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	<title>Govs_nacionais_e_internacionais &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>E aí, combinou com os russos?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160208/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/10/160208/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2026 21:00:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Está claro que a classe dominante quer um pesado ajuste fiscal e não querem crescimento econômico, sabem bem que se a coisa continuar como está não teremos um pouso forçado, mas sim uma queda livre da economia. Por Charles Júnior e Antônio Carlos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior e Antônio Carlos</h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Feola, técnico do Brasil na Copa de 1958, antes do jogo contra os russos, apresentou um plano para a vitória, no que Garrincha teria levantado e dito: “O plano é ótimo, mas você combinou com os russos?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2026 a história se repete. Mudam os titulares e o campo de jogo, mas o causo se encaixa perfeitamente.</p>
<p style="text-align: justify;">O PT tinha o plano perfeito: derrotar Flávio nas urnas, muito porque seria “…mais fácil, porque Bolsonaro é também mais fácil do que Tarcísio” <strong>[1]</strong>. Endossando esse plano, um experiente dirigente do centrão disse: “<em>As pesquisas mostram, pela intenção de voto e pela rejeição, que Flávio Bolsonaro não vence a eleição. O PT não tem atacado essa candidatura pois está claro que é a mais fácil de ser batida no segundo turno. Lula quer Flávio </em><em>Bolsonaro, pois é vitória certa do PT.”</em> <strong>[2]</strong><em>. </em>Mas como Garrincha na Copa de 58, sempre há quem desconfie dos planos. Aquele que cravou sua posição foi um político petista que volta ao jogo depois de um tempo fora dos gramados, o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha. Observemos o que ele disse bem antes das eleições: “Do meu ponto de vista, a candidatura do Tarcísio era mais fácil de ser derrotada do que a do Flávio. É o contrário. A rejeição do Flávio, ou dos Bolsonaros, é uma rejeição já medida, precificada. Sabemos que qualquer coisa que a gente jogar no Flávio não vai pegar, porque a rejeição já está no limite, assim como a do Lula” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os resultados do primeiro turno mostraram quem estava certo. O PT apostou no desgaste de Flávio com seus costumeiros escândalos, mas ele já tinha alta rejeição. Quem já vota nele não deixaria de votar e, pior, Flávio conseguiu ampliar a porcentagem eleitoral, abrindo vantagem sobre Lula.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse texto vamos perseguir as peças que se moveram na economia política e quais os cenários futuros da corrida presidencial ao Estado Nacional Burguês.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os números do 1º Turno</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160219 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2.png" alt="" width="335" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2.png 335w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2-168x300.png 168w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2-236x420.png 236w" sizes="(max-width: 335px) 100vw, 335px" />Em uma primeira observação dos dados das duas últimas eleições, somados os dois candidatos principais, temos 92% dos votos, sobrando apenas 8% para os outros, ou seja, essa é uma eleição polarizada em apenas dois candidatos. Outra observação é que, em relação à eleição de 2022, Lula perdeu 3,27 pontos percentuais dos votos e Flávio Bolsonaro aumentou 3,83 p.p., ou seja, aproximadamente que o Lula perdeu, Flávio ganhou, além de tomar mais um tantinho dos outros candidatos. Na tabela 2 vemos que Lula perdeu por volta de 3% dos votos na região Sudeste e Nordeste.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1.</strong></p>
<div class="table sectionedit2" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Candidato</strong></td>
<td class="col1"><strong>votos válidos 2022</strong></td>
<td class="col2"><strong>votos válidos 2026</strong></td>
<td class="col3"><strong>variação</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>Lula</strong></td>
<td class="col1">48,43%</td>
<td class="col2">45,16%</td>
<td class="col3">-3,27p.p</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>Bolsonaros</strong></td>
<td class="col1">43,2%</td>
<td class="col2">47,03%</td>
<td class="col3">+3,83 p.p</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>outros</strong></td>
<td class="col1">8,37%</td>
<td class="col2">7,81%</td>
<td class="col3">-0,56</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fonte: poder 360</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Variação dos votos de LULA por região</strong></p>
<div class="table sectionedit3" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Região</strong></td>
<td class="col1"><strong>2022</strong></td>
<td class="col2"><strong>2026</strong></td>
<td class="col3"><strong>variação (p.p.)</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>Sudeste</strong></td>
<td class="col1">42,63%</td>
<td class="col2">39,68</td>
<td class="col3">-2,95%</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>Nordeste</strong></td>
<td class="col1">66,76%</td>
<td class="col2">63,77</td>
<td class="col3">-2,99%</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>Sul</strong></td>
<td class="col1">36,78%</td>
<td class="col2">31,28</td>
<td class="col3">-5,50%</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0"><strong>Norte</strong></td>
<td class="col1">47,09%</td>
<td class="col2">44,65</td>
<td class="col3">-2,44%</td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0"><strong>Centro-Oeste</strong></td>
<td class="col1">37,83%</td>
<td class="col2">32,62</td>
<td class="col3">-5,21%</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Poder 360</p>
<p style="text-align: justify;">Analisando as tabelas acima, podemos concluir que existem dois grupos consolidados e a eleição é definida pelo deslocamento de votos de uma pequena fração dos eleitores.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos estão tentando entender qual a causa desse deslocamento de votos e não faltam especialistas com explicações estatísticas, sociológicas, filosóficas, antropológicas, místicas, astrológicas, etc. A crise sistêmica, a crise estrutural, a financeirização, a saudade dos anos dourados do pós-guerra, o fim do padrão ouro-dólar. A tese do capital especulativo engolindo a tudo e a todos também é divertida.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160221" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3.png" alt="" width="720" height="932" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3.png 720w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-232x300.png 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-324x420.png 324w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-640x828.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-681x882.png 681w" sizes="(max-width: 720px) 100vw, 720px" />Voltando ao núcleo duro do governo, se o afastamento de um conselheiro como João Paulo Cunha já fez falta, imaginem 3. A perda de Luiz Gushiken e os tortuosos caminhos seguidos por Mantega deixaram um buraco grande no núcleo duro petista. E, como em toda inquisição cirandeira, logo se iniciou a caça às bruxas, afinal, é importante achar um culpado. A vítima foi o secretário de comunicação do Governo, Sidronio. Dizem que o Governo não soube comunicar bem suas realizações e os influencers de esquerda falam que a campanha perdeu a batalha nas redes, outros dizem que para ganhar a eleição Lula precisa comunicar a possibilidade de futuro. A velha desculpa de que a direita tem uma máquina de comunicação, assim, a esquerda precisa se adequar e montar uma máquina própria. Os “exércitos” de hoje em dia são espelhos dessa necessidade se concretizando.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto escrevíamos o texto, um desses especialistas do jornal da FIESP reforçou a perspectiva dominante. Em uma entrevista para o Estadão, ele nos disse o seguinte <strong>[4]</strong>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Minha experiência diz que o governo Lula deixou passar, <strong>desde 2024, incólume a percepção da maioria da opinião pública de que a economia do País seguia no rumo errado. </strong>Várias pesquisas detectaram isso. O governo Lula não enfrentou essa questão, não desenvolveu uma narrativa coerente, para dar conta dessa questão. Quando chega a campanha eleitoral, uma parte importante da população que via o País indo na direção errada e, como tal, reclamando por mudança, foi atraída com relativa facilidade pelo discurso de mudança, de transformação, do candidato oposicionista.”</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Bom, concordamos que a comunicação é uma arma política, utilizada para atingir determinados objetivos, concordamos que existe uma operação midiática para manufaturar a opinião pública, mas, afinal, se as condições de vida dessas pessoas estivessem realmente razoáveis, elas dificilmente acreditariam nas mentiras, pois teriam a realidade para contradizer.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos interlocutores podem argumentar que existe um grupo fiel ao bolsonarismo, mesmo com as mortes na pandemia, destruição ambiental, ataque aos direitos trabalhistas, etc. Mas, convenhamos, o PT tem uma quantidade de ataques bem ampla: liberação dos transgênico, flexibilização das leis ambientais, reformas da previdência, regularização da grilagem de terras na Amazônia, explosão da população carcerária no país, privatizações (pré-sal, rodovias, etc.), e por aí vai. A velocidade e o grau de intensidade foram lentas, com jeitinho, mas fez. A distinção entre eles é diferente do que se apresenta nas propagandas ideológicas. Como resumiu muito bem Gustavo Machado, do ILAESE, “…a nova direita, por ser ligada ao mercado exportador quer uma mudança radical, flexibilização total das leis trabalhistas e enxugamento máximo da máquina estatal a fim de baratear sua produção e direcionar os recursos públicos cada vez mais para si, leia-se: partir pro tudo ou nada, mudança pra pior &#8211; condições de trabalho análogas a escravidão, flexibilidade total de todas as condições de trabalho, nenhuma proteção social, extermínio dos serviços públicos existentes (SUS, educação pública, assistência social, etc), etc. Já o setor de esquerda se apresenta como mantenedor das instituições, as garantias legais, o Estado, a estrutura jurídica existente, etc., soando como a mantenedora da ordem” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">As questões culturais, religiosas, ideológicas, dentre outras, podem explicar parte da polarização, como falamos acima, mas a esquerda deixou muito a desejar aos trabalhadores quando governou e a vida concreta, o dia a dia mesmo, consolida as visões de mundo. Enfim, existem dois grupos consolidados, mas, para nossos amigos teóricos , falta explicar qual a motivação do deslocamento de uma parte que definiu as eleições.</p>
<p style="text-align: justify;">Para nós estão relacionados aos movimentos que ocorreram na economia no período anterior à eleição. Podemos estar errados, nem sempre acertamos, afinal, não temos bola de cristal, mas estamos com um bom placar à frente.</p>
<p style="text-align: justify;">Veremos agora como a economia moveu-se nos no período anterior ao fracasso do Plano perfeito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Por onde escaparam os votos da esquerda?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160220" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4.png" alt="" width="1181" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4.png 1181w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-295x300.png 295w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-1008x1024.png 1008w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-70x70.png 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-768x780.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-413x420.png 413w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-640x650.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-681x692.png 681w" sizes="(max-width: 1181px) 100vw, 1181px" />Em junho de 2025 escrevemos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Na imagem 03, vemos o último quadrimestre da indústria. Observemos que a capacidade instalada em utilização está parada nos últimos meses. Mesmo assim, nos 3 últimos meses houve um crescimento do faturamento, das horas trabalhadas e do emprego. E para somar a isto, redução da massa salarial e do rendimento médio real.</p>
<p style="text-align: justify;">(…) Didaticamente, o ciclo econômico brasileiro está chegando ao ápice, ou no topo da produção de riqueza e acumulação. Acumulação esta que é a parte da mais-valia reinjetada no processo produtivo, acumulando Capital e aumentando a máquina produtiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos perto do momento em que estas relações de produção de acumulação de capital chegarão ao ápice da contradição com as forças produtivas materiais da sociedade. “De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se nos seus entraves”. Queda da taxa de lucro em alto e bom som. A roda vai parar por produzir demais, abrindo um período de crise e destruição de capital, fixo e <strong>variável</strong>. Do nosso lado, fome, miséria e morte. Eles vão fazer de tudo para jogar a crise no nosso colo. <strong>[6]</strong>” [grifo nosso]</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>É meu amigos, com o arrocho salarial, inflação e aumento das horas trabalhadas: eles estão jogando a crise no nosso colo.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como identificamos naquele momento, a economia tinha atingido seu ápice, tinha produzido demais, consumo demais e empregos demais para os padrões da burguesia brasileira, e ela começou a reclamar. Pode parecer um contra senso, mas é assim que funciona na sociedade capitalista e em particular numa economia dominada. Para a burguesia era necessário pôr um fim nessa festa.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo texto citamos a fala do Presidente do Banco Central que cumpriria o papel de chato no rolê,aquele que acaba com a festa; Nas palavras do próprio Galipolo: <strong>“Quando a festa está ficando muito aquecida e o pessoal está subindo em cima da mesa, tira a bebida da festa”, </strong>foi exatamente o que aconteceu, como podemos ver nos dados do PIB segundo o IBGE.</p>
<p style="text-align: justify;">Principais resultados do PIB — do 2º trimestre de 2025 ao 2º trimestre de 2026</p>
<div class="table sectionedit4" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Taxas (%)</strong></td>
<td class="col1"><strong>2025.II</strong></td>
<td class="col2"><strong>2025.III</strong></td>
<td class="col3"><strong>2025.IV</strong></td>
<td class="col4"><strong>2026.I</strong></td>
<td class="col5"><strong>2026.II</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">Acumulado ao longo do ano / mesmo período do ano anterior</td>
<td class="col1">2,7</td>
<td class="col2">2,4</td>
<td class="col3">2,3</td>
<td class="col4">1,8</td>
<td class="col5">1,9</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">Últimos quatro trimestres / quatro trimestres imediatamente anteriores</td>
<td class="col1">3,3</td>
<td class="col2">2,7</td>
<td class="col3">2,3</td>
<td class="col4">2,0</td>
<td class="col5">1,9</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">Trimestre / mesmo trimestre do ano anterior</td>
<td class="col1">2,4</td>
<td class="col2">1,8</td>
<td class="col3">1,8</td>
<td class="col4">1,8</td>
<td class="col5">2,0</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0">Trimestre / trimestre imediatamente anterior (com ajuste sazonal)</td>
<td class="col1">0,4</td>
<td class="col2">0,1</td>
<td class="col3">0,2</td>
<td class="col4">1,1</td>
<td class="col5">0,5</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: IBGE — Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegar em uma eleição presidencial com a economia desacelerando não é uma boa notícia para um postulante à reeleição, por isso o governo lançou mão de várias medidas para segurar a queda: fim da escala 6×1, reajuste no Bolsa Família, proibição das bets, Desenrola 1, 2 e 3, divulgação da aprovação da distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS, Pé de Meia, Reforma Brasil, Gás do Povo, Luz do Povo, isenção do Imposto de Renda para quem recebe até cinco mil reais, reforma do Minha Casa, Minha Vida, uma singela quantia de a R$ 59,5 bilhões para o Plano Brasil Soberano e R$ 140 bilhões à <a class="urlextern" title="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/22/governo-federal-anuncia-politica-industrial-com-investimento-de-r-300-bilhoes-ate-2026/" href="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/22/governo-federal-anuncia-politica-industrial-com-investimento-de-r-300-bilhoes-ate-2026/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Nova Indústria Brasil (NIB)</a>, dentre outra medidas menores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo com tudo isso, acreditamos que a desaceleração da economia joga luz sob o deslocamento dos votos. E o que mais pode ter acontecido nos trimestres anteriores ao período eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">A flor que desabrocha, mesmo vermelho sangue, chega ao ápice e definha.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda bem que existem pessoas no país que buscam investigar a realidade, como o pesquisador da FGV Manoel Pires <strong>[7]</strong>. Intrigado com o fato de a inflação estar baixa, o desemprego baixo e mesmo assim a popularidade do Presidente da República não decolar, resolveu analisar os dados do índice de consumo das famílias e descobriu um dado interessante. Vamos a ele:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">(…) depois de uma boa recuperação na saída da pandemia,<strong> há uma quebra estrutural a partir do terceiro trimestre de 2024</strong> que indica que o comportamento mudou e o crescimento do consumo praticamente encontra-se estagnado desde então. De fato, entre o terceiro trimestre de 2024 e o segundo de 2026, ou seja, nos últimos sete trimestres, o consumo das famílias cresceu de forma acumulada &#8211; ponta contra ponta &#8211; apenas 0,84% ao passo que o PIB no mesmo período e na mesma métrica cresceu 3,65%.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160217" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico.png" alt="" width="751" height="451" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico.png 751w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-300x180.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-699x420.png 699w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-640x384.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-681x409.png 681w" sizes="auto, (max-width: 751px) 100vw, 751px" />(…) Se o PIB está crescendo mais de 3% de forma acumulada no período, mas o consumo está com esse comportamento, de onde vem o crescimento? O principal vetor de crescimento nesse período tem vindo das exportações que no mesmo período &#8211; ponta contra ponta &#8211; cresceu 8,3% oriundo da expansão da agropecuária e do setor extrativo mineral.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema é que esses setores não geram o famoso efeito gotejamento, (…) para os demais setores da economia. Além disso, outras variáveis são boas candidatas para explicar o comportamento do consumo, tais como o elevado endividamento das famílias. O que está acontecendo com o consumo das famílias deveria receber maior atenção.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, o Presidente Lula chegou nas eleições com quase 2 anos de consumo estagnado, leia-se: desaceleração da economia. Parece fazer sentido que esses fatores são suficientes para uma porcentagem de eleitores com expectativas de melhoria mudar o voto. Ou pensar assim seria muito economicismo? Muito para aqueles que esquecem que é do salário que vem os gastos com cultura, lazer, educação, igreja, supermercado, drogas lícitas e ilícitas e toda a vida dos trabalhadores, aposentados e seus agregados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Cenários</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No dia após o primeiro turno o clima era de velório entre os trabalhadores mais conscientes e de euforia no mercado. A bolsa de São Paulo subiu, o dólar e os juros futuros caíram. Rebbaca Nossig, estrategista de ações da Nomad <strong>[8]</strong>, explicou o motivo da euforia:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mais do que o alívio imediato, o resultado das urnas trouxe uma sensível melhora nas perspectivas para a trajetória da dívida pública, ancorando a confiança do mercado em um cenário econômico mais estável a partir de 2027 <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Traduzindo o vocabulário dos analistas de mercado, uma melhora na trajetória da dívida significa ajuste fiscal, cortes de gastos com saúde,educação e etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando no tempo, há um ano o editorial da Folha de Sẫo Paulo <strong>[10]</strong>, na seção “ O que a Folha Pensa”, era didático já pelo título <strong>“Desaceleração do PIB é necessária neste momento”. </strong>Nele, a Folha defende que a elevação da taxa de juros é necessária :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A tarefa dos juros, em português claro, é dificultar o consumo e o investimento, de modo que a queda da demanda tire o fôlego de uma inflação que está acima dos 5% em 12 meses, ante uma meta de 3%.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">E diz eufemisticamente que é necessário uma desaceleração da economia por muito tempo :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em tal cenário, não se pode considerar mau resultado a alta de 0,4% do Produto Interno Bruto no segundo trimestre, bem abaixo do 1,3% do primeiro. O desaquecimento, que não sugere uma guinada traumática, é necessário e, pela lógica, deve continuar por algum tempo.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Está claro que a classe dominante quer um pesado ajuste fiscal e não querem crescimento econômico, sabem bem que se a coisa continuar como está não teremos um pouso forçado, mas sim uma queda livre da economia. Como<strong> disse o amigo Armando há uns tempos atrás: “ A Argentina é a antessala do Brasil, acontece lá, tá chegando aqui!”, </strong>ou seja, a quebradeira e limpeza dos gastos públicos para o orçamento da união se voltar unicamente para as necessidades das classes dominantes é a demanda de uma parcela importante dela.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado das eleições do primeiro turno já definiu elementos fundamentais para o cenário dos próximos anos, o PL terá uma bancada importante de deputados na Câmara e maioria no senado, todos de prontidão para defender os interesses do grande capital exportador.<strong> Caso Flávio Bolsonaro ganhe as eleições,</strong> terá facilidade para passar todas as medidas contra os trabalhadores, como o ajuste fiscal já anunciado. Não que o centrão seja algo diferente, mas dentro do mesmo partido a coisa facilita, são menos acordos e conchavos nas festinhas privadas, tudo em casa já alinhado desde antes da eleição.</p>
<p style="text-align: justify;">Caso Lula vença, será um cenário parecido com a vitória da presidenta Dilma em 2014. A classe dominante com pressa e pressionando o governo para implementar medidas de ajuste fiscal, reforma da previdência, fim do aumento real do salário mínimo, contrato de trabalho por horas e o governo emparedado no congresso nacional. Do outro lado, pressionado pelos segmentos de trabalhadores que foram às ruas e às redes sociais para derrotar a extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Começamos o texto lembrando do técnico Feola, no final ele saiu vitorioso, levando a copa de 58 por 2×0 contra Rússia, pois ele tinha Didi, Nilton Santos, Belini, Vavá, Garrincha e Pelé. E nós, temos quem?</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo cheiro de revolta está no ar, a juventude cheira revolta, organiza autonomamente, mesmo que contra o 22, não tão revoltosos como na Europa <strong>[11]</strong>, mas milhões estão nas ruas. Negro Drama, é a hora de funcionar…e como bem disse mano Brown “… E de onde vem os diamante?”</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[1] </strong><a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[2] </strong><a class="urlextern" title="https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com" href="https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com</a></div>
<div class="content"><strong>[3] </strong><a class="urlextern" title="https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com</a></div>
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<div class="fn">
<div class="content"><strong>[4]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8" href="https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8</a></div>
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<div class="fn">
<div class="content"><strong>[5] </strong><a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/" href="https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/</a> &#8211; transcrição livre de fala de Gustavo Machado em Podcast não identificado e postado em seu canal.</div>
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<div class="fn">
<div class="content"><strong>[6] </strong>Publicado originalmente em <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156796/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156796/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2025/06/156796/</a></div>
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<div class="fn">
<div class="content"><strong>[7] </strong>Observações sobre popularidade do governo e a economia <a class="urlextern" title="https://substack.com/home/post/p-215126029" href="https://substack.com/home/post/p-215126029" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://substack.com/home/post/p-215126029</a></div>
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<div class="fn">
<div class="content"><strong>[8] </strong>A Nomad é uma fintech brasileira fundada em 2019 que permite a brasileiros abrir uma conta digital e de investimentos nos Estados Unidos diretamente pelo aplicativo Nomad Global.</div>
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<div class="fn">
<div class="content"><strong>[9] </strong><a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded" href="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[10]</strong> <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml" href="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml</a></div>
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<div class="content"><strong>[11] </strong><a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/</a></div>
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<div style="text-align: center;"><em>A pedido dos autores, as imagens que ilustram o artigo foram mantidas como no arquivo original</em></div>
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		<item>
		<title>O “terceiro campo” revisitado: O internacionalismo proletário em meio à guerra e a “liberação” nacional</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160140/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 Oct 2026 15:49:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Há um ressurgimento preocupante da tendência de subordinar a crítica aos Estados, à guerra e à dominação capitalista a um campo nacional. Por Antithesi]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Antithesi</h3>
<p style="text-align: right;">Agosto de 2026</p>
<p style="text-align: justify;">O texto a seguir surgiu de uma série de encontros e trocas de ideias ao longo do último ano em torno da história e relevância atual do internacionalismo proletário. O que conferiu a esses debates uma urgência particular foi o ressurgimento preocupante do “campismo” nos meios radicais — e, cada vez mais, nos não tão radicais —: a tendência renovada de subordinar a crítica aos Estados, à guerra e à dominação capitalista ao apoio ao “mal menor”, a um campo nacional com base na opressão real da população que pretende representar, ou a forças identificadas com a “resistência ao imperialismo”. Da Ucrânia à Ásia Ocidental e Sudeste Asiático, a pressão para escolher entre campos imperialistas ou nacionais concorrentes tornou-se, mais uma vez, um problema político central.</p>
<p style="text-align: justify;">Várias conversas ocorridas em Paris na primavera de 2026 ajudaram a dar forma mais concreta a essas preocupações. Uma delas dizia respeito à tradução em andamento dos textos de Marie-Louise Berneri, extraídos de <em>War Commentary for Anarchism</em> e <em>Freedom</em>, que haviam sido reunidos em <em>Neither East Nor West</em>.<strong>[1]</strong> Outra tratava de Henri Simon — o comunista conselhista centenário e ex-membro de <em>Socialisme ou Barbarie</em>, falecido recentemente — e de sua relação com Henry Chazé, figura-chave tanto na <em>Union Communiste</em> quanto na Fração Francesa da Esquerda Comunista Internacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses encontros apontavam, para além de qualquer organização ou tradição política isolada, a uma história mais ampla do internacionalismo proletário, desenvolvida tanto nas correntes comunistas, como nas anarquistas em oposição à guerra capitalista e às formas políticas através das quais os proletários têm sido repetidamente subordinados: a colaboração de classes antifascista, a “libertação” nacional, as “guerras nacionais justas” e o alinhamento com um campo imperialista apresentado como “anti-imperialista”. Porém, recuperar essa história também levanta uma questão mais complexa do que simplesmente reafirmar uma posição internacionalista, ou do “terceiro campo”: <strong>por que essa posição permaneceu, em quase todos os casos a partir de 1920, uma posição minoritária dentro da classe?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O problema não era apenas debilidade numérica. Os grupos que mantiveram uma posição internacionalista raramente se conectavam, exceto de forma breve e parcial, com os movimentos de massa da classe à qual eles se dirigiam. Eles eram pequenos, clandestinos, perseguidos, teoricamente sólidos e organizativamente frágeis. Eles escreviam para a classe que, na esmagadora maioria dos casos, marchava na direção oposta — sob bandeiras nacionais, frentes antifascistas ou exércitos de liberação.</p>
