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	<title>Anarquismo &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Perdido na tradução</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Jan 2025 22:44:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Numa de suas últimas visitas ao Brasil o filósofo Toni Negri aceitou o convite de um grupo de militantes para uma reunião. Como ninguém sabia italiano, o filósofo falou em francês e um camarada traduzia para o português. A dada altura, ao falar das organizações operárias do início do século XX impulsionadas pelos socialistas italianos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Numa de suas últimas visitas ao Brasil o filósofo Toni Negri aceitou o convite de um grupo de militantes para uma reunião. Como ninguém sabia italiano, o filósofo falou em francês e um camarada traduzia para o português. A dada altura, ao falar das organizações operárias do início do século XX impulsionadas pelos socialistas italianos o camarada traduziu <em>&#8220;socialistes&#8221;</em> por &#8220;anarquistas&#8221;. Negri percebeu o embuste e falou em italiano mesmo: <em>&#8220;Non anarchico. Socialista!&#8221;</em>. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>À frente do seu tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Dec 2024 15:59:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
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					<description><![CDATA[Já passaram mais de 10 anos, talvez uns 15, é certo que faz um bom tempo que vi a apresentadora, durante o seu programa de televisão, perguntar para um jovem o que ele fazia da vida, e ele respondeu: “Já fui anarquista, agora sou fashion total.” Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Já passaram mais de 10 anos, talvez uns 15, é certo que faz um bom tempo que vi a apresentadora, durante o seu programa de televisão, perguntar para um jovem o que ele fazia da vida, e ele respondeu: “Já fui anarquista, agora sou <em>fashion</em> total.” <strong>Passa Palavra<br />
</strong></p>
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		<title>Crítica radical</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 20 Jan 2024 12:36:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[ Em um canal de YouTube de proposta anarquista/autonomista, os jovens militantes reagem via Twitch a um canal de outro viés ideológico. Perguntados nos comentários se neste outro grupo há um negro, respondem que “tem, mas parece meio nerd”. Perguntados se tem mulher respondem que “sim, mas é patricinha”. Um dos integrantes comenta ainda que aquelas pessoas “lembram o pessoal de sua faculdade”. Passa Palavra ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em um canal de YouTube de proposta anarquista/autonomista, os jovens militantes reagem via Twitch a um canal de outro viés ideológico. Perguntados nos comentários se neste outro grupo há um negro, respondem que “tem, mas parece meio nerd”. Perguntados se tem mulher respondem que “sim, mas é patricinha”. Um dos integrantes comenta ainda que aquelas pessoas “lembram o pessoal de sua faculdade”. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Resenha: Neno Vasco por Neno Vasco: fragmentos autobiográficos de um anarquista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Mar 2023 10:55:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Que este livro possa mobilizar em você esses e outros afetos, mas que também inspire a lutar pela construção de novas relações radicalmente igualitárias e igualmente libertárias.  Por Vitor Ahagon]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Vitor Ahagon</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Confesso que quando li, pela primeira vez, o trabalho do historiador, pesquisador &#8211; e, sobretudo, amigo &#8211; Thiago Lemos, fui tomado por muitos sentimentos. Antes de tudo, fiquei orgulhoso de ter próximo a mim um amigo e companheiro talentoso, pois me impressionou como Thiago conseguiu unir rigor metodológico, sensibilidade narrativa e reflexão crítica, virtudes tão raras em tempos de produções acadêmicas que visam apenas preencher e encher o <em>Currículo Lattes</em>. Mas também, logo em seguida, senti uma vontade tremenda de falar sobre essa obra e da sua importância, tanto no que tange à pesquisa, quanto à militância. Apesar dos desejos, essa não foi uma tarefa fácil, acreditem, só o começo desse texto foi escrito umas quatro ou cinco vezes. Acho que senti um receio que adveio, justamente, de saber o tamanho da importância do livro de Thiago.</p>
<p style="text-align: justify;">Envolto nessa atmosfera, enfim, comecei a refletir a respeito do que iria escrever. Usualmente, as resenhas de livros são elaborados para ressaltar o valor da obra que estão apresentando, mas logo nas primeiras páginas, o leitor percebe que a escrita ágil e arguta de Thiago Lemos já realiza tal tarefa de forma brilhante, por isso, julguei que seria mais interessante pincelar um ou dois aspectos que mais me marcaram do livro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Evidentemente, um dos traços que mais me impressionou, e que continua me impressionando muito, é o rigor metodológico do trabalho do pesquisador. Seguindo a tradição de outros pesquisadores anarquistas, como Elisée Reclus e Piotr Kropotkin, Thiago Lemos tem o mesmo cuidado em nos apresentar os principais debates historiográficos para a construção de biografias e trajetórias individuais. Assim, mobilizando todo um arcabouço teórico-metodológico, nos apresenta Neno Vasco em sua complexidade. Sem a pretensão de abarcar todos os aspectos de sua vida enquanto um indivíduo indivisível ou monolítico, o historiador, utilizando a metáfora do mosaico, nos expõe fragmentos da vida e a trajetória militante de Vasco em sua singularidade, ao mesmo tempo em que nos revela o vínculo intrínseco com os aspectos estruturais da sociedade capitalista da aurora do século XX.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como Kropotkin, ao dissertar sobre a ciência de seu tempo, Thiago entende que o conhecimento histórico sofreu uma transformação que obrigou o historiador a se debruçar sobre seu objeto de estudo a partir de uma nova perspectiva, na qual cada um dos aspectos singulares dos “infinitamente pequenos”, em tensão e diálogo com a totalidade que está integrado, nos revela a potência e as fragilidades que cada um de nós construímos em nosso percurso enquanto seres singulares.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-148067 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/pp1.jpg" alt="Neno Vasco por Neno Vasco" width="402" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/pp1.jpg 402w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/pp1-201x300.jpg 201w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/pp1-281x420.jpg 281w" sizes="(max-width: 402px) 100vw, 402px" /></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Se outrora a ciência dedicava-se a estudar os grandes resultados e as grandes somas (as integrais, diria o matemático), hoje ela dedica-se, sobretudo, a estudar os infinitamente pequenos, os indivíduos de que se compõem essas somas, e das quais se acabou por reconhecer a independência e a individualidade, ao mesmo tempo que a sua íntima agregação <strong>[1]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para analisar essa relação tensa e complexa entre singularidade e totalidade, Thiago utilizou uma variedade enorme de fontes, como cartas, jornais e outros, porém acabou privilegiando as crônicas que Neno Vasco escrevia para a imprensa operária e anarquista daqui e de lá do Atlântico. Escolha certeira, pois foi através delas que conseguiu ressaltar como Vasco foi se construindo ao longo de sua militância, quais foram as ponderações que avaliou e como enfrentou os problemas que atingiam toda classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">A crônica, sendo um gênero literário que registra os acontecimentos corriqueiros do cotidiano, ganhou, nos escritos de Vasco, a dimensão do fazer-se da militância anarquista nas suas mais variadas facetas, como a educativa, a anticlerical, a sindical e muitas outras. Podemos dizer que, na medida em que produzia a crônica do cotidiano militante, construía também um diagnóstico do que é crônico no próprio capitalismo, ou seja, o que se repete de forma ininterrupta e que faz adoecer tantas pessoas, levando muitas delas ao óbito, como até mesmo ele próprio, vitimado pela tuberculose em decorrência da pobreza que lhe sugava, de forma vampiresca, a saúde.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi a partir dessa perspectiva, que Lemos discorreu sobre o desenraizamento da classe trabalhadora na mundialização do capitalismo e o consequente recrudescimento do nacionalismo e da xenofobia; falou sobre as questões de gênero e o patriarcado, a exploração da força de trabalho e a luta de classes; a promiscuidade entre religião e política, a violência dos opressores e a reação dos oprimidos; os significados da Guerra e da Revolução… Todos esses foram os sintomas que Vasco analisou e que Thiago conseguiu, com um olhar sensível e escrita afiada, perceber como se repetem até os dias de hoje. As suas manifestações podem ser diferentes, mas estão sempre presentes, latentes, no corpo social até o dia em que Capital e Estado deixarem de existir. Thiago, quando traz os textos de Neno Vasco, faz ecoar a forma como o anarquista buscou lidar com esses sintomas, quais foram as suas propostas para tal ou mesmo acabar com esses sofrimentos e talvez essa seja uma das lições mais importantes deste livro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Espero que com essas singelas palavras, eu tenha conseguido transmitir para os leitores a emoção que foi ler o trabalho desse incansável pesquisador, militante e valoroso amigo. Que este livro possa mobilizar em você esses e outros afetos, mas que também inspire, assim como fez comigo, a lutar pela construção de novas relações radicalmente igualitárias e igualmente libertárias.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-148068 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/pp2.jpg" alt="Neno Vasco por Neno Vasco" width="746" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/pp2.jpg 746w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/pp2-300x241.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/pp2-522x420.jpg 522w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/pp2-640x515.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/pp2-681x548.jpg 681w" sizes="(max-width: 746px) 100vw, 746px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Notas</strong>:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> KROPOTKIN, Piotr. <em>Anarquia, sua filosofia, seu ideal</em>. Editora Imaginário, São Paulo, 2000, p. 28.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Julio Pomar (1926-2018).</em></p>
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		<title>Notas sobre o Sri Lanka</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 Dec 2022 13:45:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Sri Lanka]]></category>
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					<description><![CDATA[Depois de anos de opressão e apenas ter medo do Estado, ver jovens em pé nas barricadas gritando “não temos medo”, foi uma coisa enorme. Ill Will entrevista anarquistas no Sri Lanka]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Ill Will entrevista anarquistas no Sri Lanka</h3>
<h4></h4>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: center;">10 de agosto de 2022</h4>
<h4 style="text-align: center;">Anônimo</h4>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Em 9 de julho, centenas de milhares de birmaneses invadiram e ocuparam vários prédios importantes do governo, forçando o presidente Gotabaya [Rajapaksa] a renunciar e fugir do país. Esse foi o clímax de uma revolta de meses desencadeada pela pior crise econômica que o país viu desde a independência. No centro dos protestos está uma ocupação em expansão no coração de Colombo, a capital do país insular.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a poeira baixou, o então primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe, um aliado próximo da família Rajapaksa, foi eleito presidente pelo Parlamento em 20 de julho. Na noite seguinte, o último prédio do governo ocupado foi desocupado por soldados, assim como uma parte do principal acampamento dos protestos. Nas semanas seguintes, uma onda de repressão foi desencadeada, com numerosos ativistas sendo presos ou se escondendo. No momento em que publicamos isto, a polícia ameaça despejar a ocupação.</p>
<p style="text-align: justify;">Após o ataque de 22 de julho, <em>Ill Will</em> realizou duas entrevistas com anarquistas no Sri Lanka acerca de suas opiniões sobre o levante: seus limites, seus horizontes e como pode se dar a próxima fase. A primeira entrevista foi realizada por correspondência com um anarquista e jornalista que vive em Kandy, a segunda maior cidade do Sri Lanka. A segunda foi feita num café dos subúrbios de Colombo com J. e Z., dois anarquistas envolvidos numa tenda de distribuição de ajuda mútua na ocupação e que estiveram na linha de frente dos protestos desde o início.</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<div class="level3">
<h4 style="text-align: center;">Kandy</h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Ill Will: Você pode compartilhar a sua opinião sobre a situação atual? </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Mesmo após a renúncia de Gota [diminutivo de Gotabaya], o Sri Lanka continua preso ao mesmo grupo de políticos. O novo presidente, Ranil Wickremesinghe, manobrou para chegar ao poder por trás desse golpe público e reinstalou o mesmo gabinete. Milhões de birmaneses estão desapontados com essa reviravolta após meses de protestos. Alguns até acusam o movimento de protesto de ser uma espécie de quinta-coluna para Wickremesinghe e os seus apoiadores ocidentais. Enquanto isso, Wickremesinghe está exercendo todo o poder do Estado ao declarar um estado de emergência que dá aos militares e policiais poderes para reprimir os dissidentes. Os manifestantes dizem que vão continuar a lutar, mas ninguém sabe ao certo como, dado o talento extraordinário de Wickremesinghe como político astuto e sua reputação feroz por ter neutralizado brutalmente militantes de esquerda e ativistas durante a insurreição do Janatha Vimukthi Peramuna <strong>[1]</strong> (JVP) no final dos anos 1980 <strong>[2]</strong>.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Você pode falar um pouco sobre si mesmo e sua história?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Antes do <em>Occupy Colombo</em>, eu participava da cena ambientalista local. Muitas pessoas dos grupos ambientalistas eram ativistas sociais. Muitas vezes tínhamos conversas sobre política radical e de extrema-esquerda. Então, antes dos protestos <em>Gota Go Home</em> [Gota vá para casa], tínhamos afinidade com pessoas com ideias semelhantes, mas não tínhamos um “grupo” em si.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como você foi exposto pela primeira vez à política anarquista?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em 2016 entrei para o mercado de trabalho e rapidamente fiquei descontente com o meu trabalho. Isso me empurrou para grupos de esquerda no <em>Facebook</em>. Comecei a ler literatura comunista e durante esse tempo toda a onda populista de direita, com Trump, Bolsonaro, Duterte e Le Penn, se desenvolveu. À medida que me aprofundava na política de esquerda, comecei a ler Kropotkin e as obras de outros escritores anarquistas. Eu também descobri sites como <em>Crimethinc</em> e <em>Adbusters</em>, que me deram uma visão sobre a esquerda libertária. Quanto mais eu pesquisava a rica história do anarquismo, como a Guerra Civil Espanhola e o movimento do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) no Sul do México, mais eu estava convencido de que outro mundo era possível.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Existe uma tradição ou cena anarquista no Sri Lanka? Existem outros grupos com os quais você está em contato?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Não há movimento anarquista no Sri Lanka, mas há uma longa história da esquerda no país. Houve duas insurreições de inspiração maoista lançadas pela JVP no início dos anos 1970 e no final dos anos 1980. A maioria dos partidos políticos no Sri Lanka são progressistas e de esquerda apenas no nome, e foram formados como uma reação contra o imperialismo ocidental e o passado colonial do país. No entanto, assim como os regimes socialistas na América do Sul, estes chamados governos e partidos progressistas sempre foram reacionários e estatistas até o caroço e não se preocupam de verdade com a classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas há tendências anarquistas na sociedade do Sri Lanka. Essas tendências surgiram abertamente como resultado da crise financeira deste ano e do movimento de protesto. Mas nenhuma facção, partido ou grupo se inscreve abertamente no anarquismo ou mantém visões anarquistas no Sri Lanka. Não estamos em contato com grupos anarquistas no estrangeiro porque não estamos devidamente organizados e só seguimos ativistas individuais nas redes sociais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como foi o seu envolvimento nos protestos e na ocupação?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Participei de pequenas manifestações de rua às vésperas da insurreição em Mirihana, mas não estava pessoalmente lá no momento em que começou <strong>[3]</strong>. Ajudei os ativistas e os manifestantes quando a ocupação <em>Gota Go Gama</em> [Gama vá para casa] foi formada. As primeiras semanas foram fenomenais – foi provavelmente a primeira vez que os birmaneses testemunharam um protesto de ocupação em massa. Havia tendas de suprimentos que distribuíam comida gratuita para os manifestantes, ocupantes e visitantes; era um bom exemplo de ajuda mútua e solidariedade. Os protestos geralmente eram pacíficos, com apenas alguns confrontos com a tropa de choque da polícia.</p>
<p style="text-align: justify;">A maioria dos birmaneses não sabe que a polícia e os soldados estão lá para proteger o Estado. Como resultado, muitos estavam confraternizando abertamente com a polícia e pensaram que os policiais estavam “apenas fazendo o seu trabalho”. Os sentimentos antipolícia começaram a crescer quando a crise financeira realmente começou a pegar. Em seguida, a mão pesada do Estado apareceu com força total.</p>
<p style="text-align: justify;">Com exceção da extrema-esquerda, os birmaneses geralmente simpatizam com a polícia e as forças de segurança. De forma perturbadora, muitos, na maioria cingalesa, veem os militares como seus “salvadores” por esmagarem o separatismo tâmil durante a guerra civil. Mas, quando os cassetetes começaram a descer em suas cabeças em 22 de julho, eles ficaram perplexos. Alguns gritaram: “Vocês deveriam nos proteger!” Ignoravam o fato que a polícia e os militares são instrumentos do Estado.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-146834 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-1024x683.jpg" alt="" width="640" height="427" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/sidewalk_graffiti.jpg 1920w" sizes="(max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Que debates e divergências de perspectiva surgiram no movimento, ou dentro do seu próprio grupo?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Nós tivemos debates sobre tática e política. Tentei educar alguns dos ocupantes nas ideias anarquistas, mas isso não deu nenhum resultado. Os poucos que afirmavam ser anarquistas não se preocuparam em ser informados ou não tinham uma inclinação para serem organizados. Os manifestantes pensavam mais ou menos que o seu movimento popular tinha poder de barganha depois de deporem Gota. Eles presumiram que as tropas e a polícia se retirariam e os deixariam ocupar os prédios do Estado e ditar mudanças. Mas chegar até aqui é um milagre. Vejo como um primeiro passo para vencer muitas batalhas.</p>
<p style="text-align: justify;">A política de esquerda, como eu disse, foi tornada impopular aqui por partidos e grupos pseudo-esquerdistas, como a JVP. A maioria dos jovens vê a ideologia socialista com desprezo. Para eles, o socialismo é para professores universitários enfadonhos, estudantes universitários irritantes e políticos mentirosos que choramingam de cima de palanques por causa do “imperialismo ocidental”. Para os jovens, a República Democrática Socialista do Sri Lanka é um fracasso em comparação com as nações capitalistas mais prósperas. Os Tigres Asiáticos, como Hong Kong e Singapura, são vistos como o que o Sri Lanka poderia ter sido se tivesse adotado plenamente as políticas de livre mercado. Mas os birmaneses tendem a ignorar o fato de Hong Kong e Singapura serem Estados policiais brutais, incompatíveis com ilhéus descontraídos e tranquilos como eles. Os birmaneses não conhecem a esquerda libertária. Eles não ouviram falar de lugares como Rojava, o Estado Livre Ucraniano de 1918, a Catalunha na década de 1930 ou a atual Chiapas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais foram alguns dos grandes pontos de inflexão do movimento?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os maiores pontos de inflexão no movimento foram os dias 9 de maio e 9 de julho. No dia 9 de maio, o ex-primeiro-ministro Mahinda Rajapaksa mandou seus bandidos para desmantelar os locais de protesto em frente de Temple Trees e Galle Face <strong>[4]</strong>. Assim que esses capangas começaram a atacar o <em>Gota Go Gama</em>, pessoas de escritórios e bairros próximos e até trabalhadores portuários vieram em socorro dos ocupantes <strong>[5]</strong>. O que se seguiu foi uma noite de retribuição, quando muitas mansões e propriedades de políticos do governo foram incendiadas. Os apoiantes de Rajapaksa foram espancados e jogados no Lago da Beira, em Colombo. O dia 9 de julho foi apelidado de “Ultimato” [Endgame], por causa do filme da Marvel, e com razão. Milhares convergiram para o Palácio Presidencial e para o Secretariado Presidencial e o resto é história.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong> O que você vê como oportunidades perdidas durante a luta? Quais foram alguns dos limites ou obstáculos que a luta não conseguiu superar?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os anarquistas, ou aqueles com ideias anarquistas, não se organizaram bem para participar coletivamente dos protestos e apoiar a luta contra o Estado, ou para educar as pessoas que chegavam à ocupação. Os liberais e outras tendências políticas no movimento de protesto só queriam reformar o Estado, expulsando o grupo atual e escrevendo uma nova Constituição. Nós, anarquistas, entendemos que, se tudo o que conseguirmos forem acordos de curto prazo com os capitalistas que realmente controlam o Estado, os problemas do Sri Lanka apenas continuarão. Vimos o quanto essas corporações estão devastando o meio ambiente para dar lugar a plantações, fábricas e <em>resorts</em>. Entendemos que qualquer compromisso com a burguesia terminará em fracasso. A linguagem é uma das principais barreiras à difusão da nossa mensagem. Precisamos de encontrar tradutores dedicados que possam colocar literatura anarquista nos meios de comunicação cingaleses e tâmeis. Os anarquistas no Sri Lanka, sendo um grupo pequeno, e vendo a relutância das pessoas em relação ao anarquismo, geralmente postergam a confecção de quaisquer zines em cingalês ou tâmil.</p>
