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	<title>Outras_lutas &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>[Rondônia] O latifúndio no banco dos réus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Mar 2026 22:43:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Tribunal Popular organizado por entidades irá realizar julgamento sobre crimes cometidos em áreas de conflito agrário e contra advogados e defensores de direitos humanos. Por ABRAPO, CEBRASPO, COMSOLUTE, CPT, OPIROMA, MAB e LCP]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por ABRAPO, CEBRASPO, COMSOLUTE, CPT, OPIROMA, MAB e LCP</h3>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">Nos próximos dias 28 e 29 de março de 2026 ocorrerá em Porto Velho, capital do estado de Rondônia será instaurado um <b>TRIBUNAL POPULAR</b> que julgará crimes cometidos pelo latifúndio em Rondônia ao longo de décadas e, sobretudo, nos últimos anos onde se observou um crescente processo de assassinatos, despejos ilegais, ameaças, contra camponeses sem-terra, posseiros, indígenas, extrativistas, ribeirinhos e quilombolas. Nos últimos anos, em Rondônia, a escalada de violações praticadas por latifundiários e grupos paramilitares contou com a ação efetiva de forças policiais que passaram a atuar de forma a criminalizar milhares de famílias e advogados que atuam na área agrária.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O ano de 2024, cujos dados consolidados foram publicados em abril de 2025 pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), marcou um período paradoxal na dinâmica agrária brasileira. Embora tenha ocorrido uma redução quantitativa no número de assassinatos diretos, os indicadores de conflitos por terra atingiram o maior patamar da última década, totalizando aproximadamente 1.768 ocorrências. Esse dado sinaliza uma cristalização das tensões territoriais, consolidando 2024 como o segundo ano mais violento da série histórica iniciada em 1985.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O cenário de conflitos agrários no Brasil apresentou um agravamento crítico em 2025, caracterizado pelo incremento da letalidade nas disputas territoriais. Dados preliminares da Comissão Pastoral da Terra (CPT) indicam que o número de assassinatos no campo duplicou em relação ao ano anterior, saltando de 13 óbitos em 2024 para 26 registros até dezembro de 2025. O estado de Rondônia é uma das Unidades da Federação que lidera esse ranking macabro.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">Em virtude da situação fática e jurídica que engloba os inúmeros assassinatos e conflitos agrários que marcam a história recente de Rondônia, a Associação Brasileira de Advogados do Povo (ABRAPO), o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (CEBRASPO), o Comitê de Solidariedade à Luta pela Terra (COMSOLUTE), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Organização dos Povos Indígenas de Rondônia, Noroeste do Mato Grosso e Sul do Amazonas (OPIROMA), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Comitê de Apoio à Luta pela Terra – Rondônia, Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental (LCP) e outras organizações propõem o Tribunal Popular que colocará o latifúndio no banco dos réus.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O Tribunal será presidido pelo Dr. Jorge Moreno (juiz aposentado do TJMA e vice-presidente da ABRAPO) e contará com um corpo de jurados integrado por juristas de Rondônia, de outros estados da Amazônia, do Nordeste, do Centro-Oeste, Sul e Sudeste do país; pesquisadores da UNIR, do IFRO e de outras Universidades Federais do Brasil; além de jornalistas, representantes sindicais, associações e movimentos sociais que irão compor o Júri Popular.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">Entre esses destaca-se a Prof.ª Drª Helena Angélica de Mesquita (Professora aposentada da UFG, que pesquisou à fundo o Massacre de Corumbiara), o Dr. Siro Darlan (Desembargador aposentado do RJ), representante da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB, a histórica líder seringueira Dercy Teles, de Xapuri (AC), primeira mulher a presidir um sindicato na Amazônia Acreana, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais &#8211; STR de Xapuri, em 1981. É uma das figuras centrais nos empates organizados pelos seringueiros em Xapuri, juntamente com figuras históricas tais quais Chico Mendes e Wilson de Souza Pinheiro.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O Tribunal Popular também terá a cobertura da imprensa popular e democrática, com jornalistas que escrevem para vários veículos de comunicação de todo o Brasil como Ópera Mundi, Intercept Brasil, Repórter Brasil, A Nova Democracia, Rondônia Plural, Voz da Terra, e outros. Outras representações de entidades e movimentos como a Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP), Campanha Nacional Despejo Zero, Movimento Bem Viver e Global Sumud Brasil também estarão participando. Na condição de testemunhas de acusação estarão presentes lideranças indígenas, camponesas, ribeirinhas, de associações e movimentos de chacareiros, extrativistas e ocupações camponesas e urbanas.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;"><b>O &#8220;TRIBUNAL POPULAR CONTRA CRIMES DO LATIFÚNDIO&#8221; será realizado no AUDITÓRIO DO SINTERO (rua Rui Barbosa, nº 713, Bairro Arigolândia) com início no sábado, 28/03, às 08h e se estenderá até o domingo, 29/03,</b> onde na última sessão, serão apresentadas as alegações finais da acusação e defesa, a reunião de corpo de jurados e leitura da sentença dos acusados. As inscrições serão realizadas no local.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-158925 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal.jpeg" alt="" width="1080" height="1350" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal.jpeg 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-240x300.jpeg 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-819x1024.jpeg 819w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-768x960.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-336x420.jpeg 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-640x800.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-681x851.jpeg 681w" sizes="(max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
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		<title>Para além da Tarifa Zero</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 12:45:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
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					<description><![CDATA[O grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. Por Isadora de Andrade Guerreiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Em setembro de 2025 tive a oportunidade incrível &#8211; proporcionada por Daniel Santini, a quem agradeço &#8211; de entrevistar a atual deputada federal e ex-prefeita de São Paulo (1989-1993) Luiza Erundina (PSOL), seu secretário de transportes à época, Lucio Gregori, e Mauro Zilbovicius, ex-diretor da Cia. de Engenharia de Tráfego (CET) e do Departamento do Sistema Viário (DSV). A pauta era a Tarifa Zero ontem e hoje, dado que o trio foi responsável pela proposta pioneira no país durante a primeira gestão municipal do PT em São Paulo. O <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">resultado da entrevista</a> foi publicado na <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Diálogos Socioambientais v.8, n.23</a>, em novembro de 2025, um dossiê muito especial com contribuições atuais sobre o tema, organizado pela professora Silvana Zioni e o próprio Daniel Santini.</p>
<p style="text-align: justify;">O dossiê vem em boa hora, na medida em que o tema com certeza será parte da disputa eleitoral deste ano, que será delicadíssima por uma série de questões. Foi lançado justamente quando o governo federal pediu um estudo detalhado para implantar a Tarifa Zero nacionalmente e, em Belo Horizonte, o assunto foi votado na Câmara e não ganhou, mas assustou. Para quem acompanhou o nível de embate do tema em 2013, ver onde ele chegou atualmente é, no mínimo, surpreendente. Ou temerário… e por isso retomar suas origens de forma viva na entrevista foi algo muito importante.</p>
<p style="text-align: justify;">Digo isso pois o grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. O que está em pauta é se ela será uma tábua de salvação para um setor empresarial em franca crise &#8211; e que é pedra fundamental de amplos clientelismos Brasil afora -, ou se será parte de uma transformação urbana e social mais estrutural. Politicamente relevante é que o embate institucional está acontecendo dentro do campo da dita esquerda partidária, com PT e PSOL em lados opostos: o deputado federal Jilmar Tatto (PT) tem representado o setor empresarial dos transportes e feito propostas que têm avançado mais do que as de Erundina dentro do parlamento e do executivo federal.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso a entrevista está especial e convido todo mundo a ler. Aquela tarde junto aos três ecoou fundo em mim, pois foi como um sopro de brisas frescas vindas de um lugar perdido. Zilbovicius colocando a racionalidade técnica no seu lugar, como instrumento político; o incrível Lucio Gregori relacionando a Tarifa Zero com a revolução social anticapitalista; e Erundina, de uma força transbordante e incansável, mas ao mesmo tempo extremamente afetiva e carinhosa durante toda a tarde, trazendo a noção de direito social como algo muito mais estrutural do que se transformou no neoliberalismo. Assim, a entrevista tem algo de incômodo, pois mexe com potências políticas adormecidas que as gerações atuais nem sonham o quão mobilizadoras foram. Faz-nos pensar no estado de coisas em que estamos, no desespero de ter que defender o pouco que restou de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o que é um governo municipal não era uma questão, mas sim o que pode ser um governo municipal dentro de uma sociedade mobilizada. Isso aparece numa fala do engenheiro Zilbovicius:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até hoje guardo uma fala da Luiza, que ela repetia constantemente: cada ação “tem que ser pedagógica”. As pessoas precisam aprender com essa luta. Ou seja, não se tratava apenas de resolver um problema imediato, mas de usar essa solução para fazer política, demonstrar uma nova possibilidade e, a partir dela, demandar mais. Estávamos ali para empurrar a fronteira do possível e alargar os limites do que era considerado realizável.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Alargar o possível é também alargar nosso pensamento. A Tarifa Zero ser viável leva o debate, evidentemente, ao tema técnico &#8211; também discutido no dossiê &#8211; e é nesse momento que precisamos atualizar o lugar da técnica na política &#8211; onde queremos chegar com a Tarifa Zero? Sem isso, cairemos inevitavelmente na implantação de um modelo que instrumentalizará a gratuidade, sem colocar o cerne da questão da mobilidade que é, na prática, o capitalismo. Levantei essa questão quando trouxe na entrevista o exemplo da habitação: a gratuidade (ou quase) veio dentro de um modelo financeirizado de salvação empresarial que trouxe muitas vezes mais problemas urbanos e sociais do que soluções (individuais e parciais, muitas vezes logo perdidas pelo <a class="urlextern" title="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" href="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">endividamento</a> ou pela <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" href="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">violência</a>), como vemos no Minha Casa Minha Vida. Ou seja, já conhecemos essa ladainha. Ela é sedutora, vem junto com o progressismo nosso de cada dia, com a vontade de avançar dentro do possível, de ter vitórias em meio ao cenário perturbador de espoliação que vivemos, de poder respirar. Mas não podemos nos esquecer que ela cobra a fatura, sem dó. O almoço não é grátis, embora possa parecer &#8211; o que torna a coisa ainda pior politicamente, muitas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">Gregori, ao responder, chama atenção a isso:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, a mobilidade humana não é tratada como questão estrutural no capitalismo. A premissa básica de que a locomoção é elemento fundamental da existência humana &#8211; é um direito humano &#8211; está ausente dessa lógica.</p>
<p style="text-align: justify;">O debate que travamos aqui é singular. Se levado para a esquina, a discussão se restringirá à superlotação dos ônibus ou ao preço da passagem. Falta à sociedade capitalista a compreensão de que a mobilidade transcende a mera necessidade de ir do ponto A ao ponto B. É muito mais do que isso: a mobilidade das pessoas é fundamental na vida humana.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Questionei, nesse sentido, por que a mobilização popular em torno dos transportes é tão diferente de outros setores como a habitação, a saúde e a educação. Além de muito menor, por um lado, quando “acendeu o pavio” se alastrou como palha seca, sem controle, em 2013. Por um lado, tanto tempo entre a gestão municipal e as jornadas de junho e, por outro, a persistência do tema, que volta como espectro inevitavelmente com a pergunta “ser ou não ser, eis a questão”. Gregori foi cirúrgico:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que falta é uma discussão ampla que investigue a essência do problema. Do que estamos falando? De algo que envolve a cidade em sua totalidade. E percebe-se que essa visão integral simplesmente não existe. Há falta de mobilização popular em torno do tema, durante tanto tempo, simplesmente porque é um jogo que nunca foi jogado. Como é que a população ou o cidadão comum pode, de repente, do nada, formular isso?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso leva ao tema da totalidade das lutas &#8211; e da potencialidade da mobilidade nas lutas urbanas neste quesito &#8211; e, inevitavelmente, no ponto crucial: estamos perdendo. Erundina tem clareza desta conjuntura, ainda que não se acomode. Segunda ela:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua indagação sobre a mobilização popular toca em ponto crucial. Os movimentos sociais não exercem pressão suficiente porque a mobilização popular substantiva praticamente deixou de existir. Os partidos de nosso campo ideológico abandonaram o projeto de fomentar participação das bases. O resultado é a ausência de mobilização genuína, falta de participação popular, inexistência de hegemonia das classes populares e erosão do poder popular no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Perdemos o tecido social vibrante do período pós-ditadura, quando a sociedade estava mobilizada e resolvia problemas coletivamente através de organizações de base.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, esse cenário foi desmontado. O povo perdeu sua voz e a crença em sua capacidade de transformação. Consequentemente, pautas como mobilidade e moradia não geram mais apelo ou participação massiva. O poder popular foi esvaziado.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Daniel Santini fez a pergunta que não quer calar no tema da Tarifa Zero, replicando uma provocação que fiz a ele num congresso acadêmico da área de planejamento urbano. “A pior Tarifa Zero &#8211; que remunera bem os empresários, que não muda nada, estruturada num sistema precarizado &#8211; é melhor do que um sistema com cobrança?”. Erundina fecha a entrevista com essa resposta, que é uma pérola que coroa não só o tema da Tarifa Zero, mas a encruzilhada dos nossos tempos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eu não consigo deixar de falar disso. Retomando a questão da moradia: eu trabalho com isso desde o começo da minha vida, como assistente social. A moradia conquistada na marra, fazendo caminhada a pé até o Palácio do Governo para que se ligasse água e luz nas favelas, quando vinha, tinha um peso e uma importância para aquela população muito diferente. Porque ela se capacitava a partir daquela conquista para outras lutas e para outras conquistas. Por isso, um programa massivo de moradia, tipo Minha Casa Minha Vida, não contribui para mobilizar e para conscientizar o povo da própria força. Não pode ser comparado com aquela luta na qual o próprio povo conquista a moradia. Ou para urbanizar a sua favela, em vez de fazer uma casa própria, que ele vai pagar 30 anos, ou não vai nem mesmo conseguir pagar. Isso não é uma política que emancipa os setores populares.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a questão: não se faz mais política hoje nesse país, capaz de fazer com que as pessoas se emancipem, como se fez no passado. Nós conseguimos fazer aquele governo porque a gente vivia em um período de pós-ditadura militar, em um processo de redemocratização, onde se conquistou algum nível de emancipação popular.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós tivemos apoio popular para experimentar uma forma de ser governo no qual todo mundo governou. Por isso tem uma força que não termina nunca. Aquele governo continua, porque não foi um governo de uma pessoa, nem de um partido: foi um movimento social popular, num determinado momento da história política desse país que não acontece mais. Porque os partidos estão bitolados por um modelo dentro do capitalismo que até o povo tem direito a uma casinha, tem água na favela e outras tantas coisas, mas sem alterar as bases sobre as quais essa sociedade está construída…</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Como não se sentir tocada? Quem for ler a entrevista na íntegra, verá que quem começa falando e perguntando é Erundina, a entrevistada. Vi que seria difícil me colocar. Mas, ao final, na mesa do café, ela me agradeceu a entrevista, que tomou um rumo que ela não esperava, a fazendo também respirar outras brisas. Que nos inspiremos nesse encontro geracional, pois os desafios vindouros são grandes.</p>
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		<title>Mentiras que lhe dirão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 09:23:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras... Por Phil A. Neel]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Phil A. Neel</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><em>Traduzido do <a href="https://illwill.com/lies" target="_blank" rel="noopener">Inglês</a>.</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A cidade glacial está sob cerco. Nos longos e frios invernos no coração do Meio-Oeste, o ar pode ficar tão frio que dói respirar. Mercenários mascarados, em veículos sem identificação, percorrem os bancos de neve, sequestrando pessoas nas ruas e levando-as para centros de detenção por períodos indeterminados. Cada um dos mercenários recebe dezenas de milhares em um “bônus de assinatura” (até 50 mil e 60 mil dólares em perdão de empréstimos estudantis), simplesmente para pegar em armas em nome do regime em batalha. Diante de uma crise econômica em câmera lenta, na qual um boom surreal do mercado de ações, apoiado pelo Estado, é acompanhado por uma estagflação persistente na economia cotidiana, o puxa-saquismo é uma das poucas indústrias que apresentam algum crescimento real. Enquanto as ruas congelam em Minneapolis, a notação do Standard &amp; Poor atinge níveis recordes. Enquanto isso, o crescimento do emprego no ano passado foi tão desanimador que, após a divulgação dos números, o regime agiu rapidamente para demitir o chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho e ameaçar os meios de comunicação que divulgavam os números. <strong>[1]</strong> Além do declínio no emprego, devido ao congelamento da imigração, a profundidade da crise é sinalizada pela queda contínua na Taxa de Participação na Força de Trabalho, que serviu como o maior obstáculo ao crescimento do emprego no primeiro semestre de 2025 – indicando que um montante cada vez maior de pessoas está abandonando completamente a força de trabalho, mas não são contabilizadas nas estatísticas de desemprego. <strong>[2] </strong>O cerco pode, assim, ser entendido como uma espécie de keynesianismo mercenário, destinado a compensar a falta de emprego nos novos setores de defesa movidos a IA, que têm sido o foco da política institucional mais ampla de pilhagem-e-reestruturação.</p>
<p style="text-align: justify;">Enviados de cidades distantes, eles algemam os detidos e os espancam quando mais nenhuma reação é possível. Disparam munições “não letais” com clara intenção de mutilar. Repetidas vezes, atropelam pessoas por veículos. Indivíduos que simplesmente estão voltando do trabalho para casa têm suas janelas quebradas e são arrastados para fora de seus veículos para serem espancados e detidos por horas, às vezes dias. Agora, eles estão atirando em pessoas com munição letal. Invadiram o estacionamento de uma escola de ensino fundamental. Tiraram uma mãe de seu carro, colocaram-na em uma van sem identificação e foram embora, deixando seu bebê em uma cadeirinha, com a porta aberta, em temperaturas negativas (felizmente, resgatado por pessoas da multidão). Lançaram gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral em um carro cheio de crianças, hospitalizando todas elas, incluindo um bebê de seis meses que não conseguia respirar. <strong>[3] </strong>Em represália à resposta da comunidade, eles começaram a invadir as casas de cidadãos também, muitas vezes errando os endereços. O prefeito diz que não há nada a ser feito. O governador convocou a Guarda Nacional – destacada não contra os mercenários, é claro, mas contra aqueles que protestam contra eles. As autoridades judiciais da nação não apenas se recusaram a abrir processos, mas, além disso, foram ordenadas a investigar as vítimas e seus familiares. Todas as noites, o mundo inteiro assiste a vídeos de corpos envoltos em sombras, movendo-se na escuridão gelada da cidade sitiada. Nas lives, as pessoas gritam e choram, os mercenários berram suas ameaças, disparam suas armas e, diante de uma multidão grande o suficiente, recuam. Os hotéis que os hospedam são pichados. Os carros que abandonam são saqueados. Em resposta, mais tropas são enviadas pelo presidente, um rei louco, num corpo em decomposição, berrando ordens incoerentes do seu palácio no pântano. O sol nasce e acordamos com o sabor amargo de novas atrocidades à nossa espera.</p>
<p style="text-align: justify;">Há cinco anos, a poucos quarteirões de onde Renee Good foi assassinada pelo covarde Jonathan Ross, um assassinato semelhante desencadeou a maior revolta popular em mais de uma geração. Logo depois, nos contaram uma série de mentiras sobre essa rebelião. Disseram-nos que era um “movimento social não violento”, mesmo com a imagem de uma delegacia de polícia em chamas piscando ao fundo. Disseram-nos que, embora houvesse alguma violência, ela havia sido iniciada por agitadores externos, talvez policiais, ou até mesmo nacionalistas brancos. Quem quer que fossem, eles não eram membros da “comunidade”, mas sim indivíduos apenas “querendo causar confusão”. Disseram-nos que o plano desde sempre foi processar o assassino, e que foi apenas uma coincidência que as acusações só foram feitas depois que quase todas as grandes cidades do país viram seus centros saqueados e incendiados. Disseram-nos para irmos para casa, que tudo tinha acabado. Disseram-nos que os distúrbios eram apenas a desculpa de que Trump precisava para declarar a lei marcial e cancelar as próximas eleições. Disseram-nos que, se eleito, Biden iria arrumar as coisas. Disseram-nos que as deportações iriam acabar e que as políticas de Trump seriam revertidas. As crianças seriam libertadas das jaulas. Disseram-nos que devíamos voltar ao mais do mesmo da política — que essa era a única maneira de “fazer as coisas acontecerem”. No conjunto, essas mentiras resultaram em uma única grande inverdade: a revolta nunca ocorreu e nunca poderá ocorrer novamente. <strong>[4]</strong> Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras:</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Se você está aqui legalmente, não precisa se preocupar…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa é sempre a primeira mentira, que apenas os mais tresloucados ou os mais irracionais acreditam. Mesmo para os defensores ferrenhos do Estado, essa primeira mentira foi destruída no momento em que o tiro foi disparado. Por isso, ela foi reconfigurada: “se você não estiver obstruindo os agentes federais…”. E logo acrescentaram os adendos habituais: “por que você estava em um motim, para começar?” (dito às pessoas que moram no bairro); “por que você trouxe seus filhos para um protesto?” (para as famílias que buscavam os filhos na escola); “esses cidadãos têm ligações com grupos radicais de esquerda” (válido automaticamente para todos os que se opõem à agência). Eventualmente, a ladainha de mentiras proferidas por qualquer força tirânica tende a se normalizar em torno do guia de estilo das Forças de Defesa de Israel (IDF), refinado no solo bombardeado da Palestina, que há muito serve como laboratório para novos horrores. E, claro, como até uma rápida olhada na história demonstraria, os horrores nunca permanecem confinados à terra sagrada. Quando o bumerangue imperial retorna à mão que o lançou, o processo sempre começa com o chamado “elemento criminoso”. E então passa a ser os esquerdistas e os sindicalistas. E depois seus simpatizantes. E depois qualquer inimigo. Eventualmente, eles têm como alvo os inimigos inerentes da nação, figurados em termos de sangue e solo.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-158686 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="932" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-768x511.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-631x420.webp 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-640x426.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-681x453.webp 681w" sizes="(max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo completamente alheios aos protestos, cidadãos americanos foram detidos em batidas policiais e tiveram a validade de suas certidões de nascimento negada. Indígenas americanos foram mantidos em cativeiro por dias — usados, em parte, como moeda de troca para forçar as lideranças tribais a abrir seus territórios à agência. Isso não é um exagero: na cidade sitiada, qualquer pessoa que não pareça suficientemente branca (e branca da maneira certa) deve portar sua prova de cidadania o tempo todo, sob pena de ser detida e sequestrada. Este é, quase palavra por palavra, o cenário que foi profetizado pelos “esquerdistas radicais” com o advento de agências como o Departamento de Segurança Interna (DHS) e o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), após a aprovação da Patriot Act por uma coalizão bipartidária durante a Guerra ao Terror. Foi nessa mesma época que a Agência de Segurança Nacional (NSA) ganhou novos e amplos poderes. A primeira operação interagências para combater “gangues transnacionais violentas” foi iniciada em 2005, sob o governo Bush, e antecipa grande parte da linguagem ainda usada hoje. Mas o novo estado de segurança foi um esforço conjunto. Na verdade, embora tenha sido iniciado durante um governo republicano, foram os democratas que transformaram essas agências em órgãos operacionais e expandiram amplamente seus poderes.