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	<title>Síria &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>As liberdades curdas devem ser sacrificadas em nome da centralização da Síria?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Jan 2026 12:40:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma prioridade central para as forças progressistas e democráticas na Síria é interromper o banho de sangue, permitir o retorno seguro dos civis deslocados e lutar contra o discurso de ódio e as práticas sectárias no país. Por Joseph Daher]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joseph Daher</h3>
<p style="text-align: justify;">Apesar de o governo de Ahmed al-Sharaa e as Forças Democráticas Sírias (FDS) terem concordado, na terça-feira, com mais um cessar-fogo, as disputas internas e as tensões no país continuam.</p>
<p style="text-align: justify;">As FDS convocaram uma mobilização geral dos curdos para defender seus territórios em meio às ofensivas militares do governo, que buscam consolidar seu poder na Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Semanas de confrontos viram as forças armadas governamentais avançarem para os bairros de maioria curda de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, em Aleppo, o que resultou no deslocamento forçado de mais de 100 mil civis. Isso culminou com a captura, pelas forças do governo, de grandes partes das províncias de Deir Ezzor e Raqqa, após a retirada das FDS.</p>
<p style="text-align: justify;">A ofensiva militar de Damasco em Aleppo, assim como em outras áreas controladas pelas FDS, ocorreu após o término do prazo de 31 de dezembro de 2025, estipulado no acordo de 10 de março de 2025. Mediado por Washington entre o presidente sírio interino Ahmed al-Sharaa e Mazloum Abdi, chefe das FDS, o acordo buscava integrar os braços civil e militar das FDS ao Estado. No entanto, o impasse político permaneceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a escalada militar ocorreu apenas dois dias após uma reunião em Damasco entre as autoridades sírias e as FDS, com a presença de militares dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">É evidente que, durante as negociações em curso, as autoridades sírias estavam elaborando um plano para lançar primeiro uma operação militar em Aleppo e, em seguida, estendê-la a outras áreas controladas pelas FDS. Elas mobilizaram diversas tribos árabes — que já mantêm contato com al-Sharaa há algum tempo — em Deir Ezzor e Raqqa, a fim de preparar uma ofensiva geral contra as FDS.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso foi feito com o apoio da Turquia, além de um sinal verde de Washington.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Incerteza</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O cessar-fogo inicial de 18 de janeiro e o acordo de 14 pontos previam a entrada das forças armadas sírias no nordeste do país e a integração das FDS ao exército nacional. Ainda assim, isso não impediu a escalada militar do governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Um novo acordo foi firmado na terça-feira, 20 de janeiro. A Agência Árabe Síria de Notícias (SANA) anunciou que as forças armadas do governo sírio não entrarão nos centros das cidades de al-Hasakah e Qamishli, permanecendo em suas periferias. Damasco também declarou que as forças militares sírias não entrarão em vilarejos curdos e que não haverá forças armadas nesses vilarejos além de forças de segurança locais formadas por residentes da região.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, segundo a SANA, espera-se que Abdi “proponha um candidato das FDS para o cargo de vice-ministro da Defesa, bem como um candidato ao governo de Hasaka, nomes para representação parlamentar e uma lista de indivíduos para emprego em instituições do Estado sírio”. No entanto, muitas incertezas permanecem quanto à viabilidade desses acordos e à sua implementação.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a situação no notório campo de al-Hol, em Hasaka — que abriga famílias e afiliados do Estado Islâmico (ISIS) — está gerando temor real, com relatos alarmantes sobre a fuga de centenas de membros do ISIS.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158573" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women.avif" alt="" width="2500" height="1875" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women.avif 2500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-300x225.avif 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-1024x768.avif 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-768x576.avif 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-1536x1152.avif 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-2048x1536.avif 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-560x420.avif 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-80x60.avif 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-100x75.avif 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-180x135.avif 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-238x178.avif 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-640x480.avif 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-681x511.avif 681w" sizes="(max-width: 2500px) 100vw, 2500px" />Apoio externo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Embora os EUA (junto com a França) estivessem oficialmente trabalhando para reduzir as tensões entre os dois atores e, apesar de serem parceiros de longa data das FDS no combate ao Estado Islâmico (ISIS), Washington não impôs nenhuma pressão significativa para interromper as ações militares do governo sírio.</p>
<p style="text-align: justify;">Na prática, os EUA tornaram-se um importante apoiador das novas autoridades governantes, como evidenciado pelas múltiplas reuniões entre Trump e al-Sharaa, bem como pela retirada das sanções Caesar em dezembro de 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">Após a queda do regime de Assad, a Turquia tornou-se um dos atores regionais mais importantes na Síria, especialmente no norte do país. Ao apoiar as autoridades sírias dominadas pelo Hay&#8217;at Tahrir al-Sham (HTS), Ancara consolidou sua influência sobre o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Além de pressionar pelo retorno de refugiados sírios e buscar lucrar com as oportunidades econômicas oferecidas pela reconstrução, o principal objetivo da Turquia é negar as aspirações curdas por autonomia — percebidas como uma ameaça à segurança nacional — e desmantelar a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (AANES).</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Fragilidades</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em poucos dias, as autoridades governantes sírias capturaram dois terços dos territórios controlados pelas FDS. Para além dos aspectos geoestratégicos imediatos, esse avanço rápido também demonstra as limitações do projeto político da AANES entre populações não curdas, especialmente árabes. Ao longo dos anos, setores da população árabe protestaram contra discriminação, práticas de “segurança” direcionadas, prisão de ativistas e a falta de representação real nas instituições da AANES.</p>
<p style="text-align: justify;">Em vez de desenvolver estratégias para conquistar o consentimento das classes populares árabes nas áreas sob seu controle, as lideranças das FDS optaram por colaborar com líderes tribais para administrar as populações locais. No entanto, esses líderes tribais são conhecidos por mudar de lealdade conforme os atores políticos mais poderosos do momento e por focar na defesa de seus próprios interesses materiais. À medida que o equilíbrio de forças se deslocou progressivamente em favor de Damasco, os líderes tribais seguiram o mesmo caminho.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a confiança equivocada da liderança das FDS na continuidade do apoio dos EUA, bem como a falta de interesse em construir alianças políticas mais amplas e profundas com forças democráticas e progressistas do país, enfraqueceram a sustentabilidade do projeto político das FDS.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158575" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747.jpg" alt="" width="1024" height="682" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Centralização do poder</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em última instância, a recente ofensiva militar das forças armadas do governo deve ser entendida como parte da tentativa contínua das atuais elites governantes sírias de centralizar o poder e rejeitar um caminho mais inclusivo para o futuro da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse tem sido o caso desde a queda de Assad. Nos meses seguintes, violações significativas de direitos humanos foram cometidas sob a liderança de al-Sharaa, notadamente os massacres de populações alauítas e drusas no litoral e em Sweida. Paralelamente a esses ataques, as autoridades governantes também buscaram restringir direitos e liberdades democráticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, as autoridades governantes e seus apoiadores são acusados de promover um discurso agressivo contra os curdos e as FDS, com alegações de racismo significativo e de violações de direitos humanos cometidas por forças governamentais e grupos armados aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o ministro sírio dos Assuntos Religiosos, Mohammad Abu al-Khair Shukri, emitiu uma diretriz religiosa conclamando mesquitas em todo o país a celebrar o que descreveu como “conquistas e vitórias” das forças alinhadas a Damasco no leste da Síria, e a rezar pelo sucesso dos soldados do Exército Árabe Sírio.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao incentivar especificamente a menção ao versículo seis da Surata al-Anfal do Alcorão, sugere-se que ele pretendia fazer referência à campanha militar Anfal de 1988, conduzida por Saddam Hussein contra os curdos no atual Curdistão iraquiano, marcada por ataques químicos, assassinatos em massa e destruição generalizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desse contexto preocupante, governantes regionais e internacionais continuaram a apoiar as autoridades sírias, legitimando e fortalecendo seu poder sobre o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, embora al-Sharaa tenha concedido direitos linguísticos, culturais e de cidadania à população curda na Síria, bem como cargos oficiais no Estado, permanecem temores legítimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma prioridade central agora para as forças progressistas e democráticas na Síria é interromper o banho de sangue, permitir o retorno seguro dos civis deslocados e lutar contra o discurso de ódio e as práticas sectárias no país. O futuro da Síria está em jogo. De fato, as novas autoridades governantes demonstraram que seus planos não representam uma ruptura radical com as práticas autoritárias do antigo regime.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, Damasco não oferece planos para uma representação política democrática e inclusiva nem para o compartilhamento de poder. Todos os sírios que buscam democracia, justiça social e igualdade deveriam se preocupar com essas dinâmicas e combatê-las com todas as suas forças.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Joseph Daher é acadêmico e autor de Syria after the Uprisings*, The Political Economy of State Resilience; Hezbollah: the Political Economy of Lebanon&#8217;s Party of God; Marxism and Palestine.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>*Publicado no Brasil pela <a href="https://contrabando.xyz/product/siria-depois-do-levante/?srsltid=AfmBOoqMmJGS3uEx-QIaV5PpPp_I517ylfZTObMC4bqjQVY4J5RQc4Zr" target="_blank" rel="noopener">Contrabando Editorial</a>, com o título </em><strong>Síria depois do Levante</strong><em>. Publicamos um capítulo intitulado &#8220;A questão curda na Síria&#8221; <a href="https://passapalavra.info/2023/09/150055/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido do original em inglês, publicado em </em><a class="urlextern" title="https://www.newarab.com/opinion/should-kurdish-freedoms-be-sacrificed-syrias-centralisation" href="https://www.newarab.com/opinion/should-kurdish-freedoms-be-sacrificed-syrias-centralisation" rel="ugc nofollow">The New Arab</a></p>
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		<title>[Síria] Informativo: Resistência de Sheikh Maqsoud y Ashrafieh</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jan 2026 12:29:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Síria]]></category>
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					<description><![CDATA[Com tanques, ataques aéreos e outras armas pesadas, o exército sírio iniciou uma forte ofensiva contra a minoria kurda em Alepo no dia 6 de janeiro. Por Centro de Informação Kongra Star]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Centro de Informação Kongra Star</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>Resumo:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Diante do aumento das tensões e ataques realizados nos últimos meses, o Governo de Transição Sírio (HTS), junto com o Exército Nacional Sírio (ENS), soldados vestidos com uniformes do ISIS e conhecidos nacionalistas turcos, lideraram um ataque conjunto contra os bairros de maioria kurda de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, que formam parte da Administração Autônoma Democrática.</p>
<p style="text-align: justify;">Com tanques, ataques aéreos e outras armas pesadas, o exército sírio iniciou uma forte ofensiva no dia 6 de janeiro. No dia 9 de janeiro, os conselhos populares de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh fizeram uma declaração conjunta na qual afirmavam que iriam permanecer e defender seus bairros. As forças de segurança interna e o povo continuaram sua resistência contra a ideologia islamista fascista e os ataques físicos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>História:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Alepo é a segunda maior cidade da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Está situada no norte da Síria e tem uma população de mais de 2 milhões de habitantes. Sheikh Maqsoud e Ashrafieh são bairros de Alepo com maioria kurda e uma população entre 100.000 e 200.000 habitantes.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Em 2011, Alepo se converteu em um dos centros da revolução e foi cenário de intensos combates durante a guerra civil síria. Os bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh expulsaram o regime de Assad com resistência armada e declararam autonomia. Em seguida, os bairros ficaram sob proteção das YPG (Unidades de Proteção Popular). Foram as primeiras zonas que se levantaram contra o regime de Assad e, posteriormente, enfrentaram embargos, assédios e ataques tanto das forças pró-Assad quanto das islamistas. Em 2016, após bombardeios indiscriminados e uso de armas químicas proibidas, a Anistia Internacional declarou que estavam cometendo crimes de guerra nos bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh. Também em 2016, as forças de Assad recuperaram o controle de toda a cidade, exceto dos bairros de maioria kurda, que defenderam com êxito sua autonomia.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Muitas pessoas que foram removidas forçadamente de Afrin em 2018 e muitas outras que precisaram fugir de Shahba no fim de 2024 se refugiaram em Sheikh Maqsoud.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O Governo de Transição Sírio, apoiado pela Turquia, Grã-Bretanha, Estados Unidos, União Europeia e Israel, tem uma ideologia jihadista e pretende estender seu poder por toda a Síria.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Acordos:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No dia 29 de novembro de 2024, o HTS e o ENS, respaldados pela Turquia, avançaram contra Alepo em uma ofensiva para derrotar o regime de Assad e se converter no Governo de Transição Sírio. Isto levou as SDF e o HTS a firmar dois acordos:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O “Acordo do dia 10 de março” criou uma via para a integração do norte e leste da Síria em um novo sistema político e militar sírio. Isso deveria ocorrer antes do final de 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O “Acordo do 1º de abril” tinha como objetivo pôr fim aos enfrentamentos que ocorriam nos bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh. Com esse acordo, as SDF retiraram seus combatentes e armas pesadas e somente restaram as Asayish (Forças de Segurança Interna) com armamentos leves.</p>
<p style="text-align: justify;">Os ataques contra os bairros se deram após o suposto fracasso dos diálogos destinados a aplicar as negociações do dia 10 de março e após a pressão do Estado turco para que essas negociações fossem interrompidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O que ocorreu e os números:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Os meios de comunicação informaram que, até o momento, mais de 23 civis foram mortos. No entanto, não existem cifras oficiais de vítimas mortais e é de se esperar que esse número aumente na medida em que mais informação seja disponibilizada. Os feridos que abandonaram recentemente os bairros informaram que as ruas estão cheias de cadáveres.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Há mais de 100 pessoas feridas, uma grande quantidade delas são mulheres e crianças. Muitos dos feridos foram retirados de Alepo e se encontram agora na Administração Autônoma de Raqqa e Heseke.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Muitos civis foram sequestrados e se encontram em mãos dos jihadistas, incluindo profissionais da saúde. O Governo de Transição Sírio afirma que detém 300 cidadãos detidos. Seu paradeiro é desconhecido e há um temor pela iminência de um massacre.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; A população não tem acesso a água, petróleo, gás, alimentos, tratamento médico e instalações humanitárias. O resultado de tudo isso é uma enorme catástrofe humanitária.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O hospital Khaled Fajr, em Sheikh Maqsoud, carece de eletricidade desde o dia 8 de janeiro, após ter sido atacado mais de cinco vezes com recorrentes bombardeios, o que constitui um crime de guerra.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O Governo de Transição Sírio utilizou 80 tanques e 42.000 soldados procedentes de toda a Síria. A população dos bairros, em virtude do acordo do 1º de abril, não dispunha de armas pesadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Vínculos internacionais:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como vimos no último ano, o reconhecimento e o apoio externos frequentemente conduzem diretamente à violência contra as minorias a nível interno.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; 6 de janeiro (dia em que começaram os ataques): o Governo de Transição Sírio e Israel chegaram a um acordo mediante conversas mediadas pelos Estados Unidos. Segundo o primeiro-ministro israelense, “os diálogos continuariam para avançar nos objetivos comuns”.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; 8 de janeiro: Turquia declarou seu apoio ao Governo de Transição Sírio em seus contínuos ataques.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; 9 de janeiro: enquanto ocorriam ataques em Alepo, a presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, realizou sua primeira visita oficial a Damasco e elogiou o novo regime por seus “avanços” neste processo de transição e falou sobre um possível “novo começo” nas relações. A União Europeia se comprometeu a prestar apoio financeiro e político ao Governo de Transição.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; 10 de janeiro: Estados Unidos concordou em retirar as sanções da Síria e “ampliar seu apoio ao governo sírio do presidente Ahmed al-Sharaa em seu trabalho para estabilizar o país”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Provas do envolvimento da Turquia:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O ENS conta com o respaldo e financiamento da Turquia. Os soldados do ENS recebem salários do Estado turco, e por isso os chamamos de mercenários turcos. O ENS se uniu recentemente de maneira formal ao HTS como parte do Exército sírio e os ataques em Alepo são um esforço conjunto.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Informes de civis atacados em Alepo que afirmam que muitos soldados falavam turco, fotos de supostos combatentes sírios fazendo o signo do Lobo Cinzento (nacionalismo turco) e cidadãos turcos conhecidos registrados em vídeo lutando em Alepo.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; No dia 8 de janeiro, o Ministério da Defesa turco declarou que “a Turquia proporcionará o apoio necessário (ao HTS)” e que apoiam essa luta. No dia 10 de janeiro, a Turquia lançou um ataque militar direto contra uma posição das SDF em Tabqa e ameaçou ampliar o conflito. A partir do dia 11, a represa de Tushrin também está sendo atacada com drones e artilharia, e foram visualizados aviões de combate pertencentes ao exército turco.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Tom Barack, enviado especial para a Síria e muito ativo nas negociações e acordos entre o HTS e as SDF, é também embaixador dos Estados Unidos na Turquia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Resistência e apoio:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; A resistência em Sheikh Maqsoud e Ashrafiyah é um poderoso ato de vontade e força popular. A comuna e os conselhos de bairro lideraram o caminho, sendo a voz democrática da resistência popular. As mulheres estiveram entre as primeiras a declarar que não iriam embora, com a comuna de mulheres desempenhando um papel importante nos debates do conselho.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Em todo o mundo foram feitos chamados para deter os ataques e construir uma Síria democrática. Especialmente na região kurda da Turquia, onde milhares de pessoas se manifestaram em Amed [Diyarbakir] contra os ataques.</p>
<p style="text-align: justify;">-Durante a resistência, quatro membros das ISF (Forças de Segurança Interna) cometeram um ato de sacrifício, três deles eram mulheres. Suas ações heroicas deram esperança para continuar a resistência e as YPJ afirmaram: “Enquanto existirem sacrifícios de pessoas como Farashin, Deniz, Rojbin e Hawar, a vitória sempre será do nosso povo”</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Centro de Informação Kongra Star</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>13.01.2026</em></p>
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		<title>Velha Toupeira (25)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Dec 2024 03:08:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Síria]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155522" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/VT025-FUTURO-DA-SÍRIA.jpg" alt="" width="2362" height="787" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/VT025-FUTURO-DA-SÍRIA.jpg 2362w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/VT025-FUTURO-DA-SÍRIA-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/VT025-FUTURO-DA-SÍRIA-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/VT025-FUTURO-DA-SÍRIA-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/VT025-FUTURO-DA-SÍRIA-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/VT025-FUTURO-DA-SÍRIA-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/VT025-FUTURO-DA-SÍRIA-1261x420.jpg 1261w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/VT025-FUTURO-DA-SÍRIA-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/VT025-FUTURO-DA-SÍRIA-681x227.jpg 681w" sizes="(max-width: 2362px) 100vw, 2362px" /></p>
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		<title>A Questão Curda na Síria [4]</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Oct 2023 11:29:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Síria]]></category>
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					<description><![CDATA[O destino do povo curdo na Síria guarda uma ligação umbilical com as causas e condições do levante sírio. Por isso, seu futuro segue ameaçado enquanto enfrenta múltiplos ataques. Por Joseph Daher]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joseph Daher</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">O artigo a seguir, publicado em 4 partes, é o quinto capítulo do livro Síria Depois Dos Levantes, de <a href="https://contrabando.xyz/revolucao-e-contrarrevolucao-na-siria-entrevista-com-joseph-daher/" target="_blank" rel="noopener">Joseph Daher</a>. A versão integral do livro foi traduzida pela Contrabando Editorial e será publicada no fim de 2023.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<h3>Autogoverno em Rojava</h3>
<p style="text-align: justify;">Em novembro de 2013, o PYD assumiu a autoridade governante <em>de facto</em>, gerenciando uma administração transitória no território chamado por eles &#8211; e pelos curdos em geral &#8211; de <em>Rojava</em> (Curdistão Ocidental). Rojava inclui três enclaves não-contíguos: Afrin, Kobani e Cezire (região da Jazira na província de Hasakah). A administração interina unificada era composta por assembleias legislativas e governos locais, assim como uma assembleia geral incluindo representantes curdos, árabes, siríacos e assírios de todos os três cantões. Tinha, como meta declarada, formar uma administração autônoma dentro de uma Síria federativa.(ICG 2014a: 15) Ao final de setembro de 2017, no sétimo Congresso do PYD, seus membros confirmaram o federalismo como a solução mais apropriada para a região.(Arafat 2017b)</p>
<p style="text-align: justify;">A construção de Rojava enquanto projeto era descrita como uma forma de “autonomia democrática” ou de “autoadministração”, cujas forças militares e policiais garantiriam a segurança, gerenciariam os tribunais e prisões e distribuiriam assistência humanitária. O PYD defendia o autogoverno local, unido na prática mais por uma visão comum de reforma social do que pelo domínio de um governo centralizado.(ICG 2014a: 2, 12)</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, apesar da ênfase pública sobre o pluralismo, o PYD também dominava politicamente as instituições locais. Como descrito pelo ICG( International Crisis Group, 2014a: 13):</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os integrantes e dirigentes dos conselhos populares, teoricamente responsáveis pela administração local, incluindo representantes de todos os partidos políticos curdos, assim como de populações não-curdas das áreas mistas, são nomeados pelo PYD. Da mesma maneira, o movimento mantém a autoridade geral sobre a tomada de decisões, consignando aos conselhos &#8211; além da distribuição de gás e auxílio humanitário &#8211; um papel na maior parte simbólico (…)</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">A instituição comunal foi um dos principais elementos no novo sistema de Rojava para a implementação da dominação por organizações ligadas ao PYD. As organizações e ONGs fora da estrutura do PYD precisavam passar pelo sistema das comunas (ou outras instituições de Rojava) para obterem autorização operacional nessas regiões.(al-Darwish D. 2016: 18)</p>
<p style="text-align: justify;">O PYD implementou políticas similares na expansão e institucionalização das suas forças militares. As campanhas de recrutamento eram abertas a indivíduos de diversas origens, mas, ao mesmo tempo, tinham garantido seu comando ao PYD. O YPG abriu academias militares que forneciam aos recrutas três meses de treinamento tático e ideológico. O YPG também tentou integrar não-curdos (árabes, siríacos e assírios) sob a sua direção. Ao final, incorporaram combatentes não-curdos no sistema de segurança de Rojava em brigadas independentes, mantendo direção própria, enquanto atuavam sob o comando do YPG.(ICG 2014a: 14)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150277 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp3-1.jpg" alt="A questão curda na Síria [4]" width="511" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp3-1.jpg 511w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp3-1-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp3-1-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp3-1-419x420.jpg 419w" sizes="auto, (max-width: 511px) 100vw, 511px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As administrações de Rojava também estabeleceram Tribunais Populares, sem promotores ou juízes treinados, já que quase nenhum curdo havia sido aceito nessas profissões no sistema anterior do partido Baath. Criaram-se tribunais junto a uma força policial, o Asaiysh, que trabalhava para implementar a lei e a ordem.(Human Rights Watch 2014: 14) Nomeados pelo PYD, eles administravam a justiça em toda a Rojava, sob um código penal híbrido. Assim como as forças policiais, eles foram duramente criticados por entidades rivais curdas, ativistas e organizações de defesa de direitos fundamentais, por numerosas violações dos direitos humanos.(ICG 2014a: 14)</p>
<p style="text-align: justify;">Em março de 2014, publicou-se o Contrato Social de Rojava, proposto como carta constitucional provisória da região. Seu texto dedicou os artigos de 8 a 53 para princípios básicos de direitos, representação política e liberdades pessoais correspondentes aos ideais da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O PYD também promoveu normas progressivas para a igualdade de gênero em suas estruturas administrativas, com paridade em todos os governos e a criação de um ministério para a “Liberação das Mulheres”, medidas amplamente adotadas, incluindo dentro das forças militares.(Sary 2015: 11-12; Perry 2016) O Artigo 28 declara de forma direta que “as mulheres têm o direito de se organizar e desmantelar todos os tipos de discriminações baseadas no sexo.”(citado em Sheikho 2017)</p>