<p style="text-align: justify;">Formas de anarquismo verde, anarco-primitivismo e <em>guerrilla gardening</em> têm atraído os birmaneses, dada a nossa cultura pastoril e ao ambiente verde na ilha. Muitos do nosso povo anseiam pelos tempos simplistas em que a vida estava em equilíbrio com a natureza.</p>
<p style="text-align: justify;">Oficialmente, o movimento de protesto adere ao princípio da não-violência. Mas, ironicamente, os seus momentos mais importantes, 9 de maio e 9 de julho, foram definidos pela violência e pela ação direta. As “tropas da linha de frente” mais importantes nestes protestos são a Federação Interuniversitária de Estudantes (IUSF), coloquialmente chamada <em>Anthare</em>. A <em>Anthare</em> emprega um estilo muito agressivo de protesto e muitas vezes lidera o ataque contra a tropa de choque. A <em>Anthare</em> é formada pelos resquícios dos movimentos estudantis de extrema-esquerda da JVP e são acusados pelos liberais de tenderem para uma postura destrutiva. Os liberais, no entanto, marcham atrás da <em>Anthare</em> até que todo o gás lacrimogêneo desapareça e a luta mais dura acabe, e depois levam todo o crédito.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como você espera que seja a próxima fase da luta?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Dada a reputação de Ranil Wickremsinghe como um repressor brutal e político astuto, o movimento enfrentará muitos desafios que não enfrentou nos meses anteriores. As forças reacionárias e fascistas estão se reagrupando neste momento e vão lançar contra-ataques para se vingar da humilhação que sofreram no dia 9 de maio. Ouvimos dizer que o aparato estatal está identificando os principais líderes dos protestos na esperança de intimidar ou subornar. Sabemos também que os agentes políticos e as fábricas governamentais estão trabalhando duro para desviar e desacreditar a dissidência pública.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que significaria vencer?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A vitória final seria que o povo do Sri Lanka se levantasse como um só, derrubasse os seus senhores e se apoderasse dos meios de produção. A ilha seria organizada em torno de coletivos de trabalhadores e agricultores totalmente autônomos, livres para tomar suas próprias decisões e construir uma terra verdadeiramente libertária. O Sri Lanka existiu de forma autossuficiente durante séculos. Se o país estiver livre da tirania do Estado e do capital, seria praticamente uma utopia onde as pessoas vivem para si mesmas e não para a baboseira de um Estado-nação.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais são as lições do Sri Lanka para as lutas em outros lugares?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Sri Lanka ensina que os protestos espontâneos podem enfraquecer a vontade de um regime tirânico. Também ensina a importância da solidariedade porque uniu muitas correntes políticas e ideologias em torno de um propósito, como a Guerra Civil Espanhola.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que as pessoas fora do Sri Lanka podem fazer para apoiá-los?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Precisamos que mais anarquistas do exterior nos visitem e nos ensinem sobre organização. Aprender com os livros é bom, mas estamos severamente limitados quando se trata de experiência. Gostaríamos muito de aprender com levantes indígenas como o de Chiapas, no México; e com anarquistas na Grécia, sobre como eles se organizaram durante a crise financeira lá.</p>
<p style="text-align: justify;">Também temos grande falta de recursos políticos, como o acesso à literatura política. Estamos procurando uma boa impressora para podermos fazer zines, cartazes e adesivos para espalhar informações. Pessoalmente, penso que o primeiro passo para nos organizarmos aqui seria construirmos um pequeno centro de comunicação social com uma impressora e computadores para podermos interagir com anarquistas no estrangeiro e imprimir material. Aí, uma vez que os nossos grupos sejam suficientemente grandes, podemos avançar para ações diretas. Antes de julho, alguns de nós tinham planos de fazer grandes pinturas nos prédios, mas é especialmente desafiador devido ao atual estado de emergência. Mesmo pequenos delitos podem ser punidos desproporcionalmente, com ativistas tendo de enfrentar longas batalhas judiciais e longas penas de prisão. As viagens e a mobilidade são enormes problemas que enfrentamos neste momento devido à escassez de combustível no Sri Lanka. Alguns de nós estão usando bicicletas para se locomoverem, mas mesmo o preço das bicicletas subiu devido à enorme procura.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que planeja fazer agora?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Nos organizarmos em grupos de afinidade para planejar os nossos próximos passos e decidir o que é necessário fazer agora.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>(26 de julho de 2022)</em></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146836 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-1024x754.jpg" alt="" width="640" height="471" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-1024x754.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-300x221.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-768x566.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-1536x1131.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-570x420.jpg 570w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-640x471.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades-681x502.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/police_with_grenades.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: center;">Colombo <strong>[6]</strong></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Em primeiro lugar, você pode compartilhar a sua opinião sobre a situação atual?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Honestamente, todos nós estamos experimentando algum nível de medo por causa da repressão conduzida pelo Estado e da recente caça às bruxas. Mas também estamos frustrados e irritados pelo fato de, após quase quatro meses de protestos, não termos chegado nem perto de alcançar o que nos propusemos a fazer. Ainda há uma grande parte da população que sente que ganhamos simplesmente porque mandamos Gotabaya e os Rajapaksas para casa. Em primeiro lugar, aquela foi uma vitória simbólica. E em segundo lugar, eles não foram realmente mandados para casa; enquanto Ranil Wickremesinghe permanecer no poder, eles estão apenas nos bastidores, esperando o momento certo para voltar. Então, estamos numa espécie de fase de esperar para ver.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece um jogo premeditado que eles estão jogando com os Rajapaksas e Ranil no poder agora. Há tantas coisas que poderiam ser feitas neste momento para resolver a crise em que este país se encontra. No entanto, o foco deles tem sido principalmente reprimir as manifestações e ir atrás dos manifestantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Ranil, que é um dos políticos mais fracassados da história do Sri Lanka, esteve envolvido em inúmeras fraudes e alegações de fraudes, além de estar ligado aos campos de tortura dos anos 1980. Ele nem sequer foi eleito para o Parlamento no seu próprio distrito eleitoral. Ninguém queria que Ranil chegasse ao poder. As pessoas sabiam que ele estava lá apenas para proteger os Rajapaksas. As cartas acabaram de ser embaralhadas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Você pode falar um pouco sobre como tem sido a repressão?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">As pessoas estão sendo presas pelo seu envolvimento na Aragalaya [palavra que significa “luta” e tem sido usada para definir os protestos de 2022]. Foi declarado um estado de emergência, que está sendo usado como pretexto para prender quem quer que seja a qualquer momento. Eles não precisam nem de um mandado de busca para te levar. Vimos aquele cara, o Danish Ali, sendo arrastado para fora de um avião. Eles vão atrás de qualquer um que tenha se destacado, qualquer um que apareça nos vídeos que viralizaram. Até mesmo o cara que contou e entregou o dinheiro que foi encontrado no Palácio Presidencial foi preso, junto com seus quatro amigos. Estão indo atrás de pessoas que roubaram o ferro de passar do presidente ou a bandeira dele. Coisas assim, entende? É bem estúpido.</p>
<p style="text-align: justify;">Começou assim. Mas agora eles têm uma equipe trabalhando para rever todas as imagens de todos os protestos e identificar os rostos das pessoas que apareceram em vários protestos, qualquer pessoa que esteja mais ativamente envolvida. Querem apenas nos arrastar para o sistema judicial, mesmo que não sejamos necessariamente presos. Eles só querem fazer da nossa vida um inferno. Na verdade, não há espaço suficiente nas prisões e há pessoas demais envolvidas neste movimento para poderem prender todo mundo. É mais para fazer com que todos tenham medo, para que deem um passo para trás e o movimento se dissipe lentamente.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como tem sido o envolvimento de vocês?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Nós estivemos envolvidos na organização de alguns protestos. Houve os “protestos de bolso” para elevar o moral. As pessoas sentiam que a Aragalaya estava muito limitada aos locais da ocupação, que se tornaram muito politizados de várias maneiras. Por isso, fizemos uma pressão para que as pessoas começassem a protestar de novo nos seus bairros e em entroncamentos. Fizemos uma série de protestos chamados “Sextas-feiras de Liberdade” [FreedomFridays]. Vários grupos foram formados nos bairros, separados da Aragalaya.</p>
<p style="text-align: justify;">O nosso grupo organizou um protesto na porta do Ministério da Eletricidade e do Alto Comissariado Indiano contra as relações corruptas entre Gotabaya e o primeiro-ministro indiano [Narendra] Modi. Porque parecia que eles estavam explorando a crise para assumir e monopolizar os projetos de energia no Sri Lanka. Sem o nosso grupo, isso não teria acontecido. Podemos ser processados pela Índia. De acordo com a Anistia [Internacional], eles têm um arquivo sobre todas as pessoas que estavam na porta do Alto Comissariado Indiano naquele dia. Mas foi um protesto específico muito importante que teve de acontecer.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como foi tocar uma tenda de distribuição de alimentos?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Meu Deus, super agitado. No início, eles tentaram fazer uma escala para os voluntários. Mas simplesmente não deu certo. Então as pessoas apenas vinham sempre que podiam. Havia muitos egos conflitantes, muitas picuinhas e brigas. Porque as pessoas estavam sem dormir. As pessoas passavam a noite acordadas há muito tempo. As pessoas estavam frustradas.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi uma loucura. Havia filas, filas e filas de pessoas querendo comer. Não estávamos alimentando apenas as pessoas no protesto. Havia outras pessoas das aldeias e dos limites da cidade de Colombo que simplesmente vinham porque havia comida de graça. Com a crise alimentar, Galle Face tornou-se um lugar para conseguir comida de graça. A principal prioridade da tenda de distribuição em que estávamos envolvidos era sustentar as pessoas que estavam ocupando o espaço. Sempre havia coisas reservadas para as pessoas que estavam participando da ocupação. Todo o resto era distribuído para as pessoas que passavam em Galle Face.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse momento, estava fervendo. Havia filas de pessoas do lado de fora da tenda. Nós distribuíamos pacotes de arroz, pães, bebidas e pacotes de biscoitos. Havia também produtos de limpeza, roupas, capas de chuva, tudo o que você puder pensar. Álcool em gel, medicamentos, tudo. E era frenético. As pessoas se aglomeravam em volta da tenda. Tínhamos de ter pessoas na frente e atrás da tenda para manter as pessoas nas filas, para evitar que as pessoas roubassem, para impedi-las de furar a fila. Havia também a batalha constante contra o clima, o telhado voando, manter toda a comida seca e retirar a comida a tempo para que não estragasse. Os voluntários caíam constantemente entre os <em>pallets</em> no chão, quase quebrando os tornozelos. Foi uma loucura. No seu auge, Galle Face estava explodindo de gente, as tendas de distribuição de alimentos estavam completamente lotadas. Tínhamos de continuar expandindo e a reorganizando tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia tanta coisa acontecendo lá. A ocupação ficava agitada e depois calma, agitada e calma. O cinema passava filmes. Havia shows. A biblioteca tinha um fluxo constante de pessoas. Havia uma universidade, uma universidade popular, com aulas todos os dias. Diria que tudo atingiu seu auge entre abril e maio. Então tivemos de reconstruir após o ataque do dia 9 de maio. Também foi como um espaço em constante mudança e evolução. Estávamos lá todos os dias e havia muito o que fazer… Tudo isso enquanto respirávamos gás lacrimogêneo.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais foram os grandes pontos de inflexão do movimento? </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O primeiro protesto em massa em toda a ilha foi planejado para o dia 3 de abril. O governo acionou a repressão com um toque de recolher em toda a ilha. Derrubaram as redes telefônicas e bloquearam o acesso às redes sociais. Isso galvanizou as pessoas: até os que estavam em cima do muro no dia 2 de abril e não tinham certeza se iriam para a rua apareceram no dia 3. A repressão desse Estado ao nosso direito de protestar realmente acendeu um fogo. Então, quando esse toque de recolher foi encerrado no dia 4 de abril, foi enorme. Também no dia 3 de abril, quando esse toque de recolher foi imposto, muitas pessoas ainda se aventuravam nas ruas, protestando nos seus territórios, nos seus bairros, nas suas ruas, fora de suas casas. Levando em consideração o nível de medo em que as pessoas viviam no regime de Rajapaksa, minar o poder de Gotabaya quebrando o toque de recolher foi um grande ponto de inflexão. As pessoas estavam começando lentamente a perder o medo e a sentir o seu próprio poder. O sentimento era: “OK, somos parte de algo muito maior”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146838 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/barricade-1024x683.jpg" alt="" width="640" height="427" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/barricade-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/barricade-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/barricade-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/barricade-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/barricade-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/barricade-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/barricade-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/barricade.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
</div>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Depois disso, foi em 9 de abril, quando o protesto em massa começou em Galle Face, virando mais tarde uma ocupação. As pessoas estavam lá durante uns dois ou três dias para protestar, e algumas não saíram mais. Elas tinham vindo de fora de Colombo, por isso não podiam simplesmente voltar para a sua cidade ou para as suas casas à noite. Então, muitas passaram a noite e começaram a ocupar o espaço. E então a ocupação se converteu numa aldeia. Não ficamos sabendo de nenhum plano para uma ocupação, e ninguém que eu conheço ficou sabendo. Acabou virando uma ocupação espontaneamente. Isso estimulou a formação de ocupações semelhantes em todo o país. Outro grande ponto de inflexão foi em 9 de maio, quando houve um ataque patrocinado pelo Estado contra os manifestantes em Galle Face e outros locais em todo o país. Capangas armados destruíram o acampamento, queimaram coisas e atacaram os manifestantes. Vimos estas forças com os nossos próprios olhos, e a polícia estava apenas deixando tudo isso acontecer. A barricada da polícia deixou eles entrarem. Metade da multidão de Colombo apenas se aproximou e atacou os capangas pró-governo. E muitas pessoas fugiram de volta para as suas aldeias. O exército estava abrigando esses capangas pró-governo quando nosso pessoal começou a atacá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso realmente atraiu um apoio maciço do resto do público. As pessoas que ocupavam esses espaços eram vistas como os jovens da nação que lutavam pelos direitos de todos. Toda a manobra realmente saiu pela culatra para eles, e o 9 de maio acabou reforçando o movimento. Nesse dia muita gente ficou com raiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Então veio o 9 de julho, quando tivemos o Ratama colombata, o protesto “todo o país para Colombo”. Alguns jornalistas informaram que até dois milhões de pessoas estavam nas ruas naquele dia <strong>[7]</strong>. Foi um grande ponto de inflexão. A poeira não baixou por alguns dias. Os manifestantes ficaram por lá e continuaram a protestar. Estávamos bem na frente do portão do Palácio Presidencial quando as pessoas começaram a derrubá-lo. Havia tantas pessoas que não podíamos nos mover, por isso, quando fomos atingidos pelo gás lacrimogêneo, não podíamos fugir. Foi realmente agitado. Esse foi o dia em que os três prédios do Estado foram tomados. E então, em 13 de julho, um quarto edifício foi tomado.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto de inflexão ocorreu em 22 de julho, quando tropas sob as ordens de Ranil entraram no GGG [<em>Gota Go Gama</em>] e destruíram metade do acampamento e atacaram os manifestantes novamente. Uma coisa que também tem de ser dita é que, mesmo antes de 3 de abril, a partir de fevereiro, houve protestos esporádicos em todo o país, principalmente nas zonas rurais. Protestos de pescadores e de agricultores. Esta é a primeira vez que uma crise dessa magnitude une a todos numa frustração comum, porque de uma forma ou de outra afeta a todos nós. Não era algo isolado que o resto pudesse simplesmente ignorar porque não os afetava. Mas os protestos começaram a acontecer mesmo em fevereiro.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como foi o momento anterior ao 9 de julho?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Fizemos inúmeras reuniões para elaborar estratégias para angariar apoio público e envolver mais as pessoas, mesmo que não fosse necessariamente para visitarem o local de ocupação.</p>
