudantes secundaristas ocuparam suas escolas em Goiás contra o modelo de implementação de OSs na gestão do ensino. Destas experiências, outras em escala menor também ocorreram. Cabe situar neste terreno o saldo político que os estudantes deixaram para seus aliados mais velhos, os universitários. Militantes que gozaram de uma experiência e maturidade política foram ou direto para o mundo do trabalho, repensar seu papel na sociedade e nas empresas, e uma parte tentou sorte nas universidades de todo país. Tão logo se envolveriam em centros acadêmicos, chapas, ocupações de universidade, e outros movimentos sociais associados ou não a projetos de extensão dentro de seu próprio local de estudo. O que põem em causa, segundo Adoue (2016. S.p.), é uma ambiguidade política: “o que emergia da ação dos estudantes, com o nome “solidariedade”, que pouco contribuía a revelar a potência que os motivava [a categoria dos professores], era uma disputa política: disputa pelo poder na escola.”. Essa reflexão levaria a uma própria problematização do grêmio <strong>[5]</strong> . Dessa forma, em maior ou menor grau, os secundaristas mesclaram tradições de luta antigas com uma brilhante improvisação, tão cara aos movimentos sociais de hoje, que põe em causa o direcionamento político da contestação.</p>
<p style="text-align: justify;">O que subjaz essas iniciativas políticas é que,cada qual em sua cirrcunstância lidou com obstáculos para além dos próprios governos de quem cobravam reivindicações. Alguns desses adversários tornaram-se verdadeiros protagonistas na reação às lutas sociais ocorridas naquele evento que hoje marca uma década.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O ovo da serpente</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O militante e autor português João Bernardo denomina o fascismo como uma revolta dentro da ordem (apud MANOLO. 2022). Em uma de suas intervenções no website Passa Palavra (BERNARDO. 2013), distingue duas modalidades de luta social. Uma é a revolta e outra é a revolução. A revolta é agitação sob a bandeira dos lugares-comuns, que não põe em causa as relações sociais presentes no mundo; ao contrário da revolução, que é a liquidação dos lugares-comuns. A ousada ideia de que é preciso tomar as rédeas daquilo que está posto. Um grupo de militantes (2019. s.p.), sensível à escalada autoritária que democraticamente, por mais paradoxal que seja, põe em xeque a nossa concepção de democracia, faz um paralelo entre a ascensão de Jair Messias Bolsonaro (do antigo PSC e atualmente sem partido) e a experiência efervescente de junho de 2013 para salientar que os sentidos da revolta foram capturados pelo espectro político da direita:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em meio à maior mobilização popular da história do país, nos vimos perplexos: se rompermos com a ordem democrática, o que pode acontecer? Não havia revolução no horizonte. Naquele momento, a esquerda se descobriu intimamente ligada ao regime. Não só porque era ela quem estava no governo, mas porque, desde o fim dos anos 1970, “construir a democracia” se tornara seu objetivo máximo. Desde 2013, a esquerda fugiu da revolta. E fez isso estendendo a bandeira da democracia. Por um lado, podia dizer que os protestos eram um perigo à ordem democrática e justificar a repressão; ao mesmo tempo, podia elogiar as manifestações e enquadrá-las nessa ordem – ao enxergar em junho um movimento por “mais direitos” e “mais democracia”, apagava o conteúdo concreto e contestatório dos protestos. A luta contra aquele aumento de 20 centavos não apenas tocou num aspecto crucial das condições materiais de vida na metrópole, como expôs os limites dos canais de participação que vinham sendo aperfeiçoados nos últimos governos. A violência que tomou as ruas deixou o discurso democrático sem lugar.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esse mesmo saldo político visto na Revolta dos Coxinhas, na greve dos caminhoneiros de 2018, e que tem como consumada a figura do líder Bolsonaro como um “mito”, desencadeia nas revoltas ocorridas no dia 8 de janeiro de 2023, e que viram nas últimas celebrações de 7 de setembro um presságio. Segundo estes mesmos militantes, o conteúdo dessa revolta “dentro da ordem” reflete a posição social dos trabalhadores no mercado de trabalho. Ao invés de se pautarem por relações solidárias, é sob outro mote que agem os atores políticos neste âmbito:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Quando a nova direita fez da Avenida Paulista sua passarela, entre 2015 e 2016, a socióloga Silvia Viana observou que as dimensões daquela indignação com a corrupção podiam ter uma conexão com a experiência no mercado de trabalho. O que o ódio verde-amarelo via em comum, perguntava ela, em alvos tão diferentes como o corrupto, o cotista, o movimento de moradia, o assaltante, o mendigo e o bolsista? Furam a fila. Aproveitam-se de atalhos e proteções na luta pela sobrevivência, recorrem a vantagens competitivas que produzem uma concorrência desleal numa arena onde cada um deveria correr por si. Num contexto de esgotamento econômico, a nova direita forneceu uma forma política ao acirramento da competição entre trabalhadores. Ao assumir sem pudores a lei do mais forte, traça um programa de ação adequado ao nível de selvageria do mundo do trabalho gestado ao longo das últimas décadas. A sobrevivência depende da resiliência e força de vontade individual, e qualquer forma de assistência é vista como “vitimismo“</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Se Junho de 2013 pode ser descrito como o fechamento de um ciclo, e a abertura de um novo com a ascensão das candidaturas bolsonaristas em 2018, que influência essa noção particular de revolta assume entre os anos de 2015 e 2016 sobre os sujeitos políticos?</p>
<p style="text-align: justify;">Remetendo ao caso das ocupações, as pautas elencadas pelos estudantes refletem sua insatisfação com a gestão da escola e os mecanismos de controle interno. Era isso o que estampava os panfletos, por exemplo, os manifestos das escolas ocupadas. Mas o ineditismo da tática das ocupações se deve à ação direta sobre elas. Os estudantes não estavam pedindo nada, mas impondo, e trabalhando para que isso se concretizasse. Enquanto mantinham reivindicações gerais, operacionalizavam a escola e fizeram dela um embrião de algo novo, daquilo que gostariam de ter sem intermediários. Assim exprime também um militante em Goiás que participou das ocupações nas escolas:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Não se pode pedir de uma escola que ela vá formar pessoas desconectadas das demandas da sociedade em que vive — mas ela pode certamente fazê-lo de maneira que contribua para o fortalecimento de relações alternativas às atuais relações de produção. Uma escola a serviço dos trabalhadores — não os que projetamos ou idealizamos, mas os atuais trabalhadores que aprendem a conquistar o que precisam a partir da sua própria força. (GROUXO MARXISTA, 2016. S.p.)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Desse modo, as ocupações que eram um meio, como demonstram experiências anteriores de ocupação-susto, convertem-se em instrumentos de educação coletiva sobre o papel dos sujeitos na escola, ou seja, também uma finalidade da luta política autogerida.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, não tardariam a aparecer obstáculos externos. Em São Paulo, o governo Geraldo Alckmin foi hostil desde o início às ocupações e a polícia militar constantemente era convocada para dissolver protestos, reprimir os estudantes e mesmo assediar as ocupações. O então secretário de segurança do governo, atual ministro do STF Alexandre de Moraes, desferiu duras decisões judiciais contrárias às ocupações, permitindo inclusive a reintegração de posse sem recurso à justiça, o que dava à polícia militar o respaldo para desocupar os estudantes quando houvesse a ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">No Rio de Janeiro, a SEEDUC fez de tudo para deslegitimar o movimento, conforme os meses iam passando a pressão pública se tornou cada vez maior e dois secretários foram exonerados. Quando a SEEDUC foi ocupada pela 3ª vez (durando um mês), no primeiro dia a Juíza Glória emitiu parecer que reconhecia a legitimidade do movimento, mas, que para que prosseguisse, deveria permitir as aulas regulares, restabelecendo a gestão dos diretores. Mesmo esse vai-e-vem é bem constitutivo do jogo de forças com que os estudantes ocupados se deparam. Anteriormente o Ministério Público e a Defensoria do estado legitimaram as ocupações, contrariando os alunos contrários à ocupação, seus responsáveis legais, professores ‘fura-greve’ e a própria Secretaria de Educação. A segunda decisão atinge em cheio o movimento e o suspiro final é dado aos estudantes do Desocupa, que seguiriam suas aulas da maneira que gostariam.</p>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Desocupa Já <strong>[6]</strong>, que ganha força no Rio de Janeiro, Goiás, e depois se expande para as outras escolas eventualmente ocupadas durante aquele período, faz uma crítica frontal às ocupações, que consiste no argumento de que estas cerceiam as aulas já precárias a que os estudantes têm acesso. Em muitos casos, estes alunos lançaram mão de formas agressivas visando a desocupação das escolas. Inspirados na tentativa de desocupação de uma escola localizada na Zona Norte do município do Rio, a E.E. Heitor Lira, o movimento invade e consegue desocupar o OcupaMendes <strong>[7]</strong> , primeira ocupação do Estado do Rio de Janeiro. Uma apoiadora do movimento, em seu facebook, registrou seu apoio aos ocupantes da seguinte maneira:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao #desocupamendes, parabéns. Agora vocês têm uma escola desocupada!!! Mas… seus professores ainda não receberam salários, os aposentados estão apavorados sem saber se o salário virá, vocês não têm voz na escola, os diretores continuam sendo indicados, vocês não têm direito a voto, a merenda continua precária, a educação pública continua sucateada, o material didático vai permanecer trancado naquela sala dos fundos que vocês nunca tiveram acesso, mas… vocês têm uma escola desocupada! Façam bom proveito!</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A autora do relato se refere ao desejo dos estudantes voltarem às suas aulas com a consciência de que estão inibindo a possibilidade de melhoria de suas próprias condições na escola. No Rio de Janeiro, nenhuma escola foi desocupada diretamente pela polícia no exercício de sua função. Em escolas como a Prefeito Mendes de Moraes, foram os próprios estudantes, contrários ao movimento, que pulavam as grades e, aos socos, expulsavam os alunos. Na semana fatídica em que a escola supracitada é desocupada, muitas postagens de alunos no Facebook comemoram o ato como uma vitória política <strong>[8]</strong> . A página de Facebook de uma das ocupações que ocorria em uma periferia da zona norte, comentou o caso dizendo que “[é] triste e revoltante ver o Estado, a mídia, as direções de escola e professores fura-greve incitarem a violência entre estudantes que são igualmente prejudicados em seus direitos” (OCUPACAIC/REVERENDO HUGH CLARENCE TUCKER. 2016).</p>
<p style="text-align: justify;">Martins (2022) situa o movimento Desocupa na esteira das novas mobilizações da direita que, ao contrário da direita clássica que conhecíamos, se situa no léxico das lutas concretas e locais:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Após junho de 2013 a direita redescobriu às ruas, mobilizando-se desde então em manifestações nacionais, às vezes caracterizadas por atos massivos, como os atos anticorrupções e pró-impeachment convocados por grupos que ganharam notoriedade, como o Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem pra Rua. Outrora, caracterizada por atos minúsculos, como os em defesa da ditadura militar convocados por pequenos grupos de extrema-direita. O movimento desocupa pode ser considerado uma mudança qualitativa nestas mobilizações, a expressão de um embrião de enraizamento desta direita que passou a atuar em mobilizações menores, contínuas, locais, com pautas imediatas e concretas e usando as redes sociais como ferramenta fundamental, o que não significa que os grandes grupos estivessem alheios a tais mobilizações e nem que haja uma oposição entre tais táticas.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Apesar de seu foco no caso da PEC 55 <strong>[9]</strong> , Martins consegue delimitar o eixo psicossocial destes estudantes que, ao colocarem seus problemas singulares, descuram sobre a própria continuidade da escola e da educação em geral:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">É muito significativo nestas falas a ênfase na primeira pessoa e um apelo ao próprio futuro, que contém uma noção de mérito e esforço pessoal que está sendo desrespeitado. Há uma contraposição entre os direitos individuais e coletivos, no qual reivindica-se a primazia do primeiro. Há um centro no Eu, “minha escola, meu direito, minha filha, meu esforço”, evidenciando a centralidade do antrophos do cotidiano. Não há um projeto coletivo enquanto movimento que vise mudar a realidade de algum modo. A causa é a permanência da competição por meio de esforços particulares. Pode-se dizer que há o que Nascimento (1997) chamou de ações coletivas. Um grupo de Eus aglutinados pragmaticamente por interesses comuns que não possuem projeto de transformação e sim de uma reorganização da desigualdade, no qual a particularidade se sobrepõe ao genérico</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O Desocupa se alimenta desse antagonismo e desprovido de assistência externa não exprime força política de contestação. Mas onde existe o antagonismo ocupa x desocupa, sendo a ocupação um imbróglio de uma mudança efetiva e a desocupação uma reivindicação pelo lugar-comum, ou seja, “queremos nossas aulas da maneira que estão”, o segundo efetivamente se encaixa em nossa descrição de uma revolta dentro da ordem. Para satisfazer suas vontades, beberam da mesma improvisação política e formaram suas bases onde mora o coração de uma ocupação pública, na comunidade local.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O governo e as polícias</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O movimento de ocupação de escolas só prosperou no Rio de Janeiro (e em outros trópicos) porque, se de um lado dava caldo para a greve dos professores, a permanência da paralisação dos docentes também implicava em uma solidariedade como força coletiva que buscou a conquista do apoio popular. Só diante às mobilizações do Rio de Janeiro e São Paulo cantores se reuniram para cantar em solidariedade aos ocupantes e nestes e em outros espaços alguns documentários ajudam a lembrar do exemplo da luta e inspiram outros movimentos sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Da parte dos alunos contrários ao movimento, é surpreendente que o movimento tenha sido espontâneo, mas, ao mesmo tempo, coordenado. No Paraná, por exemplo, não chegou ao nosso conhecimento uma oposição ferrenha às ocupações senão aquela capitaneada pelo Movimento Brasil Livre, que assediou estudantes, entrou em conflito físico em manifestações, entre outras situações. Já no Rio de Janeiro e especialmente em Goiás, essa oposição se serviu de elementos que podem ser descritos como “comunitarismo conservador”. Em grande medida, alunos contrários às ocupações só puderam ter suas demandas atendidas quando intermediados por policiais fora do expediente, lideranças comunitárias e as próprias direções que na maioria dos casos era indicada pela própria Secretaria de Educação.</p>
