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	<title>Irão/Irã &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>[Irã] Apoio à luta do povo iraniano por seus direitos: rumo à verdadeira liberdade e igualdade, não a um retorno ao passado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Jan 2026 13:46:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O Sindicato dos Trabalhadores da Companhia de Ônibus de Teerã e Subúrbios enfatiza a necessidade de continuarmos com protestos independentes, conscientes e organizados. Por Sindicato dos Trabalhadores de Ônibus de Teerã]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Sindicato dos Trabalhadores de Ônibus de Teerã</h3>
<p style="text-align: justify;">Os protestos e greves em cidades por todo o país já duram onze dias. Apesar da intensificação da segurança, da forte presença policial e das forças de segurança e da violenta repressão, o alcance dos protestos permanece amplo e diversificado. Segundo relatos, pelo menos 174 locais em 60 cidades, distribuídas por 25 províncias, testemunharam manifestações nesse período, e centenas de manifestantes foram presos. Tragicamente, pelo menos 35 cidadãos, incluindo crianças, perderam a vida durante os protestos.</p>
<p style="text-align: justify;">De janeiro de 2018 a novembro de 2019 e setembro de 2022, o povo oprimido do Irã demonstrou repetidamente — ao sair às ruas — que não tolerará a ordem político-econômica vigente e as estruturas construídas sobre a exploração e a desigualdade. Esses movimentos não visam um retorno ao passado. Eles se formaram para construir um futuro livre da dominação do capital — um futuro fundamentado na liberdade, na igualdade, na justiça social e na dignidade humana.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao declararmos nossa solidariedade às lutas populares contra a pobreza, o desemprego, a discriminação e a repressão, afirmamos claramente nossa oposição a qualquer retorno a um passado definido pela desigualdade, corrupção e injustiça.</p>
<p style="text-align: justify;">Acreditamos que a verdadeira libertação só é possível por meio da liderança consciente e organizada e da participação da classe trabalhadora e dos oprimidos — não pela reprodução de antigas e autoritárias formas de poder. Nessa luta, trabalhadores, professores, aposentados, enfermeiros, estudantes, mulheres e, especialmente, os jovens — apesar da repressão generalizada, das prisões, das demissões e da piora das condições de vida — permanecem na linha de frente.</p>
<p style="text-align: justify;">O Sindicato dos Trabalhadores da Companhia de Ônibus de Teerã e Subúrbios enfatiza a necessidade de continuarmos com protestos independentes, conscientes e organizados.</p>
<p style="text-align: justify;">Já dissemos isso muitas vezes e repetimos: o caminho para a libertação dos trabalhadores e da classe trabalhadora não passa por “líderes” fabricados e impostos de cima para baixo, pela dependência de potências estrangeiras ou por facções dentro do establishment governante. A união, a solidariedade e a construção de organizações independentes nos locais de trabalho, nas comunidades e em nível nacional são fundamentais. Não podemos nos permitir ser novamente vítimas de jogos de poder e dos interesses das classes dominantes.</p>
<p style="text-align: justify;">O sindicato também condena veementemente qualquer propaganda, justificativa ou apoio à intervenção militar por governos estrangeiros, incluindo os Estados Unidos e Israel. Tais intervenções não apenas levam à destruição da sociedade civil e à morte de pessoas, como também fornecem às autoridades mais um pretexto para continuar a violência e a repressão. A experiência passada demonstra que os Estados hegemônicos ocidentais não valorizam a liberdade, os meios de subsistência ou os direitos do povo iraniano.</p>
<p style="text-align: justify;">Exigimos a libertação imediata e incondicional de todos os detidos e enfatizamos a necessidade de identificar e processar aqueles que ordenaram e executaram os assassinatos.</p>
<p style="text-align: justify;">Viva a liberdade, a igualdade e a solidariedade de classe!</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta para os trabalhadores é a união e a organização.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sindicato dos Trabalhadores da Companhia de Ônibus de Teerã e Subúrbios</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>7 de janeiro de 2026</em></p>
<p><a href="https://www.instagram.com/p/DTM-LskDhhV/" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/DTM-LskDhhV/</a></p>
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		<title>O que a esquerda iraniana está dizendo sobre os protestos em massa?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/01/158472/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 10 Jan 2026 03:36:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Eles estão apoiando os protestos em massa, ao mesmo tempo que condenam a intervenção dos EUA e de Israel. Por Owen Jones ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Owen Jones</h3>
<p style="text-align: justify;">Protestos em massa estão varrendo o Irã, desencadeados inicialmente pela fúria generalizada com a desastrosa situação econômica do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Os protestos cresceram em tamanho e incluem demandas cada vez maiores pela derrubada da República Islâmica. Ao mesmo tempo, Donald Trump ameaçou bombardear o Irã novamente — e a ameaça de um novo ataque militar israelense paira sobre o país.</p>
<p style="text-align: justify;">De forma deprimente, alguns dos manifestantes apoiam Reza Pahlavi &#8211; filho do Xá do Irã, deposto pela Revolução Islâmica de 1979. O próprio Xá foi imposto após os serviços secretos dos EUA e do Reino Unido orquestrarem um golpe contra o governo progressista de Mohammad Mosaddegh, derrubado em 1953. Seu regime brutal alimentou a desilusão em massa que levou à revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Pahlavi tem incitado seus apoiadores às ruas. Se ele chegar ao poder, uma ditadura será substituída por outra. Será um regime pró-EUA e, dadas as complexas divisões étnicas, religiosas e políticas no Irã, isso plausivelmente pode levar a um enorme derramamento de sangue e até mesmo uma guerra civil.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que está dizendo a esquerda iraniana?</p>
<p style="text-align: justify;">O maior partido de esquerda é o Tudeh — o partido comunista do Irã, que foi violentamente reprimido pela República Islâmica na década de 1980.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignright wp-image-158477" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-819x1024.webp" alt="" width="440" height="550" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-819x1024.webp 819w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-240x300.webp 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-768x960.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-1229x1536.webp 1229w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-1638x2048.webp 1638w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-336x420.webp 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-640x800.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-681x851.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests.webp 1920w" sizes="(max-width: 440px) 100vw, 440px" /></strong>Seu <a class="urlextern" title="https://www.tudehpartyiran.org/en/2025/12/30/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-widespread-popular-protests-are-a-renewed-beginning-for-challenging-religious-capitalist-despotism-and-for-liberating-the-homeland-from-deprivation-pover/" href="https://www.tudehpartyiran.org/en/2025/12/30/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-widespread-popular-protests-are-a-renewed-beginning-for-challenging-religious-capitalist-despotism-and-for-liberating-the-homeland-from-deprivation-pover/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">primeiro comunicado</a>, divulgado em 30 de dezembro, tem como título: <strong>“Protestos populares generalizados representam um novo começo para desafiar o despotismo religioso-capitalista e para libertar a pátria da privação, da pobreza, da corrupção e do regime antipopular da República Islâmica!”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O comunicado menciona uma revolta popular impulsionada pela “rápida alta dos preços das moedas estrangeiras e do ouro” e celebra o grito de guerra “Morte ao ditador”, que, segundo eles, “abalou os alicerces do regime despótico no poder”.