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	<title>Burocratização &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A crítica de Lukács sob suspeita: a involução teórica da consciência da História</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Feb 2026 13:59:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O pensador que desvendou a reificação acabou, em sua correção, reificando a forma política. Por André D. Kingslayer]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por André D. Kingslayer</h3>
<p style="text-align: justify;">A obra <em>História e Consciência de Classe</em>, publicada por György Lukács em 1923, permanece como um marco incontornável no pensamento marxista. Nela, o filósofo húngaro não apenas resgatou a dialética, mas atribuiu ao proletariado um papel revolucionário, tanto do ponto de vista prático, mas também epistemológico: o de ser o sujeito-objeto da história, capaz de superar o problema da reificação e alcançar a totalidade. Anos depois, impulsionado pela pressão política e pela rigidez do ambiente stalinista, Lukács empreendeu uma severa autocrítica dessa obra, notavelmente no prefácio de 1967, qualificando-a como excessivamente “utópica” e influenciada por um “romantismo revolucionário”.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, é possível argumentar que essa autocrítica, frequentemente celebrada como um ato de maturidade política ou adequação teórica, representa, paradoxalmente, uma <strong>profunda regressão</strong>. Ao tentar corrigir o “utopismo”, Lukács substituiu a concretude da potencialidade proletária por uma abstração burocrática, aderindo a uma forma de pensamento que ele mesmo havia, brilhantemente, criticado.</p>
<p style="text-align: justify;">O Lukács de 1923 estava firmemente ancorado na concretude da organização e da experiência revolucionária da classe operária. A práxis transformadora não era uma mera ideia; era uma possibilidade real inscrita na sociedade capitalista. A capacidade do proletariado de ver e transformar radicalmente a sociedade advinha de sua posição única, onde a contradição entre sujeito (o trabalhador) e objeto (o produto reificado) se tornava aguda e superável através da revolução. O “utopismo” aqui residia, talvez, na expectativa imediata da realização dessa consciência &#8211; que pode ser explicado pelo contexto social de uma época em que todos estavam respirando um ar revolucionário -, mas não em identificar o proletariado como o primeiro sujeito revolucionário que surgiu na história.</p>
<p style="text-align: justify;">A autocrítica posterior, no entanto, trocou essa base material-dialética por uma lealdade institucional. Onde antes estava o proletariado organizado em sua luta de classes como o motor e a forma de superar a reificação, Lukács passou a colocar o <strong>Partido Comunista</strong>, entendido como a forma “adequada” e “mediata” de realizar a transição do capitalismo ao comunismo, especialmente sob a égide do leninismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta mudança é uma regressão conceitual e política. O que era criticado em <em>História e Consciência de Classe</em> &#8211; a separação entre teoria e prática, sujeito e objeto &#8211; ressurge de forma aguda na adesão à burocracia partidária. O Partido, uma vez tornado um aparato burocrático com seus próprios interesses, não é expressão da consciência proletária. O interesse da <strong>burocracia partidária</strong> não é, intrinsecamente, a transformação radical da realidade, mas a manutenção e expansão de seu próprio poder administrativo, exatamente pelo fato de não ocupar a posição que ocupa o proletariado na divisão social do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao transferir os atributos revolucionários do proletariado (que garantiam a superação do “falso problema” da dicotomia sujeito-objeto) para o Partido, Lukács recai na mesma concepção abstrata que condenava. Ele substitui a dinâmica da luta de classes por uma teleologia partidária. A concretude da experiência operária é trocada pelo imediatismo formal da disciplina e estratégia partidária, um interesse que, na prática histórica, revelou-se a expressão da necessidade de estabilização do novo Estado, e não de sua dissolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Em resumo, o que Lukács chamou de “utopismo” ou “messianismo” em <em>História e Consciência de Classe</em> era, na verdade, uma radicalidade que vislumbrava o potencial de superação total da alienação &#8211; da exploração do ser humano pelo próprio ser humano. Sua autocrítica, ao se render à ideia do Partido como vanguarda, abandonou a concretude da totalidade para abraçar uma abstração imediatista. Ao fazê-lo, Lukács, ironicamente, prestou serviço à ideologia, trocando a esperança revolucionária ancorada na práxis de uma classe pela justificação de um aparato de poder. O pensador que desvendou a reificação acabou, em sua correção, reificando a forma política. Ele trocou, ironicamente, o “utopismo abstrato” pelo “messianismo partidário”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é uma lição histórica que ressalta o valor da coragem e da integridade intelectual. Para nós, revolucionários, a postura de um Karl Korsch — que jamais transigiu com a crítica, colocando a verdade acima de seus interesses pessoais — tem um valor imensurável, muito superior à de um Lukács, que, interessado em se adequar às ideias dominantes, conviveu com o pesadelo de uma realidade demonstrando seu equívoco. A honestidade com a verdade demonstrada na prática vale muito mais do que a simples adaptação de linhas teóricas aos interesses editoriais e de reconhecimento. A crítica incisiva e afiada supera em importância o conformismo burguês.</p>
<blockquote><p>A obra que ilustra o artigo é da autoria de Franz Marc (1880-1916).</p></blockquote>
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		<title>A ilusão da radicalidade: Jones Manoel e o teatro da revolução (7)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Nov 2025 11:44:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Arthur Moura Vejo se repetir, no fenômeno de Jones Manoel, a mesma lógica que denunciei há anos no rap. Não se trata apenas do acúmulo de capital simbólico, de seguidores, de convites para entrevistas ou de prestígio acadêmico. Jones acumula capital financeiro concreto, acumulado a partir da monetização das plataformas, dos cursos pagos, dos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Vejo se repetir, no fenômeno de Jones Manoel, a mesma lógica que denunciei há anos no rap. Não se trata apenas do acúmulo de capital simbólico, de seguidores, de convites para entrevistas ou de prestígio acadêmico. Jones acumula capital financeiro concreto, acumulado a partir da monetização das plataformas, dos cursos pagos, dos superchats, dos patrocínios indiretos. E esse montante não volta para os movimentos de base, não se converte em fundos de greve, em caixas de ocupação, em infraestrutura de luta. Ele permanece retido no circuito individual, alimentando a própria marca, reforçando o personalismo e a aura de coerência que se constrói em torno de sua figura. Quando escrevi sobre a mercantilização do rap, apontei exatamente isso: MCs que se apresentavam como porta-vozes da favela, que discursavam contra a exploração e contra o sistema, se converteram em empresários da própria imagem, transformando a periferia em mercadoria. Esse movimento, quando se tornou evidente, foi escandaloso, porque revelava a distância entre a fala e a prática. O que vejo agora é que Jones Manoel caminha pelo mesmo trilho.</p>
<p style="text-align: justify;">A chave interpretativa proposta por Ivo Tonet é que o insucesso das experiências revolucionárias do século XX não pode ser explicado apenas pela degeneração política das direções ou pelas escolhas táticas de partidos e vanguardas, mas pela insuficiência objetiva no desenvolvimento das forças produtivas. Marx insistia que a emancipação humana integral exige o salto qualitativo que permita à sociedade superar a escassez, criar condições de abundância e, assim, generalizar o trabalho associado. Sem essa base material, a revolução tende a se encerrar em soluções de emergência, estatistas e autoritárias, que nada mais fazem do que administrar a penúria em nome do socialismo. Essa leitura recoloca o debate no terreno das determinações materiais: só uma reorganização da produção, orientada pela classe trabalhadora, pode transformar a revolução em emancipação efetiva. Ao contrastarmos essa perspectiva com o projeto de Jones Manoel, fica evidente sua limitação. Ao apostar na candidatura presidencial de 2026 e em alianças partidárias frágeis, o que Jones propõe não é um caminho para desenvolver as forças produtivas sob direção proletária, mas uma via de gestão da escassez dentro do Estado burguês dependente. Seu horizonte estatista ignora que o Estado, como forma de dominação de classe, não cria abundância; apenas redistribui carências em benefício da ordem. Ao mesmo tempo, sua pedagogia digital — transformando o marxismo em mercadoria consumível — desloca a questão fundamental da emancipação da esfera da produção para a da comunicação, substituindo a luta pelo desenvolvimento material coletivo por performance individual no espetáculo midiático. A consequência é clara: em vez de organizar o proletariado para construir novas bases produtivas e sociais, Jones o disciplina a acreditar que o salto histórico virá das urnas ou da “boa gestão” estatal. O resultado é um simulacro de radicalidade que, ao invés de enfrentar o atraso das forças produtivas — condição que explica os limites de todas as revoluções passadas —, o reproduz, mascarado de discurso revolucionário.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158102 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/wire-3418674-1529929341-765_636x382-1736999314.jpg" alt="" width="636" height="382" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/wire-3418674-1529929341-765_636x382-1736999314.jpg 636w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/wire-3418674-1529929341-765_636x382-1736999314-300x180.jpg 300w" sizes="(max-width: 636px) 100vw, 636px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A crítica de Ivo Tonet recoloca o problema no seu lugar estratégico: sem a centralidade ontológica do trabalho, a centralidade política da classe operária e a centralidade do trabalho associado como horizonte efetivo, toda a disputa “de forma” — inclusive a do influenciador politizado — desliza para a superfície. É precisamente aqui que o projeto de Jones Manoel mostra seu limite: ele reorganiza atenção, reputação e votos sem tocar a base ontológica da sociabilidade capitalista. Quando a bússola é o algoritmo e a tática eleitoral, a classe trabalhadora aparece como público, não como sujeito histórico; e o Estado, como palco a ocupar, não como forma a ser extinta. O resultado é uma pedagogia política conciliada ao presente, que recodifica a emancipação como “participação” e a revolução como “gestão aprimorada” do mesmo aparato que Marx, Engels e Lênin caracterizaram como instrumento de dominação de classe e, portanto, condenado à destruição/extinção no processo de transição. Tonet tem razão: sem trabalho associado generalizado, não há superação do Estado; sem a classe operária organizada como força dirigente, não há universalidade possível.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano do conteúdo, as posições recentes de Jones esclarecem o vetor de sua orientação. Ele acena para candidatura nacional em 2026, orbitando um partido recém-saído de um racha do PCB (o PCBR), ainda sem registro eleitoral — combinação típica de uma estratégia que desloca a “Revolução Brasileira” para a gramática da competição institucional e do marketing político. Em paralelo, cultiva presença em palcos de alta audiência, inclusive ambientes conservadores como o podcast “3 Irmãos”, convertendo antagonismo social em entretenimento palatável — operação na qual o conflito de classe vira performance e o “adversário” vira formato. O pano de fundo organizativo é conhecido: expulso do PCB em 2023, reorienta sua inserção pública como “dirigente” de uma nova legenda, reforçando a centralidade da circulação de imagem sobre a centralidade da produção social.</p>
