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	<title>Govs_nacionais_e_internacionais &#8211; Passa Palavra</title>
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		<title>Irã e Gaza são apenas o começo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 17:23:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[ A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. Por Chris Hedges]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Chris Hedges</h3>
<p style="text-align: justify;">O genocídio em Gaza é o começo. Bem-vindo à nova ordem mundial. A era da barbárie tecnologicamente avançada. Não existem regras para os fortes, apenas para os fracos. Oponha-se ao forte, recuse-se a curvar-se às suas exigências caprichosas e você receberá uma chuva de mísseis e bombas. Assistimos a essa loucura diariamente com a guerra contra o Irã, o bombardeio de saturação do sul do Líbano e o sofrimento em Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Órgãos internacionais como as Nações Unidas foram castrados, transformados em apêndices inúteis de outra época. A santidade dos direitos individuais, as fronteiras abertas e o direito internacional desapareceram. Os governantes mais psicopatas da história humana, aqueles que reduziram cidades a cinzas, que levaram populações aprisionadas a locais de execução e a terras desvastadas que ocuparam com valas e cadáveres em massa, voltaram com uma vingança, abrindo um vasto abismo moral.</p>
<p style="text-align: justify;">A lei, apesar de alguns esforços valentes de um punhado de juízes &#8212; que em breve serão expurgados &#8212;, internamente e em organismos internacionais como o Tribunal Internacional de Justiça, é desprezada e violada. Selvageria no exterior. Selvagem em casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Lucy Williamson, da BBC, relata que Israel está destruindo o sul do Líbano “usando Gaza como modelo &#8212; um plano para destruição usado novamente como um caminho para a paz”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de 1 milhão de pessoas já foram deslocadas no Líbano &#8212; um quinto de toda a população de um país que já abriga o maior número mundial de refugiados per capita &#8212; em apenas algumas semanas. Some-se a isso 2 milhões de deslocados em Gaza e 3 milhões de deslocados no Irã. 6 milhões de pessoas ficaram desabrigadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por quatro décadas, o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tem pressionado para que os EUA entrem em guerra com o Irã. As administrações anteriores, Republicanas e Democratas, recusaram, em grande parte por causa da oposição feroz dentro do Pentágono, que não via o Irã como uma ameaça existencial e não projetava um resultado positivo para os EUA ou seus aliados regionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Donald Trump, encorajado por sua equipe de negociação inepta de seu genro Jared Kushner e seu colega empresário imobiliário e parceiro de golfe Steve Witkoff, ambos fervorosos sionistas, mordeu a isca de Israel. O conselheiro de segurança nacional da Grã-Bretanha, Jonathan Powell, que participou das negociações finais entre os EUA e o Irã, considerou Kushner e Witkoff como “ativos israelenses”.</p>
<p style="text-align: justify;">Joseph Kent, que renunciou ao cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo para protestar contra a guerra, escreveu em sua carta de renúncia que “o Irã não representava ameaça iminente para nossa nação, e é claro que começamos essa guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby americano”.</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica pública para a guerra contra o Irã desde que começou em 28 de fevereiro tem sido proteana. É para encerrar o programa nuclear do Irã? É para frustrar o programa de mísseis balísticos do Irã? É porque os EUA realizaram ataques preventivos contra o Irã, como disse Marco Rubio, para garantir a segurança dos ativos dos EUA uma vez que Israel decidiu atacar? É porque o governo iraniano realizou uma repressão letal, matando centenas de manifestantes antigoverno durante protestos de rua massivos? É mudança de regime? É uma tentativa de encerrar o chamado terrorismo patrocinado pelo Estado do Irã? Ou esses subterfúgios servem a outro propósito?</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente, Israel e os EUA buscam mudança de regime. Mas aqui parece que os EUA e Israel divergem. Israel também aparentemente procura, como no Iraque, Síria, Líbia e Líbano, a desintegração física do Irã, a quebra do país em enclaves étnicos e religiosos em guerra, a transformação do Irã em um Estado falido.</p>
<p style="text-align: justify;">Os persas no Irã constituem cerca de 61% da população com vários grupos minoritários, que muitas vezes sofrem repressão estatal, representando os 39% restantes. Esses grupos étnicos incluem azerbaijanos, curdos, amantes, balochs, árabes e turcomanos, juntamente com minorias religiosas como sunitas, cristãos, bahá&#8217;ís, zoroastristas e judeus. A quebra do Irã em enclaves étnicos e religiosos antagônicos deixaria Israel como a potência dominante na região, dando-lhe a capacidade de, se não ocupar seus vizinhos diretamente, controlá-los e subjugá-los através de proxies, parte de um desejo de longa data de uma Grande Israel. Também tornaria possível que os Estados estrangeiros controlassem as reservas de gás iranianas, a segunda maior do mundo, e suas reservas de petróleo, 12% do total global.</p>
<p style="text-align: justify;">A cruzada de Israel contra os palestinos, os libaneses e agora os iranianos é justificada pelo extermínio de 6 milhões de judeus durante o Holocausto. Mas não passa despercebido no Sul Global, especialmente entre palestinos, que quase todos os estudiosos do Holocausto se recusaram a condenar o genocídio em Gaza. Nenhuma das instituições dedicadas a pesquisar e rememorar o Holocausto traçou os óbvios paralelos históricos ou criticou o massacre em massa.</p>
<p style="text-align: justify;">Estudiosos do Holocausto, com um punhado de exceções, expuseram seu verdadeiro propósito, que não é examinar o lado sombrio da natureza humana e a propensão assustadora que todos nós temos a cometer o mal, mas santificar os judeus como vítimas eternas e absolver o estado etnonacionalista de Israel de seus crimes de colonialismo de assentamento, apartheid e genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">O sequestro do Holocausto, o fracasso em defender as vítimas palestinas porque elas são palestinas, implodiu a autoridade moral dos estudos do Holocausto e dos memoriais do Holocausto. Eles foram expostos como veículos não para evitar o genocídio, mas para perpetrá-lo, não para explorar o passado, mas para manipular o presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer reconhecimento tépido de que o Holocausto pode não ser propriedade exclusiva de Israel e seus partidários sionistas é rapidamente encerrado. O Museu do Holocausto em Los Angeles excluiu, depois de uma reação, um post no Instagram que dizia: “NUNCA MAIS NÃO PODE APENAS SIGNIFICAR NUNCA MAIS PARA <abbr title="Operating System">OS</abbr> JUDEUS”. Nas mãos dos sionistas, “nunca mais” significa precisamente isso, nunca mais, <em>apenas</em> <em>para os judeus</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158963" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg" alt="" width="752" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-300x238.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-529x420.jpg 529w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-640x508.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-681x541.jpg 681w" sizes="(max-width: 752px) 100vw, 752px" />Aimé Césaire, em <em>Discurso sobre o Colonialismo</em>, escreve que Hitler parecia excepcionalmente cruel apenas porque presidia “a humilhação do homem branco”, aplicando à Europa os “procedimentos colonialistas que até então haviam sido reservados exclusivamente para os árabes da Argélia, as &#8216;coolies&#8217; da Índia e os negros da África”.</p>
<p style="text-align: justify;">A quase aniquilação da população aborígene da Tasmânia, o massacre alemão do Herero e Namaqua, o genocídio armênio, a fome de Bengala de 1943 &#8212; então o Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill se referiu aos hindus como “um povo animalesco com uma religião animalesca” &#8212; juntamente com o lançamento de bombas nucleares em alvos civis em Hiroshima e Nagasaki, ilustra algo fundamental sobre “a civilização ocidental”.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio não é uma anomalia, é codificado no DNA da “civilização” ocidental.</p>
<p style="text-align: justify;">“Na América”, disse o poeta Langston Hughes, “não é preciso dizer aos negros o que é o fascismo em ação. Nós sabemos. Suas teorias da supremacia nórdica e da supressão econômica há muito tempo são realidades para nós”.</p>
<p style="text-align: justify;">Os nazistas, quando formularam as leis de Nuremberg, usaram como modelo as leis destinadas a oprimir os negros. A recusa dos Estados Unidos em conceder cidadania a nativos americanos e filipinos &#8212; embora vivessem nos EUA e nos territórios dos EUA &#8212; foi imitada pelos fascistas alemães que retiraram a cidadania dos judeus. As leis antimiscigenação americanas, que criminalizavam o casamento inter-racial, foram a influência para proibir casamentos entre judeus alemães e arianos. A jurisprudência americana classificou qualquer pessoa com um por cento da ascendência negra &#8212; a chamada “regra de uma gota” &#8212; como negra. Os nazistas, ironicamente mostrando mais flexibilidade, classificaram qualquer pessoa com três ou mais avós judeus como judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Os milhões de vítimas indígenas de projetos coloniais em países como México, China, Índia, Austrália, Congo e Vietnã, por essa razão, são surdas para as afirmações dos judeus de que sua vitimização é única. Eles também sofreram holocaustos, mas esses holocaustos permanecem minimizados ou não reconhecidos por seus perpetradores ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">Israel encarna o Estado etnonacionalista que nossos fascistas cristãos e a extrema-direita sonham em criar para si mesmos, que rejeita o pluralismo político e cultural, bem como as normas legais, diplomáticas e éticas. Israel é admirado pela extrema-direita porque virou as costas para o direito humanitário e usa força letal indiscriminada para “limpar” sua sociedade daqueles condenados como contaminadores humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi essa distorção do Holocausto como único que incomodou Primo Levi, preso em Auschwitz de 1944 a 1945 e que escreveu livros sobre a sobrevivência em Auschwitz. Levi foi um crítico feroz do Estado de apartheid de Israel e seu tratamento aos palestinos. Ele viu a Shoah [Holocausto] como “uma fonte inesgotável do mal” que “é perpetuada como ódio nos sobreviventes, e brota de mil maneiras, contra a própria vontade de todos, como uma sede de vingança, como colapso moral, como negação, como cansaço, como resignação”.</p>
<p style="text-align: justify;">Levi deplorou o maniqueísmo daqueles que “evitam nuances e complexidade”. Ele condenou aqueles que “reduzem o rio dos acontecimentos humanos a conflitos, e conflitos a duelos, nós e eles”. Ele alertou que a “rede de relações humanas dentro dos campos de concentração não era simples: não poderia ser reduzida a dois blocos, vítimas e perseguidores”. O inimigo, ele sabia, “estava do lado de fora, mas também dentro”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mordechai Chaim Rumkowski, conhecido como “Rei Chaim”, governou o gueto de Łódź na Polônia em nome dos ocupantes nazistas. O gueto tornou-se um campo de trabalho escravo que enriqueceu Rumkowski e seus senhores nazistas. Rumkowski deportou opositores para campos de extermínio. Estuprou e molestou meninas e mulheres. Exigiu obediência inquestionável. Incorporou o mal de seus opressores. Para Levi, ele foi um exemplo do que muitos de nós, em circunstâncias semelhantes, somos capazes de se tornar.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos todos refletidos em Rumkowski, sua ambiguidade é nossa, é a nossa segunda natureza, nós híbridos moldados a partir de argila e espírito”, escreveu Levi <em>em Os Afogados e os Sobreviventes.</em> “Sua febre é nossa, a febre de nossa civilização ocidental que &#8216;desce no inferno com trombetas e tambores&#8217;, e seus adornos miseráveis são a imagem distorcida de nossos símbolos de prestígio social”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Como Rumkowski, nós também estamos tão deslumbrados com o poder e o prestígio a ponto de esquecer nossa fragilidade essencial”, continuou Levi. “De bom grado ou não chegamos a um acordo com o poder, esquecendo que estamos todos no gueto, que o gueto está murado, que fora do gueto reinam os senhores da morte, que espera próxima ao trem.”</p>
<p style="text-align: justify;">Levi entendeu que a linha entre a vítima e o vitimizador é fina. Todos nós podemos nos tornar carrascos dispostos. Não há nada intrinsecamente moral sobre ser judeu ou um sobrevivente do Holocausto. Levi, por essa razão, era <em>persona non grata</em> em Israel.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Os sionistas encontram no Holocausto e no Estado judeu um senso de propósito e significado, bem como uma superioridade moral nauseante. Após a guerra de 1967, quando Israel tomou Gaza, a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, as Colinas de Golã da Síria e a Península do Sinai do Egito, Israel, como observou o sociólogo americano Nathan Glazer de forma aprovadora, tornou-se “a religião dos judeus americanos”. O Holocausto tornou-se o seu “capital moral”.</p>
<p style="text-align: justify;">“O sofrimento judaico é retratado como inefável, incomunicável e, no entanto, algo sempre a ser proclamado”, escreve o historiador europeu Charles S. Maier, em <em>The Unmasterable Past: History, Holocaust, and German National Identity</em>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">É intensamente privado, não para ser diluído, mas simultaneamente público para que a sociedade gentil confirme os crimes. Um sofrimento muito peculiar deve ser consagrado em locais públicos: museus do Holocausto, jardins de memória, locais de deportação, dedicados não como memoriais judeus, mas cívicos. Mas qual é o papel de um museu em um país, como os Estados Unidos, longe do local do Holocausto? É para reunir as pessoas que sofreram ou para instruir não-judeus? É suposto servir como um lembrete de que “pode acontecer aqui?” Ou é uma afirmação de que alguma consideração especial é merecida? Sob que circunstâncias uma tristeza privada pode servir simultaneamente como uma dor pública? E se o genocídio é certificado como uma tristeza pública, então não devemos aceitar as credenciais de outras tristezas particulares também? Um historiador americano de ascendência polonesa argumenta que, com a invasão alemã de 1939, os poloneses se tornaram os primeiros povos da Europa a experimentar o Holocausto e que os historiadores até agora “escolheram interpretar a tragédia em termos exclusivistas &#8212; ou seja, como o período mais trágico da história da Diáspora judaica”. Se os poloneses americanos reivindicam seu próprio “Holocausto esquecido”, que reconhecimento eles devem desfrutar? Os armênios e os cambojanos também têm o direito de financiar publicamente museus de holocausto? E precisamos de memoriais para adventistas do sétimo dia e homossexuais por sua perseguição nas mãos do Terceiro Reich?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O sofrimento único confere um direito único.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer crime que Israel realize em nome de sua sobrevivência &#8212; seu “direito de existir” &#8212; é justificado em nome dessa singularidade. Não há limites. O mundo é preto e branco, uma batalha interminável contra o nazismo, que é proteano, dependendo de quem Israel visa. Desafiar essa sede de sangue é ser um antissemita, facilitando outro genocídio de judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa fórmula simplista não serve apenas os interesses de Israel, mas também os interesses das potências coloniais que realizaram seus próprios genocídios, aqueles que eles também procuram obscurecer.</p>
<p style="text-align: justify;">A sacralização do Holocausto nazista oferece um <em>quid pro quo</em> bizarro. Armar e financiar o Estado de Israel, bloqueando resoluções e sanções da ONU que condenariam seus crimes e demonizar os palestinos e seus apoiadores se tornam prova de expiação e apoio aos judeus. Israel, em troca, absolve o Ocidente de sua indiferença à situação dos judeus durante o Holocausto, e a Alemanha por perpetrá-lo. A Alemanha usa essa aliança profana para separar o nazismo do resto da história alemã, incluindo o genocídio que os colonos alemães realizaram contra os Nama e Herero no sudoeste alemão da África, agora na Namíbia.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tal magia”, escreve o israelense historiador e estudioso do genocídio, Raz Segal, “legitima o racismo contra os palestinos no exato momento em que Israel perpetra o genocídio contra eles. A ideia de singularidade do Holocausto reproduz-se assim em vez de desafiar o nacionalismo excludente e o colonialismo de assentamento que levaram ao Holocausto.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal, diretor do programa de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Stockton, em Nova Jersey, escreveu um artigo sobre a guerra em Gaza em 13 de outubro de 2023, intitulado: “Um caso de genocídio”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa denúncia de um estudioso israelense do Holocausto, cujos familiares morreram no Holocausto, foi uma postura muito solitária.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal viu na exigência imediata do governo israelense que os palestinos evacuassem o norte de Gaza e a demonização dos palestinos por autoridades israelenses &#8212; o Ministro da Defesa disse que Israel estava “combatendo animais humanos” &#8212; o cheiro de genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">“Toda a ideia sobre prevenção e &#8216;nunca mais&#8217; é que &#8212; como ensinamos nossos alunos &#8212; há alertas vermelhos, e que uma vez que os notamos, devemos trabalhar para interromper o processo que pode se transformar em genocídio”, disse-me o professor Segal, “mesmo que ainda não seja genocida”.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal pagou pela sua honestidade. O convite para liderar o Centro de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Minnesota, que não emitiu nenhuma condenação do genocídio, foi revogado.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o professor Segal e eu testemunhamos na capital do estado em Trenton, em oposição à adoção do projeto de lei da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA), que equipara as críticas ao Estado de Israel a antissemitismo, fomos vaiados por sionistas e nossos microfones foram cortados pelo presidente da comissão. Lá estávamos nós, argumentando que esse projeto de lei iria reduzir a liberdade de expressão enquanto ao mesmo tempo nos negavam a liberdade de expressão.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio é a próxima etapa no que o antropólogo, Arjun Appadurai, chama de “uma vasta correção malthusiana mundial” que é “voltada para preparar o mundo para os vencedores da globalização, sem o ruído inconveniente de seus perdedores”.</p>
