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	<title>Hong Kong &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Por que pequineses bem-informados estão cada vez mais intrigados com a luta em Hong Kong?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jan 2020 12:28:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Hong Kong]]></category>
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					<description><![CDATA[Ao menos no meu entorno, todavia, a narrativa do Estado parece ter conseguido pegar forte depois desses últimos meses, indo do silêncio a uma absoluta guerra de propaganda. Por Bob]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"> Por Bob</h3>
<blockquote><p>A nota a seguir precede o artigo em sua versão original na revista <strong>Chuang</strong>, e optamos por também traduzi-la, a bem da contextualização.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Publicamos aqui um registro enviado por um leitor que mora em Pequim. O artigo fornece informações detalhadas sobre como um certo grupo de trabalhadores de colarinho branco do continente</em><strong>[1]</strong> <em>vê a agitação em curso em Hong Kong, e como o seu entendimento foi moldado nos últimos meses. A realidade descrita por esse artigo é desapontadora, como frequentemente a realidade tende a ser. Nosso objetivo em publicá-lo, todavia, não é o de esmagar qualquer otimismo contra as rochas afiadas do mundo real, mas em vez disso ressaltar que a única esperança merecedora deste nome é aquela que consiga cruzar esse mortal e decepcionante terreno com o otimismo nas mãos. Isso só pode ser feito por meio de uma rigorosa investigação empírica de nossa realidade presente.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Que esperança esse artigo oferece, em termos de rumos a se seguir? Nós, que vivemos na China, com frequência nos sentimos igualmente desesperançados, apesar do fato de que interagimos regularmente com a pequena minoria de esquerdistas e militantes trabalhistas do país com visões ao menos alinhadas às nossas numa perspectiva mais ampla. Nos últimos anos, porém, a repressão (mais recentemente voltada contra esquerdistas e organizações trabalhistas, seguindo os passos de repressões similares contra feministas e outros) estreitou substancialmente esse espaço, separando-nos do já pequeno grupo de amigos com quem compartilhávamos qualquer tipo de camaradagem política. Ao mesmo tempo, aqueles que restam são, provavelmente, mais representativos da ampla massa de trabalhadores chineses — sejam de colarinho branco, azul ou rosa — do que os esquerdistas mais expostos, que sofreram mais nas repressões.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Entre aqueles que restaram, do pessoal graduado dos escritórios de Pequim destacado neste artigo se esperaria que fossem uma exceção: são cidadãos chineses que tem VPN (ou tinham, até o aumento da censura ter bloqueado a maior parte delas), criticam regularmente o PCCh e tem sido historicamente simpáticos ao liberalismo de Hong Kong. Mas as conversas citadas a seguir revelam que essa posição tornou-se bem mais complexa em resposta ao movimento antiextradição, empurrando alguns desses antigos liberais, ou mulheres e homens apolíticos, em direção a uma posição que é solidamente nacionalista, antidemocrática e em favor de abrangentes medidas de repressão.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Exploraremos esse fenômeno em maior detalhe num futuro registro sobre o surgimento e estabelecimento de um novo nacionalismo chinês de direita durante o último ano, em resposta à guerra comercial e ao movimento antiextradição, especialmente entre estudantes universitários. O relato abaixo reflete principalmente a situação de trabalhadores de colarinho branco em Pequim, centrado naqueles que se veem como relativamente cosmopolitas, liberais e críticos ao PCCh.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Chuang</em></p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-129656" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/01/china2.jpg" alt="" width="4096" height="2304" />Quando milhares de pessoas tomaram pela primeira vez as ruas de Hong Kong contra a lei de extradição no início de junho, poucas dos 1,3 bilhões de pessoas no continente ao norte ficaram sabendo. O controle das redes sociais bloqueou a maior parte das postagens relacionadas aos protestos de Hong Kong, e as manchetes da mídia estatal não publicaram sequer uma palavra sobre a situação delicada da cidade. Mas muita coisa mudou desde então. Hoje, não se passa um dia sem que a televisão central da China exiba cenas do fogo nas ruas de Hong Kong e coletivas de imprensa da polícia contabilizando o número de detidos nas manifestações de cada dia. No início, quando não havia notícias sobre Hong Kong no continente, eu desejava que meus amigos — ao menos aqueles que, como a maioria das pessoas, não têm acesso a VPN para ultrapassar o Grande Firewall<strong>[2]</strong> — pudessem ouvir sobre o que estava acontecendo em Hong Kong. Agora que a mídia estatal mergulhou o país em um fervor nacionalista para defender a “unidade nacional”, eu tenho saudades dos dias de apagão midiático.</p>
<p style="text-align: justify;">A mídia estatal foi colocada em uma posição embaraçosa pela eclosão dos protestos em Hong Kong. Quando as primeiras notícias vieram à tona, os protestos massivos pareciam ter acontecido do nada, desorientando muitos dos meus amigos aqui em Pequim. Semanas de silêncio deixaram os continentais sem qualquer conhecimento da situação, até os primeiros relatos aparecerem na mídia estatal em meados de junho. Eles perderam a apresentação do projeto da Lei de Extradição pelo governo de Hong Kong em fevereiro, os comícios e o debate público sobre o projeto que se desenvolveu no verão. Ainda não havia notícias quando centenas de milhares estiveram nas ruas exigindo a retirada da Lei de Extradição em 9 de junho, ou quando voaram as balas de borracha e gás lacrimogêneo foi lançado no edifício do Conselho Legislativo, em 12 de junho. Então, em 13 de junho, a Xinhua<strong>[3]</strong> publicou seu primeiro artigo importante, intitulado &#8220;<a class="urlextern" title="https://www.thepaper.cn/newsDetail_forward_3668471" href="https://www.thepaper.cn/newsDetail_forward_3668471" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">A opinião pública dominante em Hong Kong apoia a Lei de Extradição para impedir que Hong Kong se torne um &#8216;paraíso dos fugitivos&#8217; &#8220;</a>. O artigo foi forçado a retomar o pano de fundo das mobilizações, que não haviam sido cobertas pela imprensa do continente até então. O texto falava do homem de Hong Kong que assassinou uma mulher em Taiwan, e dos meses de preparação do governo de Hong Kong para alterar suas leis para permitir que ele fosse extraditado para o continente. Não falou dos meses de manifestações em menor escala contra o projeto de lei, ou das discussões locais que alertaram para o descontentamento, mas mencionou uma petição iniciada em abril pelo grupo pró-continente “Safeguard Hong Kong”, que alegava ter as assinaturas de 900.000 honcongueses apoiando o projeto.</p>
<p style="text-align: justify;">A Xinhua e demais agências estatais foram duramente pressionadas a explicar por que 2 milhões de honcongueses, numa cidade de só 7 milhões de pessoas, tomaram as ruas contra o projeto naquela semana, no dia 16 de junho. Logo antes das manifestações daquele dia, os jornais do continente veicularam uma <a class="urlextern" title="https://www.thepaper.cn/newsDetail_forward_3688951" href="https://www.thepaper.cn/newsDetail_forward_3688951" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">declaração do Departamento de Ligação com Hong Kong</a>, alertando sobre “forças estrangeiras interferindo em Hong Kong”, uma alegação ridícula. Ainda que governos e agências de inteligência estejam sem dúvida em cena, e se encontrem regularmente com líderes políticos como Joshua Wong, ou superlideranças pagas do “movimento democrático” como Benny Tai, eles claramente não poderiam mobilizar um terço da população da cidade, menos ainda dirigir as “turbas de preto”<strong>[4]</strong> para o confronto com a odiada polícia — as ”<em>aves de rapina</em>“ que arremeteram para prender manifestantes às dúzias, infiltraram-se em protestos vestidos como manifestantes, ou permitiram às forças de segurança do continente operar dentro das fileiras da polícia local.<strong>[5]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Notícias e fotos das marchas massivas ainda penetravam, circularam no WeChat e em outras mídias sociais, e lembro-me de alguns de meus amigos do continente apoiando manifestantes em Hong Kong e achando uma pena que Pequim tivesse erguido tão rapidamente barreiras entre a cidade e o resto do país. Em junho, ainda havia vários sinais de que muitos continentais que simpatizavam com Hong Kong estavam contornando a censura para mostrar <a class="urlextern" title="https://www.inkstonenews.com/politics/chinese-internet-users-evade-censors-support-hong-kong-protests/article/3014352" href="https://www.inkstonenews.com/politics/chinese-internet-users-evade-censors-support-hong-kong-protests/article/3014352" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">apoio</a>. Mas essas interpretações e sentimentos mais compreensivos foram rapidamente submersos pela crescente campanha de propaganda. O controle da mídia social reforçou-se, e os protestos de Hong Kong foram se tornando, aos poucos, um tópico das notícias diárias. As autoridades do continente tiveram que elaborar uma mensagem comum. Rapidamente estabeleceu-se a linha de destacar os manifestantes “violentos” e “extremos”, supostamente incitados por “forças estrangeiras hostis”, principalmente os EUA (embora a China também tenha atacado publicamente a União Europeia, o Reino Unido, a Alemanha e outros governos estrangeiros que emitiram declarações contra a violência policial).</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignright size-full wp-image-129658" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/01/china4.jpg" alt="" width="670" height="377" />A narrativa, contudo, permaneceu um pouco confusa, e a cobertura continental continuou sendo vista por alguns de meus amigos como suspeita e incoerente. Um deles, por exemplo, questionava: se os protestos reuniam principalmente uns poucos extremistas nos centros políticos e financeiros da ilha de Hong Kong, por que havia tantos relatos de prisões (que os jornais do continente publicavam com muito gosto) ao longo de Kowloon e nas partes mais rurais dos Novos Territórios, no norte? Ou haveria protestos maiores do que os noticiados pela CCTV [<em>China Central Television</em>]? Claro, muitos amigos do continente estão perfeitamente cientes da censura estatal, e sabem que, em se tratando de assuntos politicamente sensíveis, as manchetes, na melhor das hipóteses, podem estar contando meias verdades. Mas sem alternativas prontamente disponíveis, a confusão semeada só parece aumentar, à medida em que a própria situação de Hong Kong continua a se desenvolver e ficar mais complexa a cada dia.</p>
<p style="text-align: justify;">A invasão do prédio do Conselho Legislativo de Hong Kong no dia 1º de julho chocou outra amiga em Pequim. Após assistir às filmagens que circulavam na internet, ela estava fora de si, confusa e desacreditada. “Eu pensava que os honcongueses eram pessoas pacíficas”, dizia. “O que deixou eles tão furiosos e violentos? Acho que os boatos sobre influências estrangeiras devem ser reais. Por que eles fariam isso?” Poucos no continente tiveram acesso à cobertura de eventos como esses, ou puderam ler relatos de dentro do movimento que <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/news/hong-kong/politics/article/3017003/storming-hong-kongs-legislature-inside-story-how-plan-was" href="https://www.scmp.com/news/hong-kong/politics/article/3017003/storming-hong-kongs-legislature-inside-story-how-plan-was" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">detalharam</a> como um grupo de jovens de Hong Kong votou invadir o prédio usando um chat do Telegram, sem grandes planejamentos anteriores, tal qual tantas das ações de protesto têm sido decididas: coletivamente, nas plataformas de conversa de celular.</p>
<p style="text-align: justify;">Chineses continentais assistindo o noticiário dificilmente entenderiam o papel que Pequim desempenhou na intransigência governamental, ao mesmo tempo apoiando, mas também paralisando Carrie Lam — junto com seu governo e suas forças policiais — ao forçá-la a manter uma linha dura absoluta diante dos protestos. Os continentais talvez tenham considerado <em>fake news</em> a <a class="urlextern" title="https://opinion.huanqiu.com/article/9CaKrnKmyEi" href="https://opinion.huanqiu.com/article/9CaKrnKmyEi" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">matéria</a> do <em>Global Times</em><strong>[6]</strong> que expunha o vazamento de uma fala explosiva de Carrie Lam a um grupo de empresários. Lam <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/article/us-hongkong-protests-lam-transcript-excl/exclusive-the-chief-executive-has-to-serve-two-masters-hk-leader-carrie-lam-full-transcript-idUSKCN1VX0P7" href="https://www.reuters.com/article/us-hongkong-protests-lam-transcript-excl/exclusive-the-chief-executive-has-to-serve-two-masters-hk-leader-carrie-lam-full-transcript-idUSKCN1VX0P7" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">explicou</a> um tanto ingenuamente ao grupo que, “se tivesse escolha”, pediria demissão. “O espaço, o espaço político para um chefe executivo que pela Constituição precisa, infelizmente, servir a dois senhores, ou seja, o governo central da China e o povo de Hong Kong, esse espaço político é muito, muito, muito limitado para manobrar”, disse Lam. Fontes do governo de Hong Kong também revelaram à Reuters, bloqueada no continente, que o governo central chinês <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/article/us-hongkong-protests-china-exclusive/exclusive-amid-crisis-china-rejected-hong-kong-plan-to-appease-protesters-sources-idUSKCN1VK0H6" href="https://www.reuters.com/article/us-hongkong-protests-china-exclusive/exclusive-amid-crisis-china-rejected-hong-kong-plan-to-appease-protesters-sources-idUSKCN1VK0H6" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">bloqueou</a> uma movimentação dos dirigentes de Hong Kong para dar concessões aos manifestantes e retirar o projeto de lei de extradição pelo menos um mês antes do recuo oficial do governo de Lam, no início de setembro.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso pode até ter sido um movimento unilateral de Lam, a única das “cinco demandas” que seu governo podia engolir, seja como um osso jogado aos manifestantes, seja para acalmar a elite empresarial, mas é difícil afirmar. Muitos capitalistas de Hong Kong há tempos já viam a lei de extradição, e talvez a incursão mais profunda de Pequim em seu domínio exclusivo, como “ruim para os negócios”. O dinheiro <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/article/us-hongkong-extradition-capitalflight-ex/exclusive-hong-kong-tycoons-start-moving-assets-offshore-as-fears-rise-over-new-extradition-law-idUSKCN1TF1DZ" href="https://www.reuters.com/article/us-hongkong-extradition-capitalflight-ex/exclusive-hong-kong-tycoons-start-moving-assets-offshore-as-fears-rise-over-new-extradition-law-idUSKCN1TF1DZ" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">fluiu para Cingapura e outros mercados</a> conforme o governo avançava com o projeto. As outras demandas — como a libertação de centenas de manifestantes presos, ou um inquérito independente sobre violência policial — só importavam para o povo de Hong Kong, eram politicamente caras para o governo e, de qualquer modo, não custavam nem um centavo às empresas. Lam não podia renunciar, e o sufrágio universal seria muito caro para a cidade — literalmente —, conforme notou seu antecessor, CY Leung: “Se é tudo um jogo de números e representação numérica, obviamente você estaria conversando com a metade das pessoas em Hong Kong que ganham menos de US$ 1.800,00 por mês [HK$ 13.964,20]”, <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/news/hong-kong/article/1621103/cy-leung-democracy-would-see-poor-people-dominate-hong-kong-vote" href="https://www.scmp.com/news/hong-kong/article/1621103/cy-leung-democracy-would-see-poor-people-dominate-hong-kong-vote" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">disse ele numa entrevista em 2014</a>. Lam poderia, claro, ser franca com os líderes empresariais, ao tempo em que continuava a mentir entre os dentes para o público, e enviava mais (e cada vez mais militarizados) policiais contra os manifestantes.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-129657" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/01/china3.jpg" alt="" width="474" height="316" />Tensões — entre Hong Kong e o continente, e no interior da própria cidade — chegaram a um ápice no Dia Nacional da China, 1º de Outubro. Carrie Lam festejou em Pequim, enquanto a cidade erguia-se em protestos e um manifestante de 18 anos de idade era baleado no peito, à queima-roupa, por um oficial de polícia. Claro que nenhuma notícia dos protestos chegou à CCTV nesse dia, apenas a orgia de militarismo e orgulho nacional. Xi Jinping, contudo, fez uma referência a Hong Kong em seu breve discurso de abertura da parada militar, dizendo que a China precisava aderir à política de “um país, dois sistemas”, pouco antes de quilômetros de soldados, tanques, mísseis e drones desfilarem pela rua Chang&#8217;an e depois na praça Tiananmen. Meus colegas assistiram com orgulho e prazer, exceto uma, que é de Hong Kong. Ela passou a tarde chorando. Tendo visto a filmagem do jovem baleado nas ruas de Hong Kong em <em>loop</em> ao longo da tarde toda, a explosão de fogos de artifício à noite em Pequim foi demais para ela aguentar.</p>
