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	<title>Marxismo &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Flávio Bolsonaro, a crise do lulismo  e os limites da resistência popular</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Oct 2026 15:09:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[Notas para uma interpretação marxista da conjuntura brasileira. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Ensaio de conjuntura — 12 de outubro de 2026<strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ainda que estejamos no calor dos acontecimentos, há momentos históricos nos quais a reflexão crítica precisa interromper o ritmo frenético das notícias e das disputas imediatas para examinar com maior profundidade o movimento real da sociedade. A conjuntura brasileira nos coloca diante dessa necessidade imperativa, sobretudo quando as possibilidades de agravamento dos conflitos políticos alcançam dimensões que estão para além do calendário eleitoral. A luta pela emancipação humana, compreendida como superação das relações sociais fundadas na exploração do trabalho assalariado e na divisão da sociedade em classes antagônicas, pressupõe a organização coletiva dos trabalhadores e o conhecimento das condições históricas que sustentam sua subordinação ao capital. Pensar a conjuntura representa, nesse sentido, uma atividade vinculada à prática social, às experiências de resistência e à elaboração de alternativas capazes de enfrentar os fundamentos materiais da dominação burguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta análise é parte de um trabalho intelectual e político coletivo, que depende do confronto entre diferentes interpretações, pesquisas e experiências sociais. Meu objetivo é compartilhar uma elaboração ainda aberta, submetê-la à crítica e contribuir para um debate que se desenvolva para além dos limites deste ensaio e da minha perspectiva particular. Dito isso, adentremos ao debate.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Niterói, 2026</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Introdução</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 colocou a sociedade brasileira diante da possibilidade concreta de uma nova vitória da extrema direita. Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. As primeiras pesquisas do segundo turno confirmaram a vantagem do candidato do Partido Liberal, embora o resultado ainda esteja indefinido. O Datafolha registrou 52% contra 48% dos votos válidos, enquanto o levantamento Ipespe/Abrapel, divulgado neste 10 de outubro, apresentou Flávio com 52,7% e Lula com 47,3%. A eleição ocorrerá no dia 25 de outubro de 2026, mas a gravidade da conjuntura recomenda reconhecer desde agora a possibilidade de que o Brasil seja governado novamente pelo bolsonarismo, desta vez sob condições políticas e institucionais distintas daquelas existentes em 2018.</p>
<p style="text-align: justify;">A comparação com as eleições de 2018 acrescenta elementos importantes para compreender a gravidade do cenário atual. Naquele ano, Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad, candidato que substituiu Lula depois do impedimento judicial de sua candidatura, com 55,13% dos votos válidos no segundo turno, contra 44,87% do representante petista. A vitória ocorreu num ambiente de crise institucional, desgaste do Partido dos Trabalhadores e reorganização das forças conservadoras, que encontraram no bolsonarismo uma alternativa para ampliar sua influência política. Quatro anos depois, em 2022, Lula retornou à Presidência com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Jair Bolsonaro, numa disputa marcada pela intensa polarização política, consequências sociais da pandemia e uma ampla frente eleitoral que reuniu diferentes setores políticos em oposição à continuidade do governo. A pequena diferença entre os candidatos, de aproximadamente 2,1 milhões de votos, demonstrou a persistência de uma expressiva base social conservadora, apesar do desgaste provocado pela experiência governamental bolsonarista e dos conflitos institucionais acumulados naquele período. A derrota nas urnas foi seguida pela radicalização de setores da extrema direita, que contestaram o resultado eleitoral e participaram de iniciativas de ruptura institucional, culminando nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.</p>
<p style="text-align: justify;">Oito anos depois da primeira vitória de Jair Bolsonaro, a extrema direita alcança novamente o segundo turno, desta vez com Flávio Bolsonaro diante de Lula, após um período marcado pelas consequências judiciais da tentativa de golpe de Estado <a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a>(que ainda assim não responsabilizou todos os envolvidos, apenas, digamos, o “testa de ferro”). A capacidade eleitoral do bolsonarismo evidencia a profundidade de suas relações sociais e políticas diante das dificuldades do governo petista para ampliar sua base de apoio e enfrentar as condições históricas que favoreceram a expansão da extrema-direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160191" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1.jpg" alt="" width="410" height="412" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1.jpg 410w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1-70x70.jpg 70w" sizes="(max-width: 410px) 100vw, 410px" />1 &#8211; A crise da Nova República e os limites históricos do lulismo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A vitória de Jair Bolsonaro em 2018 encontrou condições favoráveis na crise política aberta durante a década anterior. O esgotamento dos mecanismos de conciliação que sustentaram os governos petistas comprometeu sua capacidade de administrar os conflitos sociais e preservar as alianças estabelecidas entre diferentes setores da burguesia. As manifestações de Junho de 2013 evidenciaram contradições que escapavam aos limites tradicionais da representação partidária, mas a diversidade de interesses presentes naquele movimento também demonstrou a ausência de uma direção política capaz de unificar o descontentamento popular em torno de um projeto de transformação social.</p>
<p style="text-align: justify;">O agravamento da crise econômica a partir de 2014 e a intensificação das disputas entre frações das classes dominantes favoreceram a reorganização conservadora, que encontrou na ofensiva contra o governo Dilma Rousseff e na instrumentalização política do combate à corrupção instrumentos eficazes de mobilização social. Em conjunturas de crise, a reação burguesa frequentemente encontra na identificação de inimigos políticos um recurso para atribuir a determinados governos, partidos ou indivíduos a responsabilidade por contradições presentes na dinâmica da acumulação capitalista, alimentando a expectativa de que a substituição dos dirigentes políticos seria suficiente para solucionar os problemas estruturais da sociedade<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>. A construção desses espantalhos políticos integra os mecanismos ideológicos de preservação da ordem, mediante os quais o descontentamento produzido pela deterioração das condições materiais de existência pode ser canalizado contra adversários específicos, enquanto as relações sociais responsáveis pela reprodução periódica das crises continuam relativamente protegidas do questionamento público. No Brasil, a responsabilização do PT pela crise econômica e moral do país cumpriu um papel nesse processo, embora os governos petistas também estivessem implicados na administração das contradições do capitalismo brasileiro, circunstância que evidencia os limites de uma interpretação restrita à disputa entre representantes políticos das diferentes frações burguesas. A extrema direita desenvolveu nesse ambiente capacidade de organização e intervenção ideológica, articulada a setores empresariais, religiosos e políticos que identificaram no bolsonarismo uma alternativa para enfrentar a crise de legitimidade das instituições e radicalizar a ofensiva contra os trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo Bolsonaro aprofundou e radicalizou conflitos históricos da sociedade brasileira ao explorar as condições políticas e institucionais favoráveis à implementação de medidas autoritárias, expressas nos ataques às universidades, na hostilidade contra movimentos sociais e intensificação do discurso militarista em articulação com políticas econômicas favoráveis ao capital e uma condução desastrosa da crise sanitária<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a>. As centenas de milhares de mortes registradas durante a pandemia é parte fundamental dessa experiência histórica, diante das responsabilidades governamentais associadas à disseminação de informações falsas e à resistência contra medidas de proteção coletiva.</p>
<p style="text-align: justify;">A derrota eleitoral de 2022 limitou a capacidade política do bolsonarismo naquele momento, mas os anos seguintes houve avanço como movimento organizado. A responsabilização de Jair Bolsonaro pela tentativa de ruptura institucional produziu consequências jurídicas e modificou suas condições de atuação. Entretanto, a prisão do ex-presidente não comprometeu a capacidade eleitoral da extrema direita, que com o aumento da influência encontrou continuidade por intermédio de outras lideranças e estruturas políticas. A crise do lulismo manifesta-se diante dessa capacidade de reorganização conservadora.</p>
<p style="text-align: justify;">O Partido dos Trabalhadores nasceu de experiências importantes de organização operária, mobilização sindical e contestação política durante a ditadura e o processo de redemocratização. Entretanto, sua consolidação como força governamental reforçou relações com a administração estatal e estabeleceu compromissos econômicos e políticos que limitaram as possibilidades de transformação estrutural da sociedade brasileira. Os governos Lula produziram melhorias materiais efetivas para parcelas expressivas da população e ampliaram determinadas políticas sociais, mas preservaram fundamentos centrais da economia capitalista brasileira. A política de conciliação entre interesses antagônicos, historicamente vinculada à trajetória petista, encontrou condições favoráveis durante o ciclo de valorização internacional das commodities e expansão das exportações brasileiras para a China (2003-2011), que impulsionou o crescimento econômico, a arrecadação estatal, o crédito e o consumo interno, sustentando compromissos entre diferentes frações da burguesia e concessões materiais aos trabalhadores, enquanto a desaceleração econômica e a deterioração das condições internacionais de acumulação comprometeram progressivamente as bases materiais desse pacto, expondo os trabalhadores às contradições estruturais do capitalismo brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema contemporâneo tem consequências adicionais. A manutenção do lulismo como principal referência política do campo progressista deixa claro a dependência em relação à liderança individual de Lula, que se consolidou ao longo de um processo histórico de lutas sociais e disputas institucionais e que não resultou no desenvolvimento de organizações populares independentes com capacidade equivalente de mobilização nacional. Pelo contrário. O que houve foi um processo que acentuou a burocratização tornando a distância com as bases sociais ainda maior. A defesa da governabilidade interfere nas relações entre partidos, sindicatos e movimentos sociais, sobretudo quando a radicalização de determinados conflitos contraria compromissos estabelecidos com setores empresariais ou representantes parlamentares conservadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa relação contraditória com a mobilização popular encontra um exemplo significativo na comparação entre Junho de 2013 e a atual conjuntura eleitoral. Naquele período, manifestações inicialmente organizadas contra o aumento das tarifas de transporte desencadearam uma ampla contestação social, enfrentaram violenta repressão policial e foram submetidas a sucessivas tentativas de criminalização, enquanto o governo Dilma Rousseff subordinava sua resposta política à preservação da ordem institucional e à incorporação das reivindicações numa agenda governamental de conciliação. Treze anos depois, diante da possibilidade de derrota eleitoral de Lula, a mobilização popular é central no discurso das mesmas forças políticas que historicamente demonstraram dificuldades para conviver com movimentos independentes de contestação social. Entretanto, o chamado presidencial às ruas encontra limites na trajetória dessas organizações, que por estar vinculado à administração estatal enfraqueceu sua capacidade de intervenção cotidiana entre parcelas importantes dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A adesão de estudantes, professores e militantes à defesa da reeleição contrasta com as dificuldades de mobilização autônoma dos setores mais precarizados da classe trabalhadora, sendo essa uma contradição histórica; a convocação eleitoral pode reunir multidões em defesa de um governo, mas a construção de uma força social independente depende de relações organizativas, experiências coletivas e conflitos que se desenvolvem muito além das circunstâncias imediatas de uma eleição.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda institucional frequentemente demonstra grande capacidade de mobilização diante de ameaças à permanência de Lula no Executivo, mas têm dificuldades para sustentar conflitos relacionados à exploração do trabalho e às condições materiais de existência da população. Tem-se, portanto, a centralidade da preservação governamental em sua concepção de defesa da democracia e a posição subordinada atribuída à organização independente dos trabalhadores. A devoção à liderança presidencial agrava esse processo quando transforma a crítica ao governo em ameaça à unidade política do campo progressista. O reconhecimento das conquistas sociais produzidas durante os governos petistas não elimina a necessidade de investigar seus limites históricos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160197" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7.jpg" alt="" width="500" height="429" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7.jpg 500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7-300x257.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7-490x420.jpg 490w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" />A vitória eleitoral de Lula em 2022 não interrompeu a reorganização da extrema direita. O bolsonarismo conservou sua presença social, ampliou sua influência parlamentar e desenvolveu condições para disputar novamente a Presidência, enquanto a esquerda institucional esteve fortemente vinculada à defesa do governo e à expectativa de contenção do neofascismo mediante a atuação das instituições republicanas. A diferença entre essas estratégias tem importância histórica diante da conjuntura. A extrema direita construiu condições para preservar sua atividade política durante a ausência de Jair Bolsonaro no Executivo, ao mesmo tempo que parcelas expressivas das organizações progressistas continuaram dependentes da trajetória de Lula. A construção de uma sucessão familiar no bolsonarismo também apresenta limites e contradições internas, mas sua eficácia eleitoral em 2026 aponta para a continuidade de um movimento que alcançou setores importantes da sociedade brasileira.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>2 &#8211; Flávio Bolsonaro e a reorganização política da extrema direita</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A dimensão dessa ameaça se amplia quando examinamos os resultados parlamentares do cenário atual. O Partido Liberal elegeu 121 deputados federais, conquistou 19 cadeiras em disputa no Senado e deverá iniciar a próxima legislatura com uma bancada de 28 senadores. O fortalecimento conservador alcançou também os governos estaduais e os legislativos regionais, com a consolidação do bolsonarismo em unidades federativas economicamente estratégicas e a ampliação da presença institucional de partidos da direita tradicional. Esse fenômeno ilumina a capacidade dessas forças de articular sua influência eleitoral a estruturas da administração política e econômica da sociedade. Mesmo diante de uma eventual vitória de Lula, a nova composição do Congresso Nacional imporá dificuldades consideráveis à condução do governo e às organizações populares que pretendem defender direitos historicamente conquistados. A possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro, entretanto, acrescenta uma contradição grave: o fortalecimento simultâneo de uma liderança presidencial vinculada à extrema direita e de uma representação parlamentar capaz de sustentar parte importante de suas iniciativas.</p>
<p style="text-align: justify;">A candidatura de Flávio Bolsonaro representa uma demonstração da capacidade de reprodução política de um movimento que sobreviveu à derrota presidencial de 2022, às investigações sobre a tentativa de golpe de Estado e à prisão de Jair Bolsonaro. Durante os últimos anos, uma parcela expressiva das organizações progressistas depositou suas expectativas na atuação das instituições republicanas, especialmente no Supremo Tribunal Federal, como instrumento de contenção da extrema direita. A responsabilização criminal do ex-presidente teve consequências, mas a expansão eleitoral de seu campo político demonstra que a preservação da legalidade constitucional não resolveu as contradições sociais e institucionais responsáveis pelo crescimento do bolsonarismo. O movimento conservou relações com setores empresariais, organizações religiosas, agentes políticos e grupos sociais que reconhecem em suas lideranças uma alternativa para a direção do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">A expressiva votação obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026 coloca uma questão diante da desproporção entre sua trajetória política individual e a dimensão nacional da liderança que sua candidatura conseguiu reunir. Depois de quatro mandatos como deputado estadual no Rio de Janeiro e de sua eleição para o Senado em 2018, Flávio chegou à disputa presidencial sem experiência na administração do Executivo e sem um protagonismo histórico comparável ao de Lula, dirigente oriundo das grandes mobilizações operárias do final da ditadura, fundador do Partido dos Trabalhadores e presidente da República em diferentes períodos. A diferença entre essas trajetórias torna significativo o resultado eleitoral, que demonstra a capacidade de determinadas organizações e correntes políticas de reunir grandes parcelas da população em torno de candidaturas sustentadas por identificações coletivas, estruturas partidárias e expectativas sociais desenvolvidas ao longo de processos históricos anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;">A sucessão familiar no bolsonarismo é um elemento importante desse fenômeno, na medida em que o sobrenome Bolsonaro concentra uma identificação construída por meio de sucessivas campanhas eleitorais, conflitos institucionais, organizações conservadoras e redes de comunicação que conservaram sua atividade mesmo após a derrota presidencial de 2022. Flávio encontrou uma estrutura política relativamente consolidada, composta por dirigentes partidários, parlamentares, lideranças religiosas, organizações empresariais e comunicadores capazes de sustentar a continuidade do movimento, ao mesmo tempo que desenvolveu uma atuação voltada à ampliação de alianças com setores da direita tradicional. Sua experiência parlamentar e interlocução com diferentes dirigentes políticos favoreceram essa aproximação entre grupos interessados na recomposição de uma direção conservadora para o governo federal.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160198" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8.jpg" alt="" width="375" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8.jpg 375w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8-315x420.jpg 315w" sizes="(max-width: 375px) 100vw, 375px" />A especificidade dessa candidatura também se manifesta na tentativa de conciliar a fidelidade às principais bandeiras do bolsonarismo com uma apresentação pública mais moderada, construída por meio de uma linguagem institucional distinta daquela que caracterizou a atuação de Jair Bolsonaro. A defesa de alterações constitucionais, de mudanças no funcionamento do Judiciário e endurecimento da legislação penal demonstra, contudo, a continuidade de objetivos políticos vinculados à reorganização autoritária do Estado, agora articulados à promessa de maior capacidade administrativa e estabilidade governamental. Essa combinação encontra condições favoráveis na ampliação da representação conservadora no Congresso Nacional e na aproximação de partidos que identificam a candidatura como uma oportunidade de recuperar ou ampliar sua influência sobre a administração federal.</p>
<p style="text-align: justify;">As articulações realizadas após o primeiro turno confirmam a capacidade de Flávio de reunir forças políticas anteriormente distribuídas entre candidaturas distintas, com destaque para o apoio do Republicanos, do Novo, Podemos e da federação União Brasil-Progressistas, além das manifestações favoráveis de lideranças como Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Ronaldo Caiado. O apoio da direção da Frente Parlamentar da Agropecuária demonstra, por sua vez, a convergência entre segmentos organizados do grande capital agrário e a perspectiva de um governo conservador. Essas aproximações não eliminam os conflitos entre os diferentes grupos envolvidos, mas indicam a existência de interesses econômicos e políticos capazes de sustentar acordos em torno da ocupação do Executivo federal e da orientação das políticas governamentais. A dimensão econômica da campanha também é fator que lhe confere vantagem. Os registros eleitorais divulgados até o início de outubro indicavam uma arrecadação superior a 70 milhões de reais para a candidatura de Flávio, provenientes de fundos públicos, estruturas partidárias e contribuições privadas, enquanto o investimento declarado em impulsionamento digital alcançava aproximadamente 9 milhões de reais, com forte concentração nas últimas semanas anteriores ao primeiro turno. A existência desses recursos integra a análise das condições materiais da disputa política diante da importância que a comunicação digital conquistou na organização do bolsonarismo. A concentração empresarial das plataformas, a profissionalização das campanhas e a atuação de redes de influenciadores estabelecem condições específicas para a circulação de discursos políticos, com consequências para a relação entre representantes, organizações e eleitores.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>3 &#8211; A classe trabalhadora, o conservadorismo e os limites da resistência popular</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A dimensão mais complexa desse processo está na composição social do eleitorado conservador, na adesão de parcelas expressivas da classe trabalhadora. Os levantamentos divulgados pelo Datafolha durante a campanha indicaram vantagem de Flávio entre eleitores de renda familiar intermediária e entre evangélicos, além de uma presença significativa entre os segmentos mais pobres, nos quais Lula conservava a preferência majoritária. A heterogeneidade desse eleitorado recomenda cautela diante de explicações que atribuem sua orientação política exclusivamente à manipulação ideológica, ao conservadorismo religioso ou à oposição ao Partido dos Trabalhadores. A investigação precisa considerar as experiências concretas de trabalho, a insegurança econômica, o endividamento, a violência urbana e as relações estabelecidas pelos indivíduos com instituições religiosas, lideranças comunitárias, organizações políticas e meios de comunicação. A expansão do trabalho precarizado e das ocupações organizadas sob a ideologia do empreendedorismo acrescenta contradições à formação das identidades políticas contemporâneas, sobretudo quando trabalhadores submetidos a condições semelhantes de exploração desenvolvem expectativas divergentes acerca do Estado, dos direitos sociais e da organização coletiva. A identificação com discursos favoráveis à iniciativa individual, ao endurecimento penal e à autoridade política pode coexistir com reivindicações relacionadas à melhoria dos rendimentos, ao acesso a serviços públicos e à proteção social. Essas orientações resultam de experiências históricas e relações sociais que precisam ser examinadas concretamente, considerando também a capacidade das organizações conservadoras de estabelecer vínculos cotidianos com setores populares e de apresentar respostas imediatas a problemas que afetam suas condições de existência.</p>
<p style="text-align: justify;">O crescimento eleitoral da direita ocorre, portanto, num contexto em que parcelas consideráveis da população experimentam dificuldades materiais persistentes e encontram nas instituições tradicionais da esquerda uma capacidade limitada de organização cotidiana. O PT como principal referência progressista, fortemente vinculada à liderança individual de Lula, contrasta com a expansão de uma direita que conseguiu desenvolver mecanismos de reprodução política e eleitoral relativamente independentes da presença de Jair Bolsonaro no Executivo.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160193" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3.webp" alt="" width="966" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3.webp 966w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-300x217.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-768x557.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-580x420.webp 580w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-640x464.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-681x493.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 966px) 100vw, 966px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O problema se agrava diante da fragilidade das organizações populares. As manifestações recentes de estudantes, professores e trabalhadores da educação representam uma reação importante ao resultado eleitoral, mas se concentram em segmentos com limites consideráveis diante de uma ofensiva política mais ampla. A classe trabalhadora brasileira, submetida à fragmentação das relações de trabalho e ao enfraquecimento de seus instrumentos tradicionais de organização, enfrenta dificuldades para forjar uma força independente capaz de sustentar conflitos prolongados. A defesa da reeleição de Lula mobiliza setores expressivos da sociedade, mas também denuncia a dependência política de organizações progressistas em relação à continuidade de uma liderança cuja trajetória esteve vinculada à conciliação entre interesses antagônicos.</p>
<p style="text-align: justify;">A extrema direita brasileira alcançou um estágio de fortalecimento eleitoral, parlamentar e social que amplia suas possibilidades de intervenção sobre o Estado, enquanto parcelas importantes da esquerda estão subordinadas às disputas institucionais e aos limites da representação burguesa. A eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderá intensificar uma ofensiva contra as organizações dos trabalhadores, mas sua derrota eleitoral tampouco eliminará as condições históricas que sustentam esse movimento. A questão consiste em compreender como o bolsonarismo alcançou tamanha influência, quais relações favorecem seu avanço institucional e que condições efetivas existem para a construção de uma resistência popular capaz de sobreviver ao resultado das urnas.</p>
