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	<title>Fascismo &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Irã e Gaza são apenas o começo</title>
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					<comments>https://passapalavra.info/2026/04/158960/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 17:23:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. Por Chris Hedges]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Chris Hedges</h3>
<p style="text-align: justify;">O genocídio em Gaza é o começo. Bem-vindo à nova ordem mundial. A era da barbárie tecnologicamente avançada. Não existem regras para os fortes, apenas para os fracos. Oponha-se ao forte, recuse-se a curvar-se às suas exigências caprichosas e você receberá uma chuva de mísseis e bombas. Assistimos a essa loucura diariamente com a guerra contra o Irã, o bombardeio de saturação do sul do Líbano e o sofrimento em Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Órgãos internacionais como as Nações Unidas foram castrados, transformados em apêndices inúteis de outra época. A santidade dos direitos individuais, as fronteiras abertas e o direito internacional desapareceram. Os governantes mais psicopatas da história humana, aqueles que reduziram cidades a cinzas, que levaram populações aprisionadas a locais de execução e a terras desvastadas que ocuparam com valas e cadáveres em massa, voltaram com uma vingança, abrindo um vasto abismo moral.</p>
<p style="text-align: justify;">A lei, apesar de alguns esforços valentes de um punhado de juízes &#8212; que em breve serão expurgados &#8212;, internamente e em organismos internacionais como o Tribunal Internacional de Justiça, é desprezada e violada. Selvageria no exterior. Selvagem em casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Lucy Williamson, da BBC, relata que Israel está destruindo o sul do Líbano “usando Gaza como modelo &#8212; um plano para destruição usado novamente como um caminho para a paz”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de 1 milhão de pessoas já foram deslocadas no Líbano &#8212; um quinto de toda a população de um país que já abriga o maior número mundial de refugiados per capita &#8212; em apenas algumas semanas. Some-se a isso 2 milhões de deslocados em Gaza e 3 milhões de deslocados no Irã. 6 milhões de pessoas ficaram desabrigadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por quatro décadas, o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tem pressionado para que os EUA entrem em guerra com o Irã. As administrações anteriores, Republicanas e Democratas, recusaram, em grande parte por causa da oposição feroz dentro do Pentágono, que não via o Irã como uma ameaça existencial e não projetava um resultado positivo para os EUA ou seus aliados regionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Donald Trump, encorajado por sua equipe de negociação inepta de seu genro Jared Kushner e seu colega empresário imobiliário e parceiro de golfe Steve Witkoff, ambos fervorosos sionistas, mordeu a isca de Israel. O conselheiro de segurança nacional da Grã-Bretanha, Jonathan Powell, que participou das negociações finais entre os EUA e o Irã, considerou Kushner e Witkoff como “ativos israelenses”.</p>
<p style="text-align: justify;">Joseph Kent, que renunciou ao cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo para protestar contra a guerra, escreveu em sua carta de renúncia que “o Irã não representava ameaça iminente para nossa nação, e é claro que começamos essa guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby americano”.</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica pública para a guerra contra o Irã desde que começou em 28 de fevereiro tem sido proteana. É para encerrar o programa nuclear do Irã? É para frustrar o programa de mísseis balísticos do Irã? É porque os EUA realizaram ataques preventivos contra o Irã, como disse Marco Rubio, para garantir a segurança dos ativos dos EUA uma vez que Israel decidiu atacar? É porque o governo iraniano realizou uma repressão letal, matando centenas de manifestantes antigoverno durante protestos de rua massivos? É mudança de regime? É uma tentativa de encerrar o chamado terrorismo patrocinado pelo Estado do Irã? Ou esses subterfúgios servem a outro propósito?</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente, Israel e os EUA buscam mudança de regime. Mas aqui parece que os EUA e Israel divergem. Israel também aparentemente procura, como no Iraque, Síria, Líbia e Líbano, a desintegração física do Irã, a quebra do país em enclaves étnicos e religiosos em guerra, a transformação do Irã em um Estado falido.</p>
<p style="text-align: justify;">Os persas no Irã constituem cerca de 61% da população com vários grupos minoritários, que muitas vezes sofrem repressão estatal, representando os 39% restantes. Esses grupos étnicos incluem azerbaijanos, curdos, amantes, balochs, árabes e turcomanos, juntamente com minorias religiosas como sunitas, cristãos, bahá&#8217;ís, zoroastristas e judeus. A quebra do Irã em enclaves étnicos e religiosos antagônicos deixaria Israel como a potência dominante na região, dando-lhe a capacidade de, se não ocupar seus vizinhos diretamente, controlá-los e subjugá-los através de proxies, parte de um desejo de longa data de uma Grande Israel. Também tornaria possível que os Estados estrangeiros controlassem as reservas de gás iranianas, a segunda maior do mundo, e suas reservas de petróleo, 12% do total global.</p>
<p style="text-align: justify;">A cruzada de Israel contra os palestinos, os libaneses e agora os iranianos é justificada pelo extermínio de 6 milhões de judeus durante o Holocausto. Mas não passa despercebido no Sul Global, especialmente entre palestinos, que quase todos os estudiosos do Holocausto se recusaram a condenar o genocídio em Gaza. Nenhuma das instituições dedicadas a pesquisar e rememorar o Holocausto traçou os óbvios paralelos históricos ou criticou o massacre em massa.</p>
<p style="text-align: justify;">Estudiosos do Holocausto, com um punhado de exceções, expuseram seu verdadeiro propósito, que não é examinar o lado sombrio da natureza humana e a propensão assustadora que todos nós temos a cometer o mal, mas santificar os judeus como vítimas eternas e absolver o estado etnonacionalista de Israel de seus crimes de colonialismo de assentamento, apartheid e genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">O sequestro do Holocausto, o fracasso em defender as vítimas palestinas porque elas são palestinas, implodiu a autoridade moral dos estudos do Holocausto e dos memoriais do Holocausto. Eles foram expostos como veículos não para evitar o genocídio, mas para perpetrá-lo, não para explorar o passado, mas para manipular o presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer reconhecimento tépido de que o Holocausto pode não ser propriedade exclusiva de Israel e seus partidários sionistas é rapidamente encerrado. O Museu do Holocausto em Los Angeles excluiu, depois de uma reação, um post no Instagram que dizia: “NUNCA MAIS NÃO PODE APENAS SIGNIFICAR NUNCA MAIS PARA <abbr title="Operating System">OS</abbr> JUDEUS”. Nas mãos dos sionistas, “nunca mais” significa precisamente isso, nunca mais, <em>apenas</em> <em>para os judeus</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158963" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg" alt="" width="752" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-300x238.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-529x420.jpg 529w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-640x508.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-681x541.jpg 681w" sizes="(max-width: 752px) 100vw, 752px" />Aimé Césaire, em <em>Discurso sobre o Colonialismo</em>, escreve que Hitler parecia excepcionalmente cruel apenas porque presidia “a humilhação do homem branco”, aplicando à Europa os “procedimentos colonialistas que até então haviam sido reservados exclusivamente para os árabes da Argélia, as &#8216;coolies&#8217; da Índia e os negros da África”.</p>
<p style="text-align: justify;">A quase aniquilação da população aborígene da Tasmânia, o massacre alemão do Herero e Namaqua, o genocídio armênio, a fome de Bengala de 1943 &#8212; então o Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill se referiu aos hindus como “um povo animalesco com uma religião animalesca” &#8212; juntamente com o lançamento de bombas nucleares em alvos civis em Hiroshima e Nagasaki, ilustra algo fundamental sobre “a civilização ocidental”.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio não é uma anomalia, é codificado no DNA da “civilização” ocidental.</p>
<p style="text-align: justify;">“Na América”, disse o poeta Langston Hughes, “não é preciso dizer aos negros o que é o fascismo em ação. Nós sabemos. Suas teorias da supremacia nórdica e da supressão econômica há muito tempo são realidades para nós”.</p>
<p style="text-align: justify;">Os nazistas, quando formularam as leis de Nuremberg, usaram como modelo as leis destinadas a oprimir os negros. A recusa dos Estados Unidos em conceder cidadania a nativos americanos e filipinos &#8212; embora vivessem nos EUA e nos territórios dos EUA &#8212; foi imitada pelos fascistas alemães que retiraram a cidadania dos judeus. As leis antimiscigenação americanas, que criminalizavam o casamento inter-racial, foram a influência para proibir casamentos entre judeus alemães e arianos. A jurisprudência americana classificou qualquer pessoa com um por cento da ascendência negra &#8212; a chamada “regra de uma gota” &#8212; como negra. Os nazistas, ironicamente mostrando mais flexibilidade, classificaram qualquer pessoa com três ou mais avós judeus como judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Os milhões de vítimas indígenas de projetos coloniais em países como México, China, Índia, Austrália, Congo e Vietnã, por essa razão, são surdas para as afirmações dos judeus de que sua vitimização é única. Eles também sofreram holocaustos, mas esses holocaustos permanecem minimizados ou não reconhecidos por seus perpetradores ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">Israel encarna o Estado etnonacionalista que nossos fascistas cristãos e a extrema-direita sonham em criar para si mesmos, que rejeita o pluralismo político e cultural, bem como as normas legais, diplomáticas e éticas. Israel é admirado pela extrema-direita porque virou as costas para o direito humanitário e usa força letal indiscriminada para “limpar” sua sociedade daqueles condenados como contaminadores humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi essa distorção do Holocausto como único que incomodou Primo Levi, preso em Auschwitz de 1944 a 1945 e que escreveu livros sobre a sobrevivência em Auschwitz. Levi foi um crítico feroz do Estado de apartheid de Israel e seu tratamento aos palestinos. Ele viu a Shoah [Holocausto] como “uma fonte inesgotável do mal” que “é perpetuada como ódio nos sobreviventes, e brota de mil maneiras, contra a própria vontade de todos, como uma sede de vingança, como colapso moral, como negação, como cansaço, como resignação”.</p>
<p style="text-align: justify;">Levi deplorou o maniqueísmo daqueles que “evitam nuances e complexidade”. Ele condenou aqueles que “reduzem o rio dos acontecimentos humanos a conflitos, e conflitos a duelos, nós e eles”. Ele alertou que a “rede de relações humanas dentro dos campos de concentração não era simples: não poderia ser reduzida a dois blocos, vítimas e perseguidores”. O inimigo, ele sabia, “estava do lado de fora, mas também dentro”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mordechai Chaim Rumkowski, conhecido como “Rei Chaim”, governou o gueto de Łódź na Polônia em nome dos ocupantes nazistas. O gueto tornou-se um campo de trabalho escravo que enriqueceu Rumkowski e seus senhores nazistas. Rumkowski deportou opositores para campos de extermínio. Estuprou e molestou meninas e mulheres. Exigiu obediência inquestionável. Incorporou o mal de seus opressores. Para Levi, ele foi um exemplo do que muitos de nós, em circunstâncias semelhantes, somos capazes de se tornar.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos todos refletidos em Rumkowski, sua ambiguidade é nossa, é a nossa segunda natureza, nós híbridos moldados a partir de argila e espírito”, escreveu Levi <em>em Os Afogados e os Sobreviventes.</em> “Sua febre é nossa, a febre de nossa civilização ocidental que &#8216;desce no inferno com trombetas e tambores&#8217;, e seus adornos miseráveis são a imagem distorcida de nossos símbolos de prestígio social”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Como Rumkowski, nós também estamos tão deslumbrados com o poder e o prestígio a ponto de esquecer nossa fragilidade essencial”, continuou Levi. “De bom grado ou não chegamos a um acordo com o poder, esquecendo que estamos todos no gueto, que o gueto está murado, que fora do gueto reinam os senhores da morte, que espera próxima ao trem.”</p>
<p style="text-align: justify;">Levi entendeu que a linha entre a vítima e o vitimizador é fina. Todos nós podemos nos tornar carrascos dispostos. Não há nada intrinsecamente moral sobre ser judeu ou um sobrevivente do Holocausto. Levi, por essa razão, era <em>persona non grata</em> em Israel.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Os sionistas encontram no Holocausto e no Estado judeu um senso de propósito e significado, bem como uma superioridade moral nauseante. Após a guerra de 1967, quando Israel tomou Gaza, a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, as Colinas de Golã da Síria e a Península do Sinai do Egito, Israel, como observou o sociólogo americano Nathan Glazer de forma aprovadora, tornou-se “a religião dos judeus americanos”. O Holocausto tornou-se o seu “capital moral”.</p>
<p style="text-align: justify;">“O sofrimento judaico é retratado como inefável, incomunicável e, no entanto, algo sempre a ser proclamado”, escreve o historiador europeu Charles S. Maier, em <em>The Unmasterable Past: History, Holocaust, and German National Identity</em>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">É intensamente privado, não para ser diluído, mas simultaneamente público para que a sociedade gentil confirme os crimes. Um sofrimento muito peculiar deve ser consagrado em locais públicos: museus do Holocausto, jardins de memória, locais de deportação, dedicados não como memoriais judeus, mas cívicos. Mas qual é o papel de um museu em um país, como os Estados Unidos, longe do local do Holocausto? É para reunir as pessoas que sofreram ou para instruir não-judeus? É suposto servir como um lembrete de que “pode acontecer aqui?” Ou é uma afirmação de que alguma consideração especial é merecida? Sob que circunstâncias uma tristeza privada pode servir simultaneamente como uma dor pública? E se o genocídio é certificado como uma tristeza pública, então não devemos aceitar as credenciais de outras tristezas particulares também? Um historiador americano de ascendência polonesa argumenta que, com a invasão alemã de 1939, os poloneses se tornaram os primeiros povos da Europa a experimentar o Holocausto e que os historiadores até agora “escolheram interpretar a tragédia em termos exclusivistas &#8212; ou seja, como o período mais trágico da história da Diáspora judaica”. Se os poloneses americanos reivindicam seu próprio “Holocausto esquecido”, que reconhecimento eles devem desfrutar? Os armênios e os cambojanos também têm o direito de financiar publicamente museus de holocausto? E precisamos de memoriais para adventistas do sétimo dia e homossexuais por sua perseguição nas mãos do Terceiro Reich?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O sofrimento único confere um direito único.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer crime que Israel realize em nome de sua sobrevivência &#8212; seu “direito de existir” &#8212; é justificado em nome dessa singularidade. Não há limites. O mundo é preto e branco, uma batalha interminável contra o nazismo, que é proteano, dependendo de quem Israel visa. Desafiar essa sede de sangue é ser um antissemita, facilitando outro genocídio de judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa fórmula simplista não serve apenas os interesses de Israel, mas também os interesses das potências coloniais que realizaram seus próprios genocídios, aqueles que eles também procuram obscurecer.</p>
<p style="text-align: justify;">A sacralização do Holocausto nazista oferece um <em>quid pro quo</em> bizarro. Armar e financiar o Estado de Israel, bloqueando resoluções e sanções da ONU que condenariam seus crimes e demonizar os palestinos e seus apoiadores se tornam prova de expiação e apoio aos judeus. Israel, em troca, absolve o Ocidente de sua indiferença à situação dos judeus durante o Holocausto, e a Alemanha por perpetrá-lo. A Alemanha usa essa aliança profana para separar o nazismo do resto da história alemã, incluindo o genocídio que os colonos alemães realizaram contra os Nama e Herero no sudoeste alemão da África, agora na Namíbia.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tal magia”, escreve o israelense historiador e estudioso do genocídio, Raz Segal, “legitima o racismo contra os palestinos no exato momento em que Israel perpetra o genocídio contra eles. A ideia de singularidade do Holocausto reproduz-se assim em vez de desafiar o nacionalismo excludente e o colonialismo de assentamento que levaram ao Holocausto.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal, diretor do programa de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Stockton, em Nova Jersey, escreveu um artigo sobre a guerra em Gaza em 13 de outubro de 2023, intitulado: “Um caso de genocídio”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa denúncia de um estudioso israelense do Holocausto, cujos familiares morreram no Holocausto, foi uma postura muito solitária.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal viu na exigência imediata do governo israelense que os palestinos evacuassem o norte de Gaza e a demonização dos palestinos por autoridades israelenses &#8212; o Ministro da Defesa disse que Israel estava “combatendo animais humanos” &#8212; o cheiro de genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">“Toda a ideia sobre prevenção e &#8216;nunca mais&#8217; é que &#8212; como ensinamos nossos alunos &#8212; há alertas vermelhos, e que uma vez que os notamos, devemos trabalhar para interromper o processo que pode se transformar em genocídio”, disse-me o professor Segal, “mesmo que ainda não seja genocida”.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal pagou pela sua honestidade. O convite para liderar o Centro de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Minnesota, que não emitiu nenhuma condenação do genocídio, foi revogado.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o professor Segal e eu testemunhamos na capital do estado em Trenton, em oposição à adoção do projeto de lei da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA), que equipara as críticas ao Estado de Israel a antissemitismo, fomos vaiados por sionistas e nossos microfones foram cortados pelo presidente da comissão. Lá estávamos nós, argumentando que esse projeto de lei iria reduzir a liberdade de expressão enquanto ao mesmo tempo nos negavam a liberdade de expressão.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio é a próxima etapa no que o antropólogo, Arjun Appadurai, chama de “uma vasta correção malthusiana mundial” que é “voltada para preparar o mundo para os vencedores da globalização, sem o ruído inconveniente de seus perdedores”.</p>
<p style="text-align: justify;">O financiamento e o armamento de Israel pelos Estados Unidos e pelas nações europeias, enquanto realiza o genocídio, implodiu efetivamente a ordem jurídica internacional pós-Segunda Guerra Mundial. Ela não tem mais credibilidade. O Ocidente não pode mais ensinar ninguém sobre democracia, direitos humanos ou as supostas virtudes da civilização ocidental. O ardil, que de alguma forma nós, como nação, promovemos a democracia, a igualdade e os direitos humanos, está terminado.</p>
<p style="text-align: justify;">“Ao mesmo tempo em que Gaza induz vertigem, um sentimento de caos e vazio, torna-se para inúmeras pessoas impotentes a condição essencial da consciência política e ética no século XXI &#8211; assim como a Primeira Guerra Mundial foi por uma geração no Ocidente”, escreve Pankaj Mishra.</p>
<p style="text-align: justify;">Nenhum de nós que reportou de Israel e Palestina, onde trabalhei como repórter por sete anos, previu esse genocídio. E, no entanto, estávamos cientes do impulso genocida que estava no coração do projeto sionista &#8212; o desejo de grandes segmentos da sociedade israelense de erradicar e expulsar todos os palestinos. Esse impulso genocida estava lá desde o início do sionismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Victor Klemperer, professor de linguística e filho de um rabino de Berlim que viveu sob o domínio nazista, observou em seu diário: “Para mim, os sionistas, que querem voltar para o estado judeu de 70 d.C. (destruição de Jerusalém por Tito), são tão ofensivos quanto os nazistas. Com sua sede de sangue, suas antigas “raízes culturais”, sua visão de mundo ora hipócrita, ora obtusa, eles são páreo para os nacional-socialistas”.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Cobri o rabino extremista Meir Kahane, que afirmava que a violência era uma virtude judaica, e a vingança, um mandamento divino. Quando eu estava baseado em Israel, ele foi impedido pelo governo israelense de se candidatar a cargos públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Kahane foi assassinado em 5 de novembro de 1990, na cidade de Nova York. Seu partido, o Kach, foi declarado ilegal em Israel quatro anos depois, após Baruch Goldstein, um médico nascido no Brooklyn e membro do Kach, entrar na Mesquita de Ibrahimi, em Hebron, e abrir fogo contra os fiéis, matando 29 palestinos. Goldstein, vestido com seu uniforme de capitão do exército, foi dominado pelos fiéis e espancado até a morte. Fui enviado pelos meus editores em Nova York para entrevistar os sobreviventes. Quando receberam o material, insistiram para que eu fizesse mais entrevistas com colonos judeus que justificassem as queixas de Goldstein contra os palestinos, parte do jogo de equilíbrio, mas na verdade parte do esforço para obscurecer a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">O Kach, após suas declarações de apoio ao massacre, foi declarado uma organização terrorista pelos Estados Unidos. Mas o kahanismo não morreu. Foi nutrido por extremistas judeus e colonizadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A intolerância racial de Kahane e seus apelos à violência em massa contra os palestinos contaminaram segmentos cada vez maiores da sociedade israelense. Encontrou aceitação quase universal após os ataques de 7 de outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhei essa intolerância em comícios políticos realizados por Netanyahu, que recebeu financiamento generoso de americanos de direita associados ao AIPAC, quando concorreu contra Yitzhak Rabin, que negociava um acordo de paz com os palestinos. Os apoiadores de Netanyahu entoavam slogans inspirados por Kahane, como “Morte aos árabes” e “Morte a Rabin”. Queimaram uma efígie de Rabin vestida com um uniforme nazista. Netanyahu marchou em frente a um funeral simulado para Rabin.</p>
<p style="text-align: justify;">Rabin foi assassinado por um fanático judeu em 4 de novembro de 1995.</p>
<p style="text-align: justify;">Netanyahu, que se tornou Primeiro-Ministro pela primeira vez em 1996, passou sua carreira política cultivando esses extremistas judeus, incluindo Itamar Ben-Gvir, que tinha um retrato de Goldstein na parede de sua sala de estar, Bezalel Smotrich, Avigdor Lieberman, Gideon Sa&#8217;ar e Naftali Bennett.</p>
<p style="text-align: justify;">O pai de Netanyahu, Benzion, que trabalhou como assistente do fundador do sionismo revisionista, Vladimir Jabotinsky, e foi chamado por Benito Mussolini de “um bom fascista”, foi um líder do Partido Herut, que defendia que Israel se apropriasse de todas as terras da Palestina histórica. Muitos dos membros do Partido Herut realizaram ataques terroristas durante a guerra de 1948 que estabeleceu o Estado de Israel. Albert Einstein, Hannah Arendt, Sidney Hook e outros intelectuais judeus descreveram o Partido Herut, em uma declaração publicada no New York Times, como um partido “muito semelhante, em sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, aos partidos nazistas e fascistas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre houve uma vertente virulenta de fascismo judaico dentro do projeto sionista, espelhando a vertente do fascismo na sociedade americana. Infelizmente, para nós e para os palestinos, essas vertentes fascistas estão em ascensão.</p>
<p style="text-align: justify;">A decisão de obliterar Gaza tem sido, há muito tempo, o sonho dos sionistas de extrema-direita, herdeiros do movimento de Kahane. A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. A supremacia judaica é santificada por Deus, assim como o massacre dos palestinos, que Netanyahu comparou aos amalequitas bíblicos, massacrados pelos israelitas. Europeus e euro-americanos nas colônias americanas usaram a mesma passagem bíblica para justificar o genocídio contra os nativos americanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os inimigos — geralmente muçulmanos — destinados à extinção são subumanos que personificam o mal. A violência e a ameaça de violência são as únicas formas de comunicação compreendidas por aqueles que estão fora do círculo mágico do nacionalismo judaico.</p>
<p style="text-align: justify;">A redenção messiânica ocorrerá assim que os palestinos forem expulsos. Extremistas judeus exigem a demolição da Mesquita de Al-Aqsa, um dos três locais mais sagrados para os muçulmanos, supostamente construída sobre as ruínas do Segundo Templo Judaico, destruído em 70 d.C. pelo exército romano. Esses extremistas defendem sua substituição por um “Terceiro” Templo Judaico, uma medida que incendiaria o mundo muçulmano. A Cisjordânia, que os fanáticos chamam de “Judeia e Samaria”, está sendo anexada por Israel. Israel, governado por leis religiosas impostas pelos partidos ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torá, em breve espelhará a teocracia despótica do Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">James Baldwin previu, de forma profética, essa regressão à nossa barbárie inata. Ele alertou que havia uma “terrível probabilidade” de que “as populações ocidentais, lutando para manter o que roubaram de seus cativos e incapazes de se olhar no espelho, precipitarão um caos em todo o mundo que, se não acabar com a vida neste planeta, provocará uma guerra racial como o mundo jamais viu, e pela qual gerações ainda por nascer amaldiçoarão nossos nomes para sempre”.</p>
<p style="text-align: justify;">A selvageria no Irã, no Líbano e em Gaza é a mesma selvageria que enfrentamos em casa. Aqueles que perpetram o genocídio, o massacre e a guerra não provocada contra o Irã são as mesmas pessoas que desmantelam nossas instituições democráticas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158962" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg" alt="" width="793" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-220x300.jpg 220w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-752x1024.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-768x1046.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-308x420.jpg 308w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-640x872.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-681x927.jpg 681w" sizes="(max-width: 793px) 100vw, 793px" />Os iranianos, libaneses e palestinos sabem que não há como apaziguar esses monstros. As elites globais não acreditam em nada. Não <em>sentem</em> nada. Não se pode confiar nelas. Eles exibem as características essenciais de todos os psicopatas — charme superficial, grandiosidade e presunção, necessidade de estímulo constante, propensão à mentira, ao engano, à manipulação e incapacidade de sentir remorso ou culpa. Desprezam, considerando fraquezas, as virtudes da empatia, da honestidade, da compaixão e do altruísmo. Vivem segundo o lema “Eu. Eu. Eu.”</p>
<p style="text-align: justify;">“O fato de milhões de pessoas compartilharem os mesmos vícios não os torna virtudes, o fato de compartilharem tantos erros não os torna verdades, e o fato de milhões de pessoas compartilharem as mesmas formas de patologia mental não as torna sãs”, escreveu Erich Fromm em “The Sane Society”.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhamos o mal por quase três anos em Gaza. Observamos agora no Irã. Observamos no Líbano. Vemos esse mal sendo justificado ou mascarado por líderes políticos e pela mídia.</p>
