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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A Gramática sem Dono &#8211; Parte II</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2026 17:42:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[A gramática de classe não exige aparatos burocráticos, exige enraizamento no chão do bairro, da fábrica, do escritório, precisamente o chão que a esquerda evacuou.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Phintener</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>O sintoma tomado como explicação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A Parte I desta série demonstrou a emergência de uma gramática totalitária que atravessa o bolsonarismo e atinge, por homologia formal, as vertentes identitárias que se pretendem sua antítese. Resta enfrentar a questão central: por que o trabalhador precarizado adere à gramática que o subjuga? Recorrer aos clichês da “alienação” ou do “pobre de direita” é apenas a recusa da esquerda em olhar para a própria omissão. Esta Parte II toma a reação do eleitorado periférico não como um desvio moral, mas como um fato social a ser explicado.</p>
<p style="text-align: justify;">A análise cruza três fontes de dados: os registros eleitorais por zona do TSE (2024), os microdados de mobilidade da Pesquisa Origem-Destino (2023) e os setores censitários do Censo 2022. A cartografia que emerge desse mapeamento desmorona as ficções confortáveis da esquerda de Estado sobre o território que julgava dominar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>I. A disputa — três candidatos, 57 zonas, nenhuma vitória fácil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A eleição municipal de São Paulo em 2024 produziu, no primeiro turno, um resultado que contrariou as expectativas de todos os campos. Ricardo Nunes (MDB), Guilherme Boulos (PSOL) e Pablo Marçal (PRTB) chegaram ao resultado final separados por menos de dois pontos percentuais entre si — uma diferença estatisticamente estreita para uma cidade com mais de seis milhões de eleitores.</p>
<figure id="attachment_159575" aria-describedby="caption-attachment-159575" style="width: 346px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-159575 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1.png" alt="" width="346" height="176" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1.png 346w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1-300x153.png 300w" sizes="(max-width: 346px) 100vw, 346px" /><figcaption id="caption-attachment-159575" class="wp-caption-text">Gráfico 1 — Participação dos três principais candidatos no total de votos válidos (1º turno). Fonte: TSE, Votação nominal por município e zona, 2024.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O equilíbrio agregado, no entanto, oculta uma geografia interna profundamente assimétrica. Das 57 zonas eleitorais da capital, Boulos e Marçal venceram 20 cada; Nunes venceu apenas 17 — apesar de ter obtido a maior votação nominal total. A distribuição territorial, e não os números brutos, é onde o argumento da Parte II começa.</p>
<figure id="attachment_159576" aria-describedby="caption-attachment-159576" style="width: 265px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-159576 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem2.png" alt="" width="265" height="180" /><figcaption id="caption-attachment-159576" class="wp-caption-text">Gráfico 2 — Zonas eleitorais vencidas por cada candidato. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong> II. O paradoxo da Zona Leste: espoliação material e captura gramatical</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que os totais agregados, é a cartografia do voto de Marçal que revela o nó analítico deste trabalho. Das 20 zonas eleitorais que conquistou, a esmagadora maioria concentra-se na Zona Leste histórica: Vila Formosa, Vila Matilde, Tatuapé, Sapopemba, Penha de França, Cangaíba, São Miguel Paulista, Itaquera, Ermelino Matarazzo e Vila Prudente. Falamos do tradicional cinturão produtivo paulistano — uma geografia ligada por contiguidade física e social ao ABC Paulista, matriz do sindicalismo combativo que gestou o PT e a CUT entre o fim dos anos 1970 e o início dos 1980. Com uma média de 31,2% de votos no quadrante leste — superando seu índice geral na capital —, a campanha de Marçal penetrou na medula desse território de trabalhadores. A escolha da Zona Leste como laboratório analítico central justifica-se precisamente por isso: ela condensa em estado puro o curto-circuito em tela — o mesmo tecido operário que Kowarick (1994) consagrou como epicentro das lutas urbanas da metrópole agora sob o domínio da teologia do empreendedor individual.</p>
<figure id="attachment_159577" aria-describedby="caption-attachment-159577" style="width: 398px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-159577 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3.png" alt="" width="398" height="229" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3.png 398w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3-300x173.png 300w" sizes="(max-width: 398px) 100vw, 398px" /><figcaption id="caption-attachment-159577" class="wp-caption-text">Gráfico 3 — Percentual médio de votos em Marçal por perfil territorial. A Zona Leste e a Zona Norte apresentam os maiores índices. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O Censo 2022 permite dimensionar o peso demográfico desse território. A Zona Leste concentra 3,57 milhões de habitantes — o segundo maior contingente entre as regiões da cidade, atrás apenas da Zona Sul — e registra a maior média de moradores por domicílio: 2,42 pessoas, contra 1,75 no Centro Expandido e 1,90 na Zona Oeste. Famílias maiores em domicílios menores, com renda familiar mediana de R$ 4.600 mensais: é a combinação que amplifica o impacto de qualquer confisco do rendimento real — cada real a menos no salário divide-se por 2,42 pessoas.</p>
<figure id="attachment_159578" aria-describedby="caption-attachment-159578" style="width: 420px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159578" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4.png" alt="" width="420" height="203" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4.png 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4-300x145.png 300w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /><figcaption id="caption-attachment-159578" class="wp-caption-text">Gráfico 4 — Perfil territorial de São Paulo: população e moradores por domicílio por região. Fonte: Censo IBGE 2022. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A Pesquisa Origem-Destino do Metrô de São Paulo (2023) confirma e detalha esse quadro. Com renda familiar mediana de apenas 3,5 salários mínimos por família, a Zona Leste fica muito abaixo da Zona Oeste (R$ 9.433) e do Centro Expandido (R$ 7.646) — e 42,7% de seus domicílios vivem com menos de R$ 4.000 mensais. Para uma família mediana de 2,42 pessoas, o valor per capita é de R$ 1.901 — um rendimento de subsistência frente ao estrangulamento do custo de vida paulistano. O dado mais revelador não reside nas médias agregadas por região, mas no estrangulamento por faixa de renda: trabalhadores com renda per capita de até 1 salário mínimo despendem em média de 85 a 88 minutos por deslocamento, contra 61 minutos gastos por aqueles posicionados acima de 3 salários mínimos — uma assimetria do tempo de 40%. A distância percorrida expõe a mesma fratura territorial: são 17,1 km de percurso para a fração de menor rendimento contra 10,1 km para as faixas de maior renda, uma disparidade de 70%. Na Zona Leste, essa desigualdade materializa-se no fato de que mais de 83% das viagens de trabalho dependem exclusivamente do transporte coletivo, sem qualquer flexibilidade modal. A dependência estrita do ônibus não é apenas uma métrica de tempo — é a expressão territorial da ausência de margem: não há automóvel próprio, não há orçamento para transporte por aplicativo, tampouco folga na renda que autorize outra escolha.</p>
<figure id="attachment_159579" aria-describedby="caption-attachment-159579" style="width: 403px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159579" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5.png" alt="" width="403" height="187" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5.png 403w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5-300x139.png 300w" sizes="auto, (max-width: 403px) 100vw, 403px" /><figcaption id="caption-attachment-159579" class="wp-caption-text">Gráfico 5 — Tempo e distância de deslocamento ao trabalho por faixa de renda per capita. Trabalhadores com renda de até 1 SM percorrem trajetos 70% mais longos e despendem 40% mais tempo do que trabalhadores com renda acima de 3 SM. Fonte: Pesquisa Origem-Destino Metrô SP 2023. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O gráfico abaixo sintetiza as quatro dimensões do território cruzadas nesta análise: população, renda, voto em Marçal e composição domiciliar. O padrão é inequívoco — as regiões de maior votação em Marçal são exatamente as de menor renda e maior densidade familiar.</p>
<figure id="attachment_159580" aria-describedby="caption-attachment-159580" style="width: 420px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159580 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6.png" alt="" width="420" height="315" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6.png 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-300x225.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-100x75.png 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-180x135.png 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-238x178.png 238w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /><figcaption id="caption-attachment-159580" class="wp-caption-text">Gráfico 6 — Síntese: quatro dimensões do território e do voto por região (renda: mediana familiar). Fontes: Censo IBGE 2022, Pesquisa OD Metrô SP 2023 e TSE 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Os dados da RAIS 2024 esmiúçam a natureza do vínculo de trabalho que serviu de alicerce histórico à região. Na capital paulista, o setor industrial lidera o índice de formalização com 95,3% de empregos celetistas. Contudo, essa cobertura contratual traduz-se em um salário mediano de escassos R$ 2.950 (2,09 salários mínimos), sendo que 48,3% dos operários não atingem a faixa de 2 mínimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Estrutura análoga verifica-se no setor de transportes, engrenagem vital da Zona Leste: com 94,4% de vínculos formais sob a CLT, o setor registra remuneração mediana de R$ 3.350 (2,37 SM), acumulando 41,4% de seus profissionais situados abaixo de 2 salários mínimos. O quadro expõe o drama do trabalhador de carteira assinada cuja remuneração sequer cobre os custos de reprodução da sua própria força de trabalho frente ao encarecimento da habitação e da mobilidade metropolitana. Longe de mitigar a espoliação material, a formalidade do contrato apenas a quantifica com precisão matemática no contracheque<strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente nesse chão material que a gramática do coaching encontra seu solo mais fértil. Sob a lógica da economia narrativa, prevalecem as linguagens capazes de oferecer a estrutura mais eficaz para processar as angústias da experiência vivida. O coach entrega ao trabalhador da Zona Leste a arquitetura clássica da gramática autoritária: o arco de decadência e redenção, a identificação nítida do inimigo (o &#8216;sistema&#8217;, o Estado, a burocracia), a promessa de um protagonismo individual imediato e a completa dispensa de mediações corporativas. Trata-se de uma sintaxe que opera abaixo da consciência reflexiva do sujeito — não é necessário dominar suas regras formais para reproduzi-la no cotidiano da sobrevivência.</p>
<figure id="attachment_159581" aria-describedby="caption-attachment-159581" style="width: 340px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159581" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7.png" alt="" width="340" height="191" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7.png 340w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7-300x169.png 300w" sizes="auto, (max-width: 340px) 100vw, 340px" /><figcaption id="caption-attachment-159581" class="wp-caption-text">Gráfico 7 — Top 10 zonas de Marçal: comparativo com Boulos e Nunes. Destacam-se as zonas da Zona Leste histórica. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>III. Do chão batido aos gabinetes: a retração da esquerda ao Centro e a tutela na periferia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A distribuição territorial do eleitorado de Guilherme Boulos projeta o espelho inverso daquilo que a narrativa progressista tradicional esperava. O candidato do PSOL não fincou suas maiores estacas na Zona Leste histórica, mas em dois polos sociologicamente antagônicos: o Centro Expandido (Pinheiros, Vila Mariana, Perdizes, Bela Vista) e a franja periférica de formação mais recente (Capão Redondo, Guaianases, Cidade Tiradentes, São Mateus e Campo Limpo).</p>
<figure id="attachment_159582" aria-describedby="caption-attachment-159582" style="width: 323px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159582" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8.png" alt="" width="323" height="186" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8.png 323w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8-300x173.png 300w" sizes="auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px" /><figcaption id="caption-attachment-159582" class="wp-caption-text">Gráfico 8 — Percentual médio de votos em Boulos por perfil territorial. Desempenho mais forte no Centro Expandido e na periferia distante. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Essa periferia distante — onde Boulos registrou seu melhor desempenho popular — caracteriza-se pela urbanização recente, pela baixa densidade de postos de trabalho e pela ausência de uma tradição fabril territorializada. <strong>[2]</strong> Ocorre que esse isolamento não constitui um mero detalhe geográfico, mas o resultado direto da metamorfose da esquerda combativa em esquerda de Estado: encerradas no formalismo corporativo dos setores organizados, as estruturas sindicais deram as costas aos trabalhadores informais, enquanto os quadros partidários de esquerda, convertidos em técnicos e gestores do Estado, desativaram a presença no território por considerarem a mobilização popular incompatível com a sua nova função de administradores da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante desse duplo deslocamento — corporativo e partidário —, a presença da esquerda nesses territórios deu-se quase exclusivamente pela via das lutas por moradia, das redes de solidariedade comunitária e da cobertura da assistência social, e não pelo enfrentamento direto do conflito entre patrão e trabalhador no local de produção ou de moradia. Nesses bairros, portanto, a atuação da esquerda governista estruturou-se na chave da tutela institucional, substituindo a solidariedade autônoma de classe pela intermediação burocrática junto às próprias instâncias do aparato público. Em contrapartida, a força de Boulos no Centro Expandido — cujo ápice registrou-se na Bela Vista, com 43,65% dos votos válidos — revela que seu núcleo eleitoral mais denso advém das zonas de alta renda e elevada escolaridade. Trata-se da geografia de reprodução das novas elites intelectuais e tecnocráticas, onde o discurso identitário e a pauta da gestão progressista da cidade encontram ressonância imediata — operando em um plano abstrato, blindado das agruras materiais e do confisco do tempo que martirizam o cotidiano do trabalhador no trecho metropolitano.</p>
<figure id="attachment_159583" aria-describedby="caption-attachment-159583" style="width: 292px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159583" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9.png" alt="" width="292" height="222" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9.png 292w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9-100x75.png 100w" sizes="auto, (max-width: 292px) 100vw, 292px" /><figcaption id="caption-attachment-159583" class="wp-caption-text">Gráfico 9 — Dispersão por zona eleitoral: Marçal × Boulos. Zonas acima da linha diagonal = Boulos à frente; abaixo = Marçal à frente. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>IV. O voto como escolha gramatical racional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A reação habitual da esquerda a estes números insiste no diagnóstico que a Parte I caracterizou como sintoma: o recurso preguiçoso à ideia de que o trabalhador periférico &#8216;não sabe votar&#8217; ou é refém de &#8216;alienação&#8217;. Trata-se de uma manobra típica da moralidade identitária — transmutar o estrangulamento material do sujeito em defeito de sua consciência. Se Faye explica a circulação da gramática do coaching, falta decifrar por que a linguagem de classe atrofiou. A gramática totalitária reproduz-se sem necessidade de regência central: ganha escala porque cada indivíduo, ao utilizá-la, a ratifica no espaço social. O inverso é verdadeiro: a gramática de classe não exige aparatos burocráticos para pulsar — exige enraizamento no chão do bairro, da fábrica, do escritório – das relações sociais de trabalho. E foi precisamente esse chão que a esquerda evacuou.</p>
<p style="text-align: justify;">O nó do problema é claro: a gramática totalitária não triunfou por superioridade teórica na Zona Leste, mas por ter herdado o vazio deixado pela retirada das lutas sociais. O operário da Vila Matilde não se tornou um convertido; ficou desprovido de linguagem de classe. Esse deserto gramatical constitui o desfecho inescapável do acoplamento do sindicalismo e dos partidos de esquerda às engrenagens do Estado Amplo. Trata-se de um longo processo de assimilação no qual os órgãos de combate, ao se converterem em burocracias, abandonaram a organização autônoma do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a entidade sindical assume o controle de fundos de investimento, o trabalhador que a rejeita não está alienado: está formulando um diagnóstico lúcido sobre uma estrutura que se virou contra ele. O problema é que essa recusa justa é tragada por uma narrativa que perpetua a sua espoliação.</p>
<p style="text-align: justify;">A derrocada do sindicalismo tradicional não gerou um vácuo inerte, mas uma zona gramatical desprotegida. A gramática totalitária — leve, descentralizada e viral — move-se com desenvoltura nesses espaços abandonados. O coach não derrotou a burocracia sindical na arena das ideias; simplesmente ocupou o espaço que esta desocupou ao se metamorfosear em capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador que reage contra esse ecossistema exerce uma leitura precisa da sua estagnação — ainda que o seu voto acabe prisioneiro de uma gramática autoritária. O rótulo de &#8216;pobre de direita&#8217; serve apenas para blindar a esquerda governista de sua própria falência territorial, recusando-se a enxergar a razão material do protesto. Com isso, cumpre-se rigorosamente a máxima de Faye: quando a linguagem de libertação deixa de habitar o cotidiano, a gramática totalitária não precisa vencer o debate de ideias — basta-lhe a posse do terreno vago.</p>
<p style="text-align: justify;">A narrativa do coach-empreendedor converteu-se na única gramática de agência que o sistema manteve aberta para quem vive sob o confisco do rendimento real, a expulsão do mercado formal e a desregulamentação absoluta. Diante do cinismo das linguagens institucionais herdeiras do iluminismo gerencial, a teologia do empreendedorismo de si performa uma falsa liberdade — mas entrega o único simulacro de protagonismo disponível no ecossistema criado pela própria gramática totalitária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>V. A acusação moral como escudo da burocracia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O insulto revela a estrutura. Ao rotular o espoliado periférico de “alienado” ou “pobre de direita”, a esquerda identitária reproduz o exato dispositivo que a Parte I identificou como marca do pós-fascismo: a essencialização do sujeito, a substituição da análise materialista pelo veredicto moral, a recusa da mediação em favor da condenação. O que torna esse dispositivo particularmente revelador é que ele opera nos dois polos do campo de esquerda — e de formas simétricas. A esquerda governista, assimilada pelo Estado Amplo, converte a crítica de classe em gestão identitária de conflitos: administra as diferenças sem tocar nas relações de exploração que as produzem. A extrema-esquerda, encastelada em sua pureza doutrinária, recusa o contato com a classe real porque a classe real não corresponde ao sujeito histórico que seus textos prescrevem. Ambas produzem o mesmo resultado prático: o terreno vago. Uma o produz por integração ao capital; a outra, por horror ao chão.</p>
<p style="text-align: justify;">Reed Jr. e Michaels dissecaram o mecanismo nos Estados Unidos: a centralidade identitária desloca o conflito de classe para um terreno perfeitamente palatável às elites corporativas. No caso brasileiro, o deslocamento tem uma especificidade: foi operado em parte pelas mesmas estruturas que deveriam ser seu antídoto. A burocracia sindical que gere fundos de pensão e senta em conselhos de administração não apenas deixou de representar o trabalhador — tornou-se parte do sistema que o explora. O rótulo de “pobre de direita” é a última linha de defesa dessa burocracia: enquanto o trabalhador da Zona Leste for visto como problema cognitivo, não será necessário enfrentar a ruptura estrutural que a própria esquerda produziu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VI. A gramática e o território</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A eleição de 2024 em São Paulo traduz no território o que a análise teórica demonstrou no plano discursivo: a gramática totalitária encontrou no antigo cinturão operário o seu solo mais fértil precisamente porque as instâncias de mediação de classe se retiraram do chão da fábrica e do bairro.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a evidência empírica confirma não é uma mera correlação estatística entre espoliação e voto — isso qualquer regressão linear produziria. O que os dados escancaram é um paradoxo histórico: a Zona Leste, berço da maior densidade de organização trabalhadora desta metrópole, tornou-se o epicentro de adesão a uma narrativa que dissolve a consciência de classe no empreendedorismo de si. Não se trata de coincidência, mas de causalidade funcional: a gramática totalitária não penetrou apesar da tradição operária, mas através da casca em que essa tradição se converteu ao integrar-se às funções gerenciais do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O contradiscurso possível não virá da tutela moral de uma burocracia partidária. Virá da reconstrução de uma linguagem enraizada no chão da vida cotidiana — no tempo espoliado no transporte, na conta que não fecha, no rendimento real confiscado pela metrópole. Somente uma gramática que coloque a exploração material no centro, oferecendo pertencimento sem exigir submissão à etiqueta gerencial, poderá romper os labirintos digitais do capital. A disputa decisiva não é pela conversão moral do indivíduo, mas pela posse das palavras que dão sentido à dor do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">E aqui está o verdadeiro paradoxo que os dados revelam: a Zona Leste não foi capturada pela gramática do coach apesar de ter sido o berço do sindicalismo combativo. Foi capturada por causa do que esse sindicalismo se tornou. O fascismo pós-fascista não precisou vencer a tradição operária da Vila Matilde — bastou-lhe aguardar que ela se desintegrasse por dentro. O triunfo da gramática totalitária no antigo cinturão operário de São Paulo não é uma vitória ideológica: é o resultado de uma vacância. Enquanto essa vacância não for preenchida por uma gramática que nomeie a exploração com a precisão com que os dados a revelam, o ônibus das cinco da manhã continuará sendo o veículo em que a gramática sem dono faz seus recrutamentos. Até quando os gabinetes continuarão culpando os trabalhadores pelo deserto que eles próprios produziram?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Nota metodológica: Os dados setoriais da RAIS referem-se ao município de São Paulo como um todo. O geocruzamento RAIS × distrito — que estabelece a densidade de postos de trabalho por unidade territorial e sua correlação com o resultado eleitoral por zona.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A assimetria entre distritos-polo e distritos-dormitório constitui o dado estrutural que ancora empiricamente o argumento desta seção. Enquanto Itaim Bibi registra densidade de emprego formal equivalente a 420% de sua PEA residente — absorvendo, portanto, força de trabalho de outros territórios —, Itaim Paulista e Cidade Tiradentes, distritos nucleares da Zona Leste, operam com densidades de 15% e 16%, respectivamente. O trabalhador residente nesses distritos não apenas recebe menos: trabalha em outro território, percorrendo diariamente a distância entre o dormitório periférico e o polo atrator, o que explica de forma estrutural, e não apenas estatística, os 83% de dependência exclusiva do transporte coletivo registrados pela OD 2023.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">BERNARDO, João. Capital, gestores, sindicato. São Paulo: Vértice, 1987.<br />
BERNARDO, João. Labirintos do Fascismo. Porto: Afrontamento, 2015.<br />
BERNARDO, João. Do sindicalismo de negócios ao negócio sindical. Passa Palavra, 3 jul. 2019. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/07/127156" href="https://passapalavra.info/2019/07/127156" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2019/07/127156</a>.<br />
BERNARDO, João; PEREIRA, Luciano. Capitalismo Sindical. São Paulo: Xamã, 2008.<br />
COMPANHIA DO METROPOLITANO DE SÃO PAULO. Pesquisa Origem e Destino 2023. São Paulo: Metrô, 2025.<br />
FAYE, Jean-Pierre. Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative. Paris: Hermann, 1972.<br />
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2022: Agregados por Setores Censitários. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.<br />
KOWARICK, Lúcio (org.). As lutas sociais e a cidade: São Paulo, passado e presente. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1994.<br />
REED JR., Adolph; MICHAELS, Walter Benn. No Politics but Class Politics. Londres: ERIS, 2023.<br />
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Votação nominal por município e zona — Eleições 2024. Disponível em: &lt;<a class="urlextern" title="https://dadosabertos.tse.jus.br" href="https://dadosabertos.tse.jus.br" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://dadosabertos.tse.jus.br</a>&gt;. Acesso em: jul. 2026.</p>
<p style="text-align: center;"><em>A obra que ilustra o artigo é da autoria de Paulo Ito (1978-).</em></p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (8)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Aug 2026 11:17:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[ É difícil enfatizar a importância do esforço para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.  Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Este livro foi publicado originalmente em inglês pela editora Verso (2016). Esta é uma tradução coletiva feita por alguns camaradas no âmbito de um grupo de estudos. A revisão da tradução é do Passa Palavra.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">CAPÍTULO 6</h3>
<h3 style="text-align: justify;">Fios cruzados, Ou da Greve para a Revolta</h3>
<p style="text-align: justify;">Em 1963, a revista socialista <em>Monthly Review</em> dedicou uma edição dupla a um trabalhador da indústria automobilística de Detroit: uma descrição precisa que ressalta a qualidade comum da trajetória de James Boggs, inseparável de sua vida notável. Em 1937, seguindo o caminho da primeira Grande Migração de negros americanos do sul rural para o norte e o meio-oeste industrial, Boggs mudou-se do Alabama para Detroit, onde viveria o resto de sua vida. Ele acabaria se casando com Grace Lee, a terceira líder e teórica da Tendência Johnson-Forrest, juntamente com C. L. R. James e Raya Dunayevskaya. A tendência teve origem no Partido dos Trabalhadores e no Partido Socialista dos Trabalhadores, dois grupos trotskistas; ela preservava uma perspectiva obreirista e dava atenção especial às greves selvagens militantes entre mineiros e trabalhadores automotivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Dado esse conjunto de circunstâncias, afiliações e compromissos, o breve prefácio de Boggs para seu livro <em>The American Revolution: Pages From a Negro Worker&#8217;s Notebook</em> (<em>A Revolução Americana: Páginas do Caderno de um Trabalhador Negro</em>) é surpreendente. Ele conclui:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sou um operário de fábrica, mas sei mais do que apenas o trabalho na fábrica. Sei a diferença entre o que soaria certo se vivêssemos em uma sociedade de pessoas lógicas e o que é certo quando se vive em uma sociedade de pessoas reais com diferenças reais. Pode parecer perfeitamente natural para uma pessoa altamente educada e lógica, mesmo quando ouve as pessoas dizerem que haverá uma grande revolta, supor que não haverá uma grande revolta porque as autoridades têm tudo sob controle. Mas se eu continuasse ouvindo as pessoas dizerem que haveria uma grande revolta e visse uma dessas pessoas lógicas parada no meio, <em>eu </em>diria a ela que era melhor sair do caminho, porque com certeza seria morta.</p>