<p style="text-align: justify;">A possibilidade de retorno do bolsonarismo à Presidência produziu um sentimento de vulnerabilidade entre parcelas expressivas da população identificadas com o campo progressista. Esse receio se fundamenta na experiência acumulada durante o governo de Jair Bolsonaro e no reconhecimento das condições institucionais mais favoráveis à extrema direita depois das eleições parlamentares de 2026. Entretanto, a insegurança também está relacionada à percepção de que as organizações populares disponíveis apresentam dificuldades para sustentar uma resistência prolongada diante de uma ofensiva política mais sistemática. A questão se manifesta com intensidade nas universidades. Depois do primeiro turno, estudantes e professores organizaram manifestações em diferentes cidades brasileiras, com destaque para a mobilização realizada no centro do Rio de Janeiro em 7 de outubro. Milhares de participantes ocuparam as ruas para expressar oposição à candidatura de Flávio Bolsonaro e defender as liberdades democráticas. A iniciativa se mostrou capaz de convocar e disposição de luta entre segmentos que reconhecem os riscos associados ao fortalecimento da extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160201" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11.jpg" alt="" width="1133" height="732" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11.jpg 1133w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-300x194.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-1024x662.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-768x496.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-650x420.jpg 650w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-341x220.jpg 341w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-640x413.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-681x440.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1133px) 100vw, 1133px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A importância histórica do movimento estudantil brasileiro também deve ser pensado. As universidades concentraram experiências relevantes de resistência durante a ditadura militar, participaram de mobilizações pela democratização e desempenharam papel significativo em diferentes conflitos sociais. A produção acadêmica também contribuiu para a elaboração de conhecimentos críticos sobre a sociedade brasileira mediante investigações relacionadas à exploração econômica, violência estatal e às desigualdades sociais. Entretanto, o reconhecimento dessa importância não elimina os limites políticos da resistência concentrada no setor educacional. As universidades integram a estrutura institucional do Estado e dependem de mecanismos administrativos, orçamentários e jurídicos que interferem diretamente nas condições de organização de seus trabalhadores e estudantes. Parte significativa das entidades representativas mantém relações históricas com partidos e organizações sindicais vinculadas à administração estatal, circunstância que pode condicionar suas estratégias e limitar a independência das mobilizações.</p>
<p style="text-align: justify;">A assembleia de docentes da Universidade Federal Fluminense realizada em 8 de outubro oferece um exemplo concreto dessa relação. A categoria deliberou pelo apoio à candidatura de Lula no segundo turno, ao mesmo tempo que aprovou uma agenda de mobilizações e incentivou a realização de plenárias nos diferentes campi. A decisão expressa o reconhecimento da gravidade da conjuntura, mas também demonstra a centralidade da disputa eleitoral na orientação imediata da organização sindical.  Há, contudo, outra contradição. As instituições universitárias reúnem pesquisadores dedicados ao estudo do fascismo, da desigualdade social e dos mecanismos históricos da dominação capitalista, mas a elaboração intelectual desses problemas não resulta necessariamente em participação política organizada. A burocratização da atividade acadêmica, a pressão produtivista e a fragmentação das relações profissionais podem favorecer uma distância considerável entre o reconhecimento teórico da gravidade política e a disposição coletiva de reorganizar a rotina institucional diante dos conflitos sociais. Essa situação não autoriza uma condenação generalizada de professores e pesquisadores, muitos dos quais desenvolvem atividades políticas relevantes e participam diretamente de organizações populares. Entretanto, demonstra que a existência de conhecimento crítico no interior das universidades não assegura sua incorporação à prática social. A produção intelectual pode alcançar elevado nível de sofisticação enquanto as relações institucionais continuam subordinadas às prioridades administrativas e profissionais que organizam a vida acadêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">É preciso, no entanto, ampliar a resistência para além dos setores universitários. A classe trabalhadora brasileira experimentou transformações nas últimas décadas, mediante a expansão da terceirização, da informalidade e do trabalho subordinado às plataformas digitais e essas relações modificaram as experiências cotidianas de organização contribuindo para enfraquecer determinados mecanismos tradicionais de solidariedade coletiva. As manifestações estudantis podem estimular processos importantes de reorganização política entre gerações que tiveram experiências limitadas de participação em grandes movimentos populares. Sua eficácia histórica, entretanto, dependerá da capacidade de estabelecer relações com categorias profissionais, associações territoriais e organizações comunitárias que atuam fora do ambiente universitário.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma diferença material entre a visibilidade de uma manifestação e sua capacidade de interferir na reprodução econômica da sociedade. Mobilizações concentradas em determinadas instituições podem produzir repercussão pública, mas encontram dificuldades para sustentar conflitos quando isoladas de trabalhadores organizados em outros setores. A interrupção coletiva de atividades produtivas, a organização nos locais de trabalho e a articulação entre categorias profissionais ampliam as possibilidades de intervenção social diante de governos pouco dispostos à negociação. O problema estratégico é compreender como a disposição de luta demonstrada por estudantes e professores poderá contribuir para uma reorganização mais ampla das relações entre trabalhadores. A defesa da universidade pública tem maior densidade política quando vinculada às condições de vida das populações que sustentam essas instituições, inclusive daquelas excluídas do ensino superior.</p>
<p style="text-align: justify;">A fragilidade dessa articulação contribui para explicar o sentimento de vulnerabilidade que acompanha a conjuntura. A extrema direita demonstrou capacidade de organização eleitoral, influência social e expansão parlamentar, enquanto a resistência mais visível se concentra em segmentos que encontra obstáculos para sustentar uma ofensiva de maior amplitude. O risco gira em torno de transformar a mobilização atual numa resposta estritamente eleitoral que para ter continuidade dependa da vitória ou derrota de Lula em 25 de outubro.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160200" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer10.jpg" alt="" width="210" height="281" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>4 &#8211; O fascismo e as particularidades da sociedade brasileira</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A análise do fascismo demanda uma investigação histórica de suas condições de formação, de seus vínculos com o desenvolvimento capitalista e das relações políticas que favorecem a mobilização reacionária. O emprego indiscriminado do conceito utilizado para designar qualquer manifestação de autoritarismo ou conservadorismo, dificulta a identificação de suas características específicas<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a>. Entretanto, o cuidado conceitual também não pode funcionar como obstáculo ao reconhecimento de processos históricos concretos nos quais movimentos de extrema direita ampliam sua capacidade de mobilização social, legitimam a violência política e conquistam posições institucionais favoráveis à repressão das organizações trabalhadoras.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Introdução ao fascismo, Leandro Konder, que considera o fascismo “um dos fenômenos políticos mais significativos do nosso século”, desenvolve sua interpretação a partir das contradições do capitalismo monopolista e das condições históricas que favoreceram a reorganização da direita radical no século XX. Sua análise identifica no fascismo um movimento político anticomunista, vinculado à preservação das relações capitalistas de propriedade, capaz de mobilizar setores populares mediante uma linguagem de contestação à ordem existente. Essa capacidade de elaborar ideologicamente as insatisfações sociais é importante para compreender a expansão contemporânea do bolsonarismo. O movimento fascista não depende de uma população inteiramente satisfeita com o capitalismo; sua intervenção política encontra possibilidades precisamente nas crises que comprometem a legitimidade das instituições e alimentam expectativas de transformação social. O conteúdo dessa transformação, entretanto, está subordinado à preservação da propriedade privada e à reorganização das relações de dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">A experiência brasileira apresenta particularidades que impedem sua identificação imediata com os movimentos fascistas europeus. José Chasin, em O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio, publicado em 1978, demonstra a importância de investigar as especificidades do capitalismo brasileiro antes de estabelecer equivalências entre manifestações ideológicas historicamente distintas. Sua crítica à caracterização automática do integralismo como fascismo brasileiro decorre da investigação das condições materiais que sustentaram o pensamento de Plínio Salgado, com atenção a formação tardia e subordinada do capitalismo nacional. A regressividade integralista precisava ser compreendida dentro das contradições de uma sociedade marcada pela herança colonial, assim como da centralidade da propriedade agrária e ausência de uma transformação burguesa equivalente àquela experimentada pelas principais potências europeias.</p>
<p style="text-align: justify;">A contribuição de Chasin é fundamental para a investigação contemporânea, embora o Brasil de 2026 apresente condições econômicas diferentes daquelas existentes durante a ascensão integralista. Fatores como o desenvolvimento industrial, a urbanização, a financeirização da economia e a expansão das tecnologias digitais modificaram as relações sociais, os mecanismos de dominação e as possibilidades de organização política. A concentração da propriedade, da dependência econômica e de uma estrutura estatal coercitiva, entretanto, demonstra que a modernização capitalista brasileira conservou fundamentos históricos de desigualdade e autoritarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A formação do Estado burguês brasileiro também precisa ser compreendida a partir da incorporação das classes dominantes aos mecanismos de modernização econômica, sem que isso tenha resultado na destruição das relações sociais responsáveis pela exploração e subordinação política dos trabalhadores. A expansão do capitalismo ocorreu mediante transformações produtivas acompanhadas pela preservação de estruturas repressivas e participação do Estado na organização dos interesses empresariais. A democratização política ampliou direitos e estabeleceu garantias constitucionais, mas a concentração do poder econômico continuou a condicionar a experiência social da população.</p>
<p style="text-align: justify;">José Paulo Netto acrescenta elementos importantes a essa investigação ao relacionar a ofensiva conservadora às contradições do capitalismo contemporâneo e às dificuldades históricas das organizações trabalhadoras. Em entrevista concedida a Milton Pinheiro, publicada em maio de 2021, Netto examinou o fortalecimento da extrema direita brasileira a partir de sua relação com a crise capitalista internacional e com as consequências políticas da conciliação de classes praticada pelos governos petistas. Naquela ocasião, advertiu também contra a identificação automática entre os milhões de eleitores de Bolsonaro e militantes fascistas organizados, distinção fundamental para compreender a composição social heterogênea do movimento.  O apoio eleitoral a uma candidatura reacionária não significa necessariamente a adesão integral de seus eleitores a um programa fascista. Entretanto, a legitimidade conferida por milhões de votos pode ampliar substancialmente a capacidade de atuação das organizações que defendem esse programa. Aqui, destaco um dos pontos fundamentais da entrevista de Netto (2021):</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Ao contrário do que alguém já disse, nas sociedades capitalistas, as lutas de classes não tiram férias. Desenvolvem-se muito irregularmente e nunca de forma linear – às vezes aberta e espetacularmente, outras vezes subterrânea e discretamente. E, com frequência, sem se expressar no nível especificamente político. Mas estão sempre – insista-se: sempre – operantes. São vetores reais e objetivos nas organizações societárias regidas pelo capital – a sua efetividade não depende da vontade dos sujeitos políticos, ainda que deles dependa a sua direção e, em boa medida, o seu desenlace.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">O bolsonarismo reúne segmentos sociais diferentes, cujas motivações políticas não são homogêneas, mas sua direção estabelece relações concretas com o anticomunismo, o militarismo, o nacionalismo conservador e a hostilidade contra organizações populares independentes.</p>
<p style="text-align: justify;">A caracterização do movimento precisa considerar ainda sua inserção histórica. O fascismo europeu alcançou o governo mediante uma combinação de violência política, colaboração de setores conservadores tradicionais e utilização de procedimentos institucionais reconhecidos. A nomeação de Hitler para a chancelaria alemã em 1933 e a ascensão de Mussolini ao governo italiano em 1922 demonstram a importância das alianças estabelecidas entre movimentos reacionários e representantes da ordem burguesa. A violência contra organizações operárias integrou esses processos antes da conquista do poder e teve dimensões muito superiores depois dela. A legalidade, portanto, participou da reorganização dos Estados, mesmo quando os movimentos fascistas atuaram simultaneamente por intermédio de práticas extralegais.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160199" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9.jpg" alt="" width="1367" height="608" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9.jpg 1367w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-300x133.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-1024x455.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-768x342.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-944x420.jpg 944w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-640x285.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-681x303.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1367px) 100vw, 1367px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, a extrema direita dispõe de relações importantes com setores parlamentares, agentes policiais, lideranças religiosas e organizações empresariais ao passo em que constrói bases sociais populares e se infiltra nas expressões artísticas e culturais. O bolsonarismo desenvolveu também uma infraestrutura própria de comunicação e consolidou vínculos com segmentos da população que reconhecem em suas lideranças representantes legítimos de determinadas expectativas sociais. Essas características indicam tendências de fascistização, mas não autorizam a identificação automática entre a conjuntura brasileira e os regimes europeus do século XX. A questão fundamental se relaciona à composição histórica da dominação burguesa nacional. A expansão conservadora encontra um Estado que preservou, mesmo depois da Constituição de 1988, estruturas coercitivas enraizadas na vida social. A repressão contra trabalhadores, a violência policial nas periferias e a criminalização de movimentos populares integram relações historicamente estabelecidas, sobre as quais uma eventual administração bolsonarista poderá atuar com recursos institucionais ampliados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>5 &#8211; Os sinais concretos de uma disposição repressiva</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A análise da extrema direita brasileira precisa investigar as condições efetivas de intensificação dos conflitos políticos. A existência de discursos reacionários é uma dimensão importante, mas a demonstração de uma disposição concreta para o enfrentamento depende da identificação de práticas, organizações e iniciativas que interferem diretamente na liberdade de atuação dos adversários. Os acontecimentos registrados depois do primeiro turno revelam um ambiente de tensão grave nas instituições de ensino. Em 8 de outubro, a Universidade Federal Fluminense encaminhou à Polícia Federal denúncias de ameaças contra estudantes e instalações universitárias. As mensagens mencionavam a possibilidade de incendiar a instituição e agredir participantes de manifestações políticas. A universidade solicitou providências aos órgãos competentes e adotou medidas internas de proteção, diante do receio de episódios de violência contra integrantes da comunidade acadêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">A gravidade da conjuntura também se manifesta em episódios de intimidação política contra estudantes, professores e eleitores identificados com a esquerda. Em Arapiraca, no interior de Alagoas, um grupo de apoiadores de Flávio Bolsonaro entrou no campus da Universidade Federal de Alagoas, em veículos identificados com a candidatura, e tentou retirar cartazes críticos ao candidato e ao seu vice, Alfredo Gaspar. A intervenção de uma professora provocou um confronto verbal com os integrantes do grupo, enquanto a universidade solicitou providências às autoridades responsáveis pela segurança e investigação do episódio. A situação teve contornos ainda mais preocupantes diante do incêndio de grandes proporções que atingiu a Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, na noite de 7 de outubro, destruindo laboratórios, equipamentos e acervos científicos acumulados ao longo de décadas, com prejuízos preliminarmente estimados em 100 milhões de reais. O acontecimento ocorreu após relatos de ameaças contra estudantes e instalações universitárias, algumas delas acompanhadas de referências à candidatura de Flávio Bolsonaro, circunstâncias que motivaram pedidos de investigação sobre uma possível origem criminosa, ainda sem comprovação pericial. A Universidade Federal Fluminense, em Niterói, também encaminhou à Polícia Federal mensagens divulgadas em grupos identificados com o bolsonarismo que mencionavam planos de incendiar instalações universitárias e agredir estudantes envolvidos em manifestações políticas. A sucessão desses acontecimentos provocou a reação do Ministério da Educação e de entidades representativas da comunidade acadêmica, diante do crescimento das ameaças à integridade física de estudantes, docentes e trabalhadores das universidades.</p>
<p style="text-align: justify;">A intimidação política alcançou também brasileiros residentes no exterior, com a divulgação de informações pessoais de eleitores de Lula e o incentivo a denúncias perante autoridades estrangeiras, inclusive mediante ameaças de deportação. Na Polônia, um parlamentar europeu publicamente vinculado ao campo bolsonarista participou da exposição de duas brasileiras identificadas com a candidatura petista, episódio que evidencia a dimensão internacional dessas articulações conservadoras. A ausência de comprovação de orientações diretas da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro para a execução dessas iniciativas é uma distinção necessária à apuração das responsabilidades individuais e institucionais, mas está longe de encerrar sua interpretação política. A reprodução de práticas autoritárias depende também de relações sociais, referências ideológicas e mecanismos de identificação coletiva por meio dos quais militantes e simpatizantes reconhecem determinadas condutas como legítimas, mesmo na ausência de comandos explícitos de suas lideranças. A responsabilidade política dos dirigentes conservadores precisa ser examinada, portanto, em relação aos discursos que difundem, às organizações com as quais estabelecem vínculos e às atitudes que adotam diante da violência praticada por seus apoiadores. Esses episódios indicam a existência de setores radicalizados dispostos a utilizar a intimidação e a ameaça como instrumentos de intervenção política, comprometendo as condições de participação pública de seus adversários e ampliando os riscos enfrentados pelas organizações populares numa conjuntura de fortalecimento da extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160194" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4.webp" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />A importância desses acontecimentos reside nas relações que podem estabelecer com o ambiente político criado pelo fortalecimento eleitoral bolsonarista. Determinados grupos interpretam a expectativa de vitória conservadora como legitimação para interferir diretamente na atividade de seus adversários. A intimidação de estudantes, a tentativa de remover manifestações políticas e a exposição pública de opositores indicam uma disposição para restringir liberdades que estão além da disputa argumentativa. A retórica repressiva também tem posição relevante na campanha de Flávio Bolsonaro. Neste 10 de outubro, durante atividade eleitoral em São Gonçalo, o candidato reiterou propostas de endurecimento penal, defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos e prestou continência a policiais militares presentes no evento. A aproximação pública com integrantes das corporações policiais integra uma linguagem política que relaciona autoridade estatal, segurança e ampliação das punições.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa orientação encontra correspondência em uma sociedade marcada pela naturalização da violência policial. A repressão contra trabalhadores e populações periféricas integra práticas historicamente perpetradas pelo Estado brasileiro, que não depende exclusivamente da presença da extrema direita no governo. Entretanto, a ascensão de lideranças que legitimam publicamente o endurecimento coercitivo pode ampliar a influência de setores interessados em intensificar essas políticas. Um episódio recente em Niterói contribui para compreender a profundidade dessas contradições. Em setembro de 2026, o trabalhador Danilo Jander Francisco Alves morreu depois de ser baleado na cabeça por um policial militar durante uma abordagem em Icaraí. Sua morte provocou indignação e mobilizações em defesa da responsabilização do agente, expondo novamente a violência policial como realidade concreta na vida de trabalhadores que dependem das ruas para garantir sua sobrevivência. O episódio também suscita uma questão relacionada à influência conservadora entre segmentos de motociclistas e entregadores da região. A aproximação política de determinados trabalhadores com lideranças como Douglas Gomes e Carlos Jordy, ambos vinculados ao Partido Liberal, requer investigação específica, sobretudo diante da defesa de políticas de segurança que valorizam o fortalecimento da autoridade policial. A extensão dessa aproximação não pode ser generalizada para toda a categoria sem documentação correspondente, mas sua existência como problema político ilumina uma contradição importante que é quando a experiência cotidiana da exploração e da violência estatal coexiste com identificações ideológicas favoráveis ao endurecimento repressivo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160196" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6.jpeg" alt="" width="900" height="643" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6.jpeg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-300x214.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-768x549.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-588x420.jpeg 588w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-640x457.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-681x487.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />A compreensão dessa relação depende das condições concretas de vida dos trabalhadores. As jornadas extensas, a instabilidade econômica e a insegurança profissional não produzem espontaneamente uma consciência antagônica ao capital. A extrema direita desenvolveu capacidade de conferir sentido político a determinadas experiências sociais mediante a valorização do esforço individual, a defesa da propriedade e a promessa de restauração da autoridade. A identificação com representantes conservadores pode expressar expectativas de proteção e estabilidade, mesmo quando as políticas defendidas por essas lideranças favorecem estruturas responsáveis pela reprodução da desigualdade. O problema da fascistização precisa ser compreendido dentro dessas relações sociais. A disposição repressiva de determinados grupos encontra condições favoráveis quando discursos reacionários conquistam legitimidade pública, quando as organizações populares apresentam fragilidades e quando parcelas dos aparelhos estatais reconhecem vantagens na colaboração com forças reacionárias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>6 &#8211; O que pode acontecer com uma vitória de Flávio Bolsonaro?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro precisa ser examinada a partir das condições institucionais concretas que encontrará em 2027. O fortalecimento parlamentar conservador cria oportunidades políticas importantes, mas a implementação de seu programa dependerá das negociações entre partidos, das condições econômicas e da capacidade de resistência social, elemento este fundamental que em sua ausência facilitará o fortalecimento ultra-conservador e a implementação das suas políticas econômicas principalmente. Um primeiro cenário envolve a reorganização das relações entre Executivo e Congresso. A formação de uma coalizão conservadora poderá favorecer a aprovação de reformas administrativas, medidas econômicas orientadas à ampliação da participação empresarial e alterações na legislação penal. A direção dessas iniciativas dependerá dos compromissos estabelecidos com partidos aliados e dos interesses representados pelas diferentes bancadas, com atenção aquelas vinculadas ao agronegócio, ao setor financeiro e organizações empresariais. A composição do Supremo Tribunal Federal também será objeto de disputa. A ampliação da bancada conservadora no Senado favorece pressões sobre a Corte, propostas de alteração de suas competências e de iniciativas relacionadas à responsabilização de ministros. A possibilidade de futuras nomeações presidenciais acrescenta uma dimensão importante à reorganização institucional, embora a composição do tribunal não possa ser modificada livremente pelo Executivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Na segurança pública, o programa apresentado por Flávio indica a possibilidade de intensificação das políticas de encarceramento e endurecimento penal. A classificação de facções criminosas como organizações narcoterroristas, a redução da maioridade penal e a expansão das unidades prisionais integram uma orientação que valoriza a ampliação do poder coercitivo do Estado. Suas consequências precisam ser avaliadas diante de uma sociedade na qual a repressão policial se concentra sobre determinados segmentos da classe trabalhadora. Já as universidades poderão enfrentar novas disputas relacionadas ao financiamento, autonomia administrativa e orientação das políticas educacionais, assim como a criminalização direta do movimento estudantil. A defesa de escolas cívico-militares e a possibilidade de alterações nas prioridades orçamentárias indicam pontos de conflito. Entretanto, a efetiva implementação dessas iniciativas dependerá das decisões governamentais e das relações estabelecidas com o Congresso e os governos estaduais.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160195" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer5.jpg" alt="" width="480" height="416" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer5.jpg 480w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer5-300x260.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px" />Há ainda a possibilidade de aprofundamento das pressões sobre organizações populares diante de políticas que ampliem a criminalização dos protestos ou restrinjam determinadas atividades associativas. Essa hipótese encontra fundamentos no histórico do primeiro governo Bolsonaro e nas manifestações de segmentos de seus apoiadores. A experiência internacional demonstra que governos de extrema direita podem combinar procedimentos eleitorais regulares com iniciativas graduais de concentração de poder. A reorganização das instituições ocorre mediante disputas legislativas, alterações administrativas e conflitos em torno da aplicação das garantias constitucionais. A violência política pode integrar esse processo, mas suas características concretas dependem das relações estabelecidas entre movimentos sociais, governos e aparelhos repressivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vitória de Flávio Bolsonaro poderá modificar a correlação de forças, sobretudo se sua administração conseguir estabelecer alianças duradouras com setores tradicionais da burguesia e conquistar influência ampliada sobre mecanismos de controle institucional. Entretanto, a intensidade de uma eventual ofensiva também dependerá das resistências encontradas e das contradições internas do bloco conservador. O ponto decisivo está na possibilidade de que a extrema direita utilize sua legitimidade eleitoral para aprofundar a influência sobre o Estado, ampliando progressivamente os recursos necessários à contenção dos adversários políticos. A história do fascismo demonstra a importância desse processo.</p>
