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	<title>China &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Eterno Loren Goldner</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Apr 2024 19:38:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autorais]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Ele leva consigo sua trajetória militante e nos deixa a memória, e um mundo por transformar. Por Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No dia 13/04 soubemos do falecimento do militante marxista estadunidense Loren Goldner. <a href="https://libcom.org/comment/625774" target="_blank" rel="noopener">Algumas pessoas aventaram a possibilidade de sua morte ter ocorrido há poucos meses atrás</a>, faltando a confirmação, mas o que ocorreu foi a piora de sua saúde ao longo do tempo, o que o levou a se afastar de suas atividades. Mesmo alguns militantes próximos e amigos estranharam sua ausência, além da falta de manutenção de seu site. Um usuário do Libcom, que disse ter sido seu amigo, confirmou há dois dias a tragédia.</p>
<p style="text-align: justify;">Goldner faleceu em Filadélfia e seu corpo foi cremado. Uma comunidade próxima se voluntariou para <a class="urlextern" title="https://bthp23.com/" href="https://bthp23.com/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">manter o registro</a> de seus artigos dos mais antigos aos recém publicados.</p>
<p style="text-align: justify;">Os leitores lusobrasileiros podem acessar em português o artigo <a class="urlextern" title="https://breaktheirhaughtypower.org/notas-para-uma-critica-do-maoismo/" href="https://breaktheirhaughtypower.org/notas-para-uma-critica-do-maoismo/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Notas para uma crítica do maoísmo</a>, além dos artigos que publicamos em nosso website (<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2011/09/45757/" href="https://passapalavra.info/2011/09/45757/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2017/02/110658/" href="https://passapalavra.info/2017/02/110658/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2017/03/111108/" href="https://passapalavra.info/2017/03/111108/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/08/133530/" href="https://passapalavra.info/2020/08/133530/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2009/08/10231/" href="https://passapalavra.info/2009/08/10231/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>). Goldner dedicou sua vida a noticiar e refletir sobre as lutas. Leva consigo sua trajetória militante e nos deixa a memória, e um mundo por transformar.</p>
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		<title>Cão que ladra&#8230; e morde</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 Jun 2023 11:00:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[ Um comediante chinês fez uma piada comparando o Exército chinês com cães vira-latas que gostam de correr atrás de esquilos. A coisa repercutiu nas redes sociais, o homem foi preso e a empresa que o contratou multada em mais de 13 milhões de yuans. Uma usuária reagiu respondendo “por que razão deveria ser silenciado? Os irmãos soldados não são todos uns cães?” e também foi presa. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um comediante chinês fez uma piada comparando o Exército chinês com cães vira-latas que gostam de correr atrás de esquilos. A coisa repercutiu nas redes sociais, o homem foi preso e a empresa que o contratou multada em mais de 13 milhões de yuans. Uma usuária reagiu respondendo “por que razão deveria ser silenciado? Os irmãos soldados não são todos uns cães?” e também foi presa. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Uma busca por hardwares seguros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 May 2023 13:34:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
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					<description><![CDATA[A oferta de hardwares (mais) seguros torna-se fundamental ao bem-estar social. Conhecer e incentivar as iniciativas desses equipamentos é uma forma de impulsionar essa oferta. Por Marcelo Tavares de Santana.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana[*]</h3>
<p style="text-align: justify;">Atualmente vemos um infeliz embate entre duas potências econômicas, China e Estados Unidos da América, a respeito de espionagem utilizando tecnologia móvel celular 5G. O primeiro é acusado pelo segundo de espionagem através de aparelhos produzidos na China, e o segundo teve um esquema de vigilância global revelado por <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Snowden" target="_blank" rel="noopener">Edward Snowden</a>. Essa disputa tecnológica aumenta nossa atenção sobre segurança digital de diversos pontos de vista. Como do lado do <em>software</em> temos diversas soluções amadurecidas graças ao movimento do Software Livre, cabe estudarmos um pouco mais o lado do <em>hardware</em>, que é um dos principais pontos de disputa das duas potências. Antes é preciso entender alguns aspectos dos dispositivos digitais computacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem todo dispositivo digital é computacional, alguns usam circuitos específicos com funções como controlar estados de lâmpadas, e não podem capturar e enviar dados sensíveis via rede de computadores. Quando um dispositivo é digital e computacional, é preciso um <em>software</em> específico para iniciar as funções de baixo nível (de <em>hardware</em>) para que o equipamento possa ser utilizado, e em alguns casos iniciar um sistema operacional. Como esse <em>software</em> vem instalado no equipamento pela empresa fabricante (firma) ele é normalmente chamado de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Firmware" target="_blank" rel="noopener"><em>firmware</em></a>. Nos processadores modernos, além das centenas de milhões de transistores, temos também <em>softwares</em> instalados chamados de microcódigo, que funcionam como <em>firmware</em> do processador. Por serem programas de computador, <em>firmware</em> e microcódigo podem ser atualizados para correções de falhas e de segurança, mas também podem conter código malicioso.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes que pareça que a disputa tecnológica tenha sentido, é importante ressaltar que códigos maliciosos sempre podem ser descobertos com outros programas de testes que, por exemplo, verificam se existem mais dados que o esperado sendo enviados. Governos, fabricantes e desenvolvedores sabem disso e não há por que entrarmos em paranoia e desconfiar de tudo que compramos, mas também não podemos ignorar os casos que foram descobertos. Atualmente nós mesmos podemos controlar ou encontrar um <em>smartphone</em> perdido a distância pelo navegador de Internet, e consequentemente também é possível a outros o fazer e por isso é importante que tenhamos cada vez mais alternativas de equipamentos auditáveis, e temos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma iniciativa importante nesse cenário é a <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/RISC-V" target="_blank" rel="noopener">RISC-V</a>, um conjunto de instruções abertas para fabricação de processadores que vem sendo cada vez mais produzidos, a ponto de termos algumas possibilidades de computadores de trabalho e entretenimento (exceto jogos); encontramos no mercado internacional placas RISC-V com processador de quatro núcleos 64bits, 1,5GHz, 8GB de RAM, vídeo HDMI etc., suficientes para tarefas de escola/escritório e Internet. Por exemplo, o <a href="https://wiki.pine64.org/wiki/STAR64" target="_blank" rel="noopener">mini computador Star64</a>, da Pine64, tem suporte para vídeo 4K, WiFi 6, Bluetooth 5.2, rede Gigabit etc. Nesse sentido, uma boa informação é que a maioria dos roteadores WiFi domésticos usam processadores de uma arquitetura chamada MIPS, a qual temos <em>firmwares</em> livres que podem ser instalados em alguns modelos; inclusive algumas fabricantes fornecem esses programas com licenças livres. DD-WRT e OpenWRT são exemplo de <em>firmwares</em> livres que podem ser instalados em roteadores WiFi e que aumentam nosso controle sobre os equipamentos, é inclusive recomendável consultar suas listas de equipamentos compatíveis (via <a href="https://dd-wrt.com/support/router-database/" target="_blank" rel="noopener">DD-WRT</a> e <a href="https://openwrt.org/supported_devices" target="_blank" rel="noopener">OpenWRT</a>) antes de comprar pois assim é possível conseguir atualizar o equipamento mesmo após o fabricante encerrar o suporte.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso de computadores de alto desempenho, até mesmo para executar jogos sofisticados, podemos encontrar computadores com o <em>firmware</em> livre &#8220;coreboot&#8221;, como os <em>notebooks</em> da Purism e da System76, ambos também com Linux pré-instalado. Até mesmo no mercado de <em>smartwatchs</em> encontramos dispositivos que caminham para arquiteturas e <em>firmwares</em> livres, com processadores RISC-V e sistema operacional baseado em <em>software</em> livre. É o caso de dispositivos que utilizam o <a href="https://docs.zepp.com/docs/reference/related-resources/device-list/" target="_blank" rel="noopener">Zepp OS</a>, que é baseado no <em>software</em> livre FreeRTOS (de Real Time Operation System).</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez que a humanidade está cada vez mais computadorizada, a oferta de <em>hardwares</em> (mais) seguros com arquiteturas e programas livres ou abertos torna-se fundamental ao bem-estar social, pelo aumento da auditabilidade, cooperação de desenvolvimento, correção de falhas e atualizações de segurança. Conhecer e incentivar as iniciativas desses equipamentos é uma forma de impulsionar essa oferta. No caso de <em>smartphones</em>, procuro comprar equipamentos que sejam suportados pela comunidade do <a href="https://wiki.lineageos.org/devices/" target="_blank" rel="noopener">LineageOS</a>, pois posso instalar esse sistema quando o suporte oficial acabar e também dar sobrevida ao uso do aparelho, além da segurança de usar algo que vem com vários aplicativos não desejados colocados pela empresa.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, segurança em <em>hardware</em> pode demandar planejamento orçamentário, pois os equipamentos mais sofisticados costumam ser mais visados por desenvolvedores para soluções abertas. Eu mesmo tenho um projeto antigo de ter minha nuvem pessoal funcionando de minha casa usando uma solução de <em>software</em> como o <a href="https://freedombox.org/download/" target="_blank" rel="noopener">FreedomBox</a>, e agora com um mini computador RISC-V Star64 e três discos para arquivos de toda família, portanto, não é uma solução que encontramos facilmente pronta para usar.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto essas soluções mais seguras não ficam mais acessíveis, é importante atualizarmos <em>firmwares</em> dos nossos equipamentos, além das atualizações de sistemas operacionais e aplicativos. Para Linux existe um serviço de atualização de <em>firmwares</em> que é funcional e simples, o Linux Vendor Firmware Service, que tem uma <a href="https://fwupd.org/lvfs/devices/" target="_blank" rel="noopener">lista interessante de equipamentos</a> com alguns vendidos no Brasil. Outra opção é manter equipamentos <em>dual boot</em>, usando o Linux no dia-a-dia e o Windows para fazer as atualizações de <em>firmware</em>, considerando que muitas atualizações desse tipo são fornecidas pelos fabricantes para o segundo sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando às disputas tecnológicas dos dois países, sempre houve a opção de um acordo de uso de tecnologias auditáveis e, na prática, algumas empresas chinesas não foram afetadas pelas sanções estadunidenses pois já produziam equipamentos com processadores RISC-V. Até a Huawei, uma das principais atingidas pelas sanções, substituiu em seus projetos peças proibidas pelos EUA e se prepara para voltar ao mercado do país, isso se não surgirem novas sanções.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer forma, precisamos ficar atentos às atualizações de <em>firmware</em> de nossos equipamentos. Os de rede e Internet costumam ser os mais esquecidos, e se for o fornecido pela operadora do serviço de banda larga será essa a responsável por atualizar o equipamento. Segue sugestão de atualização:</p>
<ul>
<li>Semana 1: reúna os manuais de seus equipamentos, ou busque na Internet;</li>
<li>Semana 2: estude como fazer a atualização de <em>firmware</em> de cada um, normalmente a atualização é encontrada no <em>site</em> do fabricante;</li>
<li>Semana 3: baixe e atualize <em>firmwares</em> dos equipamentos de rede;</li>
<li>Semana 4: baixe e atualize <em>firmwares</em> de computadores e outros dispositivos.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">A busca e estudos por <em>hardwares</em> mais seguros continuará, inclusive por soluções que poderão ser adotadas por qualquer um a fim de podermos formar uma rede de serviços compartilhados em nossas casas de forma segura e intuitiva.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>[*]</strong> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
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		<title>A Revolta na China: Resistência aos lockdowns, repressão e precariedade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Mar 2023 03:00:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[A nossa solidariedade popular através das fronteiras é a melhor forma de atenuar as tensões e de construir uma luta internacional comum. Por Yun Dong]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Yun Dong</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Manifestantes jovens e furiosos em Xangai confrontaram os policiais que os cercavam, demandando liberdade e gritando: “Vocês não deveriam servir ao povo?!”. Centenas de pessoas se reuniram na noite de 26 de novembro [de 2022] na Rua Urumqui, em Xangai, que serviu como local simbólico para realizar vigílias em homenagem às vítimas do incêndio em um grande prédio residencial em Urumqui, capital da província de Xinjiang.</p>
<p style="text-align: justify;">O incêndio levou à morte de pelo menos dez pessoas e feriu outras nove de diferentes famílias. Foi preciso três horas para que ele fosse apagado. Os manifestantes acreditam que as vítimas poderiam ter sido salvas se o complexo residencial não estivesse sob um <em>lockdown</em> devido à Covid, apesar das alegações do governo de que a tragédia não tinha nada a ver com o <em>lockdown</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">As mortes deram início a um <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2022/11/25/world/asia/china-fire.html" href="https://www.nytimes.com/2022/11/25/world/asia/china-fire.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">motim em Urumqui</a> que durou toda a noite de 25 de novembro[de 2022], com manifestantes reunidos em ruas e espaços públicos, exigindo que o governo alivie as restrições. Urumqui tem sido submetida a repetidos <em>lockdowns</em> há meses, então as pessoas já estavam fartas e temiam que algo como o incêndio no edifício residencial estivesse prestes a acontecer.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-147959" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-870x580-1.jpg" alt="" width="870" height="580" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-870x580-1.jpg 870w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-870x580-1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-870x580-1-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-870x580-1-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-870x580-1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-870x580-1-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 870px) 100vw, 870px" />O governo local impôs medidas duras e perigosas que incluíam o isolamento não apenas de complexos de apartamentos, mas a vedação de apartamentos individuais com barras de ferro e novas trancas que impediam as pessoas de saírem de suas casas. Todos aqueles sujeitos ao <em>lockdown</em> já se perguntaram o que aconteceria se ocorresse um incêndio.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguiram-se protestos em todo o país nas universidades, nas comunidades e nas ruas de Xangai, Pequim, Guangzhou, Chengdu e em outros lugares, em uma poderosa demonstração de raiva pela perda evitável de vidas e devido às frustrações com os <em>lockdowns</em> contra Covid. Até agora, houve ações em mais de 50 universidades e faculdades em toda a China.</p>
<p style="text-align: justify;">Os estudantes pediam, de várias formas, por: liberdade, democracia, liberdade de expressão, estado de Direito e protestavam contra o regime autoritário do Partido Comunista Chinês. Estudantes da prestigiada Universidade de Pequim cantaram a “Internacional”, que é ensinada na escola e representa o espírito de revolta vindo de baixo, enquanto estudantes da Universidade de Tsinghua e de outros lugares erguiam pedaços de papel em branco para simbolizar o luto pelas vítimas, desafiando e zombando da censura política.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma estudante da Universidade de Tsinghua falou com uma voz trêmula: “Se não ousarmos falar por causa do nosso medo de sermos presos, acho que as pessoas ficarão desapontadas com a gente.” Para a esmagadora maioria dos manifestantes, essa foi a sua primeira manifestação. Não houve nada parecido na China nessa escala e tão abertamente contra o governo em décadas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma Revolta contra os <em>Lockdowns</em></strong></h4>
<p style="text-align: justify;">É simplesmente impressionante a rapidez com que massas de pessoas se levantaram e desafiaram o governo e as suas políticas. Vale ressaltar que a rebelião segue logo após Xi Jinping garantir um terceiro mandato no altamente orquestrado <a class="urlextern" title="https://www.aljazeera.com/news/2022/10/23/xi-jinping-secures-historic-third-term-as-chinas-leader" href="https://www.aljazeera.com/news/2022/10/23/xi-jinping-secures-historic-third-term-as-chinas-leader" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">teatro político</a> do XX Congresso do Partido em meados de novembro.</p>
<p style="text-align: justify;">Xi encheu o evento com seus aliados e garantiu que não houvesse alternativas à sua nova equipe de liderança. A análise política dominante acreditava que Xi havia garantido o poder total e o controle sobre a China pelos próximos anos. Agora, os trabalhadores e estudantes destruíram essa ilusão.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-147964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-shaanxi-province-xian-terra-cotta-high-res-stock-photography-81478177-1555510629.jpg" alt="" width="2121" height="1414" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-shaanxi-province-xian-terra-cotta-high-res-stock-photography-81478177-1555510629.jpg 2121w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-shaanxi-province-xian-terra-cotta-high-res-stock-photography-81478177-1555510629-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-shaanxi-province-xian-terra-cotta-high-res-stock-photography-81478177-1555510629-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-shaanxi-province-xian-terra-cotta-high-res-stock-photography-81478177-1555510629-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-shaanxi-province-xian-terra-cotta-high-res-stock-photography-81478177-1555510629-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-shaanxi-province-xian-terra-cotta-high-res-stock-photography-81478177-1555510629-2048x1365.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-shaanxi-province-xian-terra-cotta-high-res-stock-photography-81478177-1555510629-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-shaanxi-province-xian-terra-cotta-high-res-stock-photography-81478177-1555510629-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-shaanxi-province-xian-terra-cotta-high-res-stock-photography-81478177-1555510629-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 2121px) 100vw, 2121px" />Aparentemente do nada, no final de outubro, os trabalhadores que montavam iPhones e outros produtos eletrônicos de consumo na mega fábrica da Foxconn em Zhengzhou, Henan, que emprega mais de 200.000 trabalhadores, começaram a <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/world/china/fearing-covid-workers-flee-foxconns-vast-chinese-iphone-plant-2022-10-31/" href="https://www.reuters.com/world/china/fearing-covid-workers-flee-foxconns-vast-chinese-iphone-plant-2022-10-31/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">pular os muros e fugir</a> da fábrica. As imagens de longas filas de trabalhadores caminhando com as suas malas confundiram o público, pois foi algo que não era visto recentemente.</p>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores, muitos dos quais são temporários contratados para a época de pico, foram colocados sob o chamado <a class="urlextern" title="https://labourreview.org/foxconns-great-escape/" href="https://labourreview.org/foxconns-great-escape/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">sistema de circuito fechado</a>. Esse sistema proíbe os trabalhadores de deixarem as instalações sob o pretexto de os proteger da infecção pelo coronavírus.</p>
<p style="text-align: justify;">O motivo subjacente, é claro, é manter os trabalhadores produzindo nas empresas multinacionais para a próxima temporada de compras. Apesar do sistema de circuito fechado, alguns trabalhadores contraíram o vírus e, em seguida, por medo de um surto em massa e de ficarem presos em um <em>lockdown</em>, trabalhadores começaram a fugir da fábrica.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob pressão pública, a Foxconn pediu desculpas e permitiu que os trabalhadores saíssem. O governo local continuou ajudando a Foxconn a recrutar novos trabalhadores temporários com ofertas de altos bônus e ordenou que os trabalhadores estatais do local se apresentassem para o trabalho a fim de manter a fábrica em operação.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a Foxconn alterou os termos dos acordos de trabalho, reduzindo os salários dos trabalhadores. Se sentindo enganados e traídos, os trabalhadores começaram um motim, saindo pelo portão da fábrica e entrando em conflito com os seguranças e a polícia. O governo respondeu impondo um <em>lockdown</em> para toda a cidade de Zhengzhou visando interromper o protesto. O que começou como uma disputa trabalhista se transformou em um motim que chamou a atenção de todo o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes que a poeira baixasse na Foxconn, o incêndio em Urumqui desencadeou um motim. A tentativa do governo local de apaziguar as pessoas em Urumqui ao aliviar o <em>lockdown</em> não conseguiu sufocar a resistência. O incêndio foi a gota d&#8217;água para um país empurrado até o limite pelos <em>lockdowns</em></p>
<p style="text-align: justify;">As pessoas começaram a agir coletivamente e em grande escala por todo o país. O que os tumultos na fábrica da Foxconn e em Urumqui demonstraram ao público é que é possível resistir às duras restrições devido à Covid: as pessoas organizaram protestos, e isso forçou a Foxconn e o governo local a começar a mudar.</p>
<p style="text-align: justify;">A expansão de tristeza e raiva após o incêndio foi comparado à reação à morte do Dr. Li Wenliang, que denunciou e protestou contra o tratamento inicialmente inepto e repressivo do governo contra a pandemia, gerando uma onda de oposição ao governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde então, muitos se perguntaram para onde esse espírito havia ido e foram atingidos pela “depressão política” graças a aparente aceitação da nova política de zero Covid. No entanto, parece que o espírito inicial de resistência nunca esteve longe da superfície. A Foxconn e Urumqui reanimaram esse espírito massivamente.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Ondas de Resistência Local</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A resistência resulta de uma confluência de catalisadores imediatos e de dinâmicas políticas e econômicas de longo prazo. Uma certa barreira político-psicológica foi quebrada para um grande número de pessoas, levando-as a perder o medo da prisão num Estado altamente vigiado e a juntar-se a manifestações de massa. Em um ambiente em que as consequências por participar na expressão aberta de dissidência na rua são muito altas, atravessar esse limiar em si é notável.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-147966" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/7541.jpg" alt="" width="1200" height="627" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/7541.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/7541-300x157.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/7541-1024x535.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/7541-768x401.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/7541-804x420.jpg 804w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/7541-640x334.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/7541-681x356.jpg 681w" sizes="(max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Acredita que a China não experimentou qualquer forma aberta de dissidência, como <a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/journal/two/picking-quarrels/" href="https://chuangcn.org/journal/two/picking-quarrels/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">tumultos, protestos em massa e manifestações</a>, é uma ficção. Na verdade, a China teve ondas de protestos e greves em grande escala nos anos 1990, 2000 e no início dos anos 2010. O governo chinês costumava documentar o que denominava ”<a class="urlextern" title="https://www.ft.com/content/9ee6fa64-25b5-11df-9bd3-00144feab49a" href="https://www.ft.com/content/9ee6fa64-25b5-11df-9bd3-00144feab49a" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">incidentes em massa</a>”, o que nunca foi claramente definido. No entanto, o termo demonstrava a resistência social contra as desigualdades e opressões da China contemporânea.</p>
<p style="text-align: justify;">Estes incidentes aumentaram de 8.700 em 1993 para 87.000 em 2005 &#8211; ou 238 incidentes todos os dias do ano &#8211; quando o governo parou de divulgar os números. Em 2013, dois ativistas começaram a recolher estatísticas sobre a agitação social. Antes da sua prisão, eles registaram mais de 28.000 incidentes em massa em 2015.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse número é, sem dúvida, uma contabilização insuficiente. Os ativistas não dispunham de recursos para documentar o número total muito mais elevado de incidentes em todo o país. A maioria deles é causada por disputas trabalhistas, tomada de terras e outros conflitos rurais, além de protestos contra políticas de habitação urbana. Houve também protestos ambientais e confrontos com notórios burocratas da gestão urbana.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas ações têm sido locais e os manifestantes tendem a evitar criticar o governo nacional, culpando os funcionários locais ou os empregadores na esperança de evitar a repressão e persuadir o governo nacional a tomar o seu lado nas disputas. Ainda assim, elas demonstram que as pessoas na China têm um longo histórico de protestos contra as injustiças.</p>
<h3 style="text-align: justify;"><strong>O Fim de uma Era de Relativa Paz Social</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Visto sob essa luz, a onda nacional de protestos contra os <em>lockdowns</em>, os apelos por mais liberdade e democracia e as denúncias de autoritarismo são extraordinárias e sem precedentes na história recente. Os protestos são contra mais do que apenas as restrições impostas devido à Covid; são contra a crescente intrusão do governo na vida quotidiana das pessoas. Trata-se de um novo desenvolvimento.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir dos anos 2000, o Estado chinês retirou-se da esfera privada, pelo menos para a classe média urbana e alguns setores da classe trabalhadora industrial. O governo retirou-se dessa esfera para permitir o desenvolvimento de uma sociedade de consumo burguesa, na qual o consumo de bens e o entretenimento eram experimentados pelas pessoas livres da intromissão do governo.</p>
<p style="text-align: justify;">É simplesmente impressionante a rapidez com que massas de pessoas se levantaram e desafiaram o governo e as suas políticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante o mesmo período, entre os anos 2000 e o início dos anos 2010, a sociedade civil parecia florescer, com as organizações tornando-se mais presentes em questões sociais, e os meios de comunicação impressos e as redes sociais sendo mais agressivos no trabalho de responsabilizar o governo. Naturalmente, milhões de trabalhadores foram explorados por empresas estatais e privadas e restringidos por políticas estatais que regulam a sua mobilidade, e o Partido-Estado restringiu a <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2015/07/23/world/asia/china-crackdown-human-rights-lawyers.html" href="https://www.nytimes.com/2015/07/23/world/asia/china-crackdown-human-rights-lawyers.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">atividade política</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-147963" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-soldiers.jpg" alt="" width="1920" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-soldiers.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-soldiers-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-soldiers-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-soldiers-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-soldiers-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-soldiers-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-soldiers-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-soldiers-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Por outro lado, as pessoas de classe média e da classe trabalhadora não temiam a interferência do Estado em suas vidas privadas. Com a economia nesse ponto ainda crescendo rapidamente, o aumento dos padrões de vida para a maioria parecia compensar a rígida negação pelo Estado de liberdade e democracia.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><em>Lockdowns</em> e Precariedade Econômica</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A Política de Covid Zero de Xi Jinping e seus <em>lockdowns</em> mudaram tudo isso. De repente, a liberdade de circulação e a vida quotidiana das pessoas tornaram-se sujeitas ao controle direto do Estado, e a desaceleração do crescimento da economia chinesa comprometeu a visão das pessoas quanto às suas perspectivas futuras. No entanto, a oposição à intrusão do Estado demorou a se desenvolver.</p>
<p style="text-align: justify;">As políticas de combate à Covid do governo foram inicialmente toleradas como parte do esforço coletivo para derrotar a COVID-19. Na verdade, a raiva inicial com a propagação da Covid foi dirigida à falta de ação do Estado para conter o vírus. Havia um medo genuíno de se infectar, o que não só poderia deixar as pessoas doentes, mas também colocá-las em hospitais e instalações de quarentena por longos períodos.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o <em>lockdown</em> em Wuhan nos primeiros meses de 2020 e os <em>lockdowns</em> subsequentes em todo o país foram amplamente aceitos, até mesmo celebrados. Eles eram vistos como sacrifícios necessários para proteger a vida das pessoas. Mas, na realidade, o Estado estava impondo suas novas políticas de Covid Zero não apenas para parar a pandemia, mas também para reprimir os crescentes conflitos sociais que surgiram na década de 2010 e salvar o capitalismo chinês.</p>
<p style="text-align: justify;">A maioria das políticas do Estado chinês nos últimos anos, a exceção da Covid zero, destinava-se principalmente a reduzir os excessos especulativos nos setores de alta tecnologia e imobiliário e a restaurar o crescimento econômico. O Estado também assumiu um papel mais ativo no incentivo aos casais para terem mais filhos, visando superar a <a class="urlextern" title="https://www.ft.com/content/199c92ca-4f1e-4898-9152-d021936f6ab4" href="https://www.ft.com/content/199c92ca-4f1e-4898-9152-d021936f6ab4" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">crise demográfica iminente</a> precipitada pelas baixas taxas de natalidade e pelo envelhecimento da população.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isto resultou em uma maior intervenção do Estado na economia e na sociedade. A política de Covid zero levou então a intrusão a um nível sem precedentes. A nova política draconiana do Estado de implementar os <em>lockdowns</em> certamente não era a única opção.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos primeiros meses da pandemia, as redes de <a class="urlextern" title="https://lausancollective.com/2020/mutual-aid-and-the-rebuilding-of-chinese-society-part-1/" href="https://lausancollective.com/2020/mutual-aid-and-the-rebuilding-of-chinese-society-part-1/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ajuda mútua</a> em Wuhan e outros locais mostraram uma alternativa. As pessoas entregavam equipamentos de proteção, transportavam trabalhadores médicos e ajudavam os residentes necessitados. Elas trabalharam para preencher o vácuo deixado pela inação do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso foi encerrado assim que o Estado interveio e assumiu o controle do combate à pandemia. Desde então, o Estado utiliza a sua capacidade de mobilizar pessoal e recursos para fazer cumprir a política de Covid zero. Durante grande parte de 2020 e 2021, ele parecia ter sido bem-sucedido.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto muitos outros países sofreram enormes perdas de vidas e crises econômicas, a China alegadamente manteve o seu número de mortos abaixo de alguns milhares e manteve o crescimento econômico até 2021. A vida das pessoas parecia voltar ao normal. O governo se aproveitou do aparente sucesso para estimular o nacionalismo.</p>
<h3 style="text-align: justify;"><strong>Raiva Acumulada</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso foi desfeito ao longo do ano passado. Em 2022, algumas cidades estão em <em>lockdown</em> há semanas ou meses. Os “Grandes Brancos”, que é como os trabalhadores médicos vestidos com trajes de proteção eram coloquialmente chamados, haviam sido vistos antes como heróis fazendo sacrifícios pessoais pelo bem coletivo, mas agora tornaram-se impessoais executores de duras políticas estatais.</p>
