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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Classes sociais ?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Aug 2026 06:51:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Extinguiu-se o sonho de outro futuro — antecipação ou ilusão — esmagado pela obsessão exclusiva do presente. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: right;">«Que curioso destino filosófico, o seguido pelo princípio de Heisenberg!»<br />
Gaston Bachelard, <em>La Philosophie du non</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>1</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nos meios marxistas sou quase invariavelmente associado à formulação de uma teoria sobre os gestores enquanto classe social, o que em grande parte dos casos suscita repúdio ou até reacções de indignação. Esta atitude revela, por um lado, a ignorância desses meios relativamente a tudo o que ultrapasse o seu limitado quadro de pensamento, porque a noção de que os gestores constituem uma categoria social própria é amplamente adoptada pelos autores que se dedicam ao estudo das questões sócio-económicas. Há divergências quanto à sua definição e ao escopo que lhes é atribuído, mas a especificidade dos gestores é correntemente evocada e nunca é bom sinal que um meio ideológico se isole dos debates mais gerais. Por outro lado, aquela atitude de rejeição revela uma estranha ignorância da história do marxismo e das suas — tantas vezes mortíferas — polémicas internas, porque as discussões em torno da questão dos gestores marcaram profundamente os confrontos no seio da revolução russa e, depois da segunda guerra mundial, na esfera soviética e na Revolução Cultural chinesa.</p>
<p style="text-align: justify;">No artigo <em>Gestores: um esboço de bibliografia</em> (<a href="https://passapalavra.info/2025/02/155812/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>) tentei que os leitores do Passa Palavra abrissem os olhos para a importância da questão, mas foi um esforço perdido. O texto valeu-me ao todo duas observações jocosas, embora não depreciativas, e a escassez de comentários serviu para mostrar que ninguém está interessado em aprofundar o assunto e muito menos em ler livros impressos em papel e que, se alguma vez o fizessem, seria sempre no conforto do lar e nunca em bibliotecas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas esta atitude dos meios marxistas tem raízes mais fundas e a ignorância não se deve apenas ao comodismo. Antes de decidir se os gestores são ou não uma classe social, convém reflectir um pouco sobre a existência dessas classes.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>2</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A divisão em classes sociais, como hoje as entendemos, começou a ser formulada no contexto de uma crítica da economia capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">No início do capitalismo, que devemos situar na transição do século XVIII para o século seguinte, era flagrante a clivagem entre uma elite rica, constituída por proprietários com acesso ao poder político, e um proletariado desmunido de tudo e sem capacidade eleitoral. Esta incontestável evidência fornecia o critério suficiente para a divisão em classes. Porém, a partir dos meados do século XIX, com o desenvolvimento de uma luta dos trabalhadores especificamente anticapitalista, aquela dicotomia deu lugar a uma noção mais elaborada de classes sociais. Os esboços de uma nova concepção do funcionamento interno do sistema económico levaram a que o simples antagonismo externo entre ricos e pobres fosse reformulado nos termos de uma relação de exploração, considerada como uma contradição de classe entre burguesia e trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde então a noção de classe social faz parte de uma crítica da economia, que Karl Marx sintetizou na formulação da mais-valia. Já não se tratava da mera produção de bens e da sua repartição desigual, mas de focar a análise económica nos processos de trabalho, concebidos como processos no tempo. Não os bens materiais, mas as diferentes relações com o tempo de trabalho passaram a definir as classes sociais e a fornecer a base para uma crítica do capitalismo. Ao longo de muitos anos e muitas páginas tenho procurado mostrar como a noção do processo de trabalho enquanto processo no tempo desvenda o âmago do capitalismo, e talvez o leitor incrédulo encontre alguns esclarecimentos neste meu breve texto (<a href="https://12673923774868154941.googlegroups.com/attach/ccf5074d7c78e6a3/O%20tempo-%20subst%C3%A2ncia%20do%20capitalismo.pdf?part=0.1&amp;view=1&amp;vt=ANaJVrF3A5uqWirOrqdyh6f86uob1gWpK86hbOA7Ic0Aeg07U-0WkJtignjO9hEX0WDD_sg-bVV-XR8Yc5PtdcY_xulAZ7MYkftiCOKS_OL279r5c7ugoZI" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). Nos termos que presidem à formulação da mais-valia, a definição de classes sociais não deve residir fundamentalmente nas relações jurídicas de propriedade, mas nas diferentes relações de controle ou de dependência relativamente ao tempo de trabalho no processo de produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Adoptando uma perspectiva oposta, nos meios capitalistas os processos de trabalho eram — e continuam a ser — analisados estritamente pela diversidade de funções técnicas desempenhadas, sem que delas se deduzissem quaisquer generalizações que implicassem uma crítica ao sistema de produção ou sequer permitissem a definição de classes sociais. Alheada de hierarquias e exclusivos, a multiplicidade de funções técnicas era apresentada como promotora de uma harmonia devido à sua convergência em processos de fabrico integrados, e não como resultado de contradições mais profundas.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, e exteriormente às análises centradas no funcionamento interno do processo de produção, quaisquer que elas fossem, a noção de um hiato insuperável entre ricos e pobres foi substituída por um escalonamento gradual em categorias de rendimentos, formado por sucessivas divisões tripartidas. Enquanto as contradições entre classes sociais supunham a crítica do sistema de produção, a divisão em classes baixa, média e alta, cada uma divisível noutros três níveis, diz exclusivamente respeito à capacidade de consumo. São perspectivas opostas. Se a crítica da economia incide na exploração de mais-valia enquanto núcleo das contradições no processo de produção e a partir daí concebe a totalidade do sistema económico, pelo contrário, a divisão de rendimentos tripartida incide no consumo, concebido como motor de toda a economia.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>3</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No começo do século XX, ou ainda nos anos finais do século XIX, começou a difundir-se a percepção de que ao lado da burguesia, e aparentemente misturados com ela, existiam outros detentores do poder económico que, embora não fossem proprietários, se distinguiam pelo exercício de um controle devido ao seu elevado nível de aptidões técnicas. Num modo de produção que abandonara os procedimentos arcaicos ligados ao artesanato e desenvolvia velozmente os novos mecanismos exigidos pelo fabrico industrial em massa, a competência técnica conferia uma importância sem precedentes. Surgiram assim os rudimentos da noção de uma classe de gestores.</p>
<p style="text-align: justify;">No exílio siberiano, em 1899 e 1900, Ian Vatslav Makhaisky divulgou clandestinamente os seus primeiros ensaios em que antecipou a definição de uma classe de gestores. Se eu tenho dito e repetido que a História é irónica, não poderia haver ironia maior do que exactamente ao mesmo tempo, nos anos da passagem de século, um ensaio desencadear toda uma nova análise social e económica através da noção de gestores e uma comunicação oral desencadear a reformulação de toda a física através da noção de quantum. Num caso como no outro, não foram poucas as resistências com que estas concepções depararam.</p>
<p style="text-align: justify;">Na realidade a situação poderia aparecer confusa, já que perante os gestores ocorria uma hesitação simétrica das outras duas classes. A burguesia temia que os gestores, seus aliados na exploração dos trabalhadores, viessem a converter-se em seus rivais, tanto na economia como na política. E os trabalhadores indagavam se os gestores, seus patrões técnicos no processo de trabalho, não poderiam, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, ser seus aliados contra a burguesia.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dilemas neste triângulo têm marcado desde então as lutas sociais. De um lado, enquanto a extrema-esquerda considerava que na Rússia soviética ocorrera uma verdadeira contra-revolução, dando origem a um novo sistema anti-socialista, Leon Trotsky sustentava que o stalinismo correspondia a uma degenerescência apenas política, preservando o carácter socialista da base económica. No cerne deste dissídio estava o reconhecimento ou a negação da existência de uma classe de gestores, o que permitiria que o stalinismo se fundamentasse ou não numa classe social específica. Do outro lado, tanto o fascismo como o New Deal reconheciam explicitamente a importância dos gestores e a novidade social que eles encerravam, e precisamente por isso uma boa parte da extrema-esquerda agregava o New Deal e o fascismo numa entidade política comum. Ficava assim colocado o programa fascista de uma revolução capitalista apesar da, ou contra a, burguesia, abrindo-se uma época que ainda hoje não se encerrou, mas, pelo contrário, se tornou mais complexa.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159601 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-1024x1019.jpg" alt="" width="640" height="637" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-1024x1019.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-768x764.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-422x420.jpg 422w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-640x637.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-681x678.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5.jpg 1449w" sizes="(max-width: 640px) 100vw, 640px" />4</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A situação tornou-se mais complexa porque os indivíduos não são unidades componentes das classes sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Já desde há muitos anos que eu defino os indivíduos, implicitamente quando não explicitamente, como percursos entre campos de atracção social. Os campos podem, por sua vez, conter campos menores ou sobrepor-se parcialmente a outros campos ou cruzar-se com eles, de modo que as unidades componentes dos campos de atracção social são também campos sociais. Cada indivíduo consiste num percurso mutável, e em boa medida fortuito, entre uma variedade de campos. A função do cérebro é unificar no tempo esses percursos, guardá-los na memória e projectá-los no futuro, e para isto serve a linguagem. Um indivíduo, portanto, resume-se ao seu percurso, tal como o tem gravado e o antecipa pela linguagem, e a permanente dispersão dos percursos impede que os indivíduos sejam considerados como unidades componentes de qualquer grupo social.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, o carácter em grande parte aleatório destes percursos levou-me a equipará-los ao movimento browniano, mas considero hoje excessiva essa analogia e prefiro evocar uma simples tendência a um movimento de tipo browniano. Quando um dos campos de atracção social se torna hegemónico ou, pelo menos, exerce uma força apelativa muito acentuada, a versatilidade e a aleatoriedade dos percursos reduzem-se. Só na situação inversa, quando o poder atractivo dos campos se dispersa, é que o perfil dos percursos se aproxima do movimento browniano.</p>
<p style="text-align: justify;">Perante esta dualidade fundamental entre campos sociais e percursos individuais é difícil não proceder a uma analogia com as dualidades na física quântica, por exemplo a alternativa entre determinar o <em>momentum</em> ou determinar a posição, ou a análise de um comportamento como partícula ou como onda, além de várias outras. Aliás, a ironia da História alcançou um grau supremo quando os Thomson pai e filho receberam ambos o prémio Nobel, a trinta e um anos de distância, um por ter determinado o electrão como partícula e o outro como onda. Afinal, foi Niels Bohr quem melhor sintetizou a questão ao definir a relação entre os dois termos como uma complementaridade.</p>
<p style="text-align: justify;">Também aqui, no assunto que agora me ocupa, ou a análise incide nos campos de atracção social, e nomeadamente nas classes sociais e na relação entre elas, ou incide nos indivíduos enquanto percursos entre campos. E a complementaridade entre os dois termos da alternativa requer uma complementaridade entre os métodos de abordagem. Se visarmos os campos sociais devemos recorrer à crítica da economia e à história comparada. Mas se pretendermos seguir os percursos individuais a ficção é o único instrumento ao nosso dispor, já que a imaginação romanesca é uma invenção de percursos. Quem se limitar a uma única destas duas perspectivas perde metade do mundo, o que é a maneira mais certa de perder o mundo inteiro.</p>
<p style="text-align: justify;">É devido a esta dualidade de planos complementares, mas sem correspondência directa — ou campos sociais ou indivíduos — que a situação se pôde tornar ainda mais complexa. Com efeito, na elite económica vemos hoje frequentemente burgueses comportando-se como gestores. Por um lado eles continuam a ser juridicamente proprietários dos meios de produção, têm consciência disto e nunca prescindem do privilégio. Mas ao mesmo tempo procedem como gestores na organização das empresas e na estratégia económica geral. Podemos dizer, então, que no plano das classes sociais a divisão entre burguesia e gestores se mantém claramente definida, mas que um número crescente de capitalistas circula entre ambos os campos. Nesta complementaridade, ou pretendemos definir indivíduos, e neste caso são burgueses exercendo mais ou menos plenamente funções de gestão, ou pretendemos definir classes sociais, e neste caso as suas características são independentes dos percursos individuais.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>5</strong></p>
<p>Porquê parar aqui?</p>
<p style="text-align: justify;">Se raciocinar um pouco mais, vejo a possibilidade, aliás, a necessidade de ampliar esta perspectiva, numa situação em que a definição económica da classe trabalhadora em função da extorsão de mais-valia, ou seja, de uma exploração pensada em termos de tempos de trabalho, já não tem correspondência directa numa entidade sociológica única. O desenvolvimento da produtividade é inerente à aceleração dos ciclos de mais-valia relativa, com o consequente aumento de qualificação exigido a um número restrito de trabalhadores, enquanto são desqualificados aqueles que antes se consideravam dotados de qualificações superiores, ao mesmo tempo que a maior parte da mão-de-obra é considerada não qualificada. Esta crescente hierarquização de funções e aptidões leva a que não exista hoje nenhum campo de atracção social que seja atravessado pela totalidade dos trabalhadores e os unifique numa convergência de interesses, apesar de todos eles estarem submetidos ao mesmo sistema de exploração da mais-valia, à mesma dialéctica dos tempos de trabalho. Em conclusão, da classe no plano económico já não se pode deduzir uma classe no plano social. Deixou de haver um campo social hegemónico que atraia todos os trabalhadores e secundarize ou mesmo marginalize os campos que os dispersam. A realidade agora é outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta constatação leva a uma mudança radical de perspectiva. É directamente no campo das relações sociais e, portanto, das lutas sociais que devemos detectar a existência — ou as modalidades da inexistência — dos trabalhadores enquanto classe. É muito comum nos meios de esquerda a ilusão de que a proliferação de pequenas lutas corresponda a uma luta de classe ou, pelo menos, a promova. Assim tudo seria simples, mas não é, porque a luta global não resulta de uma soma de lutas isoladas. Uma luta generalizada da classe trabalhadora, que além de colectiva seja realmente activa, define-se pela capacidade de converter as relações de solidariedade estabelecidas nessa luta em novas relações de produção, ou seja, na base de uma nova economia. É isto que caracteriza uma luta generalizada e activa, a tendência à transformação da reciprocidade num novo modelo económico. As lutas isoladas, pelo contrário, circunscrevem-se aos limites definidos por uma só empresa, o que as impede de desenvolver, ou sequer esboçar, novas relações sociais capazes de sustentar uma nova estrutura económica. Extinguiu-se o sonho de outro futuro — antecipação ou ilusão — esmagado pela obsessão exclusiva do presente. Quando sonham, se sonham, é com um passado fictício.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, se a definição económica da classe trabalhadora deixou de corresponder a um perfil sociológico único, ou seja, se já não existem campos de atracção hegemónicos que configurem socialmente os trabalhadores como uma classe, isto significa que os percursos individuais dos trabalhadores se dispersam por campos atravessados também por indivíduos que têm diferentes referências sociais, nomeadamente reflectindo a classificação por estratos de rendimento. Por exemplo, trabalhadores qualificados e gestores baixos ou intermédios partilham campos que se assumem como de classe média alta ou baixa. Mas são os identitarismos que, nos dias de hoje, mais tragicamente representam a fragmentação social dos trabalhadores, a um ponto tal que parece existir uma tendência inerente à proliferação de identidades e sub-identidades. A multiplicação de exemplos deste tipo explica — e promove — a incapacidade de generalização das lutas laborais na nossa época.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>6</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A fragmentação social e a dispersão agravaram-se nas duas últimas décadas, porque cada vez mais as relações entre indivíduos são relações virtuais, de tal modo que o virtual se está a tornar, ou já se tornou, mais real do que a restante realidade. Do mesmo modo, com a difusão do trabalho à distância, as relações de trabalho são cada vez mais frequentemente, ou mesmo exclusivamente, relações virtuais. Neste contexto, as redes sociais converteram-se nos campos mais frequentados pelos percursos individuais, o que propicia a transversalidade social desses encontros. Assim, quer pelas relações profissionais quer pelos contactos exteriores à actividade profissional, assumem uma importância crescente os campos sociais que fragmentam as classes, o que contribui para confinar a definição global de classe exclusivamente ao plano económico.</p>