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto o ICE quanto o DHS foram rapidamente expandidos sob Obama, que supervisionou o maior aumento nas deportações e de campos de deportação, construídos, em parte, por meio de um acordo de US$ 1 bilhão sem licitação com a empreiteira prisional privada Core Civic (na época, Corrections Corporation of America). <strong>[5]</strong> Na verdade, Jonathan Ross, o agente que assassinou Good, foi contratado pela agência no auge dessa onda de deportações da era Obama. Nos mesmos anos, houve uma expansão dos centros de dados da NSA, incluindo a cerimônia de inauguração do Centro de Dados da Iniciativa Nacional Abrangente de Segurança Cibernética em Utah, que é talvez o núcleo da infraestrutura moderna de vigilância em massa. <strong>[6]</strong> Da mesma forma, foi o governo Obama que assinou os primeiros acordos com a Palantir para rastrear crimes transfronteiriços, estabelecendo as bases para a colaboração de longa data da empresa com o ICE. <strong>[7]</strong> Hoje, a empresa foi contratada para construir um aplicativo “que preenche um mapa com alvos potenciais de deportação, traz um dossiê sobre cada pessoa e fornece uma ‘pontuação de confiança’ sobre o endereço atual da pessoa…”. <strong>[8]</strong> Esses foram os mesmos anos em que os apelos para “abolir o ICE” ganharam força, juntamente com os apelos para reverter os programas de vigilância da NSA e desmantelar a Segurança Interna. Não é preciso dizer que essas demandas foram rejeitadas tanto por democratas quanto por republicanos como sendo nada mais do que reclamações estridentes de radicais irrealistas renitentes. Agora, enfrentamos precisamente a “realidade” que nos foi prometida.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O assassino será processado…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira é o bote salva-vidas para os muitos milhões que ainda se agarram a algum resquício de fé em um estado de direito outrora flutuante que, segundo qualquer critério razoável, já submergiu até o fundo do mar escuro e revolto. Vão nos dizer para esperar, para deixar o sistema funcionar, como se a ordem cívica submersa fosse ressurgir. Na realidade, essa ordem sempre foi uma gentileza temporária, possibilitada apenas pelas águas calmas de uma ordem imperial bem estabelecida. Lançado na crise, a probidade do Estado é sempre sacrificada pela efervescência do puro poder subjacente. Aqueles que baseiam sua fé nessa probidade simplesmente não conseguem entender o novo mundo em que se encontram. O que estamos testemunhando, então, é o lento e constrangedor crepúsculo da ingenuidade política bem-educada que definiu toda uma geração de liberais. Os liberais são, em sua essência, uma espécie de adoradores da legalidade. Tire-lhes a legislação e os processos judiciais e você ficará com penitentes confusos, cegos pelos horrores sombrios vislumbrados brevemente por trás de sua fé destruída. No curto prazo, eles continuarão como antes, só que com mais fervor. Confrontados com evidências incontestáveis de sua realidade política, os liberais se agarrarão ainda mais fortemente às ruínas de sua civilidade desmoronada, entrando com ação judicial após ação judicial, escrevendo para os seus deputados, indo de porta em porta para defender candidatos medíocres nas eleições de meio de mandato, tais como fanáticos cheios de feridas se flagelando em penitência pela praga.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem demora, vimos uma série interminável de ações judiciais movidas contra quase todos os aspectos do programa trumpista. Em 20 de janeiro de 2026, havia um total de 253 processos ativos de contestação de ações do governo. Porém, mesmo quando obtêm decisões favoráveis, elas se mostram inexequíveis. Por um lado, com controle decisivo sobre a Suprema Corte, bem como sobre as nomeações federais em todas as agências relevantes, qualquer contestação legal pode ser, em última instância, anulada. A Suprema Corte já anulou as ordens de tribunais inferiores em 17 ocasiões.<strong> [9]</strong> Por outro lado, os poderes executivos podem ser mobilizados para simplesmente anular decisões judiciais por decreto, seja de forma direta (por meio da proliferação de indultos presidenciais, concedidos a licitantes nos bastidores, por exemplo) ou buscando os mesmos fins, por meio de canais diferentes. Por exemplo, quando a deportação de Kilmar Abrego Garcia foi considerada ilegal por um tribunal inferior (e, em um caso raro, a decisão foi mantida pela Suprema Corte), o governo federal procurou indiciá-lo por acusações espúrias, a fim de justificar tentativas subsequentes de deportação. No entanto, precisamente porque esses casos acabam por seguir seu curso nos tribunais e, de fato, geram um certo atrito administrativo, os liberais conseguem manter uma fé mágica de que podem, eventualmente, ter êxito.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-158687 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-681x454.webp 681w" sizes="(max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso deixa pouca esperança para uma resposta judicial aos assassinatos de Renee Good e Alex Pretti. Pouco depois do assassinato de Good, Ross foi evacuado do local, que foi limpo sem registro de provas ou investigação. Da mesma forma, outras agências foram proibidas de proteger o local do assassinato de Pretti. O Departamento de Justiça não apresentou nenhuma acusação, tampouco as autoridades municipais ou estaduais. O regime tem afirmado que Ross e todos os seus outros mercenários têm imunidade total. Eles têm repetido mentiras descaradas sobre o assassinato de Pretti, imediatamente refutadas por inúmeros vídeos. Neste momento, como em qualquer assassinato cometido pela polícia, as denúncias só serão formalizadas em qualquer uma dessas mortes caso houver mobilizações em massa de escala e intensidade suficientes. Passeatas pacíficas, mesmo que enormes ou disfarçadas de “greve geral” (mas que não fecham nenhuma empresa de grande porte da cidade), não têm como alcançar esse objetivo. Neste momento, simplesmente não há nenhum mecanismo imaginável pelo qual passeatas de protesto a fim de ganhar atenção política possam encorajar alguém no poder a levar esses assuntos a julgamento. Ataques à propriedade inimiga, bloqueios totais e greves podem forçar tal resultado, à maneira dos distúrbios no caso de George Floyd, vários anos antes. Nesse caso, porém, mesmo um julgamento e uma condenação poderiam ser facilmente anulados por meio de um indulto presidencial e, se os casos de 6 de janeiro servirem de indício, tudo indica que o executivo iria atrás disso. Não se pode mais confiar que o Estado nem mesmo finja fazer justiça. Os liberais são deixados a chorar, chicoteando suas costas feridas em atos fúteis de penitência, na esperança de reconquistar a atenção de seu deus delinquente. Eventualmente, seus furúnculos estouram e a peste os leva, como aos demais.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O ICE não é bem-vindo aqui…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Talvez isso seja verdade em algum sentido espiritual — na mente do político progressista convencido de que, no fundo do coração, o ICE não tem influência. No entanto, se você permite que atrocidades sejam cometidas na sua frente e não toma nenhuma medida substantiva para impedi-las, além de um discurso forte e talvez uma ou duas ações judiciais sem efeito, você não está, na verdade, cedendo também em espírito? Essa mentira se tornou um refrão comum entre os políticos locais. O prefeito disse isso. O governador também. E, apesar de claramente “não ser bem-vindo”, o ICE se sentiu bem à vontade. Os mercenários do ICE vagam pelas ruas. Arrombam as portas das pessoas, instruídos por seus superiores de que não precisam de um mandado assinado por um juiz. A ordem é claramente ilegal, mas isso parece não importar mais. <strong>[10]</strong> As únicas forças que minimamente se mobilizam contra essa invasão são pessoas comuns, que arriscam prisão, mutilação e morte para enfrentar os homens armados enviados para levar seus vizinhos para campos de prisioneiros. Redes robustas de defesa comunitária se espalham pela cidade congelada, enraizadas na infraestrutura criada justamente por essa incansável “extrema-esquerda” que tanto incomoda o regime. Por causa dessas redes, os mercenários raramente conseguem se mover sem serem rastreados, raramente param em algum lugar sem serem cercados e raramente tomam qualquer atitude sem serem filmados.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem dúvida, as redes de resposta comunitária desse tipo estão entre as formas mais importantes de organização de classe que os EUA viram nas últimas décadas. Conforme explicado por Adrian Wohlleben:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Com a construção de eixos de defesa, ou “centros”, combinados com outras práticas autônomas de rastreamento, perseguição e interrupção, a luta atual contra o ICE iniciou uma repolitização da inteligência infraestrutural, juntamente com uma inversão de sua orientação “cinegética” (de presa para predador). Esse fato, combinado com a notável tendência de restituir o político nos espaços da vida cotidiana, aponta para uma superação dos limites de 2020… <strong>[11]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">No entanto, parece improvável que até mesmo essa inteligência infraestrutural distribuída e incorporada ao tecido urbano da vida cotidiana seja suficiente. Embora seja um primeiro passo necessário, o andamento da história muitas vezes ultrapassa nossos esforços. Para acompanhar, é necessário dar um salto para o desconhecido.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Vá lá e vote…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Estamos diante de uma realidade sombria: a invasão está aqui, a santificada “resistência” da classe política nunca chegou e o poder bruto que governa o mundo está escancarado para todos. Os democratas já recusaram, em larga medida, os apelos para pressionar pela abolição do ICE e, em vez disso, defenderam sua fórmula desgastada de câmeras corporais e melhor treinamento. <strong>[12]</strong> Diante de tudo isso, como uma mentira tão simples pode persistir? Como alguém poderia estar legitimamente convencido de que votar, ainda mais nas eleições de meio de mandato, enfraqueceria o poder do regime? No entanto, mesmo para os ex-liberais desiludidos com sua fé nos canais legais, que agora perseguem o ICE em seus Honda Fit, soprando seus pequenos apitos e brandindo seus celulares como um escudo — e, apesar do disparate da imagem, legitimamente arriscando a morte para fazê-lo —, uma fé residual no sistema eleitoral permanecerá, mesmo depois que qualquer crença na ordem judicial tiver sido destruída. As eleições são, para os liberais, precisamente a maneira pela qual os erros sistêmicos são corrigidos. Elas oferecem um caminho de volta aos domínios legislativo e executivo, de onde o poder parece ser exercido. Assim, apoderar-se do legislativo em 2026 e, com sorte, o executivo em 2028, parece ser um meio razoável pelo qual o regime poderia ser deposto e seus erros, corrigidos. No entanto, mesmo para os liberais agora mobilizados, o medo paira no fundo da mente: e se isso for, afinal, uma mentira?</p>
<p style="text-align: justify;">A ilusão do “vá lá e vote” persiste, em parte, porque os EUA agora se transformaram totalmente no que Ernst Fraenkel, um advogado trabalhista que viveu a ascensão dos nazistas, chamou de “estado duplo”, no qual o regime é capaz de “manter uma economia capitalista governada por leis estáveis — e manter uma normalidade cotidiana para muitos de seus cidadãos — ao mesmo tempo em que estabelece um domínio de ilegalidade e violência estatal”, nas palavras do acadêmico Aziz Huq. Nessa modalidade de duas vias, um “Estado normativo”, marcado por um “sistema jurídico comum de regras, procedimentos e precedentes”, continua a operar, enquanto, paralelamente, um “Estado prerrogativo”, definido por “arbitrariedade ilimitada e violência sem controle por garantias legais”, se torna a norma em certas áreas geográficas ou na governança de grupos demográficos específicos. Para Fraenkel, essa zona “sem lei” não nega totalmente a zona legal, mas opera em conjunto com ela, mesmo que os “dois estados coabitem de forma incômoda e instável” porque “pessoas ou casos podem ser arrancados do estado normativo e jogados no estado prerrogativo” por um capricho político. Mas a tendência é clara: com o tempo, o ditatorial “estado prerrogativo distorceria e lentamente desmantelaria os procedimentos legais do estado normativo, deixando um domínio cada vez menor para a lei comum”. <strong>[13]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso é possível, em parte, porque o poder social não opera principalmente por meio do Estado. Na sua raiz, o poder da elite sobre as massas populares é econômico. O Estado e toda a classe política que o dirige são, em última análise, uma emanação dessa forma mais fundamental de poder de classe, definida pelo controle sobre a riqueza social. Essa é a chave para compreender o comportamento aparentemente suicida do regime: o Estado nunca teve a intenção de servir como uma instituição representativa universal que defende os direitos do “povo” de forma abstrata. Ele sempre foi projetado para ser, em última análise, uma máquina para negociar entre segmentos da elite proprietária e defender seus interesses. Em certos períodos de prosperidade imperial, os interesses gerais da população estão vagamente alinhados com os da elite. Mas esses são pactos temporários. Embora Fraenkel, nascido e criado em uma dessas épocas, veja o Estado prerrogativo como uma exceção, esse está, na verdade, mais próximo da norma histórica. O mistério do comportamento bizarro do regime se dissipa quando o vemos como uma luta faccional entre os quadros existentes das elites — em outras palavras, como um mecanismo de poder e pilhagem, empregado por certas facções do capital contra a população em geral, e potencialmente em detrimento de outras facções — e uma tentativa frenética dessas elites, desafiadas por blocos ascendentes de capital em outros lugares, de definir um curso estratégico que permita que seu poder sobreviva em um futuro geopolítico incerto.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158688 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez a tendência mais importante por trás do surgimento de um estado dual ditatorial seja esta: mesmo enquanto a inflação dizima os salários e os custos da energia disparam na economia cotidiana, o mercado de ações atingiu níveis sem precedentes. Como resultado, os quinze capitalistas mais ricos do país ganharam quase US$ 1 trilhão em riqueza ao longo de 2025 (de US$ 2,4 trilhões para US$ 3,2 trilhões), enquanto todos os 935 bilionários dos EUA juntos agora controlam o dobro da riqueza (US$ 8,1 trilhões) da metade mais pobre da população (170 milhões de pessoas). <strong>[14]</strong> Tampouco isso é uma exceção trumpista. É, ao contrário, parte de uma tendência que vem se consolidando desde a era Obama, no início da década de 2010 — que, por sua vez, reviveu uma tendência que começou no final da década de 1990 com a primeira bolha da internet, antes de ser interrompida por seu colapso — e que se acelerou em níveis sem precedentes, não sob Trump, mas sob Biden. No total, os 0,01% mais ricos dos americanos (cerca de 16 mil famílias de elite) controlam agora cerca de 12% da riqueza nacional, três vezes mais do que a mesma parcela da população controlava no auge da Era Dourada do século XIX. <strong>[15]</strong> Apesar dos contínuos alertas de que Trump está “destruindo a economia”, a realidade é que a economia está funcionando muito bem. Dada essa realidade sombria, não devemos imaginar que eleger democratas, em distritos eleitorais já grotescamente manipulados pelo gerrymandering, resultaria em um regime substancialmente diferente do atual.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Não dê a Trump um pretexto…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Aqui chegamos ao cerne da questão. Uma vez que a ilusão da civilidade desmorona, revelando a força e a fraude do poder como tal, novas mentiras surgem para servir a funções clássicas de contra-insurgência. Seu objetivo é atenuar a resposta imediata ao Estado tirânico, auxiliá-lo em sua repressão expondo militantes e impedir qualquer preparação para o que está por vir. “Não dê a eles um pretexto”, “Não morda a isca”, “Não dê a eles o que querem” — tudo isso acompanhado de novas teorias da conspiração sobre tijolos pré-plantados e agentes provocadores. Como em 2020, essas mentiras giram em torno da alegação de que lutar contra o exército invasor de mercenários acabará por dar ao governo uma desculpa para invocar a Lei de Insurreição e impor a lei marcial. Essa mentira parece ter integridade porque o regime ameaçou repetidas vezes fazer exatamente isso. Mas logo qualquer traço de lógica evapora-se. O que seria um “pretexto” suficiente e por que um regime que não tem absolutamente nenhum escrúpulo em violar a constituição, falsificar provas e perseguir seus oponentes precisaria de tal desculpa? Por que simplesmente não inventar uma? Agentes federais invadiram uma cidade e estão atacando e assassinando civis ativamente — isso já é uma forma de lei marcial, só que não no papel. Mais importante ainda, o objetivo principal da lei marcial é impor a quietude. Recompensar preventivamente o regime com exatamente o que ele quer não evita tanto a lei marcial, mas a torna desnecessária. Se as pessoas continuarem a se recusar a ficar quietas e o regime acabar invocando os poderes normativos adequados para declarar a lei marcial, isso não será culpa de ninguém além do próprio regime, independentemente do que ele escolher como gatilho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também temos que perguntar se a lei marcial é, de fato, necessária. Como sugere o modelo de estado duplo de Fraenkel, não há um momento em que um governo eleito se torna repentinamente autoritário. Em vez disso, formas prerrogativas de poder coexistem com as normativas e expandem progressivamente seu domínio de influência ao longo do tempo. O cerco às Cidades Gêmeas é uma evidência clara de que tal processo está bem encaminhado. Manifestar-se pacificamente contra o poder prerrogativo não faz nada para impedir seu progresso. Portanto, nos deparamos com uma escolha: ou não fazer nada além de protestar e registrar o aumento da repressão lentamente nas sombras, ou resistir abertamente e, assim, forçar essa repressão a se revelar para que todos vejam. A primeira opção traz menos riscos imediatos. Ela pode ser justificada como uma pausa estratégica enquanto construímos nossas capacidades. Mas tal afirmação requer então apontar onde essas capacidades estão sendo construídas. Enquanto isso, resistir abertamente acarreta enormes riscos imediatos: prisões em massa, tortura e assassinatos seletivos de ativistas, além de abrir as portas para uma aplicação ainda mais ampla do poder prerrogativo contra uma parcela maior da população. A principal diferença entre as duas opções é que a resistência aberta pelo menos traz consigo a possibilidade de desencadear a mobilização em massa necessária para construir o poder popular e derrubar uma elite tirânica, enquanto a petição por meio de canais normativos restritos não traz essa possibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A história demonstra claramente que tentar esperar que a situação se agrave ainda mais, na esperança de que o estado normativo seja restaurado por meio da intervenção de seus adeptos remanescentes (neste caso, políticos democratas, certos republicanos de centro e tecnocratas do governo, como Jerome Powell), apenas fortalece as elites que se beneficiam da ordem prerrogativa. A questão é, portanto, dupla: primeiro, o que deve ser feito? Segundo, o que será feito conosco independentemente disso? É aqui que surge a questão da guerra civil. A política americana pode ser entendida como sempre existindo em um estado latente de guerra civil. Sob certas condições, essa latência então cai por terra e o espectro de uma guerra civil real torna-se amplamente visível. Já em 2020, esse “espectro sempre presente de uma segunda guerra civil, mais balcanizada” havia entrado na consciência pública. <strong>[16]</strong> A visão da guerra civil tende a acompanhar as mudanças no exercício do poder estatal, particularmente em resposta a revoltas emancipatórias. Conforme explicado por Idris Robinson:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">O funcionamento do Estado se dá, fundamentalmente, afastando a ameaça onipresente de guerra civil. O Estado, como tal, pode ser considerado como aquilo que bloqueia e inibe a guerra civil. O que é único neste país é a nossa tradição emancipatória singular, que está ligada à nossa compreensão da guerra civil. <strong>[17]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, a reestruturação aparentemente suicida do Estado em duas vias é um meio padrão através do qual as revoltas populares e outros conflitos sociais incendiários são inibidos e a ordem existente, restaurada.</p>
<p style="text-align: justify;">No passado, os poderes prerrogativos foram invocados precisamente para afastar o espectro da guerra civil e da revolução. Desde a sua aprovação em 1807, a Lei da Insurreição foi invocada pelo menos 30 vezes por quinze presidentes, formal e informalmente. Da mesma forma, a lei marcial foi declarada pelo menos 68 vezes. Embora ambos tenham sido usados para conter ameaças da direita (particularmente durante a Reconstrução e o movimento pelos direitos civis do pós-guerra) ou conflitos violentos entre grupos de trabalhadores, os usos mais comuns da força militar federal têm sido, de longe, a repressão de revoltas de escravos, greves e outras revoltas. Uma das primeiras grandes mobilizações internas das forças armadas dos EUA foi realizada pelo genocida Andrew Jackson para reprimir a rebelião de escravos de Nat Turner, em 1831. Da mesma forma, a Lei de Insurreição foi invocada por Rutherford Hayes para encerrar a Grande Greve Ferroviária de 1877, por Warren Harding durante a Batalha de Blair Mountain, em 1921, — a maior revolta armada desde a Guerra Civil —, por Lyndon Johnson, em resposta aos distúrbios que se seguiram ao assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968, e por George H.W. Bush, em resposta à revolta em Los Angeles, em 1992. <strong>[18]</strong> Em outras palavras, nem invocar a Lei de Insurreição nem declarar lei marcial sinaliza necessariamente uma guerra civil iminente, ou mesmo a suspensão do poder normativo.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Um agente provocador começou tudo…”</h3>
<p style="text-align: justify;">À medida que o cerco continua, as atrocidades se acumulam e os apelos e protestos dos políticos progressistas provam ser impotentes, algo vai acontecer. Mais e mais pessoas vão começar a destruir propriedades do ICE sempre que puderem. Cada vez mais pessoas verão a necessidade de fechar e destruir a infraestrutura econômica central através da qual o poder da elite opera. Por exemplo, o UnitedHealth Group, com sede nos subúrbios de Minneapolis, foi um dos principais doadores da campanha de Trump (mais de US$ 5 milhões, juntamente com Musk) e é um dos principais beneficiários das políticas do Projeto 2025 de Trump. <strong>[19]</strong> Da mesma forma, a corporação Target, também sediada nos subúrbios das Cidades Gêmeas — e conhecida por operar um dos maiores bancos de dados de reconhecimento facial do mundo, compartilhando esses dados com o governo — doou US$ 1 milhão para o fundo de posse de Trump e tem colaborado ativamente com as forças de ocupação. <strong>[20]</strong> À medida que a polícia e a Guarda Nacional entrarem em cena para apoiar o ICE, as pessoas se insurgirão. As greves se espalharão. Eventualmente, quando ficar claro que o ICE pode e vai matar você sem consequências, alguém revidará. É aí que surge a mentira final, dizendo-nos que a revolta em si não foi iniciada pela população, mas por “agitadores externos”, policiais à paisana ou até mesmo supremacistas brancos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira tem uma longa história, já bem documentada. <strong>[21]</strong> E, no entanto, a mentira persiste, perpetuada ativamente por ativistas que agem como informantes autoproclamados dentro de qualquer movimento em curso. Ao alegar que qualquer ação agressiva praticada contra o inimigo é cometida por agentes da polícia secreta, esses informantes, de fato, perseguem, vigiam e, às vezes, detêm manifestantes para entregá-los à polícia. Muitas vezes, a própria polícia incentiva esse mito, como durante a Rebelião de George Floyd, em 2020, quando se espalharam rumores de que a primeira janela havia sido quebrada por um policial à paisana ou um supremacista branco, e a polícia então divulgou uma declaração juramentada, fingindo tê-lo identificado como membro dos Hells Angels, para, pouco depois, abandonar discretamente tal alegação — nenhuma acusação foi apresentada, enquanto as evidências dos registros de prisão mostravam claramente que a maioria dos detidos nos distúrbios vinha das imediações. <strong>[22]</strong> Dois outros casos de 2020 mostram as consequências da disseminação de tais rumores.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro ocorreu em Seattle: depois que a polícia abandonou a delegacia leste da cidade, a área foi ocupada por manifestantes. Houve intensos debates sobre se a delegacia seria incendiada, como em Minneapolis. Muitos alegaram que qualquer tentativa de fazê-lo seria uma ação de um agente provocador. Então, em 12 de junho, um homem com roupa colorida decidiu tentar, empilhando detritos contra a lateral do prédio, ateando fogo e indo embora. Ativistas no local apagaram o fogo, enquanto outros perseguiram e filmaram o homem, alegando que ele era um agente provocador. Embora ele tenha escapado, esses ativistas-informantes postaram as imagens online e as divulgaram até que fossem compartilhadas com a polícia, que as usou para identificar Isaiah Thomas Willoughby como suspeito. Willoughby se declarou culpado por incêndio criminoso no ano seguinte e foi condenado a dois anos de prisão e mais alguns anos de liberdade condicional depois disso. Logo, foi revelado que Willoughby não era um agente provocador, mas sim o companheiro de casa enlutado de Manuel Ellis, um homem desarmado assassinado pela polícia na cidade vizinha de Tacoma, no início daquele ano. <strong>[23]</strong></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158689 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo caso ocorreu em Atlanta: depois que Rayshard Brooks foi morto pela polícia de Atlanta do lado de fora de um Wendy’s local, pessoas do bairro ocuparam o terreno e, posteriormente, incendiaram o prédio. Informantes-ativistas imediatamente alegaram que o incêndio criminoso foi um ato de um agente provocador e vasculharam a internet para encontrar vídeos de uma mulher branca supostamente ateando fogo, que foram então entregues à polícia. A mulher branca, porém, não era uma agente provocadora. Ela era, na verdade, a namorada de Rayshard Brooks e, por causa desses informantes, foi acusada e declarada culpada por incêndio criminoso. <strong>[24]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso não quer dizer que policiais à paisana ou informantes não participem dos protestos. Há evidências bem documentadas de que eles o fazem. Da mesma forma, agentes federais se infiltram em grupos ativistas, onde sugerem e ajudam a coordenar ações altamente ilegais como forma de armadilha — isso é algo absolutamente a se prestar atenção dentro de assembleias públicas e espaços fechados para planejamento e preparação. Mas isso não ocorre no meio de um protesto ativo. Como qualquer veterano das lutas políticas nos Estados Unidos pode dizer, os policiais à paisana colocados no meio dos protestos quase sempre têm a tarefa de gravar secretamente, comunicar-se com a polícia do outro lado e, em certos casos, deter participantes que se preparam para atirar objetos ou empunhar armas. Em outras palavras, os policiais à paisana desempenham praticamente a mesma função que os próprios ativistas informantes. O objetivo final do mito do agente provocador é, portanto, fazer com que os ativistas desempenhem o papel de contra-insurgentes.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Estamos em desvantagem…”</h3>
