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	<title>Capitalismo &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (7)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jul 2026 03:17:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[Devemos estar abertos a uma revisão fundamental, baseada nas transformações da realidade social. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong style="font-family: Verdana, Geneva, sans-serif; font-size: 14px;">CAPÍTULO 5</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Greve Geral</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Essa ideologia de ação coletiva, com sua oposição estática entre revolta e greve, seria, por sua vez, elidida com uma oposição correspondente em um estrato conceitual mais elevado, o do anarquismo e do socialismo. Pode parecer, dentro das convenções do presente, que táticas específicas e seus repertórios surgem de, e são portanto próprios de, posições políticas e analíticas particulares <strong>[1]</strong>. Historicamente, a oposição ideológica das táticas ajudou a produzir a oposição política e isso, por sua vez, consolidaria ainda mais a antítese das formas de ação.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, a greve, e com ela a categoria mais ampla de ações trabalhistas organizadas e a organização em grande escala como tal, é entendida como a tática político-econômica associada ao campo complexo do socialismo e do comunismo como horizontes políticos, conjugando-se com o pensamento materialista histórico. A revolta, e com ela o conjunto de táticas “insurrecionais” antes e além da organização trabalhista tradicional, é entendida em oposição a isso. É um ataque espontâneo à vida cotidiana, mas também a rejeição de um programa político supostamente determinista, autoritário e implicitamente, se não explicitamente, estatista. Uma das questões básicas deste livro é se esse conjunto de oposições dicotômicas, uma fórmula com motivos históricos reais, ainda faz sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">A divisão na Primeira Internacional certamente não precisa ser repetida aqui, e um desdobramento completo da divergência entre anarquistas, de um lado, e socialistas e comunistas do outro, está além do escopo deste estudo <strong>[2]</strong>. Vale a pena lembrar até que ponto essas posições eram, a princípio, muito mais contínuas do que parecem agora; em paralelo com a das revoltas e greves, sua polarização é um procedimento a-histórico. Na época da Primeira Internacional, a retórica da emancipação do trabalho como projeto fundamental era compartilhada, juntamente com a centralidade do proletariado e o pressuposto da luta de classes como base para a revolução. Os debates da época são ilustrativos. Pode-se considerar a disputa entre o anarquismo coletivista e o comunismo anarquista na década de 1870. A primeira facção desejava acabar com todas as trocas comerciais e o salário, enquanto na visão da segunda, “uma economia de troca ainda opera dentro de uma rede de &#8216;coletividades&#8217; autogerenciadas e pertencentes aos trabalhadores, que detêm a propriedade legal dos instrumentos e recursos de produção”. O trabalho assalariado e seu status assumiram uma importância decisiva. Kristin Ross escreve: “Além disso — e esse foi o ponto de maior ruptura entre os dois grupos —, o anarquismo coletivista manteve o sistema salarial, fazendo a distinção entre alimentos e outros bens dependentes da contribuição de trabalho de cada indivíduo” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Tais posições e debates sobre o conteúdo de uma sociedade revolucionária deixam claro que a antítese rígida das posições políticas decorrentes dessa oposição seria moldada ao longo do tempo. A divisão de táticas em posições políticas e analíticas não acontece simplesmente ao longo do caminho, mas faz parte dessa moldagem. Em nenhum lugar o processo é encenado de forma mais explícita do que no caso da greve geral. Os debates sobre a greve geral apresentam dificuldades, sobretudo pelas várias distinções feitas (e não feitas) entre greves gerais “proletárias” e “políticas”, entre a greve “geral” e a greve “de massa”. Felizmente para nós, analisar essas distinções é menos importante do que um momento específico dentro dos debates e as possibilidades que ele oferece para considerar a relação entre táticas e posições políticas.<img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159534" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1.jpg" alt="" width="638" height="886" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1.jpg 638w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1-216x300.jpg 216w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1-302x420.jpg 302w" sizes="(max-width: 638px) 100vw, 638px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A vitória dentro da Internacional da posição socialista, no que diz respeito aos modelos de luta política, já havia sido ratificada antes da cisão de 1872. A Resolução nº 9 do ano anterior afirmava que “essa constituição da classe trabalhadora em um partido político é indispensável para garantir o triunfo da revolução social e seu objetivo final — a abolição das classes”. O compromisso com um processo parlamentar implica tanto um certo tipo de organização quanto, pelo menos, alguma observância de um padrão legalista. A estratégia parlamentar terá idas e vindas, mas a lógica organizacional do partido, que a acompanha, terá grande constância. Como expressão de sua base organizacional, supostamente ordeira em sua execução e entrando em confronto com o capital em vez do Estado, a greve restrita não pode deixar de aderir a tal horizonte político, mesmo que qualquer greve específica provavelmente tenha ambições mais locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Em contrapartida, a aparente desordem dos modos anarquistas de luta torna-se objeto de antipatia. <em>Espontaneidade</em> é a palavra-chave que codifica essa antipatia. É um termo ambíguo, politicamente. Muitas vezes, indica uma ação que surge “naturalmente”, uma resposta momentânea. Nesse sentido, um ato espontâneo é escravo do estímulo. No entanto, de acordo com outra definição, “no século XVIII, quando Kant descreveu a unidade transcendental da apercepção — o fato de eu estar ciente de mim mesmo como tendo minhas próprias experiências —, ele chamou isso de ato espontâneo. Kant queria dizer o oposto de algo natural. Um ato espontâneo é aquele que é realizado livremente” <strong>[4]</strong>. Assim, o termo preserva tanto o sentido de afloramento autônomo (lembrando a visão espasmódica da revolta) quanto o de ato voluntário, livremente escolhido, que, no entanto, carece do desenvolvimento paciente de uma contra-organização que se movimenta paralelamente aos desenvolvimentos do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O termo assume uma complexidade ainda mais controversa com a revolução Soviética. Lenin o utilizará, notoriamente, para deplorar as massas desorganizadas. A palavra russa <em>stikhiinost</em> significa tanto espontaneidade quanto o caos da natureza: aquilo que tem o menor grau de organização. Alexander Bogdanov, um filósofo polímata russo, especificará que essa desordem da natureza é uma resistência à organização que é o trabalho humano, e que os dois se opõem: “Consequentemente, o mundo é um campo de batalha do trabalho coletivo, no qual a atividade humana luta contra a resistência espontânea da natureza” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É o colapso não declarado desses sentidos — caótico, natural, contra o trabalho humano — que permite que o termo assuma suas dimensões mais pejorativas. A partir da ortodoxia leninista, o espontaneísmo torna-se não apenas falta de organização em algum sentido, mas também antagonismo ao trabalho e, portanto, implicitamente ao proletariado. Além disso, uma discordância com estratégias organizacionais pode ser transcodificada como irracionalidade, contrária não apenas ao trabalho, mas também ao ser humano como tal.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um momento anterior desse debate encenado à luz da Comuna de Paris, Marx inicialmente argumenta seriamente contra tal abordagem, contra a revolução impaciente. Em meio às esmagadoras derrotas francesas de 1870, ele adverte: “Os trabalhadores franceses […] não devem se deixar influenciar pelos souvenirs nacionais de 1792 […]”. Em vez disso, eles devem “construir o futuro. Deixem-nos incrementar calma e resolutamente as oportunidades da liberdade republicana, para o trabalho de sua própria organização de classe” <strong>[6]</strong>. Como é bem sabido, ele mais tarde mudará sua posição e fará uma avaliação surpreendente sobre a Comuna.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>Engels e Sorel</strong></em></h5>
<p style="text-align: justify;">As dúvidas iniciais de Marx retornam na avaliação de Engels sobre a greve geral desencadeada pelos bakuninistas em 1873, com a Espanha à beira da guerra civil. As conclusões de Engels certamente assombram a vacilação posterior de Hobsbawm, sua identificação da greve geral com a revolta — dois avatares de espontaneidade excessiva e organização inadequada, a identidade do excesso e da insuficiência. “A greve geral, no programa dos bakuninistas, é o mecanismo que será usado para introduzir a revolução social”, escreve ele, elevando o tom de escárnio. Ele continua:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em uma bela manhã, todos os trabalhadores de todas as indústrias de um país, ou talvez de todos os países, cessarão o trabalho e, assim, obrigarão a classe dominante a se submeter em cerca de quatro semanas ou a lançar um ataque contra os trabalhadores, para que estes tenham o direito de se defender e possam usar a oportunidade para derrubar a velha sociedade.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Voltando a 1842 e suas limitações, suas falhas de coordenação e preparação, ele então chega ao “ponto crucial da questão”:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por um lado, os governos, especialmente se encorajados pela abstenção da ação política por parte dos trabalhadores, nunca permitirão que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente e, por outro lado, eventos políticos e as intervenções da classe dominante levarão à libertação dos trabalhadores muito antes que o proletariado consiga formar essa organização ideal e esse colossal fundo de reserva. Mas se eles tivessem isso, não precisariam recorrer ao caminho indireto da greve geral para atingir seu objetivo <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os anarquistas, nessa narrativa, carecem tanto de razão quanto de recursos. Não tendo desenvolvido adequadamente suas associações trabalhistas, os trabalhadores não terão acumulado capacidade organizacional adequada nem recursos financeiros suficientes para encenar o que acreditam ser uma batalha pela emancipação total. Rosa Luxemburg encontra nisso o que se tornará o senso comum da social-democracia, derivado de seu oposto, a “teoria anarquista da greve geral — ou seja, a teoria da greve geral como meio de inaugurar a revolução social, em contraposição à luta política cotidiana da classe trabalhadora”. Qualquer defesa da greve geral anarquista “se esgota no seguinte dilema simples: ou o proletariado como um todo ainda não possui a poderosa organização e os recursos financeiros necessários, caso em que não pode levar adiante a greve geral, ou está suficientemente bem organizado, caso em que não precisa da greve geral” <strong>[8]</strong>.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159535" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32.jpg" alt="" width="642" height="886" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32.jpg 642w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-217x300.jpg 217w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-304x420.jpg 304w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-640x883.jpg 640w" sizes="(max-width: 642px) 100vw, 642px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Georges Sorel oferecerá, no entanto, uma defesa notável. Antes de passar a isso, podemos observar em Engels uma suposição interessante sobre o desenvolvimento de um fundo de greve, a artilharia pesada no arsenal do proletariado. O limite para sua expansão é o Estado, que “nunca permitirá que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente”. Este é o mundo visto da perspectiva da acumulação, em que se pressupõe um excedente social crescente, e a disputa para apropriar-se da maior parte possível desse excedente é o preâmbulo plausível e necessário para uma luta ampliada. A concepção de Engels sobre os fundamentos da luta é produtivista, não apenas no sentido abstrato de assumir a centralidade do trabalho produtivo para a luta revolucionária, mas também em sua pressuposição de um aumento concreto e contínuo da riqueza social decorrente do capital produtivo; ela se encaixa com a observação de Rule sobre a dependência da greve bem-sucedida da “expansão da produção”. Essa é a particularidade histórica implícita a partir da qual Engels universaliza sua crítica.</p>
<p style="text-align: justify;">Sorel será o opositor de Engels mais de trinta anos depois. Sua defesa da greve geral não é menos ardente do que a denúncia de Engels, embora compartilhe a tendência universalizante dessa denúncia. Para Sorel, o poder da greve geral não é sua capacidade de subjugar instantaneamente o capital, mas sua provisão ao proletariado de uma orientação total, uma totalização política.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele distingue entre uma greve geral “proletária” e uma greve geral “política”. Esta última é entendida como um mecanismo convocado por atores políticos no controle de sindicatos centralizados com o objetivo de transferir o poder de um governo para outro já preparado e organizado. É a “organização ideal” que Engels considera impossível. O gesto de Sorel não é insistir, contra Engels, na possibilidade dessa organização. Em vez disso, ele a rejeita por preservar a dominação política, por projetar sobre a greve geral esse caráter “político” cujo horizonte é a tomada do poder estatal e o controle estatal centralizado. A greve geral proletária, por outro lado, é a pré-condição para a luta de classes emancipatória.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, Sorel opõe a greve geral proletária à greve limitada ou restrita, sugerindo que esta última oferece satisfações e ganhos parciais que servem para diminuir o fervor revolucionário. Além disso, ela revela, mas não resolve, os interesses divergentes entre os trabalhadores comuns e a aristocracia operária dos “encarregados, escriturários, engenheiros, etc.”, bem como os interesses aparentemente opostos do campesinato e do proletariado industrial. A noção de Marx do capital como uma totalidade e sua concepção da existência social em duas classes antagônicas não podem ser compreendidas a partir dessa perspectiva, nem podem ser construída a partir de fragmentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve geral unifica a experiência das misérias cotidianas e os vislumbres fragmentários de algo além delas, permitindo ao trabalhador individual uma intuição do mundo para o qual a revolução tende, obtida “como um todo, percebida instantaneamente” <strong>[9]</strong>. Esse “conhecimento total” bergsoniano supera, ao mesmo tempo, o problema prático da desunião da classe. Sorel imagina resolver o chamado problema da composição desta forma: “Mas todas as oposições se tornam extraordinariamente claras quando os conflitos são ampliados para o tamanho da greve geral… a sociedade está claramente dividida em dois campos, e apenas em dois, em um campo de batalha” <strong>[10]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ação espontânea, portanto, é corolário do conhecimento espontâneo no sentido kantiano. Isso fornece a única passagem possível para a consciência de classe atualizada e a possibilidade revolucionária que não está entravada desde o princípio por estruturas organizacionais reificadas: “<em>a greve geral deve ser tomada como uma totalidade indivisível, e a passagem do capitalismo ao socialismo concebida como uma catástrofe, cujo desenvolvimento escapa a qualquer descrição</em>” <strong>[11]</strong>. Embora Sorel fosse um socialista e sindicalista herético, é essa contraposição à organização estatal e partidária que se torna a posição anarquista familiar sobre a greve geral.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>A Inversão de Rosa Luxemburg</strong></em></h5>
<p style="text-align: justify;">A reelaboração dessa questão por Luxemburg em “<em>A greve de massas</em>”, um dos maiores panfletos políticos jamais escritos, tanto por seu método quanto por sua conclusão, não está isenta de ambiguidades. Aqui, ela parece distinguir a greve geral e a greve de massa como fenômenos dos séculos XIX e XX, respectivamente, para depois tratá-los como iguais: “o anarquismo, ao qual a ideia da greve de massa está indissoluvelmente associada”. Ela admite que a crítica de Engels a essa greve “à primeira vista é tão simples e irrefutável que, por um quarto de século, prestou um excelente serviço ao movimento operário moderno contra o fantasma anarquista e como meio de levar a ideia da luta política ao mais vasto círculo de trabalhadores” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua retórica aqui é sofisticada, mas enviesada e potencialmente enganosa. Ela sugere que qualquer refutação do veredito de Engels deve, portanto, tomar o lado do “fantasma anarquista”. Isso provou ser uma interpretação errônea duradoura de Luxemburg, cuja posição é frequentemente atribuída a uma espontaneidade soreliana. “Rosa Luxemburg deu grande ênfase à espontaneidade das massas”, começa um resumo da sabedoria recebida; ele cita comentários representativos no sentido de que Luxemburg tinha “uma fé fanática, mas utópica, quase anarquista, nas massas” <strong>[13]</strong>. O próprio Sorel relata que a “nova escola que se autodenomina marxista, sindicalista e revolucionária” — ele se refere a Luxemburg, talvez Anton Pannekoek —“declarou-se a favor da greve geral assim que tomou consciência do verdadeiro sentido da sua própria doutrina” <strong>[14]</strong>.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159536" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22.jpg" alt="" width="755" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22.jpg 755w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-252x300.jpg 252w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-352x420.jpg 352w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-640x763.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-681x812.jpg 681w" sizes="(max-width: 755px) 100vw, 755px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas, para Luxemburg, não foi a consciência doutrinária que mudou. Foram as circunstâncias materiais. Não se pode culpar Engels pelo seu raciocínio em 1873; são aqueles que permanecem presos nessa posição contra os novos desenvolvimentos históricos que merecem desprezo. Pannekoek apresentará um argumento semelhante pouco tempo depois. Diante da polêmica de Kautsky contra a greve de massa, que Kautsky temia que prejudicasse o Partido Social-Democrata e seus sindicatos, Pannekoek sustenta que “várias formas de ação… não são opostas, mas parte de uma gama gradualmente diferenciada”, formas que assumem sua relevância mutável a partir do desenvolvimento das forças econômicas <strong>[15]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Luxemburg escreve seu panfleto na esteira de uma série de greves de massa em expansão, primeiro na Bélgica e na Suécia, depois na Holanda, Rússia e Itália; em seguida, a onda insurrecional de greves que constitui a Revolução Russa incompleta de 1905. Ela encara a greve, portanto, não como um erro, mas como uma eventualidade:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Se, portanto, a Revolução Russa nos ensina alguma coisa, ela nos ensina acima de tudo que a greve de massa não é artificialmente “criada”, não é “decidida” aleatoriamente, não é “propagada”, mas que é um fenômeno histórico que, em um determinado momento, resulta de condições sociais com inevitabilidade histórica. Não é, portanto, por meio de especulações abstratas sobre a possibilidade ou impossibilidade, a utilidade ou a nocividade da greve de massa, mas apenas por meio de um exame dos fatores e condições sociais a partir dos quais a greve de massa cresce na fase atual da luta de classes — em outras palavras, não é pela crítica subjetiva da greve de massa do ponto de vista do que é desejável, mas apenas pela investigação objetiva das fontes da greve de massa do ponto de vista do que é historicamente inevitável, que o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua investigação revela uma situação profundamente complexa na Rússia. Ela descreve os preparativos para a greve de massa de janeiro em São Petersburgo:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Aqui se lutava pela jornada de oito horas, ali se resistia ao trabalho por peça, aqui se “expulsavam” capatazes brutais em um saco sobre um carrinho de mão, em outro lugar se lutava contra sistemas infames de multas, em todos os lugares se lutava por melhores salários e aqui e ali pela abolição do trabalho em casa <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nessa circunstância de múltiplas queixas, nenhuma coordenação política vinda de cima é possível. No entanto, a disseminação interna da greve dentro do proletariado torna-se possível. O que dá consistência a essas várias particularidades russas é a transição de um absolutismo quase feudal para um capital industrializante. Embora a mão de obra urbana e o campesinato possam se encontrar em posições bastante diferentes, ambas as posições flutuam dentro dessa transformação singular, e a conexão entre lutas políticas e econômicas está aberta, desafiando a separação que Anthony Giddens chama de base fundamental do Estado capitalista <strong>[18]</strong>. Assim, torna-se possível uma mudança no equilíbrio, da frente do absolutismo para a das lutas econômicas que se seguem à greve de janeiro. Para Luxemburg, isso abre uma perspectiva revolucionária:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas, ao mesmo tempo, o período das lutas econômicas da primavera e do verão de 1905 tornou possível ao proletariado urbano, por meio da agitação e da direção social-democrata ativa, assimilar posteriormente todas as lições do prólogo de janeiro e compreender claramente todas as tarefas futuras da revolução <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A espontaneidade, então, pode se desdobrar em coordenação em determinadas condições, as de transição. Essa é a sequência revolucionária que Luxemburg vê diante de si, e a greve de massa é a forma que essa sequência assume. Para ela, isso não valida a posição anarquista. Sua conclusão, apresentada no início, é de fato brutal a esse respeito. O caráter revolucionário e o sucesso da greve de massa “não apenas não justificam o anarquismo, mas significam, na verdade, a liquidação histórica do anarquismo” <strong>[20]</strong>. Devido aos desenvolvimentos político-econômicos, a greve de massas, por assim dizer, mudou de lado; em um movimento objetivo, entrou no repertório da luta comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se agora ler Luxemburg como um golpe desferido pelo socialismo e pelo marxismo contra as fantasias anarquistas. Em alguns momentos, o panfleto assume tons triunfalistas, o que não é louvável. Pode-se lê-lo como uma recomendação de como proceder, da importância da arma da greve de massa; sem dúvida, isso é fundamental.