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles se referem a trabalhadores que organizam protestos e greves, incluindo funcionários da Petro-Refinaria de Kangan, que lutam por salários atrasados, e à União das Associações de Caminhoneiros e Motoristas do Irã, que expressaram “séria preocupação com a situação econômica caótica, a crescente pressão sobre o mercado e a situação crítica de subsistência dos motoristas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Acrescentam:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">As principais raízes dos protestos atuais devem ser buscadas nas desastrosas políticas socioeconômicas do regime do Velayat-e Faqih: a intensificação sem precedentes da pobreza, a inflação superior a 40%, a forte desvalorização da moeda nacional, a alta descontrolada das taxas de câmbio, a queda do poder de compra dos cidadãos, a corrupção generalizada e a busca por privilégios, e a continuidade das sanções desumanas impostas pelo imperialismo estadunidense e seus aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">O sistema político que governa nossa pátria — ou seja, a tutela absoluta de Ali Khamenei — é irreformável. Valendo-se de extensas estruturas militares e de segurança, este governo violou aberta e violentamente os direitos e a autoridade do povo para determinar seu próprio destino. Sem superar esse regime de despotismo religioso e domínio do grande capital, não há esperança de melhorar as condições atuais, aliviar as pressões econômicas, reduzir a pobreza e a privação, resolver a escassez de eletricidade e água ou pôr fim à onda violenta e sangrenta de repressão contra as liberdades e os direitos democráticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa ditadura não apenas arrastou o Irã e sua sociedade para a beira do colapso e da destruição, mas também expôs o país ao grave e repetido perigo de intervenção estrangeira e da substituição do despotismo atual por outra forma decadente de tirania — uma dominada por servos do imperialismo americano e do governo genocida israelense.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eles pedem solidariedade entre diferentes grupos sociais, “desde trabalhadores, operários e aposentados até mulheres, estudantes, jovens e comerciantes &#8211; contra as políticas agressivas deste regime, e os esforços para organizar movimentos de protesto coordenados em todo o país podem lançar as bases para desafiar seriamente o regime e abrir caminho para transformações fundamentais e democráticas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Concluem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Continuamos a acreditar que todas as forças progressistas e defensoras da liberdade no país — desde a esquerda e as forças nacionalistas até os grupos nacional-religiosos, bem como indivíduos e forças que ultrapassaram a política de preservação do “sistema” e do governo atual — devem unir forças e desempenhar um papel importante e eficaz na organização dos protestos em massa que ocorrem hoje no Irã.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A <a class="urlextern" title="https://www.tudehpartyiran.org/en/2026/01/02/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-we-unequivocally-condemn-any-intervention-by-u-s-imperialism-the-genocidal-israeli-state-and-their-domestic-accomplices-in-the-sensitive-developments-of-our-co/" href="https://www.tudehpartyiran.org/en/2026/01/02/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-we-unequivocally-condemn-any-intervention-by-u-s-imperialism-the-genocidal-israeli-state-and-their-domestic-accomplices-in-the-sensitive-developments-of-our-co/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">segunda declaração</a>, emitida em 2 de janeiro de 2026, tem como título: <strong>“Condenamos inequivocamente qualquer intervenção do imperialismo estadunidense, do Estado genocida de Israel e de seus cúmplices internos nos assuntos delicados do nosso país!”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mais uma vez, descrevem uma “nova onda de protestos populares” desencadeada pelas “condições socioeconômicas insuportáveis ​​do país”. Mencionam a violenta repressão estatal e acrescentam:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O Partido Tudeh do Irã considera justos e legítimos os protestos populares contra as condições desumanas vigentes — especialmente a atual situação econômica e de subsistência opressiva. Desde o início, em união com outras forças nacionais e democráticas do país, apoiamos a expansão e o aprofundamento desses protestos populares, ao mesmo tempo em que apelamos à preservação da calma, à continuidade das formas civis de protesto e ao atendimento, por parte da República Islâmica, das legítimas reivindicações do povo.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas, embora se alinhem com “a repulsa da maioria da sociedade em relação à ditadura islâmica no poder”, denunciam a intervenção do “governo quase fascista de Donald Trump” — especificamente sua ameaça de bombardear o Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles dizem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa postura é uma tentativa flagrante de interferir nos assuntos internos do Irã, especialmente quando o regime do Velayat-e Faqih se mostra totalmente incapaz de se livrar da crise, da instabilidade e do medo constante da população, buscando prolongar sua sobrevivência unicamente por meio da repressão e do aparato militar e de segurança.</p>
<p style="text-align: justify;">A interferência imperialista dos EUA nos assuntos internos de nossa pátria constitui uma clara violação da soberania nacional do Irã e serve apenas para garantir os interesses imperialistas no Oriente Médio e no Golfo Pérsico. Outro ponto crucial é que, dadas as políticas do governo de extrema-direita de Trump e seu alinhamento total com o governo criminoso e genocida de Netanyahu, que está à frente da máquina de guerra de Israel, qualquer intervenção nos assuntos internos do Irã não só é manifestamente prejudicial à revolta popular contra a República Islâmica, como também pode trazer consequências catastróficas para o país.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O Partido Tudeh “condena explícita e resolutamente a intervenção flagrante do imperialismo estadunidense e de seus aliados regionais e domésticos nos assuntos internos do Irã”, denunciando também as políticas desastrosas da ditadura.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles mencionam o “golpe vergonhoso” de 1953 e afirmam que “a política de &#8216;mudança de regime&#8217; sempre foi perseguida para servir aos interesses estratégicos do imperialismo global e jamais poderá levar à liberdade, à realização dos direitos nacionais e democráticos ou à soberania do povo sobre seu próprio destino”.</p>
<p style="text-align: justify;">Afirmam que o movimento de massas não precisa da assistência do governo estadunidense “quase fascista” para ter sucesso e concluem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Avante rumo à unidade e à solidariedade do povo iraniano na luta contra o regime do Velayat-e Faqih! Viva a paz; viva a luta do povo iraniano, trabalhador e sofrido.”</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É muito deprimente assistir a uma turbulência política em que os principais atores são todos abomináveis. É por isso que é importante ouvir a esquerda iraniana &#8211; e tentarei compartilhar suas posições da melhor maneira possível.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido do original que pode ser acessado <a class="urlextern" title="https://www.owenjones.news/p/whats-the-iranian-left-saying-about" href="https://www.owenjones.news/p/whats-the-iranian-left-saying-about" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></em>.</p>
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		<title>O movimento das mulheres no Irã</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 10 Dec 2022 11:42:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[O poder teocrático tornou a vida dos jovens homens e mulheres intolerável por quase a mesma razão: a negação de sua subjetividade. Por Farhad Khosrokhavar]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Farhad Khosrokhavar [*]</h3>
<p style="text-align: justify;">O movimento feminino no Irã (Irão) desde meados de setembro de 2022 não é apenas o resultado fortuito da trágica morte de uma mulher, Mahsa Amini, em 16 de setembro daquele ano. É o resultado de um movimento de mulheres que teve seu início disperso sob a chamada Revolução Islâmica de 1979, e depois seu desenvolvimento durante outros movimentos sociais nos quais as mulheres conseguiram se inserir gradualmente: o movimento estudantil de 1997, no qual as estudantes femininas eram numerosas ao lado dos estudantes masculinos, e depois o Movimento Verde de 2009, no qual as jovens mulheres e suas mães eram muito numerosas no desfile de manifestações.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a presidência de Mohammad Khatami (1997-2005), as ativistas feministas, muitas vezes da geração mãe, pensavam estar apoiando o esforço do presidente reformista para acelerar a marcha das mulheres rumo à igualdade jurídica sem organizar movimentos de protesto que o enfraqueceriam em relação aos campos conservadores. A questão do véu não era o foco deste movimento, que visava questões legais relacionadas com a condição feminina. O resultado foi decepcionante, pois sob sua presidência pouco progresso foi feito em matéria de igualdade de gênero.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob a presidência de Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), a repressão ao movimento de mulheres foi colocada na agenda. Sua visão populista acusava as mulheres em busca da igualdade como ocidentalizadas, ou como suplicantes do Ocidente, ou como anti-islamistas com o objetivo de secularizar a sociedade iraniana no modelo ocidental. Os protestos das mulheres depararam com repressão, com algumas sendo presas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em resposta a uma política repressiva, a <em>Campanha Um Milhão de Assinaturas</em> foi lançada por mulheres da geração jovem, assistidas por ativistas da geração mãe, sob a liderança de feministas conhecidas como Noushin Ahmadi Khorasani e Parvin Ardalan, com o fim de coletar um milhão de assinaturas na sociedade civil para exigir a igualdade legal de gênero e a revisão de um sistema judicial que concede às mulheres um status inferior. As manifestações realizadas foram reprimidas, ativistas feministas foram detidas e colocadas na prisão, formou-se todo um grupo de mulheres que beneficiaram, tanto nas manifestações como na organização do movimento, da ajuda de homens que viram na inferiorização das mulheres uma parte do patriarcado islâmico, a negação de seu pleno direito à cidadania em nome de uma visão religiosa antidemocrática.</p>