<p style="text-align: justify;">Reformas e revoluções são criadas pelas ações ilógicas das pessoas. Muito poucas pessoas lógicas fazem reformas e nenhuma faz revoluções. Direitos são o que você faz e o que você toma <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">É uma passagem curiosa, e não apenas por seu gesto final do que poderíamos chamar de <em>instrumental irracionalidade</em>. Por um lado, é um pouco opaca; o surgimento repentino da revolta é, no mínimo, sem motivo, ou desorientadoramente presciente. 1963 é quatro anos antes da Grande Rebelião de Detroit, na época a revolta de maior escala na história nacional. E é um ano antes das rebeliões no Harlem e em outros lugares inaugurarem o período em que a “revolta racial” ascende como uma característica central do cenário político dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, o raciocínio que permeia a passagem é familiar, se você já passou alguns momentos com a história implícita do debate. Ele associa tacitamente a organização operária à “lógica”, a um tipo de ordem que não pode deixar de refletir a racionalidade congelada da linha de montagem da fábrica. A revolta vem acompanhada de desordem, ilógica, o espaço social ambiente do boato. Não menos significativo, o texto recupera a superação da política prescritiva por Luxemburg. Sua distinção entre “o que soaria certo se vivêssemos em uma sociedade de pessoas lógicas” e “o real” do que realmente acontece em determinadas condições sociais é uma versão da oposição de Luxemburg entre o politicamente “desejável” e o “historicamente inevitável”.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada um deles encontra a particularidade de seu momento, de sua abertura, incerteza, possibilidade. Os anos 1960 dão origem a uma situação única de revoltas e greves, que se concentra principalmente em Detroit. A situação lá tem duas características distintas. Uma é a racialização da revolta, ou melhor, a relação entre revolta e racialização. Esse é o tema de um capítulo posterior. A outra, que difícilmente pode ser dissociável da questão racial, é a proximidade entre as duas formas de ação coletiva — sua coexistência, adjacência, confronto. Esse é um enigma revelador da década, um emaranhado que, à medida que se desenvolve e se esclarece, começa a revelar como a revolta não apenas expressará, mas explicará seu momento histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">As associações mais reveladoras e preditivas entre revolta e greve são aquelas com determinadas condições político-econômicas que orientam o capital como um todo e mudam ao longo do tempo, permitindo que as formas de ação mudem em seu significado e seu poder. Essa indexação não é absoluta; as condições político-econômicas não são absolutamente determinantes. Em vez disso, elas sugerem possibilidades e limites. O campo da disputa social é mantido em tensão, por um lado, pela capacidade dos seres humanos de “fazer sua própria história” e, por outro, pelas “circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas do passado”. É por causa da tensão entre essas forças, entre agência e determinação, que encontramos múltiplas formas de ação coletiva dentro de uma determinada conjuntura. Ao mesmo tempo, como um determinado conjunto de condições se inclina para um lado e não para outro, uma das formas de ação tenderá a se tornar a tática dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">Em períodos de transformação sistêmica, haverá necessariamente mudanças nas táticas dominantes e competições entre táticas, à medida que diferentes frações da sociedade, posicionadas de maneira diferente, empreendem lutas emancipatórias. Os anos 1960 e 1970 nos Estados Unidos oferecem um estudo extraordinário desse fenômeno de transformação, equivalente ao que vimos no início do século XIX na Grã-Bretanha — embora aqui o vento da mudança sopre na direção oposta, da fábrica de volta para o porto, o mercado, a praça pública. Apesar de todas as diferenças manifestas, há ressonâncias da destruição de máquinas do século XIX, à medida que mudanças radicais na produção social se manifestam como indecisão e transformação dentro do repertório de táticas. Com a greve agora uma tática distinta e popular, o retorno da revolta aparece a princípio como um esforço estranho e heróico de unir as duas formas de ação em um processo revolucionário no qual a luta operária e a revolta parecem duas frentes de um único antagonismo. “Sou um operário de fábrica, mas sei mais do que apenas o trabalho na fábrica”, diz Boggs; poderia ser a década falando. A luta e a invenção incessantes da década, em grande parte centradas entre a população negra que suportava o peso inicial da desindustrialização, só são possíveis dentro de uma janela muito estreita. É um esforço perseguido de lado, desesperadamente, talvez às escondidas da consciência, e que, em última análise, é incapaz de se realizar.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159561 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1.jpg" alt="Revolta, greve, revolta" width="734" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1.jpg 734w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-514x420.jpg 514w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-640x523.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-681x557.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 734px) 100vw, 734px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;"><em>Luta e Lucro</em></h3>
<p style="text-align: justify;">A greve sobrevive como tática principal no ocidente industrializado ao longo dos anos 1960. Tal como Engels sugeriu, está ligada à expansão económica. Ao longo do século XX, a greve não acompanha a catástrofe econômica, mas sim o crescimento, um fato que não é menos verdadeiro nos anos 1930 da Depressão e da Frente Popular do que durante o boom do pós-guerra, como observou o sociólogo Roberto Franzosi:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Pesquisas quantitativas mostraram, sem sombra de dúvida, em diferentes contextos institucionais (períodos de amostragem e países), que a frequência das greves acompanha o ciclo econômico e, em particular, o movimento do desemprego — quanto maior o nível de desemprego, menor o nível de greves <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar da clareza dessa correlação, a associação tradicional da greve com o baixo desemprego faz parte de uma dinâmica mais ampla de acumulação sistêmica e industrialização em expansão, inexoravelmente ligada a altas taxas de lucro. A acumulação, deve-se observar, não é um processo fluido e sem complicações, mesmo quando vista à distância. O longo metaciclo do capital produtivo no Ocidente, de cerca de 1830 a 1973, é repleto de volatilidade, crises, recessões e uma transferência entre potências hegemônicas. No entanto, dentro desse cenário histórico variado, a correlação entre greves, mercados de trabalho tensos, expansão industrial e altas taxas de lucro é impressionante; a causalidade é logicamente necessária. Ela se baseia nas dificuldades relativas em substituir a mão de obra, na relutância do capital em interromper atividades altamente lucrativas, na capacidade do Estado de comprar a paz interna com salários sociais e na capacidade da força de trabalho de aumentar sua posição e seu poder de compra, na medida em que há excedente social a ser apropriado.</p>
<p style="text-align: justify;">Os anos 1960, nesse aspecto, são um período incomum. As taxas de lucro permanecem historicamente altas. O crescimento real do PIB mundial na década é superior a 5%, mais de um ponto percentual acima das décadas anteriores e posteriores, impulsionado pela Anglosfera e pelo norte da Europa, com o Japão crescendo ainda mais rapidamente em sua recuperação acelerada. As taxas de lucro líquido da indústria nos EUA apresentam picos iguais e médias superiores a qualquer outro período de expansão <strong>[3]</strong>. Consequentemente, o “desaparecimento das greves” no norte da Europa, no Reino Unido, nos EUA e no Canadá, previsto por alguns economistas — apostando que, dentro de um “movimento trabalhista maduro… os membros não estão tão predispostos a greves como antes” — não se concretizou <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, começa a aparecer a fraqueza macroeconômica, com a expansão desacelerando à medida que os lucros acumulados buscam, cada vez mais em vão, uma saída produtiva, iniciando “a crise sinalizadora do regime de acumulação dos EUA no final da década de 1960 e início da década de 1970” <strong>[5]</strong>. As tentativas correspondentes de aumentar o poder de compra não levam à renovação da produção, mas à inflação e à fuga de capitais, no caminho para a crise de 1973 que sinalizaria o declínio do ciclo de acumulação liderado pelos EUA. Brenner acompanha o declínio do setor industrial dos EUA, e da manufatura em geral, diante da concorrência internacional, um fenômeno do qual as montadoras são, como sempre, os principais exemplos. O efeito desse declínio, “especialmente dada a enorme fração do total das economias capitalistas avançadas representada pela produção dos EUA, foi uma grande queda na lucratividade agregada das economias capitalistas avançadas, localizadas principalmente na manufatura, nos anos entre 1965 e 1973” <strong>[6]</strong>. O fato de a desaceleração global ter sua base no motor industrial dos EUA sugere que pode ser possível generalizar, pelo menos de forma limitada, a partir da experiência dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma economia paradoxal, com alta produtividade ofuscada pela desindustrialização incipiente. As greves persistem: no Reino Unido, a década de 1960 veria um aumento notável tanto nas paralisações quanto no total de dias de trabalho perdidos. Nos Estados Unidos, as greves experimentariam um surto no outono, começando por volta de 1964 e durando até os anos 1970 — não se sabia que esse seria o último brilho dourado antes do inverno chegar para o movimento operário no coração do sistema capitalista mundial <strong>[7]</strong>. Ao mesmo tempo, há uma visibilidade rapidamente crescente de revoltas em todas as escalas, mais notavelmente na série de “Long Hot Summers” (Longos Verões Quentes). A nova era de revoltas ainda não chegou de fato, mas a transição desigual já começou.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seu estudo sobre o estado carcerário na Califórnia, Ruth Wilson Gilmore descreve a maneira como uma população racializada se mobiliza entre opressões locais e colapso sistemático:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A Rebelião de Watts de 1965 foi uma encenação consciente de oposição (mesmo que “espontânea” no sentido leninista) à desigualdade em Los Angeles, onde o apartheid cotidiano era renovado à força pela polícia sob a direção do chefe William Parker, um supremacista branco assumido. Em Oakland, o Partido dos Panteras Negras foi concebido como um desafio dramático, altamente disciplinado e fácil de imitar à brutalidade policial local. A organização militante urbana antirracista negra, que se concentrava em atacar as formas concretas pelas quais “a raça… é a modalidade através da qual a classe é vivida”, surgiu de muitas décadas de luta no caldeirão sangrento da revolução contra o apartheid do sul <em>e seu</em> sósia nas cidades do norte…</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1967, o sistema começou a desmoronar simbolicamente e materialmente. Durante o Verão do Amor, enquanto milhares de hippies se reuniam em São Francisco para repudiar o establishment, a Califórnia alinhou suas forças coercivas antirracistas por trás <em>da vanguardista Panther Gun Bill</em> (Lei dos Panteras Armados) — tudo isso ao mesmo tempo em que a taxa de lucro começou seu espetacular declínio <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo o famoso e anódino Relatório Kerner, encomendado por Lyndon Johnson após os distúrbios de Newark e a Grande Rebelião de 1967, registra “uma mudança gradual tanto nas táticas quanto nos objetivos” dos protestos negros, “de ações legais para ações diretas, da classe média e alta para ações em massa… de apelar para o senso de justiça dos americanos brancos para demandas baseadas no poder do gueto negro” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os contornos da revolta moderna, a <em>revolta linha</em>, começam aqui a ficar claros. Embora compartilhe certas características e lógicas com revoltas mais antigas, ela entra em uma situação histórica muito diferente e enfrenta um cenário estranho. Portanto, é crucial observar que a sequência <em>revota-greve-revolta linha</em> não sugere uma simples oscilação histórica, mas um desenvolvimento longo e abrangente que esgota e recupera formas à medida que o conteúdo e o contexto da luta mudam. Como essa trajetória traça mudanças sociais mais amplas que ocorrem em diferentes graus em todo o mundo superdesenvolvido, certas semelhanças podem ser observadas apesar das diferenças nacionais ou regionais, por exemplo, entre as revoltas no Reino Unido e na França.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta nos Estados Unidos é uma nova fase da luta racializada que emerge da e contra a história do movimento pelos direitos civis, mais orientado para as reformas, que em 1965 já havia conquistado grande parte das vitórias que conquistaria. A racialização da nova revolta se destaca ainda mais claramente no contexto do trabalho organizado, sobretudo pela branquitude codificada desse contexto. Rotineiramente precipitado pela violência dos atores estatais e sua consequente impunidade, o auge das revoltas deve ser pensado não apenas no contexto da violência racial do Estado, mas também, por exemplo, no do racismo agressivo dos sindicatos da AFL, que conseguiram adiar a formação de qualquer sindicato liderado por negros até a carta de 1925 da Brotherhood of Sleeping Car Porters. Ou seja, a negritude da revolta aparece não apenas como uma continuidade conturbada do movimento pelos direitos civis contra a anti-negritude do Estado, mas também contra a branquitude da greve. Isso acaba por estruturar o próprio senso comum — apesar da longa história de exemplos contrários em ambos os lados da suposta dicotomia, desde as revoltas “nativistas” de brancos contra brancos no século XIX e a onda de ataques anti-asiáticos após a Lei de Exclusão Chinesa até a Greve dos Viticultores de Delano.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um paradoxo evidente. Por um lado, o tema das revoltas contemporâneas no Ocidente é consistentemente racializado, e os padrões de longa data de violência racializada, contenção e abjeção são inseparáveis do desenvolvimento das revoltas modernas. Por outro lado, a identificação absoluta e eventualmente naturalizada da tática com a raça acabará sendo um erro destrutivo, uma confusão entre correlação e causa — como se a própria negritude fosse a origem das revoltas. Janet Abu-Lughod ressalta os limites do termo “revolta racial”, observando a construção da <em>raça</em> e, além disso, a inadequação do termo <em>revolta</em> em relação aos sentidos mais abertamente políticos disponíveis para a linguagem de revolta e rebelião. No final, ela o mantém “porque tem uma referência aparentemente clara na literatura à violência inter-racial, seja iniciada por coletividades de brancos contra negros ou por coletividades de negros contra brancos” <strong>[10]</strong>. Significativamente, a história das revoltas raciais nos Estados Unidos começa com os brancos disciplinando outras populações insubordinadas. O “Verão Vermelho” de 1919, que ajudaria a forjar laços profundos, mas agora amplamente esquecidos, entre os negros dos EUA e as organizações socialistas e comunistas, é o exemplo mais conhecido, mas dificilmente o único, inserido em “uma onda extraordinária de violência em massa dirigida aos negros entre 1919 e 1923” <strong>[11]</strong>. Na segunda metade do século XX, <em>as revoltas raciais</em> evocam imagens de violência espontânea dos negros. É só então que o termo passa a significar revoltas como tal. A convergência retórica é grosseira e eficaz. O caráter supostamente irracional e natural das revoltas, sem razão, organização e mediação política, está alinhado com a tradição racista em que os sujeitos racializados são considerados naturais, animalescos, irracionais e imediatos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159562 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="486" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2.jpg 486w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-243x300.jpg 243w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-340x420.jpg 340w" sizes="auto, (max-width: 486px) 100vw, 486px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;"><em><strong>Revoluções Por Minuto</strong></em></h3>
<p style="text-align: justify;">Em 1968, o Partido Socialista Italiano da Unidade Proletária ficou em um impasse sobre um convite para sua conferência internacional em 1968: um membro dos Panteras Negras ou alguém do movimento operário radical de Detroit? Sua grande sorte foi descobrir que John Watson era um membro central tanto do Movimento Revolucionário da União Dodge (DRUM) quanto do principal grupo do Black Power. Essa situação não duraria muito. “A filiação de Watson a duas organizações revolucionárias distintas, o DRUM e os Panteras Negras, representou um compromisso de curta duração entre as forças revolucionárias em Detroit e na Califórnia”, que entraria em colapso logo em seguida <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse momento é o ponto crucial de uma sequência política volátil. Mesmo o relato mais resumido oferece uma noção da rápida mudança das formações revolucionárias. A pré-história deve incluir a ascensão da industrialização dos EUA em Detroit, bem como a fundação da Nação do Islã, liderada pelo trabalhador automotivo desempregado Elijah Muhammad. Entre 1920 e 1970, a população negra de Detroit aumentou de 4% para 45%; este é o local mais dramático de uma internalização mais ampla da mão de obra negra no proletariado industrial, ele próprio uma força motriz nos sucessos do movimento pelos direitos civis e no desgaste da lei formal de Jim Crow <strong>[13]</strong>. O início dos anos 1960 vê o desenvolvimento da UHURU, uma filial ativa do Movimento de Ação Revolucionária (RAM) nacional, e em 1966 a fundação da filial de Detroit do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa. Em seguida, a Grande Rebelião no verão de 1967, caracterizada, entre outras coisas, por vários atiradores nos telhados repelindo a polícia. No outono do descontentamento de Detroit, o Inner City Voice, um jornal militante negro liderado por Watson nos escritórios da Wayne State University, torna-se um nexo para várias lutas militantes; sua equipe inclui figuras centrais em todos os grupos do período. No ano seguinte, forma-se o DRUM e, em seguida, vários outros RUMs; em 1969, eles se unem como Liga dos Trabalhadores Negros Revolucionários (LRBW). Em 1970, a seção de Detroit dos Panteras é fechada, talvez por ordem da poderosa seção de Chicago; bem antes disso, “as tensões ideológicas entre os Panteras e a Liga haviam se tornado de conhecimento público” <strong>[14]</strong>. Em 1970, a LRBW inicia uma longa e dolorosa cisão, dividida entre tendências que apoiam a luta na frente cultural, o engajamento parlamentar, a formação de conselhos operários e um partido vanguardista negro. Em 1972, o que restava da LRBW se afilia à Liga Comunista e deixa de existir como entidade autônoma. Na medida em que é possível fazer afirmações pontuais, a sequência terminou e, com ela, os longos anos 1960 <strong>[15]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito se escreveu sobre essa ascensão e queda. Menos atenção foi dada à característica mais notável da sequência, que é justamente o que a torna uma sequência, em vez de um agregado caótico de grupos, partidos, interesses e contrainstituições, cada um sincronicamente relacionado a fenômenos díspares em outros lugares. Trata-se da tênue mistura entre o trabalho militante organizado e o Black Power.</p>
<p style="text-align: justify;">As condições que possibilitaram a sequência, em primeiro lugar, incluem a entrada simultânea da mão de obra negra no núcleo do setor industrial e sua marginalização dentro dele. Por um lado, “a revolução negra da década de 1960 finalmente chegou a um dos elos mais vulneráveis do sistema econômico americano — o ponto da produção em massa, a linha de montagem” <strong>[16]</strong>. Por outro lado, a força dessa chegada foi atenuada pelos sindicatos tradicionais, cujo sistema de antiguidade efetivamente deu “força legal ao monopólio dos homens brancos dos melhores empregos”, nas palavras de um autor anônimo, que continua:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Neste deserto de esperanças distorcidas dos trabalhadores, de onde mais poderia vir a redenção senão daqueles cujos interesses eram sacrificados a cada passo para que outro grupo mais favorecido pudesse fazer as pazes com os patrões? De onde mais, senão dos trabalhadores negros das fábricas infernais de automóveis da cidade de Detroit? <strong>[17]</strong></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso contribui para contextualizar o que poderíamos chamar de “greve militante negra”. Trata-se de uma versão da greve selvagem que vai além dos sindicatos tradicionais centrados nos brancos. Sua autoridade deriva, em grande parte, das revoltas urbanas em Detroit e em outros lugares — ou seja, de lutas que não se baseiam em condições de trabalho comuns, mas sim na distância do mercado de trabalho, na luta confrontadora pela reprodução social fora da esfera da produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Na mesma linha, os distúrbios tiram lições da tradição da greve. Escrevendo na primavera de 1967, o teórico do Black Panther Huey P. Newton mostra-se cético em relação às revoltas:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ainda estamos no estágio elementar de jogar pedras, paus, garrafas de vinho vazias e latas de cerveja em policiais racistas que esperam uma chance de assassinar negros desarmados… Não podemos mais nos dar ao luxo duvidoso das terríveis baixas infligidas arbitrariamente a nós pelos policiais durante essas rebeliões <strong>[18]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não é, porém, um defensor das lutas trabalhistas. Sua questão é como <em>passar</em> da revolta para um combate mais eficaz e, para isso, ele convoca o “Partido de Vanguarda” — ou seja, por tipos de ordem e disciplina herdados da organização do trabalho proletário e do campesinato agrícola. É característico do período que tanto a revolta quanto a greve, buscando ultrapassar seus próprios limites, ocorram simultaneamente. Cada uma parece precisar da outra para parecer revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa coincidência não pode ser reconhecida como tal pelos observadores oficiais. O <em>Relatório Kerner</em>, usando a rubrica “desordens”, oferece esta descrição da Grande Rebelião: “Um espírito de niilismo despreocupado estava se instalando. Revoltas e destruição pareciam cada vez mais se tornar fins em si mesmos. No final da tarde de domingo, pareceu a um observador que os jovens estavam &#8216;dançando em meio às chamas&#8217;” <strong>[19]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não pode deixar de harmonizar-se com os “infernos” do trabalho descritos acima. Tudo está a arder. A par do aumento em grande escala da força de trabalho negra, o desemprego entre os negros após a Segunda Guerra Mundial oscila entre 150 e 400 por cento acima do dos brancos e significativamente acima do dos hispânicos não brancos também <strong>[20]</strong>. A população total de Detroit atinge o seu pico em 1950 e começa um declínio bastante acentuado; a cidade deixa de crescer economicamente por volta de 1960, mesmo com a continuação da mudança demográfica <strong>[21]</strong>. O fardo racial da desindustrialização é ainda mais agravado pelas políticas sindicais de “último contratado, primeiro demitido”, que revertem a segunda Grande Migração em uma Grande Exclusão contínua. Assim, vemos duas tendências: uma economia manufatureira ainda dominante que internaliza a força de trabalho negra, mas que começa seu declínio e é incapaz de absorver totalmente o influxo demográfico. Isso implica um aumento tanto da população negra empregada quanto da excedente, sujeita a desapropriações diferenciadas. Mas essas tendências estão se movendo em direções opostas. No período de 1965 a 1973, as linhas de tendência se cruzam como fios elétricos, e Detroit testemunha <em>a intensificação das condições para revoltas e greves</em>, centradas na comunidade negra. Essa é a situação à medida que os anos 1960 se aceleram e a base para a sequência política que se desenrola, mesmo que não possa durar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1970, o início da sequência já havia começado a se encerrar:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[A Liga] acreditava que o Partido dos Panteras Negras, com sede em Oakland, estava indo na direção errada ao se concentrar em organizar elementos lumpen da comunidade negra. A Liga não acreditava que um movimento bem-sucedido pudesse se basear nos lumpen, pois eles carecem de uma fonte potencial de poder. A Liga acreditava que os trabalhadores negros eram a base mais promissora para um movimento negro bem-sucedido devido ao poder potencial derivado da capacidade de interromper a produção industrial <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O debate ideológico sobre o sujeito revolucionário adequado (ao qual voltaremos), com suas aparentes diferenças regionais, repousa sobre o destino dos próprios sujeitos. Já em 1963, Boggs havia diagnosticado a produção da não produção e o excedente populacional, e até que ponto isso estava fadado a desmantelar a organização trabalhista. Suas observações marcam a distância desde 1919, quando a Irmandade de Sangue Africana (a primeira liga de comunistas negros nos EUA) pôde incluir como parte de seu programa básico uma reivindicação por “Desenvolvimento Industrial” <strong>[23]</strong> Ele escreve:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A automação substitui os homens. É claro que isso não é novidade. O que é novo é que agora, ao contrário da maioria dos períodos anteriores, os homens deslocados não têm para onde ir. Os agricultores deslocados pela mecanização das fazendas na década de 1920 podiam ir para as cidades e trabalhar na linha de montagem […] nos Estados Unidos, com a automação chegando quando a indústria já atingiu o ponto em que pode suprir a demanda do consumidor, a questão do que fazer com o excedente de pessoas que são dispensáveis pela automação se torna cada vez mais crítica a cada dia <strong>[24]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Os editores da edição especial se esforçam para discordar, insistindo que “à medida que o trabalho produtivo se torna cada vez mais frutífero e menos necessário”, o capital desenvolverá outros setores, criará “direta e indiretamente, outras áreas de emprego — em vendas, entretenimento, especulação (legal e ilegal), serviços pessoais e assim por diante. Alguns dos empregos assim criados também sucumbem à automação, mas o processo de proliferação não é interrompido” <strong>[25]</strong>. Isso tem alguma verdade; esses setores, em geral, passam por períodos de crescimento à medida que a desindustrialização avança. No entanto, não o suficiente para gerar os mercados de trabalho tensos que as greves exigem — muito menos para restaurar a acumulação de capital em níveis suficientes, sendo esse trabalho, em primeiro lugar, amplamente improdutivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Detroit é única neste período, não pela medida em que é uma exceção na trajetória histórica das condições para motins e greves, mas pela forma como é uma clarificação laboratorial de um processo dinâmico que ocorre de forma desigual em todo o mundo superdesenvolvido, uma dinâmica baseada na grande transformação do capitalismo que será conhecida como desindustrialização, acompanhada pelo declínio da acumulação e por mudanças na divisão global do trabalho e do não trabalho. Se a organização militante dos trabalhadores parece prevalecer em Detroit por volta de 1970, ela é minada a longo prazo. Em 2005, os afro-americanos representarão mais de 80% da população de Detroit, e pelo menos um quarto deles estará desempregado <strong>[26]</strong>. A previsão de Boggs acabará captando a realidade da situação.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo isso, é difícil enfatizar adequadamente a importância do esforço nesse período para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159563 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="750" height="457" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-300x183.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-689x420.jpg 689w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-640x390.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-681x415.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;"><em>A Revolta como Modalidade</em></h3>
<p style="text-align: justify;">O que pode significar, depois de ter trabalhado para rearticular o significado da revolta como uma forma de ação coletiva, sugerir agora que ela é uma modalidade política? Por exemplo, o que pode significar sugerir que os Panteras estão do lado da revolta, mesmo que Huey Newton tivesse pouca fé em tais atividades? Essa ambiguidade permeia as páginas do jornal <em>The Black Panther</em>. Um mês após o assassinato de Martin Luther King Jr. (e o assassinato separado do Pantera Lil&#8217; Bobby Hutton pela polícia) e a cascata imediata de revoltas, Eldridge Cleaver intitula sua coluna “Dig This” de “Credo para revoltosos e saqueadores” e oferece uma narrativa entusiasticamente apocalíptica; a página oposta apresenta um grande desenho de Matilaba em que dois policiais prendem ou possivelmente lincham um jovem negro, enquanto três militantes com boinas, jaquetas e rifles se preparam em uma esquina. Letras em negrito na parte superior da ilustração dizem “NO MORE RIOTS” (NÃO MAIS REVOLTAS); ao lado, “TWO&#8217;S AND THREE&#8217;S” (DOIS E TRÊS) <strong>[27]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Um primeiro passo pode ser observar que as revoltas já têm uma base em tipos alternativos de cooperação social. Robin D. G. Kelley observa sobre a revolta de Watts em 1965 que “a rebelião não surgiu do caos, mas de uma comunidade mobilizada” que abrigava uma ampla variedade de grupos, clubes e organizações mais ou menos formais; como observado acima, o mesmo aconteceu em Detroit (e certamente em outros lugares). Em Watts, as revoltas sinalizaram uma mudança em que “a orientação anterior pelos direitos civis deu lugar a uma cultura política do Black Power e alternativas culturais à assimilação da classe média”. As revoltas foram contínuas, acompanhando um desenvolvimento político mais amplo. Assim, em um caso, “logo após a revolta, gangues de rua radicalizadas formaram os Sons of Watts (Filhos de Watts) e mais tarde se juntaram ao Partido dos Panteras Negras” <strong>[28]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa continuidade entre o Black Power e os distúrbios permanece sob a superfície das políticas e dos planos. Eles compartilham uma circunstância e um propósito: “Os distúrbios que estão acontecendo são uma festa de autodefesa”, nas palavras de Fred Moten, ele próprio um teórico da negritude como excedente <strong>[29]</strong>. O sentido de ligação talvez fique mais claro se voltarmos à formulação básica das revoltas e greves como lutas de circulação e produção, respectivamente. É isso que os dados deste capítulo têm narrado: o declínio inicial e velado da produção nos Estados Unidos e no mundo, a mudança germinativa de corpos e capital para o mundo da circulação. A sequência política narra isso com igual clareza; o status da dinâmica revolta/greve nesse período serve como uma janela clara para a economia política da época. De fato, as revoltas e as greves têm todo o seu poder social porque carregam — junto com os desejos de seus participantes, suas misérias e negações — a lógica dessas categorias mais amplas. Pode-se dizer que, no limite, as revoltas e as greves são personificações coletivas da circulação e da produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a passagem central do poema “Riot”, de Gwendolyn Brooks, em que John Cabot, de nome brâmane e pertences luxuosos, “todo branco e azul sob seus cabelos dourados”, enfrenta seu fim:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Porque os negros estavam descendo a rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque os pobres estavam suados e feios</p>
<p style="text-align: justify;">(não como os dois negros delicados em Winnetka)</p>
<p style="text-align: justify;">e vinham em direção a ele em fileiras desordenadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em mares. Em ventos fortes. Eles eram negros e barulhentos.</p>
<p style="text-align: justify;">E não podiam ser detidos. E não eram discretos <strong>[30]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O poema segue as revoltas de Chicago de 1968. Não há trabalho, apenas negritude; é o futuro de Boggs, não o de seus editores. Há o consumo conspícuo de John Cabot e o movimento incontrolável dos “negros” pelas passagens urbanas. Mercado e via pública. Dificilmente se poderia pedir uma figura melhor de corpos movidos à circulação, da circulação como tal. A rima diferida carrega isso, <em>descendo a rua sem poder ser detida e sem discrição</em>. Nem são discretos. Ao mesmo tempo ordenados e não, “fileiras desordenadas”, eles se tornam negritude ambiente, negritude preenchendo e transbordando o espaço da existência social. Cabot reza para que “a negritude” não o toque, mas “Ela o impulsionou / e soprou sobre ele: e o tocou”.</p>