<p style="text-align: justify;">A carta reivindicava igualdade cultural e étnica para os vários povos em Rojava. Também assinalava a descentralização com resposta aos múltiplos conflitos religiosos, étnicos e regionais na Síria, bem como à ditadura, enfatizando a integridade territorial do país como parte de um sistema federativo.(Sary 2015: 11-12; Perry 2016) Essa política aberta era verificável na diversidade populacional entre moradores nas áreas controladas pelo PYD. Isso, porém, não evitou tensões entre a sua administração e outras comunidades &#8211; incluindo as populações árabes sunitas (comentado mais adiante neste capítulo). Igrejas e representantes cristãos também protestaram contra diversas decisões tomadas pelas gestões do PYD sempre que sentiam seus interesses ameaçados.</p>
<p style="text-align: justify;">Em setembro de 2015, 16 organizações armênias, assírias e cristãs publicaram uma declaração opondo-se a um decreto do Conselho Legislativo da região da Jazira, instituição estabelecida pelo PYD para legislar em um dos três distritos sob seu controle. Essas organizações confiscaram as propriedades dos moradores que oficialmente deixaram a região, a fim de “proteger” seus patrimônios contra terceiros e usá-los em benefício da comunidade. Após algumas semanas, o PYD viu-se forçado a recuar e as propriedades dos cristãos foram cedidas às várias igrejas(Ulloa 2017; Yazigi 2017: 10). Na mesma declaração, as organizações também afirmaram ser “inaceitável qualquer interferência nas escolas privadas das igrejas na província de Jazira.”(citado em Ulloa 2017: 10) Em agosto de 2018, as autoridades da zona autoadministrada anunciaram a decisão de fechar mais de uma dezena de escolas privadas geridas pela igreja assíria e outras denominações cristãs em todo o nordeste da Síria, que ainda não haviam adotado o novo currículo estabelecido pelas autoridades curdas. Ao final, após enfrentar diversas resistências, a decisão acabou revertida.(Edwards e Hamou 2018)</p>
<p style="text-align: justify;">A intimidação e a violência contra personalidades da oposição cristã e assíria também ocorreu pelas mãos das forças do YPG, incluindo o assassinato de David Jendo, um líder assírio na região de Khabour, em abril de 2015.(Ulloa 2017: 11) No entanto, essas figuras foram visadas devido às suas opiniões políticas, e não pelas origens étnicas ou religiosas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150278 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp4-1.jpg" alt="A questão curda na Síria [4]" width="404" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp4-1.jpg 404w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp4-1-237x300.jpg 237w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp4-1-331x420.jpg 331w" sizes="auto, (max-width: 404px) 100vw, 404px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Em diversas ocasiões, as forças do YPG foram acusadas de promover políticas discriminatórias e repressivas contra as populações árabes em certos vilarejos no nordeste da Síria, um ponto refutado pelo YPG, que alegou relações com o Estado Islâmico entre alguns moradores.(Nassar e Wilcox 2016) As ofensivas militares lideradas pelo YPG resultaram, em diversos momentos, no deslocamento forçado de populações. A captura, pelas Forças Democráticas Sírias da cidade de Tal Rifaat, por exemplo, com a ajuda do esquadrão aéreo russo, após a derrota dos grupos de oposição árabe, em fevereiro de 2016, levou a população árabe local (cerca de 30 mil pessoas), a fugir para a fronteira turca.(al-Homsi 2017) No entanto, em março de 2017, a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria, vinculada à ONU, não encontrou evidências para apoiar as acusações, feitas por alguns integrantes da oposição árabe síria e por membros do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) na Turquia, de que o YPG ou forças das FDS procuraram sistematicamente mudar a composição demográfica nos territórios sob o seu controle.(Rudaw 2017a)</p>
<p style="text-align: justify;">A eficácia do PYD na provisão de serviços sociais também valeu como um fator central em sua construção de legitimidade no território. As administrações locais do PYD, chamadas de Administração Autônoma Democrática (AAD), foram capazes de prover bens e serviços, incluindo combustível, educação, empregos, eletricidade, água, saneamento, alfândega, saúde e segurança. A AAD teve resultados exitosos ao atender as necessidades locais, compensando a escassez de itens essenciais como botijões de gás e alimentos, indisponíveis no mercado. Ao prover tais produtos, o PYD tornou-se indispensável à população local e fortaleceu sua posição em sua jurisdição.(Khalaf 2016: 17-20)</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, novas instituições foram criadas para licenciar investimentos em negócios, escolas e veículos de imprensa. O PYD também ergueu novas estruturas educacionais, como a Academia Mesopotâmica de Ciências Sociais. A primeira universidade da região foi criada no distrito de Afrin em outubro de 2015, com 180 estudantes.(Yazigi 2016c: 5; Khalaf 2016: 17) No verão de 2016, inauguraram em Qamishli a Universidade de Rojava, com aulas em árabe, curdo e inglês. O projeto incluía uma faculdade de medicina, uma de educação e ciência, e outra de engenharia.(Abdulhalim, Mohammed, e Van Wilgenburg 2016) Em setembro de 2015 introduziu-se no sistema escolar, em Qamishli, um currículo inteiramente em curdo para os primeiros três anos de alfabetização, que depois foi estendido a outras áreas, substituindo o antigo arcabouço didático oficial da era Baath.</p>
<p style="text-align: justify;">A esmagadora maioria das escolas no estado de Hasaka, no nordeste da Síria, eram administradas pelo PYD. As exceções ficaram por conta de um conjunto de escolas dentro das áreas controladas pelo regime e alguns estabelecimentos privados cristãos em Hasaka e Qamishli.(Shiwesh 2016) Segundo o jornalista Mahir Yilmazkaya,(Mahir Yilmazkaya, 2016) simpatizante do PYD, o Instituto de Língua Curda cresceu, em 2012, de um professor e 12 estudantes para, em maio de 2016, 1700 docentes e 20 mil alunos em 200 escolas.</p>
<p style="text-align: justify;">A administração das AADs também promovia os direitos e a participação das mulheres em todos os níveis &#8211; uma conquista admitida até por seus críticos, apesar das contradições. A ativista civil Mahwash Sheiki,(Sheiki 2017) de Qamishli, uma das fundadoras da associação <em>Komela Şawîşka</em>, reconheceu as melhorias na área de direitos das mulheres, apesar de caracterizar o PYD como um “partido ideológico totalitário, que não aceita outros com ideologias distintas”:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Segundo a teoria, as leis e os princípios gerais publicados pela AAD, as conquistas são enormes. Enquanto mulheres ativistas, talvez nos acostumávamos a exigir esses direitos sem muita esperança em vê-los reconhecidos (…) o que a AAD aprovou equivale às leis de países de primeiro mundo com relação aos direitos das mulheres (…)</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, o princípio mais importante ao qual a AAD aderiu foi o da participação igualitária em todas as instituições. Ele foi seguido ao pé da letra, e também ocupa o centro da estrutura do PYD (…)</p>
<p style="text-align: justify;">O PYD foi capaz de mobilizar e incluir grupos marginalizados da região, incluindo as mulheres, que foram impelidas à vida militar e política. Longe de natural, essa mudança foi forçada, e não acompanhada pelo desenvolvimento das mulheres enquanto entes independentes, com suas próprias necessidades, direitos e obrigações. Além disso, a mudança não ocorreu devido a uma transformação no sistema socioeconômico. Na realidade, foi resultado de uma decisão vinda de cima para baixo, ditada pelo partido, disposto a ganhar mulheres para seu campo ideológico. Constituiu uma política vitoriosa (…)</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Sheiki explica que os direitos e a participação das mulheres em Rojava é único e diferente das outras regiões na Síria, estejam elas sob controle do regime ou &#8216;libertas&#8217; e controladas pela oposição. Em relação às leis ligadas aos direitos das mulheres e o seu empoderamento militar e político, ela argumenta que “isso não significa que as mulheres são plenamente emancipadas, porque o empoderamento do povo e dos indivíduos também significa empoderamento econômico e social, assim como a ampliação da democracia.”(Sheiki 2017)</p>
<p style="text-align: justify;">Esse testemunho poderia ser estendido às outras áreas de intervenção do PYD nos três cantões de Rojava. Essas caracterizavam-se por dinâmicas vindas do alto, em vez de mudanças radicais e participação pela base, apesar de nem sempre haver a completa separação entre ambos. Segundo a ativista Shiyar Youssef,(Shiyar Youssef 2016) comentando o controle do PYD sobre tais áreas:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Parece, por um ângulo, que a experiência começou a produzir ganhos dignos de celebração, como a administração laica do aparato estatal, maiores direitos garantidos às mulheres e a integração de minorias no governo, assim como participação maior e mais autonomia para a população local no gerenciamento de seus assuntos &#8211; especialmente com a ausência de um Estado forte e consolidado.</p>
<p style="text-align: justify;">O PYD, é preciso lembrar, carrega uma experiência muito rica de autogoverno, acumulada no Curdistão turco. Ao mesmo tempo, suas práticas podem levar à consolidação do partido no poder e a um aumento da repressão em defesa dessa nova ordem, o que seria um verdadeiro desperdício. Um risco que segue real e possível.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Thomas Schmidinger,(2018: 135) especialista na questão curda e autor do livro <em>Rojava: Revolution, War, and the Future os Syria&#8217;s Kurds</em>, afirma, de maneira similar, que suas pesquisas de campo resultaram em uma situação intermediária, na qual “o quartel-general do PKK nas montanhas Qandil tem a palavra final nas questões decisivas”, ao mesmo tempo que “o sistema de conselhos assume um papel importante nas pequenas decisões diárias e no suprimento da população.”</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, alguns não reconhecem as entidades administrativas do PYD, ou os enxergam com desconfiança. A maioria dos partidos do KNC condenava essas instituições por considerá-las dominadas pelo PYD e compostas por uma variedade de personalidades curdas, árabes, siríacas e assírias que tinham pouco a perder ao engajarem-se na iniciativa.(ICG 2014a: 15)</p>
<p style="text-align: justify;">Essas novas instituições careciam de legitimidade aos olhos de segmentos significativos de árabes sírios vivendo sob sua jurisdição. Por exemplo, o sheik Humaydi Daham al-Hadi al-Jarba, chefe da tribo árabe al-Shammar, foi nomeado em 2014 cogovernador do Cantão da Jazira, em Rojava. Seu filho tornou-se comandante das forças al-Sanadid, uma das principais milícias árabes que combatiam junto ao YPG. Al-Sanadid era conhecido previamente como Jaysh al-Karama, tendo sido acusado de expulsar e aprisionar apoiadores da revolução.(Orient News 2015) Ainda em 2013, Daham al-Hadi al-Jarba havia feito uma aliança com o YPG para manter os grupos de oposição e as organizações salafistas e jihadistas fora das áreas de Shammar, na fronteira entre Iraque e Síria.(Orton 2017) A Al-Shammar de Humaydi Daham al-Hadi al-Jarba, na província de Hasaka, mantinha vínculos com a população curda da Jazira, uma das poucas tribos que se recusaram a participar na repressão ao lado das forças de segurança do regime durante o levante curdo, em março de 2004. Daham também cultivava boas relações com o líder curdo Masoud Barzani antes de sua nomeação como presidente da região autônoma do Curdistão iraquiano, em 2005.(Van Wilgenburg 2014c) Ele residiu em Erbil entre 2003 e 2009, retornando depois à Síria.(Orton 2017) A colaboração com o PYD permitiu-lhe manter controle sobre os recursos do petróleo, mesmo após a retirada das forças do regime Assad e das agências de segurança locais.(Khaddour 2017b)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150279 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp5-1.jpg" alt="A questão curda na Síria [4]" width="405" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp5-1.jpg 405w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp5-1-237x300.jpg 237w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp5-1-332x420.jpg 332w" sizes="auto, (max-width: 405px) 100vw, 405px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, o papel de Daham al-Hadi al-Jarba era relativamente simbólico, voltado a exibir a inclusão de diferentes etnias no projeto político de Rojava. O poder real permanecia nas mãos do PYD. Até mesmo Ciwan Ibrahim, comandante geral da polícia curda no norte da Síria, argumentava que apenas uns poucos árabes apoiavam a tribo al-Shammar.<strong>[1]</strong> Do ponto de vista político, eles tinham pouco ou quase nada em comum, expresso na resposta de Hadiya Yousef, copresidente do Cantão da Jazira, sobre as visões políticas de Daham al-Hadi al-Jarba. “Hadi certamente não é feminista (…), mas ele nos apoia.” Quanto à sua colaboração com Hadiya Yousef, Daham al-Hadi al-Jarba respondeu, “Não pedi para compartilhar o poder com uma mulher (…) Eles, do PYD, me obrigaram.”(citado em Enzinna 2015)</p>
<p style="text-align: justify;">De maneira parecida, após a conquista de Manbij pelas FDS em agosto de 2016 e de Raqqa em outubro de 2017, ambas cidades até então ocupadas pelo EI, os novos conselhos nomeados pelo PYD, que representavam a diversidade étnica e religiosa da cidade, tinham cota de gênero,(Ayboga 2017) nas quais alguns dos dignatários da cidade estavam representados. O conselho civil de Raqqa conservava dupla liderança: Leila Mustafa, mulher curda da cidade fronteiriça de Tal Abbyad, e seu equivalente masculino árabe, Mahmoud al-Borsan, ex-membro do parlamento sírio e líder da influente tribo Walda, de Raqqa.(al-Hayat 2017; Lund 2017e) Também foram delegadas 20 das vagas no conselho a prepostos das tribos árabes locais.(al-Maleh e Nassar 2018) Em Manbij, o principal representante dos árabes era Faruq al-Mashi, primo de Muhammad al-Mashi, membro do parlamento sírio. A família al-Mashi, que havia colaborado com o PYD antes que as FDS recapturassem Manbij, voltando à área depois disso, foi acusada de ter atacado violentamente os manifestantes no início do levante de 2011, cumprindo o papel de <em>shabiha</em> na cidade.(Khalaf 2016: 20) Em uma entrevista, Faruq al-Mashi negou ter dado qualquer apoio ao regime, declarando:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">(…) junto à minha tribo, posicionei-me contra o regime, mas rejeitei a agressão armada. Porém, muitos a apoiavam e os árabes tinham opiniões divididas. Quase ninguém estava ao lado do regime (…)(citado em Ayboga 2017)</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Em ambos os casos, no entanto, prevaleceu o PYD. Expressando a importância simbólica do momento, enormes retratos do fundador do PKK, Abdullah Öcalan, foram erguidos na praça central de Raqqa, Naeem. Enquanto isso, os comandantes das FDS, após a conquista da cidade entre meados e final de outubro de 2017, dedicaram a vitória a Öcalan e à Coalizão de Mulheres,(Reuters 2017f) após expulsarem o Estado Islâmico com apoio militar aéreo dos EUA.<strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse arranjo, preservou-se a relevância dos líderes tribais nas instituições de Rojava, sem grandes contestações. O pesquisador Khedder Khaddour(Khedder Khaddour, 2017c) explicou que o YPG:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">contava com o apoio das tribos locais para se relacionar com as populações sob o seu controle, porém os líderes das comunidades tribais frequentemente usavam esses grupos armados para garantir seus próprios interesses materiais e ganhar vantagens em relação a outros atores tribais (…) os esforços do PYD para tratar separadamente com cada tribo árabe &#8211; estratégia similar à adotada pelo EI &#8211; reflete um legado das políticas do Estado sírio que visavam criar divisões entre os grupos e até mesmo entre seus membros. Isso demonstra uma preocupação com a ameaça, mesmo remota, do que uma população tribal unificada possa representar para atores externos.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Como argumentado pelo pesquisador Haian Dukhan,(Citado em al-Maleh e Nassar 2018) “historicamente, a fidelidade das tribos aos diferentes partidos era determinada por relações pragmáticas de clientelismo &#8211; acesso à terra para pasto, representação nas instituições de governança local, assim como oportunidades de emprego.” Efetivamente, as FDS não foram as únicas a tentar mobilizar as tribos de Raqqa em função de interesses próprios.</p>
<p style="text-align: justify;">Não obstante, apesar da nomeação de Daham para cogovernador do Cantão da Jazira e de outros líderes tribais para os conselhos civis, muitos chefes de tribos árabes locais seguiam temerosos das intenções do PYD, sentindo-se atraídos pela Operação Escudo Eufrates. Essa iniciativa militar turca coordenada com o ELS e grupos armados islâmicos visavam evitar que as FDS e as forças curdas expandissem seu controle aos territórios oeste do Rio Eufrates, ou permanecessem próximas ao comando do regime. Também não era incomum, durante o levante, que líderes tribais trocassem lealdades e jurassem fidelidade, segundo um equilíbrio incerto de poder e atores dominantes no momento. Em várias ocasiões, as FDS enfrentaram dissidências de tribos locais nas regiões sob sua autoridade.(al-Maleh e Nassar 2018)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150280 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp6-1.jpg" alt="A questão curda na Síra [4]" width="507" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp6-1.jpg 507w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp6-1-297x300.jpg 297w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp6-1-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp6-1-416x420.jpg 416w" sizes="auto, (max-width: 507px) 100vw, 507px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, como explicou o pesquisador Kheder Khaddour, o PYD enfrentou reveses em cooptar as elites urbanas escolarizadas que atuavam com autonomia em relação às tribos às quais originalmente pertenciam, mesmo em cidades como Qamishli, sob o seu controle desde o verão de 2012.(Lund 2017e)</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, o processo descentralizado de tomada de decisões promovido pela administração em Rojava estava longe de ser um sucesso retumbante, à medida em que o Asayish e outras forças de segurança geralmente atropelavam as estruturas organizacionais, alegando motivos de segurança. Isso levou a atrasos na implantação de projetos e afetou negativamente o crescimento econômico.(Sary 2016: 14) O faturamento das áreas administradas pelo PYD dependia, em sua maior parte, da produção de petróleo e gás para cobrir gastos. Segundo um relatório publicado por Jihad Yazigi,(Jihad Yazigi, 2015) as receitas do petróleo chegavam a 10 milhões de dólares por mês. As outras fontes incluíam a provisão de bens e serviços (isto é, fornecimento de água e eletricidade, alimentos e outros produtos comercializados). A AAD também aumentou taxas e impostos sobre autorizações para construções, terras, lucros de negócios, carros, agricultura, comércio fronteiriço e até a entrada e saída de pessoas em Rojava. Além disso, a AAD continuava recebendo apoio financeiro das redes na diáspora e de grupos simpatizantes.(Khalaf 2016: 18)</p>
<p style="text-align: justify;">A administração local do PYD, em 2016, ainda não controlava vastos setores da economia que eram intensamente gerenciados pelo regime sírio. O fornecimento de trigo continuou monitorado de perto pelo novo governo, porém os comerciantes e importadores, assim como aqueles que se beneficiavam da economia de guerra e de monopólios, transformaram-se no poder decisivo do mercado.(Sary 2016: 13) As regiões autoadministradas do PYD, apesar de clamarem por justiça social e pela formação de cooperativas agrícolas, não testemunharam qualquer mudança relevante. A propriedade privada foi oficialmente protegida na carta, em uma provisão que garantia privilégios aos donos de terra, ao mesmo tempo que os encorajava a investir em projetos agrícolas patrocinados pelas autoridades de Rojava.(Glioti 2016) Algumas das antigas elites e homens de negócios também integraram-se às novas instituições criadas pelo PYD, incluindo Akram Kamal Hasu, um dos empresários mais ricos da região, que acabou se tornando, como político independente, o primeiro-ministro do Cantão da Jazira.(Schmindiger 2018: 129)</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Proclamação federalista</h3>
<p style="text-align: justify;">Em 17 de março de 2016, fundou-se oficialmente o Sistema Democrático Federativo de Rojava nas áreas no norte da Síria controladas pelo PYD, após uma reunião com mais de 150 representantes dos partidos curdos, árabes e assírios na cidade de Rmeilan, no nordeste da Síria. Os participantes votaram a favor da união dos três cantões (Afrin, Kobani e Jazira). Durante a reunião de Rmeilan, elegeu-se uma assembleia constituinte com 31 membros e dois copresidentes: Hadiya Yousef, uma curda, presa por dois anos antes do levante, e Mansour Salloum, um árabe sírio.(Said 2016; Kurdish Question 2016)</p>
<p style="text-align: justify;">O regime Assad, assim como setores da oposição organizados na Coalizão, declararam sua oposição à proclamação, enquanto Washington (apesar de seu apoio ao PYD), a Turquia e a Liga Árabe declararam não reconhecer a nova entidade federal.(Said R. 2016; Sly 2016) Um total de 69 grupos armados da oposição, incluindo Jaysh al-Islam e as várias forças do ELS, também assinaram um documento opondo-se ao projeto federalista curdo.(DW 2016) A maioria das forças árabes sírias opostas ao regime Assad viam no federalismo um passo em direção ao separatismo e à divisão do país.(al-Souria Net 2016a; Syria Freedom Forever 2016)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150281 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp7.jpg" alt="A questão curda na Síria [4]" width="349" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp7.jpg 349w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp7-204x300.jpg 204w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp7-286x420.jpg 286w" sizes="auto, (max-width: 349px) 100vw, 349px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Reagindo à proclamação, o dirigente oposicionista Michel Kilo declarou que os sírios não permitiriam a formação de uma entidade similar a Israel em solo sírio e que ali inexistiria uma terra curda, mas apenas cidadãos curdos.(ADN Kronos International 2016) A declaração de Kilo lembra os discursos de 1960, que comparavam os curdos a Israel (mencionado acima neste capítulo).</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de a maioria dos partidos curdos no país reivindicar um sistema federativo na Síria, o KNC se opôs à medida, argumentando que tal sistema deveria ser criado após um amplo debate com membros da oposição síria. De maneira similar, muitos ativistas curdos criticaram o processo, descrevendo-o como uma decisão realizada basicamente pelo PYD, sem caráter democrático ou consultas feitas a outros partidos e ativistas curdos.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até Riza Altun, considerado Ministro das Relações Exteriores do PKK, desaprovou a medida:</p>
<p style="text-align: justify;">Nós, do PKK, também criticamos o anúncio, feito antes de uma sólida discussão na base, e que deu a impressão de um fato consumado, cujo resultado foi danoso [ao movimento]. O plano deveria ter sido explicado antes. Nós preferimos o uso de Federação do Norte da Síria e pedimos a remoção de Rojava do nome, porque isso denota uma federação de identidade curda. O norte da Síria é o lar de todos seus integrantes, a liberdade dos curdos estando sujeita ao mesmo grau desfrutado pelos outros moradores da região (…).(Citado em Noureddine 2016)</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Em dezembro de 2016 o sistema federativo mudou seu nome para Sistema Democrático Federal do Norte da Síria. A remoção da palavra <em>Rojava</em> gerou revolta entre os vários grupos curdos dentro do país e na diáspora.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150275 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp1-1.png" alt="A questão curda na Síria [4] " width="556" height="318" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp1-1.png 556w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp1-1-300x172.png 300w" sizes="auto, (max-width: 556px) 100vw, 556px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Em julho de 2017, a unidade autoadministrada do PYD anunciou eleições nas três províncias administrativas da federação (al-Jazirah<strong>[3]</strong>, al-Furat<strong>[4]</strong> e Afrin <strong>[5]</strong>divididas em três turnos.(Arafat 2017a) O primeiro dia de votação, em 22 de setembro, para cargos de direção em todas as comunas locais (cerca de 3.700), seguiu-se de uma segunda rodada, em dezembro, para representantes das vilas, cidades e conselhos regionais. A terceira e última etapa deveria ter ocorrido em janeiro de 2018, mas foi postergada para uma data ainda não prevista.</p>
<p style="text-align: justify;">A Alta Comissão Eleitoral das unidades autoadministradas anunciou, em 5 de dezembro de 2017, durante uma conferência de imprensa em Amuda, que a participação na segunda fase das eleições para os conselhos locais atingiu 69%. O pleito incluiu 21 partidos que representavam curdos, árabes, cristãos e assírios de Rojava, com mais de 12 mil candidatos. A Lista Nação Democrática Solidária, encabeçada pelo governo do PYD e aliados, conquistou ampla maioria &#8211; mais de 4.600 de um total de 5.600 &#8211; nas três regiões que participaram das eleições de dezembro. A Aliança Nacional Curda na Síria (<em>Hevbendi</em>), que incluía o partido Yekiti e ex-membros do KNC, também tomou parte, abocanhando 152 cadeiras. Uma terceira chapa, a Aliança Nacional Síria, conquistou oito cadeiras, elegendo também diversas candidaturas independentes associadas ao grupo.(Drwish 2017b; Schmidinger 2018: 133)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150282 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp8.jpg" alt="A questão curda na Síria [4]" width="710" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp8.jpg 710w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp8-300x216.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp8-582x420.jpg 582w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp8-640x462.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp8-681x491.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 710px) 100vw, 710px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, partidos curdos de oposição fizeram críticas às restrições de liberdades políticas ao longo do processo. O KNC declarou boicote às eleições, taxando-as de ilegítimas. Alguns membros árabes da oposição no exílio também boicotaram o processo. Outro problema ocorreu com os chamados árabes al-Ghamar, ou árabes da enchente (removidos da província de Raqqa para Hasaka nos anos 1970 após a criação de uma represa no rio Eufrates), que foram barrados na terceira rodada de votação. Fouzah Youssef, copresidente do Comitê Executivo da Federação Democrática do Norte da Síria, caracterizou a chegada dos árabes al-Ghamar à província de Hasaka nos anos de 1970 como “uma política racista e injusta contra os curdos.”(Citado em Abdulssatar Ibrahim e Schuster 2017)</p>
<p style="text-align: justify;">Para consolidar-se no poder, o PYD também não deixou de promover campanhas repressivas e atacar seus críticos, fossem eles indivíduos ou organizações políticas em suas regiões administrativas. As forças do YPG chegaram a visar a imprensa local independente, como a Radio Arta, em ao menos duas ocasiões (2014 e 2016).(Human Rights Watch 2014: 1-2) O presidente do KNC, Ibrahim Berro, foi preso em agosto de 2016 num posto de controle da Asayish em Qamishli e exilado para o Curdistão iraquiano no dia seguinte.(Sary 2016: 13) Protestos ocasionais acontecem contra o PYD e suas práticas em Rojava.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde outubro de 2014, também decretou-se a conscrição compulsória para cidadãos entre 18 e 30 anos de idade, obrigados a alistarem-se no Serviço de Defesa e integrar o YPG durante seis meses nas áreas sob seu controle. O KNC rejeitou a lei de conscrição, substituindo-o por um apelo voluntário, sob o argumento de que uma conscrição compulsória resultaria na migração em massa dos jovens para fora do Curdistão.(Yekiti Media 2014) Ao mesmo tempo, inúmeros partidos políticos siríacos cristãos, árabes e curdos, assim como organizações da sociedade civil e de direitos humanos, também se opuseram à lei. A medida fez com que setores da juventude de todas as comunidades partissem a fim de evitar serem presos por se recusarem a servir.(Syria Direct 2014; Ahmad e Edelman 2017) Em alguns territórios de maioria árabe sob controle curdo, a conscrição obrigatória foi recusada com frequência, especialmente devido ao aumento dos confrontos domésticos entre o PYD e as forças do ELS. Em novembro de 2017, por exemplo, moradores e ativistas na cidade de Manbij, zona rural ao leste de Alepo, organizaram uma greve protestando contra a nova conscrição decretada pelo conselho legislativo das FDS. As Forças Democráticas Sírias publicaram uma declaração no dia seguinte à greve, em 6 de novembro, suspendendo a decisão de impor a conscrição aos habitantes de Manbij. Ao invés disso, conclamaram os moradores a se voluntariarem “no exército de autodefesa.”(Osman 2017)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150276 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp2.png" alt="A questão curda na Síria [4]" width="572" height="332" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp2.png 572w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp2-300x174.png 300w" sizes="auto, (max-width: 572px) 100vw, 572px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Algumas figuras autônomas do espaço político e social curdo, próximas aos PYD, continuaram tentando projetar suas vozes. Esse processo incluiu a construção de uma imprensa independente nas áreas controladas pelo PYD, apesar da forte concorrência com os veículos de comunicação vinculados aos partidos, que tinham mais recursos e maior estrutura(Issa 2016: 13) (como a TV Ronahi, Orkes FM e Agência de Notícias Hawar).</p>
