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	<title>Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Hora de “desbigtechtizar” a vida [3]</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Oct 2026 15:30:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[Em uma era onde qualquer pessoa com um smartphone pode ser um emissor de conteúdo, as redações tradicionais e as iniciativas independentes de checagem atuam como um remédio social. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana*</h3>
<p style="text-align: justify;">Ferramentas digitais são práticas, rápidas, e nos ajudam em diversas tarefas, no entanto, há momentos que precisamos parar e fazer grandes reflexões sobre assuntos que deveriam estar pacificados. Desde os primórdios da civilização humana, a busca e a preservação da verdade têm ocupado um lugar central e insubstituível no desenvolvimento moral, ético e social das mais diversas culturas e tradições religiosas ao redor do globo. A verdade nunca foi tratada pelas sociedades ancestrais apenas como um mero conceito epistemológico ou uma simples correspondência entre o discurso e a realidade factual: ela sempre foi erguida como o alicerce espiritual e comunitário que permite a coexistência pacífica e a confiança mútua.</p>
<p style="text-align: justify;">Em todas essas matrizes culturais, independentemente de suas diferenças teológicas e geográficas, podemos observar um consenso comum: a mentira corrompe a alma do indivíduo e desintegra o tecido da sociedade. A verdade, portanto, é a argamassa invisível que sustenta a humanidade. No entanto, a história moderna nos mostrou, de forma trágica e devastadora, como a subversão desse princípio ancestral pode levar a humanidade aos seus capítulos mais sombrios. Quando a verdade deixa de ser um valor moral e passa a ser tratada como um obstáculo a ser superado por projetos de poder, o terreno é pavimentado para o totalitarismo. Ninguém compreendeu e instrumentalizou essa distorção de maneira tão letal quanto Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista durante o Terceiro Reich. A ele é frequentemente atribuída a máxima maquiavélica que ecoa até os dias de hoje: &#8220;Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade&#8221;. Goebbels percebeu que as massas não são movidas por argumentos lógicos e complexos, mas por apelos emocionais, medos primais e repetição exaustiva. Ele controlava rigidamente o rádio, a imprensa, o cinema e as artes, criando um monopólio da informação onde qualquer narrativa divergente era silenciada pela violência e pela censura.</p>
<p style="text-align: justify;">Saltando das transmissões de rádio da década de 1930 para o hiperconectado século XXI, percebemos que o perigo da manipulação da informação não ficou confinado aos livros de história; ele apenas mudou de roupagem, ganhando uma escala e uma velocidade sem precedentes. Hoje, não lidamos mais com um Ministério da Propaganda centralizado, mas com um ecossistema digital caótico, fragmentado e algorítmico, onde proliferam as chamadas &#8220;<em>fake news</em>&#8221; e a difusão sistemática de desinformação nas redes sociais e plataformas de mensagens. A revolução digital e a Internet prometeram, em seus primórdios, uma democratização radical do conhecimento e, de fato deram voz a milhões que antes não a tinham. Contudo, a ausência de mediadores editoriais, de uma educação crítica, e o modelo de negócios das grandes empresas de tecnologia transformaram essa utopia em um campo minado. As redes sociais são projetadas para maximizar o engajamento do usuário, mantendo-o conectado pelo maior tempo possível para exibir anúncios direcionados. Consequentemente, os algoritmos tendem a promover organicamente teorias da conspiração, manchetes sensacionalistas e notícias fabricadas, pois elas viralizam até seis vezes mais rápido do que a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Grupos mal-intencionados, desde estelionatários em busca de cliques até agentes políticos e estatais interessados em desestabilizar democracias, exploram essa arquitetura digital. Eles utilizam exércitos de robôs (<em>bots</em>), perfis falsos, <em>deepfakes</em> (vídeos manipulados por inteligência artificial) e disparos em massa em redes como o WhatsApp para criar uma falsa percepção de consenso. As pessoas são então enclausuradas em &#8220;bolhas&#8221; ou &#8220;câmaras de eco&#8221;, onde só consomem informações que confirmam seus vieses preexistentes. O impacto disso é devastador: eleições são manipuladas, a confiança nas instituições democráticas despenca, reputações são destruídas e crises de saúde pública são agravadas, como vimos na proliferação de mentiras sobre vacinas e tratamentos sem eficácia comprovada durante a pandemia global.<br />
Diante desse cenário de guerra informacional, a importância da formação cidadã contra as <em>fake news</em> torna-se, talvez, o maior desafio educacional do nosso tempo. Particularmente, crianças e adolescentes sem a devida orientação, correm o risco de se tornarem tanto vítimas da desinformação quanto vetores de propagação, compartilhando impulsivamente mentiras que parecem divertidas, chocantes ou que validam suas identidades em formação. Podem ser criadas gerações de pessoas desinformadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa missão de separar o joio do trigo no vasto oceano de dados em que navegamos, destaca-se a importância das agências de verificação de fatos. Em uma era onde qualquer pessoa com um smartphone pode ser um emissor de conteúdo, as redações tradicionais e as iniciativas independentes de checagem atuam como um remédio social. Essas organizações não trabalham com opiniões, mas com uma metodologia rigorosa e transparente, baseada no jornalismo de dados, na consulta a fontes primárias oficiais, em laudos científicos e em registros públicos. Quando um boato viraliza, seja sobre a segurança de uma urna eletrônica, a procedência de um desastre ambiental ou uma suposta declaração polêmica de uma figura pública, as agências de verificação entram em ação para dissecar a informação. Elas reconstituem o caminho do dado, buscam a origem de imagens e vídeos usando ferramentas de busca reversa e consultam especialistas independentes. O trabalho das agências é fundamental não apenas para rotular o que é falso, verdadeiro, impreciso ou tirado de contexto, mas também para expor o modo de operação das redes de desinformação. Ao publicarem os passos de suas investigações, elas educam o público sobre como a mentira foi construída. Embora frequentemente sofram ataques orquestrados e sejam injustamente acusadas de viés político por grupos cujas narrativas falsas foram desmentidas, as agências de verificação seguem códigos de princípios internacionais rigorosos — como o da International Fact-Checking Network (IFCN) —, que exigem suprapartidarismo, justiça e transparência em suas correções.</p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, por exemplo, o Projeto Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos que reúne dezenas de veículos de comunicação brasileiros de diferentes matrizes editoriais com um único objetivo: investigar e desmentir rumores, conteúdos fabricados e táticas de manipulação que ganham tração na internet, especialmente em períodos eleitorais e crises nacionais. No entanto, confesso que alguns dos parceiros desse projeto são mídias que inspiram suspeitas de interesses econômicos contra as instituições republicanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, delegar a responsabilidade da verdade apenas às escolas e às agências de <em>fact-checking</em> é um erro estratégico: a linha de frente dessa batalha moral e cognitiva encontra-se dentro de casa. A família é o primeiro laboratório de socialização, onde a criança aprende a ler o mundo, a formar seus valores e a interpretar a realidade. Quando pais e responsáveis se omitem do debate sobre o que os jovens consomem em suas telas, eles abrem espaço para que algoritmos e influenciadores de procedência duvidosa assumam a tutoria intelectual de seus filhos. O diálogo familiar eficaz sobre <em>fake news</em> não deve ser construído na base do autoritarismo, da vigilância punitiva ou do confisco de aparelhos, pois tais atitudes costumam gerar alienação e sigilo por parte do adolescente. Ao contrário, deve-se adotar uma postura de escuta ativa e curiosidade genuína.<br />
Desse ponto, e aceitando que boa parte de nossas vidas já estão sequestradas pelas plataformas, principalmente as relações sociais, uma estratégia de redução de danos é procurar e começar a seguir agências de verificação em seus canais dentro das próprias plataformas junto à família, numa tentativa de fazer os algoritmos colocaram mais fatos checados mas nossas vidas. Sendo muito sincero, o cenário sobre a disseminação da verdade está ruim, mas podemos e devemos colaborar na formação de gerações mais vacinadas contra o fascismo e seus métodos de desinformação. Infelizmente, não parece razoável fazer sugestões de agências de verificação, assim cada pessoa ou família precisará pesquisar, discutir e escolher suas agências de verificação para seguir. Sem dúvida, atitudes assim são melhores que só adotar ferramentas digitais para fazer um trabalho que é intrinsecamente humano!</p>
<p style="text-align: justify;">Boas escolhas a todos!</p>
<p>*Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
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		<title>Mobilizações na França e na Espanha</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Oct 2026 23:11:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
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					<description><![CDATA[ATIVIDADE &#8211; LIVE* 📅 *Terça-feira, 13/10* 🕒 *Das 18h às 20h* 💻 *Online* 🔗 *Solicite o link* Você viu o que aconteceu no Estado espanhol? 👀 Uma senhora de quase 90 anos ia ser despejada e as pessoas se uniram para barrar o despejo. Dali surgiram atos, enfrentamentos com a polícia, marchas e um grande [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">ATIVIDADE &#8211; LIVE*</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f4c5.png" alt="📅" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> *Terça-feira, 13/10*<br />
<img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f552.png" alt="🕒" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> *Das 18h às 20h*<br />
<img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f4bb.png" alt="💻" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> *Online*<br />
<img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f517.png" alt="🔗" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> *Solicite o link*</p>
<p style="text-align: justify;">Você viu o que aconteceu no Estado espanhol? <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f440.png" alt="👀" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uma senhora de quase 90 anos ia ser despejada e as pessoas se uniram para barrar o despejo. Dali surgiram atos, enfrentamentos com a polícia, marchas e um grande acampamento que já dura duas semanas. Agora foi convocada uma greve geral em defesa da moradia, porque está impossível pagar aluguel com o valor dos salários.</p>
<p style="text-align: justify;">Na França, a juventude também tomou as ruas em defesa da educação, contra cortes no orçamento, salas superlotadas, falta de professores e escolas precarizadas, com mobilizações gigantescas e bastante radicalizadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/270a-1f3fe.png" alt="✊🏾" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Tudo isso tem a ver com defender o básico para a reprodução da vida: moradia, educação, custo de vida. E essas lutas têm contado com o apoio de entidades sindicais, conectando trabalho e território.</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1fae8.png" alt="🫨" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Enquanto isso, a extrema direita avança no Brasil e no mundo. Os governos de conciliação de classe, popõem a &#8220;gestão da ordem&#8221;, que nos explora e violenta. O bagulho tá louco pra todo lado, é verdade. Mas é justamente por isso que precisamos fortalecer os nossos e as nossas lutas para construir um futuro possível e transformado.</p>
<p style="text-align: justify;">*Por isso, na terça (13/10), vamos fazer um papo online com duas companheiras que participam dessas lutas.* A ideia é entender o que está rolando, trocar ideia e pensar caminhos para construir saídas e alternativas desde os de baixo, diante de tudo o que temos vivido!</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f919-1f3fe.png" alt="🤙🏾" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Participaê!<br />
<a href="https://www.instagram.com/p/DeW_Fe-AWeB/?exln=MWg0cjM3d3lnaWd6ag==" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/DeW_Fe-AWeB/?exln=MWg0cjM3d3lnaWd6ag==</a></p>
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		<title>Revolução, poder dual e a rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 10 Oct 2026 08:59:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas se formou como uma operação de contrainteligência para deter a Gestapo de Trump. Por Connor O'Callaghan]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Connor O&#8217;Callaghan</h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">1º de julho de 2026</p>
<p style="text-align: justify;">O ensaio a seguir, primeiramente circulado de mão em mão em formato de zine, examina a insurgência popular contra a Operação Metro Surge em Minnesota durante o inverno de 2026. Nele, O&#8217;Callaghan argumenta que a rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas representou uma forma embrionária de poder dual, uma instituição popular que contestava diretamente o controle estatal sobre um território urbano. Embora a caracterização do autor sobre a rede como uma “força policial paralela” seja talvez discutível, o ensaio levanta questões fundamentais para os revolucionários que passaram por esse ciclo de luta. Quando a coalizão que sustenta o controle da classe dominante sobre um território se fragmenta (como quando o MPD e o ICE entraram em conflito aberto), quando massas de pessoas comuns começam a agir fora e contra a lei como algo natural, as condições para uma ruptura revolucionária começam a se delinear. No entanto, se tais potenciais não conseguem se aprofundar e se expandir para antagonismos mais amplos, é decisivo entender os limites que os mantêm sob controle, especialmente tendo em vista a próxima crise eleitoral. Enquanto Trump desmantela sistematicamente os mecanismos pelos quais as elites historicamente administraram seus conflitos, como os revolucionários podem intervir nessas situações para garantir que produzam não apenas mais uma rodada de rebelião, mas formas de contrapoder prontas para intervir quando a ordem liberal finalmente colapsar?</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p style="text-align: justify;">A Operação Metro Surge foi a maior operação de repressão à imigração da história. Em seu auge, 3.000 agentes do DHS cercaram as Cidades Gêmeas. Janeiro estava tão saturado de agentes que era impossível sair de casa sem encontrá-los. Mais de cem mil habitantes de Minnesota organizaram uma conspiração em massa contra a operação federal. A cada semana, voluntários em um sistema de entrega de comida alimentavam milhares de famílias abrigadas em suas casas. Inquilinos com intuição do que viria e chaves de fenda instalaram novas fechaduras em prédios de apartamentos para manter fora os federais e os proprietários. <em>Strippers</em> se recusaram a dançar para agentes e os expulsaram das boates. Mães de crianças se envolveram em perseguições em alta velocidade na rodovia. Médicos faziam visitas domiciliares para fazer partos. Professores juntavam dinheiro do aluguel para seus alunos. Uma enfermeira com uma pistola chutava lanternas traseiras. Um motorista de táxi patrulhava do nascer ao pôr do sol, à procura do ICE. Jovens com balaclavas faziam dos pneus de carros alugados seus inimigos. Crianças do Movimento Indígena Americano distribuíam máscaras de gás e sopa de arroz selvagem. Avós faziam vigília em escolas de ensino fundamental. Sofás e quartos vagos se enchiam quando os endereços precisavam mudar. Imigrantes escapavam da prisão entrando em becos e cortando caminho pelas salas de estar de estranhos. Manifestantes faziam o mesmo. Em massa, as pessoas tinham a experiência de estar fora da lei, e contra ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Contravigilância, perseguições em alta velocidade, redes clandestinas, comunicações criptografadas, postos de controle, nomes de código. Quando essas coisas são normalizadas e adotadas por massas de pessoas, é um salto qualitativo para a luta insurgente. Esta é a base a partir da qual os revolucionários podem avançar.</p>