<p style="text-align: justify;">No período que antecedeu o dia 9 de julho, vimos muitas pessoas compartilhando coisas nas redes sociais. Mas já tínhamos visto isso ao longo desses quatro meses. Foi somente na manhã do dia 9 que realmente percebemos o quão grande seria. Mesmo quando chegamos lá, acho que não imaginávamos o quão grande era ou ia ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos estavam preocupados de que o apoio popular estivesse diminuindo e que iríamos perder. Eu mantive um diário durante todo o tempo. E quando volto e leio, há algumas páginas onde escrevi: <em>“Tive muita esperança no início deste movimento, mas agora estamos perdendo. Não temos mais apoio. O GGG está vazio. Os protestos estão cada vez menores e mais raros”.</em> E então, no dia 9 de julho, houve um comparecimento enorme.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi então uma surpresa agradável para muitos de nós. Mas houve muita celebração desnecessária, na minha opinião. Nessa altura, ainda não tínhamos visto a demissão de Gotabaya ou qualquer uma das mudanças que esperávamos que viessem desse movimento. As pessoas estavam celebrando mais o fato de tantos terem ido às ruas, o que era um motivo para celebrar. Mas ainda não tinha acabado naquele momento.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong> Por que você acha que muitas pessoas vieram no dia 9? </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Houve um entusiasmo muito grande. Houve muita tração nas redes sociais por volta do dia 9. A informação circulou muito dessa forma. E mais, havia muitos grupos envolvidos na divulgação de informações.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a situação econômica tinha acabado de piorar ainda mais. As pessoas estavam desesperadas. Para começar, o fato de esse movimento ter florescido foi inteiramente por causa da frustração e do desespero ter chegado a este nível: sentar-se em filas, não poder alimentar seus filhos, não ter acesso a cuidados médicos ou aos medicamentos necessários. De todos os ângulos, as pessoas estavam completamente fartas. Quando o protesto “todo o país para Colombo” começou a se espalhar, as pessoas sentiram que “OK, este será o último empurrão” para realmente tirar esses narcisistas do poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Já tínhamos pobreza no Sri Lanka antes dessa crise econômica. Mas só piorou. Falamos de uma perspectiva privilegiada de classe média. Mas a maioria das pessoas que foram para a rua no dia 9 não eram. Éramos uma minoria muito pequena. Foi a frustração que levou as pessoas a usarem sua última gasolina e diesel para irem a Colombo para esse protesto.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Havia um plano para ocupar os prédios ou isso aconteceu espontaneamente?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Acho que foi meio a meio. Há muitos grupos dentro do Galle Face com ideias diferentes sobre qual deve ser o objetivo principal. Mas todo mundo sabia que íamos marchar para aquele prédio, mesmo que ninguém soubesse que tipo de resistência iríamos ver das forças do Estado. Elas nos receberam com gás lacrimogêneo e canhões de água. Houve policiais em trajes civis que atacaram brutalmente os manifestantes com cassetetes enquanto eles pulavam as barreiras. Mas todos esses obstáculos foram tornando-se inúteis porque havia tantas pessoas, então a multidão superou tudo e rompeu todas as barricadas. E depois da última barricada, tudo o que restava era apenas chegar lá, o que as pessoas acabaram conseguindo. O Estado estava disparando com munições de verdade e as pessoas ficaram feridas. Mas, quando a multidão chegou à entrada do prédio, não havia mais nada a fazer a não ser entrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós nem sequer sabíamos que o Secretariado e o <em>Temple Trees</em> haviam sido tomados até tentarmos atravessar essa multidão e voltar para a estrada principal. Só então nos demos conta de toda a extensão do que tinha acontecido naquele dia. Já que todos os prédios ocupados foram tomados aproximadamente ao mesmo tempo, é tentador dizer que tinha de haver algum nível de organização e comunicação. Mas foi meio a meio.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que aconteceu entre 9 e 13 de julho? </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Nos dias seguintes ao dia 9, a máquina de propaganda do Estado trabalhou arduamente para destacar os saques e danos às propriedades do Estado ocorridos durante esses poucos dias. Algumas pessoas que estiveram ao redor do movimento por algum tempo argumentaram que isso é propriedade pública, que os reparos sairiam do dinheiro dos contribuintes e fizeram tudo ao seu alcance para proteger essas propriedades e evitar saques, roubos e danos. Mas, honestamente, era apenas anarquia. Estava completamente fora de controle e aqueles que tentaram controlar a multidão estavam em menor número.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146835 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-1024x683.jpeg" alt="" width="640" height="427" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-1024x683.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-1536x1024.jpeg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp-681x454.jpeg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/camp.jpeg 1920w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Sempre que os manifestantes ocupavam prédios do Estado, havia sempre um grupo de pessoas super violentas que tentavam destruir a propriedade do Estado. Além de quebrarem as barricadas, <a href="https://www.cnn.com/videos/world/2022/07/09/sri-lanka-prime-minister-ranil-wickremesinghe-house-fire-protest-vpx.cnn" target="_blank" rel="noopener">houve incidentes</a> em que algumas pessoas simplesmente invadiram os prédios e colocaram fogo. Isso aconteceu na casa do Ranil no dia 9. Havia o risco de o incêndio se espalhar para as casas ao redor, mas essas mesmas pessoas não deixaram os caminhões de bombeiros entrarem.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso nos fez perder muito apoio da população em geral, que disse: “Veja o que esses manifestantes fizeram. Eles foram lá e destruíram esses prédios”. Alguns acham que isso impactou negativamente no apoio ao movimento aos olhos do público. Durante semanas, tudo o que falaram no Parlamento era o fato de as casas desses ministros terem sido incendiadas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que você vê como oportunidades perdidas </strong><strong>pelo movimento até agora?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Naquele momento, me pareceu um erro ter desistido dos prédios que tinham sido ocupados no dia 9. Parecia ser a nossa única alavanca para alcançar qualquer uma das mudanças que queríamos, especialmente porque Gotabata não tinha renunciado ainda. Talvez os prédios pudessem ter sido usados como um trunfo para se livrar de Ranil?</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, com a visão retrospectiva de algumas semanas, provavelmente isso está equivocado. Não havia outra opção. Com a pressão da Ordem dos Advogados na época, e o fato de, entre os dias 9 e 13, termos perdido muito apoio popular, não houve escolha. Especialmente porque era quase impossível controlar as multidões dentro dos prédios ocupados. O público desenvolvia uma visão cada vez mais negativa da Aragalay todos os dias, vendo os protestos como a destruição da lei e da ordem. Além disso, se as forças do Estado tivessem decidido entrar e usado a força contra as pessoas que ocupavam os prédios, poderíamos ter visto derramamento de sangue. Então, será que foi uma jogada inteligente, pensando na vida das pessoas envolvidas no movimento? Mas, naquele momento, me pareceu um erro.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais são os principais debates que ocorreram no interior do movimento?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Desde o início, havia divisões abertas entre apartidários e esquerdistas, e entre uma ideologia mais anarquista e tipos mais constitucionais que queriam ver as coisas sendo feitas de acordo com o Estado de Direito e tal <span class="ILfuVd" lang="pt"><span class="hgKElc">–</span></span> mesmo que nossa Constituição seja uma merda arcaica. Há um grande debate sobre se o movimento foi tomado ou sequestrado pela esquerda. Ao longo dos períodos de insurgência na nossa história, muitas pessoas perderam a vida. A geração mais velha que viveu esses períodos ainda tem memórias de sangue nos rios e corpos em todos os lugares. Esse medo da esquerda foi capitalizado por grupos que queriam que perdêssemos o apoio popular. Houve uma forte presença de esquerda em toda a Aragalaya desde o início. E ainda há.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem grupos como a Federação Interuniversitária de Estudantes (IUSF, também conhecida como <em>Anthare</em>) e as federações de professores, sem os sindicatos que organizaram um <em>hartel</em> (uma greve em toda a ilha), nada disso teria sido possível. Tudo isto contribuiu para pressionar o governo. As pessoas ficavam felizes em usar tais grupos quando parecia útil, e depois se viravam no dia seguinte e diziam: “Oh, a esquerda está sequestrando esse movimento”. É como aquela coisa do Scooby-Doo, onde eles tiram a máscara e revelam que “na verdade, foi a JVP o tempo todo”. De fato, eles estiveram presentes, mas o movimento não foi todo dirigido pela JVP, nem foi tomado pela JVP ou pela esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe ainda, de certa forma, uma ocupação militar do Norte e do Leste [do país]. Essa é uma das questões mais importantes do orçamento do governo, já que desde o fim da guerra civil, que foi apenas em 2009, não houve diminuição do orçamento militar. Os tâmeis do Norte e do Leste são oprimidos há gerações. Eles lidam com este tipo de questões há gerações. Os cortes de energia, a falta de combustível, a falta de acesso a remédios, a opressão do Estado, a brutalidade policial. Eles lidavam com tudo isto antes da guerra, e ainda estão lidando agora que a guerra terminou. Essas são coisas contra as quais eles vêm protestando há gerações também. Mas quase não houve nenhuma cobertura disso nos meios de comunicação que atingem o resto do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando esse movimento começou, muitos desses grupos do Norte e do Leste, a minoria tâmeis, olharam para ele e acharam engraçado. São coisas com as quais eles lidam desde a infância. Agora que afetou a maioria cingalesa, as pessoas do sul, de repente tornou-se este movimento em toda a ilha e que foi colocado em um pedestal. “Uau, veja o que estas pessoas conseguiram protestando. Que coragem elas tiveram para protestar”. Mas, na verdade, éramos pessoas privilegiadas que sabiam que haveria segurança de certa forma.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia um memorial no GGG para o massacre de Mullaitivu, que aconteceu no final da guerra civil. Houve muita resistência em torno disso. Alguns pensaram que iria desacreditar a Aragalay associando-o aos LTTE <strong>[8].</strong> Afinal, tudo o que pode é tirado do contexto e usado contra nós. Outras pessoas argumentaram que, se não podemos ter um memorial desse tipo, como podemos dizer que o GGG e este movimento trouxeram a unidade que todos estão celebrando?</p>
<p style="text-align: justify;">Houve muitas discussões menores que surgiram ao longo de todo o movimento. Mesmo sobre a ocupação dos prédios nas últimas fases. Algumas pessoas estavam em conflito sobre como as coisas eram tratadas e como as multidões eram controladas.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas pessoas discordaram da forma como a comida gratuita era distribuída. “OK, agora isso está se tornando quase um sopão para pessoas que nem necessariamente são manifestantes. Elas só vão lá para comer”. Mas como não dar comida a pessoas famintas que estão famintas por causa da crise econômica contra a qual estamos lutando, só porque não são manifestantes como nós? E de qualquer forma, mais pessoas foram trazidas para Galle Face.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146839 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-1024x683.jpg" alt="" width="640" height="427" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/inside_the_parliament.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Qual o papel que a esquerda e os vários partidos políticos desempenharam nos acampamentos e no movimento em geral?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Quantidade. Eles agregaram pessoas, com certeza. Mas também, devido à natureza da IUSF e de facções semelhantes, tendo estado envolvidos neste tipo de protestos durante anos, enfrentar o gás lacrimogêneo, as barricadas e os canhões não era realmente novidade para eles. Até certo ponto, eles assumiram um papel de liderança no início, estando na linha de frente, porque isso não era nada novo para eles. Eles fazem isso há anos. Para muitos de nós que aderiram a este movimento, foi a primeira vez que experimentamos a sensação de gás lacrimogêneo, ou de batalhar cara a cara com um oficial de polícia. Eles nos mostraram que não há nada a temer, que podemos fazer isso. Sempre que estes grupos entravam, vinham com milhares de pessoas. Realmente nos deu a moral e os números de que necessitávamos para conseguir tudo isto. Mas isso de modo algum significa que se tratava de um movimento da JVP. Porque havia tantos outros grupos, facções e indivíduos presentes por toda parte.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais são alguns dos debates que ocorreram no interior do seu próprio grupo?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Algumas pessoas recusaram-se firmemente a sentar na mesa com os políticos, e se mantiveram firmes nessa posição. Outros mudaram de ideia e juntaram-se a reuniões com políticos, à excepção do partido Pohottuwa <strong>[9]</strong>. Ninguém sabia realmente qual era a coisa certa a fazer. Mas surgiu uma barreira entre as pessoas que se encontraram com os políticos e as que não se encontraram.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais foram os principais limites que o movimento encontrou?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Essa é a primeira vez no Sri Lanka que grupos de pessoas com diferentes identidades de gênero, classe e contexto socioeconômico se reúnem. Era uma mistura de pessoas diferentes. Naturalmente, pessoas que eram semelhantes se uniram. Mas houve muita contaminação cruzada e composições. Muitas barreiras de gênero, idade e classe também foram quebradas, o que foi uma coisa enorme. Penso que esta foi uma das maiores consequências destes protestos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas dentro do GGG, vimos as mesmas questões da sociedade em geral refletidas lá. Embora houvesse um nível de unidade sem precedentes e a quebra de barreiras de classe, gênero e raça, o movimento ainda era dominado por homens falantes de cingalês. Ainda havia uma minoria de mulheres nos megafones. E as minorias ainda eram minorias, mesmo dentro do movimento. Mesmo que houvesse definitivamente mais aceitação e mais inclusão, há um longo caminho a percorrer antes de enxergamos o tipo de país que queremos ver.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Essas divisões tornaram-se mais intensas ou mesmo rachas em algum momento?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Acho que foi um pouco sutil. Estávamos num protesto em Fort e tínhamos muitos amigos da comunidade LGBT conosco. Eles estavam sendo discriminados por outros manifestantes por carregarem a bandeira do orgulho LGBT [bandeira arco-íris]. Então, havia pequenos problemas como esse. Eu não diria que são mesmo grandes desentendimentos, mas meio que desentendimentos menores e mais sutis, onde ainda não há unidade possível.</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre era uma minoria que ficava irritada, e eles nunca causaram um escândalo grande o suficiente sobre isso, porque queriam priorizar os principais objetivos do movimento. Faço parte do círculo de mulheres do GGG. Têm havido queixas constantes feitas por mulheres de que poucas mulheres falam em conferências de imprensa, poucas mulheres falam no megafone, poucas mulheres estão envolvidas na organização e na elaboração de estratégias. Então essas queixas existiram. A tenda comunitária LGBTQIA+ só foi montada recentemente. Havia amigos trans que eram discriminados e enfrentavam muitas dificuldades e assédio apenas por estarem lá. Havia coisas assim por toda a parte. Todo mundo meio que trabalhou nisso com o melhor de suas capacidades. Mas não foi como se todas essas questões desaparecessem por completo. Era como se a sociedade em geral estivesse exatamente refletida lá.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas das pessoas no GGG que estavam armando tendas e a ficando por lá não eram receptivas às ideias de pessoas como nós. Porque nunca ficávamos lá fisicamente nas tendas. Já que estávamos lá desde o início, ganhamos o respeito e viramos camaradas das pessoas da biblioteca e pessoas da cozinha e outros grupos. Nos ajudamos mutuamente. Mas certas tendas sempre nos olhavam como forasteiros.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve uma certa desconexão na comunicação entre os manifestantes que ocupavam e os que não ocupavam. Para alguns de nós que não estavam lá ocupando, parecia que estávamos sendo excluídos de certos processos de tomada de decisão e reuniões.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Você sentiu que as pessoas se radicalizaram ao longo do movimento?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Definitivamente. Muitas dessas pessoas nunca teriam pensado que iriam quebrar barricadas e enfrentar gás lacrimogêneo e sofrimento. Depois de anos de opressão e apenas ter medo do Estado, ver jovens em pé nas barricadas gritando <em>Api baya nah!</em> <span class="ILfuVd" lang="pt"><span class="hgKElc">–</span></span> o que significa <em>não temos medo</em> <span class="ILfuVd" lang="pt"><span class="hgKElc">–</span></span> foi uma coisa enorme.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma coisa que eu testemunhei pessoalmente: havia uma garota que era uma atriz de teatro que estava envolvida nesses protestos. Ela era muito pequena e um dia eu a vi ser atingida por um canhão de água. Ela caiu no chão, seus óculos voaram e ela ficou gravemente ferida. Mas naquela tarde no acampamento, eu a vi sorrindo e falando sobre outras coisas, como se não fosse grande coisa. É uma coisa tão bonita de se ver, porque as pessoas foram tão radicalizadas por este movimento. É como se fosse uma coisa normal para eles.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Como pensa que será a próxima fase da luta agora que Ranil está no poder?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Penso que é definitivamente uma mudança de capítulo. Não creio que as estratégias que usamos para nos livrar dos Rajapaksas possam ser aplicadas a Ranil, porque ele tem a fama de ser um político sagaz na forma como faz as coisas. Então, atualmente, é com a guerra de propaganda que estamos tendo de lidar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quais são as lições do Sri Lanka que podem ser úteis em outros lugares?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Se as pessoas se encontram em situações econômicas e políticas semelhantes, não esperem. Comecem a se organizar e planejar estratégias agora.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que planeja fazer agora?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Estamos analisando outros modos, não de dissidência, mas de revolucionar a vida por fora do sistema; para criar essas comunidades <em>off-grid</em> autossustentadas, onde podemos cultivar nossa própria comida e nos autogovernar. Fomos arrastados e inspirados pela ideia do nosso camarada de criar uma comunidade <em>off-grid</em>, com permacultura baseada em plantas, para nos libertarmos do sistema e, com a iminente crise alimentar, possamos cultivar os nossos próprios alimentos e viver em harmonia com a natureza, utilizando métodos de construção sustentáveis e ecológicos. Estamos ansiosos por isso. Foda-se a Constituição e as leis. Porque vamos cultivar a nossa própria comida e gerar a nossa própria energia. Não teremos de nos preocupar mais com o dinheiro e as flutuações da moeda.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o plano por enquanto, então vamos ver como vai ser e se podemos realmente encontrar uma terra onde seja possível começar esse estilo de vida sustentável que estamos procurando, longe do sistema e da opressão. É revolucionário à sua maneira.</p>
<p style="text-align: justify;">Não acreditamos que a Aragalay vai parar. Ela vai evoluir para o que é necessário ser agora sob Ranil. É uma fase de esperar para ver, durante a qual podemos traçar novas estratégias. Mas isso não significa que vamos parar. Vamos continuar a criar [produtos] gráficos e a encontrar formas de divulgar informações e ideias. E nós dois vamos continuar a lutar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Alguma conclusão?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Foda-se a polícia.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>(31 de julho de 2022)</em></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146837 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-1024x683.jpg" alt="" width="640" height="427" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2-681x454.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/PM-s_office_crowd2.jpg 1500w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas do Ill Will</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Frente de Libertação Popular. Um partido marxista-leninista que é agora o terceiro maior partido no Parlamento do Sri Lanka.<br />
<strong>[2]</strong> Ranil é acusado de supervisionar o centro de detenção de Batalanda, usado para interrogar e matar dissidentes e pessoas de esquerda durante a segunda insurreição da JVP. As muitas torturas em Batalanda incluíam esfolar, espancar, arrancar os olhos, queimar, violar e desmembrar. Especula-se que as histórias horríveis de Batalanda foram propositadamente vazadas para causar medo e desmoralizar a população.<br />
<strong>[3]</strong> Mirihana é um subúrbio de Colombo, onde a residência pessoal de Gotabaya está localizada. Em 31 de março, milhares protestaram do lado de fora da casa de Gota. Durante os confrontos com a polícia e os soldados, os manifestantes destruíram uma barricada e um ônibus e vários veículos da polícia foram incendiados. Naquela noite, protestos espontâneos se espalharam por toda a cidade.<br />
<strong>[4]</strong> O ex-primeiro-ministro Mahinda Rajapaksa é irmão mais velho de Gotabaya Rajapaksa e amplamente visto como o patriarca da família. Ele foi forçado a renunciar ao cargo de primeiro-ministro em 9 de maio.<br />
<strong>[5]</strong> <em>Gota Go Gama</em> [Gama vá para casa], ou GGG, é o nome do principal local de ocupação, localizado em Galle Face Green, em Colombo.<br />
<strong>[6]</strong> Z. é um designer gráfico. Eles [Z. e J.] costumavam fazer <em>graffiti</em> quando estavam na escola e sempre tiveram intuitivamente uma atitude de <em>foda-se o sistema</em>. Depois de se perderem em um emprego corporativo por uma década, começaram a trabalhar como <em>freelancers</em>, voltaram para Colombo durante a epidemia de Covid, e se viram no meio da Aragalaya. Sem saber da ocupação, Z. passou por Galle Face um dia no início de abril e, por acaso, encontrou um amigo que havia iniciado uma tenda de distribuição de alimentos para os protestos. Desde então, estão fortemente envolvidos. A primeira incursão de J. no ativismo foi quando ela colocou cartazes no aquário de sua escola porque achava que os peixes estavam sendo maltratados. Quando nada foi feito a respeito, ela começou a roubar um peixe por semana. Ela esteve envolvida em movimentos feministas e ambientais, e por isso tinha alguma conexão com outras pessoas na Aragalaya quando tudo começou. Ela vivia no Sul do Sri Lanka na época, mas quando percebeu que isso estava se tornando algo enorme, ela sabia que tinha de estar no centro de tudo e desistiu de sua casa e emprego e voltou para Colombo. Ela foi morar com os pais para garantir que não tivesse outros compromissos e pudesse estar o mais envolvida possível. Ela passava a noite, mas nunca montou uma barraca na ocupação, porque “é engraçado que eu diga isso agora, mas toda vez que eu sentia que &#8216;OK, vou armar minha barraca e me mudar para cá&#8217;, parecia que &#8216;oh, é tarde demais, vai acabar a qualquer semana&#8217;. E então, um mês depois, eu pensava: &#8216;merda, eu deveria ter acabado de armar a tenda quando pensei sobre isso da última vez&#8217;”. Tanto Z. como J. estiveram envolvidos na administração de uma tenda de distribuição de alimentos de ajuda mútua durante a ocupação e estiveram na linha de frente dos protestos. Z. tem feito designs e cartazes anônimos para o movimento, embora muitos dos que foram impressos tenham sido destruídos durante o ataque de 9 de maio. J. tem filmado e transmitido ao vivo a partir da linha de frente, para fornecer uma alternativa ao enquadramento dos meios de comunicação. Esta entrevista foi ligeiramente editada para maior clareza e concisão. As respostas de Z. e J. foram editadas em conjunto.<br />
<strong>[7]</strong> Para contextualizar, o Sri Lanka tem uma população de 22 milhões.<br />