<p style="text-align: justify;">Há aqui uma contradição substantiva com a tradição que Tonet convoca. Quando Jones desqualifica a defesa armada dos trabalhadores como “conversa de pequeno-burguês delirante” — na prática, ridicularizando a questão da autodefesa proletária em um país onde o monopólio burguês da violência (polícias, milícias privadas, aparato carcerário) é o núcleo duro da reprodução de classe — ele abandona a lógica materialista da luta de classes e se aproxima da moralização liberal do conflito. O próprio Jones, noutra chave, já reconheceu que política é relação de forças — “se um grupo armado ataca a comunidade, é preciso usar força de volta” — mas a inflexão atual trata a potência organizada do povo como “delírio pequeno-burguês”, enquanto a burguesia segue armada até os dentes. Em termos colocados por Ivo Tonet: sem forças produtivas e organização capazes de sustentar o trabalho associado, a extinção do Estado é impossível; mas sem organização independente da classe — inclusive com meios de autodefesa que inviabilizem o terror cotidiano do capital — a classe sequer chega a ser sujeito político. Reduzir a questão à ironia sobre “Glock de 12 mil” é naturalizar que só o Estado (burguês) e seus auxiliares tenham armas, enquanto o povo permanece domesticado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158101" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/banksy-1-3167539250.jpg" alt="" width="620" height="420" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/banksy-1-3167539250.jpg 620w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/banksy-1-3167539250-300x203.jpg 300w" sizes="(max-width: 620px) 100vw, 620px" />O conteúdo real do projeto, portanto, é um reformismo de alta octanagem midiática: capitaliza indignações legítimas, promete uma “revolução” compatível com o calendário eleitoral, reencena a pedagogia de massas sob a forma do influenciador e, no momento decisivo, reafirma o tabu estrutural — o Estado como horizonte e a despolitização da força popular como norma. A consequência é a inversão denunciada por Tonet: a classe deixa de ser centro político e volta a ser plateia. Contra isso, a orientação de Ivo Tonet aponta o caminho: reconstruir a política a partir do local do trabalho, organizar associações de produtores com estratégia de poder, romper com a dependência existencial do aparelho estatal e de seus monopólios — inclusive o da violência — e repor a universalidade operária como direção. Sem isso, 2026 pode até render manchetes; emancipação, não.</p>
<p style="text-align: justify;">Contra a farsa da radicalidade digitalizada, é preciso afirmar sem concessões que não há saída nos palcos da indústria cultural nem nas urnas da democracia burguesa. O caminho que se abre diante da classe trabalhadora não passa por influenciadores domesticados nem por partidos burocráticos, mas pela reconstrução da auto-organização de base: conselhos, assembleias populares, redes de solidariedade, autodefesa e trabalho associado como horizonte. Só assim a crítica deixa de ser mercadoria e volta a ser arma; só assim o marxismo recupera sua função originária de orientar a destruição do capital e do Estado. A alternativa permanece tão clara quanto no tempo de Rosa Luxemburgo: socialismo ou barbárie — e nada do que Jones Manoel representa nos aproxima do primeiro termo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 7 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157738/">Parte 1</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157779/">Parte 2</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157823/">Parte 3</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157989/">Parte 4</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/158027/" target="_blank" rel="noopener">Parte 5</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158060/" target="_blank" rel="noopener">Parte 6</a><br />
Parte 7</em></p>
<p><em>As obras que ilustram este artigo são de Banksy</em></p>
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		<title>A ilusão da radicalidade: Jones Manoel e o teatro da revolução (6)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Nov 2025 11:54:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[A diferença aparece no dia seguinte: houve organização real? Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">A crítica ao modelo “influenciador” como forma de neutralizar a radicalidade é indispensável, mas não pode ser feita de modo mecânico. Se afirmarmos que toda presença nas plataformas digitais já está, de antemão, totalmente capturada pelo espetáculo, caímos em um determinismo que apaga a dimensão da contradição. Isso seria um erro semelhante ao do reformismo, que acredita ser possível usar o Estado burguês contra a dominação de classe. O Estado, por sua própria natureza, não pode ser transformado em instrumento de emancipação; ainda assim, suas estruturas não são homogêneas e podem ser atravessadas por tensões quando a luta de classes irrompe. Essas contradições, porém, não mudam sua essência repressiva, apenas revelam sua fragilidade momentânea. O mesmo ocorre com o espaço digital: constituído pela lógica da mercadoria e do algoritmo, ele permanece parte do espetáculo, mas pode apresentar fissuras transitórias, que não devem ser confundidas com uma saída emancipatória. O problema central não é a ferramenta em si, mas a forma como, integrada ao espetáculo, ela molda a crítica em mercadoria e canaliza a rebeldia para dentro da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">O que diferencia Jones Manoel não é apenas o fato de usar o YouTube ou o Twitter, mas o modo como seu projeto se organiza inteiramente dentro dessa lógica, adaptando conteúdo, estética e horizonte político às exigências do engajamento e da monetização. Uma crítica radical à forma-influenciador precisa, portanto, expor esse mecanismo sem cair no moralismo ou no tecnodeterminismo, apontando que o desafio real não é “usar bem” as redes, mas romper a dependência estrutural delas e rearticular a comunicação com formas de organização que escapem à lógica mercantil. É nesse ponto que se coloca a tarefa de construir circuitos alternativos de comunicação proletária, baseados em redes de solidariedade, imprensa independente radical e circulação material que não dependa do algoritmo. A questão é recolocar a comunicação como momento da organização, e não como carreira de indivíduos que se projetam no mercado da atenção.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158063" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/WhatsApp-Image-2020-06-12-at-16.43.59-6-645x1024-1.webp" alt="" width="645" height="1024" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/WhatsApp-Image-2020-06-12-at-16.43.59-6-645x1024-1.webp 645w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/WhatsApp-Image-2020-06-12-at-16.43.59-6-645x1024-1-189x300.webp 189w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/WhatsApp-Image-2020-06-12-at-16.43.59-6-645x1024-1-265x420.webp 265w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/WhatsApp-Image-2020-06-12-at-16.43.59-6-645x1024-1-640x1016.webp 640w" sizes="(max-width: 645px) 100vw, 645px" />Na conjuntura brasileira de 2025, essa função ganha uma centralidade ainda maior. O lulismo, embora tenha recuperado o governo federal, vive uma crise de legitimidade. Seu projeto de conciliação, fundado na promessa de administrar o capitalismo dependente com reformas sociais limitadas, está corroído tanto pela ofensiva permanente da extrema-direita quanto pelo desencanto de amplos setores populares diante da estagnação econômica e da continuidade da precarização. Ao mesmo tempo, a extrema-direita não se dissolve, mas se reorganiza em novas formas, disputando base social com pautas morais, securitárias e nacionalistas. Nesse cenário, o progressismo precisa renovar seus símbolos de legitimação. O PT já não consegue mobilizar o imaginário da juventude como nos anos 2000, e figuras tradicionais da esquerda perdem apelo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao articular essas dimensões — a crítica dialética à forma-influenciador, as consequências práticas da vulgarização e a atualização da conjuntura — fica claro que Jones Manoel é menos uma figura isolada e mais uma engrenagem fundamental na reprodução do progressismo em crise. Ele funciona como mediador entre a tradição reformista do PCB, o aparato cultural do lulismo e a estética digital que organiza a juventude contemporânea. A função histórica de sua figura é neutralizar a possibilidade de que o marxismo volte a ser identificado com a revolução, mantendo-o no terreno da cidadania administrada. Contra essa lógica, a tarefa é resgatar a radicalidade em seu sentido pleno: organizar a autoatividade da classe, construir práticas de autogestão, romper com a chantagem do isolamento e afirmar que a crítica não é mercadoria, mas arma. O dilema segue posto com a mesma clareza de Rosa Luxemburgo: reforma ou revolução, socialismo ou barbárie. Enquanto figuras como Jones atualizam a reforma em chave digital, a barbárie avança. A única resposta real está em recolocar o marxismo em seu terreno original: a destruição da ordem capitalista e a emancipação autônoma do proletariado.</p>
<p style="text-align: justify;">A forma-influenciador precisa de palcos com alcance massivo para converter reputação em poder — e os grandes podcasts operam como correias de transmissão do capital de atenção. Na prática, o influenciador ajusta tom, temas e forma à moldura do palco; em troca, recebe audiência, legitimidade e acesso. Esse arranjo é particularmente visível quando observamos a trajetória recente de Jones Manoel em circuitos como o Flow. Não se trata de “ir onde o povo está”, mas de aceitar uma condição de clientela num mercado controlado por plataformas privadas cujo modelo de negócio é a atenção — e cuja gramática editorial foi construída, testada e escalada por figuras que normalizaram a presença da extrema-direita e da política-espetáculo. O Flow Podcast foi fundado em 2018 por Bruno “Monark” Aiub e Igor “3K” Coelho (com Gianzão na direção), inspirado no Joe Rogan Experience, com a estética da “conversa de bar” e a promessa de “liberdade total” de pauta. Tornou-se rapidamente um dos podcasts mais vistos do país, recebendo de Lula a Bolsonaro e presidenciáveis como Ciro Gomes e Sergio Moro (há episódios dedicados a Lula e Bolsonaro; Ciro e Moro também passaram pelo programa). Em 2022, Monark foi desligado após defender a existência de um partido nazista, gerando uma crise reputacional e financeira; o próprio Estúdios Flow admite que o faturamento mensal — então em torno de R$ 1,5 milhão — “caiu a zero” após o cancelamento. A empresa, reestruturada sob a liderança pública de Igor, voltou a crescer; em 2024, a nova CEO anunciou aumento de 50% do faturamento e, em 2025, a imprensa de negócios reportou projeção de R$ 17 milhões no ano (dados de mercado, não auditados publicamente). Ou seja, longe de “mídia alternativa”, trata-se de um negócio escalado da creator economy, com metas, portfólio e governança empresarial. O palco “neutro” é um ativo, e a “pluralidade” — receber tanto Lula quanto Bolsonaro — é um modelo de captação de públicos divergentes sob uma mesma mercadoria: audiência monetizável.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158061" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/17.Massificacao-Joao_1966-OrigPerdido_-versao2_1988_CZilio_FotoDaniel-Ma.webp" alt="" width="1024" height="639" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/17.Massificacao-Joao_1966-OrigPerdido_-versao2_1988_CZilio_FotoDaniel-Ma.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/17.Massificacao-Joao_1966-OrigPerdido_-versao2_1988_CZilio_FotoDaniel-Ma-300x187.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/17.Massificacao-Joao_1966-OrigPerdido_-versao2_1988_CZilio_FotoDaniel-Ma-768x479.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/17.Massificacao-Joao_1966-OrigPerdido_-versao2_1988_CZilio_FotoDaniel-Ma-673x420.webp 673w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/17.Massificacao-Joao_1966-OrigPerdido_-versao2_1988_CZilio_FotoDaniel-Ma-640x399.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/17.Massificacao-Joao_1966-OrigPerdido_-versao2_1988_CZilio_FotoDaniel-Ma-681x425.