<p style="text-align: justify;">Este movimento obteve um reconhecimento internacional significativo, e seus jovens protagonistas, assim como os da geração de mães que nele participaram, ganharam visibilidade através de prêmios internacionais (Nasrine Sotoudeh) ou mesmo do Prêmio Nobel (Shirine Ebadi e Mansoureh Shodjaï)… Muitos e muitas foram forçados ao exílio, e aquelas e aqueles que permaneceram no Irã foram submetidos a medidas repressivas, incluindo a prisão e até mesmo a flagelação. Entretanto, apesar das tentativas do poder teocrático, o movimento tem mostrado uma grande capacidade de resistência e resiliência, apesar da crise geral dos movimentos sociais no Irã de hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">Posteriormente, nos movimentos esporádicos e fragmentados de 2016-2018 contra o alto custo de vida e a corrupção do poder teocrático, as mulheres desempenharam um papel significativo na denúncia de uma vida cotidiana em meio à escassez ou até mesmo à pobreza. A pobreza aumentava sob um regime político cujas elites enriqueciam indecentemente através de desvios de fundos, sem se preocupar com o sofrimento dos mais pobres. Mas o papel do véu foi marginal nestes movimentos, porque as mulheres, como atores de pleno direito, concentraram-se na desigualdade jurídica e política e no empobrecimento gradual das classes médias, que pouco a pouco se juntaram aos pobres. Neste período, a unidade de homens e mulheres estava na solidariedade das classes médias pobres e empobrecidas, não na liberdade e na democracia.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde o final de 2017, surgiu uma nova forma de expressão política e social entre as mulheres, ou seja, o ato público de retirar o lenço de cabeça por aquelas que <em>ousam</em> fazê-lo na rua, à plena vista de todos, enfrentando a repressão e denunciando frontalmente o regime teocrático em vigor. Em 27 de dezembro de 2017, no auge dos movimentos de protesto em muitas cidades iranianas contra o alto custo de vida, uma mulher de 31 anos, Vida Movahed, mãe de uma criança de 2 anos, se livrou de seu lenço branco de cabeça numa avenida central de Teerã, Enghelab (que significa revolução), que foi o cenário da Revolução de 1979 e dos protestos do Movimento Verde pela Democracia em 2009. Pendurando seu lenço de cabeça em um longo bastão para torná-lo visível e subindo a um bonde (elétrico), ela mostrava a cabeça descoberta aos transeuntes, muitos dos quais a aplaudiram e nenhum deles procurou insultá-la. O evento ecoou por toda parte na <em>web</em>, e outras jovens mulheres seguiram o exemplo. Isto levou à prisão de cerca de trinta delas pela Polícia Moral. Este movimento parece marginal devido a outro movimento muito maior que está se espalhando em mais de cem cidades iranianas contra o regime teocrático acusado de repressão, corrupção e altos custos de vida. Mas o movimento de setembro de 2022 vai superar esta marginalidade e colocar a rejeição do véu imposto no centro do protesto coletivo.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-146762 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/KEIH2LTJEBOVJGO7G5YY3Q4ODI.jpg" alt="" width="828" height="552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/KEIH2LTJEBOVJGO7G5YY3Q4ODI.jpg 828w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/KEIH2LTJEBOVJGO7G5YY3Q4ODI-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/KEIH2LTJEBOVJGO7G5YY3Q4ODI-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/KEIH2LTJEBOVJGO7G5YY3Q4ODI-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/KEIH2LTJEBOVJGO7G5YY3Q4ODI-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/KEIH2LTJEBOVJGO7G5YY3Q4ODI-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 828px) 100vw, 828px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O movimento de protesto no Irã tem recorrido frequentemente a slogans noturnos ou gritados no telhado, mais ou menos anônimos, a fim de escapar da identificação pelo regime e pelos seus capangas, e da repressão (prisão, tortura, às vezes execução). O movimento de mulheres respeitou parcialmente esta condição, mas também se libertou parcialmente dela, nomeadamente através de manifestações de rua nas grandes cidades, onde vemos manifestantes se expondo às milícias e forças repressivas do regime, concordando em ir até o fim.</p>
<p style="text-align: justify;">O movimento começou logo após o anúncio da morte de Mahsa Amini. Na Universidade de Teerã e na Universidade das Mulheres, Al-Zahra, as mulheres começaram a se manifestar e a cantar o slogan que se tornou o ponto alto das manifestações e o único elo entre elas (sem líder, sem organização), uma revolta que não aceita mais ser coagida e intimidada por um poder totalmente desacreditado. Em apenas alguns dias 110 universidades e instituições relacionadas foram afetadas pelo movimento, que se deu rédea solta ao marcar e difundir-se em todas as principais cidades iranianas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Vida cotidiana e inferno para as mulheres que buscam a igualdade</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nasrine Sotoudeh, uma das principais figuras do feminismo iraniano, dá este quadro da vida cotidiana das mulheres em busca de liberdade em um filme rodado por Djafar Panahi, <em>Taxi Tehran</em>, que ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2015: <em>“Eles </em>(os agentes do poder) <em>fazem questão de saber que estão nos observando. Suas táticas são óbvias. Eles criam um histórico político para você. Você se torna um agente da Mossad, CIA, MI6… Então eles acrescentam um caso de vício. Eles fazem de sua vida uma prisão. Você está fora (da prisão?), mas o mundo exterior é uma grande prisão. Eles fazem de seus melhores amigos seus piores inimigos. Você tem de fugir do país ou rezar para voltar para o buraco. Então é só isso: não se preocupe!”</em></p>
<p style="text-align: justify;">A mesma Sotoudeh removeu o véu em junho de 2018, o que agravou seu caso, com uma pena de prisão de 33 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Deve ser enfatizado que uma nova subjetividade feminina tem surgido no Irã desde o final do século XX, particularmente com a generalização da educação das mulheres sob o regime islâmico, e com a aceitação das mulheres nas universidades iranianas, onde uma boa metade dos estudantes são do sexo feminino. As universidades, onde mais de 4 milhões de estudantes estão matriculados, são o terreno fértil para esta nova consciência. Quanto mais próxima a condição cultural da mulher está da dos homens através da escola, da universidade e da <em>web</em>, mais duro se torna o regime teocrático iraniano, especialmente com o advento do presidente conservador e populista Ahmadinejad em 2005, e seu sucessor Raissi em 2021. As novas gerações incluem as mães e suas filhas. Elas vivem em um mundo onde grande parte da vida cultural iraniana é produzida por mulheres (veja o número extremamente alto de mulheres escritoras iranianas), onde em todos os campos artísticos o avanço das mulheres é inegável (pintura, teatro, cinema), e ainda onde elas são excluídas da vida política, e também da participação na vida econômica: enquanto o Irã é o país do Oriente Médio onde as mulheres são mais instruídas, sua participação na economia é reduzida a uma proporção muito pequena, notavelmente devido à intervenção do Estado patriarcal. Direitos da família (primado do direito masculino para o divórcio, apesar das mudanças marginais nos últimos anos a esse respeito), custódia dos filhos (prioridade dada ao homem em caso de divórcio), direito de viajar (é necessária a permissão do marido), herança (a mulher recebe metade da do homem). Em resumo, tudo que constitui a dignidade da mulher em sua vida cotidiana é sistematicamente desprezado por uma jurisprudência islâmica não moderna marcada por essa desigualdade, que é sinônimo de uma inferioridade intolerável, insuportável aos olhos de uma subjetividade tão bem educada e cultivada quanto a dos homens (às vezes até superior em sua consciência). O véu islâmico assume aqui um significado que vai muito além de seu significado artístico: ele expressa a permanência de uma coerção que não leva em conta a nova subjetividade feminina na qual a dignidade do cidadão feminino se une à do cidadão masculino. O Movimento Verde de 2009 mostrou isto claramente: denunciando a fraude eleitoral, as jovens mulheres, lado a lado com os homens, gritaram: <em>“Onde está meu voto?” (ra&#8217;ye man kodjast?)</em>. A distinção entre homens e mulheres é difusa nas manifestações de rua, onde eles se misturam e coroam por uma democracia que finalmente reconhece seu direito à igualdade e dignidade indivisível.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma grande proporção de homens compartilha um senso de quase igualdade com as mulheres em sua vida diária, seja dentro da família ou em relações sociais próximas. É por isso que a dicotomia entre ativistas feministas e homens que é percebida no mundo ocidental não é tão aguda no Irã. Em resposta a um sentimento de iniquidade, embora diferentemente compartilhado, que se refere à ilegitimidade fundamental do Estado islâmico em abusar da sociedade civil através da repressão e da falta de diálogo, o atual movimento no Irã está testemunhando uma estreita aliança entre homens e mulheres.</p>
