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	<title>Resultados da pesquisa por &#8220;Irão&#8221; &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Ouro e o bezerro de ouro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2025 13:07:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Nunca é tarde para abandonar velhos esquemas e pensar com mais liberdade. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Primo Jonas</h3>
<p style="text-align: justify;">Rolando Astarita, professor de economia da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires, <a class="urlextern" title="https://rolandoastarita.blog/2025/11/14/la-permanencia-de-la-barbara-reliquia/" href="https://rolandoastarita.blog/2025/11/14/la-permanencia-de-la-barbara-reliquia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">recentemente publicou em seu blog um breve texto</a> onde reforça o credo ortodoxo marxista que encontra no ouro a “encarnação do valor”. Para Astarita, a “bárbara relíquia”, o ouro em sua função monetária, permanece em nossos dias por um motivo estrutural, não acessório.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns fenômenos vão ao auxílio do credo: os Bancos Centrais pelo mundo afora vêm aumentando suas reservas de ouro, em particular a China, e o precioso metal se ofereceu como um porto seguro de liquidez em todas as últimas crises econômicas. Instituições deste porte acumulariam sem motivos essa quantidade de pedra dourada em seus cofres? A segurança do ouro nas crises é um comportamento irracional atávico?</p>
<p style="text-align: justify;">Para fazer polêmica com outras interpretações sobre o fenômeno monetário, Astarita afirma que apenas os marxistas ortodoxos acreditam que o ouro “continua tendo uma função monetária no capitalismo contemporâneo”. Se limpamos um pouco o estilo polemista, podemos entender que para o professor apenas os marxistas ortodoxos continuam acreditando que o ouro <em>é a base</em> da função monetária no capitalismo contemporâneo, e nisto ele estaria correto.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158284" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg" alt="" width="1549" height="2000" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg 1549w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-793x1024.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-768x992.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-1190x1536.jpg 1190w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-640x826.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-681x879.jpg 681w" sizes="(max-width: 1549px) 100vw, 1549px" />Em épocas de Bitcoins e NFTs, seria uma displicência tomar partido em uma discussão para afirmar que algo <em>não </em>é dinheiro. Por mais que doa aos seguidores mais fiéis a Marx, muito se avançou nos estudos sobre os mercados monetários e financeiros, assim como estes têm sofrido repetidos ciclos de regulamentação e inovação. Partimos da seguinte claridade: não se trata de discutir se o ouro é dinheiro ou não no século XXI. A verdadeira discussão por trás da defesa da ortodoxia diz respeito ao fundamento do dinheiro em geral.</p>
<p style="text-align: justify;">Conservando esse estilo fiel a Marx, o professor ignora a vasta disciplina da antropologia econômica e nos convida a pensar que o dinheiro “surge das contradições da mercadoria”, como se não houvesse dinheiro antes das mercadorias, como se o dinheiro &#8211; e especialmente o ouro! &#8211; no capitalismo não fosse também uma herança do dinheiro que precedeu o atual modo de produção. O dinheiro não é uma instituição capitalista. E o ouro não é essa figura bíblica, uma mercadoria que é mais mercadoria que todas as demais, e que portanto pode redimi-las. O ouro como “encarnação de valor” é essa mercadoria especial, equivalente geral, e é a única que pode cumprir uma contradição: seu valor é determinado antes de chegar ao mercado, à diferença de todas as demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais que teoria, justificação do estado de coisas herdado. Marx observou o papel do ouro em sua época e o caracterizou corretamente como dinheiro mundial. O ouro foi útil para estabilizar o comércio exterior e impulsionar o mercado global que Marx conheceu e estudou. Algo ocorreu nessa história que o esquema monetário internacional do padrão-ouro deixou de funcionar, os países já não estavam tão de acordo sobre as regras da integração comercial internacional. A intensificação das políticas fiscais e monetárias nos âmbitos nacionais desarranjou os equilíbrios que o padrão-ouro facilitava nas finanças internacionais. Pois bem, depois veio o dólar para fixar o valor do ouro, de 1945 até 1973, depois o dólar passou a um câmbio variável em relação ao ouro, e hoje já o dólar parece ameaçado como dinheiro mundial hegemônico.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158286" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article.jpg" alt="" width="1280" height="794" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-300x186.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-1024x635.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-768x476.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-677x420.jpg 677w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-640x397.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/ZodiacHeadsGold_Snake2.article-681x422.jpg 681w" sizes="(max-width: 1280px) 100vw, 1280px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Como se fosse pouco, lá por 2008 surgem as criptomoedas, ou moedas baseadas em <em>blockchain</em>, a tecnologia “cripto-contábil”, ou de <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Registro_distribuído" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Registro_distribuído" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">registro distribuído</a>, que vem sendo promovida inclusive por Bancos Centrais. A existência de um tipo de dinheiro digital “nativo”, nascido e criado por meio de uma lógica digital e não apenas replicado, está diretamente relacionada com a digitalização dos meios de pagamento. De fato, um dos grandes atrativos das criptomoedas é a facilidade e anonimidade dos seus fluxos. O dinheiro ainda será muitas coisas além de uma contradição da mercadoria, talvez ele siga existindo num mundo onde já não existirão as mercadorias. O ouro definitivamente já não cumpre o papel que tinha antes, com sua capacidade de gerar atividade econômica nas colônias, expandir o mercado internacional, financiar os mercados de valores. Hoje em dia o ouro já não cumpre muitas destas funções, ao menos não de maneira hegemônica: uma variação do dólar afeta a economia global, uma variação do ouro é uma curiosidade para investidores. Pode-se também ir ao centro de uma grande cidade cosmopolita com 0,1 grama de ouro 24k e tentar pagar o seu almoço com esse ativo que é liquidez em estado puro.</p>
<p style="text-align: justify;">Explicar o dinheiro hoje fundamentando sua natureza a partir do ouro é propor ao debate um formato bizantino, completamente alheio à experiência cotidiana da classe trabalhadora. O mais próximo que ela vê do ouro é quando tem que vender as joias da família. A digitalização é um dos fenômenos que mais transformou o dinheiro nos últimos tempos. O teletipo foi inventado em 1867, ainda durante a vida de Marx, e já então as operações bursáteis supunham um sistema de comunicação veloz. Hoje na maior parte do mundo é comum que pessoas pobres tenham acesso a meios de pagamento digitais, os celulares são ubíquos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158284" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg" alt="" width="1549" height="2000" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928.jpg 1549w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-793x1024.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-768x992.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-1190x1536.jpg 1190w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-640x826.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/2020_CKS_19638_0022_000ai_weiwei_circle_of_animals_zodiac_heads_-_ox053928-681x879.jpg 681w" sizes="(max-width: 1549px) 100vw, 1549px" />Quando o Bitcoin alcançou fama mundial e presidentes de Bancos Centrais discutiam o que fazer ante o surgimento das moedas em <em>blockchain</em>, progressistas e esquerdistas falavam da “falta de lastro”, “esquema de pirâmide”, “bolha especulativa”. Oras, as últimas duas grandes bolhas financeiras foram do mercado imobiliário e das <em>dotcom</em>, empresas inventando serviços por internet. São dois mercados com enorme influência nos rumos do capitalismo contemporâneo (bem representados por Trump e Bezos). Foram bolhas que de nenhuma maneira varreram do mapa o seu conteúdo purulento. Concentração de capital, destruição criativa. O professor Astarita pode ficar tranquilo e conservar sua poupança no caixa-forte do seu banco. Não perderemos a fé no valor de seu ouro. O que deveríamos fazer, e rápido, é deixar de adorar a Marx como um bezerro dourado. Nunca é tarde para abandonar velhos esquemas e pensar com mais liberdade.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são fotografias da obra de Ai Weiwei.</em></p>
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		<title>Mario Vargas Llosa e a huachafería peruana</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Nov 2025 04:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Jan Cenek Para Justina Há escritores que dizem escrever sobretudo para eles mesmos. Desconfio. Não é bem assim. Eles escrevem fundamentalmente para a posteridade. Pretendem que seus textos sobrevivam ao tempo, além de ultrapassar fronteiras e idiomas. Podem não confessar abertamente, talvez por modéstia ou medo se frustrarem, mas é por aí. Um escritor [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: right;">Para Justina</p>
<p style="text-align: justify;">Há escritores que dizem escrever sobretudo para eles mesmos. Desconfio. Não é bem assim. Eles escrevem fundamentalmente para a posteridade. Pretendem que seus textos sobrevivam ao tempo, além de ultrapassar fronteiras e idiomas. Podem não confessar abertamente, talvez por modéstia ou medo se frustrarem, mas é por aí. Um escritor só se aproxima de algo parecido com “escrever para si mesmo” depois que venceu o tempo, além de ter ultrapassado fronteiras e idiomas. Saber que seus próprios escritos sobreviverão é um feito alcançados por poucos. Franz Kafka, por exemplo, está entre os maiores escritores do século XX, mas morreu jovem e não percebeu o tamanho e a força da própria obra. Um contraexemplo, Carlos Drummond de Andrade teve uma vida longa, tempo suficiente para perceber o tamanho e a força da própria obra. Por isso escreveu, no fim da vida, poemas memorialísticos e eróticos, como a série <em>Boitempo</em> e o livro <em>O amor natural</em>, que são o que são por serem de Drummond. Quem se interessaria por memórias e desejos de um velho? É neste ponto que um escritor que venceu o tempo se diferencia dos demais.</p>
<p style="text-align: justify;">O romancista e ensaísta peruano Mario Vargas Llosa sabia que seus escritos haviam vencido o tempo, além de terem ultrapassado fronteiras e idiomas. Foi a impressão que tive ao ler o romance <em>Dedico a você meu silêncio</em> <strong>[1]</strong>. Conforme avançava na leitura, me vinha a sensação de que o romancista escreveu sobretudo para si mesmo, registrando memórias e confissões, se divertindo, como se fosse uma despedida. No epílogo a impressão se confirma. Vargas Llosa registrou que concluiu o rascunho do romance em 27 de abril de 2022, em Madri; que depois revisou o texto fazendo pequenas alterações; e que fez uma viagem ao norte do Peru (Chiclayo e Puerto Eten) para rever lugares que havia mencionado no texto. Um pequeno <a href="https://www.youtube.com/watch?v=qhqu4m8GGn8">documentário</a> <strong>[2]</strong> mostra a viagem do romancista pelo norte do Peru. No mesmo epílogo, Vargas Llosa afirmou que <em>Dedico a você meu silêncio</em> era seu último romance, registrou que ainda escreveria um ensaio sobre Sartre. Não sei se teve tempo para isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Dedico a você meu silêncio</em> é a história de um crítico musical – Toño Azpilcueta –apaixonado pelo Peru e, sobretudo, apaixonado pela música <em>criolla</em> peruana. Toño vive em Lima com a esposa e duas filhas, ganha a vida com o dinheiro que recebe em troca dos artigos que escreve para revistas de pouca expressão. A esposa completa a renda familiar lavando e costurando roupas. Em várias passagens Mario Vargas Llosa se confunde propositalmente com Toño Azpilcueta, como se este fosse uma possibilidade não realizada daquele. Essa confusão proposital entre o autor e o personagem deixa o texto saboroso. A tese do crítico musical <strong>[3]</strong> – que o romancista às vezes parece endossar – é: “Os cortiços de Lima foram o berço da música que, três séculos após a conquista, podia ser chamada genuinamente de peruana. E nem é preciso dizer que o orgulhoso autor destas linhas a considera a mais sublime contribuição do Peru ao mundo.” Um dia Toño Azpilcueta recebe um convite para comparecer a um sarau e conhecer um jovem violonista “fora de série” vindo de Chiclayo. Lalo Mofino <strong>[4]</strong>: “fazia suspirar, lacrimejar, subir e descer diante daquela plateia de um jeito que Toño Azpiculcueta nunca tinha ouvido antes”. Vargas Llosa usa o crítico musical (Toño) e o violinista (Lalo) para falar do Peru, de Lima, de Chiclayo, da música <em>criolla</em> e da <em>huachafería peruana</em>. Mistura os dois personagens com artistas históricos, como “<em>bardo inmortal</em>” Felipe Pinglo Alva, o violonista Óscar Avilles e a cantora e compositora Chabuca Granda. O romancista passa também por historiadores, poetas e interpretes, como a cantora Cecilia Barrazas, que é a paixão da vida do crítico Toño Azpilcueta. Também do próprio Vargas Llosa? Não posso deixar de fazer um mexerico – <em>chisme</em> – literário. A cantora Cecilia Barrazas aparece também num outro excelente romance de Vargas Llosa, <em>Travessuras da menina má</em> <strong>[5]</strong>. Seria normal – porque a arte do romance é sobretudo jogo e brincadeira – se não fosse um detalhe: a presença da cantora no romance <em>Travessuras da menina má</em> parece ser muito mais um desejo do autor do que uma necessidade do texto. Cecilia Barrazas é cantora favorita do tradutor Ricardo Somurcio. Só que o personagem viveu a maior parte da vida na Europa, quase sem contato com o Peru, como podia ser fã de Barrazas? Fica ainda mais estranha a aparição da cantora no romance se lembrarmos que a história se passa num tempo em que não havia internet e a intensa circulação de informações que conhecemos atualmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos a <em>Dedico a você meu silêncio</em>. O apelo aos sentimentos – o fazer suspirar e lacrimejar – seria a principal força da música <em>criolla</em> nascida nos cortiços de Lima, que se espalhou posteriormente por todo o país. Toño Azpilcueta – Vargas Llosa também? – atribui valor positivo ao sentimentalismo, à <em>huachafería</em>, que o romancista não define exatamente o que é, mas que pode ser entendida como uma espécie de <em>kitsch</em> peruano, com possibilidades positivas. Para o crítico Toño Azpilcueta – Vargas Llosa também? –, todos os grandes artistas peruanos são <em>huachafos</em>. E não só, a <em>huachafería</em> – “essa grande distorção dos sentimentos e das palavras” – seria a maior contribuição cultural peruana para a humanidade <strong>[6]</strong>. A poesia de Los heraldos negros (Cesar Vallejo) seria <em>huachafa</em>. O violonista Lalo Mofino teria sido, apesar de não saber, a “mais exímia expressão” da <em>huachafería</em>. Por essa razão o crítico Toño Azpilcueta resolveu escrever a obra <em>Lalo Mofino e a revolução silenciosa</em>, que é um livro dentro do romance <em>Dedico a você meu silêncio</em>. Apenas o grande contista Julio Ramón Ribeyro teria escapado do sentimentalismo <em>huachafo</em>. Neste ponto autor e personagem se separam, trate-se de uma opinião de Vargas Llosa e não de Toño Azpilcueta.</p>
<p style="text-align: justify;">Há outras passagens do romance em que se nota a presença do romancista e ensaísta Mario Vargas Llosa. A crítica a Abimael Guzmán e ao Sendero Luminoso. O mesmo ocorre com a provocação sobre a unificação da América Latina por meio da língua espanhola <strong>[7]</strong>: “a conquista e o posterior domínio da Espanha sobre a América Latina teve ao menos um benefício: o idioma espanhol, responsável pela façanha de integrar a região em sua maneira de falar e pensar. Em que outro lugar do mundo se pode atravessar de ponta a ponta um continente entendendo o que as pessoas dizem em todos os países e sendo entendido por elas?” Na sequência, Vargas Llosa alivia a provocação <strong>[8]</strong>: “Quer dizer então que o idioma espanhol e a religião católica justificam a conquista? Não, não é fácil decidir isso, meus amigos [&#8230;] A verdade é que a Espanha construiu igrejas, criou universidades, gráficas, tribunais; conferiu à América Latina, desde o início da ocupação, a relevância de ser uma duplicata da Espanha nos territórios conquistados [&#8230;] Foram criados vice-reinados e capitanias gerais, e também, claro, a sinistra Inquisição com seus torturadores fanáticos, tal como acontecia na Espanha.”</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como na afirmação de que apenas o contista Julio Ramón Ribeyro teria escapado do sentimentalismo <em>huachafo</em>, há uma outra passagem em que o romancista Vargas Llosa <strong>[9]</strong> demarcar posição e se afasta do personagem narrador Toño Azpilcueta, é a crítica ao <em>Tahuantinsuyo</em> (o império Inca): “Aqui vai outra das minhas confissões, paciente leitor: não tenho muita simpatia pelo Tahuantinsuyo, o império dos Incas [&#8230;] há algo nesse passado que me incomoda: o sistema que os imperadores de Cusco criaram para tratar seus cidadãos mais rebeldes, aqueles que murmuravam contra as instituições do império e, mais tarde, poderiam se tornar seguidores de líderes dissidentes. Isso ficou conhecido como sistema dos <em>mitimaes</em>, o que provavelmente poderia ser traduzido do quíchua como ‘expatriados’ ou ‘desenraizados’: consistia em afastar de Cusco os descontentes de menor importância, confinando-os em regiões ou aldeias distantes onde eles, claro, se sentiam estranhos, talvez nem falassem a língua local e eram forçados a trabalhar cercados de gente que os desprezava, sabendo que aquilo nunca teria fim e que seriam enterrados ali, no meio de uma multidão desconhecida.” Um crítico musical nacionalista, como Toño Azpilcueta, não faria a mesma crítica ao império Inca; já um romancista que venceu o tempo e ultrapassou fronteiras, como Vargas Llosa, não tem porque deixar de registrar o que pensa, especialmente no seu último livro.</p>