<p style="text-align: justify;">A onda revolucionária de 1917-20 é a exceção óbvia: o momento em que se produziu, efetivamente, uma reversão do ponto de vista no nível das massas. Entre 1917 e 1920 — na Rússia, Alemanha, Hungria, partes da Itália, e os motins que abalaram os exércitos da Entente ao final da guerra — a recusa internacionalista da guerra converteu-se brevemente em uma força material. Os soldados confraternizaram-se através das trincheiras e se recusaram a lutar; as e os trabalhadores recusaram-se a produzir e formaram conselhos. A fórmula de Lenin “transformar a guerra imperialista em guerra civil” não era apenas um slogan; descrevia algo que realmente estava ocorrendo, impulsionado não primariamente pela organização bolchevique, mas pela exaustão, a raiva e a radicalização política de milhões de pessoas enviadas à morte em nome de interesses que, visivelmente, não correspondiam aos seus. O que tornou essa conexão possível não foi, primariamente, a correção de sua linha política. Foi a exaustão material de anos nas trincheiras, combinados com uma densidade organizativa preexistente na classe trabalhadora que pôde ser reativada em outro sentido. Até 1921 ou 1922, a onda revolucionária já havia sido derrotada em quase toda parte, e quando o ciclo de maior alcance de guerras seguinte chegou, nos anos 1930 e 1940, a posição internacionalista voltou a ser circunscrita, em larga medida, a pequenas minorias. Por que se produziu, então, essa conexão entre fatiga de guerra, organização de classe e internacionalismo revolucionário e por que não ocorreu novamente da mesma forma é a questão mais importante levantada por essa experiência — e que nós gostaríamos de manter aberta ao longo do debate.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto de partida do internacionalismo proletário é o rechaço à pressão permanente exercida sobre os proletários e proletárias para escolher entre os campos estatais — um rechaço baseado no reconhecimento de que a guerra não é uma aberração do funcionamento normal do capitalismo, mas sua condensação: a competição entre Estados por mercados, territórios e mão de obra, a reorganização da produção por meio da destruição e a imposição de uma disciplina que os tempos de paz nem sempre puderam impor. Essa pressão não aparece apenas como patriotismo ou nacionalismo suprematista. Ela toma a forma de antifascismo, liberação nacional, defesa da democracia, anti-imperialismo, resistência à ocupação ou apoio ao mal menor. Em todos os casos, abandona-se a autonomia proletária em nome de uma tarefa política supostamente mais urgente.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa tendência, frequentemente chamada de “terceiro campo” proletário ou “terceira opção”, recusa a lógica do “mal menor” entre as máquinas estatais. Um capitalismo mais débil em conflito com um mais forte segue sendo capitalismo. Um Estado dominado ou atacado não deixa de organizar a exploração, a disciplina laboral, o controle policial de populações e de unir as classes sob a forma da nação. A nação é uma das formas políticas por meio das quais o antagonismo de classe é deslocado: uma sociedade dividida pela exploração se apresenta como uma comunidade comum de cidadãs e cidadãos, associados por um interesse compartilhado, um destino comum e, em tempos de guerra, por um inimigo comum. A derrota de um bloco imperialista se limita a alterar o equilíbrio das forças nos marcos da competição global; não é a vitória da classe trabalhadora, nem um passo em direção à sua autoabolição. Nem sequer desafia o imperialismo <em>per se</em>. As máquinas de guerra democráticas, os movimentos de liberação nacional e os oponentes autoritários ou teocráticos do ocidente exigem, em diferentes linguagens, a mesma renúncia: a suspensão da luta de classes autônoma em nome de uma necessidade política maior.</p>
<p style="text-align: justify;">A clareza política da corrente internacionalista não advém do sectarismo, nem do isolamento enquanto tal. Advém do fato de que essas e esses militantes foram obrigados, por conta do desenvolvimento reacionário do próprio movimento operário, a quebrar com as formas através das quais o movimento estava sendo incorporado ao Estado, à nação e ao esforço de guerra. Sua clareza foi forjada, portanto, por meio de sucessivas rupturas: com o patriotismo social em 1914, com o stalinismo, com a defesa da URSS, com a colaboração de classe anti-fascista, com a liberação nacional enquanto modernização e construção do Estado, e com qualquer ideia segundo a qual a emancipação proletária passaria pela vitória de um Estado ou de um campo imperialista.</p>
<p style="text-align: justify;">A condição dos minoritária dos grupos explicitamente internacionalistas não deve ser interpretada como ausência de resistência à guerra. A mobilização bélica nunca é puramente ideológica ou voluntária. Requer disciplina, coerção, medo, propaganda, a coação legal e controle policial da população. A evasão do recrutamento, a deserção, a desobediência militar, a recusa em participar da produção bélica, a exaustão social, as greves e a hostilidade ao Estado, tudo isso pode enfraquecer o esforço de guerra sem implicar, de forma consciente e explícita, uma postura internacionalista. A questão política premente é em que medida tais recusas podem ser transformadas em um repúdio de classe da guerra capitalista e de todos os Estados nacionais, ao invés de serem absorvidas pelo pacifismo, o humanismo democrático, o nacionalismo ou o campo rival.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160146" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web.jpg" alt="" width="1030" height="685" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web.jpg 1030w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-1024x681.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-768x511.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-632x420.jpg 632w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-681x453.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1030px) 100vw, 1030px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os textos reunidos em nossa publicação<strong>[2]</strong> devem ser lidos não como uma doutrina imutável, mas como tentativas situadas de formular uma resposta de classe em momentos em que o proletariado se viu pressionado a tomar parte de mobilizações nacionais, antifascistas, democráticas ou anti-imperialistas. Cada caso aborda o mesmo problema a partir de um ângulo histórico diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira formulação aparece com particular clareza na resposta do anarquismo japonês à invasão da Manchúria, em 1931. A Federação Libertária Japonesa escreveu de dentro de um país imperialista agressor. Seu alvo prioritário era o Estado japonês, seu exército, sua classe capitalista e o discurso patriótico mediante o qual se justificava a invasão. Nesse texto, a pátria não é uma comunidade formada por explorados e seus exploradores. É a forma política por meio da qual se pede aos pobres que suportem a fome, o frio e a morte, enquanto a classe dominante obtém lucro e poder.</p>
<p style="text-align: justify;">O que principal aqui é que a denúncia do imperialismo japonês não se transmuta em apoio ao campo nacional oposto. A Federação Libertária Japonesa indaga quem se beneficiaria caso a influência japonesa fosse anulada na China em virtude da vitória do movimento de liberação nacional. Sua resposta é: não os trabalhadores os campesinos chineses enquanto força social autônoma, mas a burguesia chinesa ascendente e os capitais estrangeiros em competição com o Japão. Essa foi uma das primeiras formas da dupla recusa, desenvolvida de modo mais claro nos textos posteriores da nossa publicação.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto se refere especificamente à posição tomada por Kropotkin, em 1914 — apoiando a Entente por considerar o militarismo alemão o perigo maior. Os anarquistas japoneses consideraram isso um erro fatal. Assim que um imperialismo é considerado suficientemente pior para justificar o apoio ao outro, o internacionalismo já foi dissolvido na lógica da guerra entre Estados. O problema é aceitar que se peça aos proletários e às proletárias que avaliem qual classe dominante deveria derrotar a outra.</p>
<p style="text-align: justify;">A <em>Union Communiste</em> desenvolveu a mesma questão de uma comunista mais sistemática durante a Guerra Sino-Japonesa de 1937. A experiência espanhola já havia estabelecido suas bases: A Frente Popular havia mostrado que o apoio “crítico” à burguesa democrática equivalia a reforçar o aparato que havia esmagado as trabalhadoras e trabalhadores de Barcelona em maio de 1937 e eliminado as forças que não podiam ser subordinadas à linha nacional-democrática &#8211; o POUM e as correntes anarquistas mais radicais. Sua polêmica contra Trotski é central. Trotski argumentava que a China, um país semicolonial atacado pelo Japão, liderava uma guerra nacional progressista a ser apoiada pelos revolucionários, de modo a manter, ao mesmo tempo, uma independência política de Chiang Kai-shek.</p>
<p style="text-align: justify;">A <em>Union Communiste </em>rechaçou essa distinção entre apoio militar e independência política. A questão não era qual lado havia sido atacado. A defesa nacional é organizada por intermédio do Estado burguês, seu exército e sua liderança política; apoiá-la significa, portanto, reforçar o aparato mediante o qual se subordina a classe trabalhadora. Na China, isso supunha fortalecer o poder militar e burocrático de Kuomintang — a mesma força burguesa que havia esmagado a revolução operária de 1926-27. Um aparato estatal construído em nome da guerra anti-imperialista não se torna inócuo porque o apoio a ele é qualificado de “crítico”. A disciplina da guerra nacional transforma o “apoio crítico” em participação prática no esforço nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a Segunda Guerra Mundial, a mesma questão reapareceu na forma de antifascismo e de defesa da União Soviética. Esse alinhamento em massa foi a culminação do desarmamento político do proletariado durante o período entreguerras, em que a integração institucional da classe trabalhadora ao Estado democrático pela social-democracia e a política stalinista das Frentes Populares, a qual transformou a luta de classes na defesa antifascista da democracia burguesa, já havia minado qualquer base para a autonomia da classe. Para a maior parte da esquerda, a guerra se apresentava como a luta entre o fascismo e a democracia ou como uma guerra em que a URSS tinha que ser defendida, apesar do stalinismo. Nesse momento, os grupos internacionalistas haviam rompido não apenas com o stalinismo, mas com a posição trotskista de que a Rússia, enquanto um Estado degenerado operário, devia ser defendida contra o imperialismo — uma lógica que, em última instância, contribuiu para a subordinação das massas proletárias em todo o mundo ao campo imperialista Aliado.</p>
<p style="text-align: justify;">As minorias internacionalistas na Europa ocupada tentaram manter outra posição. Os <em>Revolutionären Kommunisten Deutschlands</em> (RKD), o <em>Groupe Révolutionnaire Prolétarien/Union des Communistes Internationalistes</em> (GRP/UCI), frações da esquerda comunista e a rede anarquista em torno de André Arru, que operava desde Marseille e Toulouse, opuseram-se ao nazismo e à ocupação alemã, mas também ao imperialismo Aliado, ao stalinismo, às frentes de resistência nacional baseadas na colaboração de classe e a restauração da ordem capitalista sob o nome de “Liberação”. Esses grupos produziram panfletos em alemão e francês, dirigindo-se aos soldados alemães enquanto proletários uniformizados, em vez de meros instrumentos do Estado nazista, e chamaram à confraternização, deserção, recusa à disciplina e à luta contra todos os Estados. Tentaram romper a coesão nacional imposta por meio da guerra, intervindo politicamente nas próprias fileiras do próprio exército. E, certamente, isso não supunha a negação da realidade da ocupação alemã, nem do terror nazista; tratava-se da recusa de traduzir essa realidade em apoio ao campo Aliado, à resistência patriótica ou ao Estado soviético. Alguns militantes foram presos, deportados ou mortos. Karl Fischer da RKÖ apenas sobreviveu à repressão nazista para ser sequestrado após a guerra pelo aparato soviético e enviado ao Gulag.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa tendência não estava ausente no contexto grego. A corrente em torno de Aghis Stinas — através de suas formas sucessivas de organização durante a Ocupação — manteve uma posição internacionalista dentro da Grécia ocupada, tanto frente ao Eixo como ao campo Aliado, e contra a linha da unidade nacional do EAM/ELAS, a qual identificava como uma subordinação da classe trabalhadora ao imperialismo Aliado. A posição internacionalista se manteve não apenas nos centros metropolitanos da Europa ocidental, mas também em um país submetido a condições de extrema repressão, onde a pressão no sentido da unidade nacional foi uma das mais intensas.<strong>[3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No contexto da Itália, as greves de março de 1943 em Turim, Milão e os centros industriais do norte mostraram que poderia surgir uma verdadeira ruptura da classe operária no seio do Estado agressor, impulsionada pela fome, a exaustão e o ódio à disciplina fascista. Mas essa ruptura foi absorvida mais tarde no quadro da liberação nacional antifascista, sobretudo por intermédio do PCI e CLN, a coalizão transclassista de Liberação Nacional que unia comunistas, democrata-cristãos e até monarquistas. Os textos de nossa compilação, escritos em torno da conjuntura italiana por grupos da Grã-Bretanha e da França ocupada — sem que houvesse qualquer comunicação entre eles —, registram essa situação de forma quase idêntica. Os textos de Berneri recusam a identificar os bombardeamentos dos Aliados com a liberação e os justapõem com as greves dos trabalhadores e a sabotagem na Itália para desmascará-los como um meio de impor a “ordem” capitalista; os textos da esquerda comunista atacam esse mesmo processo como uma contrarrevolução preventiva encaminhada à restauração da ordem capitalista por meio do antifascismo e nacionalismo. O que o quadro da liberação nacional suprimiu foi a possibilidade de que a revolta operária contra o fascismo e a guerra excedessem os limites da reconstrução do Estado antifascista e se transformassem em guerra de classes.</p>
<p style="text-align: justify;">Na França, a “liberação” de Paris em 1944 colocou brevemente a questão se acaso essas minorias internacionalistas poderiam se ligar com um movimento operário mais amplo. Militantes do GRP/UCI e do RKD participaram no comitê de greve na Renault. Por um instante, a expectativa de uma onda revolucionária não era absurda. Mas essa abertura foi logo fechada. A influência stalinista nos locais de trabalho, o retorno da ordem estatal e a estabilização trazidas pelos exércitos Aliados limitaram as possibilidades. Os grupos que haviam preservado uma posição internacionalista ao longo dos anos de repressão careciam das bases e envergadura necessárias para influenciar a situação quando a oportunidade surgiu brevemente. Somente a clareza intelectual não pode produzir, sozinha, uma força mais ampla; isso depende do nível da organização de classe, da desintegração da disciplina militar, do enfraquecimento da legitimidade do Estado e a possibilidade de conectar recusas isoladas em um movimento comum.</p>
<p style="text-align: justify;">A revista <em>War Commentary</em>, na Grã-Bretanha, não funcionou sob a ocupação alemã, mas dentro de um dos Estados imperialistas democráticos vencedores. O internacionalismo não é colocado à prova unicamente sob a ditadura ou a ocupação; também se põe à prova dentro da democracia, quando o Estado democrático exige disciplina laboral, censura, obediência militar e silêncio em nome do esforço de guerra antifascista. Os anarquistas ligados à <em>War Commentary</em> defendiam que a Grã-Bretanha não estava lutando por liberdade contra o fascismo. Tratava-se, antes, de um Estado imperial defendendo suas colônias, mercados, rotas mercantis, bem como sua posição global. A guerra antifascista era uma guerra capitalista. A exigência de que os trabalhadores apoiassem o esforço de guerra significava a incorporação à disciplina do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso eram importantes suas tentativas de chegar aos soldados. <em>War Commentary</em> dirigia-se às tropas não como partes de uma instituição nacional supostamente neutra, mas como a massa de trabalhadores uniformizados, sujeitos à disciplina, porém capazes de discutir, rebelar-se e revoltar-se. Por meio da seção de correspondência com soldados, a <em>Forces Newsletter </em>e as referências a antigos motins e conselhos de soldados, a publicação pretendia abrir um canal de comunicação dentro das próprias forças armadas. O processo judicial movido em 1945, acusando-os de conspiração com o objetivo de causar descontentamento nas forças armadas, revelou os limites da tolerância democrática, mesmo no momento em que a guerra chegava ao fim e a desmobilização ameaçava converter novamente os soldados em uma força social volátil. O perigo não era uma iminente revolta militar, mas a possibilidade de que os soldados que voltavam para casa — trabalhadores uniformizados, logo retornando às lutas nos locais de trabalho, nas ruas e nas lutas por moradia<strong>[4]</strong> — poderiam trazer a rebeldia de volta à vida civil. A tentativa do <em>War Commentary</em> de se dirigir a eles como proletários pensantes, em vez de súditos militares obedientes, atingiu, portanto, uma verdadeira linha de fratura na transição da guerra para a ordem do pós-guerra.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão colonial, no entanto, expôs o limite desse grupo. O texto de Albert Meltzer de 1942 sobre a independência nacional ainda admitia que as lutas de independência nacional poderiam, em determinadas condições, adquirir um conteúdo progressista. Isso aponta para uma dificuldade persistente: como opor ao seu próprio Estado imperial e apoiar as lutas do povo colonizado, sem politicamente endossar movimentos nacionalistas que, simplesmente, não farão do que reproduzir a dominação de classe sob uma outra bandeira.</p>
<p style="text-align: justify;">No contexto colonial propriamente dito, o relato de Ngo Van sobre o Vietnã no período imediatamente após a Segunda Guerra Mundial é de grande importância, na medida em que torna essa dificuldade brutalmente concreta. Sua perspectiva veio da experiência imediata do colonialismo francês, a ocupação japonesa, o colapso da autoridade japonesa, a intervenção britânica, o retorno da intervenção francesa e a ascensão de Viet Minh. Em 1945, houve um breve momento, durante o vácuo de poder que foi criado com a retirada dos japoneses, em que os operários e camponeses pobres atuaram de forma indepentente. Nas minas de Hongay-Campha, os trabalhadores tomaram o controle da produção e formaram conselhos. Em Saigon, comitês independentes e militantes internacionalistas da oposição de esquerda reivindicaram armas, controle operário e terra para os camponeses e formaram comitês populares. Esses movimentos foram esmagados não somente pelas forças coloniais, mas também pelo Viet Minh. O assassinato de militantes da oposição de esquerda não foi um excesso acidental. Refletia a lógica da liberação nacional como construção do Estado: as forças que não podiam ser subordinadas à nova autoridade nacional deviam ser eliminadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Escrevendo posteriormente, em 1968, durante a Guerra do Vietnã, Ngo Van não minimizou a violência do imperialismo americano, mas recusou que essa violência se tornasse uma razão para apoiar o Estado de Ho Chi Minh. Sua posição era que os trabalhadores vietnamitas e os camponeses não tinham nada a ganhar nem com o capitalismo americano, nem com o capitalismo de Estado do Vietnã do Norte. A liberação nacional correspondia a uma mudança de patrões. A administração colonial podia até se retirar, mas a exploração se reorganizava em mãos de uma burocracia nacional, pelo partido-Estado e pela emergente classe dominante nacional. Sua percepção mostrou-se totalmente correta.</p>
<p style="text-align: justify;">No Vietnã, o risco de que o apoio a uma guerra nacional levaria ao estabelecimento de um regime capitalista de Estado não era mais uma antecipação teórica: havia se convertido em experiência histórica. O movimento nacional havia mostrado que, para monopolizar o poder estatal, destruiria as iniciativas autônomas do proletariado e do campesinato. A crítica da liberação nacional de Ngo Van não advinha, por conseguinte, da indiferença ante à dominação colonial, mas da experiência de uma luta em que a guerra anticolonial se havia transformado na formação de um novo poder estatal contra as mesmas forças sociais que dizia representar.</p>
<p style="text-align: justify;">A Guerra do Vietnã nos anos 1960 lança uma luz diferente à análise das mobilizações contra a guerra e a insubordinação dos soldados. O fracasso do exército americano não foi simplesmente uma derrota no campo de batalha, mas o resultado de uma insubordinação de classe generalizada. A resistência dentro do exército e da sociedade civil — deserção, imprensa clandestina dos soldados, recusas em ir a combate, assassinatos de oficiais por parte dos próprios subordinados, <strong>[5]</strong> quebras de disciplina, e exaustão de uma classe operária recrutada — minou a capacidade do Estado americano de continuar a guerra. Essa resistência não se cristalizou em um movimento proletário internacionalista; manteve-se em larga medida pacifista, democrática e, em termos gerais, anti-imperialista. Ainda assim, mostra que a recusa mais ampla à guerra pode adquirir importância material até mesmo quando o internacionalismo explícito do “terceiro campo” permanece minoritário. O problema é como explicar e conectar tais recusas sem que sejam absorvidas pelo pacifismo liberal, o apoio ao campo rival ou um anti-imperialismo que não atenta para o conteúdo de classe das forças em oposição.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, é relevante, e contrário às posições acríticas sobre a liberação nacional prevalentes hoje, o manifesto de Paris de 1976 dos comunistas árabes e israelenses, publicado na revista <em>Khamsin</em>, que desenvolve a crítica simultânea do sionismo, o Estado israelense, os regimes árabes, as organizações nacionais palestinas e as forças imperialistas ativas na região. O Estado israelense é analisado como capitalismo de Estado sionista, baseado no deslocamento em massa, dominação militar e violência brutal contra a população palestina, bem como na incorporação das trabalhadoras e trabalhadores judeus à defesa nacional e ao projeto sionista nacionalista e expansionista, que implica a limpeza nacional e, recentemente, o genocídio. Ao mesmo tempo, as trabalhadoras e trabalhadores judeus não são reduzidos a uma mera extensão do Estado. O conflito de classes, as greves selvagens, as hierarquias internas e a revolta social daquela época ainda eram uma realidade no interior da sociedade israelense e permaneceram politicamente relevantes. Hoje, a correlação de forças de classe é distinta e as ideologias nacionalistas reacionárias têm muito mais peso — não apenas em Israel, mas em toda a região e a nível internacional.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica do “Manifesto” ao nacionalismo palestino não é secundária em relação à crítica ao sionismo. Esta rechaça tanto a estratégia orientada ao Estado da OLP, como a alternativa negacionista que se opunha a qualquer compromisso em nome da liberação nacional total e a destruição do Estado de Israel. Essas posições diferiam em termos táticos, mas compartilhavam o mesmo horizonte: a organização das proletárias e proletários palestinos como um povo nacional representado pelas lideranças políticas e militares. A emancipação não pode ser igualada à construção de um Estado, à vitória de um exército nacional ou um reconhecimento diplomático de uma liderança nacional. A posição defendida por essas e esses camaradas era clara: um Estado palestino pode eliminar o álibi do nacionalismo árabe e colocar as trabalhadoras e os trabalhadores palestinos frente a frente com sua própria classe dominante; porém não constituiria sua emancipação.</p>
<p style="text-align: justify;">A paz entre os Estados, ou entre atores estatais e quase estatais, não é o oposto à guerra. É uma nova organização da mesma realidade: fronteiras, acordos securitários, medidas policiais, reconhecimento diplomático, gestão de populações, reconstrução e novas formas de incorporação a economias nacionais. Nesse sentido, a paz dá continuidade ao conteúdo de classe por outros meios. Não elimina as forças que organizaram o conflito, mas estabiliza potencialmente sua relação e redistribui seus papéis.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa dinâmica se aplica ao presente sem anacronismos. Acordos temporários, cessar-fogos, trocas de prisioneiros ou reféns, mecanismos de reconstrução e garantias securitárias tornam-se potencialmente aceitáveis para atores como Hamas, Irã, Catar, Israel e Estados Unidos, cada qual de acordo com suas próprias razões e estratégias. Porém, tais acordos não podem ser igualados aos interesses das proletárias e proletários palestinos. Regulam as condições sob as quais os palestinos seguem sendo governados, vigiados, expulsos, contidos, empregados, desempregados, dependentes de auxílio ou mesmo assassinados em massa.</p>