<p style="text-align: justify;">O The New York Times, num gesto digno de Orwell, enviou um memorando interno instruindo repórteres e editores a evitarem os termos “campos de refugiados”, “território ocupado”, “limpeza étnica” e, claro, “genocídio” ao escreverem sobre Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqueles que nomeiam e denunciam esse mal, incluindo os estudantes heroicos que montaram acampamentos em campis universitários aqui e no exterior, são difamados, colocados em listas negras e expurgados. São presos e deportados. Um silêncio ensurdecedor se abate sobre nós, o silêncio de todos os Estados autoritários. Sabemos onde isso termina. Deixe de cumprir seu dever, deixe de apoiar a guerra contra o Irã, de se manifestar contra o crime de genocídio e veja sua licença de transmissão revogada, como propôs Brendan Carr, presidente da FCC (Comissão Federal de Comunicações) de Trump.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos inimigos. Eles não estão na Palestina. Eles não estão no Líbano. Eles não estão no Irã. Eles estão aqui. Entre nós. Eles ditam nossas vidas. Eles são traidores dos nossos ideais. Eles são traidores do nosso país. Eles vislumbram um mundo de escravos e senhores. Gaza é apenas o começo. Não existem mecanismos internos para a reforma. Podemos obstruir ou nos render.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são as únicas opções que nos restam.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Chris Hedges é jornalista estadunidense, autor de vários livros, entre os quais, </em>American Fascists<em> e </em>Death of the Liberal Class<em>.</em></strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Traduzido do original em: <a class="urlextern" title="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" href="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning</a></p>
</blockquote>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="size-thumbnail wp-image-158961 alignnone" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/abed_abdi_haifa-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As obras que ilustram o artigo são do artista palestino Abed Abdi (1942 &#8212;)</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>MBL: a máquina fascista jovem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Apr 2026 13:21:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O MBL transformou a rebeldia em conformismo, o descontentamento em ódio regressivo, a juventude em tropa de choque da ordem.  Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Arthur Moura</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre (MBL) emergiu no cenário político brasileiro como uma das expressões mais acabadas da reorganização da direita em tempos de crise estrutural do capital. Sua aparição pública em meados de 2014, no contexto do desgaste do governo Dilma Rousseff e da crise econômica que atingia o país, não pode ser compreendida como um fenômeno isolado ou meramente espontâneo. O MBL é resultado de um longo processo histórico que combina, de um lado, o avanço do neoliberalismo e de seus aparelhos de difusão ideológica e, de outro, o refluxo das lutas populares e a cooptação progressista que esvaziou as possibilidades de transformação radical. Na aparência, o MBL se apresenta como um movimento juvenil, irreverente, liberal em costumes e crítico da “velha política”. Essa superfície, porém, encobre sua essência: um projeto político reacionário, alinhado internacionalmente a redes de <em>think tanks</em> ultraliberais, financiado por empresários e estrategicamente formatado para ocupar as lacunas deixadas pela falência do progressismo conciliador. A linguagem do meme, a estética pop, o tom debochado e a retórica da eficiência foram armas eficazes para atrair a juventude e setores médios descontentes, convertendo indignação difusa em ódio direcionado contra trabalhadores, movimentos sociais e qualquer crítica à ordem capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se, portanto, de um aparelho de hegemonia de classe. O MBL não é apenas um agrupamento de jovens políticos em busca de visibilidade, mas parte de uma engrenagem ideológica maior, que envolve a burguesia interna, setores do imperialismo, redes de comunicação corporativa e plataformas digitais transnacionais. Sua função é canalizar o ressentimento social contra a esquerda, transformar precariedade em adesão servil ao liberalismo e, em última instância, naturalizar o fascismo como resposta política legítima. O presente texto parte da convicção de que compreender o MBL exige ir além da sua autoimagem publicitária e das análises superficiais que o tratam como mero “grupo de garotos ambiciosos”. Ele deve ser situado na totalidade histórica da luta de classes no Brasil, na dinâmica da dependência latino-americana e no ciclo recente de contrarrevoluções preventivas. Somente assim é possível demonstrar por que o MBL não é um fenômeno democrático, mas sim a expressão juvenil e midiática de uma direita fascistizante que se alimenta da crise e atua como ponta de lança para conter qualquer possibilidade de organização popular.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto seguirá a seguinte linha: primeiro, reconstituiremos a gênese do movimento, seus fundadores, influências e contexto imediato. Em seguida, analisaremos seu desenvolvimento, financiamento e aparato comunicacional; depois pensaremos a sua linha teórica e ideológica, revelando como se articula entre liberalismo econômico e conservadorismo moral. Discutiremos também a questão central: por que o MBL é fascista? E, por fim, discutiremos seu papel atual, suas disputas internas, seu reposicionamento no pós-bolsonarismo e os caminhos da luta revolucionária contra esse inimigo de classe. Assim, o objetivo não é apenas produzir uma narrativa histórica sobre o MBL, mas também situá-lo como fenômeno típico da fase atual do capitalismo dependente brasileiro: uma fase em que o neoliberalismo e o fascismo se entrelaçam, e em que a direita busca travestir-se de novidade juvenil enquanto carrega consigo todo o peso reacionário da tradição burguesa. A denúncia teórica e política do MBL é parte indissociável da luta contra o fascismo e contra o capital.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158947" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/images.jpg" alt="" width="244" height="207" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>IPES, IBAD e a tradição anticomunista no Brasil</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Brasil possui uma longa tradição de aparelhos ideológicos e financeiros destinados a conter a mobilização popular e difundir o anticomunismo, especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960. O cenário em que se formam os principais aparelhos ideológicos da direita brasileira (como o IPES e o IBAD) deve ser compreendido à luz da ordem internacional do pós-Segunda Guerra Mundial, quando a divisão do planeta em duas grandes esferas de influência, lideradas pelos Estados Unidos e pela União Soviética, impôs uma dinâmica global marcada pela disputa ideológica e geopolítica da Guerra Fria. A derrota do nazifascismo não significou o triunfo da emancipação popular, mas sim a reorganização do capitalismo sob a hegemonia norte-americana, que emergiu da guerra com a maior força militar, econômica e política do mundo. O Plano Marshall, a criação da OTAN e a consolidação do macartismo no interior dos EUA foram expressões dessa nova hegemonia imperialista que buscava conter a expansão do socialismo. Do outro lado, a União Soviética, responsável pelo esmagamento da máquina nazista no front oriental, consolidava sua influência no Leste Europeu e projetava internacionalmente o prestígio da Revolução de Outubro, tornando-se referência para milhões de trabalhadores e movimentos de libertação em todo o mundo. Essa bipolaridade produziu uma onda de antagonismos estruturais: para Washington, era necessário conter qualquer experiência reformista ou revolucionária no Sul global, pois cada avanço do socialismo era lido como ameaça à ordem burguesa mundial. O Brasil, país de capitalismo dependente e estratégico no continente latino-americano, foi incorporado nesse tabuleiro como área de influência norte-americana, recebendo vultosos investimentos financeiros e logísticos destinados a fortalecer o antagonismo anticomunista, neutralizar movimentos populares e organizar elites empresariais e militares para o enfrentamento contra a esquerda. Esse é o contexto em que se deve compreender o nascimento dos aparelhos como IPES e IBAD: expressões locais de uma guerra global, onde o capital internacional se valeu da burguesia interna para implementar sua estratégia de dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">A Aliança para o Progresso, lançada por John F. Kennedy em 1961, constituiu-se como um dos mais sofisticados instrumentos da política imperialista norte-americana no continente, articulando “ajuda econômica” e “cooperação técnica” como formas de legitimar a penetração do capital estadunidense e ao mesmo tempo conter a expansão socialista após a Revolução Cubana. Sua função essencial era dupla: de um lado, difundir a propaganda anticomunista apresentando o capitalismo liberal como sinônimo de modernização e desenvolvimento; de outro, articular-se com as elites locais e seus aparelhos privados de hegemonia para estruturar um verdadeiro cinturão de contenção contra a radicalização política das massas. No Brasil, a Aliança encontrou terreno fértil nas articulações empresariais e militares que deram origem ao IPES e ao IBAD, funcionando como fornecedora de recursos, legitimidade e diretrizes estratégicas para uma guerra ideológica que não se limitava à disputa eleitoral, mas visava abertamente criar as condições subjetivas e objetivas para a derrubada do governo João Goulart. Essa engrenagem conjugou investimentos em projetos vitrine, cooptação de lideranças reformistas, financiamento de campanhas conservadoras e uma sistemática propaganda anticomunista difundida pela grande imprensa, compondo um ecossistema contrarrevolucionário que culminou no golpe civil-militar de 1964. Em síntese, a Aliança para o Progresso, em articulação com o IPES e o IBAD, demonstrou que o imperialismo estadunidense não operava apenas pela força bruta, mas pela construção paciente de uma hegemonia ideológica que travestia sua ofensiva de modernização democrática, quando na verdade preparava o terreno para a violência reacionária e a supressão da soberania popular.</p>
<p style="text-align: justify;">O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) constituem dois exemplos fundamentais dessa estrutura de poder. Criados com apoio direto do empresariado nacional e em estreita ligação com interesses norte-americanos, ambos cumpriram papel central na preparação política, cultural e midiática que culminou no golpe de 1964. O IPES, fundado em 1961, organizava cursos, palestras, filmes, cartilhas e eventos para disseminar a ideologia anticomunista. Reunia empresários, banqueiros, militares e intelectuais conservadores que viam nas reformas de base de João Goulart uma ameaça à propriedade privada e à ordem social. Sua função era clara: moldar a opinião pública, formar quadros e infiltrar o discurso liberal-conservador em sindicatos, escolas, universidades e na imprensa. Não se tratava apenas de um “centro de pesquisa”, mas de um verdadeiro think tank avant, antecipando as formas de atuação que, décadas depois, seriam retomadas por instituições como o Instituto Millenium e, mais recentemente, pelo MBL.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o IBAD, criado em 1959 por Ivan Hasslocher, cumpria uma função ainda mais explícita: financiar campanhas eleitorais de candidatos conservadores e anticomunistas. Recebia recursos de empresas nacionais e estrangeiras, com forte suspeita de repasses oriundos de organismos ligados aos Estados Unidos, no contexto da Guerra Fria. Em 1962, o IBAD atuou de forma massiva nas eleições, canalizando milhões de cruzeiros para parlamentares comprometidos com o combate às reformas sociais. O escândalo foi tão grande que uma CPI revelou parte do esquema, mas o instituto foi fechado apenas formalmente: suas redes de financiamento e articulação permaneceram ativas e se integraram ao bloco que derrubaria Jango em 1964.</p>
<p style="text-align: justify;">João Goulart, o Jango, deve ser compreendido dentro da tradição do varguismo que moldou a política brasileira no século XX. Herdeiro direto da linha trabalhista, Jango se consolidou como figura de transição entre a herança populista de Vargas e as demandas emergentes de uma classe trabalhadora urbana e, sobretudo, rural, cada vez mais organizada e disposta a reivindicar direitos. Embora fosse, em essência, um liberal reformista que acreditava na conciliação de classes e na possibilidade de modernizar o capitalismo brasileiro sem romper com suas bases estruturais, Jango incorporou pautas que soavam perigosas para a elite agrária e industrial. As Reformas de Base (especialmente a reforma agrária, pensada para redistribuir terras improdutivas e reduzir a secular marginalização do campesinato), representavam um ponto de inflexão em uma sociedade marcada pela concentração fundiária e pela dependência externa. O fato de o Estado se voltar, ainda que de maneira tímida, para os trabalhadores rurais, historicamente abandonados pelo poder público e submetidos a formas quase feudais de exploração, acendeu o alarme nas classes dominantes. Jango, ao tentar mediar os interesses populares com a manutenção da ordem burguesa, terminou por ser acusado de comunista, o que serviu de álibi perfeito para a ofensiva da direita, articulada com o imperialismo estadunidense e financiada por organismos como o IBAD e o IPES. Assim, sua figura revela a contradição do reformismo no Brasil: ao mesmo tempo em que prometia modernização e justiça social, acabou servindo como estopim para a reação golpista que consolidaria o projeto de dominação burguesa e militar a partir de 1964.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158946" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md.jpg" alt="" width="512" height="768" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista ideológico, o IPES e o IBAD buscavam construir uma visão de mundo: o comunismo seria uma ameaça existencial, a luta de classes uma invenção estrangeira, e a defesa da ordem e da família os pilares da nação. Esse discurso foi introjetado no imaginário social através da mídia, da escola e das igrejas, sedimentando um anticomunismo difuso que perdura até hoje. Se o MBL atual mobiliza memes e redes sociais, os institutos dos anos 1960 recorriam a filmes, radionovelas e manuais escolares, mas a função era a mesma: neutralizar a consciência crítica e legitimar a repressão. É preciso destacar também a dimensão de classe dessa ofensiva. O IPES e o IBAD eram sustentados pelos grandes empresários nacionais, ligados ao capital estrangeiro, que temiam as reformas trabalhistas, a reforma agrária e o controle do capital externo. Não se tratava de uma “guerra de ideias” abstrata, mas da defesa intransigente de privilégios materiais. A burguesia brasileira, historicamente associada ao imperialismo, sempre tratou qualquer possibilidade de transformação social como uma ameaça a ser eliminada. Os institutos funcionavam como correias de transmissão dessa estratégia, convertendo a luta econômica em guerra ideológica.</p>
<p style="text-align: justify;">A herança dessa experiência é visível nas décadas seguintes. Durante a ditadura, muitos quadros formados no IPES e no IBAD ocuparam cargos de Estado e seguiram articulando a política econômica em sintonia com o receituário neoliberal que viria a florescer nos anos 1980 e 1990. O desmonte da soberania nacional, as privatizações e a precarização do trabalho são desdobramentos de uma longa preparação intelectual, financeira e política. Quando olhamos para o MBL, percebemos a continuidade dessa tradição. A diferença é o meio: se antes eram cartilhas e palestras, hoje são vídeos virais e podcasts; se antes a palavra de ordem era “anticomunismo” em nome da ordem e da família, agora é “empreendedorismo” em nome da liberdade e do mercado. Mas a função é idêntica: servir como frente ideológica e cultural de uma burguesia em crise, mobilizando setores médios e juventude contra qualquer perspectiva emancipatória.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, o estudo do IPES e do IBAD nos revela que o MBL não é novidade nem exceção. É a versão 2.0 de uma máquina antiga, atualizada para a era digital, mas fiel à mesma lógica: conter a luta de classes, difundir o medo do comunismo, legitimar a repressão e garantir os lucros da burguesia. Entender essa genealogia é essencial para que não nos enganemos com a “espontaneidade” aparente de novos movimentos. Toda vez que a ordem capitalista é ameaçada, surgem aparelhos de propaganda e mobilização financiados pelo grande capital, disfarçados de juventude, de modernidade ou de inovação, mas sempre a serviço da dominação.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A gênese do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre (MBL) deve ser entendido como parte de um processo mais amplo de reorganização da direita brasileira em sintonia com o avanço internacional das redes ultraliberais e com a ofensiva do capital contra o trabalho na esteira da crise global de 2008. O MBL surge como o rosto jovem e midiático de um projeto de poder muito mais antigo: a tentativa da burguesia de recompor sua hegemonia diante do desgaste do progressismo, da crise do lulismo e da incapacidade das organizações populares de oferecer uma alternativa revolucionária. A gênese do MBL está diretamente vinculada ao esgotamento do pacto lulista. Durante os anos 2000, o crescimento econômico baseado no boom das commodities, somado a políticas sociais compensatórias, permitiu ao governo petista conciliar interesses de frações da burguesia e das classes trabalhadoras. Mas tal arranjo não poderia durar indefinidamente. A crise de 2008 expôs os limites do modelo, provocando desaceleração econômica, inflação e aumento do desemprego. Ao mesmo tempo, a manutenção de privilégios ao grande capital (isenções fiscais, juros elevados, exportações primarizadas) escancarava o caráter burguês do governo do PT.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, abriu-se um vácuo político. A esquerda institucional, comprometida com a conciliação, não possuía mais credibilidade para mobilizar a base popular. As forças revolucionárias, fragilizadas, não conseguiram apresentar alternativas organizadas. O cenário estava maduro para que a direita reorganizasse seu discurso, mobilizando o ressentimento social em direção a uma agenda regressiva. Foi nesse terreno fértil que o MBL germinou.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158945" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408.jpg" alt="" width="1920" height="1197" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-300x187.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-1024x638.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-768x479.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-1536x958.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-674x420.jpg 674w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-640x399.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-681x425.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As figuras do MBL: biografias como propaganda da burguesia</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Desde o início, o movimento apostou na construção de figuras públicas transformadas em mercadorias políticas, cada qual encarnando uma função específica dentro da engrenagem ideológica da burguesia. O rosto humano do MBL é, na verdade, a manipulação calculada de biografias individuais transformadas em mitos: o jovem prodígio, o estrategista de bastidor, o outsider debochado, o representante das minorias convertido em reacionário. A burguesia, ao longo da história, sempre precisou de personagens que servissem como simulacros de autenticidade para ocultar os interesses do capital. No caso do MBL, essa lógica se repete com precisão cirúrgica.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Kim Kataguiri: o “gênio liberal” de fachada</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Kim Kataguiri foi vendido como um milagre da juventude política brasileira: um rapaz de ascendência japonesa, oriundo de classe média, que supostamente teria se “indignado” contra a corrupção e encontrado no liberalismo econômico a saída para os males do país. A mídia corporativa apressou-se em transformá-lo em celebridade, convidando-o para entrevistas, documentários e reportagens laudatórias. Kim tornou-se um personagem perfeito para a narrativa de que o Brasil precisava de “novos líderes” para além da polarização PT-PSDB. Mas, sob a capa da juventude e do frescor, esconde-se o velho programa da burguesia: destruição de direitos sociais, alinhamento automático ao imperialismo, criminalização da luta de classes. Sua ascensão meteórica é prova de que não se tratava de talento individual, mas de engenharia social financiada por think tanks, empresários e redes internacionais de ultraliberalismo. Kim encarna o fantasma do empreendedorismo político, figura moldada para atrair jovens despolitizados e convencê-los de que o problema do Brasil são os sindicatos, os movimentos sociais e os pobres que “dependem do Estado”. O mito do “jovem prodígio” é, na verdade, o verniz cultural de uma política de ódio de classe.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Renan Santos: o capitalista do bastidor</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Se Kim é o rosto sorridente para as câmeras, Renan Santos é o cérebro cínico do negócio. Empresário, articulador de redes e financiamentos, Renan operou desde o início como cafetão político: explorando a energia juvenil e transformando-a em mercadoria eleitoral e em influência negociável com a direita tradicional. A função de Renan foi estruturar o MBL como máquina de poder e negócio, articulando parcerias com empresários, garantindo a propaganda massiva nas redes e coordenando as ações de rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua biografia não é a da “indignação”, mas a da gestão empresarial da política, em sintonia com a lógica neoliberal que transforma tudo (até mesmo a rebeldia) em produto. Renan Santos representa a camada da burguesia que prefere atuar nos bastidores, sem se expor diretamente, mas que colhe os frutos do trabalho de massas de jovens manipulados e instrumentalizados. Sua prática comprova que o MBL nunca foi um movimento popular, mas uma empresa política travestida de movimento social.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Arthur do Val (Mamãe Falei): a caricatura do ódio de classe</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Arthur do Val, o famigerado “Mamãe Falei”, representa o pior lado do fascismo sem uniforme: a grosseria convertida em virtude, a truculência erigida em autenticidade. Oriundo do YouTube, Arthur foi fabricado como personagem debochado, aquele que insulta professores, feministas, militantes de esquerda e trabalhadores em manifestações. Seu papel foi o de traduzir em linguagem vulgar e agressiva aquilo que Renan articulava e Kim revestia de suposta racionalidade. Arthur do Val tornou-se um bufão a serviço da burguesia, especializado em criar polêmicas e arrastar a juventude despolitizada para o campo da direita por meio da estética do escárnio. Sua carreira política acabou em escândalo após a divulgação de áudios misóginos durante viagem à Ucrânia, mas esse episódio não é acidente: é a comprovação de sua essência reacionária. Arthur não foi vítima de si mesmo, foi apenas fiel ao que sempre foi: um misógino, fascista e serviçal da ordem capitalista. Sua queda expõe os limites da política do espetáculo, mas também mostra como o MBL sempre soube explorar figuras descartáveis para manter sua máquina funcionando.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158943" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1.jpg" alt="" width="715" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1.jpg 715w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-300x168.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-640x358.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-681x381.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 715px) 100vw, 715px" />Fernando Holiday: a farsa da diversidade reacionária</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Fernando Holiday é, talvez, a peça mais cínica do tabuleiro do MBL. Negro, homossexual, jovem, filho de empregada doméstica, Holiday foi erguido como prova viva de que não existe racismo estrutural no Brasil e de que o liberalismo seria o caminho da “superação individual”. Sua trajetória foi convertida em panfleto vivo contra as lutas antirracistas, contra o movimento negro e contra o feminismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Holiday demonstra a crueldade da ideologia burguesa: transformar a exceção em regra, o indivíduo em justificativa para negar a opressão coletiva. Sua função foi legitimar, com sua presença, um projeto estruturalmente racista, elitista e excludente. Nada mais útil ao fascismo de mercado do que colocar um jovem negro para dizer que cotas raciais são um erro, que o movimento negro é vitimismo e que a polícia genocida está apenas cumprindo seu papel. Fernando Holiday é a expressão encarnada da servidão voluntária, alguém que renega suas próprias origens para servir de escudo ideológico à classe dominante.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Guto Zacarias, Ricardo Almeida e Matheus Faustino: os quadros auxiliares</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Ao lado dessas figuras centrais, o MBL abrigou outros militantes e dirigentes como Guto Zacarias, Ricardo Almeida e Matheus Faustino, que tiveram papéis secundários, mas estratégicos. Eles funcionaram como corpo de sustentação, multiplicando a presença do MBL em diferentes regiões, reforçando a narrativa de pluralidade e garantindo a expansão da máquina midiática. Sua função nunca foi individual, mas coletiva: eram peças intercambiáveis de uma engrenagem maior. Ao contrário de Kim, Renan, Arthur e Holiday, que viraram celebridades, esses quadros operaram como soldados políticos na guerra cultural da direita. A burguesia sabe muito bem: para cada rosto público, é preciso uma massa de quadros invisíveis, dispostos a organizar, difundir e reproduzir a ideologia dominante. O MBL provou que, no capitalismo contemporâneo, biografias são armas políticas. Cada um de seus integrantes foi moldado para representar uma faceta do projeto burguês: o prodígio, o empresário, o bufão, a exceção racial e os quadros auxiliares. Nenhum deles existe como sujeito político autêntico; todos são funções de uma engrenagem maior, cujo objetivo é consolidar o fascismo de mercado no Brasil. A crítica marxista deve deixar claro: não se trata de julgar moralmente os indivíduos, mas de revelar como suas vidas foram instrumentalizadas para legitimar o capital, criminalizar a classe trabalhadora e pavimentar o caminho da extrema-direita. A tarefa histórica não é apenas denunciar essas figuras, mas desmascarar a estrutura de poder que as produziu, porque enquanto houver capitalismo, haverá sempre novos “Kims”, “Renans”, “Arthurs” e “Holidays” prontos para assumir o palco do espetáculo burguês.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Financiamento e conexões internacionais da extrema-direita</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Um dos aspectos centrais para compreender a gênese do Movimento Brasil Livre (MBL) é o seu financiamento e a forma como se insere em uma rede internacional de organizações ultraliberais e de extrema-direita. A versão oficial, que apresenta o grupo como fruto de uma juventude “autônoma” e “espontânea” mobilizada por doações individuais ou vaquinhas virtuais, é parte da própria operação ideológica que visa encobrir seus laços com setores empresariais e redes de poder muito mais amplas. Desde sua fundação, o MBL contou com apoio direto e indireto de empresários do agronegócio, do setor financeiro e de grupos industriais, que viam na sua atuação uma frente útil para desgastar o governo petista e conter qualquer tentativa de reformas sociais mais profundas. Mas o núcleo da engrenagem está nas conexões internacionais. O MBL foi moldado por uma teia continental que remete à Atlas Network, rede de think tanks ultraliberais criada nos Estados Unidos e financiada por magnatas como os irmãos Koch. Essa rede funciona como uma espécie de incubadora de organizações da direita em todo o continente, fornecendo recursos, treinamento, suporte jurídico e, sobretudo, know-how em comunicação digital e marketing político. É desse laboratório que emergiram não apenas o MBL no Brasil, mas também grupos semelhantes na Argentina, Chile, Venezuela, Colômbia e outros países, todos com o mesmo perfil: jovens de classe média alta, discurso liberalizante e antiesquerdista, estética “moderna” e capacidade de ocupar o espaço digital com agressividade.</p>
