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	<title>Capitalismo &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2026 16:51:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro? Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO (continuação)</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Mercado e o Chão da Fábrica</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A principal dificuldade em definir a revolta advém de sua profunda associação com a violência; para muitos, esta associação é tão carregada afetivamente para um lado ou para outro que é difícil de dissipar e, por sua vez, dificulta perceber outras coisas. Sem dúvida, muitas revoltas envolvem violência — talvez a grande maioria, se incluirmos danos materiais à propriedade, bem como ameaças explícitas ou <em>sub voce</em> [indiretas]. Não está totalmente claro se tal inclusão é natural ou razoável. Que dano material seja igual a violência não é uma verdade, mas a adesão a um conjunto particular de ideias sobre propriedade, relativamente recente, que envolve identificações específicas entre humanos e riqueza abstrata do tipo que culmina, por exemplo, no entendimento jurídico de que corporações são pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, essa insistência na violência da revolta obscurece a violência cotidiana, sistemática e onipresente que persegue a vida cotidiana na maior parte do mundo. A visão de uma sociabilidade geralmente pacífica que só excepcionalmente irrompe em violência é um imaginário acessível apenas a alguns. Para os demais — a maioria — a violência social é a norma. A retórica contra a revolta violenta torna-se um dispositivo de exclusão, voltado não tanto contra a “violência”, mas contra grupos sociais específicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao longo de mais de dois séculos, as greves frequentemente também envolveram violência: batalhas campais entre trabalhadores de um lado e policiais, fura-greves e mercenários do outro, que em seu auge assemelhavam-se a combates militares. Se estendermos a categoria como acima, a violência é onipresente na greve, mesmo como uma espécie de contraviolência defensiva. Reportando da França em 1968, o poeta italiano Angelo Quattrocchi observou:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores podem ameaçar destruir as máquinas, e a ameaça por si só pode impedir uma intervenção armada. Senhores da fábrica, a despossessão é sua maior força. As máquinas, o Capital, propriedade de outros e usufruído por outros, estão agora em suas mãos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta passagem pretende distinguir a greve limitada, para Quattrochi um evento covarde e coreografado, da ocupação de fábrica. É sugestivo que ele tenha escolhido fazer a distinção naquele momento, observando uma Paris onde revolta e greve entraram em intensa colaboração e competição, cada uma tentando transcender não apenas os seus próprios limites, mas também os da outra. Dito isso, o servilismo cinzento da greve limitada é, em si, um desenvolvimento histórico particular. A situação real que ele descreve, o potencial dos trabalhadores para disporem das engrenagens da produção como bem entenderem, está no cerne da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso pressupõe que já sabemos a diferença entre revolta e greve. Se não é a violência, o que é então? E. P. Thompson, cujo pensamento é a pedra angular deste livro, fornece a base para uma resposta em seu memorável “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. Se essa resposta foi curiosamente ignorada, é quase certamente porque o ensaio nunca formaliza completamente a lógica que apresenta. Criticando as reduções e a força despolitizadora contidas no termo “bread riot” (revolta do pão), ele produz uma visão mais sistemática da economia política da revolta:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tem-se sugerido que o termo “revolta” é uma ferramenta de análise pouco afiada para tantas queixas e motivos particulares. É igualmente um termo impreciso para descrever a ação popular. Se procuramos a forma característica da ação popular, não devemos considerar bate-bocas junto às padarias de Londres, nem mesmo as grandes contendas provocadas pelo descontentamento com os grandes moleiros, mas as “rebeliões do povo” (especialmente em 1740, 1756, 1766, 1795 e 1800) nas quais se destacaram os mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias. O notável sobre essas “insurreições” é, primeiro, a sua disciplina, e, segundo, o fato de mostrarem um padrão de comportamento cuja origem devemos buscar centenas de anos antes; um padrão que se torna mais, e não menos, sofisticado no século XVIII; que se repete, aparentemente de forma espontânea, em diferentes partes do país e depois da passagem de muitos anos tranquilos. A ação central nesse padrão não é o saque dos celeiros, nem o furto de grãos e farinha, mas “fixar o preço” <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É precisamente esta a situação que se inverterá com a virada do século:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O conflito econômico das classes na Inglaterra do século XIX encontrou a expressão característica na questão dos salários: no século XVII os trabadores mobilizavam-se rapidamente e partiam para a ação por causa do aumento dos preços <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Thompson capta a textura da transformação profunda em curso, de forma tão elusiva quanto imanente:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal começou. Nesses anos, a forma alternativa de pressão econômica — a pressão sobre os salários — está se tornando mais vigorosa; existe algo mais que retórica por trás da linguagem da sedição — organização de ligas clandestinas, juramentos, o obscuro “Ingleses Unidos”. Em 1812, os tradicionais motins da fome coincidem em parte com o luddismo. Em 1816, os trabalhados de East Anglia não só determinavam os preços, mas também exigiam um salário mínimo e o fim do sistema <em>speenhamland</em> de assistência aos pobres. Eles antecediam a revolta muito diferente dos trabalhadores de 1830. A forma antiga de ação continua a existir na década de 1840 e até mais tarde: estava profundamente arraigada no Sudoeste. Mas nos novos territórios da Revolução Industrial, ela passou gradativamente a outras formas de ação <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Preços e salários, eis a combinação. Um é a medida do mercado, o outro do chão de fábrica e da mina, e do trabalho agrícola desde que a agricultura de subsistência e as terras que outrora eram propriedade comum ruíram em meio a sangue e fogo. R. H. Tawney aborda o mesmo ponto, em termos um tanto diferentes:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A economia do bairro medieval era aquela em que o consumo tinha, de certa forma, a mesma primazia na mente do público, como árbitro indiscutível do esforço económico, tal como o século XIX atribuía aos lucros <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas os salários são, em si, um tipo especial de preço. Lembrando-nos disso, a fórmula se torna clara: em primeira instância, <em>a revolta é a fixação de preços para as mercadorias, enquanto a greve é a fixação de preços para a força de trabalho</em>. Este é o primeiro nível ou perspectiva de análise necessário para compreender a história da revolta, que poderíamos chamar de nível prático. A prática política em sua dimensão mais completa é a da reprodução — da família e do indivíduo, da comunidade local. Na virada do século XVIII para o XIX, a questão da reprodução desloca seu centro de gravidade de um lugar para o outro, de uma luta para a seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159375" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg" alt="" width="1920" height="1511" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1024x806.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1536x1209.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-640x504.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-681x536.jpg 681w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />É evidente que consumidor e trabalhador não são duas classes opostas, muito menos consecutivas. Em vez disso, são dois papéis momentâneos dentro da atividade coletiva necessária para reproduzir uma única classe: o emergente proletariado moderno, que precisam se virar dentro da relação salário-mercadoria. Se um momento prevalece sobre o outro, isso indica o grau de desenvolvimento técnico e social dentro dessa relação e a posição que o proletário ocupa nela. Na cena da revolta, aqueles que definem os preços no mercado podem ser trabalhadores (como no caso dos “mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias” de Thompson), mas este não é o fato imediato que os levou até lá. Esse reconhecimento permite um refinamento de nossas definições.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço da força de trabalho (ou as condições de trabalho, que são praticamente a mesma coisa: a quantidade de miséria que pode ser comprada por libra);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta trabalhadores aparecendo <em>enquanto trabalhadores</em>;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto da produção capitalista, caracterizando-se pela sua interrupção na fonte por meio da suspensão do trabalho, do bloqueio do chão de fábrica, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço das mercadorias (ou sua disponibilidade, o que é praticamente a mesma coisa, pois a questão é igualmente de acesso);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta participantes sem nenhum outro laço em comum além de sua despossessão;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto do consumo, caracterizando-se pela interrupção da circulação comercial.</p>
<p style="text-align: justify;">Este aparato conceitual é simples, mas poderoso, e é suficiente para o período inicialmente analisado por nossos estudiosos, isto é, estendendo-se até o século XX. No entanto, ele apresenta problemas para o presente. As lutas características da <em>revolta-linha</em>, o período que se inicia na década de 1960, juntamente com o último florescimento da greve, e que continua até o presente, não podem ser compreendidas adequadamente dentro da estrutura da fixação de preços, mesmo no sentido ampliado de Thompson. Mas também não podem ser compreendidas sem ela. É aqui que precisaremos de um segundo nível ou hotizonte: o da periodização, preocupado precisamente com o grau de desenvolvimento técnico e social do capital acima mencionado, em todas as suas eloquentes e ambíguas flutuações.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Circulação-Produção-Circulação Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Já observamos que a primeira transição, revolta-greve, corresponde histórica e logicamente à Revolução Industrial e sua extensão e intensificação da relação salarial no início do longo século XIX britânico. A segunda transição, greve-revolta linha, corresponde, por sua vez, ao período de “desintegração da hegemonia” dos Estados Unidos no final do longo século XX. Uma ascensão e uma queda. Um certo padrão em meio à confusão e ao ruído da história, levando-nos agora ao outono do império, conhecido pelos termos de capitalismo tardio, financeirização, pós-fordismo e assim por diante — aquela ladainha dilatada que corre para acompanhar o ritmo do nosso desastre proteico.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas datações são extraídas do esquema de Giovanni Arrighi, que descreve quatro “longos séculos e ciclos sistêmicos de acumulação”.</p>
<p style="text-align: justify;">“A principal característica do perfil temporal do capitalismo histórico esboçado aqui é a estrutura semelhante de todos os longos séculos”, observa Arrighi <strong>[11]</strong>. A estrutura recorrente é uma sequência tripartite que começa com uma expansão financeira originalmente liderada pelo capital mercantil; seguida de uma expansão material “de toda a economia mundial” liderada pela manufatura ou, mais amplamente, pelo capital industrial, na qual o capital se acumula sistematicamente; e quando isso atinge seus limites, uma expansão financeira final. Durante essa fase, nenhuma recuperação real da acumulação é possível, mas apenas estratégias mais ou menos desesperadas de adiamento. Historicamente, o setor financeiro da economia líder, em tal situação, encontrou uma potência industrial em ascensão para absorver seu excesso de capital, financiando assim sua própria substituição. Essa nova hegemonia se formará em bases necessariamente expandidas, capaz de restaurar a acumulação em escala global, mas, ao mesmo tempo, partindo de uma posição mais próxima de seus próprios limites de expansão — daí os ciclos sobrepostos de Arrighi, ampliando-se e acelerando-se à medida que avançam, a série de transferências antes conhecida como <em>translatio imperii</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159371" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png" alt="" width="809" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png 809w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-300x198.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-768x506.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-637x420.png 637w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-640x422.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-681x449.png 681w" sizes="(max-width: 809px) 100vw, 809px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa esquematização tem sido motivo de várias pesquisas sobre a transição para o capitalismo, frequentemente encontradas sob o título “Comércio ou Capitalismo?”. Robert Brenner, Ellen Meiksins Woods e outros argumentaram que o desenvolvimento de extensas redes comerciais e a consequente reorganização social não deve ser confundido com o capitalismo propriamente dito, e particularmente com o “desenvolvimento implacável e sistemático das forças produtivas” do capital, que não se pode dizer que tenha começado muito antes do ciclo britânico e da decolagem industrial <strong>[12]</strong>. É precisamente essa distinção que anima o argumento aqui apresentado. Os mercados são indiscutivelmente anteriores ao capitalismo e continuam nele; tornam-se parte da constituição do capitalismo somente quando são transformados pela elaboração do nexo salário-mercadoria e submetidos às disciplinas da produção de mais-valia. Isso acompanha a primeira transição, <em>revolta-greve</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, é difícil contestar a descoberta de Arrighi de que os impérios comerciais protocapitalistas seguiram praticamente a mesma parábola de desenvolvimento de suas versões mais realizadas. Os dois grandes impérios capitalistas, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, preservam e transmutam as formas de desenvolvimento, preenchendo-as com novos conteúdos. Dentro do alcance espiralado do capital, cada ciclo apresenta uma fase dominada pela lógica da produção, aqui significando a valorização das mercadorias, que Arrighi generaliza como D-M. Ao interromper estas, estão as fases dominadas pela circulação, pois tal é o caráter do capital mercantil ou financeiro, que Arrighi define como a realização de valores, ou M-D. Nunca é uma questão de ou/ou. Ambos os processos devem estar em vôo conjunto, ou o capital cessaria completamente de se mover (e capital imóvel não é capital de forma alguma). A descrição aqui diz respeito ao equilíbrio de forças dentro do circuito expandido do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos, portanto, uma periodização que corresponde às nossas práticas: <em>revolta-greve-revolta linha</em> mapeia as fases de <em>circulação-produção-circulação</em>. É verdade que o período que abrange o início do século XX foi para a Grã-Bretanha, na época ainda a principal economia capitalista, um período financeiro ou centrado na circulação. Aqui, o raciocínio do esquema de Arrighi baseado na sobreposição de ciclos fica claro. Embora os Estados Unidos tenham experimentado sua própria “Longa Depressão”, correspondente à inflexão econômica da Grã-Bretanha no final do século XIX, ainda assim eles supervisionaram, nesse período, uma notável expansão da produção, impulsionada por uma segunda Revolução Industrial capaz de contrabalançar o declínio britânico. Nossa fase atual de circulação, no entanto, carece de muitas evidências desse contrapeso sistêmico; apesar de toda a atenção dada ao papel da China como a nova oficina do mundo, por exemplo, ela já está perdendo mão de obra industrial <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">De fato, isso aponta para o que é único, pelo menos provisoriamente, sobre o nosso momento dentro de uma estrutura de sistemas mundiais. O alcance em espiral de longos séculos pode ter ficado sem