<p style="text-align: justify;">O financiamento e o armamento de Israel pelos Estados Unidos e pelas nações europeias, enquanto realiza o genocídio, implodiu efetivamente a ordem jurídica internacional pós-Segunda Guerra Mundial. Ela não tem mais credibilidade. O Ocidente não pode mais ensinar ninguém sobre democracia, direitos humanos ou as supostas virtudes da civilização ocidental. O ardil, que de alguma forma nós, como nação, promovemos a democracia, a igualdade e os direitos humanos, está terminado.</p>
<p style="text-align: justify;">“Ao mesmo tempo em que Gaza induz vertigem, um sentimento de caos e vazio, torna-se para inúmeras pessoas impotentes a condição essencial da consciência política e ética no século XXI &#8211; assim como a Primeira Guerra Mundial foi por uma geração no Ocidente”, escreve Pankaj Mishra.</p>
<p style="text-align: justify;">Nenhum de nós que reportou de Israel e Palestina, onde trabalhei como repórter por sete anos, previu esse genocídio. E, no entanto, estávamos cientes do impulso genocida que estava no coração do projeto sionista &#8212; o desejo de grandes segmentos da sociedade israelense de erradicar e expulsar todos os palestinos. Esse impulso genocida estava lá desde o início do sionismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Victor Klemperer, professor de linguística e filho de um rabino de Berlim que viveu sob o domínio nazista, observou em seu diário: “Para mim, os sionistas, que querem voltar para o estado judeu de 70 d.C. (destruição de Jerusalém por Tito), são tão ofensivos quanto os nazistas. Com sua sede de sangue, suas antigas “raízes culturais”, sua visão de mundo ora hipócrita, ora obtusa, eles são páreo para os nacional-socialistas”.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Cobri o rabino extremista Meir Kahane, que afirmava que a violência era uma virtude judaica, e a vingança, um mandamento divino. Quando eu estava baseado em Israel, ele foi impedido pelo governo israelense de se candidatar a cargos públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Kahane foi assassinado em 5 de novembro de 1990, na cidade de Nova York. Seu partido, o Kach, foi declarado ilegal em Israel quatro anos depois, após Baruch Goldstein, um médico nascido no Brooklyn e membro do Kach, entrar na Mesquita de Ibrahimi, em Hebron, e abrir fogo contra os fiéis, matando 29 palestinos. Goldstein, vestido com seu uniforme de capitão do exército, foi dominado pelos fiéis e espancado até a morte. Fui enviado pelos meus editores em Nova York para entrevistar os sobreviventes. Quando receberam o material, insistiram para que eu fizesse mais entrevistas com colonos judeus que justificassem as queixas de Goldstein contra os palestinos, parte do jogo de equilíbrio, mas na verdade parte do esforço para obscurecer a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">O Kach, após suas declarações de apoio ao massacre, foi declarado uma organização terrorista pelos Estados Unidos. Mas o kahanismo não morreu. Foi nutrido por extremistas judeus e colonizadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A intolerância racial de Kahane e seus apelos à violência em massa contra os palestinos contaminaram segmentos cada vez maiores da sociedade israelense. Encontrou aceitação quase universal após os ataques de 7 de outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhei essa intolerância em comícios políticos realizados por Netanyahu, que recebeu financiamento generoso de americanos de direita associados ao AIPAC, quando concorreu contra Yitzhak Rabin, que negociava um acordo de paz com os palestinos. Os apoiadores de Netanyahu entoavam slogans inspirados por Kahane, como “Morte aos árabes” e “Morte a Rabin”. Queimaram uma efígie de Rabin vestida com um uniforme nazista. Netanyahu marchou em frente a um funeral simulado para Rabin.</p>
<p style="text-align: justify;">Rabin foi assassinado por um fanático judeu em 4 de novembro de 1995.</p>
<p style="text-align: justify;">Netanyahu, que se tornou Primeiro-Ministro pela primeira vez em 1996, passou sua carreira política cultivando esses extremistas judeus, incluindo Itamar Ben-Gvir, que tinha um retrato de Goldstein na parede de sua sala de estar, Bezalel Smotrich, Avigdor Lieberman, Gideon Sa&#8217;ar e Naftali Bennett.</p>
<p style="text-align: justify;">O pai de Netanyahu, Benzion, que trabalhou como assistente do fundador do sionismo revisionista, Vladimir Jabotinsky, e foi chamado por Benito Mussolini de “um bom fascista”, foi um líder do Partido Herut, que defendia que Israel se apropriasse de todas as terras da Palestina histórica. Muitos dos membros do Partido Herut realizaram ataques terroristas durante a guerra de 1948 que estabeleceu o Estado de Israel. Albert Einstein, Hannah Arendt, Sidney Hook e outros intelectuais judeus descreveram o Partido Herut, em uma declaração publicada no New York Times, como um partido “muito semelhante, em sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, aos partidos nazistas e fascistas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre houve uma vertente virulenta de fascismo judaico dentro do projeto sionista, espelhando a vertente do fascismo na sociedade americana. Infelizmente, para nós e para os palestinos, essas vertentes fascistas estão em ascensão.</p>
<p style="text-align: justify;">A decisão de obliterar Gaza tem sido, há muito tempo, o sonho dos sionistas de extrema-direita, herdeiros do movimento de Kahane. A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. A supremacia judaica é santificada por Deus, assim como o massacre dos palestinos, que Netanyahu comparou aos amalequitas bíblicos, massacrados pelos israelitas. Europeus e euro-americanos nas colônias americanas usaram a mesma passagem bíblica para justificar o genocídio contra os nativos americanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os inimigos — geralmente muçulmanos — destinados à extinção são subumanos que personificam o mal. A violência e a ameaça de violência são as únicas formas de comunicação compreendidas por aqueles que estão fora do círculo mágico do nacionalismo judaico.</p>
<p style="text-align: justify;">A redenção messiânica ocorrerá assim que os palestinos forem expulsos. Extremistas judeus exigem a demolição da Mesquita de Al-Aqsa, um dos três locais mais sagrados para os muçulmanos, supostamente construída sobre as ruínas do Segundo Templo Judaico, destruído em 70 d.C. pelo exército romano. Esses extremistas defendem sua substituição por um “Terceiro” Templo Judaico, uma medida que incendiaria o mundo muçulmano. A Cisjordânia, que os fanáticos chamam de “Judeia e Samaria”, está sendo anexada por Israel. Israel, governado por leis religiosas impostas pelos partidos ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torá, em breve espelhará a teocracia despótica do Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">James Baldwin previu, de forma profética, essa regressão à nossa barbárie inata. Ele alertou que havia uma “terrível probabilidade” de que “as populações ocidentais, lutando para manter o que roubaram de seus cativos e incapazes de se olhar no espelho, precipitarão um caos em todo o mundo que, se não acabar com a vida neste planeta, provocará uma guerra racial como o mundo jamais viu, e pela qual gerações ainda por nascer amaldiçoarão nossos nomes para sempre”.</p>
<p style="text-align: justify;">A selvageria no Irã, no Líbano e em Gaza é a mesma selvageria que enfrentamos em casa. Aqueles que perpetram o genocídio, o massacre e a guerra não provocada contra o Irã são as mesmas pessoas que desmantelam nossas instituições democráticas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158962" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg" alt="" width="793" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-220x300.jpg 220w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-752x1024.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-768x1046.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-308x420.jpg 308w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-640x872.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-681x927.jpg 681w" sizes="(max-width: 793px) 100vw, 793px" />Os iranianos, libaneses e palestinos sabem que não há como apaziguar esses monstros. As elites globais não acreditam em nada. Não <em>sentem</em> nada. Não se pode confiar nelas. Eles exibem as características essenciais de todos os psicopatas — charme superficial, grandiosidade e presunção, necessidade de estímulo constante, propensão à mentira, ao engano, à manipulação e incapacidade de sentir remorso ou culpa. Desprezam, considerando fraquezas, as virtudes da empatia, da honestidade, da compaixão e do altruísmo. Vivem segundo o lema “Eu. Eu. Eu.”</p>
<p style="text-align: justify;">“O fato de milhões de pessoas compartilharem os mesmos vícios não os torna virtudes, o fato de compartilharem tantos erros não os torna verdades, e o fato de milhões de pessoas compartilharem as mesmas formas de patologia mental não as torna sãs”, escreveu Erich Fromm em “The Sane Society”.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhamos o mal por quase três anos em Gaza. Observamos agora no Irã. Observamos no Líbano. Vemos esse mal sendo justificado ou mascarado por líderes políticos e pela mídia.</p>
<p style="text-align: justify;">O The New York Times, num gesto digno de Orwell, enviou um memorando interno instruindo repórteres e editores a evitarem os termos “campos de refugiados”, “território ocupado”, “limpeza étnica” e, claro, “genocídio” ao escreverem sobre Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqueles que nomeiam e denunciam esse mal, incluindo os estudantes heroicos que montaram acampamentos em campis universitários aqui e no exterior, são difamados, colocados em listas negras e expurgados. São presos e deportados. Um silêncio ensurdecedor se abate sobre nós, o silêncio de todos os Estados autoritários. Sabemos onde isso termina. Deixe de cumprir seu dever, deixe de apoiar a guerra contra o Irã, de se manifestar contra o crime de genocídio e veja sua licença de transmissão revogada, como propôs Brendan Carr, presidente da FCC (Comissão Federal de Comunicações) de Trump.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos inimigos. Eles não estão na Palestina. Eles não estão no Líbano. Eles não estão no Irã. Eles estão aqui. Entre nós. Eles ditam nossas vidas. Eles são traidores dos nossos ideais. Eles são traidores do nosso país. Eles vislumbram um mundo de escravos e senhores. Gaza é apenas o começo. Não existem mecanismos internos para a reforma. Podemos obstruir ou nos render.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são as únicas opções que nos restam.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Chris Hedges é jornalista estadunidense, autor de vários livros, entre os quais, </em>American Fascists<em> e </em>Death of the Liberal Class<em>.</em></strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Traduzido do original em: <a class="urlextern" title="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" href="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning</a></p>
</blockquote>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="size-thumbnail wp-image-158961 alignnone" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/abed_abdi_haifa-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As obras que ilustram o artigo são do artista palestino Abed Abdi (1942 &#8212;)</em></p>
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		<title>Velha Toupeira (40)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Mar 2026 12:30:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158886" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP.jpg" alt="" width="2362" height="787" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP.jpg 2362w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-1261x420.jpg 1261w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2362px) 100vw, 2362px" /></p>
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		<title>Em defesa do globalismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Mar 2026 14:57:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[A multipolaridade é uma resposta “contrarrevolucionária” ao globalismo. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Primo Jonas</h3>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo está em constante evolução, sempre mais focado no lucro de hoje do que no de amanhã. Mas algo preocupante se avizinha: a queda nas taxas de natalidade em todas as principais economias do mundo. Uma força de trabalho cada vez menor e uma população idosa crescente representam um cenário de grande incerteza para as operações econômicas como um todo. Um problema global exige uma solução global?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Multipolaridade vs. Multilateralismo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos anos, e especialmente desde o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA, o conceito de multipolaridade tem sido amplamente utilizado para descrever a nova etapa da nossa sociedade global. De modo geral, trata-se de um mundo que está deixando para trás a “unipolaridade” &#8211; quando os EUA atuavam como a “polícia global” &#8211; e dando lugar a um novo contexto em que outros centros de poder operam como “polícias regionais” em suas esferas de influência. Paradoxalmente, o mundo multipolar contrasta com as relações “multilaterais” que vinham se desenvolvendo no contexto internacional anterior, não sem atritos e conflitos. O multilateralismo pressupõe a disposição de diferentes países em se reunirem para discutir as várias regras da governança global: comércio, conflitos armados, meio ambiente, direito penal, e assim por diante. Mesmo em um contexto regido por uma potência hegemônica moderadora, o multilateralismo visava gerar consenso internacional por meio da participação ativa de países que, individualmente, não possuíam poder de negociação significativo, mas que unidos poderiam alcançar melhores posições para defender seus interesses. <a class="urlextern" title="https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2025/11/em-balanco-lula-ressalta-g20-e-cop30-como-retratos-da-vitalidade-do-multilateralismo" href="https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2025/11/em-balanco-lula-ressalta-g20-e-cop30-como-retratos-da-vitalidade-do-multilateralismo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Lula, o presidente do Brasil, é hoje uma das principais vozes defensoras do multilateralismo</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158826" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/lazar-khidekel-composition.jpg" alt="" width="290" height="470" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/lazar-khidekel-composition.jpg 290w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/lazar-khidekel-composition-185x300.jpg 185w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/lazar-khidekel-composition-259x420.jpg 259w" sizes="auto, (max-width: 290px) 100vw, 290px" />Para melhor compreender o alcance potencial de um mundo multipolar, nada melhor do que ler e acompanhar as ideias de um autor como Alexander Dugin, o fascista russo que defendeu a multipolaridade por décadas como uma forma de organização global para a sociedade humana. Dugin é um verdadeiro visionário, visto que muito do que ele previu desde a década de 1990 se concretizou: a crise interna da União Europeia, a “inviabilidade” do Estado ucraniano, o retorno da religião como organizadora política e a reaproximação entre a esquerda conservadora (“nacional-esquerdista”) e a direita populista. E como Dugin entende o mundo multipolar? Um mundo de “Grandes Espaços” onde cada polo de poder expressa uma civilização e exerce sua influência territorial. Daí o grandioso projeto “eurasiático”, herdeiro direto do Império Russo, que identifica o cristianismo ortodoxo como o eixo unificador da civilização russa e sua hegemonia “suave” sobre todos os povos do território eurasiático. <a class="urlextern" title="https://es.wikipedia.org/wiki/Partido_Nacional_Bolchevique" href="https://es.wikipedia.org/wiki/Partido_Nacional_Bolchevique" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Dugin foi um membro ativo do Partido Nacional Bolchevique</a>, era muito próximo do comunista Gennady Zyuganov na década de 1990, e podemos ver o que essas ideias compartilhadas implicaram no final do livro de Zyuganov sobre <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2022/06/144361/" href="https://passapalavra.info/2022/06/144361/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">o novo papel do Partido Comunista na Rússia após o fim da URSS</a>. Ao definir o mundo que este partido buscaria construir a partir da Rússia, diz que “é muito importante que seus fundamentos não se baseiem em utopias globalistas, mas no equilíbrio geopolítico entre os Grandes Espaços, as civilizações e os &#8216;centros de poder&#8217; <strong>etnoconfessionais</strong>, e na consideração dos legítimos interesses de todos os Estados e povos, grandes e pequenos” (Rússia e o Mundo Contemporâneo, 1996).</p>