<strong>[8]</strong> Os Tigres de Libertação do Tâmil Eelam.<br />
<strong>[9]</strong> O partido associado aos Rajapaksas.</p>
<blockquote><p>Traduzido, a partir do original em inglês publicado no site Ill Will (<a href="https://illwill.com/dispatches-from-sri-lanka" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), por Marco Tulio Vieira. As fotografias que ilustram as entrevistas são da autoria de Atul Loke e outros fotógrafos anônimos.</p></blockquote>
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		<title>[Diadema] Debate &#8220;A Revolução Espanhola&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Oct 2022 11:49:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Centro Cultural Professor Tonhão Dando continuidade aos nossos encontros de estudo, este debate contará com a participação do companheiro Professor Evandro que fará a exposição inicial. 10h &#8211; Multirão para organização do acervo 16h &#8211; Projeção do filme &#8220;Barcelona trabalha para o fronte&#8221; (1936 &#8211; 22 min) 16h30 &#8211; café da tarde 17h &#8211; [&#8230;]]]></description>
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<div dir="auto" style="text-align: justify;">Dando continuidade aos nossos encontros de estudo, este debate contará com a participação do companheiro Professor Evandro que fará a exposição inicial.</div>
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<div dir="auto">10h &#8211; <strong>Multirão</strong> para organização do acervo</div>
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<div dir="auto">17h &#8211; Debate sobre o tema: <strong>A Revolução Espanhola</strong></div>
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<div dir="auto">Mais informações:</div>
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		<title>&#8220;A &#8216;esquerda&#8217; fora da Ucrânia se acostumou a ouvir somente pessoas de Moscou&#8221;: entrevista com anarcossindicalistas na Ucrânia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Oct 2022 03:03:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[ Usando a analogia de Orwell, esses militantes de “esquerda” que se alinham com o Grande Irmão da Eurásia contra o Grande Irmão da Oceania são idiotas. Yavor Tarinski entrevista Anatoliy Dubovik e Sergiy Shevchenko ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Yavor Tarinski entrevista Anatoliy Dubovik e Sergiy Shevchenko</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Yavor Tarinski, do <a class="urlextern" title="https://www.aftoleksi.gr/category/english/" href="https://www.aftoleksi.gr/category/english/" rel="ugc nofollow">jornal libertário grego Aftoleksi</a>, entrevistou dois anarquistas da Ucrânia oriental. Eles próprios foram politicamente ativos por décadas na região até a invasão de 2014 — quando vieram abaixo quaisquer possibilidades de ação política sem mediações. Ambos são o que muitos tendem a chamar, simplesmente, de cidadãos ucranianos “russófonos”. Esta entrevista foi motivada pelos referendos conduzidos pelas forças de ocupação russas naquela região, e também por causa do ressurgimento de notícias falsas (<em>fake news</em>) sobre sua organização anarquista, a Confederação Revolucionária de Anarcossindicalistas [<em>Революційна Конфедерація Анархістів-Синдикалістів — RKAS</em>], em que ambos participaram e da qual foram fundadores. Continuamos a dar voz àqueles diretamente envolvidos nesta bárbara guerra de violência física e vilificação. Uma voz que Estados e interesses políticos organizados tentam silenciar.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>Yavor Tarinski (Y.T.):</strong> Olá, e obrigado por disponibilizar seu tempo para falar conosco no meio de uma zona de guerra. Vamos começar conhecendo vocês um pouco melhor. Em qual parte da Ucrânia vocês vivem?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Anatoliy Dubovik (A.D.):</strong> Meu nome é Anatoly Dubovik. Tenho 50 anos, sou anarquista desde 1989. Nasci em Cazã (Rússia), e vivo há mais de 30 anos na Ucrânia, na cidade de Dnipro (anteriormente conhecida como Dnepropetrovsk, e antes disso Ekaterinoslav). Isso fica na parte oriental da Ucrânia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sergiy Shevchenko (S.Sh.):</strong> Meu nome é Sergei Shevchenko. Tenho 48 anos, sou anarquista desde 1988. Nasci e vivi a maior parte da minha vida em Donetsk, o centro da região da Donbas. Em 2014, fui forçado a sair rumo a Kyiv depois que um levante separatista de inspiração russa começou em minha cidade. Estou na linha de frente desde fevereiro de 2022.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> Vocês dois são membros conhecidos do histórico grupo anarcossindicalista RKAS. Vocês podem nos contar um pouco mais sobre esse grupo e suas atividades antes da guera?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que a RKAS não era só um grupo, mas uma organização. Quando o movimento anarquista começou a reviver na União Soviética, no final dos anos 1980, ele era infestado por irresponsabilidade, falta de estratégia, e por não levar a sério seus objetivos — muitos estavam só “brincando de anarquismo”. A ressureição do movimento anarquista começou em Donetsk quando representantes de vários pequenos grupos, e ativistas individuais que não haviam perdido a fé em seus ideais, reuniram-se para formar sua própria organização. Assim, como alternativa ao até então caótico movimento, em 1994 a RKAS, Confederação Revolucionária de Anarcossindicalistas, nomeada em homenagem a Nestor Makhno, foi criada. Era uma organização — mais precisamente uma organização anarquista – que introduziu princípios de trabalho mais claros: planejamento, sistematização, disciplina interna, divisão de responsabilidades entre seus membros, e por aí vai.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso deu bons resultados, ainda que não imediatamente. Alguns anos depois de sua fundação, a RKAS já era uma organização ativa em várias regiões da Ucrânia, e estava relativamente bem. Estávamos envolvidos no movimento operário, no movimento estudantil, tínhamos uma influência significativa no movimento de sindicatos independentes, especialmente entre os mineiros da Donbas, onde representantes da RKAS participaram em comitês de greve locais e regionais. Participamos num movimento pan-ucraniano pela proteção de direitos dos trabalhadores e nos opusemos à deterioração da legislação trabalhista.</p>
<p style="text-align: justify;">Fizemos várias iniciativas editoriais. A primeira foi o jornal Anarquia [1993-2013], publicado por quase toda a existência da RKAS. Também publicamos o Boletim de Análises e Noticiário Anarcossindicalista, e várias publicações para grupos sociais específicos — o jornal operário Voz do Trabalho, o jornal estudantil Unidade, a revista de juventude Ucrânia Revolucionária, e outras. Também distribuímos propaganda e panfletos teóricos de vários autores, desde os clássicos como Bakunin e Malatesta até obras de autores contemporâneos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo do tempo a RKAS evoluiu para algo como uma pequena Internacional — tínhamos seções em outros países, majoritariamente na Geórgia e em Israel. Elas não duraram muito, mas existiram. E até pouco antes do início da guerra [2014], estávamos trabalhando para criar um sindicato anarcossindicalista na Ucrânia, a Confederação Geral Anarcossindicalista do Trabalho. Isso não pôde ir adiante por causa da invasão da Crimeia e da Donbas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146155 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp1-1.jpg" alt="&quot;A 'esquerda' fora da Ucrânia se acostumou a ouvir somente pessoas de Moscou&quot;: entrevista com anarcossindicalistas na Ucrânia" width="312" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp1-1.jpg 312w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp1-1-156x300.jpg 156w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp1-1-218x420.jpg 218w" sizes="auto, (max-width: 312px) 100vw, 312px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> Você pode descrever qual foi a reação da RKAS depois do início dos conflitos na Ucrânia oriental em 2014?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> O “conflito”, ou seja, a invasão armada, começou no sul da Ucrânia, quando o exército russo ocupou a Crimeia em fevereiro de 2014. O levante separatista de inspiração russa no oeste começou depois, em cerca de um mês.</p>
<p style="text-align: justify;">Estava claro para nós desde o início que a Rússa não poderia fazer qualquer bem à Ucrânia. Por volta de 2014, um regime reacionário e autoritário já tinha se estabelecido na Rússia, negando todos os direitos individuais e sociais, e perseguindo brutalmente e destruindo qualquer atividade independente. É claro, ainda tínhamos muitas questões sobre o Estado e a classe dominante na Ucrânia. Mas ao menos o movimento anarquista e socialista na Ucrânia foi capaz de operar relativamente livre por alguns anos. Basta dizer que, por toda a existência do estado independente ucraniano, não houve um só preso político anarquista por aqui. Ao mesmo tempo, dúzias de nossos camaradas na Rússia foram parar em prisões — culpados pura e simplesmente de suas convicções anarquistas. Assim, estávamos bem alertas sobre o que Putin fez para as ideias libertárias.</p>
<p style="text-align: justify;">A reação da RKAS foi, portanto, irreversível: era necessário resistir ao ataque russo por todos os meios.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas imediatamente surgiu, então, um problema. O ponto é que a RKAS foi fundada e existiu por 20 anos como uma organização pela propaganda de ideias, e como organização de apoio a ações anarcossindicalistas. Em outras palavras, como organização adaptada às formas legais e semilegais do enfrentamento pacífico. A guerra mudou tudo, inclusive as tarefas imediatas com que os ativistas do movimento anarquista deveriam se confrontar no aqui e no agora. A antiga organização, as formas antigas de atividade, provaram-se simplesmente insuficientes ou impossíveis sob as novas condições. Novas formas e princípios de trabalho eram necessários, orientados principalmente para a resistência clandestina contra os ocupantes. Isso incluía a resistência armada.</p>
<p style="text-align: justify;">Deste modo, em abril de 2014, houve extensa discussão entre membros da RKAS sobre o novo processo e a estratégia de resistência, cujos resultados levaram à dissolução da organização. Depois disso, começou uma nova fase na história do movimento anarquista na Ucrânia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> Você está ciente de que fora da Ucrânia circula a informação falsa de que a RKAS esteve, de algum modo, envolvida na criação das assim chamadas “repúblicas populares” na Donbas?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> Sim, descobrimos em setembro de 2022, por causa de uma publicação numa rede social grega. Esta publicação não tem nada além de falsificações grosseiras e as mentiras mais descaradas. Por exemplo, foi acompanhada por uma fotografia de uma manifestação com pessoas portando bandeiras pretas e vermelhas, com o título: “Membros da RKAS na manifestação anti-Maidan em Donetsk, em 2014”! Na verdade, essa foto foi tirada por nós na manifestação de 1º de maio de 2012, e na faixa que levamos nessa manifestação, retratada na fotografia, se lia claramente: “A nova reforma trabalhista é a escravidão legalizada”. Por outras palavras, não havia nada a favor ou contra Maidan — afinal, esta manifestação teve lugar alguns anos antes de Maidan, em meio à nossa luta contra a tentativa do governo de mudar as leis trabalhistas. O autor da falsa legenda sob esta foto enganou os seus leitores: qualquer pessoa que conheça até um pouco de russo ou ucraniano e possa compreender a legenda na faixa verá na hora que a manifestação não teve nada a ver com os acontecimentos de 2014.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro exemplo de mentira descarada: os autores da história sobre a (falsa) ligação do RKAS com separatistas pró-russos se referem a Mikhail Krylov, “um velho veterano da luta de classes dos mineiros de Donetsk”, que “nos chamou à rebelião armada contra o regime de Kiev” e participou na formação do “Ministério dos Mineiros” da República Popular de Donetsk (RPD). Se Krylov chamou ou não alguém para algo, se algo foi formado ou não, agora é irrelevante. Mikhail Krylov esteve realmente envolvido no movimento de trabalhadores independentes em Donbas na era soviética, e teve ligações com o RKAS na segunda metade dos anos 90, quando trabalhámos de perto com o Comitê Regional da Donbas, em cuja liderança Krylov participou. Mas o importante é que há 26 anos atrás ele encerrou qualquer tipo de cooperação com os anarcossindicalistas. Tinha-se tornado há muito tempo um típico líder laboral chato, que se vendeu a seus antigos adversários. Depois de 1998 “entrou na política”, filiando-se a vários partidos burgueses e candidatando-se a cargos eletivos em seu nome. E agora serve aos ocupantes russos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146156 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp2-1.jpg" alt="&quot;A 'esquerda' fora da Ucrânia se acostumou a ouvir somente pessoas de Moscou&quot;: entrevista com anarcossindicalistas na Ucrânia" width="422" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp2-1.jpg 422w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp2-1-211x300.jpg 211w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp2-1-295x420.jpg 295w" sizes="auto, (max-width: 422px) 100vw, 422px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Naturalmente, quando vimos este artigo, ficamos furiosos. Contatamos imediatamente camaradas na Grécia, explicamos qual era a verdadeira situação, e a publicação falsa foi retirada de outro <em>website</em> que a reproduziu… Mas não há garantias de que as mesmas mentiras deixem de aparecer em outros <em>websites</em> ou na mídia impressa.</p>
<p style="text-align: justify;">Em geral, há anos nos surpreendemos que muitas pessoas na Europa e na América prefiram obter informações sobre o movimento anarquista ou socialista na Ucrânia não de anarquistas ou socialistas ucranianos, mas de qualquer pessoa fora da Ucrânia. Por que fazem isso, é um grande mistério.</p>
<p style="text-align: justify;">A propósito, devemos acrescentar que a mentira sobre a cooperação de nossa gente da RKAS com a FSB (ou seja, o serviços secreto russo), e sobre a participação da RKAS no movimento pró-russo em Donbas, é apoiada e difundida pela extrema-direita ucraniana! Por isso, aqueles que repetem estas invenções estão do mesmo lado que os nazistas. Bem, talvez eles gostem…</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, nem antes de Maidan, nem, em geral, em todos os anos em que os membros do RKAS estiveram envolvidos no movimento anarquista, nunca apoiamos nem o separatismo pró-russo na Ucrânia, nem as tendências imperialistas russas. Já no final dos anos 80, a maioria dos anarquistas ucranianos, incluindo os futuros membros do RKAS, estavam ativamente envolvidos na luta pela independência ucraniana. Mais tarde, como RKAS, nos posicionamos firmemente contra a guerra na Chechênia e apoiamos uma Ichkéria independente. Não só isso: algumas de nossas publicações foram impressas em ucraniano, nossa “Rádio Libertadora RKAS” também foi transmitida em ucraniano, e uma de nossas publicações, como já mencionado, tinha o título Ucrânia Revolucionária. Portanto, muito antes de 2014, a posição da RKAS era bastante clara: em favor de uma Ucrânia livre, independente e operária. Esta é a tradição da RKAS, a tradição do movimento anarquista ucraniano em geral. Portanto, historinhas sobre uma “RKAS pró-russa” são completamente idiotas e inaceitáveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> O que militantes da RKAS estão fazendo desde que a invasão começou?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> Aqueles de nós que continuaram nosso trabalho social como anarquistas, fizeram e estão fazendo todo tipo de coisas. A maioria de nós entendeu que mais cedo ou mais tarde a Rússia iria começar uma invasão maciça, que na verdade começou em 24 de fevereiro de 2022. Tanto quanto pudemos, nos preparamos para todas as diferentes formas de resistência: treinamos voluntários em organizações militares não-oficiais, das quais surgiram mais tarde unidades de defesa territorial. E algumas outras estiveram diretamente envolvidas na resistência: em 2014-2015, ex-membros do RKAS criaram grupos ilegais de combate que conduziram guerrilha em Donbas. No Território Livre da Ucrânia, grupos de ex-membros do RKAS também trabalharam em vários projetos sociais, principalmente ajudando crianças refugiadas de Donbas e da Crimeia. Naturalmente, também continuamos nossas atividades culturais e educacionais, e difundimos idéias anarquistas. Assim, não desaparecemos no ar; continuamos nossas atividades e nossa vida como anarquistas. Apenas não mais na forma da nossa antiga organização RKAS.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns de nós estamos agora na frente doméstica, ajudando a defender o povo. Alguns estão na linha de frente de combate com armas na mão, como membros do exército ou das Unidades de Defesa Territorial.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles conseguiram até mesmo organizar comitês anarquistas de soldados nas unidades em que servem. Esses comitês defendem os direitos dos soldados, organizam assistência voluntária e realizam treinamento anarquista e atividades ideológicas em suas unidades. Tudo isso será explicado com mais detalhes após a vitória.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> Qual era a situação nas chamadas “repúblicas populares” “RPD” [<em>República Popular de Donetsk, nome dado pelos separatistas pró-russos à região</em>], “RPL” [<em>República Popular de Luhansk, nome dado pelos separatistas pró-russos à região</em>] e outros territórios ocupados: anarquistas e outras pessoas de esquerda foram forçados a sair? Havia recrutamento obrigatório de civis para o exército pró-russo?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146157 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp3-1.jpg" alt="&quot;A 'esquerda' fora da Ucrânia se acostumou a ouvir somente pessoas de Moscou&quot;: entrevista com anarcossindicalistas na Ucrânia" width="750" height="528" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp3-1.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp3-1-300x211.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp3-1-597x420.jpg 597w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp3-1-640x451.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp3-1-681x479.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>S.Sh.:</strong> Eu fui forçado a sair de minha cidade natal, Donetsk. Um total de 1,5 milhão de pessoas saiu de Donbas para outros lugares da Ucrânia desde 2014. A população em Donbas era de 6 milhões.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> Não é nem o caso que a maioria dos anarquistas e socialistas tenha deixado a Donbas ocupada. (Não sabemos o que você quer dizer com “pessoas de esquerda”: a palavra abrange gente com visões muito diferentes, desde anarquistas a estalinistas, que não têm nada em comum…) Mas o ponto principal é que nos territórios ocupados pela Rússia só há uma possibilidade: ser absolutamente leal ao poder. A alternativa é a prisão, e depois disso não há mais informações sobre as pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto ao recrutamento de civis na Donbas ocupada para o exército, não houve recrutamento forçado oficial antes de 2022. Mas havia algo mais: após o estabelecimento dos regimes separatistas, o fechamento maciço de empresas começou e seus equipamentos foram exportados para a Rússia. A cada ano se tornava cada vez mais difícil encontrar trabalho em qualquer profissão. O único lugar onde um homem adulto, fisicamente apto, podia realmente ganhar dinheiro, era no exército. E muitas pessoas entraram para o serviço militar. Isto continuou até fevereiro de 2022, quando a “RPD” e a “RPL” anunciaram um alistamento geral. Então, o alistamento forçado tomou suas formas mais incríveis: as pessoas eram recolhidas nas ruas, nos transportes públicos e nas universidades, e levadas aos pontos de alistamento. Alguns dias depois, estes homens estavam na frente de batalha. A maioria deles nunca havia segurado uma arma antes. Eles morreram, e continuam a morrer, em grande número. Na realidade, o alistamento russo em Donbas foi um genocídio da população local. Agora, num futuro muito próximo, o mesmo destino ameaça a população das regiões Zaporizhzhya e Kherson, onde também começou o recrutamento à força para o exército russo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> Qual é a situação social geral desde 2014 nas regiões orientais da Ucrânia ocupadas por separatistas apoiados pela Rússia?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> A Rússia sob Putin se tornou essencialmente um estado fascista, onde toda a população está privada de todos os direitos. Nas regiões da Ucrânia que ficaram sob o controle do exército de Putin e dos separatistas pró-russos, a situação é ainda pior do que na própria Rússia. Por exemplo: no final de 2014, houve tentativas de organizar greves nas minas que ainda estavam operando na época, em defesa dos interesses puramente econômicos dos trabalhadores. Essas tentativas foram reprimidas por métodos puramente gangsteristas, sobre os quais só pudemos ler em livros de história do século XIX: as lideranças iniciais e os apoiadores mais ativos das greves foram retirados da cidade, onde foram espancados e ameaçados de morte. Nenhum comício, passeata, manifestação ou outras ações públicas de organizações sociais independentes, incluindo sindicatos, são possíveis: as autoridades pró-russas têm mantido a lei marcial com todas as proibições relevantes desde 2014. De fato, as próprias organizações sociais independentes há muito deixaram de existir nas “repúblicas populares” — como já foi dito, a única forma de vida aceitável ali está associada ao apoio total e incondicional ao regime de ocupação.</p>