<p style="text-align: justify;">Em certo sentido, o poder teocrático tornou a vida dos jovens homens e mulheres intolerável por quase a mesma razão: a negação de sua subjetividade, seu senso de dignidade, seu desejo de serem cidadãos de pleno direito, de viver em uma sociedade mais secularizada, menos religiosa, onde cada pessoa decidiria sobre sua própria fé e vida, livre da intrusão do Sagrado imposto de cima. Além disso, a repressão da liberdade é acompanhada por um empobrecimento que agora afeta 25 milhões de iranianos, que vivem abaixo da linha de pobreza e que, com uma taxa de inflação de cerca de 50%, é provável que empurre a classe média para uma pobreza cada vez maior. As condições subjetivas e objetivas são assim combinadas para reunir uma grande parte da sociedade civil contra um poder incapaz de administrar a sociedade, seja em termos de poluição, da economia ou de sua relação com um mundo de corrupção que é acompanhado de uma repressão cada vez mais indiscriminada, particularmente contra as mulheres que querem sacudir os grilhões de uma teocracia hipócrita e repressiva.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-146760 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/UBXUF3EYEBIKZHHV2EYD7LQ3SQ.jpg" alt="" width="828" height="552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/UBXUF3EYEBIKZHHV2EYD7LQ3SQ.jpg 828w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/UBXUF3EYEBIKZHHV2EYD7LQ3SQ-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/UBXUF3EYEBIKZHHV2EYD7LQ3SQ-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/UBXUF3EYEBIKZHHV2EYD7LQ3SQ-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/UBXUF3EYEBIKZHHV2EYD7LQ3SQ-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/UBXUF3EYEBIKZHHV2EYD7LQ3SQ-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 828px) 100vw, 828px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O Irã dos anos 2020 é um país paradoxalmente secularizado para uma grande parte de sua juventude. Ela aspira acima de tudo, tanto para os pais quanto para seus filhos, a uma sociedade democrática e secular, onde a liberdade de vestuário anda de mãos dadas com a liberdade política e a justiça social e econômica, e onde existe uma relação pacífica com o mundo exterior, especialmente com o Ocidente. A diáspora iraniana, vários milhões de homens e mulheres que vivem em muitos países ocidentais (mas também na Turquia, Índia e Emirados Árabes), conseguiu manter laços estreitos com o Irã e inspira seu relacionamento com o Ocidente, com o qual a juventude iraniana sonha.</p>
<p style="text-align: justify;">O cotidiano, seu caráter esquizofrênico (é preciso imitar constantemente um Islã que não é real) e uma profunda injustiça, é assim o pano de fundo do novo movimento feminino de 2022, do qual uma parte significativa quer ficar sem véu. <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=EqIL7jchYVo" href="https://www.youtube.com/watch?v=EqIL7jchYVo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Uma canção</a> de um jovem iraniano, Chervine Hadji-pour, intitulada <em>“For”, </em>expressa o estado de espírito de uma grande parte da sociedade iraniana, especialmente dos jovens:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>“Ser capaz de dançar na rua</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Por ter medo de ter de beijar</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para minha irmã, sua irmã, nossas irmãs</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Pela vergonha de estar sem um tostão</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Pelo desejo inalcançável de uma vida decente</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para esta criança que procura no lixo </em>(por comida) <em>e seus sonhos</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para esta economia de comando de cima</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para este ar poluído</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para a Rua Vali-Asr </em>(em Teerã) <em>e suas árvores desgastadas </em>(pela poluição e falta de água)</p>
<p style="text-align: justify;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para o choro sem fim</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para a imagem repetitiva deste momento</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para um rosto sorridente</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para os estudantes, para o futuro</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para este paraíso constrangido </em>(que o regime impõe às pessoas)</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para inteligência na prisão</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>…</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para depressão e insônia pílulas</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para o homem, para o país, para o desenvolvimento</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para a menina que sonhava em ser um menino</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Para as mulheres, para a vida, para a liberdade</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Pela liberdade”.</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A ambivalência do <em>“Para” é que </em>em persa (como em francês, <em>mutatis mutandis</em>) a palavra pode significar <em>“para”, “em vista de”</em>, mas também <em>“por causa de”. </em>Vale notar que o cantor cita o slogan que agora se tornou a palavra de ordem das manifestações de rua, a saber: <em>“Mulher, Vida, Liberdade”</em>. O autor que publicou a canção em sua página do Instagram recebeu 40 milhões de visualizações, foi preso e depois libertado sob fiança por medo de irritar ainda mais uma juventude já profundamente indignada.</p>
<p style="text-align: justify;">Numerosas outras canções e expressões culturais (caricaturas, desenhos, etc.) denunciam um poder carnívoro e uma insuportável restrição religiosa. Em muitas diásporas de várias dezenas de países, especialmente no Canadá, onde vive uma grande comunidade iraniana e onde uma manifestação reuniu mais de 50.000 pessoas em Toronto, manifestantes expressaram sua solidariedade com as mulheres iranianas. As sociedades ocidentais, em suas elites culturais, também expressaram solidariedade com as mulheres iranianas. As medidas restritivas dos governos ocidentais também estão sendo consideradas para expressar sua desaprovação à repressão no Irã.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A única resposta das autoridades: repressão</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O regime iniciou uma repressão maciça, primeiro na cidade curda de Saqez, de onde era Mahsa Amini, onde 19 pessoas foram mortas. Na semana seguinte, no domingo 2 de outubro, na Universidade Sharif, várias dezenas de estudantes foram presos e outros feridos. Então, a partir da terceira semana, as meninas do Ensino Médio vieram se manifestar, balançando a cabeça e denunciando a ditadura. Enquanto isso, várias estrelas da TV iraniana, esportistas conhecidos e adorados, como Ali Karimi e cantores pop iranianos mais ou menos tolerados pelas autoridades, deram seu apoio a esta revolta, que está a caminho de se tornar um movimento generalizado de insubordinação. O apelo para uma greve geral para paralisar o regime foi lançado por alguns ativistas nas redes, mas devido à falta de organização, é difícil materializar-se no momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a amplificação do protesto, o governo não hesita mais em atirar na multidão para intimidar a população. O movimento, é verdade, carece de um líder, que é sua força (sua dispersão torna difícil a repressão), mas também sua fraqueza (não é estruturado e carece de capacidade de ação conjunta). A natureza dispersa da internet torna mais difícil um mínimo de ação concertada. Mas a extensão do ódio e da indignação é tão grande e a criatividade dos jovens tão grande que o movimento continua apesar de todas as restrições.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146761 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/EVF4VQXE3FMYTAELPM5TA74UB4.jpg" alt="" width="828" height="552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/EVF4VQXE3FMYTAELPM5TA74UB4.jpg 828w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/EVF4VQXE3FMYTAELPM5TA74UB4-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/EVF4VQXE3FMYTAELPM5TA74UB4-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/EVF4VQXE3FMYTAELPM5TA74UB4-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/EVF4VQXE3FMYTAELPM5TA74UB4-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/EVF4VQXE3FMYTAELPM5TA74UB4-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 828px) 100vw, 828px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Pela primeira vez no Irã, as mulheres foram as principais iniciadoras de um movimento social de larga escala. É verdade que as mulheres intelectuais ou artistas têm levantado a questão da repressão contra elas desde a poetisa Forough Farrokhzad nos anos 60 e mesmo antes dela, desde o início do século XX. Mas esses movimentos eram frequentemente os de uma minoria, não seguidos pela massa. Agora, com o movimento de setembro de 2022, pela primeira vez na história do Irã (e provavelmente do Oriente Médio), estamos testemunhando um grande movimento social com o qual milhões de mulheres e homens se identificam e que está abalando os fundamentos da teocracia islâmica. As mulheres são os atores sociais de vanguarda, em suma, atores sociais que lançaram o movimento expressando sua revolta contra o lenço de cabeça, mas também, e muito além disso, denunciando a insuportável desigualdade que as afeta em nome de uma lei islâmica que não está ancorada na realidade cultural do Irã do século XXI, para a grande maioria de sua juventude. Neste contexto, os homens compartilham à sua maneira o desconforto das mulheres. Isto foi visto nas redes sociais por ocasião do protesto contra o lenço lançado pela Vida Movahed em 2018: jovens homens, incluindo soldados recrutas, foram fotografados brandindo seus bonés na ponta de um galho, imitando seu lenço de cabeça e denunciando sua condição cultural e socialmente subalterna dentro de um regime que rejeita de forma rude suas aspirações modernas.</p>
