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	<title>Bairros_e_cidades &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>[São Paulo] Favela do Moinho lança a campanha &#8220;Alê livre&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 21:00:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Em defesa da liberdade e da integridade física e psíquica de Alessandra Moja Cunha. Por Comitê em Defesa do Moinho e pela Liberdade das Pessoas Presas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Comitê em Defesa do Moinho e pela Liberdade das Pessoas Presas</h3>
<p style="text-align: justify;">Localizada entre os distritos da Santa Cecília e do Bom Retiro, há mais de 3 décadas a Favela do Moinho resiste a inúmeras tentativas de expulsão, incêndios, abusos, execuções policiais e criminalização generalizada da comunidade <strong>[1]</strong>. Trata-se, como se sabe, da última favela remanescente na região central de São Paulo.</p>
<p>Recentemente, o governo estadual escolheu a região, uma das mais valorizadas na cidade, para construir a sua nova sede administrativa. No mesmo pacote, incluiu a construção de um parque e de uma estação privatizada de trem precisamente no terreno em que as famílias do Moinho encontraram um modo viável de viver na região central, perto das oportunidades de trabalho e de serviços públicos.</p>
<p>O projeto, que é declaradamente a ponta de lança para favorecer os diversos empreendimentos imobiliários e empresariais que invadiram a região na última década <strong>[2]</strong>, impulsionou uma brutal escalada de assédios e ataques à comunidade.</p>
<p>Com coragem e articulada com movimentos sociais e apoiadores voluntários de longa data (todos eles signatários desta carta), a Favela do Moinho conseguiu arrancar aos governos estadual e federal um compromisso de subsídio integral de moradias para toda a comunidade <strong>[3]</strong>.</p>
<p>Foi nesse contexto de reivindicação legítima do direito à moradia que se deu a vexaminosa operação policial do dia 8 de setembro de 2025 coordenada pelo GAECO, do Ministério Público, e executada por dezenas de policiais.</p>
<p>A reação institucional à vitória significativa da comunidade foi a prisão decretada contra Alessandra Moja Cunha, uma das lideranças históricas do movimento de moradia do centro de São Paulo e desde sempre engajada na associação de moradores do Moinho, sob absurdas acusações de participação em organização criminosa, prática de extorsão, receptação, crime ambiental e associação para o tráfico.</p>
<p>Na ocasião, a sua casa foi arrombada pelos policiais que, sem respeitar a obrigatoriedade do uso câmeras corporais, a agrediram com um soco e ameaçaram dar choques com o fio desencapado que extraíram do televisor. Certos de que tinham guarida, os policiais ainda forjaram uma mochila de entorpecentes ilegais contra ela e o marido <strong>[4]</strong>.</p>
<p>Para agravar o quadro de explícita perseguição política, Alê foi transferida, sem qualquer motivação idônea, para uma penitenciária situada em Tupi Paulista, a 700 quilômetros da capital. Lá, próximo à divisa com o estado do Mato Grosso do Sul, Alê tem somente quatro horas diárias de banho de sol e não tem recebido visitas pessoais em razão da dificuldade de locomoção dos familiares.</p>
<p>Contra toda essa covardia e terror, estamos aqui para exigir verdade e justiça.</p>
<p>Alê tem uma história de que deve se orgulhar. Sempre se dedicou ao trabalho honesto e cotidiano, à subsistência de suas filhas e filhos, às diversas ações de apoio mútuo entre vizinhos e na luta pelos direitos da comunidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo dos últimos 15 anos, Alê foi ativa na defesa dos direitos básicos da comunidade relacionados, sobretudo, à regularização fundiária, ao fornecimento de água e luz e ao saneamento básico. É notória e amplamente documentada a sua participação em inúmeras negociações com órgãos públicos e na articulação com agentes da sociedade civil organizada <strong>[5]</strong>. Internamente, foi uma das principais responsáveis por promover e cuidar de espaços coletivos para atividades culturais, como a Casa Pública, o Parque Vermelhão, o Cine Moinho etc.</p>
<p>É preciso que todos saibam que há muito tempo a Alê era intimidada em razão de seu engajamento direto na luta por moradia digna. Como sempre de cabeça erguida, Alê jamais deixou de atuar à luz do dia e reivindicar legitimamente os direitos dos moradores <strong>[6]</strong>.</p>
<p>Agora está sendo acusada por uma série de fatos que jamais cometeu única e exclusivamente em razão da sua atuação como líder de movimento de moradia. Uma acusação fajuta, baseada em laços de parentesco e sem nenhuma prova concreta, hoje a mantém presa injustamente e em condições desumanas de isolamento.</p>
<p>Felizmente, dois escritórios renomados (Tofic Advogados e Toron Advogados) e o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD) assumiram gratuitamente a defesa da Alê. Mas a sua família não tem condições financeiras de bancar viagens para visitá-la do outro lado do estado e só com sacrifícios imensos tem conseguido enviar o jumbo mensal.</p>
<p>Desse modo, a presente carta serve de endosso à campanha permanente pela liberdade da Alê <strong>[7]</strong> e igualmente de pedido de contribuição financeira para arcar com os custos para garantir visitas e jumbos até ela ser libertada. <a href="https://apoia.se/faveladomoinho" target="_blank" rel="noopener">CONTRIBUA COM O APOIA-SE</a>.</p>
<p>Somos muitas ao lado da Alê. Há mais de década conhecemos sua história, sua força e sua imensa dignidade. Enquanto ela estiver presa, estaremos reunidos em solidariedade pela preservação de sua integridade e por sua liberdade.</p>
<p>Alê livre!</p>
<p><a href="https://apoia.se/faveladomoinho" target="_blank" rel="noopener">https://apoia.se/faveladomoinho</a></p>
<p style="text-align: justify;">ASSINAM ESSA CAMPANHA:</p>
<ol style="text-align: justify;">
<li>Comitê em Defesa do Moinho e pela Liberdade das Pessoas Presas</li>
<li>Associação de amigos e familiares de presos/as (AMPARAR)</li>
<li>Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste</li>
<li>Campanha Despejo Zero São Paulo</li>
<li>Central de Movimentos Populares &#8211; CMP</li>
<li>Central Sindical e Popular CSP-Conlutas</li>
<li>Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários Suely Yumiko (CAELL) &#8211; Letras USP</li>
<li>Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos</li>
<li>Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP</li>
<li>Comitê Brasilândia Nossas Vidas Importam</li>
<li>Defemde &#8211; Rede Feminista de Juristas</li>
<li>DHCTEM &#8211; Grupo de Pesquisa de Direitos Humanos, Centralidade do Trabalho e Marxismo (FDUSP)</li>
<li>Equipe São Paulo do Conselho Indigenista Missionário &#8211; CIMI</li>
<li>FACESP &#8211; Federação das Associações Comunitárias do Estado de São Paulo</li>
<li>Frente Nacional de Luta Campo e Cidade &#8211; FNL</li>
<li>GPTC &#8211; Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital (FDUSP)</li>
<li>Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC</li>
<li>LabCidade – Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo</li>
<li>Luta Popular</li>
<li>Mandela Free</li>
<li>Movimento de Familiares das Vítimas do Massacre de Paraisópolis</li>
<li>Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB)</li>
<li>Movimento de Moradia do Centro de São Paulo – MMRC</li>
<li>Movimento de Mulheres Olga Benário</li>
<li>Movimento Esquerda Socialista (MES) &#8211; PSOL</li>
<li>Movimento Mulheres em Luta &#8211; MML</li>
<li>Movimento Negro Unificado (MNU)</li>
<li>MRFU &#8211; Movimento de Regularização Fundiária e Urbanização</li>
<li>MRT &#8211; Movimento Revolucionário de Trabalhadores</li>
<li>Observatório da Violência Policial e Direitos Humanos (OVP-DH)</li>
<li>Organização Socialista Libertária (OSL)</li>
<li>Programa de Assessoria, Garantia e Defesa de Direitos do Instituto das Irmãs da Santa Cruz (ADDIISC)</li>
<li>PSTU &#8211; Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado</li>
<li>Rede Emancipa de Educação Popular</li>
<li>Resistência &#8211; PSOL</li>
<li>SAJU Cidade &#8211; Serviço de Assessoria Jurídica Universitária, frente cidade (FDUSP)</li>
<li>Secretaria de Mulheres da União dos Movimentos de Moradia &#8211; UMM-SP</li>
<li>Sindicato Dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo – SINTUSP</li>
<li>Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal do Estado de São Paulo &#8211; SINDSEF-SP</li>
<li>União dos Movimentos de Moradia de São Paulo &#8211; UMMSP</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p><strong>[1]</strong> Cf. documento da Fiocruz “Favela do Moinho luta por políticas públicas que priorizem sua permanência, a urbanização e o respeito aos direitos dos moradores”, de 2025”: <a href="https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/favela-do-moinho-luta-por-politicas-publicas-que-priorizem-sua-permanencia-a-urbanizacao-e-o-respeito-aos-direitos-dos-moradores/" target="_blank" rel="noopener">https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/favela-do-moinho-luta-por-politicas-publicas-que-priorizem-sua-permanencia-a-urbanizacao-e-o-respeito-aos-direitos-dos-moradores/</a></p>
<p><strong>[2]</strong> Nas palavras do vice-governador e líder da “política de desestatização” do governo estadual, o objetivo é que o projeto seja o “motor de revitalização da região central, atraindo investimentos, promovendo infraestrutura moderna e gerando um novo dinamismo econômico&#8221; [cf.: <a href="https://www.instagram.com/reels/DKS5TawyEjP/" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/reels/DKS5TawyEjP/</a>]</p>
<p><strong>[3]</strong> Cf.: <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2025-06/familias-da-favela-do-moinho-receberao-r-250-mil-para-comprar-imovel" target="_blank" rel="noopener">https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2025-06/familias-da-favela-do-moinho-receberao-r-250-mil-para-comprar-imovel</a></p>
<p><strong>[4]</strong> Cf.: <a href="https://ponte.org/operacao-que-prendeu-lideres-no-moinho-mandou-pms-sem-camera-para-suposto-flagrante-de-drogas/" target="_blank" rel="noopener">https://ponte.org/operacao-que-prendeu-lideres-no-moinho-mandou-pms-sem-camera-para-suposto-flagrante-de-drogas/</a></p>
<p><strong>[5]</strong> Para ilustrar: (1) participação em reportagem publicada pela Reporter Brasil em 18 de outubro de 2013: <a href="https://outraspalavras.net/outrasmidias/a-longa-resistencia-da-favela-do-moinho/" target="_blank" rel="noopener">https://outraspalavras.net/outrasmidias/a-longa-resistencia-da-favela-do-moinho/</a>; (2) reunião com o prefeito de São Paulo em 14 de dezembro de 2014: <a href="https://prefeitura.sp.gov.br/web/habitacao/w/noticias/187584" target="_blank" rel="noopener">https://prefeitura.sp.gov.br/web/habitacao/w/noticias/187584</a>; (3) participação na produção do documentário “Moinho 14”: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=3-Jq5nQw-bM" target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=3-Jq5nQw-bM</a>; (4) entrevista à BBC sobre a luta por água e esgoto, publicada em 26 de abril de 2022: <a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61197414" target="_blank" rel="noopener">https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61197414</a></p>
<p><strong>[6]</strong> Em outubro de 2014, Alê foi detida arbitrariamente, sem qualquer acusação, ameaçada e conduzida à Delegacia. Como nada havia contra ela, foi &#8220;liberada&#8221;. Procurou a Defensoria Pública e através dela ajuizou e ganhou, em sentença proferida em 2023, ação de indenização contra o Estado e de responsabilização criminal dos policiais envolvidos. Nas palavras do juiz do caso, foi tão flagrante a &#8220;ocorrência de ilegalidade, que no inquérito em que se analisava a ocorrência de crime de abuso de autoridade, foi proposta pelo Ministério Público, aceita pelos [policiais] autores do fato e acolhida pelo juízo transação penal”, o que demonstra cabalmente que se tratava “de situação que não se admitia arquivamento e que existia justa causa para deflagração ação penal&#8221; [cf. ação indenizatória n. 1054878-29.2019.8.26.0053, 2ª Vara do Juizado Especial da Fazenda Pública de SP]</p>
<p><strong>[7]</strong> O manifesto público da campanha foi lançado em dezembro de 2025 e pode ser acessado e republicado a partir daqui: <a href="https://www.instagram.com/p/DSnBI1Rjccf/?hl=pt" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/DSnBI1Rjccf/?hl=pt</a></p>
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		<title>Do Jacarezinho à Penha: o narcoestado em sua maturidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Jan 2026 16:51:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A favela, reduzida à condição de campo de guerra, é também a expressão mais radical do fracasso — ou melhor, do sucesso — da ordem capitalista. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Em 5 de maio de 2021, o massacre do Jacarezinho marcou uma ruptura simbólica: pela primeira vez em décadas, o Estado brasileiro agiu sem qualquer pudor em exibir a face nua da sua função repressiva. Naquele episódio, vinte e oito pessoas foram executadas sob o pretexto de uma operação “contra o tráfico”, mas o que se viu foi o ensaio geral de uma nova forma de governar — um governo pela morte. O texto que escrevi então, intitulado <em>Jacarezinho e o Narcoestado</em>, já apontava esse caminho: o Estado não “falha” ao matar, ele cumpre sua função estrutural de defesa dos interesses das classes dominantes, transformando o controle social em fonte de lucro e poder. Aquele massacre foi o laboratório da doutrina que amadureceria quatro anos depois, nas favelas da Penha e do Alemão. O que mudou entre 2021 e 2025 não foi a natureza da violência, mas sua administração: a morte tornou-se um dado de gestão, planejada, mensurada, legitimada como política pública. O que era “excesso” virou método; o que era “ilegal” virou norma. Do Jacarezinho à Penha, percorremos o itinerário completo de um Estado que, em meio à crise estrutural do capitalismo dependente, já não disfarça sua fusão com as forças do crime, da milícia e do capital. A repressão não é resposta à desordem — é o próprio modo de produzir ordem. E essa ordem se ergue sobre o extermínio cotidiano de uma população negra e periférica, herdeira dos quilombos e das senzalas, hoje confinada em territórios de abandono onde o Estado se ausenta como direito e reaparece como bala. Se o Jacarezinho foi o ensaio, a Penha é a maturidade do narcoestado: o momento em que a barbárie deixa de ser exceção e se torna a linguagem administrativa do poder.</p>
<p style="text-align: justify;">A operação intitulada “Contenção”, deflagrada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha no Rio de Janeiro, responde a uma dinâmica que há décadas vem se reproduzindo. A novidade reside apenas na escala — o aparato mobilizado, os mortos contabilizados, a cobertura midiática — mas o núcleo da ação permanece intacto: a velha guerra contra o tráfico de drogas, as facções, o “poder paralelo”. O que muda, e com intensidade, é que essa guerra se converteu em política de Estado. Logo, para compreendê-la, devemos deslocar o foco da contenda imediata para o fundamento estrutural: por que essa guerra é vital ao Estado? Por que ela se realiza exatamente nos territórios periféricos? Quem são seus agentes reais — não apenas visíveis à luz da mídia, mas aqueles que continuam invisíveis porque se inserem no funcionamento do sistema?</p>
<p style="text-align: justify;">O Estado burguês, forma política do capital, tem por pressuposto a defesa dos interesses das classes dominantes e de suas classes auxiliares. O aparato repressivo, portanto, é componente ordinário. A Operação Contenção evidencia menos a “naturalização” abstrata da força letal e mais um regime de legalidade gerencial: dispositivos jurídicos, métricas operacionais e rotinas administrativas que <strong>convertem a </strong>morte e a coerção em indicadores de desempenho. As falas do secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, não apenas justificam a letalidade; elas a integram a um desenho de governo em que apreensões, autos de resistência arquivados, “neutralizações”, narrativas de “narcoterrorismo” e cooperação interagências funcionam como chaves de autorização para orçamento, compras públicas, blindagem política e expansão tecnológica. Ao declarar que o Rio “vive um estado de guerra”, Curi enuncia uma doutrina de gestão territorial: ausência social estruturada (sem escola de tempo integral, creche, saúde, renda, cultura) e hiperpresença policial como tecnologia de controle. Esse arranjo produz inimigos substituíveis (a mão de obra juvenil negra) e <strong>soberanias sobrepostas</strong> (Polícia Civil, PM, PRF, Forças Armadas, MP e Judiciário) que <strong>distribuem a exceção</strong>, mantendo-a lícita e repetível. Em termos materiais, isso <strong>reordena o espaço urbano</strong> (valorização fundiária seletiva, expulsões lentas, captura de serviços informais) e <strong>fornece fluxo de renda</strong> para a economia da segurança. A favela — <strong>quilombo contemporâneo de sobrevivência negra</strong> — é alvo preferencial porque <strong>o próprio Estado se retirou como garantidor de direitos</strong> e reaparece como <strong>gestor do risco e da punição</strong>, impondo à juventude negra — majoritariamente criada por <strong>mães solo</strong>, com pais mortos ou encarcerados — <strong>um cardápio de explorações equivalentes</strong>: o subemprego degradado ou o recrutamento por organizações armadas que <strong>disputam, com o Estado, a extração de valor</strong> dos mesmos corpos. A letalidade não é erro; <strong>é método contábil da ordem</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O uso da expressão <strong>“estado de guerra”</strong> também é revelador. Ela legitima a militarização total da vida civil, a suspensão prática das garantias constitucionais e a instauração de um regime de exceção permanente nos territórios periféricos. Ao afirmar que “a alta letalidade era previsível, mas não desejada”, ele naturaliza o massacre. A previsibilidade da morte é, para ele, um dado operacional — uma espécie de efeito colateral aceitável dentro da lógica da segurança. Essa frase contém toda a essência da racionalidade instrumental que domina o Estado capitalista em crise: a morte não é um erro, mas um custo calculado, inscrito na contabilidade da gestão social. A afirmação de que “as vítimas dessa operação foram os militares mortos ou feridos” é um gesto de desumanização total. Reduzir dezenas de civis executados a “criminosos que optaram por não se render” é uma forma moderna de eugenia política. A palavra “opção” desloca a responsabilidade: os mortos tornaram-se culpados de sua própria execução. A necropolítica de Estado transforma o poder de matar em ato administrativo. O secretário também reforça o velho argumento de que o governo estadual age “sozinho” contra o crime, reclamando da falta de apoio federal. Essa retórica é estratégica: produz a imagem de um Estado heroico e abandonado, lutando contra forças maiores. Mas, na prática, serve para esconder o verdadeiro abandono — o do povo pobre, o das favelas, o dos trabalhadores precarizados que vivem sob cerco. A disputa entre governo estadual e governo federal é apenas disputa de gestão da barbárie. Nenhum dos lados questiona o princípio fundamental da política de segurança: o de que a vida periférica é descartável e o território popular é zona militarizada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158561" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146.jpg" alt="" width="1392" height="835" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146.jpg 1392w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-300x180.