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />A distinção prática entre Igor e Monark não altera a função do palco. Monark, após a queda, migrou para o Rumble com viés assumidamente direitista; Igor reposicionou o Flow como “mediador” e manteve a lógica de convidar polos antagônicos sob o verniz da imparcialidade. Em entrevistas, Igor se apresenta como crítico “de ambos os lados” para sustentar a autoridade do anfitrião-árbitro, preservando o modelo de negócio da equidistância — crítica rotativa às figuras do dia e manutenção das portas abertas a quem entrega pico de tráfego (Lula, Bolsonaro etc.). A chave é entender que o palco é a mensagem: ele transforma política em conteúdo e o conflito em entretenimento. O convidado entra como fornecedor de atenção; o programa, como operador de captura. É nessa moldura que se inscreve o clientelismo midiático de Jones Manoel. Em agosto de 2025, Jones esteve no Flow #479 por 3h38, e também no Flow News #004 (com direito a promoção nas próprias redes). Não são aparições pontuais: elas marcam o pertencimento do influenciador ao circuito que organiza a pauta do dia como show e, ao mesmo tempo, o legitima perante um público amplo como “a voz marxista que dialoga com todos”. A troca é clara: o programa recebe um “comunista explicador” que ajuda a compor a imagem de pluralidade; o convidado recebe volume de tráfego, novas inscrições, convites subsequentes e capital simbólico útil para a passagem do conteúdo à política institucional.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, o paralelo com Tragtenberg é direto. Em <em>Ideologia e Burocracia</em>, Maurício Tragtenberg mostra como a burocracia — estatal, partidária, sindical — profissionaliza a mediação entre base e decisão, deslocando a iniciativa dos de baixo para aparelhos especializados. A forma-influenciador opera como burocracia comunicacional: separa quem fala e capitaliza do conjunto que escuta e consome; fabrica porta-vozes permanentes; e converte a participação em passividade engajada (curtir, comentar, compartilhar). Esta é a verdade material do personalismo: não é traço psicológico; é forma social que surge quando a crítica precisa de meios privados para circular. O personalismo gera paternalismo (“o professor popular que explica a realidade”), populismo de plataforma (lives, desafios, “quem ganhou o debate”), e mitificação da coerência (“ele aguenta qualquer palco sem se vender”), precisamente porque a coerência é medida pelo desempenho no palco, não pela construção organizativa fora dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o militante se torna cliente dos palcos, o critério de sucesso muda: não é mais o que organiza, mas o que viraliza. Isso obrigatoriamente empurra a teoria para formatos que rendem retenção (pílulas, slogans, takes “quentes”), e ajusta o conflito de classes a uma dramaturgia que precisa caber no roteiro do host. É por isso que “ir ao Flow” não é neutro: o palco não acolhe um discurso; ele enquadra o discurso e o redireciona para sua própria finalidade — a circulação rentável. Não por acaso, a lista de convidados ilustra a lógica de normalização do antagonismo sob a mercadoria audiência: de Bolsonaro a Lula, de Ciro a Moro, passando por quadros do MBL como Kim Kataguiri; a “pluralidade” é o business model, não um princípio democrático. Uma questão central para compreender o fenômeno Jones Manoel é perceber que sua recorrente participação em debates com fascistas e conservadores não se apresenta como um enfrentamento, mas como uma associação objetiva, ainda que disfarçada sob o manto da polêmica. É fundamental destacar que o fascismo, enquanto forma de reorganização da dominação burguesa, não se combate em arenas midiáticas espetacularizadas, mas na luta de classes concreta, na organização popular e no desvelamento crítico de suas raízes históricas e materiais. Ao aceitar reiteradamente o convite para estar ao lado de agentes do fascismo em podcasts, mesas redondas ou lives, Jones se insere numa lógica que, em vez de desestabilizar, legitima os fascistas como interlocutores válidos. A associação não é formal, mas estrutural: na medida em que compartilha palco, narrativa e linguagem com eles, ele contribui para a reprodução da forma-espetáculo da política, na qual as fronteiras entre esquerda e extrema-direita se dissolvem em performance e marketing digital.</p>
<p style="text-align: justify;">A chave para compreender essa dinâmica está na crítica marxista à ideologia. Ao invés de se posicionar como antagonista radical, Jones se acomoda ao papel de “representante da esquerda radical que dialoga com todos”, convertendo a luta em produto de entretenimento. O que aparece como combate é, na realidade, uma simulação cuidadosamente calculada. O fascista entra fortalecido, pois sua presença diante de uma figura que se reivindica comunista é legitimada como parte do “debate democrático”. Jones, por sua vez, aparece como mediador supostamente racional e ponderado, consolidando sua imagem de intelectual acessível e de “comunista midiático” capaz de circular entre polos opostos. Trata-se de uma simbiose espetacular: ambos se beneficiam em termos de visibilidade, capital simbólico e circulação nas redes, ao mesmo tempo em que a consciência crítica do público é desviada para a ilusão de que a disputa ideológica se dá na forma de diálogos cordiais entre inimigos históricos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158064" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/10.-Lute_1967_Carlos-Zilio_Foto-Renato-Parada.webp" alt="" width="1024" height="682" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/10.-Lute_1967_Carlos-Zilio_Foto-Renato-Parada.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/10.-Lute_1967_Carlos-Zilio_Foto-Renato-Parada-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/10.-Lute_1967_Carlos-Zilio_Foto-Renato-Parada-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/10.-Lute_1967_Carlos-Zilio_Foto-Renato-Parada-631x420.webp 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/10.-Lute_1967_Carlos-Zilio_Foto-Renato-Parada-640x426.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/10.-Lute_1967_Carlos-Zilio_Foto-Renato-Parada-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Essa associação não pode ser naturalizada. Ela precisa ser compreendida como uma estratégia consciente de inserção no mercado da atenção. Não há qualquer ganho revolucionário em disputar espaço com fascistas sob os termos da indústria cultural digital, mas há sim um ganho de audiência e prestígio individual. Dessa forma ocorre a neutralização da crítica: o fascismo aparece como uma “opinião” dentro de um cardápio de ideias, e o comunismo como sua contraparte domesticada, incapaz de ultrapassar o limite da encenação midiática. A crítica radical se transforma em mercadoria de nicho, enquanto o fascismo se torna cada vez mais normalizado. Portanto, afirmar que os encontros entre Jones e fascistas configuram uma associação é ir ao cerne do problema. Não se trata de imputar cumplicidade ideológica no sentido estreito, mas de denunciar a função social que esse modelo cumpre: estabilizar o campo político dentro do espetáculo, oferecer ao fascismo uma plataforma de legitimidade e, ao mesmo tempo, adaptar o comunismo a um formato aceitável para o capital. A associação está no pacto silencioso de que, ao final, ambos saem vencedores no jogo da visibilidade, enquanto a luta real contra o fascismo — que exige organização, teoria crítica e ruptura — permanece bloqueada. É preciso desmascarar esse pacto, sob pena de reproduzir o ciclo histórico de neutralização que sempre perseguiu a esquerda em suas formas reformistas e midiáticas. Nesse sentido, além de cínico, Jones é cumplice.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o ponto decisivo é o significado de alguém que se diz de esquerda capitular ao mais alto grau da burocracia estatal. Quando a crítica “chega lá”, ela não domina a máquina; ela é dominada por seus imperativos: coalizões, governabilidade, disciplina fiscal, controle policial, comunicação de risco. No Brasil real, isso significa reconduzir a juventude inquieta ao cidadanismo: participar, votar, comentar — enquanto a estrutura da propriedade, do trabalho e da violência estatal permanece intocada. A “coerência” que muitos veem numa liderança que “topa qualquer palco” é a coerência de manter aberto o funil que vai do like à urna, sem jamais tocar no núcleo ontológico da dominação: a forma-Estado e a forma-mercadoria. No plano subjetivo-político, esse circuito produz vaidade funcional e cinismo metódico. Vaidade funcional: a figura pública aprende a performar autoridade (eu explico o mundo) porque precisa manter a comunidade de fãs que sustenta o negócio. Cinismo metódico: sabendo que o palco exige ambiguidade, a liderança domina a retórica de “falar com todos” — inclusive com apresentadores que deram palco a Bolsonaro e normalizaram a extrema-direita —, e apresenta isso como “maturidade estratégica” ou “dever pedagógico”. A plateia, por sua vez, encontra alívio moral: pode dizer-se marxista sem romper com a sociabilidade que financia o palco. É a identidade segura de que falávamos: radicalidade como cultura, não como ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, o “clientelismo” de Jones não é exceção ética; é efeito de forma. A forma-influenciador precisa servir a alguns templos para existir na escala que ambiciona; a forma-podcast precisa servir-se de certas vozes para reconstituir credibilidade após cada crise. Não se trata, portanto, de “não ir”; trata-se de não se tornar cliente. Um militante que entra e sai do palco com objetivos organizativos concretos (construir comitês, greves, redes de apoio, caixa de luta, formação vinculada à prática) está em disputa com o palco. Um influenciador que depende do palco para renovar sua autoridade está em clientela. A diferença aparece no dia seguinte: houve organização real? Houve convocatória para ação que não seja audiência? Houve endereçamento material a trabalhadores e territórios — ou apenas mais um funil para novas aparições e, agora, para uma candidatura presidencial?</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 7 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157738/">Parte 1</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157779/">Parte 2</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157823/">Parte 3</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157989/">Parte 4</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/158027/" target="_blank" rel="noopener">Parte 5</a><br />
Parte 6<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158100/" target="_blank" rel="noopener">Parte 7</a></em></p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são obras de Carlos Zilio.</em></p>
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		<title>A ilusão da radicalidade: Jones Manoel e o teatro da revolução (5)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nicolas Lorca]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Oct 2025 11:08:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Arthur Moura Desde os Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844) até O Capital (1867), Marx foi inflexível em demonstrar que a raiz da exploração não está em distorções episódicas da circulação, mas no modo de produção fundado na extração de mais-valia. É contra esse núcleo que ele dirige seu golpe: enquanto utópicos como Saint-Simon, Fourier e Owen [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Desde os <em>Manuscritos Econômico-Filosóficos</em> (1844) até <em>O Capital</em> (1867), Marx foi inflexível em demonstrar que a raiz da exploração não está em distorções episódicas da circulação, mas no modo de produção fundado na extração de mais-valia. É contra esse núcleo que ele dirige seu golpe: enquanto utópicos como Saint-Simon, Fourier e Owen concebiam alternativas baseadas na moralidade, na cooperação voluntária ou em comunidades-modelo, Marx denunciava que tais projetos, embora generosos, permaneciam dentro da lógica da sociedade burguesa. Eles não compreendiam a contradição objetiva entre capital e trabalho, tratando a dominação de classe como problema de vontade e não como estrutura histórica. Por isso, no <em>Manifesto Comunista</em> (1848), Marx e Engels afirmam que os socialistas utópicos “procuram remediar as misérias sociais para assegurar a existência da sociedade burguesa”, enquanto o socialismo científico nasce para dissolver essa própria ordem. Sua crítica a Proudhon, em <em>A Miséria da Filosofia</em> (1847), é emblemática: Proudhon acreditava que bastaria reformar o crédito, instituir um “Banco do Povo” e reorganizar as trocas para que a exploração fosse superada. Marx mostra que tais soluções atacam apenas a esfera da circulação, sem tocar na produção. Reformar a troca não elimina a exploração porque o núcleo da exploração não está no mercado, mas no trabalho assalariado como forma histórica específica de escravização do trabalhador ao capital. Aqui Marx inaugura o que José Chasin chama de ontologia da vida social: compreender que a emancipação não é produto de arranjos jurídicos ou morais, mas da transformação radical da base material de produção.