<p style="text-align: justify;">É difícil discernir se essa série de transferências existe no nível da consciência de Cabot ou do poema. Ambos, no final. Cabot não está, de fato, enganado sobre seu destino. Os negros são a negritude que é a revolta. Pelo menos em 1968. Na medida em que a revolta é uma categoria reconhecida pelo Estado, pela lei e pelo mercado, os negros descendo a rua sempre serão uma revolta, ou o momento antes, ou o momento depois. Tanto social quanto economicamente, a negritude aqui é excedente — para o Estado, para a lei, para o mercado. Ela promete sempre exceder a ordem, a regulamentação. A revolta é um exemplo da vida negra em suas exclusões e, ao mesmo tempo, em seu caráter de excedente, isolada na esfera barulhenta da circulação, forçada a se defender contra a morte social e corporal que lhe é oferecida. Uma rebelião excedente.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de se admirar que ela forneça a base para um imaginário de luta. Essa visão circula na ficção da época, que apresentou “uma notável proliferação de romances de autores afro-americanos projetando a possibilidade de uma guerra racial catastrófica em grande escala, de meados da década de 1960 ao início da década de 1970” <strong>[31]</strong>. Esse salto especulativo pode esclarecer de forma útil a posição de Newton. Ele é cético em relação aos limites da revolta, mas por razões bastante contrárias às razões daqueles que insistem no curso da organização trabalhista. Newton, assim como Boggs em sua análise, reconhece que o terreno de disputa marcado pela revolta é inevitável &#8211; que a revolta não é um desvio de algum caminho verdadeiro, mas existe no curso ao longo do qual a luta se desenvolverá. Ela não pode ser recusada. A revolta só pode fazer uma coisa: expandir-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizer que se está alojado em um mundo no qual a revolta é a forma de ação coletiva pela qual a luta deve passar &#8211; que é uma <em>instância</em> de uma coletividade social completa e complexa &#8211; é encontrar a revolta como modalidade social. Quando o substrato material da vida cotidiana é a concentração de populações na circulação, em economias informais &#8211; uma população coletiva tornada excedente e forçada a enfrentar o problema da reprodução no mercado em vez de no salário formal &#8211; nessa situação, qualquer reunião na esquina, na rua, na praça pode ser entendida como uma revolta. Ao contrário da greve, é difícil dizer quando e onde a revolta começa e termina. Isso é parte do que permite que a revolta funcione tanto como um evento específico quanto como uma espécie de miniatura holográfica de toda uma situação, uma imagem do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se esse relato parece aerossolizar a revolta, isso está de acordo com a circunstância com a qual a revolta se confronta. A revolta pré-industrial encontra o mercado imediatamente à sua frente, um fenômeno concreto; encontra a própria economia. Ao mesmo tempo, não encontra a polícia, o estado armado, exceto nas formas mais atenuadas. Essas tecnologias de controle permanecem incompletas e distantes em 1740. Por outro lado, a revolta pós-industrial encontra apenas uma amostra de mercadorias nas lojas locais. Os saques se aproveitam disso como devem: a verdade da antiga revolta, a fixação de preços em zero. Como Tom Hayden reconheceu no primeiro tratamento extenso da rebelião de 1967 em Newark:</p>
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<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A revolta foi mais eficaz contra os comerciantes que praticavam preços abusivos do que os protestos organizados jamais haviam sido. No ano anterior, foi iniciada uma pesquisa para verificar os comerciantes que pesavam suas balanças. A pesquisa fracassou devido ao desinteresse: as pessoas precisavam de poder, não de provas <strong>[32]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Ela continua sendo uma atividade central, claramente contínua com as intervenções do século XVIII. No entanto, a nova revolta descobre, ao definir o preço das mercadorias, que a economia como tal regrediu para a logística planetária e a divisão global do trabalho para o éter das finanças. A polícia, no entanto, pode ser encontrada em cada esquina.</p>
<p style="text-align: justify;">A distância entre a revolta e a <em>revolta linha</em>, os dois emissários das lutas pela circulação, parece, a princípio, ser a diferença entre a fixação de preços e a não fixação, ou entre a luta no mercado e a luta com o Estado. Esses aspectos, como sugerimos, não são tão facilmente separados, seja na prática ou teoricamente. Ao analisar a nova revolta, Georgakas e Surkin concluem que</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A violência de 1967 foi significativamente diferente daquela das explosões anteriores de Detroit. As revoltas de 1833, 1863 e 1943 foram conflitos entre raças. A rebelião de 1967 foi um conflito entre os negros e o poder do Estado. Em 1943, os brancos estavam na ofensiva e andavam pela cidade em carros à procura de alvos negros fáceis. Em 1967, os negros estavam na ofensiva e seu principal alvo era a propriedade. Em alguns bairros, os Apalaches, estudantes e outros brancos participavam da ação ao lado dos negros como seus parceiros. Diversas fotos mostram saques sistemáticos e integrados, que os rebeldes chamavam de “compras de graça” <strong>[33]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Janet Abu-Lughod observa que essa mudança no objeto da revolta também descreve as rebeliões no Harlem e em Watts, embora insista que essas rebeliões “não se tratavam apenas de brutalidade policial. Ambas ocorreram no contexto de uma recessão econômica cujo efeito apareceu primeiro nas áreas negras, mas depois se espalhou para a economia mais ampla dos EUA”, assim como em Detroit <strong>[34]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, a distinção conceitual entre violência estatal e econômica é elusiva. Guy Debord, avaliando a rebelião de Watts, teoriza o duplo confronto com o Estado e a propriedade e suas posições mutáveis. “A sociedade encontra no saque sua resposta<em> natural</em> à abundância antinatural e desumana de mercadorias”, escreve ele. Isso tem sido constantemente mal interpretado como uma sugestão de que o saque é uma realização hiperbólica da ideologia do consumo (um refrão comum dos comentaristas liberais), apesar do que Debord diz logo em seguida: “Ele [o saque] instantaneamente mina a mercadoria como tal e também expõe sua lógica última: o exército, a polícia e as outras forças especializadas que detêm o monopólio estatal da violência armada” <strong>[35]</strong>. Talvez essa exposição seja o propósito do saque, como argumentou Bruno Bosteels, caso se busque na teoria francesa a importância discursiva da revolta <strong>[36]</strong>. Ao mesmo tempo, o saque é certamente contínuo com a história prática da fixação de preços. De qualquer forma, Debord capta algo sobre o mundo superdesenvolvido e sua aparente abstração. A polícia agora ocupa <em>o lugar</em> da economia, a violência da mercadoria encarnada. No mundo em chamas da última instância, eles são fungíveis:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que é um policial? Ele é o servo ativo da mercadoria, o homem totalmente subjugado pela mercadoria, por cujos esforços um determinado produto do trabalho humano continua sendo uma mercadoria com a propriedade mágica de ser paga, e não apenas uma geladeira ou um rifle &#8211; algo cego, passivo, insensível, sujeito à primeira pessoa pronta para fazer uso dele. Por trás da humilhação de serem submetidos à polícia, os negros rejeitam a humilhação de serem submetidos a mercadorias <strong>[37]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">A fórmula mais simples é a seguinte. Para a revolta, a economia está próxima, o Estado está distante. Para a <em>revolta linha</em>, a economia está longe, o Estado está perto. De qualquer forma, é o mercado e a rua. <em>Hic Rhodus, hic salta!</em></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159564 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="750" height="573" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-550x420.jpg 550w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-640x489.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-681x520.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> James Boggs, <em>Pages from a Black Radical&#8217;s Notebook: A James Boggs Reader</em>, Detroit: Wayne State University Press, 2011,84-5.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Roberto Franzosi, “One Hundred Years of Strike Statistics: Data, Methodology, and Theoretical Issues in Quantitative Strike Research”, CRSO Working Paper No. 257, Ann Arbor: Center for Research on Social Organization, 1982, 15, 17.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs,” prologue to T<em>he Economics of Global Turbulence</em>, Madrid: Akal, 2009, page numbers taken from typescript provided by author, 8, 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Arthur M. Ross e Paul T. Hartman, <em>Changing Patterns of Industrial Conflict</em>, Nova York: Wiley, 1960, 71, 43.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century</em>, 315.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Brenner, <em>Turbulence</em>, 38.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Dados do Reino Unido do Office for National Statistics, “Labour Disputes Annual Estimates; United Kingdom; 1891-2014” (versão atualizada em 16 de julho de 2015), ons.gov.uk; Dados dos EUA do Bureau of Labor Statistics, “Comunicado de Notícias Econômicas: Tabela 1. Paralisação de trabalho envolvendo 1.000 ou mais trabalhadores, 1947-2014” (versão atualizada em 11 de fevereiro de 2015), bls.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ruth Wilson Gilmore, <em>Golden Gulag: Prisons, Surplus, Crisis, and Opposition in Globalizing California</em>, Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 2007, 39-40 (emphases in original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Otto Kerner et al., <em>Report of the National Advisory Commission on Civil Disorders</em>, Nova York: Bantam, 1968, 227.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Janet Abu-Lughod, <em>Race, Space, and Riots in Chicago, New York, and Los Angeles</em>, Oxford: Oxford University Press, 2007,7, 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Michael C. Dawson, <em>Blacks In and Out of the Left</em>, Cambridge: Harvard University Press, 2013, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Dan Georgakas e Marvin Surkin, <em>Detroit: I Do Mind Dying: A Study in Urban Revolution</em>, Chicago: Haymarket Books,2012, 50.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Dados disponíveis na página da web Detroit History, “Population of Various Ethnic Groups” (População de vários grupos étnicos), historydetroit.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 119.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> A narrativa foi compilada a partir de Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>; Joshua Bloom e Waldo E. Martin, Black Against Empire: <em>The History and Politics of the Black Panther Party</em>, Berkeley: University of California Press, 2013; e A. Muhammad Ahmad, “The League of Revolutionary Black Workers: A Historical Study”, historyisa weapon.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Trabalhador anônimo escrevendo no <em>Inner City Voice</em>, outubro de 1970, citado em Georgakas e Surkin, Detroit, 37.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Huey P. Newton, <em>The Huey P. Newton Reader</em>, eds. David Hilliard e Donald Weise, Nova York: Seven Stories Press, 2011, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Otto Kerner et al., <em>National Advisory Commission</em>, 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Joe T. Darden, Richard C. Hill e June M. Thomas, <em>Detroit: Race and Uneven Development</em>, Filadélfia: Temple University Press, 1990, 107.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Campbell Gibson e Kay Jung, “Tabela 23. Michigan — Raça e Origem Hispânica para Grandes Cidades Selecionadas e Outros Locais: Censo Mais Antigo até 1990”, PDF, Departamento do Censo dos Estados Unidos, fevereiro de 2005, census.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> James A. Geschwender, “The League of Revolutionary Black Workers,” <em>The Journal of Ethnic Studies</em>, 2: 3, outono de 1974, 9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Dawson, <em>Blacks In and Out</em>, 50.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Boggs, <em>Boggs Reader</em>, 102.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Leo Huberman e Paul Sweezy, “Editor&#8217;s Forward” (Prefácio do editor), history isaweapon.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> Joe T. Darden e Richard W. Thomas, <em>Detroit: Race Riots, Racial Conflicts, and Efforts to Bridge the Racial Divide</em>, East Lansing: Michigan State University Press, 2013, sem paginação, Tabela 15. Observe que todos os dados sobre desemprego neste capítulo são baseados na categoria U3 do Bureau of Labor Statistics, que não inclui os subempregados, os desanimados em procurar trabalho, os encarcerados e assim por diante. O número total U6 de Detroit em 2005 provavelmente está mais próximo de 45%.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[27]</strong> <em>The Black Panther</em>, 2: 2, 4 de maio de 1968: 4-5.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[28]</strong> Robin D. G. Kelley, “Watts: Remember What They Built, not What They Burned” (Watts: Lembre-se do que eles construíram, não do que queimaram), Los Angeles Times, 11 de agosto de 2015, latimes.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[29]</strong> Fred Moten, “Necessity, Immensity, and Crisis (Many Edges/Seeing Things)” (Necessidade, imensidão e crise (muitas facetas/vendo as coisas)), Floor, 2011. floorjournal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[30]</strong> Gwendolyn Brooks,<em> Riot</em>, Detroit: Broadside Press, 1969, 9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[31]</strong> Julie A. Fiorelli, “Imagination Run Riot: Apocalyptic Race-War Novels of the Late 1960s”, <em>Mediations</em>, 28: 1, outono de 2014, 127.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[32]</strong> Tom Hayden, <em>Rebellion in Newark: Official Violence and Ghetto Response</em>, Nova York: Random House, 1967, 30.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[33]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 155.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[34]</strong> Abu-Lughod, <em>Race, Space</em>, 25.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[35]</strong> Guy Debord, “Le déclin et la chute de l&#8217;économie spectaculaire-marchande”, <em>Internationale Situationiste</em> 1958-69: Éditionaugementée, Paris: Librarie Arthème Fayard, 2004, 418. Tradução minha. Este ensaio não estava assinado no original, mas mais tarde foi atribuído a Guy Debord.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[36]</strong> Bruno Bosteels, <em>Marx and Freud in Latin America: Politics, Psychoanalysis, and Religion in Times of Terror</em>, Londres: Verso, 2012, 292.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[37]</strong> Debord, “<em>Déclin</em>”, 418.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: justify;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Edvard Munch (1863-1944).</em></p>
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		<title>O escritor, seus fantasmas e o outro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Aug 2026 21:36:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Jan Cenek Conheci o escritor argentino Ernesto Sabato (1911-2011) procurando por Albert Camus (1913-1960). Queria ler algo sobre este e encontrei Mensageiros das fúrias: uma leitura camusiana de Ernesto Sabato, de Janer Cristaldo [1], que, entre outras atividades, traduziu o escritor argentino para o português. Sempre retorno aos livros de Sabato, costumo reler especialmente [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Conheci o escritor argentino Ernesto Sabato (1911-2011) procurando por Albert Camus (1913-1960). Queria ler algo sobre este e encontrei <em>Mensageiros das fúrias: uma leitura camusiana de Ernesto Sabato</em>, de Janer Cristaldo <strong>[1]</strong>, que, entre outras atividades, traduziu o escritor argentino para o português. Sempre retorno aos livros de Sabato, costumo reler especialmente <em>O escritor e seus fantasmas</em> <strong>[2]</strong>, coletânea de ensaios e impressões em que Sabato consolida sua ruptura com a física e reafirma sua adesão à literatura, que ele define como forma de conhecimento privilegiada para examinar a condição humana, “talvez a mais completa e profunda” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheci o escritor uruguaio Carlos Liscano (1949-2023) por meio de Ernesto Sabato. Caminhando, passei por um livreiro de rua. Parei, espiei e vi <em>El escritor y el otro</em> <strong>[4]</strong>, título que me remeteu ao livro <em>O escritor e seus fantasmas</em>, de Sabato. Seria um diálogo? O outro de Liscano corresponderia aos fantasmas de Sabato? Li e reli algumas vezes os ensaios e impressões do escritor uruguaio. Liscano foi, também, poeta, artista plástico e militante. Integrou o Movimento de Libertação Nacional &#8211; Tupamaros (MLN-T). Preso político, esteve encarcerado por treze anos (1972 &#8211; 1985). No cárcere, afirmou-se como escritor e iniciou sua produção literária. Traduzi e compartilhei pequenos trechos de Carlos Liscano que podem ser lidos <a href="https://passapalavra.info/2026/06/159317/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> e <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159427/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os fantasmas de Ernesto Sabato são obsessões inconfessáveis, traumas secretos, angústias profundas que atravessam os três romances escritos pelo argentino: <em>O túnel</em> (1948); <em>Sobre heróis e tumbas</em> (1961); <em>Abadon, o exterminador</em> (1974). Os fantasmas do escritor argentino têm a ver com a finitude do homem, os limites da ciência e o colapso da civilização. A “anelosa busca de uma ordem e de um por quê” <strong>[5] </strong>atormentou Sabato, empurrando-o da física para a literatura. Não lhe bastavam as verdades científicas dos objetos. Buscava, sobretudo, o homem. Para Sabato <strong>[6]</strong>, os argentinos – ele próprio incluído – estavam no final da civilização (em todos os sentidos), submetidos a uma ruptura duplamente dramática: “sem ter por trás o respaldo de uma grande cultura indígena (como a asteca ou a incaica) e sem poder, tampouco, reivindicar de modo cabal a tradição de Roma ou Paris”. Ainda não haviam se definido como uma pátria no mundo quando teve início a derrocada da civilização tecnocrática. A literatura é, para Sabato, uma possibilidade de reencontro, uma expressão híbrida do espírito humano posicionada entre a arte e o pensamento puro, a fantasia e o real, os sonhos e as sombras. No romance é possível explorar a realidade integral, objetiva e subjetiva, dentro e fora do sujeito. Foi o que fez Sabato migrar da física para a literatura.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o outro, de Carlos Liscano, é mais singelo. Sacada do escritor uruguaio: antes de criar uma obra, é preciso criar o personagem escritor. Foi o que fez o Carlos Liscano preso político da ditadura civil-militar uruguaia: criou o Carlos Liscano escritor, que publicaria dezenas de livros. O outro – o homem de carne e osso – se transforma em criado do escritor, apesar de conhecer todas as fraquezas e misérias do personagem que criou. Eis a separação: <em>el escritor y el otro</em>. Para Liscano <strong>[7]</strong>, o outro “sonha em um dia dissolver-se em seu personagem, para voltar a ser apenas um.” O que pode ou não acontecer. Mas, de qualquer forma, “criado o escritor, a obra se fará sozinha, porque o escritor se cria escrevendo”, garante Liscano <strong>[8].</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Jorge Luis Borges <strong>[9] </strong>também separou o escritor do outro. Talvez por não precisar se preocupar com a sobrevivência material de ambos, talvez por ser mais leitor que escritor; o outro, para Borges, é o que escreve livros. O contrário do que é para Liscano. Borges suspeita do outro Borges, o escritor, que “alcançou certas páginas válidas”, apesar do “perverso costume de falsear e magnificar”. Diferentemente de Liscano, Borges não demonstra nenhuma vontade de se dissolver no outro, antes pelo contrário. O desencontro borgeano é curioso. Pensei em registrar, <em>à la</em> Sabato, que o Borges escritor é um fantasma do Borges leitor. Mas seria ir longe demais levando a sério o que não é sério. A suposta confissão de Borges de que se reconhecia mais num rasqueado de guitarra do que nos livros do outro Borges, o escritor, é puro falseamento, que é a única parte séria do texto. Não fosse isso, o título poderia ser <em>El lector y el otro. </em>De qualquer forma, o texto de Borges ilumina, por contraste, <em>El escritor y el otro</em>, de Liscano.</p>
<p style="text-align: justify;">Se Borges ajuda a pensar Liscano por contraste, Sabato o faz por aproximação. Para Sabato <strong>[10]</strong>, a condição mais preciosa do escritor é o fanatismo: “Tem de ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se à sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer.” Aqui a prática de Liscano ilustra o argumento de Sabato. Fanatismo criativo: se definir, se forjar e se manter como escritor no cárcere de uma ditadura sanguinária.  Para Sabato <strong>[11]</strong>, o homem do tempo presente vive no limite: diante da aniquilação, da tortura, da solidão. A literatura do homem presente será, sobretudo, uma “literatura de situações excepcionais”. Eis uma boa definição para a prática literária de Carlos Liscano. Outra aproximação. Sabato <strong>[12]</strong> compara literatura e prostituição, se pergunta sobre a sobrevivência material do escritor, e responde de forma provocativa, diz que todas as maneiras de ganhar a vida são legítimas, desde que a “criação não seja manuseada, abastardada e barateada”. A saída de Liscano é menos provocativa, mas mais radical. O uruguaio simplesmente eliminou a questão do horizonte de possibilidades e preocupações. Criado o personagem escritor, resta ao homem de carne e osso que o criou, o outro, se virar para garantir a sobrevivência material de ambos. Ao separar o escritor do outro, Liscano deixa para este a labuta diária em busca do pão, permitindo que o escritor apenas e simplesmente escreva. Na prática, Carlos Liscano – o outro, o que inventou o escritor – teve uma série de empregos: faxineiro, professor, tradutor. Tudo para possibilitar que o Carlos Liscano escritor escrevesse sem “abastardar” sua literatura, para usar um verbo empregado pelo argentino. Sabato <strong>[13]</strong> é categórico: o escritor deve fazer qualquer coisa para sobreviver, pode se empregar num banco ou assaltar um carro-forte, só não pode transformar sua literatura em mercadoria. Liscano <strong>[14]</strong> é realista: constata que ser escritor lhe foi um exercício de renúncia, havia renunciado a ter uma família, filhos&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Encantamento dialético: ninguém lê duas vezes o mesmo livro. Conheci Liscano pela semelhança com um título de Sabato. Mas, quando reli o argentino depois de ler o uruguaio, já era outro, havia mudado. O que me faz pensar que um escritor escreve para se transformar, como argumenta Liscano, e um leitor lê pela mesma razão. Em Sabato <strong>[15]</strong>, chama a atenção a “absurda fome de eternidade”, a inabalável vontade de superar a “desgraçada precariedade” do corpo. Neste sentido, os fantasmas de Sabato são metafísicos. Os escritores geralmente confessam que escrevem para sobreviver à morte, deixando registros mais longevos que seus corpos. O que Sabato <strong>[16]</strong> chamou de “anelosa busca de uma ordem e de um por quê” às vezes é, também, uma inquebrantável vontade de marcar de alguma forma a precária passagem por este mundo. Um único ensaio presente em <em>El escritor y el otro </em>levou título, que é justamente: <em>Vencer o tempo</em>. Não é à toa nem coincidência. Liscano registrou que “o escritor luta contra a morte” <strong>[17]</strong>, “quer deixar testemunho para além da morte” <strong>[18]</strong>. Se é assim, o uruguaio compartilha com o Sabato a “absurda fome de eternidade” e a vontade de superar a “desgraçada precariedade” do corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Liscano suaviza e problematiza a inquebrantável vontade de marcar sua passagem pelo mundo por meio da literatura. Sabe que outros já tentaram o mesmo movimento e fracassaram. No texto <em>Borges e eu</em>, Jorge Luis Borges também aspira à permanência, mas com menos gravidade que Sabato, talvez por saber que permaneceria nos textos do outro, o Borges escritor. Sendo assim, pôde até disfarçar e despistar dizendo que pouco se reconhecia nos livros que escreveu. Com Sabato e no limite, a “absurda fome de eternidade” somada à “desgraçada precariedade” do corpo tem duas soluções possíveis: ou se busca algum Deus que dê sentido ao mundo e às coisas, um espírito absoluto levitando na eternidade; ou o homem será uma “alma atormentada” <strong>[19]</strong>, transitando entre o caos e os seus fantasmas. Difícil imaginar uma alma mais atormentada que a de Carlos Liscano. Treze anos encarcerado por uma ditadura sanguinária. A invenção de um escritor no cárcere e, posteriormente, uma vida toda preso à escrita, que nem sempre fluiu. Quem lê Liscano fica com a impressão de que a literatura às vezes é uma prisão mais cruel que as cadeias da ditadura uruguaia. Como é duro o vazio do escritor diante da página em branco. Como é torturante a distância entre a obra imaginada e a efetivamente criada. Mas tem que ser assim. Em 2025, foi lançado um documentário que resgata a luta e o reencontro de 52 uruguaios, contemporâneos de Liscano, que combateram ao lado da Frente Sandinista de Libertação Nacional, na Nicarágua, nos anos 1970. O título do filme é <a href="https://www.youtube.com/watch?v=tuBzPTwTO0g" target="_blank" rel="noopener"><em>Una y mil veces</em></a>. Perguntados se fariam tudo novamente, os homens respondem que sim: uma e mil vezes. Não sei se Carlos Liscano diria o mesmo sobre sua militância política, mas ele certamente teria criado o Carlos Liscano escritor mil vezes, se necessário.</p>
<p style="text-align: justify;">É assim porque a literatura transforma, se não o mundo, ao menos quem escreve e quem lê. Mais que isso, tal transformação é essencialmente humana. O Carlos Liscano que começava um livro sabia que nem o escritor nem o outro seriam os mesmos depois. É o milagre da criação, que, diga-se de passagem, é compartilhado pelos leitores. Ninguém escreve nem lê duas vezes o mesmo livro. O que contrasta com Sabato e até com Borges, no caso deste último por falseamento e brincadeira. Não significa que Liscano não tenha sido uma alma atormentada, como Sabato. Ocorre que o uruguaio escreveu apesar dos seus fantasmas, e não para exorcizá-los. Não se prendeu nem se limitou a eles. Liscano <strong>[20]</strong> confessa que escrever é “afundar, deixar-se afundar.” Mas ocorre que, nesse salto para dentro, nesse mergulho para baixo, o importante é “ouvir o rumor das palavras” <strong>[21]</strong>. Aqui a aproximação com Drummond <strong>[22]</strong> e sua procura da poesia é inescapável. Os poemas, assim como o romances, não estão nos acontecimentos e incidentes pessoais: nem na gota de bile, nem na careta de gozo, nem nos esqueletos familiares, nem na sepultada infância, nem nos porões da mente, nem nas obsessões inconfessáveis, nem nos traumas secretos, nem nas angústias profundas. Os poemas, assim como os romances, estão paralisados no reino das palavras. Por isso é preciso ouvir o rumor delas no salto que se faz para dentro, no mergulho para baixo. Liscano afirma, sem falsa modéstia, que algumas vezes conseguiu regressar com algo das viagens que fez ao reino das palavras. É o tal milagre da criação, que, quando acontece, transforma o escritor, o outro e os leitores. Escrever é, sobretudo, transformar. Se não o mundo, certamente a si mesmo e alguns poucos, como os leitores mais dedicados.</p>
<p style="text-align: justify;">Liscano <strong>[23]</strong>: “escrevo para deixar de ser o que sou.” Porque escrever transforma. Porque a escrita é imprevisível. Porque se o escritor soubesse previamente o que gostaria de dizer, não precisaria escrever. Evitaria assim a luta vã com as palavras <strong>[24]</strong>. Mas se privaria da alegria da criação: porque escrever é uma festa. Acrescento chamando Eduardo Galeano <strong>[25] </strong>para a prosa. Essa alegria – essa possibilidade positiva e reconfortante da criação literária – é o que encanta em <em>El escritor y el otro</em>. Sabato <strong>[26]</strong> registrou que fala de literatura como um camponês fala do seu cavalo. Penso que o dito se aplicaria melhor a Liscano, que soube reconhecer as alegrias do ofício. Imagino-o saboreando os textos que trouxe do reino das palavras. A escrita às vezes é uma festa, às vezes reconforta com vantagem. É também por essa razão que se escreve. Sabato: escrever é um parto difícil, é exorcizar fantasmas, é procurar verdades que a ciência e a filosofia não alcançam – gravidade que pesa, sempre. Liscano: escrever é se transformar, é dançar com os próprios fantasmas, é ser ultrapassado pelo texto – leveza que reconforta, às vezes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Janer Cristaldo. <a href="https://www.ebooksbrasil.org/eLibris/mensageirosdasfurias.html" target="_blank" rel="noopener"><em>Mensageiros das fúrias: uma leitura camusiana de Ernesto Sabato</em></a>. Florianópolis: Editora da UFSC, 1983.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Ernesto Sabato. <em>O escritor e seus fantasmas.</em> Rio de Janeiro: F. Alves, 1982.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Sabato, op. cit., p. 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4] </strong>Carlos Liscano. <em>El escritor y el otro.</em> Montevideo: Editorial Planeta, 2016.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5] </strong>Sabato, op. cit., p. 48.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6] </strong>Sabato, op. cit., p. 47.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7] </strong>Liscano, op. cit., p. 76.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8] </strong>Liscano, op. cit., p. 96.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9] </strong>Jorge Luis Borges. <a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm21069919.htm" target="_blank" rel="noopener"><em>Borges e eu</em></a>. Folha de São Paulo, 1999.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10] </strong>Sabato, op. cit., p. 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11] </strong>Sabato, op. cit., p. 54.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12] </strong>Sabato, op. cit., p. 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13] </strong>Sabato, op. cit., p. 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14] </strong>Liscano, op. cit., p. 93.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15] </strong>Sabato, op. cit., p. 75.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16] </strong>Sabato, op. cit., p. 48.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17] </strong>Liscano, op. cit., p. 95.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18] </strong>Liscano, op. cit., p. 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19] </strong>Sabato, op. cit., p. 48.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20] </strong>Liscano, op. cit., p. 91.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21] </strong>Liscano, op. cit., p. 91.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22] </strong>Carlos Drummond de Andrade. <em>Nova reunião: 23 livros de poesia</em> – volume 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p. 141.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23] </strong>Liscano, op. cit., p. 94.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24] </strong>Drummond, op. cit., p. 121.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25] </strong>Marina Rossi. <a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/08/cultura/1533759911_111388.html#:~:text=%E2%80%9CEscrever%20%C3%A9%20a%20%C3%BAnica%20coisa%20que%20eu,e%20as%20pessoas%20que%20cruzaram%20seu%20caminho." target="_blank" rel="noopener"><em>Ouça Eduardo Galeano</em></a>. El País, 2018.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26] </strong>Sabato, op. cit., p. 9.</p>