<p style="text-align: justify;">A provocação e a crítica pouco comuns devem ampliar a desconfiança dos peruanos em relação a Vargas Llosa. Por exemplo: Justina, a peruana a quem dedico este texto, definiu Vargas Llosa com certa ironia quando comentei o romance <em>Dedico a você meu silêncio</em>. Eu citei o escritor peruano, ela afirmou perguntando: “Ah, o nosso escritor, o espanhol?” É compreensível que assim seja, ainda mais num país em que se vê uma bandeira nacional em cada quarteirão. Os peruanos não digeriram o “afastamento” do escritor em relação ao seu país de origem, como se um romancista fosse obrigado a permanecer toda a vida onde nasceu. Só que o poeta peruano César Vallejo morou muitos anos na Europa e não recebe o mesmo tipo de cobrança. É o movimento da esquerda para o liberalismo que irrita em Vargas Llosa. Em defesa do romancista, vale mencionar que ele não fez nenhuma questão de esconder o que pensava, relatou sua conversão política no livro de ensaios intitulado <em>O chamado da tribo</em> <strong>[10]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Um liberal é capaz de escrever bons romances? Certamente. Mario Vargas Llosa é um exemplo. A arte do romance é sobretudo jogo e brincadeira. Respeitadas regras elementares da verossimilhança, vale tudo. No livro fictício – <em>Lalo Mofino e a revolução silenciosa</em> – que só existe dentro do romance – <em>Dedico a você meu silêncio</em> –, o crítico Toño Azpilcueta <strong>[11]</strong> vai da costa à selva, passando pela serra, para apresentar uma nova visão da peruanidade: as valsas, as <em>marineras</em> e os <em>huainitos</em> criariam um país de iguais. A música <em>criolla</em> e a <em>huachafería</em> eram as grandes contribuições peruanas para a cultura universal. Além de imortalizar a música do violonista Lalo Mofino, Toño Azpilcueta considera que sua interpretação da peruanidade o colocaria ombro a ombro com grandes peruanos como o poeta César Vallejo, o teórico José Carlos Mariátegui e o escritor Ricardo Palma. Considerando que a arte do romance é, sobretudo, jogo e brincadeira; levando em conta que o romance <em>Dedico a você meu silêncio</em> mistura personagens reais e fictícios, há uma possibilidade que poderia ter sido explorada. O que o crítico nacionalista Toño Azpilcueta diria do romancista cosmopolita Mario Vargas Llosa? O que o peruano diria do “espanhol”? Há <em>huachafería</em> nos romances e nos ensaios de Llosa? Seria <em>huachafa</em> a passagem do romancista da esquerda para o liberalismo? Ou <em>huachafa</em> seria justamente a aproximação inicial do romancista com a esquerda? Há huachafería na relação do romancista com o Peru e vice-versa? Llosa personagem de Llosa seria uma possibilidade interessante. Cheguei a pensar que o romancista jogaria e brincaria fazendo o crítico musical Toño Azpilcueta comentar os livros de Mario Vargas Llosa. Teria sido interessante.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.bbc.com/mundo/articles/ce3qwk9n9ego">Mario Vargas Llosa</a> <strong>[12]</strong>: “o Peru é uma doença incurável, minha relação com o país é intensa, áspera, cheia da violência que caracteriza a paixão”. Os peruanos, em geral, têm restrições em relação Vargas Llosa. O romancista teria abandonado o país. Há quem diga que o melhor é ler apenas os primeiros livros de Llosa, os demais não seriam “peruanos”. Lembremos que no Peru se vê uma bandeira nacional em cada quarteirão&#8230; Detalhe. Li o romance mais famoso da “fase peruana” de Llosa: <em>Conversa na catedral</em> <strong>[13]</strong> não me atraiu tanto quanto <em>Dedico a você meu silêncio</em> e <em>Travessuras da menina má</em>. A relação dos peruanos com o romancista também é intensa, áspera e violenta. Há quem sustente que Vargas Llosa plagiou o escritor Oswaldo Reynoso. Há quem use a <a href="https://anchaesmicasa.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/01/los-rc3a9probos.pdf">defesa que Llosa fez de Celine</a> <strong>[14]</strong> para atacar o romancista peruano/“espanhol”: “o talento literário pode coexistir com a cegueira, a imbecilidade e os desvios políticos, cívicos e morais”. Mas a crítica mais dura, a que talvez doesse mais no romancista, por ser seca é direta, é a da minha amiga Justina. Para ela, Llosa odeia o Peru e os peruanos, ele não teria aceitado perder a eleição presidencial em 1990. Justina não esquece e não perdoa o romancista por ter chamado os peruanos de <em>cacasenos</em> (desprezíveis e tolos). Retruquei dizendo que pode ter sido um deslize no calor dos acontecimentos, se Llosa odiasse o Peru e os peruanos, não teria se despedido com o romance <em>Dedico a você meu silêncio</em>. Perguntei se ela havia lido o último livro do escritor. Não. Nem ia ler. Mas por quê? Vale a pena. Insisti. O poeta César Vallejo aparece. O teórico José Carlos Mariátegui aparece. O violonista Lalo Mofino existiu realmente? Em quem Llosa teria se baseado para criar os personagens? O crítico Toño Azpilcueta busca a peruanidade na costa, na serra e na selva. O romance elogia a cultura, o popular, o <em>cájon</em> e os <em>cajonista</em>. O “<em>bardo inmortal</em>” Felipe Pinglo Alva é reverenciado. O violonista Óscar Avilles também. A cantora e compositora Chabuca Granda idem. A talentosa artista Cecilia Barrazas é a grande paixão do personagem principal, talvez do próprio autor. Lima é um cartão postal, um convite para uma visita prolongada. A <em>huachafería</em> – esse <em>kitsch</em> à peruana – é um caminho para se pensar a América Latina. Eu comentava e Justina me interrompeu com sua serenidade andina: “que bom que o espanhol se despediu pedindo desculpas para o Peru!” Tive vontade de rebater. Dizer que o romance <em>Dedico a você meu silêncio</em> é uma declaração de amor ao Peru e aos peruanos, e não um pedido de desculpas. Mas seria deselegante da minha parte. Justina havia encerrado o assunto que ela não queria ter começado. Não convenci Justina a ler <em>Dedico a você meu silêncio</em> nem ela me convenceu que romancista odeia o Peru e os peruanos. Posteriormente, refletindo sobre a áspera e intensa relação de Vargas Llosa com os peruanos e destes com aquele, especialmente depois da conversa que tive com Justina, compreendi melhor a tal <em>huachafería</em> peruana: que dá origem a belas canções, mas pode provocar desencontros apaixonados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong><br />
<strong>[1]</strong> Mario Vargas Llosa. <em>Dedico a você meu silêncio</em>. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2024.<br />
<strong>[2]</strong> Un viaje personal por Le dedico mi silencio, la última novela de Mario Vargas Llosa. Disponível em: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=qhqu4m8GGn8">https://www.youtube.com/watch?v=qhqu4m8GGn8</a><br />
<strong>[3]</strong> Llosa, 2024, op. cit., p. 17-18.<br />
<strong>[4]</strong> Llosa, 2024, op. cit., p. 22.<br />
<strong>[5]</strong> Mario Vargas Llosa. <em>Travessuras da menina má</em>. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2006.<br />
<strong>[6]</strong> Llosa, 2024, op. cit. p. 98.<br />
<strong>[7]</strong> Llosa, 2024, op. cit. p 153.<br />
<strong>[8]</strong> Llosa, 2024, op. cit. p 154.<br />
<strong>[9]</strong> Llosa, 2024, op. cit. p 162.<br />
<strong>[10]</strong> Mario Vargas Llosa. <em>La llamada de la tribo</em>. Lima: Penguim, 2025.<br />
<strong>[11]</strong> Llosa, 2024, op. cit. p 169.<br />
<strong>[12]</strong> Martín Riepl. <em>La “áspera y violenta” relación de Vargas Llosa con Perú, donde pasó sus últimos e intensos meses de vida</em>. Disponível em: <a href="https://www.bbc.com/mundo/articles/ce3qwk9n9ego">https://www.bbc.com/mundo/articles/ce3qwk9n9ego</a><br />
<strong>[13]</strong> Mario Vargas Llosa. <em>Conversa na catedral</em>. São Paulo: Saraiva, 2006.<br />
<strong>[14]</strong> Mario Vargas Llosa. <em>Lós réprobos</em>. Disponível em: <a href="https://anchaesmicasa.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/01/los-rc3a9probos.pdf">https://anchaesmicasa.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/01/los-rc3a9probos.pdf</a></p>
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		<title>A Épica das Pequenas Multidões</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Oct 2025 14:01:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Qualquer pequena multidão é criação de conteúdo que parece propor aos seus espectadores a participação em algo maior.. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Primo Jonas</h3>
<p style="text-align: justify;">O que a flotilha “Global Sumud”, que recentemente navegou em direção à Gaza bloqueada pelas forças israelenses, e a invasão dos prédios governamentais em Brasília e em Washington por manifestantes de extrema-direita têm em comum?</p>
<p style="text-align: justify;">Em tempos de internet, uma tal provocação tem grande potencial de gerar indignação de ambos os lados do espectro político e, assim, lucrar fortemente com os engajamentos com muito pouca profundidade. O que importa é o impacto da indignação, marcar posição ridicularizando os oponentes, dar uma sensação de última palavra e, depois, ignorar rotundamente qualquer desenvolvimento do tema. O golpe precisa ser rápido: como num esquema “rug pull” de criptoativos, é preciso gerar um interesse abrupto no tema e depois desaparecer com os louros colhidos. O debate sério e sustentado não gera engajamento e não mobiliza. Perda de tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Façamos, então, como quem analisa as redes sociais, ignorando totalmente os conteúdos do que circula, e atentemos puramente às formas da circulação, para ver o que elas podem nos dizer.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos então à comparação do inicio do texto. Podemos identificar grupos grandes de pessoas, em boa parte desconhecidas entre si mas unidas por um propósito, uma espécie de pequena multidão mobilizada por um objetivo político. Que similaridades podemos enxergar na estrutura desses propósitos políticos? São lutas que reproduzem a passagem bíblica de Davi versus Golias, em que a obstinação e a nobreza do ato inspiram a simpatia por aqueles que aparentam ter menos chances de ganhar. Atualizado aos dias de hoje, é um pequeno grupo humano lutando contra poderosas instituições do status quo.</p>
<p style="text-align: justify;">O mais importante, no entanto, costuma estar escondido atrás daquilo que é mais evidente. A força destes eventos está em sua transmissão. Afinal, o que teriam conseguido qualquer um destes eventos se eles fossem comunicados ao mundo somente algumas semanas depois de sua ocorrência? Podemos dizer que são atos performáticos de justiça, pois são atos justos, capazes de impor ao mundo concreto os preceitos éticos e morais aos olhos de quem os realiza e de quem os apoia de maneira remota. São excelentes exemplos daquilo que chamamos “ação direta”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na tradição de luta política radical podemos resgatar, a modo de comparação, a proposta da “propaganda pela ação”. Ela buscava incitar ideais e práticas políticas por meio do exemplo de ações de indivíduos ou pequenos grupos, ações que encerram nelas mesmas uma radicalidade rupturista. Ações sem volta atrás, de compromisso e entrega plena dos indivíduos aos seus ideais. Mas algo separa os anarquistas do fim do século XIX, ou os islamistas de poucas décadas atrás e de hoje ainda, destas pequenas multidões que estamos tentando entender. O forte apelo ideológico que leva ao compromisso e entrega plena prescinde de espectadores; a justiça é para o indivíduo que a realiza aqui e agora. Já no caso de nossas pequenas multidões, as ações eram reproduzidas em tempo real para o mundo inteiro, e não apenas para que o mundo inteiro as testemunhasse, senão para transmitir ao mundo inteiro o significado, as intenções e os detalhes daquilo que estava sendo feito.</p>
<p style="text-align: justify;">Nostalgia de um tempo mais autêntico? De uma política sem espetáculo?</p>
<p style="text-align: justify;">Não, para isso não é necessário escrever textos. Este é o mundo que estamos habitando, nós que estamos vivos aqui e agora. A autogestão, que na história do século XX foi talvez o principal ato de justiça performática, ação direta transformadora e criadora de um novo mundo, foi circunscrita dentro dos limites humanos deste aqui e agora. Nos limites de uma pequena multidão qualquer, isolável do resto da humanidade. A assembleia de fábrica e os conselhos operários já não expressam a vanguarda da inteligência coletiva humana, o potencial criativo e transformador de uma nova sociedade. O aqui e o agora hoje são outros.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158024" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ai-generated-9474585_1280-2354041559.png" alt="" width="1105" height="619" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ai-generated-9474585_1280-2354041559.png 1105w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ai-generated-9474585_1280-2354041559-300x168.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ai-generated-9474585_1280-2354041559-1024x574.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ai-generated-9474585_1280-2354041559-768x430.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ai-generated-9474585_1280-2354041559-750x420.png 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ai-generated-9474585_1280-2354041559-640x359.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ai-generated-9474585_1280-2354041559-681x381.png 681w" sizes="(max-width: 1105px) 100vw, 1105px" />As redes sociais estão forjando uma lógica onde o sentido e a direção das ações políticas são disputadas incessantemente. Qualquer pequena multidão é criação de conteúdo, independentemente do que mais ela seja, uma criação de conteúdo que parece propor aos seus espectadores a participação em algo maior. O que elas propõem? Reproduzir de forma “molecular” as mesmas ações ali realizadas? Incentivar um engajamento individual em ações menores e adaptadas a cada realidade? Ambas as coisas podem ser certas, e também outras mais. Com tantas revoltas e insurreições pipocando pelo mundo, por onde percorrem os mesmos títulos (“Geração Z”), personagens (Guy Fawkes, Coringa) e bandeiras (a mais recente é a bandeira pirata do desenho animado “One Piece”), tem sido difícil apresentar um resultado claro das violências de massas nas ruas. Elas parecem ser agora uma parte comum da dinâmica do poder nos mais diferentes países, ao invés de presságio de profundas transformações sociais, como a esquerda costumava pensar no século XX.</p>
<p style="text-align: justify;">O convite à ação destas “pequenas multidões” é reprovável? Certamente não. Mas o que ressalta é como essa dinâmica das redes sociais substitui as instâncias de debate e deliberação coletivas, sobrepondo uma eterna urgência (catastrofista, humanitária, militante, moralista) da ação e, assim, arrastando outras pequenas multidões de um lado a outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Para quê ser cabeça-dura e rejeitar inteiramente este estado de coisas? Sempre existiram e sempre existirão líderes, humanos cujas características individuais e cujas circunstâncias históricas terminam por forjá-los como catalisadores de processos coletivos. Mas de onde eles vêm? Por qual mecanismo são controlados pelos demais? Neste aspecto, as redes sociais são muito menos transparentes e muito mais manipuláveis que um sindicato, que uma liderança comunitária, figuras de ciclos de luta anteriores. Hoje vemos muitos setores da extrema-esquerda guinando para uma política de redes sociais, buscando criar seus próprios influencers. O processo é tão vertiginoso que há casos em que os influencers se revelam mais poderosos que o próprio partido do qual dizem participar, invertendo a equação.</p>
<p style="text-align: justify;">A disjuntiva que ainda está posta sobre a mesa para a extrema-esquerda é entre disputar as redes ou seguir habitando a irrelevância, como se as métricas das redes sociais expressassem o poder de uma pauta. O problema que subjaz é de ordem moral, pois habitar a irrelevância política é uma tarefa árdua e sem glória, com a qual é difícil entusiasmar-se e para a qual é difícil convocar novas pessoas. Isso também explica a sedução, em nosso meio, de discursos militaristas e, no extremo, nacionalistas, como grito de desespero contra a irrelevância no plano das ideias. A alternativa branda é consumir conteúdo de indivíduos heroicos que podem, eles sim, realizar atos épicos que redimam o resto de nós, em nossa impotência diária.</p>
<p style="text-align: justify;">Central na estratégia destas ações heroico-espetaculares é a resposta das poderosas instituições do status quo: um passo em falso, um erro de cálculo pode ter como resposta a entrada em jogo de novas pequenas multidões e a transformação destas em multidões incontroláveis. Lanço a hipótese de que estamos vendo apenas os primeiros ensaios deste tipo de estratégia, e seus efeitos, à esquerda e à direita, são difíceis de prever.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As imagens que ilustram este artigo foram geradas por Inteligência Artificial</em></p>
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		<title>A ilusão da radicalidade: Jones Manoel e o teatro da revolução (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Oct 2025 11:10:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[A crítica ao modelo comunicacional é nada mais que a crítica ao modelo organizacional. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Outro momento fundamental da carreira de Jones Manoel que o permite entrar no circuito <em>premium</em> da indústria cultural foi ser autorizado por Caetano Veloso. No campo cultural descrito por Bourdieu, a consagração funciona como porteira: quem já detém capital simbólico decide quem pode circular como “crítico aceitável”. Caetano fez exatamente isso — citou Jones na Globo, disse que ele “mudou sua cabeça”, e a máquina girou: entrevistas, capas, convite permanente ao circuito da respeitabilidade. O próprio Jones relatou que, nas duas semanas após a citação na TV, recebeu convites, isto é, a crítica instantaneamente conversível em capital. É a dissidência integrada, no sentido de Debord: o sistema não combate a crítica — ele a incorpora como decoração da sua própria vitrine. Quem é o curador? Um liberal de “extrema-esquerda”, nas próprias palavras de Caetano. O rótulo é perfeito para a função que ele cumpre desde sempre: dar aparência de ousadia a posições estritamente liberais. Não por acaso, em 2006 assinou o manifesto contra as cotas raciais, exemplo típico do universalismo liberal que nega a reparação histórica sob o pretexto da &#8216;harmonia republicana&#8217;. É a velha operação: negar a materialidade do racismo institucional para conservar a pureza abstrata da lei. Anos depois, Caetano suaviza o tom (“menos liberaloide”), flerta com leituras antiliberais, mas preserva o centro liberal: defende liberdade de expressão como fim, aposta na via institucional e, quando muito, “revisa” ideias sem romper com o teto burguês. No vocabulário de Adorno e Horkheimer, a indústria cultural neutraliza o negativo incorporando-o como estilo; no de Bourdieu, converte prestígio em moeda política; no de Debord, transforma antagonismo em espetáculo.</p>
<p style="text-align: justify;">A benção de Caetano, portanto, não prova a radicalidade de Jones; prova a capacidade do aparato liberal de selecionar e domesticar vozes com léxico marxista que não atravessam a forma-mercado. O selo Caetano é a garantia de que a crítica virá higienizada: falas duras, embalagens palatáveis, nenhum risco sistêmico. Esse é o ponto que precisa entrar no texto: a escalada de Jones não decorre de ruptura com a ordem, mas da sua perfeita compatibilidade com o circuito de legitimação. O resultado é pedagógico: sob a curadoria do liberalismo artístico, a rebeldia vira produto e a teoria vira carreira; a luta de classes vira conteúdo; e a esquerda, satisfeita com seus medalhões, aplaude o crítico domesticado que confirma o jogo. É trovão cenográfico: muito som, zero abalo estrutural. O elo entre esses dois momentos é justamente a lógica de legitimação que atravessa tanto a indústria cultural quanto o campo político: se Caetano funciona como curador da rebeldia domesticada no plano artístico, o modelo comunicacional da esquerda cumpre papel análogo no plano organizacional. Em ambos os casos, a radicalidade aparente é filtrada, higienizada e devolvida ao público como espetáculo seguro, seja em forma de música, seja em forma de conteúdo político. A compatibilidade entre Jones e esse circuito revela que não se trata de ruptura, mas de continuidade: a crítica se transforma em performance dentro de um aparato que tem por horizonte não a emancipação, mas a manutenção das regras do jogo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157755" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/Senjkin-scaled-1.jpg" alt="" width="1417" height="1417" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/Senjkin-scaled-1.jpg 1417w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/Senjkin-scaled-1-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/Senjkin-scaled-1-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/Senjkin-scaled-1-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/Senjkin-scaled-1-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/Senjkin-scaled-1-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/Senjkin-scaled-1-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/Senjkin-scaled-1-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1417px) 100vw, 1417px" />A crítica ao modelo comunicacional é nada mais que a crítica ao modelo organizacional. Tal como vem sendo regida pelo conjunto das esquerdas, a comunicação se reduz à propaganda institucional com o claro objetivo de ganhos eleitorais. A insistência dos setores ligados à classe trabalhadora em disputar os aparatos institucionais, mesmo depois de tantas experiências históricas que já demonstraram o desgaste dessa via, tem reforçado formas de organização cada vez mais distantes de uma verdadeira autonomia diante do desafio central: superar a exploração do trabalho. A teoria da comunicação popular foi abandonada para privilegiar a relação instrumentalizada de uma comunicação que diz reverberar o interesse popular sem a sua participação na construção dessas redes. A ideia de popular se confunde com audiência com uma instrução rudimentar, passiva e sedenta por orientação, haja vista o seu vazio existencial e organizacional. Esse hiato vem sendo ocupado por uma burocracia comunicacional. Principalmente jovens, muitos de classe média, carentes não só de identidade, mas de reflexões e um pensamento histórico sistemático demandam de figuras como Jones uma orientação capaz de satisfazer seus hiatos, reproduzindo uma dinâmica de torcidas nas redes sociais. Quando presentes em realidade concreta, esses setores são barulhentos, mas passivos diante do desafio concreto das contradições que os aguardam.</p>