<p style="text-align: justify;">A mentira final afirma que, mesmo que tentássemos, não há como revidar. Essa é a desculpa já mobilizada pelo prefeito, que justificou não mobilizar a polícia para impedir ou investigar os mercenários com alegações de que o ICE superaria em número e armamento as forças policiais locais. <strong>[25]</strong> Da mesma forma, o governador sabe que chamar a Guarda Nacional contra uma agência federal seria um ato criminoso, resultando na federalização das tropas estaduais, o que, se resultar em divisões nas cadeias de comando, é convencionalmente visto como o caminho mais provável para confrontos entre as forças estaduais e federais e, portanto, o início de uma guerra civil — como é explicado em um artigo amplamente compartilhado que documenta simulações de potenciais conflitos civis, realizadas por acadêmicos da Universidade da Pensilvânia. [26] No entanto, todas essas considerações são incapazes de compreender dois fatos cruciais. Primeiro, elas aceitam a suposta oposição entre “democratas” e “republicanos” tal como essa se apresenta e, assim, superestimam a disposição dos políticos locais — muitos financiados por exatamente os mesmos interesses corporativos que Trump — de se comprometerem com qualquer coisa que se assemelhe remotamente a uma resistência significativa a uma invasão federal. Segundo, eles assumem que a resistência deve vir de dentro do próprio estado, talvez apoiada por instituições afiliadas, como sindicatos e organizações sem fins lucrativos. Ao fazer isso, eles ignoram completamente o papel de uma população mobilizada.</p>
<p style="text-align: justify;">A perspectiva de uma guerra civil real surge quando conflitos materiais estabelecidos entre as elites coincidem com a agitação popular, permitindo que esta última sirva de veículo para os primeiros. As guerras civis podem escalar para conflitos revolucionários quando sua dimensão popular é organizada independentemente dessas elites e assume um caráter partisan <strong>[*]</strong> — ou seja, que busca não apenas uma redistribuição de bens ou direitos dentro do sistema existente, mas a transformação social desse próprio sistema, em direção a fins emancipadores. No momento, os conflitos entre grupos de elite não são suficientes para incentivar qualquer rebelião liderada por políticos locais. É muito improvável que o conflito simulado entre as forças estaduais e federais realmente ocorra, a menos que seja desencadeado de fora, ou seja, pela agitação popular vinda de baixo. E é precisamente aí que as previsões existentes falham, recusando-se a levar em conta a perspectiva de um conflito mais geral, em toda a sociedade, com as forças de ocupação. A realidade que os políticos liberais estão tentando desesperadamente disfarçar é que o povo supera em número a força invasora, que o poder das elites econômicas por trás de Trump depende dos trabalhadores e que, mesmo que minimamente organizados, esses trabalhadores têm, portanto, a capacidade de derrotar a invasão por conta própria.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158690 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota da tradução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">[*] Para Phil A. Neel, partisan refere-se ao indivíduo ou grupo que participa ativamente nas lutas que emergem de conflitos de classe cotidianos e localizados. Trata-se, portanto, do projeto comunista que visa intervir diretamente nas lutas, e não teorizar o movimento de forma abstrata. Ver “Teoria do Partido” (disponível em <a href="https://antipoda.comrades.sbs/traducao/2025/09/21/teoriadopartido.html" target="_blank" rel="noopener">Antípoda</a> ).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas do autor</strong></p>
<p style="text-align: justify;">1.Peter Hart, “Trump’s Attacks on Jobs Numbers Are Noise – And Still Dangerous”, Center for Economic and Policy Research, 23 de setembro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">2. Leila Bengali, Ingrid Chen, Addie New-Schmidt e Nicolas Petrosky-Nadeau, “The Recent Slowdown in Labor Supply in Demand”, Federal Reserve Bank of San Francisco, 12 de janeiro de 2026. Figura 4.</p>
<p style="text-align: justify;">3. Kilat Fitzgerald, “North Minneapolis ICE shooting: Children hospitalized after flash bang, tear gas hits van”, Fox9 KMSP, 15 de janeiro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">4. Identificando essa resposta desde o início, Idris Robinson afirmou a verdade: “De fato, uma revolta militante ocorreu em todo o país. A ala progressista da contra-insurgência visa negar e desarticular esse acontecimento.” (“How it Might Should be Done”, Ill Will, 16 de janeiro de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">5. Eric Levitz, “The Obama Administration’s $1 Billion Giveaway to the Private Prison Industry”, New York Magazine Intelligencer, 15 de agosto de 2016 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">6. Ingrid Burrington, “A Visit to the NSA’s Data Center in Utah”, The Atlantic, 19 de novembro de 2015. Disponível online aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">7. Palantir, “Sobre a Palantir”, Palantir, 21 de agosto de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">8. Joseph Cox, “‘ELITE’: The Palantir App ICE Uses to Find Neighborhoods to Raid”, 404 Media, 15 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">9. Lawfare, “Trump Administration Litigation Tracker”, Lawfare, 20 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">10. Luke Barr, “ICE memo allows agents to enter homes without judicial warrant: Whistleblower complaint”, ABC News, 22 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">11. Adrian Wohlleben, “Revolts Without Revolution”, Ill Will, 14 de novembro de 2025 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">12. Mychal Denzel Smith, “‘Abolish ICE’ Is More Popular Than Ever. How Will Democrats Drop the Ball This Time?”, The Intercept, 18 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">13. Aziz Huq, “America is Watching the Rise of a Dual State”, The Atlantic, 23 de março de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">14. Sharon Zhang, “Top 15 US Billionaires Gained Nearly $1 Trillion in Wealth in Trump’s First Year”, Truthout, 7 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">15. Marcus Nunes, “The Great Reconcentration: Why America’s Ultra-Wealthy Now Control 12% of National Wealth”, Money Fetish, 20 de janeiro de 2026. Disponível online aqui. (O número citado por Nunes 2026 usa a metodologia estabelecida em: Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, “The Rise of Income and Wealth Inequality in America: Evidence from Distributional Macroeconomic Accounts”, Journal of Economic Perspectives, 34(4), outono de 2020 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">16. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">17. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">18. Joseph Nunn, Elizabeth Goitein, “Guide to Invocations of the Insurrection Act”, Brennan Center for Justice, 25 de abril de 2022 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">19. Ian Vandewalker, “Unprecedented Big Money Surge for Super PAC Tied to Trump”, Brennan Center for Justice, 5 de agosto de 2025. Disponível online aqui; People’s Action, “UnitedHealth Will Be a Top Beneficiary of Trump’s Project 2025”, People’s Action, 15 de outubro de 2024 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">20. KPFA, “The Hidden Side of Target: Surveillance, Policing, and a Call for Scrutiny”, KPFA, 20 de fevereiro de 2025. Disponível online aqui; Mike Hughlett, “Target gave $1M to Trump inauguration fund, a first for the company”, The Minnesota Star Tribune, 29 de abril de 2025 (disponível online aqui); Louis Casiano, “Anti-ICE agitators occupy Minnesota Target store, demand retailer stop helping federal agents”, Fox News, 19 de janeiro de 2026 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">21. Dave Zirin, “The Fiction of the ‘Outside Agitator”, The Nation, 3 de maio de 2024 (online aqui); Code Switch, “Unmasking the ‘Outside Agitator’”, NPR, 10 de junho de 2020 (online aqui); Glenn Houlihan, “The ‘Outside Agitator’ Is a Myth Used to Weaken Protest Movements”, In These Times, 3 de junho de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">22. Logan Anderson, “Who was Umbrella Man, who smashed windows before ‘first fire’ in 2020 Minneapolis protests?”, The Minnesota Star Tribune, 30 de maio de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">23. Mike Carter, “CHOP protester who pleaded guilty to arson was Manuel Ellis’ housemate, lawyer says”, The Seattle Times, 9 de junho de 2021 (online aqui); Procuradoria dos Estados Unidos, “Tacoma man sentenced to two years in prison for early morning fire in ‘CHOP’ zone”, United States Attorney’s Office Western District of Washington, 5 de outubro de 2021 (online aqui). 24. Para uma visão geral dos protestos em Atlanta, consulte: Anônimo, “At the Wendy’s: Armed Struggle at the End of the World”, Ill Will, 9 de novembro de 2020 (online aqui). Para saber mais sobre as consequências legais, consulte: Kate Brumback, “2 Plea Guilty in Fire at Atlanta Wendy’s During Protest After Rayshard Brooks Killing”, Claims Journal, 7 de dezembro de 2023 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">25.Tim Miller e Anne Applebaum, “Anne Applebaum and Jacob Frey: Using Lies to Justify Violence”, The Bulwark, 9 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">26.Claire Finkelstein, “We ran high-level US civil war simulations. Minnesota is exactly how they start”, The Guardian, 21 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O que a esquerda iraniana está dizendo sobre os protestos em massa?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 10 Jan 2026 03:36:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Eles estão apoiando os protestos em massa, ao mesmo tempo que condenam a intervenção dos EUA e de Israel. Por Owen Jones ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Owen Jones</h3>
<p style="text-align: justify;">Protestos em massa estão varrendo o Irã, desencadeados inicialmente pela fúria generalizada com a desastrosa situação econômica do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Os protestos cresceram em tamanho e incluem demandas cada vez maiores pela derrubada da República Islâmica. Ao mesmo tempo, Donald Trump ameaçou bombardear o Irã novamente — e a ameaça de um novo ataque militar israelense paira sobre o país.</p>
<p style="text-align: justify;">De forma deprimente, alguns dos manifestantes apoiam Reza Pahlavi &#8211; filho do Xá do Irã, deposto pela Revolução Islâmica de 1979. O próprio Xá foi imposto após os serviços secretos dos EUA e do Reino Unido orquestrarem um golpe contra o governo progressista de Mohammad Mosaddegh, derrubado em 1953. Seu regime brutal alimentou a desilusão em massa que levou à revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Pahlavi tem incitado seus apoiadores às ruas. Se ele chegar ao poder, uma ditadura será substituída por outra. Será um regime pró-EUA e, dadas as complexas divisões étnicas, religiosas e políticas no Irã, isso plausivelmente pode levar a um enorme derramamento de sangue e até mesmo uma guerra civil.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que está dizendo a esquerda iraniana?</p>
<p style="text-align: justify;">O maior partido de esquerda é o Tudeh — o partido comunista do Irã, que foi violentamente reprimido pela República Islâmica na década de 1980.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-158477" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-819x1024.webp" alt="" width="440" height="550" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-819x1024.webp 819w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-240x300.webp 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-768x960.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-1229x1536.webp 1229w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-1638x2048.webp 1638w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-336x420.webp 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-640x800.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-681x851.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests.webp 1920w" sizes="auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px" /></strong>Seu <a class="urlextern" title="https://www.tudehpartyiran.org/en/2025/12/30/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-widespread-popular-protests-are-a-renewed-beginning-for-challenging-religious-capitalist-despotism-and-for-liberating-the-homeland-from-deprivation-pover/" href="https://www.tudehpartyiran.org/en/2025/12/30/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-widespread-popular-protests-are-a-renewed-beginning-for-challenging-religious-capitalist-despotism-and-for-liberating-the-homeland-from-deprivation-pover/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">primeiro comunicado</a>, divulgado em 30 de dezembro, tem como título: <strong>“Protestos populares generalizados representam um novo começo para desafiar o despotismo religioso-capitalista e para libertar a pátria da privação, da pobreza, da corrupção e do regime antipopular da República Islâmica!”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O comunicado menciona uma revolta popular impulsionada pela “rápida alta dos preços das moedas estrangeiras e do ouro” e celebra o grito de guerra “Morte ao ditador”, que, segundo eles, “abalou os alicerces do regime despótico no poder”.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles se referem a trabalhadores que organizam protestos e greves, incluindo funcionários da Petro-Refinaria de Kangan, que lutam por salários atrasados, e à União das Associações de Caminhoneiros e Motoristas do Irã, que expressaram “séria preocupação com a situação econômica caótica, a crescente pressão sobre o mercado e a situação crítica de subsistência dos motoristas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Acrescentam:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">As principais raízes dos protestos atuais devem ser buscadas nas desastrosas políticas socioeconômicas do regime do Velayat-e Faqih: a intensificação sem precedentes da pobreza, a inflação superior a 40%, a forte desvalorização da moeda nacional, a alta descontrolada das taxas de câmbio, a queda do poder de compra dos cidadãos, a corrupção generalizada e a busca por privilégios, e a continuidade das sanções desumanas impostas pelo imperialismo estadunidense e seus aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">O sistema político que governa nossa pátria — ou seja, a tutela absoluta de Ali Khamenei — é irreformável. Valendo-se de extensas estruturas militares e de segurança, este governo violou aberta e violentamente os direitos e a autoridade do povo para determinar seu próprio destino. Sem superar esse regime de despotismo religioso e domínio do grande capital, não há esperança de melhorar as condições atuais, aliviar as pressões econômicas, reduzir a pobreza e a privação, resolver a escassez de eletricidade e água ou pôr fim à onda violenta e sangrenta de repressão contra as liberdades e os direitos democráticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa ditadura não apenas arrastou o Irã e sua sociedade para a beira do colapso e da destruição, mas também expôs o país ao grave e repetido perigo de intervenção estrangeira e da substituição do despotismo atual por outra forma decadente de tirania — uma dominada por servos do imperialismo americano e do governo genocida israelense.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eles pedem solidariedade entre diferentes grupos sociais, “desde trabalhadores, operários e aposentados até mulheres, estudantes, jovens e comerciantes &#8211; contra as políticas agressivas deste regime, e os esforços para organizar movimentos de protesto coordenados em todo o país podem lançar as bases para desafiar seriamente o regime e abrir caminho para transformações fundamentais e democráticas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Concluem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Continuamos a acreditar que todas as forças progressistas e defensoras da liberdade no país — desde a esquerda e as forças nacionalistas até os grupos nacional-religiosos, bem como indivíduos e forças que ultrapassaram a política de preservação do “sistema” e do governo atual — devem unir forças e desempenhar um papel importante e eficaz na organização dos protestos em massa que ocorrem hoje no Irã.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A <a class="urlextern" title="https://www.tudehpartyiran.org/en/2026/01/02/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-we-unequivocally-condemn-any-intervention-by-u-s-imperialism-the-genocidal-israeli-state-and-their-domestic-accomplices-in-the-sensitive-developments-of-our-co/" href="https://www.tudehpartyiran.org/en/2026/01/02/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-we-unequivocally-condemn-any-intervention-by-u-s-imperialism-the-genocidal-israeli-state-and-their-domestic-accomplices-in-the-sensitive-developments-of-our-co/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">segunda declaração</a>, emitida em 2 de janeiro de 2026, tem como título: <strong>“Condenamos inequivocamente qualquer intervenção do imperialismo estadunidense, do Estado genocida de Israel e de seus cúmplices internos nos assuntos delicados do nosso país!”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mais uma vez, descrevem uma “nova onda de protestos populares” desencadeada pelas “condições socioeconômicas insuportáveis ​​do país”. Mencionam a violenta repressão estatal e acrescentam:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O Partido Tudeh do Irã considera justos e legítimos os protestos populares contra as condições desumanas vigentes — especialmente a atual situação econômica e de subsistência opressiva. Desde o início, em união com outras forças nacionais e democráticas do país, apoiamos a expansão e o aprofundamento desses protestos populares, ao mesmo tempo em que apelamos à preservação da calma, à continuidade das formas civis de protesto e ao atendimento, por parte da República Islâmica, das legítimas reivindicações do povo.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas, embora se alinhem com “a repulsa da maioria da sociedade em relação à ditadura islâmica no poder”, denunciam a intervenção do “governo quase fascista de Donald Trump” — especificamente sua ameaça de bombardear o Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles dizem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa postura é uma tentativa flagrante de interferir nos assuntos internos do Irã, especialmente quando o regime do Velayat-e Faqih se mostra totalmente incapaz de se livrar da crise, da instabilidade e do medo constante da população, buscando prolongar sua sobrevivência unicamente por meio da repressão e do aparato militar e de segurança.</p>
<p style="text-align: justify;">A interferência imperialista dos EUA nos assuntos internos de nossa pátria constitui uma clara violação da soberania nacional do Irã e serve apenas para garantir os interesses imperialistas no Oriente Médio e no Golfo Pérsico. Outro ponto crucial é que, dadas as políticas do governo de extrema-direita de Trump e seu alinhamento total com o governo criminoso e genocida de Netanyahu, que está à frente da máquina de guerra de Israel, qualquer intervenção nos assuntos internos do Irã não só é manifestamente prejudicial à revolta popular contra a República Islâmica, como também pode trazer consequências catastróficas para o país.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O Partido Tudeh “condena explícita e resolutamente a intervenção flagrante do imperialismo estadunidense e de seus aliados regionais e domésticos nos assuntos internos do Irã”, denunciando também as políticas desastrosas da ditadura.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles mencionam o “golpe vergonhoso” de 1953 e afirmam que “a política de &#8216;mudança de regime&#8217; sempre foi perseguida para servir aos interesses estratégicos do imperialismo global e jamais poderá levar à liberdade, à realização dos direitos nacionais e democráticos ou à soberania do povo sobre seu próprio destino”.</p>
<p style="text-align: justify;">Afirmam que o movimento de massas não precisa da assistência do governo estadunidense “quase fascista” para ter sucesso e concluem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Avante rumo à unidade e à solidariedade do povo iraniano na luta contra o regime do Velayat-e Faqih! Viva a paz; viva a luta do povo iraniano, trabalhador e sofrido.”</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É muito deprimente assistir a uma turbulência política em que os principais atores são todos abomináveis. É por isso que é importante ouvir a esquerda iraniana &#8211; e tentarei compartilhar suas posições da melhor maneira possível.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido do original que pode ser acessado <a class="urlextern" title="https://www.owenjones.news/p/whats-the-iranian-left-saying-about" href="https://www.owenjones.news/p/whats-the-iranian-left-saying-about" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></em>.</p>
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		<title>A centralidade do território</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Dec 2025 13:15:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[Pensar o território é pensar em como conferir perenidade à revolta, que é, por natureza, fugaz. É dar continuidade a algo descontínuo. Por Thiago Canettieri
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Thiago Canettieri</h3>
<p style="text-align: justify;">Em um texto já <a href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" target="_blank" rel="noopener">clássico deste site</a>, Caio Martins e Leonardo Cordeiro refletem sobre a experiência do Movimento Passe Livre (MPL), já em um rescaldo de 2013, quando, definitivamente, a fervura entornou do caldeirão. Quem se lembra das ruas, já há mais de dez anos, sabe muito bem que ali era confronto — a imediatidade com que explodiam, os rojões de um lado e as balas de borracha de outro não deixam espaço para dúvidas. O conflito contra a tarifa do transporte público. Como notam, acertadamente, a natureza dessa luta em específico, diferentemente de “outros movimentos urbanos — de moradia, por exemplo — dificilmente ultrapassam o limite de sua ocupação ou bairro, nas lutas contra o aumento, a mobilização tem a tendência a tomar conta de toda a cidade, a se generalizar como revolta”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para eles, a revolta — palavrinha-chave para compreender 2013 — se refere a “um processo de fôlego curto, mas explosivo, intenso, radical e descentralizado. As primeiras manifestações atuam como ignição de uma mobilização que extrapola o controle de quem a iniciou – que perde toda a capacidade de interrompê-la. Há uma escalada de ações diretas: ocupação massiva e travamento de importantes artérias da cidade, enfrentamento com a polícia, ataques ao patrimônio público e privado, saques”.</p>
<p style="text-align: justify;">Por um lado, os jovens militantes do MPL sabiam muito bem o que poderia acontecer quando lançavam a primeira marcha contra o aumento de 20 centavos. Uma manifestação pequena aqui, que explode e incendeia todo um país. Era essa a intencionalidade por trás da mobilização. Claro, não há ingenuidade em acreditar que a explosão ocorra espontaneamente — “depende quase sempre de um polo altamente organizado da luta, uma organização que elabora e formaliza seu sentido e lhe garante alguma coesão”, escrevem Caio e Leonardo.</p>