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-1024x614.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-768x461.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-700x420.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-640x384.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-681x409.jpg 681w" sizes="(max-width: 1392px) 100vw, 1392px" />Quando Curi afirma que a operação foi “planejada” e que “cumpriu as normas legais”, temos a normalização do absurdo. Cumprir a lei enquanto se assassinam dezenas de pessoas é o sinal inequívoco de que a legalidade foi totalmente absorvida pela lógica da exceção. O problema não é o descumprimento da lei — é a lei que já incorporou o crime como sua função. A modernidade jurídica burguesa sempre conviveu com a violência como fundamento; mas agora, sob a decomposição do Estado burguês, essa violência emerge à luz do dia como princípio organizador. A lei e o fuzil são instrumentos complementares da mesma racionalidade de controle. O discurso de Felipe Curi não difere, em essência, das doutrinas contrainsurgentes elaboradas durante a ditadura militar. A ideia de “territórios hostis”, “guerra interna”, “poder paralelo” e “eliminação do inimigo” são as mesmas. Apenas mudaram o cenário e a semântica. O inimigo, antes identificado como “subversivo”, é hoje o “traficante”, o “criminoso”, o “narcoterrorista”. A função política é idêntica: manter a população aterrorizada, justificar o orçamento bélico, garantir a disciplina da força de trabalho e impedir a organização autônoma das classes subalternas. A favela é tratada como colônia interna — espaço de ocupação e saque, laboratório da política de exceção.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o secretário diz que “o Rio vive um estado de guerra”, ele não mente — apenas não diz quem declarou essa guerra. Não foram os moradores que invadiram as instituições; foi o Estado que invadiu os lares dos trabalhadores. A guerra não é entre “o bem e o mal”, como repete a imprensa, mas entre o capital e a vida. As forças de repressão são o braço armado da acumulação, necessárias para conter o excedente humano que o capital não absorve. Por isso, essa guerra não termina. Ela é vital ao funcionamento do sistema. Ela renova a legitimidade de governos que se sustentam pelo medo e pela promessa de ordem, e movimenta toda uma economia paralela de segurança, armas, blindados, vigilância, contratos e corrupção. A fala de Curi é exemplar de uma classe dirigente que governa pela violência e pela mentira. Seu discurso combina tecnocracia e brutalidade, moralismo e cinismo. Ao justificar o massacre em nome da legalidade, ele reafirma o dogma central do Estado burguês: a preservação da propriedade e da hierarquia social acima da vida. No fundo, o que Santos chama de “contenção” é a gestão da miséria. É a administração do excesso humano produzido pela crise estrutural do capitalismo dependente. É o modo pelo qual o Estado regula o fluxo da barbárie que ele mesmo produz.</p>
<p style="text-align: justify;">A guerra urbana é o instrumento de contenção da superpopulação relativa — uma massa de trabalhadores precarizados, racializados e confinados nos territórios periféricos, cuja existência excede as necessidades de valorização do capital, mas cuja disciplina é vital à estabilidade da ordem. O que se chama de “combate ao tráfico” é a máscara ideológica dessa contenção: um dispositivo que converte a pobreza em ameaça e a miséria em inimigo. A guerra contra o Comando Vermelho é o álibi que legitima o reordenamento social e territorial exigido pelo capital — reorganiza a cidade, valoriza o solo, desloca populações, reconfigura poderes locais e renova o pacto entre Estado, milícia e mercado. Desde meados da década de 1980, como mostram estudos de Loïc Wacquant, entre outros, o aparato estatal trata as favelas como zonas de exceção: territórios coloniais internos onde se exercita a soberania do extermínio. O que estamos diante, portanto, é de um Estado que internalizou a necropolítica; a chamada “guerra às drogas” é método de governo — uma política de morte administrada em nome da ordem. Por que esse confronto se realiza, e mais ainda, por que se concentra nos territórios como o Morro do Alemão/Penha? Esses espaços são exemplos paradigmáticos: densos assentamentos periféricos, população majoritariamente negra, renda per capita inferior à média da cidade, infra-estrutura pública deficiente — e historicamente sob o controle, parcial ou total, de facções armadas (como Comando Vermelho) ou de milícias que surgiram no vazio estatal. Esse entrelaçamento entre informalidade econômica, ausência estatal e violência organizada é largamente documentado. Ali se instaurou uma governança paralela — criminal, política, econômica — e o Estado, longe de erradicá-la de modo frontal, passa a disputá-la ou a se fundir com ela. O território da favela constitui, então, um laboratório de acumulação de exceção: nela a população é alvo de policiamento militarizado, desaparecimento de garantias, letalidade elevada e lucro mediante extração (direta ou indireta) das suas vidas. Vejamos a dinâmica concreta da operação: milhares de agentes (2.500 segundo fontes) mobilizados em blindados, drones, armas automáticas; a reivindicação governamental de “narcoterrorismo”; múltiplos corpos deixados nas ruas; escolas fechadas; transporte interrompido. Isso revela que a operação não se dirigia apenas a líderes do tráfico, mas visava um território como conjunto. Em tal operação, a morte é parte do desenho. A continuidade do projeto de Estado-guerra torna-se visível. O que ocorrera em 5 de maio de 2021 no Jacarezinho foi, portanto, ensaio: a maturidade se verifica agora. O que ocorre é uma política de contenção ativa, não um remendo de segurança pública. O aparato repressivo coincide com o “arranjo” do narcoestado: Estado, milícia/facção, capital imobiliário e burocracia de segurança rendem-se à lógica da excepção permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">O que o Estado chama de “território conflagrado” são, na verdade, territórios de sobrevivência negra — verdadeiros quilombos modernos, erguidos sobre as ruínas da cidadania negada. A favela, historicamente, foi o refúgio dos descendentes da escravidão, empurrados para os morros e para as franjas urbanas por um projeto sistemático de exclusão. Ao longo das décadas, o poder público se retirou desses espaços, abandonando gerações inteiras à sobrevivência e à violência cotidiana. Onde o Estado não constrói escolas de tempo integral, não garante creches, não oferece alternativas de renda ou de lazer, instala-se a lei do desespero. Os jovens negros, crescem entre duas únicas possibilidades: a exploração direta pelo capital, em trabalhos degradantes e sem futuro, ou a exploração pelas organizações criminosas que disputam o controle territorial com o próprio Estado. Ambas operam segundo a mesma lógica: a de extrair vida e energia de corpos negros descartáveis. A ausência de políticas públicas não é omissão; é método. O abandono é forma de dominação. A favela, reduzida à condição de campo de guerra, é também a expressão mais radical do fracasso — ou melhor, do sucesso — da ordem capitalista em manter um povo sob controle pela carência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158565" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-2048x1152.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-681x383.jpg 681w" sizes="(max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Mas por que existe esse confronto, além da cobertura ideológica “combate ao tráfico”? Porque o território periférico habita duas funções para o capital: função de reserva de vida e função de acumulação através da precarização. O estado-capital, em crise estrutural, precisa disciplinar o excedente humano que o sistema econômico não absorveu: jovens negros descartados, desempregados, subempregados. A favela, então, deixa de ser apenas cenário de “crime” e passa a ser palco de uma reorganização da força de trabalho, da valorização fundiária das suas encostas, e da extração direta de renda — via transporte informal, gás, eletricidade paralela — gerida por milícias ou traficantes. A repressão violenta serve à contenção desse excedente e à reorganização disciplinar da periferia. Assim, esse confronto é componente estrutural da governança neoliberal tardia em contextos dependentes como o Brasil. A ideologia da “guerra às drogas” opera como mecanismo de racialização das periferias, legitimando o abate de corpos como política de Estado. Nessas condições, a guerra não “combate o crime”, ela produz o crime como vetor de disciplina. O que se chama “crime organizado” é ao mesmo tempo agente econômico e instrumento de governança.</p>
<p style="text-align: justify;">E mais: esse confronto se concentra em territórios como Alemão/Penha porque ali a resistência institucional é débito — presença estatal fragilizada, burocracia limitada, infraestrutura deficiente. A facção domina, sim, mas justamente porque o Estado permitiu o vácuo. Projetos como as Unidade de Polícia Pacificadora (UPPs) foram tentativas de ocupação pacificadora, sobretudo em função de mega-eventos, mas não alteraram profundamente os mecanismos estruturais — com retorno da violência e da repressão militarizada. O confronto cresce justamente quando o Estado decide que não tolera mais a autonomia paralela da facção — não para “libertar” o território, mas para assumir ou cooptar esse domínio e inseri-lo no arranjo da acumulação capitalista dependente. A facção é parte da engrenagem: tráfico, milícia, mercado imobiliário, transporte informal — tudo isso absorve a favela no ciclo. O ataque, portanto, não é contra a “criminalidade” puramente, mas contra um rival que precisa ser disciplinado para que a ordem funcional prossiga. Essa contenção, contudo, não se dá num lúdico vazio: ela se dá pela normalização da exceção. A operação reafirma que o Estado opera segundo nova lógica: a exceção não é suspensa, é internalizada. O direito democrático, a jurisdição civil, tornam-se acessórios. Como analisa a teoria crítica da necropolítica, o Estado define quem “pode viver” e quem “deve morrer”. Isso é visível nas favelas onde jovens negros são mortos por operações policiais com quase nenhuma responsabilização. O sistema de garantias tampouco opera com intensidade. A impunidade é parte integrante: a letalidade elevada se legitima pela ausência de consequências reais. É certo como o nascer do dia que as forças responsáveis sairão incólumes. A operação de 2025 confirma: seletividade letal + impunidade = regime de guerra permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">E nesse ponto se impõe: nem a esquerda institucional nem a direita resolverão o problema — porque ambas são parte da lógica da barbárie criminosa promovida pelo Estado. A direita homenageia o exterminador, a esquerda pede “menos letalidade”, “reforma policial”, “mais direitos humanos” — mas mantém intacta a compreensão de que o Estado-segurança pode curar o mal social. Essa crença é falsa. O que temos é o próprio Estado-segurança agindo como gestor da violência e da disciplina social. A esquerda institucional replica a confiança no Estado e na fórmula de policiamento, apenas com cor diferente. A direita replica com maior virulência. Em ambos os casos, reproduz-se o narcoestado. Quando examinamos a gestão de Cláudio Castro no Rio de Janeiro, percebemos que ele não inaugura o modelo — ele o aprofunda. Não é a causa, mas o operador consciente de uma maturidade do modelo. Ele governa por meio da guerra, faz da operação letal sua marca, contabiliza mortos como troféus de poder. E mais importante: institucionaliza a lógica da exceção. A mídia anuncia “a maior operação em 15 anos”, os jornais festejam o aparato, os analistas falam em “choque de ordem”. Mas a verdade é que esta operação diz menos sobre um governo, e mais sobre o funcionamento avançado do regime capitalista dependente brasileiro — em que a periferia é zona de sacrifício, de extração, de experimentação da governança de exceção. A letalidade não é falha da democracia — é parte da sua fibra repressiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda mais: esse modelo de controle e exceção está intrinsecamente ligado à acumulação de capital — imobiliário, transporte, serviços informais, gás, eletricidade clandestina. As facções e milícias operam com o apoio tácito do Estado ou sob sua tolerância. Elas fornecem canais de lucro, controlam territórios, garantem “serviços” e absorvem o excedente. O Estado, quando entra com a operação, não entra para “erradicar” esse sistema — entra para reorganizá-lo sob sua tutela ou sob nova hegemonia. A Operação Contenção é momento em que o Estado reivindica esse território como seu e anuncia que a lógica é “ou o Estado ou o criminoso”, mas o criminoso já é parte do Estado. Logo, o que se anuncia é: “Nós tomamos o comando”. E o comando exige espetáculo, letalidade, vigilância e medo. Para os moradores da favela, essa guerra não traz segurança — traz terror. Para o capital, traz oportunidade: valores fundiários das encostas sob risco caem; investidores especulam; transporte informal é controlado; violência gera terceirização de segurança privada; o aparato repressivo justifica verbas, contratações e negócios de guerra urbana. No final, a favela torna-se duplamente explorada: pela facção/mercado e pelo Estado repressivo. A cura prometida jamais vem, porque o caminho escolhido foi o da guerra, não da inclusão.</p>
<p style="text-align: justify;">O que está em jogo não é “menos letalidade” ou “melhor polícia”: é a superação do regime de segurança como política social. A solução não está no Estado, mas contra o Estado da segurança. A tarefa para a vanguarda política não é reformar a polícia, mas superar o regime de acumulação e disciplina que justifica sua letalidade. O inimigo não é apenas o traficante nem apenas o policial: é o arranjo que transforma corpos (principalmente corpos negros e periféricos) em território de guerra, lucro e impunidade. A Operação Contenção mostra que o tempo do narcoestado já alcançou sua maturidade: não é mais fratura ou exceção — é forma de governo. É essencial que reconheçamos isso para que possamos pensar uma saída que rompe com a lógica da contenção, que substitui a guerra por democracia substancial, reparação, transformação estrutural e protagonismo da classe trabalhadora periférica. Sem isso, estaremos sempre dizendo “menos letalidade” enquanto a guerra avança, e estaremos sempre constatando os corpos mortos sem investigar o sistema que os produz.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há como combater essa lógica com reformas. A esquerda institucional, ao clamar por “aperfeiçoamento da polícia”, “respeito aos direitos humanos” ou “nova política de segurança”, apenas reforça o edifício da dominação. Querem humanizar a barbárie, sem abolir sua causa. A direita, por outro lado, faz da barbárie sua bandeira, exigindo mais armas, mais fuzis, mais sangue. Ambas são faces do mesmo projeto: a manutenção da ordem capitalista e a perpetuação da miséria. A saída não está entre essas alternativas. A saída está na recusa radical dessa estrutura — na organização autônoma dos trabalhadores e dos povos periféricos, na construção de uma política de libertação que não dependa do Estado, mas o confronte. A história cobrará caro por essa normalização do horror. Quando o Estado chama de “guerra” o que é massacre, quando chama de “contenção” o que é extermínio, quando chama de “planejamento” o que é barbárie, já não restam dúvidas sobre o caminho percorrido. O Rio de Janeiro, sob Cláudio Castro e Felipe Curi, tornou-se o espelho mais límpido da degradação do Estado burguês brasileiro: um regime de segurança que não protege, uma democracia que mata, uma lei que justifica a exceção. E enquanto não rompermos esse círculo infernal, o país inteiro seguirá sendo governado pela morte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158560" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879.jpg" alt="" width="900" height="613" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-617x420.jpg 617w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-681x464.jpg 681w" sizes="(max-width: 900px) 100vw, 900px" />As forças armadas, inseridas nesse processo, cumprem o papel de guardiãs da propriedade e da estabilidade social, não o de defensores do povo. Sua função é assegurar que a guerra interna permaneça confinada às fronteiras invisíveis que separam o mundo legal do mundo descartável. São elas que definem onde o sangue pode ser derramado e onde deve haver silêncio. Essa estrutura vem se sofisticando. Desde as campanhas coloniais, a força armada do Estado se orienta menos pela defesa da soberania nacional e mais pela repressão das insurreições internas. É um exército voltado para dentro, para o controle de sua própria população. A operação de 2025 é apenas a face atualizada dessa função histórica. A verdadeira função das forças armadas nessa guerra é, portanto, política. Elas não combatem drogas, nem defendem vidas: asseguram a permanência de um regime de dominação. Funcionam como mediadoras entre as elites econômicas, o capital financeiro e os aparelhos policiais. Sua presença é a garantia de que a violência não transborde, de que a revolta popular não encontre brecha, de que a guerra permaneça controlada e produtiva. A militarização da vida cotidiana é a resposta preventiva à ameaça latente de desobediência social. É uma forma de neutralizar qualquer possibilidade de ruptura. O terror é método. É necessário compreender que a economia do tráfico e a economia formal não são mundos separados. O dinheiro do tráfico circula por bancos, financia