<p style="text-align: justify;">Como qualquer regime fascista, as autoridades russas e seus governos fantoches em Donbas consideram que é seu dever interferir na vida pessoal dos indivíduos. Em primeiro lugar, na vida das pessoas que não compartilham os chamados valores “tradicionais”, ou seja, as visões mais conservadoras da seção ultraconservadora da Igreja Ortodoxa Russa. A orientação sexual “errada”, ou a religião “errada”, são razões suficientes para que uma pessoa seja perseguida, assediada, demitida de seu trabalho, presa. É claro que não existem organizações LGBTI na “República Popular” de Donetsk (RPD) e Luhansk (RPD) — é simplesmente impossível que existam.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a maioria das organizações religiosas protestantes, gregas e católicas que existiam antes de 2014 foram dissolvidas. As Testemunhas de Jeová e os Mórmons, cujas atividades também são proibidas na Rússia, são particularmente perseguidos, e duramente perseguidos.</p>
<p style="text-align: justify;">A principal coisa que você deve saber sobre os regimes da RPD e da RPL é que seu objetivo é destruir QUALQUER dissidência e suprimir QUALQUER desobediência. Isto é o que os coloca ao mesmo nível dos piores exemplos de regimes do passado, como a Alemanha nazista ou a URSS de Stalin. Isto é o que não nos deixa outra escolha senão lutar contra estes regimes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> No entanto, é impressionante a facilidade com que os separatistas pró-russos assumiram as cidades de Donbas nos primeiros dias do conflito de 2014. Não parece que tenha havido muita resistência por parte das autoridades ucranianas. Pelo contrário, é como se tivesse ocorrido uma mudança de regime organizada “de cima”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146158 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp4.jpg" alt="&quot;A 'esquerda' fora da Ucrânia se acostumou a ouvir somente pessoas de Moscou&quot;: entrevista com anarcossindicalistas na Ucrânia" width="750" height="572" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp4.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp4-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp4-551x420.jpg 551w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp4-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp4-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp4-640x488.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp4-681x519.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> Sim, não houve resistência das autoridades locais aos levantes separatistas nas cidades das regiões de Donetsk e Luhansk. Na melhor das hipóteses, as autoridades desapareceram e se afastaram dos acontecimentos. Na pior das hipóteses, elas lideraram a revolta! Isto se aplica à administração política, a toda a liderança da polícia, aos serviços secretos da SSU [<em>Serviço de Segurança da Ucrânia, ao mesmo tempo a autoridade policial e a agência de espionagem deste país</em>], ao Ministério Público e assim por diante.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, houve resistência, mas ela vinha simplesmente de pessoas comuns sem nenhuma autoridade particular. Em março e abril de 2014, foram realizados comícios pró-Ucrânia em Donetsk e outras cidades, onde muitas pessoas se reuniram. Estes comícios foram atacados por separatistas. As primeiras vítimas da guerra em Donbas foram aquelas mesmas pessoas que foram espancadas com bastões ou seqüestradas por soldados pró-russos, levadas para fora da cidade e executadas lá. Tudo isso é considerado como bastante conhecido.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> Vocês estão sabendo, apesar disso, que fora da Ucrânia, alguns canais alternativos de desinformação afirmam que os “verdadeiros” militantes de esquerda na Ucrânia apoiam os separatistas e o poder ocupante (e, como dissemos antes, até mesmo seu grupo foi caluniado com notícias falsas semelhantes)? E em geral, que eles estão tentando retratar o conflito como um conflito entre o “4º Reich” ucraniano e a frente progressista pró-russa?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> Sim, é claro, sabemos disso. E esperamos que seus leitores já tenham visto como são “progressistas” as ações das autoridades pró-russas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas na verdade, quase todos os anarquistas ucranianos estão agora resistindo de alguma forma a Putin e à invasão russa. E conhecemos muitos marxistas anti-autoritários ucranianos que estão na mesma posição, por exemplo, o <a class="urlextern" title="https://rev.org.ua/english/" href="https://rev.org.ua/english/" rel="ugc nofollow">grupo Movimento Social</a>, o <a class="urlextern" title="http://tradeunion.org.ua/" href="http://tradeunion.org.ua/" rel="ugc nofollow">sindicato independente Defendendo o Trabalho</a>, o conselho editorial da <a class="urlextern" title="https://commons.com.ua/en/" href="https://commons.com.ua/en/" rel="ugc nofollow">revista socialista Commons</a> e outras iniciativas. Estes e outros grupos são pouco conhecidos fora da Ucrânia, mas isto simplesmente porque a “esquerda” fora da Ucrânia (novamente: não sabemos quem eles são) estão acostumados a ouvir apenas gente de Moscou. Em nossa opinião, isto significa que, para muitos que vivem fora da antiga União Soviética, o império soviético ainda está vivo hoje. Pelo menos em suas mentes, em suas fantasias.</p>
<p style="text-align: justify;">É tão estranho quanto ouvir notícias sobre eventos e processos no México ou na Argentina de pessoas em Madri, notícias sobre a Índia e o Canadá de pessoas em Londres!</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto aos estalinistas… Eles podem dizer o que quiserem, podem usar as bandeiras mais vermelhas do mundo, mas, na real, são uma força reacionária subserviente ao nacionalismo russo e ao imperialismo russo. A “esquerda” ocidental olha para os nomes dos partidos de nossos países aqui e pensam algo assim: “Oh!, deve ser gente importante!” Por exemplo, em nosso país havia o famoso “Partido Socialista Progressista da Ucrânia”. Com este nome tão retumbante, este partido organizou eventos conjuntos com um dos principais ideólogos do nacionalismo russo moderno e do fascismo absolutista, Alexander Dugin, utilizando imagens e vocabulário racistas e homofóbicos em sua propaganda. Podem ser considerados “de esquerda”, mas neste caso nem Marx, nem Lênin, nem Trotsky poderiam ser “de esquerda” em qualquer sentido.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> De fato, a invasão russa da Ucrânia revelou alguns problemas profundamente enraizados nos movimentos libertários e de esquerda em todo o mundo. Embora esses movimentos tenham sido tradicionalmente contra o autoritarismo, acontece que existe uma porcentagem não tão pequena de pessoas, mesmo entre aqueles que se consideram anarquistas e libertários, que expressam, pelo menos indiretamente, seu apoio à invasão de Putin, porque para eles o objetivo geopolítico da Rússia de ganhar terreno contra a OTAN vale até mesmo muitas vidas civis perdidas na guerra, ou na criação de um novo regime mafioso nos territórios ocupados. Qual, na sua opinião, é o futuro dos movimentos anarquistas do mundo à luz da divisão entre o que poderíamos chamar de “estritamente geopolíticos” e os anarquistas sociais?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> Estamos convencidos de que muitos socialistas e mesmo libertários em todo o mundo estão presos aos conceitos e realidades do século passado, não percebendo que o mundo mudou muito. E este é um enorme problema que acabou de se tornar aparente com o início de uma nova série de ações agressivas por parte da Rússia.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146159 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp5.jpg" alt="&quot;A 'esquerda' fora da Ucrânia se acostumou a ouvir somente pessoas de Moscou&quot;: entrevista com anarcossindicalistas na Ucrânia" width="750" height="526" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp5.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp5-300x210.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp5-599x420.jpg 599w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp5-640x449.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp5-681x478.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Lembramos que a Ucrânia não foi a primeira vítima do imperialismo russo moderno. Houve invasões russas da Geórgia e da Moldávia nos anos 90. Houve uma guerra colonial no Cáucaso, que continuou até os anos 2000. Os tanques russos voltaram a entrar na Geórgia em 2008. A Rússia tem intervindo na Síria desde o início da década de 2010. As tropas russas foram usadas para suprimir a revolta no Cazaquistão em janeiro de 2022. A guerra na Ucrânia é simplesmente uma nova escala de violência por parte de Moscou, o que não acontece na Europa há muito tempo, mas não é algo fundamentalmente novo para a política de assassinato, destruição e ocupação promovida por Moscou.</p>
<p style="text-align: justify;">A “esquerda” que apoia a Rússia hoje a vê como algo parecido com a URSS da segunda metade do século 20. Não percebe que até mesmo a conversa de “socialismo”, “justiça social” e “Estado-nação” usada na época caiu há muito tempo, e as pessoas na Rússia estão privadas da maioria dos direitos e vivem em condições sociais, econômicas e diárias terríveis. As pessoas na Rússia vivem em um estado policial e são perseguidas por sua nacionalidade (como os tártaros da Crimeia)<strong>[1]</strong> , por suas crenças religiosas (como pertencer às Testemunhas de Jeová, aos Mórmons ou às seitas não ortodoxas do Islã), sem mencionar a perseguição por suas crenças em oposição ao <em>status quo</em>. Dois exemplos: o matemático e anarquista de Moscou Azat Miftahov foi acusado de quebrar uma janela nos escritórios do partido governista Rússia Unida. Ele foi julgado por este crime hediondo, e em 2021 foi condenado a seis anos de prisão. Os anarquistas Dmitry Chibukovsky e Anastasia Safonova, da cidade de Chelyabinsk, nos Urais, colocaram uma faixa em uma cerca que dizia “O FSB [<em>Serviço de Segurança Federal, serviço secreto russo</em>] é o principal terrorista”. Eles foram condenados a 2,5 e 2 anos de prisão por este ato. Isto só até 10 de setembro de 2022.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda vê a Rússia de Putin como uma alternativa à OTAN, como um rival da OTAN. Em certo sentido, eles estão certos: a Rússia é de fato oposta à OTAN. Mas eles não vêem, e não querem ver, que a alternativa russa significa apenas um desejo, pela Rússia, de seguir sua própria política, independente mas igualmente (se não mais) imperialista.</p>
<p style="text-align: justify;">O objetivo geopolítico da Rússia não é de modo algum deter o imperialismo ocidental, mas fazer da Rússia novamente um império, mais poderoso, agressivo e desumano do que o “Ocidente” convencional. O Estado russo, tendo suprimido a liberdade e a independência em casa, não pode trazer nenhuma liberdade e independência para outros países.</p>
<p style="text-align: justify;">A “esquerda” pró-russa não vê isso. Para usar a analogia do romance de George Orwell, 1984, essa “esquerda” se alinha com o Grande Irmão da Eurásia contra o Grande Irmão da Oceania.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses militantes de “esquerda” são uns idiotas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto ao futuro. Não estamos particularmente interessados no futuro e nas perspectivas da “esquerda” e dos movimentos socialistas de Estado ao redor do mundo. Nós somos anarquistas, e pensamos antes de tudo no movimento anarquista. Nosso <em>slogan</em> permanece o mesmo que sempre foi: a emancipação dos trabalhadores é um assunto para os próprios trabalhadores! E a divisão entre os anarquistas sociais e aqueles que você chamou de “geopolíticos estreitos” ainda nem sequer aconteceu, infelizmente. Nem todos percebemos, ainda, que esta divisão será necessária e inevitável.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> Gostaríamos de saber sua opinião sobre os referendos sobre a anexação dos territórios atualmente ocupados de Donbas à Federação Russa. Até que ponto podem ser considerados a vontade de um povo, dada a existência do exército de ocupação e da repressão brutal? Vimos que tais referendos têm sido realizados desde 2014 com cédulas transparentes e outros pontos problemáticos na Crimeia, então podemos assumir que esta é uma parte importante da estratégia russa?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> Hoje em dia, enquanto dando entrevistas, a Internet está repleta de vídeos dos territórios ocupados mostrando como são conduzidos os “referendos”. Qualquer pessoa pode ver que não há seções eleitorais ou urnas, transparentes ou não. Nos vídeos podemos ver que grupos de pessoas, 4-5 pessoas, entre as quais sempre há duas pessoas em uniformes militares com armas, percorrem os apartamentos dos cidadãos e lhes pedem para assinar as “cédulas de voto”. Isto não é um referendo. Isto é um teste total à lealdade da população aos ocupantes, que está literalmente ocorrendo sob a mira de rifles automáticos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146160 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp6.jpg" alt="&quot;A 'esquerda' fora da Ucrânia se acostumou a ouvir somente pessoas de Moscou&quot;: entrevista com anarcossindicalistas na Ucrânia" width="750" height="530" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp6.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp6-300x212.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp6-594x420.jpg 594w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp6-640x452.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp6-681x481.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Há outro ponto importante. Um plebiscito é um conceito legal. O “referendo” de hoje foi chamado pelas autoridades estatais. Isto significa que o “referendo” de hoje deve ser conduzido de acordo com a lei estatal. Mas com que lei se realiza exatamente um “referendo” nos territórios ocupados? A lei russa não diz absolutamente nada sobre referendos, nenhum referendo jamais foi realizado na Rússia desde 1991. A lei ucraniana, por outro lado, estipula que um referendo só pode ser realizado em todo o território do país, e não em regiões individuais. Em outras palavras, mesmo de um ponto de vista formal, esta é uma ação sem sentido, que não pode ter nenhuma conseqüência legal.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos certos de que qualquer pessoa comum pode entender por si mesma em que acreditar sobre este “referendo”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> O que o futuro reserva para a Ucrânia após o fim da guerra? Ouvimos dizer que a UE está pressionando o governo ucraniano a aprovar nova legislação antissindical, e que a enorme dívida nacional não foi cancelada ou reduzida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> Após a vitória da Ucrânia na guerra, uma nova luta nos espera, pelos interesses sociais e econômicos do povo ucraniano. Sim, agora o governo já está aprovando novas leis antissindicais e, mais amplamente, antitrabalhistas. Mas esperamos que, após a vitória, tenhamos boas perspectivas para o desenvolvimento e ativação do movimento social e anarquista, pelos seguintes motivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, o povo da Ucrânia já derrotou o agressor de certa forma, pelo menos venceu a primeira etapa da guerra. Isto aconteceu no final de fevereiro e março de 2022, quando a resistência na frente de batalha contrariou o plano original da <em>blitzkrieg</em>, o plano para uma rápida tomada de controle da Ucrânia. O povo viu sua própria força, sua própria capacidade de resistir a um inimigo externo. É pouco provável que tolerem silenciosamente um ataque futuro de um inimigo interno.</p>
<p style="text-align: justify;">Em segundo lugar, o anarquismo não tem nada a ver com o fato de um <em>punk</em> com alfinetes de segurança na orelha pixar o “A na bola” na parede. Não é nem mesmo de um respeitável cientista de óculos dando mais uma palestra sobre os pensamentos e idéias de Proudhon ou Bakunin. O anarquismo é a capacidade das pessoas de resolverem seus próprios problemas sem o envolvimento do Estado e de outras estruturas hierárquicas. Resolver problemas baseados na auto-organização e na ampla interação de iniciativas locais. Não importa como chamam a si mesmos. O que importa é a substância, não o nome. No momento, existe um grande número dessas iniciativas auto-organizadas não estatais na Ucrânia. Elas lidam com uma variedade de questões, desde ajudar refugiados e guardar pequenas comunidades até fornecer aos militares tudo o que eles precisam. Neste sentido, a Ucrânia hoje segue práticas anarquistas mais do que muitas outras sociedades do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">A propósito, não é esta uma boa imagem para dissipar um pouco o mito do “regime nazista” na Ucrânia?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> Qual é, em sua opinião, a escala do atual contra-ataque? Ele pode ser considerado um ponto de inflexão na guerra? E quais são as perspectivas para os regimes nacionalistas de Putin e Lukashenko?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> A escala é visível para todos: em três semanas, o exército ucraniano expulsou as tropas russas de toda a região de Kharkiv, e está gradualmente deslocando os combates para a região de Luhansk. A propósito, os russos estão tentando invadir a região há cinco meses. Agora o ritmo da ofensiva diminuiu consideravelmente, o que é bastante normal: sempre foi assim em todas as guerras. Se esta ofensiva será um ponto de inflexão, isso fica para historiadores do futuro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Os regimes nacionalistas fascistas de Putin e Lukashenko irão inevitavelmente entrar em colapso. Quando e como isso vai acontecer — todos nós o veremos com nossos próprios olhos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> Foi dito que a invasão poderia terminar com algum tipo de negociação, com o Estado ucraniano abrindo mão de certos territórios para manter sua soberania independente sobre todas as outras regiões ucranianas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> Todas as guerras terminaram com a paz, mas nem todas as guerras terminaram com negociações. Por exemplo, as negociações não foram necessárias para terminar a guerra contra a Alemanha nazista: os nazistas foram destruídos e Hitler cometeu suicídio em seu <em>bunker</em>. O mesmo destino pode esperar Putin. Especialmente porque ele já preparou um <em>bunker</em> para si mesmo há muito tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">O compromisso de que está falando (ceder parte do território para manter a soberania do resto da Ucrânia) é impossível. Não é nem porque a entrega de alguns milhões de ucranianos ao regime fascista de Putin seria traição. A Rússia de hoje há muito mostra sua incapacidade de capitular, de coexistir pacificamente com os países vizinhos que escolheu como suas vítimas. Isto foi evidente nas duas guerras coloniais no Cáucaso. Nos anos 90, o povo checheno infligiu uma séria derrota ao exército russo e o governo russo concordou com a paz. Os anos seguintes foram passados preparando-se para uma nova invasão da Chechênia insubmissa, e quando uma nova força ainda mais poderosa foi reunida, o exército russo recomeçou tudo de novo.</p>
<p style="text-align: justify;">A sociedade ucraniana se lembra desses eventos, e sabe que a única garantia para a paz será a completa derrota do exército russo, a destruição do regime de Putin e mudanças muito sérias no Estado e na sociedade russa. É provavelmente muito cedo para discutir as formas específicas destas mudanças, mas não podemos mais viver sem elas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Y.T.:</strong> Muito obrigado por seu tempo! Cuide-se e continue lutando por uma Ucrânia mais livre, além do capitalismo e do estatismo!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A.D. e S.Sh.:</strong> Obrigado! Viva uma Ucrânia livre e independente!</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146161 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp7.jpg" alt="&quot;A 'esquerda' fora da Ucrânia se acostumou a ouvir somente pessoas de Moscou&quot;: entrevista com anarcossindicalistas na Ucrânia" width="265" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp7.jpg 265w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp7-133x300.jpg 133w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/pp7-186x420.jpg 186w" sizes="auto, (max-width: 265px) 100vw, 265px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Desde o início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia em 2014, há uma minoria notável que sofreu muito, mas poucos falam sobre o assunto — os tártaros muçulmanos da Crimeia. Desde o início da ocupação russa da Crimeia, as forças russas começaram uma grande repressão contra os tártaros muçulmanos, fechando seu canal de TV, proibindo suas organizações e mesmo espancando até a morte os manifestantes tártaros que reagiram à invasão, acreditando que seus direitos seriam afetados se a Crimeia ucraniana fosse anexada pelo regime russo de Putin. Como resultado, milhares de tártaros foram forçados a deixar suas casas e fugir. Sua comunidade se absteve do referendo sobre a anexação russa da Crimeia em 2014, que foi uma fraude perpetrada sob a mira de armas e com cédulas transparentes. Mas esta não é a primeira vez que os tártaros muçulmanos sofrem com o autoritarismo russo. Em 1944, durante o período soviético, mais de 180.000 tártaros da Crimeia foram forçados a embarcar em trens de gado e exilados para o Uzbequistão sob ordens de Joseph Stalin. Na época, a propaganda estatal soviética justificava essa política racista acusando todos os tártaros de serem colaboradores nazistas, apesar do fato de muitos tártaros terem servido no Exército Vermelho antes disso. Não esqueçamos, além disso, que em não poucas vezes a propaganda soviética justificou a prisão/expulsão em massa de várias minorias e opositores políticos (anarquistas, etc.) sob a sempre popular acusação de que eles eram “aliados ideológicos do fascismo”. É claro que esta política racista contra os tártaros muçulmanos não foi uma invenção do regime soviético. No Império Russo, o Czar, já no século XVIII, havia iniciado uma política de “eslavização” da Crimeia, iniciando as primeiras perseguições contra os tártaros. A URSS, como um bom sucessor do império, simplesmente continuou o trabalho do czar. Putin continua a fazer o mesmo hoje em dia, em apoio a suas ambições imperiais. Mais informações <a class="urlextern" title="https://www.aljazeera.com/news/2022/3/12/russia-ukraine-crimean-tatars-dissent-repression" href="https://www.aljazeera.com/news/2022/3/12/russia-ukraine-crimean-tatars-dissent-repression" rel="ugc nofollow">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Entrevista traduzida pelo Passa Palavra a partir da tradução para o inglês publicada pela revista anarquista britânica <a class="urlextern" title="https://freedomnews.org.uk" href="https://freedomnews.org.uk" rel="ugc nofollow">Freedom</a>, disponível <a class="urlextern" title="https://freedomnews.org.uk/2022/10/04/leftists-outside-ukraine-are-used-to-listening-only-to-people-from-moscow-interview-with-rkas-anarcho-syndicalists-in-eastern-ukraine/" href="https://freedomnews.org.uk/2022/10/04/leftists-outside-ukraine-are-used-to-listening-only-to-people-from-moscow-interview-with-rkas-anarcho-syndicalists-in-eastern-ukraine/" rel="ugc nofollow">aqui</a> .</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de </em><em>Alla Horska (1929-1970).<br />