<p style="text-align: justify;">A extrema-direita latino-americana, ao longo do século XX, sempre contou com o apoio de setores empresariais locais e de redes internacionais. No Chile, por exemplo, durante os anos 1960 e início dos 1970, setores católicos conservadores organizados em torno da Democracia Cristã e depois do próprio Pinochet foram financiados por canais ligados aos EUA, via CIA e fundações “educativas”, como parte da preparação para o golpe de 1973. Na Argentina, organizações civis e paramilitares de ultradireita também receberam recursos e treinamento de instâncias norte-americanas, articulando-se ao empresariado local contra qualquer tentativa de redistribuição. No Brasil, desde a criação do IBAD nos anos 1950 e do IPES nos anos 1960, já se verificava a infiltração direta de recursos empresariais e internacionais na organização da ofensiva conservadora que culminaria no golpe de 1964. A novidade do MBL não está, portanto, na dependência de financiamento externo, mas na forma como essa dependência se traduziu numa estética juvenil e numa comunicação digital afinada com a lógica das redes sociais do século XXI. O movimento funcionava como uma franquia de um projeto maior, cuja matriz está na reorganização global da direita diante da crise estrutural do capitalismo e do esgotamento do progressismo latino-americano. Essa ofensiva, que atravessa a década de 2010, visava aproveitar o desgaste de governos como os de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner e Rafael Correa para promover uma guinada neoliberal e antipopular.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158944" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml.jpg" alt="" width="735" height="1110" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml.jpg 735w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-199x300.jpg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-678x1024.jpg 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-278x420.jpg 278w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-640x967.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-681x1028.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 735px) 100vw, 735px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Assim, desde sua origem, o MBL esteve longe de ser “espontâneo”. Sua existência só se explica ao se compreender a longa tradição de financiamento e articulação internacional da extrema-direita na América Latina. De IBAD e IPES no Brasil aos católicos conservadores chilenos e aos empresários argentinos, sempre houve uma base de classe dominante e um elo externo sustentando a reação. O MBL é apenas a atualização dessa história: um grupo aparentemente jovem e autônomo, mas, na realidade, peça de uma engrenagem continental que busca conter qualquer possibilidade de avanço popular e reorganizar o bloco no poder sob a bandeira do liberalismo de mercado e da repressão às forças sociais insurgentes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Aparato midiático e linguagem juvenil</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A força inicial do MBL não se deu no parlamento, mas nas ruas e nas redes. Seus fundadores souberam explorar as ferramentas digitais (Facebook, Twitter, YouTube) para difundir uma linguagem acessível, repleta de memes, humor debochado e simplificações ideológicas. Essa estética “irreverente” era fundamental para se diferenciar da velha direita, vista como careta, envelhecida e excessivamente institucional. Ao mesmo tempo, o movimento construiu forte presença nas ruas a partir de 2015, organizando manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Tais atos foram estimulados por ampla cobertura midiática (Globo, Veja, Folha, Estadão), que oferecia palco e legitimidade aos jovens liberais. O MBL funcionava como uma ponte entre empresários financiadores, mídia corporativa e massas descontentes, transformando insatisfação difusa em pressão política articulada. O golpe parlamentar de 2016, que resultou no impeachment de Dilma, só pode ser explicado levando em conta o papel do MBL. O movimento foi a vanguarda de mobilização social que deu aparência “popular” a uma articulação burguesa conduzida no Congresso, no Judiciário e no empresariado. O MBL encarnava, no espaço público, o ressentimento das classes médias e a ofensiva do grande capital contra direitos sociais. Sua função histórica, portanto, não foi apenas participar de protestos, mas legitimar a ofensiva neoliberal e preparar o terreno para um projeto ainda mais reacionário que culminaria na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. O MBL ajudou a normalizar o discurso de ódio, a desqualificar a esquerda, a corroer a legitimidade das instituições democráticas e a naturalizar a violência como resposta política.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As Jornadas de Junho de 2013 e a gênese reacionária do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">As Jornadas de Junho de 2013 constituem um marco incontornável na história recente da luta de classes no Brasil. O estopim, aparentemente localizado no aumento das passagens de ônibus, rapidamente transbordou para uma indignação popular difusa contra a precarização da vida urbana, a corrupção estrutural e a repressão policial. Essa irrupção massiva da juventude e dos trabalhadores nas ruas revelou a insatisfação latente diante de um Estado que, em meio ao crescimento econômico do lulismo, jamais rompeu com os mecanismos de exploração e desigualdade. Sob a lente marxista, Junho expressa a contradição entre a promessa de inclusão capitalista e a realidade da dominação de classe: as demandas por mobilidade, saúde e educação pública escancaravam o caráter burguês de um Estado que só se move em consonância com os imperativos da acumulação.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse primeiro momento, a repressão brutal da polícia militar (balas de borracha, prisões arbitrárias, assassinatos), foi documentada e denunciada por uma miríade de mídias ativistas independentes. Coletivos como a Mídia Ninja e centenas de iniciativas de streaming improvisado ganharam projeção ao transmitir em tempo real a barbárie estatal. Essa comunicação popular representava uma fissura no monopólio da grande imprensa, historicamente alinhada à burguesia. No entanto, ao mesmo tempo em que fortaleciam a denúncia, essas mídias não possuíam uma estratégia de classe capaz de organizar a revolta em direção a uma saída revolucionária. Sem um horizonte político claro, o terreno das ruas permaneceu aberto para a infiltração de tendências reacionárias que se apresentavam como “apartidárias” e “sem bandeiras”. A consigna “sem partido”, que no início expressava a recusa justa à burocracia eleitoral, rapidamente foi apropriada por setores de direita como arma de criminalização da esquerda organizada. Essa manipulação ideológica transformou o descontentamento em hostilidade contra movimentos sociais e organizações de trabalhadores, produzindo verdadeiras guerras campais entre blocos progressistas e reacionários dentro das manifestações. O que estava em disputa era a própria direção política da massa revoltada: de um lado, uma juventude popular que apontava para a radicalização das lutas; de outro, grupos articulados que buscavam canalizar a energia das ruas para uma pauta antipolítica, liberalizante e moralista. Essa batalha refletia a lógica marxista da luta de classes travada também no campo ideológico: quando não há direção proletária organizada, a burguesia ocupa o vazio, reorganizando o ressentimento em prol da conservação da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, germina o Movimento Brasil Livre (MBL). Seu surgimento foi uma reação calculada à insurgência popular de 2013. O MBL apropriou-se da linguagem juvenil e da estética digital para mascarar seu projeto burguês, apresentando-se como alternativa “moderna” diante da falência da esquerda institucional. Mais que isso: o movimento encontrou na tática da infiltração uma de suas principais armas. Arthur do Val, posteriormente alçado a celebridade política, desenvolveu técnicas de se infiltrar em manifestações de esquerda com o objetivo explícito de desestabilizar, ridicularizar e criminalizar militantes. Seus vídeos, editados de forma caricata, eram difundidos no YouTube como entretenimento, convertendo a violência política em espetáculo. Sob a aparência de humor debochado, tratava-se de uma prática criminosa: espionagem, difamação e incitação ao ódio contra trabalhadores organizados. Do ponto de vista marxista, esse método revela a função ideológica do MBL: não dialogar, mas destruir, não disputar, mas sabotar a auto-organização popular. A ofensiva digital de figuras como Arthur do Val corresponde ao que Marx e Engels identificavam como função da ideologia dominante: apresentar a dominação de classe como senso comum, invertendo a realidade. Ao expor militantes como caricaturas, o MBL transformava os explorados em culpados de sua própria miséria, legitimando a repressão estatal e naturalizando o neoliberalismo como única saída. Essa lógica é estruturalmente fascista: ao invés de enfrentar os capitalistas, o ódio é direcionado contra sindicatos, feministas, negros, estudantes e qualquer forma de organização coletiva. O fascismo, dizia Reich, é a psicologia de massas da reação. No Brasil, ele se encarnou na figura midiática de jovens que transformaram a política em mercadoria digital.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158949" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1.jpg" alt="" width="903" height="1024" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1.jpg 903w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-265x300.jpg 265w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-768x871.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-370x420.jpg 370w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-640x726.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-681x772.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 903px) 100vw, 903px" />Assim, o MBL foi não apenas produto desse contexto, mas sua antítese reacionária. Onde a classe trabalhadora ensaiava passos de independência, o MBL interveio para reabsorver a energia insurgente em favor da burguesia. Onde as mídias independentes denunciavam a violência policial, o MBL difundia o escárnio e a legitimação da repressão. Onde os movimentos populares buscavam radicalizar as pautas sociais, o MBL pregava a despolitização total, como se a ausência de partido fosse garantia de liberdade. Na prática, era a abdicação da luta de classes em favor do domínio absoluto do capital. Junho abriu a brecha, mas a ausência de organização revolucionária permitiu que o inimigo a ocupasse. A lição é clara: sem direção proletária consciente, toda revolta corre o risco de ser capturada pelo aparelho ideológico da burguesia.</p>
<p style="text-align: justify;">O ano de 2015 marca a primeira grande aparição pública do MBL como força política. Aproveitando o desgaste do governo Dilma Rousseff após as eleições de 2014 e a Operação Lava Jato, o movimento foi um dos principais articuladores dos protestos de março, abril e agosto, que levaram milhões às ruas sob o lema do combate à corrupção e do impeachment.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui já se observa a função histórica do MBL: transformar ressentimento social em mobilização dirigida contra o governo petista. O descontentamento com a economia, a inflação e o desemprego foram canalizados não contra os capitalistas ou as estruturas do Estado, mas contra um partido específico, apresentado como encarnação de toda a corrupção. A esquerda foi demonizada, e a ideia de que o impeachment era “a saída democrática” foi massificada. O MBL fornecia a estética juvenil, os memes e o discurso moralizante que tornava esse processo palatável para amplos setores médios.</p>
<p style="text-align: justify;">A ascensão do MBL só foi possível porque encontrou amplificação midiática sistemática. Jornais, revistas e canais de televisão abriram espaço generoso para seus líderes, que passaram a ser tratados como porta-vozes legítimos da “nova política”. Kim Kataguiri foi entrevistado inúmeras vezes, Holiday recebeu destaque como “jovem negro contra o vitimismo”, e Renan Santos aparecia como articulador de bastidores. Essa relação era simbiótica: enquanto a mídia oferecia visibilidade, o MBL garantia a ocupação das ruas com pautas que interessavam à burguesia. A narrativa de que o impeachment representava uma “revolta popular” só foi possível porque jornais e TVs transmitiam ao vivo as manifestações convocadas pelo movimento, exaltando sua suposta espontaneidade e minimizando seu caráter empresarial e organizado. Dessa forma, o MBL tornou-se peça-chave na engrenagem de legitimação do golpe de 2016. A mídia corporativa não apenas narrava os protestos; ela os produzia junto com o MBL.</p>
<p style="text-align: justify;">O impeachment de Dilma Rousseff foi o marco da consolidação do MBL. O movimento foi um dos principais articuladores das manifestações que criaram o ambiente político necessário para o golpe parlamentar. Sua atuação demonstrou que a burguesia havia encontrado um novo instrumento: uma direita jovem, agressiva, aparentemente “independente” dos velhos partidos, mas totalmente subordinada ao capital. Com o golpe consumado, o MBL cumpriu sua função histórica imediata: garantir as condições sociais para a ascensão de Michel Temer e a aprovação de medidas impopulares como a PEC do Teto de Gastos e a reforma trabalhista. Ao mobilizar as massas contra a “corrupção do PT”, o movimento abriu caminho para um projeto neoliberal ainda mais agressivo, que não teria sobrevivido sem apoio de rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Se nas ruas o MBL já havia demonstrado capacidade de mobilização, foi nas redes sociais que consolidou seu diferencial estratégico. Com páginas que chegavam a milhões de seguidores no Facebook, canais no YouTube e forte presença no Twitter, o movimento tornou-se um dos principais difusores de conteúdo político digital no Brasil. A linguagem era simples, memética, apelando para o humor, a ridicularização do adversário e a simplificação ideológica. Essa estética não era apenas “engraçada”; ela tinha função política clara: desmoralizar a esquerda, criminalizar o pensamento crítico e difundir a ideologia liberal-fascistizante como senso comum.</p>
<p style="text-align: justify;">A internet foi, portanto, o laboratório de subjetivação do MBL. Ali, ele consolidou sua base social e preparou o terreno para disputar corações e mentes de milhões de jovens que não se viam representados pela política tradicional.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158948" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989.jpg" alt="" width="330" height="652" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989.jpg 330w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989-152x300.jpg 152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989-213x420.jpg 213w" sizes="auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A entrada na política institucional</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em 2016, alguns membros do MBL se candidataram a cargos públicos, em especial vereadores e deputados. O caso mais emblemático foi a eleição de Fernando Holiday como vereador em São Paulo pelo DEM, com quase 50 mil votos. Holiday tornou-se símbolo da estratégia: um jovem negro, gay, oriundo da periferia, defendendo pautas ultraliberais e conservadoras. Sua figura foi instrumentalizada como prova de que o MBL era “inclusivo” e “plural”, embora sua política fosse frontalmente contrária aos interesses das classes populares e das minorias. A entrada de quadros do MBL na institucionalidade mostrou que o movimento não pretendia ser apenas uma força de pressão externa. Ele buscava disputar poder diretamente, formando uma nova geração de políticos de direita para consolidar sua agenda.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre 2015 e 2018, o MBL também enfrentou contradições. Parte de sua base defendia um liberalismo mais “puro”, enquanto outra parte se aproximava cada vez mais do conservadorismo autoritário. Essa tensão refletia não apenas divergências ideológicas, mas disputas por recursos e visibilidade. Ainda assim, o denominador comum permanecia: a submissão ao grande capital e o combate intransigente à esquerda. As contradições internas nunca colocaram em risco a função central do MBL: ser um braço político da ofensiva burguesa. O período 2015-2018 foi decisivo para preparar o terreno para Jair Bolsonaro. Embora o MBL e Bolsonaro tenham divergido em alguns momentos, sobretudo após 2019, é inegável que o movimento foi incubadora do bolsonarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A naturalização do discurso de ódio, o moralismo anticorrupção, a criminalização da esquerda, a deslegitimação da política institucional e a defesa de medidas autoritárias foram todos elementos difundidos pelo MBL antes mesmo da candidatura de Bolsonaro ganhar força. O MBL forneceu parte da estética bolsonarista, da sua base social e da sua legitimidade. Entre 2015 e 2018, o MBL se consolidou como ator central da política brasileira. Seu desenvolvimento foi marcado por:</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><strong>Estruturação empresarial e financiamento burguês</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Amplificação midiática sistemática</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Capacidade de mobilização de massas contra a esquerda</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Consolidação como força digital; </strong></li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Inserção institucional no parlamento</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Preparação do terreno para o fascismo bolsonarista</strong>.</li>
</ul>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158951" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson.jpg" alt="" width="400" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-188x300.jpg 188w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-263x420.jpg 263w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Linha teórica e ideologia do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A consolidação do MBL como força política não se explica apenas por sua presença midiática ou pelo apoio empresarial. O movimento possui uma linha teórica e ideológica própria, construída a partir da combinação de três vetores centrais: o liberalismo econômico radical, o conservadorismo moral e o fascismo adaptado ao contexto brasileiro contemporâneo. A análise dessa composição revela a função do MBL na luta de classes e sua relação com a reprodução do capitalismo dependente no Brasil. O discurso oficial do MBL se apresenta como liberal, defendendo a liberdade individual, o livre mercado e a redução do Estado. Inspirado por autores como Friedrich Hayek, Ludwig von Mises e Milton Friedman, o movimento difunde a ideia de que o Estado é um entrave ao desenvolvimento, a corrupção é seu efeito natural e a iniciativa privada é a solução para todos os problemas sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse liberalismo, contudo, é apenas a fachada ideológica de uma prática autoritária. O MBL nunca defendeu verdadeiramente a liberdade em sentido universal, mas apenas a liberdade do capital de explorar sem entraves. Sua concepção de indivíduo é restrita ao consumidor; sua ideia de sociedade é a de um mercado sem limites; e sua noção de democracia é reduzida a procedimentos formais que podem ser suspensos quando o capital exige. Assim, o liberalismo no MBL cumpre a função de revestir políticas violentas com o manto da “liberdade”. Privatizações, cortes de direitos, repressão a greves e perseguição a movimentos sociais são apresentados como expressões da “livre escolha” dos cidadãos, quando na realidade são imposições brutais de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o liberalismo é a face econômica, o conservadorismo moral é a face cultural do MBL. O movimento construiu sua base em torno de pautas como:</p>
<ul>
<li class="li">ataque à educação crítica, sob o lema da “Escola sem Partido”;</li>
<li class="li">combate a políticas de gênero e sexualidade;</li>
<li class="li">defesa da família tradicional como núcleo moral da sociedade;</li>
<li class="li">demonização do feminismo, dos direitos LGBT e das lutas antirracistas.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Esse conservadorismo cumpre função clara: desviar a insatisfação social das contradições de classe para “inimigos culturais”. O professor, o artista, o militante feminista ou antirracista são apresentados como ameaças à ordem social, enquanto os verdadeiros inimigos (banqueiros, empresários, latifundiários) permanecem intocados. A guerra cultural é o terreno onde o MBL mais se destacou. Utilizando memes, vídeos curtos e uma linguagem agressiva, o movimento transformou a disputa ideológica em espetáculo midiático. O riso, a zombaria e o deboche passaram a ser armas políticas. A desqualificação substituiu o argumento. O resultado é uma política reduzida a slogans e afetos primários, que reforçam o ódio e a intolerância.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>MBL: Liberalismo de Fachada, Fascismo de Essência</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre é, em sua essência, a tradução contemporânea de um fenômeno que marcou o século XX: o fascismo. Evidentemente, não se trata da repetição literal da estética de camisas negras ou marchas paramilitares; o MBL é expressão de um fascismo “sem uniforme”, adaptado às condições da sociedade de massas, às redes digitais e à lógica do neoliberalismo periférico. Para compreendê-lo, é necessário retomar as categorias que definem o fascismo como fenômeno histórico e político.</p>
<p style="text-align: justify;">Leandro Konder já afirmava que o fascismo é um fenômeno tipicamente de direita. Sua força não está em criar ideias próprias, mas em saquear o arsenal marxista e distorcê-lo: luta de classes transformada em tragédia eterna a ser disciplinada por uma elite; ideologia esvaziada de seu caráter crítico para virar propaganda; nação reinterpretada como mito orgânico acima das contradições sociais. Mussolini, ex-dirigente socialista, foi o protótipo dessa apropriação perversa, vendendo à burguesia italiana uma caricatura do marxismo que justificava a repressão. O MBL age na mesma chave: repete termos como “liberdade”, “revolução”, “novo movimento social”, mas esvaziando-os de conteúdo emancipatório para reorientá-los em favor da ordem capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158950" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310.jpg" alt="" width="1920" height="1804" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-300x282.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-1024x962.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-768x722.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-1536x1443.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-447x420.jpg 447w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-640x601.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-681x640.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Wilhelm Reich, em sua teoria da economia libidinal, mostra que o fascismo não se explica apenas pela política de classes, mas pela gestão repressiva das pulsões. O fascismo mobiliza a energia das massas não pela promessa de emancipação, mas pelo reforço da autoridade e da sexualidade reprimida. Vladimir Safatle, retomando Reich, argumenta que o fascismo é “a articulação entre a suspensão da lei e o culto da lei”, funcionando como regressão paranoica de uma sociedade inteira. É o culto da violência, a exaltação da polícia, a defesa da repressão, o ódio ao inimigo interno. O MBL cumpre esse papel: dissemina discursos de ódio contra professores, sindicatos, movimentos sociais e minorias, ao mesmo tempo em que incensa a polícia e naturaliza a brutalidade estatal.</p>
<p style="text-align: justify;">Deleuze e Guattari, no <em>Anti-Édipo</em>, lembram que “as massas desejaram o fascismo”. A servidão voluntária é elemento central: o autoritarismo não se impõe apenas de cima, mas encontra adesão social. É isso que explica a penetração do MBL entre a juventude: muitos jovens aderem ao discurso de “rebeldia liberal”, acreditando que estão lutando contra o sistema quando, na prática, reforçam o domínio do capital. O desejo pelo autoritarismo, pela ordem, pelo “fim dos privilégios” (que nunca são os da burguesia) é manipulado pelo movimento como combustível político. Adorno e Horkheimer, na <em>Dialética do Esclarecimento</em>, definem o fascismo como patologia social, paranoia organizada pela indústria cultural e pela política de massas. Essa patologia está presente no MBL: a simplificação do discurso, a criação de inimigos fictícios (“comunismo”, “ideologia de gênero”), a mobilização constante de afetos de medo e ódio. Tudo isso garante coesão a um projeto que, na realidade, é funcional ao capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, o fascismo deve ser entendido como contrarrevolução preventiva. Quando o capital entra em crise, e as massas ensaiam processos de contestação, surge a necessidade de reorganizar o consenso pela força. O MBL foi um instrumento dessa contrarrevolução no Brasil pós-2013: capturou o mal-estar popular, canalizou-o contra a esquerda e pavimentou o caminho para o golpe de 2016 e a ascensão de Bolsonaro. Não é exagero dizer que o MBL é um braço auxiliar do bolsonarismo, ainda que tente hoje se diferenciar dele para sobreviver.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, chegamos ao ponto central: o MBL representa um fascismo de mercado. Ele combina o ultraliberalismo econômico (privatizações, ataque a direitos, Estado mínimo) com a defesa intransigente da repressão estatal. É a junção entre Hayek e Mussolini, Chicago e Integralismo, Paulo Guedes e o porrete da polícia. Seu projeto é claro: um país onde a juventude seja mobilizada para odiar o inimigo interno, aplaudir a violência, acreditar que a exploração é liberdade e que a destruição dos direitos sociais é modernidade. Portanto, o MBL é parte da engrenagem fascista contemporânea, adaptado às novas formas de comunicação e subjetividade, mas cumprindo a mesma função histórica: salvar o capital em crise pela repressão, pelo ódio e pela destruição de qualquer possibilidade de emancipação. O MBL é peça fundamental do aparelho de hegemonia de classe, atualizado para a era digital, cujo liberalismo é pura fachada. A essência é fascista: culto à ordem, criminalização da esquerda, mobilização do ressentimento social e ataque sistemático à crítica intelectual.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos traços centrais do fascismo é a exaltação da ordem social e a naturalização da violência estatal como instrumento de preservação dessa ordem. O MBL, desde seu surgimento, legitimou a repressão policial contra greves, ocupações estudantis e manifestações populares. Em seus discursos e práticas midiáticas, os militantes do movimento apresentam a polícia como garantidora da “liberdade”, invertendo a realidade concreta em que essa mesma polícia é a guardiã dos interesses burgueses, responsável pelo genocídio da juventude negra e periférica. Essa legitimação da violência corresponde ao núcleo do projeto fascista, que busca transformar a repressão em consenso, convencendo setores médios de que a eliminação do “inimigo interno” é condição para a paz social. Outra marca estrutural do fascismo é a construção de um inimigo absoluto, desumanizado e responsabilizado por todos os males sociais. O MBL opera nesse registro ao equiparar o petismo ao comunismo e tratar qualquer militante de esquerda como ameaça à nação. A retórica contra o “marxismo cultural” e contra a “doutrinação” nas escolas é instrumento para consolidar a imagem do inimigo interno. Essa lógica é profundamente fascista porque não admite mediação: a esquerda é apresentada não como adversária política legítima, mas como inimiga a ser destruída. Assim, cria-se a base ideológica para a violência física, a perseguição judicial e a repressão aberta contra trabalhadores organizados.</p>