<p style="text-align: justify;">O sentimento de ser negada a cidadania e a dignidade é amplamente compartilhado entre os jovens. O sonho de todo jovem, menina ou menino, é deixar o Irã e ir viver no Ocidente, porque não podem realizar seu potencial em seu próprio país. As mulheres são mais diretamente afetadas pela negação da dignidade, mas a simpatia que os homens demonstram para com elas nos protestos atuais revela não apenas uma compreensão piedosa delas, mas o fato de que eles compartilham o mesmo sentimento de indignação <em>em relação a si mesmos. </em>Eles se sentem esmagados por uma teocracia que é insensível a suas exigências de liberdade individual e incapaz de lhes permitir sonhar com um futuro melhor. A sensação de que as autoridades os estão roubando de seu futuro é compartilhada pela grande maioria dos jovens de ambos os sexos. Estes últimos sentem-se assim cúmplices das mulheres em uma relação que os impulsiona a apoiá-las em um movimento cujo <em>leitmotiv</em> é agora: <em>“Mulher, Vida, Liberdade”</em>. Pela primeira vez, as mulheres, numa inversão característica, incluem também os homens como atores sociais, e são elas que lançam a mobilização mesmo onde o número de homens mortos é muito alto (dos 76 mortos nas manifestações das duas primeiras semanas, havia 6 mulheres, 4 crianças e 66 homens. No momento em que escrevemos, o número de 154 mortes foi alcançado, se não ultrapassado).</p>
<p style="text-align: justify;">Este movimento tem sido uma oportunidade para as minorias reprimidas, como os Sunni Beluch no sudeste do Irã, se levantarem contra os maus-tratos e humilhações infligidos a elas pela teocracia xiita. Eles são duplamente discriminados como Beluchis, uma etnia com um distinto idioma sunita e formas de sociabilidade, em comparação com a maioria xiita. No sudeste da cidade de Zahedan, no que as testemunhas agora descrevem como <em>“Sexta-feira Sangrenta”</em>, em 2 de setembro 88 manifestantes e pedestres foram mortos e mais de 300 feridos; helicópteros alegadamente dispararam sobre os manifestantes, de acordo com o Grupo de Direitos Humanos do Irã (IHR) baseado em Oslo. O movimento também viu surgir os curdos, dos quais Mahsa Amini veio, que se manifestaram em sua cidade natal de Saqez e expressaram o slogan do movimento <em>“Mulher, Vida, Liberdade” </em>em sua própria língua. O movimento das minorias recebeu simpatia de manifestantes em outras cidades que expressaram sua fraternidade com eles. Outra garota, Nika Chakarami, 16 anos, de origem Lour, foi morta nas manifestações em Teerã; outras garotas morreram no confronto com a milícia do regime. Muitas vezes as meninas da província aspiram a vir a Teerã por seu anonimato e liberdade, e foi lá que elas se manifestaram e morreram.</p>
<p style="text-align: justify;">Cerca de 20 jornalistas foram presos, incluindo nove mulheres, por cobrir as manifestações espontâneas, que o governo iraniano rejeita como uma insurreição ditada e dirigida pelos EUA e Israel.</p>
<p style="text-align: justify;">Estes protestos expressam a rejeição absoluta do poder governante, mesmo na segunda e terceira gerações, que não estão muito presentes nas manifestações, por medo mas também por desespero (as manifestações de 2016-2018 fracassaram por causa da repressão violenta das milícias e dos militares).</p>
<p style="text-align: justify;">Desde 2009, o poder teocrático pôs um fim ao diálogo social. Os que estão no poder são prisioneiros da imagem que querem de uma sociedade subjugada, sujeita a uma ordem legitimada por decreto divino e que não precisa de apoio popular para governar. Pior ainda, se os detentores do poder quisessem iniciar um diálogo, não se acreditaria mais neles após vários anos de repressão ininterrupta. A impressão prevalece entre a grande maioria da população de que o regime teocrático está mentindo, que mesmo que ele faça concessões em algum momento, uma vez restaurada a calma, ele voltará a suas políticas repressivas e femicidas, bem como homicidas. A teocracia iraniana está tão visceralmente ligada ao poder quanto o regime sírio, cuja natureza ferozmente repressiva está emulando cada vez mais, não hesitando, como no movimento de 2016-2018, em jogar tanques na rua e atirar à queima-roupa na população. Vemos o dilema deste poder que, até 2009, tirou sua legitimidade tanto de sua capacidade de convencer e dialogar quanto de intimidação e assassinato, na dupla inquieta entre os reformistas, muitas vezes impotentes e esperançosos, e os defensores da linha-dura do islamismo autocrático. Desde então, incapazes de abrir a sociedade à democracia, os reformistas que haviam conseguido conter a repressão total foram silenciados e excluídos do campo político.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-146763 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/iranian-courts-have-now-issued-total-11-death-sentences-protest-linked-convictions.jpg" alt="" width="768" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/iranian-courts-have-now-issued-total-11-death-sentences-protest-linked-convictions.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/iranian-courts-have-now-issued-total-11-death-sentences-protest-linked-convictions-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/iranian-courts-have-now-issued-total-11-death-sentences-protest-linked-convictions-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/iranian-courts-have-now-issued-total-11-death-sentences-protest-linked-convictions-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/12/iranian-courts-have-now-issued-total-11-death-sentences-protest-linked-convictions-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A morte de Mahsa Amini foi vivida tanto por mulheres quanto por homens como uma manifestação da relação diária do Estado com a sociedade: arrogância, desrespeito, repressão e assassinato: a plutocracia se transformou em cleptocracia e eventualmente em uma tanatocracia. Mas desta vez o copo estava cheio, a indignação estava no seu auge e as mulheres que as autoridades consideravam insignificantes provaram ser formidáveis em sua força e sua recusa em se submeter. Elas até arrastaram os homens em uma inversão simbólica que teve grande significado: pouco antes, os homens estavam na liderança e o Estado teocrático os identificou como seu principal adversário. Agora os homens seguem as mulheres e colocam voluntariamente suas ações sob sua égide simbólica. Já em 2009, alguns homens usavam lenços na cabeça para escarnecer de um poder que só encontrava legitimidade no véu imposto às mulheres, não em suas realizações a serviço da sociedade. Neste movimento, mesmo as mulheres que usavam o lenço na cabeça se uniram àqueles que não o usavam para mostrar sua solidariedade e denunciar o monopólio do Islã que o regime no poder atribuía a si mesmo, forçando as mulheres a usar o véu. Uma mulher como Faezeh Hashémi, que usa o véu rígido e já foi membro da elite do regime (ela é filha de Hashémi Rafsanjani, ex-presidente da República no Irã), mostrou seu apoio a este movimento e defendeu publicamente a ideia da recusa da restrição pelo uso do véu e da liberdade de expressão. Desde então, ela foi presa. Da mesma forma, a feminista islâmica Sediqeh Vasmaqi, professora universitária, removeu publicamente seu véu em protesto contra a morte de Mahsa Amini.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde 2009, o Irã se uniu a muitas sociedades do Oriente Médio e do Norte da África, como Síria, Egito, Argélia e Líbano, onde reina um poder totalmente desacreditado, confiando na repressão e no sentimento de impotência da sociedade civil, após o fracasso dos movimentos que as havia abalado (o Movimento Verde de 2009 no Irã, os movimentos de 2010-2012 no mundo árabe conhecidos como as revoluções árabes).</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, uma mudança fundamental ocorreu nos últimos anos: uma nova geração assumiu o luto pelo fracasso dos movimentos de emancipação anteriores e pretende sacudir o jugo de um Estado sanguinário que está em completa contradição com a sociedade e a subjetividade de seus cidadãos. No Irã, esta nova geração é liderada por mulheres que se uniram aos homens, ambos em busca de liberdade, com uma vanguarda feminina que grita não à repressão e tem a aprovação absoluta dos homens que as seguem sem bater uma pálpebra. Esta mudança na hierarquia dos papéis não parece perturbar os jovens homens que aceitam a centralidade do papel da mulher e cantam em uníssono com eles: <em>“Mulher, Vida, Liberdade”</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">O movimento está em consonância com a secularização da sociedade iraniana, onde as novas gerações estão desafiando o lugar dos religiosos, e em particular de um islamismo teocrático que nega direitos políticos aos cidadãos. Os manifestantes estão atacando os clérigos xiitas, alguns dos quais se tornaram cúmplices do governo, que os emprega e os torna funcionários, roubando-lhes a função <em>“moral” </em>que era a deles na sociedade tradicional. De agora em diante, o protesto afeta quase toda a sociedade, que rejeita a teocracia e quer recuperar uma cidadania negada aos cidadãos em nome de uma versão repressiva do Islã.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um futuro não muito distante, outras sociedades do Oriente Médio, expostas à repressão indiscriminada, provavelmente verão o mesmo tipo de cenário com ativistas de vanguarda que são agora mulheres. Eles também entendem que a condição para o sucesso a longo prazo do movimento é a cooperação dos homens, e exigem liberdade individual e um regime pluralista, que estes últimos também valorizam.</p>