<p style="text-align: justify;">As pessoas compartilharam imagens nas redes sociais deles perseguindo e espancando pessoas vistas como violando os protocolos contra a Covid. Os trajes de proteção tornaram-se agora máscaras para esconder as identidades desses executores, proporcionando-lhes anonimato e com isso a confiança para se envolverem na repressão com impunidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-147965" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/iStock_157182240_China_Xian_Terracotta_Warriors_letterbox.jpg" alt="" width="1920" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/iStock_157182240_China_Xian_Terracotta_Warriors_letterbox.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/iStock_157182240_China_Xian_Terracotta_Warriors_letterbox-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/iStock_157182240_China_Xian_Terracotta_Warriors_letterbox-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/iStock_157182240_China_Xian_Terracotta_Warriors_letterbox-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/iStock_157182240_China_Xian_Terracotta_Warriors_letterbox-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/iStock_157182240_China_Xian_Terracotta_Warriors_letterbox-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/iStock_157182240_China_Xian_Terracotta_Warriors_letterbox-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/iStock_157182240_China_Xian_Terracotta_Warriors_letterbox-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Uma série de incidentes relacionados com a Covid minou ainda mais a confiança na Covid zero. Aqui estão apenas alguns exemplos: um ônibus levando pacientes infectados para uma instalação de quarentena bateu, matando <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/news/china/politics/article/3192938/27-dead-20-injured-china-covid-bus-highway-crash" href="https://www.scmp.com/news/china/politics/article/3192938/27-dead-20-injured-china-covid-bus-highway-crash" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">27 passageiros</a>. Houve um súbito aumento no número de <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/news/china/science/article/3198631/chinas-zero-covid-policy-sparks-outcry-again-woman-55-dies-locked-down-inner-mongolia-compound" href="https://www.scmp.com/news/china/science/article/3198631/chinas-zero-covid-policy-sparks-outcry-again-woman-55-dies-locked-down-inner-mongolia-compound" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">suicídios</a> durante quarentenas prolongadas. As pessoas ficaram desesperadas quando, sob confinamento, foram privadas de acesso adequado a alimentos <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/business/china-business/article/3175131/coronavirus-shanghai-extends-standstill-order-april-26" href="https://www.scmp.com/business/china-business/article/3175131/coronavirus-shanghai-extends-standstill-order-april-26" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">em Shanghai</a>. Em Guangzhou, <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/news/world-asia-china-63633109" href="https://www.bbc.com/news/world-asia-china-63633109" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">trabalhantes migrantes</a> furaram o <em>lockdown</em>. E um número incontável de pessoas <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/news/world-asia-china-63663963" href="https://www.bbc.com/news/world-asia-china-63663963" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ficou gravemente doente</a> após serem trancadas em suas casas com Covid e terem o acesso negado a cuidados médicos em hospitais.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas e muitas outras histórias provocaram raiva, e essa raiva se acumulou. Os protestos começaram a surgir no início deste ano, mas eram em sua maioria isolados e foram mais facilmente contidos. Talvez o mais icônico deles tenha sido <a class="urlextern" title="https://www.tempestmag.org/2022/10/courage-at-sitong-bridge/" href="https://www.tempestmag.org/2022/10/courage-at-sitong-bridge/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">o solitário manifestante</a> pendurando uma faixa na Ponte Sitong em Pequim pouco antes do XX Congresso do Partido, criticando a política de Covid zero e pedindo por mudanças. Embora apenas tenha desencadeado ações limitadas de imitação em toda a China, o protesto encorajou muitos estudantes internacionais chineses no Ocidente a seguir o exemplo e colocar faixas semelhantes em seus <em>campi</em>.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Esperanças Despedaçadas de Mudança</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Um marco nessa história foi o XX Congresso do Partido. Como o limite de mandatos para o Secretário do Partido já havia sido removido em 2018, ninguém ficou surpreso quando Xi prolongou seu domínio. O limite de mandatos ajudava essencialmente a reorganizar as diferentes facções do Partido Comunista para alcançar um equilíbrio e garantir uma transição ordenada entre a liderança.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, o limite máximo de mandato cultivava a esperança de que a cada dez anos alguém novo assuma o poder e faça as coisas de forma diferente. Mesmo essa modesta esperança &#8211; que geralmente se revela uma ilusão que rapidamente se transforma em decepção &#8211; foi destruída.</p>
<p style="text-align: justify;">As pessoas sentem que estão presas ao mesmo sistema político no futuro. Qualquer esperança que ainda existisse na autorrenovação e autoaprimoramento do sistema político não existe mais.</p>
<p style="text-align: justify;">A perda de esperança na reforma do governo desenvolveu-se ao mesmo tempo em que as perspectivas econômicas das pessoas se tornaram sombrias. Após a recuperação em 2021, o crescimento econômico da China <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/world/china/chinas-factory-output-retail-sales-miss-forecasts-economy-losing-steam-2022-11-15/" href="https://www.reuters.com/world/china/chinas-factory-output-retail-sales-miss-forecasts-economy-losing-steam-2022-11-15/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">desacelerou</a>. Alguns governos locais, já perdendo receitas, estão <a class="urlextern" title="https://www.ft.com/content/2e3f9397-6745-45a1-ae7b-a1a6f7d7aed4" href="https://www.ft.com/content/2e3f9397-6745-45a1-ae7b-a1a6f7d7aed4" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">lutando para pagar</a> por testes de Covid em massa. A dor econômica é fortemente sentida pelos trabalhadores, especialmente os trabalhadores informais, cujos meios de subsistência e emprego são mais suscetíveis aos <em>lockdowns</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A <a class="urlextern" title="https://www.bloomberg.com/news/articles/2022-11-16/china-s-record-graduates-to-pressure-youth-jobs-market-in-2023#xj4y7vzkg" href="https://www.bloomberg.com/news/articles/2022-11-16/china-s-record-graduates-to-pressure-youth-jobs-market-in-2023#xj4y7vzkg" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">taxa de desemprego entre jovens</a> atingiu um recorde nos últimos meses, alcançando quase 20% entre aqueles de 16 a 24 anos, enquanto os recém-formados enfrentam uma situação de emprego terrível. Um número recorde de pessoas está entrando no mercado de trabalho a cada ano, enquanto os empregos estão diminuindo, com as principais empresas de tecnologia da China <a class="urlextern" title="https://restofworld.org/2022/china-tech-layoffs/#:~:text=China's%20biggest%20tech%20companies%2C%20including,thousands%20of%20workers%20this%20year." href="https://restofworld.org/2022/china-tech-layoffs/#:~:text=China's%20biggest%20tech%20companies%2C%20including,thousands%20of%20workers%20this%20year." target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">demitindo os seus empregados</a> em vez fazer novas contratações. Essa precariedade alimentou a ansiedade e a raiva entre os jovens profissionais e trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas pessoas esperavam um relaxamento da política de Covid zero depois que Xi garantiu a liderança no XX Congresso do Partido. O governo semeou essa ilusão quando emitiu uma nova diretriz de 20 pontos que aliviou as restrições, mas ficou aquém de implementar uma nova direção.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns governos locais, como o da capital da província de Hebei, Shijiazhuang, foram ainda mais longe, <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/news/china/politics/article/3199705/chinas-changes-covid-19-controls-get-mixed-reaction-new-cases-stoke-fears" href="https://www.scmp.com/news/china/politics/article/3199705/chinas-changes-covid-19-controls-get-mixed-reaction-new-cases-stoke-fears" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">suspendendo a obrigação de testagem</a> e removendo testes gratuitos. Mas muitos moradores se opuseram e, sob pressão, o governo local retrocedeu e restabeleceu os testes gratuitos. E agora, com um <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/news/world-asia-china-63739617" href="https://www.bbc.com/news/world-asia-china-63739617" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aumento dos casos</a> atingindo o nível mais alto de todos os tempos, mais de 30.000 por dia, o governo retomou os <em>lockdowns</em> para conter a Covid em todo o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Como resultado, as pessoas estão perdendo a fé na capacidade de mudança do governo, duvidam da eficácia e racionalidade de sua política de Covid zero e relutam em tolerar os sacrifícios que lhes são impostos. Elas também estão preocupadas com o que parece ser uma implementação arbitrária e irracional da política.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos dias vindouros, as forças de direita do resto das grandes potências mundiais poderão muito bem explorar a revolta vinda de baixo para justificar os ataques à China. Mas a nossa solidariedade para com as pessoas que protestam e cujas exigências estão enraizadas em experiências concretas vividas nunca deve vacilar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-147960" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-army.jpg" alt="" width="1600" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-army.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-army-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-army-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-army-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-army-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-army-1536x1536.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-army-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-army-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/terracotta-army-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" />As decisões sobre <em>lockdowns</em> em comunidades e lares específicos são tomadas por autoridades locais e sub-municipais, e muitas vezes não são explicadas e não podem ser contestadas. O fim das ilusões políticas, a precariedade econômica e a brutalidade irracional da Covid zero se combinaram para criar frustração em massa.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Resistência de Massas sem uma Infraestrutura de Dissidência</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A frustração em massa explodiu em protesto nos últimos dias. A mobilização foi notável e deu às pessoas a confiança necessária para exprimirem a sua crescente insatisfação. Uma massa crítica de pessoas superou o medo da repressão do governo e compartilhou mensagens online, algo que, após o protesto da Ponte Sitong, fez com que as redes sociais das pessoas fossem censuradas e as suas contas suspensas ou permanentemente banidas. Encorajadas, as pessoas estão postando e compartilhando comentários e vídeos no Weibo e no Wechat.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns dos protestos parecem ter sido difundidos através das redes sociais ou de ferramentas de comunicação criptografadas, como o Telegram, embora não sejam facilmente acessíveis à maioria das pessoas. Impulsionadas pela raiva e indignação, as pessoas de alguma forma descobrem ações nas mídias sociais e através do boca a boca e correm para se juntar a elas.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos dos protestos ocorreram nos <em>campi</em>, bem como em complexos de apartamentos. Esses dois locais possuem espaços compartilhados, permitindo que as pessoas coordenem as ações com mais facilidade do que nas ruas com participantes que vem de toda a cidade. Até agora, não existe uma liderança nacional centralizada de qualquer tipo, e é pouco provável que surja alguma. Embora existam muitos indivíduos ativos, também não parece haver qualquer liderança local.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não deve surpreender. O Estado chinês não só proibiu todos os partidos políticos independentes, mas também esmagou grupos de direitos humanos, da sociedade civil e dissidentes individuais destacados. Isto rompeu com a infraestrutura dos movimentos sociais para convocar, organizar e sustentar uma luta de massas. Ninguém pode liderar ou falar em nome dos manifestantes.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, as exigências já estão claramente articuladas e cristalizadas: oposição aos <em>lockdowns</em>. Isso não quer dizer que o movimento seja unificado. Como em qualquer movimento de massas e especialmente um sem liderança central, existem vários grupos sociais com demandas por vezes sobrepostas e diferentes que variam de acordo com a classe social e a localidade.</p>
<p style="text-align: justify;">As exigências dos trabalhadores da Foxconn concentraram-se principalmente nas demandas em relação ao local de trabalho e, secundariamente, às restrições impostas devido à Covid; os manifestantes em Urumqui expressaram as exigências mais fortes e imediatas para eliminar as restrições que põem em perigo as suas vidas; os estudantes universitários estão mostrando solidariedade com os manifestantes em Urumqui, enquanto as suas exigências se concentram no apelo à democracia, à liberdade de expressão, à liberdade de imprensa e ao estado de Direito; e a menos noticiada e muito mais difundida é a resistência local e de pequena escala por parte dos moradores que ocorre dentro de complexos de apartamentos e condomínios fechados e que estão centradas na flexibilização das restrições.</p>
<p style="text-align: justify;">O caráter dos protestos também não é uniforme; vai desde pacífico a confronto aberto. A maioria dos protestos exprime exigências liberais que não são radicais nas democracias liberais, mas que são altamente subversivas num Estado autoritário. E trazem consigo efeitos progressivos e democratizantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar dessa heterogeneidade, os protestos expressam um sentimento comum das pessoas resistindo à perda de dignidade e da negação de sua capacidade de moldar a política de Estado que determina suas vidas. Elas partilham a sensação de que as suas próprias vidas estão em jogo.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante sublinhar o carácter nacional da insurreição. Os protestos alimentam-se reciprocamente e demonstram solidariedade entre si, encorajando diferentes setores a agir. Além disso, os estudantes chineses no exterior e a diáspora mais ampla também têm se mobilizado em Hong Kong, Taiwan, Reino Unido, EUA e Austrália.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O Dilema de um Regime Autoritário Frente a Resistência</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Diante de uma onda nacional de manifestações, o Estado chinês está preso no dilema clássico de um regime autoritário. Conceder e relaxar as medidas Covid zero corre o risco de confirmar que o protesto funciona e de encorajar outros a organizarem-se e a lutarem por suas demandas. Mas não conceder pode levar os manifestantes a intensificar a sua luta e convidar outros a aderir.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-147961" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/11523588365_4e1cb7a171_o-scaled-1.jpg" alt="" width="1853" height="2560" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/11523588365_4e1cb7a171_o-scaled-1.jpg 1853w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/11523588365_4e1cb7a171_o-scaled-1-217x300.jpg 217w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/11523588365_4e1cb7a171_o-scaled-1-741x1024.jpg 741w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/11523588365_4e1cb7a171_o-scaled-1-768x1061.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/11523588365_4e1cb7a171_o-scaled-1-1112x1536.jpg 1112w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/11523588365_4e1cb7a171_o-scaled-1-1482x2048.jpg 1482w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/11523588365_4e1cb7a171_o-scaled-1-304x420.jpg 304w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/11523588365_4e1cb7a171_o-scaled-1-640x884.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/11523588365_4e1cb7a171_o-scaled-1-681x941.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1853px) 100vw, 1853px" />Nos últimos anos, o Estado chinês conseguiu manter uma espécie de equilíbrio, combinando repressão e acomodação para gerir e conter conflitos sociais. Mas ele nunca enfrentou um movimento de protesto em tal escala.</p>
<p style="text-align: justify;">À medida que as manifestações se espalham e se radicalizam, com algumas adotando explicitamente palavras de ordem antigovernamentais e antipartidárias como “renuncie PCC” e “renuncie Xi Jinping”, a possibilidade de repressão estatal aumenta exponencialmente. Ao mesmo tempo, não é inconcebível que uma combinação de repressão seletiva e concessões limitadas às restrições da Covid possa sufocar os protestos. Este tem sido um padrão no passado, com as manifestações urbanas a dissiparem-se tão rapidamente quanto surgiram.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, mesmo que o Estado consiga conter as manifestações, o problema que nos trouxe aqui, em primeiro lugar, permanece. A China <a class="urlextern" title="https://www.ft.com/content/392a603d-5f6f-4270-bec2-41e5da69cc67" href="https://www.ft.com/content/392a603d-5f6f-4270-bec2-41e5da69cc67" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">provavelmente não está pronta</a> para abandonar a política de Covid zero. Fazer isso &#8211; sem um sistema legítimo de vacinação em massa &#8211; levaria à disseminação em massa do vírus através de uma população que recebeu vacinas chinesas ineficazes ou permanece não vacinada, <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/news/china/science/article/3195166/vaccination-key-relaxing-covid-19-controls-china-pandemic-expert" href="https://www.scmp.com/news/china/science/article/3195166/vaccination-key-relaxing-covid-19-controls-china-pandemic-expert" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">especialmente os idosos</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal surto sobrecarregaria os hospitais e mesmo uma taxa de mortes baixa levaria, num país de 1,4 bilhões de pessoas, a um número de mortes sem precedentes. <a class="urlextern" title="https://www.nature.com/articles/s41591-022-01855-7" href="https://www.nature.com/articles/s41591-022-01855-7" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Um modelo</a> feito por cientistas chineses estima que, no atual nível de vacinação e capacidade hospitalar, a abertura pode resultar em 1,55 milhão de mortes.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal catástrofe poderia provocar uma crise de legitimidade ainda pior para o Estado chinês, o que provavelmente fez parte do seu cálculo para manter a Covid zero. Não há como negar que, sem uma vacina adequada e medidas de saúde adequadas, as severas restrições à Covid salvaram vidas na China.</p>
<p style="text-align: justify;">A abertura não é uma opção sem um investimento maciço no sistema de saúde e na imunização dos idosos. Muitos analistas se perguntam por que isso não foi feito. Fazê-lo agora, no entanto, levará tempo, algo que os manifestantes podem não tolerar.</p>
<p style="text-align: justify;">O Partido é tão opaco que temos pouca ideia do que é provável que faça. A liderança recém-remodelada, cheia de partidários de Xi, não mostra sinais de desunião; por isso, é duvidoso que haja qualquer divisão no Partido e debate aberto entre facções.</p>
<p style="text-align: justify;">Seja qual for o resultado imediato das manifestações, as pessoas comuns na China estão se radicalizando com essa experiência e muitas se tornaram auto-organizadas. Isso aumentou drasticamente a consciência das massas e a experiência de luta pela justiça permanecerá com elas, independentemente do resultado. Isso é um bom presságio para o futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos próximos dias, as forças de direita do resto das grandes potências mundiais poderão muito bem explorar a revolta vinda de baixo para justificar os ataques à China. Mas a nossa solidariedade para com as pessoas que protestam e cujas exigências estão enraizadas em experiências concretas vividas nunca deve vacilar.</p>
<p style="text-align: justify;">Apoiar as pessoas que protestam a partir de baixo não aumentará o conflito imperial liderado pelos EUA contra a China. Na verdade, a nossa solidariedade popular através das fronteiras é a melhor forma de atenuar as tensões e de construir uma luta internacional comum pela justiça, igualdade e democracia, todas ameaçadas pelos governantes em todo o mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em> Publicado originalmente em<a class="urlextern" title="https://internationalviewpoint.org/spip.php?article7897" href="https://spectrejournal.com/uprising-against-lockdowns-and-precarity-in-china/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> inglês</a>, no dia 30 de novembro de 2022, e traduzido por Marco Túlio Vieira.</em></p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são fotografias do exército de terracotta na tumba do Imperador Qin.</em></p>
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		<title>Três Revoltas no Outono: uma aproximação ao &#8220;Movimento Anti-Lockdown&#8221; na China</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Mar 2023 11:07:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[Os protestos da Ponte de Sitong podem ter sido a centelha que deu origem a essas palavras de ordem políticas, mas não foi de modo algum a origem dessa mudança qualitativa. Por Zuoyue]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Zuoyue</h3>
<blockquote><p>Nota do coletivo <a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/2023/01/three-autumn-revolts/" href="https://chuangcn.org/2023/01/three-autumn-revolts/" rel="ugc nofollow">Chuang</a>:</p>
<p>O artigo que traduzimos abaixo foi originalmente publicado pelo autor com o pseudônimo de Zuoyue (左玥), no <a class="urlextern" title="https://matters.news/@blankpower/360812-%25252525252525E4%25252525252525B8%25252525252525BA%25252525252525E4%25252525252525BB%2525252525252580%25252525252525E4%25252525252525B9%2525252525252588%25252525252525E7%2525252525252599%25252525252525BD%25252525252525E7%25252525252525BA%25252525252525B8%25252525252525E6%252525252525258A%2525252525252597%25252525252525E8%25252525252525AE%25252525252525AE%25252525252525E6%2525252525252598%25252525252525AF-%25252525252525E4%25252525252525B8%2525252525252589%25252525252525E4%25252525252525B8%25252525252525AA%25252525252525E8%25252525252525BF%2525252525252590%25252525252525E5%252525252525258A%25252525252525A8-%25252525252525E7%2525252525252590%2525252525252586%25252525252525E8%25252525252525A7%25252525252525A3%25252525252525E5%25252525252525B0%2525252525252581%25252525252525E6%252525252525258E%25252525252525A7%25252525252525E6%252525252525258A%2525252525252597%25252525252525E8%25252525252525AE%25252525252525AE%25252525252525E6%25252525252525BD%25252525252525AE%25252525252525E7%252525252525259A%2525252525252584%25252525252525E9%252525252525259D%25252525252525A9%25252525252525E5%2525252525252591%25252525252525BD%25252525252525E6%2525252525252580%25252525252525A7%25252525252525E5%2525252525252592%252525252525258C%25252525252525E5%25252525252525B1%2525252525252580%25252525252525E9%2525252525252599%2525252525252590%25252525252525E6%2525252525252580%25252525252525A7-bafybeihryjzquxqo2f2v2ogp3y7vtxltokvmmcg6mvc76bcgldyw77u4iy" href="https://matters.news/@blankpower/360812-%25252525252525E4%25252525252525B8%25252525252525BA%25252525252525E4%25252525252525BB%2525252525252580%25252525252525E4%25252525252525B9%2525252525252588%25252525252525E7%2525252525252599%25252525252525BD%25252525252525E7%25252525252525BA%25252525252525B8%25252525252525E6%252525252525258A%2525252525252597%25252525252525E8%25252525252525AE%25252525252525AE%25252525252525E6%2525252525252598%25252525252525AF-%25252525252525E4%25252525252525B8%2525252525252589%25252525252525E4%25252525252525B8%25252525252525AA%25252525252525E8%25252525252525BF%2525252525252590%25252525252525E5%252525252525258A%25252525252525A8-%25252525252525E7%2525252525252590%2525252525252586%25252525252525E8%25252525252525A7%25252525252525A3%25252525252525E5%25252525252525B0%2525252525252581%25252525252525E6%252525252525258E%25252525252525A7%25252525252525E6%252525252525258A%2525252525252597%25252525252525E8%25252525252525AE%25252525252525AE%25252525252525E6%25252525252525BD%25252525252525AE%25252525252525E7%252525252525259A%2525252525252584%25252525252525E9%252525252525259D%25252525252525A9%25252525252525E5%2525252525252591%25252525252525BD%25252525252525E6%2525252525252580%25252525252525A7%25252525252525E5%2525252525252592%252525252525258C%25252525252525E5%25252525252525B1%2525252525252580%25252525252525E9%2525252525252599%2525252525252590%25252525252525E6%2525252525252580%25252525252525A7-bafybeihryjzquxqo2f2v2ogp3y7vtxltokvmmcg6mvc76bcgldyw77u4iy" rel="ugc nofollow">Matters</a> no início de janeiro, após uma <a class="urlextern" title="https://www.twreporter.org/a/opinion-china-a4-revolution" href="https://www.twreporter.org/a/opinion-china-a4-revolution" rel="ugc nofollow">versão resumida</a> ter sido publicada no site de notícias taiwanês Reporter 報導者. O autor explica que é um jovem ativista de esquerda em defesa das causas dos trabalhadores na China continental que atualmente estuda no exterior após ter estado envolvido com esforços de organização local com trabalhadores migrantes por quase uma década. Optamos por traduzir este artigo porque é um dos primeiros esforços na China continental para analisar os acontecimentos do final de novembro de 2022.<strong>[1]</strong> Além disso, o mesmo constitui um bom complemento para os muitos relatos parciais já disponíveis em inglês.<strong>[2]</strong></p>
<p>Até agora, o artigo causou diferentes respostas em camaradas na China. Amigos de Chuang observaram que o autor vivia há algum tempo fora do país no momento dos acontecimentos. A distância proporciona, de certa forma, um ponto de vista mais objetivo, mas também significa que as ideias refletem menos as discussões que estão acontecendo entre os participantes e observadores no local, e mais o quadro das redes liberais de esquerda <em>online</em> e das comunidades da diáspora chinesa que constituem um tópico tão importante no artigo. De qualquer forma, o artigo traz uma boa aproximação para a tão necessária discussão crítica dos acontecimentos.<strong>[3]</strong> Isso é particularmente importante numa altura em que as pessoas mais diretamente envolvidas continuam sob custódia policial ou evitando chamar atenção e, por conseguinte, não podem ou hesitam em oferecer qualquer reflexão sistemática.</p>
<p>O artigo também é útil para esclarecer a nossa própria perspectiva sobre os acontecimentos, a qual difere da do autor em vários aspectos. Por exemplo, o autor usa o termo “movimento do papel em branco” de forma intercambiável com “onda de protesto <em>anti-lockdown</em>” para descrever a configuração mais ampla de lutas que atingiu o pico em novembro de 2022. À primeira vista, tal escolha pode parecer estranha, dado que o artigo passa a distinguir os protestos simbólicos envolvendo pedaços de papel em branco (atribuídos ao “movimento doméstico de moradores das cidades e estudantes”) das outras duas grandes correntes (“protestos dos trabalhadores” e “protestos de solidariedade no exterior”), e até explica como essa formulação obscurece o papel desempenhado pelos trabalhadores: “quando o papel em branco é citado como o emblema de todo o movimento […] as discussões sobre o movimento em sua totalidade são orientadas apenas em torno dos protestos políticos de moradores das cidades e estudantes, ou sobre as campanhas de solidariedade realizadas em comunidades chinesas no exterior”. No final do artigo, no entanto, o uso persistente do “movimento do papel em branco” sugere uma ambiguidade mais profunda no quadro analítico do artigo em sua totalidade. Embora o argumento descreva de forma útil uma série de tensões-chave que surgiram dentro da onda de agitação e forneça tentativas de pensar sobre seus limites, também parece subestimar a profundidade dessas contradições &#8211; e, poderíamos argumentar, exagerar as influências mútuas entre os “três movimentos”. Assim, a ideia de um “movimento” singular aparece repetidamente ao lado de apelos à consciência das “pessoas comuns” como uma espécie de sujeito aspiracional a que o movimento não foi capaz de dar coesão. Da mesma forma, a importância dos “protestos dos trabalhadores” não está ligada a uma compreensão marxista do conflito de classes, mas sim a uma teoria rawlsiana da “distribuição social injusta.” Por fim, o objetivo proposto para todas essas lutas é que “superem o aparato repressivo e a consciência de hegemonia estatista” por meio de uma “politização”, sugerindo que uma política generalizada só é possível se for definida contra um Estado monstruoso e solitário — colocando um fantasma contra outro.</p>
<p>Em suma, o artigo parece firmemente enraizado num paradigma liberal de esquerda e, apesar de sentir os seus limites, tende a, desse modo, nivelar alguns dos antagonismos mais profundos evidentes em lutas díspares, reduzindo-os a uma falha de diferentes fracções em se ligarem adequadamente e, assim, entrarem em coesão com um movimento mais geral. A implicação parece ser que, se essas três correntes tivessem sido capazes de interagir e resolver as suas tensões, elas poderiam ter formado algum tipo de programa que representasse adequadamente a vontade coletiva do povo. A premissa do artigo exclui a possibilidade de que os interesses básicos dos manifestantes de elite em Xangai possam ter sido diametralmente opostos aos dos distúrbios proletários nas vilas urbanas. Portanto, o artigo é melhor entendido como uma análise especificamente de esquerda dos acontecimentos, vistos à distância e filtrados através de uma série de lentes específicas. Uma dessas lentes é a “nova geração de comunidades da diáspora chinesa no exterior”, que o artigo descreve como particularmente significativa, apesar do caráter de pequena escala e não disruptivo de tais protestos de solidariedade &#8211; em contraste com muitas das ações diretas e até mesmo alguns dos protestos simbólicos na China. Concordamos que os protestos no estrangeiro sinalizaram uma mudança de consciência entre uma certa fração de jovens chineses instruídos, mas parecem ter desempenhado um papel mais auxiliar em relação à confluência de conflitos sociais reais.<strong>[4]</strong></p>
<p>Outra dessas lentes envolve a representação no artigo dos “protestos dos trabalhadores”, que agrega uma variedade de conflitos que não eram apenas díspares, mas às vezes até contraditórios em seus objetivos. Neste caso, não é apenas o emblema do “papel em branco” que obscurece tais lutas, mas também a caracterização de todo o descontentamento como parte de um movimento <em>anti-lockdown</em> mais amplo.<strong>[5]</strong> A luta na Foxconn de Zhengzhou, em particular, é destacada como “inspiradora para todo o movimento que se seguiu”. Embora os vídeos do conflito tenham certamente exercido alguma influência tanto nos protestos simbólicos quanto em algumas das ações diretas, nenhum dos relatos dos participantes que ouvimos ou lemos sequer mencionou a Foxconn quando questionados sobre sua motivação,<strong>[6]</strong> e quando perguntados sobre a Foxconn explicitamente, ninguém com quem conversamos considerou isso mais relevante do que qualquer uma das inúmeras outras lutas e desastres de alguma forma relacionados aos <em>lockdowns</em> no ano passado. Ao nível dos objetivos, os trabalhadores da Foxconn preocupavam-se principalmente com questões específicas de segurança no local de trabalho (em outubro) e com a questão dos pagamentos de bônus prometidos que não se concretizaram (a questão mais proeminente no motim de novembro). Em ambos os casos, a oposição dos trabalhadores às medidas pandêmicas não foi uma expressão de algum sentimento geral <em>anti-lockdown</em>, mas deve ser colocada no contexto de formas de gestão de fábricas de “circuito fechado”, que acarretavam riscos específicos não experimentados pela população em geral. Eli Friedman <a class="urlextern" title="https://www.bostonreview.net/articles/escape-from-the-closed-loop/" href="https://www.bostonreview.net/articles/escape-from-the-closed-loop/" rel="ugc nofollow">explicou</a> o arco geral da luta: “À medida que as infecções se espalhavam dentro da fábrica, os trabalhadores temiam com razão que permanecer dentro do circuito aumentaria a sua exposição a infecção. A quarentena no local foi pessimamente gerida, e as pessoas que adoeceram relataram que lhes foram negados cuidados adequados ou mesmo alimentos suficientes para comer”.<strong>[7]</strong> O artigo também tende a invocar a imagem clássica na esquerda do trabalhador produtivo, excluindo uma compreensão comunista mais ampla das lutas proletárias. Na realidade, a maioria das ações proletárias em novembro e nos meses anteriores não envolveram de forma alguma o local de trabalho, mas sim várias formas de ação direta empreendidas por proletários (empregados, desempregados e trabalhadores autônomos) no âmbito da reprodução, assumindo o seu carácter mais conflituoso no interior das vilas urbanas. Como o autor corretamente assinala, esses protestos nas vilas urbanas vinham ocorrendo muito antes do início do movimento do “papel em branco” e persistiram depois da sua dissolução.</p>