<p style="text-align: justify;">Olhemos em torno de nós. Cada pessoa anda agarrada a um telemóvel (celular). Porém, se invertermos a perspectiva, diremos que por enquanto cada telemóvel precisa de uma mão que o segure. Avancemos um pequeno passo, e a Inteligência Artificial permitirá em breve, se não permite já, que os telemóveis prescindam das pessoas. Onde ficam, então, os restos da classe trabalhadora, na sua definição sociológica?</p>
<p style="text-align: justify;">E de que modo deveremos considerar as movimentações sociais na época contemporânea, entendida como um hoje dilatado até ao amanhã, se o capitalismo continuar capaz de recuperar as lutas e assimilar as reivindicações dos trabalhadores enquanto estímulo para o aumento da produtividade e para novos ciclos de mais-valia relativa? Se no reflexo social das contradições económicas Karl Marx pôde apresentar o motor da História, como reactivar o motor que hoje dê à economia uma volta histórica?</p>
<p style="text-align: justify;">E há quem pense que a História está parada, à espera de que o que não se realizou se realize!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><img decoding="async" class="alignleft wp-image-159599" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b-214x300.jpeg" alt="" width="100" height="140" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b-214x300.jpeg 214w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b-299x420.jpeg 299w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b.jpeg 499w" sizes="(max-width: 100px) 100vw, 100px" />Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Sol LeWitt (1928-2007).</em></p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Aug 2026 18:24:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Séries]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Joshua Clover Este livro foi publicado originalmente em inglês pela editora Verso (2016). Esta é uma tradução coletiva feita por alguns camaradas no âmbito de um grupo de estudos. A revisão da tradução é do Passa Palavra. Introdução: Uma Teoria da Revolta Introdução: Uma Teoria da Revolta Esta é, portanto, a necessidade mais básica: [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Joshua Clover</h3>
<blockquote><p>Este livro foi publicado originalmente em inglês pela editora Verso (2016). Esta é uma tradução coletiva feita por alguns camaradas no âmbito de um grupo de estudos. A revisão da tradução é do Passa Palavra.</p></blockquote>
<h4><strong>Introdução: Uma Teoria da Revolta</strong></h4>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em><img decoding="async" class="size-thumbnail wp-image-158120 alignleft" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/18riots-superJumbo-1297480207-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /></em></a><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p>Esta é, portanto, a necessidade mais básica: uma teorização propriamente materialista da revolta.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159379" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Leffler_-_1968_Washington_D.C._Martin_Luther_King_Jr._riots-1-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /></p>
<p class="td-post-sub-title"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro?</p>
<h4><strong>Revolta</strong></h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159421" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Sixth_Maryland_Regiment_firing_on_the_rioters_in_Baltimore-70x70.png" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p>A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159438" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Brueghel_The_Wine_Of_Saint_Martins_Day_Private_Collection_Madrid-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p>Desde os seus primórdios, a revolta tem sido uma luta de circulação por excelência.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159486" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/battle-of-peterloo-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>É a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva.</p>
<h4><strong>Greve</strong></h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159502" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/kathe_kollwitz-peasant_war_print_5-_outbreak-1903-obelisk-art-history-70x70.webp" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p>A greve é exatamente o que a revolta não é.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159533" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p>Devemos estar abertos a uma revisão fundamental, baseada nas transformações da realidade social.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159565" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/ppdesc-70x70.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>É difícil enfatizar a importância do esforço para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.</p>
<h4><strong>Revolta Linha</strong></h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159613" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Paesaggio-urbano-1922-3568134321-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p>A mudança nas formas de ação coletiva é uma habilidade dialética.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159654" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks6-70x70.webp" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p>As classes perigosas globais estão unidas não por seu papel como produtoras, mas por sua relação com a violência estatal.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159707" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Occupy-Wall-Street-Protest-New-York-City-2011-Demonstrators-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p>Para além da greve e da revolta, a comuna é uma tática que também é uma forma de vida.</p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (11)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Aug 2026 17:43:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[Para além da greve e da revolta, a comuna é uma tática que também é uma forma de vida. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 9</strong></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A revolta, o bloqueio, a barricada, a ocupação. A comuna. É isso que veremos nos próximos cinco, quinze, quarenta anos. A lista não é nova. Tornou-se uma espécie de senso comum entre alguns grupos que se identificam com o fim do programa. O objetivo aqui não é reiterar os itens, nem simplesmente explicar por que eles são mais prováveis de serem eficazes agora do que em algum momento anterior. Este é certamente o caso. O argumento deste livro, no entanto, não é que as lutas de circulação apontem a abordagem correta para “bloquear o capital” (ou como quer que alguns possam expressá-lo) de modo a subjugá-lo. A circulação é o valor em movimento rumo à realização; é também um regime de organização social dentro do capital, interligado com a produção em uma relação mutável cujo desequilíbrio se manifesta como crise. Tentamos estabelecer as bases teóricas e históricas para as “circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas do passado”, para explicar por que, nessas circunstâncias, novas lutas pela circulação são inevitáveis e como uma compreensão mais completa desse quadro conceitual e da história material pode mediar entre o que é e o que deveria ser. Isso exigirá lidar com os limites da onda mais recente de lutas, ao mesmo tempo em que se tenta extrair o núcleo prático, por assim dizer, a partir do qual as lutas futuras certamente florescerão.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>A Praça e a Aliança de Classes</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A <em>ágora</em> grega clássica é tanto um mercado quanto uma assembleia pública, um caráter duplo que persiste de forma cada vez mais fantasmagórica na primeira era das revoltas. O retorno da <em>revolta linha</em> à praça lembra as lutas do mercado da primeira era de revoltas, lembra as reivindicações sociais dessas lutas conduzidas por meio da economia. Não pode deixar de ser assim. Ao mesmo tempo, demonstra a impossibilidade de tal retorno.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando as diversas iterações do “movimento das praças” que orientaram a luta global em 2010-11 surgem na ágora, elas apresentam, em muitos aspectos, uma demonstração clara do argumento deste livro. Elas vão diretamente para o local exemplar de circulação. Sua base nas populações excedentes é manifesta. Pode-se considerar a precipitação da Primavera Árabe pela autoimolação de Mohamed Bouazizi, um dos tunisianos em ascensão empurrados para a economia informal e então sujeitos a assédio incessante pela polícia. Tal precipitação depende da natureza excepcional do episódio, seu paroxismo de empobrecimento. Mas depende simultaneamente da natureza paradigmática da situação de Bouazizi, como um entre muitos que se tornaram excedentes pelas transformações político-econômicas, não absorvíveis, sem futuro, lançados nos espaços públicos das cidades.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, a localização da <em>revolta linha</em> na praça moderna é um sinal de seu confinamento ao espaço da política. Esse é mais ou menos o problema transcendental de 2011. O capitalismo realizado repousa sobre a separação entre o político e o econômico, a autoridade do povo capaz de ser conceituada independentemente dos problemas supostamente tecnocráticos da criação e distribuição de recursos. Essa separação é expressa na distância entre nossas principais riotologias, encontradas anteriormente: por um lado, a política da ideia de Badiou e, por outro, o economismo mecânico do New England Complex Systems Institute e outros. A população da <em>revolta linha</em>, podemos agora reconhecer, alcança uma ordem histórica não por meio de uma ideia compartilhada, nem pelas flutuações mortais dos preços dos alimentos, mas correspondendo a uma unidade político-econômica subjacente, uma reorganização material da sociedade, que lhes proporciona um conjunto compartilhado de problemas e uma arena compartilhada na qual enfrentá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">As armadilhas da política são muitas. A necessidade de repressão violenta e a indignação que a acompanha para expandir os acampamentos Occupy é paralela à sua orientação mais ampla em relação ao Estado e suas instituições. Outra armadilha é vista na longa revolta da crise grega: seu <em>antikristos</em> de antagonistas e policiais, incessante desde 2008, precede e fundamenta o acampamento na Praça Syntagma, em Atenas, e os ataques repetitivos ao prédio do Parlamento. Provavelmente, o exemplo mais angustiante da armadilha política é a descoberta de que os aparentes golpes públicos da Primavera Árabe dão origem a revoluções formalistas de fatal incompletude. <em>O povo quer a queda do regime</em>. “Mas esse antagonismo é, na verdade, interminável, circular”, como alguns observaram. “Nada pode tornar essa circularidade mais clara do que a saída de Mohamed Morsi, 30 meses após a queda de Hosni Mubarak, um ano e uma semana após sua própria eleição. Acontece que <em>não foi</em> a queda do regime que o povo queria, não era a democracia em algum sentido abstrato” <strong>[1]</strong>. Apesar dos projetos de reabilitação empreendidos por vários filósofos, a democracia continua sendo o contrário da absolutização. “Se começamos com o Estado, terminamos com o Estado”, observa Kristin Ross, argumentando que narrar o nascimento da Comuna de Paris como um confronto entre uma população e seu governo é limitar nossa compreensão do evento a uma disputa pelo controle de um Estado que continua sendo o Estado <strong>[2]</strong>. este é o limite tanto para a teoria quanto para a prática, principalmente para nossa compreensão de todas as maneiras pelas quais o Estado moderno evolui a partir das estruturas do capital e delas depende.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159708" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E.jpg" alt="" width="1960" height="1304" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E.jpg 1960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-1024x681.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-768x511.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-1536x1022.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-681x453.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1960px) 100vw, 1960px" />Esse anseio democrático sem sentido não estará mais presente em nenhum outro lugar do que nos Estados Unidos, onde a deliberação se torna um fim em si mesma. Os objetivos práticos do Occupy Wall Street (OWS) são rapidamente colocados entre parênteses. Originalmente, ele declara sua intenção (de forma um tanto implausível) de bloquear a bolsa de valores, de interromper o movimento virtualizado do próprio capital financeiro. Empurrado rapidamente para a praça que o tornaria famoso, cercado por barricadas e pela polícia, ele flui periodicamente para as ruas ou para a ponte do Brooklyn. Seu outro objetivo declarado é desenvolver uma única demanda contra a oligarquia financeira, entendida como responsável pela crise financeira, e contra as políticas de austeridade implementadas em resposta a ela. Torna-se claro rapidamente, ainda que tacitamente, que qualquer demanda específica fragmentaria o frágil agrupamento. E assim o acampamento se torna “sua própria demanda”, ao mesmo tempo um apelo pelo reconhecimento da miséria vivida pela austeridade e uma prefiguração imaginária da autogestão futura. É revelador que a inovação mais famosa do OWS seja o “microfone humano”, uma forma de comunicação.</p>
<p style="text-align: justify;">O Occupy Oakland compartilhará semelhanças genéricas com o OWS e não faltará deliberação. Suas diferenças serão mais reveladoras. O mais militante dos acampamentos, ele encarna a ideia de revolta como modalidade, não apenas porque regularmente salta para as ruas da cidade e entra em revolta aberta. Entendido de acordo com a intensa condensação de riqueza, gentrificação e crescente desigualdades peculiares (mas não exclusivas) Oakland e à área da baía, a destruição regular de propriedades pelo Occupy Oakland é uma espécie de fixação de preços: uma tentativa de reduzir os valores imobiliários em alta, minando os padrões burgueses de habitabilidade. Ao mesmo tempo, isso afeta diretamente a economia. Por duas vezes, os ocupantes fecharam o vasto Porto de Oakland (ambas as vezes em uma colaboração incômoda com o sindicato dos estivadores e armazéns), uma vez dentro de uma tentativa de greve geral — a primeira nos Estados Unidos desde 1946. Junto com essas lutas clássicas de circulação, não é surpresa que o Occupy Oakland tenha se concentrado em uma cozinha comunitária, sinalizando a centralidade da população excedente para o acampamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de seu papel na rede nacional de acampamentos no outono de 2011, a formação do Occupy Oakland deve ser igualmente registrada à luz de outras histórias. Uma delas é a “dupla revolta”, um lugar-comum mal reconhecido a nível sistêmico. Na França, os distúrbios de 2005 espalharam-se de banlieue em banlieue, particularmente aquelas com populações fortemente informalizadas e imigrantes, após as mortes de Zyed Benna e Bouna Traoré enquanto fugiam da polícia; em 2006, os chamados distúrbios CPE responderam às tentativas de reestruturar os mercados de trabalho juvenis e caracterizaram-se por ocupações universitárias. O padrão se repete no Reino Unido em ordem inversa: primeiro as lutas estudantis de 2010, incluindo ocupações de universidades e a invasão da sede do Partido Conservador; depois os distúrbios de Tottenham em 2011, após o assassinato de Mark Duggan. Em Oakland, as revoltas no início de 2009 seguem o assassinato de Oscar Grant pela polícia; 2009-2010 vê uma série de ocupações universitárias atraindo repressão militarizada em toda a Califórnia (e no país), mas centrada na vizinha Berkeley.</p>
<p style="text-align: justify;">A forma da duplo revolta é bastante clara. Uma revolta surge quando os jovens descobrem que os caminhos que antes prometiam uma integração formal minimamente segura na economia agora estão fechados. A outra revolta surge das populações excedentes racializadas e da gestão violenta do Estado sobre elas. Os detentores de promissórias vazias e os detentores de nada. Quando essa dupla contemporânea é reconhecida, os dois lados são considerados opostos, a abjeção de um traindo o privilégio relativo do outro. Isso é, em si, uma compreensão unilateral da crise e de suas populações, dos modos e temporalidades através dos quais a exclusão se desenrola. A tarefa não é descobrir novas categorias sociológicas que possam substituir as classificações obsoletas de uma era anterior, substituindo um conjunto reificado de atores por outro. Em vez disso, é trazer à tona o movimento real dentro do qual essas categorias sociais se desenvolvem, mudam, se elaboram internamente e em relação a outras forças sociais. O acampamento de Oakland, que se autodenominou brevemente Comuna de Oakland, pode ser entendido como uma tentativa impossível de sintetizar os dois grupos constituintes da dupla revolta — e como um exemplo vivo do terreno de luta cada vez mais compartilhado por essas populações, seu movimento inacabado em direção umas às outras.</p>