campanhas, compra imóveis, sustenta empresas de fachada. A fronteira entre o legal e o ilegal é apenas uma convenção ideológica. O que existe, de fato, é uma divisão funcional do trabalho violento. O Estado regula quem pode matar, quem pode lucrar e quem deve morrer. Essa regulação é o coração da política de segurança. Por isso as operações nunca atingem os circuitos superiores do narcotráfico. A guerra é travada contra o elo mais fraco, contra a mão de obra precarizada, contra o corpo que serve de escudo para a economia da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A reorganização promovida pelo Estado por meio da Operação Contenção é um ajuste na topografia do poder. Não se trata de restaurar a ordem, mas de redistribuir o caos. A cada massacre, as linhas de comando se redesenham, as alianças se refazem, o equilíbrio se recompõe. O que se vende como vitória é, na verdade, a manutenção do mesmo sistema em novas bases. A operação funciona como ritual de purificação: o Estado demonstra força, a mídia celebra, a classe média sente-se protegida, e o capital respira aliviado. A violência cumpre sua função simbólica de renovar a fé na autoridade, ao mesmo tempo em que reconfigura as relações de poder dentro da própria máquina estatal. O combate ao tráfico é uma ficção necessária. Ele alimenta o mito da autoridade moral e a crença na neutralidade das instituições. Mas o que se esconde sob esse discurso é o velho funcionamento da dominação de classe: o uso da violência seletiva como instrumento de governo. A operação não combate o crime; combate a possibilidade de emancipação. A cada corpo abatido, a cada casa invadida, o Estado reafirma que não há saída fora da sua tutela. A guerra é o modo de impedir que o povo perceba que o verdadeiro inimigo é o sistema que o extermina em nome da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A contenção, portanto, é mais do que uma política de segurança: é uma política de classe. Seu objetivo não é proteger, mas preservar. Preservar o lucro, preservar o medo, preservar o silêncio. O Estado se reorganiza quando as contradições sociais ameaçam escapar ao seu controle. Ele recalibra suas engrenagens, desloca o foco da crise econômica para o inimigo interno, e oferece à sociedade o espetáculo da guerra como catarse. Cada operação é uma pedagogia de submissão: ensina que a paz é privilégio, que a vida é concessão e que a morte é merecida. Ao fim, o que a Operação Contenção revela é o rosto nu do poder: o Estado como administrador do crime, o exército como tutor da ordem, a polícia como mediadora entre o legal e o ilegal. E enquanto a sociedade continuar acreditando que o problema é o “tráfico”, e não o sistema que o produz e o regula, a barbárie continuará sendo a linguagem oficial da política. A verdadeira contenção é a do povo: contido pelo medo, pela miséria e pela morte. É essa a vitória silenciosa do Estado sobre a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">A guerra interna brasileira é um projeto de Estado, não de governo. Sua permanência através das décadas revela que a repressão é uma necessidade funcional. O capital precisa de ordem para continuar existindo; e o Estado, sua forma política, se encarrega de garantir que essa ordem seja mantida pela violência legalizada. Mudam-se os governos, alternam-se os discursos, mas a estrutura permanece. Quando se fala em “forças de segurança”, fala-se na coluna vertebral da dominação burguesa. Ela é o verdadeiro partido permanente do Estado. O governo federal, em qualquer de suas versões, não se limitou a reproduzir essa estrutura — ele a expandiu. A crença de que o fortalecimento das instituições republicanas implicaria uma democracia mais robusta serviu de justificativa para a ampliação inédita dos aparatos repressivos. Durante os anos de euforia desenvolvimentista, a aposta era clara: blindar o Estado contra qualquer ameaça de ruptura social. Quando Dilma Rousseff inaugurou a chamada “Cidade da Polícia”, não estava promovendo modernização técnica ou eficiência administrativa; estava consolidando a centralização do controle policial e militar sobre o território urbano. Aquele complexo de delegacias especializadas, laboratórios e forças táticas sintetizava o projeto do Estado brasileiro pós-2003: sofisticar a repressão sob a estética da gestão.</p>
<p style="text-align: justify;">A construção da “Cidade da Polícia” foi apresentada como símbolo de racionalidade e de combate à corrupção dentro das corporações. Mas o que ela de fato instituiu foi um modelo de integração entre inteligência policial, poder judiciário e tecnologia militar — um salto qualitativo na coordenação das forças repressivas. Sob o pretexto de combater o crime organizado, o Estado organizou a sua própria estrutura de guerra permanente. A esquerda institucional chamou isso de “segurança cidadã”; a direita, de “ordem e progresso”. Na realidade, tratava-se de consolidar a vigilância sobre os corpos e as vozes que ameaçavam a estabilidade da acumulação. O projeto político de “pacificação” dos territórios periféricos, as UPPs, e o investimento em infraestrutura policial foram faces da mesma moeda. A suposta integração social das favelas serviu de laboratório para a gestão militar da pobreza.</p>
<p style="text-align: justify;">O compromisso do governo federal com as Forças Armadas jamais foi de confronto, mas de conciliação e recompensa. O orçamento da defesa, ao longo de duas décadas, cresceu exponencialmente. Nenhum governo ousou reduzir a influência política dos militares; ao contrário, todos procuraram reconvertê-la em força estabilizadora. As Forças Armadas foram mantidas como poder tutelar da república. Receberam verbas, cargos, homenagens e um papel central na legitimação moral do Estado. A velha casta fardada foi incorporada à máquina administrativa como símbolo de eficiência e patriotismo, ocultando sua função real: garantir que o povo permaneça no seu lugar. O fortalecimento das estruturas repressivas, nesse contexto, não é uma falha dos governos populares, mas sua contradição interna. Ao buscar governar para todos, mantiveram intactas as bases da dominação de classe. A conciliação com os militares e com a polícia foram o preço pago para assegurar a estabilidade institucional. Mas o preço cobrado foi alto: a militarização da vida. A retórica da “cidadania armada” e da “guerra ao crime” substituiu o horizonte de emancipação pela promessa de ordem. Assim, o Estado ampliou seus instrumentos de controle sobre as massas ao mesmo tempo em que se apresentava como seu protetor. A repressão deixou de ser atributo da direita e tornou-se política de Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo federal atua como fiador moral e financeiro dessa estrutura. É quem garante o fluxo de recursos, os programas de modernização, os convênios de tecnologia e a retaguarda política para as operações de guerra interna. Mesmo quando critica as chacinas, o faz dentro dos limites da legalidade que ele próprio sustenta. Os governos progressistas e conservadores divergem no discurso, mas convergem na prática: nenhum rompeu com o pacto armado. O exército segue controlando a Amazônia sob a lógica da segurança nacional, as polícias seguem militarizadas e os territórios urbanos seguem vigiados por câmeras, drones e bases móveis. O Estado democrático de direito é, na prática, um Estado de exceção administrado. Nesse quadro, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, é apenas a personificação regional dessa engrenagem. Advogado, católico militante e aliado orgânico da extrema-direita, Castro é a expressão mais nítida do consenso repressivo. Herdou o cargo após o impeachment de Witzel e foi reeleito com o apoio das milícias políticas, dos empresários da segurança e do clero fundamentalista. Seu governo se sustenta sobre três pilares: a repressão armada, o moralismo religioso e a aliança com o capital imobiliário. Ele governa pela guerra e através da fé. Cada operação policial é um sermão sobre a necessidade da morte para garantir a paz.</p>
<p style="text-align: justify;">Castro governa como um síndico do narcoestado. Administra o pacto entre o Estado formal e as forças ilegais que realmente controlam o território. Sua função é coordenar a convivência entre polícia, milícia e facções, equilibrando interesses e redistribuindo lucros. Quando um desses elementos se torna disfuncional — quando a violência escapa do script, quando o tráfico desafia a hierarquia ou quando a opinião pública exige espetáculo — o governador autoriza a chacina. A Operação Contenção é parte desse mecanismo de ajuste. Sob o pretexto de combater o “narcoterrorismo”, o Estado redefine as fronteiras da sua soberania e reestabelece a hierarquia do medo. A figura de Cláudio Castro representa a síntese perfeita do Estado burguês em sua fase de decomposição moral. Um homem de fé que abençoa o fuzil, um gestor que transforma o massacre em estatística, um político que governa com o evangelho numa mão e o decreto de morte na outra. Sua retórica de “guerra justa” legitima o genocídio e confere aparência de virtude à barbárie. Ele se apresenta como defensor da ordem, mas sua ordem é o caos administrado. É a mesma lógica que permeia todo o sistema: o poder não quer eliminar a violência, quer monopolizá-la.</p>
<p style="text-align: justify;">As forças do Estado, do governo federal e do governo estadual estão articuladas por uma divisão de tarefas. O governo central fornece o enquadramento legal, o financiamento e o discurso de modernização. O governo estadual executa, com brutalidade, a política de contenção. As Forças Armadas garantem o pano de fundo moral e o respaldo simbólico da autoridade. Essa divisão mantém o equilíbrio entre as classes dominantes, ao mesmo tempo em que reprime qualquer movimento de ruptura. A violência se distribui de modo racional: o centro formula, a periferia morre. Essa estrutura revela o verdadeiro compromisso do Estado com as Forças Armadas. O pacto é simples: estabilidade em troca de autonomia. O exército preserva sua influência, sua estrutura corporativa, seus privilégios e seu papel de árbitro; em troca, garante que a república não seja atravessada por forças populares incontroláveis. Esse pacto, firmado na transição democrática e reafirmado por todos os governos subsequentes, é a espinha dorsal do regime. Ele explica por que a militarização da política é tão profunda e por que as chacinas se repetem com regularidade burocrática. O Estado aprendeu a governar pela exceção.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a essa engrenagem, o povo é o material de sacrifício. Cada operação policial é um ato litúrgico: celebra a união da nação em torno da violência e renova a fé nas instituições. A imagem de soldados patrulhando favelas, de helicópteros cruzando os céus e de blindados nas ruas serve como espetáculo de poder. O medo torna-se a cola ideológica da sociedade. O trabalhador, o morador, o corpo negro e pobre, são o preço da estabilidade. O Estado, ao matar, reafirma sua legitimidade. Enquanto a sociedade continuar acreditando que a mudança virá de dentro dessa estrutura, a guerra continuará sendo a política oficial. O compromisso do governo federal com as forças armadas é o compromisso do capital com sua própria guarda. O papel do governador é o de gestor local da violência. E o papel do povo, imposto pela força, é o de espectador e vítima. O verdadeiro combate não se trava entre Estado e tráfico, mas entre dominação e emancipação, entre vida e morte. E, nesse campo, o Estado escolheu seu lado há muito tempo.</p>
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		<title>Cláudio Castro: fé, bala e capital</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jan 2026 13:36:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A violência de Estado não é mais instrumento ocasional, mas política de regulação da força de trabalho excedente. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">A ascensão de Cláudio Castro ao governo do Estado do Rio de Janeiro constitui um fenômeno de relevância singular para compreender o estágio atual do conservadorismo brasileiro e a reconfiguração contemporânea do Estado burguês em contexto de crise estrutural do capital. Não me refiro à sua importância enquanto político, mas seu papel na máquina do poder. Politicamente, Castro é nada mais que um político vulgar, sem qualquer destaque ou relevância social, representando apenas a continuidade de um projeto devastador. Sua trajetória e a orientação de seu governo expressam, de forma concentrada, tendências que atravessam o país: a fusão entre religião e política, a centralidade do aparato repressivo como eixo de governabilidade e a naturalização do autoritarismo como resposta à decomposição social.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto de partida dessa análise exige reconhecer que o Rio de Janeiro, historicamente, ocupa uma posição peculiar na formação social brasileira. A cidade sempre funcionou como espelho concentrado das contradições nacionais: um espaço onde a modernidade e a barbárie coexistem de modo visceral. Desde o século XVIII, sua condição de porto estratégico e sede administrativa da colônia transformou-a no principal elo entre o mundo colonial e o circuito mercantil internacional. O Rio não foi apenas capital política, mas o centro nervoso de um sistema de extração e circulação de riquezas fundado na escravidão. Nela se cruzavam os fluxos da mercadoria, do capital e da carne humana. A urbanização fluminense nasceu sob o signo do tráfico negreiro, e sua paisagem social foi moldada pela presença massiva da população escravizada, pela hierarquia racial e pela violência cotidiana. Essa estrutura de poder, ancorada na exploração e no controle dos corpos, impregnou as formas posteriores de dominação e permanece como substrato invisível da vida política e policial da cidade. Essa condição moldou uma estrutura social profundamente hierarquizada, na qual a violência estatal constituiu o principal instrumento de regulação das relações entre as classes. A escravidão urbana, as forças de segurança e o controle territorial das camadas subalternas criaram um padrão de dominação que se atualiza, com diferentes roupagens, ao longo dos séculos. No século XXI, o Rio converte-se novamente em laboratório de experimentação política: um espaço onde se testam formas de gestão da pobreza e de administração do medo.</p>
<p style="text-align: justify;">A biografia política de Cláudio Castro deve ser compreendida dentro desse contexto. Nascido em 1979, formou-se no interior da Renovação Carismática Católica, movimento que desde os anos 1980 vem assumindo crescente influência na vida pública brasileira. A Renovação constitui um tipo de religiosidade alinhado ao individualismo neoliberal: substitui a crítica social pela moralização da conduta e transforma a fé em instrumento de autoajuda e empreendedorismo espiritual. A Renovação Carismática Católica surgiu no final da década de 1960, nos Estados Unidos, como um desdobramento interno do catolicismo diante da expansão do pentecostalismo e da crise das instituições religiosas tradicionais. Em 1967, um grupo de estudantes da Universidade de Duquesne, em Pittsburgh, afirmou ter vivido uma experiência direta com o “Batismo no Espírito Santo”, fenômeno que desencadeou a difusão de práticas de oração em línguas, cura e louvor espontâneo. Rapidamente, o movimento se expandiu pela América Latina, chegando ao Brasil em 1969, quando padres e leigos de Campinas organizaram os primeiros grupos de oração carismáticos. Desde então, a RCC consolidou-se como uma das principais forças de renovação religiosa dentro da Igreja Católica, reorganizando seu modo de inserção no mundo moderno.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a “renovação” que propõe não diz respeito à crítica das estruturas sociais, mas à intensificação da experiência individual de fé. A ênfase no “encontro pessoal com Deus”, na cura espiritual e na libertação interior desloca a religião da esfera coletiva e histórica para o campo da subjetividade e da moralidade privada. Sob a aparência de fervor popular, a RCC realiza uma profunda adequação do catolicismo à lógica neoliberal: substitui a solidariedade de classe pela fraternidade emocional, a crítica social pela autoajuda espiritual, o sofrimento histórico pela culpa pessoal. Em vez de questionar as causas da miséria, ensina a suportá-la com resignação e disciplina. Sua liturgia espetacular — marcada pela música, pelo êxtase e pela emoção — transforma a fé em mercadoria simbólica, ajustando a religião ao mercado da experiência e à indústria cultural. Trata-se de uma pedagogia da adaptação: ensina o fiel a obedecer, a competir, a vencer espiritualmente no mesmo mundo que o oprime materialmente. Essa religiosidade emocional, que moldou gerações de jovens católicos nas últimas décadas, produziu um tipo de subjetividade dócil e empreendedora, ideal para a nova forma de dominação que combina fé e capital. É nesse caldo cultural que se forma Cláudio Castro — um político cuja trajetória sintetiza a conversão da espiritualidade em instrumento de poder.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158492" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre.jpg" alt="" width="1600" height="1061" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre.jpg 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-1024x679.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-768x509.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-1536x1019.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-633x420.jpg 633w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-640x424.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Maxwell-Alexandre-681x452.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" />O ingresso de Castro nesse universo corresponde à formação de uma subjetividade disciplinada e adaptada à ordem. Sua atuação inicial como músico em comunidades católicas revela essa pedagogia: a política é convertida em liturgia, o coletivo é dissolvido na ideia de salvação pessoal. A passagem para a vida institucional ocorre de modo gradual. Castro inicia-se na política como assessor e chefe de gabinete de parlamentares ligados ao Partido Social Cristão (PSC), legenda que se caracteriza pela defesa de pautas morais e pelo trânsito entre o conservadorismo católico e o pentecostalismo evangélico. Em 2016, elege-se vereador pelo PSC e, dois anos depois, compõe a chapa de Wilson Witzel como vice-governador. Essa ascensão coincide com a hegemonia do bolsonarismo e com a expansão de um campo político unificado por três elementos fundamentais: a deslegitimação da esquerda institucional, o moralismo religioso como linguagem popular de mobilização e a militarização das políticas públicas. Castro herda esse tripé e o consolida.</p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória de Witzel, ex-juiz federal que assumiu o governo com discurso de extermínio (“atirar na cabeça”), foi interrompida por denúncias de corrupção e disputas internas no bloco de poder. Sua ascensão ao governo do Rio, em 2018 foi expressão local da onda reacionária que atravessou o país. A figura do ex-magistrado emergiu como produto direto do colapso do sistema político tradicional e da legitimação midiática da “guerra contra o crime” e da “guerra contra a corrupção”. O capital político que o sustentou veio da fusão entre o moralismo punitivista e o ressentimento social, catalisados pelo bolsonarismo. Witzel representava a crença de que a violência de Estado poderia restaurar a ordem perdida; encarnava o juiz-justiceiro que, vindo das fileiras do sistema judicial, prometia aplicar ao governo a mesma lógica de sentença e castigo que marcara a Operação Lava Jato. Seu triunfo eleitoral simbolizou o deslocamento da autoridade civil para a autoridade policial-jurídica — o governo como tribunal, o povo como réu. O Rio de Janeiro, historicamente terreno fértil para a retórica da “mão dura”, tornou-se o laboratório dessa política de extermínio legitimada pela fé na punição e pela espetacularização da violência. A ascensão de Castro à chefia do Executivo estadual, em 2020, significou continuidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário de Witzel, cuja retórica era agressiva, Castro representa o mesmo projeto em versão administrativamente apaziguada. A mudança de estilo não implicou alteração de conteúdo. O núcleo ideológico &#8211; a guerra permanente às favelas, a repressão como política de Estado e o conservadorismo moral como linguagem de legitimação &#8211; manteve-se intacto. O governo Castro deve ser interpretado como desdobramento lógico do processo de desintegração do pacto social-democrata brasileiro. Após a crise de 2014-2016, marcada pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela ruptura do arranjo de conciliação que sustentava os governos anteriores, a direita brasileira reorganizou-se em torno de uma agenda de restauração autoritária. O enfraquecimento das mediações políticas, a fragmentação do sistema partidário e o avanço da precarização do trabalho criaram condições para o predomínio de uma racionalidade securitária e moralizante. O Estado, esvaziado de sua função social, voltou-se a exercer, de maneira direta, sua função coercitiva. O Rio, por sua composição social e por sua posição simbólica, tornou-se o epicentro dessa transformação.</p>