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-158034 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/frank-crowninshield-1928-268x300.jpg" alt="" width="315" height="353" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/frank-crowninshield-1928-268x300.jpg 268w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/frank-crowninshield-1928.jpg 322w" sizes="auto, (max-width: 315px) 100vw, 315px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Esse embate atravessa todo o século XIX. Contra o socialismo vulgar, que reduzia o problema da exploração a injustiças pontuais — salários baixos, abusos individuais, más condições de trabalho —, Marx insistia na contradição estrutural: ainda que o salário subisse, a forma assalariada continuaria reproduzindo a alienação, pois o trabalhador não controla o produto de sua atividade. Contra os socialistas de cátedra (como Lassalle e mais tarde Bernstein), que defendiam reformas graduais dentro do Estado burguês, Marx reforça que o Estado é expressão da dominação de classe e que sua lógica não pode ser “neutra” frente ao conflito social. O reformismo não é apenas insuficiente, mas funcional ao capital porque adapta a luta dos trabalhadores à lógica da ordem, impedindo que a contradição se eleve ao patamar da totalidade. Por isso Marx, em suas críticas a Lassalle, ataca a ideia de que bastaria o Estado financiar cooperativas para “gradualmente” substituir o capital. A “ilusão do crédito” reaparece aqui: a tentativa de eliminar o capital sem suprimir a lógica da mercadoria. No cerne de todas essas críticas, Marx sempre retorna a três pilares:</p>
<ul>
<li class="li" style="text-align: justify;">Totalidade &#8211; o capitalismo não é um conjunto de abusos a corrigir, mas uma forma histórica da sociabilidade, fundada na produção de valor. Quem ataca apenas os efeitos (juros, preços, crédito) deixa intacta a essência.</li>
<li class="li" style="text-align: justify;">Centralidade da produção &#8211; a exploração não nasce na troca desigual, mas na produção, no fato de que o trabalhador cria mais valor do que recebe em salário. Sem abolir o trabalho assalariado, a exploração persiste.</li>
<li class="li" style="text-align: justify;">Emancipação pela prática de classe &#8211; a superação do capital não virá da moralidade, da boa vontade ou da intervenção estatal conciliatória, mas da ação autônoma da classe trabalhadora organizada enquanto sujeito histórico.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">É nesse sentido que Marx, já em 1850, ironiza os reformistas: “O crédito público e as formas de poupança não emancipam o trabalhador, apenas o tornam acionista de sua própria escravidão.” A crítica não é apenas econômica, mas ontológica: qualquer teoria que trate a exploração como defeito técnico ou moral acaba reproduzindo o horizonte da mercadoria.</p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, a tradição do reformismo encontrou terreno fértil. O Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1922, já nasceu sob a ambiguidade: reivindicava a revolução, mas sua prática esteve quase sempre orientada por um etapismo que postergava indefinidamente o horizonte socialista. O PCB assumiu a defesa da democracia burguesa como pré-condição, apostou em alianças com setores progressistas da burguesia e buscou ocupar espaços de mediação institucional. A retórica revolucionária nunca desapareceu de seus documentos e discursos, mas serviu cada vez mais como ornamento para uma prática legalista, parlamentar e integradora. O resultado foi a construção de uma esquerda que aprendeu a falar em revolução enquanto se movia no registro da conciliação. O marxismo, nesse contexto, tornou-se doutrina pedagógica, catecismo de partido, discurso moralizante que servia para formar militantes disciplinados, mas não sujeitos autônomos da luta de classes.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158033 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/romulus-and-remus-1928-300x197.jpg" alt="" width="370" height="243" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/romulus-and-remus-1928-300x197.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/romulus-and-remus-1928.jpg 490w" sizes="auto, (max-width: 370px) 100vw, 370px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A crítica dos conselhistas ajuda a compreender esse processo com clareza. Otto Rühle advertia que a emancipação da classe não poderia vir de um partido que se colocava acima dela. Pannekoek insistia que o partido centralizado substitui a auto-atividade proletária por uma burocracia que decide em nome da base. Paul Mattick demonstrou como a social-democracia e os partidos comunistas se tornaram gestores da ordem, integrando-se à engrenagem do capital. Maurício Tragtenberg, em solo brasileiro, mostrou que o mesmo se dava nos sindicatos: a burocracia se autonomiza, transforma-se em carreira, passa a gerir a insatisfação ao invés de enfrentá-la. A forma partido, absolutizada, se converteu em aparelho de gestão da classe. O reformismo se justifica sempre pelo atraso da consciência de classe. Como os trabalhadores estariam marcados pela ideologia dominante e pela fragmentação social, diz-se que é preciso rebaixar a crítica para dialogar com eles. Em nome de “não se isolar”, abdica-se da radicalidade. Em nome de falar às massas, adapta-se a teoria ao senso comum. Assim, o reformismo não só nasce do atraso, mas o reforça: legitima o rebaixamento como critério e neutraliza qualquer esforço de elevação da consciência. O que se apresenta como realismo político é, na verdade, a forma ideológica da rendição.</p>
<p style="text-align: justify;">A polêmica entre Rosa Luxemburgo e Eduard Bernstein ilumina de modo exemplar a diferença entre a popularização revolucionária e a vulgarização reformista. Bernstein afirmava, no final do século XIX, que o capitalismo se tornara mais estável, menos sujeito a crises, e que o socialismo poderia ser alcançado pelo acúmulo de reformas no interior da democracia burguesa. Para ele, o movimento era tudo, o fim nada. Rosa demonstrou a falsidade dessa lógica, provando que as crises não haviam desaparecido, mas apenas se deslocavam para a periferia do sistema, sustentadas pela expansão colonial e pelo crédito. Mostrou também que as reformas, quando convertidas em horizonte, não preparam a revolução, mas a desarmam. Elas servem como válvula de escape, estabilizam o sistema e impedem o transbordamento da luta. Sua conclusão foi clara: reforma e revolução não se somam, mas se opõem. A primeira, erigida em estratégia, integra a classe ao capital; a segunda exige ruptura com a totalidade do sistema. Rosa deixou explícito que não se tratava de escolher entre dois caminhos igualmente válidos, mas de afirmar que a via reformista dissolve o próprio sentido da luta socialista.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158031 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-300x225.jpg" alt="" width="436" height="327" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/medusa-c-1930.jpg 480w" sizes="auto, (max-width: 436px) 100vw, 436px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Esse ensinamento mantém sua força ao longo do século XX. No Brasil, o PCB seguiu à risca a lógica bernsteiniana sob a roupagem leninista. Defendia a revolução em palavras, mas subordinava toda sua prática a etapas democrático-burguesas. As alianças com setores da burguesia nacional, a confiança na democracia formal e a busca pela legalidade foram os pilares de sua linha política. O partido oferecia às massas um horizonte de cidadania e progresso, mas não de ruptura. A cada momento decisivo, optava pela integração: em 1935, com a Aliança Nacional Libertadora; no pós-guerra, com a defesa da legalidade democrática; na ditadura, com o projeto de frente ampla; na transição, com o apoio ao pacto que manteve intactas as estruturas da ordem. O discurso revolucionário se manteve, mas esvaziado, funcionando apenas como identidade simbólica. O resultado foi uma tradição que moldou gerações inteiras de militantes, habituados a falar em socialismo mas a agir como gestores da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A recente movimentação de Jones Manoel em direção à disputa eleitoral de 2026, com o projeto de construir uma frente denominada “esquerda radical” — formada por UP, PSOL, PSTU, PCO e o próprio PCBR — não pode ser analisada em seus próprios termos, como se representasse uma novidade histórica ou a emergência de um polo revolucionário na política brasileira, como busquei demonstrar nos parágrafos anteriores. Pelo contrário: trata-se de mais uma atualização do velho reformismo, travestido em radicalidade retórica e midiatização militante; é a tentativa de canalizar a indignação popular e a juventude proletária para dentro da velha forma burguesa do Estado, reeditando as armadilhas que já levaram ao fracasso o PT e toda a esquerda social-democrata do século XX. Do ponto de vista marxista libertário, como já advertira Nildo Viana em seu texto <em>Direita e Esquerda: duas faces da mesma moeda</em>, a divisão convencional entre esquerda e direita é apenas uma disputa interna no campo burguês. A esquerda aparece como o polo que promete reformas, mas sempre nos marcos do capital e do Estado, funcionando como mecanismo de absorção das demandas populares. Jones Manoel, ao tentar reconstituir uma “unidade radical” entre partidos notoriamente burocráticos, nada mais faz do que reafirmar essa lógica. Trata-se de uma “radicalidade” de vitrine, cuja função é mobilizar o descontentamento social e redirecioná-lo para o terreno seguro das eleições, das candidaturas, das alianças de cúpula e da manutenção da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A falácia central das teses de Jones está em acreditar que uma candidatura presidencial comunista poderia alterar qualitativamente a correlação de forças no Brasil. O máximo que poderia ocorrer seria uma reedição farsesca das velhas candidaturas de esquerda, com um programa inflado de retórica anticapitalista, mas funcionalmente integrado ao jogo institucional. Não há qualquer perspectiva de ruptura real no interior de um Estado burguês dependente como o brasileiro: a máquina estatal é estruturada para reprimir a auto-organização popular e preservar a acumulação capitalista. Fingir que se pode “usar” o Estado para fins emancipatórios é a mais antiga das ilusões reformistas — e também a mais perigosa, porque naturaliza o poder burguês e disciplina a classe trabalhadora sob a bandeira da legalidade. O PCBR de Jones Manoel não passa, até aqui, de um coletivo sem registro, dependente da filiação a partidos já existentes. Isso significa que toda a sua “radicalidade” será imediatamente submetida às regras eleitorais da burocracia estatal. Sua força real reside menos em bases proletárias organizadas e mais em sua presença midiática, construída no algoritmo das redes e no jogo da atenção digital. Eis a contradição: Jones apresenta-se como porta-voz do marxismo revolucionário, mas atua como gestor de uma marca política, igualando-se aos webcomunistas que transformam a crítica em carreira. A candidatura, nesse sentido, é apenas a extensão natural de sua trajetória como influencer: ampliar alcance, consolidar autoridade e buscar institucionalidade, ainda que à custa da autonomia popular.