<p style="text-align: justify;">Está claro que muitos dos meus amigos e colegas que outrora estavam com a mente aberta para os protestos, ou talvez apenas curiosos quanto à novidade de manifestações massivas, agora estão decididamente do lado do governo central contra Hong Kong. O que eu achei particularmente alarmante foi a perda de qualquer senso de sutileza, ou vontade de entender os meandros da situação. Alguns mergulharam de cabeça em ideias fáceis de entender, mas lamentáveis. Eu escuto dizerem coisas do tipo: “Bom, os honcongueses optaram pela independência, então eles todos cruzaram a linha. Eles perderam a razão”. Muitos dos meus amigos foram frequentemente bem críticos ao PCCh no passado, e saíram da linha do partido em várias questões controversas, como os campos de Xinjiang, ou o Estado policial sempre em expansão, com seu Grande Firewall e câmeras de segurança em cada esquina. Contudo, nos últimos tempos, ao menos quanto a Hong Kong, parece que, na hora do vamos ver, alguns deles recuaram para um nacionalismo tosco, defendendo uma visão de “chinesidade”. A profanação de símbolos como a <a class="urlextern" title="https://www.news.com.au/world/asia/hong-kong-protesters-desecrate-and-put-chinese-flag-in-the-bin/news-story/8df713546f42c858f817c1cba1053287" href="https://www.news.com.au/world/asia/hong-kong-protesters-desecrate-and-put-chinese-flag-in-the-bin/news-story/8df713546f42c858f817c1cba1053287" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">bandeira nacional chinesa</a>, ou as <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/news/hong-kong/politics/article/2119909/hong-kong-soccer-fans-grow-bolder-they-boo-chinese-national" href="https://www.scmp.com/news/hong-kong/politics/article/2119909/hong-kong-soccer-fans-grow-bolder-they-boo-chinese-national" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">vaias ao hino nacional chinês</a>, rapidamente viraram assunto de debate no bebedouro do escritório, conforme circulavam amplamente no WeChat. “Esses honcongueses estão cometendo o erro de esquecer que são chineses. Eles estão virando racistas, com ódio de sua própria terra natal, o que é simplesmente inaceitável”, disse um. Claro, exemplos do ódio crescente contra honcongueses no continente não circulam no WeChat, como o <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/sport/hong-kong/article/3020987/hong-kong-ice-hockey-players-assaulted-shenzhen-opponents-national" href="https://www.scmp.com/sport/hong-kong/article/3020987/hong-kong-ice-hockey-players-assaulted-shenzhen-opponents-national" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">espancamento de um time de hóquei de Hong Kong durante um torneio em Shenzen depois de vencer um adversário do continente</a>. “Eu acho que a única saída para essa situação vai ser devolver Hong Kong para a China uma segunda vez”, disse outro, referindo-se à entrega da cidade em 1997, deixando de ser colônia britânica.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu garanto que essa deve ser a visão de uma pequena elite priveligada na capital, que tem o hábito de ler e discutir as notícias sobre Hong Kong, sobre a guerra comercial entre EUA e China, ou sobre conflitos no Oriente Médio, sobretudo como um passatempo. Não posso dizer que isso reflete a visão do continental médio, da costa às províncias do interior, ou do migrante do êxodo rural. Ao menos no meu entorno, todavia, a narrativa do Estado parece ter conseguido pegar forte depois desses últimos meses, indo do silêncio a uma absoluta guerra de propaganda. Combinanda à censura e repressão contra conversas particulares, ela pegou forte nos corações e mentes de muitos que naturalmente poderiam ser observadores mais simpáticos. Ao mesmo tempo em que a situação atual entre meus colegas parece sombria, também está claro que, se os cidadãos tivessem um acesso maior à informação, o custo para o Estado seria, de fato, pesado. Ao menos ficaria mais difícil para meus colegas caírem na narrativa do Estado, que não é senão a da lealdade eterna ao Estado, ao Partido, e à ideia do povo chinês num tempo de crise — como a Marcha dos Voluntários, o hino nacional, proclama:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A Nação Chinesa está num momento crítico</em><br />
<em>E de cada peito lança-se o último clamor:</em><br />
<em>Levantai-vos!</em><br />
<em>Levantai-vos!</em><br />
<em>Levantai-vos!</em><br />
<em>Nós, os milhões de corações que batem em uníssono,</em><br />
<em>Em desafio ao fogo inimigo, marcharemos!</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> <strong>Nota do Passa Palavra:</strong> Por “continente” o autor refere-se à China continental.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> <strong>Nota do Passa Palavra:</strong> conjunto de medidas tecnológicas e legislativas empregues pela China para controlar a internet no território do país, que vão desde a censura a determinados sites estrangeiros e à redução da velocidade do tráfego de internet com o exterior até o bloqueio ao Google, Facebook, Twitter, Wikipédia e outras fontes de informação, e à exigência de adaptação, por parte de empresas estrangeiras, à legislação chinesa de internet.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> <strong>Nota do Passa Palavra:</strong> “Xinhua”, ou “Nova China”, é a agência oficial de notícias do governo chinês.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> <strong>Nota do Passa Palavra:</strong> referência à proliferação de adeptos da tática “black block”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=AYIuFMq5boE" href="https://www.youtube.com/watch?v=AYIuFMq5boE" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">Aqui</a> vemos mais um exemplo dos rumores de forças continentais operando em Pequim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> <strong>Nota do Passa Palavra:</strong> suplemento do <em>Diário do Povo</em>, jornal oficial do Partido Comunista Chinês, dedicado a analisar notícias internacionais de um ponto de vista nacionalista.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido pelo Passa Palavra a partir do <a class="urlextern" title="http://chuangcn.org/2019/10/baffled-beijingers/" href="http://chuangcn.org/2019/10/baffled-beijingers/" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">texto publicado em inglês</a> no blog da revista <strong>Chuang</strong>.</em></p>
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		<title>Entrevista com um manifestante dentro da Universidade sitiada em Hong Kong</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jan 2020 12:00:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Hong Kong]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[No começo, eu tinha questões sobre esse movimento e dúvidas, por exemplo, sobre o slogan “Libertem Hong Kong, a revolução de nossos tempos”. Agora não me importo mais, qualquer que seja o slogan que eles queiram gritar, que gritem. Eu só não sigo alguns dos slogans. Por Ralf Ruckus ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Ralf Ruckus</h3>
<p style="text-align: justify;"><em>A Universidade Politécnica de Hong Kong (PolyU) esteve sob cerco policial por mais de uma semana. O manifestante entrevistado tem 20 e poucos anos, pertence aos círculos de espquerda e atua no movimento há meses. A entrevista ocorreu no dia 24 de novembro, dias depois de ele deixar o </em>campus<em> sitiado. Ele descreve não apenas os confrontos e a série de outros eventos durante o cerco, mas também o papel de políticos, professores e assistentes sociais em persuadir os manifestantes a se renderem.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Vamos falar sobre como tudo isso começou. Na quinta-feira, 14 de novembro, a Universidade Politécnica de Hong Kong (PolyU) foi ocupada e barricadas foram construídas lá dentro. Então, como e quando começaram os confrontos com a polícia?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eles começaram no sábado, do lado de fora do portão principal da avenida Cheong Wan. Primeiro os conflitos foram mais esporádicos, mas duraram e continuaram no domingo. Cheguei às ruas em torno da PolyU no domingo à tarde. Naquele momento, o <em>campus</em> era usado por manifestantes para guardar seu material, trocar de roupa, descansar ou receber ajuda médica. Foi por volta das 21h ou 22h. Naquela noite, a polícia anunciou que havia bloqueado a entrada da PolyU, e foi quando o cerco começou.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O que aconteceu naquele momento dentro do <em>campus</em> da universidade?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Até as 23 horas, eu estava fora do <em>campus</em> a maior parte do tempo, mas vi que, quando a linha de frente era atingida pelo canhão de água colorida [<em>usado para facilitar a identificação de manifestantes para prisões posteriores</em>], as pessoas eram levadas para dentro do <em>campus</em> e os socorristas ajudavam-nas a lavar-se e trocar de roupa. Outros estavam fazendo coquetéis molotov. A cantina estava funcionando normalmente. Você poderia obter água e comida, e em outras seções eles também distribuíam carregadores de bateria, necessidades diárias, etc. Foi tudo muito bem organizado, tudo feito e fornecido pelos próprios manifestantes. O material havia sido trazido antes do início do cerco.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Quando os combates começaram no domingo, as pessoas esperavam que a polícia tentasse cercar o <em>campus</em> para iniciar um cerco?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém esperava um cerco. Naquele dia, houve dois confrontos separados fora do <em>campus</em>, na avenida Cheong Wan. Um ocorreu perto do cruzamento das avenidas Cheong Wan e Chatham, em frente ao quartel do Exército de Libertação Popular (ELP). A linha de frente lutou contra a polícia desde a tarde até por volta da meia-noite. A polícia atacava de vez em quando com canhões de água e carros blindados, e as pessoas tinham de se defender contra esses ataques e manter a linha. Eu fiquei por lá até por volta das 20h.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro grupo de linhas de frente estava lutando do outro lado da avenida Cheong Wan, perto da ponte para a estação Hung Hom, na ponte sobre a rodovia. Ou seja, onde o carro blindado foi atingido repetidamente por coquetéis molotov, como você pode ver nas notícias. Passei o resto da noite desse lado. Às 21h ou 22h, os manifestantes atearam fogo numa barricada, e houve um grande incêndio. A luta foi mais intensa lá, também porque o carro blindado estava perseguindo pessoas na ponte, tentando romper a barricada. Se isso tivesse acontecido, teria sido muito perigoso, pois as pessoas precisavam fugir pela ponte.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-129560 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/01/IMG_20191120_124714-Copy-1044x783-1.jpg" alt="" width="1044" height="783" /></p>
<p style="text-align: justify;">Durante esses confrontos, havia uma estrutura de olheiros nos prédios do <em>campus</em> observando a situação, e eles pediram às pessoas da linha de frente que se mudassem para determinadas áreas, por exemplo. A linha de frente nem sempre seguiu as instruções. Os olheiros pediram, por exemplo, que as pessoas se retirassem do cruzamento da Chatham Road, pois achavam que aquele lugar não era bom para montar uma defesa, mas as linhas de frente não aceitavam e ficavam lá.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Naquela noite, a polícia não conseguiu romper as filas, mas acabou conseguindo de manhã cedo, na segunda-feira, e as pessoas tentaram escapar pela entrada do <em>campus</em>? Onde você estava naquele momento?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso aconteceu às 5:30 da manhã. Eu estava na avenida Cheong Wan descansando. De repente, as pessoas gritaram que havia “Raptors” [<em>uma unidade especial de polícia de choque</em>] chegando e que deveríamos nos mover e correr. As pessoas estavam assustadas, gritando. Vi como “Raptors” já haviam capturado e detido alguém. Juntamente com alguns outros, tentamos correr em direção à entrada da PolyU, mas fizemos a curva errada em um canto e paramos em frente a uma parede. Era um beco sem saída, então tivemos de correr de volta, depois pela entrada e subir as escadas até a primeira plataforma. Os “Raptors” estavam a apenas três metros de nós. Quando subimos as escadas, as pessoas já começaram a jogar coquetéis molotov da segunda plataforma acima em direção aos policiais. Uma situação muito perigosa. Naquele momento, vi como um “Raptor” empurrou um manifestante no chão e depois apontou a arma para mim e disparou algumas balas. Fui atingido nas costas, provavelmente por uma bala de borracha ou “saco de feijão” [<em>tipo de munição usada em repressão e dispersão de multidões</em>].</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Eles também estavam atirando gás lacrimogêneo?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não, não nessa situação. Pude ver que as pessoas estavam histéricas quando os coquetéis molotov foram jogados de cima e todos ficaram realmente assustados. No entanto, também vi pessoas usando a água para conter o fogo e certificar-se de que o edifício não fosse incendiado. As pessoas continuaram jogando coquetéis molotov por um tempo para parar a polícia, enquanto outros jogavam água nas paredes circundantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando cheguei à segunda plataforma e entrei no <em>campus</em>, liguei para um amigo que é estudante lá e perguntei se havia outras saídas. Ele falou de dois outros lugares, um dos quais era a ponte pedonal, que já estava queimando, e o outro já estava cercado pela polícia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Você estava pensando em sair, então?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não, eu não. Mas amigos me ligaram e estavam procurando outros amigos que estavam presos lá dentro. Então comecei a olhar em volta, ver quais lugares eram seguros para as pessoas se esconderem e quais saídas ainda estavam disponíveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Como você se sentiu quando percebeu que estava cercado e não podia sair?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eu pensei que a polícia invadiria o <em>campus</em> muito em breve, então achei que deveria ficar lá, mas também estava assustado e cansado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Muitas pessoas tentaram escapar naquele dia. Quais foram suas impressões durante estes momentos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Antes das 15h na segunda-feira, houve três tentativas dos manifestantes de romper as linhas policiais e sair do <em>campus</em>. Um grupo maior de linhas de frente tentou montar uma linha defensiva do lado de fora do portão principal para criar um caminho através do qual as pessoas pudessem evacuar. Todas as tentativas falharam.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais tarde, por volta das 22h ou 23h, a mídia mostrou relatos de que manifestantes de fora tentaram chegar ao PolyU de diferentes direções. [<em>Veja <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/11/129078/" href="https://passapalavra.info/2019/11/129078/" rel="nofollow">este relatório</a> sobre a situação do lado de fora.</em>] As pessoas de dentro se encorajaram e prepararam-se para sair a qualquer momento, pois esperavam sair e encontrar os manifestantes que tentavam romper as linhas policiais do lado de fora.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo instante, alguns políticos e palestrantes pró-governo fizeram um acordo com a polícia. Os menores de 18 anos poderiam sair e ter seus nomes registrados, mas seriam dispensados. Maiores de 18 anos poderiam sair com os políticos, seriam imediatamente presos, mas não seriam feridos ou atacados pela polícia. Antes disso, alguns diretores de escolas já haviam tentado conversar com seus alunos, mas eles não tinham sido autorizados pela polícia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Quando os políticos e professores chegaram, como reagiram as linhas de frente?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Este é um dos contratempos, pois houve muitas divisões entre os manifestantes. Por volta das 23h, alguns gritaram e acusaram aqueles que estavam saindo. Eles disseram: “Você não merece ser nosso camarada!” No entanto, eles também imploraram para que ficassem. Muitos dos que queriam ir embora estavam chorando. Havia também pais que entraram, e eles abraçaram e beijaram seus filhos. As pessoas também estavam preocupadas e em pânico por causa da pressão. Outros estavam gritando para aqueles que estavam prestes a sair que já havia pessoas vindo para resgatar todo mundo e que ninguém tinha de ir assim e ser preso pela polícia.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre 1h e 2h da manhã, as linhas de frente que ficaram dispersaram-se por entre os prédios. Parecia haver pouca chance de que eles pudessem sair juntos, enquanto aqueles que tentavam chegar à PolyU do lado de fora ainda pareciam bastante distantes.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-129558 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/01/00100lrPORTRAIT_00100_BURST20191120143231983_COVER-Copy-1044x783-1.jpg" alt="" width="1044" height="783" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Como vocês passaram dia e noite?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Na segunda-feira, ninguém mais cozinhava na cantina, mas você poderia entrar lá e pegar comida fria e seca. Havia água, podíamos usar os banheiros e encontrar lugares para dormir, mas o ambiente e os banheiros já estavam muito sujos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Assim, durante toda a noite e na terça-feira, várias centenas de pessoas deixaram o <em>campus</em>.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Sim, as pessoas continuaram saindo. Os políticos, assistentes sociais e diretores de escolas vieram por toda a manhã para pegar as pessoas e acompanhá-las quando elas saíam.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Como você se sentiu quando viu todos eles saindo?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Certamente foi devastador. Havia pessoas que queriam ficar, mas quando continuavam vendo as pessoas saindo, sentiam como se ninguém as estivesse apoiando. Os que foram embora sentiram muita culpa. Eles estavam nesse dilema entre pensar em sua segurança pessoal ou no movimento, e tiveram de fazer uma escolha. A decisão de partir os fez sentirem-se culpados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Naquela época, as pessoas ainda temiam um ataque da polícia?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eu esperava que a polícia entrasse nos prédios e invadisse o local durante a noite. Isso não aconteceu, e pela manhã não havia ninguém cuidando das barricadas. Todos haviam desaparecido nos prédios e se barricado ali.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A polícia fez declarações e tentou intimidar os manifestantes dizendo que as pessoas tinham de se render e que todos seriam acusados ​​de tumulto. Qual foi o impacto nas pessoas de dentro?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Essas ameaças policiais já começaram no domingo à noite. Quando eu estava na ponte na avenida Cheong Wan, ouvi dizer que a polícia também estava tocando essas músicas do outro lado das barricadas, músicas das décadas de 1970 e 1980 com letras como “você já está cercado” ou sobre ir prisão, sair e se tornar uma boa pessoa. Havia outra sobre se despedir da sua vida escolar. Os sentimentos expressos eram sobre “partida” e sobre “deixar para lá”.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles tocaram essas músicas na segunda-feira à noite e algumas vezes na terça-feira. Foi hilário e não teve efeito sobre os manifestantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Outras táticas, além das ameaças e músicas, foram mais eficazes, como enviar esses políticos que fingiram ser atenciosos e pediram que as pessoas se rendessem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Então as pessoas estavam saindo durante o dia na terça-feira. O que você fez?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">De manhã, fui ver se uma determinada rota de fuga ainda estava aberta. Existem escadas que levam a uma porta de emergência e, quando não havia policiais, era possível escapar por aquela porta. 60 a 70 pessoas conseguiram. As pessoas estavam subindo as escadas e deixando seus equipamentos lá, pois tinham de poder se misturar assim que saíssem.</p>
