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	<title>Capitalismo &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Para além da Tarifa Zero</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 12:45:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
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					<description><![CDATA[O grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. Por Isadora de Andrade Guerreiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Em setembro de 2025 tive a oportunidade incrível &#8211; proporcionada por Daniel Santini, a quem agradeço &#8211; de entrevistar a atual deputada federal e ex-prefeita de São Paulo (1989-1993) Luiza Erundina (PSOL), seu secretário de transportes à época, Lucio Gregori, e Mauro Zilbovicius, ex-diretor da Cia. de Engenharia de Tráfego (CET) e do Departamento do Sistema Viário (DSV). A pauta era a Tarifa Zero ontem e hoje, dado que o trio foi responsável pela proposta pioneira no país durante a primeira gestão municipal do PT em São Paulo. O <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">resultado da entrevista</a> foi publicado na <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Diálogos Socioambientais v.8, n.23</a>, em novembro de 2025, um dossiê muito especial com contribuições atuais sobre o tema, organizado pela professora Silvana Zioni e o próprio Daniel Santini.</p>
<p style="text-align: justify;">O dossiê vem em boa hora, na medida em que o tema com certeza será parte da disputa eleitoral deste ano, que será delicadíssima por uma série de questões. Foi lançado justamente quando o governo federal pediu um estudo detalhado para implantar a Tarifa Zero nacionalmente e, em Belo Horizonte, o assunto foi votado na Câmara e não ganhou, mas assustou. Para quem acompanhou o nível de embate do tema em 2013, ver onde ele chegou atualmente é, no mínimo, surpreendente. Ou temerário… e por isso retomar suas origens de forma viva na entrevista foi algo muito importante.</p>
<p style="text-align: justify;">Digo isso pois o grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. O que está em pauta é se ela será uma tábua de salvação para um setor empresarial em franca crise &#8211; e que é pedra fundamental de amplos clientelismos Brasil afora -, ou se será parte de uma transformação urbana e social mais estrutural. Politicamente relevante é que o embate institucional está acontecendo dentro do campo da dita esquerda partidária, com PT e PSOL em lados opostos: o deputado federal Jilmar Tatto (PT) tem representado o setor empresarial dos transportes e feito propostas que têm avançado mais do que as de Erundina dentro do parlamento e do executivo federal.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso a entrevista está especial e convido todo mundo a ler. Aquela tarde junto aos três ecoou fundo em mim, pois foi como um sopro de brisas frescas vindas de um lugar perdido. Zilbovicius colocando a racionalidade técnica no seu lugar, como instrumento político; o incrível Lucio Gregori relacionando a Tarifa Zero com a revolução social anticapitalista; e Erundina, de uma força transbordante e incansável, mas ao mesmo tempo extremamente afetiva e carinhosa durante toda a tarde, trazendo a noção de direito social como algo muito mais estrutural do que se transformou no neoliberalismo. Assim, a entrevista tem algo de incômodo, pois mexe com potências políticas adormecidas que as gerações atuais nem sonham o quão mobilizadoras foram. Faz-nos pensar no estado de coisas em que estamos, no desespero de ter que defender o pouco que restou de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o que é um governo municipal não era uma questão, mas sim o que pode ser um governo municipal dentro de uma sociedade mobilizada. Isso aparece numa fala do engenheiro Zilbovicius:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até hoje guardo uma fala da Luiza, que ela repetia constantemente: cada ação “tem que ser pedagógica”. As pessoas precisam aprender com essa luta. Ou seja, não se tratava apenas de resolver um problema imediato, mas de usar essa solução para fazer política, demonstrar uma nova possibilidade e, a partir dela, demandar mais. Estávamos ali para empurrar a fronteira do possível e alargar os limites do que era considerado realizável.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Alargar o possível é também alargar nosso pensamento. A Tarifa Zero ser viável leva o debate, evidentemente, ao tema técnico &#8211; também discutido no dossiê &#8211; e é nesse momento que precisamos atualizar o lugar da técnica na política &#8211; onde queremos chegar com a Tarifa Zero? Sem isso, cairemos inevitavelmente na implantação de um modelo que instrumentalizará a gratuidade, sem colocar o cerne da questão da mobilidade que é, na prática, o capitalismo. Levantei essa questão quando trouxe na entrevista o exemplo da habitação: a gratuidade (ou quase) veio dentro de um modelo financeirizado de salvação empresarial que trouxe muitas vezes mais problemas urbanos e sociais do que soluções (individuais e parciais, muitas vezes logo perdidas pelo <a class="urlextern" title="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" href="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">endividamento</a> ou pela <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" href="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">violência</a>), como vemos no Minha Casa Minha Vida. Ou seja, já conhecemos essa ladainha. Ela é sedutora, vem junto com o progressismo nosso de cada dia, com a vontade de avançar dentro do possível, de ter vitórias em meio ao cenário perturbador de espoliação que vivemos, de poder respirar. Mas não podemos nos esquecer que ela cobra a fatura, sem dó. O almoço não é grátis, embora possa parecer &#8211; o que torna a coisa ainda pior politicamente, muitas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">Gregori, ao responder, chama atenção a isso:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, a mobilidade humana não é tratada como questão estrutural no capitalismo. A premissa básica de que a locomoção é elemento fundamental da existência humana &#8211; é um direito humano &#8211; está ausente dessa lógica.</p>
<p style="text-align: justify;">O debate que travamos aqui é singular. Se levado para a esquina, a discussão se restringirá à superlotação dos ônibus ou ao preço da passagem. Falta à sociedade capitalista a compreensão de que a mobilidade transcende a mera necessidade de ir do ponto A ao ponto B. É muito mais do que isso: a mobilidade das pessoas é fundamental na vida humana.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Questionei, nesse sentido, por que a mobilização popular em torno dos transportes é tão diferente de outros setores como a habitação, a saúde e a educação. Além de muito menor, por um lado, quando “acendeu o pavio” se alastrou como palha seca, sem controle, em 2013. Por um lado, tanto tempo entre a gestão municipal e as jornadas de junho e, por outro, a persistência do tema, que volta como espectro inevitavelmente com a pergunta “ser ou não ser, eis a questão”. Gregori foi cirúrgico:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que falta é uma discussão ampla que investigue a essência do problema. Do que estamos falando? De algo que envolve a cidade em sua totalidade. E percebe-se que essa visão integral simplesmente não existe. Há falta de mobilização popular em torno do tema, durante tanto tempo, simplesmente porque é um jogo que nunca foi jogado. Como é que a população ou o cidadão comum pode, de repente, do nada, formular isso?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso leva ao tema da totalidade das lutas &#8211; e da potencialidade da mobilidade nas lutas urbanas neste quesito &#8211; e, inevitavelmente, no ponto crucial: estamos perdendo. Erundina tem clareza desta conjuntura, ainda que não se acomode. Segunda ela:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua indagação sobre a mobilização popular toca em ponto crucial. Os movimentos sociais não exercem pressão suficiente porque a mobilização popular substantiva praticamente deixou de existir. Os partidos de nosso campo ideológico abandonaram o projeto de fomentar participação das bases. O resultado é a ausência de mobilização genuína, falta de participação popular, inexistência de hegemonia das classes populares e erosão do poder popular no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Perdemos o tecido social vibrante do período pós-ditadura, quando a sociedade estava mobilizada e resolvia problemas coletivamente através de organizações de base.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, esse cenário foi desmontado. O povo perdeu sua voz e a crença em sua capacidade de transformação. Consequentemente, pautas como mobilidade e moradia não geram mais apelo ou participação massiva. O poder popular foi esvaziado.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Daniel Santini fez a pergunta que não quer calar no tema da Tarifa Zero, replicando uma provocação que fiz a ele num congresso acadêmico da área de planejamento urbano. “A pior Tarifa Zero &#8211; que remunera bem os empresários, que não muda nada, estruturada num sistema precarizado &#8211; é melhor do que um sistema com cobrança?”. Erundina fecha a entrevista com essa resposta, que é uma pérola que coroa não só o tema da Tarifa Zero, mas a encruzilhada dos nossos tempos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eu não consigo deixar de falar disso. Retomando a questão da moradia: eu trabalho com isso desde o começo da minha vida, como assistente social. A moradia conquistada na marra, fazendo caminhada a pé até o Palácio do Governo para que se ligasse água e luz nas favelas, quando vinha, tinha um peso e uma importância para aquela população muito diferente. Porque ela se capacitava a partir daquela conquista para outras lutas e para outras conquistas. Por isso, um programa massivo de moradia, tipo Minha Casa Minha Vida, não contribui para mobilizar e para conscientizar o povo da própria força. Não pode ser comparado com aquela luta na qual o próprio povo conquista a moradia. Ou para urbanizar a sua favela, em vez de fazer uma casa própria, que ele vai pagar 30 anos, ou não vai nem mesmo conseguir pagar. Isso não é uma política que emancipa os setores populares.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a questão: não se faz mais política hoje nesse país, capaz de fazer com que as pessoas se emancipem, como se fez no passado. Nós conseguimos fazer aquele governo porque a gente vivia em um período de pós-ditadura militar, em um processo de redemocratização, onde se conquistou algum nível de emancipação popular.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós tivemos apoio popular para experimentar uma forma de ser governo no qual todo mundo governou. Por isso tem uma força que não termina nunca. Aquele governo continua, porque não foi um governo de uma pessoa, nem de um partido: foi um movimento social popular, num determinado momento da história política desse país que não acontece mais. Porque os partidos estão bitolados por um modelo dentro do capitalismo que até o povo tem direito a uma casinha, tem água na favela e outras tantas coisas, mas sem alterar as bases sobre as quais essa sociedade está construída…</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Como não se sentir tocada? Quem for ler a entrevista na íntegra, verá que quem começa falando e perguntando é Erundina, a entrevistada. Vi que seria difícil me colocar. Mas, ao final, na mesa do café, ela me agradeceu a entrevista, que tomou um rumo que ela não esperava, a fazendo também respirar outras brisas. Que nos inspiremos nesse encontro geracional, pois os desafios vindouros são grandes.</p>
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		<title>Velha Toupeira (39)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Feb 2026 12:59:22 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158743" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-681x227.jpg 681w" sizes="(max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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		<title>Good Bye, Kapital!? A Alemanha em queda</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/01/158595/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 12:43:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Alemanha]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[ As crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema. Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">O celebre filme “Adeus, Lênin!” retrata o fim da chamada Alemanha Oriental de uma forma tragicômica. O dedicado Alex tenta a todo custo esconder de sua mãe o fim da Alemanha socialista. No limite, após uma grande propaganda da Coca-Cola cobrir a lateral do prédio ao lado, de frente a sua janela, grava um telejornal com ajuda de um taxista e seus amigos informando a mãe que a Coca-Cola é uma criação comunista. Um lindo e amoroso filme que carrega nossa melancólica mágoa da derrota <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegando a contemporaneidade, parece que na Alemanha de 2025 a vida voltou a imitar a arte, porém com os sinais contrários e uma população inteira como coadjuvante. Literalmente tá entrando muita água no chopp da Alemanha capitalista. A principal economia do bloco derrete.</p>
