<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Passa Palavra</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Thu, 05 Nov 2026 02:38:11 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.1.4</generator>
	<item>
		<title>O dia depois de amanhã</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/11/160312/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/11/160312/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Nov 2026 02:37:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=160312</guid>

					<description><![CDATA[Por Charles Junior, Antonio Carlos e Pedro Seeger O Brasil parece que capotou umas trinta vezes, pelo amor de Santa Rosa de Luxemburgo. Realmente não temos motivos para ficar tristes depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, conduzido pela 4ª vez à presidência do país. Mas, parafraseando Maiakovski [1], também não temos motivos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Junior, Antonio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">O Brasil parece que capotou umas trinta vezes, pelo amor de Santa Rosa de Luxemburgo.</p>
<p style="text-align: justify;">Realmente não temos motivos para ficar tristes depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, conduzido pela 4ª vez à presidência do país. Mas, parafraseando Maiakovski<strong> [1]</strong>, também não temos motivos para ficar felizes. Não apenas porque temos o Congresso mais a direita desde as últimas eleições, com a possibilidade inclusive de barrar PECs enviadas pelo governo<strong> [2]</strong>, mas essencialmente porque vem chumbo grosso aí. Como falado em outros momentos, as classes dominantes brasileiras e internacionais querem mais arrocho<strong> [3]</strong>, haja vista as falas de representantes do mercado já na 2⁠ª feira pós-eleições. A interminável ladainha do aumento dos juros, necessidade de ajuste fiscal e descontrole das contas públicas já tomou conta novamente dos noticiários da economia, com os agentes do mercado exigindo compromissos do presidente reeleito. Mesmo com negativas por parte dos representantes do governo federal, sabemos muito bem para que lado pende Lula e o PT<strong> [4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes disso, precisamos olhar um pouco mais como se desenha o quadro político após a votação do dia 25. Então bora lá, CHAMA!</p>
<p style="text-align: justify;">Pressionado e acuado, o governo petista fez em um mês o que não se dispôs (ou não se arriscou) a fazer em quatro anos: proibição das <em>bets</em>; aprovação do fim da escala 6×1 e diminuição da jornada de trabalho; perdão das dívidas de milhões de microempreendedores individuais (MEIs), com ampliação de faturamento possível para esse enquadramento e até a possibilidade de ter mais funcionários. Se o segundo turno durasse mais uma semana, ninguém sabe o que mais poderia ter sido abocanhado.</p>
<p style="text-align: justify;">Reiteramos que, graças à derrota no 1º turno, o avanço foi maior do que nos outros 46 meses de Lula 3. O novo foi a boa e velha meia esquerda da seleção da classe trabalhadora. Veloz e hábil, as mobilizações de rua entortaram as defesas de seu próprio time e dos adversários. Tanto nas capitais quanto no interior entrou em jogo nossa melhor jogadora empurrando as duas defesas para dentro do gol. Marta Maria entrou com bola e tudo, cantando:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Mas é preciso ter força, é preciso ter raça</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">É preciso ter gana sempre</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Quem traz no corpo a marca</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Maria, Maria, mistura a dor e a alegria</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">…</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Marta, Maria, é um dom, uma certa magia</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Uma força que nos alerta</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Uma mulher que merece viver e amar</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Como outra qualquer do planeta<strong> [5]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Sem superestimar os números nem a determinação política das ruas, mas foi algo novo, que chacoalhou a conjuntura. Muitas dessas manifestações foram feitas a contragosto e à revelia do PT, que continuava apostando unicamente na mudança de comunicação para tentar alcançar o oponente bolsonarista (sabemos que se tem uma coisa que a direção petista tem medo, desde 2013, é de gente na rua). Soma-se a isso a postura diferente de Lula no 2꠶ turno e os vacilos de Flávio, que demorou a perceber a mudança enquanto já dividia ministérios e falava em mudar a constituição<strong> [6]</strong>, ou seja, entrou de salto alto e levou a virada.</p>
<p style="text-align: justify;">O que todos os jornais nacionais (muito a contragosto, ainda desejosos de uma terceira via e de uma mítica direita não-bolsonarista) e internacionais louvaram como sagacidade e capacidade miraculosa de Lula nada mais é do que a alienação típica das eleições e da democracia burguesa: toda a frenética militância de inúmeras pessoas se torna fruto da ação de uma única pessoa. Assim, Lula pode alardear que conseguiu derrotar mais uma vez o clã Bolsonaro, ainda que se dependesse unicamente dele e do seu partido as coisas teriam provavelmente tomado um rumo muito diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Devemos ficar atentos no desenrolar desse processo, se toda essa explosão vem de anseios anteriores à eleição que emergiram agora ou não, e como e por quais canais essa onda vai seguir. Que Lula e aliados busquem convertê-la unicamente a seu favor e, no limite, desmobilizá-la, não é novidade. Como o farão e que resistência irão enfrentar é o que nos parece ser a chave para o próximo período. Na conta entra o papel do chamado exército de Lula, comandado pelo general Janones. Não nos espanta que uma esquerda acostumada a falar de quadros, tática e estratégia goste de se acomodar na hierárquica estrutura militar. Mas uma análise dessa ferramenta está além desse nosso texto a quente, carecemos de tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Então diz aí, o que vem nesse próximo período?</p>
<p style="text-align: justify;">Pela perspectiva dos agentes do mercado, a reeleição de Lula significa continuidade de um arranjo fiscal cuja insuficiência o próprio governo já reconhece. A ministra do Planejamento afirmou que, em 2027, “seja quem for o próximo presidente”, não se governa com as regras atuais sem gerar inflação e dívida<strong> [7]</strong>. Também disse que o próximo presidente precisará aprovar uma PEC de contenção de despesas, e que 2026 não seria ano para reformas estruturais<strong> [8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Se nada mudar, a dívida bruta passaria de 80,1% do PIB para 115% em 2036. Estabilizá-la exigiria superávit primário de 2,1% do PIB ao ano, o que o país não alcança nem em um cenário mais otimista. O Itaú projeta dívida de 86,5% já em 2027 e estima em 2,4% do PIB o superávit necessário<strong> [9]</strong>. Outros falam de crise fiscal aguda e observa que a receita real não poderá mais crescer como em 2023-2026, com PIB em torno de 2%<strong> [10]</strong>. O Ibre/FGV avalia que, mesmo executado, o ajuste previsto no PLDO 2027 (cerca de 1,4 p.p. do PIB em três anos) seria insuficiente, e que não há agente público plenamente comprometido com a sustentabilidade fiscal<strong> [11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Na atividade e nos juros, o desempenho recente depende em parte de estímulos que se esgotam. As medidas anunciadas movimentarão cerca de R$ 190 bilhões e acrescentarão até 1,4 p.p. ao crescimento de 2026<strong> [12]</strong>. O FMI projeta alta de 2,2% em 2026 e desaceleração em 2027, com desemprego subindo de 6,2% para 6,8%. Atribui isso a condições monetárias restritivas, à retirada do estímulo fiscal e à incerteza global. O economista-chefe do BMG vê o PIB de 2027 mais próximo de 1% do que de 1,5%<strong> [13]</strong>. O boletim Focus aponta crescimento de 1,85% em 2026 e 1,4% em 2027, com inflação de 5,01% e 4,3%, acima da meta de 3%, enquanto a Selic, embora em queda, continua em 13,75%<strong> [14]</strong>. Por fim, o Banco Mundial também cita desafios fiscais como freio à aceleração da atividade.<strong> [15]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A reação dos mercados indica um forte déficit de credibilidade. No pregão seguinte ao primeiro turno, em que Flávio Bolsonaro apareceu à frente, o dólar caiu 4,12% e o Ibovespa subiu 7,85%, com queda superior a 130 pontos-base nos juros longos<strong> [16]</strong>. Parte desse movimento reflete a expectativa de menor gasto, privatizações e redução de impostos, e não apenas um juízo sobre a política fiscal. Ainda assim, ele sugere que o mercado precifica a continuidade como risco.</p>
<p style="text-align: justify;">Há também restrições políticas e externas. Segundo a cientista política Lara Mesquita (FGV), a primeira preocupação do presidente será política. Economistas defendem que o ajuste ocorra nos primeiros meses de mandato, antes que a janela política se feche<strong> [17]</strong>. O FMI alerta para um crescimento global “apoiado numa única perna”, a da inteligência artificial, e para o risco de petróleo acima de US$ 130 o barril<strong> [18]</strong>. Como contraponto, André Esteves (BTG) sustenta que não há “terra arrasada”<strong> [19]</strong> e alguns agentes do mercado consideram o arcabouço uma regra moderna, ainda que pressionada por inflação e juros altos.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas essas reclamações, avisos e chamados à razão, assim como muitos outros, mostram as pressões e chantagens que o dito “mercado” e seus agentes fazem sobre o governo reeleito. Não há menção direta, pelo menos por enquanto, a retirada de direitos e benefícios, mas quando (e não se) os cortes começarem, esse pode ser o caminho que irão seguir. Os capitalistas já reclamam que o fim da 6×1 aumentará os custos com força de trabalho, e seguirão pedindo estímulos, benefícios, incentivos e perdão de dívidas e impostos. Nesse cenário, poderão as ruas se contrapor a sanha direitista do congresso e as vacilações do governo?</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o bordão de campanha “para o trabalhador, proteção, para o bandido, prisão” indica a vontade de recrudescer ainda mais a repressão no país. Lula quer emplacar o Ministério da Segurança Pública ainda esse ano e aceitou a redução da maioridade penal para crimes hediondos. Que outras medidas poderiam vir para apaziguar as bancadas conservadoras e sua fome de recursos?</p>
<p style="text-align: justify;">Conseguirá Lula, seu partido e seus aliados, incluindo o exército digital de Janones, canalizar as ruas para um mero enfrentamento ao Congresso? Ou tentarão a desmobilização jogando a carta de confiança no governo e de que agora não é hora para críticas? Poderão as mobilizações se disseminar e radicalizar, ou mesmo se manter? O governo será emparedado entre as ruas e os representantes do mercado e seus aliados no Congresso?</p>
<p style="text-align: justify;">Veremos como será o proclamado “melhor governo que um presidente já fez”. Como não queremos fazer previsões, deixamos aqui mais perguntas e pistas do que respostas e soluções. Acreditamos na criatividade dos trabalhadores e sabemos que poderão contar com diversos aliados no caminho da radicalização. Mas muito continua em aberto, e a euforia não pode lançar areia nos nossos olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma última coisa, Flávio, como um bom Bolsonaro, não aceitou a derrota, e, ao que tudo indica, já caçou seu rumo para os EUA. Será que seus apoiadores darão o ar da graça nas ruas? Os seus aliados vão defendê-lo ou vão entrar em uma briga pelo posto de líder da oposição?</p>
<p style="text-align: justify;">Já, do nosso lado, pipocam manifestações de rua pelo mundo (desde nossos amigos gregos, passando pela Espanha, Itália, França, EUA, Sérvia, Polônia, México, Czechia, Indonésia, Polônia, Alemanha, Peru, Síria, Índia, Portugal, Chile, Argentina e Venezuela), e aí, vai virar ou vai para em “mais democracia”?</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160314" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/texto2.jpg" alt="" width="402" height="497" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/texto2.jpg 402w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/texto2-243x300.jpg 243w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/texto2-340x420.jpg 340w" sizes="(max-width: 402px) 100vw, 402px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Assaltemos os céus, antes que eles nos afoguem em uma chuva de sangue e explosões.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais perguntas para o tempo que vem.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas </strong></h4>
<div class="fn" style="text-align: justify;">
<div class="content"><strong> [1]</strong> Ver publicação em <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/De6PkudocDc/?mdxt=MWg0MmZhN2F4b21tag==" href="https://www.instagram.com/p/De6PkudocDc/?mdxt=MWg0MmZhN2F4b21tag==" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.instagram.com/p/De6PkudocDc/?mdxt=MWg0MmZhN2F4b21tag==</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [2] </strong>Além de poder barrar indicações do governo, essenciais no troca-troca de cargos por apoio. Outro medo do governo é que a pauta de impeachment de ministros do STF trave toda a agenda do próximo ano, impedindo o avanço dos projetos prioritários. Ver PL poderá barrar PECs de Lula no Senado, diz cientista política &#8211; <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c38xzyql4qzpo" href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c38xzyql4qzpo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.bbc.com/portuguese/articles/c38xzyql4qzpo</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [3] </strong>Ver nosso último artigo &#8211; <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/10/160208/" href="https://passapalavra.info/2026/10/160208/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2026/10/160208/</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [4] </strong>E não nos esquecemos do reajuste fiscal de Dilma em 2015 logo após derrotar Aécio prometendo justamente o contrário. Parece que isso foi há tanto tempo, não?</div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [5]</strong> Maria, Maria &#8211; Milton Nascimento</div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [6]</strong> E suas infelizes falas no último debate antes das eleições. Ter chamado Lula de nove dedos, alcunha comum pela qual manifestantes de direita se referem ao presidente, foi um tiro no pé. Assim como não conseguir responder sobre relações com a milícia e desmandos do pai durante a pandemia. Um espetáculo, mas em tempos de identidades simbólicas, não achamos que tenha sido inócuo.</div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [7]</strong><a class="urlextern" title="https://acionista.com.br/tebet-diz-que-janela-para-mudar-o-arcabouco-nao-e-agora/" href="https://acionista.com.br/tebet-diz-que-janela-para-mudar-o-arcabouco-nao-e-agora/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://acionista.com.br/tebet-diz-que-janela-para-mudar-o-arcabouco-nao-e-agora/</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [8]</strong><a class="urlextern" title="https://istoedinheiro.com.br/tebet-novo-arcabouco" href="https://istoedinheiro.com.br/tebet-novo-arcabouco" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://istoedinheiro.com.br/tebet-novo-arcabouco</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [9]</strong><a class="urlextern" title="https://acionista.com.br/governo-preve-falta-de-verba-para-pisos-em-2027/" href="https://acionista.com.br/governo-preve-falta-de-verba-para-pisos-em-2027/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://acionista.com.br/governo-preve-falta-de-verba-para-pisos-em-2027/</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [10]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.abinee.org.br/wp-content/uploads/2026/07/cc2606.pdf" href="https://www.abinee.org.br/wp-content/uploads/2026/07/cc2606.