<p style="text-align: justify;">O último de nossa compilação, de Arya Zahedi sobre o Irã, traz para o presente a crítica do “campismo” anti-imperialista. O conflito entre o Estado iraniano com os Estados Unidos, Israel e com o Ocidente é novamente tratado por tais “anti-imperialistas” como razão suficiente para deixar de lado seu caráter de classe, sua brutal repressão de classe e das lutas sociais, bem como sua função na dominação capitalista na Ásia ocidental. A República Islâmica utiliza o conflito externo para impor violentamente a disciplina interna: para reprimir greves, esmagar o movimento das mulheres, impor a austeridade, a polícia moral, reprimir as minorias e apresentar a luta social como traição em um momento de estado de emergência nacional. Isso não é exclusividade do Irã. Todos os Estados utilizam o perigo externo para exigir a unidade interna. O que é específico hoje é que setores da esquerda internacional aceitam essa lógica quando o Estado em questão confronta os Estados Unidos, Israel ou o Ocidente, sem o pretexto do caráter socialista do Estado, nem de uma “terceira via” rumo ao socialismo, como no passado.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é previsível: trabalhadores, mulheres, migrantes, minorias e prisioneiros que combatem o regime desaparecem de vista quando caem as bombas. O esforço de guerra do Estado é requalificado de “resistência”; aqueles que são explorados e reprimidos pelo Estado passam para o plano secundário. O conflito com um imperialismo mais forte não transforma um Estado em um agente da emancipação. Simplesmente faz com que o Estado seja mais efetivo internamente, já que a dissidência pode ser criminalizada como traição.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse problema vai além da velha esquerda: stalinismo, democracia social, antifascismo patriótico ou o clássico campismo anti-imperialista. Afeta correntes que se apresentam como uma crítica radical do marxismo tradicional. Não obstante, essas correntes não devem ser equiparadas entre si. A teoria da comunização, a crítica do valor, o marxismo influenciado por Postone, a herança da Escola de Frankfurt e a política antialemã têm histórias diferentes e levam frequentemente a conclusões políticas opostas. No entanto, algumas versões dessas correntes compartilham uma tendência comum: o proletariado aparece tão completamente integrado ao capital que não pode mais ser pensado como o sujeito contraditório da transformação comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">A abordagem da <em>Théorie Communiste</em> é mais sutil. TC não se limita a reproduzir a teoria da total subsunção do proletariado ao capital. Porém se recusa, igualmente, a localizar a superação comunista na possível constituição da classe trabalhadora como a classe para si: qualquer autonomia positiva ou autoafirmação do proletariado permanece, para TC, uma afirmação de um dos polos da relação de capital e, portanto, um limite a ser superado. O problema é que, uma vez que a atividade autônoma da classe fica reduzida a tal limite, a passagem para além da relação de capital não pode emergir através do desenvolvimento e generalização daquela mesma atividade. Antes, é localizada estruturalmente na transformação da relação de classe: a superfluidade crescente do trabalho para a valorização e na separação cada vez maior entre a reprodução do proletariado e a valorização de sua força de trabalho. A abolição do proletariado tende, assim, a aparecer menos como o desfecho possível de sua própria atividade autônoma e contraditória do que como o resultado de uma contradição produzida pelo próprio capital, que acaba convertendo o pertencimento de classe em uma restrição externa que é logo abolida pelas medidas de comunização de uma população cuja afirmação como classe se tornou impossível.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossa crítica a essas posições não consiste em apegar-se a um culto nostálgico e “trabalhista” ao trabalho e da fábrica. O horizonte comunista não é a auto-afirmação do proletariado enquanto uma classe no interior do capitalismo, mas a abolição do capital enquanto relação social e, portanto, do proletariado enquanto tal. O problema surge quando a crítica necessária da auto-afirmação do proletariado se converte em uma negação teórica da capacidade da classe de transformar a si mesma por meio de suas próprias lutas. Caso o proletariado seja entendido apenas como inteiramente subsumido ao capital, integrado em uma “sociedade totalmente administrada” ou, ainda, nada mais do que um polo da relação de capital, então a possibilidade de ruptura tende a ser deslocada para outro lugar. Às vezes, é transferida para as populações excedente, migrante, racializada, absolutamente excluída ou indefinidamente nomeada de “os bárbaros”. Por vezes, é transferida aos movimentos de liberação nacional, cujo conteúdo de classe permanece sem análise. Em outros casos, especialmente em meios antialemães, o deslocamento se move na direção oposta: em direção à defesa de um Estado existente, ou seja, Israel, como uma suposta barreira contra a barbárie antissemita.</p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória dos antialemães é um caso em que a ideia inicial já continha o germe de seu desenvolvimento posterior. É bem verdade que em setores da esquerda alemã havia uma tendência a tratar o antissemitismo e o Holocausto como o mero fato de mencionar o fascismo, o capitalismo ou o imperialismo em geral bastasse para compreender sua forma histórica determinada. Mas os antialemães responderam a isso separando essa forma histórica da relação de classe, do Estado capitalista e da história material da violência imperialista. O resultado não foi uma análise dialética do antissemitismo como um momento específico no interior da totalidade capitalista, mas sim a elevação dessa particularidade ao estatuto de excepcionalidade política. O antissemitismo não é simplesmente um racismo entre outros, nem o Holocausto é um massacre de Estado entre outros; porém, nenhum dos dois pode ser entendido como uma singularidade não derivada, separada da totalidade social capitalista que produziu o Estado moderno, a racialização, a concorrência imperial e o nacionalismo exterminador. O erro dos antialemães não foi, portanto, apenas apoiar mais tarde Israel, os Estados Unidos ou a OTAN. Já estava presente na própria forma da correção: em vez de derivar a particularidade da totalidade, terminaram por contrapor cada vez mais a particularidade à totalidade.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160147" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d.webp" alt="" width="1200" height="628" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d.webp 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-300x157.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-1024x536.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-768x402.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-803x420.webp 803w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-640x335.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-681x356.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A partir daí, Israel foi despojado da sua realidade como Estado capitalista com as suas próprias relações de classe, sua violência nacionalista e sua função geopolítica, e foi elevado à condição de portador privilegiado da memória histórica e da razão antifascista. A defesa de Israel derivou de forma imperceptível em uma apologia do poder dos EUA e da OTAN, recodificada em defesa da civilização contra a barbárie antissemita. Não se trata de um desvio menor em relação à crítica original. É, antes, a sua <em>reductio ad absurdum</em>: a teoria crítica da integração total, levada ao seu extremo, que gera um apoio acrítico ao poder existente. Essa trajetória merece ser nomeada e descrita precisamente porque mostra até que ponto o deslocamento da emancipação para fora das relações de classe pode inverter a intenção política original.</p>
<p style="text-align: justify;">As consequências políticas da concepção da TC tornam-se mais evidentes em seu debate com Minassian sobre Gaza.<strong>[6]</strong> Na sua análise de Gaza, TC reconhece corretamente a fragmentação do proletariado palestino e a sua produção em “população excedente”. O problema reside no que se entende por atividade de classe autônoma. Para TC, a auto-organização proletária continua a ser uma afirmação da classe no âmbito da relação de capital e, por conseguinte, um limite a ser superado. Dado que a auto-organização implica que a classe atue estritamente como tal, ela pode adotar em si mesma formas nacionais ou outras formas de incorporação. A distinção entre auto-organização e autonomia de classe fica, assim, difusa. A autonomia já não designa uma tendência no interior da luta através da qual os proletários entram em conflito com as formas que os organizam como classe do capital, mas é tratada como a busca de uma atividade de classe supostamente pura, separada dessas determinações. Daí a acusação de “pureza conceitual” contra as tentativas de identificar tendências autônomas no interior das lutas da população palestina. O resultado é paradoxal: uma vez que a auto-organização nacionalista pode ser aceita como a forma efetiva de luta proletária, enquanto que distinguir os antagonismos que a atravessam é considerado suspeito de impor uma pureza abstrata, as “bandeiras disponíveis” dos proto-Estados nacionais ou religiosos tendem a tornar-se as formas de luta praticamente ineludíveis. O que fica assim privado de significado político independente são, precisamente, as lutas reais e os atritos materiais dirigidos contra o Hamas enquanto burocracia governante.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso tem consequências para além da própria análise de TC. Converge politicamente com uma esquerda “anti-imperialista” mais ampla que vigia violentamente essa fronteira nacional, difamando de forma preventiva a própria perspectiva de uma solidariedade para além das fronteiras nacionais — ou qualquer tentativa de enquadrar o conflito em termos de classe em vez de nação — como expressão de uma “mentalidade colonialista” ou de um “sionismo liberal”. Em última instância, esse enfoque trata o aparelho capitalista da liberação nacional como um limite insuperável da luta, rendendo a posição internacionalista à lógica do mal menor.</p>
<p style="text-align: justify;">O apoio à resistência nacional palestina e o apoio ao Estado israelense são, obviamente, resultados políticos distintos. No entanto, subjacente a essas diferenças políticas evidentes, reside um deslocamento teórico familiar: a emancipação já não se situa nas lutas contraditórias do proletariado contra a sua própria constituição capitalista. Em vez disso, a atividade transformadora tende a ser buscada seja nas determinações sob as quais a classe está atualmente organizada, seja em outras figuras privilegiadas de negatividade, seja, ainda, totalmente fora da autoatividade proletária — na nação oprimida, no sujeito excluído, na identidade vitimizada, na negatividade abstrata ou num Estado que afirma defender a civilização contra a barbárie.</p>
<p style="text-align: justify;">O nosso ponto de partida é diferente. Não exige uma crença ingênua num sujeito revolucionário já constuído. O proletariado não é revolucionário por ser puro, externo ao capital ou já consciente da sua tarefa. É importante porque é produzido pelo capital, disciplinado pelo capital e, ainda assim, capaz, em meio à luta, de interromper a reprodução da relação que o constitui. O problema não pode ser resolvido pela redução do significado político das lutas do proletariado à sua integração no capital. Não se trata de substituir o antigo sujeito-trabalhador afirmativo por outra figura purificada de negatividade — o chamado “abjeto”, as populações excedentes ou um mecanismo estrutural que se supõe produzir a ruptura por si mesmo —, mas sim trabalhar através das recusas contraditórias que emergem dentro das próprias relações sociais capitalistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso nos leva de volta ao Vietnã. A história da Guerra do Vietnã é importante não porque oferece um modelo replicável, mas porque localiza o terreno onde a intervenção internacionalista deve operar. A recusa da guerra começa quase sempre sob formas confusas, parciais e não programáticas. Não obstante, é precisamente esse espaço de resistência espontânea que fornece a base material para uma ruptura internacionalista proletária com a máquina de guerra nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso também nos leva de volta à questão com que começamos: por que essa resistência espontânea raramente se cristalizou numa ruptura de massas comparável à que ocorreu entre 1917 e 1920? Para responder a isso, temos que olhar para além da derrota ideológica. A ausência de uma onda internacionalista comparável nas décadas seguintes resultou de uma profunda mudança estrutural. A “densidade organizativa” material que possibilitou motins, a confraternização e o surgimento da forma conselho foi sistematicamente desmantelada. Por um lado, as formas autônomas de organização de classe foram fisicamente esmagadas ou institucionalmente integradas ao aparelho de Estado através da burocratização sindical, da social-democracia e do stalinismo. Por outro lado, a própria composição da classe sofreu uma transformação radical: sucessivas ondas de reestruturação capitalista, desindustrialização e fragmentação de comunidades operárias compactas dissolveram a antiga base material da ação coletiva. Por conseguinte, o problema hoje não é simplesmente como reviver os modelos organizativos de 1917, mas como a recusa contemporânea à guerra pode adquirir um conteúdo de classe e tornar-se uma força material no interior da realidade estruturalmente fragmentada do proletariado atual.</p>
<p style="text-align: justify;">O rearmamento europeu coloca este problema com urgência nos dias de hoje. Os governos falam a linguagem da preparação militar e da defesa nacional, mas a disposição de lutar não é algo de que o Estado dispõe por si mesmo. Deve ser produzida mediante o medo, a disciplina, a propaganda, as fronteiras, as leis de recrutamento e a punição. A vontade política de lutar — no sentido de uma identificação voluntária em massa com os projetos militares nacionais — é notavelmente débil em toda a Europa hoje. A Ucrânia é o indicador mais nítido disso: o recrutamento forçado, a evasão generalizada do serviço militar e a fricção social interna gerada pelo custo da guerra contradizem por completo o mito de uma população uniformemente unida por trás da bandeira. Isso não significa que os trabalhadores e soldados ucranianos tenham adotado uma posição proletária internacionalista, pelo menos não num sentido organizado. Contudo, a defasagem entre o que o Estado necessita e o que as pessoas estão dispostas a aguentar é uma fratura real — o tipo de fratura em que temos que trabalhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em última análise, a história que estamos analizando nos leva mais a um problema prático do que a uma conclusão definitiva: em que condições pode a posição internacionalista intervir nas fraturas reais da mobilização de guerra e ajudar a transformá-las numa ruptura de classe com o Estado, a nação e a organização capitalista da vida? Estas fraturas não são imediatamente revolucionárias e podem ser absorvidas pelo pacifismo ou pelo “campismo” — uma tendência visível, por exemplo, no significado político contestado das mobilizações dos trabalhadores portuários contra os carregamentos de armas. Mas sem elas, o “terceiro campo” continua a ser uma fórmula abstrata.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Antithesi, (21 de junho &#8211; 11 de agosto de 2026) Traduzido por Yasmin</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Marie Louise Berneri, Neither East Nor West: Selected Writings, Freedom Press, Londres, 1952. Agradecemos especialmente aos nossos companheiros em Paris pelas conversas que ajudaram a dar início a este projeto: por trazerem os escritos de Berneri para nossas discussões e por chamarem nossa atenção para a relação entre Henry Chazé e Henri Simon. Agradecemos particularmente pelo trabalho que está sendo realizado sobre a correspondência entre eles, o que despertou nossa curiosidade e nos incentivou a explorar mais a fundo essas conexões.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Referência à publicação recente do grupo na Grécia: 100 anos contra todos os campos: internacionalismo proletário, guerra e revolução [100 χρόνια ενάντια σε κάθε στρατόπεδο: Προλεταριακός διεθνισμός, πόλεμος και επανάσταση], uma coletânea de textos escritos em contextos de guerra, ocupação, domínio colonial e repressão, por anarquistas antimilitaristas, comunistas de esquerda e conselhistas, internacionalistas da Europa ocupada e combatentes das colônias, que compartilham uma postura comum: a emancipação do proletariado não passa pela vitória de nenhuma pátria ou governo, nem pela burguesia nacional ou “anti-imperialista”. (N. T.)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Essa corrente política, no entanto, não deve ser analisada isoladamente do contexto social mais amplo da Grécia ocupada. As primeiras ondas de greves, manifestações e ações coletivas em Atenas não surgiram de um aparelho do EAM já consolidado. No início da Ocupação, o mecanismo organizacional do Partido Comunista tinha sido gravemente abalado pela ditadura, pelas prisões, pelo exílio e pela infiltração policial. Muitas das lutas iniciais surgiram, em vez disso, das pressões materiais imediatas da fome, da queda dos salários, das cozinhas de caridade, do trabalho forçado, das condições hospitalares e da questão da sobrevivência física. Em vários casos, operários, funcionários, inválidos da frente albanesa, doentes de tuberculose e comités locais agiram antes ou mesmo contra as hesitações iniciais da liderança do EAM/EEAM, que, no entanto, acabou por apoiar, coordenar e absorver politicamente estas iniciativas. (N. A.) A questão, portanto, não é opor uma espontaneidade pura à organização. Pelo contrário, o caso grego mostra como a hegemonia do EAM se formou através de um processo de intervenção em lutas que inicialmente a precederam. O que mais tarde surgiu como um movimento unificado de libertação nacional continha em si uma história mais desigual de autoatividade social: iniciativas nos locais de trabalho, comitês hospitalares, protestos contra a fome e greves que tiveram início a partir da reprodução concreta da vida da classe trabalhadora sob a ocupação. A crítica internacionalista de Stinas ganha parte do seu significado neste contexto. Insistiu que estas rupturas sociais não deveriam ser subordinadas à reconstrução de uma frente nacional, quer sob os auspícios dos Aliados, quer sob a liderança política do EAM. (N. A.)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> No verão e no outono de 1946, num contexto de grave escassez de moradia, desmobilização e austeridade do pós-guerra, dezenas de milhares de pessoas — muitas delas ex-militares e as suas famílias — ocuparam acampamentos militares vazios e, mais tarde, hotéis e apartamentos por toda a Grã-Bretanha. O movimento não constituiu um desafio revolucionário ao Estado, mas mostra como o retorno dos soldados à vida civil podia tornar-se uma fonte de atrito social e de ação direta na transição da guerra para a ordem social do pós-guerra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong>No texto original em inglês, utiliza-se a palavra fragging, que se refere às granadas de fragmentação (frag grenades) que os soldados americanos costumavam usar para assassinar seus superiores, simulando acidentes de combate. [N. T.]</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Ver « Gaza 2024 », Théorie Communiste 28, p. 101-138</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Textos da coleção publicada</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Federação Libertária Japonesa, “What To Do About War?”, Jiyu Rengo Shinbun, no. 64, November 1931; originalmente publicado em Esperanto; trad. John Crump, reimpresso em Anarchist Opposition to War, Seattle: Charlatan Stew, 1995. (<a class="urlextern" title="https://theanarchistlibrary.org/library/japanese-libertarian-federation-what-to-do-about-war" href="https://theanarchistlibrary.org/library/japanese-libertarian-federation-what-to-do-about-war" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://theanarchistlibrary.org/library/japanese-libertarian-federation-what-to-do-about-war</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Union Communiste, “En face le conflit sino-japonais”, L&#8217;Internationale, no. 31, 3 October 1937. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5995" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5995" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article5995</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">War Commentary editorial group, “War and Resistance”, War Commentary, vol. 1, no. 1, November 1939. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6258" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6258" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6258</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">War Commentary editorial group, “The Third Choice”, War Commentary, vol. 1, no. 10, August 1940. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6289" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6289" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6289</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Les Communistes Révolutionnaires / Die Revolutionären Kommunisten, “Ouvriers! Soldats! / Arbeiter! Soldaten!”, bilingual leaflet in French and German, July 1942. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5300" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5300" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article5300</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Die Revolutionären Kommunisten, “Deutsche Soldaten! Kameraden!”, leaflet in German, occupied France, September 1942; Alemão original reimpresso em Philippe Bourrinet, The &#8216;Bordigist&#8217; Current (1912-1952), Editoriale Fondazione Amadeo Bordiga, 2013.</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “Quelques Thèses”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “La situation politique en France”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “Position du prolétariat révolutionnaire à l&#8217;égard de l&#8217;Allemagne”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “Position du prolétariat révolutionnaire à l&#8217;égard de la Russie”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Communistes Révolutionnaires, “Appel aux ouvriers juifs”, Fraternisation Prolétarienne, no. 3, April 1943. (<a class="urlextern" title="http://archivesautonomies.org/spip.php?article1545" href="http://archivesautonomies.org/spip.php?article1545" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">http://archivesautonomies.org/spip.php?article1545</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fédération Internationale Syndicaliste Révolutionnaire, “À tous les travailleurs intellectuels et manuels”, leaflet printed in Toulouse, 1943; rascunho feito em Marseille por Jean Solier, pseudônimo André Arru, Voline and comrades. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/anarchismes/2eguerre/anarchistes-resistance-tome1.pdf" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/anarchismes/2eguerre/anarchistes-resistance-tome1.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/anarchismes/2eguerre/anarchistes-resistance-tome1.pdf</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Marie-Louise Berneri, “The &#8216;Liberation&#8217; of Italy: Bombs will do the Job”, War Commentary, vol. 4, no. 16, mid-June 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n16.pdf" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n16.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n16.pdf</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Albert Meltzer, “Patriotism”, War Commentary, vol. 4, no. 15, June 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n15.pdf" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n15.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n15.pdf</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fédération Internationale Syndicaliste Révolutionnaire, “Mort Aux Vaches”, poster, Toulouse, August 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://placard.ficedl.info/article9268.html?lang=fr" href="https://placard.ficedl.info/article9268.html?lang=fr" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://placard.ficedl.info/article9268.html?lang=fr</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Marie-Louise Berneri, “British Bombing”, War Commentary, vol. 4, no. 21, September 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5557" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5557" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article5557</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Union des Communistes Internationalistes, “Contre la guerre impérialiste, révolution socialiste!”, Le Réveil Prolétarien, no. 1, October 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1488" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1488" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1488</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Marie-Louise Berneri, “War and Fascism”, War Commentary, vol. 5, no. 4, mid-December 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6416" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6416" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6416</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Anarchist Federation, “Manifesto of the Anarchist Federation on War”, War Commentary, vol. 5, no. 4, mid-December 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6417" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6417" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6417</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">GRP-UCI / Union des Communistes Internationalistes, “Pourquoi des Conseils d&#8217;usine?”, Le Réveil Prolétarien, no. 6, March 1944. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1497" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1497" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1497</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">GRP-UCI / Union des Communistes Internationalistes, “L&#8217;armée &#8216;rouge&#8217; et la classe ouvrière”, Le Réveil Prolétarien, no. 7, April 1944. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1498" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1498" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1498</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">“Manifeste aux prolétaires d&#8217;Europe”, Bulletin International de Discussion de la Gauche communiste italienne, June 1944. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article2086" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article2086" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article2086</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fraction Française de la Gauche Communiste, “Éditorial”, L&#8217;Étincelle, no. 0, August 1944.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/gcf/etincelle/etincelle-n00" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/gcf/etincelle/etincelle-n00" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/gcf/etincelle/etincelle-n00</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fraction Française de la Gauche Communiste, “Résolution sur les mouvements nationalistes”, Internationalisme, no. 1, January 1945. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1690" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1690" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1690</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Antithesi, “Ngo Van: The Imperialist Slaughterhouse and Class Autonomy in Vietnam in 1945”, in <em>100 Years Against Every Camp: Proletarian Internationalism, War and Revolution</em>, Antithesi, junho de 2026. (baseado principalmente em: <a class="urlextern" title="https://theanarchistlibrary.org/library/ngo-van-in-the-crossfire" href="https://theanarchistlibrary.org/library/ngo-van-in-the-crossfire" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://theanarchistlibrary.org/library/ngo-van-in-the-crossfire</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Solidarity, “News from Zengakuren”, Solidarity. For Workers&#8217; Power, vol. 2, no. 5, July 1962; inclui o excerto an excerpt from Zengakuren Newsletter, no. 3. (<a class="urlextern" title="https://libcom.org/article/solidarity-workers-power-205" href="https://libcom.org/article/solidarity-workers-power-205" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://libcom.org/article/solidarity-workers-power-205</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Ngo Van, “Sur la réforme agraire”, Cahiers de discussion pour le socialisme de conseils, no. 8, April 1968. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4728" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4728" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article4728</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Ngo Van, “Réflexions préliminaires sur la guerre du Vietnam”, Cahiers de discussion pour le socialisme de conseils, no. 8, April 1968. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4613" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4613" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article4613</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Mustapha Khayati, Lafif Lakhdar et al., “Adresse aux prolétaires et aux jeunes révolutionnaires arabes et israéliens contre la guerre et pour la révolution prolétarienne”, maio de 1976; insert in Khamsin, no. 3; parcialmente reimpresso em Jeune Taupe, no. 10, June 1976. Signatários incluem Hakima Berada, Mustapha Khayati, Maroine Dib, Kamal Lahbadi, Dany Diner, Lafif Lakhdar, Avishai Ehrlich, Eli Lobel, Abdul-Kader El-Janaby, Moshé Machover, Mikhal Marouane, Emir Harbi, Moshe Speier, Lea Horowitz, Khalil Toama and Abdallah Zannan; signatários posteriores: Ayed Nagib, Mohamed Cheret and Khaldoun Abou El-Wafa. (<a class="urlextern" title="https://situationnisteblog.com/2020/05/25/5368/" href="https://situationnisteblog.com/2020/05/25/5368/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://situationnisteblog.com/2020/05/25/5368/</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Arya Zahedi, “The Anti-Imperialist Imperialism Club: On Left Internationalism and Iran”, Heatwave, no. 2, Fall 2025, PM Press. (<a class="urlextern" title="https://libcom.org/article/anti-imperialist-imperialism-club-left-internationalism-and-iran-arya-zahedi-2025" href="https://libcom.org/article/anti-imperialist-imperialism-club-left-internationalism-and-iran-arya-zahedi-2025" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://libcom.org/article/anti-imperialist-imperialism-club-left-internationalism-and-iran-arya-zahedi-2025</a>)</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A obra em destaque e a primeira obra no corpo do texto é de autoria de Myriam Thyes. A segunda obra no corpo de texto é da autoria de Pierre Bismuth.</p>
</blockquote>
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		<title>Velha Toupeira (47)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 18:21:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160010" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/VT047-TRUMP-E-AS-MENTIRAS.jpg" alt="" width="2362" height="787" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/VT047-TRUMP-E-AS-MENTIRAS.jpg 2362w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/VT047-TRUMP-E-AS-MENTIRAS-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/VT047-TRUMP-E-AS-MENTIRAS-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/VT047-TRUMP-E-AS-MENTIRAS-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/VT047-TRUMP-E-AS-MENTIRAS-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/VT047-TRUMP-E-AS-MENTIRAS-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/VT047-TRUMP-E-AS-MENTIRAS-1261x420.jpg 1261w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/VT047-TRUMP-E-AS-MENTIRAS-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/VT047-TRUMP-E-AS-MENTIRAS-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2362px) 100vw, 2362px" /></p>