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, talvez seja mais significativo para o presente ler o panfleto por sua clareza dialética. Quando as condições materiais mudam, quando a estrutura político-econômica muda, a importância política e as possibilidades práticas de uma tática de ação coletiva também podem mudar. A associação congelada da greve e das formas de organização política que a acompanham com o que agora passaremos a chamar de teoria comunista deve ser abandonada. Da mesma forma, a associação congelada da ação coletiva supostamente espontânea com o anarquismo. Os pensadores que defendem essas identificações, apesar de toda a sua astúcia intelectual ou rejeição por princípio das tendências teóricas, só podem ser nossos Kautskys, ou, nesse caso, Bömelburgs, presos no âmbar do “que é desejável”. Devemos estar abertos a “uma revisão fundamental do antigo ponto de vista do marxismo”, baseada nas transformações da realidade social <strong>[21]</strong>. Não se declara que um comunista faz isso ou um anarquista faz aquilo. Vai-se ao “ponto de vista do que é historicamente inevitável” — somente a partir desse ponto de vista “o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159533" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A.jpg" alt="" width="886" height="836" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A.jpg 886w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-300x283.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-768x725.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-445x420.jpg 445w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-640x604.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-681x643.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 886px) 100vw, 886px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> O marxismo não é uma crença política (muito menos um programa), mas sim um modo de análise.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> É uma espécie de petição de princípio distinguir entre socialismo e comunismo. A intenção, que será relevante mais adiante, é muito semelhante à do termo “marxismo tradicional” de Moishe Postone, que consideramos ser o socialismo — referindo-se a um horizonte político de socialização dos meios de produção sob o controle dos trabalhadores por meio da tomada do Estado, enquanto “comunismo” se refere ao horizonte político de abolir o modo de produção por completo. Sobre a questão de se o primeiro pode levar ao segundo, como proposto na <em>Crítica ao Programa de Gotha</em>, de Marx, algumas breves reflexões são apresentadas no capítulo final.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Kristin Ross, <em>Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune</em>, Londres: Verso, 2015, 107.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> “Spontaneity, Mediation, Rupture”, <em>Endnotes</em> 3, 2013, 232. Os autores coletivos citam Robert Pippin, Hegel&#8217;s Idealism, Cambridge: Cambridge University Press, 1989, 16-24.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Maria Chehonadskih, “The Anthropocene in 90 Minutes”, mute.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Karl Marx e V. I. Lenin, <em>The Civil War in France: The Paris Commune</em>, Nova York: International Publishers, 1968, 34.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Friedrich Engels, ““The Bakuninists at Work: An Account of the Spanish Revolt in the Summer of 1873,” cited in Rosa Luxemburg, <em>The Essential Rosa Luxemburg</em>, ed. Helen Scott, Chicago: Haymarket Books, 2008, 111-12.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Georges Sorel, <em>Reflections on Violence</em>, ed. Jeremy Jennings, Cambridge: Cambridge University Press, 1999, 128. Ver nota de rodapé 17 nessa página sobre Bergson.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Sorel, <em>Reflections</em>, 132.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ibid., 148 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 114, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Norman Geras, <em>The Legacy of Rosa Luxemburg</em>, Londres: Verso, 1976, 111-12. A segunda passagem cita E. H. Carr.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Sorel, <em>Reflections</em>, 120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Anton Pannekoek, <em>Pannekoek and Gorter&#8217;s Marxism</em>, ed. D. A. Smart, London: Pluto, 1978, 65.Em retrospecto, como era fácil derrotar Kautsky em um debate!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 117-8 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Ibid., 129.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Anthony Giddens, <em>The Class Structure of the Advanced Societies</em>, Londres: Hutchinson, 1973, 206.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Ibid., 113 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Ibid., 114.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este capítulo são da autoria de Frans Masereel (1889-1972).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (6)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2026 17:21:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve é exatamente o que a revolta não é. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 2: GREVE</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 4</strong></h5>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Greve Contra a Revolta</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Que tipo de contraponto é a greve em relação à revolta? O século XIX se propõe a medir isso, a calcular essa relação. Ele o faz de forma desigual na Europa Ocidental, na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos — de forma insistente, incerta, mas com resultados consequentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro não é uma história da greve ou do movimento operário, da era em que a proletarização denota a desapropriação agrária, a expansão industrial, o incremento, em termos absolutos e relativos, da população global no trabalho assalariado, e o indivíduo soberano como forma de integração aos circuitos de acumulação. No entanto, estas são as coordenadas do período em que a era dourada das revoltas se dissolve e de onde surge a nova era das revoltas: a longa segunda-feira do mundo em que era sempre hora de trabalhar e o capitalismo produtivo dominava em escala global, com a sua volatilidade típica.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve, a tática dominante da ação coletiva nesse período, exigirá alguma reflexão &#8211; até porque o status da greve, uma vez que se torna a figura principal do antagonismo social, oferece uma posição a partir da qual se pode refletir sobre a revolta. Cada ação esclarece a estrutura e a dinâmica da outra, cada uma revela mudanças nas metamorfoses subterrâneas e instáveis do capital. Isso é verdade não apenas de uma forma absoluta, segundo a qual a verdade de cada uma pode ser contrastada, mas também de acordo com as conceções políticas do par e do emparelhamento — o que poderíamos chamar de ideologias da revolta e da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">No capítulo anterior, propusemos a compreensão mais ampla possível de uma greve: uma luta pelo preço da força de trabalho e pelo próprio emprego, conduzida pelos trabalhadores como trabalhadores na esfera da produção. Essas características podem ser abstraídas e estendidas a qualquer ação orientada por elas. Essa greve chega cedo, coexistindo com a revolta à medida que ela reúne as suas forças.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é obviamente exagerado. Um experimento mental, digamos. Certamente está em desacordo com as compreensões convencionais desenvolvidas desde o século XIX, que oferecem uma porta muito mais estreita pela qual uma tática deve passar para ganhar esse nome. A greve restrita é geralmente definida de acordo com uma autodenominação ou autorreconhecimento, que deve ser acompanhado por um comportamento físico e político específico: ordeiro, ancorado no lugar, disciplinado, legalista, caracterizado pela recusa. Formas de aparência, em suma, que podem ser discernidas por um observador casual. Se um episódio falhar ou exceder esses padrões, ele não é considerado uma greve (podemos pensar nas greves dos campos de carvão de 1913-1914, que em algum momento da série concertada de greves se tornaram a Guerra dos Campos de Carvão do Colorado e depois o Massacre de Ludlow). Ou, como acontece repetidamente, os eventos que não correspondem a esse modelo de greve são apagados para que o nome greve possa preservar suas reivindicações. Quem se lembra agora como greves as revoltas dos trabalhadores têxteis de Lyon em 1831 e 1834, que exigiram salários, trabalho e justiça para os líderes presos por meio de barricadas e guerrilha? Esta greve chega tarde. O período de transição é muito mais longo. Exceto que, como veremos, não há transição alguma.</p>
<p style="text-align: justify;">O próprio Marx observa que 1830 marca a mudança na França de um estado de proprietários de terras para um de capitalistas. Hobsbawm generaliza a data como um ponto de viragem para a “consciência da classe trabalhadora” nos países de origem das duas revoluções burguesas e industriais, uma nova situação que “certamente surgiu entre 1815 e 1848”. Para ele, “na Grã-Bretanha e na Europa Ocidental em geral [1830] marca o início dessas décadas de crise no desenvolvimento da nova sociedade, que terminam com a derrota das revoluções de 1848 e o gigantesco salto económico após 1851” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A temporalidade é complexa, mas aponta para o atraso da greve no seu sentido estrito. Por consenso geral, a greve não tem existência real até 1830 ou, na verdade, por um bom tempo depois disso. Shorter e Tilly são a exceção parcial. A <em>greve</em> não aparece no índice de <em>The Making of the English Working Class</em>. O estudo cuidadoso de John Rule sobre o trabalho inglês de 1750 a 1850 raramente menciona a greve e, dentro desse período, a greve em sua narrativa ainda não está esclarecida, ainda em relação ambígua com intimidação, destruição de máquinas e outras atividades não relacionadas à greve &#8211; o conjunto predestinado de elisões que caracteriza a época. Esses fatos nos dizem tanto sobre as autoidentificações da época quanto sobre seus historiadores. A famosa pesquisa de Rudé sobre o período de 1730 a 1848 tem, na entrada <em>Greve</em>, um redirecionamento: “Veja disputas trabalhistas, ludismo, Londres, Paris”<strong>[2]</strong>. Sem dúvida, todas essas são coisas que se deve ver. A força da substituição é sugerir que devemos localizar a greve como um desenvolvimento tardio dentro do gênero mais amplo da disputa trabalhista, um desenvolvimento que, em 1848, ainda não havia surgido.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159504" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1.jpg" alt="" width="1190" height="1536" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1.jpg 1190w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-793x1024.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-768x991.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-640x826.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-681x879.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1190px) 100vw, 1190px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Seria tolice contestar tal conclusão. Certamente essa é a posição apresentada de forma persuasiva por Shorter e Tilly:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao concentrarmo-nos na greve, excluímos várias outras formas de conflito e de ação coletiva (as duas não são de forma alguma sinónimas)… Isso é conveniente, uma vez que a greve é uma das formas de ação mais fáceis de identificar, rastrear e descrever. As outras formas de conflito, protesto e autoexpressão que poderiam ser usadas para se ter uma ideia das mudanças nas orientações dos trabalhadores incluem a destruição de máquinas, sabotagem, brigas, manifestações, redação de panfletos e, talvez, rotatividade e absenteísmo; todas elas são muito mais difíceis de identificar do que as greves. Outras formas de ação coletiva que os trabalhadores têm empregado para alcançar objetivos comuns incluem a organização de partidos políticos, sociedades de ajuda mútua, grupos conspiratórios, sindicatos, planos de seguro e muitos outros empreendimentos cooperativos <strong>[3]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A preservação dos muitos modos de ação coletiva, da criatividade do antagonismo, é uma tarefa vital. Mas também há dificuldades aqui, enigmas qualitativos que vão além do âmbito da pesquisa quantitativa. Uma primeira sugestão da dificuldade é a tendência de localizar o surgimento da greve no ponto de inflexão em que ela se torna a tática principal, no lugar do momento de sua entrada no teatro da luta. Isso tem o efeito de sugerir uma ruptura histórica excessivamente clara entre revolta e greve. Além disso, a narrativa genérica em que a greve surge como uma espécie de condensação da disputa trabalhista esconde, certamente contra as intenções dos nossos historiadores mais hábeis, o surgimento da greve a partir da revolta, das lutas de circulação. Em vez de serem complementares e genealogicamente conjuntas, as duas táticas são rigidamente demarcadas tanto na sua natureza como na sua história, e colocadas em oposição. Isso mais tarde se revelará um problema para aqueles que tentam compreender o retorno da revolta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Espectáculo e Disciplina</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A oposição entre revolta e greve é um projeto declarado do século XIX que persiste em vários setores desde então. A dicotomia é produzida com sucesso por volta de meados do século. Considere a distância entre as revoltas de Bull Ring em 1839 e a greve dos fabricantes de vidro de Flint duas décadas depois. Cada um deve ser reconhecido como exemplar do seu género. A primeira começou com uma série de reuniões políticas realizadas no distrito comercial de Bull Ring, em Birmingham. A 4 de julho, o presidente da câmara e os magistrados chegaram e leram a Lei das Revoltas, momento em que a polícia chamada de Londres atacou a multidão de uma forma que suscitaria comparações amplas e inevitáveis como Peterloo. Consequentemente, seguiu-se uma revolta. “Janelas foram quebradas com tijolos e torrôes de açúcar foram saqueados da mercearia de Bourne antes de ser incendiada, e janelas fechadas foram atacadas com barras de ferro arrancadas da cerca”, deixando destroços suficientes para que “o Duque de Wellington chegasse ao ponto de comparar Birmingham às cidades que ele tinha visto saqueadas no continente durante as suas campanhas militares” <strong>[4]</strong>. Mais revoltas se seguiram, em Birmingham e em outros lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Em paralelo com o surgimento da arquitetura de vidro, a quebra de janelas passou a definir, no século XIX, o que Ian Hayward chama de “revolta espetacular”. Numa comparação perspicaz, Isobel Armstrong contrapõe as revoltas de 1839 à greve bem-sucedida dos vidreiros de Flint, iniciada em fábricas de várias cidades em dezembro de 1858 e que se prolongou até ao ano novo. A greve, muito debatida tanto dentro como fora do sindicato, define-se precisamente contra os hábitos revoltosos de 1839 e outros. Isto não é de admirar, dada a sua constituição: “A prática de quebrar vidros não tinha influência sobre os vidreiros e a sua greve disciplinada” <strong>[5]</strong>. Nisto, a sua autoconceção é paradigmática da ação laboral moderna. A greve é exatamente o que a revolta não é.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há dúvida de que esses dois eventos foram corretamente nomeados. O primeiro não é a forma <em>autêntica</em> da revolta por comida, que já havia passado do seu auge e entrado em declínio décadas antes. Mas é bastante semelhante — sobretudo por ter começado no mercado, com saques incluindo a apreensão de alimentos, batalhas sangrentas com o Estado e assim por diante. A ação posterior segue o formato da greve em todos os aspectos. Não é nenhum mistério por que ela deseja tão insistentemente se distinguir da revolta, dada a sua necessidade de reivindicar legitimidade tanto contra a repressão estatal quanto para obter apoio de outros sindicatos. Nesta conjuntura, a clara demarcação entre — e, de fato, a contraposição entre — greve e revolta <em>tornou-se</em> verdadeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser entendido como a <em>ideologia da ação coletiva</em> cimentada no período, em que revolta e greve assumem uma oposição política e até mesmo um antagonismo. O argumento aqui é que essa oposição é possível precisamente porque as duas ações foram definidas inteiramente de acordo com suas formas de aparência, que são consideradas como fornecendo um conhecimento claro de sua política, seu conteúdo social. Walter Benjamin observa: “É peculiaridade das formas <em>tecnológicas</em> de produção (em oposição às formas artísticas) que seu progresso e seu sucesso sejam proporcionais à <em>transparência</em> de seu conteúdo social. (Daí a arquitetura de vidro)” <strong>[6]</strong>. Produção industrial, progresso, arquitetura de vidro. Este é o mundo da greve. A ideologia da ação coletiva mantém essa ideia de transparência — que, ao olhar para a superfície, é possível ver diretamente as profundezas, ter acesso imediato ao conteúdo social. A greve torna-se greve ao ser <em>formalizada</em> contra a revolta. É a própria ordem, a janela intacta. A revolta, agora definida igualmente como o oposto da greve, deve igualmente encontrar o seu conteúdo na sua forma. Mas isso tem consequências paradoxais. A sua forma é desordenada; a desordem torna-se o seu conteúdo. Ninguém sabe o que a revolta quer. Ela não quer nada além da sua própria desordem, da sua opacidade brilhante. Brilhos e cacos de vidro estilhaçados.</p>
<p style="text-align: justify;">O objetivo não é sugerir que por baixo desta ideologia existe uma verdade contrária; não é assim que a ideologia funciona. Não devemos sugerir que a revolta e a greve são uma só, ou mesmo semelhantes. A divisão entre revolta e greve é necessária e até óbvia, e baseia-se nas mudanças mais substanciais na economia política da época. Em vez disso, a esperança é estar atento aos riscos do que pode ser perdido ao colocá-los em oposição rígida e estática. Ao perder a história em que a greve surge da revolta, perdemos o próprio processo de transformação e ficamos com os seus resultados diante de nós como dados adquiridos. Isso apresenta limites para uma periodização adequada dentro da história do capital. O “capitalismo” não é uma coisa homogénea. Nem é um fenômeno polidamente serial, uma situação sincrônica sucedendo discretamente outra. Fredric Jameson, na sua metodologia literária épica, insiste (em uma escala diferente): “O que é sincrónico é o &#8216;conceito&#8217; do modo de produção; o momento da coexistência histórica de vários modos de produção não é sincrônico neste sentido, mas aberto à história de forma dialética” <strong>[7]</strong>. É precisamente a sincronização — a revolta com uma fase do desenvolvimento do capital, a greve com outra, uma ruptura entre elas — que obscurece esta situação. Se a nossa datação sugere que a era das revoltas termina antes do início da era das greves, isso não pode oferecer um testemunho completo sobre o equilíbrio instável dentro do próprio capital, as mudanças continuamente provocadas pela dinâmica autodestrutiva do valor.</p>