espaço para se expandir; a retomada em uma escala maior não parece estar nos planos (embora não devamos descartar facilmente a capacidade do capital de se salvar de uma crise aparentemente total). O capital produtivo dominou, digamos, de 1784 a 1973. É possível que volte a dominar. No momento, isso parece incerto. Longe de sustentar uma hegemonia ascendente, os Estados Unidos, em seu declínio, estão — apesar de seu setor financeiro hipertrofiado — encerrando sua trajetória como nação devedora maciça. Agora é possível argumentar que, mesmo em nível global ou sistêmico, o capital se encontra em uma fase de circulação que não está sendo atendida pelo aumento da produção em outros lugares — uma fase distinta que inevitavelmente teremos de chamar de <em>circulação-linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, os regimes britânico e americano podem ser fundidos em um único metaciclo, que segue a sequência <em>circulação-produção-circulação linha</em>. Novamente, isso requer uma certa suavização heurística da trajetória volátil do sistema-mundo capitalista. Trata-se de um argumento, não de uma verdade absoluta. Ainda assim, achamos que é um argumento sugestivo: é possível mapear as três fases de Arrighi na periodização do capital de Brenner no que pode ser visto como um “arco de acumulação”, pelo menos no Ocidente, emergindo do comércio com a Revolução Industrial e descendo para as finanças com a desindustrialização generalizada, sem nenhuma reversão em vista. A sequência coeva de <em>revolta-greve-revolta linha</em> torna-se, portanto, uma história do capitalismo e uma exposição de sua forma atual, das contradições do presente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e Crise</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Para que o retorno da revolta sirva de testemunho sobre o <em>status</em> do capitalismo como tal, deve haver mais do que uma coincidência entre as duas sequências. Deve haver um encadeamento teórico. Esse é o terceiro e último nível do horizonte analítico, o da própria história, pelo qual nos referimos ao entrelaçamento dialético das lutas vividas com as compulsões do movimento autônomo do capital, entendido como um movimento real da existência social. O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pergunta já recebeu uma resposta preliminar. As fases lideradas pela produção material gerarão lutas dentro da produção, sobre o preço da força de trabalho; as fases lideradas pela circulação verão lutas no mercado, sobre o preço das mercadorias. Esse é um relato sincrônico, sem uma dinâmica que nos leve de uma fase a outra; além disso, ele ainda não aborda as peculiaridades da <em>revolta linha</em> e da <em>circulação linha</em>. Isso requer uma rápida passagem pela teoria marxiana da crise <strong>[14]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159374" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-681x550.jpg 681w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O valor, para Marx, tem tanto uma existência qualitativa como relação social como uma existência quantitativa no valor de troca <strong>[15]</strong>. O valor de troca de uma mercadoria viabiliza a mais-valia, a “essência invisível do capital”, valorizada na produção e realizada como lucro na circulação. A circulação, Marx se esforça por decifrar, nunca pode ser, por si só, a fonte de novo valor para o capital como um todo. A ideia de que isso poderia acontecer recebe um tratamento extenso e desdenhoso n&#8217;<em>O Capital</em>, que termina:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por mais que nos viremos, a conclusão final permanece a mesma. Se forem trocados equivalentes, não haverá mais-valia, e se forem trocados não equivalentes, ainda não teremos mais-valia. A circulação, ou a troca de mercadorias, não cria valor <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas categorias são infinitamente problemáticas, principalmente pelos limites da “circulação”. O extraordinário desenvolvimento do transporte, uma das principais marcas de nosso tempo, parece, a princípio, se encaixar nessa descrição, circulando produtos para realizar como lucro a mais-valia valorizada em outro lugar. Alguns argumentam que a mudança de local, ao contrário, aumenta o valor de uma mercadoria. Em seu sentido mais restrito, os “custos puros de circulação” podem ser limitados a atividades que não fazem nada além da troca em si, a transferência abstrata de título: vendas, contabilidade e coisas do gênero. Além disso, a financeirização e a “globalização” (ou seja, a extensão em direção aos limites planetários das redes e processos logísticos, coordenados pelos avanços nas tecnologias da informação) também devem ser entendidas como estratégias temporais e espaciais, respectivamente, para internalizar novas entradas de valor de outro lugar e de outro momento. Mas isso só pode afirmar a proposição de que a fase atual de nosso ciclo de acumulação é definida pelo colapso da produção de valor no centro do sistema-mundo; é por essa razão que o centro de gravidade do capital se desloca para a circulação, carregado pelo tripé da toyotização, da tecnologia da informação e das finanças.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, os fatos práticos são esclarecedores. Como Brenner observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Entre 1973 e o presente, o desempenho econômico nos EUA, na Europa Ocidental e no Japão, segundo todos os indicadores macroeconômicos padrão, deteriorou-se, ciclo econômico após ciclo econômico, década após década (com exceção da segunda metade da década de 1990) <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O crescimento do PIB global dos anos 50 até os anos 70 permaneceu acima de 4%; desde então, tem se mantido em 3% ou menos, às vezes muito menos <strong>[18]</strong>. Mesmo os melhores momentos durante a Longa Crise foram, em geral, piores do que os piores momentos do longo <em>boom</em> anterior. Se estipulássemos que o transporte pode fazer parte da valorização tanto como da realização, ainda assim nos confrontaríamos com o fato de que as grandes expansões do transporte global e a aceleração do tempo de rotatividade desde os anos 70 são concomitantes ao recuo da produção industrial nas principais nações capitalistas. Essa marcha a passos largos, por sua vez, é concomitante exatamente com o que a teoria do valor projeta de uma mudança em direção à circulação: menos produção de valor, menos lucros sistêmicos. De qualquer forma, a navegação e as finanças não parecem ter detido a estagnação e o declínio da lucratividade global. Tomando emprestado um termo de Gilles Chatelet, poderíamos chamar sua colaboração de “cibermercantilismo”, análogo ao modo pré-industrial no qual nenhuma quantidade de compras baratas e vendas caras ou vendas cada vez maiores pode levar à expansão.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, isso não quer dizer que não tenham aumentado os lucros de empresas individuais, que podem obter vantagem competitiva diminuindo seus próprios custos de circulação em um jogo de “empobreça-seu-vizinho” para a era da tecnologia da informação. Da mesma forma, as empresas podem participar de esquemas que recirculam e redistribuem o valor já existente, retirando uma parte à medida que ele passa. Sem ir muito longe no labirinto marxológico, podemos afirmar de forma bastante incontroversa sobre o período em questão que o capital, diante de retornos muito reduzidos nos setores tradicionalmente produtivos, vai em busca de lucro além dos limites da fábrica — no setor FIRE (<em>Finance, Insurance, and Real Estate</em>: isto é, Finanças, Seguros e Imóveis), ao longo das rotas traçadas pelas redes logísticas globais —, mas não encontra nenhuma solução contínua para a crise que o afastou da produção em primeiro lugar. Em vez disso, há uma agitação cada vez mais frenética, esquemas mais elaborados, bolhas e colapsos cada vez maiores. Em um movimento de desespero dialético, aquilo que levou o capital à esfera fratricida da circulação de soma zero faz praticamente o mesmo com uma parcela crescente da humanidade. Crise e desemprego, os dois grandes temas d&#8217;<em>O Capital</em>, são expressões da falha trágica do capital: ao buscar o lucro, ele precisa destruir a fonte do lucro, esbarrando em limites objetivos em seu impulso incessante de acumulação e produtividade. Os <em>Grundrisse</em> oferecem a formulação mais concisa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O próprio capital é a contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. Portanto, ele diminui o tempo de trabalho na forma necessária para aumentá-lo na forma supérflua; portanto, coloca o supérfluo em medida crescente como uma condição — questão de vida ou morte — para o necessário <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A “contradição em processo” nada mais é do que a própria lei do valor em movimento, apresentando-se de várias formas. Podemos vê-la como a contradição entre o valor e o preço, as medidas de produção e circulação, respectivamente — o que se revelará também como a contradição entre o capital como um todo e os capitais individuais. Esses últimos não se preocupam com a saúde geral do sistema capitalista, nem são obrigados a fazê-lo. Ao contrário, são obrigados a competir com outros capitais em seu setor. Portanto, embora a necessidade de expansão, de gerar novo valor que leve à acumulação sistêmica, seja um absoluto existencial do ponto de vista de todo o capital, os capitalistas individuais não pensam em termos de valor e acumulação. Eles medem sua existência em preço e riqueza e são compelidos a buscar lucro onde quer que ele seja encontrado, independentemente das consequências para o todo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse fenômeno unitário também é uma contradição entre a mais-valia absoluta e a relativa. As lutas intercapitalistas para economizar todos os processos substituem reiteradamente a força de trabalho por máquinas e formas organizacionais mais eficientes e, assim, com o tempo, aumentam a proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e trabalho vivo, expulsando a fonte de mais-valia absoluta na luta por sua forma relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise é o desenvolvimento dessas contradições até o ponto de ruptura. Isso caracteriza não uma escassez de dinheiro, mas seu excesso. Os lucros acumulados ficam ociosos, incapazes de se converter em capital, pois não há mais nenhuma razão sedutora para investir em mais produção. As fábricas ficam em silêncio. Buscando salários em outros lugares, os trabalhadores deslocados descobrem que a automação que economiza mão de obra se generalizou em vários setores. Agora, a mão de obra não utilizada se acumula lado a lado com a capacidade não utilizada. Essa é a produção da não-produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, voltamos, sob um disfarce um pouco diferente, à questão de classe, na forma do que Marx chama de “população excedente, cuja miséria está na razão inversa da quantidade de tortura que ela tem à disposição na forma de trabalho. Por fim, quanto mais extensas forem as seções pauperizadas da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, maior será o pauperismo oficial. <em>Essa é a lei geral absoluta da acumulação capitalista</em>” <strong>[20]</strong>. Como aponta o <em>Endnotes</em> no tratamento mais incisivo dessa questão: “Essa população excedente não precisa se encontrar completamente &#8216;fora&#8217; das relações sociais capitalistas. O capital pode não precisar desses trabalhadores, mas eles ainda precisam trabalhar. Assim, eles são forçados a se oferecer para as formas mais abjetas de escravidão assalariada na forma de produção e serviços insignificantes — identificados com mercados informais e, muitas vezes, ilegais de troca direta que surgem junto com as falhas da produção capitalista” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de surpreender que essa população excedente seja racializada em todo o Ocidente. A capacidade de lucro do capital sempre exigiu a produção e a reprodução da diferença social; em mercados de trabalho com excesso de oferta, o mecanismo das diferenças salariais dá um salto do quantitativo para o qualitativo. Junto com as “recuperações sem emprego” desde 1980, que dão suporte às teorias subjacentes de aumento do excedente, a taxa de desemprego, por exemplo, entre os negros estadunideneses tem se aproximado consistentemente do dobro da média atual, se não for mais alta, o que tem provocado, entre outras coisas, uma vasta expansão do complexo industrial-prisional para gerenciar esse excedente humano. O próprio processo de racialização está intimamente ligado à produção de populações excedentes, cada uma funcionando para constituir a outra de acordo com lógicas variadas de profunda exclusão. Como argumenta Chris Chen:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O surgimento do estado carcerário anti-negros nos EUA a partir da década de 1970 exemplifica os rituais de violência estatal e civil que reforçam a racialização da vida sem salário e a marcação racial da vagabundagem. Do ponto de vista do capital, a “raça” é renovada não apenas por meio de diferenças salariais racializadas persistentes ou do tipo de segregação ocupacional postulada pelas teorias raciais anteriores de “mercado de trabalho dividido”, mas também por meio da racialização de populações excedentes ou supérfluas não assalariadas, de Cartum às favelas do Cairo <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso opera, por sua vez, no nível da revolta contemporânea, uma rebelião excedente que é marcada pela raça e, por sua vez, a marca. Daí uma distinção final em relação à greve, que, na forma moderna, existe dentro de uma estrutura legal (mesmo que isso seja frequentemente ultrapassado). Aqui, começamos a entender o tipo de trabalho ideológico que está sendo feito pela insistência na ilegitimidade peculiar da revolta. A ilegalidade da revolta é, entre outras coisas, a ilegalidade do corpo racializado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Lutas na Circulação</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Uma população, portanto, cuja própria existência — sua possibilidade de reprodução — é redirecionada pela reorganização econômica da esfera da produção para a da circulação. Essa não é a “sociedade de consumo” no sentido popular, “a vitória definitiva do materialismo em uma adoração universal do fetiche da mercadoria” <strong>[23]</strong>. Mas é uma sociedade de consumo mesmo assim: população excedente confrontada com o velho problema do consumo sem acesso direto ao salário. Não de forma absoluta, não de forma homogênea em todo o mundo, mas suficientemente. Falamos de mudanças de tendência. Quando a base para a sobrevivência do capital muda substancialmente para a circulação, e a base para a sobrevivência dos empobrecidos muda da mesma forma, aí encontraremos a <em>revolta linha</em>. Assim, ela nomeia a reorganização social, o período em que ela domina e a principal forma de ação coletiva que corresponde a essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma maneira um tanto técnica de falar sobre exclusão e empobrecimento, sem dúvida, esse uso de categorias da economia política clássica e sua crítica. A virtude dessa linguagem está em seu poder de explicar a ligação entre <em>revolta</em> e <em>revolta linha</em> para revelar que a revolta do pão e a revolta racial, esses nomes imprecisos emparelhados, mantêm uma unidade profunda. Em uma formulação resumida, a crise sinaliza um deslocamento do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e a revolta deve ser entendida, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a fixação de preços e a rebelião dos excedentes são formas distintas, embora relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159377" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg" alt="" width="1500" height="991" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-300x198.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-1024x677.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-768x507.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-636x420.jpg 636w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-640x423.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-681x450.