<p style="text-align: justify;">7 de outubro de 2022</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[*]</strong> Farhad Khosrokhavar é sociólogo franco-iraniano e diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales.</p>
<blockquote class="td_quote_box td_box_center"><p>Publicado originalmente em francês na revista <em>ContreTemps </em>(<a href="https://lesdossiers-contretemps.org/2022/10/26/le-mouvement-des-femmes-en-iran/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). Traduzido ao português por Yves Coleman. A fotografia em destaque é da autoria de Ozan Kose. As demais pertencem à AFP.</p></blockquote>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>A morte de Soleimani — como o carniceiro do povo tornou-se um herói anti-imperialista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jan 2020 18:45:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Você pode ser contra o imperialismo americano e contra a ditadura e a brutalidade iranianas. Por Hawzhin Azeez]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Hawzhin Azeez</h3>
<p style="text-align: justify;">Vivemos num mundo onde muitas vezes esquecemos que múltiplas verdades podem coexistir ao mesmo tempo. Numa era de conglomerados de mídia que regurgitam os mesmos slogans e manchetes pró-guerra, e numa época em que os fracassos da esquerda são severos e vastos, a verdade é muitas vezes reduzida a uma dualidade maniqueísta e simplista de preto/branco, e/ou, perspectiva EUA/Irã. Os anti-imperialistas que durante muito tempo apoiaram a brutalidade do regime Assad em nome de uma práxis ideológica de inclinações esquerdistas estão defendendo raivosamente outro regime brutal e violento — o Irã — sem qualquer consideração pelos fatos e realidades históricas; sem qualquer consideração pela realidade das vidas de milhões de iranianos aterrorizados, violados e oprimidos em silêncio; sem qualquer consideração pela realidade diária dos oprimidos que vivem sob uma ditadura brutal que só fica atrás da China em sua execução de dissidentes, artistas, feministas e ativistas de direitos humanos. No entanto, os anti-imperialismo americano transformaram [<em>o general Qasem</em>] Soleimani numa figura heroica, estoica, encharcada de carisma e de autoconfiança — um herói que lutou corajosamente contra o ISIS e salvou o povo iraniano — em contraste direto com a incoerência e a imprudência de Trump. Desde quando o anti-imperialismo significou ser um apoiador ávido de ditadores maléficos em vez dos oprimidos e colonizados?</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui estão algumas verdades básicas sobre a actual situação EUA-Irã:</p>
<p style="text-align: justify;">1) Soleimani foi um carniceiro e um instrumento da violência iraniana indireta que aterrorizou milhões no Irã, Iraque, Síria, Líbano, Iêmen, etc. Um de seus principais papéis era fornecer ao Hezbollah um suprimento constante de mísseis e foguetes, ao mesmo tempo em que enviava tranquilamente 50.000 militares iranianos para a Síria em apoio ao brutal regime de Assad. Ele foi fundamental para a tragédia em curso no Iêmen, apesar do apoio direto do Irã aos Houthis. Seu papel na prevenção da entrada do ISIS no Irã pode ser atribuído em grande parte à divisão sunita/xiita (o ISIS é sunita, o Irã é um regime xiita fanático). O seu papel no combate ao ISIS na Síria teve mais a ver com o apoio ao regime de Assad e com o fim de um grupo sunita rival que tratava diretamente da sua própria hegemonia regional, em vez de Soleimani estar preocupado com a paz e a segurança do cidadão comum. Ao se engajar nessas ações no exterior, ele era o líder das notórias forças Quds que aterrorizavam, executavam, espionavam e sequestravam forças pró-democracia, direitos das mulheres e direitos humanos dentro do Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">Centenas de milhares de pessoas morreram como resultado do papel de Soleimani no cumprimento dos objetivos regionais do Irã. Seu envolvimento nesses países teve um impacto direto nas aspirações democráticas dos curdos, sírios, iranianos e outras minorias oprimidas na região.</p>
<p style="text-align: justify;">2) O Irã é um regime muito ruim. O único grupo de iranianos que realmente lamenta a execução de Soleimani é o dos iranianos conservadores, aliados aos mulás que dirigem o regime. Sim, Soleimani representou o nacionalismo iraniano, mas num molde muito específico e estreito que se conformava com a visão do aiatolá sobre o “Irã”. A maioria dos iranianos, iraquianos e sírios estão celebrando silenciosamente, se não abertamente (embora fatigados), a morte de Soleimani. Eles também sabem que matar uma figura simbólica — que já é substituída pelo Brigadeiro-General Esmail Ghanni, uma figura ainda mais conservadora e notória do regime iraniano — não põe fim a uma política implementada e amplamente difundida pelo aiatolá.</p>
<p style="text-align: justify;">3) Os EUA são um regime muito mau com uma memória infelizmente curta, incapaz de utilizar as lições aprendidas em casos passados ao iniciar guerras convencionais através de intervenções diretas, invasões ou políticas imprudentes como o assassinato do segundo mais brutal carniceiro dentro das notórias forças de segurança iranianas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-129610 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/01/isaac-van-duynen-stillleben-mit-fischen.jpg" alt="" width="406" height="470" /></p>
<p style="text-align: justify;">O Irã é reconhecidamente muito mais comedido e contido em sua resposta não porque mostra um nível combativamente maior de respeito pelos terrores da guerra e respeita as vidas de seus próprios cidadãos; mas sim porque utiliza seu <em>soft power</em> através de meios econômicos, políticos ou militares, implementando cuidadosamente suas políticas. Ele é ponderado. Tem o cuidado de usar seus substitutos para implementar clandestinamente, dissimuladamente, suas vastas aspirações e agendas regionais. Sua única e exclusiva lealdade está em manter a sua própria continuidade, ao mesmo tempo em que se consolidam os seus objetivos de entrincheirar as divisões Shia-Sunni. Há uma unidade, uma coerência na política externa iraniana e sua implementação de <em>soft power</em> — especialmente em relação à recente incoerência na política externa dos EUA sob Trump. É por isso que um recente relatório do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos indicou que o Irã é o maior influenciador da região. É por isso que o Irã ainda não respondeu da mesma forma precipitada e imprudente que Trump na execução de Soleimani.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, os cidadãos comuns do Médio Oriente, especialmente do Irã e do Iraque, não querem uma guerra com os EUA. Eles querem uma remoção do regime do aiatolá, que continua a aterrorizá-los e a influenciar as suas realidades diárias com a sua própria segurança e interesses nacionais, mas não da mesma forma que Saddam foi removido em 2003. Esta foi uma invasão que resultou no fracasso do Iraque como Estado, na ascensão do ISIS e no nível incompreensível de violência que ocorreu como resultado, o genocídio de Yazidi, a ascensão das forças iranianas apoiadas por Hshed al-Shahbi e muito mais. Nenhuma pessoa sã quer a guerra. Nenhuma pessoa amante da democracia quer a guerra com o Irã. Da mesma forma, as sanções só vão impor mais pressão sobre o já sofrido povo iraniano que está lutando em meio a uma crise econômica. A mudança de regime deve ocorrer internamente, organicamente e como resultado das vozes e ações do povo do Irã. Qualquer outra coisa vai cheirar a intervencionismo e imperialismo — e nunca será vista como legítima.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui estão algumas verdades básicas finais. Você pode aplaudir o fim de Soleimani e ainda ser contra a guerra. Você pode condenar a forma como Soleimani foi executado, mas ainda assim ficar aliviado por ele não estar mais por perto para aterrorizar as pessoas. Você pode ser contra o imperialismo americano e contra a ditadura e a brutalidade iranianas. Ser contra o imperialismo norte-americano, ser contrário ao desrespeito imprudente de Trump pela humanidade não significa que você deve fazer de Soleimani um símbolo de liberdade, ou ideologia de esquerda. Sulamani era um carniceiro. Trump é um megalomaníaco perigoso. Os aiatolás são igualmente culpados, com as mãos cheias do sangue de milhões em toda a região, financiando grupos terroristas e guerras por procuração. Que Soleimani morra como o açougueiro que era, com um fim apropriado e ilegal, o mesmo que ele deu a milhares — sem transformá-lo em um herói anti-imperialista do povo — e, por extensão, justificando o regime iraniano. A única lealdade que você deveria ter deveria ser com o povo comum do Irã, Iraque e da região. Estamos em 2020, e já é tempo de começarmos a ver tais questões em todas as suas complexidades, percebendo que múltiplas verdades podem coexistir e que uma análise simplista não serve a ninguém a não ser àqueles que têm fome de guerra.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><em>Traduzido pelo Passa Palavra a partir do <a class="urlextern" title="http://hawzhin.press/2020/01/04/killing-sulaimani-how-the-butcher-of-the-people-becomes-an-anti-imperialist-symbol/" href="http://hawzhin.press/2020/01/04/killing-sulaimani-how-the-butcher-of-the-people-becomes-an-anti-imperialist-symbol/" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">original publicado no blog da autora</a>. Ilustram o texto obras de Isaac van Duynen.<br />