<p style="text-align: justify;">Armstrong esforça-se por superar este limite, por transpor o espaço morto aberto entre a revolta e a greve. A partir de revoltas anteriores, ela deduz o que chama de “os três princípios cardinais da gramática da quebra de vidros — ação coletiva, o corpo como propriedade e a recusa da abstração”; ela encontra estes princípios ressurgindo na greve posterior <strong>[8]</strong>. Esta é uma leitura sutil e perspicaz sobre questões cruciais, sobretudo a rejeição do que ela chama de código patrício de quebra de janelas, no qual “quebrar janelas é um ato informal de violência, um certo <em>estilo</em> de crime sem conteúdo” <strong>[9]</strong>.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159505" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825.jpg" alt="" width="1000" height="815" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-768x626.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-515x420.jpg 515w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-640x522.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-681x555.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a gramática de Armstrong mantém um certo formalismo, um certo foco discursivo — assim como a ideia de Hayward de revolta espetacular, que, em primeiro lugar, pode ser entendida como uma resposta ao novo espetáculo da modernidade urbana e industrial. O conteúdo social tanto da revolta quanto da greve, não pode ser limitado aos princípios dos participantes, seus afetos e crenças. Qual é, então, o conteúdo social da greve? Ele é duplo. Como observado, é o confronto do trabalho com o capital na tentativa de definir o preço da força de trabalho (contra o preço zero do desemprego). Mas o conteúdo social da greve é também a <em>própria produtividade</em>, e isso é extremamente importante. Não é o “capitalismo” em algum sentido abstrato ou geral do qual a greve depende. Também não pode ser reduzido às misérias particulares da vida mecanizada da industrialização, embora ninguém possa duvidar que estas são um estímulo brutal. É antes o conjunto de mudanças que acompanham a transição do capital comercial para o capital industrial que leva muitos para os novos setores produtivos e que leva o capital a concentrar-se também aí — tal como muitos foram anteriormente levados para o mercado de subsistência num processo global desigual.</p>
<p style="text-align: justify;">Um fato evidente, embora muitas vezes negligenciado, é que a eficácia limitada da greve baseada na procura coincide, em geral, não com a fragilidade do capital, mas com a sua vitalidade, quando o circuito salário-mercadoria está produzindo mais-valia e acumulação. Quando a produção não está em expansão, um capitalista tem menos interesse em preservar a sua continuidade e pode tentar resistir aos grevistas. “Mas argumentar que um empregador poderia resistir aos seus trabalhadores em greve”, observa John Rule sobre as primeiras greves inglesas, “não significa que fosse sempre do seu interesse fazê-lo. Ele não iria querer renunciar aos elevados lucros disponíveis com a expansão da produção num mercado em ascensão. Em tais condições, era mais racional ceder do que resistir às exigências” <strong>[10]</strong>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Muito e Muito Poucos</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Assim surge a categoria das lutas de produção, para as quais a greve é o arquétipo. A greve é a forma de ação coletiva própria da fase produtiva do capital. Ela surge antes disso, testa-se contra o mundo, mas só consegue realizar-se com o período de acumulação do capital. Esta fase não chega pontualmente ou autonomamente quando o capital comercial ou centrado na circulação se esgota, mas surge a partir dele e permanece entrelaçada com ele. A produção e a circulação mantêm uma relação dialética clássica: opostas e mutuamente constitutivas, a sua contradição (a contradição entre valor e preço) mantém-nas em movimento conjunto. A origem da greve é a transformação que move corpos e capital para a esfera da produção. Nem todos eles, nem tudo, continuaremos a insistir. Mas depois de um certo limiar. A greve emerge da circulação, mas torna-se a tática principal quando o limiar é ultrapassado, quando uma mudança quantitativa na estrutura da economia torna-se qualitativa. No final, as questões podem ser formuladas da seguinte forma: a greve ascende quando o local de reprodução proletária se desloca para o salário, que deve, ao mesmo tempo, tornar-se o ponto crucial do próprio circuito de reprodução do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">A purificação e a autonomização da greve no século XIX são, portanto, unilaterais; elas mantêm apenas a oposição entre produção e circulação, sem a sua unidade. Ou seja, na dialética da continuidade e da ruptura, o cenário de greve contra a revolta é necessário, mas insuficiente, inclinando-se demais para a ruptura, para a descontinuidade e a oposição formal. Será importante reconhecer os momentos em que essa continuidade, agora oculta por trás do véu da mudança histórica, se torna visível.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos voltar a 1839 simplesmente para recuperar a heterogeneidade do momento. As reuniões políticas que inspiram a violência são, naturalmente, as reuniões cartistas. Porta-estandartes dos muitos de Shelley, eles são a organização trabalhista mais avançada da Grã-Bretanha. O seu jornal, <em>The North Star</em>, publica “To The People” — a passagem de “Masque of Anarchy” que inclui o famoso verso — em abril de 1839. Em maio, publica um poema de “E.H. (Uma Operária de Stalybridge)” e, em junho, um poema anónimo, “Versos de um Operário”. Esta é a edição atual quando começam as revoltas de Bull Ring <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O movimento sindical organizado já está bem avançado. Como diz Eric Hobsbawm,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na Grã-Bretanha, as tentativas de unir todos os trabalhadores em “sindicatos gerais”, ou seja, de romper o isolamento setorial e local de grupos específicos de trabalhadores para alcançar a solidariedade nacional, talvez até universal, da classe trabalhadora, começaram em 1818 e foram perseguidas com intensidade febril entre 1829 e 1834 <strong>[12]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Portanto, não é tão fácil definir a política do Bull Ring. Essa incerteza empalidece diante dos acontecimentos de três anos depois, talvez os mais indecisos do século XIX na Grã-Bretanha. O mistério está todo numa única frase: “O ponto de combustão social espontânea na Grã-Bretanha foi atingido na greve geral não planejada dos cartistas no verão de 1842 (as chamadas &#8216;revoltas dos plugues&#8217;)” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">“Espontânea”, “não planejada”. Queremos destacar estas palavras; sabemos muito bem que significam revolta. O episódio salta dos mineiros de Staffordshire para fábricas, moinhos e minas em toda a Grã-Bretanha, reunindo finalmente mais de um milhão de trabalhadores em seu entorno. Apresenta as características básicas da greve laboral de forma bastante perfeita: assume a forma de recusa de trabalho. Após três anos de colapso industrial, as suas principais reivindicações, aprovadas como resoluções ao longo da ação, dizem respeito à duração da jornada de trabalho e à restauração dos salários aos níveis de 1820, bem como à redução dos aluguéis. Hobsbawm continua a insistir, no entanto, que é tanto uma greve excessiva quanto insuficiente: “A greve geral provou ser inaplicável sob o Cartismo, exceto (em 1842) como uma revolta espontânea contra a fome” <strong>[14]</strong>. Em tudo isso, ele parece ansioso por reconhecer que a greve e a revolta podem ser contínuas, enquanto ainda tenta preservar a ideia da greve pura como algo diferente. É uma confusão. Mas essa confusão é a verdade das coisas.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses deslizes são o resultado inevitável de deixar a forma representar o conteúdo com demasiada facilidade. São também sinais da coexistência de Jameson, da presença de tensões dentro da espiral diacrónica do capital. Como tal, tornam pensáveis outros momentos de coexistência, outros momentos de metamorfose dentro do capital e, portanto, nas suas formas de ação coletiva. Uma vez que o peso deste livro se inclina para pensar uma metamorfose complementar no presente, isto é realmente sugestivo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159503" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962.jpg" alt="" width="1224" height="962" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962.jpg 1224w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-1024x805.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-640x503.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-681x535.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1224px) 100vw, 1224px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Eric Hobsbawm, <em>The Age of Revolution: Europe 178-1848</em>, Londres: Abacus, 2007, 255, 141.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> George Rudé, <em>The Crowd in History: A Study of Popular Disturbances in France and England, 1730-1848</em>, Londres: Lawrence and Wishart, 1984, 278.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Shorter e Tilly, <em>Strikes in France</em>, 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Michael Weaver, “Os motins de Birmingham Bull Ring de 1839: variações sobre um tema de conflito de classes”, <em>Social Science Quarterly</em> 78: 1, março de 1997, 146, 137.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Isobel Armstrong, <em>Victorian Glassworlds: Glass Culture and the Imagination 1830-1880</em>, Oxford: Oxford University Press, 2008, 69. Armstrong também conecta os dois eventos por meio da estranha coincidência de que um dos magistrados de Birmingham de 1839, William Chance, era sócio de uma das maiores empresas de fabricação de vidro da Inglaterra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Walter Benjamin, <em>The Arcades Project</em>, trad. Howard Eiland e Kevin McLaughlin, Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2002, 465 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Fredric Jameson, <em>The Political Unconscious: Narrative as Socially Symbolic Act</em>, Ithaca: Cornell University, 2014, 95.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Armstrong, <em>Victorian Glassworlds</em>, 73.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 65 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> John Rule, <em>The Labouring Classes in Early Industrial England 1750-1850</em>, Londres: Addison Wesley Longman, 1986, 261 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Mike Sanders, <em>The Poetry of Chartism: Aesthetic, Politics, History</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 2009, 233.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Hobsbawm, <em>Age of Revolution</em>, 255.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Ibid., 208.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Ibid., 256-7.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram o capítulo são da autoria de Käthe Kollwitz.</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (4)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 19:51:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Desde os seus primórdios, a revolta tem sido uma luta de circulação por excelência. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p><strong>CAPÍTULO 2</strong></p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Era de Ouro da Revolta</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Entre os muitos locais onde se poderia começar a história, cada um deles atormentado pela impossibilidade de chegar a um verdadeiro início, poderíamos olhar para Brístol e King&#8217;s Lynn em 1347. É demasiado cedo, claro. Estes acontecimentos são anómalos no gráfico de dispersão dos acontecimentos que entraram nos contos. Na melhor das hipóteses, são precursores. Talvez seja melhor começar no século XVI, onde “as revoltas por comida não seguiram uma tradição antiga: os primeiros foram como pequenos mamíferos peludos ofuscados pelos grandes dinossauros destruidores, que foram as rebeliões dinásticas e camponesas e as batalhas de cercamento” <strong>[1]</strong>. Ou o século XVIII de Thompson, <em>locus classicus </em>indiscutível. Tilly, em sua maior amplitude, propõe o período de 1650-1850. John Bohstedt vê um intervalo de três séculos em que “o nosso terceiro século, de 1740 a 1820, foi a era de ouro dos revoltas por comida” <strong>[2]</strong>. Thompson observa que estes são frequentemente identificados como “insurreições” ou “levantes dos pobres”. Outros, seguindo Thompson, advertem contra a imposição de distinções demasiado rígidas entre os tipos, optando por recomendar, em vez disso, a abordagem de “afastar-se da compartimentação de protestos. Embora a divisão dos protestos em diferentes &#8216;tipos&#8217; &#8211; alimentares, industriais, políticos, convencionais e assim por diante &#8211; possa ser mais organizada, ela obscurece a nossa compreensão dos próprios vínculos que os perpassam” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ligação é a própria ligação: a troca como síntese social. Marx observa que “a categoria econômica mais simples, por exemplo, o valor de troca, pressupõe uma população. Além disso, uma população que produz em relações específicas”. É com isto que “a colocação do produto no mercado… pode ser considerada mais exatamente como a transformação do produto <em>numa</em> <em>mercadoria</em>. Só no mercado é que ele é uma <em>mercadoria</em>” <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ascensão dos mercados, no sentido abstrato, é inevitavelmente desigual no espaço e no tempo, e muitas vezes difícil de ver. No entanto, as revoltas alimentares acompanham o mercado no seu percurso para se tornarem a forma paradigmática de conflito social. “À medida que uma massa crescente de trabalhadores passou a depender dos mercados para obter os seus alimentos, a Inglaterra tornou-se cada vez mais vulnerável ao fracasso das colheitas e às revoltas por comida”, Bohstedt nota <strong>[5]</strong>. Tilly diz o seguinte sobre a França: “Notamos o aumento duradouro das revoltas alimentares no final do século XVII, à medida que a pressão sobre as comunidades para cederem as reservas locais de cereais às exigências do mercado nacional aumentou” <strong>[6]</strong>. Richard Price, retomando o quadro de Thompson: “As revoltas dos preços e as lutas por conta da utilização racionalizada da terra foram formas características deste choque entre as inovações das forças de mercado e a afirmação de uma &#8216;economia moral&#8217; de obrigações recíprocas e responsabilidades” <strong>[7]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão da “economia moral” apoia-se fortemente no significado de auto- reconhecimentos particulares por parte dos antagonistas. Neste aspecto, é exemplar de muita reflexão sobre a revolta, um dispositivo explicativo que se baseia na intenção e na <em>razão </em>como baluarte contra análises despolitizantes, contrapondo a autorreflexão ao mero reflexo. É Thompson no seu momento mais justificatório, quando a justificação não é necessariamente a tarefa em causa. Um historiador contrapõe uma “economia pragmática”, argumentando: “Se as revoltas alimentares e as crenças paternalistas e da economia moral estavam tão enraizados na defesa da tradição como Thompson argumentava, essas tradições e crenças deveriam ter-se manifestado nas primeiras ondas nacionais de revoltas, 1740, 1756-57 e 1766” <strong>[8]</strong>. No entanto, “já deve ter ficado claro que os desordeiros de 1740 estavam mais interessados em confiscar alimentos do que em regular os mercados” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A apreensão de alimentos e a regulação dos mercados opõem-se apenas no domínio da ideologia. Como ambos os lados parecem não perceber, o sentido moral da multidão (caso exista) é um instrumento de necessidades pragmáticas, não a sua transgressão. A causa do acontecimento está noutro lado, na transformação social. Quando o mercado se generaliza e a troca se torna, nos termos de Alfred Sohn-Rethel, uma “segunda natureza puramente social” ao lado da primeira natureza do uso &#8211; quando a própria reprodução é cercada por todos os lados &#8211; o preço não pode deixar de se tornar um local de antagonismo imediato.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159440" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project.jpg" alt="" width="1280" height="885" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-300x207.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-1024x708.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-768x531.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-607x420.jpg 607w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-640x443.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-681x471.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />Mas não devemos apoiar-nos demasiado na magia do “preço”. Insistir na distinção é negligenciar o facto de que o zero da apreensão também é um preço; está em relação com o total de fundos disponíveis para satisfazer as necessidades básicas. No contexto do mercado, a expropriação direta encontra-se no mesmo continuum de uma luta redistributiva pela sobrevivência que a exigência de um custo mais baixo dos cereais. O próprio Tilly faz esta observação com respeito à Inglaterra, França e, eventualmente, Estados Unidos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Durante o período de 1650 a 1850, as pessoas, na maioria das vezes, impediam que os cereais saíssem da cidade, confiscando o carregamento, ou forçavam os alimentos locais a entrar no mercado a um preço inferior ao que o proprietário preferia. As autoridades chamavam a estas ações revoltas alimentares, mas na realidade consistiam em pessoas comuns que faziam quase exatamente o que as próprias autoridades faziam em tempo de escassez &#8211; proibir que os cereais saíssem da cidade, confiscar os abastecimentos locais, regular o preço <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A apreensão de alimentos <em>é</em> uma regulação do mercado, tal como a exportação de alimentos em caso de escassez é uma regulação do mercado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O</strong></em> <em><strong>Mercado</strong></em> <em><strong>Mundial</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">É por esta razão que começamos nas docas. Em 1347, ocorrem duas revoltas notáveis na Inglaterra, nos portos da Liga Hanseática de Brístol e King&#8217;s Lynn:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Uma vez a bordo, a multidão, assumindo o poder real, descarregou os navios “contra a vontade dos proprietários” e pôs os cereais à venda “ao seu próprio preço”. Os manifestantes também apreenderam e venderam outros carregamentos de milho que estavam a ser trazidos para Lynn para serem comercializados e depois, “sob a sua autoridade”, condenaram os proprietários ou transportadores à chacota pública, “sem processo legal”. Por último, a multidão foi acusada de prender o presidente da câmara e outros habitantes e de emitir proclamações quase reais <strong>[11]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta assunção carnavalesca do poder assombra a revolta; mais de quatro séculos depois, as Revoltas de Gordon assinarão no muro quebrado da prisão de Newgate, “Sua Majestade, Rei Mob”. A partir de um certo ponto, o comando sobre o preço não é tão fácil de distinguir da soberania. Mas é um fato diferente que é mais revelador aqui. No porto de Bristol, os navios dirigem-se para a Gasconha, os que partem de King&#8217;s Lynn para Bordeaux.</p>
<p style="text-align: justify;">O mercado mundial está em formação, um projeto de comerciantes, militares e bancos. Os acontecimentos de Bristol e de King&#8217;s Lynn ocorrem pouco depois de a Inglaterra não ter pago os empréstimos maciços de Florença com os quais financiou a invasão de França; tanto a Gasconha como Bordeaux são os eixos da Guerra dos Cem Anos. A rede comercial do Mediterrâneo propaga esta volatilidade, o “grande crash” da década de 1340 (onde se regista o primeiro colapso bancário, que derrubou as Casas de Bardi e Peruzzi). Contra este drama no sistema mundial nascente, as revoltas de exportação de 1347 não desempenham senão um papel secundário <strong>[12]</strong>. Contudo, estão costurados nesse tecido, urdume e trama.</p>