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />O novo proletariado, que deve agora (de acordo com o sentido original da palavra) expandir-se para incluir as populações excedentes entre os “sem reservas”, encontra-se em um mundo transformado. Já detalhamos algumas dessas transformações. A situação pode ser definida como um quiasmo de épocas. Em 1700, a polícia, tal como a reconhecemos, não existia; o mercado era vigiado ocasionalmente pelo oficial de justiça ou o funcionário parroquial. Ao mesmo tempo, a maioria das necessidades diárias da vida era produzida localmente. Em suma, o Estado estava longe e a economia, perto. Em 2015, o Estado está próximo e a economia, distante. A produção é aerossolizada; as mercadorias são montadas e entregues por meio de cadeias logísticas globais. Muitas vezes até mesmo os gêneros alimentícios básicos têm origem em um continente distante. Enquanto isso, o exército interno permanente do Estado está sempre à mão — progressivamente militarizado, sob o pretexto de fazer guerra às drogas e ao terror. A <em>revolta linha</em> não pode deixar de se voltar contra o Estado; não há como não fazê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O encontro espetacular com o Estado não deve, no entanto, sugerir que não exista uma forma diretamente econômica na revolta contemporânea, além de seu conteúdo político-econômico subjacente. As duas formas mais visíveis são a destruição econômica e o saque, uma frequentemente seguindo a outra em uma negação conjunta da troca e da lógica do mercado. Apesar da aparência universal desse aspecto da revolta, ela é sempre tratada como um desvio da e um comprometimento com a queixa inicial que poderia ter dado legitimidade a revolta. Que reivindicação ética poderia ser feita em relação ao roubo total? O fato de isso parecer misterioso aponta para um momento de fechamento ideológico e suprema ignorância histórica. O saque não é o momento da falsidade, mas da verdade que ecoa por séculos de revolta: uma versão da fixação de preços no mercado, embora a preço zero. É uma volta desesperada à questão da reprodução, embora dramaticamente limitada pela estrutura do capital em que inicialmente opera.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a revolta levanta a questão da reprodução, ela o faz como negação. Ele representa a reversão do destino dos trabalhadores na modernidade tardia. O poder histórico dos trabalhadores tem se apoiado em um setor produtivo em crescimento e em sua capacidade de se apoderar de uma parte do excedente em expansão. Desde a virada dos anos 70, o trabalho foi reduzido a negociações defensivas, compelido a preservar as empresas capazes de fornecer salários, afirmando o domínio do capital em troca de sua própria preservação. O trabalhador que aparece <em>como trabalhador</em> no período de crise enfrenta uma situação em que “o próprio fato de agir como classe aparece como uma restrição externa” <strong>[24]</strong>. Essa dinâmica, que poderíamos chamar de armadilha da afirmação, tornou-se uma forma social generalizada e uma estrutura conceitual, a irracionalidade racional do nosso tempo. A própria desordem da revolta pode ser entendida como a negação imediata disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas lutas, por sua vez, não podem deixar de confrontar o capital onde ele é mais vulnerável. Não há necessidade de imputar um tipo de consciência a essa forma latente de conflito com o capital. Compelido ao espaço de circulação, a revolta se encontra onde o capital tem deslocado cada vez mais seus recursos. A mais ou menos simultânea explosão de revoltas em Louis, Los Angeles, Nashville e mais de uma dúzia de outras cidades é um veredicto tão decisivo quanto se poderia imaginar sobre a tese da circulação. É fácil dizer que essa interrupção é amplamente simbólica: quanto do capital está em outro lugar, globalmente distribuído, resiliente, desmaterializado? As tomadas de rodovias no final de novembro de 2014 são, no entanto, um índice da situação real em que a luta ocorrerá. Além disso, elas demonstram os limites das várias categorias de revoltas. Elas são, evidentemente, descendentes das revoltas pré-modernas de exportação. Não são menos irmãos do que a paralisação do porto de Oakland em 2011 e o longo bloqueio do túnel planejado para o Vale de Susa pelo movimento No-TAV. Reconhecer isso é reconhecer que a revolta é uma tática privilegiada na medida em que é um exemplo da categoria mais ampla que designamos como “lutas na circulação”: a revolta, o bloqueio, a ocupação e, no horizonte mais distante, a comuna.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal surgiu”, escreveu Thompson sobre a transição de dois séculos atrás <strong>[25]</strong>. Até mesmo a imprensa burguesa tem um vislumbre disso: Em 2011, a <em>Newsweek</em> exibiu um revoltoso de Tottenham em sua capa, com roupa de treino e máscara, e as chamas no fundo, com a manchete “O DECLÍNIO E A QUEDA DA EUROPA (E TALVEZ DO OCIDENTE)” <strong>[26]</strong>. Algo acabou, ou deveria ter acabado; todos podem sentir isso. É uma espécie de interregno. Uma calmaria miserável, iluminada em todos os lugares pela sensação de declínio e incêndios acesos ao longo do terreno planetário da luta. As músicas no rádio são as mesmas — horríveis, surpreendentes. Elas prometem que nada mudou, mas nunca cumprem suas promessas, não é mesmo? As fissuras na organização da sociedade aumentam a cada semana. E, no entanto, essa persistência ansiosa, essa suspensão incômoda. Haverá uma recuperação? Uma catástrofe maior? O que devemos preferir? Essa é a tônica da época das revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Angelo Quattrochi, “What Happened,” em The Beginning of the End: France, May 1968, eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 49.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> E. P. Thompson, “The Moral Economy of the English Crowd in the Eighteenth Century,” <em>Past and Present</em>, n.º 50, fevereiro de 1971, 107-8. (<em>Edição brasileira In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo. Companhia das Letras, 1998</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 79.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> R. H. Tawney, <em>Religion and the Rise of Capitalism</em>, Londres: Harcourt Brace, 1926, 33.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century: Money, Power, and the Origins of Our Times</em>, Londres: Verso, 1996, 219-20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Robert Brenner, <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Londres: Verso, 2009, 13.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Alan Freeman, “Investing in Civilisation: What the State Can Do in a Crisis” em <em>Bailouts and Bankruptcies</em>, eds., Julie Guardand Wayne Antony, eds., Winnipeg: Fernwood, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> É frequentemente observado que Marx não deixou uma teoria completa sobre a crise. Sua teoria do valor em geral, no entanto, fornece a base lógica para uma teoria elaborada. Para o melhor resumo disso, ver Anwar Shaikh, “Introduction to the History of Crisis Theories” [Introdução à história das teorias da crise], <em>US Capitalism in Crisis</em> [O capitalismo americano em crise], Nova York: URPE, 1978.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Para a explicação mais eloquente desta parte da teoria de Marx, ver I. I. Rubin, <em>Essays on Marx&#8217;s Theory of Value</em>, trad. Fredy Perlman e Milos Samardzija, Nova Iorque: Black Rose, 1990, 120-21.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Karl Marx, Capital: <em>A Critique of Political Economy</em>, vol. 1, Londres: Penguin, 1992, 226.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs”, prólogo da edição espanhola de <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Madri: Akal, 2009. Disponibilizado ao autor em manuscrito, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ibid., 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Karl Marx, <em>Grundrisse</em>, Londres: Penguin Books, 1993, 706.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Karl Marx, <em>Capital</em>, vol. 1, 798 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> “Misery and Debt” [Miséria e dívida], <em>Endnotes</em> 2, 2010, 30, nota de rodapé 15.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Chris Chen, “The Limit Point of Capitalist Equality” [O ponto limite da igualdade capitalista], <em>Endnotes</em> 3, 2013, 217.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Tom Nairn, “Why It Happened” [Por que aconteceu], em <em>The Beginning of the End: France, May 1968</em> [O começo do fim: França, maio de 1968], eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense” [Comunização no tempo presente], em Communization and its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles [Comunização e seus descontentamentos: contestação, crítica e lutas contemporâneas], ed. Benjamin Noys, Nova York: Minor Compositions, 2011, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Thompson, “Moral Economy” [Economia moral], 128.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> <em>Newsweek</em>, 22 de agosto de 2011.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de que se seguiu ao assassinato de Martin Luther King Jr. em 1968.</em></p>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Introdução (continuação)</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Thiagson e UOL: quais os limites?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Jun 2026 21:32:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[Contribuindo para a valorização do funk, Thiagson deixa de fazer uma crítica à contradição em que ele próprio está envolto: um intelectual orgânico do funk, numa tentativa de conquistar mercado e surfar na onda de empresas cool, “SPLASH” e “conscientes”. Por Luís]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Luís</h3>
<p style="text-align: justify;">No início de junho de 2026, a página do Toca UOL publicou um vídeo em sua página do Instagram onde Thiagson entrevista MC Hariel, divulgando o novo trabalho do funkeiro no Red Bull Symphonic — uma mistura inédita ou no mínimo rara entre o funk e a música clássica em um evento de grandes proporções. A ocasião abre espaço para que Thiagson, que é consagrado como um intelectual no meio do funk e da música periférica, principalmente através da sua crítica ao etnocentrismo, o desvelamento da arbitrariedade e do racismo no estigma colocado na música periférica por parte da mídia e outras instâncias; o que, de fato, é uma contribuição importantíssima. O problema não é a reflexão proposta a partir da situação: é a função de legitimador irrefletido do funk; Thiagson é, na sua atuação, a anti-autocrítica.</p>
<p style="text-align: justify;">A tônica do vídeo se dá com a reflexão sobre o julgamento social do valor das expressões artísticas e como Hariel, sendo oriundo de um meio estigmatizado no campo cultural, “bagunça” a ordem e consegue atrair a admiração e julgamentos positivos de setores socialmente distanciados do seu. Explicita, também, a teoria de Pierre Bourdieu sobre como as correlações de força e lutas na sociedade influenciam o julgamento e o universo simbólico a partir do exemplo que dá sobre a recepção e abordagem que recebe dos mesmos setores, no seu elogio que, enquanto exalta o MC, “desmerece” e rebaixa o campo no qual ele está inserido.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ah, mano… Tipo, esses Cavalo de Tróia, eu lido com isso diariamente. Quando as pessoas às vezes tentam me elogiar, aí […] desmerecem todo mundo. Tipo: “ah, eu curto seu som… mas o resto eu não gosto, não!”. É uma parada que a gente vê a ignorância da pessoa no elogio. A pessoa é tão ignorante que ela não consegue elogiar uma pessoa ou olhar pra uma parada assim sem querer legitimar outra. Sei que vai vim vários assim com esse ponto de vista, mas eu tô mais preocupado com o rapaziada do funk mesmo que pode olhar pro lado da orquestra e conhecer alguns números, conhecer mais sobre esse universo, tá ligado?… Não tô preocupado com esses que vão vim nesse embalo assim. Pode chegar com pensamentos diferentes, mas se for ficar pra acompanhar mesmo, vai ter que pegar a visão, vai ter que ter o respeito.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tal atitude ajuda a desvelar os <em>princípios de percepção e apreciação</em> dos agentes: quando se está inserido num campo periférico, refletindo valores periféricos, uma estética periférica, enfim, um <em>ethos</em> típico da periferia, o valor é negativo; a partir do momento em que começa a haver uma aproximação com os valores “bons”, no sentido de mais valorizados socialmente, na hierarquia social — o que até mesmo a cor de pele mais clara pode significar para alguns —, começa-se a valorar positivamente. No caso, Hariel sendo um dos poucos que fazem esse último movimento, é enxergado por muitos como “o único bom”, um funkeiro de valor entre outros rebaixados.</p>
<p style="text-align: justify;">No movimento (novamente, acertado) de fazer (novamente) a crítica ao etnocentrismo, entra a contradição central: o problema não é o que Thiagson diz, <em>é o que ele deixa de dizer. </em>Enquanto usa Bourdieu para dar legitimidade — e, no fim das contas, jogar com esse mesmo movimento que Hariel fez, talvez de forma menos pensada, de brincar com a economia simbólica — ao seu ponto e atrair esse novo mercado (pode-se falar de mercado?) de pessoas das frações mais cultas da classe-média que tentam se aproximar dos guetos através de objetos culturais advindos deles, contribuindo para a valorização do funk, deixa de fazer uma crítica à contradição que, nesse caso, se torna até mesmo inconveniente, já que o próprio está envolto nela: um intelectual orgânico do funk, dentro dos maiores portais online do país, anunciando o contrato de um funcionário da Warner e CEO da Xaolin Records com uma gigante capitalista como a Red Bull numa tentativa de conquistar mercado e surfar na onda de empresas <em>cool, “SPLASH” </em>e “conscientes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Longe de ser um caso isolado, é uma constante em sua atuação pública: caso notório é sua entrevista — também mediada pelo Toca UOL — com Criolo. Ao ser perguntado sobre a ascensão do chamado “rap de direita”, o artista responde conciliando: diz que isso sempre existiu, fala da pluralidade de visões na periferia, no movimento hip-hop etc. Diante disso, não há contraponto ou ao menos instigação por parte de Thiagson, o que revela seu limite: por mais que, de fato, seja impossível dizer que, hoje, a cultura hip-hop ou o rap é “de esquerda” ou “de direita”, o que vai definir a quem a cultura serve, nas suas tendências dominantes — pois sempre podem existir “guetos” dentro de um campo com visões diferentes das dominantes, mas com atuação quase sempre limitada — são justamente as lutas, as disputas, os debates. Quando deixa a afirmação de Criolo passar sem sequer uma constatação (o que, vale lembrar, muitos outros não deixaram de fazer, questionando a fala do rapper), Thiagson deixa de ter compromisso com a própria posição de esquerda que assume, abre alas às tendências direitistas dentro da cultura e ainda por cima as legitima para um público potencialmente crítico, emprestando sua legitimidade acadêmica, cultural e própria do universo da música periférica para uma posição conciliadora, que esvazia o potencial crítico e emancipatório do rap e do funk.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, é importante salientar algumas coisas: primeiramente, quando falamos nos “limites” da atuação de Thiagson, não queremos dizer que o sujeito em questão é alguém preso eternamente a esses limites, desonesto ou mesmo que o indivíduo tenha planejado cinicamente os efeitos das suas ações. Não é um ataque, como existem aos montes pela internet, que questiona o próprio valor do funk, das expressões periféricas, seja como “não-música” ou cultura inferior — argumento que o próprio ajuda a desmontar, por exemplo, na sua tese de doutoramento e por diversas outras vezes. É uma crítica que quer disputar os rumos da cultura e abrir espaço à discussão justamente porque acredita no potencial emancipatório da mesma e porque tem apreço por ela.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159361 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1.webp" alt="" width="883" height="1170" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1.webp 883w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-226x300.webp 226w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-773x1024.webp 773w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-768x1018.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-317x420.webp 317w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-640x848.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-681x902.