<p style="text-align: justify;">No Estado de Goiás, o “Desocupa” assumiu os seguintes contornos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Depois de repetidas derrotas judiciais e políticas e vendo que a tática do cansaço não iria surtir efeito, o governo fugiu do roteiro. Inspirado também no exemplo de São Paulo, em que o governo estimulou o “movimento” Devolve Minha Escola, surgiu o movimento Pais Pela Educação – GO. Esse movimento não só emulou o nome (COISA-GO) como também a estratégia de capilarização das ocupações: grupos de whatsapp locais e páginas foram criadas para mobilizar em cada escola: Desocupa Castelo Branco, Desocupa Anápolis, Desocupe Ismael entre inúmeras outras páginas. O objetivo desse movimento era inicialmente criar um clima no qual as comunidades desaprovassem as ocupações — o que facilitaria uma reintegração judicial — e que aprovassem as Organizações Sociais (OSs) — dificultando resistências posteriores. Eles começaram a realizar manifestações nas portas das escolas, com o auxílio da estrutura oficial de comunicação dos grupos gestores e dos professores contrários às ocupações. Pouco antes, e durante esse processo, a Secretaria de Educação começou a realizar reuniões com os grupos gestores de todas as escolas ocupadas e depois com os trabalhadores, especialmente o professorado, dessas escolas. Essas reuniões serviam para difundir boatos sobre o iminente fechamento e militarização, caso as escolas continuassem ocupadas, e para garantir a lealdade dos poucos diretores que tinham posição mais ambígua frente ao movimento. Além de ameaçar com corte de ponto e do bônus que era dado aos professores por assiduidade. (…) Um pretendente a conselheiro tutelar e “lideranças do bairro”, ou burocratas do bairro, um deles vizinho da escola, todos vinculados ao PSDB, foram importantes na pressão na porta da escola e na articulação do bairro contra a ocupação. Eles mobilizavam três noções básicas: 1) “essa ocupação é coisa de gente da universidade, nem é dessa escola ou desse bairro”; 2) “dentro dessa escola só ficam os alunos vagabundos praticando imoralidades e atrapalhando os vizinhos”; 3) “a escola deveria estar funcionando, mas está trancada”. Eles também conseguiram cooptar uma aluna que participou do início da ocupação e depois passou a entregar informações internas para o movimento desocupa, fazer depoimentos que confirmavam as acusações dessas lideranças, além de criar intrigas e boatos dentro da escola ocupada para desestabilizá-la.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dito de outra maneira, o Desocupa ocupou a função de desestabilização e desmoralização do movimento, levando seus espectadores a crer que as ocupações não almejavam uma melhoria educacional nas escolas, ocasionando fatalmente no atraso curricular. O terceiro argumento, o de que “a escola deveria estar funcionando”, é muito sintomático para o que descrevemos. Naquela altura os argumentos eram precisamente que as pautas dos ocupantes eram incompatíveis com a realidade, e o sujeito coletivo inspirado pela luta social era convertido no direito do sujeito singular que “precisa estudar, custe o que custar”. O argumento tem um fundo de verdade, mas que não reflete o sentido da educação, e por isso representa não a vontade estudantil de fato, mas como vimos reflete a posição dos trabalhadores em meio à competição no mercado de trabalho. O estudante argumenta que as aulas paralisadas desafiam seu desempenho no ENEM, quando muitas vezes os próprios estudantes se desdobravam para garantir aulas extra-curriculares voltadas para o ENEM, desde que não fossem nos moldes tradicionais. O segundo argumento é que dificultava a aquisição do diploma, uma vez que as secretarias impunham como chantagem a esses estudantes o argumento de que sem as aulas durante esse período o mais correto seria que reprovassem, às vezes até ameaçando cancelar a matrícula dos mesmos. Isso serviu para dissipar laços de solidariedade dentro da escola e advertir que não há atalhos no mundo do estudo e do trabalho, “é cada um por si”.</p>
<p style="text-align: justify;">No Ceará, integrantes do movimento Desocupa Já <strong>[10]</strong> conseguiram uma reunião com o Secretario de Educação e avaliam como “positiva” a conversa. Nela, firmam laços e conseguem uma devolutiva do governo que não está poupando esforços para desocupar as escolas.</p>
<p style="text-align: justify;">Valendo-se do apoio de uma parte dos estudantes do Rio, a SEEDUC endossa uma convocação do Desocupa em que este chama a comunidade escolar para desocupar a E.E. Heitor Lira. O jornalista Diego Felipe Souza (2016) denuncia que o então secretário que sucedeu Antônio Vieira Neto, Caio Castro, atendeu ao chamado do Desocupa e procurou ajudar a coordenar a desocupação.</p>
<figure id="attachment_159828" aria-describedby="caption-attachment-159828" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159828" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-300x166.jpg" alt="" width="400" height="222" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-300x166.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-1024x568.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-768x426.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-1536x851.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-758x420.jpg 758w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-640x355.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive-681x377.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133544_Drive.jpg 1575w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-159828" class="wp-caption-text">De camisa social, O Secretário de Educação Caio Castro se reúne com integrantes do Desocupa Heitor Lira</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Na ocasião da tentativa de desocupação do Heitor Lira, o Desocupa havia previamente conversado com a SEEDUC seu descontentamento com o movimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Surpreendentemente, quando já havia parecer favorável às ocupações na justiça, é a própria Secretaria que divulga a manifestação, em perfil oficial. A postagem foi apagada pouco tempo depois. Nunca com retratação.</p>
<figure id="attachment_159831" aria-describedby="caption-attachment-159831" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159831" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-300x249.jpg" alt="" width="400" height="332" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-300x249.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-1024x849.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-768x637.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-507x420.jpg 507w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-640x531.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive-681x565.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133627_Drive.jpg 1247w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-159831" class="wp-caption-text">Postagens no Twitter oficial da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro convocando alunos contrários à ocupação para desocupá-la.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A convocatória partiu do líder do Desocupa e este estreitou laços com os membros do DesocupaMendes. É neste olhar cronológico que deve ser entendido o ataque ao Mendes de Moraes que causou inúmeros feridos e causou a comoção do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (SEPE) que decidiu realizar uma de suas assembleias lá, para que fosse feita uma vigília impedindo e desincentivando novos ataques. Na semana da primeira ocupação no Rio, estudantes flagram e fotografam o diretor se reunindo ao lado da escola com o Desocupa.</p>
<figure id="attachment_159839" aria-describedby="caption-attachment-159839" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159839" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-300x276.jpg" alt="" width="400" height="368" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-300x276.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-768x707.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-457x420.jpg 457w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-640x589.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive-681x627.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133645_Drive.jpg 950w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-159839" class="wp-caption-text">Marcos Madeira, diretor da E.E. Prefeito Mendes de Moraes se reúne com o movimento “Desocupa”, ao lado dos muros da escola.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Tais flagrantes advertiram aos ocupantes das escolas sobre a potencialidade radical do movimento contrário e mais, que tais ações não pudessem ser separadas da orientação e empoderamento oferecido por parte dos aparelhos de Estado, incluindo a polícia. Na imagem a seguir, policiais posicionados em frente à E.E. Prefeito Mendes de Moraes impedem os ocupantes de entrar nas instalações.</p>
<figure id="attachment_159845" aria-describedby="caption-attachment-159845" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159845" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-300x174.jpg" alt="" width="400" height="231" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-300x174.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-1024x592.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-768x444.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-726x420.jpg 726w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-640x370.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive-681x394.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/AISelect_20260914_133700_Drive.jpg 1250w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-159845" class="wp-caption-text">Dia da desocupação do Mendes de Moraes. Ao lado dos policiais militares, ao lado da porta, está uma aluna da escola vinculada ao Desocupa. Sentados estão os alunos que ocupavam o colégio.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A fotografia mostra os alunos que então ocupavam a escola de frente para os policiais, mas não mostra que o Desocupa está lá dentro <strong>[11]</strong>, impedindo a retomada do espaço. A polícia não se mobilizou durante a invasão naquele dia, e somente se posicionou na porta após a retirada de todos os integrantes do movimento OcupaMendes, demonstrando estarem coordenados com o Desocupa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Considerações finais</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário da revolta, inspirada na agitação dos lugares-comuns, a revolução, ou seja, a mudança do que está posto, se insere em dinâmicas solidárias de pensar o lugar dos sujeitos no mundo. À lógica da competição e militarização <strong>[12]</strong> dos espaços, quaisquer movimentos de cunho político que almejem uma mudança significativa deverão daqui extrair seus limites e suas potencialidades. Aprender com o improviso e descartar tudo aquilo que tende ao fracasso.</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica autogerida nas escolas, a forma de repensar as relações sociais e hierarquias pedagógicas parece um ponto inegociável, ao passo que os limites servem para advertir sobre o perigo de pautas serem capturadas ou reprimidas duramente. Após duras penas, muitas pautas foram conquistas, mas nem metade delas teve vida longa. A utopia de uma escola mais humana deu espaço para mais grades, construídas pela nova direção, no intuito de coibir novas ações semelhantes. Às ocupações do Paraná e Goiás se seguiu a proposta de escolas cívico-militares cujo horizonte era coibir “as ideologias”. Mas a ideologia não é uma coisa que se põe ou que se tira. A forma de organização, já ideológica, pressupunha uma escola nova, diferente do modelo hetero-organizado, não-transparente. Essa resposta política reflete o desejo da democracia dentro e para fora da escola.</p>
<p style="text-align: justify;">Castoriadis (1991.p.45) postula que o traço mais característico da disposição revolucionária nas lutas autônomas não é sua direção intelectual, mas sua condição auto-organizada. Ao falar sobre os movimentos dos anos 60, em especial o Maio de 68, diz algo de grande valia:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Gostaria que alguém contestasse um segundo, com argumentos racionais, o direito dos alunos perguntarem, logo que fossem capazes: por que e em que medida o que vocês nos ensinam é interessante ou importante? Gostaria que alguém refutasse a ideia de que a verdadeira educação consiste também em levar os alunos a terem a coragem e a capacidade de fazer esse tipo de perguntas e de sustenta-las com argumentos.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">São estas perguntas, sem ressalvas, as que ameaçam o modelo hetero-organizado e a mobilização conservadora dos agentes fascistas. Martins (2022) nota em seu estudo que nem todos os integrantes do Desocupa se diziam de direita, e uns poucos eram diretamente vinculados ao MBL. No Rio de Janeiro, houve muitos que votaram em Bolsonaro, dentro e fora das ocupações. Mas nenhum dos ataques ao OcupaMendes foi protagonizado por quaisquer lideranças de direita conhecidas, mas pelos próprios estudantes mancomunados com uma rede comunitária conservadora. Tais redes lembram, ainda que do avesso do espectro político, as comunidades eclesiais de base. Os alunos vangloriavam-se de lutar não somente por si, mas pela sua comunidade local, e alguns inclusive evocavam os comércios que seriam prejudicados pelas ocupações uma vez que com as aulas canceladas haviam estudantes dentro da escola, mas a transitoriedade pelo bairro (na visão deles) diminuía. Em Goiás, vereadores e representantes de comunidades interferiram diretamente nas ocupações.</p>
<p style="text-align: justify;">Falava-se de defender o interesse dos estudantes, e muitas vezes estes interesses refletiam a dinâmica social desses alunos fora de sala (emprego, vestibular, etc.) mas a questão das melhorias da educação era uma lacuna evidente. Mesmo o imaginário político se vê preso muitas das vezes à lógica da assistência do Estado em detrimento da autonomia política (FERNANDES. 2022). Por isso os sentidos do movimento estudantil autônomo tendem a se pautar contra a barbárie em direção a um mundo novo, dentro e fora da escola, enquanto as expectativas de atenuar a barbárie só ocorriam em consequência desta, se conformando em uma revolta conservadora.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Sobre o desfecho da greve, ver aqui: <a href="https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/07/apos-quase-5-meses-professores-decidem-suspender-greve-no-rj.html">https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/07/apos-quase-5-meses-professores-decidem-suspender-greve-no-rj.html</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Sobre a falta de porteiros, ver aqui: <a href="https://cbn.globoradio.globo.com/rio-de-janeiro/2016/04/01/ESCOLAS-DA-REDE-ESTADUAL-DO-RJ-ESTAO-DESDE-O-INICIO-DO-ANO-SEM-PORTEIROS.htm">https://cbn.globoradio.globo.com/rio-de-janeiro/2016/04/01/ESCOLAS-DA-REDE-ESTADUAL-DO-RJ-ESTAO-DESDE-O-INICIO-DO-ANO-SEM-PORTEIROS.htm</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Por exemplo, aqui: <a href="https://midiaindependente.org/?q=node%2F257">https://midiaindependente.org/?q=node%2F257</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Ver aqui: <a href="https://g1.globo.com/educacao/noticia/pelo-menos-21-estados-tem-escolas-e-institutos-ocupados-por-estudantes.ghtml">https://g1.globo.com/educacao/noticia/pelo-menos-21-estados-tem-escolas-e-institutos-ocupados-por-estudantes.ghtml</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Ver aqui: <a href="https://www.esquerdadiario.com.br/Fugindo-da-chapa-Novos-modos-de-se-pensar-e-gerir-um-Gremio-Estudantil">https://www.esquerdadiario.com.br/Fugindo-da-chapa-Novos-modos-de-se-pensar-e-gerir-um-Gremio-Estudantil</a> e aqui <a href="http://solimoes.tachanka.org/?q=gremioautonomo">http://solimoes.tachanka.org/?q=gremioautonomo</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Reportagem que retrata a reivindicação do Desocupa: <a href="https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/04/alunos-criam-movimento-desocupa-ja-contra-ocupacao-de-escolas-no-rj.html">https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/04/alunos-criam-movimento-desocupa-ja-contra-ocupacao-de-escolas-no-rj.html</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Ver aqui: <a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2016/05/06/alunos-do-movimento-desocupa-ja-invadem-primeira-escola-ocupada-do-rio.htm">https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2016/05/06/alunos-do-movimento-desocupa-ja-invadem-primeira-escola-ocupada-do-rio.htm</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ver por exemplo aqui: (<a href="https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=pfbid0PsyspjKYhax6BDGkD97Hbn9VVTkTBSP5G1r2aSfYanMb5txCaMCJbjsHbUzJzVSsl&amp;id=100003796024251">https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=pfbid0PsyspjKYhax6BDGkD97Hbn9VVTkTBSP5G1r2aSfYanMb5txCaMCJbjsHbUzJzVSsl&amp;id=100003796024251</a>) e aqui (<a href="https://www.facebook.com/Freeitas.05/posts/pfbid02devFpteysyMxjXisEYEDhji9gRX4C959TXDszD6H5p1UvpoGm5tRwnPcqRcy2ZBl">https://www.facebook.com/Freeitas.05/posts/pfbid02devFpteysyMxjXisEYEDhji9gRX4C959TXDszD6H5p1UvpoGm5tRwnPcqRcy2ZBl</a>)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ver aqui: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/29/politica/1477698231_566717.html</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Ver aqui: <a href="https://infonet.com.br/noticias/educacao/secretario-recebe-comissao-do-movimento-desocupa-ja/">https://infonet.com.br/noticias/educacao/secretario-recebe-comissao-do-movimento-desocupa-ja/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ver nota nº 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Por exemplo, aqui: <a href="https://passapalavra.info/2020/11/135137/">https://passapalavra.info/2020/11/135137/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Bibliografia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">ADOUE, Silvia Beatriz. Ocupações de Escola (II): Da autocracia para a autogestão. Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2016/01/107343/">https://passapalavra.info/2016/01/107343/</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">BERNARDO, João. Revolta/Revolução. PassaPalavra. 2013. Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2013/07/81647/">https://passapalavra.info/2013/07/81647/</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">CASTORIADIS, Cornelius. A criação histórica: o projeto da autonomia. Porto Alegre: Livraria Palmarinca. 1991.</p>