<p style="text-align: justify;">Algum tempo depois, à tarde, testemunhei como um político dos pan-democratas anunciou que ele entendia que um grupo queria sair e outro queria ficar, e que ele seguiria o grupo maior. Descobriu-se que o grupo daqueles que queriam sair era maior. Então ele os conduziu pela entrada da PolyU e pela linha de polícia onde todos foram presos, exceto o político.</p>
<p style="text-align: justify;">Também pensei se deveria sair ou não. Entrei em um grupo de Telegram que buscava rotas para escapar. Eram pessoas de fora que tentaram ajudar as pessoas a sair. Eu verifiquei uma das rotas de fuga que foi discutida. Havia rumores no canal de que uma tentativa de fuga foi organizada para as três da manhã, mas depois foi cancelada. Este não foi o grupo que organizou a bem-sucedida ação de rapel na ponte de pedestres.</p>
<p style="text-align: justify;">Vi que algumas pessoas tentavam escapar pelo sistema de drenagem. Alguém parece ter conseguido sair dessa maneira e recebeu ajuda de fora.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-129561 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/01/IMG_20191120_134646-Copy-1044x783-1.jpg" alt="" width="1044" height="783" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Como você se sentiu quando saiu?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, conversei com pessoas diferentes para ver quais eram seus sentimentos. Eu visitei diferentes grupos que se barricaram em diferentes edifícios. Estou certo de que alguns deles queriam se defender e nunca partiram de bom grado. Outros me perguntaram se esse ou aquele plano de fuga funcionaria ou qual rota estaria aberta.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu tinha sentimentos confusos quando finalmente saí do <em>campus</em>, pois ainda havia pessoas presas. Nesse ponto, ficou claro que a polícia não invadiria o <em>campus</em>, mas usaria outras táticas, como tentar esperar e ver se os que estão lá dentro perdiam energia, para terminarem se rendendo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Quando você foi embora, você foi preso?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Fui parado e checado, como todos os outros, e eles me acusaram de tumulto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Vamos falar um pouco sobre por que você apoia o movimento?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No começo, eu tinha questões sobre esse movimento e dúvidas, por exemplo, sobre o <em>slogan</em> “Libertem Hong Kong, a revolução de nossos tempos”. Agora não me importo mais, qualquer que seja o <em>slogan</em> que eles queiram gritar, que gritem. Eu só não sigo alguns dos <em>slogans</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Isso explica algumas de suas motivações, mas não porque você corre o risco de ser gravemente ferido e preso por anos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No domingo, comecei a pensar no risco de prisão e nas consequências de minhas ações. Naquele momento, acho que o valor de permanecer superava o risco e as consequências. Claro, eu também estava com medo. Portanto, eu não aguentava o fato de as pessoas permanecerem dentro da PolyU, mas eu também estava preocupado com minha própria segurança e as conseqüências que enfrentarei.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Ok, mas onde está a conexão entre o risco e o movimento? Vimos a dinâmica no domingo, o ataque da polícia, mas essa é apenas a escalada naquele dia. Você está envolvido no movimento há meses. Você poderia dizer algo sobre o porquê de apoiar o movimento em geral, como ativista de esquerda.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Quando participo, não enfatizo que sou de esquerda. E esse movimento não é sobre vencer derrotando a polícia. Há outras coisas em jogo, mas ainda estou explorando, como valores importantes, democracia, comunicação mais eficaz dentro do movimento de massas, um nível aceitável de violência que as pessoas podem usar. Também é sobre a vida cotidiana, e continuo pensando sobre que tipo de vida as pessoas imaginam e querem construir. Então eu me pergunto para onde deve ir toda a energia que vem do movimento. Certamente há muita energia, e as pessoas, de alguma forma, questionam os valores ou hábitos existentes e agora consideram outros caminhos.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido pelo Passa Palavra a partir do original disponível <a class="urlextern" title="https://nqch.org/2019/11/29/interview-with-a-protester-inside-the-besieged-university-in-hong-kong/" href="https://nqch.org/2019/11/29/interview-with-a-protester-inside-the-besieged-university-in-hong-kong/" rel="nofollow">aqui</a>. </em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>As fotos utilizadas na ilustração deste artigo são da Hong Kong Free Press.</em></p>
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		<title>Uma semana e três fraquezas dos manifestantes de Hong Kong</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/12/129331/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Dec 2019 14:18:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Hong Kong]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[O foco na democracia parlamentar sem questionar as relações capitalistas continua sendo uma das limitações políticas mais óbvias do movimento. Por Ralf Ruckus]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Ralf Ruckus</h3>
<p style="text-align: justify;">Em meados de novembro, ocorreram eventos encorajadores durante os dias de “três greves” ou “Saam Baa” — veja <a class="urlextern" title="https://nqch.org/2019/11/18/saam-baa-in-hong-kong-three-strikes-paralyze-the-city/" href="https://nqch.org/2019/11/18/saam-baa-in-hong-kong-three-strikes-paralyze-the-city/" rel="nofollow">este relatório</a> sobre greves dos trabalhadores, boicotes de estudantes e a interrupção das ações da municipalidade. Nesta semana, três eventos se destacam, e cada um representa uma fraqueza política do movimento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A esperança de ganhar mais “democracia” através das eleições, ignorando as relações capitalistas</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Após a escalada dos confrontos nas ruas em meados de novembro, a situação se acalmou antes das eleições para o conselho distrital de 24 de novembro, em parte porque o movimento não queria dar ao governo da cidade uma razão para cancelá-las. O resultado das eleições foi claro: os partidos pan-democráticos próximos ao movimento de protesto celebraram uma vitória esmagadora, os partidos próximos ao governo da cidade e ao Partido Comunista Chinês (PCCh) sofreram grandes perdas. As eleições do conselho são as únicas eleições “livres” com sufrágio universal em Hong Kong e, portanto, os resultados refletem o grande apoio ao movimento de protesto e suas demandas. O governo da cidade havia afirmado há meses que a “maioria silenciosa” da população apoia e se opõe ao movimento, mas essa alegação provou-se errada. O que essas eleições e o controle pan-democrático sobre os conselhos distritais realmente significam para o movimento de protesto deve ser visto como os conselhos distritais têm pouco peso político. O foco na democracia parlamentar sem questionar as relações capitalistas continua sendo uma das limitações políticas mais óbvias do movimento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A atitude ingênua em relação ao “apoio” do governo dos EUA ao movimento de Hong Kong e a falta de conexões com movimentos de protesto em outros lugares</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Depois que o congresso dos EUA aprovou a <em>Hong Kong Human Rights and Democracy Act</em>, o presidente dos EUA, Donald Trump, promulgou-a em 28 de novembro. A lei permite que o governo dos EUA suspenda o <em>status</em> comercial especial de Hong Kong se considerar que Hong Kong não mantém um grau suficiente de autonomia sob a estrutura “um país, dois sistemas”, e permite também punir funcionários da China que minem essa autonomia. O governo dos EUA está, obviamente, usando essa legislação em seu confronto imperialista com a China e brigando com o regime do PCCh por um acordo comercial, e não está interessado em nenhuma “democracia”, seja em Hong Kong, na Arábia Saudita ou em outra partes do mundo. No entanto, muitos no movimento de protesto de Hong Kong simplesmente ignoram este fato e ainda acolhem a nova legislação, pois leem-na como uma poderosa e necessária forma de apoio para combater o regime do PCCh na cidade. Enquanto isso, o movimento de Hong Kong faz poucas referências a muitos outros movimentos de protesto em curso em outras partes do mundo: Chile, Iraque, Irã, Líbano e muito mais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os manifestantes dentro da Universidade Politécnica de Hong Kong sitiada não conseguiram se reorganizar e impedir que políticos, professores e outros persuadissem a maioria deles a se render</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A ocupação e o cerco da Universidade Politécnica de Hong Kong (PolyU) em Hung Hom terminaram em 28 de novembro. Após intensos confrontos entre a polícia e os adeptos da tática “<em>black block</em>” em 17 e 18 de novembro, a universidade ficou sitiada por mais de uma semana. A polícia bloqueou todas as entradas do campus, pediu que os manifestantes se rendessem e anunciou que acusaria de distúrbio e motim a todos que saíssem. Apenas uma minoria dos manifestantes conseguiu escapar, outros foram presos enquanto tentavam fazê-lo. Eventualmente, foram políticos, professores, pais e outros que entraram e convenceram a maioria dos mais de mil manifestantes a se render. Por que os manifestantes da PolyU não conseguiram se reunir, reorganizar e impedir uma rendição dessa maneira? <a class="urlextern" title="https://nqch.org/2019/11/29/interview-with-a-protester-inside-the-besieged-university-in-hong-kong" href="https://nqch.org/2019/11/29/interview-with-a-protester-inside-the-besieged-university-in-hong-kong" rel="nofollow">Esta entrevista com um manifestante dentro da PolyU sitiada</a> lança alguma luz sobre o desenvolvimento dos confrontos, o cerco, as fugas e a rendição.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido pelo Passa Palavra a partir do original disponível <a class="urlextern" title="https://nqch.org/2019/11/29/one-week-and-three-weaknesses-of-the-hong-kong-protests/" href="https://nqch.org/2019/11/29/one-week-and-three-weaknesses-of-the-hong-kong-protests/" rel="nofollow">aqui</a>.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Este e outros artigos sobre os protestos em Hong Kong estão reunidos em um <a href="https://passapalavra.info/2019/12/129195/">dossiê</a>.</em></p>
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			</item>
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		<title>Concessões econômicas em resposta ao movimento de Hong Kong?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/12/129241/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Dec 2019 14:54:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Hong Kong]]></category>
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					<description><![CDATA[Sem um corpo legítimo de líderes das manifestações para negociar, só sobram duas medidas unilaterais ao regime do PC chinês: ou repressão, ou concessões econômicas. Por Ralf Ruckus]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Ralf Ruckus</h3>
<blockquote><p>Os artigos sobre os protestos em Hong Kong foram reunidos em um <strong><a href="https://passapalavra.info/2019/12/129195/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">dossiê</a></strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A economia de Hong Kong, já afetada pela guerra comerical entre a China e os EUA, sente o efeito do <a class="urlextern" title="https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-09-17/here-s-how-hong-kong-s-unrest-is-hitting-the-economy-tracker" href="https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-09-17/here-s-how-hong-kong-s-unrest-is-hitting-the-economy-tracker" rel="nofollow">movimento de protestos</a>. Nos meses recentes, os <a class="urlextern" title="https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-09-25/protests-see-chinese-tourists-ditch-hong-kong-for-golden-week" href="https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-09-25/protests-see-chinese-tourists-ditch-hong-kong-for-golden-week" rel="nofollow">preços imobiliários caíram</a>, as vendas no varejo caíram, bem como o número de turistas (levando a números menores de <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/print/news/hong-kong/transport/article/3027317/hong-kong-international-airport-posts-biggest-monthly-drop" href="https://www.scmp.com/print/news/hong-kong/transport/article/3027317/hong-kong-international-airport-posts-biggest-monthly-drop" rel="nofollow">viajantes no aeroporto</a>, queda na quantidade de reservas e nos preços dos hotéis, e <a class="urlextern" title="https://theasiadialogue.com/2019/09/25/hong-kong-protests-the-impact-on-local-tourism/" href="https://theasiadialogue.com/2019/09/25/hong-kong-protests-the-impact-on-local-tourism/" rel="nofollow">mais</a>), o <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/print/economy/china-economy/article/3030006/china-trade-flow-hong-kong-declines-city-set-report-worst" href="https://www.scmp.com/print/economy/china-economy/article/3030006/china-trade-flow-hong-kong-declines-city-set-report-worst" rel="nofollow">volume de mercadorias transportadas da China caiu</a>, o mercado de ações teve mau desempenho, e a agência de classificação Moody&#8217;s rebaixou Hong Kong, mencionando “<em>o crescente risco de que os protestos em curso revelem uma erosão na força das instituições de Hong Kong</em> […] <em>e comprometa as bases de crédito por prejudicar sua atratividade como <a class="urlextern" title="https://www.ft.com/content/6fe3286c-d86d-11e9-8f9b-77216ebe1f17" href="https://www.ft.com/content/6fe3286c-d86d-11e9-8f9b-77216ebe1f17" rel="nofollow">um centro financeiro e comercial</a></em>”. Estações de metrô da MTR foram fechadas inúmeras vezes, inclusive todas as linhas no início de outubro, interrompendo a condução de muitos empregados, e vários <em>shoppings</em> e lojas tiveram de fechar durante ou após os enfrentamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, o movimento rebelde em Hong Kong atrapalha o desenvolvimento da economia, e também põe em questão o <em>status</em> da cidade como um centro financeiro para as importações e exportações do capital chinês. O regime do PCC (Partido Comunista da China) continua tendo interesse em manter esse <em>status</em>, ao mesmo tempo em que se recusa a fazer qualquer reforma política ou garantir qualquer “autonomia” à cidade. Então, como ele espera contornar o confronto em Hong Kong?</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, há aqui algumas semelhanças com as lutas sociais na China continental. Primeiramente, há uma ausência de líderes formais, representantes, ou de organizações com as quais o regime possa conversar para “fazer um acordo”. Na China continental, qualquer liderança formal ou organização que não estiver nas mãos do PCC é reprimida. O regime só pode usar formas de repressão e concessão e torcer para que elas funcionem para apaziguar o descontentamento social. Em Hong Kong, o movimento decidiu não ter líderes ou uma organização formal por medo da repressão (como ocorreu durante e após o Movimento dos Guarda-Chuvas de 2014).</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é um dilema agora para o governo de Hong Kong e para o regime do PCC, porque sem negociar com um corpo legítimo de líderes das manifestações ou organizações e <a class="urlextern" title="https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-09-09/hong-kong-leaders-grow-more-frustrated-by-leaderless-protesters" href="https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-09-09/hong-kong-leaders-grow-more-frustrated-by-leaderless-protesters" rel="nofollow">sem qualquer tipo de acordo</a>, só sobram duas medidas unilaterais: repressão e/ou concessões econômicas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-129243 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/12/mala.jpg" alt="" width="1680" height="1120" /></p>