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.abinee.org.br/wp-content/uploads/2026/07/cc2606.pdf</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [11]</strong><a class="urlextern" title="https://blogdoibre.fgv.br/posts/quem-tem-de-fato-uma-agenda-de-ajuste-fiscal-no-brasil" href="https://blogdoibre.fgv.br/posts/quem-tem-de-fato-uma-agenda-de-ajuste-fiscal-no-brasil" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://blogdoibre.fgv.br/posts/quem-tem-de-fato-uma-agenda-de-ajuste-fiscal-no-brasil</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [12]</strong><a class="urlextern" title="https://www.infomoney.com.br/?p=3360278" href="https://www.infomoney.com.br/?p=3360278" rel="ugc nofollow"> https://www.infomoney.com.br/?p=3360278</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [13]</strong> <a class="urlextern" title="https://setcesp.org.br/noticias/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027-e-os-desafios-para-retomar-o-crescimento" href="https://setcesp.org.br/noticias/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027-e-os-desafios-para-retomar-o-crescimento" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://setcesp.org.br/noticias/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027-e-os-desafios-para-retomar-o-crescimento</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [14]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.agazeta.com.br/mundo/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027--e-os-desafios-para-retomar-crescimento-1026" href="https://www.agazeta.com.br/mundo/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027--e-os-desafios-para-retomar-crescimento-1026" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.agazeta.com.br/mundo/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027&#8211;e-os-desafios-para-retomar-crescimento-1026</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [15]</strong><a class="urlextern" title="https://economicnewsbrasil.com.br/2026/01/13/banco-mundial-revisa-crescimento-global-e-aponta-ritmo-do-brasil-em-2026/" href="https://economicnewsbrasil.com.br/2026/01/13/banco-mundial-revisa-crescimento-global-e-aponta-ritmo-do-brasil-em-2026/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://economicnewsbrasil.com.br/2026/01/13/banco-mundial-revisa-crescimento-global-e-aponta-ritmo-do-brasil-em-2026/</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [16]</strong><a class="urlextern" title="https://www.moneytimes.com.br/arcabouco-e-a-regra-menos-bem-sucedida-da-historia-diz-economista-chefe-da-arx-investimentos/" href="https://www.moneytimes.com.br/arcabouco-e-a-regra-menos-bem-sucedida-da-historia-diz-economista-chefe-da-arx-investimentos/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://www.moneytimes.com.br/arcabouco-e-a-regra-menos-bem-sucedida-da-historia-diz-economista-chefe-da-arx-investimentos/</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [17]</strong><a class="urlextern" title="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/inacio-aguiar/o-problemao-que-estara-na-mesa-do-presidente-eleito-mas-passara-longe-do-debate-eleitoral-1.3783190" href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/inacio-aguiar/o-problemao-que-estara-na-mesa-do-presidente-eleito-mas-passara-longe-do-debate-eleitoral-1.3783190" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/inacio-aguiar/o-problemao-que-estara-na-mesa-do-presidente-eleito-mas-passara-longe-do-debate-eleitoral-1.3783190 </a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [18]</strong><a class="urlextern" title="https://www.opovo.com.br/noticias/mundo/2026/10/14/fmi-reduz-previsao-de-crescimento-do-brasil-para-2026.html" href="https://www.opovo.com.br/noticias/mundo/2026/10/14/fmi-reduz-previsao-de-crescimento-do-brasil-para-2026.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://www.opovo.com.br/noticias/mundo/2026/10/14/fmi-reduz-previsao-de-crescimento-do-brasil-para-2026.html</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [19]</strong><a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/116324/proximo-governo-nao-herdara-terra-arrasada--diz-andre-esteves" href="https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/116324/proximo-governo-nao-herdara-terra-arrasada--diz-andre-esteves" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/116324/proximo-governo-nao-herdara-terra-arrasada&#8211;diz-andre-esteves</a></div>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/11/160312/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Passa Palavra e os comentários</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/11/160303/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/11/160303/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Nov 2026 12:18:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=160303</guid>

					<description><![CDATA[Reiteramos nosso compromisso com um espaço democrático, aberto e plural, onde possam ocorrer reflexões autênticas sobre as lutas sociais. Por Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Passa Palavra</h3>
<p style="text-align: justify;">O Passa Palavra foi concebido como um site destinado a noticiar as lutas, apoiá-las e pensar sobre elas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto ao pensar, nosso objetivo sempre foi o de estimular a reflexão coletiva. O pensamento único, o monolitismo, a transmissão verticalizada de ideias, características da esquerda burocrática, são coisas que desprezamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, nossa seção de comentários sempre foi aberta aos leitores, como forma de estimular a publicação de comentários que tornassem o pensar um exercício verdadeiramente coletivo, para que o público contribuísse ativamente na empreitada, dialogando com os textos publicados, criticando-os, oferecendo perspectivas alternativas, trazendo dados, bibliografia e informações antes ignorados, e assim por diante.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo dos anos, foram vários os debates travados no Passa Palavra que se tornaram uma verdadeira construção coletiva do pensar. Tivemos discussões profícuas e altamente qualificadas, que chegaram às centenas de comentários, muitas vezes superiores aos textos então publicados, que possibilitaram que o Passa Palavra se tornasse um espaço de reflexão e formação política para muitas pessoas, incluindo os próprios membros do Passa Palavra.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, nossa seção de comentários sempre foi moderada, para evitar que os debates fossem sabotados e tumultuados por comentários ofensivos, irrelevantes ou provenientes da extrema-direita e do fascismo. Isso não significa que nos opúnhamos aos debates francos, duros e enérgicos, mas a moderação era necessária para assegurar que as discussões continuassem a ser um exercício de reflexão coletiva sobre as lutas sociais. Sempre fomos transparentes sobre isso e, com certa frequência, postamos comentários alertando aos leitores sobre os termos da nossa política de moderação.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. Acontecimentos recentes tornaram necessária, a nosso ver, uma atualização da política de moderação de comentários.</p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, o Passa Palavra tem sido inundado por comentários irrelevantes, que reproduzem o padrão de comunicação e a linguagem típicos das redes sociais. Todos os dias, moderamos diversos comentários de trolls, postados com a intenção deliberada de desestabilizar as discussões. É a transposição, para o mundo virtual, do modelo de ação dos provocadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Em segundo lugar, temos visto inúmeros comentários postados com a única finalidade de realizar ataques direcionados contra indivíduos, algo que não podemos tolerar. Em 2015 publicamos nosso <a href="https://passapalavra.info/2015/02/102443/" target="_blank" rel="noopener">Manifesto contra o trashing</a>, onde alertamos que o Passa Palavra permanece um espaço aberto e plural, mas não podemos admitir a publicação de textos e comentários enviados por pessoas imbuídas de má-fé, interessadas apenas em promover ataques e perseguições contra esta ou aquela pessoa.</p>
<p style="text-align: justify;">Em terceiro lugar, temos deparado com inúmeros comentários cujo propósito exclusivo é o de fazer publicidade de organizações políticas que já dispõem de seus próprios espaços de divulgação.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossa reação imediata foi vetar em bloco todos os comentários que associamos a estes ataques. Isto pode ter levado a comentários bem-intencionados serem apagados juntos aos ataques e, ao atribuirmos publicamente como critério apenas as ofensas, causamos certa confusão entre os leitores.</p>
<p style="text-align: justify;">Para manter o bom ambiente e esclarecer os critérios adotados em relação aos comentários, explicitamos que serão aprovados aqueles que:</p>
<ol>
<li style="text-align: justify;">não sejam completamente irrelevantes e postados com a finalidade exclusiva de veicular provocações e tumultuar as discussões;</li>
<li style="text-align: justify;">não sejam pessoalmente insultuosos;</li>
<li style="text-align: justify;">não violem os <a href="https://passapalavra.info/2020/04/131443/" target="_blank" rel="noopener">Pontos de Partida</a>;</li>
<li style="text-align: justify;">não sejam postados com a finalidade de fazer publicidade de organizações políticas;</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">Com isso, reiteramos o compromisso do Passa Palavra com a disponibilização de um espaço democrático, aberto e plural, onde possam ser travadas discussões que promovam reflexões autênticas sobre as lutas sociais.</p>
<blockquote><p>A fotografia em destaque é de uma instalação intitulada &#8220;Frost Activity&#8221;, de autoria de Olafur Eliasson (1967-).</p></blockquote>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/11/160303/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A metamorfose</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/11/160293/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/11/160293/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Nov 2026 20:47:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=160293</guid>

					<description><![CDATA[A paixão pelo Real que reinou na esquerda do século XX, cujo objetivo se resumia a revelar a Verdade por trás das relações sociais, converteu-se na paixão pela imagem. Por André Antunes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="section_highlight_wrapper">
<div class="level3" style="text-align: justify;">
<h3>Por André Antunes</h3>
<p>Nas 3 semanas infindas que se passaram, andávamos pelas ruas em grupos, até que éramos interpelados pelas estranhas “coisas de esquerda” que passávamos a sinalizar. Não eram broches, não eram adesivos, não eram bandeiras. Nossa pura existência no mundo, com nossos cabelos, nossas roupas e nossos trejeitos produzia uma estranha reação daqueles que nos viam. Éramos surpreendidos com gritos acalorados de “Lula!”, ou então com confrontações coléricas ao estilo “Bolsonaro!”. Novamente: durante esses dias, não carregamos broches, nem adesivos, nem bandeiras. A identificação instantânea, ora como “dentro” de um grupo, ora como “fora”, também produzia em nós uma reação imediata, a depender do interlocutor: “vai tomar no cu!” para aqueles que gritavam Bolsonaro; “faz o L!” para aqueles que gritavam Lula.</p>
<p>Mas e se, em um exercício hipotético, aqueles dias nunca tivessem realmente passado? E se, de súbito, todos fossem transformados em <em>in-groups </em>e <em>out-groups</em>? Pois não foi justamente isso que aconteceu? Aqueles “de esquerda”, em suas mais diversas formas, passaram a tratar-se a partir de um abstrato “nós”, em uma frente amplíssima sem distinções. Por outro lado, a variedade de visões, percepções e experiências de mundo daqueles “de direita” deu lugar a “eles”.</p>
<p>A bem da verdade, foi a própria população brasileira que se fraturou. A situação eleitoral transformou-se em um 50/50. E assim, todos nós, sem exceção, descobrimos o pior da ideologia petista que tanto criticamos: sua efetividade manifestada como uma <em>falsidade socialmente objetiva</em>. O fato de estarmos reféns do PT, entrando em uma paranoia contra “infiltrados”, empreendendo recuos táticos, tudo isso foi posto como uma condição objetiva para nossa própria sobrevivência. Novamente, fomos todos capturados pelo encanto. Dessa vez, como das outras, para “salvar a democracia”.</p>
<p>Mas e se fôssemos ainda mais longe em nosso esforço imaginativo? E se, de um dia para a noite, estivéssemos envolvidos em uma guerra de todos contra todos, em que, andando pelas ruas, corrêssemos o risco de ser identificados (e de reagir) a qualquer momento? Os vídeos de agressões e confrontos inesperados entre petistas e bolsonaristas são uma síntese dessa situação, de uma guerra sem fim contra o “outro”.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-160295" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/22222.jpg" alt="" width="381" height="475" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/22222.jpg 481w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/22222-241x300.jpg 241w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/22222-337x420.jpg 337w" sizes="(max-width: 381px) 100vw, 381px" /></p>
<p>Com isso, trago uma nova anedota. Na véspera das eleições, em 23 de outubro de 2026, eu e alguns amigos nos deslocamos da Praça Cívica da Universidade Federal de Juiz de Fora, dirigidos pelo DCE pelego, rumo à Praça Antônio Carlos. Lá, ao fim do trajeto, após gritarmos nas ruas em apoio a Lula, nos transformamos em um pequeno ponto vermelho em meio à cidade que passava a sinalizar para si mesmo. Na Praça era transmitido o debate presidencial entre Lula e Flávio. Em um espaço povoado apenas por eleitores de Lula, os gritos iniciavam-se em comemoração a cada fala &#8211; reitero: cada fala &#8211; do presidente Lula (até aquela já bem conhecida do “para o trabalhador proteção, para o bandido prisão”). Ao mesmo tempo, cada fala de Flávio era acompanhada de vaias e xingamentos histéricos, em uma atitude de reação automática, quase como se as pessoas ali estivessem enfrentando diretamente o Flávio Bolsonaro em pessoa. Do outro lado do mundo (ou do “nosso” mundo) estava quase metade dos brasileiros que não votaram em Lula &#8211; e que, é sempre bom lembrar, rejeitam fortemente ambos os candidatos. Gritamos, naquele momento, muito mais para dizer que “nós” tínhamos a Verdade (seja lá o que o “nós” signifique).</p>
<p>Como sair desse engodo? Como burlar essa falsidade socialmente objetiva? Como “desalistarmos” (com o perdão do neologismo) de um exército cujo general nem escolhemos e que, não obstante, seguimos as ordens? Como os jovens, que se formaram na brasa desse processo, poderiam transitar da defesa de Lula e do PT para uma crítica ferrenha e fundamentada? A <em>tendência </em>parece ser contrária, ainda que não se deva ignorar o nosso papel em construir <em>contratendências</em>. Mas afinal, essas alternativas realmente estão sendo construídas?</p>
<p>Não almejo conceder respostas às perguntas, mas, antes, fazer-nos pensar. Pensando essas aflições, recordei Pasolini, o cineasta e poeta italiano que, em 1973, publicou no jornal <em>Corriere della Sera </em>o artigo <em>O discurso dos cabelos</em>. Nele, ele relatava: “A primeira vez que vi os cabeludos foi em Praga. No hall do hotel onde estava hospedado entraram dois jovens estrangeiros com os cabelos compridos até os ombros. Atravessaram o hall, dirigiram-se a um canto um pouco apartado e sentaram a uma mesa. Ficaram sentados ali durante uma meia hora, observados pelos clientes, por mim inclusive; depois foram embora. Tanto ao cruzarem com as pessoas apinhadas no hall, quanto durante o tempo em que estiveram sentados em seu canto apartado, os dois não disseram uma só palavra (talvez &#8211; embora não me lembre bem &#8211; tivessem cochichado alguma coisa entre si; mas, suponho, algo de estritamente prático, inexpressivo).</p>
<p>No relato de Pasolini diante dos enigmáticos cabeludos, transparece o silêncio. Aqueles jovens eram portadores de uma linguagem não verbal. Mas o que dizia essa linguagem proveniente do domínio imediato dos “signos”, da semiologia?</p>
<p>Era a seguinte: “Somos dois cabeludos. Pertencemos a uma nova categoria humana que está neste momento aparecendo no mundo, que tem seu centro nos Estados Unidos e que, na província (como por exemplo &#8211; ou melhor, sobretudo &#8211; aqui em Praga), é desconhecida. Para vocês, portanto, somos uma Aparição. Exercemos nosso apostolado, já plenos de um saber que nos farta e nos exaure totalmente. Nada temos a acrescentar oral e racionalmente àquilo que física e ontologicamente dizem nossos cabelos. Graças também ao nosso apostolado, o saber de que estamos plenos pertencerá também a vocês um dia. Por enquanto é uma novidade, uma grande novidade, que cria no mundo, junto com o escândalo, uma expectativa: a qual não será traída. Têm razão os burgueses em nos olhar com ódio e terror, porque aquilo em que consiste o comprimento de nossos cabelos contesta-os de forma absoluta. Mas não nos tomem por pessoas mal-educadas e selvagens: estamos conscientes de nossa responsabilidade. Não olhamos para vocês, ficamos na nossa. Façam vocês o mesmo e aguardem os acontecimentos”.</p>
<p>Parece-me que os “jovens cabeludos” de Pasolini, operando uma estranha linguagem não verbal, não só se multiplicaram, mas também passaram a <em>olhar de volta </em>e a <em>reagir</em>. De súbito, viramos todos cabeludos, obrigados a contestar ou validar cada grito vindo do lado contrário ou do abstrato “nós”. Ser “de esquerda” passou a significar transmitir “signos” de esquerda, ou “coisas de esquerda”. Ainda que, lá no fundo, todos nós tenhamos consciência de não sermos pelegos, nem oportunistas, nem performáticos, já estamos bailando nesse compasso. Para os “outros”, somos todos “petistas” e devemos <em>olhar</em> <em>de</em> <em>volta</em> e <em>reagir</em> enquanto tais. A paixão pelo Real que reinou na esquerda do século XX, cujo objetivo se resumia a revelar a Verdade por trás das relações sociais, converteu-se na paixão pela imagem. Não importa o que somos, o que importa é como aparecemos, como somos lidos e codificados. O poder codificou-se e, no limite, nos tornamos todos “petistas” e “bolsonaristas”. Quando a realidade cobra de nós <em>olhar de volta </em>e <em>(re)agir</em>, não somos nós que decidimos os movimentos bruscos que se seguem.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone wp-image-160294 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/33333-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /> Ilustramos este artigo com reproduções de obras de Sonia Delaunay (1885-1979).</p>
