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Por Primo Jonas

Caminhando pela avenida Entre Ríos me encontro com um clássico porteño: as sedutoras caixas de livros em oferta na porta de velhas livrarias. Coletâneas variopintas [heterogêneas], essas caixas as vezes guardam tesouros em meio a publicações diversas, inesperadas, banais ou simplesmente bizarras, literaturas esquecidas ou guias técnicos desencontrados. Comprei um presente para uma amiga, também uma edição feita por trabalhadores da olaria recuperada por seus trabalhadores em Neuquén, Zanon (ou FaSinPat), com debates a respeito dos conselhos de trabalhadores e o papel dos sindicatos, e por fim, o livro que hoje nos interessa: Rusia y el mundo contemporáneo, de Guennadi Ziuganov, editado em 1996. Uma pequena brochura com capa e contracapa levemente gasta, de quase 100 páginas.

Guennadi era naquele ano o mais importante líder do comunismo russo, tendo sido alçado à presidência do Partido Comunista da Federação Russa, fundado por ele e outros políticos advindos do regime soviético em 1993. O seu livro Rusia y el mundo contemporáneo buscava apontar o sentido do movimento comunista russo naquele momento tão delicado de seu país, após o movimento golpista de Agosto de 1991 contra Gorbachev e a desintegração da URSS em dezembro daquele ano.

Não tive dúvidas, e comprei o livro sem nem mesmo saber bem que sujeito era aquele, para além de uma pequena introdução na contracapa do livro. De fato, apenas hoje, ao terminar de ler o livro, fui à Wikipedia e descobri que Guennadi continua sendo o presidente daquele partido, a segunda força parlamentar da Rússia.

O que pensava o maior líder comunista russo em plena década de 90? Isso jogaria alguma luz sobre a atual invasão militar na Ucrânia? Pois sim.

O fascismo no Partido Comunista da Federação Russa

Nos ambientes mais críticos já é bastante comum se referir à figura de Alexandr Dugin como um intelectual influente no pensamento imperialista russo atual, embora também se discuta a real dimensão desta influência, ou se esse posto seria ocupado em realidade por outros intelectuais da geopolítica e da doutrina ideológica russa. Logo, o mais interessante, imaginava eu, seria comparar esse discurso com as ideias do comunismo russo pós-URSS, para entender essa etapa final da transformação apontada por João Bernardo em um de seus últimos textos: o caminho percorrido entre algumas formações políticas revolucionárias do ciclo de lutas do começo do século XX e as atuais posições fascistas sustentadas por herdeiros das instituições e partidos históricos nascidos naquele ciclo.

Por exemplo, em 1996 Guennadi explica que “a hora dita a necessidade de criar uma ‘ideologia do patriotismo’, que seja eficaz e responda à atualidade, (…) para formar através da Rússia um poderosíssimo centro alternativo de influência mundial capaz de encarnar a justiça e o poder do povo e os princípios econômicos, culturais, políticos e sociais em uma linha ‘continental’ – em contraposição à ‘mundialista’ – de desenvolvimento da civilização contemporânea.” (pág. 17)

Quem endossa essa polarização e se coloca também contra os mundialistas, ou globalistas, é Marine Le Pen. Não é difícil, hoje em 2022, enumerar uma lista de outros importantes líderes mundiais que seguem a mesma linha, em diferentes continentes.

No âmbito dos debates marxistas, o presidente do PCFR nos conta que “Na dinâmica global e nos mecanismos de desenvolvimentos das mudanças sociopolíticas se fazem mais importantes não simplesmente as relações entre classes, senão entre civilizações. (…) O fascismo alemão se propôs o objetivo de destruir a URSS não apenas como pátria do socialismo, mas principalmente como núcleo de um tipo novo de estrutura geopolítica.” (pág. 24) Interessante notar como a “geopolítica” é referida como uma lógica em si mesma que justifica as guerras, não sendo necessário aprofundar a análise. Ao contrário, é dispensada qualquer análise e se passa ao simples plano da justificação. Os nazistas podiam afirmar seu programa racial como explicação para as guerras e a reorganização territorial, os aliados buscariam a democracia e os mercados abertos, já os russos, o desenvolvimento de sua “estrutura geopolítica”. “Hoje, com todo o direito, podemos concluir que as contradições entre os EUA e a URSS se baseavam não tanto na diferença ideológica mas sim na rivalidade por influenciar na política e na economia mundiais.” (pág. 29)