<p style="text-align: justify;">Como mencionado, a AAD era dirigida por uma dinâmica a partir do alto, e controlada pelo PYD de maneira autoritária. Os muitos retratos do líder do PKK curdo, Abdullah Öcalan, que cobriam as paredes dos escritórios do governo do PYD, expressavam essa realidade. No entanto, outras transformações importantes ocorriam, em particular o aumento da participação ativa das mulheres na sociedade, a codificação de leis seculares e a inclusão das minorias religiosas e étnicas. A gestão e os serviços providos pelo PYD também contavam com apoio e simpatia relevantes de amplos setores da população local.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150283 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp9.jpg" alt="A questão curda na Síria [4]" width="403" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp9.jpg 403w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp9-236x300.jpg 236w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp9-331x420.jpg 331w" sizes="auto, (max-width: 403px) 100vw, 403px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">O PYD e a arena internacional: da colaboração a ameaças</h3>
<p style="text-align: justify;">A falta de legitimidade internacional do PYD &#8211; produto de sua relação com o PKK, organização caracterizada como terrorista pelos Estados Unidos e pela maioria dos Estados europeus &#8211; foi seu calcanhar de Aquiles desde o início do levante, impedindo sua participação nas conferências de negociação em Genebra. Além disso, a participação do KNC na Coalizão e nos órgãos de oposição isolou o PYD, dificultando seus planos.(ICG 2014a: 21-22)</p>
<p style="text-align: justify;">Em meados de 2015, mesmo que restrito ao campo militar, uma nova dinâmica se abriu, marcada por relações e colaborações mais próximas com atores internacionais. Com a estratégia principal de “foco no Estado Islâmico” e o fracasso absoluto no apoio às forças do Exército Livre da Síria para combater o EI, Washington, sob iniciativa do Pentágono, passou a apoiar cada vez mais o PYD e a Coalizão encabeçada pelo YPG, conhecida como Forças Democráticas Sírias (FDS). Segundo sua declaração, foi oficialmente criada em outubro de 2015 para combater “o terrorismo representado pelo EI, suas organizações irmãs, e o criminoso regime Baath”.(Jaysh al-Thûwar 2015) Esse novo grupo era controlado pelo YPG, enquanto outros que o integravam (grupos siríacos e do ELS, como <em>Jaysh al-Thûwar</em>)(Mustapha 2015) tinham papel auxiliar. Na prática, as Forças Democráticas Sírias surgiram para dar cobertura legal e política ao apoio militar dos EUA ao grupo do PYD na Síria, vinculado ao PKK.(Lund 2015d) As FDS tornaram-se a principal força parceira do Pentágono contra o EI daquele momento em diante.</p>
<p style="text-align: justify;">O predomínio dos comandantes curdos do YPG sobre o resto das unidades armadas gerou alguns problemas nos anos seguintes, principalmente com as unidades árabes das FDS, que se consideravam marginalizadas nas tomadas de decisões. Tal dinâmica levou, ao final, à renúncia de algumas dessas figuras e dissolução de certas unidades. Em junho de 2018, por exemplo, as FDS enfrentaram seus ex-aliados da facção rebelde árabe Liwa Thuwwar al-Raqqa, resultando na prisão de cerca de 200 combatentes da divisão.(al-Maleh e Nassar 2018)</p>
<p style="text-align: justify;">Em dezembro de 2015, formou-se o Conselho Democrático Sírio (CDS), ramo político das FDS. A nova coalizão, também dirigida pelo PYD, era copresidida por Riad Darar, político árabe opositor ao regime de Assad<strong>[6]</strong>, além de Ilham Ahmed, membro do TEV-DEM. O CDS, na sua maior parte, era composto por forças políticas árabes, curdas e assírias, e outras minorias das regiões curdas do norte da Síria. O SDC apoiava um estado federativo, democrático e secular, mas permanecia relativamente fraco em termos políticos.(Drwish 2017a)</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar do apoio militar recebido pela Rússia e pelos Estados Unidos desde meados de 2015, o PYD passou a ser submetido a pressões crescentes. Moscou exigiu que as forças curdas do YPG colaborassem de maneira mais sistemática e direta com o regime Assad contra o Estado Islâmico.(Rudaw 2015)</p>
<p style="text-align: justify;">Em agosto de 2016, o exército turco interveio diretamente na Síria, coligada às forças armadas da oposição, que atuavam como agentes de Ancara, numa operação militar chamada Operação Escudo do Eufrates. Contava com o apoio de vários atores internacionais, incluindo os Estados Unidos e a Rússia (ver Capítulos 4 e 6). No início de dezembro de 2016, o Vice-Primeiro-Ministro Nurettin Canikli reconheceu que a Turquia “não teria se movido com tanto conforto”, não fosse sua reaproximação com a Rússia, que efetivamente controlava partes do espaço aéreo no norte da Síria.(Osborn e Tattersall 2016)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150284 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp10.jpg" alt="A questão curda na Síria [4]" width="392" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp10.jpg 392w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp10-230x300.jpg 230w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp10-322x420.jpg 322w" sizes="auto, (max-width: 392px) 100vw, 392px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As relações entre as autoridades dos EUA e comandantes do YPG permaneceram, em sua maior parte, informais e limitadas ao combate contra o EI. Os Estados Unidos mantiveram o PKK em sua lista de organizações terroristas ao longo de todos esses anos, deixando claro seu suporte ativo à luta da Turquia contra o grupo curdo. Eles também evitaram prover apoio econômico às áreas controladas pelo YPG e o PYD, o que incomodaria ainda mais a Turquia.(ICG 2017: 14) Em diversas ocasiões, Washington chegou a anunciar que tomaria de volta as armas fornecidas ao YPG após a derrota do EI, porém, a medida não foi aplicada.(Reuters 2017c) Como expresso em 2016 pelo líder do PKK, Riza Altun, analisando o comportamento dos EUA frente à questão curda na Síria, “o papel dos EUA, a depender dos seus interesses, funciona como uma faca de dois gumes. A relação com Washington, portanto, é de natureza tática.”(Citado em Noureddine 2016)</p>
<p style="text-align: justify;">O PYD enfrentou os interesses contraditórios dos russos e norte-americanos. Ambos os Estados apoiavam seu braço armado, o YPG, na medida em que isso avançasse seus próprios objetivos.(Barrington e Said 2016) Ao mesmo tempo, nenhuma das duas potências estava disposta a prejudicar sua relação com o Estado turco. A reaproximação, ao final de 2016, entre Irã, Turquia e Rússia, ameaçou ainda mais os interesses curdos. A Rússia foi incapaz, ou não tinha a disposição, de passar por cima do veto da Turquia diante da participação do PYD nos diálogos de paz em janeiro de 2017, no Cazaquistão.(Stewart 2017)</p>
<p style="text-align: justify;">A Rússia tentou controlar as relações entre as forças do PYD e o regime de Assad entre 2016 e 2017.(Yalla Souriya 2016; Haid 2017a) Ao final desse ano, militares russos promoveram uma reunião na sua base aérea em Hmeimim, com diversos representantes dos movimentos curdos, incluindo o TEV-DEM, assim como o KNC, para mediar futuras relações entre eles e o regime Assad. As autoridades submeteram uma lista de condições que regulariam as relações entre Damasco e o enclave curdo, que o regime se recusava reconhecer. Assad, em particular, propôs estender seu apoio aos curdos no país, sob a condição de que abandonassem suas exigências por um sistema federal e erguessem a bandeira síria em todos os edifícios e escritórios públicos.(Rudaw 2016) Como imaginado, as demandas não foram atendidas. A ofensiva militar turca em Afrin, em janeiro de 2018, auxiliada por forças armadas da oposição e com o apoio da Coalizão Síria, concretizou a ameaça crescente às populações curdas em geral e aos territórios dominados pelo PYD.</p>
<p style="text-align: justify;">A intervenção contou com a aquiescência e relativa passividade das principais potências envolvidas na Síria. Moscou, que controlava grande parte do espaço aéreo sírio, deu à Turquia sinal verde para a invasão, retirando suas armas<strong>[7]</strong> das áreas visadas pelas forças turcas nas cidades de Nubl e Zahra, ambas sob controle do regime. As autoridades russas exigiram que o YPG entregasse Afrin ao regime sírio, condição para cessar os ataques turcos na região.(Asharq al-Awsat 2018; Shekhani 2018) Em meados de fevereiro, Damasco e o PYD chegaram a um acordo que permitiria que milícias alinhadas ao regime entrassem na cidade, mas o grupo curdo recusou ceder o controle total de Afrin, e de entregar suas armas pesadas. O acordo significava apenas que as milícias pró-regime se juntariam aos combatentes do YPG nas equipes dos seus postos de controle. Isso não era aceitável para Moscou nem para Ancara. A Rússia também via a operação como uma forma de aprofundar as divisões e contradições entre Ancara e Washington, à luz do apoio americano ao YPG. Por sua vez, os Estados Unidos permaneceram passivos até o fim, declarando entender as preocupações de segurança de Ancara, que os avisou previamente sobre a operação.(Gall, Landler e Schmitt 2018; Rudaw 2018a)</p>
<p style="text-align: justify;">O YPG condenou diretamente a Rússia e a Turquia pela ocupação, culpando a comunidade internacional pelo seu silêncio frente à terrível situação enfrentada pela cidade. Também prometeu que a resistência em Afrin continuaria até que cada polegada estivesse liberta, e o povo retornasse às suas casas.(Citado em ANF News 2018) Já Erdogan reiterou que as forças turcas estenderiam sua ofensiva contra os combatentes do YPG curdo ao longo da sua fronteira com a Síria e, se necessário, no norte do Iraque.(Caliskan e Toksabay 2018)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150285 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp11.jpg" alt="A questão curda na Síria [4]" width="616" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp11.jpg 616w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp11-300x249.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp11-505x420.jpg 505w" sizes="auto, (max-width: 616px) 100vw, 616px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Após a conquista de Afrin, os dois principais atores políticos curdos-sírios, o PYD e o KNC, boicotaram a conferência de Sochi, na Rússia, convocada pelo Congresso de Diálogo Nacional Sírio, para promover negociações de paz, no final de janeiro de 2018. A reunião perdeu sentido depois que a Rússia fracassou em se opor à ofensiva militar turca em Afrin, efetivamente colaborando com Ancara. O KNC decidiu não participar depois que Moscou se recusou a aceitar a exigência de incluir a causa curda na Síria como uma das principais questões do congresso, estremecendo suas posições após a cooperação de Moscou com a ofensiva turca.(Rudaw 2018b)</p>
<p style="text-align: justify;">Em junho de 2018, Washington e Ancara firmaram um plano para a retirada dos combatentes curdos do YPG de Manbij, no norte da Síria, para serem substituídos por tropas estadunidenses e turcas. A partir de novembro de 2018 as forças da Turquia e dos EUA iniciaram patrulhamentos conjuntos próximos a Manbij. As autoridades do PYD criticaram cada vez mais Washington e seus acordos, assim como a aceitação da ocupação turca em Afrin. Além disso, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou em diversas ocasiões sua disposição de retirar as forças dos EUA da Síria após a derrota do EI. Isso, porém, sem especificar uma data e, não raro, por meio de mensagens confusas e contraditórias sobre o tema (ver Capítulo 6).(Abdulssattar Ibrahim e al-Maleh 2018) Sua postura incomodou a liderança do PYD, preocupada com o futuro social e político dos territórios sob seu controle.</p>
<p style="text-align: justify;">Confrontando pressões regionais e internacionais e, ao mesmo tempo, premido pela necessidade em responder à crescente ofensiva do regime em reconquistar a Síria por inteiro, as autoridades do PYD buscavam cada vez mais algum tipo de reconciliação com Damasco, a fim de manter suas instituições e preservar sua estrutura organizacional dentro do país. Como argumentado, por exemplo, por Aldar Khalil, copresidente do TEV-DEM, ligado ao PYD, “As condições mudaram. Chegou o momento de encontrar uma solução com Damasco.” Com os ventos soprando a favor de Assad, certos dirigentes do PYD declararam, ao final de 2017, sua disposição em dialogar com o regime.(Zaman 2017) Paralelamente, ao longo de 2018, Damasco permitiu que o PYD organizasse manifestações partidárias e atos de solidariedade por Öcalan em áreas controladas pelo regime, a exemplo dos bairros curdos de Sheikh Maqsoud, em Alepo (novembro) e Zor Afar, em Damasco (janeiro).(Enab Baladi 2018q)</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, junto à crescente pressão externa, e sobretudo da Turquia, o CDS admitiu publicamente, pela primeira vez, dialogar com o regime, em favor de uma agenda que caminhasse rumo a uma Síria democrática e descentralizada. No entanto, como as próprias autoridades dos CDS reconheceram, inúmeros desafios impediram novas conversas &#8211; especialmente a contínua recusa em reconhecer os direitos dos curdos e a possibilidade de um modelo político federativo.(Abdulssatar Ibrahim e al-Maleh 2018) Nesse momento, apesar das confabulações contínuas, o regime não aceitou qualquer das condições do PYD, enquanto as autoridades do Estado e da imprensa seguiam atacando o partido curdo. Em janeiro de 2019, após o anúncio de Trump da retirada das forcas da coalizão dos EUA da Síria, o PYD procurou a mediação russa para negociações com Damasco, visando evitar uma invasão das forças turcas nas regiões que administravam (ver Capítulo 6). A Rússia declarou, em diversas ocasiões, que o regime sírio deveria assumir o controle das províncias no norte do país, em particular para retomar o controle das reservas de petróleo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Conclusão</h3>
<p style="text-align: justify;">A erupção do levante popular na Síria abriu um espaço inédito na história do país para a questão nacional curda. No início, os grupos e redes independentes de jovens curdos tiveram um papel importante no movimento de protestos, mas foram consideravelmente enfraquecidos com o passar dos anos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150286 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp12.jpg" alt="A questão curda na Síria [4]" width="644" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp12.jpg 644w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp12-300x239.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp12-528x420.jpg 528w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp12-640x509.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 644px) 100vw, 644px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O PYD viu o levante como uma oportunidade para transformar-se na força dirigente entre os curdos da Síria. As áreas governadas pelo PYD foram celebradas por suas políticas inclusivas e pela participação das mulheres em todos os níveis da sociedade, incluindo a atuação militar, assim como pela secularização das leis e instituições e, em certa medida, pela integração e incentivo à participação das várias minorias étnicas e religiosas. No entanto, as práticas autoritárias das forças do PYD contra atores políticos curdos e ativistas rivais de outras comunidades tornaram-se objeto de crítica.</p>
<p style="text-align: justify;">A insularidade crescente do movimento popular curdo dentro da onda de protestos nacional resultou de dois fatores. Primeiro, o fortalecimento da influência política do PYD através das suas próprias unidades armadas, para controlar áreas de maioria curda e aplicar uma forma de autonomia que conectasse geograficamente os cantões isolados de Rojava. Isso deu-se por meio de uma atitude não-confrontativa com o regime &#8211; ocupado por batalhas em outras frentes. O regime via a influência crescente do PYD como um instrumento útil para pressionar a Turquia.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro fator que explica o aumento do isolamento da questão curda no levante foram as posições beligerantes da oposição árabe-síria no exílio, representada primeiro pelo Conselho Nacional Sírio, e depois pela Coalizão Síria &#8211; em ambos os casos, entidades dominadas pela Irmandade Muçulmana e forças aliadas ou simpáticas ao governo do AKP na Turquia. Dentro do país, a grande maioria dos grupos armados de oposição árabe posicionavam-se contra as exigências do povo curdo na Síria e do seu representante político. Eles também apoiavam as ofensivas militares turcas e/ou os grupos armados de oposição contra o YPG, visando a população civil curda. Isso foi acompanhado por declarações chauvinistas de árabes contra os curdos. Em geral, o CNS e a Coalizão foram incapazes de propor um programa inclusivo que pudesse atrair a população curda, resultando no aprofundamento das tensões étnicas entre árabes e curdos. Tal situação empurrou cada vez mais os jovens curdos para os braços do PYD, visto como o único defensor da comunidade na Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir de meados de 2016, os cantões de Rojava estiveram cada vez mais ameaçados por mudanças políticas em escala internacional e regional. As sucessivas vitórias das forças pró-regime no norte do país, desde 2016, ampliaram as ameaças ao PYD. Em dezembro de 2018, por exemplo, o YPG anunciou a retirada de Manbij, dando ao regime sírio domínio sobre as áreas da cidade controladas antes pelos curdos,(YPG 2018) após as ameaças de uma ofensiva turca contra as áreas controladas pelo PYD ao leste do Rio Eufrates. Sem apresentar prazos e mais tarde modificando seus próprios planos (ver capítulo 6), Trump anunciou, diante dos avanços do regime Assad, a retirada de dois mil soldados americanos da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">O EAS (Exército Árabe Sírio) não entrou na cidade, mas manteve presença na periferia, enquanto essa ainda era controlada por forças aliadas aos EUA e às FDS. A polícia militar russa também começou a patrulhar a cidade. Ao mesmo tempo, à medida em que o regime consolidava poder no país e as ameaças contra as regiões controladas pelo PYD cresciam, alguns antigos parceiros das FDS passaram cada vez mais a tentar uma reconciliação com Damasco. Em fevereiro de 2019, o Sheik Hamidi Daham al-Habi Jarba, cogovernador do cantão da Jazira, viajou do aeroporto de Qamishli para a base militar russa em Hmeimim, na província de Latáquia, para Assad e tratar da integração de sua milícia ao EAS.(Jear Press 2019)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150287 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp13.jpg" alt="A questão curda na Síria [4]" width="405" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp13.jpg 405w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp13-237x300.jpg 237w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp13-332x420.jpg 332w" sizes="auto, (max-width: 405px) 100vw, 405px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma que o levante popular empurrou o regime Assad a buscar acordos temporários e ocasionais com o PYD, o desaparecimento dessa ameaça fortaleceu o regime, que passou a recuperar novos territórios com apoio de aliados. Assim, Damasco conseguiu direcionar mais e mais suas forças contra as regiões habitadas pelos curdos ou minar sua autonomia, sobretudo com os atores internacionais, Rússia e Estados Unidos, abandonando ao longo do tempo o grupo curdo conforme seus objetivos mudavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Como vimos, o destino do povo curdo na Síria guarda uma ligação umbilical com as causas e condições do levante sírio. Por isso, seu futuro segue ameaçado enquanto enfrenta múltiplos ataques, bem como o resto do movimento de protestos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Citado em Van Wilgenburg 2014c. Hoje em dia, os Shammar são uma tribo relativamente pequena na Síria, e seus ramos principais estão no Iraque e na Península Arábica. Porém, historicamente, eles têm angariado prestígio e poder e, antes do estabelecimento do Estado moderno sírio, exerciam um controle efetivo sobre o nordeste do que é hoje a Síria (Khaddour 2017b).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong>No entanto, o custo em termos de vidas humanas e infraestrutura foi terrível. Ao todo, pelo menos 1800 civis acabaram mortos na luta, enquanto mais de 80% da cidade ficou inabitável ou completamente destruída (Oakford 2017). Cerca de 312 mil pessoas tiveram que fugir da província de Raqqa como resultado da ofensiva militar (Lund 2017e).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong>A Jazira incluía os cantões de Hasaka e Qamishli. O Cantão de Hasaka compreende as cidades de Hasaka, Darbasiya, Serekaniye (Ras al-Ayin), Tel Tamir, Shadi, Arisha e Hula. O de Qamishli abrangia as cidades de Qamishli, Derik, Amuda, Tirbesiye, Tel Hamis e Tal Barak.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Al-Furat incluía o Cantão Kobani e as suas cidades (Kobani e Sirrin), e o Cantão de Tal Abbyad e as suas cidades (Ain Issa e Suluk).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong>Afrin abarca o Cantão Afrin e as suas cidades (Afrin, Jandairis e Raqqa), e o Cantão Sheba e as suas cidades (Tal Rifaat, Ehraz, Fafeyn e Kafr Naya).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Ele foi um ativista político do ano 2000 em diante, trabalhando com grupos da sociedade civil. Preso pelo regime de Assad por cinco anos (2005-2010), devido às suas posições políticas, sendo acusado de apoiar a causa curda. Ele foi membro fundador do Comitê Nacional de Coordenação para a Mudança Democrática, do qual demitiu-se mais tarde, em agosto de 2014 (Drwish 2017a).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Em setembro de 2017, a Rússia mobilizou-se para operar como polícia militar e evitar confrontos e possíveis conflitos entre as unidades armadas da oposição síria apoiadas, de um lado, pela Turquia e o exército turco, e do outro lado, pelas FDS. Assim, forças militares foram enviadas para consolidar uma nova zona-tampão na área de Tal Rifaat (Iddon 2017).</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 4 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2023/09/150055/" target="_blank" rel="noopener">Parte 1</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2023/09/150119/" target="_blank" rel="noopener">Parte 2</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2023/10/150209/" target="_blank" rel="noopener">Parte 3</a><br />
Parte 4</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>A bibliografia pode ser conferida neste <a href="https://passapalavra.info/2023/09/150074/" target="_blank" rel="noopener">link</a>.</em></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de</em> <em>Louay Kayyali (1934-1978).<br />
</em></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>A Questão Curda na Síria [3]</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/10/150209/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Oct 2023 08:52:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Síria]]></category>
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					<description><![CDATA[Com o passar do tempo, as tensões entre o PYD e os vários grupos armados oposicionistas não só se exacerbaram, mas também aprofundaram as divisões étnicas entre árabes e curdos. Por  Joseph Daher]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Joseph Daher</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">O artigo a seguir, publicado em 4 partes, é o quinto capítulo do livro Síria Depois Dos Levantes, de <a href="https://contrabando.xyz/revolucao-e-contrarrevolucao-na-siria-entrevista-com-joseph-daher/" target="_blank" rel="noopener">Joseph Daher</a>. A versão integral do livro foi traduzida pela Contrabando Editorial e será publicada no fim de 2023</p>
</blockquote>
<h3 style="text-align: justify;">Assad e o PYD</h3>
<p style="text-align: justify;">Conforme o PYD expandia seu domínio sobre as áreas habitadas por curdos, as forças do regime mantinham presença nos maiores enclaves nominalmente sob o controle do partido, com destaque para a Qamishli e Hasakah. Os serviços estatais, por exemplo, seguiam de responsabilidade de Damasco, enquanto o regime continuava pagando os salários dos funcionários públicos e gerenciar os escritórios administrativos, o que lhes dava uma vantagem importante.(ICG 2014a: 9) O aeroporto de Qamishli, que em 2016 se tornou o segundo maior do país (atrás apenas do de Damasco), manteve-se sob controle do Exército Árabe Sírio.(The Syria Report 2016f) O YPG foi acusado de se coadunar com o regime em algumas ocasiões, ou pelo menos ter programado alguns ataques para distrair a oposição, forçando-os a combater em múltiplas frentes.(Haid 2017a)</p>
<p style="text-align: justify;">Em várias ocasiões, Saleh Muslim negou qualquer aliança com Damasco, afirmando, desde setembro de 2011, que o PYD clamava pela queda do regime e todos os seus símbolos.(Kurd Watch 2013a) Ao mesmo tempo, as autoridades do PYD reconheciam a decisão tática de não enfrentar suas forças, ainda que refutassem as acusações de conluio, descrevendo a si mesmos como uma “terceira via” entre um “regime opressivo e os militantes rebeldes linha dura.”(ICG 2014a: 7) Suas posições também devem ser contextualizadas no quadro de hostilidades políticas vindas da oposição árabe exilada, representada primeiro pelo CNS e depois pela Coalizão, assim como por amplos setores dos grupos armados de oposição no norte da Síria. Esses atores estavam aliados à Turquia e eram considerados pelo PYD/PKK como inimigos centrais, que rejeitavam as demandas nacionais curdas na Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, o TEV-DEM &#8211; dominado pelo PYD &#8211; mantinha canais discretos de comunicação com as autoridades em Damasco, centralizando seus esforços em combater o Estado Islâmico e construir uma forma localizada de governo.(Sary 2015: 4) As autoridades oficiais em Damasco recusavam repetidamente qualquer forma de autonomia curda na Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Como argumentado em um relatório do ICG(ICG 2014a: 7-8):</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Poucos duvidam que a relação entre o PYD e o regime se baseava mais na conciliação que no enfrentamento, buscando, ao menos no curto prazo, um <em>modus vivendi</em> útil a ambos. Seus rápidos avanços iniciais apenas foram possíveis com a retirada das forças de Damasco, em junho de 2012, das áreas curdas; uma medida benéfica a ambos os lados, com o regime podendo concentrar-se nas outras regiões ao norte, enquanto o PYD impedia que a oposição armada tomasse as áreas curdas.</p>