<p>Ainda assim, o artigo oferece uma excelente introdução para a discussão desses acontecimentos, aos quais esperamos voltar mais pormenorizadamente nos próximos meses. Os pontos mais fortes do artigo são a narração informativa dos principais acontecimentos de novembro e os seus antecedentes, a importante distinção que faz entre as diferentes correntes dentro da onda mais ampla de agitação, a identificação das tensões que existiam entre elas e a expressão de uma mudança mais geral que começou a ocorrer dentro dos círculos específicos de moradores de cidades e estudantes na China e de jovens membros da diáspora chinesa. Portanto, serve tanto como uma análise dos acontecimentos quanto um objeto de análise por si só — uma janela para a agitação social do final de 2022 e para as discussões políticas que estão acontecendo entre uma certa corrente de participantes e apoiantes estrangeiros.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>Por Que os Protestos do Papel em Branco Foram Constituídos por Três Movimentos? Compreendendo as Características e Limitações Revolucionárias da Onda de Protestos Anti-Lockdown</strong> <strong>[8]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Zuoyue</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>23 de dezembro de 2022</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">À medida que os governos locais em todos os lugares começaram, discretamente, a <a class="urlextern" title="https://theinitium.com/article/20221210-mainland-protest-arrest/" href="https://theinitium.com/article/20221210-mainland-protest-arrest/" rel="ugc nofollow">intimar e deter</a> participantes, é inegável agora que a onda de Protestos do Papel em Branco instigados por três anos de severos <em>lockdowns</em> já alcançou um rápido fim. A onda de resistência — amplamente vista como a única onda de protestos em todo o país desde 1989 — viu a rápida formação de uma aliança espontânea entre trabalhadores, moradores das cidades e estudantes que abrangia várias regiões. Palavras de ordem politizadas atravessaram as linhas de classe para obter um certo grau de aceitação geral. Naquele momento, no seio da sociedade chinesa, essa maré crescente do movimento possuía, sem dúvida, um carácter revolucionário, ou poderíamos pelo menos dizer que expôs as questões que há muito se acumulavam no seio da sociedade e, assim, marcou uma mudança qualitativa, reformulando completamente a nossa imagem dos protestos em massa no país.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo com a suspensão dos <em>lockdowns</em>, de modo que as demandas das massas foram aparentemente atendidas (apesar da sociedade afundar em outra forma de “desordem” devido à decisão extrema do governo de ”<a class="urlextern" title="https://chinamediaproject.org/2022/10/06/no-lying-down-on-covid/" href="https://chinamediaproject.org/2022/10/06/no-lying-down-on-covid/" rel="ugc nofollow">deitar-se</a>“), não há razão para acreditar que a energia política acumulada dessa onda simplesmente desapareça como nos movimentos de massas do passado. Mas como esse movimento se dissolveu num período tão curto de tempo? Para além das dificuldades habituais colocadas pela repressão governamental, como poderemos compreender e refletir sobre o carácter revolucionário e os limites da onda de protestos? Como um ativista de longa data dentro de ONGs nacionais e organizações de base [pelos direitos dos trabalhadores], tentarei aqui delimitar os três movimentos paralelos que existiram dentro da onda mais ampla de lutas, esclarecendo seus pontos de interação e tensão e oferecendo algumas reflexões práticas sobre o movimento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Por Que a Onda de Protestos Anti-Lockdown Ocorreu?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Embora os Protestos do Papel em Branco tenham sido desencadeados pelo trágico incêndio em Urumqui, olhando para trás e para a natureza do movimento, não podemos ignorar nem a catástrofe humanitária sistemática, nem a crise político-econômica causada por três anos de “COVID zero.” Como muitos internautas comentaram, parece que a COVID zero se tornou a “Política Nacional Fundamental” da nova geração (基本国策).<strong>[9]</strong> Em todos os aspectos — desde o econômico ao quotidiano, incluindo os cuidados de saúde, a cultura e a saúde mental — as necessidades das pessoas foram constrangidas a cumprir essa missão política, sem margem para recuos ou consultas. Dado que a variante Ômicron era altamente transmissível e difícil de controlar, no primeiro semestre de 2022, mais de 400 milhões de pessoas em todo o país foram forçadas a permanecer em <em>lockdowns</em> permanentes, que foram especialmente proeminentes em Xangai e regiões fronteiriças como Xinjiang, Tibete e Yunnan.<strong>[10]</strong> Os vários desastres secundários e as crises econômicas, de subsistência e política causadas pelos <em>lockdowns</em> tornaram-se, em última análise, os elementos centrais que desencadearam os protestos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-147786 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/8a00261_1669563194305-2022-11-27t150616z-1006145001-rc2fux9s0qy7-rtrmadp-3-health-coronavirus-china-protests-300x150.jpeg" alt="" width="569" height="285" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/8a00261_1669563194305-2022-11-27t150616z-1006145001-rc2fux9s0qy7-rtrmadp-3-health-coronavirus-china-protests-300x150.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/8a00261_1669563194305-2022-11-27t150616z-1006145001-rc2fux9s0qy7-rtrmadp-3-health-coronavirus-china-protests-1024x512.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/8a00261_1669563194305-2022-11-27t150616z-1006145001-rc2fux9s0qy7-rtrmadp-3-health-coronavirus-china-protests-768x384.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/8a00261_1669563194305-2022-11-27t150616z-1006145001-rc2fux9s0qy7-rtrmadp-3-health-coronavirus-china-protests-840x420.jpeg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/8a00261_1669563194305-2022-11-27t150616z-1006145001-rc2fux9s0qy7-rtrmadp-3-health-coronavirus-china-protests-640x320.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/8a00261_1669563194305-2022-11-27t150616z-1006145001-rc2fux9s0qy7-rtrmadp-3-health-coronavirus-china-protests-681x341.jpeg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/8a00261_1669563194305-2022-11-27t150616z-1006145001-rc2fux9s0qy7-rtrmadp-3-health-coronavirus-china-protests.jpeg 1440w" sizes="auto, (max-width: 569px) 100vw, 569px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Desastres Secundários</em></p>
<p style="text-align: justify;">No dia 24 de novembro, as medidas de <em>lockdown</em> levaram à morte de pelo menos dez pessoas (todas uigures) em um incêndio em Urumqui, Xinjiang. Naquela noite, o noticiário transmitiu uma declaração das autoridades criticando as vítimas, dizendo que “alguns moradores mostraram pouca capacidade de proteção e resgate.” Em última análise, o evento provou ser a conflagração final que acendeu a ira das massas. Mas tais incêndios queimaram continuamente desde o <em>lockdown</em> de Wuhan em diante, já haviam sido vivenciados nos <em>lockdowns</em> em Nanquin e Yangzhou em 2021, e novamente visíveis no desrespeito pelos suicídios desesperados de residentes durante os <em>lockdowns</em> em Xangai no início de 2022, para não mencionar na tragédia das inúmeras pessoas que morreram por não terem acesso a cuidados médicos durante uma doença súbita. O ano de 2022 foi um ano do trauma coletivo em todo o país: Em <a class="urlextern" title="https://en.wikipedia.org/wiki/2022_Guizhou_bus_crash" href="https://en.wikipedia.org/wiki/2022_Guizhou_bus_crash" rel="ugc nofollow">18 de setembro</a>, 27 pessoas morreram quando um ônibus capotou em Guizhou; em<a class="urlextern" title="https://www.cnn.com/2022/11/03/china/china-covid-lanzhou-child-death-outrage-intl-hnk/index.html" href="https://www.cnn.com/2022/11/03/china/china-covid-lanzhou-child-death-outrage-intl-hnk/index.html" rel="ugc nofollow"> 1º de novembro</a>, uma criança de 3 anos em Lanzhou morreu de envenenamento por monóxido de carbono depois que os protocolos do <em>lockdown</em> impediram os socorristas; em <a class="urlextern" title="https://twitter.com/chenchenzh/status/1591350183312658432" href="https://twitter.com/chenchenzh/status/1591350183312658432" rel="ugc nofollow">11 de novembro</a>, depois que a Universidade de Shenzhen foi fechada por um mês, combinados pouco razoáveis levaram um zelador do <em>campus</em> a pular para a morte; em <a class="urlextern" title="https://www.caixinglobal.com/2022-11-24/woman-hangs-herself-in-makeshift-covid-quarantine-hospital-101970368.html" href="https://www.caixinglobal.com/2022-11-24/woman-hangs-herself-in-makeshift-covid-quarantine-hospital-101970368.html" rel="ugc nofollow">18 de novembro</a>, uma trabalhadora migrante em Guangzhou se enforcou após ter um resultado positivo em um teste de COVID-19 e ser enviada para um hospital improvisado de isolamento; e em <a class="urlextern" title="https://en.wikipedia.org/wiki/2022_Anyang_factory_fire" href="https://en.wikipedia.org/wiki/2022_Anyang_factory_fire" rel="ugc nofollow">21 de novembro</a>, um incêndio em uma fábrica em Anyang, Henan causou a morte de 38 pessoas (a maioria delas trabalhadoras)….<strong>[11]</strong> É quase impossível para nós registrar todas as tragédias humanitárias sofridas sob os <em>lockdowns</em>, pois a cada dia mais e mais emergiram em todas as partes do país &#8211; foram feridas coletivas sofridas por toda a população, das quais todos foram testemunhas. Como dizia o cartaz de um manifestante da Northwest University of Political Science and Law: “Eu estava no ônibus capotado, eu tive o serviço médico recusado, eu forcei a entrada e pulei do telhado, eu fiquei preso no fogo. E mesmo que não fosse eu, serei o próximo.”</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Crises Econômicas e de Subsistência</em></p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista do Estado, os últimos três anos de <em>lockdowns</em> parecem ter feito um bom trabalho ao reduzir a perturbação na vida econômica causada pelo coronavírus. Mas é óbvio que esse não é exatamente o caso, com 2022 sendo marcado pela proliferação de desemprego e demissões, com disputas financeiras se espalhando a tal ponto que o consumo permaneceu fraco em geral, tudo sinalizando para uma crise crescente nos meios de subsistência das pessoas. Por um lado, as principais formas de alívio financeiro oferecidas pelo governo durante a pandemia concentraram-se na concessão de cortes de impostos e subsídios do seguro social às empresas, com os trabalhadores dificilmente recebendo qualquer assistência econômica do governo, forçados a confiar apenas em si mesmos.<strong>[12]</strong> Por outro lado, a imprevisibilidade prolongada e a imprevisão dos <em>lockdowns</em> fizeram com que os rendimentos dos trabalhadores nos setores de serviço e indústria ficassem instáveis. Enquanto isso, o número de desempregados estava sujeito a aumentos repentinos e uma parte dos trabalhadores foi forçada a entrar na economia informal, assumindo empregos em setores como a entrega de alimentos.<strong>[13]</strong> Tanto os <em>lockdowns</em> compartimentalizados de longa duração como a exploração algorítmica em evolução pelo capital impediram os trabalhadores de obterem rendimentos estáveis. Embora, infelizmente, seja difícil encontrar dados precisos sobre o desemprego, duas fontes de dados públicas dão algumas pistas sobre a urgência da situação. Uma delas é o aumento súbito da taxa de desemprego entre os jovens, a outra é a taxa de recém-formados que não conseguem encontrar trabalho. Em julho de 2022, dados oficiais do governo mostraram que a taxa de desemprego entre os residentes de cidades de 16 a 24 anos era de 19,9%, enquanto a mídia <a class="urlextern" title="https://www.163.com/dy/article/H8V8E7OF055327AG.html" href="https://www.163.com/dy/article/H8V8E7OF055327AG.html" rel="ugc nofollow">relatava</a> que, em março de 2022, apenas 23,61% dos recém-formados em todo o país haviam encontrado trabalho. Além disso, a meta inicial do governo para o crescimento do PIB, de 5,5%, não pôde ser cumprida. O crescimento nos três primeiros trimestres alcançou <a class="urlextern" title="https://gov.sohu.com/a/619504256_220095?scm=1101.topic:507591:110063.0.9.a2_3X2555-0806_917" href="https://gov.sohu.com/a/619504256_220095?scm=1101.topic:507591:110063.0.9.a2_3X2555-0806_917" rel="ugc nofollow">apenas 3%</a> e novos surtos de coronavírus impossibilitam o crescimento [mais elevado] do PIB no quarto trimestre.<strong>[14]</strong> Para muitos trabalhadores, o desemprego ou a perda de rendimentos são o custo econômico inevitável das políticas de confinamento.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147787 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/1200x-1-300x200.jpg" alt="" width="452" height="301" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/1200x-1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/1200x-1-1024x681.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/1200x-1-768x511.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/1200x-1-632x420.jpg 632w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/1200x-1-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/1200x-1-681x453.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/1200x-1.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 452px) 100vw, 452px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Assim, mesmo antes da eclosão dos Protestos do Papel em Branco em 26 e 27 de novembro, pelo menos durante o <a class="urlextern" title="https://twitter.com/kevinslaten/status/1602479922638831616?s=12&amp;t=gHkSktj6zolrW6VvCLIeCg" href="https://twitter.com/kevinslaten/status/1602479922638831616?s=12&amp;t=gHkSktj6zolrW6VvCLIeCg" rel="ugc nofollow">meio ano antes de novembro</a>, os protestos contra o lockdown estavam continuamente eclodindo em vilas urbanas e em comunidades de trabalhadores migrantes em geral, com migrantes derrubando cercas de quarentena e colocando “demandas de subsistência” no centro de tais lutas. Isso ficou especialmente evidente em um protesto em <a class="urlextern" title="https://www.resetera.com/threads/the-biggest-anti-zero-covid-protest-in-china-so-far-happened-in-guangzhou-last-night.654237/" href="https://www.resetera.com/threads/the-biggest-anti-zero-covid-protest-in-china-so-far-happened-in-guangzhou-last-night.654237/" rel="ugc nofollow">14 de novembro</a>, que contou com mil trabalhadores migrantes na aldeia de Kangle, em Guangzhou, e nos protestos em larga escala na fábrica da Foxconn em Zhengzhou, nos dias <a class="urlextern" title="https://telegra.ph/Jinzhao-Deep-in-Analysis-The-Class-Struggle-of-Foxconn-Workers-in-Zhengzhou-part-I-11-25" href="https://telegra.ph/Jinzhao-Deep-in-Analysis-The-Class-Struggle-of-Foxconn-Workers-in-Zhengzhou-part-I-11-25" rel="ugc nofollow">22 e 23 de novembro</a>. A onda de protestos nas vilas urbanas também continuaria mesmo após os Protestos do Papel em Branco terem sido derrotados.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Fadiga Generalizada da Pandemia e Crescente Falta de Confiança no Governo</em></p>
<p style="text-align: justify;">A crise de legitimidade da governabilidade social na China já se estava sendo gestada antes da pandemia. Nos últimos anos, a fragilidade do desenvolvimento econômico e a incerteza da mobilidade ascendente já tinham começado a confrontar os trabalhadores (tanto industriais [<em>blue collar</em>] como de escritórios [<em>white collar</em>]) com as pressões urgentes da sobrevivência. Discursos populares emergentes &#8211; que vão desde a “escravidão corporativa” (<a class="urlextern" title="https://www.sixthtone.com/news/1006336/young-chinese-bemoan-rat-race-with-tongue-in-cheek-memes" href="https://www.sixthtone.com/news/1006336/young-chinese-bemoan-rat-race-with-tongue-in-cheek-memes" rel="ugc nofollow">社畜</a>) a “involução” (<a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/2021/05/involution-wildcat-on-chinas-2020/" href="https://chuangcn.org/2021/05/involution-wildcat-on-chinas-2020/" rel="ugc nofollow">内卷</a>), de “ficar deitado” (<a class="urlextern" title="https://madeinchinajournal.com/2023/01/08/lying-flat-profiling-the-tangping-attitude/" href="https://madeinchinajournal.com/2023/01/08/lying-flat-profiling-the-tangping-attitude/" rel="ugc nofollow">躺平</a>) a “conhecimentos sobre fuga/fugologia” (<a class="urlextern" title="https://www.cfr.org/blog/runology-how-run-away-china" href="https://www.cfr.org/blog/runology-how-run-away-china" rel="ugc nofollow">润学</a>), ou mesmo falar da “geração final” (<a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2022/05/24/business/china-covid-zero.html" href="https://www.nytimes.com/2022/05/24/business/china-covid-zero.html" rel="ugc nofollow">最后一代</a>) &#8211; todos representam a resistência passiva de uma nova geração de jovens confrontados com a extrema desigualdade de distribuição no capitalismo, com o mais novo vocabulário cultural de cada ano simplesmente representando o progresso constante do desespero. Nenhuma dessas crises sociais multifacetadas teve uma resposta oficial. Em vez disso, elas foram uniformemente rejeitadas ou estigmatizados como “influência de potências estrangeiras” e, assim, suprimidas pela recusa ao diálogo e pela demonização, tornando o caráter ditatorial da autoridade pública ainda mais claro para a população. Isso ficou evidente em várias ocorrências ao longo dos últimos anos: a <a class="urlextern" title="https://www.latimes.com/world-nation/story/2021-05-13/china-chengdu-49-school-death-student-protest" href="https://www.latimes.com/world-nation/story/2021-05-13/china-chengdu-49-school-death-student-protest" rel="ugc nofollow">morte</a> na Escola Secundária Chengdu No. 49, o caso #Metoo envolvendo <a class="urlextern" title="https://en.wikipedia.org/wiki/Zhou_Xiaoxuan" href="https://en.wikipedia.org/wiki/Zhou_Xiaoxuan" rel="ugc nofollow">Xianzi</a>, a <a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/2022/03/news-february-2022/" href="https://chuangcn.org/2022/03/news-february-2022/" rel="ugc nofollow">mulher acorrentada</a> do Condado de Feng e subsequente prisão do <a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/2022/07/news-may-june-2022/" href="https://chuangcn.org/2022/07/news-may-june-2022/" rel="ugc nofollow">blogueiro</a> [Wuyi] que estava investigando o caso, e o ataque ao restaurante em <a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/2022/07/news-may-june-2022/" href="https://chuangcn.org/2022/07/news-may-june-2022/" rel="ugc nofollow">Tangshan</a> .</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o despertar político das pessoas comuns que começou com a abolição dos limites de mandato da Constituição em 2018 foi verdadeiramente inflamado pelo <a class="urlextern" title="https://en.wikipedia.org/wiki/Beijing_Sitong_Bridge_protest" href="https://en.wikipedia.org/wiki/Beijing_Sitong_Bridge_protest" rel="ugc nofollow">Incidente da Ponte Sitong</a> na véspera do XX Congresso do Partido. Embora a evidência do protesto corajoso e solitário tenha sido apagada do ciberespaço em um piscar de olhos e o indivíduo que desfraldou a bandeira tenha desaparecido logo depois, os gritos generalizados de sua palavra de ordem “Eu não quero um teste de ácido nucleico, eu quero liberdade” <strong>[15]</strong> nos Protestos do Papel em Branco deixaram claro que essa consciência política opositora, apesar de tudo, se enraizara discretamente na mente das pessoas. O novo quadro de revolta política popular já tinha sido desenhado antes da pandemia, com todos os danos secundários causados pela forma desumana do <em>lockdown</em> e pela consequente crise dos meios de subsistência econômicos apenas intensificando a falta de confiança do público em todo o sistema. Ainda mais, não só o afrouxamento esperado das restrições pandêmicas na sequência do XX Congresso do Partido não aconteceu, mas as restrições foram gradualmente reforçadas em todo o país, frustrando as esperanças do povo. As novas ”<a class="urlextern" title="https://www.pekingnology.com/p/full-text-and-analysis-chinas-20" href="https://www.pekingnology.com/p/full-text-and-analysis-chinas-20" rel="ugc nofollow">20 medidas</a>“ lançadas pelo Conselho de Estado incorporaram a tensão entre o bloqueio e a abertura, dando origem a numerosos conflitos entre as políticas locais e centrais que prenunciaram a onda subsequente de protestos <em>anti-lockdown</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Por Que “Três Movimentos”?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O incêndio ocorrido no dia 24 de novembro em Urumqui provocou protestos locais em grande escala contra o <em>lockdown</em> da cidade no dia seguinte. Logo, a tristeza e a indignação com o evento começaram a se espalhar amplamente <em>online</em> e, na tarde de 26 de novembro, as vigílias em que os manifestantes seguravam folhas de papel em branco espalharam-se para um campus universitário em Nanquim e, à noite, para a rua Urumqi, em Xangai, desencadeando a maré de Protestos do Papel em Branco que logo se espalharam por todo o país e até mesmo para o povo chinês em todo o mundo. Durante um breve período no fim de semana, estudantes de mais de 200 universidades localizadas em todo o país protestaram nos campi, cidadãos saíram às ruas em mais de uma dúzia de grandes cidades e, logo depois, as comunidades chinesas espalhadas por centenas de cidades em todo o mundo realizaram milhares de protestos em solidariedade, ecoando os apelos dos manifestantes no país.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147788 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221127073749-03-china-covid-protests-1127-300x200.jpg" alt="" width="475" height="316" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221127073749-03-china-covid-protests-1127-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221127073749-03-china-covid-protests-1127-1024x681.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221127073749-03-china-covid-protests-1127-768x511.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221127073749-03-china-covid-protests-1127-1536x1022.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221127073749-03-china-covid-protests-1127-2048x1363.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221127073749-03-china-covid-protests-1127-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221127073749-03-china-covid-protests-1127-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221127073749-03-china-covid-protests-1127-681x453.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 475px) 100vw, 475px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A onda de protestos que tomou o papel em branco como seu emblema logo passou de meramente “resistindo aos lockdowns” para avançar demandas políticas ainda mais extremas. Ao fazê-lo, parecia ser um movimento político coerente e nacional que abrangia diferentes regiões e estratos sociais. No entanto, em essência, ela era, na verdade, uma mistura de três movimentos paralelos: primeiro, as lutas da classe trabalhadora; segundo, as lutas dos moradores de cidades, estudantes e profissionais urbanos; e terceiro, campanhas envolvendo a nova geração nas comunidades da diáspora chinesa no exterior. No entanto, ao desagregar esses três movimentos, a minha intenção não é sublinhar a sua independência, mas precisamente sublinhar as formas como se misturaram mutuamente. Do mesmo modo, a tensão da sua coexistência paralela pode ajudar-nos a compreender tanto a complexidade como os limites da recente onda de protestos.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o Papel em Branco é citado como o emblema de todo o movimento (tanto na China como no estrangeiro), as discussões sobre o movimento na sua totalidade tornam-se exclusivamente orientadas em torno dos protestos políticos de moradores das cidades e estudantes, ou para as campanhas de solidariedade realizadas nas comunidades chinesas no exterior. No entanto, essa narrativa ignora inteiramente as lutas que acontecem entre os trabalhadores migrantes e nas vilas urbanas. Por que o papel da resistência da classe trabalhadora deve ser levado a sério? Não podemos ignorar que a experiência da luta dos trabalhadores na Foxconn inspirou todo o movimento que se seguiu. No final de outubro, a perda de controle sobre um surto de coronavírus nas instalações da Foxconn em Zhengzhou levou os trabalhadores a escalar as paredes da fábrica em uma “grande fuga”. Então, no final de novembro, o fracasso da empresa em pagar os bônus prometidos para novas contratações desencadeou confrontos violentos com a administração da fábrica e a polícia de choque envolvendo dezenas de milhares de trabalhadores. Em contraste com a falta de visibilidade de longa data sofrida pelas ações dos trabalhadores em defesa dos direitos,<strong>[16]</strong> inúmeros vídeos e imagens retratando esses dois conflitos foram espalhados por plataformas como Douyin e Kuaishou a uma velocidade fenomenal, com a imagem dos trabalhadores resistindo a bloqueios violentos e a exploração capitalista ressoando em quase todos — corrupção, confusão e tratamento desumano eram todos experiências coletivas.</p>
<p style="text-align: justify;">Até certo ponto, a ação direta dos trabalhadores da Foxconn constituiu um recurso importante para a subsequente onda de Protestos do Papel em Branco—as palavras de ordem já não eram apenas ouvidas <em>online</em>, mas ganhavam voz nas ruas. Na verdade, os protestos dos trabalhadores contra os <em>lockdowns</em> eram algo como um fio conectivo que percorria todo o ano de 2022. De acordo com estatísticas incompletas recolhidas pelo “China Dissent Monitor,”<strong>[17]</strong> no período entre junho e o advento do Movimento do Papel em Branco, já haviam ocorrido cerca de 80 protestos <em>anti-lockdown</em>, a maioria dos quais ocorreu em vilas urbanas ou outros distritos da classe trabalhadora. Os trabalhadores têm sido o grupo mais suscetível sob a pandemia, com a ameaça imaterial do vírus e a crise material em seus meios de subsistência obrigando-os a protestar. É também por isso que muitos lugares viram a onda de manifestações de trabalhadores continuar, mesmo após o Movimento do Papel em Branco ter sido repelido.<strong>[18]</strong></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147789 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china_covid_protest_112722_AP-300x169.webp" alt="" width="456" height="257" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china_covid_protest_112722_AP-300x169.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china_covid_protest_112722_AP-1024x576.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china_covid_protest_112722_AP-768x432.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china_covid_protest_112722_AP-747x420.webp 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china_covid_protest_112722_AP-640x360.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china_covid_protest_112722_AP-681x383.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china_covid_protest_112722_AP.webp 1400w" sizes="auto, (max-width: 456px) 100vw, 456px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O incêndio em Xinjiang foi claramente a gota d&#8217;água, empurrando a raiva das pessoas para além do limite. A indignação torna-se então visível publicamente nas vigílias realizadas nas ruas das grandes cidades e nos <em>campi</em> universitários por moradores das cidades, profissionais urbanos e estudantes. Na verdade, a onda de resistência simultânea e espontânea oferece uma representação sistemática dos problemas políticos do <em>lockdown</em> na sua totalidade: o trauma coletivo da pandemia e os seus desastres secundários, o dilema político-econômico estrutural colocado pela crise nos meios de subsistência, a ruptura aberta pelos protestos <em>anti-lockdown</em> dos trabalhadores, as expectativas frustradas que se seguiram ao XX Congresso do Partido e a tensão que se seguiu, e o discurso politizado fornecido pelo Protesto da Ponte Sitong. Em conjunto, esses tornaram-se os recursos cruciais mobilizados pelos participantes na onda de protestos que depois varreu as cidades e os <em>campi</em> universitários. Foi precisamente o contexto no qual o movimento de solidariedade entre a nova geração da diáspora chinesa entrou numa outra fase. Os estudantes compõem a maioria dessas novas comunidades chinesas no exterior, e nos últimos anos elas passaram por um processo de rápida radicalização. A revogação dos limites de mandato em 2018 instigou uma campanha de cartazes de protesto ”#NotMyPresident“ em pequena escala nos campi universitários no exterior. Em seguida, o Protesto da Ponte Sitong na véspera do XX Congresso do Partido no início desse ano gerou outra onda de cartazes de protesto nos <em>campi</em> no exterior. A escala dessa onda era enorme, com as palavras de ordem vistas na Ponte Sitong aparentemente visíveis em todas as grandes universidades do mundo. A eclosão do Movimento do Papel em Branco nos principais centros urbanos da China desencadeou uma mobilização igualmente em larga escala dentro dessas comunidades chinesas no exterior, que espontaneamente organizaram ou participaram de protestos locais e presenciais. Esse tipo de campanha de solidariedade no exterior não havia sido visto nas três décadas posteriores a 1989, pelo menos não nessa escala.</p>
<p style="text-align: justify;">No interior da onda de protestos, as campanhas de solidariedade no exterior e os Protestos do Papel em Branco no país fizeram eco um ao outro, mas as diferentes composições e agendas desses dois movimentos, e as suas tensões em relação às exigências políticas, determinaram inevitavelmente os diferentes papéis que cada um desempenharia no interior da onda de oposição mais ampla na China. É por isso que distinguimos a relação entre os dois aqui. Da mesma forma, poderíamos subdividir ainda mais os protestos internos <em>anti-lockdown</em> naqueles em que os trabalhadores compunham o corpo principal e aqueles em que os moradores das cidades ou estudantes compunham o corpo principal. Não se trata, de modo algum, de compartimentar a relação entre os dois, mas sim de recordar aos participantes os ativos essenciais e as fontes de inspiração que as mobilizações de longa data entre os trabalhadores proporcionaram às lutas populares na China &#8211; a desigualdade social enraizada no sistema econômico sempre foi a força motriz de qualquer movimento político &#8211; e, ao mesmo tempo, de sublinhar o caráter resiliente das lutas dos trabalhadores e a necessidade de solidariedade para com elas (como explorado a seguir). Além disso, dentro da onda de protestos, as duas correntes de luta não foram completamente separadas no tempo ou no espaço. Um exemplo importante deste fato foi como, ao longo da tarde e da noite de 27 de novembro, dezenas de milhares de indivíduos em Wuhan, incluindo trabalhadores migrantes e residentes das cidades, reuniram-se para derrubar as cercas instaladas ao longo das ruas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Caráter Revolucionário da Onda de Protestos Anti-Lockdown </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Agora que a maior onda de protestos <em>anti-lockdown</em> morreu após o súbita reversão da política do governo “ao estilo <a class="urlextern" title="https://chinamediaproject.org/2022/10/06/no-lying-down-on-covid/" href="https://chinamediaproject.org/2022/10/06/no-lying-down-on-covid/" rel="ugc nofollow">tangping</a>” , as autoridades seguiram o seu padrão habitual e iniciaram um acerto de contas pós-outono com os participantes das manifestações. Considerando que desapareceu num instante ao atingir o seu pico sem alterar de alguma forma a estrutura política, não penso que seja necessário elevar este movimento a um estatuto “revolucionário”, embora tais narrativas o tenham ajudado a difundir-se internacionalmente. Mas temos de discutir mais profundamente o seu caráter revolucionário ou talvez progressista.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147790 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-protests-02-300x214.webp" alt="" width="430" height="307" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-protests-02-300x214.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-protests-02-1024x729.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-protests-02-768x547.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-protests-02-1536x1094.webp 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-protests-02-2048x1458.webp 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-protests-02-590x420.webp 590w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-protests-02-640x456.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/china-protests-02-681x485.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 430px) 100vw, 430px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Muita tinta foi gasta para descrever a tradição radical de resistência da classe trabalhadora da China, que vem de longa data. Da onda de defesa dos direitos coletivos <strong>[19]</strong> entre os milhões de trabalhadores do setor estatal demitidos na década de 1990, às greves selvagens entre os “camponeses-trabalhadores” migrantes que lutam pelo estabelecimento e aplicação de direitos legais no âmbito da economia de mercado desde o início dos anos 2000 (especialmente por volta do ano 2010), tornou-se comum que os trabalhadores fechassem os portões das fábricas, marchassem pelas ruas, bloqueassem estradas e assim por diante. O estatuto marginalizado dos trabalhadores, a percepção particularmente sensível do Estado e a sua repressão enérgica ao movimento operário <strong>[20]</strong> esconderam tal resistência da vista da população em geral por muitos anos. Desta vez, no entanto, a rebelião dos trabalhadores na Foxconn ressoou em toda a sociedade chinesa, fornecendo matéria-prima para os Protestos do Papel em Branco e demonstrando novamente que os futuros movimentos de oposição na China devem considerar o movimento operário como um componente central.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é que os movimentos formados principalmente por moradores das cidades e estudantes não existam desde 1989, mas a politização expressa coletivamente nos protestos <em>anti-lockdown</em> revelou um horizonte inteiramente novo. A maioria das lutas urbanas consistiu anteriormente em ações coletivas focadas em questões específicas, como as manifestações ambientais contra as fábricas de para-xileno em Xiamen e Maoming em 2007 e 2014, a defesa coletiva dos direitos dos pais, pedindo “educação justa” em Shenzhen e Kunshan em 2016, os protestos de preservação cultural para ”<a class="urlextern" title="https://en.wikipedia.org/wiki/Guangzhou_Television_Cantonese_controversy" href="https://en.wikipedia.org/wiki/Guangzhou_Television_Cantonese_controversy" rel="ugc nofollow">alvar o Cantonês</a>“ em Guangzhou em 2010, ou as pequenas lutas sem maiores consequências de indivíduos dispersos do Movimento Democrático e dos meios de defesa dos direitos. Nos Protestos do Papel em Branco, as demandas diretas da maioria dos participantes ainda se concentravam em se opor às medidas estritas de <em>lockdown</em>, mas palavras de ordem políticas vindas das multidões — “abaixo Xi Jinping”, “liberdade de imprensa”, “liberdade de expressão” — ressoaram em outros participantes e provocaram vivas e aplausos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os protestos da Ponte de Sitong podem ter sido a centelha que deu origem a essas palavras de ordem políticas, mas não foi de modo algum a origem dessa mudança qualitativa. Há vários anos (antes da pandemia), já podíamos ver no discurso <em>online</em> que a classe média ou os grupos instruídos estavam cada vez mais desesperados em relação às perspectivas de mobilidade ascendente e acumulação de riqueza, visíveis em discursos que vão da “escravidão corporativa” à “ficar deitado” e ao “conhecimentos sobre fuga/fugologia”, revelando uma crescente perda de fé no sistema político-econômico &#8211; a tal ponto que o Estado considerou necessário empregar o seu aparato de propaganda na denúncia de tal “lixo anticapitalista”. No passado, porém, essas frustrações nunca tinham se transformado em atos de resistência. Os Protestos do Papel em Branco nas cidades confirmaram, assim, que, pelo menos até certo ponto, houve uma mudança qualitativa de natureza revolucionária. No momento, não podemos necessariamente prever como os futuros movimentos de massa na China se organizarão ou se desenvolverão, mas pelo menos esses movimentos deram início a uma imaginação recém-politizada, derrubando completamente os modelos de mobilização das lutas urbanas anteriores centradas na defesa de direitos e demandas isoladas e despolitizadas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147791 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/WireAP_f6d7e8131ddc4c51be646a2c9cc785e5_16x9_1600-300x169.jpg" alt="" width="459" height="259" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/WireAP_f6d7e8131ddc4c51be646a2c9cc785e5_16x9_1600-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/WireAP_f6d7e8131ddc4c51be646a2c9cc785e5_16x9_1600-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/WireAP_f6d7e8131ddc4c51be646a2c9cc785e5_16x9_1600-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/WireAP_f6d7e8131ddc4c51be646a2c9cc785e5_16x9_1600-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/WireAP_f6d7e8131ddc4c51be646a2c9cc785e5_16x9_1600-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/WireAP_f6d7e8131ddc4c51be646a2c9cc785e5_16x9_1600-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/WireAP_f6d7e8131ddc4c51be646a2c9cc785e5_16x9_1600-681x383.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/WireAP_f6d7e8131ddc4c51be646a2c9cc785e5_16x9_1600.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 459px) 100vw, 459px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As ações de solidariedade em centenas de cidades e universidades em todo o mundo romperam o modelo tradicional de protesto do Movimento Democrático pós-89, de campanhas partidárias e de <em>lobby</em> centradas em líderes políticos, formando um novo tipo de política de oposição com estudantes do continente vivendo no exterior em seu núcleo. No passado, o tradicional Movimento Democrático da China no exterior foi alvo de severas denúncias. Esse tipo de ação política — dominada por líderes de movimentos democráticos no exterior e enfatizando posições diretamente em oposição, todas fortemente infundidas com tendências patriarcais e conservadoras — é completamente incapaz de unir e organizar a ampla massa da diáspora chinesa, para não falar de conexão com questões sociais domésticas e coletividades entre classes &#8211; chegando mesmo a levar a geração mais jovem a se afastar intencionalmente delas. Mas quando se tratava do apoio no exterior aos Protestos do Papel em Branco, os principais organizadores que definiam a agenda e mobilizavam os participantes consistiam principalmente em jovens membros da diáspora que procuravam apoiar o movimento na China e participar ativamente no diálogo com várias organizações da sociedade civil no estrangeiro, a fim de aumentar o impacto e o carácter progressivo dos protestos de solidariedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, em muitos lugares (como Nova York, Londres, Toronto e Vancouver), os protestos de solidariedade não só mobilizaram várias palavras de ordem e sinalizações que abordavam diversas questões relativas às mulheres, minorias sexuais, trabalhadores, Xinjiang, etc., mas a forma como os eventos foram organizados também reforçou o respeito por diversos grupos e questões— especialmente evidente na atenção dada aos campos de concentração em Xinjiang. Depois que o movimento eclodiu em várias cidades, estudantes chineses no estrangeiro apresentaram quatro demandas relativamente moderadas com base nos protestos domésticos, em uma tentativa de dar foco ao movimento:</p>