Para refrear as turbulências sociais e políticas daquela época, seria necessária a construção da paz civil, em oposição aos elementos criminosos, mafiosos, corruptos e lumpens do “partido da guerra civil”. Na coalizão da paz civil entrariam “desde comunistas e socialistas, passando por nacional-patriotas e centristas até democratas estatistas que não aceitem objetivos nem instrução cosmopolitas.” Este horror ao cosmopolitismo, identificado como grande inimigo dos comunistas, obviamente mobiliza pretensões históricas, que remetem ao Batizado da Rússia no ano de 988, a adoção do cristianismo pelos povos primogênitos, que se uniram em uma “sólida aliança ideológica de ideais religiosos comuns, e deram início à formação de uma comunidade etnopolítica e espiritual e ideológica única que o mundo conhece como ‘povo russo’.” (pág. 56)

Essa gloriosa epopeia de bendição e formação de um povo ungido e predestinado é retomado em um tema que eu havia já visto em comentários de Dugin, a visão de Rússia como a terceira Roma: “Segundo os mais recentes intérpretes da tese de ‘Moscou é a terceira Roma’, o avanço histórico desde esta última até Moscou, passando por Bizâncio, significou a instauração consequente dos três princípios fundamentais do sistema de Estado imperial: o do direito romano e o da unidade de poder, enriquecido pela unidade espiritual e moral cristã bizantina, e terminando finalmente com a unidade dos povos da Rus Moscovita, isto é, a Rússia, o que ficou identificado na fórmula ‘Autocracia. Ortodoxia. Nacionalidade’, adiantada faz um século e meio pelo ministro de educação S. S. Uvarov.” (pág. 58) Nem os comunistas russos seguem a tese de que Rússia não tem pretensões imperialistas! Faltou avisar alguns perdidos no resto do mundo.

Ao realizar uma análise de conjuntura, Guennadi considera como importante fator o “Início da execução prática de planos para instaurar a ‘nova ordem mundial’ que estipula, essencialmente, a implantação de um regime planetário de ditadura política, econômica e militar do Ocidente, com os EUA liderando.” (pág. 62) Estremecedor entender que uma vez terminada a guerra fria, na Rússia seriam os comunistas a adotar um discurso que antes havia sido esgrimido pelos fanáticos religiosos e conservadores estadunidenses contra as influências dos comunistas em seu país. Os planos totalitários da conspiração judaico-comunista, que visavam exterminar o modo de vida tradicional dos peregrinos puritanos, se tornaram os planos totalitários da conspiração judaico-neoliberal, contra quem a pátria deve se defender. “O início da execução dos planos de instauração do ‘novo ordem mundial’ significa que foram empreendidas ações ocultas e decididas para criar um sistema rígido e centralizado de direção coercitiva do desenvolvimento da civilização humana”. (pág. 63) Curioso, pois um sistema rígido e centralizado de direção coercitiva do desenvolvimento da civilização humana se aproxima muito daquilo que alguns comunistas pró-Putin e pró-Jinping têm como ideal de sociedade.

É notável a importância do cristianismo no conceito que até os comunistas russos têm do povo russo e de sua identidade política, e por este código e esta linguagem as coisas são entendidas. “No plano ideológico, a ‘nova ordem mundial’ se apoia na religiosidade ‘pós-cristã’. Sua ideologia (recordemos do ‘fim da história’ de F. Fukuyama) estipula a realização das esperanças messiânicas e multisseculares do Ocidente na forma do ‘paraíso terreno’ liberal e democrático. Os próprios ideólogos do mundialismo estão convencidos de que se trata da iminente chegada do Messias ao mundo para afirmar na Terra as leis de uma religião perfeita e ser o fundador do ‘século de ouro’ da humanidade, que transcorrerá sob o mando de apenas um Supergoverno Mundial”. (pág. 75) A hegemonia neoliberal é também a encarnação do Anticristo, tal como denunciavam e ainda hoje denunciam os fanáticos cristãos nos cafundós dos Estados Unidos.