</blockquote>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150211 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp2.jpg" alt="A questão curda na Síria [3]" width="499" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp2.jpg 499w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp2-250x300.jpg 250w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp2-349x420.jpg 349w" sizes="auto, (max-width: 499px) 100vw, 499px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">As relações entre, Assad e o PYD mantiveram-se sem choques por anos, apesar de conflitos armados localizados explodirem em alguns momentos, com destaque ao de Qamishli, onde o regime mantinha presença armada. Em dezembro de 2015, depois que as Forças Democráticas Sírias (FDS), chefiadas pelo YPG (comentado mais adiante, neste capítulo), assinaram uma trégua com a sala de operações da oposição comandada por Fatah Halab, as tropas das FDS enfrentaram os militares em lugares com o bairro curdo de Sheikh Maqsood (em Alepo) que se tornou alvo da força aérea do regime. Entre meados e final de agosto de 2016, dois SU-24 sírios bombardearam forças curdas na cidade de Hasakah. A coalizão liderada pelos EUA mobilizou seus próprios caças na área para interceptar os caças sírios e proteger os assessores estadunidenses trabalhando com as forças curdas. Os aviões do regime, porém, se retiraram antes. O porta-voz do Pentágono, Capitão Jeff Davis, descreveu o ato como uma “medida para proteger as forças da coalizão.”(The New Arab 2016a) Isso permitiu aos comandos do YPG assumir o comando quase integral de Hasakah após um cessar-fogo, consolidando seu controle sobre os curdos no nordeste da Síria após uma semana de combates contra o regime.(Perry e Said 2016)</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de perder influência após os confrontos armados, o regime sírio enviou a Hasakah os ministros da Saúde, Nizar Yazigi, e da Administração Local e Meio Ambiente, Hussein Makhlouf, para visitar autoridades locais e reafirmar sua influência na região.(al-Sultan 2016; The Syria Report 2016d) Essas tensões entre o regime e o PYD eram visíveis nos enfrentamentos sobre as línguas ministradas nas instituições educacionais sírias. O PYD advogava o ensino da língua curda nas escolas púbicas, enquanto o regime ameaçava congelar os salários dos professores que não seguissem o currículo oficial. Nos casos em que o partido curdo impôs seu programa didático, o regime obrigou algumas escolas a fecharem.(Jamal, Nelson e Yosfi 2015; The Syria Report 2016i)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150210 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp1.png" alt="A questão curda na Síria [3]" width="597" height="322" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp1.png 597w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp1-300x162.png 300w" sizes="auto, (max-width: 597px) 100vw, 597px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Em meados de outubro de 2016, o regime nomeou, para a província de Hasakah, um novo governador, Jayed Sawada al-Hammoud al-Moussa, ex-comandante militar e membro do aparato de segurança, conhecido pela sua truculência contra civis.<strong>[1]</strong> Seu currículo militar serviu de mensagem clara ao PYD sobre a persistência do regime pelo controle da área.(SANA 2016b; Zaman al-Wasl 2016c) O recém nomeado cortou toda a verba pública do Hospital Nacional de Hasakah, o maior da região, depois que as forças policiais e militantes curdas se recusaram a deixar o edifício no início de 2017. Comparado ao nível de atividade de poucos meses antes, o Hospital passou a funcionar com menos de 15% de sua capacidade, com sessões inteiras fechando as portas. A redução sem precedentes dos serviços afetou mais de um milhão de residentes da cidade, especialmente aqueles que não podiam pagar por cuidados médicos em um dos cinco centros médicos privados da capital provincial.(Abdulssattar Ibrahim, Nassar e Schuster 2017)</p>
<p style="text-align: justify;">Durante o mesmo período, em março de 2017, o regime sírio e apoiadores do Partido Baath formaram uma nova organização paramilitar, recrutando entre membros das tribos locais e funcionários públicos na província de Hasakah, ao norte, e assim reunindo cerca de 3000 combatentes. O sentimento crescente de oposição ao governo do PYD serviu de base para a construção do grupo.(Zaman al-Wasl 2017d) Outras milícias pró-regime com formato e objetivos similares também surgiram na mesma região.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meados de junho de 2017, ocorreram novos confrontos entre as forças de Assad e as FDS (encabeçadas pelo PYD), na medida em que ambos capturavam territórios ocupados pelo Estado Islâmico, aproximando-se perigosamente um do outro. Os aviões de guerra dos EUA também derrubaram um jato do Exército Árabe da Síria durante esse período, na região rural ao sul de Raqqa, após bombardeio às posições das FDS.(Al-Khalidi e Spetalnick 2017)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150212 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp3.jpg" alt="A questão curda na Síria [3]" width="720" height="497" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp3.jpg 720w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp3-300x207.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp3-608x420.jpg 608w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp3-640x442.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp3-681x470.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Um mês depois, em meados de setembro, a força aérea russa atacou posições das FDS, causando destruição ao leste do Rio Eufrates, perto da cidade síria de Deir ez-Zor.(Van Wilgenburg 2017b) Durante a mesma fase, um alto funcionário do regime, Bouthaina Shaaban, declarou a disposição do governo em lutar contra as FDS:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sejam elas as Forças Democráticas Sírias (FDS) ou o Daesh (Estado Islâmico), ou qualquer presença estrangeira ilegítima no país (…), os combateremos e trabalharemos contra eles, para libertar toda nossa terra de qualquer agressor. (…) Não digo que isso acontecerá amanhã (…), mas essa é a meta estratégica (…)(Dadouch e Perry 2017)</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">As tropas das FDS foram em seguida atacadas por forças russas e do regime na província de Deir ez-Zor, em 25 de setembro (SDF General Command 2017).</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio ao agravamento das tensões militares e políticas entre Damasco e seus aliados, assim como em suas relações com o PYD, o Ministro das Relações Exteriores afirmou, no final de setembro, que o governo sírio estava aberto às negociações com os curdos sobre a demanda por autonomia dentro das fronteiras nacionais. Declaração retórica, ela deixava em aberto o conceito de autonomia usado pelas autoridades em Damasco, buscando, em vez disso, sinalizar algum entendimento com o PYD. O Ministro das Relações Exteriores sírio publicou tal declaração no mesmo dia do referendo sobre a independência curda no Iraque, ao qual o regime sírio se opunha, apoiando em seu lugar a unidade nacional iraquiana.(Reuters 2017d; Tejel, citado em Souleiman 2017)</p>
<p style="text-align: justify;">Em meados de dezembro de 2017, Bashar al-Assad caracterizou o SDF como “traidor” e uma “força estrangeira ilegítima”, apoiada pelos Estados Unidos, que deveria ser expulsa da Síria. Ele fez declarações similares durante todo o ano de 2018. O comando-geral das FDS respondeu, declarando que a sua ditadura era “a definição da traição”, e que o povo se rebelava contra aquele “regime policial autoritário e opressivo.”(Rudaw 2017b) O regime também declarou repetidas vezes que Raqa, sob controle das FDS após a expulsão do Estado Islâmico, ainda era uma cidade ocupada, prometendo restaurar a autoridade do Estado em todo o país.(SANA 2017f)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150213 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp4.jpg" alt="A questão curda na Síria [3]" width="720" height="579" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp4.jpg 720w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp4-300x241.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp4-522x420.jpg 522w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp4-640x515.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp4-681x548.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de confrontos ocasionais entre 2012 e 2016, ambos os lados mantiveram um pacto pragmático de não-agressão, colaborando taticamente em algumas ocasiões, nas quais interesses estratégicos, fossem geográficos ou em períodos específicos), convergiam. No entanto, não faltavam desacordos estruturais que reapareceriam de 2017 em diante, conforme as forças do Estado Islâmico nessas áreas foram progressivamente eliminadas e o regime retomou inúmeros territórios. Além disso, Damasco deixava de ceder regiões ricas em recursos naturais, principalmente agrícolas e energéticos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">O PYD, a oposição, o ELS e as forças fundamentalistas islâmicas</h3>
<p style="text-align: justify;">Além de considerarem, na prática, a tomada pelo PYD, em julho de 2012, das áreas habitadas por curdos, como um presente de Damasco, amplos setores da oposição árabe acusaram a organização de rupturas desonestas nos acordos de cessar-fogo, com certos indícios de que agiam a serviço do regime.(ICG 2014a: 8) O sentimento anti-PYD dentro da oposição árabe síria aumentou com o tempo, contribuindo para a violência que, em última instância, colocou em conflito curdos e a oposição árabe desde meados de 2012. Esses confrontos alimentaram-se da desconfiança mútua, competição por recursos escassos (terras ao longo da fronteira turca, petróleo e gás em Hasakah) e a crescente influência e presença de grupos jihadistas combatendo junto às unidades do ELS.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso também levou à expulsão de uma brigada do ELS, <em>Jabhat al-Âkrad</em> (Frente Curda) ligada ao PYD, de diversas áreas conjuntas geridas pelo ELS e Jabhat al-Nusra no verão de 2013. As forças do YPG e os civis curdos sofreram sérias violências nas mãos de grupos como Estado Islâmico e Jabhat al-Nusra(Human Rights Watch 2014: 15-16). Por mais de um ano, o Jabhat al-Nusra, facções fundamentalistas islâmicas e grupos afiliados ao ELS, bloquearam aos enclaves curdos em Afrin e Kobani, a fim de pressionar o YPG a ceder territórios.(Van Wilgenburg 2014a) Essa situação levou uma leva de curdos na Síria a aderirem ao YPG. Inúmeros deles, na Turquia, também aderiram ao YPG, atravessando a fronteira Síria através da cidade de Qamishli.(Itani e Stein 2016: 7)</p>
<p style="text-align: justify;">Os confrontos entre grupos do ELS e o PYD diminuíram em escala ao final de 2013. Uma trégua assegurada em Afrin incentivou, na zona oeste de Alepo, a oposição militar árabe a concentrar naquela ali seus combates contra o regime.(ICG 2014a: 8) Em março de 2014, uma nova situação estimulou a reaproximação entre o ELS e o PYD. Tratava-se da presença de um inimigo comum, o Estado Islâmico, na zona rural de Alepo. Tal situação reverteu-se no verão de 2013. O líder do PYD, Salih Muslim, acusava agora o regime Assad de apoiar os ataques jihadistas contra os curdos(Van Wilgenburg 2014b). O Jabhat al-Akrad voltou a cooperar com o ELS contra o EI, realizando operações em Tal Abbyad, Jarablus e Alepo(Van Wilgenburg 2014a).</p>
<p style="text-align: justify;">Em setembro, a ameaça de um avanço contínuo do Estado Islâmico para o oeste e o norte de cidades como al-Bab, Manbij e Jarablus, estimularam a criação de uma aliança entre o YPG, seis batalhões do ELS e o grupo aramado Liwa al-Tawhid.(Lister 2015: 285) As batalhas ao longo do cerco militar à cidade de Kobani deslocaram, na base da força, cerca de 200 mil pessoas dos vilarejos ao seu redor. Entretanto a cidade curda foi defendida não apenas pelo YPG, como também por ao menos três batalhões de combatentes árabes, incluindo o corpo revolucionário de Raqqa, o “Sol do Norte” e o de Jarablus. Em 4 de outubro, o ELS enviou tropas adicionais para defender Kobani.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150214 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp5.jpg" alt="A questão curda na Síria [3]" width="432" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp5.jpg 432w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp5-216x300.jpg 216w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp5-302x420.jpg 302w" sizes="auto, (max-width: 432px) 100vw, 432px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Numa declaração de 19 de outubro de 2014, o YPG reconheceu a participação do ELS na resistência ao cerco de Kobani feito pelo Estado Islâmico:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A resistência demonstrada por nós, Unidades de Proteção Popular (YPG), e os grupos do Exército Livre da Síria (ELS), são uma alavanca para derrotar o terrorismo do dito Estado Islâmico na região. O antiterrorismo e a construção de uma Síria livre e democrática foram a base do acordo que assinamos com os grupos do ELS. Como podemos ver, o sucesso da revolução está sujeito ao desenvolvimento dessa relação entre todas as facções e as forças de bem neste país. (…) Também confirmamos a coordenação entre nós e importantes círculos do ELS na região rural ao norte de Alepo, em Afrin, Kobani e Jazira. Neste momento, há grupos e vários batalhões do ELS combatendo ao nosso lado contra os terroristas do EI.(Comando Geral do YPG 2014)</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">A batalha por Kobani exacerbou tensões com o governo turco, ao passo que Ancara impedia as pessoas de atravessarem a fronteira síria para lutar com o YPG, apesar de eventualmente terem permitido a entrada das forças <em>Peshmerga</em> do Curdistão iraquiano.(Itani e Stein 2016: 7)</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de outras colaborações infrequentes &#8211; como em dezembro de 2015, entre a Sala de Operações Fateh Halab e o YPG, na região rural ao norte de Alepo(SOHR 2015b; Enab Baladi 2015) &#8211; as relações entre as diversas forças armadas árabes da oposição e o YPG novamente se deterioraram. A expansão dos territórios controlados pelo YPG crescia no norte da Síria a partir de seus confrontos com unidades do ELS e de grupos jihadistas islâmicos e salafistas. Números crescentes de militantes do PKK, incluindo não-sírios, desceram das montanhas de Qandil para juntarem-se à luta. Ao mesmo tempo, para os curdos que queriam defender suas comunidades, a cooperação com o YPG muitas vezes era a única opção. Efetivamente, na proporção em que as batalhas com os grupos armados salafistas e jihadistas se expandiam, o papel do YPG como único protetor viável dos curdos na Síria era intensificado.(ICG 2014a: 5-7) O YPG expandiu o seu controle sobre as áreas curdas ao longo da fronteira com a Turquia, ocupando grande parte da província de Hasakah, no nordeste.</p>
<p style="text-align: justify;">Diversos fatores estimularam as hostilidades entre o YPG e o ELS. A começar pelo apoio do PYD à intervenção militar russa em setembro de 2015, a favor de Assad. Também pesou a assistência militar fornecida ao YPG pela força aérea russa contra grupos armados árabes da oposição, em fevereiro de 2016, na região de Afrin, que serviu para a tomada de áreas controladas pela oposição e cidades de maioria árabe ao norte de Alepo, incluindo Tal Rifaat. Por último, a colaboração do YPG com as forças do regime para impor um cerco a Alepo oriental, em 28 de julho de 2016, aumentou as hostilidades entre os dois grupos. Ao longo de 2016, as forças de oposição e o YPG enfrentaram-se repetidamente, enquanto o bairro curdo de Sheikh Maqsud esteve sob sítio durante meses pelas forças armadas da oposição em Alepo.(Shocked 2016)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-150215 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp6.jpg" alt="A questão curda na Síria [3]" width="661" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp6.jpg 661w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp6-300x272.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp6-463x420.jpg 463w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/10/pp6-640x581.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 661px) 100vw, 661px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Ao final de novembro e início de dezembro de 2016, durante a ofensiva das forças pró-regime em Alepo oriental e sua subsequente captura, as forças do YPG &#8211; que caracterizaram oficialmente esses confrontos como “combates entre o regime sírio e o Congresso Nacional Sírio, apoiada pela Turquia”(ANHA Hawar News Agency 2016) &#8211; participaram da batalha, conquistando alguns distritos e entregando-os ao regime Assad. Em troca, foi permitido ao YPG o controle dos bairros Sheikh Maqsud e Ashrafia, de maioria curda.(Orton 2016; SOHR 2016) Foi, no entanto, um controle provisório, já que as forças do regime os cercaram. Em dezembro de 2017, a bandeira síria foi ali erguida, com o YPG obrigado a aceitar o retorno parcial das forças do regime. Ao final de fevereiro de 2018, o YPG retirou-se por completo de Alepo, para integrar a defesa de Afrin (comentado mais adiante neste capítulo).(Schmidinger 2018: 258)</p>
<p style="text-align: justify;">Um setor da oposição armada (algumas unidades do ELS, assim como forças fundamentalistas islâmicas) participou de uma ofensiva, em janeiro de 2018, contra Afrin (ver Capítulo 7). Comandados por Ancara, justificaram sua participação alegando que os curdos, na prática, eram aliados do regime, tornando-se importante manter a Síria unida contra grupos separatistas, como o PKK/PYD.(Rudaw 2018c) Vídeos de combatentes sírios apareceram durante esse período, expondo uma retórica racista e repleta de ódio contra os curdos, bem como palavras de ordem em favor de Saddam Hussein e Erdoğan.(Facebook 2018a, 2018b)</p>
<p style="text-align: justify;">Moradias e comércios foram saqueados em Afrin, e a estátua de Kawa, figura simbólica das celebrações do festival Nowruz, destruída. Os cadáveres mutilados de soldados curdos do YPG e de civis apareceram nas redes sociais. Ao final de 2018, estimava-se que cerca de 151 mil pessoas haviam sido expulsas dos seus lares na província de Afrin, por conta da operação militar turca “Ramo de Oliveira”, em janeiro de 2018 e durante a ocupação subsequente. A maioria foi deslocada para as áreas de Tal Refaat, Nubul, Zahra e Fafin, na província de Alepo.(UNHCR 2018) As forças do YPG decidiram retirarem-se de Afrin em meados de março de 2018, a fim de permitir que os civis deixassem a cidade, enquanto anunciavam o início da sua resistência armada em toda a província.(Schmidinger 2018: 260)</p>
<p style="text-align: justify;">Com o passar do tempo, as tensões entre o PYD e os vários grupos armados oposicionistas não só se exacerbaram, intensificando choques militares, mas também aprofundaram as divisões étnicas entre árabes e curdos. A situação deteriorou-se mais ainda em dezembro de 2018, quando grupos armados de oposição dispuseram-se formalmente a participar de uma operação liderada pelos turcos nas regiões ao leste do Rio Eufrates, na Síria, controladas pelo PYD, após um anúncio de Ancara.(Dadouch 2018) A coalizão síria também apoiou a ofensiva, apesar da oposição de seus membros curdos e setores de sua direção.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ele participou da repressão aos civis, especialmente nas Montanhas Qalamoun, ao longo da estrada Damasco-Homs, onde relata-se que tropas sob o seu comando cometeram diversos massacres contra civis, em especial na cidade de Dumeir (Zaman al-Wasl 2016c)</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 4 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2023/09/150055/" target="_blank" rel="noopener">Parte 1</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2023/09/150119/" target="_blank" rel="noopener">PARTE 2</a><br />
Parte 3<br />
Parte 4</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>A bibliografia pode ser conferida neste <a href="https://passapalavra.info/2023/09/150074/" target="_blank" rel="noopener">link</a>.</em></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de </em><em>Ibrahim Yıldız (1984 &#8211; ).<br />
</em></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>A Questão Curda na Síria [2]</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/09/150119/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Sep 2023 18:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Síria]]></category>
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					<description><![CDATA[Longe de uma marionete de Assad, o PYD desempenhava um papel mutuamente benéfico a si mesmo e ao regime.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joseph Daher</h3>
<blockquote><p>O artigo a seguir, publicado em 4 partes, é o quinto capítulo do livro Síria Depois Dos Levantes, de <a href="https://contrabando.xyz/revolucao-e-contrarrevolucao-na-siria-entrevista-com-joseph-daher/" target="_blank" rel="noopener">Joseph Daher</a>. A versão integral do livro foi traduzida pela Contrabando Editorial e será publicada no fim de 2023</p></blockquote>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O regime, o PYD e Rojava</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Logo após o início do levante, em 2011, a liderança do PYD pôde retornar à Síria, apesar da banição do partido no país. Saleh Muslim, seu líder a época, voltou à cidade síria de Qamishli em abril de 2011. Ele havia se refugiado em um acampamento do PKK no Iraque em 2010, depois de ser preso junto com sua esposa, na Síria <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o retorno da direção do PYD, a organização começou a realizar ações políticas e paramilitares para mobilizar apoio entre os curdos sírios. Nesse quadro, o PKK transferiu entre 500 e 1000 combatentes armados para criar a ala militar do PYD, o YPG (ICG 2013: 2), que operava como exército. Em outubro de 2011, o regime liberou diversos presos políticos curdos e, logo depois, Damasco permitiu que o PYD abrisse seis “escolas de língua” curda no norte da Síria, que o grupo usava, na prática, para fazer trabalho político. Em março de 2012, o PKK foi capaz de transferir entre 1500 e 2000 militantes do enclave montanhoso de Qandil (na fronteira entre Iraque e Irã) para a Síria. Já a Turquia adotava uma posição mais hostil em relação ao regime Assad entre meados e o final de 2011 (Cagaptay 2012; IRIN 2012). Assad permitiu que o PYD desenvolvesse e ampliasse sua influência para pressionar os turcos. Do ponto de vista militar, a direção exilada do PKK, baseada nas montanhas Qandil, exerceu autoridade sobre o YPG durante todo o levante, cuja liderança era dominada por combatentes sírios e estrangeiros (curdos de outras nacionalidades) do PKK, treinados em Qandil (ICG 2014a: 5; Grojean 2017: 125).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-150129" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/rojava-female-fighters-2650707693.jpg" alt="" width="1000" height="674" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/rojava-female-fighters-2650707693.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/rojava-female-fighters-2650707693-300x202.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/rojava-female-fighters-2650707693-768x518.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/rojava-female-fighters-2650707693-623x420.jpg 623w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/rojava-female-fighters-2650707693-640x431.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/rojava-female-fighters-2650707693-681x459.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" />O regime sírio retirou parcialmente suas forças de algumas áreas habitadas por maiorias curdas em julho de 2011, ou pelo menos deixou de atuar naquelas regiões. O PYD e as forças curdas mais tarde unificadas no KNC competiam pela representação dos interesses curdos na Síria. A capacidade do PYD de se organizar abertamente pelo país levantou suspeitas de que o partido havia firmado um acordo com o regime, que lhe permitiria reestabelecer sua presença e livre operação. Em troca, o PYD cooperaria com as forças de segurança para suprimir os protestos antirregime nas áreas de maioria curda e marginalizar outros partidos políticos curdos, a fim de conquistar a hegemonia no cenário político curdo na Síria. O PYD dispunha-se a preencher com vigor o vácuo de poder deixado pelo regime (IRIN 2012; ICG 2013: 2; Grojean 2017: 123).</p>
<p style="text-align: justify;">Paralelo a isso, durante esse período, o PYD utilizou-se cada vez mais das redes sociais para projetar suas credenciais antirregime e de apoio ao levante, principalmente a partir do início de 2012 (IRIN 2012; ICG 2013: 14). Nesse fase, as tensões entre o regime e o PYD tornaram-se mais agudas em algumas áreas, a exemplo da batalha armada ocorrida em Kobani entre o PYD e os apoiadores do regime, assim como contra membros do Serviço de Inteligência da Força Aérea. Um tribunal militar em Alepo condenou quatro apoiadores do PYD a 15 anos de prisão por pertencerem à organização. Ademais, na véspera do referendo constitucional do regime Assad, em 26 de fevereiro de 2012, o PYD fez campanha pelo boicote às urnas, alegando que a nova constituição nada oferecia aos curdos (Hossino e Tanir 2012).</p>
<p style="text-align: center;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-150127" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/captura_de_tela_2023-09-16_a_s_19.56.31.png" alt="" width="400" height="232" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/captura_de_tela_2023-09-16_a_s_19.56.31.png 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/captura_de_tela_2023-09-16_a_s_19.56.31-300x174.png 300w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Longe de uma marionete de Assad, o PYD desempenhava um papel mutuamente benéfico a si mesmo e ao regime. Ele projetou-se na falta de segurança e expandiu a área que controlava, a fim de alcançar seus objetivos políticos, garantindo alguma forma de autonomia para os curdos nas regiões onde eram maioria. Ao mesmo tempo, o regime foi capaz de concentrar suas forças militares em outras regiões onde ocorriam protestos e resistência armada, enquanto o PYD, em geral, mostrava-se hostil a vários grupos armados de oposição, evitando que eles entrassem em seus territórios. A presença do PYD ao longo da fronteira norte do país também privava algumas forças da oposição síria de suas bases e linhas de suprimento, que atravessavam a Turquia. Como mencionado, a expansão da influência do PYD também foi um instrumento utilizado por Damasco para pressionar a Turquia, cuja hostilidade ao regime, e intervenção a favor das forças de oposição, cresciam na Síria.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Autodeterminação</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os dilemas históricos em torno da questão curda reapareceram com o levante popular <strong>[2]</strong>. A oposição árabe rejeitou as demandas da oposição curda síria e do KNC, assim como do PYD. Em meados de julho de 2011, representantes curdos no encontro de Istambul retiraram-se em protesto à negativa de alterar o nome do país de República Árabe Síria para República Síria. (Kajjo e Sicnlair 2011)</p>
<p style="text-align: justify;">As relações entre o CNS e o KNC foram difíceis desde o início. O primeiro presidente do CNS, Burhan Ghalioun, recusou a principal demanda do KNC por um modelo federativo na Síria pós-Assad, chamando-o de “delírio”. Em novembro de 2011, Ghalioun também enfureceu os curdos sírios ao compará-los a “imigrantes na França”, explicitando sua exterioridade à Síria (Abdallah, Abd Hayy (al-) e Khoury 2012). Respondendo à contínua recusa às demandas curdas nos conselhos da oposição, em 30 de março de 2012, os ativistas e movimentos curdos denominaram as manifestações de sexta-feira como “dos direitos curdos” (Allsopp 2015: 206).</p>
<p style="text-align: justify;">As tensões entre o KNC e o CNS aumentaram consideravelmente depois da publicação, pelo CNS, de “Carta Nacional: A Questão Curda na Síria”, em abril de 2012. O documento abandonava formulações anteriores que reconheciam uma nação curda dentro da Síria, presentes na proposta final de declaração do encontro dos Amigos da Síria, reunidos na Tunísia. Isso resultou na saída do KNC dos diálogos de unidade com o CNS, e que depois acusou a Turquia de influência excessiva na política do CNS (Carnegie 2012b). Dentro da Síria, respondendo à recusa dos direitos nacionais curdos pelo CNS em 20 de abril, grupos de juventude e partidos políticos levantaram faixas afirmando “Aqui está o Curdistão”. Duas semanas antes, na sexta-feira de 6 de abril, os protestos tinham como palavra de ordem central, “Direitos curdos acima de qualquer conselho” (Allsopp 2015: 206).</p>
<p style="text-align: justify;">A oposição árabe síria acertou outro duro golpe no KNC ao recusar a menção do termo “povo curdo na Síria” em seu encontro no mês de julho de 2012, no Cairo (Sary 2015: 9). Mais tarde, em 27 de agosto de 2013, o KNC juntou-se à Coalizão Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias, esperando obter resultados melhores, porém sem sucesso. O CNS e a Coalizão Nacional continuaram obstruindo os partidos e ignorando os interesses curdos. O KNC também foi incluído no Comitê de Altas Negociações (CAN) (KNC 2016a) após a Conferência da Oposição em Riyadh, em dezembro de 2015. Isso não evitou a contínua recusa aos direitos curdos, nem afirmações chauvinistas pelos membros árabes da Coalizão Nacional. Em 29 de março de 2016, por exemplo, o chefe da delegação do CAN em Genebra, o ex-general As&#8217;ad al-Zo&#8217;abi, declarou à televisão Radio Orient:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"> Os curdos representam 1% da população e apenas queriam receber seus documentos durante a era de Hafez al-Assad, para provar que eram “seres humanos” (…) (Smart News Agency 2016).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Respondendo a tais afirmações racistas, organizaram-se protestos contra o CAN em diversas cidades de maioria curda (SMART News Agency 2016).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-150128" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/ypg.jpg" alt="" width="800" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/ypg.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/ypg-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/ypg-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/ypg-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/ypg-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/ypg-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" />O CNS e a Coalizão mantiveram uma atitude de confronto em relação ao PYD, caracterizando-os como inimigos da revolução. Em janeiro de 2016, o então presidente do CNS, George Sabra, alegou que o PYD não integrava a oposição, e que politicamente era muito próximo ao regime, além de integrar o PKK, classificado como organização terrorista. A declaração, portanto, endossava a posição oficial da Turquia em relação ao grupo (al-Jazeera English 2016).</p>