<p style="text-align: justify;">A composição do acampamento era sua força e sua fraqueza: a base de sua militância e os termos de sua aliança de classe insustentável entre os excluídos e os marginalizados. A composição do acampamento captura “uma contradição central embutida nas manifestações contemporâneas da cidade de tendas… entre a abjeção do campo de refugiados e o ativismo do campo político”, como Sasha X denomina as questões <strong>[3]</strong>. Essa descrição, no entanto, ignora a subsunção contínua do “campo político” dentro das condições político-econômicas. Seria igualmente preciso descrever o Occupy Oakland como um exemplo de proletarização incompleta. No momento, ainda não é possível unificar a dupla revolta em um único acampamento. Isso se manifesta mais claramente na contradição entre ideologia e prática. O discurso dominante do Occupy — “somos os 99%” e, portanto, merecedores de uma parcela equivalente da riqueza social e do poder de classe — é incapaz de representar aqueles cujas vidas já estão além das promessas de melhorias institucionais e políticas redistributivas. Há pouco reconhecimento nessa formulação da relação material entre o movimento Occupy e o planeta das favelas, mesmo que esse planeta apresente cada vez mais lugares como Oakland. Ao mesmo tempo, porém, as formas de luta de Oakland (revolta, greve geral, paralisação do porto) se comportam mais claramente com a política das populações excedentes, uma política sem programa.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal política, tendendo à absolutização, não ficaria sem oposição. Aqueles que ainda eram capazes de projetar, a partir de sua circunstância social, uma imagem de redistribuição e restauração de algum momento anterior de equilíbrio social (ssempre lembrando o período do Longo Crescimento e um keynesianismo nostálgico) muitas vezes estavam dispostos a impor essa visão por meio da colaboração passiva e ativa com a polícia. Isso se provaria uma obstrução igual à própria polícia.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo, o acampamento era singular. Certamente se destacava no mapa nacional de acampamentos do Occupy: todos black blocs e com más intenções, partes deles envolvidos em uma política qualitativamente diferente, enfrentando o Estado de austeridade como antagonista, em vez de parceiro traído, uma Sociedade de Inimigos para quem lutar contra a polícia era menos um objetivo do que uma inevitabilidade de posição. É mais contínuo com uma narrativa internacional, um fio condutor que se estende desde as revoltas nas periferias até todas as festas de gás lacrimogêneo do futuro. A aliança contínua ou indistinguibilidade entre acampamentos de população excedente e outros agregados políticos que não podem ser apropriados para uma parceria com o Estado é uma característica básica das <em>revolta linha</em> — e que certamente se expandirá e se intensificará à medida que continua a se transformar, juntamente com o aumento da produção da não produção e da volatilidade política global.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>A Rua e a Divisão</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A lógica das lutas de circulação não viu exemplo mais espetacular do que o de 24 a 25 de novembro de 2014, quando a revolta se espalhou de cidade em cidade a partir de um subúrbio de St. Louis, após um momento de violência intolerável, de gestão fatal de populações racializadas, começando da maneira como as revoltas começam na era da r<em>evolta linha</em>, não do nada, mas de todos os lugares. O local dessa revolta é a rua, a rua onde Michael Brown foi assassinado, a rua onde as pessoas se reuniram para aguardar a notícia de que seu assassino não seria indiciado, a rua onde as pessoas se encontraram depois. A rua onde a violência contra a polícia abriu espaço para a pilhagem de estabelecimentos comerciais e permitiu a evasão para outros alvos. E, eventualmente, as rodovias, em escala continental, fechando cruzamentos após cruzamentos em todo o Sistema Rodoviário Interestadual, a paisagem construída da circulação, outrora o maior projeto de obras públicas conhecido na história. E, no entanto, isso não deve ser reduzido a espetáculo, a representação. O bloqueio do tráfego, a interrupção da circulação como um projeto imediato e concreto, não registrou nada além do desejo insaciável de <em>fazer tudo parar</em>. As rodovias e vias públicas eram o que havia de mais próximo <em>disso tudo</em>, da totalização anti-humana e da reificação do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159706" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1.jpg" alt="" width="1200" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-768x1024.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-1152x1536.jpg 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-640x853.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-681x908.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />As cenas semelhantes em todo o país transmitem uma sensação estranha de coordenação, de organização sem organização. Os distúrbios seriam levados à expansão nacional não apenas pela impunidade do policial, mas por uma série de assassinatos em todo o país, policial contra pessoa, elos de uma cadeia sem fim. Ainda mais notável e sugestivo do que o salto espacial desses distúrbios, porém, é sua duração inicial. É nisso que reside a verdadeira novidade de Ferguson.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois que Michael Brown foi morto a tiros por Darren Wilson, as revoltas locais começaram quase imediatamente e duraram mais de duas semanas. A medição de revoltas é uma ciência inexata; no entanto, essa sequência parece ter durado mais do que qualquer uma dos casos semelhantes já discutidos, de Detroit, Newark e Chicago até o presente. Qualquer pessoa que já tenha estado em Ferguson reconhecerá o quão extraordinário é esse fato. Uma pequena cidade incorporada ao norte de St. Louis, sua população é de cerca de 20.000 habitantes, abaixo do pico de 30.000 em torno de 1970, antes da desindustrialização. Não há coisas para queimar que durem duas semanas. Não há praça para ser ocupada, mas a cumplicidade entre a rua e a praça persiste. Na área comercial da West Florissant Avenue, epicentro da revolta, as pessoas incendiaram o mercado QuikTrip e usaram o terreno como sua praça até que ele foi isolado pelo Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">A transformação racial da cidade tem sido impressionante, mesmo seguindo um curso cada vez mais comum, passando de cerca de três quartos de brancos e um quarto de negros em 1990 para quase o inverso em 2010. A estrutura tradicional dos Estados Unidos de fuga dos brancos, que outrora transformou os centros das cidades em áreas de concentração da população excedente, sofreu uma mutação para se assemelhar ao modelo europeu e global de banlieues e bidonvilles, que reúnem as populações excedentes em anéis ao redor das cidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Phil A. Neel oferece uma explicação clara de como essas mudanças demográficas e a geografia da paisagem atenuada fornecem os termos para a “revolta suburbana”, cujo locus classicus está na revolta descentralizada e sem demandas de Los Angeles em 1992 <strong>[4]</strong>. Neel localiza uma coordenada adicional para explicar a dificuldade de conter a revolta: a ausência de uma classe mediadora de líderes negros dedicados à ordem em nome da comunidade. Esta é uma expressão reveladora do que é, na verdade, uma mudança estrutural muito maior.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma convenção quase universal das <em>revoltas linha</em>, das rebeliões e dos revoltas que, pouco depois de eclodirem e obterem uma vitória substancial ou aparente, se dividem em dois impulsos. Estes são, por vezes, abertamente antagónicos, outras vezes sobrepostos e coniventes. O primeiro impulso é em direção a uma espécie de populismo, uma tentativa de aumentar as fileiras mobilizando a simpatia do público, usando a seu favor a cobertura da mídia e outros aparatos discursivos. Ele é inevitavelmente atraído para alguma versão da política da respeitabilidade e, em geral, para a persuasão moral da desobediência civil passiva e da não violência em geral. Ele pretende desenvolver uma força política, influenciar a opinião pública, obter concessões. Eventualmente, será atraída sem falha para a arena eleitoral, subordinada como plataforma ou bancada da política partidária. Se essa fração política for chamada desde o início a justificar a desordem da revolta, ela assume a afirmação de Martin Luther King Jr. de que “uma revolta é a linguagem dos que não são ouvidos”. Isso tem um apelo imediato; seria difícil não ouvir em qualquer revolta o lamento dos empobrecidos. No entanto, isso apresenta uma sintomatologia pouco examinada, pressupondo que o grito incipiente da revolta deve, na verdade, ter algum significado ainda indecifrável além de si mesmo e, além disso, que essa criação de significado é seu aspecto principal — os outros aspectos infelizes que se vêem no noticiário são negados no apelo humanista universal para reconhecer o sofrimento do outro e até mesmo perdoar os excessos em sua expressão. Dentro dessa compreensão, mesmo a revolta sem demandas é transcodificada para <em>ser ela própria uma demanda</em>, algo que poderia ser satisfeito pela ordem atual se pudesse ser compreendido. A negociação se torna uma verdade transhistórica.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo impulso encontra na revolta algo além ou antes da comunicação. Ela se volta menos para a política e mais para os aspectos práticos, voltando-se para o material, tanto no sentido baixo quanto no alto. Esses aspectos práticos podem incluir saques, controle do espaço, erosão do poder da polícia, tornar uma área hostil a intrusos e destruir propriedades entendidas como constituindo a exclusão dos manifestantes do mundo que eles veem sempre diante de si e no qual não podem entrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa divisão é tão antiga quanto a própria revolta e não é clara. Há aspectos práticos nos atos discursivos e, inversamente, a janela quebrada ou a loja incendiada são inevitavelmente uma forma de comunicação. No entanto, a divisão é evidente, vivida socialmente pelos participantes e repetida em grande parte sem falhas. Isso também se provaria em Ferguson, onde cada noite de tumultos apresentava tanto marchas pacíficas que seguiam em grande parte as prescrições da polícia quanto ações menos ordeiras que incluíam incêndios criminosos e tiros contra policiais. Embora as facções tenham trabalhado em colaboração durante os primeiros dias, ou talvez ainda não estivessem totalmente formadas, elas passaram a estar cada vez mais em desacordo, especialmente depois que um grande número de clérigos nacionais chegou a Ferguson para amplificar o que consideravam ser as lições do Dr. King.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas é aqui que uma mudança histórica surge à vista, uma mudança de importância primordial. Desde o movimento pelos direitos civis (e antes dele, a “primeira geração” do movimento feminista), o lado das estruturas legais, da persuasão moral e da política da respeitabilidade efetivamente hegemonizou o debate rapidamente após cada revolta. Isso aconteceu em grande parte porque essa abordagem podia oferecer ganhos reais, ainda que limitados. Tais resultados já não parecem plausíveis. O sucesso da estratégia discursiva baseava-se em um certo grau de riqueza social, mercados de trabalho em equilíbrio e uma continuidade do lucro digna de ser preservada, mesmo que isso significasse sacrifícios relativos para o capital.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159705" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1696" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-1024x678.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-768x509.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-1536x1017.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-2048x1356.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-634x420.jpg 634w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-640x424.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-681x451.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Talvez se possa imaginar exigências no presente que, se atendidas, alterariam substancialmente as circunstâncias dos excluídos. Mas o aumento do número de excluídos é o mesmo fato que a incapacidade de atender a tais exigências — as duas faces da crise. Assim como os EUA não podem mais proporcionar acumulação em nível global e, portanto, devem ordenar o sistema mundial por coerção em vez de consentimento, o Estado não pode mais oferecer o tipo de concessões conquistadas pelo movimento pelos direitos civis, não pode mais comprar a paz social. É tudo bastão e nenhuma cenoura. A revolta em Baltimore após o assassinato de Freddie Gray em 2015, cuja duração e intensidade foram enfrentadas pela Guarda Nacional e um estado de emergência de nove dias, apenas confirmam essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">Por causa disso, a divisão não pode mais ser facilmente superada. O prolongamento das revoltas e de sua fúria é, sem dúvida, uma medida das pressões sociais que se acumulam em torno do policiamento racializado e da violência imanente aplicada à gestão das populações excedentes em geral. É também uma medida do apelo cada vez menor da moderação e da conformidade otimista. Essa abordagem ainda mantém algum carisma, como atesta a institucionalização em curso das revoltas de Ferguson e Baltimore dentro da contenção das ONG&#8217;s. Ao mesmo tempo, o argumento de que a violência e a subordinação sem fim são estruturais e não podem ser resolvidas nem prática nem teoricamente por meio da participação redistributiva torna-se cada vez mais difícil de refutar.</p>
<p style="text-align: justify;">A menos que ocorram mudanças imprevisíveis na organização social subjacente, a divisão se tornará mais ampla e permanecerá aberta por mais tempo. É assim que a tendência à absolutização se manifesta em nível prático. Se entendermos cada caso semelhante como uma divisão de duração crescente, o número de divisões abertas em um determinado momento também aumentará. É previsível que uma série em cascata delas — inicialmente, mas não exclusivamente, orientadas por lutas racializadas — consiga preservar suas próprias existências enquanto atrai outras lutas para aproveitar sua principal chance contra uma desordem crescente, uma desordem que agora parece pertencer não à revolta, mas ao Estado, ao que antes era uma ordem violenta. Contra essa grande desordem, uma auto-organização necessária, a sobrevivência em uma chave diferente. Não é preciso pensar que isso é provável para considerá-lo mais provável do que um programa socialista renovado, mesmo que com novos adornos para uma economia supostamente nova.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Comuna e Catástrofe</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Se a praça e a rua têm sido os dois locais principais das <em>revoltas linha</em>, ambos se abrem para a comuna. A comuna, no entanto, não é um lugar nesse sentido, não é uma “aglomeração territorial”, como Kropotkin expressou <strong>[5]</strong>. Sua história tem sido a de escapar dessa designação, mesmo quando casos específicos assumem os nomes de seus locais. Pode-se dizer que é, em vez disso, uma relação social, uma forma política, um evento. Ela tem sido chamada de todas essas coisas. Também sugerimos que é uma tática, compreensível dentro do desenvolvimento do repertório de ação coletiva de Tilly neste livro. Isso pode parecer uma conclusão curiosa para um empreendimento tão sustentado e elaborado como a comuna. Uma última digressão, então, para dar sentido a tal afirmação e reuni-la em algo completamente diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Bruno Bosteels, ao deslocar a comuna da exemplaridade abrangente de Paris, fornece uma visão fundamental. Em seu estudo sobre o que o historiador Adolfo Gilly chamou de Comuna de Morelos (que atingiu seu auge em 1914-15), ele admite:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">No nível das formas organizacionais aparentes, o anarquismo é acusado de favorecer revoltas e ataques espontâneos como parte de sua ideologia de ação direta, à qual apenas uma consciência de classe socialista, voltada para a tomada do poder estatal, é capaz de emprestar a organização necessária para um movimento político duradouro <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa antinomia, com sua conjunção já ideológica entre identificação política e formas de ação, é precisamente o que a comuna dissolve: “No entanto, há uma forma política na qual anarquistas e socialistas — mesmo no México — parecem capazes de encontrar um terreno comum: a forma da comuna” <strong>[7]</strong>. Essa multiplicidade da comuna é observada por Marx em relação a Paris, da qual ele extrai uma lição mais unívoca:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Seu verdadeiro segredo era este. Era essencialmente um governo da classe trabalhadora, produto da luta da classe produtora contra a classe apropriadora, a forma política finalmente descoberta sob a qual se poderia trabalhar a emancipação econômica do trabalho <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa conclusão é ambígua se tomarmos Morelos como um estudo de caso em contraposição a Paris, dada sua continuidade provisória de camponeses e trabalhadores, reforma agrária ao lado de lutas anticapitalistas nas usinas de açúcar em rápida industrialização (uma ambiguidade que Bosteels estende por toda a história subterrânea da “Comuna Mexicana”, passando pela revolta zapatista de 1994 e pela Comuna de Oaxaca de 2006). Ou seja, a partir dessa perspectiva, não parece nada claro que o segredo composicional da comuna seja um “governo da classe trabalhadora” singular, mas sim a comunalidade de várias frações sociais.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159709" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139.webp" alt="" width="1300" height="867" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139.webp 1300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-1024x683.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1300px) 100vw, 1300px" />E é exatamente esse o ponto. Dentro das transformações do presente, a forma da comuna é impensável sem a modulação da classe trabalhadora tradicional para um proletariado expandido. Ou seja, ela não é orientada por trabalhadores produtivos, mas sim pela população heterogênea daqueles que não têm reservas. Assim como a revolta, a comuna pode contar com trabalhadores, mas não necessariamente como trabalhadores. Ross argumenta que a comuna é definida, em parte, pela plenitude de sua relação.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que a comuna, como meio político e social, oferecia que a fábrica não oferecia era um escopo social mais amplo — que incluía mulheres, crianças, camponeses, idosos e desempregados. Ela compreendia não apenas o reino da produção, mas tanto a produção quanto o consumo <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">À primeira vista, essa é uma afirmação curiosa, pois é o próprio capitalismo que se baseia nos circuitos interligados de produção e consumo, uma combinação que nos proporcionou as duas formas originais da luta moderna: greve e revolta, fixação de salários e preços. A implicação deve ser que a comuna oferece produção e consumo de necessidades (e de prazeres! — “luxos comunitários”, como diz Ross) além das medidas do capital. Ou seja, além do salário e do preço. Assim é, em teoria. O comunismo no presente, que não pode mais ser confundido com o comando dos trabalhadores sobre a produção e a distribuição no modo socialista, é a quebra do índice entre o trabalho de cada um e seu acesso às necessidades — as atividades sociais gêmeas reguladas pelos salários e preços, respectivamente. Ele pode preservar a produção e o consumo em um sentido geral. Mas elimina as mediações que ligam a produção ao consumo. Só então as compulsões de valor que organizam as relações sociais são quebradas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, escondido nas sombras projetadas pela luz abstrata do ideal, há igualmente um sentido prático e concreto desse reconhecimento de que a comuna está além da produção e do consumo capitalistas. Se nos voltamos no último momento para as histórias materiais, é porque não temos outro ponto de partida. Nem a Comuna de Paris nem a de Morelos podem ser compreendidas independentemente das catástrofes sociais — as revoltas — que as precederam <strong>[10]</strong>. A comuna aparece além do salário e do preço porque essas lutas deixam de ser possíveis em qualquer sentido prático, porque a reprodução humana naquele momento não se encontra nem no local de trabalho nem no mercado. Na medida em que a comuna é uma abertura histórica, ela é também uma exclusão, e essa exclusão é inseparável de sua existência operacional. Como Marx nos lembra, “A grande medida social da Comuna foi sua própria existência operacional” <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A comuna, então, tem uma continuidade com a revolta. Ela pressupõe a impossibilidade da fixação de salários como meio de garantir qualquer tipo de emancipação. É provável que seja inaugurada, como muitas lutas na primeira era das revoltas, por aqueles para quem a questão da reprodução além do salário há muito se coloca — aqueles que foram socialmente forjados como portadores dessa crise. “As mulheres foram as primeiras a agir”, lembra-nos Lissagaray sobre a Comuna de Paris, “endurecidas pelo cerco — elas tiveram uma dose dupla de miséria” <strong>[12]</strong>. Esse cerco que é o gênero nunca terminou.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a comuna também rompe com a base da revolta na fixação de preços, porque o abastecimento para a subsistência não se encontra mais nessa ação. Está além da greve e da revolta. Em tal situação, a comuna surge não como um “evento”, mas como uma tática de reprodução social. É fundamental entender a comuna primeiro como uma tática, como <em>uma prática à qual a teoria é adequada</em>. Para além da greve e da revolta, o que distingue os problemas e possibilidades da reprodução daqueles da produção e do consumo é o seguinte: a comuna é uma tática que também é uma forma de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">As comunas que estão por vir se desenvolverão onde as lutas pela produção e circulação se esgotaram. É provável que as comunas que estão por vir surjam primeiro não em cidades muradas ou em comunidades de retiro, mas em cidades abertas, onde aqueles excluídos da economia formal e deixados à deriva na circulação agora observam o fracasso do mercado em suprir suas necessidades. O <em>glacis</em> ao redor da Muralha de Thiers é agora o <em>Boulevard Periphérique</em>; a população excedente se reúne agora nas rodovias ao redor de Lima, Dhaka e Dar es Salaam. Mas não apenas lá.</p>