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		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (1)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159546/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 11:24:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Michel Freyssenet Há algum tempo, nas ciências sociais, recorre-se prontamente à expressão &#8216;a invenção de…&#8217; para significar o caráter histórico e localizado da noção em discussão, como, por exemplo, o mercado ou o desemprego. Pode parecer mais arriscado usar o termo para o trabalho, na medida em que o trabalho aparece como uma necessidade [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Freyssenet</h3>
<p style="text-align: justify;">Há algum tempo, nas ciências sociais, recorre-se prontamente à expressão &#8216;a invenção de…&#8217; para significar o caráter histórico e localizado da noção em discussão, como, por exemplo, o mercado ou o desemprego. Pode parecer mais arriscado usar o termo para o trabalho, na medida em que o trabalho aparece como uma necessidade óbvia da condição humana.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalho poderia ser definido e delimitado, após eliminar as particularidades que apresenta em todas as sociedades conhecidas, como atividades que contribuem para as necessidades da vida humana e social. Ele pode, de alguma forma, existir independentemente de qualquer relação social para organizá-lo. As necessidades são percebidas &#8211; por nosso senso comum e pelo pensamento econômico &#8211; como o mínimo necessário para a existência humana. Por causa disso, atribui-se ao trabalho uma preeminência sobre todas as outras atividades.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa representação do trabalho como uma atividade universal coloca um problema, por várias razões <strong>[1]</strong>.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O Trabalho Nem Sempre Existiu. Ele Foi Inventado</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Dois argumentos provocam reflexão: a ausência do termo ou noção de trabalho em inúmeras sociedades, e a obrigação de admitir a hipótese do <em>homo faber</em> como fundamento da universalidade do trabalho na natureza.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Apenas Nossas Sociedades Distinguem o Trabalho de Outras Atividades</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">O estudo realizado por Marie-Noëlle Chamoux (1994) sobre os termos usados para se referir ao &#8216;trabalho&#8217; em muitas sociedades é bastante perturbador para a visão universalista do trabalho. Ou o termo e a noção estão ausentes; ou estão divididos em várias palavras e realidades; ou seus antônimos não são nem &#8216;repouso&#8217; nem &#8216;lazer&#8217;; ou são invariavelmente e explicitamente ligados a atos mágicos ou religiosos; ou ainda, não incluem atividades necessárias à vida material, como a caça etc. Tampouco a noção de esforço, encontrada em muitas sociedades, apresenta qualquer homogeneidade na definição ou nas atividades assim mencionadas. A categoria trabalho revelou-se, portanto, difícil de compreender empiricamente. Chamoux então faz a pergunta: pode-se dizer que o trabalho existe quando ele não é pensado nem vivido como tal?</p>
<p style="text-align: justify;">Historiadores e antropólogos parecem quase todos concordar que hoje, economia, produção, trabalho e assim por diante, como são entendidos na sociedade ocidental, são noções e áreas que surgiram claramente no século XVIII na Europa, com a diferenciação de um mercado capitalista dentro do mercado que o precedeu. Antes, economia, produção e trabalho estavam, por assim dizer, imersos &#8211; misturados com a política e a religião ou fundidos com elas. Pode-se tentar representar essa imersão da economia e do trabalho considerando, por exemplo, a esfera familiar como é pensada hoje. Muitas atividades ainda provêm indissoluvelmente da educação, afeição, necessidades, submissão, reconhecimento e assim por diante. A partir dessa constatação comum, as orientações de pesquisa divergem.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159550" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2.jpg" alt="" width="387" height="516" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2-315x420.jpg 315w" sizes="auto, (max-width: 387px) 100vw, 387px" />Karl Polanyi (1983), citando e desenvolvendo observações feitas anteriormente por Karl Marx e Max Weber, notadamente sobre o caráter &#8216;não segregado&#8217; dos aspectos econômicos em relação a outros aspectos da vida em todas as sociedades, exceto no Ocidente, conclui que não há definição &#8216;conceitual&#8217; universal possível para a economia. Cada época experimenta formas econômicas distintas. Por outro lado, ele acredita que é possível dar definições &#8216;substantivas&#8217; de economia, produção e trabalho que sejam válidas para todas as sociedades conhecidas: ou seja, a atividade necessária à vida material das pessoas e da sociedade. Mas essa atividade, distinguida em algumas ou firmemente imersa em outras, não é necessariamente determinante por sua natureza sobre as outras atividades. Dependendo da época, pode ter importância variável na vida social em geral. Karl Polanyi aproveita essa ocasião para denunciar o economicismo que, em sua opinião, estava invadindo as ciências históricas e sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Maurice Godelier, em sua obra <em>The Mental and the Material</em> (Godelier, 1984), cita a tese polanyiana, mas sem compartilhar as conclusões. Ele escreve que, ao contrário, isso permite reexaminar a noção marxista de relação social de produção e separar dela qualquer referência a uma sociedade particular, notadamente a sociedade ocidental, que autonomizou a economia. Acima de tudo, permite compreender &#8211; em oposição ao que o próprio Polanyi afirma &#8211; por que as relações sociais chamadas &#8216;superestruturais&#8217; (como as relações de parentesco ou políticas) podem fundar e organizar conjuntamente toda uma sociedade. A produção está inserida nessas relações e, consequentemente, elas funcionam como relações de produção. É até mesmo graças à exceção que a sociedade capitalista ocidental tem sido desde o final do século XVIII, que revelou e designou a economia como tal, que se tornou possível “compreender a importância das atividades materiais e das relações econômicas no movimento de produção e reprodução das sociedades” (Godelier, 1984: 32). O fato de as relações econômicas, uma vez autonomizadas, aparecerem como determinantes na vida social seria a prova de que as relações políticas e simbólicas que reinaram sobre certas sociedades só puderam fazê-lo porque integram as relações sociais de produção. Esse raciocínio, então conduzido por Godelier <strong>[2]</strong>, restabeleceu, portanto, estas últimas como fundamento de todas as sociedades, diferentemente do afirmado por Polanyi.</p>
<p style="text-align: justify;">Louis Dumont propõe desenvolver a tese polanyiana até o que lhe parecia ser sua conclusão lógica: ou seja, renunciar definitivamente a qualquer economicismo, inclusive, nas sociedades capitalistas, para:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…] recusar o compartimentalismo que nossa sociedade sozinha oferece obstinadamente e, em vez de buscar o significado da totalidade social na economia &#8211; ao que Polanyi é certamente contrário -, procurar antes na totalidade social o significado do que a economia é dentro de nossa sociedade e para nós <strong>[3].</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, muitos antropólogos consideram que a cultura já está presente no ponto em que a história começa. A produção é simbólica desde o início. A sociedade burguesa é, antes de tudo, uma cultura antes de ser uma economia: &#8216;Considerar o comércio como vantajoso para ambas as partes representou uma mudança fundamental e sinalizou a ascensão à categoria econômica&#8217; (Dumont, 1985: 45).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Duas grandes orientações podem, portanto, ser distinguidas. Para a primeira, a relação capital-trabalho autonomizou atividades que fazem uso da reprodução material e, assim, permitiu a definição da economia em geral, para além de sua forma capitalista. Então, o trabalho teria sempre sido essa atividade que consistia em usar, dominar e controlar a natureza para produzir a partir dela as utilidades necessárias à humanidade. Consequentemente, haveria uma definição substantiva possível para o trabalho, permitindo analisar essa forma de atividade em toda sociedade com critérios comuns e determinar o lugar que ela foi capaz de ocupar na estruturação das relações sociais. Enquanto para Polanyi a economia e o trabalho seriam estruturantes apenas nas sociedades capitalistas, para Marx e Godelier (1984) as relações capital-trabalho também teriam revelado que elas são estruturantes em todas as sociedades.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159553" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark.jpg" alt="" width="2000" height="1234" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-300x185.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-1024x632.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-768x474.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-1536x948.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-681x420.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-640x395.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />De acordo com a segunda orientação, uma cultura &#8211; e até agora uma única cultura, a burguesa &#8211; inventou uma área chamada econômica. Uma definição universal do econômico é, portanto, impossível tanto conceitual quanto substantivamente. O trabalho, como é entendido hoje, corresponde, nessa perspectiva, ao surgimento da relação de trabalho e do &#8216;trabalhador livre&#8217; que vende sua capacidade de trabalho. A progressiva difusão e hegemonia dessa relação social tornaram-se a referência para perceber, pensar e organizar uma série de atividades. A consequência teria sido uma extensão do termo trabalho a atividades que não eram designadas como tal e que não decorrem da relação de trabalho, como o &#8216;trabalho doméstico&#8217; e o &#8216;trabalho autônomo&#8217;. Uma naturalização do trabalho teria, assim, resultado. Desse ponto de vista, o trabalho é percebido como uma realidade universal e como tendo sempre existido. Ele teria sido projetado no passado e em outras sociedades, em vez de ter se realizado por meio das condições históricas que o fizeram emergir há três séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma boa maneira de avançar em tal debate é buscar os pressupostos de ambas as posições.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Hipótese do Desvelamento do Trabalho e da Economia Através da Relação Capital-Trabalho e, Portanto, de sua Universalidade, Supõe Concordância com um Materialismo Naturalista Inaceitável Hoje</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Um jornalista americano já havia objetado a Karl Marx, após ler o prefácio da <em>Contribuição à Crítica da Economia Política</em>, no qual Marx expunha sua distinção entre relações que fundam uma sociedade (infraestruturas) e aquelas que a governam (superestruturas), que a determinação da vida social por meio das relações sociais de produção não pode ser considerada universal. As sociedades antiga e feudal, ele lembrou, eram fundadas em relações essencialmente políticas. Marx responde, em uma nota em <em>O Capital</em>, que, durante o colapso das relações feudais, Dom Quixote ainda precisava encontrar por si mesmo algo para comer e beber. Em outras palavras, privados das relações que em algumas sociedades tanto abrangem quanto mascaram as relações pelas quais a reprodução material de uma sociedade é garantida, as pessoas se veem confrontadas com sua obrigação física primária: a alimentação. A determinação pelo econômico teria, portanto, claramente se originado de necessidades vitais inevitáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria útil lembrar de onde vem essa posição natural-materialista. Ela se enraizou nos primeiros trabalhos filosóficos de Karl Marx. Reagindo contra o idealismo e o universalismo hegeliano, Marx e Engels escreveram em <em>A Ideologia Alemã</em> que o humano em geral não existe e que os humanos só existem como indivíduos históricos reais.</p>
<p style="text-align: justify;">São os homens que produzem suas representações, suas ideias, etc., mas [eles são] homens reais, ativos, tais como são condicionados por um desenvolvimento determinado de suas forças produtivas e do modo de relações que a elas correspondem, incluindo as formas mais amplas que estas podem assumir. A consciência nunca pode ser outra coisa senão o ser consciente, e o ser dos homens é seu processo de vida real. (Engels e Marx, 1968: 50)</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, para “dissipar as fantasmagorias universalistas do pensamento e libertar-se delas”, eles propõem um programa de trabalho que visa estudar os seres humanos históricos concretos, as relações que mantinham entre si, suas condições de vida e o processo de vida real. Para justificar esse programa, apresentam três argumentos. Primeiro, um argumento metodológico: a vida material dos seres humanos reais pode ser verificada por meios puramente empíricos. É um argumento importante se tenta denunciar a omissão das condições de vida reais e suas relações com as diferenças comuns e formas de reflexão no pensamento universalista. É também um argumento, no entanto, insuficiente para justificar a primazia concedida à vida material para compreender outras manifestações humanas. Nesse ponto, entra em jogo um segundo argumento: pode-se provar que há um elo na história humana entre os diferentes estágios de desenvolvimento na divisão do trabalho e as formas de propriedade, ou seja, as relações dos indivíduos entre si. Mas essa correlação perceptível não implica, logicamente, que a produção material seja, por isso, mais determinante. Finalmente, intervém um terceiro argumento, claramente naturalista:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…]somos levados a começar pela primeira observação de qualquer existência humana, em qualquer história; isto é, que os homens devem viver para poderem &#8216;fazer história&#8217;. Mas, para viver, o homem deve antes de mais nada beber, comer, habitar e vestir-se, entre outras coisas. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que lhe permitem satisfazer essas necessidades, a produção da própria vida material, e mesmo isso é um fato histórico, uma condição prévia fundamental de qualquer história que hoje deve ser preenchida dia após dia, hora após hora, assim como há milhares de anos, simplesmente para manter o homem vivo.</p>
<p style="text-align: justify;">[…] Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião ou por qualquer outra coisa que se deseje. Eles próprios começam a se distinguir dos animais assim que começam a produzir seus meios de existência, um passo adiante que é a própria consequência de sua organização corporal. (Engels e Marx, 1968: 57, 45)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Engels e Marx acrescentam que muito rapidamente outras necessidades e, de fato, todo um estilo de vida se desenvolve. No entanto, eles fundam a preeminência da atividade produtiva nas necessidades vitais, uma evidência que não é realmente uma prova, e através de um discurso sobre as origens da humanidade, que na verdade é um discurso sobre o que os humanos eram em sua origem.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159552" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images.jpg" alt="" width="655" height="468" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images.jpg 655w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-300x214.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-588x420.jpg 588w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-640x457.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 655px) 100vw, 655px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os pressupostos da tese do &#8216;primeiro fato histórico&#8217;, em outras palavras, a produção dos meios que permitem a satisfação das necessidades de alimento, são numerosos e incertos demais para serem mantidos hoje. Seria necessário que, na espécie animal, o proto-humano não encontrasse nada para comer ou beber em seu ecossistema. Teria sido essa necessidade vital &#8211; sendo uma restrição absoluta &#8211; e não qualquer outra que teria desencadeado a invenção e a reflexão humana, bem como as primeiras relações sociais. Seria necessário buscar recurso em um meio &#8216;artificial&#8217; para a aquisição de alimentos, sendo essa a peculiaridade dos humanos, o que sabidamente não é o caso.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, não parece mais possível estabelecer uma tese tão carregada de consequências teóricas e práticas como a das relações sociais de produção estar na base de qualquer sociedade sobre a frágil hipótese do <em>homo faber</em>. Podemos razoavelmente postular que existia um ser social &#8216;completo&#8217;, livre de qualquer primitivismo. As condições de existência são uma sociedade, uma linguagem, a transmissão de conhecimento, razões para viver e morrer etc., assim como comer e beber, sem entrar em outras condições naturais ou culturais, igualmente essenciais, mas que são simplesmente ignoradas por serem dadas como certas.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de um retrocesso à posição de Dumont? É-se obrigado a buscar as razões para a divisão e a designação de atividades em cada sociedade? Seria necessário representar a sociedade como um organismo, dotado de um princípio único de existência, ordem e regulação, que daria sentido a cada uma de suas partes; em vez de tentar construir tal &#8216;totalidade&#8217;, pareceria mais prudente e heuristicamente mais frutífero partir do reconhecimento primário da existência de relações sociais, tendo sua própria lógica &#8211; atualizada, acionada e modificável pelos atores sociais que cada uma dessas relações institui, coexistindo ou articulando-se entre elas, criando campos sociais, cuja designação e fronteiras se deslocam em relação ao lugar e ao tamanho que essas relações sociais adquirem, cada uma em relação à outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosamente, Marx oferece a oportunidade e a possibilidade de se comprometer com esse caminho e pensar que o conceito de relação social se desvincula de qualquer determinação &#8216;substantiva&#8217;.</p>
<p><em>Artigo publicado no volume 47 (2) da revista Current Sociology em abril de 1999 e foi traduzido por Leo Vinicius.</em></p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são da série Bichos de Lygia Clark</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Este artigo cita e expande uma série de textos publicados desde 1987: &#8216;Le concept de rapport social peut-il fonder une autre conception de l&#8217;objectivité et une autre conception du social?&#8217; (O Conceito de Relações Sociais Pode Fundar Outra Concepção de Objetividade e Outra Concepção do Social?) (Freyssenet e Magri, 1989: 9-23) e &#8216;Le rapport capital-travail et l&#8217;économique&#8217; (A Relação Capital-Trabalho e a Economia) (Freyssenet e Magri, 1990: 5-16); &#8216;L&#8217;invention du travail&#8217; (A Invenção do Trabalho), (Futur Antérieur, 1993-2: 17-26); &#8216;Historicité et centralité du travail&#8217; (Historicidade e Centralidade do Trabalho) (Bidet e Texier, 1995: 227-44).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A posição de Godelier mudou desde então, como ele explicou em seu prefácio a &#8216;La Transformation dans la nature et rapports sociaux&#8217; (A Transformação na Natureza e Relações Sociais) (Freyssenet e Magri, 1990: 19-20). Citando um texto intitulado &#8216;L&#8217;Oeuvre de Marx&#8217; (A Obra de Marx) publicado em &#8216;Le Marxisme analytique anglosaxon&#8217; (O Marxismo Analítico Anglo-Saxão), ele escreve:</p>
<p style="text-align: justify;">Quando, por exemplo, as relações de parentesco em uma sociedade tribal também funcionam internamente como relações de produção &#8211; portanto, tanto como infraestrutura quanto como superestrutura &#8211; deve-se explicar por quê. … [Agora], a antropologia social nunca descobriu até hoje a relação causal direta entre um modo de produção e um modo de filiação e aliança. Na verdade, se as relações de parentesco não dependem diretamente, por suas outras aparências, de um modo de produção, é porque elas têm suas próprias funções distintas e possuem &#8211; o único paradoxo aqui é na aparência &#8211; uma base material independente: relações biológicas entre sexos e gerações, condições materiais de produção de novos indivíduos às quais as regras de filiação e aliança dos diversos sistemas de parentesco dão um sentido e usos sociais etc. Assim, a hipótese central de Marx, que faz dos meios de produção materiais e sociais a base geral da vida social, não foi confirmada. Ela mantém uma capacidade mais restrita — embora ainda impressionante — de explicar o funcionamento e a evolução das sociedades. (Godelier, 1990: ???)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Prefácio de Louis Dumont à obra de Karl Polanyi <em>A Grande Transformação</em> (Polanyi, 1983: xxvi).</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (7)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jul 2026 03:17:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Devemos estar abertos a uma revisão fundamental, baseada nas transformações da realidade social. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong style="font-family: Verdana, Geneva, sans-serif; font-size: 14px;">CAPÍTULO 5</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Greve Geral</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Essa ideologia de ação coletiva, com sua oposição estática entre revolta e greve, seria, por sua vez, elidida com uma oposição correspondente em um estrato conceitual mais elevado, o do anarquismo e do socialismo. Pode parecer, dentro das convenções do presente, que táticas específicas e seus repertórios surgem de, e são portanto próprios de, posições políticas e analíticas particulares <strong>[1]</strong>. Historicamente, a oposição ideológica das táticas ajudou a produzir a oposição política e isso, por sua vez, consolidaria ainda mais a antítese das formas de ação.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, a greve, e com ela a categoria mais ampla de ações trabalhistas organizadas e a organização em grande escala como tal, é entendida como a tática político-econômica associada ao campo complexo do socialismo e do comunismo como horizontes políticos, conjugando-se com o pensamento materialista histórico. A revolta, e com ela o conjunto de táticas “insurrecionais” antes e além da organização trabalhista tradicional, é entendida em oposição a isso. É um ataque espontâneo à vida cotidiana, mas também a rejeição de um programa político supostamente determinista, autoritário e implicitamente, se não explicitamente, estatista. Uma das questões básicas deste livro é se esse conjunto de oposições dicotômicas, uma fórmula com motivos históricos reais, ainda faz sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">A divisão na Primeira Internacional certamente não precisa ser repetida aqui, e um desdobramento completo da divergência entre anarquistas, de um lado, e socialistas e comunistas do outro, está além do escopo deste estudo <strong>[2]</strong>. Vale a pena lembrar até que ponto essas posições eram, a princípio, muito mais contínuas do que parecem agora; em paralelo com a das revoltas e greves, sua polarização é um procedimento a-histórico. Na época da Primeira Internacional, a retórica da emancipação do trabalho como projeto fundamental era compartilhada, juntamente com a centralidade do proletariado e o pressuposto da luta de classes como base para a revolução. Os debates da época são ilustrativos. Pode-se considerar a disputa entre o anarquismo coletivista e o comunismo anarquista na década de 1870. A primeira facção desejava acabar com todas as trocas comerciais e o salário, enquanto na visão da segunda, “uma economia de troca ainda opera dentro de uma rede de &#8216;coletividades&#8217; autogerenciadas e pertencentes aos trabalhadores, que detêm a propriedade legal dos instrumentos e recursos de produção”. O trabalho assalariado e seu status assumiram uma importância decisiva. Kristin Ross escreve: “Além disso — e esse foi o ponto de maior ruptura entre os dois grupos —, o anarquismo coletivista manteve o sistema salarial, fazendo a distinção entre alimentos e outros bens dependentes da contribuição de trabalho de cada indivíduo” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Tais posições e debates sobre o conteúdo de uma sociedade revolucionária deixam claro que a antítese rígida das posições políticas decorrentes dessa oposição seria moldada ao longo do tempo. A divisão de táticas em posições políticas e analíticas não acontece simplesmente ao longo do caminho, mas faz parte dessa moldagem. Em nenhum lugar o processo é encenado de forma mais explícita do que no caso da greve geral. Os debates sobre a greve geral apresentam dificuldades, sobretudo pelas várias distinções feitas (e não feitas) entre greves gerais “proletárias” e “políticas”, entre a greve “geral” e a greve “de massa”. Felizmente para nós, analisar essas distinções é menos importante do que um momento específico dentro dos debates e as possibilidades que ele oferece para considerar a relação entre táticas e posições políticas.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159534" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1.jpg" alt="" width="638" height="886" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1.jpg 638w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1-216x300.jpg 216w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1-302x420.jpg 302w" sizes="auto, (max-width: 638px) 100vw, 638px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A vitória dentro da Internacional da posição socialista, no que diz respeito aos modelos de luta política, já havia sido ratificada antes da cisão de 1872. A Resolução nº 9 do ano anterior afirmava que “essa constituição da classe trabalhadora em um partido político é indispensável para garantir o triunfo da revolução social e seu objetivo final — a abolição das classes”. O compromisso com um processo parlamentar implica tanto um certo tipo de organização quanto, pelo menos, alguma observância de um padrão legalista. A estratégia parlamentar terá idas e vindas, mas a lógica organizacional do partido, que a acompanha, terá grande constância. Como expressão de sua base organizacional, supostamente ordeira em sua execução e entrando em confronto com o capital em vez do Estado, a greve restrita não pode deixar de aderir a tal horizonte político, mesmo que qualquer greve específica provavelmente tenha ambições mais locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Em contrapartida, a aparente desordem dos modos anarquistas de luta torna-se objeto de antipatia. <em>Espontaneidade</em> é a palavra-chave que codifica essa antipatia. É um termo ambíguo, politicamente. Muitas vezes, indica uma ação que surge “naturalmente”, uma resposta momentânea. Nesse sentido, um ato espontâneo é escravo do estímulo. No entanto, de acordo com outra definição, “no século XVIII, quando Kant descreveu a unidade transcendental da apercepção — o fato de eu estar ciente de mim mesmo como tendo minhas próprias experiências —, ele chamou isso de ato espontâneo. Kant queria dizer o oposto de algo natural. Um ato espontâneo é aquele que é realizado livremente” <strong>[4]</strong>. Assim, o termo preserva tanto o sentido de afloramento autônomo (lembrando a visão espasmódica da revolta) quanto o de ato voluntário, livremente escolhido, que, no entanto, carece do desenvolvimento paciente de uma contra-organização que se movimenta paralelamente aos desenvolvimentos do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O termo assume uma complexidade ainda mais controversa com a revolução Soviética. Lenin o utilizará, notoriamente, para deplorar as massas desorganizadas. A palavra russa <em>stikhiinost</em> significa tanto espontaneidade quanto o caos da natureza: aquilo que tem o menor grau de organização. Alexander Bogdanov, um filósofo polímata russo, especificará que essa desordem da natureza é uma resistência à organização que é o trabalho humano, e que os dois se opõem: “Consequentemente, o mundo é um campo de batalha do trabalho coletivo, no qual a atividade humana luta contra a resistência espontânea da natureza” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É o colapso não declarado desses sentidos — caótico, natural, contra o trabalho humano — que permite que o termo assuma suas dimensões mais pejorativas. A partir da ortodoxia leninista, o espontaneísmo torna-se não apenas falta de organização em algum sentido, mas também antagonismo ao trabalho e, portanto, implicitamente ao proletariado. Além disso, uma discordância com estratégias organizacionais pode ser transcodificada como irracionalidade, contrária não apenas ao trabalho, mas também ao ser humano como tal.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um momento anterior desse debate encenado à luz da Comuna de Paris, Marx inicialmente argumenta seriamente contra tal abordagem, contra a revolução impaciente. Em meio às esmagadoras derrotas francesas de 1870, ele adverte: “Os trabalhadores franceses […] não devem se deixar influenciar pelos souvenirs nacionais de 1792 […]”. Em vez disso, eles devem “construir o futuro. Deixem-nos incrementar calma e resolutamente as oportunidades da liberdade republicana, para o trabalho de sua própria organização de classe” <strong>[6]</strong>. Como é bem sabido, ele mais tarde mudará sua posição e fará uma avaliação surpreendente sobre a Comuna.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>Engels e Sorel</strong></em></h5>