<p style="text-align: justify;">O modelo comunicacional no campo das esquerdas reflete, portanto, o modelo organizacional pautado em figuras midiáticas que também exercem funções burocráticas em partidos, sindicatos ou repartições do Estado, seja em Câmaras Municipais ou no interior do núcleo duro do Parlamento burguês. Esse movimento é histórico e não casual. Ele não foi inaugurado por Jones Manoel, obviamente. Esse modelo pautado no espetáculo, na representatividade e na mutilação da radicalidade das lutas populares ganha força com o desenvolvimento da comunicação via internet, inflada nas redes, vazia nas ruas. Esse modelo está em disputa entre diferentes facções que perceberam a urgência da comunicação, reduzindo-a ao personalismo via youtube; característica mais comum desse novo-velho modelo persuasivo. Ele segue as mesmas tendências da luta política intra-parlamentar, mas corrige suas deficiências frente ao novo dinamismo das redes sociais. O personalismo é requentado, mais próximo ao público, ainda mais convincente e sedutor. Esse é o alimento da força eleitoral de partidos e quadros políticos desesperados por um lugar seguro aos aparatos de poder, ao passo que comprometem sem perspectiva de mudança a ausente organização popular, que carece ainda mais de autonomia e poder próprio. Ceifar a autonomia popular não é novidade para estruturas burocráticas. O uso das novas tecnologias e a adaptação à lógica da máquina comunicacional transformaram figuras antes marginais em protagonistas da cena política, mas sempre com a promessa ilusória de mudanças que esses próprios espaços, limitados e controlados, jamais permitirão realizar.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa crítica estrutural ao modelo comunicacional e ao personalismo digital prepara o terreno para compreender o alcance e o sentido da Carta de Ivan Pinheiro: não se trata de um desentendimento episódico, mas da manifestação concreta de como a forma-espetáculo, antes restrita ao parlamento e à indústria cultural, penetra também no interior das organizações comunistas, corroendo sua organicidade e colocando em xeque a tradição leninista com as novas lógicas de legitimação midiática.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157754" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/250px-Sergei_Senkin_Non_Objective_Composition_1921.jpg" alt="" width="250" height="436" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/250px-Sergei_Senkin_Non_Objective_Composition_1921.jpg 250w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/250px-Sergei_Senkin_Non_Objective_Composition_1921-172x300.jpg 172w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/250px-Sergei_Senkin_Non_Objective_Composition_1921-241x420.jpg 241w" sizes="auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px" />Ivan Martins Pinheiro, advogado e histórico dirigente comunista, foi Secretário-Geral do PCB entre 2005 e 2016, figura central na reconstrução do partido como referência marxista-leninista em ruptura com os governos petistas. Após o racha que transformou a seção de Roraima em partido próprio, o PCBRR, em 2024, Ivan divulgou na revista <em>A Comuna</em>, em março de 2025, uma “Carta de Afastamento Orgânico do PCBRR”, na qual anuncia sua saída e denuncia problemas internos. Em sua avaliação, a direção nacional incorreu em omissão e oportunismo ao permitir que Jones Manoel acumulasse protagonismo midiático descolado da disciplina partidária.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando Ivan Pinheiro afirma que identifica no PCBR uma tendência à formação de uma “frente de esquerda radical”, em detrimento da frente anticapitalista e anti-imperialista definida em seu congresso fundador, ele está apontando diretamente para a orientação impulsionada por Jones Manoel. A noção de “esquerda radical” serve como rótulo estratégico para um agrupamento de partidos como UP, PSTU, PCO, PSOL e o próprio PCBRR, cuja unidade se dá muito mais pela lógica da disputa eleitoral do que por qualquer projeto de ruptura com a ordem burguesa. É exatamente isso que Ivan denuncia: a substituição de uma perspectiva internacionalista e revolucionária por um arranjo de cúpula, centrado em alianças frágeis e reformistas, que acabam servindo para canalizar a indignação social para dentro do jogo institucional. Essa crítica não é meramente nominal, mas toca no cerne do que significa a política proposta por Jones: ao invés de fortalecer a frente anticapitalista e anti-imperialista — que exigiria, por definição, a recusa das etapas nacional-democráticas, o combate frontal ao progressismo e a construção de práticas de auto-organização proletária —, aposta-se numa “radicalidade” de vitrine, compatível com os calendários eleitorais e as demandas de visibilidade digital. É por isso que Ivan relaciona a adoção da sigla PCBRR com uma tentativa de distanciamento das organizações revolucionárias que buscavam unidade de ação fora da lógica etapista: para ele, o partido teria cedido a um impulso pequeno-burguês, mais preocupado em apresentar-se como legenda “nova” e “radical” do que em articular, na prática, uma frente revolucionária consequente. Nesse ponto, a carta de Ivan ilumina a crítica mais ampla: a trajetória de Jones não apenas desorganiza internamente a disciplina partidária, mas orienta o partido a seguir uma via reformista travestida de radicalidade, convertendo o que poderia ser uma frente de luta anticapitalista em mera coalizão eleitoral, funcional ao progressismo e incapaz de enfrentar a ordem do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Ivan, o canal <em>Farol Brasil</em>, lançado por Jones, exemplifica essa assimetria: um projeto pessoal que, já em sua estreia, entrevistou Elias Jabbour, quadro do PCdoB, em contradição com a linha internacional do PCBRR e gerando constrangimento coletivo. Ainda segundo Ivan, houve um erro estratégico ao transformar o PCB-RR em partido nacional, decisão que reduziu as possibilidades de unidade revolucionária e agravou o isolamento sectário. O Comitê Central, em resposta, reconheceu falhas pontuais, como a demora em responder formalmente às correspondências de Ivan, mas defendeu a legitimidade das resoluções congressuais. Para a direção, “maior organicidade” significava, na prática, reforçar o centralismo democrático entendido como disciplina hierárquica e a centralidade da disputa eleitoral. Essa definição, contudo, não soluciona as contradições denunciadas por Ivan: ao invés de fortalecer a vida orgânica do partido junto às bases, cristaliza a subordinação da militância ao aparato e ao calendário institucional. Jones Manoel, por sua vez, reagiu publicamente em vídeo, rebatendo acusações específicas: afirmou ser falso que não divulgue o jornal <em>O Futuro</em>, disse que seu site apenas hospeda suas próprias obras e declarou que o Comitê Central havia realizado reunião extraordinária sobre o caso e emitiria posição oficial. Acrescentou ainda manter respeito e admiração por Ivan, mas admitiu não saber se essa relação pessoal permanecia após a carta — gesto mais retórico do que político, que pouco enfrenta o núcleo das críticas. O episódio, assim, ultrapassa a dimensão individual: explicita as tensões entre a tradição da disciplina partidária e as novas formas de militância mediadas pelo capital simbólico digital. Se, de um lado, Ivan reafirma a primazia da identidade revolucionária vinculada ao partido, de outro, Jones encarna a contradição de um militante que projeta sua figura acima da organização. A crise, nesse sentido, não indica apenas um impasse conjuntural: revela o limite estrutural da forma-partido, incapaz de conter o personalismo midiático sem reproduzir burocratismo ou autoritarismo, e, portanto, incapaz de oferecer uma via real de emancipação.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157753" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/H20911-L192212563.jpg" alt="" width="1000" height="1394" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/H20911-L192212563.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/H20911-L192212563-215x300.jpg 215w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/H20911-L192212563-735x1024.jpg 735w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/H20911-L192212563-768x1071.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/H20911-L192212563-301x420.jpg 301w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/H20911-L192212563-640x892.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/H20911-L192212563-681x949.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" />A expulsão de Jones Manoel do PCB e sua posterior tentativa de reconstrução partidária em torno do PCBRR revelam, em última instância, o esgotamento dessa forma de organização burocrática, que há décadas se apresenta como herdeira de uma tradição comunista mas que, na prática, desempenha o papel de contenção da luta. Esse esgotamento deriva da própria natureza estrutural da forma-partido burocrática. Desde Marx, já estava claro que o Estado e seus aparelhos de representação funcionam como instâncias de separação: colocam a política fora da vida social, transformando a classe em objeto de administração e não em sujeito de sua emancipação. A burocracia partidária repete, dentro do movimento revolucionário, o que a burocracia estatal faz na sociedade capitalista: apresenta-se como portadora do interesse coletivo enquanto, de fato, cristaliza privilégios, carreiras e uma lógica de conservação do aparato. É por isso que, como já advertiam conselhistas como Otto Rühle e Anton Pannekoek, “o partido acima da classe” degenera inevitavelmente em substitutismo e contenção. Sua função histórica é canalizar a energia da base para a institucionalidade, seja na forma parlamentar, sindical ou eleitoral, impedindo que a radicalidade da luta se converta em ruptura. Assim, a experiência com o PCB e com o PCBRR confirma teoricamente a tese de que tais aparelhos não podem ser reformados nem redimidos: são formas organizativas integradas à reprodução da ordem, cuja razão de ser é precisamente bloquear a emancipação autônoma do proletariado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 7 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157738/" target="_blank" rel="noopener">Parte 1</a><br />
Parte 2<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157823/" target="_blank" rel="noopener">Parte 3</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157989/" target="_blank" rel="noopener">Parte 4</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/158027/" target="_blank" rel="noopener">Parte 5</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158060/" target="_blank" rel="noopener">Parte 6</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158060/" target="_blank" rel="noopener">Parte 7</a></em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram o artigo são de Sergei Senkin</em>.</p>
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		<title>Um relato das manifestações pró-Palestina na Itália</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157669/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Sep 2025 09:59:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
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					<description><![CDATA[Talvez a questão palestina tenha se tornado o tema aglutinador de um conjunto de insatisfações sociais difusas. Por Pérez Gallo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Pérez Gallo</h3>
<p style="text-align: justify;">Participei, meio por acaso, da manifestação em Milão do dia 22 de setembro, amplamente repercutida internacionalmente devido aos violentos confrontos com a polícia que ocorreram na entrada Estação Central ferroviária. Eu estava na Alemanha durante a semana anterior, onde participava de um evento acadêmico e, sendo eu originário da Itália, decidi estender minha viagem mais uns dias em Milão, para visitar amigos e familiares. Cheguei na noite da sexta-feira, dia 19, e logo me pareceu que o clima era diferente do habitual — mais tenso, em expectativa. O genocídio palestino, de fato, é um tema muito forte no debate italiano, seja pela presença de uma importante comunidade árabe e palestina no território, seja pela proximidade geográfica e geopolítica. Mas também — acredito eu — porque na questão palestina chegaram a convergir, nos últimos anos, esperanças de retomada de alguma movimentação depois de mais de uma década de refluxo das lutas. Refluxo que em Milão se sente mais forte ainda: uma cidade completamente dominada pela <em>gentrification</em> e a especulação imobiliária, pelos grandes eventos de moda e as feiras de comida gourmet, pelo encarecimento do transporte urbano e um ritmo econômico (e de exploração) a todo vapor. E onde, faz tempo, as lutas sociais são algo meio ausente do horizonte da vida urbana.</p>
<p style="text-align: justify;">No próprio dia 19, na hora em que eu voltava do aeroporto, estava em curso um pequeno ato e paralisação organizado pela CGIL, a maior confederação sindical, em solidariedade à Gaza. Ao contrário do que se poderia pensar, a decisão da CGIL não foi a corajosa escolha de organizar uma greve política, mas a tentativa covarde de recuperar a luta, adiantando a greve que já havia sido marcada para o dia 22 pelos sindicatos de base USB, Cobas, ADL Cobas, CUB, SGB, sob impulso do coletivo de trabalhadores portuários de Gênova. A ideia seria fazer uma paralisação de apenas duas horas, na parte da tarde de uma sexta feira, e não aderir — e desta forma enfraquecer — a outra marcada para o dia inteiro da segunda-feira (um dia no qual um bloqueio faz muito mais prejuízo). A manobra, aparentemente, não deu certo. Durante todo o fim de semana, pessoas no meu entorno — até mesmo muitos conhecidos meus que não participavam de uma manifestação há 15 anos — não paravam de falar do próximo ato do dia 22. Era prevista chuva, e isso gerava dúvidas sobre o êxito da mobilização.</p>
<p style="text-align: justify;">Na manhã da segunda-feira, de fato, a chuva caía intensa e constante. Apesar disso, já ao chegar em Piazza Cadorna um pouco antes do horário marcado para a concentração, dava para saber que o ato seria grande. Milhares de pessoas iam se acumulando sob os guarda-chuvas, ao ponto de quando a frente do ato começou a se mover, na praça ainda estava chegando gente. A manifestação, com mais de 50.000 pessoas, foi desfilando de maneira confusa por quase 5 quilômetros até a Estação Central, não sem antes realizar um desvio para passar na frente do consulado dos Estados Unidos, onde foram queimadas as bandeiras dos EUA, de Israel, da União Europeia e da OTAN. O que me surpreendeu, talvez por ter ficado muitos anos afastado das manifestações italianas, foi a composição política do ato, ou seja, a não divisão em blocos organizado pelas entidades e os centros sociais, mas sim uma longa serpente humana heterogênea e indefinida, todos atrás de um único carrinho de som do sindicato USB, na qual se misturava a composição social: de estudantes e aposentados, imigrantes árabes, jovens secundaristas de periferia e famílias com crianças, trabalhadores e classe média, com aqui e acolá grupinhos que faziam alguma intervenção específica, como um grupo de fanfarras e os trabalhadores da saúde sob a faixa de “sanitários por Gaza”. Em geral, me pareceu também um ato pouco barulhento, quase silencioso em momentos, como se a falta de caixa de som deixasse mais espaço para o vazio atroz do momento que estamos vivendo.</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DO6jl2KDJNA/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DO6jl2KDJNA/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">A post shared by MIM (@milanoinmovimento)</a></p>
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</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Ato de Milão visto de cima<br />
<script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ao chegar, por volta das 13 horas, na praça da Estação Central, a sensação geral foi de estranhamento: o ato parecia ter acabado, mas a gente ainda não tinha bloqueado nada, enquanto chegavam notícias de ocupações de estações, rodovias e portos em outras cidades. A polícia estava com um enorme contingente alinhado para a defesa da estação e parecia loucura tentar desafiá-los, além do fato de que nenhum grupo parecia ter se organizado para isso. Pouco a pouco, todavia, frustrações e expectativas foram levando um grupo de pessoas a descer as escadas do metrô, de onde teria uma passagem para a estação por via subterrânea. Logo abaixo, porém, estava outro contingente policial. A pressão foi se acumulando, até que com muita gritaria e alguns empurrões, conseguimos entrar na parte de baixo da estação. Dali, porém, para chegar a ocupar os trilhos, a gente precisava subir até o andar de cima por uma escada rolante, acima da qual começou o confronto, que continuou nas portas de vidro da hall da estação, defendida pelos policiais e completamente destruídas pelos manifestantes. Finalmente, a polícia começou lançar bombas de gas lacrimogêneo, muitos na altura do rosto. A batalha durou uma hora e meia dentro da estação mais umas duas horas na via Vittor Pisani, a grande avenida do lado de fora, com a polícia avançando e a galera resistindo, sem recuar, lançando pedras e outros objetos. Apesar de não ter chegado aos trilhos, por um bom tempo a estação ficou fechada, com os trens que, já acumulando atrasos de mais de duas horas devido à greve, por um tempo pararam de vez de passar pela estação. Pelo que li depois, a participação nos confrontos mais acesos foi de um milhar de pessoas, com outros tantos apoiando do lado de fora. O saldo foi de 60 policiais feridos, com 24 hospitalizados, 11 manifestantes detidos (entre eles dois menores de idade), e uns dez levados embora pela ambulância. Me surpreendeu realmente a disposição da galera: não lembro, desde que era adolescente, uma manifestação com esse tipo de confrontos tão demorados e ao mesmo tempo sem preparação prévia. No passado, o mais comum eram confrontos “performáticos” da galera das ex <em>tute bianche</em>, com um pouco de corpo a corpo das primeiras linhas com a polícia para ter foto na mídia e depois recuo, ou momentos de <em>riot</em> mais planejados, com queima de carros no meio do ato por parte de um grupo menor mas completamente desconectado com o sentimento geral da manifestação, como ocorreu na grande manifestação “No Expo” de 1º de maio de 2015. De lá para cá, o deserto.</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DO6hXCqAP2w/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DO6hXCqAP2w/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">A post shared by Federação Árabe Palestina (@fepal_brasil)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Vídeos do confronto</em><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se Milão, pelo seu desfecho violento, foi o centro das notícias e das imagens que passaram na mídia e nas redes — e obviamente repercutida pela primeira ministra Giorgia Meloni, que em momento nenhum atacou a barbárie israelense em Gaza com a mesma dureza que dedicou aos “vândalos de Milão” —, no resto da Itália a jornada de luta também foi gigante. Segundo o sindicato USB, a participação nos atos foi de mais de 1 milhão de pessoas em 84 cidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Roma, de 200 a 300 mil pessoas desfilaram durante 8 horas, por 10 quilômetros, pelas ruas da cidade, cercando a Estação de Termini (a maior da cidade), provocando o momentâneo bloqueio do trânsito ferroviário, e ocupando o campus universitário de La Sapienza e o anel rodoviário Leste durante horas em ambas direções. Lá, muitos dos motoristas parados no trânsito, reagiram não com raiva mas com aplausos, buzinas e manifestações de cumplicidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/NnNe1MzD2_4?si=l4MwbHI_3XiygMhn" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Apoio dos motoristas à manifestação</strong><br />