<p style="text-align: justify;">Marx já apontava que a pequena-burguesia, em momentos de crise, oscila entre o proletariado e a burguesia. É nesse setor social que o fascismo encontra sua principal base. O MBL mobiliza exatamente esse ressentimento: jovens de classe média precarizados, trabalhadores informais que acreditam no “empreendedorismo”, segmentos médios que veem nos pobres e nos movimentos sociais a causa de sua instabilidade. O movimento transforma a frustração em ódio, convertendo contradições estruturais do capitalismo em ressentimento dirigido contra inimigos fictícios. Como dizia Adorno, a personalidade autoritária encontra satisfação em submeter-se à ordem e, ao mesmo tempo, agredir os mais fracos. O MBL organiza politicamente esse impulso. A apropriação da estética juvenil é outro elemento clássico da estratégia fascista. Nos anos 1920 e 1930, o fascismo europeu soube mobilizar símbolos de vitalidade e modernidade para atrair a juventude. O MBL cumpre a mesma função no século XXI, usando memes, linguagem digital, humor debochado e estética pop. Essa aparência de novidade serve para canalizar a energia juvenil (que poderia se dirigir à transformação radical) para a defesa da ordem do capital. É a transmutação da rebeldia em conformismo ativo: o jovem que poderia lutar contra a exploração é transformado em defensor da exploração, sob o mito da meritocracia e do empreendedorismo. Essa inversão é típica do fascismo, que se alimenta da força vital das massas para submetê-las à lógica da dominação.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158953" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo.jpg" alt="" width="332" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo.jpg 332w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo-199x300.jpg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo-279x420.jpg 279w" sizes="auto, (max-width: 332px) 100vw, 332px" />Por fim, o anti-intelectualismo é elemento constitutivo do fascismo. O MBL, desde seu início, atacou universidades, professores, cientistas e artistas, acusando-os de “doutrinadores” e “parasitas”. Essa recusa da crítica é funcional: ao deslegitimar o pensamento crítico, o movimento busca cortar pela raiz qualquer possibilidade de contestação consciente à ordem burguesa. O ódio à crítica é parte da necessidade estrutural de um projeto que só sobrevive se transformar a ignorância em virtude. A hostilidade contra a universidade pública e contra a produção cultural crítica demonstra o caráter fascista do MBL, que deseja um povo dócil, desinformado e incapaz de formular alternativas. O MBL, portanto, é mais que um grupo liberal: é a expressão contemporânea de um fascismo de mercado, adaptado às condições do capitalismo dependente brasileiro. Liberal na economia, fascista na política. Essa combinação reflete a necessidade da burguesia de intensificar a exploração em tempos de crise, eliminando direitos, privatizando serviços e precarizando o trabalho, ao mesmo tempo em que reprime com violência qualquer forma de resistência popular. Trata-se de um fascismo sem uniforme, mas com a mesma essência: mobilização de massas contra o proletariado, culto à ordem, ódio à crítica, repressão como consenso. Do ponto de vista histórico, a ascensão do MBL responde à crise do lulismo, ao desgaste do progressismo e ao vazio deixado pela ausência de uma direção revolucionária. Quando as Jornadas de Junho de 2013 expuseram a insatisfação popular, a burguesia tratou de reorganizar suas forças. O MBL foi a resposta: transformar a rebeldia em conformismo, o descontentamento em ódio regressivo, a juventude em tropa de choque da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A consequência inevitável dessa ofensiva é a intensificação das lutas concretas na sociedade. À medida que o MBL e outros aparelhos fascistizantes avançam, os setores populares são pressionados à autodefesa e à radicalização. O conflito entre interesses antagônicos (burguesia e proletariado) tende a se acirrar. O MBL cumpre a função de ponta de lança ideológica e prática da repressão, criando o ambiente para que a violência de Estado se legitime e para que o ódio contra os trabalhadores se normalize. Mas a luta de classes não se apaga. O avanço fascista provoca, inevitavelmente, a reação popular. Greves, ocupações, protestos e lutas comunitárias emergem como resposta à ofensiva. A sociedade se cinde cada vez mais entre os que defendem os interesses dos dominantes, travestidos de liberalismo, mas sustentados pelo fascismo, e os que lutam por sobrevivência, dignidade e emancipação. Essa cisão reflete a impossibilidade de conciliação entre capital e trabalho em tempos de crise. O fascismo de mercado do MBL, portanto, não é apenas ameaça ideológica. Ele é prenúncio de confrontos concretos, de choques nas ruas, de radicalização da luta política. Cabe aos trabalhadores e às organizações revolucionárias compreender que a disputa não é apenas eleitoral ou institucional, mas vital: trata-se de defender a própria existência contra um projeto que naturaliza a morte, a exploração e a repressão.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O MBL no presente e a tarefa revolucionária</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Após a ascensão meteórica que culminou no golpe de 2016 e na pavimentação do caminho para Bolsonaro, o MBL passou por mudanças profundas. Seu desgaste político foi visível: crises internas, disputas entre figuras, perda de parte da base mais radicalizada. Ainda assim, o movimento não desapareceu. Pelo contrário: manteve-se como força midiática, explorando as redes sociais, adaptando-se ao jogo parlamentar e reposicionando-se no tabuleiro da direita. Hoje, o MBL busca se reciclar como uma direita jovem, “moderna” e supostamente democrática, uma operação de maquiagem que não apaga sua gênese fascista.</p>
<p style="text-align: justify;">Suas candidaturas continuam a ocupar espaço institucional, muitas vezes em aliança com setores do centro liberal e do progressismo domesticado. Nas câmaras municipais, assembleias estaduais e no Congresso, suas figuras seguem articulando projetos de ataque aos direitos trabalhistas, às universidades, aos movimentos sociais. As redes de apoio empresarial e midiático, ainda que menos explícitas, permanecem, garantindo fôlego para a sobrevivência política do grupo. O MBL soube se ajustar: se antes vendia-se como vanguarda do antipetismo, agora tenta aparecer como guardião da democracia contra os “excessos” do bolsonarismo, sem jamais romper com o projeto de fundo que ajudou a consolidar. Esse reposicionamento é perigoso. Quando até setores progressistas tratam o MBL como “interlocutor legítimo”, seja em debates televisivos, seja em mesas de negociação, contribuem para normalizar um agrupamento que nasceu do golpismo e do fascismo de mercado. A normalização é um dos mecanismos mais eficazes do fascismo: ele se traveste de legalidade, de pluralidade, de voz democrática, enquanto avança em sua tarefa histórica de aniquilar a organização popular.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda institucional, com seu antifascismo domesticado, reforça esse processo. Ao recusar a denúncia radical, prefere o jogo parlamentar, o diálogo “civilizado” com os algozes, acreditando que se pode conter a extrema-direita com boa retórica e alianças momentâneas. É a mesma lógica que, no passado, entregou a classe trabalhadora desarmada diante do avanço reacionário. Esse limite precisa ser evidenciado: não há pacto possível com quem nasce do fascismo e continua a operar como tropa de choque da burguesia. O enfrentamento ao MBL exige uma estratégia distinta: crítica sistemática, denúncia cotidiana e construção de organização popular. A batalha não é apenas parlamentar, mas cultural, comunicacional e formativa. A hegemonia do MBL foi construída no terreno da juventude e das redes; é ali que também precisamos intervir, não com o mesmo espetáculo vazio, mas com formação política, cultura crítica, cinema, música, literatura, debate público radical. As trincheiras da cultura e da comunicação são fundamentais para disputar consciências e romper com a manipulação liberal-fascista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158954" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd.jpg" alt="" width="222" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd.jpg 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd-167x300.jpg 167w" sizes="auto, (max-width: 222px) 100vw, 222px" />A tarefa revolucionária que se coloca é clara: combater o MBL é combater o fascismo em sua versão neoliberal. Se o MBL sobrevive mesmo após o desgaste do bolsonarismo, é porque cumpre função estrutural: preparar a juventude para o ódio de classe, treinar quadros políticos submissos à ordem e apresentar o capitalismo como destino inevitável. O combate ao MBL, portanto, é inseparável da luta contra o fascismo e contra o capitalismo. Denunciar, enfrentar e derrotar esse movimento não é apenas tarefa de resistência, mas condição para a emancipação. A história mostrou, da Comuna de Paris ao antifascismo do século XX, que não há conciliação possível: ou se constrói um poder popular capaz de destruir os aparelhos da burguesia, ou estaremos sempre à mercê das novas roupagens da mesma barbárie.</p>
<p><em>As imagens que ilustram este artigo são reproduções de obras de  José Leonilson.</em></p>
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		<title>A vida imita a arte</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 20:40:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Num protesto em Minneapolis, lê-se num cartaz: “Make Orwell Fiction Again”. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Num protesto em Minneapolis, lê-se num cartaz: “Make Orwell Fiction Again”. <strong> Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Nazismo no poder e antinazismo popular nos EUA</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Jan 2026 12:51:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ Servirão esses processos de resistência para fortalecer laços, ampliar a força da população organizada contra o nazismo estatal e abrir um horizonte alternativo à tendência de ascensão e aprofundamento do neofascismo? Por Leo Vinicius ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nazismo no poder nos EUA </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Donald Trump possui um histórico de afirmações protorracistas quando não indubitavelmente racistas <strong>[1]</strong>. Seu imaginário eugênico racial não surgiu ontem <strong>[2]</strong>. Na última campanha presidencial, por exemplo, afirmou que “os imigrantes ilegais envenenam o sangue do nosso país”. <em>Envenenar o sangue</em>, expressão que Hitler usou, por exemplo, no seu livro <em>Mein Kampf</em> (<em>Minha Luta</em>). Pesquisa de opinião realizada em 2024 constatou que 34% dos estadunidenses concordavam com essa afirmação de Trump — 61% dos Republicanos concordavam, 30% dos independentes e 13% dos Democratas <strong>[3]</strong>. Quando Trump estava em seu primeiro mandato, pesquisas já apontavam a importância do ressentimento racial na sua base de apoio e eleitoral <strong>[4]</strong> — o que não significa, evidentemente, que os votos necessários para o eleger vieram somente através de um ressentimento racial.</p>
<p style="text-align: justify;">O oportunista JD Vance, atual vice-presidente dos EUA e mais provável sucessor de Trump, era antiTrump cerca de dez anos atrás. Chamou Trump de “Hitler da América” em 2016, e no mesmo ano disse que: “Não tenho estômago para Trump. Acho que ele é nocivo e está levando a classe trabalhadora branca para um lugar muito sombrio” <strong>[5]</strong>. Mas, desde que resolveu se juntar a Trump, sua retórica de supremacismo racial têm sido até mais aberta que a de Trump. Ele sabe que a onda que pegou para surfar precisa ser alimentada…</p>
<p style="text-align: justify;">O ICE (Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro) foi criado no governo Bush filho, durante a “guerra ao terror”. No seu governo, Obama pegou aquilo que era um órgão que existia apenas em alguns estados, e o tornou em órgão de abrangência nacional, triplicando seu orçamento. Por sua vez, Trump triplicou também o orçamento do ICE, tornando seu orçamento maior do que o orçamento bélico de quase todos os países do mundo. Um orçamento maior que o do FBI e de outros órgãos federais juntos. Sem contar o orçamento para construção de prisões para confinar a população abduzida, que aumentou de três a quatro vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">Claramente o governo Trump transformou o ICE na sua polícia de limpeza étnica/social/política <strong>[6]</strong>. As prisões majoritariamente de imigrantes sem antecedentes criminais no governo Trump, contrastam com os dados anteriores a 2025 <strong>[7]</strong>. É a face mais brutal e espetacular da sua política racial. Em 2025, 32 pessoas morreram nas prisões do ICE, o maior número nas suas duas décadas de existência <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Indígenas, os mais nativos daquela terra, têm sido abduzidos pelo ICE também. Embora não sejam muitos casos reportados <strong>[9]</strong>, agentes do ICE falam abertamente para indígenas que eles serão os próximos <strong>[10]</strong>. A publicidade usada para recrutar agentes para o ICE também deixa pouca dúvida sobre a transformação do ICE na polícia de uma política de supremacismo racial <strong>[11]</strong>. Em suma, uma polícia política nazista.</p>
<p style="text-align: justify;">A política de conquista territorial de Trump — outro aspecto semelhante ao nazismo e com o fascismo histórico — também expõe a ideologia de supremacismo racial. No caso da vez, a Groenlândia, postagens da Casa Branca utilizam conceitos nazistas e se direcionam a subculturas racistas e neonazistas <strong>[12]</strong>. O interesse de Trump pela Groenlândia provavelmente foi despertado pelo seu amigo Ronald Lauder, um bilionário do setor de cosméticos, que teria sugerido a ele comprar a maior ilha do mundo no seu primeiro mandato. O próprio Lauder fez investimentos na Groenlândia e possui interesse financeiro nela. Os interesses dos donos da Big Techs estadunidenses também podem ter acrescentado, devido aos minerais e quem sabe também ao projeto de cidade utópica (ou distópica) a ser construída na Groenlândia, idealizada por Peter Thiel, bilionário dono da Palantir e principal guru da extrema direita high tech apocalíptica do Vale do Silício. Mas não se deve descartar o peso que pode ter esse tipo de expansão territorial espetacular como signo de uma América Grande Novamente, como compensação simbólica para uma base social e para um povo que não terá sua perspectiva de vida melhorada por nenhum gestor do capitalismo, nazista, liberal ou progressista.</p>
<p style="text-align: justify;">O nazismo está no poder nos EUA porque ele não está só no Estado. Ela está em grandes empresas. No primeiro semestre de 2025, os investimentos das Big Techs corresponderam a 92% do crescimento do PIB dos EUA. Não fossem elas, O PIB dos EUA teria crescido apenas 0.1% no período, embora as Big Techs representem apenas 4% do PIB do país. E as Big Techs, umas mais outras menos, estão surfando e alimentando a onda do fascismo. Uma conversão aparentemente por conveniência, como no caso da Meta, cuja atual presidente e vice-líder do conselho administrativo é ex-vice-assessora de Segurança Nacional de Trump. Ou como no caso de Larry Ellison, um dos dois homens mais ricos do mundo, supremacista judaico e dono da Oracle, que comprou a rede de TV CBS, a Paramount e a operação estadunidense do Tik Tok, tudo para difundir propaganda favorável a Israel e limitar informação de denúncia dos crimes israelenses. Pela permissão de agências governamentais a esses negócios, a CBS de Ellison tem feito uma cobertura favorável a Trump. Mas nenhuma é tão intrínseca e abertamente fascista quanto a Palantir de Peter Thiel. Seu cofundador, John Lonsdale, não esconde seu pensamento racial reacionário e supremacista. Também não esconde que uma missão da Palantir é acabar com “comunistas”, ou mesmo matá-los (lembrando que a Palantir realiza principalmente serviços envolvendo base de dados para governos e forças repressivas). Alex Karp, CEO da Palantir fala abertamente do orgulho da Palantir servir ao Ocidente e aos EUA, e a países que não pode falar, e em ocasiões, se necessário meter medo e até mesmo matar “nossos inimigos” <strong>[13]</strong>. Essa mesma empresa foi contratada pelo governo brasileiro em 2025 para análise de dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.</p>
<p style="text-align: justify;">No regime nazista de Hitler, a ideologia racial chegou a sobredeterminar a racionalidade econômica capitalista. No caso de Trump e do movimento MAGA, há uma tendência de sobredeterminação também, que, no entanto, ainda não é forte o suficiente para superar certas barreiras impostas pela razão econômica de uma burguesia. Trump, por exemplo, teve que limitar as incursões do ICE em fazendas, restaurantes e hotéis por pressão dos empresários desses setores, uma vez que dependiam do trabalho de imigrantes indocumentados <strong>[14]</strong>. Trump gostaria, mas ainda não conseguiu alcançar Israel. Fundado e mantido como Estado étnico colonial, Israel está na vanguarda do neonazismo mundial, com seu <em>lebensraum</em> <strong>[15]</strong>, sua política supremacista, seu genocídio e sua ideologia étnica que é a razão de Estado.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158590" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039.webp" alt="" width="1200" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039.webp 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-300x169.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-1024x576.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-768x432.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-747x420.webp 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-640x360.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-681x383.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Antinazismo popular nos EUA</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Diante das incursões dos agentes mascarados do ICE em grandes e médias cidades dos EUA — levando terror a bairros, separando famílias, abduzindo crianças, deixando crianças sem pais —, uma reação de caráter comunitário e popular tem ocorrido, principalmente nas cidades com tradição mais progressista. Não se trata de protestos, que embora tenham também ocorrido, têm sido bastante limitados e pouco efetivos. Essa solidariedade ativa comunitária ganhou maior repercussão quando, em janeiro de 2026, o governo Trump enviou mais de 2 mil agentes do ICE a Mineápolis e um deles assassinou Renee Good, uma mulher branca de 37 anos que tentava dificultar a passagem de um carro do ICE.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa solidariedade ativa, é importante destacar, parte da comunidade independente de cor da pele e nacionalidade. Bastante expressivo o caso de dois irmãos brancos, ainda menores de idade, que passam as manhãs seguindo os carros do ICE nas ruas de Chicago, filmando as ações dos agentes, de modo a impedir violência e ilegalidades. Eles são apoiados pelos pais, que são cristãos praticantes <strong>[16]</strong>. Aliás, são os não-imigrantes e brancos, como Renee Good, que possuem melhores condições e têm geralmente realizado as formas de solidariedade ativa mais arriscadas, isto é, se colocando em situações próximas a agentes do ICE, com o risco de sofrer violência que isso comporta, por vezes consumada <strong>[17]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Apitos foram distribuídos nos bairros para que sejam usados como alertas se alguém vir a presença do ICE. Escolas em Mineápolis passaram às aulas online para proteger os alunos. Pais e vizinhos organizam caronas e acompanham a pé crianças até na ida e volta da escola, além de ficarem de vigias em frente às escolas. Grupos de vizinhos vigiam a porta de comércios, que ficam de portas fechadas mesmo quando abertos ao público, para que os funcionários possam trabalhar com mais tranquilidade. Pais de crianças em creches com imersão em espanhol têm deixado seus filhos em casa para que os funcionários não precisem se arriscar indo ao trabalho. Igrejas e grupos comunitários levantam dinheiro para fazer compras e entregá-las a famílias que não se sentem seguras saindo de casa. Ajuda mútua e dinheiro têm sido direcionados a pessoas que não podem pagar o aluguel por não poderem trabalhar, ou porque quem era responsável pela renda na família foi abduzido ou para quem precisa de um lugar quente depois que as janelas da casa foram quebradas pelo ICE <strong>[18]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora longo para ser inserido no meio de um texto, vale a pena ler o relato abaixo publicado por Margaret Killjoy, música e escritora anarquista, publicado por ela no Bluesky em 21 de janeiro:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Vim a Minneapolis para fazer uma reportagem sobre o que está acontecendo, e uma das principais perguntas que eu tinha em mente era: “Qual é a dimensão da resistência?” Afinal, estamos todos acostumados com as notícias chamando Portland de “zona de guerra” ou algo do tipo, quando há apenas alguns protestos em uma parte da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Cheguei tarde ontem à noite. Logo de manhã, vi carros seguindo um carro do ICE pela rua, buzinando para ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais tarde, não tínhamos percorrido nem três quarteirões quando encontramos pessoas defendendo uma creche. (A ideia de que as pessoas precisam defender uma creche… pense nisso.)</p>
<p style="text-align: justify;">Em metade das esquinas por aqui, há pessoas — de todas as classes sociais, incluindo Republicanos — de guarda, atentas a veículos suspeitos, que são reportados a uma rede robusta e totalmente descentralizada que rastreia veículos do ICE e mobiliza as equipes de resposta.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho participado ativamente de movimentos de protesto há 24 anos. Nunca vi nada que se aproximasse dessa escala. Minneapolis não está aceitando o que está acontecendo aqui. O ICE assassinou uma mulher por participar disso, e tudo o que isso fez foi atrair mais pessoas, de todas as classes sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">É um movimento genuinamente sem líderes (ou lotado de líderes), descentralizado de uma forma que o Estado está absolutamente despreparado para lidar. Existem algumas práticas básicas envolvidas, e as pessoas ensinam umas às outras essas práticas, refinando-as coletivamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de vir, perguntei a um amigo local se o frio (vai chegar a -20°C nos próximos dias) impediria as pessoas de saírem. “Não, nós vamos estar lá. É o ICE que não aguenta.”</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje conversei com uma senhora de 76 anos que estava há horas no frio, protegendo seus vizinhos. Eu também estava começando a sentir frio, mesmo com as roupas de inverno novas que comprei para esta viagem (e eu moro nas montanhas!).</p>
<p style="text-align: justify;">Ela nem sequer estava usando chapéu.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra pessoa disse: “Somos de Minnesota. Estamos ansiosos para tirar nossas roupas de inverno do armário este ano.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ele era um engenheiro de áudio cujo filho estudava na região. De jeito nenhum ele deixaria alguém mexer com as crianças enquanto estivesse por perto.</p>
<p style="text-align: justify;">Um outro amigo me disse o seguinte: “O ICE cometeu o erro clássico dos nazistas. Eles invadiram um povo de inverno no meio do inverno.”</p>
<p style="text-align: justify;">Não quero pintar um quadro cor-de-rosa, porque é uma cidade sitiada. Pessoas estão sendo sequestradas o tempo todo. Uma pessoa me contou que presenciava de um a dois sequestros por dia, só no trabalho que fazia acompanhando o ICE.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas quando perguntei a um dos organizadores o que eles queriam ver na cobertura da imprensa, eles me disseram que queriam que as pessoas vissem as coisas lindas que estão construindo aqui, e não apenas as piores histórias dos piores crimes do ICE.</p>
<p style="text-align: justify;">O que as pessoas estão fazendo aqui é lindo. É uma beleza trágica, mas real.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou aqui há 24 horas, mas pelo que já vi, acredito sinceramente que vamos vencer. As pessoas aqui sabem muito bem que o que acontece aqui impacta o país inteiro, que isso define o tom da resistência. O ICE está furioso, o ICE está apavorado com a sua profunda impopularidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Nunca vi uma população tão unida. Se as pessoas conseguirem manter essa união, se conseguirem aceitar que pessoas diferentes terão maneiras diferentes de combater o fascismo, se conseguirmos lembrar às ONGs e organizações que elas podem se juntar à resistência, mas não controlá-la, então, bem, as pessoas daqui farão história.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Um caso em que a dona da casa gravou a situação em que se encontrava diante do ICE do início ao fim é bastante expressiva da diferença que a ação coletiva, o apoio ativo da comunidade, realiza concretamente. Mãe de uma criança pequena, ela estava em casa em Mineápolis e pediu comida por aplicativo. Quando abriu a porta para receber o pedido, a entregadora da empresa DoorDash entrou na casa apavorada, falando coisas em espanhol. O ICE estava atrás dela, e já estava do lado de fora da casa querendo entrar. A dona da casa falava aos agentes do ICE que ela era mãe de uma criança que estava na casa, tendo em mente o recente assassinato de Renne Good. Nervosa e sem saber o que fazer diante da situação, na qual era pressionada pelos agentes do ICE a fazendo temer pela sua segurança e de sua filha, mas não queria entregar aquela trabalhadora nas mãos de uma Gestapo. Ela ligou para a polícia para ao menos saber o que fazer. A resposta da polícia a induziu a entregar a trabalhadora (embora a polícia não tenha dito que legalmente, naquela situação, ela não precisava fazê-lo). Ela pediu para trabalhadora sair, mesmo com muito pesar e desespero. Nesse meio tempo vizinhos começaram a aparecer envolta do terreno da casa com apitos e antagonizando os agentes do ICE. O número de vizinhos foi aumentando com seus apitos. Nessa nova situação, de apoio e ação coletiva, o comportamento da dona da casa muda totalmente. Ela já não fala mais para a entregadora sair, e antagoniza também o ICE, de forma destemida. Eles começam a se retirar e ela continua os antagonizando, de forma ainda mais forte, numa espécie de descarga final de adrenalina. A entregadora foi salva <strong>[19]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158591" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714.jpg" alt="" width="700" height="468" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714-300x201.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714-628x420.jpg 628w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714-537x360.jpg 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714-640x428.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714-681x455.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" />Após o assassinato de Renee Good, pesquisa de opinião apontou que quase metade dos estadunidenses apoiam a abolição do ICE, 42%, contra 48% que são contra a abolição, sendo que 52% veem o ICE de forma bastante negativa <strong>[20]</strong>. Mas se o antinazismo tem base popular ativa, o nazismo no poder se ergue a partir de uma base popular também. As opiniões sobre o ICE, por exemplo, são bastante polarizadas entre eleitores Democratas e Republicanos. No entanto, esperar que a tendência de ascensão do neofascismo seja modificada por via eleitoral, evidentemente é uma ilusão que até mesmo muitos liberais já não possuem. Certamente o ICE não será abolido pelos Democratas caso voltem ao governo. O histórico dos governos Democratas é de ampliação do ICE e de seu financiamento. Mas o mais importante é o fato de que são os partidos de (extrema) direita que possuem o ímpeto e um projeto de transformação. O centro e a esquerda institucionais seguem a reboque da onda, sem interromper a tendência, embora possam em certas situações significar um alívio momentâneo para grupos sociais quando estão no governo. Terrivelmente simbólico de como seguem ao reboque da onda neofascista foi o apoio incondicional que o governo Joe Biden deu para que Israel cometesse genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">Se existe algo ainda no que se apoiar, nos EUA, é nesse antinazismo popular, ativo e prático existente em muitas cidades. O nível de violência empregado pelo ICE e pelas foças do Estado ainda não conseguiu deixar as pessoas aterrorizadas, de modo a romper essa solidariedade ativa. Conseguirão escalar a violência a ponto de colocar as pessoas em isolamento e em silêncio diante da limpeza étnica nas suas cidades e bairros? Servirão esses processos de resistência para fortalecer laços, ampliar a força da população organizada contra o nazismo estatal e abrir um horizonte alternativo à tendência de ascensão e aprofundamento do neofascismo?</p>