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 883px) 100vw, 883px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Falando em limites, é fundamental perguntar: o que pode ser dito dentro da UOL? Thiagson, enquanto funcionário (e não enquanto indivíduo, ressaltamos novamente) da UOL se encaixa muito bem na categoria de <em>fast thinker</em> descrita pelo próprio Bourdieu em <em>Sobre a Televisão:</em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sobre a televisão, o índice de audiência exerce um efeito inteiramente particular: ele se retraduz na pressão da urgência. A concorrência entre os jornais, a concorrência entre os jornais e a televisão, a concorrência entre as televisões toma a forma de uma concorrência pelo furo, para ser o primeiro. Por exemplo, em um livro em que apresenta certo número de entrevistas com jornalistas, Alain Accardo mostra como os jornalistas de televisão são levados, porque tal televisão concorrente “cobriu” uma inundação, a ir “cobrir” essa inundação tentando obter algo que o outro não obteve. Em suma, há objetos que são impostos aos telespectadores porque se impõem aos produtores; e se impõem aos produtores porque são impostos pela concorrência com outros produtores. Essa espécie de pressão cruzada que os jornalistas exercem uns sobre os outros é geradora de toda uma série de conseqüências que se retraduzem por escolhas, por ausências e presenças. Eu dizia ao começar que a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento. […] E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão das relações entre o pensamento e a velocidade. Pode-se pensar com velocidade? Será que a televisão, ao dar a palavra a pensadores que supostamente pensam em velocidade acelerada, não está condenada a ter apenas <em>fast-thinkers</em>, pensadores que pensam mais rápido que sua sombra…? Com efeito, é preciso perguntar por que eles são capazes de responder a essas condições inteiramente particulares, por que conseguem pensar em condições nas quais ninguém mais pensa. A resposta é, ao que me parece, que eles pensam por “idéias feitas”. As “idéias feitas” de que fala Flaubert são idéias aceitas por todo mundo, banais, convencionais, comuns; mas são também idéias que, quando as aceitamos, já estão aceitas, de sorte que o problema da recepção não se coloca. Ora, trate-se de um discurso, de um livro ou de uma mensagem televisual, o problema maior da comunicação é de saber se as condições de recepção são preenchidas; aquele que escuta tem o código para decodificar o que estou dizendo? Quando emitimos uma “idéia feita” é como se isso estivesse dado; o problema está resolvido. A comunicação é instantânea porque, em certo sentido, ela não existe. Ou é apenas aparente. A troca de lugares-comuns é uma comunicação sem outro conteúdo que não o fato mesmo da comunicação. Os “lugares-comuns” que desempenham um papel enorme na conversação cotidiana têm a virtude de que todo mundo pode admiti-los e admiti-los instantaneamente: por sua banalidade, são comuns ao emissor e ao receptor. Ao contrário, o pensamento é, por definição, subversivo: deve começar por desmontar as “idéias feitas” e deve em seguida demonstrar. […] Se a televisão privilegia certo número de fast-thinkers que propõem fast-food cultural, alimento cultural pré-digerido, pré-pensado, não é apenas porque (e isso faz parte também da submissão à urgência) eles têm uma caderneta de endereços, aliás sempre a mesma (sobre a Rússia, são o sr. ou a sra. X, sobre a Alemanha, é o sr. Y)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Cumpre a mesma função descrita, estando sempre pronto a intervir nas oportunidades que aparecem, nas polêmicas e no que viraliza, no que o canal de mídia precisa <em>cobrir</em> com as chamadas “ideias feitas”: argumentos rápidos, reciclagem de parte de suas teses sem um aprofundamento na questão em si e nem desdobramentos que se coloquem além da crítica ao etnocentrismo que já é esperada da sua parte. Além de, por parte desse novo público, citado anteriormente, com capital cultural relativamente alto e potencial consumidor de obras com “caráter popular”, serem ideias, geralmente, já superficialmente pré-aceitas, ainda que com ressalvas ou a um certo contragosto, como a fala de MC Hariel explicita. Além do que se encaixa com mais precisão ao que foi descrito por Bourdieu há algumas décadas, observamos as práticas e roteiros que expressam adaptação à dinâmica atual da internet e às estratégias impostas para o sucesso — já que, pelo menos pelo que nós deduzimos, o Toca UOL tem como orientação a rentabilidade, o lucro — dentro deste contexto: vídeos relativamente curtos, facilmente polemizáveis e que servem de propaganda e ao mesmo tempo exploram a imagem tanto de um artista consagrado quanto a de um influencer.</p>
<p style="text-align: justify;">Encerrando, gostaria de perguntar a quem por acaso tenha concordado com o que foi colocado aqui: o seu acordo se dá pelo compromisso ou pelo ressentimento?</p>
<blockquote><p>As imagens que ilustram o artigo são da autoria de Ron English (1959-).</p></blockquote>
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		<title>Matrix, entre a revolução e a exploração</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2026 14:10:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[Em Matrix, como ocorre na sociedade capitalista, o processo de exploração do trabalho encontra-se oculto em uma mercadoria fetichizada. Por Michel Goulart da Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Goulart da Silva</h3>
<p style="text-align: justify;">Em março de 1999, o filme <em>Matrix</em> estreava nos cinemas, conquistando grande sucesso de público e crítica. O filme trazia uma reflexão sobre diversos aspectos da realidade vividos no cotidiano, como a relação com a tecnologia e com o meio ambiente. Com seu grito de “acorde” (o <em>wake up</em>, da música do <em>Rage Against the Machine</em>, que faz parte da trilha sonora do filme), o filme, apesar de ser uma produção hollywoodiana, se tornou uma expressão da revolta diante dos ataques que governantes em diferentes países faziam contra os direitos dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Eram tempos de crescimento do movimento que ficou conhecido como “antiglobalização”, que ocupou as ruas em reuniões de organismos internacionais, como o Banco Mundial e o FMI, e que pouco depois abandonariam o confronto direto para se somar a governos “progressistas” na construção de sucessivas edições do Fórum Social Mundial. Por outro lado, eram também tempos em que a internet e o mundo dos aplicativos não tinham dominado a sociedade, como ocorre na atualidade, mostrando um caráter até mesmo de previsão do filme.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme <em>Matrix</em> tem uma história bastante simples, que remete a uma versão moderna da Caverna de Platão. Os seres humanos vivem na Matrix, uma realidade artificialmente criada por máquinas. Séculos antes, o mundo teria sido destruído e os humanos escravizados, servindo como um tipo de bateria para fornecer energia às máquinas. Essa é possivelmente uma das metáforas mais fortes do filme, na medida em que remete aos trabalhadores que sustentam o capital e que mantém uma relação de estranhamento com o produto do seu trabalho. Marx destacava que o trabalho estranhado faz “do <em>ser genérico do homem</em>, tanto da natureza quanto da faculdade genérica espiritual dele, um ser <em>estranho</em> a ele, um <em>meio</em> de sua existência <em>individual</em>. Estranha do homem o seu próprio corpo, assim como a natureza fora dele, tal como a sua essência espiritual, a sua essência <em>humana</em>” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador, no capitalismo, não conhece o valor produzido pelo seu trabalho da mesma forma que no filme as pessoas estão presas a essa realidade artificialmente criada. Nessa sociedade, “transformam-se em seres que são o reflexo de uma realidade imediata, cotidiana, parcial, desconhecem a essência das coisas, e orbitam o mundo fenomênico, obnubilado por sombras e enganos” <strong>[2]</strong>. Em <em>Matrix</em>, como ocorre na sociedade capitalista, o processo de exploração do trabalho encontra-se oculto em uma mercadoria fetichizada. Segundo Marx, “a opressão humana inteira está envolvida na relação do trabalhador com a produção, e todas as relações de servidão são apenas modificações e consequências dessa relação” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159322" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl.jpg" alt="" width="1200" height="800" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Nesse debate, algo que chama a atenção na Matrix passa pelo fato de controlar toda a vida do trabalhador. Os humanos, enquanto dão energia para a Matrix, estão dormindo, ou seja, toda a sua energia vital é sugada. Essa forma de exploração lembra em grande medida o processo de trabalho da sociedade capitalista, no qual,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Mediante a compra da força de trabalho, o capitalista incorpora o próprio trabalho, como fermento vivo, aos elementos mortos que constituem o produto e lhe pertencem igualmente. De seu ponto de vista, o processo de trabalho não é mais do que o consumo da mercadoria por ele comprada, a força de trabalho, que, no entanto, ele só pode consumir desde que lhe acrescente os meios de produção. O processo de trabalho se realiza entre coisas que o capitalista comprou, entre coisas que lhe pertencem” <strong>[4]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O processo de incorporação de tecnologias impacta nesse trabalho, no qual, cada vez mais, o produto parece se distanciar do próprio trabalhador. Entende-se que</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“[…] a atividade do trabalhador, limitada a uma mera abstração da atividade, é determinada e regulada em todos os aspectos pelo movimento da maquinaria, e não o inverso. A ciência, que força os membros inanimados da maquinaria a agirem adequadamente como autômatos por sua construção, não existe na consciência do trabalhador, mas atua sobre ele por meio da máquina como poder estranho, como poder da própria máquina” <strong>[5]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">No cenário de distopia de <em>Matrix</em>, um grupo de humanos organizou a resistência à opressão promovida pelas máquinas. Contudo, para que a resistência conquistasse novos adeptos, as pessoas precisariam ser literalmente acordadas. No interior da Matrix havia algumas pessoas que acabavam sendo os potenciais revoltosos, afinal, ainda que sem saber exatamente o que estavam acontecendo, se sentiam desconfortáveis com aquele ambiente, como acontecia com o protagonista do filme, um hacker conhecido como Neo. Como em Platão, onde as pessoas precisariam ver a luz, por mais que a cegassem em um primeiro momento, em <em>Matrix</em> deveriam ver a realidade em sua materialidade. Essa realidade concreta é chamada, em certo momento do filme, de “deserto do real”.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme, ainda que de forma contida, faz um elogio à subversão, chamando todos a acordarem antes que uma grande tragédia possa vir a consumir a sociedade e o planeta, colocando em cena personagens que seriam a célula de uma organização revolucionária dedicada a destruir a Matrix. Um dos enfrentamentos centrais dessa organização política passa pelo processo de cooptação, na medida em que a Matrix pode oferecer às pessoas qualquer coisa que deseje. No capitalismo, “a sedução e o encantamento foram aprimorados, com o intuito de fazer com que as mercadorias assumissem papeis imprescindíveis na vida da classe trabalhadora” <strong>[6]</strong>. Como no capitalismo e sua promessa de felicidade, a Matrix pode oferecer um mundo de possibilidades, desde que as pessoas não questionem sua lógica e seu funcionamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora tenha uma mensagem da necessidade da organização como forma de transformação da realidade, o filme tem evidentes limites políticos. Sua narrativa se perde na busca e na idolatria do “escolhido”, o protagonista Neo, que seria um ser humano especial com a capacidade de destruir sozinho a Matrix. O embate central, embora não deixe de ser com as máquinas, vai ganhando a cara das lutas contra Smith, que deixa de ser um agente da Matrix para se tornar uma espécie de defeito do sistema. O filme acaba apresentando uma necessidade de sacrifício quase religioso, não apenas do próprio Neo, mas dos seus companheiros que voltam todos os seus esforços para ajudar as ações do protagonista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159323" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted.webp" alt="" width="1200" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted.webp 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-300x180.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-1024x614.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-768x461.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-700x420.webp 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-640x384.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-681x409.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Em suas continuações, nos filmes <em>Reloaded</em> e <em>Revolutions</em>, ambos lançados em 2003, essa personificação do salvador avançou no discurso de que nada seria possível de mudar. Mostra-se ao longo da narrativa que mesmo esse “escolhido” seria uma peça dentro da própria Matrix, portanto, até mesmo a subversão por ele representada estaria sob controle e levaria a um ciclo no qual a Matrix sempre voltaria a existir. Nessa lógica, “no fim, nada é realmente resolvido: a Matrix continua lá, explorando os seres humanos, sem garantia de que não surgirá um novo Smith; a maioria dos seres humanos continuará escravizada” <strong>[7]</strong>. O eterno retorno sem novidades parece ser um mote pouco criativo do mais recente filme da franquia, <em>Matrix Resurrections</em>, lançado em 2021.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme <em>Matrix</em>, ao dar maior ênfase à figura messiânica de Neo, profetizado como o “escolhido”, deixa de contar a história de uma organização rebelde. Opta por mostrar, de forma crescente, que, mesmo que a luta seja importante, não há possibilidade de revolução e que o capitalismo sempre conseguirá se reerguer. No limite, o que o filme aponta é que o papel da subversão e da revolta passa por conquistar reformas na sociedade e não por colocar abaixo o sistema que explora a humanidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong><br />
<strong>[1]</strong> Karl Marx. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 85.<br />
<strong>[2]</strong> Vanessa Batista de Andrade. Crédito e neuroeconomia: estudo crítico das estratégias econômicas para aceleração da circulação e seus efeitos sobre a classe trabalhadora. Marília: Lutas Anticapital, 2025, p. 96.<br />
<strong>[3]</strong>. Karl Marx. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 89.<br />
<strong>[4]</strong> Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, livro I, p. 262-3.<br />
<strong>[5]</strong> Karl Marx. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboço da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: UFRJ, 2011, p. 581.<br />
<strong>[6]</strong> Vanessa Batista de Andrade. Crédito e neuroeconomia: estudo crítico das estratégias econômicas para aceleração da circulação e seus efeitos sobre a classe trabalhadora. Marília: Lutas Anticapital, 2025, p. p. 104.<br />
<strong>[7]</strong> Slavoj Zizek. Lacrimae Rerum: ensaios sobre cinema moderno. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 176.</p>
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		<title>A luta não é pra todos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nicolas Lorca]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 16 May 2026 10:07:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Militava em um coletivo da cidade e seu rosto estampava todas as publicações do grupo como liderança. Dentre as reivindicações, estava o fim da jornada de trabalho na escala 6×1. Fora das redes sociais, cobrava que seus funcionários trabalhassem de domingo a domingo. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Militava em um coletivo da cidade e seu rosto estampava todas as publicações do grupo como liderança. Dentre as reivindicações, estava o fim da jornada de trabalho na escala 6×1. Fora das redes sociais, cobrava que seus funcionários trabalhassem de domingo a domingo. <strong>Passa Palavra</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Valor, comércio e apostas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2026 20:19:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[O dinheiro vale hoje, ou não vale nada. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Primo Jonas</h3>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As mentiras do atleta</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Hic Rhodus, hic salta!</em>, diz um espectador ao atleta da fábula ao terminar de escutar a sua história. O atleta, de pouca monta em sua terra natal, havia viajado à ilha de Rodas e lá, segundo sua narrativa, realizou um salto magnífico que não fora superado por nenhum ganhador dos jogos olímpicos. Ele então convidou o público a um dia acompanhá-lo a Rodas para que pudessem ver sua proeza ao vivo, e foi então que um espertinho soltou a famosa frase que Marx retomou para falar sobre a transformação do dinheiro em capital: a transformação da lagarta em mariposa (isto é, a transformação do possuidor de dinheiro em capitalista) deve ocorrer na esfera da circulação e <em>não</em> deve ocorrer nela. Tais são as condições do problema. <em>Hic Rhodus</em>…</p>