</em></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DO51pJfjNPJ/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DO51pJfjNPJ/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">A post shared by Welcome to Favelas (@welcometofavelas)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Manifestação em Roma vista de cima<script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Outra manifestação enorme foi em Bolonha, com 50.000 pessoas enchendo as ruas do centro para depois ocupar o anel rodoviário, onde houve repressão policial com quatro pessoas detidas.</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-captioned="" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/p/DO5i_llCCTG/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/p/DO5i_llCCTG/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">A post shared by HubAut Bologna (@hubautbologna)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p><strong><em><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script>Ato em Bolonha</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/6dD2wHPrU-c?si=imycw_5Ag6L3Dwtl" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe>Confrontos no anel rodoviário em Bolonha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Atos de 15 a 20 mil pessoas ocorreram também em Nápoles e Turim (onde foi ocupada a estação ferroviária); Gênova (com a ocupação do porto); e em Veneza, onde os centros sociais do Nordeste foram bloquear Porto Marghera e tiveram confrontos com a polícia que fez uso de jatos de água.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/HhCYfSOTMdQ?si=lEA5lhXiMEkB7Hpr" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Veneza</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Outros confrontos e detenções ocorreram em Brescia, na tentativa dos 10.000 manifestantes de ocupar a estação ferroviária depois de bloquear o metrô da cidade, enquanto um número similar de pessoas desfilou em Palermo, Florença e Pisa. Nesta última cidade, os manifestantes conseguiram bloquear a rodoviária, a estação de trens e até mesmo a rodovia Firenze-Pisa-Livorno. Cinco mil pessoas tomaram as ruas em cidades do sul como Cagliari, Catania e Bari. Houve também bloqueios e interrupções em outras importantes terminais portuárias como as de Trieste, Ravenna, Ancora, Civitavecchia e Salerno. Em Livorno o bloqueio da terminal Valessini se transformou em um protesto permanente visando o dia seguinte, quando era esperada a passagem de um navio cargueiro norte-americano dirigido a Israel.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seu conjunto, a jornada foi sem dúvida exitosa e surpreendente. Surpreendente em primeiro lugar porque a Itália tinha ficado afastada dos últimos ciclos de revoltas globais. Os movimentos sociais estão totalmente fragmentados, e o que tem imperado entre os camaradas nos últimos anos é uma sensação constante de desilusão e impotência, sentimentos acrescidos, nos últimos tempo, pela ascensão de um governo de extrema-direita. Sim, desde o começo do genocídio na Palestina, as ocupações nos campi universitários tinham mostrado certa reativação da composição juvenil, certamente dominante também nas manifestações da segunda-feira mas extremamente reduzida em termos demográficos naquilo que é o segundo país mais idoso do mundo. Ao mesmo tempo, sob impulso da pequena organização dos Jovens Palestinos, os protestos em solidariedade com Gaza tem adquirido certa frequência, chegando a ser, no caso de Milão, até mesmo semanais, com alguns pequenos atos que acontecem todos os sábados. Possivelmente, a saída da Global Sumud Flotilla deve ter dado alguma inspiração, assim como o movimento francês “bloqueemos tudo”, surgido nas últimas semanas contra as políticas de Macron. Quiçá a indignação tenha ultrapassado algum limiar com a escalada da “solução final” do holocausto palestino posta em marcha por Israel nos últimos meses. E quiçá a questão palestina tenha se tornado, hoje em dia, o principal tema aglutinador de um conjunto de insatisfações sociais difusas. Talvez ela seja, hoje, <a class="urlextern" title="https://ilmanifesto.it/palestina-e-il-nome-del-nostro-scontento" href="https://ilmanifesto.it/palestina-e-il-nome-del-nostro-scontento" rel="ugc nofollow">“o nome do nosso descontentamento”</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Exitosas foram sem dúvidas as manifestações, mas sobretudo a escolha estratégica dos bloqueios das principais vias de comunicações. Muito rapidamente, a partir dos bloqueios dos portuários dos navios carregados de armas e munições para abastecer diretamente o exército israelense, chegou-se a entendimento que toda a logística da guerra é inseparável da logística do capitalismo global nessa sua etapa destrutiva. Se os gargalos dos transportes e das comunicações de mercadorias e pessoas configuram o esqueleto material da economia global, surgiu o entendimento que é a partir dali que seria quiçá possível exercer algum tipo de “contrapoder” à barbárie fascista.</p>
<p style="text-align: justify;">Menos exitoso, todavia, foi o resultado da paralisação em sentido estrito. Diante da convergência entre as dificuldades evidentes de realizar uma greve “política” (de fato, essa foi a primeira experiência desde que começou o genocídio em Gaza) e a covardia da CGIL e das outras grandes confederações sindicais, que tem hegemonia de filiados na produção e no público emprego, a taxa de adesão parece ter sido <a class="urlextern" title="https://www.tag24.it/1353021-dati-adesione-sciopero-generale-per-gaza-22-settembre-la-percentuale" href="https://www.tag24.it/1353021-dati-adesione-sciopero-generale-per-gaza-22-settembre-la-percentuale" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">abaixo de 10%</a> em muitos setores, com prováveis exceções no setor da educação pública e em alguns setores da circulação, que em algumas cidades aderiram em peso. Isso abre muitas perguntas sobre se é possível paralisar a vida econômica sem a adesão em massa da classe trabalhadora organizada, mas conseguindo atingir os principais gargalos da economia global. Em tempos em que arrocho salarial, desemprego, chantagem nos locais de trabalho, precarização do emprego, direções sindicais pelegas, tornam mais difícil o efetivo exercício do instrumento da greve, até que ponto uma revolta bem efetiva pode se tornar ela mesma uma forma de paralisação geral?</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a principal pergunta, aqui e agora, é saber se esse novo movimento terá a força e a capacidade de seguir em frente, de crescer, de colocar em crise um governo Meloni que até agora ainda navega com algum grau de consenso, e sobretudo de transboradar para outros países para dar um aporte real ao fim do genocídio em curso. Conforme anunciado pelo coletivo de portuários de Gênova, a atual greve foi lançada como ensaio geral para o momento em que houvesse algum tipo de agressão à Global Sumud Flotilla, que nesses mesmos dias está se aproximando da Faixa de Gaza. Caso isso venha a ocorrer, os portuários já ameaçaram que não irão carregar “nem sequer um prego” e parariam “a Europa inteira”. O tempo nos dirá. Por agora, ficamos com a sensação que por uma vez, levantamos a cabeça, vencemos a resignação. Quiças seja apenas por um lampejo, uma sensação de que, juntos nas ruas, podemos ainda nos sentir vivos. Que ainda podemos gritar, mesmo que quase não faça sentido dado o nível da tragédia presente, que “os povos em revolta escrevem sua história, intifada até a vitória!”.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Está na hora de recomeçar</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157626/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Sep 2025 20:02:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autorais]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Não se trata de pensar que os meios pouco ortodoxos utilizados nos julgamentos atuais abrem um precedente para a repressão à extrema-esquerda; antes, foi a expertise construída ao longo de anos contra mobilizações populares que agora se voltou contra os fascistas. Por Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Passa Palavra</h3>
<p style="text-align: justify;">A condenação de Jair Bolsonaro junto com militares da cúpula das Forças Armadas é algo sem precedentes na história do Brasil, como vem ressaltando a imprensa nacional e internacional. De fato, o tradicional no Brasil é anistiar ou sequer processar criminalmente políticos e militares de direita que tentaram tomar o poder à força, o que sempre encorajou novas conspirações golpistas.</p>
<p style="text-align: justify;">O que nos interessa, no entanto, não é a suposta função pedagógica de condenações decididas pelo aparato estatal de justiça, e sim a maneira como essa decisão impacta a configuração das disputas políticas no interior da extrema-direita no próximo período, bem como as reações da esquerda, seja ela alegadamente anticapitalista ou não.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos primeiro situar a questão do ponto de vista das disputas internas à extrema-direita e ao fascismo e, em seguida, do ponto de vista da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiramente cumpre levantar algumas questões sobre o papel do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Este foi, desde há muito, um agente político relevante, tendo atuado nas secretarias de diferentes administrações da direita paulista. Quando secretário da Segurança Pública em São Paulo, para além das chacinas já normalizadas cometidas pela polícia, com destaque para a ocorrida em Osasco, notabilizou-se pelo enfrentamento às ocupações secundaristas. São de especial relevância os expedientes utilizados para a desocupação do Centro Paula Souza, onde apesar de uma decisão judicial que impediria o despejo dos estudantes, Moraes utilizou-se de um ato administrativo para retirá-los à força. Demonstrou assim a capacidade de encontrar justificativas jurídicas para legitimar a ação repressora do Estado, e foi por essa razão logo alçado à ministro da Justiça pelo então presidente da República Michel Temer. Esse histórico nos ajuda a esclarecer um ponto: não se trata de pensar que os meios pouco ortodoxos utilizados nos julgamentos atuais abrem um precedente para a repressão à extrema-esquerda; antes, foi a <em>expertise</em> construída ao longo de anos como agente da ordem contra mobilizações populares que agora se voltou contra os fascistas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157627" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766.jpg" alt="" width="1024" height="708" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766-300x207.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766-768x531.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766-607x420.jpg 607w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766-640x443.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766-681x471.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Todavia, não deixa de ser sintomático do atual estado de coisas que Moraes seja alçado a figura a ser mais que defendida, exaltada, com memes, textos, episódios de podcast, publicações em redes sociais variadas. Demonstra-se assim a própria incapacidade de construir meios próprios de combate ao fascismo ou à extrema-direita em geral, precisando depositar em elementos da direita tradicional bem inseridos nas organizações estatais as esperanças de evitar a expansão do fascismo. Tal incapacidade de ação da esquerda tem como caso emblemático a recente prisão de Alessandra Moja, articuladora de anos das lutas da favela do Moinho, que foi humilhada e teve sua reputação destruída por uma ação conjunta da extrema-direita e do Ministério Público de São Paulo e, para além de esforços da comunidade e apoiadores, pouca atenção recebeu do conjunto das esquerdas.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Não por acaso essa extrema-direita, que ocupa atualmente o governo paulista, vem apostando em construir uma imagem espetacularizada de combate ao crime, afinal sabem que isso se converte em votos e não irão hesitar em fazer afirmações ou armações que resultem em uma associação entre àqueles que lutam e os criminosos comuns. O interesse especial nessa mobilização no Estado de São Paulo se explica por Tarcísio de Freitas apresentar-se como o sucessor mais cotado para herdar a articulação política que deu sustentação a Bolsonaro. Cabe recordar que Tarcísio é produto das ações dos governos petistas. Assim como parte dos generais agora condenados por Golpe de Estado, ele também foi formado nas ações repressivas desempenhadas pelo exército brasileiro na ocupação do Haiti e depois foi funcionário do governo Dilma Rousseff. Hoje em dia, situa-se certamente na extrema-direita e não mede esforços em se colocar como o mais fiel seguidor de Bolsonaro, prometendo-lhe a anistia se chegar à presidência, articulando votos de deputados para projetos no mesmo sentido e participando de manifestações em defesa do ex-presidente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ocorre que essa movimentação feita pelo governador indica uma disputa entre as diferentes forças da extrema-direita e os fascistas mais radicais sobre os rumos do que hoje é o campo bolsonarista. É evidente que com a prisão do líder da mobilização fascista, se abre o espaço para quem irá ocupar esse lugar. Qualquer um que já estudou mobilizações fascistas de outras épocas sabe que a existência dessas facções e a disputa violenta entre elas é uma regra e não uma exceção. Parece claro que neste momento o que se pode chamar de eixo conservador está articulado no entorno de Tarcísio. Enquanto Eduardo Bolsonaro encabeça o eixo radical, declarando que não há conciliação possível, articulando sanções econômicas ao país e incentivando em publicações e discursos um levante contra o Supremo Tribunal Federal — no que parece estar cada vez mais isolado. Não parece ser desprezível neste contexto o papel que será desempenhado por Nikolas Ferreira, deputado federal por Minas Gerais que conta com amplo apoio dos setores evangélicos e alta capacidade de mobilização das milícias digitais nas redes sociais. Recentemente ele tem publicado frases como “seja a extrema direita que eles tem medo”, além de ter feito referências às revoltas ocorridas no Nepal como uma inspiração para possíveis mobilizações no Brasil. Ainda parece cedo para saber como se resolverá esta disputa interna e se algum dos pretendentes conseguirá manter e ampliar a mobilização fascista, mas qualquer que seja o desfecho não é crível que a ação dos aparatos jurídicos estatais será uma forma eficaz de realmente derrotar esse movimento.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que fazer quando a esquerda abriu mão da revolução? O que fazer quando a esquerda se tornou, na verdade, o paradigma da moderação, sendo o reformismo mais limitado o seu horizonte mais radical? O que fazer quando os movimentos revolucionários de esquerda ruíram e até os movimentos reformistas acabaram enredados na teia de um Estado que consente em sua participação, desde que se mantenham na periferia dos processos decisórios?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157629" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632.png" alt="" width="1200" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632.png 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-300x169.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-1024x576.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-768x432.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-747x420.png 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-640x360.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-681x383.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Se 80 anos atrás a derrota do fascismo deu-se apenas no campo militar, permitindo a perpetuação política de suas ideias, nos dias de hoje a possível derrota judicial dos fascistas parece também permitir a perpetuação de seus pressupostos e linguagem. Não nos parece irrelevante o esforço de esquerdistas dos mais variados matizes reivindicarem a necessidade de defender a soberania nacional perante as ações tomadas por Donald Trump. Ou ainda, a ampla aceitação que passou a ter o boné com a xenófoba frase “O Brasil é dos brasileiros”. Podemos somar como exemplo a utilização das cores da bandeira nacional nos chamados de manifestação, além da reivindicação da própria bandeira como símbolo válido das manifestações de esquerda; como se as cores da família Bragança, acrescida do ideal positivista dos militares da República, pudessem de alguma maneira significar algo à esquerda.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Mas e então, o que fazer? Só há uma — somente uma — providência para o momento: parar de enaltecer o poder estatal desenfreado e a soberania nacional e tentar redescobrir os meios de lutar contra o capitalismo, de maneira independente, por fora do Estado, onde quer que isso seja possível. Mas para isso a esquerda vai precisar, pelo visto, resetar a si mesma e começar tudo de novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Já que o momento é histórico, seria bom começar a fazer história novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Carros voadores e a queda da taxa de lucro (parte 2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Aug 2025 12:59:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[De onde virá o avanço? Não podemos saber. Por David Graeber]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por David Graeber</h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Leia<a href="https://passapalavra.info/2025/08/157205/" target="_blank" rel="noopener"> aqui a primeira parte deste artigo.</a></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo industrial fomentou uma taxa extremamente rápida de avanço científico e inovação tecnológica — uma taxa sem paralelo na história humana até então. Mesmo os maiores detratores do capitalismo, Karl Marx e Friedrich Engels, celebraram o desencadeamento das “forças produtivas”. Marx e Engels também acreditavam que a necessidade contínua do capitalismo de revolucionar os meios de produção industrial seria a sua ruína. Marx argumentou que, por certas razões técnicas, o valor — e, portanto, os lucros — só podem ser extraídos do trabalho humano. A concorrência obriga os proprietários das fábricas a mecanizar a produção, a reduzir os custos com a força de trabalho, mas, embora isso seja vantajoso a curto prazo para a empresa, o efeito da mecanização é reduzir a taxa geral de lucro.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante 150 anos, os economistas debateram se tudo isso era verdade. Mas se é verdade, então a decisão dos industriais de não investirem fundos de pesquisa na invenção das fábricas robóticas que todos esperavam nos anos sessenta e, em vez disso, de realocar suas fábricas para instalações com uso intensivo da força de trabalho e de baixa tecnologia na China ou no Sul Global faz muito sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">Como expressei, há razões para acreditar que o ritmo da inovação tecnológica nos processos produtivos — as próprias fábricas — começou a desacelerar nos anos cinquenta e sessenta, mas os efeitos colaterais da rivalidade dos Estados Unidos com a União Soviética fizeram com que a inovação parecesse acelerar. Havia a incrível corrida espacial, juntamente com os esforços frenéticos dos planejadores industriais dos EUA na aplicação das tecnologias existentes visando os consumidores, para criar um senso otimista de prosperidade crescente e progresso garantido que minaria o apelo de uma política da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses movimentos foram reações a iniciativas da União Soviética. Mas essa parte da história é difícil para os estadunidenses recordarem, porque no final da Guerra Fria, a imagem popular da União Soviética passou de ser um rival terrivelmente ousado para um caso patético — o exemplo de uma sociedade que não podia funcionar. Na verdade, nos anos cinquenta, muitos planejadores nos Estados Unidos suspeitavam que o sistema soviético funcionava melhor. Certamente, se lembravam do fato que nos anos trinta, enquanto os Estados Unidos estavam atolados na depressão, a União Soviética manteve taxas de crescimento econômico quase sem precedentes de 10% a 12% ao ano — uma conquista rapidamente seguida pela produção de exércitos de tanques que derrotaram a Alemanha nazista, depois pelo lançamento do Sputnik em 1957, depois pela primeira nave espacial tripulada, a Vostok, em 1961.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizem que o pouso da Apollo na Lua foi a maior conquista histórica do comunismo soviético. Certamente, os Estados Unidos nunca teriam contemplado tal feito se não fossem as ambições cósmicas do politburo soviético. Estamos habituados a pensar no politburo como um grupo de burocratas cinzentos sem imaginação, mas eram burocratas que ousavam ter sonhos surpreendentes. O sonho da revolução mundial foi só o primeiro. Também é verdade que a maioria desses sonhos — mudar o curso de rios poderosos, esse tipo de coisa — ou se revelou ecológica e socialmente desastroso, ou, como o Palácio dos Sovietes com cem andares de Joseph Stalin ou uma estátua de Vladimir Lenin de vinte andares, nunca decolou.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157280" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/flob-main_cc7bf3a2.jpeg" alt="" width="1429" height="804" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/flob-main_cc7bf3a2.jpeg 1429w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/flob-main_cc7bf3a2-300x169.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/flob-main_cc7bf3a2-1024x576.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/flob-main_cc7bf3a2-768x432.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/flob-main_cc7bf3a2-746x420.jpeg 746w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/flob-main_cc7bf3a2-640x360.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/flob-main_cc7bf3a2-681x383.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1429px) 100vw, 1429px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Após os sucessos iniciais do programa espacial soviético, poucos desses esquemas foram realizados, mas os líderes soviéticos nunca pararam de inventar novos. Mesmo nos anos oitenta, quando os Estados Unidos tentavam o seu último e grandioso esquema, Star Wars, os soviéticos planejavam transformar o mundo por meio de usos criativos da tecnologia. Poucos fora da Rússia se lembram da maioria desses projetos, mas grandes recursos foram dedicados a eles. Também vale a pena notar que, ao contrário do projeto Star Wars, concebido para afundar a União Soviética, a maioria não era de natureza militar: como, por exemplo, a tentativa de resolver o problema da fome no mundo cultivando lagos e oceanos com uma bactéria comestível chamada spirulina, ou para resolver o problema mundial da energia lançando centenas de gigantescas plataformas de energia solar em órbita e enviando a eletricidade de volta à terra. A vitória estadunidense na corrida espacial significou que, depois de 1968, os planejadores americanos deixaram de levar a competição a sério. Como resultado, a mitologia da fronteira final foi mantida, mesmo quando a direção dada a pesquisa e desenvolvimento se afastou de qualquer coisa que pudesse levar à criação de bases de Marte e fábricas robóticas.</p>