<p style="text-align: justify;">As coisas se desintegram, o centro e a periferia não se sustentam. Girando e girando na noite, somos consumidos pelo fogo. Talvez a Longa Crise do capital possa se reverter; é uma aposta perigosa para ambos os lados. Dentro da persistência da crise, no entanto, a reprodução do capital através do circuito de produção e circulação — salário e mercado — parece cada vez mais não como uma possibilidade, mas como um limite para a reprodução proletária. Um circuito morto e em chamas. Aqui, a revolta retorna tarde e aparece cedo, tanto em excesso quanto em falta. A comuna nada mais é do que o nome para a tentativa de superar esse limite, uma catástrofe peculiar ainda por vir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Research and Destroy, “The Wreck of the Plaza” (A destruição da praça), 14 de junho de 2014, researchanddestroy.wordpress.com. Este artigo foi publicado anteriormente com o título sugestivo “Plaza-Riot-Commune” (Praça-Revolta-Comuna).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Kristin Ross, <em>Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune</em>, Verso: Londres, 2015, 14.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Sasha X, “Occupy Nothing: Utopia, History, and the Common Abject,” <em>Mediations</em>, 28: 1, outono de 2014, 62.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Phil A. Neel, “New Ghettos Burning”, 17 de agosto de 2014, ultracom.org.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Ross, <em>Communal Luxury</em>, 123-4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Bruno Bosteels, “The Mexican Commune,” in <em>Communism in the Twenty-First Century</em>, vol. 2, ed. Shannon Brincat, Santa Barbara: Praeger, 2014, 168.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Ibid.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Karl Marx e V. I. Lenin, <em>The Civil War in France: The Paris Commune</em>, New York: International Publishers, 1968, 60.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ross, <em>Communal Luxury</em>, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Para uma análise das condições político-econômicas de Morelos antes da Comuna, see Paul Hart, <em>Bitter Harvest: The Social Transformation of Morelos, Mexico, and the Origins of the Zapatista Revolution, 1840-1910</em>, Albuquerque: University of New Mexico, 2005, 149, 191-2.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Marx, <em>The Civil War</em>, 65.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Prosper-Olivier Lissagaray, <em>History of the Paris Commune of 1871</em>, trad. Eleanor Marx Aveling, London: Verso, 2012, 65.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>Ilustram este artigo fotografias de levantes recentes: do Occupy Wall Street à Primavera Árabe; do estallido chileno às jornadas de Junho de 2013 no Brasil e ao levante zapatista em Chiapas, no México.</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>1º dia da resistência contra o despejo da Kasa Invisível</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Aug 2026 13:17:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[A força da comunidade impede o desalojo no Dia da Habitação. Por Kasa Invisível]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><a href="https://kasainvisivel.org/2026/08/22/1o-dia-resistencia-contra-o-despejo/" target="_blank" rel="noopener"><span class="x1lliihq x1plvlek xryxfnj x1n2onr6 xyejjpt x15dsfln x193iq5w xeuugli x1fj9vlw x13faqbe x1vvkbs x1s928wv xhkezso x1gmr53x x1cpjm7i x1fgarty x1943h6x x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af" dir="auto"><span class="x193iq5w xeuugli x13faqbe x1vvkbs xt0psk2 x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af x126k92a">Por KASA INVISÍVEL</span></span></a></h3>
<p style="text-align: justify;">Nesta sexta-feira, 21 de agosto, Dia Nacional da Habitação, a Kasa Invisível resistiu à sua primeira tentativa de despejo. Apesar de o risco iminente permanecer, terminamos o dia ainda mais fortes para seguirmos juntos em resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta começou com um café da manhã na porta da ocupação puxada por diferentes movimentos sociais e ocupações. Membros do coletivo ficaram dentro da ocupação enquanto a comunidade e uma multidão de apoiadores se organizavam na calçada. Exatamente às 7:30 da manhã, chegaram o oficial de justiça e a família dos herdeiros do antigo proprietário, acompanhados de um caminhão de mudança, criando um momento silêncio e tensão que foi notado pelas pessoas dentro da Kasa. Integrantes do coletivo, apoiadores de diversos movimentos, como o MLB, Teia dos Povos, UP, Boxe Antifa, Resistência Azul Popular, Sind-UTE, Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP), e Comissão de Direitos Humanos da OAB, além de advogados populares, parlamentares e assessores, se mobilizaram pacificamente contra a tentativa de despejo.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto pessoas subiam ao telhado e estendiam faixas, o rapper FBC conversava com os trabalhadores do caminhão de mudança e os convencia a não ajudarem no despejo, falando da importância do espaço para a comunidade e o autoritarismo de um despejo como esse. Os dois profissionais desistiram de ajudar no carreto e algumas pessoas ainda ouviram fazer comentários de apoio ao movimento. A tensão aumentava com a presença do advogado dos antigos proprietários, filmando o rosto de manifestantes, enquanto todas as pessoas presentes cantavam, de forma irônica, sobre herdeiros perderem um imóvel e ele se transformar em ocupação: <strong><em>“Vovô deixou, você esqueceu e agora você perdeu”</em></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a resistência também era feita de encontro e solidariedade. Pessoas traziam pães, sucos, café era baixado por cordas da varanda da Kasa. Compramos marmitas coletivamente para dezenas de pessoas presente, almoçamos na calçada, compartilhando comida, conversas e a animação de quem se reúne para lutar por uma causa comum. Enquanto isso, apoiadores que não puderam comparecer presencialmente acompanhavam as atualizações em tempo real por meio de dezenas de canais de comunicação online e perfis de grande alcance que cobriram e deram visibilidade ao ato. No mesmo dia, o PL 547/25, o “PL da Gentrificação”, que permite o avanço da verticalização e especulação imobiliária nos bairros da região central da cidade, era votado na Câmara Municipal e enfrentava também mobilização popular e resistência. A PL foi barrada através de uma obstrução na justiça!</p>
<p style="text-align: justify;">Um chaveiro chegou a ser chamado para tentar abrir a fechadura, mas sequer conseguiu se aproximar da porta da ocupação. Pouco depois, desistiu de cruzar a multidão e foi embora. O oficial de justiça também deixou o local e, por fim, os herdeiros foram embora, prometendo chamar a polícia. A polícia, porém, não veio. Diversos gabinetes parlamentares enviaram manifestações ao comando e até ao governador, demonstrando solidariedade e preocupação com o desalojo de um espaço de moradia e centro social em um imóvel histórico no centro da cidade.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">No final do dia, que contava ainda com comício do presidente Lula, também no centro da cidade, o ato do Dia Nacional da Habitação contra os despejos saiu da Praça Sete, passou pela Ocupação Maria do Arraial, também ameaçada de despejo, e chegou à Kasa Invisível, reunindo gritos, cantos e discursos de apoio à resistência. Estiveram presentes centenas de pessoas moradoras de ocupações de BH, especialmente geridas pelo MLB, como Eliana Silva, Maria do Arraial e Paulo Freire.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de duas semanas marcadas por tantas derrotas no campo da justiça burguesa, conseguir barrar o despejo pela força da mobilização, com o apoio da nossa comunidade, de parceiros e de simpatizantes, é revigorante. Mostra que a luta coletiva é capaz de abrir caminhos onde as instituições insistem em fechar portas.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">A ameaça de despejo, porém, ainda existe. Ele pode voltar a acontecer em breve. É por isso que precisamos permanecer mobilizados, organizados e dispostos a resistir.<br />
Seguimos em vigília e recebendo uma intensa programação de atividades políticas e culturais em apoio à permanência da ocupação.</p>
<p style="text-align: justify;"><span class="x1lliihq x1plvlek xryxfnj x1n2onr6 xyejjpt x15dsfln x193iq5w xeuugli x1fj9vlw x13faqbe x1vvkbs x1s928wv xhkezso x1gmr53x x1cpjm7i x1fgarty x1943h6x x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af" dir="auto"><span class="x193iq5w xeuugli x13faqbe x1vvkbs xt0psk2 x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af x126k92a"> </span></span></p>
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		<title>Juruna, presente!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2026 22:40:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[A participação de Juruna é parte de uma história não contada sobre as origens do MTST]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Zé da Mata, Soraia Soriano, João Nélio, Paulinho Albuquerque, Lúcia Albuquerque</h3>
<p style="text-align: justify;">Hoje tivemos a notícia do falecimento de um grande camarada e amigo João Carlota, mais conhecido como Juruna. O João foi metalúrgico trabalhador da MAB em Campinas-SP e, quando o conhecemos, em 1996, era dirigente do Sindicato dos Metalúrgico de Campinas. Um grupo de militantes do MST realizava um trabalho de base com objetivo de ocupar terras para reforma Agrária no estado de São Paulo e o Juruna era o militante que assumiu a responsabilidade de articular cotidianamente a luta sindical com as lutas dos movimentos sociais. O companheiro teve uma contribuição muito importante na construção do movimento dos trabalhadores sem teto neste mesmo ano de 1996. Durante o trabalho de base para as ocupações de terras, os militantes do MST, com apoio e participação de Juruna, experimentaram de perto o surgimento várias ocupações urbanas por moradia na região. E é neste contexto que surge o MTST. Um coletivo de militantes de várias vertentes, do movimento sindical e também do MST, se somou para a contrução de mais um importante movimento social em nosso país. Foi um período em que para algumas direções sindicais, a luta do sindicato extravasa os limites da defesa corporativa da categoria, construindo no dia a dia as lutas dos trabalhadores em diversas frentes, articulando a luta sindical, a luta pela terra, luta por moradia e movimentos de bairro das periferias urbanas. A participação de Juruna é parte de uma história não contada sobre as origens do MTST, ou ao menos não relatada com o rigor histórico que merece. Desejamos homenajear esse companheiro, reconhecer sua importância histórica nas lutas sociais e lembrar dos momentos felizes que tivemos ao partilhar sua amizade. Apesar dos momentos difíceis das lutas, também nos divertíamos muito com ele. Esperamos que seus familiares e amigos fiquem firmes nesse momento triste para todos nós e possam se reconfortar com as boas lembranças e imoprtantes realizações que ele nos deixou. Juruna presente, na luta sempre! <img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159686" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03.jpeg" alt="" width="738" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03.jpeg 738w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-138x300.jpeg 138w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-472x1024.jpeg 472w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-708x1536.jpeg 708w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-194x420.jpeg 194w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-640x1388.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-681x1476.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 738px) 100vw, 738px" /></p>
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		<title>Proteção aos animais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2026 22:03:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Um Tribunal em Israel suspendeu a construção de fossos destinados a abrigar crocodilos ao redor de prisões onde estão encerrados prisioneiros palestinos. O juiz responsável pelo caso afirmou que “as alegações relativas aos danos previsíveis para os crocodilos justificam uma investigação e a emissão de uma ordem que proíba a sua transferência”. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um Tribunal em Israel suspendeu a construção de fossos destinados a abrigar crocodilos ao redor de prisões onde estão encerrados prisioneiros palestinos. O juiz responsável pelo caso afirmou que “as alegações relativas aos danos previsíveis para os crocodilos justificam uma investigação e a emissão de uma ordem que proíba a sua transferência”. <strong>Passa Palavra</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>[Belo Horizonte] Luta contra o despejo da Kasa Invisível</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159674/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2026 19:11:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Kasa Invisível 🚨 ALERTA: RISCO IMEDIATO DE DESPEJO DA KASA INVISÍVEL🚨 Neste final de semana, fomos surpreendidos por uma decisão judicial que determina o despejo da Kasa Invisível. Nossos advogados já estão trabalhando para tentar reverter essa decisão, mas o despejo pode acontecer a qualquer momento ao longo desta semana. Por isso, viemos agora [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Kasa Invisível</h3>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f6a8.png" alt="🚨" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> ALERTA: RISCO IMEDIATO DE DESPEJO DA KASA INVISÍVEL<img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f6a8.png" alt="🚨" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /></p>
<p style="text-align: justify;">Neste final de semana, fomos surpreendidos por uma decisão judicial que determina o despejo da Kasa Invisível. Nossos advogados já estão trabalhando para tentar reverter essa decisão, mas o despejo pode acontecer a qualquer momento ao longo desta semana.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, viemos agora pedir atenção e apoio às nossas amigas e amigos, às organizações e coletivos parceiros, às pessoas que frequentam a casa, aos nossos vizinhos e vizinhas e a todas as pessoas que apoiam e acreditam nesse projeto.</p>
<p style="text-align: justify;">Pedimos que estejam alertas e disponíveis para somar conosco caso seja necessário!</p>
<p style="text-align: justify;">Em breve, vamos convocar uma reunião aberta na Kasa Invisível para pensarmos coletivamente em como podemos resistir ao despejo e fortalecer essa luta. Nossa força é social e coletiva, e acreditamos que só poderemos enfrentar este momento por meio da solidariedade, da mobilização e do apoio mútuo.</p>
<p style="text-align: justify;">A Kasa Invisível é uma ocupação que, desde 2013, abriga um centro social, cooperativas e moradia, promovendo atividades sempre gratuitas e construindo uma rede viva de solidariedade com nossos vizinhos, outras ocupações, pessoas em situação de rua e diversos grupos e iniciativas da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A Kasa Invisível é construída por muitas mãos, e é com muitas mãos que vamos defendê-la!</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f4e2.png" alt="📢" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Fiquem atentos aos próximos chamados. Em breve divulgaremos informações sobre a reunião aberta e sobre como somar nesta luta.</p>
<blockquote><p>Apoie a vigília e resistência ao despejo. Como doar:</p></blockquote>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159675" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008.jpg" alt="" width="900" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-169x300.jpg 169w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-576x1024.jpg 576w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-768x1365.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-864x1536.jpg 864w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-236x420.jpg 236w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-640x1138.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-681x1211.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" /></p>