<p style="text-align: justify;">O caráter religioso do governo Castro é elemento constitutivo de sua legitimidade. Ao se apresentar como homem de fé, ele mobiliza um ethos conservador que naturaliza a desigualdade e converte o sofrimento social em questão de mérito ou culpa individual. O discurso religioso fornece a linguagem através da qual a violência de Estado é justificada: a polícia aparece como instrumento de “purificação” do mal, as operações letais como atos necessários para restabelecer a ordem moral. Trata-se de uma reconfiguração ideológica na qual a repressão assume estatuto ético. Essa religiosidade de massas cumpre, portanto, função política. No contexto de esgotamento das promessas de ascensão social e de destruição dos direitos trabalhistas, a fé surge como substituto simbólico da cidadania. A religião, nesse caso, não se opõe ao mercado, mas o complementa. O Estado, desobrigado de garantir direitos, passa a oferecer conforto espiritual. O governante torna-se uma espécie de mediador entre a fé e a gestão, legitimando políticas de austeridade e repressão sob a retórica da responsabilidade moral. O neoliberalismo, em sua fase avançada, incorpora a religião como dispositivo de controle subjetivo.</p>
<p style="text-align: justify;">A política de segurança pública implementada sob sua gestão explicita essa lógica. As operações policiais em favelas e periferias atingiram, no período recente, níveis recordes de letalidade, com grande repercussão nacional e internacional. A “Operação Contenção”, deflagrada em 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, sintetiza a política de Estado baseada no extermínio de populações racializadas. O governo justifica tais ações sob o argumento de combate ao tráfico, mas os dados indicam uma estratégia de militarização permanente do território. A repressão deixa de ser resposta a episódios de violência e passa a constituir a própria forma de presença do Estado em determinadas áreas. O objetivo subjacente não é eliminar o crime, mas manter a guerra. A guerra, neste caso, cumpre função de coesão social: ela cria um inimigo interno que unifica os setores médios, fornece legitimidade ao aparato repressivo e reafirma a hierarquia racial e de classe. Essa dinâmica revela a continuidade histórica entre a escravidão e o Estado penal contemporâneo. A violência seletiva é a tradução moderna do velho princípio de dominação que estrutura a formação brasileira. Ao deslocar o foco da política social para a política de segurança, o governo redefine o sentido da cidadania: o cidadão é aquele que pode ser protegido; o inimigo, aquele que pode ser eliminado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158493" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM.png" alt="" width="567" height="380" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM.png 567w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM-300x201.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Screen-Shot-2019-07-17-at-11.45.10-AM-537x360.png 537w" sizes="auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px" />A legitimidade do governo Castro não se sustenta apenas na força do aparato repressivo ou na manipulação midiática — ela se enraíza num consenso difuso, tecido pela ideologia da segurança e pela naturalização da violência. As pesquisas que apontam ampla aprovação às operações policiais revelam um fenômeno mais profundo que o simples apoio a medidas duras: expressam a adesão a uma forma de vida administrada pela ameaça. A guerra permanente às favelas converte-se em espetáculo moral e pedagógico, no qual as classes médias e parte dos trabalhadores aprendem a reconhecer no Estado armado o guardião da normalidade. Essa adesão, contudo, não nasce de convicção política, mas do desamparo estrutural. A decomposição das relações de trabalho, o isolamento social e a sensação de insegurança generalizada produzem sujeitos fatigados, incapazes de imaginar uma alternativa coletiva. Nessa paisagem, a polícia aparece como encarnação de uma ordem desejada — ainda que imposta pelo medo. A classe média, habituada a se perceber como centro da sociedade, vê na repressão a garantia de seu status vacilante; teme o colapso das fronteiras entre “gente de bem” e “perigo social” e por isso exige a manutenção da distância pela bala. A burguesia, por sua vez, transforma a guerra interna em mercado: lucra com o caos que administra, convertendo a violência em ativo financeiro e espetáculo de governabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o dado mais inquietante é a participação de segmentos populares nesse consenso. Nas favelas, onde o Estado só chega armado, a promessa de segurança, ainda que ilusória, pode soar como redenção. O medo da violência cotidiana, somado à ausência de alternativas, gera uma adesão ambígua: o oprimido aplaude o opressor porque perdeu a crença na possibilidade de libertação. Trata-se de uma inversão trágica do sentimento de classe — um momento em que a consciência se dobra sob o peso da sobrevivência e o desejo de ordem substitui o desejo de justiça. O aplauso às viaturas não é mera alienação; é o sintoma de uma sociabilidade corroída, em que o extermínio torna-se aceitável quando promete estabilidade. Castro soube instrumentalizar essa atmosfera de desespero e ressentimento. Ao apresentar-se como gestor sereno, homem de fé e defensor da segurança, converteu o massacre em prova de eficiência administrativa e de moralidade pública. A violência policial, nesse contexto, opera como política de comunicação: cada operação é um espetáculo de poder que reativa o vínculo entre governo e sociedade. O tiro torna-se linguagem; o sangue, forma de legitimidade. A popularidade de Castro após a chacina da Penha é o efeito lógico de um sistema que aprendeu a governar pela comoção e pelo medo. A adesão social à barbárie revela, assim, o triunfo de uma racionalidade cínica: um Estado incapaz de garantir a vida, mas plenamente capaz de administrar a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação entre conservadorismo e neoliberalismo manifesta-se, no caso fluminense, de modo particularmente claro. O Estado enfrenta uma crise fiscal crônica desde meados da década de 2010, agravada pela dependência dos royalties do petróleo e pela desindustrialização. A crise do Estado do Rio de Janeiro é o resultado de um longo processo de esgotamento de seu modelo econômico e político. Desde o início dos anos 2000, o Estado passou a depender crescentemente dos royalties e participações especiais do petróleo, convertendo-se em uma espécie de Estado rentista, sustentado por uma renda volátil e vinculada à exploração de recursos naturais. Essa dependência foi agravada pela desindustrialização e pela financeirização das atividades urbanas, que reduziram drasticamente a base produtiva e a arrecadação tributária. Quando o preço do barril despencou em 2014 e a Lava Jato atingiu as principais empreiteiras, o modelo desabou. O colapso fiscal foi a expressão imediata de uma crise mais ampla: a falência de uma forma de acumulação baseada na extração de renda e na intermediação político-empresarial. Diante disso, o Rio tornou-se o primeiro estado a aderir ao Regime de Recuperação Fiscal, em 2017, submetendo-se a um programa de austeridade que congelou investimentos, privatizou ativos estratégicos e transformou a dívida pública em eixo de toda a política estadual. O Estado deixou de ser promotor de desenvolvimento e converteu-se em gestor da própria falência. A partir daí, o neoliberalismo assumiu forma de governo permanente, e a repressão tornou-se o instrumento de estabilidade. Cláudio Castro herda e aprofunda esse arranjo: governa um Estado financeiramente tutelado, incapaz de oferecer políticas sociais, mas plenamente funcional para o capital financeiro e o mercado da segurança. Sua administração combina austeridade fiscal e expansão policial, traduzindo no plano local a síntese contemporânea entre neoliberalismo e autoritarismo moral. O Rio de Janeiro é hoje o laboratório onde se experimenta a forma mais avançada do Estado em crise — aquele que, sem meios para reproduzir a vida, reproduz apenas a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta dos governos tem sido a adoção de políticas de ajuste, privatizações e parcerias público-privadas, acompanhadas da repressão aos movimentos sociais e da criminalização da pobreza. Cláudio Castro aprofunda esse modelo ao combinar austeridade orçamentária e expansão do aparato policial. Enquanto reduz investimentos sociais, amplia os recursos destinados às forças de segurança. A retórica da “ordem” serve para legitimar a gestão da escassez. O Rio de Janeiro, nesse sentido, é a expressão concentrada de um fenômeno nacional: a transformação do Estado em administrador da crise. A incapacidade de promover desenvolvimento econômico converte o governo em gestor da desintegração. A violência deixa de ser um desvio e torna-se instrumento funcional de regulação. As chacinas periódicas, as incursões militares e o encarceramento em massa operam como mecanismos de controle da população excedente, isto é, daquela fração do proletariado que já não é absorvida pelo mercado de trabalho. A repressão é, assim, uma política econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">Diferentemente de figuras autoritárias de perfil militar, Castro apresenta-se como político civil moderado, capaz de dialogar com a burguesia financeira, com o clero e com as corporações policiais. Essa convergência define uma nova configuração de poder, na qual o autoritarismo é exercido de forma difusa e institucionalizada, sem necessidade de ruptura formal da ordem democrática. O significado histórico de sua permanência no governo, em um momento de suposta recomposição democrática em nível federal, é revelador. O país vive um duplo movimento: enquanto o Executivo nacional tenta restaurar a normalidade institucional e reabilitar o pacto entre capital e trabalho, governos estaduais como o do Rio consolidam a normalização da exceção. Essa coexistência demonstra a plasticidade do Estado burguês: ele é capaz de operar simultaneamente com linguagem democrática e prática autoritária. O discurso dos direitos convive com a prática do massacre. O governo Castro representa a face local dessa contradição.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158490" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7.jpg" alt="" width="1024" height="697" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-617x420.jpg 617w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/maxwell-alexandre-7-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O conservadorismo fluminense também cumpre papel de vanguarda na recomposição ideológica da direita brasileira. Após a derrota eleitoral de 2022, o campo bolsonarista perdeu a capacidade de mobilização nacional, mas manteve forte influência nos estados. No Rio, essa influência se institucionalizou. A aliança entre o Partido Liberal, as forças de segurança e setores religiosos consolidou uma base de poder estável, ancorada na gestão cotidiana do medo. O bolsonarismo, aqui, deixou de ser apenas movimento e tornou-se governo permanente. Castro é o operador desse processo. Do ponto de vista teórico, pode-se afirmar que seu governo expressa a passagem do Estado neoliberal para um Estado securitário-devocional. A racionalidade econômica, centrada na austeridade e na privatização, é reforçada por uma racionalidade moral que reorganiza a hegemonia em torno de valores tradicionais. A fusão dessas duas dimensões &#8211; mercado e moral &#8211; garante ao regime uma legitimidade paradoxal: promete ordem e espiritualidade num contexto de dissolução social. O Estado não oferece futuro, mas oferece pertencimento. Essa é a fórmula contemporânea do autoritarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em termos sociológicos, a manutenção desse modelo depende da convergência entre três campos: o econômico, o religioso e o militar. O campo econômico fornece a base material &#8211; o rentismo e a especulação; o religioso fornece o sentido &#8211; a legitimação moral; e o militar fornece a força &#8211; o poder coercitivo. A articulação entre esses elementos explica a estabilidade relativa de governos como o de Castro, mesmo diante de índices elevados de violência e desigualdade. A população, submetida à insegurança cotidiana, tende a apoiar medidas repressivas em nome da autopreservação. O medo se transforma em política. A experiência fluminense mostra, portanto, que o conservadorismo atual não é resquício do passado, mas forma moderna de governar a crise. Ele se apoia em tecnologias avançadas de vigilância, em aparatos midiáticos sofisticados e em discursos religiosos adaptados à era digital. A repressão, longe de ser apenas física, é também simbólica: atua na produção de subjetividades dóceis e conformadas. O resultado é a consolidação de uma cultura política autoritária, que naturaliza a violência e banaliza a desigualdade.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença de Cláudio Castro no poder, nesse contexto, expressa a maturidade de um projeto que combina dependência econômica, regressão política e reacionarismo moral. O Rio de Janeiro, por sua posição histórica, serve de vitrine e advertência. A política fluminense antecipa tendências que se expandem nacionalmente: o esvaziamento das instituições representativas, a militarização da vida cotidiana, a instrumentalização da religião e a fusão entre crime e Estado. O governo atual é, assim, menos uma anomalia e mais um diagnóstico. Concluir que o Estado fluminense cumpre uma função de laboratório não significa reduzir sua complexidade a determinismos locais. Ao contrário, trata-se de reconhecer que o capitalismo dependente brasileiro produz, em diferentes escalas, formas específicas de dominação. No Rio, essas formas se tornam visíveis. A figura de Cláudio Castro, ao articular a administração pública à lógica religiosa e securitária, revela o grau de aprofundamento da crise de hegemonia. A política deixa de ser mediação entre interesses e passa a ser mera gestão da sobrevivência.</p>
<p style="text-align: justify;">O estudo do seu governo permite observar o funcionamento atual do Estado burguês em sua dimensão mais direta. Quando as condições de reprodução do capital se tornam críticas, o Estado intensifica suas funções coercitivas e ideológicas. O conservadorismo, portanto, é funcional à crise. No Rio de Janeiro, essa resposta assume o rosto de um governador que governa com a Bíblia numa mão e o aparato policial na outra. Em síntese, a figura de Cláudio Castro condensa três processos estruturais: a consolidação de uma direita religiosa e moralista como base de massas da ordem, a institucionalização do Estado penal como forma dominante de regulação social e a subordinação completa do poder público aos interesses do capital financeiro e das corporações militares.</p>
<p style="text-align: justify;">A intensificação da violência estatal no Rio de Janeiro, culminando na chamada Operação Contenção, deflagrada em 28 de outubro de 2025, evidencia a consolidação de um modelo de governo baseado na militarização permanente da vida social. O evento, que resultou em centenas de mortes e foi classificado por organizações de direitos humanos como a operação mais letal da história do estado, não pode ser compreendido como episódio isolado. Ele representa o ponto de maturação de um projeto político que articula religião, moral conservadora e repressão como fundamentos da governabilidade. Nesse sentido, o governo de Cláudio Castro constitui um caso paradigmático do processo de reorganização autoritária do Estado burguês em contexto de crise estrutural do capital. A Operação Contenção apenas tornou explícito um padrão de atuação previamente estabelecido: incursões em larga escala, uso de armamento pesado, bloqueio de áreas inteiras e a suspensão fática de direitos constitucionais.</p>