<p style="text-align: justify;">A história mais difundida é que tudo isso foi resultado do triunfo do mercado. O programa Apollo foi um grande projeto governamental, de inspiração soviética, no sentido de que exigia um esforço nacional coordenado pelas burocracias governamentais. No entanto, assim que a ameaça soviética saiu claramente de cena, o capitalismo estava livre para voltar a linhas de desenvolvimento tecnológico mais conforme os seus imperativos normais, descentralizados e de livre mercado — como a investigação financiada por fundos privados sobre produtos comercializáveis, a exemplo dos computadores pessoais. Essa é a linha que homens como Toffler e Gilder adotaram no final dos anos setenta e início dos anos oitenta.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, os Estados Unidos nunca abandonaram esquemas gigantescos de desenvolvimento tecnológico controlados pelo governo. Eles apensa deslocaram a maioria para pesquisa militar — e não somente para esquemas de escala soviética como Star Wars, mas para projetos de armas, pesquisa em tecnologias de comunicação e vigilância e temas semelhantes relacionadas à segurança. Até certo ponto, isso sempre foi verdade: os bilhões investidos na pesquisa a respeito de mísseis tinham sempre diminuído as somas atribuídas ao programa espacial. No entanto, nos anos setenta, até a pesquisa básica passou a ser conduzida segundo prioridades militares. Uma razão pela qual não temos fábricas robóticas é porque cerca de 95% do fundo de pesquisa em robótica foi canalizado através do Pentágono, que está mais interessado em desenvolver <em>drones</em> não tripulados do que em automatizar fábricas de papel.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se argumentar que mesmo a mudança para a pesquisa e desenvolvimento das tecnologias da informação e medicina não foi tanto uma reorientação para imperativos de consumo orientados pelo mercado, mas parte de um esforço aberto para acompanhar a humilhação tecnológica da União Soviética com a vitória total na guerra de classes global — vista simultaneamente como a imposição do domínio militar absoluto dos EUA no exterior e, em casa, a completa derrota dos movimentos sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, as tecnologias que surgiram revelaram-se mais propícias à vigilância, à disciplina do trabalho e ao controle social. Os computadores abriram certos espaços de liberdade, como somos constantemente lembrados, mas em vez de conduzirem à utopia sem trabalho que Abbie Hoffman imaginou, foram empregados para produzir o efeito contrário. Eles permitiram uma financeirização do capital que levou os trabalhadores a endividarem-se desesperadamente e, ao mesmo tempo, proporcionou os meios pelos quais os empregadores criaram regimes de trabalho “flexíveis” que destruíram a segurança tradicional do emprego e aumentaram o horário de trabalho para quase todo mundo. Juntamente com a exportação de postos de trabalho nas fábricas, o novo regime de trabalho destruiu o movimento sindical e qualquer possibilidade de uma política eficaz da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, apesar do investimento sem precedentes na pesquisa em medicina e ciências da vida, aguardamos ainda a cura para o câncer e o resfriado comum, e os avanços médicos mais dramáticos que vimos assumiram a forma de medicamentos como Prozac, Zoloft ou Ritalina — feitos sob medida para garantir que as novas demandas de trabalho não nos deixem completa e disfuncionalmente loucos.</p>
<p style="text-align: justify;">Com resultados como estes, como será o epitáfio do neoliberalismo? Penso que os historiadores concluirão que foi uma forma de capitalismo que priorizou sistematicamente os imperativos políticos em detrimento dos econômicos. Dada uma escolha entre um curso de ação que faria o capitalismo parecer o único sistema econômico possível e um que transformaria o capitalismo em um sistema econômico viável e de longo prazo, o neoliberalismo escolheu o primeiro todas às vezes. Tem-se todas as razões para acreditar que destruir a segurança no emprego e aumentar o horário de trabalho não cria uma força de trabalho mais produtiva (muito menos mais inovadora ou leal). Provavelmente, em termos econômicos, o resultado é negativo — uma impressão confirmada por taxas de crescimento mais baixas em praticamente todas as partes do mundo nos anos oitenta e noventa.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a escolha neoliberal tem sido eficaz na despolitização do trabalho e na sobredeterminação do futuro. Economicamente, o crescimento dos exércitos, da polícia e dos serviços de segurança privada equivale a um peso morto. Na verdade, é possível que o peso morto do aparato criado para garantir a vitória ideológica do capitalismo o afunde. Mas também é fácil ver como sufocar qualquer sensação de um futuro inevitável e redentor que poderia ser diferente do nosso mundo é uma parte crucial do projeto neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse ponto, todas as peças parecem se encaixar perfeitamente. Nos anos sessenta, as forças políticas conservadoras estavam cada vez mais inquietas sobre os efeitos socialmente disruptivos do progresso tecnológico, e os empregadores começavam a preocupar-se com o impacto econômico da mecanização. O desvanecimento da ameaça soviética permitiu uma realocação de recursos em direções vistas como menos desafiadoras aos arranjos sociais e econômicos, ou mesmo direções que poderiam apoiar uma campanha de reversão dos ganhos feitos pelos movimentos sociais progressistas e alcançar uma vitória decisiva no que as elites dos EUA viam como uma guerra de classes global. A mudança de prioridades foi introduzida como um recuo de grandes projetos governamentais e um retorno ao mercado, mas, na verdade, a mudança deslocou a pesquisa dirigida pelo governo de programas como a NASA ou fontes alternativas de energia para tecnologias militares, de informação e médicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Claro que isso não explica tudo. Especialmente, não explica por que razão, mesmo naquelas áreas que se tornaram o foco de projetos de pesquisa bem financiados, não vimos nada parecido com os avanços previstos há cinquenta anos. Se 95% das pesquisas em robótica foram financiadas pelos militares, então onde estão os robôs assassinos ao estilo Klaatu disparando raios mortais pelos olhos?</p>
<p style="text-align: justify;">Obviamente, houve avanços na tecnologia militar nas últimas décadas. Um dos motivos pelos quais todos sobrevivemos à Guerra Fria é que, embora as bombas nucleares pudessem ter funcionado como anunciado, os seus sistemas de transporte não; os mísseis balísticos intercontinentais não conseguiam atingir cidades, muito menos alvos específicos nas cidades, e esse fato significava que não fazia sentido lançar um primeiro ataque nuclear a menos que se pretendesse destruir o mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os mísseis de cruzeiro contemporâneos são muito precisos em comparação. Ainda assim, as armas de precisão nunca parecem capazes de assassinar indivíduos específicos (Saddam, Osama, Khadafi), mesmo quando centenas são lançadas. E as armas de raios não se materializaram — certamente não por falta de tentativas. Podemos supor que o Pentágono gastou bilhões em pesquisas sobre raios da morte, mas o mais próximo que chegaram até agora são os lasers que podem, se apontados corretamente, cegar um artilheiro inimigo que olhe diretamente para o feixe. Além de ser antiesportivo, isso é patético: os lasers são uma tecnologia dos anos cinquenta. <em>Phasers</em> que podem ser ajustados para atordoar não parecem estar nas pranchetas; e quando se trata de combate de infantaria, a arma preferida em quase todos os lugares continua sendo a AK-47, um projeto soviético nomeado pelo ano em que foi introduzido: 1947.</p>
<p style="text-align: justify;">A Internet é uma inovação notável, mas estamos falando de uma combinação super rápida e globalmente acessível de biblioteca, correios e catálogo por correspondência. Se a Internet tivesse sido descrita para um aficionado de ficção científica nos anos cinquenta e sessenta e considerada a conquista tecnológica mais dramática desde o seu tempo, sua reação teria sido decepcionante. Cinquenta anos e isso é o melhor que os nossos cientistas conseguiram inventar? Esperávamos por computadores que pensassem!</p>
<p style="text-align: justify;">Globalmente, os níveis de financiamento de pesquisas aumentaram dramaticamente desde os anos setenta. Admitidamente, a proporção desse financiamento proveniente do setor empresarial aumentou de forma mais dramática, a tal ponto que a iniciativa privada financia agora o dobro de pesquisa do que o governo, mas o aumento é tão grande que o montante total do financiamento da investigação do governo, em dólares reais, é muito superior ao que era nos anos sessenta. A pesquisa “básica”, “orientada para a curiosidade” ou “céu azul” — do tipo que não é impulsionada pela perspectiva de qualquer aplicação prática imediata, e que é provável que conduza a avanços inesperados — ocupa uma proporção decrescente do total, embora se esteja gastando tanto dinheiro hoje em dia que os níveis globais de financiamento da pesquisa básica aumentaram.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a maioria dos observadores concorda que os resultados foram insignificantes. Certamente não vemos mais nada como o fluxo contínuo de revoluções conceituais — herança genética, relatividade, psicoanálise, mecânica quântica — a que as pessoas se acostumaram, e até esperavam, cem anos antes. Por quê?</p>
<p style="text-align: justify;">Parte da resposta tem a ver com a concentração de recursos num punhado de projetos gigantescos: “grande ciência”, como passou a ser chamada. O Projeto Genoma Humano é frequentemente apresentado como exemplo. Após gastar quase três bilhões de dólares e empregar milhares de cientistas e funcionários em cinco países diferentes, serviu principalmente para estabelecer que não há nada a ser aprendido com o sequenciamento de genes que seja muito útil para qualquer pessoa. Ainda mais, o <em>hype</em> e o investimento político em torno de tais projetos demonstram o grau em que até mesmo a pesquisa básica agora parece ser impulsionada por imperativos políticos, administrativos e de <em>marketing</em> que tornam improvável que algo revolucionário aconteça.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, o nosso fascínio com as origens míticas do Vale do Silício e da Internet nos cegou para o que realmente está acontecendo. Ele nos permitiu imaginar que a pesquisa e desenvolvimento são conduzidos principalmente por pequenas equipes de empreendedores corajosos, ou pelo tipo de cooperação descentralizada que cria <em>softwares</em> de código aberto. Não é assim, embora essas equipes de pesquisa tenham maior probabilidade de produzir resultados. A pesquisa e o desenvolvimento continuam a ser impulsionados por gigantescos projetos burocráticos. O que mudou foi a cultura burocrática. A crescente interpenetração do governo, das universidades e das empresas privadas levou todos a adotarem a linguagem, as sensibilidades e as formas organizacionais que se originaram no mundo corporativo. Embora isso possa ter contribuído para a criação de produtos comercializáveis, uma vez que é para isso que as burocracias empresariais são concebidas, em termos de fomento de pesquisas originais, os resultados foram catastróficos.</p>
<p style="text-align: justify;">O meu conhecimento vem das universidades, tanto dos Estados Unidos quanto da Grã-Bretanha. Nos dois países, os últimos trinta anos registaram uma verdadeira explosão da proporção de horas de trabalho despendidas em tarefas administrativas à custa de praticamente todo o resto. Na minha própria universidade, por exemplo, temos mais administradores do que docentes, e espera-se que os docentes dediquem pelo menos tanto tempo à administração quanto ao ensino e à pesquisa combinados. O mesmo acontece, mais ou menos, nas universidades de todo o mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">O crescimento do trabalho administrativo resultou diretamente da introdução de técnicas de gestão empresarial. Invariavelmente, essas justificam-se como formas de aumentar a eficiência e introduzir a concorrência em todos os níveis. O que elas acabam significando na prática é que todos acabam gastando a maior parte do seu tempo tentando vender coisas: propostas de subvenções; propostas de livros; avaliações dos empregos dos estudantes e pedidos de subvenções; avaliações dos nossos colegas; prospectos para novos cursos interdisciplinares; institutos; <em>workshops</em> de conferências; as próprias universidades (que agora se tornaram marcas para serem comercializadas a futuros estudantes ou colaboradores); e assim por diante.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157279" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/694225_xl-1.jpg" alt="" width="1268" height="534" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/694225_xl-1.jpg 1268w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/694225_xl-1-300x126.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/694225_xl-1-1024x431.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/694225_xl-1-768x323.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/694225_xl-1-997x420.jpg 997w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/694225_xl-1-640x270.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/694225_xl-1-681x287.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1268px) 100vw, 1268px" />À medida que o <em>marketing</em> domina a vida universitária, gera documentos sobre a promoção da imaginação e da criatividade que poderiam muito bem ter sido concebidos para estrangular a imaginação e a criatividade no berço. Nos últimos trinta anos, não surgiram grandes obras de teoria social nos Estados Unidos. Fomos reduzidos ao equivalente dos escolásticos medievais, escrevendo anotações intermináveis da teoria francesa dos anos setenta, apesar da consciência culpada de que, se novas encarnações de Gilles Deleuze, Michel Foucault ou Pierre Bourdieu aparecessem na academia hoje, nós lhe negaríamos a livre-docência.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve um tempo em que a academia era o refúgio da sociedade para os excêntricos, brilhantes e pessoas pouco práticas. Não mais. É agora o domínio dos profissionais de <em>automarketing</em>. Como resultado, em um dos ataques mais bizarros de autodestruição social da história, parece que decidimos que não temos lugar para nossos cidadãos excêntricos, brilhantes e pouco práticos. A maioria definha nos porões das mães, fazendo, na melhor das hipóteses, uma intervenção ocasional e aguda na internet.</p>
<p style="text-align: justify;">Se tudo isso é verdade nas ciências sociais, onde a pesquisa continua a ser realizada com um mínimo de intromissões na maioria por indivíduos, pode-se imaginar o quanto é pior para os astrofísicos. E, de fato, um astrofísico, Jonathan Katz, alertou recentemente os estudantes que ponderavam uma carreira nas ciências. Mesmo se você sair do período habitual de uma década definhando como o lacaio de outra pessoa, ele diz, você pode esperar que suas melhores ideias sejam frustradas em todos os pontos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Você gastará seu tempo escrevendo propostas em vez de fazer pesquisas. Pior ainda, como as suas propostas são julgadas pelos seus concorrentes, você não pode seguir a sua curiosidade, mas deve dedicar o seu esforço e talento para antecipar e desviar as críticas, em vez de resolver os importantes problemas científicos. É proverbial que ideias originais são o beijo da morte para uma proposta, porque ainda não se provou que funcionam.</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso praticamente responde à questão de por que não temos dispositivos de teletransporte ou sapatos anti-gravidade. O senso comum sugere que, se quiser maximizar a criatividade científica, encontre algumas pessoas brilhantes, forneça a elas os recursos necessários para poderem desenvolver qualquer ideia que surja em suas cabeças e depois as deixe em paz. A maioria não vai dar em nada, mas um ou dois podem muito bem descobrir alguma coisa. Mas se quiser minimizar a possibilidade de avanços inesperados, diga a essas mesmas pessoas que não receberão recursos, a menos que gastem a maioria do seu tempo competindo entre si para convencê-lo de que sabem antecipadamente o que vão descobrir.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas ciências naturais, à tirania do gerencialismo podemos acrescentar a privatização dos resultados das pesquisas. Como nos recordou o economista britânico David Harvie, a investigação “open source” não é nova. A pesquisa acadêmica sempre foi de código aberto, no sentido de que os acadêmicos compartilham materiais e resultados. Há concorrência, certamente, mas é “amigável”. Isso não é mais verdade para os cientistas que trabalham no setor corporativo, onde as descobertas são zelosamente guardadas, mas a disseminação do ethos corporativo no interior da academia e dos próprios institutos de pesquisa fez com que até mesmo acadêmicos com financiamento público tratassem suas descobertas como propriedade pessoal. Os editores acadêmicos se asseguram de que os resultados publicados são cada vez mais difíceis de acessar, cerceando ainda mais os bens comuns intelectuais [intellectual commons]. Como resultado, a concorrência amigável e de código aberto se transforma em algo muito mais parecido com a concorrência clássica de mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">Existem muitas formas de privatização, incluindo a simples compra e supressão de descobertas inconvenientes por parte das grandes empresas que temem os seus efeitos econômicos (Não podemos saber quantas fórmulas de combustíveis sintéticos foram compradas e colocadas nos cofres das empresas petrolíferas, mas é difícil imaginar que nada disso aconteça). Mais sutil é como o ethos gerencial desencoraja tudo o que é aventureiro ou peculiar, especialmente se não houver perspectivas de resultados imediatos. Estranhamente, a Internet pode ser parte do problema aqui. Como disse Neal Stephenson:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>A maioria das pessoas que trabalham em empresas ou na academia testemunhou algo </em><em>parecido com o seguinte: vários engenheiros estão sentados juntos em uma sala, trocando ideias entre si. Da discussão surge um novo conceito que parece promissor. Em seguida, uma pessoa que empunha um laptop no canto, tendo realizado uma rápida pesquisa no Google, anuncia que essa “nova” ideia é, de fato, antiga; ela — ou pelo menos algo vagamente semelhante — já foi tentada. Ou falhou, ou conseguiu. Se falhou, nenhum gerente que queira manter o seu emprego irá aprovar gastar dinheiro tentando revivê-la. Se foi bem-sucedida, então é patenteada e presume-se que a entrada no mercado é inatingível, uma vez que as primeiras pessoas que pensaram nisso terão a “vantagem do primeiro a agir” e terão criado “barreiras de entrada”. O número de ideias aparentemente promissoras que foram esmagadas desta forma deve chegar aos milhões.</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Assim, um espírito tímido e burocrático permeia todos os aspectos da vida cultural. Ele vem decorado com uma linguagem de criatividade, iniciativa e empreendedorismo. Mas a linguagem não tem importância. Os pensadores com maior probabilidade de fazer uma descoberta conceitual são os menos propensos a receber financiamento e, se ocorrerem avanços, não é provável que encontrem alguém disposto a dar seguimento às suas implicações mais ousadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Giovanni Arrighi observou que, após a bolha do mar do Sul, o capitalismo britânico abandonou em sua maioria a forma corporativa. Na época da Revolução Industrial, a Grã-Bretanha passou a contar com uma combinação de altas finanças e pequenas empresas familiares — um padrão que manteve ao longo do século seguinte, o período de máxima inovação científica e tecnológica (A Grã-Bretanha naquela época também era notória por ser tão generosa com seus esquisitos e excêntricos quanto a América contemporânea é intolerante. Um expediente comum era permitir que eles se tornassem vigários rurais, que, previsivelmente, se tornaram uma das principais fontes de descobertas científicas amadoras).</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo corporativo burocrático contemporâneo foi uma criação não da Grã-Bretanha, mas dos Estados Unidos e da Alemanha. As duas potências rivais que passaram a primeira metade do século XX travando duas guerras sangrentas para ver quem substituiria a Grã-Bretanha como potência mundial dominante — guerras que culminaram, apropriadamente, em programas científicos patrocinados pelo governo para ver quem seria o primeiro a descobrir a bomba atômica. É significativo, pois, que a nossa atual estagnação tecnológica pareça ter começado depois de 1945, quando os Estados Unidos substituíram a Grã-Bretanha como organizador da economia mundial.</p>