</div>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Não existe uma fórmula mecânica para a revolução, mas existem condições particulares que dão aos revolucionários uma vantagem estratégica. Essas condições não são astrológicas, são dialéticas. São forjadas a partir de árvores de decisão reais, por muitos atores trabalhando com, contra e através uns dos outros.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma dessas condições é a desagregação da coalizão governante. O establishment não é monolítico em seus interesses. Muitas vezes eles se alinham, mas muitas vezes entram em conflito e divergem. O que realmente importa para as diferentes facções da classe dominante é que elas possam mediar seus interesses concorrentes dentro de um quadro confiável. Quando isso não é mais possível, quando surgem diferenças intratáveis e diferentes facções empregam meios irregulares para conseguir o que querem, abrem-se fissuras que as forças populares podem explorar para tornar a revolução possível. A Operação Metro Surge produziu antagonismos entre o governo estadual e o federal, levando à breve desunião de suas respectivas forças armadas.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160050" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge.png" alt="" width="401" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge.png 601w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge-300x300.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge-70x70.png 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge-421x420.png 421w" sizes="(max-width: 401px) 100vw, 401px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Outro germe inicial da revolução social é a mudança de lealdade de milhares de pessoas em suas ações. Em nenhum lugar isso foi mais verdade do que nas Cidades Gêmeas, onde todos os tipos imagináveis de pessoas participaram. A resistência ao ICE tornou-se a característica definidora da vida. Enquanto a rede clandestina mencionada ajudava as pessoas a escapar do desaparecimento, a rede de resposta rápida (RRN) ascendeu como a vanguarda confrontacional do movimento local. A RRN das Cidades Gêmeas era uma maneira simples de interpelar grandes números de pessoas em papéis funcionais que desafiavam diretamente os agentes federais. Milhares de pessoas aprenderam que isso era mais eficaz do que exigir algo das autoridades. Em vez disso, exigiram isso de si mesmas. Essa descoberta é uma pré-condição essencial para a luta revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a RRN ameaçava criar era um poder dual: uma instituição popular estabelecida contra o Estado, pronta para usurpá-lo. O poder dual não é um projeto “prefigurativo” aninhado confortavelmente, mas antagonicamente, dentro da ordem vigente. É um arranjo instável de forças que sufocam agressivamente umas às outras. Ocorre quando dois quadros políticos concorrentes existem no mesmo lugar, ao mesmo tempo, e apenas um pode vencer. Tais situações ocorrem durante movimentos revolucionários, quando as forças armadas e os corpos políticos do establishment governante são substituídos por novas instituições da própria iniciativa direta do povo. A RRN era uma infraestrutura maciçamente participativa que contestava quem controlava um terreno urbano específico. Era essencialmente uma força policial paralela de caráter popular de massa.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora a RRN nunca tenha realizado todo o seu potencial, foi um projeto realmente existente que os revolucionários devem estudar cuidadosamente, a fim de orientar nossas lutas futuras. Tais formações transformam expressões refletidas de recusa em lutas propositais pelo poder. Isso lhes permite facilitar o salto além da rebelião e em direção à reorganização em massa da sociedade, que marca uma revolução.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A rede de resposta rápida</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas se formou como uma operação de contrainteligência para deter a Gestapo de Trump. Postos diários na sede do ICE registravam placas de veículos, descrições e partidas de comboios, compilando essas informações em um banco de dados público de milhares de veículos, marcados como “confirmado-ICE”, “altamente suspeito” e “não-ICE”. Essas informações não eram coletadas para o objetivo abstrato de conscientizar ou documentar atrocidades; os dados de vigilância eram instrumentos de ataque na medida em que eram operacionais. Em vez de ficar em espera, os patrulheiros usavam essas informações para rastrear agentes e confrontá-los diretamente. Ao fazer isso, a RRN se tornou a maneira mais militante e também mais popular de participação.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda a região metropolitana foi dividida em zonas de vizinhança. Cada zona operava uma chamada de patrulha diária, rigorosamente organizada, com duração de um dia inteiro. Em turnos de duas horas, despachantes remotos facilitavam a cobertura completa de suas zonas. Eles realizavam chamada, atribuíam rotas, executavam verificações de placas, registravam encontros com o ICE e transmitiam informações entre zonas. O despachante não dava ordens; os patrulheiros mantinham um alto grau de autonomia <strong>[1]</strong>. Os melhores despachantes evitavam impulsos conservadores; incentivavam o discernimento e a coragem. As chamadas soavam como rádios de policiais, só que em vez dos policiais, é uma mãe transmitindo ao despache que sua rota será ponto a ponto, no sentido oeste na Franklin, enquanto busca sua filha na escola. Então, um casal aposentado pede para verificar uma placa de um veículo suspeito que estão seguindo para o norte na Hiawatha: “dois ocupantes do sexo masculino, rostos cobertos, em um Jeep Cherokee vermelho com placas de Nebraska. Despache, podemos fazer uma verificação de placa para Bravo, Charlie, Papa, Zero…” As placas voltam positivas: ICE confirmado. Os aposentados continuam na perseguição, e um patrulheiro próximo transmite que agora está indo para o leste como reforço.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignright wp-image-160056" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-300x300.jpg" alt="" width="400" height="401" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-419x420.jpg 419w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge.jpg 599w" sizes="(max-width: 400px) 100vw, 400px" />Tendo uma conta no Signal, a RRN era notavelmente fácil de aderir. Poucas habilidades básicas estavam envolvidas, e aquelas que estavam eram ensináveis. Em temperaturas abaixo de zero, pessoas comuns realizavam tarefas históricas importantes. No seu melhor, a RRN tornava muitas operações do ICE inviáveis ao seguir os agentes antes que eles pudessem montar uma batida. Isso levava a frequentes perseguições em alta velocidade e confrontos em becos. Isso irritava tanto os agentes que eles freavam bruscamente na frente dos patrulheiros, quebravam seus vidros, cortavam os cintos de segurança e jogavam os motoristas em montes de neve.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando não estavam sendo seguidos, os agentes comprimiam o tempo de sequestro para sete minutos, na expectativa da vinda dos patrulheiros. Nos bairros mais densos da resistência, o ICE treinava para entrar e sair em apenas uma fração de seu já reduzido prazo. Em Powderhorn, os <em>respondedores rápidos</em> frequentemente chegavam em menos de dois minutos.</p>
<p style="text-align: justify;">Após dois meses, a RRN acumulou um banco de dados de placas de código aberto e abrangente, usando-o para patrulhar toda a cidade com cobertura quase constante. A infraestrutura do movimento apoiava os patrulheiros com cartões de gasolina e comida grátis. Postos de controle começaram a surgir como patrulhas a pé mais confrontacionais. A RRN fez mais do que apenas forçar a questão de quem controlava as ruas: ao orquestrar uma força popular hostil ao governo federal, ela forneceu uma resposta inequívoca.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Desagregação da classe dominante</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As formações de poder dual frequentemente conseguem ascender aproveitando-se da desintegração das ordens estabelecidas. Este foi certamente o caso da RRN das Cidades Gêmeas. Por uma breve janela de tempo, a classe dominante estava dividida. O Condado de Hennepin instruiu as cadeias a não cooperarem com a repressão à imigração. Mais de uma dúzia de promotores federais renunciaram ao escritório do Procurador dos EUA em Minnesota após o assassinato de Renée Good, deixando-o dois terços vago. Agentes federais impediram o MPD de acessar o corpo de Alex Pretti. O ICE fez perfil racial de pelo menos um policial fora de serviço, sacando armas e exigindo ver seus documentos de imigração. Conforme o caos aumentava, o Comandante da Patrulha de Fronteira Greg Bovino e o Chefe de Polícia de Minneapolis Brian O&#8217;Hara apontavam os dedos um para o outro. O prefeito Jacob Frey viralizou ao dizer ao ICE para “cair fora de Minneapolis”, enquanto o governador Tim Walz chamou a operação de “uma invasão nazista”. Trump chamou ambos de terroristas, e o Departamento de Justiça os acusou de conspiração criminosa para impedir agentes federais.</p>
<p style="text-align: justify;">É fácil reduzir essas brigas a meros espetáculos da mídia. De certa forma, elas o eram. A Casa Branca e os Democratas de Minnesota estavam ambos implorando para “baixar a temperatura”. Ainda assim, não é frequente que promotores, cadeias, políticos estaduais e federais, a polícia e o DHS estejam tão desunidos. O aspecto mais significativo desse conflito foi entre o MPD e o ICE. Desde que um de seus policiais linchou George Floyd em 2020, o departamento de polícia de Minneapolis tem buscado desesperadamente reabilitar sua imagem pública. Um mês de ICE invadindo as Cidades Gêmeas como uma campanha de <em>Call of Duty</em> desfez quase seis anos de relações públicas contrainsurgentes. O efeito foi que, por dois meses, a polícia local preferiu ficar de fora. Isso criou uma abertura crítica para que a RRN preenchesse o vazio deixado pela aplicação da lei municipal.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-160051" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-300x300.png" alt="" width="400" height="401" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-300x300.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-70x70.png 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-419x420.png 419w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge.png 598w" sizes="(max-width: 400px) 100vw, 400px" />Em janeiro, a Metro Surge tornou-se insustentável tanto para o governo estadual quanto para o federal. Na primeira semana, quando o ICE assassinou Renée Good, a rede de resposta rápida cresceu em milhares. Na semana seguinte, o ICE atirou no migrante venezuelano Julio Sosa-Celis. Manifestantes forçaram os agentes a recuar e saquearam seus veículos, roubando documentos do FBI, identidades governamentais e pelo menos duas armas de agentes do DHS. Uma greve geral importante na semana seguinte precedeu agentes da BORTAC matando Alex Pretti. Uma coletiva de imprensa mal conduzida tentando justificar sua morte com base em que Pretti estava armado gerou reação conservadora contra a Casa Branca. Os erros da administração, combinados com o crescente tamanho e militância da resistência, ameaçavam tornar a operação um atoleiro para o governo federal. Os Democratas estaduais também devem ter percebido que estavam perdendo o controle da situação. Em seu pico, estima-se que a rede de resposta rápida tivesse 80.000 participantes, em comparação com os míseros 600 policiais do MPD. Mesmo com os 3.000 agentes federais, a RRN excedia dramaticamente a presença combinada das forças de segurança. O resultado foi uma séria crise de legitimidade para o estado. O presidente do Sindicato da Polícia de Minneapolis reconheceu isso como tal, <a class="urlextern" title="https://www.reddit.com/r/altmpls/comments/1qv7bup/statement_issued_by_minneapolis_police_federation/#lightbox" href="https://www.reddit.com/r/altmpls/comments/1qv7bup/statement_issued_by_minneapolis_police_federation/#lightbox" rel="ugc nofollow">escrevendo</a> em fevereiro que:</p>
<p style="text-align: justify;">A Federação de Policiais de Minneapolis não apoia indivíduos ou grupos privados que estabeleçam postos de controle, bloqueios ou zonas de patrulha não autorizados em vias públicas. Ninguém tem autoridade legal para parar, deter, interrogar ou revistar pessoas ou veículos fora dos poderes legais do governo. Quando os policiais se movem e solicitam a remoção de bloqueios ilegais, eles não são recebidos com cooperação, mas com hostilidade aberta. O protesto pacífico é um direito constitucional. Personificar a aplicação da lei não é.</p>
<p style="text-align: justify;">Walz e Frey precisavam restaurar a ordem em Minneapolis, para não serem usurpados pelo poder popular; o DHS precisava transformar as forças de segurança locais em braços de sua agenda de imigração e reprimir a resistência. Assim, os Democratas se resignaram ao papel de parceiro júnior, em troca de uma operação de repressão à imigração menos teatral. Dois dias após o assassinato de Pretti, Walz e Trump fizeram concessões para ficar “na mesma sintonia”. Como parte do acordo, Bovino foi demitido, uma redução da operação foi planejada e os agentes foram instruídos a diminuir o gás lacrimogêneo. Em troca, Tom Homan anunciou um “nível sem precedentes de cooperação” da polícia local. Walz sugeriu que as cadeias deveriam começar a colaborar com a repressão à imigração. A polícia municipal começou a parar suspeitos de serem <em>respondedores rápidos</em> por “obstruir investigações federais”. Policiais de choque com escavadeiras destruíram postos de controle. Ambos os lados reivindicaram vitória.</p>
<p style="text-align: justify;">Reentrando em uma aliança, a classe dominante buscou esmagar a resistência antes que ela pudesse amadurecer para se tornar uma administradora legítima da cidade. Para que a RRN se tornasse um verdadeiro poder dual, ela teria que superar pelo menos três limites.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Limites da rede de resposta rápida</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, se a RRN era uma organização extremamente embrionária que poderia amadurecer para suplantar a polícia, seu potencial revolucionário era limitado por não ter uma instituição popular acompanhante para reorganizar a vida econômica e política. Embora essa segunda instituição de poder dual pudesse ter assumido várias formas, uma oportunidade perdida para que ela se desenvolvesse foi a greve de aluguéis cancelada para 1º de março.</p>