<p style="text-align: justify;">FERNANDES, Alan. DO PATERNALISMO À AUTONOMIA. READ–Revista de Estudos Anarquistas e Decoloniais, v. 2, n. 3.</p>
<p style="text-align: justify;">FREITAS, María. Texto sobre a desocupação da E.E. Prefeito Mendes de Moraes. 11 de Mai. 2016. Facebook: maira.freitas.14 Disponível em: <a href="https://www.facebook.com/maira.freitas.14/posts/pfbid0MZsUJcsCpkmbmFVYWmWfwCbKQ2MvDfQ7Y53ZwTo8MeeU9NvT3j41e1e8diLE6srzl">https://www.facebook.com/maira.freitas.14/posts/pfbid0MZsUJcsCpkmbmFVYWmWfwCbKQ2MvDfQ7Y53ZwTo8MeeU9NvT3j41e1e8diLE6srzl</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">LIMA, Alfredo. O calor do Rio de Janeiro é uma coisa absurda. Passa Palavra. 2019 Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2018/12/124567/">https://passapalavra.info/2018/12/124567/</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">MANOLO. Resenha: Labirintos do fascismo. Estilhaço. 2022. Disponível em: <a href="https://www.estilhaço.com.br/labirintosdofascismo">https://www.estilhaço.com.br/labirintosdofascismo</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">MARTINS, Karina Oliveira. Desocupa já! Eu quero aula: Aspectos psicossociais que motivam o Movimento Desocupa. Rev. psicol. polít., São Paulo , v. 22, n. 53, p. 105-122, abr. 2022. Disponível em: &lt;<a href="http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519549X2022000100008&amp;lng=pt&amp;nrm=iso">http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519549X2022000100008&amp;lng=pt&amp;nrm=iso</a>&gt;. acesso em 20 jul. 2023</p>
<p style="text-align: justify;">MARXISTA, Grouxo. O Estado e as ocupações: a autogestão possível e a autogestão necessária. Passa Palavra. 2016. Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2016/05/108235/">https://passapalavra.info/2016/05/108235/</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">OCUPACAIC/REVERENDO HUGH CLARENCE TUCKER Texto sobre a desocupação da E.E Prefeito Mendes de Moraes. 10 de Mai. 2016. Facebook: Ocupa CAIC/Reverendo Hugh Clarence Tucker. Disponível em: <a href="https://www.facebook.com/photo/?fbid=1079535732119299&amp;set=a.1064257276980478">https://www.facebook.com/photo/?fbid=1079535732119299&amp;set=a.1064257276980478</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">PASSA PALAVRA. Entrevista com estudante da #OcupaMendes Passa Palavra. 2016. Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2016/03/107881/">https://passapalavra.info/2016/03/107881/</a> Acesso em: 07/2023</p>
<p style="text-align: justify;">SOUZA, Diego Felipe. Texto sobre o protesto do Desocupa contra a ocupação da escola. 20 de Abr. 2016. Facebook: FelipeQ2 Disponível em: <a href="https://www.facebook.com/FelipeQ2/posts/pfbid0c8W4v3zAqJK6jkoDXXQcFru5nYYUvDqf6ZDFWMn8UKhYvCACynMBPxGs5WaMGbTpl">https://www.facebook.com/FelipeQ2/posts/pfbid0c8W4v3zAqJK6jkoDXXQcFru5nYYUvDqf6ZDFWMn8UKhYvCACynMBPxGs5WaMGbTpl</a> Acesso em: 07/2023</p>
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		<title>Hora de “desbigtechtizar” a vida [2]</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Sep 2026 19:14:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[Para dar continuidade a “desbigtechtização” de nossas vidas, a seguir temos uma estratégia progressiva de transição para o software livre em nossos dispositivos móveis, baseada no que aconteceu no desktop. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Marcelo Tavares de Santana*</h3>
<p style="text-align: justify;">Enquanto vimos se desenvolver a maturidade do desktop livre, com aplicativos e formatos livres de arquivos, fomos surpreendidos por uma mudança de paradigma: a computação pessoal migrou de forma massiva para os smartphones. O aparelho que carregamos no bolso passou a concentrar nossas comunicações, dados bancários, fotografias de família, rotas de locomoção e registros de saúde. E foi exatamente aí que as grandes corporações de tecnologia (big techs) ergueram seus cercados mais impenetráveis. Como destacado anteriormente, iniciativas como a campanha internacional Keep Android Open <strong>[1]</strong> denunciam uma manobra deliberada para fechar ainda mais o ecossistema Android. Ao impor barreiras burocráticas aos aplicativos livres, tenta-se inviabilizar a instalação independente de aplicativos, configurando uma ameaça direta não apenas à liberdade de escolha individual, mas à própria soberania digital de países como o Brasil. Diante desse cenário não podemos ser espectadores passivos. Para dar continuidade a “desbigtechtização” de nossas vidas, a seguir temos uma estratégia progressiva de transição para o software livre em nossos dispositivos móveis, baseada no que aconteceu no desktop. Para iniciar qualquer movimento de desintoxicação tecnológica no smartphone, é indispensável compreender o papel estratégico de um repositório alternativo de aplicativos, como exemplo, o F-Droid <strong>[2]</strong>: um repositório comunitário, auditável e sem fins lucrativos, dedicado exclusivamente a softwares livres e de código aberto (Free and Open Source Software &#8211; FOSS).</p>
<p style="text-align: justify;">A distinção fundamental entre o F-Droid e a Google Play Store reside no modelo de confiança, auditoria e publicação. Na Play Store comercial, os desenvolvedores enviam arquivos binários já empacotados. O usuário não tem como saber se o binário instalado contém apenas o código prometido ou se inclui bibliotecas ocultas. No F-Droid oficial, a infraestrutura do projeto baixa o código-fonte disponibilizado publicamente, audita suas dependências e realiza a compilação nos próprios servidores do projeto. Isso garante que aquilo que está em execução no seu telefone corresponde estritamente ao código inspecionado. O gerenciador de aplicativos F-Droid não exige criação de conta, endereço de e-mail, cartão de crédito ou aceite de termos de vigilância comportamental.</p>
<p style="text-align: justify;">Um erro comum entre defensores do software livre é propor uma ruptura abrupta e absoluta do dia para a noite. Exigir que um usuário leigo formate o telefone, desinstale todos os aplicativos comerciais simultaneamente e abandone suas redes de contato de uma só vez costuma gerar estresse, perda de ferramentas de trabalho e, por fim, um retorno desiludido ao ecossistema fechado. Uma transição para aplicativos livres deve ser conduzida em etapas que respeitem a rotina produtiva e familiar de cada pessoa, conforme sugestões abaixo:</p>
<p style="text-align: justify;">• Etapa 1: instalar o F-Droid e baixe os aplicativos livres correspondentes às suas necessidades, mantendo temporariamente os equivalentes proprietários instalados.</p>
<p style="text-align: justify;">• Etapa 2: escolher ferramentas livres que compartilham fluxos visuais semelhantes aos aplicativos comerciais, o custo cognitivo da mudança cai drasticamente.</p>
<p style="text-align: justify;">• Etapa 3: Antes de excluir contas e aplicativos fechados, faça backup dos informações, principalmente exportando os dados para algum formato livre ou aberto, por exemplo, exporte sua agenda em formato .ics, gere o arquivo .vcf da sua lista telefônica e faça cópia das suas fotografias organizadas por pastas no computador. Quando você percebe que todos os seus dados continuam intactos e legíveis em seu poder, a dependência psicológica da plataforma comercial se desfaz.</p>
<p style="text-align: justify;">• Etapa 4: com os dados salvos e o novo aplicativo incorporado ao hábito diário, desinstale o aplicativo proprietário, mas se ele veio embutido de fábrica pelo fabricante e o sistema impede a desinstalação convencional, revogue todas as suas permissões de acesso (câmera, microfone, localização e armazenamento) e desative-o nas configurações do aparelho.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentro dessa proposta de etapas, abaixo segue uma seleção de aplicativos como sugestão para iniciar esse processo:</p>
<p style="text-align: justify;">1. OpenContacts: uma gerenciar de contatos que atua como uma gaveta blindada: ele armazena seus dados em um banco de dados próprio, invisível para o provedor de contatos padrão do sistema. O aplicativo oferece importação e exportação no formato aberto vCard (.vcf);</p>
<p style="text-align: justify;">2. Telegram X: a comunicação com círculos amplos ainda exige clientes de mensageria compatíveis com redes consolidadas. O Telegram X funciona com a mesma rede do Telegram;</p>
<p style="text-align: justify;">3. Fennec Droid: é uma versão comunitária construída a partir do código aberto do Firefox para Android, da qual foram retiradas as rotinas proprietárias e mantido o suporte a extensões, como o uBlock Origin;</p>
<p style="text-align: justify;">4. Etar: um calendário completo que adota padrões internacionais, como o formato iCalendar, e integra-se com facilidade a provedores de sincronização abertos (como DAVx⁵ e servidores Nextcloud);</p>
<p style="text-align: justify;">5. FreeDCam: concebido para quem não abre mão do rigor técnico, oferece controles manuais avançados de sensibilidade ISO, tempo de exposição, balanço de branco, foco milimétrico e gravação em formato RAW (DNG). Em vídeo, o aplicativo possibilita selecionar parâmetros customizados de codificação de áudio e taxas de bits, garantindo capturas fiéis sem compressões agressivas de fábrica;</p>
<p style="text-align: justify;">6. Organic Maps: usando dados colaborativos do projeto global OpenStreetMap, ele funciona inteiramente offline, cria rotas para condução veicular, etc., porém é preciso as ver de forma crítica, pois nos testes criou rotas ruins para bicicleta;</p>
<p style="text-align: justify;">7. Aves Libre: com uma interface moderna, esse aplicativo de galeria permite organizar coleções por pastas reais, etiquetas, geolocalização no mapa e atributos técnicos avançados (EXIF, IPTC, XMP).</p>
<p style="text-align: justify;">O repositório F-Droid tem muitos outros aplicativos separados em diversas categorias que podem se adaptar melhor a rotina que as sugestões apresentadas neste artigo, por isso, é um momento de instalar e experimentar.</p>
<p style="text-align: justify;">Boas experiências a todos!</p>
<div class="fn"></div>
<p>*Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
<p><strong>Nota</strong></p>
<p><strong>[1]</strong> &lt;https://keepandroidopen.org/pt-BR/&gt;</p>
<p><strong>[2]</strong> O gerenciador de aplicativos F-Droid pode ser instalada conforme instruções em &lt;https://f-droid.org/pt_BR/&gt;</p>
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		<title>Entregadores organizam &#8220;breque dos apps&#8221; no Vietnã</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Sep 2026 15:42:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
		<category><![CDATA[Vietnã]]></category>
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					<description><![CDATA[Entregadores da Grab, em Hanói, estão organizando uma paralisação para os dias 12 e 13 de setembro. Por Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 align="justify">Por Passa Palavra</h3>
<p align="justify">Trabalhadores de aplicativo da Grab, no Vietnã, estão organizando uma paralisação para os dias 12 e 13 de setembro de 2026 na capital, Hanói, por aumento nos valores recebidos por viagem.</p>
<p align="justify"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159804" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040016-300x181.jpg" alt="" width="411" height="248" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040016-300x181.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040016-1024x618.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040016-768x463.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040016-696x420.jpg 696w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040016-640x386.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040016-681x411.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040016.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 411px) 100vw, 411px" /></p>
<p align="justify">A Grab é a maior empresa do setor no país e uma das maiores do Sudeste Asiático. Operando no Vietnã ao lado de outras grandes empresas como Xanh SM, Be e Gojek, vende serviços de mototáxi, táxi, aluguel de carro, entrega de comida, e entregas de compra de supermercado e lojas de conveniência.</p>
<p align="justify">O movimento que organiza a luta em Hanói conta com doações voluntárias de dinheiro para garantir a paralisação e com a participação voluntária de apoiadores que ajudam na  organização de um local, e na preparação da distribuição de 300 marmitas já arrecadadas, que serão entregues para trabalhadores da Grab no dia 12.</p>
<p align="justify"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-159805" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040017-300x182.jpg" alt="" width="400" height="243" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040017-300x182.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040017-1024x623.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040017-768x467.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040017-691x420.jpg 691w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040017-640x389.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040017-681x414.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040017.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p align="justify">Hoje, os trabalhadores de aplicativo da Grab são os mais organizados do setor em Hanói. O movimento conta com a divulgação pública de um número de telefone para contato e um perfil no Instagram (@hoathunguyn) que existe há dois anos. Nas outras grandes empresas do setor, Xanh SM, Be e Gojek, parece não haver o mesmo grau de organização política. Acredita-se que haverá alguma participação de trabalhadores das outras empresas nos dois dias de paralisação, porém em menor número.</p>
<p align="justify">Outra ação do movimento é a campanha, que também circula no Instagram, chamando os clientes da Grab a desinstalarem o aplicativo nos dias 12 e 13 como forma de apoiar a luta e pressionar a empresa por aumento nos valores pagos aos trabalhadores. Incentivando o boicote e a desinstalação dos aplicativos, a campanha aconselha a quem realmente precisar desses serviços nos dias 12 e 13 que busque trabalhadores que não estarão usando aplicativos.</p>