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		<title>A Wokeisseia</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159666/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2026 18:16:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[Ser contra a guerra também é ser woke? Fiquei com essa dúvida depois de ver o filme. Acredito que muitos na esquerda e na direita diriam que sim. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Primo Jonas</h3>
<p style="text-align: justify;">Alguns meses antes da estréia do filme “A Odisseia” comecei a detectar nas redes sociais a produção de um tipo de conteúdo que atacava a produção com dois argumentos: a escolha do elenco respondia a um código woke e não à uma recriação histórica exata, e, para além do elenco, detalhes como vestimenta, barcos, construções, tudo estaria mal retratado e refutado pela documentação arqueológica e pela historiografia contemporânea</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto ao realismo aplicado às coisas, qualquer estudante do mundo grego antigo reconhece o ridículo de querer aplicar aos poemas épicos um critério histórico em sua representação. Eles são produto de séculos de cantos, e tão fortes eram os motivos para cantá-los sempre iguais quanto para cantá-los em versos sempre novos. Os séculos foram passando e em um mesmo poema passaram a conviver descrições e relatos de épocas consequentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso não se reduz ao tipo de armadura que se usava, o tipo de combate realizado pelos exércitos, a aparência interna ou os objetos presentes em um palácio micênico. Também os deuses e os rituais. Se um aedo queria reforçar o aspecto ancestral de um ritual, recorria às imagens que aquela comunidade considerava como o ancestral, misturando ativamente história e fantasia com finalidades estéticas. Assim o faziam para ganhar a estima de seu público e ser bem recebidos por onde passavam. Logo, os deuses e religiões sobre os quais lemos nos poemas homéricos hoje são uma mistura de relatos concretos, aquilo que os aedos viam com seus olhos, e imagens criadas para comover seus ouvintes e que apelavam ao imaginário. Alguns deuses gozaram de muita fama e depois caíram quase no esquecimento, surgindo misteriosos em versos perdidos. Novos deuses e deusas (estrangeiros) eram introduzidos no meio da história. Se as famílias aristocráticas de Delfos eram as mais prósperas da região, oferecendo o melhor dos churrascos, o templo de Apolo se tornava o “umbigo do mundo” e a quantidade de versos mencionando Apolo aumentaria e muito.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto ao elenco do filme, também poderíamos esgrimir o mesmo argumento: não há realismo possível para representar em audiovisual um poema épico. Nenhum rosto do presente, ou imaginação elaborada na mente de um indivíduo do presente, será igual ao rosto daqueles seres humanos que viveram as aventuras, os horrores e as delícias relatadas na poesia homérica.</p>
<p style="text-align: justify;">Despidos de sua roupagem crítica, estes argumentos se revelavam rasos e apontados diretamente aos atores e atrizes negras, a um ator trans e também um soldado com olhos orientais. A Helena loirinha e brilhante do filme de Brad Pitt foi contrastada com a Helena escura e brutalizada de Nolan. A indignação contra um elenco woke geralmente aponta à sua artificialidade, nega ao suporte humano um sentido estético próprio e o denuncia como agenda política. Oras, esse mecanismo de fato já vinha sendo utilizado pelos setores identitários: gays no corpo de gays, trans no corpo de trans, mulher no corpo de mulher, homem no corpo de homem, seria o único código aceitável. Qualquer desvio pode ser tratado como afronta política. Essa forma de escândalo visa bloquear o raciocínio artístico crítico e leva tudo para a análise política rasteira, é um boicote ativo, pode funcionar ou pode fracassar em sua missão. No caso da Odisseia, acredito que falharam.</p>
<p style="text-align: justify;">Creio que a motivação por trás das críticas superficiais espalhadas na internet – à exatidão histórica e ao elenco –, com anterioridade ao lançamento oficial do filme!, é uma luta ideológica mais profunda contra o argumento do filme de Nolan. O seu Odisseu é um sujeito atormentado pelas necessidades bélicas de sua sociedade. Não estamos falando do camponês que após uma vida de penúria agrária termina sua vida assassinado e sua família escravizada por piratas, como os que vinham de conquistar Troia. Odisseu, tomando ótimas e péssimas decisões, várias das quais incorriam na morte de muitos de seus soldados, em sua jornada tomou consciência de que o horror e a guerra não são produtos dos deuses, são produtos dos humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta época de glorificação do autoritarismo, onde a masculinidade se esconde detrás de pistolas e violações, entendo que apontar contra um elenco de fenotipos variados é a forma mais fácil de boicotar um filme que fala sobre horrores da guerra, sobre a hospitalidade como política, sobre reconhecer os erros e deter o horror.</p>
<p style="text-align: justify;">Costuma-se dar muita atenção aos primeiros versos da Odisseia e da Ilíada, os versos onde se anuncia aquilo que vai ser cantado. Imagino que serão, em grande medida, criações da época clássica em diante. Por exemplo, de algum copista medieval disposto a melhorar um verso de Homero, corrigir uma métrica aqui e acolá. Farei o contrário, com os últimos versos da Odisseia. Neles se relata como as famílias dos pretendentes em Ítaca se dirigiam para atacar Odisseu depois da batalha mortal de seu regresso. Está tudo preparado para que se reiniciem as hostilidades, a guerra aberta, mas vem Atena e põe fim à discórdia. A deusa é quem instaura a paz, não os próprios homens. É essencialmente por isso que o filme de Nolan é uma versão atéia do poema, e não pelo fato dos deuses não aparecerem como imagem na tela.</p>
<p style="text-align: justify;">Ser contra a guerra também é ser woke? Fiquei com essa dúvida depois de ver o filme. Acredito que muitos na esquerda e na direita diriam que sim. A cultura woke é uma cultura cosmopolita afeminada, incapaz de aceitar a necessidade do horror. O horror indispensável da nossa natureza, da nossa história, do qual não há escapatória. Adoram este relato aqueles eternos indispensáveis, os guerreiros. São eles hoje quem brada de peito aberto, orgulhosos de possuir a resposta para os problemas de nossa época. Os homens indispensáveis, escondidos atrás de seus celulares, escandalizados pela promiscuidade das mulheres, os que entendem solitários o jogo de vida e morte que nossa época exige. Os que pensam que o mundo é simples, que se atormentam com a complexidade alheia, dispostos a esmagá-la.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159669" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/msid-154955284.webp" alt="" width="1280" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/msid-154955284.webp 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/msid-154955284-300x169.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/msid-154955284-1024x576.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/msid-154955284-768x432.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/msid-154955284-747x420.webp 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/msid-154955284-640x360.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/msid-154955284-681x383.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" /></p>
<blockquote><p>O artigo é ilustrado com cenas do filme <em>A Odisseia </em>(The Odyssey, 2026, 2h 52m, dir. Christopher Nolan, Dist. Universal Pictures).</p></blockquote>
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			</item>
		<item>
		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (3)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159659/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Aug 2026 16:03:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Para que o trabalho não seja mais central, o que é necessário é um recuo da relação capital-trabalho sob o dinamismo de outra relação social, que finalmente a substituiria por ser mais proeminente do que as outras relações no campo de onde ela tira seu poder de expansão.  Por Michel Freyssenet.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Michel Freyssenet</h3>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">A Difusão da Relação Capital-Trabalho e a Universalização Naturalista do Trabalho</h3>
<p style="text-align: justify;">Se é assim, como esse termo pôde se difundir para designar atividades que não são realizadas sob nenhum aspecto social? Duas generalizações devem ser compreendidas: a do assalariado e dos empregados e, mais amplamente, a do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Os termos salário, assalariados e classe assalariada parecem ter se expandido posteriormente para situações das quais não provinham: por exemplo, o empregado doméstico ou comunitário que vende seus serviços por renda e não por capital e que é pago com salários; os funcionários públicos &#8211; &#8216;servidores civis&#8217; &#8211; cujas remunerações são a recompensa pela função social que exercem em nome da comunidade. Na verdade, apesar da homogeneização legal das condições de trabalho, o tipo de relação não é o mesmo. A subordinação não é do mesmo tipo e a incerteza da relação social não tem a mesma forma de acordo com a relação de emprego considerada. O objetivo do empregador nesses casos não é o enriquecimento pessoal nem a acumulação de capital. O empregador gasta sua renda obtendo os serviços que espera, sem intenção, esperança ou obrigação de recuperar seu capital. O objetivo é a satisfação com o serviço prestado.</p>
<p style="text-align: justify;">Se pode haver, e se realmente há, em intervalos mais ou menos regulares, notadamente por parte das comunidades (Estado, governos locais, associações, instituições etc.), a busca por melhor eficiência a um custo menor por meio de &#8216;reformas&#8217; ou &#8216;contratos&#8217;, é por pressão política de todos ou de alguns daqueles que pagam impostos ou contribuições e que desejam vê-los parar de aumentar ou vê-los diminuir por qualquer motivo, e não pela necessidade de reproduzir o capital para evitar que ele desapareça.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">O Trabalho Hoje se Tornou Central Porque a Relação Social que o Criou Está se Espalhando para Todas as Atividades e Porque Essa Relação é Totalmente Social</h3>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho foi percebida e considerada por muito tempo como uma simples relação mercantil: empresários e trabalhadores compravam e vendiam trabalho a preços de mercado. Foi necessário muitos debates e conflitos ao longo do século XIX para que os assalariados pudessem reconhecer e fazer reconhecer ao seu redor que se tratava de uma relação específica, sujeita a uma legislação especial distinta de outras leis, notadamente as leis comerciais. Não se tratava de um simples mal-entendido ou de um meio para os empregadores se isentarem de toda responsabilidade, notadamente em caso de um acidente. Existiriam, na realidade, formas muito amplamente ambíguas: subcontratação em domicílio e equipes de trabalho móveis lideradas por um trabalhador supervisor. Desde então, reconheceu-se que o contrato de trabalho não é uma troca entre iguais.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele sela a subordinação do trabalhador à autoridade do empregador, mas, ao mesmo tempo, abriga uma incerteza insuperável, a segunda característica essencial dessa relação &#8211; aquilo que cada pessoa considera como vendido ou comprado no ato da contratação é questionado diariamente nas relações de trabalho. O que exatamente cobre uma venda de capacidade de trabalho?</p>
<p style="text-align: justify;">É um trabalhador colocando ao mesmo tempo sua energia, experiência, inteligência, motivação, devoção e imaginação à disposição de outrem? Ou, como a história atesta, é um conflito constante sobre o que cada um pode exigir do outro, em outras palavras, sobre a natureza da respectiva liberdade do trabalhador ou do empregador? O escopo do que se considera ter vendido e do que o outro estima ter comprado não difere apenas por causa de interesses divergentes entre o primeiro e o segundo, mas por causa de uma apreciação diferente sobre o que se julga passível de ser comprado e vendido: devoção e fidelidade fazem parte disso? Motivação, imaginação e inteligência também fazem parte e, em caso afirmativo, em que medida? A definição precisa do trabalho não é apenas uma tendência do empregador que se concretiza na forma de prescrição, é também a demanda do empregado de que sejam estabelecidos limites sobre o que pode ser exigido dele ou dela.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho exige a &#8216;liberdade&#8217; dos trabalhadores para vender suas capacidades de trabalho e o direito dos detentores de capital de comprá-las. Essas duas liberdades não são nem naturais nem permanentes, sem limites nem alterações. Tampouco todos desfrutam dessas liberdades. As crianças até a maioridade, e as esposas até recentemente, e ainda hoje em muitos países, devem ter a autorização de seus pais ou maridos para serem empregadas, e nem sempre dispõem &#8211; de fato ou de direito &#8211; do dinheiro proveniente da venda de suas capacidades. Essas &#8216;liberdades&#8217; estão em constante redefinição e limitação, tanto legal quanto pragmaticamente. Os debates e conflitos sobre a jornada de trabalho não podem ser reduzidos a divergências sobre a qualidade e o ritmo de vida necessários ou aceitáveis em respeito aos imperativos &#8216;econômicos&#8217; e às exigências de reprodução das capacidades de trabalho, mas jogam o trabalhador &#8216;livre&#8217; de volta à &#8216;política&#8217;.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159660 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1.jpg" alt="" width="735" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1.jpg 735w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-515x420.jpg 515w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-640x522.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-1-681x556.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 735px) 100vw, 735px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho também implicava, se considerada moralmente aceitável, que a soma dos interesses egocêntricos pode sobrepujar ou competir com o interesse e no interesse do bem-estar geral. Verdade seja dita, o julgamento moral do capitalismo ainda permanece em aberto. O novo liberalismo econômico tem sido acompanhado por um discurso não apenas sobre sua eficiência, mas também sobre o fato de que seria mais justo.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, através do ato de vender sua capacidade de trabalho, o empregado reconhece a legitimidade do comprador, seja ela concedida temporária ou parcialmente, e na ambiguidade da autoridade que será exercida sobre o trabalhador. Esse reconhecimento deve ser reconfirmado diariamente no ato do trabalho para que a relação capital-trabalho possa se reproduzir. O trabalhador &#8216;livre&#8217; aceita a alienação de sua &#8216;liberdade&#8217; para trabalhar durante as horas de trabalho e limitar seus direitos de cidadão que lhe são exteriores ao tempo e espaço da empresa onde está empregado.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação de emprego, e notadamente a relação capital-trabalho, não se presta facilmente à análise em termos econômicos ou, inversamente, políticos ou simbólicos. Ela contém todas as dimensões do social. Ela não parece ser simplesmente uma relação social na ordem econômica, ou uma relação econômica imersa no social, mas uma relação totalmente social capaz de ordenar e estruturar toda ou grande parte do social, como outras relações sociais são capazes de fazer em outras sociedades.</p>
<p style="text-align: justify;">A incerteza, inerente ao contrato de trabalho, não se limita às condições imprevisíveis de realização que podem ocorrer, mas à própria natureza das capacidades de trabalho que se gostaria de comprar como mercadorias, e que não é possível. Isso explica a necessidade de regras materiais, legais, relacionais e sociais explícitas ou implícitas, sancionadas ou não pelo poder público, para que o detentor do capital tenha mais segurança em obter os produtos que espera dos empregados cujas capacidades de trabalho comprou.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira via consiste em estabelecer factualmente, ou mesmo legalmente, uma relação de confiança, através da qual, em troca da garantia de seus trabalhadores pelo volume esperado de produção, pelo crescimento da produtividade, pela qualidade da participação e invenção de novos processos graças à especialização profissional voluntária e mobilidade, o empregador, por sua vez, dá a seus empregados a garantia de aumentar o número de empregados e seus salários, bem como a capacidade de descobrir e verificar a pertinência das escolhas estratégicas das quais dependem as garantias obtidas. Ao longo dessa via, as divisões do trabalho ocorrem entre especialistas em diferentes áreas de conhecimento e saber-fazer, cada um dos especialistas sendo não apenas útil, mas, mais importante, indispensável para projetar, organizar e alcançar o resultado esperado. A divisão concepção/execução contradiz, a esse respeito, o pacto de confiança inicial, e é contraproducente. É essa a via seguida no passado? Ela está experimentando certo renascimento hoje? Deixando de lado uma análise renovada da história industrial, parece que há poucos exemplos do tipo de relação de emprego que esse pacto de confiança pressupõe, e que a partilha do trabalho entre especialistas de níveis semelhantes de capacidade é uma forma de dividir o trabalho que nunca se enraizou, mesmo que, ocasionalmente, alguns exemplos possam ser vistos.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda via consiste em intervir no desenho do processo produtivo, das ferramentas e máquinas, da organização do trabalho e das formas de cooperação entre os empregados para que esses mecanismos limitem a atividade ou se imponham, tanto quanto possível, àqueles que terão que realizar as tarefas, embora um enquadramento e uma prescrição absolutos sejam impossíveis. Uma parte essencial da inteligência do trabalho passa então para a autoridade do empregador e, por causa disso, muda de conteúdo e forma. A divisão da inteligência do trabalho substitui então a partilha do trabalho entre especialistas. Ela limita a variedade de técnicas de produção e as formas de organização do trabalho, regras, estruturação, classificação e treinamento. A intervenção do empregador no desenho do processo produtivo já é observável nas origens da relação capital-trabalho, bem como na construção de um grupo ou de vários grupos de empregados destinados a ajudá-lo nessa tarefa.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159661 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1.jpg" alt="" width="403" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1.jpg 403w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1-202x300.jpg 202w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-1-282x420.jpg 282w" sizes="auto, (max-width: 403px) 100vw, 403px" /></p>