<p style="text-align: justify;">Como cada “Grande Espaço” é a expressão de uma civilização, um centro de poder “etnoconfessional”, os proponentes da multipolaridade abraçaram o pós-modernismo em toda a sua força. Se não existe uma verdade universal, mas apenas aquela imposta pelo poder, não há outro caminho senão reconhecer a verdade de cada civilização separadamente, salvaguardando o poder <em>de facto</em> por compreendê-lo como respeito pela cultura, religião e episteme próprias de cada Grande Espaço. É por isso que os ideólogos dessa nova direita escolheram o globalismo como um de seus principais inimigos, identificando-o com o “liberalismo ocidental” que historicamente secularizou a sociedade, igualou homens e mulheres, criou organizações internacionais, defende (pelo menos retoricamente) os direitos humanos e o meio ambiente, suavizou o espírito belicoso da humanidade e agora busca despovoar o planeta.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As condições materiais do globalismo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Na disciplina das Relações Internacionais uma “teoria da Governança Global” <strong>[1]</strong> tem sido debatida nas últimas décadas, produto da ascensão de organizações internacionais, ONGs, corporações transnacionais e outros atores que excediam a forma dos governos e dos Estados-nações. Martin Hewson, em um texto de 1999, relaciona algumas mudanças nas esferas da governança às práticas de informação e conhecimento. Por exemplo, os sistemas postais ou de imprensa, que no início da Idade Moderna eram organizados na Europa em torno de eixos “geopolíticos” com ênfase na conexão entre os centros de poder da região, relegavam grandes porções do território a organizações municipais de pequena escala. Esses sistemas ainda não estavam organizados sob uma lógica propriamente “nacional”. Foi no século XIX, com a estabilização dos Estados-nações, que o sistema de selos e preços dos serviços postais foi unificado em muitos países europeus. Essa integração das comunicações dentro de uma estrutura de governança nacional rapidamente deu lugar, em 1865, a uma nova etapa: a <a class="urlextern" title="https://www.itu.int/" href="https://www.itu.int/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">União Internacional de Telecomunicações (UIT)</a> foi fundada para gerenciar as primeiras redes telegráficas internacionais, sendo a organização mais antiga que hoje faz parte da estrutura da ONU. Também no século XIX as agências nacionais de estatística começaram a operar de forma constante e ativa (nos EUA, Inglaterra e França), coletando e publicando dados nacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">De acordo com o modelo de Hewson, esses processos ilustram as duas primeiras etapas, condições necessárias para a terceira, onde de fato vemos a emergência da globalização como um fenômeno tecno-informacional. Primeiro, a interconexão da infraestrutura de telecomunicações (técnica ou institucional) entre diferentes Estados e territórios. Em seguida veio a utilização dessa infraestrutura para a troca de dados, informações e conhecimentos relacionados a diferentes áreas nacionais. A terceira etapa é caracterizada por um salto em direção a um espaço verdadeiramente global para a concepção, execução e produção de informações. Naquela época de grande entusiasmo pelo intercâmbio e cooperação internacional de ideias, anterior à Primeira Guerra Mundial, foi criado o Instituto Internacional de Agricultura (1905), com a missão de gerar estatísticas globais e recursos técnicos em diferentes idiomas para apoiar as atividades agrícolas realizadas em qualquer lugar do mundo. Algumas décadas antes foi criada a Organização Meteorológica Internacional (1873), que começou com o propósito de trocar informações nacionais, já que a disciplina incipiente ainda se propunha estudar os recortes nacionais do firmamento. No entanto, como o livro <em>A Vast Machine</em> (Paul Edwards, 2010) ilustra de forma impressionante, durante o século XX meteorologistas e climatologistas desenvolveram um conceito verdadeiramente global de seu objeto de estudo, diante da impossibilidade de isolar um único ponto no planeta para estudar seu clima. A aplicação de princípios matemáticos levou ao desenvolvimento dos primeiros modelos numéricos e supercomputadores foram desenvolvidos para processá-los (a partir da década de 1950, com a participação do físico e matemático John von Neumann). Esses novos modelos numéricos de clima constroem uma epistemologia “globalista”, uma vez que o processo de modelagem requer valores numéricos para todo os pontos do sistema-planeta (mesmo que aproximados ou estimados). Isso só é aplicável se assumirmos que todos os pontos estão “em contato” uns com os outros. O matemático e meteorologista Edward Lorenz conduziu um estudo famoso, criou novas equações e descreveu o <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_borboleta" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_borboleta" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">&#8220;efeito borboleta&#8221;</a>, indicando que uma pequena diferença nos valores numéricos iniciais dos modelos poderia levar a cenários futuros completamente diferentes (e portanto, a existência de uma borboleta batendo suas asas num lugar do planeta poderia relacionar-se com um tufão que se formaria do outro lado da esfera terrestre).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158827" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01.png" alt="" width="709" height="525" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01.png 709w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-300x222.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-567x420.png 567w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-100x75.png 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-640x474.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Screen-Shot-2014-11-17-at-12.04.01-681x504.png 681w" sizes="auto, (max-width: 709px) 100vw, 709px" />Próximo da climatologia, Hewson dá também o exemplo dos satélites como outra modalidade (menos epistêmica e mais baseada na engenharia) de conhecimento e práticas de comunicação que já são inteiramente “globalistas”. Não apenas porque fazem parte da nova infraestrutura de telecomunicações, mas também porque o espaço físico onde os satélites orbitam, os cálculos de seus movimentos e todas as complexidades técnicas e legais a eles relacionadas constituem uma esfera de governança que se estende para além das fronteiras nacionais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O natalismo será uma questão central nas próximas décadas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">As estatísticas demográficas de cada nação compõem a demografia mundial, a raça humana viva (ou a tentativa de capturá-la). Desde sua origem, o capitalismo tem continuamente “engolido” populações despojadas de seus meios de produção, forçando-as a se tornarem assalariadas. Este não é um processo concluído, está em andamento e continua a avançar, especialmente em países com grandes populações rurais e indústrias avançadas (como a Índia e a China). Deste ângulo é fácil perceber, então, que uma diminuição absoluta da população em idade ativa representa um enorme problema para o funcionamento do capitalismo como o conhecemos hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">Os interesses podem ser nacionais ou “civilizacionais”, mas a raça humana é uma só, e a demografia global nos une nesse sentido. Parte dessa realidade são os fluxos migratórios (forçados e não forçados). Governos lançam campanhas para atrair mão de obra estrangeira qualificada e incentivar mulheres a terem filhos. Na Europa e nos Estados Unidos a extrema-direita e os fascistas convocam pessoas brancas a procriarem <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61473291" href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61473291" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">para combater &#8220;a grande substituição&#8221;</a>, a invasão demográfica de pessoas negras na Europa. Esta é uma nova versão do panfleto de denúncia contra a conspiração judaico-bolchevique-globalista, utilizado pelos czaristas russos, pelos nacional-socialistas alemães, por Getúlio Vargas, e por tantos outros nos últimos 150 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas até que ponto um governo ou um Estado pode hoje projetar-se num longo prazo, dado o contexto de contínuas disrupções políticas e econômicas nas quais já vivemos? A mudança na curva da taxa de natalidade não parece ser algo que possa ser facilmente alterado. Será que algum capital conseguirá se adaptar e acumular em um contexto de escassez de mão de obra? E se extrapolamos a capilaridade dos fenômenos atuais vinculados às mudanças da natalidade e às políticas estatais aplicadas, o que a rigidez religiosa nas instituições educacionais, o modelo de subjugação feminina e a divisão física de gêneros nos espaços públicos representam para os trabalhadores?</p>
<p style="text-align: justify;">Hipótese para um processo histórico: A multipolaridade é uma resposta “contrarrevolucionária” ao globalismo. De forma extremamente esquemática, podemos pensar no sistema da ONU, após a Segunda Guerra Mundial, como um salto do Estado-nação para uma organização global. O passo em falso na criação da organização global entregou o público aos arautos da multipolaridade. Eles propõem avançar e regredir simultaneamente: da unidade nacional em direção aos “Grandes Espaços” mais abarcativos, e, inversamente, o regresso ao essencialismo civilizacional, a negação do universalismo humano, a exaltação de uma sociedade que precisa da guerra para existir. A governança global desloca-se das organizações internacionais e transnacionais para canais de negociação bilateral, soluções militaristas, a nacionalização da internet, mercantilismo econômico e assim por diante.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158825" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e.jpeg" alt="" width="1440" height="1920" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e.jpeg 1440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-225x300.jpeg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-768x1024.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-1152x1536.jpeg 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-315x420.jpeg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-640x853.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/21ebec60-dd7d-4d61-afc2-6da0fe5a005e-681x908.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1440px) 100vw, 1440px" />O globalismo, mesmo em sua versão capitalista, representa uma superação dos atavismos sociais que separam a raça humana em grupos hierárquicos com base em características genéticas ou local de nascimento. A ideia do globalismo não deve morrer com o fim do globalismo capitalista, pois essa ideia é uma importante defesa contra o obscurantismo teocrático e militarista que nosso confinamento aos “Grandes Espaços” do mundo multipolar representa.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Cf. <em>Approaches to Global Governance Theory</em>, de Hewsan, Sinclair e Sinclair, 1999, e <em>Global Governance: A Journey Through Polysemy</em>, de Cabrera, 2023, para referências.</p>
<p><em>As obras que ilustram esse artigo são de Lazar Khidekel.</em></p>
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		<title>Os arquivos Epstein e a perspectiva de socialismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Feb 2026 20:12:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A maioria dos ditos socialistas naturaliza e aceita a mistura com a classe dominante, isto é, aceita que se constitua relações amistosas com ela. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<p style="text-align: justify;">A divulgação de mensagens eletrônicas e outros documentos ligados a Jeffrey Epstein causou perplexidade e certamente surpresa na esquerda, ao revelar de forma mais contundente o nível de proximidade e “amizade” entre Noam Chomsky e o bilionário. Para além ou aquém dos crimes sexuais, Epstein era a personificação de tudo que socialistas, incluindo o próprio Chomsky, oporiam à classe dominante em termo de valores.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo Epstein em entrevista a Steve Bannon, ele integrou a Comissão Trilateral a convite de seu fundador, David Rockefeller. Ainda segundo Epstein, a preocupação ou intenção de David Rockefeller era que houvesse uma classe empresarial que gerisse o capitalismo global de modo que este não fosse impactado por mudanças de governos. Jeffrey Epstein, portanto, se constituiu em um operador e gestor político e econômico do capitalismo transnacional. Produzia relações e se beneficiava disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Obscuramente, também se tornou bilionário. Para explicar sua fortuna, jornalistas apontam, por exemplo, golpes e operações de tráfico de armas e drogas para a CIA <strong>[1]</strong>. Mesmo um fascista como Steve Bannon, em entrevista que realizou com Epstein divulgada na última leva de arquivos liberados, pergunta a Epstein: “Você é o diabo?”. Que Chomsky tenha sido um amigo fiel dessa figura “demoníaca” por dez anos, como mostram as mensagens e suas declarações públicas desde quando se conheceram por volta de 2015, naturalmente causa perplexidade na esquerda. Até porque a esquerda, talvez mais que a direita, e em época de “cultura do cancelamento”, procura por santos e pecadores. Em Seminário em Chiapas no final de 2024, o Capitão Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional, soltou algumas palavras sobre esse tema que vêm bem a calhar:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Não idealizem os zapatistas. Somos igualmente ruins, baixos e merdas como vocês. Ocorre que estamos numa organização e num coletivo, que é o que equilibra, oculta e subordina essas baixezas e ruindades, e nos obriga a ser responsáveis. (Capitão Insurgente Marcos, 30 de dezembro de 2024)</p>
<p style="text-align: justify;">Chomsky não fazia parte de uma organização política, e embora não tenha cometido crime, defeitos seus, aos olhos dos socialistas, vieram à tona pela relação com Epstein.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158761" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/images-1.jpg" alt="" width="300" height="168" />O jornalista Chris Hedges, que conheceu pessoalmente Noam Chomsky, escreveu um curtíssimo texto sobre o assunto, após uma Nota publicada em 7 de fevereiro último por Valéria Chomsky, esposa de Noam. Chris Hedges termina escrevendo:</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não foi enganado por Epstein. Ele foi seduzido. Sua associação com Epstein é uma mancha terrível e, para muitos, imperdoável. Ela turva irreparavelmente seu legado. Se há uma lição aqui é essa. A classe dominante não oferece nada sem esperar algo em troca. Quanto mais perto você chega desses vampiros, mais você se torna escravo deles. Nosso papel não é socializar com eles, mas sim destruí-los <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Creio que a grande maioria dos autoproclamados socialistas (incluo nessa categoria os autodefinidos comunistas e anarquistas), concordariam com esse trecho. Consigo imaginar quase um consenso quanto à lição exposta por Chris Hedges: não se deve socializar com a classe dominante, nosso papel é destruí-los, pois são inimigos da nossa classe e do que há de humano em nós.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Quem discorda das “lições” acima expostas pelos zapatistas e por Chris Hedges, respectivamente, sobre a importância da organização coletiva e a importância da separação/distanciamento em relação à classe dominante?</p>
<p style="text-align: justify;">Se quase todos concordam, então por que a grande maioria dos autodenominados socialistas, principalmente os marxistas, quando constroem ou participam de organizações coletivas, é em última análise visando que seus quadros mais elevados se misturem à classe dominante, se tornando eles próprios gestores do capitalismo?</p>
<p style="text-align: justify;">E misturar-se pode significar tornar-se classe dominante ao tomar para si o poder do Estado, ou, como tem sido mais frequente, buscar cargos de governo e no parlamento nas democracias liberais. Nesse último caso, inevitavelmente, a aceitação das regras do jogo dessas instituições burguesas e toda espécie de encontros, reuniões, compromissos, jantares, tapinhas nas costas, inerentes à política nessas instituições, levam ao oposto da lição do caso Chomsky-Epstein, bem sintetizada por Chris Hedges. A relações de figurões do PT como Jaques Wagner, Rui Costa e Guido Mantega com o banqueiro bilionário Daniel Vorcaro são só o enésimo exemplo, que poderia ser encontrado também em qualquer outro país.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158760" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg" alt="" width="960" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-681x454.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />A clivagem ou hipocrisia, como se queira, é descomunal. Enquanto se condena (com pelo menos certa razão) as expressões de “amizade” de Chomsky com Epstein, se constrói e se sustenta organizações cujo objetivo é se misturar com a classe dominante. E frequentemente ainda colocam “socialista” ou “comunista” no nome da organização. Ainda pior, muitas vezes os membros ou simpatizantes da dita organização defendem ferrenhamente quando seus altos quadros, em posições nas instituições burguesas, como um Lula ou um Boulos, agem sem disfarces como operadores do grande capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Peguemos no Brasil o PT e o PSOL como exemplos, provavelmente duas entre as três maiores organizações políticas do país no quesito de filiados que se autodenominam socialistas (ou comunistas). Ambos partidos foram formados explicitamente para disputar espaço nas instituições burguesas. Segundo a racionalização de Lula na época da constituição do PT, ele teria se tornado necessário devido às lutas sindicais encontrarem um limite. Já o PSOL foi formado por uma cisão de parlamentares do PT. Ambos partidos fazem parte do atual governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Luiz Marinho, Ministro do Trabalho e quadro histórico do PT, tem utilizado seu cargo para, por exemplo, assediar auditores fiscais do trabalho que lavram flagrantes de trabalho escravo e para anular os flagrantes de trabalho escravo de grandes empresas como a JBS. Sequer o governo Bolsonaro chegou a esse ponto. Com exceção da CSP-Conlutas, nenhuma central sindical se manifestou contra esse ataque à política de combate ao trabalho escravo no Brasil, e que se dá de forma tão explícita em favor de grandes empresas.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato do Ministro do Trabalho, do Partido dos Trabalhadores, usar o cargo para beneficiar empresas flagradas explorando trabalho escravo, nem sequer abala sua posição no partido ou no governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Misturar-se com a classe dominante não é apenas meio, é objetivo do PT (e da CUT, seu braço sindical). De outro modo seria insustentável as práticas de Luiz Marinho (com aval do seu amigo Lula), assim como seria insustentável as práticas do Ministro da Educação do PT, Camilo Santana, com sua proximidade da Fundação Lemann. Evidentemente uma organização política que tivesse como princípio não se misturar à classe dominante mas destruí-la, não geraria e sustentaria esse padrão de figuras como Luiz Marinho, Camilo Santana, Jaques Wagner, José Dirceu etal. Partidos como o PT e o PSOL foram constituídos para se misturarem com a classe dominante. Na forma e no objetivo real principal (conseguir cargos parlamentares e no governo) são partidos burgueses, por mais apinhados de ditos socialistas que estejam. Banalidades básicas, alguém dirá com razão.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158763" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md.jpg" alt="" width="768" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" />No PSOL, temos agora o exemplo acachapante de Guilherme Boulos. Entrou no PSOL em 2018, já para ser candidato à presidência da república. Tem sido figura de ponta para levar o PSOL cada vez mais para perto do lulismo, a ponto de ter sido alçado por Lula a Ministro da Secretaria-Geral, cargo que nos governos do PT tem por função principal cooptar, enrolar, amansar e enganar movimentos sociais. E Boulos com pouco tempo no cargo tem desempenhado com esmero essa função. Está atualmente mentindo e tentando enganar os entregadores e os povos indígenas da Amazônia em favor do grande capital <strong>[3]</strong>. Ele e Sônia Guajajara, Ministra dos Povos Indígenas, também do PSOL, estão na linha de frente para garantir a efetivação do distópico Decreto nº 12600/2025, que coloca três importantíssimos rios amazônicos no “Plano Nacional de Desestatização”. Estão na linha de frente para garantir a destruição dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins-Araguaia, de modo a serem construídas hidrovias para o grande capital extrativista e do agronegócio. Nem Boulos nem Sônia Guajajara serão expulsos do PSOL. E não falta militantes do partido ou simpatizantes para defender Boulos. Ora, Boulos, no seu carreirismo e busca de poder pessoal entrou no PSOL evidentemente porque se trata de uma organização voltada ou propícia a isso: a ascensão social através das instituições burguesas. Em outras palavras, uma organização voltada e propícia a se misturar às classes dominantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Jones Manoel se filiando para se candidatar a deputado pelo PSOL, é só mais um que segue o caminho de buscar ascensão através de instituições burguesas, se misturar à classe dominante e ao mesmo tempo arrotar comunismo.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se trata de partidos disputando cargos ou de posse de cargos em instituições burguesas, a maioria dos ditos socialistas naturaliza e aceita a mistura com a classe dominante, isto é, aceita que se constitua relações amistosas com ela. Essa naturalização é o sintoma da maior derrota possível do campo que deveria ser antagônico à classe dominante. É uma derrota total, pois aqueles que se dizem antagônicos à classe dominante, e em geral acreditam mesmo que o sejam, se organizam para se tornar um amigo, um operador ou até mesmo um igual, isto é, parte da classe dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa naturalização é constitutiva de grande parte das organizações políticas que se dizem socialistas ou comunistas, e da totalidade delas que se organizam para conquistar cargos nos parlamentos e governos. É essa naturalização, essa normalização inerente a esses partidos, que mantém um Boulos e um Luiz Marinho nos seus respectivos partidos, ao mesmo tempo que usam seus cargos mesmo que explicitamente contra os direitos dos trabalhadores e dos de baixo em favor dos capitalistas. Ou, se se preferir, é essa naturalização que mantém a maioria dos filiados a esses partidos apesar das práticas de um Boulos, um Luiz Marinho, um Lula e tal.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158760" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg" alt="" width="960" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-681x454.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A hegemonia dessa naturalização dentro da classe trabalhadora e dos de baixo significa a derrota contínua de qualquer perspectiva de socialismo. É a hegemonia do “misturar-se com a classe dominante”.</p>