<p style="text-align: justify;">O porto, o entreposto, mesmo numa escala limitada (pois o que é King&#8217;s Lynn comparada com Veneza na Alta Idade Média, ou com Amsterdã do século XVII?) é o mais próximo que o mundo feito chegará da intersecção da teoria da produção e da circulação. Se é a azáfama do mercado local em grande escala, é ao mesmo tempo a condensação de todas as abstrações do espaço mundial, dos acordos comerciais, dos portulanos, do direito do almirantado. É a paisagem construída onde se manifesta a relação entre o local e o global. Fora do porto, é difícil conciliar as duas coisas, se a pessoa não tiver viajado muito: o quotidiano cívico da ágora e o sublime fictício do comércio oceânico. É a distância entre o livro contábil e a ficção de aventuras. Franco Moretti observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">As aventuras tornam os romances longos porque os tornam amplos; são os grandes exploradores do mundo ficcional: campos de batalha, oceanos, castelos, esgotos, pradarias, ilhas, bairros de lata, selvas, galáxias… Margaret Cohen, com quem aprendi muito sobre este assunto, vê-as como uma metáfora de expansão: o capitalismo na ofensiva, planetário, atravessando os oceanos. Penso que tem razão, e acrescentaria apenas que a razão pela qual a aventura funciona tão bem neste contexto é o facto de ser tão boa a imaginar <em>a guerra</em> <strong>[13]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nesta perspetiva, o feito de <em>Robinson Crusoé </em>é sintetizar o livro de contábil e a aventura &#8211; descobrir entre as verdades que a modernidade oferecerá, a unidade dos dois. Como diz Marx, “assim como a troca privada cria o comércio mundial, a independência privada cria completa dependência do chamado mercado mundial” <strong>[14]</strong>. O aforismo de Walter Raleigh precede-o: “Todo o comércio é comércio mundial; todo o comércio mundial é comércio marítimo”. Uma dialética da banca do comerciante e do mercado mundial, portanto, o emaranhado dos fenómenos mais locais e mais longínquos. E, juntamente com isso, a dialética da revolta e da guerra, King&#8217;s Lynn e Calais, cada um no extremo de uma meada partilhada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159439" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit.jpg" alt="" width="1280" height="971" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-300x228.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-1024x777.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-768x583.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-554x420.jpg 554w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-640x486.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-681x517.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />Pouco importa, para voltar a um tema anterior, se os desordeiros possuem pensamentos sobre os mercados mundiais, conflitos distantes, a malha apertada do espaço global. Têm uma tarefa prática que surge dentro destes, a partir destes, e que participa neles independentemente disso. Os participantes não conseguem parar de se virar para estas coisas que assombram todos os horizontes. Thompson, ao falar do planejamento e paciência negligenciados da revolta no mercado em toda a sua particularidade local, é atraído pela atração magnética da exportação:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Além disso, exigiam mais preparação e organização do que parece à primeira vista; por vezes, a “multidão” controlava o mercado durante vários dias, à espera de que os preços baixassem; por vezes, as ações eram precedidas de panfletos escritos à mão (e, na década de 1790, impressos); por vezes, as mulheres controlavam o mercado, enquanto grupos de homens interceptavam os cereais nas estradas, nas docas, nos rios; muito frequentemente, o sinal de ação era dado por um homem ou uma mulher que transportava um pão no alto, decorado com uma fita preta e com a inscrição com um slogan qualquer” <strong>[15]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Aqui, o senso comum da história da revolta torna-se uma narração, na qual a revolta de exportação é uma espécie de digressão, uma sub-história. Finalmente, é de grande importância, ao traçar o longo arco histórico da revolta, compreender que isso inverteu as coisas. Consideremos o século das ondas de revoltas nacionais. Em 1740, a grande maioria são “ações de multidão para impedir o transporte de alimentos”. As revoltas concentram-se em torno das costas e dos cursos de água: as fozes do Tamisa e do Severn, King&#8217;s Lynn, ao longo do Ouse e até o Union Canal. As revoltas mais generalizados de 1756-1757 registam um aumento tanto na fixação explícita de preços como nos ataques a comerciantes, mas continuam a orientar-se para os transportes; agrupam-se novamente em torno das vias navegáveis e em direção às Midlands. Por volta de 1795, o “ano culminante” de Thompson para as revoltas, apoiado pela fome e pelo jacobinismo canalizado, as revoltas encontram-se em todo o lado abaixo de Northumberland; a fixação de preços é agora igual aos transportes. Não há falta de nenhum dos dois. Em 1800-1801, as revoltas somam-se uns aos outros, espalhando-se pelas Midlands e atravessando a costa ao sul, no último pico antes das revoltas começarem a declinar na Inglaterra <strong>[16]</strong>. E não é só na Inglaterra; o rumo é muito semelhante nas colônias norte-americanas, onde os amotinados exemplares de 1709 a 1713 atacaram navios, tendo num caso partido um leme contra a partida de um carregamento de trigo; estes acontecimentos estão intimamente ligados ao comércio emergente das Índias Ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">O padrão é perfeitamente claro. A revolta das exportações, a intervenção física direta nos transportes, dificilmente é uma divergência ou improvisação na trajetória da revolta, mas antes a sua base. Está lá na origem, é uma invenção dos mercados nacionais e internacionais emergentes, do financiamento da bolsa nacional, da mercantilização da agricultura e da correspondente destruição da autossuficiência comunitária. Desde os seus primórdios, a revolta tem sido uma luta de circulação por excelência. Mesmo as sedições mais discretas e rústicas partilharam este contexto amplo. Depois de 1521, teve início uma expansão ainda mais dramática e sangrenta, a catástrofe da colonização, escravidão, das rotas das especiarias &#8211; aquilo a que alguns historiadores chamarão de “a primeira globalização”, a era mercantilista que integra a economia mundial no intervalo entre as viagens de Colombo e Da Gama num extremo, e a Revolução Industrial por outro. O fato de esta época mercantilista coincidir mais ou menos com a primeira época de revoltas não é uma correlação reveladora, mas sim a base histórica e teórica da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e</strong></em> <em><strong>Luta</strong></em> <em><strong>de</strong></em> <em><strong>Classes</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">No primeiro florescimento da revolta estão as sementes do seu declínio. A Inglaterra é o centro da parte inicial deste estudo, não por ser a primeira casa da revolta, mas por ser a casa da primeira transição, <em>revolta</em><em>-greve</em>. A lógica da revolta destaca-se de forma mais acentuada, em contraste. O próximo capítulo é dedicado a esta transição. No entanto, as dinâmicas subjacentes a essa transição já estão a emergir durante a era de ouro da revolta. Num movimento de auto-cancelamento e auto-propulsão que já nos deve ser familiar, esta emergência é tanto a condição para essa era de ouro como para o que a levará ao fim.</p>
<p style="text-align: justify;">O desenvolvimento do mercado coincide com o aumento da pressão sobre a população em toda a Europa, a partir de finais do século XV, e com o concomitante aumento dos preços dos cereais. Nestas condições, de acordo com o relato persuasivo de Brenner sobre a ascensão do capitalismo em Inglaterra, “encontramos os proprietários a consolidar as posses e a arrendá-las a grandes arrendatários capitalistas que, por sua vez, as cultivariam com base no trabalho assalariado e melhoramento agrícola” <strong>[17]</strong>. Na França, este processo é inibido pela tendência do Estado para proteger a propriedade dos camponeses. Daí resultam duas vias de desenvolvimento, eloquentemente avaliadas por Ellen Meiksins Wood:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">a dinâmica do crescimento auto-sustentado e a necessidade constante de melhorar a produtividade do trabalho pressupunham transformações nas relações de propriedade que criavam a necessidade de tais melhorias simplesmente para permitir que os principais atores econômicos &#8211; proprietários e camponeses &#8211; se reproduzissem. As divergências entre a Inglaterra e a França, por exemplo, pouco tinham a ver, em primeira instância, com as respectivas capacidades tecnológicas. Distinguiam-se pela natureza das relações entre proprietários e camponeses: um caso exigia o aumento da produtividade do trabalho, o outro não, e, de certa forma, até impedia o desenvolvimento das forças produtivas. O impulso sistemático para revolucionar as forças de produção foi mais o resultado do que a causa <strong>[18]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A pequena produção camponesa podia ser intensificada, e muitas vezes foi. No entanto, isso era geralmente feito através do aumento da mão de obra. Não se tratava de uma fuga à armadilha malthusiana e, como Brenner observa, dependia de uma maior produção de cereais de base noutros locais:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O desenvolvimento econômico inglês dependia assim de uma relação simbiótica quase única entre a agricultura e a indústria. Tratou-se, de fato, em última análise, de uma revolução agrícola, baseada na emergência de relações de classes capitalistas no campo que tornou possível que a Inglaterra se tornasse a primeira nação a experimentar a industrialização <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estes diferentes caminhos ditam diferentes lutas:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na Inglaterra, é claro, a revolta camponesa era dirigida contra os senhorios, numa vã última tentativa para defender a propriedade camponesa em desintegração contra a invasão capitalista que avançava. Na França, o alvo da revolta camponesa era, tipicamente, a tributação esmagadora do Estado absolutista <strong>[20]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Neste caso, Brenner refere-se a revoltas camponesas como a Rebelião de Kett, em 1549, a maior das revoltas de cercamento do período. Como já foi referido, estas revoltas estão relacionadas com as revoltas por comida pela questão da subsistência, mas tratam-se de uma rede ampla. Podemos aperfeiçoar esta ideia sugerindo que a revolta camponesa é como um tio daquilo que acabaremos por reconhecer como a revolta, uma posição feudal contra a reestruturação que lentamente perde a sua força à medida que o seu mundo se desvanece de forma desigual. A revolta sobrevive depois de o seu parente mais velho ter ficado na memória. Mas durante algum tempo desenvolve-se paralelamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159441" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder.jpg" alt="" width="1280" height="913" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-300x214.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-1024x730.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-768x548.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-589x420.jpg 589w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-640x457.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-681x486.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />É de esperar que assim seja. O mercado, o mundo das trocas e do consumo, tem uma longa história. Foi este fato que levou Fernand Braudel a afirmar que a economia tem três camadas. A vida quotidiana constitui a camada de base, com o mercado por cima. “Depois, ao lado, ou melhor, acima desta camada, vem a zona do anti-mercado, onde vagueiam os grandes predadores e onde a lei da selva entra em ação” <strong>[21]</strong>. O que isto deixa escapar é a forma como o capitalismo não é simplesmente uma camada acrescentada, mas também uma relação social que transforma o conteúdo do mercado que encontra ante si, preservando inicialmente a sua forma (e fazendo cada vez mais o mesmo com a vida quotidiana). Agora será onde o valor se realiza, por detrás da cortina de comprar barato e vender caro. O capitalismo é a internalização do comércio, não o seu contrário: um capitalismo inicialmente mercantil, circulatório. E o período em que este processo de internalização estiver em plena atividade &#8211; depois de iniciada a revolução agrícola, antes da revolução industrial &#8211; será a era de ouro da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> John Bohstedt, <em>The Politics of Provisions: Food Riots, Moral Economy, and Market Transition in England</em>, c. 1550-1850, Surrey, Reino Unido: Ashgate, 2013, 27.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> John Bohstedt, “The Pragmatic Economy, the Politics of Provisions and the &#8216;Invention&#8217; of the Food Riot Tradition in 1740”, in<em> Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, eds. Adrian Randall e Charles Molesworth, Nova York: St. Martin&#8217;s Press, 2000, 57-59.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Adrian Randall e Charles Molesworth, “The Moral Economy: Riots, Markets, and Social Conflict,” in <em>Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, 12.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 101, 534 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Bohstedt, “Pragmatic Economy”, 57.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Tilly, “Burgundy”, 503.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Richard Price, <em>Labour in British Society: An Interpretive History</em>, Londres: Croom Helm, 1968, 29.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Bohstedt, “Pragmatic Economy”, 75.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 67.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Tilly, “Speaking Your Mind”, 470.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Buchanan Sharp, “The Food Riots of 1347 and the Medieval Moral Economy,” in <em>Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, eds. Adrian Randall and Charles Molesworth, New York: St. Martin&#8217;s Press, 2000, 35-35.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Vale a pena notar aqui que “sistema mundial” não pretende designar a totalidade do globo e, então, tratar a Europa Ocidental como se ela pudesse desempenhar esse papel na análise, como tantas vezes acontece na imaginação ocidental. Como Immanuel Wallerstein esclarece, “A inclusão do hífen teve como objetivo sublinhar que não estamos falando de sistemas, economias, impérios do (todo) mundo, mas de sistemas, economias, impérios que são um mundo (mas muito possivelmente, e de fato geralmente, não abrangendo todo o globo)”. Immanuel Wallerstein, <em>World-Systems Analysis: An Introduction</em>, Durham: Duke University Press, 2004, 16-17.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Franco Moretti, “The Novel: History and Theory”, <em>New Left Review</em>, n.º 52, julho-agosto de 2008, 115, 124.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 159.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> E. P. Thompson, <em>The Making of the English Working Class</em>, Vintage Books, 1966, 65. Ele continua com uma nota de rodapé de J. F. Sutton, The Date-Book of Nottingham, Nottingham, ed. de 1880, p. 286: “Uma ação em Nottingham, em setembro de 1812, começou com várias mulheres colocando um pão de meio centavo no topo de uma vara de pescar, depois de pintá-lo com ocre vermelho e amarrar nele um pedaço de crepe preto, emblemático… da &#8216;fome sangrenta vestida com saco de cilício&#8217;”. A bandeira vermelha e preta começa no pão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Andrew Charlesworth, ed., <em>An Atlas of Rural Protest in Britain 1548-1900</em>, Londres: Croom Helm, 1983, 81, 84, 98, 102.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “Agrarian Class Structure and Economic Development in Pre-Industrial Europe”, <em>Past and Present</em>, n.º 70, fevereiro de 1976, 61.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ellen Meiksins Wood, <em>The Origin of Capitalism: A Longer View</em>, Londres: Verso, 2002, 66-7.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Brenner, “Agrarian Class Structure” (Estrutura de classes agrárias), 68.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Ibid., 70.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Fernand Braudel, <em>The Wheels of Commerce: Civilization and Capitalism, Fifteenth-Eighteenth Century</em>, vol. 2, Berkeley: University of California Press, 1982, 230.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Pieter Bruegel (1526–1569)</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2026 16:51:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro? Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO (continuação)</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Mercado e o Chão da Fábrica</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A principal dificuldade em definir a revolta advém de sua profunda associação com a violência; para muitos, esta associação é tão carregada afetivamente para um lado ou para outro que é difícil de dissipar e, por sua vez, dificulta perceber outras coisas. Sem dúvida, muitas revoltas envolvem violência — talvez a grande maioria, se incluirmos danos materiais à propriedade, bem como ameaças explícitas ou <em>sub voce</em> [indiretas]. Não está totalmente claro se tal inclusão é natural ou razoável. Que dano material seja igual a violência não é uma verdade, mas a adesão a um conjunto particular de ideias sobre propriedade, relativamente recente, que envolve identificações específicas entre humanos e riqueza abstrata do tipo que culmina, por exemplo, no entendimento jurídico de que corporações são pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, essa insistência na violência da revolta obscurece a violência cotidiana, sistemática e onipresente que persegue a vida cotidiana na maior parte do mundo. A visão de uma sociabilidade geralmente pacífica que só excepcionalmente irrompe em violência é um imaginário acessível apenas a alguns. Para os demais — a maioria — a violência social é a norma. A retórica contra a revolta violenta torna-se um dispositivo de exclusão, voltado não tanto contra a “violência”, mas contra grupos sociais específicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao longo de mais de dois séculos, as greves frequentemente também envolveram violência: batalhas campais entre trabalhadores de um lado e policiais, fura-greves e mercenários do outro, que em seu auge assemelhavam-se a combates militares. Se estendermos a categoria como acima, a violência é onipresente na greve, mesmo como uma espécie de contraviolência defensiva. Reportando da França em 1968, o poeta italiano Angelo Quattrocchi observou:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores podem ameaçar destruir as máquinas, e a ameaça por si só pode impedir uma intervenção armada. Senhores da fábrica, a despossessão é sua maior força. As máquinas, o Capital, propriedade de outros e usufruído por outros, estão agora em suas mãos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta passagem pretende distinguir a greve limitada, para Quattrochi um evento covarde e coreografado, da ocupação de fábrica. É sugestivo que ele tenha escolhido fazer a distinção naquele momento, observando uma Paris onde revolta e greve entraram em intensa colaboração e competição, cada uma tentando transcender não apenas os seus próprios limites, mas também os da outra. Dito isso, o servilismo cinzento da greve limitada é, em si, um desenvolvimento histórico particular. A situação real que ele descreve, o potencial dos trabalhadores para disporem das engrenagens da produção como bem entenderem, está no cerne da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso pressupõe que já sabemos a diferença entre revolta e greve. Se não é a violência, o que é então? E. P. Thompson, cujo pensamento é a pedra angular deste livro, fornece a base para uma resposta em seu memorável “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. Se essa resposta foi curiosamente ignorada, é quase certamente porque o ensaio nunca formaliza completamente a lógica que apresenta. Criticando as reduções e a força despolitizadora contidas no termo “bread riot” (revolta do pão), ele produz uma visão mais sistemática da economia política da revolta:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tem-se sugerido que o termo “revolta” é uma ferramenta de análise pouco afiada para tantas queixas e motivos particulares. É igualmente um termo impreciso para descrever a ação popular. Se procuramos a forma característica da ação popular, não devemos considerar bate-bocas junto às padarias de Londres, nem mesmo as grandes contendas provocadas pelo descontentamento com os grandes moleiros, mas as “rebeliões do povo” (especialmente em 1740, 1756, 1766, 1795 e 1800) nas quais se destacaram os mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias. O notável sobre essas “insurreições” é, primeiro, a sua disciplina, e, segundo, o fato de mostrarem um padrão de comportamento cuja origem devemos buscar centenas de anos antes; um padrão que se torna mais, e não menos, sofisticado no século XVIII; que se repete, aparentemente de forma espontânea, em diferentes partes do país e depois da passagem de muitos anos tranquilos. A ação central nesse padrão não é o saque dos celeiros, nem o furto de grãos e farinha, mas “fixar o preço” <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É precisamente esta a situação que se inverterá com a virada do século:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O conflito econômico das classes na Inglaterra do século XIX encontrou a expressão característica na questão dos salários: no século XVII os trabadores mobilizavam-se rapidamente e partiam para a ação por causa do aumento dos preços <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Thompson capta a textura da transformação profunda em curso, de forma tão elusiva quanto imanente:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal começou. Nesses anos, a forma alternativa de pressão econômica — a pressão sobre os salários — está se tornando mais vigorosa; existe algo mais que retórica por trás da linguagem da sedição — organização de ligas clandestinas, juramentos, o obscuro “Ingleses Unidos”. Em 1812, os tradicionais motins da fome coincidem em parte com o luddismo. Em 1816, os trabalhados de East Anglia não só determinavam os preços, mas também exigiam um salário mínimo e o fim do sistema <em>speenhamland</em> de assistência aos pobres. Eles antecediam a revolta muito diferente dos trabalhadores de 1830. A forma antiga de ação continua a existir na década de 1840 e até mais tarde: estava profundamente arraigada no Sudoeste. Mas nos novos territórios da Revolução Industrial, ela passou gradativamente a outras formas de ação <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Preços e salários, eis a combinação. Um é a medida do mercado, o outro do chão de fábrica e da mina, e do trabalho agrícola desde que a agricultura de subsistência e as terras que outrora eram propriedade comum ruíram em meio a sangue e fogo. R. H. Tawney aborda o mesmo ponto, em termos um tanto diferentes:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A economia do bairro medieval era aquela em que o consumo tinha, de certa forma, a mesma primazia na mente do público, como árbitro indiscutível do esforço económico, tal como o século XIX atribuía aos lucros <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas os salários são, em si, um tipo especial de preço. Lembrando-nos disso, a fórmula se torna clara: em primeira instância, <em>a revolta é a fixação de preços para as mercadorias, enquanto a greve é a fixação de preços para a força de trabalho</em>. Este é o primeiro nível ou perspectiva de análise necessário para compreender a história da revolta, que poderíamos chamar de nível prático. A prática política em sua dimensão mais completa é a da reprodução — da família e do indivíduo, da comunidade local. Na virada do século XVIII para o XIX, a questão da reprodução desloca seu centro de gravidade de um lugar para o outro, de uma luta para a seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159375" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg" alt="" width="1920" height="1511" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1024x806.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1536x1209.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-640x504.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-681x536.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />É evidente que consumidor e trabalhador não são duas classes opostas, muito menos consecutivas. Em vez disso, são dois papéis momentâneos dentro da atividade coletiva necessária para reproduzir uma única classe: o emergente proletariado moderno, que precisam se virar dentro da relação salário-mercadoria. Se um momento prevalece sobre o outro, isso indica o grau de desenvolvimento técnico e social dentro dessa relação e a posição que o proletário ocupa nela. Na cena da revolta, aqueles que definem os preços no mercado podem ser trabalhadores (como no caso dos “mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias” de Thompson), mas este não é o fato imediato que os levou até lá. Esse reconhecimento permite um refinamento de nossas definições.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço da força de trabalho (ou as condições de trabalho, que são praticamente a mesma coisa: a quantidade de miséria que pode ser comprada por libra);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta trabalhadores aparecendo <em>enquanto trabalhadores</em>;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto da produção capitalista, caracterizando-se pela sua interrupção na fonte por meio da suspensão do trabalho, do bloqueio do chão de fábrica, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço das mercadorias (ou sua disponibilidade, o que é praticamente a mesma coisa, pois a questão é igualmente de acesso);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta participantes sem nenhum outro laço em comum além de sua despossessão;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto do consumo, caracterizando-se pela interrupção da circulação comercial.</p>