<p style="text-align: justify;">O fortalecimento conservador também alcançou as disputas pelas presidências da Câmara e do Senado. O favoritismo eleitoral de Flávio Bolsonaro estimulou novas negociações entre o PL e partidos tradicionalmente vinculados ao chamado Centrão, com consequências potenciais para a permanência de Hugo Motta e Davi Alcolumbre nas direções das respectivas Casas. O controle dessas posições interfere diretamente na definição da pauta legislativa, na tramitação de propostas e na organização das relações entre Executivo e Congresso. A eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia reunir, portanto, condições institucionais favoráveis à implementação de parte de seu programa político. Entretanto, seria inadequado imaginar que a ampliação parlamentar conservadora resultaria automaticamente em um governo sem contradições internas. As relações entre partidos burgueses são condicionadas por disputas econômicas, interesses regionais e negociações relacionadas à distribuição de recursos públicos. O próprio bolsonarismo reúne segmentos diferentes, cujas expectativas nem sempre coincidem com aquelas defendidas por representantes tradicionais das classes dominantes.</p>
<p style="text-align: justify;">A possibilidade de colaboração entre essas forças, contudo, é um ponto sensível. O fascismo histórico demonstrou que setores conservadores podem contribuir para a ascensão de movimentos dessa natureza mesmo sem compartilhar integralmente seus objetivos ideológicos. A perspectiva de estabilidade política, contenção das organizações operárias e preservação das relações capitalistas pode favorecer alianças entre grupos que anteriormente mantinham conflitos. A convergência de interesses não elimina as disputas internas, mas cria condições para iniciativas comuns contra adversários identificados como ameaças à ordem existente. Essa possibilidade precisa ser examinada diante das propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro. Seu programa eleitoral prevê modificações na legislação penal, ampliação da infraestrutura prisional, expansão de escolas cívico-militares e alterações em regras relacionadas ao funcionamento do Judiciário. Na economia, defende a redução de despesas administrativas, a retomada de privatizações e reformas orientadas à ampliação da participação empresarial. O candidato também promete preservar programas sociais existentes, aspecto que demonstra a preocupação de sua campanha em conquistar legitimidade entre trabalhadores dependentes dessas políticas. Há combinação entre preservação seletiva de benefícios sociais, defesa do investimento privado e endurecimento repressivo.</p>
<p style="text-align: justify;">O Estado burguês apresenta, portanto, uma contradição que a esquerda institucional frequentemente encontra dificuldades para enfrentar. As garantias jurídicas podem ser fundamentais para preservar liberdades políticas e proteger organizações populares diante de ameaças concretas. Sua existência, entretanto, não substitui a capacidade social de resistência dos trabalhadores. A proteção institucional dos direitos depende também das relações políticas que sustentam sua aplicação e da força coletiva daqueles que necessitam dessas garantias para preservar suas condições de organização.</p>
<p style="text-align: justify;"><em> As imagens que ilustram o artigo são obras de Anselm Kiefer.</em></p>
<h4><strong>Notas</strong></h4>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> A responsabilização judicial pela tentativa de golpe de Estado alcançou integrantes importantes da cúpula político-militar do governo Jair Bolsonaro, incluindo os generais Walter Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, o almirante Almir Garnier, o ex-ministro Anderson Torres, o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem e Mauro Cid, além do ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses de prisão. Ao final dos julgamentos dos quatro núcleos principais, em dezembro de 2025, o STF havia condenado 29 acusados e absolvido dois. Entretanto, essas condenações não desarticularam as organizações políticas, as relações empresariais e as bases sociais que sustentam o bolsonarismo, sendo que principal partido, o PL, ampliou expressivamente sua representação parlamentar nas eleições de 2026. A contradição evidencia os limites da responsabilização criminal individual diante de um movimento político enraizado nas próprias instituições republicanas e articulado a setores das classes dominantes, preservando condições para disputar novamente a direção do Estado, inclusive com a perspectiva de rever politicamente os efeitos das condenações.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> As contradições entre as organizações conservadoras também se manifestam nas disputas contemporâneas pela direção política da direita brasileira. O Movimento Brasil Livre (MBL), que desempenhou papel destacado na ofensiva contra o governo Dilma Rousseff, encontra-se atualmente em conflito com a hegemonia bolsonarista. Após sua derrota no primeiro turno de 2026, Renan Santos, uma das principais lideranças do movimento, recusou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro e sinalizou disposição para dialogar com setores da esquerda, embora tenha descartado apoio eleitoral a Lula. O episódio evidencia a instabilidade das alianças conservadoras e os conflitos entre organizações que participaram de uma mesma ofensiva política, mas desenvolveram interesses próprios na disputa pela representação institucional e influência social.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> A atuação do governo Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022, sobretudo durante a pandemia de covid-19, foi objeto de sucessivas denúncias e investigações. Em junho de 2021, a Câmara dos Deputados acumulava 122 pedidos de impeachment, enquanto a CPI da Pandemia, concluída em outubro daquele ano, recomendou a responsabilização criminal do presidente por diferentes condutas relacionadas à crise sanitária. O STF também instaurou investigações durante seu mandato, mas essas iniciativas não resultaram em seu afastamento, e Bolsonaro continuou na Presidência até dezembro de 2022. Sua condenação criminal pela tentativa de golpe de Estado ocorreu somente em setembro de 2025. O episódio demonstra os limites políticos e institucionais da responsabilização de dirigentes do Estado quando a continuidade governamental encontra sustentação parlamentar e apoio de setores das classes dominantes.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> “Nem todo movimento reacionário é fascista. Nem toda repressão – por mais feroz que seja – exercida em nome da conservação de privilégios de classe ou casta é fascista. O conceito de fascismo não se deixa reduzir, por outro lado, aos conceitos de ditadura ou de autoritarismo.” Konder, Leandro. Introdução ao Fascismo, 1977.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências centrais para a leitura</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">KONDER, Leandro. Introdução ao fascismo. Rio de Janeiro: Graal, 1977.</p>
<p style="text-align: justify;">CHASIN, José. O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1978.</p>
<p style="text-align: justify;">Arquivo Internet Marxista</p>
<p style="text-align: justify;">NETTO, José Paulo. Pequena história da ditadura brasileira (1964–1985). São Paulo: Cortez, 2014.</p>
<p style="text-align: justify;">NETTO, José Paulo. <a href="https://pcb.org.br/portal2/27275">Entrevista do Momento, concedida a Milton Pinheiro, 12 de maio de 2021</a>. Partido Comunista Brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Sobre o autor</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Arthur Moura é historiador, cineasta, músico e pesquisador. Doutorando em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Educação pela Faculdade de Formação de Professores da UERJ e graduado em História pela UFF. Realizador de quase trinta filmes autorais, desenvolve pesquisas sobre cinema político independente, luta de classes, Estado, cultura e comunicação popular. Sua produção intelectual e audiovisual articula a crítica marxista da sociedade capitalista à investigação histórica das relações de dominação, das organizações políticas e experiências de resistência dos trabalhadores. É responsável pelo Canal Arthur Moura, espaço independente de produção audiovisual, análise política e debate crítico.</p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>Classes sociais ?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Aug 2026 06:51:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Extinguiu-se o sonho de outro futuro — antecipação ou ilusão — esmagado pela obsessão exclusiva do presente. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: right;">«Que curioso destino filosófico, o seguido pelo princípio de Heisenberg!»<br />
Gaston Bachelard, <em>La Philosophie du non</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>1</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nos meios marxistas sou quase invariavelmente associado à formulação de uma teoria sobre os gestores enquanto classe social, o que em grande parte dos casos suscita repúdio ou até reacções de indignação. Esta atitude revela, por um lado, a ignorância desses meios relativamente a tudo o que ultrapasse o seu limitado quadro de pensamento, porque a noção de que os gestores constituem uma categoria social própria é amplamente adoptada pelos autores que se dedicam ao estudo das questões sócio-económicas. Há divergências quanto à sua definição e ao escopo que lhes é atribuído, mas a especificidade dos gestores é correntemente evocada e nunca é bom sinal que um meio ideológico se isole dos debates mais gerais. Por outro lado, aquela atitude de rejeição revela uma estranha ignorância da história do marxismo e das suas — tantas vezes mortíferas — polémicas internas, porque as discussões em torno da questão dos gestores marcaram profundamente os confrontos no seio da revolução russa e, depois da segunda guerra mundial, na esfera soviética e na Revolução Cultural chinesa.</p>
<p style="text-align: justify;">No artigo <em>Gestores: um esboço de bibliografia</em> (<a href="https://passapalavra.info/2025/02/155812/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>) tentei que os leitores do Passa Palavra abrissem os olhos para a importância da questão, mas foi um esforço perdido. O texto valeu-me ao todo duas observações jocosas, embora não depreciativas, e a escassez de comentários serviu para mostrar que ninguém está interessado em aprofundar o assunto e muito menos em ler livros impressos em papel e que, se alguma vez o fizessem, seria sempre no conforto do lar e nunca em bibliotecas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas esta atitude dos meios marxistas tem raízes mais fundas e a ignorância não se deve apenas ao comodismo. Antes de decidir se os gestores são ou não uma classe social, convém reflectir um pouco sobre a existência dessas classes.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>2</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A divisão em classes sociais, como hoje as entendemos, começou a ser formulada no contexto de uma crítica da economia capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">No início do capitalismo, que devemos situar na transição do século XVIII para o século seguinte, era flagrante a clivagem entre uma elite rica, constituída por proprietários com acesso ao poder político, e um proletariado desmunido de tudo e sem capacidade eleitoral. Esta incontestável evidência fornecia o critério suficiente para a divisão em classes. Porém, a partir dos meados do século XIX, com o desenvolvimento de uma luta dos trabalhadores especificamente anticapitalista, aquela dicotomia deu lugar a uma noção mais elaborada de classes sociais. Os esboços de uma nova concepção do funcionamento interno do sistema económico levaram a que o simples antagonismo externo entre ricos e pobres fosse reformulado nos termos de uma relação de exploração, considerada como uma contradição de classe entre burguesia e trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde então a noção de classe social faz parte de uma crítica da economia, que Karl Marx sintetizou na formulação da mais-valia. Já não se tratava da mera produção de bens e da sua repartição desigual, mas de focar a análise económica nos processos de trabalho, concebidos como processos no tempo. Não os bens materiais, mas as diferentes relações com o tempo de trabalho passaram a definir as classes sociais e a fornecer a base para uma crítica do capitalismo. Ao longo de muitos anos e muitas páginas tenho procurado mostrar como a noção do processo de trabalho enquanto processo no tempo desvenda o âmago do capitalismo, e talvez o leitor incrédulo encontre alguns esclarecimentos neste meu breve texto (<a href="https://12673923774868154941.googlegroups.com/attach/ccf5074d7c78e6a3/O%20tempo-%20subst%C3%A2ncia%20do%20capitalismo.pdf?part=0.1&amp;view=1&amp;vt=ANaJVrF3A5uqWirOrqdyh6f86uob1gWpK86hbOA7Ic0Aeg07U-0WkJtignjO9hEX0WDD_sg-bVV-XR8Yc5PtdcY_xulAZ7MYkftiCOKS_OL279r5c7ugoZI" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). Nos termos que presidem à formulação da mais-valia, a definição de classes sociais não deve residir fundamentalmente nas relações jurídicas de propriedade, mas nas diferentes relações de controle ou de dependência relativamente ao tempo de trabalho no processo de produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Adoptando uma perspectiva oposta, nos meios capitalistas os processos de trabalho eram — e continuam a ser — analisados estritamente pela diversidade de funções técnicas desempenhadas, sem que delas se deduzissem quaisquer generalizações que implicassem uma crítica ao sistema de produção ou sequer permitissem a definição de classes sociais. Alheada de hierarquias e exclusivos, a multiplicidade de funções técnicas era apresentada como promotora de uma harmonia devido à sua convergência em processos de fabrico integrados, e não como resultado de contradições mais profundas.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, e exteriormente às análises centradas no funcionamento interno do processo de produção, quaisquer que elas fossem, a noção de um hiato insuperável entre ricos e pobres foi substituída por um escalonamento gradual em categorias de rendimentos, formado por sucessivas divisões tripartidas. Enquanto as contradições entre classes sociais supunham a crítica do sistema de produção, a divisão em classes baixa, média e alta, cada uma divisível noutros três níveis, diz exclusivamente respeito à capacidade de consumo. São perspectivas opostas. Se a crítica da economia incide na exploração de mais-valia enquanto núcleo das contradições no processo de produção e a partir daí concebe a totalidade do sistema económico, pelo contrário, a divisão de rendimentos tripartida incide no consumo, concebido como motor de toda a economia.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>3</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No começo do século XX, ou ainda nos anos finais do século XIX, começou a difundir-se a percepção de que ao lado da burguesia, e aparentemente misturados com ela, existiam outros detentores do poder económico que, embora não fossem proprietários, se distinguiam pelo exercício de um controle devido ao seu elevado nível de aptidões técnicas. Num modo de produção que abandonara os procedimentos arcaicos ligados ao artesanato e desenvolvia velozmente os novos mecanismos exigidos pelo fabrico industrial em massa, a competência técnica conferia uma importância sem precedentes. Surgiram assim os rudimentos da noção de uma classe de gestores.</p>
<p style="text-align: justify;">No exílio siberiano, em 1899 e 1900, Ian Vatslav Makhaisky divulgou clandestinamente os seus primeiros ensaios em que antecipou a definição de uma classe de gestores. Se eu tenho dito e repetido que a História é irónica, não poderia haver ironia maior do que exactamente ao mesmo tempo, nos anos da passagem de século, um ensaio desencadear toda uma nova análise social e económica através da noção de gestores e uma comunicação oral desencadear a reformulação de toda a física através da noção de quantum. Num caso como no outro, não foram poucas as resistências com que estas concepções depararam.</p>
<p style="text-align: justify;">Na realidade a situação poderia aparecer confusa, já que perante os gestores ocorria uma hesitação simétrica das outras duas classes. A burguesia temia que os gestores, seus aliados na exploração dos trabalhadores, viessem a converter-se em seus rivais, tanto na economia como na política. E os trabalhadores indagavam se os gestores, seus patrões técnicos no processo de trabalho, não poderiam, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, ser seus aliados contra a burguesia.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dilemas neste triângulo têm marcado desde então as lutas sociais. De um lado, enquanto a extrema-esquerda considerava que na Rússia soviética ocorrera uma verdadeira contra-revolução, dando origem a um novo sistema anti-socialista, Leon Trotsky sustentava que o stalinismo correspondia a uma degenerescência apenas política, preservando o carácter socialista da base económica. No cerne deste dissídio estava o reconhecimento ou a negação da existência de uma classe de gestores, o que permitiria que o stalinismo se fundamentasse ou não numa classe social específica. Do outro lado, tanto o fascismo como o New Deal reconheciam explicitamente a importância dos gestores e a novidade social que eles encerravam, e precisamente por isso uma boa parte da extrema-esquerda agregava o New Deal e o fascismo numa entidade política comum. Ficava assim colocado o programa fascista de uma revolução capitalista apesar da, ou contra a, burguesia, abrindo-se uma época que ainda hoje não se encerrou, mas, pelo contrário, se tornou mais complexa.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159601 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-1024x1019.jpg" alt="" width="640" height="637" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-1024x1019.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-768x764.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-422x420.jpg 422w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-640x637.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-681x678.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5.jpg 1449w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />4</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A situação tornou-se mais complexa porque os indivíduos não são unidades componentes das classes sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Já desde há muitos anos que eu defino os indivíduos, implicitamente quando não explicitamente, como percursos entre campos de atracção social. Os campos podem, por sua vez, conter campos menores ou sobrepor-se parcialmente a outros campos ou cruzar-se com eles, de modo que as unidades componentes dos campos de atracção social são também campos sociais. Cada indivíduo consiste num percurso mutável, e em boa medida fortuito, entre uma variedade de campos. A função do cérebro é unificar no tempo esses percursos, guardá-los na memória e projectá-los no futuro, e para isto serve a linguagem. Um indivíduo, portanto, resume-se ao seu percurso, tal como o tem gravado e o antecipa pela linguagem, e a permanente dispersão dos percursos impede que os indivíduos sejam considerados como unidades componentes de qualquer grupo social.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, o carácter em grande parte aleatório destes percursos levou-me a equipará-los ao movimento browniano, mas considero hoje excessiva essa analogia e prefiro evocar uma simples tendência a um movimento de tipo browniano. Quando um dos campos de atracção social se torna hegemónico ou, pelo menos, exerce uma força apelativa muito acentuada, a versatilidade e a aleatoriedade dos percursos reduzem-se. Só na situação inversa, quando o poder atractivo dos campos se dispersa, é que o perfil dos percursos se aproxima do movimento browniano.</p>
<p style="text-align: justify;">Perante esta dualidade fundamental entre campos sociais e percursos individuais é difícil não proceder a uma analogia com as dualidades na física quântica, por exemplo a alternativa entre determinar o <em>momentum</em> ou determinar a posição, ou a análise de um comportamento como partícula ou como onda, além de várias outras. Aliás, a ironia da História alcançou um grau supremo quando os Thomson pai e filho receberam ambos o prémio Nobel, a trinta e um anos de distância, um por ter determinado o electrão como partícula e o outro como onda. Afinal, foi Niels Bohr quem melhor sintetizou a questão ao definir a relação entre os dois termos como uma complementaridade.</p>
<p style="text-align: justify;">Também aqui, no assunto que agora me ocupa, ou a análise incide nos campos de atracção social, e nomeadamente nas classes sociais e na relação entre elas, ou incide nos indivíduos enquanto percursos entre campos. E a complementaridade entre os dois termos da alternativa requer uma complementaridade entre os métodos de abordagem. Se visarmos os campos sociais devemos recorrer à crítica da economia e à história comparada. Mas se pretendermos seguir os percursos individuais a ficção é o único instrumento ao nosso dispor, já que a imaginação romanesca é uma invenção de percursos. Quem se limitar a uma única destas duas perspectivas perde metade do mundo, o que é a maneira mais certa de perder o mundo inteiro.</p>
<p style="text-align: justify;">É devido a esta dualidade de planos complementares, mas sem correspondência directa — ou campos sociais ou indivíduos — que a situação se pôde tornar ainda mais complexa. Com efeito, na elite económica vemos hoje frequentemente burgueses comportando-se como gestores. Por um lado eles continuam a ser juridicamente proprietários dos meios de produção, têm consciência disto e nunca prescindem do privilégio. Mas ao mesmo tempo procedem como gestores na organização das empresas e na estratégia económica geral. Podemos dizer, então, que no plano das classes sociais a divisão entre burguesia e gestores se mantém claramente definida, mas que um número crescente de capitalistas circula entre ambos os campos. Nesta complementaridade, ou pretendemos definir indivíduos, e neste caso são burgueses exercendo mais ou menos plenamente funções de gestão, ou pretendemos definir classes sociais, e neste caso as suas características são independentes dos percursos individuais.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>5</strong></p>
<p>Porquê parar aqui?</p>
<p style="text-align: justify;">Se raciocinar um pouco mais, vejo a possibilidade, aliás, a necessidade de ampliar esta perspectiva, numa situação em que a definição económica da classe trabalhadora em função da extorsão de mais-valia, ou seja, de uma exploração pensada em termos de tempos de trabalho, já não tem correspondência directa numa entidade sociológica única. O desenvolvimento da produtividade é inerente à aceleração dos ciclos de mais-valia relativa, com o consequente aumento de qualificação exigido a um número restrito de trabalhadores, enquanto são desqualificados aqueles que antes se consideravam dotados de qualificações superiores, ao mesmo tempo que a maior parte da mão-de-obra é considerada não qualificada. Esta crescente hierarquização de funções e aptidões leva a que não exista hoje nenhum campo de atracção social que seja atravessado pela totalidade dos trabalhadores e os unifique numa convergência de interesses, apesar de todos eles estarem submetidos ao mesmo sistema de exploração da mais-valia, à mesma dialéctica dos tempos de trabalho. Em conclusão, da classe no plano económico já não se pode deduzir uma classe no plano social. Deixou de haver um campo social hegemónico que atraia todos os trabalhadores e secundarize ou mesmo marginalize os campos que os dispersam. A realidade agora é outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta constatação leva a uma mudança radical de perspectiva. É directamente no campo das relações sociais e, portanto, das lutas sociais que devemos detectar a existência — ou as modalidades da inexistência — dos trabalhadores enquanto classe. É muito comum nos meios de esquerda a ilusão de que a proliferação de pequenas lutas corresponda a uma luta de classe ou, pelo menos, a promova. Assim tudo seria simples, mas não é, porque a luta global não resulta de uma soma de lutas isoladas. Uma luta generalizada da classe trabalhadora, que além de colectiva seja realmente activa, define-se pela capacidade de converter as relações de solidariedade estabelecidas nessa luta em novas relações de produção, ou seja, na base de uma nova economia. É isto que caracteriza uma luta generalizada e activa, a tendência à transformação da reciprocidade num novo modelo económico. As lutas isoladas, pelo contrário, circunscrevem-se aos limites definidos por uma só empresa, o que as impede de desenvolver, ou sequer esboçar, novas relações sociais capazes de sustentar uma nova estrutura económica. Extinguiu-se o sonho de outro futuro — antecipação ou ilusão — esmagado pela obsessão exclusiva do presente. Quando sonham, se sonham, é com um passado fictício.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, se a definição económica da classe trabalhadora deixou de corresponder a um perfil sociológico único, ou seja, se já não existem campos de atracção hegemónicos que configurem socialmente os trabalhadores como uma classe, isto significa que os percursos individuais dos trabalhadores se dispersam por campos atravessados também por indivíduos que têm diferentes referências sociais, nomeadamente reflectindo a classificação por estratos de rendimento. Por exemplo, trabalhadores qualificados e gestores baixos ou intermédios partilham campos que se assumem como de classe média alta ou baixa. Mas são os identitarismos que, nos dias de hoje, mais tragicamente representam a fragmentação social dos trabalhadores, a um ponto tal que parece existir uma tendência inerente à proliferação de identidades e sub-identidades. A multiplicação de exemplos deste tipo explica — e promove — a incapacidade de generalização das lutas laborais na nossa época.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>6</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A fragmentação social e a dispersão agravaram-se nas duas últimas décadas, porque cada vez mais as relações entre indivíduos são relações virtuais, de tal modo que o virtual se está a tornar, ou já se tornou, mais real do que a restante realidade. Do mesmo modo, com a difusão do trabalho à distância, as relações de trabalho são cada vez mais frequentemente, ou mesmo exclusivamente, relações virtuais. Neste contexto, as redes sociais converteram-se nos campos mais frequentados pelos percursos individuais, o que propicia a transversalidade social desses encontros. Assim, quer pelas relações profissionais quer pelos contactos exteriores à actividade profissional, assumem uma importância crescente os campos sociais que fragmentam as classes, o que contribui para confinar a definição global de classe exclusivamente ao plano económico.</p>
<p style="text-align: justify;">Olhemos em torno de nós. Cada pessoa anda agarrada a um telemóvel (celular). Porém, se invertermos a perspectiva, diremos que por enquanto cada telemóvel precisa de uma mão que o segure. Avancemos um pequeno passo, e a Inteligência Artificial permitirá em breve, se não permite já, que os telemóveis prescindam das pessoas. Onde ficam, então, os restos da classe trabalhadora, na sua definição sociológica?</p>
<p style="text-align: justify;">E de que modo deveremos considerar as movimentações sociais na época contemporânea, entendida como um hoje dilatado até ao amanhã, se o capitalismo continuar capaz de recuperar as lutas e assimilar as reivindicações dos trabalhadores enquanto estímulo para o aumento da produtividade e para novos ciclos de mais-valia relativa? Se no reflexo social das contradições económicas Karl Marx pôde apresentar o motor da História, como reactivar o motor que hoje dê à economia uma volta histórica?</p>