<p style="text-align: justify;">A lição do caso particular Epstein-Chomsky já foi dada inúmeras vezes pela história das lutas sociais: é preciso organizar coletivamente, social e politicamente, a autonomia de classe. É preciso construir e manter organizações que são simplesmente o oposto das organizações que atraem a maioria dos ditos socialistas e comunistas nos dias de hoje; feitas para a ascensão de alguns em meio à construção de relações com a classe dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">O que os socialistas precisam não é se aproximar desses vampiros e se tornar seus escravos ou operadores. Os socialistas precisam é destruir a classe dominante. E isso se dará através da constituição de novas relações sociais, inclusive e fundamentalmente nas esferas da produção e reprodução.</p>
<h4 style="text-align: justify;">Notas</h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html" href="https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html" rel="ugc nofollow">https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html</a>; e ver <a class="urlextern" title="https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling" href="https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://substack.com/home/post/p-187347674" href="https://substack.com/home/post/p-187347674" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://substack.com/home/post/p-187347674</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/" href="https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/</a>; e ver <a class="urlextern" title="https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664" href="https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664</a></p>
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		<title>Mentiras que lhe dirão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 09:23:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras... Por Phil A. Neel]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Phil A. Neel</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><em>Traduzido do <a href="https://illwill.com/lies" target="_blank" rel="noopener">Inglês</a>.</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A cidade glacial está sob cerco. Nos longos e frios invernos no coração do Meio-Oeste, o ar pode ficar tão frio que dói respirar. Mercenários mascarados, em veículos sem identificação, percorrem os bancos de neve, sequestrando pessoas nas ruas e levando-as para centros de detenção por períodos indeterminados. Cada um dos mercenários recebe dezenas de milhares em um “bônus de assinatura” (até 50 mil e 60 mil dólares em perdão de empréstimos estudantis), simplesmente para pegar em armas em nome do regime em batalha. Diante de uma crise econômica em câmera lenta, na qual um boom surreal do mercado de ações, apoiado pelo Estado, é acompanhado por uma estagflação persistente na economia cotidiana, o puxa-saquismo é uma das poucas indústrias que apresentam algum crescimento real. Enquanto as ruas congelam em Minneapolis, a notação do Standard &amp; Poor atinge níveis recordes. Enquanto isso, o crescimento do emprego no ano passado foi tão desanimador que, após a divulgação dos números, o regime agiu rapidamente para demitir o chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho e ameaçar os meios de comunicação que divulgavam os números. <strong>[1]</strong> Além do declínio no emprego, devido ao congelamento da imigração, a profundidade da crise é sinalizada pela queda contínua na Taxa de Participação na Força de Trabalho, que serviu como o maior obstáculo ao crescimento do emprego no primeiro semestre de 2025 – indicando que um montante cada vez maior de pessoas está abandonando completamente a força de trabalho, mas não são contabilizadas nas estatísticas de desemprego. <strong>[2] </strong>O cerco pode, assim, ser entendido como uma espécie de keynesianismo mercenário, destinado a compensar a falta de emprego nos novos setores de defesa movidos a IA, que têm sido o foco da política institucional mais ampla de pilhagem-e-reestruturação.</p>
<p style="text-align: justify;">Enviados de cidades distantes, eles algemam os detidos e os espancam quando mais nenhuma reação é possível. Disparam munições “não letais” com clara intenção de mutilar. Repetidas vezes, atropelam pessoas por veículos. Indivíduos que simplesmente estão voltando do trabalho para casa têm suas janelas quebradas e são arrastados para fora de seus veículos para serem espancados e detidos por horas, às vezes dias. Agora, eles estão atirando em pessoas com munição letal. Invadiram o estacionamento de uma escola de ensino fundamental. Tiraram uma mãe de seu carro, colocaram-na em uma van sem identificação e foram embora, deixando seu bebê em uma cadeirinha, com a porta aberta, em temperaturas negativas (felizmente, resgatado por pessoas da multidão). Lançaram gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral em um carro cheio de crianças, hospitalizando todas elas, incluindo um bebê de seis meses que não conseguia respirar. <strong>[3] </strong>Em represália à resposta da comunidade, eles começaram a invadir as casas de cidadãos também, muitas vezes errando os endereços. O prefeito diz que não há nada a ser feito. O governador convocou a Guarda Nacional – destacada não contra os mercenários, é claro, mas contra aqueles que protestam contra eles. As autoridades judiciais da nação não apenas se recusaram a abrir processos, mas, além disso, foram ordenadas a investigar as vítimas e seus familiares. Todas as noites, o mundo inteiro assiste a vídeos de corpos envoltos em sombras, movendo-se na escuridão gelada da cidade sitiada. Nas lives, as pessoas gritam e choram, os mercenários berram suas ameaças, disparam suas armas e, diante de uma multidão grande o suficiente, recuam. Os hotéis que os hospedam são pichados. Os carros que abandonam são saqueados. Em resposta, mais tropas são enviadas pelo presidente, um rei louco, num corpo em decomposição, berrando ordens incoerentes do seu palácio no pântano. O sol nasce e acordamos com o sabor amargo de novas atrocidades à nossa espera.</p>
<p style="text-align: justify;">Há cinco anos, a poucos quarteirões de onde Renee Good foi assassinada pelo covarde Jonathan Ross, um assassinato semelhante desencadeou a maior revolta popular em mais de uma geração. Logo depois, nos contaram uma série de mentiras sobre essa rebelião. Disseram-nos que era um “movimento social não violento”, mesmo com a imagem de uma delegacia de polícia em chamas piscando ao fundo. Disseram-nos que, embora houvesse alguma violência, ela havia sido iniciada por agitadores externos, talvez policiais, ou até mesmo nacionalistas brancos. Quem quer que fossem, eles não eram membros da “comunidade”, mas sim indivíduos apenas “querendo causar confusão”. Disseram-nos que o plano desde sempre foi processar o assassino, e que foi apenas uma coincidência que as acusações só foram feitas depois que quase todas as grandes cidades do país viram seus centros saqueados e incendiados. Disseram-nos para irmos para casa, que tudo tinha acabado. Disseram-nos que os distúrbios eram apenas a desculpa de que Trump precisava para declarar a lei marcial e cancelar as próximas eleições. Disseram-nos que, se eleito, Biden iria arrumar as coisas. Disseram-nos que as deportações iriam acabar e que as políticas de Trump seriam revertidas. As crianças seriam libertadas das jaulas. Disseram-nos que devíamos voltar ao mais do mesmo da política — que essa era a única maneira de “fazer as coisas acontecerem”. No conjunto, essas mentiras resultaram em uma única grande inverdade: a revolta nunca ocorreu e nunca poderá ocorrer novamente. <strong>[4]</strong> Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras:</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Se você está aqui legalmente, não precisa se preocupar…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa é sempre a primeira mentira, que apenas os mais tresloucados ou os mais irracionais acreditam. Mesmo para os defensores ferrenhos do Estado, essa primeira mentira foi destruída no momento em que o tiro foi disparado. Por isso, ela foi reconfigurada: “se você não estiver obstruindo os agentes federais…”. E logo acrescentaram os adendos habituais: “por que você estava em um motim, para começar?” (dito às pessoas que moram no bairro); “por que você trouxe seus filhos para um protesto?” (para as famílias que buscavam os filhos na escola); “esses cidadãos têm ligações com grupos radicais de esquerda” (válido automaticamente para todos os que se opõem à agência). Eventualmente, a ladainha de mentiras proferidas por qualquer força tirânica tende a se normalizar em torno do guia de estilo das Forças de Defesa de Israel (IDF), refinado no solo bombardeado da Palestina, que há muito serve como laboratório para novos horrores. E, claro, como até uma rápida olhada na história demonstraria, os horrores nunca permanecem confinados à terra sagrada. Quando o bumerangue imperial retorna à mão que o lançou, o processo sempre começa com o chamado “elemento criminoso”. E então passa a ser os esquerdistas e os sindicalistas. E depois seus simpatizantes. E depois qualquer inimigo. Eventualmente, eles têm como alvo os inimigos inerentes da nação, figurados em termos de sangue e solo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158686 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="932" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-768x511.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-631x420.webp 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-640x426.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-681x453.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo completamente alheios aos protestos, cidadãos americanos foram detidos em batidas policiais e tiveram a validade de suas certidões de nascimento negada. Indígenas americanos foram mantidos em cativeiro por dias — usados, em parte, como moeda de troca para forçar as lideranças tribais a abrir seus territórios à agência. Isso não é um exagero: na cidade sitiada, qualquer pessoa que não pareça suficientemente branca (e branca da maneira certa) deve portar sua prova de cidadania o tempo todo, sob pena de ser detida e sequestrada. Este é, quase palavra por palavra, o cenário que foi profetizado pelos “esquerdistas radicais” com o advento de agências como o Departamento de Segurança Interna (DHS) e o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), após a aprovação da Patriot Act por uma coalizão bipartidária durante a Guerra ao Terror. Foi nessa mesma época que a Agência de Segurança Nacional (NSA) ganhou novos e amplos poderes. A primeira operação interagências para combater “gangues transnacionais violentas” foi iniciada em 2005, sob o governo Bush, e antecipa grande parte da linguagem ainda usada hoje. Mas o novo estado de segurança foi um esforço conjunto. Na verdade, embora tenha sido iniciado durante um governo republicano, foram os democratas que transformaram essas agências em órgãos operacionais e expandiram amplamente seus poderes.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto o ICE quanto o DHS foram rapidamente expandidos sob Obama, que supervisionou o maior aumento nas deportações e de campos de deportação, construídos, em parte, por meio de um acordo de US$ 1 bilhão sem licitação com a empreiteira prisional privada Core Civic (na época, Corrections Corporation of America). <strong>[5]</strong> Na verdade, Jonathan Ross, o agente que assassinou Good, foi contratado pela agência no auge dessa onda de deportações da era Obama. Nos mesmos anos, houve uma expansão dos centros de dados da NSA, incluindo a cerimônia de inauguração do Centro de Dados da Iniciativa Nacional Abrangente de Segurança Cibernética em Utah, que é talvez o núcleo da infraestrutura moderna de vigilância em massa. <strong>[6]</strong> Da mesma forma, foi o governo Obama que assinou os primeiros acordos com a Palantir para rastrear crimes transfronteiriços, estabelecendo as bases para a colaboração de longa data da empresa com o ICE. <strong>[7]</strong> Hoje, a empresa foi contratada para construir um aplicativo “que preenche um mapa com alvos potenciais de deportação, traz um dossiê sobre cada pessoa e fornece uma ‘pontuação de confiança’ sobre o endereço atual da pessoa…”. <strong>[8]</strong> Esses foram os mesmos anos em que os apelos para “abolir o ICE” ganharam força, juntamente com os apelos para reverter os programas de vigilância da NSA e desmantelar a Segurança Interna. Não é preciso dizer que essas demandas foram rejeitadas tanto por democratas quanto por republicanos como sendo nada mais do que reclamações estridentes de radicais irrealistas renitentes. Agora, enfrentamos precisamente a “realidade” que nos foi prometida.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O assassino será processado…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira é o bote salva-vidas para os muitos milhões que ainda se agarram a algum resquício de fé em um estado de direito outrora flutuante que, segundo qualquer critério razoável, já submergiu até o fundo do mar escuro e revolto. Vão nos dizer para esperar, para deixar o sistema funcionar, como se a ordem cívica submersa fosse ressurgir. Na realidade, essa ordem sempre foi uma gentileza temporária, possibilitada apenas pelas águas calmas de uma ordem imperial bem estabelecida. Lançado na crise, a probidade do Estado é sempre sacrificada pela efervescência do puro poder subjacente. Aqueles que baseiam sua fé nessa probidade simplesmente não conseguem entender o novo mundo em que se encontram. O que estamos testemunhando, então, é o lento e constrangedor crepúsculo da ingenuidade política bem-educada que definiu toda uma geração de liberais. Os liberais são, em sua essência, uma espécie de adoradores da legalidade. Tire-lhes a legislação e os processos judiciais e você ficará com penitentes confusos, cegos pelos horrores sombrios vislumbrados brevemente por trás de sua fé destruída. No curto prazo, eles continuarão como antes, só que com mais fervor. Confrontados com evidências incontestáveis de sua realidade política, os liberais se agarrarão ainda mais fortemente às ruínas de sua civilidade desmoronada, entrando com ação judicial após ação judicial, escrevendo para os seus deputados, indo de porta em porta para defender candidatos medíocres nas eleições de meio de mandato, tais como fanáticos cheios de feridas se flagelando em penitência pela praga.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem demora, vimos uma série interminável de ações judiciais movidas contra quase todos os aspectos do programa trumpista. Em 20 de janeiro de 2026, havia um total de 253 processos ativos de contestação de ações do governo. Porém, mesmo quando obtêm decisões favoráveis, elas se mostram inexequíveis. Por um lado, com controle decisivo sobre a Suprema Corte, bem como sobre as nomeações federais em todas as agências relevantes, qualquer contestação legal pode ser, em última instância, anulada. A Suprema Corte já anulou as ordens de tribunais inferiores em 17 ocasiões.<strong> [9]</strong> Por outro lado, os poderes executivos podem ser mobilizados para simplesmente anular decisões judiciais por decreto, seja de forma direta (por meio da proliferação de indultos presidenciais, concedidos a licitantes nos bastidores, por exemplo) ou buscando os mesmos fins, por meio de canais diferentes. Por exemplo, quando a deportação de Kilmar Abrego Garcia foi considerada ilegal por um tribunal inferior (e, em um caso raro, a decisão foi mantida pela Suprema Corte), o governo federal procurou indiciá-lo por acusações espúrias, a fim de justificar tentativas subsequentes de deportação. No entanto, precisamente porque esses casos acabam por seguir seu curso nos tribunais e, de fato, geram um certo atrito administrativo, os liberais conseguem manter uma fé mágica de que podem, eventualmente, ter êxito.