<p style="text-align: justify;">A organização de inquilinos proliferou durante toda a Metro Surge. Prédios inteiros se reuniram pela primeira vez e conversaram politicamente. Prédios já organizados redobraram seus esforços. Em janeiro, várias associações de inquilinos se uniram como um sindicato em toda a cidade. Juntos, o recém-formado Sindicato dos Inquilinos das Cidades Gêmeas <a class="urlextern" title="https://inthesetimes.com/article/ice-minnesota-rent-strike-twin-cities-labor-unions" href="https://inthesetimes.com/article/ice-minnesota-rent-strike-twin-cities-labor-unions" rel="ugc nofollow">anunciou</a> uma meta audaciosa: 10.000 inquilinos reteriam milhões de dólares dos proprietários a partir de 1º de março. Infelizmente, o sindicato não cumpriu sua cota de compromissos e <a class="urlextern" title="https://twincitiestenants.org/" href="https://twincitiestenants.org/" rel="ugc nofollow">votou contra</a> a greve.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160054" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-297x300.jpg" alt="" width="397" height="402" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-297x300.jpg 297w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-415x420.jpg 415w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge.jpg 593w" sizes="auto, (max-width: 397px) 100vw, 397px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uma autópsia completa da organização que precedeu a votação da greve é necessária, mas está além do escopo deste ensaio. Ainda assim, não vamos assumir que o resultado era inevitável. Um número muito menor de grevistas poderia ter sobrecarregado os tribunais de despejo, criando um para-choque para aqueles involuntariamente pegos no processo. Talvez o início do movimento teria gerado impulso suficiente para que milhares se juntassem até abril. Claro, trata-se de especulação. Mas o fato de que o governador imediatamente implorou aos organizadores que cancelassem a greve sugere um poder não alavancado no exato momento em que a disrupção econômica estava se tornando o próximo terreno de luta. Depois que o ICE foi forçado a se retirar das Cidades Gêmeas, a Casa Branca retaliou negando a Minnesota US$ 250 milhões em reembolsos do Medicaid. Inquilinos em greve teriam pressionado a classe política local por duas frentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Independentemente disso, mesmo que a greve ocorresse, os revolucionários teriam que imediatamente reconfigurar sua natureza. Os sindicatos são ligados por uma relação essencialmente reformista. São corpos mediadores, defendendo reformas específicas em nome dos trabalhadores perante o establishment. Os sindicatos não são um poder dual. Durante uma greve, os revolucionários que buscam um poder dual teriam que avançar para a tomada das propriedades diretamente para as pessoas que nelas vivem. Não haveria mais uma “exigência” à velha guarda da cidade; o próprio povo socializaria imediatamente sua habitação. Uma RRN em ascensão defenderia a habitação expropriada da polícia que tentasse restabelecer as velhas relações de propriedade. As duas organizações do poder dual se uniriam e, com base nisso, contestariam o regime. Isso parece um tanto fantástico. Mas há momentos que suspendem completamente o julgamento comum, em que tudo está em jogo. As revoluções emanam desses momentos e dependem de visões fantásticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso nos leva ao próximo limite: todo o movimento, e a RRN em particular, condenou-se ao se orientar em torno do slogan “FORA ICE!”<strong>[2]</strong>. O slogan em si não caracteriza o potencial revolucionário do movimento. “FORA ICE!” é indiferente quanto a se o ICE saiu porque foi forçado ou porque cumpriu sua missão. Como uma demanda, encolhe a imaginação. Mas para a RRN, “FORA ICE!” precipitou o fim prematuro de sua própria existência. Sob tal bandeira, não havia necessidade de vislumbrar a RRN <em>após</em> a ocupação. De fato, à medida que os agentes do DHS se retiravam das Cidades Gêmeas, a RRN se atrofiou.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160052" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge-189x300.jpg" alt="" width="289" height="460" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge-189x300.jpg 189w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge-264x420.jpg 264w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge.jpg 377w" sizes="auto, (max-width: 289px) 100vw, 289px" />A RRN sempre esteve vinculada a uma relação forma-função. Antes da Metro Surge, uma organização sem fins lucrativos de direitos dos imigrantes operava uma linha direta centralizada para denunciar grandes operações do ICE. Em dezembro, esse modelo era completamente inefetivo. As chamadas de patrulha de bairro descentralizadas substituíram a antiga linha direta para capturar ou impedir sequestros rápidos em nível de rua. Foi construída em resposta a uma supersaturação de agentes, otimizada para confirmação visual e fortemente dependente de conjuntos de dados precisos de contravigilância. Mas cada um desses pilares foi minado em meados de fevereiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob Homan, o ICE tentou ser menos visível. Os agentes trocaram equipamento tático por roupas civis e aumentaram o número de motoristas mulheres e latinos. Patinhos de borracha, adesivos de “mãe de cachorro” e frases de para-choques inócuas buscavam disfarçar veículos como amigáveis. Novos carregamentos de carros chegavam a cada semana, e agentes foram pegos instalando placas novas em áreas de preparação. Enquanto isso, carros alugados usados em semanas anteriores eram devolvidos à Enterprise. Visitantes dirigindo Nissans “confirmados ICE” eram parados por patrulheiros, levando a muitas discussões constrangedoras resolvidas por algum tipo de verificação de identidade. A ofuscação intencional do ICE coincidiu com a redução do número de agentes. Milhares de agentes deixaram o estado, e os que permaneceram eram mais difíceis de identificar. Tornava-se mais comum pegar um falso positivo do que interromper uma batida. Havia desconfiança beirando a paranoia. A RRN perdeu o bonde.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a RRN fez quando o ICE estava “fora”, mas não totalmente? Os revolucionários (o autor incluído) não forneceram direção clara. O movimento colidiu com o limite de seu slogan orientador: sem um motivo claro, os números diminuíram e a RRN se desintegrou.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, nada suplantará realmente a polícia enquanto se permanecer desarmado<strong>[3]</strong>. Para ser claro, o ponto não é que os patrulheiros <em>deveriam</em> estar armados; apenas que a RRN seria inibida de alcançar o pleno poder dual até que fosse capaz de contestar também o monopólio estatal da violência com uma capacidade de violência própria. Como em todos os conflitos assimétricos, a revolução será, em última instância, uma vitória política, não militar. No entanto, as armas são uma parte de fato de qualquer revolução, sejam elas disparadas contra o inimigo ou estabeleçam um <em>détente</em>. Nesse aspecto, os revolucionários americanos estão em uma posição única. Enquanto nossos camaradas em outros países precisam contrabandear armas através das fronteiras ou imprimi-las em 3D nas montanhas, milhões de americanos já possuem AR-15s. Aqueles que não têm podem comprar uma no Walmart.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas se a questão de adquirir armas é descomplicada, organizá-las é uma questão completamente diferente. Depois que Alex Pretti foi morto, um grupo desconhecido de defensores da Segunda Emenda anunciou uma “marcha armada” em Minneapolis. O grupo denunciou o DHS por executar Pretti sob o pretexto de que seu porte oculto legal representava uma ameaça iminente à aplicação da lei. Em 24 horas, a marcha foi cancelada devido à enorme suspeita pública. A reação pública teve pouco a ver com as armas; quase ninguém no movimento parecia se importar que Pretti estivesse armado. A controvérsia era que ninguém conhecia o grupo armado. Isso foi particularmente alarmante no contexto de uma organização hiperlocal em toda a cidade que atraiu dezenas de milhares de pessoas para um contato próximo. Quem eram aqueles caras? É possível que fossem pessoas honestas e bem-intencionadas; é possível que não fossem. Independentemente disso, quando o movimento popular não tinha nenhum vínculo estabelecido com eles, a suspeita de que fossem atores maliciosos foi tão forte que os forçou a marcha a ser cancelada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160057" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge-247x300.jpg" alt="" width="347" height="422" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge-247x300.jpg 247w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge-345x420.jpg 345w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge.jpg 493w" sizes="auto, (max-width: 347px) 100vw, 347px" />Com armas, a confiança em seu uso disciplinado e contido é essencial. Um alto grau de trabalho relacional será tão necessário quanto o conhecimento técnico. Se o movimento popular algum dia chegasse ao ponto de se armar, teria que emanar de dentro da própria RRN.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O espectro da guerra civil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se a RRN tivesse conseguido superar esses limites antes de ser eclipsada pela redução e disfarce dos agentes do ICE, poderia ter exacerbado os conflitos jurisdicionais entre as forças armadas do estado, criando uma situação ainda mais instável.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante toda a Metro Surge, o bloco liberal da classe dominante temia abertamente essa exata escalada. Em janeiro, <em>The Guardian</em> <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/commentisfree/2026/jan/21/ice-minnesota-trump" href="https://www.theguardian.com/commentisfree/2026/jan/21/ice-minnesota-trump" rel="ugc nofollow">publicou</a> a manchete: “Fizemos Simulações de Guerra Civil nos EUA de Alto Nível. Minnesota é Exatamente Como Elas Começam.” O artigo descreve o conflito armado entre forças estaduais e federais em uma grande cidade como um dos eventos precipitantes de uma guerra civil. Mesmo antes da publicação do artigo, Trump já havia ameaçado invocar a Lei da Insurreição. À medida que a resistência crescia, ele colocou 1.500 soldados ativos prontos para o inverno em alerta no Alasca. Policiais militares em Fort Bragg também foram preparados para possível ação. Tim Walz <a class="urlextern" title="https://www.theatlantic.com/politics/2026/01/tim-walz-fort-sumter-minneapolis-ice/685801/" href="https://www.theatlantic.com/politics/2026/01/tim-walz-fort-sumter-minneapolis-ice/685801/" rel="ugc nofollow">comparou</a> a situação a Fort Sumter, os primeiros tiros confederados da Guerra Civil (ele também alertou que John Brown “certamente não é para onde queremos ir”). Se Walz lamentava possíveis John Browns, Frey continha soldados da União. Apesar de um influxo de pedidos para que o prefeito mobilizasse o MPD contra as operações do ICE, ele não estava disposto a autorizar, <a class="urlextern" title="https://www.politico.com/news/2026/01/18/jacob-frey-minneapolis-intimidated-ice-00735659" href="https://www.politico.com/news/2026/01/18/jacob-frey-minneapolis-intimidated-ice-00735659" rel="ugc nofollow">afirmando</a> que “não podemos estar em um lugar onde duas entidades governamentais estão literalmente lutando entre si”.</p>
<p style="text-align: justify;">A tensão aguda nas Cidades Gêmeas se desenrolou em meio a ações altamente irregulares das forças armadas dos EUA. No início do ano, Trump <a class="urlextern" title="https://thehill.com/homenews/administration/5528730-trump-military-training-cities-crime-crackdown/" href="https://thehill.com/homenews/administration/5528730-trump-military-training-cities-crime-crackdown/" rel="ugc nofollow">disse</a> aos líderes militares para usar cidades americanas “perigosas” como “campos de treinamento”. Ao contrário do levante de 2020, quando seu então Secretário de Defesa se recusou à sugestão de Trump de “atirar nas pernas dos manifestantes”, agentes do DHS em Minneapolis assassinaram dois <em>respondedores rápidos</em> em plena luz do dia. Trump caracterizou ambos postumamente como terroristas, enquanto se vangloriava de conceder imunidade para agentes federais. O senador Mark Kelly, veterano da Marinha e membro do Comitê de Serviços Armados do Congresso, gravou um vídeo bizarro com cinco colegas lembrando oficiais militares de recusar ordens ilegais da Casa Branca. A mensagem ou sugere conhecimento de ordens ilegais ou as presume prováveis. Independentemente disso, prenuncia duas possibilidades que os revolucionários devem levar a sério: operações militares dos EUA contra seus próprios cidadãos, ou as forças armadas se recusando a obedecer a ordens presidenciais.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a guerra civil está nas manchetes das principais publicações, na boca de uma classe dominante combativa e na mente de milhões de pessoas, os revolucionários não devem recuar da ideia nem descartá-la como hipérbole. Precisamos engajar o debate diretamente e reformulá-lo a partir da perspectiva de um caminho popular viável. A guerra civil assusta as pessoas. Para muitos, evoca imagens de violência fratricida, morte em massa sem sentido e devastação total. Parte de nossa tarefa é transformar a ansiedade sobre uma guerra civil em convicção por uma revolução. Fazer isso é parte fundamental das nossas obrigações. Em vez de nos situarmos contra um conflito que pode ocorrer de qualquer maneira, temos que organizar um polo dentro dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Walz e Trump, obviamente, negociaram para chegar a um patamar inferior a esse cenário específico. As forças populares também não estavam organizadas o suficiente para levar essa situação a um desfecho. Ainda assim, embora tenham conseguido evitar o pior que imaginavam, tensões significativas entre a classe dominante persistem. Os revolucionários precisam rastreá-las estrategicamente e agir.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160055" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge-209x300.jpg" alt="" width="309" height="444" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge-209x300.jpg 209w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge-293x420.jpg 293w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge.jpg 418w" sizes="auto, (max-width: 309px) 100vw, 309px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A próxima eleição</strong></p>
<p style="text-align: justify;">É significativo que a classe dominante narre sua desunião por meio da guerra civil, não apenas pelo conflito dramático que evoca, mas por sua ressonância histórica com o presente. As eleições são a principal maneira pela qual a classe dominante americana compartilha seu turno de governo. Em dois séculos e meio, a única vez que a democracia burguesa americana falhou em mediar o conflito de elites foi a Guerra Civil, na qual abolicionistas e africanos escravizados em greve transformaram com sucesso uma guerra pela União em uma revolução social pela emancipação. Pela primeira vez desde então, as eleições podem não ser mais uma força estabilizadora suficiente para a coalizão governante. A janela para a revolução está se abrindo novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Trump nunca concedeu a eleição de 2020. Nos últimos dias de seu primeiro mandato, ele tentou desesperadamente manter o poder, convencendo milhões de pessoas a duvidar da integridade das eleições dos EUA. Ele entrou com mais de sessenta processos judiciais, organizou eleitores falsos e instruiu aliados a forjar contagens de votos. Como esforço de última hora, 2.000 apoiadores de Trump invadiram o Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021 para impedir a certificação. Apesar dessas tentativas sem precedentes de manter o poder, Trump falhou.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma teoria da conspiração fundamental dos negacionistas das eleições de 2020 é de que pessoas votaram ilegalmente. Por exemplo, Trump <a class="urlextern" title="https://kstp.com/kstp-news/top-news/no-truth-to-claims-trump-won-minnesota-3-times-or-even-once/" href="https://kstp.com/kstp-news/top-news/no-truth-to-claims-trump-won-minnesota-3-times-or-even-once/" rel="ugc nofollow">afirma</a> falsamente ter vencido em Minnesota em todas as suas três eleições, “se você contar os votos legais”. Cinco anos após o motim do Capitólio, ele enviou 2.000 agentes do ICE para as Cidades Gêmeas, tornando-a a maior operação de repressão à imigração já realizada. No mesmo dia em que Alex Pretti foi assassinado, a Procuradora-Geral Pam Bondi extorquiu Tim Walz, afirmando que o acesso ao cadastro eleitoral do estado seria uma pré-condição para a retirada dos agentes federais. Ao fazer isso, ela vinculou a suposta fraude somali (o pretexto para a Operação Metro Surge) às dúvidas sobre a integridade das eleições em Minnesota.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, Trump exigiu que 48 estados apresentassem seus cadastros eleitorais para “depuração” federal, na qual a administração eliminará eleitores que considerar inelegíveis. O governo federal <a class="urlextern" title="https://www.brennancenter.org/our-work/research-reports/tracker-justice-department-requests-voter-information" href="https://www.brennancenter.org/our-work/research-reports/tracker-justice-department-requests-voter-information" rel="ugc nofollow">jamais</a> fez isso antes. Algumas dezenas de estados se recusaram e estão sendo processados pelo Departamento de Justiça. Em agosto, Trump postou no Truth Social que “Os estados são meramente um &#8216;agente&#8217; do Governo Federal na contagem e tabulação dos votos. Eles devem fazer o que o Governo Federal, representado pelo Presidente dos Estados Unidos, lhes diz, PARA O BEM DO NOSSO PAÍS, para fazer.” Em fevereiro, o assessor de Trump, Steve Bannon, sugeriu que o ICE guardasse locais de votação para as eleições de meio de mandato de 2026. Em seguida, Trump assinou uma ordem executiva estabelecendo uma lista federal de eleitores elegíveis, a ser mantida pelo DHS.