Por Arturo Mesa

Cuba é o melhor exemplo de que não há nada como um partido único para que se perca a essência da política. Na sua luta para manter-se a todo o custo no poder, deixou de escutar o povo e tenta nos convencer de que somente com ele se pode chegar a um porto seguro. O navio pode afundar e todos os membros da tripulação podem afogar-se, mas até mesmo nessas condições ele nos mantém sujeitos a um mandato aprovado apenas por alguns.

O partido único dominou a cena política nacional a partir da década de 1960. No início, estava sob a direção de um líder carismático, que tinha seguidores e era respeitado. Desde essa fase inicial, se criou o costume de que dentro do partido as instruções se cumprem sem hesitações, porque quem realmente “sabia lidar com os problemas” estava à frente da organização e as suas decisões eram aceitas sem discussão. A isto se acrescenta que qualquer opinião contrária que não viesse “do Palácio” era considerada como de oposição, qualificação temida como nenhuma outra.

Estas premissas criaram as condições para que, passado o tempo, fosse designado um sucessor que não podia nem sabia falar. A inevitável mudança geracional chegou e, perante a necessidade de um dirigente mais jovem, foi escolhido alguém formado na tradição de seguir instruções sem grandes análises. E como as ordens se cumprem, o novo dirigente nunca teve de defender uma ideia face a um argumento contrário.

Na sua formação, nunca aprendeu a debater, nem foi treinado a memorizar dados para apoiar ou refutar uma ideia, e muito menos teve de se preparar para um cenário em que emergisse abertamente o dissenso. Dissentir era uma atitude contrária à noção de uma revolução imutável e irreversível. Aos dissidentes se reprime. Desta atitude soberba saiu a frase que será sempre reconhecida como a pior do seu legado: “A ordem de combate está dada”.

Nestas condições chegamos à data atual e é evidente que, à exceção de dois ou três assuntos de conhecimento obrigatório para um doutor em ciências [1], quando tem de se apresentar em público, o presidente treme, sua, se mexe sem parar, ri nervosamente, evita entrevistas, repete frases feitas e comete grosseiros erros gramaticais e de dicção. Porque tudo o que fez antes de tomar posse foi obedecer ou dar ordens que tinham de ser cumpridas; portanto, não tem qualquer condição de explicar os tempos ou a ordem das mudanças que se esperam, e muito menos mostra carisma para responder a uma cidadania ávida de esperanças.

Mesmo quando se dirige a nós, está no fundo falando para o seu partido. O presidente não entende de desculpas (política de partido), só faz discursos que seguem ao pé da letra as diretrizes do partido, não se reúne com a dissidência ou com redes televisivas contrárias. Não é do seu interesse ganhar o debate. A sua verdadeira motivação é seguir a doutrina das ordens e dos slogans, de que somente com o seu socialismo, inexplicável e inexplicado, se conseguirá a maior justiça.

É esse o perigo atual. Não a sua pessoa – que é, afinal, produto de um modelo político – mas sim a organização que pretende nos dirigir para sempre. É precisamente essa a organização que criou um dirigente robô, sem preparação para debater e explicar, que culpa o bloqueio por qualquer problema que exista, e que é capaz de encarcerar qualquer um que se lhe oponha, como em épocas anteriores, porque é isso o que ele tem feito. E as instruções se cumprem sem hesitações.

Nota da tradução

[1] Em março de 2021, já na presidência de Cuba, Miguel Díaz-Canel defendeu a sua tese de doutorado na Academia de Ciências de Cuba, um trabalho sobre “o sistema de gestão do governo baseado em ciência e inovação para o desenvolvimento sustentável em Cuba”, como pode ser visto aqui.

A foto em destaque é de Aexandre Meneghine (Reuters)

Traduzido pelo Passa Palavra. O original em espanhol pode ser lido aqui.

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