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158687 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso deixa pouca esperança para uma resposta judicial aos assassinatos de Renee Good e Alex Pretti. Pouco depois do assassinato de Good, Ross foi evacuado do local, que foi limpo sem registro de provas ou investigação. Da mesma forma, outras agências foram proibidas de proteger o local do assassinato de Pretti. O Departamento de Justiça não apresentou nenhuma acusação, tampouco as autoridades municipais ou estaduais. O regime tem afirmado que Ross e todos os seus outros mercenários têm imunidade total. Eles têm repetido mentiras descaradas sobre o assassinato de Pretti, imediatamente refutadas por inúmeros vídeos. Neste momento, como em qualquer assassinato cometido pela polícia, as denúncias só serão formalizadas em qualquer uma dessas mortes caso houver mobilizações em massa de escala e intensidade suficientes. Passeatas pacíficas, mesmo que enormes ou disfarçadas de “greve geral” (mas que não fecham nenhuma empresa de grande porte da cidade), não têm como alcançar esse objetivo. Neste momento, simplesmente não há nenhum mecanismo imaginável pelo qual passeatas de protesto a fim de ganhar atenção política possam encorajar alguém no poder a levar esses assuntos a julgamento. Ataques à propriedade inimiga, bloqueios totais e greves podem forçar tal resultado, à maneira dos distúrbios no caso de George Floyd, vários anos antes. Nesse caso, porém, mesmo um julgamento e uma condenação poderiam ser facilmente anulados por meio de um indulto presidencial e, se os casos de 6 de janeiro servirem de indício, tudo indica que o executivo iria atrás disso. Não se pode mais confiar que o Estado nem mesmo finja fazer justiça. Os liberais são deixados a chorar, chicoteando suas costas feridas em atos fúteis de penitência, na esperança de reconquistar a atenção de seu deus delinquente. Eventualmente, seus furúnculos estouram e a peste os leva, como aos demais.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O ICE não é bem-vindo aqui…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Talvez isso seja verdade em algum sentido espiritual — na mente do político progressista convencido de que, no fundo do coração, o ICE não tem influência. No entanto, se você permite que atrocidades sejam cometidas na sua frente e não toma nenhuma medida substantiva para impedi-las, além de um discurso forte e talvez uma ou duas ações judiciais sem efeito, você não está, na verdade, cedendo também em espírito? Essa mentira se tornou um refrão comum entre os políticos locais. O prefeito disse isso. O governador também. E, apesar de claramente “não ser bem-vindo”, o ICE se sentiu bem à vontade. Os mercenários do ICE vagam pelas ruas. Arrombam as portas das pessoas, instruídos por seus superiores de que não precisam de um mandado assinado por um juiz. A ordem é claramente ilegal, mas isso parece não importar mais. <strong>[10]</strong> As únicas forças que minimamente se mobilizam contra essa invasão são pessoas comuns, que arriscam prisão, mutilação e morte para enfrentar os homens armados enviados para levar seus vizinhos para campos de prisioneiros. Redes robustas de defesa comunitária se espalham pela cidade congelada, enraizadas na infraestrutura criada justamente por essa incansável “extrema-esquerda” que tanto incomoda o regime. Por causa dessas redes, os mercenários raramente conseguem se mover sem serem rastreados, raramente param em algum lugar sem serem cercados e raramente tomam qualquer atitude sem serem filmados.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem dúvida, as redes de resposta comunitária desse tipo estão entre as formas mais importantes de organização de classe que os EUA viram nas últimas décadas. Conforme explicado por Adrian Wohlleben:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Com a construção de eixos de defesa, ou “centros”, combinados com outras práticas autônomas de rastreamento, perseguição e interrupção, a luta atual contra o ICE iniciou uma repolitização da inteligência infraestrutural, juntamente com uma inversão de sua orientação “cinegética” (de presa para predador). Esse fato, combinado com a notável tendência de restituir o político nos espaços da vida cotidiana, aponta para uma superação dos limites de 2020… <strong>[11]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">No entanto, parece improvável que até mesmo essa inteligência infraestrutural distribuída e incorporada ao tecido urbano da vida cotidiana seja suficiente. Embora seja um primeiro passo necessário, o andamento da história muitas vezes ultrapassa nossos esforços. Para acompanhar, é necessário dar um salto para o desconhecido.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Vá lá e vote…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Estamos diante de uma realidade sombria: a invasão está aqui, a santificada “resistência” da classe política nunca chegou e o poder bruto que governa o mundo está escancarado para todos. Os democratas já recusaram, em larga medida, os apelos para pressionar pela abolição do ICE e, em vez disso, defenderam sua fórmula desgastada de câmeras corporais e melhor treinamento. <strong>[12]</strong> Diante de tudo isso, como uma mentira tão simples pode persistir? Como alguém poderia estar legitimamente convencido de que votar, ainda mais nas eleições de meio de mandato, enfraqueceria o poder do regime? No entanto, mesmo para os ex-liberais desiludidos com sua fé nos canais legais, que agora perseguem o ICE em seus Honda Fit, soprando seus pequenos apitos e brandindo seus celulares como um escudo — e, apesar do disparate da imagem, legitimamente arriscando a morte para fazê-lo —, uma fé residual no sistema eleitoral permanecerá, mesmo depois que qualquer crença na ordem judicial tiver sido destruída. As eleições são, para os liberais, precisamente a maneira pela qual os erros sistêmicos são corrigidos. Elas oferecem um caminho de volta aos domínios legislativo e executivo, de onde o poder parece ser exercido. Assim, apoderar-se do legislativo em 2026 e, com sorte, o executivo em 2028, parece ser um meio razoável pelo qual o regime poderia ser deposto e seus erros, corrigidos. No entanto, mesmo para os liberais agora mobilizados, o medo paira no fundo da mente: e se isso for, afinal, uma mentira?</p>
<p style="text-align: justify;">A ilusão do “vá lá e vote” persiste, em parte, porque os EUA agora se transformaram totalmente no que Ernst Fraenkel, um advogado trabalhista que viveu a ascensão dos nazistas, chamou de “estado duplo”, no qual o regime é capaz de “manter uma economia capitalista governada por leis estáveis — e manter uma normalidade cotidiana para muitos de seus cidadãos — ao mesmo tempo em que estabelece um domínio de ilegalidade e violência estatal”, nas palavras do acadêmico Aziz Huq. Nessa modalidade de duas vias, um “Estado normativo”, marcado por um “sistema jurídico comum de regras, procedimentos e precedentes”, continua a operar, enquanto, paralelamente, um “Estado prerrogativo”, definido por “arbitrariedade ilimitada e violência sem controle por garantias legais”, se torna a norma em certas áreas geográficas ou na governança de grupos demográficos específicos. Para Fraenkel, essa zona “sem lei” não nega totalmente a zona legal, mas opera em conjunto com ela, mesmo que os “dois estados coabitem de forma incômoda e instável” porque “pessoas ou casos podem ser arrancados do estado normativo e jogados no estado prerrogativo” por um capricho político. Mas a tendência é clara: com o tempo, o ditatorial “estado prerrogativo distorceria e lentamente desmantelaria os procedimentos legais do estado normativo, deixando um domínio cada vez menor para a lei comum”. <strong>[13]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso é possível, em parte, porque o poder social não opera principalmente por meio do Estado. Na sua raiz, o poder da elite sobre as massas populares é econômico. O Estado e toda a classe política que o dirige são, em última análise, uma emanação dessa forma mais fundamental de poder de classe, definida pelo controle sobre a riqueza social. Essa é a chave para compreender o comportamento aparentemente suicida do regime: o Estado nunca teve a intenção de servir como uma instituição representativa universal que defende os direitos do “povo” de forma abstrata. Ele sempre foi projetado para ser, em última análise, uma máquina para negociar entre segmentos da elite proprietária e defender seus interesses. Em certos períodos de prosperidade imperial, os interesses gerais da população estão vagamente alinhados com os da elite. Mas esses são pactos temporários. Embora Fraenkel, nascido e criado em uma dessas épocas, veja o Estado prerrogativo como uma exceção, esse está, na verdade, mais próximo da norma histórica. O mistério do comportamento bizarro do regime se dissipa quando o vemos como uma luta faccional entre os quadros existentes das elites — em outras palavras, como um mecanismo de poder e pilhagem, empregado por certas facções do capital contra a população em geral, e potencialmente em detrimento de outras facções — e uma tentativa frenética dessas elites, desafiadas por blocos ascendentes de capital em outros lugares, de definir um curso estratégico que permita que seu poder sobreviva em um futuro geopolítico incerto.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158688 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez a tendência mais importante por trás do surgimento de um estado dual ditatorial seja esta: mesmo enquanto a inflação dizima os salários e os custos da energia disparam na economia cotidiana, o mercado de ações atingiu níveis sem precedentes. Como resultado, os quinze capitalistas mais ricos do país ganharam quase US$ 1 trilhão em riqueza ao longo de 2025 (de US$ 2,4 trilhões para US$ 3,2 trilhões), enquanto todos os 935 bilionários dos EUA juntos agora controlam o dobro da riqueza (US$ 8,1 trilhões) da metade mais pobre da população (170 milhões de pessoas). <strong>[14]</strong> Tampouco isso é uma exceção trumpista. É, ao contrário, parte de uma tendência que vem se consolidando desde a era Obama, no início da década de 2010 — que, por sua vez, reviveu uma tendência que começou no final da década de 1990 com a primeira bolha da internet, antes de ser interrompida por seu colapso — e que se acelerou em níveis sem precedentes, não sob Trump, mas sob Biden. No total, os 0,01% mais ricos dos americanos (cerca de 16 mil famílias de elite) controlam agora cerca de 12% da riqueza nacional, três vezes mais do que a mesma parcela da população controlava no auge da Era Dourada do século XIX. <strong>[15]</strong> Apesar dos contínuos alertas de que Trump está “destruindo a economia”, a realidade é que a economia está funcionando muito bem. Dada essa realidade sombria, não devemos imaginar que eleger democratas, em distritos eleitorais já grotescamente manipulados pelo gerrymandering, resultaria em um regime substancialmente diferente do atual.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Não dê a Trump um pretexto…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Aqui chegamos ao cerne da questão. Uma vez que a ilusão da civilidade desmorona, revelando a força e a fraude do poder como tal, novas mentiras surgem para servir a funções clássicas de contra-insurgência. Seu objetivo é atenuar a resposta imediata ao Estado tirânico, auxiliá-lo em sua repressão expondo militantes e impedir qualquer preparação para o que está por vir. “Não dê a eles um pretexto”, “Não morda a isca”, “Não dê a eles o que querem” — tudo isso acompanhado de novas teorias da conspiração sobre tijolos pré-plantados e agentes provocadores. Como em 2020, essas mentiras giram em torno da alegação de que lutar contra o exército invasor de mercenários acabará por dar ao governo uma desculpa para invocar a Lei de Insurreição e impor a lei marcial. Essa mentira parece ter integridade porque o regime ameaçou repetidas vezes fazer exatamente isso. Mas logo qualquer traço de lógica evapora-se. O que seria um “pretexto” suficiente e por que um regime que não tem absolutamente nenhum escrúpulo em violar a constituição, falsificar provas e perseguir seus oponentes precisaria de tal desculpa? Por que simplesmente não inventar uma? Agentes federais invadiram uma cidade e estão atacando e assassinando civis ativamente — isso já é uma forma de lei marcial, só que não no papel. Mais importante ainda, o objetivo principal da lei marcial é impor a quietude. Recompensar preventivamente o regime com exatamente o que ele quer não evita tanto a lei marcial, mas a torna desnecessária. Se as pessoas continuarem a se recusar a ficar quietas e o regime acabar invocando os poderes normativos adequados para declarar a lei marcial, isso não será culpa de ninguém além do próprio regime, independentemente do que ele escolher como gatilho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também temos que perguntar se a lei marcial é, de fato, necessária. Como sugere o modelo de estado duplo de Fraenkel, não há um momento em que um governo eleito se torna repentinamente autoritário. Em vez disso, formas prerrogativas de poder coexistem com as normativas e expandem progressivamente seu domínio de influência ao longo do tempo. O cerco às Cidades Gêmeas é uma evidência clara de que tal processo está bem encaminhado. Manifestar-se pacificamente contra o poder prerrogativo não faz nada para impedir seu progresso. Portanto, nos deparamos com uma escolha: ou não fazer nada além de protestar e registrar o aumento da repressão lentamente nas sombras, ou resistir abertamente e, assim, forçar essa repressão a se revelar para que todos vejam. A primeira opção traz menos riscos imediatos. Ela pode ser justificada como uma pausa estratégica enquanto construímos nossas capacidades. Mas tal afirmação requer então apontar onde essas capacidades estão sendo construídas. Enquanto isso, resistir abertamente acarreta enormes riscos imediatos: prisões em massa, tortura e assassinatos seletivos de ativistas, além de abrir as portas para uma aplicação ainda mais ampla do poder prerrogativo contra uma parcela maior da população. A principal diferença entre as duas opções é que a resistência aberta pelo menos traz consigo a possibilidade de desencadear a mobilização em massa necessária para construir o poder popular e derrubar uma elite tirânica, enquanto a petição por meio de canais normativos restritos não traz essa possibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A história demonstra claramente que tentar esperar que a situação se agrave ainda mais, na esperança de que o estado normativo seja restaurado por meio da intervenção de seus adeptos remanescentes (neste caso, políticos democratas, certos republicanos de centro e tecnocratas do governo, como Jerome Powell), apenas fortalece as elites que se beneficiam da ordem prerrogativa. A questão é, portanto, dupla: primeiro, o que deve ser feito? Segundo, o que será feito conosco independentemente disso? É aqui que surge a questão da guerra civil. A política americana pode ser entendida como sempre existindo em um estado latente de guerra civil. Sob certas condições, essa latência então cai por terra e o espectro de uma guerra civil real torna-se amplamente visível. Já em 2020, esse “espectro sempre presente de uma segunda guerra civil, mais balcanizada” havia entrado na consciência pública. <strong>[16]</strong> A visão da guerra civil tende a acompanhar as mudanças no exercício do poder estatal, particularmente em resposta a revoltas emancipatórias. Conforme explicado por Idris Robinson:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">O funcionamento do Estado se dá, fundamentalmente, afastando a ameaça onipresente de guerra civil. O Estado, como tal, pode ser considerado como aquilo que bloqueia e inibe a guerra civil. O que é único neste país é a nossa tradição emancipatória singular, que está ligada à nossa compreensão da guerra civil. <strong>[17]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, a reestruturação aparentemente suicida do Estado em duas vias é um meio padrão através do qual as revoltas populares e outros conflitos sociais incendiários são inibidos e a ordem existente, restaurada.</p>
<p style="text-align: justify;">No passado, os poderes prerrogativos foram invocados precisamente para afastar o espectro da guerra civil e da revolução. Desde a sua aprovação em 1807, a Lei da Insurreição foi invocada pelo menos 30 vezes por quinze presidentes, formal e informalmente. Da mesma forma, a lei marcial foi declarada pelo menos 68 vezes. Embora ambos tenham sido usados para conter ameaças da direita (particularmente durante a Reconstrução e o movimento pelos direitos civis do pós-guerra) ou conflitos violentos entre grupos de trabalhadores, os usos mais comuns da força militar federal têm sido, de longe, a repressão de revoltas de escravos, greves e outras revoltas. Uma das primeiras grandes mobilizações internas das forças armadas dos EUA foi realizada pelo genocida Andrew Jackson para reprimir a rebelião de escravos de Nat Turner, em 1831. Da mesma forma, a Lei de Insurreição foi invocada por Rutherford Hayes para encerrar a Grande Greve Ferroviária de 1877, por Warren Harding durante a Batalha de Blair Mountain, em 1921, — a maior revolta armada desde a Guerra Civil —, por Lyndon Johnson, em resposta aos distúrbios que se seguiram ao assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968, e por George H.W. Bush, em resposta à revolta em Los Angeles, em 1992. <strong>[18]</strong> Em outras palavras, nem invocar a Lei de Insurreição nem declarar lei marcial sinaliza necessariamente uma guerra civil iminente, ou mesmo a suspensão do poder normativo.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Um agente provocador começou tudo…”</h3>