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160053" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge-216x300.jpg" alt="" width="316" height="440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge-216x300.jpg 216w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge-302x420.jpg 302w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge.jpg 431w" sizes="auto, (max-width: 316px) 100vw, 316px" />Essa manipulação eleitoral descarada, da qual o DHS é um executor, distingue a próxima eleição das de 2016, 2020 e 2024. Trump está desmantelando os guardrails que mal o impediram de reverter sua derrota eleitoral anterior. Pessoal do DOJ, FBI e DHS que investigaram Trump, processaram os invasores de 6 de janeiro ou confirmaram os resultados das eleições de 2020 foram substituídos. Todos as três dezenas de especialistas eleitorais da Agência de Segurança Cibernética e Infraestrutura foram demitidos. O novo Diretor de Segurança Eleitoral tentou ajudar Trump a reverter os resultados de 2020. O FBI desmantelou sua Equipe de Corrupção Pública e invadiu o escritório eleitoral do Condado de Fulton, GA, em busca de evidências de fraude eleitoral. Trump perdoou os réus de 6 de janeiro e agora está tentando criar um fundo federal para compensá-los. Ao contrário de 2020, ele está mais preparado para manter o poder se for derrotado. Ao contrário de 2016 e 2024, a eleição está perdendo qualquer aspecto remanescente de “livre e justa”. Especialmente se Trump buscasse um terceiro mandato — algo sobre o qual ele tem especulado repetidamente —, isso estaria totalmente fora dos limites da ordem e, portanto, seria um ultraje para a elite. No entanto, o establishment Democrata não tem plano; tem apenas uma fidelidade fútil às normas moribundas do liberalismo através das quais originalmente chegou ao poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Se as eleições não são mais um vetor para equilibrar o conflito de elites, podemos imaginar um cenário em que a agitação popular em torno das eleições possa evoluir para uma situação revolucionária? Devemos ser capazes disso. A recente decisão da Suprema Corte que esvaziou a Lei dos Direitos de Voto foi usada para erradicar distritos de maioria negra em todo o Sul. Milhões de eleitores negros do Sul — alguns dos quais ainda carregam as cicatrizes deixadas pelos pastores-alemães durante o Movimento pelos Direitos Civis — estão indignados. Foram as suas campanhas armadas de registro de eleitores e a sua mobilização em massa que deram origem aos grupos revolucionários das décadas de 1960 e 1970, nos quais muitos de nós buscamos inspiração. De fato, daquele período até a Guerra Civil — e remontando à primeira Revolução Americana —, o <em>sufrágio</em> é um fio condutor da tradição revolucionária americana.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora a luta anti-ICE tenha sido o movimento mais combativo do segundo mandato de Trump, os protestos “No Kings” têm sido os maiores. Cada marcha sucessiva atraiu milhões de pessoas a mais que a anterior, culminando em 8 milhões de americanos em mais de 2.000 cidades. Os revolucionários precisarão unir essas duas lutas e organizar-se dentro do “No Kings” para transformar seu horizonte de integridade eleitoral em uma força inteiramente nova pelo comunismo. Podemos até nos inspirar no movimento original “No Kings” de 250 anos atrás, que afirmou corretamente que quando um governo se torna destrutivo para seu povo, é nosso dever aboli-lo e organizar um novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Como um polo revolucionário na ordem liberal em desintegração, devemos oferecer ao movimento de massa mais do que um repertório tático combativo. A rebelião certamente será necessária, e devemos incentivá-la e participar. Mas, sem uma organização revolucionária pronta para inaugurar algo novo, os “motins eleitorais” serão apenas a face mais extrema do protesto, uma maneira mais militante de “fazer nossas vozes serem ouvidas”. Em vez disso, um poder dual, com a participação ativa de centenas de milhares, idealmente milhões, de pessoas deve estar pronto para assumir o controle onde as facções de elite em guerra falharem.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido de: </em><a class="urlextern" title="https://illwill.com/dual-power#fn1" href="https://illwill.com/dual-power#fn1" rel="ugc nofollow">https://illwill.com/dual-power#fn1</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Como a rede de resposta rápida não era uma organização, mas uma forma memética, seu caráter político mudava entre os bairros. É verdade que em algumas áreas &#8211; especialmente nos subúrbios &#8211; os despachantes davam instruções, geralmente para deixar de lado ou permanecer observando. Dessa forma, é essencial que os militantes sejam os que compõem funções como a de despachante, que são altamente influentes no caráter das interações com os agentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Apesar de suas limitações, o slogan foi, afinal, aquele sob o qual mais de 100.000 habitantes de Minnesota organizaram sua conspiração. Se esse slogan em particular era necessário para uma mobilização tão ampla, então talvez o que fosse necessário fosse a organização autoconsciente dos revolucionários para antecipar o limite do slogan e estar prontos para superá-lo com um novo princípio organizador, muito parecido com o que é sugerido em relação à greve de aluguéis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> É claro, alguns <em>respondedores rápidos</em> estavam armados. Alex Pretti é um exemplo. Mas a questão da defesa armada revolucionária vai além de uma questão de propensão individual a portar armas e requer seu uso organizado.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160067 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kazimir-malevich.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kazimir-malevich.jpgPortrait-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kazimir-malevich.jpgPortrait-355x350.jpg 355w" sizes="auto, (max-width: 70px) 100vw, 70px" /> As imagens que ilustram esse artigo são reproduções de obras de</em> Kasimir Malevitch (1879-1935).</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<h3><span class="info-icon-circle-wrapper">  </span></h3>
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		<title>Pelo menos rir</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Oct 2026 11:57:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
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					<description><![CDATA[Wendy Chartrand, famosa por pintar um retrato de Donald Trump usando merda, declarou: &#8220;se não podemos fazer nada para mudar as coisas, vamos pelo menos rir delas&#8220;. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Wendy Chartrand, famosa por pintar um retrato de Donald Trump usando merda, declarou: &#8220;<em>se não podemos fazer nada para mudar as coisas, vamos pelo menos rir delas</em>&#8220;. <strong>Passa Palavra</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>A urna e a luta de classes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Oct 2026 11:31:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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					<description><![CDATA[Em que condições a classe trabalhadora pode voltar a se organizar como classe? Por Gabriel Teles]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Gabriel Teles</h3>
<blockquote><p>Este texto surgiu originalmente como uma sequência de postagens em uma rede social. A sugestão de alguns integrantes do Passa Palavra de transformar aquelas notas em um texto deu origem à versão que segue. Preferi preservar parte da forma original, inclusive seu caráter fragmentário, em vez de reconstruir retrospectivamente o argumento como se tivesse nascido como um ensaio.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">O crescimento eleitoral da extrema direita tornou visível um processo político que vinha sendo construído havia anos. Sua expansão não começou durante a campanha. Erros de comunicação, desempenho de candidatos e circulação de vídeos nas redes podem explicar movimentos conjunturais; não explicam um processo construído ao longo de anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela foi construída durante anos, enquanto parte da esquerda se acostumava a identificar política com disputa eleitoral, administração de governos e circulação institucional. A cada eleição, mobilizam-se militantes, reorganizam-se alianças, aperfeiçoam-se estratégias de comunicação e procuram-se os segmentos do eleitorado que precisam ser conquistados. Quando as urnas fecham, grande parte dessa mobilização também termina.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema dessa temporalidade é simples: aquilo que aparece eleitoralmente em um domingo foi produzido socialmente durante anos. A urna apenas apresentou a conta.</p>
<h4 style="text-align: justify;"></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A classe trabalhadora não deixou de ser politizada</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Uma das explicações recorrentes para esse processo é a “despolitização”. A classe trabalhadora teria perdido interesse pela política, abandonado antigas referências coletivas e se tornado disponível para discursos simplistas e autoritários.</p>
<p style="text-align: justify;">“Despolitização”, porém, é uma palavra confortável porque transforma uma mudança nas formas e nos agentes da politização em ausência de política.</p>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores continuaram sendo politizados todos os dias. Essa politização continuou ocorrendo nos locais de trabalho e nas igrejas, atravessando relações familiares e redes sociais, sob a influência de empresários, organizações políticas e outros agentes. A questão relevante é que essa politização passou a ocorrer cada vez menos através de organizações constituídas pelos próprios trabalhadores em torno de seus conflitos e interesses.</p>
<p style="text-align: justify;">O chamado “vazio” nunca esteve realmente vazio. Enquanto determinadas formas de organização de classe recuavam, outras instituições, relações e agentes continuavam produzindo interpretações sobre trabalho, família, violência, mérito, Estado, autoridade e desigualdade. Por isso, talvez seja mais preciso falar em transformação das formas de politização do que simplesmente em despolitização.</p>
<h4 style="text-align: justify;"></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quando a política se torna gestão</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Esse processo possui uma história. Durante décadas, parte considerável da esquerda deslocou progressivamente o centro de sua atividade para o interior das instituições. Eleições, mandatos parlamentares, governos, ministérios e a gestão de políticas públicas passaram a absorver uma parcela crescente de suas energias, quadros e expectativas.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema não está simplesmente em ocupar essas instituições. A questão decisiva é com que grau de autonomia as organizações de classe conseguem relacionar-se com governos, partidos, parlamentos e aparelhos burocráticos, inclusive quando estes são dirigidos por forças consideradas aliadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando essa autonomia se enfraquece, ocorre uma inversão importante: são as necessidades de conservação das posições institucionais que começam a estabelecer os limites da mobilização social. A temporalidade eleitoral passa a ordenar prioridades, alianças e conflitos; reivindicações são filtradas segundo as possibilidades da gestão; mobilizações podem ser contidas para não desgastar governos aliados. Aquilo que deveria constituir uma mediação passa a organizar o horizonte da própria política.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda um problema anterior. A representação introduz uma separação entre aqueles que lutam e aqueles que passam a falar, negociar e decidir em seu nome. Quanto mais essa separação se estabiliza, mais a atividade autônoma dos trabalhadores tende a aparecer como algo que deve ser traduzido, administrado ou contido por organizações especializadas. A burocratização, nesse sentido, não decorre apenas de um afastamento posterior das organizações em relação aos trabalhadores; encontra condições para se desenvolver na própria separação entre representantes e representados.</p>
<p style="text-align: justify;">A consequência não é simplesmente uma esquerda “afastada do povo”. O processo é mais profundo: organizações que deveriam constituir fontes relativamente autônomas de poder social tornam-se dependentes dos ritmos, recursos e limites das instituições burocráticas às quais se vinculam. A capacidade de agir independentemente delas diminui justamente quando essa independência se torna necessária, seja para pressionar um governo aliado, seja para resistir a um governo adversário.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse sentido que a autonomia importa. Ela pressupõe a capacidade de manter organizações, conflitos e decisões cuja existência não dependa do calendário eleitoral, dos cargos disponíveis ou das necessidades administrativas de um governo. Isso não implica uma idealização de uma exterioridade pura em relação ao Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma força social organizada pode utilizar posições institucionais sem se reduzir a elas. Quando a relação se inverte, ministérios, gabinetes e eleições deixam de ser terrenos particulares de uma luta mais ampla e passam a definir seus limites. A política profissionaliza-se precisamente quando a capacidade autônoma de organização da classe perde densidade.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160022" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3-240x300.jpeg" alt="" width="560" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3-240x300.jpeg 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3-336x420.jpeg 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3.jpeg 432w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Enquanto isso, a vida material piorou</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação política ocorreu enquanto as condições materiais de parcelas extensas da classe trabalhadora também se modificavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Precarização, terceirização, endividamento, jornadas extensas, insegurança econômica, deterioração de serviços públicos e novas formas de controle sobre o trabalho passaram a organizar uma parte crescente da experiência cotidiana.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas condições não possuem consequências políticas automáticas. Quem está endividado não encontra dentro do boleto uma explicação para o sistema de crédito. Quem passa horas no transporte não recebe junto com a passagem uma interpretação da organização capitalista das cidades. Quem trabalha sob metas cada vez mais intensas não deduz espontaneamente das metas as determinações da exploração.</p>
<p style="text-align: justify;">As pessoas vivem imediatamente as consequências das relações sociais. Suas determinações são muito menos imediatamente visíveis. É nessa distância entre experiência e explicação que a disputa política encontra um de seus terrenos.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Organizar ressentimentos reais</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A extrema direita demonstrou capacidade para atuar nesse terreno. Ela não precisa inventar o desemprego, a dívida, a insegurança, a deterioração dos serviços ou a sensação de que a vida se tornou mais difícil. Essas experiências possuem bases materiais bastante concretas. O que ela oferece são explicações para sofrimentos verdadeiros.<br />