<p style="text-align: justify;">E há quem pense que a História está parada, à espera de que o que não se realizou se realize!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159599" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b-214x300.jpeg" alt="" width="100" height="140" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b-214x300.jpeg 214w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b-299x420.jpeg 299w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b.jpeg 499w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Sol LeWitt (1928-2007).</em></p>
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		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (2)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159635/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Aug 2026 11:57:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Hoje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso. Por Michel Freyssenet]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Michel Freyssenet</strong></h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As relações capital-trabalho e o trabalho que essa relação historicamente engendrou não estão ligadas conceitualmente à produção material</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em suas pesquisas sobre o trabalho produtivo e improdutivo, Marx mostrou que essa distinção só tem significado em relação a uma forma de acumulação social. Retomando a tese de Adam Smith e defendendo-a contra J. B. Say e os pós-clássicos, ele mostra que a definição de trabalhador produtivo como produtor de valores de uso não tem interesse científico, qualquer pessoa o sendo a partir do momento em que o produto material ou imaterial de sua atividade encontra algum uso, mesmo que seja fantasioso. O objetivo da produção capitalista não sendo a produção de valores de uso ou mercadorias por si mesmas, mas a reprodução do valor antigo e a criação de mais-valia, o trabalho produtivo é, portanto, aquele que é trocado por capital, enquanto o trabalho improdutivo é aquele que é trocado por renda, qualquer que seja sua forma (salário, lucro, anuidade, imposto e assim por diante).</p>
<p style="text-align: justify;">Marx diferencia-se de Smith em um ponto importante. Para Smith, o trabalho produtivo de capital corresponde à produção de bens materiais na forma de mercadorias, e o trabalho improdutivo na forma de &#8216;serviços&#8217;, definidos como trocas de pessoa para pessoa. Ele estabelece, portanto, a distinção produtivo-improdutivo não apenas na relação do trabalho com o capital, mas também em uma diferença na natureza da atividade. Ele introduz uma segunda determinação: a da materialidade do produto. Ao contrário, Marx mostra que, se é verdade que o trabalho produtivo de capital produz bens materiais na maioria das vezes, sua definição não tem nada a ver com seu conteúdo concreto, mas designa exclusivamente uma relação social. Uma pessoa exercendo a mesma atividade &#8211; cozinhar, por exemplo &#8211; será produtiva ou improdutiva do ponto de vista do capital, dependendo se vende sua capacidade de trabalho para um dono de restaurante ou para um indivíduo: isto é, dependendo se sua capacidade de trabalho é trocada por capital para valorizá-lo ou por renda para satisfazer as necessidades do detentor dessa renda. Um professor será produtivo (do ponto de vista do capital) se for empregado por uma instituição escolar com fins lucrativos, mas improdutivo de capital se der aulas particulares em uma família ou no sistema educacional nacional. Quando Marx diz que a característica dos “trabalhadores produtivos, o que significa trabalhadores que produzem capital, é que seu trabalho se manifesta em mercadorias ou riqueza material”, ele fala de mercadorias no sentido de valor de troca, ele designa “uma existência social fictícia e puramente social das mercadorias, absolutamente distinta de sua realidade física; … a ilusão decorre aqui de como uma relação social se manifesta na forma de um objeto” (Marx, 1932: 33-4).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159638" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749.jpg" alt="" width="1473" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749.jpg 1473w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-276x300.jpg 276w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-943x1024.jpg 943w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-768x834.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-1414x1536.jpg 1414w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-387x420.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-640x695.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-681x740.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1473px) 100vw, 1473px" />Ao considerar o conceito de relação capital-trabalho como uma relação puramente social, ao mostrar que ela não está ligada à produção material, Marx transforma, portanto, essa &#8216;relação social de produção&#8217;, historicamente datada, em uma relação cuja preeminência sobre outras relações não pode mais advir de atividades que servem à reprodução material de uma sociedade. Ele nunca parece ter tirado tal conclusão. Ainda assim, ela decorre logicamente de sua análise do trabalho produtivo do capital. Ela está, como foi visto, em contradição com o naturalismo materialista de <em>A Ideologia Alemã</em> <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, hoje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso.oje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas sociedades capitalistas, a mesma atividade pode ser trabalho ou não-trabalho. Sua natureza não faz diferença. Depende se a atividade é realizada ou não em uma das três relações sociais: a relação de emprego, a relação mercantil (nem em todos os casos) e a relação doméstica (que está começando a ser, mas não é admitida por todos). Deve-se finalmente notar que um número crescente de atividades, tidas como não fazendo parte da economia e não sendo trabalho, tornam-se trabalho com a difusão da relação de emprego e, particularmente, da relação capital-trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma dada atividade pode ser trabalho ou não-trabalho de acordo com o momento ou a pessoa que a realiza: jardinagem, dirigir, cozinhar, construir, cantar etc. A mesma atividade pode ser trabalho e não-trabalho ao mesmo tempo. Assim, uma pessoa com seus próprios filhos cuida simultaneamente dos filhos de outros em troca de remuneração. Portanto, só se pode dizer que uma atividade é trabalho se a relação social na qual é realizada for especificada. E hoje, há apenas três relações sociais que estimulam a reflexão sobre o trabalho: as relações de emprego, mercantil e doméstica.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159637" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288.jpg" alt="" width="474" height="474" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-420x420.jpg 420w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />As relações sociais que transformam atividades em trabalho não estão mais ligadas a uma área social particular. Elas são suscetíveis de organizar atividades muito diversas, muitas das quais não fazem parte do que é comumente acordado como produção, ou do campo econômico.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho, por exemplo, expandiu-se e continua a se expandir cada vez mais para atividades consideradas no passado como fora da esfera econômica: lazer, esportes, política, religião, símbolos, ciência, arte, filosofia, polícia etc. Ela não dizia respeito, originalmente, às atividades essenciais da vida material. Ela tardou em incluir as atividades agrícolas em alguns países. Seus limites variáveis no tempo e no espaço, as tentativas muitas vezes vãs de conter o expansionismo, mostram que é uma relação indiferente à natureza das atividades que organiza. Por exemplo, hoje, começam as discussões para descobrir sob qual relação social (doação, compensação, compra ou salário) toda ou parte da reprodução humana será realizada no futuro, ou mesmo o ato de &#8216;acompanhar&#8217; os moribundos. A relação capital-trabalho é, portanto, uma relação social capaz de se espalhar para todos os tipos de atividades. Nenhuma delas, <em>a priori</em>, pode escapar a essa relação por sua natureza. Mesmo essa expansão, ultrapassando todas as fronteiras atualmente estabelecidas nas sociedades ocidentais entre os tipos de atividades humanas, confirma o caráter puramente social e histórico da economia e do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Desse ponto de vista, pode-se dizer que o trabalho se torna sempre central: tanto porque é, para o maior número, a forma indispensável de atividade para acessar os recursos materiais e imateriais necessários para viver em nossas sociedades, quanto porque está se tornando cada vez mais a manifestação das atividades humanas. Hoje, cabe à sociedade descobrir se limites não deveriam ser impostos à mercantilização das relações humanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim que uma das relações sociais conhecidas como de produção &#8211; neste caso, a relação capital-trabalho &#8211; não está ligada conceitualmente à reprodução material da vida em sociedade, torna-se impossível fazer deste último o critério de definição e insistir na preeminência das relações sociais de produção em geral sobre outras relações sociais. Esse fato invalida a possibilidade de construir um conceito universal de relações sociais de produção e leva a considerar a relação capital-trabalho como uma relação &#8216;totalmente social&#8217; &#8211; ou seja, como uma relação que não pertence a uma área particular de atividade que existiria fora dela mesma; que não pertence a uma categoria particular de relações sociais; que é única como todas as relações sociais o são; que é capaz de organizar a quase-totalidade da vida social, como outras relações sociais na história parecem ter sido capazes de fazer; e, finalmente, que não apresenta uma dimensão que prevalece sobre as outras, como a própria análise da relação capital-trabalho mostra, sendo essa relação tão política e simbólica quanto econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalho seria então uma pura construção social sem nenhum vínculo com as exigências naturais? Como é possível compreender que uma relação social possa historicamente prevalecer sobre outras, e às vezes hegemonizar e homogeneizar todo o social, se ela não obtém controle sobre as atividades &#8216;vitais&#8217; das sociedades consideradas? É difícil acreditar que não existem condições necessárias para a reprodução de qualquer sociedade na espécie humana, e que as condições específicas de cada sociedade são as únicas que contam.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas essas condições gerais são múltiplas: comer e beber, claro, possivelmente vestir-se e abrigar-se, mas também procriar, respirar, comunicar-se, ser reconhecido, mover-se, não ser morto e muitas outras condições conhecidas ou desconhecidas. Essas condições &#8216;vitais&#8217; só se tornam vitais e são percebidas como tais a partir do momento em que não são mais dadas natural ou socialmente a todos ou ao maior número. É por isso que algumas (como respirar) são risíveis, porque até agora o ar, embora de qualidade variável, permanece diretamente acessível a todos. Esse exemplo, no entanto, tem o mérito de lembrar o caráter social e histórico das condições de reprodução da vida em sociedade. Elas só adquirem o status de condições se forem objetos de rarefação natural, de apropriação social ou de restrição coletiva. Nesse ponto, pode-se pensar que a reprodução material e o trabalho como uma atividade que lhe seria dedicada não puderam ser socialmente importantes ou fundantes, se outras condições igualmente essenciais para a vida em sociedade ou para tal ou qual sociedade fossem o objeto preferencial de apropriação privada ou de controle político por uma minoria.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159639" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893.jpg" alt="" width="900" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-300x233.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-768x597.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-540x420.jpg 540w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-640x498.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-681x530.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />Dessa perspectiva, cada relação social teria seu valor, sua economia, sua racionalidade, sua forma de repartição e divisão das atividades que governa, seus princípios técnicos, e assim por diante, podendo tornar-se os de uma sociedade, se essa relação social acabar prevalecendo sobre as outras historicamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, pode-se levantar a hipótese de que uma relação social se torna importante quando transforma alguns dados naturais ou culturais em questões sociais em jogo, em condições não garantidas de vida em sociedade e nos meios de diferenciação e controle. Essa relação social se torna fundamental quando é capaz de ser o caminho indispensável para aceder ao que se tornaram os recursos materiais e imateriais (de qualquer tipo) necessários à vida na sociedade considerada.</p>
<p style="text-align: justify;">O que se entende por economia e por trabalho não existiria e, portanto, só seria importante nas sociedades capitalistas. Eles herdariam suas características centrais do que são a manifestação e designação naturalizadas de uma relação social que se tornou hegemônica ao governar certas condições gerais necessárias à vida em sociedade e as condições particulares pertencentes às nossas próprias sociedades.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Pode ser necessário hoje reter esse esforço dos trabalhos científicos de Marx &#8211; que pode ser visto em sua escrita e ainda mais à medida que ele coloca suas próprias análises em questão, particularmente aquelas da desnaturalização e historicização de noções e realidades comuns &#8211; um esforço que está longe de ter sido perseguido, inclusive por aqueles que denunciaram o materialismo de Marx, como visto na convicção amplamente difundida em todos os tipos de correntes filosóficas e políticas de que o trabalho é inerente à condição humana.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Hélio Oiticia(1937-1980).</em></p>
<blockquote><p>Este artigo será publicado em três partes, a <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159546/" target="_blank" rel="noopener">parte 1</a> está aqui, e a parte 3 será publicada em uma semana.</p></blockquote>
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		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 11:24:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Essa representação do trabalho como uma atividade universal coloca um problema, por várias razões. Por Michel Freyssenet]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Freyssenet</h3>
<p style="text-align: justify;">Há algum tempo, nas ciências sociais, recorre-se prontamente à expressão &#8216;a invenção de…&#8217; para significar o caráter histórico e localizado da noção em discussão, como, por exemplo, o mercado ou o desemprego. Pode parecer mais arriscado usar o termo para o trabalho, na medida em que o trabalho aparece como uma necessidade óbvia da condição humana.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalho poderia ser definido e delimitado, após eliminar as particularidades que apresenta em todas as sociedades conhecidas, como atividades que contribuem para as necessidades da vida humana e social. Ele pode, de alguma forma, existir independentemente de qualquer relação social para organizá-lo. As necessidades são percebidas &#8211; por nosso senso comum e pelo pensamento econômico &#8211; como o mínimo necessário para a existência humana. Por causa disso, atribui-se ao trabalho uma preeminência sobre todas as outras atividades.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa representação do trabalho como uma atividade universal coloca um problema, por várias razões <strong>[1]</strong>.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O Trabalho Nem Sempre Existiu. Ele Foi Inventado</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Dois argumentos provocam reflexão: a ausência do termo ou noção de trabalho em inúmeras sociedades, e a obrigação de admitir a hipótese do <em>homo faber</em> como fundamento da universalidade do trabalho na natureza.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Apenas Nossas Sociedades Distinguem o Trabalho de Outras Atividades</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">O estudo realizado por Marie-Noëlle Chamoux (1994) sobre os termos usados para se referir ao &#8216;trabalho&#8217; em muitas sociedades é bastante perturbador para a visão universalista do trabalho. Ou o termo e a noção estão ausentes; ou estão divididos em várias palavras e realidades; ou seus antônimos não são nem &#8216;repouso&#8217; nem &#8216;lazer&#8217;; ou são invariavelmente e explicitamente ligados a atos mágicos ou religiosos; ou ainda, não incluem atividades necessárias à vida material, como a caça etc. Tampouco a noção de esforço, encontrada em muitas sociedades, apresenta qualquer homogeneidade na definição ou nas atividades assim mencionadas. A categoria trabalho revelou-se, portanto, difícil de compreender empiricamente. Chamoux então faz a pergunta: pode-se dizer que o trabalho existe quando ele não é pensado nem vivido como tal?</p>
<p style="text-align: justify;">Historiadores e antropólogos parecem quase todos concordar que hoje, economia, produção, trabalho e assim por diante, como são entendidos na sociedade ocidental, são noções e áreas que surgiram claramente no século XVIII na Europa, com a diferenciação de um mercado capitalista dentro do mercado que o precedeu. Antes, economia, produção e trabalho estavam, por assim dizer, imersos &#8211; misturados com a política e a religião ou fundidos com elas. Pode-se tentar representar essa imersão da economia e do trabalho considerando, por exemplo, a esfera familiar como é pensada hoje. Muitas atividades ainda provêm indissoluvelmente da educação, afeição, necessidades, submissão, reconhecimento e assim por diante. A partir dessa constatação comum, as orientações de pesquisa divergem.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159550" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2.jpg" alt="" width="387" height="516" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2-315x420.jpg 315w" sizes="auto, (max-width: 387px) 100vw, 387px" />Karl Polanyi (1983), citando e desenvolvendo observações feitas anteriormente por Karl Marx e Max Weber, notadamente sobre o caráter &#8216;não segregado&#8217; dos aspectos econômicos em relação a outros aspectos da vida em todas as sociedades, exceto no Ocidente, conclui que não há definição &#8216;conceitual&#8217; universal possível para a economia. Cada época experimenta formas econômicas distintas. Por outro lado, ele acredita que é possível dar definições &#8216;substantivas&#8217; de economia, produção e trabalho que sejam válidas para todas as sociedades conhecidas: ou seja, a atividade necessária à vida material das pessoas e da sociedade. Mas essa atividade, distinguida em algumas ou firmemente imersa em outras, não é necessariamente determinante por sua natureza sobre as outras atividades. Dependendo da época, pode ter importância variável na vida social em geral. Karl Polanyi aproveita essa ocasião para denunciar o economicismo que, em sua opinião, estava invadindo as ciências históricas e sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Maurice Godelier, em sua obra <em>The Mental and the Material</em> (Godelier, 1984), cita a tese polanyiana, mas sem compartilhar as conclusões. Ele escreve que, ao contrário, isso permite reexaminar a noção marxista de relação social de produção e separar dela qualquer referência a uma sociedade particular, notadamente a sociedade ocidental, que autonomizou a economia. Acima de tudo, permite compreender &#8211; em oposição ao que o próprio Polanyi afirma &#8211; por que as relações sociais chamadas &#8216;superestruturais&#8217; (como as relações de parentesco ou políticas) podem fundar e organizar conjuntamente toda uma sociedade. A produção está inserida nessas relações e, consequentemente, elas funcionam como relações de produção. É até mesmo graças à exceção que a sociedade capitalista ocidental tem sido desde o final do século XVIII, que revelou e designou a economia como tal, que se tornou possível “compreender a importância das atividades materiais e das relações econômicas no movimento de produção e reprodução das sociedades” (Godelier, 1984: 32). O fato de as relações econômicas, uma vez autonomizadas, aparecerem como determinantes na vida social seria a prova de que as relações políticas e simbólicas que reinaram sobre certas sociedades só puderam fazê-lo porque integram as relações sociais de produção. Esse raciocínio, então conduzido por Godelier <strong>[2]</strong>, restabeleceu, portanto, estas últimas como fundamento de todas as sociedades, diferentemente do afirmado por Polanyi.</p>
<p style="text-align: justify;">Louis Dumont propõe desenvolver a tese polanyiana até o que lhe parecia ser sua conclusão lógica: ou seja, renunciar definitivamente a qualquer economicismo, inclusive, nas sociedades capitalistas, para:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…] recusar o compartimentalismo que nossa sociedade sozinha oferece obstinadamente e, em vez de buscar o significado da totalidade social na economia &#8211; ao que Polanyi é certamente contrário -, procurar antes na totalidade social o significado do que a economia é dentro de nossa sociedade e para nós <strong>[3].</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, muitos antropólogos consideram que a cultura já está presente no ponto em que a história começa. A produção é simbólica desde o início. A sociedade burguesa é, antes de tudo, uma cultura antes de ser uma economia: &#8216;Considerar o comércio como vantajoso para ambas as partes representou uma mudança fundamental e sinalizou a ascensão à categoria econômica&#8217; (Dumont, 1985: 45).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Duas grandes orientações podem, portanto, ser distinguidas. Para a primeira, a relação capital-trabalho autonomizou atividades que fazem uso da reprodução material e, assim, permitiu a definição da economia em geral, para além de sua forma capitalista. Então, o trabalho teria sempre sido essa atividade que consistia em usar, dominar e controlar a natureza para produzir a partir dela as utilidades necessárias à humanidade. Consequentemente, haveria uma definição substantiva possível para o trabalho, permitindo analisar essa forma de atividade em toda sociedade com critérios comuns e determinar o lugar que ela foi capaz de ocupar na estruturação das relações sociais. Enquanto para Polanyi a economia e o trabalho seriam estruturantes apenas nas sociedades capitalistas, para Marx e Godelier (1984) as relações capital-trabalho também teriam revelado que elas são estruturantes em todas as sociedades.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159553" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark.jpg" alt="" width="2000" height="1234" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-300x185.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-1024x632.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-768x474.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-1536x948.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-681x420.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-640x395.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />De acordo com a segunda orientação, uma cultura &#8211; e até agora uma única cultura, a burguesa &#8211; inventou uma área chamada econômica. Uma definição universal do econômico é, portanto, impossível tanto conceitual quanto substantivamente. O trabalho, como é entendido hoje, corresponde, nessa perspectiva, ao surgimento da relação de trabalho e do &#8216;trabalhador livre&#8217; que vende sua capacidade de trabalho. A progressiva difusão e hegemonia dessa relação social tornaram-se a referência para perceber, pensar e organizar uma série de atividades. A consequência teria sido uma extensão do termo trabalho a atividades que não eram designadas como tal e que não decorrem da relação de trabalho, como o &#8216;trabalho doméstico&#8217; e o &#8216;trabalho autônomo&#8217;. Uma naturalização do trabalho teria, assim, resultado. Desse ponto de vista, o trabalho é percebido como uma realidade universal e como tendo sempre existido. Ele teria sido projetado no passado e em outras sociedades, em vez de ter se realizado por meio das condições históricas que o fizeram emergir há três séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma boa maneira de avançar em tal debate é buscar os pressupostos de ambas as posições.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Hipótese do Desvelamento do Trabalho e da Economia Através da Relação Capital-Trabalho e, Portanto, de sua Universalidade, Supõe Concordância com um Materialismo Naturalista Inaceitável Hoje</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Um jornalista americano já havia objetado a Karl Marx, após ler o prefácio da <em>Contribuição à Crítica da Economia Política</em>, no qual Marx expunha sua distinção entre relações que fundam uma sociedade (infraestruturas) e aquelas que a governam (superestruturas), que a determinação da vida social por meio das relações sociais de produção não pode ser considerada universal. As sociedades antiga e feudal, ele lembrou, eram fundadas em relações essencialmente políticas. Marx responde, em uma nota em <em>O Capital</em>, que, durante o colapso das relações feudais, Dom Quixote ainda precisava encontrar por si mesmo algo para comer e beber. Em outras palavras, privados das relações que em algumas sociedades tanto abrangem quanto mascaram as relações pelas quais a reprodução material de uma sociedade é garantida, as pessoas se veem confrontadas com sua obrigação física primária: a alimentação. A determinação pelo econômico teria, portanto, claramente se originado de necessidades vitais inevitáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria útil lembrar de onde vem essa posição natural-materialista. Ela se enraizou nos primeiros trabalhos filosóficos de Karl Marx. Reagindo contra o idealismo e o universalismo hegeliano, Marx e Engels escreveram em <em>A Ideologia Alemã</em> que o humano em geral não existe e que os humanos só existem como indivíduos históricos reais.</p>
<p style="text-align: justify;">São os homens que produzem suas representações, suas ideias, etc., mas [eles são] homens reais, ativos, tais como são condicionados por um desenvolvimento determinado de suas forças produtivas e do modo de relações que a elas correspondem, incluindo as formas mais amplas que estas podem assumir. A consciência nunca pode ser outra coisa senão o ser consciente, e o ser dos homens é seu processo de vida real. (Engels e Marx, 1968: 50)</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, para “dissipar as fantasmagorias universalistas do pensamento e libertar-se delas”, eles propõem um programa de trabalho que visa estudar os seres humanos históricos concretos, as relações que mantinham entre si, suas condições de vida e o processo de vida real. Para justificar esse programa, apresentam três argumentos. Primeiro, um argumento metodológico: a vida material dos seres humanos reais pode ser verificada por meios puramente empíricos. É um argumento importante se tenta denunciar a omissão das condições de vida reais e suas relações com as diferenças comuns e formas de reflexão no pensamento universalista. É também um argumento, no entanto, insuficiente para justificar a primazia concedida à vida material para compreender outras manifestações humanas. Nesse ponto, entra em jogo um segundo argumento: pode-se provar que há um elo na história humana entre os diferentes estágios de desenvolvimento na divisão do trabalho e as formas de propriedade, ou seja, as relações dos indivíduos entre si. Mas essa correlação perceptível não implica, logicamente, que a produção material seja, por isso, mais determinante. Finalmente, intervém um terceiro argumento, claramente naturalista:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…]somos levados a começar pela primeira observação de qualquer existência humana, em qualquer história; isto é, que os homens devem viver para poderem &#8216;fazer história&#8217;. Mas, para viver, o homem deve antes de mais nada beber, comer, habitar e vestir-se, entre outras coisas. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que lhe permitem satisfazer essas necessidades, a produção da própria vida material, e mesmo isso é um fato histórico, uma condição prévia fundamental de qualquer história que hoje deve ser preenchida dia após dia, hora após hora, assim como há milhares de anos, simplesmente para manter o homem vivo.</p>