<p style="text-align: justify;">À medida que o cerco continua, as atrocidades se acumulam e os apelos e protestos dos políticos progressistas provam ser impotentes, algo vai acontecer. Mais e mais pessoas vão começar a destruir propriedades do ICE sempre que puderem. Cada vez mais pessoas verão a necessidade de fechar e destruir a infraestrutura econômica central através da qual o poder da elite opera. Por exemplo, o UnitedHealth Group, com sede nos subúrbios de Minneapolis, foi um dos principais doadores da campanha de Trump (mais de US$ 5 milhões, juntamente com Musk) e é um dos principais beneficiários das políticas do Projeto 2025 de Trump. <strong>[19]</strong> Da mesma forma, a corporação Target, também sediada nos subúrbios das Cidades Gêmeas — e conhecida por operar um dos maiores bancos de dados de reconhecimento facial do mundo, compartilhando esses dados com o governo — doou US$ 1 milhão para o fundo de posse de Trump e tem colaborado ativamente com as forças de ocupação. <strong>[20]</strong> À medida que a polícia e a Guarda Nacional entrarem em cena para apoiar o ICE, as pessoas se insurgirão. As greves se espalharão. Eventualmente, quando ficar claro que o ICE pode e vai matar você sem consequências, alguém revidará. É aí que surge a mentira final, dizendo-nos que a revolta em si não foi iniciada pela população, mas por “agitadores externos”, policiais à paisana ou até mesmo supremacistas brancos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira tem uma longa história, já bem documentada. <strong>[21]</strong> E, no entanto, a mentira persiste, perpetuada ativamente por ativistas que agem como informantes autoproclamados dentro de qualquer movimento em curso. Ao alegar que qualquer ação agressiva praticada contra o inimigo é cometida por agentes da polícia secreta, esses informantes, de fato, perseguem, vigiam e, às vezes, detêm manifestantes para entregá-los à polícia. Muitas vezes, a própria polícia incentiva esse mito, como durante a Rebelião de George Floyd, em 2020, quando se espalharam rumores de que a primeira janela havia sido quebrada por um policial à paisana ou um supremacista branco, e a polícia então divulgou uma declaração juramentada, fingindo tê-lo identificado como membro dos Hells Angels, para, pouco depois, abandonar discretamente tal alegação — nenhuma acusação foi apresentada, enquanto as evidências dos registros de prisão mostravam claramente que a maioria dos detidos nos distúrbios vinha das imediações. <strong>[22]</strong> Dois outros casos de 2020 mostram as consequências da disseminação de tais rumores.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro ocorreu em Seattle: depois que a polícia abandonou a delegacia leste da cidade, a área foi ocupada por manifestantes. Houve intensos debates sobre se a delegacia seria incendiada, como em Minneapolis. Muitos alegaram que qualquer tentativa de fazê-lo seria uma ação de um agente provocador. Então, em 12 de junho, um homem com roupa colorida decidiu tentar, empilhando detritos contra a lateral do prédio, ateando fogo e indo embora. Ativistas no local apagaram o fogo, enquanto outros perseguiram e filmaram o homem, alegando que ele era um agente provocador. Embora ele tenha escapado, esses ativistas-informantes postaram as imagens online e as divulgaram até que fossem compartilhadas com a polícia, que as usou para identificar Isaiah Thomas Willoughby como suspeito. Willoughby se declarou culpado por incêndio criminoso no ano seguinte e foi condenado a dois anos de prisão e mais alguns anos de liberdade condicional depois disso. Logo, foi revelado que Willoughby não era um agente provocador, mas sim o companheiro de casa enlutado de Manuel Ellis, um homem desarmado assassinado pela polícia na cidade vizinha de Tacoma, no início daquele ano. <strong>[23]</strong></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158689 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo caso ocorreu em Atlanta: depois que Rayshard Brooks foi morto pela polícia de Atlanta do lado de fora de um Wendy’s local, pessoas do bairro ocuparam o terreno e, posteriormente, incendiaram o prédio. Informantes-ativistas imediatamente alegaram que o incêndio criminoso foi um ato de um agente provocador e vasculharam a internet para encontrar vídeos de uma mulher branca supostamente ateando fogo, que foram então entregues à polícia. A mulher branca, porém, não era uma agente provocadora. Ela era, na verdade, a namorada de Rayshard Brooks e, por causa desses informantes, foi acusada e declarada culpada por incêndio criminoso. <strong>[24]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso não quer dizer que policiais à paisana ou informantes não participem dos protestos. Há evidências bem documentadas de que eles o fazem. Da mesma forma, agentes federais se infiltram em grupos ativistas, onde sugerem e ajudam a coordenar ações altamente ilegais como forma de armadilha — isso é algo absolutamente a se prestar atenção dentro de assembleias públicas e espaços fechados para planejamento e preparação. Mas isso não ocorre no meio de um protesto ativo. Como qualquer veterano das lutas políticas nos Estados Unidos pode dizer, os policiais à paisana colocados no meio dos protestos quase sempre têm a tarefa de gravar secretamente, comunicar-se com a polícia do outro lado e, em certos casos, deter participantes que se preparam para atirar objetos ou empunhar armas. Em outras palavras, os policiais à paisana desempenham praticamente a mesma função que os próprios ativistas informantes. O objetivo final do mito do agente provocador é, portanto, fazer com que os ativistas desempenhem o papel de contra-insurgentes.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Estamos em desvantagem…”</h3>
<p style="text-align: justify;">A mentira final afirma que, mesmo que tentássemos, não há como revidar. Essa é a desculpa já mobilizada pelo prefeito, que justificou não mobilizar a polícia para impedir ou investigar os mercenários com alegações de que o ICE superaria em número e armamento as forças policiais locais. <strong>[25]</strong> Da mesma forma, o governador sabe que chamar a Guarda Nacional contra uma agência federal seria um ato criminoso, resultando na federalização das tropas estaduais, o que, se resultar em divisões nas cadeias de comando, é convencionalmente visto como o caminho mais provável para confrontos entre as forças estaduais e federais e, portanto, o início de uma guerra civil — como é explicado em um artigo amplamente compartilhado que documenta simulações de potenciais conflitos civis, realizadas por acadêmicos da Universidade da Pensilvânia. [26] No entanto, todas essas considerações são incapazes de compreender dois fatos cruciais. Primeiro, elas aceitam a suposta oposição entre “democratas” e “republicanos” tal como essa se apresenta e, assim, superestimam a disposição dos políticos locais — muitos financiados por exatamente os mesmos interesses corporativos que Trump — de se comprometerem com qualquer coisa que se assemelhe remotamente a uma resistência significativa a uma invasão federal. Segundo, eles assumem que a resistência deve vir de dentro do próprio estado, talvez apoiada por instituições afiliadas, como sindicatos e organizações sem fins lucrativos. Ao fazer isso, eles ignoram completamente o papel de uma população mobilizada.</p>
<p style="text-align: justify;">A perspectiva de uma guerra civil real surge quando conflitos materiais estabelecidos entre as elites coincidem com a agitação popular, permitindo que esta última sirva de veículo para os primeiros. As guerras civis podem escalar para conflitos revolucionários quando sua dimensão popular é organizada independentemente dessas elites e assume um caráter partisan <strong>[*]</strong> — ou seja, que busca não apenas uma redistribuição de bens ou direitos dentro do sistema existente, mas a transformação social desse próprio sistema, em direção a fins emancipadores. No momento, os conflitos entre grupos de elite não são suficientes para incentivar qualquer rebelião liderada por políticos locais. É muito improvável que o conflito simulado entre as forças estaduais e federais realmente ocorra, a menos que seja desencadeado de fora, ou seja, pela agitação popular vinda de baixo. E é precisamente aí que as previsões existentes falham, recusando-se a levar em conta a perspectiva de um conflito mais geral, em toda a sociedade, com as forças de ocupação. A realidade que os políticos liberais estão tentando desesperadamente disfarçar é que o povo supera em número a força invasora, que o poder das elites econômicas por trás de Trump depende dos trabalhadores e que, mesmo que minimamente organizados, esses trabalhadores têm, portanto, a capacidade de derrotar a invasão por conta própria.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158690 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota da tradução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">[*] Para Phil A. Neel, partisan refere-se ao indivíduo ou grupo que participa ativamente nas lutas que emergem de conflitos de classe cotidianos e localizados. Trata-se, portanto, do projeto comunista que visa intervir diretamente nas lutas, e não teorizar o movimento de forma abstrata. Ver “Teoria do Partido” (disponível em <a href="https://antipoda.comrades.sbs/traducao/2025/09/21/teoriadopartido.html" target="_blank" rel="noopener">Antípoda</a> ).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas do autor</strong></p>
<p style="text-align: justify;">1.Peter Hart, “Trump’s Attacks on Jobs Numbers Are Noise – And Still Dangerous”, Center for Economic and Policy Research, 23 de setembro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">2. Leila Bengali, Ingrid Chen, Addie New-Schmidt e Nicolas Petrosky-Nadeau, “The Recent Slowdown in Labor Supply in Demand”, Federal Reserve Bank of San Francisco, 12 de janeiro de 2026. Figura 4.</p>
<p style="text-align: justify;">3. Kilat Fitzgerald, “North Minneapolis ICE shooting: Children hospitalized after flash bang, tear gas hits van”, Fox9 KMSP, 15 de janeiro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">4. Identificando essa resposta desde o início, Idris Robinson afirmou a verdade: “De fato, uma revolta militante ocorreu em todo o país. A ala progressista da contra-insurgência visa negar e desarticular esse acontecimento.” (“How it Might Should be Done”, Ill Will, 16 de janeiro de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">5. Eric Levitz, “The Obama Administration’s $1 Billion Giveaway to the Private Prison Industry”, New York Magazine Intelligencer, 15 de agosto de 2016 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">6. Ingrid Burrington, “A Visit to the NSA’s Data Center in Utah”, The Atlantic, 19 de novembro de 2015. Disponível online aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">7. Palantir, “Sobre a Palantir”, Palantir, 21 de agosto de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">8. Joseph Cox, “‘ELITE’: The Palantir App ICE Uses to Find Neighborhoods to Raid”, 404 Media, 15 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">9. Lawfare, “Trump Administration Litigation Tracker”, Lawfare, 20 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">10. Luke Barr, “ICE memo allows agents to enter homes without judicial warrant: Whistleblower complaint”, ABC News, 22 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">11. Adrian Wohlleben, “Revolts Without Revolution”, Ill Will, 14 de novembro de 2025 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">12. Mychal Denzel Smith, “‘Abolish ICE’ Is More Popular Than Ever. How Will Democrats Drop the Ball This Time?”, The Intercept, 18 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">13. Aziz Huq, “America is Watching the Rise of a Dual State”, The Atlantic, 23 de março de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">14. Sharon Zhang, “Top 15 US Billionaires Gained Nearly $1 Trillion in Wealth in Trump’s First Year”, Truthout, 7 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">15. Marcus Nunes, “The Great Reconcentration: Why America’s Ultra-Wealthy Now Control 12% of National Wealth”, Money Fetish, 20 de janeiro de 2026. Disponível online aqui. (O número citado por Nunes 2026 usa a metodologia estabelecida em: Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, “The Rise of Income and Wealth Inequality in America: Evidence from Distributional Macroeconomic Accounts”, Journal of Economic Perspectives, 34(4), outono de 2020 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">16. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">17. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">18. Joseph Nunn, Elizabeth Goitein, “Guide to Invocations of the Insurrection Act”, Brennan Center for Justice, 25 de abril de 2022 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">19. Ian Vandewalker, “Unprecedented Big Money Surge for Super PAC Tied to Trump”, Brennan Center for Justice, 5 de agosto de 2025. Disponível online aqui; People’s Action, “UnitedHealth Will Be a Top Beneficiary of Trump’s Project 2025”, People’s Action, 15 de outubro de 2024 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">20. KPFA, “The Hidden Side of Target: Surveillance, Policing, and a Call for Scrutiny”, KPFA, 20 de fevereiro de 2025. Disponível online aqui; Mike Hughlett, “Target gave $1M to Trump inauguration fund, a first for the company”, The Minnesota Star Tribune, 29 de abril de 2025 (disponível online aqui); Louis Casiano, “Anti-ICE agitators occupy Minnesota Target store, demand retailer stop helping federal agents”, Fox News, 19 de janeiro de 2026 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">21. Dave Zirin, “The Fiction of the ‘Outside Agitator”, The Nation, 3 de maio de 2024 (online aqui); Code Switch, “Unmasking the ‘Outside Agitator’”, NPR, 10 de junho de 2020 (online aqui); Glenn Houlihan, “The ‘Outside Agitator’ Is a Myth Used to Weaken Protest Movements”, In These Times, 3 de junho de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">22. Logan Anderson, “Who was Umbrella Man, who smashed windows before ‘first fire’ in 2020 Minneapolis protests?”, The Minnesota Star Tribune, 30 de maio de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">23. Mike Carter, “CHOP protester who pleaded guilty to arson was Manuel Ellis’ housemate, lawyer says”, The Seattle Times, 9 de junho de 2021 (online aqui); Procuradoria dos Estados Unidos, “Tacoma man sentenced to two years in prison for early morning fire in ‘CHOP’ zone”, United States Attorney’s Office Western District of Washington, 5 de outubro de 2021 (online aqui). 24. Para uma visão geral dos protestos em Atlanta, consulte: Anônimo, “At the Wendy’s: Armed Struggle at the End of the World”, Ill Will, 9 de novembro de 2020 (online aqui). Para saber mais sobre as consequências legais, consulte: Kate Brumback, “2 Plea Guilty in Fire at Atlanta Wendy’s During Protest After Rayshard Brooks Killing”, Claims Journal, 7 de dezembro de 2023 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">25.Tim Miller e Anne Applebaum, “Anne Applebaum and Jacob Frey: Using Lies to Justify Violence”, The Bulwark, 9 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">26.Claire Finkelstein, “We ran high-level US civil war simulations. Minnesota is exactly how they start”, The Guardian, 21 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Velha Toupeira (38)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Jan 2026 12:23:59 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
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		<title>As liberdades curdas devem ser sacrificadas em nome da centralização da Síria?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Jan 2026 12:40:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma prioridade central para as forças progressistas e democráticas na Síria é interromper o banho de sangue, permitir o retorno seguro dos civis deslocados e lutar contra o discurso de ódio e as práticas sectárias no país. Por Joseph Daher]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joseph Daher</h3>
<p style="text-align: justify;">Apesar de o governo de Ahmed al-Sharaa e as Forças Democráticas Sírias (FDS) terem concordado, na terça-feira, com mais um cessar-fogo, as disputas internas e as tensões no país continuam.</p>
<p style="text-align: justify;">As FDS convocaram uma mobilização geral dos curdos para defender seus territórios em meio às ofensivas militares do governo, que buscam consolidar seu poder na Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Semanas de confrontos viram as forças armadas governamentais avançarem para os bairros de maioria curda de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, em Aleppo, o que resultou no deslocamento forçado de mais de 100 mil civis. Isso culminou com a captura, pelas forças do governo, de grandes partes das províncias de Deir Ezzor e Raqqa, após a retirada das FDS.</p>
<p style="text-align: justify;">A ofensiva militar de Damasco em Aleppo, assim como em outras áreas controladas pelas FDS, ocorreu após o término do prazo de 31 de dezembro de 2025, estipulado no acordo de 10 de março de 2025. Mediado por Washington entre o presidente sírio interino Ahmed al-Sharaa e Mazloum Abdi, chefe das FDS, o acordo buscava integrar os braços civil e militar das FDS ao Estado. No entanto, o impasse político permaneceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a escalada militar ocorreu apenas dois dias após uma reunião em Damasco entre as autoridades sírias e as FDS, com a presença de militares dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">É evidente que, durante as negociações em curso, as autoridades sírias estavam elaborando um plano para lançar primeiro uma operação militar em Aleppo e, em seguida, estendê-la a outras áreas controladas pelas FDS. Elas mobilizaram diversas tribos árabes — que já mantêm contato com al-Sharaa há algum tempo — em Deir Ezzor e Raqqa, a fim de preparar uma ofensiva geral contra as FDS.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso foi feito com o apoio da Turquia, além de um sinal verde de Washington.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Incerteza</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O cessar-fogo inicial de 18 de janeiro e o acordo de 14 pontos previam a entrada das forças armadas sírias no nordeste do país e a integração das FDS ao exército nacional. Ainda assim, isso não impediu a escalada militar do governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Um novo acordo foi firmado na terça-feira, 20 de janeiro. A Agência Árabe Síria de Notícias (SANA) anunciou que as forças armadas do governo sírio não entrarão nos centros das cidades de al-Hasakah e Qamishli, permanecendo em suas periferias. Damasco também declarou que as forças militares sírias não entrarão em vilarejos curdos e que não haverá forças armadas nesses vilarejos além de forças de segurança locais formadas por residentes da região.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, segundo a SANA, espera-se que Abdi “proponha um candidato das FDS para o cargo de vice-ministro da Defesa, bem como um candidato ao governo de Hasaka, nomes para representação parlamentar e uma lista de indivíduos para emprego em instituições do Estado sírio”. No entanto, muitas incertezas permanecem quanto à viabilidade desses acordos e à sua implementação.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a situação no notório campo de al-Hol, em Hasaka — que abriga famílias e afiliados do Estado Islâmico (ISIS) — está gerando temor real, com relatos alarmantes sobre a fuga de centenas de membros do ISIS.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158573" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women.avif" alt="" width="2500" height="1875" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women.avif 2500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-300x225.avif 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-1024x768.avif 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-768x576.avif 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-1536x1152.avif 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-2048x1536.avif 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-560x420.avif 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-80x60.avif 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-100x75.avif 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-180x135.avif 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-238x178.avif 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-640x480.avif 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-681x511.avif 681w" sizes="auto, (max-width: 2500px) 100vw, 2500px" />Apoio externo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Embora os EUA (junto com a França) estivessem oficialmente trabalhando para reduzir as tensões entre os dois atores e, apesar de serem parceiros de longa data das FDS no combate ao Estado Islâmico (ISIS), Washington não impôs nenhuma pressão significativa para interromper as ações militares do governo sírio.</p>