O responsável pode ser o imigrante, o comunista, a mulher, o professor, o STF, os impostos, uma suposta “ideologia” ou qualquer outro personagem capaz de condensar contradições cujas determinações efetivas são muito mais difíceis de identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">O inimigo pode mudar. O mecanismo permanece semelhante: experiências inicialmente dispersas recebem uma explicação comum e passam a ser organizadas politicamente.<br />
É nesse sentido que a extrema direita consegue organizar ressentimentos reais. O ressentimento não precisa ser fabricado artificialmente. Ele pode nascer de experiências concretas de deterioração da vida e ser reorganizado contra agentes que pouco ou nada têm a ver com suas causas. O ressentimento, evidentemente, não explica sozinho a expansão da extrema direita. Interesses materiais, valores, formas de sociabilidade e adesões conscientes a determinados projetos políticos também estão em jogo. Aqui, interessa tratá-lo como uma das matérias que podem ser politicamente organizadas, e não como chave geral do fenômeno.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>“O povo ficou fascista”</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, surge uma explicação ainda mais confortável: “o povo ficou fascista”. A formulação possui uma vantagem para quem a utiliza. Se o problema fundamental está numa deficiência moral ou intelectual da população, pouco resta a explicar. Basta denunciar a ignorância, o ressentimento ou a manipulação daqueles que votaram de determinada maneira.</p>
<p style="text-align: justify;">A responsabilidade pelo fenômeno retorna aos próprios indivíduos que precisam ser explicados. Isso não exige negar a existência de racismo, misoginia, autoritarismo, ou adesões efetivas a projetos de extrema direita entre trabalhadores. Também não há qualquer razão para supor que posições de classe produzam espontaneamente posições políticas radicalizadas.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão começa justamente aí: como determinadas experiências sociais são transformadas em determinadas identificações políticas?</p>
<p style="text-align: justify;">Chamar milhões de pessoas de fascistas pode expressar indignação diante de posições efetivamente autoritárias. Como explicação, entretanto, deixa intacto o problema que deveria explicar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma classe fragmentada não se constitui espontaneamente como classe</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Uma classe fragmentada no trabalho, desorganizada politicamente e submetida diariamente às formas dominantes de interpretação da sociedade não desenvolverá espontaneamente uma consciência correspondente aos seus interesses coletivos.</p>
<p style="text-align: justify;">A exploração não ensina automaticamente quem explora. A precarização tampouco produz necessariamente radicalização.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela pode produzir o contrário: medo de perder o emprego, competição entre trabalhadores, rotatividade, isolamento e redução do tempo disponível para construir relações coletivas. Pessoas submetidas a condições semelhantes podem viver essas condições durante anos sem constituí-las como experiência política comum.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma contradição particularmente importante no capitalismo contemporâneo. Empresas conseguem coordenar milhares de trabalhadores por sistemas digitais, metas, aplicativos e algoritmos. O processo produtivo pode adquirir níveis extraordinários de integração enquanto aqueles que o realizam permanecem fragmentados política e organizativamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ser reunido pelo capital no processo de trabalho e constituir-se politicamente como classe são processos distintos. A organização, portanto, não consiste simplesmente em reunir politicamente uma classe que já estaria pronta à espera de sua representação. É na própria experiência do conflito, na criação de solidariedades e na elaboração comum dos antagonismos que trabalhadores dispersos podem constituir-se como força coletiva. A classe não precisa apenas encontrar uma organização que a represente; precisa produzir formas de organização através das quais possa agir por si mesma.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A pergunta menos interessante</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Depois de uma derrota eleitoral, quase toda discussão tende a convergir para uma pergunta: como derrotar a extrema direita na próxima eleição?</p>
<p style="text-align: justify;">É uma pergunta necessária para partidos que disputam eleições. É muito menos suficiente como problema estratégico e para aqueles que pensam numa transformação radical da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Se todo o diagnóstico termina perguntando como produzir outro resultado eleitoral, continuamos examinando o fenômeno exatamente no terreno em que ele apareceu, e não naquele em que foi produzido.</p>
<p style="text-align: justify;">Evidentemente, campanhas, alianças e governos interferem nos resultados e nas próprias condições em que os trabalhadores se organizam. Isso não elimina uma diferença fundamental entre conquistar votos e constituir força social.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada disso elimina uma diferença fundamental entre conquistar votos e constituir força social.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma eleição pode ser vencida sem que se tenha alterado significativamente a capacidade autônoma de organização da classe trabalhadora. Também é possível administrar o Estado durante anos enquanto relações sociais que alimentam forças adversárias continuam sendo reproduzidas fora dele.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Outra pergunta</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Talvez a pergunta deva ser deslocada: em que condições a classe trabalhadora pode voltar a se organizar como classe?</p>
<p style="text-align: justify;">Isso recoloca no centro os locais de trabalho, os bairros, os conflitos cotidianos, as organizações próprias e as formas concretas de luta.</p>
<p style="text-align: justify;">A formulação também exige cuidado. “Voltar às bases” não pode significar simplesmente reconstruir uma imagem idealizada da organização operária do passado. A própria composição da classe mudou, assim como seus locais de trabalho, seus deslocamentos, sua estabilidade ocupacional e suas formas de sociabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda um problema na própria palavra “base”. Uma base costuma pressupor algo situado acima dela. Muitas vezes a fórmula conserva a divisão entre uma direção que produz a política e trabalhadores que precisam ser conscientizados, mobilizados ou conquistados por essa direção.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez o problema, portanto, não seja simplesmente como a esquerda pode “voltar às bases”. A própria formulação conserva aquilo que deveria ser posto em questão: de um lado, organizações que elaboram estratégias; de outro, uma base à qual é preciso retornar, organizar e conscientizar. Uma política da auto-organização começa quando essa divisão entre dirigentes e dirigidos deixa de ser tomada como natural.</p>
<p style="text-align: justify;">A organização de classe coloca então outro problema: criar condições para que aqueles que vivem os conflitos possam produzir coletivamente interpretações sobre eles, decidir suas formas de ação e construir organizações capazes de permanecer para além de uma conjuntura eleitoral.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160024" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-300x235.jpg" alt="" width="560" height="439" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-300x235.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-768x602.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-536x420.jpg 536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-640x502.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-681x534.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-511x400.jpg 511w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5.jpg 800w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Uma sociedade não é disputada apenas nas eleições</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Talvez uma das lições mais incômodas desse processo seja justamente esta: ninguém disputa uma sociedade apenas disputando eleições.</p>
<p style="text-align: justify;">Eleições condensam relações sociais que continuam existindo antes e depois delas. Uma campanha pode modificar conjunturalmente essas relações; dificilmente consegue substituí-las.</p>
<p style="text-align: justify;">Não existe, portanto, um atalho eleitoral capaz de resolver uma derrota produzida durante anos nas formas de organização, nas relações cotidianas e na capacidade de diferentes forças oferecerem interpretações para experiências reais de sofrimento social.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não torna as eleições irrelevantes. Apenas impede que confundamos o resultado eleitoral com o conjunto das relações de força que o produziram. A questão decisiva é onde se encontra a capacidade organizada de agir para além do momento eleitoral e, sobretudo, em que medida os próprios trabalhadores conseguem constituir organizações relativamente autônomas diante do Estado, dos governos, dos partidos e das burocracias que pretendem representá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">Auto-organização, nesse sentido, não é uma palavra de ordem abstrata. É o processo pelo qual experiências dispersas de exploração podem ser transformadas em experiência coletiva, produzindo formas próprias de organização e capacidade de intervenção sobre as relações que as engendram. A classe não se constitui politicamente pela simples existência de milhões de indivíduos submetidos à exploração. Ela se constitui nas lutas através das quais esses indivíduos reconhecem interesses comuns e desenvolvem capacidade coletiva de agir.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse processo que a luta de classes adquire uma existência propriamente política. Não porque todo conflito entre capital e trabalho produza imediatamente consciência ou organização, e sim porque determinadas lutas podem romper o isolamento em que a exploração é vivida, produzir solidariedades e criar organizações que sobrevivam ao conflito que lhes deu origem. A questão decisiva é a constituição de uma força social capaz de agir com continuidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A auto-organização, porém, não diz respeito apenas aos meios da luta. Há uma relação entre as formas pelas quais uma transformação é produzida e as relações sociais que podem emergir dela. Se a emancipação dos trabalhadores pressupõe que eles assumam coletivamente o controle sobre suas próprias condições de existência, essa capacidade não pode ser simplesmente delegada durante a luta para reaparecer depois de uma ruptura. As formas de organização construídas no presente já colocam, portanto, o problema de quem decide, quem executa e quem controla as decisões coletivas.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa capacidade exige autonomia. Organizações dos trabalhadores podem se relacionar com partidos, governos e instituições sem encontrar neles seu princípio de organização. Quando passam a depender de seus calendários, recursos e necessidades, a lógica se inverte: em vez de a representação institucional expressar uma força constituída na luta, é a reprodução das instituições que passa a estabelecer os limites daquilo que pode ser reivindicado, organizado e enfrentado.</p>
<p style="text-align: justify;">A disputa eleitoral desloca a capacidade política para um terreno em que a ação dos trabalhadores assume necessariamente a forma da representação: escolhe-se quem decidirá, legislará e administrará. O problema, portanto, não está apenas na importância excessiva concedida às eleições. Está na substituição recorrente da capacidade coletiva de agir pela capacidade de escolher quem agirá em seu nome. Uma vitória eleitoral pode modificar as condições em que a luta se desenvolve; não elimina essa separação.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta de classes não começa na urna e tampouco encontra nela sua forma privilegiada. Sua força reside na capacidade dos trabalhadores de constituírem relações, organizações e formas de decisão que ampliem seu poder de agir diretamente sobre as próprias condições de existência. A urna pode registrar uma relação de forças; não pode criá-la. Nenhuma urna corrige aquilo que não foi construído na luta de classes.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160026" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a-285x300.jpeg" alt="" width="100" height="105" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a-285x300.jpeg 285w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a-399x420.jpeg 399w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a.jpeg 600w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />Este artigo está ilustrado com desenhos de Roland Topor (1938-1997)</em>.</p>
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		<title>[Rio de Janeiro] Eleições 2026: Multiserv assedia vigilantes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 20:39:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Vigilantes da UERJ são amaeaçados de terem que compensar horário por demora em tempo de votação. Por Invisíveis.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><span class="x1lliihq x1plvlek xryxfnj x1n2onr6 xyejjpt x15dsfln x193iq5w xeuugli x1fj9vlw x13faqbe x1vvkbs x1s928wv xhkezso x1gmr53x x1cpjm7i x1fgarty x1943h6x x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af" dir="auto"><span class="x193iq5w xeuugli x13faqbe x1vvkbs xt0psk2 x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af x126k92a">Por Invisíveis</span></span></h3>
<p style="text-align: justify;"><span class="x1lliihq x1plvlek xryxfnj x1n2onr6 xyejjpt x15dsfln x193iq5w xeuugli x1fj9vlw x13faqbe x1vvkbs x1s928wv xhkezso x1gmr53x x1cpjm7i x1fgarty x1943h6x x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af" dir="auto"><span class="x193iq5w xeuugli x13faqbe x1vvkbs xt0psk2 x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af x126k92a">VIGILANTES DA UERJ SOFREM ASSÉDIO DA MULTSERV, SE ATRASAR NO RETORNO DA VOTAÇÃO VAI COMPENSAR HORÁRIO</span></span></p>
<p style="text-align: justify;">O Art. 14 da Constituição Federal de 1988 assegura &#8220;A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos&#8221;. O voto é, portanto, um direito a ser resguardado. A coisa muda quando você é terceirizado: junta com a perda de direitos trabalhistas, ATÉ O DIREITO AO VOTO SE ENCONTRA AMEAÇADO.</p>
<p style="text-align: justify;">Vigilantes patrimoniais que trabalham pra empresa Multiserv na UERJ relatam que estão desistindo de ir votar por causa das exigências de carga horária da empresa. Filas longas nas urnas acabam comprometendo o tempo de espera e, consequentemente, o horário de chegada no trabalho. O ATRASO IMPLICA EM PUNIÇÃO.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante lembrar: A ABSTENÇÃO no primeiro turno das ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS brasileiras registra CRESCIMENTO CONTÍNUO DESDE 2006. Na última eleição presidencial a abstenção chegou a 20,79%. Isso dá aproximadamente 32,7 MILHÕES DE BRASILEIROS QUE DEIXARAM DE COMPARECER ÀS URNAS.</p>
<p style="text-align: justify;">A abstenção deve ser analisada como um fenômeno social, não mera atitude individual. Daí perguntamos: O QUE TEM CAUSADO O AUMENTO DA ABSTENÇÃO DE VOTO? Será que OS TRABALHADORES NÃO SE INTERESSAM POR POLÍTICA OU ELES SIMPLESMENTE SÃO IMPOSSIBILITADOS DE PARTICIPAREM ATIVAMENTE?</p>
<p style="text-align: justify;">Não podemos esquecer que o assédio moral no trabalho é recorrente. Os vigilantes da UERJ já relataram a burocracia pra entregar atestados médicos. Por causa dessa dificuldade, muitos simplesmente DEIXAVAM ATÉ DE IR AO MÉDICO, INDO TRABALHAR DOENTES E COMPROMETENDO A PRÓPRIA SAÚDE.</p>
<p style="text-align: justify;">A DITADURA NO LOCAL DE TRABALHO SEGUE VIVA. SE A CONSTITUIÇÃO NÃO É SUFICIENTE PRA ASSEGURAR OS DIREITOS DOS TRABALHADORES, A SAÍDA É SE JUNTAR PRA LUTAR. INDEPENDENTE DE QUEM ESTEJA NA PRESIDÊNCIA.</p>