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158032 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/portrait-of-a-man-1929-207x300.jpg" alt="" width="318" height="461" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/portrait-of-a-man-1929-207x300.jpg 207w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/portrait-of-a-man-1929-289x420.jpg 289w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/portrait-of-a-man-1929.jpg 310w" sizes="auto, (max-width: 318px) 100vw, 318px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Cada um desses partidos possui um longo histórico de disputas internas, personalismos e submissão à via eleitoral. A aliança entre eles não aponta para uma revolução, mas para a tentativa de construir uma terceira via reformista, uma espécie de “PT rejuvenescido”, capaz de disputar espaço com o lulismo e com outras frações. A retórica da radicalidade serve apenas como embalagem de marketing, vendendo ao público juvenil e militante a sensação de novidade, enquanto repete velhas fórmulas gastas. O que Jones Manoel ignora — ou deliberadamente esconde — é que a emancipação proletária não pode se dar pela via do Estado. O Estado é a forma política da dominação de classe, e não pode ser apropriado para outros fins. A verdadeira alternativa não está em alianças partidárias ou candidaturas presidenciais, mas na construção da autogestão: conselhos de trabalhadores, redes de solidariedade popular, experiências de democracia direta que escapem à lógica institucional. A história mostra que toda vez que o movimento operário confiou na via eleitoral e nos partidos de cúpula, foi derrotado, cooptado ou massacrado. O destino de uma eventual candidatura de Jones não será diferente: ou recua para a moderação, ou é esmagada pelo aparato repressivo, restando apenas como peça de museu do radicalismo domesticado.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a postura de Jones reforça uma dimensão profundamente autoritária da política. Ele se apresenta como líder intelectual e carismático, portador da “linha correta” do marxismo, e pretende concentrar em sua figura a representação de uma suposta esquerda radical. Essa centralização personalista é típica das burocracias que se erigem em nome da classe, mas atuam acima dela, falando em seu lugar e silenciando suas expressões autônomas. Ao invés de estimular a auto-organização das massas, a candidatura de Jones reproduz o velho esquema: massas como base de apoio, partido como vanguarda dirigente, candidato como rosto midiático. O resultado é o oposto da emancipação: a substituição da classe por seus representantes.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-158030 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/babe-ruth-c-1936.jpegLarge-169x300.jpeg" alt="" width="241" height="428" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/babe-ruth-c-1936.jpegLarge-169x300.jpeg 169w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/babe-ruth-c-1936.jpegLarge-237x420.jpeg 237w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/babe-ruth-c-1936.jpegLarge.jpeg 338w" sizes="auto, (max-width: 241px) 100vw, 241px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A crítica marxista libertária nos obriga a denunciar essa mistificação. A candidatura de Jones Manoel não é a emergência de uma esquerda radical, mas a repetição do ciclo reformista, agora embalado pelo marketing digital e pela estética comunista. A função histórica de tal projeto é conter, domesticar e desviar a energia das lutas sociais para o terreno seguro das urnas. É, em última instância, uma operação de neutralização: transformar a indignação proletária em combustível eleitoral para partidos que não têm qualquer horizonte real de ruptura com o capital. Aos trabalhadores, à juventude e aos militantes que buscam transformação, cabe não se iludir com tais projetos. O desafio não é apoiar uma candidatura “radical” em 2026, mas reconstruir práticas autônomas de organização popular, capazes de romper com o capital e o Estado. A revolução não virá das urnas, mas das ruas, das fábricas, das escolas, das periferias. O comunismo não é uma candidatura, mas um movimento real de destruição das formas de dominação. Contra a farsa da esquerda institucional, cabe afirmar a necessidade da autogestão e da revolução social.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 7 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157738/">Parte 1</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157779/">Parte 2</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157823/">Parte 3</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157989/">Parte 4</a><br />
Parte 5<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158060/" target="_blank" rel="noopener">Parte 6</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158100/" target="_blank" rel="noopener">Parte 7</a></em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são do artista Alexander Calder</em></p>
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		<item>
		<title>A ilusão da radicalidade: Jones Manoel e o teatro da revolução (3)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157823/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Oct 2025 07:46:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Juventude]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Jones Manoel é menos um desvio pessoal e mais uma expressão de época. Ele é a versão digitalizada da social-democracia: um intelectual orgânico do reformismo, embalado em estética jovem e radical. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">O fenômeno Jones está atrelado à lógica da mercadoria e da forma-influenciador. Trata-se de um padrão de comunicação comum entre as mais variadas vertentes políticas. O influenciador se apresenta como professor popular, mas no mesmo gesto se converte em celebridade digital, dependente de likes, engajamento, monetização e patrocínios indiretos. A didática que poderia ser força de esclarecimento reproduz uma performance controlada pelo algoritmo, obediente às normas da plataforma. Sua figura pública opera, portanto, como um dispositivo de gestão ideológica: ao mesmo tempo em que denuncia o fascismo, reforça a legitimidade da democracia burguesa; ao mesmo tempo em que invoca Marx, recusa a radicalidade da luta de classes em nome de um horizonte eleitoral. A sua presença midiática é, assim, mais importante para conter do que para radicalizar. Jones, portanto, ocupa o papel didático de convencer novas multidões a apostar no velho e carcomido modelo democrático representativo, centrado na figura da liderança, daquele que condensa o anseio geral, transformando a política em chancela para o modelo burocrático-institucional.</p>
<p style="text-align: justify;">A própria forma do discurso de Jones evidencia essa contradição. Ele transforma a teoria revolucionária em produto comunicacional, esvaziando seu caráter ontológico e estratégico. Trata-se, em última instância, de um processo de vulgarização do marxismo, travestido de popularização. A vulgarização é o processo pelo qual uma teoria crítica, densa e inseparável da prática revolucionária é reduzida a fórmulas simples, slogans ou fragmentos de fácil assimilação, de modo a torná-la consumível dentro da lógica dominante. No caso do marxismo, isso ocorre quando categorias como luta de classes, exploração, mais-valia ou revolução deixam de ser conceitos que desvelam a totalidade da sociabilidade capitalista para se converter em palavras de ordem, analogias escolares ou “pílulas de conteúdo” ajustadas ao tempo de atenção das redes. Isso não é feito simplesmente para “tornar acessível” — o que pode ser tarefa legítima —, mas transformar uma teoria da emancipação em objeto de circulação mercantil, infantilizando o debate ao passo que se consuma como possível saída à política burguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">O marxismo, que nasceu para orientar a destruição do capitalismo, é desarmado e embalado como produto de ensino, como espetáculo pedagógico, como marca de identidade cultural. Isso é vulgarização: retirar a profundidade ontológica e o caráter estratégico da teoria para convertê-la em mercadoria simbólica. Adorno já denunciava que a indústria cultural reduz a obra de arte à sua função de distração; aqui, a forma-influenciador faz o mesmo com o marxismo, reduzindo-o a ferramenta de engajamento e lucro. A vulgarização é, portanto, a domesticação da crítica. Ela não é inocente: cumpre a função de neutralizar a radicalidade revolucionária, fazendo com que o marxismo pareça estar vivo, quando na verdade já foi convertido em conteúdo digerível, seguro e integrado à ordem capitalista.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157824 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp1.jpg" alt="A ilusão da radicalidade (3)" width="516" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp1.jpg 516w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp1-258x300.jpg 258w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp1-361x420.jpg 361w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp1-300x350.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 516px) 100vw, 516px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O lugar político que ele ocupa se revela sobretudo na relação com o progressismo. Jones, apesar de falar mal, funciona como legitimador cultural e acadêmico daquilo que o PT e a esquerda institucional representam: a administração da ordem. Vale dizer que o ataque à extrema-direita é cínico. É a crítica que nunca transborda, que nunca aponta para a ruptura efetiva. O que ele oferece ao público é a sensação de radicalidade, mas sempre contida dentro do quadro do possível burguês. Isso explica por que ele é convidado para grandes veículos, entrevistas na grande imprensa, participações em programas de alcance nacional: sua presença é a do “marxista domesticado”, controlado pelo aparato de mídia que o impulsiona. A forma-influenciador agrava essa contradição. Ao se projetar como figura pública, Jones depende estruturalmente das mesmas engrenagens que critica: a monetização das plataformas, a lógica do espetáculo, a cultura de engajamento e aos acordos com fascistas. Ele encarna a contradição denunciada por Adorno e Debord: o crítico que, ao entrar no espetáculo, passa a ser peça dele. O sujeito que fala em revolução de dentro do palco do capital digital acaba inevitavelmente neutralizado. O capital absorve sua crítica e a converte em mercadoria simbólica, gerando seguidores, views, financiamento e capital simbólico, além de prestígio que se converte em poder financeiro (geralmente concentrado).</p>
<p style="text-align: justify;">Essa função é ainda mais clara quando olhamos para o público que o segue. Muitos enxergam em Jones a porta de entrada para o marxismo. Mas o que encontram não é o marxismo enquanto teoria da revolução, mas o marxismo convertido em linguagem de curso online, palestra de YouTube e roteiro de comunicação. Isso produz uma base de jovens militantes formados não na práxis revolucionária, mas na lógica do consumo cultural. A consequência é a repetição de chavões, a dependência da figura de autoridade e a reprodução de uma militância sem organização real. Em lugar de partido revolucionário ou de conselhos proletários, forma-se uma comunidade de espectadores. Marx, Rosa Luxemburgo e Lukács não escreviam para entreter, mas para organizar e transformar. A pedagogia de Jones, por mais que pareça acessível, é pedagogia sem prática revolucionária, pedagogia que educa para a cidadania burguesa e para o horizonte eleitoral. É o marxismo desarmado, seguro, domesticado que funciona como mais uma porta para a dominação. E isso explica sua penetração em setores médios, universitários, professores e estudantes: ele oferece a estes uma forma de aderir ao marxismo sem precisar romper com o mundo em que vivem. A crítica marxista a essa figura não deve se limitar ao moralismo individual. Não se trata de apontar o dedo para Jones como indivíduo, mas de compreender o lugar social que ele ocupa: o lugar de gestor da crítica, mediador entre a radicalidade histórica do marxismo e a necessidade do capital de neutralizar essa radicalidade convertendo a crítica em instrumento de contenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Jones Manoel é, assim, menos um desvio pessoal e mais uma expressão de época. Ele encarna a necessidade do progressismo de renovar sua base simbólica, de falar a linguagem da juventude, de parecer radical sem jamais ultrapassar os limites da ordem. Ele é a versão digitalizada da social-democracia: um intelectual orgânico do reformismo, embalado em estética jovem e radical. A tarefa, então, é dupla: desmontar a forma-influenciador como limite estrutural da crítica e, ao mesmo tempo, recolocar o marxismo em seu terreno original — o da luta de classes, da organização proletária, da revolução.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157825 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2.jpg" alt="A ilusão da radicalidade (3)" width="750" height="480" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2-300x192.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2-656x420.jpg 656w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2-640x410.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2-681x436.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 7 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157738/" target="_blank" rel="noopener">Parte 1</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157779/" target="_blank" rel="noopener">Parte 2</a><br />