<p style="text-align: justify;">O elemento novo da operação foi o nível de integração entre as forças estaduais e o discurso de defesa nacional. Ao afirmar que o Rio estaria “sozinho nesta guerra” e insinuar a necessidade de apoio das Forças Armadas, Castro procurou elevar o conflito à condição de ameaça à soberania, deslocando o eixo da segurança pública para o campo da segurança nacional. Essa retórica inscreve a política fluminense na tradição latino-americana dos estados de exceção militarizados, nos quais a repressão das classes subalternas é apresentada como defesa da pátria. A aproximação simbólica com as Forças Armadas não deve ser lida como simples busca de apoio operacional, mas como tentativa de redefinir o estatuto político da repressão. O emprego potencial do Exército em tarefas policiais, mesmo sem a formalização da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), sinaliza o desejo de transformar a exceção em norma. O governo estadual age dentro de uma racionalidade que ultrapassa a dimensão local: ao naturalizar a presença militar no cotidiano urbano, contribui para consolidar um modelo nacional de governo da crise pela força. Do ponto de vista institucional, a Operação Contenção reflete a fusão progressiva entre polícia, exército e capital. O aparato repressivo, tradicionalmente estatal, passa a funcionar segundo lógicas empresariais, alimentando um mercado de segurança que inclui empresas privadas de vigilância, indústrias de armamentos e contratos de tecnologia de monitoramento. A militarização não é apenas política, é também econômica: a violência transforma-se em setor produtivo, integrando o circuito de acumulação capitalista. O Estado assume o papel de mediador entre o capital financeiro e o capital militar, administrando a guerra como negócio.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, a relação de Castro com as Forças Armadas possui duplo caráter: simbólico e funcional. No plano simbólico, o governador recorre à imagem da autoridade militar como metáfora de ordem e disciplina, elementos centrais de seu discurso moral. A figura do soldado funciona como extensão da figura do fiel — ambos obedientes, abnegados e submissos à hierarquia. No plano funcional, essa aproximação legitima a ampliação de investimentos em armamentos, veículos blindados e novas tecnologias de vigilância, financiadas por fundos públicos e por parcerias privadas. O Estado, sob o pretexto de combater o crime, expande o mercado da repressão. A operação de 2025 também revela o papel do Rio de Janeiro como laboratório político. Historicamente, o estado tem sido campo de experimentação de políticas de segurança e de gestão da pobreza. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implantadas a partir de 2008, já haviam testado a ocupação militar de territórios populares com apoio de organismos internacionais e de empresas privadas. A Operação Contenção retoma essa experiência sob nova roupagem: substitui a retórica da pacificação pela da aniquilação. Se as UPPs prometiam integração social, a nova política assume explicitamente a segregação como método. O que se observa é a transição de um modelo de controle territorial para um modelo de extermínio territorial.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação deve ser interpretada à luz da crise do neoliberalismo e da reconfiguração das formas de dominação nas economias dependentes. O esgotamento das políticas de inclusão e o avanço da precarização criam uma massa de trabalhadores supérfluos, cuja existência torna-se disfuncional para o processo de valorização do capital. Diante disso, o Estado desloca sua função: de mediador de conflitos, converte-se em gestor da eliminação social. A violência de Estado não é mais instrumento ocasional, mas política de regulação da força de trabalho excedente. As favelas e periferias, onde se concentra essa população, são tratadas como zonas de sacrifício. A militarização, portanto, cumpre função estrutural. Ela garante a reprodução de um sistema que já não pode prometer progresso, apenas segurança. O autoritarismo religioso de Castro fornece o revestimento moral necessário a esse arranjo. Ao apresentar as operações como “batalhas do bem contra o mal”, o governo converte o conflito de classes em conflito espiritual, deslocando a crítica social para o terreno da fé. A barbárie torna-se aceitável porque se disfarça de purificação. O resultado é uma sociedade que legitima a violência em nome da moralidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158491" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md.jpg" alt="" width="512" height="768" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/15454405545c1d8d2a64c8b_1545440554_3x2_md-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" />A aproximação entre governo, forças de segurança e segmentos religiosos produz uma nova forma de hegemonia conservadora. Essa hegemonia não se baseia em consenso racional, mas em adesão afetiva. A fé e o medo constituem seus dois pilares: a fé oferece sentido num mundo sem horizonte; o medo garante obediência num mundo sem garantias. Essa combinação explica a relativa estabilidade do governo Castro, mesmo diante das repetidas chacinas e denúncias de corrupção. A violência não ameaça o poder; ela o consolida. A análise da Operação Contenção permite compreender também a relação entre o Estado fluminense e o Estado nacional. O embate entre Castro e o governo federal, em torno da ausência de pedido formal de GLO, expressa a tensão entre dois projetos distintos de gestão da crise. De um lado, a tentativa de recompor a normalidade institucional e reafirmar a autoridade civil; de outro, a consolidação de uma governabilidade baseada na exceção. O Rio de Janeiro opera como ponta avançada do segundo projeto. A retórica de isolamento — “estamos sozinhos nesta guerra” — cumpre papel político: apresenta o governo estadual como defensor da população abandonada por Brasília, reforçando sua legitimidade junto às classes médias e setores conservadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A militarização da política estadual também possui implicações federativas. A criação do “Consórcio da Paz”, reunindo governadores de diferentes regiões, indica a intenção de disseminar o modelo fluminense para outros estados. Sob o discurso de integração e cooperação, constrói-se uma rede interestadual de repressão, capaz de articular informações de inteligência, técnicas de vigilância e protocolos de uso da força. O Rio, assim, exporta sua experiência de guerra interna, transformando-a em padrão de governança. Essa difusão reforça o caráter nacional da tendência autoritária, demonstrando que a barbárie não é fenômeno localizado, mas expressão de uma racionalidade estatal em expansão. No plano teórico, a Operação Contenção revela o ponto de fusão entre neoliberalismo e militarismo. A lógica de mercado, que exige desregulamentação e redução de custos sociais, precisa da coerção para garantir a ordem. O Estado neoliberal, em sua fase tardia, torna-se simultaneamente mínimo na proteção e máximo na repressão. A austeridade e o autoritarismo não são contradições, mas complementos. O mesmo governo que reduz investimentos em saúde e educação amplia o orçamento da segurança. O mesmo Estado que prega responsabilidade fiscal financia o aparato militar. Essa é a economia política da violência.</p>
<p style="text-align: justify;">A figura de Cláudio Castro condensa esses processos. Sua combinação de religiosidade carismática, discurso moralista e pragmatismo administrativo oferece a síntese ideológica perfeita para o Estado em crise. A análise empírica das operações recentes mostra que a política de segurança pública do Rio não busca reduzir a criminalidade, mas produzir visibilidade política. Cada incursão é acompanhada de ampla cobertura midiática e de discursos oficiais que reforçam a imagem do governo como guardião da ordem. A morte torna-se performance de poder. O Estado demonstra sua autoridade através da destruição. Essa teatralização da repressão cumpre papel comunicativo fundamental: em tempos de descrença nas instituições, a violência é o único ato estatal que ainda produz efeito de realidade. O tiro substitui o argumento. O vínculo entre repressão e capital aparece também nas relações com empresas de mídia e com o setor de tecnologia. O governo investe em sistemas de câmeras, drones e softwares de reconhecimento facial, frequentemente contratados sem licitação e associados a grandes corporações transnacionais. Essas parcerias demonstram que a militarização do Estado se articula a um complexo econômico que envolve desde a indústria bélica até a economia de dados. A vigilância converte-se em novo campo de acumulação. O controle da informação, das imagens e das narrativas complementa o controle dos corpos.</p>
<p style="text-align: justify;">A Operação Contenção, ao escancarar o caráter estrutural da violência, revela também o esgotamento das formas tradicionais de oposição. A esquerda institucional, presa à lógica eleitoral e parlamentar, mostra-se incapaz de responder a um Estado que opera pela exceção. As organizações populares, por sua vez, enfrentam repressão crescente e dificuldades de mobilização. O resultado é o predomínio de uma racionalidade autoritária sem contrapeso efetivo. O consenso em torno da “segurança” atravessa classes e ideologias, demonstrando o sucesso do projeto conservador em redefinir o imaginário coletivo. Do ponto de vista histórico, a atual conjuntura repõe a velha aliança entre religião e força, típica dos períodos de transição e crise. A fé fornece legitimidade simbólica à violência, enquanto a violência garante materialidade à fé. Essa simbiose cria uma cultura política na qual a obediência é virtude e a dissidência, pecado. O Estado aparece como instrumento da vontade divina e o governante como intérprete autorizado dessa vontade. Cláudio Castro insere-se nessa tradição. Em conclusão, a relação entre Castro, as Forças Armadas e a Operação Contenção aponta para a consolidação de uma nova fase do conservadorismo brasileiro. Trata-se de uma forma de poder que não depende mais de rupturas institucionais explícitas, mas da administração contínua da exceção. O Rio de Janeiro cumpre, nesse processo, função exemplar: demonstra como o Estado burguês, diante da inviabilidade de um projeto de desenvolvimento, recorre à violência para manter sua autoridade. A fé e a repressão tornam-se, assim, instrumentos complementares de dominação. O governo de Cláudio Castro, ao militarizar a crise e espiritualizar a violência, oferece ao país uma síntese perversa de seu tempo histórico. A Operação Contenção não é apenas um episódio policial: é o retrato do Estado em sua forma contemporânea — um Estado que governa pela morte, moraliza a desigualdade e transforma a barbárie em método de gestão.</p>
<p><em>As obras que ilustram o artigo são de Maxwell Alexandre.</em></p>
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		<title>A centralidade do território</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Dec 2025 13:15:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
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					<description><![CDATA[Pensar o território é pensar em como conferir perenidade à revolta, que é, por natureza, fugaz. É dar continuidade a algo descontínuo. Por Thiago Canettieri
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Thiago Canettieri</h3>
<p style="text-align: justify;">Em um texto já <a href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" target="_blank" rel="noopener">clássico deste site</a>, Caio Martins e Leonardo Cordeiro refletem sobre a experiência do Movimento Passe Livre (MPL), já em um rescaldo de 2013, quando, definitivamente, a fervura entornou do caldeirão. Quem se lembra das ruas, já há mais de dez anos, sabe muito bem que ali era confronto — a imediatidade com que explodiam, os rojões de um lado e as balas de borracha de outro não deixam espaço para dúvidas. O conflito contra a tarifa do transporte público. Como notam, acertadamente, a natureza dessa luta em específico, diferentemente de “outros movimentos urbanos — de moradia, por exemplo — dificilmente ultrapassam o limite de sua ocupação ou bairro, nas lutas contra o aumento, a mobilização tem a tendência a tomar conta de toda a cidade, a se generalizar como revolta”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para eles, a revolta — palavrinha-chave para compreender 2013 — se refere a “um processo de fôlego curto, mas explosivo, intenso, radical e descentralizado. As primeiras manifestações atuam como ignição de uma mobilização que extrapola o controle de quem a iniciou – que perde toda a capacidade de interrompê-la. Há uma escalada de ações diretas: ocupação massiva e travamento de importantes artérias da cidade, enfrentamento com a polícia, ataques ao patrimônio público e privado, saques”.</p>
<p style="text-align: justify;">Por um lado, os jovens militantes do MPL sabiam muito bem o que poderia acontecer quando lançavam a primeira marcha contra o aumento de 20 centavos. Uma manifestação pequena aqui, que explode e incendeia todo um país. Era essa a intencionalidade por trás da mobilização. Claro, não há ingenuidade em acreditar que a explosão ocorra espontaneamente — “depende quase sempre de um polo altamente organizado da luta, uma organização que elabora e formaliza seu sentido e lhe garante alguma coesão”, escrevem Caio e Leonardo.</p>
<p style="text-align: justify;">A medida que junho avança, a revolta esquenta o inverno brasileiro daquela longínqua data:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Greve geral, ocupação dos prédios públicos, tomada da cidade por barricadas em cada bairro, expropriação de frotas… eis alguns desdobramentos que o ascenso popular abria à imaginação às vésperas do anúncio da revogação do aumento. É precisamente a ameaça de um enorme salto organizativo dos trabalhadores que alarma a classe dominante – o “caos social” bate à porta e deve ser contido pelo governo, cedendo. A tática histórica das lutas contra o aumento, que aqui chamamos de “revolta popular”, aposta para seu sucesso nessa ameaça e, no entanto, depende, ao mesmo tempo, de que ela não se realize. Para conquistar a reivindicação central, a revolta deflagra um processo explosivo, que é necessariamente freado no momento em que se atinge a conquista.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a tática é eficiente, o salto organizativo já nasce castrado e vai existir apenas como vislumbre. A breve perda de poder sobre as ruas permite entrever outro poder, um poder popular, tão palpável quanto inalcançável naqueles dias. Ao existir justamente na tensão entre uma minoria altamente organizada e uma maioria não organizada, a revolta popular limita a si mesma. Pois, ao mesmo tempo que, na luta contra o aumento de São Paulo, a população agiu diretamente sobre sua vida, não é menos certo que existia um comando que decidia o que fazer. Se depois de junho uma parte da esquerda avaliou que o problema no processo era a carência de uma “direção revolucionária”, nos parece o contrário: nas revoltas contra o aumento, o que falta – e por isso se trata de revoltas – é horizontalidade, ou seja, poder direto dos que estavam nas ruas sobre o que estavam fazendo, algo que depende da existência de estruturas enraizadas no dia a dia dos trabalhadores.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A revolta popular deve sair do controle — é nessa perda de controle que se permite conceber, pensar, sentir, viver uma transformação social, ainda que inconstante e muito breve. E, assim, junho passou; a revolta arrefeceu e foi administrada. Por um lado, forças repressivas aprenderam a dispersar as marchas, a destruir barricadas. Por outro lado, de dentro das revoltas, despontaram interesses partidários institucionais que colocaram essa energia para girar a máquina de disputa de votos. “Os protestos entram nos cálculos dos políticos, da imprensa e das seguradoras. A rua como fim em si mesma é um beco sem saída”. Dessa maneira, Caio e Leonardo apontam para o esgotamento da tática da revolta popular, não por deixar de existir, mas porque não foi possível ir além dela.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dizer que a tática histórica que aqui chamamos de “revolta popular” se esgotou não é, em nenhuma instância, decretar o fim da revolta – aquela atitude que há séculos pulsa entre os dominados. Ao contrário, esta nunca esteve tão presente: desde junho, a disposição à luta só cresceu. Mas o que construímos além dessa disposição? Milhões saíram às ruas e, de volta à casa, ao bairro, ao local de trabalho, voltaram à rotina de sofrimentos e humilhações (talvez um pouco mais indignados)? Embora tenha produzido ecos, o momento de mobilização não conseguiu ir além de si mesmo, não encontrou continuidade em um momento de organização.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Alguns anos mais tarde, Francesc e El Quico escreveram<a href="https://passapalavra.info/2021/03/136271/" target="_blank" rel="noopener"> outro texto para este site</a> que ecoa as formulações apresentadas. Com um ano de pandemia e dois de governo Bolsonaro, os conflitos na sociedade brasileira se acumulavam. O trabalho urbano ganhava uma nova fisionomia, marcada agora pela<a href="https://blogdaboitempo.com.br/2020/07/30/breque-no-despotismo-algoritmico-uberizacao-trabalho-sob-demanda-e-insubordinacao/" target="_blank" rel="noopener"> gestão algorítmica do trabalho precarizado</a>, que aumentou na pandemia. E nesse cenário, Francesc e El Quico identificam que a esquerda se retirava do conflito &#8211; para eles, há nas fileiras da esquerda, um temor pelo conflito que acabam “imobilizando sua capacidade de imaginar conflitos que não terminem por voltar-se contra ela mesma”. Daí se deriva o caráter restauracionista do progressismo brasileiro, enquanto “os reacionários se tornaram progressistas no sentido de que querem acelerar o tempo e adiantar o futuro”, como escreve <a href="https://blogdaboitempo.com.br/2019/07/23/a-decisao-fascista-e-o-mito-da-regressao-o-brasil-a-luz-do-mundo-e-vice-versa/" target="_blank" rel="noopener">Felipe Catalani</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a esquerda via-se enredada na manutenção governamental da administração securitária do colapso social — o que necessariamente resulta na incapacidade de transformar o mundo. Mais do que isso, como se olha essa situação com os olhos de um passado idílico, carece na esquerda os instrumentos epistemológicos e organizacionais para pensar a partir desse novo terreno social. O mapeamento cognitivo que fez sentido para a esquerda, baseado num mundo do trabalho relativamente estável e em instituições democráticas e republicanas mais ou menos consolidadas, parecia dar régua e compasso à ação da esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">O capital, enquanto processo cego, automático e contraditório, não permite que sua existência seja sempre idêntica ao longo da história. Enquanto forma social, o capital se reproduz de modo contraditório. Na medida em que busca aumentar a produtividade do trabalho para abocanhar uma fatia sempre crescente de mais-valor, ele impede a valorização de acontecer, pois, no mesmo golpe, expulsa o trabalho vivo das tramas produtivas. Assim, em sua ânsia de valorização, acaba tornando a si mesmo anêmico de valor. Essa dinâmica contraditória foi primeiramente exposta por Marx, mas foi mantida como contribuição marginal à esquerda marxista. O diagnóstico de Marx envolveu reconhecer a necessidade da crise. Contudo, essa leitura foi negligenciada pelas organizações políticas que se diziam inspiradas em seus escritos. Há causa para essa situação controversa: o diagnóstico não cabia na gramática política, que, desde antes de Marx, já colocava o trabalho como categoria privilegiada da ação política. Colocar ênfase na crise do trabalho e em sua obsolescência significaria a dissolução de sua gramática política — o que definitivamente aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Seja como for, essa interpretação marxiana ficou relegada às correntes subterrâneas do marxismo e apenas germinou novamente quando se tornou patente a situação descrita por Marx um século antes. A crise se instalou à medida que os desenvolvimentos das forças produtivas, propiciados pela revolução da robótica, da programação e da microeletrônica, se disseminavam: a elevação da produtividade é tamanha que o trabalho, enquanto mediação social, torna-se estruturalmente supérfluo ao capital. Situação percebida não só pelos marxistas subterrâneos, mas também pelo nosso presidente-sociólogo tucano: agora há os inempregáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses estão fora do mundo do trabalho — a sobrevivência dessa classe crescente depende da viração. Uma vez que uma massa de “<a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/12/04/mais!/18.html" target="_blank" rel="noopener">ex-proletários virtuais</a>” já não encontra como se inserir nessa gramática política, o mapeamento cognitivo que permitia estruturar a prática política por meio das organizações vai ao chão. A despeito, é claro, do sincero apego de muitos em relação a essas formas, o que ocorre nas últimas décadas do século XX e se intensifica ao longo do século XXI é a dissolução dessas formas sociais. As categorias que determinaram a existência social por muito tempo vêm se erodindo. Trata-se de uma impossibilidade lógica de continuar a utilizá-las para substancializar o mapeamento cognitivo de nossa realidade em crise.</p>