<p style="text-align: justify;">Os estadunidenses não gostam de pensar em si como uma nação de burocratas — muito pelo contrário —, mas no momento em que deixamos de imaginar a burocracia como um fenômeno limitado aos gabinetes governamentais, torna-se óbvio que foi precisamente isso que nos tornamos. A vitória final sobre a União Soviética não levou à dominação do mercado, mas, na verdade, cimentou o domínio das elites gerenciais conservadoras, burocratas corporativos que usam o pretexto do pensamento de curto prazo, competitivo e visando o lucro para reprimir qualquer coisa que possa ter implicações revolucionárias de qualquer tipo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se não percebemos que vivemos numa sociedade burocrática, é porque as normas e práticas burocráticas se tornaram tão difundidas que não podemos vê-las ou, pior ainda, não podemos imaginar fazer as coisas de outra forma.</p>
<p style="text-align: justify;">Os computadores desempenharam um papel crucial neste estreitamento da nossa imaginação social. Assim como a invenção de novas formas de automação industrial nos séculos XVIII e XIX teve o efeito paradoxal de transformar cada vez mais a população mundial em trabalhadores industriais, também todo o software concebido para nos salvar das responsabilidades administrativas nos transformou em administradores a tempo parcial ou a todo o tempo. Da mesma forma que professores universitários parecem sentir que é inevitável gastar mais do seu tempo gerindo subvenções, donas de casa ricas simplesmente aceitam que passarão semanas todos os anos preenchendo formulários on-line de quarenta páginas para colocar seus filhos nas escolas primárias. Todos gastamos cada vez mais tempo digitando senhas nos nossos celulares para gerir contas bancárias e de crédito e aprendendo a realizar os trabalhos que eram feitos por agentes de viagens, corretores e contadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguém uma vez descobriu que o americano médio vai passar um total de seis meses de vida à espera dos semáforos abrirem. Não sei se existem números semelhantes para o tempo que se demora para preencher formulários, mas deve ser pelo menos o mesmo tanto. Nenhuma população na história do mundo passou tanto tempo envolvida em papelada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157278" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ff7Q3G_UYAAK-Cq.jpg" alt="" width="2151" height="914" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ff7Q3G_UYAAK-Cq.jpg 2151w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ff7Q3G_UYAAK-Cq-300x127.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ff7Q3G_UYAAK-Cq-1024x435.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ff7Q3G_UYAAK-Cq-768x326.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ff7Q3G_UYAAK-Cq-1536x653.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ff7Q3G_UYAAK-Cq-2048x870.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ff7Q3G_UYAAK-Cq-988x420.jpg 988w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ff7Q3G_UYAAK-Cq-640x272.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ff7Q3G_UYAAK-Cq-681x289.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2151px) 100vw, 2151px" />Nesta fase final e estupidificante do capitalismo, estamos passando das tecnologias poéticas para as tecnologias burocráticas. Por tecnologias poéticas, refiro-me ao uso de meios racionais e técnicos para trazer fantasias loucas à realidade. As tecnologias poéticas, assim compreendidas, são tão antigas quanto a civilização. Lewis Mumford observou que as primeiras máquinas complexas eram feitas de pessoas. Os faraós egípcios só conseguiram construir as pirâmides devido ao seu domínio dos procedimentos administrativos, o que lhes permitiu desenvolver técnicas de linha de produção, dividindo tarefas complexas em dezenas de operações simples e atribuindo cada uma a uma equipe de trabalhadores — embora lhes faltasse uma tecnologia mecânica mais complexa do que o plano inclinado e a alavanca. A supervisão administrativa transformou exércitos de camponeses em engrenagens de uma vasta máquina. Muito mais tarde, após a invenção das engrenagens, projetar máquinas complexas elaborou princípios originalmente desenvolvidos para organizar pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, vimos essas máquinas — quer as suas partes móveis sejam braços e torsos ou pistões, rodas e molas — serem postas a trabalhar para realizar fantasias impossíveis: catedrais, fotografias lunares, estradas-de-ferro transcontinentais. Certamente, as tecnologias poéticas tinham algo terrível sobre elas; é provável que a poesia seja tanto de moinhos satânicos sombrios quanto de graça ou libertação. Mas as técnicas racionais e administrativas estavam sempre a serviço de algum fim fantástico.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa perspectiva, todos esses planos soviéticos loucos — mesmo que nunca realizados — marcaram o clímax das tecnologias poéticas. O que temos agora é o oposto. Não é que a visão, a criatividade e as fantasias loucas não sejam mais encorajadas, mas que a maioria permanece flutuante; não há mais a pretensão de que eles possam tomar forma ou corpo. A maior e mais poderosa nação que já existiu passou as últimas décadas dizendo aos seus cidadãos que já não podem contemplar empreendimentos coletivos fantásticos, mesmo que — como exige a crise ambiental — o destino da Terra dependa disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Quais são as implicações políticas de tudo isso? Em primeiro lugar, temos de repensar alguns dos nossos pressupostos mais básicos sobre a natureza do capitalismo. Um deles é que o capitalismo é idêntico ao mercado e ambos são, portanto, hostis à burocracia, que se supõe ser uma criatura do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo pressuposto é que o capitalismo é, na sua natureza, tecnologicamente progressista. Parece que Marx e Engels, em seu entusiasmo vertiginoso pelas revoluções industriais de sua época, estavam errados sobre isso. Ou, para ser mais preciso: eles estavam certos em insistir que a mecanização da produção industrial destruiria o capitalismo; eles estavam errados em prever que a concorrência de mercado obrigaria os proprietários de fábricas a mecanizar de qualquer maneira. Se não aconteceu, é porque a concorrência de mercado não é, de fato, tão essencial para a natureza do capitalismo quanto haviam pensado. Se nada mais, a forma atual do capitalismo, na qual grande parte da concorrência parece assumir a forma de <em>marketing</em> interno no interior das estruturas burocráticas das grandes empresas semi-monopolistas, teria sido uma completa surpresa para elas.</p>
<p style="text-align: justify;">Os defensores do capitalismo fazem três afirmações históricas gerais: primeiro, que ele promoveu um rápido crescimento científico e tecnológico; segundo, que, por mais que assegure enormes riquezas a uma pequena minoria, o faz de forma a aumentar a prosperidade global; terceiro, que, ao fazê-lo, cria um mundo mais seguro e democrático para todos. É claro que o capitalismo não está fazendo mais nenhuma dessas coisas. De fato, muitos dos seus defensores estão afastando-se da alegação de que se trata de um bom sistema e, em vez disso, recuam para a alegação de que é o único sistema possível — ou, pelo menos, o único sistema possível para uma sociedade complexa e tecnologicamente sofisticada como a nossa.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas como alguém poderia argumentar que os atuais arranjos econômicos são também os únicos que serão viáveis em qualquer possível sociedade tecnológica futura? O argumento é absurdo. Como alguém poderia saber?</p>
<p style="text-align: justify;">É verdade que há pessoas que assumem essa posição — em ambos os lados do espectro político. Como antropólogo e anarquista, encontro tipos anticivilizacionais que insistem não só que a tecnologia industrial atual leva somente à opressão ao estilo capitalista, mas que isso deve necessariamente ser verdade para qualquer tecnologia futura e, portanto, que a libertação humana só pode ser alcançada voltando à Idade da Pedra. Nós não somos, na maioria, deterministas tecnológicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas as reivindicações da inevitabilidade do capitalismo têm de basear-se numa espécie de terminismo tecnológico. E por isso mesmo, se o objetivo do capitalismo neoliberal é criar um mundo em que ninguém acredite que qualquer outro sistema econômico possa funcionar, ele tem de suprimir não somente qualquer ideia de um futuro redentor inevitável, mas qualquer futuro tecnológico radicalmente diferente. No entanto, há uma contradição. Os defensores do capitalismo não podem querer convencer-nos de que a mudança tecnológica acabou — uma vez que isso significaria que o capitalismo não conduz ao progresso. Não, eles querem nos convencer de que o progresso tecnológico continua, que vivemos num mundo de maravilhas, mas que essas maravilhas assumem a forma de melhorias modestas (o iPhone mais recente!), rumores de invenções prestes a acontecer (“ouvi dizer que vão haver carros voadores muito em breve”), formas complexas de fazer malabarismos com informações e imagens, e plataformas ainda mais complexas para o preenchimento de formulários.</p>
<p style="text-align: justify;">Não quero sugerir que o capitalismo neoliberal — ou qualquer outro sistema — possa ser bem-sucedido nesse sentido. Primeiro, há o problema de tentar convencer o mundo de que se está liderando o caminho no progresso tecnológico, quando você estiver impedindo-o. Os Estados Unidos, com a sua infraestrutura decadente, paralisia face ao aquecimento global e o abandono simbolicamente devastador do seu programa espacial tripulado, enquanto a China acelera o seu próprio programa, estão fazendo um trabalho de relações-públicas particularmente ruim. Em segundo lugar, o ritmo da mudança não pode ser retido para sempre. Avanços acontecerão; descobertas inconvenientes não podem ser permanentemente suprimidas. Outras partes do mundo menos burocratizadas — ou, pelo menos, partes do mundo com burocracias que não são tão hostis ao pensamento criativo — alcançarão lenta, mas inevitavelmente os recursos necessários para retomar de onde os Estados Unidos e seus aliados pararam. A Internet oferece, de fato, oportunidades de colaboração e divulgação que também podem ajudar a ultrapassar o muro. De onde virá o avanço? Não podemos saber. Talvez a impressão 3D faça o que as fábricas robóticas deveriam fazer. Ou talvez seja outra coisa. Mas vai acontecer.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos nos sentir especialmente confiantes sobre uma conclusão: isso não acontecerá no quadro do capitalismo corporativo contemporâneo — ou de qualquer forma de capitalismo. Para começar a construir cúpulas em Marte, ou para desenvolver os meios para descobrir se existem civilizações alienígenas para contactar, teremos de descobrir um sistema econômico diferente. O novo sistema deve assumir a forma de uma nova burocracia maciça? Por que assumimos que deve? Só quebrando as estruturas burocráticas existentes é que poderemos começar. E se vamos inventar robôs que lavem a nossa roupa e arrumem a cozinha, então teremos de nos certificar de que tudo o que substitui o capitalismo se baseia numa distribuição muito mais igualitária de riqueza e poder — uma distribuição que já não contém nem os super-ricos nem os desesperadamente pobres dispostos a fazer o seu trabalho doméstico. Só então a tecnologia começará a ser orientada para as necessidades humanas. E esta é a melhor razão para nos libertarmos da mão morta dos gestores de fundos de <em>hedge</em> e dos CEOs — para libertarmos as nossas fantasias das telas nas quais esses homens as aprisionaram, para deixarmos a nossa imaginação voltar a ser uma força material na história da humanidade.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são da série Andor &#8211; Uma história da Star Wars.</em></p>
<p><em>Traduzido por Marco Túlio Vieira a partir do <a href="https://davidgraeber.org/articles/of-flying-cars-and-the-declining-rate-of-profit/" target="_blank" rel="noopener">original em inglês</a>.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Carros voadores e a queda da taxa de lucro (parte 1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Aug 2025 00:17:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Onde estão os carros voadores, os campos de força, feixes tratores, viagens de teletransporte, e todas as outras maravilhas tecnológicas que qualquer criança crescida no século XX presumiu que existiriam agora? Por David Graeber ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por David Graeber</h3>
<p>Leia a <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157270/" target="_blank" rel="noopener">segunda parte do artigo aqui</a>.</p>
<p><strong>Ano:</strong> 2012 <strong>Notas:</strong> Baffler, No. 19 (2012), pp. 66-90</p>
<p style="text-align: justify;">Uma pergunta secreta paira sobre nós, um sentimento de decepção, uma promessa quebrada que nos foi feita quando éramos crianças sobre como o mundo adulto deveria ser. Não me refiro às falsas promessas comuns que sempre são feitas as crianças (sobre como o mundo é justo, ou que aqueles que trabalham duro serão recompensados), mas a uma promessa geracional particular — feita àqueles que eram crianças nos anos cinquenta, sessenta, setenta ou oitenta — que nunca foi articulada como uma promessa, mas sim como um conjunto de suposições sobre como seria o nosso mundo quando adultos. E uma vez que nunca foi totalmente prometida, agora que não se tornou realidade, ficamos confusos: indignados e, ao mesmo tempo, envergonhados com a nossa própria indignação. Para começar, envergonhados por termos sido tão tolos em acreditar nos mais velhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Onde, em suma, estão os carros voadores? Onde estão os campos de força, feixes tratores, viagens de teletransporte, trenós antigravitacionais, tricorders, drogas da imortalidade, colônias em Marte e todas as outras maravilhas tecnológicas que qualquer criança que cresceu em meados do século XX presumiu que existiriam agora? Mesmo aquelas invenções que pareciam prestes a surgir — como a clonagem ou a criogenia — acabaram por trair as suas elevadas ambições. O que lhes aconteceu?<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157210" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ks-Spinner-flying-car-in-Blade-Runner-2049-580951408.jpg" alt="" width="2000" height="829" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ks-Spinner-flying-car-in-Blade-Runner-2049-580951408.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ks-Spinner-flying-car-in-Blade-Runner-2049-580951408-300x124.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ks-Spinner-flying-car-in-Blade-Runner-2049-580951408-1024x424.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ks-Spinner-flying-car-in-Blade-Runner-2049-580951408-768x318.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ks-Spinner-flying-car-in-Blade-Runner-2049-580951408-1536x637.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ks-Spinner-flying-car-in-Blade-Runner-2049-580951408-1013x420.jpg 1013w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ks-Spinner-flying-car-in-Blade-Runner-2049-580951408-640x265.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Ks-Spinner-flying-car-in-Blade-Runner-2049-580951408-681x282.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Estamos bem informados das maravilhas dos computadores, como se isso fosse uma espécie de compensação inesperada, mas, de fato, nem sequer a computação avançou para o ponto que as pessoas dos anos cinquenta esperavam que já tivéssemos alcançado. Não temos computadores com os quais possamos ter uma conversa interessante, ou robôs que possam passear com nossos cães ou levar nossas roupas para a lavanderia.</p>
<p style="text-align: justify;">Como alguém que tinha oito anos na época do pouso lunar da Apollo, lembro-me de ter calculado que teria trinta e nove anos no ano mágico de 2000 e de me perguntar como seria o mundo. Eu esperava estar vivendo em um mundo repleto de maravilhas? É claro. Todos esperavam. Me sinto enganado agora? Parecia improvável que eu vivesse para ver todas as coisas sobre as quais estava lendo na ficção científica, mas nunca me ocorreu que não veria nenhuma delas.</p>
<p style="text-align: justify;">Na virada do milênio, esperava uma onda de reflexões sobre por que havíamos nos equivocado tanto em relação ao futuro da tecnologia. Em vez disso, quase todas as vozes respeitáveis — tanto de esquerda como de direita — começaram suas reflexões partindo do pressuposto de que vivemos numa nova utopia tecnológica sem precedentes, de um tipo ou de outro.</p>
<p style="text-align: justify;">A maneira mais comum de lidar com a sensação desconfortável de que isso pode não ser assim é ignorá-la, insistir em que todos os progressos que poderiam ter acontecido aconteceram e tratar qualquer outra coisa como bobagem. “Oh, você quer dizer todas essas coisas dos Jetsons?” Me perguntam — como se dissessem que isso era apenas para crianças! Certamente, como adultos, nós entendemos que Os Jetsons oferece um olhar tão preciso para o futuro quanto Os Flintstones oferecem da Idade da Pedra.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, mesmo nos anos setenta e oitenta, fontes sóbrias como a National Geographic e o Smithsonian informavam as crianças sobre estações espaciais iminentes e expedições à Marte. Os criadores de filmes de ficção científica costumavam inventar datas concretas, muitas vezes não mais do que uma geração no futuro, para ambientar suas fantasias futuristas. Em 1968, Stanley Kubrick achou que um público que vai ao cinema acharia perfeitamente natural supor que somente trinta e três anos depois, em 2001, teríamos voos comerciais à lua, estações espaciais semelhantes a cidades e computadores com personalidades humanas mantendo astronautas em animação suspensa enquanto viajavam para Júpiter. A videotelefonia é praticamente a única tecnologia nova desse filme em particular que apareceu — e era tecnicamente possível quando o filme estava sendo exibido. 2001 pode ser visto como uma curiosidade, mas e Star Trek? O universo de Star Trek foi definido nos anos sessenta também, mas o programa continuou sendo revivido, deixando o público de Star Trek Voyager em, digamos, 2005, tentar descobrir o que fazer com o fato de que, segundo a lógica do programa, o mundo deveria estar se recuperando da guerra contra o domínio dos super-homens geneticamente modificados nas Guerras Eugênicas dos anos noventa.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1989, quando os criadores de De Volta para o Futuro II estavam zelosamente colocando carros voadores e hoverboards antigravidade nas mãos de adolescentes comuns no ano de 2015, não estava claro se aquilo era uma previsão ou uma piada.</p>
<p style="text-align: justify;">A jogada comum na ficção científica é permanecer vago sobre as datas, de modo a tornar “o futuro” uma zona de pura fantasia, nada diferente da Terra Média ou Nárnia, ou como Star Wars, “há muito tempo atrás em uma galáxia muito, muito distante”. Como resultado, o nosso futuro da ficção científica não é, na maioria das vezes, um futuro, mais como uma dimensão alternativa, um tempo de sonho, um Outro Lugar tecnológico, existente nos dias que virão, no mesmo sentido que os elfos e os matadores de dragões existiam no passado — outra tela para a exibição de dramas morais e fantasias míticas para os becos sem saída do prazer do consumista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157206" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2001-Space-Odyssey-Wallpaper-1920x1080-1553699946.jpg" alt="" width="1920" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2001-Space-Odyssey-Wallpaper-1920x1080-1553699946.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2001-Space-Odyssey-Wallpaper-1920x1080-1553699946-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2001-Space-Odyssey-Wallpaper-1920x1080-1553699946-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2001-Space-Odyssey-Wallpaper-1920x1080-1553699946-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2001-Space-Odyssey-Wallpaper-1920x1080-1553699946-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2001-Space-Odyssey-Wallpaper-1920x1080-1553699946-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2001-Space-Odyssey-Wallpaper-1920x1080-1553699946-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2001-Space-Odyssey-Wallpaper-1920x1080-1553699946-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Poderia a sensibilidade cultural que veio a ser referida como pós-modernismo ser melhor vista como uma meditação prolongada sobre todas as mudanças tecnológicas que nunca aconteceram? A pergunta me surpreendeu quando assisti a um dos filmes recentes de Star Wars. O filme era terrível, mas não pude deixar de me sentir impressionado com a qualidade dos efeitos especiais. Relembrando dos efeitos especiais desajeitados típicos dos filmes de ficção científica dos anos cinquenta, fiquei pensando em como um público dos anos cinquenta ficaria impressionado se soubesse o que poderíamos fazer agora — apenas para perceber: “Na verdade, não. Não ficariam impressionados, ficariam? Eles achavam que já estaríamos fazendo esse tipo de coisas. Não só descobrindo maneiras mais sofisticadas de simulá-las.”</p>