<p style="text-align: justify;">As dúvidas iniciais de Marx retornam na avaliação de Engels sobre a greve geral desencadeada pelos bakuninistas em 1873, com a Espanha à beira da guerra civil. As conclusões de Engels certamente assombram a vacilação posterior de Hobsbawm, sua identificação da greve geral com a revolta — dois avatares de espontaneidade excessiva e organização inadequada, a identidade do excesso e da insuficiência. “A greve geral, no programa dos bakuninistas, é o mecanismo que será usado para introduzir a revolução social”, escreve ele, elevando o tom de escárnio. Ele continua:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em uma bela manhã, todos os trabalhadores de todas as indústrias de um país, ou talvez de todos os países, cessarão o trabalho e, assim, obrigarão a classe dominante a se submeter em cerca de quatro semanas ou a lançar um ataque contra os trabalhadores, para que estes tenham o direito de se defender e possam usar a oportunidade para derrubar a velha sociedade.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Voltando a 1842 e suas limitações, suas falhas de coordenação e preparação, ele então chega ao “ponto crucial da questão”:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por um lado, os governos, especialmente se encorajados pela abstenção da ação política por parte dos trabalhadores, nunca permitirão que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente e, por outro lado, eventos políticos e as intervenções da classe dominante levarão à libertação dos trabalhadores muito antes que o proletariado consiga formar essa organização ideal e esse colossal fundo de reserva. Mas se eles tivessem isso, não precisariam recorrer ao caminho indireto da greve geral para atingir seu objetivo <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os anarquistas, nessa narrativa, carecem tanto de razão quanto de recursos. Não tendo desenvolvido adequadamente suas associações trabalhistas, os trabalhadores não terão acumulado capacidade organizacional adequada nem recursos financeiros suficientes para encenar o que acreditam ser uma batalha pela emancipação total. Rosa Luxemburg encontra nisso o que se tornará o senso comum da social-democracia, derivado de seu oposto, a “teoria anarquista da greve geral — ou seja, a teoria da greve geral como meio de inaugurar a revolução social, em contraposição à luta política cotidiana da classe trabalhadora”. Qualquer defesa da greve geral anarquista “se esgota no seguinte dilema simples: ou o proletariado como um todo ainda não possui a poderosa organização e os recursos financeiros necessários, caso em que não pode levar adiante a greve geral, ou está suficientemente bem organizado, caso em que não precisa da greve geral” <strong>[8]</strong>.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159535" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32.jpg" alt="" width="642" height="886" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32.jpg 642w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-217x300.jpg 217w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-304x420.jpg 304w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-640x883.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 642px) 100vw, 642px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Georges Sorel oferecerá, no entanto, uma defesa notável. Antes de passar a isso, podemos observar em Engels uma suposição interessante sobre o desenvolvimento de um fundo de greve, a artilharia pesada no arsenal do proletariado. O limite para sua expansão é o Estado, que “nunca permitirá que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente”. Este é o mundo visto da perspectiva da acumulação, em que se pressupõe um excedente social crescente, e a disputa para apropriar-se da maior parte possível desse excedente é o preâmbulo plausível e necessário para uma luta ampliada. A concepção de Engels sobre os fundamentos da luta é produtivista, não apenas no sentido abstrato de assumir a centralidade do trabalho produtivo para a luta revolucionária, mas também em sua pressuposição de um aumento concreto e contínuo da riqueza social decorrente do capital produtivo; ela se encaixa com a observação de Rule sobre a dependência da greve bem-sucedida da “expansão da produção”. Essa é a particularidade histórica implícita a partir da qual Engels universaliza sua crítica.</p>
<p style="text-align: justify;">Sorel será o opositor de Engels mais de trinta anos depois. Sua defesa da greve geral não é menos ardente do que a denúncia de Engels, embora compartilhe a tendência universalizante dessa denúncia. Para Sorel, o poder da greve geral não é sua capacidade de subjugar instantaneamente o capital, mas sua provisão ao proletariado de uma orientação total, uma totalização política.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele distingue entre uma greve geral “proletária” e uma greve geral “política”. Esta última é entendida como um mecanismo convocado por atores políticos no controle de sindicatos centralizados com o objetivo de transferir o poder de um governo para outro já preparado e organizado. É a “organização ideal” que Engels considera impossível. O gesto de Sorel não é insistir, contra Engels, na possibilidade dessa organização. Em vez disso, ele a rejeita por preservar a dominação política, por projetar sobre a greve geral esse caráter “político” cujo horizonte é a tomada do poder estatal e o controle estatal centralizado. A greve geral proletária, por outro lado, é a pré-condição para a luta de classes emancipatória.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, Sorel opõe a greve geral proletária à greve limitada ou restrita, sugerindo que esta última oferece satisfações e ganhos parciais que servem para diminuir o fervor revolucionário. Além disso, ela revela, mas não resolve, os interesses divergentes entre os trabalhadores comuns e a aristocracia operária dos “encarregados, escriturários, engenheiros, etc.”, bem como os interesses aparentemente opostos do campesinato e do proletariado industrial. A noção de Marx do capital como uma totalidade e sua concepção da existência social em duas classes antagônicas não podem ser compreendidas a partir dessa perspectiva, nem podem ser construída a partir de fragmentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve geral unifica a experiência das misérias cotidianas e os vislumbres fragmentários de algo além delas, permitindo ao trabalhador individual uma intuição do mundo para o qual a revolução tende, obtida “como um todo, percebida instantaneamente” <strong>[9]</strong>. Esse “conhecimento total” bergsoniano supera, ao mesmo tempo, o problema prático da desunião da classe. Sorel imagina resolver o chamado problema da composição desta forma: “Mas todas as oposições se tornam extraordinariamente claras quando os conflitos são ampliados para o tamanho da greve geral… a sociedade está claramente dividida em dois campos, e apenas em dois, em um campo de batalha” <strong>[10]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ação espontânea, portanto, é corolário do conhecimento espontâneo no sentido kantiano. Isso fornece a única passagem possível para a consciência de classe atualizada e a possibilidade revolucionária que não está entravada desde o princípio por estruturas organizacionais reificadas: “<em>a greve geral deve ser tomada como uma totalidade indivisível, e a passagem do capitalismo ao socialismo concebida como uma catástrofe, cujo desenvolvimento escapa a qualquer descrição</em>” <strong>[11]</strong>. Embora Sorel fosse um socialista e sindicalista herético, é essa contraposição à organização estatal e partidária que se torna a posição anarquista familiar sobre a greve geral.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>A Inversão de Rosa Luxemburg</strong></em></h5>
<p style="text-align: justify;">A reelaboração dessa questão por Luxemburg em “<em>A greve de massas</em>”, um dos maiores panfletos políticos jamais escritos, tanto por seu método quanto por sua conclusão, não está isenta de ambiguidades. Aqui, ela parece distinguir a greve geral e a greve de massa como fenômenos dos séculos XIX e XX, respectivamente, para depois tratá-los como iguais: “o anarquismo, ao qual a ideia da greve de massa está indissoluvelmente associada”. Ela admite que a crítica de Engels a essa greve “à primeira vista é tão simples e irrefutável que, por um quarto de século, prestou um excelente serviço ao movimento operário moderno contra o fantasma anarquista e como meio de levar a ideia da luta política ao mais vasto círculo de trabalhadores” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua retórica aqui é sofisticada, mas enviesada e potencialmente enganosa. Ela sugere que qualquer refutação do veredito de Engels deve, portanto, tomar o lado do “fantasma anarquista”. Isso provou ser uma interpretação errônea duradoura de Luxemburg, cuja posição é frequentemente atribuída a uma espontaneidade soreliana. “Rosa Luxemburg deu grande ênfase à espontaneidade das massas”, começa um resumo da sabedoria recebida; ele cita comentários representativos no sentido de que Luxemburg tinha “uma fé fanática, mas utópica, quase anarquista, nas massas” <strong>[13]</strong>. O próprio Sorel relata que a “nova escola que se autodenomina marxista, sindicalista e revolucionária” — ele se refere a Luxemburg, talvez Anton Pannekoek —“declarou-se a favor da greve geral assim que tomou consciência do verdadeiro sentido da sua própria doutrina” <strong>[14]</strong>.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159536" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22.jpg" alt="" width="755" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22.jpg 755w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-252x300.jpg 252w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-352x420.jpg 352w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-640x763.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-681x812.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 755px) 100vw, 755px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas, para Luxemburg, não foi a consciência doutrinária que mudou. Foram as circunstâncias materiais. Não se pode culpar Engels pelo seu raciocínio em 1873; são aqueles que permanecem presos nessa posição contra os novos desenvolvimentos históricos que merecem desprezo. Pannekoek apresentará um argumento semelhante pouco tempo depois. Diante da polêmica de Kautsky contra a greve de massa, que Kautsky temia que prejudicasse o Partido Social-Democrata e seus sindicatos, Pannekoek sustenta que “várias formas de ação… não são opostas, mas parte de uma gama gradualmente diferenciada”, formas que assumem sua relevância mutável a partir do desenvolvimento das forças econômicas <strong>[15]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Luxemburg escreve seu panfleto na esteira de uma série de greves de massa em expansão, primeiro na Bélgica e na Suécia, depois na Holanda, Rússia e Itália; em seguida, a onda insurrecional de greves que constitui a Revolução Russa incompleta de 1905. Ela encara a greve, portanto, não como um erro, mas como uma eventualidade:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Se, portanto, a Revolução Russa nos ensina alguma coisa, ela nos ensina acima de tudo que a greve de massa não é artificialmente “criada”, não é “decidida” aleatoriamente, não é “propagada”, mas que é um fenômeno histórico que, em um determinado momento, resulta de condições sociais com inevitabilidade histórica. Não é, portanto, por meio de especulações abstratas sobre a possibilidade ou impossibilidade, a utilidade ou a nocividade da greve de massa, mas apenas por meio de um exame dos fatores e condições sociais a partir dos quais a greve de massa cresce na fase atual da luta de classes — em outras palavras, não é pela crítica subjetiva da greve de massa do ponto de vista do que é desejável, mas apenas pela investigação objetiva das fontes da greve de massa do ponto de vista do que é historicamente inevitável, que o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua investigação revela uma situação profundamente complexa na Rússia. Ela descreve os preparativos para a greve de massa de janeiro em São Petersburgo:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Aqui se lutava pela jornada de oito horas, ali se resistia ao trabalho por peça, aqui se “expulsavam” capatazes brutais em um saco sobre um carrinho de mão, em outro lugar se lutava contra sistemas infames de multas, em todos os lugares se lutava por melhores salários e aqui e ali pela abolição do trabalho em casa <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nessa circunstância de múltiplas queixas, nenhuma coordenação política vinda de cima é possível. No entanto, a disseminação interna da greve dentro do proletariado torna-se possível. O que dá consistência a essas várias particularidades russas é a transição de um absolutismo quase feudal para um capital industrializante. Embora a mão de obra urbana e o campesinato possam se encontrar em posições bastante diferentes, ambas as posições flutuam dentro dessa transformação singular, e a conexão entre lutas políticas e econômicas está aberta, desafiando a separação que Anthony Giddens chama de base fundamental do Estado capitalista <strong>[18]</strong>. Assim, torna-se possível uma mudança no equilíbrio, da frente do absolutismo para a das lutas econômicas que se seguem à greve de janeiro. Para Luxemburg, isso abre uma perspectiva revolucionária:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas, ao mesmo tempo, o período das lutas econômicas da primavera e do verão de 1905 tornou possível ao proletariado urbano, por meio da agitação e da direção social-democrata ativa, assimilar posteriormente todas as lições do prólogo de janeiro e compreender claramente todas as tarefas futuras da revolução <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A espontaneidade, então, pode se desdobrar em coordenação em determinadas condições, as de transição. Essa é a sequência revolucionária que Luxemburg vê diante de si, e a greve de massa é a forma que essa sequência assume. Para ela, isso não valida a posição anarquista. Sua conclusão, apresentada no início, é de fato brutal a esse respeito. O caráter revolucionário e o sucesso da greve de massa “não apenas não justificam o anarquismo, mas significam, na verdade, a liquidação histórica do anarquismo” <strong>[20]</strong>. Devido aos desenvolvimentos político-econômicos, a greve de massas, por assim dizer, mudou de lado; em um movimento objetivo, entrou no repertório da luta comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se agora ler Luxemburg como um golpe desferido pelo socialismo e pelo marxismo contra as fantasias anarquistas. Em alguns momentos, o panfleto assume tons triunfalistas, o que não é louvável. Pode-se lê-lo como uma recomendação de como proceder, da importância da arma da greve de massa; sem dúvida, isso é fundamental.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, talvez seja mais significativo para o presente ler o panfleto por sua clareza dialética. Quando as condições materiais mudam, quando a estrutura político-econômica muda, a importância política e as possibilidades práticas de uma tática de ação coletiva também podem mudar. A associação congelada da greve e das formas de organização política que a acompanham com o que agora passaremos a chamar de teoria comunista deve ser abandonada. Da mesma forma, a associação congelada da ação coletiva supostamente espontânea com o anarquismo. Os pensadores que defendem essas identificações, apesar de toda a sua astúcia intelectual ou rejeição por princípio das tendências teóricas, só podem ser nossos Kautskys, ou, nesse caso, Bömelburgs, presos no âmbar do “que é desejável”. Devemos estar abertos a “uma revisão fundamental do antigo ponto de vista do marxismo”, baseada nas transformações da realidade social <strong>[21]</strong>. Não se declara que um comunista faz isso ou um anarquista faz aquilo. Vai-se ao “ponto de vista do que é historicamente inevitável” — somente a partir desse ponto de vista “o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159533" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A.jpg" alt="" width="886" height="836" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A.jpg 886w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-300x283.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-768x725.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-445x420.jpg 445w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-640x604.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-681x643.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 886px) 100vw, 886px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> O marxismo não é uma crença política (muito menos um programa), mas sim um modo de análise.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> É uma espécie de petição de princípio distinguir entre socialismo e comunismo. A intenção, que será relevante mais adiante, é muito semelhante à do termo “marxismo tradicional” de Moishe Postone, que consideramos ser o socialismo — referindo-se a um horizonte político de socialização dos meios de produção sob o controle dos trabalhadores por meio da tomada do Estado, enquanto “comunismo” se refere ao horizonte político de abolir o modo de produção por completo. Sobre a questão de se o primeiro pode levar ao segundo, como proposto na <em>Crítica ao Programa de Gotha</em>, de Marx, algumas breves reflexões são apresentadas no capítulo final.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Kristin Ross, <em>Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune</em>, Londres: Verso, 2015, 107.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> “Spontaneity, Mediation, Rupture”, <em>Endnotes</em> 3, 2013, 232. Os autores coletivos citam Robert Pippin, Hegel&#8217;s Idealism, Cambridge: Cambridge University Press, 1989, 16-24.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Maria Chehonadskih, “The Anthropocene in 90 Minutes”, mute.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Karl Marx e V. I. Lenin, <em>The Civil War in France: The Paris Commune</em>, Nova York: International Publishers, 1968, 34.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Friedrich Engels, ““The Bakuninists at Work: An Account of the Spanish Revolt in the Summer of 1873,” cited in Rosa Luxemburg, <em>The Essential Rosa Luxemburg</em>, ed. Helen Scott, Chicago: Haymarket Books, 2008, 111-12.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Georges Sorel, <em>Reflections on Violence</em>, ed. Jeremy Jennings, Cambridge: Cambridge University Press, 1999, 128. Ver nota de rodapé 17 nessa página sobre Bergson.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Sorel, <em>Reflections</em>, 132.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ibid., 148 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 114, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Norman Geras, <em>The Legacy of Rosa Luxemburg</em>, Londres: Verso, 1976, 111-12. A segunda passagem cita E. H. Carr.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Sorel, <em>Reflections</em>, 120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Anton Pannekoek, <em>Pannekoek and Gorter&#8217;s Marxism</em>, ed. D. A. Smart, London: Pluto, 1978, 65.Em retrospecto, como era fácil derrotar Kautsky em um debate!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 117-8 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Ibid., 129.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Anthony Giddens, <em>The Class Structure of the Advanced Societies</em>, Londres: Hutchinson, 1973, 206.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Ibid., 113 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Ibid., 114.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este capítulo são da autoria de Frans Masereel (1889-1972).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>A gramática sem dono</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 15:46:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando ambos os polos passam a falar rigorosamente a mesma língua, a gramática totalitária se consuma. Por Marcelo Phintener]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Phintener</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Coerência sem coordenação: a gramática totalitária do Partido Digital Bolsonarista</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Há um enigma no centro de qualquer análise do bolsonarismo: como um movimento sem estrutura formal, sem programa unificado e sem disciplina institucional clássica produz uma coerência discursiva que partidos tradicionais raramente conseguem manter?</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta a esse enigma encontra um marco fundamental na pesquisa do CCI/Cebrap publicada em <em>O Partido Digital Bolsonarista</em>. O livro demonstra que o movimento possui uma arquitetura organizativa real: hierarquias informais, cadeias de lealdade consolidadas e uma coordenação capilarizada pelas redes. É o mapeamento indispensável da engrenagem do ecossistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas há uma coerência que se manifesta mesmo onde a coordenação direta não alcança. Um pastor no Maranhão, um general em Brasília, um influenciador em São Paulo e um vereador no interior do Paraná podem nunca ter operado na mesma cadeia de comando e, ainda assim, produzem variações precisas do mesmo texto profundo.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse horizonte que Jean-Pierre Faye, em <em>Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative</em> (1972), oferece o instrumental para nomear o que cimenta esse ecossistema: não apenas a coordenação, mas a existência de uma gramática que opera num nível anterior a qualquer articulação consciente.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que é uma gramática política</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Faye usa o termo “gramática” num sentido estrito: não como as regras formais da língua, mas como a estrutura subterrânea que determina o que pode ser dito, como pode ser dito e quais combinações de imagens e narrativas são possíveis dentro de um campo. Uma gramática política é o conjunto de regras implícitas que organiza a produção e a circulação do discurso: define quem é o inimigo, quais emoções são legítimas, que narrativas fazem sentido e quais imagens mobilizam.</p>
<p style="text-align: justify;">O crucial é que essa gramática opera abaixo da consciência política dos falantes. Ninguém precisa conhecer suas regras para aplicá-las. Ela circula — de meme em meme, de sermão em sermão — e se reproduz porque cada falante, ao usá-la, a confirma para os demais. Produz coerência por si mesma, prescindindo de um centro distribuidor ou de uma hierarquia que a imponha.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A gramática bolsonarista: elementos estruturais</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O ecossistema bolsonarista possui uma gramática identificável. Seus elementos têm precedentes históricos — Faye os rastreou na República de Weimar —, mas se manifestam em roupagens novas, adaptadas ao cenário brasileiro e à arquitetura digital.</p>
<p style="text-align: justify;">A gramática bolsonarista é estruturada em torno do inimigo que opera por dentro, não por fora: o infiltrado, o corrompido, o traidor que ocupa posições de poder para destruir a nação. Comunismo, globalismo, “marxismo cultural” e “ideologia de gênero” compartilham a mesma estrutura: forças que contaminam o tecido social a partir de dentro. Disso decorre a necessidade de vigilância, denúncia e expurgo permanentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Em oposição ao infiltrado, constrói-se a imagem de uma comunidade idílica pré-contaminação — o Brasil cristão, patriota, trabalhador e de família. Não se trata de uma construção política ou de uma aliança de interesses: é essência. E essências não negociam, restauram-se.</p>
<p style="text-align: justify;">O tempo é organizado em três momentos: um passado de ordem, um presente de decadência e um futuro de purificação — o mito de queda e redenção que Faye identifica nas linguagens totalitárias. Essa temporalidade possui uma eficácia mobilizadora que o reformismo progressista não consegue igualar: cria urgência absoluta, personifica os culpados e oferece salvação pela ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">A violência raramente é celebrada de forma explícita, mas é pressuposta como necessidade lógica: se a restauração exige o expurgo do elemento corruptor, o horizonte final é a eliminação simbólica ou física do inimigo. O líder, por sua vez, não representa a comunidade no sentido político-formal; ele a encarna, sem mediações. Daí a impossibilidade da crítica: contestar o líder não é exercer um direito democrático, é atacar a comunidade — e o crítico automaticamente se torna inimigo interno.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159519" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960.jpg" alt="" width="410" height="615" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960.jpg 410w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 410px) 100vw, 410px" />Como a gramática circula: a simbiose digital</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Embora os elementos dessa gramática remontem ao início do século XX, seu ambiente de circulação é inédito. As plataformas digitais funcionam como máquinas de replicação: não distribuem programas políticos complexos, mas fragmentos discursivos de alta velocidade — memes, cortes de vídeo, frases de efeito e reações.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada fragmento é pequeno demais para carregar uma posição ideológica completa, mas transporta os genes da gramática. É essa circulação molecular acumulada que satura o debate público. O algoritmo não possui ideologia partidária, mas sua lógica de engajamento favorece reações emocionais intensas, polarização e pânico moral. A gramática totalitária se ajusta a esse ecossistema não por coordenação prévia, mas por afinidade estrutural com a arquitetura das redes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A antropofagia reacionária: a captura do identitarismo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O avanço desse ecossistema revela uma das operações mais sofisticadas do fascismo pós-fascista: ele não combate as pautas identitárias da esquerda, ele as deglute, mimetiza sua estrutura discursiva e as devolve como um espelho invertido. Essa captura opera por dispositivos gramaticais precisos.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, ocorre a inversão do lugar de fala. A extrema-direita se apropria da gramática que estrutura o debate em torno de opressão e vulnerabilidade para posicionar sua própria base — o homem comum, trabalhador, heterossexual, cristão — como a verdadeira minoria perseguida. As pautas de inclusão passam a ser lidas como privilégios outorgados por elites burocráticas (o consórcio entre imprensa, judiciário e academia). O ressentimento é assim legitimado: o cidadão comum reivindica o estatuto de vítima de um sistema que confisca seu rendimento e seu tempo em nome do politicamente correto.</p>
<p style="text-align: justify;">A gramática totalitária não se esquiva da fragmentação promovida pela esquerda; instrumentaliza-a como contraexemplo para erigir um identitarismo de sinal invertido — o hiperidentitarismo nacional-cristão. Em vez de atomizar o sujeito político, oferece uma essência unificada e excludente: o “verdadeiro patriota”. É uma matriz de pertencimento de consumo imediato, projetada para purificar o indivíduo de suas contradições materiais.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador precarizado — submetido diariamente a longos deslocamentos e à espoliação de seu rendimento — sofre, ao absorver esse código, uma mutação perceptiva: deixa de interpretar sua condição pelo prisma da exploração e passa a se ver como célula de uma comunidade orgânica ameaçada. É um curto-circuito analítico que sequestra o ressentimento material legítimo e o canaliza para a defesa metafísica da ordem que o explora.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Coordenação e gramática</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O mapeamento de Nobre e Teixeira evidencia com rigor as cadeias de lealdade, a engenharia do financiamento e os mecanismos de disciplina informal que dão corpo ao PDB. São achados fundamentais para desmistificar a tese de um movimento caótico ou espontâneo. Mas, sob a perspectiva de Faye, essa coordenação é, em grande medida, uma sofisticação secundária da própria gramática — não sua causa primeira.</p>
<p style="text-align: justify;">O PDB alcança tamanha eficácia de coordenação porque seus membros — dispersos, moleculares, muitas vezes desconectados entre si — já compartilham um código comum. É esse código que torna a ação conjunta imediata e orgânica, prescindindo de ordens explícitas ou de uma burocracia centralizada. A gramática funciona como condição de possibilidade da própria organização técnica.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí decorre uma implicação crucial: o movimento é mais resiliente do que o modelo organizacional sugere. Tratá-lo apenas como organização leva à suposição de que, ao cortar o financiamento ou decapitar a liderança, o ecossistema colapsa. No entanto, a gramática existe de forma distribuída, em milhões de fragmentos que circulam de maneira autônoma.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que a derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022 não desmantelou o movimento — e nem mesmo a ameaça ou a consumação da prisão de suas figuras de proa tem esse poder. A hierarquia foi perturbada, novas lideranças regionais emergiram, as cadeias de lealdade sofreram disputas internas, mas o texto profundo continuou intacto. A punição jurídica ou a inelegibilidade operam no plano dos indivíduos e da superfície institucional; porém, enquanto a gramática circula e continua a fundar a topografia do aceitável, o campo de força permanece vivo, pronto para ser reativado e performado por novos agentes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159520" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516.jpg" alt="" width="474" height="329" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516-300x208.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />A gramática e o coach: Marçal como caso analítico</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Pablo Marçal é o caso que melhor ilustra a autonomia da gramática frente à coordenação partidária. Outsider, desafiou a hierarquia estabelecida do PDB, disputou o espólio digital do bolsonarismo e emparedou o campo tradicional na eleição municipal de São Paulo em 2024 — à revelia e contra a vontade dos caciques do movimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob a lente da coordenação e das cadeias de lealdade, Marçal é uma anomalia inexplicável. Sob a lente de Faye, é a comprovação da tese: ele não precisou de autorização partidária porque dominava a gramática bolsonarista — a narrativa de decadência e redenção, o ataque ao inimigo interno e a promessa de conexão direta com o líder. Sua inovação foi traduzir essa gramática para o registro do empreendedorismo de si e do <em>coach</em> de autoajuda. Quem domina o código discursivo constrói legitimidade própria no ecossistema, imune ao veto da burocracia organizacional.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O impasse das gramáticas da esquerda e a conversão totalitária</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O exame da realidade concreta demonstra que o impasse da esquerda contemporânea não decorre de uma mera “falta de estratégia”, mas de uma conversão gramatical já consumada. O campo progressista fraturou-se em dois polos discursivos que, embora não tenham como objetivo deliberado o fortalecimento do fascismo, terminam por alimentá-lo: um deles por incapacidade de formular o contradiscurso materialista, e o outro por converter-se, ele mesmo, em uma nova modalidade de controle burocrático e totalitário.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro polo, o do universalismo abstrato, esvaziou-se de materialidade social. É uma linguagem institucional herdada do iluminismo jurídico, que articula categorias neutras como “direitos”, “justiça” e “democracia”, mas padece de anemia estética e afetiva. Ao converter a exploração em relatórios gerenciais e a política em gestão tecnocrática, torna-se ininteligível para a classe trabalhadora precarizada, cujo tempo e rendimento são diariamente corroídos. Frente à crueza da sobrevivência, soa como simulacro cínico.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo polo, o da fragmentação identitária, opera a inversão mais trágica. Ao abandonar a crítica da economia política em nome de micropolíticas de nicho, adota uma estrutura homóloga à do próprio fascismo. Sob uma retórica emancipatória, a linguagem identitária contemporânea passa a funcionar como um fascismo pós-fascista.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mutação formal encontra genealogia histórica precisa nas teses de Zeev Sternhell em <em>O Nascimento da Ideologia Fascista</em>. Sternhell demonstra que o fascismo histórico não emerge de uma herança pura da direita conservadora, mas de uma revisão antimaterialista do marxismo e de uma dissidência interna ao sindicalismo revolucionário do início do século XX. Intelectuais como Georges Sorel, ao repudiarem o economicismo e o racionalismo do marxismo, operaram um entrecruzamento radical: substituíram as leis objetivas do desenvolvimento econômico pelo culto ao mito, à identidade orgânica e à violência regeneradora. Sob essa ótica, Mussolini não traiu o socialismo; ele consumou a premissa antimaterialista que permitiu fundar uma nova topografia de controle.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda identitária contemporânea mimetiza essa rota, fazendo as vezes de um novo tipo de nacionalismo. Se o nacionalismo clássico erguia o mito de uma comunidade de sangue e solo para neutralizar as fraturas de classe e exigir lealdade absoluta a uma essência abstrata, o identitarismo contemporâneo opera o mesmíssimo cercamento sob a forma de uma comunidade de trauma e biologia.</p>