Parte 3<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157989/" target="_blank" rel="noopener">Parte 4</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/158027/" target="_blank" rel="noopener">Parte 5</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158060/" target="_blank" rel="noopener">Parte 6</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158100/" target="_blank" rel="noopener">Parte 7</a></em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Aleksandr Deyneka (1899-1969).</em></p>
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		<title>A ilusão da radicalidade: Jones Manoel e o teatro da revolução (1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Oct 2025 12:12:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Ontem, a burocracia estudantil organizava a rebeldia para não deixá-la escapar; hoje, a pedagogia digital organiza a crítica para não deixá-la romper. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<blockquote><p><strong>Nota prévia:</strong> Diante dos ataques neonazistas e reacionários que Jones Manoel vem sofrendo, é preciso afirmar, antes de tudo, solidariedade incondicional. Contra o fascismo não há nuances nem hesitação: trata-se do inimigo absoluto da classe trabalhadora e de qualquer horizonte emancipatório. No entanto, essa solidariedade não implica calar a crítica. Pelo contrário: se a extrema-direita investe na violência aberta, o reformismo se encarrega da violência surda da conciliação, desarmando a classe diante da barbárie. É precisamente porque combatemos o fascismo que devemos também desnudar as formas domesticadas de radicalidade que, sob a máscara da revolução, reforçam a ordem. Nossa crítica a Jones Manoel não se confunde com o ódio da direita; nasce da necessidade de preservar o marxismo como arma, e não como espetáculo pedagógico ou mercadoria de engajamento.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>Resumo: </strong>Este texto é uma crítica à figura de Jones Manoel como expressão da vulgarização do marxismo e da captura da radicalidade pelo espetáculo. Longe de representar uma saída revolucionária, sua trajetória encena a revolução como performance segura para o algoritmo, convertendo a crítica em mercadoria, a militância em plateia e a revolta em combustível eleitoral. O que se anuncia como radicalidade é apenas a reedição farsesca do reformismo de sempre, agora embalado em estética digital e pedagogia domesticada. Contra esse teatro, o texto reivindica o resgate da crítica como arma e da auto-organização proletária como única via de emancipação real.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>*</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Muitos têm argumentado que não seria o momento de criticar Jones Manoel, que seria melhor “esperar” para ver até onde ele vai, evitando “jogar pedra” em alguém que surge no campo da esquerda e começa a acumular relevância. Esse raciocínio é exatamente o que tem levado a esquerda a se repetir em farsas históricas: poupar a crítica em nome de uma unidade ilusória e, quando finalmente se percebe a natureza reformista do projeto, já é tarde demais, a neutralização já se consumou. A crítica marxista não pode ser adiada sem se tornar cúmplice daquilo que denuncia. Presto, portanto, solidariedade incondicional a Jones Manoel contra os ataques neonazistas e reacionários que ele vem sofrendo, mas é precisamente por lutar contra a barbárie fascista que a crítica ao reformismo precisa ser feita agora; sem medo, sem sectarismo, sem ilusões.</p>
<p style="text-align: justify;">Jones Manoel tornou-se uma figura central no que se convencionou chamar de “influenciador de esquerda” ou “webcomunista”. A sua ascensão é inseparável do próprio movimento da social-democracia digitalizada, que encontrou no YouTube, no Twitter e em outras plataformas uma forma de reciclar a velha política de conciliação de classes em linguagem jovem, didática e aparentemente radical. O problema é que, por trás da superfície de combatividade, está sempre o mesmo horizonte: o Estado, o progressismo, a mediação institucional e a conciliação como condição para a prática política; não almejando, portanto, níveis primários de radicalidade necessária para a organização da luta popular. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), partido ao qual esteve vinculado por anos, funciona como rótulo histórico que dá verniz de tradição revolucionária a um discurso que, na prática, se dissolve em pedagogia reformista onde se estabelece todo tipo de acordo. A história do reformismo no Brasil é ampla. Nos centraremos aqui no que diz respeito ao Jones Manoel.</p>
<p style="text-align: justify;">O percurso de Jones Manoel na União da Juventude Comunista (UJC), organização juvenil do PCB, foi marcado tanto pelo engajamento no movimento estudantil quanto pela participação em processos de formação de quadros, entre 2013 e os anos seguintes. Nesse espaço, Jones consolidou sua militância teórica e política, aproximando-se do marxismo-leninismo e defendendo a centralidade da organização popular como caminho para a construção de consciência de classe. Assim, sua trajetória na UJC revela, ao mesmo tempo, o aprendizado militante e as contradições internas de uma estrutura marcada pela reprodução burocrática e pelo desafio permanente de se enraizar nas lutas reais da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa organização, longe de ser um espaço de formação radical, funciona como braço auxiliar da direção partidária e tem como função primordial engessar as lutas estudantis, canalizando-as para acordos com reitorias e sindicatos de professores como o ANDES, a ADUFF na UFF e a ASDUERJ na UERJ. Trata-se de uma prática sistemática de burocratização, pela qual qualquer tentativa de radicalidade é contida em nome da manutenção de relações institucionais, da negociação permanente e da política de “respeitabilidade”.</p>
<p style="text-align: justify;">Maurício Tragtenberg foi um dos mais importantes intérpretes críticos da burocracia no Brasil, articulando Marx, Weber e a tradição marxista heterodoxa. Em <em>Burocracia e Ideologia</em>, ele define a burocracia não como simples “máquina administrativa” ou mero conjunto de normas técnicas, mas como uma forma histórica de dominação que expressa interesses sociais específicos. Inspirado em Weber, Tragtenberg reconhece que a burocracia moderna é marcada pela racionalidade formal, pela hierarquia impessoal e pela especialização de funções. Contudo, diferentemente do sociólogo alemão, para ele a burocracia não é apenas “racionalidade eficiente”, mas um mecanismo de controle social que assegura a reprodução da ordem capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Tragtenberg mostra que a burocracia não é neutra: ela é instrumento de classe. No Estado, manifesta-se como forma de separação entre governantes e governados, entre dirigentes e massa, naturalizando a desigualdade e convertendo o aparelho administrativo em instância acima da sociedade. No interior dos partidos e sindicatos, assume a feição de casta dirigente, afastada da base e preocupada em preservar seus privilégios, carreiras e status. Ele fala em “autonomização da burocracia”: um processo pelo qual o aparato passa a agir em função própria, reproduzindo-se mesmo contra os interesses daqueles que deveria representar. Sua crítica vai além da denúncia moral: a burocracia é, segundo Tragtenberg, um modo de gestão da luta de classes. Ela administra os conflitos sociais, amortecendo-os, canalizando-os para negociações controladas e impedindo sua radicalização. Daí a ligação entre burocracia e ideologia: o discurso da competência, da técnica e da legalidade serve para legitimar a dominação, escondendo o caráter político e de classe das decisões. Essa ideologia burocrática aparece tanto no Estado quanto em sindicatos e partidos, reforçando a ideia de que “especialistas” ou “dirigentes” devem conduzir as massas, enquanto estas permanecem passivas.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, para Tragtenberg, burocracia significa dominação organizada pela hierarquia e pelo controle técnico-ideológico, que transforma os trabalhadores em objeto de administração e neutraliza sua autoatividade. Não se trata de acidente, mas de forma estrutural de poder no capitalismo e em suas organizações “alternativas”, incluindo partidos comunistas e sindicatos oficiais. Contra ela, o autor reivindica a autogestão, a democracia direta e a organização de base como alternativas à alienação burocrática.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157747" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/if-societ_809.jpg" alt="" width="809" height="457" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/if-societ_809.jpg 809w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/if-societ_809-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/if-societ_809-768x434.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/if-societ_809-744x420.jpg 744w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/if-societ_809-640x362.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/if-societ_809-681x385.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px" />A UJC se apresenta como juventude combativa, mas age como correia de transmissão da lógica reformista: organiza o movimento para que este não ultrapasse os limites seguros das alianças burocráticas. É por isso que são comumente chamados de <em>pelegos</em>, pois cumprem o mesmo papel que as burocracias sindicais tradicionais: mediar a luta de base, mas sempre no sentido de desarmar o conflito e canalizar as energias para a institucionalidade. Essa função é concreta, histórica. Eu mesmo pude observar esse processo de perto na Universidade Federal Fluminense (UFF), em diferentes períodos de greve estudantil. Sempre que a luta autônoma dos estudantes se radicalizava, surgiam os dirigentes da UJC para deslegitimar as iniciativas, acusar de irresponsabilidade, criminalizar a ação direta e defender acordos com reitorias e professores. Em todos os momentos de confronto real com as estruturas de poder universitário, a UJC se colocou terminantemente contra, atuando ao lado da burocracia docente e contra as frentes independentes e anarquistas. Estamos falando de uma linha política que transforma a juventude comunista em administradora da rebeldia estudantil, podando qualquer desvio que pudesse escapar ao controle do partido. Registrei esse processo em meu filme <em>Utopia e Cidade</em> (2012), justamente porque ele expressava de forma concreta a contradição entre uma juventude que se reivindica revolucionária e uma prática política que atua contra a autoatividade dos estudantes, contra sua organização independente e contra a possibilidade de ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica que formulei ainda no calor das lutas do movimento estudantil ajuda a compreender a gênese da prática política de Jones Manoel. Em 2015 escrevi que “não se constrói mobilizações populares sem um balanço político do caráter das mobilizações passadas”. Denunciava então a forma como a greve de 2012 nas universidades do Rio de Janeiro (e em outras universidades públicas) foi esvaziada por comandos burocratizados e por uma elite docente que, aliada às reitorias, criminalizou qualquer tentativa de autonomia estudantil. Mostrava-se ali que a pauta dos estudantes, quando radicalizava — moradia sob autogestão, equiparação das bolsas, questionamento da própria produção do conhecimento — era sistematicamente abafada em nome de negociações de cúpula, de mesas de reitoria, de acordos sindicais. A greve, ao invés de momento de ruptura, tornava-se teatro controlado, onde cada setor cumpria seu papel: professores como elite dirigente, comandos estudantis como <em>pelegos</em> de plantão, reitorias como polícia administrativa. Foi nesse terreno que Jones se formou.</p>