<ul>
<li class="li">Permitir demonstrações abertas de luto;</li>
<li class="li">Fim da política COVID zero;</li>
<li class="li">Liberdade para os defensores de direitos;</li>
<li class="li">Proteção aos direitos civis.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Essas reivindicações moderadas procuraram alargar o espaço em que os manifestantes na China podiam participar com segurança na luta, para que não tivessem um caráter fortemente politizado, demonstrando o fato de os protestos de solidariedade no estrangeiro estarem fundamentalmente orientados para o movimento interno. Mas, à medida que as discussões entre os grupos chineses no exterior aumentavam o nível de conhecimento dos participantes a respeito da questão de Xinjiang, a situação e as vozes dos uigures — como os mais afetados pelo incêndio em Urumqui, o próprio ponto de partida do movimento — começaram a ser destacadas nos comícios, de modo que os grupos de manifestantes no exterior acrescentaram uma quinta exigência à lista: “acabar com a perseguição racial” ou “fechar os campos de concentração em Xinjiang.”</p>
<p style="text-align: justify;">Embora, por enquanto, essa série de novas práticas progressistas seja possivelmente incapaz de representar a totalidade do movimento de solidariedade no exterior, a mobilização progressiva e as propostas ligadas a questões dentro da China estão claramente dando forma a uma nova política de oposição em meio a diáspora.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As Limitações da Onda de Protestos Anti-Lockdown</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Voltando às nossas questões fundamentais: como devemos compreender e responder às limitações da onda de protestos <em>anti-lockdown</em> e como devemos considerar a sua rápida dissolução? É também por isso que precisamos entendê-la como dividida em três movimentos. Mesmo que tenha começado como um movimento inter-regional entre diferentes classes, com exigências comuns em oposição aos <em>lockdowns</em>, após a erupção, o seu desenvolvimento e mobilização subsequentes dividiram-se em três modalidades totalmente diferentes, e essa foi precisamente a fonte da sua situação.</p>
<p style="text-align: justify;">No decurso do seu desenvolvimento subsequente, o movimento de moradores urbanos e estudantes sediado em praças e universidades basicamente parou de forjar laços com as revoltas nos bairros da classe trabalhadora. Não se trata de negar o valor da politização ou radicalização do primeiro, mas de realçar como essa separação demonstrou a total falta de uma infraestrutura eficaz para ultrapassar as fronteiras entre grupos e estratos sociais no seio dos movimentos populares da China contemporânea no seu conjunto.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147792 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/1_TOPSHOT-CHINA-HEALTH-VIRUS-PROTEST-POLICE-300x200.jpg" alt="" width="517" height="344" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/1_TOPSHOT-CHINA-HEALTH-VIRUS-PROTEST-POLICE-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/1_TOPSHOT-CHINA-HEALTH-VIRUS-PROTEST-POLICE.jpg 615w" sizes="auto, (max-width: 517px) 100vw, 517px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A onda de protestos de fato mostrou uma faceta revolucionária das novas revoltas populares da China, mas não conseguiu fornecer uma solução substancial para a fragmentação e o isolamento de longa data da sociedade civil como um todo. Desde 2013, a sociedade civil e as ONGs têm sofrido perdas cada vez mais pesadas, com a maioria das suas redes de contatos agora desintegradas, enquanto todo o aparato repressivo tem sido continuamente melhorado e reforçado. Mesmo que a atual crise social continue e se agrave, não há infraestruturas para o diálogo interativo nem para a mobilização política entre grupos. Em lutas locais mutuamente independentes, os grupos ainda podem conseguir absorver recursos de outros movimentos, mas sem diálogo entre ou mesmo dentro dos grupos, e sem mecanismos interativos de coordenação—especialmente se não houver interação entre residentes instruídos das cidades e a classe trabalhadora — não há como cada um ecoar o outro ou se envolver no diálogo político como uma força organizacional sustentável. Assim, quando as autoridades empregam aparatos repressivos maduros e altamente direcionados, o movimento em sua totalidade não pode esperar sobreviver por muito tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">A falta de infraestruturas políticas e de redes de contatos não é um problema que surgiu apenas recentemente nessa onda de protestos. Mas, se esperamos, no futuro, continuar a avançar no novo cenário político aberto pelo movimento, é necessário que todos os participantes enfrentem e reflitam seriamente sobre a situação das infraestruturas da sociedade civil e tentem construir redes internas de coordenação e diálogo entre os estratos sociais, ao mesmo tempo que abrem novas práticas de solidariedade no exterior &#8211; caso contrário, embora nunca deixem de acontecer protestos na China, será difícil para a sociedade aderir a movimentos capazes de transformar uma época. Nos próximos movimentos politizados, então, a atenção deve ser focada no problema da construção de infraestruturas da sociedade civil: como as redes de contatos, juntamente com um sistema de diálogo/coordenação entre estratos sociais, podem ser construídas no interior da sociedade civil doméstica que não está mais centrada em ONGs (que foram seriamente reprimidas e limitadas).</p>
<p style="text-align: justify;">A ênfase deste artigo na importância da mobilização da classe trabalhadora não decorre de considerações desejosas e unilaterais de moralismo ou táticas, mas da consideração da história de resistência radical dos trabalhadores migrantes chineses e do sistema capitalista, cuja subjacente distribuição social injusta ela ilumina. Sem atenção às questões de subsistência e à mobilização e alianças da classe trabalhadora, será difícil para qualquer revolta chinesa superar o aparato repressivo e a consciência de hegemonia estatista que se tornou cada vez mais consolidada e, assim, formar um movimento agregado eficaz.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147793 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221128-beijing-protests-mb-0825-f776e6-300x198.webp" alt="" width="475" height="314" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221128-beijing-protests-mb-0825-f776e6-300x198.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221128-beijing-protests-mb-0825-f776e6-637x420.webp 637w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221128-beijing-protests-mb-0825-f776e6-640x422.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221128-beijing-protests-mb-0825-f776e6-681x449.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/03/221128-beijing-protests-mb-0825-f776e6.webp 760w" sizes="auto, (max-width: 475px) 100vw, 475px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o trabalho organizacional de apoio e fortalecimento da nova geração da diáspora chinesa se tornará o núcleo das futuras mobilizações de solidariedade no exterior. Embora o movimento de solidariedade no exterior tenha se libertado do modelo tradicional de mobilização e <em>lobby</em> do Movimento Democrático, abrindo novas direções para a exploração progressiva, a situação permanece: as novas comunidades da diáspora centradas em estudantes internacionais chineses carecem de experiência vivendo na China e possuem poucos laços com grupos de movimento situados no país. Entretanto, há claras tensões políticas entre a situação na China, por um lado, e paradigmas mobilizadores e quadros discursivos no exterior, por outro. Permanecem questões espinhosas sobre como essas comunidades no exterior devem se definir em relação às lutas na China. Essa foi uma das principais razões pelas quais o Movimento Democrático da geração de 1989 no exterior se distanciou cada vez mais dos movimentos internos. Especialmente dentro do atual ambiente internacional de oposição entre a China e as poderosas nações ocidentais, uma situação fundamental enfrentada por essas novas comunidades no exterior é como diminuir sua dependência de partidos políticos estrangeiros e evitar modelos impostos de cima para baixo, ao mesmo tempo em que fornece empoderamento popular suficiente para grupos chineses tanto na China quanto no exterior.</p>
<p style="text-align: justify;">No momento, é difícil determinar como um movimento de solidariedade no exterior verdadeiramente eficaz deve se desenvolver, mas pelo menos a onda de protestos levantou outra nova questão: como as comunidades no exterior devem construir movimentos de solidariedade formados pela nova geração de ativistas chineses progressistas, centrados em questões domésticas salientes dentro da China, e que enfatizam o desenvolvimento de relações com tanto os movimentos na China quanto grupos da sociedade civil no exterior?</p>
<blockquote><p>Traduzido por <em><strong>Marco Túlio Vieira</strong></em> para o <em><strong>Passa Palavra</strong></em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Outra análise da esquerda continental sobre acontecimentos que merece ser destacada é “Novembro: antevisão de uma revolução” (<a class="urlextern" title="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" href="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" rel="ugc nofollow">11</a><a class="urlextern" title="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" href="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" rel="ugc nofollow">月，</a><a class="urlextern" title="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" href="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" rel="ugc nofollow">“</a><a class="urlextern" title="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" href="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" rel="ugc nofollow">革命</a><a class="urlextern" title="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" href="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" rel="ugc nofollow">”</a><a class="urlextern" title="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" href="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" rel="ugc nofollow">的</a><a class="urlextern" title="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" href="https://telegra.ph/11%E6%9C%88%E9%9D%A9%E5%91%BD%E7%9A%84%E9%A2%84%E6%BC%94-12-07" rel="ugc nofollow">预演</a>) por Wuyun (乌云), publicado pela primeira vez no canal do Telegram “Liberation News” (<a class="urlextern" title="https://t.me/gongrenjiefang" href="https://t.me/gongrenjiefang" rel="ugc nofollow">解放</a><a class="urlextern" title="https://t.me/gongrenjiefang" href="https://t.me/gongrenjiefang" rel="ugc nofollow">报</a>) no início de dezembro. Como Zuoyue, Wuyun classifica as lutas de novembro em três tipos, mas usa uma abordagem diferente que inclui protestos no exterior dentro dos protestos simbólicos do Papel em Branco e distingue a luta dos trabalhadores da Foxconn das ações diretas contra medidas específicas de <em>lockdown</em> feitas por vários estratos mais baixos de moradores urbanos. O artigo de Wuyun também difere do relato liberal de esquerda de Zuoyue ao apresentar uma perspectiva maoista, sendo o maoismo de longe a corrente mais difundida na esquerda continental (embora os maoistas continentais estejam internamente divididos em várias facções em guerra). A leitura dos dois artigos em paralelo pode dar uma noção do espectro de posições sobre os acontecimentos de novembro adotados pela esquerda continental. (Ainda não encontramos relatos substanciais de outras correntes de esquerda do continente, como anarquistas, trotskistas ou aqueles que muitas vezes se autodenominam simplesmente “internacionalistas”. Aqueles com quem conversamos dizem que isso acontece porque eles e seus companheiros ainda estão sob custódia policial, ocupados organizando funerais para avós mortos pela Covid após o grande desbloqueio, ou, como nós, eles ainda estão vasculhando os destroços e tentando esclarecer exatamente o que aconteceu). Abaixo está a nossa tradução de um parágrafo relevante do artigo de Wuyun: &#8216;os protestos e lutas nacionais que eclodiram em 23 de novembro podem ser divididos aproximadamente de acordo com suas situações nos três tipos seguintes: o primeiro foi a luta dos trabalhadores da Foxconn, um intenso conflito que os trabalhadores realizaram de forma independente contra os capitalistas e a polícia, exigindo que a Foxconn honrasse as promessas econômicas que havia feito quando os contratou e que proporcionasse compensação econômica aos novos contratados que não estavam dispostos a permanecer na fábrica. Ainda que os trabalhadores realmente lutassem contra os arranjos conjuntos dos capitalistas e do governo burocrático, a luta não foi dirigida contra o Estado em si. O segundo tipo consistia nas lutas por toda a parte que exigiam o fim dos <em>lockdowns</em> nos espaços de habitação urbanos. Seus participantes incluíam os estratos intermediários de moradores das cidades que viviam em complexos residenciais urbanos, mas eram dominados por trabalhadores nas vilas urbanas, lutando em aliança com os estratos mais baixos de patrões e proprietários de casas. Essas lutas visavam os governos locais, com intensos confrontos entre a polícia e os moradores da classe trabalhadora nas vilas urbanas de Guangzhou, por exemplo. O terceiro tipo consistia dos protestos de liberais e estudantes universitários com ideias democráticas, envolvendo as palavras de ordem políticas do liberalismo e do democratismo&#8217;.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Entre esses relatos em inglês, recomendamos ”<a class="urlextern" title="https://thechinaproject.com/2022/12/08/uyghurs-in-urumchi-in-protest/" href="https://thechinaproject.com/2022/12/08/uyghurs-in-urumchi-in-protest/" rel="ugc nofollow">Uigures em Urumqui protestam</a>“ por Darren Byler (China Project, 8 de dezembro);”<a class="urlextern" title="https://madeinchinajournal.com/2022/12/08/wulumuqi-road/" href="https://madeinchinajournal.com/2022/12/08/wulumuqi-road/" rel="ugc nofollow">Estrada Urumqui</a>“ por Chris Connery (Made in China, 8 de dezembro); ”<a class="urlextern" title="https://spectrejournal.com/uprising-against-lockdowns-and-precarity-in-china/" href="https://spectrejournal.com/uprising-against-lockdowns-and-precarity-in-china/" rel="ugc nofollow">A Revolta na China</a>“de Yun Dong (Spectre, 30 de novembro); ”<a class="urlextern" title="https://www.bostonreview.net/articles/escape-from-the-closed-loop/" href="https://www.bostonreview.net/articles/escape-from-the-closed-loop/" rel="ugc nofollow">Escapando do Circuito Fechado</a>“ por Eli Friedman (Boston Review, 27 de novembro); e ”<a class="urlextern" title="https://www.chinafile.com/conversation/china-protest" href="https://www.chinafile.com/conversation/china-protest" rel="ugc nofollow">China em Protesto</a>“por vários autores (China File, 29 de novembro). Entre as fontes chinesas, além dos artigos de Zuoyue e Wuyun, também recomendamos navegar nos canais relevantes em <a class="urlextern" title="https://theinitium.com/tags/_3553/" href="https://theinitium.com/tags/_3553/" rel="ugc nofollow">Initium</a> (端媒體), <a class="urlextern" title="https://ngocn2.org/tag/%2525E7%252599%2525BD%2525E7%2525BA%2525B8%2525E8%2525BF%252590%2525E5%25258A%2525A8/" href="https://ngocn2.org/tag/%2525E7%252599%2525BD%2525E7%2525BA%2525B8%2525E8%2525BF%252590%2525E5%25258A%2525A8/" rel="ugc nofollow">NGOCN</a>, <a class="urlextern" title="https://chinadigitaltimes.net/chinese/tag/%2525E7%252599%2525BD%2525E7%2525BA%2525B8%2525E8%2525BF%252590%2525E5%25258A%2525A8" href="https://chinadigitaltimes.net/chinese/tag/%2525E7%252599%2525BD%2525E7%2525BA%2525B8%2525E8%2525BF%252590%2525E5%25258A%2525A8" rel="ugc nofollow">CDT</a> e <a class="urlextern" title="https://matters.news/tags/139813-%2525E7%252599%2525BD%2525E7%2525BA%2525B8%2525E8%2525BF%252590%2525E5%25258A%2525A8" href="https://matters.news/tags/139813-%2525E7%252599%2525BD%2525E7%2525BA%2525B8%2525E8%2525BF%252590%2525E5%25258A%2525A8" rel="ugc nofollow">Matters</a>, ouvir as entrevistas nos episódios <a class="urlextern" title="https://www.bumingbai.net/2022/11/ep-027-china-protestors/" href="https://www.bumingbai.net/2022/11/ep-027-china-protestors/" rel="ugc nofollow">27</a> &amp; <a class="urlextern" title="https://www.bumingbai.net/2022/12/ep-029-china-protesters-detained/" href="https://www.bumingbai.net/2022/12/ep-029-china-protesters-detained/" rel="ugc nofollow">29</a> do podcast 不明白, e assistir aos vídeos em <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/playlist?list=PL3bAfMXyZjrOrnkC7gPL2dD7lFX4gHDoG" href="https://www.youtube.com/playlist?list=PL3bAfMXyZjrOrnkC7gPL2dD7lFX4gHDoG" rel="ugc nofollow">王局拍案</a>. Se você puder recomendar outras fontes, poste nos comentários ou envie um e-mail para chuangcn@riseup.net.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Vários amigos e camaradas têm discutido esse artigo nos seus respectivos círculos, e uma resposta foi publicada ontem, elaborando as questões que foram levantadas: <a class="urlextern" title="https://ngocn2.org/article/2023-01-18-White-Paper-Movement-tell-the-future-social-resistance/" href="https://ngocn2.org/article/2023-01-18-White-Paper-Movement-tell-the-future-social-resistance/" rel="ugc nofollow">“</a><a class="urlextern" title="https://ngocn2.org/article/2023-01-18-White-Paper-Movement-tell-the-future-social-resistance/" href="https://ngocn2.org/article/2023-01-18-White-Paper-Movement-tell-the-future-social-resistance/" rel="ugc nofollow">白</a><a class="urlextern" title="https://ngocn2.org/article/2023-01-18-White-Paper-Movement-tell-the-future-social-resistance/" href="https://ngocn2.org/article/2023-01-18-White-Paper-Movement-tell-the-future-social-resistance/" rel="ugc nofollow">纸运动</a><a class="urlextern" title="https://ngocn2.org/article/2023-01-18-White-Paper-Movement-tell-the-future-social-resistance/" href="https://ngocn2.org/article/2023-01-18-White-Paper-Movement-tell-the-future-social-resistance/" rel="ugc nofollow">”</a><a class="urlextern" title="https://ngocn2.org/article/2023-01-18-White-Paper-Movement-tell-the-future-social-resistance/" href="https://ngocn2.org/article/2023-01-18-White-Paper-Movement-tell-the-future-social-resistance/" rel="ugc nofollow">对未来的社会抗争有何启发？</a> por Zuowang 左望 (NGOCN, 18 de janeiro).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Outra lente que alguns leitores notaram é o conjunto específico de fontes que o artigo usa, que relatam estimativas de maior número e alcance dos protestos (explicadas nas notas de rodapé abaixo), e tendem a superestimar a influência mútua exercida por uma série de eventos dispersos. Ocorrências concretas nos locais são confundidas com os escândalos mais proeminentes de 2022 que apareceram no noticiário da esquerda ativista (circulando principalmente fora do Grande Firewall e, portanto, desconhecidos para aqueles que decidiram se revoltar nas vilas urbanas da China, por exemplo). Isso explica algumas das equações oferecidas na análise, onde formas díspares de descontentamento são convocadas como evidência de uma resistência lentamente crescente do povo contra a política COVID zero e, eventualmente, todo o sistema político.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Alguns observadores questionaram se o motim na Foxconn realmente fazia parte do movimento <em>anti-lockdown</em>. Poderíamos ir mais longe e perguntar se mesmo os protestos do papel em branco e as ações diretas contra medidas específicas de COVID zero constituíram, em conjunto ou separadamente, tal movimento. Os participantes em ambos os tipos de resistência parecem ter partilhado algum tipo de oposição à política de zero COVID (que envolveu muitas outras características além dos ”<em>lockdowns</em>“, como normalmente entendido em inglês: os idosos sendo forçados por “grandes brancos” a se mudarem para instalações de quarentena insalubres, ao mesmo tempo em que foram negados cuidados médicos, o bloqueio literal de pessoas em seus edifícios que levou às mortes que provocaram os protestos do papel em branco, etc.). Quando a política de COVID zero não foi apontada como inimiga, os participantes pressionaram pela implementação local das “20 medidas” do governo central para mitigar as consequências mais brutais da política. Raramente alguém expressou oposição aos <em>lockdowns</em> em geral, como uma questão de princípio, de uma forma comparável aos protestos ”<em>anti-lockdown</em>“ politizados que ocorrerem em outros países. Como mencionado no artigo de Zuoye, nas poucas ocasiões em que os manifestantes do papel em branco articulavam demandas e palavras de ordem mais amplos, eles visavam mudanças institucionais que permitissem aos “cidadãos” ter mais voz na formulação de políticas (potencialmente incluindo políticas de <em>lockdown</em> mais razoáveis — como pelo menos alguns manifestantes-apoiadores expressaram desde a desastrosa reversão da política em Pequim no dia 7 de dezembro). As ações diretas proletárias, por outro lado, visavam exigências específicas de subsistência (também apontadas no artigo), incluindo coisas como: nos forneça a comida e os produtos médicos prometidos; me deixem sair do meu apartamento para poder ir trabalhar e ver um médico; me deixem ir para casa ver a minha família, etc. O seu conteúdo e especialmente as suas formas de resistência &#8211; bem como o seu isolamento de outras camadas sociais, incluindo os manifestantes do papel em branco &#8211; ecoaram muitas outras lutas na esfera da reprodução que os proletários têm travado nas vilas urbanas e distritos industriais da China periodicamente desde pelo menos os anos 2000 (explorado nos nossos artigos ”<a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/journal/one/no-way-forward-no-way-back/" href="https://chuangcn.org/journal/one/no-way-forward-no-way-back/" rel="ugc nofollow">No Way Forward, No Way Back</a>“ e ”<a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/journal/two/picking-quarrels/" href="https://chuangcn.org/journal/two/picking-quarrels/" rel="ugc nofollow">Picking Quarrels</a>“, por exemplo). Tudo isso sugere que essas ações expressam problemas mais profundos relacionados à crise de reprodução social de longo prazo, que só foi exacerbada pela zero COVID. (Essa possibilidade é explorada no artigo de Eli Friedman ”<a class="urlextern" title="https://www.bostonreview.net/articles/escape-from-the-closed-loop/" href="https://www.bostonreview.net/articles/escape-from-the-closed-loop/" rel="ugc nofollow">Escapando do Circuito Fechado</a>“).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Ouça, por exemplo, as entrevistas com os manifestantes do papel em branco no <em>podcast</em> <a class="urlextern" title="https://www.bumingbai.net/2022/11/ep-027-china-protestors-text/" href="https://www.bumingbai.net/2022/11/ep-027-china-protestors-text/" rel="ugc nofollow">Bumingbai</a>, e leia aquelas em vários dos <a class="urlextern" title="https://theinitium.com/channel/mainland-zero-covid-protest/" href="https://theinitium.com/channel/mainland-zero-covid-protest/" rel="ugc nofollow">Relatórios da Initium</a> e em <a class="urlextern" title="https://ngocn2.org/tag/%2525E7%252599%2525BD%2525E7%2525BA%2525B8%2525E8%2525BF%252590%2525E5%25258A%2525A8/" href="https://ngocn2.org/tag/%2525E7%252599%2525BD%2525E7%2525BA%2525B8%2525E8%2525BF%252590%2525E5%25258A%2525A8/" rel="ugc nofollow">NGOCN</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Para obter detalhes sobre os distúrbios na Foxconn e seus antecedentes, consulte 郑州富士康工人的阶级斗争 (“The class struggle of Foxconn workers in Zhengzhou”) da plataforma maoista 今朝 (“Hoje”), republicado na plataforma taiwanesa Events in Focus (焦點事件): <a class="urlextern" title="https://www.eventsinfocus.org/sites/default/files/2022-11/%2525E3%252580%252590%2525E6%2525B7%2525B1%2525E5%2525BA%2525A6%2525E5%252588%252586%2525E6%25259E%252590%2525E3%252580%252591_%2525E9%252583%252591%2525E5%2525B7%25259E%2525E5%2525AF%25258C%2525E5%2525A3%2525AB%2525E5%2525BA%2525B7%2525E5%2525B7%2525A5%2525E4%2525BA%2525BA%2525E7%25259A%252584%2525E9%252598%2525B6%2525E7%2525BA%2525A7%2525E6%252596%252597%2525E4%2525BA%252589%2525EF%2525BC%252588%2525E4%2525B8%252580%2525EF%2525BC%252589_2011_11_25.pdf" href="https://www.eventsinfocus.org/sites/default/files/2022-11/%2525E3%252580%252590%2525E6%2525B7%2525B1%2525E5%2525BA%2525A6%2525E5%252588%252586%2525E6%25259E%252590%2525E3%252580%252591_%2525E9%252583%252591%2525E5%2525B7%25259E%2525E5%2525AF%25258C%2525E5%2525A3%2525AB%2525E5%2525BA%2525B7%2525E5%2525B7%2525A5%2525E4%2525BA%2525BA%2525E7%25259A%252584%2525E9%252598%2525B6%2525E7%2525BA%2525A7%2525E6%252596%252597%2525E4%2525BA%252589%2525EF%2525BC%252588%2525E4%2525B8%252580%2525EF%2525BC%252589_2011_11_25.pdf" rel="ugc nofollow">parte 1</a>, <a class="urlextern" title="https://www.eventsinfocus.org/sites/default/files/2022-11/%2525E3%252580%252590%2525E6%2525B7%2525B1%2525E5%2525BA%2525A6%2525E5%252588%252586%2525E6%25259E%252590%2525E3%252580%252591_%2525E9%252583%252591%2525E5%2525B7%25259E%2525E5%2525AF%25258C%2525E5%2525A3%2525AB%2525E5%2525BA%2525B7%2525E5%2525B7%2525A5%2525E4%2525BA%2525BA%2525E7%25259A%252584%2525E9%252598%2525B6%2525E7%2525BA%2525A7%2525E6%252596%252597%2525E4%2525BA%252589%2525EF%2525BC%252588%2525E4%2525BA%25258C%2525EF%2525BC%252589_2022_11_26.pdf" href="https://www.eventsinfocus.org/sites/default/files/2022-11/%2525E3%252580%252590%2525E6%2525B7%2525B1%2525E5%2525BA%2525A6%2525E5%252588%252586%2525E6%25259E%252590%2525E3%252580%252591_%2525E9%252583%252591%2525E5%2525B7%25259E%2525E5%2525AF%25258C%2525E5%2525A3%2525AB%2525E5%2525BA%2525B7%2525E5%2525B7%2525A5%2525E4%2525BA%2525BA%2525E7%25259A%252584%2525E9%252598%2525B6%2525E7%2525BA%2525A7%2525E6%252596%252597%2525E4%2525BA%252589%2525EF%2525BC%252588%2525E4%2525BA%25258C%2525EF%2525BC%252589_2022_11_26.pdf" rel="ugc nofollow">parte 2</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> TRADUTORES [para o inglês]: essa é uma tradução do título original 为什么白纸抗议是”三个运动“？理解封控抗议潮的革命性和局限性.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> TRADUTORES [para o inglês]: as “políticas nacionais fundamentais” (基本国策) são aquelas considerados centrais para a fundação e o governo do país. Não é, no entanto, uma categoria jurídica oficial, mas sim uma distinção feita tanto nos meios de comunicação oficiais como no discurso público. No passado, dizia-se que a categoria incluía políticas de planejamento familiar, igualdade dos sexos, reforma e abertura, proteção das terras aráveis, eficiência energética e proteção ao meio-ambiente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> TRADUTORES [para o inglês]: o original não indica a fonte deste valor, mas o banco japonês Nomura <a class="urlextern" title="https://cn.nytimes.com/business/20220415/china-lockdowns-economy/" href="https://cn.nytimes.com/business/20220415/china-lockdowns-economy/" rel="ugc nofollow">estimou</a> em abril de 2022, que quase um em cada três cidadãos chineses estava sob alguma forma de <em>lockdown</em>, o que elevaria o número para aproximadamente 400 milhões, ou um terço da população da China. O banco tem seu próprio modelo de quanto da economia está sob <em>lockdown</em>, e não está claro como seus cálculos são feitos. Sua <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/economy/china-economy/article/3200880/china-gdp-one-fifth-economy-under-lockdown-and-analysts-expect-it-get-much-worse" href="https://www.scmp.com/economy/china-economy/article/3200880/china-gdp-one-fifth-economy-under-lockdown-and-analysts-expect-it-get-much-worse" rel="ugc nofollow">estimativa</a> para novembro foi que 30% da população da China estava sob alguma forma de <em>lockdown</em>. Planejamos explorar a dinâmica dos bloqueios, “áreas de alto risco” e a disseminação do Ômicron ao longo de 2022 em relação às várias formas de agitação e às respostas desastrosas do Estado a tudo isso em uma futura publicação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> TRADUTORES [para o inglês]: os relatórios do incêndio de Anyang mostram que a grande maioria dos trabalhadores, incluindo os que morreram, eram idosos locais de Anyang. Foi uma tragédia para a comunidade, pois a maioria das pessoas se conhecia. Uma das trabalhadoras presa conseguiu ligar para o marido, que trouxe uma escada de casa para o local para ajudar no esforço de resgate. Para mais informações em inglês com <em>links</em> para vários relatos chineses, ver ”<a class="urlextern" title="https://clb.org.hk/content/garment-factory-fire-anyang-takes-38-lives-injures-2" href="https://clb.org.hk/content/garment-factory-fire-anyang-takes-38-lives-injures-2" rel="ugc nofollow">Garment factory fire in Anyang takes 38 lives, injures 2</a>“(CLB, 29 de novembro).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> As cidades implementaram individualmente políticas de vales de consumo, mas essas muitas vezes não resultaram numa melhoria significativa na situação dos trabalhadores. Os vales eram poucos, orientados apenas para certos bens e distribuídos apenas em certos casos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Para tomar como exemplo a Meituan: no final de 2019, a Meituan tinha 3,98 milhões de entregadores registados. No final de 2020, o número de indivíduos que recebem rendimentos da Meituan aumentou para 9,5 milhões.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> TRADUTORES [para o inglês]: o crescimento do PIB do quarto trimestre da China foi <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/world/china/chinas-economy-slows-sharply-q4-2022-growth-one-worst-record-2023-01-17/" href="https://www.reuters.com/world/china/chinas-economy-slows-sharply-q4-2022-growth-one-worst-record-2023-01-17/" rel="ugc nofollow">2.9%</a>, (maior do que o valor de 0,4% no primeiro trimestre, mas abaixo do 3,8% no terceiro), então assumimos que o autor quis dizer “maior crescimento” aqui.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> As palavras exatas no cartaz original eram: “não queremos testes de ácido nucleico, queremos comida para comer / não queremos bloqueios, queremos liberdade / não queremos mentiras, queremos dignidade / não queremos Revolução Cultural, queremos reforma / não queremos líderes, queremos eleições / não queremos ser escravos, queremos ser cidadãos”. Essas palavras de ordem foram gritadas na íntegra em certos lugares durante os protestos, mas também foram convencionalmente abreviados para “não queremos testes de ácido nucleico, queremos liberdade.” Outros locais acrescentaram suas próprias inovações, como em uma palavra de ordem vista em Guangzhou: “não queremos ficar parados e assistir, queremos participar / não queremos ficar deitados, queremos ir trabalhar / não queremos ficar deitados, queremos ir para a escola.”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Greves e outras ações em defesa dos direitos dos trabalhadores existem há muito tempo na China, mas devido à censura e à repressão — que também tornaram a discussão das questões dos trabalhadores em geral menos visível — esses protestos há muito sofrem de invisibilidade, apesar de sua frequência. Quase todas as cidades e zonas industriais do país assistiram a protestos espontâneos e dispersos por parte dos trabalhadores durante muitos anos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> TRADUTORES [para o inglês]: o original se baseia aqui e em vários outros lugares no “China Dissent Monitor”, que é um produto da ONG norte-americana Freedom House. Em nossa opinião, o Dissent Monitor não é uma fonte empírica ou politicamente confiável, e a confiança do autor nessa e em várias outras fontes questionáveis parece ser o motivo de muitas das estimativas (de números de protestos, participantes, etc.) serem inflados em todo o artigo. Há dois grandes problemas com o Dissent Monitor. Em primeiro lugar, tanto a sua metodologia como as suas fontes são totalmente opacas, tornando extremamente difícil verificar os fatos. Em segundo lugar, e mais importante, a sua organização-mãe é uma ONG conservadora intimamente ligada aos interesses do governo dos EUA. A organização recebe a maior parte do seu financiamento de subvenções do governo dos EUA e, embora não receba financiamento direto do Departamento de Estado, recebe dinheiro da USAID e de outras fontes de subvenções ligadas aos interesses de segurança nacional dos EUA. Mais contundente é o fato de que a organização foi fundada como um <em>think tank</em> anticomunista durante a Guerra Fria, em cujo papel produziu críticas contundentes a figuras proeminentes como Martin Luther King Jr. e sua posição contra a guerra do Vietnã. Nos últimos anos, a Freedom House ajudou a estabelecer os padrões duplos usados em vários rankings de “democracia”, que têm pouco a ver com instituições democráticas e, em vez disso, são clara e sistematicamente tendenciosos em favor de países aliados aos interesses da política externa dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Depois que os Protestos do Papel em Branco desapareceram da praça pública no distrito de Haizhu, em Guangzhou (por volta de 28 de novembro), os protestos coletivos dos trabalhadores contra o bloqueio continuaram em várias vilas urbanas de Haizhu, como a vila de Lijiao e de Houjiao, onde os trabalhadores viraram carros da polícia que disparou bombas de gás lacrimogêneo e prendeu uma parte dos manifestantes como resposta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> TRADUTORES [para o inglês]: ”<a class="urlextern" title="https://en.wikipedia.org/wiki/Weiquan_movement" href="https://en.wikipedia.org/wiki/Weiquan_movement" rel="ugc nofollow">Defesa Dos Direitos</a>“ (维权) refere-se à prática de recorrer a autoridades (geralmente de nível superior) para garantir que a letra da lei seja seguida e que todos os direitos e proteções legalmente garantidos sejam implementados corretamente. Embora essa seja uma descrição precisa de muitos protestos na China, a representação de diferentes formas de agitação dos trabalhadores como “defesa dos direitos” também é muitas vezes uma escolha política, seja feita para evitar a censura ou como uma forma de obscurecer intencionalmente dimensões mais radicais de qualquer onda de agitação sob o jargão liberal e institucionalmente orientado popular entre os ativistas da sociedade civil. (Isso é explorado no livro <a class="urlextern" title="https://en.wikipedia.org/wiki/Rightful_resistance" href="https://en.wikipedia.org/wiki/Rightful_resistance" rel="ugc nofollow">Resistência Legítima</a><em> na China Rural</em> por Lianjiang Li e Kevin O&#8217;Brien.)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> TRADUTORES [para o inglês]: aqui e em outros lugares o autor refere-se a um “movimento operário” ou “movimento dos trabalhadores”. Nenhum movimento de massa dos trabalhadores existiu na China desde que o movimento sindical pré-revolucionário foi incorporado ao Partido-Estado na década de 1950 &#8211; com a possível <a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/journal/two/red-dust/iron-to-rust/" href="https://chuangcn.org/journal/two/red-dust/iron-to-rust/" rel="ugc nofollow">exceção</a> das greves defensivas e tumultos de trabalhadores do antigo cinturão industrial socialista confrontados com demissões em massa durante a reestruturação de empresas estatais no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Hoje, o uso frequente do termo ”<a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/journal/two/the-awakening-of-lin-xiaocao/" href="https://chuangcn.org/journal/two/the-awakening-of-lin-xiaocao/" rel="ugc nofollow">movimento dos trabalhadores</a>“ por ativistas geralmente se refere à combinação de pequenas redes de ativistas dos direitos dos trabalhadores (que foram essencialmente aniquiladas em 2019) e as greves e tumultos dispersos, esporádicos e na maioria desorganizados no setor manufatureiro que cresceram em vigor na década de 2000, atingiram o pico no início da década de 2010 e recuaram depois disso. Em textos como este, a “repressão ao movimento dos trabalhadores” refere-se principalmente à repressão específica dos ativistas, em vez da repressão mais ampla e complexa de várias formas de agitação proletária.</p>