<p style="text-align: justify;">A nação cede lugar ao gueto identitário, mas a mecânica política é idêntica: o pertencimento cultural ou biológico sobrepõe-se à condição material de classe. Dentro das fronteiras desse novo nacionalismo molecular, aciona-se o dispositivo da pureza e do expurgo permanente: o debate é substituído por tribunais inquisitoriais digitais, onde a dissidência conceitual é tratada como traição à pátria-identidade, um crime de contaminação moral que exige o cancelamento e a eliminação reputacional do indivíduo. Não há espaço para a contradição ou para a mediação: a essência do grupo é sagrada; o outro é o infiltrado permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse arranjo, a universidade contemporânea atua como um dos mais potentes aparelhos privados de hegemonia do Estado Amplo: o cancelamento não constitui um acaso ou excesso isolado, mas sim uma tecnologia institucionalizada de poder. No interior da academia, o desvio conceitual é formalmente tipificado como heresia, mobilizando processos administrativos, a censura de linhas de pesquisa, a exclusão de bancas, reprovações sumárias e o bloqueio preventivo de contratações e publicações. A universidade passa a funcionar, portanto, como a alfândega ideológica que valida quem possui a pureza linguística necessária para ascender às novas elites.</p>
<p style="text-align: justify;">É a incompreensão dessa captura que alimenta o senso comum de certa esquerda contemporânea, cuja resposta tem sido a defenestração sumária e o desprezo pelo chamado “pobre de direita”. Ao converter captura linguística em falha moral do trabalhador, essa esquerda desconversa as razões de sua própria falência. Cancela-se o sujeito real para não enfrentar a realidade material — e esse moralismo valida a narrativa bolsonarista do inimigo infiltrado. Quando o discurso progressista rotula o espoliado periférico como “alienado” por buscar refúgio na teologia da prosperidade, carimba seu próprio divórcio das bases materiais. O vazio é preenchido por um policiamento de costumes que empurra o trabalhador para o único espaço que lhe oferece pertencimento místico e explicação totalizante para sua dor: o laboratório digital do pós-fascismo.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159518" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676.jpg" alt="" width="474" height="316" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />A plasticidade estrutural e a captura das elites</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">É neste ponto que se revela o verdadeiro pulo do gato do fascismo pós-fascista: sua plasticidade estrutural, um fenômeno que remete diretamente às teses de João Bernardo em <em>Labirintos do Fascismo</em>. Bernardo desfaz a ilusão liberal e descortina o mito da virgindade das democracias representativas, demonstrando que estas jamais estiveram imunes ou descomprometidas com o fascismo. Longe de haver uma separação estanque entre o Estado Restrito (o aparato político-jurídico clássico de governos, parlamentos e tribunais) e o Estado Amplo (a rede difusa de corporações, fundações, aparelhos de hegemonia e, contemporaneamente, as plataformas digitais), o fascismo não destrói essas esferas: integra-as numa totalidade funcional.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, desaba a objeção convencional de que a esquerda identitária careceria do aparato de força estatal para constituir uma modalidade pós-fascista. A posse do aparato clássico de coerção não é o critério que distingue a homologia formal, pois ambos os campos mobilizam instâncias de poder complementares. O que unifica a extrema-direita bolsonarista e a esquerda identitária é operarem como projetos agressivos de circulação e remodelação das elites no capitalismo. Ambas visam à ocupação dos postos de comando; o que muda é a distribuição de suas forças no interior do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a extrema-direita bolsonarista prioriza a colonização do Estado Restrito acoplada às milícias digitais do Estado Amplo, a gramática identitária de esquerda opera uma hibridização simétrica:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li class="level1">
<div class="li"><strong>No Estado Amplo:</strong> a remodelagem ocorre pela via positiva da ocupação gerencial: o domínio do código identitário vira critério de recrutamento e ascensão em diretorias, conselhos, fundações e oligopólios de mídia. E pela via negativa, contra os dissidentes do código: demissões por pressão empresarial, boicotes econômicos, exclusão dos circuitos editoriais e acadêmicos.</div>
</li>
<li class="level1">
<div class="li"><strong>No Estado Restrito:</strong> a estratégia é homóloga: opera-se a ocupação de cargos de confiança nos altos escalões — ministérios, secretarias e conselhos reguladores —, transformando o jargão identitário em pré-requisito de governança e critério de fomento estatal, até a positivação jurídica de seus códigos. Capturado, o aparato punitivo do tribunal clássico passa a sancionar o desvio conceitual, fundindo a coerção penal do Estado Restrito com o linchamento moral do Estado Amplo.</div>
</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">A convergência não se esgota na infraestrutura digital das redes, mas se consuma na sua articulação com o próprio território. As plataformas e as <em>Big Techs</em> lucram com a extração de valor dessa guerra cultural permanente enquanto as novas elites burocráticas — públicas e privadas — disputam os postos de comando. Enquanto isso, a exploração do trabalho, a expropriação do tempo e o confisco do rendimento real permanecem intocados à sombra do espetáculo discursivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Bernardo, o traço distintivo do fascismo pós-fascista dos identitarismos está menos na ideologia declarada e mais nas modalidades organizativas: os antigos métodos de intimidação corporal cedem lugar às engrenagens virtuais do linchamento digital e do isolamento reputacional (BERNARDO, 2024). O fascismo sobrevive e se sofistica na exata medida em que transfere sua eficácia coercitiva para a esfera das interações em rede — renovando-se por meio de aparências e vocabulários que simulam o oposto de sua matriz histórica.</p>
<p style="text-align: justify;">Bernardo não está isolado nessa constatação, embora a formule com mais radicalidade. A crítica de dentro da própria esquerda à gramática identitária fragmentada tem genealogia própria. O teórico britânico Mark Fisher, num ensaio de 2013, descreveu o que chamou de “Castelo dos Vampiros”: uma cultura de denúncia pública movida por um desejo quase sacerdotal de excomungar, na qual toda a identidade de alguém pode ser reduzida a um deslize de linguagem. Para Fisher, essa cultura torna a solidariedade impossível, substituindo a ação coletiva pela vigilância recíproca do comportamento individual.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos Estados Unidos, Adolph Reed Jr. e Walter Benn Michaels sustentam tese semelhante por outro caminho: a centralidade dada às disparidades identitárias obscurece o que produz a desigualdade material, deslocando o conflito de classe para um terreno gerenciável pelas próprias elites. Não é acidental que o próprio Reed, socialista negro com décadas de militância, tenha tido uma palestra cancelada em 2020 por um núcleo da <em>Democratic Socialists of America</em>, que classificou sua intervenção como reacionária e reducionista de classe. O episódio ilustra com precisão o mecanismo: a crítica interna tratada não como divergência legítima, mas como contaminação a expurgar.</p>
<p style="text-align: justify;">O mecanismo se repete em padrões reconhecíveis: o intelectual de longa trajetória que, ao formular uma divergência tática, é reclassificado retroativamente como inimigo da causa; o professor que, pela imprecisão didática de uma aula, é denunciado a partir de um fragmento de vídeo descontextualizado; a escritora que, ao discordar de uma ortodoxia vocabular, é banida de festivais. Em todos os casos, a estrutura é a mesma que Bernardo descreve para o fascismo clássico: o expurgo não precisa de prova, precisa de suspeita; a pureza do grupo importa mais que a verdade; a punição serve menos para corrigir o indivíduo e mais para reafirmar os limites coercitivos da comunidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O padrão encontrou um caso emblemático em fevereiro de 2025. A psicanalista Maria Rita Kehl — figura histórica da esquerda brasileira e membra da Comissão Nacional da Verdade — foi alvo de linchamento virtual após criticar o “nicho narcísico” do movimento identitário. Os detratores não refutaram seu argumento: resgataram a figura de seu avô, um eugenista do início do século XX, e passaram a editar sua biografia na Wikipédia para sublinhar uma suposta “degenerescência hereditária” — termo retirado do próprio vocabulário eugenista que a esquerda historicamente combateu. Décadas de produção intelectual e militância foram substituídas pela genealogia biológica. É o mecanismo de Bernardo: não importa o que o sujeito fez, importa a contaminação essencialista que ele supostamente carrega.</p>
<p style="text-align: justify;">No ambiente das plataformas digitais — que extraem valor da fratura, do pânico moral e do engajamento pelo ódio —, a fragmentação identitária da esquerda e o hiperidentitarismo nacional-cristão da direita operam em simbiose algorítmica real. É o processo de convergência que Bernardo identifica como gerador do fascismo, atualizado para o ecossistema digital. A esquerda identitária, ao adotar a gramática do expurgo e da pureza, fornece ao pós-fascismo uma de suas modalidades renovadas, enquanto a exploração do trabalho e a expropriação do tempo seguem operando à sombra do espetáculo, em ambos os campos.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159521" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1223" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-300x143.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-1024x489.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-768x367.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-1536x734.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-2048x978.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-879x420.jpg 879w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-640x306.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-681x325.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />A gramática sem dono</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Partido Digital Bolsonarista é, na superfície, a máquina de coordenação descrita por Nobre e Teixeira: hierarquia, lealdades e mobilização digital. Sob essa camada, contudo, opera o texto profundo de uma gramática totalitária que, nos termos de João Bernardo, já não pertence a um único espectro político. O fascismo pós-fascista é o nome do resultado quando essa gramática atravessa, por convergência, tanto o bolsonarismo quanto os identitarismos que se imaginam seus opostos.</p>
<p style="text-align: justify;">O diagnóstico do presente revela que o fascismo pós-fascista não é um quartel-general a ser sitiado, nem uma organização a ser desmontada por decretos judiciais ou pela regulação de plataformas. É, antes de tudo, uma gramática consolidada por uma arquitetura digital que favorece a exclusão, a essencialização do sujeito, a paranoia do inimigo interno e o linchamento molecular — uma gramática cuja origem e função histórica recente pertencem ao bolsonarismo, mas cuja circulação já não respeita fronteiras ideológicas.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda identitária fragmentada revela-se uma modalidade desse fenômeno. Não se trata de uma analogia retórica ou de uma provocação, mas do reconhecimento de uma homologia formal: a reprodução exata dos dispositivos de essencialização, paranoia do inimigo interno e expurgo permanente, transpostos para o Estado Amplo, para a arena virtual e para os escalões do Estado Restrito. Isso não apaga as distinções de escala e método que separam o gueto inquisitorial identitário da violência miliciana bolsonarista; mas a diferença de dinâmica não autoriza a recusa do nome.</p>
<p style="text-align: justify;">A coerência do ecossistema dispensa coordenação centralizada porque a gramática que o atravessa possui uma capacidade de circulação molecular que excede qualquer filiação política declarada, colonizando inclusive a inteligência discursiva de quem se imagina seu opositor. O verdadeiro triunfo do fascismo pós-fascista não está na eliminação física dos adversários, mas na sua conversão formal. Quando ambos os polos passam a falar rigorosamente a mesma língua — a da pureza mística, do linchamento reputacional e da aniquilação do outro —, a gramática totalitária se consuma. Enquanto essa guerra cultural permanente satura as redes e remodela as elites burocráticas, as engrenagens materiais da exploração do trabalho, da expropriação do tempo e do confisco do rendimento real permanecem blindadas, à sombra dos labirintos digitais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159516" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513.jpg" alt="" width="474" height="355" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-238x178.jpg 238w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" /></strong></h4>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Damian Ortega.</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></h4>
<ul>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">BERNARDO, João. <em>Labirintos do Fascismo</em>. Porto: Afrontamento, 2015.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">BERNARDO, João. “Quem é o quê?”. <em>Passa Palavra</em>, 19 dez. 2024. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/12/155419/" href="https://passapalavra.info/2024/12/155419/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2024/12/155419/</a>.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">FAYE, Jean-Pierre. <em>Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative</em>. Paris: Hermann, 1972.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">FISHER, Mark. “Exiting the Vampire Castle”. <em>The North Star</em>, 2013.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">NOBRE, Marcos; TEIXEIRA, Ana Claudia (org.). <em>O Partido Digital Bolsonarista</em>. São Paulo: CCI/Cebrap, 2026.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">TONIOL, Rodrigo. “O cancelamento de Maria Rita Kehl e as armadilhas do identitarismo”. <em>Folha de S. Paulo</em>, 12 fev. 2025. Republicado no <em>Blog da Boitempo</em>.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">REED JR., Adolph; MICHAELS, Walter Benn. <em>No Politics but Class Politics</em>. Londres: ERIS, 2023.</div>
</li>
<li class="level1">
<div class="li" style="text-align: justify;">STERNHELL, Zeev; SZNAJDER, Mario; ASHÉRI, Maia. <em>The Birth of Fascist Ideology: from cultural rebellion to political revolution</em>. Princeton: Princeton University Press, 1994.</div>
</li>
</ul>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (6)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2026 17:21:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve é exatamente o que a revolta não é. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 2: GREVE</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 4</strong></h5>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Greve Contra a Revolta</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Que tipo de contraponto é a greve em relação à revolta? O século XIX se propõe a medir isso, a calcular essa relação. Ele o faz de forma desigual na Europa Ocidental, na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos — de forma insistente, incerta, mas com resultados consequentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro não é uma história da greve ou do movimento operário, da era em que a proletarização denota a desapropriação agrária, a expansão industrial, o incremento, em termos absolutos e relativos, da população global no trabalho assalariado, e o indivíduo soberano como forma de integração aos circuitos de acumulação. No entanto, estas são as coordenadas do período em que a era dourada das revoltas se dissolve e de onde surge a nova era das revoltas: a longa segunda-feira do mundo em que era sempre hora de trabalhar e o capitalismo produtivo dominava em escala global, com a sua volatilidade típica.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve, a tática dominante da ação coletiva nesse período, exigirá alguma reflexão &#8211; até porque o status da greve, uma vez que se torna a figura principal do antagonismo social, oferece uma posição a partir da qual se pode refletir sobre a revolta. Cada ação esclarece a estrutura e a dinâmica da outra, cada uma revela mudanças nas metamorfoses subterrâneas e instáveis do capital. Isso é verdade não apenas de uma forma absoluta, segundo a qual a verdade de cada uma pode ser contrastada, mas também de acordo com as conceções políticas do par e do emparelhamento — o que poderíamos chamar de ideologias da revolta e da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">No capítulo anterior, propusemos a compreensão mais ampla possível de uma greve: uma luta pelo preço da força de trabalho e pelo próprio emprego, conduzida pelos trabalhadores como trabalhadores na esfera da produção. Essas características podem ser abstraídas e estendidas a qualquer ação orientada por elas. Essa greve chega cedo, coexistindo com a revolta à medida que ela reúne as suas forças.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é obviamente exagerado. Um experimento mental, digamos. Certamente está em desacordo com as compreensões convencionais desenvolvidas desde o século XIX, que oferecem uma porta muito mais estreita pela qual uma tática deve passar para ganhar esse nome. A greve restrita é geralmente definida de acordo com uma autodenominação ou autorreconhecimento, que deve ser acompanhado por um comportamento físico e político específico: ordeiro, ancorado no lugar, disciplinado, legalista, caracterizado pela recusa. Formas de aparência, em suma, que podem ser discernidas por um observador casual. Se um episódio falhar ou exceder esses padrões, ele não é considerado uma greve (podemos pensar nas greves dos campos de carvão de 1913-1914, que em algum momento da série concertada de greves se tornaram a Guerra dos Campos de Carvão do Colorado e depois o Massacre de Ludlow). Ou, como acontece repetidamente, os eventos que não correspondem a esse modelo de greve são apagados para que o nome greve possa preservar suas reivindicações. Quem se lembra agora como greves as revoltas dos trabalhadores têxteis de Lyon em 1831 e 1834, que exigiram salários, trabalho e justiça para os líderes presos por meio de barricadas e guerrilha? Esta greve chega tarde. O período de transição é muito mais longo. Exceto que, como veremos, não há transição alguma.</p>
<p style="text-align: justify;">O próprio Marx observa que 1830 marca a mudança na França de um estado de proprietários de terras para um de capitalistas. Hobsbawm generaliza a data como um ponto de viragem para a “consciência da classe trabalhadora” nos países de origem das duas revoluções burguesas e industriais, uma nova situação que “certamente surgiu entre 1815 e 1848”. Para ele, “na Grã-Bretanha e na Europa Ocidental em geral [1830] marca o início dessas décadas de crise no desenvolvimento da nova sociedade, que terminam com a derrota das revoluções de 1848 e o gigantesco salto económico após 1851” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A temporalidade é complexa, mas aponta para o atraso da greve no seu sentido estrito. Por consenso geral, a greve não tem existência real até 1830 ou, na verdade, por um bom tempo depois disso. Shorter e Tilly são a exceção parcial. A <em>greve</em> não aparece no índice de <em>The Making of the English Working Class</em>. O estudo cuidadoso de John Rule sobre o trabalho inglês de 1750 a 1850 raramente menciona a greve e, dentro desse período, a greve em sua narrativa ainda não está esclarecida, ainda em relação ambígua com intimidação, destruição de máquinas e outras atividades não relacionadas à greve &#8211; o conjunto predestinado de elisões que caracteriza a época. Esses fatos nos dizem tanto sobre as autoidentificações da época quanto sobre seus historiadores. A famosa pesquisa de Rudé sobre o período de 1730 a 1848 tem, na entrada <em>Greve</em>, um redirecionamento: “Veja disputas trabalhistas, ludismo, Londres, Paris”<strong>[2]</strong>. Sem dúvida, todas essas são coisas que se deve ver. A força da substituição é sugerir que devemos localizar a greve como um desenvolvimento tardio dentro do gênero mais amplo da disputa trabalhista, um desenvolvimento que, em 1848, ainda não havia surgido.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159504" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1.jpg" alt="" width="1190" height="1536" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1.jpg 1190w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-793x1024.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-768x991.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-640x826.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-681x879.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1190px) 100vw, 1190px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Seria tolice contestar tal conclusão. Certamente essa é a posição apresentada de forma persuasiva por Shorter e Tilly:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao concentrarmo-nos na greve, excluímos várias outras formas de conflito e de ação coletiva (as duas não são de forma alguma sinónimas)… Isso é conveniente, uma vez que a greve é uma das formas de ação mais fáceis de identificar, rastrear e descrever. As outras formas de conflito, protesto e autoexpressão que poderiam ser usadas para se ter uma ideia das mudanças nas orientações dos trabalhadores incluem a destruição de máquinas, sabotagem, brigas, manifestações, redação de panfletos e, talvez, rotatividade e absenteísmo; todas elas são muito mais difíceis de identificar do que as greves. Outras formas de ação coletiva que os trabalhadores têm empregado para alcançar objetivos comuns incluem a organização de partidos políticos, sociedades de ajuda mútua, grupos conspiratórios, sindicatos, planos de seguro e muitos outros empreendimentos cooperativos <strong>[3]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A preservação dos muitos modos de ação coletiva, da criatividade do antagonismo, é uma tarefa vital. Mas também há dificuldades aqui, enigmas qualitativos que vão além do âmbito da pesquisa quantitativa. Uma primeira sugestão da dificuldade é a tendência de localizar o surgimento da greve no ponto de inflexão em que ela se torna a tática principal, no lugar do momento de sua entrada no teatro da luta. Isso tem o efeito de sugerir uma ruptura histórica excessivamente clara entre revolta e greve. Além disso, a narrativa genérica em que a greve surge como uma espécie de condensação da disputa trabalhista esconde, certamente contra as intenções dos nossos historiadores mais hábeis, o surgimento da greve a partir da revolta, das lutas de circulação. Em vez de serem complementares e genealogicamente conjuntas, as duas táticas são rigidamente demarcadas tanto na sua natureza como na sua história, e colocadas em oposição. Isso mais tarde se revelará um problema para aqueles que tentam compreender o retorno da revolta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Espectáculo e Disciplina</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A oposição entre revolta e greve é um projeto declarado do século XIX que persiste em vários setores desde então. A dicotomia é produzida com sucesso por volta de meados do século. Considere a distância entre as revoltas de Bull Ring em 1839 e a greve dos fabricantes de vidro de Flint duas décadas depois. Cada um deve ser reconhecido como exemplar do seu género. A primeira começou com uma série de reuniões políticas realizadas no distrito comercial de Bull Ring, em Birmingham. A 4 de julho, o presidente da câmara e os magistrados chegaram e leram a Lei das Revoltas, momento em que a polícia chamada de Londres atacou a multidão de uma forma que suscitaria comparações amplas e inevitáveis como Peterloo. Consequentemente, seguiu-se uma revolta. “Janelas foram quebradas com tijolos e torrôes de açúcar foram saqueados da mercearia de Bourne antes de ser incendiada, e janelas fechadas foram atacadas com barras de ferro arrancadas da cerca”, deixando destroços suficientes para que “o Duque de Wellington chegasse ao ponto de comparar Birmingham às cidades que ele tinha visto saqueadas no continente durante as suas campanhas militares” <strong>[4]</strong>. Mais revoltas se seguiram, em Birmingham e em outros lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Em paralelo com o surgimento da arquitetura de vidro, a quebra de janelas passou a definir, no século XIX, o que Ian Hayward chama de “revolta espetacular”. Numa comparação perspicaz, Isobel Armstrong contrapõe as revoltas de 1839 à greve bem-sucedida dos vidreiros de Flint, iniciada em fábricas de várias cidades em dezembro de 1858 e que se prolongou até ao ano novo. A greve, muito debatida tanto dentro como fora do sindicato, define-se precisamente contra os hábitos revoltosos de 1839 e outros. Isto não é de admirar, dada a sua constituição: “A prática de quebrar vidros não tinha influência sobre os vidreiros e a sua greve disciplinada” <strong>[5]</strong>. Nisto, a sua autoconceção é paradigmática da ação laboral moderna. A greve é exatamente o que a revolta não é.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há dúvida de que esses dois eventos foram corretamente nomeados. O primeiro não é a forma <em>autêntica</em> da revolta por comida, que já havia passado do seu auge e entrado em declínio décadas antes. Mas é bastante semelhante — sobretudo por ter começado no mercado, com saques incluindo a apreensão de alimentos, batalhas sangrentas com o Estado e assim por diante. A ação posterior segue o formato da greve em todos os aspectos. Não é nenhum mistério por que ela deseja tão insistentemente se distinguir da revolta, dada a sua necessidade de reivindicar legitimidade tanto contra a repressão estatal quanto para obter apoio de outros sindicatos. Nesta conjuntura, a clara demarcação entre — e, de fato, a contraposição entre — greve e revolta <em>tornou-se</em> verdadeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser entendido como a <em>ideologia da ação coletiva</em> cimentada no período, em que revolta e greve assumem uma oposição política e até mesmo um antagonismo. O argumento aqui é que essa oposição é possível precisamente porque as duas ações foram definidas inteiramente de acordo com suas formas de aparência, que são consideradas como fornecendo um conhecimento claro de sua política, seu conteúdo social. Walter Benjamin observa: “É peculiaridade das formas <em>tecnológicas</em> de produção (em oposição às formas artísticas) que seu progresso e seu sucesso sejam proporcionais à <em>transparência</em> de seu conteúdo social. (Daí a arquitetura de vidro)” <strong>[6]</strong>. Produção industrial, progresso, arquitetura de vidro. Este é o mundo da greve. A ideologia da ação coletiva mantém essa ideia de transparência — que, ao olhar para a superfície, é possível ver diretamente as profundezas, ter acesso imediato ao conteúdo social. A greve torna-se greve ao ser <em>formalizada</em> contra a revolta. É a própria ordem, a janela intacta. A revolta, agora definida igualmente como o oposto da greve, deve igualmente encontrar o seu conteúdo na sua forma. Mas isso tem consequências paradoxais. A sua forma é desordenada; a desordem torna-se o seu conteúdo. Ninguém sabe o que a revolta quer. Ela não quer nada além da sua própria desordem, da sua opacidade brilhante. Brilhos e cacos de vidro estilhaçados.</p>
<p style="text-align: justify;">O objetivo não é sugerir que por baixo desta ideologia existe uma verdade contrária; não é assim que a ideologia funciona. Não devemos sugerir que a revolta e a greve são uma só, ou mesmo semelhantes. A divisão entre revolta e greve é necessária e até óbvia, e baseia-se nas mudanças mais substanciais na economia política da época. Em vez disso, a esperança é estar atento aos riscos do que pode ser perdido ao colocá-los em oposição rígida e estática. Ao perder a história em que a greve surge da revolta, perdemos o próprio processo de transformação e ficamos com os seus resultados diante de nós como dados adquiridos. Isso apresenta limites para uma periodização adequada dentro da história do capital. O “capitalismo” não é uma coisa homogénea. Nem é um fenômeno polidamente serial, uma situação sincrônica sucedendo discretamente outra. Fredric Jameson, na sua metodologia literária épica, insiste (em uma escala diferente): “O que é sincrónico é o &#8216;conceito&#8217; do modo de produção; o momento da coexistência histórica de vários modos de produção não é sincrônico neste sentido, mas aberto à história de forma dialética” <strong>[7]</strong>. É precisamente a sincronização — a revolta com uma fase do desenvolvimento do capital, a greve com outra, uma ruptura entre elas — que obscurece esta situação. Se a nossa datação sugere que a era das revoltas termina antes do início da era das greves, isso não pode oferecer um testemunho completo sobre o equilíbrio instável dentro do próprio capital, as mudanças continuamente provocadas pela dinâmica autodestrutiva do valor.</p>