<p style="text-align: justify;">O fechamento da Fábrica da Volkswagen em Desdren e a demissão de 35.000 operários é o símbolo maior desse grande rearranjo capitalista. A máquina capitalista mais potente da Europa começa a falhar. O país que há décadas importa migrantes do mundo inteiro hoje tem a mesma taxa de desemprego da última crise. No geral, parece uma operação complexa para a burguesia alemã esconder de milhões de trabalhadores que as suas vidas estão em risco. Sua propaganda é a clássica demagogia do inimigo externo o risco do comunismo invadir as ruas da Europa é sempre um ótimo argumento para justificar mudanças <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158606" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png" alt="" width="1920" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-300x169.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1024x576.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-768x432.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1536x864.png 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-747x420.png 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-640x360.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-681x383.png 681w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Produção industrial em queda</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Marx no capítulo 1, do livro 1 do Capital diz que “A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma &#8216;enorme coleção de mercadorias&#8217;”. Nós acrescentamos que a capacidade de manutenção e ampliação da produção determina os limites da dominação da burguesa e as possibilidades de luta dos trabalhadores <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste sentido, a situação da Alemanha merece atenção. Sua produção manufatureira, o motor da economia, vem decaindo e isto se espelha na política. Vamos aos dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1. Produção Anual da Manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit14" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2010</strong></td>
<td class="col1">90.5</td>
<td class="col2"><strong>2018</strong></td>
<td class="col3">105.0</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2011</strong></td>
<td class="col1">98.2</td>
<td class="col2"><strong>2019</strong></td>
<td class="col3">101.7</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2012</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2020</strong></td>
<td class="col3">92.7</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2013</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2021</strong></td>
<td class="col3">97.1</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0"><strong>2014</strong></td>
<td class="col1">99.0</td>
<td class="col2"><strong>2022</strong></td>
<td class="col3">96.9</td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0"><strong>2015</strong></td>
<td class="col1">100.0</td>
<td class="col2"><strong>2023</strong></td>
<td class="col3">95.8</td>
</tr>
<tr class="row6">
<td class="col0"><strong>2016</strong></td>
<td class="col1">101.1</td>
<td class="col2"><strong>2024</strong></td>
<td class="col3">91</td>
</tr>
<tr class="row7">
<td class="col0"><strong>2017</strong></td>
<td class="col1" colspan="3">103.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte : OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Produção trimestral da manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit15" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2024-T4</strong></td>
<td class="col1">92.5</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2025-T1</strong></td>
<td class="col1">93.4</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2025-T2</strong></td>
<td class="col1">92.8</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2025-T3</strong></td>
<td class="col1">91.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;">Na série histórica iniciada em 2015 até o 3° trimestre de 2025, observamos que a produção da economia alemã caiu quase 9%. Pode parecer pouco, mas precisamos ter em mente que o capital é acumulação, é investimento em cima de investimento, é aumento da máquina produtiva. Caso contrário a feroz concorrência pode levar a chama da acumulação a se apagar. Instantaneamente, o reflexo na vida do povo trabalhador é direto: aumento do desemprego, queda no poder de compra, políticas de austeridade, redução do Estado de bem-estar social, etc. A situação é tão delicada para os burgueses alemães que a névoa da guerra volta a assombrar os trabalhadores na Europa <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico 1 temos na linha laranja as despesas de consumo das famílias, linha verde investimentos em máquinas e equipamentos e a linha investimentos em construção civil. O mais relevante para nós é a linha verde, importante indicador da acumulação de Capital, que, como podemos ver, está em franca queda e bem distante do ponto máximo atingido em 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 1: Investimentos e consumo na economia alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158604" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png" alt="" width="967" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png 967w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-269x300.png 269w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-917x1024.png 917w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-768x858.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-376x420.png 376w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-640x715.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-681x761.png 681w" sizes="(max-width: 967px) 100vw, 967px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">Além do fechamento de fábricas, queda da produção e investimentos, outra coisa que será difícil a classe dominante alemã esconder dos trabalhadores é a queda nas exportações. No gráfico 2, temos na cor laranja o índice de crescimento das exportações e em azul o crescimento das importações.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 2. Crescimento da exportação e importação</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158601" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png" alt="" width="1080" height="1466" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-221x300.png 221w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-754x1024.png 754w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-768x1042.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-309x420.png 309w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-640x869.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-681x924.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">No meio desse baque econômico a burguesia alemã tenta esconder dos trabalhadores sua habilidade ímpar em fazer a vida virar morte. “Adeus, Lênin” é fichinha perto do que vem pela frente. Mesmo uma das opções clássicas para sair da crise, o desemprego, parece não estar funcionado. Segundo a chefe da Agência Federal de Emprego do país, Andrea Nahle, <a class="urlextern" title="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" href="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">as chances de desempregados na Alemanha encontrarem trabalho nunca foram tão baixas</a>. A taxa de desemprego está em 6.3%, igualando ao ponto mais alto durante a crise econômica de 2020, como podemos ver no gráfico abaixo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 3 — desemprego na Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158602" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png" alt="" width="922" height="464" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png 922w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-300x151.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-768x386.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-835x420.png 835w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-640x322.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-681x343.png 681w" sizes="auto, (max-width: 922px) 100vw, 922px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" href="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Bundesagentur für Arbeit</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A combalida saúde da economia Alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2025 <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" href="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">uma notícia no jornal DW destacou</a>: “A indústria automobilística emprega mais de um milhão de pessoas e há muito tempo é um termômetro da saúde econômica alemã”. A notícia segue com um preciso diagnóstico “as vendas estão encolhendo, empregos estão sendo cortados e fábricas enfrentam ameaças de fechamento”. Ou seja, como verificamos nos dados acima a saúde da economia alemã não vai bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Um do motivos é que sua menina dos olhos era o mercado chinês, isso mesmo, “era”. Segue o DW:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Houve tempos em que a participação de mercado da Volkswagen se aproximava de 50%. Até alguns anos atrás, as montadoras alemãs vendiam um em cada três carros no país asiático”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Porém, após 2008, o governo chinês passou a incentivar a produção de veículos elétricos, sendo o principal tipo de carro vendido na China atualmente.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Hoje, a cada dois <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" href="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">carros vendidos na China</a>, um é elétrico — e quase todos são de marcas chinesas. As vendas alemãs despencaram em seu mercado mais importante”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a notícia relata que diante da derrota sofrida pela burguesia alemã no mercado chinês, eles se voltam para a Índia, porém, enfrentando a concorrência dos carros indianos, coreanos, japoneses e agora dos carros chineses.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra notícia que explica o desengavetamento do empoeirado acordo com o Mercosul, parado há 25 anos, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" href="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">vem do próprio DW</a>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Para os defensores, como Alemanha e Espanha, este acordo, ao contrário, revitalizará uma economia europeia em dificuldades, enfraquecida pela concorrência chinesa e pelas tarifas dos Estados Unidos (…) Ao eliminar grande parte das tarifas, o pacto impulsionaria as exportações europeias de automóveis, máquinas, vinho e queijo”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Levando em consideração a grande importância da indústria automobilística que “há muito tempo é um termômetro da saúde economia alemã”, vamos focar um pouco mais em seus dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 4- Produção de veículos automotores: Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158603" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png" alt="" width="1200" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-300x125.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1024x427.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-768x320.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1008x420.png 1008w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-640x267.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-681x284.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" href="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">CEICDATA</a></p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico acima, observamos a grande queda vinda junto da última crise cíclica. Como de praxe, o padrão/patamar produtivo foi alterado, agora os carros elétricos são a bola da vez e a Alemanha não está acompanhando a toada. A queda em relação ao ápice ocorrido em 2025 é de 33%.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">matéria da BBC NEWS</a> observamos o busílis:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Todas as &#8216;três grandes&#8217; montadoras viram seus lucros antes dos impostos despencarem em cerca de um terço nos primeiros nove meses de 2024, e cada uma delas avisou que seus ganhos para o ano como um todo seriam menores do que o previsto anteriormente”, ou seja o cerne é a queda da taxa de lucro. Também pode ser verificado na queda vendas: “Entre 2017 e 2023, as vendas da VW caíram de 10,7 milhões para 9,2 milhões, enquanto, no mesmo período, as da BMW passaram de 2,46 milhões para 2,25 milhões, e as da Mercedes-Benz, de 2,3 milhões para 2,04 milhões, conforme mostram os relatórios das empresas”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para encerrar esse mapeamento das notícias no jornalão burguês, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" href="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais uma notícia do DW</a>, segundo Jan Brorhilker, sócio de umas das maiores consultorias empresariais do mundo, a Ernst &amp; Young:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“As empresas industriais estão sob imensa pressão” e “concorrentes agressivos, especialmente da China, estão forçando a queda dos preços, os principais mercados consumidores estão enfraquecendo, a demanda na Europa está estagnada em um nível baixo e há uma grande incerteza em torno de todo o mercado dos EUA”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158596" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg" alt="" width="1661" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg 1661w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-300x217.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1024x740.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-768x555.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1536x1110.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-581x420.jpg 581w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-640x462.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-681x492.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1661px) 100vw, 1661px" />Conexões e conclusões </strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Os cortes de gastos são mais fáceis de vender em nome da defesa do que em nome de uma noção generalizada de eficiência. Ainda assim, esse não é o propósito da defesa, e os políticos devem insistir neste ponto. O objetivo é a sobrevivência. O chamado “capitalismo liberal” precisa sobreviver e isso significa reduzir os padrões de vida para os mais pobres e gastar dinheiro para ir à guerra. Do estado de bem-estar social ao estado de guerra…”.</p>