<p style="text-align: justify;">Este aparato conceitual é simples, mas poderoso, e é suficiente para o período inicialmente analisado por nossos estudiosos, isto é, estendendo-se até o século XX. No entanto, ele apresenta problemas para o presente. As lutas características da <em>revolta-linha</em>, o período que se inicia na década de 1960, juntamente com o último florescimento da greve, e que continua até o presente, não podem ser compreendidas adequadamente dentro da estrutura da fixação de preços, mesmo no sentido ampliado de Thompson. Mas também não podem ser compreendidas sem ela. É aqui que precisaremos de um segundo nível ou hotizonte: o da periodização, preocupado precisamente com o grau de desenvolvimento técnico e social do capital acima mencionado, em todas as suas eloquentes e ambíguas flutuações.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Circulação-Produção-Circulação Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Já observamos que a primeira transição, revolta-greve, corresponde histórica e logicamente à Revolução Industrial e sua extensão e intensificação da relação salarial no início do longo século XIX britânico. A segunda transição, greve-revolta linha, corresponde, por sua vez, ao período de “desintegração da hegemonia” dos Estados Unidos no final do longo século XX. Uma ascensão e uma queda. Um certo padrão em meio à confusão e ao ruído da história, levando-nos agora ao outono do império, conhecido pelos termos de capitalismo tardio, financeirização, pós-fordismo e assim por diante — aquela ladainha dilatada que corre para acompanhar o ritmo do nosso desastre proteico.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas datações são extraídas do esquema de Giovanni Arrighi, que descreve quatro “longos séculos e ciclos sistêmicos de acumulação”.</p>
<p style="text-align: justify;">“A principal característica do perfil temporal do capitalismo histórico esboçado aqui é a estrutura semelhante de todos os longos séculos”, observa Arrighi <strong>[11]</strong>. A estrutura recorrente é uma sequência tripartite que começa com uma expansão financeira originalmente liderada pelo capital mercantil; seguida de uma expansão material “de toda a economia mundial” liderada pela manufatura ou, mais amplamente, pelo capital industrial, na qual o capital se acumula sistematicamente; e quando isso atinge seus limites, uma expansão financeira final. Durante essa fase, nenhuma recuperação real da acumulação é possível, mas apenas estratégias mais ou menos desesperadas de adiamento. Historicamente, o setor financeiro da economia líder, em tal situação, encontrou uma potência industrial em ascensão para absorver seu excesso de capital, financiando assim sua própria substituição. Essa nova hegemonia se formará em bases necessariamente expandidas, capaz de restaurar a acumulação em escala global, mas, ao mesmo tempo, partindo de uma posição mais próxima de seus próprios limites de expansão — daí os ciclos sobrepostos de Arrighi, ampliando-se e acelerando-se à medida que avançam, a série de transferências antes conhecida como <em>translatio imperii</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159371" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png" alt="" width="809" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png 809w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-300x198.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-768x506.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-637x420.png 637w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-640x422.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-681x449.png 681w" sizes="auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa esquematização tem sido motivo de várias pesquisas sobre a transição para o capitalismo, frequentemente encontradas sob o título “Comércio ou Capitalismo?”. Robert Brenner, Ellen Meiksins Woods e outros argumentaram que o desenvolvimento de extensas redes comerciais e a consequente reorganização social não deve ser confundido com o capitalismo propriamente dito, e particularmente com o “desenvolvimento implacável e sistemático das forças produtivas” do capital, que não se pode dizer que tenha começado muito antes do ciclo britânico e da decolagem industrial <strong>[12]</strong>. É precisamente essa distinção que anima o argumento aqui apresentado. Os mercados são indiscutivelmente anteriores ao capitalismo e continuam nele; tornam-se parte da constituição do capitalismo somente quando são transformados pela elaboração do nexo salário-mercadoria e submetidos às disciplinas da produção de mais-valia. Isso acompanha a primeira transição, <em>revolta-greve</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, é difícil contestar a descoberta de Arrighi de que os impérios comerciais protocapitalistas seguiram praticamente a mesma parábola de desenvolvimento de suas versões mais realizadas. Os dois grandes impérios capitalistas, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, preservam e transmutam as formas de desenvolvimento, preenchendo-as com novos conteúdos. Dentro do alcance espiralado do capital, cada ciclo apresenta uma fase dominada pela lógica da produção, aqui significando a valorização das mercadorias, que Arrighi generaliza como D-M. Ao interromper estas, estão as fases dominadas pela circulação, pois tal é o caráter do capital mercantil ou financeiro, que Arrighi define como a realização de valores, ou M-D. Nunca é uma questão de ou/ou. Ambos os processos devem estar em vôo conjunto, ou o capital cessaria completamente de se mover (e capital imóvel não é capital de forma alguma). A descrição aqui diz respeito ao equilíbrio de forças dentro do circuito expandido do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos, portanto, uma periodização que corresponde às nossas práticas: <em>revolta-greve-revolta linha</em> mapeia as fases de <em>circulação-produção-circulação</em>. É verdade que o período que abrange o início do século XX foi para a Grã-Bretanha, na época ainda a principal economia capitalista, um período financeiro ou centrado na circulação. Aqui, o raciocínio do esquema de Arrighi baseado na sobreposição de ciclos fica claro. Embora os Estados Unidos tenham experimentado sua própria “Longa Depressão”, correspondente à inflexão econômica da Grã-Bretanha no final do século XIX, ainda assim eles supervisionaram, nesse período, uma notável expansão da produção, impulsionada por uma segunda Revolução Industrial capaz de contrabalançar o declínio britânico. Nossa fase atual de circulação, no entanto, carece de muitas evidências desse contrapeso sistêmico; apesar de toda a atenção dada ao papel da China como a nova oficina do mundo, por exemplo, ela já está perdendo mão de obra industrial <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">De fato, isso aponta para o que é único, pelo menos provisoriamente, sobre o nosso momento dentro de uma estrutura de sistemas mundiais. O alcance em espiral de longos séculos pode ter ficado sem espaço para se expandir; a retomada em uma escala maior não parece estar nos planos (embora não devamos descartar facilmente a capacidade do capital de se salvar de uma crise aparentemente total). O capital produtivo dominou, digamos, de 1784 a 1973. É possível que volte a dominar. No momento, isso parece incerto. Longe de sustentar uma hegemonia ascendente, os Estados Unidos, em seu declínio, estão — apesar de seu setor financeiro hipertrofiado — encerrando sua trajetória como nação devedora maciça. Agora é possível argumentar que, mesmo em nível global ou sistêmico, o capital se encontra em uma fase de circulação que não está sendo atendida pelo aumento da produção em outros lugares — uma fase distinta que inevitavelmente teremos de chamar de <em>circulação-linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, os regimes britânico e americano podem ser fundidos em um único metaciclo, que segue a sequência <em>circulação-produção-circulação linha</em>. Novamente, isso requer uma certa suavização heurística da trajetória volátil do sistema-mundo capitalista. Trata-se de um argumento, não de uma verdade absoluta. Ainda assim, achamos que é um argumento sugestivo: é possível mapear as três fases de Arrighi na periodização do capital de Brenner no que pode ser visto como um “arco de acumulação”, pelo menos no Ocidente, emergindo do comércio com a Revolução Industrial e descendo para as finanças com a desindustrialização generalizada, sem nenhuma reversão em vista. A sequência coeva de <em>revolta-greve-revolta linha</em> torna-se, portanto, uma história do capitalismo e uma exposição de sua forma atual, das contradições do presente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e Crise</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Para que o retorno da revolta sirva de testemunho sobre o <em>status</em> do capitalismo como tal, deve haver mais do que uma coincidência entre as duas sequências. Deve haver um encadeamento teórico. Esse é o terceiro e último nível do horizonte analítico, o da própria história, pelo qual nos referimos ao entrelaçamento dialético das lutas vividas com as compulsões do movimento autônomo do capital, entendido como um movimento real da existência social. O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pergunta já recebeu uma resposta preliminar. As fases lideradas pela produção material gerarão lutas dentro da produção, sobre o preço da força de trabalho; as fases lideradas pela circulação verão lutas no mercado, sobre o preço das mercadorias. Esse é um relato sincrônico, sem uma dinâmica que nos leve de uma fase a outra; além disso, ele ainda não aborda as peculiaridades da <em>revolta linha</em> e da <em>circulação linha</em>. Isso requer uma rápida passagem pela teoria marxiana da crise <strong>[14]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159374" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O valor, para Marx, tem tanto uma existência qualitativa como relação social como uma existência quantitativa no valor de troca <strong>[15]</strong>. O valor de troca de uma mercadoria viabiliza a mais-valia, a “essência invisível do capital”, valorizada na produção e realizada como lucro na circulação. A circulação, Marx se esforça por decifrar, nunca pode ser, por si só, a fonte de novo valor para o capital como um todo. A ideia de que isso poderia acontecer recebe um tratamento extenso e desdenhoso n&#8217;<em>O Capital</em>, que termina:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por mais que nos viremos, a conclusão final permanece a mesma. Se forem trocados equivalentes, não haverá mais-valia, e se forem trocados não equivalentes, ainda não teremos mais-valia. A circulação, ou a troca de mercadorias, não cria valor <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas categorias são infinitamente problemáticas, principalmente pelos limites da “circulação”. O extraordinário desenvolvimento do transporte, uma das principais marcas de nosso tempo, parece, a princípio, se encaixar nessa descrição, circulando produtos para realizar como lucro a mais-valia valorizada em outro lugar. Alguns argumentam que a mudança de local, ao contrário, aumenta o valor de uma mercadoria. Em seu sentido mais restrito, os “custos puros de circulação” podem ser limitados a atividades que não fazem nada além da troca em si, a transferência abstrata de título: vendas, contabilidade e coisas do gênero. Além disso, a financeirização e a “globalização” (ou seja, a extensão em direção aos limites planetários das redes e processos logísticos, coordenados pelos avanços nas tecnologias da informação) também devem ser entendidas como estratégias temporais e espaciais, respectivamente, para internalizar novas entradas de valor de outro lugar e de outro momento. Mas isso só pode afirmar a proposição de que a fase atual de nosso ciclo de acumulação é definida pelo colapso da produção de valor no centro do sistema-mundo; é por essa razão que o centro de gravidade do capital se desloca para a circulação, carregado pelo tripé da toyotização, da tecnologia da informação e das finanças.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, os fatos práticos são esclarecedores. Como Brenner observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Entre 1973 e o presente, o desempenho econômico nos EUA, na Europa Ocidental e no Japão, segundo todos os indicadores macroeconômicos padrão, deteriorou-se, ciclo econômico após ciclo econômico, década após década (com exceção da segunda metade da década de 1990) <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O crescimento do PIB global dos anos 50 até os anos 70 permaneceu acima de 4%; desde então, tem se mantido em 3% ou menos, às vezes muito menos <strong>[18]</strong>. Mesmo os melhores momentos durante a Longa Crise foram, em geral, piores do que os piores momentos do longo <em>boom</em> anterior. Se estipulássemos que o transporte pode fazer parte da valorização tanto como da realização, ainda assim nos confrontaríamos com o fato de que as grandes expansões do transporte global e a aceleração do tempo de rotatividade desde os anos 70 são concomitantes ao recuo da produção industrial nas principais nações capitalistas. Essa marcha a passos largos, por sua vez, é concomitante exatamente com o que a teoria do valor projeta de uma mudança em direção à circulação: menos produção de valor, menos lucros sistêmicos. De qualquer forma, a navegação e as finanças não parecem ter detido a estagnação e o declínio da lucratividade global. Tomando emprestado um termo de Gilles Chatelet, poderíamos chamar sua colaboração de “cibermercantilismo”, análogo ao modo pré-industrial no qual nenhuma quantidade de compras baratas e vendas caras ou vendas cada vez maiores pode levar à expansão.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, isso não quer dizer que não tenham aumentado os lucros de empresas individuais, que podem obter vantagem competitiva diminuindo seus próprios custos de circulação em um jogo de “empobreça-seu-vizinho” para a era da tecnologia da informação. Da mesma forma, as empresas podem participar de esquemas que recirculam e redistribuem o valor já existente, retirando uma parte à medida que ele passa. Sem ir muito longe no labirinto marxológico, podemos afirmar de forma bastante incontroversa sobre o período em questão que o capital, diante de retornos muito reduzidos nos setores tradicionalmente produtivos, vai em busca de lucro além dos limites da fábrica — no setor FIRE (<em>Finance, Insurance, and Real Estate</em>: isto é, Finanças, Seguros e Imóveis), ao longo das rotas traçadas pelas redes logísticas globais —, mas não encontra nenhuma solução contínua para a crise que o afastou da produção em primeiro lugar. Em vez disso, há uma agitação cada vez mais frenética, esquemas mais elaborados, bolhas e colapsos cada vez maiores. Em um movimento de desespero dialético, aquilo que levou o capital à esfera fratricida da circulação de soma zero faz praticamente o mesmo com uma parcela crescente da humanidade. Crise e desemprego, os dois grandes temas d&#8217;<em>O Capital</em>, são expressões da falha trágica do capital: ao buscar o lucro, ele precisa destruir a fonte do lucro, esbarrando em limites objetivos em seu impulso incessante de acumulação e produtividade. Os <em>Grundrisse</em> oferecem a formulação mais concisa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O próprio capital é a contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. Portanto, ele diminui o tempo de trabalho na forma necessária para aumentá-lo na forma supérflua; portanto, coloca o supérfluo em medida crescente como uma condição — questão de vida ou morte — para o necessário <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A “contradição em processo” nada mais é do que a própria lei do valor em movimento, apresentando-se de várias formas. Podemos vê-la como a contradição entre o valor e o preço, as medidas de produção e circulação, respectivamente — o que se revelará também como a contradição entre o capital como um todo e os capitais individuais. Esses últimos não se preocupam com a saúde geral do sistema capitalista, nem são obrigados a fazê-lo. Ao contrário, são obrigados a competir com outros capitais em seu setor. Portanto, embora a necessidade de expansão, de gerar novo valor que leve à acumulação sistêmica, seja um absoluto existencial do ponto de vista de todo o capital, os capitalistas individuais não pensam em termos de valor e acumulação. Eles medem sua existência em preço e riqueza e são compelidos a buscar lucro onde quer que ele seja encontrado, independentemente das consequências para o todo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse fenômeno unitário também é uma contradição entre a mais-valia absoluta e a relativa. As lutas intercapitalistas para economizar todos os processos substituem reiteradamente a força de trabalho por máquinas e formas organizacionais mais eficientes e, assim, com o tempo, aumentam a proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e trabalho vivo, expulsando a fonte de mais-valia absoluta na luta por sua forma relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise é o desenvolvimento dessas contradições até o ponto de ruptura. Isso caracteriza não uma escassez de dinheiro, mas seu excesso. Os lucros acumulados ficam ociosos, incapazes de se converter em capital, pois não há mais nenhuma razão sedutora para investir em mais produção. As fábricas ficam em silêncio. Buscando salários em outros lugares, os trabalhadores deslocados descobrem que a automação que economiza mão de obra se generalizou em vários setores. Agora, a mão de obra não utilizada se acumula lado a lado com a capacidade não utilizada. Essa é a produção da não-produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, voltamos, sob um disfarce um pouco diferente, à questão de classe, na forma do que Marx chama de “população excedente, cuja miséria está na razão inversa da quantidade de tortura que ela tem à disposição na forma de trabalho. Por fim, quanto mais extensas forem as seções pauperizadas da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, maior será o pauperismo oficial. <em>Essa é a lei geral absoluta da acumulação capitalista</em>” <strong>[20]</strong>. Como aponta o <em>Endnotes</em> no tratamento mais incisivo dessa questão: “Essa população excedente não precisa se encontrar completamente &#8216;fora&#8217; das relações sociais capitalistas. O capital pode não precisar desses trabalhadores, mas eles ainda precisam trabalhar. Assim, eles são forçados a se oferecer para as formas mais abjetas de escravidão assalariada na forma de produção e serviços insignificantes — identificados com mercados informais e, muitas vezes, ilegais de troca direta que surgem junto com as falhas da produção capitalista” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de surpreender que essa população excedente seja racializada em todo o Ocidente. A capacidade de lucro do capital sempre exigiu a produção e a reprodução da diferença social; em mercados de trabalho com excesso de oferta, o mecanismo das diferenças salariais dá um salto do quantitativo para o qualitativo. Junto com as “recuperações sem emprego” desde 1980, que dão suporte às teorias subjacentes de aumento do excedente, a taxa de desemprego, por exemplo, entre os negros estadunideneses tem se aproximado consistentemente do dobro da média atual, se não for mais alta, o que