<p style="text-align: justify;">A medida que junho avança, a revolta esquenta o inverno brasileiro daquela longínqua data:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Greve geral, ocupação dos prédios públicos, tomada da cidade por barricadas em cada bairro, expropriação de frotas… eis alguns desdobramentos que o ascenso popular abria à imaginação às vésperas do anúncio da revogação do aumento. É precisamente a ameaça de um enorme salto organizativo dos trabalhadores que alarma a classe dominante – o “caos social” bate à porta e deve ser contido pelo governo, cedendo. A tática histórica das lutas contra o aumento, que aqui chamamos de “revolta popular”, aposta para seu sucesso nessa ameaça e, no entanto, depende, ao mesmo tempo, de que ela não se realize. Para conquistar a reivindicação central, a revolta deflagra um processo explosivo, que é necessariamente freado no momento em que se atinge a conquista.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a tática é eficiente, o salto organizativo já nasce castrado e vai existir apenas como vislumbre. A breve perda de poder sobre as ruas permite entrever outro poder, um poder popular, tão palpável quanto inalcançável naqueles dias. Ao existir justamente na tensão entre uma minoria altamente organizada e uma maioria não organizada, a revolta popular limita a si mesma. Pois, ao mesmo tempo que, na luta contra o aumento de São Paulo, a população agiu diretamente sobre sua vida, não é menos certo que existia um comando que decidia o que fazer. Se depois de junho uma parte da esquerda avaliou que o problema no processo era a carência de uma “direção revolucionária”, nos parece o contrário: nas revoltas contra o aumento, o que falta – e por isso se trata de revoltas – é horizontalidade, ou seja, poder direto dos que estavam nas ruas sobre o que estavam fazendo, algo que depende da existência de estruturas enraizadas no dia a dia dos trabalhadores.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A revolta popular deve sair do controle — é nessa perda de controle que se permite conceber, pensar, sentir, viver uma transformação social, ainda que inconstante e muito breve. E, assim, junho passou; a revolta arrefeceu e foi administrada. Por um lado, forças repressivas aprenderam a dispersar as marchas, a destruir barricadas. Por outro lado, de dentro das revoltas, despontaram interesses partidários institucionais que colocaram essa energia para girar a máquina de disputa de votos. “Os protestos entram nos cálculos dos políticos, da imprensa e das seguradoras. A rua como fim em si mesma é um beco sem saída”. Dessa maneira, Caio e Leonardo apontam para o esgotamento da tática da revolta popular, não por deixar de existir, mas porque não foi possível ir além dela.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dizer que a tática histórica que aqui chamamos de “revolta popular” se esgotou não é, em nenhuma instância, decretar o fim da revolta – aquela atitude que há séculos pulsa entre os dominados. Ao contrário, esta nunca esteve tão presente: desde junho, a disposição à luta só cresceu. Mas o que construímos além dessa disposição? Milhões saíram às ruas e, de volta à casa, ao bairro, ao local de trabalho, voltaram à rotina de sofrimentos e humilhações (talvez um pouco mais indignados)? Embora tenha produzido ecos, o momento de mobilização não conseguiu ir além de si mesmo, não encontrou continuidade em um momento de organização.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Alguns anos mais tarde, Francesc e El Quico escreveram<a href="https://passapalavra.info/2021/03/136271/" target="_blank" rel="noopener"> outro texto para este site</a> que ecoa as formulações apresentadas. Com um ano de pandemia e dois de governo Bolsonaro, os conflitos na sociedade brasileira se acumulavam. O trabalho urbano ganhava uma nova fisionomia, marcada agora pela<a href="https://blogdaboitempo.com.br/2020/07/30/breque-no-despotismo-algoritmico-uberizacao-trabalho-sob-demanda-e-insubordinacao/" target="_blank" rel="noopener"> gestão algorítmica do trabalho precarizado</a>, que aumentou na pandemia. E nesse cenário, Francesc e El Quico identificam que a esquerda se retirava do conflito &#8211; para eles, há nas fileiras da esquerda, um temor pelo conflito que acabam “imobilizando sua capacidade de imaginar conflitos que não terminem por voltar-se contra ela mesma”. Daí se deriva o caráter restauracionista do progressismo brasileiro, enquanto “os reacionários se tornaram progressistas no sentido de que querem acelerar o tempo e adiantar o futuro”, como escreve <a href="https://blogdaboitempo.com.br/2019/07/23/a-decisao-fascista-e-o-mito-da-regressao-o-brasil-a-luz-do-mundo-e-vice-versa/" target="_blank" rel="noopener">Felipe Catalani</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a esquerda via-se enredada na manutenção governamental da administração securitária do colapso social — o que necessariamente resulta na incapacidade de transformar o mundo. Mais do que isso, como se olha essa situação com os olhos de um passado idílico, carece na esquerda os instrumentos epistemológicos e organizacionais para pensar a partir desse novo terreno social. O mapeamento cognitivo que fez sentido para a esquerda, baseado num mundo do trabalho relativamente estável e em instituições democráticas e republicanas mais ou menos consolidadas, parecia dar régua e compasso à ação da esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">O capital, enquanto processo cego, automático e contraditório, não permite que sua existência seja sempre idêntica ao longo da história. Enquanto forma social, o capital se reproduz de modo contraditório. Na medida em que busca aumentar a produtividade do trabalho para abocanhar uma fatia sempre crescente de mais-valor, ele impede a valorização de acontecer, pois, no mesmo golpe, expulsa o trabalho vivo das tramas produtivas. Assim, em sua ânsia de valorização, acaba tornando a si mesmo anêmico de valor. Essa dinâmica contraditória foi primeiramente exposta por Marx, mas foi mantida como contribuição marginal à esquerda marxista. O diagnóstico de Marx envolveu reconhecer a necessidade da crise. Contudo, essa leitura foi negligenciada pelas organizações políticas que se diziam inspiradas em seus escritos. Há causa para essa situação controversa: o diagnóstico não cabia na gramática política, que, desde antes de Marx, já colocava o trabalho como categoria privilegiada da ação política. Colocar ênfase na crise do trabalho e em sua obsolescência significaria a dissolução de sua gramática política — o que definitivamente aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Seja como for, essa interpretação marxiana ficou relegada às correntes subterrâneas do marxismo e apenas germinou novamente quando se tornou patente a situação descrita por Marx um século antes. A crise se instalou à medida que os desenvolvimentos das forças produtivas, propiciados pela revolução da robótica, da programação e da microeletrônica, se disseminavam: a elevação da produtividade é tamanha que o trabalho, enquanto mediação social, torna-se estruturalmente supérfluo ao capital. Situação percebida não só pelos marxistas subterrâneos, mas também pelo nosso presidente-sociólogo tucano: agora há os inempregáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses estão fora do mundo do trabalho — a sobrevivência dessa classe crescente depende da viração. Uma vez que uma massa de “<a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/12/04/mais!/18.html" target="_blank" rel="noopener">ex-proletários virtuais</a>” já não encontra como se inserir nessa gramática política, o mapeamento cognitivo que permitia estruturar a prática política por meio das organizações vai ao chão. A despeito, é claro, do sincero apego de muitos em relação a essas formas, o que ocorre nas últimas décadas do século XX e se intensifica ao longo do século XXI é a dissolução dessas formas sociais. As categorias que determinaram a existência social por muito tempo vêm se erodindo. Trata-se de uma impossibilidade lógica de continuar a utilizá-las para substancializar o mapeamento cognitivo de nossa realidade em crise.</p>
<p style="text-align: justify;">A complexidade não diminuiu em nada — o mundo não se tornou mais transparente porque as determinações de existência impostas pelo processo social do capital entraram em debacle. Ao contrário, a situação embaralha ainda mais nossa capacidade de tomar ações comensuráveis à realidade social. Embaralha-se porque as formas pelas quais era possível estabelecer a transitividade entre as escalas, do local ao global, do específico ao geral, também são corroídas pela crise.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo de crise contemporâneo colocou um desafio, podemos dizer, metapolítico para a tradição que se dedica não só à interpretação do mundo, mas também à sua transformação. Para pensar uma resposta comensurável com a realidade do <a href="https://sentimentodadialetica.org/dialetica/catalog/book/132">novo tempo do mundo</a> é preciso pensar uma resposta comensurável com a realidade em que uma organização política se encontra.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem mais um mapa da realidade, “É por aí que se deve compreender a ressurreição periódica e intempestiva do trabalho de base e certas noções meio franciscanas de solidariedade e autodisciplina” &#8211; como escrevem Franscesc e El Quico. Curiosamente, às vezes, as saídas são mais fetichistas do que a porta de entrada nessa realidade social em desagregação.</p>
<p style="text-align: justify;">Se, por motivos de desposessão originária, as pessoas em todo o mundo tornaram-se trabalhadoras, durante um tempo, essa condição de reprodução social compartilhada servia de âncora política para a ação. Agora, parece que “a única alternativa é seguir na correria sem fim, se virando em condições mais e mais adversas”, como ensina a <a href="https://www.xn--estilhao-y0a.com.br/masterclassdofimdomundo" target="_blank" rel="noopener"><i>Masterclass de fim do mundo</i></a>. A reprodução social passa agora por uma miríade de estratégias que frequentemente prescindem da forma-trabalho, o que, claro, produz efeitos políticos profundos, como tentei escrever em um texto anterior para este site. Nessas condições, a ação política toma a forma de motins que não permite o acúmulo de forças:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sem o antigo “horizonte de ‘conquistas’ a serem acumuladas, numa perspectiva mais ampla de integração progressiva”, o que resta às lutas do nosso tempo é refluir aos poucos ou escalar imediatamente, assumindo, sem qualquer mediação, formas insurrecionais (sem antes e depois).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Há luta, insurgência e conflito na sociedade, “tão intensos quanto descontínuos, sem jamais assumir formas estáveis” &#8211; continua a <i>Masterclass</i>.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na viração das esquinas, entre “empregos de merda” e “trampos” temporários – ali onde não há nada de promissor à vista a não ser cair fora –, a insubordinação irrompe com a mesma urgência, o mesmo imediatismo da produção just in time. Os conflitos explodem como um gesto desesperado, um grito de “foda-se” em que se misturam “sofrimento, frustração e revolta”, frequentemente sob a forma de um ato de desforra individual – ou, quando muito, coletiva. Assim como a recente onda de deserções do trabalho nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, a debandada dos call centers nos primeiros dias da pandemia no Brasil era um sinal de recusa a uma rotina que, para arcar com a “normalidade” em colapso, torna-se ainda mais infernal. A cada nova emergência – sanitária, ambiental, econômica, social –, gira o parafuso da intensificação do trabalho, todos integralmente mobilizados num esforço sem fim em que não se formam senão “experiências negativas”. Se os “não-movimentos” trazem uma boa notícia, contudo, ela é justamente essa: eles “indicam que o proletariado já não tem nenhuma tarefa romântica”, sem ter nada a esperar e também nada a perder.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Voltemos a 2013. Caio e Leonardo, no primeiro texto resenhado aqui, notam que “ Se não saímos de 2013 com um aumento na organização dos de baixo, talvez o terreno para essa organização esteja mais fértil. Ao apontar para algo vivo para além do cotidiano morto de consensos e consentimentos, junho quebrou o feitiço”. Se essa afirmação “envelheceu mal” como se diz, não é por erro de análise dos camaradas no calor do momento, mas porque a própria realidade agudizou suas contradições em direção ao cenário de desagregação social e de motins sem acúmulo. O que interessa, contudo, é o questionamento levantado pelos autores ao final do texto: “Como fazer com que o vislumbrado passe do possível para o real? É, no mínimo, indispensável superar a centralidade da tática de revolta e formular uma perspectiva estratégica mais ampla, a perspectiva de uma recusa mais potente, enraizada no cotidiano. É preciso construir o que se tornou imaginável.” Questão que foi acompanhada por outras colocadas por Leo Vinicius, em um <a href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/#comment-232857" target="_blank" rel="noopener">comentário ao texto</a>: “É possível ir além da ‘revolta popular’ quando a tarifa aumenta (e lembrando que são relativamente poucas vezes que há manifestações com forte adesão quando elas aumentam), em direção a uma construção/situação de conflito permanente? É possível ir da greve na cidade-fábrica à construção do conflito permanente na cidade-fábrica? É possível construir um conflito cotidiano, permanente no transporte coletivo, que torne cada vez mais insustentável a forma de organização/gestão do transporte, abrindo caminho para a tarifa zero? Se sim, como?”</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se navega de dentro da crise, encontramos um cenário de crise que acumula adversidades, dificultando a construção da centralidade da tática da revolta. O mundo do trabalho entre o emprego de merda, a uberização, e o empreendedorismo; a renda familiar carcomida por pagamento de juros dos endividamentos sucessivos ou da fantasia nas apostas online; a presença irremediável de recursos dos programas assistenciais do Estado ou das igrejas, entre tantos outros. Contudo, essa mesma crise parece oferecer possibilidades de ação que não colocam a centralidade no conflito, mas sim no território.</p>
<p style="text-align: justify;">Por território, entendo o conjunto de relações de reprodução social que ocorrem em um determinado espaço. O território é o lugar onde o cotidiano acontece. São várias as experiências militantes que parecem produzir uma sobrevida temporal das experiências de luta a partir da construção de um vínculo territorial. As ZADs, as ocupações, os territórios liberados. <a href="https://www.glacedicoes.com/product-page/casa-encantada-renato-baruq" target="_blank" rel="noopener">Baruq</a>, da ocupação em BH, Kasa Invisível, compreende a importância de se construir infraestruturas reprodutivas para liberar pessoas das relações sociais capitalistas, permitindo que mais energia seja dispendida em organização e em luta (inclusive na produção de revoltas populares) do que a energia gasta no trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Desta maneira, pensar o território é pensar em como conferir perenidade à revolta, que é, por natureza, fugaz. É dar continuidade a algo descontínuo. Um território pode surgir de uma revolta — não foi isso que aconteceu, por exemplo, na <a href="https://fpabramo.org.br/editora/wp-content/uploads/sites/17/2021/05/Luxo-Comunal.pdf" target="_blank" rel="noopener">Paris de 1870</a> ou em <a href="https://web.archive.org/web/20200610164217/https://industrialworker.org/the-birth-of-the-capitol-hill-autonomous-zone/" target="_blank" rel="noopener">Capitol Hill, de 2020</a>? É no território que é possível a fusão entre política e cotidiano, militância e reprodução. Nessas condições, a ação política não se torna um momento de interrupção dos fluxos da cidade, mas estende-se ao cotidiano. Mesmo nos casos efêmeros, como a Comuna (72 dias) ou a Capitol Hill Autonomous Zone (23 dias), há um saldo: a transformação se colou ao cotidiano.</p>
<p style="text-align: justify;">Claro, se um determinado território vai se tornar uma plataforma eleitoral, de comércio ou mais um bairro comum — perdendo seu vínculo com uma política de transformação social —, o tempo revelará. Ou então, pode ser massacrado, despejado e perdido. Frequentemente, esse parece ser o destino dos territórios.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata aqui de negar os conflitos — ou não apostar nos conflitos como faíscas para incendiar o rastilho de pólvora de uma vida desgraçadamente incorporada ao colapso que vivemos. Por exemplo, <a href="https://illwill.com/memes-without-end" target="_blank" rel="noopener">Wohleben </a>reconhece que “O que importa é identificar, nesta ou naquela situação, como práticas anônimas, sem dono e inapropriáveis, originárias da vida cotidiana, são magnetizadas por conflitos, e qual o alcance potencial que cada uma delas ainda pode ter.”</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos, mais uma vez, a 2013. No dia 27 de junho de 2013, numa ocupação da prefeitura de São Paulo convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL) no contexto da onda de grandes manifestações que tomou as ruas de todo o Brasil, ocorreu uma <a href="https://www.youtube.com/watch?v=QyPBUDlV4d4" target="_blank" rel="noopener">aula pública com Paulo Arantes</a>. O professor tratou de responder a seguinte questão: Como se explica o fato de que um milhão de pessoas tomaram as ruas das metrópoles brasileiras em menos de uma semana? O próprio filósofo já descarta a resposta usual que atribuía importância à internet e às novas redes sociais, que tentava explicar Occupy Wall Street, Primavera Árabe ou a experiência das acampadas dos Indignados espanhóis. Para tanto, Paulo Arantes faz uma resenha de um <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/a-revolucao-nao-sera-tuitada/" target="_blank" rel="noopener">artigo de Gladwell</a> no qual busca pensar as condições da livre associação com potência de transformação.</p>
<p style="text-align: justify;">Gladwell então recupera uma pequena história do movimento negro por direitos civis na segunda metade do século XX nos Estados Unidos, uma sociedade profundamente segregada.  A história é sobre quatro jovens negros, calouros na North Carolina A&amp;T, uma faculdade para negros. Eles entraram numa lanchonete e se sentaram na área destinada aos brancos (os negros deviam se alimentar de pé no balcão). Um deles pediu: “um café por favor”. A atendente recusou e lembrou os jovens que não poderiam se sentar naquele local, mas insistiram no pedido e não saíram da posição a despeito do risco de serem linchados. Brancos, que provavelmente estavam dispostos a tomarem tal atitude, se colocaram logo atrás dos jovens negros e proferiram as ameaças mais terríveis contra eles, mas, ainda assim, continuaram sentados até o fechamento da lanchonete e, no dia seguinte, retornaram ao mesmo local e repetiram o pedido. Continuaram durante a semana inteira, enquanto corria a notícia por todo o Estado, e, em menos de dez dias, caravanas de negros que se organizavam foram até a pequena cidade do interior de 50.000 habitantes, até o momento em que esses peregrinos militantes eram equivalentes a metade da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O que interessa é notar as condições que permitiram tal ato de existir e de lograr sucesso. Paulo percebe três características fundamentais: i. vínculos fortes entre os envolvidos, de amizade e camaradagem &#8211; ou seja, uma rede através das quais ações podem repercutir e se acumular; ii. a implicação do corpo de cada um em uma situação de risco compartilhado com seus amigos &#8211; uma vez que o corpo negro faz diferença no sistema de opressão racializada e; iii. o envolvimento em uma mesma causa, ou seja, a capacidade de adotar uma perspectiva comum, a partir da qual as perturbações sociais produzidas pelo “experimento” dos estudantes podiam ser reconhecidas e transmitidas entre todos os que se engajaram na luta.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas características marcaram, por exemplo, a experiência política dos Black Panther Party: trata-se de uma forma de organização comunitária para que jovens negros permaneçam vivos, atrelada fortemente aos vínculos cotidianos, aos riscos corridos e ao compartilhamento da pauta. Frequentemente esquecidos, os Panteras Negras organizaram, por mais de uma década, <a href="https://blackpast.org/african-american-history/black-panther-partys-free-breakfast-program-1969-1980/" target="_blank" rel="noopener">o programa de cafés da manhã</a> para as crianças das comunidades negras onde atuavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse tipo de atuação desloca o eixo que tradicionalmente caracterizou a prática política. Nesse formato clássico, o espaço da política é um espaço separado da vida cotidiana — baseado nas ideias de representação que informaram tanto a democracia formal quanto a ação de muitas das organizações revolucionárias por aí. Uma forma de organização da política, direcionada ao que estou chamando aqui de território, produz uma aproximação, um amálgama entre o gesto político e a prática reprodutiva cotidiana. Como escreve Wohleben, “Podemos até dizer que o verdadeiro movimento começa no momento em que as pessoas deixam de procurar alguma fonte externa para legitimar suas ações e passam a confiar e agir de acordo com sua própria sensibilidade, sua própria percepção do que faz sentido e do que é intolerável. A partir desse momento, todo o aparato da política oficial começa a entrar em colapso, permitindo que todos vejam que ele é o inferno gerencial que realmente é.” O mesmo autor reconhece que o verdadeiro horizonte dessas ocupações do espaço não é interromper o fluxo da economia, mas “produzir bases territoriais habitadas” e que, assim, permita colocar a ação política no “mapa da vida cotidiana”.</p>
<p style="text-align: justify;">Duas citações podem, talvez, iluminar meu argumento. A primeira, de Marx, nos <a href="https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/cap05.htm" target="_blank" rel="noopener">Manuscritos de 1844</a>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Quando artesãos comunistas formam associações, o ensino e a propaganda são seus primeiros objetivos. Mas, sua própria associação cria uma necessidade nova &#8211; a necessidade da sociedade &#8211; o que parecia ser um meio torna-se um fim. Os resultados mais notáveis desse fato prático podem ser vistos quando operários socialistas franceses se reúnem. Fumar, comer e beber não mais são meios de congregar pessoas. A sociedade, a associação, o divertimento tendo também como fito a sociedade, é suficiente para eles; a fraternidade do homem não é frase vazia, mas uma realidade, e a nobreza do homem resplandece sobre nós vindo de seus corpos fatigados.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Cento e setenta e cinco anos depois, <a href="https://illwill.com/print/memes-with-force" target="_blank" rel="noopener">Torino e Wohleben</a>, escrevem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Foram estas últimas lutas que mais claramente provaram a eficácia estratégica de armar “lugar” como elemento de ataque, de converter a habitação vital de um território de vida intensa em um meio de deslegitimação da gestão estatal e econômica. Ao mesmo tempo, a manobra dos Coletes Amarelos é diferente. Em vez de muitas pessoas de toda a Europa convergindo em duas ou três “zonas a defender”, as rotundas de Coletes Amarelos permanecem próximas da vida cotidiana. Esta proximidade à vida cotidiana é a chave para o potencial revolucionário do movimento: quanto mais próximos os bloqueios estiverem da casa dos participantes, mais provável é que esses lugares se tornem pessoais e importantes de um milhão de outras formas. E o fato de ser uma rotunda que é ocupada em vez de uma floresta ou um vale retira o conteúdo prefigurativo ou utópico desses movimentos. Embora isto possa parecer, à primeira vista, uma fraqueza, pode revelar-se uma força.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Apesar da distância histórica, elas se encontram ao elucidar uma questão de método: é no compartilhamento de um território, a partir de práticas cotidianas de reprodução da vida, que reside a possibilidade de transformação. Como escrevem Torino e Wohleben, “É a constituição de lugares coletivos que forma o núcleo destituinte/revolucionário do movimento, que supera a oposição entre a revolta e a vida cotidiana”.  A ação política transformadora não estaria fundamentada essencialmente no local de trabalho ou na figura do trabalhador, nem na identidade territorial delimitada, nem em um evento de verdade, muito menos em uma campanha eleitoral apoteótica, mas sim em questões de reprodução social que atravessam o tecido social e constituem um território. Talvez esteja aí o lugar para pensarmos uma estratégia política para o tempo presente.</p>
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		<title>Protestos contra a falta de luz se espalham pela Grande São Paulo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Dec 2025 02:17:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autorais]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[Podem a água e o vento aumentar a chama da revolta? Por Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Passa Palavra</h3>
<p style="text-align: justify;">Desde a chuva que castigou São Paulo na última terça-feira, 10, e a ventania do dia seguinte, milhões de paulistas continuam sem energia elétrica. Em vários bairros da capital moradores estão há quatro dias sem luz. Além da demora para restabelecer o fornecimento de energia, funcionários que prestam serviço para a concessionária, a multinacional italiana Enel, foram flagrados cobrando propina para religarem a luz. Um funcionário foi <a href="https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2025/12/12/funcionario-da-enel-preso-por-pedir-propina-religou-energia-em-15-segundos.htm" target="_blank" rel="noopener">preso em flagrante após cobrar R$ 2,5 mil</a> de moradores para religar a energia no bairro da Vila Mariana. Diante do descaso, os protestos se generalizaram.</p>
<p style="text-align: justify;">Na quinta-feira, um morador da Zona Oeste de São Paulo enviou uma mensagem em grupos de WhatsApp convocando os vizinhos para se manifestarem:</p>
<blockquote><p>Familia, boa noite pra nois e um forte abraco<br />
Aqui na minha quebrada nois ta indo pro terceiro dia sem luz, nois ta ligando de montão pra enel la e toda hora dão um prazo diferente, mas mó boqueta, tem gente que recebeu a previsão que o bagulho so volta na segunda, ta tudo muito incerto e nossa quebrada sempre passa por isso, sou residente aqui da Cohab Raposo Tavares, no km 19 da raposo, na zona oeste</p>
<p>Se o barato num voltar ate amanha, nois ta se mobilizando pra fazer alguma fita aqui na rodovia</p>
<p>Quem puder colar, que for aqui da região e pa, da um salve, por gentileza</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na noite do mesmo dia, na Zona Noroeste, um protesto fechou a Rodovia Anhanguera na altura do km 19:</p>