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		<title>Escapando do Circuito Fechado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daniel Bastos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Feb 2023 03:25:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
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					<description><![CDATA[ Os protestos na China lançam uma luz não apenas sobre a gestão draconiana exercida sobre a população do país, mas também sobre as restrições impostas aos trabalhadores em todos os lugares.   Por Eli Friedman]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Eli Friedman</h3>
<p style="text-align: justify;">Por alguns dias em abril, minha <em>timeline</em> foi dominada por imagens de uma mulher de noventa e cinco anos em Xangai lutando contra os “Grandes Brancos” &#8211; funcionários do governo e policiais vestidos com trajes de proteção que passaram a simbolizar os excessos coercitivos do recente <em>lockdown</em> devido à COVID-19 na megacidade. Empunhando nada mais do que uma vassoura, a mulher repeliu os avanços de seis policiais que vieram levá-la de sua casa para as temidas instalações centralizadas de quarentena. No fim, ela foi subjugada e detida, apenas para aparecer mais tarde naquele dia de volta em casa. Supostamente, ela escapou da quarentena pulando por uma parede. Sua vontade de ferro e destemor diante do poder esmagador do Estado conquistaram instantaneamente um status de culto na internet.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa insurrecionaria de noventa anos imitava o “Homem dos Tanques” de 1989, que parou uma fila de tanques na Praça Tiananmen. Ambos os indivíduos encararam a mão pesada de uma ditadura autoritária e forçaram-na a hesitar, representando as linhas de opressão e resistência. O Homem dos Tanques e a avó de Xangai merecem a nossa admiração, mas nenhuma das suas ações deve ser reduzida a uma representação ao estilo de Hollywood do indivíduo contra o Estado. No contexto dos esforços incessantes do Estado chinês para atomizar a sociedade, balançar uma vassoura contra os Grandes Brancos é um ato político, mas que devemos situar no interior de uma linhagem de feroz resistência coletiva à morte social — não apenas na China, mas dentro das lutas dos despossuídos em todo o mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">–</p>
<p style="text-align: justify;">Com ou sem a pandemia de COVID-19, a China possui uma maior capacidade de controlar o movimento interno da sua população do que talvez qualquer outro país no mundo. Isso é garantido principalmente através do sistema de registro de domicílio (<em>hukou</em>), que vincula a prestação de serviços sociais a localidades regionais desde 1958. Sob o comando de Deng Xiaoping, a China começou a construir um mercado de trabalho nacional, que hoje permite aos cidadãos desfrutar da estreita liberdade de mercado para procurar emprego em todo o país. Mas a cidadania social, incluindo o acesso a cuidados de saúde, educação, pensões e habitação subsidiadas pelo Estado, está estruturada ao nível da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos anos, o governo central promoveu uma biopolítica tecnocrática que visa distribuir especificamente as pessoas, nas qualidades e quantidades certas, no interior de uma complexa hierarquia socioespacial de cidades e regiões. Essa “urbanização just-in-time” destina-se a atrair talentos de elite para cidades de elite e empurrar a “população de baixo custo” para lugares de baixo custo.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora a mobilidade humana nunca possa ser ditada com tanta precisão, o efeito prático para os trabalhadores migrantes dentro da China tem sido a separação dos espaços de vida e de trabalho. Quase 300 milhões de pessoas foram deslocadas, indo para as cidades em busca de trabalho apenas para ter o acesso negado a infraestruturas que sustentam a vida, como habitação e saúde. Essa divisão foi aplicada através dos sistemas de avaliação baseados em pontos, permitindo a distribuição de recursos nominalmente públicos a pessoas detentoras de propriedade com altos níveis de educação. Em outras palavras, embora haja livre circulação de capitais e de força de trabalho na China, continuam a existir fronteiras internas massivas que restringem a reprodução social.</p>
<p style="text-align: justify;">Às vezes, essas fronteiras invisíveis se manifestam fisicamente. Embora a deportação de pessoas que não são naturais das cidades (“custódia e repatriação”, no jargão oficial) tenha sido proibida após o assassinato pela polícia do migrante Sun Zhigang em 2003, as cidades ainda tomam medidas coercitivas para remover pessoas consideradas fora do lugar. Isso envolveu a demolição de escolas informais para crianças migrantes e até mesmo a destruição de comunidades inteiras de migrantes. O exemplo recente e mais espetacular de expulsão coercitiva de trabalhadores migrantes aconteceu em 2017, quando o governo municipal de Pequim usou um trágico incêndio como pretexto para despejos em massa e reconstrução de bairros da classe trabalhadora, deslocando quase 100.000 pessoas no processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Tais intervenções coercitivas surgem devido à dissonância entre um mercado de trabalho organizado nacionalmente e um bem-estar social organizado a nível regional, uma dinâmica que tem gerado explosões esporádicas de lutas sociais. Em minha pesquisa com trabalhadores migrantes em Pequim, Guangzhou e em outros lugares, frequentemente descobri que as pessoas estavam conscientes de como as cidades entrariam em colapso sem seu trabalho e incrédulas de que fossem recebidas nessas cidades como trabalhadores sem acesso à educação, moradia e saúde. Muitas vezes sem o apoio do Estado, essas comunidades esforçaram-se criativamente para satisfazer as suas próprias necessidades sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Já na década de 1990, por exemplo, pequenos grupos de pais reuniam os seus limitados recursos para montar escolas informais, muitas vezes começando no quarto de um apartamento. Algumas dessas operações de ajuda mútua continuaram a crescer nos interstícios institucionais da cidade, oferecendo educação de baixo custo para crianças que têm o acesso negado ao sistema público. Sem apoio público, essas escolas certamente enfrentam limitações, uma vez que são obrigadas a depender dos pagamentos, enquanto atendem a uma comunidade pobre e da classe trabalhadora. Ainda assim, algumas conseguiram obter apoio financeiro de fundações e do governo, ao mesmo tempo em que alcançavam admiráveis históricos acadêmicos. Tais esforços não reverteram a maré de desigualdade educacional e econômica na China, mas permitiram, no mínimo, que milhões de trabalhadores migrantes vivessem na mesma cidade que seus filhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns trabalhadores também encontraram soluções institucionais na procura de habitação a preços acessíveis nas cidades em expansão. Especialmente nas megacidades de “nível um” [tier one], como Xangai, Pequim, Shenzhen e Guangzhou, o custo da habitação é astronômico, e a compra de um apartamento está fora do alcance de quase todos, exceto de um pequeno número de migrantes rurais que vieram para a cidade. Esses trabalhadores frequentemente encontram habitações em “vilas na cidade” &#8211; terras formalmente designadas como rurais que foram cercadas pela cidade nas últimas décadas de urbanização vertiginosa. As comunidades locais que mantêm os direitos de utilização dessa terra construíram habitações informais de custo relativamente baixo. Tal como acontece com as escolas informais, existem limitações reais: na ausência de apoio público, a habitação é muitas vezes de má qualidade, com acesso deficiente a infraestruturas físicas e sociais. Ainda assim, essa habitação permite o acesso dos migrantes ao mercado de trabalho urbano que, de outra forma, seria bloqueado pelos elevados custos de moradia.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas táticas de sobrevivência são legalmente precárias, sendo, portanto, expostas aos caprichos das autoridades locais em relação à reconstrução. Mas, repetidas vezes, vimos migrantes exigirem o direito de permanecerem nas cidades chinesas. Em Pequim, por exemplo, pelo menos setenta e seis escolas para crianças migrantes foram demolidas entre 2010 e 2018. As demolições das escolas geraram frequentemente ações coletivas de confronto, incluindo petições a funcionários do governo, bloqueios de estradas e até mesmo a autoimolação dos pais. Explosões de distúrbios como esses conseguiram frequentemente alcançar vitórias, evitando planos de demolição e obtendo matrículas para crianças em escolas públicas, mesmo enquanto a exclusividade das megacidades ricas da China avança.</p>
<p style="text-align: justify;">As comunidades migrantes também lutaram contra os despejos de habitações informais em Pequim no outono de 2017. A sua resistência não só gerou uma onda de simpatia generalizada por parte dos cidadãos urbanos, mas também uma solidariedade substancial entre classes. Habitantes de Pequim de todas as classes sociais se organizaram através de redes de ajuda mútua para fornecer alojamento temporário, roupas e alimentos para as dezenas de milhares de pessoas que foram desalojadas. Acadêmicos proeminentes assinaram uma carta denunciando os despejos. No contexto de uma liberdade acadêmica drasticamente reduzida sob o comando de Xi Jinping, tal carta trazia um grande risco, bem como um peso simbólico. De forma menos altruísta, mas ainda assim significativa, algumas das empresas que dependiam de trabalhadores migrantes apressaram-se para organizar habitações temporárias. Uma ampla coalizão surgiu quase que da noite para o dia para resistir a um Estado urbano dotado da maquinaria biopolítica que quer reorganizar a vida humana como bem entende. As lutas dos migrantes para aproximar o trabalho e a vida assumiram um caráter novo e ainda mais urgente nos anos seguintes.</p>
<p style="text-align: justify;">O surto inicial de COVID-19 e o subsequente <em>lockdown</em> em Wuhan revelaram muito sobre o regime de gestão populacional do Estado. Como meticulosamente documentado por Chuang em <em>Contágio Social</em> (2021), o sucesso da medida não pode ser atribuído a um Estado centralizado onipotente. De fato, foi precisamente a incapacidade e a irracionalidade do Estado que permitiram, em primeiro lugar, a propagação do vírus. Ao contrário, durante o surto inicial surgiram densas redes de ajuda mútua, facilitando a circulação de bens essenciais em toda a cidade e região, permitindo assim que a maioria das pessoas ficasse em casa. Embora o Estado tenha eventualmente se comprometido a erradicar o vírus, a chave para o sucesso em Wuhan foi as capacidades de coordenação do Estado <em>combinadas</em> com iniciativas de baixo para cima.</p>
<p style="text-align: justify;">–</p>
<p style="text-align: justify;">Nos dois anos e meio desde o seu início, a pandemia remodelou drasticamente a mobilidade humana. No nível mais geral, a era da COVID-19 alargou o fosso de mobilidade entre, de um lado, o capital e as mercadorias, e do outro, a força de trabalho e as pessoas. Sem dúvida, a circulação de mercadorias foi abalada por aquilo a que se chamou, de forma um tanto imprecisa, crise da cadeia de suprimentos. Ainda assim, enquanto a imigração global e as viagens internacionais caíram acentuadamente devido à pandemia, o comércio global atingiu um novo recorde de US$ 28,5 trilhões em 2021. O comércio da China com os Estados Unidos aumentou 25% em 2021, enquanto o superavit comercial global chinês atingiu um recorde de US$ 676,6 bilhões. Ao mesmo tempo, a China impôs novos controles radicais sobre a mobilidade das pessoas, tanto nacional quanto internacionalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">A abordagem da China para gerir o movimento humano durante a pandemia não pode ser vista isoladamente do resto do mundo. Durante a maior parte de 2020 e 2021, funcionários do governo e a mídia comemoraram o fracasso catastrófico da maioria dos outros países — especialmente dos Estados Unidos — em evitar a mortalidade em massa. Muitos chineses justificadamente orgulharam-se e apoiaram ativamente os esforços do Estado para conter o vírus, permitindo assim um elevado grau de normalidade na vida cotidiana. A narrativa de Xi sobre o “grande renascimento da nação chinesa” em contraste com o declínio do Ocidente foi impulsionada pelas respostas díspares à pandemia.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, na primavera de 2022, o vírus sofreu uma mutação e as vacinas nacionais tornaram-se quase inúteis na prevenção da infecção (embora, com três doses, ainda sejam altamente eficazes contra a hospitalização e a morte). A China, e talvez a Coreia do Norte, foram deixadas como os últimos refúgios da política de “zero COVID-19”.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando os casos começaram a surgir em Xangai, em março, poucos puderam antecipar a catástrofe social que estava prestes a se desenrolar. Seguindo o manual de “zero dinâmico”, a resposta inicial não foi um <em>lockdown</em> ao nível da cidade, mas sim uma quarentena mais direcionada nas unidades administrativas ao nível comunitário. Em 28 de março, o governo anunciou um <em>lockdown</em> em estágios, começando na parte leste da cidade antes de se expandir para os distritos ocidentais. Os moradores foram instruídos a esperar apenas alguns dias de <em>lockdown</em>. Mas, à medida que os dias se tornavam semanas, o <em>lockdown</em> zelosamente implementado produziu todo o tipo de sofrimento humano. Problemas de saúde mental induzidos pelo isolamento levaram a suicídios; sistemas alimentares rigidamente controlados e muitas vezes mal coordenados entraram em colapso, deixando as pessoas sem sustento adequado; os cuidados de saúde para outras doenças foram suspensos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-147677 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-D-KrTp0I7YI-unsplash.jpg" alt="" width="1920" height="1280" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-D-KrTp0I7YI-unsplash.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-D-KrTp0I7YI-unsplash-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-D-KrTp0I7YI-unsplash-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-D-KrTp0I7YI-unsplash-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-D-KrTp0I7YI-unsplash-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-D-KrTp0I7YI-unsplash-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-D-KrTp0I7YI-unsplash-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-D-KrTp0I7YI-unsplash-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uma distinção fundamental entre Wuhan e Xangai é que, durante o <em>lockdown</em> mais recente, o Estado insistiu que as pessoas continuassem a trabalhar. Esforçar-se por manter a circulação de capitais enquanto desmobiliza radicalmente a força de trabalho é um desafio, mas as autoridades de Xangai estavam dispostas a tentar. A principal arma político-espacial em seu arsenal era o <em>circuito fechado</em>. Não totalmente diferente da “bolha” da NBA de 2020, o circuito fechado foi inicialmente implantado nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim em 2022 para permitir que pessoas de todo o mundo se reunissem sem aumentar as taxas de infecção na sociedade em geral. A estratégia consistia em manter as instalações o mais próximo possível de serem hermeticamente fechadas, permitindo apenas a entrada de itens essenciais, como alimentos e medicamentos, evitando ao mesmo tempo que quase todas as pessoas saíssem do circuito. Esta estratégia permite que o capital circule, reduzindo ao mínimo a mobilidade humana.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a implementação do <em>lockdown</em> em Xangai mais tarde naquela primavera, tornou-se evidente que a lógica do circuito fechado havia vazado da Vila Olímpica para a política mais geral. Em 11 de abril, o governo de Xangai emitiu uma “lista branca” contendo 666 empresas que poderiam reabrir apesar do amplo <em>lockdown</em> (outras 342 empresas foram adicionadas em maio). Entre os listados estavam a Gigafactory da Tesla e a Quanta, uma das fornecedoras mais importantes da Apple. A fabricação em circuito fechado exigia que os trabalhadores entrassem na fábrica e permanecessem lá — comendo, dormindo e trabalhando apenas dentro do terreno da planta. Quando os trabalhadores foram trazidos para o circuito, eles não tinham como saber quando seriam autorizados a sair. Em vez de trabalhar em casa, estes trabalhadores foram chamados a viver no trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, o regime de trabalho em casa que os trabalhadores de colarinho branco tiverem que suportar era, em essência, um circuito fechado organizado ao nível do domicílio familiar. Diferentes comunidades passaram por <em>lockdowns</em> de diferentes intensidades a partir de março, mas nos casos mais extremos, não era permitido que as pessoas saíssem de seus apartamentos. Os alimentos chegavam por canais governamentais, as chamadas “compras em grupo” (ou seja, membros de uma única comunidade que compravam grandes quantidades de produtos) ou serviços de entrega online que estavam disponíveis de forma intermitente para aqueles que podiam pagar. A saída do circuito fechado domiciliar era rigorosamente policiada e exigia permissão oficial. Em alguns casos, funcionários zelosos literalmente construíram paredes em frente às portas dos apartamentos para controlar o movimento dos moradores. Os cidadãos urbanos, muitos deles ricos, enfrentaram escassez de alimentos e ansiedade, pois foram instruídos a continuar com seus empregos, cuidado de crianças e outras formas de trabalho enquanto viviam praticamente em prisão domiciliar.</p>
<p style="text-align: justify;">Viver no trabalho e trabalhar em casa sobrepôs os espaços de produção e reprodução social, com efeitos deletérios. Mas muitos residentes pobres e da classe trabalhadora de Xangai não se encaixam em nenhum desses circuitos fechados. Eles vivem principalmente em habitações informais e trabalham em empregos informais. Muitos vivem em “aluguéis em grupo”, muitas vezes excedendo a ocupação legal, como forma de garantir moradia no mercado imobiliário exorbitantemente caro de Xangai. Outros residem em habitações autoconstruídas que não têm legitimidade legal. Essas populações, que residiam fora da competência do Estado, muitas vezes não recebiam distribuições adequadas de alimentos durante o <em>lockdown</em>, lhes restando comprar seus próprios alimentos enquanto enfrentavam o aumento dos preços. O desafio de comprar alimentos no mercado foi agravado pelo fato de que os trabalhos dessas pessoas — trabalhadores da construção civil, cozinheiros e garçons, trabalhadores domésticos e profissionais do sexo — foram fechados pelo <em>lockdown</em>, o que normalmente significava que tinham pouca ou nenhuma renda. A maioria desses trabalhadores também são migrantes rurais que foram para as cidades, sendo impedidos de deixar Xangai para voltar para suas cidades natais durante o <em>lockdown</em>. A consequência foi uma crise de subsistência iminente para vastas áreas da subclasse da megacidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Os <em>lockdowns</em>, uma política que preservou com sucesso a vida nos dois primeiros anos da pandemia, transformaram-se em intervenções que desconsideram as consequências mais amplas na sociedade e na saúde pública. A estratégia “zero COVID-19” não pode ser descartada de imediato, uma vez que a China tem baixas taxas de vacinação entre os seus idosos e instalações médicas e seguros de saúde lamentavelmente inadequados, particularmente para os trabalhadores migrantes. Permitir que o vírus se propagasse sem controle resultaria, na verdade, em mortes em massa. Mas a estratégia não considera as necessidades sociais da população, enquanto expõe os migrantes e outros trabalhadores informais a situações de extrema precariedade e crises de subsistência. O Estado perdeu a boa vontade de uma sociedade que sabe que essas medidas já não são para o bem público, pois as pessoas são solicitadas a continuar trabalhando para o capital no circuito fechado das suas casas, escritórios ou fábricas.</p>
<p style="text-align: justify;">–</p>
<p style="text-align: justify;">Os protestos heroicos dos cidadãos de Xangai nos permitem, a partir de tais formas sombrias e totais de controle, traçar uma trajetória potencial de libertação social. Esse impulso foi sinalizado pela primeira vez por um motim que ocorreu em 5 de maio na Quanta Computer, um fornecedor da Apple. Embora os detalhes do evento ainda sejam confusos, sabemos que centenas de trabalhadores lutaram com guardas e ultrapassaram um posto de controle fora da fábrica. Alguns relatos afirmavam que os trabalhadores estavam fartos das medidas rigorosas de prevenção do vírus e tinham sido informados de que não poderiam regressar aos dormitórios. Outros mencionavam que eles queriam sair para poder comprar as suas próprias provisões, talvez insatisfeitos com o que lhes tinha sido entregue na fábrica. Mais tarde, em maio, houve outro confronto violento quando um grupo de trabalhadores acusou os gerentes dos dormitórios em uma disputa salarial. Semanas de vida no trabalho levaram os trabalhadores a um extremo. Eles precisavam escapar do circuito.</p>
<p style="text-align: justify;">A resistência aberta dos trabalhadores de colarinho branco que estavam em esquemas de trabalho em casa foi mais silenciosa, uma vez que a possibilidade de ação coletiva pública foi excluída pelo <em>lockdown</em>. Ainda assim, surgiram inúmeras formas de resistência. Lamentar e cantar em prédios altos de apartamento foi uma maneira dos moradores se solidarizarem coletivamente, embora alguns tenham se deparado posteriormente com drones voadores ordenando-os a “controlar o desejo de sua alma por liberdade”. Um vídeo chocante relatando os principais eventos do <em>lockdown</em> em abril com curtas vinhetas de áudio capturou a imaginação de milhões, que o repostaram com tanta frequência que superou temporariamente o poderoso aparato de censura da China. Apareceram inúmeros vídeos curtos de pessoas em suas casas e na frente de seus apartamentos recusando os mandatos de morte social dos arrogantes Grandes Brancos, incluindo, é claro, a heroína de noventa e cinco anos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-147678 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-U56CJCxq5B0-unsplash.jpg" alt="" width="1920" height="1280" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-U56CJCxq5B0-unsplash.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-U56CJCxq5B0-unsplash-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-U56CJCxq5B0-unsplash-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-U56CJCxq5B0-unsplash-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-U56CJCxq5B0-unsplash-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-U56CJCxq5B0-unsplash-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-U56CJCxq5B0-unsplash-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/nuno-alberto-U56CJCxq5B0-unsplash-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Aqueles fora dos circuitos fechados também tinham suas demandas e formas de resistência. Os arredores de Xangai testemunharam distúrbios por comida, já que muitos trabalhadores migrantes sem trabalho situados em moradias informais passaram semanas sem renda ou acesso às entregas de suprimentos fornecidas pelo governo. Em pelo menos um caso, as pessoas confiscaram a carga de um caminhão de vegetais, jogando o conteúdo livremente para a multidão reunida.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora as lutas pela sobrevivência biológica e social sejam naturalmente moldadas pelas particularidades do <em>lockdown</em>, há um fio coerente que as conecta às ações pré-COVID-19 protagonizadas por migrantes marginalizados: a demanda pela relativa proximidade entre os espaços de vida e de trabalho. Antes da COVID-19, os migrantes rurais tinham vindo à cidade à procura de trabalho assalariado como meio de sobrevivência, pois simplesmente não conseguiam satisfazer as suas necessidades permanecendo nas fazendas. Mas, dado o regime de cidadania subnacional da China, os esforços para realocar a reprodução social para a cidade enfrentaram constantes obstáculos e expulsões. As comunidades migrantes esforçaram-se então por construir um mundo social, incluindo escolas e habitações, relativamente próximo dos seus espaços de trabalho. O <em>lockdown</em> de Xangai representa o inverso espacial, enquanto expressa a mesma lógica política. Em vez de separar os espaços de trabalho e de vida, o circuito fechado colapsa os dois, de modo que todos os processos de reprodução devem acontecer dentro do local de trabalho. A proximidade relativa entre trabalho e vida significa que os dois não devem estar dentro dos mesmos limites. O circuito fechado separa os trabalhadores de qualquer vida social significativa e os reduz à simples força de trabalho. Mas os trabalhadores resistiram a esse esforço para impor o controle ditatorial sobre o movimento corporal enquanto lhes é exigido produtividade para o capital. As pessoas não seriam mantidas vivas apenas como força de trabalho viva para o patrão.</p>
<p style="text-align: justify;">O exemplo mais dramático de resistência coletiva ao circuito fechado eclodiu no outono. Nos meses após o desastre de Xangai, <em>lockdowns</em> esporádicos em resposta aos surtos de COVID-19 continuaram em cidades como Pequim, Chengdu e Shenzhen. À medida que os danos à economia começaram a pesar, espalhou-se a esperança de que o governo pudesse considerar um novo caminho a seguir. Circularam rumores de que, após assegurar um terceiro mandato sem precedentes como líder da China no Vigésimo Congresso do Partido em outubro, Xi se sentiria confiante o suficiente para traçar um curso diferente para o controle da pandemia. Esses rumores logo se revelaram ilusórios, pois o Congresso viu Xi enfatizar novamente o compromisso inabalável com a política de zero COVID-19.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez mesmo antes da conclusão do Congresso, o vírus começara a circular na metrópole de Zhengzhou. A capital provincial de Henan abriga a maior montadora de iPhones do mundo, com mais de 200.000 trabalhadores na instalação de propriedade da Foxconn. Essa fábrica é imensamente importante para a economia regional, já que os seus produtos representam 60% das exportações de toda a província. Após surtos na cidade e, em seguida, dentro da própria fábrica, a Foxconn implementou o circuito fechado e os trabalhadores foram impedidos de sair da planta. Assim como em Xangai, o governo e os patrões não podiam permitir que esse elo crítico na rede de produção da empresa mais valiosa do mundo vacilasse, mesmo quando a cidade caminhava em direção a um <em>lockdown</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a Foxconn hesitou, e começaram a surgir relatos de queixas graves dos trabalhadores. A empresa abriga a maioria dos trabalhadores em dormitórios dentro do complexo &#8211; o que é útil para vigilância mesmo em condições não-pandêmicas — e o controle sobre os movimentos dos trabalhadores tornou-se ainda mais esmagador no final de outubro. À medida que as infecções se espalhavam dentro da fábrica, os trabalhadores temiam, com razão, que a permanência dentro do circuito aumentaria a sua exposição a infecção. A quarentena no local foi pessimamente gerida, e as pessoas que adoeceram relataram que lhes foram negados cuidados adequados ou mesmo alimentos suficientes para comer. Os trabalhadores estavam ansiosos e com raiva e, tal como aconteceu na Quanta durante a primavera, eles correram contra as barricadas montadas nas saídas. Centenas, talvez até mesmo milhares de trabalhadores saltaram os muros e se espremeram entre as brechas na cerca para fugir para suas cidades natais. Devido aos controles regionais instalados durante a pandemia, não havia ônibus ou outras opções de transporte disponíveis, e os fugitivos da Foxconn tiveram que caminhar quilômetros ao longo de estradas e campos. Essa deserção em massa forçou a Foxconn a ceder e permitir que os trabalhadores saíssem e, em alguns casos, funcionários das cidades rurais de onde os trabalhadores vinham organizaram o transporte de ônibus.</p>
<p style="text-align: justify;">Apanhados em meio ao fogo cruzado da logística <em>just-in-time</em> continuamente otimizada da Apple e da caprichosa demanda do Estado pela desmobilização quase total das pessoas, independentemente do custo humano, os trabalhadores simplesmente pularam a cerca e fugiram. Mais uma vez, vimos trabalhadores recusando o impulso distópico de fechar o circuito do movimento humano em meio à circulação acelerada de capital. Embora uma situação de empobrecimento geral provavelmente os aguardasse nas aldeias, no mínimo esses fugitivos haviam garantido sua dignidade e autonomia corporal.</p>
<p style="text-align: justify;">–</p>
<p style="text-align: justify;">O regime de gestão populacional da China é único, tanto pela intensidade das suas práticas limítrofes internas quanto pelo fato de grande parte da população subjugada ser constituída por cidadãos nacionais da raça dominante. O estado chinês aperfeiçoou muitas de suas práticas em contextos coloniais mais racializados, como Xinjiang e Tibete — mas essas estratégias biopolíticas de controle estão sendo cada vez mais implantadas na metrópole. Em todos os casos, no entanto, vemos exigências irreprimíveis pelo direito ao movimento corporal, estabelecimento de uma comunidade duradoura e processos básicos de reprodução social, e pelo direito de existir como mais do que um mero trabalhador.</p>
<p style="text-align: justify;">As lutas do povo chinês para situar vida e trabalho em locais relativamente próximos devem ser vistas no interior de um contexto global mais amplo de resistência aos regimes capitalistas de fronteira. Um grupo crescente de ativistas e estudiosos mostrou como as fronteiras funcionam como uma tecnologia de controle espacial para a manutenção de regimes de exploração e expropriação racializada. Controlar o movimento de certas pessoas serve para manter as relações globais de dominação. Os Estados Unidos e a UE exportaram controles de mobilidade ao delegarem as patrulhas fronteiriças a países do Sul Global, ao mesmo tempo que internalizaram a fronteira através de todo o tipo de policiamento, vigilância, encarceramento e programas formalizados de convite a trabalhadores migrantes temporários [guest worker programs]. Na melhor das hipóteses, a crescente demanda por acabar com as fronteiras baseia-se na convicção de que os seres humanos devem poder circular livremente e possuir os direitos políticos e sociais que lhes permitam florescer em qualquer espaço que ocupem. As aspirações e as lutas na China são parte integrante das demandas dos trabalhadores migrantes e das pessoas despossuídas em todo o mundo para abolir a lógica das fronteiras e escapar ao circuito fechado do capital.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://www.bostonreview.net/authors/eli-friedman/" href="https://www.bostonreview.net/authors/eli-friedman/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ELI FRIEDMAN</a> é Professor Associado e ocupa a cadeira de Trabalho Internacional e Comparado na Universidade de Cornell. Seu livro mais recente é <em>The Urbanization of People: The Politics of Development, Labor Markets, and Schooling in the Chinese City</em>. Traduzido do <a class="urlextern" title="https://www.bostonreview.net/articles/escape-from-the-closed-loop/" href="https://www.bostonreview.net/articles/escape-from-the-closed-loop/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">INGLÊS</a> por Marco Túlio Vieira. As imagens que ilustram o artigo são de <a href="https://unsplash.com/pt-br/@nunoalberto" target="_blank" rel="noopener">Nuno Alberto.</a></p>
</blockquote>
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		<title>A vida humana não significa nada (para eles)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Feb 2023 11:23:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[Embora a pandemia possa silenciar uma cidade ou uma aldeia, a Foxconn pode continuar concentrando os trabalhadores e até mantendo pessoas infectadas trabalhando nas fábricas. Por Asian Labour Review]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Asian Labour Review</h3>
<blockquote><p>Nota dos Editores de Asian Labour Review:</p>
<p>Histórias e imagens de trabalhadores <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/world/china/fearing-covid-workers-flee-foxconns-vast-chinese-iphone-plant-2022-10-31/" href="https://www.reuters.com/world/china/fearing-covid-workers-flee-foxconns-vast-chinese-iphone-plant-2022-10-31/" rel="ugc nofollow">escapando e indo embora</a> a pé da fábrica da Foxconn em Zhengzhou, na Província de Henan, na China, circulam nas redes sociais chinesas. A mega fábrica emprega mais de 200.000 trabalhadores e é um importante fornecedor da Apple e de outras marcas de produtos eletrônicos.</p>
<p>Para manter os trabalhadores no local e evitar paradas devido à Covid-19, a Foxconn recentemente os colocou sob um <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/tech/tech-trends/article/3186538/chinese-manufacturers-shenzhen-including-huawei-and-smic-go-under" href="https://www.scmp.com/tech/tech-trends/article/3186538/chinese-manufacturers-shenzhen-including-huawei-and-smic-go-under" rel="ugc nofollow">sistema de circuito fechado</a>, que tem sido usado em outros lugares, incluindo a Tesla e a Huawei, para impedir infecções dentro do circuito. Dentro desse sistema, os trabalhadores só podem deslocar-se entre os dormitórios e os locais de trabalho e não podem deixar o complexo da fábrica sem autorização.</p>
<p>Nas últimas semanas [novembro de 2022], no entanto, os trabalhadores da fábrica da Foxconn começaram a apresentar resultados positivos para Covid. Mas, segundo os trabalhadores, os infectados, às vezes, continuam a trabalhar. Com medo de serem infectados devido à proximidade nos locais de trabalho e desconfiados da forma como a empresa lidou com o surto, os trabalhadores entraram em pânico e muitos fugiram para casa. Finalmente, a Foxconn foi pressionada a deixar os trabalhadores saírem, e os governos locais organizaram ônibus de viagem para levar os trabalhadores para casa.</p>
<p>Traduzimos um depoimento de uma trabalhadora de uma conta em língua chinesa do aplicativo <a class="urlextern" title="http://mp.weixin.qq.com/s/0oFCRrgGEmcm77MrDvBuBQ" href="http://mp.weixin.qq.com/s/0oFCRrgGEmcm77MrDvBuBQ" rel="ugc nofollow">WeChat.</a> Ela explica por que e como fugiu. O relato foi ligeiramente editado para maior clareza e devido à extensão.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A minha família é do Condado de Yushi, na cidade de Kaifeng, em Henan (uma província central na China, para onde a Foxconn e outros fabricantes se deslocaram após se instalarem nas regiões costeiras). Parei de estudar antes de me formar no ensino médio. Aí comecei uma família. O meu marido está desempregado. Temos dois filhos. Fiquei sabendo do trabalho na Foxconn em Zhengzhou (capital de Henan).</p>