<p style="text-align: justify;">[…] Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião ou por qualquer outra coisa que se deseje. Eles próprios começam a se distinguir dos animais assim que começam a produzir seus meios de existência, um passo adiante que é a própria consequência de sua organização corporal. (Engels e Marx, 1968: 57, 45)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Engels e Marx acrescentam que muito rapidamente outras necessidades e, de fato, todo um estilo de vida se desenvolve. No entanto, eles fundam a preeminência da atividade produtiva nas necessidades vitais, uma evidência que não é realmente uma prova, e através de um discurso sobre as origens da humanidade, que na verdade é um discurso sobre o que os humanos eram em sua origem.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159552" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images.jpg" alt="" width="655" height="468" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images.jpg 655w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-300x214.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-588x420.jpg 588w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-640x457.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 655px) 100vw, 655px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os pressupostos da tese do &#8216;primeiro fato histórico&#8217;, em outras palavras, a produção dos meios que permitem a satisfação das necessidades de alimento, são numerosos e incertos demais para serem mantidos hoje. Seria necessário que, na espécie animal, o proto-humano não encontrasse nada para comer ou beber em seu ecossistema. Teria sido essa necessidade vital &#8211; sendo uma restrição absoluta &#8211; e não qualquer outra que teria desencadeado a invenção e a reflexão humana, bem como as primeiras relações sociais. Seria necessário buscar recurso em um meio &#8216;artificial&#8217; para a aquisição de alimentos, sendo essa a peculiaridade dos humanos, o que sabidamente não é o caso.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, não parece mais possível estabelecer uma tese tão carregada de consequências teóricas e práticas como a das relações sociais de produção estar na base de qualquer sociedade sobre a frágil hipótese do <em>homo faber</em>. Podemos razoavelmente postular que existia um ser social &#8216;completo&#8217;, livre de qualquer primitivismo. As condições de existência são uma sociedade, uma linguagem, a transmissão de conhecimento, razões para viver e morrer etc., assim como comer e beber, sem entrar em outras condições naturais ou culturais, igualmente essenciais, mas que são simplesmente ignoradas por serem dadas como certas.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de um retrocesso à posição de Dumont? É-se obrigado a buscar as razões para a divisão e a designação de atividades em cada sociedade? Seria necessário representar a sociedade como um organismo, dotado de um princípio único de existência, ordem e regulação, que daria sentido a cada uma de suas partes; em vez de tentar construir tal &#8216;totalidade&#8217;, pareceria mais prudente e heuristicamente mais frutífero partir do reconhecimento primário da existência de relações sociais, tendo sua própria lógica &#8211; atualizada, acionada e modificável pelos atores sociais que cada uma dessas relações institui, coexistindo ou articulando-se entre elas, criando campos sociais, cuja designação e fronteiras se deslocam em relação ao lugar e ao tamanho que essas relações sociais adquirem, cada uma em relação à outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosamente, Marx oferece a oportunidade e a possibilidade de se comprometer com esse caminho e pensar que o conceito de relação social se desvincula de qualquer determinação &#8216;substantiva&#8217;.</p>
<p><em>Artigo publicado no volume 47 (2) da revista Current Sociology em abril de 1999 e foi traduzido por Leo Vinicius. Acesse aqui a parte <a href="https://passapalavra.info/2026/08/159635/" target="_blank" rel="noopener">2</a>.</em></p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são da série Bichos de Lygia Clark</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Este artigo cita e expande uma série de textos publicados desde 1987: &#8216;Le concept de rapport social peut-il fonder une autre conception de l&#8217;objectivité et une autre conception du social?&#8217; (O Conceito de Relações Sociais Pode Fundar Outra Concepção de Objetividade e Outra Concepção do Social?) (Freyssenet e Magri, 1989: 9-23) e &#8216;Le rapport capital-travail et l&#8217;économique&#8217; (A Relação Capital-Trabalho e a Economia) (Freyssenet e Magri, 1990: 5-16); &#8216;L&#8217;invention du travail&#8217; (A Invenção do Trabalho), (Futur Antérieur, 1993-2: 17-26); &#8216;Historicité et centralité du travail&#8217; (Historicidade e Centralidade do Trabalho) (Bidet e Texier, 1995: 227-44).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A posição de Godelier mudou desde então, como ele explicou em seu prefácio a &#8216;La Transformation dans la nature et rapports sociaux&#8217; (A Transformação na Natureza e Relações Sociais) (Freyssenet e Magri, 1990: 19-20). Citando um texto intitulado &#8216;L&#8217;Oeuvre de Marx&#8217; (A Obra de Marx) publicado em &#8216;Le Marxisme analytique anglosaxon&#8217; (O Marxismo Analítico Anglo-Saxão), ele escreve:</p>
<p style="text-align: justify;">Quando, por exemplo, as relações de parentesco em uma sociedade tribal também funcionam internamente como relações de produção &#8211; portanto, tanto como infraestrutura quanto como superestrutura &#8211; deve-se explicar por quê. … [Agora], a antropologia social nunca descobriu até hoje a relação causal direta entre um modo de produção e um modo de filiação e aliança. Na verdade, se as relações de parentesco não dependem diretamente, por suas outras aparências, de um modo de produção, é porque elas têm suas próprias funções distintas e possuem &#8211; o único paradoxo aqui é na aparência &#8211; uma base material independente: relações biológicas entre sexos e gerações, condições materiais de produção de novos indivíduos às quais as regras de filiação e aliança dos diversos sistemas de parentesco dão um sentido e usos sociais etc. Assim, a hipótese central de Marx, que faz dos meios de produção materiais e sociais a base geral da vida social, não foi confirmada. Ela mantém uma capacidade mais restrita — embora ainda impressionante — de explicar o funcionamento e a evolução das sociedades. (Godelier, 1990: ???)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Prefácio de Louis Dumont à obra de Karl Polanyi <em>A Grande Transformação</em> (Polanyi, 1983: xxvi).</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Factos etc. 2) «ressentido, pessimista, revisionista, conformista, eclético e renegado»</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jul 2026 15:02:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Partir dos modelos para os factos ou dos factos para os modelos? Eu parto dos factos para os modelos. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;">Não passo além dos factos quando sustento, usando os termos de Leibniz, que toda a possibilidade, enquanto possibilidade, é uma «pretensão à existência». O possível tem uma realidade, que resulta do sistema contraditório em que os factos se articulam e dos choques entre sistemas. É este o drama, que eleva a vida social de uma simples soma de biologias a um palco de teatro, e foram os enredos desse drama que eu procurei classificar e sintetizar no <em>Economia dos Conflitos Sociais</em>. Tanto as rupturas internas como os conflitos externos assinalam os pontos de crise e, convertendo o estático em dinâmico, apontam rumos possíveis de superação do existente. São possibilidades reais, porque resultam do carácter contraditório de factos reais, mas de todas as pretensões à existência qual virá realmente a existir?</p>
<p style="text-align: justify;">Desde há várias dezenas de anos que, tanto em ensaios metodológicos como nas pesquisas práticas, tenho distinguido entre <em>determinação</em> e <em>formas de realização</em>. Uma determinação marca um campo cujos limites não podem ser excedidos, a menos que se salte para outro campo, em que prevalece outra estrutura de articulação dos factos. Mas no interior de uma dada determinação há um número ilimitado de formas possíveis de articulação dos factos na estrutura. A determinação marca os limites do <em>não</em>, mas não define a exclusividade de um <em>sim</em>. É nesta assimetria que se faz a história.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa assimetria deve ser transposta pelo historiador para outra assimetria, estabelecida entre o <em>a priori</em> e o <em>a posteriori</em>. Enquanto historiador, eu estou preso no tempo e escrevo necessariamente <em>a posteriori</em>, trato de factos que já sucederam e sigo a linha dos acontecimentos. Mas também enquanto historiador eu trabalho com uma matéria-prima formada pelos factos tal como eles se revelaram <em>a priori</em> e tal como se revelam hoje, num <em>a priori</em> relativamente aos tempos futuros. E se o <em>a priori</em> é uma vasta abertura de «pretensões à existência», o <em>a posteriori</em> é o encerramento de todas essas pretensões excepto uma. Por isso o historiador não deve limitar-se a explicar por que motivos sucedeu aquilo que sucedeu. É também necessário explicar — ou, pelo menos, tentar explicar — porque é que não sucedeu o que não sucedeu, ou seja, porque é que se efectivou uma forma do possível e não se efectivaram as outras. É no desfasamento (defasagem) entre o <em>a priori</em> e o <em>a posteriori</em> que ocorrem as ilusões do <em>se</em> em história. Se tivessem sabido… A historiografia é um infindável percurso por cemitérios, em que o cinismo é o único antídoto possível das nostalgias.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas estas dicotomias fundamentaram, tanto na pesquisa como na estrutura do texto, duas das minhas três obras de historiografia, o <em>Poder e Dinheiro</em> e o <em>Labirintos do Fascismo</em>. Mas que escândalo isto é para os vários dogmatismos e agora para o tudo abrangente politicamente correcto! Pois como pode pretender-se que uma certa sociedade ou uma certa civilização ou um certo tipo humano ou uma certa prática económica tivessem inicialmente, <em>a priori</em>, representado algo que agora, <em>a posteriori</em>, passado o tempo, se quer denegrir ou idealizar? E como pode dizer-se que a doutrina e o santo de cada uma das capelas, ou mesmo a divindade do altar-mor e os seus evangelhos, foram isto e aquilo no <em>a priori</em>, quando nos surgem tão puros e glorificados no <em>a posteriori</em>? Ou inversamente. E assim prolifera uma historiografia corrupta, dedicada a filtrar o <em>a priori</em> aceitável e a resumir a história a uma linha única. Se fizéssemos a lista de todas as previsões não confirmadas, aprendíamos a ser mais prudentes nas previsões. Mas se nos limitarmos a tomar o sucedido como prova de sucesso, esquecemos os tortuosos caminhos por que lá se chegou.</p>
<p style="text-align: justify;">Procurei singrar entre estes escolhos noutra das minhas obras historiográficas, <em>A Sociedade Burguesa de Um e Outro Lado do Espelho</em>, onde analiso <em>La Comédie humaine</em> simultaneamente como obra de historiografia e como material da história.</p>
<p style="text-align: justify;">«Fiz melhor do que o historiador, sou mais livre», proclamou Balzac. Mais livre? Ora, ele queixou-se precisamente da situação contrária, quando observou que «o historiador dos costumes obedece a leis mais severas do que as que regem o historiador dos factos, ele tem de tornar tudo provável, até o verdadeiro; enquanto que, no domínio da história propriamente dita, o impossível é justificado pelo motivo de ter acontecido». E noutras obras da <em>Comédie</em> transparece a mesma oscilação entre a liberdade de um criador de personagens e os constrangimentos impostos a quem tem de apresentar de maneira verosímil os acontecimentos que inventa, apesar de não faltarem na história real acontecimentos implausíveis. É que o <em>a posteriori</em> serve para justificar tudo pela mera razão de ter acontecido, enquanto o ficcionista não pode senão situar <em>a priori</em> as suas invenções, sem a desculpa do facto consumado. E assim <em>La Comédie humaine</em>, mais do que uma obra de historiografia, é uma reflexão sobre o exercício da história. Certamente por isso encontramos ali admiráveis antecipações da história real, porque de todas aquelas «pretensões à existência», algumas houve que depois viriam realmente a existir, e foi este um dos eixos que usei para estruturar <em>A Sociedade Burguesa de Um e Outro Lado do Espelho</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159408" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-300x246.jpg" alt="" width="560" height="459" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-300x246.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-1024x839.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-768x630.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-512x420.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-640x525.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2-681x558.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-2.jpg 1281w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Mas se Balzac foi um historiador que criou o seu próprio material historiográfico, e o criou na única forma possível em romances, enquanto pessoas, não nos iludamos e evitemos pensar que as teias da história sejam feitas com os fios das psicologias individuais. Em todos os meus trabalhos dedicados aos estudos sociais, sem excepção, eu tenho insistido que as unidades mínimas dos grupos sociais são outros grupos sociais, contidos no seu interior ou entrecruzados e só parcialmente sobrepostos. É num plano distinto que existem os indivíduos. Cada indivíduo constitui um percurso incessante e mutável entre vários grupos sociais, e a psicologia de cada um é a tentativa de dar uma coerência a esse percurso. Um indivíduo é uma dispersão unificada apenas pelo facto de possuir um cérebro que integra as sensações. Ora, quanto mais se agravarem as contradições internas dos sistemas sociais atravessados por um mesmo indivíduo e quanto mais se aprofundarem os antagonismos entre aqueles sistemas, mais difícil, ou até impossível, fica a tentativa de fornecer uma coerência a esse percurso. Em sentido oposto, pode suceder que em certas situações e circunstâncias um campo ou um grupo social ocupem um espaço desmesurado relativamente aos outros grupos e campos, e então uma grande parte dos percursos individuais seja atraída pelo campo ou pelo grupo em expansão, o que contribui para criar uma falsa sensação de unanimidade. Mas como mesmo nestes casos existem divergências e proliferam sistemas e grupos secundários e outras fontes de atracção para uns e outros percursos, nunca os percursos individuais se sobrepõem. A regra sem excepção é a singularidade dos incessantes percursos a que se resume cada indivíduo, sem que jamais esses percursos se decalquem.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí resulta a improcedência da psicologia na história e na economia. As obras que pretendem misturar as duas coisas com frequência não são uma nem a outra. Pensar que as pessoas são as unidades componentes dos grupos sociais é reduzi-las àquelas figuras sem vida que povoaram a pintura e a literatura soviética e hoje alimentam as ficções do politicamente correcto. Essas descrições nem sequer são disfarces assumidos por alguém, porque resultam apenas de máscaras sem conteúdo, inventadas para dar pernas e braços a grupos sociais e fazer crer que existe uma unanimidade absoluta onde há só diferenças e divergências.</p>
<p style="text-align: justify;">Os sistemas sociais estudam-se na história e na economia. As pessoas estudam-se naqueles romances e filmes que vivam apenas das contradições dos personagens, ou seja, do seu percurso por sistemas e grupos sociais distintos, quando não mesmo opostos. Um romancista — um bom romancista, porque é destes que estou a falar — cria um personagem sem lhe saber o destino, e é ao longo da obra que o vai inventando, tal como sucede a qualquer de nós nos percursos e encontros sempre mutáveis do dia-a-dia. André Gide desvendou com ironia este mecanismo em <em>Les Caves du Vatican</em>, quando receou que o seu personagem hesitasse. «Lafcadio, meu amigo, se cair num <em>fait divers</em>, a minha caneta abandona-o». E o romancista previne: «Não espere que eu narre os pedaços de frases de uma multidão, os gritos…» E de novo, algumas páginas adiante. «Lafcadio, meu amigo, está a cair na banalidade. Se for apaixonar-se, não conte com a minha caneta para descrever as angústias do seu coração… Mas não». (Pode ler-se em nota a versão francesa.) Lafcadio faz a escolha certa e Gide exulta, porque o personagem não lhe fugiu e ele pode assim continuar o livro. É isto que sucede nos bastidores da escrita em todos os bons romances — o que nos permite distinguir os bons romances dos maus, ou mesmo dos menos bons — e por isso os personagens dessas obras nunca podem ser emblemas de uma doutrina ou figurantes de um grupo social, porque na cabeça do escritor eles inventam-se a si mesmos e optam por percursos imprevistos.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada há de comum entre os estudos históricos ou económicos e a ficção, por isso aqueles personagens imprevisíveis, que somos nós próprios, não constituem as unidades mínimas dos grupos sociais. É para outro lado que o historiador ou o economista têm de olhar. Talvez seja este o motivo por que uma certa esquerda, tanto da antiga como da actual, é tão hostil à ficção, onde só encontra figuras que fogem aos moldes. É talvez a mesma esquerda que alimenta o lobby dos psicólogos, xamãs vocacionados para colocar cada pessoa no devido padrão. Ora, a arte e a ficção servem, ou devem servir, para mostrar fissuras e introduzir dúvidas nas certezas. Em vez de demonstrar, devem pôr em causa.</p>
<p style="text-align: justify;">Qual a utilidade, então, dos estudos de economia e de história, se não servem para dar coerência aos percursos individuais? E qual a utilidade da arte e da ficção, se não nos esclarecem sobre a estrutura da sociedade? Entre as razões que levam muitos leitores a ficarem descontentes com o meu trabalho, talvez seja esta uma das mais importantes, a de um estudioso da sociedade interessado sobretudo pela ficção e pela arte. Em 15 de Outubro do ano passado (<a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comments" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), um leitor, depois de considerar que existe «um João Bernardo de esquerda e um de direita», contrastou «o “jovem João Bernardo” marxista, comunista, conselhista, autonomista, heterodoxo, e o atual, ressentido, pessimista, revisionista, conformista, eclético e renegado». Mas este leitor enganou-se pelo menos numa coisa, pois poderia haver uma mais clara manifestação de revisionismo do que o jovem João Bernardo apresentar, há já cinquenta anos, Marx como crítico de Marx?</p>
<p style="text-align: justify;">A grande divergência entre os que acreditam antes de ver e os que procuram ver para acreditar provém do que se pretende — o conforto de encontrar confirmações para os desejos e os preconceitos? Ou o incómodo de buscar sempre o inesperado e o que se é incapaz de explicar? Partir dos modelos para os factos ou dos factos para os modelos? Eu parto dos factos para os modelos.</p>
<p><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As passagens citadas de <em>La Comédie humaine</em> (Paris: Gallimard, Bibliothèque de La Pléiade, 1976-1981) encontram-se respectivamente em <em>Avant-propos</em>, vol. I, pág. 15 e <em>Les Paysans</em>, vol. IX, pág. 190.<br />
As citações de <em>Les Caves du Vatican</em> (Paris: Gallimard, Le Livre de Poche, 1956) encontram-se nas págs. 63 e 75. Na versão francesa: «Lafcadio, mon ami, vous donnez dans un fait divers et ma plume vous abandone. N’attendez pas que je rapporte les propos interrompus d’une foule, les cris…» «Lafcadio, mon ami, vous donnez dans le plus banal; si vous devez tomber amoureux, ne comptez pas sur ma plume pour peindre le désarroi de votre cœur… Mais non».</p>
<p style="text-align: center;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159414" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-300x247.jpg" alt="" width="100" height="82" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-300x247.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-1024x841.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-768x631.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-511x420.jpg 511w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-640x526.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a-681x560.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-a.jpg 1032w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />As ilustrações reproduzem obras de M. C. Escher (1898-1972)</em>.</p>
<p>Pode ler <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159392/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> a primeira parte deste ensaio.</p>
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		<item>
		<title>Factos etc. 1) «João Bernardo defendendo este método positivista»</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159392/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 06:51:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Os factos são sempre prévios à metodologia, sem resultarem dela. São o objecto da metodologia, não uma consequência. João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;">Tenho sido várias vezes classificado como empirista ou, mais frequentemente, como positivista ou adepto do positivismo lógico — e o curioso é que esses termos são empregues como censura e não como elogio. Eu sou um admirador de São Tomé, patrono dos empiristas. «Porque me viste, acreditaste?», repreendeu-o o ressuscitado, e acrescentou: «Felizes os que, sem terem visto, acreditam!» Ora, eu pertenço também ao número dos que querem ver para crer, e só posso estranhar que os meus críticos, que tantas vezes acreditam sem ter visto nada, se considerem materialistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas ver o quê?</p>
<p style="text-align: justify;">Os factos só começam a aparecer-nos verdadeiramente como factos quando são incómodos. É então que os sentimos, porque tudo aquilo que se limite a prolongar o existente passa-nos de imediato despercebido.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem não gosta de deparar com a incomodidade dos factos ou volta os olhos para outro lado ou, se for um pouco mais sofisticado e prefira envolver-se num escudo protector mais espesso, põe em causa o método que estabeleceu aqueles factos ou que os apresenta, sem sequer reflectir que o mesmo método apresentou ou estabeleceu os factos de que ele gosta ou de nem sequer se apercebe. É assim que, por exemplo, as estatísticas inconvenientes são recusadas pela generalidade dos esquerdistas com o argumento de que não resultam de uma perspectiva marxista mas se devem a métodos de pesquisa capitalistas, os mesmos métodos que estabelecem as estatísticas a que essas pessoas recorrem quando acham que elas validam as suas teses. Porém, a questão é hoje mais ampla, porque consideram-se válidos apenas os factos que forem apresentados por uma dada identidade étnica ou cultural ou sexual. Assim, os factos são despojados de qualquer realidade própria e atribui-se aos preconceitos metodológicos ou identitários a garantia exclusiva da realidade. De evidência factual, a realidade converte-se em emanação intelectual.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, a escolha ou aceitação do ponto de vista com que encaramos a realidade não implica uma criação de factos, mas apenas a atenção prioritária prestada a certos factos, porque são mais incómodos ou mais cómodos do que outros, e implica igualmente a metodologia com que alinhamos os factos e os observamos nas suas contradições. Os factos são sempre prévios à metodologia, sem resultarem dela. São o objecto da metodologia, não uma consequência. Em vez de se argumentar contra os factos dizendo que eles são impossíveis à luz de um certo modelo, deve-se substituir o modelo porque ele se revela incapaz de verificar os factos. Aquela visão selectiva que aceita os factos convenientes e rejeita os indóceis sustenta as múltiplas críticas ao que denominam <em>empirismo</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas devemos ir ainda mais longe, porque não basta ver os factos. É necessário procurá-los, e garantir que sejam factos e não simples projecções de um desejo. O desejo, que resulta do ponto de vista adoptado, não substitui os factos nem os invalida.</p>
<p style="text-align: justify;">Não pretendo aqui convencer as pessoas que não precisam de ver para crer, nem isto seria possível, porque se os factos não as convencem, quem sou eu para as persuadir! Não quero dar orientações, apenas esclarecer o método que uso na historiografia e na análise económica.</p>
<p style="text-align: justify;">No meu trabalho começo por considerar os factos isoladamente e, à medida que os vou acumulando, reúno-os pela localização no espaço ou na função ou pela concomitância no tempo. Depois reúno outros factos similares para outros espaços ou outros tempos. A partir daqui estabeleço sistemas de convergências e de oposições, e aquilo que inicialmente era apenas um amontoado de fichas começa a converter-se em estruturas que permitem detectar regras próprias. Com o avanço da pesquisa para novos espaços e outros tempos, as comparações multiplicam-se e a definição dos sistemas vai-se tornando mais precisa. Já não são só regras internas que se estabelecem, mas começa igualmente a definir-se a regra das comparações entre sistemas. É então que posso passar à definição de campos. Um campo delimita um sistema, com a sua estrutura e as suas regras. Se surgirem factos novos e se inserirem nesse campo sem lhe trazerem qualquer alteração, então fica comprovada a definição do sistema. Mas a descoberta de factos que coloquem novos problemas, irresolúveis no sistema tal como ele estava definido, obriga a desenhar um outro perímetro para o campo, a adequar-lhe a estrutura e a modificar-lhe as regras. O confronto com novos factos é, para um campo, o teste decisivo. Esta longa e trabalhosa passagem do enunciado de factos ao estabelecimento de campos constitui para mim a base fundamental da história comparada.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seguida, e só em seguida, posso reflectir sobre o método que me permitirá explicar aquelas convergências e oposições e, mais amplamente, o estabelecimento de campos. E explicar significa, para mim, <em>estabelecer a regra de</em>. Ora, essa explicação tem por sua vez de ser testada. Na escolha de um método influi o ponto de vista resultante da situação que se ocupa e das escolhas que se fazem, mas um método é muito mais do que um ponto de vista, porque se desenvolve na sua aplicação aos factos. Para isso verifico se a regra se adequa, ou não, a outros sistemas e aos vários campos e, consoante a conclusão, estabeleço as continuidades ou rupturas entre espaços e entre tempos. O mais importante nesta fase do trabalho são as contradições e as excepções, em suma, tudo o que parece fugir à norma, porque aí se podem encontrar as fissuras por onde o sistema se transformará ou entrará em crise. Passo assim do estático para o dinâmico, e são os pontos de ruptura detectados na sincronia que me tornam perceptíveis os rumos da diacronia.</p>
<p style="text-align: justify;">Para mim, enquanto historiador ou analista da economia, a história comparada e o teste dos factos funcionam como o laboratório para o cientista. As pretensões científicas dos estudos sociais são fortemente limitadas pela impossibilidade de proceder a experiências concebidas previamente, e não se pode ir mais longe do que organizar factos, sistemas e campos, e compará-los. A história comparada é o único laboratório possível. Foi assim que elaborei duas das minhas três obras de historiografia. O leitor desprevenido talvez pense que no <em>Poder e Dinheiro</em> e no <em>Labirintos do Fascismo</em> as inúmeras descrições de variantes tenham como objectivo ilustrar as normas gerais que estabeleci, mas o processo foi o inverso. Primeiro fui comparando séries de factos e casos e reunindo-os por semelhanças e compatibilidades, e pude assim definir campos e delimitá-los. As descrições de variantes, em vez de serem exemplos de normas elaboradas previamente, são o alicerce de toda a obra. Foi por aí que comecei.</p>