<p style="text-align: justify;"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/hqbk9LNGIQ8?si=JRwqB3c2Xx-x4CWB" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;">Mas foi na manhã de sexta-feira que os protestos se espalharam por toda a região metropolitana.  No Grajaú, Zona Sul, moradores atearam fogo em pneus e bloquearam a Avenida Belmira Marin, principal via de acesso da região:</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSK8Q3jkWH1/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
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<div>
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<div style="width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);"></div>
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</div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSK8Q3jkWH1/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Grajau tem (@grajautem)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script> No <a href="https://www.instagram.com/reel/DSKtd7lDTD8/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igsh=MzRlODBiNWFlZA==" target="_blank" rel="noopener">Marsilac</a> e na <a href="https://www.instagram.com/reel/DSLhAJUjfqK/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igsh=MzRlODBiNWFlZA==" target="_blank" rel="noopener">Chácara Santo Amaro</a> também houve protestos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Santo André, moradores do Clube de Campo atearam fogo em pedaços de madeira e bloquearam a rua para protestar</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLRVgAD9hi/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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</div>
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<div style="display: block; height: 50px; margin: 0 auto 12px; width: 50px;"></div>
<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
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<div>
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<div style="margin-left: 8px;">
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<div style="width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);"></div>
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<div style="margin-left: auto;">
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</div>
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<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 224px;"></div>
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</div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLRVgAD9hi/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Viva ABC (@vivaabc_)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script>No Jardim Miriam, foram registrados pelo menos três protestos. Um na Rua Francisco de Alvarenga, outro na Av. Ângelo Cristianini e um terceiro na Av. Cupecê</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLfGa-EtAS/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
<div style="padding: 16px;">
<p>&nbsp;</p>
<div style="display: flex; flex-direction: row; align-items: center;">
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<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 100px;"></div>
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</div>
</div>
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<div style="display: block; height: 50px; margin: 0 auto 12px; width: 50px;"></div>
<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
<div style="padding: 12.5% 0;"></div>
<div style="display: flex; flex-direction: row; margin-bottom: 14px; align-items: center;">
<div>
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<div style="margin-left: 8px;">
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<div style="width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);"></div>
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<div style="width: 0; height: 0; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-left: 8px solid transparent; transform: translateY(-4px) translateX(8px);"></div>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLfGa-EtAS/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Foco No Jardim Miriam (@foconojardimmiriam)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLiD-lAPpc/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
<div style="padding: 16px;">
<p>&nbsp;</p>
<div style="display: flex; flex-direction: row; align-items: center;">
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</div>
<div style="padding: 19% 0;"></div>
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<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
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<div>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLiD-lAPpc/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Foco No Jardim Miriam (@foconojardimmiriam)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLpiXVAEm6/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
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<div>
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<div style="width: 0; height: 0; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-left: 8px solid transparent; transform: translateY(-4px) translateX(8px);"></div>
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</div>
<div style="display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center; margin-bottom: 24px;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 224px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 144px;"></div>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLpiXVAEm6/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Foco No Jardim Miriam (@foconojardimmiriam)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<p style="text-align: justify;">Na Zona Oeste, manifestantes bloquearam o km 23 do Rodoanel Mário Covas e a Avenida Escola Politécnica com barricadas:</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLI3tnAQh_/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
<div style="padding: 16px;">
<p>&nbsp;</p>
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<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 40px; margin-right: 14px; width: 40px;"></div>
<div style="display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 100px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 60px;"></div>
</div>
</div>
<div style="padding: 19% 0;"></div>
<div style="display: block; height: 50px; margin: 0 auto 12px; width: 50px;"></div>
<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
<div style="padding: 12.5% 0;"></div>
<div style="display: flex; flex-direction: row; margin-bottom: 14px; align-items: center;">
<div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(0px) translateY(7px);"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; height: 12.5px; transform: rotate(-45deg) translateX(3px) translateY(1px); width: 12.5px; flex-grow: 0; margin-right: 14px; margin-left: 2px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(9px) translateY(-18px);"></div>
</div>
<div style="margin-left: 8px;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 20px; width: 20px;"></div>
<div style="width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);"></div>
</div>
<div style="margin-left: auto;">
<div style="width: 0px; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-right: 8px solid transparent; transform: translateY(16px);"></div>
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</div>
</div>
<div style="display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center; margin-bottom: 24px;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 224px;"></div>
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</div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLI3tnAQh_/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Diego Nascimento (@reporter_davila)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLVy64ERoD/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
<div style="padding: 16px;">
<p>&nbsp;</p>
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<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 100px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 60px;"></div>
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</div>
<div style="padding: 19% 0;"></div>
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<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
<div style="padding: 12.5% 0;"></div>
<div style="display: flex; flex-direction: row; margin-bottom: 14px; align-items: center;">
<div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(0px) translateY(7px);"></div>
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<div style="margin-left: 8px;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 20px; width: 20px;"></div>
<div style="width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);"></div>
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<div style="margin-left: auto;">
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<div style="width: 0; height: 0; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-left: 8px solid transparent; transform: translateY(-4px) translateX(8px);"></div>
</div>
</div>
<div style="display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center; margin-bottom: 24px;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 224px;"></div>
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</div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLVy64ERoD/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Jornal News Butantã (@jornalnewsbutanta)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLm038jUsO/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
<div style="padding: 16px;">
<p>&nbsp;</p>
<div style="display: flex; flex-direction: row; align-items: center;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 40px; margin-right: 14px; width: 40px;"></div>
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<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 100px;"></div>
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</div>
<div style="padding: 19% 0;"></div>
<div style="display: block; height: 50px; margin: 0 auto 12px; width: 50px;"></div>
<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
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<div style="display: flex; flex-direction: row; margin-bottom: 14px; align-items: center;">
<div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(0px) translateY(7px);"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; height: 12.5px; transform: rotate(-45deg) translateX(3px) translateY(1px); width: 12.5px; flex-grow: 0; margin-right: 14px; margin-left: 2px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(9px) translateY(-18px);"></div>
</div>
<div style="margin-left: 8px;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 20px; width: 20px;"></div>
<div style="width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);"></div>
</div>
<div style="margin-left: auto;">
<div style="width: 0px; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-right: 8px solid transparent; transform: translateY(16px);"></div>
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</div>
<div style="display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center; margin-bottom: 24px;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 224px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 144px;"></div>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLm038jUsO/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Jornal News Butantã (@jornalnewsbutanta)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<p style="text-align: justify;">Na região central moradores do Bixiga também protestaram:</p>
<p style="text-align: justify;"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/geEnpxcGrz4?si=kdFZ6PZHqRbfLGRR" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;">No momento em que escrevíamos esse relato, estavam em curso dois protestos na Zona Sul, um no Jardim Novo Horizonte e outro na Vila São José:</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLvtD1iRCR/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
<div style="padding: 16px;">
<p>&nbsp;</p>
<div style="display: flex; flex-direction: row; align-items: center;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 40px; margin-right: 14px; width: 40px;"></div>
<div style="display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 100px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 60px;"></div>
</div>
</div>
<div style="padding: 19% 0;"></div>
<div style="display: block; height: 50px; margin: 0 auto 12px; width: 50px;"></div>
<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
<div style="padding: 12.5% 0;"></div>
<div style="display: flex; flex-direction: row; margin-bottom: 14px; align-items: center;">
<div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(0px) translateY(7px);"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; height: 12.5px; transform: rotate(-45deg) translateX(3px) translateY(1px); width: 12.5px; flex-grow: 0; margin-right: 14px; margin-left: 2px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(9px) translateY(-18px);"></div>
</div>
<div style="margin-left: 8px;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 20px; width: 20px;"></div>
<div style="width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);"></div>
</div>
<div style="margin-left: auto;">
<div style="width: 0px; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-right: 8px solid transparent; transform: translateY(16px);"></div>
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</div>
</div>
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<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 224px;"></div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 144px;"></div>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLvtD1iRCR/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Jardim Mirna (@focojardimmirna)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLpsp0FDGk/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
<div style="padding: 16px;">
<p>&nbsp;</p>
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<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 60px;"></div>
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</div>
<div style="padding: 19% 0;"></div>
<div style="display: block; height: 50px; margin: 0 auto 12px; width: 50px;"></div>
<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
<div style="padding: 12.5% 0;"></div>
<div style="display: flex; flex-direction: row; margin-bottom: 14px; align-items: center;">
<div>
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(0px) translateY(7px);"></div>
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<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(9px) translateY(-18px);"></div>
</div>
<div style="margin-left: 8px;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 20px; width: 20px;"></div>
<div style="width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);"></div>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLpsp0FDGk/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Grajau tem (@grajautem)</a></p>
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</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<p style="text-align: justify;">Com as chuvas desta sexta-feira, <a href="https://timesbrasil.com.br/brasil/numero-de-residencias-sem-luz-em-sao-paulo-volta-a-subir-veja-o-que-diz-enel/" target="_blank" rel="noopener">o número de moradores sem luz voltou a subir.</a> Segundo informações da concessionária Enel, 750 mil clientes ainda estavam sem luz. Às 19h30 eram 710 mil. A previsão para o final de semana é de mais chuvas e ventanias na região, o que pode agravar a situação e gerar novos protestos. Podem a água e o vento aumentar a chama da revolta?</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Comédia dos Erros: Trabalho e Organização no Teatro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Nov 2025 05:35:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>
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					<description><![CDATA[A hierarquia e a estrutura do meu local de trabalho provavelmente são familiares a qualquer pessoa que trabalhe em grandes instituições culturais. Por Jez]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jez</h3>
<p style="text-align: justify;">A vida de um ator profissional é de absoluta precariedade. Você está sempre em busca do próximo emprego, normalmente antes mesmo do atual terminar. Para sobreviver entre papéis, você precisa assumir contratos instáveis e mal remunerados, geralmente dentro das mesmas instituições em que se esforça para atuar. Assumir contratos de tempo integral ou se candidatar a empregos mais bem remunerados e seguros significaria abrir mão da flexibilidade necessária para encontrar trabalho como ator. As horas de audições, ensaios e temporadas não podem coexistir com o compromisso de tempo de um papel permanente. Este é o ciclo de instabilidade que nos aprisiona na profissão. Embora muitos atores no cinema possam contar com o dinheiro ganho em uma apresentação para se sustentar até o próximo papel, os salários no mundo do teatro raramente são altos o suficiente para que você não precise assumir trabalhos adicionais e trabalhos temporários entre os papéis. Isso, como resultado, significa que sempre há um grande grupo de aspirantes a atores para serem empregados de forma rápida e barata em instituições de teatro e artes.</p>
<p style="text-align: justify;">O que documento abaixo não é exclusivo meu, nem apenas do teatro em que trabalho atualmente, mas de basicamente todos os atores de teatro — mesmo aqueles que trabalham em instituições de prestígio como o <em>National Theatre</em> — que não contam com uma herança para se sustentar. Muitas vezes, parece que o ambiente de trabalho se torna ativamente hostil para alguns, a fim de manter um fluxo constante de novos trabalhadores — aqueles que ainda se lembram de condições melhores são forçados a sair, e uma memória compartilhada é destruída.</p>
<p style="text-align: justify;">Atuar é uma das minhas formas favoritas de dedicar o meu tempo, mas o estilo de vida que atualmente acompanha essa profissão não é. No entanto, a vida de um ator de teatro nem sempre foi assim. Historicamente, os atores tinham mais controle, mais estabilidade e mais voz ativa sobre seu trabalho e sua mão de obra. No século XVII, os atores faziam parte de uma companhia e, muitas vezes, eram acionistas do próprio negócio — em termos modernos, isso significa que eles tinham um contrato em tempo integral, renda estável e até mesmo pagamentos extras se seus espetáculos fossem populares. Eles também tinham voz ativa sobre o roteiro que seria encenado, como seria encenado e em que o dinheiro da produção deveria ser gasto. Isso não é para glorificar o passado — muitas vezes havia condições terríveis e dinâmicas de poder exploradoras em jogo entre patrões e atores —, mas sim para apontar para o fato de que o trabalho de atuação tem sido organizado de maneira diferente e portanto também pode ser no futuro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Meu Trabalho Atual</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, trabalho em um grande teatro, que valoriza muito sua história e linhagem, e que foi fundado por um comunista declarado e vigiado &#8211; uma ironia profunda, mas apropriada, considerando como é trabalhar lá. A hierarquia e a estrutura do meu local de trabalho provavelmente são familiares a qualquer pessoa que trabalhe em grandes instituições culturais, com divisões não apenas em torno de raça, gênero, sexualidade e origem de classe, mas também entre aqueles que buscam um trabalho “criativo” e aqueles que estão lá simplesmente para trabalhar e sobreviver.</p>
<p style="text-align: justify;">Há trabalhadores contratados para limpar, manter e fazer a segurança do local, e são quase todos pessoas não-brancas, muitas vezes migrantes e na meia-idade. São trabalhadores terceirizados de empresas externas, mantidos separados do restante da equipe e do funcionamento do teatro como um todo. Há funcionários de recepção e guias &#8211; geralmente jovens, estudantes ou recém-formados &#8211; que geralmente são atores, trabalhando entre ou paralelamente a seus papéis no palco. Esta é uma força de trabalho mais diversificada, pelo menos em comparação com o restante do teatro, particularmente com muitos trabalhadores LGBTQ+ neste nível. Há um nível gerencial inferior &#8211; em grande parte jovem e branco, menos engajado em atuar ou trabalhar na criação, obrigado a policiar e vigiar os trabalhadores abaixo deles. Depois, há a alta gerência: eles trabalham em casa, vivem em grande parte fora da cidade e realmente não sabem quem somos &#8211; ou sequer parecem se importar. Uma coisa que se torna óbvia para qualquer pessoa no teatro é que seu compromisso vocal com a inclusão é apenas superficial; quando um conjunto diversificado de atores está no palco, ele pode projetar seus “valores” para o público, mas quando eles são apenas parte de uma equipe de recepção mal paga, eles são uma força de trabalho descartável para ser deixada de lado e mantida em silêncio.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma grande fonte de renda para o meu teatro é oferecer tours históricos; o legado e a fama do local estão lá para serem explorados, tanto quanto seus trabalhadores. Nos meses de verão, quando há mais turistas e visitantes, espera-se que lideremos de 1 a 4 tours por dia, cada um com cerca de uma hora de duração, com trabalhos burocráticos entre eles apenas para preencher o tempo; ficar por ali esperando perguntas do público, vigiando salas vazias sem sequer um livro para nos fazer companhia. A gerência de nível inferior sabe que esses trabalhos idiotas estão se expandindo para preencher o tempo, mas não há poder para contestar isso &#8211; pense em todo o trabalho criativo e energia que poderiam ser gastos entre os tours, que, em vez disso, são desperdiçados, apenas sentados… Isso não seria tão ruim, mas uma cultura séria de vigilância nos mantém policiados e na linha.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158196 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/november-wong-tYhHsuSWjCY-unsplash.jpg" alt="" width="1920" height="1280" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/november-wong-tYhHsuSWjCY-unsplash.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/november-wong-tYhHsuSWjCY-unsplash-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/november-wong-tYhHsuSWjCY-unsplash-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/november-wong-tYhHsuSWjCY-unsplash-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/november-wong-tYhHsuSWjCY-unsplash-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/november-wong-tYhHsuSWjCY-unsplash-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/november-wong-tYhHsuSWjCY-unsplash-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/november-wong-tYhHsuSWjCY-unsplash-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Cada minuto precisa ser contabilizado; é anotado e marcado contra nós se chegarmos um minuto sequer atrasados ao trabalho, e esses minutos são somados ao longo do mês, resultando em reuniões condescendentes nas quais somos obrigados a prestar contas. Uma vez por hora, somos marcados com uma lista para verificar se estamos no lugar e na posição certos. O poder arbitrário de gerentes e supervisores paira sobre nossas cabeças, à medida que uma cultura gerencial se intensifica e uma contínua “profissionalização” esvazia qualquer criatividade que possamos ter na liderança dos passeios. Funcionários da recepção foram até demitidos pouco antes do fim do período de experiência &#8211; sem aviso prévio &#8211; simplesmente por estarem ao telefone, e trabalhadores foram mandados para casa simplesmente por denunciarem as más condições no teatro. Enquanto muitos dos escalões inferiores são compelidos a assumir esse trabalho de vigilância e controle, os escalões superiores que tomam as decisões não aparecem.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora nosso teatro possa frequentemente se apoiar na publicidade positiva de “todos os nossos funcionários são atores e artistas!” e o feedback oferecido pelos clientes visitantes seja de que eles valorizam acima de tudo o talento e a inventividade dos trabalhadores que lideram as visitasguiadas e palestras, a promessa e o status da “criatividade” são frequentemente usados como uma ferramenta para, às vezes, extrair mais trabalho e energia da equipe, e também como uma forma de impor hierarquias rígidas entre diferentes grupos de trabalhadores &#8211; “criatividade não é seu departamento”, nos dizem quando saímos da linha de nossas funções e tarefas sancionadas. Mesmo que sejam os tours e o trabalho comercial que geram maior receita para o teatro, é útil para a gerência manter os trabalhadores divididos dessa forma.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma pergunta cuja resposta parece obscura é: por quê? Por que remodelar o teatro e o nosso trabalho dessa maneira? Não parece haver nenhuma estratégia de longo prazo, um sentimento amplamente compartilhado por muitos trabalhadores não apenas em teatros, mas em muitos espaços culturais, além de um gerencialismo e profissionalização importados de outros setores corporativos. Além de cortar custos e tornar a equipe infinitamente flexível, não parece haver nenhuma visão sobre o que esses espaços podem servir, pelo menos para os trabalhadores do escalão mais baixo. Muitas grandes instituições sabem que o número de visitantes sempre as manterá vivas, então podem reduzir a qualidade de sua oferta, e as pessoas continuarão voltando.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Se Organizando no Trabalho</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Dada a gama de problemas em nosso local de trabalho, a necessidade de um sindicato forte e organizado para lutar por nossos interesses é clara. Mas o sindicato frequentemente reproduz exatamente as divisões e estruturas que existem para manter grupos de trabalhadores fracos e separados. O sindicato é visto como proteção para funcionários antigos, defendendo seus interesses e formas de trabalhar, em vez de estendê-lo a novos funcionários em posições muito diferentes. Sem qualquer preocupação em melhorar as condições daqueles abaixo deles, o sindicato se fecha &#8211; uma situação com a qual a gerência está evidentemente mais do que satisfeita. É óbvio que estaríamos em uma posição mais forte se estivéssemos organizados em todo o teatro &#8211; limpeza, segurança, recepção, até mesmo alguns gerentes de nível inferior &#8211; visto que compartilhamos condições de trabalho e experiência semelhantes, mas o status percebido e a divisão em equipes nos impedem de nos identificarmos uns com os outros e nos unirmos. Da mesma forma, considerando que os trabalhadores circulam entre os teatros em funções de meio período e contratos precários, a construção de atividades sindicais nesses locais de trabalho e entre eles pode ajudar a melhorar as condições em todos os lugares. Sempre há vislumbres de esperança &#8211; como quando reclamações coletivas são atendidas ou quando temos reuniões com a gerência que parecem produzir resultados &#8211; e alguns sucessos menores, como em relação à política de uniformes, que nos fazem sentir capazes de resistir à crescente onda de mudanças. O potencial para novas formas de organização existe, mas com a alta rotatividade de funcionários e o trabalho em condições precárias, é difícil que isso crie raízes.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma questão que temos defendido recentemente é a necessidade de maior flexibilidade no trabalho e de um meio de gerenciar e controlar coletivamente nosso tempo no trabalho. Se um de nós repentinamente precisar participar de um ensaio ou gravar para um teste ou audição, estaríamos em uma posição muito melhor se pudéssemos coordenar turnos e folgas com nossos colegas — trocando turnos e nos substituindo mutuamente conforme necessário, de forma mutuamente benéfica e fortalecedora. Mas esse poder é desnecessariamente assumido pelos gerentes, com a alocação de turnos e trabalho podendo ser usada de forma punitiva e como um meio de acumular trabalho sobre as pessoas. Isso se sobrepõe ao desaparecimento de espaços de ensaio acessíveis à equipe — para praticar, gravar material e, em última análise, para manter nossas vidas como atores. Novamente, a divisão entre equipe criativa e não criativa nos impede de, pelo menos, tentar existir tanto em profissões quanto em carreiras. Muitas pessoas assumem essas funções por serem reconhecidamente menos estressantes do que freelas ou outras funções de atendimento ao público, e você pode manter contato próximo com outros profissionais do teatro (com a possibilidade de descobrir outras funções ou construir seu perfil em uma rede de companhias teatrais). No entanto, à medida que o estresse desse trabalho aumenta, a realidade se instala: o trabalho no teatro não oferece uma fuga.</p>