<p style="text-align: justify;">Dia 23 de janeiro aconteceu em Minnesota algo que não ocorria há oitenta anos nos Estado Unidos: uma greve geral. A paralisação com slogan “ICE fora de Minnesota: Dia da Verdade e da Liberdade”, foi convocada por sindicatos e endossada por diversas organizações. Legalmente os sindicatos dos EUA não podem convocar greve geral, então a convocação não foi feita de forma explícita como greve. As grandes federações sindicais, geralmente coveiras de ações significativas, endossaram o chamado. Algo que mostra o impulso popular que a causa está tendo naquele estado. O fato é que foi uma paralisação comunitária, envolvendo toda a sociedade civil.</p>
<p style="text-align: justify;">Pequenos comerciantes fecharam seus estabelecimentos. algumas grandes empresas também, já prevendo o alto absenteísmo e talvez também para preservar suas imagens. Cerca de 700 empresas fecharam em Minnesota e cerca de 300 ações de solidariedade ocorreram por todo o país no dia 23 de janeiro. Uma multidão ocupou o aeroporto de Mineápolis e 100 clérigos foram presos na ação &#8211; muitos imigrantes trabalham no aeroporto e a incrível rede informal de inteligência formada pela classe trabalhadora apontou planos do ICE para abduzir motoristas de aplicativo no embarque e desembarque, além de informar que o ICE possui reservas em hotel da cidade até junho. Apesar do frio glacial, dezenas de milhares de pessoas se encontraram nas ruas de Mineápolis para dizer em alto e em bom som que querem o ICE fora do estado.</p>
<p style="text-align: justify;">A ausência de plano e programa do governo do estado e da prefeitura para defender a população do terror do ICE, apesar da retórica anti-ICE do governador e do prefeito, acabou também abrindo espaço para a população tomar a iniciativa. Mas a solidariedade popular ativa e a mobilização em Mineápolis, em um nível sem precedentes em muitos anos nos EUA, evidentemente não vem do nada. A cidade tem um histórico progressista, e esse atual levante de resistência foi constituído a partir de experiências de luta anteriores e de redes e organizações existentes. A experiência de luta e formação de redes decorrentes das ações em resposta ao assassinato de George Floyd pela polícia em 2020, que ocorreu em Mineápolis e gerou uma revolta que se espalhou pelo país, foram uma importante base para a mobilização atual, segundo ativistas locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Restrita ao estado de Minnesota, uma paralisação geral acaba tendo um efeito mais simbólico e de demonstração de potência, pois não pressionará economicamente o governo federal. A expectativa de Kieran Knutson, dirigente da seção local de Mineápolis do sindicato de trabalhadores da comunicação, CWA, era de que a paralisação de 23 de janeiro “não será apenas um evento isolado. Deve ser algo impactante, que mostre que estamos falando sério e que nos ensine lições valiosas para a construção do movimento, além de nos dar ideias sobre como dar o próximo passo” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Trump abertamente deixou de enviar suas milícias do ICE para San Franscisco a pedido de dois bilionários de Big Techs, os donos da Nvidia e da Salesforce <strong>[22]</strong>. Nvidia que é uma das três empresas estadunidenses com maior valor de mercado, e agente fundamental do crescimento do PIB dos EUA. Podemos supor que, ainda não comprometidos com uma ideologia supremacista, perceberam que a presença do ICE na região seria ruim para a gestão de RH. Pelo menos uma parte significativa do movimento que se forma contra a política nazista do governo Trump possui clareza de que a pressão econômica é fundamental. Na mesma semana da greve geral em Minnesota, trabalhadores de tecnologia do Vale do Silício criaram um abaixo-assinado clamando para que seus patrões liguem para Trump pedindo que ele retire o ICE das cidades, para que cancelem contratos com o ICE e falem publicamente contra o ICE <strong>[23]</strong>. Em Mineápolis e em outras cidades, a rede de varejo Target, que tem sede em Mineápolis, tem sido alvo de protestos e boicote por deixar que o ICE entre nas suas lojas. Para 1º de maio já está sendo chamada mobilização e paralisação nacional contra o ICE e a política de Trump.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem sabe a greve de 23 de janeiro em Mineápolis posso ter servido de exemplo inicial. Um ensaio inicial de mobilização da classe trabalhadora intervindo diretamente no processo de acumulação de capital e poder. Passo esse necessário para mudar o rumo da história e realmente derrotar o fascismo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://en.wikipedia.org/wiki/Racial_views_of_Donald_Trump" href="https://en.wikipedia.org/wiki/Racial_views_of_Donald_Trump" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2023/12/22/us/politics/trump-blood-comments.html" href="https://www.nytimes.com/2023/12/22/us/politics/trump-blood-comments.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/us-news/2024/oct/18/election-trump-immigration-poll" href="https://www.theguardian.com/us-news/2024/oct/18/election-trump-immigration-poll" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.vox.com/identities/2017/12/15/16781222/trump-racism-economic-anxiety-study" href="https://www.vox.com/identities/2017/12/15/16781222/trump-racism-economic-anxiety-study" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.poder360.com.br/internacional/trump-jamais-e-hitler-leia-o-que-j-d-vance-ja-disse-do-republicano/" href="https://www.poder360.com.br/internacional/trump-jamais-e-hitler-leia-o-que-j-d-vance-ja-disse-do-republicano/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.kenklippenstein.com/p/21-secret-ice-programs-revealed" href="https://www.kenklippenstein.com/p/21-secret-ice-programs-revealed" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/us-news/2025/dec/22/ice-detentions-record-immigration" href="https://www.theguardian.com/us-news/2025/dec/22/ice-detentions-record-immigration" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/us-news/ng-interactive/2026/jan/04/ice-2025-deaths-timeline" href="https://www.theguardian.com/us-news/ng-interactive/2026/jan/04/ice-2025-deaths-timeline" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.sdnewswatch.org/fact-brief-ice-native-americans-detained-minneapolis/" href="https://www.sdnewswatch.org/fact-brief-ice-native-americans-detained-minneapolis/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=CYesjIgCDys" href="https://www.youtube.com/watch?v=CYesjIgCDys" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.kpbs.org/news/border-immigration/2025/09/22/experts-concerned-about-white-nationalist-imagery-in-ice-recruitment-materials" href="https://www.kpbs.org/news/border-immigration/2025/09/22/experts-concerned-about-white-nationalist-imagery-in-ice-recruitment-materials" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>; e <a class="urlextern" title="https://www.throughline.news/p/the-white-supremacist-regime?utm_source=post-email-title&amp;publication_id=9349&amp;post_id=184637464&amp;utm_campaign=email-post-title&amp;isFreemail=false&amp;r=8aroa&amp;triedRedirect=true&amp;utm_medium=email" href="https://www.throughline.news/p/the-white-supremacist-regime?utm_source=post-email-title&amp;publication_id=9349&amp;post_id=184637464&amp;utm_campaign=email-post-title&amp;isFreemail=false&amp;r=8aroa&amp;triedRedirect=true&amp;utm_medium=email" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/us-news/2026/jan/14/trump-administration-white-supremacist-language" href="https://www.theguardian.com/us-news/2026/jan/14/trump-administration-white-supremacist-language" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=sl7vb1-gw5U&amp;pp=ygUVc2VjdWxhciB0YWxrIHBhbGFudGly" href="https://www.youtube.com/watch?v=sl7vb1-gw5U&amp;pp=ygUVc2VjdWxhciB0YWxrIHBhbGFudGly" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.braziliantimes.com/destaque-1/trump-suspende-batidas-do-ice-em-restaurantes-hoteis-e-fazendas/" href="https://www.braziliantimes.com/destaque-1/trump-suspende-batidas-do-ice-em-restaurantes-hoteis-e-fazendas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.haaretz.com/2011-08-26/ty-article/lebensraum-as-a-justification-for-israeli-settlements/0000017f-e6ef-dea7-adff-f7ffc0bd0000" href="https://www.haaretz.com/2011-08-26/ty-article/lebensraum-as-a-justification-for-israeli-settlements/0000017f-e6ef-dea7-adff-f7ffc0bd0000" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=-yKSgM0G1xQ" href="https://www.youtube.com/watch?v=-yKSgM0G1xQ" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=8g1tu-XgdhE" href="https://www.youtube.com/watch?v=8g1tu-XgdhE" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.facebook.com/grant.boulanger/posts/pfbid09Upd66NjhnVC5FndY9KmxnWvoge3QSD8wqgJNPqVa54Q2zdVGx31HhpDyTeuaF1Fl?__cft__%5b0%5d=AZabVXiAUGYYAmXl0fKb9wzVa_jOAF-Kpd0OBHFOaO596lknHOAxzB2CCaPbLmrLZLLDqBlSkEGDAFrffpyJ3OTFcUutDmvxJfv5BW1TK3iUH7QFzJ4W7cN-V1Mf3HIlQ2w&amp;__tn__=%2CO%2CP-R" href="https://www.facebook.com/grant.boulanger/posts/pfbid09Upd66NjhnVC5FndY9KmxnWvoge3QSD8wqgJNPqVa54Q2zdVGx31HhpDyTeuaF1Fl?__cft__%5b0%5d=AZabVXiAUGYYAmXl0fKb9wzVa_jOAF-Kpd0OBHFOaO596lknHOAxzB2CCaPbLmrLZLLDqBlSkEGDAFrffpyJ3OTFcUutDmvxJfv5BW1TK3iUH7QFzJ4W7cN-V1Mf3HIlQ2w&amp;__tn__=%2CO%2CP-R" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=_5afBDwASyE" href="https://www.youtube.com/watch?v=_5afBDwASyE" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://today.yougov.com/politics/articles/53892-after-the-shooting-in-minneapolis-majorities-of-americans-view-ice-unfavorably-and-support-major-changes-to-the-agency" href="https://today.yougov.com/politics/articles/53892-after-the-shooting-in-minneapolis-majorities-of-americans-view-ice-unfavorably-and-support-major-changes-to-the-agency" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://paydayreport.com/over-700-minnesota-businesses-closed-300-solidarity-actions-nationwide/" href="https://paydayreport.com/over-700-minnesota-businesses-closed-300-solidarity-actions-nationwide/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://calmatters.org/justice/2025/10/trump-cancels-san-francisco-immigration-surge/" href="https://calmatters.org/justice/2025/10/trump-cancels-san-francisco-immigration-surge/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.kron4.com/news/technology-ai/silicon-valley-tech-workers-call-on-their-ceos-to-pressure-trump-over-ice/" href="https://www.kron4.com/news/technology-ai/silicon-valley-tech-workers-call-on-their-ceos-to-pressure-trump-over-ice/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
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		<title>A educação da Turning Point USA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Nov 2025 15:04:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Charlie Kirk está vindo ao campus para recrutar em nome de uma organização que é abertamente hostil à universidade. Não há defesa moral para isso. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<blockquote><p>Esclarecimento: o presente artigo foi <a href="https://theaggie.org/2023/03/08/the-education-of-tpusa/" target="_blank" rel="noopener">publicado em 8 de março de 2025</a>, às vésperas de um evento no qual o ativista de extrema-direita Charlie Kirk discursaria na Universidade de Davis, Califórnia. O autor, Joshua Clover, faleceu logo depois, em 26 de abril de 2025 &#8212; antes, portanto, do atentado que matou Kirk no dia 10 de setembro.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Há sete janeiros, Milo Yiannopoulos, um picareta de extrema-direita com uma animosidade especial contra pessoas trans, foi expulso do campus de Davis antes de uma palestra; algumas semanas depois, ele recebeu o mesmo tratamento na UC Berkeley. Entre esses dois eventos, Richard Spencer, um picareta de extrema-direita e admirador de Hitler, levou o soco que fez com que socar nazistas se tornasse uma coisa importante. Mas foi o bloqueio dos <em>campi</em> à sua presença no final daquele ano que o ajudou a afastar-se do palco. É assim que a resistência se parece.</p>
<p style="text-align: justify;">Charlie Kirk é um picareta de extrema-direita que lidera a Turning Point USA [Ponto de Virada], uma organização de admiradores de Hitler com uma animosidade especial contra pessoas trans. Kirk disse recentemente, <a class="urlextern" title="https://twitter.com/ErinInTheMorn/status/1626747081275715585" href="https://twitter.com/ErinInTheMorn/status/1626747081275715585" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">insistindo em relação às pessoas trans</a>, que “alguém deveria ter tomado conta disso como costumávamos lidar com as coisas na década de 1950”. Ele quer dizer linchamento. As restrições da figura proeminente da TPUSA, Candace Owens, <a class="urlextern" title="https://thehill.com/blogs/blog-briefing-room/news/429180-candace-owens-if-hitler-just-wanted-to-make-germany-great-and/" href="https://thehill.com/blogs/blog-briefing-room/news/429180-candace-owens-if-hitler-just-wanted-to-make-germany-great-and/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">com relação ao Führer</a> dizem respeito, vejam só, ao excesso. Ela acha que o genocídio é aceitável dentro das suas próprias fronteiras. A associação da TPUSA com os Proud Boys, um grupo de ódio oficialmente designado de “chauvinistas ocidentais”, é <a class="urlextern" title="https://www.splcenter.org/hatewatch/2018/02/16/turning-point-usas-blooming-romance-alt-right" href="https://www.splcenter.org/hatewatch/2018/02/16/turning-point-usas-blooming-romance-alt-right" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">bem documentada;</a> o grupo foi visto pela última vez no campus de Davis servindo como braço armado da TPUSA, ou seja, jogando spray de pimenta nos estudantes. <a class="urlextern" title="https://twitter.com/Borwin10/status/1633304471240585223?s=20" href="https://twitter.com/Borwin10/status/1633304471240585223?s=20" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Fotografias tiradas esta semana</a> mostram o orador regular do TPUSA, Stephen Davis, posando com os Proud Boys muito orgulhosos que atacaram estudantes naquela noite.</p>
<p style="text-align: justify;">A TPUSA propaga a crença de que as universidades são “<a class="urlextern" title="https://www.washingtonexaminer.com/news/washington-secrets/charlie-kirk-college-is-a-scam" href="https://www.washingtonexaminer.com/news/washington-secrets/charlie-kirk-college-is-a-scam" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">uma fraude</a>” dedicadas à doutrinação dos estudantes. Eles <a class="urlextern" title="https://www.professorwatchlist.org/" href="https://www.professorwatchlist.org/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">despendem um esforço considerável</a> marcando professores com cuja política eles não concordam, ameaçando-os com perda de emprego e violência mais direta (com uma<a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/education/2021/sep/17/turning-point-usa-professor-watchlist" href="https://www.theguardian.com/education/2021/sep/17/turning-point-usa-professor-watchlist" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> especial atenção para os professores não-brancos</a>). Ou seja, são profundamente hostis à educação.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns dias antes do início da primavera, Charlie Kirk está escalado para falar aqui em Davis, a convite da filial da TPUSA da própria universidade. Gary May [reitor da UC Davis], <a class="urlextern" title="https://www.ucdavis.edu/news/chancellor-may-on-freedom-of-expression-video-and-transcript" href="https://www.ucdavis.edu/news/chancellor-may-on-freedom-of-expression-video-and-transcript" rel="ugc nofollow">torcendo as mãos com tanta força</a> que provavelmente vai quebrar o pulso, afirma que a universidade, uma instituição estadual, é obrigada a receber qualquer palestrante convidado por um grupo do <em>campus</em>. Liberdade de expressão, Primeira Emenda, mercado de ideias, você conhece o discurso.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal argumento não é especialmente convincente: pessoas admiráveis desafiaram todos os tipos de leis antiéticas em busca da libertação, de Rosa Parks à Atlanta Forest. Gostamos de nomear feriados em sua homenagem. Uma pessoa honrada, uma pessoa humana, uma pessoa que se preocupa com o bem-estar da comunidade, não se esconderia atrás de leis eticamente repugnantes. Será que devemos realmente imaginar que Gary May, por exemplo, liberaria um evento de recrutamento liderado por alguém reivindicando limpeza étnica ou violência abertamente eugenista? Certamente ele não o faria. E se o fez, deveria ser afastado da sua posição.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas vamos seguir com o experimento mental. Suponhamos um orador tão virulento defensor da supremacia branca que defendesse a posição política do atirador do supermercado de Buffalo; do atirador da Igreja Emanuel AME de Charleston; do atirador da Mesquita de Christchurch; ou do fabricante de bombas e atirador dinamarquês que matou 77 e cujo manifesto demandava a deportação de todos os muçulmanos da Europa. Todos assassinos em massa. E, como muitos <a class="urlextern" title="https://www.bostonreview.net/articles/white-supremacists-arent-lone-wolves/" href="https://www.bostonreview.net/articles/white-supremacists-arent-lone-wolves/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">estudiosos da extrema-direita destacaram</a>, estes números não são evidentemente uma coincidência, uma série incessante de lobos solitários. Eles compartilham um projeto vinculado e mortal seguindo o mesmo roteiro. Cada um desses e muitos outros foram postos em movimento por sua própria versão da “Teoria da Grande Substituição”. Esta é a ilusão perversa que atua como princípio de coordenação do nacionalismo branco assassino: que a raça branca está sob ameaça demográfica como parte de alguma conspiração global e que os brancos devem armar-se para lutar contra as imaginárias hordas sombrias que colidem com as fronteiras da nação.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez você esteja pensando: “Mas é apenas Charlie Kirk em sua camisa de botão! Ele não é um nacionalista branco! Ele diz que nem sequer sabe o que é a Teoria da Grande Substituição!” Hmmm. Aqui ele está em seu próprio podcast há um ano, alegando que os EUA estão enfrentando uma “invasão”, e que devemos armar uma milícia cidadã, “colocá-los na fronteira, e acabar com isso”. Ele insiste que existe uma grande conspiração com o objetivo de “diminuir e reduzir a população branca nos Estados Unidos. Vamos dizer isso em voz alta”.</p>
<p style="text-align: justify;">A alegação é&#8230; evidente. É isso que Charlie Kirk é: o <a class="urlextern" title="https://www.mediamatters.org/charlie-kirk/frequent-fox-guest-charlie-kirk-praises-and-endorses-tucker-carlsons-replacement" href="https://www.mediamatters.org/charlie-kirk/frequent-fox-guest-charlie-kirk-praises-and-endorses-tucker-carlsons-replacement" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Amigo da Grande Substituição</a>. E ainda assim, Gary May segue sua narrativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão é que essa narrativa é falsa. Perguntei a um amigo da Faculdade de Direito de Harvard se havia alguma jurisprudência estabelecida sobre esse assunto. Ele me indicou uma troca de ideias entre os eminentes juristas Erwin Chemerinsky e Robert Post. O primeiro, um professor de Berkeley, sustenta que <a class="urlextern" title="https://www.vox.com/the-big-idea/2017/10/25/16524832/campus-free-speech-first-amendment-protest" href="https://www.vox.com/the-big-idea/2017/10/25/16524832/campus-free-speech-first-amendment-protest" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">o discurso de ódio é protegido</a> pela Primeira Emenda: não se pode, por conseguinte, impedir que oradores com discursos de ódio falem numa universidade pública. Pode ser que sim.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo, um ilustre professor de direito em Yale, pensa exatamente o contrário. De olho exatamente na situação que temos diante de nós, ele escreve sobre as universidades que “a menos que estejam desperdiçando seus recursos em brincadeiras e desvios, elas só podem apoiar palestrantes convidados por estudantes quando isso serve aos propósitos da universidade. E esses fins devem envolver o propósito da educação.” Charlie Kirk é uma brincadeira e um desvio, minha nova expressão favorita para idiotas fascistinhas. A posição de Post é clara: “<a class="urlextern" title="https://www.vox.com/the-big-idea/2017/10/25/16526442/first-amendment-college-campuses-milo-spencer-protests" href="https://www.vox.com/the-big-idea/2017/10/25/16526442/first-amendment-college-campuses-milo-spencer-protests" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Não existe o direito segundo a Primeira Emenda de falar num campus universitário</a>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais uma vez, talvez sim. Não sou jurista. Mas essas pessoas são. Especialistas, inclusive, em relação a essa questão específica do Direito Constitucional. E a questão é: discordam. É uma questão controversa. Não existe uma lei estabelecida que determine o que tem de acontecer a seguir. Gary May fingir que existe, e que ele está agindo por alguma imposição legal, em vez de fazer uma escolha específica que ele poderia fazer de outra forma, constitui um ato de pura desonestidade. Autorizar Charlie Kirk não é uma obrigação; Gary May está expressando sua preferência por meio de seus atos, independentemente do que ele ou sua assessoria de imprensa digam.</p>
<p style="text-align: justify;">O Amigo da Grande Substituição está vindo aqui em 14 de março, para recrutar em nome de uma organização que, em sua forma atual, é abertamente hostil à educação e <a class="urlextern" title="https://www.professorwatchlist.org/school/universityofcaliforniadavis" href="https://www.professorwatchlist.org/school/universityofcaliforniadavis" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">hostil especificamente à educação dada na UC Davis</a>. Não há defesa moral para isso. E a exigência legal&#8230; não existe. Vale a pena recordar que confrontar Yiannopoulos e Spencer iria, como foi amplamente dito na época, lhes fazer um favor, concedendo-lhes publicidade gratuita, cliques gratuitos. Sabemos agora que a decisão ética e intransigente de os expulsar do <em>campus</em> foi, em vez disso, parte de uma sequência que efetivamente encerrou as carreiras políticas de ambos. A história é educativa nesse sentido. Afinal, esta é uma universidade. Talvez seja a hora de dar uma lição em Charlie Kirk.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Joshua Clover (1962-2025) era professor de Inglês e Literatura Comparada na UC Davis.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido por Marco Túlio Vieira</em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>A fotografia em destaque é de um <a href="https://theaggie.org/2019/04/08/protest-in-favor-of-dismissing-professor-joshua-clover-held/" target="_blank" rel="noopener">protesto convocado por ativistas de direita</a> exigindo a demissão de Joshua Clover da UC Davis</em></p>
</blockquote>
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		<title>Um manifesto incómodo. 7</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Oct 2025 06:55:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A extrema-esquerda marxista perdeu qualquer capacidade mobilizadora. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>7</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Chegou o momento de juntar os fios da meada.</p>
<p style="text-align: justify;">O esgotamento das movimentações autonomistas que marcaram a década de 1960 e a primeira metade da década seguinte e a subsequente generalização de um fascismo pós-fascista pressupõem uma grande transformação interna sofrida pela classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem fala de <em>trabalhadores</em> refere-se a quê? Aos operários de uma fábrica em greve ou a um grupo de entregadores de <em>pizzas</em> que pretende alterar os termos de um contrato ou às pessoas que enchem um meio de transporte quando vão para o emprego ou a uma categoria nas estatísticas? É necessário esclarecer sempre a diferença, porque a estrutura sociológica da classe trabalhadora não pode deduzir-se simplesmente da forma económica de extorsão da mais-valia. A mais-valia resulta de um sistema de controle social que assegura que o tempo de trabalho que os trabalhadores são capazes de despender no processo de produção seja superior ao tempo de trabalho incorporado nos meios de subsistência consumidos pela força de trabalho. Esta fórmula genérica e abstracta prevalece hoje como prevalecia no início do capitalismo e há-de prevalecer enquanto o capitalismo durar, mas os modos práticos da sua realização efectiva foram-se alterando. Por isso é impossível passar da simples definição económica da classe para caracterizações sociológicas específicas sem que consideremos previamente a heterogeneidade do funcionamento interno da economia.</p>