tem provocado, entre outras coisas, uma vasta expansão do complexo industrial-prisional para gerenciar esse excedente humano. O próprio processo de racialização está intimamente ligado à produção de populações excedentes, cada uma funcionando para constituir a outra de acordo com lógicas variadas de profunda exclusão. Como argumenta Chris Chen:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O surgimento do estado carcerário anti-negros nos EUA a partir da década de 1970 exemplifica os rituais de violência estatal e civil que reforçam a racialização da vida sem salário e a marcação racial da vagabundagem. Do ponto de vista do capital, a “raça” é renovada não apenas por meio de diferenças salariais racializadas persistentes ou do tipo de segregação ocupacional postulada pelas teorias raciais anteriores de “mercado de trabalho dividido”, mas também por meio da racialização de populações excedentes ou supérfluas não assalariadas, de Cartum às favelas do Cairo <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso opera, por sua vez, no nível da revolta contemporânea, uma rebelião excedente que é marcada pela raça e, por sua vez, a marca. Daí uma distinção final em relação à greve, que, na forma moderna, existe dentro de uma estrutura legal (mesmo que isso seja frequentemente ultrapassado). Aqui, começamos a entender o tipo de trabalho ideológico que está sendo feito pela insistência na ilegitimidade peculiar da revolta. A ilegalidade da revolta é, entre outras coisas, a ilegalidade do corpo racializado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Lutas na Circulação</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Uma população, portanto, cuja própria existência — sua possibilidade de reprodução — é redirecionada pela reorganização econômica da esfera da produção para a da circulação. Essa não é a “sociedade de consumo” no sentido popular, “a vitória definitiva do materialismo em uma adoração universal do fetiche da mercadoria” <strong>[23]</strong>. Mas é uma sociedade de consumo mesmo assim: população excedente confrontada com o velho problema do consumo sem acesso direto ao salário. Não de forma absoluta, não de forma homogênea em todo o mundo, mas suficientemente. Falamos de mudanças de tendência. Quando a base para a sobrevivência do capital muda substancialmente para a circulação, e a base para a sobrevivência dos empobrecidos muda da mesma forma, aí encontraremos a <em>revolta linha</em>. Assim, ela nomeia a reorganização social, o período em que ela domina e a principal forma de ação coletiva que corresponde a essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma maneira um tanto técnica de falar sobre exclusão e empobrecimento, sem dúvida, esse uso de categorias da economia política clássica e sua crítica. A virtude dessa linguagem está em seu poder de explicar a ligação entre <em>revolta</em> e <em>revolta linha</em> para revelar que a revolta do pão e a revolta racial, esses nomes imprecisos emparelhados, mantêm uma unidade profunda. Em uma formulação resumida, a crise sinaliza um deslocamento do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e a revolta deve ser entendida, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a fixação de preços e a rebelião dos excedentes são formas distintas, embora relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159377" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg" alt="" width="1500" height="991" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-300x198.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-1024x677.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-768x507.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-636x420.jpg 636w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-640x423.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-681x450.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />O novo proletariado, que deve agora (de acordo com o sentido original da palavra) expandir-se para incluir as populações excedentes entre os “sem reservas”, encontra-se em um mundo transformado. Já detalhamos algumas dessas transformações. A situação pode ser definida como um quiasmo de épocas. Em 1700, a polícia, tal como a reconhecemos, não existia; o mercado era vigiado ocasionalmente pelo oficial de justiça ou o funcionário parroquial. Ao mesmo tempo, a maioria das necessidades diárias da vida era produzida localmente. Em suma, o Estado estava longe e a economia, perto. Em 2015, o Estado está próximo e a economia, distante. A produção é aerossolizada; as mercadorias são montadas e entregues por meio de cadeias logísticas globais. Muitas vezes até mesmo os gêneros alimentícios básicos têm origem em um continente distante. Enquanto isso, o exército interno permanente do Estado está sempre à mão — progressivamente militarizado, sob o pretexto de fazer guerra às drogas e ao terror. A <em>revolta linha</em> não pode deixar de se voltar contra o Estado; não há como não fazê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O encontro espetacular com o Estado não deve, no entanto, sugerir que não exista uma forma diretamente econômica na revolta contemporânea, além de seu conteúdo político-econômico subjacente. As duas formas mais visíveis são a destruição econômica e o saque, uma frequentemente seguindo a outra em uma negação conjunta da troca e da lógica do mercado. Apesar da aparência universal desse aspecto da revolta, ela é sempre tratada como um desvio da e um comprometimento com a queixa inicial que poderia ter dado legitimidade a revolta. Que reivindicação ética poderia ser feita em relação ao roubo total? O fato de isso parecer misterioso aponta para um momento de fechamento ideológico e suprema ignorância histórica. O saque não é o momento da falsidade, mas da verdade que ecoa por séculos de revolta: uma versão da fixação de preços no mercado, embora a preço zero. É uma volta desesperada à questão da reprodução, embora dramaticamente limitada pela estrutura do capital em que inicialmente opera.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a revolta levanta a questão da reprodução, ela o faz como negação. Ele representa a reversão do destino dos trabalhadores na modernidade tardia. O poder histórico dos trabalhadores tem se apoiado em um setor produtivo em crescimento e em sua capacidade de se apoderar de uma parte do excedente em expansão. Desde a virada dos anos 70, o trabalho foi reduzido a negociações defensivas, compelido a preservar as empresas capazes de fornecer salários, afirmando o domínio do capital em troca de sua própria preservação. O trabalhador que aparece <em>como trabalhador</em> no período de crise enfrenta uma situação em que “o próprio fato de agir como classe aparece como uma restrição externa” <strong>[24]</strong>. Essa dinâmica, que poderíamos chamar de armadilha da afirmação, tornou-se uma forma social generalizada e uma estrutura conceitual, a irracionalidade racional do nosso tempo. A própria desordem da revolta pode ser entendida como a negação imediata disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas lutas, por sua vez, não podem deixar de confrontar o capital onde ele é mais vulnerável. Não há necessidade de imputar um tipo de consciência a essa forma latente de conflito com o capital. Compelido ao espaço de circulação, a revolta se encontra onde o capital tem deslocado cada vez mais seus recursos. A mais ou menos simultânea explosão de revoltas em Louis, Los Angeles, Nashville e mais de uma dúzia de outras cidades é um veredicto tão decisivo quanto se poderia imaginar sobre a tese da circulação. É fácil dizer que essa interrupção é amplamente simbólica: quanto do capital está em outro lugar, globalmente distribuído, resiliente, desmaterializado? As tomadas de rodovias no final de novembro de 2014 são, no entanto, um índice da situação real em que a luta ocorrerá. Além disso, elas demonstram os limites das várias categorias de revoltas. Elas são, evidentemente, descendentes das revoltas pré-modernas de exportação. Não são menos irmãos do que a paralisação do porto de Oakland em 2011 e o longo bloqueio do túnel planejado para o Vale de Susa pelo movimento No-TAV. Reconhecer isso é reconhecer que a revolta é uma tática privilegiada na medida em que é um exemplo da categoria mais ampla que designamos como “lutas na circulação”: a revolta, o bloqueio, a ocupação e, no horizonte mais distante, a comuna.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal surgiu”, escreveu Thompson sobre a transição de dois séculos atrás <strong>[25]</strong>. Até mesmo a imprensa burguesa tem um vislumbre disso: Em 2011, a <em>Newsweek</em> exibiu um revoltoso de Tottenham em sua capa, com roupa de treino e máscara, e as chamas no fundo, com a manchete “O DECLÍNIO E A QUEDA DA EUROPA (E TALVEZ DO OCIDENTE)” <strong>[26]</strong>. Algo acabou, ou deveria ter acabado; todos podem sentir isso. É uma espécie de interregno. Uma calmaria miserável, iluminada em todos os lugares pela sensação de declínio e incêndios acesos ao longo do terreno planetário da luta. As músicas no rádio são as mesmas — horríveis, surpreendentes. Elas prometem que nada mudou, mas nunca cumprem suas promessas, não é mesmo? As fissuras na organização da sociedade aumentam a cada semana. E, no entanto, essa persistência ansiosa, essa suspensão incômoda. Haverá uma recuperação? Uma catástrofe maior? O que devemos preferir? Essa é a tônica da época das revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Angelo Quattrochi, “What Happened,” em The Beginning of the End: France, May 1968, eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 49.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> E. P. Thompson, “The Moral Economy of the English Crowd in the Eighteenth Century,” <em>Past and Present</em>, n.º 50, fevereiro de 1971, 107-8. (<em>Edição brasileira In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo. Companhia das Letras, 1998</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 79.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> R. H. Tawney, <em>Religion and the Rise of Capitalism</em>, Londres: Harcourt Brace, 1926, 33.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century: Money, Power, and the Origins of Our Times</em>, Londres: Verso, 1996, 219-20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Robert Brenner, <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Londres: Verso, 2009, 13.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Alan Freeman, “Investing in Civilisation: What the State Can Do in a Crisis” em <em>Bailouts and Bankruptcies</em>, eds., Julie Guardand Wayne Antony, eds., Winnipeg: Fernwood, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> É frequentemente observado que Marx não deixou uma teoria completa sobre a crise. Sua teoria do valor em geral, no entanto, fornece a base lógica para uma teoria elaborada. Para o melhor resumo disso, ver Anwar Shaikh, “Introduction to the History of Crisis Theories” [Introdução à história das teorias da crise], <em>US Capitalism in Crisis</em> [O capitalismo americano em crise], Nova York: URPE, 1978.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Para a explicação mais eloquente desta parte da teoria de Marx, ver I. I. Rubin, <em>Essays on Marx&#8217;s Theory of Value</em>, trad. Fredy Perlman e Milos Samardzija, Nova Iorque: Black Rose, 1990, 120-21.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Karl Marx, Capital: <em>A Critique of Political Economy</em>, vol. 1, Londres: Penguin, 1992, 226.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs”, prólogo da edição espanhola de <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Madri: Akal, 2009. Disponibilizado ao autor em manuscrito, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ibid., 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Karl Marx, <em>Grundrisse</em>, Londres: Penguin Books, 1993, 706.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Karl Marx, <em>Capital</em>, vol. 1, 798 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> “Misery and Debt” [Miséria e dívida], <em>Endnotes</em> 2, 2010, 30, nota de rodapé 15.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Chris Chen, “The Limit Point of Capitalist Equality” [O ponto limite da igualdade capitalista], <em>Endnotes</em> 3, 2013, 217.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Tom Nairn, “Why It Happened” [Por que aconteceu], em <em>The Beginning of the End: France, May 1968</em> [O começo do fim: França, maio de 1968], eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense” [Comunização no tempo presente], em Communization and its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles [Comunização e seus descontentamentos: contestação, crítica e lutas contemporâneas], ed. Benjamin Noys, Nova York: Minor Compositions, 2011, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Thompson, “Moral Economy” [Economia moral], 128.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> <em>Newsweek</em>, 22 de agosto de 2011.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de que se seguiu ao assassinato de Martin Luther King Jr. em 1968.</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Thiagson e UOL: quais os limites?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Jun 2026 21:32:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Contribuindo para a valorização do funk, Thiagson deixa de fazer uma crítica à contradição em que ele próprio está envolto: um intelectual orgânico do funk, numa tentativa de conquistar mercado e surfar na onda de empresas cool, “SPLASH” e “conscientes”. Por Luís]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Luís</h3>
<p style="text-align: justify;">No início de junho de 2026, a página do Toca UOL publicou um vídeo em sua página do Instagram onde Thiagson entrevista MC Hariel, divulgando o novo trabalho do funkeiro no Red Bull Symphonic — uma mistura inédita ou no mínimo rara entre o funk e a música clássica em um evento de grandes proporções. A ocasião abre espaço para que Thiagson, que é consagrado como um intelectual no meio do funk e da música periférica, principalmente através da sua crítica ao etnocentrismo, o desvelamento da arbitrariedade e do racismo no estigma colocado na música periférica por parte da mídia e outras instâncias; o que, de fato, é uma contribuição importantíssima. O problema não é a reflexão proposta a partir da situação: é a função de legitimador irrefletido do funk; Thiagson é, na sua atuação, a anti-autocrítica.</p>
<p style="text-align: justify;">A tônica do vídeo se dá com a reflexão sobre o julgamento social do valor das expressões artísticas e como Hariel, sendo oriundo de um meio estigmatizado no campo cultural, “bagunça” a ordem e consegue atrair a admiração e julgamentos positivos de setores socialmente distanciados do seu. Explicita, também, a teoria de Pierre Bourdieu sobre como as correlações de força e lutas na sociedade influenciam o julgamento e o universo simbólico a partir do exemplo que dá sobre a recepção e abordagem que recebe dos mesmos setores, no seu elogio que, enquanto exalta o MC, “desmerece” e rebaixa o campo no qual ele está inserido.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ah, mano… Tipo, esses Cavalo de Tróia, eu lido com isso diariamente. Quando as pessoas às vezes tentam me elogiar, aí […] desmerecem todo mundo. Tipo: “ah, eu curto seu som… mas o resto eu não gosto, não!”. É uma parada que a gente vê a ignorância da pessoa no elogio. A pessoa é tão ignorante que ela não consegue elogiar uma pessoa ou olhar pra uma parada assim sem querer legitimar outra. Sei que vai vim vários assim com esse ponto de vista, mas eu tô mais preocupado com o rapaziada do funk mesmo que pode olhar pro lado da orquestra e conhecer alguns números, conhecer mais sobre esse universo, tá ligado?… Não tô preocupado com esses que vão vim nesse embalo assim. Pode chegar com pensamentos diferentes, mas se for ficar pra acompanhar mesmo, vai ter que pegar a visão, vai ter que ter o respeito.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tal atitude ajuda a desvelar os <em>princípios de percepção e apreciação</em> dos agentes: quando se está inserido num campo periférico, refletindo valores periféricos, uma estética periférica, enfim, um <em>ethos</em> típico da periferia, o valor é negativo; a partir do momento em que começa a haver uma aproximação com os valores “bons”, no sentido de mais valorizados socialmente, na hierarquia social — o que até mesmo a cor de pele mais clara pode significar para alguns —, começa-se a valorar positivamente. No caso, Hariel sendo um dos poucos que fazem esse último movimento, é enxergado por muitos como “o único bom”, um funkeiro de valor entre outros rebaixados.</p>
<p style="text-align: justify;">No movimento (novamente, acertado) de fazer (novamente) a crítica ao etnocentrismo, entra a contradição central: o problema não é o que Thiagson diz, <em>é o que ele deixa de dizer. </em>Enquanto usa Bourdieu para dar legitimidade — e, no fim das contas, jogar com esse mesmo movimento que Hariel fez, talvez de forma menos pensada, de brincar com a economia simbólica — ao seu ponto e atrair esse novo mercado (pode-se falar de mercado?) de pessoas das frações mais cultas da classe-média que tentam se aproximar dos guetos através de objetos culturais advindos deles, contribuindo para a valorização do funk, deixa de fazer uma crítica à contradição que, nesse caso, se torna até mesmo inconveniente, já que o próprio está envolto nela: um intelectual orgânico do funk, dentro dos maiores portais online do país, anunciando o contrato de um funcionário da Warner e CEO da Xaolin Records com uma gigante capitalista como a Red Bull numa tentativa de conquistar mercado e surfar na onda de empresas <em>cool, “SPLASH” </em>e “conscientes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Longe de ser um caso isolado, é uma constante em sua atuação pública: caso notório é sua entrevista — também mediada pelo Toca UOL — com Criolo. Ao ser perguntado sobre a ascensão do chamado “rap de direita”, o artista responde conciliando: diz que isso sempre existiu, fala da pluralidade de visões na periferia, no movimento hip-hop etc. Diante disso, não há contraponto ou ao menos instigação por parte de Thiagson, o que revela seu limite: por mais que, de fato, seja impossível dizer que, hoje, a cultura hip-hop ou o rap é “de esquerda” ou “de direita”, o que vai definir a quem a cultura serve, nas suas tendências dominantes — pois sempre podem existir “guetos” dentro de um campo com visões diferentes das dominantes, mas com atuação quase sempre limitada — são justamente as lutas, as disputas, os debates. Quando deixa a afirmação de Criolo passar sem sequer uma constatação (o que, vale lembrar, muitos outros não deixaram de fazer, questionando a fala do rapper), Thiagson deixa de ter compromisso com a própria posição de esquerda que assume, abre alas às tendências direitistas dentro da cultura e ainda por cima as legitima para um público potencialmente crítico, emprestando sua legitimidade acadêmica, cultural e própria do universo da música periférica para uma posição conciliadora, que esvazia o potencial crítico e emancipatório do rap e do funk.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, é importante salientar algumas coisas: primeiramente, quando falamos nos “limites” da atuação de Thiagson, não queremos dizer que o sujeito em questão é alguém preso eternamente a esses limites, desonesto ou mesmo que o indivíduo tenha planejado cinicamente os efeitos das suas ações. Não é um ataque, como existem aos montes pela internet, que questiona o próprio valor do funk, das expressões periféricas, seja como “não-música” ou cultura inferior — argumento que o próprio ajuda a desmontar, por exemplo, na sua tese de doutoramento e por diversas outras vezes. É uma crítica que quer disputar os rumos da cultura e abrir espaço à discussão justamente porque acredita no potencial emancipatório da mesma e porque tem apreço por ela.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159361 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1.webp" alt="" width="883" height="1170" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1.webp 883w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-226x300.webp 226w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-773x1024.webp 773w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-768x1018.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-317x420.webp 317w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-640x848.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-681x902.