<h3 style="text-align: justify;">O Trabalho Está Perdendo a Centralidade que Adquiriu? Ele Não Estabelece Mais o Vínculo Social?</h3>
<p style="text-align: justify;">No debate atual sobre a perda da centralidade do trabalho, pelo menos três posições podem ser distinguidas, levando a conclusões práticas muito diferentes. Para alguns, o trabalho mudou de natureza e deve ser percebido, a partir de agora, como uma atividade que permite a cada um dar prova de suas capacidades. Para outros, o trabalho não é mais &#8211; se é que algum dia foi &#8211; a única fonte de riqueza e não é mais economicamente central. Finalmente, para outros ainda, os possíveis ganhos de produtividade são hoje tão grandes com as novas tecnologias que não será mais possível, no futuro, dar trabalho a todos. É uma oportunidade para praticar uma ampla divisão do trabalho e permitir que o maior número de pessoas tenha acesso a atividades de sua própria escolha.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o primeiro grupo, o trabalho representa uma atividade constrangedora, prescritiva e imposta, sem autonomia. Em outras palavras, é o trabalho taylorista, como foi descrito e generalizado de forma abusiva. Notando que esse tipo de trabalho está sendo substituído por uma atividade que envolve vigilância, intervenção e comunicação, capaz de dar lugar à iniciativa e invenção (o que decorre mais de afirmação ou desejo do que de observação e análise [Freyssenet, 1992]), eles concluem que uma nova realidade está emergindo, que não merece mais o nome de &#8216;trabalho&#8217;, na medida em que permite a realização pessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o segundo grupo, a teoria do valor fundada no trabalho é teórica e pragmaticamente invalidada. O trabalho não é mais &#8211; se é que algum dia foi &#8211; o elemento fundamental ou exclusivo da produção de valor. O desempenho econômico não pode ser ou não está mais diretamente ligado ao trabalho, em termos de seu volume, qualidade, organização no chão de fábrica, gestão da produção, organização do projeto, relacionamento com os clientes etc. Mas, em qualquer caso, o trabalho nunca foi conceitualmente limitado ao do chão de fábrica.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o terceiro grupo, o trabalho é fundamental e definitivamente constrangedor. É inútil esperar transformá-lo em um meio de realização. No entanto, é apropriado usar o máximo de seu potencial para a redução do tempo consagrado a ele para que cada um possa se concentrar nas atividades sociais e culturais de sua escolha e, assim, permitir que outras relações sociais emerjam. Isso pressupõe, antes de tudo, o crescimento dos ganhos de produtividade, que devem ser sempre mais importantes do que os dos concorrentes em potencial, para não ter que questionar a contínua redução do tempo de trabalho; em seguida, uma proibição do investimento de capital em novas atividades sociais que tenham revelado um mercado potencial <em>de fato</em>; finalmente, uma forte autoridade política dispondo de meios suficientes para garantir uma parte do trabalho que permanece socialmente necessário ou uma renda mínima de existência para todos, e o tempo para cuidar das conversões periódicas inerentes às mudanças técnicas e organizacionais da produção. Mas, nesse caso, o trabalho continuaria sendo a condição de existência e supremacia: ou seja, continuaria de fato central, objeto de toda a atenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o trabalho é analisado como uma invenção histórica, como se tentou aqui, então somos levados a pensar que o fim de sua centralidade não será visto tão cedo. Para que o trabalho não seja mais central, será necessário que a venda da capacidade de trabalho de cada pessoa ou do produto de seu trabalho &#8211; ainda que apenas parcialmente &#8211; não seja a condição para aceder ao que historicamente se tornou uma condição de vida, mesmo em nossa sociedade. Também seria necessário não investir mais capital em todas as áreas antigas ou novas da vida social, como é feito irresistivelmente, apesar das paradas temporárias que podem ser impostas a ele de tempos em tempos, pois essa expansão para novos campos é uma condição para a reprodução do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora o exercício pareça um tanto patético, pode-se arriscar algum raciocínio. Para que o trabalho não seja mais central, o que é necessário é um recuo da relação capital-trabalho sob o dinamismo de outra relação social, que finalmente a substituiria por ser mais proeminente do que as outras relações no campo de onde ela tira seu poder de expansão. Não é exagero dizer que muitos têm dificuldade em imaginar o processo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159662 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1.jpg" alt="" width="650" height="475" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1.jpg 650w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1-300x219.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1-575x420.jpg 575w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-1-640x468.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Bibliografia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">BIDET, J. e TEXIER, J. (1995) <em>La crise du travail</em> (A Crise do Trabalho). Paris: PUF.</p>
<p style="text-align: justify;">BOYER, R. e FREYSSENET, M. (1995) &#8216;Emergence of New Industrial Models. Hypothesis&#8217;, <em>Actes du GERPISA</em> 15.</p>
<p style="text-align: justify;">BOYER, R. E FREYSSENET, M. (no prelo) <em>The World that Changed the Machine</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">CARTIER, Michel (org.) (1984) <em>Le travail et ses représentations</em> (O Trabalho e suas Representações). Paris: EAC.</p>
<p style="text-align: justify;">CHAMOUX, Marie-Noëlle (1994) &#8216;Société avec et sans concept de travail: remarques anthropologiques&#8217; (Sociedades com e sem o Conceito de Trabalho), edição especial, &#8216;Les énigmes du travail&#8217; (Os Enigmas do Trabalho), de <em>Sociologie du travail</em> outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">DESCOLA, Pierre (1986) <em>La Nature domestiquée. Symbolisme et praxis dans l&#8217;écologie des Achuars</em> (A Natureza Domesticada. Simbolismo e práxis na ecologia dos Achuar). Paris: Edition de la Maison des Sciences de l&#8217;Homme.</p>
<p style="text-align: justify;">DUMONT, Louis (1985) <em>Homo aequalis</em>. Paris: Gallimard.</p>
<p style="text-align: justify;">ENGELS, Friedrich e MARX, Karl (1968) <em>L&#8217;idéologie allemande</em> (A Ideologia Alemã). Paris: Editions Sociales.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, Michel (1972) <em>Travail productif et travail improductif</em> (Trabalho Produtivo e Trabalho Improdutivo). Paris: CSU.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, Michel (1992) &#8216;Processus et formes sociales d&#8217;automatisation. Le Paradigme sociologique&#8217; (Processos e Formas Sociais de Automação: O Paradigma Sociológico), <em>Sociologie du travail</em> 4: 469-96.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M. (1994) &#8216;Quelques pistes nouvelles de conceptualisation du travail&#8217; (Algumas Novas Pistas para a Conceituação do Trabalho), <em>Sociologie du travail</em>: 105-22.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M. e MAGRI, S. (orgs.) (1989) <em>Les rapports sociaux et leurs enjeux</em> (As Relações Sociais e suas Apostas), Vol. 1. Paris: CSU.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M. e MAGRI, S. (orgs.) (1990) <em>Les Rapports sociaux et leurs enjeux</em> (As Relações Sociais e suas Apostas), Vol. 2. Paris: CSU.</p>
<p style="text-align: justify;">FREYSSENET, M., MAIR, A., SHIMIZU, K. E VOLPATO, G. (orgs.) (1998) <em>One Best Way? Trajectories and Industrial Models of the World&#8217;s Automobile Producers</em> (Um Melhor Caminho? Trajetórias e Modelos Industriais dos Produtores de Automóveis do Mundo). Oxford: Oxford University Press.</p>
<p style="text-align: justify;">GODELIER, M. (1984) <em>L&#8217;idéal et le matériel</em> (O Ideal e o Material). Paris: Fayard.</p>
<p style="text-align: justify;">GODELIER, M. (1990) &#8216;L&#8217;oeuvre de Marx&#8217; (A Obra de Marx), <em>Actual Marx</em> 7 (setembro).</p>
<p style="text-align: justify;">LE GOFF, J. (1986) <em>La bourse et la vie</em> (A Bolsa e a Vida). Paris: Hachette.</p>
<p style="text-align: justify;">MARX, Karl (1932) <em>Histoires des doctrines économiques</em> (História das Doutrinas Econômicas), Vol. 2. Paris: Costes.</p>
<p style="text-align: justify;">POLANYI, K. (1983) <em>La grande transformation</em> (A Grande Transformação). Paris: Gallimard.</p>
<p style="text-align: justify;">REYNAUD, B. (1992) <em>Le salaire, la règle et le marché</em> (O Salário, a Regra e o Mercado). Paris: Christian Bourgois Ed.</p>
<p style="text-align: justify;">ROLLE, P. (1971) <em>Introduction à la sociologie du travail</em> (Introdução à Sociologia do Trabalho). Paris: Larousse.</p>
<p style="text-align: justify;">SAHLINS, M. (1980) <em>Au coeur des sociétés. Raison utilitaire et raison culturelle</em> (No Coração das Sociedades. Razão Utilitária e Razão Cultural). Paris: Gallimard.</p>
<p style="text-align: justify;">VERNANT, J.-P. (1965) <em>Mythe et pensée chez les Grecs</em> (Mito e Pensamento entre os Gregos). Paris: Maspero.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Forrest Bess (1911-1977).</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (10)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2026 21:42:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[As classes perigosas globais estão unidas não por seu papel como produtoras, mas por sua relação com a violência estatal. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 8</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Rebeliões Excedentes</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Há muitas conjecturas, algumas delas financiadas pelo governo, sobre como as revoltas se espalham <strong>[1]</strong>. Isso é verdade em grande parte porque os casos individuais estão sujeitos a contingências reais e determinações locais; as explicações mecanicistas geram suas próprias exceções tão rapidamente quanto suas confirmações. A linguagem mais comum é a do contágio, sendo os vetores agentes individuais ou a mídia de massa. Em 1793, William Godwin escreveu:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A convivialidade da festa pode levar à depredação da revolta. A simpatia da opinião se espalha de pessoa para pessoa, especialmente em reuniões numerosas e entre pessoas cujas paixões não estão acostumadas a ser refreadas pelo julgamento […] Não há nada mais bárbaro, sanguinário e insensível do que o triunfo de uma multidão <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dois séculos depois, os autores de <em>A Insurreição que Vem</em> propõem que “os movimentos revolucionários não se espalham por contaminação, mas por ressonância” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O romance de Sam Greenlee de 1969, <em>The Spook Who Sat by the Door</em>, contém uma visão da revolta racial transcendendo suas barreiras espaciais e se tornando uma guerra de guerrilha racial que ameaça o Estado-nação. Oakland explodiu primeiro, depois Los Angeles, depois, saltando pelo continente, Harlem e South Philadelphia… Todas as cidades com guetos se perguntaram se seriam as próximas. A nação mais poderosa da história estava à beira do pânico e do caos“ <strong>[4]</strong>. Saltos, saltos, saltos. É uma ficção, é claro. Além disso, na história de Greenlee, a generalização é orquestrada pelos “Freedom Fighters” (Combatentes pela Liberdade) dos Panteras Negras. Isso é muito característico de 1969, da ideia do partido vanguardista que ainda persistia naquele momento. Mas a lógica implícita é menos metafórica do que contagiosa, menos idealista do que ressonante. Acima ou abaixo da ficção, o relato de Greenlee está de acordo com a propagação das revoltas na França em 2005, na Inglaterra em 2011 e nos Estados Unidos em 2014 e 2015. As revoltas vão à procura de populações excedentes, e estas são a sua base para a expansão. Isto não é para negar a agência dos manifestantes, dos saqueadores, das pessoas que disparam contra os polícias. Tampouco é sugerir que tais rebeliões em expansão não tenham base em vários tipos de visão consciente e coletiva. É simplesmente o mesmo movimento visto pelo outro lado do telescópio, da perspectiva da própria revolta. A partir dessa perspectiva, pode-se começar a sintetizar as categorias de crise, população excedente e raça, que parecem aspectos duradouros da <em>revolta linha</em> no Ocidente.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos os três aspectos são compreendidos no resumo conciso de Ruth Wilson Gimore:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A crise não é objetivamente ruim ou boa, mas sinaliza uma mudança sistemática cujo resultado é determinado pela luta. A luta, que é uma palavra politicamente neutra, ocorre em todos os níveis da sociedade, à medida que as pessoas tentam descobrir, por meio de tentativa e erro, o que fazer com as capacidades ociosas <strong>[5]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É essa mudança na luta que temos acompanhado. A revolta é precisamente esse acerto de contas com as capacidades ociosas, com os excedentes gerados pela produção da não produção que caracteriza a descida ao longo do arco da acumulação.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre esses excedentes, o mais dramático em seu desenvolvimento histórico, e aquele que mais convida a uma reconsideração da classe social, é a parte da população mais sujeita à revolta: a população excedente relativa. O argumento lógico sobre a “produção progressiva” dessa camada empobrecida da sociedade, grande parte da qual já foi abordada, se desenrola ao longo de todo o primeiro volume de <em>O Capital</em>, até o capítulo 25. É aqui que chegamos ao resumo da contradição comovente que floresce tanto na crise quanto no excedente populacional, aspectos diferentes do mesmo processo que impõe o domínio crescente do capital constante sobre o capital variável, minando a acumulação ao expulsar a mão de obra do processo de produção: “a população trabalhadora reproduz, portanto, tanto a acumulação de capital quanto os meios pelos quais ela própria se torna relativamente supérflua; e faz isso em uma extensão que está sempre aumentando” <strong>[6]</strong>. O fato de isso completar o argumento teórico do livro é sinalizado pela maneira como Marx então muda completamente os modos, recuando para uma reconstrução histórica da chamada acumulação primitiva e da origem do capital.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159652" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4.webp" alt="" width="1760" height="1172" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4.webp 1760w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-768x511.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-1536x1023.webp 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-631x420.webp 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-640x426.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-681x453.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1760px) 100vw, 1760px" />A população excedente tem múltiplas camadas dentro dela. Talvez a membrana mais significativa esteja entre o exército de reserva de força de trabalho (que permanece conceitualmente dentro da lógica do mercado de trabalho, reduzindo os salários, entrando e saindo do salário com mudanças na oferta e na demanda de força de trabalho) e a população excedente estagnada cronicamente fora do salário formal, ou “estruturalmente desempregada”, na linguagem convencional. Para essa parcela, o problema da reprodução ainda se apresenta. As pessoas que se encontram nessa circunstância não entram em animação suspensa nem sobrevivem do ar. Em vez disso, são empurradas para economias informais, muitas vezes semilegais ou extralegais, dando-lhes apenas acesso derivado ao salário formal. É essa parte da humanidade que ganha menos do que o mínimo necessário para a subsistência. A informalização pode ser entendida como “formas de organizar a atividade econômica com alto retorno para o capital e retorno excessivamente baixo para os trabalhadores” <strong>[7]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui podemos observar a relação entre o aumento da população excedente global e o rápido aumento do endividamento ao longo da Longa Crise. É sobre esse período que Gilles Deleuze declara dramaticamente: “o homem não é mais o homem enclausurado, mas o homem endividado”. Isso foi aproveitado recursivamente por aqueles ansiosos por supor uma nova ontologia econômica da dívida. Geralmente esquecido é o que Deleuze escreve imediatamente depois:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema pobreza de três quartos da humanidade, pobre demais para se endividar, numerosa demais para ser confinada: o controle não terá apenas que lidar com a erosão das fronteiras, mas também com as explosões dentro das favelas ou guetos <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso efetivamente mina a forte distinção da afirmação inicial de Deleuze. Mas deixa em seu lugar um reconhecimento mais incisivo, a respito <em>da unidade dos excluídos e dos endividados</em>. Eles são o mesmo excedente global. O crescimento explosivo do setor endividado é outra face da informalização, na qual a necessidade do capital financeiro de encontrar devedores se encaixa com a explosão das populações levadas a salários abaixo da subsistência. O microcrédito, o empréstimo estudantil e o empréstimo consignado são instrumentos paralelos, igualmente insustentáveis, no projeto de estabilizar esse excedente crescente e, de alguma forma, preservá-los dentro dos circuitos do lucro.