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		<title>Entretanto, em África&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Jun 2026 12:59:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[ «O parlamento do Gana aprovou um projeto de lei que torna ilegal declarar-se LGBT+ ou ter relações homossexuais. Também criminaliza ser “aliado” e torna obrigatória a denúncia de violações da lei. Um projeto de lei semelhante fora já aprovado em 2024, mas o então presidente, Nana Akufo-Addo, não o promulgou. O atual presidente, John Mahama, anunciara previamente que poderia decretar essa lei». (The Economist, The World in Brief, 30 de Maio de 2026) Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">«O parlamento do Gana aprovou um projeto de lei que torna ilegal declarar-se LGBT+ ou ter relações homossexuais. Também criminaliza ser “aliado” e torna obrigatória a denúncia de violações da lei. Um projeto de lei semelhante fora já aprovado em 2024, mas o então presidente, Nana Akufo-Addo, não o promulgou. O atual presidente, John Mahama, anunciara previamente que poderia decretar essa lei». (<em>The Economist</em>, The World in Brief, 30 de Maio de 2026) <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Não olhe para a Lei Rouanet!</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159286/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 12:58:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[ O meteoro do incentivo à cultura. E o que os trabalhadores da arte da cultura deveriam aprender com as lições catastróficas da  dependência política do fomento. Por Manoel J de Souza Neto]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Manoel J. de Souza Neto</h3>
<p style="text-align: justify;">Após anos de pesquisas sobre o fomento à cultura no Brasil, coordenando estudos independentes e cooperando com o Observatório da Cultura do Brasil em análises sobre a Lei Aldir Blanc, o MinC, o CNPC e a Lei Rouanet, encerro este ciclo com a sensação de tarefa cumprida. Nosso objetivo sempre foi diferente do de muitos que apenas desejam atacar a arte ou captar recursos. Queríamos provocar reflexão sobre falhas na execução das políticas públicas e expor contradições que incentivassem melhorias nos mecanismos de fomento à cultura. Não imaginávamos que, apenas por observarmos o cenário com a lente do Observatório e identificarmos o objeto em queda e a catástrofe que poderia provocar, seríamos perseguidos e hostilizados por alertar a sociedade sobre a tragédia iminente. Descobrimos, de forma amarga, como grupos de interesse, parte da mídia e a política podem ser medíocres. Depois de anos de <a class="urlextern" title="https://diplomatique.org.br/crise-cultura/" href="https://diplomatique.org.br/crise-cultura/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">artigos</a>, pesquisas e <a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">relatórios</a>, o que revelamos sobre problemas na aplicação de recursos e ineficácia das políticas públicas tornou-se menos importante do que o objeto secundário da própria pesquisa, que são as razões pelas quais o cenário não muda. E elas passam pelas pressões de partidos, grandes empresas, atravessadores, máfias de editais e setores da mídia, somando-se à anti-cultura promovida por conservadores e ultraliberais que tentam desmontar os instrumentos de fomento. Ambos os lados carregam responsabilidade semelhante pela falência estrutural do financiamento à cultura no Brasil. Descobrimos isso porque tentaram silenciar estudos que poderiam ajudar a sociedade, revelando justamente as razões pelas quais nada muda, justamente os interesses excessivos de poucos grupos beneficiados. As pressões políticas e <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/coluna/radar/observatorio-denuncia-perseguicao-no-ministerio-da-cultura/" href="https://veja.abril.com.br/coluna/radar/observatorio-denuncia-perseguicao-no-ministerio-da-cultura/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">perseguições aos pesquisadores</a> levaram membros do Observatório da Cultura do Brasil ao limite, resultando em queda de canais. Considerando que auditorias e autoridades confirmaram nossos estudos, o grupo se desfez e este tema está encerrado para nós, mas não antes de apresentarmos as provas e auditorias que encerram o caso.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise contemporânea do financiamento cultural brasileiro deixou de ser apenas um debate técnico sobre renúncia fiscal, incentivos culturais e gestão administrativa para se transformar em uma guerra simbólica permanente entre campos políticos rivais. Nos últimos anos, a Lei Rouanet passou a ocupar espaço semelhante ao de outros temas polarizadores nacionais, funcionando simultaneamente como símbolo de democratização cultural para setores progressistas e como representação de privilégios e desperdício de recursos públicos para grupos conservadores, enquanto especialistas apontam contradições sociais e baixa efetividade administrativa. O problema central é que ambos os lados passaram a operar com narrativas simplificadas que, embora contenham elementos reais, frequentemente produzem interpretações distorcidas da realidade para fins políticos. O bolsonarismo construiu a retórica de que a Rouanet teria sido capturada por artistas de esquerda, celebridades e elites culturais alinhadas ao PT, enquanto o governo Lula, o Ministério da Cultura e setores ligados à defesa institucional da gestão cultural passaram a tratar grande parte das críticas estruturais ao mecanismo como fake news, demonização ou perseguição ideológica. Entre essas narrativas extremadas, o debate técnico sobre concentração regional, passivos bilionários, fragilidade de fiscalização, dependência do capital privado e desigualdade estrutural de acesso acabou obscurecido por disputas eleitorais e simbólicas. A dinâmica das redes sociais agravou o processo, transformando dados incompletos, tabelas isoladas, projetos aprovados sem captação, fotos, mentiras sobre contas públicas, cachês municipais e contratos culturais em peças de propaganda e ataque político. Nesse ambiente, cada grupo passou a construir sua própria realidade paralela. O centro-esquerda no governo enfatizou quase exclusivamente os impactos positivos da cultura na economia, os empregos gerados e a defesa da cidadania cultural, enquanto setores da direita resumiram o sistema a corrupção, mamata e privilégio ideológico. Ambos possuem parcialmente razão em pontos específicos, mas ambos simplificam um sistema muito mais complexo, marcado por relevância econômica real, forte demanda social por financiamento cultural e problemas históricos de controle, transparência e distribuição. O resultado é um ambiente comunicacional em que fatos técnicos são absorvidos pela lógica da guerra cultural, impedindo análises equilibradas e produzindo ciclos permanentes de boatos, desinformação, agressões, seletividade narrativa e exploração eleitoral do tema.</p>
<p style="text-align: justify;">O caso do filme Dark Horse sintetizou de forma emblemática a nova guerra política sobre financiamento cultural no Brasil. A produção sobre Jair Bolsonaro passou a funcionar como espelho invertido das antigas críticas da direita à Lei Rouanet. Reportagens do Intercept Brasil revelaram mensagens, contratos e áudios envolvendo Flávio Bolsonaro, Mário Frias e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, indicando negociações para financiar o longa com cifras de até US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões. Setores de centro-esquerda exploraram o episódio para denunciar contradições da direita bolsonarista, que durante anos atacou o fomento cultural via Rouanet, mas passou a defender um financiamento milionário ligado a um banqueiro investigado no maior escândalo financeiro do país. O secretário-executivo do MinC, Márcio Tavares, afirmou que bolsonaristas condenariam o financiamento público cultural, mas aceitariam grandes aportes privados quando destinados a obras ideologicamente alinhadas. A Ancine informou que investigaria o caso, embora auditorias do TCU apontem falhas históricas da agência justamente na fiscalização dos recursos do setor audiovisual. Ao mesmo tempo, Mário Frias inicialmente negou qualquer relação financeira de Vorcaro com o projeto, afirmando que não existiria “um centavo” do banqueiro no filme, mas depois recuou e admitiu recursos ligados a empresas associadas ao empresário. CNN, Folha, G1, BBC e Metrópoles passaram então a explorar as contradições das versões apresentadas pela defesa do projeto. O orçamento do filme superaria os valores totais de captação da Rouanet em diversos estados brasileiros, transformando o episódio em poderosa arma retórica contra o discurso anti-Rouanet da direita. A defesa bolsonarista passou a sustentar que o financiamento era privado, sem renúncia fiscal e sem uso da Rouanet, argumentando que não haveria ilegalidade no recebimento de capital privado para uma produção audiovisual, mesmo diante de suspeitas ligadas a corrupção e fraude financeira. O debate deixou de girar apenas em torno da Rouanet e passou a questionar a legitimidade de financiamentos culturais ligados a grandes empresários investigados, diante de suspeitas de finalidade eleitoral, favorecimento político e estruturas financeiras opacas. O episódio revelou que tanto mecanismos públicos quanto privados de financiamento cultural podem se transformar em instrumentos de disputa ideológica, influência política e produção de narrativas seletivas. Enquanto o centro-esquerda apontava o “escândalo” do financiamento privado bolsonarista, a extrema-direita acusava o governo de hipocrisia por condenar recursos privados enquanto defendia bilhões em renúncia fiscal via Rouanet. O caso demonstrou que o centro real da disputa não é apenas a origem do dinheiro, mas quem controla a narrativa cultural, quais projetos recebem legitimidade institucional e quais grupos conseguem transformar financiamento cultural em capital simbólico e eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse cenário, o Ministério da Cultura, a ministra Margareth Menezes e setores ligados ao PT passaram a desenvolver uma defesa fortemente positiva e muitas vezes incondicional da liberal Lei Rouanet. A atual gestão sustenta que o mecanismo representa um instrumento constitucional de democratização cultural, desenvolvimento econômico e reconstrução do setor após o período bolsonarista. Estudos da Fundação Getulio Vargas passaram a ser usados como principal base de legitimação da política pública. Segundo dados divulgados pelo MinC, a Rouanet movimentou cerca de R$ 25,7 bilhões na economia, gerou ou sustentou aproximadamente 228 mil empregos diretos e indiretos e produziria retorno de R$ 7,59 para cada R$ 1 investido via renúncia fiscal. O governo também passou a enfatizar recordes de propostas submetidas, crescimento de projetos nas regiões Norte e Nordeste e expansão territorial da política cultural (<a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" rel="ugc nofollow">ainda que estudos revelem as contradições</a>). Margareth Menezes afirma frequentemente que “o povo brasileiro tem direito à cultura”, enquanto Márcio Tavares sustenta que “a cultura constrói pontes, não celas” (e tem razão), reforçando a ideia de que a Rouanet teria deixado de atender apenas grandes espetáculos para alcançar iniciativas periféricas, regionais e comunitárias. O problema é que essa defesa institucional frequentemente opera como blindagem discursiva, evitando reconhecer contradições históricas do modelo e problemas no gerenciamento dos mecanismos. Em reação aos ataques bolsonaristas e às fake news contra a Rouanet, parte do governo passou a tratar quase toda crítica estrutural à lei como simples “demonização da cultura” vinda de Bolsonaristas (<a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">como se a lei não fosse liberal e excludente</a>). Com isso, problemas reais como concentração regional, dependência de grandes patrocinadores privados, desigualdade de acesso, concentração de recursos em grandes produtoras e fragilidade de fiscalização passaram a ser antagonizados pelo discurso oficial como “discurso de ódio”. A própria estrutura da Rouanet continua baseada na lógica da renúncia fiscal, ou seja, na escolha privada sobre quais projetos receberão apoio conforme interesses de marketing e retorno reputacional em favor de grandes empresas patrocinadoras. Assim, embora seja uma política pública, sua operacionalização concreta permanece subordinada ao poder econômico e à lógica de mercado. O discurso oficial enfatiza democratização e descentralização, mas frequentemente evita discutir que a <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">distribuição histórica dos recursos permaneceu profundamente desigual</a> por décadas e que o aumento do número de projetos aprovados não significa distribuição proporcional da captação efetiva. A defesa institucional da Rouanet acabou assumindo um caráter quase totalizante, em que impactos econômicos positivos são usados como argumento suficiente para neutralizar críticas estruturais sobre transparência, fiscalização e concentração (<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">O que não silencia as pesquisas que revelam a realidade</a>).</p>
<p style="text-align: justify;">O episódio envolvendo o senador Randolfe Rodrigues e artistas sertanejos mostrou como a Rouanet passou a funcionar como arma retórica dentro da polarização política brasileira. Em discurso no Senado, Randolfe respondeu a Magno Malta listando artistas ligados à direita que teriam recebido dezenas de milhões vinculados à Rouanet, entre eles Gusttavo Lima, Bruno &amp; Marrone, Leonardo, Chitãozinho &amp; Xororó, César Menotti &amp; Fabiano e Zezé Di Camargo &amp; Luciano. A fala repercutiu amplamente e foi usada para denunciar a seletividade moral da extrema-direita, que atacaria artistas de esquerda enquanto ignoraria benefícios recebidos por nomes conservadores. Porém, surgiram rapidamente contestações técnicas de jornalistas e especialistas em gestão cultural. O principal argumento era que Randolfe misturava conceitos distintos, tratando valores autorizados para captação como dinheiro efetivamente recebido via Rouanet. Especialistas lembraram que aprovação de projeto não equivale a captação integral nem a recebimento de recursos públicos. O caso de Luan Santana tornou-se emblemático, pois o cantor teve projeto aprovado, mas afirmou nunca ter captado os recursos autorizados. Paralelamente, investigações passaram a mostrar que o verdadeiro fluxo bilionário ligado ao universo sertanejo ocorreria muitas vezes por outra via, de cachês milionários pagos por pequenas e médias prefeituras com recursos de emendas parlamentares, especialmente as emendas Pix. Reportagens da IstoÉ Dinheiro, do portal O Fator e de veículos independentes mostraram que prefeituras utilizavam verbas de baixa rastreabilidade para contratar artistas sertanejos, inclusive em municípios com graves carências em saúde, saneamento e educação. A CGU e o STF passaram então a analisar o tema em auditorias e decisões relacionadas à transparência das emendas. Assim, a discussão deixou de ser apenas “Rouanet versus sertanejo” para revelar uma estrutura muito mais ampla de circulação de dinheiro público na cultura e no entretenimento vindo de deputados, prefeituras e agronegócio. Randolfe acertou ao expor a hipocrisia de setores que demonizam a Rouanet enquanto ignoram outros mecanismos públicos ligados à direita, mas sua argumentação equivocada por difundir informações e fontes contraditórias. Ao mesmo tempo, setores conservadores passaram a tratar críticas aos cachês sertanejos como perseguição ideológica, ignorando evidências sobre uso de verbas públicas em contratações suspeitas. O episódio tornou-se retrato da comunicação política contemporânea, como um lado transforma números autorizados em dinheiro “embolsado da Rouanet” e o outro transforma investigações sobre recursos públicos em “ataque à cultura”. Entre essas narrativas, desaparece o debate técnico sobre transparência, rastreabilidade, distribuição de recursos e fiscalização efetiva do dinheiro público.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a briga circula entre centro-esquerda e extrema-direta, outra perspectiva é a realista, visando as políticas públicas e efetividade da gestão pública, visando o interesse da população. As contradições entre a narrativa oficial do Ministério da Cultura e os <a class="urlextern" title="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" href="https://linktr.ee/minc40anosrelatorio" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">estudos produzidos pelo Observatório da Cultura do Brasil</a> tornaram-se um dos principais pontos de inflexão do debate contemporâneo sobre a Lei Rouanet. O MinC passou a sustentar que o mecanismo estaria entrando em uma nova fase de regularidade, transparência e modernização administrativa. A pasta afirma ter criado forças-tarefa para enfrentar o passivo histórico de prestações de contas, reduzindo gargalos e acelerando análises represadas. A Operação Abre Caminhos foi apresentada como símbolo dessa nova etapa, com divulgação de números expressivos de triagens, relatórios, análises conclusivas e encaminhamentos administrativos. O governo também passou a divulgar painéis públicos, sistemas digitais e medidas de simplificação como prova de transparência institucional. Contudo, estudos do Observatório da Cultura do Brasil e artigos publicados na Folha de S.Paulo, Congresso em Foco, Passa Palavra, Bem Paraná e veículos independentes começaram a confrontar diretamente essa narrativa. Os pesquisadores da OCB sustentaram em <a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">relatórios</a> que o Ministério apresentava uma visão excessivamente otimista e, em alguns casos, enganosa <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">sobre o tamanho real do passivo histórico da Rouanet</a>. Segundo os estudos críticos, ainda existiriam dezenas de milhares de processos sem conclusão definitiva e bilhões de reais vinculados a prestações de contas pendentes. O ponto central da crítica é que o governo frequentemente tropeça em ações administrativas preliminares sem efetivo encerramento das contas de processos dos projetos, deixando ocorrer ampliação do passivo. Triagens, relatórios internos e reclassificações processuais como Instrução Normativa nº 29/2026 e normativas anteriores (como a IN nº 23/2025) são apresentados como “solução do problema”, quando muitos casos continuam sem julgamento definitivo, recuperação de valores ou responsabilização financeira clara. Outro ponto explorado pelo Observatório é a suposta flexibilização excessiva das regras de análise financeira sob a justificativa de modernização. Ministério da Cultura (MinC) alterou as normativas de prestação de contas, estabelecendo que projetos culturais de até R$ 5 milhões não estão mais sujeitos ao detalhamento exaustivo de execução financeira. A fiscalização passou a focar na comprovação de entrega do objeto, adotando análises simplificadas. O Tribunal de Contas da União (TCU), vedou a conduta do órgão e apontou que essa flexibilização reduziu o índice de reprovação de contas a zero, o que mascara o problema.</p>
<figure id="attachment_159287" aria-describedby="caption-attachment-159287" style="width: 571px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159287 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.35-36.jpg" alt="" width="571" height="395" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.35-36.jpg 571w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.35-36-300x208.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 571px) 100vw, 571px" /><figcaption id="caption-attachment-159287" class="wp-caption-text">TCU, 2026, P.35-36.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura" href="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">TCU passou a apontar riscos ligados ao enfraquecimento de controles, ausência de prazos adequados para análise e risco de prescrição de processos</a>. Relatórios do TCU identificaram ainda estoque bilionário de prestações pendentes, falhas de monitoramento e baixa efetividade de mecanismos de cobrança e responsabilização (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>). Além disso, os estudos críticos questionam a narrativa de descentralização apresentada pelo MinC. Embora o número de projetos aprovados tenha aumentado em regiões historicamente menos atendidas, os dados agregados não eliminam a concentração efetiva de grandes volumes de captação no eixo econômico tradicional e em grandes proponentes profissionalizados. Assim, enquanto o governo enfatiza crescimento quantitativo e impacto macroeconômico, os estudos críticos apontam permanência de desigualdades estruturais, <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">concentração territorial</a> e dificuldades reais de <a class="urlextern" title="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" href="https://tinyurl.com/2wx6tx9x" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">acesso para a absoluta maioria dos pequenos produtores independentes</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Preocupados com a opinião pública o governo, e mais especialmente o <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/" href="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Ministério da Cultura lançaram artigo para a Revista Veja questionando os dados do Observatório da Cultura do Brasil</a>, sem no entanto apresentar informações que efetivamente demonstrassem que dados estavam errados. A crítica não passou de um descontentamento sem efetiva demonstração de que o MinC tinha qualquer dado que pudesse contraditar os dados da OCB.</p>
<figure id="attachment_159288" aria-describedby="caption-attachment-159288" style="width: 571px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159288" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.18.jpg" alt="" width="571" height="253" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.18.jpg 571w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/TCU-2026-P.18-300x133.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 571px) 100vw, 571px" /><figcaption id="caption-attachment-159288" class="wp-caption-text">TCU, 2026, P.18.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O caso transformou-se em um raro “plot twist” institucional na política cultural brasileira porque começou como uma disputa narrativa entre o Ministério da Cultura e pesquisadores independentes do Observatório da Cultura do Brasil sobre a situação real da Lei Rouanet, mas terminou com o Tribunal de Contas da União confirmando oficialmente, em auditoria e julgamento plenário (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>), exatamente os problemas que haviam sido denunciados anteriormente pelo Observatório, por articulistas e por parte da imprensa. A cronologia é reveladora. Ao longo de 2024 e 2025, o MinC, sob gestão de Margareth Menezes e Márcio Tavares, passou a defender que a Rouanet estaria em processo de modernização, transparência e superação do histórico passivo de prestações de contas. O discurso institucional enfatizava a “Operação Nise da Silveira”, a “Operação Abre Caminhos”, a simplificação de procedimentos e a ideia de que o gargalo herdado de governos anteriores estaria sendo resolvido, chegando a anunciar o “<a class="urlextern" title="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/o-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas-do-ministerio-da-cultura" href="https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/o-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas-do-ministerio-da-cultura" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">fim do passivo</a>”. Paralelamente, artigos do Observatório da Cultura do Brasil, análises da imprensa e estudos independentes começaram a apontar contradições entre o discurso oficial e os dados reais de controle. Textos publicados na Folha de S.Paulo, Congresso em Foco, Passa Palavra e outros veículos sustentavam que o Ministério estaria criando uma narrativa otimista incompatível com a realidade das prestações de contas, marcada por milhares de processos sem análise final, ausência de controle prescricional, afrouxamento normativo e mudanças regulatórias que simplificavam aprovações sem resolver o estoque histórico. O Observatório afirmava existir uma “normalização estatística” do problema, pois novas instruções normativas reduziam a profundidade das análises financeiras para projetos de até R$ 5 milhões, permitindo aprovações simplificadas mesmo diante de inconsistências. O Ministério reagiu recusando as críticas e classificando parte das denúncias como desinformação ou leitura distorcida dos dados públicos. Em entrevistas e notas oficiais, o MinC insistiu que o sistema era auditável, transparente e economicamente eficiente, apoiando-se em estudos da FGV que apontavam retorno de R$ 7,59 para cada R$ 1 incentivado.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto o debate se polarizava entre defensores e críticos da Rouanet, o TCU abriu acompanhamento técnico justamente sobre prestações de contas e riscos prescricionais. O resultado do <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a> foi devastador para a narrativa oficial. No Acórdão 726/2026 do Plenário, relatado pelo ministro Augusto Nardes, o Tribunal concluiu que o MinC “não dispõe de mecanismos, ferramentas ou sistemas voltados ao monitoramento dos prazos prescricionais”, constatando inclusive casos concretos de prescrição mesmo após a Resolução TCU 344/2022. O relatório técnico apontou baixa efetividade das medidas adotadas para redução do passivo, fragilidade nos controles, ausência de integração adequada entre sistemas como Salic e SEI, uso de planilhas manuais, ausência de módulos de recursos e revisão, inexistência de normas internas claras e incapacidade estrutural de acompanhar adequadamente dezenas de milhares de processos. O TCU revelou um passivo aproximado de 30 mil processos envolvendo mais de R$ 22 bilhões e identificou que a Ancine levava em média 1.168 dias para analisar prestações de contas cujo prazo regulamentar seria de 180 dias. Mais grave ainda, a auditoria identificou problemas de integridade, primariedade e confiabilidade das informações públicas, afirmando que os próprios sistemas utilizados pelo MinC não garantiam dados íntegros e plenamente auditáveis. Em outra frente, o Tribunal também criticou diretamente o enfraquecimento das regras de análise financeira introduzidas em normativas recentes do Ministério. O relatório menciona que a IN MinC 17/2024 passou a permitir aprovação de projetos com análise financeira simplificada ou até dispensada em determinados casos inferiores a R$ 750 mil, inclusive admitindo aprovação com ressalvas sem análise financeira aprofundada quando não houvesse indício de dolo ou fraude. O que antes era tratado politicamente como “ataque ideológico à cultura”, longe dos partidos, passou então a existir formalmente como achado técnico de auditoria do órgão máximo de controle externo do país. O efeito simbólico foi imediato, quando o mesmo Ministério que havia rebatido publicamente estudos críticos de pesquisadores independentes, agora se viu oficialmente obrigado pelo TCU a criar, em 120 dias, mecanismos efetivos de controle prescricional, sistemas de alerta e gestão de risco, além de priorizar em 60 dias todos os processos próximos da prescrição. A auditoria consolidou uma reviravolta institucional típica de “instant karma” administrativo, porque demonstrou que as denúncias não eram apenas retórica oposicionista (absurdo já que os estudos vieram de alas progressistas), mas questões técnicas, legais e estruturais efetivamente existentes. A consequência política mais relevante talvez seja justamente o deslocamento do debate, quando o problema da Lei Rouanet deixa de ser mera guerra ideológica entre “defensores da cultura” e “inimigos da cultura” para se tornar uma discussão concreta sobre governança, compliance, transparência, sistemas de informação, rastreabilidade, análise financeira e responsabilidade administrativa. Ao final do processo, ficou oficialmente demonstrado pelo Tribunal de Contas da União (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>) que existem falhas estruturais na gestão das prestações de contas da cultura brasileira, exatamente como pesquisadores, jornalistas independentes e o Observatório da Cultura do Brasil vinham alertando havia anos. O MinC agora não apenas enfrenta constrangimento político por ter negado ou minimizado o problema, mas também passa a ter obrigações formais perante o TCU para corrigir mecanismos, apresentar soluções, aprimorar controles e efetivamente entregar a transparência e a regularidade que antes afirmava já existirem.</p>