</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Talvez. 1) Modelos falidos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Oct 2022 06:57:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
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					<description><![CDATA[E hoje, amanhã, na contemporaneidade dos identitarismos politicamente correctos, dos produtos bio e da indústria cultural de massas? Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;">A esquerda, tanto de viés marxista como de viés anarquista, encontra-se actualmente dividida em duas orientações.</p>
<p><strong>1. A esquerda esponja</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Numa dessas orientações a esquerda procede como uma esponja, absorvendo a ecologia e os identitarismos da moda, a tal ponto que a maioria dos chamados marxistas e a dos chamados anarquistas deixou de ter qualquer especificidade. E perderam-na em troca de quê? Para quem conheça pelo menos alguns dos livros e artigos que tenho escrito, a minha opinião acerca destas esponjas não é difícil de adivinhar.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Desde o prefácio à edição espanhola do <em>Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista</em> <strong>[1]</strong>, a crítica à ecologia tem sido um dos objectivos constantes da minha actividade. «A ideia de uma tecnologia não capitalista corre hoje na boca de muita gente», escrevi eu nesse prefácio. «Parecem-me particularmente criticáveis duas tendências gerais. A primeira, seguida por grande parte dos que se dizem “ecológicos”, consiste em defender uma paragem do crescimento industrial e o regresso, pelo menos parcial, a certas técnicas de produção pré-capitalistas. A ambição de regressar a épocas históricas ultrapassadas é o protótipo da utopia, e não vale a pena gastar mais tinta a demonstrar a impossibilidade desse retorno, quando tal demonstração foi feita já milhares de vezes; só não está convencido quem não o poderá ser». Não vale a pena gastar mais tinta, dizia eu, e realmente não vale, porque não são apenas os argumentos teóricos que permanecem sem efeito, mas até as catástrofes práticas precipitadas pela agro-ecologia, como há pouco no Sri Lanka, não convencem quem não as quer ver. Nada resiste melhor à realidade do que a fé. «Quanto à defesa de um “crescimento zero”», observei eu em seguida naquele prefácio, «é curioso notar que ela se encontra tanto na boca de muitos ecológicos como na dos economistas capitalistas mais conservadores». Ficaram assim traçadas duas linhas mestras do que iria ser, de então em diante, a minha crítica aos ecologistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Desenvolvi depois essa crítica em duas outras direcções, mostrando, por um lado, como a ecologia é um elemento, ou mesmo um instrumento, das modalidades mais bárbaras da exploração capitalista. Por outro lado, procurei expor os desequilíbrios provocados pelos sistemas tecnológicos pré-capitalistas, com a agravante de que não dispunham, para os corrigir, das possibilidades hoje existentes. O pós-modernismo, ao pôr em causa a noção de progresso, abriu o caminho às apologias do retrocesso, com os mitos do arcaísmo, mas afinal a utopia do retorno a épocas históricas ultrapassadas revela-se como uma distopia.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo o que já pensava, fiquei surpreendido quando, no prosseguimento das minhas pesquisas sobre o fascismo, deparei com a íntima relação da ecologia com o nacional-socialismo germânico, a ponto de a agro-ecologia ter constituído a doutrina oficial do Ministério dos Abastecimentos e da Agricultura do Terceiro Reich. Aliás, e mesmo sem atingir esse relevo, a ecologia permeou todos os fascismos. Isto permitiu-me compreender que a ecologia decorre directamente do metacapitalismo que Hitler e Himmler, durante a segunda guerra mundial, haviam começado a aplicar nos territórios conquistados no Leste. Os movimentos ecológicos defendem hoje uma idêntica inversão dos mecanismos de produtividade. A barbárie é a mesma. A esquerda que agora promove a agro-ecologia como se fosse uma invenção sua — e não estou a pensar unicamente no MST e nos seus satélites — ignora, ou esforça-se por que os outros ignorem, a génese e a história da agro-ecologia.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Também tenho procedido abundantemente à análise crítica dos identitarismos. Numa definição breve, os identitarismos, tanto de género como étnicos ou de cor da pele, são como que uma reprodução dos nacionalismos, mas adequada à época da transnacionalização económica e da globalização da cultura. Assim, a situação agravou-se duplamente, porque a transnacionalização não atingiu o mercado de trabalho, excepto no interior da União Europeia, de modo que o nacionalismo foi ultrapassado pelo capital, embora continue vigente para a classe trabalhadora, fraccionada por fronteiras nacionais ou de blocos de nações. Ora, a este velho nacionalismo dos trabalhadores somam-se agora os identitarismos, reproduzindo as consequências nocivas do nacionalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica ao identitarismo étnico é simples, porque ele reproduz o racismo vigente entre as duas guerras mundiais, limitando-se a colocar um sinal positivo onde o outro colocava um negativo, e inversamente. Marcus Garvey disse tudo quando proclamou: «Nós fomos os primeiros fascistas». E explicou, para quem não tivesse entendido: «Mussolini copiou de mim o fascismo, mas os reaccionários negros sabotaram-no» <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">E assim como o racismo do Terceiro Reich necessitava de uma anti-raça (os judeus), também os identitarismos, tanto étnicos como sexuais, exigem uma anti-identidade. Senão, não haveria qualquer argumento lógico para recusar a pessoas de pele clara a mesma condição de vítimas de escravismo ou de genocídio que se atribui a africanos de pele escura, nem para privar o eurocentrismo da mesma legitimidade que se confere à promoção de outras áreas culturais, para negar ao machismo o mesmo estatuto que se concede ao feminismo excludente ou não reconhecer aos hetero-sexuais a mesma validade que aos outros. Mas os identitarismos, como todos os nacionalismos, requerem a assimetria.</p>
<p style="text-align: justify;">Na realidade a situação é pior ainda, porque os identitarismos de género juntam às consequências nocivas do nacionalismo uma oscilação entre cultura e biologia, biologia e cultura, que caracterizou especialmente o nacional-socialismo. Em 2006 publiquei na revista do Instituto Astrojildo Pereira um artigo <strong>[3]</strong> em que afirmei, logo no começo: «Há poucos anos, quando preparava um livro sobre o fascismo que entretanto já foi publicado, apercebi-me de uma convergência de pontos de vista entre certo tipo de feminismo hoje em voga e a modalidade racista do fascismo, o nacional-socialismo hitleriano». Foi necessária coragem para uma revista publicar estas linhas há dezasseis anos, muito mais seria necessária hoje. Ao longo do artigo expliquei aquela convergência, pois «num dos seus traços decisivos — a atribuição de uma raiz biológica às manifestações culturais e a noção de que dadas manifestações culturais indicam certa condição biológica — o feminismo que hoje domina os meios académicos e prevalece nos órgãos de informação, propenso às abordagens “de género”, para empregar a terminologia corrente, actualizou um modelo de pensamento que caracterizara o racismo germânico, nomeadamente na versão hitleriana». Com efeito, os nacionais-socialistas confundiam os partidários da ideologia comunista ou socialista com os judeus, considerados como uma categoria biológica, e completavam a circularidade atribuindo a todos os judeus uma acção ideológica subversora. Do mesmo modo, prossegui nesse artigo, «o actual feminismo académico baseia a sua interpretação do mundo numa divisão de carácter estritamente biológico e a partir daí constrói um complexo edifício de distinções culturais. Com igual desenvoltura procede em sentido inverso, quando atribui a dado tipo de ideias, de atitudes e de comportamentos uma conotação biológica, masculina ou feminina consoante as preferências».</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-145754" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-1-Magritte-237x300.jpg" alt="" width="560" height="709" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-1-Magritte-237x300.jpg 237w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-1-Magritte-808x1024.jpg 808w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-1-Magritte-768x973.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-1-Magritte-1212x1536.jpg 1212w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-1-Magritte-332x420.jpg 332w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-1-Magritte-640x811.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-1-Magritte-681x863.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-1-Magritte.jpg 1263w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Dezasseis anos é muito tempo e neste âmbito de género surgiram novidades curiosas. Começo por recordar que já no final do século XIX Houston Stewart Chamberlain, o mais imediato precursor do racismo hitleriano, admitira a existência de uma biologia ideológica. «Relativamente à raça», afirmara Chamberlain, as ideias «são sem dúvida uma <em>consequência</em>». E logo em seguida prevenira. «Mas tenhamos o cuidado de não subestimar o contributo desta anatomia interior e invisível — desta dolicocefalia ou desta braquicefalia puramente espirituais — que age como <em>causa</em> e tem um âmbito de acção muitíssimo vasto» <strong>[4]</strong>. Perto do fim da obra, Chamberlain insistira que «aquilo que designamos pela palavra “raça” é, dentro de certos limites, um fenómeno plástico, e assim como o físico reage sobre o intelectual, o intelectual reage do mesmo modo sobre o físico» <strong>[5]</strong>. O racismo nacional-socialista adoptou esta perspectiva, o que nos permite compreender que Hitler, discursando em 1933 no congresso do seu partido, se tenha referido, a propósito dos nórdicos, «àqueles que pertencem em espírito a uma certa raça» <strong>[6]</strong>. E quando o Terceiro Reich se abeirava do colapso, ainda o Führer insistia. «Falamos de raça judaica por comodidade de linguagem, porque, para falar com exactidão e sob o ponto de vista genético, não existe uma raça judaica». E explicava. «A raça judaica é antes de mais uma raça mental» <strong>[7]</strong>. Ora, a noção de transgénero não é mais do que uma actualização dessa «raça mental» e daquela «anatomia interior e invisível», substituindo a dolicocefalia ou a braquicefalia «puramente espirituais» por pénis e vaginas igualmente «espirituais». São, num eco do discurso de Hitler em 1933, aqueles ou aquelas «que pertencem em espírito» a um certo sexo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em espírito e puramente espirituais? Se considerarmos toda a ideologia como espiritual, então os rituais e o teatro são espirituais também, como são os cenários que ornamentam e encobrem. Os discursos de género constituem hoje um prolixo cenário de teatro, ou até de circo. Quando os transgéneros não se limitam a ser simples travestis, tudo o que as cirurgias plásticas e as medicamentações conseguem é disfarçar a biologia com um cenário, eventualmente mais duradouro do que as saias ou as calças, mas não menos fictício, porque os homens não passam a ter ovários nem as mulheres adquirem próstata. No fim deste périplo, os discursos de género deram novo vigor a um dos temas fundadores do racismo hitleriano — a «anatomia interior e invisível».</p>
<p style="text-align: justify;">Deparamos com o espectáculo de uma sociedade <em>self-service</em> em que cada qual escolhe a identidade de género que naquele momento pretenda assumir, num peculiar alfabeto ilimitado que termina provisoriamente com o sinal de uma soma em vazio. Assim como, nas concepções políticas da esquerda, o internacionalismo degenerou numa soma de nações, até chegar ao seu contrário e reafirmar as nacionalidades, também o universalismo se encontra hoje degradado na interseccionalidade.</p>
<p>Tudo multiplicado, qual o produto?</p>
<p style="text-align: justify;">No período entre as duas guerras mundiais tanto a ecologia como o identitarismo racial difundiram-se no âmbito do fascismo, e depois da vitória aliada prosseguiram uma discreta existência subterrânea. Mas ressurgiram a partir da década de 1970, inclusivamente na área da esquerda, tiveram uma expansão avassaladora em todo o leque político e bastaram algumas décadas para se tornarem a doutrina oficial das democracias, permeando também os regimes autoritários. Raramente um tão grande êxito foi obtido com tão pouco custo. A ecologia e os identitarismos constituem os fascismos do pós-fascismo, tão nocivos como o fascismo clássico. Será que nos próximos tempos o panorama político ficará apenas animado por uma luta entre os dois tipos de fascismo?</p>
<p><strong>2. A esquerda pré-galilaica</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A outra das grandes orientações em que se reparte actualmente a esquerda, marxista ou anarquista, caracteriza-se pela adopção de uma postura pré-galilaica, fechando os olhos às evidências empíricas. Assim como noutro tempo houve quem se recusasse a espreitar pela luneta para ver Júpiter, também estes agora se esforçam por não olhar as novas realidades e preferem, em vez disso, cingir-se às páginas da doutrina. Esta esquerda abandonou qualquer preocupação científica, definida pela atenção prestada aos factos, e converteu-se em religiões, cada uma dividida numa pluralidade de capelas, em que a análise empírica é substituída por especulações e deduções a partir de frases do profeta ou santo de cada fé.</p>
<p style="text-align: justify;">O alheamento do empírico faz com que esta esquerda não se dê conta das profundíssimas transformações sofridas por uma classe trabalhadora que, no entanto, lhe serve de referência ideológica. É certo que no esquema da mais-valia a classe trabalhadora tem um lugar bem determinado e contínuo. Se a força de trabalho é capaz de despender no processo de produção um tempo de trabalho maior do que aquele que está incorporado na própria força de trabalho, então esta dialéctica define o tempo como substância do capitalismo e marca o antagonismo entre quem controla os tempos e por isso se apropria dos seus produtos e quem não controla os tempos e por isso só das mãos do patrão pode receber os produtos. É esta a divisão perene entre as classes sociais e neste sentido a sua definição é inalterável, enquanto durar o capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Do desfasamento entre o tempo de trabalho despendido e o incorporado resulta a mais-valia, que está no centro de todos os conflitos entre classes sociais. A luta social é, em última análise, uma luta pelo controle dos tempos, e quando os trabalhadores conseguem aumentar o tempo de trabalho que incorporam ou reduzir aquele que despendem, os capitalistas esforçam-se por reduzir o tempo de trabalho necessário à produção de cada um dos bens e serviços que os trabalhadores consomem e por aumentar em intensidade e qualidade o tempo de trabalho despendido no processo produtivo, mesmo se, medido em horas de relógio, ele parecer estável ou em redução. Este mecanismo da produtividade encontra-se no centro das lutas entre classes.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, o processo de aumento da produtividade implica remodelações tecnológicas e de organização do trabalho, inovações que tornam antiquadas certas habilitações e requerem qualificações novas, deslocações populacionais e transformações culturais. Assim, se no esquema económico elementar da mais-valia a classe trabalhadora ocupa uma posição definida e contínua, o crescimento da produtividade exige a sua permanente renovação sociológica e, correspondentemente, a renovação das classes capitalistas, tanto a burguesia como os gestores. A debilidade fulcral da esquerda pré-galilaica consiste em ignorar que a definição económica abstracta não dispensa a compreensão das sucessivas realidades sociológicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos meados do século XIX, quando se fundaram as primeiras organizações socialistas e anarquistas, o capitalismo industrial limitava-se a alguns centros na Inglaterra e na Escócia, um pouco na Bélgica e no Norte e Leste da França, na Catalunha, além de pólos de desenvolvimento em certos estados alemães, no Norte da Itália e nos Estados Unidos. E o que era a classe trabalhadora dessas indústrias, como se estruturava, como pensava? Leiam as reportagens do jornalista Henry Mayhew, notáveis por vários motivos, e antes de mais porque não contêm apreciações moralistas, mas só descrições sociológicas objectivas. Nos raros casos em que existe moralismo, Mayhew compensou-o pela compreensão. Além disso, ele revelou uma preocupação estatística surpreendente, transformando as suas reportagens num verdadeiro inquérito científico. E o seu poder de observação incidiu tanto nos factos como nas aparências, nas frases como na entoação com que eram proferidas, conseguindo juntar uma visão global com a perspicácia individual. Leiam essas reportagens, vejam a abissal diferença entre os trabalhadores da Londres daquela época e os da actualidade, e lembrem-se de que foi a pensar nos trabalhadores descritos por Mayhew, a cruzá-los na rua, a falar com eles, que Karl Marx escreveu <em>O Capital</em>. Mas para a esquerda pré-galilaica estas realidades não contam e ela eterniza os textos, fazendo-os pairar nos céus, esquecendo-lhes as referências concretas. Sem substrato empírico, a alusão à classe trabalhadora torna-se meramente mítica.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-145759" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-16-Magritte-251x300.jpg" alt="" width="560" height="669" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-16-Magritte-251x300.jpg 251w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-16-Magritte-352x420.jpg 352w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-16-Magritte-640x764.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-16-Magritte.jpg 670w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Aliás, a que se deve a relutância de tanta gente de esquerda a ler romances, quando eles são o único meio que nos permite penetrar nos comportamentos alheios e entender por dentro a psicologia dos outros? Eu disse várias vezes em aulas, para incómodo de algumas pessoas, que os únicos bons sociólogos — com excepção de Max Weber — são os bons romancistas. Então, ao mesmo tempo que lerem as reportagens de Henry Mayhew leiam os romances de Charles Dickens e vejam as gravuras de Gustave Doré sobre Londres. Foi nesta sociedade, e perante ela, que os fundadores do marxismo e do anarquismo escreveram as suas obras.</p>
<p style="text-align: justify;">Os mecanismos da produtividade não param, expandindo o capitalismo a todo o mundo e reorganizando incessantemente as classes sociais. A nova sociedade e as novas ideias divulgaram-se na Rússia e não as entenderemos sem ler o romance <em>Pais e Filhos</em>, de Turgenev, e muito longe, do outro lado de continentes e mares, Aluísio Azevedo mostrou em <em>O Cortiço</em> como o capitalismo reordenava o tecido social brasileiro. Do mesmo modo não entenderemos, algumas décadas depois, a renovação social operada nos Estados Unidos se ignorarmos <em>An American Tragedy</em>, de Theodore Dreiser. A quem recorrer nos cem anos que se seguiram? Roger Vaillant fez-nos penetrar numa classe operária que alimenta ainda o imaginário de muita gente, tal como o fizeram Ignazio Silone ou Vasco Pratolini. Depois aquele operariado começou a decompor-se e nos interstícios surgiram os factores de fragmentação e dispersão social que, através do toyotismo, iriam permitir a actual uberização do trabalho. E se Charles Bukowski nos abre portas de entrada, é sobretudo no <em>Howl</em>, de Allen Ginsberg, com uma antecipação que só cabe aos grandes poetas, que encontro a alvorada dessa época e a previsão do que haveria de ser o seu desfecho. Entretanto, quantas vezes já o capitalismo remodelara socialmente a África? A quem estiver preso aos discursos simplistas da dependência, sugiro a leitura de <em>African Psycho</em>, de Alain Mabanckou, onde um misto de modernidade, marginalidade e tradições degeneradas serve de introdução, ou de símbolo, aos becos sem saída que afligem esse continente.</p>
<p style="text-align: justify;">E hoje, amanhã, na contemporaneidade dos identitarismos politicamente correctos, dos produtos bio e da indústria cultural de massas? Com urgência — mas para isso é preciso saber francês — devem ler os romances de Patrice Jean. «Haïr son époque est le premier devoir d&#8217;un écrivain». A implacável lucidez de Patrice Jean é um espelho, e quem tiver medo de olhar o espelho é preferível não abrir estes livros, «être haï de son époque est le deuxième devoir de l&#8217;écrivain». <em>La Poursuite de l’Idéal</em> é, até agora, a sua obra máxima, que concentra tudo, e se esta é a narrativa da desolação, encontramos o desespero absoluto em <em>Tour d’Ivoire</em>. E, já que falei da esquerda esponja e estou a falar da esquerda pré-galilaica, é indispensável ler <em>Le Parti d’Edgar Winger</em>.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se os anarquistas prestassem alguma atenção ao empírico, reflectiriam sobre um facto que deveria ser flagrante — os Estados falidos não propiciaram nenhuma organização libertária da sociedade nem as economias falidas propiciaram hortas orgânicas. Apenas desespero, marginalidade e crime organizado. Quando os governos centrais se tornaram inoperantes ou mesmo desapareceram, não foram substituídos pela população auto-organizada, mas por bandos criminosos e pela desolação generalizada. Basta ver o que sucede hoje no Haiti e no Líbano e em numerosos países africanos. Para empregar os meus conceitos, o Estado Amplo, ou seja, a soberania exercida pelas empresas — mas aqui um Estado Amplo originariamente ilegal, fornecedor de bens e serviços proibidos — passou a acumular as funções do Estado Restrito, ou seja, o clássico poder governativo. Esta tem sido uma regra sem excepções, que deixa a teoria anarquista com o mesmo grau de realismo que as orações pelos defuntos.</p>