<p style="text-align: justify;">E vão nesta toada: reduzindo gastos sociais, aumentando a capacidade de endividamento e, numa nova rodada, tendem a retomar a retirada de direitos dos trabalhadores <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Fechamos assim nosso último material sobre a Europa e com os dados acima sobre a Alemanha tudo se encaixa.</p>
<p style="text-align: justify;">Os investidores, governos, economistas, analistas, jornalistas e demais ideólogos burgueses se acostumaram com o fato de que em cada fim de ciclo econômico fosse sacrificada uma economia da periferia do capital. Foi assim com Argentina, Venezuela, Brasil, Grécia e outras. Dessa vez as coisas estão ocorrendo de outra maneira. Além das tradicionais vítimas da periferia do capital, entrou para o seleto grupo de economias combalidas a cada rodada de ciclo econômico uma importante economia do centro do capital, desde a crise de 2020 a economia da Alemanha continua em declínio. Em resumo, as crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra importante conclusão, a China durante décadas foi mercado de trabalho e consumo para as grandes empresas da Europa, porém em alguns setores as coisas começam a mudar, como vimos no caso dos carros elétricos. Nesse importante mercado a economia chinesa consegue praticar preços de produção bem menores que os seus concorrentes, porém, pelo fato da taxa de lucro tendencialmente diminuir, ela precisará de um mercado consumidor muito maior, como muito bem nos ensinou Marx no livro 3 do Capital e Rosa Luxemburgo em seu <em>Acumulação de Capital</em>. Nessa busca por mercados, além dos alemães, ela encontrará empresas dos EUA, França, Coreia do Sul e Japão. Se a tendência atual for confirmada e o capital sair do estado estacionário, veremos outra rodada de superação, ápice, crise e estagnação com retomada se iniciando.</p>
<p style="text-align: justify;">Levando em conta que nessa quadratura histórica as disputas por mercados assumem cada vez mais as características militares. Ou seja, a guerra e o protecionismo tomam a frente da economia-política, tudo fica às claras (arma na mesa e dedo em riste!).</p>
<p style="text-align: justify;">Neste novo momento do capital, com a necessidade do império-do-terror/coração-do-sistema se salvar, uma crise no coração do sistema tende a estar mais próxima. Com tudo isso no jogo, nos resta saber onde explodirá a nova destruição do capital a fim de retomar suas taxas de lucros perdidas e se agora com o velho e experiente proletariado europeu ameaçado ele há de se tornar classe para si novamente. No berço das revoluções ainda há muitos bebês para serem gerados e o céu, meus amigos, o céu deve ser atacado.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguimos afiando nossas armas para quando o carnaval chegar e nós descer! Até a próxima.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Derrota iniciada em 1921 com o massacre de Kronstadt. O pior é que nos lembra nossos amigos que tentam com todas as maneiras mostrar que os “socialistas de mercado” ou sem mercado (como Cuba) são superiores e tem ou tiveram vitórias que, se não fossem o malvado Capitalismo imperialista, seria a salvação do povo pobre do mundo. Este debate é complicado, mas partimos do pressuposto que estamos derrotados. Imóveis não, derrotados.<br />
<strong>[2]</strong> <strong>Charles Júnior e Antônio Carlos</strong>, <em>“Europa – do estado de bem-estar ao estado de guerra”</em>. In: <a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Chama</a> (03/06/2025)<br />
<strong>[3]</strong> Quando está tudo bem (emprego em alta, todo mundo comendo, pagando seus alugueis, bebendo seu chopp, comprando uma peita nova pro mozão e se reproduzindo a felicidade reina, quando as demissões começam a aparecer a vida aperta e os questionamentos ganham força.</p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>Velha Toupeira (37)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Dec 2025 08:50:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158419" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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		<title>O Alienista de Washington</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2025 12:18:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
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					<description><![CDATA[ A pergunta que fica é: porque o problema da estagnação da maior economia do planeta continua? Por Charles júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">Era um efervescente outubro de 1881 na capital do Império tupiniquim, em meio a um novo sistema eleitoral, debates abolicionistas e manifestações nas ruas. O Império estava ruindo. Já no Morro do Livramento, centro da cidade, Machado de Assis expressara o sentimento do imperador através do conto O Alienista <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No conto, Dr. Simão Bacamarte decide internar todos que considerava loucos. Chegando a querer internar a cidade inteira, exceto a si próprio. No final das contas, ou todos estavam loucos ou só ele seria o desajustado. Mais uma vez, a arte expressava a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Convenhamos, comparando com os acontecimentos da política mundial contemporânea seu conto seria bem menor que a realidade. Nos EUA, nosso amigo laranja vem matando a pau nas taxações de pessoas, países (empresas concorrentes) e políticos. Para alguns o pato estaria insano.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, esta é a forma como aparecem as atitudes de Trump e também nos mostra a limitada capacidade de observação do mundo pela esquerda democrática e outros reformadores sociais, os adeptos de que apenas a forma em sua simplicidade revela a totalidade das relações sociais (se fosse assim o papel da ciência seria nulo) <strong>[2]</strong>. Por isso, importam mais os escândalos pessoais, os berros e o teatro do que as intrínsecas relações na luta de classes mundial. <a class="urlextern" title="https://criticadaeconomia.com/2021/01/das-torres-gemeas-ao-capitolio/" href="https://criticadaeconomia.com/2021/01/das-torres-gemeas-ao-capitolio/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Já nos avisava nosso amigo Zé</a>: “depois do <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Macarthismo" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Macarthismo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">período macarthista</a> nos EUA [e no ocidente] a política tornou-se apenas uma monótona sucessão de fofocas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Inversamente, em nosso último material demonstramos que Trump foi um cadim melhor sucedido que seu antecessor, o decrépito Biden; que as tarifas são utilizadas de tempos em tempos nos EUA e Trump é sim a aposta da classe dominante estadunidense — sempre tendo em vista que o Capital é global, mas a burguesia é nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a pergunta que fica é: mesmo taxando boa parte das economias do mundo, mandado a polícia intervir em cidades importantes, demitindo trabalhadores do Estado em massa (junto a eles a chefe de estatísticas do Departamento do Trabalho), mediando guerras, explodindo barquinhos e ameaçando <a class="urlextern" title="https://www.google.com/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/12/06/joesley-levou-recado-de-trump-a-maduro-sobre-possivel-acordo-com-eua.htm&amp;ved=2ahUKEwjG546T76uRAxVClZUCHT4pO_oQFnoECBwQAQ&amp;usg=AOvVaw2sG9Exk3pAxJx38vgniwla" href="https://www.google.com/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/12/06/joesley-levou-recado-de-trump-a-maduro-sobre-possivel-acordo-com-eua.htm&amp;ved=2ahUKEwjG546T76uRAxVClZUCHT4pO_oQFnoECBwQAQ&amp;usg=AOvVaw2sG9Exk3pAxJx38vgniwla" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">invadir a Venezuela</a>, brigando e desbrigando com gregos e troianos porque o problema da estagnação (e da ingovernabilidade) da maior economia do planeta continua?</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, onde está seu voo de condor na maior economia do planeta Sr Bacamarte?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158395" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1.png" alt="" width="984" height="655" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1.png 984w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-300x200.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-768x511.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-631x420.png 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-640x426.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-681x453.png 681w" sizes="auto, (max-width: 984px) 100vw, 984px" />Para finalizar essa introdução, no conto machadiano, Dr. Bacamarte acaba descobrindo que o louco era ele próprio e determina sua própria internação. Na vida real, nosso Alienista de Washington também está tendo um momento de lucidez.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As razões do irracional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Até mesmo o irracional tem sua racionalidade. Trump incorporou Dr. Bacamarte não à toa, no atual ciclo econômico ele enfrenta um contexto de economia estacionária , sem os mesmos instrumentos dos ciclos econômicos anteriores para se defender, pois a economia dos EUA tem graves problemas de dívida pública, déficit orçamentário e da conta-corrente. Problemas esses herdados das saídas das crises anteriores, restou a Trump, como diz o jargão “trocar a roda com o carro andando”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Side note</em>: a bola de neve que Trump enfrenta hoje se inicia com a chamada crise das empresas ponto.com, na virada do milênio. Esta marca um ponto importante para nós — naquele ano tivemos a volta das crises econômicas similares às que ocorriam no período anterior a segunda guerra mundial, desde então, a cada nova crise cíclica, a próxima é sempre pior.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Assim, as tentativas de fugas clássicas para o estado atual da economia americana vêm de longa data. No entanto, agora nada parece funcionar. Guerras, comerciais e bélicas, caça às bruxas com o ICE e injeção de bilhões no mercado para segurar a chegada do urso em Wall Street.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso havia segurado a pletora de capital no coração do sistema, mas em alguma parte ela sempre estoura. E quem está pagando o pato (sic) desta vez são os derrotados da guerra da Ucrânia, a Alemanha e o resto da OCDE <strong>[3]</strong>. A corrida armamentista que <a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">adiantamos em junho</a> é um sinal da possível derrocada do bloco europeu: tende a retirar direitos, intensificar a exploração dos trabalhadores, aumentar impostos e rasgar dinheiro para tentar segurar seu declínio.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando aos EUA, tivemos <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/senado-dos-eua-projeto-shutdown.ghtml" href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/senado-dos-eua-projeto-shutdown.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">a maior paralisação do Estado Americano na história</a>. <strong>“Ele ocorreu pela falta de acordo entre Republicanos e Democratas no Senado, que precisa de três quintos dos votos da Casa para avançar em matérias relativas ao orçamento.”</strong> Paralisou boa parte da máquina estatal estadounidense. Foi tão surpreendente que paralisou até nossa análise (risos). Os dados não foram publicados na data prevista, quiçá organizados ou metrificados pelas agências responsáveis. Mas agora saiu. Vamos a eles:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1. Indústria de Bens duráveis nos EUA</strong></p>
<div class="table sectionedit14" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"></td>
<td class="col1">Produtividade</td>
<td class="col2">Produção</td>
<td class="col3">Horas Trabalhadas</td>
<td class="col4">Remuneração por hora</td>
<td class="col5">Custo Unitário do Trabalho</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">2024</td>
<td class="col1">0.4</td>
<td class="col2">-1</td>
<td class="col3">-1.5</td>
<td class="col4">4.4</td>
<td class="col5">3.9</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">2025 IT</td>
<td class="col1">6.6</td>
<td class="col2">7.2</td>
<td class="col3">0.6</td>
<td class="col4">7.1</td>
<td class="col5">0.5</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">IIT</td>
<td class="col1">3.2</td>
<td class="col2">3.5</td>
<td class="col3">0.3</td>
<td class="col4">4.1</td>
<td class="col5">0.9</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: <a class="urlextern" title="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" href="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">BLS</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Indústria de Bens não duráveis nos EUA</strong></p>
<div class="table sectionedit15" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"></td>
<td class="col1">Produtividade</td>
<td class="col2">Produção</td>
<td class="col3">Horas Trabalhadas</td>
<td class="col4">Remuneração por hora</td>
<td class="col5">Custo Unitário do Trabalho</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">2024</td>
<td class="col1 centeralign">0.4</td>
<td class="col2 centeralign">0.2</td>
<td class="col3 centeralign">-0.1</td>