<p align="justify"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159806 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040018-1024x619.jpg" alt="" width="640" height="387" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040018-1024x619.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040018-300x181.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040018-768x465.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040018-694x420.jpg 694w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040018-640x387.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040018-681x412.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000040018.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
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		<title>Jones Manoel e a atualização do neo-stalinismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Sep 2026 17:35:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
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					<description><![CDATA[ Não se trata de convencer o capital a ser menos capitalista, nem o Estado a ser menos Estado. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Dependência, Nacionalismo e a Neutralização do Protagonismo dos Trabalhadores</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">No primeiro texto que escrevi sobre Jones Manoel (“A Ilusão da Radicalidade: Jones Manoel e o Teatro da Revolução”, <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157738/" target="_blank" rel="noopener">disponível aqui</a>), o foco recaiu sobre a engrenagem político-comunicacional que sustenta sua ascensão, o circuito entre indústria cultural, militância progressista e a estetização pop da radicalidade consumível, assim como os caminhos percorridos para se alçar o lugar de youtuber com visibilidade na internet. Agora, o movimento é outro. Neste novo texto, o objetivo é dissecar a arquitetura teórica que dá suporte a esse projeto, o modo como Jones ancora sua intervenção na centralidade do Estado, na apologia do nacionalismo e na categoria de “nação dependente” tomada como eixo absoluto de análise. Em vez de discutir apenas o fenômeno da sua visibilidade, interessa-nos destrinchar ponto por ponto o solo doutrinário em que ele pisa, confrontando os limites e as implicações políticas desse enquadramento. Só assim é possível nomear qual é a natureza efetiva do projeto que Jones Manoel oferece à juventude precarizada e aos setores médios desiludidos com o liberalismo, que se manifesta num marxismo estatal, nacional-desenvolvimentista e burocrático, que, longe de apontar para a auto-organização revolucionária da classe trabalhadora, recoloca o Estado-nação como protagonista da história e devolve o velho reformismo sob a máscara de uma radicalidade geopolítica de fachada.</p>
<p style="text-align: justify;">A discussão sobre dependência, nacionalismo e stalinismo é cheia de armadilhas porque mistura um nível descritivo, em que se tenta entender o lugar concreto do capitalismo brasileiro no sistema mundial; um nível estratégico, em que se formulam programas para enfrentar essa inserção subordinada; e um nível ideológico, em que certas respostas vão se cristalizando em crenças, afetos, identidades políticas que começam a operar quase de modo automático. Penso que devemos separar esses três planos: de que maneira a teoria da dependência ajuda a compreender a realidade, onde ela foi torcida para alimentar programas nacional-desenvolvimentistas e como essa torção reaparece hoje em formas neoestalinistas como o projeto de Jones Manoel.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro ponto é reconhecer que o capitalismo brasileiro não é uma versão “tardia” do capitalismo europeu, nem uma simples cópia malfeita do padrão norte-americano; ele se constitui, desde a origem, por uma articulação estreita entre a dominação de classe interna e determinações externas. Tráfico de escravizados, plantation, monocultura, subordinação comercial, dependência tecnológica, capitalismo tardio com industrialização subordinada, endividamento crônico, vulnerabilidade cambial, tudo isso compõe o tecido da dependência. Florestan percebe isso com clareza quando fala da “revolução burguesa pelo alto”, conduzida por uma burguesia que nunca precisou romper com o passado escravocrata para se afirmar; Marini, de outro ângulo, tenta mostrar como a superexploração da força de trabalho funciona como mecanismo de compensação da posição subordinada no mercado mundial. A dependência é um dado estrutural, uma determinação histórica concreta da reprodução do capital na periferia.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema começa quando esse dado desliza da análise para a normatividade política. No plano teórico, é perfeitamente legítimo dizer que há um “capitalismo dependente”; no plano político, a coisa muda de figura quando se afirma que existe uma “nação dependente” que deve ser “libertada”. A passagem da categoria de modo de produção para a categoria de nação tende a uma mudança de sujeito; em vez da classe trabalhadora contra o capital, tem-se a “nação oprimida” contra a “nação opressora”, o “povo brasileiro” contra o “imperialismo”. Isso tem consequências graves, porque a nação não é um bloco homogêneo e a burguesia brasileira lucra precisamente com a dependência, ela não é vítima passiva da dominação externa, mas parceira ativa na forma que essa dominação assume. A dependência, portanto, não é uma desgraça nacional a ser superada por “todas as classes unidas”, mas o meio pelo qual a burguesia local intensifica a exploração.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a teoria da dependência é lida a partir da luta de classes, ela mostra que o trabalhador brasileiro é espremido por dois movimentos articulados, tendo por um lado a concorrência entre capitais em escala mundial, em que capitais mais produtivos se apropriam de parte da mais-valia gerada em economias menos produtivas e de outro, a necessidade da burguesia local de compensar essa desvantagem aumentando a taxa de exploração, comprimindo salários, ampliando jornadas, flexibilizando direitos, usando o Estado como aparelho repressivo. Dependência, nessa chave, significa que o trabalhador é violentado por sua própria burguesia e por capitais externos integrados a ela. Quanto maior a dependência, maior a violência e, portanto, maior a necessidade de uma ruptura radical que ataque simultaneamente o capital interno e o capital externo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ruy Mauro Marini desenvolve a teoria da dependência como uma abordagem que analisa as relações econômicas desiguais entre as economias do Centro (países desenvolvidos) e da Periferia (países subdesenvolvidos). Marini, ao contrário de outros teóricos, não limita a dependência a uma simples explicação de exploração externa observando as dinâmicas internas dos países periféricos, como a (já mencionada) superexploração da força de trabalho, como elementos estruturais fundamentais para entender a dependência e suas implicações. Para Marini, a dependência designa uma relação estrutural, na qual o capitalismo da periferia se integra ao sistema mundial em condições desiguais e, ao mesmo tempo, reproduz internamente os mecanismos que garantem essa subordinação. É uma relação em que o capitalismo periférico está integrado ao sistema mundial de uma maneira desigual, com as economias periféricas sendo usadas para sustentar e expandir a riqueza das economias centrais, mas ao mesmo tempo criando seus próprios mecanismos de reprodução do capital. Este conceito está ligado à ideia de “superexploração”, onde a classe trabalhadora nas economias periféricas é sujeita a exploração extrema, com longas jornadas de trabalho, baixos salários e condições de trabalho precárias, que aumentam a acumulação de capital nas regiões centrais. Essa superexploração é uma das características centrais do capitalismo dependente, pois ela gera uma intensificação da exploração do trabalho sem que haja uma correspondente melhoria nas condições de vida das massas trabalhadoras.</p>
<p style="text-align: justify;">Em termos concretos, a dependência não é uma questão de falta de desenvolvimento ou de recursos, mas de como as economias periféricas são estruturadas de maneira a servir às necessidades do capitalismo global. O papel dos países periféricos é de manter uma divisão internacional do trabalho que lhes impõe a especialização em setores de baixo valor agregado, enquanto as economias centrais dominam os setores de maior complexidade e valor agregado. Marini também aborda a questão do “subimperialismo”, que descreve o comportamento de certas classes dominantes em países periféricos que, em vez de se oporem ao imperialismo, se associando a ele, ampliando a exploração e consolidando a subordinação. Esse conceito descreve uma forma específica de dependência, onde as classes dominantes locais são ativas e participam do processo de exploração com o objetivo de reforçar sua posição no sistema global.</p>
<p style="text-align: justify;">A abordagem de Marini oferece uma crítica profunda da ideia de que os países periféricos poderiam alcançar o desenvolvimento de forma autônoma, sem romper com as estruturas do capitalismo global. Ela implica que as políticas desenvolvimentistas convencionais, que tentam fortalecer a burguesia nacional e promover a industrialização sem enfrentar as contradições do capitalismo global, estão condenadas a reproduzir a dependência e a exploração, sem conseguir atingir uma verdadeira transformação social. Para Marini, a dependência é, portanto, uma categoria fundamental para compreender a dinâmica do capitalismo na periferia, não apenas como uma consequência da exploração externa, mas como um sistema de relações econômicas e sociais profundamente enraizadas, que afeta as condições de vida da classe trabalhadora e limita qualquer possibilidade de desenvolvimento autêntico sem uma ruptura com o capitalismo global. A luta contra a dependência, portanto, não pode se limitar a discursos nacionalistas ou a uma simples crítica aos “imperialismos” externos; ela deve ser uma luta contra a própria estrutura do capitalismo, que não pode ser resolvida sem transformar as relações de classe internas e externas. Esse entendimento da dependência, com o foco na superexploração e na integração desigual das periferias no capitalismo global, é central para as críticas contemporâneas à abordagem nacional-desenvolvimentista que propõe uma resposta à dependência sem desafiar o sistema de dominação global.</p>
<p style="text-align: justify;">Como sabemos, Ruy Mauro Marini não foi apenas um intelectual da teoria da dependência, mas também um militante e dirigente do MIR chileno, organização que, apesar de sua retórica revolucionária e de sua crítica à via institucional da esquerda tradicional, não conseguiu ultrapassar o horizonte da forma-Estado. O MIR rompeu com o reformismo, mas manteve como pressuposto estratégico a conquista do poder estatal, reproduzindo a ideia de que a emancipação passaria, em última instância, pela reorganização do Estado sob nova direção. É a partir dessa tensão, entre uma crítica econômica radical e um horizonte político ainda estatizado, que se torna necessário interrogar os limites da teoria da dependência quando confrontada com a crítica marxiana do Estado. Essa polêmica só ganha densidade se for colocada não da coerência biográfica de Ruy Mauro Marini nem da pureza política de suas escolhas militantes, mas da forma Estado enquanto categoria central da crítica marxiana. A questão central não é se Marini foi “mais” ou “menos” estatista por ter integrado o MIR chileno, mas em que medida sua elaboração teórica, mesmo quando rompe com o desenvolvimentismo e com a ilusão da burguesia nacional, permanece presa a uma concepção política que não rompe estruturalmente com o Estado como forma de dominação social. Do ponto de vista marxiano, o Estado não é um instrumento neutro que pode ser apropriado por esta ou aquela classe conforme a correlação de forças. O Estado é a forma política específica da sociedade fundada na separação entre produtores diretos e meios de produção. Em Marx, sobretudo a partir da Crítica do Programa de Gotha e dos escritos sobre a Comuna de Paris, o Estado é analisado como síntese da dominação de classe, como poder separado que se autonomiza em relação à sociedade e se coloca acima dela. Mesmo quando controlado por forças que se reivindicam proletárias, o Estado carrega consigo a lógica da separação, da representação, hierarquia e administração da vida social por um corpo especializado, sendo tudo isso uma determinação estrutural e histórica.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica de Marini a dependência é contundente no plano da economia política. Ao demonstrar que o capitalismo periférico se reproduz por meio da superexploração da força de trabalho, ele destrói qualquer ilusão de desenvolvimento autônomo dentro da ordem capitalista. A burguesia nacional é lida como classe historicamente comprometida com a intensificação da exploração, e não como aliada potencial da emancipação. No entanto, quando a análise muda do plano econômico para o estratégico-político, o Estado reaparece como mediação necessária da ruptura. A revolução é pensada, ainda, como processo que culmina na conquista do poder estatal, mesmo que por vias insurrecionais e anti-imperialistas. Isso expressa um limite compartilhado por boa parte do marxismo do século XX, especialmente aquele moldado pela experiência da Revolução Russa e pela tradição leninista que substitui a identificação da emancipação com a tomada do poder político centralizado. A crítica marxiana do Estado, nessa perspectiva, é parcialmente suspensa em nome da urgência histórica. O Estado deixa de ser pensado como forma social a ser abolida para ser concebido como ferramenta de transição, instância provisória que conduziria a sociedade rumo ao socialismo. O problema é que essa “provisoriedade” nunca se realiza como tal. A forma Estado tende a se autonomizar, a se reproduzir, a gerar burocracias próprias e a reorganizar a dominação sob novas justificativas ideológicas.</p>
<p style="text-align: justify;">A experiência histórica do século XX confirmou esse diagnóstico. Estados que se reivindicaram socialistas aprofundaram a separação entre dirigentes e dirigidos. A planificação centralizada, repressão política, neutralização da autoatividade operária e a cristalização de elites burocráticas mostraram que o problema não era apenas “quem” controlava o Estado, mas o fato de que o Estado continuava existindo como instância separada da sociedade produzindo alienação e exploração. O conselhismo, de Pannekoek a Rühle, passando por Tragtenberg e chegando a Nildo Viana, recoloca no centro a questão de que não há emancipação possível enquanto a classe trabalhadora delegar seu poder a um aparelho estatal, ainda que pintado de vermelho. Lida a partir dessa intepretação, a posição de Marini é historicamente situada e teoricamente insuficiente. Sua crítica da dependência avança até o limite em que a luta de classes é reabsorvida pela estratégia de Estado. A ideia de revolução perde seu conteúdo de ruptura material com as formas históricas de dominação (Estado, partido, burocracia, mercado) e passa a ser elaborada como rearranjo dessas mesmas estruturas, agora conduzidas por outra direção política, sem que sua lógica fundamental seja efetivamente superada. É justamente esse limite que será explorado e radicalizado pelo neo-estalinismo contemporâneo, que abandona até mesmo as tensões presentes em Marini e transforma o Estado em sujeito absoluto da história.</p>