<p style="text-align: justify;">A comparação entre auditorias do Tribunal de Contas da União, estudos do Observatório da Cultura do Brasil e notas do Ministério da Cultura revela que o núcleo da crise da Rouanet não é apenas ideológico, mas técnico, administrativo e jurídico. O TCU identificou falhas estruturais ligadas ao passivo de prestações de contas, ausência de mecanismos eficazes de monitoramento, risco de prescrição, enfraquecimento da análise financeira e baixa capacidade de recuperação de recursos. <a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Estudos do Observatório argumentam que o discurso oficial do &#8220;fim do passivo&#8221;</a> estaria sendo sustentado por simplificações normativas que reduzem exigências de controle e permitem apresentar redução estatística sem resolver o problema estrutural. Ao mesmo tempo, auditorias e pesquisas demonstram que existem demandas sociais legítimas por políticas públicas de cultura, especialmente em regiões periféricas, municípios pequenos e cadeias produtivas fragilizadas. Isso significa que as críticas estruturais à Rouanet não anulam sua importância econômica e social. O problema é que a polarização transformou um debate técnico complexo em disputa moral simplificada. A extrema-direita reduz o sistema cultural a corrupção e privilégio ideológico, enquanto setores ligados ao governo frequentemente tratam toda crítica como ataque autoritário à cultura. No entanto, auditorias públicas mostram problemas reais de larga escala envolvendo concentração de recursos, fragilidade de controle, passivos bilionários, riscos jurídicos, dificuldades de fiscalização e desigualdades históricas na distribuição. A realidade revelada pelas auditorias está justamente entre as duas narrativas extremas. Nem a Rouanet é apenas “mamata”, como afirmam setores radicais da direita, nem o sistema está plenamente regularizado e transparente, como sugerem peças institucionais do governo. O que existe é um modelo complexo, economicamente relevante e socialmente necessário, mas atravessado por problemas estruturais históricos ainda sem solução definitiva. A crise da política cultural brasileira revela, portanto, os motivos políticos das tensões, como a incapacidade do debate público de separar investigação técnica, controle institucional e política pública da guerra ideológica e da disputa eleitoral permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">A polemica da Lei Rouanet encerrou, não é polemica, mas fatos comprovados em auditorias do TCU (<a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" href="https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/25/014.873-2025-7-AN-ACOM.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Acórdão 726/2026 – Plenário, Processo: TC 014.873/2025-7 Sessão: 25/3/2026</a>). A gestão da lei tem graves problemas que perpassam governos diversos, e seguem sem soluções. Não são os argumentos favoráveis ou contra, que grupos de interesses e ideologias em disputas tentam impor como narrativas para a opinião pública, mas questões técnica, legais, tributarias, orçamentárias, de transparência, prestações de contas, má gestão de recursos, e aspectos técnicos, como por anos a equipe do Observatório da Cultura do Brasil informou tecnicamente em reportagens, entrevista, artigos e relatórios. Como dizem personagens filmes e seriados policiais, “caso encerrado”. A Rouanet precisa de uma solução real.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">AGÊNCIA BRASIL. <em>MinC recebe mais de 22,5 mil propostas culturais da Lei Rouanet</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2025-11/minc-recebe-mais-de-225-mil-propostas-culturais-da-lei-rouanet?utm_source=chatgpt.com" href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2025-11/minc-recebe-mais-de-225-mil-propostas-culturais-da-lei-rouanet?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Agência Brasil</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
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<p style="text-align: justify;">MOURA, Eduardo; ROCHA, Matheus. Ministério da Cultura oculta realidade de passivo gigante que se arrasta há décadas. Folha de S.Paulo, 21 abr. 2025. Disponível em: Folha de S.Paulo</p>
<p style="text-align: justify;">NATELINHA. <em>Como a Lei Rouanet reacendeu debate ao expor uso por sertanejos</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://natelinha.uol.com.br/famosos/2025/12/20/como-a-lei-rouanet-reacendeu-debate-ao-expor-uso-por-sertanejos-235532.php?utm_source=chatgpt.com" href="https://natelinha.uol.com.br/famosos/2025/12/20/como-a-lei-rouanet-reacendeu-debate-ao-expor-uso-por-sertanejos-235532.php?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">NaTelinha</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">O FATOR. <em>Produtoras de sertanejo, forró e gospel somaram R$ 89,8 milhões em renúncias fiscais e receberam emendas Pix</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://ofator.com.br/informacao/produtoras-de-sertanejo-forro-e-gospel-somaram-r-898-mi-em-renuncias-fiscais-e-receberam-emendas-pix/?utm_source=chatgpt.com" href="https://ofator.com.br/informacao/produtoras-de-sertanejo-forro-e-gospel-somaram-r-898-mi-em-renuncias-fiscais-e-receberam-emendas-pix/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">O Fator</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Análise do comunicado público do Ministério da Cultura sobre as contas da Lei Rouanet. Passa Palavra, 08 maio 2025. Disponível em: <a href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/" target="_blank" rel="noopener">Passa Palavra</a></p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Os números contraditórios da Rouanet não mentem. Congresso em Foco, 12 jan. 2026. Disponível em: <a href="https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/115490/os-numeros-contraditorios-da-rouanet-nao-mentem" target="_blank" rel="noopener">Congresso em Foco</a></p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Lei Rouanet entre polarização (amores e ódios) e demanda de reforma por evidências empíricas. Cooperação técnica de Manoel J. de Souza Neto. 13 dez. 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Resposta do Observatório da Cultura do Brasil ao Ministério da Cultura. 02 jan. 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">OBSERVATÓRIO DA CULTURA DO BRASIL. Análise do comunicado público do Ministério da Cultura sobre as contas da Lei Rouanet. 08 maio 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">PASSA PALAVRA. <em>Lei Rouanet e os limites da política cultural</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156539/?utm_source=chatgpt.com" href="https://passapalavra.info/2025/05/156539/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Passa Palavra</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">PIPOCA MODERNA. <em>Sertanejos de direita lideram Lei Rouanet com Gusttavo Lima, Bruno &amp; Marrone e Leonardo</em>. São Paulo, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://pipocamoderna.com.br/2025/12/sertanejos-direita-lideram-lei-rouanet-gusttavo-lima-bruno-marrone-leonardo/?utm_source=chatgpt.com" href="https://pipocamoderna.com.br/2025/12/sertanejos-direita-lideram-lei-rouanet-gusttavo-lima-bruno-marrone-leonardo/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Pipoca Moderna</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">PODER360. <em>Presidente do TCU vê risco em regras da Cultura sobre fiscalização</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.poder360.com.br/poder-justica/presidente-do-tcu-ve-risco-em-regras-da-cultura-sobre-fiscalizacao/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.poder360.com.br/poder-justica/presidente-do-tcu-ve-risco-em-regras-da-cultura-sobre-fiscalizacao/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Poder360</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">PRERRÔ. <em>40 anos de MinC: da redemocratização à centralidade no desenvolvimento</em>. Brasília, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://prerro.com.br/40-anos-de-minc-da-redemocratizacao-a-centralidade-no-desenvolvimento/?utm_source=chatgpt.com" href="https://prerro.com.br/40-anos-de-minc-da-redemocratizacao-a-centralidade-no-desenvolvimento/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Prerrô</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">REUTERS. <em>Senator Bolsonaro says he met with disgraced Brazilian banker after arrest</em>. Londres, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/world/americas/senator-bolsonaro-says-he-met-with-disgraced-brazilian-banker-after-arrest-2026-05-19/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.reuters.com/world/americas/senator-bolsonaro-says-he-met-with-disgraced-brazilian-banker-after-arrest-2026-05-19/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Reuters</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">SOUZA NETO, Manoel J. Mérito no julgamento de projetos nas leis de incentivo à cultura. Observatório da Cultura, 2012.</p>
<p style="text-align: justify;">SOUZA NETO, Manoel J. Lei Rouanet precisa de reforma urgente. Congresso em Foco, 07 nov. 2025. Disponível em: Congresso em Foco</p>
<p style="text-align: justify;">TRIBUNA DO SERTÃO. <em>MinC divulga informação falsa ao falar de fim do passivo de prestação de contas</em>. Alagoas, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.tribunadosertao.com.br/geral/2025/04/12/735523-minc-divulga-informacao-falsa-ao-falar-de-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.tribunadosertao.com.br/geral/2025/04/12/735523-minc-divulga-informacao-falsa-ao-falar-de-fim-do-passivo-de-prestacao-de-contas?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Tribuna do Sertão</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO (TCU). <em>Tribunal aponta falhas em prestações de contas na área da Cultura</em>. Brasília: TCU, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura?utm_source=chatgpt.com" href="https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tribunal-aponta-falhas-em-prestacoes-de-contas-na-area-da-cultura?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Portal TCU</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Acórdão 726/2026-Plenário, TC 014.873/2025-7. Auditoria sobre Ministério da Cultura e Ancine.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. <em>Dez artistas do sertanejo e de direita beneficiados pela Lei Rouanet</em>. São Paulo: Abril, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/dez-artistas-do-sertanejo-e-de-direita-beneficiados-pela-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/dez-artistas-do-sertanejo-e-de-direita-beneficiados-pela-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Veja</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. <em>Ministério da Cultura rebate estudo sobre falhas da Lei Rouanet</em>. São Paulo: Abril, 2025. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/politica/ministerio-da-cultura-rebate-estudo-sobre-falhas-da-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Veja</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. <em>Secretário do MinC fala de Flávio Bolsonaro e Vorcaro sem Lei Rouanet</em>. São Paulo: Abril, 2026. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/brasil/secretario-do-minc-fala-de-flavio-bolsonaro-e-vorcaro-sem-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/brasil/secretario-do-minc-fala-de-flavio-bolsonaro-e-vorcaro-sem-lei-rouanet/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Veja</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">VEJA. Pesquisador lança estudo sobre crise estrutural da Lei Rouanet. Revista Veja, 29 dez. 2025. Disponível em: Veja</p>
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		<title>Irã e Gaza são apenas o começo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 17:23:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
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					<description><![CDATA[ A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. Por Chris Hedges]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Chris Hedges</h3>
<p style="text-align: justify;">O genocídio em Gaza é o começo. Bem-vindo à nova ordem mundial. A era da barbárie tecnologicamente avançada. Não existem regras para os fortes, apenas para os fracos. Oponha-se ao forte, recuse-se a curvar-se às suas exigências caprichosas e você receberá uma chuva de mísseis e bombas. Assistimos a essa loucura diariamente com a guerra contra o Irã, o bombardeio de saturação do sul do Líbano e o sofrimento em Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Órgãos internacionais como as Nações Unidas foram castrados, transformados em apêndices inúteis de outra época. A santidade dos direitos individuais, as fronteiras abertas e o direito internacional desapareceram. Os governantes mais psicopatas da história humana, aqueles que reduziram cidades a cinzas, que levaram populações aprisionadas a locais de execução e a terras desvastadas que ocuparam com valas e cadáveres em massa, voltaram com uma vingança, abrindo um vasto abismo moral.</p>
<p style="text-align: justify;">A lei, apesar de alguns esforços valentes de um punhado de juízes &#8212; que em breve serão expurgados &#8212;, internamente e em organismos internacionais como o Tribunal Internacional de Justiça, é desprezada e violada. Selvageria no exterior. Selvagem em casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Lucy Williamson, da BBC, relata que Israel está destruindo o sul do Líbano “usando Gaza como modelo &#8212; um plano para destruição usado novamente como um caminho para a paz”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de 1 milhão de pessoas já foram deslocadas no Líbano &#8212; um quinto de toda a população de um país que já abriga o maior número mundial de refugiados per capita &#8212; em apenas algumas semanas. Some-se a isso 2 milhões de deslocados em Gaza e 3 milhões de deslocados no Irã. 6 milhões de pessoas ficaram desabrigadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por quatro décadas, o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tem pressionado para que os EUA entrem em guerra com o Irã. As administrações anteriores, Republicanas e Democratas, recusaram, em grande parte por causa da oposição feroz dentro do Pentágono, que não via o Irã como uma ameaça existencial e não projetava um resultado positivo para os EUA ou seus aliados regionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Donald Trump, encorajado por sua equipe de negociação inepta de seu genro Jared Kushner e seu colega empresário imobiliário e parceiro de golfe Steve Witkoff, ambos fervorosos sionistas, mordeu a isca de Israel. O conselheiro de segurança nacional da Grã-Bretanha, Jonathan Powell, que participou das negociações finais entre os EUA e o Irã, considerou Kushner e Witkoff como “ativos israelenses”.</p>
<p style="text-align: justify;">Joseph Kent, que renunciou ao cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo para protestar contra a guerra, escreveu em sua carta de renúncia que “o Irã não representava ameaça iminente para nossa nação, e é claro que começamos essa guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby americano”.</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica pública para a guerra contra o Irã desde que começou em 28 de fevereiro tem sido proteana. É para encerrar o programa nuclear do Irã? É para frustrar o programa de mísseis balísticos do Irã? É porque os EUA realizaram ataques preventivos contra o Irã, como disse Marco Rubio, para garantir a segurança dos ativos dos EUA uma vez que Israel decidiu atacar? É porque o governo iraniano realizou uma repressão letal, matando centenas de manifestantes antigoverno durante protestos de rua massivos? É mudança de regime? É uma tentativa de encerrar o chamado terrorismo patrocinado pelo Estado do Irã? Ou esses subterfúgios servem a outro propósito?</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente, Israel e os EUA buscam mudança de regime. Mas aqui parece que os EUA e Israel divergem. Israel também aparentemente procura, como no Iraque, Síria, Líbia e Líbano, a desintegração física do Irã, a quebra do país em enclaves étnicos e religiosos em guerra, a transformação do Irã em um Estado falido.</p>
<p style="text-align: justify;">Os persas no Irã constituem cerca de 61% da população com vários grupos minoritários, que muitas vezes sofrem repressão estatal, representando os 39% restantes. Esses grupos étnicos incluem azerbaijanos, curdos, amantes, balochs, árabes e turcomanos, juntamente com minorias religiosas como sunitas, cristãos, bahá&#8217;ís, zoroastristas e judeus. A quebra do Irã em enclaves étnicos e religiosos antagônicos deixaria Israel como a potência dominante na região, dando-lhe a capacidade de, se não ocupar seus vizinhos diretamente, controlá-los e subjugá-los através de proxies, parte de um desejo de longa data de uma Grande Israel. Também tornaria possível que os Estados estrangeiros controlassem as reservas de gás iranianas, a segunda maior do mundo, e suas reservas de petróleo, 12% do total global.</p>
<p style="text-align: justify;">A cruzada de Israel contra os palestinos, os libaneses e agora os iranianos é justificada pelo extermínio de 6 milhões de judeus durante o Holocausto. Mas não passa despercebido no Sul Global, especialmente entre palestinos, que quase todos os estudiosos do Holocausto se recusaram a condenar o genocídio em Gaza. Nenhuma das instituições dedicadas a pesquisar e rememorar o Holocausto traçou os óbvios paralelos históricos ou criticou o massacre em massa.</p>
<p style="text-align: justify;">Estudiosos do Holocausto, com um punhado de exceções, expuseram seu verdadeiro propósito, que não é examinar o lado sombrio da natureza humana e a propensão assustadora que todos nós temos a cometer o mal, mas santificar os judeus como vítimas eternas e absolver o estado etnonacionalista de Israel de seus crimes de colonialismo de assentamento, apartheid e genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">O sequestro do Holocausto, o fracasso em defender as vítimas palestinas porque elas são palestinas, implodiu a autoridade moral dos estudos do Holocausto e dos memoriais do Holocausto. Eles foram expostos como veículos não para evitar o genocídio, mas para perpetrá-lo, não para explorar o passado, mas para manipular o presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer reconhecimento tépido de que o Holocausto pode não ser propriedade exclusiva de Israel e seus partidários sionistas é rapidamente encerrado. O Museu do Holocausto em Los Angeles excluiu, depois de uma reação, um post no Instagram que dizia: “NUNCA MAIS NÃO PODE APENAS SIGNIFICAR NUNCA MAIS PARA <abbr title="Operating System">OS</abbr> JUDEUS”. Nas mãos dos sionistas, “nunca mais” significa precisamente isso, nunca mais, <em>apenas</em> <em>para os judeus</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158963" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg" alt="" width="752" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-300x238.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-529x420.jpg 529w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-640x508.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-681x541.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 752px) 100vw, 752px" />Aimé Césaire, em <em>Discurso sobre o Colonialismo</em>, escreve que Hitler parecia excepcionalmente cruel apenas porque presidia “a humilhação do homem branco”, aplicando à Europa os “procedimentos colonialistas que até então haviam sido reservados exclusivamente para os árabes da Argélia, as &#8216;coolies&#8217; da Índia e os negros da África”.</p>
<p style="text-align: justify;">A quase aniquilação da população aborígene da Tasmânia, o massacre alemão do Herero e Namaqua, o genocídio armênio, a fome de Bengala de 1943 &#8212; então o Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill se referiu aos hindus como “um povo animalesco com uma religião animalesca” &#8212; juntamente com o lançamento de bombas nucleares em alvos civis em Hiroshima e Nagasaki, ilustra algo fundamental sobre “a civilização ocidental”.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio não é uma anomalia, é codificado no DNA da “civilização” ocidental.</p>
<p style="text-align: justify;">“Na América”, disse o poeta Langston Hughes, “não é preciso dizer aos negros o que é o fascismo em ação. Nós sabemos. Suas teorias da supremacia nórdica e da supressão econômica há muito tempo são realidades para nós”.</p>
<p style="text-align: justify;">Os nazistas, quando formularam as leis de Nuremberg, usaram como modelo as leis destinadas a oprimir os negros. A recusa dos Estados Unidos em conceder cidadania a nativos americanos e filipinos &#8212; embora vivessem nos EUA e nos territórios dos EUA &#8212; foi imitada pelos fascistas alemães que retiraram a cidadania dos judeus. As leis antimiscigenação americanas, que criminalizavam o casamento inter-racial, foram a influência para proibir casamentos entre judeus alemães e arianos. A jurisprudência americana classificou qualquer pessoa com um por cento da ascendência negra &#8212; a chamada “regra de uma gota” &#8212; como negra. Os nazistas, ironicamente mostrando mais flexibilidade, classificaram qualquer pessoa com três ou mais avós judeus como judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Os milhões de vítimas indígenas de projetos coloniais em países como México, China, Índia, Austrália, Congo e Vietnã, por essa razão, são surdas para as afirmações dos judeus de que sua vitimização é única. Eles também sofreram holocaustos, mas esses holocaustos permanecem minimizados ou não reconhecidos por seus perpetradores ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">Israel encarna o Estado etnonacionalista que nossos fascistas cristãos e a extrema-direita sonham em criar para si mesmos, que rejeita o pluralismo político e cultural, bem como as normas legais, diplomáticas e éticas. Israel é admirado pela extrema-direita porque virou as costas para o direito humanitário e usa força letal indiscriminada para “limpar” sua sociedade daqueles condenados como contaminadores humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi essa distorção do Holocausto como único que incomodou Primo Levi, preso em Auschwitz de 1944 a 1945 e que escreveu livros sobre a sobrevivência em Auschwitz. Levi foi um crítico feroz do Estado de apartheid de Israel e seu tratamento aos palestinos. Ele viu a Shoah [Holocausto] como “uma fonte inesgotável do mal” que “é perpetuada como ódio nos sobreviventes, e brota de mil maneiras, contra a própria vontade de todos, como uma sede de vingança, como colapso moral, como negação, como cansaço, como resignação”.</p>
<p style="text-align: justify;">Levi deplorou o maniqueísmo daqueles que “evitam nuances e complexidade”. Ele condenou aqueles que “reduzem o rio dos acontecimentos humanos a conflitos, e conflitos a duelos, nós e eles”. Ele alertou que a “rede de relações humanas dentro dos campos de concentração não era simples: não poderia ser reduzida a dois blocos, vítimas e perseguidores”. O inimigo, ele sabia, “estava do lado de fora, mas também dentro”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mordechai Chaim Rumkowski, conhecido como “Rei Chaim”, governou o gueto de Łódź na Polônia em nome dos ocupantes nazistas. O gueto tornou-se um campo de trabalho escravo que enriqueceu Rumkowski e seus senhores nazistas. Rumkowski deportou opositores para campos de extermínio. Estuprou e molestou meninas e mulheres. Exigiu obediência inquestionável. Incorporou o mal de seus opressores. Para Levi, ele foi um exemplo do que muitos de nós, em circunstâncias semelhantes, somos capazes de se tornar.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos todos refletidos em Rumkowski, sua ambiguidade é nossa, é a nossa segunda natureza, nós híbridos moldados a partir de argila e espírito”, escreveu Levi <em>em Os Afogados e os Sobreviventes.</em> “Sua febre é nossa, a febre de nossa civilização ocidental que &#8216;desce no inferno com trombetas e tambores&#8217;, e seus adornos miseráveis são a imagem distorcida de nossos símbolos de prestígio social”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Como Rumkowski, nós também estamos tão deslumbrados com o poder e o prestígio a ponto de esquecer nossa fragilidade essencial”, continuou Levi. “De bom grado ou não chegamos a um acordo com o poder, esquecendo que estamos todos no gueto, que o gueto está murado, que fora do gueto reinam os senhores da morte, que espera próxima ao trem.”</p>
<p style="text-align: justify;">Levi entendeu que a linha entre a vítima e o vitimizador é fina. Todos nós podemos nos tornar carrascos dispostos. Não há nada intrinsecamente moral sobre ser judeu ou um sobrevivente do Holocausto. Levi, por essa razão, era <em>persona non grata</em> em Israel.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Os sionistas encontram no Holocausto e no Estado judeu um senso de propósito e significado, bem como uma superioridade moral nauseante. Após a guerra de 1967, quando Israel tomou Gaza, a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, as Colinas de Golã da Síria e a Península do Sinai do Egito, Israel, como observou o sociólogo americano Nathan Glazer de forma aprovadora, tornou-se “a religião dos judeus americanos”. O Holocausto tornou-se o seu “capital moral”.</p>
<p style="text-align: justify;">“O sofrimento judaico é retratado como inefável, incomunicável e, no entanto, algo sempre a ser proclamado”, escreve o historiador europeu Charles S. Maier, em <em>The Unmasterable Past: History, Holocaust, and German National Identity</em>:</p>
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<p style="text-align: justify;">É intensamente privado, não para ser diluído, mas simultaneamente público para que a sociedade gentil confirme os crimes. Um sofrimento muito peculiar deve ser consagrado em locais públicos: museus do Holocausto, jardins de memória, locais de deportação, dedicados não como memoriais judeus, mas cívicos. Mas qual é o papel de um museu em um país, como os Estados Unidos, longe do local do Holocausto? É para reunir as pessoas que sofreram ou para instruir não-judeus? É suposto servir como um lembrete de que “pode acontecer aqui?” Ou é uma afirmação de que alguma consideração especial é merecida? Sob que circunstâncias uma tristeza privada pode servir simultaneamente como uma dor pública? E se o genocídio é certificado como uma tristeza pública, então não devemos aceitar as credenciais de outras tristezas particulares também? Um historiador americano de ascendência polonesa argumenta que, com a invasão alemã de 1939, os poloneses se tornaram os primeiros povos da Europa a experimentar o Holocausto e que os historiadores até agora “escolheram interpretar a tragédia em termos exclusivistas &#8212; ou seja, como o período mais trágico da história da Diáspora judaica”. Se os poloneses americanos reivindicam seu próprio “Holocausto esquecido”, que reconhecimento eles devem desfrutar? Os armênios e os cambojanos também têm o direito de financiar publicamente museus de holocausto? E precisamos de memoriais para adventistas do sétimo dia e homossexuais por sua perseguição nas mãos do Terceiro Reich?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O sofrimento único confere um direito único.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer crime que Israel realize em nome de sua sobrevivência &#8212; seu “direito de existir” &#8212; é justificado em nome dessa singularidade. Não há limites. O mundo é preto e branco, uma batalha interminável contra o nazismo, que é proteano, dependendo de quem Israel visa. Desafiar essa sede de sangue é ser um antissemita, facilitando outro genocídio de judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa fórmula simplista não serve apenas os interesses de Israel, mas também os interesses das potências coloniais que realizaram seus próprios genocídios, aqueles que eles também procuram obscurecer.</p>
<p style="text-align: justify;">A sacralização do Holocausto nazista oferece um <em>quid pro quo</em> bizarro. Armar e financiar o Estado de Israel, bloqueando resoluções e sanções da ONU que condenariam seus crimes e demonizar os palestinos e seus apoiadores se tornam prova de expiação e apoio aos judeus. Israel, em troca, absolve o Ocidente de sua indiferença à situação dos judeus durante o Holocausto, e a Alemanha por perpetrá-lo. A Alemanha usa essa aliança profana para separar o nazismo do resto da história alemã, incluindo o genocídio que os colonos alemães realizaram contra os Nama e Herero no sudoeste alemão da África, agora na Namíbia.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tal magia”, escreve o israelense historiador e estudioso do genocídio, Raz Segal, “legitima o racismo contra os palestinos no exato momento em que Israel perpetra o genocídio contra eles. A ideia de singularidade do Holocausto reproduz-se assim em vez de desafiar o nacionalismo excludente e o colonialismo de assentamento que levaram ao Holocausto.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal, diretor do programa de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Stockton, em Nova Jersey, escreveu um artigo sobre a guerra em Gaza em 13 de outubro de 2023, intitulado: “Um caso de genocídio”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa denúncia de um estudioso israelense do Holocausto, cujos familiares morreram no Holocausto, foi uma postura muito solitária.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal viu na exigência imediata do governo israelense que os palestinos evacuassem o norte de Gaza e a demonização dos palestinos por autoridades israelenses &#8212; o Ministro da Defesa disse que Israel estava “combatendo animais humanos” &#8212; o cheiro de genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">“Toda a ideia sobre prevenção e &#8216;nunca mais&#8217; é que &#8212; como ensinamos nossos alunos &#8212; há alertas vermelhos, e que uma vez que os notamos, devemos trabalhar para interromper o processo que pode se transformar em genocídio”, disse-me o professor Segal, “mesmo que ainda não seja genocida”.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal pagou pela sua honestidade. O convite para liderar o Centro de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Minnesota, que não emitiu nenhuma condenação do genocídio, foi revogado.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o professor Segal e eu testemunhamos na capital do estado em Trenton, em oposição à adoção do projeto de lei da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA), que equipara as críticas ao Estado de Israel a antissemitismo, fomos vaiados por sionistas e nossos microfones foram cortados pelo presidente da comissão. Lá estávamos nós, argumentando que esse projeto de lei iria reduzir a liberdade de expressão enquanto ao mesmo tempo nos negavam a liberdade de expressão.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio é a próxima etapa no que o antropólogo, Arjun Appadurai, chama de “uma vasta correção malthusiana mundial” que é “voltada para preparar o mundo para os vencedores da globalização, sem o ruído inconveniente de seus perdedores”.</p>
<p style="text-align: justify;">O financiamento e o armamento de Israel pelos Estados Unidos e pelas nações europeias, enquanto realiza o genocídio, implodiu efetivamente a ordem jurídica internacional pós-Segunda Guerra Mundial. Ela não tem mais credibilidade. O Ocidente não pode mais ensinar ninguém sobre democracia, direitos humanos ou as supostas virtudes da civilização ocidental. O ardil, que de alguma forma nós, como nação, promovemos a democracia, a igualdade e os direitos humanos, está terminado.</p>