<p style="text-align: justify;">A complexidade não diminuiu em nada — o mundo não se tornou mais transparente porque as determinações de existência impostas pelo processo social do capital entraram em debacle. Ao contrário, a situação embaralha ainda mais nossa capacidade de tomar ações comensuráveis à realidade social. Embaralha-se porque as formas pelas quais era possível estabelecer a transitividade entre as escalas, do local ao global, do específico ao geral, também são corroídas pela crise.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo de crise contemporâneo colocou um desafio, podemos dizer, metapolítico para a tradição que se dedica não só à interpretação do mundo, mas também à sua transformação. Para pensar uma resposta comensurável com a realidade do <a href="https://sentimentodadialetica.org/dialetica/catalog/book/132">novo tempo do mundo</a> é preciso pensar uma resposta comensurável com a realidade em que uma organização política se encontra.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem mais um mapa da realidade, “É por aí que se deve compreender a ressurreição periódica e intempestiva do trabalho de base e certas noções meio franciscanas de solidariedade e autodisciplina” &#8211; como escrevem Franscesc e El Quico. Curiosamente, às vezes, as saídas são mais fetichistas do que a porta de entrada nessa realidade social em desagregação.</p>
<p style="text-align: justify;">Se, por motivos de desposessão originária, as pessoas em todo o mundo tornaram-se trabalhadoras, durante um tempo, essa condição de reprodução social compartilhada servia de âncora política para a ação. Agora, parece que “a única alternativa é seguir na correria sem fim, se virando em condições mais e mais adversas”, como ensina a <a href="https://www.xn--estilhao-y0a.com.br/masterclassdofimdomundo" target="_blank" rel="noopener"><i>Masterclass de fim do mundo</i></a>. A reprodução social passa agora por uma miríade de estratégias que frequentemente prescindem da forma-trabalho, o que, claro, produz efeitos políticos profundos, como tentei escrever em um texto anterior para este site. Nessas condições, a ação política toma a forma de motins que não permite o acúmulo de forças:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sem o antigo “horizonte de ‘conquistas’ a serem acumuladas, numa perspectiva mais ampla de integração progressiva”, o que resta às lutas do nosso tempo é refluir aos poucos ou escalar imediatamente, assumindo, sem qualquer mediação, formas insurrecionais (sem antes e depois).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Há luta, insurgência e conflito na sociedade, “tão intensos quanto descontínuos, sem jamais assumir formas estáveis” &#8211; continua a <i>Masterclass</i>.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na viração das esquinas, entre “empregos de merda” e “trampos” temporários – ali onde não há nada de promissor à vista a não ser cair fora –, a insubordinação irrompe com a mesma urgência, o mesmo imediatismo da produção just in time. Os conflitos explodem como um gesto desesperado, um grito de “foda-se” em que se misturam “sofrimento, frustração e revolta”, frequentemente sob a forma de um ato de desforra individual – ou, quando muito, coletiva. Assim como a recente onda de deserções do trabalho nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, a debandada dos call centers nos primeiros dias da pandemia no Brasil era um sinal de recusa a uma rotina que, para arcar com a “normalidade” em colapso, torna-se ainda mais infernal. A cada nova emergência – sanitária, ambiental, econômica, social –, gira o parafuso da intensificação do trabalho, todos integralmente mobilizados num esforço sem fim em que não se formam senão “experiências negativas”. Se os “não-movimentos” trazem uma boa notícia, contudo, ela é justamente essa: eles “indicam que o proletariado já não tem nenhuma tarefa romântica”, sem ter nada a esperar e também nada a perder.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Voltemos a 2013. Caio e Leonardo, no primeiro texto resenhado aqui, notam que “ Se não saímos de 2013 com um aumento na organização dos de baixo, talvez o terreno para essa organização esteja mais fértil. Ao apontar para algo vivo para além do cotidiano morto de consensos e consentimentos, junho quebrou o feitiço”. Se essa afirmação “envelheceu mal” como se diz, não é por erro de análise dos camaradas no calor do momento, mas porque a própria realidade agudizou suas contradições em direção ao cenário de desagregação social e de motins sem acúmulo. O que interessa, contudo, é o questionamento levantado pelos autores ao final do texto: “Como fazer com que o vislumbrado passe do possível para o real? É, no mínimo, indispensável superar a centralidade da tática de revolta e formular uma perspectiva estratégica mais ampla, a perspectiva de uma recusa mais potente, enraizada no cotidiano. É preciso construir o que se tornou imaginável.” Questão que foi acompanhada por outras colocadas por Leo Vinicius, em um <a href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/#comment-232857" target="_blank" rel="noopener">comentário ao texto</a>: “É possível ir além da ‘revolta popular’ quando a tarifa aumenta (e lembrando que são relativamente poucas vezes que há manifestações com forte adesão quando elas aumentam), em direção a uma construção/situação de conflito permanente? É possível ir da greve na cidade-fábrica à construção do conflito permanente na cidade-fábrica? É possível construir um conflito cotidiano, permanente no transporte coletivo, que torne cada vez mais insustentável a forma de organização/gestão do transporte, abrindo caminho para a tarifa zero? Se sim, como?”</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se navega de dentro da crise, encontramos um cenário de crise que acumula adversidades, dificultando a construção da centralidade da tática da revolta. O mundo do trabalho entre o emprego de merda, a uberização, e o empreendedorismo; a renda familiar carcomida por pagamento de juros dos endividamentos sucessivos ou da fantasia nas apostas online; a presença irremediável de recursos dos programas assistenciais do Estado ou das igrejas, entre tantos outros. Contudo, essa mesma crise parece oferecer possibilidades de ação que não colocam a centralidade no conflito, mas sim no território.</p>
<p style="text-align: justify;">Por território, entendo o conjunto de relações de reprodução social que ocorrem em um determinado espaço. O território é o lugar onde o cotidiano acontece. São várias as experiências militantes que parecem produzir uma sobrevida temporal das experiências de luta a partir da construção de um vínculo territorial. As ZADs, as ocupações, os territórios liberados. <a href="https://www.glacedicoes.com/product-page/casa-encantada-renato-baruq" target="_blank" rel="noopener">Baruq</a>, da ocupação em BH, Kasa Invisível, compreende a importância de se construir infraestruturas reprodutivas para liberar pessoas das relações sociais capitalistas, permitindo que mais energia seja dispendida em organização e em luta (inclusive na produção de revoltas populares) do que a energia gasta no trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Desta maneira, pensar o território é pensar em como conferir perenidade à revolta, que é, por natureza, fugaz. É dar continuidade a algo descontínuo. Um território pode surgir de uma revolta — não foi isso que aconteceu, por exemplo, na <a href="https://fpabramo.org.br/editora/wp-content/uploads/sites/17/2021/05/Luxo-Comunal.pdf" target="_blank" rel="noopener">Paris de 1870</a> ou em <a href="https://web.archive.org/web/20200610164217/https://industrialworker.org/the-birth-of-the-capitol-hill-autonomous-zone/" target="_blank" rel="noopener">Capitol Hill, de 2020</a>? É no território que é possível a fusão entre política e cotidiano, militância e reprodução. Nessas condições, a ação política não se torna um momento de interrupção dos fluxos da cidade, mas estende-se ao cotidiano. Mesmo nos casos efêmeros, como a Comuna (72 dias) ou a Capitol Hill Autonomous Zone (23 dias), há um saldo: a transformação se colou ao cotidiano.</p>
<p style="text-align: justify;">Claro, se um determinado território vai se tornar uma plataforma eleitoral, de comércio ou mais um bairro comum — perdendo seu vínculo com uma política de transformação social —, o tempo revelará. Ou então, pode ser massacrado, despejado e perdido. Frequentemente, esse parece ser o destino dos territórios.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata aqui de negar os conflitos — ou não apostar nos conflitos como faíscas para incendiar o rastilho de pólvora de uma vida desgraçadamente incorporada ao colapso que vivemos. Por exemplo, <a href="https://illwill.com/memes-without-end" target="_blank" rel="noopener">Wohleben </a>reconhece que “O que importa é identificar, nesta ou naquela situação, como práticas anônimas, sem dono e inapropriáveis, originárias da vida cotidiana, são magnetizadas por conflitos, e qual o alcance potencial que cada uma delas ainda pode ter.”</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos, mais uma vez, a 2013. No dia 27 de junho de 2013, numa ocupação da prefeitura de São Paulo convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL) no contexto da onda de grandes manifestações que tomou as ruas de todo o Brasil, ocorreu uma <a href="https://www.youtube.com/watch?v=QyPBUDlV4d4" target="_blank" rel="noopener">aula pública com Paulo Arantes</a>. O professor tratou de responder a seguinte questão: Como se explica o fato de que um milhão de pessoas tomaram as ruas das metrópoles brasileiras em menos de uma semana? O próprio filósofo já descarta a resposta usual que atribuía importância à internet e às novas redes sociais, que tentava explicar Occupy Wall Street, Primavera Árabe ou a experiência das acampadas dos Indignados espanhóis. Para tanto, Paulo Arantes faz uma resenha de um <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/a-revolucao-nao-sera-tuitada/" target="_blank" rel="noopener">artigo de Gladwell</a> no qual busca pensar as condições da livre associação com potência de transformação.</p>
<p style="text-align: justify;">Gladwell então recupera uma pequena história do movimento negro por direitos civis na segunda metade do século XX nos Estados Unidos, uma sociedade profundamente segregada.  A história é sobre quatro jovens negros, calouros na North Carolina A&amp;T, uma faculdade para negros. Eles entraram numa lanchonete e se sentaram na área destinada aos brancos (os negros deviam se alimentar de pé no balcão). Um deles pediu: “um café por favor”. A atendente recusou e lembrou os jovens que não poderiam se sentar naquele local, mas insistiram no pedido e não saíram da posição a despeito do risco de serem linchados. Brancos, que provavelmente estavam dispostos a tomarem tal atitude, se colocaram logo atrás dos jovens negros e proferiram as ameaças mais terríveis contra eles, mas, ainda assim, continuaram sentados até o fechamento da lanchonete e, no dia seguinte, retornaram ao mesmo local e repetiram o pedido. Continuaram durante a semana inteira, enquanto corria a notícia por todo o Estado, e, em menos de dez dias, caravanas de negros que se organizavam foram até a pequena cidade do interior de 50.000 habitantes, até o momento em que esses peregrinos militantes eram equivalentes a metade da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O que interessa é notar as condições que permitiram tal ato de existir e de lograr sucesso. Paulo percebe três características fundamentais: i. vínculos fortes entre os envolvidos, de amizade e camaradagem &#8211; ou seja, uma rede através das quais ações podem repercutir e se acumular; ii. a implicação do corpo de cada um em uma situação de risco compartilhado com seus amigos &#8211; uma vez que o corpo negro faz diferença no sistema de opressão racializada e; iii. o envolvimento em uma mesma causa, ou seja, a capacidade de adotar uma perspectiva comum, a partir da qual as perturbações sociais produzidas pelo “experimento” dos estudantes podiam ser reconhecidas e transmitidas entre todos os que se engajaram na luta.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas características marcaram, por exemplo, a experiência política dos Black Panther Party: trata-se de uma forma de organização comunitária para que jovens negros permaneçam vivos, atrelada fortemente aos vínculos cotidianos, aos riscos corridos e ao compartilhamento da pauta. Frequentemente esquecidos, os Panteras Negras organizaram, por mais de uma década, <a href="https://blackpast.org/african-american-history/black-panther-partys-free-breakfast-program-1969-1980/" target="_blank" rel="noopener">o programa de cafés da manhã</a> para as crianças das comunidades negras onde atuavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse tipo de atuação desloca o eixo que tradicionalmente caracterizou a prática política. Nesse formato clássico, o espaço da política é um espaço separado da vida cotidiana — baseado nas ideias de representação que informaram tanto a democracia formal quanto a ação de muitas das organizações revolucionárias por aí. Uma forma de organização da política, direcionada ao que estou chamando aqui de território, produz uma aproximação, um amálgama entre o gesto político e a prática reprodutiva cotidiana. Como escreve Wohleben, “Podemos até dizer que o verdadeiro movimento começa no momento em que as pessoas deixam de procurar alguma fonte externa para legitimar suas ações e passam a confiar e agir de acordo com sua própria sensibilidade, sua própria percepção do que faz sentido e do que é intolerável. A partir desse momento, todo o aparato da política oficial começa a entrar em colapso, permitindo que todos vejam que ele é o inferno gerencial que realmente é.” O mesmo autor reconhece que o verdadeiro horizonte dessas ocupações do espaço não é interromper o fluxo da economia, mas “produzir bases territoriais habitadas” e que, assim, permita colocar a ação política no “mapa da vida cotidiana”.</p>
<p style="text-align: justify;">Duas citações podem, talvez, iluminar meu argumento. A primeira, de Marx, nos <a href="https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/cap05.htm" target="_blank" rel="noopener">Manuscritos de 1844</a>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Quando artesãos comunistas formam associações, o ensino e a propaganda são seus primeiros objetivos. Mas, sua própria associação cria uma necessidade nova &#8211; a necessidade da sociedade &#8211; o que parecia ser um meio torna-se um fim. Os resultados mais notáveis desse fato prático podem ser vistos quando operários socialistas franceses se reúnem. Fumar, comer e beber não mais são meios de congregar pessoas. A sociedade, a associação, o divertimento tendo também como fito a sociedade, é suficiente para eles; a fraternidade do homem não é frase vazia, mas uma realidade, e a nobreza do homem resplandece sobre nós vindo de seus corpos fatigados.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Cento e setenta e cinco anos depois, <a href="https://illwill.com/print/memes-with-force" target="_blank" rel="noopener">Torino e Wohleben</a>, escrevem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Foram estas últimas lutas que mais claramente provaram a eficácia estratégica de armar “lugar” como elemento de ataque, de converter a habitação vital de um território de vida intensa em um meio de deslegitimação da gestão estatal e econômica. Ao mesmo tempo, a manobra dos Coletes Amarelos é diferente. Em vez de muitas pessoas de toda a Europa convergindo em duas ou três “zonas a defender”, as rotundas de Coletes Amarelos permanecem próximas da vida cotidiana. Esta proximidade à vida cotidiana é a chave para o potencial revolucionário do movimento: quanto mais próximos os bloqueios estiverem da casa dos participantes, mais provável é que esses lugares se tornem pessoais e importantes de um milhão de outras formas. E o fato de ser uma rotunda que é ocupada em vez de uma floresta ou um vale retira o conteúdo prefigurativo ou utópico desses movimentos. Embora isto possa parecer, à primeira vista, uma fraqueza, pode revelar-se uma força.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Apesar da distância histórica, elas se encontram ao elucidar uma questão de método: é no compartilhamento de um território, a partir de práticas cotidianas de reprodução da vida, que reside a possibilidade de transformação. Como escrevem Torino e Wohleben, “É a constituição de lugares coletivos que forma o núcleo destituinte/revolucionário do movimento, que supera a oposição entre a revolta e a vida cotidiana”.  A ação política transformadora não estaria fundamentada essencialmente no local de trabalho ou na figura do trabalhador, nem na identidade territorial delimitada, nem em um evento de verdade, muito menos em uma campanha eleitoral apoteótica, mas sim em questões de reprodução social que atravessam o tecido social e constituem um território. Talvez esteja aí o lugar para pensarmos uma estratégia política para o tempo presente.</p>