</div>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/11/160293/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Nós, democratas</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160289/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/10/160289/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 31 Oct 2026 12:44:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=160289</guid>

					<description><![CDATA[&#8211; Com tudo isso que está acontecendo não acredito que ainda tem gente que vota no Flávio [Bolsonaro]. &#8211; Pois é&#8230; &#8211; O que dá mais raiva é que muitos são trabalhadores! &#8211; E serão igualmente prejudicados pelas medidas do miliciano. &#8211; Bem, pelo menos vamos poder falar que fomos mais espertos. Por Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#8211; Com tudo isso que está acontecendo não acredito que ainda tem gente que vota no Flávio [Bolsonaro].<br />
&#8211; Pois é&#8230;<br />
&#8211; O que dá mais raiva é que muitos são trabalhadores!<br />
&#8211; E serão igualmente prejudicados pelas medidas do miliciano.<br />
&#8211; Bem, pelo menos vamos poder falar que fomos mais espertos. <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/10/160289/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Baldeação da Força de Trabalho: O &#8220;Cata-Louco&#8221;, os Surfistas de Trem e a Linha Invisível que separou Guarulhos de São Paulo nos Anos 80</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160275/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/10/160275/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Oct 2026 10:46:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=160275</guid>

					<description><![CDATA[Embora os “surfistas de trem” tenham sumido das manchetes, a cicatriz urbana da década de 1980 continua aberta. Por Edson da Silva Freires]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Edson da Silva Freires*</h3>
<p style="text-align: justify;">Na manhã de uma terça-feira de 1985, a plataforma de uma estação ferroviária na franja leste da Região Metropolitana de São Paulo ferve. O som metálico dos trilhos avisa que a composição da antiga Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) se aproxima. O que se vê, porém, não é apenas um meio de transporte lotado, mas uma imagem que chocou o país e virou símbolo de uma era: dezenas de jovens e trabalhadores equilibrando-se no teto dos vagões em movimento, desviando de fios de alta tensão, ou espremidos nos estribos com as portas abertas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160084 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_80.jpg" alt="Composição da antiga CBTU Fonte: - Wikipédia / Acervo Histórico." width="250" height="161" /></p>
<p style="text-align: justify;">A grande imprensa da época costumava tratar o fenômeno como “irresponsabilidade juvenil”, apelidando aqueles jovens de “surfistas de trem”. No cotidiano das franjas periféricas, o deboche vinha embalado no jargão popular: aquele sistema sucateado e superlotado era o “trem cata-louco”. No entanto, longe de ser um modismo inconsequente ou uma simples falha técnica de engenharia, o colapso dos trilhos nos anos 1980 funcionava como uma violenta engrenagem oculta de controle social e planejamento urbano. O corpo do trabalhador periférico era o motor indispensável para construir a São Paulo do futuro, mas sua presença residencial nessa mesma cidade era proibida.</p>
<h4 class="li" style="text-align: justify;">Duas Cidades, Duas Realidades: O Chão de Fábrica e os Prédios Espelhados</h4>
<p style="text-align: justify;">Durante a década de 1980, a capital paulista vivia uma contradição monumental. Os eixos centrais e o quadrante sudoeste expandiam-se verticalmente com grandes centros corporativos de alto padrão, e o subsolo da cidade era cavado freneticamente para a expansão das linhas do Metrô. Para erguer essa muralha de concreto e modernidade, o capital precisava de um exército de braços.</p>
<p style="text-align: justify;">É aí que o mapa da segregação socioespacial ganha contornos reais. Através de leis de zoneamento excludentes e do preço proibitivo da terra no centro expandido, o Estado empurrava essa mão de obra para loteamentos irregulares, áreas de risco e bairros desprovidos de infraestrutura nas franjas do município vizinho de Guarulhos — como as bordas do Jardim Bananal e o distrito dos Pimentas — e nos extremos da Zona Leste de São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">O espaço urbano tornava-se o espelho da desigualdade: de um lado, o Centro Expandido concentrava os investimentos estatais, redes de transporte modernas e postos de trabalho de alta renda; do outro, a Periferia Metropolitana confinava as classes populares em bairros-dormitório autoconstruídos, cuja única ligação com o centro econômico era um sistema de transportes deliberadamente precário.</p>
<h4 class="li" style="text-align: justify;">A Produção da Cidade-Dormitório sob a Ótica de Flávio Villaça</h4>
<p style="text-align: justify;">Para compreender a transformação de bairros de Guarulhos e dos extremos da Zona Leste em cidades-dormitório, a história social precisa dialogar com a arquitetura urbana de Flávio Villaça. Em sua obra, Villaça demonstra que a segregação do espaço intra-urbano é ditada pelas classes dominantes, que manobram os investimentos estatais de transporte em seu próprio benefício. O transporte de alta velocidade e qualidade (como as linhas subterrâneas do Metrô) é priorizado para conectar as zonas de moradia da elite aos seus centros corporativos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em contrapartida, as massas trabalhadoras são segregadas nas franjas periféricas através da especulação imobiliária e da barreira do preço da terra. Áreas como o Jardim Bananal, Guaianazes e os Pimentas tornaram-se repositórios residenciais exclusivos para a reprodução da força de trabalho. Na lógica metropolitana da época, o trabalhador só tinha o direito de acessar o centro como um objeto de trânsito rápido e barato para o patrão, sendo compelido a passar o restante de suas horas em trânsito ou dormindo nas margens esquecidas da cidade.</p>
<h4 class="li" style="text-align: justify;">A Baldeação como Tortura Clandestina e a Voz da Memória</h4>
<p style="text-align: justify;">Para o operário da construção civil residente em Guarulhos, por exemplo, a jornada de trabalho começava horas antes do amanhecer. Não existia uma linha direta ou integrada. O trajeto era um circuito penoso de baldeações: ônibus municipais sacolejantes em vias de terra, longas caminhadas e, finalmente, o funil das estações ferroviárias de subúrbio.</p>
<p style="text-align: justify;">Como defendia o historiador Edward P. Thompson, a experiência de classe é forjada no cotidiano, na forma como as pessoas vivem as imposições do sistema econômico. No contexto metropolitano paulista, a baldeação diária não era um detalhe logístico; era um ritual de esgotamento físico. Viajar pendurado ou no teto não era uma escolha ousada, mas o limite físico imposto a quem, se perdesse aquela composição atrasada e lotada, perderia também o emprego e o sustento da família.</p>
<p style="text-align: justify;">A crueza desse sistema não ficou registrada apenas nos relatórios técnicos; ela está gravada na memória viva de quem cruzava essa fronteira metropolitana. Aquele sistema vivia abarrotado de surfistas e de pessoas penduradas nas portas que simplesmente não fechavam, equilibrando marmitas e com um cigarro sem filtro na boca enfrentando a jornada.</p>
<figure id="attachment_160083" aria-describedby="caption-attachment-160083" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-160083 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8.jpg" alt="" width="800" height="463" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8-300x174.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8-768x444.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8-726x420.jpg 726w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8-640x370.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8-681x394.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><figcaption id="caption-attachment-160083" class="wp-caption-text">Fonte: Revista Trip / Acervo de Imagens Históricas.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Para um jovem da época, que saía da periferia em direção ao centro com o sonho de olhar os instrumentos musicais nas vitrines da rua Santa Ifigênia, a transição entre os sistemas de transporte escancarava a segregação. Ao desembarcar na Estação Penha do Metrô — uma estrutura moderna e funcional —, bastava olhar para a linha paralela para enxergar o descaso: o “bate-lata” da CBTU, uma frota totalmente lascada, passando e estalando os eixos nos trilhos feito uma velha máquina a vapor. Essa fratura exposta era a tradução visual de uma metrópole que escolhia quem viajava com dignidade e quem era empurrado ao limite do risco.</p>
<h4 class="li" style="text-align: justify;">Uma Chaga Nacional: O Espelho das Outras Metrópoles</h4>
<p style="text-align: justify;">O cenário vivido nos trilhos que conectavam Guarulhos à capital paulista estava longe de ser uma exclusividade regional. Na verdade, o colapso estrutural da CBTU e da RFFSA era uma chaga nacional; a crise estava escancarada no Brasil todo.</p>
<p style="text-align: justify;">No Rio de Janeiro, a situação nos ramais da Baixada Fluminense e da Zona Oeste (gerenciados pela antiga Flumitrens e RFFSA) empilhava corpos nos tetos e estribos sob o mesmo silêncio estatal. Passageiros eram diariamente expostos a passarelas de ferro baixas e redes aéreas de 3.000 volts, o que resultava em decapitações e eletrocussões frequentes, geralmente omitidas pela grande mídia. Da mesma forma, em Salvador e Recife, os trens que ligavam as periferias urbanas aos centros econômicos operavam no absoluto limite do sucateamento, com frotas obsoletas e portas abertas travadas pelo excesso de passageiros.</p>
<p style="text-align: justify;">O “surfe ferroviário” e o fenômeno dos “pingentes” foram, portanto, a expressão máxima de um modelo de metropolização brasileiro. O que mudava era apenas o sotaque regional; a engrenagem de moer o corpo e o tempo da classe trabalhadora periférica funcionava sob o mesmo roteiro de descaso de norte a sul do país.</p>
<h4 class="li" style="text-align: justify;">A Lente dos Jornais contra o Descaso Planejado</h4>
<p style="text-align: justify;">Ao abrirmos as páginas amareladas da grande imprensa paulista e nacional da década de 1980, a contradição do sistema fica escancarada. As manchetes de jornais como O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo costumavam tratar as mortes e os acidentes nos trilhos sob a ótica da falta de educação do passageiro ou da imprudência juvenil. Noticiava-se com frequência os corpos recolhidos nos trilhos como vítimas da “febre do surfe ferroviário”.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a imprensa comercial raramente aprofundava eram as páginas dos relatórios técnicos que admitiam intervalos absurdos entre os trens, falta crônica de manutenção nas frotas e a ausência completa de portas automáticas funcionais. A “irresponsabilidade” apontada pelas autoridades era, na verdade, a única alternativa de sobrevivência em um sistema em colapso.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto os investimentos públicos massivos eram canalizados para erguer os bairros corporativos da elite paulistana e as linhas modernas do Metrô subterrâneo, o transporte de subúrbio que alimentava essa mesma construção civil operava no limite do sucateamento. Conforme as dinâmicas apontadas por Milton Santos sobre os sistemas de objetos e ações, o corpo e o tempo do trabalhador eram tratados pelo planejamento estatal como engrenagens sacrificáveis para a modernização do centro das metrópoles.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora os “surfistas de trem” tenham sumido das manchetes com a modernização gradual do sistema nos anos 1990, a cicatriz urbana da década de 1980 continua aberta. A barreira invisível entre as periferias e os eixos centrais ainda se faz sentir nas horas gastas em conduções lotadas e na histórica falta de habitabilidade social nas áreas centrais. Lembrar do “cata-louco” e do colapso ferroviário nacional não é apenas revisitar o passado; é entender os mecanismos políticos e econômicos que desenharam as linhas da desigualdade que dividem as nossas cidades até os dias de hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">* <em>Graduado</em> <em>em</em> <em>Engenharia</em> <em>Civil</em> <em>e</em> <em>Pesquisador</em> <em>Independente em</em> <em>História</em> <em>Social</em> <em>Urbana</em></p>
<h4 style="text-align: justify;">Referências Teóricas:</h4>
<div class="li" style="text-align: justify;">SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. EdUSP, 2006.</div>
<div class="li" style="text-align: justify;">THOMPSON, Edward P. Costumes em Comum: Estudos sobre a Cultura Popular Tradicional. Companhia das Letras, 1998.</div>
<div class="li" style="text-align: justify;">VILLAÇA, Flávio. Espaço Intra-Urbano no Brasil. Studio Nobel, 2001.</div>
<h4 style="text-align: justify;">Referências Eletrônicas:</h4>
<div class="li" style="text-align: justify;">WIKIMEDIA COMMONS. Ficheiro: Estação Engenheiro Sebastião Gualberto (1994). Disponível em: &lt;wikipedia.org&gt;. Acesso em: 10/2026.</div>
<div style="text-align: justify;"></div>
<div class="li" style="text-align: justify;">REVISTA TRIP. Mar raivoso: A ousadia e o protesto dos surfistas ferroviários no Rio de Janeiro. Disponível em: &lt;uol.com.br&gt;. Acesso em: 10/2026.</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/10/160275/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>&#8220;Tudo é montado pra enganar”: trabalhador da Blaze conta como a casa de apostas lucra bilhões às suas custas</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160259/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/10/160259/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Oct 2026 18:34:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=160259</guid>

					<description><![CDATA[“Sou totalmente a favor da proibição”:  trabalhador da Blaze conta como a casa de apostas lucra bilhões às suas custas. Por União Terra e Trabalho (UTT).]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por União Terra e Trabalho (UTT)*</h3>
<p style="text-align: justify;">A Blaze nasceu em 2019, tem matriz no exterior e virou uma das marcas mais conhecidas das apostas no Brasil. Patrocina Neymar e usou influenciadores com dezenas de milhões de seguidores. Pelo balancete obtido pela Folha de S.Paulo, entre janeiro e novembro de 2025 a operação brasileira recebeu R$ 11 bilhões em depósitos de jogadores, teve receita bruta de R$ 1,9 bilhão e lucro de R$ 361 milhões, uma margem de 33%. <a href="https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/economia/blaze-gastou-r-330-mi-com-anuncios-em-2025-e-tem-virginia-como-principal-influenciadora-no-brasil/">No mesmo período, gastou R$ 330 milhões com publicidade e mandou R$ 350 milhões em dividendos para a sede fora do país</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Conversamos com um trabalhador do setor de atendimento ao “usuário” da empresa. Ele entrou antes da regulamentação do setor e acompanhou, de dentro, a passagem da clandestinidade para a licença federal e, agora, da licença para a proibição. É que em 25 de setembro de 2026, a Medida Provisória 1.394 vetou as apostas de quota fixa no país. As notas e os dados em destaque são da UTT.</p>
<p style="text-align: justify;">O vício em apostas causa prejuízos às comunidades tal qual o álcool e o cigarro. A fala de um operador deste sistema pode ajudar a educar a classe trabalhadora sobre a verdade escondida por debaxo dos panos.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><b>Entrar, ficar, ver de perto</b></em></p>
<p><b>Como você chegou na Blaze?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Entrei antes da regulamentação. Já tinha gente lá havia dois, três anos. Meu contrato era com uma empresa de Curaçao (uma pequena ilha holandesa na Venezuela) chamada Prolific. Ela pagava direto no Pix. Não tinha sistema que declarasse imposto: o dinheiro caía e eu que me virasse com a Receita.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>E o que mudou com a regulamentação?</b></p>
<p style="text-align: justify;">O curioso é que a regulamentação foi mais mal vista pela galera de dentro do que o contrário. Teve gente que pediu para sair naquela época. E eles não regularizaram todo mundo. O que se dizia no corredor, e é boato, é que a Blaze tinha uns 10 mil trabalhadores antes. Quando se regulamentaram, fecharam a operação praticamente só para o Brasil e cortaram muita gente, acho que entre 500 e 600 pessoas do time externo. Era tudo contrato com gente de fora, nada assegurado. Foi muito fácil desligar.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>Como é o trabalho no dia a dia? Tem pressão, controle do tempo?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Prefiro não entrar muito no lado trabalhista. Eu ganho acima do mercado e já trabalhei em lugar pior. Mas a empresa é desorganizada, parece startup: nenhum processo definido, tudo no boca a boca. Um decide uma coisa, daqui a pouco muda.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde a regulamentação, começaram a pressionar a gente a se mudar para São Paulo. Dizem que é híbrido, mas são quatro dias no escritório e um em casa. Ofereceram uma ajuda de custo de uns R$ 500 para a mudança, com o mesmo salário, para morar numa cidade muito mais cara. Quase ninguém que eu conheço foi. O ápice foi quando tiraram nosso vale-alimentação, por uns três meses este ano. Do nada, voltaram com ele, depois da canetada do Lula. Disseram que &#8220;ouviram os funcionários&#8221;. Ficam as teorias.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>Como o trabalho está dividido?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Tem suporte ao cliente, tinha um time de qualidade que avaliava a gente, um pessoal para problemas técnicos da plataforma e uma equipe só de pagamentos. Depois isso se misturou e todo mundo passou a processar pagamento também. É muita gente, atendendo duas marcas: a Blaze e a Jonbet. A Jonbet era para ser a bet do Jon Vlogs, mas é a mesma empresa. Os contratos com fornecedores são iguais. Só se separa na tela.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><b>As engrenagens</b></em></p>