<td class="col4 centeralign">2.8</td>
<td class="col5 centeralign">2.4</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">2025 IT</td>
<td class="col1 centeralign">-0.2</td>
<td class="col2 centeralign">-0.2</td>
<td class="col3 centeralign">0.0</td>
<td class="col4 centeralign">4.8</td>
<td class="col5 centeralign">5.0</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">IIT</td>
<td class="col1 centeralign">1.9</td>
<td class="col2 centeralign">1.3</td>
<td class="col3 centeralign">-0.6</td>
<td class="col4 centeralign">5.1</td>
<td class="col5 centeralign">3.1</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: <a class="urlextern" title="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" href="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">BLS</a></p>
<p style="text-align: justify;">No estado estacionário, os indicadores de produção e produtividade crescem em ritmos muito baixos, próximos de zero, a manufatura funciona a passos de siri, apenas pra não afundar. Porém, essa é uma situação que não pode durar muito tempo e é exatamente o problema que enfrenta a economia reguladora do sistema global.</p>
<p style="text-align: justify;">No ano de 2024 a produtividade de manufatura de bens duráveis <strong>[4]</strong> cresceu míseros 0.4% e a produção ficou abaixo de zero, situação que observamos de maneira mais clara desde 2023. Porém, nos dois primeiros trimestres de 2025, os indicadores ficaram bem acima dos anos anteriores, como podemos ver na tabela 1. Produtividade e produção com robustos crescimentos! Muita atenção, como dizia o saudoso Silvio Luiz “OLHO NO LANCE!” O custo unitário do trabalho apresentou um crescimento bem abaixo do ocorrido nos últimos anos. Afinal, o que esses dados representam?</p>
<p style="text-align: justify;">Existem duas hipóteses em discussão: seria a elevação da produtividade, aumento da produção e diminuição do ritmo de crescimento do custo unitário um efeito da implementação da IA nas empresas e/ou seria apenas um VOO de galinha, um último suspiro antes do afundamento da economia reguladora. Em defesa da primeira hipótese temos vistos estudos e dados de empresas, como o resumo de um estudo do MIT <a class="urlextern" title="https://exame.com/inteligencia-artificial/ia-ja-ameaca-117-dos-empregos-nos-eua-aponta-estudo-do-mit/" href="https://exame.com/inteligencia-artificial/ia-ja-ameaca-117-dos-empregos-nos-eua-aponta-estudo-do-mit/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">publicado na revista Exame</a>, que diz :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Os pesquisadores identificaram duas camadas de risco. A parte mais visível, associada a demissões e mudanças em tecnologia e TI, responde por 2,2% da exposição salarial, cerca de US$ 211 bilhões. A maior parte está em funções rotineiras de RH, logística, finanças e administração, que somam o restante do total estimado.” (Tradução livre)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Uma publicação da Infomoney mostra que as demissões nos EUA aumentaram bastante em 2025, essa publicação cita o relatório da consultora de recursos humanos Gray &amp; Christmas, que diz: <strong>“Períodos anteriores com tantos cortes de empregos ocorreram durante recessões ou, como foi o caso em 2005 e 2006, durante a primeira onda de automações que custou empregos na manufatura e tecnologia.”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se o estudo do MIT acima realmente se comprovar na prática, com a implementação da IA eliminando boa parte dos funcionários de RH, logística, finanças e administração implicará em eliminação de trabalhadores improdutivos e diminuição da composição orgânica do capital. Generalizando esse cenário em toda a manufatura, ocorrerá uma elevação da taxa de lucro <strong>[5]</strong>. Menos custos, maior produtividade e mais mais-valia para o capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria simples assim? Claro que não (risos). Aqui entra a parte sensível de nosso texto, pois a resposta para essas questões define todo o cenário que a classe trabalhadora enfrentará. Observamos que alguns dados melhoraram, os mais importantes do setor de ponta da economia dos EUA. Porém, estaremos atentos à evolução dos indicadores nos próximos trimestres.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos estar vendo a nova bolha da IA se manifestar antes da queda ou a elevação da produtividade sendo resultado da implementação da IA. Veremos a retomada da economia reguladora, uma exuberante expansão da produção e consequentemente o abafamento da luta de classes no centro do sistema, restando possibilidades de ruptura nos elos mais fracos, principalmente da periferia capitalista. Muito porque, em todo período de crise cíclica há queima de capital, seja onde for, há queima de capital (armamentos, cidades, fábricas, máquinas, rodovias, satélites, seja o que for que compõem o sistema produtivo global, capital fixo e variável &#8211; haverá queima).</p>
<p style="text-align: justify;">Caso o cenário de economia estacionária continue, nessa esteira teremos cada vez mais claro a velha dialética: aumento da ingovernabilidade, crise, guerras e revoluções!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Final note: A nova bolha, sic.</strong></em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">De acordo com Paul Kedrosky, um VC de longa data atualmente na SK Ventures, a bolha de IA é como se cada bolha anterior fosse lançada em uma outra (?). Há o elemento imobiliário. Há o elemento tecnológico. E, cada vez mais, há estruturas de financiamento exóticas sendo colocadas em prática para financiar tudo. <strong>[6]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a farra de investimento insustentável. E depois, além disso, fala-se de resgates e apoios do governo. A velha corrida contra a queda da taxa de lucro em seu atual contexto. Quem viver, verá!</p>
<p style="text-align: justify;">Neste episódio, percorremos algumas das matemáticas que seriam necessárias para justificar todos esses gastos e como as apostas aparentemente existenciais de “ganhar a corrida da IA” estão causando uma farra de investimento insustentável. Para que lado vai a crise e quem vai estourar será decidido nos próximos passos dos sanguessugas globais.</p>
<p style="text-align: justify;">A possível derrocada da Alemanha (leia-se OCDE) pode se alastrar pelo globo como epidemia, imaginem nos EUA, seria avassalador. O laço no pescoço da burguesia está se apertando, esperamos que continue. Algumas revoltas e pontos isolados continuam a estourar: Bulgária, Ásia, e até Portugal teve uma grande greve por estes dias.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas de uma coisa nós (e nossos amigos do Sinuca de Bico) temos certeza:</p>
<p style="text-align: right;"><em>O dia em que o morro descer e não for carnaval</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Na entrada, rajada de fogos pra quem nunca viu</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Guerra civil</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O povo virá de cortiço, alagado e favela</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Mostrando a miséria sobre a passarela</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Sem a fantasia que sai no jornal</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai ser uma única escola, uma só bateria</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Quem vai ser jurado? Ninguém gostaria</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que desfile assim não vai ter nada igual</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Não tem órgão oficial, nem governo, nem liga</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Nem autoridade que compre essa briga</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ninguém sabe a força desse pessoal </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: right;"><em><a class="urlextern" title="https://www.letras.mus.br/wilson-das-neves/1281422/" href="https://www.letras.mus.br/wilson-das-neves/1281422/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">(Wilson das Neves &#8211; O dia em que o morro descer e não for Carnaval)</a></em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> A Revolta dos Malês , a Guerra dos Farrapos, a Revolta da Balaiada, as Revoltas Liberais e a Revolução Praieira foram algumas marcas do descontentamento popular no império de D Pedro II. Tendo a Revolta dos Malês conquistado o retorno a África.<br />
<strong>[2]</strong> A forma é a expressão necessária do conteúdo, a porta de entrada para a investigação. Necessária, mas o ponto de partida, não o fim.<br />
<strong>[3]</strong> Ao que tudo indica, analisaremos a situação da Alemanha e da OCDE no próximo boletim.<br />
<strong>[4]</strong> Trataremos do setor de bens duráveis pois é o motor da economia estadunidense. Na tabela 02 é retratado o setor de bens de consumo não duráveis. Este é a base da manutenção da força de trabalho: alimentos, bebidas, cosméticos, produtos de limpeza e vestuário, atendendo necessidades diárias e imediatas dos trabalhadores. Ou seja, força de trabalho futura.<br />
<strong>[5]</strong> “Este é o maior total para outubro em mais de 20 anos e o maior total para um único mês no quarto trimestre desde 2008. Assim como em 2003, uma tecnologia disruptiva está mudando o cenário”, <a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/anuncio-de-demissoes-nos-eua-dispararam-em-outubro/" href="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/anuncio-de-demissoes-nos-eua-dispararam-em-outubro/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">diz o relatório</a>.<br />
<strong>[6]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one" href="https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one</a></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2025/12/158393/feed/</wfw:commentRss>
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		<title>RoboCop ou GloboPop?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/12/158358/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Dec 2025 13:28:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[O importante a destacar não é se as previsões sobre o desenvolvimento tecnológico se tornarão verdadeiras ou falsas, mas quais interesses se beneficiam com determinadas narrativas. Por Delirios Lutrinescos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Delirios Lutrinescos</h3>
<p style="text-align: justify;">Durante o último mês, abundaram notícias sobre a existência de uma bolha financeira no setor das empresas vinculadas à IA. A Bloomberg divulgou seu <a class="urlextern" title="https://archive.ph/OiqQo" href="https://archive.ph/OiqQo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">infográfico</a> evidenciando os investimentos circulares que buscam supervalorizar essas empresas. Até mesmo <a class="urlextern" title="https://www.businessinsider.com/ai-bubble-debate-business-leaders-sam-altman-bill-gates-2025-11#sam-altman-1" href="https://www.businessinsider.com/ai-bubble-debate-business-leaders-sam-altman-bill-gates-2025-11#sam-altman-1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Sam Altman</a> e <a class="urlextern" title="https://es-us.finanzas.yahoo.com/noticias/jeff-bezos-burbuja-ia-real-150000486.html" href="https://es-us.finanzas.yahoo.com/noticias/jeff-bezos-burbuja-ia-real-150000486.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Jeff Bezos</a> admitiram que, efetivamente, o setor está imerso em uma dinâmica de bolha.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desses diagnósticos alarmantes sobre o estado da indústria, os investimentos parecem seguir seu rumo e os CEOs dessas empresas continuam otimistas. O argumento que costuma ser apresentado é que, mesmo que exista certa supervalorização no mercado atual, o potencial revolucionário da tecnologia é real. Desde previsões de uma quarta revolução industrial, que culminaria em uma era de bonança econômica impulsionada por aumentos de produtividade, até cenários catastróficos onde o desenvolvimento iminente da Inteligência Artificial Geral (IAG) acabaria por subjugar a humanidade sob seu controle, iniciando uma nova era em que as máquinas dominariam o mundo. Ambas leituras compartilham a mesma premissa: a IAG é iminente e, para o bem ou para o mal, desencadeará uma reestruturação radical da sociedade como a conhecemos.</p>