<p style="text-align: justify;">A Foxconn tem duas épocas de pico todos os anos, de fevereiro a maio e de julho a outubro (mas às vezes de agosto a novembro). Durante essas épocas de pico, a Foxconn precisa de um grande número de trabalhadores e paga um bônus elevado. Ou seja, se um funcionário estiver no trabalho por 90 dias e trabalhar 55 dias, ele recebe um bônus de 8.000 a 10.000 yuans (US$ 1.095,00 a US$ 1.370,00).</p>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos anos, na época de pico, eu ia para a Foxconn. O salário-base mensal da Foxconn é de 2.000 yuans (US$ 274,00), calculado de acordo com o turno de 8 horas todos os dias. Para ganhar mais dinheiro, todos nós trabalhamos horas extras desesperadamente e podemos receber um salário de 3.500 a 4.000 yuans por mês.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora o salário-base não seja alto, continuo muito satisfeita com o trabalho, porque posso receber um bônus elevado quando terminar. Por isso, sou grata à Foxconn por trazer rendimentos estáveis para famílias rurais como nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Após o surto de Covid-19 em Zhengzhou em outubro deste ano [2022], toda a fábrica da Foxconn entrou em pânico à medida que o vírus se espalhou. As pessoas infectadas eram afastadas dos locais de trabalho todos os dias, especialmente agora.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que as pessoas não entendem é que, embora a pandemia possa silenciar uma cidade ou uma aldeia (“silêncio” refere-se aos <em>lockdowns</em> e restrições), a Foxconn pode continuar a funcionar normalmente, concentrando os trabalhadores e até mantendo pessoas infectadas trabalhando nas fábricas.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso deixou todos muito assustados e com medo. Os trabalhadores perguntavam por que não podiam tirar dois dias de folga. Mas era inútil, porque colocam sempre a quantidade (de produtos) em primeiro lugar e a vida humana em segundo lugar. A vida humana não significa nada (para eles).</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 29 de outubro, voltei ao dormitório vindo do turno da noite e dormi até às 15h. Quando minha família me ligou, me acordaram e disseram para me apressar e voltar para casa. Se eu não fosse agora, não poderia ir depois. Os grupos de rede social dos trabalhadores também explodiram com a discussão. Todo mundo estava discutindo como escapar.</p>
<p style="text-align: justify;">Me levantei e arrumei as malas às pressas. Sem tempo para comer, enfiei os dois pães entregues pela fábrica na minha bolsa de ombro vermelha, desci as escadas, comprei um pacote de macarrão instantâneo, uma caixa de iogurte, uma garrafa de água e um pacote de linguiça no quiosque e olhei em volta, em pânico, procurando uma saída.</p>
<p style="text-align: justify;">O complexo de fábricas da Foxconn é enorme, todo cercado de grades de ferro. As pessoas de fora não podem entrar sem permissão, e as pessoas de dentro não podem sair. Subi na grade, pulei, e procurei em vão por mais de uma hora uma saída que outros trabalhadores mencionaram.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, um homem de bom coração me levou ao local onde tinha um grande buraco na cerca. Ele usou o farol de sua moto para iluminar o caminho para mim e disse: corra, corra.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de me ter esgueirado, vi que já tinha muita gente lá fora. Estava usando um par de tênis brancos, jeans azul-escuro e um casaco preto de outono. Preocupada em passar frio à noite, trouxe uma jaqueta extra comigo quando saí.</p>
<p style="text-align: justify;">Não podia usar a navegação [digital] e não sabia a direção de casa, então tive de perguntar se havia pessoas indo para minha cidade natal. Às 19h, segui quatro ou cinco pessoas e parti em direção de casa. Pelo caminho, encontrei muitas pessoas que tinham escapado, e o objetivo de todas era voltar para casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Por conta do medo de causar problemas às pessoas nas aldeias ao longo do caminho depois da área infectada, todos nós caminhamos ao longo da estrada, às vezes através das plantações, e tentamos ao máximo escolher os lugares menos povoados para ir.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de fugir, eu estava preocupada com ficar com fome na estrada. Não esperava que houvesse tantas pessoas amáveis ao longo do caminho para fornecer comida e bebida para nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Fiquei muito cansada da caminhada e sentei no chão para descansar. Não arriscava dormir, na esperança de chegar em casa mais cedo, e me preocupava com o que poderia acontecer na estrada.</p>
<p style="text-align: justify;">Como eu descansei, várias vezes não conseguia acompanhar os outros trabalhadores. Toda vez eu tinha de procurar trabalhadores que também estavam indo para minha cidade natal. Então passei a noite toda perguntando e correndo. O bom é que muita gente está indo para casa, por isso sempre consegui encontrar pessoas (para seguir); caso contrário, certamente teria me perdido e não conseguiria voltar para casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegamos ao ponto de prevenção de epidemias no Condado de Yushi às 6h do dia seguinte. Eu estava tão cansada. Sentei e não queria me levantar. A equipe de lá nos registrou e fez o teste de ácido nucleico. Por volta das 9h, fui colocada em um ônibus para nossa cidade natal.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-147611" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-300x225.jpeg" alt="" width="700" height="525" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-300x225.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-1024x768.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-768x576.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-1536x1152.jpeg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-560x420.jpeg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-80x60.jpeg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-100x75.jpeg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-180x135.jpeg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-238x178.jpeg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-640x480.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2-681x511.jpeg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/02/107143254-1667221638084-gettyimages-1437873472-vcg111407683581-2-2-2.jpeg 1800w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tinha 40 pessoas no nosso ônibus. Havia muitos ônibus transportando pessoas para cada cidade sem parar.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando chegamos ao local de isolamento do município, fizemos mais três testes de ácido nucleico. Houve 6 pessoas com resultados positivos dentro de um ônibus com 40 pessoas, que foram retiradas depois. Eu não estava com medo porque estava acostumada com tudo isso dentro da fábrica.</p>
<p style="text-align: justify;">Fui colocada num quarto com outra mulher. O governo forneceu macarrão com carne e pão. O cheiro de casa era delicioso. Dormi.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando acordei hoje, abri o “aplicativo Love Pocket” (nota: um aplicativo criado pela Foxconn para os seus trabalhadores) no meu celular e ele mostrou que eu estava ausente do trabalho. Fui trabalhar na Foxconn em julho e o meu contrato vence no dia 2 de novembro. O contrato diz que, se eu faltasse ao trabalho três dias seguidos, não teria direito ao bônus.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas pessoas me perguntaram por que eu não fiquei na fábrica por mais três dias antes de voltar (para poder receber o bônus). Eu disse que queria a minha saúde, e não dinheiro. Claro, eu espero que possam considerar que se trata de um caso especial e me paguem o bônus.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei quantos dias ainda vou ficar no local de isolamento, mas estou feliz por ter conseguido escapar.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentro de alguns dias poderei ver os meus filhos e a minha família.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto à Foxconn, não volto lá porque tenho medo.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Publicado originalmente na <a class="urlextern" title="https://labourreview.org/human-life-means-nothing-to-them/" href="https://labourreview.org/human-life-means-nothing-to-them/" rel="ugc nofollow">Asian Labour Review</a> e traduzido por Marco Tulio Vieira.</p>
<p style="text-align: justify;">A obra em destaque é da autoria de Wang Jianwei. Os créditos da foto no corpo do texto pertencem à VCG (Visual China Group) e à Getty Images.</p>
</blockquote>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A incompreendida — e deturpada — política de Covid Zero na China</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/05/143709/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 May 2022 03:15:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[É imperativo que cientistas, trabalhadores e estudantes pressionem para que políticas semelhantes de salvação de vidas sejam adotadas em todo o mundo. Por um cientista.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por <a href="https://www.wsws.org/en/articles/2021/12/13/chin-d13.html" target="_blank" rel="noopener">um cientista</a></h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>13 de dezembro de 2021</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Esta análise da resposta da China à pandemia de COVID-19 foi apresentada como uma contribuição para o inquérito trabalhista global da WSWS sobre a pandemia de COVID-19. O WSWS respeita o pedido para que a identidade do autor não seja divulgada publicamente. </em></p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos fatos mais marcantes sobre a pandemia é que a China, o país onde surgiu pela primeira vez a SARS-CoV-2, teve poucos casos. Desde abril de 2020, os Estados Unidos detectaram quase 50 milhões de casos, mas a China, com quatro vezes a população, detectou pouco mais de 10 mil.</p>
<p style="text-align: justify;">Há dois principais tipos de reação a esse fato no Ocidente. A primeira, cada vez mais rara, é a descrença. Mesmo os principais meios de comunicação ocidentais hostis à China há muito aceitaram que a contagem de casos no país é extremamente baixa. Se a pandemia mostrou algo, é que ignorar o vírus não o faz desaparecer, e qualquer surto negligenciado na China iria rapidamente sair do controle, especialmente em metrópoles lotadas como Xangai e Pequim. Tal surto seria visível para os correspondentes estrangeiros, para não mencionar as centenas de milhares de estrangeiros que vivem na China. Como veremos adiante, as medidas que a China toma para combater os surtos são altamente visíveis e impossíveis de serem mantidas em segredo — na verdade, dependem criticamente da participação generalizada da população.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda reação é pintar a China como um inferno de medidas draconianas, onde os cidadãos vivem sob um estado constante de <em>lockdown</em> e cerco. Essa é a abordagem recentemente adotada pelo jornal <em>New York Times</em> em um <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2021/11/05/world/asia/china-coronavirus-ruili.html" href="https://www.nytimes.com/2021/11/05/world/asia/china-coronavirus-ruili.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">artigo</a> intitulado, “Near-Daily Covid Tests, Sleeping in Classrooms: Life in Zero Covid China” [Testes para Covid quase todos os dias, dormindo em salas de aula: a vida na China Covid-Zero]. O artigo foca em uma pequena cidade (segundo os padrões chineses) na fronteira com Mianmar. O quadro pintado é sombrio:</p>
<blockquote><p>Os moradores de Ruili — uma exuberante cidade subtropical de cerca de 270 mil pessoas antes da pandemia — estão enfrentando a realidade extrema e dura de viver sob uma política de “Covid Zero” quando mesmo um único caso é encontrado.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">O artigo conclui com uma declaração arrepiante de um residente de Ruili: ”&#8217;as pessoas comuns,&#8217; [Li] suspirou, &#8216;não têm como viver.&#8217;“</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, Ruili é uma cidade com 270 mil habitantes em um país de 1,4 bilhão de pessoas. Ela é verdadeiramente representativa da “vida na China Covid Zero”? A resposta direta é que a cidade é um ponto fora da curva extremo na China: situa-se diretamente na fronteira com uma região de Mianmar controlada por um grupo rebelde armado, sendo conhecida como um centro de contrabando fronteiriço. Os contrabandistas transportam não só mercadorias ilegais para Ruili, mas, às vezes, o vírus também. Então, por que dois repórteres do <em>New York Times</em> (sediados em Hong Kong e Pequim) concentraram o seu artigo nessa cidade distante?</p>
<figure id="attachment_143711" aria-describedby="caption-attachment-143711" style="width: 640px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-143711" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/5000463f0cf90683e3473c0910387e9285cb4126-1024x781.png" alt="Mapa da China. Ruili é uma pequena cidade na fronteira com o Mianmar, que o New York Times apresenta como representante da vida na “China da Covid Zero”." width="640" height="488" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/5000463f0cf90683e3473c0910387e9285cb4126-1024x781.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/5000463f0cf90683e3473c0910387e9285cb4126-300x229.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/5000463f0cf90683e3473c0910387e9285cb4126-768x586.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/5000463f0cf90683e3473c0910387e9285cb4126-551x420.png 551w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/5000463f0cf90683e3473c0910387e9285cb4126-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/5000463f0cf90683e3473c0910387e9285cb4126-100x75.png 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/5000463f0cf90683e3473c0910387e9285cb4126-640x488.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/5000463f0cf90683e3473c0910387e9285cb4126-681x519.png 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/5000463f0cf90683e3473c0910387e9285cb4126.png 1280w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /><figcaption id="caption-attachment-143711" class="wp-caption-text">Mapa da China. Ruili é uma pequena cidade na fronteira com o Mianmar, que o New York Times apresenta como representante da vida na “China da Covid Zero”.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A resposta é que o <em>New York Times</em> se concentra em Ruili precisamente porque lá <em>não</em> representa a situação na grande maioria da China. A cobertura do <em>Times </em>em grande parte ignora a experiência das pessoas na maior parte da China, incluindo nas grandes cidades, muitas vezes maiores do que Ruili (270 mil pessoas), como Xangai (25 milhões de pessoas), Pequim (22 milhões) e Guangzhou (19 milhões).</p>
<p style="text-align: justify;">Como é, então, a vida na maior parte da “China da Covid Zero”? Que medidas são usadas para manter o número de casos em zero, ou perto de zero, no país?</p>
<p style="text-align: justify;">A China controlou o seu surto inicial no início de 2020 usando <em>lockdowns</em> rigorosos, particularmente no epicentro do surto, em Wuhan. À medida que os casos diminuíam e as cidades chinesas <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/news/world-asia-china-52016139" href="https://www.bbc.com/news/world-asia-china-52016139" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">saiam do confinamento</a>, o governo <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/news/world-asia-china-51509248" href="https://www.bbc.com/news/world-asia-china-51509248" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">impôs rígidas regras de quarentena</a> para viajantes internacionais chegando no país, de modo a evitar a reintrodução do vírus no seu interior. Um teste PCR negativo recente é necessário antes mesmo do embarque em um voo para a China. Após o desembarque, os passageiros são novamente testados e, em seguida, levados diretamente do aeroporto para um hotel de quarentena, onde permanecem por duas a três semanas sem sair. Eles são testados regularmente, e comida é entregue diretamente no quarto por trabalhadores usando equipamento de proteção completo.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos viajantes têm documentado suas experiências ao passar por este sistema em “vlogs de quarentena”, como os de um <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=gKYcEKer8zY" href="https://www.youtube.com/watch?v=gKYcEKer8zY" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">YouTuber</a> canadense em uma <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=Fd_gxr_jPN4" href="https://www.youtube.com/watch?v=Fd_gxr_jPN4" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">série</a> de <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=cj7j7GyPHsk" href="https://www.youtube.com/watch?v=cj7j7GyPHsk" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">vídeos</a>. O rigoroso sistema de quarentena serve como uma barreira bastante confiável contra o vírus, de modo que a vida no interior das fronteiras do país tem sido relativamente normal desde o final da primeira onda na primavera [março a maio] de 2020. Empresas, como restaurantes, bares e cinemas, foram abertas em toda a China. Isto é talvez ilustrado de modo mais chocante por imagens de <a class="urlextern" title="https://youtu.be/Sm_x0Chhup8" href="https://youtu.be/Sm_x0Chhup8" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">boates cheias</a> e <a class="urlextern" title="https://youtu.be/ot4LwLDiRHE" href="https://youtu.be/ot4LwLDiRHE" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">grandes festas em piscinas</a> em Wuhan, no final de 2020, ou, mais prosaicamente, em <a class="urlextern" title="https://youtu.be/qT9lrOIm2K0" href="https://youtu.be/qT9lrOIm2K0" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">entrevistas com pessoas normais</a> nas ruas de Xangai no outono [setembro a novembro] de 2020. No entanto, a barreira de quarentena não é perfeita, e mais de uma dúzia de pequenos surtos ocorreram em diferentes partes da China ao longo do último ano e meio.</p>
<figure id="attachment_143712" aria-describedby="caption-attachment-143712" style="width: 640px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-143712" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/3f4ae784e84ad2f9dd11b9bad0e572a8482fb118-1024x640.png" alt="Total de infecções e pessoas em quarentena na China (Fonte de dados: CDC da China)" width="640" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/3f4ae784e84ad2f9dd11b9bad0e572a8482fb118-1024x640.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/3f4ae784e84ad2f9dd11b9bad0e572a8482fb118-300x188.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/3f4ae784e84ad2f9dd11b9bad0e572a8482fb118-768x480.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/3f4ae784e84ad2f9dd11b9bad0e572a8482fb118-672x420.png 672w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/3f4ae784e84ad2f9dd11b9bad0e572a8482fb118-640x400.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/3f4ae784e84ad2f9dd11b9bad0e572a8482fb118-681x426.png 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/3f4ae784e84ad2f9dd11b9bad0e572a8482fb118.png 1280w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /><figcaption id="caption-attachment-143712" class="wp-caption-text">Total de infecções e pessoas em quarentena na China (Fonte de dados: CDC da China)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A imagem acima mostra, em azul, o número de infecções diárias <strong>[1]</strong> na China desde o final da primeira onda em abril de 2020 e, em laranja, o número total de pessoas em quarentena. A China assistiu a vários surtos pequenos, que foram tipicamente isolados em uma ou algumas cidades e controlados dentro de algumas semanas. A cidade ou província através da qual cada surto entrou na China é rotulado por setas acima. Para controlar cada surto, contatos próximos de pessoas infectadas são colocados em quarentena, como pode ser visto acima no pico de pessoas em quarentena durante cada surto. Desde abril de 2020, o número máximo de novas infecções detectadas em um único dia ficou um pouco abaixo de 200, e o número máximo de pessoas em quarentena em qualquer momento foi pouco maior do que 50 mil. Para comparação, o número cumulativo de pessoas em quarentena na China durante toda a pandemia é ligeiramente maior do que o número de pessoas que morreram de COVID-19 nos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">A seguir, um exemplo de como o vírus pode penetrar a barreira de quarentena. Em 10 de julho de 2021, um avião vindo de Moscou com um viajante <a class="urlextern" title="http://www.xinhuanet.com/english/2021-07/27/c_1310089689.htm" href="http://www.xinhuanet.com/english/2021-07/27/c_1310089689.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">infectado com a variante Delta</a> aterrissou em Nanjing. Os trabalhadores que limpavam o interior da cabine foram infectados. Esses mesmos trabalhadores também limparam cabines de aviões para voos domésticos e assim espalharam o vírus para as pessoas no terminal doméstico. Como o seu trabalho poderia colocá-los em contato com viajantes internacionais infectados, os trabalhadores da limpeza eram regularmente testados para o vírus, e o <a class="urlextern" title="http://www.xinhuanet.com/english/2021-07/21/c_1310073310.htm" href="http://www.xinhuanet.com/english/2021-07/21/c_1310073310.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">surto foi detectado</a> 11 dias depois, em 21 de julho de 2021. No entanto, nessa altura, o vírus já fora transportado para muito além do aeroporto, eventualmente se espalhando para cidades em mais de uma dúzia de províncias, atingindo um máximo de cerca de 100 novas infecções detectadas por dia antes de ser colocado sob controle em meados de agosto. Após este surto, foram introduzidas mudanças no funcionamento dos aeroportos, com o intuito de reduzir o risco de ocorrer uma violação semelhante.</p>
<p style="text-align: justify;">O surto de Nanjing demonstra que as medidas de quarentena nas fronteiras, por si só, não podem impedir completamente a propagação do vírus. O governo chinês refere-se à sua política como uma política de “zero dinâmico”. Isso significa que o vírus, ocasionalmente, vai conseguir se reintroduzir no país e causar pequenos grupos de casos (por exemplo, através do cruzamento ilegal de fronteiras por contrabandistas em Ruili), mas que uma rápida resposta de saúde pública acabará por reduzir o número de casos de novo a zero.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Controlando um surto em 15 dias</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para podermos ver como funcionam as medidas de controle epidêmico da China, analisaremos como um surto recente numa determinada cidade foi tratado.</p>
<p style="text-align: justify;">Com uma população urbana de mais de 20 milhões de pessoas, Chongqing pode ser a maior cidade que a maioria das pessoas fora da China nunca ouviu falar. Situa-se numa área montanhosa do sudoeste da China, na confluência dos rios Yangtzé e Jialing. A história da cidade remonta a mais de 3 mil anos. Durante a invasão japonesa nas décadas de 1930 e 40, Chongqing serviu como a capital da China em tempo de guerra devido a sua posição no interior do país.</p>
<figure id="attachment_143713" aria-describedby="caption-attachment-143713" style="width: 640px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-143713" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/a85cc8ae78b0d3dbe155082ef7a0abc63eaf4d75-1024x576.jpg" alt="O distrito comercial central de Chongqing (Crédito: Wikimedia, CC-BY-SA 3.0.)" width="640" height="360" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/a85cc8ae78b0d3dbe155082ef7a0abc63eaf4d75-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/a85cc8ae78b0d3dbe155082ef7a0abc63eaf4d75-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/a85cc8ae78b0d3dbe155082ef7a0abc63eaf4d75-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/a85cc8ae78b0d3dbe155082ef7a0abc63eaf4d75-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/a85cc8ae78b0d3dbe155082ef7a0abc63eaf4d75-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/a85cc8ae78b0d3dbe155082ef7a0abc63eaf4d75-681x383.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/a85cc8ae78b0d3dbe155082ef7a0abc63eaf4d75.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /><figcaption id="caption-attachment-143713" class="wp-caption-text">O distrito comercial central de Chongqing (Crédito: Wikimedia, CC-BY-SA 3.0.)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Durante o surto inicial de coronavírus em Wuhan, em janeiro de 2020, Chongqing começou a ter casos de COVID-19 e, como a maioria da China, entrou em lockdown. A cidade começou a flexibilizar as restrições em março de 2020, e os restaurantes começaram a reabrir para clientes presencialmente. As escolas retomaram as aulas presenciais <a class="urlextern" title="http://www.hxnews.com/news/hxjw/jdsg/202004/08/1881921.shtml" href="http://www.hxnews.com/news/hxjw/jdsg/202004/08/1881921.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">em abril e maio</a>. Depois de sair do lockdown, Chongqing não detectou novas infecções locais por mais de um ano. <strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro novo surto substancial em Chongqing foi visto quando um homem de 32 anos deu entrada em um hospital com febre na tarde de 1 de novembro de 2021. Um teste PCR confirmou a infecção no dia seguinte, desencadeando uma resposta massiva das agências de saúde da cidade. A descoberta foi <a class="urlextern" title="http://wsjkw.cq.gov.cn/ztzl_242/qlzhxxgzbdfyyqfkgz/yqtb/202111/t20211102_9916550_wap.html" href="http://wsjkw.cq.gov.cn/ztzl_242/qlzhxxgzbdfyyqfkgz/yqtb/202111/t20211102_9916550_wap.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">imediatamente anunciada</a> pelo governo da cidade. No final do dia, mais cinco pessoas tiveram diagnóstico positivo e <a class="urlextern" title="http://wsjkw.cq.gov.cn/ztzl_242/qlzhxxgzbdfyyqfkgz/yqtb/202111/t20211103_9918802_wap.html" href="http://wsjkw.cq.gov.cn/ztzl_242/qlzhxxgzbdfyyqfkgz/yqtb/202111/t20211103_9918802_wap.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">279 pessoas</a> estavam em quarentena, incluindo cinco pessoas adicionais que tiveram resultados positivo nos 10 dias seguintes.</p>
<p style="text-align: justify;">Tornou-se rapidamente claro que o núcleo do surto em Chongqing era um grupo de funcionários de uma empresa de energia local. O rastreamento de contatos revelou que a fonte original do surto em Chongqing era um funcionário da empresa que havia recentemente visitado uma cidade no norte da China que estava passando por um surto. Após sua visita, ele viajou para casa em Sichuan, parando em Chongqing e interagindo com colegas de trabalho na empresa de energia. Mais tarde foi descoberto que ele já estava infectado com o vírus durante sua visita a Chongqing: ele teve um resultado positivo em 2 de novembro, no mesmo dia em que o primeiro caso foi detectado em Chongqing.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia após a primeira detecção, a cidade de Chongqing <a class="urlextern" title="https://www.ichongqing.info/2021/11/04/three-areas-in-chongqing-classified-as-medium-risk-level-covid-19-update/" href="https://www.ichongqing.info/2021/11/04/three-areas-in-chongqing-classified-as-medium-risk-level-covid-19-update/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">fechou</a> a sede da empresa de energia e outros edifícios que haviam sido visitados pelas pessoas infectadas. Os distritos da cidade em que os indivíduos infectados viviam anunciaram campanhas de testes em massa e recolheram amostras de 125 mil pessoas em 24 horas.</p>
<p style="text-align: justify;">Os conjuntos de apartamentos dos pacientes foram estritamente fechados, com alimentos e outros suprimentos vitais entregues regularmente pelos profissionais de saúde da cidade (<a class="urlextern" title="https://youtu.be/pzkV2k0rgfU" href="https://youtu.be/pzkV2k0rgfU" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">um jovem Youtuber canadense</a> visitou o edifício onde o primeiro paciente morava, mostrando como a vida dos moradores se parecia durante o lockdown). Várias áreas da cidade foram rotuladas como “zonas de alto risco”, com entrada e saída estritamente controlada. Por toda a cidade, salões de mahjong, cinemas, bibliotecas, museus e outros locais públicos onde grande número de pessoas se reúnem foram temporariamente fechados.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos dias seguintes, o número de pessoas em quarentena continuou a subir, à medida que os contatos mais próximos dos casos foram identificados. O número total de pessoas em quarentena atingiu um pico <a class="urlextern" title="http://wsjkw.cq.gov.cn/ztzl_242/qlzhxxgzbdfyyqfkgz/yqtb/202111/t20211109_9937907_wap.html" href="http://wsjkw.cq.gov.cn/ztzl_242/qlzhxxgzbdfyyqfkgz/yqtb/202111/t20211109_9937907_wap.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">próximo de 1.300 pessoas</a> menos de uma semana depois.</p>
<p style="text-align: justify;">Devido à magnitude da resposta, apenas um punhado de pessoas tiveram resultados positivos, todos os quais foram colocados em quarentena no primeiro dia. Em 17 de novembro, não foram detectadas novas infecções fora da quarentena durante mais de duas semanas e <a class="urlextern" title="http://wsjkw.cq.gov.cn/ztzl_242/qlzhxxgzbdfyyqfkgz/fkdt/202111/t20211118_9991836_wap.html" href="http://wsjkw.cq.gov.cn/ztzl_242/qlzhxxgzbdfyyqfkgz/fkdt/202111/t20211118_9991836_wap.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">a cidade anunciou</a> que o surto fora controlado. Chongqing foi oficialmente declarada uma “zona de baixo risco”. As restrições foram relaxadas, e a vida voltou ao normal.</p>
<p style="text-align: justify;">Foram necessários 15 dias a partir do primeiro caso detectado até o final oficial do surto.</p>
<p style="text-align: justify;">Sequenciamento genético do vírus do primeiro paciente em Chongqing <a class="urlextern" title="https://www.ichongqing.info/2021/11/06/one-confirmed-and-two-asymptomatic-cases-chongqing-epidemic-updated/" href="https://www.ichongqing.info/2021/11/06/one-confirmed-and-two-asymptomatic-cases-chongqing-epidemic-updated/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">confirmou</a> que esse conjunto de casos era apenas um pequeno ramo de um surto mais amplo da variante Delta que começou em outubro na província da Mongólia Interior, ao norte (o vírus provavelmente entrou na China a partir da Mongólia). O surto foi completamente encerrado na China em meados de novembro. Durante este período, cidades em toda a China tiveram um pequeno número de casos e eliminaram seus surtos locais da mesma forma que Chongqing.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário da percepção comum no Ocidente, uma enorme quantidade de informações detalhadas sobre todos os casos é naturalmente publicada na China. As agências de saúde pública publicam um “rastreamento de atividade” detalhado <strong>[3]</strong> para cada pessoa com um resultado positivo, listando as horas em que visitou diversos locais nos dias anteriores, como eles foram infectados (se for conhecido), e até mesmo os números de matrícula dos táxis em que eles andaram recentemente. Uma linha típica do <a class="urlextern" title="http://cq.news.cn/2021-11/02/c_1128023769.htm" href="http://cq.news.cn/2021-11/02/c_1128023769.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">rastreamento de atividade do primeiro paciente</a> diz o seguinte:</p>
<blockquote><p>28 de outubro, 9:30: pegou um táxi de casa (matrícula: Chongqing AD14574) para o posto de gasolina de Wulidian no distrito de Jiangbei para inspecionar as estações de carregamento; comeu no restaurante Sister Huang&#8217;s Old Hot Pot em Wulidian com o Sr. Ye e o Sr. Cao ao meio-dia. <strong>[4]</strong></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Um dos propósitos do rastreamento de atividade detalhado é alertar todos aqueles que estiveram nos mesmos locais que as pessoas infectadas. Todos os rastreamentos de atividade dos casos descobertos no dia 2 de novembro em Chongqing, por exemplo, <a class="urlextern" title="https://news.cctv.com/2021/11/03/ARTI6XiO0vJd5OK4sks55VKo211103.shtml" href="https://news.cctv.com/2021/11/03/ARTI6XiO0vJd5OK4sks55VKo211103.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">foram publicados no dia seguinte</a>. Nas redes sociais chinesas, os rastreamentos de atividade são amplamente compartilhados e comentados. Talvez impressionado e alarmado pelo número de lugares públicos que o primeiro paciente visitou, <a class="urlextern" title="http://cq.cqnews.net/html/2021-11/02/content_51781873.html" href="http://cq.cqnews.net/html/2021-11/02/content_51781873.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">um cidadão chinês comentou:</a>, “Da tarde à noite do dia 27, comeu três refeições em três distritos diferentes. Que tipo de pessoa é essa? Impressionante!” <strong>[5]</strong></p>
<figure id="attachment_143714" aria-describedby="caption-attachment-143714" style="width: 640px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-143714" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/7bb61ddfdea1471244ebe50af451de712c26ee13-1024x682.png" alt="As relações entre o conjunto de casos detectados em Chongqing em novembro de 2021, com base nos relatórios de rastreamento de contatos publicados pela cidade." width="640" height="426" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/7bb61ddfdea1471244ebe50af451de712c26ee13-1024x682.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/7bb61ddfdea1471244ebe50af451de712c26ee13-300x200.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/7bb61ddfdea1471244ebe50af451de712c26ee13-768x512.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/7bb61ddfdea1471244ebe50af451de712c26ee13-630x420.png 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/7bb61ddfdea1471244ebe50af451de712c26ee13-640x427.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/7bb61ddfdea1471244ebe50af451de712c26ee13-681x454.png 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/7bb61ddfdea1471244ebe50af451de712c26ee13.png 1280w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /><figcaption id="caption-attachment-143714" class="wp-caption-text">As relações entre o conjunto de casos detectados em Chongqing em novembro de 2021, com base nos relatórios de rastreamento de contatos publicados pela cidade.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A imagem acima mostra as relações entre o conjunto de casos detectados em Chongqing em novembro de 2021. Como mencionado acima, o surto provavelmente entrou em Chongqing quando um homem que vive em Sichuan (representado pelo círculo cinza rotulado “S”) visitou Chongqing no final de outubro de 2021, e interagiu com colegas de trabalho em uma empresa de energia local. O homem de Sichuan estivera recentemente em Lanzhou, no norte da China, que estava passando por um surto na época. Ele infectou alguns de seus colegas de trabalho, que posteriormente infectaram uma série de outras pessoas em Chongqing. Eventualmente, um funcionário da companhia de energia, um homem de 32 anos (rotulado “c1”), teve febre, foi para o hospital e seu resultado foi positivo, desencadeando uma resposta massiva de saúde pública. No final do dia, todas as pessoas representadas acima estavam em quarentena. O homem de Sichuan <a class="urlextern" title="http://news.youth.cn/jsxw/202111/t20211105_13297342.htm" href="http://news.youth.cn/jsxw/202111/t20211105_13297342.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">foi investigado mais tarde </a> por ter possivelmente escondido sua recente viagem a Lanzhou.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma chave para o sucesso de Chongqing (e outras cidades em toda a China) em acabar com os surtos é a capacidade de identificar rapidamente contatos próximos com pessoas infectadas. Isso é feito usando aplicativos de rastreamento de contatos baseados em smartphones, dados de localização de telefones celulares e entrevistas com os próprios pacientes. Depois que o primeiro paciente apareceu no hospital e teve um resultado positivo, seus contatos próximos foram rapidamente identificados e enviados para quarentena, onde foram regularmente testados e tiveram sua saúde monitorada.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, os moradores dos bairros onde os primeiros pacientes moravam foram testados em apenas alguns dias, de modo a garantir que o surto não se espalhasse amplamente. Se o surto tivesse se espalhado mais pela população, os testes em massa teriam identificado mais pessoas infectadas, e os rastreadores de contato teriam seguido cada infecção individual, identificando seu círculo de contatos próximos. Através deste processo, cada infecção numa cidade pode ser rapidamente identificada, e a propagação pode ser impedida.</p>