</em></strong></p>
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		<title>Iranianos em revolta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 Jul 2018 12:30:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Noticiar]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
		<category><![CDATA[Médio_Oriente]]></category>
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					<description><![CDATA[Os recentes protestos se espalharam rapidamente em muitas cidades; questões importantes, como o custo de vida e a má qualidade da água potável têm sido a principal razão para manifestações.  Por Um Militante Anônimo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><em><strong>Por Um Militante Anônimo</strong></em></h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Nota do Passa Palavra</em></strong>: a crise econômica no Irã, causada em especial pela retomada das sanções econômicas anunciada em maio por Donald Trump, tem levado a uma série de protestos contra as políticas de Hassan Rouhani, sendo o mais recente deles a greve no Grande Bazar de Teerã em 25 de junho (ver mais <a href="http://www.aljazeera.com/news/2018/06/strike-tehran-grand-bazaar-rial-devaluation-180625180010879.html">aqui</a>, <a href="https://en.radiofarda.com/a/iran-bazaar-strike-economic-worsening/29318196.html">aqui</a>, <a href="http://ww.rudaw.net/mobile/english/middleeast/iran//25062018">aqui</a>, <a href="https://www.bbc.com/news/world-middle-east-44602189">aqui</a>). Não custa lembrar que sanções internacionais contra as políticas de Mahmoud Ahmadinejad foram também acompanhadas por protestos internos em meio à Primavera Árabe, que levaram em 2013 a uma mudança de governo. Há que se acompanhar com atenção os fatos em meio à nova conjuntura internacional de nacionalismos, populismos e fascismos em ascensão. Por isto traduzimos estas curtas notas sobre a greve no Grande Bazar, que ajudam a entender a composição interna, origens e rumos deste protesto.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sobre a situação no Irã: ela piorou quando parte considerável do Grande Bazar em Teerã foi fechada há uma semana. O Bazar tem sido um dos principais apoiadores burgueses – se não o principal – do atual regime desde a revolta de 1979.</p>
<p style="text-align: justify;">Bazar: seu significado literal é mercado. Está lá há séculos, há várias centenas de anos. O Bazar era tradicionalmente o lugar onde os preços das mercadorias eram definidos. Quando se diz que alguém é Bazaari, isso significa basicamente que ele é um comerciante, que também tem muito dinheiro disponível e, ao mesmo tempo, pode atuar como financiador (na verdade, um especulador, um agiota, um açambarcador, um especulador de curto prazo que não investe na produção). No Bazar, esses burgueses podem ser vistos como donos de lojas muito simples e pequenas, com poucas cadeiras, uma mesa, um telefone e muito poucas mercadorias, sentados algumas horas atrás de sua mesa – sem fazer nada além de conversar com outros Bazaaris ou falar ao telefone, comprar e vender ou acumular mercadorias. O Bazar existe em paralelo ao sistema financeiro no Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">Que diferença fez a greve no Bazar? Pense no dia, por exemplo, em que o sistema financeiro for fechado. Que efeito(s) teria na economia? É claro que a greve do Bazar foi relativamente pequena, por isso não teve um efeito tão dramático quanto o fechamento do sistema financeiro. No entanto, a greve dos Bazaaris, em certa medida, aumentou os preços. Uma razão para isso é que eles são atacadistas e qualquer ação sua que aumente os preços produz ondulações através do mercado. Além disso, se suas ações parecem representar uma retirada do apoio ao regime, elas também agravam a crise política.</p>
<figure id="attachment_121945" aria-describedby="caption-attachment-121945" style="width: 470px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-121945" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/07/images-17.jpeg" alt="" width="470" height="313" /><figcaption id="caption-attachment-121945" class="wp-caption-text">Iran Labor News Agency. 25, Jun. 2018</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Há rumores, especialmente vindos da fração reformista do regime, dizendo que a atual onda de protestos (e a última) foi iniciada pela “linha-dura” derrotada nas últimas eleições, e que esperam dar um golpe de Estado para trazer os militares ao poder. Embora seja incerto se isto é verdadeiro ou não, ou que haja pelo menos alguma verdade nisso, pessoas comuns há muito tempo fartas de suas condições de vida aderiram aos protestos, e seus slogans também mudaram.</p>
<p style="text-align: justify;">Os recentes protestos se espalharam rapidamente em muitas cidades; questões importantes, como o custo de vida e a má qualidade da água potável, especialmente no sul do país, têm sido a principal razão para manifestações. Há dois relatórios da Aljazeera, um sobre os protestos e outro sobre a escassez de água.</p>
<figure id="attachment_121946" aria-describedby="caption-attachment-121946" style="width: 474px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-121946" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/07/final.jpg" alt="" width="474" height="287" /><figcaption id="caption-attachment-121946" class="wp-caption-text">Iran, 25, June, 2018. Xinhua/Ahmad Halabisaz</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Enquanto as maiores cidades foram coloridas pelos protestos do Bazaar sobre o declínio da moeda iraniana contra o dólar, as cidades do sudoeste, na província iraniana do Khuzistão (centro da produção de petróleo do Irã e lar de uma grande minoria árabe), explodiram há alguns dias principalmente por causa da falta de água para uso geral e de água potável de boa qualidade em particular, e também da poluição do ar. (Como os leitores devem saber, a água se tornou e será uma das causas mais importantes dos conflitos sociais no Irã e no Oriente Médio. Essa é outra história que precisa de explicações separadas.)</p>
<p style="text-align: justify;">A inflação muito alta e a queda acentuada no valor da moeda nacional são os resultados da saída dos EUA do PAIC (Plano de Ação Integral Conjunto), e das promessas da administração dos EUA de impor as mais duras sanções ao Irã. Mas quando se trata da condição da classe trabalhadora, o que descrevi não é novo. Esta é a condição em que os trabalhadores vivem há décadas. Vivendo abaixo da linha da pobreza, trabalhando em dois empregos (de dia e de noite), fazendo com que todos da família trabalhem, sem contracheques durante meses, assinando “contratos em branco” em que renunciam ao direito de reivindicar seguros ou apresentar queixas contra um empregador por questões de segurança no trabalho. Mesmo a venda de órgãos e crianças não é incomum nos últimos meses ou anos.</p>
<figure id="attachment_121942" aria-describedby="caption-attachment-121942" style="width: 512px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-121942" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/07/images-14.jpeg" alt="" width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-121942" class="wp-caption-text">Iranian Labor News Agency. 25, Jun. 2018</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Existem muito poucas pequenas organizações independentes de trabalhadores sob a forma sindical. O regime tem seus próprios “sindicatos” chamados “conselhos de trabalhadores islâmicos” e, tendo-os como pretexto, suprime qualquer organização independente. No momento, ainda que participem dos protestos de rua, os trabalhadores parecem estar “quietos”, ou realizando seus próprios protestos defensivos como antes em seus locais de trabalho. Eu realmente não consigo entender como eles conseguem viver com salários tão baixos e inflação alta. Para ilustrar a situação, considere estas informações: enquanto o salário mínimo no Irã é de cerca de US$ 200,00 por mês [<strong>Nota do Passa Palavra</strong>: R$ 770,08 pelo câmbio de 15 de julho de 2018], o nível dos preços pode competir com o dos europeus!</p>
<p style="text-align: justify;">Não admira que a sociedade esteja explodindo ou possa explodir novamente a qualquer momento! Claro, não estou falando sobre o que cada trabalhador fará. Em vez disso, quero esclarecer as condições em que uma parte da classe trabalhadora é forçada a agir como tal.</p>
<blockquote><p>Traduzido e revisado pelo Passa Palavra a partir do original publicado em <a href="http://insurgentnotes.com/2018/07/iranians-in-revolt">Insurgent Notes</a>.</p></blockquote>