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são expressões da população excedente dentro de uma tendência estrutural de superfluidade real. Mesmo com a expansão da população, a capacidade relativa do capital de absorver contratos de trabalho gera um aumento relativo e absoluto nas populações “libertadas” pelo que gostamos de chamar de progresso, liberadas do fardo do trabalho e, eventualmente, do fardo da própria vida. Alguns estudiosos têm notado recentemente que o aumento da luta global tira sua força dessas populações. Pesquisadores do Global Social Protest Research Group, trabalhando na tradição de Arrighi e Beverly Silver, detectaram, na esteira da onda de revoltas de 2011, uma fonte que não poderia ser localizada nem nas lutas do tipo “marxista” nem nas lutas do tipo “polanyista” — baseadas, respectivamente, na recente subsunção à classe trabalhadora e na perda de privilégios de classe —, mas que exigia uma nova classificação: “Protesto da População Excedente Relativa Estagnada” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora a atenção às lutas de classes tradicionais possa ter obscurecido tais desenvolvimentos para alguns até recentemente, eles têm sido centrais e evidentes na Longa Crise. Bremen escreve:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nos anos 1960 e 1970, os formuladores de políticas ocidentais viam a economia informal como uma sala de espera ou zona de trânsito temporária: os recém-chegados podiam se estabelecer lá e aprender os meandros do mercado de trabalho urbano… Na verdade, a tendência foi na direção oposta <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A absorção de mão de obra em escala global, concomitante com uma ascensão renovada ao longo do arco de acumulação, não parece estar nos planos <strong>[11]</strong>. Nos Estados Unidos, o aumento da superfluidade tem sido uma característica básica da Longa Crise. O historiador Aaron Benanav observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esse é especialmente o caso daqueles que antes trabalhavam no setor manufatureiro, que eliminou milhões de empregos. Isso também se aplica aos jovens que entraram recentemente no mercado de trabalho pela primeira vez e, acima de tudo, aos trabalhadores negros.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Entre 1947 e 1973, a taxa de desemprego foi de 4,8% em média; após 1973, subiu para 6,5%. Desde 1973, houve um período excepcional, 1995-2001, quando a taxa de desemprego voltou ao nível anterior a 1973. Excluindo esses anos, a taxa de desemprego pós-1973 sobe para 6,9%, ou 43% acima da média anterior. Esse aumento não se deve apenas ao fato de que os níveis de desemprego têm sido mais altos durante as recessões. As recuperações econômicas são cada vez mais <em>recuperações sem criação de empregos</em>. As reduções no desemprego têm levado mais tempo a cada década. Após a recessão de 1981, levou 27 meses para o emprego atingir seu nível pré-recessão; após a recessão de 1990, 30 meses; após a recessão de 2000, 46 meses. Após a recessão de 2007, a recuperação do mercado de trabalho levou 6,3 anos <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, é impossível supor que esses fenômenos sejam simplesmente equilíbrios cíclicos de um mercado de trabalho que tende ao “pleno emprego” (mesmo que essa meta tenha sido revisada para cima). As tendências de longo prazo são evidentes, e os sinais que poderíamos esperar para indicar uma reversão secular não são visíveis. Não há velas no horizonte. Nesse contexto, a classe pode ser repensada de maneiras que excedam o modelo tradicional encontrado no capítulo anterior, com sua “classe trabalhadora” relativamente estática e sociologicamente positivista e as formas de luta que a acompanham. Dado o relativo declínio dessa forma de trabalho, Marx deve querer dizer outra coisa quando, chegando a essa conclusão sobre as populações excedentes, propõe que “a acumulação de capital é, portanto, a multiplicação do proletariado”.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Proletarização e Racialização</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A fraqueza do modelo estático da “classe trabalhadora” não está simplesmente em alguma falha abstrata em acompanhar as reestruturações do capital, mas em uma desatenção prática às mudanças no sujeito da luta. Como podemos pensar na revolta como uma forma não apenas de ação coletiva, mas de luta de classes, quando a racialização parece ser uma característica central da <em>revolta linha</em> nos Estados Unidos e, de forma mais ampla, no Ocidente em desindustrialização? É aqui que a população excedente desempenha um papel mediador e profundamente explicativo. Dado o aumento relativo e absoluto contínuo daqueles que estão fora dos setores produtivos e da economia formal em geral, talvez não seja mais útil conceituar as populações excedentes como adjuntas, casos especiais ou excluídas de uma força de trabalho cuja imagem herdamos da era da forte acumulação. Em vez disso, poderíamos entender o <em>proletariado</em> não como designando aqueles que trabalham diretamente para o capital, mas em seu sentido original, uma distinção aqui marcada por Gilles Dauvé:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Se alguém identifica o proletário com o operário fabril (ou com o trabalhador manual), ou com os pobres, perde-se o que há de subversivo na condição proletária. O proletariado é a negação desta sociedade. Não é o conjunto dos pobres, mas daqueles que estão “sem reservas”, que não são nada, não têm nada a perder além de suas correntes e não podem se libertar sem destruir toda a ordem social <strong>[13]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dauvé apresenta isso como uma verdade que foi mal reconhecida, em vez de uma revisão da categoria imposta pelas metamorfoses históricas. São essas metamorfoses que importam. Quanto mais a classe trabalhadora histórica é obrigada a afirmar o capital para sua própria existência e quanto maior o desenvolvimento das “capacidades ociosas”, mais nos deparamos com o significado político do proletariado expandido e, em particular, com o papel da proletarização passiva, a “dissolução das formas tradicionais de (re)produção” <strong>[14]</strong>. Essa expansão, porém, não é neutra quantitativamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159653 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks5.webp" alt="" width="640" height="454" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks5.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks5-300x213.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks5-592x420.webp 592w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />Aqui, podemos voltar à formulação clara de Stuart Hall: “A raça é a modalidade na qual a classe é vivida” <strong>[15]</strong>. Isso se mostra ainda mais persuasivo e descritivo quando se imagina um proletariado que inclui populações excedentes e, portanto, que deve abandonar o modelo sociológico de “identidade operária” como componente essencial da pertença de classe. Já encontramos a divergência nas taxas de ausência de salários em Detroit; infelizmente, e sem surpresa, é um fenômeno generalizado. No entanto, não é orgânico. Assim como a própria escravidão, é socialmente produzida. No período de 1880 a 1910, durante um período de oferta insuficiente de força de trabalho, as taxas de desemprego entre negros e brancos estavam em paridade. A diferença se abre no período entre guerras com “o movimento dos negros entre indústrias, especialmente fora da agricultura, e a mudança na demanda das indústrias nas quais os negros eram empregados” <strong>[16]</strong>. Ou seja, a mudança para uma economia industrial e depois desindustrializada teve um componente racializado; desde os anos 1960, o desemprego entre os negros tem sido pelo menos o dobro do dos brancos, e em tempos de crise isso só se intensifica. Nos últimos anos, o desemprego entre os jovens negros nas cidades mencionadas no romance de Greenlee oscilou em torno de 50%; o perfil geral de emprego dessas cidades é comparável ao desastre em curso na Grécia, uma crise sem fim.</p>
<p style="text-align: justify;">Gilmore sugere que entendamos as transformações do aparato estatal como formas de gerenciar esse excedente irremediável, com foco particular na encarceramento:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na minha opinião, as prisões são soluções geográficas parciais para crises econômico-políticas, organizadas pelo Estado, que está ele próprio em crise. Crise significa instabilidade que só pode ser resolvida por meio de medidas radicais, que incluem o desenvolvimento de novas relações e instituições novas ou renovadas a partir do que já existe. A instabilidade que caracterizou o fim da era de ouro do capitalismo americano fornece uma chave, como veremos. Nas páginas a seguir, investigaremos como certos tipos de pessoas, terras, capital e capacidade do Estado ficaram ociosos — o que é excedente — o que aconteceu e por que os resultados são logicamente explicáveis, mas não eram de forma alguma inevitáveis <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A partir desse alinhamento entre crise e excedente, ela considera as populações sujeitas a esse novo regime de violência estatal, refletindo “sobre a demografia prisional, em particular, seu domínio exclusivo dos pobres que trabalham ou estão desempregados, a maioria dos quais não é branca”. Por fim, ela conclui:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A correspondência entre regiões que sofrem profunda reestruturação econômica, altas taxas de desemprego e subemprego entre os homens e vigilância intensiva dos jovens pelo aparato de justiça criminal do Estado apresenta a população excedente relativa como o problema para o qual a prisão se tornou a solução do Estado <strong>[18]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A revolta, podemos observar, é o outro lado da encarceramento. Ou seja, é uma consequência e resposta a regimes inexoráveis e intensificados de exclusão, superfluidez, falta de acesso a bens e vigilância e violência do Estado, juntamente com a incapacidade do Estado de distribuir recursos para a paz social. Na verdade, essas são as condições específicas e locais de quase todas as grandes rebeliões da história recente. Se a solução do Estado para o problema da crise e do excedente é a prisão — a gestão carcerária —, a revolta é uma contestação direta a essa solução — uma contraproposta de incontrolabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Uma Agenda para a Desordem Total</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A relação entre revolta e racialização é, entre outras coisas, um elemento do debate sobre quem poderia ser o sujeito revolucionário da Longa Crise. A importância das populações excedentes para esse debate surge, no entanto, não nas nações em início de industrialização, mas sim no mundo em descolonização, descrito de forma mais famosa em <em>Os Condenados da Terra</em>, de Frantz Fanon. Ele observa que “a formação de um lumpenproletariado é um fenômeno que é governado por sua própria lógica, e nem o excesso de zelo dos missionários nem os decretos das autoridades centrais podem conter seu crescimento”. As populações são empurradas pela demografia e pela expropriação das terras familiares para a cidade, onde descobrem que não haverá entrada na economia formal, e “é entre essas massas, nas pessoas das favelas e no lumpenproletariado, que a insurreição encontrará sua ponta de lança urbana”, pois essa coorte “constitui uma das forças revolucionárias mais espontâneas e radicais de um povo colonizado” <strong>[19]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159655" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3.webp" alt="" width="978" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3.webp 978w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-204x300.webp 204w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-695x1024.webp 695w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-768x1131.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-285x420.webp 285w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-640x942.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-681x1003.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 978px) 100vw, 978px" />Essa condição compartilhada de superfluidade, baseada em populações dominadas e sujeitas à violência estatal racializada incessante, torna-se a estrutura através da qual os movimentos do Black Power alcançam o reconhecimento mútuo com as lutas anticoloniais internacionais. O amadurecimento desse sujeito despossuído e colonizado como agente político nos Estados Unidos será narrado através de antagonismos globais em uma espécie de romance de Bandung. Grupos como o Revolutionary Action Movement e os Black Panthers fariam estudos cuidadosos de Fanon, entre outros. É a lógica dos lumpen, dos excluídos, que sustenta a compreensão da colonização como um processo global cujo terreno de disputa não é o da classe trabalhadora clássica. Isso é fundamental para Newton ao desenvolver sua teoria da luta. Em consonância com a ambiguidade da situação durante as transições dos anos 1960, Newton oscila entre ver a população negra guetizada dos EUA como a mais explorada de uma classe trabalhadora tradicional, gerando superlucros que permitem a projeção global do projeto colonial, e como a lumpen excluída de Fanon. “Encerrados nos guetos da América, cercados por todas as suas fábricas e todos os componentes físicos de seu sistema econômico, fomos transformados nos &#8216;miseráveis da terra&#8217;, relegados à posição de espectadores”, escreve ele. Essa situação é garantida pelo “exército de ocupação, personificado pelo departamento de polícia”, a gestão doméstica das populações negras como colonização interna <strong>[20]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, seu argumento começa a se triangular com o colapso da estrutura dos direitos civis, com seus ganhos progressivos que pareciam conquistáveis durante um período de expansão, e com pensadores como Gilmore, que consideram a ascensão do estado carcerário como uma gestão do excedente. O capital sustenta e impulsiona o colonialismo, ao mesmo tempo em que garante a proliferação de populações excedentes, em uma dinâmica combinada que poderíamos chamar de divisão global do não trabalho. Mas não é o capital em sentido direto que disciplina ou expropria as populações excedentes. Nem o capital é capaz, no final das contas, de comprar a paz social. As <em>classes perigosas globais</em> estão unidas não por seu papel como produtoras, mas por sua relação com a violência estatal. É nisso que se encontra a base da rebelião excedente e de sua forma, que deve exceder a lógica do reconhecimento e da negociação. “A descolonização, que se propõe a mudar a ordem do mundo”, declara Fanon, “é claramente uma agenda para a desordem total” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">À luz disso, devemos observar que a origem da <em>revolta linha</em> não está no mercado da Europa moderna, mas nas rebeliões de escravos e nos levantes anticoloniais dos séculos XVIII e XIX, entre aqueles para quem a servidão já era imposta por meio de violência direta e sancionada. Ranajit Guha insiste tanto no aspecto organizacional dessas lutas quanto nas consequências de ignorá-lo. “A insurgência”, observa ele, “foi uma iniciativa motivada e consciente por parte das massas rurais”. Ele continua:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">No entanto, essa consciência parece ter recebido pouca atenção na literatura sobre o assunto. A historiografia se contentou em tratar o camponês rebelde apenas como uma pessoa empírica ou membro de uma classe, mas não como uma entidade cuja vontade e razão constituíram uma práxis chamada rebelião. A omissão está presente na maioria das narrativas por meio de metáforas que assimilam as revoltas camponesas a fenômenos naturais: elas eclodem como tempestades, agitam-se como terremotos, contaminam como epidemias <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa percepção entra no debate familiar entre agência e determinação. Se ela se limita a um lado do par dialético, é certamente em um esforço para revelar os efeitos retóricos perniciosos da unilateralidade oposta e sua suposta objetividade. Guha captura eloquentemente um efeito observado anteriormente, no qual a suposta espontaneidade de tais rebeliões se torna uma oportunidade ideológica para tratar os rebeldes como reflexivos e naturais, carentes de racionalidade, não soberanos, socialmente determinados, mas não determinantes, não totalmente humanos — o que, por sua vez, permite a racialização contínua dos participantes das revoltas e a justificativa implícita para a dominação racializada. Rebelar-se é não atingir a medida do humano. É falhar em ser o sujeito.</p>
<p style="text-align: justify;">É possível ver exemplos desse debate antagônico sobre os sujeitos adequados logo no início da Longa Crise. Em 1972, Alain Badiou rejeita com não pouco sarcasmo “a brilhante novidade das massas marginais dissidentes”, uma rejeição conquistada por sua associação com a desordem (sob as rubricas teóricas usuais de fluxo e jogo livre e assim por diante), em favor da “sistematização finalmente coerente das práticas revolucionárias de seu tempo” de Marx e Engels <strong>[23]</strong>. Entre os muitos defensores dessa visão, Badiou é particularmente sugestivo por suas mudanças posteriores de simpatia para o lado da “ralé”, em seu <em>Renascimento da História</em> (no qual ele adota com simpatia o termo racialmente codificado ”<em>racaille</em>“ para seus protagonistas, a palavra para “ralé” usada como arma pelo então ministro do Interior Sarkozy contra os manifestantes franceses de 2005). Trata-se, porém, de uma mudança incompleta: para o “comunismo genérico” de Badiou, a ordem ainda está na ordem do dia, embora agora sob a rubrica da Ideia, em vez do Partido. No entanto, sua travessia registra uma mudança mais profunda na base material para a compreensão desses atores, que dissolve qualquer antinomia entre as “massas marginais dissidentes” e uma visão de como as possibilidades revolucionárias podem se desenrolar.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é o conteúdo vital da recomposição de classe em nível global. A insistência de Guha no aspecto consciente e racional, na subjetividade revolucionária, de levantes aparentemente espontâneos no que às vezes é chamado de “periferia” exemplifica uma réplica àqueles que descartariam tais lutas. Por si só, ela permanece parcial. O relato de Fanon sobre a chegada implacável das populações excedentes ao cenário político e sua relação intransigente com certas formas de ação coletiva é seu complemento necessário. A trajetória que ele traça só se intensificou à medida que “as cidades se tornaram um depósito de lixo para uma população excedente que trabalha em indústrias de serviços e comércio informais, sem qualificação, sem proteção e com baixos salários” <strong>[24]</strong>. O alcance desse desenvolvimento é abordado em <em>Planeta Favela</em>, de Mike Davis, um resumo impressionante das populações excedentes globais. Um aspecto dessa dinâmica é a certeza de que esses desenvolvimentos chegarão de forma ainda mais dramática ao núcleo em desindustrialização, à medida que a superfluidade racializada progride.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve, então, uma espécie de dupla chegada de revoltas ao Ocidente em processo de desindustrialização. Ou, melhor dizendo, das condições nas quais as lutas que serão chamadas de revoltas são inevitáveis. Isso veio das revoltas relacionadas com a exportação e o mercado dos séculos XVII e XVIII, e vêm de dentro para fora, da periferia para o centro. O duplo movimento é uma convergência das lógicas colonialista e capitalista, cujas desordens acabam por se voltar contra elas próprias.