<p style="text-align: justify;"><b>O que vocês são orientados a fazer quando alguém tenta sacar um valor alto ou tem a conta zerada?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Sempre tem alguma explicação, mas sucinta e mal explicada. A mais comum é a tal da <i>referral fraud</i>, a fraude de indicação. A pessoa entra no programa de indicação e o sistema pode simplesmente banir a conta. Tem quem abuse, que espalha o link em vários grupos para gente criar conta, e eu já vi isso. Mas tem caso sem explicação nenhuma: gente com milhares de reais na conta, ou que já gastou milhares jogando, banida porque uma indicação foi classificada como fraude.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós também não temos a explicação. A orientação é mandar a pessoa para o e-mail. Lá, a equipe de tickets responde mais ou menos assim: &#8220;fizemos a verificação, você fraudou, conforme os termos de serviço que você aceitou ao criar a conta&#8221;. E acabou. Não diz por quê, não manda nada específico. Raramente se cita lei. Aí a pessoa que se vire na Justiça.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>E quando é algo que dá para verificar na hora?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Um exemplo é o <i>cashback</i> semanal. Dependendo do nível de aposta, a pessoa recebe de volta parte do prejuízo. Muita gente reclama que o valor veio errado, e o cálculo está lá, bonitinho. Só que ele é feito para pegar rato. A pessoa acha que vai recuperar parte de tudo o que perdeu, mas se teve algum ganho no período, esse ganho é descontado. Tudo é montado para enganar.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>E quando o cliente chega com provas de erro da plataforma, uma aposta que ele não fez, saldo sumindo?</b></p>
<p style="text-align: justify;">A ordem é culpar o usuário. Fraude de cashback, fraude de indicação, fraude de tudo. O dispositivo dele não funcionou, a conexão deve ter caído. Quase 100% das justificativas são essas. Se ele tem um print ou uma gravação de tela, aí o papo é &#8220;vamos entrar em contato com o provedor do jogo&#8221;, manda para o e-mail, e eu nunca soube o que acontece depois. Se não tem print, não tem choro nem vela. Está nos termos de serviço, e eles se escoram nos termos como se fossem lei, uma Constituição.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>Como é a divisão entre o cliente comum e o grande apostador?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Existem os VIPs, e alguns poucos VIPs têm gerente VIP. Não sei como é feita a classificação. Com eles, quase tudo é resolvido direto com o gerente, pelo WhatsApp. Para nós sobra pouca coisa, tipo um saque que demora. Mesmo aí tem diferença: se um cliente comum está esperando um saque de R$ 10, a gente manda um texto pronto. Para o VIP, tem que escrever na mão, personalizado.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>E as travas de segurança, como o reconhecimento facial? São retiradas para quem movimenta milhões?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Essa parte eu não sei. Já é com o gerente, e eu não trabalho lá. Mas é tudo direto pelo WhatsApp, tanto que vazaram recentemente umas conversas daquele cara (Willer Tomaz).</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160260" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-300x169.jpg" alt="" width="677" height="381" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-681x383.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 677px) 100vw, 677px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em><b>Quem manda e onde fica a informação</b></em></p>
<p style="text-align: justify;"><b>De onde vêm as ordens? Fica evidente para vocês que existe uma fachada jurídica?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Fica, e por um motivo simples: a gente não conhece os nossos chefes. Conhecemos um dos administradores que está no CNPJ, que na prática é o nosso chefe, e uma pessoa abaixo dele. Acabou. Os outros administradores, ninguém sabe quem são. Quem pesquisa um pouco acha a razão social, Foggo Entertainment Ltda., e uma sócia chamada Purple &amp; Green, que por sua vez é de outra empresa. Está tudo no Google, é só procurar o CNPJ.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>Onde ficam os sistemas que vocês usam? Há orientação sobre o que fazer se a polícia ou a Justiça intervierem?</b></p>
<p style="text-align: justify;">As orientações sobre informação são rasas e quase sempre jogam a responsabilidade em nós. Tentaram instalar aqueles programas de monitoramento remoto de computador corporativo, mas não passou, porque eu uso meu computador pessoal e eles não podem botar isso nele.</p>
<p style="text-align: justify;">Fora isso, é tudo em serviço conhecido: Google Drive, Gmail, Zendesk para o atendimento, Slack para a comunicação interna. Nada em servidor próprio, nada num lugar físico. Tudo na nuvem, fácil de se livrar. Depois que saiu a notícia daquele advogado que teria lavado dinheiro pela Blaze, eles apagaram tudo o que havia de antigo no Slack. Tudo. Eu só tenho alguns prints.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><b>A proibição e o que vem depois</b></em></p>
<p style="text-align: justify;">“Sou totalmente a favor da proibição. Completa”</p>
<p style="text-align: justify;"><b>Como a empresa reagiu à MP que proibiu as bets?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Saiu um discurso, inclusive em textos que eles espalharam, de insegurança jurídica, de que é pior para a população o negócio ficar clandestino. Classe trabalhadora eles não falam, é &#8220;população&#8221;. A empresa age como se a MP fosse cair logo.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro disseram que não iam demitir ninguém. Esta semana demitiram metade dos trabalhadores. Eu fiquei na parte que não foi demitida. E, por mais estranho que pareça, a maioria recebeu a demissão com felicidade. Depois de tanta tentativa de expulsar a galera do home office, ser demitido com todos os direitos, e ainda poder processar a empresa depois, virou alívio. Agora está tudo parado. Eu bato o ponto e fico, basicamente de férias, recebendo salário.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>E qual é a sua posição sobre a proibição?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Trabalhando nesse setor, vendo os processos por dentro, a pilantragem e as empresas de fachada, sou totalmente a favor da proibição. Completa. Não só do cassino: da aposta esportiva online também. O acesso é fácil demais e o controle, muito difícil. Se alguém disser que precisa de algo para a galera se divertir, acho menos pior liberar cassino físico do que manter isso.</p>
<p style="text-align: justify;">As pessoas acham que pagar R$ 30 milhões de outorga e regularizar funcionário é um custo pesado para essas empresas. Não é. Elas movimentam bilhões e bilhões. Vi uma notícia de que o custo para o SUS com ludopatia é várias vezes maior do que o imposto que elas pagam. E esse dinheiro vai embora. Pega uma Betano: aparece como coisa brasileira, patrocina Brasileirão, Flamengo, mas é empresa gringa. Pelo que conversei com gente de lá, quase tudo o que entra aqui sai do país. Não fica no nosso povo.</p>
<p style="text-align: justify;">* Informação de autoria: A União Terra e Trabalho (UTT) é uma articulação nacional criada em 2026 por organizadores de base que propõe a reconstrução do sindicalismo revolucionário no Brasil através dos locais de trabalho e comunidades. Tem como método a investigação junto ao povo e a ação coletiva por meio da autonomia política e da soberania econômica. Está presente no Ceará e no Rio de Janeiro. <a href="https://uniaoterraetrabalho.org">https://uniaoterraetrabalho.org</a></p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160267 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/people-ufan-lee-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /> Ilustramos esta entrevista com a reprodução de uma obra de Lee Ufan.</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/10/160259/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>[Belo Horizonte] Eleições e a Permanente Ameaça do Fascismo no Brasil</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160255/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/10/160255/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 17:36:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=160255</guid>

					<description><![CDATA[Posição do Coletivo Kasa Invisível Frente às Eleições 2026]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por <a href="https://kasainvisivel.org/2026/10/25/posicao-coletivo-kasa-eleicoes-2026/" target="_blank" rel="noopener">Kasa Invisível</a></h3>
<h4 class="wp-block-heading has-accent-1-color has-text-color has-link-color wp-elements-1" style="text-align: justify;"><strong>Nossa posição</strong></h4>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">A eleição presidencial de 2026 pode ser decisiva para o que conhecemos por “democracia” no Brasil. O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro pode abrir caminho para o que militantes, especialistas e grande parte da população entende como uma guinada autoritária caso o filho do ex-presidente golpista seja eleito.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Já teremos um tempo muito difícil pela frente mesmo com Lula no poder. Com Flávio na presidência, a República corre o risco de retornar ao pior dos tempos autoritários da Ditadura com o que há de mais novo do fascismo contemporâneo. Falamos isso sob o peso de uma ameaça grave de despejo de uma das nossas ocupações e em meio a uma ampla campanha por Despejo Zero em Belo Horizonte, quando várias ocupações estão em risco de despejo.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Concordamos com esse diagnóstico possível e também com o fato de que com a predominância da extrema-direita no Congresso após essas eleições, os poderes legislativos e judiciário já estarão perigosamente alinhados para atacar a classe trabalhadora, desmantelar direitos garantidos, atacar os mais pobres, mulheres, a população negra, indígena e LGBTQIAPN+ , nas cidades e nos campos, jogando o controle cada vez mais sem limites nas mãos de um eventual governo bolsonarista.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Não vamos pedir para ninguém votar, muito menos para que não votem. Somos um pequeno coletivo, sabemos do nosso tamanho e nossas limitações. Nossa comunidade e as pessoas atingidas por nossos canais de comunicação são pessoas de esquerda, algumas mais outras menos radicais e já tomaram suas decisões. Qualquer pedido no sentido de chamar para o voto ou abstenção seria inócuo. Também não temos intenção de disputar ou integrar a avalanche de posicionamentos eleitorais no mercado de ideias, ampliado pelo mundo digital e transformando a todos em um concorrente ou inimigo em potencial.</p>
<figure class="wp-block-image size-large" style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-2844" src="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016.jpg?resize=727%2C483&amp;ssl=1" sizes="auto, (max-width: 727px) 100vw, 727px" srcset="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=1024%2C680&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=300%2C199&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=768%2C510&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=1536%2C1021&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=2048%2C1361&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=403%2C268&amp;ssl=1 403w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?w=1454&amp;ssl=1 1454w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?w=2181&amp;ssl=1 2181w" alt="" width="727" height="483" data-recalc-dims="1" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Ação <a href="https://www.instagram.com/p/Dd8sKSqlfgo/?img_index=1" target="_blank" rel="noopener">por Despejo Zero </a>em 1 de outubro de 2026.</em></figcaption></figure>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Como <a href="https://enlacezapatista.ezln.org.mx/2015/05/27/sobre-as-eleicoes-organizar-se-subcomandante-insurgente-moises/" target="_blank" rel="noopener">disseram os zapatistas</a>, no México:</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="padding-left: 40px; text-align: justify;"><em> “Se você já decidiu que não vai votar, nós não dizemos que está bem, nem dizemos que está mal. Só lhe dizemos que achamos que não é suficiente, que tem que se organizar. E claro, que se prepare, porque vão lhe colocar a culpa das misérias da esquerda partidária institucional.”</em></p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Portanto, respeitamos e apoiamos a decisão individual por focar, no momento, em votar e angariar votos para Lula. Mas reforçamos que não só será insuficiente se engajar nessa luta de última hora, como a busca desesperada por votos para uma vitória eleitoral é parte do problema que foi construído pela própria esquerda institucional, especialmente o Partido dos Trabalhadores no poder.</p>
<h4 class="wp-block-heading has-accent-1-color has-text-color has-link-color wp-elements-2" style="text-align: justify;"><strong>Princípios e fins</strong></h4>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;"><a href="https://kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2024/12/Principios-Kasa-2024-1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Nossos princípios</a> são públicos e contam com tópicos como apartidarismo, crítica radical ao estado e ao capitalismo. No entanto, cerramos fileiras de luta com muitos partidos do campo democrático de esquerda, movimentos sociais e grupos que não compartilham uma crítica radical ao estado e aos partidos. Nos encontramos nas lutas e por elas construímos a possibilidade de uma vida melhor e um mundo mais justo.</p>
<figure class="wp-block-image size-large" style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-2845" src="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?resize=727%2C486&amp;ssl=1" sizes="auto, (max-width: 727px) 100vw, 727px" srcset="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?resize=1024%2C685&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?resize=300%2C201&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?resize=768%2C513&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?resize=403%2C269&amp;ssl=1 403w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?w=1080&amp;ssl=1 1080w" alt="" width="727" height="486" data-recalc-dims="1" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Bloco Antifa no ato contra Flávio Bolsonaro em 10 de outubro de 2026.</em></figcaption></figure>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Estivemos recentemente nas ruas e nos atos denunciando Flávio Bolsonaro e o fascismo, como sempre estivemos, chamando e comparecendo em protestos, manifestações, bloqueios, abrindo caminho e apoiando novas ocupações, seja durante o governo Lula, seja no governo Jair Bolsonaro. Somos e seremos uma oposição popular e crítica, seja qual governo for eleito.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">No entanto, é necessário também elaborar uma crítica externa e interna dos processos que nos trouxeram até aqui, nessas 3 semanas de mobilização para “virar voto” e vencer o bolsonarismo nas urnas.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Vemos com preocupação o desespero que se instalou depois do primeiro turno das eleições presidenciais. Em falas públicas e debates no nosso espaço, falamos sobre como prevalecia um clima de calmaria com relação às eleições de 2026, se comparamos com as de 2018 e 2022. Parecia que o fascismo não era mais uma ameaça, que o governo Lula era favorito e imbatível. Mesmo com as análises de especialistas dizendo que o bolsonarismo cresce nas urnas de última hora, toda a sociedade e o próprio Partido dos Trabalhadores não pareciam preocupados. Demonstravam estar bastante confortáveis com a vantagem de apenas 2 pontos nas pesquisas.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Quando falamos em princípios e do compromisso a eles, é para não nos perdemos na caminhada e principalmente porque acreditamos que as formas organizativas são capazes de elaborar questões de maneiras distintas e avançar nas lutas. Ainda que sempre fiéis ao que mais importa e fazendo uma leitura crítica das práticas, acreditamos estarmos abertos para mudar tanto os princípios quanto as práticas quando necessário. Porém, quando criticamos a forma-partido e a disputa por controle do Estado, estamos falando objetivamente de um meio e um fim de luta. Estamos afirmando sem rodeios que a ação direta é mais importante do que terceirizar nossa ação política, achando que governantes eleitos com dinheiro, publicidade e recursos que mudariam a vida de comunidades inteiras, vão representar nossos interesses. Apenas o povo salva o povo e apenas a luta muda a vida. Se não temos uma construção organizada e com propostas e princípios claros no cotidiano, estaremos sempre sofrendo com o desespero de última hora.