<p style="text-align: justify;">E assim, pouco a pouco e desta maneira sempre pedestre, fui elaborando um método teórico. Vocacionados para os factos e construídos a partir dos factos, os modelos teóricos têm para mim uma utilidade estritamente instrumental, operacional. Por isso devem — ou podem — mudar consoante os factos que se destinam a estudar, ou seja, a enquadrar e organizar. Não se trata de dogmas nem de princípios, mas de instrumentos, no sentido literal da palavra, e os instrumentos mudam consoante o material sobre que operam e as funções a que se destinam. É certo que, tal como quaisquer outras pessoas, um historiador ou um economista têm pressupostos que decorrem da situação social que ocupam e das suas opções ideológicas, pontos de vista que apontam um objectivo para as suas análises. Mas se escolhem ou elaboram um instrumento que lhes sirva para esse objectivo, precisamente por isso ele deve então adequar-se ao material empírico em que operam. Para ser eficaz, a razão crítica requer uma concepção instrumental da metodologia, senão transforma-se num mero irracionalismo de desejos ou ambições.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159405" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-195x300.jpg" alt="" width="560" height="861" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-195x300.jpg 195w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-666x1024.jpg 666w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-273x420.jpg 273w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-640x983.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-681x1046.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5.jpg 736w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Na minúcia com que os exijo, os exercícios de história comparada deparam com os limites das forças humanas. Vários anos depois de ter terminado o <em>Poder e Dinheiro</em> publiquei um ensaio em duas partes intitulado <em>Economia de Troca de Presentes. Para uma Teoria do Modo de Produção Pré-Capitalista</em>, onde procurei apresentar um panorama que ampliasse no tempo e universalizasse no espaço os problemas que enunciara a propósito do regime senhorial. Mas tratou-se apenas de um roteiro, uma proposta de trabalho, porque para levá-la a cabo precisaria de pelo menos mais uma existência. Seria conveniente, porém, que a história comparada tivesse só este tipo de limites e mais nenhuns. Ora, hoje ela depara com dois obstáculos de muito peso. De um lado, a comparação entre factos, sem restrições de espaço e de tempo, pressupõe uma ambição de universalismo e corrobora-o, o que é contrário a todos os identitarismos, incluída a sua forma arcaica de nacionalismos. O pós-modernismo e os identitarismos que se lhe seguiram dedicam-se a isolar conceptualmente — e tanto quanto possível materialmente — sociedades e civilizações que a história comparada procura organizar em áreas de estudo comuns e cada vez mais amplas. De outro lado, a forma como a estrutura universitária evoluiu, com uma subdivisão crescente dos campos de conhecimento e uma concorrência curricular que transforma cada especialidade em coutada exclusiva, compromete qualquer possibilidade de história comparada no interior da academia.</p>
<p style="text-align: justify;">Para agravar a situação, em algumas capelas marxistas a história comparada depara com o opróbrio da heresia. No dia 26 de Abril de 2024 um leitor escreveu num comentário (<a href="https://passapalavra.info/2024/04/152054/#comments" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>): «O método comparativo sob a forma das variações concomitantes foi defendido por Durkheim em seu livro “As Regras do Método Sociológico”. Este método é, por sua vez, a adequação do método de investigação das relações sociais ao método das ciências naturais que é a da experimentação direta (por isso, o método comparativo seria chamado por Durkheim também de “método da experimentação indireta”). Hoje em dia já não me surpreendo com João Bernardo defendendo este método positivista que foi criticado até mesmo pela limitada consciência burguesa, mas continuo, infelizmente, me surpreendendo com o seu contínuo combate ao marxismo ao atacar os supostos “marxistas”». Eis-me assim excluído do paraíso, ou sertão, dos ilustres iluminados.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, tal como eu a entendo e pratico a história comparada requer uma concepção instrumental da metodologia, em que esta surge por exigência dos factos e em que, portanto, se vai elaborando progressivamente, em vez de ser tomada como o prévio mecanismo motor. Mas não falta entre os marxistas quem prefira deduzir os factos a partir do método, a tal ponto que os factos se apresentam como simples ilustrações do método. Temos então divagações, mais perto da teologia do que da historiografia. Este tipo de lucubrações recorre à dialéctica, um método lógico que possui no misticismo um curioso <em>pedigree</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">O misticismo pretende estabelecer uma relação íntima e directa do indivíduo com a divindade, prescindindo dos intermediadores oficiais, que são os sacerdotes. E assim, sem colocar uma categoria social acima das restantes, o misticismo constituiu um terreno fértil para as heresias, já que cabia ao clero, e só a ele, a definição da ortodoxia. Ora, uma relação directa entre termos sistematicamente contraditórios, entre o finito e o infinito, entre o imperfeito e o perfeito, em suma, entre um indivíduo que padece de todas as limitações e uma divindade que não tem nenhuma, não pode operar-se sem transição e exige um contínuo desdobramento em que os termos contraditórios geram um termo intermédio, que por sua vez se desdobra, sem que esta série de contradições internas tenha qualquer razão intrínseca para se encerrar. É isto a dialéctica, e os problemas inerentes à célebre cláusula <em>filioque</em> são um bom exemplo desta lógica em acção.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi essa a dialéctica que os gnósticos se esmeraram a desenvolver e que Mestre Eckhart herdou, assimilando-a a outras heresias, até que Jakob Bœhme a codificou numa doutrina que ultrapassou muito a área da cultura germânica. E como o romantismo se definiu pela recusa do iluminismo e uma idealização do medievalismo, não devemos estranhar que a filosofia romântica tivesse assimilado a lição de Bœhme. Aliás, graças à sua amizade com Franz Xaver von Baader, Hegel remontou mais longe do que Bœhme e interessou-se muito pela obra de Mestre Eckhart. Aqueles marxistas que se espantarem com esta genealogia — e decerto não faltarão entre os leitores do Passa Palavra — deveriam saber que Georges Gurvitch mencionou como uma evidência que «a terminologia hegeliana» «é também a do misticismo alemão tradicional desde Jacob Bœhme». Para me exprimir numa fórmula concisa, a dialéctica, enquanto instrumento lógico do misticismo, tornou-se o eixo do pensamento de Hegel.</p>
<p style="text-align: justify;">A dialéctica só deixa de ser mística quando esbarra com os factos. Se a vetusta expressão <em>materialismo dialéctico</em> conserva algum sentido hoje, numa época em que a concepção de matéria tanto se alterou que acabou por se desmaterializar, é no choque com os factos. Foi esta a operação a que Marx se referiu quando disse que havia virado ao contrário a dialéctica de Hegel. Pretender colocar em primeiro plano a dialéctica, como se os factos se deduzissem dela, e julgar que a dialéctica superou o empírico, é regressar à teologia, e do modo mais absurdo, uma espécie de teologia laica. É o empirismo que transforma a dialéctica, de um infindável exercício teológico de desdobramentos contraditórios, num instrumento lógico, quero dizer, numa lógica que pode ser usada como instrumento na história comparada e na análise macroeconómica comparativa. As contradições internas, em vez de serem o mecanismo do ilimitado desdobramento das séries místicas, passam a ser o instrumento com que definimos os factos por oposição a outros factos e pelas suas rupturas internas, que permitem a passagem do estático ao dinâmico. E assim a superação do enunciado de factos pelo estabelecimento de campos, que há pouco defini como a base fundamental da história comparada, tal como eu a entendo e pratico, tem por instrumento essa dialéctica que Marx virou do avesso.</p>
<p style="text-align: justify;">Se eu sou marxista? Sim, sou. Marxista deste marxismo.</p>
<p><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A censura de Cristo a São Tomé está no <em>Evangelho segundo São João</em>, 20: 29.<br />
A citação de Georges Gurvitch encontra-se na sua obra <em>Déterminismes sociaux et liberté humaine. Vers l’Étude sociologique des cheminements de la liberte</em>, Paris: Presses Universitaires de France, 1963, pág. 22.</p>
<p style="text-align: center;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159412" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-300x209.jpg" alt="" width="100" height="70" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-300x209.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-768x534.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-604x420.jpg 604w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-640x445.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-681x473.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" /><em>As ilustrações reproduzem obras de M. C. Escher (1898-1972)</em>.</p>
<p>Pode ler <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159399/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> a segunda parte deste ensaio.</p>
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		<title>O marxismo e as universidades</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159203/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/05/159203/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2026 13:02:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[O marxismo acadêmico, com raríssimas exceções, se insere nos muros das universidades, sem questionar a natureza reacionária do ambiente acadêmico, se colocando como um observador da luta de classes. Por Michel Goulart da Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Goulart da Silva</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O marxismo encontra pouca difusão nos meios acadêmicos, sendo, por um lado, combatido e difamado, tendo na maior parte dos casos suas ideias expostas de forma deturpada. Por outro, os poucos intelectuais presentes no meio acadêmico que se reivindicam inseridos na tradição marxista raramente fazem um efetivo combate contra as ideologias reacionárias que permeiam universidades e centros de pesquisa. Esses intelectuais, em sua maioria, apresentam o marxismo como uma das possíveis formas de interpretação da realidade, relativizando a produção do conhecimento e colocando-o no mesmo nível das correntes burguesas.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, dentre os acadêmicos que reivindicam o marxismo, são raros os que possuem uma efetiva prática política; quando muito, o fazem dentro dos limites de seu próprio sindicato (e às vezes nem isso). O marxismo acadêmico, com raríssimas exceções, se insere nos muros das universidades, sem questionar a natureza reacionária do ambiente acadêmico, se colocando como um observador da luta de classes. Nas universidades, é comum ver “personagens que, não podendo exercer a verdadeira função desbravadora que compete à ciência, acolhem-se à sua sombra, apropriam-se dos benefícios sociais e das honrarias acadêmicas que propicia”. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Existe um absoluto isolamento da universidade em relação à luta política concreta dos trabalhadores contra o capitalismo. Os intelectuais pós-modernos, mesmo os que se dizem progressistas, são absorvidos pelas estruturas reacionárias dos espaços acadêmicos, tornando-se reprodutores da exploração de classe expressa nessas instituições. Quanto aos marxistas acadêmicos, em sua maioria, se limitam a um combate teórico em polêmica com seus pares dentro das universidades e, em paralelo, criam todo o tipo de explicações para neutralizar, criticar ou mesmo desqualificar as organizações revolucionárias dos trabalhadores. Criam-se polêmicas que não tem qualquer relação com a realidade concreta da classe e apresentam-se soluções reformistas para as contradições da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Os representantes da intelectualidade acadêmica, inclusive a maior parte daqueles que se reivindicam marxistas, se colocam intencionalmente fora da luta de classes, muitas vezes até mesmo negando sua condição de trabalhadores. Com isso, assumem uma postura messiânica, arrogando-se o papel de mentores capazes de orientar os trabalhadores no caminho que consideram correto para a prática de suas lutas. Outros destes intelectuais resumem a exploração do trabalho e a luta de classes ao que chamam de “disputas de narrativas”, onde fragmentos identitários se constituiriam na busca por uma maior representatividade na sociedade. Os intelectuais acadêmicos procuram se isentar da luta de classes e da construção de uma estratégia política que coloque como centro a derrubada do capitalismo e de todas as instituições que o defendem. Mesmo que se apresentem como “promotores do avanço científico e técnico em geral, eles se identificam com os interesses do capital, uma vez que é o movimento geral deste que determina as prioridades acadêmicas”. <strong>[2] </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os intelectuais acadêmicos, ao limitarem sua atuação ao espaço universitário, são cooptados pelo elitismo acadêmico, considerando-se independentes ou mesmo acima de qualquer tipo de conflito de classes e, por isso, os únicos capazes de indicar os caminhos corretos. Essa intelectualidade assume um completo preconceito em relação ao trabalho manual, como se os operários ou outras categorias de trabalhadores não tivessem capacidade para analisar e entender a exploração a que estão submetidos. Semeiam a crença de que somente os intelectuais acadêmicos, enclausurados em suas cátedras, poderiam olhar para os conflitos da sociedade e, a partir desse olhar que se pretende científico e objetivo, propor saídas que, necessariamente, passam pela conciliação entre as partes em luta.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159204 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-1.jpg" alt="Marxismo e as universidades" width="640" height="465" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-1.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-1-300x218.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-1-578x420.jpg 578w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa intelectualidade acredita na ideia de que o conhecimento científico é somente aquele legitimado pela burocracia acadêmica. Essa institucionalização da ciência faz com que os intelectuais acadêmicos se vejam como donos do conhecimento ou os únicos autorizados a discutir essas verdades. Essa é uma perigosa visão que faz com que somente uma elite esclarecida seja considerada dona do conhecimento científico, ignorando que este é uma produção social coletiva, datando de muitos séculos, que em muito ultrapassa um conjunto de artigos publicados em periódicos reconhecidos pelas instituições do Estado. Essa postura expressa, no campo científico, a decadência histórica do capitalismo, que “se manifesta como processo de fragmentação do conhecimento que o segmenta profundamente da realidade e de si mesmo”. <strong>[3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os fenômenos da realidade existem concretamente e sua análise, ainda que necessite de um domínio do método científico e do trabalho de pesquisa, não depende exclusivamente de um diploma universitário. Em milhares de anos a humanidade produziu e acumulou uma grande quantidade de conhecimentos, que deveriam poder ser acessados por quaisquer pessoas a qualquer momento, para compreender os mais variados fenômenos da realidade em que estão inseridos. Os métodos de pesquisa não são uma exclusividade das instituições universitárias, mas o produto de milênios de investigações, experiências e sistematizações realizadas pela humanidade. O papel central das universidades está em organizar, sistematizar e difundir esses conhecimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses conhecimentos, independente da área de pesquisa, quando colocados nas mãos dos trabalhadores podem ser revolucionários. Caso venham a ser efetivamente apropriada pela classe revolucionária, a produção do conhecimento pode não apenas desvelar os fenômenos da realidade, como superar os limites impostos pelo elitismo acadêmico e pelas necessidades do lucro capitalista. Nessa perspectiva, pode-se analisar os fenômenos em sua materialidade, não se colocando no círculo vicioso das “disputas de narrativas”, e compreendendo a impossibilidade da neutralidade dentro de uma sociedade dividida em classes antagônicas. Portanto, assumindo uma perspectiva revolucionária,</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“[…] os marxistas colocam os sábios diante de suas responsabilidades. Eles não são a nova vanguarda da humanidade. Sua qualidade de sábios não lhes dá, em política, nenhuma competência particular. Mas importa-lhes, com a autoridade imensa que será então a deles, tomar suas responsabilidades &#8211; e por isso mesmo seu lugar no combate, ao lado da classe operária, por uma sociedade socialista sem classe”. <strong>[4]</strong></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Para os marxistas, não pode haver o apego às instituições existentes do Estado. O espaço acadêmico na sociedade capitalista está ocupado em produzir e colaborar com a ideologia das classes dominantes, sendo um entrave para os efetivos avanços científicos socialmente necessários. Esse problema não se deve a uma questão subjetiva dos pesquisadores acadêmicos ou dos gestores das universidades, mas à situação concreta do capitalismo, marcado pela “transformação das forças produtivas, das quais a ciência faz parte, em forças destrutivas”. <strong>[5]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O espaço universitário expressa as contradições da sociedade capitalista e, com mediações das mais variadas, a exploração de classe da burguesia. Entende-se que é a sociedade “que cria a estrutura de meios e fins, que relaciona, historicamente, a instituição com as necessidades sociais por ela atendidas”, determinando, “por sua estrutura e evolução típicas, os ritmos das instituições”. <strong>[6] </strong>Para responder aos interesses do capital, a universidade, ainda que pública e gratuita para os estudantes, precisa ser um espaço de liberdades democráticas restritas que controla a participação política de trabalhadores e de estudantes. Esse modelo de universidade tem como tarefa mais evidente a formação de força de trabalho, também cabendo a essas instituições auxiliar o capital no processo de produção de mercadorias, desenvolvendo não apenas novas tecnologias, como também métodos de pesquisa e diagnósticos sobre diferentes aspectos da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Os diferentes sujeitos que constroem a universidade devem discutir os problemas das instituições para além dos problemas conjunturais, como orçamento ou eleições internas, compreendendo sua relação intrínseca com o sistema econômico. Os intelectuais marxistas podem colaborar nesse processo, na medida em que partem de um referencial teórico que coloca no centro da análise as contradições intrínsecas da sociedade e necessidade de sua superação. Esses setores precisam organizar-se como parte da classe trabalhadora no sentido de lutar por uma nova universidade, expressando as transformações econômicas e políticas de uma nova sociedade.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159205 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-1.jpg" alt="Marxismo e as universidades" width="604" height="480" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-1.jpg 604w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-1-300x238.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-1-529x420.jpg 529w" sizes="auto, (max-width: 604px) 100vw, 604px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Álvaro Vieira Pinto. Ciência e existência: problemas de filosofia da pesquisa científica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 255.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong> Maria de Lourdes Pinto de Almeida. A pesquisa acadêmica no século XXI. Campinas: Mercado de Letras, 2012, p. 81.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong> Osvaldo Coggiola. Universidade e ciência na crise global. São Paulo: Xamã/Pulsar, 2001, p. 57.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4] </strong>Gerárd Bloch. Ciência, luta de classes e revolução. São Paulo: Palavra, 1980, p. 71-2.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5] </strong> Gerárd Bloch. Ciência, luta de classes e revolução. São Paulo: Palavra, 1980, p. 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6] </strong> Florestan Fernandes. Universidade brasileira: reforma ou revolução? São Paulo: Expressão Popular, 2020, p. 153.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Oyvind Fahlstrom (1928-1976).</em></p>
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		<title>Ecologia. 2) Uma resposta desagradável?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158770/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2026 07:50:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O facto de direita e esquerda se encontrarem hoje na ecologia significa que ela é um lugar onde permanentemente se constitui e reconstitui o fascismo. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;">Karl Marx era ecológico. Pescam-se umas poucas citações, sempre as mesmas, porque a apanha é escassa, e geralmente desemparelhadas, quando não mal traduzidas <strong>(Nota)</strong>. Karl Marx era anti-ecológico. Aqui a safra já é abundante, porque Marx foi um entusiástico apologista do crescimento das forças produtivas. Entre um Marx e o outro, cada discípulo escolhe o que quer e trava o combate com citações, quero dizer, com aquelas que são a seu gosto. E nisto tudo a que conclusão chegamos? A uma só. Karl Marx foi contraditório.</p>
<p style="text-align: justify;">Contraditórios, todos o somos e só deixa de o ser quem, depois de morrer, ficou convertido em imagem numa capela, porque então a estatueta resulta de uma colagem em que se seleccionaram alguns fragmentos para esconder outros. Porém, as contradições, em vez de servirem de pretexto para obscurecer a pessoa real, tornam-se elucidativas quando lhes descobrimos a sistematicidade, e podemos decifrar qual era o ponto vazio que a teia de disparidades se destinava a encobrir. Vemos então que o não dito é mais importante do que o dito, porque o esclarece. Foi assim que pensei e escrevi <em>Marx Crítico de Marx</em> (Porto: Afrontamento, 1977, 3 vols.).</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não é só essa a questão, porque Marx foi também, como todos o somos, prisioneiro dos conhecimentos da sua época. Os modelos históricos que ele construiu limitaram-se à História que tinha sido vivida e à que era então conhecida. Os anos passaram, a humanidade sofreu novas experiências, e entretanto amontoaram-se documentos antes ignorados, desenvolveu-se a arqueologia, inaugurou-se a antropologia. A História que Marx usou nas suas teorias e nas suas análises não é a História que nós vivemos e de que hoje dispomos.</p>
<p style="text-align: justify;">Do mesmo modo, ou talvez mais radicalmente ainda, as formas do pensamento abstracto vigentes nos meados do século XIX decorriam de concepções científicas que ao longo da segunda metade desse século e sobretudo no século XX sofreram uma alteração profunda, mais brusca e radical do que qualquer outra desde a época de Kepler e Galileo. E uma colossal série de remodelações em todas as artes precipitou-se pouco depois da morte de Marx, sem que ele sequer suspeitasse o que haveria de vir. Inevitavelmente, a filosofia prosseguida por Marx e a lógica que ele usou estão, em boa medida, presas à época em que foram geradas. O alheamento em que estiolam agora as capelas marxistas não se deve só à rigidez das suas formas de organização. Deve-se ao facto de manterem uma visão do mundo que em nada corresponde ao mundo contemporâneo, o que é possível apenas em conventos e em departamentos universitários que vivam isolados da restante sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesta dupla perspectiva que devemos avaliar não só as necessárias limitações de Marx, mas ainda as operações da tesoura zelosa dos discípulos. Além de cortarem da imagem de Marx as facetas de que não gostam, os fiéis dedicam-se a secundarizar, banir e até esquecer aspectos que hoje são repelentes — mas que, apesar disto, não deixam de ser aspectos do marxismo. Por exemplo, o marxista Karl Pearson, tão marxista que até alterou a inicial do seu nome para ficar idêntica à do mestre, foi uma personalidade indissociável da fundação da eugenia. E o marxismo não figurava ali como um acessório, mas constituía um elemento básico, porque Pearson considerava o Estado forte e centralizado proposto pelos marxistas e capaz de coesão em torno de programas únicos como um utensílio político indispensável à prossecução do que então se chamava higiene racial. E, como ele, tantos outros marxistas inconvenientes ficaram excluídos da memória do marxismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre estas bases incertas e avessos a pisar o terreno firme da História real, alguns refugiam-se nas nuvens e dedicam-se a fazer deduções usando o materialismo dialéctico.</p>
<p style="text-align: justify;">Todavia, se é possível um decréscimo da massa no montante de m=E/c<sup>2</sup> , então o que é o materialismo? Além disso, uma matéria que pode ser entendida simultaneamente como partícula e como onda ou campo, afinal é o quê? É que não há <em>afinal</em>. E isto mesmo sem mencionar a descoberta da antimatéria. A partir de então, a noção de matéria tem sido cada vez mais desmaterializada, a tal ponto que hoje ela pode ser empregue apenas como expressão da saudade pelas ilusões dos velhos tempos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não menos perturbante é o uso da dialéctica quando sabemos que Hegel, progenitor do método lógico reivindicado por Marx, apreciava especialmente a obra de Jakob Bœhme e que Baader lhe deu a conhecer a obra de Mestre Eckhart. Um milénio de misticismo heterodoxo ou francamente herético foi sintetizado por Mestre Eckhart e daí, através de Bœhme, confluiu na dialéctica de Hegel. Não bastaria a Marx virar o hegelianismo de cabeça para baixo para se livrar de uma tal herança.</p>
<p style="text-align: justify;">Estranho materialismo sem matéria, atrelado a uma imprevista dialéctica. É o que sucede quando se usa uma terminologia vinculada a épocas extintas. Pior ainda, porque estes vocábulos não são aleatórios, mas arrastam consigo certas concepções. E com estas lucubrações fuliginosas os seguidores perderam a inquietante vitalidade que caracterizara o pensamento original de Marx, onde era o ímpeto que importava, e o ponto de vista.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o problema é, para mim, mais elementar. Eu nunca recorro a qualquer modelo lógico como critério decisivo. A História não se faz por dedução. Senão, o inesperado não existiria, o futuro seria previsível e, portanto, não haveria História e apenas a perpetuação de um eterno tempo presente. Na pesquisa historiográfica um modelo lógico pode ser usado, eventualmente, como inspiração inicial, mas o teste último terá sempre de ser empírico. E como na História, ao contrário do que sucede na Ciência, não é realizável a experimentação nem o uso de instrumentos de observação, só a história comparativa pode aproximar-se do que nas ciências é o trabalho laboratorial. É apenas no campo da história comparada que devemos raciocinar e debater. Eu trabalho com factos, não com deduções a partir de modelos lógicos.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Abordei pela primeira vez o tema da ecologia no Prefácio à tradução espanhola do meu primeiro livro, <em>Para una Teoria del Modo de Producción Comunista</em> (Bilbao e Madrid: Zero – ZYX, 1977). Passado meio século, ao reler essas páginas ressaltam dois aspectos: uma visão exclusivamente crítica da ecologia, que desde então nunca abandonei; e o estabelecimento de uma relação entre a ecologia e a classe dos gestores, que eu denominava ainda como tecnocracia. Depois de escrever que «grande parte dos que se dizem “ecológicos”» defendem «uma paragem do crescimento industrial e o regresso, pelo menos parcial, a certas técnicas de produção pré-capitalistas», eu pus a questão de lado afirmando que «não vale a pena gastar mais tinta a demonstrar a impossibilidade desse retorno». Logo em seguida, «quanto à defesa de um “crescimento zero”», sublinhei que «ela se encontra tanto na boca de muitos ecológicos como na dos economistas capitalistas mais conservadores», o que eu atribuí à crise económica iniciada em 1974, que afectara as condições de vida e de emprego dos tecnocratas (ou gestores, como depois passei a denominá-los), bem como dos «estudantes, aprendizes tecnocratas». «Em todos os países industriais desenvolvidos milhares de tecnocratas potenciais são lançados no desemprego sem terem alguma vez tido, mesmo enquanto tecnocratas, qualquer contacto com o processo produtivo. Tecnocratas frustrados, estes elementos revoltam-se sobretudo enquanto consumidores não inteiramente realizados». E concluí que «é esta a base social fundamental» da ideologia ecológica (págs. 12-14).</p>