<p style="text-align: justify;">Chongqing teve sorte. Apenas um pequeno grupo de pessoas havia sido infectado quando o primeiro paciente foi identificado. Nem todas as cidades chinesas foram tão afortunadas, e ao longo do último ano alguns surtos locais na China levaram semanas para serem completamente controlados.</p>
<p style="text-align: justify;">Este curto período no início de novembro de 2021 é a única vez desde abril de 2020 que Chongqing implementou restrições significativas. Durante a maior parte dos últimos 20 meses, enquanto praticamente todas as grandes cidades fora da China passaram por múltiplas ondas graves de infecção e morte, a vida em Chongqing — como na maior parte da China — tem sido relativamente normal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A política de “zero dinâmico”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como vimos acima, os departamentos locais de saúde pública são fundamentais para a implementação da política de “zero dinâmico” na China. Se um caso aparece em uma cidade, os rastreadores de contato devem ser enviados imediatamente para identificar contatos próximos, e testes em contatos próximos e bairros afetados devem ser realizados o mais rapidamente possível. Para acabar com um surto, os departamentos de saúde pública locais devem compreender rapidamente o âmbito do surto: será um punhado de casos, ou algo mais amplo que se espalhou sem ser detectado? O Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças (CDC da China), uma organização baseada no CDC dos EUA, tem enfatizado repetidamente (ver <a class="urlextern" title="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8393059" href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8393059" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7836695" href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7836695" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>) a centralidade do trabalho de saúde pública ao nível comunitário (e a necessidade de reforçá-lo) na estratégia do país contra a COVID.</p>
<p style="text-align: justify;">Isto implicou um investimento significativo nos sistemas de saúde pública local. Por exemplo, a administração central <a class="urlextern" title="https://www.globaltimes.cn/page/202101/1213486.shtml" href="https://www.globaltimes.cn/page/202101/1213486.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">requer que cada cidade</a> consiga testar toda a sua população num curto espaço de tempo. Isso significa dois dias para cidades com população abaixo de 5 milhões, e dentro de três a cinco dias para cidades com população acima de 5 milhões. Essa capacidade de testagem local tem o apoio de laboratórios de teste móveis, que <a class="urlextern" title="https://youtu.be/Rm3BlyAvL0I" href="https://youtu.be/Rm3BlyAvL0I" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">são enviados</a> para regiões com surtos ativos para acelerar a triagem da população.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa capacidade de teste tem sido repetidamente utilizada para acabar com surtos locais. Em Guangzhou, uma metrópole no sul da China do tamanho de New York, <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/news/china/science/article/3136378/coronavirus-18-million-tests-three-days-guangzhou-tries-stem" href="https://www.scmp.com/news/china/science/article/3136378/coronavirus-18-million-tests-three-days-guangzhou-tries-stem" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">18 milhões de residentes foram testados</a> em apenas três dias durante um surto da variante Delta em junho de 2021. O surto foi contido com sucesso através de <em>lockdowns</em> limitados a apenas alguns bairros, ajudado por testes em massa e extenso rastreamento de contato, sendo completamente erradicado em menos de um mês.</p>
<figure id="attachment_143715" aria-describedby="caption-attachment-143715" style="width: 640px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-143715" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/69ad8396b99b13dde86a2cd3d6ae905d64f57fc9-1024x448.jpg" alt="Diagrama de toda a cadeia de transmissão do surto da variante do Delta de Guangzhou de maio a junho de 2020, a partir de um artigo na revista médica The Lancet. [6]" width="640" height="280" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/69ad8396b99b13dde86a2cd3d6ae905d64f57fc9-1024x448.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/69ad8396b99b13dde86a2cd3d6ae905d64f57fc9-300x131.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/69ad8396b99b13dde86a2cd3d6ae905d64f57fc9-768x336.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/69ad8396b99b13dde86a2cd3d6ae905d64f57fc9-960x420.jpg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/69ad8396b99b13dde86a2cd3d6ae905d64f57fc9-640x280.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/69ad8396b99b13dde86a2cd3d6ae905d64f57fc9-681x298.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/69ad8396b99b13dde86a2cd3d6ae905d64f57fc9.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /><figcaption id="caption-attachment-143715" class="wp-caption-text">Diagrama de toda a cadeia de transmissão do surto da variante do Delta de Guangzhou de maio a junho de 2020, a partir de um artigo na revista médica The Lancet. [6]</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Na imagem acima, cada círculo representa uma pessoa infectada durante o surto e as setas mostram quem foi infectado por quem. O primeiro caso detectado, representado acima pelo diamante vermelho, foi infectado em um hospital devido à exposição acidental a um paciente do exterior, representado pelo círculo cinza. A capacidade de rastrear cada infecção e entender cadeias inteiras de transmissão é central para a capacidade da China de controlar surtos.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora as agências locais de saúde pública sejam críticas, elas operam no contexto de uma estratégia nacional mais ampla para lidar com a pandemia.</p>
<p style="text-align: justify;">Após o fim do surto inicial na China, no verão [junho a agosto] de 2020, o CDC da China definiu a sua estratégia de longo prazo para lidar com a pandemia em um <a class="urlextern" title="https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31278-2" href="https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31278-2" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">artigo</a> na revista médica <em>The Lancet</em>. Sua preocupação era que, embora a primeira onda tivesse sido superada, “um forte esforço de supressão deve continuar a impedir o restabelecimento da transmissão comunitária” no interior do país.</p>
<p style="text-align: justify;">O CDC da China estabeleceu duas estratégias alternativas que o país poderia seguir: “de contenção e repressão” (“zero dinâmico” que vimos acima) ou “mitigação”, que aceita algum nível de disseminação do vírus, mas que busca diminuir seu impacto. O CDC da China considerou que “mitigação poderia permitir o desenvolvimento da imunidade de rebanho em um período mais longo, mas a um grande custo em termos de número de casos, morbilidade e mortalidade.” O CDC da China considerou essa política — que tem sido seguida pela maioria dos países ao redor do mundo — como inaceitável, e em vez disso explicou que seu objetivo era proteger a população até que uma vacina pudesse ser desenvolvida e amplamente utilizada:</p>
<blockquote><p>O objetivo estratégico atual é manter a transmissão interna de SARS-CoV-2 no mínimo ou zero até que a população seja protegida através da imunização com vacinas contra a COVID-19 seguras e eficazes, altura em que o risco de COVID-19 proveniente de qualquer fonte deve ser mínimo. Essa estratégia ganha tempo para o desenvolvimento urgente de vacinas e tratamentos em um ambiente com pouca morbilidade e mortalidade. Uma resposta vacinal é quase certamente uma necessidade global na resposta à pandemia de COVID-19, prevenindo a infecção entre aqueles em risco de exposição ou risco médico e, em última instância, imunizando a população para parar a importação e transmissão do vírus.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A China já vacinou totalmente <a class="urlextern" title="https://www.globaltimes.cn/page/202111/1239889.shtml" href="https://www.globaltimes.cn/page/202111/1239889.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">quase 80%</a> de sua população, atingindo este nível de imunidade populacional sem sofrer com infecções muito disseminadas. No entanto, a propagação contínua do vírus em países que vacinaram partes substanciais das suas populações e a manutenção de elevadas taxas de mortalidade nesses países fizeram com que o CDC da China alertasse contra o abandono da estratégia “Covid Zero”.</p>
<p style="text-align: justify;">O CDC da China recentemente <a class="urlextern" title="http://weekly.chinacdc.cn/en/article/doi/10.46234/ccdcw2021.245" href="http://weekly.chinacdc.cn/en/article/doi/10.46234/ccdcw2021.245" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">publicou uma avaliação</a> das consequências de abraçar a estratégia de “mitigação” perseguida pela maioria dos países, concluindo que o sistema de saúde da China seria rapidamente esmagado por centenas de milhares de casos diários de COVID-19, e mais de 10 mil casos graves a cada dia. <em>“Abraçar certas estratégias de abertura sem reservas”</em>, advertiu o CDC da China, teria <em>“um impacto devastador no sistema se saúde da China e causaria um grande desastre no interior da nação.” </em></p>
<figure id="attachment_143716" aria-describedby="caption-attachment-143716" style="width: 200px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-143716" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/4803730798918aa01c6f8a4d024882fb2791d648-200x300.jpg" alt="Dr. Zhong Nanshan, um pneumologista chinês conhecido por falar sobre o surto original de SARS, que desempenha um papel de liderança na resposta à atual pandemia. Crédito: Xinhua/Liu Dawei." width="200" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/4803730798918aa01c6f8a4d024882fb2791d648-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/4803730798918aa01c6f8a4d024882fb2791d648-682x1024.jpg 682w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/4803730798918aa01c6f8a4d024882fb2791d648-768x1152.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/4803730798918aa01c6f8a4d024882fb2791d648-280x420.jpg 280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/4803730798918aa01c6f8a4d024882fb2791d648-640x960.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/4803730798918aa01c6f8a4d024882fb2791d648-681x1022.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/05/4803730798918aa01c6f8a4d024882fb2791d648.jpg 853w" sizes="auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px" /><figcaption id="caption-attachment-143716" class="wp-caption-text">Dr. Zhong Nanshan, um pneumologista chinês conhecido por falar sobre o surto original de SARS, que desempenha um papel de liderança na resposta à atual pandemia. Crédito: Xinhua/Liu Dawei.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O Dr. Zhong Nanshan é um pneumologista que ganhou destaque em 2003 durante o surto original de SARS, falando publicamente sobre a epidemia e desenvolvendo um regime de tratamento para pacientes com SARS. Agora, com 85 anos, ele desempenhou um papel central na formulação e comunicação da resposta da China à COVID-19.</p>
<p style="text-align: justify;">Em janeiro de 2020, o Dr. Zhong viajou para Wuhan com uma equipe médica da Comissão Nacional de Saúde da China para investigar o surto, e foi a primeira pessoa importante a <a class="urlextern" title="http://www.xinhuanet.com/english/2020-01/20/c_138721785.htm" href="http://www.xinhuanet.com/english/2020-01/20/c_138721785.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">anunciar</a> que o SARS-CoV-2 pode ser transmitido de pessoa para pessoa. Em <a class="urlextern" title="https://youtu.be/SNkEsqq_MPg" href="https://youtu.be/SNkEsqq_MPg" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">entrevista recente</a> ele argumentou que, em comparação com permitir que o vírus se espalhe, a política de zero dinâmico é uma “abordagem de custo relativamente baixo” e que o vai-e-vem de suspensão e reimposição de restrições em outros países tem um maior impacto psicológico sobre a população. Dr. Zhong <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/news/china/science/article/3155916/coronavirus-chinas-top-disease-expert-lays-down-conditions-post" href="https://www.scmp.com/news/china/science/article/3155916/coronavirus-chinas-top-disease-expert-lays-down-conditions-post" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">sugeriu</a> que o tempo de duração dos rigorosos controles fronteiriços da China dependerá da forma como os outros países em todo o mundo conseguirem controlar a propagação do vírus e da eficácia das vacinas, novos medicamentos e tratamentos na redução da gravidade da doença.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As perspectivas para a China na pandemia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As declarações do Dr. Zhong estão em forte contraste com os apelos da mídia ocidental para que a China abandone sua política de “Covid Zero” e abrace uma política de “viver com o vírus” ao estilo dos EUA. O <em>Financial Times</em> declara que ”<a class="urlextern" title="https://www.ft.com/content/4b34e1a4-8e67-40f4-b042-4fc304b46f50" href="https://www.ft.com/content/4b34e1a4-8e67-40f4-b042-4fc304b46f50" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Os países de &#8220;Covid Zero&#8221; ficaram sem saída</a>“ e que ”<a class="urlextern" title="https://www.ft.com/content/1d00bff4-ac9d-486a-9a50-ae819e106d4c" href="https://www.ft.com/content/1d00bff4-ac9d-486a-9a50-ae819e106d4c" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">O autoisolamento da China é uma preocupação global&#8221;</a>. O <em>New York Times</em> publicou <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2021/10/27/world/asia/china-zero-covid-virus.html" href="https://www.nytimes.com/2021/10/27/world/asia/china-zero-covid-virus.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">artigo</a> após <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2021/11/12/world/asia/china-zero-covid.html" href="https://www.nytimes.com/2021/11/12/world/asia/china-zero-covid.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">artigo</a> atacando a política de Covid Zero da China, e ainda mais cinicamente, <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2021/05/12/business/economy/covid-seychelles-sinopharm.html#click=https://t.co/u0h7dIaRyi" href="https://www.nytimes.com/2021/05/12/business/economy/covid-seychelles-sinopharm.html#click=https://t.co/u0h7dIaRyi" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">tentou</a> <a class="urlextern" title="https://twitter.com/nytimes/status/1372087830747492353" href="https://twitter.com/nytimes/status/1372087830747492353" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">semear medo</a>, <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2021/06/22/business/economy/china-vaccines-covid-outbreak.html" href="https://www.nytimes.com/2021/06/22/business/economy/china-vaccines-covid-outbreak.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">incerteza</a> e <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2021/12/06/business/china-covid-vaccine-children.html" href="https://www.nytimes.com/2021/12/06/business/china-covid-vaccine-children.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">dúvida</a> sobre as vacinas chinesas. <a href="https://www.theguardian.com/world/2021/oct/30/people-are-starting-to-wane-china-zero-covid-policy-takes-toll" target="_blank" rel="noopener">The Guardian afirmou</a> que o povo chinês está ficando cansado da política de “Covid Zero”.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de que a China, que conseguiu manter a SARS-CoV-2 à distância durante os últimos 20 meses, permitindo simultaneamente que a vida normal continuasse em grande medida, deveria ser aconselhada sobre as medidas de controle epidêmico pelo <em>Financial Times</em>, <em>New York Times</em> ou <em>The Guardian</em> é claramente um absurdo. No entanto, a China enfrenta fortes pressões para abandonar a sua política de controle em outros quadrantes também. Enquanto a política de Covid Zero permite uma vida normal com relativamente poucas restrições dentro do país, o rigoroso regime de quarentena para viajantes que chegam — três semanas — tornou as viagens internacionais difíceis. O <em>New York Times</em> fez <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2021/06/09/world/asia/china-covid-lockdown.html" href="https://www.nytimes.com/2021/06/09/world/asia/china-covid-lockdown.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">questão de destacar</a> a dificuldade que isso representa para os empresários que viajam para o país. A China também enfrenta certamente as mesmas pressões comerciais internas que os países ocidentais, pressionando por uma suspensão das restrições nas fronteiras e outras medidas de controle que poderiam dificultar os negócios.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o aparecimento da variante Ômicron, apelos — principalmente de fora da China — para um abandono da política de “zero dinâmico” (cada vez mais altos apenas algumas semanas atrás) foram expostos como imprudentes. Respondendo às primeiras notícias sobre a Ômicron, <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/news/china/science/article/3157667/omicron-response-china-wait-see-and-keep-tough-zero-covid-rules" href="https://www.scmp.com/news/china/science/article/3157667/omicron-response-china-wait-see-and-keep-tough-zero-covid-rules" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Dr. Zhong Nanshan enfatizou</a> que a China vai esperar para ver como se comporta a nova variante e se será necessária uma nova vacina contra ela. Devido à sua estratégia de zero dinâmico, a China possui a capacidade de esperar e observar de uma distância segura. Ao contrário, países que estão “vivendo com o vírus” estão voando às cegas e não vão saber quais riscos estão assumindo em relação à saúde de sua população até que a Ômicron já esteja sobre eles.</p>
<p style="text-align: justify;">A experiência da China durante a pandemia demonstra que, com uma resposta vigorosa de saúde pública, as sociedades podem conter a propagação do SARS-CoV-2. Isso pode explicar as repetidas e aparentemente irracionais tentativas de meios de comunicação como o <em>New York Times</em> de atacar a política de Covid Zero na China, bem como o seu fracasso simultâneo em explicar aos seus leitores como ela funciona.</p>
<p style="text-align: justify;">As medidas de controle epidêmico que o povo chinês tem suportado são pequenas em comparação com o preço em vidas e meios de subsistência que os estadunidenses pagaram. Desde o início da pandemia, para cada pessoa temporariamente em quarentena na China (um país com quatro vezes a população dos Estados Unidos), um estadunidense morreu. Ao mesmo tempo, a quantidade de tempo gasto em lockdown na maioria das cidades da China desde abril de 2020 tem sido mínima. Ainda assim o <em>New York Times</em> preferiu fazer com que os seus leitores acreditem que uma cidade remota na fronteira de Mianmar representa a norma na “China da Covid Zero” do que informá-los de que mais de um bilhão de pessoas, em cidades como Pequim, Xangai e Guangzhou, viveu por 20 meses com poucas restrições sobre sua vida diária, e tiveram praticamente zero riscos advindos do vírus.</p>
<p style="text-align: justify;">As medidas de controle de epidemias em Chongqing e noutros locais da China, baseadas em princípios básicos de epidemiologia e tecnologias modernas, como os testes PCR e o rastreio de contatos através de smartphones, revelaram-se eficazes. É imperativo que cientistas, trabalhadores e estudantes pressionem para que políticas semelhantes de salvação de vidas sejam adotadas em todo o mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> “Infecções diárias” é definido como o número de novas infecções domésticas, seja <em>sintomático</em> ou <em>assintomático</em>. A China tipicamente relata o número diário de infecções assintomáticas, casos sintomáticos e o número de infecções assintomáticas convertendo-se em casos sintomáticos. O número “infecção diária” é a soma de infecções assintomáticas e casos sintomáticos, menos conversões.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Após abril de 2020, Chongqing não detectou novos casos locais até 31 de julho de 2021, quando <a class="urlextern" title="http://en.nhc.gov.cn/2021-07/31/c_84265.htm" href="http://en.nhc.gov.cn/2021-07/31/c_84265.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">descobriu dois casos.</a>. Mais tarde detectou outra infecção assintomática após cinco dias, <a class="urlextern" title="http://en.nhc.gov.cn/2021-08/05/c_84304.htm" href="http://en.nhc.gov.cn/2021-08/05/c_84304.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">em 5 de agosto</a>, mas nenhum surto mais amplo ocorreu em Chongqing.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Em chinês, “活动轨迹”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Em Chinês, “10月28日9点30分从家中打车（车牌号：渝D14574），到江北区五里店加气站查看充电桩，中午在五里店黄姐老火锅与叶某涛、曹某一起用餐。”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Em Chinês, “27号下午至晚上在三个不同的区吃了三顿，什么人啊，这么牛逼！”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Wang et al., “Transmission, viral kinetics and clinical characteristics of the emergent SARS-CoV-2 Delta VOC in Guangzhou, China.” <em>The Lancet</em>. 2021. DOI: <a class="urlextern" title="https://doi.org/10.1016/j.eclinm.2021.101129" href="https://doi.org/10.1016/j.eclinm.2021.101129" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">10.1016/j.eclinm.2021.101129</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A tradução deste artigo deve-se ao Marco Tulio, e a imagem de destaque é de <span class="MssrA"><span class="yayNa"><a class="N2odk RZQOk Vk1a0 AsGGe pgmwB KHq0c" href="https://unsplash.com/@tsaichinghsuan" target="_blank" rel="noopener">Shengpengpeng Cai</a></span></span>.</em></p>
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		<title>Compartilhando a vergonha: uma carta de internacionalistas na China</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/04/143224/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Apr 2022 03:27:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Rússia]]></category>
		<category><![CDATA[Ucrânia]]></category>
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					<description><![CDATA[“Vergonha” é um sentimento que vem sendo expresso na Rússia em meio aos recentes protestos antiguerra nas ruas e na internet. E nós, os internacionalistas chineses, compartilhamos a vergonha. Por Chuang]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por <a href="https://chuangcn.org/2022/03/letter-from-china-ukraine/" target="_blank" rel="noopener">Chuang</a></h3>
<p style="text-align: justify;">2 de março de 2022</p>
<p style="text-align: justify;">Como afirmado em nosso <a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/2022/03/news-february-2022/" href="https://chuangcn.org/2022/03/news-february-2022/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">post anterior</a>, o Estado chinês e as plataformas de mídia social têm censurado parte do conteúdo crítico à invasão russa da Ucrânia (embora isso seja inconsistente, já que o próprio Estado ainda não assumiu uma posição clara sobre o assunto). Enquanto isso, recebemos a seguinte carta de um grupo anônimo que se identifica como internacionalistas da China continental. Ela fornece uma boa perspectiva sobre como o recente conflito foi percebido pela esquerda chinesa. Assim como acontece com outros relatórios e traduções que publicamos, a posição apresentada aqui pertence aos autores. Embora sejamos simpáticos ao seu ponto de vista, deve ficar claro pela linguagem e enquadramento usados na carta que esta não é uma declaração do <em>Chuang</em> e não deve ser entendida como tal. Um de nossos objetivos tem sido ajudar a aumentar a visibilidade de outros grupos e indivíduos na China que enfrentam preocupações semelhantes, por isso estamos felizes em poder divulgar a seguinte carta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como internacionalistas, somos firmemente contra a invasão russa, na mesma medida em que somos contra a expansão imprudente da OTAN. O que apoiamos não é o governo ucraniano, mas o direito do povo ucraniano de ser livre de qualquer interferência imperialista.</p>
<p style="text-align: justify;">Putin apoiou a independência das duas repúblicas do Donbass, alegando dar proteção às pessoas de lá contra o governo ucraniano. Inegavelmente, nos últimos oito anos, os moradores de Donbass vivenciam guerras sem fim. As pessoas lá anseiam pela paz, e não pelo que Putin tem feito, ou seja, expandir infinitamente a guerra. Não vamos negar a perseguição da população local pelo governo ucraniano, nem a presença de neonazistas na Ucrânia (assim como na Rússia), nem a existência de esforços progressistas e antifascistas na luta armada do povo da região de Donbass. No entanto, se o regime de Putin realmente quer proteger o povo de Donbass, como ele tem afirmado, temos de esclarecer: como muitos representantes do povo de Donbass morreram nas mãos dos chauvinistas da Grande Rússia e do exército traidor de Putin?</p>
<p style="text-align: justify;">A “desnazificação” da Ucrânia soa mais como uma piada, dado que Putin e seus seguidores são os mais fortes apoiadores da extrema-direita europeia na última década. A invasão russa na Ucrânia só impulsionará e reforçará o nacionalismo radical no interior do país. Putin quer popularizar a ideia de que a Ucrânia é um país construído por Lenin e pela União Soviética. No entanto, como outros grupos progressistas apontaram, qual Estado-nação existente não é fruto de uma construção? Em nome da “descomunização”, o que Putin realmente deseja é apagar a soberania da Ucrânia e até mesmo sua identidade nacional, ocultando sua ambição de reconstruir um Império Russo monoétnico. É verdade que a Ucrânia não teria formado suas fronteiras atuais sem o princípio leninista de autodeterminação nacional — incluindo a igualdade entre as nacionalidades e a liberdade de secessão política. Entretanto, o que Putin não se atreve a admitir é que, sem tal princípio, a União Soviética não teria ganho a confiança de suas repúblicas constituintes desde o início, e a união de 70 anos das Repúblicas Socialistas poderia não ter existido.</p>
<p style="text-align: justify;">A retórica é hipócrita e frágil diante de forças geopolíticas reais. Nas últimas décadas, as preocupações com “direitos humanos” e “genocídio” são frequentemente usadas para justificar as guerras iniciadas pelo Ocidente. A Rússia, aparentemente do lado oposto, não usou exatamente a mesma retórica no caso de Donbass? Da mesma forma, para os Estados Unidos, rápidos em impor sanções baseadas em considerações sobre os direitos humanos, onde estão as sanções contra Israel, em um momento em que está ocupando a Palestina e impondo um verdadeiro <em>apartheid</em>? Onde estão as sanções contra a Arábia Saudita, que ainda está invadindo o Iêmen e causando um enorme desastre humanitário? Sem mencionar que muitas análises apontam que as sanções econômicas, embora possam de fato enfraquecer a capacidade do regime russo de financiar sua máquina de guerra, terão um impacto maior nas pessoas comuns do que na poderosa elite russa. O que está claro é que o ditador nunca se importa se seu povo sofre.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Esta não é uma guerra entre os russos e os ucranianos. É uma guerra entre Putin e Biden e as superpotências por trás deles. É uma guerra que não terá vencedor, mas que criará inúmeras vítimas.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma guerra entre o povo com sua justiça simples e um Estado que adora o poder. Na Rússia, vemos inúmeras vozes antiguerra em pessoas comuns. Elas não são destemidas. Todos são profundamente conscientes de que estão arriscando serem presos por segurarem alto cartazes de “Não à Guerra”, que qualquer expressão de opiniões dissidentes pode levá-los para a prisão, que o regime está tirando vantagem da situação de emergência para aprofundar a repressão de dissidentes, e que mais de 1.700 pessoas foram levadas pela polícia por protestar no primeiro dia que Putin lançou a invasão. Dito isto, vergonha e fúria levaram repetidamente incontáveis russos às ruas. Os protestos contra o regime de Putin não se limitam a essa guerra específica, se percebermos que o povo russo já estava envolvido em uma guerra invisível contra seu governo por muitos anos em relação à corrupção generalizada de Moscou, ao conluio com oligarcas do setor energético, à manipulação da democracia e ao uso de gangsters para atacar a oposição. Quão absurdo é um regime afirmar que pode resgatar outra nação e, ao mesmo tempo, reprimir seu próprio povo?</p>
<p style="text-align: justify;">Esta não é apenas uma guerra no campo de batalha, mas também uma guerra de informação online. As pessoas acabam sendo representadas por seus Estados, e a mesma informação ou conceito pode ter significados completamente opostos para diferentes campos, ou ser mantida refém por diferentes preconceitos. Então, em frenesi e ansiedade, essas ideias distorcidas flutuam através das fronteiras nos ventos da guerra. Vivendo na China, nós nos encontramos em uma situação absurda que a mídia estatal ironicamente chama “guerra cognitiva”. O governo chinês foi condenado pela comunidade internacional por sua atitude ambígua: por um lado defende a paz, enquanto pelo outro fortalece seus laços com a Rússia. Enquanto isso, sob a propaganda da grande mídia e uma censura cada vez mais forte ao longo de muitos anos, os internautas chineses são, infelizmente, vistos agora pelo mundo como os maiores e mais barulhentos apoiadores da guerra e de Putin. Vozes progressistas antiguerra são silenciadas e os manifestantes são punidos. Envergonhados como estamos, condenamos veementemente a máquina de propaganda que, mais uma vez, “aponta para um cervo e o chama de cavalo.” Na época em que a invasão russa havia acabado de começar, nosso governo estava ocupado perseguindo sua própria população em uma das maiores crises de opinião pública que a China viu nos últimos anos. Toda a nação ficou chocada com as revelações de inúmeros casos de mulheres traficadas, torturadas e tratadas como escravas sexuais por décadas. Esses crimes evoluíram para uma norma social com o conluio dos governos locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Viveremos na era da pós-verdade por muito tempo, na qual as divisões emocionais assumirão o papel de “senso comum” na vida pública. Portanto, defendemos o direito do povo ucraniano de determinar seu próprio destino, e o direito do povo russo e de outros que vivem sob regimes autoritários de expressarem desentendimentos com seus governos, bem como de demonstrar solidariedade com aqueles que foram invadidos. “Vergonha” é um sentimento que vem sendo expresso na Rússia em meio aos recentes protestos antiguerra nas ruas e na internet. E nós, os internacionalistas chineses, compartilhamos a vergonha.</p>
<figure id="attachment_143231" aria-describedby="caption-attachment-143231" style="width: 640px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-143231 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/yawer-waani-Ga-B11vxn_I-unsplash.jpg" alt="Foto: Yawer Waani" width="640" height="890" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/yawer-waani-Ga-B11vxn_I-unsplash.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/yawer-waani-Ga-B11vxn_I-unsplash-216x300.jpg 216w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/yawer-waani-Ga-B11vxn_I-unsplash-302x420.jpg 302w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /><figcaption id="caption-attachment-143231" class="wp-caption-text">Foto: Yawer Waani</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>3.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O povo ucraniano tem suas próprias vontades e o direito de decidir seu próprio destino sem a interferência do imperialismo ocidental ou oriental. Eles devem ser livres de qualquer dano causado em nome da “proteção” ou “resgate”. No entanto, ao mesmo tempo, devemos entender a complexidade e a crueldade da política internacional, especialmente quando o povo ucraniano está preso entre dois impérios, enfrentando a guerra contra a humanidade, a invasão e até mesmo a ameaça de armas nucleares.</p>
<p style="text-align: justify;">A neutralidade é hipócrita sob as condições prementes de hoje. A guerra de agressão russa não pode ser parada, de modo que se opor à guerra de autodefesa da Ucrânia seria contradizer a reivindicação dos ativistas antiguerra de ficar do lado das vítimas. Temos de estar com o povo ucraniano que defende o seu país, com o povo russo e bielorrusso que arrisca as suas vidas para protestar contra os seus respectivos Estados, e com pessoas de todo o mundo que têm sede de paz e condenam a guerra. A comunidade internacional deve respeitar e responder às exigências do povo ucraniano e oferecer ajuda prática, e isso nos inclui. Acreditamos que as tropas da OTAN não mudarão a situação e apenas aumentarão a chance de uma guerra mundial — a última coisa que queremos ver. Partilhamos a opinião dos nossos predecessores, os anti-imperialistas responsáveis, que, nos movimentos antiguerra durante a guerra do Vietnã, não apelaram à interferência da União Soviética para combater a força dos EUA, mas apoiaram a sua ajuda na entrega de armas à resistência vietnamita. Hoje, também existem armas cibernéticas. Grupos de hackers interrompem sites do governo e da grande mídia russos, sites de mapeamento online interferem no avanço das tropas terrestres russas e existem arenas de opinião pública de solidariedade com os invadidos. Esses esforços estão moldando o terreno cibernético do progressismo nesta guerra. Os internacionalistas têm o dever básico de apoiar aqueles que são arrastados para guerras justas de resistência contra os invasores.</p>
<p style="text-align: justify;">Você não pode destruir magia com magia. O que estamos pedindo não é uma paixão antiguerra fugaz ou uma espécie de cessar-fogo que esconde conflitos mais profundos e invisíveis, mas o abandono das lógicas da Guerra Fria e atuações retóricas. Esforços práticos devem ser feitos para reconstruir a paz na Ucrânia e além, para rejeitar toda a política de homem forte e hegemonia do Estado e erradicar quaisquer ilusões sobre a guerra.</p>