<p style="text-align: justify;">A repressão tem sido a principal medida usada em Hong Kong — bem como na China — até agora, exceto pelo aceite do governo em retirar a Lei de Extradição (uma concessão menor se levarmos em conta o que está em jogo a essa altura).</p>
<p style="text-align: justify;">Diante de lutas sociais na China continental, como as greves, o regime do PCC ofereceu como resposta concessões econômicas e uma possível melhoria das condições materiais de vida. Enquanto os militantes grevistas e os grupos de apoio às lutas de trabalhadores são estreitamente controlados, presos e punidos quando vistos como uma ameaça, o regime do PCC tem permitido, e mesmo orquestrado, um certo aumento nos salários e outras melhorias, por exemplo, para as centenas de milhões de trabalhadores — ao menos, até uns poucos anos atrás, antes de a desaceleração econômica limitar a disposição e a habilidade do regime de fazer concessões econômicas substanciais.</p>
<p style="text-align: justify;">No que tange a Hong Kong, a mídia estatal chinesa tem, na verdade, começado a criticar o papel dos <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/print/news/hong-kong/politics/article/3030209/scapegoats-or-scoundrels-why-ties-between-beijing-and-hong" href="https://www.scmp.com/print/news/hong-kong/politics/article/3030209/scapegoats-or-scoundrels-why-ties-between-beijing-and-hong" rel="nofollow">prósperos magnatas</a> imobiliários de Hong Kong, e o governo de Hong Kong realmente discutiu <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/print/news/hong-kong/hong-kong-economy/article/3030560/there-shortage-ideas-boost-land-affordable-homes" href="https://www.scmp.com/print/news/hong-kong/hong-kong-economy/article/3030560/there-shortage-ideas-boost-land-affordable-homes" rel="nofollow">uma mudança</a> em suas <a class="urlextern" title="https://www.caixinglobal.com/2019-09-27/hong-kong-takes-back-168-acres-of-private-land-for-public-housing-101467172.html" href="https://www.caixinglobal.com/2019-09-27/hong-kong-takes-back-168-acres-of-private-land-for-public-housing-101467172.html" rel="nofollow">políticas habitacionais</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Aluguéis — e o imenso abismo entre os salários e os custos de moradia na cidade — são uma das razões pelas quais tantas pessoas em Hong Kong estão insatisfeitas com sua situação e com o sistema político. Um ataque aos magnatas e seus negócios familiares, que controlam amplas parcelas da economia de Hong Kong, seria uma grande mudança, uma vez que esses magnatas colaboraram até agora com as forças políticas pró-Pequim na cidade e <a class="urlextern" title="https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-09-25/hong-kong-protests-threaten-billionaires-ties-with-beijing" href="https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-09-25/hong-kong-protests-threaten-billionaires-ties-with-beijing" rel="nofollow">com a liderança do próprio PCC</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante notar que esse movimento de Hong Kong produz uma considerável pressão “de baixo” que pode levar a concessões econômicas. No entanto, mesmo que o regime do PCC tome passos decisivos e force o governo de Hong Kong a introduzir mais políticas sociais de moradia, provavelmente levaria anos para fornecer qualquer melhoria para a população da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Se tais concessões podem levar à submissão política (como gostaria o regime do PCC) é de <a class="urlextern" title="https://www.scmp.com/print/news/hong-kong/politics/article/3030199/hong-kong-protesters-meeting-their-housing-dreams-yes-thank" href="https://www.scmp.com/print/news/hong-kong/politics/article/3030199/hong-kong-protesters-meeting-their-housing-dreams-yes-thank" rel="nofollow">qualquer forma algo duvidoso</a>.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido para o português do site <a class="urlextern" title="https://naoqingchu.org/2019/10/11/economic-concessions-in-reaction-to-the-movement-in-hong-kong/" href="https://naoqingchu.org/2019/10/11/economic-concessions-in-reaction-to-the-movement-in-hong-kong/" rel="nofollow">Naoqingchu</a> pelo Passa Palavra.</em></p>
</blockquote>
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		<title>Solidariedade a Hong Kong &#8211; Alguns comentários</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 30 Nov 2019 15:01:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Hong Kong]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[É tarde para uma aliança com a classe trabalhadora chinesa, muito presa a um chauvinismo disfarçado de comunismo? Por Alan Fernandes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Alan Fernandes</h3>
<blockquote><p>Os artigos sobre os protestos em Hong Kong foram reunidos em um <strong><a href="https://passapalavra.info/2019/12/129195/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">dossiê</a></strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">1. Faz 8 meses desde que eclodiram revoltas que têm abalado Hong Kong e o império chinês. A relação dos protestos com este último é decorrente do pacto de jurisprudência que a China tem sobre a colônia baseado no artigo 31 da Constituição chinesa, que estabelece Hong Kong como uma Região Administrativa Especial. Contudo, Hong Kong assegura um sistema jurídico próprio com leis próprias, muitas delas da época em que ainda era colônia britânica.</p>
<p style="text-align: justify;">2. É sugestivo que exista uma direita coagindo nos protestos populares. Até uns meses atrás era normal manifestantes carregarem bandeiras britânicas, e em alguns casos até dos EUA pedindo socorro contra a brutalidade do regime chinês. O paradoxo da direita libertária versus o comunismo ditador não deixa de ser uma constatação quando as forças da ordem dizem estar em caminhada para o comunismo científico. Quando existe essa contradição gritante na geopolítica, os PCs logo se detêm a apontar <em>a priori</em> a direita como posição dominante na oposição.</p>
<p style="text-align: justify;">3. A esquerda e a extrema-esquerda também disputam os protestos. Ainda que não pareça existir um norte favorável para o “anticapitalismo” como uma pauta futura, as ações dos manifestantes em tudo têm a ver com a interrupção da circulação e produção de capital. Os protestos são violentos, as greves são selvagens e multiplicam-se barricadas e paralisações em terminais de metrô. O imperativo dos manifestantes é ir para a rua e resistir! São essas forças que creem que as pautas civis favorecem a classe trabalhadora para se manter organizada.</p>
<p style="text-align: justify;">4. Mas é muito difícil fazer uma mensuração do conteúdo dos protestos se não entendermos como determinante a atividade dos lutadores sociais. Há rumores de que uma das pautas seria a independência de Hong Kong da China. Essa sugestão é vaga, uma vez que não há esforço algum, por meio da população ou da diplomacia internacional, para fazer isso acontecer. Essa pauta nunca foi consenso entre os lutadores. Agora que já estabeleci o quão importante é se rebelar contra o regime chinês, devo me deter em dizer que o separatismo não é uma proposta que serve à classe trabalhadora. A renovação dos gestores tende a se articular em seguida com os países do Ocidente, ou não, para impedir mecanismos de poder popular. De todo modo, não parece ser uma preocupação emergencial para agora. Com a dúvida de o que querem os manifestantes, passo para o 5º comentário.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-129142" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/11/hong-kong-laser.jpg" alt="" width="1008" height="672" />5. As reivindicações que a maioria reivindica são 5: 1) arquivamento imediato da lei da extradição, motivo principal para iniciar os protestos. Meses depois do começo dos atos de rua, o governo já tinha dado para trás com o projeto de lei; 2) que se faça uma comissão que investigue a polícia de Hong Kong em detrimento de violência e abuso de autoridade; 3) sufrágio universal. Hoje, quem propõe projetos de lei ou indica cargos é quem compõe o Colégio Eleitoral; 4) liberdade para os presos e processados em detrimento dos protestos. E por último 5) que o governo se retrate sobre as queixas de vandalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">6. Muitos manifestantes também pedem a renúncia de Carrie Lam — chefe do executivo. Acreditam que ela é influenciada pelo regime chinês e portanto “anti Hong Kong”. Basta ver, após os protestos do dia 11/11, soldados da PLA — People’s Liberation Army —, que são o braço armado do PCCh (Partido Comunista Chinês), adentrarem a colônia e marcharem pelas ruas cantando em mandarim, e neste meio tempo desfazendo barricadas e insultando manifestantes. O que se cobre na mídia é que a entrada das tropas chinesas é ilegal, pois não houve decreto de intervenção. Embora a afirmação seja verdadeira, a chefe do executivo parece não achar um absurdo. Na ocasião do dia 11/11 se manteve intransigente em não atender uma pauta sequer. Disse ainda, em comunicado, que tomaria providências para “estabelecer a ordem”.</p>
<blockquote><p><em>No matter what you believe in, what kind of political opinion you hold. The proud for society is to stop violence and restore calm to Hong Kong.</em><br />
<em>— <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=8QkZw4X73AA" href="https://www.youtube.com/watch?v=8QkZw4X73AA" rel="nofollow">Carrie Lam &#8211; 11/11/2019</a></em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">7. Na ocasião do onze de outubro a polícia baleava um manifestante mascarado. Tempos depois um opositor do movimento aparece em vídeo sendo queimado vivo em uma das estações de metrô que os manifestantes ocupavam. Naquele mesmo momento, muitas outras unidades estavam sendo ocupadas pelo tumulto. A mentalidade de responsabilizar todos os revoltosos pela morte de um indivíduo foi usada como uma bandeira por figuras públicas, pasmem, de esquerda, para condenar o movimento. Esses esforços são de figuras ideológicas da tradição stalinista, muito característica em considerar como luta de classes a posição favorável no cenário geopolítico, e não a atividade libertadora dos trabalhadores em luta.</p>
<p style="text-align: justify;">8. No madrugada do domingo o terror tomava conta da universidade PolyU, onde ocorria uma ocupação estudantil em solidariedade ao movimento. A polícia cerca e atira bombas de gás e orienta, a quem quiser se retirar da universidade, que se renda e abandone seus materiais violentos pelo caminho. Ao saírem, porém, são encaminhados direto para a delegacia e são presos. A polícia também está detendo médicos e jornalistas nas redondezas. Mais um bônus para o paradoxo do anticomunismo! Há uma campanha forte no Twitter para que os EUA se solidarizem com os manifestantes. A polícia chegou até a acionar um <em>sniper</em> no museu próximo à universidade na esperança de amedrontar os estudantes.</p>
<p style="text-align: justify;">9. Os rumos dos protestos vão depender da dinâmica dos próximos dias e de como a esquerda vai se colocar. É tarde para uma aliança com a classe trabalhadora chinesa, muito presa a um chauvinismo disfarçado de comunismo? Os protestos em muito diferem dos que combatem os efeitos da austeridade na domesticação da força de trabalho (como tem sido o caso na América Latina desses últimos dias), e também deixam a desejar porque o movimento não se desenvolveu de tal modo que os manifestantes conseguissem se organizar nos seus locais de trabalho e nos seus bairros para problematizar a falta de controle sobre o trabalho. Ainda assim, em alguns casos os manifestantes que têm de ir para o trabalho vão em ato, criando uma situação nas ruas em que se contorna a normalidade. A esquerda assumir essas pautas de liberdades civis é uma boa garantia para a continuidade das mobilizações e e a possibilidade de avanço em torno de práticas de sabotagem. Um imperativo para os habitantes da colônia hoje é confrontar não só o Estado rígido, mas a ditadura das empresas que se estabelecem no território. Para isso, precisam superar a utopia de democracia ocidental que coabita com a violência do capital. A classe trabalhadora de Hong Kong pode lidar com o paradoxo do anticomunismo libertário no terreno onde se confronta com o capitalismo chinês — na crítica às relações de produção vigentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-129141" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/11/2984645476-protestos-hong-kong.jpg" alt="" width="1200" height="600" /></p>
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		<title>Minha dose de gás lacrimogêneo – um dia turbulento nas ruas de Hong Kong</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Nov 2019 11:25:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Hong Kong]]></category>
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					<description><![CDATA[Naquela época o “black bloc” era sustentado e apoiado pela esquerda, enquanto aqui há um movimento muito maior de luta contra um governo autoritário – e é apoiado por grande parte da população. Por Ralf Ruckus]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Ralf Ruckus</h3>
<blockquote><p>Os artigos sobre os protestos em Hong Kong foram reunidos em um <strong><a href="https://passapalavra.info/2019/12/129195/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">dossiê</a></strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na segunda-feira, dia 18 de novembro de 2019, milhares de manifestantes vieram para a ponta sul de Kowloon em Hong Kong para protestar e talvez tentar furar o cordão policial ao redor da Universidade Politécnica ocupada, onde centenas de estudantes resistem. Este é um relato pessoal dos acontecimentos do dia, escrito com muita adrenalina.</p>
<p style="text-align: justify;">Começando tarde da manhã, inicialmente centenas e depois milhares de estudantes se aglomeraram nos distritos de Tsim Sha Tsui, Jordan, Yau Ma Tei e Hung Hom, onde a Universidade Politécnica está sitiada pela polícia. A União dos Estudantes declarou que ainda há 500 manifestantes lá dentro, dos quais dois terços são estudantes da universidade. Várias tentativas de fuga de grandes grupos falharam na noite passada e hoje de manhã, outras foram bem-sucedidas. Chamadas apareceram nos quadros de mensagens de movimento para sair em apoio aos que estão presos lá dentro.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Hung Hom, grupos de manifestantes marcharam pela rua gritando: “Salvem os estudantes!”. Barricadas construídas na noite anterior foram reforçadas e expandidas com grandes pedaços de bambu usados em andaimes e latas de lixo. Pedras do calçamento também são espalhadas na rua na forma de “mini Stonehenges” para parar veículos da polícia. Muitos estudantes do ensino médio estão aqui, o núcleo dos “black blocs”, mas também homens e mulheres mais velhos, a maioria com máscaras no rosto. Muitas pessoas da comunidade sul-asiática que moram aqui também estão presentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Em uma rua lateral centenas de manifestantes formam uma corrente para levar braçadeiras de plástico para a construção de barricadas e guarda chuvas contra as granadas de gás lacrimogêneo e balas de borracha da linha de frente. Na Chatham Road, os “Raptors”, uma unidade especial da polícia, atiram granadas de gás enquanto outros policiais disparam balas de borracha. A maioria deles atira na altura do rosto. Não deve ser a única dose de gás lacrimogêneo que vai me atingir hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">Um homem da comunidade sul-asiática me pergunta se eu já tinha visto algo assim antes. Sim, eu respondo, durante os movimentos dos <em>squats</em> [ocupações urbanas] das décadas de 1980 e 1990, na Europa Ocidental. Mas naquela época o “black bloc” era sustentado e apoiado pela esquerda, enquanto aqui há um movimento muito maior de luta contra um governo autoritário – e é apoiado por grande parte da população. Então ele aponta para uma jovem construindo uma barricada e diz que ele não conseguia entender como a polícia podia atacar pessoas tão novas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-129079" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/11/EJsspWJX0AAmaUs.jpeg" alt="" width="1024" height="688" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mais tarde, centenas de manifestantes se reúnem em Tsim Sha Tsui. Como em vários lugares, muitos removem pedras do calçamento, as quebram e jogam na estrada. A polícia tenta novamente dispersar a multidão com gás lacrimogêneo. Minha tentativa de seguir mais para o norte pelo metrô MTR falha quando a estação é evacuada confusamente. De volta à rua, lá em cima, eu descubro o porquê: manifestantes atearam fogo em frente a uma das saídas, um dos muitos ataques a MTR, já que o movimento acusa a empresa de colaborar com a polícia.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, ruas são bloqueadas em toda a região, por manifestantes ou pela polícia. Eu faço uma pausa e conheço uma militante de esquerda, que, como muitos, apoia o movimento. Ela me diz, entre outras coisas, que sua mãe trabalha em um hospital. Policiais são levados para lá depois de serem atacados durante sua folga por pessoas do movimento que os seguem e depois batem neles. Sua mãe e grande parte dos seus colegas apoiam o movimento e acreditam que os policias mereceram. A questão da violência contra o Estado é obviamente discutida de forma diferente aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu saí e fui para Jordan na Nathan Road, onde milhares de pessoas estavam de pé ou sentadas, muitas exaustas dos confrontos. No meio da rua, caixas de coquetéis Molotov são preparadas, a mais importante arma contra os ataques da polícia. Um trecho de mais de um quilômetro está “stonehengeado” e quase todo cruzamento tem uma barricada.</p>