<p style="text-align: justify;">A mesma função que a UJC exercia nas greves — a de transformar a radicalidade em espetáculo domesticado, a revolta em assembleia controlada, a greve em rito de integração — é a que Jones exerce hoje no YouTube. Ontem, a burocracia estudantil organizava a rebeldia para não deixá-la escapar; hoje, a pedagogia digital organiza a crítica para não deixá-la romper. Trata-se da mesma função histórica: canalizar a energia da juventude para formas seguras, compatíveis com a ordem. No fundo, é a mesma lógica do espetáculo: oferecer a sensação de participação, mas retirar da base a possibilidade de agir como sujeito autônomo. O Jones que emerge como <em>youtuber</em> e webcomunista é o mesmo militante formado na escola da burocracia estudantil. O método é idêntico: a crítica jamais transborda, jamais se liga a práticas de auto-organização popular. Ao contrário, permanece sempre ajustada à institucionalidade, seja na forma de comando de greve, seja na forma de canal de YouTube. A função histórica é clara: neutralizar a possibilidade de ruptura, reproduzir a ordem sob a máscara da radicalidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Debord, em seu clássico texto <em>Da Miséria do Meio Estudantil</em>, já havia apontado esse processo como um dos elementos centrais da dominação no campo universitário. Para ele, as frações burocráticas que se apresentam como vanguarda estudantil não passam de guardiãs da ordem, convertendo o movimento em apêndice das negociações institucionais. O papel dessas burocracias é precisamente transformar a radicalidade em espetáculo controlado: promovem assembleias formais, discursos inflamados e um teatro de contestação, mas tudo cuidadosamente limitado para que não transborde. Debord denunciava a miséria não apenas material, mas também política do meio estudantil: sua captura por organizações que falam em nome da revolução enquanto domesticam a revolta. Ao invés de abrir caminhos para a autonomia, reforçam a heteronomia, substituindo a ação direta pela representação, a criatividade da base pelo aparato burocrático. Essa análise é fundamental para compreender a função histórica da UJC: longe de ser o motor da radicalidade, ela é o freio, o dispositivo de normalização, a instância que garante que o estudante rebelde não se converta em sujeito revolucionário, mas permaneça integrado à lógica do partido e às negociações de cúpula. Os estudantes revolucionários têm duas barreiras: a burocracia estudantil e universitária.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 7 partes, com publicação semanal:<br />
Parte 1<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157779/" target="_blank" rel="noopener">Parte 2</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157823/" target="_blank" rel="noopener">Parte 3</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157989/" target="_blank" rel="noopener">Parte 4</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/158027/" target="_blank" rel="noopener">Parte 5</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158060/" target="_blank" rel="noopener">Parte 6</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158100/" target="_blank" rel="noopener">Parte 7</a></em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As imagens que ilustram este artigo são do filme &#8220;A sociedade do espetáculo&#8221; (1973), de Guy Debord</em></p>
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		<title>A perda de militantes e lideranças para o capital</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Jun 2025 10:56:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[ A tendência é que os quadros com maiores capacidades políticas precisem de uma moral franciscana mais forte e fundamentalista num contexto de precarização generalizada e de ausência de um horizonte de expectativa de transformação social. Por Leo Vinicius.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<p style="text-align: justify;">Quando um militante ou uma liderança faz uma escolha de direcionamento político a partir de um ganho financeiro pessoal de algum tipo, ou quando simplesmente aceita receber renda de uma organização externa enquanto militante ou liderança, normalmente isso é tratado em termos morais em organizações e entre militantes anticapitalistas. É a ideia de que o sujeito “se vendeu”, isto é, por um ganho financeiro deixa de dizer o que pensa politicamente ou redireciona a prática política enquanto militante ou liderança.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o que se espera em organizações anticapitalistas, é que os militantes possuam uma moral elevada, de modo a não caírem na tentação de capitalizarem sua militância. Pelo menos não de modo que comprometa as ideias e direcionamentos políticos de sua militância. Que uma moral elevada seja uma qualidade muito desejável e até importante na militância, não há dúvidas. Porém, que organizações políticas anticapitalistas dependam que seus membros ou que seu entorno de militantes e lideranças sociais sejam franciscanos, é uma demonstração de fragilidade e de falta de política (policy) dessas organizações. Uma ausência de política que faça frente a um fenômeno que mina seus quadros e as práticas militantes antagonistas ao capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Num contexto de aprofundamento generalizado da precarização econômica e do trabalho, e sem um horizonte de expectativa revolucionária nos curto e médio prazos – de modo que pelo menos ver um ascenso das lutas pudesse ser uma compensação por um ascetismo militante – depender da condenação moral e do franciscanismo militante parece ser não apenas uma má estratégia para lidar com o problema, mas uma completa ausência de estratégia, isto é, de política.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre entregadores de aplicativo, a frequente sobreposição num mesmo indivíduo da figura da liderança, influencer/youtuber e comunicador pago pelo iFood, certamente tem como um dos fatores a busca de uma melhoria financeira. Nesse sentido, fundamentalmente não se difere do conhecido fenômeno, entre operários industriais militantes e de outras categorias, da busca de mobilidade social ou de se afastar do ambiente e ritmos nocivos de trabalho através da eleição para cargos sindicais.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outro lugar fiz uma descrição de como um dos principais articuladores da Campanha pelo Passe Livre em Florianópolis na década de 2000, rachou com o movimento buscando capitalizar financeiramente através dele <strong>[1]</strong>. Na minha avaliação, como escrevi na época, sua ânsia em ganhar dinheiro com a “militância” a qualquer custo (político) teve como fator importante o fato de ele ter uma situação econômica precária naqueles anos de juventude, em função, em grande parte, da sua militância. A negligência desse aspecto da vida, relacionada à construção da vida econômica e financeira individual, pode cobrar seu preço mais tarde, com implicações políticas deletérias.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-156765 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527.jpg" alt="" width="723" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527.jpg 723w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527-300x280.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527-450x420.jpg 450w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527-640x598.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/06/13437696_fullsize-2114818527-681x636.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 723px) 100vw, 723px" />A sangria e desvio de militantes e lideranças pelo e para o capital não se resumem, evidentemente, a fatores econômicos e de precariedade financeira na vida. Porém, acrescentar fatores individuais de cunho psicológico ou moral, em vez de ajudar que as organizações anticapitalistas pensem sobre o assunto e tentem constituir políticas para lidar com o problema, obstruem o pensamento e a possível constituição dessas políticas.</p>
<p style="text-align: justify;">E o problema se torna mais claro, e talvez maior, uma vez que a capacidade política que faz alguns militantes e lideranças se destacarem, constituindo quadros cuja perda é ainda mais sentida, abrem possibilidades mais fáceis e evidentes, e até mesmo convites, para adentrar no carreirismo sindical e parlamentar, ou para se enquadrarem nos limites de ONGs e outras organizações que ofereçam a possibilidade de uma melhoria ou estabilidade financeira. Ou seja, a tendência é que os quadros com maiores capacidades políticas, com habilidades e competências políticas mais desenvolvidas, precisem de uma moral franciscana (ou militante, como se queira), mais forte e fundamentalista num contexto de precarização generalizada e de ausência de um horizonte de expectativa de transformação social.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira resposta a esse problema que pode vir à cabeça é a chamada “liberação” de militantes. Porém, a organização pagar uma renda a militantes ou lideranças para “liberá-los”, na forma como muitas vezes é feito em organizações de esquerda, resulta em problemas até mais graves. Implica o estabelecimento de um princípio de hierarquia na organização e implica numa profissionalização da militância. A profissionalização da militância, além de ser um fator para geração das burocracias, tende a gerar dependência econômica do indivíduo em relação à organização, o que traz um constrangimento individual para manter ideias e posições políticas que não o incompatibilizem com a organização que lhe paga.</p>
<p style="text-align: justify;">Não trago soluções, mas apenas o problema. É preciso pensar. Se é que é possível encontrar uma forma de mitigá-lo. Talvez um caminho de pensamento seja o de como estabelecer um princípio de solidariedade econômica na organização que não comporte ou que minimize os riscos da tradicional “liberação” de militantes. Outro caminho seria pensar soluções caso a caso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ver Guerra da Tarifa 2005, pp. 25-26, em: <a class="urlextern" title="https://editorafaisca.wordpress.com/wp-content/uploads/2015/02/leo-vinicius-guerra-da-tarifa-20051.pdf" href="https://editorafaisca.wordpress.com/wp-content/uploads/2015/02/leo-vinicius-guerra-da-tarifa-20051.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://editorafaisca.wordpress.com/wp-content/uploads/2015/02/leo-vinicius-guerra-da-tarifa-20051.pdf</a></p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Cildo Meireles (1948 &#8212;)</em></p>
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		<title>Mamãe dizia: ‘cutuca o tempo, e o abismo aparece!’</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 May 2025 17:18:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[É claro que as estratégias de lutas modificaram. A forma e o conteúdo das assembleias também. Por Marcos Alves Lopes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<p style="text-align: justify;"><strong>Por Marcos Alves Lopes</strong></p>
<p align="justify">Não é de hoje que professores e administrativos fazem greve, reivindicando direitos diversos (ou pelo menos tentam fazê-la!). Também não começou exatamente ontem, a luta da categoria contra o sindicato dito oficial para que as greves fossem levadas adiante. Se por um lado, o tempo é o ‘senhor de tudo’, e nele cabem as nossas (tantas!) contradições, por outro, o mesmo ‘senhor de tudo’, digo o tempo, também é responsável por apagar ou, pelo menos, camuflar os atos ocorridos em tempos remotos, ou não tão longínquos assim…</p>
<p align="justify">Retorno à minha entrada na Rede Municipal de Educação, como docente de Língua Portuguesa, recém-formado, aos vinte e poucos anos… Naqueles idos, há mais de quinze anos, o nosso vencimento não ultrapassava os míseros dois salários-mínimos. Os colegas, educadores ou não, enquanto leem essas reflexões, podem mentalmente refletir sobre o vencimento atual e dos idos de 2008 – a conclusão é um tanto óbvia: houve ganhos reais de remuneração nas últimas décadas. Mas, o tempo… Ele brinca de esconde-esconde, e às vezes deixa as respostas tão bem escondidas, bem detrás do nosso nariz, que parece mesmo impossível reconhecer como tivemos tais ganhos.</p>