<p style="text-align: justify;">Na prática, os EUA tornaram-se um importante apoiador das novas autoridades governantes, como evidenciado pelas múltiplas reuniões entre Trump e al-Sharaa, bem como pela retirada das sanções Caesar em dezembro de 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">Após a queda do regime de Assad, a Turquia tornou-se um dos atores regionais mais importantes na Síria, especialmente no norte do país. Ao apoiar as autoridades sírias dominadas pelo Hay&#8217;at Tahrir al-Sham (HTS), Ancara consolidou sua influência sobre o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Além de pressionar pelo retorno de refugiados sírios e buscar lucrar com as oportunidades econômicas oferecidas pela reconstrução, o principal objetivo da Turquia é negar as aspirações curdas por autonomia — percebidas como uma ameaça à segurança nacional — e desmantelar a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (AANES).</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Fragilidades</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em poucos dias, as autoridades governantes sírias capturaram dois terços dos territórios controlados pelas FDS. Para além dos aspectos geoestratégicos imediatos, esse avanço rápido também demonstra as limitações do projeto político da AANES entre populações não curdas, especialmente árabes. Ao longo dos anos, setores da população árabe protestaram contra discriminação, práticas de “segurança” direcionadas, prisão de ativistas e a falta de representação real nas instituições da AANES.</p>
<p style="text-align: justify;">Em vez de desenvolver estratégias para conquistar o consentimento das classes populares árabes nas áreas sob seu controle, as lideranças das FDS optaram por colaborar com líderes tribais para administrar as populações locais. No entanto, esses líderes tribais são conhecidos por mudar de lealdade conforme os atores políticos mais poderosos do momento e por focar na defesa de seus próprios interesses materiais. À medida que o equilíbrio de forças se deslocou progressivamente em favor de Damasco, os líderes tribais seguiram o mesmo caminho.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a confiança equivocada da liderança das FDS na continuidade do apoio dos EUA, bem como a falta de interesse em construir alianças políticas mais amplas e profundas com forças democráticas e progressistas do país, enfraqueceram a sustentabilidade do projeto político das FDS.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158575" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747.jpg" alt="" width="1024" height="682" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Centralização do poder</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em última instância, a recente ofensiva militar das forças armadas do governo deve ser entendida como parte da tentativa contínua das atuais elites governantes sírias de centralizar o poder e rejeitar um caminho mais inclusivo para o futuro da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse tem sido o caso desde a queda de Assad. Nos meses seguintes, violações significativas de direitos humanos foram cometidas sob a liderança de al-Sharaa, notadamente os massacres de populações alauítas e drusas no litoral e em Sweida. Paralelamente a esses ataques, as autoridades governantes também buscaram restringir direitos e liberdades democráticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, as autoridades governantes e seus apoiadores são acusados de promover um discurso agressivo contra os curdos e as FDS, com alegações de racismo significativo e de violações de direitos humanos cometidas por forças governamentais e grupos armados aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o ministro sírio dos Assuntos Religiosos, Mohammad Abu al-Khair Shukri, emitiu uma diretriz religiosa conclamando mesquitas em todo o país a celebrar o que descreveu como “conquistas e vitórias” das forças alinhadas a Damasco no leste da Síria, e a rezar pelo sucesso dos soldados do Exército Árabe Sírio.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao incentivar especificamente a menção ao versículo seis da Surata al-Anfal do Alcorão, sugere-se que ele pretendia fazer referência à campanha militar Anfal de 1988, conduzida por Saddam Hussein contra os curdos no atual Curdistão iraquiano, marcada por ataques químicos, assassinatos em massa e destruição generalizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desse contexto preocupante, governantes regionais e internacionais continuaram a apoiar as autoridades sírias, legitimando e fortalecendo seu poder sobre o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, embora al-Sharaa tenha concedido direitos linguísticos, culturais e de cidadania à população curda na Síria, bem como cargos oficiais no Estado, permanecem temores legítimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma prioridade central agora para as forças progressistas e democráticas na Síria é interromper o banho de sangue, permitir o retorno seguro dos civis deslocados e lutar contra o discurso de ódio e as práticas sectárias no país. O futuro da Síria está em jogo. De fato, as novas autoridades governantes demonstraram que seus planos não representam uma ruptura radical com as práticas autoritárias do antigo regime.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, Damasco não oferece planos para uma representação política democrática e inclusiva nem para o compartilhamento de poder. Todos os sírios que buscam democracia, justiça social e igualdade deveriam se preocupar com essas dinâmicas e combatê-las com todas as suas forças.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Joseph Daher é acadêmico e autor de Syria after the Uprisings*, The Political Economy of State Resilience; Hezbollah: the Political Economy of Lebanon&#8217;s Party of God; Marxism and Palestine.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>*Publicado no Brasil pela <a href="https://contrabando.xyz/product/siria-depois-do-levante/?srsltid=AfmBOoqMmJGS3uEx-QIaV5PpPp_I517ylfZTObMC4bqjQVY4J5RQc4Zr" target="_blank" rel="noopener">Contrabando Editorial</a>, com o título </em><strong>Síria depois do Levante</strong><em>. Publicamos um capítulo intitulado &#8220;A questão curda na Síria&#8221; <a href="https://passapalavra.info/2023/09/150055/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido do original em inglês, publicado em </em><a class="urlextern" title="https://www.newarab.com/opinion/should-kurdish-freedoms-be-sacrificed-syrias-centralisation" href="https://www.newarab.com/opinion/should-kurdish-freedoms-be-sacrificed-syrias-centralisation" rel="ugc nofollow">The New Arab</a></p>
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		<title>Para quem não é venezuelano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jan 2026 17:43:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Venezuela]]></category>
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					<description><![CDATA[É preciso repudiar o imperialismo brutal dos EUA. Mas contentar-se em denunciar apenas isso, agir e indignar-se apenas diante disso, despertar a suspeita e a atenção apenas diante disso, deixando-o intencionalmente sem contexto nem pano de fundo, em primeiro plano: isso é um exemplo de pensamento limitado e unilateral. Por Diego Colombo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Diego Colombo</h3>
<p style="text-align: justify;">Além de algumas diferenças que neste momento são irrelevantes (mas que no futuro podem ser graves), hoje a maioria dos venezuelanos compartilha as mesmas emoções e ideias. Após mais de vinte e cinco anos de regime chavista, temos a esperança de uma mudança de governo, da recomposição de uma ordem social minimamente democrática. Também temos a angústia de que, mesmo com a tragédia de hoje, nada disso seja possível.</p>
<p style="text-align: justify;">Escrevo, então, minha opinião para os não venezuelanos.</p>
<p style="text-align: justify;">É inadmissível, sem nuances, que um país ataque militarmente outro dessa maneira. Mesmo quando se trata da captura de um autêntico ditador, que além disso é um assassino. A sensação de ver nossa própria capital sendo bombardeada por forças estrangeiras é muito difícil de descrever. Mas nenhum de nós se surpreende mais com a violência em nosso país, pois ela se tornou um hábito. Não tenho a menor compaixão pelos agentes do SEBIN, mortos esta madrugada no meio das operações.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Venezuela, todos os meios possíveis foram tentados para sair da ditadura, tanto nas urnas como nas ruas. Não faltou vontade nem mártires: não é por acaso que o pior centro de tortura do continente fica no centro de Caracas. No entanto, após longos anos de luta contra o terrorismo de Estado, após 8 milhões de exilados, imprensa censurada, abusos legais e medidas anticonstitucionais, sindicatos tomados, perseguições e proscrições, militantes e organizações desaparecidos, repressão paramilitar nos bairros mais pobres, tribunais militares e execuções extrajudiciais, de tanques e gases diante dos protestos mais espontâneos, de mentiras e manipulações da mídia, de viver sob sistemas de saúde, transporte e educação devastados, e após a catástrofe da fome nos anos anteriores à pandemia — depois de tudo isso, a derrota da classe trabalhadora venezuelana, sem dúvida, foi completa.</p>
<p style="text-align: justify;">E não foi apenas de forma objetiva e material; também foi de forma subjetiva. Está no furioso anticomunismo de uma população que, até recentemente, era tradicionalmente aberta e inclusiva. Está em uma dor que se manifesta na frustração e na incompreensão que costuma atrapalhar, quase imediatamente, as trocas políticas no exterior.</p>
<p style="text-align: justify;">A economia da Venezuela depende efetivamente em 90% do petróleo; Chávez e Maduro destruíram uma das indústrias petrolíferas mais eficientes do mundo, levando-a ao seu nível histórico de produção. Foram eles que iniciaram, diante do declínio, a gradual privatização da PDVSA por meio de empresas mistas: concessões à Chevron (EUA), Repsol (Espanha), Maurel (França), a empresas chinesas e russas. De 3,4 milhões de bdp antes do chavismo, caiu para menos de 1 milhão. Além desse desastre, todos os planos de industrialização do país fracassaram, assim como os planos de agricultura. As sanções econômicas internacionais existiram e pioraram a situação. Mas elas chegaram em 2019, e nessa altura a economia já estava arruinada. Não há dúvida de que os EUA precisam de satisfazer o seu défice de petróleo, esse interesse é claramente a principal motivação do seu ataque. Mas também é verdade que os EUA produzem 13,6 milhões de bdp e que as infraestruturas venezuelanas estão nas piores condições. Deve haver, então, mais do que um interesse. Tem a ver com o seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;">Por mais nobre e bem-intencionada que seja a preocupação com a “soberania dos povos”, com a sua “autodeterminação” e com o cumprimento do direito internacional, o fundamental nestas questões é considerar o conteúdo real dessas ideias, o seu funcionamento concreto. Sem dúvida, a repulsa à ingerência norte-americana na Venezuela é justificada. Mas essa preocupação torna-se hipócrita, ou mesmo voluntariamente desinformada, quando não é coerente; pois não parece que se aplique o mesmo critério quando se trata da China, da Rússia, de grupos paramilitares estrangeiros ou mesmo de Cuba. Como se houvesse algumas violações da soberania nacional que são inaceitáveis e outras que são discutíveis e relegáveis. Estamos falando de interferência constante, direta, concreta e ilegal; da presença ativa de suas forças repressivas; do trabalho indiscriminado de seus serviços de inteligência; da exploração brutal, extensa e irresponsável dos recursos do território; de contratos financeiros de endividamento absolutamente impossíveis de pagar. Cada um é livre para investigar. Contra toda proteção, continuam existindo jornalistas venezuelanos corajosos e pessoas que dão seu testemunho arriscando sua integridade. Para completar, como último elemento, o conflito do narcotráfico é tratado como um mero álibi ou desculpa, como se o narcotráfico não fosse um negócio multimilionário global; como se não implicasse um nível de degradação humana incalculável em suas consequências, pelas condições de sua produção e circulação; como se não devastasse diariamente a existência de milhares de jovens venezuelanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se quisermos pensar a realidade seriamente e em sua complexidade, não podemos repetir esquemas vazios, formais, confortáveis e indiferenciados. É preciso repudiar o imperialismo brutal dos EUA. Mas contentar-se em denunciar apenas isso, agir e indignar-se apenas diante disso, despertar a suspeita e a atenção apenas diante disso, deixando-o intencionalmente sem contexto nem pano de fundo, em primeiro plano: isso é um exemplo de pensamento limitado e unilateral. E essa interpretação, com sua pobreza e sua aparente pulcritude, não é de forma alguma casual. Esse viés, esse grande esforço para não investigar nem querer ver o quadro completo, tem sido totalmente interessado e buscado, mesmo desde o início da presidência de Chávez. A causa é esta: que todos os governos populistas da América Latina, e grande parte dos partidos de esquerda, foram cúmplices ativos, diretos, explícitos e corruptos do que já se perfilava como uma das piores ditaduras da história da América Latina: desde Evo, Ortega, Mujica, Kirchner, Lula e Correa, até Castro e os diversos partidos comunistas, passando pelo trotskismo, o autonomismo e outros tipos de correntes que permaneceram passivas, ambíguas e relativamente indiferentes. Houve exceções, mas foram apenas isso, exceções tão brilhantes quanto escassas. O valor do antichavismo foi cooptado pela ala contrária do arco político. Um belo presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo esse apoio se deveu à enorme riqueza que entrou na Venezuela no início da era Chávez. Não foi obra de um grande programa econômico, mas efeito de uma contingência própria do funcionamento do mercado capitalista: um aumento dos preços internacionais do petróleo. Não há um consenso estabelecido sobre o valor gigantesco que entrou no orçamento nacional. Com essa imensa quantidade de divisas, o chavismo esboçou uma série de missões sociais que, inegavelmente, geraram melhorias reais e objetivas, reconhecidas por vários observadores, mas que, entenda-se bem, foram sempre superficiais, irregulares, insustentáveis e insuficientes. O aparato repressivo encarregou-se de censurar qualquer indício de sua própria incapacidade, e cada erro, conflito ou problema era encobrido com as vendas dos “petrodólares”. Assim, a estrutura da sociedade venezuelana, com seus piores defeitos, não só permaneceu intacta, como levou à criação de uma nova classe: um comando armado de militares, entre burgueses, narcotraficantes e administradores estatais, chamado de “boliburguesia”. Esse nome é muito significativo, pois representa como, nesse mar de desperdício descontrolado, corrupção e ineficiência, o controle privado dos meios de produção também permaneceu intacto. Há testemunhos de sobra de que os líderes políticos dos países latino-americanos sabiam da barbárie que ocorria na Venezuela, enquanto aplaudiam com interesse a farsa.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi, portanto, um favor muito lamentável para o futuro, para todo desejo de construção de uma sociedade mais justa, o de ter apoiado do exterior não apenas Maduro, mas o próprio Chávez. E também o de ter preferido muitas vezes olhar para o outro lado. Isso não se deve ao fato de a Venezuela ter em si mesma uma importância singular. É porque milhões de trabalhadores em todo o mundo ouviram seus colegas, amigos e parceiros recém-chegados (repito: 8 milhões de exilados) falarem sobre o desastre delirante e fracassado que foi chamado de “Socialismo do Século XXI”, e porque seus testemunhos ajudaram a expulsar as palavras “esquerda” e “socialismo” de seu horizonte comum. Diante disso, não é demais acrescentar que os gestos mais cotidianos e vergonhosos de xenofobia em relação aos exilados vieram, indiscutivelmente, dos setores progressistas. Enquanto os trabalhadores comuns venezuelanos e estrangeiros se solidarizavam ou se rejeitavam mutuamente na dura competição diária que é a vida proletária (como acontece com os imigrantes em todos os lugares neste mundo globalizado), o verdadeiro desprezo por nós veio dessa camada de ideólogos, universitários, professores, artistas e intelectuais, ofendidos por ver suas ilusões inocentes desaparecerem diante de seus olhos, contraditas por pessoas de carne e osso, e já incapazes de qualquer condescendência. Como se não pudessem acreditar que alguns de nós, os outros, fôssemos capazes dessa enorme destruição, ou como se a causa de tudo tivesse que ser sempre, para que seu esquema funcionasse, o onipresente “império” norte-americano. Se Trump fala, certamente há mentiras por trás do que ele diz; se Chávez anunciava a criação repentina de um milhão de moradias, aplausos cegos e pronto. Se eu peço justiça por algum companheiro do meu país de acolhimento, posso ser mais um daqueles que encarnam demandas legítimas; se peço justiça por Rodney Álvarez, sou um verme, um “facho” ou alguém a serviço da CIA. Nem mesmo a vasta onda de imigrantes desesperados os despertou ainda, completamente, de seu sonho adolescente acrítico.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje ocorre o pior cenário para um país já desintegrado e sem saída. Era, também, o único cenário possível. Todo o resto pertence ao registro dos ideais e valores abstratos, que não existem.</p>
<p style="text-align: justify;">Se alguém realmente se interessa pela política de outros países, países alheios ao seu — e não apenas por curiosidade, espetáculo ou fetiche, mas como algo onde está em jogo a vida mais íntima de seres humanos reais —, o caso da Venezuela é um excelente espelho para medir a altura ética, o compromisso militante e o rigor intelectual de cada um. Ou seja, uma grande oportunidade para enfrentar a capacidade que cada um tem de ver a si mesmo, diante do desastre que denuncia, o lugar que ocupa.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que a Venezuela tem sido essa espinha sutil e constante da época em que nos coube viver.</p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.vidaysocialismo.com.ar/para-quienes-no-son-venezolanos-por-diego-colombo/" target="_blank" rel="noopener">https://www.vidaysocialismo.com.ar/para-quienes-no-son-venezolanos-por-diego-colombo/</a></p>
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		<title>Solidariedade aos venezuelanos?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jan 2026 12:39:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ Qualquer posicionamento em rechaço à intervenção americana na Venezuela que ignore as décadas de crise e regime autoritário que existem no país é caduco, cego. Por Davi]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Davi</h3>