<p style="text-align: justify;">Qual é, então, a evidência dessa nova era baseada na IA? Como dizia Carl Sagan, alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias. Até o momento, a OpenAI, a empresa maior e com maior potencial dentro do setor, tem uma valorização de mercado de <a class="urlextern" title="https://www.cnbc.com/2025/10/02/openai-share-sale-500-billion-valuation.html#:~:text=OpenAI%20wraps%20$6.6%20billion%20share%20sale%20at%20$500%20billion%20valuation" href="https://www.cnbc.com/2025/10/02/openai-share-sale-500-billion-valuation.html#:~:text=OpenAI%20wraps%20$6.6%20billion%20share%20sale%20at%20$500%20billion%20valuation" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">500 bilhões de dólares</a>. Ainda tendo <a class="urlextern" title="https://opentools.ai/news/openais-financial-paradox-massive-losses-amidst-revenue-surge" href="https://opentools.ai/news/openais-financial-paradox-massive-losses-amidst-revenue-surge" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">perdas de bilhões de dólares</a> todos os anos e com <a class="urlextern" title="https://www.ft.com/content/fce77ba4-6231-4920-9e99-693a6c38e7d5" href="https://www.ft.com/content/fce77ba4-6231-4920-9e99-693a6c38e7d5" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">custos de inferência que superam suas receitas</a>. A única razão pela qual a empresa continua à tona são os constantes investimentos de capital provenientes do mercado financeiro. Para cumprir com suas obrigações financeiras, a OpenAI precisa encontrar uma forma de aumentar suas receitas de <a class="urlextern" title="https://techcrunch.com/2025/10/14/openai-has-five-years-to-turn-13-billion-into-1-trillion/" href="https://techcrunch.com/2025/10/14/openai-has-five-years-to-turn-13-billion-into-1-trillion/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">13 bilhões de dólares para 1 trilhão em 5 anos</a>. Tudo isso enquanto os <a class="urlextern" title="https://blog.kilocode.ai/p/future-ai-spend-100k-per-dev?ref=wheresyoured.at" href="https://blog.kilocode.ai/p/future-ai-spend-100k-per-dev?ref=wheresyoured.at" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">custos de inferência tendem a subir</a>. Como a OpenAI conseguirá esse aumento de rentabilidade descomunal? Ninguém sabe. Por enquanto, a OpenAI perde dinheiro mesmo com <a class="urlextern" title="https://techcrunch.com/2025/01/05/openai-is-losing-money-on-its-pricey-chatgpt-pro-plan-ceo-sam-altman-says/" href="https://techcrunch.com/2025/01/05/openai-is-losing-money-on-its-pricey-chatgpt-pro-plan-ceo-sam-altman-says/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">suas assinaturas de 200 USD</a>. Poderia ser argumentado que, uma vez alcançada a IAG dentro dos próximos 5 anos, um modelo de negócio viável para sustentar esses investimentos surgiria naturalmente. O problema é que ninguém sabe se alcançar a IAG é sequer possível. O que sabemos, isso sim, é que os modelos atuais utilizados para os LLM (<em>Large Language Model</em>, Grandes Modelos de Linguagem) estão chegando <a class="urlextern" title="https://archive.ph/UmxbQ" href="https://archive.ph/UmxbQ" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ao limite de suas capacidades</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Perfeito, então a bolha existe e é de proporções bíblicas. Mas então por que os grandes empresários e os estados mais poderosos do mundo continuam investindo bilhões de dólares em seu desenvolvimento? A explicação provavelmente tem múltiplas facetas. Por um lado, as bolhas especulativas e as crises econômicas resultantes são um fenômeno recorrente no capitalismo. Do ano 2000 até hoje podemos mencionar pelo menos a bolha das empresas &#8220;ponto com&#8221; em 2000, a bolha imobiliária em 2008, assim como as múltiplas bolhas e golpes em torno das criptomoedas e NFTs de 2016 a 2020. As crises econômicas são tão inerentes ao sistema que até foram batizadas com um nome um pouco mais neutro: o “ciclo de negócios”. A irracionalidade do mercado leva a investir nos ramos onde se percebe o maior retorno sobre o investimento, mesmo que o crescimento seja fictício; o incentivo de poder revender ações a um preço maior é suficiente para alimentar a bolha. A análise de <a class="urlextern" title="https://fortune.com/2025/10/07/data-centers-gdp-growth-zero-first-half-2025-jason-furman-harvard-economist/" href="https://fortune.com/2025/10/07/data-centers-gdp-growth-zero-first-half-2025-jason-furman-harvard-economist/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Jason Furman</a> estima que 92% do crescimento da economia americana este ano se deve unicamente a investimentos de capital em IA; sem esse fator, sua economia estaria em recessão. Por sua vez, existem interesses militares e geopolíticos que impulsionam o envolvimento dos estados. O <a class="urlextern" title="https://www.fool.com/investing/2025/11/19/if-youd-invested-10000-in-palantir-stock-5-years-a/" href="https://www.fool.com/investing/2025/11/19/if-youd-invested-10000-in-palantir-stock-5-years-a/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">auge da Palantir</a> dá uma pista da capacidade atual e da expectativa futura depositada na IA para incrementar as capacidades bélicas, de vigilância e controle dos estados e empresas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158360 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169.jpg" alt="" width="1000" height="657" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-300x197.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-768x505.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-639x420.jpg 639w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-640x420.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/MV5BNTY3MDQyMDc1MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzY1MTEwMzE@._V1_-4162245169-681x447.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Suponhamos por um momento que o desenvolvimento da IAG dentro dos próximos 5 anos é factível. Quais são os custos ambientais que esses empresários estão dispostos a sacrificar para tentar conseguir isso? Recentemente,<a class="urlextern" title="https://www.cnbc.com/2025/09/23/sam-altman-openais-850-billion-in-planned-buildouts-bubble-concern.html?ref=wheresyoured.at" href="https://www.cnbc.com/2025/09/23/sam-altman-openais-850-billion-in-planned-buildouts-bubble-concern.html?ref=wheresyoured.at" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> Sam Altman anunciou um compromisso de desenvolvimento de infraestrutura de 17GW</a>, equivalente a 17 grandes usinas nucleares, para alimentar seus data centers. Em um contexto de crise climática global, uma ameaça civilizacional com um respaldo científico amplamente maior que o risco de uma IAG malévola, são necessárias reduções imediatas das emissões. Pelo contrário, esse aumento frenético da demanda energética está forçando a manutenção e intensificação da geração de energia a todo custo, mesmo das fontes <a class="urlextern" title="https://archive.ph/spRaU" href="https://archive.ph/spRaU" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais poluentes</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Existem múltiplos problemas ambientais adicionais ao consumo energético. Desde a geração de calor e o uso de água para sua refrigeração, até a geração de lixo eletrônico. Sendo que este último poderia escalar a níveis absurdos, dado que a corrida da IA força as empresas a adotar as GPUs mais modernas, que a NVIDIA lança no mercado anualmente. Da mesma forma, a depreciação das GPUs devido ao uso intensivo lhes dá uma vida útil de apenas <a class="urlextern" title="https://www.cnbc.com/2025/11/14/ai-gpu-depreciation-coreweave-nvidia-michael-burry.html" href="https://www.cnbc.com/2025/11/14/ai-gpu-depreciation-coreweave-nvidia-michael-burry.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">2 a 6 anos</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece grave, mas não há razão para se preocupar! Afinal, o <em>grande</em> <a class="urlextern" title="https://archive.ph/JrtlS" href="https://archive.ph/JrtlS" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Sam Altman opina</a> que a crise climática é um problema menor que a IAG será capaz de resolver facilmente. Este é exatamente o tipo de comentário que revela a mentalidade que os CEOs dessas empresas têm. Uma fascinação quase religiosa com o potencial dessa tecnologia. <em>Não importa a </em><a class="urlextern" title="https://link.springer.com/article/10.1007/s42113-024-00217-5#Sec16" href="https://link.springer.com/article/10.1007/s42113-024-00217-5#Sec16" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">evidência científica</a><em> nem os contrastes mais básicos com </em><a class="urlextern" title="https://archive.ph/hNmn9" href="https://archive.ph/hNmn9" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">a realidade</a><em>, a IAG é iminente e será capaz de resolver qualquer problema que ameaça a humanidade. Não sabemos quando nem como a IAG nos salvará (ou destruirá!), mas podemos contar com isso.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A falha central desse raciocínio é que todos os problemas existentes são percebidos como problemas meramente técnicos. A crise climática, por exemplo, seria simplesmente um problema que consiste em descobrir e implementar tecnologias superiores. Embora seja verdade que os avanços tecnológicos são necessários e extremamente úteis para alcançar uma economia sustentável com o meio ambiente, já sabemos em grande medida <a class="urlextern" title="https://www.nature.com/articles/d41586-022-04412-x" href="https://www.nature.com/articles/d41586-022-04412-x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">como solucionar a crise climática</a>. A razão pela qual ela segue seu curso é que afeta interesses políticos e econômicos. <a class="urlextern" title="https://news.harvard.edu/gazette/story/2023/01/harvard-led-analysis-finds-exxonmobil-internal-research-accurately-predicted-climate-change/" href="https://news.harvard.edu/gazette/story/2023/01/harvard-led-analysis-finds-exxonmobil-internal-research-accurately-predicted-climate-change/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Não é conveniente para as petroleiras</a> a eliminação dos combustíveis fósseis. A lógica de acumulação e crescimento exponencial mundial exigida pelo capitalismo é incompatível com a redução necessária da produção e do consumo. Assim como o aspecto técnico, os problemas sociais também têm seus aspectos econômicos e políticos.</p>
<p style="text-align: justify;">As tentativas de fazer futurologia são sempre trabalhosas e propensas a erros. O importante a destacar não é se as previsões sobre o desenvolvimento tecnológico se tornarão verdadeiras ou falsas, mas quais interesses se beneficiam com determinadas narrativas. Por enquanto, tanto as visões de uma quarta revolução industrial quanto as de uma Skynet alimentam a expectativa e os investimentos no setor de IA, aumentando a bolha atual. O desenvolvimento da técnica e da ciência não é alheio à sociedade; são moldados pelo contexto social, econômico e político no qual estão imersos. Em um sistema guiado pela acumulação e pelo crescimento perpétuo dos lucros, não podemos esperar outra coisa senão que os grandes desenvolvimentos tecnológicos beneficiem a continuidade dessa lógica em detrimento de qualquer utilidade social. Quando finalmente a bolha explodir, quem sairá perdendo e quem se beneficiará?</p>
<p style="text-align: center;"><em>As imagens que ilustram este artigo são do filme Metropolis (1927), de Fritz Lang</em></p>
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		<title>Auto-enquete no cu do mundo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Nov 2025 16:42:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Ou eu descanso ou me divirto. Me tornei um animal deprimido... Por Um trabalhador de uma fábrica em Goiás]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Um trabalhador de uma fábrica em Goiás</h3>
<p style="text-align: justify;">Nesse clima quente, da sua área dentro da fábrica faz um calor que te esgotou e esgota, o ar condicionado é insuficiente e não há possibilidades de pausas necessárias para esfriar o corpo, você é um não garantido, não se sabe se suportará o trabalho de segunda a sábado (ou de domingo a domingo, sensação do trabalho noturno) por conta do calor extremo ou por conta da rotina que se repete, de pé, numa máquina, apertando botões, vigiando uma esteira, montando caixas, num fluxo ininterrupto, a combinação dos dois fatores te garante a fadiga…</p>
<p style="text-align: justify;">Problemas com o RH, uma constante; à noite não possui atendimento presencial, e eles buscam escapar do contato presencial com burocracias, abre-se um chamado, a demora em ser atendido, a resposta é insatisfatória, não se resolve o problema, é preciso repetir o procedimento, mais 48 horas de espera, o app não presta, a senha não acessa mais, e os dados estão corretos, mas essa merda não funciona, você quer saber quando receberá o seu adicional noturno, quando chegará seu cartão do vale alimentação, já está atrasado há quatro meses, observou que no seu contracheque veio faltando, mas não há faltas, a máquina de ponto está novamente com problema, é preciso bater o ponto duas vezes, uma na máquina e outra no aplicativo, mas os dois dão problema, a incerteza de ter seu ponto registrado, a demora em ter sua digital reconhecida no aparelho, e aplicativo que não funciona, reset várias vezes no mês para atualizar a senha no aplicativo, a maioria desiste do app…</p>
<p style="text-align: justify;">A comida é dada, tem que aceitar o que é dado, diz que pode reclamar, mas será que prejudicaremos os trabalhadores da cozinha? Numa cidade onde a principal fonte de trabalho é o setor de indústria, todos estão confinados dentro das fábricas, 8 horas sem contato com luz natural, 6 dias na semana, sob regras que às vezes não fazem sentido, sob um discurso que o culpa enquanto eles dizem fazer tudo por nossa segurança, eles têm medo dos processos trabalhistas e da fiscalização e transferem a culpa para os trabalhadores, é preciso estar o tempo todo atento, a máquina desregulada pode prensar seu dedo, um operador de máquina desorientado pelo calor pode bater o carrinho em alguém, trabalho na roda de hamster, repete-se a rotina atrás da recompensa do salário, assim que paga as contas, as dívidas continuam, é preciso continuar a trabalhar, sem qualificação, é preciso buscar uma formação para poder subir de vaga, puxar sacos, aguentar humilhação, menos um dia aproveitado para si, o lazer são momentos fugazes em que se sacrifica o descanso para se ter lazer. Há um dilema inédito: ou eu descanso ou me divirto, me tornei um animal deprimido…</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158056" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17.webp" alt="" width="1228" height="1637" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17.webp 1228w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-225x300.webp 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-768x1024.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-1152x1536.webp 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-315x420.webp 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-640x853.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/b4147661-453e-463d-b96c-af4bae8ddd17-681x908.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1228px) 100vw, 1228px" />Mas eles oferecem petiscos, as migalhas da produção são jogadas nas mãos, são de presente, tudo aquilo que você produziu vira lucro e te dão de volta umas coisas que vocês fizeram, não é visto como um mínimo, você é convencido que recebeu uma dádiva, lá de cima olharam e jogaram alguns kits. Assim tu és convencido da bondade dos seus senhores… Mas a rotina se repete, transformados em polícia uns dos outros, vigiando a postura e relembrando das regras, vivendo regulado na rotina, mas ganhei alguns produtos, que eu não posso comprar com meu salário, produtos que eu ajudei a produzir, você participa em uma etapa do processo de produção, faz dez mil itens por dia, e tem de volta um copo que tu fabricou entre os milhares, eis a grande gentileza!!!</p>