<p style="text-align: justify;">A grande maioria dos movimentos políticos curdos sírios, incluindo ambos PYD e KNC, ficaram descontentes com o plano de transição proposto em setembro de 2016 pelo Comitê de Altas Negociações, da oposição. O KNC reiterou que</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O documento não é parte da solução, ele representa uma ameaça a uma Síria democrática, plural e unida, garantidora dos direitos culturais, sociais e políticos de todos os seus grupos étnicos, religiosos e linguísticos.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">E acrescentou:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nota-se de partida que o primeiro ponto dos “Princípios Gerais” lista apenas a cultura árabe e o Islã como fontes da produção intelectual e das relações sociais. Essa definição claramente exclui outras culturas &#8211; sejam elas etnias, grupos linguísticos ou religiosos &#8211; e estabelece a cultura majoritária como principal. Enquanto curdos sírios, repudiamos essa percepção estreita do povo sírio. As semelhanças entre tal conceituação e as políticas chauvinistas do regime Assad são inegáveis.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Novos atritos ocorreram em março de 2017, durante outra rodada das negociações de paz em Genebra, quando representantes do CCN e do CAN se recusaram a juntar um documento redigido pelo KNC para o enviado especial da ONU, Staffan de Mistura. Esse afirmava a representação curda no processo de negociação de paz, exigindo a inclusão da questão curda e os interesses de outros segmentos da população síria na agenda de negociações. Em resposta, o KNC suspendeu sua participação nas negociações e nas reuniões com o Comitê de Altas Negociações (KNC 2017).</p>
<p style="text-align: justify;">O CCN não foi muito diferente do CNS e do Comitê de Altas Negociações na problemática. Sua posição original previa uma “solução democrática para a questão curda como parte da unidade da terra síria sem contradizer a Síria como parte integrante do mundo árabe.” Em fevereiro de 2012, os partidos curdos que pertenciam ao CCN (excluindo o PYD) retiraram-se, para se unir ao KNC. A Coalizão modificou levemente suas posições em abril do mesmo ano, endossando a implantação de “princípios descentralizados” numa futura Síria, porém, sem conseguir atrair o retorno dos partidos curdos (Carnegie 2012b). Mantiveram, ainda assim, sua oposição a um sistema federativo na Síria.</p>
<figure id="attachment_150131" aria-describedby="caption-attachment-150131" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-150131" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Asaad_2518978b-460515523.jpg" alt="" width="620" height="387" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Asaad_2518978b-460515523.jpg 620w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Asaad_2518978b-460515523-300x187.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px" /><figcaption id="caption-attachment-150131" class="wp-caption-text">Coronel Riad al-As&#8217;ad</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O Exército Livre da Síria (ELS) não mantinha uma posição oficial, mas a maioria da sua direção era hostil aos direitos e demandas nacionais curdas. O Coronel Riad al-As&#8217;ad, um dos líderes do ELS, declarou que o grupo não permitiria que qualquer território fosse separado da Síria e que “nós jamais deixaremos Qamishli (…) Não cederemos nem um metro de solo sírio e nos dispomos ir à guerra por isso” (citado em Dunya Times 2012).</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Autoadministração </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em junho de 2012, Massud Barzani mediou um acordo de partilha de poder entre os dois principais grupos curdos, o Conselho Nacional Curdo e os Conselhos Populares do Curdistão Ocidental. Conhecido como a Declaração de Erbil, afirmava disposição das partes em governar o conjunto das regiões curdas da Síria durante um período de transição, por meio de um recém-criado Comitê Supremo Curdo (Kurd Watch 2012b). No entanto, a Declaração de Erbil permaneceu letra morta, já que as posições do PYD na Síria se fortaleciam por sua recusa em dividir o poder com outras forças políticas curdas.</p>
<p style="text-align: justify;">Apenas em 19 de julho de 2012, 17 meses após o início do levante, as forças do regime se retiraram de nove cidades majoritariamente curdas, que passaram ao controle do PYD. Os militantes do PYD afirmaram que os representantes do regime se retiraram após um ultimato e ameaça de ataques pelo partido nas 24 horas seguintes, enquanto o CNS e alguns rivais curdos acusaram o PYD de operar um acordo com o regime (ICG 2013: 14; Ayboga, Flach e Knapp 2016: 56-57).</p>
<p style="text-align: justify;">Muito provavelmente, a retirada das forças de Assad resultou de um acordo tácito com o PYD, que conseguiu se reorganizar alguns meses após o início da revolta. O regime sírio precisava de todas as suas forças armadas para reprimir as manifestações em outras partes do país, evitando abrir uma nova frente militar, apesar de manter uma pequena presença em algumas cidades, como em Qamishli e Hasaka. Isso também incluía a estratégia assadista de fragmentar o levante em divisões étnicas e religiosas, na medida em que o PYD adotou inicialmente uma posição neutra em relação a grandes setores da oposição, negando-se a colaborar com grupos e ativistas populares nas áreas majoritariamente árabes e tentando, ao mesmo tempo, dominar e controlar a população curda na Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">O PYD ocupou os prédios municipais do regime em ao menos cinco de seus redutos &#8211; Kobani, Amuda, al-Malikiyah (<em>Derek</em>), Afrin e Jinderes &#8211; substituindo a bandeira síria por seus símbolos. O controle do PYD sobre tais territórios, tão próximos à fronteira turca, alarmou o governo em Ancara. Seu primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdoğan, condenou quaisquer planos de estabelecer uma região autônoma curda na Síria antes da visita de Salih Muslim, líder do PYD, para discussões em Ancara em julho de 2013 (Naharnet 2013). Apesar das garantias afirmadas pelo líder do PYD ao governo turco de que a exigência por autonomia local nas regiões curdas da Síria não significariam uma divisão do país (Khoshnawi 2013), as relações entre ambos os lados se deterioraram rapidamente, reforçadas também pelo fim do processo de paz na Turquia entre o PKK e o governo de Erdoğan.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-150132" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/th-3295129230.jpg" alt="" width="474" height="335" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/th-3295129230.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/th-3295129230-300x212.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />O pleno controle do PYD sobre as regiões de maioria curda levou a organização a recusar a proposta na Declaração de Erbil de partilhar o poder, defendida por Barzani. Propuseram, em seu lugar, formar um conselho independente temporário para gerir o Curdistão Ocidental (noroeste da Síria) até o final da guerra civil, voltado às necessidades da população local, de melhorar a economia e responder aos ataques do regime Assad, das forças islâmicas e do exército turco. O PYD recusou a entrada no país dos combatentes <em>peshmerga</em> &#8211; afiliados ao KDP de Barzani &#8211; fora do comando direto do YPG. O KNC discordou dessas condições e reafirmou a importância da cooperação e diálogo com as forças revolucionárias e a oposição nacional na Síria (IRIN 2012; ICG 2014a: 2-3).</p>
<p style="text-align: justify;">A crescente hegemonia política e militar do PYD e a incapacidade do KNC em projetar sua influência dentro da Síria enfraqueceu ainda mais a organização, aprofundando suas divisões internas. Alguns partidos dentro do KNC viam a cooperação com o PYD como a única maneira de manter uma base política na Síria e se defender das forças de oposição, islâmicas ou jihadistas que atacavam as regiões habitadas pelos curdos. A campanha “O Curdistão Ocidental para seus filhos”, organizada pelo PYD no verão de 2012 contra os ataques de grupos armados, também diminuiu as críticas ao partido, unindo temporariamente os curdos sírios de todo o espectro político (ICG 2014a: 3). O ativista curdo sírio Shiyar Youssef (2016) explicou:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mesmo os mais críticos ao PYD começaram a vê-lo como “o menor de dois males” após os ataques do ELS e das forças islamistas e jihadistas contra as áreas habitadas pelos curdos. Eu conheço muitos ativistas em Qamishli, Amuda e em outras áreas que, antes, organizavam manifestações e escreviam contra o PYD. Mas agora, na nova conjuntura, começaram a se voluntariar nas fileiras do YPG para lutar contra os islamistas, porque, se eles vencerem, dominarão tudo, impondo seus valores, que são estranhos à população local (…)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Argumentações similares foram expostas por outros ativistas (Abd El-Krim 2016; Hassaf 2018), fortalecendo o discurso do PYD em ser a única defesa viável curda síria contra as ameaças externas. Esse sentimento consolidado entre os curdos na Síria só aumentou ao longo do levante.</p>
<p style="text-align: justify;">As relações entre o KNC e o PYD seguiram deteriorando-se, pois não havia espaço na cena política para o KNC e suas várias facções. A fronteira entre a Síria e a região curda do Iraque, controlada pelo chefe do KNC, Massud Barzani, tornou-se uma arena para a competição intercurda. Temendo que o PYD aumentasse sua influência e protagonismo, controlando a distribuição de ajuda humanitária, o Governo Regional do Curdistão no Iraque fechou por alguns períodos o acesso ao seu lado da fronteira, impedindo a entrada de suprimentos. Com isso, as condições de vida deterioraram-se rapidamente nas áreas curdas da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Sofrendo com a falta contínua de eletricidade, água, alimentos e gás, em meados de 2013, um fluxo populacional seguiu em direção ao Curdistão iraquiano. Ao mesmo tempo, diversas áreas habitadas por curdos no nordeste da Síria sofreram ataques de grupos fundamentalistas islâmicos e jihadistas. Em 15 de agosto, o KDP abriu a fronteira, mas fechou-a novamente três dias depois. Nesse período, entre 40 e 70 mil curdos fugiram para o Curdistão iraquiano. O número de refugiados na região iraquiana chegou a quase 200 mil até o início de agosto de 2013. As relações se deterioraram ao ponto do KDP proibir que os membros do PYD entrassem na província de Erbil, reprimindo alguns dos seus militantes. Em resposta, o PYD impediu que líderes pró-Barzani cruzassem para a Síria, igualmente reprimindo seus apoiadores (IRIN 2013; Eakin 2013; ICG 2014a: 10-11).</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas:</strong></h4>
<p><strong>[1]</strong> Carnegie 2011, Sua liderança foi reconfirmada no quinto congresso extraordinário do PYD, realizado em 16 de junho de 2012, em que o Comitê Central do partido foi expandido, introduzindo-se a liderança dupla para aumentar e promover a representação das mulheres no partido, e elegendo Asiyah Abdullah copresidente do partido (Carnegie 2012a). No sétimo congresso do PYD, em setembro de 2017, ocorrido na cidade de Rmeilan, no nordeste da Síria, elegeu-se uma nova liderança. Shahoz Hasan e Aysha Hisso substituíram Saleh Muslim e Asya Abdullah como novos copresidentes do PYD (Aarafat 2017b). No entanto, Saleh Muslim prosseguiu como figura chave e influente no partido.</p>
<p><strong>[2]</strong> Apesar de a Declaração de Damasco de 2005 reconhecer explicitamente a questão curda, os quatro partidos curdos que a assinaram ainda não ficaram satisfeitos com a maneira como a grande maioria dos partidos políticos sírios e associações de direitos humanos limitaram a questão curda à um único item do censo de 1962, deixando os curdos privados de sua cidadania. A maioria não estava pronta para reconhecer os curdos como uma nação separada, nem estava disposta a escutar as exigências de federalismo e descentralização (Tejel 2009: 127).</p>
<blockquote><p><em>A publicação deste artigo foi dividida em 4 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2023/09/150055/" target="_blank" rel="noopener">Parte 1</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2023/10/150209/" target="_blank" rel="noopener">PARTE 3</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2023/10/150273/" target="_blank" rel="noopener">Parte 4</a></em></p>
<p><em>A bibliografia pode ser conferida neste <a href="https://passapalavra.info/2023/09/150074/" target="_blank" rel="noopener">link</a>.</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>A Questão Curda na Síria [1]</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/09/150055/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Sep 2023 12:28:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Síria]]></category>
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					<description><![CDATA[A colaboração entre as juventudes árabe e curda diminuiu com o tempo, devido à divisão e aos desacordos com os grupos árabes sírios no exílio, bem como pela crescente tensão étnica. Por Joseph Daher]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joseph Daher</h3>
<blockquote><p>O artigo a seguir, publicado em 4 partes, é o quinto capítulo do livro Síria Depois Dos Levantes, de <a href="https://contrabando.xyz/revolucao-e-contrarrevolucao-na-siria-entrevista-com-joseph-daher/" target="_blank" rel="noopener">Joseph Daher</a>. A versão integral do livro foi traduzida pela Contrabando Editorial e será publicada no fim de 2023</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A organização dos primeiros partidos curdos na Síria tem origem nos anos 1950. Surgiram em meio a uma guinada agressiva e chauvinista do nacionalismo árabe, assim como das frustrações crescentes dos filiados curdos do Partido Comunista Sírio, visto por muitos como desinteressado, ou até contrário, aos direitos nacionais curdos(Tejel 2009: 48). A vasta maioria desses novos movimentos curdos adotavam ideologias socialistas, apesar da elite tribal ter permanecido bem representada em suas direções. As notáveis exceções a essa dinâmica, já mencionadas, foram o Partido dos Trabalhadores Curdos (<em>Partiya Karkerên Kurdistanê</em>, ou PKK) e, depois, o Partido da União Democrática (<em>Partiya Yekîtiya Demokrat</em>, ou PYD) &#8211; organizações que, desde o início, buscaram representar as classes populares curdas, tratando a elite tribal como colaboradores na colonização do Curdistão.(Van Bruinessen 2016: 7) Em grau menor, o Partido Yekiti também mobilizou inúmeros seguidores nos anos 1990 e 2000, antes de sua fragmentação<strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse capítulo relata o papel das forças políticas e a participação curda no levante sírio. No início, manifestantes curdos organizaram-se como os ativistas das outras áreas, criando Comitês de Coordenação Local (CCL). Porém, a colaboração entre os comitês de coordenação e as juventudes árabe e curda diminuiu com o tempo. Elas cessaram devido à divisão e aos desacordos com os grupos árabes sírios de oposição no exílio, bem como pela crescente tensão étnica, em geral, entre ambas as comunidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo do tempo, o PYD &#8211; com o beneplácito do regime de Assad &#8211; fortaleceu-se na cena política curda síria. O partido tirou vantagem das divisões entre os vários atores internacionais que intervinham no país &#8211; especialmente ao receber ajuda dos Estados Unidos (e, em grau menor, da Rússia) para avançar interesses políticos próprios. No entanto, esse apoio dos estrangeiros aos poucos diminuiu, tornando-se menos garantido. A autonomia assegurada pelo PYD nas regiões curdas converteu-se em foco de conflito entre diversos sujeitos locais e regionais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A questão curda antes de 2011: repressão e cooptação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nos anos 1950 e 1960, os curdos tornaram-se os principais bodes expiatórios do crescente nacionalismo árabe na Síria &#8211; incluindo o período da República Árabe Unida (RAU)<strong>[2]</strong> seguida, a partir de 1963, pelo domínio do Partido Baath. Os curdos acabaram retratados como agentes trabalhando a serviço de poderosos inimigos estrangeiros, em particular Israel e o imperialismo norte-americano.(Tejel 2009: 41)</p>
<p style="text-align: justify;">Eles foram objeto de políticas discriminatórias e repressivas, como nas primeiras medidas do “Cinturão Árabe”. Iniciado em 1962, consistia em um <em>cordão sanitário</em> entre os sírios árabes e os curdos ao longo da fronteira do país com a Turquia e o Iraque, locais que formavam o perímetro norte e nordeste da região de Jazira, majoritariamente curda. Um “censo excepcional” da população realizada ali em 1962 negou nacionalidade a cerca de 120 mil curdos, declarados estrangeiros. Seus filhos tampouco foram contemplados com direitos civis básicos, sendo condenados à pobreza e à discriminação.<strong>[3]</strong></p>
<figure id="attachment_150056" aria-describedby="caption-attachment-150056" style="width: 576px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-150056 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/captura_de_tela_2023-09-16_a_s_19.55.57.png" alt="" width="576" height="311" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/captura_de_tela_2023-09-16_a_s_19.55.57.png 576w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/captura_de_tela_2023-09-16_a_s_19.55.57-300x162.png 300w" sizes="auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px" /><figcaption id="caption-attachment-150056" class="wp-caption-text">Mapa: Arabização de nomes de vilas no norte da Síria</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A descriminalização racial contra os curdos, em particular pelo projeto do Cinturão Árabe, foi institucionalizada pelo regime de Assad. Entre 1972 e 1977, como parte de uma política de colonização, cerca de 25 mil camponeses árabes &#8211; cujas terras haviam sido inundadas pela construção da barragem Tabqa &#8211; acabaram enviados à Jazira, onde o regime sírio assentou a nova população em “vilarejos modernos” ao lado dos lugarejos curdos.(Seurat 2012: 183)</p>
<p style="text-align: justify;">Durante esse período, para fomentar a política externa do governo, o regime Assad procurou cooptar certos segmentos da sociedade curda (ao final dos anos 1970 e início dos anos 1980, no contexto da crescente oposição mencionada no capítulo 1). Algumas elites curdas participaram do sistema político do regime, a exemplo dos líderes curdos das irmandades religiosas, como Muhammad Sa&#8217;id Ramadan al-Buti, e sheiks oficiais como Ahmad Kuftaro, Mufti da República entre 1964 e 2004.(Pinto 2010: 265) Diversos curdos obtiveram cargos de autoridades locais, enquanto outros alcançavam altos postos nacionais, tais quais o Primeiro-Ministro Mahmud Ayyubi (1972-1976), ou Hikmat Shikaki, chefe da inteligência militar (1970-1974) e Chefe do Estado-Maior (1974-1998). No entanto, isso ocorria sob a condição de que não demonstrassem qualquer consciência étnica curda, em particular na retórica ou estratégia política. No final da década de 1970 e durante os anos 1980, alguns curdos também foram absorvidos nas divisões de elite do exército, ou ligados a grupos militares específicos que serviam ao regime. Outra forma de cooptação foi a cumplicidade dos serviços locais de segurança com certas famílias de contrabandistas curdos ativos na região da Jazira, nas fronteiras da Síria com a Turquia e Iraque.(Tejel 2009: 66-67)</p>
<p style="text-align: justify;">Essa política de cooptação também incluía alguns partidos políticos curdos. O regime de Assad forjou acordos políticos com o PKK, transformando seu líder, Abdullah Öcalan, em convidado oficial do regime no início dos anos 1980, quando as tensões entre Síria e Turquia explodiram. O PKK foi autorizado a recrutar militantes e combatentes, organizando de 5 mil a 10 mil pessoas nos anos 1990,(Bozarslan 2009: 68; Allsopp 2015:40) enquanto lançava operações militares contra o exército turco a partir da Síria. Com escritórios em Damasco e em diversas cidades no Norte, seus militantes assumiram o controle <em>de facto</em> de fatias do território sírio, especialmente na província de Afrin.(McDowall 1998: 65 &#8211; Tejel 2009: 78) Outros partidos políticos curdos também colaboraram com o regime sírio, como a União Patriótica do Curdistão (PUK)<strong>[4]</strong> dirigida por Jalal Talabani, presente no país desde 1972; seguido, mais tarde, a partir de 1979, pelo Partido Democrático Curdo (KDP)<strong>[5]</strong>, afiliado a Masoud Barzani.(Tejel 2009: 72-78)</p>
<figure id="attachment_150062" aria-describedby="caption-attachment-150062" style="width: 1350px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-150062 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/150154.jpg" alt="" width="1350" height="924" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/150154.jpg 1350w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/150154-300x205.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/150154-1024x701.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/150154-768x526.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/150154-614x420.jpg 614w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/150154-640x438.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/150154-681x466.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1350px) 100vw, 1350px" /><figcaption id="caption-attachment-150062" class="wp-caption-text">Abdullah Öcalan inspecionando guerrilha em setembro de 1991</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A condição <em>sine qua non</em> para obter apoio do regime sírio era o compromisso de que os movimentos curdos do Iraque e Turquia se abstivessem de qualquer tentativa de mobilizar curdos sírios contra Assad. Damasco foi capaz de instrumentalizar esses grupos, usando-os como ferramenta de relações internacionais para alcançar algumas ambições regionais e, em nível doméstico, desviar a questão curda para fora da Síria, em direção aos Estados turco e iraquiano.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre o final dos anos 1990 e início dos 2000, as relações entre os partidos políticos curdos e o regime sírio deterioraram-se. Uma melhora nas relações entre Turquia e Síria induziu as forças sírias de segurança a lançar várias ondas de repressão contra os elementos remanescentes do PKK no país(ICG 2013: 12). Após o exílio de Öcalan em 1998 e a prisão de inúmeros militantes, o grupo estabeleceu novas organizações, com o duplo objetivo de se proteger da repressão estatal e oferecer apoio social aos seus milhares de membros e simpatizantes. O PYD, criado em 2003 como um sucessor do PKK na Síria,(Tejel 2009: 79) era parte da estratégia regional do partido de estabelecer braços locais nas nações vizinhas. Paralelo a isso, a partir de 2000, os vínculos do regime com o KDP e o PUK foram enfraquecendo, enquanto Damasco tentava normalizar suas relações com o governo em Bagdá, colocando um termo à sua interferência nas questões curdas no Iraque.(ICG 2011: 21)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[PKK &#8211; O PKK foi formado no final da década de 1970, na Turquia, sendo sua ideologia, originalmente, uma fusão de marxismo, terceiro-mundismo e nacionalismo curdo. Contudo, a ideologia do grupo evoluiu para além disso, refletindo a influência do teórico socialista estadunidense Murray Bookchin, um pensador que advogava o “comunalismo libertário.”]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O ano de 2004 marca o início de um levante curdo na cidade de Qamishli, que se espalhou pelas regiões habitadas majoritariamente por curdos &#8211; Jazira, Afrin, mas também Alepo e Damasco, onde as manifestações foram reprimidas com brutalidade pelas forças de segurança. O regime apelou à colaboração de algumas tribos árabes do Nordeste que mantinham ligações históricas com a família Assad. Cerca de 2 mil manifestantes foram presos e 36 mortos, enquanto outros eram forçados a deixar o país.(Lowe 2006: 5) A <em>Intifada</em> curda, assim como a evolução política do Curdistão iraquiano, que ganhou crescente autonomia, hasteando bandeiras e símbolos próprios, levantaram o ânimo dos curdos sírios e sua autoconfiança na mobilização por direitos, fortalecendo a consciência nacionalista da nova geração, e encorajando seu desejo por mudanças.</p>
<p style="text-align: justify;">O TCK, Movimento da Juventude Curda na Síria (<em>Tevgera Ciwanên Kurd</em>) surgiu de forma clandestina em março de 2005, um ano após a repressão ao levante curdo, tornando-se o maior grupo político de juventude no país após 2004. Ele se tornaria um dos principais atores nos protestos de 2011 nas áreas de maioria curda.(Schmidinger 2018: 76)</p>
<p style="text-align: justify;">Os curdos seguiram afirmando sua identidade étnica, organizando atividades culturais e mobilizando contra as políticas anticurdas do regime. Estudantes de vários grupos políticos também mantiveram atividades intensas ao longo desse período nos campi universitários &#8211; em particular em Damasco e Alepo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O início do levante sírio &#8211; março de 2011</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os protestos nas áreas de maioria curda começaram logo ao final de março de 2011, em Amuda e Qamishli, onde as palavras de ordem exigiam liberdade e irmandade entre árabes e curdos, assim como solidariedade com Dar&#8217;a(Kurd Watch 2012a; Aziz Abd El-Krim 2016; Darwish 2016a; Hassaf 2018). As manifestações rapidamente alastraram-se por outras cidades curdas.</p>
<p style="text-align: justify;">O movimento nessas regiões foi despertado pelos grupos de juventude pré-existentes, como o TCK ou pelos os Comitês de Coordenação Local que surgiam como parte de um movimento nacional de protestos contra o regime. Ao longo do ano de 2011, como explicado pelo ativista curdo sírio Alan Hassaf,(Alan Hassaf, 2018)</p>
<p style="text-align: justify;">Através de diversas redes, os comitês locais curdos coordenavam e cooperavam com as entidades equivalentes no movimento das diferentes cidades sírias.</p>
<p style="text-align: justify;">Os protestos continuaram durante todo mês seguinte, apesar de o regime tentar conquistar apoio (ou, pelo menos, a não-oposição) dos partidos políticos curdos. No início de março de 2011, por exemplo, o Ministério de Assuntos Sociais decidiu normalizar o status dos curdos em todas as questões relacionadas a emprego, revogando também o Decreto Nº 49, que havia impedido a transferência de terras nas regiões fronteiriças que afetavam a população curda.(Kurd Watch 2013b: 4) Em 20 de março, o regime reconheceu e celebrou o Nowruz, o Ano Novo persa e curdo, que pela primeira vez foi transmitido na televisão estatal e coberto em diversos ângulos pela agência nacional de notícias.(ICG 2011: 22) Nos anos seguintes, o festival seria celebrado de forma muito pública pelo regime.(Sabbagh 2016b) No entanto, os Comitês Curdos de Coordenação cancelaram as comemorações seguintes do Nowruz em março de 2012, transformando-as em manifestações pela derrubada do regime.(Abdallah, al-Abd Hayy, e Khoury 2012)</p>
<figure id="attachment_150063" aria-describedby="caption-attachment-150063" style="width: 216px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-150063 size-medium" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Bashar_al-Assad_meets_with_Khamenei_2022_cropped-216x300.jpeg" alt="" width="216" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Bashar_al-Assad_meets_with_Khamenei_2022_cropped-216x300.jpeg 216w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Bashar_al-Assad_meets_with_Khamenei_2022_cropped-303x420.jpeg 303w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Bashar_al-Assad_meets_with_Khamenei_2022_cropped.jpeg 450w" sizes="auto, (max-width: 216px) 100vw, 216px" /><figcaption id="caption-attachment-150063" class="wp-caption-text">Bashar al-Assad</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Após reuniões com representantes curdos, em abril de 2011, Bashar al-Assad publicou um decreto estendendo a nacionalidade síria na província de Hasakah a pessoas registradas como estrangeiros. Os <em>ajanib</em>, enquanto curdos sem registros, conhecidos como <em>maktumin</em>, foram excluídos da medida, ao mesmo tempo em que 48 presos, a maioria curda, também foram soltos<strong>[6]</strong>. Apesar dessas decisões, milhares marcharam pacificamente em diversas cidades &#8211; sobretudo em Qamishli, Amuda e Hasakah &#8211; cantando “Não queremos só nacionalidade, queremos também liberdade”(Orient le Jour 2011e).</p>
<p style="text-align: justify;">A partir do verão de 2011, a bandeira curda passou a ser erguida com frequência por manifestantes ao lado da bandeira Síria. Em outubro, ocorreram manifestações massivas na cidade de Qamishli, após o assassinato do respeitado militante curdo-sírio Mishal Tammo. Dirigente do Movimento Futuro Curdo na Síria (<em>Şepêla Pêşeroj a Kurdî li Sûriyê</em>) e solto após mais de dois anos nas prisões do regime, Tammo também integrou o comitê executivo do Congresso Nacional Sírio (CNS). Com a notícia de sua morte, milhares de manifestantes saíram às ruas contra o regime.(Nono Ali 2011)</p>
<p style="text-align: justify;">Os protestos de massa continuaram em Qamishli, atingindo seu ápice em meados de 2011. Elas diminuíram consideravelmente depois, devido à militarização do levante e o crescimento progressivo do PYD nas cidades.(Darwish 2016a)</p>