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>A Revolta Pública</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Logo no início, deparámo-nos com a primeira fraqueza da categoria “revolta racial”: a ambiguidade do próprio conceito de “raça”. Gilmore, juntamente com muitos outros estudiosos, argumenta que a raça não tem existência autônoma. Mas também não é uma invenção. Em vez disso, é produzida por meio de um processo que ela chama de “racismo” e que temos chamado de “racialização”, que ela define como “a produção e exploração sancionadas pelo Estado ou extralegais da vulnerabilidade diferenciada por grupo à morte prematura” <strong>[25]</strong>. Chris Chen defende que não devemos nos concentrar na “raça”, mas na atribuição racial, os processos estruturais através dos quais a raça é produzida, como distinta “dos atos voluntários de identificação cultural — e de uma série de respostas à regra racial, desde a fuga até a revolta armada”<strong> [26]</strong>. Concordando com o argumento mais amplo, sugerimos, no entanto, que atribuições ideológicas pré-existentes de significado (e não significado) a revoltas e levantes participam dessa atribuição. A revolta, apesar de sua inevitabilidade sistematicamente produzida, é um dos momentos de vulnerabilidade de que fala Gilmore; é a forma de luta dada às populações excedentes, já racializadas. Entrar em uma revolta é estar na categoria de pessoas cuja localização na estrutura social as obriga a algumas formas de ação coletiva em vez de outras. Assim, podemos finalmente argumentar que o termo “revolta racial” tem um sentido invertido: não o de raça como causa da revolta, mas o da revolta como parte do processo contínuo de racialização. Não é a raça que causa as revoltas, mas as revoltas que criam a raça.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159651" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks.webp" alt="" width="1440" height="960" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks.webp 1440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-1024x683.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1440px) 100vw, 1440px" />Essa formulação deve nos levar mais uma vez à descoberta de que “raça é a modalidade na qual a classe é vivida”. A frase se tornou tão conhecida que escapou de seu contexto. Acaba sendo uma afirmação sobre, entre outras coisas, revoltas. Em uma passagem anterior geralmente ignorada do mesmo texto coautorado, encontramos uma formulação mais ampla que fundamenta a frase em lutas concretas. “É na modalidade da raça que aqueles que as estruturas sistematicamente exploram, excluem e subordinam se descobrem como uma classe explorada, excluída e subordinada. Assim, é principalmente na e através da modalidade da raça que a resistência, a oposição e a rebelião se expressam <em>pela primeira vez</em>” <strong>[27]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O ”<em>primeiro</em>“ é significativo. Isso implica que os encontros confrontacionais acabam por se abrir para outras modalidades — para a classe, concluímos, dada a formulação epigramática posterior. Ao mesmo tempo, “modalidade” busca superar a hierarquia da aparência e da essência, em que o que pode parecer uma experiência de raça é posteriormente revelado como a verdade da classe. Em vez disso, há uma continuidade e uma mistura. Aqui, devemos lembrar que a fórmula de Hall se centra originalmente na negritude, e as dificuldades surgem quando isso é casualmente atribuído à raça de forma mais ampla. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, de maneiras diferentes, uma histórica antinegritude constituiu hierarquias de racialização, de modo que as populações negras pobres se aproximam da exposição absoluta à superfluidade e à violência estatal. Ao longo dessa hierarquia, encontramos uma interação mutável de exploração e exclusão, dominações impessoais e gestão diretamente violenta. A lógica de um excedente estruturalmente racializado que informa um novo proletariado atravessa a aparente antinomia de raça e classe para revelar a racialização como característica e motor da recomposição de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a categoria de excedente permite um meio flexível e até mesmo amplo de avaliar as transformações em curso. Excedente não é sinônimo de raça; nem é facilmente separável dela. Estamos no meio de um êxodo contínuo para o mundo superdesenvolvido, impulsionado pela volatilidade geopolítica e pela incapacidade do capital de absorver força de trabalho adequada nas regiões emergentes do sistema mundial — uma diáspora inseparável da expansão da superfluidade. Isso não pode deixar de exercer pressão também sobre os protocolos de racialização, sobre as formas e os enquadramentos da exclusão. À luz desse surgimento contemporâneo de populações excedentes e da política do excedente, podemos agora avançar da sugestão anterior de revolta como uma modalidade de raça para uma proposição ampliada: <em>revolta é a modalidade através da qual o excedente é vivido</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizer isso é dizer que a <em>circulação linha</em> é a era da <em>revolta linha</em>, e não simplesmente no sentido de que apresenta um aumento nos eventos de revolta, tanto em termos absolutos quanto relativos às greves. A <em>revolta linha</em> é a condição em que a vida excedente <em>é</em> revolta, é o sujeito da política e o objeto da violência estatal contínua. Dentro da reorganização social da Longa Crise, o público do excedente é tratado como revolta em todos os momentos — incipiente, em andamento, em exaustão — não por erro, mas por reconhecimento. Como escreve a filósofa Nina Power em seu inventário contraditório “Trinta e uma teses sobre o problema do público”, “O público nunca existiu” — mas também, “o público nem sempre coincide com o nada que deveria ser”. O excedente é nada e deve ser tudo. Assim, Tese 31: “O público é uma lenta revolta” <strong>[28]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Power também observa que “a polícia é o público e o público é a polícia”. A ambiguidade surge, sem dúvida, da origem da frase com Robert Peel, fundador da polícia moderna no Reino Unido, e com sua visão da polícia como expressão de uma vontade social mais geral, em vez de ser uma força imposta de fora. Um pensamento nobre, sem dúvida. A verdade esporádica desse sentido reside na maneira como o público, como uma população cívica, assume uma espécie de autopoliciamento liberal, que está sempre passivamente presente e muitas vezes se manifesta durante revoltas ativas, quando cidadãos amantes da liberdade se apressam em disciplinar seus pares com apelos por um pacifismo ético que, se inicialmente ignorados, são repetidos com a ameaça de que um policial uniformizado será chamado para ajudar na emancipação do agitador. A revolta, nesse sentido, carrega sua polícia dentro de si.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é duplamente verdadeiro, pois outro sentido possível, encontrado anteriormente, reside na integração da função policial do Estado com a <em>revolta linha</em>. Dadas as formas como a violência estatal existe agora no lugar da economia, o público do excedente existe em uma economia de violência estatal. Mas isso funciona como um limite. Essa exposição contínua proporciona uma unidade e um autorreconhecimento e, portanto, não pode ser facilmente eliminada. Esse é um enigma para o público do excedente, para a <em>revolta linha</em>, que se torna aparente quando a revolta aberta irrompe:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A polícia, nesse sentido, não é uma força externa de ordem aplicada pelo Estado a uma massa já em revolta, mas parte integrante da revolta: não apenas seu componente padrão, agindo por meio da morte habitual, pelas mãos da polícia, de algum jovem negro, mas também o parceiro necessário e contínuo da multidão em revolta, da qual o espaço deve ser liberado para que essa libertação tenha algum significado; que deve ser atacado como inimigo para que a multidão se una em alguma coisa; que deve ser forçado a reconhecer a agência de um grupo habitualmente subjugado <strong>[29]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Não se pode deixar de encontrar nessa relação a cena hegeliana do reconhecimento, a dialética polícia-revolta tão característica do auge da revolta. Imediatamente nos lembramos da transposição de Fanon da mesma cena para a situação colonial — bem como da afirmação de Susan Buck-Morss de que Hegel se baseou na luta anticolonial do Haiti para sua formulação original, de modo que a interpretação de Fanon é menos uma transposição do que a conclusão de um circuito <strong>[30]</strong>. A luta pela descolonização, na narrativa de Fanon, deve transcender o reconhecimento, dado que os colonizados não podem ser absorvidos nem pelo Estado como cidadãos livres nem pela economia como força de trabalho livre. Assim, ela deve se resumir a “simplesmente a substituição de uma &#8216;espécie&#8217; da humanidade por outra. A substituição é incondicional, absoluta, total e perfeita” <strong>[31]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Devemos ter claro que a situação da Longa Crise nas nações em desindustrialização não é comparável ao cenário da luta anticolonial. Nem, como observado acima, é alheia a ela. As separações conceituais entre centro e periferia, primeiro e terceiro mundos, etc., têm menos valor do que nunca. A conjuntura, como foi sugerido, está na presença crescente de uma população cujo trabalho nunca pode ser objetivado. A redistribuição está fora de questão, pois os que têm se agarram cada vez mais implacavelmente à riqueza cada vez menor do sistema mundial, concentrando-a ainda mais. Os estruturalmente excluídos se reúnem nas ruas e praças, nas áreas de espera e nos anéis externos das cidades reluzentes e moribundas. <em>Nós somos a crise</em>. Historicamente, os regimes de acumulação no Reino Unido e nos Estados Unidos encontraram maneiras de absorver essas populações, de fornecer uma rota para sua autorreprodução, que é também a reprodução do capital. Agora, a questão da reprodução proletária olha cada vez mais além do salário. No entanto, os sujeitos da <em>revolta linha</em> não podem imaginar uma subsistência significativa no mercado, à maneira da era anterior da revolta. A separação entre produção e troca e a presença da polícia são a ausência dessa possibilidade. A grande recomposição de classes e a abstração da economia são uma e a mesma coisa. A fixação de preços, mesmo em sua forma contemporânea, prova ser o mais transitório dos paliativos. O público cuja modalidade é a revolta deve eventualmente enfrentar a necessidade de buscar a reprodução não apenas além do salário, mas além do mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse sentido que a revolta é o sinal de uma situação que deve, no final, se absolutizar. Não por causa de alguma natureza selvagem e afetiva da revolta, embora aqueles que tiveram tais experiências saibam que essa é uma força surpreendente, mas por causa da situação ainda em desenvolvimento e ainda em deterioração em que ela se encontra. A <em>revolta linha</em> não é uma demanda, mas uma guerra civil.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos, então, algo como uma última contradição. Por um lado, a revolta deve se absolutizar, avançar em direção a uma autorreprodução além do salário e do mercado, em direção ao arranjo social que definimos como comuna, sempre uma guerra civil. Por outro lado, a revolta está envolvida interna e externamente com a função policial, que parece um bloqueio a qualquer absolutização desse tipo. Essa contradição oferece algumas maneiras de pensar sobre as revoltas, rebeliões e levantes dos anos desde o colapso do mercado global em 2008 — os detalhes históricos que elas incorporam, os fracassos que carregam, o futuro que sugerem.</p>
<p style="text-align: justify;">Na falta de pesquisas abrangentes, teremos que nos contentar com modelos. Dois exemplos serão particularmente sugestivos ao considerar a situação atual da <em>revolta linha</em> no mundo superdesenvolvido. Duas paisagens, então: a praça e a rua. Assim como o porto e a fábrica eram os locais de revoltas e greves, respectivamente, esses são os locais naturais da <em>revolta linha</em>. São locais de circulação, de circulação de corpos e mercadorias. Eles valorizam a lógica das lutas de circulação e mostram o desenvolvimento histórico incompleto dessa dinâmica. Um cenário é a série de ocupações de praças de 2011 conhecida como Occupy, a versão americana do movimento internacional das praças. A outra é a onda de revoltas de 2014, primeiro locais e depois nacionais, que se seguiram, respectivamente, ao assassinato de Michael Brown em Ferguson, Missouri, e à decisão de não indiciar seu assassino, o policial Darren Wilson. Quando essas revoltas escapam do subúrbio, eles se espalham por vinte cidades, incluindo cada uma das cidades mencionadas na passagem de <em>The Spook Who Sat by the Door</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Por exemplo, o Instituto Minerva, financiado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Ver “História e visão geral do programa”, minerva.dtic.mil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> William Godwin, <em>Enquiry Concerning Political Justice and its Influence on Morals and Happiness</em>, vol. I, Londres: G.G.J.and J. Robinson, 1793, 208.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Comitê Invisível, <em>Coming Insurrection,</em> 12 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Sam Greenlee, <em>The Spook Who Sat by the Door</em>, Detroit: Wayne State University Press, 1969, 236.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Gilmore, <em>Golden Gulag</em>, 54.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Marx, <em>O Capital</em>, vol. 1, 783.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Jan Breman, <em>Outcast Labour in Asia: Circulation and the Informalization of the Workforce at the Bottom of the Economy</em>, Nova Délhi: Oxford India Press, 2010, 24. Para outra abordagem sistemática da população excedente, ver Aaron Benanav, <em>A Global History of Unemployment since 1949</em>, Londres: Verso, no prelo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Gilles Deleuze, “Postscript on the Societies of Control,” <em>October </em>59, inverno de 1992, 6-7.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Sahan Savas Karatasli, Sefika Kumal, Ben Scully e Smriti Upadhyay, “Class, Crisis, and the 2011 Protest Wave: Cyclical and Secular Trends in Global Labor Unrest” (Classe, crise e a onda de protestos de 2011: tendências cíclicas e seculares na agitação trabalhista global), em <em>Overcoming Global Inequities</em>, eds. Immanuel Wallerstein, Christopher Chase-Dunn e Christian Suter, Londres: Paradigm Publishers, 2015, 192.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Breman, <em>Outcast Labour</em>, 366.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Para uma avaliação completa do aumento da população excedente e da informalização, ver Ibid., 361-8; e Jacques Charmes, “The Informal Economy Worldwide: Trends and Characteristics,”<em> Margin: The Journal of Applied Economic Research</em> 6: 2, 2012, 103-32.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Aaron Benanav, “Precarity Rising”, <em>Viewpoint Magazine</em>, 15 de junho de 2015.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Gilles Dauvé, <em>Eclipse and Re-emergence of the Communist Movement</em>, Oakland: PM Press, 2015, 47.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Thomas Mitschein, Henrique Miranda e Mariceli Paraense, Urbanização, selvagem e proletarização passiva na Amazônia: o caso de Belém, Belém, 1989, citado em Mike Davis, <em>Planet of the Slums</em>, Londres: Verso, 2006, 175.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Stuart Hall et al., <em>Policing the Crisis: Mugging, the State, and Law and Order</em>, Londres: Macmillan, 1978, 394. Embora a fonte citada seja de autoria coletiva, essa formulação é geralmente atribuída a Hall, em parte porque aparece em obras posteriores de autoria única sob seu nome.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Robert W. Fairlie e William A. Sundstrom, “The Racial Unemployment Gap in Long-Run Perspective,” <em>The American Economic Review</em>, 87: 2, maio de 1997, 307, 309. Observe que a maioria dos dados deste estudo se refere ao emprego masculino.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Gilmore, <em>Golden Gulag</em>, 26-7.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ibid., 15, 113.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Frantz Fanon, <em>The Wretched of the Earth</em>, Nova York: Grove Atlantic Press, 2005, 207, 81.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Newton, <em>Newton Reader</em>, 135, 149.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Fanon, <em>Wretched</em>, 3.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Ranajit Guha, “The Prose of Counter-Insurgency”, em <em>Selected Subaltern Studies</em>, eds. Ranajit Guha e Gayatri ChakravortySpivak, Oxford: Oxford University Press, 1988, 46.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Alain Badiou, <em>Théorie de la contradiction</em>, Paris: Librairie François Maspero, 1972, 72. Traduzido por Eleanor Kaufman em “The Desire Called Mao: Badiou and the Legacy of Libidinal Economy”, <em>Postmodern Culture</em> 18: 1, setembro de 2007.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos, <em>The Challenge of Slums: Global Reports on Human Settlements</em>, 2003, Londres: Routledge, 2003, 40.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Gilmore, <em>Golden Gulag</em>, 28.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> Chen, “Limit Point”, 205.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[27]</strong> Hall et al., <em>Crisis</em>, 347 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[28]</strong> Nina Power, “Thirty-One Theses on the Problem of the Public”, <em>Objective Considerations of Contemporary Phenomena</em>, MOTINTERNATIONAL, 2014.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[29]</strong> “A Rising Tide Lifts All Boats”, <em>Endnotes</em> 3, 2013, 98.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[30]</strong> Susan Buck-Morss, “Hegel and Haiti”, <em>Critical Inquiry</em> 26: 4, verão de 2000, 821-65.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[31]</strong> Fanon, <em>Wretched</em>, 1.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são de Gordon Parks (1912–2006)</em></p>
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<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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