<p style="text-align: justify;">Essa última palavra — simular — é a chave. As tecnologias que avançaram desde os anos setenta são principalmente tecnologias médicas ou tecnologias da informação — na maioria, tecnologias de simulação. São tecnologias do que Jean Baudrillard e Umberto Eco chamaram de “hiper-real”, a capacidade de fazer imitações mais realistas do que os originais. A sensibilidade pós-moderna, a sensação de que de alguma forma havíamos entrado num novo período histórico sem precedentes em que compreendemos não haver nada de novo; que grandes narrativas históricas de progresso e libertação não tinham sentido; que tudo agora era simulação, repetição irônica, fragmentação e pastiche — tudo isso faz sentido num ambiente tecnológico em que os únicos avanços foram aqueles que facilitaram a criação, transferência e reorganização de projeções virtuais de coisas que já existiam, ou, como percebemos, nunca passariam a existir. É certo que, se estivéssemos de férias em cúpulas geodésicas em Marte ou carregando por aí usinas de fusão nuclear de bolso, ou dispositivos telecinéticos de leitura da mente, ninguém jamais falaria assim. O momento pós-moderno foi uma maneira desesperada de tomar o que de outra forma só poderia ser sentido como uma amarga decepção e vesti-lo como algo transformador, excitante e novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas primeiras formulações, que saíram em sua maioria da tradição marxista, muito desse contexto tecnológico foi reconhecido. O livro “Pós-Modernismo, ou a Lógica Cultural do Capitalismo Tardio”, de Fredric Jameson, propôs o termo “pós-modernismo” para se referir à lógica cultural apropriada a uma nova fase tecnológica do capitalismo, anunciada pelo economista marxista Ernest Mandel já em 1972. Mandel argumentou que a humanidade estava à beira de uma “terceira revolução tecnológica”, tão profunda quanto a Revolução da Agricultura ou a Revolução Industrial, na qual os computadores, robôs, novas fontes de energia e novas tecnologias da informação iriam substituir a força de trabalho industrial — o “fim do trabalho”, como logo seria chamado — reduzindo todos nós a designers e técnicos de informática tendo loucas visões do que fábricas cibernéticas iriam produzir.</p>
<p style="text-align: justify;">Os argumentos do fim do trabalho eram populares no final dos anos setenta e início dos oitenta, à medida que os pensadores sociais ponderavam o que aconteceria com a luta popular tradicional liderada pela classe trabalhadora, uma vez que a classe trabalhadora não existisse mais. (A resposta: se transformaria em políticas de identidade.) Jameson se via explorando as formas de consciência e sensibilidades históricas susceptíveis de emergir dessa nova era.</p>
<p style="text-align: justify;">O que aconteceu, em vez disso, é que a difusão das tecnologias da informação e das novas formas de organização dos transportes — a conteinerização do transporte marítimo, por exemplo — permitiram que esses mesmos empregos industriais fossem transferidos para o leste asiático, América Latina e outros países onde a disponibilidade de força de trabalho barata permitia aos fabricantes empregar técnicas de linha de produção muito menos sofisticadas tecnologicamente do que teriam sido obrigados a empregar em seus países de origem.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157207" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2288c6e8a85f4526dead67a9bdabb1d3-gpLarge-122305910.jpg" alt="" width="960" height="540" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2288c6e8a85f4526dead67a9bdabb1d3-gpLarge-122305910.jpg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2288c6e8a85f4526dead67a9bdabb1d3-gpLarge-122305910-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2288c6e8a85f4526dead67a9bdabb1d3-gpLarge-122305910-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2288c6e8a85f4526dead67a9bdabb1d3-gpLarge-122305910-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2288c6e8a85f4526dead67a9bdabb1d3-gpLarge-122305910-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/2288c6e8a85f4526dead67a9bdabb1d3-gpLarge-122305910-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />Do ponto de vista daqueles que viviam na Europa, América do Norte e Japão, os resultados parecem ter saído muito como o previsto. As chaminés das indústrias desapareceram; os empregos passaram a ser divididos entre um estrato inferior de trabalhadores de serviços e um estrato superior sentado em bolhas anti-sépticas brincando com computadores. Mas, por baixo de tudo isso, havia uma consciência desconfortável de que a civilização pós-trabalho era uma gigantesca fraude. Os nossos tênis de alta tecnologia cuidadosamente concebidos não estavam sendo produzidos por ciborgues inteligentes ou nanotecnologia molecular autorreplicante; estavam sendo fabricados no equivalente a máquinas de costura Singer antiquadas, pelas filhas de agricultores mexicanos e indonésios que, como resultado de acordos comerciais patrocinados pela OMC ou NAFTA, haviam sido expulsos das suas terras ancestrais. Era uma consciência culpada que estava por detrás da sensibilidade pós-moderna e da sua celebração do jogo interminável de imagens e superfícies.</p>
<p style="text-align: justify;">Por que a explosão projetada de crescimento tecnológico que todos esperavam — as bases lunares, as fábricas robóticas — não aconteceu? Existem duas possibilidades. Ou as nossas expectativas sobre o ritmo da mudança tecnológica eram irreais (nesse caso, precisamos saber por que razão tantas pessoas inteligentes acreditavam que não eram) ou as nossas expectativas não eram irreais (nesse caso, precisamos saber o que aconteceu para descarrilar tantas ideias e perspectivas críveis).</p>
<p style="text-align: justify;">A maioria dos analistas sociais escolhe a primeira explicação e traça o problema até à corrida espacial durante a Guerra Fria. Por que, perguntam esses analistas, tanto os Estados Unidos como a União Soviética ficaram tão preocupados com a ideia de viagens espaciais tripuladas? Nunca foi uma forma eficiente de se empenhar na investigação científica. E incentivou ideias irreais de como o futuro da humanidade seria.</p>
<p style="text-align: justify;">Poderia a resposta ser que tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética haviam sido, no século anterior, sociedades de pioneiros, uma em expansão através da fronteira ocidental, a outra pela Sibéria? Elas não compartilhavam do compromisso com o mito de um futuro ilimitado e expansivo, da colonização humana de vastos espaços vazios, que ajudou a convencer os líderes de ambas as superpotências de que entraram numa “era espacial” em que se lutava pelo controle do próprio futuro? Todos os tipos de mitos estavam em ação aqui, sem dúvida, mas isso não prova nada sobre a viabilidade do projeto.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas dessas fantasias de ficção científica (neste momento não podemos saber quais) poderiam ter sido criadas. Para as gerações anteriores, muitas fantasias de ficção científica foram criadas. Quem cresceu na virada do século lendo Júlio Verne, H. G. Wells imaginou o mundo, digamos, de 1960, com máquinas voadoras, foguetes, navios, submarinos, rádio e televisão — e foi basicamente isso que eles alcançaram. Se não era irreal em 1900 sonhar com homens que viajavam para a Lua, então por que era irreal nos anos sessenta sonhar com jet-packs e empregadas robôs?</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, mesmo quando esses sonhos estavam sendo delineados, a base material para a sua realização começava a ser reduzida. Há razões para acreditar que, mesmo nos anos cinquenta e sessenta, o ritmo da inovação tecnológica abrandava em relação ao ritmo inebriante da primeira metade do século. Houve uma última onda nos anos cinquenta, quando os fornos de micro-ondas (1954), a pílula anticoncepcional (1957) e os lasers (1958) apareceram em rápida sucessão. Mas, desde então, os avanços tecnológicos assumiram a forma de novos modos inteligentes de combinar tecnologias existentes (como na corrida espacial) e novos modos de colocar as tecnologias existentes em uso para o consumidor (o exemplo mais famoso é a televisão, inventada em 1926, mas produzida em massa somente após a [segunda] guerra). No entanto, em parte porque a corrida espacial deu a todos a impressão de que avanços notáveis estavam acontecendo, a expectativa popular durante os anos sessenta era de que o ritmo da mudança tecnológica estava acelerando de maneiras aterrorizantes e incontroláveis.</p>
<p style="text-align: justify;">O <em>best-seller</em> de Alvin Toffler, <em>Future Shock</em>, de 1970, argumentou que quase todos os problemas sociais dos anos sessenta podem ser rastreados até o ritmo crescente das mudanças tecnológicas. O fluxo interminável de avanços científicos transformou os fundamentos da existência diária e deixou os estadunidenses sem qualquer ideia clara do que era a vida normal. Bastava pensar na família, onde não apenas a pílula anticoncepcional, mas também a perspectiva de fertilização <em>in vitro</em>, bebês de proveta e doação de esperma e óvulos estavam prestes a tornar obsoleta a ideia da maternidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Os seres humanos não estavam psicologicamente preparados para o ritmo da mudança, escreveu Toffler. Ele cunhou um termo para o fenômeno: “impulso acelerativo”. Começou com a Revolução Industrial, mas por volta de 1850, o efeito tornou-se inconfundível. Não só tudo estava mudando à nossa volta, mas a maior parte — o conhecimento humano, o tamanho da população, o crescimento industrial, a utilização de energia — estava mudando exponencialmente. A única solução, argumentou Toffler, era começar a ter algum tipo de controle sobre o processo, criar instituições que avaliassem as tecnologias nascentes e os seus efeitos prováveis, proibir as tecnologias susceptíveis de serem demasiado disruptivas socialmente e orientar o desenvolvimento na direção da harmonia social.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora muitas das tendências históricas que Toffler descreve sejam precisas, o livro apareceu quando a maioria dessas tendências exponenciais frearam. Foi por volta de 1970 que o aumento do número de artigos científicos publicados no mundo — um número que duplicava a cada quinze anos desde, aproximadamente, 1685 — começou a se estabilizar. O mesmo aconteceu com os livros e as patentes.</p>
<p style="text-align: justify;">A utilização de aceleração por Toffler foi particularmente lamentável. Durante a maior parte da história humana, a velocidade máxima com que os seres humanos podiam viajar foi de cerca de 25 milhas por hora [aprox. 40 km/h]. Em 1900, havia aumentado para 100 milhas por hora [aprox. 161 quilômetros por hora] e, nos setenta anos seguintes, parecia estar aumentando exponencialmente. Quando Toffler estava escrevendo, em 1970, o recorde de velocidade mais rápida em que qualquer humano havia viajado era de cerca de 25.000 mph [aprox. 40.234 km/h], alcançado pela tripulação da Apollo 10 em 1969, apenas um ano antes. A um ritmo tão exponencial, deve ter parecido razoável supor que, em questão de décadas, a humanidade estaria explorando outros sistemas solares.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde 1970, não se registaram novos aumentos. O recorde para o mais rápido que um humano já viajou permanece com a tripulação da Apollo 10. É verdade que o avião comercial Concorde, que voou pela primeira vez em 1969, atingiu uma velocidade máxima de 1.400 mph [aprox. 2.253 km/h]. E o soviético Tupolev Tu-144, que voou primeiro, atingiu uma velocidade ainda mais rápida de 1.553 mph [aprox. 2.499 km/h]. Mas essas velocidades não só não aumentaram, como diminuíram desde o cancelamento do Tupolev Tu-144 e o abandono do Concorde. Nada disso impediu a própria carreira de Toffler. Ele continuou reformulando sua análise para apresentar novos pronunciamentos espetaculares. Em 1980, ele produziu a Terceira Onda, seu argumento retirado da “terceira revolução tecnológica” de Ernest Mandel — exceto que, embora Mandel pensasse que essas mudanças significariam o fim do capitalismo, Toffler presumiu que o capitalismo era eterno. Em 1990, Toffler foi o guru intelectual pessoal do congressista republicano Newt Gingrich, que afirmou que seu “Contrato Com a América” de 1994 foi inspirado, em parte, pelo entendimento de que os Estados Unidos precisavam passar de uma mentalidade antiquada, materialista e industrial para uma nova era da informação, de livre mercado, e da civilização da Terceira Onda.</p>
<p style="text-align: justify;">Há todo o tipo de ironias a esse respeito. Uma das maiores realizações de Toffler foi inspirar o governo a criar um Escritório de Avaliação de Tecnologia (OTA). Um dos primeiros atos de Gingrich ao conquistar o controle da Câmara dos Representantes em 1995 foi retirar verbas da OTA como um exemplo de extravagância inútil do governo. Ainda assim, não há contradição aqui. A essa altura, Toffler já havia desistido de influenciar a política, apelando para o público; ganhava a vida, em grande parte, dando seminários para CEOs e <em>think tanks</em> corporativos. As suas ideias foram privatizadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157208" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/wp2005271-1557402630-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/wp2005271-1557402630-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/wp2005271-1557402630-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/wp2005271-1557402630-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/wp2005271-1557402630-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/wp2005271-1557402630-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/wp2005271-1557402630-2048x1152.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/wp2005271-1557402630-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/wp2005271-1557402630-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/wp2005271-1557402630-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Gingrich gostava de se chamar um “futurologista conservador”. Isso também pode parecer oximorônico; mas, de fato, a própria concepção de futurologia de Toffler nunca foi progressiva. O progresso foi sempre apresentado como um problema que precisava ser resolvido.</p>
<p style="text-align: justify;">Toffler pode ser melhor visto como uma versão peso leve do teórico social do século XIX Auguste Comte, que acreditava estar à beira de uma nova era — no seu caso, a Era Industrial — impulsionada pelo progresso inexorável da tecnologia, e que os cataclismos sociais de sua época foram causados pelo sistema social não conseguindo se ajustar. A antiga ordem feudal desenvolvera a teologia católica, uma forma de pensar sobre o lugar do homem no cosmos perfeitamente adequado ao sistema social da época, bem como uma estrutura institucional, a Igreja, que transmitia e aplicava tais ideias de uma forma que poderia dar a todos um sentido de significado e de pertença. A Era Industrial havia desenvolvido o seu próprio sistema de ideias — a ciência — mas os cientistas não haviam conseguido criar nada parecido com a Igreja Católica. Comte concluiu que precisávamos desenvolver uma nova ciência, que ele apelidou de “Sociologia”, e disse que os sociólogos deveriam desempenhar o papel de padres em uma nova religião da sociedade que inspirasse a todos um amor pela ordem, comunidade, disciplina do trabalho e valores familiares. Toffler era menos ambicioso; seus futurologistas não deveriam desempenhar o papel de padres.</p>
<p style="text-align: justify;">Gingrich tinha um segundo guru, um teólogo libertário chamado George Gilder, que era, como Toffler, obcecado por tecnologia e mudança social. De uma forma estranha, Gilder era mais otimista. Abraçando uma versão radical do argumento da Terceira Onda de Mandel, ele insistiu que o que estávamos vendo com o surgimento dos computadores era uma “derrubada da matéria”. A velha sociedade industrial materialista, em que o valor provém do trabalho físico, dava lugar a uma Era da Informação na qual o valor emerge diretamente das mentes dos empresários, tal como o mundo surgira originalmente ex nihilo da mente de Deus, tal como o dinheiro, numa economia adequada ao lado da oferta, emergiu ex nihilo do Federal Reserve direto para as mãos dos capitalistas criadores de valor. As políticas econômicas do lado da oferta, concluiu Gilder, garantiriam que o investimento continuasse a afastar-se dos velhos penduricalhos do governo, como o programa espacial, e se movesse em direção a tecnologias médicas e da informação mais produtivas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas se houvesse uma mudança consciente, ou semiconsciente, do investimento em pesquisa que pudesse levar a melhores foguetes e robôs, em direção a pesquisas que levassem a coisas como impressoras a laser e exames de tomografia computadorizada, isso havia começado bem antes do <em>Future Shock</em> de Toffler (1970) e do <em>Wealth and Poverty</em> de Gilder (1981). O que o sucesso deles demonstra é que as questões que levantaram — que os padrões de desenvolvimento tecnológico existentes levariam a uma convulsão social e que precisávamos orientar o desenvolvimento tecnológico em direções que não desafiassem as estruturas de autoridade existentes — ecoaram nos corredores do poder. Os estadistas e os capitães da indústria já pensavam nessas questões há algum tempo.</p>
<p><em>Traduzido por Marco Túlio Vieira a partir do <a href="https://davidgraeber.org/articles/of-flying-cars-and-the-declining-rate-of-profit/" target="_blank" rel="noopener">original em inglês</a>.</em></p>
<p><em>As imagens que ilustram esse artigo são de Star Trek &#8211; Voyager, Blade Runner, 2001 &#8211; uma Odisséia no Espaço e De Volta Para o Futuro.</em></p></blockquote>
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		<title>Canceladores de todo o mundo, cancelai-vos!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Aug 2025 12:24:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
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					<description><![CDATA[Como o “oficial” do conto kafkiano, os canceladores estão absolutamente convencidos da culpa dos outros. Além disso, amam os mecanismos de punição que criam e passam a defendê-los com amor. Por Jan Cenek ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O que choca nos cancelamentos é a inversão de valores civilizatórios: a presunção de culpa, a obrigação de provar a inocência. É como se, para os canceladores, todos fossem culpados e faltasse apenas a revelação do crime. Se é assim, a dosimetria pode até ser discutida posteriormente, a punição às vezes não é a mais indicada, mas é sempre legítima, porque o homem é sobretudo culpado, ainda que não saiba exatamente do que, como Joseph K. Para cancelar bastam pequenos indícios e alguns indivíduos com sede de vingança, ímpeto punitivista e vontade de linchar. Outro ponto chocante nos cancelamentos é ausência de rito processual. Quem conhece a justiça burguesa em teoria ou na própria pele sabe que, mesmo quando o objetivo principal, ainda que velado, é punir; o acusado tem direito ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal. Violações desses princípios podem significar o arquivamento do processo. No reino dos cancelamentos não é assim. Canceladores não têm – nem querem ter – nenhuma noção do que é direito ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal. Bastam pequenos indícios, porque a culpa é indubitável. Os acusadores são juízes, carcereiros e carrascos ao mesmo tempo. A presunção de inocência não interessa aos punitivistas porque estão absolutamente convencidos de que os outros são culpados, e porque gozam reprimindo. Difícil separar uma coisa da outra, elas se retroalimentam e se reforçam. Se as infrações ainda não foram denunciadas, é porque estão para ser reveladas. Questão de tempo. O pecado é original e universal. Um ou mais pecados para cada homem. Daí a justeza da punição, sempre.</p>