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		<title>Protestos contra a falta de luz se espalham pela Grande São Paulo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Dec 2025 02:17:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autorais]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[Podem a água e o vento aumentar a chama da revolta? Por Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Passa Palavra</h3>
<p style="text-align: justify;">Desde a chuva que castigou São Paulo na última terça-feira, 10, e a ventania do dia seguinte, milhões de paulistas continuam sem energia elétrica. Em vários bairros da capital moradores estão há quatro dias sem luz. Além da demora para restabelecer o fornecimento de energia, funcionários que prestam serviço para a concessionária, a multinacional italiana Enel, foram flagrados cobrando propina para religarem a luz. Um funcionário foi <a href="https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2025/12/12/funcionario-da-enel-preso-por-pedir-propina-religou-energia-em-15-segundos.htm" target="_blank" rel="noopener">preso em flagrante após cobrar R$ 2,5 mil</a> de moradores para religar a energia no bairro da Vila Mariana. Diante do descaso, os protestos se generalizaram.</p>
<p style="text-align: justify;">Na quinta-feira, um morador da Zona Oeste de São Paulo enviou uma mensagem em grupos de WhatsApp convocando os vizinhos para se manifestarem:</p>
<blockquote><p>Familia, boa noite pra nois e um forte abraco<br />
Aqui na minha quebrada nois ta indo pro terceiro dia sem luz, nois ta ligando de montão pra enel la e toda hora dão um prazo diferente, mas mó boqueta, tem gente que recebeu a previsão que o bagulho so volta na segunda, ta tudo muito incerto e nossa quebrada sempre passa por isso, sou residente aqui da Cohab Raposo Tavares, no km 19 da raposo, na zona oeste</p>
<p>Se o barato num voltar ate amanha, nois ta se mobilizando pra fazer alguma fita aqui na rodovia</p>
<p>Quem puder colar, que for aqui da região e pa, da um salve, por gentileza</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na noite do mesmo dia, na Zona Noroeste, um protesto fechou a Rodovia Anhanguera na altura do km 19:</p>
<p style="text-align: justify;"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/hqbk9LNGIQ8?si=JRwqB3c2Xx-x4CWB" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;">Mas foi na manhã de sexta-feira que os protestos se espalharam por toda a região metropolitana.  No Grajaú, Zona Sul, moradores atearam fogo em pneus e bloquearam a Avenida Belmira Marin, principal via de acesso da região:</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSK8Q3jkWH1/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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</div>
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</div>
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</div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSK8Q3jkWH1/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Grajau tem (@grajautem)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script> No <a href="https://www.instagram.com/reel/DSKtd7lDTD8/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igsh=MzRlODBiNWFlZA==" target="_blank" rel="noopener">Marsilac</a> e na <a href="https://www.instagram.com/reel/DSLhAJUjfqK/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igsh=MzRlODBiNWFlZA==" target="_blank" rel="noopener">Chácara Santo Amaro</a> também houve protestos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Santo André, moradores do Clube de Campo atearam fogo em pedaços de madeira e bloquearam a rua para protestar</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLRVgAD9hi/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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</div>
</div>
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<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLRVgAD9hi/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Viva ABC (@vivaabc_)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script>No Jardim Miriam, foram registrados pelo menos três protestos. Um na Rua Francisco de Alvarenga, outro na Av. Ângelo Cristianini e um terceiro na Av. Cupecê</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLfGa-EtAS/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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</div>
</div>
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<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
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<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLfGa-EtAS/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Foco No Jardim Miriam (@foconojardimmiriam)</a></p>
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<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLiD-lAPpc/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
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<p>&nbsp;</p>
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</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLpiXVAEm6/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLpiXVAEm6/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Foco No Jardim Miriam (@foconojardimmiriam)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<p style="text-align: justify;">Na Zona Oeste, manifestantes bloquearam o km 23 do Rodoanel Mário Covas e a Avenida Escola Politécnica com barricadas:</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLI3tnAQh_/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
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<div>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLI3tnAQh_/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Diego Nascimento (@reporter_davila)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLVy64ERoD/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLVy64ERoD/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Jornal News Butantã (@jornalnewsbutanta)</a></p>
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<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
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<p>&nbsp;</p>
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<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLm038jUsO/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Jornal News Butantã (@jornalnewsbutanta)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<p style="text-align: justify;">Na região central moradores do Bixiga também protestaram:</p>
<p style="text-align: justify;"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/geEnpxcGrz4?si=kdFZ6PZHqRbfLGRR" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;">No momento em que escrevíamos esse relato, estavam em curso dois protestos na Zona Sul, um no Jardim Novo Horizonte e outro na Vila São José:</p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLvtD1iRCR/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
<div style="padding: 16px;">
<p>&nbsp;</p>
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<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLvtD1iRCR/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Jardim Mirna (@focojardimmirna)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DSLpsp0FDGk/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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<p>&nbsp;</p>
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<div style="padding-top: 8px;">
<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DSLpsp0FDGk/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por Grajau tem (@grajautem)</a></p>
</div>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script></p>
<p style="text-align: justify;">Com as chuvas desta sexta-feira, <a href="https://timesbrasil.com.br/brasil/numero-de-residencias-sem-luz-em-sao-paulo-volta-a-subir-veja-o-que-diz-enel/" target="_blank" rel="noopener">o número de moradores sem luz voltou a subir.</a> Segundo informações da concessionária Enel, 750 mil clientes ainda estavam sem luz. Às 19h30 eram 710 mil. A previsão para o final de semana é de mais chuvas e ventanias na região, o que pode agravar a situação e gerar novos protestos. Podem a água e o vento aumentar a chama da revolta?</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>[SP] 13.12 &#8211; Inauguração do Centro de Memória e Resistência da Favela do Moinho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Dec 2025 14:46:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[Em meio às ruínas e às tantas violações que obrigam moradores a deixarem o Moinho às pressas, o Centro de Memória e Resistência da Favela do Moinho se propõe a testemunhar e registrar e apoiar a resistência da Comunidade do Moinho.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A Associação de Moradores e o Comitê em Defesa da Favela do Moinho e pela Liberdade das Pessoas Presas inauguram, no dia 13 de dezembro, às 13hs, o Centro de Memória e Resistência da Favela do Moinho.<br />
No último ano, o território do Moinho, última favela do centro expandido de São Paulo, foi centralizado também pela disputa ideológica e eleitoral do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) contra Luíz Inácio Lula da Silva (PT). Vizinho do local onde Tarcísio planeja transferir a sede do governo por meio da Parceria Público Privada (PPP), o Moinho foi um dos alvos do ataque espoliativo que vai demolir uma série de quarteirões e desalojar centenas de famílias. Ainda em 2024, foi anunciada a construção de uma estação da CPTM e de um parque. O projeto poderia perfeitamente abrigar unidades habitacionais para os moradores que construíram suas casas há décadas na comunidade, mas Tarcísio optou por inflamar uma narrativa que criminaliza e estigmatiza as famílias do Moinho, vendendo a destruição da favela como um projeto de combate ao crime organizado — que, como sabemos, controla diferentes regiões de São Paulo, algumas delas à prova de demolição, como o centro financeiro da Faria Lima. O Governo Federal, por sua vez, aceitou dar a concessão de uso do terreno ao Governo Estadual, sem antes ouvir o que pensavam os moradores do Moinho.<br />
Em maio de 2025, em mais uma luta histórica, a comunidade conquistou um acordo de moradia subsidiada integralmente com recursos estaduais e federais para todos os que seriam expulsos do Moinho. Entretanto, desde então, o governo Tarcísio vem desrespeitando uma série de pontos deste acordo, violando o direito e a dignidade dos moradores e expondo-os à convivência com entulhos e riscos causados pelas demolições diárias, enquanto seu destino ainda é incerto.<br />
Em meio às ruínas e às tantas violações que obrigam moradores a deixarem o Moinho às pressas, o Centro de Memória e Resistência da Favela do Moinho se propõe a testemunhar e registrar e apoiar a resistência da Comunidade do Moinho que enfrentou coletivamente incêndios, muros, balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo, violações, repressões e planos especulativos de diferentes gestões, erguendo suas casas, trajetórias e sonhos entre os trilhos do trem.<br />
O evento de inauguração do Centro de Memória terá início às 13h e será realizado no Campinho de Futebol do Moinho.<br />
Você está convidada(o) a se juntar à comunidade pela memória das lutas passadas e pela força das lutas que vêm. Moinho vive e viverá sempre!</p>
<p>&nbsp;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>[Cajamar-SP] TJSP SUSPENDE ORDEM DE DESPEJO DA OCUPAÇÃO DOS QUEIXADAS!</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157677/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Sep 2025 21:18:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[A batalha não está ganha, mas ganhamos fôlego pra nossa luta!  Por Luta Popular]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div>
<h3 style="text-align: justify;">Por Luta Popular</h3>
<div style="text-align: justify;">Com muita felicidade e com a certeza da força da nossa luta, recebemos hoje a notícia da decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, que reconsiderou sua primeira decisão no recurso interposto pelo movimento e pela Defensoria Pública de SP, decidindo suspender a reintegração de posse da Ocupação dos Queixadas, até serem melhor analisados os argumentos da defesa das famílias!</div>
<div style="text-align: justify;"></div>
<div style="text-align: justify;">Estamos há mais de 6 anos na luta para ter o nosso direito à moradia reconhecido, mesmo com a intransigência da Prefeitura de Cajamar, que tem se negado, ao longo de todo esse tempo, a construir uma solução para nossa demanda. Mesmo com a possibilidade de incluir os Queixadas no Casa Legal do governo do Estado ou no Novo PAC &#8211; Periferia Viva do governo Federal.</div>
<div style="text-align: justify;"></div>
<div style="text-align: justify;">A batalha não está ganha, mas ganhamos fôlego pra nossa luta!</div>
<div style="text-align: justify;">Seguiremos mobilizados e organizados pra arrancar nosso direito à moradia</div>
<div style="text-align: justify;"></div>
<div style="text-align: justify;">Agradecemos todos nossos aliado/as e apoiadora/es, e em especial à Defensoria Pública, que tem sido incansável em fortalecer nossa reivindicação jurídica por direitos básicos!</div>
<div style="text-align: justify;"></div>
<div style="text-align: justify;">No ato marcado para amanhã será suspenso para que possamos nos reorganizar nessa nova etapa, que fortalece a esperança de revertermos definitivamente o despejo!</div>
<div style="text-align: justify;"></div>
<div style="text-align: justify;">COM LUTA, COM GARRA, A CASA SAI NA MARRA!</div>
<div style="text-align: justify;"><b>VIVA A LUTA DOS QUEIXADAS, QUE EXISTE E RESISTE!!!</b></div>
<div style="text-align: justify;">DESPEJO ZERO! MORADIA JÁ!</div>
</div>
<div style="text-align: justify;"></div>
<div style="text-align: justify;">Saiba mais em Instagram: @lutapopularnacional</div>
<div><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157679" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/logoluta2-scaled.png" alt="" width="2560" height="1574" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/logoluta2-scaled.png 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/logoluta2-300x184.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/logoluta2-1024x630.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/logoluta2-768x472.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/logoluta2-1536x945.png 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/logoluta2-2048x1259.png 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/logoluta2-683x420.png 683w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/logoluta2-640x394.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/logoluta2-681x419.png 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></div>
<div style="text-align: justify;"></div>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Favela do Moinho: “Vocês ainda estão aqui?!”</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/09/157652/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Sep 2025 12:23:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A resistência histórica da Favela do Moinho no centro de São Paulo é exemplo contundente de que muitas pessoas “ainda estão aqui”, apesar da brutalidade a qual estão cotidianamente submetidas pelo Estado. Por Isadora Guerreiro e Débora Ungaretti]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora Guerreiro e Débora Ungaretti</h3>
<p style="text-align: justify;">No último dia 8 de setembro foram presas em suas casas as duas principais lideranças da Favela do Moinho, Alessandra Moja e sua filha, Yasmim Moja Flores, além de mais 9 pessoas da comunidade. Cenas de violência invadiram a favela ao alvorecer daquele dia. Pelos <a class="urlextern" title="https://youtu.be/h1BPAMfa_Eg?si=ulYixbth851RjdZD" href="https://youtu.be/h1BPAMfa_Eg?si=ulYixbth851RjdZD" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">relatos</a>, além da injustiça das prisões e das acusações, a polícia forjou a existência de drogas na casa de Alessandra, sem se preocupar em esconder o ato, pelo contrário, deixando ostensivamente explícito que estava fazendo aquilo; seguiram-se cenas de tortura física e psicológica, com uso de choque elétrico. Apesar da semelhança, não era um porão da ditadura militar &#8212; mas podemos dizer que a resistência histórica da Favela do Moinho no centro de São Paulo é exemplo contundente de que muitas pessoas “ainda estão aqui”, apesar da brutalidade a qual estão cotidianamente submetidas pelo Estado. Desde então, o medo e a apreensão com a violência desproporcional tomou conta de quem ainda está na favela, o que tem acelerado a saída de famílias e pessoas mesmo antes de receberem o atendimento habitacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Particularmente em uma gestão do <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/09/157626/" href="https://passapalavra.info/2025/09/157626/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Governo do Estado de São Paulo que sabemos a filiação</a>, e que no dia anterior à prisão das lideranças declarou publicamente durante a manifestação da direita nas comemorações da independência brasileira &#8212; regado à bandeira americana na Av. Paulista &#8212; apoio incondicional àqueles julgados e condenados no último dia 11 de setembro por Golpe de Estado. O grito dos policiais ao entrarem na Favela do Moinho na manhã seguinte foi bastante significativo: “vocês ainda estão aqui?!”.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sabemos se os policiais assistiram ou não ao filme, mas seria uma citação bem colocada. Eles se referiam, no caso, ao acordo feito entre os governos estadual e federal para a desocupação da área, que comentamos <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">na última coluna</a> &#8212; na qual terminávamos justamente analisando que, independente do acordo de atendimento habitacional, as famílias seriam removidas a todo custo e com urgência. O processo violento de limpeza social &#8212; esse sim de necessidade absoluta do Governo do Estado &#8212; não estava sendo interrompido pelo Governo Federal, como se propagandeou à época, mas mediado por forças que, no fim ao cabo, deram instrumentos para a aceleração do processo.</p>