<p style="text-align: justify;">Desenvolvi este núcleo de ideias dois anos depois, em <em>O Inimigo Oculto. Ensaio sobre a Luta de Classes, Manifesto Anti-Ecológico</em> (Porto: Afrontamento, 1979), e não quero deixar de notar desde já que este livro, com o título mais sintético de <em>Ensaio sobre a Luta de Classes</em>, foi editado pelos Demitidos do ABC para angariarem fundos, o que eu só vim a saber depois de me ter estabelecido no Brasil. Aqueles metalúrgicos que enfrentavam a repressão política e económica tiveram sobre a obra uma opinião diferente da que têm hoje alguns universitários em situação confortável.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica à ecologia ocupa apenas a parte final de <em>O Inimigo Oculto</em>, cujo eixo principal é constituído pela análise da classe dos gestores, ligada à análise da sua base económica e tecnológica, que consiste na articulação das condições gerais de produção com os processos particulares de fabrico. Porém, já desde os meados do livro eu insisti nos estritos limites com que deparam as reivindicações de consumidores, consideradas como «um elemento integrante da evolução do capitalismo porque nunca podem desenvolver-se em formas novas de organização social» (pág. 117). O caminho ficava assim aberto para a crítica aos ecológicos. «Uma grande parte das reivindicações dos consumidores, todas aquelas que não estão prejudicadas pelo misticismo ou pela utópica idealização de formas ultrapassadas de exploração — são indubitavelmente úteis. […] Mas as empresas capitalistas podem fabricar produtos sãos e deixar de poluir o ambiente, continuando nesse processo a reproduzir os seus lucros» (pág. 121).</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, em <em>O Inimigo Oculto</em> eu enganei-me, como já o havia feito no Prefácio do <em>Para una Teoria del Modo de Producción Comunista</em>, ao considerar que a crise económica deflagrada em 1974 poderia, por si só, explicar a expansão conseguida pelos movimentos ecológicos. Errei ao julgar que as potencialidades de aumento da produtividade nas condições gerais de produção haviam chegado a um limite, sem ter previsto o colossal aumento de possibilidades criado pelo desenvolvimento da informática. «A transmissão electrónica de informações e o processamento de dados, se é certo que constituem a mais importante das inovações do post-guerra que as condições gerais de produção puderam aproveitar, têm talvez como efeito secundário acelerar o ritmo a que essas condições gerais esgotam as suas virtualidades. De qualquer modo, os computadores estão longe de poder responder a todos os problemas infra-estruturais que se colocam à indústria contemporânea. Chegou-se, assim, a uma situação de estagnação das condições gerais de produção» (pág. 128-129). O meu erro proveio de subestimar as capacidades criativas do capitalismo. Serviu-me de lição, e desde então tenho-me esforçado por não desprezar esse potencial inovador.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta perspectiva, a ecologia teria surgido como um movimento no interior da classe dos gestores destinado a remodelar as condições gerais de produção numa situação de declínio da produtividade. «Por <em>ecologia</em> entendo […] um projecto global e ideologicamente articulado de remodelação das condições gerais de produção e de restruturação interna do capitalismo em novos mecanismos de funcionamento económico e social». E sublinhei que «a minha crítica não incide sobre reivindicações isoladas, mas sobre a sua organização sistemática numa concepção global da economia e da sociedade» (pág. 153). Para isso, depois de ter distinguido entre o eixo dominante do movimento ecológico, constituído por gestores e profissionais com formação universitária, e as ideologias ecológicas periféricas, características de «grupos constituídos apenas por maus estudantes com ideias delirantes» (pág. 163), eu formulei a crítica à noção de «equilíbrio natural» em que se alicerça toda a ecologia. Nunca deixei, desde então, de prosseguir e aprofundar este tema. Ora, é certo que a crise desencadeada em 1974 criou condições propícias à actuação dos movimentos ecológicos, que viram na demagogia do pretenso equilíbrio natural uma forma social de contornar os efeitos do declínio da produtividade nas condições gerais de produção. «Produzir menos — eis o ponto central do programa destes gestores. É este o fulcro de todas as ideologias ecológicas» (pág. 171). Mas o problema revelou-se muitíssimo mais amplo.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante as duas décadas e meia em que me ocupei com a pesquisa e a redacção de <em>Poder e Dinheiro. Do Poder Pessoal ao Estado Impessoal no Regime Senhorial, Séculos V-XV</em> (Porto: Afrontamento, 1995, 1997 e 2002, 3 vols.) tive oportunidade de aprofundar historicamente alguns dos argumentos esboçados em <em>O Inimigo Oculto</em> quanto ao carácter ilusório do equilíbrio natural. Pude igualmente confirmar o carácter destrutivo das formas de exploração agrícola e pecuária praticadas durante a época anterior ao capitalismo industrial, que levaram a um catastrófico esgotamento de recursos, e o elevadíssimo grau de poluição tanto nos aglomerados urbanos como nas pequenas povoações. A minha crítica ao movimento ecológico ficava indirectamente confirmada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158788" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-8-278x300.jpg" alt="" width="560" height="604" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-8-278x300.jpg 278w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-8-950x1024.jpg 950w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-8-768x828.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-8-390x420.jpg 390w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-8-640x690.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-8-681x734.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-8.jpg 1054w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Não esperava, no entanto, que o aprofundamento do estudo do fascismo me fizesse entender ainda mais plenamente o carácter nocivo da ecologia, até constatar, no <em>Labirintos do Fascismo</em> (Porto: Afrontamento, 2003; São Paulo: Hedra, 2022, 6 vols.), que a génese e o desenvolvimento da ecologia foram indissociáveis da génese e do desenvolvimento do fascismo clássico, com o qual ela se confundia num sistema ideológico único. Analisei essa questão nas págs. 913-926 da edição Afrontamento e nas págs. 191-256 do sexto volume da edição Hedra.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém, já em <em>O Inimigo Oculto</em> eu sublinhara que o eixo dominante do movimento ecológico havia surgido «como uma fusão das tendências políticas, até aí bem demarcadas, da direita e da esquerda» (pág. 154) e observara «a capacidade do movimento ecológico para fundir esquerdas e direitas» (pág. 194). Antecipara assim o que bastantes anos mais tarde viria a apresentar como o processo gerador do fascismo — a convergência ou cruzamento entre temas originários da esquerda e outros provenientes da direita. Do mesmo modo, e ainda em <em>O Inimigo Oculto</em>, ao considerar os <em>déclassés</em> como uma base social especialmente propícia à difusão das ideias ecológicas, eu enunciara uma analogia com um dos mais constantes apoios sociais do fascismo. Portanto, antes de saber que a ecologia é coeva da génese do fascismo e nasceu nos mesmos meios ideológicos e políticos, já eu a situara nesse campo. Todos os fascismos mitificaram o camponês, apresentado como protótipo da estabilidade social, a mesma estabilidade que de forma mítica preside à noção de «equilíbrio natural», embora o nacional-socialismo germânico tivesse ido mais longe, ou retrogredido até ao velho paganismo, e divinizasse a natureza. Depois, a censura imposta pelas potências vencedoras no final da segunda guerra mundial silenciou os ecológicos, do mesmo modo que silenciou todos os fascistas, e só regressaram à ribalta com a extinção da vaga de lutas autonomistas da década de 1960. Vi então que na década de 1970 a ecologia não havia nascido, mas ressuscitado de um passado ignominioso. E assim, o périplo no <em>Labirintos do Fascismo</em> levara-me ao ponto de partida de <em>O Inimigo Oculto</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, o ensaio <em>Contra a Ecologia</em>, publicado no Passa Palavra de Agosto até Outubro de 2013 (<a href="https://passapalavra.info/2013/08/98771/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), versou questões mais directamente económicas e socioeconómicas. A superação da crise deflagrada em 1974, em vez de comprometer a audiência da ecologia, muito pelo contrário a ampliou, tornando-se por isso necessário abrir um panorama mais vasto. Nesse ensaio, repleto de dados factuais, procurei mostrar que as soluções, com muitas aspas, propostas pelos ecológicos só viriam agravar os problemas, em grande medida inventados, que eles julgam detectar. Quem hoje sofre de pesadelos ao pensar nas catástrofes anunciadas deveria ler as profecias feitas pelo Clube de Roma e pelos demais apocalípticos que se seguiram. Durmam em paz, essas profecias nunca se realizaram.</p>
<p style="text-align: justify;">Se querem ter pesadelos, pensem nas catástrofes ecológicas reais, como as provocadas pelos Khmers Vermelhos e a ruralização forçada no Cambodja ou pela introdução obrigatória da chamada agricultura orgânica no Sri Lanka sob a presidência de Gotabaya Rajapaksa. Estes são os exemplos mais gritantes, porque abrangeram países inteiros, mas não faltam experiências localizadas, igualmente funestas, como eu analisei em <em>Contra a Ecologia</em>. Os casos incómodos, porém, não são discutidos ou sequer lembrados. Como é habitual nas religiões, os fracassos, em vez de abrirem os olhos dos crentes, só lhes estimulam a fé.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;">A oposição entre a humanidade e a natureza, evocada nos movimentos ecológicos, se pode ser útil na linguagem corrente, é sobretudo ilusória. O que chamamos <em>natureza</em> resulta de uma ininterrupta acção humana, que modificou profundamente as plantas e os animais e até o perfil da geologia. Aliás, com um pequeno número de excepções, cada vez mais raras, não existe hoje nenhuma espécie vegetal ou animal que não tenha sido alterada, de forma directa ou indirecta, pelos processos de domesticação devidos à acção humana. A natureza que nós vemos é aquela que ao longo de muitos milénios nós criámos. Esta intervenção na natureza é uma condição da sobrevivência da espécie, o que ocorre com todos os seres vivos, e a relação estabelecida entre quaisquer animais e a natureza não é menos destruidora do que a devida à humanidade. Basta pensar que a selecção das espécies corresponde a uma enorme extinção de espécies. O ser humano, no entanto, distingue-se dos restantes animais por viver em sociedades que fabricam instrumentos, e destas características resultam duas consequências.</p>
<p style="text-align: justify;">Por um lado, comparar o uso e o fabrico de instrumentos em diferentes épocas exige que se distingam claramente a tecnologia, enquanto sistema estruturado e correspondente ao modo geral de organização de uma sociedade, e as técnicas, enquanto elementos de uma estrutura. A institucionalização dos grandes organismos socioeconómicos que na terminologia marxista se denominam modos de produção requer sistemas tecnológicos próprios, que nos seus moldes gerais são específicos do modo de produção em que se geraram e podem apenas admitir mudanças internas, sem que seja possível a uma tecnologia transitar para outro modo de produção. As técnicas, no entanto, podem ser isoladas da tecnologia em que se inserem e ser assimiladas por outra tecnologia. A analogia a que eu sempre recorro é a de uma língua, enquanto sistema, e as palavras enquanto elementos dessa língua, que podem ser assimiladas por uma língua diferente. Neste caso os estrangeirismos não se conservam na forma original e são alterados consoante as regras da nova língua em que se inseriram, tal como uma técnica gerada numa tecnologia pode ser adoptada por outra tecnologia, que então a modifica. Basta pensar na domesticação do fogo ou na invenção da roda para verificar como uma técnica pode servir de elemento a diferentes tecnologias, adaptando-se a cada uma delas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, a vida em sociedades que fabricam instrumentos é uma característica originária e definidora da espécie humana, que lhe multiplica a capacidade de acção. Assim, não só é ilusória a oposição estabelecida pela ecologia entre humanidade e natureza, como é igualmente errado imaginar que o capitalismo tivesse agravado e ampliado a acção humana sobre a natureza. Essa acção deve ser avaliada exclusivamente no contexto da relação entre os seus efeitos e os resultados aproveitáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Os pequenos grupos humanos primitivos, mantendo-se no limiar da sobrevivência ou por vezes não conseguindo sequer sobreviver, provocavam efeitos muito vastos sobre a natureza proporcionalmente à dimensão desses grupos e proporcionalmente aos resultados aproveitáveis que obtinham. Ora, é certo que a sociedade industrial inaugurada pelo capitalismo exerce sobre a natureza efeitos que, considerados isoladamente, parecem colossais, sobretudo porque o capitalismo herdou do mercantilismo uma metodologia científica que serviu de quadro à produção industrial e a fez progredir de maneira exponencial e cada vez mais rapidamente. Mas a actual acção humana sobre a natureza só deve ser avaliada tendo em conta o enorme aumento do <em>output</em> extraído da natureza, que permite o crescimento da população e o prolongamento da esperança média de vida. Além disso, ou precisamente por isso, o capitalismo é o primeiro modo de produção que consegue antecipar os efeitos secundários nocivos de certas intervenções na natureza e, portanto, corrigir ou pelo menos limitar esses efeitos. Em conclusão, as consequências prejudiciais que a sociedade industrial possa exercer sobre a natureza, que ao olhar desatento dos ecológicos parecem gigantescas, em termos relativos são mínimas.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqueles críticos do capitalismo que atribuem à sociedade industrial uma acção exclusivamente destrutiva sobre a natureza são análogos aos seus correligionários que resumem a exploração dos trabalhadores à mais-valia absoluta. Estes não vêem que a tendência de crescimento do capitalismo exige a melhoria das qualificações da força de trabalho e que, com o aumento de produtividade assim obtido, os capitalistas conseguem uma taxa de lucro sempre crescente. Do mesmo modo, aqueles ecológicos não vêem que a correcção ou a limitação dos efeitos secundários devidos à sociedade industrial fazem parte intrínseca do desenvolvimento dessa sociedade e lhe asseguram condições para que possa manter-se e prosperar.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso eu considero com precaução as actuais discussões em torno das questões climáticas. Não as recuso em bloco, mas tento situá-las num contexto que lhes dê uma perspectiva mais ampla e a muitíssimo mais longo prazo. Para começar, o clima neste planeta tem evoluído e tem-se transformado independentemente da acção humana e antes mesmo de o <em>homo sapiens</em> existir, tal como continuou a modificar-se independentemente de haver ou não indústria. O sol não é imutável, sofre ciclos e alterações que se reflectem no nosso clima e o condicionam, e o movimento das placas tectónicas pode também influenciar o clima. Por outro lado, se pretendermos proceder a comparações baseadas em medições exactas, convém recordar que as estatísticas, do clima como de tudo o mais, são uma invenção recente e datam só dos alvores do capitalismo. Para o caso — pouco provável — de haver mais de dois leitores do Passa Palavra interessados pela história da música, a Ária do Catálogo (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=JefhGESy0-w&amp;list=RDJefhGESy0-w&amp;start_radio=1" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> sobretudo até ao minuto 2:03), na célebre ópera <em>Don Giovanni</em>, de Mozart, mostra como dois anos antes da Revolução Francesa a estatística era ainda uma curiosa novidade. Finalmente, é impossível determinar com qualquer exactidão mínima o começo da era industrial no que diga respeito à emissão de CO<sub>2 </sub>, porque quando o capitalismo se iniciou, no final de século XVIII, os centros industriais eram muito escassos e localizavam-se apenas nalgumas regiões da Grã-Bretanha, do norte da França e entre a França e os Estados alemães. Foi só ao longo do século XIX que a indústria se expandiu gradualmente pela Europa e pelas Américas e depois, ao longo do século XX, pelo resto do mundo. Não se consegue detectar um <em>antes</em> e um <em>depois</em> neste processo gradual. Em conclusão, tudo isto deveria inspirar prudência quando se consideram responsáveis pela totalidade das alterações climáticas as emissões de CO<sub>2</sub> — apresentadas como o <em>alter ego</em> químico do capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Confrontam-se aqui duas formas opostas de conceber o capitalismo. Uma considera que o sistema capitalista se destruirá a si mesmo. Outra, que eu partilho, considera que esse sistema só poderá ser destruído pela luta generalizada da classe trabalhadora enquanto classe, quando — ou se — as relações sociais igualitárias geradas naquela luta forem capazes de sustentar e generalizar um novo modo de produção. É este o âmago da luta de classes.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158790 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-9-1024x342.jpg" alt="" width="640" height="214" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-9-1024x342.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-9-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-9-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-9-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-9-1259x420.jpg 1259w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-9-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-9-681x227.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-9.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />Há quem, apesar de admitir que existe actualmente uma ecologia de direita, ao mesmo tempo insista que existe uma ecologia de esquerda. Ora, é este precisamente o problema. Tal como recordei há pouco, já em <em>O Inimigo Oculto</em> eu considerara que no movimento ecológico se juntam a direita e a esquerda, e ao longo de muitas e muitas páginas e em sucessivas versões do <em>Labirintos do Fascismo</em> eu tenho defendido que o fascismo não se confunde com a extrema-direita, onde geralmente a esquerda e os conservadores gostam de o situar, mas existe fora do tradicional leque político, num cruzamento ou convergência entre temas de esquerda e temas de direita. Sendo assim, o facto de direita e esquerda se encontrarem hoje na ecologia significa que ela é um lugar onde permanentemente se constitui e reconstitui o fascismo. Dito de outra maneira, não há uma ecologia de esquerda, há pessoas de esquerda em plataformas ecológicas. E é precisamente isto que mantém vivo o cruzamento entre esquerda e direita, num contexto gerador do fascismo.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesta perspectiva que devem ser avaliadas as lutas sociais surgidas por pretextos ecológicos. Há muitos na actual extrema-esquerda a imaginarem que tudo o que faça barulho antecipa a sonhada revolução. Como se iludem! Um processo revolucionário anticapitalista não resulta de uma soma de lutas parciais e desviadas. Esse processo só ressurgirá quando — ou se — a classe trabalhadora (considerada economicamente) conseguir de novo lutar enquanto classe (considerada sociologicamente).</p>
<p style="text-align: justify;">Os fascismos desenvolveram também movimentos de massas, e aliás tiveram uma componente sindicalista, mais ou menos importante consoante os casos, mas sempre presente. O mesmo sucede hoje com movimentos de protesto inspirados apenas, de maneira explícita ou velada, por uma visão mística da natureza que se insurge contra tudo o que a transforme. Uma paisagem, em vez de ser vista como algo de perecível numa estética de mudanças permanentes, é considerada pela generalidade dos ecológicos como uma marca sagrada e atemporal. A essa sacralização da natureza está inseparavelmente ligado o culto da tradição, ambos característicos do fascismo. É notável que a esquerda hoje julgue que seja revolucionário defender modos de vida tradicionais, quando, por um lado, esses modos de vida e essas paisagens surgiram graças à liquidação dos modos de vida e das paisagens anteriores e, por outro lado, constituem um poderoso obstáculo à formação de uma classe trabalhadora sociologicamente unificada.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, naqueles protestos instigados pela ecologia os laços com o fascismo são ainda mais profundos, porque a síntese mística operada por Mestre Eckhart, assim como inspirou remotamente a dialéctica hegeliana e, por aí, a de Marx, foi também a grande inspiradora de Alfred Rosenberg, nomeadamente em <em>O Mito do Século XX</em>, a obra máxima da ideologia do Terceiro Reich. Tal como escrevi no final da quinta parte do <em>Manifesto Incómodo</em> (<a href="https://passapalavra.info/2025/09/157151/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>), «é no interior do próprio movimento ecológico que o fascismo ressurge, inevitavelmente gerado pela visão mística de uma natureza supra-humana. Assim, além de contribuir para a formação do fascismo por oferecer um quadro propício ao cruzamento entre os extremos políticos, a ecologia contém em si mesma, pela sua origem e pelas concepções que a definem, o gérmen de um fascismo».</p>
<p style="text-align: justify;">E a descendência não se esgotou no Terceiro Reich, porque aquele misticismo da natureza, roçando o paganismo, preside também à New Age e às suas sucessoras do ocultismo actual, intimamente ligadas à ecologia. Vemos que sobre esta base o desenvolvimento do fascismo não é ocasional nem efémero.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo da década de 1920 e da primeira metade da década de 1930 os comunistas esforçaram-se por atrair os fascistas radicais, sob o pretexto de que, se não o fizessem, estariam a entregá-los à condução do fascismo conservador — e não me refiro a uma só corrente, mas a um amplo leque de matizes no interior do Komintern, desde Togliatti e Gramsci até Ruth Fischer e Maslow, e Thälmann que os continuou. Só o 7º Congresso do Komintern, em 1935, reconheceu o trágico erro e corrigiu o rumo. No terceiro volume da edição Hedra do <em>Labirintos do Fascismo</em> segui essas peripécias com o possível detalhe. Aprenderia alguma coisa quem lesse aquelas páginas, mas, mesmo sem as ler, todos nós hoje sabemos qual foi a conclusão.</p>
<p style="text-align: justify;">E agora ouço de novo a esquerda invocar o mesmo argumento a respeito dos activistas de direita em várias correntes ecológicas. O problema consiste em saber quem, afinal, atrairá e quem será atraído.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>(Nota)</strong> O primeiro comentador sacou de uma inevitável citação, que por aí circula na mesma tradução errónea. Onde a edição brasileira menciona «um progresso na arte de saquear não só o trabalhador, mas também o solo», na versão francesa do Livro I, inteiramente revista pelo próprio autor, o que lhe confere a autoridade de obra original, lê-se «un progrès non seulement dans l’art d’exploiter le travailleur, mais encore dans l’art de dépouiller le sol». Ou seja, enquanto Marx distinguia entre <em>explorar</em> o trabalhador e <em>esgotar</em> o solo, o tradutor brasileiro coloca-os a ambos no mesmo plano.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-158792" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-a-208x300.jpg" alt="" width="100" height="144" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-a-208x300.jpg 208w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-a-711x1024.jpg 711w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-a-768x1106.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-a-1066x1536.jpg 1066w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-a-1422x2048.jpg 1422w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-a-292x420.jpg 292w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-a-640x922.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-a-681x981.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-a.jpg 1666w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Mark Rothko (1903-1970)</em>.</p>
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		<title>Ecologia. 1) Comentários incómodos?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 07:44:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Que condições históricas precisariam se apresentar para que fosse aceita uma tematização não regressiva da ecologia? Por vários leitores]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por vários leitores</h3>
<p style="text-align: justify;">No dia 15 de Fevereiro um leitor, que assinou Comentário Incômodo, colocou a seguinte observação na última parte do meu <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157157/" target="_blank" rel="noopener"><em>Manifesto Incómodo</em></a> (corrigi alguns lapsos):</p>
<p>«Caro João Bernardo,</p>
<p style="text-align: justify;">Sei que seu ensaio não se resume ao tópico sobre o qual dedico estas linhas; ele é mais amplo e mais fecundo. Ainda assim, seu “Manifesto incômodo” incomoda de modo particular porque nos toca exatamente nos temas e nos debates em que estamos envolvidos — identitários e ecológicos, reformistas e revolucionários, moralistas e materialistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos um grupo de estudos e estamos dedicando alguns encontros à leitura de sua série de sete artigos reunidos no manifesto incômodo. Os temas vão se desenvolvendo aos poucos. Este meu comentário vem diretamente desses encontros.</p>
<p style="text-align: justify;">O tema dos problemas ecológicos me repercute há alguns bons anos, desde o momento em que me pareceu possível perceber algo de um buraco sem saída no qual estávamos metidos. Nesse ponto, é possível generalizar para a humanidade: os estragos e as ameaças ambientais são grandes e dizem respeito a todos/as. Nos anos em que me interessei mais diretamente por essa questão, tive contato com autores cujos limites na organização, na compreensão e na disposição do problema só fui entender depois. Penso que o relatório do Clube de Roma, de 1972, é um paradigma adequado para a crítica que o senhor dirige aos “ecológicos”, sobretudo porque já anuncia no próprio título — Os limites do crescimento — uma forma de gestão capitalista da crise.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a referência irônica a Karl Pearson, tive e ainda tenho a impressão de que se afirma uma espécie de autossuficiência do marxismo, ou mais precisamente: não apenas a centralidade, mas uma autonomia total da luta de classes, com a qual não deveriam existir intersecções, pois estas seriam potencialmente reacionárias. Essa leitura me parece caber melhor à crítica ao identitarismo do que à questão ecológica.</p>
<p style="text-align: justify;">Entendo, porém, que tal posição conduz o marxismo a uma forma de abstração unilateral problemática, na medida em que a práxis implica necessariamente o atravessamento da luta de classes por todas as contradições sociais efetivas — inclusive as ecológicas. Contradições estas que não são externas à luta de classes, mas constituem a própria luta de classes enquanto totalidade histórica concreta.</p>