<p style="text-align: justify;">A proliferação de conflitos particulares não corresponde a um conflito generalizado. Para isso seria necessário que os conflitos particulares convergissem, e neste processo alterariam o seu carácter. Assim, a economia dos conflitos sociais só raramente tem sido uma economia dos processos revolucionários. Por um lado, é certo que a escassez destes casos em nada lhes retira a importância, porque as relações sociais geradas e desenvolvidas nas lutas que envolvem a acção de massas trabalhadoras pelo controle directo dos meios de produção e pela reorganização das relações de trabalho permite antecipar o que poderá ser uma sociedade socialista e a forma como nela se articularão as técnicas disponíveis para fundar uma nova tecnologia. É aí que se averigua um futuro. Por outro lado, porém, não são os processos revolucionários de massas que pautam o quotidiano do capitalismo, e no longo dia-a-dia a economia dos conflitos sociais é a economia da recuperação capitalista dos conflitos particularizados, ou seja, a banal progressão da mais-valia relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a mais-valia absoluta corresponde a uma forma rudimentar de aumento da exploração, que consiste em prolongar as horas de trabalho e diminuir a quantidade de bens a que os trabalhadores têm acesso, a mais-valia relativa resulta de uma dupla operação que em termos lineares pareceria impossível — trabalhar mais dentro dos limites do mesmo horário ou até num horário reduzido e, eventualmente mediante um pequeno acréscimo da remuneração, ter acesso a um acréscimo muito superior de bens de consumo. É na solução deste mistério que o capitalismo assenta todo o seu progresso, e a resposta torna-se simples se recordarmos que a mais-valia não resulta da disparidade entre somas de gestos de trabalho particulares e de bens de consumo concretos, mas entre os tempos de trabalho pressupostos naqueles gestos e os incorporados nos bens consumidos. Não se trata de coisas, mas do tempo, entendido como um processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Contrariamente aos sistemas económicos que o precederam e que ainda hoje possam subsistir residualmente, o importante no capitalismo é o tempo e só o tempo. Assim, dentro da mesma jornada, tal como é marcada pelos relógios, pode aumentar a intensidade do trabalho, ou seja, o ritmo dos gestos executados pelos trabalhadores, e pode aumentar a qualificação dos trabalhadores, quer dizer, a sua capacidade de se encarregar de novas técnicas, novas produções e novos serviços com maior impacto sobre a restante economia. O aumento das qualificações tem o efeito de, por assim dizer, aprofundar o tempo, fazer com que cada hora de um trabalho mais complexo produza mais valor do que uma hora de um trabalho simples. Por outro lado, e em resultado da generalização do processo que acabei de descrever, cada um dos bens consumidos pelos trabalhadores pode ser produzido de maneira a incorporar menos tempo de trabalho e, portanto, representar um menor valor. A mais-valia relativa resulta da articulação destes dois factores, prolongando por um lado o tempo de trabalho que os trabalhadores são capazes de despender no mesmo horário ou num horário mais curto, e reduzindo por outro lado o tempo de trabalho representado pela soma dos bens que os trabalhadores podem consumir. Deste modo aumenta na realidade económica o desfasamento (defasagem) que constitui o cerne da mais-valia, enquanto na ilusão superficial parece que se trabalha menos e se ganha mais. É assim que o capitalismo recupera a miríade de conflitos sociais e por isso pode aceitar formalmente as reivindicações e, no mesmo gesto, convertê-las na realidade em aumento da exploração.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, se o capitalismo recupera os conflitos sociais mediante o desenvolvimento da mais-valia relativa, invertendo a definição devo afirmar que sem a pressão permanente dos conflitos o capitalismo não progrediria. Em vez de ameaçarem a estabilidade do capitalismo, os conflitos dispersos e particularizados são a própria condição da sua existência. Afinal, a dinâmica do capitalismo consiste na superação de formas de mais-valia absoluta, convertendo-as em mais-valia relativa, e na passagem para formas de mais-valia relativa sempre mais elaboradas. Os grandes ciclos de lutas marcam os ciclos sucessivos de mais-valia relativa, e o aumento da produtividade é o mecanismo desta dinâmica.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a dinâmica não é homogénea. O desenvolvimento desigual e combinado, que Trotsky formulou como lei económica, fornece-nos o quadro geral em que a mais-valia relativa é aplicada, consoante a ocorrência dos conflitos sociais e a disparidade de respostas dos capitalistas. É mais fácil desenvolver a produtividade em certas empresas, dependendo das infra-estruturas disponíveis, do acesso à educação e de muitos outros factores, o que leva a mais-valia relativa a progredir de maneira irregular e obedecendo a ritmos desiguais. A heterogeneidade é maior ainda, porque muitos trabalhadores não alcançam os novos patamares de qualificação e perdem o estatuto que possuíam ou são mesmo lançados no desemprego. Torna-se indispensável recorrer aqui à noção de destruição criativa, divulgada por Joseph Schumpeter, porque não só numerosas empresas e conjuntos de trabalhadores não conseguem gerar formas de mais-valia relativa, como outras empresas e outros trabalhadores, que laboravam em condições de mais-valia relativa, são incapazes de acompanhar o progresso e vêem-se remetidos para o que devemos considerar como novas modalidades de mais-valia absoluta. Em conclusão, o carácter criativo das empresas inovadoras implica a destruição do estatuto de outras.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta heterogeneidade do sistema económico tem efeitos directos e generalizados sobre a classe trabalhadora. Antes de mais, é crescente a divergência entre os trabalhadores qualificados formados no processo de desenvolvimento da mais-valia relativa e os restantes trabalhadores, tanto os não qualificados que desde início laboravam em sistemas de mais-valia absoluta, como os desqualificados remetidos para formas de mais-valia absoluta em resultado de uma degradação que sofreram nos ciclos de mais-valia relativa. Não se trata só da discrepância de estatutos, com tudo o que isto implica, mas igualmente do desemprego. E como uma sólida educação de base é cada vez mais indispensável para atingir sucessivos limiares de qualificação, a diferença entre qualificados e não qualificados reproduz-se e agrava-se nas gerações seguintes, ameaçando perpetuar-se. Em conclusão, o carácter heterogéneo da dinâmica económica suscita uma heterogeneidade sociológica crescente entre os trabalhadores. Mais do que nunca, é impossível passar por mera dedução da área económica para a sociológica.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas as consequências são mais vastas. A electrónica e, agora, a Inteligência Artificial apressaram os ciclos de mais-valia relativa e abriram aos mecanismos de exploração da força de trabalho horizontes de que não conseguimos vislumbrar os limites. O capitalismo entrou numa colossal fase de expansão e, ao mesmo tempo que se aceleraram os processos de desqualificação, agravou-se a cisão entre os trabalhadores qualificados e os não qualificados. Neste quadro económico tende a aumentar a diversidade social dos trabalhadores e, portanto, tende a exacerbar-se a sua heterogeneidade política. Os trabalhadores, que no plano económico são uma classe, deixaram de aparecer como uma classe no plano social. A situação deteriora-se com a substituição das relações pessoais por relações virtuais e com a tendência à constituição de grupos virtuais fechados, o que mais ainda pressiona os trabalhadores a não se comportarem como uma classe no sentido social do termo.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, ocorre hoje uma multiplicidade de lutas particulares, incapazes de convergir. E os sindicatos, que durante muito tempo, e apesar da sua burocratização, pelo menos forneciam aos trabalhadores um quadro social unificado, resumem-se agora a grandes investidores de fundos financeiros. Do mesmo modo, o que resta das antigas experiências de autogestão e dos antigos movimentos sociais transformou-se em empresas capitalistas, que mantêm o nome só como chamariz publicitário.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157200 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-12.jpg" alt="" width="600" height="399" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-12.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-12-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />É este o contexto em que na Europa, nos Estados Unidos, em África e agora também no Japão os trabalhadores menos qualificados, sobretudo os jovens, desde sempre considerados pelos marxistas como a base social inerente da esquerda, passaram na maior parte dos casos a organizar a sua contestação no quadro da extrema-direita, laica ou religiosa, e do fascismo. O paradoxo é mais gritante ainda, porque enquanto a denominada extrema-esquerda não faz outra coisa senão invocar o recurso ao poder de Estado, são os fascistas que hoje se apresentam como contestatários. Pode argumentar-se que nas economias desenvolvidas a população nativa menos qualificada vota nos fascistas e na extrema-direita porque defende medidas contra os imigrantes, que aceitam salários baixos e, portanto, concorrem no mercado de trabalho. Mas por que motivo, então, os movimentos de massa contra as elites económico-políticas corruptas e repressivas, que têm atingido grandes proporções em vários países africanos, seguem organizações da extrema-direita evangélica ou pior ainda? E por que motivo as lutas contra as elites nas sociedades islâmicas sunnis, onde o marxismo tivera uma grande vitalidade, passaram a ser exclusivamente conduzidas por facções religiosas fundamentalistas ainda mais fanáticas e misóginas? Quem não quiser iludir-se terá de reconhecer que a extrema-esquerda marxista perdeu qualquer capacidade mobilizadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Perante esta situação, os marxistas actuais substituíram a análise crítica das novas realidades sociais pela metafísica, e difundiu-se o que eu tenho classificado como marxismo pré-galilaico. Assim como na época de Galileo havia quem não quisesse espreitar pelo telescópio para não constatar a existência dos satélites de Júpiter, também esses marxistas não olham para as estatísticas sempre que elas são incómodas. Já sabem as respostas antes de conhecerem as perguntas, e deste modo a visão crítica inovadora foi substituída por deduções a partir de textos escritos pelo pai fundador ou por qualquer dos santos da meia dúzia de capelas consagradas. Quando os argumentos factuais se tornam incapazes de persuadir, temos uma religião. Os marxistas caíram na pior das escolásticas, manipulando termos abstractos que eles julgam que são conceitos, quando na verdade são abstractos pelo motivo simples de lhes faltar conteúdo prático. Pelo menos, a esquerda chamada reformista ou social-democrata tem uma percepção da mais-valia relativa e entende que, tal como há pouco sublinhei, os conflitos dispersos, em vez de ameaçarem o capitalismo, são a própria condição da sua existência. Mas a extrema-esquerda marxista concebe apenas os sistemas de extorsão de mais-valia absoluta e, por isso, fica alvoroçada com a eclosão de qualquer conflito social e é incapaz de entender as potencialidades de adaptação do capitalismo e as suas reconfigurações. Escapa-lhes todo o mundo moderno e, pior ainda, o mundo futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das consequências mais funestas e lamentáveis desta incapacidade são os equívocos que envolvem a tão falada queda da taxa de lucro. A extrema-esquerda marxista confunde aqui uma lei tendencial com uma lei efectiva. Uma lei tendencial define o que devemos fazer para não sermos vítimas dela. É uma lei negativa, determinando as condições necessárias para que essa lei não vigore. Portanto, o efeito da lei da baixa tendencial da taxa de lucro não é o de fazer baixar o lucro mas, pelo contrário, o de pressionar os capitalistas a aumentarem a produtividade, de modo que os lucros cresçam, em vez de baixarem. Por isso a mais-valia relativa, com tudo o que implica, tanto no aspecto social como no técnico, define o eixo do progresso económico. Em suma, baixa tendencial da taxa de lucro e desenvolvimento da mais-valia relativa são dois aspectos da mesma realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando os marxistas actuais, persistindo nessas confusões, afirmam que o capitalismo padece de uma crise estrutural estão, afinal, a pretender que o capitalismo se destruirá a si mesmo. Que colossal paradoxo! Na ausência de uma revolução proletária mundial, que não ocorreu nem há previsões de que ocorra nos próximos anos, estes marxistas chegaram a uma conclusão que, para ser válida, tem de presumir a inutilidade política da classe trabalhadora. Se outrora Marx encarregara os trabalhadores da tarefa histórica de destruir o capital, agora os discípulos pretendem atribuir ao próprio capital essa função. Desprovida de uma base social própria, que transitou para outros quadrantes políticos, a extrema-esquerda marxista aguarda o apocalipse. Por isso confunde as permanentes crises sectoriais e localizadas, resultantes do desenvolvimento desigual e combinado e do processo de destruição criativa, com a crise sistémica que ela inventou e sem a qual perderia a fé e a esperança.</p>
<p style="text-align: justify;">O fracasso dos marxistas contemporâneos não poderia ser maior. Neste deserto, a adopção da ecologia pelos marxistas ou, talvez mais exactamente, a absorção dos marxistas pela ecologia é um indício trágico do seu esgotamento ideológico e político, pretendendo encontrar um novo fôlego naquela criação do fascismo. Outro sintoma é a adopção dos identitarismos, e quando os marxistas actuais não escamoteiam os trabalhadores na interminável série de identidades, consideram-nos uma identidade suplementar para acrescentar às outras. Eu ia escrever que é tão absurdo proclamar-se eco-marxista ou falar de marxismo <em>queer</em> como seria proclamar-se racista-marxista, mas parei a tempo porque me lembrei de Karl Pearson.</p>
<p style="text-align: justify;">A absorção dos marxistas pelos identitarismos e pela ecologia, que não ocorre só num ou em dois países, mas se generalizou a todo o mundo e passou a caracterizar todas as correntes marxistas contemporâneas, marca a sua crise terminal.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise terminal destes marxistas, não do marxismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157142/" target="_blank" rel="noopener"><strong>segunda parte</strong></a> vimos como a luta internacional do proletariado desarticulou as nações e o que sucedeu depois. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157145/" target="_blank" rel="noopener"><strong>terceira parte</strong></a> vimos como a guerra mundial de 1939-1945 fundou a consolidação geopolítica das «nações proletárias». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157148/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quarta parte</strong></a> vimos uma nova vaga de internacionalização das lutas e quais os seus resultados. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157151/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quinta parte</strong></a> vimos como a ecologia dinamiza duplamente o processo gerador do fascismo. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157154/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sexta parte</strong></a> vimos como os identitarismos transportaram o fascismo clássico para um contexto geopolítico transnacional.</p>
<p style="text-align: left;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157202" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-200x300.jpg" alt="" width="100" height="150" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-682x1024.jpg 682w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-768x1152.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-280x420.jpg 280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-640x960.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c-681x1022.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-c.jpg 851w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem obras de Bridget Riley (1931-       )</em>.</p>
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		<title>[São Paulo] Ato &#8211; 91 anos da Batalha da Praça da Sé</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Oct 2025 12:47:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Centro de Estudos Mário Pedrosa (Cemap) promove ato comemorativo em 7 de outubro, no auditório da Unesp, na praça da Sé. Por Centro de Estudos Mário Pedrosa (Cemap)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Centro de Estudos Mário Pedrosa (Cemap)</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>91 anos da expulsão dos fascistas da Praça da Sé</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Centro de Estudos do Movimento Operário Mário Pedrosa promove um ato, em 7 de outubro próximo, para rememorar os 91 anos da expulsão dos fascistas da Praça da Sé. O evento acontece no auditório da Unesp, na própria praça.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 7 de outubro de 1934, o partido fascista Ação Integralista Brasileira (AIB) convocou uma manifestação na Praça da Sé para marcar seu segundo ano de existência. Um ano e meio após a ascensão ao poder de Adolf Hitler, na Alemanha, o fascismo buscava sua afirmação no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">A <strong>Frente Única Antifascista</strong>, formada em 1933, com a união de organizações democráticas, sindicais, políticas e de imigrantes, convocou uma contramanifestação para o mesmo local. O enfrentamento ficou conhecido como “Batalha da Praça da Sé”, e colocou em fuga os integralistas, que abandonaram suas características camisas verdes pelas ruas do centro para escaparem despercebidos. Por isso, o episódio também é conhecido como “Revoada dos Galinhas Verdes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Estima-se que o confronto tenha terminado com cerca de 30 feridos e sete mortos, entre eles, o estudante comunista Décio Pinto de Oliveira, que morreu nos braços do trotsquista Mário Pedrosa, também ferido.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de sua importância histórica, por marcar uma barragem na trajetória do fascismo pela ação direta do movimento operário e popular, o episódio é pouco presente na memória nacional. Com o ato neste 7 de outubro de 2025, o Cemap cumpre seu papel ao trazer o debate sobre a Frente Única Antifascista dos anos 1930 e a relevância dessa experiência para o atual cenário político brasileiro. Será um momento para lembrar também dos atores da Frente Única Antifascista, como a Liga Comunista Internacionalista (LCI), de orientação trotsquista, os sindicatos do período, as organizações anarquistas e dos imigrantes europeus, bem como o Partido Comunista do Brasil (PCB), que aderiu às vésperas da manifestação na Praça da Sé.</p>
<p style="text-align: justify;">Na mesa da atividade, estão previstas as participações do jornalista e pesquisador Vladimir Sachetta, da socióloga Bárbara Corrales (presidente do Cemap), do historiador Dainis Karepovs, do vereador paulistano Helio Rodrigues (PT), da socióloga Lucia Pinheiro, do professor Tiago Maciel e de Henrique Ollitta, da corrente O Trabalho do PT (seção brasileira da 4ª Internacional).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sobre o Cemap</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O Centro de Estudos do Movimento Operário Mário Pedrosa foi criado em 1981, a partir das coleções particulares de militantes históricos da esquerda brasileira, como Fúlvio Abramo, Mário Pedrosa e Plínio Melo, entre outros. Voltado à guarda e difusão dos registros documentais da história do movimento operário brasileiro, preserva um amplo e singular acervo, sob a guarda do Centro de Documentação e Memória da Unesp (Cedem), com consulta aberta ao público.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Ato Comemorativo &#8211; 91 anos da Batalha da Praça da Sé</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Onde: Auditório da Editora Unesp &#8211; Praça da Sé, 108, 7º andar</p>
<p style="text-align: justify;">Quando: terça-feira, 7 de outubro de 2025, às 19h</p>
<p style="text-align: justify;">Contatos: Lilian Carmona (11) 97100-4811; Simone de Marco (11) 99913-5052; Thiago Annunziato (11) 95629-0661</p>
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		<title>Um manifesto incómodo. 6</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Sep 2025 07:13:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Cada identitarismo é um Israel em potência. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>6</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para o marxismo, a função histórica atribuída à classe trabalhadora não seria apenas derrotar os capitalistas e acabar com o capitalismo, mas, nesse mesmo gesto, pôr termo à sua própria existência como classe trabalhadora e instaurar uma sociedade sem classes. O objectivo final da revolução seria a fundação de uma humanidade. Esta missão foi retomada, com nova força e mais lirismo, pelo movimento autonomista internacional desenvolvido ao longo da década de 1960 e na primeira metade da década seguinte. Ora, quando esse movimento revolucionário se desagregou, desapareceu com ele a noção de uma humanidade susceptível de obedecer a uma mesma História e regida pelos mesmos modelos gerais ou, pior ainda, extinguiu-se a aspiração a fundar uma humanidade. Ficou assim liquidada a possibilidade de desenvolver uma História comparada, mas isto, ou se é um historiador, ou seriam necessárias cem páginas para explicar.</p>
<p style="text-align: justify;">O fraccionamento tornou-se o único horizonte possível, e foi neste contexto que surgiram os identitarismos, porque numa economia e numa sociedade transnacionalizadas já não são suficientes as velhas divisões nacionais. Gosto de citar um texto de Paul Valéry. «A História é o produto mais perigoso que a química do cérebro elaborou. As suas propriedades são bem conhecidas. Faz sonhar, embriaga os povos, gera-lhes falsas memórias, exagera-lhes os reflexos, nutre-lhes as velhas mágoas, atormenta-os no repouso, condu-los ao delírio das grandezas ou ao da perseguição e torna as nações amargas, arrogantes, insuportáveis e vaidosas». Valéry afirmou isto em 1931, quando os nacionalismos chegavam ao auge e em poucos anos iriam precipitar uma guerra mundial. Mas as palavras que o escritor empregou para caracterizar os nacionalismos podem ser aplicadas, sem nenhuma mudança ou adaptação, aos identitarismos dos nossos dias, e isto confere-lhes uma dupla lucidez, porque servem também para mostrar que, apesar da transnacionalização, os novos identitarismos são tão perversos como os velhos nacionalismos.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o disse a propósito do terceiro mundo e da ecologia e repito-o agora, os antifascistas lucrariam bastante se lessem os livros e artigos e discursos escritos por fascistas. Muitos desses antifascistas, se não a maior parte, poderiam descobrir que são fascistas, quando gostariam de não o ser. E todos nós beneficiaríamos, porque a situação ficava menos confusa.</p>
<p style="text-align: justify;">A característica mais flagrante dos identitarismos é o recurso a uma forma de racismo específica do nacional-socialismo germânico — a circulação entre biologia e ideologia e inversamente. Um dos sentidos do percurso é, sem dúvida, comum a todos os tipos de racismo. Admitir que a biologia, entendida como raças, gere padrões específicos de ideologia é uma crença corrente pelo menos desde Herder e o romantismo, com a noção de <em>Volksgeist</em>, o espírito de um povo, e com a persistente confusão entre comunidade linguística e comunidade racial. Numa forma banalizada inspira o racismo corrente, que classifica umas raças como estúpidas ou perversas e outras como inteligentes ou honestas. Assim, o que destacou o tipo de racismo assumido pelo nacional-socialismo germânico e lhe deu originalidade foi o sentido inverso do percurso, da ideologia para a biologia.</p>
<p style="text-align: justify;">É necessário introduzir aqui um personagem. Nascido na Inglaterra, Houston Stewart Chamberlain adoptara a cultura germânica, tornara-se um influente amigo do imperador e, casando-se com a filha de Wagner, neta de Liszt, passara a encabeçar a principal dinastia da cultura alemã. Durante a primeira guerra mundial Chamberlain renunciou à cidadania britânica e adoptou escandalosamente a nacionalidade alemã. Alfred Rosenberg, o mais importante ideólogo e místico do Terceiro Reich, incluiu Chamberlain entre os quatro únicos precursores intelectuais do nacional-socialismo e, com efeito, ele exerceu uma grande influência sobre Hitler, não só ideológica, mas pessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, por um lado Chamberlain considerava que «a configuração da cabeça e a estrutura do cérebro exercem sobre a configuração e a estrutura dos pensamentos uma influência perfeitamente decisiva». Porém, depois de admitir que, «relativamente à raça», as ideias «são sem dúvida uma <em>consequência</em>», Chamberlain preveniu. «Mas tenhamos o cuidado de não subestimar o contributo desta anatomia interior e invisível — desta dolicocefalia ou desta braquicefalia puramente espirituais — que age como <em>causa</em> e tem um âmbito de acção muitíssimo vasto». Afinal, «aquilo que designamos pela palavra “raça” é, dentro de certos limites, um fenómeno plástico, e assim como o físico reage sobre o intelectual, o intelectual reage do mesmo modo sobre o físico». Portanto, concluiu Chamberlain, «nada nos impediria de afirmar algo aparentemente paradoxal, que os homens baixos deste grupo [os germanos] são grandes porque pertencem a uma raça de pessoas altas, e pelo mesmo motivo os seus braquicéfalos têm crânios alongados. Observando com mais atenção, depressa distinguireis, tanto no seu aspecto físico como no seu ser íntimo, os traços característicos do Germano».</p>
<p style="text-align: justify;">Na sequência destas lições, Rudolf Steiner — esse mesmo, o criador da antroposofia e inventor da agricultura biodinâmica, depois crismada de orgânica — afirmou que se uma mulher branca lesse durante a gravidez romances escritos por autores negros, a criança sairia mestiça. Compreende-se assim que ainda no primeiro ano da sua ditadura Hitler, a propósito dos nórdicos, tivesse podido evocar «aqueles que pertencem em espírito a uma certa raça» e muito mais tarde, nos derradeiros dias do seu Reich, Hitler ainda insistia. «Falamos de raça judaica por comodidade de linguagem, porque, para falar com exactidão e sob o ponto de vista genético, não existe uma raça judaica. […] A raça judaica é antes de mais uma raça mental. […] Uma raça mental é algo mais sólido e duradouro do que uma simples raça». Esta nunca deixou de ser a doutrina oficial, e já o geneticista Fritz Lenz, um dos mais influentes cientistas raciais do Terceiro Reich, considerara que «poderíamos, na verdade, classificar os judeus como uma raça espiritual». Em suma, a complementaridade entre a passagem do biológico ao ideológico e a construção, a partir da ideologia, de uma outra biologia espiritual caracterizaram o racismo nacional-socialista.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isto pode parecer-nos delirante, e sem dúvida que o é, mas não é menor a alucinação daqueles identitários representados pela longa série ilimitada de letras, quando estabelecem uma clivagem entre o sexo, entendido como biológico, e o género, supostamente resultante de opções ideológicas. Existem decerto muitas pessoas cuja opção de género difere do sexo e que, no entanto, não pretendem por isso alterar mentalmente a sua biologia. São, porém, cada vez mais frequentes os identitários que admitindo, por um lado, a noção corrente de que um dado sexo defina uma dada orientação sexual, ao mesmo tempo, e em sentido inverso, sustentam que uma dada propensão sexual possa redefinir o sexo, ou seja, que uma opção no plano da ideologia altere a biologia. Esta noção, que se afigura tão extravagante quando a vemos defendida pelos nacionais-socialistas, tornou-se hoje comum e oficiosa, se não mesmo oficial, ao ser proclamada pelos identitários.</p>
<p style="text-align: justify;">As culturas são feitas de estereótipos e os estilos também, pois onde estaríamos nós se a cada passo tivéssemos de inventar tudo de novo! Na circularidade suposta pelo racismo nacional-socialista e aceite pelos identitarismos de género, as deduções dos géneros a partir dos sexos são indispensáveis para escolher a máscara que se pretende usar no percurso inverso. Assim, os <em>clichés</em> masculinos ou femininos compõem o disfarce a que um género recorre se quiser adoptar o sexo oposto, e a farsa pode chegar mais longe e usar a cirurgia plástica para alterar a aparência exterior do próprio corpo. E como hoje nada resiste à indústria cultural, o botox é a banalização do trans. Mas tudo pára nesse plano das aparências, porque a biologia íntima permanece a mesma e só idealmente é assumida como outra. Deste modo as próstatas e os ovários espirituais emparceiram com os crânios braquicéfalos e dolicocéfalos espirituais num absurdo museu de anatomia ideológica.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa insensata circularidade não se circunscreve às acrobacias entre género e sexo, porque nos movimentos negros não faltam insultos para designar a pessoa negra que escolher a companhia sentimental de uma pessoa branca, considerando-a negra por fora mas branca por dentro. E assim uma preferência sexual assumida no plano da ideologia provocaria uma perda de melanina, com a consequente nova biologia espiritual. Sem esquecer que esta alquimia biológica tem consequências muito palpáveis, como demonstra o ostracismo de que essas pessoas são vítimas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, tanto na versão nacional-socialista como na versão identitária, a circularidade entre a biologia e a ideologia e inversamente exige um padrão de comparação, que é sempre um objecto de repulsa. Se num sentido a ideologia é deduzida da biologia, no outro sentido supõe-se a intervenção de uma escolha ideológica para definir uma nova biologia espiritual, e esta escolha assume-se como recusa de um dado padrão. Mesmo as identidades que não resultem da pretensa clivagem entre sexo e género, como o feminismo ou as identidades étnicas, apresentadas como raciais, implicam a existência de um objecto de repulsa. Se adicionarmos os objectos de repulsa de todas as identidades, ou melhor, se os fundirmos, personificamos o resultado num só personagem — caracterizado pelo lugar de nascimento, pelo sexo e pelo tipo de propensão sexual, e pela cor da pele. Se para os nacionais-socialistas a aversão incidia nos judeus, classificados como anti-raça, por analogia posso designar como anti-identidade o objecto de repulsa dos identitários. Não é difícil adivinhar. A anti-identidade global, que funde todas as anti-identidades particulares, é hoje o homem branco, europeu e heterossexual.</p>