<p style="text-align: justify;">A polêmica, portanto, não é um ajuste de contas com Marini, mas uma necessidade teórica. Se levamos a sério a crítica marxiana do Estado, não basta denunciar a dependência externa nem a superexploração interna, é preciso recusar a ideia de que a emancipação possa ser mediada por uma forma política que nasce e se reproduz como expressão da dominação de classe. Como diria uma importante revolucionária, os fins estão nos meios. Sem essa ruptura, o anti-imperialismo se converte em razão de Estado, a revolução em gestão, e a classe trabalhadora em massa administrada, exatamente o terreno no qual projetos neo-estalinistas prosperam hoje sob a aparência de radicalidade. Mas existe a outra leitura que foca a dependência entendida como drama nacional. Nessa versão, o foco sai das relações de classe para as relações entre Estados, sendo que o Brasil ocupa o lugar de “nação oprimida”, “semicolônia”, “elo fraco”, “país saqueado” enquanto os trabalhadores são dissolvidos nesse “nós” nacional. A burguesia interna é descrita como “compradora”, “entreguista”, “associada” e, exatamente por isso, é reconstruída a figura da “burguesia nacional” que teria interesse objetivo em romper com a dependência. A partir daí, o programa se organiza em etapas: numa primeira fase, seria necessário fortalecer o Estado nacional, desenvolver forças produtivas, conquistar soberania, industrializar, eventualmente construir um “capitalismo nacional” relativamente autônomo e só posteriormente a luta de classes poderia se colocar abertamente contra essa burguesia, construindo a ideia de “projeto de nação” fazendo com que a classe trabalhadora adie sua própria agenda; a exploração se intensifica, agora revestida de discurso patriótico; o Estado se fortalece como forma da dominação burguesa e a promessa socialista se transforma em horizonte cada vez mais distante.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa distorção não é imputável diretamente a Florestan ou Marini, que foram, cada um a seu modo, muito mais sofisticados do que a caricatura nacional-desenvolvimentista que a esquerda petista, brizolista e stalinista construiu em torno deles. Florestan foi um crítico implacável da burguesia nacional e duvidou sempre de sua capacidade de conduzir uma revolução democrática profunda; Marini, por sua vez, não pintou a burguesia local como vítima, mas como parte de uma engrenagem perversa em que a superexploração é instrumento de reprodução. A perversão vem depois, quando outros setores da esquerda utilizam a retórica da dependência para renovar a velha ilusão da “unidade nacional” contra o imperialismo. É nesse ponto que estalinismo e teorias da dependência convergem, porque ambos anulam o conflito de classes para o terreno da nação, convertendo o antagonismo social em projeto de desenvolvimento nacional. A forma como Jones Manoel se apropria da teoria da dependência se inscreve perfeitamente nesse desvio.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse neo-estalinismo nasce do colapso histórico da esquerda. Diante da esclerose do progressismo liberal, da crise profunda de representação, dissolução das organizações de base, precarização brutal das universidades e os empregos informais, milhares de jovens procuraram uma linguagem forte, algo que recomponha sentido diante da impotência. O liberalismo não oferece nada; o progressismo oferece pouco; o lulismo oferece estabilidade limitada; a extrema-direita oferece ódio e identidade. Nesse vácuo, o neo-estalinismo é o pacote mais completo, duro, anti-liberal, anti-ocidental, anti-imperialista, com estética forte, narrativa moral absoluta, disciplina, ordem, rigor e promessa de grandeza nacional. Ele reconstrói a sensação de totalidade perdida. O marxismo, tomado assim, é vendido como identidade emocional. Isso legitima a “frente ampla nacional”, que une trabalhadores, burocracia e setores da burguesia em nome de um projeto desenvolvimentista. É exatamente o programa do estalinismo dos anos 1930 aplicado ao Brasil de 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa configuração é a reatualização de uma forma política já conhecida. Nos anos 1930, diante da crise do capitalismo mundial e do avanço do fascismo, o stalinismo reorganiza sua estratégia em torno das frentes populares, abandonando a perspectiva de autonomia da classe trabalhadora em favor de alianças com frações da burguesia nacional sob a direção do Estado. A luta se orientada pela defesa de um projeto nacional, no qual o desenvolvimento das forças produtivas, a soberania econômica e a estabilidade política assumem centralidade e não qualquer ruptura com a ordem burocrático-burguesa. A classe trabalhadora é integrada como base de sustentação desse projeto, não como sujeito autônomo de transformação. O que se observa no Brasil contemporâneo é a recomposição dessa mesma lógica em novas condições históricas. Diante da crise prolongada, da desorganização social e fragilidade das organizações coletivas de ação, a resposta oferecida retoma a centralidade do Estado como instância de reorganização da sociedade, articula alianças com setores da burguesia sob a bandeira do desenvolvimento nacional e reinscreve a luta política nos limites da governabilidade. A linguagem é atualizada, os mediadores são outros, a circulação se dá pelas plataformas digitais, mas a estrutura permanece, ou seja, a radicalidade é transferida para o plano discursivo, enquanto a prática se organiza em torno da administração da ordem existente. Falar em aplicação do programa dos anos 1930 ao Brasil de 2026 não implica repetição mecânica, mas permanência de um mesmo princípio organizador, da subordinação da autonomia da classe trabalhadora a um projeto nacional-estatal que se apresenta como etapa necessária, enquanto adia indefinidamente a possibilidade de ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso se conecta diretamente à questão do anti-imperialismo. Nenhuma esquerda séria pode relativizar a violência imperialista, que orbita entre golpes, ocupações, guerras, sanções, pilhagem, política de dívida, tutela militar. A história da periferia capitalista é atravessada por essa violência. Só que o anti-imperialismo pode ser pensado de duas maneiras radicalmente diferentes. Num caso, ele é desdobramento do internacionalismo proletário; os trabalhadores de diferentes países se reconhecem como parte de uma mesma classe explorada, lutam contra as suas próprias burguesias e contra as ingerências externas, estabelecem redes de solidariedade, constroem instâncias comuns de luta. O anti-imperialismo é inseparável da ruptura com o capitalismo e com a forma-Estado. É a linha que vai, com todas as contradições, de algumas experiências do movimento operário europeu nos anos 1910-1920 às lutas coloniais em que o protagonismo plebeu tentou romper com as burocracias nacionais. No outro campo, o anti-imperialismo é capturado pela lógica do Estado. Não são as classes subalternas que se afirmam como sujeito, mas o Estado nacional que aparece como protagonista. Em nome de enfrentar o imperialismo, a burguesia local é reabilitada como aliada, a máquina de repressão interna é fortalecida, o nacionalismo é inflado, as oposições internas são silenciadas. O mantra primeiro a pátria, depois as reivindicações sociais é velho; primeiro a soberania, depois as liberdades; primeiro o desenvolvimento nacional, depois a democratização. Esse tipo de anti-imperialismo estatal se alimenta do ressentimento contra o centro, mas não toca na raiz da exploração interna. Ele é funcional ao capital local, que encontra na retórica anti-imperialista uma justificativa para continuar extraindo mais-valia em condições brutais. A superexploração se torna “sacrifício necessário”, o autoritarismo se converte em “dureza revolucionária”; a censura é rebatizada de “defesa da nação”.</p>
<p style="text-align: justify;">É esse segundo anti-imperialismo que o neo-estalinismo digital contemporâneo tende a difundir. Não se trata de relativizar a violência imperialista (que é real, histórica e estrutural), mas de observar como ela é enquadrada. Quando Jones Manoel publica, na Boitempo, o texto intitulado “Sim, eu apoio a Coreia do Norte!”, afirmando que “abraça sem reservas envergonhadas” a experiência da República Popular Democrática da Coreia e que sua prioridade política, diante das contradições internas do regime, é defendê-lo do cerco imperialista, o que se explicita é uma hierarquização onde a crítica à forma estatal é suspensa em nome da defesa do Estado sitiado. A experiência concreta (marcada por burocratização, centralização extrema e ausência de autonomia operária) é secundarizada diante da necessidade de preservar a soberania nacional. A autoridade estatal, para Jones, é a trincheira histórica a ser protegida. A recepção pública desse texto, visível nos comentários da postagem original, majoritariamente celebratória, confirma que o gesto foi lido como afirmação identitária e não como análise contraditória.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso chinês, a formulação é mais sofisticada, mas segue o mesmo eixo. Em entrevistas e textos recentes, Jones apresenta “o caminho da China” como alternativa estratégica para países dependentes, enfatizando soberania tecnológica, cerco militar e a necessidade de um Estado forte capaz de planificar o desenvolvimento. A tensão entre defesa da revolução e democracia proletária é colocada como dilema administrável sob pressão externa. O problema da burocratização, da repressão a dissidências e ausência de auto-organização operária é uma questão secundária diante da necessidade de enfrentar o imperialismo. A centralidade concentra-se na capacidade estatal de coordenar desenvolvimento e garantir posição geopolítica.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso russo, a questão exige maior precisão. Jones não elogia Putin, reconhece explicitamente seu caráter conservador e burguês. O ponto, porém, está na estrutura explicativa adotada que define a “contradição principal” do conflito na Ucrânia como o embate entre OTAN/EUA e Rússia, o que tende a reorganizar o campo político em termos interestatais com foco no cerco geopolítico, expansão militar ocidental, disputa entre blocos. A classe trabalhadora russa, ucraniana ou europeia aparece como variável subordinada a essa disputa. Ainda que não haja exaltação direta do governo russo, há uma forma de enquadramento que privilegia o reposicionamento estatal como eixo do conflito histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">O que une esses três casos é a tendência a pensar o mundo a partir de Estados em confronto e a tratar a autoridade estatal como mediação privilegiada da história. A classe trabalhadora é convocada a defender governos, soberanias, projetos nacionais e a crítica às formas internas de dominação é suspensa sob o argumento de que há uma ameaça maior no plano externo. A hierarquia entre “contradição principal” e “contradições secundárias” é um mecanismo de neutralização da autonomia. Essa operação produz efeitos políticos concretos. Parte significativa do público que acompanha Jones responde a esse enquadramento de maneira afirmativa, a defesa da Coreia Popular é celebrada como posição corajosa; a China é tratada como modelo de soberania bem-sucedida; a Rússia é lida como polo de contenção do imperialismo ocidental. A recepção não se organiza em torno da pergunta “como os trabalhadores desses países se auto-organizam?”, mas em torno da pergunta “qual Estado resiste melhor ao hegemon?”.</p>
<p style="text-align: justify;">O termo “neo-stalinismo”, tal como vem sendo mobilizado ao longo deste texto, não pode ser reduzido a uma simples repetição caricatural do stalinismo clássico nem a uma acusação moral dirigida a indivíduos ou correntes específicas. Aqui, me refiro a uma forma histórica determinada que reaparece em novas condições, conservando um núcleo estrutural e atualizando seus mecanismos de legitimação. Para compreendê-lo, é necessário retornar ao processo que o engendrou como chave de leitura do presente.</p>
<p style="text-align: justify;">A Revolução Russa abriu uma possibilidade inédita ao colocar em movimento a auto-organização proletária que escapavam à lógica estatal, sendo os sovietes, em sua emergência inicial, expressões concretas de um poder social direto, enraizado na atividade dos trabalhadores. No entanto, esse processo se desenvolveu sob condições extremas, guerra civil, isolamento internacional, atraso econômico, devastação produtiva, que favoreceram a centralização progressiva das decisões e a concentração de poder no partido. O que se apresentou como medida emergencial foi se cristalizando como forma permanente. A mediação partidária, inicialmente concebida como instrumento de organização se autonomizou, reorganizando o processo revolucionário sob a lógica da representação e da direção separada. Para autores como Pannekoek e Rühle, o problema não residia apenas em desvios conjunturais ou erros de liderança, mas na direção da revolução ao se estruturar a partir do partido e do Estado. A substituição da autoatividade da classe por uma instância dirigente produziu uma inversão fundamental em que o proletariado deixava de ser sujeito do processo para se tornar objeto de administração política. O partido não apenas coordenava a revolução, a representava, falava em seu nome e, progressivamente, decidia por ela. A ditadura do proletariado se convertia, na prática, em ditadura sobre o proletariado.</p>
<p style="text-align: justify;">O leninismo ocupa, nesse percurso, um lugar ambivalente. Por um lado, representou uma tentativa rigorosa de enfrentar problemas reais de organização, estratégia e poder em condições históricas concretas, formulando respostas que não podem ser descartadas sem análise. A questão da disciplina, da centralização e da intervenção consciente na luta de classes em Lenin é resposta à fragmentação do movimento operário e à repressão do Estado czarista. Por outro lado, ao conceber o partido como portador privilegiado da consciência e ao identificar a tomada do poder com a conquista do aparato estatal, o leninismo introduz uma mediação que tende a se autonomizar. A consciência é progressivamente externalizada em relação à prática viva da classe, assumindo a forma de um saber que se apresenta como anterior e superior à experiência concreta dos trabalhadores; a organização nesse caso não é o prolongamento da autoatividade coletiva, mas se configura como instância hierarquizada que se interpõe entre a classe e sua ação de modo a hierarquizar a esfera política, que se concentra em estruturas que se arrogam o direito de decidir pela totalidade social. O stalinismo é a radicalização desse processo sob condições específicas. A consolidação do poder estatal, a eliminação das oposições internas, a planificação centralizada e a constituição de uma burocracia permanente transformam o que ainda guardava tensões em um sistema estabilizado de dominação onde o Estado é o sujeito histórico absoluto. A sociedade é reorganizada de cima para baixo, a classe trabalhadora é disciplinada como força produtiva e política, e o partido se converte em aparato de gestão da totalidade social. A linguagem do socialismo é preservada, mas sua forma material se distancia cada vez mais da auto-emancipação proletária.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo do século XX, essa orientação se torna hegemônica em amplos setores da esquerda mundial, inclusive no Brasil, através de organizações como o PCB, que seguiram a lógica da estratégia etapista, da centralidade do Estado e subordinação da classe trabalhadora a projetos nacionais. Entre as décadas de 1950 e 1970, o stalinismo, em suas diversas variações, forneceu o horizonte dominante de ação política, organizando tanto a leitura da realidade quanto as práticas militantes. Mesmo quando criticado, seus pressupostos fundamentais (a centralidade do partido, a mediação estatal, a ideia de etapas históricas conduzidas por alianças amplas) permaneceram como gramática implícita. O que se denomina de neo-stalinismo é a reconfiguração nas condições do capitalismo contemporâneo, marcado pela financeirização, crise da organização da classe e centralidade da mediação digital. Seu núcleo permanece sendo a reafirmação do Estado como sujeito estratégico, a subordinação da autonomia proletária a projetos nacionais, a centralidade de uma instância dirigente que organiza, educa e conduz, e a transformação da política em processo de administração da sociedade a partir de cima. O que muda são os meios de difusão, as linguagens e os modos de legitimação.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse novo contexto, o neo-stalinismo não necessita mais de um partido de massas fortemente enraizado, podendo se estruturar como pedagogia política mediada por plataformas digitais como produção contínua de sentido que organiza percepções, define inimigos e estabelece horizontes de ação. A autoridade não se constrói apenas na organização material, mas na circulação simbólica; a disciplina não depende exclusivamente de estruturas formais, mas de processos de identificação e adesão. Ainda assim, a lógica permanece a mesma, da política sendo conduzida por instâncias separadas, a classe é interpelada como base de apoio, e a emancipação é concebida como reorganização do poder estatal sob nova direção. É nesse sentido preciso que o neo-stalinismo deve ser entendido. Não como insulto, mas como categoria que permite identificar a persistência de uma forma de dominação que se apresenta como crítica da ordem existente enquanto reproduz seus fundamentos. Ele opera como solução imaginária para uma crise real, oferecendo coerência, identidade e horizonte num momento de fragmentação, mas o faz ao custo de reinstalar a separação entre dirigentes e dirigidos, entre política e vida social, entre Estado e sociedade. O que se apresenta como radicalidade é, na verdade, a reiteração de uma contradição histórica que já demonstrou seus limites, agora revestida de novas linguagens e adaptada às condições de um capitalismo em crise.</p>