<p style="text-align: justify;">A favela já está em ruínas, com cerca da metade da sua população deslocada. Os que “ainda estão ali”, dizem que aguardam a tramitação de sua documentação para o atendimento habitacional pelo Governo Federal e pelo Governo do Estado, temendo a violência policial, prisões em flagrante forjadas, e sair sem garantias. Evidentemente não parece ser apenas uma falta de comunicação entre a polícia e a CDHU, ou entre o Governo Federal e Estadual a questão: parece tratar-se de movimento típico do poder estatal na qual o emaranhado burocrático e a espera infinita, por um lado, e a repressão violenta, por outro, se combinam para negar qualquer tipo de saída digna. Aqui, a violência não é mera externalidade, mas parte constituinte desse processo de reestruturação urbana usado como dispositivo para eliminar um território popular e reconfigurar a correlação de forças no poder &#8212; aqui em uma escala bastante ampla, que sai do Moinho e chega na disputa nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Alessandra e Yasmim foram denunciadas por associação ao tráfico de drogas, acusação que mantém atualmente preso o irmão de Alessandra, Leo do Moinho &#8212; que dominaria, pelo PCC, o “ecossistema do tráfico de drogas” na região vizinha da dita “cracolândia”. A luta por <a class="urlextern" title="https://www.labcidade.fau.usp.br/remocao-da-favela-do-moinho-revela-politica-habitacional-que-nao-atende-as-necessidades-das-pessoas/" href="https://www.labcidade.fau.usp.br/remocao-da-favela-do-moinho-revela-politica-habitacional-que-nao-atende-as-necessidades-das-pessoas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">garantia de atendimento habitacional que corresponda às necessidades habitacionais das famílias</a>, reconhecida e apoiada por movimentos sociais, entidades e coletivos que atuam historicamente pelo direito à moradia e a cidade, e universidades, dentre outros, foi desqualificada como defesa dos interesses do referido “ecossistema”. Digno de nota é o <em>timing</em> da polícia &#8212; que retoma, acompanhada pelo GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), a ampla operação <em>Salus et Dignitas</em> do Ministério Público iniciada em agosto de 2024 para a eliminação da “cracolândia” e que, notoriamente, não investiu contra estas lideranças naquele momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Timing </em>este que se dá logo após a megaoperação da Polícia Federal no dia 28 de agosto que articulou as operações Quasar e Tank com a Carbono Oculto do próprio GAECO do MP de SP. Neste dia, foi a vez da Av. Faria Lima, coração empresarial-financeiro de São Paulo, amanhecer sob investida da ação policial &#8212; um tanto mais comportada do que os porões da ditadura que reapareceram na casa de Alessandra, claro. A Faria Lima aparecia então dentro de outro “ecossistema” criminal, também ligado ao PCC &#8212; cujo dinheiro ilícito se mostra espalhado por toda a economia. A investida no Moinho logo após essa operação parece uma resposta, como que a (re)lembrar que bandido mesmo é quem está na favela… e se articula com o campo da esquerda, claro.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois de “ecossistema” em “ecossistema”, o dispositivo de criminalização vai sendo acionado, evidentemente, de forma política. O <em>timing</em> inclui um mês para a abertura dos envelopes da concorrência internacional da concessão da <a class="urlextern" title="https://www.labcidade.fau.usp.br/nota-tecnica-ppp-sede-governo/" href="https://www.labcidade.fau.usp.br/nota-tecnica-ppp-sede-governo/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Parceria Público-Privada (PPP) de transferência da sede do Governo do Estado para a mesma região</a> &#8211; <em>timing </em>esse que também está recaindo sobre as famílias das pensões das quadras onde será implantado o projeto, que estão sendo pressionadas individualmente pela CDHU a iniciar a desocupação a partir de 20 de setembro, após aderirem ao atendimento habitacional oferecido.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo <em>timing</em> inclui o calendário eleitoral federal e estadual que começa a se acirrar justamente nas duas figuras políticas maiores que estão disputando a narrativa do Moinho: Lula e Tarcísio, cujo evento do 7 de setembro praticamente colocou este último como candidato da direita, em meio à semana de condenação de Jair Bolsonaro. Não à toa, a imprensa soltou reportagens em seguida à prisão das duas lideranças do Moinho com fotos delas junto a Lula e a Boulos no dia do acordo sobre a destinação habitacional das famílias do Moinho, com chamadas bastante explícitas: “<a class="urlextern" title="https://www.metropoles.com/sao-paulo/video-lula-dividiu-palco-com-presa-por-trafico-na-favela-do-moinho" href="https://www.metropoles.com/sao-paulo/video-lula-dividiu-palco-com-presa-por-trafico-na-favela-do-moinho" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Vídeo: Lula dividiu palco com presa por tráfico na Favela do Moinho</a>” ou “<a class="urlextern" title="https://www.metropoles.com/colunas/andreza-matais/ongueira-que-negociou-visita-de-lula-extorquia-moradores-diz-mp" href="https://www.metropoles.com/colunas/andreza-matais/ongueira-que-negociou-visita-de-lula-extorquia-moradores-diz-mp" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Líder comunitária que preparou visita de Lula extorquia moradores</a>”. Guilherme Derrite, secretário de Segurança Pública de SP, também fez questão de fazer tais conexões em suas redes sociais, bem como outros políticos da direita, como Kim Kataguiri.</p>
<p style="text-align: justify;">O jogo de escalas aí está bem grande, ainda assim Alessandra, Yasmim e as demais pessoas presas, bem como as famílias que permanecem no Moinho, resistem para não sucumbir a ele, apoiadas por enorme rede de proteção &#8212; que inclui academia, advogados populares, coletivos variados, imprensa autônoma, movimentos populares e partidos e mandatos legislativos à esquerda. A repressão ao ato que se seguiu a sua prisão, realizado em 10 de setembro, foi expressão desse jogo de escalas desproporcional. Embora com poucas pessoas, o ato nem bem saiu da Favela do Moinho e já foi interceptado e dispersado com bombas de gás. Mesmo depois da dispersão, a polícia se dirigiu ostensivamente a um estabelecimento comercial no qual parte dos apoiadores se reuniram, capturou e conduziu coercitivamente um dos ativistas, ex-deputado estadual, que justamente tinha buscado interlocução com a polícia durante o ato para negociar o seu andamento, e assim evitar violência e dispersão. Afinal, tal rede de apoio também está na mira: segundo <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/09/08/operacao-do-mp-e-da-pm-mira-acusados-de-chefiar-trafico-de-drogas-na-favela-do-moinho-no-centro-de-sp.ghtml" href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/09/08/operacao-do-mp-e-da-pm-mira-acusados-de-chefiar-trafico-de-drogas-na-favela-do-moinho-no-centro-de-sp.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">matéria do G1</a>, “os promotores afirmam que o grupo criminoso manipulava e financiava movimentos sociais que atuam na favela para dificultar a remoção das famílias”. Sem apresentar indícios ou provas, se reproduz a narrativa criminalizante que apoia o aprofundamento das alianças entre repressão estatal e negócios nos territórios do centro de São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação em que chegamos é bastante grave. O que está ocorrendo em toda a região de Campos Elíseos em São Paulo não deve ser entendida apenas como mais um novo projeto de reestruturação urbana, ou ainda como guerra às drogas ou sua variante de “fim da cracolândia”. Isso tudo existe na região há muito tempo, mas nunca chegou ao grau de conflito e à escala de forças políticas que estamos assistindo. A articulação entre todos esses aspectos, na mão de um candidato à presidência que representa o bolsonarismo eficiente de face técnica e empresarial, com uso estratégico das forças de repressão &#8212; que inclusive transitam muito bem entre a legalidade estatal e a ilegalidade miliciana &#8212; deveria chamar a atenção de quem se preocupa com a ascensão da extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos aspectos mais preocupantes é a ampla legitimação social das ações de repressão na região, em torno do binômio valorização imobiliária e guerra às drogas &#8212; que ganha adeptos num espectro social muito maior do que o próprio bolsonarismo. Em <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/05/138119/" href="https://passapalavra.info/2021/05/138119/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">outro momento eu falava da guerra às drogas como cortina de fumaça</a> para o verdadeiro objetivo das forças estatais: avançar com domínio territorial em áreas que, por sua história e processo de produção urbana, se conformaram como espaços regidos por outras normatividades e lógicas sociais que impediam o avanço dos negócios. No Rio de Janeiro, cidade que eu tratava naquele momento a partir da chacina na Favela do Jacarezinho em 2021, o mecanismo das operações policiais parecia servir para a entrada de milícias em territórios antes dominados por facções do tráfico de drogas. Ali já ficava clara a articulação entre repressão estatal e negócios, num enfrentamento com lógicas comunitárias de produção dos territórios, onde o próprio lugar de mediação política e organização popular passou a ser tomado pelas milícias.</p>
<p style="text-align: justify;">Em São Paulo, Tarcísio já percebeu que a coisa é diferente, pois o PCC atua de outra forma em relação às facções cariocas: ao invés de ter domínio territorial, atua em redes de negócios dispersos, articulando empresários e empreendedores variados e, portanto, diluindo as fronteiras entre a economia formal e as informais ou ilícitas. Assim, o Governo do Estado sabe muito bem que destruir um território popular com as clássicas armas da reestruturação urbana &#8212; agora financeirizada por meio das PPPs &#8212; não desestrutura uma organização internacional como o PCC.</p>
<p style="text-align: justify;">Não tem nada a ver com o PCC, muito menos com as drogas. Tem a ver com um projeto político-econômico em curso, no qual a articulação empresarial-militar parece fazer cada vez mais sentido e ter consequências muito práticas e nefastas para todos aqueles que insistirem em “ainda estar ali”, resistindo. A criminalização da luta por direitos e da existência da Favela do Moinho escancara o significado do <a class="urlextern" title="https://www.geledes.org.br/todo-preso-e-um-preso-politico-os-panteras-negras-e-o-mnu-como-organizacoes-pioneiras-em-enfrentar-o-carcere/" href="https://www.geledes.org.br/todo-preso-e-um-preso-politico-os-panteras-negras-e-o-mnu-como-organizacoes-pioneiras-em-enfrentar-o-carcere/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">repertório que vem sendo construído pelos movimentos negros e abolicionistas penais de que “toda a prisão é uma prisão política”</a>. Reiteramos que Alessandra e Yasmim são presas políticas, antes de mais nada. Toda mobilização em torno da sua liberdade é necessária nesse momento, por quem “ainda está aqui”.</p>
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		<title>“Cabeça de vencedor”: a concepção de trabalho na racionalidade empreendedora de um motorista de aplicativo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Aug 2025 17:40:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Para além da novilíngua coach, o que será que isso significa? Por Thiago Canettieri]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Thiago Canettieri</h3>
<p style="text-align: justify;">Conheci Reinaldo <strong>[1]</strong> saindo de mais um trabalho de campo realizado na área onde faço pesquisa. Neste dia, por conta de um compromisso, resolvi chamar um Uber. Reinaldo foi quem aceitou a corrida. Na conversa durante a viagem, fiquei sabendo que ele é morador do bairro desde o começo. Reinaldo trabalha de Uber desde 2020 – quando perdeu seu emprego anterior por causa da pandemia. Ele se define como um “empreendedor”<strong>[2]</strong> de “pensamento estratégico”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para ele, dirigir Uber demanda o que ele chamou de “cabeça de vencedor”. Para além da novilíngua coach, o que será que isso significa?</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto conversávamos, ele explicava suas “estratégias” para “colocar o aplicativo para trabalhar para ele”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tem que pensar lá na frente, sabe?” ele disse enquanto dirigia e me mostrava o trânsito no sentido contrário. “A gente que é Uber tem que fazer assim, tem que pensar lá na frente, cada vez que o aplicativo toca, tem a região da corrida e o preço. Aí a gente tem que calcular: vale a pena ou não vale? Mas não só com essa corrida em mente. Tem que pensar na próxima. Vou rodar muito ainda? Vou voltar para casa? Como está o combustível? Tudo isso em questão de segundos.”</p>
<p style="text-align: justify;">Trabalhar como Uber envolveria um cálculo estratégico de tomada de decisão. Pode-se contar com a experiência – Reinaldo já roda com seu carro há cinco anos – mas “é sempre uma aposta”, ele diz. “Tem rota que a gente já conhece, já passou mil vezes, mas vai lá e, naquele dia, tá com trânsito.”</p>
<p style="text-align: justify;">Reinaldo, enquanto dirigia seu carro, comentava como era importante esse pensamento de empreendedor. Pois, as decisões que se toma vão definir se foi um dia bom ou um dia ruim rodando. Ele tenta sempre pegar corridas para onde acredita existir “melhores oportunidades”. Segundo ele, é mais vantajoso pegar menos corridas com valores mais altos, apostando em corridas que o levarão a lugares onde o preço está em modo dinâmico.</p>
<p style="text-align: justify;">Perguntei a ele como tinha essa noção. Ele repetiu “é pensamento estratégico, sabe?”. Tentar se antecipar às possibilidades de ganho e às adversidades para tomar as melhores decisões e, desse modo, voltar para casa “como um vencedor”, tendo cumprido sua “meta de ganhos”.</p>
<p style="text-align: justify;">“É que nem fazer investimento”. Achei curiosa a referência que Reinaldo mobilizou para descrever sua jornada de trabalho de seis dias por semana que vai de meio-dia até meia-noite. Enquanto dirigia pelas ruas, Reinaldo transformava seu trabalho em um investimento. Seu tempo de trabalho aparece para ele como um investimento financeiro: não se trata do seu esforço, da oferta de emprego, do algoritmo do aplicativo, mas sobretudo, a questão para se tornar um “vencedor” reside exclusivamente nas suas próprias decisões.</p>
<p style="text-align: justify;">O próprio Reinaldo explica: “A corrida tem que valer a pena financeiramente, não pela corrida sozinha, mas considerando o seu planejamento do dia, sacou? De como você vai organizar seu dia.” Cada decisão tomada, de pegar ou não pegar uma corrida – afinal, ele diz, “tem corrida que não vale a pena” – está orientada para “fazer um resultado legal, para valer a pena financeiramente”.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto chegávamos finalmente ao meu destino, ele disse como era importante, com esses cálculos, prever o que está no seu caminho, conhecer como o trânsito se comporta e tomar as melhores escolhas &#8211; assim é possível fazer um bom investimento. Perguntei sobre quando não dá certo e ele respondeu: “Olha, ontem mesmo, ontem foi um dia ruim. Pouca corrida, o aplicativo pagando pouco. Mas eu fui na resiliência, na paciência, na estratégia e consegui fazer um resultado legal”.</p>
<p style="text-align: justify;">O que me chamava atenção na nossa conversa de Uber era como ele mapeava seu trabalho. Sua jornada de trabalho é maior do que a média dos motoristas de aplicativo na RMBH.<strong>[3]</strong> É um trabalho extenuante. Ele mesmo deixou escapar em um determinado momento: “é cansativo, né, cara”. Mas mesmo diante de tudo isso, de sua experiência mais concreta atrás do volante, para ele fazia muito sentido pensar o que ele faz como um investimento. Por que Reinaldo mapeou seu trabalho como um investimento? Não tenho uma resposta direta para isso. Seria fácil tergiversar com uma resposta que falaria da doutrina neoliberal e como os ideais se colaram em Reinaldo. Não acho que só isso ajude a explicar a forma como Reinaldo compreende o próprio trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez, a resposta para isso, o próprio Reinaldo tenha dado já quando aproximávamos do final da corrida. Perguntei qual era seu plano para o futuro e ele confidenciou seu objetivo: “comprar mais um carro e ter alguém para rodar para ele”.</p>
<h4>Notas</h4>
<p><strong>[1]</strong> O nome é fictício.<br />
<strong>[2] </strong> Todas as aspas são da conversa com Reinaldo<br />
<strong>[3] </strong>Cf. Tozi, F.; Gianasi, L. M. (2023). Dirigindo para Uber: resultados da pesquisa. Belo Horizonte: Instituto de Geociências, UFMG. Disponível em:<a href="https://continenteufmg.com/" target="_blank" rel="noopener"> https://continenteufmg.com/ </a></p>
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		<title>Rio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Jul 2025 11:49:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[PassaPalavraTV]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
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					<description><![CDATA[ Dormindo ou não, ela segue como sempre seguiu, indiferente a tudo e a todos. Por Fernando Paz]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Fernando Paz</h3>
<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_157052" aria-describedby="caption-attachment-157052" style="width: 1080px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-157052 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2.jpg" alt="Rio" width="1080" height="810" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2.jpg 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/pp1-2-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /><figcaption id="caption-attachment-157052" class="wp-caption-text">Praia com os amigos.</figcaption></figure>
<blockquote><p>Isadora Andrade Guerreiro está de férias.  A coluna volta à escala normal no próximo mês.</p></blockquote>
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