<p style="text-align: justify;">Teatros alternativos frequentemente oferecem um modelo alternativo para a distribuição e a democracia do trabalho criativo e operacional. Por necessidade, atores e diretores também se tornam promotores e gerentes de palco, além de seu trabalho no palco e nos bastidores. Esses espaços são menores e dependem amplamente de subsídios, investimentos locais e financiamento coletivo, ou de benfeitores ricos; e eles têm problemas como qualquer outro teatro. No entanto, eles ajudam a apontar para uma divisão diferente do trabalho dentro do trabalho criativo e um modelo diferente para instituições de arte. Um grande sonho que tenho é ter trabalhos e produções teatrais que tornem transparente e democrático todo o trabalho envolvido na montagem de uma performance, com a equipe de apoio e o pessoal do local reconhecidos por suas contribuições e papéis, assim como atores, diretores e outras funções criativas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Conclusão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que tudo isso significa fundamentalmente para aqueles que querem “dar certo” na atuação? Essas realidades de trabalho e exploração afetam profundamente quem consegue sobreviver e se organizar na indústria. Os contratos de zero hora e temporários, os baixos salários e a ausência de licença médica que os acompanha; tudo isso leva a um enorme esgotamento. Para aqueles que desejam seguir a carreira de ator, isso garante a impossibilidade de comparecer a audições para papéis e uma enorme dificuldade em aceitar trabalhos de atuação, pois sempre precisaremos encontrar alguém para trocar de turno ou abrir mão de um turno completamente. Isso significa que temos menos probabilidade de conseguir papéis de ator ou de aceitá-los quando oferecidos. Ter que trabalhar em condições tão precárias &#8211; sob vigilância constante e com falta de respeito &#8211; leva a uma constante subestimulação e à falta de criatividade em nossa vida cotidiana.</p>
<p style="text-align: justify;">O impulso criativo que seguimos, nosso desejo de atuar e contribuir para o mundo do teatro, é minado e esmagado pelas instituições para as quais lutamos para atuar e produzir valor. As únicas pessoas que conheço que conseguem sobreviver felizes na indústria são aquelas com casas compradas para elas ou com pais disponíveis para “ajudá-las” quando estão entre empregos. Vejo uma enxurrada de atores da classe trabalhadora abandonando a carreira de ator, não por falta de talento, mas porque são simplesmente excluídos e, em última análise, desvalorizados pela indústria.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também sabemos o potencial que o mundo do teatro tem para contribuir politicamente para as lutas em curso &#8211; atores e diretores se mobilizaram pela Palestina de muitas maneiras, por exemplo. Noites de arrecadação de fundos com apresentações teatrais, novas peças e espetáculos criados em solidariedade, e a crescente conscientização dos trabalhadores do teatro sobre como seus locais de trabalho são cúmplices do genocídio. Vimos no meu teatro atores hasteando bandeiras palestinas durante as apresentações &#8211; rapidamente reprimidas pelos poderes constituídos, mas o espírito e a preocupação permanecem firmemente enraizados entre os trabalhadores. Esses conflitos apontam para um mundo teatral diferente, que reconhece o potencial criativo dos trabalhadores de todo o setor para contribuir com sua arte e trabalho para a sociedade em geral.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158198 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash.jpg" alt="" width="1920" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash-1536x1152.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/luis-morera-YUZ2r_bW-0Q-unsplash-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></p>
<blockquote><p>Traduzido <a href="https://notesfrombelow.org/article/comedy-of-errors-work-and-organising-in-a-theatre" target="_blank" rel="noopener">do inglês</a> por Thiago Penna Firme. A fotografia em destaque é de <a href="https://unsplash.com/pt-br/@kazuo513" target="_blank" rel="noopener">Kazuo Ota</a>. As demais fotografias são de <a href="https://unsplash.com/pt-br/@novemberwong" target="_blank" rel="noopener">November Wong</a> e <a href="https://unsplash.com/pt-br/@luismorerat" target="_blank" rel="noopener">Luis Morera</a>.</p></blockquote>
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		<title>O luto da luta: como lidar com as perdas na própria militância?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157950/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Oct 2025 12:24:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Falta lugar para analisarmos a nossa história vivida, para dar lugar para as memórias e experiências coletivas enquanto sujeitos coletivos. Por Karina Oliveira Martins]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Karina Oliveira Martins</h3>
<p style="text-align: justify;">A realidade está desesperadora. Para todo lado que olhamos é desmotivante e lastimável: genocídio na Palestina, perda contínua de direitos trabalhistas e sociais, sofrimento profundo generalizado, grandes queimadas contínuas, combate a parcos direitos ao aborto, crescimento contínuo da extrema-direita, entre tantas outras desgraças. Tudo vai construindo um cenário de aparente colapso civilizacional. O fim dos tempos parece estar logo ali e diante disso, qualquer transformação de melhora significativa parece impossível e a vontade que por vezes dá é só de jogar a toalha.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas engolimos seco e bradamos: “vamos à luta”. E eu não tenho dúvida de que se há uma saída é essa. É na construção de solidariedade e enfrentamento coletivo e organizado ao capital que a barbárie pode ser freada e se findar. Só que para efetivamente este brado ter um valor maior que um mero grito esvaziado de desespero, que já não convence nem quem grita, é necessário se haver com as particularidades de nosso tempo e os desafios concretos que isso coloca para a questão da construção das lutas e organizações.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O cenário histórico atual, como mencionado antes, é de perdas contínuas, em uma realidade cada vez mais atomizada, carente de uma cultura coletiva para lidarmos com tais perdas e de tempo para assimilá-las.</strong> O que se desdobra em perda de força coletiva e de horizontes políticos, como bem expressa a frase que ficou famosa com Mark Fisher de que “é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma realidade de perda não é nova para a classe trabalhadora e sua parcela organizada. Como bem coloca Enzo Traverso, <strong>“a história do socialismo é uma constelação de derrotas”</strong> (p.55) <strong>[1].</strong> Se chegamos até aqui é porque estamos reiteradamente perdendo e continuaremos perdendo. Ainda que haja conquistas pontuais e importantes, enquanto um novo horizonte não se impor, isto é, enquanto a sociedade capitalista não for destruída e uma sociedade comunista autogestionada não for construída, estaremos perdendo. Assim, o nosso campo de batalha, historicamente, se dá nas ruínas, sob elas e no que resta delas depois das lutas. Por isso, o autor nos fala de uma cultura melancólica de esquerda no século XX.</p>
<p style="text-align: justify;">O autor desenvolve sobre a especificidade de nossos tempos de capitalismo neoliberal, de um tipo de melancolia infrutífera, incapaz de encontrar algo para transcendê-la. Uma melancolia vinculada a uma visão trágica do mundo, em que tal visão “deriva de um sentimento de desespero. A tragédia surge quando não se logra vislumbrar nenhum horizonte, quando as pessoas se sentem perdidas em definitivo. Esse é o motivo, segundo Raymond Williams, de as tragédias e as revoluções se excluírem reciprocamente. Como visão teleológica da história, o socialismo não admitia tragédia. <strong>Ele historicizou e “metabolizou” derrotas, diminuindo ou remoendo seu caráter doloroso e, por vezes, devastador. </strong>A dialética marxista da derrota se transformou em uma teodiceia secular: o bem poderia ser extraído do mal; a vitória final resultaria de uma série de derrotas.” (p.107) <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Visão trágica que transcende o campo da esquerda e se constitui como uma realidade generalizada de nossos tempos. E poucas coisas contam isso tão bem quanto o trágico índice de suicídio. O relatório ”<a class="urlextern" title="https://www.who.int/publications/i/item/9789240026643" href="https://www.who.int/publications/i/item/9789240026643" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Suicide worldwide in 2019</a>“. da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado em 2021 aponta que o suicídio continua sendo uma das principais causas de morte em todo o mundo, a ponto de anualmente mais pessoas morrerem como resultado de suicídio do que HIV, malária ou câncer de mama — ou guerras e homicídios. Em 2019, mais de 700 mil pessoas morreram por suicídio: uma em cada 100 mortes. E entre os jovens a situação é um tanto mais grave, a ponto do suicídio ser a quarta causa de morte mais recorrente entre os jovens de 15 a 29 anos, atrás de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2023, “o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 11.502 internações relacionadas a lesões em que houve intenção deliberada de infligir dano a si mesmo, o que dá <strong>uma média diária de 31 casos</strong>. O total representa um aumento de mais de 25% em relação aos 9.173 casos registrados quase dez anos antes, em 2014”. E novamente os jovens apresentam índice mais elevados. “Em relação à faixa etária, o grupo de 20 a 29 anos foi o mais afetado em 2023, com 2.954 internações, seguido pelo grupo de 15 a 19 anos, que registrou 1.310 casos” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os números são alarmantes e a especificidade da juventude escancara uma realidade que já não promete futuro, ou melhor, promete o futuro da catástrofe. Estamos em uma realidade mortificante que produz sujeitos mortificados que cada vez mais flertam com a morte, a nível físico e subjetivo. Um circuito fechado que mina a produção do novo, de movimento, de desejo. <strong>Uma crise estrutural do capitalismo </strong>que <strong>mói </strong>corpos e almas em vida e não cessa de lucrar com isto.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, que podemos chamar de uma <strong>crise da subjetividade, colocam-se </strong>questões primordialmente novas para a militância, tais quais, <strong>como nos organizarmos em uma realidade em que as pessoas estão profundamente tristes, desmotivadas e solitárias? Como nos organizarmos em uma realidade em que as pessoas querem morrer — ou ao menos já não têm tanta vontade de viver? Como mobilizar uma juventude que já não acredita no futuro? Em uma realidade em que as pessoas estão capturadas pelas próprias dores a ponto de travarem lutas diárias para conseguir manter sua própria funcionalidade? Como construir algo sólido no meio disso? Como as organizações e as lutas podem construir uma contra-tendência a tal realidade trágica?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não é raro que em resposta a isto haja um novo brado: <em>do luto à luta</em>. E temos bons exemplos disto, como as Mães de Maio. Só que a restrição a tal slogan oculta que a própria luta produz novos lutos. Que a própria militância, que <strong>pode produzir novos lapsos de vida, também pode mortificar e intensificar a tragédia. </strong>A recusa de ir além dessa questão ao colocar de imediato a luta como saída sem se haver com o tipo de luta e organização que tem sido construída é uma recusa a se implicar na questão, o que garante a permanência da derrota e sua não metabolização.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157958" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_1011_1992_455999_displaysize.jpg" alt="" width="700" height="517" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_1011_1992_455999_displaysize.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_1011_1992_455999_displaysize-300x222.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_1011_1992_455999_displaysize-569x420.jpg 569w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_1011_1992_455999_displaysize-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_1011_1992_455999_displaysize-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_1011_1992_455999_displaysize-640x473.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_1011_1992_455999_displaysize-681x503.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" />Se quisermos lidar seriamente com a questão colocada, a resposta fácil da luta como saída não basta. A militância e a luta não são uma resposta acabada, elas colocam novas questões em movimento. Precisamos pensar que luta é esta, que dinâmica é esta, que organização é esta existente e se elas estão sobrepondo a vida à morte ou meramente reproduzindo dinâmicas de derrotas e massacres. <strong>Para isto, se faz necessário uma implicação enquanto sujeito na questão, sujeito coletivo, e apreender as dinâmicas da militância e o quanto ela também pode ser um espaço de moer gente.</strong></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Lutar junto, sofrer sozinho</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>A gente luta junto, mas sofre sozinho, ainda que por coisas comuns</strong>. A militância traz uma sequência de perdas e derrotas: violência policial, prisões, diversas formas de violência do Estado, retaliações, acusações, atividades esvaziadas, pauta derrotada, discussões desgastantes e inócuas, violências entre os próprios militantes, rachas internos, a lista é longa. Não saímos impunes de nenhuma violência do Estado, nenhum assédio moral, de <strong>nenhuma derrota para o inimigo, </strong>tampouco, das derrotas para nós mesmos, seja da incapacidade de mobilização ou da rasteira vinda dos nossos. Quando vindo do inimigo o ataque ameaça nossa segurança física, financeira, psicológica e jurídica e por vezes coloca em risco nosso futuro — ou presente — profissional. É sentir no corpo a injustiça e brutalidade do capital, seja do Estado e suas instituições ou das empresas. Só que talvez seja ainda mais desgastante <strong>a rasteira que vem daqueles que considerávamos camaradas. </strong>Isso massacra nossos ideais, nossa capacidade de confiança, nossas certezas basilares — <em>se não podemos confiar nos nossos, naqueles que dizem querer mudar o mundo e dizem e fazem coisas tão incríveis, o que resta? </em>É algo que desorganiza profundamente o psiquismo e por vezes nos demanda posicionamentos rápidos e enérgicos num ritmo que nem conseguimos assimilar. Tamanhas perdas se dão em um contexto que precisamos analisar conjuntura, fazer decisões acertadas, disputas permanentes, leituras constantes, tentativas de mobilização, um monte de tarefa contínua que exige tempo e dedicação e respostas rápidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa realidade em que há tantas demandas parece não sobrar tempo para se haver com esses <em><strong>efeitos </strong></em><strong>da própria luta nos lutadores</strong>. As violências acontecem, a brutalidade acontece, se muito, resolvemos do ponto de vista objetivo — o que é fundamental — com aparato jurídico, divulgação, apoio financeiro e à depender vemos a possibilidade um apoio psicológico individualizado profissional. Se foi algo interno há um posicionamento — ou só um racha mesmo — quem quiser que fique, quem quiser que saia, e continuamos. Continuamos e continuamos respondendo as demandas, a tentar fazer luta sob as ruínas do luto. Lutos a partir da luta, luto na luta e por vezes, luto da luta.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um momento histórico de movimentos massivos e generalizados, em que apesar de toda violência do capital estava colocado um horizonte revolucionário, como em 1848, 1917, 1968, em que de alguma forma, parecia possível tomar o céu de assalto, em que havia uma cultura proletária — não meramente de esquerda — com produção de filmes e revistas, ateneus libertários, espaços comuns de convivência, uma vivência massificada e diária nos locais de trabalho e nos sindicatos, <em>criava-se a possibilidade </em>de <em>uma lida coletiva com as ruínas, em que nos próprios espaços coletivos as derrotas iam sendo metabolizadas e elaboradas, abrindo vias para o novo, ou mesmo que as ruínas não impactassem tanto, já que as vias de abertura para uma revolução pareciam abertas, o futuro vitorioso estava logo ali. Pode ser </em>que uma cultura coletiva e laços coletivos cotidianos, assim como um horizonte de transformação dessem conta da assimilação das experiências dos lutadores com suas dores e/ou que <em>a construção das lutas sob as ruínas, sem se haver com as ruínas, </em>era uma realidade possível que não provocava grandes danos. Pode ser <em>fácil, ao menos mais tolerável, se abdicar, aguentar e só ir atropelando as próprias questões quando a revolução parece estar logo ali, mas porque permanecer fazendo isso quando só parece haver inferno? E qual o custo de permanecer?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Independentemente dos <em>“pode ser”</em>, hoje, em uma realidade de deterioração das relações de trabalho e das relações humanas, e como tal, deterioração das próprias subjetividades, de atomização dos laços sociais, de perda dos espaços coletivos de vivência e cultura de classe, um forte individualismo, de esvaziamento dos espaços de militância e de uma visão trágica da realidade, <strong>se haver com tal ruína é uma questão primordial de manutenção da militância, isto é, de manutenção a médio e longo prazo dos militantes na militância e da existência de organizações, assim como a criação de um horizonte de transformação possível.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Na medida em que as experiências comuns de derrotas, dificuldades, dores e violências vividas na militância não são elaboradas conjuntamente por aqueles que a viveram, o objeto perdido permanece se impondo. O caráter doloroso e a devastação permanecem intocados, mantendo a derrota profundamente viva.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Não estou dizendo que os espaços de militância devam virar grupos terapêuticos, estou pontuando que a ausência de uma lida coletiva com as perdas e violências coletivas traz consequências para as lutas e organizações, faz com que o morto imponha-se sobre o vivo. </strong>Permanece um mal-estar não elaborado, um não-entendimento comum mínimo do mesmo acontecimento vivido, em que a gente segue como se aquilo não tivesse deixados marcas individuais e coletivas que seguem marcando a experiência da militância, na medida em que aquilo não é encarado. Um certo pacto de negação se dá, na medida em que não se fala mais sobre aquilo e de seus impactos, nega-se a vivacidade de determinada situação.</p>
<p style="text-align: justify;">Se vive conjuntamente a experiência, mas as consequências subjetivas delas vão sendo levadas exclusivamente para as relações de amizade, amorosas e terapêuticas, de forma, que <em><strong>se luta junto, mas não se fala junto sobre a experiência de militar</strong></em><strong>, </strong>sobre um entendimento partilhado do vivido. <em>Uma análise da vivência coletiva daqueles sujeitos na luta. O que as pessoas que estão militando estão entendo das suas próprias ações, como essas pessoas estão a respeito da própria militância? Qual o sentido de estar ali? Como enquanto militantes elas têm assimilado o vivido? O que tem ficado das últimas experiências? Como as derrotas, para os inimigos e as internas, estão se manifestando naquele espaço? O que está insuportável de assimilar? Como tem sido permanecer ali? Há vontade de permanecer?</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Conversar sobre nós: lembrar que é sobre as pessoas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Para tentar deixar a coisa menos abstrata trago um exemplo. Em 2023, puxado por professoras da Faculdade de Letras, houve na UFG (Universidade Federal de Goiás) uma atividade para homenagear e relembrar as Jornadas de Maio/Junho de 2013, da qual, apesar do apagamento histórico, Goiânia foi uma das cidades fundamentais, junto com Porto Alegre, Natal e Teresina. Diversos militantes da época se reuniram para falar sobre o ocorrido. Sendo que muitos de nós continuávamos a nos ver com frequência e éramos amigos, mas ironicamente nunca tínhamos falado do que realmente importava. Demoramos 10 anos para nos escutar.</p>
<p style="text-align: justify;">Foram mesas, em geral esvaziadas, o que foi fundamental para construir um clima intimista em que parecia que falávamos para nós e não só sobre nós. Isso permitiu também certa informalidade, com falas que ainda que tivessem sido previamente pensadas, fossem se desenrolando de forma um tanto espontânea. E o formato com tempo de fala de uns 20 a 30 minutos permitiu um tempo necessário para desenvolver as ideias. E esse formato foi fundamental. Nunca tínhamos feito nada parecido na militância. E aqui vale perguntar, <em>quando na militância construímos atividades com os nossos e para os nossos em que há um tempo significativo e contínuo para desenvolver com calma pensamentos próprios? Em que a gente para</em><em> a fim de </em><em>se escutar, tal como paramos para ver mesas de debates e afins? </em><em>E nesse caso, quanto paramos com tempo para </em><em>pensar a própria experiência, as próprias memórias, as próprias questões enquanto grupo. Quando a gente fala sobre isso? </em>Nesse caso não falo de discussões teóricas e nem de análises conjunturais, mas de atividades internas com os militantes que estão ali construindo diariamente — e por vezes pouco falam — sobre o que estão percebendo daquelas lutas, sobre como estar participando delas, o que que “tá pegando”, sobre o que estão pensando sobre o que estão vivendo e o que ficou depois dela. Todo mundo pensa e tem algo relevante a dizer, a questão é como criar espaços que fomentem estas falas e que reconheçam sua importância.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157952" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/foto-2-31-860449443.jpg" alt="" width="1114" height="745" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/foto-2-31-860449443.jpg 1114w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/foto-2-31-860449443-300x201.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/foto-2-31-860449443-1024x685.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/foto-2-31-860449443-768x514.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/foto-2-31-860449443-628x420.jpg 628w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/foto-2-31-860449443-537x360.jpg 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/foto-2-31-860449443-640x428.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/foto-2-31-860449443-681x455.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1114px) 100vw, 1114px" />Foi esse formato que permitiu olharmos para aquela experiência e muita coisa ali foi entendida. Estávamos todos ali porque aquela experiência transformou as nossas vidas e queríamos não só relembrar, mas entender, havia muita coisa que não entendíamos e que só era possível de ser construída e entendida juntos. Ao menos foi isso que ficou para mim.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de 10 anos eu soube do que se passou com a advogada do movimento, os perrengues, as vezes que quase desistiu, os assédios dos delegados, a paranoia e ansiedade constante que quase a fez desistir. Nunca tinha me dado conta das minúcias dos riscos e exposição de advogar pro movimento. Soube do midiativista, o que o mobilizava, de onde veio a ideia, como a edição era feita, dos medos ali presentes, entre tantas outras facetas da luta.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao escutar o que foi vivido, como foi vivido e o pensamento sobre isto, deu para entender melhor a grandiosidade de tudo aquilo, o quanto foi efervescente na produção de novas ideias, iniciativas e projetos e como estas retroagiram no movimento. Deu para entender mais concretamente porque aquilo foi grande para todos, o que levou alguns a se afastarem, os custos pessoais e profissionais daquilo, os riscos presentes, a excitação vivida, os afetos mobilizados, as inúmeras ações cotidianas que tudo aquilo demandava e a relevância das diversas pessoas e inúmeras ações. Aquilo mobilizou profundamente uma quantidade enorme de pessoas que acreditaram e se entregaram de um modo único, mesmo não indo nas reuniões. A grandiosidade do movimento se deu justamente por uma articulação que transcendia em muito o próprio grupo mobilizador com movimentações vivas e simultâneas que fugiam do controle de tal grupo, a Frente de Lutas. Sem essa multiplicidade e vivacidade nada daquilo teria acontecido. Formou-se uma espécie de frente de frentes. Facetas cotidianas, estéticas, subjetivas e uma certa organização subterrânea e parcialmente espontânea foi possível de ser apreendida ali.</p>