<p style="text-align: justify;">VIGILANTE, PATRÃO QUER VOCÊ DISTANTE DO SEU COLEGA DE TRABALHO. PORQUE ELE TEM MEDO DA UNIÃO ENTRE VOCÊS. TEU PATRÃO É UM PAISANO. VIGIE TEUS DIREITOS.</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-captioned="" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/p/DeFxQAPjhEe/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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		<title>Velha Toupeira (47)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 18:21:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
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		<title>A revolução burguesa no Brasil: formação dependente, poder agrário e modernização sem ruptura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Oct 2026 14:55:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando dizemos "burguês" e "burguesia", de que experiência histórica estamos falando? Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Florestan Fernandes, antes de ser um &#8220;nome&#8221;, teve uma trajetória social raríssima no Brasil. Nascido em São Paulo, em 22 de julho de 1920, filho de mãe imigrante portuguesa e criado em condições de pobreza, trabalhou desde criança e passou a juventude entre subempregos e instabilidade material, retomando os estudos mais tarde por meio de cursos de madureza <strong>[1]</strong> até chegar à universidade. Em 1941 ingressou na antiga FFCL da USP e, a partir de 1945, inicia carreira docente como assistente de Fernando de Azevedo, um dos organizadores da sociologia universitária paulista. Sua formação combina sociologia, etnologia e teoria social com uma disciplina de pesquisa incomum, se tornando mestre na Escola Livre de Sociologia e Política com estudo sobre os Tupinambás e doutor na USP com <em>A função social da guerra na sociedade tupinambá</em> (1951), obra que se torna referência no debate antropológico brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí em diante, Florestan organiza um programa intelectual de largo alcance que em que pensa o Brasil como formação social dependente, fundada por modernização desigual, heranças escravistas e uma ordem de classes que se constrói sem cumprir o mito liberal da cidadania universal. Nos anos 1960, consolida-se com a tese de cátedra <em>A integração do negro na sociedade de classes</em> (1964), que investiga a passagem do trabalho escravo ao trabalho livre e expõe a &#8220;integração&#8221; subordinada e seletiva, marcada por barreiras estruturais e reprodução de hierarquias. A ditadura militar interrompe sua atuação na USP; sendo aposentado compulsoriamente em 1969, passa a lecionar fora do país, entre outras experiências acadêmicas no exterior. A sociologia para Florestan funcionava como crítica das ilusões nacionais e isso está presente nas suas principais obras.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos anos 1980, ele cruza de modo direto a fronteira entre universidade e política institucional ao eleger-se deputado federal por São Paulo em 1986, como constituinte pelo PT, e é reeleito em 1990. Sua atuação parlamentar se concentrou, entre outros temas, em educação pública e direitos sociais, carregando para o Congresso uma argumentação intelectual pouco comum na cena legislativa brasileira. Não se trata de um &#8220;intelectual que virou político&#8221; por vaidade tardia, mas de alguém que entendeu que a crítica do capitalismo dependente no Brasil também passa pela disputa do Estado, ainda que essa disputa seja permanentemente contraditória.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159991 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1024x581.jpg" alt="" width="640" height="363" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1024x581.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-300x170.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-768x436.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-740x420.jpg 740w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-640x363.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-681x386.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316-1021x580.jpg 1021w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042316.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Feita essa apresentação, entra o problema que Florestan coloca logo no início da obra. Quando dizemos &#8220;burguês&#8221; e &#8220;burguesia&#8221;, de que experiência histórica estamos falando? Na tradição marxista clássica, a burguesia designa a classe historicamente vinculada à expansão da produção mercantil, centralidade do lucro, consolidação da propriedade privada moderna e reorganização do Estado segundo os critérios da reprodução ampliada do capital. O &#8220;burguês&#8221; é o sujeito social tipificado por esse novo regime de compra da força de trabalho, organização da produção sob comando, internalização da disciplina de fábrica, expansão dos mercados, disputa pelo poder político, e substituição das antigas legitimidades (sangue, tradição, corporações fechadas) por um universalismo formal (lei, contrato, cidadania abstrata), que ao mesmo tempo emancipa e subordina.</p>
<p style="text-align: justify;">O <em>Manifesto do Partido Comunista</em> apresenta o movimento histórico da burguesia como força revolucionária no interior da Europa. Ela dissolve relações tradicionais, derruba vínculos pessoais, substitui o mundo &#8220;encantado&#8221; por cálculo e equivalência, e cria um mercado mundial. A burguesia &#8220;revoluciona&#8221; por necessidade competitiva, pois o capital não sobrevive sem expandir, reconfigurar, integrar e acelerar. Leo Huberman, quando reconstitui a passagem do feudalismo ao capitalismo, ajuda a visualizar a base material desse processo mostrando o crescimento das cidades, o comércio de longa distância, a transformação de camponeses em trabalhadores &#8220;livres&#8221; pela expropriação, o nascimento de uma nova disciplina do tempo e do corpo. Daí em diante, &#8220;burguesia&#8221; não se define apenas por riqueza, mas por posição no processo de produção e relação com o Estado e o mercado mundial. O que Florestan propõe é que o Brasil não pode ser lido como fotocópia atrasada da Europa e isso ele apresenta logo nos primeiros parágrafos, principalmente quando afirma que o vocabulário europeu, quando aplicado sem mediações, se torna etnocentrismo travestido de conceito e a primeira vítima dessa transferência automática é a identificação, muito comum, entre senhor de engenho e burguês.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o objetivo é compreender o problema que Florestan Fernandes formula nas páginas iniciais de <em>A Revolução Burguesa no Brasil</em>, é inevitável trazer o olhar para uma temporalidade mais longa da história brasileira. A questão colocada por ele (saber em que condições históricas uma ordem social burguesa poderia emergir numa sociedade formada sob o regime colonial) não pode ser enfrentada se o ponto de partida da análise estiver restrito ao século XIX ou aos eventos políticos da Independência. Para compreender o problema, devemos observar o processo histórico mais amplo no qual o território americano foi incorporado à expansão econômica europeia a partir do século XVI, momento em que se estabelecem os fundamentos estruturais da formação social brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159992" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-191x300.jpg" alt="" width="391" height="615" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-191x300.jpg 191w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-651x1024.jpg 651w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-768x1208.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-977x1536.jpg 977w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-267x420.jpg 267w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-640x1007.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201-681x1071.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/10000423201.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 391px) 100vw, 391px" /> Caio Prado Jr., em uma das interpretações mais influentes da historiografia brasileira, insiste que a colonização portuguesa deve ser compreendida dentro de um movimento maior de expansão do capitalismo comercial europeu. Em <em>Formação do Brasil Contemporâneo</em>, ele formula uma hipótese que se tornaria clássica: a colonização brasileira teve como objetivo principal a organização de uma economia voltada para a produção de gêneros destinados ao mercado externo. Nas palavras do autor, a colonização portuguesa nos trópicos se orientava por um princípio bastante preciso de &#8220;produzir para o comércio europeu&#8221;. Esse &#8220;sentido da colonização&#8221; indica que a organização econômica da colônia não pode ser compreendida a partir de suas necessidades internas, mas a partir de sua inserção em um circuito mercantil que a ultrapassava.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde os primeiros séculos da colonização, a economia organizada no território colonial foi estruturada segundo um padrão produtivo relativamente estável tendo grandes unidades agrárias concentradoras de terra, mobilização de trabalho compulsório em larga escala e produção voltada para a exportação de gêneros tropicais. A plantation açucareira que se expande sobretudo no Nordeste ao longo dos séculos XVI e XVII sintetiza essa forma histórica de organização econômica. Grandes propriedades rurais, baseadas na monocultura e sustentadas pelo trabalho escravo africano, produziam açúcar destinado ao mercado europeu, integrando a colônia a um circuito mercantil internacional cuja direção se encontrava fora dela. Diversos historiadores procuraram demonstrar que essa organização econômica estava articulada ao funcionamento do sistema colonial mercantil. Ciro Flamarion Cardoso, ao estudar a dinâmica das economias coloniais americanas, enfatiza que o sistema colonial não pode ser compreendido apenas como uma estrutura administrativa de dominação política, mas como um mecanismo econômico voltado para a transferência sistemática de excedente das colônias para as metrópoles europeias. Nesse arranjo histórico, a colônia era espaço de produção de mercadorias tropicais, enquanto a metrópole e os centros mercantis europeus mantinham o controle sobre os mecanismos de circulação, financiamento e comercialização dessas mercadorias.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa organização econômica produziu no interior da colônia uma elite agrária poderosa, formada pelos grandes proprietários rurais que dominavam a produção agrícola e o controle da mão de obra escravizada <strong>[2]</strong>. O senhor de engenho tornou-se, nesse contexto, uma figura central da sociedade colonial. Sua autoridade não se limitava ao domínio econômico sobre a produção agrícola prolongando-se até a organização da vida social local, às relações de dependência que estruturavam o cotidiano da colônia e muitas vezes ao exercício de funções que, em outras formações sociais, seriam prerrogativas de instituições públicas. A casa-grande, como observou Gilberto Freyre, era centro de poder social, político e simbólico. Entretanto, a posição ocupada por esses grupos dominantes dentro da economia colonial apresentava limites. Ainda que controlassem a produção agrícola e exercessem poder social considerável no interior da colônia, os grandes proprietários rurais não dominavam os mecanismos da circulação mercantil. O comércio de exportação, o transporte marítimo, o crédito internacional e boa parte dos processos de comercialização permaneciam sob controle de agentes localizados fora da colônia. A riqueza produzida no espaço colonial era parcialmente apropriada por intermediários mercantis e financeiros vinculados ao sistema econômico europeu.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa situação histórica cria uma configuração peculiar. A sociedade colonial brasileira produziu elites agrárias extremamente poderosas no plano local, mas essas elites atuavam dentro de um sistema econômico cuja dinâmica geral não era por elas controlada. O poder do senhor de engenho era, ao mesmo tempo, imenso e limitado, imenso no interior da ordem social escravista que ele comandava diretamente, limitado quando se observava sua posição no circuito da economia mercantil internacional. Ao longo do século XVIII, algumas transformações começam a alterar parcialmente esse quadro. A descoberta de jazidas auríferas na região das Minas Gerais introduz um novo dinamismo econômico no interior da colônia. A mineração provoca o crescimento de núcleos urbanos, estimula o desenvolvimento de atividades comerciais e cria novas formas de circulação monetária. A sociedade colonial, que até então se organizava principalmente em torno da grande lavoura de exportação, passa a experimentar interações econômicas e social mais complexas. Ainda assim, essas transformações não chegam a alterar o padrão estrutural que havia se consolidado ao longo da colonização. A escravidão continua sendo a principal mobilização da força de trabalho, a grande propriedade rural permanece como eixo organizador da produção e a economia colonial segue profundamente vinculada ao comércio externo. Mesmo as regiões mineradoras, apesar de sua dinâmica interna mais intensa, continuam integradas ao sistema colonial mercantil que estrutura a relação entre metrópole e colônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se chega ao início do século XIX, o sistema colonial português enfrentava tensões crescentes. As guerras napoleônicas, a crise do antigo regime europeu e a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 introduziram alterações na organização política e econômica do império português. A abertura dos portos brasileiros às nações amigas, decretada no mesmo ano, representou uma ruptura significativa com o antigo sistema de exclusividade comercial que vinculava a colônia à metrópole. Nesse contexto mais amplo ocorre o processo que levaria à independência política do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">O rompimento formal com Portugal, proclamado em 1822, deve ser compreendido como um rearranjo político conduzido pelas elites que ocupavam posições dominantes na sociedade colonial. O novo Estado nacional surge preservando grande parte das estruturas econômicas e sociais que haviam se consolidado durante a colonização. A Independência preserva a grande propriedade agrária, conserva a escravidão como fundamento da economia e entrega à monarquia a organização do poder político. Décio Saes, ao analisar a formação do Estado burguês no Brasil, observa que a transição política ocorrida no início do século XIX não correspondeu àquilo que a tradição marxista europeia identificou como revolução burguesa clássica. Na Europa, processos revolucionários frequentemente envolveram confrontos abertos entre classes emergentes e estruturas aristocráticas do antigo regime. No caso brasileiro, a formação do Estado nacional ocorreu através de um processo no qual as elites agrárias escravistas desempenharam papel central na reorganização do poder político.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse percurso histórico fornece os elementos necessários para compreender a reflexão de Florestan Fernandes. Ao perguntar sobre as &#8220;origens da revolução burguesa no Brasil&#8221;, ele não está procurando identificar um momento específico em que uma burguesia teria surgido de repente no interior da sociedade brasileira. O problema que orienta sua investigação é compreender como uma formação social construída durante séculos sob o regime colonial escravista poderia, em determinado momento de sua trajetória histórica, comportar as condições necessárias para o desenvolvimento de uma ordem social capitalista. Para isso, é preciso considerar a longa duração dos processos históricos que moldaram a sociedade brasileira. As estruturas econômicas e sociais estabelecidas durante a colonização não desapareceram abruptamente com a independência política. Pelo contrário. Elas continuaram funcionando durante grande parte do século XIX, influenciando o desenvolvimento do capitalismo no país. A análise de Florestan procura justamente captar essa complexidade histórica, na qual modernização econômica, permanência de estruturas coloniais e reorganização das classes dominantes se entrelaçam de maneira intensa.</p>