<p style="text-align: justify;">Como em muitos lugares de confronto, dúzias de jornalistas em coletes amarelos estão presentes. Alguns deles seguram câmeras e transmitem ao vivo os acontecimentos pela internet ou pela TV a cabo. Um amigo me contou que muitas pessoas mais velhas apoiam o movimento, mas não se arriscam a participar das manifestações, e que através das transmissões ao vivo elas podem ver o que seus filhos estão passando.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu continuo em direção a Yau Ma Tei, onde a polícia de repente ataca com gás lacrimogêneo. Eu corro para uma rua lateral, mas as unidades de polícia avançam para lá também. A multidão recua um pouco, mas quando a polícia para ela avança – o padrão normal de batalhas nas ruas aqui: jovens com máscaras de gás seguram guarda chuvas abertos na linha de frente como proteção contra as balas de borracha. Eles avançam lentamente para que as pessoas atrás, em uma segunda linha, atirem coquetéis Molotov nas linhas da polícia até que elas se rompam.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-129081" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/11/hong_kong_nathan-road_november-18_2019.jpg" alt="" width="900" height="1355" /></p>
<p style="text-align: justify;">Eu pego um atalho e vejo um carro blindado com um canhão de água, ambos construídos pela Mercedes Benz. Eles eram usados na Nathan Road, mas depois eu ouvi que os pneus furaram – verdadeira qualidade alemã. As batalhas continuam nas ruas até tarde da noite, e a polícia faz muitas prisões.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando eu finalmente vou para casa, os sons do levante em Hong Kong ressoam em meus ouvidos: o barulho das pedras do calçamento, das explosões dos coquetéis Molotov, o estampido das granadas de gás lacrimogêneo e das balas de borracha, as sirenes da polícia – e os gritos raivosos dos manifestantes.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido por Marco Túlio a partir do original publicado em inglês no site <a class="urlextern" title="https://nqch.org/2019/11/19/my-dose-of-teargas-a-turbulent-day-on-the-streets-of-hong-kong/" href="https://nqch.org/2019/11/19/my-dose-of-teargas-a-turbulent-day-on-the-streets-of-hong-kong/" rel="nofollow">Naoqingchu</a>.</em></p>
</blockquote>
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		<title>Protestos em Hong Kong: conversa com o &#8216;Grupo de Trabalhadores&#8217;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Sep 2019 11:23:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Hong Kong]]></category>
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					<description><![CDATA[A situação socioeconômica das pessoas em Hong Kong está fodida em todos os aspectos Por Bad Kids of the World ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Bad Kids of the World entrevistam o Grupo de Trabalhadores de Hong Kong</h3>
<blockquote><p>Os artigos sobre os protestos em Hong Kong foram reunidos em um <strong><a href="https://passapalavra.info/2019/12/129195/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">dossiê</a></strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A entrevista a seguir foi feita por internet durante o mês de agosto. Camaradas de diferentes partes do mundo – uns <em>Bad Kids of the World</em> – fizeram algumas perguntas sobre o movimento anti-extradição ao “<a href="https://www.facebook.com/workercom/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Grupo de Trabalhadores</a>”, um coletivo proletário sediado em Hong Kong. Nós queríamos entender como os protestos massivos se relacionam ao contexto mais amplo da luta de classes na região. O texto está sendo publicado simultaneamente em diferentes línguas (veja a versão em inglês <a href="http://libcom.org/news/protests-hk-talk-workers-group-12092019" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Bad Kids of the World [BKW]: Você pode nos contar os desafios da luta contra a Lei de Extradição? Qual o impacto dessa lei no cotidiano, tanto do ponto de vista das condições materiais de existência dos trabalhadores, quanto da capacidade organizacional dos grupos revolucionários e movimentos sociais?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Grupo de Trabalhadores [GT]:</strong> Acho que essa é uma das perguntas mais difíceis de responder. É bastante claro que as pessoas em geral não serão afetadas diretamente, mesmo que a lei possa vir a ser aprovada. Existem três tipos de pessoas que estão seriamente ameaçadas. O primeiro tipo são os super-ricos da China, que estão fugindo do sistema judiciário chinês para escapar de acusações de crimes comerciais ou de disputas internas do Partido Comunista. O segundo tipo de pessoas são os ativistas políticos em Hong Kong. Uma vez que não há absolutamente nenhuma liberdade política na China, não há partidos de oposição organizados. Por outro lado, podemos dizer que Hong Kong é o único lugar dentro do território chinês onde existem alguns partidos de oposição. Por isso, muitos de nós acreditamos que esses ativistas políticos são o segundo grupo de pessoas que estão ameaçados pelo projeto de lei. Existe um terceiro grupo, que não necessariamente são cidadãos chineses ou de Hong Kong: são pessoas de todo o mundo que se relacionam com a China, porém não são bem-vindas pela China. Podem ser trabalhadores de ONGs, religiosos, gente de negócios ou qualquer pessoa que o governo chinês não goste.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se fala de trabalhadores e da vida cotidiana, é muito importante entender que quase toda população de Hong Kong é de imigrantes chineses ou descendente de imigrantes da China. Muitos têm parentes na China continental e voltam às suas cidades natais anualmente para encontros de família. Por outro lado, desde os anos 80, os laços econômicos entre Hong Kong e China têm ficando mais complicados. Muitas pessoas de Hong Kong estão realmente cruzando as fronteiras para trabalhar. Especialmente nos setores de negócios. Primeiro, os gerentes de fábrica e os empresários vão à China continental para montar fábricas. Posteriormente, não apenas para trabalhar nas fábricas, mas também como contadores, designers, engenheiros, trabalhadores de ONGs, assistentes sociais ou mesmo professores universitários; muitos setores diferentes foram desenvolvendo ligações e cooperação com a China. Por outro lado, muita gente de Hong Kong que não pode pagar por um apartamento aqui acaba escolhendo comprar um apartamento na China continental afim de manter seus bens com um bom valor. É esse, então, o vínculo mais próximo das pessoas comuns com a China.</p>
<p style="text-align: justify;">Muita gente também tem medo que qualquer coisa que lhes aconteça na China possa resultar numa acusação criminal. Se passar a Lei de Extradição, essas pessoas também podem ter o problema de serem enviadas à China.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre a capacidade organizacional de grupos revolucionários e movimentos sociais… Eu diria que a capacidade organizacional é minúscula. O que quero dizer com minúsculo é que, falando no nosso Grupo de Trabalhadores, consistimos em apenas de dez a vinte membros ativos. Estamos fazendo coisas muito diferentes durante a luta, nós não trabalhamos de maneira muito coordenada. Mas uma característica de movimentos de massa desse tipo é ter muitos manifestantes que estão indo pela primeira vez e querem fazer muita coisa. É por isso que também estamos aproximando novas pessoas e participando de diferentes atividades. Por exemplo, aproximamos algumas pessoas para ajudar em exibições de rua, para passar nos bairros vídeos sobre o que está acontecendo nas lutas. Por outro lado, também aproximamos algumas pessoas novas para visitar os trabalhadores que precisam trabalhar à noite. Muitos deles sofrem com o confronto entre a polícia e os manifestantes. Por exemplo, os trabalhadores da limpeza são expostos diretamente ao gás lacrimogêneo sem nenhum dispositivo de proteção. Então, vamos visitar esses trabalhadores para conversar com eles sobre como se proteger e sobre o que o movimento está reivindicando.</p>
<figure id="attachment_128251" aria-describedby="caption-attachment-128251" style="width: 2048px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-128251" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/09/IMG_5991.jpg" alt="" width="2048" height="1536" /><figcaption id="caption-attachment-128251" class="wp-caption-text">Na sexta-feira 21 de julho, 100 mil pessoas tomaram as ruas e se dividiram em 3 grupos para bloquear a sede do governo, a sede da polícia e o departamento tributário. Foi o primeiro dia de ações totalmente iniciadas e coordenadas por consenso em fóruns anônimos e grupos de Telegram.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Para apresentar o movimento ao público internacional, você pode começar fazendo uma breve recapitulação da sua história? Como ele começou?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Um histórico muito antigo é que, em 1984, quando o governo britânico assinou o acordo com Zhao Ziyang para devolver a soberania de Hong Kong à China, havia uma promessa muito explícita de que os sistemas tradicionais da China e de Hong Kong não iriam se fundir, que serviu para aliviar o medo da população de Hong Kong. Esse é o contexto inicial. Mas no início de 2019 aconteceu uma coisa. Uma pessoa de Hong Kong matou sua namorada em Taiwan e fugiu para Hong Kong. Porém, como Hong Kong e Taiwan não têm nenhum acordo de extradição, essa pessoa não pôde ser julgada pelo assassinato em Taiwan. Aí o governo de Hong Kong está aproveitando esses eventos para propor uma emenda à Lei de Extradição. Mas na verdade, o conteúdo do projeto de extradição não tem nada a ver com esse caso, porque o governo está tentando expandir a cooperação de extradição para a China, que não tem nenhuma relação. No passado, já houve situações de Hong Kong trocar criminosos com Taiwan sem nenhuma emenda na Lei de Extradição. Portanto, está ficando cada vez mais claro que o projeto de extradição tem uma intenção política muito clara de enviar pessoas para a China, em vez de trazer justiça pelo assassinato em Taiwan. E, como resultado, desde abril de 2019, eles estão recebendo cada vez mais protestos, e mais e mais objeções na comunidade internacional, incluindo o consulado da União Europeia e dos Estados Unidos. Mas o governo de Hong Kong não vai ouvir esses conselhos. Com isso, em 9 de junho, ocorreu uma grande manifestação, a maior desde 1989. Cerca de um milhão de pessoas estavam envolvidas. O que aconteceu depois desse ato você pode ver nos noticiários, então não vou repetir.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, ao falar sobre a história do movimento, quero acrescentar alguns antecedentes. Acho que os eventos dentro da luta são importantes, mas nunca são completos. Nós precisamos conseguir entender a intenção da Lei de Extradição. Muitas pessoas em Hong Kong não entendem por que o governo chinês escolheu fazer o projeto de extradição justamente neste período específico. Eu acredito que eles têm um cronograma para isso. O que quero dizer é que, desde 2012, quando Xi Jinping se tornou presidente da China, ele começou a aumentar seu controle sobre todo o país. Ele fez muitas ações. Primeiro, reformou a estrutura do governo para que o poder se concentre em uma pessoa: ele próprio. Em segundo lugar, há muita repressão à sociedade civil dentro da China. Os movimentos – incluindo as famílias, advogados, ativistas trabalhistas – foram todos suprimidos. E o governo está tendo um controle ainda mais rígido sobre a mídia do que antes. Por outro lado, o Partido Comunista exige que todas as empresas, inclusive as privadas, estabeleçam um núcleo do Partido Comunista. O que significa que o PC está se expandindo e tentando ser o líder de qualquer instituição social. É isso que está acontecendo na China.</p>
<p style="text-align: justify;">Em segundo lugar, o governo chinês está tentando obter controle completo sobre os lugares onde ele não pode controlar completamente, ou seja, o que aconteceu em Xinjiang. Xinjiang fica na parte noroeste da China e está conectada ao Cazaquistão, Paquistão e ao restante da Ásia Central. A maioria das pessoas não são realmente chinesas, são uigures. Como o lugar nunca foi de fato, tradicionalmente, um território chinês, o governo está explorando muito e colonizando aquela região, e sempre há um sentimento nacionalista e movimentos de independência. Desde 2013 ou 2014 o governo chinês está construindo aí campos de concentração e enviando pessoas uigures para eles, que têm sido chamados de campos de “reeducação” ou de “desextremização”. O que acontece nesses campos é que essas pessoas sofrem lavagem cerebral e recebem educação patriótica por 8 horas, ou mesmo 10 horas por dia, com algum trabalho forçado. Esse problema é amplamente noticiado, e muitos acreditam que isso acontece porque Xinjiang é a janela do projeto “Um Cinturão, Uma Estrada”, que conecta uma rodovia e um gasoduto com o Cazaquistão. É por isso que eles vão impor um controle mais rígido sobre o território.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra parte da ação é obter controle completo sobre Hong Kong e Taiwan. Como Hong Kong e Taiwan vivem cenários totalmente diferentes, não nos podem enviar para campos de concentração. Porém, o que estão fazendo é uma série de passos para estreitar o controle do governo chinês, o que inclui estigmatizar o partido da oposição e obter maior controle sobre a mídia de Hong Kong, também inclui empresas de jornais e televisão, a compra de muitos empresários e gângsteres e o apoio a algumas das forças políticas afiliadas ao governo chinês. Por fim, suprimir a liberdade de imprensa e liberdade de expressão nos meios acadêmicos. Isso está acontecendo simultaneamente em Hong Kong e no Taiwan. Mas Hong Kong é muito mais problemático que o Taiwan, porque é um lugar onde a China se conecta ao resto do mundo. Todo mundo do Ocidente, e também do resto do mundo, que quer fazer alguma coisa na China – não importa se negócios, religião, política, caridade, ou seja lá o que for – vai precisar passar por Hong Kong. Hong Kong é um lugar muito complicado nesse sentido. Então eu entendo que a Lei de Extradição é uma tentativa de colocar Hong Kong sob um controle mais duro do governo chinês. Eu acho que se formos falar sobre a Lei de Extradição, temos que analisar o que aconteceu na China nos últimos anos e como eles estão tentando obter um controle total sobre esse território. A Lei de Extradição é apenas parte desse projeto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Qual é a composição social do movimento? Quem são as pessoas que vão às manifestações? Quais setores participaram das greves? Essas pessoas estiveram no movimento desde o começo, ou estão entrando agora?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>WG:</strong> É definitivamente um movimento que atravessa classes diferentes. Mas, falando de composição, eu vejo dois grupos mais importante. O primeiro são os estudantes. Quando falo de estudantes, estou falando de pessoas da faixa dos 10 aos 20. É bem maluco ver gente de 10 anos indo às ruas e lutando, mas sim, é o que está acontecendo agora. Quanto a essas pessoas, eu não tenho certeza do seu contexto familiar. Quem teve mais contato com os estudantes me falou que são contextos familiares bem diversos. Alguns vindo de famílias bem de vida, e outros de famílias muito pobres. São condições bem diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje os estudantes em Hong Kong enfrentam muitos problemas, por uma série de razões. Primeiro, é a pressão dos estudos. Há algumas pesquisas que mostram que o tempo que os alunos de Hong Kong têm que passar estudando por dia é maior do que a carga horária de um trabalhador comum. São cerca de 55 horas semanais, e a jornada média de um trabalhador em Hong Kong são 50 horas. O segundo problema é que hoje está ficando claro para os estudantes que simplesmente não existe qualquer tipo de mobilidade social. Não importa se você tem uma graduação universitária ou não, você definitivamente não vai conseguir comprar um apartamento ou ter um bom salário após se formar. Um tópico bem preocupante é que nos últimos anos houve uma alta recorde de casos de suicídio entre os estudantes. Até agora, ninguém conseguiu concluir qual a verdadeira razão para tantos casos de suicídio, mas está bem claro que se relaciona com o problema da educação e com a falta de perspectiva de futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro grupo muito importante de pessoas são os trabalhadores jovens, que podem ou não ser recém-formados na universidade. Eles têm entre 20 e 30 anos. Essas pessoas são outro grupo ativo, que assume diferentes papéis nos protestos. Dá pra dizer que há diferenças no nível salarial, mas tenho certeza que, em meio a eles, há muitos desempregados e também trabalhadores <em>freelances</em>, que não trabalham em tempo integral. São os trabalhadores desempregados e <em>freelances</em> que tem mais flexibilidade para comparecer a todos os protestos. O motivo é que, por um lado, eles não têm salário; mas, por outro, eles têm controle total sobre seu tempo. Eu conheço um monte de amigos que simplesmente largaram seus empregos para ter mais tempo para participar da luta. Eles são as pessoas que mais facilmente podem participar da greve porque não estão preocupados em serem demitidos ou sofrerem sérias consequências após se recusarem a trabalhar em um dia específico.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses são os dois grupos mais importantes. Mas, por outro lado, eu diria que a classe média ainda tem tido um papel importante neste movimento por doar muito dinheiro para todo tipo de coisa, incluindo impressão de materiais de propaganda, e por comprar muitos equipamentos de proteção para os manifestantes. Até esta luta, nós nunca tivemos capacetes e filtros de gás nos protestos, esses itens são muito caros. No entanto, um monte de gente está fazendo doações para comprar esses equipamentos de proteção para os manifestantes. Então eu acho que esses três grupos de pessoas são os que mais facilmente se identificam nos protestos. Mas eu certamente esqueci um monte de outros grupos que também fizeram um monte de coisas importantes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[Atualização em 06/09]</strong> O relatório de uma <a class="urlextern" title="http://www.com.cuhk.edu.hk/ccpos/en/pdf/ENG_antielab%20survey%20public%20report%20vf.pdf" href="http://www.com.cuhk.edu.hk/ccpos/en/pdf/ENG_antielab%20survey%20public%20report%20vf.pdf" rel="nofollow">pesquisa de campo</a> cobrindo todas as manifestações de 9 de julho a 4 de agosto mostrou que a proporção homem/mulher no movimento está mudando de 1:1 para 3:2. 70-90% dos manifestantes possuem graduação universitária, e cerca de metade deles tem de 10 a 30 anos. Além disso, metade dos manifestantes se descreve como “classe média”.</p>