<p style="text-align: justify;">O neo-stalinismo digital combina denúncia contundente da dominação externa com silenciamento progressivo dos mecanismos internos de dominação estatal, apresenta a defesa da soberania como tarefa prioritária e transforma a crítica ao Estado em questão secundária, a ser resolvida “depois” e esse “depois” tende a nunca chegar. A juventude que chega a esses conteúdos não é convidada a se organizar como classe trabalhadora internacionalmente articulada, mas a aderir a uma narrativa geopolítica onde os “bons” são os Estados que enfrentam Washington. A análise sai da fábrica para a chanceleria, do chão de escola para a sala de reunião de partido-Estado, da vida concreta para o tabuleiro dos blocos nacionais.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159791" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1.jpg" alt="" width="964" height="723" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1.jpg 964w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 964px) 100vw, 964px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa operação, por sua vez, tem um efeito específico sobre a subjetividade política, pois reorganiza o imaginário da militância em torno da nação e do Estado. O jovem precarizado que procura uma teoria contra o capitalismo é encaminhado a amar bandeiras, hinos, símbolos nacionais, relatos épicos de “projetos de desenvolvimento nacional”, imagens de fábricas estatais modernas, desfiles militares, celebrações de líderes duros e supostamente incorruptíveis. Essa combinação ainda produz um efeito mais silencioso e profundamente corrosivo, pois abre uma zona de indistinção em que frações da esquerda e correntes reacionárias podem atuar com um vocabulário comum, estruturado em torno do anti-liberalismo, do nacionalismo e centralidade do Estado; de um lado, reaparecem formulações que reivindicam o “socialismo de Estado” como horizonte histórico, de outro, proliferam discursos que rejeitam o cosmopolitismo, exaltam a tradição, tratam o indivíduo como elemento dissolvente e reorganizam a história como conflito entre civilizações e blocos geopolíticos.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo é, desde o início, uma forma mundial de sociabilidade em expansão, em que a concorrência entre capitais empurra constantemente pela centralização, hierarquização de regiões, criação de zonas de superexploração. Não existe capitalismo “puro” sem imperialismo; não existe “estágio pré-imperialista” de normalidade. A periferia é resultado da expansão do capital. A dependência é, ao mesmo tempo, desigualdade entre regiões e mecanismo de intensificação da exploração interna. O alvo do combate segue sendo o capital como relação social, não “países”. A ação política consequente será internacionalista de fato, não de discurso, e terá que lidar ao mesmo tempo com o capital local e global. O uso ideológico, ao contrário, introduz uma época de ouro implícita: um passado ou um ideal hipotético em que o país teria sido ou poderia ser “soberano”, “autônomo”, “desenvolvido” se não fosse a intervenção externa. Isso abre espaço para uma nostalgia impossível, ou de um passado nacional mitificado e um futuro nacional grandioso.</p>
<p style="text-align: justify;">A complexidade dessa questão passa, portanto, por reconhecer que o capitalismo periférico depende, sim, de uma articulação desvantajosa no sistema mundial e, ao mesmo tempo, recusar o uso dessa constatação como argumento para programas nacionalistas que pedem lealdade ao Estado. A dependência não é desculpa para segurar a classe trabalhadora pela coleira, mas justamente o motivo pelo qual essa classe não pode confiar em nenhum projeto que a subordine a bandeiras nacionais. O anti-imperialismo que não seja simultaneamente uma crítica à forma Estado e uma prática de solidariedade de classe transnacional cai, cedo ou tarde, no colo do nacionalismo e o nacionalismo, historicamente, nunca foi motor da emancipação dos trabalhadores; foi, quando muito, combustível para transições entre formas de dominação capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Vista assim, a figura de Jones Manoel (e o neo-stalinismo digital que o cerca) é como uma recomposição organizada dessa confusão. Ele se apropria de fragmentos da teoria da dependência, simplifica a leitura do imperialismo, converte a análise em narrativa épica sobre “povos oprimidos” e “nações resistentes”, reabilita o Estado como sujeito histórico, oferece à juventude uma identidade política clara onde ser comunista é torcer por certos Estados, defender certas bandeiras, repetir certos slogans, aceitar a lógica de frentes nacionais e acreditar na possibilidade de um desenvolvimento soberano que, misteriosamente, levaria ao socialismo. Nesse percurso, o trabalhador não é convidado a organizar conselhos, a construir redes de autogestão, a experimentar o poder de base, somente a consumir conteúdos, a votar em candidaturas “radicais”, a apoiar “projetos nacionais”, a defender regimes autoritários no debate público. A complexidade está em sustentar que a teoria da dependência, enquanto crítica de como o capitalismo se mundializa, segue indispensável e que o uso nacionalista e estatolátrico dessa teoria, hoje reforçado por neo-stalinistas digitais, é um obstáculo frontal a qualquer perspectiva revolucionária. É possível e necessário ler Florestan e Marini contra aqueles que os transformam em patronos de um novo nacionalismo vermelho. É possível e necessário construir um anti-imperialismo que não desemboca na defesa acrítica de Estados “anti-Otan”, mas na organização concreta da classe trabalhadora (no Brasil e fora dele) contra todos os complexos de poder, internos e externos, que a exploram. Quando se recoloca o protagonismo dos trabalhadores no centro, a figura da dependência perde o seu brilho místico e recupera o seu valor analítico. Não se trata de negar a subalternidade do capitalismo brasileiro, mas de recusar que a resposta a essa subalternidade seja entregar a classe trabalhadora, mais uma vez, ao sacrifício em nome da pátria.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo da produção deste texto, fui publicando trechos em meu canal do youtube e um dos comentários chama atenção:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A classe trabalhadora mundial nunca libertou sequer uma colônia sem utilizar o estado pra isso, esse texto é um chororô que se recusa a reconhecer isso. O anarquismo na era da descolonização mundial foi inútil pra classe trabalhadora enquanto estados nacionais e grupos aspirantes a se tornarem moldaram a história e fizeram do mundo um lugar menos pobre e até mesmo com menos tirania estatal (<a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/@bernardoblanco4286" href="https://www.youtube.com/@bernardoblanco4286" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">@BERNARDOBLANCO4286</a>).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Minha resposta literal foi a seguinte:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A afirmação de que a classe trabalhadora jamais libertou colônias sem o uso do Estado parte de uma confusão histórica fundamental entre processos de descolonização<strong> </strong>e emancipação social. É verdade que, ao longo do século XX, a maior parte das independências ocorreu sob a forma de Estados nacionais, muitas vezes dirigidos por partidos, frentes ou grupos armados que aspiravam a ocupar o aparelho estatal. O erro está em transformar essa constatação empírica em prova de que o Estado seja condição necessária da libertação da classe trabalhadora, ou de que esses processos tenham efetivamente representado sua emancipação. É um salto lógico ilegítimo, que confunde mudança na organização da política com superação das relações sociais de dominação. A descolonização estatal foi incapaz de abolir o capital, tendo como função reorganizar sua reprodução. Em praticamente todos os casos históricos (da África à Ásia, da América Latina ao Oriente Médio), a independência nacional significou a substituição da dominação colonial direta por formas internas de dominação de classe mediadas por Estados recém-formados. As estruturas fundamentais da exploração, trabalho assalariado, hierarquia produtiva, disciplina fabril, repressão policial, acumulação de capital, permaneceram intactas. A pobreza diminuiu em alguns contextos, aumentou em outros; a tirania mudou de mãos, mas não desapareceu. Em muitos casos, o Estado nacional se tornou ainda mais intrusivo e violento do que o poder colonial anterior, justamente porque precisava disciplinar “seu próprio povo” em nome do desenvolvimento, da unidade nacional e soberania.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dizer que esses processos “fizeram do mundo um lugar menos pobre e menos tirânico” é uma generalização ideológica que apaga a experiência concreta da classe trabalhadora nas periferias do capitalismo. A industrialização dependente, conduzida por Estados nacionais fortes, foi acompanhada por superexploração do trabalho, repressão sistemática a greves, criminalização de movimentos camponeses e urbanos, ditaduras militares e partidos únicos. A miséria nem de longe foi superada, sendo no máximo readministrada e a tirania foi nacionalizada ao invés de ser abolida enquanto o trabalhador deixou de ser explorado por um império estrangeiro para ser explorado por sua própria burguesia, agora investida de legitimidade patriótica. Quanto à acusação de que o anarquismo (ou, mais amplamente, as correntes anti-estatistas e conselhistas) teria sido “inútil” no século XX, ela revela uma leitura estreita da história, centrada apenas nos vencedores institucionais. As organizações mais radicais de auto-organização da classe trabalhadora (conselhos, comunas, sovietes antes de sua burocratização, coletivizações autogeridas, greves selvagens, insurreições urbanas e rurais) foram sistematicamente esmagadas não apenas pelo imperialismo, mas também pelos Estados nacionais “libertadores”. A inutilidade não estava na auto-organização, mas no fato de que ela ameaçava tanto o capital externo quanto o interno. Justamente por isso, foi derrotada.</p>
<p style="text-align: justify;">O argumento estatista transforma a derrota histórica dessas experiências em prova de sua inviabilidade, quando, na verdade, elas foram derrotadas porque colocavam em risco a própria lógica da dominação. Ao afirmar que “sem Estado não há libertação”, o comentário apenas naturaliza o resultado de uma correlação de forças desfavorável e o converte em lei histórica. Isso equivale a dizer que, porque o capital venceu, ele era necessário; porque o Estado triunfou, ele era emancipador. Isso é um raciocínio tautológico que confunde fato consumado com horizonte possível. Por fim, a ideia de que a classe trabalhadora só pode agir como força histórica por meio do Estado reduz sua potência política à condição de instrumento, como massa de apoio para projetos definidos de cima, nunca como sujeito capaz de criar suas próprias formas de poder se apresentando como uma visão profundamente conservadora que toma o Estado (produto histórico da dominação de classe) como limite insuperável da ação humana. Contra isso, a crítica antistatista lembra que enquanto a libertação for pensada como tarefa do Estado, a classe trabalhadora continuará sendo governada, ainda que em nome de si mesma.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a torção nacionalista da teoria da dependência transfere o sujeito histórico da classe para a nação, a centralidade do Estado e do partido completa o movimento de neutralização da política proletária. O contraponto conselhista, expõe o caráter contrarrevolucionário do marxismo estatal que Jones Manoel atualiza. Não se trata de uma divergência tática ou de estilo organizativo, mas de uma incompatibilidade entre duas concepções de emancipação que tem de um lado, a auto-organização direta da classe trabalhadora contra o capital e de outro, a administração da sociedade por meio do Estado e de um partido que se coloca como tutor da classe. O Estado organiza a reprodução do capital ao garantir juridicamente a propriedade, disciplinar o trabalho, monopolizar a violência legítima e converter conflitos sociais em problemas administrativos e mesmo quando se apresenta sob bandeiras socialistas, o Estado preserva sua função fundamental de governar a sociedade de cima para baixo, por meio de uma burocracia especializada que decide em nome de outros. Pannekoek insistiu nisso ao dizer que enquanto existir Estado, existe uma instância separada da sociedade que governa sobre ela; enquanto existir essa separação, não há emancipação, apenas mudança de gestores.