<p style="text-align: justify;">E deu para entender melhor também a faceta trágica da luta, o nível de repressão a que fomos submetidos, foi muito além das prisões e bombas de gás em manifestações. Se dava diariamente em cada canto das construções da luta, com intimidações, insinuações, riscos reafirmados a todo tempo e que, em geral, cada um lidava sozinho. E o impacto foi profundo. Só que tal como quando se tem um machucado profundo e não o sente na hora da adrenalina, a dor vem depois, quando a poeira abaixa. O impacto vem com tudo é na ressaca das lutas. É aí onde os movimentos falham, na incapacidade de amortecer as próprias perdas e derrotas, mesmo aquelas que aparecem com as conquistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Na medida que o movimento não se generaliza, radicaliza e enraíza, a ressaca é certa. Claro, não dá para prever suas minúcias e intensidade, mas questões mínimas, como a atomização, retaliações e debandada do movimento é previsível. Construir a saída de uma luta é tão fundamental como construir seu começo. É no fim que, exaustos e atomizados, vamos buscar saídas meramente individuais. E não precisa estar precisamente sozinho para estar atomizado, mesmo com a permanência da coletividade após o ápice da luta, na medida que a própria experiência das pessoas não encontra espaço na própria organização e momentos coletivos, em que o que fica são só as grandes narrativas dos grandes acontecimentos, ocultando a pequenez das pessoas diante de tudo aquilo, o que resta é a busca de resposta individual para aquilo que parece que não pode ser falado naquele espaço, como se não houvesse espaço para expressar a dimensão trágica de tudo aquilo. Facilmente, resta o afastamento, o álcool e demais drogas, uma compulsão tarefeira com a própria militância, formas diversas para tentar abafar e silenciar as ruínas. Se muito, uma psicoterapia individual, a fala privativa e individual de toda aquela experiência coletiva.</p>
<p style="text-align: justify;">É justamente nesse momento que é primordial estarmos juntos, nos escutarmos, darmos espaço também para o trágico e metabolizarmos o luto para dar contornos às dores e construirmos algo a partir disso, caso contrário, a chance de só sermos devastados é gigante.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um saber sobre a militância que só os militantes ao se posicionarem enquanto tal e falarem abertamente entre si sobre a própria experiência são capazes de produzir. Não digo isso partindo da ideia de lugar de fala, tampouco, de desqualificação da produção teórica, quero dizer somente que a construção da militância permite a construção de um saber único sobre o que se faz e o que se vive e mesmo sobre o entendimento da conjuntura política. Há um ângulo só capturável por quem viveu as cenas e as cenas só vão ganhando sentido sendo costuradas juntas com tantas outras. É algo diferente da produção teórica e um não substitui o outro. A ausência desses espaços de partilha de experiências implica uma ausência de construção de saberes militantes e com isso, algo de muito valioso sobre as lutas sociais e as pessoas na luta é perdido. Do ponto de vista individual, muito de nós se perde ali, lacunas de nossas próprias histórias, que poderiam ter destinos outros se falássemos juntos sobre o vivido. Nesta produção de saber alguma coletividade radical e horizontalidade pode realmente se dar, ou ao menos se aproximar, ali caem os intelectuais dos grupos ao permitir uma questão que todos tenham algo a dizer, que todos participem ativamente e que os intelectuais, para construírem algo relevante, precisam, naquele momento, se despir da teoria e falar de si em primeira pessoa.</p>
<p style="text-align: justify;">Falta lugar para analisarmos a nossa história vivida, para dar lugar para as memórias e experiências coletivas enquanto sujeitos coletivos. Darmos lugar para os afetos, impressões,acontecimentos ali vividos que de alguma forma permanecem vivos, que nunca ficam lá atrás, tornando-se fantasmas que assombram o presente. Sem isso a própria luta aparece como algo indecifrável para os próprios lutadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Há de se ponderar que talvez somente com certo distanciamento temporal, em um contexto em que não há mais nada a defender e disputar, seja possível tamanha abertura e honestidade.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157954 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_2018_3_13_468866_displaysize.jpg" alt="" width="700" height="466" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_2018_3_13_468866_displaysize.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_2018_3_13_468866_displaysize-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_2018_3_13_468866_displaysize-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_2018_3_13_468866_displaysize-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/10/taro_gerda_2018_3_13_468866_displaysize-681x453.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, independente do distanciamento temporal, sem a tentativa de construção desses espaços, especialmente nas ressacas das lutas, continuaremos a ver uma dispersão em massa das pessoas dos grupos, muito dos quais com muito ressentimento e mágoa da militância. Ou, ainda que não ressentidas, profundamente devastadas. Por vezes saindo mais fatalistas que entraram, numa antipedagogia da luta. Continuaremos a naturalizar esse massacre subjetivo ao fingir que ele não existe, mascarando-o como um problema individual e reproduzindo uma cultura meritocrática em que assumimos que permanecem os que “dão conta”, “os fortes”, os realmente comprometidos, notadamente, os com mais capital político e intelectual e com mais condições financeiras, e que ainda assim vão sendo moídos também. Sem dar conta da construção na ressaca, continuaremos a naturalizar a militância esvaziada e assumir que é assim mesmo. Continuaremos a reproduzir relações alienantes com nossos supostos camaradas, em que tal como nas relações alienadas de trabalho, só importa a sua função, a sua utilidade para cumprir tarefas. Continuaremos a tratar a luta como a resposta, sem nos indagarmos quais perguntas não respondidas ela vem produzindo. Enfim, continuaremos intensificando a miséria subjetiva e o isolamento, reproduzindo a desmotivação e o individualismo no seio das lutas e organizações coletivas. Seremos agentes da nossa própria tragédia.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se da criação de momentos coletivos de fala-escuta para lidarmos coletivamente com os efeitos da luta. Uma reconstrução de uma cultura minimamente coletiva, que confronte o presentismo, imediatismo e individualismo e dê lugar para as memórias, experiências e subjetividades coletivas, fazendo dela força motriz para a luta. Um confronto a um apego nostálgico e a negação do passado, que fazem-no mais vivo do que deveriam e impede abertura ao novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem isto, o abandono da militância, a privatização dos problemas coletivos e a drogadição generalizada e desenfreada tendem a ser a via privilegiada de lida com tais problemas, o que vai só produzindo novos problemas dentro da militância. <strong>Ironicamente, despolitiza-se dentro das organizações políticas o próprio mal-estar coletivo dos militantes</strong>. Não que a militância vá resolver isso, não que ela produza isso isoladamente e seja a grande responsável por tal mal-estar, como disse no começo do texto, trata-se do momento histórico do capitalismo que estamos vivendo. O ponto é que ao não se implicar e reconhecer-se como sujeito neste processo, que também reproduz as próprias mazelas de seu tempo, as organizações vão mecanicamente atuando na reprodução e intensificação da miséria capitalista, sendo incapazes de tentar criar contra-tendências a tal barbárie, tornando-se agentes do que confrontam.</p>
<p style="text-align: justify;">Reitero, que não se trata de terapia em grupo. Trata-se de partilhar os desdobramentos da luta para os que lutam. Não a mera luta sem sujeito, não A luta, como se fosse uma entidade metafísica, e sim o sujeito das lutas com o seu luto nas/das lutas. Da construção de um saber comum sobre o vivido que permita fazer algo que não meramente esconder as ruínas. A reconstrução de uma cultura coletiva e relações de camaradagem, que permita um reposicionamento, uma transformação a partir do mal-estar comum e generalizado — porém silenciado — que enfrente a visão trágica e permita novos horizontes de luta e de vida.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Traverso, E. <em>Melancolia de esquerda: marxismo, história e memória</em>. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2018.<br />
<strong>[2]</strong> Ibidem.<br />
<strong>[3]</strong> <a class="urlextern" title="https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/noticia/2024/09/brasil-registra-em-media-31-internacoes-ao-dia-por-tentativa-de-suicidio-rs-teve-aumento-acima-dos-30-cm10nc7an00j2012z6w31glav.html" href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/noticia/2024/09/brasil-registra-em-media-31-internacoes-ao-dia-por-tentativa-de-suicidio-rs-teve-aumento-acima-dos-30-cm10nc7an00j2012z6w31glav.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/noticia/2024/09/brasil-registra-em-media-31-internacoes-ao-dia-por-tentativa-de-suicidio-rs-teve-aumento-acima-dos-30-cm10nc7an00j2012z6w31glav.html</a></p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são de Gerda Taro (1910–1937)</em></p>
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		<title>A report of the pro-Palestinian demonstrations in Italy</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Oct 2025 16:00:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ Perhaps the Palestinian issue has become the unifying theme of a set of diffuse social dissatisfaction. By Pérez Gallo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2025/09/157669/" target="_blank" rel="noopener">By Pérez Gallo</a></h3>
<p style="text-align: justify;">I took part, somewhat by chance, in the demonstration in Milan on September 22, which had wide international repercussions due to the violent clashes with the police that took place at the entrance to the Central Railway Station. I was in Germany during the previous week, where I was attending an academic event and, being originally from Italy, I decided to extend my trip a few more days in Milan, to visit friends and family. I arrived on the evening of Friday, the 19th, and it soon seemed to me that the mood was different from the usual &#8211; more tense, in expectation. The Palestinian genocide, in fact, is a powerful theme in the Italian debate, either because of the presence of an important Arab and Palestinian community in the territory or because of the geographical and geopolitical proximity. But also &#8211; I believe &#8211; because hopes have converged in recent years on the Palestinian issue for the resumption of some movement after more than a decade of ebb and flow of struggles. The retreat that in Milan feels even stronger: a city completely dominated by <em>gentrification</em> and real estate speculation, by the great fashion events and gourmet food fairs, by the increase in urban transport and an economic rhythm (and exploitation) in full swing. And where, for a long time, social struggles have been something kind of absent from the horizon of urban life.</p>
<p style="text-align: justify;">On the 19th, just as I was returning from the airport, there was a small demonstration and work stoppage organized by the CGIL, the largest trade union confederation, in solidarity with Gaza. Contrary to what one might think, the CGIL decision was not the brave choice to organize a political strike, but the cowardly attempt to recover the struggle, advancing the strike that had already been scheduled for the 22nd by the grassroots unions USB, Cobas, ADL Cobas, CUB, SGB, under the impulse of the Genoa Port Workers collective. The idea would be to make a stoppage of only two hours, on a Friday afternoon, and not adhere to — and in this way weaken — the other strike scheduled for the whole Monday (a day in which a blockade would do much more damage). The maneuver, apparently, did not work out. Throughout the weekend, people around me — even many of my acquaintances who hadn&#8217;t participated in a demonstration in 15 years &#8211; kept talking about the upcoming event on the 22nd. Rain was forecast, and this raised some doubts about the success of the mobilization.</p>
<p style="text-align: justify;">On Monday morning, in fact, the rain was intense and constant. Despite this, when I arrived in Piazza Cadorna a little before the scheduled time for the concentration, you could tell that the demonstration would be huge. Thousands of people were gathering there under umbrellas, to the point that when the front of the demonstration began to move, people were still arriving in the square. The demonstration, with more than 50,000 people, marched in a confused way for almost 5 kilometres to the Central Station, not before making a detour to pass in front of the United States Consulate, where the flags of the United States, Israel, the European Union and NATO were burned. What surprised me, perhaps because I had been away from Italian protests for many years, was its political composition, that is, not the division into blocks organized by the entities and the social centers, but rather a long heterogeneous and indefinite human serpent, all behind a single sound truck of the USB union, in which the social composition was mixed: students and retirees, Arab immigrants, young secondary school students from the periphery and families with children, workers and middle class, and here and there small groups that made some specific intervention, such as a group of fanfare or healthcare workers under the banner of “healthcare workers for Gaza”. In general, it also seemed to me a not-so-loud demonstration, almost silent at times, as if the lack of a sound speaker left more room for the atrocious emptiness of the moment we are living in.</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DO6jl2KDJNA/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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</blockquote>
<p><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script><em><strong>Milan demonstration seen from above.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">When we arrived, around 1 p.m., in the Central Station Square, the general feeling was one of strangeness: the demonstration seemed to be over, but we had not yet blocked anything, while news arrived of occupations of stations, highways, and ports in other cities. The police had a huge contingent lined up for the defence of the station, and it seemed crazy to try to challenge them, apart from the fact that no group seemed to be organised for such. Little by little, however, frustrations and expectations were leading a group of people down the stairs of the subway, from where they would have a passage to the station by underground. Just below, however, was another police contingent. The pressure was building until we managed to get to the bottom of the station thanks to a lot of shouting and some pushing. From there, however, to occupy the tracks, we had to go up to another floor by an escalator, above which the confrontation began, and continued through the glass doors of the station hall, defended by the police and destroyed by the protesters. Finally, the police began throwing tear gas canisters, many at face height. The battle lasted an hour and a half inside the station, plus a couple of hours in via Vittor Pisani, the large avenue outside the station, with the police advancing and the crowd resisting, without retreating, throwing stones and other objects. Although it did not reach the tracks, for a long time the station was closed, with the trains, already accumulating delays of more than two hours due to the strike, stopping for some time instead of passing through the station. From what I read afterwards, the participation in the most heated clashes was of a thousand people, with as many supporting from the outside. The toll was 60 police officers injured, with 24 hospitalised, 11 protesters detained (including two minors), and about ten taken away by ambulance. I was really surprised by the disposition of the crowd: I do not remember, since I was a teenager, a demonstration with such lengthy and at the same time unprepared confrontations. In the past, the most common were “performative” confrontations of the crowd from the ex <em>tute bianche</em>, with a little melee from the first lines with the police to have a photo in the media and then retreat, or moments of a more planned <em>riot</em>, with burning of cars during the demonstration by a smaller group but completely disconnected with the general feeling of the crowd, as occurred in the large “No Expo” demonstration of May 1, 2015. From there, the desert.</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DO6hXCqAP2w/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DO6hXCqAP2w/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">A post shared by Federação Árabe Palestina (@fepal_brasil)</a></p>
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</blockquote>
<p><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script><em><strong>Videos of the confrontation</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">If Milan, due to its violent outcome, was the centre of the news and images that passed through the media and social networks — and obviously echoed by Prime Minister Giorgia Meloni, who at no time attacked the Israeli barbarism in Gaza with the same harshness that she dedicated to the “Milan vandals” —, in the rest of Italy the struggles were also giant. According to the union USB, more than 1 million people in 84 cities participated in the demonstrations.</p>
<p style="text-align: justify;">In Rome, 200 to 300 thousand people marched for 8 hours, for 10 kilometres, through the streets surrounding the Termini Station (the largest in the city), causing a momentary blockade of rail traffic, and occupying the university campus of La Sapienza and the Eastern Ring Road for hours in both directions. There, many drivers stopped in traffic didn&#8217;t react with anger but with applause, horns, and demonstrations of complicity.</p>
<p><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/NnNe1MzD2_4?si=8egqsDkgr8mFK5L3" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Drivers&#8217; support for the demonstration</strong></em></p>
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<p>&nbsp;</p>
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<p>&nbsp;</p>
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</div>
</blockquote>
<p><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script><em><strong>Demonstration in Rome seen from above</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Another huge demonstration happened in Bologna, with 50,000 people filling the streets of the centre to later occupy the Ring Road, where there was a police crackdown with four people arrested.</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/p/DO5i_llCCTG/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/p/DO5i_llCCTG/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">A post shared by HubAut Bologna (@hubautbologna)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script><em><strong>Demonstration in Bologna</strong></em></p>
<p><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/6dD2wHPrU-c?si=_4tH6CwGyNZZv0ZJ" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Clashes on the Ring Road in Bologna</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Demonstrations with 15 to 20 thousand people also took place in Naples and Turin (where the railway station was occupied); Genoa (with the occupation of the port); and in Venice, where the social centres of the Northeast blockaded Porto Marghera and had clashes with the police, who made use of water jets.</p>
<p><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/HhCYfSOTMdQ?si=wvIlGmwayluEcGh3" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Venice</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Other clashes and arrests took place in Brescia as 10,000 protesters attempted to occupy the railway station after blocking the city&#8217;s Metro, while a similar number of people paraded in Palermo, Florence, and Pisa. In the latter city, protesters managed to block the bus station, the train station and even the Firenze-Pisa-Livorno Highway. Five thousand people took to the streets in southern cities such as Cagliari, Catania, and Bari. There were also blockades and disruptions at other major port terminals such as those in Trieste, Ravenna, Ancona, Civitavecchia and Salerno. In Livorno, the blockade of the Valessini terminal turned into a permanent protest aimed at the next day, when the passage of a US cargo ship bound for Israel was expected.</p>
<p style="text-align: justify;">As a whole, the journey was undoubtedly successful and surprising. Surprisingly, in the first place, because Italy had stayed away from the last cycles of global upheavals. Social movements are totally fragmented, and what has prevailed among comrades in recent years is a constant sense of disillusionment and impotence, feelings heightened in recent times by the rise of a far-right government. Since the beginning of the genocide in Palestine, the occupations on university campuses have shown a certain reactivation of the youth composition, certainly dominant also in the demonstrations of Monday, but extremely reduced in demographic terms in what is the second-oldest country in the world. At the same time, under the impetus of the small Palestinian youth organisation, protests in solidarity with Gaza have acquired a certain frequency, becoming, in the case of Milan, even weekly, with some small demonstrations that take place every Saturday. Possibly, the departure of the global Sumud Flotilla must have given some inspiration, as well as the French “let&#8217;s block everything” movement that has emerged in recent weeks against Macron&#8217;s policies. Perhaps the outrage has crossed some threshold with the escalation of the “final solution” to the Palestinian Holocaust set in motion by Israel in recent months. Perhaps the Palestinian issue has become the unifying theme of a set of diffuse social dissatisfaction. Maybe it is, today, <a class="urlextern" title="https://ilmanifesto.it/palestina-e-il-nome-del-nostro-scontento" href="https://ilmanifesto.it/palestina-e-il-nome-del-nostro-scontento" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“the name of our discontent”</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">The demonstrations were undoubtedly successful, but above all, the strategic choice to block the main communication routes. Very quickly, from the blockades of the docks of the ships loaded with weapons and ammunition to directly supply the Israeli army, the understanding came that all the logistics of war are inseparable from the logistics of global capitalism in this destructive stage. If the bottlenecks of transport and communications of goods and people make up the material skeleton of the global economy, the understanding arose that it is from there that it would perhaps be possible to exercise some kind of “counterpower” to fascist barbarism.</p>
<p style="text-align: justify;">Less successful, however, was the result of the stoppage in the strict sense. Faced with the convergence between the obvious difficulties of carrying out a “political” strike (in fact, this was the first experience since the genocide in Gaza began) and the cowardice of the CGIL and the other major trade union confederations, which has hegemony of affiliates in production and public employment, the participation rate seems to have been <a class="urlextern" title="https://www.tag24.it/1353021-dati-adesione-sciopero-generale-per-gaza-22-settembre-la-percentuale" href="https://ilmanifesto.it/palestina-e-il-nome-del-nostro-scontento" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">below 10%</a> in many sectors, with probable exceptions in the public education sector and in some sectors of the circulation, which in some cities joined en masse. This opens up many questions about whether it is possible to paralyse economic life without the mass participation of the organised working class, but manage to hit the main bottlenecks of the global economy. At a time when wage pressure, unemployment, blackmail in the workplace, job insecurity and coward union leaders make it more difficult to effectively exercise the instrument of the strike, to what extent can a very effective revolt itself become a form of general stoppage?</p>
<p style="text-align: justify;">But the main question, here and now, is whether this new movement will have the strength and the capacity to move forward, to grow, to put in crisis a Meloni government that so far still sails with some degree of consensus, and above all to spill over to other countries to make a real contribution to ending the ongoing genocide. As announced by the Genoa Port Workers collective, the current strike was launched as a rehearsal for the moment when there would be some kind of aggression against the Global Sumud Flotilla, which is approaching the Gaza Strip. If this happens, the dock workers have already threatened that they will not carry “not even a nail” and would stop “the whole of Europe”. Time will tell. For now, we are left with the feeling that, for once, we have raised our heads, we have overcome resignation. Maybe it&#8217;s just a flash, a feeling that, together in the streets, we can still feel alive. That we can still shout, even if it makes almost no sense given the level of the present tragedy, that “the peoples in revolt write their history, intifada until victory!”</p>