<p style="text-align: justify;">Supervisionado, vigiado, governado, preso na rotina por um salário. O temporário não consegue entregar o atestado por conta do aplicativo que não funciona… a falta é descontada no contracheque, é preciso fazer a contestação, guardar provas de que se foi trabalhar, mas a máquina não funciona direito, está desregulada e não conseguiu ter acesso ao app, está dando problema…</p>
<p style="text-align: justify;">É por esse meio que eles evitam a dor de cabeça, terceirizando o trabalho de administração para o funcionário através dos dispositivos em sua mão, mas e se você estiver sem celular, sem internet, ou não sabe lidar com tecnologia e precisa de ajuda? Precisa contar com a ajuda e boa vontade dos outros, dos colegas de trabalho, dos filhos, do vizinho…</p>
<p style="text-align: justify;">Tenta contato humano, mas não há mais humanos no RH, cada vez mais sendo substituído por máquinas, quanto tempo mais até a sua função não ser mais necessária? Quando a máquina vai tomar o seu lugar? Precisa buscar qualificação, mas há tempo ou força pra estudar com qualidade? Recorre a EAD, curso técnico e tendo seu horizonte de superação limitado à promoção na fábrica, crescimento para a empresa, não para você, não tem mais tempo pra si.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida acabou, é necessário sobreviver. Não há vida mais, apenas uma escala 6×1!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram o artigo são de Jacques-André Boiffard (1902-1961)</em></p>
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		<title>A ilusão da radicalidade: Jones Manoel e o teatro da revolução (4)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157989/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Nicolas Lorca]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Oct 2025 10:52:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A vulgarização da teoria, ainda que vestida de pragmatismo, nada mais é do que a escolha pelo caminho da reforma. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Uma das posições mais recorrentes no campo da esquerda é aquela que defende a adaptação da crítica revolucionária ao nível de consciência imediata das massas. O argumento central é simples: como as massas se encontram em atraso político, qualquer esforço que vá além de sua consciência atual corre o risco de isolamento; por isso, seria necessário vulgarizar a teoria, simplificar a crítica e atuar nos limites do possível. Essa posição, no entanto, expressa um desvio fundamental do ponto de vista marxista: transforma a limitação objetiva do presente em justificativa para a renúncia da perspectiva revolucionária. Para o marxismo, a consciência das massas não é uma essência imutável, mas uma determinação histórica e social. O atraso político não é um dado natural, mas o resultado da dominação ideológica da burguesia, do peso das tradições conservadoras, da fragmentação do proletariado e do papel das instituições reformistas em amortecer os conflitos de classe. Adaptar-se a esse atraso significa, em última instância, reproduzi-lo. O papel da teoria revolucionária nunca foi simplesmente espelhar a consciência existente, mas desvelar a realidade objetiva das relações sociais e apontar para sua superação. Marx não escreveu <em>O Capital</em> para confirmar o que o operário já sabia, mas para revelar a essência oculta da exploração capitalista, mostrando que o salário não é a remuneração justa do trabalho, mas a forma mascarada da extração de mais-valia.</p>
<p style="text-align: justify;">A vulgarização do marxismo surge justamente quando, em nome da comunicação com as massas, a teoria é reduzida a slogans, frases de efeito e conteúdos adaptados ao consumo imediato. Não se trata de tornar a teoria acessível — tarefa legítima —, mas de amputar sua densidade ontológica para transformá-la em produto pedagógico e, cada vez mais, em mercadoria comunicacional. O marxismo, então, deixa de ser instrumento de organização da luta de classes e se converte em linguagem de identidade, em espetáculo de conhecimento. Essa adaptação, apresentada como aproximação das massas, cumpre a função inversa: preserva o atraso, bloqueia o salto da consciência e mantém o horizonte político dentro da ordem estabelecida. O problema do isolamento é, nesse sentido, mal colocado. A história mostra que todo movimento revolucionário verdadeiro nasce em isolamento relativo. Marx e Engels, no século XIX, eram minoritários frente às correntes dominantes do socialismo utópico e do reformismo. Lenin, antes de 1917, era isolado não só frente à burguesia, mas também dentro do próprio movimento operário russo, dividido entre mencheviques e populistas. Rosa Luxemburgo enfrentou o isolamento dentro da social-democracia alemã quando denunciou a traição parlamentar do SPD. Em todos esses casos, o isolamento não foi sinal de erro, mas de coerência diante da hegemonia burguesa e reformista. O verdadeiro perigo não está em ser minoria, mas em renunciar à crítica para evitar o isolamento. Isso conduz ao reformismo, que se dissolve na ordem e abdica da revolução em nome de uma integração supostamente pragmática.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-157995 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1955-300x193.jpg" alt="" width="412" height="265" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1955-300x194.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1955-341x220.jpg 341w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1955.jpg 544w" sizes="auto, (max-width: 412px) 100vw, 412px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista marxista, portanto, a posição que defende a adaptação ao atraso das massas não é uma estratégia de inserção, mas uma forma de legitimação da ordem. Ela naturaliza a debilidade da esquerda revolucionária e a transforma em argumento contra a radicalidade. Em vez de trabalhar pela elevação da consciência, reforça a lógica segundo a qual é preciso falar “apenas o que as massas querem ouvir”, mesmo que isso signifique renunciar à crítica do Estado, da mercadoria e da democracia burguesa. Essa é a essência do progressismo: oferecer às massas um simulacro de radicalidade que não ultrapassa os limites da sociedade capitalista. O marxismo exige outra postura. Reconhece as limitações do presente, mas não se adapta a elas. Mantém a crítica radical mesmo em isolamento, porque sabe que a função da teoria não é reproduzir a consciência existente, mas abrir caminho para sua superação. Como afirmou Rosa Luxemburgo, a alternativa segue posta: reforma ou revolução, socialismo ou barbárie. A vulgarização da teoria, ainda que vestida de pragmatismo, nada mais é do que a escolha pelo caminho da reforma — um caminho que, em última instância, leva à derrota histórica do proletariado. Essa discussão sobre reforma e revolução, sobre manter a crítica radical mesmo em meio ao isolamento, ajuda a iluminar também o uso histórico da própria sigla PCBR. Se hoje ela reaparece como desdobramento da crise recente do PCB, é preciso lembrar que já em 1968 o nome Partido Comunista Brasileiro Revolucionário carregava o peso de uma dissidência contra o etapismo e o pacifismo do velho Partidão.</p>
<p style="text-align: justify;">O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), surgido em 1968, inscreve-se em um momento histórico de crise da esquerda brasileira após o golpe de 1964. Sua fundação por Jacob Gorender, Mário Alves e Apolônio de Carvalho expressa uma cisão real com o PCB no plano programático, já que suas teses etapistas e a orientação pacifista se mostraram incapazes de enfrentar a ditadura militar. O PCBR nasce, portanto, sob o signo de uma radicalidade retórica: recusava a via democrático-burguesa e a estratégia de aliança com a burguesia nacional, defendendo a imediaticidade da revolução socialista e a centralidade da luta armada. No entanto, à luz do materialismo histórico dialético, essa ruptura mostrou-se parcial: apesar do discurso intransigente, o PCBR permaneceu preso às formas e ao imaginário burocrático do movimento comunista do século XX, reproduzindo a lógica do partido de vanguarda centralizado e hierárquico.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-157994 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/hyperbola-1954-300x241.jpg" alt="" width="413" height="332" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/hyperbola-1954-300x241.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/hyperbola-1954.jpg 435w" sizes="auto, (max-width: 413px) 100vw, 413px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O contraste entre o PCBR histórico e o PCBR de Jones Manoel é revelador: se o primeiro, fundado em 1968 por Mário Alves, Apolônio de Carvalho e Jacob Gorender, surgiu como cisão contra o etapismo e o pacifismo do PCB, reivindicando a imediaticidade da revolução socialista e a centralidade da luta armada, o segundo nasce como seu avesso, em plena adaptação à institucionalidade burguesa. Enquanto o PCBR original buscava negar as alianças com a burguesia nacional e recusava a via eleitoral, ainda que preso ao imaginário burocrático do partido de vanguarda, o projeto encabeçado por Jones assume a burocracia como forma e o reformismo como conteúdo, apostando numa frente eleitoral de “esquerda radical” que reedita, em chave digital, as velhas ilusões da conciliação. A ironia histórica é que, se o PCBR dos anos 1960 pecava pelo voluntarismo e pelo excesso de radicalidade estratégica, o PCBR de Jones se caracteriza pela ausência completa de horizonte revolucionário, limitando-se a administrar sua imagem midiática e a negociar alianças dentro da ordem. Trata-se, portanto, não de continuidade, mas de negação farsesca: a radicalidade histórica é substituída por um personalismo domesticado, que faz da ruptura apenas uma retórica vendável.</p>
<p style="text-align: justify;">O marxismo libertário de Otto Rühle e Anton Pannekoek fornece um ponto de partida decisivo para essa análise. Ambos denunciavam a burocratização do marxismo a partir do stalinismo, mas já em Lenin identificavam o germe de uma concepção autoritária da organização, que reduz a classe trabalhadora a massa de manobra de um partido dirigente. O PCBR, ao mesmo tempo em que criticava o etapismo e a conciliação do PCB, mantinha-se dentro do mesmo paradigma de vanguarda dirigente e centralização partidária, transferindo a mediação da emancipação para uma estrutura organizativa fechada, clandestina, hierárquica, incapaz de se constituir como auto-organização do proletariado. Nesse sentido, embora se apresentasse como alternativa revolucionária, não rompeu com o núcleo fundamental da ideologia da representação, que Nildo Viana aponta como uma das formas centrais de alienação política. A defesa da luta armada, embora historicamente compreensível diante da violência da ditadura, assume no PCBR um caráter militarista que carecia de lastro orgânico nas lutas concretas da classe. Maurício Tragtenberg, em sua crítica à burocracia sindical e partidária, mostrou como as organizações revolucionárias podem degenerar em aparelhos separados da classe, funcionando como substitutos ao invés de instrumentos da autoatividade popular. O voluntarismo armado do PCBR, ao não enraizar-se no cotidiano das lutas proletárias urbanas e camponesas, transformou a luta revolucionária em uma operação de comandos, mais próxima de um esquema militar do que de um processo de emancipação. Aqui se evidencia uma contradição central: ao pretender superar o reformismo, o PCBR acaba por cair no isolamento de pequenos grupos armados, afastando-se da perspectiva de massificação e auto-organização da classe trabalhadora.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-157993 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-300x226.jpg" alt="" width="414" height="312" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-300x226.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/untitled-1958.jpg 439w" sizes="auto, (max-width: 414px) 100vw, 414px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O documento do PCBR, ao propor a revolução socialista imediata, rejeita explicitamente a noção de “burguesia nacional progressista” e denuncia o imperialismo como núcleo da dominação. Trata-se de um avanço em relação à linha do PCB. No entanto, José Chasin nos lembra que o marxismo, enquanto ontologia da vida social, não pode ser reduzido a um receituário estratégico ou a um plano de poder. O PCBR ainda concebia a revolução como conquista de Estado e como reorganização da sociedade a partir de cima, sem romper com a forma-Estado e sem projetar a auto-emancipação do proletariado como sujeito histórico. Dessa forma, mesmo ao se colocar contra a conciliação, permanecia atado à lógica da reprodução da dominação por meio de novas formas de centralização política.</p>