<p style="text-align: justify;">Há vários exemplos de cancelamentos absurdos, que têm menos a ver com os fatos do que com a sede de vingança, a vontade de linchar e o gozo punitivista. Até o finado Franz Kafka foi cancelado recentemente. Mas eu não lembrava a razão. Precisei recorrer ao <em>Google</em> para recordar e não vale sequer comentar o caso. Avancemos. Mais à frente retornaremos à Kafka. Certa vez, discutindo com alguns canceladores (a maioria eram canceladoras) afirmei que, para serem coerentes, deveriam levar o argumento até as últimas consequências e defender a pena de morte, que é um cancelamento completo e definitivo. Sintomaticamente, houve quem rebateu dizendo que a pena capital só seria aplicada aos pobres, como se essa fosse a questão. Se a pena de morte fosse aplicada para todas as classes sociais tudo bem? Por serem canceladores ligados à esquerda, ficaram irritados com a associação à pena capital e disseram que meu argumento não fazia sentido. Como sempre acontece, o caso que motivou aquela discussão foi esquecido – a exemplo do cancelamento de Kafka –  e, com esquecimento, o debate desapareceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Li recentemente as <em>Reflexões sobre a guilhotina</em>, do escritor franco-argelino Albert Camus <strong>[1]</strong>. Na primeira metade do século XX a pena de morte ainda não havia sido abolida em países como Inglaterra e França. As execuções não aconteciam mais em praça pública, mas continuavam previstas em lei. Albert Camus perdeu o pai, Lucien Auguste Camus, quando tinha apenas um ano. Mas uma experiência do pai marcou profundamente o filho, ainda que nunca tenham conversado sobre a questão. Certo dia Lucien Camus acordou cedo para assistir uma execução pública. Quando voltou para casa vomitou e nunca mais foi o mesmo. Albert Camus conheceu a história indiretamente, por meio de familiares, mas, mesmo assim, ficou marcado por ela. As execuções reaparecem posteriormente na obra do escritor franco-argelino, no romance <em>O estrangeiro</em>, por exemplo. Em 1957, publicou <em>Reflexões sobre a guilhotina</em> para denunciar a pena de morte, que ainda não havia sido abolida na França. O próprio Camus reconhece que não formulou novos argumentos, apenas recolheu e compilou ideias elaboradas anteriormente, além de agregar depoimentos de carrascos e capelães. Um dos argumentos me fez pensar nos cancelamentos do tempo presente. Os defensores da pena de morte sustentavam que a prática inibiria criminosos. Camus rebateu com dados e argumentos. Não vou reproduzi-los. Apenas destaco um questionamento do romancista. Se a pena de morte servia para inibir, porque cada vez menos se fazia publicidade das execuções? Por que as execuções foram removidas das praças públicas para o pátio das cadeias, sendo acompanhadas por um público cada vez mais reduzido. Se o objetivo fosse realmente pregar com o exemplo, o correto e coerente seria publicizar as execuções ao máximo. Mas estava acontecendo exatamente o contrário. Provavelmente porque o único efeito prático das execuções públicas era o trauma que causavam em homens como Lucien Camus.</p>
<p style="text-align: justify;">Conforme avançava nas páginas de Camus, lembrei da associação que havia feito entre pena de morte e cancelamento, na discussão que tive com alguns punitivistas. Se o objetivo principal dos canceladores realmente fosse inibir atos indevidos, o correto seria discutir e publicizar ao máximo os cancelamentos realizados. Ocorre que a divulgação ampliada vai até o ponto em que os canceladores conseguem cravar a sentença – que eles próprios definiram – na carne, na alma e na biografia dos cancelados. Depois disso os casos desaparecem. Caem no esquecimento. Como se objetivo já tivesse sido alcançado. Como se o importante fosse apenas e simplesmentente punir. Esse movimento me fez pensar na remoção de execuções das praças públicas para dentro das cadeias. Provavelmente para não chocar homens como Lucien Camus, que mudariam de lado ao presenciar a brutalidade da pena capital. Os leitores de Franz Kafka já devem ter percebido aonde quero chegar.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Na colônia penal</em> <strong>[2]</strong> é um conto pesado de Kafka. Foi escrito em 1914 e publicado em 1919 <strong>[3]</strong>. Durante a leitura pública do texto na galeria Goltz, em Munique, duas senhoras desmaiaram <strong>[4]</strong>. Mais ou menos na mesma época Lucien Camus acordou cedo para assistir uma execução pública. Depois voltou para casa, vomitou e nunca mais foi o mesmo. No conto de Kafka um “explorador” europeu visita uma colônia penal nos trópicos para conhecer o método de execução local. Ele é conduzido e informado por um “oficial” que é também juiz e carrasco. Ou seja, acumula funções, como os canceladores do tempo presente, que atuam como promotores, juízes e carcereiros. Há outros dois personagens no conto. Um “soldado” e um “condenado”. Como na maioria dos textos de Kafka, os personagens não têm nomes próprios, o que despersonaliza os homens e aumenta a tensão. O “oficial” recebe, conduz e explica o processo de execução ao “explorador”. Naquela colônia penal as execuções eram realizadas com uma máquina desenvolvida por um comandante já falecido. Tradição mantida e defendida com unhas e dentes pelo “oficial”. A máquina de matar era formada por três partes. Embaixo uma cama que vibrava, onde o executado era deitado de bruços e amarrado. No meio um rastelo – com agulhas afiadas – que descia para “desenhar” a sentença no corpo do condenado. Em cima um desenhador – com as engrenagens dispostas conforme o teor da sentença – que comandava os movimentos do rastelo. As execuções duravam aproximadamente doze horas. Os primeiros encontros das agulhas com a carne do condenado eram praticamente indolores, o homem sentia apenas um arrepio. Nas <em>reflexões sobre a guilhotina</em>, Camus <strong>[5]</strong> ironiza um comentário do Dr. Guilhotin: os decapitados sentiam muito mais que um “leve frescor na nuca”. <em>Na colônia penal</em>  kafkiana os executados morriam em doze horas. No início as agulhas quase não machucavam. Mas aos poucos iam desenhando a sentença cada vez mais fundo na carne do condenado. Com duas horas o executado era incapaz de gritar. Depois de seis horas deixava de se alimentar com a papa de arroz que lhe era oferecida porque perdia “o prazer de comer” <strong>[6]</strong> e, mais importante, começava “a decifrar a escrita [&#8230;] com seus ferimentos” <strong>[7]</strong>. Na décima segunda hora o executado estava morto <strong>[8]</strong>: “o rastelo o atravessa de lado a lado e o atira no fosso, onde caía de estalo sobre o sangue misturado à água e o algodão. A sentença está então cumprida e nós, eu e o soldado, o enterramos.”</p>
<p style="text-align: justify;">As palavras desenhar e desenhador não estão à toa no conto de Kafka. As sentenças eram peças artísticas, elaboradas com caracteres especiais, para serem desenhadas – com agulhas – nos corpos dos executados. As sentenças faziam referência aos “mandamentos” descumpridos pelos condenados. Kafka mencionou duas sentenças no conto: “Honra teu superior!” e “Seja justo!”  O amor do “oficial” pelas sentenças em forma de peças artísticas e o amor dele pela máquina de matar é o ponto forte e chocante do conto. Se repito a palavra amor é porque é exatamente disso que se trata. É a partir do amor do “oficial” (carrasco) por seu trabalho que vou saltar para os canceladores do tempo presente. Antes quero citar dois trechos intrigantes e antecipatórios do conto kafkiano. É um diálogo do “explorador” que visitava a colônia penal com o “oficial” responsável pelas execuções <strong>[9]</strong>:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>– Ele conhece a sentença?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>– Não – disse o oficial, e logo quis continuar com suas explicações.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Mas o explorador o interrompeu:</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>– Ele não conhece a própria sentença?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>– Não – repetiu o oficial e estacou um instante, como se exigisse do explorador uma fundamentação mais detalhada da sua pergunta; depois disse:</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>– Seria inútil anunciá-la. Ele vai experimentá-la na própria carne.</em></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo trecho aparece na sequência, é a continuação do diálogo entre o “explorador” e o “oficial” <strong>[10]</strong>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>– Mas ele certamente sabe que foi condenado, não?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>– Também não – disse o oficial e sorriu para o explorador, como se ainda esperasse dele algumas manifestações insólitas.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>– Não – disse o explorador passando a mão pela testa. – Então até agora o homem ainda não sabe como foi acolhida sua defesa?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>– Ele não teve a oportunidade de se defender – disse o oficial, olhando de lado como se falasse consigo mesmo e não quisesse envergonhar o explorador com coisas tão óbvias.</em></p>
<p style="text-align: center;">[&#8230;]</p>
<p style="text-align: center;"><em>– As coisas se passam da seguinte maneira. Fui nomeado juiz aqui na colônia penal </em>[&#8230;]<em> O princípio segundo tomo decisões é: a culpa é sempre indubitável.</em></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O drama do condenado do conto <em>Na colônia penal</em> é semelhante ao de Joseph K. no romance <em>O processo</em>.  O primeiro não sabe que foi condenado. O segundo não sabe do que é acusado. Nenhum dos dois desconfia que vai morrer. A sacada é de Milan Kundera <strong>[11]</strong>: o peso da culpa é insuportável para Raskolnikov, que consente na punição (o crime procura um castigo); não saber do que é acusado é insuportável para Joseph K., que busca alguma falta na sua vida pregressa (o castigo procura um crime). A certeza absoluta da culpa aproxima o “oficial” – que é também juiz e carrasco – da<em> colônia penal</em> dos canceladores do tempo presente. Quantos cancelamentos realizados em nome do princípio de que “a culpa é sempre indubitável”. Quantos linchamentos sem possibilidade de defesa. Quanto gozo punitivista. A presunção de inocência transformada na certeza de que “a culpa é sempre indubitável”. Dirão que nenhum cancelador executou alguém numa máquina como a operada pelo “oficial” da <em>colônia penal</em>. É verdade. Mas também é verdadeiro que os canceladores não têm tanto poder quanto o “oficial” do kafkiano. O que fariam se tivessem?</p>
<p style="text-align: justify;">Minha hipótese é que, como o “oficial” do conto kafkiano, os canceladores estão absolutamente convencidos da culpa dos outros. Além disso, amam os mecanismos de punição que criam e passam a defendê-los com amor semelhante ao que tem o “oficial” da <em>colônia penal</em> pela máquina de matar. Como estão religiosamente convencidos de que a culpa é indubitável e porque gozam reprimindo, o ideal dos punitivistas é que todo homem se transforme num Joseph K., e busque voluntariamente faltas e erros na sua vida pregressa.  Não é coincidência, para ser tolerado em tempos de cancelamento, um homem deve – antes de tudo e fundamentalmente – se arrepender. Sobretudo e sempre: arrepender-se. Começar pelo arrependimento. Isso porque a culpa é indubitável e os canceladores gozam reprimindo. É difícil saber o que vem antes. A certeza de que a culpa é indubitável ou o amor pelos mecanismos de punição? O certo é que – nos canceladores e no “oficial” da <em>colônia penal</em> – uma coisa alimenta e fortalece a outra. Quanto maior a certeza da culpa, maior o amor pelos mecanismos de punição, e o inverso é verdadeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">No começo do século XX, Franz Kafka visitou uma exposição em Praga junto com o poeta Gustav Janouch. Sobre os quadros de Pablo Picasso, Kafka<strong> [12]</strong> comentou com Janouch: “ele apenas registra deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência” [&#8230;] “a arte é um espelho que adianta como um relógio”. Certeiro. Paraíso punitivista: o mundo transformado numa imensa colônia penal. É impressionante como as deformidades dos canceladores são antecipadas no “oficial” da<em> colônia penal</em>. A certeza absoluta da culpa dos outros. O gozar reprimindo. O amor aos mecanismos de punição. E mais, o destino dos canceladores costuma ser semelhante ao do “oficial” da <em>colônia penal</em> kafkiana. Já aconteceu algumas vezes e vai se repetir outras tantas. Mas paro por aqui. Não vou contar o final do conto. Quem leu já sabe. Quem não leu é só procurar o texto. Vale a pena. No mais e parafraseando Marx: canceladores de todo o mundo, cancelai-vos!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Albert Camus. <em>Reflexões sobre a guilhotina</em>. Rio de Janeiro: Record, 2022.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Franz Kafka. <em>Essencial</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Kafka, op. cit., p. 61.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4] </strong>Kafka, op. cit., p. 61.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5] </strong>Camus, op. cit., p 29.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6] </strong>Kafka, op. cit., p. 77.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7] </strong>Kafka, op. cit., p. 77.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8] </strong>Kafka, op. cit., p. 78.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9] </strong>Kafka, op. cit., p. 71.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10] </strong>Kafka, op. cit., p. 71 e 72.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11] </strong>Milan Kundera. <em>A arte do romance</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 107.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12] </strong>Kafka, op. cit., p. 155.</p>
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		<title>Um papo sobre a família neoliberal como unidade produtiva</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Jun 2025 10:58:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
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					<description><![CDATA[A criança e o adolescente da família neoliberal são, ao mesmo tempo, déspotas com poderes, quase onipotentes, sobre seus serviçais, mas também débeis e impotentes, pois desimportantes para seus pais. Por Vitor Ahagon]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Vitor Ahagon</h3>
<p style="text-align: justify;">Em casa, minha companheira e eu temos o costume de transformar os momentos do banho em grandes e pequenas conversas. Muitas delas giram em torno do nosso trabalho. Ambos somos professores, ela do ensino infantil e eu do ensino médio. Somos professores da rede particular de ensino. Eu sou professor de uma escola de bairro na zona norte e de uma outra em bairro de playboy da zona sul. Ela trabalha em uma escola que está em outro patamar ($$$). Mas ambos, como os velhos socialistas já diziam, não recebemos por tudo aquilo que trabalhamos. Dentre todas as demandas que temos no trabalho, as famílias são centrais, principalmente no infantil. Foi em torno desse tema que nossa conversa se deu…</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p style="text-align: justify;">No contexto das sociedades capitalistas, podemos considerar a família como uma unidade produtiva. Especificamente nas sociedades de economia neoliberal, os arrimos de família são obrigados a despender muito mais horas no trabalho para sustentar suas proles no que tange a saúde, educação e lazer. Em tais sociedades, cindidas por classes, a distribuição da lei ou norma varia tanto quanto a composição da estrutura familiar que a sustenta. Nesse sentido, para a classe média emergente de alta capacidade de consumo, a conquista do mercado de trabalho pela força de trabalho feminina e a manutenção ou elevação dos cargos masculinos produziram uma ausência de referências de autoridade, portanto, da norma e da instituição da lei no interior da família, elementos fundamentais que delimitam as fronteiras do que é ou não permitido, e que foram ocupadas por figuras provenientes da indústria cultural digital para crianças e adolescentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, quando as crianças ou adolescentes da classe média emergente de alta capacidade de consumo impõem suas vontades no seio familiar, não encontram resistências por parte das figuras paternas, pois estas estão esvaziadas de autoridade. Diante da incapacidade de impor as normas, os pais ou responsáveis terceirizam essa responsabilidade à instituição escolar. Não à toa, as escolas mais disputadas pela classe média emergente são aquelas mais tradicionais e rígidas, dispostas a dobrar a coluna das crianças e adolescentes até o limite da mensalidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A típica família da classe média emergente é um <em>tipo ideal de família</em> que, apesar de não ter realidade empírica, nos serve de ferramenta heurística para analisar o fenômeno social da família contemporânea. No entanto, ainda que a família de classe média emergente seja uma categoria abstrata, ela é almejada como <em>ideal de família</em> e tem se tornado, cada vez mais, a forma hegemônica da <em>família ideal</em>, influenciando as formas familiares das classes média empobrecida e trabalhadora, muito mais diversas em suas composições.</p>
<p style="text-align: justify;">A forma específica da relação com a lei e a composição da estrutura do tipo ideal familiar da classe média emergente de alta capacidade de consumo é a forma familiar, por excelência, do neoliberalismo. A terceirização da imposição da norma para a instituição escolar é seguida da terceirização generalizada de toda gestão doméstica. A família de classe média emergente ou <em>família neoliberal</em>, mobiliza todo um conjunto de trabalhadores precarizados: empregadas domésticas, cozinheiras, babás, professores de inglês, ifood, uber e as plataformas de streaming. Sujeitos que têm corpo e classe muito diversa dos corpos dos sujeitos da classe média emergente de alta capacidade de consumo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-156867" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/banksy-napalm.png" alt="" width="1200" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/banksy-napalm.png 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/banksy-napalm-300x169.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/banksy-napalm-1024x576.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/banksy-napalm-768x432.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/banksy-napalm-747x420.png 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/banksy-napalm-640x360.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/banksy-napalm-681x383.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Na dominação tradicional da família patriarcal, a criança e o adolescente reprimem neuroticamente a libido, uma vez que as leis são instituídas pelas figuras parentais. A família neoliberal parte da dominação racional com relação a fins, na medida em que as crianças e adolescentes deslocam a libido para as instituições e trabalhadores precarizados. No contexto da família patriarcal, a repressão libidinal pode interiorizar o conflito, adoecendo a criança e o adolescente, ou externalizá-lo, fazendo explodir a relação entre pais e filhos. Já na família neoliberal, o deslocamento libidinal, ou terceirização da libido, transfere aos trabalhadores e à escola o conflito. A vantagem para pais, crianças e adolescentes é que sempre sairão ganhando, uma vez que o outro se apresenta, ou melhor, representa a prestação de serviço. O trabalho do trabalhador precarizado degrada em serviço. O que, por sua vez, faz degradar o trabalhador em serviçal, sendo o fruto deste serviço/trabalho propriedade do proprietário e não de quem trabalha.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, a criança e o adolescente da família neoliberal são, ao mesmo tempo, déspotas com poderes, quase onipotentes, sobre seus serviçais, mas também e inclusive, débeis e impotentes, pois desimportantes para seus pais, uma vez que a libido destes estão todas investidas em si mesmos e não em seus filhos. O sintoma desse desinvestimento, produz nos pais a culpa e a tentativa de suprir a ausência libidinal por mercadorias que supostamente são desejo da criança e do adolescente. Nestes últimos, os sintomas que mais se manifestam são a carência, devido ao desinteresse dos pais pelos filhos, e o individualismo, uma vez que percebem que o destino da libido deve voltar-se para si mesmos, assim como seus pais fazem com eles próprios.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p style="text-align: justify;">Brisas à parte, após o banho, eu e minha companheira encostamos nossas cabeças no travesseiro e dormimos o sono, não dos justos, mas dos explorados. Amanhã teremos mais conversas, talvez sobre outro tema, talvez a continuação desse.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são do artista britânico Banksy (1974 &#8212;)<br />
</em></p>
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