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		<title>Quatro anos da greve dos entregadores de São José dos Campos: Entrevista com Elisson de Lima (Cabeça).</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Sep 2025 21:11:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Depois daquela paralisação de seis dias, houve uma paralisação esse ano. Depois daquela de seis dias foi muito difícil parar de novo. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 id="quatro_anos_da_greve_dos_entregadores_de_sao_jose_dos_campos_entrevista_com_lideranca" class="sectionedit9" style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<div class="level3" style="text-align: justify;">
<p>Em 11 de setembro de 2021 os motoboys que trabalhavam com aplicativo em São José dos Campos, São Paulo, iniciaram uma greve por tempo indeterminado. A paralisação durou seis dias e foi a mais longa da categoria no país até então. Foi um marco, pois as paralisações de motoboys não costumam ser por tempo indeterminado e em geral são de um ou dois dias. Essa greve inspirou que motoboys de outras cidades, principalmente do interior de São Paulo, iniciassem as suas também com tempo indeterminado nas semanas seguintes. Foram os casos de Jundiaí, que também durou seis dias, e de Paulínia, que resultou na greve mais longa da categoria até hoje: nove dias.</p>
<p>No início de 2020 os motoboys de São José dos Campos criaram um grupo de Whastapp chamado Buzinaço, para organizar manifestações em estabelecimentos em que algum motoboy reportava problema com pagamento ou de outro tipo. Essa experiência de ação coletiva foi importante para desencadear a greve de setembro de 2021.</p>
<p>Completando 4 anos daquela marcante greve em São José dos Campos, conversei sobre ela com Elisson de Lima, conhecido como Cabeça, que teve papel destacado na organização.</p>
<p><strong>Leo Vinicius</strong>: Eu vi que você comentou numa live no Youtube que aquela greve só tinha rolado porque “os motoboys acreditaram no pessoal que agitou a nossa greve”. Deu a entender que as pessoas que tomaram essa iniciativa já tinham um respaldo da categoria, eram uma referência pro pessoal ter confiança. Como foi construída essa referência? Eu sei que tem a história do grupo do Buzinaço. Foi só o Buzinaço ou teve algo para além do Buzinaço que fez ter respaldo da categoria?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157697" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-i-primavera-1994.jpgPinterestSmall.jpg" alt="" width="310" height="514" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-i-primavera-1994.jpgPinterestSmall.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-i-primavera-1994.jpgPinterestSmall-181x300.jpg 181w" sizes="auto, (max-width: 310px) 100vw, 310px" /></p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Eu acho que o que ajudou bastante [para] o pessoal pegar confiança foi o trabalho que faço em grupos de motoboys. A gente faz ação social. A gente vai na comunidade, entrega brinquedo, faz Natal solidário, dia de Páscoa, essas coisas. Depois tivemos problema com um estabelecimento aqui. Um amigo nosso teve uns problemas. Foi quando foi criado o grupo do Buzinaço. E depois do grupo do Buzinaço eu joguei esses negócios que estavam acontecendo, o pessoal reclamando, e como eu era OL, então… tipo assim, &#8216;se o cara que é OL tá reclamando, achando que tá ruim e vão parar, então vamos abraçar a causa&#8217;. Então acho que o que ajudou mais, além dessas coisas, foi devido na época eu ser OL, Operador Logístico. E puxar esse bonde aí, porque se eu não fosse Operador Logístico não sei se eu teria conseguido puxar tão forte assim não.</p>
<p><strong>Leo</strong>: O que a gente via nos Breques e nas paralisações é que era mais difícil os OLs pararem do que os Nuvens, porque OLs tem o supervisor e tal. E aí em São José dos Campos todo mundo fez a greve junto, participou, os Nuvens e os OLs. Mas a iniciativa foi dos OLs. Pra você, o que explicaria essa diferença em relação a SJC com os OLs? Que relação vocês tinham com os chefes, supervisores? Eu imagino que vocês deviam ter uma relação melhor com os chefes. Foi combinado com os chefes das OLs, com os supervisores, eles apoiarem de certa forma a greve?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Apoiar, apoiar eles não apoiaram. Porque querendo ou não mexeu no bolso deles. Mas eles respeitaram porque a gente sempre teve um bom diálogo. Nos três primeiros dias eles respeitaram muito a gente. Disseram &#8216;a gente vai respeitar, não vamos logar ninguém&#8217;. Quando chegou no quarto, no quinto dia aí começou a choradeira. Começaram a querer falar, &#8216;ah vamos precisar logar&#8217; e que não sei quê. Falei, beleza, se quiser logar os caras você loga, mas o seguinte, os caras não vão pegar pedido. Vieram com o &#8216;ah que eu to passando fome&#8217;. Dissemos que se tiver passando fome, qualquer coisa dá um toque, a gente dá um jeito de fazer um rateio, tá todo mundo quebrado aqui, mas num rateio a gente ajuda você aí&#8217;. Mas não logaram, não logaram. Até então. Mas isso foi na minha base. Na base da qual eu prestava serviço [havia quatro bases de OL em SJC]. A outra tinha um motoboy que estava com a gente, que também conseguiu travar. Outra logou os caras, só que os caras não conseguiram pegar pedido.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Então eles não apoiaram mas também não ficaram pressionando. Só depois que começou a pesar no bolso…</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Foi. Porque até então eles também tinham umas dores. Pra você ter uma ideia, quando o iFood na época veio através do Johnny [funcionário do iFood] pra vir falar comigo, os caras da base de OL pediram o contato com o cara. Porque eles não tinham contato com o iFood. Eles também abraçaram a causa no início por causa disso.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-157698" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-ii-estate-1994.jpgPinterestSmall.jpg" alt="" width="310" height="481" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-ii-estate-1994.jpgPinterestSmall.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-ii-estate-1994.jpgPinterestSmall-193x300.jpg 193w" sizes="auto, (max-width: 310px) 100vw, 310px" /></p>
<p><strong>Leo</strong>: Essa decisão de não trabalhar e continuar a greve, dentro das equipes era tomada só pelos motoboys, não era tomada pelo chefe da equipe, né? Ele não participava das decisões, certo?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Não, quem participava era só nós os motoboys. Acabava o dia, dava dez horas da noite, dez e meia que era a hora que fechava o shopping, a gente tinha um ponto específico pra se reunir. Era onze horas e ali a gente decidia entre nós, os motoboys. E aí o líder de base mandava mensagem pra gente perguntando, ou então chegava vídeo pra ele que a rapaziada gravava, e aí que ele ficava sabendo.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Por que os estabelecimentos apoiaram e de que forma eles apoiaram? Como eles foram convencidos a apoiar a greve e fechar o delivery? Já havia laços com os estabelecimentos antes?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: A gente tinha bastante contato com os estabelecimentos. Só que até então começou a ter muita discussão. Apoio, apoio de estabelecimento a gente não teve. Foi muito pouco estabelecimento. Depois do terceiro dia é que começou a dar uma crescida, de alguns estabelecimentos nos apoiarem. Porque a gente chegava lá, conversava com o dono no máximo respeito possível, &#8216;nós estamos aqui, fazendo a paralisação assim, assim, assado, se o senhor puder desligar o aplicativo de vocês desliga; se puder pegar pedido somente pelo Whatsapp qualquer coisa a gente arruma um motoboy pra fazer as entregas pra vocês, pra vocês não ficarem prejudicados&#8217;. [Eles diziam] &#8216;não não, a gente vai desligar&#8217;. Teve dois ou três estabelecimentos que acabaram aceitando, pegando motoboy pra fazer entrega. A fama de motoboy é aquela coisa, que motoboy é arruaceiro, quebra tudo, e acelera, empina… Essa é a fama do motoboy. E aqui na nossa cidade, devido ao Buzinaço… muitos estabelecimentos ficaram sabendo dos Buzinaços que estavam acontecendo, que a gente tava indo na porta dos estabelecimentos, que a gente tava indo cobrar os donos de estabelecimentos. Então creio eu que isso ajudou bastante para fazer eles desligarem. Até porque também no segundo ou no terceiro dia o iFood mesmo desligou a plataforma.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Teve estabelecimento que no final pressionou vocês pelo fim da greve? Ameaçou chamar polícia, esse tipo de coisa?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157699" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iii-autunno-1994.jpgPinterestSmall-179x300.jpg" alt="" width="281" height="471" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iii-autunno-1994.jpgPinterestSmall-179x300.jpg 179w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iii-autunno-1994.jpgPinterestSmall.jpg 210w" sizes="auto, (max-width: 281px) 100vw, 281px" /></p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Não, não. Teve alguns que chegaram a falar que se o iFood liberar a plataforma ia ter que ligar. Falamos que podiam ligar só que ninguém ia pegar pedido. Teve um estabelecimento sim que chegou a falar que ia chamar a polícia. Falou &#8216;vou ter que abrir o meu estabelecimento, vou ligar a plataforma, e o motoboy vai vir aqui retirar o pedido&#8217;. Aí falamos, &#8216;beleza, pode vir, mas se ele vier pegar o pedido a gente não vai deixar ele sair. Se ele tentar sair o prejudicado vai ser ele e o seu pedido&#8217;. [Ele respondeu} &#8216;eu vou chamar a polícia, vou colocar a polícia na porta&#8217;. [Respondemos que] &#8216;não tem problema pra nós, a gente pega ele na esquina ali, na rua de trás, isso é o de menos, fica tranquilo&#8217;. Foi só um mesmo que teve essa pressão. Teve dono de estabelecimento que chegou a ir nos pontos de paralisação que a gente tava. Os estabelecimentos estavam tentando entrar em contato com o iFood para o iFood entrar em conta com a gente, pra poder resolver essa situação.</p>
<p>Os estabelecimentos começaram a fazer isso porque eles começaram a ter problema com o iFood. Naquela época aqui, o iFood soltava muita promoção pra cliente. Então uma coquinha de 200ml saía por 50 centavos, 1 real. O cara ia na plataforma do iFood, pedia cinco, seis, sete. Estourava de entrega. Só que os estabelecimentos não tavam tendo os recursos de volta, não tavam recebendo. E na época também não tinha o código de coleta, o código pra pegar com o cliente. Então tinha muita gente que agia de má fé, e aí o pedido sumia… Então os estabelecimentos também estavam com problema com o iFood. Isso ajudou bastante.</p>
<p>Esse estabelecimento [que falou de chamar a polícia] fica próximo da [rodovia] Dutra e de uma base da Polícia Federal, e esses policiais vão muito lá. E vai Polícia Militar também, então ele se achou no direito de fazer isso. Só que não adiantou nada.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Os estabelecimentos então nem chegaram a pressionar os motoboys para o fim da greve?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-157700" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iv-inverno-1994.jpgPinterestSmall-181x300.jpg" alt="" width="381" height="633" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iv-inverno-1994.jpgPinterestSmall-181x300.jpg 181w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-part-iv-inverno-1994.jpgPinterestSmall.jpg 210w" sizes="auto, (max-width: 381px) 100vw, 381px" /></p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Não, não, não [não chegaram a pressionar] O fim da greve só aconteceu mesmo devido a gente ter conseguido… Aqui em São José na época da greve existia uma promoção, só que essa promoção era limitada. Tipo num raio de 3 km, de um ponto da cidade. Então se você fosse pegar um pedido desse ponto da cidade e fosse entregar pra outro, lá tocava entrega mas não tocava promoção. Era promoção de 1,50 ou 2 reais, alguma coisa assim. E aí como a gente ficou seis dias parados, a negociação foi assim: &#8216;vocês soltam promoção pra gente, pra gente recuperar esses seis dias aí, durante o final de semana inteiro mas pra cidade inteira, qualquer parte da cidade&#8217;. E aí eles aceitaram esse acordo e aceitaram fazer uma reunião com a gente presencialmente.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Essa era uma questão que eu ia fazer. Quais foram os resultados da greve? Teve a reunião dia 28 de setembro de 2021. Saiu alguma coisa da reunião do dia 28?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Da reunião do dia 28 saiu a taxa mínima, o valor da taxa mínima. Só que só foi reajustado no ano seguinte.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Fizeram esse compromisso na reunião de ajustar a taxa mínima.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157701" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-primavera-1995.jpgPinterestSmall-179x300.jpg" alt="" width="379" height="633" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-primavera-1995.jpgPinterestSmall-179x300.jpg 179w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-primavera-1995.jpgPinterestSmall.jpg 210w" sizes="auto, (max-width: 379px) 100vw, 379px" /></p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Isso, fizeram esse compromisso com a gente. Depois teve o Fórum dos entregadores [Fórum organizado pelo iFood] no final do ano, que foi onde a gente pressionou também. Mas o reajuste foi só no ano seguinte que teve. Na época a gente tava brigando também… era a taxa mínima, o fim dos bloqueios indevidos, a promoção &#8211; a gente conseguiu a liberação da promoção pra cidade inteira &#8211; , e o código de coleta. Essas quatro foram coisas que a gente conseguiu conquistar. Não através dessa reunião especificamente. Essa reunião a gente conseguiu só o valor da taxa mínima. Esses outros pontos que falei a gente foi conseguindo depois, no decorrer. Lá no Fórum dos entregadores a gente conseguiu tudo isso daí. Só que também o iFood demorou. Demorou um ano pra soltar o reajuste. O código de coleta eles colocaram até rápido. O fim dos bloqueios demorou um pouco, mas conseguimos recuperar essas contas de pessoas bloqueadas indevidamente. Fizemos um acordo com o iFood e o iFood deu uma oportunidade de novo pra esse pessoal. E foi isso.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Essa questão dos bloqueios indevidos, como é que está isso hoje em dia? Melhorou bastante em relação ao iFood pelo menos, com o fato também de ter o código? Aqueles problemas que davam com os clientes, melhorou bastante ou continua mais ou menos…?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Melhorou. Melhorou muito isso daí. Melhorou demais, por causa do código de coleta. A gente tem um código de coleta que a gente passa pro estabelecimento e pegamos um código com o cliente, que é os quatro últimos números do telefone. Quando colocou esse negócio do código aqui em São José caiu de uns 90 pra uns 10%. Não vi mais os caras reclamando aqui em São José &#8216;ah minha conta foi bloqueada&#8217;. Teve um ou outro que teve a conta bloqueada, mas quando a gente descobriu foi porque o cara que fez coisa errada mesmo. Injustamente hoje em dia nem se ouve mais falar disso.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-157695" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-estate-1995-1.jpgPinterestSmall-205x300.jpg" alt="" width="305" height="446" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-estate-1995-1.jpgPinterestSmall-205x300.jpg 205w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-estate-1995-1.jpgPinterestSmall.jpg 210w" sizes="auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px" /></p>
<p><strong>Leo</strong>: Ocorreram outras paralisações depois daquela aí em São José dos Campos?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Depois daquela paralisação de seis dias, houve uma paralisação esse ano. Depois daquela de seis dias foi muito difícil parar de novo. Porque o iFood liberou um monte de conta, não teve mais problema com bloqueio, essas coisas. E então a rapaziada pegou e ficou de boa: &#8216;tá de boa pra trabalhar, tá sossegado&#8217;. Agora nessa paralisação que teve foi de dois dias. Até porque muitas pessoas que participaram do breque de seis dias, a maioria não está mais trabalhando de motoboy. Muitos já saíram fora já. Porque foi na época de pandemia, logo depois da pandemia a greve, então tinha muita gente que era de fábrica, essas coisas, que tava rodando com a gente. Mas esse [Breque nacional] que teve agora do dia 31 de março ao dia 1º de abril, a gente conseguiu fazer tranquilo. Só que a gente tomou a decisão, todos nós… perguntei pro pessoal &#8216;ei pessoal vai fazer a greve de um dia, vai fazer a paralisação nacional ou a gente vai ficar mais dias?&#8217;. Teve uma porcentagem de pessoas que queria ficar mais dias. A gente fez uma votação e de 150 motoboys, 50 queria fazer mais dias e os outros 100 não. E como a gente sempre teve uma democracia, o que vale é o maior, o que der maior voto já era. E o que acontece, se eu levantasse a mão primeiro, eu ia puxar todo mundo. Aí pensei, &#8216;não, não vou levantar a minha mão, vou deixar o pessoal votar pra eu depois dar o meu voto&#8217;. Porque muita gente vai no embalo. Aí deu essa votação, 100 pessoas queriam participar do primeiro dia só. E foi bacana, pessoal respeitou bastante. Tivemos muita rapaziada nova, que tinha seis meses, um ano de iFood e já percebeu como o iFood tava arregaçando. E não duvido muito não se logo logo não vai ter uma paralisação também não. Porque esse aumento que o iFood deu de 1 real foi meio que uma enganação pro motoboy. Complicado. Mas, estamos esperando aí pra ver.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Greve em geral tem os seus limites por vários fatores, né? É grana que o pessoal deixa de ganhar, que imagino que tenha sido um fator para o término. Mas além disso teve alguns outros fatores? Claro, vai desgastando, o pessoal vai cansando… Quais fatores você elencaria como determinantes praquela greve ser encerrada no sexto dia?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Primeiro foi o que você falou, a questão financeira. Isso aí foi o que pegou bastante. Você tá sentado e você tá ali na base com o pessoal e você vê o pessoal com o semblante caído, preocupado porque tem algo pra pagar e tal. E o cansaço. O cansaço foi bem puxado. Porque no começo foi eu sozinho. Hoje aqui em São José eu não puxo sozinho um breque, porque hoje tenho outros aliados, que vieram comigo daquele primeiro breque [a greve de seis dias]. Mas no primeiro era tudo eu. O estabelecimento ligava, &#8216;ah, fala com o Cabeça&#8217;, &#8216;ah o iFood tá ligando, fala com o Cabeça&#8217;, &#8216;ah o motoboy tá com problema, fala com o Cabeça&#8217;. Era tudo eu, então era muita coisa pra pensar. Aí a mulher dentro de casa cobrando… Foi um negócio muito louco. Parar [a greve] foi uma decisão coletiva, não foi só minha não. A gente chegou no dia lá e falou &#8216;rapaziada, é o seguinte, o iFood entrou em contato, o iFood aceitou a nossa proposta de aumentar o valor da promoção e soltar pra cidade inteira&#8217;, porque na época era 1,50 se não me engano a promoção. E o iFood aumentou pra 3 reais a promoção. E aí o pessoal falou &#8216;ó Cabeça, a gente conseguiu o que a gente queria, a gente queria é um contato do iFood, a gente queria que o iFood desse uma atenção pra gente. A gente conseguiu uma coisa que várias capitais não tinham conseguido. O pessoal lá de São Paulo os motoboys tinham ido na porta do iFood e o iFood não deu atenção pros caras, e nós conseguimos um contato do iFood aqui. O cara falou com a gente e soltou. Então a gente cumpriu o nosso papel, vamos voltar&#8217;.</p>
<p>O cansaço falou muito alto. O estresse emocional foi cabuloso. Depois eu acho que fiquei uma semana sem falar em grupo de motoboy, sem falar com ninguém, porque foi bem puxado.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-157694" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-autunno-1995.jpgPinterestSmall-205x300.jpg" alt="" width="305" height="447" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-autunno-1995.jpgPinterestSmall-205x300.jpg 205w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-autunno-1995.jpgPinterestSmall.jpg 210w" sizes="auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px" /></p>
<p><strong>Leo</strong>: No início de outubro daquele ano, algumas semanas após o fim da greve, foi criada a Associação aí de vocês, ou pelo menos no CNPJ, a Associação dos Motoboys do Vale do Paraíba e do Litoral Norte. Você participou da criação da Associação? E por que viram a necessidade ou acharam que era uma boa ideia criar a Associação?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Na época eu não participei da criação. Fui até convidado pra participar. O cara que criou a associação, ele tava junto comigo no Buzinaço. Era eu e ele. Mas quando foi na greve do iFood eu fui sozinho, ele não me acompanhou. Até porque ele trabalha de CLT também. Aí depois ele criou essa Associação. Hoje é que a galera aqui em São José tá começando a aceitar essa Associação. Porque entrei como vice-diretor dessa Associação nesse mês de maio agora. Quando eu entrei na Associação só tinha três associados. A Associação foi criada em 2021, mas a categoria não aceita o presidente. Porque, tipo assim, não é motoboy conhecido, motoboy visto. Ele é um cara que trabalha de CLT e faz uns bicos de moto. Então a rapaziada não aceitou. Agora que eu entrei como vice-diretor, puxei uns meninos que participaram comigo da greve, hoje a Associação tá com 89 pessoas. Graças a Deus. Já conseguimos dar uma erguida nela. E estamos devagar, mas hoje a gente entende que pra gente conseguir conquistar alguma coisa a gente precisa de uma Associação. Isso aí a gente vê pelos outros estados e cidades. Teve uma época logo depois da greve, no mesmo ano da greve, que o iFood ofereceu me ajudar a criar uma Associação aqui na minha cidade, me ofereceram uma base de OL e tudo. Mas não aceitei. Não aceitei porque achei que se eu aceitasse eu estaria me vendendo pra eles. Então eu procurei não aceitar isso daí. Que nem outros colegas meus que acabaram aceitando em outros estados, infelizmente. Hoje a gente entende que a gente precisa de uma Associação pra conquistar algo pra categoria. Hoje através dessa Associação a gente conseguiu aqueles bolsões em frente do semáforo pra moto. A gente conseguiu também a faixa azul [faixa exclusiva pra motos]. Já tem um ano que ela foi aprovada, só não colocaram ainda, estamos pressionando eles.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Ela serve para ser uma referência, na hora que tem que dialogar com o poder público, essas coisas, né?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Até o próprio iFood tinha falado pra gente que só ia conversar com a gente quando a gente tivesse uma Associação, que ele não conversaria mais diretamente com entregador.</p>
<p><strong>Leo</strong>: Na greve de vocês, vocês conseguiram parar mesmo os estabelecimentos. Eu não sei se em Jundiaí e Paulínia eles tiveram essa mesma capacidade.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-157696" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/quattro-stagioni-estate-1995.jpgPinterestSmall.jpg" alt="" width="310" height="443" /></p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Eles tiveram um êxito bastante bom. Se eu não me engano Paulínia teve apoio dos estabelecimentos. Os estabelecimentos apoiaram. Jundiaí eu sei que teve um probleminha, mas os caras conseguiram segurar. Mas sei que Paulínia foi, modo de dizer, um pouco mais fácil porque eles tiveram os estabelecimentos do lado.</p>
<p><strong>Leo</strong>: O que que você acha que fez essa diferença aí em São José dos Campos ou mesmo nessas cidades que você teve algum contato com o pessoal &#8211; Jundiaí, Paulínia &#8211; para conseguir fazer essa greve de seis dias? Qual o “segredo”? Porque na maioria das cidades já é difícil paralisar um dia, dois. Por que vocês acham que conseguiram fazer essa diferença aí?</p>
<p><strong>Cabeça</strong>: Creio eu que o que fez a diferença da gente conseguir segurar bastante tempo essa greve foi justamente devido aos problemas que estavam tendo aqui na cidade. Questão de bloqueios, estabelecimentos maltratando o motoboy. Porque essa greve também foi pra gente poder dar um choque de realidade nos estabelecimentos, porque a gente tava tendo muito problema com estabelecimento aqui. Eles estavam maltratando a gente demais. Qualquer coisinha eles falavam que iam mandar pro iFood bloquear a conta. Aí o cara já ficava com medo. E tinha um estabelecimento aqui em São José, que o irmão da dona do estabelecimento trabalhava dentro do iFood, então teve muita conta boqueada devido a esse estabelecimento. E foi um dos estabelecimentos que a gente travou e travou mesmo. Inclusive eu fui lá pessoalmente nesse estabelecimento, porque eu falei pros caras: &#8216;eu não tenho medo de ser bloqueado, se eu for bloqueado eu boto os caras todos no pau&#8217;. Então isso serviu também. O porquê deu certo é porque todo mundo pensou a mesma coisa: &#8216;tamo fodido, fodido e meio, vamo embora, botar o pé na jaca&#8217;. Foi isso. Não tem um “por que” assim.</p>
<p>As outras cidades eu creio que tentaram fazer também uma greve longa porque, por São José dos</p>
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<div class="level3" style="text-align: justify;">
<p>Campos ter sido a primeira cidade que fez a greve mais longa da história dos motoboys, foi a primeira cidade que conseguiu contato diretamente com o iFood e com a Associação das plataformas, que é a Amobitec. A Amobitec também entrou em contato comigo. Então a gente foi a primeira que conseguiu. Na cabeça dos caras foi &#8216;bom, se os caras conseguiram promoção pra cidade, pra gente conseguir também vamos ter que fazer a mesma coisa&#8217;. E o iFood entendeu isso e depois soltou a nota dizendo pro pessoal que não ia mais entrar em contato com ninguém, que ia criar um Fórum dos entregadores e isso e aquilo e tal, e aquela embromação…</p>
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<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-157693 size-thumbnail alignleft" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/cy-twombly.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><em>As ilustrações reproduzem obras de Cy Twombly (1928-2011).</em></p>
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