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Concordamos, portanto, com a <a href="https://socialismolibertario.net/nosso-posicionamento-frente-ao-cenario-eleitoral/" target="_blank" rel="noopener">Organização Socialista Libertária</a>:</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="padding-left: 40px; text-align: justify;"><em>“Quando afirmamos que as eleições são uma farsa, criticamos um sistema político que restringe a participação popular à escolha periódica de representantes, deslocando a capacidade de decisão das mãos da população para as instituições do Estado. A disputa eleitoral desmobiliza as classes oprimidas ao apresentar a representação parlamentar como alternativa à organização coletiva.”</em></p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Ficou claro nessas semanas de outubro que a confiança na “terceirização da ação política” em Lula e no PT, manteve as pessoas e movimentos sociais calados e tranquilos até a desvantagem no primeiro turno. E agora, vemos uma mobilização insana que se propõe até mesmo a emular o chamado “<a href="https://www.youtube.com/watch?v=6Bh0yWxtV1A" target="_blank" rel="noopener">partido digital bolsonarista</a>”, formando “exércitos” digitais para replicar conteúdo pré-fabricado. Não julgamos nenhuma das táticas de agora, mas não deixaremos de alertar para os riscos a que todos corremos em não nos organizar permanentemente e ficarmos a mercê do outro campo para agir. Basta lembrar que quando o presidente era Jair Bolsonaro, administrando uma pandemia de forma assassina, a mesma esquerda dizia que “<em>não era hora de protestar</em>” porque seria “<em>um pretexto para o golpe</em>”. E quando Lula foi eleito em 2022, também não era hora de jogar contra um governo de esquerda. Um povo que passa 4 anos anos ouvindo que não é hora de manifestar, fazer greve e pressionar um governo, agora só sabe ir para rua quando já é arriscado ser tarde demais para barrar o fascismo.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">De forma semelhante, denunciamos a anemia da esquerda na <a href="https://kasainvisivel.org/2024/10/04/toda-bandeira-fica-preta-no-fogo/" target="_blank" rel="noopener">última eleição para prefeito em BH</a>, quando essa esquerda não se uniu em pautas claras, populares e combativas, ficando nãos apenas de fora do segundo turno, mas também sendo obrigada a pintar um fantasioso “Fuad Antifascista” para barrar o candidato bolsonarista. Hoje temos como prefeito, seu vice Álvaro Damião da União Brasil, candidato anti-povo, gentrificador, aliado declarado do estado de Israel e com propostas alinhadas à direita.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">No nível federal, se o PT e a gestão Lula-Alckmin tivessem optado por governar para o povo, com pautas de esquerda e não de centro, estariam muito mais à frente e em vantagem eleitoral e dependeriam menos de emular o bolsonarismo nas redes e em pautas como a redução da maioridade penal. E não buscariam avançar em um mês com pautas que silenciou por 3 anos e meio, como <strong>fim da escala 6×1</strong>, <strong>tarifa zero nos transportes urbanos</strong>, combate à <strong>plataformização dos trabalho</strong>, <strong>bets e plataformas de apostas</strong> e o poder das <strong>Big Techs </strong>(que agora entram como aliados da extrema-direita e de Trump para eleger Flávio Bolsonaro em troca do acesso a minerais e mercados brasileiros). Além de não bancar pautas novas, o governo Lula também decidiu não enfrentar retrocessos e manter a <strong>Reforma Trabalhista da terceirização </strong>aprovada em 2017, a <strong>Reforma da Previdência de 2019</strong>, <strong>privatização da Eletrobrás </strong>e ainda manteve o <strong>Teto de Gastos </strong>com novo nome de <strong>Arcabouço Fiscal </strong>e <strong>paralisou reforma agrária e demarcação de terras indígenas</strong>.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Mesmo com tudo isso, o próprio Lula declarou publicamente que acreditava que iria vencer no primeiro turno. Um erro de cálculo grave para o maior político que o país já teve, o mais votado e o que mais participou de eleições presidenciais. Uma incapacidade de leitura do cenário político, onde a extrema-direita se organiza, pelo menos desde 2015, uma nova cultura política, que alinha novas gerações e os mais velhos em torno de mídias e “partidos” digitais, rompendo com as barreiras da mídia tradicional, ajudando a organizar também no mundo real, a vida e um senso de comunidade dentro das igrejas, escolas, batalhões e espaços de trabalho.</p>
<h4 class="wp-block-heading has-accent-1-color has-text-color has-link-color wp-elements-3" style="text-align: justify;"><strong>Se a ameaça fascista é permanente, a organização para a luta também deve ser</strong></h4>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Qualquer que seja o resultado das eleições neste domingo, está claro que a política institucional, o PT e mesmo Lula, são barreiras insuficientes para a extrema-direita e o fascismo miliciano brasileiro. Se Lula vencer, nada garante que a extrema-direita volte com ainda mais força em 2030, dessa vez sem nenhum nome de peso na esquerda e sem o Supremo Tribunal Federal, inocentemente creditado como uma das poucas barreiras ao autoritarismo.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Por isso, é necessário agora desejar o melhor e nos preparar para o pior. Mais do que “exércitos” digitais e declarações virtuais, precisamos estar nos organizando onde pisamos, sem nos desesperar. <a href="https://kasainvisivel.org/2026/10/17/conversa-raul-zibechi/" target="_blank" rel="noopener">Raúl Zibechi</a> nos lembra que, mesmo em meio à ditadura militar, “foram criadas as condições para o nascimento – apenas uma década depois – do Movimento Sem Terra, do Partido dos Trabalhadores e do centro sindical CUT.” Ou seja, até nos mais sombrios lixões da história, nascem flores de luta.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Zibechi continua:</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="padding-left: 40px; text-align: justify;">“<em>Essa é a história de toda a América Latina. Tornamo-nos fortes nos tempos sombrios da repressão e do militarismo, crescemos e acumulamos forças que depois desperdiçamos no jogo institucional.(…) Desde a década de 1980, essa é a nossa realidade: apostamos tudo em eleições, reformas constitucionais, legislação que é uma letra morta e, enquanto isso, desarmamos nossos poderes que são a única garantia contra os opressores. </em>”</p>
<figure class="wp-block-image size-large" style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-2846" src="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?resize=727%2C545&amp;ssl=1" sizes="auto, (max-width: 727px) 100vw, 727px" srcset="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?resize=373%2C280&amp;ssl=1 373w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?w=1440&amp;ssl=1 1440w" alt="" width="727" height="545" data-recalc-dims="1" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Bloco Antifa no ato contra Flávio Bolsonaro em 10 de outubro de 2026, denunciando a conciliação de classes petista.</em></figcaption></figure>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Portanto, não abraçamos o discurso fatalista que condena tudo à falta de ação, ao exílio ou à depressão, caso Flávio seja eleito. Aceitar isso é trabalhar para o seu sucesso já dentro de nossos sentimentos e vontades. Todas as pessoas em vulnerabilidade social, nas periferias, ocupações, favelas, pessoas trans, negras, indígenas e mulheres de todas as partes, estarão em maior segurança se organizando coletivamente desde já. Não apenas saindo para votar quando a situação chegou a um grau máximo de emergência. Muito menos deixando o isolamento e a tristeza da derrota falarem mais alto. Numa outra crítica libertária, o grupo anarco-comunista <a href="https://passapalavra.info/2026/10/160202/">The Polar Bl@st</a> relembra que:</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="padding-left: 40px; text-align: justify;">“<em>Cada discussão sobre o voto estratégico desvia do trabalho real de construir alternativas. Cada segundo dedicado a defender partidos de esquerda normaliza a ideia de que a libertação flui de cima para baixo, do Parlamento, em vez de fluir de baixo para cima, da luta.</em>”</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Ou seja, nossa real defesa e agenda política vem do poder que temos em nossas mãos, de baixo para cima. Como sempre disseram nossos camaradas da <a href="https://teiadospovos.org/eleicoes-no-brasil/" target="_blank" rel="noopener">Teia dos Povos</a> em conversas e por escrito, o que temos em nosso controle não poderá ser tomado facilmente com uma nova eleição ou canetada. É preciso construir lutas, comunidades, coletivos, movimentos, espaços e territórios.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Tudo o que temos somos nós mesmos e nossas alianças. Nossos líderes não vão nos salvar de dentro de palácios e gabinetes, por mais que eles caminhem a cada 4 anos pelas avenidas acenando para nós e vendendo esperança. Como disseram os estudantes do outro lado do oceano em revolta ao longo desse mesmo outubro, é preciso desejar e abri caminho para “<a href="https://criticadesapiedada.com.br/2026/10/14/abandonar-a-epoca-contemporanea-artifices/" target="_blank" rel="noopener">o fim da era contemporânea</a>”. Se a regra é, cada dia mais, um estado de exceção permanente, devemos nós, pessoas oprimidas e excluídas, construir nós mesmas um estado de exceção que poderemos habitar para além do Estado e do Capital.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Vença quem vencer, estaremos nas ruas contra o fascismo e o capitalismo. Estarmos prontos e juntos, é tudo!</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/10/160255/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A esperança</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160253/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/10/160253/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 12:24:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=160253</guid>

					<description><![CDATA[Em que momento o Brasil se fodeu? Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Mario Vargas Llosa <strong>[1]</strong> inicia o romance <em>Conversa na catedral</em> com uma pergunta incômoda: “em que momento o Peru se fodera?” O romancista mistura o país aos peruanos: “Zavalita era como o Peru: tinha se fodido em algum momento. Pensa: em qual?” Como a pergunta acontece em movimento – entre as avenidas Tacna e Wilson, a caminho da praça San Martín –, fica a impressão de que o Peru se fodeu não apenas no tempo, mas no espaço. Ainda no parágrafo inicial o romancista menciona uma grande fila no ponto em que passam os ônibus que vão para Miraflores, que é o bairro turístico, com calçadão sobre as falésias, de frente para o Pacífico. Então o Peru se fodeu no espaço: entre o bairro sofisticado e o centro de Lima, entre a costa banhada pelo Pacífico e as montanhas da cordilheira dos Andes, entre estas e a selva amazônica. Mas o Peru se fodeu também no tempo, em algum momento específico, quando? Mais que isso, os peruanos são como seu país, ambos se foderam. A pergunta passa por cima dos indivíduos e das fronteiras, é universal. O socrático “conhece-te a ti mesmo” ficou para trás. A questão é: quando a gente se fodeu? A ideia camusiana <strong>[2]</strong> segundo a qual o suicídio é o único problema filosófico realmente sério também ficou para trás. Saber em que momento a gente se fodeu é mais importante do que julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida.</p>
<p style="text-align: justify;">Já devem ter percebido aonde quero chegar: em que momento o Brasil se fodeu? O mais correto é que tenha se fodido em 22 de abril de 1500, no dia da invasão. Desde então o Brasil foi transformado em colônia de exploração. Uma rima e um destino. Também é possível pensar que a pergunta incômoda unifica a América Latina. Do Peru ao Brasil, da Argentina ao México, passando pela Colômbia e todos os demais países latino-americanos. Em que momento a América Latina se fodeu?</p>
<p style="text-align: justify;">As perguntas anteriores renderiam um textão. Quando acordar à noite angustiado porque o Brasil e a América Latina se foderam, vou tentar enumerar tragédias sociais até pegar no sono. Quem sabe um dia desperte e escreva um textão detalhando quando e por que nós nos fodemos. Antes disso, registro alguns pitacos pontuais, limitados ao Brasil do século XXI.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de ampliar a pergunta incômoda de Vargas Llosa para o Brasil sempre me atraiu. Mas só consegui rascunhar alguma coisa entre os dois turnos da última eleição. Já era sabido que a extrema direita havia sido a grande vencedora do primeiro turno. Comecei a escrever nos dias imediatamente posteriores ao primeiro turno, quando a esquerda reunia seus cacos e se organizava para “virar votos”. Provavelmente o Brasil se foderia novamente no segundo turno. Mas não faria grande diferença porque o país já estava fodido.</p>
<p style="text-align: justify;">Como não escrevi o tal textão detalhando quando e por que o Brasil se fodeu, vou responder de forma breve. Mas fica o convite para pensarmos. O leitor pode iniciar a reflexão individualmente, sempre que acordar angustiado com o futuro. Já disseram que a ansiedade é excesso de futuro <strong>[3]</strong>, mas fazer o quê? Olhar para o passado talvez nos liberte minimamente da angústia com os dias que virão, ou não. Enfim, segue a minha resposta provisória e limitada:</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 27 de outubro de 2002, quando Lula ganhou o segundo turno das eleições presidenciais e afirmou que a esperança havia vencido o medo. É que a esperança é a última que morre porque nos mata primeiro.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2004 quando, no primeiro governo Lula, foram enviadas tropas para liderar a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH). Ali se fortaleceram os generais que mais tarde integrariam o governo Bolsonaro. Em vez de passar a ditadura militar a limpo, fortaleceu o setor linha dura das forças armadas.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu quando começaram a cair os preços das <em>commodities</em> que exportava. Os fundamentos da economia estavam sólidos, repetia-se à exaustão. Não era bem assim.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2013 quando o governo petista foi absolutamente incapaz de dialogar com os protestos de rua, além de se aliar com as forças da ordem contra os manifestantes.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2014, quando construiu estádios discutíveis e acreditou que se consolidaria como potência com a conquista da Copa do Mundo. Veio o choque de realidade: derrota por 7 x 1 para a Alemanha.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu novamente em 2014 quando a esquerda majoritária chamou voto para Dilma em nome do retrocesso representado por Aécio, daí venceu a eleição e aplicou um ajuste fiscal daqueles.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu quando ampliou o crédito e transformou pobres em consumidores endividados. Esse setor se tornou um dos pilares de sustentação da extrema direita.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2018 quando a esquerda – incluindo os setores mais organizados da classe trabalhadora e a extrema esquerda – foi às ruas e ao WhatsApp para dizer “Ele não”! Que nada mais era do que um envergonhado sim para Haddad. Apesar do tamanho razoável do “Ele não”, o candidato da extrema direita cresceu após as manifestações da esquerda. É que a extrema direita não teve vergonha de defender os seus nem de expor o seu programa de destruição.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2022 quando elegeu para o terceiro mandato um conciliador numa conjuntura em que não havia brechas para conciliações. O Brasil não se fodeu só por causa do Lula nem foi só o Lula que fodeu o Brasil. Seria dar mais importância do que ele tem. Mas, por outro lado, não relacionar o grande conciliador à tragédia brasileira é bizarro.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu apesar dos setores minoritários da extrema esquerda que defenderam e defendem o voto nulo. O que é o voto nulo se não um limitado “Eles não”?</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu com as reformas trabalhista (do governo Temer) e previdenciária (do governo Bolsonaro). O Brasil pode se foder com as reformas que virão no próximo período.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2023, quando o golpismo da extrema direita não foi devidamente tratado e julgado. Excluindo os processos midiáticos, a pauta “sem anistia” levitou no limbo.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu quando a esquerda majoritária terceirizou o combate à extrema direita para o judiciário. O país se fodeu um pouco por dia com cada um dos memes que cutucavam os bolsonaristas e, por tabela, elogiavam um dos ministros do STF. A careca brilhante do tal ministro é um espelho que reflete o vazio imaginativo da esquerda. Pouco tempo depois foram reveladas as relações suspeitas do paladino da justiça.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu quando o setor majoritário da esquerda assumiu a função ingrata de gerir o capitalismo nacional. A militância de esquerda, que foi para as ruas e para o WhatsApp<em>,</em> virou votos da direita defendendo que as gestões petistas são melhores que as bolsonaristas: bolsa família, elevação do salário mínimo, redução do desemprego. Só que os não convertidos já perceberam que o capitalismo é ingovernável. Como não estão em questão alternativas coletivas contra o capital, dá para intuir por que a extrema direita se fortaleceu. Somente a esquerda acredita que é possível gerenciar o capitalismo.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu quando a extrema direita aprendeu a jogar no erro e nas brechas da esquerda.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu porque a classe trabalhadora e a extrema esquerda não criaram nenhuma alternativa a Lula e ao PT por baixo e pela esquerda. Antes pelo contrário, no limite, os setores mais organizados da classe trabalhadora e da extrema esquerda se abrigaram debaixo do guarda-chuva petista sempre que houve tempestades.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">A lista é grande e fico por aqui. Alguns vão se irritar com a associação de Lula à tragédia brasileira. Em breve começará a ser repetida a ladainha segundo a qual “não é o momento para criticar Lula e o PT”. Outros dirão que é preciso ter esperança. Uma coisa não está distante da outra. Esperança tem a ver com esperar e aguardar. Por isso que a esperança é a última que morre, é que ela nos mata primeiro, de tanto esperar. A vitória eleitoral da esquerda é significativa porque passou pela mobilização popular. Teremos energia e criatividade para as próximas batalhas? Conseguiremos criar alternativas por baixo e pela esquerda? O Brasil vai se foder se a energia das ruas – decisiva na virada eleitoral – for desperdiçada.</p>