<p style="text-align: justify;">A Independência modificou a posição política das classes dominantes estabelecidas no território brasileiro. Até 1822, esses grupos exerciam seu poder dentro de uma ordem colonial cujo centro decisório estava vinculado à Coroa portuguesa. Com a constituição do Estado nacional, as elites agrárias e comerciais ocuparam diretamente os principais espaços de comando político, administrativo e jurídico, adquirindo maior capacidade para organizar instituições, regular conflitos internos e defender seus interesses diante do mercado internacional. Essa mudança não eliminou a escravidão, a concentração fundiária ou a dependência econômica, mas alterou a escala e os instrumentos de atuação dos grupos dominantes. A partir daí, a manutenção da ordem social herdada da colônia passou a depender de um aparato estatal sediado no próprio país, controlado por frações locais interessadas em combinar autonomia política, expansão mercantil e preservação das hierarquias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-159993" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-300x237.jpg" alt="" width="450" height="355" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-300x237.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-1024x808.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-768x606.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-532x420.jpg 532w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-640x505.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344-681x538.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042344.jpg 1220w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" />Durante todo o Império (1822-1889), a economia brasileira permaneceu ancorada no trabalho escravo, especialmente nas grandes lavouras de exportação, como o café, o açúcar e o algodão. Isso significa que o novo Estado nacional nasceu e se consolidou preservando um dos pilares centrais da ordem colonial. A escravidão só foi formalmente abolida em 1888, pela Lei Áurea, um ano antes da proclamação da República. A historiografia tem insistido que esse longo intervalo revela o caráter conservador da independência brasileira que na verdade foi uma ruptura política com Portugal conduzida pelas elites agrárias, cujo interesse principal era preservar a estrutura econômica e social existente. Assim, a transição para o trabalho livre ocorreu tardiamente e sem reformas estruturais capazes de integrar a população negra recém-liberta à nova ordem social. A abolição eliminou a instituição jurídica da escravidão, mas não desmantelou os mecanismos históricos de exploração e dominação que haviam sido construídos ao longo de mais de três séculos de regime escravista.</p>
<p style="text-align: justify;">A figura do senhor de engenho tem lugar central nas interpretações clássicas da formação social brasileira. Não por acaso, dois dos mais importantes intérpretes do Brasil (Gilberto Freyre e Florestan Fernandes) dedicaram atenção especial a esse personagem histórico. No entanto, cada um o faz a partir de perspectivas analíticas distintas. Enquanto Freyre descreve o engenho como núcleo civilizatório e cultural da sociedade colonial, Florestan procura compreender a posição desse agente no sistema econômico mais amplo que organizava a colonização. O contraste entre essas duas abordagens é extremamente fecundo para compreender a natureza da dominação colonial no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Casa-Grande &amp; Senzala</em>, Gilberto Freyre apresenta o engenho como o centro organizador da vida social na colônia. A casa-grande não era apenas a residência do senhor, mas o eixo em torno do qual se estruturava um sistema social complexo onde se articulava a produção econômica, a organização familiar, a vida religiosa e o poder político local. O engenho funcionava simultaneamente como unidade produtiva, instituição doméstica e centro de autoridade patriarcal. A escravidão era o fundamento material dessa organização, mas sua expressão social era mediada por relações pessoais de mando e dependência. O patriarca rural exercia autoridade sobre a família, escravizados e trabalhadores livres que gravitavam em torno do engenho. Nesse universo social, a casa-grande tinha um papel quase institucional, sendo ao mesmo tempo tribunal, igreja, centro administrativo e símbolo da hierarquia colonial. Freyre enfatiza sobretudo a dimensão cultural e social dessa estrutura. A sociedade colonial é vista como um sistema marcado pelo patriarcalismo, centralidade da família extensa e proximidade cotidiana entre senhores e escravizados enquanto a vida doméstica, a religiosidade, os costumes alimentares, a organização da casa e do trabalho são os elementos constitutivos de uma formação social singular. A casa-grande seria o espaço em que se consolidou uma sociabilidade específica brasileira, marcada por relações pessoais intensas, hierarquias rígidas e uma ordem social profundamente desigual, mas relativamente coesa do ponto de vista cultural. A análise de Florestan Fernandes, entretanto, estuda o problema por outro plano.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto Freyre enfatiza a centralidade social e cultural da casa-grande na organização da vida colonial, Florestan evidencia os limites do poder econômico do senhor de engenho. O patriarca rural descrito por Freyre tinha autoridade local, mas essa autoridade coexistia com uma dependência em relação ao circuito mercantil internacional que estruturava a economia colonial. Em outras palavras, o poder social do senhor de engenho não se traduzia necessariamente em autonomia econômica.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159989" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-1024x793.jpg" alt="" width="540" height="418" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-1024x793.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-300x232.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-768x595.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-542x420.jpg 542w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-640x496.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312-681x528.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042312.jpg 1035w" sizes="auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa diferença mostra também dois modos distintos de interpretar a formação social brasileira. Freyre trabalha sobretudo com uma perspectiva histórico-cultural, interessada em compreender os padrões de sociabilidade, os costumes e a organização da vida cotidiana na sociedade colonial. Seu objetivo é explicar como se formou uma civilização específica nos trópicos, marcada pela convivência entre portugueses, africanos e indígenas sob o regime da grande propriedade escravista. Florestan, por sua vez, mobiliza uma abordagem sociológica orientada pela análise das classes sociais e das estruturas econômicas. Para ele, compreender a formação da sociedade brasileira é necessário situar a colônia dentro do sistema mundial de mercantilização e analisar as relações de dependência que daí derivam. Essa tensão entre poder interno e dependência externa é um dos elementos fundamentais para compreender o processo histórico que Florestan denomina de revolução burguesa no Brasil. A sociedade colonial produziu elites agrárias extremamente poderosas, mas não gerou, naquele momento, uma burguesia capaz de organizar autonomamente o desenvolvimento capitalista. A modernização econômica posterior teria de surgir a partir da transformação dessas estruturas e da reorganização das classes dominantes dentro de novas condições históricas.</p>
<p style="text-align: justify;">A inserção da economia colonial no circuito mercantil internacional acabaria por introduzir tensões nesse universo social relativamente estabilizado. Ao longo do século XIX, o crescimento da produção cafeeira, a intensificação das trocas comerciais, o desenvolvimento de atividades financeiras e a expansão das cidades começaram a produzir novos tipos de agentes econômicos e novas expectativas de mobilidade social. Aos poucos, certas práticas ligadas ao cálculo econômico, à valorização do investimento e à busca de oportunidades de enriquecimento ganharam legitimidade em setores da sociedade que anteriormente se orientavam por códigos tradicionais de honra e autoridade. Florestan identifica a difusão de um comportamento que denomina &#8220;espírito burguês&#8221;, expressão que procura captar uma mudança nas disposições práticas dos indivíduos diante da atividade econômica e da organização da vida social.</p>
<p style="text-align: justify;">A difusão dessas práticas ocorre de maneira desigual entre os diferentes setores da sociedade. A estrutura social brasileira do século XIX apresenta uma composição profundamente heterogênea, na qual convivem relações escravistas, trabalho livre emergentes, atividades comerciais em expansão e experiências iniciais de industrialização. A sociedade colonial tardia e o Império brasileiro são um espaço no qual tradições senhoriais persistem ao lado de práticas econômicas que apontam para um tipo distinto de racionalidade social. Nesse contexto, a emergência do &#8220;espírito burguês&#8221; não significa a substituição imediata da dominação tradicional, mas a introdução de novas orientações de ação que passam a coexistir com as estruturas herdadas do passado colonial.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo entre os grandes proprietários rurais, a situação se revela mais complexa do que poderia sugerir uma leitura simplificada da história econômica brasileira. Parte das elites agrárias permanece ligada ao universo simbólico do antigo regime colonial, reproduzindo padrões de comportamento associados ao prestígio aristocrático e à autoridade patriarcal. Outros setores, contudo, incorporaram práticas econômicas mais próximas da lógica capitalista, investindo em infraestrutura, ampliando circuitos de comercialização e explorando novas oportunidades de acumulação abertas pela expansão do mercado mundial. O fazendeiro de café do século XIX frequentemente está situada entre dois mundos históricos distintos: herdeiro da tradição senhorial escravista e, ao mesmo tempo, participante de um processo mais amplo de reorganização econômica que gradualmente altera o funcionamento da sociedade brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;">A transformação que Florestan procura apreender não se reduz, portanto, à simples formação de uma burguesia nos moldes clássicos da experiência europeia. O que se observa é uma reconfiguração progressiva das práticas sociais e das estruturas econômicas que possibilita a expansão das relações capitalistas sem que as formas tradicionais de dominação desapareçam por completo. O capitalismo brasileiro se desenvolve por meio de uma reorganização das elites existentes, que adaptam suas estratégias de poder às novas condições históricas abertas pela expansão do mercado e consolidação do Estado nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa característica peculiar da formação brasileira foi posteriormente explorada por Francisco de Oliveira ao propor a conhecida metáfora do &#8220;ornitorrinco&#8221;, imagem utilizada para descrever uma sociedade na qual diferentes temporalidades históricas coexistem de maneira aparentemente incongruente. Assim como o animal que combina traços de espécies distintas, a sociedade brasileira apresenta uma articulação singular entre processos de modernização econômica e a persistência de estruturas sociais que remontam à ordem colonial.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159994" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-561x1024.jpg" alt="" width="361" height="659" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-561x1024.jpg 561w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-164x300.jpg 164w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-768x1402.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-841x1536.jpg 841w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-230x420.jpg 230w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-640x1168.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345-681x1243.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042345.jpg 889w" sizes="auto, (max-width: 361px) 100vw, 361px" />Logo no início do segundo capítulo, Florestan introduz uma formulação que, à primeira vista, parece estranha ao afirmar que &#8220;a Independência, não obstante a forma em que se desenrolou, foi a primeira grande revolução social que se operou no Brasil&#8221;. A frase exige de nós atenção porque o autor reconhece que o processo de separação de Portugal ocorreu sob direção das elites coloniais e preservou grande parte das estruturas econômicas e sociais herdadas do período anterior, não se tratando, portanto, de uma revolução política comparável às grandes revoluções burguesas europeias. Ainda assim, Florestan insiste na palavra &#8220;revolução&#8221; porque a questão central para ele é uma transformação de outra ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A ruptura com a metrópole alterou profundamente o quadro institucional dentro do qual a sociedade brasileira se organizava e a partir daquele momento, as classes dominantes instaladas na antiga colônia passaram a exercer diretamente funções de direção política que antes pertenciam ao aparato imperial português, abrindo-se, assim, um campo novo de disputas em torno da organização do Estado, da economia e da estrutura social. A independência não dissolveu o latifúndio, nem a escravidão, tampouco a dependência externa; mudou o eixo de comando dessas estruturas o que viabilizou a inauguração de uma nova etapa histórica em que as elites locais organizam um Estado nacional que, progressivamente, se tornaria o espaço político da transformação burguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de acompanhar o raciocínio de Florestan Fernandes sobre a Independência, convém deter-se brevemente no significado da palavra &#8220;revolução&#8221;, pois ela aparece em sua formulação carregada de um peso analítico que se perde no uso corrente do termo. No vocabulário das ciências sociais, e especialmente na tradição marxista, &#8220;revolução&#8221; não designa apenas um episódio político dramático, marcado por insurreições, barricadas ou derrubadas súbitas de governos. O conceito remete a transformações mais profundas na estrutura da sociedade, isto é, na maneira como a produção está organizada, como o poder político se distribui e como as classes sociais se constituem historicamente sendo mais do que um evento pontual, ou seja, a revolução refere-se a processos históricos de reconfiguração das relações sociais fundamentais, sobretudo no que diz respeito ao modo de produção e, consequentemente, às relações de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa distinção está clara em Marx e Engels. No <em>Manifesto do Partido Comunista</em>, ao descreverem o papel histórico da burguesia, eles observam que a ascensão dessa classe implicou uma reorganização completa da produção e das relações sociais herdadas do mundo feudal. A burguesia, escrevem eles, &#8220;desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário&#8221;, não porque tenha protagonizado apenas revoltas políticas, mas porque introduziu uma dinâmica econômica e social capaz de dissolver estruturas seculares e reorganizar a sociedade em torno da produção capitalista. A revolução burguesa designa o processo histórico pelo qual as relações de produção capitalistas se tornam dominantes e reorganizam as instituições políticas, jurídicas e culturais.</p>