<p style="text-align: justify;">O recompilador das fábulas chamadas “de Esopo”, daquelas que chegaram a nós, fecha a breve narrativa com a seguinte moral: quando não se pode provar uma coisa com feitos, tudo o que é falado sobra. Se não pode ser demonstrado, o valor do relato é nulo.</p>
<p style="text-align: justify;">A escolha particular de Marx para fechar um capítulo do seu livro “O capital” onde versa sobre “as contradições de sua fórmula geral” da produção capitalista (D-M-D&#8217;) até hoje chama muito a atenção, para além dos aspectos curiosos a respeito de suas citações e referências clássicas, e nos leva diretamente a um dos debates recorrentes entre marxistas: a natureza do valor e sua relação com o dinheiro. Se bem é extensa a literatura sobre a história da teoria do valor-trabalho, infelizmente o prestígio político da figura de Marx criou, há tempos, o vício de remeter-se à autoridade inclusive para dizer coisas contrárias ao texto original.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158894 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/05.jpg" alt="" width="350" height="695" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/05.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/05-151x300.jpg 151w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" />Vamos repor de maneira esquemática e breve a diferença entre Ricardo e Marx: para o primeiro autor, o valor das mercadorias é criado a partir do tempo de trabalho realizado sobre elas no processo que as produz. A outra grande corrente que foi desenvolvida de maneira paralela, e concorrente, é a teoria subjetiva do valor, onde o tempo de trabalho não importa muito, o que importa é a escassez de um bem e a valoração subjetiva dos indivíduos. Pois bem, Marx toma de Ricardo a ideia do tempo de trabalho, mas extrapola para uma esfera da produção social e já não de produtores independentes: o tempo de trabalho que gera valor em uma mercadoria não é o tempo do cronômetro e do produtor isolado, mas sim <em>o tempo socialmente necessário para produzir tal mercadoria</em>. Partimos já de um sistema capitalista dado, onde diferentes produtores independentes realizam seus trabalhos e criam mercadorias que concorrem entre si no mercado. Se eu gasto 2 dias para fazer uma cadeira enquanto os marceneiros de minha cidade fazem uma mesma cadeira em apenas 1 dia, não estou criando uma cadeira com duas vezes mais valor que as demais, estou gastando o dobro de tempo para criar o mesmo valor que os demais fabricantes realizam em 1 dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Chego então ao mercado e digo “estive em Rodas e fiz uma cadeira com o equivalente a 2 dias de valor-trabalho. Se quiserem, podem vir comigo e comprovar que esta cadeira tem esse valor”, e um concorrente meu, observando meu discurso diz “<em>Hic Rhodus!</em> Eu fiz a mesma cadeira com apenas 1 dia de valor-trabalho”. Os 2 dias de valor-trabalho de minha cadeira se desmancham no ar. Aquilo que foi gerado em potência no processo de produção não se confirmou na circulação, isto é, na etapa de compra e venda das mercadorias. A proeza do salto não se realizou, ficamos apenas com a promessa, a história de algo que ocorreu em outro lugar.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, uma leitura muito comum entre marxistas, que poderíamos classificar como positivista, entende que o valor é uma qualidade imanente das mercadorias uma vez que elas recebem a intervenção do trabalhador no processo de produção. Como se pudéssemos tirar fotos dos diferentes estágios, a mercadoria vai recebendo “quantidades de valor” durante o processo e chega ao mercado com essa qualidade imanente, que finalmente será <em>realizada </em>ao ser vendida, segundo a tradição terminológica das traduções ao português e ao espanhol. Oras, acreditar que a mercadoria chega ao mercado com uma qualidade imanente correspondente ao seu valor é como acreditar na história do atleta grego. O fato dele não conseguir reproduzir diante de nossos olhos a sua proeza não nos indica apenas que ele piorou suas capacidades atléticas, como se houvesse perdido músculos desde então. Indica que o salto original foi uma mentira, apenas palavras ao vento. Quanto ao valor, o processo produtivo que trouxe as mercadorias ao mercado e que não foram vendidas ao preço esperado também é comparável às palavras ao vento, uma mentira que se descobre a posteriori. Produziu-se para uma demanda que não passava de ilusão.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma economia comercial</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">No debate marxista o foco está posto sobre o fundamento da mais-valia. Para toda uma parte da teoria econômica tradicional o lucro econômico dos empresários vem do fato de venderem as mercadorias por mais dinheiro do que o desembolsado como custos para produzi-las. Marx se opõe a esta interpretação ao indicar que o processo de valoração do capital ocorre <em>e também não ocorre</em> na esfera da circulação, na compra e venda. E quando diz que não ocorre na circulação aponta que no processo de produção há um fator crucial: a exploração do trabalho. Isto é, ao trabalhador, que é uma parte dos custos de produção, não se paga em salário o valor que ele está somando às matérias-primas com seu trabalho senão que lhe é pago apenas o valor necessário para reproduzir sua força de trabalho. Se formula a questão desta forma: o empresário não compra <em>o trabalho</em> despendido pelo trabalhador, ele compra a <em>força de trabalho</em> do trabalhador, que é posta a sua disposição por um período dado (a jornada de trabalho). Em termos matemáticos: o total de valor que um trabalhador consegue imprimir às mercadorias é maior do que aquilo que o trabalhador absorve consumindo o valor dos bens que seu salário lhe permite comprar. Valor entregue ao trabalhar &gt; Valor absorvido na reprodução da força de trabalho. Quanto maior esta diferença, maior é a taxa de exploração do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Se nosso atleta se limitasse a contar suas proezas em outras terras sem ter que demonstrá-las poderíamos dizer, com muitos marxistas, que a produção da mais-valia ocorre na esfera da produção. É um enfoque que ganhou muita força nos partidos obreiristas que buscavam catequizar os operários industriais e mostrar que sua atividade laboral era o fundamento da sociedade capitalista. O valor ganha assim uma natureza imanente, palpável, o que também é excelente para vulgarizar uma compreensão dita “materialista” da sociedade e da história. E assim como algumas feministas reclamaram de forma estranha o conceito de “valor” para os trabalhos domésticos, também alguns setores marxistas propuseram o desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo como se o valor fosse algo que o operário cria com suas mãos, e do qual deveria estar orgulhoso.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158892" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/03.jpg" alt="" width="450" height="358" /></p>
<p style="text-align: justify;">A premissa que estes marxistas ignoram é que o capitalismo é essencialmente uma economia comercial: o critério último que define, ainda, os fluxos de valor são as operações comerciais. É possível que cheguemos a um estágio deste modo de produção onde a esfera da circulação deixe de ser o critério último, mas ainda não estamos lá. Existe, certamente, uma tendência a autonomizar o processo de produção de suas amarras comerciais. Os autores que analisam a classe gestorial, por exemplo, nos mostram que existe uma base social e técnica que empurra nesta direção, a de um capitalismo dominado pelos dirigentes dos processos produtivos, indiferentes às dinâmicas do mercado. A exclusão do aspecto comercial do capitalismo também levou muitos marxistas a ignorar por completo as questões monetárias da economia, mantendo-se sempre próximos ao pensamento clássico que concebia o dinheiro como um facilitador neutro das trocas, um véu que se amolda passivamente aos contornos e relevos da economia real.</p>
<p style="text-align: justify;">Suzanne de Brunhoff escreveu sobre marxismo e política monetária a princípios dos anos 70, quando os Estados Unidos abandonavam o padrão ouro gerando incertezas sobre o futuro do dinheiro mundial (<em>A política monetária</em>, 1973). Ela começa seu ensaio reconhecendo a “desmaterialização” do dinheiro e que o dinheiro de crédito “permite a circulação das mercadorias”. A contrapartida dessa condição habilitante do crédito é o necessário acúmulo incessante de dívida. No capitalismo toda moeda nacional está em relação direta com o mercado mundial e com as demais moedas: o mercado mundial supõe um consenso que valide e estabilize as relações comerciais, sem o qual prevalecem os protecionismos (nacionais ou continentais) e a guerra. Por muito tempo o ouro foi uma peça central desse consenso, o seu valor e sua materialidade permitiram a estabilização de circuitos de circulação de mercadorias, forjando o mercado mundial que já Marx descrevia em sua época. “A moeda como equivalente geral, estando em relação com um aparelho de Estado, é incompatível com o nacionalismo e se relaciona necessariamente com a circulação mundial de mercadorias e de capitais”, afirma Suzanne.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“A moeda atua como uma obrigação inerente a toda economia comercial, em qualquer modo de produção vigente.(…) Para que o uso da moeda possa produzir efeitos favoráveis aos capitalistas &#8216;produtivos&#8217;, eles também devem se submeter a um mínimo de obrigações que garanta o funcionamento e a reprodução do equivalente geral”. Brunhoff desenvolve esta ideia de “reprodução do equivalente geral” na senda dos consensos e das obrigações que operam no mercado mundial, sem os quais o dinheiro deixa de funcionar como tal. Um exemplo de situação onde a reprodução do equivalente geral se vê ameaçada são os episódios de hiperinflação: as obrigações contraídas rapidamente exacerbam para um lado o benefício dos devedores e por outro o prejuízo para os prestamistas, a imprevisibilidade do valor futuro da moeda leva os agentes a guardar valor em outras divisas ou em bens duráveis. Os autores da economia clássica, como dissemos, sustentavam uma visão do dinheiro como simples facilitador da produção econômica: ele não possui, e não deve possuir, a capacidade de afetar a economia por uma dinâmica própria, deve apenas ajustar-se à economia produtiva. Daquela época eram as ideias de um dinheiro que fosse o “padrão invariável de valores”, um dinheiro universal sem inflação, estável, transparente no passado e no futuro. Essas ideias, nos diz a autora, são ensejos dos dirigentes da produção capitalista que se deparam, para prejuízo de seus poderes, com as determinações do aspecto comercial do modo de produção capitalista. Por ser uma economia comercial, o dinheiro deve cumprir outro tipo de função, incompatível com um tal “padrão invariável”. </em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A lei e o nosso lado subjetivo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O dinheiro no capitalismo precisa suportar a correção <em>ex-post </em>de um valor e portanto absorver uma alteração de seu valor no tempo. Essa característica atual do dinheiro é tanto mais importante quando a troca de informação e as alterações nos processos produtivos e das condições comerciais aumentam em frequências cada vez mais impressionantes.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158891 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/02.jpg" alt="" width="310" height="616" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/02.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/02-151x300.jpg 151w" sizes="auto, (max-width: 310px) 100vw, 310px" />A lei do valor, segundo Marx, é aquela que confere às mercadorias um valor pelo tempo <em>socialmente necessário</em> para a elaboração dessa mercadoria. Quanto mais avançadas as forças produtivas menor o tempo <em>socialmente necessário</em> para produzi-las. A consequência histórica desse avanço das forças produtivas é a transformação das formas do trabalho: os gestos passam a ser cronometrados, os tempos são fragmentados, a inteligência é fatiada. O trabalho realizado com as técnicas de ontem vai perdendo valor (de maneira contínua, mas também em saltos, os chamados ciclos da mais-valia relativa). Esse aumento da produtividade pavimentou, nos limites da lei do valor, o desenvolvimento capitalista e as novas formas de trabalho que geração atrás de geração vão sendo impostas aos proletários. A lei do valor, que direciona a produção capitalista no sentido das técnicas de maior produtividade e dessa maneira transforma as relações sociais, também se aplica no mercado mundial por meio das taxas de câmbio. Ao desvalorizar a moeda intencionalmente, um governo consegue pressionar para baixo o valor monetário do <em>tempo socialmente necessário</em> daquilo que é produzido em seu país, tendo como referência uma moeda de uso internacional como o dolar americano. Esta é outra função do dinheiro que exige que ele não seja apenas um facilitar neutro da economia produtiva: ele funciona como ferramenta de classes dominantes para obter vantagens comerciais no mercado mundial, sempre e quando essas classes têm êxito no controle da dinâmica monetária, o que não sempre ocorre.</p>
<p style="text-align: justify;">O surgimento de um fenômeno como o Bitcoin e a digitalização do dinheiro coloca outros problemas ainda quanto a como os trabalhadores entendem o dinheiro: os aparelhos de telecomunicações pessoais, os telefones celulares, se tornaram sorvedouros de dinheiro, um lugar que vem canalizando quantidades cada vez maiores do salário global. O prestígio das criptomoedas, hoje bem recebidas em Wall Street, e a massividade das apostas on-line (do futebol aos eventos históricos contemporâneos como guerras e eleições) nos revelam algo sobre a situação atual de uma importante função do dinheiro, a reserva de valor. Está em dúvida a estabilidade do valor ou estabilidade do futuro? Seja como for, a ideia de reserva, de um valor quieto sem destino certo, parece estar fadada a desaparecer. O dinheiro vale hoje, ou não vale nada.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, podemos comparar usos “irracionais” do dinheiro enquanto ferramenta econômica individual, como a doação do dízimo a uma igreja, uma contribuição sindical, a mensalidade de algum canal de notícias comunitário, ou a aposta compulsiva. Todas formas com que um trabalhador ou trabalhadora se desfaz de uma parte de seu salário, diminuindo assim o valor daquilo que consumirá para reproduzir sua força de trabalho. Essas modalidades de uso “irracional” podem ser, e o são, estimuladas por meio do marketing digital, sem o qual uma empresa hoje não prospera. Assim, podemos esperar que a reprodução do equivalente geral não se limite à acumulação de uma série de moedas e taxas de câmbio, que ela também entranhe novas formas psicológicas e sociais do uso do dinheiro a nível planetário, induzidas pelos próprios mecanismos de emissão e distribuição dos equivalentes gerais usados para remunerar a força de trabalho.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-158895 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6.jpg 400w" sizes="auto, (max-width: 70px) 100vw, 70px" /><em>Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Hiroshi Sugimoto</em>.</p>
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		<title>Para além da Tarifa Zero</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 12:45:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
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					<description><![CDATA[O grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. Por Isadora de Andrade Guerreiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Em setembro de 2025 tive a oportunidade incrível &#8211; proporcionada por Daniel Santini, a quem agradeço &#8211; de entrevistar a atual deputada federal e ex-prefeita de São Paulo (1989-1993) Luiza Erundina (PSOL), seu secretário de transportes à época, Lucio Gregori, e Mauro Zilbovicius, ex-diretor da Cia. de Engenharia de Tráfego (CET) e do Departamento do Sistema Viário (DSV). A pauta era a Tarifa Zero ontem e hoje, dado que o trio foi responsável pela proposta pioneira no país durante a primeira gestão municipal do PT em São Paulo. O <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">resultado da entrevista</a> foi publicado na <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Diálogos Socioambientais v.8, n.23</a>, em novembro de 2025, um dossiê muito especial com contribuições atuais sobre o tema, organizado pela professora Silvana Zioni e o próprio Daniel Santini.</p>