<h3 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Mario Vargas Llosa. <em>Conversa na catedral</em>. São Paulo: Saraiva, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Albert Camus. <em>O mito de Sísifo</em>. Rio de Janeiro: Record, 2025.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Glauber Ataide. <em>Filosofia para a vida: quando pensar é o melhor remédio.</em> Petrópolis: Vozes, 2025.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/10/160253/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A única urgência é o 3º turno: resistência e organização independente dos trabalhadores</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160226/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/10/160226/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 24 Oct 2026 10:42:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=160226</guid>

					<description><![CDATA[Somente nós, trabalhadores unidos nas organizações criadas na luta e para a luta, sem desvios partidários-sindicais, podemos buscar por uma transformação radical da sociedade. Por EducaLuta]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3 style="text-align: justify;">Por EducaLuta</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>O cenário das eleições e papel ativo dos trabalhadores</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A cada disputa eleitoral no Brasil, repete-se um cenário no qual temos os candidatos da esquerda liberal, capitaneados pelo PT, que querem manter a instituições da República que estão irremediavelmente corrompidas e não apresentam perspectivas de avanços na melhoria das condições de vida dos trabalhadores. O que os candidatos do PT podem apenas prometer é uma defesa abstrata da democracia contra um fascismo abstrato e tentar manter o que resta de programas sociais, pois o que resta a fazer é manter o que ainda está aí. Ou seja, essa posição política/eleitoral não almeja nenhuma melhora substancial nas condições de vida, mas para garantir sua posição de administrador de um Estado em crise é capaz de negociar (pactuar, buscar consenso) do que ainda resta de direitos adquiridos pelos trabalhadores com setores do capital, para manter sua posição de gestor do Estado, tendo acesso a inimagináveis volumes de capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, há a extrema direita que se caracteriza por atacar qualquer forma de legislação trabalhista, seguridade social, previdenciária e ambiental, pois quer garantir uma capacidade irrestrita de acumulação de capital aos empresários, pois entende que os marcos da social democracia ou mesmo um liberalismo humanizado já não é possível no capitalismo nos dias de hoje. Por isso há sempre um discurso de austeridade fiscal (corte de gastos) e um brutal ataque ao meio ambiente, para buscar novas fronteiras para acumulação de capital, por exemplo expandindo a fronteira agrícola ou a especulação financeira imobiliária. Esse discurso individualista, do cada um por si, está intimamente ligado à lógica religiosa de que aqueles que ascendem à riqueza são “ungidos” por Deus. A extrema direita faz uma síntese do discurso do empresário de si próprio com a religiosidade conservadora, baseada em uma teologia da prosperidade, mas é incapaz de atender aos verdadeiros anseios e necessidades concretas da classe dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Devido ao cenário apresentado acima, as eleições têm um papel menor quando se trata de melhora nas condições de vida do trabalhador. Os dois lados favoritos a administrar o Estado estão comprometidos com a acumulação de capital. Mesmo considerando que um dos lados têm uma visão social liberal e o outro tem uma postura autoritária, ambos estão comprometidos em assegurar as atuais condições de reprodução do sistema e farão a repressão necessária para isso. O que irá determinar se os trabalhadores manterão o que ainda têm de benefícios sociais ou mesmo a possibilidade de avanços, será sua capacidade de organização para resistir e lutar pelas suas demandas, a partir de instrumentos de luta desenvolvidos pelos próprios trabalhadores.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160239" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-300x225.jpg" alt="" width="400" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-559x420.jpg 559w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999.jpg 639w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O 5º governo do PT</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O PT busca governar o Brasil pela 6ª vez. O partido já representou os anseios por transformação social no país, no entanto já em 2002 &#8211; portanto, antes de sua primeira vitória em eleições presidenciais &#8211; Lula assinava a sua chamada “Carta ao Povo Brasileiro”, que ficou conhecida como a “Carta aos Banqueiros”, em que se comprometia em acalmar empresários e investidores com “<em>respeito aos contratos e obrigações do país</em>”. De fato, o PT segue firme no compromisso de garantir ao capitalismo brasileiro e estrangeiro suas melhores condições de reprodução, sem atingir nenhuma estrutura jurídica, política ou econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo Lula 3 confirmou mais uma vez esse pacto. Enquanto se apresentava como rival ao agronegócio, garantiu o “maior plano SAFRA da história”. Embora tenha criado um Ministério dos Povos Indígenas, os três primeiros anos de Lula 3 registraram mais assassinatos de indígenas do que os quatro anos de Bolsonaro; foram registrados 169 conflitos relativos a direitos territoriais, e apontou-se que centenas de terras indígenas continuam pendentes de regularização. Enquanto se diz alternativa à extrema-direita, brindou os patriotas com José Múcio no Ministério da Defesa, com aprovação direita de Jair Bolsonaro; Múcio tem longa carreira no PFL (Democratas) e no PTB, sendo um aliado de Roberto Jefferson no Mensalão; Jefferson, agora um bolsonarista, ao fazer a denúncia deste esquema em 2005, colocou o PL no centro do “escândalo” petista.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160228" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962-300x220.jpg" alt="" width="400" height="294" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962-300x220.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962-572x420.jpg 572w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O atual governo PT também demitiu Ana Moser, do Ministério dos Esportes, dando lugar para Fufuca, do PP, que abrigou bolsonaristas na sua equipe. O Ministério do Turismo foi cedido ao União Brasil, então partido de Sergio Moro. O Ministério do Planejamento e Orçamento foi destinado a Simone Tebet, que votou a favor do impeachment de Dilma Roussef. Luciano Bivar, que abrigou Jair Bolsonaro no PSL, hoje é suplente do senador Humberto Costa, ex-presidente do PT. Em 2024, PT e PL se uniram em 85 disputas municipais. Com a saída de Haddad do Ministério da Fazenda, Dario Durigan &#8211; tecnocrata ex-diretor de “políticas públicas do Whatsapp”, da big tech Meta (Facebook, Instagram e Whatsapp) &#8211; assumiu o comando da economia e finanças do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas redes sociais, o petismo usa a expressão “Congresso inimigo do povo”; Lula, por sua vez, declara que conseguiu no Congresso todas as aprovações que precisou. Em entrevista à GloboNews, a ministra Simone Tebet afirmou que infelizmente o governo não encontrou um congresso fiscalista. Ou seja, o próprio Congresso impediu que o governo Lula 3 promovesse cortes mais profundos nos gastos. Tebet afirma que o final de 2026 é uma oportunidade para o Brasil arrochar ainda mais os “gastos”. Fernando Haddad, candidato do PT à presidência em 2018, criador da EBSERH &#8211; que terceirizou os hospitais universitários -, e ministro responsável pelo Novo Arcabouço Fiscal (atualização do Teto de Gastos do Temer, batizado na época pelo petismo de “PEC do Fim do Mundo / PEC da Morte”), pretende retirar da <strong>Constituição </strong>os gastos mínimos com Saúde e Educação. O próprio presidente Lula pretende mudar a <strong>Constituição </strong>ainda em 2026. O PT quer que as forças federais também sejam responsáveis pela “segurança pública”, o que a atual Constituição não permite. Caso eleito, Flávio Bolsonaro ganhará esta carta branca.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra questão que cabe reflexão é que após tantos governos petistas, os dados do Anuário Estatístico do ILAESE 2025/26, explicitam uma superexploração do trabalho no país. Segundo o ILAESE, em 2024, na Comgás, campeã em exploração do trabalho, apenas o equivalente a 16 minutos de uma jornada de oito horas correspondia aos salários e benefícios dos trabalhadores, enquanto as 7 horas e 44 minutos restantes eram classificadas como trabalho não pago. Segundo a PEIC, os dados nacionais de setembro mostram que o endividamento continua atingindo mais de quatro em cada cinco famílias brasileiras.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outubro de 2026, o salário mínimo nacional vigente é de R$ 1.621,00, enquanto o salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE para set/26 foi de R$ 7.750,01. Em todos esses anos, o analfabetismo não foi superado, mantendo na casa dos 5,6% em 2022 e 4,9% em 2025. Na segurança alimentar, 6,5 milhões permanecem em insegurança em 2024, segundo o IBGE.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, o novo governo do PT não cumpriu demandas como a reestatização da Eletrobras e da BR Distribuidora (assim como Lula 2 rejeitou em 2007 o plebiscito popular pela Reestatização da Vale do Rio Doce). Depois de quatro anos de Lula 3, a extrema-direita acaba de ampliar seu número de cadeiras nas câmaras e nos governos estaduais, com aumento da participação de empresários, ruralistas e comerciantes. Fica evidente que o PT não é uma ameaça ao sistema ou à qualquer direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>E o Bolsonaro, hein?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que podemos esperar de um governo Flávio Bolsonaro? Seu plano de governo e falas de campanha são caminhos importantes para conjecturar o futuro, contudo, o primeiro passo é recapitular o que sua família e seu espectro político fizeram na última década.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160230" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/7-nov-62-1962-300x220.jpg" alt="" width="400" height="294" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/7-nov-62-1962-300x220.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/7-nov-62-1962-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/7-nov-62-1962-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/7-nov-62-1962.jpg 504w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto “oposição crítica” ao governo Temer, votaram em peso nas medidas que aprofundaram a fragilidade dos vínculos de trabalho e no desmonte garantias trabalhistas e sociais: Reforma Trabalhista, Lei da Terceirização, Teto de Gastos, Novo Ensino Médio e a retirada da exclusividade da Petrobrás na exploração dos poços do pré-sal (Lei nº 13.365/2016).</p>
<p style="text-align: justify;">Já no governo de Jair Bolsonaro, o projeto de desmonte de empresas estatais, principalmente no setor energético, foi mantido com a PPI (Preço de Paridade de Importação) e ampliado com a privatização da BR Distribuidora e de três refinarias, sendo que o objetivo era oito. Ficamos ainda mais reféns das variações do preço do barril de petróleo no mercado internacional e o resultado foi o aumento vertiginoso da gasolina e do diesel, pela primeira vez na história brasileira mais alto que a gasolina, e, consequentemente, dos alimentos. A privatização da Eletrobrás, iniciada com Temer, foi concluída por Jair e vimos o aumento do preço da luz elétrica. O governo Bolsonaro também promoveu a liquidação da empresa estatal de microchips CEITEC, a única do setor no país.</p>
<p style="text-align: justify;">Jair Bolsonaro e seus filhos também levaram adiante a Reforma da Previdência, capitaneada por Paulo Guedes. A idade das mulheres subiu para 62 anos e o cálculo atual diminui o salário dos novos aposentados. Presenciamos os diversos e repetidos descasos diante da pandemia e ainda aguardamos o dia em que Bolsonaro será condenado por estes crimes cometidos contra o povo brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Não foram poucas as tentativas do bolsonarismo em emplacar a reforma administrativa, que tem a estabilidade e a ampliação dos contratos temporários como seus principais alvos, sendo um duro golpe na qualidade dos serviços públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">O plano de governo de Flávio Bolsonaro intitulado “<em>Para o Brasil Vencer o Atraso</em>”, reúne em nove eixos temáticos elementos que indicam a ampliação do desmonte de empresas e serviços estatais , da precarização das relações de trabalho e do entreguismo.</p>
<p style="text-align: justify;">No primeiro eixo, “Brasil sem Medo”, o plano propõe endurecer a repressão intensificando com um estado policial com objetivos claros de criminalizar a pobreza e legitimar a morte de trabalhadores/as por forças policiais e militares.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160233" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/truitt-67-1967-300x204.jpg" alt="" width="400" height="271" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/truitt-67-1967-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/truitt-67-1967.jpg 504w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo eixo, “Brasil por Elas”, apresenta ações de proteção e autonomia feminina, sendo que as pautas femininas serão resolvidas com aplicativos de celular e capacitações para o emprego.</p>
<p style="text-align: justify;">O terceiro eixo, “Brasil sem Fila”, busca ampliar a digitalização dos serviços públicos, com clara intenção de entregar os dados dos cidadãos às Big Techs.</p>
<p style="text-align: justify;">O quarto eixo, “Brasil Mais Barato”, prevê reduzir custos e prevenir o endividamento e traz como principais motivos a falta de dinheiro das famílias, a cobrança de impostos e falta de educação financeira e não as condições precarizadas de renda e consumo.</p>
<p style="text-align: justify;">O quinto eixo, “Brasil que Prepara”, reúne propostas para educação, saúde, idosos, esporte e cultura com objetivo de entregar a grandes grupos privados e <em>big techs </em>as ações nessas áreas.</p>
<p style="text-align: justify;">O sexto eixo, “Brasil que Prospera”, apresenta incentivos à auto responsabilidade individual por emprego e renda. Defende o negociado sobre o legislado. Passa a ser tarefa do indivíduo procurar, encontrar e executar soluções para problemas sociais produzidos pela sociedade capitalista como falta de trabalho, renda, alimentação, saúde, educação e moradia.</p>
<p style="text-align: justify;">O sétimo eixo, “Brasil que Cresce”, busca priorizar a iniciativa privada na infraestrutura e exploração dos recursos naturais e inovação tecnológica com a entrega e dependência do capital e tecnologias estrangeiras em mineração e inteligência artificial.</p>
<p style="text-align: justify;">O oitavo eixo, “Brasil que Cumpre a Constituição”, busca reformar o STF e o mandato de presidente, com pretensões vagas de mudanças no modelo dos três poderes da república brasileira.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160235" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-6-1999-300x233.jpg" alt="" width="400" height="311" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-6-1999-300x233.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-6-1999.jpg 504w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O nono eixo, “Brasil que Não Volta Atrás”, estabelece um “Tesouraço” para reduzir a “máquina pública” com a retomada do Programa Nacional de Desestatização e uma entrega generalizada das empresas públicas à iniciativa privada. O candidato já tem feito acenos ao mercado e estabelecido reuniões com empresários que envolvem debates sobre previdência, reforma administrativa e revisão da recém aprovada fim da 6×1.</p>