<p style="text-align: justify;">A colaboração entre os grupos de juventude árabe e curdo, e os CCLs, continuaram até meados de março de 2012. Depois desse período, os ativistas curdos começaram a usar palavras de ordem próprias, com referência a questões curdas que não haviam sido previamente aceitas como slogans gerais. No entanto, o uso de algumas palavras de ordem religiosas por vários grupos árabes também gerou discórdia entre os curdos.(Kurd Watch 2013b: 4; Hassaf 2018)</p>
<p style="text-align: justify;">Parte dos ativistas e dos comitês curdos foram inicialmente receptivos ao surgimento do Exército Livre da Síria (ELS). No entanto, passaram a se opor cada vez mais a ele na medida em que o ELS recorria à ajuda e patrocínio de potências exteriores, em particular da Turquia, práticas religiosas extremistas e atitudes hostis às demandas políticas e aos símbolos curdos.(Youssef S. 2016; Abd el-Krim 2016; Hassaf 2018) Ao mesmo tempo, o apoio tácito, ou até a adoção por inúmeros ativistas árabes da retórica anticurda, desde o início do levante, produziu rusgas. Militantes curdos eram acusados de separatismo e de buscar a independência do Curdistão. Quando ativistas da comunidade criticavam as práticas da oposição, ou se mencionassem os direitos nacionais curdos, eram frequentemente acusados de traição. Como relatado por um ativista curdo de Alepo, ver os revolucionários árabes tratando-os como fazia o regime, empurrou cada vez mais a comunidade em direção ao PYD.(Lundi Matin 2018)</p>
<p style="text-align: justify;">Simultaneamente, os comitês curdos de juventude seguiam capazes de organizar mobilizações eficientes e protestos contra o regime sírio, assim como diluir tensões árabes-curdas em muitas áreas durante os primeiros anos do levante.(Tansîqîya al-tâkhî al-kûrdîya 2011; All4Syria 2013) Ao longo do tempo, a influência da maioria desses comitês, porém, foi perdendo força na sua base.</p>
<p style="text-align: justify;">Os manifestantes curdos não se limitavam às exigências ditas corporativas, como a concessão de nacionalidade síria aos curdos apátridas; eles integravam um movimento de protesto muito maior, em todo o país. Essa perspectiva era endossada por diversos ativistas curdos-sírios, que se viam parte da construção plural de um novo país.(Youssef S. 2014; Abd El-Krim 2016; Hassaf 2018) Isso não significava que as demandas nacionais curdas tradicionais fossem postas de lado pela juventude e os manifestantes, elas também integravam seus horizontes e lutas mais amplas contra o regime Assad.</p>
<figure id="attachment_150065" aria-describedby="caption-attachment-150065" style="width: 1200px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-150065 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Demonstration_in_Qamishli_against_the_Syrian_government.jpg" alt="" width="1200" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Demonstration_in_Qamishli_against_the_Syrian_government.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Demonstration_in_Qamishli_against_the_Syrian_government-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Demonstration_in_Qamishli_against_the_Syrian_government-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Demonstration_in_Qamishli_against_the_Syrian_government-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Demonstration_in_Qamishli_against_the_Syrian_government-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Demonstration_in_Qamishli_against_the_Syrian_government-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/Demonstration_in_Qamishli_against_the_Syrian_government-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /><figcaption id="caption-attachment-150065" class="wp-caption-text">Curdos, assírios e árabes protestam contra o governo sírio em Qamishli, nordeste da Síria, em 2012</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Apesar de ativos no levante, os CCLs curdos enfrentavam o ceticismo e a oposição dos partidos políticos curdos tradicionais, na sua maioria pouco inclinados a participar ou a ter um papel de direção nos protestos contra o regime.(ICG 2013: 9) Apenas o Movimento Futuro, liderado por Mishal Tammo, e o Partido Yekiti apoiaram publicamente o levante desde o início. Muitos ativistas da juventude do partido estavam entre os organizadores dos protestos nas regiões curdas.(Kurd Watch 2013b: 4; Othman 2016) O Congresso Político Curdo,<strong>[7]</strong> fundado em 2009, cresceu com o início do levante na primavera de 2011. Ao final de abril, criou o Movimento Nacional dos Partidos Curdos, que incluía três novas organizações; entre eles, o PYD. Em maio de 2011, o Movimento Nacional dos Partidos Curdos anunciou seu programa, incluindo o fim do unipartidarismo na Síria, igualdade para todos os cidadãos e um Estado laico.(Kajj e Sinclair 2011)</p>
<p style="text-align: justify;">Uma nova conferência foi organizada em outubro de 2011, reunindo a maioria dos partidos políticos curdos, ativistas independentes, organizações de mulheres curdas, movimentos de juventude, ativistas de direitos humanos e representantes de categorias profissionais, com o objetivo de unir a oposição curda na Síria.(Allsopp 2015: 201) Isso levou à criação do Congresso Nacional Curdo (KNC), logo após a do Congresso Nacional Sírio. Fundado em Erbil, no Iraque, o KNC surgiu sob o patrocínio de Massoud Barzani, então presidente do Governo Regional do Curdistão, no Norte do Iraque,(Carnegie 2012b) um importante aliado da Turquia, à época. Barzani exercia grande influência sobre diversos grupos de oposição sírios e curdos. A missão declarada do KNC era encontrar uma “solução democrática para a questão curda, enfatizando ao mesmo tempo sua participação na revolução”.(Hossino e Tanir 2012: 3)</p>
<p style="text-align: justify;">Registravam-se ainda problemas dentro do KNC, pelo pouco poder nas mãos de ativistas independentes e organizações de juventude, se comparados aos partidos políticos. Quarenta e cinco pessoas foram eleitas para o comitê executivo inicial, incluindo 20 representantes de partidos e seis de organizações de juventude. Depois, em janeiro de 2012<strong>[8]</strong>, o comitê executivo foi ampliado para 47 membros, integrando novos partidos políticos. Alguns grupos de juventude também foram absorvidos pelos partidos existentes, perdendo, assim, a sua independência e muitas vezes diminuindo seu papel nas ruas. Enquanto isso, os movimentos de juventude que permaneceram independentes eram cada vez mais marginalizados pelos partidos que dominavam o KNC.(Allsopp 2015: 203-204) Algumas organizações e partidos continuaram filiados à entidade apenas simbolicamente, ao passo que outros a abandonaram ou deixaram de cooperar com ela.(Halhalli 2018: 40; Hassaf 2018)</p>
<figure id="attachment_150066" aria-describedby="caption-attachment-150066" style="width: 248px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-150066 size-medium" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/3674985239_744aec1775_b-248x300.jpg" alt="" width="248" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/3674985239_744aec1775_b-248x300.jpg 248w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/3674985239_744aec1775_b-348x420.jpg 348w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/3674985239_744aec1775_b.jpg 636w" sizes="auto, (max-width: 248px) 100vw, 248px" /><figcaption id="caption-attachment-150066" class="wp-caption-text">Massud Barzani</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Dois dos partidos que participaram da conferência de fundação optaram por não integrar o KNC: o PYD e o Movimento Futuro. Esse último citou quatro pontos de objeção ao KNC: falta de comprometimento com a derrubada do regime, apoio insuficiente ao movimento de juventude, excesso de influência e intervenção estrangeira na entidade, e falta de maior relevância na representação de ativistas independentes no conselho.(Allsopp 2015: 2014) O PYD participou da conferência de fundação do KNC após seu lançamento, em outubro, antes de decidir boicotar o grupo e integrar o Comitê de Coordenação Nacional.(Hossino e Tanir, 2012) O PYD opunha-se ao papel e à influência turca na criação do Conselho Nacional Sírio, assim como do Congresso Nacional Curdo, pela relação próxima de seu principal patrocinador, Massud Barzani, com o governo em Ancara. Em períodos distintos, ambos os militares turcos e os <em>peshmergas</em> (combatentes curdos) de Barzani atacaram bases militares do PKK no Iraque.</p>
<p style="text-align: justify;">Em dezembro de 2011 o PYD fundou o Conselho Popular do Curdistão Ocidental, constituído como alternativa ao KNC, ao qual recusara-se a se unir. O Conselho Popular foi descrito pela organização como uma assembleia local eleita, voltada a construir instituições civis e prover serviços sociais à população local.(ICG 2013: 13) A declaração da conferência apoiou o levante popular na Síria e em outros países da região, “visando estabelecer uma democracia pluralista”(CPCO 2011). As cinco organizações que compunham o Conselho Popular (Movimento de Rojava por uma Sociedade Democrática [TEV-DEM], Organização de Mulheres Yekîtiya Star, União das Famílias dos Mártires, Instituto de Educação e Linguagem e o Movimento da Juventude Revolucionária do Curdistão Ocidental) eram todas associadas ao PYD. Na verdade, o Conselho Popular funcionava como um guarda-chuva para abrigar grupos e movimentos filiados ao partido curdo.(Allsopp 2015: 205)</p>
<p style="text-align: justify;">As atividades do Conselho Popular tinham como objetivo mobilizar apoio para o PYD nas regiões que enfrentavam um vácuo de poder, erguendo instituições civis como os Comitês Populares, responsáveis por atividades específicas nas áreas curdas sob seu controle, assim como as instituições de segurança, incluindo os Comitês e as Unidades de Proteção Popular (<em>Yekîneyên Parastina Gel</em>, ou YPG).(ICG 2013: 14)</p>
<p style="text-align: justify;">Um termo de paz social selou-se entre o PYD e o KNC em janeiro de 2012, para evitar choques entre eles, porém o acordo jamais foi implementado, resultando em diversos ataques e repressão promovidos por apoiadores do PYD contra outros ativistas curdos.(Hossino e Tanir 2012; Human Rights Watch 2014; Abdelkrim 2014; Othman 2016; Youssef S. 2016; Hassaf 2018; Kurd Watch 2018) Em meio à multiplicação de choques entre apoiadores do PYD e do KNC, os movimentos de juventude curdos e seus apoiadores começaram a se opor à dominação e controle do PYD nas áreas curdas(ICG 2013: 10; Allsopp 2015: 210).</p>
<p style="text-align: justify;">Na cidade de Amuda, os protestos evidenciaram a política da dura repressão levada a efeito pelo YPG. Em 17 de junho de 2013, forças policiais curdas (<em>Asaish</em>) prenderam três ativistas. Contra essas detenções, grupos de oposição curdos e seus apoiadores ergueram uma tenda, ocupando sua praça principal, que se transformou no centro de uma greve de fome.(Syria Freedom Forever 2013a) Em 27 de junho de 2013, soldados do YPG locais dispararam contra uma multidão de manifestantes, matando três homens.(Zakwan Hadid 2013) Já as forças de segurança do PYD tiraram a vida de mais duas pessoas naquela noite, e de uma terceira no dia seguinte, sempre em circunstâncias obscuras. Na noite de 27 de junho, o PYD também detive cerca de 50 membros e apoiadores do Partido Yekiti em Amuda, espancando-os em uma base militar do YPG.(Human Rights Watch 2014: 4) Após tais incidentes, os Comitês de Coordenação Local(2013b) publicaram uma declaração “A Respeito dos Atos de Violência contra Civis Curdos Sírios”, condenando o ocorrido.</p>
<figure id="attachment_150069" aria-describedby="caption-attachment-150069" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-150069 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/c62aa6fe-a156-4746-81c0-41ebb1110dae.jpg" alt="" width="800" height="531" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/c62aa6fe-a156-4746-81c0-41ebb1110dae.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/c62aa6fe-a156-4746-81c0-41ebb1110dae-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/c62aa6fe-a156-4746-81c0-41ebb1110dae-768x510.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/c62aa6fe-a156-4746-81c0-41ebb1110dae-633x420.jpg 633w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/c62aa6fe-a156-4746-81c0-41ebb1110dae-640x425.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/09/c62aa6fe-a156-4746-81c0-41ebb1110dae-681x452.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><figcaption id="caption-attachment-150069" class="wp-caption-text">Combatentes do YPG no nordeste da Síria, em março de 2019</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">As manifestações nas regiões habitadas por curdos tornaram-se cada vez mais fragmentadas segundo os diferentes partidos ou alianças políticas: em Qamishli, Amuda e Hasaka, por exemplo, de três a cinco mobilizações paralelas eram organizadas toda sexta-feira.(IRIN 2012; Allsopp 2015: 211; Schmidinger 2018: 90)</p>
<p style="text-align: justify;">O PKK prosseguiu com suas duras críticas ao partido de Barzani, o PDK, e grupos simpáticos a ele, pela associação a práticas corruptas e feudais. Já o PDK culpava o PKK e a seu partido-irmão, o PYD, por políticas violentas e indisposição em colaborar com outras organizações, exceto quando na sua direção.(Van Bruinesse 2016: 11) Ao mesmo tempo, o PYD mantinha uma posição hostil em relação ao Congresso Nacional Sírio &#8211; visto como marionete da política externa turca, caracterizando de “colaboradores” os grupos e figuras curdas que se juntavam a ele. Os líderes do PYD argumentavam que o CNS não havia respondido de forma suficientemente positiva à questão das relações sunita-alauita na Síria pós-Assad ou à problemática curda, e que seu objetivo era o de facilitar a intervenção de potências estrangeiras, especialmente da Turquia (ver Capítulo 6), enveredando por um regime islâmico moderado que oprimiria os curdos no país.(Hossino e Tanir 2012).</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>Em destaque, a foto de um protesto contra o regime de Assad durante o levante sírio, tirada na cidade sitiada de Al Qsair, em janeiro de 2012 (fotografia por Alessio Romenzi/Corbis)</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>O Partido Yekiti foi criado em 1992, depois da unificação de diversos grupos curdos, a partir de origens da esquerda e nacionalistas. Estudantes, intelectuais e profissionais liberais dominavam suas fileiras, apesar de ser possível encontrar membros de todos os estratos.(Tejel 2009: 112)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Em agosto de 1960, as autoridades da República Árabe Unida (RAU), lançaram uma dura campanha de repressão contra o principal partido curdo da época, o Partido Democrático do Curdistão Sírio. Mais de 5000 indivíduos terminaram presos e torturados, enquanto cerca de 20 de seus líderes foram aprisionados e acusados de separatismo.(118: Allsopp 2015: 21; Tejel 2009: 49) Alguns dos líderes do movimento migraram ao Curdistão iraquiano em busca de refúgio.(Allsopp 2015: 77)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Seurat 2012: 181. Entre 120 mil e 150 mil curdos foram classificados como estrangeiros não-cidadãos (ajanib) nos seus documentos de identidade e não podem votar, ter propriedades ou obter empregos governamentais. Porém, não são isentos do serviço militar obrigatório e, assim como os chamados maktumin (não-registrados), não têm direito sequer a receber tratamento nos hospitais estatais, nem obter certificados de casamento. Os maktumin não são reconhecidos oficialmente de maneira alguma e não possuem documentos de identidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4] </strong>A União Patriótica do Curdistão (Partiya Demokrat a Kurdistanê, conhecido pela sigla PUK) foi originalmente um partido político iraquiano-curdo de esquerda, que se separou do Partido Democrata do Curdistão (Yekêtîy Nîştimanîy Kurdistan, conhecido pela sigla KDP) em meados dos anos 1970.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> O KDP é o mais antigo partido político curdo no Curdistão iraquiano. Foi fundado em 1946 na região curda do Irã, onde os curdos iraquianos, liderados por Mustafa Barzani, se refugiavam.(The Kurdish Project 2017)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> A capacidade de avaliar as implicações do decreto de 2011 é prejudicada pelo fato de que o país entrou num conflito violento, compelindo grandes segmentos da população a deixar seu território. Nesse ínterim, houve complicações para sua aplicação. Além disso, uma das principais críticas ao Decreto No. 49 foi de que, não sendo retroativo, não oferecia compensações para a destituição de propriedades ou de direito à terra resultante da perda da nacionalidade de 1962.(Al-Barazi 2013: 24) Apesar de milhares de curdos terem conseguido obter cidadania síria após a aprovação do decreto, 19 mil deles permaneceram privados dela, enquanto outros 46 mil não foram registrados em 2018, segundo a ONG Syrian for Truth and Justice (Sírios pela Verdade e a Justiça).(Sheikho 2018)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Em 2009 dez partidos políticos curdos estabeleceram o que ficou conhecido como o Congresso Político Curdo: o Partido Democrata Curdo Sírio, o Partido de Esquerda Curdo, o Partido Democrata Curdo na Síria, o Comitê de Coordenação Curdo, o Partido Yekiti Curdo na Síria, o Partido Azadi Curdo na Síria e o Movimento Futuro Curdo.(Hossino e Tamir 2012)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> O Partido da União do Curdistão na Síria, o Partido Democrata Curdo na Síria e o Partido do Acordo Democrático do Curdistão entraram no KNC no início de 2012.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>A publicação deste artigo foi dividida em 4 partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2023/09/150119/" target="_blank" rel="noopener">PARTE 2</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2023/10/150209/" target="_blank" rel="noopener">PARTE 3</a><br />
<a href="https://passapalavra.info/2023/10/150273/" target="_blank" rel="noopener">Parte 4</a></em></p>
<p style="text-align: center;"><em>A bibliografia pode ser conferida neste <a href="https://passapalavra.info/2023/09/150074/" target="_blank" rel="noopener">link</a>.</em></p>
</blockquote>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Sobre os ombros de Putin e Assad?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128621/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Oct 2019 13:47:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Será esse o preço hoje a ser pago pela revolução ao custo da sobrevivência dos revolucionários? Por Rodrigo Oliveira Fonseca]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por Rodrigo Oliveira Fonseca</h3>
<p style="text-align: justify;">No último dia 09 de outubro o exército turco e as milícias que controla em meio ao conflito na Síria iniciaram uma grande ofensiva militar contra a Administração Autônoma do Norte e do Leste da Síria – nome adotado atualmente pela federação formada a partir da Revolução de Rojava em 2012 e da campanha que, com o apoio de uma coalizão encabeçada pelos EUA, desmontou o extenso “califado” que o ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria na sigla em inglês) erigiu em 2014. A operação turca, denominada “Primavera da Paz” a despeito dos crimes de guerra que vem cometendo desde o primeiro dia, começou pouco após os EUA anunciarem oficialmente a retirada de seus soldados da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Eis que no dia 13 de outubro, após quatro dias de apelo das forças de Rojava em prol do fechamento do espaço aéreo no norte da Síria e de um mínimo de mediação com a Turquia por parte dos EUA, tornou-se público o acordo de cooperação militar entre as Forças Democráticas Sírias (SDF na sigla em inglês) e o Exército Árabe da Síria, de Assad (SAA na sigla em inglês), contra a ofensiva turca. No dia 14, aviões da Força Aérea Russa deram cobertura a movimentações conjuntas das SDF e do SAA e impediram o bombardeio do quartel-general das SDF em Manbij.</p>
<p style="text-align: justify;">Cidades em que as forças governistas não pisavam desde 2011 ou 2012 terão o exército de Assad nos seus arredores, de modo que os receios são grandes quanto ao alcance e aos desdobramentos dessa cooperação entre o regime e a revolução. O comandante-em-chefe das SDF, Mazloum Kobani, <a class="urlextern" title="https://foreignpolicy.com/2019/10/13/kurds-assad-syria-russia-putin-turkey-genocide/" href="https://foreignpolicy.com/2019/10/13/kurds-assad-syria-russia-putin-turkey-genocide/" rel="nofollow">deu a entender que haverá um preço alto a ser pago pela sobrevivência</a>: “Sabemos que teremos de assumir compromissos dolorosos com Moscou e Assad se quisermos trabalhar com eles. Mas, se temos de escolher entre compromissos e o genocídio do nosso povo, evidentemente escolhemos a vida do nosso povo”. Já o co-porta-voz do Partido da União Democrática (PYD, ligado ao PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão, da Turquia), Salih Muslim, assegura que o acordo visa exclusivamente a preservação da soberania nacional síria sobre seus territórios contra a invasão turca e seu plano genocida, afirmando que <a class="urlextern" title="https://anfenglishmobile.com/rojava-syria/salih-muslim-talks-about-the-agreement-with-the-syrian-state-38404" href="https://anfenglishmobile.com/rojava-syria/salih-muslim-talks-about-the-agreement-with-the-syrian-state-38404" rel="nofollow">não haverá intervenção sobre os trabalhos da Administração Autônoma Democrática e seus conselhos</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Afora a extrema-direita ocidental, que vê na luta de Rojava um “importante movimento anti-islâmico”, e sem considerar a esquerda identitária, que concorda com a extrema-direita mas inverte o sinal, acusando Rojava de racismo e islamofobia, até esse momento da conjuntura parecia haver um equilíbrio entre três posturas principais na esquerda mundial em relação ao movimento de Rojava: apoio, oposição e perplexidade. O apoio sem vacilações <strong>[1]</strong> vindo sobretudo de militantes e grupos libertários atentos às experiências de autogoverno que têm se desenvolvido na Síria; a oposição – aberta, envergonhada ou nas entrelinhas – vinda da esquerda leninista (tanto do lado pró-Assad, que se bate pelo nacionalismo terceiro-mundista, quanto do lado anti-Assad e pró-rebeldes do Exército Livre da Síria); e, de todos os lados, uma perplexidade sincera, frente às muitas contradições e improbabilidades em torno desse processo desde o seu início há sete anos.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir dos entendimentos entre as Forças Democráticas Sírias e os governos de Putin e Assad o campo da perplexidade se expandiu ainda mais, despertando também uma espécie de gozo incontido na esquerda leninista: no campo trotskista corre o “não me enganaram, eu já sabia”, como se o PYD, que nunca defendeu a derrubada de Assad, mas sim a realização de eleições livres, jamais tivesse sido efetivamente revolucionário; e no campo do nacionalismo terceiro-mundista corre um sórdido “bem-feito, a gente avisou”, que tem sido a tônica das intervenções de Assad quanto a Rojava.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das questões que causa receios e perplexidade pode ser formulada da seguinte forma:</p>
<p style="text-align: justify;">“Se os curdos tiveram o apoio dos EUA por tanto tempo, então não deve ser coisa boa o que tem se desenvolvido no norte e no leste da Síria”.</p>
<p style="text-align: justify;">Evidentemente, os EUA têm interesses estratégicos no Oriente Médio, mas, <em>grosso modo</em>, estes já são muito bem representados e atendidos por Israel, Arábia Saudita e os petro-Estados. Quando os protestos por toda a Síria foram brutalmente reprimidos pelo governo de Assad e desembocaram em uma guerra civil, várias forças internacionais, com destaque para o governo de Barack Obama, buscaram influenciar e apoiaram militarmente o autodenominado Exército Livre da Síria (FSA na sigla em inglês). O crescimento e fortalecimento dos grupos fundamentalistas islâmicos no interior do FSA, com destaque para a Al-Qaeda local (atualmente organizada na Hayat Tahrir al-Sham, HTS, Organização para a Libertação do Levante), e a expansão vertiginosa do ISIS em 2014, levaram os EUA a uma mudança de estratégia. A Turquia foi assumindo progressivamente o financiamento de boa parte destes grupos, ao ponto de formar um “Exército Livre da Síria turco” (TFSA na sigla em inglês, o oficialmente denominado Exército Nacional Sírio), e os EUA passaram a priorizar o combate ao ISIS, investindo no armamento e no treinamento de forças curdas, árabes, assírias/siríacas, turcomenas, ligadas ao PYD. Inclusive, as Forças Democráticas Sírias foram criadas em 2015 nesse processo de formação de um agrupamento militar mais amplo que as guerrilhas do PYD (as YPG e YPJ, Unidades de Proteção Popular e Unidades de Proteção das Mulheres), para o combate ao ISIS em intensa articulação com a Coalizão internacional encabeçada pelos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-128629" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/Kurdos-4.jpg" alt="" width="750" height="500" />O apoio militar dos EUA aos braços armados de Rojava mostrou-se totalmente exitoso no combate ao ISIS, de modo que já não há regiões sírias controladas pelos fundamentalistas que mais apavoraram o mundo. Tratou-se realmente de um apoio pragmático e restrito ao combate ao ISIS. Por exemplo, as SDF não se envolveram na resistência à invasão turca de Afrin em 2018, cabendo esse papel às YPG e YPJ. Hoje, sem a colaboração dos EUA (antes o contrário!), as SDF estão ombreando com o SAA na resistência à invasão turca do norte da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não devemos escapar da parte final do enunciado, “não deve ser coisa boa o que tem se desenvolvido no norte e no leste da Síria”. Sob o horizonte do Confederalismo Democrático existe o desafio da organização social em comunas [como analisado <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2017/03/110819/" href="https://passapalavra.info/2017/03/110819/" rel="nofollow">aqui</a>, com desdobramentos na propriedade dos meios e nos modos de produção [analisados <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2015/02/102469/" href="https://passapalavra.info/2015/02/102469/" rel="nofollow">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2015/08/105708/" href="https://passapalavra.info/2015/08/105708/" rel="nofollow">aqui]</a>. Não são essas, por certo, as partes do projeto mais propagadas mundo afora, e sim aquelas que são tidas como os três pilares: ecologia, feminismo e democracia direta (que por vezes é dita apenas como “descentralização”, “boa governança baseada em governo pequeno” e respeito à diversidade étnica e cultural dos povos da Síria). Aumentando a perplexidade e as hesitações, o formulador teórico desse programa, Abdullah Öcalan, “Apo”, não pleiteia a “tomada do poder” nem a conformação de um Estado “de novo tipo”, como no zapatismo.<strong>[2]</strong> Logo, o PYD não é separatista nem é “curdista”, não tem em seu horizonte qualquer projeto análogo ao do Curdistão iraquiano (que se presta a servir de quintal dos capitais turcos), visando investir em um processo de superação a longo prazo do Estado-nação que não passa pelo seu enfrentamento – o que se manifestou na rejeição do PYD às tentativas de derrubar Assad e desmantelamento da unidade nacional da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso posto, não se pode realmente extrapolar o sentido do apoio dos EUA às forças de Rojava. Mas por que, então, Assad e o PYD não deram esse passo antes rumo a um entendimento? Por que experiências de coexistência (mesmo que tensas) como as de Hasakah e Qamishlo não se disseminaram?</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2017 o governo de Assad, sob influência dos russos, acenou com a possibilidade de um acordo com o PYD em torno de algum nível de autonomia nas regiões do norte e leste da Síria. As forças de Rojava chegaram, inclusive, a alterar o nome do seu não-Estado: de Federação Democrática do Norte da Síria, nome adotado em 2016 para substituir oficialmente o nome curdo “Rojava” (Oeste), tornaram-se Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria no ano passado.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, as negociações não avançaram. As forças de Assad e os russos também atuaram no combate final ao ISIS, mas se concentraram no violento confronto (ainda não solucionado) com o FSA, e o governo vem repetindo que não negocia a integridade territorial síria de 2011. É de se considerar o quanto que a proximidade entre as SDF e as forças estadunidenses emperraram as negociações, assim como a firmeza do PYD e forças aliadas em Rojava em não abdicarem de sua autonomia política e militar <strong>[3]</strong> – o que pode ter se mostrado decisivo na invasão a Afrin, que no passado recente era o cantão de maioria curda mais pacífico ao norte da Síria. O cenário, naquela ocasião, era um tanto parecido com o do início da nova operação turca: os russos, que colaboravam com as YPG e as YPJ na defesa territorial de Afrin, se retiraram pouco antes do início da ofensiva turca, em claro sinal de traição aos curdos; Assad bradou que não iria tolerar qualquer ataque ao território sírio… e o resultado é uma ocupação que já leva mais de um ano, com uma política de intensa alteração demográfica (anti-curda) coordenada pelos turcos, bastante conveniente ao governo de Damasco, que no passado sempre buscou a arabização de toda a Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">É sabido que o apoio à defesa de Afrin contra os turcos foi condicionado à “devolução” da região ao governo de Assad. Será esse o preço hoje a ser pago pela revolução ao custo da sobrevivência dos revolucionários? Rojava atira em Erdogan sobre os ombros de Putin e Assad como um dia os bolcheviques atiraram na reação czarista (Kornilov) sobre os ombros dos mencheviques (Kerensky)? Não há indícios de que Assad e, sobretudo, Putin, tenham algum interesse numa ação que vá além da dissuasão da pressão turca sobre a revolução de Rojava <strong>[4]</strong>, e esse “ombro amigo” às SDF pode muito bem ser outra coisa no curto e médio prazo.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, é difícil não desconfiar de (mais) uma arapuca contra a revolução. Ao contrário do governo de Putin, que no início reconheceu a legitimidade da busca de segurança nacional pela Turquia nas suas fronteiras com a Síria, o governo iraniano protestou imediatamente contra a operação turca. Mas assim que os turcos iniciaram sua campanha, as forças iranianas presentes em território sírio, fortes aliadas de Assad, atacaram bases das SDF em Deir Ezzor, na divisa com o Iraque (que é hoje um país sob influência do Irã).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-128634" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/Kurdos-3.jpg" alt="" width="750" height="421" />Erdogan lida com uma forte pressão interna contra os milhões de refugiados sírios no país. Também na Turquia existe uma direita xenófoba e isolacionista, que faz pouco caso da política imperialista do governo. A possibilidade de deportação desses refugiados para Rojava (ao invés do que houve em Afrin, com o envio de grupos fundamentalistas e de outros opositores que viviam na rebelde Idlib, ainda controlada pelo FSA) significaria um enorme ganho tanto para Erdogan quanto para Assad. Mas é razoavelmente claro que Assad não poderia, dessa vez, se comportar como no ano passado em relação à invasão de Afrin. As regiões que estão sendo atacadas agora não são tão predominantemente curdas quanto Afrin. Árabes, turcomenos e assírios (estes, em geral, cristãos) estão sendo também atingidos. Trata-se, assim, de uma oportunidade de ouro para o governo de Damasco recuperar a sua legitimidade nesses territórios. E a “cereja do bolo” dessa desconfiança é a intensa dedicação com que a mídia do governo tem se referido à movimentação do Exército sírio no norte do país sem mencionar qualquer acordo com as SDF e mesmo sem mencionar as SDF, a Administração Autônoma ou os curdos [por exemplo, <a class="urlextern" title="https://sana.sy/en/?p=175768" href="https://sana.sy/en/?p=175768" rel="nofollow">aqui</a>. Um silêncio com sabor de maus presságios.</p>