<p style="text-align: justify;">Armstrong esforça-se por superar este limite, por transpor o espaço morto aberto entre a revolta e a greve. A partir de revoltas anteriores, ela deduz o que chama de “os três princípios cardinais da gramática da quebra de vidros — ação coletiva, o corpo como propriedade e a recusa da abstração”; ela encontra estes princípios ressurgindo na greve posterior <strong>[8]</strong>. Esta é uma leitura sutil e perspicaz sobre questões cruciais, sobretudo a rejeição do que ela chama de código patrício de quebra de janelas, no qual “quebrar janelas é um ato informal de violência, um certo <em>estilo</em> de crime sem conteúdo” <strong>[9]</strong>.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159505" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825.jpg" alt="" width="1000" height="815" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-768x626.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-515x420.jpg 515w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-640x522.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-681x555.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a gramática de Armstrong mantém um certo formalismo, um certo foco discursivo — assim como a ideia de Hayward de revolta espetacular, que, em primeiro lugar, pode ser entendida como uma resposta ao novo espetáculo da modernidade urbana e industrial. O conteúdo social tanto da revolta quanto da greve, não pode ser limitado aos princípios dos participantes, seus afetos e crenças. Qual é, então, o conteúdo social da greve? Ele é duplo. Como observado, é o confronto do trabalho com o capital na tentativa de definir o preço da força de trabalho (contra o preço zero do desemprego). Mas o conteúdo social da greve é também a <em>própria produtividade</em>, e isso é extremamente importante. Não é o “capitalismo” em algum sentido abstrato ou geral do qual a greve depende. Também não pode ser reduzido às misérias particulares da vida mecanizada da industrialização, embora ninguém possa duvidar que estas são um estímulo brutal. É antes o conjunto de mudanças que acompanham a transição do capital comercial para o capital industrial que leva muitos para os novos setores produtivos e que leva o capital a concentrar-se também aí — tal como muitos foram anteriormente levados para o mercado de subsistência num processo global desigual.</p>
<p style="text-align: justify;">Um fato evidente, embora muitas vezes negligenciado, é que a eficácia limitada da greve baseada na procura coincide, em geral, não com a fragilidade do capital, mas com a sua vitalidade, quando o circuito salário-mercadoria está produzindo mais-valia e acumulação. Quando a produção não está em expansão, um capitalista tem menos interesse em preservar a sua continuidade e pode tentar resistir aos grevistas. “Mas argumentar que um empregador poderia resistir aos seus trabalhadores em greve”, observa John Rule sobre as primeiras greves inglesas, “não significa que fosse sempre do seu interesse fazê-lo. Ele não iria querer renunciar aos elevados lucros disponíveis com a expansão da produção num mercado em ascensão. Em tais condições, era mais racional ceder do que resistir às exigências” <strong>[10]</strong>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Muito e Muito Poucos</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Assim surge a categoria das lutas de produção, para as quais a greve é o arquétipo. A greve é a forma de ação coletiva própria da fase produtiva do capital. Ela surge antes disso, testa-se contra o mundo, mas só consegue realizar-se com o período de acumulação do capital. Esta fase não chega pontualmente ou autonomamente quando o capital comercial ou centrado na circulação se esgota, mas surge a partir dele e permanece entrelaçada com ele. A produção e a circulação mantêm uma relação dialética clássica: opostas e mutuamente constitutivas, a sua contradição (a contradição entre valor e preço) mantém-nas em movimento conjunto. A origem da greve é a transformação que move corpos e capital para a esfera da produção. Nem todos eles, nem tudo, continuaremos a insistir. Mas depois de um certo limiar. A greve emerge da circulação, mas torna-se a tática principal quando o limiar é ultrapassado, quando uma mudança quantitativa na estrutura da economia torna-se qualitativa. No final, as questões podem ser formuladas da seguinte forma: a greve ascende quando o local de reprodução proletária se desloca para o salário, que deve, ao mesmo tempo, tornar-se o ponto crucial do próprio circuito de reprodução do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">A purificação e a autonomização da greve no século XIX são, portanto, unilaterais; elas mantêm apenas a oposição entre produção e circulação, sem a sua unidade. Ou seja, na dialética da continuidade e da ruptura, o cenário de greve contra a revolta é necessário, mas insuficiente, inclinando-se demais para a ruptura, para a descontinuidade e a oposição formal. Será importante reconhecer os momentos em que essa continuidade, agora oculta por trás do véu da mudança histórica, se torna visível.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos voltar a 1839 simplesmente para recuperar a heterogeneidade do momento. As reuniões políticas que inspiram a violência são, naturalmente, as reuniões cartistas. Porta-estandartes dos muitos de Shelley, eles são a organização trabalhista mais avançada da Grã-Bretanha. O seu jornal, <em>The North Star</em>, publica “To The People” — a passagem de “Masque of Anarchy” que inclui o famoso verso — em abril de 1839. Em maio, publica um poema de “E.H. (Uma Operária de Stalybridge)” e, em junho, um poema anónimo, “Versos de um Operário”. Esta é a edição atual quando começam as revoltas de Bull Ring <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O movimento sindical organizado já está bem avançado. Como diz Eric Hobsbawm,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na Grã-Bretanha, as tentativas de unir todos os trabalhadores em “sindicatos gerais”, ou seja, de romper o isolamento setorial e local de grupos específicos de trabalhadores para alcançar a solidariedade nacional, talvez até universal, da classe trabalhadora, começaram em 1818 e foram perseguidas com intensidade febril entre 1829 e 1834 <strong>[12]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Portanto, não é tão fácil definir a política do Bull Ring. Essa incerteza empalidece diante dos acontecimentos de três anos depois, talvez os mais indecisos do século XIX na Grã-Bretanha. O mistério está todo numa única frase: “O ponto de combustão social espontânea na Grã-Bretanha foi atingido na greve geral não planejada dos cartistas no verão de 1842 (as chamadas &#8216;revoltas dos plugues&#8217;)” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">“Espontânea”, “não planejada”. Queremos destacar estas palavras; sabemos muito bem que significam revolta. O episódio salta dos mineiros de Staffordshire para fábricas, moinhos e minas em toda a Grã-Bretanha, reunindo finalmente mais de um milhão de trabalhadores em seu entorno. Apresenta as características básicas da greve laboral de forma bastante perfeita: assume a forma de recusa de trabalho. Após três anos de colapso industrial, as suas principais reivindicações, aprovadas como resoluções ao longo da ação, dizem respeito à duração da jornada de trabalho e à restauração dos salários aos níveis de 1820, bem como à redução dos aluguéis. Hobsbawm continua a insistir, no entanto, que é tanto uma greve excessiva quanto insuficiente: “A greve geral provou ser inaplicável sob o Cartismo, exceto (em 1842) como uma revolta espontânea contra a fome” <strong>[14]</strong>. Em tudo isso, ele parece ansioso por reconhecer que a greve e a revolta podem ser contínuas, enquanto ainda tenta preservar a ideia da greve pura como algo diferente. É uma confusão. Mas essa confusão é a verdade das coisas.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses deslizes são o resultado inevitável de deixar a forma representar o conteúdo com demasiada facilidade. São também sinais da coexistência de Jameson, da presença de tensões dentro da espiral diacrónica do capital. Como tal, tornam pensáveis outros momentos de coexistência, outros momentos de metamorfose dentro do capital e, portanto, nas suas formas de ação coletiva. Uma vez que o peso deste livro se inclina para pensar uma metamorfose complementar no presente, isto é realmente sugestivo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159503" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962.jpg" alt="" width="1224" height="962" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962.jpg 1224w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-1024x805.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-640x503.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-681x535.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1224px) 100vw, 1224px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Eric Hobsbawm, <em>The Age of Revolution: Europe 178-1848</em>, Londres: Abacus, 2007, 255, 141.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> George Rudé, <em>The Crowd in History: A Study of Popular Disturbances in France and England, 1730-1848</em>, Londres: Lawrence and Wishart, 1984, 278.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Shorter e Tilly, <em>Strikes in France</em>, 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Michael Weaver, “Os motins de Birmingham Bull Ring de 1839: variações sobre um tema de conflito de classes”, <em>Social Science Quarterly</em> 78: 1, março de 1997, 146, 137.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Isobel Armstrong, <em>Victorian Glassworlds: Glass Culture and the Imagination 1830-1880</em>, Oxford: Oxford University Press, 2008, 69. Armstrong também conecta os dois eventos por meio da estranha coincidência de que um dos magistrados de Birmingham de 1839, William Chance, era sócio de uma das maiores empresas de fabricação de vidro da Inglaterra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Walter Benjamin, <em>The Arcades Project</em>, trad. Howard Eiland e Kevin McLaughlin, Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2002, 465 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Fredric Jameson, <em>The Political Unconscious: Narrative as Socially Symbolic Act</em>, Ithaca: Cornell University, 2014, 95.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Armstrong, <em>Victorian Glassworlds</em>, 73.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 65 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> John Rule, <em>The Labouring Classes in Early Industrial England 1750-1850</em>, Londres: Addison Wesley Longman, 1986, 261 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Mike Sanders, <em>The Poetry of Chartism: Aesthetic, Politics, History</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 2009, 233.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Hobsbawm, <em>Age of Revolution</em>, 255.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Ibid., 208.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Ibid., 256-7.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram o capítulo são da autoria de Käthe Kollwitz.</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Ferramentas de Controle Parental (4)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jul 2026 17:08:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[No fim das contas, a ferramenta técnica apenas reduz danos, mas o controle parental duradouro e definitivo continua sendo a educação digital, as conversas sobre privacidade e a negociação franca de limites. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level1">
<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana</h3>
<p style="text-align: justify;">Dando continuidade ao nosso percurso sobre o desafio do controle parental, que já passou pelas obrigações do ECA Digital, pelo uso do Family Link, pelas configurações em ambientes Linux e, mais recentemente, pela filtragem de conteúdo via <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr>, tentaremos neste artigo abordar uma solução mais abrangente. Muitos leitores e pais atentos podem se perguntar: existe uma prática comum a diversos sistemas para fazer esse controle? É uma questão que levará algum tempo para respondermos, mas já podemos identificar alguns passos para esse objetivo que são: criar um usuário restrito, permitir apenas aplicativos selecionados, usar um <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> para filtrar conteúdo e bloquear alterações nas configurações do sistema. Podemos, por exemplo, fazer tudo isso num celular Android mas com preferência para o Software Livre e escapar da entrega de dados pessoais e comportamentais às <em>big techs</em>? Depende do que se deseja. Se for para um controle muito detalhado como definir o tempo em cada aplicativo, é mais difícil, mas para um controle básico de aplicativos e conteúdos fica mais fácil.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante ressaltar que esses quatro passos formam um modelo conceitual genérico de proteção, aplicável e pesquisáveis para qualquer sistema operacional — seja Android, iOS, Linux, macOS ou Windows. Cada etapa cumpre uma finalidade específica e indispensável na arquitetura do controle parental básico: a criação de um usuário isola o ambiente da criança, impedindo que ela acesse dados sensíveis dos adultos; a permissão restrita de aplicativos garante que apenas conteúdos e ferramentas aprovadas pelo tutor sejam executados; a configuração de um <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> com filtros atua como uma barreira de rede, bloqueando conteúdos nocivos e ilícitos antes mesmo que cheguem ao dispositivo; por fim, o bloqueio das configurações de sistema impede que o menor, intencionalmente ou por curiosidade, desfaça as proteções estabelecidas. Entender essa lógica permite ao responsável adaptar a segurança independente do aparelho que tiver em mãos.</p>
<p style="text-align: justify;">Conforme refletimos anteriormente, decidir qual ferramenta usar envolve prioridades. Se no primeiro artigo o Family Link foi apresentado pela sua facilidade e urgência de proteção, aqui propomos uma alternativa para quem já tem familiaridade com o ecossistema de Software Livre e deseja fugir da “economia da atenção” e da vigilância corporativa desde a infância de seus tutelados. O ecossistema Android, embora mantido pela Google, possui raízes em código aberto e permite configurações profundas que, combinadas com a loja de aplicativos F-Droid (uma loja exclusiva para Software Livre), formam um bom escudo protetor. Neste artigo vamos seguir com esse sistema operacional como exemplo por ser bastante comum em <em>tablets</em>, equipamentos esses interessantes como dispositivos de auxílio a educação.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro passo desse caminho comum é <strong>isolar o ambiente da criança</strong>. O próprio sistema Android possui a função de múltiplos usuários, muito semelhante à que discutimos nos computadores com Linux. O ideal é ir em “Configurações”, depois em “Sistema” e procurar por “Múltiplos usuários” ou “Vários usuários”. Ali, o responsável deve manter o seu próprio perfil protegido por uma senha forte ou biometria (para que a criança não o acesse) e criar um “Usuário Padrão” (ou “Perfil Restrito”, caso esteja usando um <em>tablet</em>, onde o recurso costuma ser mais robusto). Esse novo usuário será o espaço digital da criança.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo passo, já dentro do perfil da criança, é <strong>configurar o filtro de conteúdo</strong>. Lembra-se do <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> que configuramos no Linux no <a href="https://passapalavra.info/2026/06/159364/" target="_blank" rel="noopener">terceiro artigo</a>? No Android (a partir da versão 9), isso é ainda mais simples, pois o sistema aceita <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> sobre TLS (DoT) nativamente, sem precisar de <em>firewall</em> complicado. O inconveniente é que cada fabricante faz seu menu de configuração de forma que e as palavras e a sequência podem variar um pouco. Um exemplo é ir em “Configurações”, depois “Rede e Internet”, “Avançado” e selecionar “<abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> Privado”, mas em dois equipamentos Android que tenho o caminho não é esse, porém achei essa configuração em ambos pesquisando o termo “<abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> P”, pois num deles a expressão usada é “<abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> Particular”. A partir desse ponto, selecionamos a opção “Nome do host do provedor de <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> privado” (ou particular) e inserimos o endereço do serviço focado em famílias. Mantendo a recomendação anterior, podemos usar o CleanBrowsing preenchendo com “family-filter-dns.cleanbrowsing.org”. Pronto, toda a navegação daquele perfil estará filtrada, mas se essa configuração não existir no perfil da criança, será necessário ir no perfil principal e aplicar isso a todos os usuários; tenho usado esse <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> faz uns dois meses e não mudou meu dia-a-dia, pode ser uma ótima opção para todos.</p>
<p style="text-align: justify;">O terceiro e o quarto passo são onde temos opções viáveis de Software Livre: <strong>restringir aplicativos e impedir alterações</strong>. Se a criança tiver acesso ao aplicativo “Configurações”, ela rapidamente aprenderá a desativar o <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> Privado, derrubando nossos filtros. A solução é instalar um bloqueador de aplicativos de código aberto, como o App Lock, obtido através da loja F-Droid <strong>[1]</strong>; na Play Store existem aplicativos similares. Ferramentas livres de bloqueio cumprem uma função simples e honesta: exigem uma senha (que só o tutor sabe) para abrir determinados programas, sem exibir anúncios ou coletar seus dados para terceiros.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso do App Lock do F-Droid cuidado para não ativar o “Atalho do App Lock” (ou Atalho de acessibilidade) nas configurações de acessibilidade pois isso ativa um ícone flutuante que permite desativar o bloqueio facilmente; para ele funcionar corretamente também precisei reiniciar o dispositivo. Com o App Lock (ou similar) instalado no perfil da criança, o responsável deve usá-lo para trancar a sete chaves três coisas fundamentais:</p>
<p style="text-align: justify;">1. O aplicativo “Configurações” (impedindo a troca do <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> ou de redes);</p>
<p style="text-align: justify;">2. A “Play Store” e o próprio “F-Droid” (impedindo a instalação de jogos ou navegadores não autorizados);</p>
<p style="text-align: justify;">3. Navegadores que não possuam filtros rigorosos.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, deixamos habilitados somente os jogos educativos, aplicativos de comunicação com a família ou plataformas de estudo que previamente acordamos com os menores. A criança não consegue alterar a rede, não consegue instalar novos aplicativos por conta própria e navega sempre sob o olhar protetor de um <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> familiar. Criamos, assim, uma <em>sandbox</em> (uma “caixa de areia” isolada e segura) baseada majoritariamente em recursos selecionados.</p>
<p style="text-align: justify;">Como dito, diversas vezes ao longo desta série de artigos, nenhuma solução técnica é 100% à prova de falhas. Adolescentes mais velhos sempre testarão os limites das cercas virtuais que construímos. Além disso, o trabalho de configurar um ecossistema assim exige paciência inicial por parte do adulto. Contudo, optar por esse caminho descentralizado e livre ensina aos jovens, pelo exemplo, que a tecnologia pode ser moldada às nossas necessidades familiares, e não o contrário. No fim das contas, a ferramenta técnica apenas reduz danos, que pode ser uma grande redução, mas o controle parental duradouro e definitivo continua sendo a educação digital, as conversas sobre privacidade e a negociação franca de limites.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom diálogo a todos!</p>
</div>
<div class="footnotes">
<div class="fn" style="text-align: justify;">
<div class="content"><em><strong>Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</strong></em></div>
</div>
<div class="fn">
<div></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> A loja F-Droid pode ser instalada conforme instruções em <a class="urlextern" title="https://f-droid.org/pt_BR/" href="https://f-droid.org/pt_BR/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://f-droid.org/pt_BR/</a></div>
</div>
</div>
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			</item>
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		<title>Factos etc. 2) «ressentido, pessimista, revisionista, conformista, eclético e renegado»</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jul 2026 15:02:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Partir dos modelos para os factos ou dos factos para os modelos? Eu parto dos factos para os modelos. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;">Não passo além dos factos quando sustento, usando os termos de Leibniz, que toda a possibilidade, enquanto possibilidade, é uma «pretensão à existência». O possível tem uma realidade, que resulta do sistema contraditório em que os factos se articulam e dos choques entre sistemas. É este o drama, que eleva a vida social de uma simples soma de biologias a um palco de teatro, e foram os enredos desse drama que eu procurei classificar e sintetizar no <em>Economia dos Conflitos Sociais</em>. Tanto as rupturas internas como os conflitos externos assinalam os pontos de crise e, convertendo o estático em dinâmico, apontam rumos possíveis de superação do existente. São possibilidades reais, porque resultam do carácter contraditório de factos reais, mas de todas as pretensões à existência qual virá realmente a existir?</p>
<p style="text-align: justify;">Desde há várias dezenas de anos que, tanto em ensaios metodológicos como nas pesquisas práticas, tenho distinguido entre <em>determinação</em> e <em>formas de realização</em>. Uma determinação marca um campo cujos limites não podem ser excedidos, a menos que se salte para outro campo, em que prevalece outra estrutura de articulação dos factos. Mas no interior de uma dada determinação há um número ilimitado de formas possíveis de articulação dos factos na estrutura. A determinação marca os limites do <em>não</em>, mas não define a exclusividade de um <em>sim</em>. É nesta assimetria que se faz a história.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa assimetria deve ser transposta pelo historiador para outra assimetria, estabelecida entre o <em>a priori</em> e o <em>a posteriori</em>. Enquanto historiador, eu estou preso no tempo e escrevo necessariamente <em>a posteriori</em>, trato de factos que já sucederam e sigo a linha dos acontecimentos. Mas também enquanto historiador eu trabalho com uma matéria-prima formada pelos factos tal como eles se revelaram <em>a priori</em> e tal como se revelam hoje, num <em>a priori</em> relativamente aos tempos futuros. E se o <em>a priori</em> é uma vasta abertura de «pretensões à existência», o <em>a posteriori</em> é o encerramento de todas essas pretensões excepto uma. Por isso o historiador não deve limitar-se a explicar por que motivos sucedeu aquilo que sucedeu. É também necessário explicar — ou, pelo menos, tentar explicar — porque é que não sucedeu o que não sucedeu, ou seja, porque é que se efectivou uma forma do possível e não se efectivaram as outras. É no desfasamento (defasagem) entre o <em>a priori</em> e o <em>a posteriori</em> que ocorrem as ilusões do <em>se</em> em história. Se tivessem sabido… A historiografia é um infindável percurso por cemitérios, em que o cinismo é o único antídoto possível das nostalgias.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas estas dicotomias fundamentaram, tanto na pesquisa como na estrutura do texto, duas das minhas três obras de historiografia, o <em>Poder e Dinheiro</em> e o <em>Labirintos do Fascismo</em>. Mas que escândalo isto é para os vários dogmatismos e agora para o tudo abrangente politicamente correcto! Pois como pode pretender-se que uma certa sociedade ou uma certa civilização ou um certo tipo humano ou uma certa prática económica tivessem inicialmente, <em>a priori</em>, representado algo que agora, <em>a posteriori</em>, passado o tempo, se quer denegrir ou idealizar? E como pode dizer-se que a doutrina e o santo de cada uma das capelas, ou mesmo a divindade do altar-mor e os seus evangelhos, foram isto e aquilo no <em>a priori</em>, quando nos surgem tão puros e glorificados no <em>a posteriori</em>? Ou inversamente. E assim prolifera uma historiografia corrupta, dedicada a filtrar o <em>a priori</em> aceitável e a resumir a história a uma linha única. Se fizéssemos a lista de todas as previsões não confirmadas, aprendíamos a ser mais prudentes nas previsões. Mas se nos limitarmos a tomar o sucedido como prova de sucesso, esquecemos os tortuosos caminhos por que lá se chegou.</p>
<p style="text-align: justify;">Procurei singrar entre estes escolhos noutra das minhas obras historiográficas, <em>A Sociedade Burguesa de Um e Outro Lado do Espelho</em>, onde analiso <em>La Comédie humaine</em> simultaneamente como obra de historiografia e como material da história.</p>
<p style="text-align: justify;">«Fiz melhor do que o historiador, sou mais livre», proclamou Balzac. Mais livre? Ora, ele queixou-se precisamente da situação contrária, quando observou que «o historiador dos costumes obedece a leis mais severas do que as que regem o historiador dos factos, ele tem de tornar tudo provável, até o verdadeiro; enquanto que, no domínio da história propriamente dita, o impossível é justificado pelo motivo de ter acontecido». E noutras obras da <em>Comédie</em> transparece a mesma oscilação entre a liberdade de um criador de personagens e os constrangimentos impostos a quem tem de apresentar de maneira verosímil os acontecimentos que inventa, apesar de não faltarem na história real acontecimentos implausíveis. É que o <em>a posteriori</em> serve para justificar tudo pela mera razão de ter acontecido, enquanto o ficcionista não pode senão situar <em>a priori</em> as suas invenções, sem a desculpa do facto consumado. E assim <em>La Comédie humaine</em>, mais do que uma obra de historiografia, é uma reflexão sobre o exercício da história. Certamente por isso encontramos ali admiráveis antecipações da história real, porque de todas aquelas «pretensões à existência», algumas houve que depois viriam realmente a existir, e foi este um dos eixos que usei para estruturar <em>A Sociedade Burguesa de Um e Outro Lado do Espelho</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159408" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-300x246.jpg" alt="" width="560" height="459" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-300x246.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-1024x839.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-768x630.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-512x420.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-640x525.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-681x558.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2.jpg 1281w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Mas se Balzac foi um historiador que criou o seu próprio material historiográfico, e o criou na única forma possível em romances, enquanto pessoas, não nos iludamos e evitemos pensar que as teias da história sejam feitas com os fios das psicologias individuais. Em todos os meus trabalhos dedicados aos estudos sociais, sem excepção, eu tenho insistido que as unidades mínimas dos grupos sociais são outros grupos sociais, contidos no seu interior ou entrecruzados e só parcialmente sobrepostos. É num plano distinto que existem os indivíduos. Cada indivíduo constitui um percurso incessante e mutável entre vários grupos sociais, e a psicologia de cada um é a tentativa de dar uma coerência a esse percurso. Um indivíduo é uma dispersão unificada apenas pelo facto de possuir um cérebro que integra as sensações. Ora, quanto mais se agravarem as contradições internas dos sistemas sociais atravessados por um mesmo indivíduo e quanto mais se aprofundarem os antagonismos entre aqueles sistemas, mais difícil, ou até impossível, fica a tentativa de fornecer uma coerência a esse percurso. Em sentido oposto, pode suceder que em certas situações e circunstâncias um campo ou um grupo social ocupem um espaço desmesurado relativamente aos outros grupos e campos, e então uma grande parte dos percursos individuais seja atraída pelo campo ou pelo grupo em expansão, o que contribui para criar uma falsa sensação de unanimidade. Mas como mesmo nestes casos existem divergências e proliferam sistemas e grupos secundários e outras fontes de atracção para uns e outros percursos, nunca os percursos individuais se sobrepõem. A regra sem excepção é a singularidade dos incessantes percursos a que se resume cada indivíduo, sem que jamais esses percursos se decalquem.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí resulta a improcedência da psicologia na história e na economia. As obras que pretendem misturar as duas coisas com frequência não são uma nem a outra. Pensar que as pessoas são as unidades componentes dos grupos sociais é reduzi-las àquelas figuras sem vida que povoaram a pintura e a literatura soviética e hoje alimentam as ficções do politicamente correcto. Essas descrições nem sequer são disfarces assumidos por alguém, porque resultam apenas de máscaras sem conteúdo, inventadas para dar pernas e braços a grupos sociais e fazer crer que existe uma unanimidade absoluta onde há só diferenças e divergências.</p>
<p style="text-align: justify;">Os sistemas sociais estudam-se na história e na economia. As pessoas estudam-se naqueles romances e filmes que vivam apenas das contradições dos personagens, ou seja, do seu percurso por sistemas e grupos sociais distintos, quando não mesmo opostos. Um romancista — um bom romancista, porque é destes que estou a falar — cria um personagem sem lhe saber o destino, e é ao longo da obra que o vai inventando, tal como sucede a qualquer de nós nos percursos e encontros sempre mutáveis do dia-a-dia. André Gide desvendou com ironia este mecanismo em <em>Les Caves du Vatican</em>, quando receou que o seu personagem hesitasse. «Lafcadio, meu amigo, se cair num <em>fait divers</em>, a minha caneta abandona-o». E o romancista previne: «Não espere que eu narre os pedaços de frases de uma multidão, os gritos…» E de novo, algumas páginas adiante. «Lafcadio, meu amigo, está a cair na banalidade. Se for apaixonar-se, não conte com a minha caneta para descrever as angústias do seu coração… Mas não». (Pode ler-se em nota a versão francesa.) Lafcadio faz a escolha certa e Gide exulta, porque o personagem não lhe fugiu e ele pode assim continuar o livro. É isto que sucede nos bastidores da escrita em todos os bons romances — o que nos permite distinguir os bons romances dos maus, ou mesmo dos menos bons — e por isso os personagens dessas obras nunca podem ser emblemas de uma doutrina ou figurantes de um grupo social, porque na cabeça do escritor eles inventam-se a si mesmos e optam por percursos imprevistos.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada há de comum entre os estudos históricos ou económicos e a ficção, por isso aqueles personagens imprevisíveis, que somos nós próprios, não constituem as unidades mínimas dos grupos sociais. É para outro lado que o historiador ou o economista têm de olhar. Talvez seja este o motivo por que uma certa esquerda, tanto da antiga como da actual, é tão hostil à ficção, onde só encontra figuras que fogem aos moldes. É talvez a mesma esquerda que alimenta o lobby dos psicólogos, xamãs vocacionados para colocar cada pessoa no devido padrão. Ora, a arte e a ficção servem, ou devem servir, para mostrar fissuras e introduzir dúvidas nas certezas. Em vez de demonstrar, devem pôr em causa.</p>