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 883px) 100vw, 883px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Falando em limites, é fundamental perguntar: o que pode ser dito dentro da UOL? Thiagson, enquanto funcionário (e não enquanto indivíduo, ressaltamos novamente) da UOL se encaixa muito bem na categoria de <em>fast thinker</em> descrita pelo próprio Bourdieu em <em>Sobre a Televisão:</em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sobre a televisão, o índice de audiência exerce um efeito inteiramente particular: ele se retraduz na pressão da urgência. A concorrência entre os jornais, a concorrência entre os jornais e a televisão, a concorrência entre as televisões toma a forma de uma concorrência pelo furo, para ser o primeiro. Por exemplo, em um livro em que apresenta certo número de entrevistas com jornalistas, Alain Accardo mostra como os jornalistas de televisão são levados, porque tal televisão concorrente “cobriu” uma inundação, a ir “cobrir” essa inundação tentando obter algo que o outro não obteve. Em suma, há objetos que são impostos aos telespectadores porque se impõem aos produtores; e se impõem aos produtores porque são impostos pela concorrência com outros produtores. Essa espécie de pressão cruzada que os jornalistas exercem uns sobre os outros é geradora de toda uma série de conseqüências que se retraduzem por escolhas, por ausências e presenças. Eu dizia ao começar que a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento. […] E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão das relações entre o pensamento e a velocidade. Pode-se pensar com velocidade? Será que a televisão, ao dar a palavra a pensadores que supostamente pensam em velocidade acelerada, não está condenada a ter apenas <em>fast-thinkers</em>, pensadores que pensam mais rápido que sua sombra…? Com efeito, é preciso perguntar por que eles são capazes de responder a essas condições inteiramente particulares, por que conseguem pensar em condições nas quais ninguém mais pensa. A resposta é, ao que me parece, que eles pensam por “idéias feitas”. As “idéias feitas” de que fala Flaubert são idéias aceitas por todo mundo, banais, convencionais, comuns; mas são também idéias que, quando as aceitamos, já estão aceitas, de sorte que o problema da recepção não se coloca. Ora, trate-se de um discurso, de um livro ou de uma mensagem televisual, o problema maior da comunicação é de saber se as condições de recepção são preenchidas; aquele que escuta tem o código para decodificar o que estou dizendo? Quando emitimos uma “idéia feita” é como se isso estivesse dado; o problema está resolvido. A comunicação é instantânea porque, em certo sentido, ela não existe. Ou é apenas aparente. A troca de lugares-comuns é uma comunicação sem outro conteúdo que não o fato mesmo da comunicação. Os “lugares-comuns” que desempenham um papel enorme na conversação cotidiana têm a virtude de que todo mundo pode admiti-los e admiti-los instantaneamente: por sua banalidade, são comuns ao emissor e ao receptor. Ao contrário, o pensamento é, por definição, subversivo: deve começar por desmontar as “idéias feitas” e deve em seguida demonstrar. […] Se a televisão privilegia certo número de fast-thinkers que propõem fast-food cultural, alimento cultural pré-digerido, pré-pensado, não é apenas porque (e isso faz parte também da submissão à urgência) eles têm uma caderneta de endereços, aliás sempre a mesma (sobre a Rússia, são o sr. ou a sra. X, sobre a Alemanha, é o sr. Y)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Cumpre a mesma função descrita, estando sempre pronto a intervir nas oportunidades que aparecem, nas polêmicas e no que viraliza, no que o canal de mídia precisa <em>cobrir</em> com as chamadas “ideias feitas”: argumentos rápidos, reciclagem de parte de suas teses sem um aprofundamento na questão em si e nem desdobramentos que se coloquem além da crítica ao etnocentrismo que já é esperada da sua parte. Além de, por parte desse novo público, citado anteriormente, com capital cultural relativamente alto e potencial consumidor de obras com “caráter popular”, serem ideias, geralmente, já superficialmente pré-aceitas, ainda que com ressalvas ou a um certo contragosto, como a fala de MC Hariel explicita. Além do que se encaixa com mais precisão ao que foi descrito por Bourdieu há algumas décadas, observamos as práticas e roteiros que expressam adaptação à dinâmica atual da internet e às estratégias impostas para o sucesso — já que, pelo menos pelo que nós deduzimos, o Toca UOL tem como orientação a rentabilidade, o lucro — dentro deste contexto: vídeos relativamente curtos, facilmente polemizáveis e que servem de propaganda e ao mesmo tempo exploram a imagem tanto de um artista consagrado quanto a de um influencer.</p>
<p style="text-align: justify;">Encerrando, gostaria de perguntar a quem por acaso tenha concordado com o que foi colocado aqui: o seu acordo se dá pelo compromisso ou pelo ressentimento?</p>
<blockquote><p>As imagens que ilustram o artigo são da autoria de Ron English (1959-).</p></blockquote>
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		<title>Matrix, entre a revolução e a exploração</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2026 14:10:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[Em Matrix, como ocorre na sociedade capitalista, o processo de exploração do trabalho encontra-se oculto em uma mercadoria fetichizada. Por Michel Goulart da Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Goulart da Silva</h3>
<p style="text-align: justify;">Em março de 1999, o filme <em>Matrix</em> estreava nos cinemas, conquistando grande sucesso de público e crítica. O filme trazia uma reflexão sobre diversos aspectos da realidade vividos no cotidiano, como a relação com a tecnologia e com o meio ambiente. Com seu grito de “acorde” (o <em>wake up</em>, da música do <em>Rage Against the Machine</em>, que faz parte da trilha sonora do filme), o filme, apesar de ser uma produção hollywoodiana, se tornou uma expressão da revolta diante dos ataques que governantes em diferentes países faziam contra os direitos dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Eram tempos de crescimento do movimento que ficou conhecido como “antiglobalização”, que ocupou as ruas em reuniões de organismos internacionais, como o Banco Mundial e o FMI, e que pouco depois abandonariam o confronto direto para se somar a governos “progressistas” na construção de sucessivas edições do Fórum Social Mundial. Por outro lado, eram também tempos em que a internet e o mundo dos aplicativos não tinham dominado a sociedade, como ocorre na atualidade, mostrando um caráter até mesmo de previsão do filme.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme <em>Matrix</em> tem uma história bastante simples, que remete a uma versão moderna da Caverna de Platão. Os seres humanos vivem na Matrix, uma realidade artificialmente criada por máquinas. Séculos antes, o mundo teria sido destruído e os humanos escravizados, servindo como um tipo de bateria para fornecer energia às máquinas. Essa é possivelmente uma das metáforas mais fortes do filme, na medida em que remete aos trabalhadores que sustentam o capital e que mantém uma relação de estranhamento com o produto do seu trabalho. Marx destacava que o trabalho estranhado faz “do <em>ser genérico do homem</em>, tanto da natureza quanto da faculdade genérica espiritual dele, um ser <em>estranho</em> a ele, um <em>meio</em> de sua existência <em>individual</em>. Estranha do homem o seu próprio corpo, assim como a natureza fora dele, tal como a sua essência espiritual, a sua essência <em>humana</em>” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador, no capitalismo, não conhece o valor produzido pelo seu trabalho da mesma forma que no filme as pessoas estão presas a essa realidade artificialmente criada. Nessa sociedade, “transformam-se em seres que são o reflexo de uma realidade imediata, cotidiana, parcial, desconhecem a essência das coisas, e orbitam o mundo fenomênico, obnubilado por sombras e enganos” <strong>[2]</strong>. Em <em>Matrix</em>, como ocorre na sociedade capitalista, o processo de exploração do trabalho encontra-se oculto em uma mercadoria fetichizada. Segundo Marx, “a opressão humana inteira está envolvida na relação do trabalhador com a produção, e todas as relações de servidão são apenas modificações e consequências dessa relação” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159322" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl.jpg" alt="" width="1200" height="800" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Nesse debate, algo que chama a atenção na Matrix passa pelo fato de controlar toda a vida do trabalhador. Os humanos, enquanto dão energia para a Matrix, estão dormindo, ou seja, toda a sua energia vital é sugada. Essa forma de exploração lembra em grande medida o processo de trabalho da sociedade capitalista, no qual,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Mediante a compra da força de trabalho, o capitalista incorpora o próprio trabalho, como fermento vivo, aos elementos mortos que constituem o produto e lhe pertencem igualmente. De seu ponto de vista, o processo de trabalho não é mais do que o consumo da mercadoria por ele comprada, a força de trabalho, que, no entanto, ele só pode consumir desde que lhe acrescente os meios de produção. O processo de trabalho se realiza entre coisas que o capitalista comprou, entre coisas que lhe pertencem” <strong>[4]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O processo de incorporação de tecnologias impacta nesse trabalho, no qual, cada vez mais, o produto parece se distanciar do próprio trabalhador. Entende-se que</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“[…] a atividade do trabalhador, limitada a uma mera abstração da atividade, é determinada e regulada em todos os aspectos pelo movimento da maquinaria, e não o inverso. A ciência, que força os membros inanimados da maquinaria a agirem adequadamente como autômatos por sua construção, não existe na consciência do trabalhador, mas atua sobre ele por meio da máquina como poder estranho, como poder da própria máquina” <strong>[5]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">No cenário de distopia de <em>Matrix</em>, um grupo de humanos organizou a resistência à opressão promovida pelas máquinas. Contudo, para que a resistência conquistasse novos adeptos, as pessoas precisariam ser literalmente acordadas. No interior da Matrix havia algumas pessoas que acabavam sendo os potenciais revoltosos, afinal, ainda que sem saber exatamente o que estavam acontecendo, se sentiam desconfortáveis com aquele ambiente, como acontecia com o protagonista do filme, um hacker conhecido como Neo. Como em Platão, onde as pessoas precisariam ver a luz, por mais que a cegassem em um primeiro momento, em <em>Matrix</em> deveriam ver a realidade em sua materialidade. Essa realidade concreta é chamada, em certo momento do filme, de “deserto do real”.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme, ainda que de forma contida, faz um elogio à subversão, chamando todos a acordarem antes que uma grande tragédia possa vir a consumir a sociedade e o planeta, colocando em cena personagens que seriam a célula de uma organização revolucionária dedicada a destruir a Matrix. Um dos enfrentamentos centrais dessa organização política passa pelo processo de cooptação, na medida em que a Matrix pode oferecer às pessoas qualquer coisa que deseje. No capitalismo, “a sedução e o encantamento foram aprimorados, com o intuito de fazer com que as mercadorias assumissem papeis imprescindíveis na vida da classe trabalhadora” <strong>[6]</strong>. Como no capitalismo e sua promessa de felicidade, a Matrix pode oferecer um mundo de possibilidades, desde que as pessoas não questionem sua lógica e seu funcionamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora tenha uma mensagem da necessidade da organização como forma de transformação da realidade, o filme tem evidentes limites políticos. Sua narrativa se perde na busca e na idolatria do “escolhido”, o protagonista Neo, que seria um ser humano especial com a capacidade de destruir sozinho a Matrix. O embate central, embora não deixe de ser com as máquinas, vai ganhando a cara das lutas contra Smith, que deixa de ser um agente da Matrix para se tornar uma espécie de defeito do sistema. O filme acaba apresentando uma necessidade de sacrifício quase religioso, não apenas do próprio Neo, mas dos seus companheiros que voltam todos os seus esforços para ajudar as ações do protagonista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159323" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted.webp" alt="" width="1200" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted.webp 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-300x180.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-1024x614.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-768x461.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-700x420.webp 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-640x384.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-681x409.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Em suas continuações, nos filmes <em>Reloaded</em> e <em>Revolutions</em>, ambos lançados em 2003, essa personificação do salvador avançou no discurso de que nada seria possível de mudar. Mostra-se ao longo da narrativa que mesmo esse “escolhido” seria uma peça dentro da própria Matrix, portanto, até mesmo a subversão por ele representada estaria sob controle e levaria a um ciclo no qual a Matrix sempre voltaria a existir. Nessa lógica, “no fim, nada é realmente resolvido: a Matrix continua lá, explorando os seres humanos, sem garantia de que não surgirá um novo Smith; a maioria dos seres humanos continuará escravizada” <strong>[7]</strong>. O eterno retorno sem novidades parece ser um mote pouco criativo do mais recente filme da franquia, <em>Matrix Resurrections</em>, lançado em 2021.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme <em>Matrix</em>, ao dar maior ênfase à figura messiânica de Neo, profetizado como o “escolhido”, deixa de contar a história de uma organização rebelde. Opta por mostrar, de forma crescente, que, mesmo que a luta seja importante, não há possibilidade de revolução e que o capitalismo sempre conseguirá se reerguer. No limite, o que o filme aponta é que o papel da subversão e da revolta passa por conquistar reformas na sociedade e não por colocar abaixo o sistema que explora a humanidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong><br />
<strong>[1]</strong> Karl Marx. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 85.<br />
<strong>[2]</strong> Vanessa Batista de Andrade. Crédito e neuroeconomia: estudo crítico das estratégias econômicas para aceleração da circulação e seus efeitos sobre a classe trabalhadora. Marília: Lutas Anticapital, 2025, p. 96.<br />
<strong>[3]</strong>. Karl Marx. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 89.<br />
<strong>[4]</strong> Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, livro I, p. 262-3.<br />
<strong>[5]</strong> Karl Marx. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboço da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: UFRJ, 2011, p. 581.<br />
<strong>[6]</strong> Vanessa Batista de Andrade. Crédito e neuroeconomia: estudo crítico das estratégias econômicas para aceleração da circulação e seus efeitos sobre a classe trabalhadora. Marília: Lutas Anticapital, 2025, p. p. 104.<br />
<strong>[7]</strong> Slavoj Zizek. Lacrimae Rerum: ensaios sobre cinema moderno. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 176.</p>
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		<title>A luta não é pra todos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nicolas Lorca]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 16 May 2026 10:07:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Militava em um coletivo da cidade e seu rosto estampava todas as publicações do grupo como liderança. Dentre as reivindicações, estava o fim da jornada de trabalho na escala 6×1. Fora das redes sociais, cobrava que seus funcionários trabalhassem de domingo a domingo. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Militava em um coletivo da cidade e seu rosto estampava todas as publicações do grupo como liderança. Dentre as reivindicações, estava o fim da jornada de trabalho na escala 6×1. Fora das redes sociais, cobrava que seus funcionários trabalhassem de domingo a domingo. <strong>Passa Palavra</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Valor, comércio e apostas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2026 20:19:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
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		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[O dinheiro vale hoje, ou não vale nada. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Primo Jonas</h3>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As mentiras do atleta</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Hic Rhodus, hic salta!</em>, diz um espectador ao atleta da fábula ao terminar de escutar a sua história. O atleta, de pouca monta em sua terra natal, havia viajado à ilha de Rodas e lá, segundo sua narrativa, realizou um salto magnífico que não fora superado por nenhum ganhador dos jogos olímpicos. Ele então convidou o público a um dia acompanhá-lo a Rodas para que pudessem ver sua proeza ao vivo, e foi então que um espertinho soltou a famosa frase que Marx retomou para falar sobre a transformação do dinheiro em capital: a transformação da lagarta em mariposa (isto é, a transformação do possuidor de dinheiro em capitalista) deve ocorrer na esfera da circulação e <em>não</em> deve ocorrer nela. Tais são as condições do problema. <em>Hic Rhodus</em>…</p>
<p style="text-align: justify;">O recompilador das fábulas chamadas “de Esopo”, daquelas que chegaram a nós, fecha a breve narrativa com a seguinte moral: quando não se pode provar uma coisa com feitos, tudo o que é falado sobra. Se não pode ser demonstrado, o valor do relato é nulo.</p>
<p style="text-align: justify;">A escolha particular de Marx para fechar um capítulo do seu livro “O capital” onde versa sobre “as contradições de sua fórmula geral” da produção capitalista (D-M-D&#8217;) até hoje chama muito a atenção, para além dos aspectos curiosos a respeito de suas citações e referências clássicas, e nos leva diretamente a um dos debates recorrentes entre marxistas: a natureza do valor e sua relação com o dinheiro. Se bem é extensa a literatura sobre a história da teoria do valor-trabalho, infelizmente o prestígio político da figura de Marx criou, há tempos, o vício de remeter-se à autoridade inclusive para dizer coisas contrárias ao texto original.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158894 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/05.jpg" alt="" width="350" height="695" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/05.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/05-151x300.jpg 151w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" />Vamos repor de maneira esquemática e breve a diferença entre Ricardo e Marx: para o primeiro autor, o valor das mercadorias é criado a partir do tempo de trabalho realizado sobre elas no processo que as produz. A outra grande corrente que foi desenvolvida de maneira paralela, e concorrente, é a teoria subjetiva do valor, onde o tempo de trabalho não importa muito, o que importa é a escassez de um bem e a valoração subjetiva dos indivíduos. Pois bem, Marx toma de Ricardo a ideia do tempo de trabalho, mas extrapola para uma esfera da produção social e já não de produtores independentes: o tempo de trabalho que gera valor em uma mercadoria não é o tempo do cronômetro e do produtor isolado, mas sim <em>o tempo socialmente necessário para produzir tal mercadoria</em>. Partimos já de um sistema capitalista dado, onde diferentes produtores independentes realizam seus trabalhos e criam mercadorias que concorrem entre si no mercado. Se eu gasto 2 dias para fazer uma cadeira enquanto os marceneiros de minha cidade fazem uma mesma cadeira em apenas 1 dia, não estou criando uma cadeira com duas vezes mais valor que as demais, estou gastando o dobro de tempo para criar o mesmo valor que os demais fabricantes realizam em 1 dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Chego então ao mercado e digo “estive em Rodas e fiz uma cadeira com o equivalente a 2 dias de valor-trabalho. Se quiserem, podem vir comigo e comprovar que esta cadeira tem esse valor”, e um concorrente meu, observando meu discurso diz “<em>Hic Rhodus!</em> Eu fiz a mesma cadeira com apenas 1 dia de valor-trabalho”. Os 2 dias de valor-trabalho de minha cadeira se desmancham no ar. Aquilo que foi gerado em potência no processo de produção não se confirmou na circulação, isto é, na etapa de compra e venda das mercadorias. A proeza do salto não se realizou, ficamos apenas com a promessa, a história de algo que ocorreu em outro lugar.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, uma leitura muito comum entre marxistas, que poderíamos classificar como positivista, entende que o valor é uma qualidade imanente das mercadorias uma vez que elas recebem a intervenção do trabalhador no processo de produção. Como se pudéssemos tirar fotos dos diferentes estágios, a mercadoria vai recebendo “quantidades de valor” durante o processo e chega ao mercado com essa qualidade imanente, que finalmente será <em>realizada </em>ao ser vendida, segundo a tradição terminológica das traduções ao português e ao espanhol. Oras, acreditar que a mercadoria chega ao mercado com uma qualidade imanente correspondente ao seu valor é como acreditar na história do atleta grego. O fato dele não conseguir reproduzir diante de nossos olhos a sua proeza não nos indica apenas que ele piorou suas capacidades atléticas, como se houvesse perdido músculos desde então. Indica que o salto original foi uma mentira, apenas palavras ao vento. Quanto ao valor, o processo produtivo que trouxe as mercadorias ao mercado e que não foram vendidas ao preço esperado também é comparável às palavras ao vento, uma mentira que se descobre a posteriori. Produziu-se para uma demanda que não passava de ilusão.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma economia comercial</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">No debate marxista o foco está posto sobre o fundamento da mais-valia. Para toda uma parte da teoria econômica tradicional o lucro econômico dos empresários vem do fato de venderem as mercadorias por mais dinheiro do que o desembolsado como custos para produzi-las. Marx se opõe a esta interpretação ao indicar que o processo de valoração do capital ocorre <em>e também não ocorre</em> na esfera da circulação, na compra e venda. E quando diz que não ocorre na circulação aponta que no processo de produção há um fator crucial: a exploração do trabalho. Isto é, ao trabalhador, que é uma parte dos custos de produção, não se paga em salário o valor que ele está somando às matérias-primas com seu trabalho senão que lhe é pago apenas o valor necessário para reproduzir sua força de trabalho. Se formula a questão desta forma: o empresário não compra <em>o trabalho</em> despendido pelo trabalhador, ele compra a <em>força de trabalho</em> do trabalhador, que é posta a sua disposição por um período dado (a jornada de trabalho). Em termos matemáticos: o total de valor que um trabalhador consegue imprimir às mercadorias é maior do que aquilo que o trabalhador absorve consumindo o valor dos bens que seu salário lhe permite comprar. Valor entregue ao trabalhar &gt; Valor absorvido na reprodução da força de trabalho. Quanto maior esta diferença, maior é a taxa de exploração do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Se nosso atleta se limitasse a contar suas proezas em outras terras sem ter que demonstrá-las poderíamos dizer, com muitos marxistas, que a produção da mais-valia ocorre na esfera da produção. É um enfoque que ganhou muita força nos partidos obreiristas que buscavam catequizar os operários industriais e mostrar que sua atividade laboral era o fundamento da sociedade capitalista. O valor ganha assim uma natureza imanente, palpável, o que também é excelente para vulgarizar uma compreensão dita “materialista” da sociedade e da história. E assim como algumas feministas reclamaram de forma estranha o conceito de “valor” para os trabalhos domésticos, também alguns setores marxistas propuseram o desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo como se o valor fosse algo que o operário cria com suas mãos, e do qual deveria estar orgulhoso.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158892" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/03.jpg" alt="" width="450" height="358" /></p>