O fascismo no Partido Comunista da Federação Russa

Para conseguir um Mundo Equilibrado é “muito importante que suas bases não descansem em utopias mundialistas, senão no equilíbrio geopolítico entre os Grandes Espaços, civilizações e ‘centros de força’ etnoconfessionais e na consideração dos interesses legítimos de todos os Estados e povos, grandes e pequenos”. (pág. 79) Não são detalhes no atual conflito sobre a Ucrânia a divisão da igreja ortodoxa e a legitimidade histórica do Estado ucraniano. A legitimidade dos Estados é reconhecida enquanto referida a estes grandes blocos nomeados como “Grandes Espaços”, civilizações ou centros de força, ressaltando seu aspecto “etnoconfessional”, isto é, racista e teocrático.

Nas palavras finais, Guennadi termina de depor qualquer pequena arma branca marxista que pretendeu esgrimir em suas teses, oferecendo-nos uma explicação étnica para a conjuntura russa do momento: “A causa principal do mal-estar sociopolítico é a tentativa de restaurar o capitalismo, socavando assim as bases materiais e espirituais da sociedade e do Estado e revelando cada vez mais as diferenças medulares entre a civilização ocidental e a russa. O capitalismo não se enraíza organicamente no modo de vida, nos costumes e na psicologia de nossa sociedade. Já uma vez a levou à guerra civil e tampouco agora ele se implantará no solo da Rússia”. (pág. 93) O capitalismo é, em essência, um sistema estrangeiro, cosmopolita, e nestes termos se opõe ao movimento comunista.

Este era o pensamento do presidente do Partido Comunista da Federação Russa em 1996. O mesmo que ainda preside o Partido, a segunda força parlamentar na Rússia de Putin, o que alguns meios de comunicação chamam de “oposição”.

A edição consultada é: Rusia y el mundo contemporáneo, Guennadi Ziuganov. Imformechat 1996. Título original em russo: Rossia I Sovriemienni Mir

1 COMENTÁRIO

  1. Em 2020 a minha filial brasileira publicou um texto meu:

    “[…] A maior catástrofe mundial, que foi a destruição da URSS, infligiu pesados danos aos povos eslavos, violando sua integridade territorial e ameaçando sua comunidade política, socioeconômica e cultural.

    A dura questão que enfrentamos é a da sobrevivência, a preservação da paz civil e a salvação de nosso Estado. Ele está sendo ameaçado cada vez mais abertamente por inimigos externos liderados pelas elites políticas, financeiras e militares dos Estados Unidos. Isso assume a forma de sanções econômicas, guerra de informação e forte pressão política ao longo de todo o perímetro de nossas fronteiras. O destino da Rússia e de todos os povos que vivem no antigo território soviético depende da solução deste problema.

    As declarações e iniciativas dos líderes russos e bielorrussos demonstraram repetidamente que eles estão cientes da seriedade dos desafios modernos. Todas as pessoas de mentalidade patriótica compreendem que só podemos dar-lhes uma resposta adequada se confiarmos nas relações aliadas estreitas e defendermos os nossos interesses comuns. Essa aspiração formou a base da união entre Estados Rússia-Bielorrússia. Sua criação foi o passo fundamental para superar as consequências do desastroso conluio Belovezhskaya de 1991.

    No caminho de nossas aspirações fraternas estão os interesses egoístas do capital transnacional sintetizados pelos EUA e seus aliados da OTAN. Buscando evitar que o capitalismo global afunde em uma crise de grande escala, eles estão usando diversos mecanismos de guerras híbridas, ampliando sua expansão e fomentando o caos administrado. Os tentáculos deste polvo já dominaram a Ucrânia. A camarilha de Bandera foi levada ao poder em Kiev a fim de impor a escravidão econômica ao país irmão, fortalecer a aliança antirrussa na Europa Oriental e formar o “cordão sanitário” Báltico-Mar Negro.

    […] Se quisermos evitar que esses planos destrutivos se tornem realidade, cabe-nos passar das declarações e protocolos às medidas concretas, às ações decisivas urgentes.”

    https://pcb.org.br/portal2/26099

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