<figure id="attachment_128250" aria-describedby="caption-attachment-128250" style="width: 960px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-128250" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/09/IMG_5990.jpg" alt="" width="960" height="640" /><figcaption id="caption-attachment-128250" class="wp-caption-text">1º de julho foi particularmente importante porque os manifestantes invadiram o prédio do parlamento e fizeram um pronunciamento com as 5 reivindicações. (Foto: Jimmy Lam @ USP United Social Press)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Como você vê a relação entre o movimento e a vida no local de trabalho? O movimento produziu conflitos no trabalho ou conflitos no trabalho que se conectaram ao movimento? Você poderia falar um pouco sobre a iniciativa do seu “Grupo de Trabalhadores”?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Poucas lutas foram articuladas nos locais de trabalho, por várias razões. Primeiro: a lei de extradição não está totalmente relacionada a locais de trabalho específicos. Segundo: as lutas nos locais de trabalho nunca são um tema nos principais movimentos sociais de Hong Kong. Temos só uma ou duas greves a cada ano (e mais de dez movimentos selvagens de trabalhadores da construção civil subcontratados, que sempre sofrem por não receber salários). As pessoas em geral nunca realizam greve como forma de protesto. No entanto, durante as assembleias de trabalhadores de setores específicos (como a que foi organizada por trabalhadores da saúde), muitas questões do local de trabalho foram mencionadas, além de se falar sobre a Lei de Extradição. Isso ocorre porque os profissionais de saúde do setor público sofrem com longas horas de trabalho e redução do quadro de funcionários, mas o governo se recusou a tomar medidas. Em janeiro, eles quase organizaram sua primeira greve na história para protestar contra isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Além das greves gerais, não há muitas ações coletivas de trabalhadores em torno do movimento anti-extradição. A única exceção são os operadores do metrô. O motivo é que o metrô é o transporte mais importante para os manifestantes e há duas semanas atrás os policiais lançaram gás lacrimogêneo nas estações de metrô, o que significa que os trabalhadores e outros passageiros correram risco. Agora muitos operadores do metrô estão exigindo que sua empresa impeça a polícia de entrar nas estações, para proteger a segurança pessoal dos trabalhadores. Este é o conflito mais direto.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro conflito – bem, não vou dizer que é “conflito”, porque é só unilateral, vindo dos patrões – acontece em algumas grandes empresas de capital chinês. Eles forçaram a equipe a assinar algumas petições para apoiar o Projeto de Extradição e condenar os baderneiros, e alertaram a equipe para não estar ausente no dia da greve – caso contrário, seriam demitidos na hora. É por isso que não direi que é um conflito: como os trabalhadores desses lugares não tiveram força para revidar, eu prefiro chamar de “repressão”. Quanto a outros locais de trabalho, não me parece haver conflitos muito agudos. Uma vez que o trabalhador comum em Hong Kong não fala sobre sua visão política no seu local de trabalho, ele acaba não sabendo o que seus colegas estão pensando.</p>
<p style="text-align: justify;">O nosso Grupo de Trabalhadores está oferecendo ajuda para alguns trabalhadores que ficaram com problemas nesse tipo de conflitos, mas não recebemos muitos casos. Ah sim! Há outro conflito muito importante que eu preciso mencionar. Não está diretamente relacionado a uma visão política, mas está diretamente relacionado aos protestos. Hong Kong é uma cidade muito movimentada e há muitas lojas nas ruas. Então, você pode imaginar, durante os protestos, em muitos casos, ainda é no período da tarde, ou seja, todas as lojas e restaurantes estão funcionando. E então a polícia dispara gás lacrimogêneo nas ruas. O resultado é que os funcionários de restaurantes e lojas também ficam sob risco. Quando os policiais estão investindo contra os manifestantes, alguns vendedores inocentes podem ser, também, espancados. Em algumas empresas, assistimos a um tratamento realmente ruim de patrões contra vendedores que decidem parar de trabalhar mais cedo por causa do confronto nos protestos. O patrão simplesmente desconta seus salários. Então essa é uma luta muito importante que estamos tentando acompanhar, pois acreditamos que muitas pessoas estão sendo afetadas dessa maneira.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: E quanto às pessoas que estão sendo demitidas quando os chefes descobrem que estão indo nos protestos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Uma pessoa veio até nós por causa desse problema, mas não acho que isso seja muito comum. Eu não vi esse tipo de reclamação em fóruns <em>online</em> ou nas mídias sociais. Então, suponho que não seja um fenômeno muito comum. Pois muitas pessoas optam por solicitar um dia de folga para a greve, e como isso é completamente legal, ninguém pode cobrar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Os protestos anti-extradição começaram meses atrás, mas só agora, em 5 de agosto, eles se transformaram em uma greve geral… Como isso aconteceu?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Houve três chamados de greve geral durante o movimento: 12 de junho (quando o projeto seria aprovado no Conselho Legislativo, ou seja, o parlamento de Hong Kong), 21 de julho (depois que bandidos atacaram pessoas vestidas de preto na volta do ato) e 5 de agosto. Esses apelos à greve geral não têm nada a ver com ideologia marxista, e a greve geral é vista apenas como uma maneira de protestar e de não cooperar com o governo. Além disso, em 12 de agosto não houve greve, mas muitas pessoas deixaram de trabalhar para ir ao aeroporto como forma de reagir ao tiro que os policiais deram em um enfermeiro, mirando no seu olho direito.</p>
<figure id="attachment_128248" aria-describedby="caption-attachment-128248" style="width: 1600px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-128248" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/09/IMG_5988.jpg" alt="" width="1600" height="1200" /><figcaption id="caption-attachment-128248" class="wp-caption-text">Em 12 de agosto, nós invadimos o aeroporto em resposta a um socorrista que ficou cego por um tiro da polícia. Após 100 voos serem cancelados, nós deixamos o aeroporto a pé.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Como foi organizada essa greve geral? Qual foi o papel dos sindicatos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Todas essas três greves gerais não foram organizadas no sentido tradicional, e o sindicato quase não teve nenhum papel nisso. Grosso modo, essas greves foram organizadas seguindo uma lógica muito simples.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro passo: sobre a data. É escolhida pela importância do dia (12 de junho), um dia depois de algo particularmente sério acontecer (21 de julho), ou decidido por consenso na internet (5 de agosto). O consenso é uma mistura de discussão anônima no fórum e votação anônima no Telegram.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo passo: o desenho do plano de ação. O dia 12 de junho foi simples: todos vão ao parlamento porque o objetivo é interromper o projeto de lei. O dia 5 de agosto foi mais bem coordenado. Havia assembleias em sete lugares, além de bloqueio de tráfego pela manhã. As assembleias em sete lugares foram iniciadas por algumas pessoas na internet, conectando mais ativistas e membros do sindicato para participar; o bloqueio do metrô em 4 estações foi proposto na internet; o bloqueio nas estradas através da redução da velocidade foi decidido entre grupos de motoristas (não sindicalizados, principalmente proprietários de automóveis).</p>
<p style="text-align: justify;">Essa greve geral não foi organizada no sentido tradicional. São alguns materiais de propaganda que circulam pela internet e ajudam a coordenar as pessoas. Existem duas fases de coordenação: a primeira é pedir às pessoas que parem o transporte público na manhã do dia, e a segunda parte da coordenação é ter assembleias em sete lugares diferentes em Hong Kong. Eu acho que a razão de ter sete lugares é não focar todo mundo em um local específico, mas sim se espalhar pela cidade. Não acho que planejem fazer isso, mas as sete assembleias imediatamente se tornam ocupações em sete lugares. Em todas as assembleias, vão dezenas de milhares de pessoas e ninguém quer sentar e ouvir algo por muito tempo; muitas pessoas simplesmente andam direto e tomam as ruas. Nesse dia, em todos os lugares diferentes de Hong Kong, houve confrontos [com a polícia], gás lacrimogêneo e esse tipo de coisa. A greve está realmente se tornando, vamos dizer, um “dia de ação em toda Hong Kong”. Até então, as ações eram focadas apenas em uma região específica, mas naquele dia havia ações em Hong Kong, em seis ou sete lugares.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Então foi um tipo de “greve urbana”, parando a cidade?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Sim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Existem espaços ocupados pelo movimento?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Não. Se resume a ir a lugares diferentes para causar problemas todos os sábados e domingos. Isso é em parte uma revisão de estratégia após o fracasso da Revolução dos Guarda-Chuvas [<strong>N.T.:</strong> <a href="https://passapalavra.info/2014/10/100151/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">movimento ocorrido em 2014</a>], na qual as pessoas ficaram exaustas durante a ocupação, sem atrapalhar efetivamente a economia e a rotina de funcionamento do governo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[Atualização em 06/09]</strong> Agora há conflitos entre as pessoas e a polícia em todos os lugares, todas as noites. Isso é porque os policiais estão vendo todos os cidadãos como seus inimigos. Com muita frequência, eles param e procuram pessoas. Tal tipo de abuso enfureceu muitos moradores, e toda noite as pessoas dos bairros estão expulsando os policiais das áreas aonde vivam. Outra forma típica de enfrentamento agora é quando um monte de gente fica fazendo barulho nas redondezas das estações policiais, por exemplo xingando e cantando músicas anti-polícia. Algumas vezes os policiais correm para fora das estações, tentando prender alguns.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Os trabalhadores tentam roubar ou expropriar coletivamente mercadorias?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Nunca. Julho de 2019 foi a primeira vez em que muita gente de Hong Kong pulou a catraca no metrô. Antes disso, todo mundo ficava na fila para comprar passagem de metrô após o protesto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[Atualização em 06/09]</strong> Os primeiros grandes atos de destruição de propriedade privada só começaram a ocorrer após 31 de agosto, quando o metrô cooperou com os policiais, deixando-os entrar nos trens para baterem em todas as pessoas que vissem – agora nós chamamos esse incidente de “ataque terrorista 831”. Depois disso, os manifestantes estão quebrando máquinas de bilheteria, portões e vidros das estações de metrô em resposta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Vimos muitos tipos diferentes de bloqueios – desde motoristas que diminuem a velocidade nas rotatórias até passageiros deitados nas portas do metrô para parar os trens. Você pode nos contar mais sobre as táticas de greve?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Para impedir que as pessoas trabalhem:</p>
<ol style="text-align: justify;">
<li>Acidente de trânsito falso;</li>
<li>Dirigir devagar;</li>
<li>Deitar-se nas portas do metrô.</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">Para não ir trabalhar:</p>
<ol style="text-align: justify;">
<li>Greve declarada;</li>
<li>Licença médica falsa;</li>
<li class="li">Solicitar folga;</li>
<li class="li">Simplesmente parar de trabalhar (chefes de pequenas empresas, <em>freelances</em> e trabalhadores temporários).</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Além das empresas chinesas, qual é a posição dos chefes de outros locais de trabalho?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Empresas transnacionais, incluindo bancos e empresas de contabilidade, estão incentivando os funcionários a falar sobre a greve indiretamente, por meio de emissão de aviso interno dizendo que ” é aconselhado trabalhar de casa por conta da possível situação caótica amanhã“. Como resultado, não apenas a equipe contratada diretamente pode entrar em greve, mas também os parceiros de negócios são sabotados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[Atualização em 06/09]</strong> Muito mudou desde a nossa discussão. Nas companhias aéreas, a Administração da Aviação Civil da China ordenou que a <em>Cathay Pacific</em> – principal empresa aérea sediada em Hong Kong, com um sindicato forte – que entregasse uma lista de nomes de funcionários que participaram dos protestos, ameaçando proibir a linha de voar sobre a China. O CEO recusou e foi forçado a se demitir. Ele foi substituído por empresários chineses que rapidamente demitiram uma série de funcionários por seu engajamento político. Eles foram tão longe que estão encorajando trabalhadores a denunciar seus colegas por participar politicamente. O metrô, agora cooperando completamente com os policiais, também está demitindo operadores que aderiram à petição de greve.</p>
<figure id="attachment_128249" aria-describedby="caption-attachment-128249" style="width: 2048px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-128249" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/09/IMG_5989.jpg" alt="" width="2048" height="1536" /><figcaption id="caption-attachment-128249" class="wp-caption-text">Nós levamos cartazes com imagens de ativistas laborais, advogados de direitos humanos e defensores dos direitos das minorias étnicas da China para fazer com que os demais manifestantes associassem nossa luta aos problemas do povo na China.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Qual é o lugar do nacionalismo na luta, e quem carrega esse projeto político? Existem pontes entre trabalhadores de Hong Kong e da China em termos de luta nesse momento?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> A tendência nacionalista na luta está ficando mais complicada. De 2010 a 2016, a retórica xenofóbica anti-chinesa (imigrantes e turistas) se tornou muito popular. Algumas pessoas começaram a falar sobre a “identidade nacional de Hong Kong” e três candidatos deste campo venceram nas eleições parlamentares em 2016 (3 de 70 deputados). Também existe uma forte retórica sobre a separação completa de Hong Kong da China, e a população em geral não está interessada em conhecer a China. Em 2019, está bem claro que a maioria dos manifestantes (especialmente os jovens) não se considera chinesa, e o slogan “Hong Kong não é China” ou mesmo “Sem China” [No China] sempre aparece. A participação chinesa na repressão (por exemplo, polícia chinesa armada se juntando à polícia de Hong Kong na repressão; agentes provocadores enviados pela força de segurança nacional chinesa foram capturados; estão verificando dados de telefones celulares quando as pessoas atravessavam a fronteira; o exército está se posicionado na fronteira; declarando manifestantes como terroristas, etc.) agitaram ainda mais os manifestantes, de modo que ninguém quer ter qualquer conexão com este governo.</p>
<p style="text-align: justify;">O “sentimento nacionalista” se desenvolve ainda mais quando os manifestantes em diferentes partes de Hong Kong são atacados por policiais. Após esses confrontos, as pessoas não apenas falam sobre “proteger Hong Kong”, mas também se orgulham de fazer parte desse bairro, porque as pessoas lá lutaram bravamente contra a polícia, contra os invasores que representam o interesse nacional chinês.</p>