<p style="text-align: justify;">“Ao mesmo tempo em que Gaza induz vertigem, um sentimento de caos e vazio, torna-se para inúmeras pessoas impotentes a condição essencial da consciência política e ética no século XXI &#8211; assim como a Primeira Guerra Mundial foi por uma geração no Ocidente”, escreve Pankaj Mishra.</p>
<p style="text-align: justify;">Nenhum de nós que reportou de Israel e Palestina, onde trabalhei como repórter por sete anos, previu esse genocídio. E, no entanto, estávamos cientes do impulso genocida que estava no coração do projeto sionista &#8212; o desejo de grandes segmentos da sociedade israelense de erradicar e expulsar todos os palestinos. Esse impulso genocida estava lá desde o início do sionismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Victor Klemperer, professor de linguística e filho de um rabino de Berlim que viveu sob o domínio nazista, observou em seu diário: “Para mim, os sionistas, que querem voltar para o estado judeu de 70 d.C. (destruição de Jerusalém por Tito), são tão ofensivos quanto os nazistas. Com sua sede de sangue, suas antigas “raízes culturais”, sua visão de mundo ora hipócrita, ora obtusa, eles são páreo para os nacional-socialistas”.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Cobri o rabino extremista Meir Kahane, que afirmava que a violência era uma virtude judaica, e a vingança, um mandamento divino. Quando eu estava baseado em Israel, ele foi impedido pelo governo israelense de se candidatar a cargos públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Kahane foi assassinado em 5 de novembro de 1990, na cidade de Nova York. Seu partido, o Kach, foi declarado ilegal em Israel quatro anos depois, após Baruch Goldstein, um médico nascido no Brooklyn e membro do Kach, entrar na Mesquita de Ibrahimi, em Hebron, e abrir fogo contra os fiéis, matando 29 palestinos. Goldstein, vestido com seu uniforme de capitão do exército, foi dominado pelos fiéis e espancado até a morte. Fui enviado pelos meus editores em Nova York para entrevistar os sobreviventes. Quando receberam o material, insistiram para que eu fizesse mais entrevistas com colonos judeus que justificassem as queixas de Goldstein contra os palestinos, parte do jogo de equilíbrio, mas na verdade parte do esforço para obscurecer a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">O Kach, após suas declarações de apoio ao massacre, foi declarado uma organização terrorista pelos Estados Unidos. Mas o kahanismo não morreu. Foi nutrido por extremistas judeus e colonizadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A intolerância racial de Kahane e seus apelos à violência em massa contra os palestinos contaminaram segmentos cada vez maiores da sociedade israelense. Encontrou aceitação quase universal após os ataques de 7 de outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhei essa intolerância em comícios políticos realizados por Netanyahu, que recebeu financiamento generoso de americanos de direita associados ao AIPAC, quando concorreu contra Yitzhak Rabin, que negociava um acordo de paz com os palestinos. Os apoiadores de Netanyahu entoavam slogans inspirados por Kahane, como “Morte aos árabes” e “Morte a Rabin”. Queimaram uma efígie de Rabin vestida com um uniforme nazista. Netanyahu marchou em frente a um funeral simulado para Rabin.</p>
<p style="text-align: justify;">Rabin foi assassinado por um fanático judeu em 4 de novembro de 1995.</p>
<p style="text-align: justify;">Netanyahu, que se tornou Primeiro-Ministro pela primeira vez em 1996, passou sua carreira política cultivando esses extremistas judeus, incluindo Itamar Ben-Gvir, que tinha um retrato de Goldstein na parede de sua sala de estar, Bezalel Smotrich, Avigdor Lieberman, Gideon Sa&#8217;ar e Naftali Bennett.</p>
<p style="text-align: justify;">O pai de Netanyahu, Benzion, que trabalhou como assistente do fundador do sionismo revisionista, Vladimir Jabotinsky, e foi chamado por Benito Mussolini de “um bom fascista”, foi um líder do Partido Herut, que defendia que Israel se apropriasse de todas as terras da Palestina histórica. Muitos dos membros do Partido Herut realizaram ataques terroristas durante a guerra de 1948 que estabeleceu o Estado de Israel. Albert Einstein, Hannah Arendt, Sidney Hook e outros intelectuais judeus descreveram o Partido Herut, em uma declaração publicada no New York Times, como um partido “muito semelhante, em sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, aos partidos nazistas e fascistas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre houve uma vertente virulenta de fascismo judaico dentro do projeto sionista, espelhando a vertente do fascismo na sociedade americana. Infelizmente, para nós e para os palestinos, essas vertentes fascistas estão em ascensão.</p>
<p style="text-align: justify;">A decisão de obliterar Gaza tem sido, há muito tempo, o sonho dos sionistas de extrema-direita, herdeiros do movimento de Kahane. A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. A supremacia judaica é santificada por Deus, assim como o massacre dos palestinos, que Netanyahu comparou aos amalequitas bíblicos, massacrados pelos israelitas. Europeus e euro-americanos nas colônias americanas usaram a mesma passagem bíblica para justificar o genocídio contra os nativos americanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os inimigos — geralmente muçulmanos — destinados à extinção são subumanos que personificam o mal. A violência e a ameaça de violência são as únicas formas de comunicação compreendidas por aqueles que estão fora do círculo mágico do nacionalismo judaico.</p>
<p style="text-align: justify;">A redenção messiânica ocorrerá assim que os palestinos forem expulsos. Extremistas judeus exigem a demolição da Mesquita de Al-Aqsa, um dos três locais mais sagrados para os muçulmanos, supostamente construída sobre as ruínas do Segundo Templo Judaico, destruído em 70 d.C. pelo exército romano. Esses extremistas defendem sua substituição por um “Terceiro” Templo Judaico, uma medida que incendiaria o mundo muçulmano. A Cisjordânia, que os fanáticos chamam de “Judeia e Samaria”, está sendo anexada por Israel. Israel, governado por leis religiosas impostas pelos partidos ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torá, em breve espelhará a teocracia despótica do Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">James Baldwin previu, de forma profética, essa regressão à nossa barbárie inata. Ele alertou que havia uma “terrível probabilidade” de que “as populações ocidentais, lutando para manter o que roubaram de seus cativos e incapazes de se olhar no espelho, precipitarão um caos em todo o mundo que, se não acabar com a vida neste planeta, provocará uma guerra racial como o mundo jamais viu, e pela qual gerações ainda por nascer amaldiçoarão nossos nomes para sempre”.</p>
<p style="text-align: justify;">A selvageria no Irã, no Líbano e em Gaza é a mesma selvageria que enfrentamos em casa. Aqueles que perpetram o genocídio, o massacre e a guerra não provocada contra o Irã são as mesmas pessoas que desmantelam nossas instituições democráticas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158962" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg" alt="" width="793" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-220x300.jpg 220w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-752x1024.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-768x1046.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-308x420.jpg 308w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-640x872.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-681x927.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 793px) 100vw, 793px" />Os iranianos, libaneses e palestinos sabem que não há como apaziguar esses monstros. As elites globais não acreditam em nada. Não <em>sentem</em> nada. Não se pode confiar nelas. Eles exibem as características essenciais de todos os psicopatas — charme superficial, grandiosidade e presunção, necessidade de estímulo constante, propensão à mentira, ao engano, à manipulação e incapacidade de sentir remorso ou culpa. Desprezam, considerando fraquezas, as virtudes da empatia, da honestidade, da compaixão e do altruísmo. Vivem segundo o lema “Eu. Eu. Eu.”</p>
<p style="text-align: justify;">“O fato de milhões de pessoas compartilharem os mesmos vícios não os torna virtudes, o fato de compartilharem tantos erros não os torna verdades, e o fato de milhões de pessoas compartilharem as mesmas formas de patologia mental não as torna sãs”, escreveu Erich Fromm em “The Sane Society”.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhamos o mal por quase três anos em Gaza. Observamos agora no Irã. Observamos no Líbano. Vemos esse mal sendo justificado ou mascarado por líderes políticos e pela mídia.</p>
<p style="text-align: justify;">O The New York Times, num gesto digno de Orwell, enviou um memorando interno instruindo repórteres e editores a evitarem os termos “campos de refugiados”, “território ocupado”, “limpeza étnica” e, claro, “genocídio” ao escreverem sobre Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqueles que nomeiam e denunciam esse mal, incluindo os estudantes heroicos que montaram acampamentos em campis universitários aqui e no exterior, são difamados, colocados em listas negras e expurgados. São presos e deportados. Um silêncio ensurdecedor se abate sobre nós, o silêncio de todos os Estados autoritários. Sabemos onde isso termina. Deixe de cumprir seu dever, deixe de apoiar a guerra contra o Irã, de se manifestar contra o crime de genocídio e veja sua licença de transmissão revogada, como propôs Brendan Carr, presidente da FCC (Comissão Federal de Comunicações) de Trump.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos inimigos. Eles não estão na Palestina. Eles não estão no Líbano. Eles não estão no Irã. Eles estão aqui. Entre nós. Eles ditam nossas vidas. Eles são traidores dos nossos ideais. Eles são traidores do nosso país. Eles vislumbram um mundo de escravos e senhores. Gaza é apenas o começo. Não existem mecanismos internos para a reforma. Podemos obstruir ou nos render.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são as únicas opções que nos restam.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Chris Hedges é jornalista estadunidense, autor de vários livros, entre os quais, </em>American Fascists<em> e </em>Death of the Liberal Class<em>.</em></strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Traduzido do original em: <a class="urlextern" title="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" href="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning</a></p>
</blockquote>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="size-thumbnail wp-image-158961 alignnone" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/abed_abdi_haifa-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As obras que ilustram o artigo são do artista palestino Abed Abdi (1942 &#8212;)</em></p>
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		<title>Velha Toupeira (40)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Mar 2026 12:30:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158886" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP.jpg" alt="" width="2362" height="787" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP.jpg 2362w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-1261x420.jpg 1261w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2362px) 100vw, 2362px" /></p>
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		<title>Em defesa do globalismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Mar 2026 14:57:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
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					<description><![CDATA[A multipolaridade é uma resposta “contrarrevolucionária” ao globalismo. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Primo Jonas</h3>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo está em constante evolução, sempre mais focado no lucro de hoje do que no de amanhã. Mas algo preocupante se avizinha: a queda nas taxas de natalidade em todas as principais economias do mundo. Uma força de trabalho cada vez menor e uma população idosa crescente representam um cenário de grande incerteza para as operações econômicas como um todo. Um problema global exige uma solução global?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Multipolaridade vs. Multilateralismo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos anos, e especialmente desde o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA, o conceito de multipolaridade tem sido amplamente utilizado para descrever a nova etapa da nossa sociedade global. De modo geral, trata-se de um mundo que está deixando para trás a “unipolaridade” &#8211; quando os EUA atuavam como a “polícia global” &#8211; e dando lugar a um novo contexto em que outros centros de poder operam como “polícias regionais” em suas esferas de influência. Paradoxalmente, o mundo multipolar contrasta com as relações “multilaterais” que vinham se desenvolvendo no contexto internacional anterior, não sem atritos e conflitos. O multilateralismo pressupõe a disposição de diferentes países em se reunirem para discutir as várias regras da governança global: comércio, conflitos armados, meio ambiente, direito penal, e assim por diante. Mesmo em um contexto regido por uma potência hegemônica moderadora, o multilateralismo visava gerar consenso internacional por meio da participação ativa de países que, individualmente, não possuíam poder de negociação significativo, mas que unidos poderiam alcançar melhores posições para defender seus interesses. <a class="urlextern" title="https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2025/11/em-balanco-lula-ressalta-g20-e-cop30-como-retratos-da-vitalidade-do-multilateralismo" href="https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2025/11/em-balanco-lula-ressalta-g20-e-cop30-como-retratos-da-vitalidade-do-multilateralismo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Lula, o presidente do Brasil, é hoje uma das principais vozes defensoras do multilateralismo</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158826" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/lazar-khidekel-composition.jpg" alt="" width="290" height="470" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/lazar-khidekel-composition.jpg 290w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/lazar-khidekel-composition-185x300.jpg 185w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/lazar-khidekel-composition-259x420.jpg 259w" sizes="auto, (max-width: 290px) 100vw, 290px" />Para melhor compreender o alcance potencial de um mundo multipolar, nada melhor do que ler e acompanhar as ideias de um autor como Alexander Dugin, o fascista russo que defendeu a multipolaridade por décadas como uma forma de organização global para a sociedade humana. Dugin é um verdadeiro visionário, visto que muito do que ele previu desde a década de 1990 se concretizou: a crise interna da União Europeia, a “inviabilidade” do Estado ucraniano, o retorno da religião como organizadora política e a reaproximação entre a esquerda conservadora (“nacional-esquerdista”) e a direita populista. E como Dugin entende o mundo multipolar? Um mundo de “Grandes Espaços” onde cada polo de poder expressa uma civilização e exerce sua influência territorial. Daí o grandioso projeto “eurasiático”, herdeiro direto do Império Russo, que identifica o cristianismo ortodoxo como o eixo unificador da civilização russa e sua hegemonia “suave” sobre todos os povos do território eurasiático. <a class="urlextern" title="https://es.wikipedia.org/wiki/Partido_Nacional_Bolchevique" href="https://es.wikipedia.org/wiki/Partido_Nacional_Bolchevique" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Dugin foi um membro ativo do Partido Nacional Bolchevique</a>, era muito próximo do comunista Gennady Zyuganov na década de 1990, e podemos ver o que essas ideias compartilhadas implicaram no final do livro de Zyuganov sobre <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2022/06/144361/" href="https://passapalavra.info/2022/06/144361/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">o novo papel do Partido Comunista na Rússia após o fim da URSS</a>. Ao definir o mundo que este partido buscaria construir a partir da Rússia, diz que “é muito importante que seus fundamentos não se baseiem em utopias globalistas, mas no equilíbrio geopolítico entre os Grandes Espaços, as civilizações e os &#8216;centros de poder&#8217; <strong>etnoconfessionais</strong>, e na consideração dos legítimos interesses de todos os Estados e povos, grandes e pequenos” (Rússia e o Mundo Contemporâneo, 1996).</p>
<p style="text-align: justify;">Como cada “Grande Espaço” é a expressão de uma civilização, um centro de poder “etnoconfessional”, os proponentes da multipolaridade abraçaram o pós-modernismo em toda a sua força. Se não existe uma verdade universal, mas apenas aquela imposta pelo poder, não há outro caminho senão reconhecer a verdade de cada civilização separadamente, salvaguardando o poder <em>de facto</em> por compreendê-lo como respeito pela cultura, religião e episteme próprias de cada Grande Espaço. É por isso que os ideólogos dessa nova direita escolheram o globalismo como um de seus principais inimigos, identificando-o com o “liberalismo ocidental” que historicamente secularizou a sociedade, igualou homens e mulheres, criou organizações internacionais, defende (pelo menos retoricamente) os direitos humanos e o meio ambiente, suavizou o espírito belicoso da humanidade e agora busca despovoar o planeta.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As condições materiais do globalismo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Na disciplina das Relações Internacionais uma “teoria da Governança Global” <strong>[1]</strong> tem sido debatida nas últimas décadas, produto da ascensão de organizações internacionais, ONGs, corporações transnacionais e outros atores que excediam a forma dos governos e dos Estados-nações. Martin Hewson, em um texto de 1999, relaciona algumas mudanças nas esferas da governança às práticas de informação e conhecimento. Por exemplo, os sistemas postais ou de imprensa, que no início da Idade Moderna eram organizados na Europa em torno de eixos “geopolíticos” com ênfase na conexão entre os centros de poder da região, relegavam grandes porções do território a organizações municipais de pequena escala. Esses sistemas ainda não estavam organizados sob uma lógica propriamente “nacional”. Foi no século XIX, com a estabilização dos Estados-nações, que o sistema de selos e preços dos serviços postais foi unificado em muitos países europeus. Essa integração das comunicações dentro de uma estrutura de governança nacional rapidamente deu lugar, em 1865, a uma nova etapa: a <a class="urlextern" title="https://www.itu.int/" href="https://www.itu.int/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">União Internacional de Telecomunicações (UIT)</a> foi fundada para gerenciar as primeiras redes telegráficas internacionais, sendo a organização mais antiga que hoje faz parte da estrutura da ONU. Também no século XIX as agências nacionais de estatística começaram a operar de forma constante e ativa (nos EUA, Inglaterra e França), coletando e publicando dados nacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">De acordo com o modelo de Hewson, esses processos ilustram as duas primeiras etapas, condições necessárias para a terceira, onde de fato vemos a emergência da globalização como um fenômeno tecno-informacional. Primeiro, a interconexão da infraestrutura de telecomunicações (técnica ou institucional) entre diferentes Estados e territórios. Em seguida veio a utilização dessa infraestrutura para a troca de dados, informações e conhecimentos relacionados a diferentes áreas nacionais. A terceira etapa é caracterizada por um salto em direção a um espaço verdadeiramente global para a concepção, execução e produção de informações. Naquela época de grande entusiasmo pelo intercâmbio e cooperação internacional de ideias, anterior à Primeira Guerra Mundial, foi criado o Instituto Internacional de Agricultura (1905), com a missão de gerar estatísticas globais e recursos técnicos em diferentes idiomas para apoiar as atividades agrícolas realizadas em qualquer lugar do mundo. Algumas décadas antes foi criada a Organização Meteorológica Internacional (1873), que começou com o propósito de trocar informações nacionais, já que a disciplina incipiente ainda se propunha estudar os recortes nacionais do firmamento. No entanto, como o livro <em>A Vast Machine</em> (Paul Edwards, 2010) ilustra de forma impressionante, durante o século XX meteorologistas e climatologistas desenvolveram um conceito verdadeiramente global de seu objeto de estudo, diante da impossibilidade de isolar um único ponto no planeta para estudar seu clima. A aplicação de princípios matemáticos levou ao desenvolvimento dos primeiros modelos numéricos e supercomputadores foram desenvolvidos para processá-los (a partir da década de 1950, com a participação do físico e matemático John von Neumann). Esses novos modelos numéricos de clima constroem uma epistemologia “globalista”, uma vez que o processo de modelagem requer valores numéricos para todo os pontos do sistema-planeta (mesmo que aproximados ou estimados). Isso só é aplicável se assumirmos que todos os pontos estão “em contato” uns com os outros. O matemático e meteorologista Edward Lorenz conduziu um estudo famoso, criou novas equações e descreveu o <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_borboleta" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_borboleta" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">&#8220;efeito borboleta&#8221;</a>, indicando que uma pequena diferença nos valores numéricos iniciais dos modelos poderia levar a cenários futuros completamente diferentes (e portanto, a existência de uma borboleta batendo suas asas num lugar do planeta poderia relacionar-se com um tufão que se formaria do outro lado da esfera terrestre).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158827" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01.png" alt="" width="709" height="525" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01.png 709w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-300x222.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-567x420.png 567w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-100x75.png 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-640x474.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-681x504.png 681w" sizes="auto, (max-width: 709px) 100vw, 709px" />Próximo da climatologia, Hewson dá também o exemplo dos satélites como outra modalidade (menos epistêmica e mais baseada na engenharia) de conhecimento e práticas de comunicação que já são inteiramente “globalistas”. Não apenas porque fazem parte da nova infraestrutura de telecomunicações, mas também porque o espaço físico onde os satélites orbitam, os cálculos de seus movimentos e todas as complexidades técnicas e legais a eles relacionadas constituem uma esfera de governança que se estende para além das fronteiras nacionais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O natalismo será uma questão central nas próximas décadas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">As estatísticas demográficas de cada nação compõem a demografia mundial, a raça humana viva (ou a tentativa de capturá-la). Desde sua origem, o capitalismo tem continuamente “engolido” populações despojadas de seus meios de produção, forçando-as a se tornarem assalariadas. Este não é um processo concluído, está em andamento e continua a avançar, especialmente em países com grandes populações rurais e indústrias avançadas (como a Índia e a China). Deste ângulo é fácil perceber, então, que uma diminuição absoluta da população em idade ativa representa um enorme problema para o funcionamento do capitalismo como o conhecemos hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">Os interesses podem ser nacionais ou “civilizacionais”, mas a raça humana é uma só, e a demografia global nos une nesse sentido. Parte dessa realidade são os fluxos migratórios (forçados e não forçados). Governos lançam campanhas para atrair mão de obra estrangeira qualificada e incentivar mulheres a terem filhos. Na Europa e nos Estados Unidos a extrema-direita e os fascistas convocam pessoas brancas a procriarem <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61473291" href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61473291" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">para combater &#8220;a grande substituição&#8221;</a>, a invasão demográfica de pessoas negras na Europa. Esta é uma nova versão do panfleto de denúncia contra a conspiração judaico-bolchevique-globalista, utilizado pelos czaristas russos, pelos nacional-socialistas alemães, por Getúlio Vargas, e por tantos outros nos últimos 150 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas até que ponto um governo ou um Estado pode hoje projetar-se num longo prazo, dado o contexto de contínuas disrupções políticas e econômicas nas quais já vivemos? A mudança na curva da taxa de natalidade não parece ser algo que possa ser facilmente alterado. Será que algum capital conseguirá se adaptar e acumular em um contexto de escassez de mão de obra? E se extrapolamos a capilaridade dos fenômenos atuais vinculados às mudanças da natalidade e às políticas estatais aplicadas, o que a rigidez religiosa nas instituições educacionais, o modelo de subjugação feminina e a divisão física de gêneros nos espaços públicos representam para os trabalhadores?</p>
<p style="text-align: justify;">Hipótese para um processo histórico: A multipolaridade é uma resposta “contrarrevolucionária” ao globalismo. De forma extremamente esquemática, podemos pensar no sistema da ONU, após a Segunda Guerra Mundial, como um salto do Estado-nação para uma organização global. O passo em falso na criação da organização global entregou o público aos arautos da multipolaridade. Eles propõem avançar e regredir simultaneamente: da unidade nacional em direção aos “Grandes Espaços” mais abarcativos, e, inversamente, o regresso ao essencialismo civilizacional, a negação do universalismo humano, a exaltação de uma sociedade que precisa da guerra para existir. A governança global desloca-se das organizações internacionais e transnacionais para canais de negociação bilateral, soluções militaristas, a nacionalização da internet, mercantilismo econômico e assim por diante.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158825" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e.jpeg" alt="" width="1440" height="1920" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e.jpeg 1440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-225x300.jpeg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-768x1024.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-1152x1536.jpeg 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-315x420.jpeg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-640x853.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-681x908.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1440px) 100vw, 1440px" />O globalismo, mesmo em sua versão capitalista, representa uma superação dos atavismos sociais que separam a raça humana em grupos hierárquicos com base em características genéticas ou local de nascimento. A ideia do globalismo não deve morrer com o fim do globalismo capitalista, pois essa ideia é uma importante defesa contra o obscurantismo teocrático e militarista que nosso confinamento aos “Grandes Espaços” do mundo multipolar representa.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Cf. <em>Approaches to Global Governance Theory</em>, de Hewsan, Sinclair e Sinclair, 1999, e <em>Global Governance: A Journey Through Polysemy</em>, de Cabrera, 2023, para referências.</p>
<p><em>As obras que ilustram esse artigo são de Lazar Khidekel.</em></p>
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		<title>Os arquivos Epstein e a perspectiva de socialismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Feb 2026 20:12:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A maioria dos ditos socialistas naturaliza e aceita a mistura com a classe dominante, isto é, aceita que se constitua relações amistosas com ela. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<p style="text-align: justify;">A divulgação de mensagens eletrônicas e outros documentos ligados a Jeffrey Epstein causou perplexidade e certamente surpresa na esquerda, ao revelar de forma mais contundente o nível de proximidade e “amizade” entre Noam Chomsky e o bilionário. Para além ou aquém dos crimes sexuais, Epstein era a personificação de tudo que socialistas, incluindo o próprio Chomsky, oporiam à classe dominante em termo de valores.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo Epstein em entrevista a Steve Bannon, ele integrou a Comissão Trilateral a convite de seu fundador, David Rockefeller. Ainda segundo Epstein, a preocupação ou intenção de David Rockefeller era que houvesse uma classe empresarial que gerisse o capitalismo global de modo que este não fosse impactado por mudanças de governos. Jeffrey Epstein, portanto, se constituiu em um operador e gestor político e econômico do capitalismo transnacional. Produzia relações e se beneficiava disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Obscuramente, também se tornou bilionário. Para explicar sua fortuna, jornalistas apontam, por exemplo, golpes e operações de tráfico de armas e drogas para a CIA <strong>[1]</strong>. Mesmo um fascista como Steve Bannon, em entrevista que realizou com Epstein divulgada na última leva de arquivos liberados, pergunta a Epstein: “Você é o diabo?”. Que Chomsky tenha sido um amigo fiel dessa figura “demoníaca” por dez anos, como mostram as mensagens e suas declarações públicas desde quando se conheceram por volta de 2015, naturalmente causa perplexidade na esquerda. Até porque a esquerda, talvez mais que a direita, e em época de “cultura do cancelamento”, procura por santos e pecadores. Em Seminário em Chiapas no final de 2024, o Capitão Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional, soltou algumas palavras sobre esse tema que vêm bem a calhar:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Não idealizem os zapatistas. Somos igualmente ruins, baixos e merdas como vocês. Ocorre que estamos numa organização e num coletivo, que é o que equilibra, oculta e subordina essas baixezas e ruindades, e nos obriga a ser responsáveis. (Capitão Insurgente Marcos, 30 de dezembro de 2024)</p>