<p style="text-align: justify;">Perante este fracasso dos anarquistas, não me parece que os marxistas possam rir, sequer sorrir, porque a realidade também não lhes tem sido benéfica. Deparamos com exemplos lamentáveis de esclerose de pensamento desde que se iniciou a invasão russa da Ucrânia e muitos desses marxistas congelados noutra era aplaudem Putin, os mais estúpidos, enquanto outros, os mais hipócritas, lhe encontram justificações. Há ainda quem defenda palavras de ordem datando da primeira guerra mundial, como se as diferenças de século e de contexto não obrigassem a repensar as atitudes. Trata-se de sintomas graves, mas episódicos, e é outro o problema de fundo que aflige os marxistas pré-galilaicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ouço-os sempre falar de crise estrutural do capitalismo, mas entretanto vejo o capitalismo desenvolver-se e superar os obstáculos. A ilusão não seria difícil de detectar se olhassem para os factos. O conceito de <em>destruição criativa</em>, proposto por Joseph Schumpeter, permite-nos compreender que o crescimento da produtividade não ocorre de modo paulatino e homogéneo, mediante a progressiva remodelação dos sistemas existentes e a sua transformação gradual em sistemas novos. Os aumentos significativos da produtividade ocorrem sempre de forma brusca e concentram-se em dadas regiões, relegando à falência e ao declínio empresas e regiões que não conseguiram renovar-se e se mantêm dependentes de sistemas tornados obsoletos. Assim, ao mesmo tempo que os ramos tecnologicamente inovadores deparam com escassez de força de trabalho qualificada para as novas exigências, uma grande parte dos trabalhadores despedidos (demitidos) pelas empresas em extinção não consegue requalificar-se e fica condenada ao desemprego. O capitalismo é feito deste <em>puzzle</em> de crescimento e prosperidade em partes do tabuleiro, enquanto noutras partes grassa o declínio e a marginalização. Destruição criativa é um conceito com dois termos, e a destruição não tem sido um impedimento à criatividade, mas, pelo contrário, a sua condição. O mito da crise estrutural do capitalismo deve-se ao facto de a esquerda pré-galilaica considerar só um dos termos do conceito e fechar os olhos ao outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí surgiu a noção errada, e que tantas catástrofes tácticas acarretou, de que a evolução do capitalismo conduziria necessariamente ao fascismo. Ora, penso ter mostrado, na obra que dediquei ao assunto, que são os obstáculos erguidos ao desenvolvimento do capitalismo a gerar condições propícias ao aparecimento do fascismo. Enquanto a destruição criativa se verificar, o mecanismo da produtividade acelera-se e o capitalismo, globalmente considerado, desenvolve-se. Mas, entretanto, as regiões e os sectores condenados pelo efeito destrutivo deparam, no seu âmbito próprio, com entraves ao desenvolvimento económico e, portanto, criam-se ali condições favoráveis ao fascismo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-145756" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-18-Magritte-300x228.jpg" alt="" width="560" height="426" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-18-Magritte-300x228.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-18-Magritte-553x420.jpg 553w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-18-Magritte-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-18-Magritte-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-18-Magritte-640x486.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-18-Magritte-681x518.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Talvez-18-Magritte.jpg 750w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />A esquerda que confunde miséria com revolução pensa que naquelas regiões e sectores em crise pode encontrar uma base social, mas os trabalhadores menos qualificados e o operariado das indústrias obsoletas, em vez de apoiarem a esquerda, constituem a mais forte base popular de sustentação da extrema-direita radical e do fascismo. Neste contexto adquiriu uma nova importância o conceito de <em>populismo</em>, que denota o cruzamento entre direita e esquerda, sempre gerador do fascismo, operado sobre as camadas sociais em crise. Os restos da extrema-esquerda marxista e do anarquismo contribuem agora para activar uma mobilização que resulta unicamente na ascensão do fascismo ou de um protofascismo. Basta lembrar os Coletes Amarelos em França, concorrendo poderosamente para a vaga de fundo que dinamizou o partido de Marine Le Pen, ou as movimentações contra a «ditadura sanitária» na Europa e nos Estados Unidos durante a recente pandemia. Ou, para não irmos mais longe&#8230;</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> João Bernardo, <em>Para una Teoria del Modo de Producción Comunista</em>, Bilbao e Madrid: Zero, 1977.<br />
<strong>[2]</strong> Citado em Edmund David Cronon, <em>Black Moses. The Story of Marcus Garvey and the Universal Negro Improvement Association</em>, Madison e Londres: University of Wiscosin Press, 1968, pág. 199 e George Padmore, <em>Panafricanisme ou Communisme? La Prochaîne Lutte pour l’Afrique</em>, Paris: Présence Africaine, 1960, pág. 106.<br />
<strong>[3]</strong> João Bernardo, «<a href="https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/novosrumos/article/view/2122/1750" target="_blank" rel="noopener">Considerações Inoportunas e Politicamente Incorretas Acerca de uma Questão dos Nossos Dias</a>», <em>Novos Rumos</em>, ano 21, nº 45, 2006.<br />
<strong>[4]</strong> Houston Stewart Chamberlain, <em>La Genèse du XIXme Siècle</em>, 2 vols., Paris: Payot, 1913, pág. 621, subs. orig.<br />
<strong>[5]</strong> Id., ibid., pág. 1154.<br />
<strong>[6]</strong> Citado em Édouard Conte e Cornelia Essner, <em>La Quête de la Race. Une Anthropologie du Nazisme</em>, [Paris]: Hachette, 1995, pág. 106.<br />
<strong>[7]</strong> Citado em Joseph Billig, <em>L’Hitlérisme et le Système Concentrationnaire</em>, Paris: Presses Universitaires de France, 2000, pág. 300.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-145761" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Magritte-70x70.jpg" alt="" width="150" height="100" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Magritte-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Magritte-768x510.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Magritte-633x420.jpg 633w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Magritte-537x360.jpg 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Magritte-640x425.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Magritte-681x452.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/09/Magritte.jpg 940w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></p>
<p style="text-align: left;">Este texto está ilustrado com obras de René Magritte (1898-1967).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A segunda parte deste ensaio pode ser lida</em> <a href="https://passapalavra.info/2022/10/145744/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a><em>, e podem ler</em> <a href="https://passapalavra.info/2022/10/145746/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> <em>a terceira parte</em>.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Contra o Anarco-Liberalismo e a maldição da política identitária</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 20 Aug 2022 11:47:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[ A política identitária tem infectado os espaços anarquistas e faz parte da sociedade que queremos destruir, porque é estreita, exclusiva e divisiva, um instrumento da classe média que explora o medo, as inseguranças e a culpa – e está alimentando a extrema-direita. Por Anarquistas Despertos (UK) ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Anarquistas Despertos (UK)</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O anarquismo no Reino Unido é uma piada.</strong> Tendo uma vez simbolizado as lutas pela liberdade, a palavra foi despida de sentido para dar lugar a políticas de identidade de espírito estreito, separatista e odioso por parte dos ativistas da classe média interessados em proteger os seus próprios privilégios. Escrevemos este folheto para recuperar o anarquismo destes políticos identitários.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Escrevemos como pessoas que se identificam como anarquistas que vemos as nossas raízes nas lutas políticas do passado. Somos antifascistas, antirracistas, feministas. Queremos pôr um fim a todas as opressões, e tomamos parte ativa nessas lutas. Mas o nosso ponto de partida não é a linguagem densa dos acadêmicos liberais esquerdizantes, mas o anarquismo e os seus princípios: liberdade, cooperação, ajuda mútua, solidariedade e igualdade para todos, independentemente de tudo. Hierarquias de poder, em qualquer forma que se manifestem, são nossas inimigas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">A política identitária faz parte da sociedade que queremos destruir.</h3>
<p style="text-align: justify;">A política identitária não é libertadora, mas reformista. Não é mais do que um terreno fértil para os aspirantes a políticos identitários de classe média. A sua visão a longo prazo é a plena incorporação de grupos tradicionalmente oprimidos no sistema social hierárquico e competitivo que é o capitalismo, e não a destruição desse sistema. O resultado final é o Capitalismo Arco-íris &#8211; uma forma mais eficiente e sofisticada de controle social onde todos têm a oportunidade de desempenhar um papel! Confinados ao “espaço seguro” de pessoas como eles, os políticos identitários tornam-se cada vez mais desligados do mundo real.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-145475 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp1.png" alt="Contra o Anarco-Liberalismo e a maldição da política identitária" width="601" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp1.png 601w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp1-300x200.png 300w" sizes="auto, (max-width: 601px) 100vw, 601px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Um bom exemplo é a “teoria <em>queer</em>”, e como ela se vendeu a mestres corporativos. O conceito de <em>queer</em> era, não há muito tempo, algo subversivo, sugerindo uma sexualidade indefinível, um desejo de escapar às tentativas da sociedade de definir e estudar e diagnosticar tudo, desde a nossa saúde mental até a nossa sexualidade. No entanto, com poucas críticas de classe, o conceito foi prontamente apropriado por políticos e acadêmicos identitários para criar mais um rótulo exclusivo para um grupúsculo frio que é, ironicamente, tudo menos libertador. Cada vez mais, o <em>queer</em> é um bonito distintivo adotado por alguns para fingir que também eles são oprimidos, e evitar serem chamados à sua política burguesa de merda.</p>
<p style="text-align: justify;">Não queremos ouvir falar sobre o próximo evento “autogerido”, noite <em>queer</em> ou festa em <em>squat</em> que exclui todos, excepto aqueles que têm a linguagem, o código de vestuário, ou os círculos sociais certos… Volte quando tiver algo genuinamente significativo, subversivo e perigoso para o <em>status quo</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A política identitária é estreita, exclusiva e divisiva.</strong> Numa altura em que precisamos, mais do que nunca, de nos alçarmos para fora dos nossos pequenos círculos, a política identitária é toda voltada a olhar para dentro. Isso provavelmente não é uma coincidência. Embora afirmando ser sobre a inclusividade, é altamente excludente, dividindo o mundo em dois grandes agrupamentos: o Inquestionavelmente Oprimido e o Inatamente Privilegiado. Existem poucas áreas cinzentas permitidas na prática, e o conflito é continuamente alimentado entre estes dois grupos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-145476 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp2.jpg" alt="Contra o Anarco-Liberalismo e a maldição da política identitária" width="599" height="535" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp2.jpg 599w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp2-300x268.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp2-470x420.jpg 470w" sizes="auto, (max-width: 599px) 100vw, 599px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Entendemos, sim, que não se pode reduzir tudo apenas à classe, mas se não conseguirmos nos juntar para reconhecer quem realmente detém as rédeas do poder, então não temos nenhuma esperança de chegarmos a qualquer lado. Se a sua visão fosse verdadeiramente de libertação para todos, então sua política não seria a de divisão, pondo constantemente um grupo contra outro de uma forma semelhante ao capitalismo e ao nacionalismo. Coisas que embaralham o simples binário de oprimido <em>versus</em> privilegiado, tais como experiências de vida pessoal ou traumas (que não podem ser bem resumidos pela própria identidade como membro de um grupo oprimido), ou coisas sobre as quais as pessoas podem não se sentir confortáveis para falar, tais como saúde mental ou classe, são muitas vezes deliberadamente ignoradas pelos políticos identitários.</p>
<p style="text-align: justify;">Como, é claro, é o ponto mais evidente: que os problemas que enfrentamos vão muito além da queerfobia ou da transfobia, mas todo o sistema de escravatura planetária, destruição, exploração e aprisionamento. Não queremos ver ninguém no sistema prisional, sejam mulheres trans negras, ou homens brancos cis (que, a propósito, constituem a grande maioria das pessoas encarceradas no Reino Unido). Não é surpreendente que a política baseada nessa exclusividade resulte em confrontos internos constantes, e em ver-se uns aos outros como o inimigo, particularmente dada a sua vulnerabilidade à exploração por parte de gestores políticos de classe média identitária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A política identitária é um instrumento da classe média.</strong> É flagrantemente utilizada e abusada por representantes de grupos articulados e bem-educados para entrincheirar e manter o seu próprio poder através da política, dogma e intimidação. Os confortáveis antecedentes destes ativistas são traídos não só pelo uso da linguagem acadêmica, mas também pelo seu sentimento de confiança e legitimação ao usar o tempo e energia de outros ativistas para mudar o foco para eles próprios, ativistas identitários, e seus sentimentos. De fato, a falta de ética de trabalho, certa fragilidade, e uma preocupação com a segurança e a linguagem em vez de condições materiais e mudanças significativas são outros aspectos que revelam os antecedentes de classe de muitos políticos identitários.</p>
<p style="text-align: justify;">Vemos isto na facilidade com que estes indivíduos “esculacham” outras pessoas ao menor desvio do código de prática que unilateralmente impuseram, assumindo que todos devem pensar como pensam ou ter tempo para se dedicarem a aprendê-lo, ignorando, assim, a realidade da luta de classes diária.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe uma falsa equivalência entre pertencer aos Inquestionavelmente Oprimidos e pertencer à classe trabalhadora. Pelo contrário, muitos dos Inquestionavelmente Oprimidos defendem valores liberais enraizados na ideologia capitalista, em vez de serem verdadeiramente libertadores.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-145477 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp3.jpg" alt="Contra o Anarco-Liberalismo e a maldição da política identitária" width="600" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp3.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp3-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp3-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp3-420x420.jpg 420w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uma política que se baseia em ter a linguagem certa e acesso ao tom e códigos certos é uma política que é inerentemente um instrumento de opressão. Não está, certamente, a ser representativa daqueles por quem afirma falar, daqueles que estão na base da sociedade. Uma análise anarquista reconhece que, embora alguém possa ser de um grupo oprimido, a sua política, ou as exigências feitas em nome dos Inquestionavelmente Oprimidos, podem, no entanto, ser puramente liberais, burguesas e pró-capitalistas.</p>
<p style="text-align: justify;">A política identitária é hierárquica. Ao consolidar o poder e o estatuto dos políticos mesquinhos da classe média, a política identitária é hierárquica. Para além da picuinha, a imposição de certos dogmas permite também que este poder se torne inquestionável. Tais dogmas incluem: hierarquias implícitas de opressão; a criação e utilização de termos carregados destinados a provocar uma resposta emocional (“dar gatilho”, “sentir-se inseguro”, “TERF<strong>[1]</strong>”, “fascista”); àqueles que não são membros de grupos específicos é-lhes negada uma opinião sobre a política mais ampla destes grupos; a ideia de que os membros do grupo não devem, em circunstância alguma, ter de fazer qualquer “trabalho” para explicar a sua política a não membros do grupo; o enquadramento de discursos alternativos como “violência”; e a ideia de que não se pode questionar um representante ou membro destes grupos (por pior que seja a sua política) em virtude do fato de serem Inquestionavelmente Oprimidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Estes dogmas são utilizados para manter normas, seja em subculturas, seja na sociedade em geral. Os anarquistas devem desconfiar de quaisquer tendências que se baseiem em princípios inquestionáveis, particularmente aqueles que tão obviamente criam hierarquias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A política identitária explora o medo, as inseguranças e a culpa.</strong> É importante que o reconheçamos em duas frentes. Uma, é utilizada para restringir direitos políticos em vez de os atribuir efetivamente, como se afirma. Reforça a ideia de que as pessoas são vítimas frágeis em vez de agentes de mudança, e portanto precisam de aceitar líderes. Embora espaços e linguagem mais seguros sejam importantes, a extensão da obsessão com estas coisas não é um sinal de força, mas de autoperpetuação da vitimização.</p>
<p style="text-align: justify;">Por meio da ansiedade social, coloca sobre todos os outros a culpa de serem, de alguma forma, privilegiados, e de serem totalmente responsáveis pelos gigantescos sistemas de opressão que, na realidade, apenas beneficiam uns poucos. Também permite àqueles que, dentro de grupos minoritários, beneficiam-se de estruturas estatais e capitalistas isentadas de qualquer tipo de responsabilização pelas suas ações opressivas ou comportamentos preconceituosos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-145478 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp4.jpg" alt="Contra o Anarco-Liberalismo e a maldição da política identitária" width="567" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp4.jpg 567w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp4-284x300.jpg 284w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp4-397x420.jpg 397w" sizes="auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uma análise anarquista significa que devemos reconhecer que os membros dos grupos oprimidos também podem ocupar posições de elite e repressivas, e devem ser igualmente desafiados, e não apenas ser covardemente condenados.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">A política identitária tem infectado os espaços anarquistas.</h3>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente, o anarquismo está a ser esvaziado numa corrida para o sinal da virtude, para sermos “bons aliados”. A “aliança” é muitas vezes decretada como aceitação cega da política daqueles que são Inquestionavelmente Oprimidos, ou afirmam ser, por mais que a sua política ou comportamento pessoal sejam uma merda. A “aliança” é a submissão voluntária à política dos outros, a posição menos anarquista que pode ser tomada. É pura covardia.</p>
<p style="text-align: justify;">Não temos que dar palanque para os autoproclamados líderes que não concordam com a nossa política. Portanto, é irônico que tenhamos permitido que grupos com pouca ou nenhuma política radical entrem nos nossos espaços, fechem o debate e afirmem que qualquer coisa que discorde do seu ponto de vista deve ser fascista. Deve ser evidente que o fascismo não é algo que deva ser banalizado desta forma.</p>
<p style="text-align: justify;">Também nos surpreende que não sejam vistos paralelos óbvios com a política de direita, sobretudo na forma como as feministas descartadas como &#8216;feminazis&#8217; se refletem no uso atual da palavra &#8216;fascista&#8217; contra as feministas radicais por ativistas de direitos trans, bem como o frequente aparecimento, em espaços anarquistas tanto<em> online</em> quanto reais, de <em>slogans</em> que apelam a que &#8216;terfs&#8217; sejam mortas. É chocante que a violência desta misoginia esteja a ser celebrada, e não condenada.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-145479 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp5.png" alt="Contra o Anarco-Liberalismo e a maldição da política identitária" width="717" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp5.png 717w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp5-300x251.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp5-502x420.png 502w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp5-640x536.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp5-681x570.png 681w" sizes="auto, (max-width: 717px) 100vw, 717px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O anarquismo é contra os deuses.</strong> Haverá alguma frase que resuma melhor o anarquismo do que “nem deuses, nem senhores”? Tal hierarquia e exclusividade são antitéticas ao anarquismo. Costumávamos assassinar políticos, e um número incontável de camaradas deu a vida pela luta contra o poder. Continuamos a rejeitar políticos de todos os quadrantes, sejam eles <em>Tories</em><strong>[</strong><strong>2</strong><strong>]</strong>, <em>Trabalhistas</em><strong>[</strong><strong>3</strong><strong>]</strong> ou aqueles que se veem a si próprios como líderes de movimentos baseados na identidade. É contra os princípios mais básicos do anarquismo aceitar a liderança de outros, porque acreditamos que todos são iguais. Do mesmo modo, não aceitamos a noção de que não podemos questionar ou pôr em dúvida as posições assumidas por outros ativistas, ou por aqueles que se autodenominam anarquistas &#8211; algo que, infelizmente, a política identitária insiste muitas vezes em fazer.</p>