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa crítica nasce da experiência histórica do movimento operário. Pannekoek e Rühle escreveram à sombra da Revolução Russa, observando como a energia criadora dos conselhos operários foi progressivamente sufocada pela ascensão do partido-Estado. O que inicialmente surgiu como uma mediação provisória tornou-se rapidamente uma estrutura permanente de dominação. Os sovietes, que haviam surgido como formas espontâneas de auto-organização do proletariado, foram esvaziados, subordinados e, por fim, transformados em correias de transmissão das decisões do partido. Para os conselhistas, isso foi a consequência lógica da aposta no Estado e no partido como o centro da revolução. Otto Rühle radicalizou essa crítica ao afirmar que o partido, longe de ser instrumento de emancipação, tende a se tornar uma nova camada dominante. Toda organização que se autonomiza da classe, que fala em seu nome, que a representa, desenvolve interesses próprios, preserva sua existência, expande sua influência, controla o processo político. O partido, nesse processo, substitui a classe, seguindo a mesma lógica da alienação reproduzindo no interior do campo revolucionário a mesma lógica hierárquica do capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o ponto cego do leninismo e correntes derivadas que concebe a emancipação como algo a ser feito para a classe, não pela classe. A consciência é trazida de fora, a organização vem de cima, a estratégia é definida por especialistas, a política é conduzida por quadros. Mesmo quando o discurso é aparentemente radical, a orientação é conservadora. Mesmo quando se fala em socialismo, a prática reproduz a divisão entre governantes e governados e isso reaparece no neo-estalinismo contemporâneo, agora adaptado às condições do capitalismo digital, precarização generalizada e da política como espetáculo. Jones Manoel é um operador exemplar dessa atualização. Sua defesa da centralidade do Estado e do partido estrutura todo o seu modo de pensar e intervir. Quando Jones fala em “tomar o poder”, “reconstruir o Estado”, “usar o Estado para desenvolver as forças produtivas”, “defender a soberania nacional”, ele está partindo do pressuposto de que a emancipação social passa necessariamente pela captura e pelo fortalecimento do aparato estatal. A classe trabalhadora, nesse esquema, é apenas a base de apoio, como massa a ser organizada, educada, conduzida, nunca como instância autônoma de decisão e ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">A pedagogia política de Jones se coloca como explicador do mundo, tradutor autorizado do marxismo, mediador entre a teoria e as massas. O público não é chamado a experimentar sua própria organização, a construir espaços de poder de base, a romper com as mediações existentes. É chamado a aprender, concordar, repetir. Essa pedagogia verticalizada é a expressão cultural da mesma lógica que, no plano organizativo, se traduz na defesa do partido-Estado que traduz uma relação de tutela onde alguém sabe, alguém explica, alguém dirige; os demais acompanham. Nildo Viana ajuda a compreender por que essa forma é conservadora. Ao analisar a esquerda como parte integrante da reprodução do capital (em diversos textos disponíveis em seu blog), ele mostra como grande parte das organizações que se reivindicam socialistas atua, na prática, como administradora dos conflitos sociais. Em vez de fomentar a auto-organização e o antagonismo, essas organizações canalizam a revolta para dentro de instituições existentes, normalizam a contestação e reforçam a legitimidade do Estado. O marxismo estatal, nesse quadro, é uma ideologia funcional à gestão da sociedade capitalista em crise, pois oferece uma crítica controlada, uma radicalidade discursiva que não ameaça a dominação de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso de Jones Manoel, essa função é ainda mais clara porque sua atuação se dá no interior da indústria cultural digital. O partido não é apenas a organização formal, mas a centralidade mental, liderança, disciplina, linha correta, inimigos definidos, aliados estratégicos seguindo uma lógica campista (dividir o mundo em blocos estatais progressistas e reacionários). A revolução não é um ato inaugural decidido por decreto nem como a aplicação técnica de um programa previamente traçado. A revolução se constitui ao longo do tempo, no movimento pelo qual a classe trabalhadora desenvolve suas capacidades de ação, reflexão e organização, transformando a si mesma enquanto transforma as relações sociais que a oprimem. Os conselhos são a organização política correspondente à superação da separação entre economia e política, entre trabalho e poder. Neles, os produtores associados decidem diretamente sobre a produção e sobre a vida social, sem mediações externas, sem representantes profissionais, sem burocracias permanentes integrando a política à prática cotidiana.</p>
<p style="text-align: justify;">Comparado a isso, o projeto de Jones Manoel mostra a sua pobreza histórica. Não há, em sua formulação, espaço para conselhos, para autogestão, democracia direta e, principalmente, dissolução do Estado. Há, sim, uma revalorização explícita do comando centralizado, da autoridade, disciplina e planificação estatal. A experiência histórica do stalinismo, longe de ser tratada como advertência, é frequentemente relativizada ou justificada em nome da luta contra o imperialismo. O sofrimento real da classe trabalhadora sob regimes de capitalismo de Estado é apagado em favor de uma narrativa geopolítica abstrata. Ao defender o Estado como sujeito da transformação, Jones contribui para a reprodução da passividade política. A classe é educada a esperar soluções de cima em rituais como eleições, governos fortes, líderes firmes, projetos nacionais enquanto a iniciativa própria é desestimulada. Visto desse ângulo, a crítica a Jones Manoel não é uma querela interna da esquerda, nem uma disputa de narrativas. O caminho que ele propõe conduz a um beco histórico já conhecido de integração da classe trabalhadora a projetos estatais que falam em seu nome enquanto a mantêm subordinada. Contra isso, o conselhismo oferece uma orientação prática de recolocar a auto-organização, a ação direta e o internacionalismo no centro da política não como slogans, mas como organização real do poder social. Tudo o que se afasta disso, por mais radical que pareça no discurso, opera, no fundo, como força de contenção da revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Modificar a realidade não passa pela inflação da palavra. Há um limite da linguagem quando ela se autonomiza da prática social e se converte em performance discursiva. Parte expressiva dos debates contemporâneos circulam, reiteram-se, acumulam ruído, mas não produzem mudança alguma na correlação de forças. Não porque faltem argumentos, mas porque o problema não é cognitivo. É material. No plano individual, a disputa de consciências tornou-se progressivamente mais restrita. A formação subjetiva é atravessada por história social, posição de classe, experiências acumuladas, derrotas, expectativas, medos, desejos e dispositivos permanentes de captura simbólica. Cada indivíduo chega ao mundo social moldado por uma série de determinações que escapam à vontade, tanto dele quanto de quem pretende “convencê-lo”. Apostar que a transformação social virá da conversão paciente de indivíduos isolados é ignorar o modo real como a sociedade se reproduz. Esse diagnóstico costuma gerar angústia. A sensação de falar para paredes, de repetir análises corretas que não encontram ressonância, de observar a proliferação de discursos críticos que não alteram nada de essencial. Essa angústia nasce de uma premissa equivocada de que a ideia de mudança social se decide no plano da adesão individual, como se a sociedade fosse a simples soma de consciências persuadidas. Historicamente, nunca foi assim. As grandes transformações sociais não resultam de transformações morais ou de ajustes comportamentais graduais. Elas irrompem quando se altera a base material que sustenta uma determinada forma de poder. Não se trata de convencer o capital a ser menos capitalista, nem o Estado a ser menos Estado, mas de produzir força social organizada capaz de tensionar, bloquear, romper e reorganizar as estruturas que garantem a reprodução da dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, o eixo central não é o convencimento, mas a constituição de poder material, enraizado em práticas coletivas, em organizações que não dependem da adesão subjetiva plena de todos, mas da capacidade de agir em comum. Contra-poder é uma relação social concreta que se constrói quando setores subalternos passam a controlar parcelas da vida social, do trabalho, território, produção e circulação. A hegemonia se consolida quando uma classe ou fração de classe consegue apresentar seus interesses como interesse geral porque controla os meios materiais que organizam a vida cotidiana. A contra-hegemonia, por sua vez, não nasce de slogans mais radicais ou de diagnósticos mais sofisticados, mas da criação de práticas sociais alternativas que desestabilizam essa ordem, mesmo antes de serem plenamente compreendidas ou legitimadas. A organização popular, portanto, é inevitável para um processo emancipatório, exige coordenação, disciplina consciente, objetivos comuns e capacidade de sustentar conflitos prolongados. Ela produz subjetividade, mas o faz a partir da prática, não da pedagogia moral. A autogestão, então, é como ensaio material de outra forma de sociabilidade, sempre parcial, tensionada, ameaçada pela lógica dominante, mas fundamental enquanto experiência concreta de reorganização da vida social fora dos parâmetros do capital e do Estado. Onde há autogestão real, ainda que limitada, há aprendizagem coletiva, redefinição de necessidades e ruptura prática com a passividade política. Nesse sentido, muitos debates são de fato inúteis. Não porque o pensamento crítico seja irrelevante, mas porque ele se torna estéril quando se desconecta da produção de força social material. A tarefa histórica não é falar mais alto nem melhor, mas criar condições materiais para que outras formas de vida possam emergir em confronto direto com a ordem existente. Isso exige menos verborragia e mais enraizamento; menos ilusão pedagógica e mais estratégia; menos fé no convencimento individual e mais aposta na potência coletiva. É nesse terreno áspero, conflitivo e desigual que a história efetivamente se move.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159792" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-70x70.jpg" alt="" width="157" height="200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-235x300.jpg 235w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-801x1024.jpg 801w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-768x981.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-329x420.jpg 329w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-640x818.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-681x870.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo.jpg 835w" sizes="auto, (max-width: 157px) 100vw, 157px" /><em>As obras que ilustram o artigo são da autoria de Erik Bulatov (1933-2025).</em></p>
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		<title>Embiras &#8211; entre a rua e as redes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Sep 2026 15:30:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Cada experiência, inclusive as mais frustrantes, serviu para demonstrar na prática quais caminhos tendem a fortalecer a auto-organização e quais caminhos tendem a enfraquecê-la. Por Embiras]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Embiras</h3>
<p style="text-align: justify;">O Embiras nasceu de mais uma experiência frustrada, resultado de burocratização, formação de personalidade e pressão por visualizações nas redes sociais. As pessoas que viriam a fundar o grupo participaram brevemente de uma outra equipe <strong>[1]</strong>, focada nas “cobranças” em relação aos problemas enfrentados pelos entregadores de aplicativo. “Cobranças” aqui é definido como as formas que os trabalhadores de app encontraram para se contrapor aos esculachos de clientes e donos de estabelecimento, fazendo buzinaços em suas portas e divulgando os ocorridos nas redes sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse grupo em questão, essa equipe, destoava por se apresentar como um grupo organizado dessas cobranças, embora nas redes sociais a página do grupo tenha tentado se apresentar como uma página de notícias, uma estratégia para compartilhar os vídeos das cobranças. E esses vídeos viralizaram. Nada como a treta para garantir visualização e repercussão nas redes sociais. Junte-se isso ao fato da equipe em questão se posicionar firme em oposição a outra equipe, nascida da luta da categoria em Goiânia contra os aplicativos, mas que havia se degenerado em instrumento de gestão e de defesa das empresas de aplicativo &#8212; com alguns dos seus líderes inclusive recebendo dinheiro de uma dessas empresas <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o tempo as contradições foram se mostrando. O dono do grupo, que se apresentava como mais um, mas era quem controlava a página no instagram, não tardou a deixar claro seus interesses de influencer. Na realidade, o dono da página nem mesmo era um trabalhador de aplicativo &#8212; embora afirmasse que já havia sido um &#8212; e sim um empresário dono de empresa de aluguel de moto.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como na burocratização daquela equipe que se tornou instrumento das empresas, essa também viu o processo coletivo ser cada vez mais direcionado para o personalismo. Os vídeos que até então focavam na categoria em luta cederam lugar cada vez mais a vídeos do dono posando como influencer da categoria. E a sanha por likes transformou a página cada vez mais em página de fofocas sobre qualquer coisa que gerava engajamento. Aqueles trabalhadores que se opunham à linha empurrada foram queimados e difamados, muitas vezes em vídeos públicos, num reforço ao espírito de seita.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi após a saída de alguns &#8212; e expulsão de outros &#8212; dessa experiência que o Embiras foi formado. Ao contrário da forma organizativa surgida e adotada de forma espontânea pela categoria, que cria suas equipes à partir de grupos de afinidade dos trabalhadores de aplicativo, o Embiras nasce com uma perspectiva de ser uma minoria com posições políticas claras em defesa da auto-organização, contra a institucionalização e burocratização das lutas. O grupo não foi formado apenas por trabalhadores de aplicativo, mas também por trabalhadores de outras categorias apoiadores da luta desses trabalhadores &#8212; nenhum patrão, é importante frisar.</p>
<p style="text-align: justify;">Como primeira iniciativa do grupo, foi lançado o “Avalie os Estabelecimentos”, uma plataforma que servia como repositório de relatos sobre os estabelecimentos em que os trabalhadores coletam para posteriormente entregar. A aplicação recebeu dezenas de relatos sobre práticas abusivas, tratamentos desumanos, e mapeou aqueles lugares que ofereciam condições básicas para os trabalhadores (como água, banheiro e local para carregar o celular) com o objetivo de auxiliar os trabalhadores na sua labuta diária. Tivemos vários relatos interessantes e vimos em grupos tentativas de organização de breques em estabelecimentos que estavam sendo mal avaliados na plataforma. Mas o fato dessa plataforma rodar em um site mostrou uma dificuldade em sua adoção. O grupo construído em torno dessa plataforma, via whatsapp, de certa forma era mais dinâmico e acabava por centralizar mais os desabafos e os relatos do que a plataforma em si. A iniciativa da forma como foi concebida a princípio foi abandonada, deixando para depois repensá-la em outros moldes (como ferramenta interna no whatsapp parece ser a alternativa mais condizente com a “cultura cibernética” da categoria).</p>
<p style="text-align: justify;">Eis que uma das empresas lança uma atualização forçando a adoção de rotas curtas. Junta-se esse fato de atualização do app ao debate em torno da PLP 152/25, rejeitada amplamente pela categoria. Essas questões dão impulso a um processo de descontentamento crescente na categoria, e um trabalhador de aplicativo, resolve jogar a ideia de uma paralisação em grupos de whatsapp. Essa ideia viraliza por grupos, e o apoio se torna massivo. Uma outra equipe pega para si a chamada do movimento e cria um grupo chamando a paralisação. Esse trabalhador que deu o pontapé no processo é firme em criticar esse movimento (que contava com a equipe em questão utilizar os materiais criados por esse colega mas colocar o emblema de sua equipe). A crítica foi acatada, e os grupos de whatsapp criados para a paralisação removeram o emblema da equipe e passaram a defender a união das equipes em torno da luta, sem personalismos e sem ênfase em grupos particulares. Representantes do grupo de cobrança e do grupo burocratizado (inimigos mortais, é importante frisar) foram procurados para compor a luta. O primeiro aceitou, para logo em seguida abandonar inventando mentiras em suas redes. O segundo se absteve, e também partiu para o ataque contra o movimento, que não se encontrava em sua direção e seu controle.</p>
<p style="text-align: justify;">O ataque de ambos os grupos foi lamacento, com mentiras, manipulações e, enfim, a aliança entre os nossos heróis para acabar com a mobilização. As equipes, inimigas mortais, se uniram e fizeram uso de suas grandes páginas para criação de conteúdo unificado com objetivo de acabar com a luta, usando videos fora de contexto, informações velhas, e um monte de fake news. Apesar do dano sofrido, a piada se fez presente &#8212; o movimento foi tão inovador que conseguiu unir arqui-inimigos. As grandes páginas se uniram para acabar com o movimento descentralizado surgido da união de diversas equipes que não contavam com seus grandes números de curtidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159781 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243.jpg" alt="" width="1500" height="1243" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-300x249.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-1024x849.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-768x636.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-507x420.jpg 507w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-640x530.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Pannaggi-Treno-in-Corsa-1235567243-681x564.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />Apesar dos ataques constantes a luta ocorreu. É verdade que o clima nada amistoso e cheio de assédios de todo tipo, com direito a denúncias à polícia e ameaças de morte, enfraqueceu a demonstração de rua. Mas a adesão foi enorme, com grande quantidade de trabalhadores ficando em casa e pedidos acumulando em estabelecimentos por falta de trabalhadores na rua. Apesar da falta do breque, os fura-greves conseguiram produzir cenas espetaculares: Por conta das denúncias que fizeram à policia de que os grevistas pretendiam partir para a violência, a polícia atuou abordando aqueles entregadores que trabalhavam durante a paralisação, aplicando multas, recolhendo motos com documentos atrasados e, inclusive, segundo relatos, detendo trabalhadores que furavam a greve e portavam facas para se defender da ameaça dos vândalos inexistentes. Na falta do breque pela categoria, os fura-greve conseguiram fazer com que a polícia realizasse os breques, afetando diretamente quem trabalhava naquele dia de paralisação.</p>