<p style="text-align: justify;">O outro lado da história é que agora há menos retórica xenofóbica do que antes, embora seja mais uma consideração estratégica do que uma mudança no modo de pensar. Porque os manifestantes querem que o maior número de pessoas se envolva, a tal ponto que até os políticos famosos pela retórica xenofóbica falam menos nesse assunto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Quais são as diferentes identidades étnicas locais que existem na população de Hong Kong? As pessoas se veem e se organizam através dessas etnias? Existem rivalidades entre elas?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> A demografia de Hong Kong é muito complicada. 6 milhões de chineses, aproximadamente 1 milhão deles, são imigrantes vindos da China, que vieram para Hong Kong nos últimos 20 anos. As rivalidades entre velhos e novos imigrantes é um tema da direita, que alega que os novos imigrantes são preguiçosos, enquanto ao mesmo tempo afirmam que “roubam nossos empregos”, “tiram dinheiro dos mais velhos através de casamentos”, e também “são culpados por apoiar o governo”. Os novos imigrantes são discriminados e muitos deles estão trabalhando em empregos mal remunerados. Nos últimos anos, como a comunidade tem crescido rapidamente, eles se tornaram mais e mais apartados dos velhos imigrantes, falando mandarim e obtendo informações a partir de sites chineses (que são firmemente controlados pelo governo chinês). Este tipo de segregação é um problema sério em Hong Kong. Existe ainda uma pequena comunidade de chineses vindos da Indonésia. 46.000 pessoas do Nepal, Índia e Paquistão. Seus pais e avós vieram para Hong Kong, na maioria das vezes trabalhando como oficiais militares ou outros tipos de funcionários do Império Britânico. Nos anos 1990, lhes foi concedida cidadania em Hong Kong. Entretanto a educação fornecida para estes grupos é tão diferente da educação dos estudantes chineses que eles não puderam aprender muito da língua chinesa na escola. Como resultado, eles não têm muitas opções de trabalho (principalmente em restaurantes e em construções) e são discriminados pelos chineses. Você pode conferir <a class="urlextern" title="https://wknews.org/node/1587" href="https://wknews.org/node/1587" rel="nofollow">nesse artigo</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Sobre a situação dos trabalhadores migrantes em Hong Kong: quantos são, de quais países, como são tratados pela população local e como se organizam? Eles participaram da luta em conjunto com a população local? Como as pessoas do movimento veem os imigrantes?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Duzentos mil trabalhadores domésticos filipinos e duzentos mil trabalhadores domésticos indonésios. Desde o fim dos anos 1970 esses trabalhadores domésticos, imigrantes do Sudeste Asiático, estão trabalhando para famílias em Hong Kong, ganhando um salário muito inferior ao salário mínimo de 4.520 dólares de Hong Kong e muito inferior ao salário mínimo por hora de 37,5. Eles estão desenvolvendo suas próprias organizações, baseadas em grupos religiosos, em pessoas vindas da mesma cidade natal, grupos políticos, e também sindicatos, parcialmente com a ajuda de igrejas. Os locais se recusam a respeitar os direitos dos trabalhadores domésticos imigrantes e alguns grupos conservadores se aproveitam para apelar para os empregadores de classe média, defendendo que eles não melhorem as condições de trabalho destes trabalhadores. Existe ainda uma pequena fração de trabalhadores domésticos da Tailândia, Myanmar, Camboja, Nepal e Sri Lanka. Os tribunais decidiram que estes trabalhadores não poderão jamais se candidatar para obter a cidadania em Hong Kong. Para detalhes sobre suas condições de trabalho, você pode conferir <a class="urlextern" title="https://wknews.org/node/24" href="https://wknews.org/node/24" rel="nofollow">esse artigo</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Trabalhadores imigrantes são muito ativos no apoio a lutas locais. Na verdade, eles foram o grupo mais numeroso no protesto do 1º de Maio, mais do que qualquer outro sindicato local. O sindicato dos trabalhadores imigrantes é muito favorável a este movimento e eles traduziram alguns materiais para o [idioma] bahasa da Indonésia para que outras pessoas entendessem o que está se passando agora em Hong Kong. Alguns trabalhadores imigrantes estão participando dos protestos, mas não muitos. Então eu ainda não tive a oportunidade para perguntar a outros manifestantes o que eles pensam disso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Você acha que esse movimento tem possibilidades de ultrapassar o horizonte da organização e da luta reivindicando a identidade de cidadão que tem sido dominante na maioria dos movimentos recentes?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Quando Carrie Lam, Chefe Executiva de Hong Kong, chegou ao poder, ela criou o slogan “nós conectamos”. O engraçado é que este movimento realmente conecta vários grupos que não era visíveis ou muito respeitados no passado. Estes grupos incluem donas de casa, pessoas cegas, pessoas surdas, novos imigrantes, idosos e paquistaneses. No passado eles não eram a principal força nos protestos. Mas neste movimento muitos deles apareceram com suas identidades para se manifestarem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Existe uma continuidade dos protestos atuais com movimento dos Guarda Chuvas de 2014? Podemos explicar a situação pelo mero desencantamento após o episódio de luta anterior?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Sim e não. Sim: muitas pessoas participaram em 2014. Não: mais da metade dos manifestantes estão nas ruas pela primeira vez. Muitos deles disseram que não aderiram ao protesto de 2014 porque pensavam que o sufrágio universal não é importante/relevante o suficiente para que participassem, em parte porque é uma luta por algo que não tínhamos no passado. Mas eles se juntaram desta vez pois acham que é uma situação de regressão.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista estratégico, as pessoas aprenderam muito com a lição do movimento dos Guarda Chuvas:</p>
<p style="text-align: justify;">• 2014: a longo prazo ocupando um local fixo; 2019: não há ocupação. O ato de ocupar não é eficiente o bastante para perturbar a sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">• 2014: liderança muito clara; 2019: sem liderança. Acontece que, sem liderança, um monte de gente tem a iniciativa de ações e ideias para pôr em prática, e o movimento se torna muito mais criativo.</p>
<p style="text-align: justify;">• 2014: muitos conflitos internos para lutar pela posição de liderança; 2019: logo no início do movimento, alguém sugere um slogan de “Não se separar” e ele se torna uma diretriz central.</p>
<p style="text-align: justify;">• 2014: manifestantes “pacíficos” e “violentos” se condenam; 2019: por causa do princípio “Não dividir”, essa tensão é suprimida, e muita gente agora está mais simpática ao uso da violência, por raiva contra os policiais e o governo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: A mídia internacional costuma limitar o movimento ao campo político, apresentando-o como uma luta por democracia liberal. Após a greve de 5 de agosto, a própria Carrie Lam disse que vai além. Quais poderiam ser as razões mais profundas, considerando especialmente a evolução das condições socioeconômicas e a subsistência das pessoas?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> A situação socioeconômica das pessoas de Hong Kong está fodida em todos os aspectos:</p>
<p style="text-align: justify;">• Trabalho: sem regulamentação sobre a jornada de trabalho, muitos jovens estão se tornando <em>slash workers</em> [<strong>N.T.:</strong> trabalhadores que alternam constantemente entre áreas diversas]]. Jovens trabalhadores desempregados ou <em>freelances</em> são um grupo importante de manifestantes. Muitos deles lutaram na linha de frente.</p>
<p style="text-align: justify;">• Habitação: as pessoas gastam 30-60% de sua renda em moradia, e não há controle de aluguel; escassez de habitação pública. Demora de 5 a 10 anos para entrar em um apartamento público.</p>
<p style="text-align: justify;">• Aposentadoria: nenhum regime de pensões administrado pelo Estado. Assistência médica: escassez de trabalhadores médicos e leitos no sistema público de saúde. Temos que esperar 3-6 horas até receber tratamento na sala de emergência.</p>
<p style="text-align: justify;">• Educação: um número recorde de casos de suicídio de pessoas com menos de 18 anos nos últimos anos, e a hora média semanal de estudo dos alunos (55 horas) é maior que a média da hora semanal de trabalho (50 horas). Estudantes de 10 a 20 anos são um importante grupo de manifestantes. Muitos deles lutaram na linha de frente.</p>
<p style="text-align: justify;">• Gastos públicos: o governo não tem planos de implementar um sistema de bem-estar social de longo prazo. Em vez disso, eles estão continuamente construindo custosos megaprojetos de infraestrutura. Esses projetos foram uma das principais fontes de indignação antes do movimento, e é a única questão social que provocou protestos em massa no passado.</p>
<figure id="attachment_128245" aria-describedby="caption-attachment-128245" style="width: 2048px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-128245" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/09/IMG_5985.jpg" alt="" width="2048" height="1536" /><figcaption id="caption-attachment-128245" class="wp-caption-text">&#8220;Se nós queimarmos, vocês queimarão conosco&#8221; (ou &#8220;Ngor Yiu Laam Chao&#8221; em cantonês), é uma palavra de ordem importante para o movimento, mostrando nossa determinação em destruir os interesses das classes dominantes de Hong Kong e da China mesmo se todos nós formos ser destruídos juntos.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: O governo chinês enviou ameaças evocando o uso da força. Isso é crível? Existem mais contra-ataques concretos para impedir a propagação dos protestos no resto do território chinês?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT</strong>: Eles estão fazendo esse tipo de ameaça desde 1997, e isso nunca aconteceu. Desta vez, estamos apenas rindo dos vídeos que afirmam que o PLA está bem na fronteira, dizendo “venham nos matar, sabemos que vocês não se atrevem a fazê-lo”. No entanto, o governo chinês está fazendo muitos contra-ataques:</p>
<ol style="text-align: justify;">
<li class="li">Policiais de elite do PLA/Chineses foram enviados para Hong Kong para reprimir o protesto. Há muitas provas, por exemplo imagens de policiais conversando em mandarim em vez de cantonês; a maneira de lutar e prender que nunca antes observada nos policiais locais.</li>
<li class="li">Envio de agentes de segurança nacional para se infiltrar nos manifestantes. Os manifestantes capturaram três deles em 13 de agosto e suas identidades foram verificadas como policiais de Shenzhen e um Agente de Segurança Nacional de Pequim.</li>
<li class="li">Muitas pessoas de Hong Kong foram interrogadas e as informações dos seus celulares foram inspecionadas ao atravessar a fronteira. Algumas pessoas cujos telefones contêm fotos de protestos são forçadas a escrever uma carta de arrependimento e prometem nunca mais participar de nenhum protesto.</li>
<li class="li">Propaganda em massa na China para nomear a luta como “independência de Hong Kong” e um “movimento anti-China”.</li>
<li class="li">Pessoas na China que demonstraram solidariedade com Hong Kong foram detidas.</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: O movimento está conectado a potências estrangeiras como os EUA?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Não é de forma alguma controlado/liderado/financiado por potências estrangeiras em nenhum sentido. Eu diria que esse movimento nem sequer é controlado por quaisquer mentores, nem locais nem estrangeiros. Sim, os EUA têm uma longa história de financiamento de políticos, mídia e sindicatos de oposição em Hong Kong, e os políticos da oposição de Hong Kong costumam fazer lobby em Washington ou Genebra. Mas não vejo essas pessoas desempenhando papéis importantes em protestos em massa nos últimos anos, de 2003 até agora. Na verdade, a influência deles está diminuindo porque a maioria das pessoas pró-democráticas em Hong Kong não confia mais em líderes políticos, especialmente aqueles que têm entre 10 e 35 anos de idade.</p>
<p style="text-align: justify;">Se vamos falar sobre influência estrangeira nessa luta em particular, eu diria que há três questões particularmente importantes:</p>
<ol style="text-align: justify;">
<li class="li">As pessoas pró-independência de Taiwan estão muito atentas à situação de Hong Kong, usando-a como um forte argumento para a independência. Por outro lado, a eleição do parlamento e presidente em Taiwan ocorrerá em 2019 e 2020, e a luta em Hong Kong impulsionou o apoio do partido pró-independência (o atual partido no poder).</li>
<li class="li">Trump e seus aliados estão aproveitando o caos em Hong Kong para dar pressão extra à China sobre a negociação de tarifas.</li>
<li class="li">Grupos de manifestantes de Hong Kong estão fazendo lobby no exterior (EUA, Reino Unido e Reino Unido), apelando a esses governos que apliquem sanções aos membros do governo de Hong Kong, porque a maioria deles são na verdade cidadãos do Reino Unido ou de outros países ocidentais.</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;"><strong>[Atualização em 09/09] </strong><strong>BKW: Qual sua opinião sobre essa marcha em frente ao consulado dos EUA, pedindo por apoio de Washington? É uma bandeira da maioria dos manifestantes ou de poucos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Não é um número grande, mas há mais gente levantando a bandeira americana agora. De uns poucos em julho para cerca de cem no dia 8 de setembro. Eles até cantaram o hino nacional dos EUA! Eu não fui nessa marcha porque eu tinha uma outra coisa para fazer nesse dia, então não tenho informações de primeira mão sobre algum contraprotesto (de qualquer forma, se eu for, levarei algo relacionado ao Assange e ao Wikileaks como um protesto contra todo tipo de extradição política). Eu só vi uma foto de uma americana carregando um cartaz com a mensagem “pense no Afeganistão, Iraque, Síria e você vai saber que os EUA não são seus amigos”. Para mim, pedir apoio externo pode ser razoável, mas idolatrar o símbolo de um outro país é simplesmente sem sentido. A intenção de ir ao Consulado dos EUA era persuadir o congresso americano a aprovar a “Lei dos Direitos Humanos e da Democracia em Hong Kong”. Se aprovada, pessoas chave no governo de Hong Kong que foram responsáveis por repressão poderiam sofrer sanções do governo americano. Muitos manifestantes acreditam que seria uma boa ideia, como uma forma de revidar contra o governo de Hong Kong, seguindo o espírito de “se nós queimamos, vocês queimam conosco”. Uma vez que eu não estive lá, não pude perguntar a opinião dos presentes sobre isso, mas acredito que uma postura comum seja a de “não importa tentar, nós não temos nada a perder”. Por outro lado, 200 mil pessoas marchando para pedir intervenção estrangeira é por si só muito esquisito, provavelmente o único caso na história mundial (por favor me conta se tiverem outros). Isso mostra que a população de Hong Kong não tem identidade nacional e ninguém liga para a acusação do governo chinês quanto à colaboração de conspiradores estrangeiros. Isso é definitivamente alarmante para o Partido Comunista Chinês. <strong>[Fim da atualização]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Lemos na grande mídia que vocês usam diferentes tipos de aplicativos, como Telegram, Uber e até Tinder, para organizar. Como vão as coisas?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Ok, não estamos usando o Tinder para organizar, hahaha!</p>
<p style="text-align: justify;">O aplicativo mais importante é chamado Telegram. É tão popular por conta de duas funções importantes. A primeira função é que ele pode formar grupos com um número ilimitado de usuários participando. Isso significa que a discussão pode ter dezenas de milhares de pessoas envolvidas. Mas, é claro, esse tipo de discussão seria extremamente confusa, porque há muitas mensagens a cada hora (cerca de mil, quando se trata de um grupo ativo). Uma segunda função importante que ele possui, além desses grupos, é criar um canal. Um canal é apenas unilateral, ou seja, posso usá-lo para fornecer informações a muitas pessoas instantaneamente. Então estão usando esse tipo de função para fornecer atualizações ao vivo sobre os protestos. Por exemplo, algo assim: “[17:43] há dez policiais na rua A”; “´[17:48] agora eles têm outros 30 policiais e muitos deles estão com armaduras e armas”; “[18:18] na rua B, há outro grupo de policiais”. Esse tipo de atualização ao vivo é muito importante para os protestos. Essas duas funções importantes tornam o aplicativo chamado Telegram se tornam muito importantes no movimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas acho que atualmente há mais pessoas tentando se encontrar para ter reuniões diretas para pensar o que fazer a seguir. Isso está acontecendo especialmente em diferentes bairros. Não me lembro se mencionei que em muitos lugares em Hong Kong algumas pessoas estão colando alguns boletins nos quais escrevem algo e grudam na parede (são os chamados “Murais Lennon”, em homenagem aos murais de mesmo nome que serviram como um espaço de expressão da dissidência política na Praga dos anos 1980). Muitos estão fazendo isso e mostrando apoio ao movimento e falando suas próprias opiniões. E há alguns voluntários que ajudam a manter esse tipo de “murais de opinião”. Portanto, o mural de opiniões se torna um local para as pessoas ativas na comunidade se conhecerem. Agora eles estão tentando muitas coisas diferentes, além da manutenção do muro, alguns deles também estão exibindo na rua e mostrando vídeos dos protestos, como nós. Algumas pessoas estão até planejando alguma organização de defesa comunitária. Quer dizer, uma vez que os policiais estão cooperando com os bandidos para nos atacar, por que não criar nossa própria força para nos proteger?</p>