<p align="justify">Sim, ganhamos com GREVES! Cutucando o nariz, lembro-me da greve de 2010. Até então, não recebíamos mais que dois salários, deflagramos uma grande luta social. À época, o sindicato oficial era explícito, quando não queria greve – ou seja, quase sempre! Naquele ano, a categoria, ao limite de sua existência, e, atropelando a direção sindical, iniciou um processo longo de luta. E luta. E mais luta. Após meses de greve, numa assembleia feita na Câmara dos Vereadores, a então porta-voz do sindicato dito oficial, simplesmente decretou o final da greve – mais uma vez sem o consentimento da categoria. Lembro como numa fotografia a cores: a assembleia toda de pé, em contraste visual, exigindo a continuidade na greve, mas, (pasme &#8211; ou não pasme tanto assim!), a direção sindical simplesmente finaliza o movimento gigantesco de 2010.</p>
<p align="justify"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-156679" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/illustration-to-suprematic-tale-about-two-squares-1920.jpg" alt="" width="400" height="518" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/illustration-to-suprematic-tale-about-two-squares-1920.jpg 579w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/illustration-to-suprematic-tale-about-two-squares-1920-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/illustration-to-suprematic-tale-about-two-squares-1920-324x420.jpg 324w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p align="justify">‘Ah, mas vocês são radicais!’, diria a turma do ‘deixa disso’. ‘Deixa a líder decidir pela categoria’, ‘ela sabe o que é bom’… Naqueles idos, ouvíamos de tudo, inclusive, uma parte da categoria retornou ao posto de trabalho, diante das manobras sindicais, bem como da intentona de muitos diretores (que ameaçavam isso, aquilo e aquil’outro). No entanto, uma parcela significativa permaneceu em greve SEM o SINTEGO. Ah, eu imagino o riso largo das duas líderes sindicais, pensando: ‘esses meninos não vão longe!’.</p>
<p align="justify">Torceram tanto para que não fossem adiante as nossas reinvindicações, que o ‘senhor de tudo’ resolveu levantar do seu berço esplêndido, e inverter as posições &#8211; a categoria rompeu com o SINTEGO e caminhou a passos largos sem a burocracia sindical por mais de uma década.</p>
<p align="justify">É claro que as estratégias de lutas modificaram. A forma e o conteúdo das assembleias também. Era o nascimento do Comando de greve, o que posteriormente, viria a ser o SIMSED &#8211; o oposto do SINTEGO estava nascendo. E aí, você, leitor, pode se perguntar: por que, então, hoje, 2025, retornamos ao sindicalismo burocrático do SINTEGO? Depois de tantas conquistas, em uma década de organização popular, por quê? Uma pergunta que cutuca o tempo!</p>
<p align="justify"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-156684" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/proun-23-no-6-1919.jpg" alt="" width="400" height="325" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/proun-23-no-6-1919.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/proun-23-no-6-1919-300x244.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/proun-23-no-6-1919-516x420.jpg 516w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p align="justify">Ela é tão importante que, ao respondê-la, não é possível cutucar mais uma vez o nariz, e não lembrar das conquistas advindas das nossas paralisações e greves. Não vou aqui mencionar quanto ganhamos economicamente, porque ao leitor, basta fazer um comparativo entre os dois salários-mínimos de 2008, e o vencimento atual. Só queria cutucar pouco mais a lembrança dos senhores, nós todos, ‘senhores do tempo’. Sim, as conquistas vieram, e acompanhada delas, muita luta. Cutuco aqui até sangrar: foram duas ocupações da Câmara Municipal e uma da Secretaria Municipal de Educação, em 2017. Mas a pergunta insiste: se houve mesmo tantas conquistas econômicas, por qual razão retornamos aos sanguessugas? Por quê? Renunciamos à nossa liberdade? Talvez, uma pausa na greve de 2017 nos esclareça bem mais, deixando até o sangue nas mãos. Nas mãos dos políticos de então, e de seus comparsas, sim, o sangue nas mãos é a síntese da nossa paralisia.</p>
<p align="justify">Ali, em 2017, após muitos dias em luta, e nenhuma proposta, uma parcela da categoria ocupou a Secretaria Municipal de Educação. Ao passo que a ocupação trouxe o pagamento do piso salarial docente, houve também a nossa paralisia por muito tempo (até hoje?!). A mando de Iris, a Guarda-Municipal atacou os professores que estavam onde é de seu direito estar, a saber, na Secretaria Municipal de Educação, em Goiânia. O ataque foi tão covarde que até hoje há alguns colegas com sequelas daquela intervenção. Tiros, prisões. “Pisões” no pescoço. Tortura. Tortura. Tortura.</p>
<p align="justify">Após essa cena lamentável da política goianiense, o prefeito, como um bom hipócrita, resolveu pagar o piso. Pisou no pescoço da categoria e pagou o piso com muito sangue. Mas, ele não estava satisfeito. Além das torturas, houve corte de pontos da categoria, o que sangrou ainda mais a nossa classe. Após essa cena, negociações com o SIMSED deixaram de ocorrer. Corte de ponto passou a ser mais comum do que antes. Cada paralisação, um dia sem receber. Paulatinamente, o ‘senhor do tempo’ foi escondendo as lutas para mais além do que se pode imaginar…</p>
<p align="justify"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-156685" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/untitled-619x1024.jpg" alt="" width="400" height="662" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/untitled-619x1024.jpg 619w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/untitled-181x300.jpg 181w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/untitled-768x1271.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/untitled-928x1536.jpg 928w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/untitled-254x420.jpg 254w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/untitled-640x1059.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/untitled-681x1127.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/untitled.jpg 967w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p align="justify">E chegamos a 2025, um salto longo, porque o tempo não passa em segundos, minutos, horas e dias. Na verdade, ele se esconde aí. Lá onde enxergamos o ‘senhor de tudo’ é justamente onde ele brinca de esconde-esconde. E, hoje, no dia quinze de maio de 2025, nos encontramos cutucando nariz em busca do tempo perdido. Mas, onde, Proust? Em uma assembleia convocada pelo SINTEGO. Sim, aquele sindicato, que em 2010, decretou o fim de greve à revelia da classe trabalhadora. Cutucando mais: hoje, nos encontramos com a mesma líder sindical de décadas. Ela que desafia o tempo, e reivindica a onipresença, ocupa cargos no mínimo conflitantes: deputada? Líder sindical? E a ética, escondeu-se onde nesses tempos?! Sim, a onipresente, a onisciente (porque sabe quando começar e terminar greve, sabe tudo!), ela simplesmente manobra mais uma vez. Uma manobra que vale a pena ser cutucada &#8211; lembrada.</p>
<p align="justify">Ela, no altar do carro de som, joga (sem muita habilidade) com as palavras. Ela joga mais com a ausência de ética na condução de assembleia! Antes da manipulação explícita, a líder sindical e deputada defendeu abertamente que não era hora de greve – ela sabe tudo, viu! Após alguns minutos utilizando de sua sapiência absurda, então, passou à segunda etapa do plano. Como em um salto de 2025 a 2010, colocou-se a dizer de ações, que poderiam ocorrer em greve ou não, e, logo, sem citar a palavra tenebrosa GREVE, colocou a assembleia em regime de votação. Mas, votar o quê? Manifestação, paralisação, o que exatamente? Nessa confusão premeditada, muitos, inclusive eu, não entendeu inicialmente a manobra. Talvez, porque não tenhamos, nós a categoria, nos tornado seres onipresentes, onisciente, enfim. É provável que a nossa condição humana ainda insista em nos cutucar: e aí, até vamos tolerar?</p>
<p align="justify">A ‘senhoria do tempo’ brinca… Salta de 2025 a 2010, sem nenhuma vergonha na cara. Na cara mesmo, são as provinhas da Secretaria, a superlotação das salas de aula, o fechamento da EJA, o tal suposto parcelamento do piso salarial, as condições de trabalho… Na cara mesmo, o adoecimento da categoria. Na cara, detrás do nosso nariz, a nossa própria hipocrisia ao aceitar (mais uma vez!) a manobra do tempo. E nós, vamos cutucá-la?</p>
</div>
<p align="justify"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-156682" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/announcer-1923-875x1024.jpg" alt="" width="400" height="468" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/announcer-1923-875x1024.jpg 875w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/announcer-1923-256x300.jpg 256w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/announcer-1923-768x899.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/announcer-1923-1312x1536.jpg 1312w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/announcer-1923-1750x2048.jpg 1750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/announcer-1923-359x420.jpg 359w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/announcer-1923-300x350.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/announcer-1923-640x749.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/announcer-1923-681x797.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/announcer-1923-341x400.jpg 341w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<div class="level3">
<p id="mamae_diziacutuca_o_tempo_e_o_abismo_aparece" class="sectionedit9" style="text-align: justify;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-156663 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/05/36d21884-b8d0-43b1-a327-94edc667de61.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /></em></p>
<p class="sectionedit9" style="text-align: justify;"><em>Ilustramos este artigo com obras de El Lissitzky (1890-1941).</em></p>
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		<title>Anos de formação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 Nov 2024 11:00:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Juventude]]></category>
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					<description><![CDATA[ Entre abrir mão daquelas magras mesadas que vinham dos pais e começar a trabalhar de verdade, conseguindo dinheiro inclusive para contribuir com o financiamento do movimento estudantil da universidade onde estudavam, preferiam as mesadas e a busca constante de dinheiro para o movimento estudantil em sindicatos e centrais sindicais. Vários deles saíram da universidade e entraram para a carreira, de sucesso, de burocrata de partido de esquerda ou burocrata de sindicato; quando não acumulam os dois e idênticos talentos. Passa Palavra ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Entre abrir mão daquelas magras mesadas que vinham dos pais e começar a trabalhar de verdade, conseguindo dinheiro inclusive para contribuir com o financiamento do movimento estudantil da universidade onde estudavam, preferiam as mesadas e a busca constante de dinheiro para o movimento estudantil em sindicatos e centrais sindicais. Vários deles saíram da universidade e entraram para a carreira, de sucesso, de burocrata de partido de esquerda ou burocrata de sindicato; quando não acumulam os dois e idênticos talentos. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Pedágio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Nov 2024 08:24:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
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					<description><![CDATA[ Estudantes e professores universitários de esquerda, não querendo custear a despesa com transporte com seus próprios recursos, negociaram com os gestores que estavam no poder apoio e votos na eleição seguinte para a reitoria em troca de um micro-ônibus, e um motorista, ambos daquela universidade, que levou o grupo para assistir a palestra de um intelectual. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Estudantes e professores universitários de esquerda, não querendo custear a despesa com transporte com seus próprios recursos, negociaram com os gestores que estavam no poder apoio e votos na eleição seguinte para a reitoria em troca de um micro-ônibus, e um motorista, ambos daquela universidade, que levou o grupo para assistir a palestra de um intelectual. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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