<p style="text-align: justify;">Por sorte essa história não termina nas ações e nos propósitos dos russos e de Assad frente à barbárie genocida promovida pelo Estado turco, assim como as SDF não terminaram na campanha contra o ISIS para a qual os EUA as prepararam. A sobrevivência dos revolucionários de Rojava é condição absoluta para o prosseguimento da revolução, que até aqui jamais se deu em condições favoráveis. E frente ao silêncio do Estado sírio estamos nós, não dispostos a ecoá-lo.</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Sem vacilações mas também, em alguns casos, mais animado pelo “repertório de um fascínio estético e fé política do que [pel]a própria realidade no terreno, que se apresenta aos nossos olhos sob uma nuvem de mistificação.” Ver o excelente artigo de Rachel Pach, <em>Biji Kritik Rojava</em>: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial, disponível <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2018/04/119300/" href="https://passapalavra.info/2018/04/119300/" rel="nofollow">aqui</a>. Este artigo é especialmente importante numa consideração realista das contradições do modelo econômico e social desenvolvido em Rojava, ao mesmo tempo em que reafirma o seu caráter revolucionário.<br />
<strong>[2]</strong> Öcalan entende que o Estado-nação é uma colônia do capital, perfeitamente funcional aos processos capitalistas de exploração, sendo o fascismo a forma mais pura do Estado-nação. Em Adbullah Öcalan, <em>Confederalismo Democrático</em>. Tradução do Coletivo Libertário de Apoio a Rojava. Rio de Janeiro: Rizoma, 2016, pp. 21; 31.<br />
<strong>[3]</strong> Para Öcalan (idem, p. 31; 32), o campo político não se separa do militar, “a liderança civil do Estado é apenas um acessório do aparato militar”, de modo que o confederalismo democrático é pensado como um “sistema de autodefesa da sociedade”.<br />
<strong>[4]</strong> O governo russo, que tem tido sucesso na ampliação de sua influência sobre os Estados que disputam entre si o protagonismo no Oriente Médio (além do Irã e da Turquia, Putin está reatando relações com os sauditas), deixou claro no dia 15 de outubro que não <a class="urlextern" title="https://elpais.com/internacional/2019/10/15/actualidad/1571149380_027433.html#?sma=newsletter_diaria_noche20191015m" href="https://elpais.com/internacional/2019/10/15/actualidad/1571149380_027433.html#?sma=newsletter_diaria_noche20191015m" rel="nofollow">permitirá um enfrentamento entre as forças sírias e turcas</a>.</p>
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		<title>&#8220;Uma revolução real é uma massa de contradições&#8221;: entrevista com um voluntário em Rojava</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Mar 2017 18:13:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[A revolução está avançando mediante formas de democracia popular, libertação das mulheres e algum tipo de economia solidária. Plan C entrevista Peter Loo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Plan C entrevista Peter Loo</h3>
<p style="text-align: justify;">Em outubro de 2016 Peter Loo chegou a Rojava <strong>[1]</strong> para trabalhar voluntariamente como professor de inglês e participar do cotidiano daquela sociedade &#8211; era o resultado de mais de 14 meses de organização pelo Grupo de Solidariedade a Rojava do Plan C <strong>[2]</strong>. Atualmente ele está trabalhando na campanha do SYPG [Instituto pela Solidariedade e Unidade dos Povos, na sigla em curdo] em Qamishlo. Além de oferecer as suas habilidades diretamente, Peter tem viajado a vários lugares em Rojava e conversado com muitas pessoas sobre o quanto o futuro da região e de toda a Síria segue indefinido. Esta entrevista ocorreu em dezembro de 2016.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Grupo de Solidariedade à Rojava (GS):</strong> <em>Olá, Peter. Temos muitas perguntas sobre suas experiências até agora, mas talvez você possa explicar um pouco a história para os leitores que não conheçam os detalhes.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Peter Loo (PL):</strong> Bem, devemos começar falando brevemente das origens da revolução. Muitos pulam essa parte, mas ela é fundamental para se entender a dinâmica da revolução como um todo. O Partido da Unidade Democrática (PYD, na sigla em curdo), que liderou a revolução, tem atuado no norte da Síria / Curdistão Ocidental (Rojava é o nome curdo para Oeste) desde 2003. Antes dele, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), a quem o PYD é filiado, tinha sido autorizado pelo regime a utilizar a região como base de organização contra o Estado turco, até a sua expulsão em 1998.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro protesto contra Assad ocorreu no início de 2011 e, na primavera, o PYD começou a concentrar esforços na organização da comunidade curda, formando comitês locais e unidades armadas de autodefesa (as precursoras do YPG e das forças femininas do YPJ). Essa deveria ser a base social da revolução. Em meados de julho de 2012, quando a luta social contra Assad transformou-se num conflito militar sangrento, que envolvia diversos poderes internacionais, aquelas unidades de autodefesa, reforçadas por guerrilheiros treinados pelo PKK, expulsaram as forças do regime de várias cidades no norte do país. As unidades de defesa do PYD tomaram o controle das principais estradas e expulsaram as forças do regime de lugares-chave com poucos confrontos e baixas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113270 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava10.jpg" alt="" width="1304" height="400" /></p>
<p style="text-align: justify;">A revolta teve uma geografia diferente: áreas de população predominantemente curda, onde o PYD estave se organizando, foram aquelas em que houve levante e expulsão das forças do regime. Em áreas sem maioria esmagadora curda, as forças de Assad conseguiram manter sua presença. Aqui em Qamishlo, onde estima-se 20% de apoio da população ao regime, ocorreram alguns duros combates mas o regime conseguiu manter o controle de muitos prédios públicos. Julho de 2012 marca o aparecimento de Rojava como uma força distinta no conflito sírio. Os cantões que se formaram declararam oposição a Assad (argumentando, no entanto, que ele deveria ser removido do cargo através de eleições, e não pela força), não como parte da constelação rapidamente fragmentada dos Rebeldes Sírios. É complicada a relação entre Rojava e o Exército Livre da Síria (FSA, na sigla em inglês) &#8211; as forças militares inicialmente formadas pelos rebeldes &#8211; havendo exemplos tanto de cooperação quanto de conflito entre Rojava e diferentes parcelas do FSA desde o início da revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Este relato das origens da revolução como insurreição popular é contestado pelos mais críticos da Revolução de Rojava, que se recusam em juntar-se a uma revolta mais ampla contra Assad. No Reino Unido, de modo mais explícito, entre estes críticos estão Robin Yassin-Kassab e Leila al-Shami, autores de Burning Country. Neste livro, que só toca no tema de Rojava brevemente, os autores argumentam que a retirada das forças de Assad foi “aparentemente coordenada” com o PYD, cuja chegada ao poder já era um fato consumado, sendo acordado de antemão com o regime a liberação de tropas para o combate contra os rebeldes em outros lugares. Estas duas narrativas (fato consumado ou insurreição bem-sucedida) são conflitantes e eu não tenho uma resposta definitiva &#8211; talvez as coisas fiquem mais claras em poucos meses, à medida que for se delineando o futuro do relacionamento entre Rojava e o regime. No entanto, a tese do fato consumado não explica por que houve baixas militares nos primeiros dias, nem por que as hostilidades continuam acontecendo esporadicamente. Uma conspiração não parece provável. Em vez disso, [é provável que] ao reconhecer que a realidade política de Rojava havia se transformado com a insurreição, Assad renegociou sua posição política em relação a esta parte da Síria, possivelmente mantendo abertas as suas alternativas a longo prazo.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir deste início a revolução se expandiu geograficamente &#8211; dois dos três cantões estão diretamente conectados (Kobane e Cizire), e segue a luta para conectá-los ao cantão de Efrin &#8211; como também se expandiu socialmente. Foi instituído um sistema político baseado na descentralização (o confederalismo) e na construção das “comunas” em nível local, um sistema econômico que prioriza cooperativas e assegura localmente as necessidades básicas das pessoas, e uma gigantesca transformação das relações de gênero em curso. Esta é uma das mais empolgantes lutas políticas que têm ocorrido no mundo atualmente, tanto em termos de escala quanto de conteúdo, ainda mais impressionante tendo em conta o conflito que continua a se desenrolar na Síria e a hostilidade vinda dos países vizinhos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Depois retomaremos o tema da relação entre a revolução e o regime. Então a revolução começou como um movimento liderado pelo PYD, apoiado principalmente por curdos?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-128648 alignright" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava1-1.jpg" alt="" width="313" height="418" />PL: </strong>Exatamente. Depois do que podemos chamar de fase insurrecional da revolução &#8211; eliminando o regime do controle efetivo &#8211; a fase seguinte foi a de uma consolidação política e da implementação de um programa político. Este programa tem três eixos centrais: um sistema de democracia de base (que se dá numa relação com partidos políticos formais e uma forma de sistema representativo), conhecido por confederalismo democrático; uma revolução feminina; e um programa ecológico (de longe o aspecto menos desenvolvido até o momento). Conseguir apoio a este programa, para além do PYD e da comunidade curda, foram as tarefas imediatas da revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos pequenos partidos políticos formam agora uma parte ativa da revolução, trabalhando juntos no interior do Movimento por uma Sociedade Democrática (TEV-DEM, na sigla curda). Obviamente, nem todos apoiam esse processo. O Conselho Nacional Curdo (ENKS), uma coalizão de 16 partidos dominada por Massoud Barzani, presidente do Governo Regional Curdo (KRG) do Iraque, tem sido um declarado opositor de muitos dos desenvolvimentos em Rojava. Barzani não compartilha da visão política do PYD, modelando o KRG no rumo de Estado petroleiro, a exemplo de Dubai, e implementa atualmente um embargo total a Rojava, em cooperação com o seu aliado, a Turquia, o que tem gerado todo o tipo de problema. Em função destas tensões, Carl Drott, da Universidade de Oxford, disse que “às vezes parece que a única política consistente do Conselho Nacional Curdo [ENKS] é opor-se a qualquer coisa que o PYD faça”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda mais importante é que a revolução tem priorizado a conquista da confiança e do apoio de todas as comunidades aqui em Rojava. Estas comunidades (árabe, síria, chechena, armênia, turcomana, etc.) estão cada vez mais participando, em maior número, conforme o tempo vai passando, e veem as ideias de revolução &#8211; e seus benefícios &#8211; sendo postas em prática, tanto quanto veem que não há um retorno do regime. As razões para apoiar a revolução variam dos mais motivados politicamente, que desejam um Curdistão livre ou a crença nas políticas de Öcalan [o líder do PKK, preso na Turquia] e sua visão de confederalismo, ao desejo menos abstrato de paz, segurança e garantia de serviços básicos, que a revolução está proporcionando. Todos aqui amam profundamente o YPG e o YPJ e esse apoio se estendeu à aliança militar &#8211; as Forças Democráticas Sírias &#8211; que eles construíram com outras milícias progressistas (de diferentes etnias) da região.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolução começou dentro da comunidade curda e a conquista de apoio no interior de outras comunidades é uma prioridade central. Isso inclui trabalhar com milhares de refugiados árabes que fogem do conflito por toda a Síria e que estão sendo impedidos pela Turquia de viajar para a Europa. Parte do meu trabalho aqui com o TEV-DEM gira em torno da construção desse apoio entre as comunidades. A comunidade assíria [também chamada de siríaca], por exemplo, está fortemente dividida entre o regime e a revolução, sendo que cada facção tem as suas próprias unidades militares e policiais. Atravessando os bairros assírios estas divisões são bastante nítidas, uma rua cheia de retratos de Assad e bandeiras do regime, a seguinte com pontos de controle pró-revolução com slogans revolucionários nos muros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Vamos abordar a espinhosa questão da relação entre o regime e o PYD. Resumindo, o que está acontecendo?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Bem, como eu disse antes, a revolução não expulsou o regime em todos os lugares. Aqui em Qamishlo, o regime ainda tem uma presença. Por exemplo, quando Aleppo foi “liberada” recentemente, em alguns bairros foram estrondosas as celebrações pela vitória de Assad, e o regime ainda paga os salários de alguns funcionários públicos, como os professores. Ocasionalmente surgem conflitos nas cidades em que o regime ainda se faz presente, como Qamishlo e Hasseke.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-113272 alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava2.jpg" alt="" width="319" height="425" />Como eu disse antes, a revolução aqui se constituiu como uma força independente do movimento rebelde mais amplo (ele mesmo muito diversificado) contra Assad. Ela tem contado com o apoio de movimento sociais internacionais, partidos políticos progressistas, e também, de modo mais controverso, com o apoio de grandes Estados, como os EUA e (às vezes) a Rússia. Estes têm, em certa medida, impedido Assad ou, especialmente neste momento, o Estado turco, de esmagá-la, mas a situação ainda é perigosa. Quanto ao regime, não está claro no momento qual a orientação dele frente à Rojava, e vice-versa. Neste momento, nenhum dos lados tem força militar suficiente para derrotar facilmente um ao outro. Com a derrota dos rebeldes, que basicamente estará assegurada com a reocupação de Aleppo, isso poderá mudar. Por exemplo, as YPG e YPJ no extenso bairro curdo de Aleppo, Sheiq Maqsoud, que o defenderam dos ataques rebeldes (como também ajudaram as forças de Assad em alguns pontos do combate), agora se retiraram de lá, deixando somente a Asayish (uma força policial) no bairro.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta “relação” com o regime tem sido criticada por muitos. No início do levante sírio o potencial de uma aliança mais ampla entre curdos e árabes parecia possível, mas falhou por várias razões. Estas incluem um chauvinismo árabe latente, um sub-produto de décadas de governo colonial em Rojava pelo regime, que foi um fator na falta de vontade &#8211; tanto do regime quanto dos rebeldes &#8211; de ver a autonomia curda estabelecida. A ascensão da proeminência de forças islâmicas do lado rebelde também bloqueou uma aliança em larga escala entre a revolução de Rojava e os rebeldes. Alianças têm sido feitas com algumas forças nas regiões que compõem os cantões, como as SDF [Forças Democráticas Sírias], mas uma ampla aliança com as maiores facções do lado rebelde não aconteceu. Essa aliança perdida, se alguma vez foi possível, provavelmente influenciou de modo significativo o resultado do resto do conflito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Temos visto uma rápida expansão dos cantões de Rojava, particularmente em áreas de significativa população árabe. Você pode nos contar das suas experiências em torno do modo como os diferentes grupos étnicos têm se incorporado na revolução, e como ela tem sido recebida?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Desde 2015 as áreas controladas pelos cantões se expandiram de forma massiva por meio de suas ofensivas contra o ISIS. É inegável que uma das razões para isso é a construção de um sistema contínuo e conectado de cantões. Tais ofensivas, em geral feitas por militares curdos em áreas predominantemente árabes, provocaram alguns problemas. Em dezembro eu tive a oportunidade de visitar o front em Salouk [próximo a Al-Raqqa]. À medida que a ofensiva em Raqqa ia empurrando as linhas de frente para mais adiante, as pessoas iam podendo retornar às suas aldeias. De modo geral, junto aos aldeões com os quais estive, percebi um amplo apoio às SDF, que eles contactaram. Entretanto, nem todos esses aldeões concordam com o rumo dos acontecimentos &#8211; muitos, nos disseram, tinham sido ou ainda eram apoiadores do ISIS. Visitamos um Tabur (unidade militar) que tinha sido alvo de um ataque suicida no princípio do ano; o sujeito que fez isso era um visitante frequente, morador da aldeia vizinha.</p>
<p style="text-align: justify;">Na medida em que a área controlada pelo sistema confederado se expandia, algumas mudanças aconteceram para acomodar o crescente número de integrantes não-curdos. Já comentei que as SDF constituem uma coalizão militar multiétnica, que implicou em um passo positivo para a revolução. O atual nome oficial da região, Federação Democrática do Norte da Síria, é uma indicação do projeto multiétnico que a revolução tenta construir. Tempos atrás vimos a fala de um dos co-presidentes da confederação, Mansur Salem, que é um árabe sírio, e ele enfatizava como a construção deste apoio multiétnico é um desafio político chave para a revolução.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Até que ponto a ideologia da revolução tem sido apreendida pelas pessoas comuns?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Visitantes que chegarem em Rojava com expectativas em torno de uma experiência revolucionária transcendental ficarão desapontados. Dado o trabalho incrível que tem acontecido, e o que toda a grande mídia tem produzido para a audiência ocidental, isto não é surpreendente. No entanto, para além do front, o caminho pelo qual a revolução tem se manifestado pode muitas vezes ser extremamente sutil, e menos desenvolvido do que se espera ou deseja.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113273 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava3.jpg" alt="" width="864" height="486" /></p>
<p style="text-align: justify;">Eu já falei como a expansão dos valores revolucionários no interior de outras comunidades é um trabalho em andamento. Um outro exemplo é que, enquanto os níveis mais altos do sistema confederado, sobretudo nas cidades, estão bem desenvolvidos, o nível mais baixo, a comuna &#8211; instituição de nível comunitário, nos bairros, onde ocorre a participação mais direta nas assembleias políticas e nos comitês políticos temáticos &#8211; não está tão desenvolvida, como se poderia pensar de fora. As razões para isso retomam as origens e dinâmicas da fase insurrecional da revolução, como discutido anteriormente.</p>
<p style="text-align: justify;">Contrariando a intuição, temos os níveis mais altos desse sistema político buscando ativamente expandir a participação política das bases. Muito trabalho tem sido feito para ampliar numérica e geograficamente as comunas. Isto requer encontrar recursos físicos e educar as pessoas nas comunidades locais quanto aos valores da revolução e os modos (às vezes complicados) pelos quais o sistema funciona. Mas talvez o elemento mais visível da revolução, por aqui, seja o papel das mulheres na sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Esta era a minha próxima questão. A imagem muitas vezes projetada da revolução enfatiza a libertação feminina e o papel do YPJ em liderar o chamado para a mudança nas relações de gênero. O quanto isso impacta o cotidiano em Rojava? É uma parte de fato essencial do movimento?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Uma crítica da esquerda na Europa, como exemplificado em um recente artigo de Gilles Dauvé <a class="urlextern" title="http://www.troploin.fr/node/83" href="http://www.troploin.fr/node/83" rel="nofollow">Rojava: reality and rhetoric</a>, é a de que a revolução das mulheres em Rojava se limita às mulheres das YPJ. Se for assim, então Rojava não pode ser visto como um lugar onde há uma revolução das mulheres. Afinal, o Estado de Israel recruta mulheres em suas tropas e [Muammar] Gaddafi era famoso por utilizar guarda-costas mulheres. A história está cheia de exemplos em que as mulheres desempenham um papel significativo em lutas sociais ou conflitos militares, apenas para retornarem a posições sociais subservientes ao final das hostilidades. No entanto, não é aqui que a revolução das mulheres em Rojava termina. Nem para no ponto em que assegura um mínimo de 40% de representação feminina em todos os comitês e na igualdade no número de porta-vozes (o que, isoladamente, vai mais longe do que a maioria dos estados ocidentais).</p>
<p style="text-align: justify;">De modo subjacente a todos estes resultados claramente visíveis está o lento, paciente desenvolvimento do movimento político das mulheres: educação política para que as mulheres possam desenvolver as suas habilidades e a confiança de organizadoras futuras, formas de (re)educação e intervenção contra os homens que abusam, a atividade dos comitês de mulheres em todos os níveis do sistema confederado, e o incansável trabalho do Kongreya Star (Congresso Estrela), que é a expressão organizada do movimento de mulheres aqui.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113274 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava4.jpg" alt="" width="864" height="648" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez mais, este não é um processo livre de problemas; estas mudanças estão sendo produzidas sobre uma sociedade extremamente conservadora, onde a violência contra a mulher, os assassinatos por questões de honra, os casamentos forçados, uma diferença salarial incrivelmente alta, bem como as mais rotineiras características do patriarcado eram extremamente comuns antes da revolução. O movimento está trabalhando duro para envolver a todos, para ser firme e tomar atitudes imediatas onde estas são necessárias ou agir mais a longo prazo onde assim for mais efetivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Como tudo aqui, compartilham-se muitas características dos movimentos ocidentais, mas mantêm-se também muitas diferenças. Os fundamentos políticos do movimento das mulheres aqui é chamado por todos de Jineologia, que significa a ciência da mulher. Öcalan é, sem surpresa, o teórico chave da Jineologia, tendo apresentado amplos argumentos sobre as raízes históricas do patriarcado que sucedeu uma sociedade matriarcal pacífica. O capitalismo é visto como inerentemente patriarcal e Öcalan, que, uma vez mais, é o ponto de referência central para o movimento, defende que “a necessidade de reverter o papel do homem tem importância revolucionária”.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, algumas partes dessa teoria são mais problemáticas para algumas feministas do Ocidente. Por exemplo, a abordagem jineológica do gênero parece essencialista, em que características definidas são atribuídas aos gêneros. Feministas <em>queer</em> acharão esta ideologia bastante desafiadora. As políticas de sexualidade também são bastante diferentes daquelas do Ocidente, são praticamente proibidas as relações sexuais entre quadros militantes, e no resto da sociedade é forte a ênfase na abstinência até o casamento. Em muitas entrevistas, quando a diversidade sexual é abordada, a resposta padrão parece ser algo na linha do “nunca encontramos gays em Rojava”. No entanto, isso é algo que esperançosamente deverá ser abordado com o tempo, e já ouvi relatos de palestras sobre políticas LGBT ocorrendo em algumas áreas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>É um bom ponto sobre a Jineologia não ser derivada diretamente do feminismo ocidental. Pode-se dizer o mesmo sobre os movimentos apoistas em geral?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Sim, com certeza. Muitos debates sobre o PKK construídos a partir da tentativa de responder se eles são ou não uma organização anarquista têm circulado em alguns meios porque falharam em analisar o próprio movimento. Do mesmo modo que o PKK nunca foi, historicamente, uma organização marxista-leninista tradicional, não é, hoje, um movimento anarquista. O PKK e suas organizações irmãs se autodefinem como “apoistas” – um movimento construído essencialmente em torno de Abdullah Öcalan e sua obra, digamos, bastante eclética. Os movimentos baseados em sua visão política são contraditórios, especialmente desde o desenvolvimento do “novo paradigma”, desde a prisão de Öcalan em 1999. Este paradigma mudou substancialmente muitas partes da visão política do PKK. Ainda que o PKK tenha renunciado formalmente ao desenho de um Estado curdo independente e substituído-o por seu modelo de confederalismo democrático, ele ainda é um movimento hierárquico com disciplina rígida para os quadros e um culto à personalidade em torno do próprio Öcalan. Sua concepção de revolução não se deixa mapear entre aquelas sustentadas pelos movimentos revolucionários clássicos, sendo:</p>
<blockquote><p><em>”…nem a ideia anarquista de abolição imediata do Estado, nem a ideia comunista de tomar o Estado inteiro imediatamente. Com o tempo, organizaremos alternativas para cada parte do Estado geridas pelo povo, e quando elas forem exitosas, aquela parte do Estado se dissolve.”</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">De particular importância é o fato de que sua crítica do capitalismo – ou, em sua própria terminologia, da modernidade capitalista – apesar de bastante opaca (uma opacidade que não é propriamente ajudada pela falta de obras do movimento traduzidas para o inglês), certamente não é tão fundamental quanto aquelas oriundas da tradição marxista. Embora o movimento apoista corresponda a muitos dos valores das tradições socialista e anarquista, ele é um tanto distinto e diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve um artigo escrito por dois outros voluntários internacionais que se autodefinem como anarquistas no site do Plan C há pouco tempo. O artigo apresenta alguns pontos importantes e úteis sobre as complicações da prestação de solidariedade aqui, e por esta razão deveria, definitivamente, ser lido. Eles mostram um ponto (incontroverso) de que o trabalho em Rojava não é neutro. As escolhas a respeito de como e com quem trabalhamos aqui fortalecerá alguns grupos, indivíduos e dinâmicas ao invés de outros, e precisamos estar atentos a tal fato.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113275 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava5.jpg" alt="" width="864" height="648" /></p>