<p style="text-align: justify;">Chomsky não fazia parte de uma organização política, e embora não tenha cometido crime, defeitos seus, aos olhos dos socialistas, vieram à tona pela relação com Epstein.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158761" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/images-1.jpg" alt="" width="300" height="168" />O jornalista Chris Hedges, que conheceu pessoalmente Noam Chomsky, escreveu um curtíssimo texto sobre o assunto, após uma Nota publicada em 7 de fevereiro último por Valéria Chomsky, esposa de Noam. Chris Hedges termina escrevendo:</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não foi enganado por Epstein. Ele foi seduzido. Sua associação com Epstein é uma mancha terrível e, para muitos, imperdoável. Ela turva irreparavelmente seu legado. Se há uma lição aqui é essa. A classe dominante não oferece nada sem esperar algo em troca. Quanto mais perto você chega desses vampiros, mais você se torna escravo deles. Nosso papel não é socializar com eles, mas sim destruí-los <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Creio que a grande maioria dos autoproclamados socialistas (incluo nessa categoria os autodefinidos comunistas e anarquistas), concordariam com esse trecho. Consigo imaginar quase um consenso quanto à lição exposta por Chris Hedges: não se deve socializar com a classe dominante, nosso papel é destruí-los, pois são inimigos da nossa classe e do que há de humano em nós.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Quem discorda das “lições” acima expostas pelos zapatistas e por Chris Hedges, respectivamente, sobre a importância da organização coletiva e a importância da separação/distanciamento em relação à classe dominante?</p>
<p style="text-align: justify;">Se quase todos concordam, então por que a grande maioria dos autodenominados socialistas, principalmente os marxistas, quando constroem ou participam de organizações coletivas, é em última análise visando que seus quadros mais elevados se misturem à classe dominante, se tornando eles próprios gestores do capitalismo?</p>
<p style="text-align: justify;">E misturar-se pode significar tornar-se classe dominante ao tomar para si o poder do Estado, ou, como tem sido mais frequente, buscar cargos de governo e no parlamento nas democracias liberais. Nesse último caso, inevitavelmente, a aceitação das regras do jogo dessas instituições burguesas e toda espécie de encontros, reuniões, compromissos, jantares, tapinhas nas costas, inerentes à política nessas instituições, levam ao oposto da lição do caso Chomsky-Epstein, bem sintetizada por Chris Hedges. A relações de figurões do PT como Jaques Wagner, Rui Costa e Guido Mantega com o banqueiro bilionário Daniel Vorcaro são só o enésimo exemplo, que poderia ser encontrado também em qualquer outro país.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158760" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg" alt="" width="960" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-681x454.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />A clivagem ou hipocrisia, como se queira, é descomunal. Enquanto se condena (com pelo menos certa razão) as expressões de “amizade” de Chomsky com Epstein, se constrói e se sustenta organizações cujo objetivo é se misturar com a classe dominante. E frequentemente ainda colocam “socialista” ou “comunista” no nome da organização. Ainda pior, muitas vezes os membros ou simpatizantes da dita organização defendem ferrenhamente quando seus altos quadros, em posições nas instituições burguesas, como um Lula ou um Boulos, agem sem disfarces como operadores do grande capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Peguemos no Brasil o PT e o PSOL como exemplos, provavelmente duas entre as três maiores organizações políticas do país no quesito de filiados que se autodenominam socialistas (ou comunistas). Ambos partidos foram formados explicitamente para disputar espaço nas instituições burguesas. Segundo a racionalização de Lula na época da constituição do PT, ele teria se tornado necessário devido às lutas sindicais encontrarem um limite. Já o PSOL foi formado por uma cisão de parlamentares do PT. Ambos partidos fazem parte do atual governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Luiz Marinho, Ministro do Trabalho e quadro histórico do PT, tem utilizado seu cargo para, por exemplo, assediar auditores fiscais do trabalho que lavram flagrantes de trabalho escravo e para anular os flagrantes de trabalho escravo de grandes empresas como a JBS. Sequer o governo Bolsonaro chegou a esse ponto. Com exceção da CSP-Conlutas, nenhuma central sindical se manifestou contra esse ataque à política de combate ao trabalho escravo no Brasil, e que se dá de forma tão explícita em favor de grandes empresas.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato do Ministro do Trabalho, do Partido dos Trabalhadores, usar o cargo para beneficiar empresas flagradas explorando trabalho escravo, nem sequer abala sua posição no partido ou no governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Misturar-se com a classe dominante não é apenas meio, é objetivo do PT (e da CUT, seu braço sindical). De outro modo seria insustentável as práticas de Luiz Marinho (com aval do seu amigo Lula), assim como seria insustentável as práticas do Ministro da Educação do PT, Camilo Santana, com sua proximidade da Fundação Lemann. Evidentemente uma organização política que tivesse como princípio não se misturar à classe dominante mas destruí-la, não geraria e sustentaria esse padrão de figuras como Luiz Marinho, Camilo Santana, Jaques Wagner, José Dirceu etal. Partidos como o PT e o PSOL foram constituídos para se misturarem com a classe dominante. Na forma e no objetivo real principal (conseguir cargos parlamentares e no governo) são partidos burgueses, por mais apinhados de ditos socialistas que estejam. Banalidades básicas, alguém dirá com razão.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158763" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md.jpg" alt="" width="768" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" />No PSOL, temos agora o exemplo acachapante de Guilherme Boulos. Entrou no PSOL em 2018, já para ser candidato à presidência da república. Tem sido figura de ponta para levar o PSOL cada vez mais para perto do lulismo, a ponto de ter sido alçado por Lula a Ministro da Secretaria-Geral, cargo que nos governos do PT tem por função principal cooptar, enrolar, amansar e enganar movimentos sociais. E Boulos com pouco tempo no cargo tem desempenhado com esmero essa função. Está atualmente mentindo e tentando enganar os entregadores e os povos indígenas da Amazônia em favor do grande capital <strong>[3]</strong>. Ele e Sônia Guajajara, Ministra dos Povos Indígenas, também do PSOL, estão na linha de frente para garantir a efetivação do distópico Decreto nº 12600/2025, que coloca três importantíssimos rios amazônicos no “Plano Nacional de Desestatização”. Estão na linha de frente para garantir a destruição dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins-Araguaia, de modo a serem construídas hidrovias para o grande capital extrativista e do agronegócio. Nem Boulos nem Sônia Guajajara serão expulsos do PSOL. E não falta militantes do partido ou simpatizantes para defender Boulos. Ora, Boulos, no seu carreirismo e busca de poder pessoal entrou no PSOL evidentemente porque se trata de uma organização voltada ou propícia a isso: a ascensão social através das instituições burguesas. Em outras palavras, uma organização voltada e propícia a se misturar às classes dominantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Jones Manoel se filiando para se candidatar a deputado pelo PSOL, é só mais um que segue o caminho de buscar ascensão através de instituições burguesas, se misturar à classe dominante e ao mesmo tempo arrotar comunismo.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se trata de partidos disputando cargos ou de posse de cargos em instituições burguesas, a maioria dos ditos socialistas naturaliza e aceita a mistura com a classe dominante, isto é, aceita que se constitua relações amistosas com ela. Essa naturalização é o sintoma da maior derrota possível do campo que deveria ser antagônico à classe dominante. É uma derrota total, pois aqueles que se dizem antagônicos à classe dominante, e em geral acreditam mesmo que o sejam, se organizam para se tornar um amigo, um operador ou até mesmo um igual, isto é, parte da classe dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa naturalização é constitutiva de grande parte das organizações políticas que se dizem socialistas ou comunistas, e da totalidade delas que se organizam para conquistar cargos nos parlamentos e governos. É essa naturalização, essa normalização inerente a esses partidos, que mantém um Boulos e um Luiz Marinho nos seus respectivos partidos, ao mesmo tempo que usam seus cargos mesmo que explicitamente contra os direitos dos trabalhadores e dos de baixo em favor dos capitalistas. Ou, se se preferir, é essa naturalização que mantém a maioria dos filiados a esses partidos apesar das práticas de um Boulos, um Luiz Marinho, um Lula e tal.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158760" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg" alt="" width="960" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-681x454.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A hegemonia dessa naturalização dentro da classe trabalhadora e dos de baixo significa a derrota contínua de qualquer perspectiva de socialismo. É a hegemonia do “misturar-se com a classe dominante”.</p>
<p style="text-align: justify;">A lição do caso particular Epstein-Chomsky já foi dada inúmeras vezes pela história das lutas sociais: é preciso organizar coletivamente, social e politicamente, a autonomia de classe. É preciso construir e manter organizações que são simplesmente o oposto das organizações que atraem a maioria dos ditos socialistas e comunistas nos dias de hoje; feitas para a ascensão de alguns em meio à construção de relações com a classe dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">O que os socialistas precisam não é se aproximar desses vampiros e se tornar seus escravos ou operadores. Os socialistas precisam é destruir a classe dominante. E isso se dará através da constituição de novas relações sociais, inclusive e fundamentalmente nas esferas da produção e reprodução.</p>
<h4 style="text-align: justify;">Notas</h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html" href="https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html" rel="ugc nofollow">https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html</a>; e ver <a class="urlextern" title="https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling" href="https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://substack.com/home/post/p-187347674" href="https://substack.com/home/post/p-187347674" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://substack.com/home/post/p-187347674</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/" href="https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/</a>; e ver <a class="urlextern" title="https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664" href="https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664</a></p>
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		<title>Mentiras que lhe dirão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 09:23:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras... Por Phil A. Neel]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Phil A. Neel</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><em>Traduzido do <a href="https://illwill.com/lies" target="_blank" rel="noopener">Inglês</a>.</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A cidade glacial está sob cerco. Nos longos e frios invernos no coração do Meio-Oeste, o ar pode ficar tão frio que dói respirar. Mercenários mascarados, em veículos sem identificação, percorrem os bancos de neve, sequestrando pessoas nas ruas e levando-as para centros de detenção por períodos indeterminados. Cada um dos mercenários recebe dezenas de milhares em um “bônus de assinatura” (até 50 mil e 60 mil dólares em perdão de empréstimos estudantis), simplesmente para pegar em armas em nome do regime em batalha. Diante de uma crise econômica em câmera lenta, na qual um boom surreal do mercado de ações, apoiado pelo Estado, é acompanhado por uma estagflação persistente na economia cotidiana, o puxa-saquismo é uma das poucas indústrias que apresentam algum crescimento real. Enquanto as ruas congelam em Minneapolis, a notação do Standard &amp; Poor atinge níveis recordes. Enquanto isso, o crescimento do emprego no ano passado foi tão desanimador que, após a divulgação dos números, o regime agiu rapidamente para demitir o chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho e ameaçar os meios de comunicação que divulgavam os números. <strong>[1]</strong> Além do declínio no emprego, devido ao congelamento da imigração, a profundidade da crise é sinalizada pela queda contínua na Taxa de Participação na Força de Trabalho, que serviu como o maior obstáculo ao crescimento do emprego no primeiro semestre de 2025 – indicando que um montante cada vez maior de pessoas está abandonando completamente a força de trabalho, mas não são contabilizadas nas estatísticas de desemprego. <strong>[2] </strong>O cerco pode, assim, ser entendido como uma espécie de keynesianismo mercenário, destinado a compensar a falta de emprego nos novos setores de defesa movidos a IA, que têm sido o foco da política institucional mais ampla de pilhagem-e-reestruturação.</p>
<p style="text-align: justify;">Enviados de cidades distantes, eles algemam os detidos e os espancam quando mais nenhuma reação é possível. Disparam munições “não letais” com clara intenção de mutilar. Repetidas vezes, atropelam pessoas por veículos. Indivíduos que simplesmente estão voltando do trabalho para casa têm suas janelas quebradas e são arrastados para fora de seus veículos para serem espancados e detidos por horas, às vezes dias. Agora, eles estão atirando em pessoas com munição letal. Invadiram o estacionamento de uma escola de ensino fundamental. Tiraram uma mãe de seu carro, colocaram-na em uma van sem identificação e foram embora, deixando seu bebê em uma cadeirinha, com a porta aberta, em temperaturas negativas (felizmente, resgatado por pessoas da multidão). Lançaram gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral em um carro cheio de crianças, hospitalizando todas elas, incluindo um bebê de seis meses que não conseguia respirar. <strong>[3] </strong>Em represália à resposta da comunidade, eles começaram a invadir as casas de cidadãos também, muitas vezes errando os endereços. O prefeito diz que não há nada a ser feito. O governador convocou a Guarda Nacional – destacada não contra os mercenários, é claro, mas contra aqueles que protestam contra eles. As autoridades judiciais da nação não apenas se recusaram a abrir processos, mas, além disso, foram ordenadas a investigar as vítimas e seus familiares. Todas as noites, o mundo inteiro assiste a vídeos de corpos envoltos em sombras, movendo-se na escuridão gelada da cidade sitiada. Nas lives, as pessoas gritam e choram, os mercenários berram suas ameaças, disparam suas armas e, diante de uma multidão grande o suficiente, recuam. Os hotéis que os hospedam são pichados. Os carros que abandonam são saqueados. Em resposta, mais tropas são enviadas pelo presidente, um rei louco, num corpo em decomposição, berrando ordens incoerentes do seu palácio no pântano. O sol nasce e acordamos com o sabor amargo de novas atrocidades à nossa espera.</p>
<p style="text-align: justify;">Há cinco anos, a poucos quarteirões de onde Renee Good foi assassinada pelo covarde Jonathan Ross, um assassinato semelhante desencadeou a maior revolta popular em mais de uma geração. Logo depois, nos contaram uma série de mentiras sobre essa rebelião. Disseram-nos que era um “movimento social não violento”, mesmo com a imagem de uma delegacia de polícia em chamas piscando ao fundo. Disseram-nos que, embora houvesse alguma violência, ela havia sido iniciada por agitadores externos, talvez policiais, ou até mesmo nacionalistas brancos. Quem quer que fossem, eles não eram membros da “comunidade”, mas sim indivíduos apenas “querendo causar confusão”. Disseram-nos que o plano desde sempre foi processar o assassino, e que foi apenas uma coincidência que as acusações só foram feitas depois que quase todas as grandes cidades do país viram seus centros saqueados e incendiados. Disseram-nos para irmos para casa, que tudo tinha acabado. Disseram-nos que os distúrbios eram apenas a desculpa de que Trump precisava para declarar a lei marcial e cancelar as próximas eleições. Disseram-nos que, se eleito, Biden iria arrumar as coisas. Disseram-nos que as deportações iriam acabar e que as políticas de Trump seriam revertidas. As crianças seriam libertadas das jaulas. Disseram-nos que devíamos voltar ao mais do mesmo da política — que essa era a única maneira de “fazer as coisas acontecerem”. No conjunto, essas mentiras resultaram em uma única grande inverdade: a revolta nunca ocorreu e nunca poderá ocorrer novamente. <strong>[4]</strong> Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras:</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Se você está aqui legalmente, não precisa se preocupar…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa é sempre a primeira mentira, que apenas os mais tresloucados ou os mais irracionais acreditam. Mesmo para os defensores ferrenhos do Estado, essa primeira mentira foi destruída no momento em que o tiro foi disparado. Por isso, ela foi reconfigurada: “se você não estiver obstruindo os agentes federais…”. E logo acrescentaram os adendos habituais: “por que você estava em um motim, para começar?” (dito às pessoas que moram no bairro); “por que você trouxe seus filhos para um protesto?” (para as famílias que buscavam os filhos na escola); “esses cidadãos têm ligações com grupos radicais de esquerda” (válido automaticamente para todos os que se opõem à agência). Eventualmente, a ladainha de mentiras proferidas por qualquer força tirânica tende a se normalizar em torno do guia de estilo das Forças de Defesa de Israel (IDF), refinado no solo bombardeado da Palestina, que há muito serve como laboratório para novos horrores. E, claro, como até uma rápida olhada na história demonstraria, os horrores nunca permanecem confinados à terra sagrada. Quando o bumerangue imperial retorna à mão que o lançou, o processo sempre começa com o chamado “elemento criminoso”. E então passa a ser os esquerdistas e os sindicalistas. E depois seus simpatizantes. E depois qualquer inimigo. Eventualmente, eles têm como alvo os inimigos inerentes da nação, figurados em termos de sangue e solo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158686 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="932" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-768x511.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-631x420.webp 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-640x426.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-681x453.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo completamente alheios aos protestos, cidadãos americanos foram detidos em batidas policiais e tiveram a validade de suas certidões de nascimento negada. Indígenas americanos foram mantidos em cativeiro por dias — usados, em parte, como moeda de troca para forçar as lideranças tribais a abrir seus territórios à agência. Isso não é um exagero: na cidade sitiada, qualquer pessoa que não pareça suficientemente branca (e branca da maneira certa) deve portar sua prova de cidadania o tempo todo, sob pena de ser detida e sequestrada. Este é, quase palavra por palavra, o cenário que foi profetizado pelos “esquerdistas radicais” com o advento de agências como o Departamento de Segurança Interna (DHS) e o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), após a aprovação da Patriot Act por uma coalizão bipartidária durante a Guerra ao Terror. Foi nessa mesma época que a Agência de Segurança Nacional (NSA) ganhou novos e amplos poderes. A primeira operação interagências para combater “gangues transnacionais violentas” foi iniciada em 2005, sob o governo Bush, e antecipa grande parte da linguagem ainda usada hoje. Mas o novo estado de segurança foi um esforço conjunto. Na verdade, embora tenha sido iniciado durante um governo republicano, foram os democratas que transformaram essas agências em órgãos operacionais e expandiram amplamente seus poderes.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto o ICE quanto o DHS foram rapidamente expandidos sob Obama, que supervisionou o maior aumento nas deportações e de campos de deportação, construídos, em parte, por meio de um acordo de US$ 1 bilhão sem licitação com a empreiteira prisional privada Core Civic (na época, Corrections Corporation of America). <strong>[5]</strong> Na verdade, Jonathan Ross, o agente que assassinou Good, foi contratado pela agência no auge dessa onda de deportações da era Obama. Nos mesmos anos, houve uma expansão dos centros de dados da NSA, incluindo a cerimônia de inauguração do Centro de Dados da Iniciativa Nacional Abrangente de Segurança Cibernética em Utah, que é talvez o núcleo da infraestrutura moderna de vigilância em massa. <strong>[6]</strong> Da mesma forma, foi o governo Obama que assinou os primeiros acordos com a Palantir para rastrear crimes transfronteiriços, estabelecendo as bases para a colaboração de longa data da empresa com o ICE. <strong>[7]</strong> Hoje, a empresa foi contratada para construir um aplicativo “que preenche um mapa com alvos potenciais de deportação, traz um dossiê sobre cada pessoa e fornece uma ‘pontuação de confiança’ sobre o endereço atual da pessoa…”. <strong>[8]</strong> Esses foram os mesmos anos em que os apelos para “abolir o ICE” ganharam força, juntamente com os apelos para reverter os programas de vigilância da NSA e desmantelar a Segurança Interna. Não é preciso dizer que essas demandas foram rejeitadas tanto por democratas quanto por republicanos como sendo nada mais do que reclamações estridentes de radicais irrealistas renitentes. Agora, enfrentamos precisamente a “realidade” que nos foi prometida.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O assassino será processado…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira é o bote salva-vidas para os muitos milhões que ainda se agarram a algum resquício de fé em um estado de direito outrora flutuante que, segundo qualquer critério razoável, já submergiu até o fundo do mar escuro e revolto. Vão nos dizer para esperar, para deixar o sistema funcionar, como se a ordem cívica submersa fosse ressurgir. Na realidade, essa ordem sempre foi uma gentileza temporária, possibilitada apenas pelas águas calmas de uma ordem imperial bem estabelecida. Lançado na crise, a probidade do Estado é sempre sacrificada pela efervescência do puro poder subjacente. Aqueles que baseiam sua fé nessa probidade simplesmente não conseguem entender o novo mundo em que se encontram. O que estamos testemunhando, então, é o lento e constrangedor crepúsculo da ingenuidade política bem-educada que definiu toda uma geração de liberais. Os liberais são, em sua essência, uma espécie de adoradores da legalidade. Tire-lhes a legislação e os processos judiciais e você ficará com penitentes confusos, cegos pelos horrores sombrios vislumbrados brevemente por trás de sua fé destruída. No curto prazo, eles continuarão como antes, só que com mais fervor. Confrontados com evidências incontestáveis de sua realidade política, os liberais se agarrarão ainda mais fortemente às ruínas de sua civilidade desmoronada, entrando com ação judicial após ação judicial, escrevendo para os seus deputados, indo de porta em porta para defender candidatos medíocres nas eleições de meio de mandato, tais como fanáticos cheios de feridas se flagelando em penitência pela praga.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem demora, vimos uma série interminável de ações judiciais movidas contra quase todos os aspectos do programa trumpista. Em 20 de janeiro de 2026, havia um total de 253 processos ativos de contestação de ações do governo. Porém, mesmo quando obtêm decisões favoráveis, elas se mostram inexequíveis. Por um lado, com controle decisivo sobre a Suprema Corte, bem como sobre as nomeações federais em todas as agências relevantes, qualquer contestação legal pode ser, em última instância, anulada. A Suprema Corte já anulou as ordens de tribunais inferiores em 17 ocasiões.<strong> [9]</strong> Por outro lado, os poderes executivos podem ser mobilizados para simplesmente anular decisões judiciais por decreto, seja de forma direta (por meio da proliferação de indultos presidenciais, concedidos a licitantes nos bastidores, por exemplo) ou buscando os mesmos fins, por meio de canais diferentes. Por exemplo, quando a deportação de Kilmar Abrego Garcia foi considerada ilegal por um tribunal inferior (e, em um caso raro, a decisão foi mantida pela Suprema Corte), o governo federal procurou indiciá-lo por acusações espúrias, a fim de justificar tentativas subsequentes de deportação. No entanto, precisamente porque esses casos acabam por seguir seu curso nos tribunais e, de fato, geram um certo atrito administrativo, os liberais conseguem manter uma fé mágica de que podem, eventualmente, ter êxito.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158687 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso deixa pouca esperança para uma resposta judicial aos assassinatos de Renee Good e Alex Pretti. Pouco depois do assassinato de Good, Ross foi evacuado do local, que foi limpo sem registro de provas ou investigação. Da mesma forma, outras agências foram proibidas de proteger o local do assassinato de Pretti. O Departamento de Justiça não apresentou nenhuma acusação, tampouco as autoridades municipais ou estaduais. O regime tem afirmado que Ross e todos os seus outros mercenários têm imunidade total. Eles têm repetido mentiras descaradas sobre o assassinato de Pretti, imediatamente refutadas por inúmeros vídeos. Neste momento, como em qualquer assassinato cometido pela polícia, as denúncias só serão formalizadas em qualquer uma dessas mortes caso houver mobilizações em massa de escala e intensidade suficientes. Passeatas pacíficas, mesmo que enormes ou disfarçadas de “greve geral” (mas que não fecham nenhuma empresa de grande porte da cidade), não têm como alcançar esse objetivo. Neste momento, simplesmente não há nenhum mecanismo imaginável pelo qual passeatas de protesto a fim de ganhar atenção política possam encorajar alguém no poder a levar esses assuntos a julgamento. Ataques à propriedade inimiga, bloqueios totais e greves podem forçar tal resultado, à maneira dos distúrbios no caso de George Floyd, vários anos antes. Nesse caso, porém, mesmo um julgamento e uma condenação poderiam ser facilmente anulados por meio de um indulto presidencial e, se os casos de 6 de janeiro servirem de indício, tudo indica que o executivo iria atrás disso. Não se pode mais confiar que o Estado nem mesmo finja fazer justiça. Os liberais são deixados a chorar, chicoteando suas costas feridas em atos fúteis de penitência, na esperança de reconquistar a atenção de seu deus delinquente. Eventualmente, seus furúnculos estouram e a peste os leva, como aos demais.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O ICE não é bem-vindo aqui…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Talvez isso seja verdade em algum sentido espiritual — na mente do político progressista convencido de que, no fundo do coração, o ICE não tem influência. No entanto, se você permite que atrocidades sejam cometidas na sua frente e não toma nenhuma medida substantiva para impedi-las, além de um discurso forte e talvez uma ou duas ações judiciais sem efeito, você não está, na verdade, cedendo também em espírito? Essa mentira se tornou um refrão comum entre os políticos locais. O prefeito disse isso. O governador também. E, apesar de claramente “não ser bem-vindo”, o ICE se sentiu bem à vontade. Os mercenários do ICE vagam pelas ruas. Arrombam as portas das pessoas, instruídos por seus superiores de que não precisam de um mandado assinado por um juiz. A ordem é claramente ilegal, mas isso parece não importar mais. <strong>[10]</strong> As únicas forças que minimamente se mobilizam contra essa invasão são pessoas comuns, que arriscam prisão, mutilação e morte para enfrentar os homens armados enviados para levar seus vizinhos para campos de prisioneiros. Redes robustas de defesa comunitária se espalham pela cidade congelada, enraizadas na infraestrutura criada justamente por essa incansável “extrema-esquerda” que tanto incomoda o regime. Por causa dessas redes, os mercenários raramente conseguem se mover sem serem rastreados, raramente param em algum lugar sem serem cercados e raramente tomam qualquer atitude sem serem filmados.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem dúvida, as redes de resposta comunitária desse tipo estão entre as formas mais importantes de organização de classe que os EUA viram nas últimas décadas. Conforme explicado por Adrian Wohlleben:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Com a construção de eixos de defesa, ou “centros”, combinados com outras práticas autônomas de rastreamento, perseguição e interrupção, a luta atual contra o ICE iniciou uma repolitização da inteligência infraestrutural, juntamente com uma inversão de sua orientação “cinegética” (de presa para predador). Esse fato, combinado com a notável tendência de restituir o político nos espaços da vida cotidiana, aponta para uma superação dos limites de 2020… <strong>[11]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">No entanto, parece improvável que até mesmo essa inteligência infraestrutural distribuída e incorporada ao tecido urbano da vida cotidiana seja suficiente. Embora seja um primeiro passo necessário, o andamento da história muitas vezes ultrapassa nossos esforços. Para acompanhar, é necessário dar um salto para o desconhecido.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Vá lá e vote…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Estamos diante de uma realidade sombria: a invasão está aqui, a santificada “resistência” da classe política nunca chegou e o poder bruto que governa o mundo está escancarado para todos. Os democratas já recusaram, em larga medida, os apelos para pressionar pela abolição do ICE e, em vez disso, defenderam sua fórmula desgastada de câmeras corporais e melhor treinamento. <strong>[12]</strong> Diante de tudo isso, como uma mentira tão simples pode persistir? Como alguém poderia estar legitimamente convencido de que votar, ainda mais nas eleições de meio de mandato, enfraqueceria o poder do regime? No entanto, mesmo para os ex-liberais desiludidos com sua fé nos canais legais, que agora perseguem o ICE em seus Honda Fit, soprando seus pequenos apitos e brandindo seus celulares como um escudo — e, apesar do disparate da imagem, legitimamente arriscando a morte para fazê-lo —, uma fé residual no sistema eleitoral permanecerá, mesmo depois que qualquer crença na ordem judicial tiver sido destruída. As eleições são, para os liberais, precisamente a maneira pela qual os erros sistêmicos são corrigidos. Elas oferecem um caminho de volta aos domínios legislativo e executivo, de onde o poder parece ser exercido. Assim, apoderar-se do legislativo em 2026 e, com sorte, o executivo em 2028, parece ser um meio razoável pelo qual o regime poderia ser deposto e seus erros, corrigidos. No entanto, mesmo para os liberais agora mobilizados, o medo paira no fundo da mente: e se isso for, afinal, uma mentira?</p>