<p style="text-align: justify;">Observando a retrospectiva dos governos Temer/Jair e o plano atual, fica a impossibilidade de manter as políticas sociais atuais, como diz o plano de governo, e o objetivo claro e manifesto de fazer um “Tesouraço”. Para o conjunto dos trabalhadores, um novo governo Bolsonaro pretende intensificar a exploração da força de trabalho e dificultar ainda mais as condições de vida. Suas propostas se mostram alinhadas aos interesses das <em>big techs </em>e ao “Escudo das Américas” de Donald Trump, que busca ampliar a presença militar dos EUA na América Latina sob o pretexto de combater o “terrorismo” do narcotráfico. Flávio Bolsonaro é a nova face do velho entreguismo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O que fazer? Como fazer?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O próximo governo de quem for eleito será de mais “ajuste fiscal”, que implica redução dos gastos sociais. Ambos lados já prometeram. Apesar de tentadora, afirmar ao colega de trabalho com voto diferente do seu, “eu avisei”, não é uma solução, tampouco aceitar a resignação melancólica de quem “perdeu” a eleição. A sabedoria popular é fértil em criar provérbios para explicar as relações da vida cotidiana. Em dias de jogos de futebol é comum ouvir: não importa o time que ganhe o jogo, amanhã terei que levantar para ir trabalhar. Essa frase serve também para pensarmos sobre as eleições e qual a sua importância na nossa vida cotidiana. Não importa o candidato que ganhe as eleições, as condições de vida e trabalho não serão resolvidas a favor dos assalariados e MEI&#8217;s (muitas vezes também assalariados, mas juridicamente “empresários”, o que lhes retira direitos tradicionais, como férias, 13º e seguridade social, como licença saúde, aposentadoria, etc.).</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, são os trabalhadores que devem se auto-organizar para reivindicar e pressionar os políticos, seus administradores e os patrões para melhorar as condições de vida e trabalho, sendo quem quer que esteja no poder. Sendo assim, algumas atitudes podem auxiliar nossas lutas. Sabemos que as demandas necessárias para melhorar as condições de vida são várias e temos que ter o pé no</p>
<p style="text-align: justify;">chão, saber medir a nossa capacidade de mobilização. Com isso pensar em reivindicações máximas como aumento de salário para toda a categoria, demanda essa que necessita de uma ampla mobilização e luta de todas categorias, mas também em reivindicações mais imediatas e que melhoram o dia a dia do seu ambiente de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">O processo da reivindicação mínima e máxima é uma dinâmica pedagógica para os trabalhadores, na qual deve-se ter claro quais os desafios para se organizar com o objetivo de reivindicar e pressionar por um refeitório, por exemplo, e os desafios para lutar por aumentos salariais e jornadas de trabalho dignas. Faça uma reflexão de qual é o nível de consciência do conjunto dos seus colegas e imaginem atividades e tarefas para cada nível, disposição para enfrentamento e a capacidade de organização em seu local de trabalho. Todo mundo deve participar da luta de classes, não somente “esclarecidos” ou mais experientes.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160237" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-300x225.jpg" alt="" width="400" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-559x420.jpg 559w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965.jpg 639w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, é comum que a organização, mobilização e disposição para o enfrentamento por melhores condições de trabalho seja reduzida. Por isso, é necessário partir de reivindicações que sejam condizentes com os níveis de consciência e da força de mobilização, partindo sempre do menor para o maior. Busque elencar problemas no seu local de trabalho que precisam ser melhorados e que incomodam outros colegas. Sejam condições de alimentação, transporte, conforto ou até mesmo banheiros adequados para as necessidades dos trabalhadores. Tente conversar com colegas que também sofrem com os mesmos problemas, estabeleça um grupo em que seja possível confiar.</p>
<p style="text-align: justify;">Atentem que os patrões e gestores diretos e indiretos (sindicalistas e políticos profissionais) sempre tentarão evitar ao máximo que qualquer tipo de união real e efetiva aconteça entre os trabalhadores. Por isso, é necessário confiança entre os colegas que estejam dispostos a lutar, para que nenhuma informação indevida chegue antes do planejado ao conhecimento das chefias. Não se deve ter nenhuma confiança em ideias abstratas de democracia e liberdade de imprensa e organização. Os patrões desejam saber quem está disposto a se mobilizar para o mais rápido possível reprimir e que essa repressão sirva de exemplo para intimidar qualquer outra iniciativa dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Junto com esses colegas estabeleça um espaço seguro para conversas. Elas podem ser tanto de forma virtual/remota ou presencial. Tente despertar nos seus colegas a consciência e a prática de que é através da sua auto-organização queresolver demandas pode ser mais efetivo, bem como acumular experiências e aprendizado. A organização própria é mais efetiva pois não depende de desvios carreiristas e/ou eleitorais. Além disso, é necessário buscar graus mais amplos e mais complexos de organização, também forjados nas batalhas dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, entre os colegas que estão dispostos a lutar, não entre em discussões sobre se é melhor Lula ou a família Bolsonaro. Você encontrará nos dois lados, petistas e bolsonaristas, ou em nenhum dos dois, pessoas que estão dispostas a lutar para melhorar as condições de trabalho. Porém, mantenha no grupo de comunicação apenas aqueles que se provem confiáveis. Com esse grupo estabelecido e com as demandas mapeadas, busquem formas para reivindicar essas demandas. Uma carta aberta, para começar, é possível enviá-la aos colegas, chefes e gestores, assim como enviar para jornais e organizações da sua região. Porém, tomem todos cuidados necessários diante das possibilidades de repressão, evitando personalizar as ações. Nenhuma ação necessita de nomes próprios, mas sim da força coletiva. É importante destacar que a carta aberta é só um exemplo. Dependendo do local de trabalho, outras maneiras podem ser desenvolvidas para demonstrar descontentamento e apresentar as reivindicações de forma direta, sem necessidade de contatos com políticos profissionais ou apelos para o sindicato.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160241" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1-april-65-1965-300x209.jpg" alt="" width="400" height="279" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1-april-65-1965-300x209.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1-april-65-1965.jpg 504w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A auto-organização, além de possibilitar uma efetiva busca por melhores condições de vida e trabalho, permite que criemos força e acúmulo de experiências de luta para trilharmos um caminho de superação do sistema de exploração como um todo. Somente assim nós tomamos em nossas mãos as pautas e reivindicações, desconsiderando políticos e instituições que simulam representar nossos interesses. Somente nós, trabalhadores unidos nas organizações criadas na luta e para a luta, sem desvios partidários-sindicais, podemos buscar por uma transformação radical da sociedade. Aqueles que ganham com o sistema, sempre lutarão para deixar como está, seja uma ou outra fração partidária. Na polarização eleitoral, há sempre um ganha-ganha para os de cima.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160243 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/33ad9a31-9e8c-4312-aaa6-493086c51786.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /> Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Anne Truitt (1921-2004).</em></p>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/10/160226/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>19</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>E aí, combinou com os russos?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160208/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/10/160208/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2026 21:00:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=160208</guid>

					<description><![CDATA[Está claro que a classe dominante quer um pesado ajuste fiscal e não querem crescimento econômico, sabem bem que se a coisa continuar como está não teremos um pouso forçado, mas sim uma queda livre da economia. Por Charles Júnior e Antônio Carlos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior e Antônio Carlos</h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Feola, técnico do Brasil na Copa de 1958, antes do jogo contra os russos, apresentou um plano para a vitória, no que Garrincha teria levantado e dito: “O plano é ótimo, mas você combinou com os russos?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2026 a história se repete. Mudam os titulares e o campo de jogo, mas o causo se encaixa perfeitamente.</p>
<p style="text-align: justify;">O PT tinha o plano perfeito: derrotar Flávio nas urnas, muito porque seria “…mais fácil, porque Bolsonaro é também mais fácil do que Tarcísio” <strong>[1]</strong>. Endossando esse plano, um experiente dirigente do centrão disse: “<em>As pesquisas mostram, pela intenção de voto e pela rejeição, que Flávio Bolsonaro não vence a eleição. O PT não tem atacado essa candidatura pois está claro que é a mais fácil de ser batida no segundo turno. Lula quer Flávio </em><em>Bolsonaro, pois é vitória certa do PT.”</em> <strong>[2]</strong><em>. </em>Mas como Garrincha na Copa de 58, sempre há quem desconfie dos planos. Aquele que cravou sua posição foi um político petista que volta ao jogo depois de um tempo fora dos gramados, o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha. Observemos o que ele disse bem antes das eleições: “Do meu ponto de vista, a candidatura do Tarcísio era mais fácil de ser derrotada do que a do Flávio. É o contrário. A rejeição do Flávio, ou dos Bolsonaros, é uma rejeição já medida, precificada. Sabemos que qualquer coisa que a gente jogar no Flávio não vai pegar, porque a rejeição já está no limite, assim como a do Lula” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os resultados do primeiro turno mostraram quem estava certo. O PT apostou no desgaste de Flávio com seus costumeiros escândalos, mas ele já tinha alta rejeição. Quem já vota nele não deixaria de votar e, pior, Flávio conseguiu ampliar a porcentagem eleitoral, abrindo vantagem sobre Lula.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse texto vamos perseguir as peças que se moveram na economia política e quais os cenários futuros da corrida presidencial ao Estado Nacional Burguês.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os números do 1º Turno</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160219 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2.png" alt="" width="335" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2.png 335w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2-168x300.png 168w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2-236x420.png 236w" sizes="auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px" />Em uma primeira observação dos dados das duas últimas eleições, somados os dois candidatos principais, temos 92% dos votos, sobrando apenas 8% para os outros, ou seja, essa é uma eleição polarizada em apenas dois candidatos. Outra observação é que, em relação à eleição de 2022, Lula perdeu 3,27 pontos percentuais dos votos e Flávio Bolsonaro aumentou 3,83 p.p., ou seja, aproximadamente que o Lula perdeu, Flávio ganhou, além de tomar mais um tantinho dos outros candidatos. Na tabela 2 vemos que Lula perdeu por volta de 3% dos votos na região Sudeste e Nordeste.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1.</strong></p>
<div class="table sectionedit2" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Candidato</strong></td>
<td class="col1"><strong>votos válidos 2022</strong></td>
<td class="col2"><strong>votos válidos 2026</strong></td>
<td class="col3"><strong>variação</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>Lula</strong></td>
<td class="col1">48,43%</td>
<td class="col2">45,16%</td>
<td class="col3">-3,27p.p</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>Bolsonaros</strong></td>
<td class="col1">43,2%</td>
<td class="col2">47,03%</td>
<td class="col3">+3,83 p.p</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>outros</strong></td>
<td class="col1">8,37%</td>
<td class="col2">7,81%</td>
<td class="col3">-0,56</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fonte: poder 360</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Variação dos votos de LULA por região</strong></p>
<div class="table sectionedit3" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Região</strong></td>
<td class="col1"><strong>2022</strong></td>
<td class="col2"><strong>2026</strong></td>
<td class="col3"><strong>variação (p.p.)</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>Sudeste</strong></td>
<td class="col1">42,63%</td>
<td class="col2">39,68</td>
<td class="col3">-2,95%</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>Nordeste</strong></td>
<td class="col1">66,76%</td>
<td class="col2">63,77</td>
<td class="col3">-2,99%</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>Sul</strong></td>
<td class="col1">36,78%</td>
<td class="col2">31,28</td>
<td class="col3">-5,50%</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0"><strong>Norte</strong></td>
<td class="col1">47,09%</td>
<td class="col2">44,65</td>
<td class="col3">-2,44%</td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0"><strong>Centro-Oeste</strong></td>
<td class="col1">37,83%</td>
<td class="col2">32,62</td>
<td class="col3">-5,21%</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Poder 360</p>
<p style="text-align: justify;">Analisando as tabelas acima, podemos concluir que existem dois grupos consolidados e a eleição é definida pelo deslocamento de votos de uma pequena fração dos eleitores.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos estão tentando entender qual a causa desse deslocamento de votos e não faltam especialistas com explicações estatísticas, sociológicas, filosóficas, antropológicas, místicas, astrológicas, etc. A crise sistêmica, a crise estrutural, a financeirização, a saudade dos anos dourados do pós-guerra, o fim do padrão ouro-dólar. A tese do capital especulativo engolindo a tudo e a todos também é divertida.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160221" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3.png" alt="" width="720" height="932" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3.png 720w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-232x300.png 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-324x420.png 324w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-640x828.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-681x882.png 681w" sizes="auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px" />Voltando ao núcleo duro do governo, se o afastamento de um conselheiro como João Paulo Cunha já fez falta, imaginem 3. A perda de Luiz Gushiken e os tortuosos caminhos seguidos por Mantega deixaram um buraco grande no núcleo duro petista. E, como em toda inquisição cirandeira, logo se iniciou a caça às bruxas, afinal, é importante achar um culpado. A vítima foi o secretário de comunicação do Governo, Sidronio. Dizem que o Governo não soube comunicar bem suas realizações e os influencers de esquerda falam que a campanha perdeu a batalha nas redes, outros dizem que para ganhar a eleição Lula precisa comunicar a possibilidade de futuro. A velha desculpa de que a direita tem uma máquina de comunicação, assim, a esquerda precisa se adequar e montar uma máquina própria. Os “exércitos” de hoje em dia são espelhos dessa necessidade se concretizando.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto escrevíamos o texto, um desses especialistas do jornal da FIESP reforçou a perspectiva dominante. Em uma entrevista para o Estadão, ele nos disse o seguinte <strong>[4]</strong>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Minha experiência diz que o governo Lula deixou passar, <strong>desde 2024, incólume a percepção da maioria da opinião pública de que a economia do País seguia no rumo errado. </strong>Várias pesquisas detectaram isso. O governo Lula não enfrentou essa questão, não desenvolveu uma narrativa coerente, para dar conta dessa questão. Quando chega a campanha eleitoral, uma parte importante da população que via o País indo na direção errada e, como tal, reclamando por mudança, foi atraída com relativa facilidade pelo discurso de mudança, de transformação, do candidato oposicionista.”</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Bom, concordamos que a comunicação é uma arma política, utilizada para atingir determinados objetivos, concordamos que existe uma operação midiática para manufaturar a opinião pública, mas, afinal, se as condições de vida dessas pessoas estivessem realmente razoáveis, elas dificilmente acreditariam nas mentiras, pois teriam a realidade para contradizer.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos interlocutores podem argumentar que existe um grupo fiel ao bolsonarismo, mesmo com as mortes na pandemia, destruição ambiental, ataque aos direitos trabalhistas, etc. Mas, convenhamos, o PT tem uma quantidade de ataques bem ampla: liberação dos transgênico, flexibilização das leis ambientais, reformas da previdência, regularização da grilagem de terras na Amazônia, explosão da população carcerária no país, privatizações (pré-sal, rodovias, etc.), e por aí vai. A velocidade e o grau de intensidade foram lentas, com jeitinho, mas fez. A distinção entre eles é diferente do que se apresenta nas propagandas ideológicas. Como resumiu muito bem Gustavo Machado, do ILAESE, “…a nova direita, por ser ligada ao mercado exportador quer uma mudança radical, flexibilização total das leis trabalhistas e enxugamento máximo da máquina estatal a fim de baratear sua produção e direcionar os recursos públicos cada vez mais para si, leia-se: partir pro tudo ou nada, mudança pra pior &#8211; condições de trabalho análogas a escravidão, flexibilidade total de todas as condições de trabalho, nenhuma proteção social, extermínio dos serviços públicos existentes (SUS, educação pública, assistência social, etc), etc. Já o setor de esquerda se apresenta como mantenedor das instituições, as garantias legais, o Estado, a estrutura jurídica existente, etc., soando como a mantenedora da ordem” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">As questões culturais, religiosas, ideológicas, dentre outras, podem explicar parte da polarização, como falamos acima, mas a esquerda deixou muito a desejar aos trabalhadores quando governou e a vida concreta, o dia a dia mesmo, consolida as visões de mundo. Enfim, existem dois grupos consolidados, mas, para nossos amigos teóricos , falta explicar qual a motivação do deslocamento de uma parte que definiu as eleições.</p>