<p style="text-align: justify;">Leio esta afirmação como se usasse o argumento implícito, comum a muitos na esquerda antiautoritária, de apoiar o povo ou os movimentos sociais ao invés de partidos organizados. Um problema particular com esta perspectiva é que o movimento apoista transcendeu os limites de seus partidos políticos e é, também, um movimento social de massas com elementos de auto-organização que ultrapassam os partidos. Argumentaria que a esquerda revolucionária precisa apoiar o PYD e os movimentos apoistas por todo o Oriente Médio ao invés de um “povo” sem alinhamento político, mal-definido e, potencialmente, ficcional. Eles são uma força progressista muito grande, talvez a maior no Oriente Médio, e a maior parte de suas políticas se assemelha muito fortemente com as nossas. A demonstração de um compromisso sério com um trabalho de solidariedade prática e real, que uma vez ultrapassada a fase da simples escrita de artigos começa a se tornar muito desafiadora, ajuda a construir a plataforma a partir da qual é possível entabular debates com estes movimentos. Há partes da visão apoista que adoraria debater criticamente com eles (por exemplo, definições e críticas ao capitalismo), mas isto só acontecerá com alguma relevância quando se possa demonstrar algum tipo de “folha corrida”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Voltando às comunas, qual sua importância?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Num nível local elas são importantes para resolver problemas menores, lançar luzes sobre problemas mais amplos, e funcionar como a correia de transmissão local das ideias da revolução. Além de tocar as assembleias e comitês locais, os elementos mais baixos do sistema servem como centros de mobilização do povo para a autodefesa, ou para manifestações e passeatas. Quando vamos a eventos políticos, costumamos sair em grandes comboios de ônibus saindo do Mala Gel (Casa do Povo – basicamente, um centro social) de nossa vizinhança, e quando organizamos eventos as comunas locais são um recurso vital para nos conectarmos diretamente com o povo. Ainda não vi o suficiente deste sistema complexo para avaliar até que ponto as ideias básicas deste sistema são ouvidas nos escalões mais altos do sistema federal por meio dos vários delegados eleitos e comitês temáticos.</p>
<p style="text-align: justify;">É até engraçado, encontrei um marxista-leninista europeu aqui que estava convencido de que os anarquistas tinham entendido a revolução de modo totalmente equivocado, e que as comunas tinham um papel bastante periférico em tudo o que acontecia. Para ele, a revolução era dominada pelo PYD, com o YPG e o YPJ fornecendo a força por trás dele. Quando ele encontrou um dos partidos marxistas-leninistas internacionais aqui fazendo um trabalho comunitário consistente, promovendo e realmente construindo comunas, toda sua atitude mudou completamente. Talvez alguns na esquerda estejam um pouco otimistas sobre até que ponto o sistema de comunas está desenvolvido, mas ele definitivamente existe e cresce; o que não podemos fazer é confundir nossos desejos com a realidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>A questão econômica. Uma das perguntas mais importantes para muitos na esquerda é: que tipo de economia está sendo construída?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> O Norte da Síria, historicamente, foi deliberadamente subdesenvolvido pelo regime sírio e tratado como uma colônia interna. Colonos árabes eram encorajados a se mudar para a região e, junto com a exploração das reservas de petróleo encontradas na área, o outro setor principal, a produção agrícola, foi estritamente planejada e gerenciada. O que é hoje o cantão de Efrin teve suas muitas florestas substituídas por plantagens de oliveiras, enquanto nos anos 1970 o regime espalhou o rumor de que uma praga que afetava a produção de tomates estava se espalhado desde a Turquia, visando estimular a conversão completa da produção agrícola do cantão de Cizire para o cultivo de trigo. No inverno, é uma experiência bastante sombria dirigir nos campos vazios sem fim que compõem o interior do cantão de Cizire. Agora estão em curso esforços para diversificar a produção agrícola, tanto por razões ecológicas quanto econômicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a revolução não herdou muito em termos de meios de produção em larga escala. As poucas instalações existentes de grande produção foram socializadas. Creio que estes são uma fábrica de concreto, os poços de concreto, e, desde a campanha de Manbij, a barragem de Tishrin. Aqui em Qamishlo há, aproximadamente, 60 “fábricas”, com um tamanho máximo de 20 empregados. Algumas delas são privadas, algumas funcionam como cooperativas. A vertente comercial e logística da vida em Rojava também é de pequena escala. Quando o regime foi desalojado, pouco havia em termos de sistemas logísticos de larga escala que poderiam ser socializados &#8211; sistemas de transporte, ou os sistemas de logística integrados que as grandes redes de supermercado possuem. O minúsculo sistema ferroviário está fora de serviço e o regime controla o aeroporto em Qamishlo, que só mantém uma rota interna irregular para Damasco.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113276 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava8.jpg" alt="" width="900" height="473" /></p>
<p style="text-align: justify;">Janet Biehl, conselheira de desenvolvimento econômico no cantão de Cizire, em uma grande entrevista discute as “três economias” que funcionam paralelamente em Rojava. Você pode lê-la, mas, em resumo, há uma “economia de guerra”, uma “economia aberta” (ou seja, economia privada) e uma “economia social”. No momento, a economia de guerra &#8211; com pão e petróleo subsidiado, por exemplo &#8211; domina, com a economia social das cooperativas despontando como uma esperança futura. Obviamente o perigo é se/quando terminar o embargo e o investimento privado for permitido &#8211; sobretudo para infraestruturas dispendiosas como refinarias de petróleo e indústria pesada &#8211; que a economia social seja completamente abandonada.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu não gostaria de me aventurar em uma previsão quanto ao futuro da economia aqui, embora os desafios futuros pareçam bastante claros, mas eu posso dizer que é decepcionante que alguns na esquerda não estejam apoiando o que acontece aqui em razão da persistência da propriedade privada, da produção de <em>commodities</em> e do assalariamento. Isso é um tipo de purismo do “tudo ou nada”, que em geral vem de um lugar abstrato, aparentemente distante do reconhecimento das dificuldades de mudança social real. Nenhuma revolução até aqui conseguiu abolir as relações capitalistas &#8211; e muito menos no espaço de poucos anos, durante uma guerra por procuração internacional, ao mesmo tempo em que sofre um embargo! Embora a crítica apoista da modernidade capitalista seja claramente não-marxista, aqui em Rojava esta estratégia econômica é amplamente progressista &#8211; ainda que haja pontos de interrogação quanto ao seu futuro &#8211; e isso merece a nossa solidariedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece miopia recusar-se a apoiar porque o capitalismo ainda funcionará de alguma forma em um futuro próximo. É interessante que muitas vezes apoiamos lutas sociais não-comunistas até o ponto em que elas alcançam condições de mudar o mundo de forma significativa, ponto esse em que muitos de nós retiramos o nosso apoio. Precisamos ter uma visão de longo prazo das mudança social, que a reconheça como um processo contraditório e complicado. Somente pelo fato de que a revolução aqui não está, imediatamente, implantando o comunismo, não significa que não devamos apoiá-la.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Qual o perfil político dominante dos voluntários internacionais? Que tipo de expectativas eles trazem, e de que modo estas são confirmadas ou subvertidas?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Em geral, as pessoas que chegam aqui são uma mistura entre os muito otimistas e aqueles que esperam por algo mais realista. Em um momento, baseado apenas na cobertura feita pela internet, parecia que a maioria dos voluntários eram aventureiros, liberais bem intencionados, ou mais ainda pessoas de direita querendo somente combater o ISIS.</p>
<p style="text-align: justify;">Evidentemente há muitos voluntários da diáspora curda, mas, além destes, a maioria dos voluntários que eu conheci aqui, ou dos quais ouvi falar, são pessoas de esquerda. Há uma presença relativamente grande de camaradas turcos, membros de organizações marxistas-leninistas e maoistas, por exemplo. Os outros voluntários são principalmente da Europa e da América do Norte, e a maioria está em unidades militares. Isso inclui um dedicado Tabur internacional &#8211; o Batalhão Internacional da Liberdade -, que as pessoas em casa provavelmente conhecem por meio das ótimas fotos da sua “Brigada Bob Crow”, formada por voluntários anglófonos.</p>
<p style="text-align: justify;">Devido às barreiras linguísticas e às dificuldades de viajar para cá e encontrar uma ocupação em que se possa ser útil, não há muitos voluntários estrangeiros na sociedade civil. Esperemos que isso fique mais fácil com o passar do tempo. No momento, se as pessoas quiserem se voluntariar aqui, devem pensar sobre as habilidades que têm ou que podem obter antes de vir. Por exemplo, se estiverem interessadas em treinar para atuarem como professores de inglês como segunda língua, esta é uma ótima maneira de ser útil aqui, pois a demanda por estas aulas é enorme.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113277 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava7.jpg" alt="" width="864" height="648" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>O que você acha que a presença de voluntários internacionais acrescenta ao movimento?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Por vezes, habilidades específicas bastante demandadas aqui, por exemplo, médicos. Se não isso, ao menos os voluntários trabalham como uma conexão entre Rojava e o resto do mundo. As pessoas aqui sabem que não estão sozinhas, e o resto do mundo começa a descobrir um pouco mais sobre o que está acontecendo aqui. Esta é, certamente, uma grande responsabilidade para aqueles que têm habilidade de relatar e retratar toda uma revolução com base em suas experiências. Aqueles dentre nós que têm feito isso, precisam tentar ser honestos quanto ao que vimos, quanto ao que pensamos, e em relação aos limites de nossa experiência pessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é surpresa, mas é decepcionante ver críticas à maioria dos voluntários como &#8216;aventureiros orientalistas&#8217;, &#8216;islamofóbicos enrustidos&#8217;, ou &#8216;fantasiados com um complexo de herói&#8217;, críticas estas que surgiram em alguns setores da esquerda. Enquanto alguns se encaixam neste perfil, este não é o caso da maioria &#8211; em especial os camaradas politicamente ativos que têm respondido às chamadas por voluntários. O YPG também está tomando medidas para filtrar este tipo de voluntário. É surpreendente como até mesmo o que eu tomaria como um valor histórico incontroverso do movimento comunista &#8211; o internacionalismo &#8211; é bombardeado por aqueles que também se veem como parte da esquerda. Parece que aqui e agora há mais voluntários de esquerda de estruturas pré-existentes, ou talvez eles estejam apenas utilizando melhor os canais de mídia. Seja como for, repetir com insistência o ponto de que se trata de uma luta progressista que precisa de apoio da esquerda internacional, e que se vê como parte de um movimento internacional, é intensamente importante e é uma tarefa política na qual todos podemos nos envolver.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>O que você considera ser o impacto mais significativo da revolução até agora?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> Para os povos da região, a revolução os libertou da dominação do regime de Assad e do ISIS. E também houve progressos massivos em termos de libertação feminina e democracia direta. Internacionalmente a revolução deu um forte impulso às lutas ao norte da fronteira, em Bakur, na Turquia<strong>[3]</strong> e aos revolucionários mais distantes. Embora nós precisemos ter cautela, há muitas lições para se tomar dessa revolução. No mínimo, Rojava serve como um lembrete que a revolução é sempre uma possibilidade onde os revolucionários estão organizados, comprometidos e preparados para arriscarem as suas vidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>GS:</strong> <em>Algum comentário final?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PL:</strong> A revolução aqui não esboça a fantasia perfeita de alguns revolucionários do Ocidente. Não foi o levante espontâneo da maioria esmagadora do povo, não aboliram o Estado (se é que isso é possível) ou o capitalismo, e ainda há problemas para resolver. Apesar do fato de que não se trata de comunismo pleno aqui e agora, esta revolução precisa ser aplaudida e apoiada. Como todas as revoluções, esta não emergiu totalmente formada, mas tem sido feita rapidamente em face de toda a oposição que sofre. Ao contrário de muitas revoluções, esta é bem difícil de definir; etiquetas como “anarquista” ou “revolução sem estado” obscurecem mais do que revelam. O que sabemos é que esta revolução está avançando mediante formas de democracia popular, libertação das mulheres e algum tipo de economia solidária. A vida em Rojava é melhor para mais pessoas do que na maior parte do Oriente Médio.</p>
<p style="text-align: justify;">Para aqueles que temem que os revolucionários tenham poder de verdade para fazer a transformação ao invés de manterem a “resistência” para sempre, gostaria de citar Murray Bookchin (cuja influência na luta aqui é certamente exagerada por alguns):</p>
<blockquote><p><em>“Os anarquistas podem reivindicar a abolição do Estado, mas alguma coerção, de algum tipo, será necessária para prevenir o retorno do Estado burguês em força total com um terror desenfreado. Para uma organização libertária, pelo medo extravagante de criar um &#8216;Estado&#8217;, se abster de tomar o poder quando puder fazê-lo com o apoio das massas revolucionárias, trata-se de uma confusão, no melhor dos casos, e um total vacilo, no pior”</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Aqueles que tomam uma posição ultra-esquerdista em Rojava, e loucamente a rejeitam, mostram-nos mais sobre as fraquezas de suas próprias políticas do que da revolução que vem se fazendo aqui. Uma revolução real é uma massa de contradições que precisam ser enfrentadas. Que a revolução esteja fazendo isso sem recorrer à ditadura de um partido político, isso faz dela uma revolução particularmente importante para que a esquerda libertária a esteja apoiando.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-113278 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2017/03/Rojava9.jpg" alt="" width="960" height="720" /></p>
<p style="text-align: justify;">Existem outras formas de a esquerda manifestar solidariedade com Rojava e com a luta ampla que ocorre aqui na região do que escrever artigos e compartilhar coisas no facebook. Informar-se sobre o que está acontecendo aqui é importante, claro, mas devem ser muito maiores as obrigações das organizações políticas que apoiam a revolução e daqueles que têm capacidade. Por exemplo, no Reino Unido o Grupo de Solidariedade a Rojava do Plan C trabalha com estruturas lideradas por curdos que organizam discussões e demonstrações, tem arrecadado dinheiro para coisas como um ônibus escolar e suprimentos médicos, e agora está enviando voluntários para o trabalho civil.</p>
<p style="text-align: justify;">Existem alguns dedicados grupos de solidariedade aos curdos no Reino Unido que também fazem um grande trabalho. Quando comparado a campanhas de solidariedade de longa duração, como a solidariedade aos palestinos, por exemplo, as campanhas de solidariedade aos curdos ainda estão engatinhando. A intensificação massiva da contrarrevolução na Turquia cumpre um papel tanto dentro quanto fora de suas fronteiras, provavelmente atingirá o Iraque este ano, fazendo desta solidariedade algo ainda mais importante. Efetivas estruturas de solidariedade nacional precisam ser estabelecidas ou reunidas, atuando juntas em nível internacional. É meio clichê, mas não devemos esquecer o slogan “a solidariedade não é uma palavra, ela é uma arma”.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Peter Loo é membro do Plan C e atua no Grupo de Solidariedade a Rojava.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> ‘Rojava’ é utilizado aqui em vez de Federação Democrática do Norte da Síria – o título oficial da região – tanto por abreviar como por corresponder ao nome mais familiar no Ocidente [ver <a class="urlextern" title="https://resistenciacurda.wordpress.com/2017/01/08/rojava-ou-norte-da-siria/" href="https://resistenciacurda.wordpress.com/2017/01/08/rojava-ou-norte-da-siria/" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">aqui</a>].</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> O Plan C é uma organização britânica anticapitalista, cuja plataforma pode ser vista <a class="urlextern" title="http://www.weareplanc.org/about/" href="http://www.weareplanc.org/about/" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">aqui</a> [em inglês].</p>
<p><strong>[3]</strong> Bakur é como os curdos chamam o Curdistão do Norte, o mesmo que Curdistão turco.</p>
<blockquote><p><em>Traduzido por <strong>Passa Palavra</strong> a partir do original disponível <a href="http://novaramedia.com/2017/02/01/a-real-revolution-is-a-mass-of-contradictions-interview-with-a-rojava-volunteer/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a>.</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Frente à guerra, curdos declaram autogovernos na Turquia</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Aug 2015 19:33:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Com a escalada de ataques do governo Erdoğan, nos últimos dias cidades e bairros curdos se declararam em autogoverno e formaram autodefesas. Por JINHA]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por JINHA</h3>
<p style="text-align: justify;">Desde a nova onda de ataques do presidente turco Erdoğan contra o Curdistão logo após as eleições de junho, pessoas de todas as idades se juntaram aos esforços para se defender e governar a si próprias na região.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde os anos 1990, o Estado turco tem usado táticas de negação, assimilação e aniquilamento na região norte do Curdistão. Ainda que as promessas de paz que o AKP [Partido da Justiça e Desenvolvimento] fez ao chegar ao poder tenham despertado esperanças em muitos, 13 anos depois tais promessas permaneceram no papel.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 7 de junho, os curdos e outras pessoas Turquia afora rejeitaram o AKP em uma histórica eleição. O resultado do pleito arruinou os sonhos de Recep Tayyp Erdoğan de levar o país a um sistema no qual o poder ficaria concentrado no presidente. Agora Erdoğan declarou, na prática, uma guerra pessoal contra os curdos antes das eleições antecipadas, na esperança de começar uma guerra antes das eleições.</p>
<figure id="attachment_105823" aria-describedby="caption-attachment-105823" style="width: 300px" class="wp-caption alignright"><a href="/wp-content/uploads/2015/08/amed-women.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-105823 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/amed-women-300x168.jpg" alt="amed-women" width="300" height="168" /></a><figcaption id="caption-attachment-105823" class="wp-caption-text">Autodefesa de mulheres em Amed</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">No espírito das mulheres das YPJ [Unidades de Defesa das Mulheres, de Rojava] que lutam contra o Estado Islâmico em defesa de sua autonomia, os curdos da região norte declararam autogoverno em uma série de áreas. Entre as cidades e bairros que se declararam em autogoverno, estão Silopi; Cizre; o bairro Batman&#8217;s Bağlar; o distrito de Diyarbakır&#8217;s Sur; Lice; Silvan; Varto; Bulanık; Yüksekova; Şemdinli; Edremit; o bairro Van&#8217;s Hacıbekir; o bairro Gazi, em Istambul; e Doğubeyazit.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira declaração de autogoverno veio da cidade de Silopi no dia 10 de agosto. Silopi não é estranha à violência estatal. Moradores assistiram a assassinatos no meio da rua e vítimas atiradas em barris de ácido durante os anos 1990. Quando o AKP intensificou os ataques ao Curdistão, Silopi foi a primeira a entrar em ação. Em Silopi, a população cavou trincheiras em seus bairros para se prevenir contra a entrada de policiais ou soldados. Foi quando a polícia começou um ataque total.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 7 de agosto, de manhã cedo, policiais abriram fogo no bairro Zap, assassinando Hami Ulaş, de 58 anos, e Mehmet Hıdır Tanboğa, de 17. A polícia metralhou contra casas, deixando seis lares em chamas. O ataque deixou vários feridos, dentre eles crianças.</p>
<p style="text-align: justify;">A polícia começou a prender todos os feridos levados ao hospital. Um morador que fora baleado durante uma tentativa de prisão foi trazido à cidade de Diyarbakı por voluntários de direitos humanos horas depois, e lá o prenderam. Conforme a polícia posicionou snipers no topo dos prédios, moradores fecharam as cortinas para bloquear sua visão (uma famosa tática usada durante a resistência de Kobane em Rojava). Hoje, é difícil encontrar uma casa sem buracos de bala em suas paredes ou janelas.</p>
<figure id="attachment_105827" aria-describedby="caption-attachment-105827" style="width: 590px" class="wp-caption aligncenter"><a href="/wp-content/uploads/2015/08/silvan-defense-women.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-105827" src="/wp-content/uploads/2019/10/silvan-defense-women.jpg" alt="Assembleia popular em Silvan" width="590" height="383" /></a><figcaption id="caption-attachment-105827" class="wp-caption-text">Assembleia popular em Silvan</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A cidade de Cizre, também na província de Şırnak, viveu anos de massacres da polícia e soldados. Lá, os moradores se juntaram a Silopi ao declarar autogoverno no dia 10 de agosto. A população de Cizre estava bem preparada para a autodefesa. Na declaração de autogoverno, os moradores afirmam que é somente cavando trincheiras que eles poderão respirar tranquilos outra vez.</p>
<p style="text-align: justify;">A onda de execuções, prisões e torturas do governo de AKP começou uma escalada, trazendo à tona para muitos imagens dos dolorosos anos 1990. No dia 13 de agosto, o distrito de Varto, situado na província de Mus, se juntou às declarações de autogoverno. Em resposta, o Estado declarou, na prática, guerra contra a população local, começando uma onda de prisões e detenções na cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Os confrontos irromperam no dia 15 de agosto, quando as guerrilhas do HPG (ligadas ao PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão) tomaram controle das entradas e saídas da cidade por todo final de semana. Voluntários armados montaram trincheiras ao logo de todas as principais avenidas de Varto. Com uma investida mirando a base do distrito de polícia e o comando militar, as guerrilhas também garantiram o controle sobre as estradas e vias de acesso à cidade. Os guerrilheiros disseram à polícia e aos soldados que se mantivessem dentro dos prédios por sua própria segurança, deixando-os sem poder sair.</p>
<figure id="attachment_105821" aria-describedby="caption-attachment-105821" style="width: 300px" class="wp-caption alignleft"><a href="/wp-content/uploads/2015/08/620x366x680x365cc-v-16-8-15-ekin-wan3.jpg.pagespeed.ic_.N8ZjOVt3xC.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-105821 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/620x366x680x365cc-v-16-8-15-ekin-wan3.jpg.pagespeed.ic_.N8ZjOVt3xC-300x176.jpg" alt="620x366x680x365cc-v-16-8-15-ekin-wan3.jpg.pagespeed.ic.N8ZjOVt3xC" width="300" height="176" /></a><figcaption id="caption-attachment-105821" class="wp-caption-text">Ekin Van</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Nas redes sociais, começou a circular uma foto de Kevser Eltürk (nome de guerra Ekin Wan), guerrilheira da YJA Star [União de Mulheres Livres &#8211; Estrela], cujo corpo a polícia deixou nu, arrastou pelo chão e fotografou. Protestos contra o tratamento de Ekin Wan se espalharam por todo Curdistão. No dia 17 de agosto, foram encontrados dois cadáveres em Varto. Identificaram ser dos voluntários Andok Ekin e Demhat. A polícia assassinara um e esquartejara outro, de acordo com testemunhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Varto rapidamente se tornou em zona de guerra conforme soldados entraram no centro da cidade usando tanques e veículos blindados. Dezenas de construções foram destruídas. Uma delegação liderada por Selma Irmak, co-presidente do Congresso da Sociedade Democrática (DTK), analisou o dano e entrou em contato com locais, mas os oficiais de governo não aceitaram se reunir com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">A cidade de Bulanık, também na província de Muş próxima a Varto, declarou o autogoverno no dia 13 de agosto. Membros dos partidos HDP [Partido Democrático do Povo] e DBP, assembleias de bairros e co-prefeitos locais aderiram à declaração. Ali, Zeynep Topçu do Partido das Regiões Democráticas (DBP) falou em nome da Assembleia da Cidade Democrática, dizendo que como representantes eleitos pelo povo de Bulanık, eles iriam governar a si próprios, já que o regime não os representa.</p>
<figure id="attachment_105822" aria-describedby="caption-attachment-105822" style="width: 300px" class="wp-caption alignright"><a href="/wp-content/uploads/2015/08/silvan-defense.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-105822 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/silvan-defense-300x225.jpg" alt="silvan-defense" width="300" height="225" /></a><figcaption id="caption-attachment-105822" class="wp-caption-text">Autodefesas em Silvan</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">No dia 15 de agosto, aniversário do dia em que o PKK abriu fogo pela primeira vez no levante armado de anos atrás, foi também o dia em que a cidade de Silvan (em curdo, Farqîn), situada na província de Diyarbakır, declarou sua autonomia. A resistência cresceu após a Assembleia Popular de Farqîn decretar o autogoverno. Notavelmente, as mulheres ocuparam um papel de liderança na luta para defender as trincheiras em Silvan.</p>
<p style="text-align: justify;">O distrito de Sur, que é a parte mais antiga da cidade de Diyarbakır, declarou autogoverno no dia 14 de agosto. Com a declaração de autodefesa, a polícia intensificou seus ataques já frequentes na área. O bairro Lalebey se tornou palco de forte violência policial, enquanto jovens tentavam defender a vizinhança nas trincheiras. Oficiais eleitos do HDP e do DBP realizaram uma vigília noite adentro no bairro para evitar confrontos.</p>
<p style="text-align: justify;">O distrito de Lice, na província Diyarbakır, é um lugar onde muitos jovens foram assassinados pelas mãos do Estado nos últimos anos – de Ceylan Önkol, 12 anos, assassinado pela polícia, a Medeni Yıldırım, 18 anos, baleado durante um protesto contra a construção de um nova base policial. Recentemente, homens e mulheres jovens também tomaram as ruas decididos a defender seus bairros de ataques da polícia. Policiais avançaram nas ruas em veículos blindados, abrindo fogo indiscriminadamente nos bairros, ao que os membros da resistência responderam usando pistolas e granadas de luz.</p>
<p style="text-align: justify;">Na cidade de Yüksekova, na província de Hakkari, a resistência se espalhou a partir dos bairros de Orman, Kışla e Dize. Jovens conseguiram fechar totalmente o acesso aos bairros com trincheiras. Moradores formaram unidades de autodefesa para fazer vigílias armadas à noite. A comunidade fez danças tradicionais em torno de fogueiras, cantando músicas para apoiar a vigília. Seguindo Yüksekova, a cidade vizinha de Şemdinli também declarou autogoverno.</p>
<p style="text-align: justify;">Na cidade de Batman, a assembleia do bairro de Bağlar declarou o autogoverno como “uma necessidade urgente contra o Estado e o ataque total do governo do AKP”. A província de Van Oriental viu a autonomia ser declarada no distrito de Edremit, próximo à cidade de Van, onde a Assembleia Democrática do Povo de Edremit declarou a rejeição ao Estado. No bairro de Hacıbekir (em curdo, Xaçort), situado na área central de İpekyolu de Van, a Assembleia Democrática do Povo do bairro também declarou autogoverno.</p>
<p style="text-align: justify;">Declarações de autogoverno e o compromisso com a autodefesa só estão se espalhando. Hoje, distrito de Doğubeyazıt, na província de Ağrı, e o bairro de Gazi, em Istambul, também decidiram pelo autogoverno.</p>
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<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido do artigo de <a href="http://jinha.com.tr/en/ALL-NEWS/content/view/29082" target="_blank" rel="noopener noreferrer">JINHA</a>  publicado em 19 de agosto.</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: center;"><a href="/wp-content/uploads/2015/08/varto-defense.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-105825" src="/wp-content/uploads/2019/10/varto-defense.jpg" alt="varto-defense" width="590" height="400" /></a></p>
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