<p style="text-align: justify;">O dossiê vem em boa hora, na medida em que o tema com certeza será parte da disputa eleitoral deste ano, que será delicadíssima por uma série de questões. Foi lançado justamente quando o governo federal pediu um estudo detalhado para implantar a Tarifa Zero nacionalmente e, em Belo Horizonte, o assunto foi votado na Câmara e não ganhou, mas assustou. Para quem acompanhou o nível de embate do tema em 2013, ver onde ele chegou atualmente é, no mínimo, surpreendente. Ou temerário… e por isso retomar suas origens de forma viva na entrevista foi algo muito importante.</p>
<p style="text-align: justify;">Digo isso pois o grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. O que está em pauta é se ela será uma tábua de salvação para um setor empresarial em franca crise &#8211; e que é pedra fundamental de amplos clientelismos Brasil afora -, ou se será parte de uma transformação urbana e social mais estrutural. Politicamente relevante é que o embate institucional está acontecendo dentro do campo da dita esquerda partidária, com PT e PSOL em lados opostos: o deputado federal Jilmar Tatto (PT) tem representado o setor empresarial dos transportes e feito propostas que têm avançado mais do que as de Erundina dentro do parlamento e do executivo federal.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso a entrevista está especial e convido todo mundo a ler. Aquela tarde junto aos três ecoou fundo em mim, pois foi como um sopro de brisas frescas vindas de um lugar perdido. Zilbovicius colocando a racionalidade técnica no seu lugar, como instrumento político; o incrível Lucio Gregori relacionando a Tarifa Zero com a revolução social anticapitalista; e Erundina, de uma força transbordante e incansável, mas ao mesmo tempo extremamente afetiva e carinhosa durante toda a tarde, trazendo a noção de direito social como algo muito mais estrutural do que se transformou no neoliberalismo. Assim, a entrevista tem algo de incômodo, pois mexe com potências políticas adormecidas que as gerações atuais nem sonham o quão mobilizadoras foram. Faz-nos pensar no estado de coisas em que estamos, no desespero de ter que defender o pouco que restou de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o que é um governo municipal não era uma questão, mas sim o que pode ser um governo municipal dentro de uma sociedade mobilizada. Isso aparece numa fala do engenheiro Zilbovicius:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até hoje guardo uma fala da Luiza, que ela repetia constantemente: cada ação “tem que ser pedagógica”. As pessoas precisam aprender com essa luta. Ou seja, não se tratava apenas de resolver um problema imediato, mas de usar essa solução para fazer política, demonstrar uma nova possibilidade e, a partir dela, demandar mais. Estávamos ali para empurrar a fronteira do possível e alargar os limites do que era considerado realizável.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Alargar o possível é também alargar nosso pensamento. A Tarifa Zero ser viável leva o debate, evidentemente, ao tema técnico &#8211; também discutido no dossiê &#8211; e é nesse momento que precisamos atualizar o lugar da técnica na política &#8211; onde queremos chegar com a Tarifa Zero? Sem isso, cairemos inevitavelmente na implantação de um modelo que instrumentalizará a gratuidade, sem colocar o cerne da questão da mobilidade que é, na prática, o capitalismo. Levantei essa questão quando trouxe na entrevista o exemplo da habitação: a gratuidade (ou quase) veio dentro de um modelo financeirizado de salvação empresarial que trouxe muitas vezes mais problemas urbanos e sociais do que soluções (individuais e parciais, muitas vezes logo perdidas pelo <a class="urlextern" title="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" href="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">endividamento</a> ou pela <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" href="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">violência</a>), como vemos no Minha Casa Minha Vida. Ou seja, já conhecemos essa ladainha. Ela é sedutora, vem junto com o progressismo nosso de cada dia, com a vontade de avançar dentro do possível, de ter vitórias em meio ao cenário perturbador de espoliação que vivemos, de poder respirar. Mas não podemos nos esquecer que ela cobra a fatura, sem dó. O almoço não é grátis, embora possa parecer &#8211; o que torna a coisa ainda pior politicamente, muitas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">Gregori, ao responder, chama atenção a isso:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, a mobilidade humana não é tratada como questão estrutural no capitalismo. A premissa básica de que a locomoção é elemento fundamental da existência humana &#8211; é um direito humano &#8211; está ausente dessa lógica.</p>
<p style="text-align: justify;">O debate que travamos aqui é singular. Se levado para a esquina, a discussão se restringirá à superlotação dos ônibus ou ao preço da passagem. Falta à sociedade capitalista a compreensão de que a mobilidade transcende a mera necessidade de ir do ponto A ao ponto B. É muito mais do que isso: a mobilidade das pessoas é fundamental na vida humana.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Questionei, nesse sentido, por que a mobilização popular em torno dos transportes é tão diferente de outros setores como a habitação, a saúde e a educação. Além de muito menor, por um lado, quando “acendeu o pavio” se alastrou como palha seca, sem controle, em 2013. Por um lado, tanto tempo entre a gestão municipal e as jornadas de junho e, por outro, a persistência do tema, que volta como espectro inevitavelmente com a pergunta “ser ou não ser, eis a questão”. Gregori foi cirúrgico:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que falta é uma discussão ampla que investigue a essência do problema. Do que estamos falando? De algo que envolve a cidade em sua totalidade. E percebe-se que essa visão integral simplesmente não existe. Há falta de mobilização popular em torno do tema, durante tanto tempo, simplesmente porque é um jogo que nunca foi jogado. Como é que a população ou o cidadão comum pode, de repente, do nada, formular isso?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso leva ao tema da totalidade das lutas &#8211; e da potencialidade da mobilidade nas lutas urbanas neste quesito &#8211; e, inevitavelmente, no ponto crucial: estamos perdendo. Erundina tem clareza desta conjuntura, ainda que não se acomode. Segunda ela:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua indagação sobre a mobilização popular toca em ponto crucial. Os movimentos sociais não exercem pressão suficiente porque a mobilização popular substantiva praticamente deixou de existir. Os partidos de nosso campo ideológico abandonaram o projeto de fomentar participação das bases. O resultado é a ausência de mobilização genuína, falta de participação popular, inexistência de hegemonia das classes populares e erosão do poder popular no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Perdemos o tecido social vibrante do período pós-ditadura, quando a sociedade estava mobilizada e resolvia problemas coletivamente através de organizações de base.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, esse cenário foi desmontado. O povo perdeu sua voz e a crença em sua capacidade de transformação. Consequentemente, pautas como mobilidade e moradia não geram mais apelo ou participação massiva. O poder popular foi esvaziado.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Daniel Santini fez a pergunta que não quer calar no tema da Tarifa Zero, replicando uma provocação que fiz a ele num congresso acadêmico da área de planejamento urbano. “A pior Tarifa Zero &#8211; que remunera bem os empresários, que não muda nada, estruturada num sistema precarizado &#8211; é melhor do que um sistema com cobrança?”. Erundina fecha a entrevista com essa resposta, que é uma pérola que coroa não só o tema da Tarifa Zero, mas a encruzilhada dos nossos tempos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eu não consigo deixar de falar disso. Retomando a questão da moradia: eu trabalho com isso desde o começo da minha vida, como assistente social. A moradia conquistada na marra, fazendo caminhada a pé até o Palácio do Governo para que se ligasse água e luz nas favelas, quando vinha, tinha um peso e uma importância para aquela população muito diferente. Porque ela se capacitava a partir daquela conquista para outras lutas e para outras conquistas. Por isso, um programa massivo de moradia, tipo Minha Casa Minha Vida, não contribui para mobilizar e para conscientizar o povo da própria força. Não pode ser comparado com aquela luta na qual o próprio povo conquista a moradia. Ou para urbanizar a sua favela, em vez de fazer uma casa própria, que ele vai pagar 30 anos, ou não vai nem mesmo conseguir pagar. Isso não é uma política que emancipa os setores populares.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a questão: não se faz mais política hoje nesse país, capaz de fazer com que as pessoas se emancipem, como se fez no passado. Nós conseguimos fazer aquele governo porque a gente vivia em um período de pós-ditadura militar, em um processo de redemocratização, onde se conquistou algum nível de emancipação popular.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós tivemos apoio popular para experimentar uma forma de ser governo no qual todo mundo governou. Por isso tem uma força que não termina nunca. Aquele governo continua, porque não foi um governo de uma pessoa, nem de um partido: foi um movimento social popular, num determinado momento da história política desse país que não acontece mais. Porque os partidos estão bitolados por um modelo dentro do capitalismo que até o povo tem direito a uma casinha, tem água na favela e outras tantas coisas, mas sem alterar as bases sobre as quais essa sociedade está construída…</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Como não se sentir tocada? Quem for ler a entrevista na íntegra, verá que quem começa falando e perguntando é Erundina, a entrevistada. Vi que seria difícil me colocar. Mas, ao final, na mesa do café, ela me agradeceu a entrevista, que tomou um rumo que ela não esperava, a fazendo também respirar outras brisas. Que nos inspiremos nesse encontro geracional, pois os desafios vindouros são grandes.</p>
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		<title>Velha Toupeira (39)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Feb 2026 12:59:22 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158743" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/VT039-ARQUIVOS-EPSTEIN-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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		<title>Good Bye, Kapital!? A Alemanha em queda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 12:43:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Alemanha]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[ As crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema. Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">O celebre filme “Adeus, Lênin!” retrata o fim da chamada Alemanha Oriental de uma forma tragicômica. O dedicado Alex tenta a todo custo esconder de sua mãe o fim da Alemanha socialista. No limite, após uma grande propaganda da Coca-Cola cobrir a lateral do prédio ao lado, de frente a sua janela, grava um telejornal com ajuda de um taxista e seus amigos informando a mãe que a Coca-Cola é uma criação comunista. Um lindo e amoroso filme que carrega nossa melancólica mágoa da derrota <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegando a contemporaneidade, parece que na Alemanha de 2025 a vida voltou a imitar a arte, porém com os sinais contrários e uma população inteira como coadjuvante. Literalmente tá entrando muita água no chopp da Alemanha capitalista. A principal economia do bloco derrete.</p>
<p style="text-align: justify;">O fechamento da Fábrica da Volkswagen em Desdren e a demissão de 35.000 operários é o símbolo maior desse grande rearranjo capitalista. A máquina capitalista mais potente da Europa começa a falhar. O país que há décadas importa migrantes do mundo inteiro hoje tem a mesma taxa de desemprego da última crise. No geral, parece uma operação complexa para a burguesia alemã esconder de milhões de trabalhadores que as suas vidas estão em risco. Sua propaganda é a clássica demagogia do inimigo externo o risco do comunismo invadir as ruas da Europa é sempre um ótimo argumento para justificar mudanças <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158606" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png" alt="" width="1920" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-300x169.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1024x576.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-768x432.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1536x864.png 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-747x420.png 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-640x360.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-681x383.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Produção industrial em queda</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Marx no capítulo 1, do livro 1 do Capital diz que “A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma &#8216;enorme coleção de mercadorias&#8217;”. Nós acrescentamos que a capacidade de manutenção e ampliação da produção determina os limites da dominação da burguesa e as possibilidades de luta dos trabalhadores <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste sentido, a situação da Alemanha merece atenção. Sua produção manufatureira, o motor da economia, vem decaindo e isto se espelha na política. Vamos aos dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1. Produção Anual da Manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit14" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2010</strong></td>
<td class="col1">90.5</td>
<td class="col2"><strong>2018</strong></td>
<td class="col3">105.0</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2011</strong></td>
<td class="col1">98.2</td>
<td class="col2"><strong>2019</strong></td>
<td class="col3">101.7</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2012</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2020</strong></td>
<td class="col3">92.7</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2013</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2021</strong></td>
<td class="col3">97.1</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0"><strong>2014</strong></td>
<td class="col1">99.0</td>
<td class="col2"><strong>2022</strong></td>
<td class="col3">96.9</td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0"><strong>2015</strong></td>
<td class="col1">100.0</td>
<td class="col2"><strong>2023</strong></td>
<td class="col3">95.8</td>
</tr>
<tr class="row6">
<td class="col0"><strong>2016</strong></td>
<td class="col1">101.1</td>
<td class="col2"><strong>2024</strong></td>
<td class="col3">91</td>
</tr>
<tr class="row7">
<td class="col0"><strong>2017</strong></td>
<td class="col1" colspan="3">103.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte : OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Produção trimestral da manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit15" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2024-T4</strong></td>
<td class="col1">92.5</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2025-T1</strong></td>
<td class="col1">93.4</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2025-T2</strong></td>
<td class="col1">92.8</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2025-T3</strong></td>