<p style="text-align: justify;">A paralisação de Goiânia também teve sucesso em alcançar outros estados, gerar conteúdo para incentivo de outras cidades a aderirem à luta, fortalecendo a luta geral tanto contra a nova modalidade de trabalho (que já se colocava em outros aplicativos e se expandia territorialmente) quanto contra a PLP. O posicionamento da equipe burocrática também trouxe contradições internas que se tornaram impossíveis de conciliação. Muitos do grupo defendiam a paralisação e vendo os líderes adotando a campanha difamatória entraram em confronto direto, o que acabou gerando brigas e rachas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, o fim do processo e o recuo trouxeram novamente a separação. Aquele grupo que unificou equipes e possibilitou uma construção mais coletiva daquele processo não durou. Os embates entre equipes se fortificaram, reforçando a divisão já existente na categoria.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo o que foi vivido até aqui, essa trajetória não deve ser vista apenas como um relato de confusões, derrotas ou disputas internas. Pelo contrário. Cada experiência, inclusive as mais frustrantes, serviu para demonstrar na prática quais caminhos tendem a fortalecer a auto-organização e quais caminhos tendem a enfraquecê-la. Os ataques sofridos, as tentativas de cooptação, os personalismos, as campanhas de difamação e as disputas por protagonismo não fizeram desaparecer os problemas enfrentados diariamente pelos entregadores. As taxas continuam baixas, os bloqueios arbitrários continuam acontecendo, as mudanças unilaterais das plataformas seguem impactando a vida de milhares de trabalhadores e a ausência de qualquer controle real sobre as condições de trabalho permanece sendo uma realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Da parte do Embiras, a proposta segue sendo a mesma: fortalecer a auto-organização e combater a burocratização e a pessoalização das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> &#8211; Equipe é uma forma organizativa presente na categoria em Goiânia, onde os entregadores se organizam em grupos, criam suas camisas personalizadas e se auxiliam</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> &#8211; Uma trajetória dessa outra equipe pode ser encontrada <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/04/152631/" href="https://passapalavra.info/2024/04/152631/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/05/152678/" href="https://passapalavra.info/2024/05/152678/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/05/152788/" href="https://passapalavra.info/2024/05/152788/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Filippo Tommaso Marinetti (1876 &#8211; 1944)</em></p>
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		<title>Velha Toupeira (46)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Sep 2026 11:25:43 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159773" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO.jpg" alt="" width="2480" height="827" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO.jpg 2480w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-2048x683.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-1259x420.jpg 1259w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2480px) 100vw, 2480px" /></p>
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		<title>[Belo Horizonte] Kasa Invisível Fica e Resiste!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Sep 2026 23:31:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[Relatos de uma semana de vigílias e solidariedade.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Kasa Invisível</h3>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159762 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-791x1024.jpg" alt="" width="640" height="829" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-791x1024.jpg 791w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-768x994.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-1187x1536.jpg 1187w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-640x828.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-681x881.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Relatos de uma semana de vigílias e solidariedade.</p>
<div dir="auto" style="text-align: justify;"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Após a resistência popular que impediu o despejo arbitrário de um dos imóveis na sexta-feira, dia 21 de agosto, a Kasa Invisível intensificou sua agenda de atividades, recebendo inúmeros grupos e coletivos solidários ao espaço.</div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Foram eventos praticamente diários onde a comunidade movimentou e cuidou da Kasa com cafés da manhã todos os dias a partir das 6:30 da manhã, apresentações musicais, cinema na calçada, arte, passeios de bike, aula com alunos do curso de arquitetura, sarau e até corte de cabelo grátis!</div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;"></div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Podemos dizer que o coletivo gestor e toda nossa rede de apoio está surpresa com o tamanho e a diversidade das formas de apoio, presença e cuidado com o espaço que ocupamos e mantemos há 13 anos.</div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;"></div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Por mais de uma década, construímos um espaço aberto para a comunidade, que pode ser usado por qualquer pessoa, coletivo, sindicato, movimento ou grupo que compartilhe e respeite princípios básicos anticapitalistas, antifascistas, e contrários a toda forma de opressão (de raça, de gênero, transfobia, etc.) e com uma base apartidária e de independência em relação ao Estado e ao mercado.</div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;"></div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Se hoje contamos com uma comunidade inteira defendendo esse espaço e as vidas que o habitam, é porque estivemos lado a lado, ombro a ombro na abertura de dezenas de novas ocupações, em protestos, marchas, panfletagens, distribuição de marmitas e recursos, jornadas de luta, festivais, mutirões, vigílias, almoços, plantios, oficinas, debates e todo tipo de agitação cujo objetivo é melhorar a vida das pessoas oprimidas e excluídas. Mantendo, em cada passo, a perspectiva de que a vitória de uma vida livre e próspera para todas só é possível com o fim do capitalismo e toda forma de opressão estatal.</div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;"></div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Agradecemos a todos os movimentos, grupos e indivíduos que somaram nessa primeira semana de luta para manter a Kasa Invisível de pé. Segue uma breve lista do que rolou essa semana. Se esquecemos algo, pode nos lembrar &#8211; é muita coisa para lembrar, e no meio da luta, é capaz de perdermos algum detalhe.</div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto"><a href="https://www.instagram.com/p/Dc39J25IB4Q/?igsi=MXg3MHJlaDl3MjI0bQ==">https://www.instagram.com/p/Dc39J25IB4Q/?igsi=MXg3MHJlaDl3MjI0bQ==</a></div>
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		<title>Tamagochis sonham com o cachorro caramelo?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/09/159752/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Sep 2026 12:11:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma lojinha de pets é o negócio perfeito para tempos de genocídio. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Primo Jonas</h3>
<p style="text-align: justify;">Na esquina da avenida perto de casa abriu uma loja de mercadorias para <em>pets</em>. É uma loja bonita, toda de vidro. Dentro dela estão diversas formas e cores espalhadas pelas estantes: os produtos. No centro da vitrine, uma tela LED onde aparecem gatinhos em movimento. Os vizinhos de esquina são um posto de gasolina, uma loja de roupinhas interiores femininas e uma rotisseria de massas artesanais. Hoje em Buenos Aires se vê um grande número de comércios fechando. Um comércio para <em>pets</em>, no entanto, é uma boa aposta.</p>
<p style="text-align: justify;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contemplar a loja do outro lado da rua, num dia frio deste outono, me lembrei da ovelha elétrica de Rick Deckard. Protagonista do livro <em>Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, </em>do escritor Philip K. Dick., Rick vive no mundo distópico de 1992, imaginado em 1968. Ele é um caçador de recompensas que sonha em ser proprietário de um animal vivo, mas sua situação econômica não o permite. Para demonstrar aos demais cidadãos sua empatia pela vida do outro, foi necessário recorrer a um animal elétrico. Os animais silvestres haviam praticamente desaparecido devido à guerra nuclear <strong>[1]</strong>, por isso a sociedade os elevou a um componente ideológico central e institucionalizou a compra e venda de animais raros para fins de ostentação pública.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159756" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog.png" alt="" width="1600" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog.png 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-300x135.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-1024x461.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-768x346.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-1536x691.png 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-933x420.png 933w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-640x288.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-681x306.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" />*</p>
<p style="text-align: justify;">Quem viu o filme <em>Blade Runner</em> conheceu apenas a narrativa da novela policial, embora o existencialismo também esteja bem representado. Quem viu o filme <em>Blade Runner 2049</em> conheceu outra faceta da história, que é um conflito entre a tecnologia e a religião. Algumas outras coisas muito interessantes ficaram de fora de ambas produções audiovisuais.</p>
<p style="text-align: justify;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Semanas antes um amigo me havia relatado que sua cachorra, já veterana, foi diagnosticada com câncer, um tumor no cérebro. O veterinário então lhe deu a boa notícia: havia um tratamento para salvá-la, a quimioterapia. Foi grande a surpresa do meu amigo, mas não apenas por escutar essa oferta comercial de parte do veterinário, mas principalmente pela recusa do profissional em realizar a eutanásia alegando que a vida da cachorra ainda poderia ser salva.</p>
<p style="text-align: justify;">*</p>
<p style="text-align: justify;">No “inverno nuclear” de 1992 a atmosfera está coberta de uma poeira eterna que pode afetar as cognições de um ser humano, se a pessoa fica muito tempo exposta a ela. J. Isidore é um destes homens afetados pela poeira, obrigado a viver em edifìcios abandonados e sobreviver por meio de sub-empregos. Um Zé qualquer cujo trabalho é andar pelas ruas recolhendo animais elétricos defeituosos e levá-los à veterinária eletrônica. No filme <em>Blade Runner 2049</em> é possível enxergar no personagem atuado por Ryan Gosling uma versão <em>incel</em> da solidão e da segregação social vivida por Isidore. São cidadãos de segunda classe, que não têm acesso às riquezas materiais da sociedade. São indivíduos com vivências duras e que encontram nas imagens, nos personagens mágicos que aparecem nas suas telas e nos dizem coisas, encontram nessas expressões um sentido maior para sua existência. Nas telinhas de 1992 existe um personagem chamado Buster Friendly que está 24h falando em programas de rádio, de televisão, em vários lugares ao mesmo tempo. Não é como o Grande Irmão de <em>1984</em>, um líder distante mas obsessivo. Buster Friendly funciona como um influencer contemporâneo, buscando abarcar todos os temas e conquistar a atenção contínua de seu público. Eu acredito que se trata de um projeto político que hoje está sendo levado à prática por personagens como Donald Trump, que poderíamos caracterizar como o influencer mais poderoso do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159754" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1.avif" alt="" width="1920" height="2473" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1.avif 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-233x300.avif 233w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-795x1024.avif 795w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-768x989.avif 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-1193x1536.avif 1193w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-1590x2048.avif 1590w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-326x420.avif 326w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-640x824.avif 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-681x877.avif 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />*</p>
<p style="text-align: justify;">Rick começou o dia refletindo sobre como ganhar mais dinheiro e terminou a novela questionando as contingências da humanidade. Coisas da vida. Buscamos uma coisa, encontramos outra. Sobre gênero, breves comentários: a mulher de Rick logo no começo já deixa tudo bem claro. Ele é um policial. “<em>Get your crude cop&#8217;s hand away</em>”. Pior, ele é um assassino contratado pelos policiais. O único que Rick tem a responder é que ele nunca havia matado um ser humano. Como também soem ser as coisas na vida, o caçador de recompensas frustrado termina transando com uma jovem androide, e então tudo muda em sua mente. Nasce a empatia. Nasce a dúvida. Este terrorista palestino, é um ser humano? Este menino de rua, é um ser humano? Esta imigrante mexicana, é um ser humano? Mas sejamos coerentes. Que um homem tenha que penetrar outro ser com seu pênis para que consiga sentir algum tipo de empatia, isso deveria ser parte do passado, uma etapa a superar no progresso moral da humanidade em direção ao igualitarismo. Rick não foi capaz de sentir a empatia antes do sexo. Quantos hoje também não o são?</p>
<p style="text-align: justify;">*</p>
<p style="text-align: justify;">O livro me apresentou as fronteiras da autenticidade humana, os limites da empatia, e como os diferentes seres podem atravessar esses limites: desumanização e hiper-humanização. Uma lojinha de <em>pets</em> é o negócio perfeito para tempos de genocídio.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159753" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1.jpg" alt="" width="1024" height="777" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-300x228.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-768x583.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-554x420.jpg 554w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-640x486.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-681x517.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Nota</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Se escrito nos dias de hoje, a causa dessa desaparição teria sido o colapso ecológico do antropoceno.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de Andy Warhol, Pablo Picasso, Keith Hering e Edwin Landseer.</em></p>
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