<p style="text-align: justify;">De imediato, a existência de uma anti-identidade serve de justificação para todas as identidades em conjunto. Perante a crítica de que a proliferação de identidades — tanto mais perturbante quanto a lista apresenta um sinal + no fim provisório — impede a aspiração a fundar uma humanidade, é imediata a resposta de que essa seria uma noção eurocêntrica, com as conotações negativas que lhe estão associadas. Se as lutas dos trabalhadores pela superação do capitalismo começaram na Europa, o único lugar onde o capitalismo então se desenvolvia, e se foi europeia a primeira grande revolução internacionalista, que tentou realizar na prática a ambição de construir uma humanidade efectiva, então os identitarismos legitimam-se ao se proclamarem inimigos do eurocentrismo. As conquistas dos trabalhadores e de todas as forças progressistas na Europa são agora repudiadas como eurocêntricas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157193 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-1024x883.jpg" alt="" width="640" height="552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-1024x883.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-300x259.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-768x662.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-487x420.jpg 487w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-640x552.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x-681x587.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-3x.jpg 1043w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />Mas a relação dos identitarismos com a anti-identidade é mais perversa do que uma simples oposição. Com o objectivo de minar por dentro a anti-identidade e assim a paralisar, cada um dos identitarismos usa toda a panóplia da propaganda para lhe instilar um complexo de culpa. Não existe hoje praticamente nada, desde as redes sociais até aos programas escolares, desde a publicidade até ao cinema — se é que agora estas duas formas se podem distinguir — desde a literatura até ao que ainda se chama música, que não tenha como objectivo, exclusivo ou acessório, a infiltração do complexo de culpa na anti-identidade. E daí? As coisas medem-se pelos resultados, e o ascendente adquirido pelo Estado de Israel é a demonstração mais patente dos efeitos de uma manipulação persistente e hábil do complexo de culpa. Sem as perseguições aos judeus e, acima de tudo, sem o extermínio dos judeus planificado pelo Terceiro Reich, o Estado de Israel não teria conseguido incutir a todo o mundo um complexo de culpa que lhe permite hoje identificar anti-sionismo com anti-semitismo e não teria, assim, neutralizado os seus críticos e alcançado o estatuto de imunidade de que beneficia mesmo quando pratica um genocídio. É este o caminho que os identitarismos procuram seguir. Cada um deles é um Israel em potência.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, o elemento simétrico ao complexo de culpa infundido na anti-identidade é a vitimização assumida pelas identidades. Um não existe sem a outra, ou melhor, uma promove o outro. Onde antes se falava de <em>explorados</em>, fala-se agora de <em>vítimas</em>. Por isso a extrema-esquerda, ou aquilo a que ainda se chama assim, trocou a economia pela sociologia, e o pós-modernismo serviu de charneira nesta transição. Era-se explorado pelos mecanismos económicos e usava-se essa situação para tentar ir além do capitalismo, mas hoje é-se vítima e usa-se o ressentimento. Se alguém quiser ocupar a ribalta da História terá de se apresentar como vítima. Vítima de quê e de quem? Da anti-identidade, evidentemente. Como Valéry escreveu bem! A História «faz sonhar, embriaga os povos, gera-lhes falsas memórias, exagera-lhes os reflexos, nutre-lhes as velhas mágoas, atormenta-os no repouso, condu-los ao delírio das grandezas ou ao da perseguição e torna as nações amargas, arrogantes, insuportáveis e vaidosas». Torna os identitarismos amargos, arrogantes, insuportáveis e vaidosos. E quando não é a verdadeira História, inventa-se outra, uma que produza falsas memórias, porque não faltam aos identitarismos os instrumentos para disciplinar a sociedade, e também nisto não ficam aquém do fascismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os identitarismos transpuseram para o plano virtual as milícias e as agressões a que noutra época os fascistas recorriam nas ruas, e como hoje a internet liga tudo e todos, as malhas são ainda mais apertadas do que aquelas de que o fascismo clássico dispunha. Em vez das pauladas e do óleo de rícino, usa-se agora o cancelamento de pessoas, a supressão de intervenções e o boicote erguido nos meios de expressão. O silenciamento é mais eficaz do que havia sido nas ditaduras do passado. E a substituição da presunção de inocência pela presunção de culpabilidade, que por si só representa uma colossal inversão do sistema jurídico, contribui para assegurar aos identitários uma completa hegemonia. Nem se deve dizer que esta é a imagem de uma sociedade que os identitários têm a intenção de construir, porque esta é já a sociedade que eles estão a construir.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de partilharem a aversão a uma mesma anti-identidade, os vários identitarismos não superam a sua hostilidade recíproca e o sucessivo aparecimento de novos identitarismos tende a agravar o ambiente de discórdia, sem que os conflitos sejam resolvidos pela interseccionalidade. Aliás, já nos fascismos clássicos sucedera o mesmo. Desde a Roménia, onde os fascistas seguidores do rei Carol II e do general, depois marechal, Ion Antonescu e os fascistas seguidores de Corneliu Zelea Codreanu e de Horia Sima se chacinavam reciprocamente numa fúria insaciável, passando pela liquidação da ala radical do Partido Nacional-Socialista Alemão na noite de Junho para Julho de 1934, sem esquecermos a quantidade de fascistas que Hitler mandava encerrar nos seus campos de concentração ou, no Japão, a tentativa de insurreição militar dos fascistas radicais da facção Via Imperial em Fevereiro de 1936, suprimida pelos fascistas conservadores da facção Controle, até ao assassinato do chanceler fascista austríaco Dollfuss pelos nacionais-socialistas do seu país e às fricções ocasionalmente violentas que agitaram internamente o fascismo espanhol mesmo durante a guerra civil, em todas essas e outras ditaduras da Ordem os confrontos internos foram muito mais a regra do que a excepção.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação é hoje agravada pela desarmonia reinante entre os herdeiros do fascismo clássico e os identitários enquanto fascistas do pós-fascismo. Aliás, seria impossível outra alternativa, porque as geometrias dos dois <em>puzzles</em> não encaixam. O nacionalismo de uns e as identidades mundializadas dos outros são transversais e não obedecem aos mesmos desenhos, para mais numa época em que a geopolítica passou também a assentar na internet e a tornar-se virtual. Mas não será diferente o motivo? Escrevendo no início da década de 1960, o teórico fascista francês Maurice Bardèche profetizou que o fascismo haveria de renascer «com outro nome, com outro rosto, e decerto sem nada que seja a projecção do passado, imagem de um filho que não reconheceremos». Não serão os fascistas do pós-fascismo a imagem do filho que os fascistas clássicos não reconhecem?</p>
<p style="text-align: justify;">O certo é que, se já a gestação do fascismo como resultado de um processo permanente de cruzamento ou convergência entre alguma extrema-esquerda e certa extrema-direita põe em dúvida a redução do leque político a uma linearidade, mais complicada ainda fica a situação em virtude do choque entre os fascismos nacionais e os fascismos identitários e dos conflitos internos que os rasgam a todos. Assim, parece-me que se rompeu definitivamente a continuidade da linha que levava de um a outro extremo. A terminologia política tradicional perdeu o sentido e, se a velha esquerda se descaracterizou, sucedeu o mesmo à velha direita. Os nomes já não designam as coisas e há coisas ainda sem nome. A terminologia política que começou agora a ser usada é de criação identitária e reflecte uma nova geometria. Sobretudo, a antiga polarização entre a esquerda e a direita foi substituída pela oposição entre cada identidade e a anti-identidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A noção de <em>populismo</em> surge nesta transformação. O populismo tanto se mostra afim a certas posições económicas da extrema-esquerda, nomeadamente ao subestimar os inconvenientes do déficit orçamental, como adopta posições políticas da extrema-direita, em especial no que diz respeito à criminalidade e à imigração. Neste sentido o populismo assemelha-se aos campos geradores de fascismo, mas não se confunde com eles nem tem directamente produzido fascismos. Talvez até os tenha evitado.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece-me útil comparar a noção de <em>populismo</em> com as noções de <em>bonapartismo</em> defendidas por Trotsky e por August Thalheimer, porque em ambos os casos se trata de categorias políticas intermédias e provisórias, que talvez ajudem a reordenar as classificações. Segundo Trotsky, quando a acção das milícias fascistas punha em risco o funcionamento das instituições democráticas, o parlamento entregava os seus poderes a um chefe que, apoiado directamente pela burocracia, pelo exército e pela polícia, governava num equilíbrio precário entre a democracia e o fascismo. Era a um regime deste tipo que Trotsky chamava <em>bonapartismo</em>. August Thalheimer, porém, considerava que o bonapartismo era parente próximo do fascismo e surgia quando um movimento revolucionário tivesse sido derrotado, mas a burguesia saísse exausta do combate. Em suma, para Thalheimer o bonapartismo apareceria «quando todas as classes estão enfraquecidas e jazem prostradas». Assim, apesar do que diferenciava estas duas perpectivas, tanto para Trotsky como para Thalheimer o bonapartismo seria um regime episódico baseado num equilíbrio instável entre forças políticas opostas. E a complexidade das articulações entre o bonapartismo e o fascismo reflectia as múltiplas possibilidades de um processo histórico que estava então longe de se encerrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, o populismo actual tem em comum com aquelas caracterizações do bonapartismo a sua função de equilíbrio entre campos opostos, embora me pareça cedo para saber se terá um destino igualmente provisório e quais as outras semelhanças e diferenças que a comparação possa revelar. Por agora, devemos reconhecer que o populismo surge como um dos contributos principais para a ordenação de uma nova terminologia política. Mas ainda falta no tabuleiro um outro xadrez.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157142/" target="_blank" rel="noopener"><strong>segunda parte</strong></a> vimos como a luta internacional do proletariado desarticulou as nações e o que sucedeu depois. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157145/" target="_blank" rel="noopener"><strong>terceira parte</strong></a> vimos como a guerra mundial de 1939-1945 fundou a consolidação geopolítica das «nações proletárias». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157148/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quarta parte</strong></a> vimos uma nova vaga de internacionalização das lutas e quais os seus resultados. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157151/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quinta parte</strong></a> vimos como a ecologia dinamiza duplamente o processo gerador do fascismo. Em seguida, na <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sétima e última parte</strong></a> veremos as transformações internas sofridas pela classe trabalhadora e a crise terminal dos marxistas.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A passagem de Valéry escrita em 1931 encontra-se em Paul Valéry, <em>Regards sur le Monde Actuel et autres Essais</em>, Paris: Gallimard, 1945, pág. 27. As citações de Chamberlain provêm, respectivamente, de Houston Stewart Chamberlain, <em>La Genèse du XIXme Siècle</em>, 2 vols., Paris: Payot, 1913, págs. 296, 621 (subs. orig.), 1154 e 679. Quanto à afirmação de Steiner, ver Peter Staudenmaier, «Anthroposophy and Ecofascism», <em>New Compass</em>, 2011 <a href="http://new-compass.net/articles/anthroposophy-and-ecofascism" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>. As duas citações de Hitler estão, respectivamente, em Édouard Conte e Cornelia Essner, <em>La Quête de la Race. Une Anthropologie du Nazisme</em>, [Paris]: Hachette, 1995, pág. 106 e em Joseph Billig, <em>L’Hitlérisme et le Système Concentrationnaire</em>, Paris: Presses Universitaires de France, 2000, pág. 300. A citação de Fritz Lenz está em Anne Quinchon-Caudal, <em>Hitler et les Races. L’Anthropologie Nationale-Socialiste</em>, Paris: Berg International, 2013, pág. 157. A citação de Bardèche é extraída de Maurice Bardèche, <em>Qu’Est-ce que le Fascisme?</em>, Paris: Les Sept Couleurs, 1961, págs. 194-195. A passagem citada de Thalheimer encontra-se em August Thalheimer, «On Fascism», 1930 <a href="https://www.marxists.org/archive/thalheimer/works/fascism.htm" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: left;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157195" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-300x229.jpg" alt="" width="100" height="76" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-550x420.jpg 550w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-640x489.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a-681x521.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Stanczak-a.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem obras de Julian Stanczak (1928-2017)</em>.</p>
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		<title>Um manifesto incómodo. 5</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Sep 2025 12:27:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[As noções de sangue e solo formavam o âmago da ecologia nacional-socialista e continuam hoje a sustentar a metafísica ecológica. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>5</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A derrocada do vasto movimento autonomista internacional pujante na década de 1960 e ainda na primeira metade da década seguinte levou à desagregação da convergência social operada entre a juventude universitária e o operariado fabril. O declínio da autogestão nas empresas e o repetido fracasso das suas experiências práticas generalizaram o desânimo e, deste modo, a Contracultura que caracterizara as revoltas estudantis perdeu o rumo, ou o destino último, que os trabalhadores fabris haviam assinalado e já não eram capazes de lhe indicar. Precipitou-se assim uma ruptura ideológica entre o meio estudantil e o meio operário, perceptível sobretudo na transformação do conceito de <em>anticapitalismo</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto o objectivo das lutas fora a modificação das relações sociais vigentes nos processos de produção e enquanto os trabalhadores haviam conseguido esboçar na prática formas embrionárias de relações sociais inovadoras, o meio industrial apresentava-se como a base que permitiria superar o capitalismo ou, mais ainda, como a base onde o capitalismo estava já a ser superado. Anticapitalistas eram, então, aqueles que pretendiam ir além da economia existente; aqueles que, tomando-a como ponto de partida, estavam já a construir relações sociais que permitiriam suplantá-la. A súbita difusão de que beneficiaram os velhos textos da extrema-esquerda marxista e a instigante criatividade com que surgiram novas análises críticas mais ainda confirmaram essa perspectiva do anticapitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O declínio das experiências práticas autogestionárias, porém, e a diluição da convergência que ao longo de quase duas décadas havia aproximado a juventude estudantil do meio operário alhearam a Contracultura daquele horizonte do anticapitalismo. Foi este o factor decisivo na decomposição de um movimento ideológico que, aliás, desde início era difuso. O anticapitalismo deixou então de ser entendido como uma superação do capitalismo a partir das novas relações sociais estabelecidas pelos operários nas suas lutas, e passou a ser apresentado como uma recusa da modernidade, com tudo o que isso implicaria. Esta nova versão do anticapitalismo é o epitáfio assinalando o fim das expectativas que o movimento autonomista fizera surgir.</p>
<p style="text-align: justify;">Paradoxalmente, pessoas que viviam em metrópoles onde a fome deixara de ser uma experiência generalizada e onde a esperança de vida atingia médias sem precedentes recusavam confortavelmente a totalidade de uma industrialização que permitira a superação das necessidades materiais mais prementes e fundara uma sociedade livre das preocupações de sobrevivência imediata. Marx e Engels, no <em>Manifesto Comunista</em>, haviam celebrado o progresso capitalista porque «submeteu o campo à supremacia da cidade» e assim «resgatou uma parte considerável da população do embrutecimento da vida rural», mas agora o anticapitalismo passava a ser sinónimo de uma rejeição do progresso. Já não se tratava de conceber outras vias de evolução para a sociedade industrializada, com base em novas relações sociais de trabalho possíveis de desenvolver. Tratava-se de repudiar em bloco toda a economia da prosperidade. A crítica à noção de progresso passou a ser um imperativo, o novo <em>look</em> do anticapitalismo. Mas ainda aqui prevaleceu a aura do progresso, porque não tiveram a coragem de se proclamar pré-modernos e preferiram denominar-se <em>pós-modernos</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez mais, a arte antecipou realidades que depois se ampliaram, e convém saber que o termo <em>pós-moderno</em> nasceu na arquitectura, em oposição à estética funcionalista que resultara de uma tomada de consciência da civilização industrial. Aliás, se eu tivesse tempo e estivesse a escrever para um público diferente, assinalaria o facto de a primeira corrente estética nascida no marxismo e promovida por um marxista militante, William Morris, ter sido precursora dos pré-modernos <em>travestis</em> de pós-modernos. Não é curioso que assim como se encontra em Marx e em Engels uma noção de «nação revolucionária» que deve ser considerada antecipadora da «nação proletária» de Corradini e de Kita, se encontre também num artista marxista a antecipação do pós-modernismo? Bem fazem os guardiães da fé ao fingir-se distraídos.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi naquele meio social pós-moderno, formado por uma Contracultura em desagregação e por um movimento autogestionário em extinção, que ressurgiu a ecologia, enquanto forma drástica de recusa da modernidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, a rejeição da modernidade em bloco pressupõe uma confusão entre <em>tecnologia</em> e <em>técnicas</em>. Uma tecnologia é um sistema global que, por assim dizer, materializa relações sociais genéricas. Por um lado, cada tecnologia exprime um dado sistema social e não pode ser transportada para um sistema diferente; por outro lado, uma tecnologia determina o carácter das técnicas que a integram e das relações que elas estabelecem reciprocamente. Não existe, porém, simetria entre a tecnologia e as técnicas, assim como não existe entre uma língua e as palavras que a compõem. Uma técnica pode ser retirada da tecnologia em que se gerou e que a inspirou e ser introduzida noutra tecnologia, passando então a obedecer às normas ditadas por esta nova tecnologia, que lhe impõem as formas que de então em diante irá assumir e as relações que irá estabelecer. Basta pensar na invenção da roda e no conjunto de domesticações que caracterizou a passagem para o neolítico, com a pluralidade de usos que desde então e até hoje lhes têm sido dados, para verificarmos a plasticidade das técnicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa plasticidade permite que as técnicas do capitalismo venham a ser usadas como instrumentos para a construção social de uma nova tecnologia e, portanto, para a fundação material de uma nova sociedade. Não se trata de edificar o socialismo com as forças produtivas tal como elas existem no capitalismo, ou seja, recorrendo à tecnologia capitalista. Trata-se de desenvolver e expandir as relações sociais geradas nos processos de luta nas empresas até que seja possível reorganizar as forças produtivas, reelaborando então as técnicas existentes e articulando-as numa nova tecnologia. O movimento autogestionário prosseguido ao longo da década de 1960 e na primeira metade da década seguinte começara a esboçar o uso de técnicas geradas ou desenvolvidas no capitalismo para fundar com elas uma possível nova tecnologia. Foram pequenas experiências, incipientes mas prenhes de possibilidades. Em suma, em vez de pretender uma inversão da História, pretendia-se ultrapassar o capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Confundir as técnicas com a tecnologia e recusar as técnicas com o pretexto de que arrastarão consigo necessariamente toda uma tecnologia é um erro tão crasso que só pode entender-se como pretexto para encobrir qualquer outra coisa. A ecologia é uma forma de recusa regressiva do capitalismo, o que significa, se os seus promotores ousassem explicar as consequências do que defendem, que se voltaria a um estádio de tão baixa produtividade e de infra-estruturas tão precárias que ficaria dizimada uma parte considerável, se não a maior parte, da população mundial. Para empregar um neologismo que infelizmente se banalizou, a ecologia é genocidária. Decrescimento&#8230; Zero&#8230; Entenderam o que quer dizer?  Aliás, no mundo actual a fome generalizada, as epidemias crónicas e a baixa esperança média de vida só persistem nos países onde a indústria é escassa e a agricultura é arcaica e que, portanto, mais se aproximam do paraíso ecológico. Mas, obviamente, não é aí que encontramos defensores da ecologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde 1977 que a crítica à ecologia tem sido um dos principais eixos do meu trabalho, insistindo nas consequências económicas catastróficas que inevitavelmente decorreriam da aplicação de técnicas arcaicas. Numerosos especialistas prosseguem esta linha de argumentação sem que sejam refutados os números que indicam, e aliás os próprios ecológicos são os primeiros a esquecer as desgraças que previram quando a realidade os vem desmentir. As críticas ecológicas da economia industrial compõem-se de uma sucessão de calamidades anunciadas, nunca acontecidas. Pelo contrário, há a possibilidade de verificar na prática as consequências de uma introdução generalizada dos princípios ecológicos no Cambodja sob o regime dos Khmers Vermelhos, na segunda metade da década de 1970, e no Sri Lanka no início de 2021. Curiosamente, os ecologistas deslizam sobre estes acontecimentos como se eles não tivessem ocorrido. Mas não vou alongar-me sobre os absurdos económicos da ecologia, porque já os tratei com detalhe noutros escritos e nomeadamente no ensaio <a href="https://passapalavra.info/2013/08/98771/" target="_blank" rel="noopener"><em>Contra a ecologia</em></a>, publicado no Passa Palavra. Basta-me chamar a atenção para o assunto. Agora, no contexto de um movimento autonomista em ruínas, a questão principal que nos surge é a proveniência da ecologia, porque a sua génese histórica revela plenamente os efeitos trágicos da extinção do projecto autogestionário.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157368 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-1022x1024.jpg" alt="" width="640" height="641" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-1022x1024.jpg 1022w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-768x769.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-419x420.jpg 419w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-640x641.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11-681x682.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/Riley-11.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />A palavra <em>ecologia</em> foi cunhada por Ernst Haeckel, e a celebridade que ele alcançou como biólogo não deve fazer-nos esquecer a linhagem política em que se inseriu. Depois de ter seguido a vertente mais explicitamente racista do darwinismo e de ter sido um entusiasta da eugenia, adversário activo das mestiçagens, Haeckel terminou a vida em 1919 nos meios políticos em que se gerava aquilo que em breve iria ser o nacional-socialismo alemão e injuriando em termos violentamente anti-semitas a república dos conselhos da Baviera. Quando Haeckel definiu que «a política é biologia aplicada» estava a iniciar um clamor que os seguidores de Hitler ecoariam literalmente mais tarde, ao proclamarem que «o nacional-socialismo não é mais do que biologia aplicada». Aliás, não deixa de ter lógica que a ecologia, fundada por um inimigo da revolução dos conselhos e precursor do nacional-socialismo, tivesse ressurgido sobre os escombros do movimento autogestionário.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos os fascismos promoveram, em tons variados mas com igual persistência, o mito do campesinato. Nem sequer parecia estranho que ao mesmo tempo que prosseguiam activamente a industrialização, quando não governavam até países muito industrializados, esses regimes assegurassem aos camponeses a primazia na arte e nos discursos. Presos à terra por raízes ancestrais, obrigados pelo trabalho agrícola aos ritmos rotineiros e aos grandes ciclos anuais, os camponeses seriam alheios à luta de classes moderna e constituiriam, afinal, uma fonte de estabilidade social e um esteio do equilíbrio político. Era este o mito. Mas era mais do que isso, porque as raízes que ligariam o camponês à terra uniriam de igual modo a humanidade ao mundo natural, que supostamente deveria manter-se alheio às inovações técnicas. Foi por este viés que o mito do campesinato serviu de fundamento à ecologia, que também ela supunha a existência de uma natureza que deveria ser preservada da acção da economia. Depois, várias percepções líricas dispersas foram concentradas e codificadas pela ecologia e contribuíram para lhe completar a imagem.</p>
<p style="text-align: justify;">O nacional-socialismo germânico levou a formas extremas o mito de um campesinato enraizado na terra quando o transpôs para termos raciais. <em>Blut und Boden</em>, Sangue e Solo — estas duas inseparáveis noções formavam o âmago da ecologia nacional-socialista e continuam hoje, sob uma ou outra forma, a sustentar toda a metafísica ecológica. O nacional-socialismo destacou-se por promover uma noção mística da natureza, uma verdadeira veneração religiosa em que a natureza era entendida como supra-humana. A ignorância histórica era grande, porque nenhum grupo social, por mais rudimentar que fosse, teria sobrevivido sem exercer uma acção controladora sobre a natureza; ou, muitas vezes mais exactamente, uma acção contra a natureza, porque ela se revelava hostil, uma ameaça permanente exigindo uma defesa sem pausas. A natureza domesticada tinha de ser preservada dos perigos oriundos das áreas bravias. Mas o que interessava aos nacionais-socialistas era o mito, e nenhum mito assenta numa verificação histórica. São invenções destinadas a legitimar, não a explicar.</p>
<p style="text-align: justify;">«Primeiro ecologista da Europa», foi como Léon Degrelle chamou mais tarde a Hitler. E Degrelle sabia do que falava, porque além de ter sido o chefe dos fascistas da Valónia atingira um posto elevado na hierarquia dos Waffen SS. Com efeito, as primeiras reservas naturais da Europa foram criadas pelo Terceiro Reich e em 1935, precisamente quando se promulgavam as chamadas Leis de Nuremberga, destinadas a garantir a preservação e a supremacia da raça nórdica, foi publicado um conjunto legislativo, de uma amplitude sem precedentes, com a finalidade de assegurar a preservação da natureza. A protecção da raça superior e a protecção da natureza obedeceram a uma inspiração única. O apoio dos ecologistas não se fez esperar, e em 1939 estavam inscritos no Partido Nacional-Socialista 60% dos membros das principais associações de protecção da natureza que haviam existido durante a República de Weimar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Dezembro de 1942, quando os nacionais-socialistas mobilizavam o que julgavam ser a raça nórdica para escravizar o que julgavam ser a sub-humanidade eslava, o Reichsführer-SS Heinrich Himmler promulgou um decreto acerca da forma como o solo deveria ser cultivado nos territórios conquistados à União Soviética, onde se lê: «Os camponeses da nossa raça esforçaram-se sempre cuidadosamente por aumentar os poderes naturais do solo, das plantas e dos animais e por preservar o equilíbrio de toda a natureza. Para eles, o respeito pela criação divina é o padrão de toda a cultura. Assim, para que os novos espaços vitais se tornem uma pátria para os nossos colonos, uma condição prévia fundamental é o ordenamento planificado da paisagem, de maneira a mantê-la próxima da natureza». Qualquer ecologista dos nossos dias encontra aqui o espelho das suas convicções.</p>