<p style="text-align: justify;">A premissa que estes marxistas ignoram é que o capitalismo é essencialmente uma economia comercial: o critério último que define, ainda, os fluxos de valor são as operações comerciais. É possível que cheguemos a um estágio deste modo de produção onde a esfera da circulação deixe de ser o critério último, mas ainda não estamos lá. Existe, certamente, uma tendência a autonomizar o processo de produção de suas amarras comerciais. Os autores que analisam a classe gestorial, por exemplo, nos mostram que existe uma base social e técnica que empurra nesta direção, a de um capitalismo dominado pelos dirigentes dos processos produtivos, indiferentes às dinâmicas do mercado. A exclusão do aspecto comercial do capitalismo também levou muitos marxistas a ignorar por completo as questões monetárias da economia, mantendo-se sempre próximos ao pensamento clássico que concebia o dinheiro como um facilitador neutro das trocas, um véu que se amolda passivamente aos contornos e relevos da economia real.</p>
<p style="text-align: justify;">Suzanne de Brunhoff escreveu sobre marxismo e política monetária a princípios dos anos 70, quando os Estados Unidos abandonavam o padrão ouro gerando incertezas sobre o futuro do dinheiro mundial (<em>A política monetária</em>, 1973). Ela começa seu ensaio reconhecendo a “desmaterialização” do dinheiro e que o dinheiro de crédito “permite a circulação das mercadorias”. A contrapartida dessa condição habilitante do crédito é o necessário acúmulo incessante de dívida. No capitalismo toda moeda nacional está em relação direta com o mercado mundial e com as demais moedas: o mercado mundial supõe um consenso que valide e estabilize as relações comerciais, sem o qual prevalecem os protecionismos (nacionais ou continentais) e a guerra. Por muito tempo o ouro foi uma peça central desse consenso, o seu valor e sua materialidade permitiram a estabilização de circuitos de circulação de mercadorias, forjando o mercado mundial que já Marx descrevia em sua época. “A moeda como equivalente geral, estando em relação com um aparelho de Estado, é incompatível com o nacionalismo e se relaciona necessariamente com a circulação mundial de mercadorias e de capitais”, afirma Suzanne.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“A moeda atua como uma obrigação inerente a toda economia comercial, em qualquer modo de produção vigente.(…) Para que o uso da moeda possa produzir efeitos favoráveis aos capitalistas &#8216;produtivos&#8217;, eles também devem se submeter a um mínimo de obrigações que garanta o funcionamento e a reprodução do equivalente geral”. Brunhoff desenvolve esta ideia de “reprodução do equivalente geral” na senda dos consensos e das obrigações que operam no mercado mundial, sem os quais o dinheiro deixa de funcionar como tal. Um exemplo de situação onde a reprodução do equivalente geral se vê ameaçada são os episódios de hiperinflação: as obrigações contraídas rapidamente exacerbam para um lado o benefício dos devedores e por outro o prejuízo para os prestamistas, a imprevisibilidade do valor futuro da moeda leva os agentes a guardar valor em outras divisas ou em bens duráveis. Os autores da economia clássica, como dissemos, sustentavam uma visão do dinheiro como simples facilitador da produção econômica: ele não possui, e não deve possuir, a capacidade de afetar a economia por uma dinâmica própria, deve apenas ajustar-se à economia produtiva. Daquela época eram as ideias de um dinheiro que fosse o “padrão invariável de valores”, um dinheiro universal sem inflação, estável, transparente no passado e no futuro. Essas ideias, nos diz a autora, são ensejos dos dirigentes da produção capitalista que se deparam, para prejuízo de seus poderes, com as determinações do aspecto comercial do modo de produção capitalista. Por ser uma economia comercial, o dinheiro deve cumprir outro tipo de função, incompatível com um tal “padrão invariável”. </em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A lei e o nosso lado subjetivo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O dinheiro no capitalismo precisa suportar a correção <em>ex-post </em>de um valor e portanto absorver uma alteração de seu valor no tempo. Essa característica atual do dinheiro é tanto mais importante quando a troca de informação e as alterações nos processos produtivos e das condições comerciais aumentam em frequências cada vez mais impressionantes.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158891 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/02.jpg" alt="" width="310" height="616" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/02.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/02-151x300.jpg 151w" sizes="auto, (max-width: 310px) 100vw, 310px" />A lei do valor, segundo Marx, é aquela que confere às mercadorias um valor pelo tempo <em>socialmente necessário</em> para a elaboração dessa mercadoria. Quanto mais avançadas as forças produtivas menor o tempo <em>socialmente necessário</em> para produzi-las. A consequência histórica desse avanço das forças produtivas é a transformação das formas do trabalho: os gestos passam a ser cronometrados, os tempos são fragmentados, a inteligência é fatiada. O trabalho realizado com as técnicas de ontem vai perdendo valor (de maneira contínua, mas também em saltos, os chamados ciclos da mais-valia relativa). Esse aumento da produtividade pavimentou, nos limites da lei do valor, o desenvolvimento capitalista e as novas formas de trabalho que geração atrás de geração vão sendo impostas aos proletários. A lei do valor, que direciona a produção capitalista no sentido das técnicas de maior produtividade e dessa maneira transforma as relações sociais, também se aplica no mercado mundial por meio das taxas de câmbio. Ao desvalorizar a moeda intencionalmente, um governo consegue pressionar para baixo o valor monetário do <em>tempo socialmente necessário</em> daquilo que é produzido em seu país, tendo como referência uma moeda de uso internacional como o dolar americano. Esta é outra função do dinheiro que exige que ele não seja apenas um facilitar neutro da economia produtiva: ele funciona como ferramenta de classes dominantes para obter vantagens comerciais no mercado mundial, sempre e quando essas classes têm êxito no controle da dinâmica monetária, o que não sempre ocorre.</p>
<p style="text-align: justify;">O surgimento de um fenômeno como o Bitcoin e a digitalização do dinheiro coloca outros problemas ainda quanto a como os trabalhadores entendem o dinheiro: os aparelhos de telecomunicações pessoais, os telefones celulares, se tornaram sorvedouros de dinheiro, um lugar que vem canalizando quantidades cada vez maiores do salário global. O prestígio das criptomoedas, hoje bem recebidas em Wall Street, e a massividade das apostas on-line (do futebol aos eventos históricos contemporâneos como guerras e eleições) nos revelam algo sobre a situação atual de uma importante função do dinheiro, a reserva de valor. Está em dúvida a estabilidade do valor ou estabilidade do futuro? Seja como for, a ideia de reserva, de um valor quieto sem destino certo, parece estar fadada a desaparecer. O dinheiro vale hoje, ou não vale nada.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, podemos comparar usos “irracionais” do dinheiro enquanto ferramenta econômica individual, como a doação do dízimo a uma igreja, uma contribuição sindical, a mensalidade de algum canal de notícias comunitário, ou a aposta compulsiva. Todas formas com que um trabalhador ou trabalhadora se desfaz de uma parte de seu salário, diminuindo assim o valor daquilo que consumirá para reproduzir sua força de trabalho. Essas modalidades de uso “irracional” podem ser, e o são, estimuladas por meio do marketing digital, sem o qual uma empresa hoje não prospera. Assim, podemos esperar que a reprodução do equivalente geral não se limite à acumulação de uma série de moedas e taxas de câmbio, que ela também entranhe novas formas psicológicas e sociais do uso do dinheiro a nível planetário, induzidas pelos próprios mecanismos de emissão e distribuição dos equivalentes gerais usados para remunerar a força de trabalho.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-158895 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6.jpg 400w" sizes="auto, (max-width: 70px) 100vw, 70px" /><em>Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Hiroshi Sugimoto</em>.</p>
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		<title>Para além da Tarifa Zero</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 12:45:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
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					<description><![CDATA[O grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. Por Isadora de Andrade Guerreiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Em setembro de 2025 tive a oportunidade incrível &#8211; proporcionada por Daniel Santini, a quem agradeço &#8211; de entrevistar a atual deputada federal e ex-prefeita de São Paulo (1989-1993) Luiza Erundina (PSOL), seu secretário de transportes à época, Lucio Gregori, e Mauro Zilbovicius, ex-diretor da Cia. de Engenharia de Tráfego (CET) e do Departamento do Sistema Viário (DSV). A pauta era a Tarifa Zero ontem e hoje, dado que o trio foi responsável pela proposta pioneira no país durante a primeira gestão municipal do PT em São Paulo. O <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">resultado da entrevista</a> foi publicado na <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Diálogos Socioambientais v.8, n.23</a>, em novembro de 2025, um dossiê muito especial com contribuições atuais sobre o tema, organizado pela professora Silvana Zioni e o próprio Daniel Santini.</p>
<p style="text-align: justify;">O dossiê vem em boa hora, na medida em que o tema com certeza será parte da disputa eleitoral deste ano, que será delicadíssima por uma série de questões. Foi lançado justamente quando o governo federal pediu um estudo detalhado para implantar a Tarifa Zero nacionalmente e, em Belo Horizonte, o assunto foi votado na Câmara e não ganhou, mas assustou. Para quem acompanhou o nível de embate do tema em 2013, ver onde ele chegou atualmente é, no mínimo, surpreendente. Ou temerário… e por isso retomar suas origens de forma viva na entrevista foi algo muito importante.</p>
<p style="text-align: justify;">Digo isso pois o grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. O que está em pauta é se ela será uma tábua de salvação para um setor empresarial em franca crise &#8211; e que é pedra fundamental de amplos clientelismos Brasil afora -, ou se será parte de uma transformação urbana e social mais estrutural. Politicamente relevante é que o embate institucional está acontecendo dentro do campo da dita esquerda partidária, com PT e PSOL em lados opostos: o deputado federal Jilmar Tatto (PT) tem representado o setor empresarial dos transportes e feito propostas que têm avançado mais do que as de Erundina dentro do parlamento e do executivo federal.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso a entrevista está especial e convido todo mundo a ler. Aquela tarde junto aos três ecoou fundo em mim, pois foi como um sopro de brisas frescas vindas de um lugar perdido. Zilbovicius colocando a racionalidade técnica no seu lugar, como instrumento político; o incrível Lucio Gregori relacionando a Tarifa Zero com a revolução social anticapitalista; e Erundina, de uma força transbordante e incansável, mas ao mesmo tempo extremamente afetiva e carinhosa durante toda a tarde, trazendo a noção de direito social como algo muito mais estrutural do que se transformou no neoliberalismo. Assim, a entrevista tem algo de incômodo, pois mexe com potências políticas adormecidas que as gerações atuais nem sonham o quão mobilizadoras foram. Faz-nos pensar no estado de coisas em que estamos, no desespero de ter que defender o pouco que restou de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o que é um governo municipal não era uma questão, mas sim o que pode ser um governo municipal dentro de uma sociedade mobilizada. Isso aparece numa fala do engenheiro Zilbovicius:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até hoje guardo uma fala da Luiza, que ela repetia constantemente: cada ação “tem que ser pedagógica”. As pessoas precisam aprender com essa luta. Ou seja, não se tratava apenas de resolver um problema imediato, mas de usar essa solução para fazer política, demonstrar uma nova possibilidade e, a partir dela, demandar mais. Estávamos ali para empurrar a fronteira do possível e alargar os limites do que era considerado realizável.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Alargar o possível é também alargar nosso pensamento. A Tarifa Zero ser viável leva o debate, evidentemente, ao tema técnico &#8211; também discutido no dossiê &#8211; e é nesse momento que precisamos atualizar o lugar da técnica na política &#8211; onde queremos chegar com a Tarifa Zero? Sem isso, cairemos inevitavelmente na implantação de um modelo que instrumentalizará a gratuidade, sem colocar o cerne da questão da mobilidade que é, na prática, o capitalismo. Levantei essa questão quando trouxe na entrevista o exemplo da habitação: a gratuidade (ou quase) veio dentro de um modelo financeirizado de salvação empresarial que trouxe muitas vezes mais problemas urbanos e sociais do que soluções (individuais e parciais, muitas vezes logo perdidas pelo <a class="urlextern" title="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" href="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">endividamento</a> ou pela <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" href="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">violência</a>), como vemos no Minha Casa Minha Vida. Ou seja, já conhecemos essa ladainha. Ela é sedutora, vem junto com o progressismo nosso de cada dia, com a vontade de avançar dentro do possível, de ter vitórias em meio ao cenário perturbador de espoliação que vivemos, de poder respirar. Mas não podemos nos esquecer que ela cobra a fatura, sem dó. O almoço não é grátis, embora possa parecer &#8211; o que torna a coisa ainda pior politicamente, muitas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">Gregori, ao responder, chama atenção a isso:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, a mobilidade humana não é tratada como questão estrutural no capitalismo. A premissa básica de que a locomoção é elemento fundamental da existência humana &#8211; é um direito humano &#8211; está ausente dessa lógica.</p>
<p style="text-align: justify;">O debate que travamos aqui é singular. Se levado para a esquina, a discussão se restringirá à superlotação dos ônibus ou ao preço da passagem. Falta à sociedade capitalista a compreensão de que a mobilidade transcende a mera necessidade de ir do ponto A ao ponto B. É muito mais do que isso: a mobilidade das pessoas é fundamental na vida humana.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Questionei, nesse sentido, por que a mobilização popular em torno dos transportes é tão diferente de outros setores como a habitação, a saúde e a educação. Além de muito menor, por um lado, quando “acendeu o pavio” se alastrou como palha seca, sem controle, em 2013. Por um lado, tanto tempo entre a gestão municipal e as jornadas de junho e, por outro, a persistência do tema, que volta como espectro inevitavelmente com a pergunta “ser ou não ser, eis a questão”. Gregori foi cirúrgico:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que falta é uma discussão ampla que investigue a essência do problema. Do que estamos falando? De algo que envolve a cidade em sua totalidade. E percebe-se que essa visão integral simplesmente não existe. Há falta de mobilização popular em torno do tema, durante tanto tempo, simplesmente porque é um jogo que nunca foi jogado. Como é que a população ou o cidadão comum pode, de repente, do nada, formular isso?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso leva ao tema da totalidade das lutas &#8211; e da potencialidade da mobilidade nas lutas urbanas neste quesito &#8211; e, inevitavelmente, no ponto crucial: estamos perdendo. Erundina tem clareza desta conjuntura, ainda que não se acomode. Segunda ela:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua indagação sobre a mobilização popular toca em ponto crucial. Os movimentos sociais não exercem pressão suficiente porque a mobilização popular substantiva praticamente deixou de existir. Os partidos de nosso campo ideológico abandonaram o projeto de fomentar participação das bases. O resultado é a ausência de mobilização genuína, falta de participação popular, inexistência de hegemonia das classes populares e erosão do poder popular no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Perdemos o tecido social vibrante do período pós-ditadura, quando a sociedade estava mobilizada e resolvia problemas coletivamente através de organizações de base.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, esse cenário foi desmontado. O povo perdeu sua voz e a crença em sua capacidade de transformação. Consequentemente, pautas como mobilidade e moradia não geram mais apelo ou participação massiva. O poder popular foi esvaziado.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Daniel Santini fez a pergunta que não quer calar no tema da Tarifa Zero, replicando uma provocação que fiz a ele num congresso acadêmico da área de planejamento urbano. “A pior Tarifa Zero &#8211; que remunera bem os empresários, que não muda nada, estruturada num sistema precarizado &#8211; é melhor do que um sistema com cobrança?”. Erundina fecha a entrevista com essa resposta, que é uma pérola que coroa não só o tema da Tarifa Zero, mas a encruzilhada dos nossos tempos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eu não consigo deixar de falar disso. Retomando a questão da moradia: eu trabalho com isso desde o começo da minha vida, como assistente social. A moradia conquistada na marra, fazendo caminhada a pé até o Palácio do Governo para que se ligasse água e luz nas favelas, quando vinha, tinha um peso e uma importância para aquela população muito diferente. Porque ela se capacitava a partir daquela conquista para outras lutas e para outras conquistas. Por isso, um programa massivo de moradia, tipo Minha Casa Minha Vida, não contribui para mobilizar e para conscientizar o povo da própria força. Não pode ser comparado com aquela luta na qual o próprio povo conquista a moradia. Ou para urbanizar a sua favela, em vez de fazer uma casa própria, que ele vai pagar 30 anos, ou não vai nem mesmo conseguir pagar. Isso não é uma política que emancipa os setores populares.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a questão: não se faz mais política hoje nesse país, capaz de fazer com que as pessoas se emancipem, como se fez no passado. Nós conseguimos fazer aquele governo porque a gente vivia em um período de pós-ditadura militar, em um processo de redemocratização, onde se conquistou algum nível de emancipação popular.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós tivemos apoio popular para experimentar uma forma de ser governo no qual todo mundo governou. Por isso tem uma força que não termina nunca. Aquele governo continua, porque não foi um governo de uma pessoa, nem de um partido: foi um movimento social popular, num determinado momento da história política desse país que não acontece mais. Porque os partidos estão bitolados por um modelo dentro do capitalismo que até o povo tem direito a uma casinha, tem água na favela e outras tantas coisas, mas sem alterar as bases sobre as quais essa sociedade está construída…</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Como não se sentir tocada? Quem for ler a entrevista na íntegra, verá que quem começa falando e perguntando é Erundina, a entrevistada. Vi que seria difícil me colocar. Mas, ao final, na mesa do café, ela me agradeceu a entrevista, que tomou um rumo que ela não esperava, a fazendo também respirar outras brisas. Que nos inspiremos nesse encontro geracional, pois os desafios vindouros são grandes.</p>
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		<title>Velha Toupeira (39)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Feb 2026 12:59:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
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		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158743" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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