<p style="text-align: justify;">Como todos que possuem acesso à alguma mídia devem saber, os Estados Unidos sequestraram Nicolás Maduro, chefe de Estado da Venezuela, no último dia 3 de janeiro. O tema toma conta quase integralmente do noticiário e redes sociais desde então, com eventos ainda em desenvolvimento, mas acredito ser possível realizar uma leitura inicial &#8211; não exaustiva &#8211; da situação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Traição</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A ação militar sugere traição interna no regime bolivariano, como disse Rafael Uzcátegui em <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/01/158441/" href="https://passapalavra.info/2026/01/158441/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">seu artigo</a>. De fato, já fora divulgado que haviam <a class="urlextern" title="https://www.bloomberglinea.com.br/internacional/de-agente-da-cia-em-caracas-a-ataque-com-150-avioes-como-os-eua-capturaram-maduro/" href="https://www.bloomberglinea.com.br/internacional/de-agente-da-cia-em-caracas-a-ataque-com-150-avioes-como-os-eua-capturaram-maduro/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">agentes da CIA</a> no terreno coletando informações de contatos internos do regime, que passavam informações precisas sobre a rotina de Maduro. Traições de figuras próximas do regime não seriam novidade, <a class="urlextern" title="https://es.wikipedia.org/wiki/Manuel_Cristopher_Figuera" href="https://es.wikipedia.org/wiki/Manuel_Cristopher_Figuera" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">como no caso do major-general Manuel Cristopher Figuera</a>, que se refugiou em 2019 após uma tentativa fracassada de golpe. Somente lunáticos como Breno Altman acreditam que o regime segue firme, sem fissuras internas e que a ação foi realizada de forma isolada pelos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Chavismo trumpista</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Provavelmente não foi por acaso que Trump indicou Delcy Rodriguez, militante histórica do chavismo e que exerceu diversos cargos de importância como ministra de Economia, diretora do Banco Central e ministra do Petróleo. Segundo alguns relatos da mídia, haveria razões para que esse pacto fosse de interesse de ambos, pois o núcleo político de Delcy estaria sendo mais escanteado no arranjo político do governo Maduro.</p>
<p style="text-align: justify;">Manter o regime seria uma necessidade econômica para o governo Trump e as empresas conseguirem lucrar com a exploração do Petróleo venezuelano, pois uma transição forçada seria muito mais custosa em termos de perdas e conflito, com resultados mais incertos do que o sequestro do líder do regime. A solução <em>realpolitik</em> seria manter por enquanto um governo chavista alinhado aos EUA, pois a oposição liberal seria débil demais entre os atores políticos envolvidos — militares, Legislativo e Judiciário.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158465" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164.jpg" alt="" width="2560" height="1920" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-1536x1152.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-2048x1536.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Situação política na Colômbia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Trump ameaçou uma série de outros países em sequência ao ataque: Cuba, Colômbia, México, Groenlândia e Irã. Falando especificamente da Colômbia, foi sugerido que uma ação militar semelhante poderia ocorrer contra o presidente Gustavo Petro, a quem Trump acusa de relações com o narcotráfico. Essas falas têm repercutido bastante na mídia e na política colombianas, com diversos pronunciamentos do presidente Petro feitos nas últimas horas, chegando a defender que o povo tome o poder com armas caso seja atacado. Apesar das retóricas inflamadas, penso ser muito difícil que algo semelhante se repita em breve na Colômbia, pois há uma realidade bastante diferente da venezuelana. O país tem apresentado bons resultados econômicos recentemente, há uma democracia burguesa “respeitada” e certa liberdade política. Petro está em seus últimos meses de governo e haverá eleições em março, sendo o candidato de seu partido, Ivan Cepeda, o favorito para ganhá-las. As hostilidades de Trump tendem a fortalecer a esquerda governista, inclusive políticos de oposição criticaram sua postura. Se, porventura, houver uma ação análoga contra a Colômbia, há um risco real de uma grande convulsão social com efeitos incertos. Lembremos que o governo Petro é fruto dos recentes “<em>estallidos</em>” sociais do país, em <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_na_Col%C3%B4mbia_em_2019" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_na_Col%C3%B4mbia_em_2019" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">2019</a> e <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_na_Col%C3%B4mbia_em_2021" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_na_Col%C3%B4mbia_em_2021" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">2021</a>, que seriam inclusive as maiores revoltas populares da história da Colômbia <strong>[1]</strong>. Portanto, há motivos para acreditar que nesse caso seria mais um blefe do que uma ameaça de fato. A força dos blefes de Trump, entretanto, é poder torná-los reais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A reação dos venezuelanos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As reações públicas dos venezuelanos foram divididas entre os venezuelanos que moram na Venezuela e os refugiados em outros países. Dentro da Venezuela, segundo reportagens, houveram reações mistas: uma celebração tímida e algumas demonstrações públicas de apoio ao regime, muito provavelmente ordenadas desde cima pela classe dominante. Em ambos os grupos existe apreensão. Longas filas para estocar alimentos foram vistas nas ruas nos dias seguintes à operação.</p>
<p style="text-align: justify;">Fora da Venezuela, houveram comemorações em mais de 30 países com refugiados venezuelanos, segundo a líder da oposição María Corina Machado. Foram notórias as manifestações no Chile, Argentina e Colômbia. Após a euforia inicial, parece haver bastante expectativa e também apreensão entre essas pessoas, que vislumbraram uma possibilidade de retornar à sua terra natal no futuro. Esses imigrantes e refugiados também publicaram milhares de vídeos em redes sociais explicando por que estavam comemorando, apesar da ação ter sido feita pelos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Como a esquerda reagiu?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As reações iniciais de boa parte da esquerda brasileira foram de repúdio, com a CSP-Conlutas convocando uma manifestação em protesto ao ataque à Venezuela já no dia 3. Diversas declarações públicas sobre defesa da soberania foram publicadas, houve a linha de que as ações dos EUA não terminariam na Venezuela e Vladimir Safatle disse que “o fato de Maduro ser um ditador pouco importa agora”. Houve uma reação um tanto tímida do Governo Federal, com Lula falando em defesa da soberania em abstrato, buscando não se chocar frontalmente com nenhum dos lados do conflito e preservar sua melhora de relação com Trump.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 5, a CSP-Conlutas chamou um novo ato não só pela soberania, mas agora pedindo também “a libertação de Maduro”, algo surpreendente, pois o PSTU (dirigente da CSP), sempre fizera oposição explícita ao governo chavista. Ambos os atos foram pequenos, com um perfil muito mais de esquerda militante organizada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158464" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448.jpg" alt="" width="1188" height="625" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448.jpg 1188w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-300x158.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-1024x539.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-768x404.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-798x420.jpg 798w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-640x337.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-681x358.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1188px) 100vw, 1188px" />Na Colômbia houve uma reação similar à da esquerda brasileira, mas com posições muito mais enfáticas do presidente Gustavo Petro contra a ação dos EUA. No momento existe um aproveitamento político em defesa da soberania nacional colombiana e um ato nacional convocado para quarta-feira, 7 de janeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao redor do mundo houveram protestos contra a intervenção americana, também com um perfil muito à esquerda. Curiosamente, houve uma participação quase nula de venezuelanos em todos esses protestos, algo que inclusive foi usado por venezuelanos e pela direita para zombar dos manifestantes em alguns vídeos.</p>
<p style="text-align: justify;">De todo modo, os atuais protestos contra a intervenção americana na Venezuela e pela libertação de Maduro parecem condenados ao fracasso. A pauta exigiria literalmente uma revolução dentro dos EUA para que Maduro fosse libertado, ou então um ataque de outra potência estrangeira. Os grupos dirigentes dos protestos, sabendo disso, aproveitam o momento para angariar mais seguidores e fazer propaganda.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Uma vela para Maduro?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer posicionamento em rechaço à intervenção americana na Venezuela que ignore as décadas de crise e regime autoritário que existem no país é caduco, cego. Parte do sucesso da operação americana foi ter escolhido um “alvo perfeito”: um regime sem legitimidade num país devastado e sem futuro. Boa parte do repúdio da esquerda se deve, na verdade, a ilusões quanto ao regime chavista: Jones Manoel, influenciador de esquerda, diz que acha Hugo Chávez uma inspiração e o maior líder popular do século XXI. O MST está avaliando o envio de militantes para protestos pró-chavismo na Venezuela.</p>
<p style="text-align: justify;">É compreensível que a discussão sobre a Venezuela ser ou não uma ditadura pouco importe a pessoas como Vladimir Safatle, que não tiveram que virar pedintes ou trabalhadores informais em outros países e têm altos salários garantidos pelo Estado por período vitalício.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, é profundamente hipócrita que, após tantos anos de crise migratória, apenas agora a esquerda resolva “se importar” com os venezuelanos. No caso, prestando solidariedade apenas aos venezuelanos alinhados ao governo e se importando apenas em desmerecer e ridicularizar os refugiados que celebraram o sequestro de Maduro. Essa esquerda não tem coragem ou meios de tentar realizar ações conjuntas com os refugiados venezuelanos — sabem o quão ridículo seria chamá-los para um ato em prol da volta de Maduro ao poder. Resta falar apenas com sua claque de universitários e “esclarecidos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Façamos um exercício meramente hipotético: se Bolsonaro tivesse sido bem sucedido na tentativa de golpe em 2022, realizasse uma repressão brutal contra a esquerda e o governo Biden o sequestrasse, acham mesmo que essa esquerda que vocifera hoje nas redes sociais faria alguma coisa para exigir sua libertação e retomada ao poder, para que aí sim depois o assunto se resolvesse internamente? Aí fica escancarada a profunda hipocrisia do discurso de “defesa da soberania”.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise na Venezuela está longe de acabar com a continuidade do chavismo e a esquerda se encontra sem condições de intervir de qualquer maneira porque continua esquecendo quem mais importa: a população e os trabalhadores venezuelanos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> MARIÑO FANDIÑO, JUAN JOSE. Historia de los paros nacionales en Colombia.</p>
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		<title>[Venezuela] Nem tutela imperialista nem continuidade autoritária: Por uma saída popular, democrática e soberana para a crise</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Jan 2026 21:15:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Venezuela]]></category>
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					<description><![CDATA[A saída para a perigosa crise atual e a ameaça real de uma escalada militar imperialista passa por pôr fim ao regime autoritário e restabelecer a ordem constitucional. Por Partido Comunista da Venezuela (PCV)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Partido Comunista da Venezuela (PCV)</h3>
<p style="text-align: justify;">O Bureau Político do Comité Central do Partido Comunista da Venezuela (PCV) ─Eleito pelo XVI Congresso Nacional, novembro de 2022─ <a href="https://x.com/PCV_Venezuela/status/2007375366596231376" target="_blank" rel="noopener">reitera a sua mais firme e categórica condenação dos bombardeamentos criminosos executados pelas forças militares dos Estados Unidos sobre a cidade de Caracas</a> e outras localidades do país durante a madrugada de 3 de janeiro, ação que constitui uma grave agressão contra a soberania nacional e uma violação flagrante do direito internacional.</p>
<p style="text-align: justify;">O PCV rejeita a detenção violenta e ilegal dos cidadãos Nicolás Maduro Moros e Cilia Flores, realizada no âmbito desta intervenção militar estrangeira. Os Estados Unidos atuam mais uma vez como gendarme do mundo, aplicando extraterritorialmente as suas leis e ignorando abertamente os princípios de soberania, autodeterminação dos povos e não ingerência. As leis americanas não têm jurisdição na Venezuela, e nenhuma potência estrangeira tem o poder de impor a sua vontade pela força das armas.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta posição não implica, em circunstância alguma, qualquer defesa política da administração autoritária, antidemocrática, anti-trabalhista e antipopular de Nicolás Maduro, que exercia de facto a Presidência da República. Maduro e a cúpula do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) foram responsáveis por graves violações da Constituição, das leis e dos direitos políticos, laborais e sociais do povo trabalhador, criando condições favoráveis aos planos imperialistas de cerco e agressão contra o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Passaram-se três dias desde a agressão militar do governo de Donald Trump e, até o momento, as autoridades venezuelanas não apresentaram um relatório oficial sobre as vítimas civis e militares; os danos materiais causados pelos bombardeios e muito menos uma explicação sobre a incapacidade das forças de segurança de detectar e responder a uma agressão militar estrangeira. Esse silêncio não é apenas inaceitável, mas também suspeito. O país tem o direito de saber a verdade sobre as consequências desta ação bélica.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem rodeios, Donald Trump confirmou que a suposta «luta contra o narcotráfico» não passava de um vulgar álibi para encobrir os seus verdadeiros objetivos: o controlo do petróleo e dos recursos estratégicos venezuelanos. As suas declarações, nas quais afirma que governará a Venezuela e se encarregará de administrar os recursos petrolíferos, confirmam o caráter abertamente neocolonial e predatório dessa intervenção.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato de o governo Trump ter tornado públicas as suas exigências às novas autoridades venezuelanas — entre elas, o acesso privilegiado das empresas americanas aos recursos petrolíferos do país, bem como a proibição de vender petróleo bruto e o rompimento de relações com nações que essa administração classifica como inimigas dos interesses dos Estados Unidos — confirma que o conflito que os venezuelanos enfrentam hoje faz parte da disputa feroz entre as potências imperialistas e as nações capitalistas em ascensão pelo controle de mercados, matérias-primas, rotas comerciais e áreas de influência, no contexto de uma agravamento da crise estrutural do capitalismo à escala mundial.</p>
<p style="text-align: justify;">Os factos também confirmam o que o PCV tem denunciado repetidamente: a cúpula do PSUV negociava às costas do país com Washington, enquanto o povo venezuelano mergulhava numa grave crise política, económica e social. Prova disso são os apelos à «cooperação» e ao «desenvolvimento partilhado» feitos por Delcy Rodríguez diante das ameaças e imposições da potência imperialista.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se deve perder de vista, além disso, que esta operação militar foi impulsionada de forma irresponsável pelo setor mais reacionário da oposição, liderado por María Corina Machado, hoje afastada pelos seus próprios aliados, que deixaram claro que nem a democracia nem os direitos humanos orientam suas ações, mas que suas verdadeiras ambições se concentram no controle e na apropriação da indústria energética venezuelana, mesmo que isso signifique manter a continuidade do atual regime como seu braço executor.</p>
<p style="text-align: justify;">A ingerência militar dos Estados Unidos, embora incentivada por setores internos, não contribui para superar a crise nacional; pelo contrário, a agrava. As condições de vida do povo venezuelano continuam a deteriorar-se, enquanto a elite governante não adota nenhuma medida orientada para recuperar os direitos e a dignidade da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Advertimos ainda sobre as perigosas implicações do recente decreto de exceção, que pode se tornar um instrumento de repressão nas mãos de atores que mantiveram sua hegemonia por meio do terror, após terem perdido o apoio popular.</p>
<p style="text-align: justify;">O PCV insiste na necessidade inadiável de construir uma saída política popular, constitucional, democrática e soberana para a crise. Nem a ocupação nem a tutela imperialista, assim como a continuidade do regime autoritário, constituem soluções favoráveis para o povo trabalhador.</p>
<p style="text-align: justify;">Que todas as pessoas detidas arbitrariamente após a proclamação irregular de Nicolás Maduro como presidente sejam libertadas imediatamente, incluindo Enrique Márquez, sequestrado há um ano por exigir a publicação dos resultados das eleições presidenciais, bem como todos os ativistas presos por lutar e defender os direitos constitucionais do povo venezuelano.</p>
<p style="text-align: justify;">Os salários e as pensões devem ser resgatados do abismo em que foram mergulhados pelo programa neoliberal do PSUV. A dignidade das famílias trabalhadoras venezuelanas depende disso.</p>
<p style="text-align: justify;">A saída para a perigosa crise atual e a ameaça real de uma escalada militar imperialista passa por pôr fim ao regime autoritário e restabelecer a ordem constitucional através do restabelecimento das liberdades democráticas, da convocação imediata de eleições presidenciais, com plenas garantias para os cidadãos e as organizações políticas. Para isso, as atuais autoridades do CNE devem renunciar e os partidos políticos — entre eles o PCV — devem recuperar a sua personalidade jurídica.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta pela restauração da Constituição e do Estado de direito convoca todas as forças revolucionárias, populares e genuinamente democráticas do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Bureau Político do Comité Central do Partido Comunista da Venezuela</p>
<p style="text-align: justify;">Caracas, 6 de janeiro de 2026</p>
<p style="text-align: justify;">O original encontra-se em <a href="http://prensapcv.wordpress.com/2026/01/06/ni-tutelaje-imperialista-ni-continuismo-autoritario-por-una-salida-popular-democratica-y-soberana-a-la-crisis/" target="_blank" rel="noopener">prensapcv.wordpress.com/2026/01/06/ni-tutelaje-imperialista-ni-continuismo-autoritario-por-una-salida-popular-democratica-y-soberana-a-la-crisis/</a></p>
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