<p style="text-align: justify;">A literatura marxista posterior ampliou essa compreensão. Autores como Lênin, por exemplo, insistiram que revoluções podem assumir ritmos históricos bastante distintos. Em algumas circunstâncias, a transformação das estruturas sociais ocorre através de processos abruptos de ruptura política; em outras, ela se desenvolve de maneira mais lenta, mediada por compromissos entre diferentes frações das classes dominantes e por instituições aparentemente moderadas. O elemento decisivo, portanto, não reside na intensidade imediata do conflito político, mas nas mudanças estruturais que se produzem no interior da sociedade. Essa perspectiva possibilita compreender por que Florestan Fernandes utiliza a categoria de revolução ao se referir à Independência do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a Independência, o espaço político no qual as classes dominantes atuavam sofreu uma transformação. A antiga colônia deixou de integrar diretamente o sistema administrativo e político do império português, e as elites instaladas no território organizaram um Estado nacional próprio. Essa mudança institucional abriu novas possibilidades históricas para a reorganização da economia, para a redefinição das relações entre as classes sociais e para a própria formação de uma burguesia nacional. A revolução de que fala Florestan não corresponde, portanto, a uma explosão política comparável à Revolução Francesa ou às revoluções europeias do século XIX. Ela se refere a uma transformação que muda o eixo de comando da sociedade brasileira e inaugura um novo horizonte histórico. Esse processo, portanto, foi longo e paulatino e, sobretudo, contraditório.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista conceitual, portanto, &#8220;revolução&#8221; se refere a uma categoria analítica destinada a captar processos de reorganização profunda das estruturas sociais. Ao empregar o termo dessa maneira, Florestan insere a experiência brasileira dentro de um problema clássico da teoria social que é compreender como determinadas formações históricas transitam de um tipo de organização social para outro. No caso brasileiro, esse movimento se desenvolve de maneira complexa, pois a emergência de relações capitalistas ocorre em uma sociedade que carrega, por longo tempo, as marcas estruturais do regime colonial e escravista.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa perspectiva, a Independência pressupunha, lado a lado, um elemento puramente revolucionário e outro elemento especificamente conservador. O elemento revolucionário aparecia nos propósitos de despojar a ordem social, herdada da sociedade colonial, dos caracteres heteronômicos aos quais fora moldada, requisito para que ela adquirisse a elasticidade e a autonomia exigidas por uma sociedade nacional. O elemento conservador evidenciava-se nos propósitos de preservar e fortalecer, a todo custo, uma ordem social que não possuía condições materiais e morais suficientes para engendrar o padrão de autonomia necessário à construção e ao florescimento de uma nação. A coexistência de elementos tão antagônicos provinha de uma realidade inexorável, percebida e apontada mesmo pelos homens que conduziam os acontecimentos (como José Bonifácio, por exemplo). (FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil)</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-159990" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-1024x720.jpg" alt="" width="440" height="310" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-1024x720.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-300x211.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-768x540.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-597x420.jpg 597w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-640x450.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314-681x479.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1000042314.jpg 1160w" sizes="auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px" />A presença do liberalismo no Brasil do início do século XIX deve ser compreendida dentro das condições em que se realizou a transição da ordem colonial para a formação do Estado nacional. Florestan chama atenção para o fato de que o liberalismo surge como um repertório político e ideológico apropriado pelas elites coloniais no momento em que se tornava necessário reorganizar o poder após a ruptura com a metrópole portuguesa. A circulação das ideias liberais no Brasil intensifica-se no final do século XVIII e início do XIX, acompanhando as transformações que atravessavam o mundo atlântico. As revoluções americana e francesa, a crise do antigo regime europeu e a expansão do comércio internacional difundiram no espaço luso-brasileiro conceitos como liberdade civil, representação política, direitos individuais e soberania nacional. No entanto, quando essas ideias são apropriadas pelas elites coloniais, elas passam por um processo de adaptação às condições concretas da sociedade brasileira. O liberalismo não chega como programa de transformação radical da ordem social, mas como instrumento político capaz de legitimar a reorganização do poder no interior de uma sociedade ainda profundamente marcada pela escravidão e a grande propriedade rural.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse liberalismo desempenha funções ambíguas no processo de formação do Estado nacional. De um lado, ele oferece uma linguagem política capaz de justificar a ruptura com a ordem colonial e de fundamentar a construção de instituições próprias de um Estado independente. A defesa da soberania nacional, da autonomia política e da reorganização administrativa do país mobiliza princípios que pertencem ao repertório liberal. Assim, o liberalismo participa da legitimação ideológica da independência e da constituição de uma ordem política nacional. Ao mesmo tempo, porém, esse liberalismo permanece condicionado pelos interesses das classes dominantes da sociedade escravista. A defesa das liberdades políticas não se traduz em questionamento da estrutura agrária nem do regime de trabalho que sustentava a economia de exportação. Os mesmos grupos que se apresentam como defensores da autonomia nacional e das instituições liberais são aqueles que procuram preservar, tanto quanto possível, as bases sociais da ordem colonial. A igualdade jurídica proclamada nos discursos liberais convive com uma sociedade na qual milhões de pessoas continuam submetidas ao regime da escravidão.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa situação revela o caráter instrumental que o liberalismo tem no contexto brasileiro, funcionando simultaneamente como linguagem de modernização política e mecanismo de acomodação das estruturas sociais existentes. A adoção de instituições representativas, constituições e parlamentos não implica necessariamente a democratização efetiva da sociedade, mas antes a reorganização do poder dentro de um quadro institucional mais compatível com as exigências do novo Estado nacional. Florestan identifica nesse processo duas orientações distintas no interior das elites. Uma delas busca adaptar o liberalismo às condições da sociedade colonial, utilizando seus princípios para legitimar a autonomia política sem alterar em profundidade as relações sociais existentes. A outra tende a ver no liberalismo um instrumento para ampliar a autonomia nacional e fortalecer o desenvolvimento interno da sociedade brasileira. A disputa entre essas duas orientações acompanha todo o processo de formação do Estado independente, resultando em um liberalismo marcado pela ambiguidade; participa da construção institucional da nação, ao mesmo tempo em que preserva os fundamentos sociais herdados da colonização. A linguagem da liberdade e da cidadania se difunde no plano político, mas permanece limitada pelas estruturas econômicas e sociais que continuam organizadas em torno do latifúndio e da escravidão. Nesse sentido, o liberalismo brasileiro do século XIX expressa uma tentativa de modernização política conduzida sob condições sociais que restringiam o alcance transformador dessas ideias.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a análise chega até aqui, o que se torna mais incômodo não é apenas a inadequação das categorias importadas, mas o fato de que a dominação que se consolida no Brasil prescinde de um sujeito histórico equivalente à burguesia clássica. A ordem capitalista se afirma sem ter produzido plenamente uma classe que concentre, de modo orgânico, direção econômica, projeto político e horizonte civilizatório próprios. O que se estabiliza é um arranjo em que frações dominantes atuam articuladas a centros externos de poder, enquanto internamente administram uma sociedade com desigualdades extremas e formas persistentes de expropriação.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso tira o problema para além da cronologia ou da tipologia das revoluções e obriga a encarar que tipo de capitalismo é esse que se organiza sem universalizar suas promessas e que, ainda assim, consegue se reproduzir com notável continuidade? A partir daí, a interpretação de Florestan excede os limites da reconstrução histórica e mostra a lógica de um capitalismo que organiza sua expansão incorporando antigas hierarquias sociais, em vez de suprimi-las.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Os chamados “cursos de madureza” eram uma modalidade de educação destinada a jovens e adultos que não haviam concluído o ensino regular na idade considerada adequada. Muito difundidos no Brasil entre as décadas de 1930 e 1960, funcionavam como uma forma de certificação supletiva, o estudante preparava-se de maneira autodidata ou em cursos preparatórios e realizava exames de madureza aplicados pelo sistema educacional, que avaliavam conhecimentos equivalentes ao ensino secundário. A aprovação nesses exames permitia obter o diploma necessário para o ingresso na universidade. Foi por esse caminho que Florestan Fernandes, após uma juventude marcada pelo trabalho precoce e interrupção dos estudos formais, conseguiu regularizar sua formação escolar e prestar o vestibular para a Universidade de São Paulo no início da década de 1940. Esse percurso biográfico é frequentemente destacado na literatura sobre o autor, pois evidencia a singularidade de sua trajetória social no interior da intelectualidade brasileira do período.<br />
<strong>[2]</strong> Uma representação cinematográfica expressiva das relações de poder no universo da grande propriedade cafeeira pode ser encontrada no filme Terra É Sempre Terra (Tom Payne, 1951), produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Embora seja uma obra de ficção, o filme oferece um retrato das hierarquias sociais, dos conflitos fundiários e das formas de autoridade presentes no meio rural brasileiro do pós-guerra.</p>
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		<title>O problema</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Oct 2026 21:51:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Um professor de História e outro de Língua Portuguesa conversavam sobre literatura quando um deles perguntou: &#8220;Você já leu Os irmãos Karamázov?&#8221; O professor de Língua Portuguesa respondeu: &#8220;Eu tentei, mas desisti; são muitos nomes complicados.&#8221; Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um professor de História e outro de Língua Portuguesa conversavam sobre literatura quando um deles perguntou: &#8220;<em>Você já leu Os irmãos Karamázov?</em>&#8221; O professor de Língua Portuguesa respondeu: &#8220;<em>Eu tentei, mas desisti; são muitos nomes complicados.</em>&#8221; <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Voto Nulo e a Luta pela Autogestão Social</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 11:42:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Esse fenômeno é reflexo do profundo desinteresse popular em decidir quem será o próximo gerente das engrenagens do aparato estatal. Por O Jardineiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align: justify;">Por O Jardineiro*</h4>
<p style="text-align: justify;">A democracia burguesa, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, bem como a própria República — especialmente a brasileira —, encontram-se em ruínas. Hoje, a maior parte da população já se recusa a legitimar essa forma de participação política: seja engrossando as fileiras do abstencionismo, seja invalidando o pleito por meio do voto branco ou nulo. Esse fenômeno não ocorre por acaso; ele é, primeiramente, o reflexo do profundo desinteresse popular em decidir quem será o próximo gerente das engrenagens do aparato estatal.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde a redemocratização do Brasil, as massas recebem apenas discursos vazios, projetados para convencer e iludir, enquanto a vida material nunca muda substancialmente. Como um grande teatro onde mudam-se os atores, mas o roteiro de exploração permanece o mesmo, esse desinteresse é a consequência direta da generalização da alienação para todas as esferas das relações sociais. No fim das contas, a política institucional, canalizada pelas eleições, representa a expropriação política da nossa capacidade de ação: é a terceirização do nosso controle sobre a forma como nos inserimos na luta de classes. Consequentemente, a autonomia dos indivíduos das classes inferiores para intervir na realidade é reduzida ao mínimo, enquanto a autonomia da burguesia cresce de maneira inversamente proporcional — o que garante, na prática, a manutenção de sua dominação enquanto classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez que a capacidade de intervenção das classes inferiores, que são a maioria da população, é asfixiada, o desinteresse surge como uma forma espontânea, ainda que despolitizada, de resistência contra a democracia burguesa. É um instinto de recusa em entregar as chaves da própria prisão. Nesse cenário, cabe aos revolucionários o papel de transformar essa insatisfação latente em combustível político. É preciso levar os indivíduos das classes inferiores, especialmente o proletariado, a perceberem que a nossa autonomia relativa para intervir na luta de classes é infinitamente maior do que a ilusão da representatividade tenta nos fazer crer. Para romper com essa lógica, um dos caminhos mais potentes é a afirmação do voto nulo, aliada ao estímulo incansável da luta pela autogestão social.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159975" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og.webp" alt="" width="840" height="630" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og.webp 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-300x225.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-768x576.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-560x420.webp 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-80x60.webp 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-100x75.webp 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-180x135.webp 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-238x178.webp 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-640x480.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/banksy-obras-og-681x511.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 840px) 100vw, 840px" />Na sociedade capitalista, onde impera o controle do trabalho e a expropriação de seus frutos, a classe dominante cria mecanismos para que essa lógica se infiltre em todas as relações sociais. Eis a verdadeira face da democracia burguesa e de sua ideologia de representação: não um espaço de liberdade, mas uma válvula de escape desenhada para manter a luta de classes estritamente sob o controle da classe dominante, domesticando as classes inferiores e especialmente o proletariado.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, a nossa energia não pode ser desperdiçada na tentativa de usar as ferramentas da própria burguesia para fazer imperar interesses não-burgueses. Tentar vencer o jogo capitalista usando as regras criadas por ele é como tentar apagar um incêndio jogando gasolina. Cada gota de esforço dedicada à via institucional-burocrática apenas fortalece a manutenção da burguesia. Mais do que isso, legitima a continuidade do controle sobre as classes inferiores e prepara o terreno para uma ditadura aberta, que será acionada sem hesitação no momento em que a crise de acumulação do capital exigir a extração de mais sangue e suor do trabalhador.</p>
<p style="text-align: justify;">Contra a democracia burguesa e contra a ameaça de uma ditadura, a única força real é um proletariado unido e politizado. Continuar iludindo o mesmo sobre o poder transformador do voto, mascarando a nossa própria falta de autonomia, significa tornar-se mais uma engrenagem na dominação burguesa. A democracia, nesses moldes, ao semear o desinteresse e a despolitização, adormece as classes inferiores e cria as condições sociais perfeitas para que uma ditadura se instale sem enfrentar resistência real.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, frente a uma sociedade que nos exige assinar um cheque em branco aos nossos próprios algozes, os revolucionários devem reagir de forma contundente: afirmando o voto nulo e estimulando a luta direta pela Autogestão Social.</p>
<p style="text-align: justify;">*<em>Formado nos jardins revolucionários, aprendeu a regar as plantas e ter paciência para colher frutos do que antes era semente e gérmen.</em></p>
<p><em>As obras que ilustram esse artigo são de Bansky.</em></p>
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