<figure id="attachment_128246" aria-describedby="caption-attachment-128246" style="width: 1200px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-128246" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/09/IMG_5986.jpg" alt="" width="1200" height="799" /><figcaption id="caption-attachment-128246" class="wp-caption-text">Acredito que a ação de 24 de agosto foi especialmente importante porque seu foco não foi apenas nas cinco reivindicações, mas também contra a instalação de equipamentos de vigilância escondidos em postes de luz em toda Hong Kong. Nessa foto, os manifestantes derrubam um desses postes. (Foto: Stand News)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Qual é o lugar do anonimato no movimento? Durante o movimento Coletes Amarelos, os manifestantes gastaram muita energia nessa busca pelo anonimato. O anonimato era possível em manifestações massivas ou em ocupações de rotatórias, que de certa forma liberam uma força que está completamente detida na estrutura do trabalho, onde o anonimato é impossível, exceto pela sabotagem. Houve sabotagens durante o movimento? Como os manifestantes assumem pertencer ao movimento? Como os manifestantes se organizam para o anonimato?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Os participantes do movimento têm um senso muito forte de anonimato. Durante o protesto, os manifestantes simplesmente não confiam nas outras pessoas nem tentam conversar com elas. Por outro lado, todo mundo está usando uma máscara, portanto, as pessoas que não se conhecem ou não lembram do rosto não podem reconhecer-se. Mas isso também depende da atmosfera. Às vezes, muitos estão dispostos a conversar, mas em outros momentos, eles simplesmente não respondem quando você tenta puxar conversa.</p>
<p style="text-align: justify;">Para se organizar, é bastante comum que as iniciativas sigam essas etapas:</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">Propor uma ação num fórum anônimo;</li>
<li style="text-align: justify;">Deixar meu contato do Telegram na postagem;</li>
<li style="text-align: justify;">Quem estiver interessado em discutir essa ação, vai entrar num grupo de Telegram para formular algumas ideias.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Este é o modo de se organizar nesse movimento, mas é apenas para organizar ações, e não para organizar pessoas. E há uma grande diferença entre esses dois tipos de organização. Portanto, os agrupamentos que se formam para diferentes ações podem ser muito diferentes. Toda vez são pessoas diferentes iniciando tipos de ação diferentes, e ninguém sabe a verdadeira identidade dessas pessoas. Esse tipo de anonimato também traz maior proteção às pessoas que lançam as ideias, porque os policiais não vão conseguir encontrá-las, de modo que as ações acabam não sendo ameaçadas pelo risco dos líderes serem presos.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, os manifestantes estão tendo um consenso de que precisam ter algum tipo de representação. Mas agora, a maneira como eles representam o protesto é muito informal. A cada dois dias, as pessoas de um fórum anônimo realizam uma conferência de imprensa que chamam de “A Coletiva de Imprensa do Povo”. Nela, três ou quatro pessoas que usam máscaras e capacetes aparecem para conversar e comentar sobre os recentes desenvolvimentos dos protestos e para responder ao governo. Eu vejo algum nível de abertura neste círculo de organizadores da coletiva de imprensa, porque eles ficam procurando pessoas que gostariam de falar. E cada vez as pessoas que falam são diferentes. Portanto, não se trata de algumas pessoas tentando se tornar líderes e sequestrar o movimento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Uma vez que estamos falando sobre representação e liderança, como estão as forças políticas dentro do movimento? Qual o espaço da direita e da esquerda dentro do movimento?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Nenhuma organização pode aparecer no movimento. Entende? Eles só podem falar que estão participando do movimento. Nos momentos de ações, ninguém segura suas próprias bandeiras ou algo assim, porque as pessoas simplesmente não se importam. Eu diria que nenhuma das linguagens mais ideológicas existe no movimento. Refiro-me tanto da direita quanto da esquerda. É claro que a linguagem da direita é mais prevalente entre muitas pessoas, especialmente na linha de frente. Das pessoas que estão enfrentando a polícia diretamente, muitas são de extrema direita, mas não vão falar disso abertamente. Não porque pensam que ser de direita seja algo ruim, mas simplesmente porque não acham que é hora de falar sobre questões controversas. Ao invés disso, também se atêm aos cinco temas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: E a esquerda? Como está a situação da esquerda de Hong Kong?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Parecida. Aqueles que estão atuando nas diferentes partes do movimento não escrevendo muita coisa. (Eu acho que essa entrevista está sendo um jeito muito bom de me forçar a escrever algo!) O problema é quanto às pessoas que não participam diretamente do movimento nas ruas: elas escrevem muito, mas para mim o que elas escrevem é simplesmente bobagem. Portanto é um grande problema, devo dizer. O que eu quero dizer com “simplesmente besteira” é que algumas pessoas … é como o que os camaradas franceses contam sobre os Coletes Amarelos: algumas pessoas de esquerda dirão que é um movimento de direita, um movimento nacionalista, então nós não vamos participar disso. Algo sempre idêntico acontece em Hong Kong. E nem sequer temos tempo para discutir.</p>
<p style="text-align: justify;">O termo “esquerda” tem um uso muito confuso em Hong Kong. O motivo é que a esquerda deveria se referir a socialistas ou radicais, mas, no contexto de Hong Kong, se você falar sobre a esquerda, seria o Partido Comunista – o Partido Comunista Chinês. O que não é nada radical ou de esquerda, mas o rótulo dessas pessoas como esquerda ainda existe. Portanto, a esquerda é sempre usada para descrever pessoas relacionadas ao governo chinês. Esse é o chamado “Campo de Esquerda”, que inclui o maior sindicato de Hong Kong, que é o HK-FTU (Federação Sindical de Hong Kong), que na verdade fez um trabalho bastante importante na fase inicial da organização dos trabalhadores de Hong Kong (1950-1980). Mas desde os anos 90, quando a China assume Hong Kong, eles simplesmente se tornam operadores do regime para apoiá-los, trazendo seu interesse político a Hong Kong, em vez de continuarem a se tornar uma força importante no mundo do trabalho. Então este é o primeiro tipo de pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo tipo de pessoas é… Hong Kong é um lugar estranho, onde há muitas pessoas que estão fugindo da China comunista desde 1949. A maioria delas são pessoas ricas (ou que possuem algumas terras), então precisaram fugir do Partido Comunista para escapar da reforma agrária e da Revolução Cultural. Mas uma pequena minoria, que apenas poucas pessoas notam, são os dissidentes políticos de dentro do Partido Comunista. Muitos deles são trotskistas. Eu diria que o trotskismo é uma origem bastante importante dos ativistas de Hong Kong. A origem é a vinda da China, porque precisaram escapar da forte repressão do Partido Comunista Chinês, foram a Hong Kong e começaram novos movimentos. Alguns desses trotskistas mais velhos realmente fizeram muita coisa para manter algum tipo de propagação da ideologia de esquerda em Hong Kong de forma bem discreta por, digamos, 30 anos. Essa ideologia só se tornou conhecida no início de 2000, quando a economia estava realmente ruim e as pessoas começaram a pensar que o partido tradicional da oposição não servia mais. As pessoas começaram a pensar no problema do Estado de bem-estar social, dos projetos de privatização e de infraestrutura, e desde então há mais jovens se tornando ativistas – o que inclui eu, é claro. Portanto, esta é uma história muito breve do desenvolvimento da esquerda em Hong Kong.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, por outro lado, a geração jovem da esquerda quase não absorveu a velha tradição. Não por qualquer tipo de conflito, ou seja, lá o que for, mas porque o jeito como eles entraram no movimento é muito diferente da geração mais velha. E muito pouca gente está interessada em procurar essa tradição, ler os documentos e esse tipo de coisa. Então estamos quase fazendo muita coisa a partir do zero, eu acho.</p>
<figure id="attachment_128247" aria-describedby="caption-attachment-128247" style="width: 2048px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-128247" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/09/IMG_5987.jpg" alt="" width="2048" height="1536" /><figcaption id="caption-attachment-128247" class="wp-caption-text">23 de agosto foi o 30º aniversário da &#8220;Cadeia Báltica&#8221;. Inspirados por essa ação, algumas pessoas em fóruns anônimos lançaram a ideia de fazer o mesmo. Acabou sendo um grande sucesso. Agora muitos estudantes secundaristas estão fazendo ações parecidas antes do começo das aulas, como uma forma de greve escolar.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Você mencionou durante suas respostas o “Grupo de Trabalhadores”, mas não o apresentou. Talvez seja bom se você explicar o que é essa organização: como começou, que tipo de atividades políticas fazem?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Ok. Quatro membros do grupo de trabalhadores vêm de uma organização comunitária… que, na verdade, tem assento no parlamento. Porém, houve muitos conflitos internos dentro dessa organização após o movimento dos Guarda Chuvas de 2014, pois algumas pessoas acreditavam que devíamos nos envolver mais nesse tipo de movimento. Mas a outra parte dos membros, principalmente os membros mais velhos e a pessoa que ocupa a cadeira no parlamento, são muito mais conservadoras e não queriam se envolver nesse tipo de questões controversas. Desde então, houve algumas diferenças dentro da organização. Mais tarde, o grupo de pessoas que queria participar mais ativamente dos movimentos de massa estava pensando em novas formas de se organizar, em vez daquela que fizeram no passado – que podemos descrever como “clientelismo”. Depois disso, como eles conheceram muita gente da classe trabalhadora ativa durante o movimento dos Guarda Chuvas, eles se tornaram mais confiantes para incentivar os trabalhadores a agirem diretamente, a confrontar seus chefes, em vez de apenas ajudá-los a resolver seu próprio problema. Então, eu diria que essa é a origem do Grupo de Trabalhadores. Ou seja: não ajudamos mais os trabalhadores a fazer algo; em vez disso, quando eles nos encontram, descrevemos mais o que podem fazer e deixamos que eles tomarem a decisão sobre que tipo de ação querem fazer para lutar contra seus patrões. São eles que têm que fazer isso. Claro que também apoiamos. No confronto com os chefes, sempre encontramos outros trabalhadores – especialmente os que contatamos no passado – para expressar solidariedade e encarar os patrões juntos.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, acho que essa é a característica mais importante do Grupo de Trabalhadores. Isto é, eu diria que abandonamos o modelo de organização trabalhista de ONGs em Hong Kong. Primeiro, não temos funcionários remunerados, usamos só o nosso próprio tempo e dinheiro para fazer as coisas. Em segundo lugar, não vemos os trabalhadores como alguém que precisa de nossa ajuda, mas queremos que eles se tornem nossos membros. Queremos que eles desenvolvam habilidades e usem-nas, realizando e liderando os conflitos por si mesmos.</p>
<p style="text-align: justify;">Acho que esse é o coração do Grupo de Trabalhadores. Para os demais assuntos, como a Lei de Extradição e a participação neste movimento, acho que são ideias vieram depois que ampliamos nossa noção sobre o que são as demandas dos trabalhadores. O que quero dizer é que as organizações trabalhistas mais antigas de Hong Kong são altamente apolíticas, incluindo os sindicatos. É por isso que eles não tiveram um papel muito importante na greve geral em 5 de agosto. Os motivos de serem apolíticos se deve, em parte, ao modelo de ONG que assume que os trabalhadores só têm problemas econômicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo quando se fala em problemas econômicos, se encara isso de forma muito restrita. Muitos dos funcionários das ONGs imaginam que os trabalhadores são fracos demais e não têm muito tempo; portanto, os funcionários acabam simplesmente lidando com todos os problemas para os próprios trabalhadores. O resultado, portanto, é que os trabalhadores acabam deixando de aprender muita coisa durante sua própria luta e estão continuamente dependendo das ONGs, que na verdade são provedores de serviços para lidar com todas as coisas por eles. Portanto, não é empoderador e é apolítico. Acho que nossa tentativa é tentar mudar esse tipo de situação. Tanto para mudar a prática de como se envolver nas questões dos trabalhadores quanto, por outro lado, para incentivar os trabalhadores a se envolverem em outros tipos de questões.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Para terminar esta entrevista, é importante perguntar-lhe quais são as perspectivas agora para o movimento. O Projeto de Extradição foi suspenso, as manifestações em massa continuam… então, para onde está indo o movimento, em que direção? E também: qual é o sentido de participar desse movimento como trabalhador e revolucionário?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Falando em perspectivas, você leu algumas notícias dizendo que o exército chinês está bem na fronteira entre a China e Hong Kong?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Sim.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Sim, ok. Eu diria que isso é apenas uma ameaça e na verdade não vai acontecer. Porque a consequência de enviar o exército chinês a Hong Kong para reprimir a luta será mais prejudicial do que a própria Lei de Extradição. Então, acho que eles não farão isso. Agora é um impasse, eu diria. Isto é, está claro que o governo chinês está enviando material e pessoal para apoiar a polícia de Hong Kong na repressão. Ou seja, muitos dos militares que agora estão participando da repressão são chineses.<br />
Portanto, o problema é que, embora sejamos muito persistentes na luta, toda semana ainda há muitas coisas acontecendo, mas parece que estamos enfrentando um inimigo com recursos ilimitados. Mas, por outro lado, estou sempre pensando em uma possibilidade: já que Hong Kong é tão importante para a China economicamente e politicamente, há uma pequena chance da luta em Hong Kong acelerar o problema econômico da China e, com isso, a situação na China será tão séria que o governo chinês precisará fazer algumas concessões para nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acho que seria o melhor caso possível. Estou sempre pensando em pequenas chances. Mas até agora, para a maioria dos manifestantes, o que queremos é focar ainda mais nas cinco demandas. Porque agora, eu diria que só temos metade. Meia demanda, na verdade, porque o projeto de lei não foi retirado, mas está apenas caindo, você sabe. Contudo, pensando nos efeitos de longo prazo, como os protestos afetarão a economia de Hong Kong ou a economia da China… não tenho muita ideia, mas diria que se a luta não for completamente suprimida – o que significa matar talvez milhares de nós, como o que aconteceu em Tiananmen – o poder continuará por muito tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais cedo ou mais tarde, acho que eles terão que fazer algumas concessões conosco. Mas se for realmente esse o caso, o movimento em Hong Kong realmente fez algo pela paz do mundo. Pelo menos até agora, já estamos impedindo – estamos desacelerando – o governo chinês de obter o controle total de Hong Kong. Como resultado, estamos diminuindo a agenda deles para travar uma guerra contra Taiwan. Porque, enquanto eles não puderem obter o controle completo de Hong Kong, não será possível iniciar outra guerra que os levará por anos. Portanto, essa é minha ambição de longo prazo desses protestos. Logo no início dos protestos, eu já estava pensando que, na verdade, a luta pela Lei de Extradição não é simplesmente uma luta pela democracia de Hong Kong, mas na verdade, é uma batalha muito importante retardar os passos totalitários da China em direção a expandir o totalitarismo para outras partes do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[Atualização em 06/09] </strong>Finalmente a Chefe Executiva de Hong Kong declarou a revogação da Lei de Extradição, mas estamos longe da vitória porque nosso foco agora é a violência policial e o sufrágio universal, apresentados como as outras quatro reivindicações. Então nós continuaremos a lutar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>BKW: Você vê alguma alternativa ao regime de Pequim além do tipo de democracias ocidentais? Se sim, que base social existe para essa alternativa?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GT:</strong> Eu não faço ideia. Mas qualquer transformação progressista em Hong Kong significará o fim do papel de Hong Kong como um centro financeiro global, o que levará a uma completa reorganização de setores sociais.</p>
<figure id="attachment_128252" aria-describedby="caption-attachment-128252" style="width: 2048px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-128252" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/09/IMG_5992.jpg" alt="" width="2048" height="1536" /><figcaption id="caption-attachment-128252" class="wp-caption-text">Em 9 de julho, havia tanta gente indo participar do ato anti-extradição na ilha de Hong Kong que eles tiveram que esperar por horas pela balsa que atravessa o porto para chegar lá.</figcaption></figure>
<blockquote><p>Traduzido ao português pelo <strong>Passa Palavra</strong>.</p></blockquote>
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