<p style="text-align: justify;">Para nós estão relacionados aos movimentos que ocorreram na economia no período anterior à eleição. Podemos estar errados, nem sempre acertamos, afinal, não temos bola de cristal, mas estamos com um bom placar à frente.</p>
<p style="text-align: justify;">Veremos agora como a economia moveu-se nos no período anterior ao fracasso do Plano perfeito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Por onde escaparam os votos da esquerda?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160220" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4.png" alt="" width="1181" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4.png 1181w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-295x300.png 295w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-1008x1024.png 1008w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-70x70.png 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-768x780.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-413x420.png 413w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-640x650.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-681x692.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1181px) 100vw, 1181px" />Em junho de 2025 escrevemos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Na imagem 03, vemos o último quadrimestre da indústria. Observemos que a capacidade instalada em utilização está parada nos últimos meses. Mesmo assim, nos 3 últimos meses houve um crescimento do faturamento, das horas trabalhadas e do emprego. E para somar a isto, redução da massa salarial e do rendimento médio real.</p>
<p style="text-align: justify;">(…) Didaticamente, o ciclo econômico brasileiro está chegando ao ápice, ou no topo da produção de riqueza e acumulação. Acumulação esta que é a parte da mais-valia reinjetada no processo produtivo, acumulando Capital e aumentando a máquina produtiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos perto do momento em que estas relações de produção de acumulação de capital chegarão ao ápice da contradição com as forças produtivas materiais da sociedade. “De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se nos seus entraves”. Queda da taxa de lucro em alto e bom som. A roda vai parar por produzir demais, abrindo um período de crise e destruição de capital, fixo e <strong>variável</strong>. Do nosso lado, fome, miséria e morte. Eles vão fazer de tudo para jogar a crise no nosso colo. <strong>[6]</strong>” [grifo nosso]</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>É meu amigos, com o arrocho salarial, inflação e aumento das horas trabalhadas: eles estão jogando a crise no nosso colo.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como identificamos naquele momento, a economia tinha atingido seu ápice, tinha produzido demais, consumo demais e empregos demais para os padrões da burguesia brasileira, e ela começou a reclamar. Pode parecer um contra senso, mas é assim que funciona na sociedade capitalista e em particular numa economia dominada. Para a burguesia era necessário pôr um fim nessa festa.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo texto citamos a fala do Presidente do Banco Central que cumpriria o papel de chato no rolê,aquele que acaba com a festa; Nas palavras do próprio Galipolo: <strong>“Quando a festa está ficando muito aquecida e o pessoal está subindo em cima da mesa, tira a bebida da festa”, </strong>foi exatamente o que aconteceu, como podemos ver nos dados do PIB segundo o IBGE.</p>
<p style="text-align: justify;">Principais resultados do PIB — do 2º trimestre de 2025 ao 2º trimestre de 2026</p>
<div class="table sectionedit4" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Taxas (%)</strong></td>
<td class="col1"><strong>2025.II</strong></td>
<td class="col2"><strong>2025.III</strong></td>
<td class="col3"><strong>2025.IV</strong></td>
<td class="col4"><strong>2026.I</strong></td>
<td class="col5"><strong>2026.II</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">Acumulado ao longo do ano / mesmo período do ano anterior</td>
<td class="col1">2,7</td>
<td class="col2">2,4</td>
<td class="col3">2,3</td>
<td class="col4">1,8</td>
<td class="col5">1,9</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">Últimos quatro trimestres / quatro trimestres imediatamente anteriores</td>
<td class="col1">3,3</td>
<td class="col2">2,7</td>
<td class="col3">2,3</td>
<td class="col4">2,0</td>
<td class="col5">1,9</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">Trimestre / mesmo trimestre do ano anterior</td>
<td class="col1">2,4</td>
<td class="col2">1,8</td>
<td class="col3">1,8</td>
<td class="col4">1,8</td>
<td class="col5">2,0</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0">Trimestre / trimestre imediatamente anterior (com ajuste sazonal)</td>
<td class="col1">0,4</td>
<td class="col2">0,1</td>
<td class="col3">0,2</td>
<td class="col4">1,1</td>
<td class="col5">0,5</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: IBGE — Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegar em uma eleição presidencial com a economia desacelerando não é uma boa notícia para um postulante à reeleição, por isso o governo lançou mão de várias medidas para segurar a queda: fim da escala 6×1, reajuste no Bolsa Família, proibição das bets, Desenrola 1, 2 e 3, divulgação da aprovação da distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS, Pé de Meia, Reforma Brasil, Gás do Povo, Luz do Povo, isenção do Imposto de Renda para quem recebe até cinco mil reais, reforma do Minha Casa, Minha Vida, uma singela quantia de a R$ 59,5 bilhões para o Plano Brasil Soberano e R$ 140 bilhões à <a class="urlextern" title="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/22/governo-federal-anuncia-politica-industrial-com-investimento-de-r-300-bilhoes-ate-2026/" href="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/22/governo-federal-anuncia-politica-industrial-com-investimento-de-r-300-bilhoes-ate-2026/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Nova Indústria Brasil (NIB)</a>, dentre outra medidas menores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo com tudo isso, acreditamos que a desaceleração da economia joga luz sob o deslocamento dos votos. E o que mais pode ter acontecido nos trimestres anteriores ao período eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">A flor que desabrocha, mesmo vermelho sangue, chega ao ápice e definha.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda bem que existem pessoas no país que buscam investigar a realidade, como o pesquisador da FGV Manoel Pires <strong>[7]</strong>. Intrigado com o fato de a inflação estar baixa, o desemprego baixo e mesmo assim a popularidade do Presidente da República não decolar, resolveu analisar os dados do índice de consumo das famílias e descobriu um dado interessante. Vamos a ele:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">(…) depois de uma boa recuperação na saída da pandemia,<strong> há uma quebra estrutural a partir do terceiro trimestre de 2024</strong> que indica que o comportamento mudou e o crescimento do consumo praticamente encontra-se estagnado desde então. De fato, entre o terceiro trimestre de 2024 e o segundo de 2026, ou seja, nos últimos sete trimestres, o consumo das famílias cresceu de forma acumulada &#8211; ponta contra ponta &#8211; apenas 0,84% ao passo que o PIB no mesmo período e na mesma métrica cresceu 3,65%.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160217" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico.png" alt="" width="751" height="451" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico.png 751w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-300x180.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-699x420.png 699w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-640x384.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-681x409.png 681w" sizes="auto, (max-width: 751px) 100vw, 751px" />(…) Se o PIB está crescendo mais de 3% de forma acumulada no período, mas o consumo está com esse comportamento, de onde vem o crescimento? O principal vetor de crescimento nesse período tem vindo das exportações que no mesmo período &#8211; ponta contra ponta &#8211; cresceu 8,3% oriundo da expansão da agropecuária e do setor extrativo mineral.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema é que esses setores não geram o famoso efeito gotejamento, (…) para os demais setores da economia. Além disso, outras variáveis são boas candidatas para explicar o comportamento do consumo, tais como o elevado endividamento das famílias. O que está acontecendo com o consumo das famílias deveria receber maior atenção.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, o Presidente Lula chegou nas eleições com quase 2 anos de consumo estagnado, leia-se: desaceleração da economia. Parece fazer sentido que esses fatores são suficientes para uma porcentagem de eleitores com expectativas de melhoria mudar o voto. Ou pensar assim seria muito economicismo? Muito para aqueles que esquecem que é do salário que vem os gastos com cultura, lazer, educação, igreja, supermercado, drogas lícitas e ilícitas e toda a vida dos trabalhadores, aposentados e seus agregados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Cenários</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No dia após o primeiro turno o clima era de velório entre os trabalhadores mais conscientes e de euforia no mercado. A bolsa de São Paulo subiu, o dólar e os juros futuros caíram. Rebbaca Nossig, estrategista de ações da Nomad <strong>[8]</strong>, explicou o motivo da euforia:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mais do que o alívio imediato, o resultado das urnas trouxe uma sensível melhora nas perspectivas para a trajetória da dívida pública, ancorando a confiança do mercado em um cenário econômico mais estável a partir de 2027 <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Traduzindo o vocabulário dos analistas de mercado, uma melhora na trajetória da dívida significa ajuste fiscal, cortes de gastos com saúde,educação e etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando no tempo, há um ano o editorial da Folha de Sẫo Paulo <strong>[10]</strong>, na seção “ O que a Folha Pensa”, era didático já pelo título <strong>“Desaceleração do PIB é necessária neste momento”. </strong>Nele, a Folha defende que a elevação da taxa de juros é necessária :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A tarefa dos juros, em português claro, é dificultar o consumo e o investimento, de modo que a queda da demanda tire o fôlego de uma inflação que está acima dos 5% em 12 meses, ante uma meta de 3%.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">E diz eufemisticamente que é necessário uma desaceleração da economia por muito tempo :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em tal cenário, não se pode considerar mau resultado a alta de 0,4% do Produto Interno Bruto no segundo trimestre, bem abaixo do 1,3% do primeiro. O desaquecimento, que não sugere uma guinada traumática, é necessário e, pela lógica, deve continuar por algum tempo.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Está claro que a classe dominante quer um pesado ajuste fiscal e não querem crescimento econômico, sabem bem que se a coisa continuar como está não teremos um pouso forçado, mas sim uma queda livre da economia. Como<strong> disse o amigo Armando há uns tempos atrás: “ A Argentina é a antessala do Brasil, acontece lá, tá chegando aqui!”, </strong>ou seja, a quebradeira e limpeza dos gastos públicos para o orçamento da união se voltar unicamente para as necessidades das classes dominantes é a demanda de uma parcela importante dela.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado das eleições do primeiro turno já definiu elementos fundamentais para o cenário dos próximos anos, o PL terá uma bancada importante de deputados na Câmara e maioria no senado, todos de prontidão para defender os interesses do grande capital exportador.<strong> Caso Flávio Bolsonaro ganhe as eleições,</strong> terá facilidade para passar todas as medidas contra os trabalhadores, como o ajuste fiscal já anunciado. Não que o centrão seja algo diferente, mas dentro do mesmo partido a coisa facilita, são menos acordos e conchavos nas festinhas privadas, tudo em casa já alinhado desde antes da eleição.</p>
<p style="text-align: justify;">Caso Lula vença, será um cenário parecido com a vitória da presidenta Dilma em 2014. A classe dominante com pressa e pressionando o governo para implementar medidas de ajuste fiscal, reforma da previdência, fim do aumento real do salário mínimo, contrato de trabalho por horas e o governo emparedado no congresso nacional. Do outro lado, pressionado pelos segmentos de trabalhadores que foram às ruas e às redes sociais para derrotar a extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Começamos o texto lembrando do técnico Feola, no final ele saiu vitorioso, levando a copa de 58 por 2×0 contra Rússia, pois ele tinha Didi, Nilton Santos, Belini, Vavá, Garrincha e Pelé. E nós, temos quem?</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo cheiro de revolta está no ar, a juventude cheira revolta, organiza autonomamente, mesmo que contra o 22, não tão revoltosos como na Europa <strong>[11]</strong>, mas milhões estão nas ruas. Negro Drama, é a hora de funcionar…e como bem disse mano Brown “… E de onde vem os diamante?”</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[1] </strong><a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[2] </strong><a class="urlextern" title="https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com" href="https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com</a></div>
<div class="content"><strong>[3] </strong><a class="urlextern" title="https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[4]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8" href="https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[5] </strong><a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/" href="https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/</a> &#8211; transcrição livre de fala de Gustavo Machado em Podcast não identificado e postado em seu canal.</div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[6] </strong>Publicado originalmente em <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156796/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156796/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2025/06/156796/</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[7] </strong>Observações sobre popularidade do governo e a economia <a class="urlextern" title="https://substack.com/home/post/p-215126029" href="https://substack.com/home/post/p-215126029" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://substack.com/home/post/p-215126029</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[8] </strong>A Nomad é uma fintech brasileira fundada em 2019 que permite a brasileiros abrir uma conta digital e de investimentos nos Estados Unidos diretamente pelo aplicativo Nomad Global.</div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[9] </strong><a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded" href="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[10]</strong> <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml" href="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[11] </strong><a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/</a></div>
</div>
</div>
<div></div>
<div style="text-align: center;"><em>A pedido dos autores, as imagens que ilustram o artigo foram mantidas como no arquivo original</em></div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/10/160208/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>5</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