<p style="text-align: justify;">A ilusão do “vá lá e vote” persiste, em parte, porque os EUA agora se transformaram totalmente no que Ernst Fraenkel, um advogado trabalhista que viveu a ascensão dos nazistas, chamou de “estado duplo”, no qual o regime é capaz de “manter uma economia capitalista governada por leis estáveis — e manter uma normalidade cotidiana para muitos de seus cidadãos — ao mesmo tempo em que estabelece um domínio de ilegalidade e violência estatal”, nas palavras do acadêmico Aziz Huq. Nessa modalidade de duas vias, um “Estado normativo”, marcado por um “sistema jurídico comum de regras, procedimentos e precedentes”, continua a operar, enquanto, paralelamente, um “Estado prerrogativo”, definido por “arbitrariedade ilimitada e violência sem controle por garantias legais”, se torna a norma em certas áreas geográficas ou na governança de grupos demográficos específicos. Para Fraenkel, essa zona “sem lei” não nega totalmente a zona legal, mas opera em conjunto com ela, mesmo que os “dois estados coabitem de forma incômoda e instável” porque “pessoas ou casos podem ser arrancados do estado normativo e jogados no estado prerrogativo” por um capricho político. Mas a tendência é clara: com o tempo, o ditatorial “estado prerrogativo distorceria e lentamente desmantelaria os procedimentos legais do estado normativo, deixando um domínio cada vez menor para a lei comum”. <strong>[13]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso é possível, em parte, porque o poder social não opera principalmente por meio do Estado. Na sua raiz, o poder da elite sobre as massas populares é econômico. O Estado e toda a classe política que o dirige são, em última análise, uma emanação dessa forma mais fundamental de poder de classe, definida pelo controle sobre a riqueza social. Essa é a chave para compreender o comportamento aparentemente suicida do regime: o Estado nunca teve a intenção de servir como uma instituição representativa universal que defende os direitos do “povo” de forma abstrata. Ele sempre foi projetado para ser, em última análise, uma máquina para negociar entre segmentos da elite proprietária e defender seus interesses. Em certos períodos de prosperidade imperial, os interesses gerais da população estão vagamente alinhados com os da elite. Mas esses são pactos temporários. Embora Fraenkel, nascido e criado em uma dessas épocas, veja o Estado prerrogativo como uma exceção, esse está, na verdade, mais próximo da norma histórica. O mistério do comportamento bizarro do regime se dissipa quando o vemos como uma luta faccional entre os quadros existentes das elites — em outras palavras, como um mecanismo de poder e pilhagem, empregado por certas facções do capital contra a população em geral, e potencialmente em detrimento de outras facções — e uma tentativa frenética dessas elites, desafiadas por blocos ascendentes de capital em outros lugares, de definir um curso estratégico que permita que seu poder sobreviva em um futuro geopolítico incerto.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158688 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez a tendência mais importante por trás do surgimento de um estado dual ditatorial seja esta: mesmo enquanto a inflação dizima os salários e os custos da energia disparam na economia cotidiana, o mercado de ações atingiu níveis sem precedentes. Como resultado, os quinze capitalistas mais ricos do país ganharam quase US$ 1 trilhão em riqueza ao longo de 2025 (de US$ 2,4 trilhões para US$ 3,2 trilhões), enquanto todos os 935 bilionários dos EUA juntos agora controlam o dobro da riqueza (US$ 8,1 trilhões) da metade mais pobre da população (170 milhões de pessoas). <strong>[14]</strong> Tampouco isso é uma exceção trumpista. É, ao contrário, parte de uma tendência que vem se consolidando desde a era Obama, no início da década de 2010 — que, por sua vez, reviveu uma tendência que começou no final da década de 1990 com a primeira bolha da internet, antes de ser interrompida por seu colapso — e que se acelerou em níveis sem precedentes, não sob Trump, mas sob Biden. No total, os 0,01% mais ricos dos americanos (cerca de 16 mil famílias de elite) controlam agora cerca de 12% da riqueza nacional, três vezes mais do que a mesma parcela da população controlava no auge da Era Dourada do século XIX. <strong>[15]</strong> Apesar dos contínuos alertas de que Trump está “destruindo a economia”, a realidade é que a economia está funcionando muito bem. Dada essa realidade sombria, não devemos imaginar que eleger democratas, em distritos eleitorais já grotescamente manipulados pelo gerrymandering, resultaria em um regime substancialmente diferente do atual.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Não dê a Trump um pretexto…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Aqui chegamos ao cerne da questão. Uma vez que a ilusão da civilidade desmorona, revelando a força e a fraude do poder como tal, novas mentiras surgem para servir a funções clássicas de contra-insurgência. Seu objetivo é atenuar a resposta imediata ao Estado tirânico, auxiliá-lo em sua repressão expondo militantes e impedir qualquer preparação para o que está por vir. “Não dê a eles um pretexto”, “Não morda a isca”, “Não dê a eles o que querem” — tudo isso acompanhado de novas teorias da conspiração sobre tijolos pré-plantados e agentes provocadores. Como em 2020, essas mentiras giram em torno da alegação de que lutar contra o exército invasor de mercenários acabará por dar ao governo uma desculpa para invocar a Lei de Insurreição e impor a lei marcial. Essa mentira parece ter integridade porque o regime ameaçou repetidas vezes fazer exatamente isso. Mas logo qualquer traço de lógica evapora-se. O que seria um “pretexto” suficiente e por que um regime que não tem absolutamente nenhum escrúpulo em violar a constituição, falsificar provas e perseguir seus oponentes precisaria de tal desculpa? Por que simplesmente não inventar uma? Agentes federais invadiram uma cidade e estão atacando e assassinando civis ativamente — isso já é uma forma de lei marcial, só que não no papel. Mais importante ainda, o objetivo principal da lei marcial é impor a quietude. Recompensar preventivamente o regime com exatamente o que ele quer não evita tanto a lei marcial, mas a torna desnecessária. Se as pessoas continuarem a se recusar a ficar quietas e o regime acabar invocando os poderes normativos adequados para declarar a lei marcial, isso não será culpa de ninguém além do próprio regime, independentemente do que ele escolher como gatilho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também temos que perguntar se a lei marcial é, de fato, necessária. Como sugere o modelo de estado duplo de Fraenkel, não há um momento em que um governo eleito se torna repentinamente autoritário. Em vez disso, formas prerrogativas de poder coexistem com as normativas e expandem progressivamente seu domínio de influência ao longo do tempo. O cerco às Cidades Gêmeas é uma evidência clara de que tal processo está bem encaminhado. Manifestar-se pacificamente contra o poder prerrogativo não faz nada para impedir seu progresso. Portanto, nos deparamos com uma escolha: ou não fazer nada além de protestar e registrar o aumento da repressão lentamente nas sombras, ou resistir abertamente e, assim, forçar essa repressão a se revelar para que todos vejam. A primeira opção traz menos riscos imediatos. Ela pode ser justificada como uma pausa estratégica enquanto construímos nossas capacidades. Mas tal afirmação requer então apontar onde essas capacidades estão sendo construídas. Enquanto isso, resistir abertamente acarreta enormes riscos imediatos: prisões em massa, tortura e assassinatos seletivos de ativistas, além de abrir as portas para uma aplicação ainda mais ampla do poder prerrogativo contra uma parcela maior da população. A principal diferença entre as duas opções é que a resistência aberta pelo menos traz consigo a possibilidade de desencadear a mobilização em massa necessária para construir o poder popular e derrubar uma elite tirânica, enquanto a petição por meio de canais normativos restritos não traz essa possibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A história demonstra claramente que tentar esperar que a situação se agrave ainda mais, na esperança de que o estado normativo seja restaurado por meio da intervenção de seus adeptos remanescentes (neste caso, políticos democratas, certos republicanos de centro e tecnocratas do governo, como Jerome Powell), apenas fortalece as elites que se beneficiam da ordem prerrogativa. A questão é, portanto, dupla: primeiro, o que deve ser feito? Segundo, o que será feito conosco independentemente disso? É aqui que surge a questão da guerra civil. A política americana pode ser entendida como sempre existindo em um estado latente de guerra civil. Sob certas condições, essa latência então cai por terra e o espectro de uma guerra civil real torna-se amplamente visível. Já em 2020, esse “espectro sempre presente de uma segunda guerra civil, mais balcanizada” havia entrado na consciência pública. <strong>[16]</strong> A visão da guerra civil tende a acompanhar as mudanças no exercício do poder estatal, particularmente em resposta a revoltas emancipatórias. Conforme explicado por Idris Robinson:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">O funcionamento do Estado se dá, fundamentalmente, afastando a ameaça onipresente de guerra civil. O Estado, como tal, pode ser considerado como aquilo que bloqueia e inibe a guerra civil. O que é único neste país é a nossa tradição emancipatória singular, que está ligada à nossa compreensão da guerra civil. <strong>[17]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, a reestruturação aparentemente suicida do Estado em duas vias é um meio padrão através do qual as revoltas populares e outros conflitos sociais incendiários são inibidos e a ordem existente, restaurada.</p>
<p style="text-align: justify;">No passado, os poderes prerrogativos foram invocados precisamente para afastar o espectro da guerra civil e da revolução. Desde a sua aprovação em 1807, a Lei da Insurreição foi invocada pelo menos 30 vezes por quinze presidentes, formal e informalmente. Da mesma forma, a lei marcial foi declarada pelo menos 68 vezes. Embora ambos tenham sido usados para conter ameaças da direita (particularmente durante a Reconstrução e o movimento pelos direitos civis do pós-guerra) ou conflitos violentos entre grupos de trabalhadores, os usos mais comuns da força militar federal têm sido, de longe, a repressão de revoltas de escravos, greves e outras revoltas. Uma das primeiras grandes mobilizações internas das forças armadas dos EUA foi realizada pelo genocida Andrew Jackson para reprimir a rebelião de escravos de Nat Turner, em 1831. Da mesma forma, a Lei de Insurreição foi invocada por Rutherford Hayes para encerrar a Grande Greve Ferroviária de 1877, por Warren Harding durante a Batalha de Blair Mountain, em 1921, — a maior revolta armada desde a Guerra Civil —, por Lyndon Johnson, em resposta aos distúrbios que se seguiram ao assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968, e por George H.W. Bush, em resposta à revolta em Los Angeles, em 1992. <strong>[18]</strong> Em outras palavras, nem invocar a Lei de Insurreição nem declarar lei marcial sinaliza necessariamente uma guerra civil iminente, ou mesmo a suspensão do poder normativo.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Um agente provocador começou tudo…”</h3>
<p style="text-align: justify;">À medida que o cerco continua, as atrocidades se acumulam e os apelos e protestos dos políticos progressistas provam ser impotentes, algo vai acontecer. Mais e mais pessoas vão começar a destruir propriedades do ICE sempre que puderem. Cada vez mais pessoas verão a necessidade de fechar e destruir a infraestrutura econômica central através da qual o poder da elite opera. Por exemplo, o UnitedHealth Group, com sede nos subúrbios de Minneapolis, foi um dos principais doadores da campanha de Trump (mais de US$ 5 milhões, juntamente com Musk) e é um dos principais beneficiários das políticas do Projeto 2025 de Trump. <strong>[19]</strong> Da mesma forma, a corporação Target, também sediada nos subúrbios das Cidades Gêmeas — e conhecida por operar um dos maiores bancos de dados de reconhecimento facial do mundo, compartilhando esses dados com o governo — doou US$ 1 milhão para o fundo de posse de Trump e tem colaborado ativamente com as forças de ocupação. <strong>[20]</strong> À medida que a polícia e a Guarda Nacional entrarem em cena para apoiar o ICE, as pessoas se insurgirão. As greves se espalharão. Eventualmente, quando ficar claro que o ICE pode e vai matar você sem consequências, alguém revidará. É aí que surge a mentira final, dizendo-nos que a revolta em si não foi iniciada pela população, mas por “agitadores externos”, policiais à paisana ou até mesmo supremacistas brancos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira tem uma longa história, já bem documentada. <strong>[21]</strong> E, no entanto, a mentira persiste, perpetuada ativamente por ativistas que agem como informantes autoproclamados dentro de qualquer movimento em curso. Ao alegar que qualquer ação agressiva praticada contra o inimigo é cometida por agentes da polícia secreta, esses informantes, de fato, perseguem, vigiam e, às vezes, detêm manifestantes para entregá-los à polícia. Muitas vezes, a própria polícia incentiva esse mito, como durante a Rebelião de George Floyd, em 2020, quando se espalharam rumores de que a primeira janela havia sido quebrada por um policial à paisana ou um supremacista branco, e a polícia então divulgou uma declaração juramentada, fingindo tê-lo identificado como membro dos Hells Angels, para, pouco depois, abandonar discretamente tal alegação — nenhuma acusação foi apresentada, enquanto as evidências dos registros de prisão mostravam claramente que a maioria dos detidos nos distúrbios vinha das imediações. <strong>[22]</strong> Dois outros casos de 2020 mostram as consequências da disseminação de tais rumores.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro ocorreu em Seattle: depois que a polícia abandonou a delegacia leste da cidade, a área foi ocupada por manifestantes. Houve intensos debates sobre se a delegacia seria incendiada, como em Minneapolis. Muitos alegaram que qualquer tentativa de fazê-lo seria uma ação de um agente provocador. Então, em 12 de junho, um homem com roupa colorida decidiu tentar, empilhando detritos contra a lateral do prédio, ateando fogo e indo embora. Ativistas no local apagaram o fogo, enquanto outros perseguiram e filmaram o homem, alegando que ele era um agente provocador. Embora ele tenha escapado, esses ativistas-informantes postaram as imagens online e as divulgaram até que fossem compartilhadas com a polícia, que as usou para identificar Isaiah Thomas Willoughby como suspeito. Willoughby se declarou culpado por incêndio criminoso no ano seguinte e foi condenado a dois anos de prisão e mais alguns anos de liberdade condicional depois disso. Logo, foi revelado que Willoughby não era um agente provocador, mas sim o companheiro de casa enlutado de Manuel Ellis, um homem desarmado assassinado pela polícia na cidade vizinha de Tacoma, no início daquele ano. <strong>[23]</strong></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158689 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo caso ocorreu em Atlanta: depois que Rayshard Brooks foi morto pela polícia de Atlanta do lado de fora de um Wendy’s local, pessoas do bairro ocuparam o terreno e, posteriormente, incendiaram o prédio. Informantes-ativistas imediatamente alegaram que o incêndio criminoso foi um ato de um agente provocador e vasculharam a internet para encontrar vídeos de uma mulher branca supostamente ateando fogo, que foram então entregues à polícia. A mulher branca, porém, não era uma agente provocadora. Ela era, na verdade, a namorada de Rayshard Brooks e, por causa desses informantes, foi acusada e declarada culpada por incêndio criminoso. <strong>[24]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso não quer dizer que policiais à paisana ou informantes não participem dos protestos. Há evidências bem documentadas de que eles o fazem. Da mesma forma, agentes federais se infiltram em grupos ativistas, onde sugerem e ajudam a coordenar ações altamente ilegais como forma de armadilha — isso é algo absolutamente a se prestar atenção dentro de assembleias públicas e espaços fechados para planejamento e preparação. Mas isso não ocorre no meio de um protesto ativo. Como qualquer veterano das lutas políticas nos Estados Unidos pode dizer, os policiais à paisana colocados no meio dos protestos quase sempre têm a tarefa de gravar secretamente, comunicar-se com a polícia do outro lado e, em certos casos, deter participantes que se preparam para atirar objetos ou empunhar armas. Em outras palavras, os policiais à paisana desempenham praticamente a mesma função que os próprios ativistas informantes. O objetivo final do mito do agente provocador é, portanto, fazer com que os ativistas desempenhem o papel de contra-insurgentes.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Estamos em desvantagem…”</h3>
<p style="text-align: justify;">A mentira final afirma que, mesmo que tentássemos, não há como revidar. Essa é a desculpa já mobilizada pelo prefeito, que justificou não mobilizar a polícia para impedir ou investigar os mercenários com alegações de que o ICE superaria em número e armamento as forças policiais locais. <strong>[25]</strong> Da mesma forma, o governador sabe que chamar a Guarda Nacional contra uma agência federal seria um ato criminoso, resultando na federalização das tropas estaduais, o que, se resultar em divisões nas cadeias de comando, é convencionalmente visto como o caminho mais provável para confrontos entre as forças estaduais e federais e, portanto, o início de uma guerra civil — como é explicado em um artigo amplamente compartilhado que documenta simulações de potenciais conflitos civis, realizadas por acadêmicos da Universidade da Pensilvânia. [26] No entanto, todas essas considerações são incapazes de compreender dois fatos cruciais. Primeiro, elas aceitam a suposta oposição entre “democratas” e “republicanos” tal como essa se apresenta e, assim, superestimam a disposição dos políticos locais — muitos financiados por exatamente os mesmos interesses corporativos que Trump — de se comprometerem com qualquer coisa que se assemelhe remotamente a uma resistência significativa a uma invasão federal. Segundo, eles assumem que a resistência deve vir de dentro do próprio estado, talvez apoiada por instituições afiliadas, como sindicatos e organizações sem fins lucrativos. Ao fazer isso, eles ignoram completamente o papel de uma população mobilizada.</p>
<p style="text-align: justify;">A perspectiva de uma guerra civil real surge quando conflitos materiais estabelecidos entre as elites coincidem com a agitação popular, permitindo que esta última sirva de veículo para os primeiros. As guerras civis podem escalar para conflitos revolucionários quando sua dimensão popular é organizada independentemente dessas elites e assume um caráter partisan <strong>[*]</strong> — ou seja, que busca não apenas uma redistribuição de bens ou direitos dentro do sistema existente, mas a transformação social desse próprio sistema, em direção a fins emancipadores. No momento, os conflitos entre grupos de elite não são suficientes para incentivar qualquer rebelião liderada por políticos locais. É muito improvável que o conflito simulado entre as forças estaduais e federais realmente ocorra, a menos que seja desencadeado de fora, ou seja, pela agitação popular vinda de baixo. E é precisamente aí que as previsões existentes falham, recusando-se a levar em conta a perspectiva de um conflito mais geral, em toda a sociedade, com as forças de ocupação. A realidade que os políticos liberais estão tentando desesperadamente disfarçar é que o povo supera em número a força invasora, que o poder das elites econômicas por trás de Trump depende dos trabalhadores e que, mesmo que minimamente organizados, esses trabalhadores têm, portanto, a capacidade de derrotar a invasão por conta própria.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158690 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota da tradução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">[*] Para Phil A. Neel, partisan refere-se ao indivíduo ou grupo que participa ativamente nas lutas que emergem de conflitos de classe cotidianos e localizados. Trata-se, portanto, do projeto comunista que visa intervir diretamente nas lutas, e não teorizar o movimento de forma abstrata. Ver “Teoria do Partido” (disponível em <a href="https://antipoda.comrades.sbs/traducao/2025/09/21/teoriadopartido.html" target="_blank" rel="noopener">Antípoda</a> ).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas do autor</strong></p>
<p style="text-align: justify;">1.Peter Hart, “Trump’s Attacks on Jobs Numbers Are Noise – And Still Dangerous”, Center for Economic and Policy Research, 23 de setembro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">2. Leila Bengali, Ingrid Chen, Addie New-Schmidt e Nicolas Petrosky-Nadeau, “The Recent Slowdown in Labor Supply in Demand”, Federal Reserve Bank of San Francisco, 12 de janeiro de 2026. Figura 4.</p>
<p style="text-align: justify;">3. Kilat Fitzgerald, “North Minneapolis ICE shooting: Children hospitalized after flash bang, tear gas hits van”, Fox9 KMSP, 15 de janeiro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">4. Identificando essa resposta desde o início, Idris Robinson afirmou a verdade: “De fato, uma revolta militante ocorreu em todo o país. A ala progressista da contra-insurgência visa negar e desarticular esse acontecimento.” (“How it Might Should be Done”, Ill Will, 16 de janeiro de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">5. Eric Levitz, “The Obama Administration’s $1 Billion Giveaway to the Private Prison Industry”, New York Magazine Intelligencer, 15 de agosto de 2016 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">6. Ingrid Burrington, “A Visit to the NSA’s Data Center in Utah”, The Atlantic, 19 de novembro de 2015. Disponível online aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">7. Palantir, “Sobre a Palantir”, Palantir, 21 de agosto de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">8. Joseph Cox, “‘ELITE’: The Palantir App ICE Uses to Find Neighborhoods to Raid”, 404 Media, 15 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">9. Lawfare, “Trump Administration Litigation Tracker”, Lawfare, 20 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">10. Luke Barr, “ICE memo allows agents to enter homes without judicial warrant: Whistleblower complaint”, ABC News, 22 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">11. Adrian Wohlleben, “Revolts Without Revolution”, Ill Will, 14 de novembro de 2025 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">12. Mychal Denzel Smith, “‘Abolish ICE’ Is More Popular Than Ever. How Will Democrats Drop the Ball This Time?”, The Intercept, 18 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">13. Aziz Huq, “America is Watching the Rise of a Dual State”, The Atlantic, 23 de março de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">14. Sharon Zhang, “Top 15 US Billionaires Gained Nearly $1 Trillion in Wealth in Trump’s First Year”, Truthout, 7 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">15. Marcus Nunes, “The Great Reconcentration: Why America’s Ultra-Wealthy Now Control 12% of National Wealth”, Money Fetish, 20 de janeiro de 2026. Disponível online aqui. (O número citado por Nunes 2026 usa a metodologia estabelecida em: Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, “The Rise of Income and Wealth Inequality in America: Evidence from Distributional Macroeconomic Accounts”, Journal of Economic Perspectives, 34(4), outono de 2020 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">16. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">17. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">18. Joseph Nunn, Elizabeth Goitein, “Guide to Invocations of the Insurrection Act”, Brennan Center for Justice, 25 de abril de 2022 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">19. Ian Vandewalker, “Unprecedented Big Money Surge for Super PAC Tied to Trump”, Brennan Center for Justice, 5 de agosto de 2025. Disponível online aqui; People’s Action, “UnitedHealth Will Be a Top Beneficiary of Trump’s Project 2025”, People’s Action, 15 de outubro de 2024 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">20. KPFA, “The Hidden Side of Target: Surveillance, Policing, and a Call for Scrutiny”, KPFA, 20 de fevereiro de 2025. Disponível online aqui; Mike Hughlett, “Target gave $1M to Trump inauguration fund, a first for the company”, The Minnesota Star Tribune, 29 de abril de 2025 (disponível online aqui); Louis Casiano, “Anti-ICE agitators occupy Minnesota Target store, demand retailer stop helping federal agents”, Fox News, 19 de janeiro de 2026 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">21. Dave Zirin, “The Fiction of the ‘Outside Agitator”, The Nation, 3 de maio de 2024 (online aqui); Code Switch, “Unmasking the ‘Outside Agitator’”, NPR, 10 de junho de 2020 (online aqui); Glenn Houlihan, “The ‘Outside Agitator’ Is a Myth Used to Weaken Protest Movements”, In These Times, 3 de junho de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">22. Logan Anderson, “Who was Umbrella Man, who smashed windows before ‘first fire’ in 2020 Minneapolis protests?”, The Minnesota Star Tribune, 30 de maio de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">23. Mike Carter, “CHOP protester who pleaded guilty to arson was Manuel Ellis’ housemate, lawyer says”, The Seattle Times, 9 de junho de 2021 (online aqui); Procuradoria dos Estados Unidos, “Tacoma man sentenced to two years in prison for early morning fire in ‘CHOP’ zone”, United States Attorney’s Office Western District of Washington, 5 de outubro de 2021 (online aqui). 24. Para uma visão geral dos protestos em Atlanta, consulte: Anônimo, “At the Wendy’s: Armed Struggle at the End of the World”, Ill Will, 9 de novembro de 2020 (online aqui). Para saber mais sobre as consequências legais, consulte: Kate Brumback, “2 Plea Guilty in Fire at Atlanta Wendy’s During Protest After Rayshard Brooks Killing”, Claims Journal, 7 de dezembro de 2023 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">25.Tim Miller e Anne Applebaum, “Anne Applebaum and Jacob Frey: Using Lies to Justify Violence”, The Bulwark, 9 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">26.Claire Finkelstein, “We ran high-level US civil war simulations. Minnesota is exactly how they start”, The Guardian, 21 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p>&nbsp;</p>
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