<p style="text-align: justify;">No cerne desta ecologia metafísica está a invenção da agricultura biodinâmica em 1924 por Rudolf Steiner, o fundador da antroposofia. Dez anos mais tarde a agricultura biodinâmica começou a ser promovida por Walther Darré, que em 1930 havia sido nomeado conselheiro de Hitler para as questões agrárias e se encarregou desde Junho de 1933 até 1942 do Ministério dos Abastecimentos e da Agricultura, além de ser Führer dos Camponeses do Reich e ter chefiado o Departamento Central de Raça e Colonização dos SS desde o final de 1931 até 1938 com a patente de Obergruppenführer, o segundo mais alto escalão dos SS. Um currículo ecológico! Mas Steiner e a antroposofia, embora contassem com apoios influentes no Partido Nacional-Socialista, deparavam também com a hostilidade de outras facções, e Darré, recorrendo à conhecida prudência de alterar o nome para não mudar o conteúdo, converteu <em>biodinâmica</em> em <em>orgânica</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A agricultura orgânica foi a doutrina agrícola oficial do Terceiro Reich, e é elucidativo saber que os SS eram proprietários do Instituto Germânico de Pesquisa Nutricional e Alimentar, o empreendimento de agricultura orgânica mais vasto em todo o Reich e com maior sucesso comercial, situado junto ao campo de concentração de Dachau, onde a mão-de-obra era barata porque não precisava de ser paga. Aliás, houve vários outros investimentos dos SS na agricultura orgânica, e Himmler não estava a referir-se a outra coisa quando decretou que «os camponeses da nossa raça esforçaram-se sempre cuidadosamente por aumentar os poderes naturais do solo, das plantas e dos animais e por preservar o equilíbrio de toda a natureza». Falta dizer que ao lado do campo de Dachau o Instituto Germânico de Pesquisa Nutricional e Alimentar cultivava igualmente plantas pseudo-medicinais, já que a crença na eficácia das mezinhas é um dos artigos de fé da ecologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dados económicos são hoje abundantes e incontroversos, e também não escasseiam experiências práticas para mostrar a falta de produtividade da agricultura orgânica, mas isto pouco importava no contexto do metacapitalismo nacional-socialista, em que as decisões ideológicas, e acima de tudo o racismo, prevaleceram sempre sobre os interesses da economia. Os ecologistas actuais são os legítimos herdeiros deste metacapitalismo, porque subordinam igualmente os resultados económicos aos preconceitos ideológicos. O carácter regressivo da ecologia não poderia ser mais bem assinalado.</p>
<p style="text-align: justify;">O movimento ecológico actual herdou a visão nacional-socialista da natureza, mas não sem um hiato no <em>pedigree</em>, porque a censura estabelecida após 1945 pelas potências vitoriosas, e entusiasticamente aplaudida por toda a esquerda, fez cair no esquecimento a complexidade ideológica do fascismo. Aliás, as autoridades ocupantes do que havia sido o Terceiro Reich mandaram destruir os manuais escolares onde estavam expostas as teses nacional-socialistas sobre ecologia e biologia. Esta ruptura de continuidade mostra que a pulsão de fundo do irracionalismo ecológico é suficientemente poderosa para criar de novo aquilo que fora deixado em suspenso. É certo que se mantiveram fios ténues. Os velhos fascistas, na discrição obrigatória em que sobreviviam, continuavam a reproduzir os seus ideais, e a ecologia era um deles. Mas o auditório era escasso e o eco era nulo.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi só na década de 1970 ou por vezes ainda nos últimos anos da década anterior, com a dissolução das esperanças autogestionárias e a desagregação da Contracultura, que começou a surgir nos países anglo-saxónicos e na República Federal da Alemanha uma audiência de esquerda para teses agro-ecologistas que até então haviam sido conotadas exclusivamente com o fascismo, e de lá se expandiram ao resto do mundo. Enquanto durou o activismo estudantil, animado pela autogestão operária, o ambientalismo não teve público. Depois, as luminárias da ecologia quiseram tudo menos recordar a génese das suas ideias e, infelizmente, os antifascistas actuais não lêem textos escritos por fascistas e querem proibir os outros de os lerem. De ambos os lados foi obscurecida a ligação da ecologia aos fascismos e sobretudo ao Terceiro Reich.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, o vazio histórico em que a ecologia se apresenta torna-lhe mais fácil servir de lugar onde se cruzem os temas tradicionalistas herdados da direita radical e do fascismo clássico com certas preocupações surgidas na extrema-esquerda, e este cruzamento e o eco de cada um dos lados no outro têm constituído um processo gerador do fascismo pós-fascista. Há decerto casos em que partidos situados na extrema-direita não manifestem adesão à ecologia, mas então é no interior do próprio movimento ecológico que o fascismo ressurge, inevitavelmente gerado pela visão mística de uma natureza supra-humana. Assim, além de contribuir para a formação do fascismo por oferecer um quadro propício ao cruzamento entre os extremos políticos, a ecologia contém em si mesma, pela sua origem e pelas concepções que a definem, o gérmen de um fascismo. Ainda há poucos anos, durante a pandemia, foi sob a égide da ecologia que se encontraram todos os que recusavam as vacinas e demais medidas preventivas, juntando-se a extrema-esquerda delirante e a extrema-direita necrófila.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157142/" target="_blank" rel="noopener"><strong>segunda parte</strong></a> vimos como a luta internacional do proletariado desarticulou as nações e o que sucedeu depois. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157145/" target="_blank" rel="noopener"><strong>terceira parte</strong></a> vimos como a guerra mundial de 1939-1945 fundou a consolidação geopolítica das «nações proletárias». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157148/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quarta parte</strong></a> vimos uma nova vaga de internacionalização das lutas e quais os seus resultados. Em seguida, na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157154/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sexta parte</strong></a> veremos como os identitarismos transportaram o fascismo clássico para um contexto geopolítico transnacional. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sétima e última parte</strong></a> veremos as transformações internas sofridas pela classe trabalhadora e a crise terminal dos marxistas.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As citações de Marx e Engels encontram-se em Karl Marx e Friedrich Engels, <em>Manifeste du Parti Communiste et Préfaces du «Manifeste»</em>, Paris: Éditions Sociales, 1973, pág. 36. A frase de Haeckel vem citada em University of California Museum of Paleontology , <em>Ernst Haeckel (1834-1919)</em> [s. d.] <a href="http://www.ucmp.berkeley.edu/history/haeckel.html" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> e o lema do Partido Nacional-Socialista encontra-se em Edwin Black, <em>War against the Weak. Eugenics and America’s Campaign to Create a Master Race</em>, Nova Iorque e Londres: Four Walls Eight Windows, 2003, págs. 270 e 318 e também em Stefan Kühl, <em>The Nazi Connection. Eugenics, American Racism, and German National Socialism</em>, Nova Iorque e Oxford: Oxford University Press, 1994, págs. 36 e 121 n. 39. A frase de Degrelle encontra-se em Léon Degrelle, <em>Le Fascinant Hitler!</em>, Klow, Syldavie: L’Étoile Mystérieuse, 2006, págs. 105-106. O decreto de Himmler está citado em Peter Staudenmaier, «Fascist Ecology. The “Green Wing” of the Nazi Party and its Historical Antecedents», em Janet Biehl e Peter Staudenmaier, <em>Ecofascism. Lessons from the German Experience</em>, Edimburgo e San Francisco: AK Press, 1995, pág. 16.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157188" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-221x300.jpg" alt="" width="100" height="136" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-221x300.jpg 221w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-755x1024.jpg 755w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-768x1042.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-310x420.jpg 310w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-640x868.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a-681x924.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Riley-a.jpg 805w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem obras de Bridget Riley (1931-        )</em>.</p>
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		<title>Um manifesto incómodo. 4</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Sep 2025 11:53:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Se a palavra “contracultura” resumia a movimentação estudantil, a palavra “autogestão” sintetizava as lutas operárias. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: center;"><strong>4</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se as movimentações de soldados e operários que marcaram os anos entre 1916 e 1921, embora confinadas à Europa, foram a primeira revolução internacional da classe trabalhadora, uma internacionalização da revolução à escala mundial iniciou-se nos Estados Unidos na década de 1960 e espalhou-se por outros continentes, atingindo o auge na segunda metade dessa década e tendo a sua última expressão já nos meados da década seguinte em Portugal e na Polónia. Esta mundialização dos processos revolucionários mobilizou como principais actores os estudantes e os operários industriais.</p>
<p style="text-align: justify;">A entrada em cena dos estudantes correspondeu a uma modificação profunda do capitalismo, porque até à segunda guerra mundial as universidades haviam-se destinado exclusivamente à formação de elites. Depois da guerra, no entanto, o desenvolvimento da produtividade exigiu uma crescente qualificação dos trabalhadores, obtida por duas vias. Por um lado, cada vez mais operários deixaram de ser meras extensões musculares das máquinas, tão bem representadas por Charlie Chaplin num célebre filme, e tiveram de empregar no processo de produção a inteligência e a criatividade. Por outro lado, os cursos universitários começaram a sofrer transformações que os tornaram menos especulativos e mais práticos, substituindo a erudição ou mesmo a cultura por habilitações técnicas e, em suma, expurgando do ensino tudo aquilo que não fosse imediatamente aplicável no interior das empresas. É certo que os operários, no quadro estrito do capitalismo, estavam desde a nascença alheados das grandes questões do <em>porquê</em> e do <em>para quê</em>, mas ao longo da segunda metade do século XX também os estudantes passaram a ser formados pelas universidades na convicção de que essas questões tinham perdido qualquer pertinência. E assim, ao mesmo tempo que muitos operários recebiam qualificações já enquanto operários, os estudantes universitários destinavam-se cada vez mais a ser operários altamente qualificados ou, no máximo, a ocupar uma posição intermédia entre os operários de topo e os baixos gestores.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez por motivos de simples propaganda política ou talvez porque fosse esse o aspecto aparentemente mais inovador, é a componente universitária das lutas da década de 1960 que tem recebido maior atenção, quando não mesmo um interesse exclusivo. Apesar disto, as movimentações operárias não foram menos frequentes nem mobilizaram menos pessoas do que as lutas estudantis e sobretudo adquiriram um novo carácter. Vejamos o que se passou com cada uma das componentes deste processo revolucionário.</p>
<p style="text-align: justify;">Os estudantes universitários adquiriram rapidamente a consciência de que já não se destinavam a integrar as elites, deixaram de olhar de cima para os operários da indústria e passaram a conceber-se como parte de um mesmo conjunto social. A Contracultura foi a expressão desta nova consciência, tão difusa e indeterminada como ela o era. Negando tudo o que parecesse pertencer às tradições dominantes, a Contracultura reflectia à sua maneira, mas de maneira limitada, as transformações operadas no ensino. Ao mesmo tempo, a Contracultura recusava os valores decorrentes da noção de produtividade e por aí, embora de um modo confuso, juntava-se a certas vertentes da contestação operária. Afinal, se as autoridades governamentais e académicas afirmavam a inutilidade de um conhecimento universitário que não fosse estritamente prático e aplicado, os estudantes em revolta, já desinteressados da velha sabedoria, manifestavam agora o seu desinteresse pelas aplicações práticas da nova formação universitária que lhes era ministrada. Esta Contracultura expandiu-se na América do Norte primeiro, em seguida na Europa ocidental e em alguns países asiáticos, mas creio que devemos interpretar na mesma perspectiva a difusão do <em>samizdat</em> na União Soviética bem como de meios de expressão equivalentes noutros países comunistas europeus. Aliás, talvez muitos jornais de parede na primeira fase da Revolução Cultural chinesa possam ser entendidos como manifestações de uma Contracultura com as especificidades da multimilenária civilização em que se inseriam.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, os operários industriais eram cada vez menos simples prolongamentos de operações mecânicas, capazes unicamente, quando se revoltavam, de fazer parar as máquinas ou de as destruir. Das duas componentes do trabalho, a componente intelectual adquiria uma importância crescente em comparação com a manual, e esta transformação operada no capitalismo alterou o carácter das greves e de outros conflitos fabris. Começaram a surgir modalidades de luta em que os operários não se limitavam a interromper o funcionamento das máquinas ou ainda a invadir as instalações para evitar a presença de fura-greves, e difundiram-se ocupações de empresa em que o colectivo de operários impedia a entrada dos patrões e dos gestores e continuava a laborar em regime de autogestão, beneficiando eles próprios directamente com a venda dos produtos. A autogestão, aliás, não teve como alvo apenas as empresas, mas, muito mais generalizadamente, as lutas começaram a ser geridas pelos próprios trabalhadores, dispensando os partidos e as burocracias sindicais. Se a tendência ao aumento da produtividade levara os capitalistas a dar aos trabalhadores uma qualificação crescente, então os trabalhadores mostravam que o peso adquirido pela componente intelectual do trabalho lhes conferia a capacidade de gerir tanto os movimentos de luta como os processos de produção. A clivagem de classes tornou-se muitíssimo mais clara, porque os trabalhadores já não enfrentavam só os patrões considerados como proprietários privados, mas opunham-se igualmente aos gestores políticos e económicos. A autogestão foi um combate dos trabalhadores contra a classe dos gestores pelo controle da administração. Até na China a primeira fase da Revolução Cultural deve ser entendida como uma luta, de radicalidade única, contra a classe dos gestores. Em suma, se naquela época a palavra <em>contracultura</em> resumia a movimentação estudantil, a palavra <em>autogestão</em> sintetizava as lutas operárias.</p>
<p style="text-align: justify;">O conjunto formado pela autogestão e a Contracultura potenciou uma enorme renovação na prática e no pensamento da esquerda anticapitalista. Antes de mais, se os operários se apresentavam como capazes de gerir eles próprios as suas lutas e as fábricas onde trabalhavam e se os estudantes se rebelavam contra os valores veiculados pelo ensino oficial e, portanto, contra professores que apareciam como autoridades, então as lutas tendiam a dispensar as hierarquias estabelecidas e proclamavam-se <em>autónomas</em>. O mesmo confronto com a classe dos gestores que inspirava as novas lutas e ocupações de fábrica inspirava também uma nova maneira de conceber a política. E assim o autonomismo prolongou, ou deu outra vida, às velhas correntes esquerdistas críticas do leninismo, que jaziam desde há décadas num torpor cataléptico.</p>
<p style="text-align: justify;">Os teóricos do que havia sido a escola de Frankfurt foram redescobertos a partir dos Estados Unidos, sobretudo graças à proeminência alcançada por Herbert Marcuse, e assim se abriram perspectivas novas na crítica social. Em Paris, as edições Spartacus, que desde há anos e anos se amontoavam invendáveis em casa de René Lefeuvre, voltaram a circular e depressa se esgotaram, contribuindo para situar Rosa Luxemburg como uma das personalidades centrais da crítica revolucionária ao leninismo. Também em Paris, a livraria e as edições François Maspero ampliaram enormemente a audiência do marxismo esquerdista, tanto pela difusão de novas obras como pela reedição de livros esquecidos ou desde há muito esgotados. Em Itália, as novas lutas operárias e a transformação sofrida pelas universidades inspiraram em conjunto novas perspectivas de crítica teórica e de contestação prática.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157177" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-275x300.jpg" alt="" width="600" height="654" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-275x300.jpg 275w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-939x1024.jpg 939w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-768x837.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-385x420.jpg 385w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-640x698.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8-681x742.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-8.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />Na sua pluralidade e apesar das vincadas diferenças internas, todas estas correntes se caracterizavam pelo estímulo às iniciativas de base e pela consequente hostilidade à classe dos gestores e às formas burocráticas de organização. Por isso o autonomismo não tomava apenas como alvo o capitalismo de mercado ocidental, mas igualmente o capitalismo de Estado tanto no modelo soviético como no chinês. Não foram só as críticas de esquerda à evolução do leninismo e ao sistema soviético que se tornaram acessíveis e se divulgaram, mas as edições François Maspero em França e a imprensa do Progressive Labor Party nos Estados Unidos publicaram e difundiram estudos e documentos críticos do capitalismo de Estado chinês e da militarização que estava a cancelar as potencialidades revolucionárias manifestadas no início da Revolução Cultural. A miragem de um Mao Tsé-tung adepto das iniciativas revolucionárias de base, que havia sido tão frequentemente invocada pelos críticos ocidentais da rígida hierarquia soviética, começou então a perder a sua aura.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi talvez na Alemanha que melhor se manifestou a afinidade, ou mesmo a convergência, entre as críticas autonomistas ao capitalismo de mercado ocidental e ao capitalismo de Estado da esfera soviética, porque a Alemanha situava-se na articulação entre um e outro bloco, com uma língua falada em ambos os lados e contactos que, apesar da divisão em dois países, não era possível impedir. Em História, muitas vezes o esquecimento é mais elucidativo do que a celebridade. A leitora, ou até o leitor, não gastará o seu tempo em vão se averiguar a acção e o destino de Rudi Dutschke, uma das figuras mais interessantes das movimentações na década de 1960. Mas, como sempre, é na arte que tudo se reflecte, e as duas Alemanhas ofereceram o exemplo ímpar, porque no lado ocidental Anselm Kiefer e Jörg Immendorff, cada um a seu modo, deram um ânimo novo ao que havia sido o ímpeto criativo da República de Weimar, enquanto A. R. Penck fez o mesmo no lado oriental. E assim se renovou a extrema-esquerda, que adquiriu um novo fôlego e uma impressionante criatividade. O marxismo, enquanto instrumento crítico com capacidades inovadoras, voltara a existir.</p>
<p style="text-align: justify;">De toda esta vastíssima internacionalização das lutas estudantis e operárias, só a África ficou excluída. Apesar de muitas ilusões, não ocorreu em África uma luta contra o capitalismo nem sequer contra a expressão colonial do capitalismo, e tudo se resumiu a um processo de independências afim à noção de «nações proletárias», em que os trabalhadores ficaram desde início enquadrados pelas burocracias políticas dos partidos anticolonialistas ou pelas burocracias militares das organizações de guerrilha. Uma vez mais se mostrou na África o resultado — o único resultado possível — do terceiro-mundismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas quando o autonomismo chegara ao auge e parecia ter assentado alicerces sólidos, em poucos anos tudo se desmoronou sem que sequer a memória restasse. «<em>Ce n’est qu’un début, continuons le combat!</em>», gritavam eles, gritávamos nós nas ruas de Paris, sem sabermos que o combate estava a terminar. Como sempre, a derrota veio das contradições internas e não de qualquer ataque exterior.</p>
<p style="text-align: justify;">A internacionalização económica do capitalismo impunha — e impõe — regras de mercado globais, e empresas isoladas não poderão sobreviver se pretenderem adoptar normas divergentes. Foi este o contexto em que se esgotaram os ensaios de autogestão das fábricas, mesmo nos casos em que haviam conseguido uma grande expansão no interior de um país, como sucedeu em Portugal em 1975. Os operários que ocupavam uma fábrica decididos a gerir a produção não pretendiam que ela continuasse a ser administrada pelos antigos gestores e elegiam os seus próprios representantes. Mas quando a nova administração começava a alterar as hierarquias e as relações sociais de trabalho vigentes na empresa, deparava imediatamente com a pressão imposta pelas necessidades da concorrência no mercado capitalista mundial, que erguia sérios obstáculos à adopção das novas modalidades de organização. Os trabalhadores da empresa consideravam-se traídos por uma comissão de representantes que se mantinha presa às formas organizativas que os trabalhadores desejavam modificar. Mas a demissão desses representantes e a eleição de uma nova comissão não alterava a situação, visto que perduravam os condicionalismos exteriores, impostos pela concorrência no mercado internacional. O processo arrastava-se durante algum tempo, levando ao desânimo crescente da base operária, que pouco a pouco se desinteressava da gestão activa. Pressionados de um lado pelas regras ditadas pelo mercado mundial, e do outro pelo alheamento em que haviam caído os trabalhadores, as comissões de representantes depressa se burocratizaram e a autogestão reduziu-se a um nome sem conteúdo, que só seria usado para eventuais efeitos demagógicos. Aliás, a desarticulação interna da Revolução Cultural chinesa pode ser entendida como uma expressão concentrada daquele processo de desagregação. Foi assim que se desmoronou toda a experiência autonomista, que tivera na autogestão a  base real, sem conseguir realizar na prática as suas esperanças mobilizadoras.</p>
<p style="text-align: justify;">No capitalismo, porém, a derrota dos conflitos, isolados ou de massas, não se limita a fazê-los desaparecer. Eles são recuperados e economicamente rentabilizados. A regra do capital não é o <em>potlatch</em>, mas a mais-valia. Se os trabalhadores demonstravam a capacidade de se organizar autonomamente sem precisarem de recorrer a burocracias partidárias ou sindicais, e se dispunham a gerir eles próprios as empresas e conseguiam fazê-lo até depararem com as imposições do mercado mundial, então os capitalistas, que desde a segunda guerra mundial cada vez menos se limitavam a explorar a simples força muscular dos assalariados e lhes aproveitavam também a capacidade intelectual, descobriram ali a forma de ampliar os horizontes da mais-valia. A capacidade de gestão revelada pelos colectivos de operários em luta serviu ao capitalismo, derrotadas as lutas, para expandir as formas toyotistas de organização do trabalho. Ao mesmo tempo, os temas difundidos pelas lutas no movimento estudantil foram aproveitados pelos capitalistas para remodelar a classe dos gestores com uma nova geração de quadros habilitados a exercer funções no toyotismo. O movimento autonomista não só se desmoronou, como os seus escombros foram assimilados pelo capitalismo para incrementar o processo da mais-valia relativa.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157179" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-300x300.jpg" alt="" width="600" height="603" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-1019x1024.jpg 1019w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-768x771.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-1529x1536.jpg 1529w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-418x420.jpg 418w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-640x643.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9-681x684.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-9.jpg 1991w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />Entretanto, com o declínio da autogestão operária, a contestação estudantil internacional perdeu o eixo condutor e prevaleceu o carácter difuso que a Contracultura tivera desde início. Como sempre sucede quando o conteúdo se esvai, os símbolos deixam de representar alguma coisa e passam a valer por si mesmos. A Contracultura foi então aproveitada como logótipo para o lançamento de novas linhas de produção ou novos produtos e como caução para quem desejasse apenas assumir um certo <em>look</em>. Enquanto as aspirações revolucionárias terminavam assim em estilos da moda, ocorreu a banalização do consumo de drogas, que em vez de levarem a uma libertação, mesmo hipotética, tiveram como consequência o reforço das redes de tráfico. O que havia sido uma proliferação de pequenos comércios paralelos transformou-se numa expansão sem precedentes de uma forma de grande capital no submundo do crime. E como tudo se reflecte na arte, a música que animara a contestação juvenil e lhe servira de hino e de estímulo passou a alimentar a indústria cultural de massas e gerou o contrário do que havia sido. Também aqui, portanto, a derrota reverteu numa rentabilização do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Na sequência da dissolução interna dos movimentos autonomistas precipitou-se o colapso da esfera soviética, e na China o maoismo foi substituído por um misto de autoritarismo político e de liberalização económica. Não só fracassara o ensaio de renovação da extrema-esquerda marxista como ela perdeu até a razão de ser, pois a sua realidade dependia da existência daquele velho mundo comunista que conhecia e onde se criara.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, tal como Clara Zetkin e Trotsky compreenderam, o fascismo desenvolve-se a partir do esgotamento interno de um movimento revolucionário. Se no malogro da revolução europeia de 1916-1921 se geraram as formas clássicas de fascismo, o insucesso da vaga internacional de lutas autonómicas centrada na década de 1960 permitiu a generalização de um novo fascismo pós-fascista, assente na ecologia e nos identitarismos.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="https://passapalavra.info/2025/08/157133/" target="_blank" rel="noopener"><strong>primeira parte</strong></a> vimos a possível relação entre a «nação revolucionária» e a «nação proletária». Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157142/" target="_blank" rel="noopener"><strong>segunda parte</strong></a> vimos como a luta internacional do proletariado desarticulou as nações e o que sucedeu depois. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157145/" target="_blank" rel="noopener"><strong>terceira parte</strong></a> vimos como a guerra mundial de 1939-1945 fundou a consolidação geopolítica das «nações proletárias». Em seguida, na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157151/" target="_blank" rel="noopener"><strong>quinta parte</strong></a> veremos como a ecologia dinamiza duplamente o processo gerador do fascismo. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/09/157154/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sexta parte</strong></a> veremos como os identitarismos transportaram o fascismo clássico para um contexto geopolítico transnacional. Na <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/" target="_blank" rel="noopener"><strong>sétima e última parte</strong></a> veremos as transformações internas sofridas pela classe trabalhadora e a crise terminal dos marxistas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157181" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-d-222x300.jpg" alt="" width="100" height="135" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-d-222x300.jpg 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-d-311x420.jpg 311w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/08/Vasarely-d.jpg 334w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" /></p>
<p><em>As ilustrações reproduzem obras de Victor Vasarely (1906-1997)</em>.</p>
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