<p style="text-align: justify;">O anarquismo não apoia as religiões patriarcais e os anarquistas têm uma longa história de conflito com elas. É uma vergonha a forma como muito do que passa por anarquismo no Reino Unido atua hoje em dia como apologistas para aqueles que querem evitar qualquer desafio ao seu próprio sexismo e patriarcado, ou mesmo continuar as suas religiões opressivas, simplesmente porque os conservadores reacionários os tratam como bodes expiatórios.</p>
<p style="text-align: justify;">A destruição de projetos anarquistas é levada a cabo e celebrada em nome da política identitária, simplesmente para apaziguar aqueles que não têm nenhum interesse no próprio anarquismo. E se alguns se levantam e o desafiam, são confrontados com abusos ou mesmo ataques físicos &#8211; comportamento que antes era contestado, mas agora é tolerado porque provém daqueles que são considerados oprimidos. Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, o fracasso total da política anarquista por parte daqueles que supostamente a representam é o mais óbvio. Só para dar uma ideia, podemos começar olhando para <a class="urlextern" title="https://freedomnews.org.uk/" href="https://freedomnews.org.uk/" rel="ugc nofollow">Freedom News</a><strong>[</strong><strong>4</strong><strong>]</strong>, cujo apoio acrítico a grupos com pouco em comum com o anarquismo é vergonhoso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O anarquismo não é uma política identitária.</strong> O anarquismo não é apenas outra identidade, como alguns gostam de afirmar. É uma resposta grosseira e preguiçosa comum dos políticos identitários, e uma forma de evitar responder a questões políticas reais. Também não mostra nenhuma compreensão de como a política identitária é utilizada para manipular e subverter espaços anarquistas para agendas pessoais. Claro, “anarquista” também pode ser reivindicado como uma identidade, e os anarquistas são propensos (e muitas vezes criticados, com razão) a comportamentos de grupúsculo. Mas as semelhanças acabam aí.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário dos políticos identitários ou do SWP<strong>[</strong><strong>5</strong><strong>]</strong>, a maioria dos anarquistas não tentam recrutar seguidores, mas sim espalhar ideias que apoiarão as comunidades na luta por elas mesmas de uma forma que não possa ser recuperada. A nossa agenda é radicalmente diferente e única, na medida em que a nossa política central não se destina a promover o nosso próprio poder e <em>status</em> pessoal. O anarquismo encoraja as pessoas a questionar tudo, mesmo o que nós próprios temos a dizer, dentro do espírito de liberdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário das características inerentes e exclusivas da política identitária, com os seus grupos “exotéricos” e “esotéricos”, o anarquismo é, para nós, um conjunto de regras éticas que guiam a forma como entendemos e reagimos ao mundo. Está aberto a qualquer pessoa que olhe ou escute, algo que qualquer pessoa pode sentir, independentemente do seu passado. Muitas vezes os resultados serão diversos, pois as pessoas combinam-no com as suas personalidades individuais, experiências de vida, e outros aspectos das suas identidades.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-145480 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp6.jpg" alt="Contra o Anarco-Liberalismo e a maldição da política identitária" width="300" height="456" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp6.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp6-197x300.jpg 197w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp6-276x420.jpg 276w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Não é preciso conhecer a palavra anarquia para a sentir. É um conjunto simples e consistente de ideias que pode atuar como qualquer coisa, desde a orientação num conflito particular, até à fundação de sociedades futuras. Referir-se aos princípios anarquistas quando há conflito sobre políticas de identidade, faz sentido quando estamos supostamente unidos por estes princípios.</p>
<p style="text-align: justify;">Ser homossexual ou ter pele escura dá origem a experiências semelhantes àqueles que partilham estas características e, obviamente, significa que é provável que tenham ligações sociais, empatia ou um sentimento de pertença a este grupo. Contudo, a vida vivida é, na realidade, muito mais complexa, e pode-se ter tanto ou mais em comum com uma mulher branca <em>queer</em> aleatória do que se teria com um camarada homem cis de pele escura.</p>
<p style="text-align: justify;">A política identitária por vezes espelha o chauvinismo do nacionalismo, com diferentes grupos a procurarem esculpir os seus próprios domínios de poder de acordo com categorias derivadas da ordem capitalista. Nós, por outro lado, somos internacionalistas que acreditamos na justiça para todos. O anarquismo procura levantar todas as vozes, e não apenas as dos grupos minoritários. A noção de que a opressão afeta apenas as minorias, não as massas, é o produto de uma política burguesa que nunca teve nenhum interesse na mudança revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A política identitária está a alimentar a extrema-direita.</strong> Numa nota final, vale a pena sublinhar o quanto a política identitária joga a favor da extrema-direita. Na melhor das hipóteses, a política “radical” parece cada vez mais um olhar irrelevante para o umbigo de muitos. Na pior das hipóteses, os políticos identitários da classe média estão a fazer um excelente trabalho de alienar os brancos cis, que por acaso constituem a grande maioria das pessoas no Reino Unido, e estão cada vez mais a gravitar em direção à Direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Ignorar este fato e continuar a empenhar-se em lutas internas sobre política identitária seria o cúmulo da arrogância. No entanto, numa altura em que vemos os movimentos fascistas multiplicarem-se, os anarquistas continuam a ser distraídos por políticas de divisão. Para muitos, a política identitária é simplesmente um jogo, e a tolerância com ele leva à constante ruptura dos círculos ativistas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-145481 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp7.jpg" alt="Contra o Anarco-Liberalismo e a maldição da política identitária" width="591" height="595" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp7.jpg 591w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp7-298x300.jpg 298w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp7-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp7-417x420.jpg 417w" sizes="auto, (max-width: 591px) 100vw, 591px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota final.</strong> Para nós, o anarquismo é cooperação, ajuda mútua, solidariedade e luta contra os verdadeiros centros de poder. Os espaços anarquistas não devem ser para aqueles que apenas querem lutar contra aqueles que os rodeiam. Temos uma história orgulhosa de internacionalismo e diversidade, por isso vamos recuperar a nossa política para um futuro genuinamente inclusivo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Pós-escrito de atualização</h3>
<p style="text-align: justify;">Queremos dizer um grande obrigado aos camaradas de outros países que se esforçaram por traduzir e promover o nosso texto, “Contra o Anarco-Liberalismo e a Maldição da política identitária”. Não nos apercebemos que as ideias ressoariam com tanta gente no estrangeiro. O texto era definitivamente dirigido a um público britânico, tendo em conta o quanto a política identitária danificou aqui espaços e projetos anarquistas. Esperamos que o texto possa ajudar de alguma forma a impedir que os mesmos problemas se reproduzam de forma tão destrutiva noutras partes da Europa, onde talvez os movimentos anarquistas tenham uma história mais forte e se mantenham mais concentrados na luta contra os nossos verdadeiros inimigos.</p>
<p style="text-align: justify;">Por enquanto, não escrevemos mais textos sobre o tema, uma vez que estamos bastante exaustos em falar sobre a questão da política identitária (que tem assolado os nossos grupos durante anos).</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas pessoas atacaram-nos com os mesmos velhos insultos de que falamos no texto, mas mantemos que nenhum conjunto de ideias está acima da crítica, e estas pessoas estão a fazer precisamente aquilo que criticamos no texto.</p>
<p style="text-align: justify;">A propósito, para aqueles que nos “esculacham” por “apropriação cultural”, vocês não entenderam a ironia: <em>Anarquistas Despertos</em> não é para ser um nome sério<strong>[</strong><strong>6</strong><strong>]</strong>.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-145482 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp8.png" alt="Contra o Anarco-Liberalismo e a maldição da política identitária" width="477" height="563" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp8.png 477w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp8-254x300.png 254w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/08/pp8-356x420.png 356w" sizes="auto, (max-width: 477px) 100vw, 477px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas de tradução</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] TERF</strong> é sigla de origem anglófona para <em>trans-exclusionary radical feminist</em>, ou “feminista radical trans-excludente”, termo pejorativo voltado contra uma minoria de feministas que defendiam posições consideradas transfóbicas por outras feministas, como a de que mulheres trans não são mulheres, de que mulheres trans não deveriam estar em espaços exclusivamente femininos, e de que legislação favorável a pessoas transgênero não deveriam ser aprovadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> <em>Tory </em>é um antigo partido de tendência conservadora do Reino Unido, que reunia a aristocracia britânica. Foi sucedido, em 1834, pelo atual Partido Conservador e Unionista (<em>Conservative and Unionist Party</em>), ao qual é filiado o atual primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Os membros do atual Partido Conservador continuam sendo chamados de <em>tories</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> O <em>Partido Trabalhista</em> (<em>Labour Party</em>) é um partido britânico fundado em 1900 a partir de uma aliança de social-democratas, socialistas democráticos e sindicalistas, situado desde os anos 1990 na centro-esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> <a class="urlextern" title="https://freedomnews.org.uk/" href="https://freedomnews.org.uk/" rel="ugc nofollow">Freedom News and Journal</a> é jornal integrante do grupo <em>Freedom</em>, que conta ainda com a <a class="urlextern" title="https://freedompress.org.uk/wholesale-publishing/" href="https://freedompress.org.uk/wholesale-publishing/" rel="ugc nofollow">Freedom Publishing</a>, editora, e a <a class="urlextern" title="https://freedompress.org.uk/" href="https://freedompress.org.uk/" rel="ugc nofollow">Freedom Bookshop</a>, livraria. Fundado em 1886 por <a class="urlextern" title="https://en.wikipedia.org/wiki/Charlotte_Wilson" href="https://en.wikipedia.org/wiki/Charlotte_Wilson" rel="ugc nofollow">Charlotte Wilson</a> e ninguém menos que Piotr Kropotkin, o grupo <em>Freedom</em> é um dos mais antigos grupos anarquistas em atividade na Grã-Bretanha e no mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> O <em>Socialist Workers Party</em> (“Partido Socialista dos Trabalhadores”) é um partido britânico de extrema-esquerda fundado em 1977. É sucessor dos <em>International Socialists</em> (“Socialistas Internacionais”) fundados em 1962, eles, por sua vez, sucedendo o <em>Socialist Review Group</em> (“Grupo da revista <em>Socialist</em>”) fundado em 1950. Surgido do trotskismo, este grupo se diferencia dele por ter sido expulso do <em>Revolutionary Communist Party</em> (“Partido Revolucionário Comunista”) fundado em 1944 como seção britânica da IV Internacional, principalmente por afirmar &#8211; seguindo seu principal teórico, Tony Cliff, e ao contrário do que afirma toda a tradição trotskista &#8211; que a União Soviética era um regime de capitalismo burocrático.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[</strong><strong>6]</strong> Em língua inglesa, o grupo se intitula <em>Woke Anarchists</em>. <em>Woke</em> (“desperto”, “acordado”; por extensão, “consciente”, “alerta”, “bem informado”), e seu derivado, <em>wokeism</em> (algo como “acordadismo”, “conscientismo”), são termos criados nas comunidades negras estadunidenses (daí a acusação de “apropriação cultural”) para se referir a alguém preocupado em excesso com questões sociais, especialmente quando expressa opiniões ou posições reputadas como sendo de esquerda. Uma tradução menos literal para o português brasileiro seria “militonto”, ou o “militante” da expressão “<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/03/130088/" href="https://passapalavra.info/2020/03/130088/" rel="ugc nofollow">descansa, militante</a>”. Quando usadas pela extrema-direita, <em>woke</em> e <em>wokeism</em> tornam-se palavras extremamente pejorativas, sinônimas, em inglês, de <em>politically correct</em> (“politicamente correto”) e <em>social justice warrior</em> (“guerreiro(a) da justiça social”).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de </em><em>Ayshia Taşkın (1986 -).<br />
</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Invasão da Ucrânia: um chamado da mídia anarquista de Kharkiv</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Mar 2022 03:16:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
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					<description><![CDATA[É possível conduzir agitação anarquista nas unidades armadas neste momento, ou eles serão apenas bucha de canhão lá? Por Assembly]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Assembly</h3>
<blockquote><p>Marco Túlio traduziu para o Passa Palavra a seguinte entrevista de 28 de fevereiro do coletivo de mídia Assembly [Assembleia], <a href="https://a2day.org/ot-tovarishhej-iz-harkova/" target="_blank" rel="noopener">de Kharkiv</a>, a partir da sua publicação em inglês pelo <a href="https://libcom.org/article/invasion-ukraine-anarchist-media-call-kharkov" target="_blank" rel="noopener">LIBCOM</a>. Para apoio financeiro, por favor, clique <a href="https://www.globalgiving.org/projects/mutual-aid-alert-for-east-ukraine/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Escrevemos sobre conflitos sociais em Kharkiv, problemas urbanos e ambientais, esforços auto-organizados para superá-los a partir de baixo, história anarquista local. O objetivo é influenciar a opinião pública promovendo pautas com o espírito do anarquismo revolucionário.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre a segunda questão [o que os anarquistas ucranianos estão fazendo agora], vamos começar por nós mesmos. Estamos todos em Kha, com exceção de um membro que tem um filho pequeno e partiu em segurança para a Polônia com seus parentes. Agora estamos esclarecendo a situação para jornalistas e ativistas estrangeiros, que nos bombardeiam desde as primeiras horas da guerra com diferentes questões e, às vezes, apenas com cartas de solidariedade. Em segundo lugar, participamos da distribuição de itens essenciais aos vizinhos mais necessitados. E um dos nossos também coordena a ajuda mútua na solução de vários problemas através de grupos locais no Telegram.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos algumas armas de caça e cortantes, o material para molotovs também não está fora do alcance, mas, em geral, mesmo a canhonada não é exatamente audível de nossas casas. Em comparação com a outra metade da cidade, temos bastante sorte. Nos distritos norte e leste de Kha, realmente há bombardeios em áreas residenciais — somente hoje, 28 de fevereiro, <a href="https://youtu.be/Az0vxILaUbM" target="_blank" rel="noopener">pelo menos 11 civis foram mortos e 37 ficaram feridos</a>, incluindo uma família de dois adultos e três crianças queimados vivos dentro de um carro…</p>
<p style="text-align: justify;">Não vemos sentido em cobrir a situação militar. Todos os meios de comunicação de massa e páginas públicas escrevem as mesmas coisas, e não queremos tentar aumentar nossas visualizações espalhando rumores infundados. Nossos materiais lidam com <a href="https://assembly.org.ua/harkovchane-zapasalis-oruzhiem-dlya-zashhity-ot-maroderov-no-oni-grabyat-kioski-i-zapravki/" target="_blank" rel="noopener">questões sociais e humanitárias que são normalmente cobertas por outros jornalistas como se fossem sobras</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">O que pensamos sobre tudo isso? Algumas palavras sobre a <a href="https://aitrus.info/node/5922" target="_blank" rel="noopener">declaração</a> pública de nossos camaradas da seção regional russa da Associação Internacional dos Trabalhadores [International Workers Association]. Em geral, embora compartilhemos a condenação de ambos os grupos dominantes, ainda devemos apontar que os camaradas não entenderam totalmente as causas globais desse inferno. Se a guerra é causada pela concorrência pelos mercados de gás, por que o Ocidente ainda não impôs um embargo ao fornecimento de hidrocarbonetos russos? E quem desviaria a atenção da “ditadura sanitária” com medidas que são 100 vezes menos populares entre a população e atrapalham os lucros 100 vezes mais do que quaisquer restrições relacionadas à covid? Bem, ok, agora não é a hora de cavar tão fundo… Segundo seu representante, eles agora estão “lutando com força e vigor contra os bastardos patrióticos loucos”, mas a declaração não contém recomendações específicas, exceto os apelos mais abstratos para qualquer momento — e aqui seguimos para o próximo ponto. Uma <a href="https://t.me/blackflag_ukraine/1656" target="_blank" rel="noopener">posição</a> bastante controversa foi assumida por nossos outros aliados próximos do grupo Black Flag [Bandeira Negra], que estão principalmente em Lviv e Kiev. Claro, <img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-142797" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/Polina-Kuznetsova-Kharkiv-01.jpg" alt="" width="380" height="456" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/Polina-Kuznetsova-Kharkiv-01.jpg 500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/Polina-Kuznetsova-Kharkiv-01-250x300.jpg 250w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/03/Polina-Kuznetsova-Kharkiv-01-350x420.jpg 350w" sizes="auto, (max-width: 380px) 100vw, 380px" />se em Obolon, um distrito de Kiev, até mesmo rifles Kalash foram entregues a praticamente todo mundo para defesa territorial, sem pelo menos pedir algum documento, é um pecado não aproveitar a situação (em Kharkiv isso só é possível com documentos e experiência relevante). A questão é: é possível conduzir agitação anarquista nas unidades armadas neste momento, ou eles serão apenas bucha de canhão lá? No entanto, o principal é que a <a href="https://telegra.ph/PRO-PROTIR%D0%86CHCHYA-02-22" target="_blank" rel="noopener">declaração política</a> dos caras, como um todo, também coloca a responsabilidade por esse massacre em ambos os lados da burguesia, e isso certamente aquece nossos corações.</p>
<p style="text-align: justify;">Seja como for, a linha internacionalista geral agora é vista da seguinte forma: deixem os bandidos da Guarda Branca de Putler [Putin + Hitler] sufocarem em seu sangue aqui, mas não devemos ajudar “nosso” Estado a sair desse moedor de carne mais forte. O que fazer especificamente — deixe cada camarada agir segundo as circunstâncias locais. Fazemos o melhor que podemos e queremos falar apenas pelo nosso grupo. Nosso apelo aos camaradas russos e bielorrussos foi <a href="https://assembly.org.ua/nashej-rossijskoy-kollege-i-chitatelnicze-grozit-arest-za-antivoennuyu-aktsiyu-obnovlyaetsya/" target="_blank" rel="noopener">publicado aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">E sem analogias históricas. O Black Flag, no final de sua declaração, apela para a experiência de Makhno, que lutou tanto contra as tropas imperiais de Denikin quanto contra os nacionalistas ucranianos, mas a realidade objetiva é que as nossas forças não são comparáveis nem mesmo com o movimento anarquista no Império russo durante a mais dura reação após a derrota da revolução de 1905-1907. Com base na influência e nos recursos que temos, o mais relevante agora parece ser seguir o exemplo de <a href="https://coollib.net/b/315506/read" target="_blank" rel="noopener">Tchernichevski e seus apoiadores</a>, que antes de tudo se alegraram com o fracasso épico do gendarme coroado Nicolau I na Guerra da Crimeia, sem apoiar os impérios britânico, francês e otomano, mesmo como um “mal menor”.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Uma pequena nota sobre crowdfunding. A <a href="https://www.globalgiving.org/projects/mutual-aid-alert-for-east-ukraine/" target="_blank" rel="noopener">campanha</a> mencionada para doar para o Assembly foi iniciada há várias semanas, antes da guerra. Claro, agora não podemos trabalhar neste projeto, mas após o fim das hostilidades ele será demandado muitas vezes mais do que antes. Por outro lado, temos alguns suprimentos humanitários próprios e não planejamos comprar nada para esse fim agora.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Você também é bem-vindo para ver o nosso maior e mais brilhante <a href="https://assembly.org.ua/mnogo-volonterstva-malo-maroderstva-chem-zhivet-harkov-krome-boev-i-obstrelov/" target="_blank" rel="noopener">relatório de hoje</a>. Você ficará interessado mesmo sem tradução!</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vida longa à Anarquia! Paz nos casebres! Guerra aos palácios!</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>Ilustram o texto duas obras (a primeira, um detalhe) da pintora ucraniana Polina Kuznetsova.</em></p>
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