<p style="text-align: justify;">A herança stalinista se manifesta também na concepção de partido. O PCBR defendia uma organização centralizada, com disciplina férrea e clandestinidade permanente. Essa forma, ainda que compreensível em face da repressão, reproduzia a ideia de que a consciência revolucionária deveria ser introduzida de fora da classe, cabendo a um núcleo dirigente a tarefa de conduzir as massas. Rühle já advertia que o partido político, nesse molde, deixa de ser instrumento e torna-se fim em si mesmo, desenvolvendo interesses próprios e afastando-se da autoatividade dos trabalhadores. O PCBR não rompeu com essa lógica; apenas a revestiu de um discurso mais radical e intransigente. À luz do materialismo histórico dialético, podemos compreender o PCBR como síntese de um movimento contraditório: representava, de um lado, a justa recusa ao reformismo do PCB e a tentativa de recuperar a perspectiva revolucionária; de outro, reincidia nos limites da tradição burocrática e militarista do comunismo do século XX. Como observa Nildo Viana, o marxismo revolucionário não se confunde com as formas degeneradas que se cristalizaram em partidos burocráticos e Estados socialistas, pois sua essência é a emancipação humana integral e a auto-organização do proletariado. O PCBR não foi capaz de realizar essa ruptura essencial.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-157990 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ear-of-earth-1960-300x241.jpg" alt="" width="465" height="374" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ear-of-earth-1960-300x241.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/ear-of-earth-1960.jpg 435w" sizes="auto, (max-width: 465px) 100vw, 465px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O saldo histórico do PCBR é, portanto, ambivalente. Seu heroísmo diante da ditadura e sua recusa à conciliação merecem ser reconhecidos. Mas a análise crítica nos obriga a perceber que sua derrota não se deveu apenas à repressão brutal do regime militar, mas também às suas próprias insuficiências teóricas e práticas: ausência de enraizamento de classe, concepção de partido burocrática, fetichização da luta armada e subordinação da emancipação à conquista do Estado. Em última instância, o PCBR é testemunho de como a radicalidade aparente pode conviver com a permanência de estruturas ideológicas herdadas, reforçando a necessidade de um marxismo antiautoritário e libertário. Hoje, revisitar esse documento é essencial para compreender a genealogia do reformismo e do radicalismo no Brasil. Ao passo que o PCB persistiu como força conciliadora, e figuras como Jones Manoel atualizam essa função em chave midiática e institucional, o PCBR representa a memória de uma ruptura inacabada. Sua crítica ao etapismo foi justa, mas sua prática não logrou realizar a emancipação. Para que a história não se repita como farsa, é preciso retomar o fio do marxismo libertário, que recusa tanto a conciliação parlamentar quanto a substituição militarista e recoloca no centro a autoatividade da classe trabalhadora como sujeito da emancipação.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 7 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157738/">Parte 1</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157779/">Parte 2</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157823/">Parte 3</a><br />
Parte 4<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/158027/" target="_blank" rel="noopener">Parte 5</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158060/" target="_blank" rel="noopener">Parte 6</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158100/" target="_blank" rel="noopener">Parte 7</a></em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são do pintor Nicolas Carone</em></p>
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		<title>A ilusão da radicalidade: Jones Manoel e o teatro da revolução (3)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157823/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Oct 2025 07:46:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Juventude]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Jones Manoel é menos um desvio pessoal e mais uma expressão de época. Ele é a versão digitalizada da social-democracia: um intelectual orgânico do reformismo, embalado em estética jovem e radical. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">O fenômeno Jones está atrelado à lógica da mercadoria e da forma-influenciador. Trata-se de um padrão de comunicação comum entre as mais variadas vertentes políticas. O influenciador se apresenta como professor popular, mas no mesmo gesto se converte em celebridade digital, dependente de likes, engajamento, monetização e patrocínios indiretos. A didática que poderia ser força de esclarecimento reproduz uma performance controlada pelo algoritmo, obediente às normas da plataforma. Sua figura pública opera, portanto, como um dispositivo de gestão ideológica: ao mesmo tempo em que denuncia o fascismo, reforça a legitimidade da democracia burguesa; ao mesmo tempo em que invoca Marx, recusa a radicalidade da luta de classes em nome de um horizonte eleitoral. A sua presença midiática é, assim, mais importante para conter do que para radicalizar. Jones, portanto, ocupa o papel didático de convencer novas multidões a apostar no velho e carcomido modelo democrático representativo, centrado na figura da liderança, daquele que condensa o anseio geral, transformando a política em chancela para o modelo burocrático-institucional.</p>
<p style="text-align: justify;">A própria forma do discurso de Jones evidencia essa contradição. Ele transforma a teoria revolucionária em produto comunicacional, esvaziando seu caráter ontológico e estratégico. Trata-se, em última instância, de um processo de vulgarização do marxismo, travestido de popularização. A vulgarização é o processo pelo qual uma teoria crítica, densa e inseparável da prática revolucionária é reduzida a fórmulas simples, slogans ou fragmentos de fácil assimilação, de modo a torná-la consumível dentro da lógica dominante. No caso do marxismo, isso ocorre quando categorias como luta de classes, exploração, mais-valia ou revolução deixam de ser conceitos que desvelam a totalidade da sociabilidade capitalista para se converter em palavras de ordem, analogias escolares ou “pílulas de conteúdo” ajustadas ao tempo de atenção das redes. Isso não é feito simplesmente para “tornar acessível” — o que pode ser tarefa legítima —, mas transformar uma teoria da emancipação em objeto de circulação mercantil, infantilizando o debate ao passo que se consuma como possível saída à política burguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">O marxismo, que nasceu para orientar a destruição do capitalismo, é desarmado e embalado como produto de ensino, como espetáculo pedagógico, como marca de identidade cultural. Isso é vulgarização: retirar a profundidade ontológica e o caráter estratégico da teoria para convertê-la em mercadoria simbólica. Adorno já denunciava que a indústria cultural reduz a obra de arte à sua função de distração; aqui, a forma-influenciador faz o mesmo com o marxismo, reduzindo-o a ferramenta de engajamento e lucro. A vulgarização é, portanto, a domesticação da crítica. Ela não é inocente: cumpre a função de neutralizar a radicalidade revolucionária, fazendo com que o marxismo pareça estar vivo, quando na verdade já foi convertido em conteúdo digerível, seguro e integrado à ordem capitalista.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157824 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp1.jpg" alt="A ilusão da radicalidade (3)" width="516" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp1.jpg 516w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp1-258x300.jpg 258w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp1-361x420.jpg 361w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp1-300x350.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 516px) 100vw, 516px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O lugar político que ele ocupa se revela sobretudo na relação com o progressismo. Jones, apesar de falar mal, funciona como legitimador cultural e acadêmico daquilo que o PT e a esquerda institucional representam: a administração da ordem. Vale dizer que o ataque à extrema-direita é cínico. É a crítica que nunca transborda, que nunca aponta para a ruptura efetiva. O que ele oferece ao público é a sensação de radicalidade, mas sempre contida dentro do quadro do possível burguês. Isso explica por que ele é convidado para grandes veículos, entrevistas na grande imprensa, participações em programas de alcance nacional: sua presença é a do “marxista domesticado”, controlado pelo aparato de mídia que o impulsiona. A forma-influenciador agrava essa contradição. Ao se projetar como figura pública, Jones depende estruturalmente das mesmas engrenagens que critica: a monetização das plataformas, a lógica do espetáculo, a cultura de engajamento e aos acordos com fascistas. Ele encarna a contradição denunciada por Adorno e Debord: o crítico que, ao entrar no espetáculo, passa a ser peça dele. O sujeito que fala em revolução de dentro do palco do capital digital acaba inevitavelmente neutralizado. O capital absorve sua crítica e a converte em mercadoria simbólica, gerando seguidores, views, financiamento e capital simbólico, além de prestígio que se converte em poder financeiro (geralmente concentrado).</p>
<p style="text-align: justify;">Essa função é ainda mais clara quando olhamos para o público que o segue. Muitos enxergam em Jones a porta de entrada para o marxismo. Mas o que encontram não é o marxismo enquanto teoria da revolução, mas o marxismo convertido em linguagem de curso online, palestra de YouTube e roteiro de comunicação. Isso produz uma base de jovens militantes formados não na práxis revolucionária, mas na lógica do consumo cultural. A consequência é a repetição de chavões, a dependência da figura de autoridade e a reprodução de uma militância sem organização real. Em lugar de partido revolucionário ou de conselhos proletários, forma-se uma comunidade de espectadores. Marx, Rosa Luxemburgo e Lukács não escreviam para entreter, mas para organizar e transformar. A pedagogia de Jones, por mais que pareça acessível, é pedagogia sem prática revolucionária, pedagogia que educa para a cidadania burguesa e para o horizonte eleitoral. É o marxismo desarmado, seguro, domesticado que funciona como mais uma porta para a dominação. E isso explica sua penetração em setores médios, universitários, professores e estudantes: ele oferece a estes uma forma de aderir ao marxismo sem precisar romper com o mundo em que vivem. A crítica marxista a essa figura não deve se limitar ao moralismo individual. Não se trata de apontar o dedo para Jones como indivíduo, mas de compreender o lugar social que ele ocupa: o lugar de gestor da crítica, mediador entre a radicalidade histórica do marxismo e a necessidade do capital de neutralizar essa radicalidade convertendo a crítica em instrumento de contenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Jones Manoel é, assim, menos um desvio pessoal e mais uma expressão de época. Ele encarna a necessidade do progressismo de renovar sua base simbólica, de falar a linguagem da juventude, de parecer radical sem jamais ultrapassar os limites da ordem. Ele é a versão digitalizada da social-democracia: um intelectual orgânico do reformismo, embalado em estética jovem e radical. A tarefa, então, é dupla: desmontar a forma-influenciador como limite estrutural da crítica e, ao mesmo tempo, recolocar o marxismo em seu terreno original — o da luta de classes, da organização proletária, da revolução.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157825 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2.jpg" alt="A ilusão da radicalidade (3)" width="750" height="480" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2-300x192.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2-656x420.jpg 656w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2-640x410.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/pp2-681x436.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 7 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157738/" target="_blank" rel="noopener">Parte 1</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157779/" target="_blank" rel="noopener">Parte 2</a><br />
Parte 3<br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157989/" target="_blank" rel="noopener">Parte 4</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/10/158027/" target="_blank" rel="noopener">Parte 5</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158060/" target="_blank" rel="noopener">Parte 6</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2025/11/158100/" target="_blank" rel="noopener">Parte 7</a></em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Aleksandr Deyneka (1899-1969).</em></p>
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		<title>A vida é uma ordem?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Sep 2025 16:46:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[O suicídio não é um fenômeno unívoco e quem se mata não é necessariamente um doente, um alienado mental. Viver não é preciso. Morrer também não. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<div class="level1" style="text-align: justify;">
<p>Acrescentei um ponto de interrogação a um verso de Carlos Drummond de Andrade no título da coluna. Mas não é exatamente sobre poesia que escrevo. Pensei em intitular a coluna como <em>Um livro corajoso</em>. Porque é disso que se trata aqui, uma resenha sobre um livro corajoso, que, diga-se de passagem, carrega um verso de Fernando Pessoa como título. A poesia é sempre útil quando estamos diante de situações limite. Além disso, li o livro corajoso pensando no verso de Drummond. A pergunta &#8211; a vida é uma ordem? &#8211; pressupõe duas possibilidades, a positiva e a negativa. Enfim, sem mais delongas, o livro corajoso trata de um tema difícil: suicídio. Posto isso, caro leitor, não hesite em interromper a leitura neste parágrafo, se preferir.</p>