<td class="col1">91.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;">Na série histórica iniciada em 2015 até o 3° trimestre de 2025, observamos que a produção da economia alemã caiu quase 9%. Pode parecer pouco, mas precisamos ter em mente que o capital é acumulação, é investimento em cima de investimento, é aumento da máquina produtiva. Caso contrário a feroz concorrência pode levar a chama da acumulação a se apagar. Instantaneamente, o reflexo na vida do povo trabalhador é direto: aumento do desemprego, queda no poder de compra, políticas de austeridade, redução do Estado de bem-estar social, etc. A situação é tão delicada para os burgueses alemães que a névoa da guerra volta a assombrar os trabalhadores na Europa <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico 1 temos na linha laranja as despesas de consumo das famílias, linha verde investimentos em máquinas e equipamentos e a linha investimentos em construção civil. O mais relevante para nós é a linha verde, importante indicador da acumulação de Capital, que, como podemos ver, está em franca queda e bem distante do ponto máximo atingido em 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 1: Investimentos e consumo na economia alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158604" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png" alt="" width="967" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png 967w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-269x300.png 269w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-917x1024.png 917w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-768x858.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-376x420.png 376w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-640x715.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-681x761.png 681w" sizes="auto, (max-width: 967px) 100vw, 967px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">Além do fechamento de fábricas, queda da produção e investimentos, outra coisa que será difícil a classe dominante alemã esconder dos trabalhadores é a queda nas exportações. No gráfico 2, temos na cor laranja o índice de crescimento das exportações e em azul o crescimento das importações.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 2. Crescimento da exportação e importação</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158601" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png" alt="" width="1080" height="1466" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-221x300.png 221w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-754x1024.png 754w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-768x1042.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-309x420.png 309w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-640x869.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-681x924.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">No meio desse baque econômico a burguesia alemã tenta esconder dos trabalhadores sua habilidade ímpar em fazer a vida virar morte. “Adeus, Lênin” é fichinha perto do que vem pela frente. Mesmo uma das opções clássicas para sair da crise, o desemprego, parece não estar funcionado. Segundo a chefe da Agência Federal de Emprego do país, Andrea Nahle, <a class="urlextern" title="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" href="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">as chances de desempregados na Alemanha encontrarem trabalho nunca foram tão baixas</a>. A taxa de desemprego está em 6.3%, igualando ao ponto mais alto durante a crise econômica de 2020, como podemos ver no gráfico abaixo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 3 — desemprego na Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158602" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png" alt="" width="922" height="464" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png 922w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-300x151.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-768x386.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-835x420.png 835w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-640x322.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-681x343.png 681w" sizes="auto, (max-width: 922px) 100vw, 922px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" href="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Bundesagentur für Arbeit</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A combalida saúde da economia Alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2025 <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" href="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">uma notícia no jornal DW destacou</a>: “A indústria automobilística emprega mais de um milhão de pessoas e há muito tempo é um termômetro da saúde econômica alemã”. A notícia segue com um preciso diagnóstico “as vendas estão encolhendo, empregos estão sendo cortados e fábricas enfrentam ameaças de fechamento”. Ou seja, como verificamos nos dados acima a saúde da economia alemã não vai bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Um do motivos é que sua menina dos olhos era o mercado chinês, isso mesmo, “era”. Segue o DW:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Houve tempos em que a participação de mercado da Volkswagen se aproximava de 50%. Até alguns anos atrás, as montadoras alemãs vendiam um em cada três carros no país asiático”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Porém, após 2008, o governo chinês passou a incentivar a produção de veículos elétricos, sendo o principal tipo de carro vendido na China atualmente.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Hoje, a cada dois <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" href="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">carros vendidos na China</a>, um é elétrico — e quase todos são de marcas chinesas. As vendas alemãs despencaram em seu mercado mais importante”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a notícia relata que diante da derrota sofrida pela burguesia alemã no mercado chinês, eles se voltam para a Índia, porém, enfrentando a concorrência dos carros indianos, coreanos, japoneses e agora dos carros chineses.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra notícia que explica o desengavetamento do empoeirado acordo com o Mercosul, parado há 25 anos, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" href="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">vem do próprio DW</a>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Para os defensores, como Alemanha e Espanha, este acordo, ao contrário, revitalizará uma economia europeia em dificuldades, enfraquecida pela concorrência chinesa e pelas tarifas dos Estados Unidos (…) Ao eliminar grande parte das tarifas, o pacto impulsionaria as exportações europeias de automóveis, máquinas, vinho e queijo”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Levando em consideração a grande importância da indústria automobilística que “há muito tempo é um termômetro da saúde economia alemã”, vamos focar um pouco mais em seus dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 4- Produção de veículos automotores: Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158603" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png" alt="" width="1200" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-300x125.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1024x427.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-768x320.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1008x420.png 1008w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-640x267.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-681x284.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" href="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">CEICDATA</a></p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico acima, observamos a grande queda vinda junto da última crise cíclica. Como de praxe, o padrão/patamar produtivo foi alterado, agora os carros elétricos são a bola da vez e a Alemanha não está acompanhando a toada. A queda em relação ao ápice ocorrido em 2025 é de 33%.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">matéria da BBC NEWS</a> observamos o busílis:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Todas as &#8216;três grandes&#8217; montadoras viram seus lucros antes dos impostos despencarem em cerca de um terço nos primeiros nove meses de 2024, e cada uma delas avisou que seus ganhos para o ano como um todo seriam menores do que o previsto anteriormente”, ou seja o cerne é a queda da taxa de lucro. Também pode ser verificado na queda vendas: “Entre 2017 e 2023, as vendas da VW caíram de 10,7 milhões para 9,2 milhões, enquanto, no mesmo período, as da BMW passaram de 2,46 milhões para 2,25 milhões, e as da Mercedes-Benz, de 2,3 milhões para 2,04 milhões, conforme mostram os relatórios das empresas”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para encerrar esse mapeamento das notícias no jornalão burguês, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" href="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais uma notícia do DW</a>, segundo Jan Brorhilker, sócio de umas das maiores consultorias empresariais do mundo, a Ernst &amp; Young:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“As empresas industriais estão sob imensa pressão” e “concorrentes agressivos, especialmente da China, estão forçando a queda dos preços, os principais mercados consumidores estão enfraquecendo, a demanda na Europa está estagnada em um nível baixo e há uma grande incerteza em torno de todo o mercado dos EUA”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158596" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg" alt="" width="1661" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg 1661w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-300x217.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1024x740.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-768x555.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1536x1110.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-581x420.jpg 581w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-640x462.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-681x492.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1661px) 100vw, 1661px" />Conexões e conclusões </strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Os cortes de gastos são mais fáceis de vender em nome da defesa do que em nome de uma noção generalizada de eficiência. Ainda assim, esse não é o propósito da defesa, e os políticos devem insistir neste ponto. O objetivo é a sobrevivência. O chamado “capitalismo liberal” precisa sobreviver e isso significa reduzir os padrões de vida para os mais pobres e gastar dinheiro para ir à guerra. Do estado de bem-estar social ao estado de guerra…”.</p>
<p style="text-align: justify;">E vão nesta toada: reduzindo gastos sociais, aumentando a capacidade de endividamento e, numa nova rodada, tendem a retomar a retirada de direitos dos trabalhadores <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Fechamos assim nosso último material sobre a Europa e com os dados acima sobre a Alemanha tudo se encaixa.</p>
<p style="text-align: justify;">Os investidores, governos, economistas, analistas, jornalistas e demais ideólogos burgueses se acostumaram com o fato de que em cada fim de ciclo econômico fosse sacrificada uma economia da periferia do capital. Foi assim com Argentina, Venezuela, Brasil, Grécia e outras. Dessa vez as coisas estão ocorrendo de outra maneira. Além das tradicionais vítimas da periferia do capital, entrou para o seleto grupo de economias combalidas a cada rodada de ciclo econômico uma importante economia do centro do capital, desde a crise de 2020 a economia da Alemanha continua em declínio. Em resumo, as crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra importante conclusão, a China durante décadas foi mercado de trabalho e consumo para as grandes empresas da Europa, porém em alguns setores as coisas começam a mudar, como vimos no caso dos carros elétricos. Nesse importante mercado a economia chinesa consegue praticar preços de produção bem menores que os seus concorrentes, porém, pelo fato da taxa de lucro tendencialmente diminuir, ela precisará de um mercado consumidor muito maior, como muito bem nos ensinou Marx no livro 3 do Capital e Rosa Luxemburgo em seu <em>Acumulação de Capital</em>. Nessa busca por mercados, além dos alemães, ela encontrará empresas dos EUA, França, Coreia do Sul e Japão. Se a tendência atual for confirmada e o capital sair do estado estacionário, veremos outra rodada de superação, ápice, crise e estagnação com retomada se iniciando.</p>
<p style="text-align: justify;">Levando em conta que nessa quadratura histórica as disputas por mercados assumem cada vez mais as características militares. Ou seja, a guerra e o protecionismo tomam a frente da economia-política, tudo fica às claras (arma na mesa e dedo em riste!).</p>
<p style="text-align: justify;">Neste novo momento do capital, com a necessidade do império-do-terror/coração-do-sistema se salvar, uma crise no coração do sistema tende a estar mais próxima. Com tudo isso no jogo, nos resta saber onde explodirá a nova destruição do capital a fim de retomar suas taxas de lucros perdidas e se agora com o velho e experiente proletariado europeu ameaçado ele há de se tornar classe para si novamente. No berço das revoluções ainda há muitos bebês para serem gerados e o céu, meus amigos, o céu deve ser atacado.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguimos afiando nossas armas para quando o carnaval chegar e nós descer! Até a próxima.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Derrota iniciada em 1921 com o massacre de Kronstadt. O pior é que nos lembra nossos amigos que tentam com todas as maneiras mostrar que os “socialistas de mercado” ou sem mercado (como Cuba) são superiores e tem ou tiveram vitórias que, se não fossem o malvado Capitalismo imperialista, seria a salvação do povo pobre do mundo. Este debate é complicado, mas partimos do pressuposto que estamos derrotados. Imóveis não, derrotados.<br />
<strong>[2]</strong> <strong>Charles Júnior e Antônio Carlos</strong>, <em>“Europa – do estado de bem-estar ao estado de guerra”</em>. In: <a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Chama</a> (03/06/2025)<br />
<strong>[3]</strong> Quando está tudo bem (emprego em alta, todo mundo comendo, pagando seus alugueis, bebendo seu chopp, comprando uma peita nova pro mozão e se reproduzindo a felicidade reina, quando as demissões começam a aparecer a vida aperta e os questionamentos ganham força.</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Velha Toupeira (37)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Dec 2025 08:50:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Ucrânia]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158419" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/VT037-GUERRA-OU-PAZ-NA-UCRANIA-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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		<title>O Alienista de Washington</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2025 12:18:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