<p style="text-align: justify;">A centralidade de um elemento do sistema pressupõe relações com não-centralidades; não o apagamento destas. Uma recusa desse tipo produz um efeito político claro: lança todas as não-centralidades diretamente no campo da direita. A totalidade social não é um bloco homogêneo, mas uma unidade articulada por mediações. Supor a luta de classes sem relação com não-centralidades é transformá-la em princípio explicativo imediato de tudo quando ela é a determinação em última instância. Quem enfrenta hoje as questões climáticas nadando contra as forças produtivas não é a ecologia em abstrato, mas a ecologia sob direção de ideologias reacionárias. Isso não decorre de nenhuma determinação estrutural de um matrimônio indissolúvel entre capital e ecologia — como ocorre, por razões distintas, na relação entre capital e identitarismo, embora aquela possa ser operacionalizada ideologicamente. Pelo contrário: o capital é o agente destruidor da ecologia, isto é, das próprias condições materiais de sua existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, não se trata de introduzir um elemento externo ao marxismo, mas de recusar um fechamento prematuro da crítica por meio de determinações já presentes em Marx: “todo progresso da agricultura capitalista é um progresso na arte de saquear não só o trabalhador, mas também o solo, pois cada progresso alcançado no aumento da fertilidade do solo por certo período é ao mesmo tempo um progresso no esgotamento das fontes duradouras dessa fertilidade”. Neste trecho do Vol I do <em>Capital</em>, capítulo 13, os problemas ecológicos aparecem diretamente vinculados à dinâmica da exploração e à luta de classes. A questão que se impõe, portanto, é por que os problemas ecológicos tendem a aparecer apenas sob a forma de apagamento ou desvio.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu desacordo pontual não se dirige exatamente ao conteúdo central de sua crítica, se bem a compreendi. Os movimentos ecológicos são hegemonizados pelo conservadorismo — ponto. A reconstrução histórica que o senhor faz da gênese do movimento ecológico é precisa e esclarecedora. O problema aparece no modo como essa crítica se encerra. Ao permanecer restrita à denúncia ideológica, ela não tematiza a crise ecológica como contradição histórica imanente ao capital, isto é, como expressão de um limite material da própria reprodução ampliada. O resultado não é apenas negativo no plano teórico, mas produz uma interdição política: um problema real tende a ser tratado como desvio necessário da luta de classes.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso se evidencia, por exemplo, na afirmação de que a experiência e a tragédia cambojanas representariam uma “generalização de princípios ecológicos”. Se o campo ecológico não é compreendido senão como ideologia reacionária, então o ruralismo forçado do Khmer aparece como o horizonte máximo de legitimidade possível da questão ecológica. Mas, nesse caso, desaparece a contradição real entre capital e base material das condições de existência.</p>
<p style="text-align: justify;">A pergunta que se abre é direta: que condições históricas precisariam se apresentar para que fosse aceita uma tematização não regressiva da ecologia — não como essência metafísica, mas como produto das contradições históricas do capital?</p>
<p style="text-align: justify;">Não encontrei no ensaio nenhuma indicação de adesão ao negacionismo climático. Ainda assim, o modo de formulação frequentemente produz esse efeito de leitura. A crítica, que é forte contra o ecologismo autoritário, se enfraquece ao não enfrentar a materialidade real da crise ecológica, tratando-a sobretudo como construção ideológica. Ora, como não esperar, então, a hegemonia conservadora nesse campo, se os problemas ecológicos são recusados como terreno legítimo das contradições do capital? A hegemonia conservadora de um campo não determina sua essência histórica, assim como a captura de outras lutas não esgota a materialidade das contradições das quais emergem.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns problemas ecológicos — se não o conjunto deles hoje — são urgentes e lidam com condições materiais cada vez menos negociáveis. O aquecimento global e o consequente degelo do permafrost nos solos da Sibéria e do Alasca, que aprisionam enormes quantidades de carbono sob a forma de matéria orgânica e metano, colocam-nos diante de um risco material objetivo. A liberação desse gás intensifica o efeito estufa e acelera processos potencialmente irreversíveis. Trata-se de limites materiais impostos à própria reprodução social sob o capital. Aceitar esse risco nos conduz, simultaneamente, à pergunta sobre ser ou não necessária alguma forma de emancipação.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, parece-me fundamental distinguir a crítica aos identitarismos da crítica aos “ecológicos”. Existe, sem dúvida, uma ecologia reacionária, malthusiana e ecofascista — e é ela que aparece de modo quase exclusivo no manifesto. Mas isso esgota a experiência histórica possível da questão ecológica? Ela deve ser essencializada e deslocada para fora dos processos históricos que a produzem? Não creio que se possa sustentar que o campo político ecológico tende estruturalmente ao reacionarismo do mesmo modo que os identitarismos. Enquanto estes operam sobretudo no plano político-ideológico, a ecologia remete a limites materiais objetivos. No ensaio, a relação estrutural entre capitalismo tardio e exploração via mais-valia relativa dos conflitos sociais — como os identitarismos — é muito bem estabelecida. O que chama atenção é que a ecologia não apareça nesse quadro, ou apareça apenas como desvio. Daí a questão insistente: por que deixar a impressão de uma equivalência estrutural entre os dois campos?</p>
<p style="text-align: justify;">Uma crítica dessa força, se não pretende ser uma crítica à ecologia em si mesma, deveria ao menos reconhecer que a crise ecológica pode ser compreendida como contradição da reprodução capitalista e, portanto, como terreno real de conflito histórico. Ao optar por uma crítica monolítica — à ecologia como ideologia, aos ecologistas como mistificadores e ao tema ambiental como desvio — corre-se o risco de produzir a impressão de que não há aí nenhuma questão. Ou pior: de que a própria questão deva ser abandonada.</p>
<p style="text-align: justify;">Sei que poderá ficar a quem ler este comentário a impressão de haver uma intenção, nas entrelinhas, de salvar o ecologismo, ou os “ecológicos” nos termos de sua crítica, e este é um risco do diálogo. Mas eu penso que estou tentando mantê-lo no campo das contradições que não subalternizam e nem deslocam a centralidade da luta de classes do núcleo histórico da reprodução capitalista antes de concluir que não há pauta ecológica possível fora da moralização e da naturalização.»</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Dois dias depois outro leitor, Gio, acrescentou (corrigi vários lapsos):</p>
<p style="text-align: justify;">«Comentário incômodo, seria interessante trazer exemplos concretos de lutas ecológicas que visem a emancipação e sejam anticapitalistas, talvez isso ajude na argumentação!</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos vendo a luta dos tapajós contra a privatização de seu principal rio de uso, ali temos questões ecológicas, identitárias, ação direta …!»</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158780" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-5-932x1024.jpg" alt="" width="560" height="615" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-5-932x1024.jpg 932w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-5-273x300.jpg 273w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-5-768x844.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-5-382x420.jpg 382w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-5-640x703.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-5-681x748.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-5.jpg 1365w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Passados quatro dias, o comentador inicial prolongou o diálogo:</p>
<p>«Gio,</p>
<p style="text-align: justify;">Tem razão: seu apontamento é relevante e complementar. Porém, não sendo logicamente necessário ao argumento que eu buscava sustentar, não me preocupei com isso. Meu objetivo não foi apontar um equívoco fático no texto de João Bernardo, mas sim um equívoco teórico. Por isso não foi o caso demonstrar empiricamente a existência de um campo ecológico emancipatório já constituído, mas criticar uma recusa teórica prévia presente em parte da esquerda que nega a ecologia enquanto contradição imanente do capital e, com isso, não apenas fecha esse terreno como campo possível de lutas como também atua de modo funcional ao negacionismo climático.</p>
<p style="text-align: justify;">É essa atitude teórica — que exclui a ecologia do horizonte crítico — que funciona como um interdito a priori a qualquer indagação consequente sobre lutas ecológicas, inclusive à própria sugestão de que se apresentem exemplos de lutas ecológicas anticapitalistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, se tomarmos um exemplo concreto, a luta dos povos indígenas e das populações urbanas contra a privatização do Rio Tapajós é ilustrativa. Ainda que não se trate de lutas ecológicas em seus fins declarados, elas mostram como a ecologia emerge imanentemente das lutas contra a expropriação. A degradação ambiental aparece aí não como efeito colateral, mas como produto objetivo das contradições sociais reais, diretamente vinculado à exploração e à luta de classes.</p>
<p style="text-align: justify;">O caso é exemplar porque torna visível aquilo que costuma aparecer de modo abstrato nos debates ecológicos, frequentemente hegemonizados pela direita: os “problemas ambientais” não são externos ao capitalismo, mas momentos internos da dinâmica de acumulação, atravessados por relações de classe, expropriação e dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">Não posso afirmar que existam hoje lutas ecológicas emancipatórias em sentido “puro”, com um fulcro consciente e centralmente anticapitalista. Mas acho que a questão relevante é saber se há motivos objetivos para supor que elas não existam de modo algum. Tudo indica que surgem de modo fragmentário, periférico, contraditório e subsumidas a outras formas de resistência, mas ainda assim reais. Não aparecem como um campo autônomo já resolvido, mas como expressões imanentes das contradições do capital em sua relação com a natureza, passíveis de politização e radicalização — desde que isso permaneça no horizonte teórico e prático da esquerda.»</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, no dia 23 de Fevereiro outro leitor escreveu:</p>
<p style="text-align: justify;">«O “comentário incômodo” não é apenas pertinente; ele nos coloca diante de nossa própria responsabilidade teórica. Ele denuncia aquela tentação de construir um sistema fechado, coerente, satisfeito consigo mesmo, onde a luta de classes aparece como um mecanismo quase automático, abstraído das condições materiais que a tornam possível. Mas nenhuma teoria está fora do mundo. Ela é uma prática situada — e, como toda prática, compromete quem a sustenta.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi nesse horizonte que li o artigo “<a href="https://redelp.net/index.php/rms/article/view/1305/1211" target="_blank" rel="noopener">João Bernardo e o combate à questão ambiental</a>”, que toma como ponto de partida a análise de João Bernardo sobre o movimento ecológico. Segundo essa tese, o ecologismo poderia funcionar como instrumento da classe gestora: uma estratégia de reorganização das crises do capital por meio da contenção do consumo e da imposição de uma nova moral ascética. A crítica é severa — e, em parte, necessária. Ela nos obriga a desconfiar das formas pelas quais o sistema integra suas próprias contestações.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o problema surge quando essa suspeita se converte em estrutura. Ao naturalizar a técnica e a ciência, como se fossem sistemas autorregulados e neutros, corre-se o risco de transformar a natureza num mecanismo abstrato de “reequilíbrio” permanente. A escassez concreta, a destruição efetiva das condições de vida, passam a ser momentos funcionais de uma totalidade que tudo absorve. Ora, a totalidade não é um dado; ela é uma construção histórica, atravessada por escolhas e conflitos.</p>
<p style="text-align: justify;">A ecologia, nesse sentido, não é uma essência. É uma situação. Nela se enfrentam gestores, tecnocratas, reformistas — mas também trabalhadores, comunidades, sujeitos que experimentam no próprio corpo a degradação do meio que sustenta sua existência. A crise ambiental não é uma metáfora ideológica; ela atinge o que Marx chamou de “corpo inorgânico” do trabalhador. É o ar respirado, a água contaminada, o território expropriado. É a própria facticidade da vida social que se deteriora.</p>
<p style="text-align: justify;">Se reduzimos tudo a manobra da gestão, fingimos que nada pode emergir ali além da reprodução do capital. Mas essa conclusão já é uma escolha. Ao declarar um campo perdido, entregamo-lo de antemão à hegemonia burguesa. Recusar-se a ver as contradições reais inscritas na crise ecológica é abdicar da possibilidade de transformá-las.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão não é aceitar ingenuamente o discurso ecológico, mas assumir a responsabilidade de intervir nele. A história não está fechada. A relação contraditória entre humanidade e natureza, tal como hoje se manifesta, não é destino nem equilíbrio estrutural: é resultado de práticas sociais determinadas. E, como toda prática, pode ser superado — desde que reconheçamos que também somos responsáveis por aquilo que escolhemos não ver.»</p>
<p style="text-align: center;"><strong> * </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Demorei mais do que gostaria a alinhavar uma resposta conjunta, que será aqui publicada na próxima semana. Esforcei-me por ser claro — o que, inevitavelmente, significa que vários leitores ficarão ainda mais desagradados.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158783 alignnone" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-b-245x300.jpg" alt="" width="100" height="122" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-b-245x300.jpg 245w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-b-837x1024.jpg 837w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-b-768x939.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-b-1256x1536.jpg 1256w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-b-343x420.jpg 343w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-b-640x783.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-b-681x833.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-b.jpg 1635w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" /><em>Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Mark Rothko (1903-1970)</em>.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Breves notas sobre como salvar o marxismo da realidade (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 12:13:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Que tipo de rigor teórico é compatível com a contingência dos processos sociais reais? Por Gabriel Telles]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Gabriel Teles</strong></h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Leia <a href="https://passapalavra.info/2026/02/158658/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> a primeira parte</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na primeira parte desta reflexão, procurei reconstruir criticamente o funcionamento de certos coletivos políticos que, em nome da preservação do marxismo, acabam por isolá-lo da história concreta. Analisei ali como a busca por pureza teórica, a “rigidificação” conceitual e a transformação da crítica em mecanismo disciplinar produzem uma forma específica de fechamento político.</p>
<p style="text-align: justify;">A intenção inicial era encerrar a análise nesse ponto: no diagnóstico de um marxismo que sobrevive menos por sua capacidade de intervir na realidade social do que por sua eficácia em manter fronteiras simbólicas internas. Esse diagnóstico já permitiria compreender por que tais coletivos tendem a confundir radicalidade com isolamento, rigor com repetição e fidelidade teórica com recusa do presente histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, ao retomar esse percurso de forma mais distanciada, tornou-se evidente que a crítica, se permanecer apenas negativa, corre o risco de se limitar a descrever um impasse sem reabrir o horizonte político que ele bloqueia. Denunciar o fechamento defensivo desses coletivos é necessário, mas insuficiente, se não colocarmos simultaneamente a questão de uma outra relação possível entre marxismo e história <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158699" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570.jpeg" alt="" width="409" height="570" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570.jpeg 409w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570-215x300.jpeg 215w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570-301x420.jpeg 301w" sizes="auto, (max-width: 409px) 100vw, 409px" />É a partir desse ponto que esta segunda parte se inicia. Não para oferecer um modelo alternativo acabado, nem para propor uma nova ortodoxia em substituição às antigas, e sim para desenvolver um contraponto: como pensar um coletivo capaz de se deixar afetar pela história sem, com isso, dissolver-se? Que tipo de rigor teórico é compatível com a contingência dos processos sociais reais? E que formas de organização política podem sustentar uma crítica radical sem transformar a teoria em abrigo contra o mundo?</p>
<p style="text-align: justify;">Se antes a ênfase recaía sobre os mecanismos de autopreservação simbólica e fechamento teórico, agora trata-se de recolocar em cena a possibilidade de um coletivo assentado em um marxismo crítico-revolucionário que aceite o risco histórico como condição de existência, e não como ameaça a ser neutralizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse tipo de marxismo começa por renunciar à fantasia de exterioridade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não se coloca acima dos processos históricos, julgando-os a partir de um ponto supostamente privilegiado, mas reconhece que está implicado neles, atravessado pelas mesmas contradições que busca compreender. Isso implica aceitar que não há posição pura, nem garantia prévia de acerto. A teoria deixa de ser tribunal e passa a ser mediação: um esforço sempre incompleto de inteligibilidade, que só ganha densidade ao se confrontar com práticas reais, ainda que imperfeitas, ambíguas ou politicamente incômodas; sejam elas do passado ou do presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Um marxismo assim também precisa redefinir sua relação com o erro. O erro deixa de ser falha moral ou sinal de desvio ideológico e passa a ser parte constitutiva do processo político. Errar não significa trair a teoria, mas “testar” seus limites enquanto expressão da realidade. Sem essa disposição, a prática se reduz à aplicação mecânica de esquemas já conhecidos, e a teoria perde sua capacidade de aprender com a história. A possibilidade de errar, nesse sentido, não enfraquece o marxismo; ao contrário, devolve-lhe vitalidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto central diz respeito à divergência. Um marxismo que se deixa afetar pela história não pode tratar o dissenso como ameaça à coesão, mas como indicador de que algo real está em jogo. Divergências teóricas e estratégicas não são ruídos a serem eliminados, mas sintomas de conflitos objetivos que atravessam a luta de classes. Neutralizá-las em nome da clareza interna é, frequentemente, uma forma de negar esses conflitos em vez de enfrentá-los. Não se trata, portanto, de “dar o braço” ao “inimigo” nem de legitimar projetos políticos antagônicos, mas de aprender a elaborar politicamente a convivência entre coletivos e perspectivas divergentes que, apesar das diferenças, compartilham convergências estruturais no interior da luta de classes.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158694" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640.jpg" alt="" width="564" height="871" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640.jpg 564w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640-194x300.jpg 194w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640-272x420.jpg 272w" sizes="auto, (max-width: 564px) 100vw, 564px" />Esse deslocamento exige também uma relação menos fetichizada com os clássicos e com as linhagens teóricas. Marx, Engels e toda a tradição posterior deixam de funcionar como fonte de legitimação identitária e passam a ser lidos como interlocutores situados, que pensaram a partir de problemas concretos de seu tempo. Honrar essa tradição não é repeti-la corretamente, mas continuar o gesto que a constituiu: pensar a partir das contradições vivas do presente, mesmo quando isso implica tensionar categorias consagradas.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano organizativo, esse marxismo precisa aceitar graus mais altos de indeterminação. Coletivos politicamente vivos tendem a ser menos coesos no plano simbólico e mais expostos a conflitos internos, justamente porque estão em contato com processos sociais heterogêneos. A coesão não pode ser garantida pela exclusão sistemática nem pela vigilância discursiva permanente, mas por algum tipo de aposta comum que se renova na prática e não apenas na linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso implica, inevitavelmente, redefinir o lugar da universidade. Em vez de negá-la retoricamente enquanto dela depende materialmente, trata-se de assumir suas contradições como parte do problema. A produção teórica pode se beneficiar do espaço universitário, mas não pode se confundir com ele nem se encerrar em seus critérios de validação. A teoria só se mantém viva quando circula para além dos espaços que a reconhecem automaticamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Há, ainda, uma dimensão subjetiva incontornável. Um marxismo que se deixa afetar pela história precisa tolerar frustrações, perdas e deslocamentos. Precisa abrir mão do conforto de estar sempre certo, do prazer de antecipar derrotas alheias e da segurança de habitar um ponto avançado da história. Isso não significa abdicar da crítica radical, mas aceitar que a crítica, para ser efetiva, precisa atravessar o próprio sujeito que critica.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, talvez o ponto decisivo seja este: a revolução, entendida como processo histórico real, não pode ser protegida da experiência. Uma teoria que nunca se expõe ao risco de ser desmentida preserva sua pureza, mas perde sua razão de existir. Um marxismo capaz de se deixar afetar pela história é aquele que aceita que o mundo não cabe inteiramente em suas categorias — e que é justamente desse excesso, dessa resistência do real, que pode surgir algo novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Colocar esse contraponto não resolve o problema, mas recoloca a questão em outro patamar. Em vez de perguntar quem está certo, talvez seja mais produtivo perguntar que tipo de relação com a história estamos dispostos a sustentar. Porque, no limite, não é o marxismo que julga o mundo, mas o mundo que continuamente julga — e transforma — o marxismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Para fechar esse movimento, vale retomar explicitamente uma referência que ajuda a dar densidade histórica a esse contraponto: Karl Korsch. Não como autoridade a ser citada em busca de legitimação, mas como alguém que formulou, de maneira precoce e incisiva, o problema que atravessa todo o texto: a transformação do marxismo em doutrina separada da prática histórica que lhe deu origem.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158698" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura.jpg" alt="" width="506" height="470" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura.jpg 506w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura-300x279.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura-452x420.jpg 452w" sizes="auto, (max-width: 506px) 100vw, 506px" />Em Korsch, o marxismo só se mantém vivo enquanto teoria crítica da sociedade capitalista em ligação com a prática revolucionária. Quando essa ligação se rompe, a teoria não se torna neutra ou inofensiva; ela se converte em ideologia, ainda que preserve uma linguagem radical. O dogmatismo, para Korsch, não é simplesmente um erro intelectual, mas o sintoma de um deslocamento histórico: a teoria passa a sobreviver em condições nas quais a prática revolucionária foi bloqueada ou derrotada, e precisa então justificar sua própria permanência.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa leitura é particularmente importante porque evita duas saídas fáceis. De um lado, a idealização romântica da prática imediata, como se qualquer movimento real fosse automaticamente emancipatório. De outro, a sacralização da teoria como reserva de verdade à espera de um futuro indeterminado. O marxismo crítico-revolucionário que Korsch defende existe precisamente na tensão entre essas duas dimensões, sem resolver o conflito por decreto conceitual.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao insistir que o marxismo deve ser compreendido historicamente — inclusive em suas próprias categorias — Korsch antecipa a crítica à ideia de uma linhagem pura, contínua e sem fissuras. Para ele, não há marxismo fora das lutas concretas, nem teoria revolucionária que possa se colocar acima da história para julgá-la. Quando isso ocorre, o marxismo deixa de ser crítica da realidade existente e passa a funcionar como sistema fechado de interpretação, indiferente ao curso efetivo dos acontecimentos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158695" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9.jpg" alt="" width="600" height="401" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9-300x201.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9-537x360.jpg 537w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />Essa perspectiva ajuda a compreender por que o tipo de coletivo descrito ao longo do texto não é apenas politicamente ineficaz, mas teoricamente regressivo. Ao separar a teoria da experiência histórica real — especialmente quando esta é contraditória, ambígua ou decepcionante — ele repete exatamente o movimento que Korsch identifica como degeneração ideológica do marxismo. A fidelidade aos conceitos substitui a fidelidade ao movimento real da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto decisivo em Korsch, e que dialoga diretamente com o argumento desenvolvido aqui, é que não existe marxismo revolucionário sem risco histórico. A teoria precisa se expor à possibilidade de se tornar inadequada, parcial ou insuficiente diante de novas configurações da luta de classes. Essa exposição não garante sucesso político, mas é a única forma de evitar que o marxismo se transforme em linguagem ritualizada, funcional apenas à coesão interna de pequenos círculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Recuperar Korsch hoje não significa repetir suas posições nem ignorar os limites de seu contexto histórico. Significa retomar uma exigência metodológica e política fundamental: a recusa em separar crítica radical e historicidade concreta. Um marxismo não dogmático, nesse sentido, não é aquele que abdica de princípios, mas aquele que se recusa a transformá-los em abrigo contra a história.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez seja esse o fio que permite costurar toda a crítica anterior com uma saída possível. Não um novo modelo organizativo, nem uma síntese teórica definitiva, mas uma disposição: manter aberta a relação entre teoria e prática, aceitar a instabilidade como condição da crítica e reconhecer que a vitalidade do marxismo se afirma em sua capacidade de se transformar junto com o mundo que pretende transformar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong>: Ao longo do texto, “história” não é mobilizada como um conceito autônomo ou uma categoria teórica acabada. Na falta de um adjetivo melhor, ela funciona simplesmente como adjetivação de um fenômeno: a inscrição concreta, situada e contraditória dos processos sociais no tempo. Falar em história, aqui, é marcar que práticas, teorias e formas de organização existem sob condições determinadas, atravessadas por conflitos, deslocamentos e contingências que não podem ser antecipadas nem resolvidas por esquemas prévios. O termo não designa uma instância normativa ou um sentido imanente do processo social, mas a recusa de qualquer forma de abstração que pretenda se colocar a salvo do movimento real no qual essas práticas e teorias se produzem e se transformam.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Joaquín Torres Garcia.</em></p>
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