<p style="text-align: justify;">Qual a utilidade, então, dos estudos de economia e de história, se não servem para dar coerência aos percursos individuais? E qual a utilidade da arte e da ficção, se não nos esclarecem sobre a estrutura da sociedade? Entre as razões que levam muitos leitores a ficarem descontentes com o meu trabalho, talvez seja esta uma das mais importantes, a de um estudioso da sociedade interessado sobretudo pela ficção e pela arte. Em 15 de Outubro do ano passado (<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comments" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), um leitor, depois de considerar que existe «um João Bernardo de esquerda e um de direita», contrastou «o “jovem João Bernardo” marxista, comunista, conselhista, autonomista, heterodoxo, e o atual, ressentido, pessimista, revisionista, conformista, eclético e renegado». Mas este leitor enganou-se pelo menos numa coisa, pois poderia haver uma mais clara manifestação de revisionismo do que o jovem João Bernardo apresentar, há já cinquenta anos, Marx como crítico de Marx?</p>
<p style="text-align: justify;">A grande divergência entre os que acreditam antes de ver e os que procuram ver para acreditar provém do que se pretende — o conforto de encontrar confirmações para os desejos e os preconceitos? Ou o incómodo de buscar sempre o inesperado e o que se é incapaz de explicar? Partir dos modelos para os factos ou dos factos para os modelos? Eu parto dos factos para os modelos.</p>
<p><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As passagens citadas de <em>La Comédie humaine</em> (Paris: Gallimard, Bibliothèque de La Pléiade, 1976-1981) encontram-se respectivamente em <em>Avant-propos</em>, vol. I, pág. 15 e <em>Les Paysans</em>, vol. IX, pág. 190.<br />
As citações de <em>Les Caves du Vatican</em> (Paris: Gallimard, Le Livre de Poche, 1956) encontram-se nas págs. 63 e 75. Na versão francesa: «Lafcadio, mon ami, vous donnez dans un fait divers et ma plume vous abandone. N’attendez pas que je rapporte les propos interrompus d’une foule, les cris…» «Lafcadio, mon ami, vous donnez dans le plus banal; si vous devez tomber amoureux, ne comptez pas sur ma plume pour peindre le désarroi de votre cœur… Mais non».</p>
<p style="text-align: center;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159414" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-300x247.jpg" alt="" width="100" height="82" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-300x247.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-1024x841.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-768x631.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-511x420.jpg 511w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-640x526.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-681x560.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a.jpg 1032w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem obras de M. C. Escher (1898-1972)</em>.</p>
<p>Pode ler <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159392/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> a primeira parte deste ensaio.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (5)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159475/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 19:18:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[É a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 3</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Mudança, Ou, da Revolta à Greve</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">É impossível, certamente, descobrir o momento exato em que a greve supera a revolta no repertório. Qualquer determinação desse tipo seria excessivamente confiante quanto à clareza e pontualidade com que as formas de luta se desenvolvem, divergem e reformam. Pior ainda seria sugerir que uma desaparece, para ser substituída pela outra. As táticas, uma vez adotadas, estão sempre à mão, mais próximas ou mais distantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao buscar a transição, temos a dificuldade já exposta. A mudança da revolta para a greve é imanente a uma mudança mais completa e complexa na estrutura da ascensão do capital. A greve emerge da revolta — de um modo centrado na obtenção de lucros no mercado para um centrado na extração de mais-valia. Ou seja, a greve emerge no novo mundo da produção capitalista, como deve ser, a partir do espaço da circulação. Ela se afasta do mar, deixando um rastro de espuma, embora ainda não totalmente formada. Marinheiros britânicos, americanos e franceses estavam consistentemente entre os trabalhadores mais militantes do século XVIII, rivalizando com os sapateiros (os comerciantes eram encontrados mais consistentemente entre os líderes de distúrbios políticos do século XVII até a Comuna de Paris). A própria palavra inglesa <em>strike</em> parece datar de 1768, quando marinheiros se juntaram a “artesãos e comerciantes da cidade — tecelões, chapeleiros, serradores, moedores de vidro e carregadores de carvão — na luta por melhores salários, [e] arriaram suas velas e paralisaram o comércio da cidade. Eles &#8216;não tinham tripulação ou, de outro modo, eram impedidos de navegar todos os navios no Tâmisa&#8217;” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A derivação do termo francês para greve, <em>gréve</em>, é ainda mais sugestiva — uma etimologia com o alcance de um épico, começando na margem de um rio e terminando no Hôtel de Ville alguns séculos depois e a oitenta passos de distância. É uma palavra antiga. Originalmente, significava uma área plana de areia e cascalho próxima à água, uma praia e, portanto, um local onde os barcos descarregavam cargas. A <em>gréve</em> mais trabalhável do Sena tornou-se, portanto, o principal porto de Paris <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ficava na margem direita, uma vez que a cidade se expandiu a partir das ilhas do rio. A área aberta próxima à praia serviria como mercado central da cidade na Alta Idade Média, antes que os feirantes se mudassem para Les Halles. Trabalhadores não qualificados se reuniam ali em busca de trabalho, carregando e descarregando madeira e trigo, barris de vinho e fardos de feno: a Praça da Gréve. O nome duraria mais de 500 anos. Em 1802, a praça tornou-se a Place de l&#8217;Hôtel de Ville, renomeada em homenagem ao seu edifício principal, a residência do prefeito, o golpe termidoriano e, por um breve período, a Comuna. Fotografias antigas mostram que os c<em>ommunards</em> ergueram barricadas ali, em parte por causa de grandes barris de vinho. Uma rima medieval. Onde estava o mercado, estará a comuna.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159484" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg" alt="" width="800" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-681x341.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas estamos nos precipitando. Estamos no porto mais uma vez, o lugar que fornece a principal coordenada para esta primeira seção, para a era de ouro das revoltas. É inevitável, porque é prática e logicamente necessário, que o porto e o mercado parem a greve. É igualmente inevitável, então, que retornaremos ao porto mais adiante neste livro, à medida que as coisas oscilam de greve para revolta. É um ponto de captação de mão de obra não utilizada em meio à grande máquina do mercado. Um lugar de miséria e possibilidade. É apropriado, talvez, que a Place de Gréve também sediará uma guilhotina; o dicionário de 1835 associa a palavra <em>gréve</em> a execuções. Ele ainda não menciona ações dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a mudança já está em andamento. A ascensão do capital refina algumas frases. Chateaubriand, ultradireitista e inveterado criador de termos, usa <em>gréviste</em> em 1821; por enquanto, não significa exatamente um grevista, mas sim alguém que se opõe aos monarquistas. Seu faro para política está afiado como sempre. À medida que os corpos se reúnem na Praça, os desempregados que serão o primeiro exército das Jornadas de Junho, “<em>étre en gréve”</em> passa a significar “procurando trabalho”. Em 1848, após um colapso econômico em toda a Europa, “<em>mettre un patron en gréve</em>” significa “recusar-se a trabalhar para o patrão”. O sentido moderno e a greve moderna chegaram. A transição está completa.</p>
<p style="text-align: justify;">A França chega lá um pouco mais tarde do que a Inglaterra ou os Estados Unidos, por razões já discutidas. Os anos 1848-1851 são o grande pivô, apesar de toda a sua natureza farsesca. A industrialização agora remodelará a sociedade francesa em um nível profundo. Diante desta passagem, as perplexidades abundam, como em outros lugares. Em 1830, encontramos “uma revolta de trabalhadores têxteis ocorreu em Roubaix; eles queriam um aumento de salário”. O promotor de Douai relata: “Eles quebraram as vidraças nas lojas principais, onde foram em massa para solicitar acordos por escrito sobre o aumento”. Roubaix era um centro têxtil desde o final da Idade Média, com uma organização trabalhista bem desenvolvida. Shorter e Tilly registram isso corretamente (embora de forma ambígua) como um prelúdio para a greve na França, observando que “às vezes, os trabalhadores de uma loja paravam por um tempo e, às vezes, tentavam obter paralisações em outras lojas do mesmo setor”, mas, mais comumente, “o cerne de sua ação era uma demonstração de força aliada à apresentação de reivindicações coletivas relativas às condições de emprego em um conjunto específico de lojas. A lei da época proibia quase qualquer tipo de ação coletiva dos trabalhadores” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O promotor claramente não tem palavras para isso. O conteúdo da própria estrutura social em que está enredado ainda não lhe é conhecido: a chegada ao palco das classes trabalhadoras. Ele está preso à forma. É uma multidão enfurecida afinal, mesmo que sejam trabalhadores se mobilizando como trabalhadores em seus locais de trabalho, reivindicando melhores salários. A consequência desse formalismo é evidente. “A revolta, de acordo com o relatório do deputado, não parece ter nenhuma conotação política”, conclui nosso cronista. Podemos suspeitar que ele queria dizer que os eventos não estão diretamente relacionados à Revolução de Julho, duas semanas antes. Ao mesmo tempo, reconhecemos um senso comum a caminho de se tornar um truque de retórica. Ele realiza um certo tipo de trabalho, essa confusão, esse hábito peculiar de nomenclatura. Porque podemos chamá-lo da revolta, podemos proceder como se seu manifesto significado político não existisse. Mais um espasmo na história sem história dos miseráveis.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><em><strong>Quebra-Máquinas</strong></em></h4>
<p style="text-align: justify;">“ÀS CLASSES TRABALHADORAS”, como começavam os panfletos:</p>
<blockquote><p><em>Os Cavalheiros, a Agricultora, os Fazendeiros e outros, tendo comunicado a vocês sua intenção de aumentar seus Salários de forma satisfatória; e tendo sido bom sentirem que será mais benéfico para seus próprios interesses permanentes retornar às suas ocupações honestas habituais e se afastarem de práticas que tendem a destruir a Propriedade, de onde os próprios meios para seus Salários adicionais devem ser fornecidos</em><strong>[4]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta publicação em particular vem dos magistrados de Berkshire; apenas dois condados ingleses proferiram mais sentenças de morte a participantes da “revolta de Swing”, e nenhum prendeu tantos. O objetivo é acalmar os verdadeiros seguidores do mítico “Captain Swing” durante a onda de quebra-máquinas iniciada no outono de 1830. Caso isso acontecesse, as revoltas de Swing durariam até o ano seguinte. As classes trabalhadoras, neste ponto, ainda são plurais, as frações libertadas pelos destroços do feudalismo, ainda em processo de se transformarem na classe trabalhadora. Thompson considera 1790-1832 como o período crucial, onde encontramos também aquele episódio mais duradouro de destruição de máquinas, as revoltas luditas de 1811-1813.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159482" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png" alt="" width="701" height="891" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png 701w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-236x300.png 236w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-330x420.png 330w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-640x813.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-681x866.png 681w" sizes="auto, (max-width: 701px) 100vw, 701px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Repetidamente, Swing trata de máquinas debulhadoras. Da mesma forma, “os ataques luditas se limitavam a objetivos industriais específicos: a destruição de teares mecânicos (Lancashire), máquinas de tosquia (Yorkshire) e resistência ao colapso do costume na indústria de tricô de Midland” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Já encontramos o mecanismo que, acionado pelos avanços agrários, fará girar as rodas da Revolução Industrial. A corrida pela produtividade, a própria base do desenvolvimento capitalista, significa a substituição da força de trabalho por meios de produção, do trabalho vivo por morto, do capital variável por constante. O aumento da produtividade tende a aumentar os salários, o que, por sua vez, força novos avanços que economizam mão de obra. Paralelamente, massas de empregados domésticos são lançadas ao mercado de trabalho: o aumento dos custos dos produtos agrícolas persuade os empregadores a abandonar arranjos residuais de trabalho em espécie em troca de salários, repassando a inflação aos trabalhadores. O trabalho agrário perdido pelo cercamento deprime esses mesmos salários, mesmo enquanto a indústria caminha pela paisagem com botas de sete léguas.</p>
<p style="text-align: justify;">À medida que o salário se generaliza, o mercado começa a renunciar à sua centralidade social. O espaço físico sujeito em parte ao controle comunitário, dá lugar a “mistérios de um mercado &#8216;autorregulador&#8217;, o mecanismo de preços e a subordinação de todos os valores comunitários ao imperativo do lucro” <strong>[6]</strong>. Em pouco tempo, “o membro característico dos pobres rurais era agora um proletário sem terra, dependendo quase exclusivamente do trabalho assalariado ou da Lei dos Pobres para sua vida” <strong>[7]</strong>. A Lei dos Pobres é um lembrete, à luz de discussões anteriores, de que zero também é um salário, embora um salário que precisará de suplemento para que seus beneficiários sejam mantidos em reserva disponível.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a isso, surgem o General Ludd e o Captain Swing, um liderando ataques contra as indústrias têxteis, o outro no teatro de combate agrário. Ambos os movimentos descreveram a si mesmo em termos militares, nunca melhor do que em uma carta “Assinada pelo General do Exército de Reparadores/Reformadores Ned Ludd Clerk”. Fizeram juramentos, muniram-se de armas. Contínuos e populares, dificilmente se pode discutir que foram revoltas reais. Seus períodos foram variados. Não tiveram uma única atividade. Somente nas revoltas de Swing, “incêndios criminosos, cartas ameaçadoras, panfletos e cartazes &#8216;inflamáveis&#8217;, &#8216;roubos&#8217;, reuniões salariais, agressões a feitores, párocos e proprietários, e a destruição de diferentes tipos de máquinas, todos desempenharam seu papel”. Apesar de toda essa variabilidade de forma, o conteúdo é constante. “Por trás dessas atividades multiformes, os objetivos básicos dos trabalhadores eram singularmente consistentes: alcançar um salário mínimo vital e acabar com o desemprego rural” <strong>[8]</strong>. Não menos claros eram os luditas, cujas “reivindicações incluíam um salário mínimo legal; o controle da &#8216;exaustão&#8217; de mulheres ou menores; arbitragem; o engajamento dos patrões para encontrar trabalho para homens qualificados despedidos por maquinário; a proibição de trabalho de má qualidade; o direito à associação sindical aberta” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não devemos sugerir que os dois grandes episódios de quebra de máquinas sejam idênticos. Seus fundamentos são diferentes. Apesar de toda a sua ligação, os mundos agrícola e industrial na Grã- Bretanha estão em desacordo; as batalhas obstinadas sobre as Leis dos Cereais ressaltam os interesses contrários do campo e da cidade. Kirkpatrick Sale intitula seu estudo “Rebeldes Contra o Futuro: Os Luditas e Sua Guerra contra a Revolução Industrial”; poderíamos dizer o mesmo dos manifestantes do Swing? <strong>[10]</strong> Mas é enganoso, ainda que esteja de acordo com parte do espírito de Thompson, considerar as revoltas como defesas retrógradas do costume. Novamente nos deparamos com a questão do prático, da necessidade. Frequentemente, os luditas colocam as coisas de maneiras difíceis de confundir, afirmando seu direito e intenção de “quebrar e destruir todo tipo de estrutura que não pague o preço regular previamente acordado”. Uma lista está anexada a este comunicado; máquinas que não desloquem trabalhadores serão deixadas intactas <strong>[11]</strong>. Ludd e Swing, sem dúvida, compartilham a sensação de um terreno perigosamente instável, de um mundo da vida sob coação. No entanto, eles estão unidos, na fórmula mínima, pela pressão para baixo nos salários e pela ameaça de desemprego tecnológico. E é aqui que o quebra-cabeça da classificação se afirma.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159483" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg" alt="" width="700" height="924" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-318x420.jpg 318w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-640x845.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-681x899.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As autoridades, previsivelmente, desejam conceder-lhes força insurrecional apenas quando necessário para aplicar penalidades mais severas. Em sua maioria, os grandes episódios de quebra de máquinas serão registrados como revoltas por observadores, na época e posteriormente. Afinal, as leis dão nomes, e muitas vezes é o crime de revolta pelo qual os exércitos de Ludd e Swing são processados (embora um projeto de lei específico que torne a invasão de domicílio um crime capital seja aprovado logo no início). Magistrados de Nottingham relatam “um espírito ultrajante de tumulto e revolta” nos primeiros dias de Ludd, estabelecendo os termos da arte para condenações da Lei da Revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">Ocasionalmente, o nome parece adequado, por exemplo, aplicado à extorsão de dinheiro e provisões. Os episódios reais, apesar de toda a sua variedade, muitas vezes assemelham-se formalmente à revolta — em seu tom, ímpeto, selvageria. E, no entanto, deveria ser impossível olhar para essas reivindicações e não reconhecer a greve em formação. Elas dizem respeito apenas a emprego, melhores salários, melhores condições de trabalho, proteções legais. Se estamos buscando a fonte da grande confusão entre a natureza subjacente da luta coletiva e sua aparência, não precisamos ir além desses eventos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos apresentar o argumento com clareza, principalmente porque se trata de um argumento sobre confusão. É somente neste período de transição histórica que os contornos da revolta e da greve podem finalmente ficar claros em seus delineamentos, exatamente porque é somente nesses períodos que os dois podem ser colocados em tão estreita proximidade, misturados e, no final, esclarecidos. Ou, para colocar de outra forma, a quebra de máquinas é como se dá a transição da revolta para a greve. Sem dúvida, parece retrospectiva, “o último capítulo de uma história que começa nos séculos XIV e XV” <strong>[12]</strong>. Mas essa insistência no costume, na luta contra o futuro, ignora aquela parte da quebra de máquinas que é a invenção, que antecipa. Não é menos um primeiro capítulo de políticas de confronto no local de trabalho que não terminaram. É somente em um período de transição que um híbrido tão chocante e inovador, com um pé no confinamento e nas revoltas por comida, um pé na legislação fabril e nas lutas pela jornada de trabalho, pode surgir. “Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal emergiu”, escreve Thompson <strong>[13]</strong>. Em tal circunstância, é inevitável que as táticas proliferem à medida que as pessoas tentam soluções para um novo conjunto de problemas, tomando emprestadas suas formas do antigo repertório — assim como o capital extrai suas formas do comércio até que o novo conteúdo esteja pronto para ser divulgado no dia a dia.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho como fulcro da reprodução, que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Na verdade, são a mesma coisa: contexto e conflito. Eles se movem juntos. O ritmo próximo dessa dupla mudança fornece a base histórica para um argumento político-econômico que define revolta e greve adequadamente em sua plenitude histórica — define-os não de acordo com atividades específicas, mas antes pelas maneiras como o problema da reprodução confronta a massa de pessoas, suas posições dentro das relações sociais dadas, os lugares para onde foram empurradas, os espaços onde seus antagonistas devem ser visíveis, podem ser vulneráveis.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>Os Muitos</strong></em></h5>
<p style="text-align: right;"><em>Levantem-se, como leões após o sono,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Em número invencível,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Sacudam suas correntes para a terra como orvalho</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que durante o sono caíram sobre vocês —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vocês são muitos — eles são poucos —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>— Percy Bysshe Shelley,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>“A Máscara da Anarquia”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Se alguém fosse em busca de um fio condutor que atravessasse a sequência revolta-greve-revolta “linha”, faria pior do que seguir o destino do poema de Shelley, composto para “um pequeno volume de <strong>canções populares</strong> totalmente políticas”<strong>[14]</strong>. O poema narra o Massacre de Peterloo de 1819, nomeado com alguma ironia em homenagem a Waterloo, travado quatro anos antes. Estamos no meio do caldeirão de Thompson, então. A Inglaterra está em meio à fome e à depressão. A revolta por comida, tendo atingido o pico segundo todos os relatos em 1800-1, está em recuo. O fim das guerras napoleônicas lançou uma grande massa de corpos em um mercado de trabalho incapaz de absorvê-los. A indigência na Inglaterra está em 15% e a emigração em níveis históricos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159485" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg" alt="" width="1053" height="1053" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg 1053w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1053px) 100vw, 1053px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É nesse contexto que 64.000 pessoas se reúnem no Campo de São Pedro, em Manchester, buscando reformas parlamentares, principalmente em relação ao sufrágio. A Lei da Revolta é lida. Na carga de cavalaria imediatamente seguinte, mais de uma dúzia de manifestantes são mortos e centenas ficam feridos. A indignação moral toma conta da nação. Na Itália, Shelley constrói seu poema a partir de notícias de jornais.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria difícil chamar Peterloo de revolta no sentido que a palavra havia se desenvolvido ao longo dos séculos anteriores. É próximo em certos aspectos. A grande assembleia se reúne na ágora. O termo e o código legal são usados em qualquer caso; é a categoria representativa que as pessoas têm em mãos. Certamente houve reuniões que podem ser mais apropriadamente chamadas de revoltas nos dias seguintes em cidades vizinhas. Mas a revolta do século XVIII atingiu, em geral, seu limite e explodiu. A multidão reunida na praça tenderá para a revolução ou nada, pressionada contra a impossibilidade da demanda prática quando até mesmo os apelos por reforma são recebidos com violência mortal. É aqui que o poema começa. O afastamento da revolta já começou. James Chandler escreve:</p>
<blockquote><p>Tudo isso quer dizer que, à semelhança de Peterloo, a “Revolução Francesa” em uma escala maior, ou talvez até mesmo o próprio “Romantismo” em uma escala ainda maior — nomeia um evento de duração indeterminada que marca uma grande transformação nas práticas da representação literária e política moderna, entendida em seu momento como tendo potencial revolucionário <strong>[15]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas o poema só é publicado em 1832, no final a nossa primeira tentativa. A estrofe final do longo poema irá tornar-se uma espécie de canção de marcha para luta após luta. É logo retomada pelos cartistas, que em 1842 se aproximam da primeira greve geral. O tempo do trabalho começou. Em 1911, Pauline Newman orientará seus discursos de organização para o Sindicato Internacional das Trabalhadoras do Vestuário Feminino com as frases de Shelley. Mas haverá outras oscilações. Em 2010, o poema é repatriado quando estudantes e outros que lutam contra cortes fatais no salário social atacam e ocupam o número 30 de Millbank, a sede do Partido Conservador em Londres. A estrofe final de Shelley é citada repetidamente nos dias seguintes, o fio condutor retornando na longa temporada que inclui o movimento das praças, o movimento <em>Occupy</em>, a Primavera Árabe — o retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">A estrofe final acrescenta um último verso a uma quadra que aparece anteriormente, desviando o olhar do pacifismo fundamental do poema: “Vós sois muitos — eles são poucos.” <strong>[16]</strong> Pode ser possível persuadir você de que os sons do primeiro verso, levantem-se/leões/depois, querem que você ouça a palavra revolta. É difícil não ouvir. É difícil não ouvir na associação do poema de “Anarquia” com o Estado corrupto, em vez de com os antagonistas do Estado, um precursor da inversão dialética com a qual iniciamos este livro: “Uma ordem violenta é uma desordem; e uma grande desordem é uma ordem. Essas duas coisas são uma só.” Mas o último verso de Shelley levanta uma questão mais simples ou talvez muito mais intratavelmente complexa, a dos muitos.</p>
<p style="text-align: justify;">O popular e o político, como ele insistia. Multidões e poder, na fórmula concisa de Canetti. Massas, classes, turba, multidão. Súditos, cidadãos, o povo. O sentido de antagonismo e metamorfose social, o sentido (para arriscar essa substancialização portentosa) do político: isso não pode ser desvinculado do sentido da multidão e daquilo que poderia lhes dar uma unidade, seja ela autodeclarada ou espectral. Isso dificilmente seria o lugar para uma revisão da literatura. Em vez disso, uma proposição simples: que revolta e greve serviram como, entre outras coisas, metonímias para este assunto em um determinado momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é outra maneira de delinear o que é apreendido na ideia de um repertório de ação coletiva e de identificar uma tática principal dentro dele. Essas táticas, e as mudanças entre elas, são expressões da massa social e suas recomposições, que por sua vez se formam e se transformam a partir de dadas bases materiais. Em outras palavras, a revolta não é um evento isolado e singular; é tanto uma fração real de quanto uma figura para os muitos aos quais está sempre adjacente. É a relação interna dos muitos externalizada sob certas condições. Isso também se aplica à greve. Compreender as transformações na sequência revolta-greve-<em>revolta “linha” </em>é enxergar as mudanças dos muitos, ver o que pode ser compreendido nelas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Greg Grandin, <em>The Empire of Necessity: Slavery, Freedom, and Deception in the New World</em>, Nova York: MetropolitanBooks, 2014, n. 146. A citação sem atribuição é de The Economic Review, Vol. 5, Londres: Rivington, Percival &amp; Co., 1895, 216.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Eric Hobsbawm faz uma observação fascinante em <em>The Age of Revolution: Europe 1789-1848</em>, Londres: Abacus, 2007, 265, nota de rodapé 31. Ele escreve: “A greve é uma consequência tão espontânea e lógica da existência da classe trabalhadora que a maioria das línguas europeias tem palavras nativas independentes para designá-la (por exemplo, grève, huelga, sciopero, zabastovka), enquanto que as palavras para outras instituições são frequentemente emprestadas.” No entanto, isso é, em última análise, enganoso de maneiras que serão exploradas no capítulo seguinte, notadamente pela forma como declara a autonomia da greve em relação a uma tradição mais antiga, como se ela tivesse surgido de forma autóctone a partir da nova dispensação proletária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Todos os trechos são de Edward Shorter e Charles Tilly, <em>Strikes in France 1830-1968</em>, Londres: Cambridge University Press, 1984, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Eric Hobsbawm e George Rude, <em>Captain Swing: A Social History of the Great English Agricultural Uprising of 1830</em>, Nova York: W. W. Norton, 1968, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Thompson, <em>Working Class</em>, 484.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Wood, <em>Origin of Capitalism</em>, 69.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Hobsbawm e Rude, <em>Capitão Swing</em>, 35.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 195.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Thompson, “Working Class ”, 551.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Kirkpatrick Sale, <em>Rebels Against the Future: The Luddites and Their War on the Industrial Revolution: Lessons for the Computer Age</em>, Boston: Addison-Wesley, 1995.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Conant e Darval, citados em Thompson, “Working Class”, 535.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Working Class”, 543.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Carta a Leigh Hunt, 1º de maio de 1820, <em>The Letters of Percy Bysshe Shelley: In Two Vols</em>., vol. 2, ed. Frederick L. Jones, Oxford: Clarendon Press, 1964, 191 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> James Chandler, England in 1819: <em>The Politics of Literary Culture and the Case of Romantic Historicism</em>, Chicago: University of Chicago Press, 1998, 18.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Diferentes impressões do poema variam em sua ortografia; esta citação segue a primeira edição, Londres: Edward Moxon, 1832.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Ilustram o texto &#8220;O Hôtel de Ville incendiado, atacado pelas tropas de Versalhes&#8221;, de Gustave Clarence Rodolphe Boulanger (1871), &#8220;O Líder dos Ludditas&#8221;, de autoria anônima (1812), &#8220;Um Retrato Original do Capitão Swing&#8221;, de autoria anônima (1830), &#8220;O Massacre de Peterloo&#8221;, de George Cruikshank (1819).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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