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					<description><![CDATA[ A pergunta que fica é: porque o problema da estagnação da maior economia do planeta continua? Por Charles júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">Era um efervescente outubro de 1881 na capital do Império tupiniquim, em meio a um novo sistema eleitoral, debates abolicionistas e manifestações nas ruas. O Império estava ruindo. Já no Morro do Livramento, centro da cidade, Machado de Assis expressara o sentimento do imperador através do conto O Alienista <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No conto, Dr. Simão Bacamarte decide internar todos que considerava loucos. Chegando a querer internar a cidade inteira, exceto a si próprio. No final das contas, ou todos estavam loucos ou só ele seria o desajustado. Mais uma vez, a arte expressava a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Convenhamos, comparando com os acontecimentos da política mundial contemporânea seu conto seria bem menor que a realidade. Nos EUA, nosso amigo laranja vem matando a pau nas taxações de pessoas, países (empresas concorrentes) e políticos. Para alguns o pato estaria insano.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, esta é a forma como aparecem as atitudes de Trump e também nos mostra a limitada capacidade de observação do mundo pela esquerda democrática e outros reformadores sociais, os adeptos de que apenas a forma em sua simplicidade revela a totalidade das relações sociais (se fosse assim o papel da ciência seria nulo) <strong>[2]</strong>. Por isso, importam mais os escândalos pessoais, os berros e o teatro do que as intrínsecas relações na luta de classes mundial. <a class="urlextern" title="https://criticadaeconomia.com/2021/01/das-torres-gemeas-ao-capitolio/" href="https://criticadaeconomia.com/2021/01/das-torres-gemeas-ao-capitolio/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Já nos avisava nosso amigo Zé</a>: “depois do <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Macarthismo" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Macarthismo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">período macarthista</a> nos EUA [e no ocidente] a política tornou-se apenas uma monótona sucessão de fofocas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Inversamente, em nosso último material demonstramos que Trump foi um cadim melhor sucedido que seu antecessor, o decrépito Biden; que as tarifas são utilizadas de tempos em tempos nos EUA e Trump é sim a aposta da classe dominante estadunidense — sempre tendo em vista que o Capital é global, mas a burguesia é nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a pergunta que fica é: mesmo taxando boa parte das economias do mundo, mandado a polícia intervir em cidades importantes, demitindo trabalhadores do Estado em massa (junto a eles a chefe de estatísticas do Departamento do Trabalho), mediando guerras, explodindo barquinhos e ameaçando <a class="urlextern" title="https://www.google.com/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/12/06/joesley-levou-recado-de-trump-a-maduro-sobre-possivel-acordo-com-eua.htm&amp;ved=2ahUKEwjG546T76uRAxVClZUCHT4pO_oQFnoECBwQAQ&amp;usg=AOvVaw2sG9Exk3pAxJx38vgniwla" href="https://www.google.com/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/12/06/joesley-levou-recado-de-trump-a-maduro-sobre-possivel-acordo-com-eua.htm&amp;ved=2ahUKEwjG546T76uRAxVClZUCHT4pO_oQFnoECBwQAQ&amp;usg=AOvVaw2sG9Exk3pAxJx38vgniwla" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">invadir a Venezuela</a>, brigando e desbrigando com gregos e troianos porque o problema da estagnação (e da ingovernabilidade) da maior economia do planeta continua?</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, onde está seu voo de condor na maior economia do planeta Sr Bacamarte?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158395" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1.png" alt="" width="984" height="655" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1.png 984w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-300x200.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-768x511.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-631x420.png 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-640x426.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/Alienista1-681x453.png 681w" sizes="auto, (max-width: 984px) 100vw, 984px" />Para finalizar essa introdução, no conto machadiano, Dr. Bacamarte acaba descobrindo que o louco era ele próprio e determina sua própria internação. Na vida real, nosso Alienista de Washington também está tendo um momento de lucidez.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As razões do irracional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Até mesmo o irracional tem sua racionalidade. Trump incorporou Dr. Bacamarte não à toa, no atual ciclo econômico ele enfrenta um contexto de economia estacionária , sem os mesmos instrumentos dos ciclos econômicos anteriores para se defender, pois a economia dos EUA tem graves problemas de dívida pública, déficit orçamentário e da conta-corrente. Problemas esses herdados das saídas das crises anteriores, restou a Trump, como diz o jargão “trocar a roda com o carro andando”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Side note</em>: a bola de neve que Trump enfrenta hoje se inicia com a chamada crise das empresas ponto.com, na virada do milênio. Esta marca um ponto importante para nós — naquele ano tivemos a volta das crises econômicas similares às que ocorriam no período anterior a segunda guerra mundial, desde então, a cada nova crise cíclica, a próxima é sempre pior.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Assim, as tentativas de fugas clássicas para o estado atual da economia americana vêm de longa data. No entanto, agora nada parece funcionar. Guerras, comerciais e bélicas, caça às bruxas com o ICE e injeção de bilhões no mercado para segurar a chegada do urso em Wall Street.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso havia segurado a pletora de capital no coração do sistema, mas em alguma parte ela sempre estoura. E quem está pagando o pato (sic) desta vez são os derrotados da guerra da Ucrânia, a Alemanha e o resto da OCDE <strong>[3]</strong>. A corrida armamentista que <a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">adiantamos em junho</a> é um sinal da possível derrocada do bloco europeu: tende a retirar direitos, intensificar a exploração dos trabalhadores, aumentar impostos e rasgar dinheiro para tentar segurar seu declínio.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando aos EUA, tivemos <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/senado-dos-eua-projeto-shutdown.ghtml" href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/senado-dos-eua-projeto-shutdown.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">a maior paralisação do Estado Americano na história</a>. <strong>“Ele ocorreu pela falta de acordo entre Republicanos e Democratas no Senado, que precisa de três quintos dos votos da Casa para avançar em matérias relativas ao orçamento.”</strong> Paralisou boa parte da máquina estatal estadounidense. Foi tão surpreendente que paralisou até nossa análise (risos). Os dados não foram publicados na data prevista, quiçá organizados ou metrificados pelas agências responsáveis. Mas agora saiu. Vamos a eles:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1. Indústria de Bens duráveis nos EUA</strong></p>
<div class="table sectionedit14" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"></td>
<td class="col1">Produtividade</td>
<td class="col2">Produção</td>
<td class="col3">Horas Trabalhadas</td>
<td class="col4">Remuneração por hora</td>
<td class="col5">Custo Unitário do Trabalho</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">2024</td>
<td class="col1">0.4</td>
<td class="col2">-1</td>
<td class="col3">-1.5</td>
<td class="col4">4.4</td>
<td class="col5">3.9</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">2025 IT</td>
<td class="col1">6.6</td>
<td class="col2">7.2</td>
<td class="col3">0.6</td>
<td class="col4">7.1</td>
<td class="col5">0.5</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">IIT</td>
<td class="col1">3.2</td>
<td class="col2">3.5</td>
<td class="col3">0.3</td>
<td class="col4">4.1</td>
<td class="col5">0.9</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: <a class="urlextern" title="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" href="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">BLS</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Indústria de Bens não duráveis nos EUA</strong></p>
<div class="table sectionedit15" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"></td>
<td class="col1">Produtividade</td>
<td class="col2">Produção</td>
<td class="col3">Horas Trabalhadas</td>
<td class="col4">Remuneração por hora</td>
<td class="col5">Custo Unitário do Trabalho</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">2024</td>
<td class="col1 centeralign">0.4</td>
<td class="col2 centeralign">0.2</td>
<td class="col3 centeralign">-0.1</td>
<td class="col4 centeralign">2.8</td>
<td class="col5 centeralign">2.4</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">2025 IT</td>
<td class="col1 centeralign">-0.2</td>
<td class="col2 centeralign">-0.2</td>
<td class="col3 centeralign">0.0</td>
<td class="col4 centeralign">4.8</td>
<td class="col5 centeralign">5.0</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">IIT</td>
<td class="col1 centeralign">1.9</td>
<td class="col2 centeralign">1.3</td>
<td class="col3 centeralign">-0.6</td>
<td class="col4 centeralign">5.1</td>
<td class="col5 centeralign">3.1</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: <a class="urlextern" title="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" href="https://www.bls.gov/news.release/archives/prod2_09042025.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">BLS</a></p>
<p style="text-align: justify;">No estado estacionário, os indicadores de produção e produtividade crescem em ritmos muito baixos, próximos de zero, a manufatura funciona a passos de siri, apenas pra não afundar. Porém, essa é uma situação que não pode durar muito tempo e é exatamente o problema que enfrenta a economia reguladora do sistema global.</p>
<p style="text-align: justify;">No ano de 2024 a produtividade de manufatura de bens duráveis <strong>[4]</strong> cresceu míseros 0.4% e a produção ficou abaixo de zero, situação que observamos de maneira mais clara desde 2023. Porém, nos dois primeiros trimestres de 2025, os indicadores ficaram bem acima dos anos anteriores, como podemos ver na tabela 1. Produtividade e produção com robustos crescimentos! Muita atenção, como dizia o saudoso Silvio Luiz “OLHO NO LANCE!” O custo unitário do trabalho apresentou um crescimento bem abaixo do ocorrido nos últimos anos. Afinal, o que esses dados representam?</p>
<p style="text-align: justify;">Existem duas hipóteses em discussão: seria a elevação da produtividade, aumento da produção e diminuição do ritmo de crescimento do custo unitário um efeito da implementação da IA nas empresas e/ou seria apenas um VOO de galinha, um último suspiro antes do afundamento da economia reguladora. Em defesa da primeira hipótese temos vistos estudos e dados de empresas, como o resumo de um estudo do MIT <a class="urlextern" title="https://exame.com/inteligencia-artificial/ia-ja-ameaca-117-dos-empregos-nos-eua-aponta-estudo-do-mit/" href="https://exame.com/inteligencia-artificial/ia-ja-ameaca-117-dos-empregos-nos-eua-aponta-estudo-do-mit/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">publicado na revista Exame</a>, que diz :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Os pesquisadores identificaram duas camadas de risco. A parte mais visível, associada a demissões e mudanças em tecnologia e TI, responde por 2,2% da exposição salarial, cerca de US$ 211 bilhões. A maior parte está em funções rotineiras de RH, logística, finanças e administração, que somam o restante do total estimado.” (Tradução livre)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Uma publicação da Infomoney mostra que as demissões nos EUA aumentaram bastante em 2025, essa publicação cita o relatório da consultora de recursos humanos Gray &amp; Christmas, que diz: <strong>“Períodos anteriores com tantos cortes de empregos ocorreram durante recessões ou, como foi o caso em 2005 e 2006, durante a primeira onda de automações que custou empregos na manufatura e tecnologia.”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se o estudo do MIT acima realmente se comprovar na prática, com a implementação da IA eliminando boa parte dos funcionários de RH, logística, finanças e administração implicará em eliminação de trabalhadores improdutivos e diminuição da composição orgânica do capital. Generalizando esse cenário em toda a manufatura, ocorrerá uma elevação da taxa de lucro <strong>[5]</strong>. Menos custos, maior produtividade e mais mais-valia para o capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria simples assim? Claro que não (risos). Aqui entra a parte sensível de nosso texto, pois a resposta para essas questões define todo o cenário que a classe trabalhadora enfrentará. Observamos que alguns dados melhoraram, os mais importantes do setor de ponta da economia dos EUA. Porém, estaremos atentos à evolução dos indicadores nos próximos trimestres.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos estar vendo a nova bolha da IA se manifestar antes da queda ou a elevação da produtividade sendo resultado da implementação da IA. Veremos a retomada da economia reguladora, uma exuberante expansão da produção e consequentemente o abafamento da luta de classes no centro do sistema, restando possibilidades de ruptura nos elos mais fracos, principalmente da periferia capitalista. Muito porque, em todo período de crise cíclica há queima de capital, seja onde for, há queima de capital (armamentos, cidades, fábricas, máquinas, rodovias, satélites, seja o que for que compõem o sistema produtivo global, capital fixo e variável &#8211; haverá queima).</p>
<p style="text-align: justify;">Caso o cenário de economia estacionária continue, nessa esteira teremos cada vez mais claro a velha dialética: aumento da ingovernabilidade, crise, guerras e revoluções!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Final note: A nova bolha, sic.</strong></em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">De acordo com Paul Kedrosky, um VC de longa data atualmente na SK Ventures, a bolha de IA é como se cada bolha anterior fosse lançada em uma outra (?). Há o elemento imobiliário. Há o elemento tecnológico. E, cada vez mais, há estruturas de financiamento exóticas sendo colocadas em prática para financiar tudo. <strong>[6]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a farra de investimento insustentável. E depois, além disso, fala-se de resgates e apoios do governo. A velha corrida contra a queda da taxa de lucro em seu atual contexto. Quem viver, verá!</p>
<p style="text-align: justify;">Neste episódio, percorremos algumas das matemáticas que seriam necessárias para justificar todos esses gastos e como as apostas aparentemente existenciais de “ganhar a corrida da IA” estão causando uma farra de investimento insustentável. Para que lado vai a crise e quem vai estourar será decidido nos próximos passos dos sanguessugas globais.</p>
<p style="text-align: justify;">A possível derrocada da Alemanha (leia-se OCDE) pode se alastrar pelo globo como epidemia, imaginem nos EUA, seria avassalador. O laço no pescoço da burguesia está se apertando, esperamos que continue. Algumas revoltas e pontos isolados continuam a estourar: Bulgária, Ásia, e até Portugal teve uma grande greve por estes dias.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas de uma coisa nós (e nossos amigos do Sinuca de Bico) temos certeza:</p>
<p style="text-align: right;"><em>O dia em que o morro descer e não for carnaval</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Na entrada, rajada de fogos pra quem nunca viu</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Guerra civil</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O povo virá de cortiço, alagado e favela</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Mostrando a miséria sobre a passarela</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Sem a fantasia que sai no jornal</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai ser uma única escola, uma só bateria</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Quem vai ser jurado? Ninguém gostaria</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que desfile assim não vai ter nada igual</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Não tem órgão oficial, nem governo, nem liga</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Nem autoridade que compre essa briga</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ninguém sabe a força desse pessoal </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: right;"><em><a class="urlextern" title="https://www.letras.mus.br/wilson-das-neves/1281422/" href="https://www.letras.mus.br/wilson-das-neves/1281422/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">(Wilson das Neves &#8211; O dia em que o morro descer e não for Carnaval)</a></em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> A Revolta dos Malês , a Guerra dos Farrapos, a Revolta da Balaiada, as Revoltas Liberais e a Revolução Praieira foram algumas marcas do descontentamento popular no império de D Pedro II. Tendo a Revolta dos Malês conquistado o retorno a África.<br />
<strong>[2]</strong> A forma é a expressão necessária do conteúdo, a porta de entrada para a investigação. Necessária, mas o ponto de partida, não o fim.<br />
<strong>[3]</strong> Ao que tudo indica, analisaremos a situação da Alemanha e da OCDE no próximo boletim.<br />
<strong>[4]</strong> Trataremos do setor de bens duráveis pois é o motor da economia estadunidense. Na tabela 02 é retratado o setor de bens de consumo não duráveis. Este é a base da manutenção da força de trabalho: alimentos, bebidas, cosméticos, produtos de limpeza e vestuário, atendendo necessidades diárias e imediatas dos trabalhadores. Ou seja, força de trabalho futura.<br />
<strong>[5]</strong> “Este é o maior total para outubro em mais de 20 anos e o maior total para um único mês no quarto trimestre desde 2008. Assim como em 2003, uma tecnologia disruptiva está mudando o cenário”, <a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/anuncio-de-demissoes-nos-eua-dispararam-em-outubro/" href="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/anuncio-de-demissoes-nos-eua-dispararam-em-outubro/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">diz o relatório</a>.<br />
<strong>[6]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one" href="https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.bloomberg.com/news/audio/2025-11-14/odd-lots-ai-is-like-every-bubble-all-rolled-into-one</a></p>
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