<p style="text-align: justify;">Um grupo de internacionalistas da China continental, 1º de março de 2022.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Destaques das notícias e mídias sociais chinesas, fevereiro de 2022</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Alguns protestos contra a invasão russa da Ucrânia escapam dos censores</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No momento em que escrevemos, o governo chinês ainda não assumiu uma posição formal sobre o conflito. O Ministério das Relações Exteriores acaba de anunciar que a China e a Rússia não são “aliados”, mas apenas “parceiros estratégicos”, e a televisão estatal exibiu uma longa entrevista com uma estudante chinesa em Kiev, autorizada a expressar apoio a seus amigos ucranianos. Enquanto isso, as plataformas de mídia social têm tomado precauções mais ativas, censurando vários artigos críticos à invasão ou que simpatizam com as vítimas na Ucrânia. Abaixo está um fio do Twitter arquivando essas peças à medida em que elas são censuradas:</p>
<blockquote class="twitter-tweet" data-width="550" data-dnt="true">
<p lang="en" dir="ltr">Many sympathetic voices toward Ukraine are being censored on the Chinese internet. I&#39;m starting a thread to document them. Some translations are shortened for brevity. Errors remain mine.</p>
<p>1. 5 profs issued a joint statement today urging Russia to back off. (deleted on WeChat) <a href="https://t.co/cRTs3pRJ74">pic.twitter.com/cRTs3pRJ74</a></p>
<p>&mdash; Mengyu Dong (@dong_mengyu) <a href="https://twitter.com/dong_mengyu/status/1497562693615554562?ref_src=twsrc%5Etfw">February 26, 2022</a></p></blockquote>
<p><script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p>
<p style="text-align: justify;">E outro com fotos de um manifestante solitário em uma cidade do continente:</p>
<p><a href="http://twitter.com/homo42202361/status/1497497957427412996?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1497497957427412996%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_c10&#038;ref_url=https%3A%2F%2Fchuangcn.org%2F2022%2F03%2Fnews-february-2022%2F">http://twitter.com/homo42202361/status/1497497957427412996?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1497497957427412996%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_c10&amp;ref_url=https%3A%2F%2Fchuangcn.org%2F2022%2F03%2Fnews-february-2022%2F</a></p>
<p style="text-align: justify;">No momento em que nos preparamos para publicar, recebemos uma carta de um grupo de leitores na China, que desejam expressar sua solidariedade com o povo da Ucrânia e os protestos contra a guerra na Rússia, assim como sua inimizade para com as classes dominantes de todos os países — uma carta que os autores pensam que não pode ser publicada nas plataformas da China continental. A carta pode agora ser lida <a class="urlextern" title="https://chuangcn.org/2022/03/letter-from-china-ukraine/" href="https://chuangcn.org/2022/03/letter-from-china-ukraine/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">A imagem de destaque deste artigo pertence a <a href="https://unsplash.com/@felipepelaquim" target="_blank" rel="noopener">Felipe Pelaquim.</a></p>
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		<title>A ofensiva do capital: quem lucra com a guerra e o espólio da América Latina?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Apr 2022 03:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Nunca existiu e por certo não existirá personificação habilitada ao controle perene de um sistema que se autotransforma o tempo inteiro. Por Judite Strozake, María Gabriela Guillén Carías, Maria Orlanda Pinassi e Silvia Adoue]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Judite Strozake, María Gabriela Guillén Carías, Maria Orlanda Pinassi e Silvia Adoue</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Há tempos que o mundo anda à deriva sem qualquer tipo de controle que não seja contingente. Do ponto de vista do capital, o acúmulo global de crises de toda natureza — social, econômica, política, ambiental, humanitária — necessita, urgentemente, de um comando suficientemente forte para conter as ameaças que isso tudo representa para a reprodução do próprio sistema. Do ponto de vista da humanidade, não seria necessário dizer como é urgente uma saída radicalmente oposta a qualquer solução que dê fôlego ao inferno que representa o capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois então, esse ataque que o povo ucraniano vem sofrendo de Rússia e OTAN não é somente mais uma demonstração bestial do belicismo patriarcal do sistema. É o oxigênio a impulsionar uma nova ofensiva ancorada, desta vez, em formas de controle que a burguesia transnacionalizada inventou para postergar seu esgotamento definitivo. Essa guerra, portanto, é muito mais do que um fenômeno passageiro, ela é o estopim de uma sobrevida ao capital em crise estrutural, um buraco ainda mais profundo rumo ao abismo absoluto. Enfim, vamos lá.</p>
<p style="text-align: justify;">Começamos pela constatação de que o sistema de metabolismo social do capital inaugurou uma temporalidade ímpar em toda história das sociedades humanas. Sua abrangência totalitária e de totalidade vem da genética necessidade de expandir para acumular. A dinâmica dessa temporalidade se recria e se reproduz incessantemente como fundamento essencial à destruição de outras formas societárias e à exploração do sobretrabalho social. A única forma de satisfazer sua imperativa pulsão à rapina e impor outro <em>modus operandi</em> (o tal progresso civilizatório) é praticando um truculento movimento de espoliação e brutalização de povos inteiros, de devastação de tudo o que se coloca como obstáculo aos seus interesses que se modificam na medida do seu avanço espacial e temporal. A acumulação originária, cujo epicentro foi a Inglaterra, expulsou e expropriou os bens dos camponeses. Transformou-os em trabalhadores livres e despojados para criarem uma crescente massa de riqueza apropriada pelo alheio, base do processo civilizatório em germe. As grandes navegações partem da “velha” Europa em busca de um mundo a ser domesticado e subserviente a ela. Para isso, criou um tipo de escravidão moderna que durou 400 anos e elevou o grau de violência e exploração sobre o trabalho forçado de indígenas e africanos colocados sob seu domínio.</p>
<p style="text-align: justify;">As revoluções burguesas do século XIX vão abolir o monopólio colonial e instituir a liberdade concorrencial movida pelo mercado. Essa nova ordem liberal era mais dinâmica, complexa e eficiente, já que controlada pela “mão invisível” e pela “paz perpétua” para dar ensejo à ascensão do desenvolvimento capitalista, ascensão que se manteve até os anos de 1960 <strong>[1]</strong>. Regulamentou o roubo original mediante a fundação de instituições aptas a naturalizar e reproduzir hierarquias materiais, raciais, sociais e nacionais, marcas do seu padrão societário competitivo, individualista e alienado. Uma outra internacionalidade em marcha comporia então a relação desigual entre um punhado de nações industrializadas e as outras, as muitas nações quiméricas e produtoras de bens primários. Disso decorre o avanço de um novo modo de dominação concorrencial, no qual o “ex” mundo colonial permaneceria na forma incurável de periferia.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-143026 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/incas2.jpg" alt="A ofensiva do capital: quem lucra com a guerra e o espólio da América Latina?" width="300" height="431" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/incas2.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/incas2-209x300.jpg 209w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/incas2-292x420.jpg 292w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A sociedade burguesa vai assim constituir os instrumentos de mediação política da luta de classes, bem como viabilizar os meios necessários — e as formas de controle adequadas — aos saltos do capitalismo. Os “restos” humanos da colonização foram desdenhados pelo que restara do Iluminismo e atirados aos rancores dos eternos senhores de segunda ordem e suas milícias.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos trancos e barrancos, o processo civilizatório permanentemente usurpador, desigual e combinado, reinventa os imperialismos, atravessa crises globais cíclicas, revoluções populares nos chamados “elos frágeis”, guerras mundiais na Europa, guerras territoriais, ascensão de totalitarismos locais, breves períodos de calmaria e avanço da luta institucional da classe trabalhadora — desde os sindicatos e partidos operários dos países do centro. Completam, em parte, o quadro, a Guerra Fria — resultante da Conferência de Yalta — e a constante instabilidade econômica e política nas periferias, produto das transferências das contradições criadas no centro.</p>
<p style="text-align: justify;">O esgotamento dessa forma de controle significa o fim do ascenso histórico do desenvolvimento capitalista e o início da sua decadência, ou crise estrutural do capital. Foi necessário aposentar a teoria anticíclica de Keynes e colocar em prática o receituário neoliberal articulado por Hayek, Von Mises, Friedman e outros figurões do Nobel de Economia. A crise estrutural do capital, entre outras causas, precipita-se pelo acúmulo de contradições jamais superadas e permanentemente criadas pela geração de novas tecnologias, por novas divisões sociais e internacionais do trabalho, pela incapacidade de continuar garantindo a empregabilidade plena e os benefícios concedidos pelo Estado social intervencionista à classe trabalhadora, passo que aliás será fundamental à sua domesticação.</p>
<p style="text-align: justify;">Na nova divisão internacional do trabalho, o Estado continua a ser fundamental para o controle sociometabólico e disciplinamento dos trabalhadores com a finalidade de garantir a reprodução do capital, gerenciando com enormes dificuldades seus defeitos estruturais que tendem internamente à incontrolabilidade e à fragmentação das economias nacionais pelo seu viés transnacionalmente expansionista. No plano global, o imperialismo hoje está constituído por um sistema hierárquico de Estados-nação que são potências econômicas, militares e tecnológicas em graus e modalidades variados, que quando necessário lançam mão da sua capacidade militar para defender os interesses dos conglomerados financeiros em permanente concorrência econômica e geopolítica.</p>
<p style="text-align: justify;">A guerra da Ucrânia aparece como uma polarização entre eixos de Estados-nação cujos capitais se encontram profundamente imbricados em nível global e se beneficiam com o negócio da guerra. Lançam mão, de um lado e do outro de expedientes de nacionalismo, racismo e violência estatal para manipular segmentos da classe trabalhadora, contra imigrantes, negros, indígenas, mulheres etc., recriando a barbárie em todos os cantos do planeta.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo, o capital em crise prossegue em sua luta para minimizar os efeitos daquilo que mais lhe dói nos calos: a queda tendencial da taxa de lucro, para o que acelera o processo de obsolescência programada das mercadorias e amplia a esfera de atuação do mercado financeiro. Esta queda tendencial levou a uma outra configuração global de acumulação na década de 70, que não corresponde mais aos arranjos da época fordista, quando o conjunto de países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, contava com economias integradas e planificação estatal central e uma alta concentração industrial, em espaços nacionais bem definidos, para a manufatura em série de produtos completos.</p>
<p style="text-align: justify;">As forças centrífugas do capital se ativaram e o resultado foi a constituição de uma rede produtiva global formada por uma multiplicidade de cadeias de valor interconectadas que produzem peças e partes em distintas regiões do mundo, substituindo os grandes centros industriais europeus e estadunidenses por centros fabris menores cuja característica principal é a terceirização, quarteirização, …, as contratações temporárias e a flexibilização do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente essa rede produtiva global converge predominantemente para os países do Leste Asiático, onde a maior parte do valor é produzida. A China se destaca por concentrar os processos de acumulação baseados na reprodução ampliada e por ser o lugar para onde fluem as <em>commodities</em> agrícolas, minérios e produtos semi-manufaturados dos países da periferia. Esses capitais aparentemente dispersos são controlados por grandes monopólios financeiros e corporações transnacionais sediados nos centros imperialistas que continuam a manter o monopólio da inovação tecnológica e dos mercados globais, se beneficiando com a abertura comercial que permite o fluxo livre de mercadorias e capitais e condena a periferia a ser uma constante reserva de força de trabalho superexplorável, de minérios e combustíveis fósseis.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste momento, essa dinâmica põe em marcha um processo de expansão e acumulação mediante gigantesco e irreversível processo de destruição generalizada da <em>vida</em> no planeta, seja ela humana/animal, vegetal, mineral.</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo andar da carruagem, tudo indica que o caráter do capital, enquanto relação social reproduzida pelos indivíduos em seu cotidiano em contínua degradação material e moral, continuará a se reproduzir como <em>causa sui</em>, ou seja, sem que considere qualquer necessidade à existência dos seres orgânicos e inorgânicos. Portanto, que se exploda a humanidade e seu planeta, sobretudo a imensa parte localizada na periferia que jamais foi contemporânea do Estado de bem-estar social, mas sente muito mais profundamente os efeitos da decadência civilizatória. Por isso mesmo é que consideramos que o resultado dessas demonstrações de força das potências em disputa, qualquer que seja ele, nos é indiferente, pois aqui, a guerra é permanente, o que sempre escancarou o caráter ilusório dos rituais democráticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Numa breve linha do tempo, é nesse imbróglio que nos encontramos. E é de uma periferia que ousamos falar sobre essa guerra a que assistimos impotentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, este movimento irremediavelmente contraditório do metabolismo descrito teve e, ainda mais hoje, tem o desafio de capacitar novas personificações para o controle do seu funcionamento. Entretanto, uma varredura na história mostra que nunca existiu e por certo não existirá personificação habilitada ao controle perene de um sistema que se autotransforma o tempo inteiro. Foi assim que o absolutismo de Portugal, Espanha, Itália foi superado pela ousadia da Inglaterra, cujo capitalismo industrial foi ameaçado pelo imperialismo (concorrencial) da Alemanha nazista e superado pelo imperialismo concorrencial, mas de fato monopólico dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois hoje essa potência está em risco iminente diante dos inúmeros tentáculos do imperialismo chinês, cuja hegemonia vai depender muito da sua capacidade de ser ainda mais inescrupuloso, autoritário, militarmente forte e detentor de uma massa inimaginável de informações de toda ordem. Além disso, China tem sido bastante eficiente na arte de produzir e distribuir mercadorias pelo mundo; de replicar à perfeição tecnologias globais de produção; de criar e transferir matrizes de produção para a periferia como se, com isso, aliviasse o peso da espoliação praticada durante muito tempo pelo imperialismo ianque. Há quem acredite!</p>
<p><strong>A Rússia de Putin</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A Rússia articula-se a essa história dando contribuição essencial ao exercício da nova ofensiva pretendida por China, tendo em vista as dimensões militar e paramilitar, o papel estratégico para a relação eurasiática, a função ideológica nos moldes da Guerra Fria anterior, a capacidade de disseminar<em> fake news </em>em processos eleitorais pelo mundo afora (enterrando de vez as ilusões da democracia participativa) e ao entrelaçamento dos negócios legais e os até aqui ilegais, o mundo e o submundo das mercadorias, o mercado e o tráfico. Uma forma de Estado, aos moldes de Putin, é muito conveniente a tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Fazemos aqui uma breve digressão para avivar a memória das velhas e novas gerações sobre o significado das lutas das trabalhadoras e dos trabalhadores na Revolução Russa. Só se entende a realidade da revolução como uma necessidade manifesta com ganas por homens e, principalmente, por mulheres e suas crianças em seus limites humanos. As coisas vistas desse modo visam combater mistificações que enaltecem símbolos, forjam heróis e depreciam os seres descalços que enfrentam a realidade dura da revolução nas ruas, nos campos, no frio e na fome.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde muito cedo, no entanto, os lutadores foram sendo abatidos por circunstâncias históricas que não os beneficiaram em nada. Muito ao contrário. O fracasso da revolução alemã e a expectativa frustrada com o internacionalismo rumo ao Ocidente, os atropelos do “socialismo num só país”, a reconstrução de uma autocracia nacionalista inspirada no czarismo; a repressão sobre os protestos contra a ditadura do partido que se iniciava — lembrando aqui de Makhno e de Kronstadt —; da burocracia e da pesada militarização sobre o trabalho; a ascensão de Stalin e os retrocessos patriarcais das conquistas que as mulheres alcançaram no momento inicial. Mas, o pior de tudo foi a idealização do taylorismo e extração do sobretrabalho pelo Estado que, na ausência do burguês privado, passa a exercer o controle político e econômico da recente sociedade. Fundava-se ali um pós-capitalismo em que aspectos necessários ao funcionamento do capital foram preservados, em particular a exploração do trabalho; outros, no entanto, foram dificultados pelo fechamento do círculo, ou seja, o caráter internacional vital à expansão e acumulação de riqueza extraída da massa trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Aquele Estado, contrariamente ao que dizia Marx, se agigantava ao invés de desaparecer, pressupondo controlar a União Soviética através de uma economia meticulosamente planificada. Constituía-se, assim, em uma ditadura contra o proletariado, dando continuidade à obscura relação com os grupos criminais que desde o século XVIII se praticava na Rússia para garantir a segurança dos czares. No caso da URSS, a KGB foi legatária da prática de garantir o privilégio concedido então aos ricos burocratas.</p>
<p style="text-align: justify;">Isto não é um dado acessório quando evocamos as origens do atual presidente da Rússia, personificação na qual se entrelaçam diversos sentidos históricos em que o limite entre a legalidade estatal e a ilegalidade paramilitar e mafiosa parece dissolver-se constantemente.</p>
<p style="text-align: justify;">Não surpreende, portanto, que daquele final lamentável do socialismo realmente inexistente não tenha surgido sequer uma nação economicamente soberana, muito menos um Estado preocupado com o bem-estar do povo trabalhador que outrora ousou ser radical nas exigências de transformar a própria história. Após 70 anos de intensas violações à liberdade e aos anseios sobreviventes de superação real dos males ante e pós-revolucionários, vimos a queda daquele sistema. Entre 1989 e 1991, despontou um país socialmente debilitado, mas cientificamente adiantado na arte da guerra e do poderio militar, um país que refletia muito mais as falsas polarizações da Guerra Fria do que os processos revolucionários de 1905 e 1917.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, desde as primeiras ameaças de Putin de que invadiria a Ucrânia, a atenção do mundo voltou-se para a Europa do Leste, essa grande desconhecida desde fins da URSS. As notícias que nos chegam dali ora aludem às disputas da Rússia com ex-repúblicas soviéticas pelo controle vital dos recursos naturais, ora ao enriquecimento parasitário das oligarquias (burguesias) mafiosas que replicaram naquele canto do mundo, e se projetaram por meio de negócios “ilícitos” (e cada vez mais normais) do capital pelo mundo afora. Além disso, um generalizado perfil nacionalista de extrema-direita da região se mostra bastante profícuo para borrar de vez a história popular e revolucionária de Rússia e Ucrânia. Mas, sabemos bem que não é só isso. Há vários territórios e setores sociais que não se alinham a essa política e vêm fazendo forte resistência a ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os vários aspectos envolvidos nesse momento de mais-desordem, chama a atenção o caráter político e histórico de Vladimir Putin. Ex-agente da KGB, desponta como a grande figura da burocracia russa pós-URSS. Começou na política como assessor de Anatoly Sobchak, prefeito eleito de Leningrado, atual São Petersburgo. Em 1991, foi nomeado presidente do Conselho de Relações Internacionais da Prefeitura de São Petersburgo. E, em 1999, já era primeiro-ministro do país. Em 2000, elegeu-se presidente pela primeira vez assumindo conduta autocrata. Há 22 anos acumula poderes e já é considerado o mais antigo líder do Kremlin desde Stalin (1927-1953).</p>
<p style="text-align: justify;">Observando mais de perto sua trajetória, Putin parece resultar de três temporalidades históricas: czarismo, pós-capitalismo, capitalismo em crise estrutural. Ele evoca e atualiza o nacionalismo czarista (adotado também pelo “socialismo num só país”) para uma Rússia que, apesar de passar pela reprimarização da sua economia, se encontra em uma posição chave na hierarquia do sistema imperialista pelo seu poderio militar. Lembremos que, em 1949, a União Soviética e seus aliados integrados ao Conselho de Assistência Econômica Mútua (COMECON) <strong>[2]</strong> desenvolveram uma economia com cadeias produtivas distribuídas e integradas. A queda da União Soviética impediu que as burguesias emergentes nesses países mantivessem a capacidade produtiva articulada, levando ao sucateamento e conversão do parque industrial de cada país, dissolvendo a potência econômica dos tempos em que operavam coordenados. O mesmo aconteceu na Rússia que manteve, porém, o seu aparato militar e o patrimônio de conhecimentos e quadros científicos, de formação custosa e demorada. A articulação Rússia-China altera completamente os alinhamentos das cadeias de acumulação.</p>
<p style="text-align: justify;">O maior trunfo de Putin é valorizar e barganhar sobre essa condição: a de produzir e fornecer algo vital à economia e à vida da Europa Ocidental e a de ser uma potência militar que interessa à China. Ao mesmo tempo representa aquele setor mafioso gestado ainda sob a vigência da ex-URSS e, mais, ativo participante das tomadas de decisão do Estado russo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-143027" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/incas1-200x300.jpg" alt="A ofensiva do capital: quem lucra com a guerra e o espólio da América Latina?" width="300" height="450" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/incas1-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/incas1-280x420.jpg 280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/04/incas1.jpg 400w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></p>
<p><strong>Os EUA e as sanções</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória dos Estados Unidos ao longo do século XX apresenta um sentido histórico paralelo/semelhante: são a maior potência militar e financeira do planeta, mas já não estão no controle completo das cadeias produtivas das quais participam. Não tem capacidade de planificação sobre elas. E já que, em seu próprio território, contam com a presença de cadeias associadas a investimentos dos fundos de outras procedências, como os chineses, por exemplo. Assim, a capacidade dos Estados Unidos de disciplinar econômica, política e militarmente os países da União Europeia e da OTAN também se reduz significativamente. É isso que se escancara nas últimas semanas.</p>
<p style="text-align: justify;">O ataque militar à Ucrânia por parte do governo Putin, portanto, precisa ser contextualizado numa conjuntura de maior duração, na medida em que ele se articula aos planos e possibilidades de expansão de determinadas cadeias e fundos de investimento em detrimento de outros. A oportunidade com que Putin agiu lhe permite tirar vantagens não previstas pela aliança do Ocidente. Em primeiro lugar, o mais visível e explícito é que o governo ucraniano não poderá, contando apenas com forças militares próprias, impedir a destruição da sua bem inferior capacidade bélica. E a participação da OTAN diretamente no campo de batalha não parece razoável.</p>
<p style="text-align: justify;">Do mesmo modo, já não haveria alinhamento automático dos membros europeus com o comando estadunidense, uma vez que as consequências de uma confrontação com Rússia para Europa Ocidental seriam desastrosas. O fornecimento de insumos energéticos e outros produtos primários que abastecem a Europa Ocidental provém da Rússia. As sanções que o governo estadunidense quer que o Ocidente aplique à Rússia prejudicariam ainda mais as economias europeias, provocando uma contração econômica que intensificaria ainda mais a recessão que só aumenta desde 2008. A exclusão da Rússia do sistema Swift apressa o deslocamento da enorme economia russa para o sistema chinês. A Índia já está em negociações para ter um sistema de pagamento em rúpias para driblar as consequências das sanções. E ameaça o ingresso de parte da economia do Ocidente.</p>
<p style="text-align: justify;">Os efeitos negativos imediatos dessa contração sobre as economias europeias serão sentidos particularmente pelas classes trabalhadoras dos seus países e das cadeias das quais participam, provocando uma reestratificação nos respectivos mercados de trabalho. Mesmo os restos do que foram os Estados de bem-estar social, irão naufragar, achatando de vez as condições de vida até agora protegidas dos trabalhadores europeus, aproximando-os das condições que sofrem hoje os trabalhadores imigrantes.</p>
<p><strong>China</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O capital está vivendo uma reacomodação intensa das cadeias de acumulação de alcance planetário. Nesse quadro, temos a seguinte situação. De um lado, a economia chinesa se beneficia utilizando de uma dupla prática: planificando a partir dos sinais do <em>big data</em> e do seu mercado financeiro. Assim, com isso, otimiza os resultados da planificação da expansão do capital considerando com os dados dos prognósticos da flutuação da demanda. Sua economia de escala só tem a ganhar na associação “sem limites” (como anunciaram recentemente Xi Jiping e Putin) com a Rússia.</p>
<p style="text-align: justify;">Ideologicamente, a história chinesa acumula muito mais afinidade com a Rússia do que com o Ocidente, mas é na atualidade política e estratégica que essa afinidade se consolida. Rússia, nesse sentido, não é uma peça em si mesma neste jogo, mas o braço armado e desapaixonado de um projeto há tempos articulado. O quadro montado reconstrói uma polarização artificiosa entre uma internacionalidade de capitais transnacionalizados e uma infinidade de nacionalidades a disseminar ódios e fragmentos entre indivíduos mais e mais distantes de qualquer ato de classe efetivo. No centro e na periferia ampliada por essa ofensiva, as contingências obtêm fragorosas vitórias sobre os trabalhadores do mundo. Suas necessidades, porém, só se acumulam. As evidências mostram que as reais e extremas polarizações não se dão no campo ideológico, elas se encontram entre os incalculavelmente ricos que extraem, mais do que nunca, o produto do sobretrabalho dos sobreviventes.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas características da flamante aliança eurasiática precisam ser pontuadas para se pensar o futuro da nossa região. Ela soma potência econômica e possibilidades de rearticulação ao parque industrial da Rússia e seus aliados com o da Ásia. Cabe lembrar que a China é hoje o principal destino das exportações da América Latina, mesmo em países como Brasil, cujo governo se apresenta alinhado diplomaticamente com os Estados Unidos. A China vem traçando uma expansão, a chamada Rota da Seda, que supõe também investimentos de infraestrutura para dotar de flexibilidade as cadeias de acumulação. O país também possui um repertório de propostas às economias dependentes que lhes permite uma especialização produtiva com transferência de tecnologia que responda à planificação chinesa. Os investimentos diretos e indiretos chineses já estão instalados no continente (e inclusive no território estadunidense).</p>
<p style="text-align: justify;">O capital chinês encontra na periferia as reacomodações institucionais, políticas e econômicas de uma burguesia dependente latino-americana, que no passado lançara mão de expedientes autocráticos para industrializar a região em ritmos desiguais e combinados. Hoje essa burguesia mantém-se na retaguarda de um padrão de acumulação extrativista pautado pela reprimarização produtiva da economia, o que significa uma guerra e saqueio permanentes contra o campo e a cidade. A partir dos ajustes estruturais da década de 90 e em função da dívida pública, o salário dos trabalhadores urbanos é saqueado através da superexploração, da privatização de serviços e bens públicos e da expropriação através do custo do crédito para atender aos interesses dos grandes conglomerados financeiros. Ao mesmo tempo, o saqueio dos territórios e a colossal destruição ambiental representa uma guerra constante contra as populações que habitam o campo, em particular, as mulheres indígenas. A América Latina e o Caribe compõem uma área geo-estratégica importante para o capital pela enorme reserva de minérios, biodiversidade, água doce e petróleo que seus territórios possuem. Seus territórios podem ainda servir como extensos corredores de escoamento de produtos semi-manufaturados e grandes plataformas logísticas de exportação de <em>commodities</em> agrícolas e de minérios necessárias às inovações tecnológicas dos países que configuram o sistema imperialista mundial. A intensificação da subordinação na nova divisão internacional do trabalho vem acelerando os ritmos do espólio e a guerra sobre cidades e territórios.</p>
<p style="text-align: justify;">Na América Central, a amostra dos impactos do capital chinês se corporificou nas aventuras de um suposto mega empresário chinês de conectar os dois oceanos a partir de territórios ao longo do Rio San Juan na fronteira de Nicarágua com Costa Rica passando pelo grande Lago de Manágua. Para tal façanha, foram necessários uma visita militarizada de experts chineses aos territórios e a aprovação do projeto de lei para construção do canal em três horas, sem debate com a sociedade, cedendo os direitos exclusivos à empresa chinesa. A lei que aprovou a construção do canal ameaça as comunidades indígenas e camponesas de uma extensa faixa territorial. Qualquer território pode ser expropriado sem nenhuma garantia a estas populações que contabilizam de 200 a 250 mil pessoas, sem falar do grande impacto nos ecossistemas da região. O projeto, que foi clandestinamente discutido e aprovado em 2013, chegou a um ponto morto em 2018 quando os escritórios do megainvestidor chinês foram desmantelados no contexto de um poderoso movimento camponês que impediu a entrada nas comunidades e realizou ao menos 81 marchas de protesto contra o canal. Mas, os capitais chineses não têm deixado de avançar na região centro-americana a partir de projetos menores, que apontam para o fortalecimento da infraestrutura. Recentemente o governo de Daniel Ortega anunciou a retomada do projeto, que na época foi aprovado pela assembleia legislativa com a totalidade de votos dos deputados sandinistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Como parte dessa estratégia de saqueio, o Brasil lidera, desde os anos 2000 através da mediação de governos neoliberais à direita e à esquerda, a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). Esta plataforma de escoamento de mercadorias está reorganizando as fronteiras nacionais dos países da América do Sul a partir de uma infraestrutura de transportes que inclui rodovias, ferrovias, transporte fluvial e aéreo. Com isso, conecta territórios de vários países onde se encontram polos <em>maquileros, </em>jazidas de minérios e grandes extensões de monocultivo de soja, milho e outras <em>commodities</em> a portos em direção aos polos industriais no centro do sistema, especialmente a China. Por estes mesmos corredores interconectados é que recebemos produtos de maior sofisticação tecnológica, celulares, computadores, televisores etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Até 2016, a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA) estava sob a órbita dos Estados Unidos, com forte intervenção do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e financiamento estatal, no caso do Brasil via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Atualmente os governos da região assumem com o governo chinês compromissos de construção da Ferrovia Transcontinental que ligará os oceanos Atlântico e Pacífico, desde o Porto Açu, no Rio de Janeiro, ao litoral do Peru. Tem também a Ferrovia Bioceânica e o Corredor Bioceânico, nos países do Cone Sul, com grande impacto social e ambiental nos territórios, o que representa um novo ciclo de espoliação de caráter muito mais duradouro e intensivo que os ciclos anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;">A reconfiguração das cadeias produtivas no contexto atual de disputa de poder por uma nova ofensiva do capital conecta a IIRSA e o Projeto de Integração e Desenvolvimento de Mesoamérica em escala planetária ao projeto chinês de entrelaçamento intercontinental de Oriente Médio, Europa, África e Ásia, através do projeto “Um Cinturão, uma Rota”. A América Latina se conectará pela Rota Marítima da Seda, através da infraestrutura já criada elevando ainda mais o patamar de periferia regional no sistema internacional, com aumento da dependência externa, violência, saqueio dos recursos naturais, expulsão dos povos indígenas de seus territórios, avanço dos arrendamentos para monocultivo, grilagem e mineração em terras nas áreas de reforma agrária e terras indígenas. A Rota da Seda é uma proposta de planejamento internacional do Estado chinês, que tem poucas perspectivas de funcionar a médio e longo prazos pelas graves contradições do sistema do capital. Independentemente de quem vença as eleições presidenciais no Brasil, o espólio se manterá através das rotas flexíveis de escoamento de bens primários, com a única diferença na eficiência da gestão das articulações nesta perspectiva de integração internacional às cadeias produtivas.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é nossa primeira incursão sobre as implicações que essa agressão contra trabalhadores e trabalhadoras da Ucrânia e as articulações urdidas pelos novos <em>players</em> do capital, localizados na Ásia e em todo Hemisfério Norte, têm e ainda terão sobre a América Latina. Enquanto a real política disputa a “linha ideológica” que será adotada num próximo governo qualquer, optamos por alinhar com quem de fato sentirá as piores consequências de um conflito que parece tão longe e tão perto.</p>
<p>30 de março de 2022</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Mas, o liberalismo, que já havia se desvencilhado da democracia no “mundo livre”, coibindo ao máximo a organização da classe trabalhadora com leis absolutistas, conviveu e serviu-se ainda por mais um século do trabalho cativo das colônias. O Brasil, por exemplo, foi o último país a “abolir” a escravidão (1888).<br />
<strong>[2]</strong> O COMECON era integrado pela União Soviética, Bulgária, República Democrática Alemã, Tchecoslováquia, Hungria, Polônia e Romênia.</p>
<p><em>Os desenhos que ilustram este artigo são do livro </em>Primer nueva corónica y buen gobierno<em>, de Felipe Guamán Poma de Ayala (1534 &#8211; 1615).</em></p>
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