<p>Albert Camus <strong>[1]</strong> cravou: “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.” O escritor franco-argelino <strong>[2]</strong> sabia que “começar a pensar é começar a ser atormentado”, mas não recuou. É que um belo dia surge o “por quê?” e não há escapatória. O cenário desaba. Tudo se transforma em lassidão e assombro. O absurdo se impõe. O universo ignora homem e sua nostalgia de unidade, seu apetite de absoluto, sua fome de soluções, sua ânsia de coesão, seu desejo desvairado de clareza. Ainda Camus <strong>[3]</strong>: “o absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo.” É preciso julgar se vale a pena viver uma vida finita num universo privado de luzes. Mesmo caminhando entre os escombros do cenário e tomado pela sensibilidade absurda, Camus <strong>[4]</strong> avançou na reflexão, rejeitou o suicídio e disse sim à existência: “Anteriormente tratava-se de saber se a vida devia ter um sentido para ser vivida. Agora parece, pelo contrário, que será tanto melhor vivida quanto menos sentido tiver.” Para o escritor franco-argelino, a questão era viver irreconciliado: partir da sensibilidade absurda &#8211; jamais abrir mão dela &#8211; e viver.</p>
<p>Tivesse elaborado a mesma reflexão no século XXI, especialmente se fosse interrompido na primeira parte do percurso, na etapa da negação; se fosse um trabalhador precarizado e não um escritor consagrado; Camus seria encaminhado a um serviço de saúde mental e, provavelmente, medicado. É que a vida foi transformada numa ordem inquestionável. É preciso viver, produzir e consumir. A indústria farmacêutica precisa vender. O capital exige trabalhadores/consumidores dóceis e produtivos. Se começar a pensar é começar a ser atormentado, por que não abrir mão do pensamento? Simples. Porque o ser humano é fundamentalmente um bicho que pensa, e é preferível morrer como um homem do que viver como uma planta! A reflexão pode levar à conclusão de que a vida não vale a pena; é raro, mas há sim o que Camus definiu como “suicídio filosófico”, um possível abrir mão da existência partindo da razão. É uma possibilidade e um risco. E viver é exatamente isso. Por outro lado, apesar do desmoronamento dos cenários e sem abrir mão da sensibilidade absurda, é possível concluir que, exatamente por isso, a vida será melhor vivida. Suponhamos que Albert Camus fosse um trabalhador desempregado tomado por pensamentos sobre o silêncio irracional do mundo e o caráter absurdo da vida, poderia ser encaminhado a um serviço de saúde mental, medicado e &#8211; é este é ponto importante &#8211; impedido de avançar na reflexão e impossibilitado de chegar, posteriormente, na rejeição do suicídio e na afirmação da vida. O trabalhador desempregado poderia ficar travado na primeira etapa do raciocínio, na fase da negação. Importante registrar: a reflexão sobre o silêncio irracional do mundo e o caráter absurdo da vida é mais importante para os romancistas do que para os trabalhadores desempregados. No caso do trabalhador do exemplo, caso decidisse dar fim na vida por conta própria, o desemprego provavelmente seria mais determinante que a reflexão filosófica. O que não depõe a favor da medicalização e da indústria farmacêutica, porque nenhuma das duas resolve questões sociais e existenciais.</p>
<p>Diogo de Oliveira Boccardi <strong>[5]</strong> publicou um livro corajoso e intrigante: <em>Viver não é preciso: discursos sobre suicídio no século XXI</em>. O verso do poeta Fernando Pessoa &#8211; “viver não é preciso” &#8211; é um achado que encaixa perfeitamente. Não há precisão nem no viver nem no morrer, especialmente para quem decide por fim na própria vida. É o que aparece em todo o livro, desde o prefácio até a conclusão, passando pela introdução e os três capítulos, que são: 1. <em>Mais aquém ou mais além do suicídio: saber e subjetivação</em>; 2. <em>“Conjecturas”</em> <em>e “Refutações”: o suicídio segundo o Dr. Ubu; </em>3. <em>O suicídio que se vive e o que se narra: casos clínicos</em>. Boccardi mostra como o entendimento sobre o ato de se matar evoluiu até chegar na sociedade neoliberal do século XXI. O histórico não é aprofundado porque não é o objetivo do autor, mas serve para localizar as ideias, além de deixar pistas e referências interessantes para quem quiser se aprofundar. A crítica do terapeuta e pesquisador mira na medicalização e na biologização do fenômeno suicídio, que a sociedade neoliberal limitou a objeto de estudo e de intervenção para o saber médico. Por trás da manobra &#8211; encaixotamento do fenômeno suicídio na caixinha do saber médico &#8211; se esconde a demanda do capital por indivíduos adaptados, dóceis e produtivos. Só que, se é verdade que a indústria farmacêutica e o saber médico se desenvolveram intensamente nas últimas décadas; como explicar o crescimento paralelo da taxa de suicídios? A resposta é razoavelmente simples: o fenômeno suicídio é complexo e ultrapassa as possibilidades explicativas e de intervenção da indústria farmacêutica e do saber médico.</p>
<p>Na sociedade neoliberal o suicida é considerado um doente e um fora da lei. A ordem é viver para produzir e consumir. Se é assim, quem se mata não chega a subverter, mas descumpre um mandamento social. Corajosamente, o terapeuta e pesquisador Diogo de Oliveira Boccardi mostra como o discurso segundo o qual a vida indiscutivelmente vale a pena é socialmente construído e interessado, além de ser moralizante e limitado. A vida não é uma graça divina, indiscutível e irrecusável, ainda mais numa sociedade despedaçada pelo capital. Boccardi problematiza a abordagem sanitária e preventivista, questiona a compreensão do suicídio como fenômeno individual e obrigatoriamente patológico (às vezes atentar contra a própria vida não é a questão central, registrou, corajosamente, o pesquisador). Na sociedade neoliberal, ao contrário do que se poderia imaginar à primeira vista, até se discute o fenômeno suicídio. Mas sempre de uma perspectiva pré-determinada e patologizante, excluindo de antemão qualquer possibilidade de conceber o ato de tirar a própria vida como uma decisão possível. Boccardi problematiza o moralismo e senso comum neoliberal. O suicídio não é um fenômeno unívoco e quem se mata não é necessariamente um doente, um alienado mental. Viver não é preciso. Morrer também não. É necessário discutir o fenômeno suicídio, mas sem moralismos e mistificações que desconsideram quem desvia das normas e padrões.</p>
<p>O encaixotamento do fenômeno suicídio na caixinha do saber médico leva a pensar a questão de forma patologizante. Daí o emprego de termos como “contágio” e a utilização dos “fatores de risco”. Se é assim, trata-se de identificar fatores de risco e meios de prevenção, que em geral passam por confinar, conter e vigiar. As práticas e os discursos moralistas e patologizantes transformam “os sujeitos em objetos do manejo dos clínicos” <strong>[6]</strong>. Boccardi discute dois dos principais fatores de risco para suicídio referenciados pela literatura especializada &#8211; os transtornos mentais e o uso de substâncias psicoativas &#8211; de uma perspectiva teórica. Outros fatores risco &#8211; idade, gênero, desesperança, desemprego, doenças crônicas, conflitos familiares, eventos adversos na infância e na adolescência &#8211; são problematizados nos casos clínicos recriados pelo pesquisador. Destaco dois: <em>A mulher mais bonita da quebrada</em> e <em>O retorno de Diógenes</em>.</p>
<p>Cassiana é o nome fictício da mulher mais bonita da quebrada. Sofreu abusos sexuais do pai, do irmão e de um amigo deste. “Por ser bonita meu pai me estuprava” <strong>[7]</strong>. Fugiu de casa aos 12 anos. “Casou” com um homem quase vinte anos mais velho. Não escapou da violência, passou a sofrer com abusos praticados pelo “marido”. Pariu um menino quando tinha 15 anos e uma menina antes de completar 18 anos. Conseguiu se separar e foi morar com uma amiga aos 23 anos. Com 30 anos casou com um traficante possivelmente homossexual e interessado em manter uma relação de fachada para ocultar a própria sexualidade. Mas tempos depois se envolveu com outro homem e começou a apanhar do marido traficante. Isolada e sem rede de apoio, enforcou-se em casa, com as cordas do varal <strong>[8]</strong>: “o corpo desnudo mostrava as marcas de um espancamento recente.” Num grupo de mulheres organizado pelo serviço de saúde mental &#8211; quando se discutiam questões como autoestima, autocuidado e beleza -, a mulher mais bonita da quebrada comentou <strong>[9]</strong>: “Não quero pensar em ficar bonita, sabe? Quero ficar invisível um pouquinho…” Impossível isolar o caso de questões de gênero, do machismo, do patriarcado, do tráfico, da pobreza, do desemprego, da falta de acesso. Os limites do saber médico são evidentes no caso da mulher mais bonita da quebrada.</p>
<p>Oscar é o nome fictício do morador de rua de 62 anos. O título do caso clínico &#8211; <em>O retorno de Diógenes</em> &#8211; é uma referência ao filósofo homônimo. Oscar tinha sotaque lusitano e percorria a cidade com um carrinho de supermercado, ferramentas e dois gatos. Tirando a vontade de morrer, não havia indícios de transtornos psiquiátricos. Não atentava com violência contra a própria vida, buscava a morte se privando de comer e beber. A situação se repetia: desmaiava, era socorrido, se recuperava e se frustrava por continuar vivo. Mesmo informando que não havia nada de errado, que apenas gostaria de morrer, foi encaminhado para o serviço de saúde mental. Discutia tranquilamente com os profissionais de saúde <strong>[10]</strong>: “As pessoas dizem se preocupar comigo, mas só se preocupam que meu corpo esteja funcionando. Não me permitem ser quem sou hoje, um homem que quer morrer. Também não se permitem ser elas mesmas. Acho que as pessoas precisam mudar a importância que dão para as coisas, as regras que seguem sem pensar.” Chegou a ser encaminhado para um hospital psiquiátrico, recebeu alta e o diagnóstico de transtorno depressivo, “mas os próprios psiquiatras não estavam muito convencidos.” <strong>[11] </strong>Oscar morreu mais ou menos como Diógenes. Estava enrolado numa manta fina, atrás de um supermercado, numa manhã fria. Amigos e profissionais de saúde improvisaram um funeral para o homem que queria morrer <strong>[12]</strong>: “a impressão de todos era que Oscar havia finalmente alcançado o que por tanto tempo contemplara.” Diogo Boccardi aproximou a história do homem que queria morrer do filósofo homônimo. Já eu fiquei pensando em Camus, no <em>Mito de Sísifo</em> e em Oscar, que julgou que, naquele momento, que a vida não valia a pena. Era o tal “suicídio filosófico”.</p>
<p>Nos anos 1930, Carlos Drummond de Andrade <strong>[13] </strong>escreveu um poema marcante, <em>Os ombros suportam o mundo</em>:</p>
<p style="text-align: center;">[…]</p>
<p style="text-align: center;"><em>Alguns, achando bárbaro o espetáculo,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>prefeririam (os delicados) morrer.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Chegou um tempo em que não adianta morrer. </em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>A vida apenas, sem mistificação. </em></p>
<p>Quanto mais avançava na leitura de <em>Viver não é preciso: discursos sobre suicídio no século XXI</em>, de Diogo Boccardi, mais me ocorriam os versos de Drummond e a sensação de que, no tempo presente, a vida é uma grande desordem. A imposição da vida como uma ordem é uma mistificação, como sabem os “delicados”. O que fazer quando os ombros não suportam o mundo? Como lidar com os delicados que preferem morrer? Com respeito e sem mistificações! Boccardi <strong>[14]</strong>: “Não há acolhimento possível sem reconhecimento da liberdade e da singularidade, sem garantia de cidadania àquilo que legitimamente pode divergir, sem respeito à alteridade. Assim, não deve surpreender que as estratégias coercitivas-compassivas não tenham logrado reduzir a incidência de suicídios.” Boccardi <strong>[15]</strong> novamente: “Deve haver solidariedade e abertura para compreender, em cada ocorrência suicida &#8211; sejam pensamentos vagos, tentativas não letais, mortes -, sua singularidade &#8211; como, singulares são as vidas”. O tema é espinhoso e difícil, mas a coragem e o humanismo de Diogo Boccardi recompensam com vantagem. A vida não é uma ordem, especialmente no tempo presente, mas ainda há livros corajosos.</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p><strong>[1] </strong>Albert Camus. <em>O mito de Sísifo</em>. 34. ed. Rio de Janeiro: Record, 2025. p. 17.</p>
<p><strong>[2] </strong>Camus, op. cit., p. 19.</p>
<p><strong>[3] </strong>Camus, op. cit., p. 42.</p>
<p><strong>[4] </strong>Camus, op. cit., p. 67.</p>
<p><strong>[5] </strong>Diogo Oliveira Boccardi. <em>Viver não é preciso: discursos sobre suicídio no século XXI. </em>Rio de janeiro: Via Verita, 2024.</p>
<p><strong>[6] </strong>Boccardi, op. cit., p. 177.</p>
<p><strong>[7]</strong> Boccardi, op. cit., p. 138.</p>
<p><strong>[8] </strong>Boccardi, op. cit., 144.</p>
<p><strong>[9] </strong>Boccardi, op. cit., 143.</p>
<p><strong>[10] </strong>Boccardi, op. cit., 157.</p>
<p><strong>[11]</strong> Boccardi, op. cit., 158.</p>
<p><strong>[12] </strong>Boccardi, op. cit., 160.</p>
<p><strong>[13] </strong>Carlos Drummond de Andrade. <em>Nova reunião: 23 livros de poesia</em> &#8211; volume 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p. 99.</p>
<p><strong>[14] </strong>Boccardi, op. cit., 131.</p>
<p><strong>[15] </strong>Boccardi, op. cit., 178.</p>
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