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		<title>Irão 1978-1979 (4) : Os islamistas contra as mulheres</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Sep 2010 11:40:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
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					<description><![CDATA[Um artigo em quatro partes de Paul Hampton, sobre a revolução iraniana de 1978-79, editado em brochura pela Alliance for Workers’ Liberty (WorkersLiberty.org). Os factos relatados permitem compreender melhor o que é o Irão dos nossos dias e também, certamente, tirar ensinamentos sobre os erros da esquerda.  Por Paul Hampton]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Paul Hampton</h3>
<p style="text-align: justify;">O derrube do Xá foi uma festa para os oprimidos. Mulheres, homossexuais mulheres e homens e minorias nacionais participaram na revolução, acreditando que um novo regime traria a democracia e a liberdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde o começo, o governo de Khomeini revelou-se ferozmente oposto à liberdade. No primeiro mês do seu regime, os ataques às minorias nacionais sedentas de autodeterminação começaram. Os Komitehs locais começaram a emitir bilhetes [carteiras] de identidade e foram instituídos tribunais da <em>sharia</em> [lei islâmica]. Em Março de 1979, “12 pessoas foram julgadas sumariamente e executadas por alegados crimes sexuais, tais como homossexualidade e prostituição” (Nima).</p>
<p style="text-align: justify;">Mas foram sobretudo a opressão das mulheres e a liquidação do emergente movimento das mulheres que revelaram o carácter reaccionário do regime de Khomeini.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As mulheres na revolução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As mulheres participaram no derrube do Xá, em manifestações, greves e outros protestos. Como descreveu Farah Azari: “Havia um grande número [de mulheres] a participar na insurreição geral [9-11 de Fevereiro de 1979], seja como forças de rectaguarda, aprovisionando alimentos e medicamentos, seja mais directamente nas barricadas de rua.” (“The Post-Revolutionary Women’s Movement in Iran”, in Azari, Women of Iran: the conflict with fundamentalist Islam)</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979d1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-29047" title="pp_iraosublev1979d1" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979d1.jpg" alt="pp_iraosublev1979d1" width="405" height="270" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979d1.jpg 450w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979d1-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 405px) 100vw, 405px" /></a>Todavia um dos primeiros actos do governo provisório foi tomar conta das estações de rádio e de televisão. Em consequência disso, “as mulheres que nelas trabalhavam ou foram despedidas ou forçadas e vestirem-se à maneira islâmica. Todos os programas de arte e de entretenimento foram cancelados. As cantoras foram retiradas da programação e a música em geral foi drasticamente limitada” (Azari).</p>
<p style="text-align: justify;">Em 26 de Fevereiro, a Lei da Protecção da Família, do tempo do Xá, que dava alguns direitos às mulheres no casamento e no divórcio, foi suspensa por ordem do gabinete de Khomeini. Em 3 de Março foi posto termo à nomeação de juízas e três dias depois as mulheres alistadas no exército foram dispensadas. Em 7 de Março, discursando em Qom, Khomeini disse que as mulheres têm de usar o véu no trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As mulheres opõem-se ao uso obrigatório do véu</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Com a suspensão da Lei da Protecção da Família e os comentários de Khomeini acerca do véu, as mulheres galvanizaram-se e manifestaram-se aos milhares no Dia Internacional da Mulher, 8 de Março, e nos dias seguintes. Azari escreveu o mais detalhado relato destes protestos. Diz ela: “Na manhã do dia 8 de Março, cerca de 15.000 mulheres tinham-se juntado no pequeno edifício da Faculdade Técnica da Universidade de Teerão. Eram em número muito superior ao que fora previsto pelos organizadores e ainda mais surpreendente porque nevava com força nesse dia. Entre elas havia donas de casa, trabalhadoras, professoras, empregadas de escritório e estudantes, mas em especial havia muitas estudantes universitárias cujos professores haviam cancelado as aulas para irem manifestar com elas. A obstrução dos elementos reaccionários começou de imediato quando o sistema sonoro do edifício foi desligado, impedindo assim a multidão das que não conseguiam entrar no auditório de ouvirem cá fora o que lá se estava a passar. A raiva e o descontentamento foram crescendo, as que estavam dentro decidiram juntar-se às que estavam fora e arrancaram com um cortejo de protesto em direcção ao gabinete do primeiro-ministro.</p>
<p style="text-align: justify;">“Agora nas ruas, outras mulheres vieram juntar-se ao cortejo e o número de participantes chegou perto dos 30.000. Mais tarde o cortejo dividiu-se quando dois grupos mais pequenos decidiram continuar em direcção ao Ministério da Justiça – onde se tinha realizado uma ocupação de mulheres juristas – e à casa do aiatolá Talaghani… O primeiro grupo fez um comício em frente ao ministério, expondo as suas reivindicações e manifestando apoio às mulheres juristas. Identicamente, o segundo grupo manifestou-se pedindo o apoio de Talaghani para as reivindicações das mulheres.” (1983, pp. 194-195)</p>
<figure id="attachment_29048" aria-describedby="caption-attachment-29048" style="width: 360px" class="wp-caption alignright"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979d2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29048 " title="pp_iraosublev1979d2" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979d2.jpg" alt="Teerão, 1978: jovens mulheres manifestam-se contra a ameaça de imposição do uso do véu islâmico." width="360" height="360" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979d2.jpg 450w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979d2-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979d2-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px" /></a><figcaption id="caption-attachment-29048" class="wp-caption-text">Teerão, 1978: jovens mulheres manifestam-se contra a ameaça de imposição do uso do véu islâmico.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">“Alguns dos <em>slogans</em> das manifestantes eram: ‘Liberdade é a nossa cultura, ficar em casa é a nossa vergonha’, ‘Liberdade e igualdade são nossos direitos irrecusáveis’, ‘Na aurora da liberdade, já nos falta liberdade’, ‘O Dia Internacional da Mulher não é ocidental nem oriental, é internacional’ e ‘A liberdade não suporta regras e regulamentos’” (Azar Tabari, “Islam and the Struggle for Emancipation of Iranian Women’, in Azar Tabari e Nahid Yegaheh eds.).</p>
<p style="text-align: justify;">Azari acrescentou que “também noutras cidades foram organizadas conferências e concentrações no dia 8 de Março. Segundo [um] relato, 3.000 mulheres participaram numa concentração em Shiraz, onde declararam a sua solidariedade com todas as mulheres do mundo”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O manifesto das mulheres</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse mesmo dia as mulheres também se manifestaram na Televisão Nacional, protestando contra o total silenciamento noticioso das suas actividades. Mas as autoridades ignoraram esses protestos. Como conta Azari, “as estações de rádio e televisão não os tomaram em consideração por os considerarem como agitação feita por mulheres promíscuas contrárias à <em>hijab</em> [o véu] e por agentes do regime deposto. Descontentes, muitas delas reagiram voltando às ruas durante três dias em manifestações contínuas.”</p>
<p style="text-align: justify;">Bazargan respondeu anunciando que o uso do véu não era obrigatório e que os comentários de Khomeini tinham sido mal compreendidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 11 de Março, apesar de se terem retirado algumas organizações, concentraram-se 20.000 mulheres na Universidade de Teerão. Saíram em cortejo para a Praça Azadi onde se lhes juntaram outras mulheres dos escritórios, dos hospitais e das escolas. Mas foram atacadas pelos islamistas.</p>
<p style="text-align: justify; margin: 20px; width: 300px; font-family: Times; float: right; font-size: 10pt; border: 4px outset black; padding: 20px;"><strong>AS REIVINDICAÇÕES DAS MULHERES </strong><br />
Num grande comício realizado no Ministério da Justiça em 10 de Março foi adoptada a seguinte resolução:<br />
“Considerando que os seres humanos são todos livres e que o dom da liberdade pertence a todos por igual independentemente do sexo, da cor da pele, da raça, da língua e das crenças;<br />
Considerando que as mulheres constituem metade da população do Irão e que não se pode negar a contribuição dessa metade para a educação das gerações futuras, assim como para a vida social, cultural, política e económica;<br />
Considerando que a participação desinteressada das mulheres iranianas na luta contra o imperialismo e a ditadura foi um contributo importante para a Revolução Iraniana e que o seu papel na vitória da Revolução é admitido por todos os estratos que fizeram a Revolução;<br />
Considerando que, durante os dias difíceis e críticos deste país, as mulheres participaram em lutas e sacrifícios que foram aprovados pelo líder da revolução; e que as mensagens, entrevistas e declarações emitidas pelo líder todas elas atestam a promessa de liberdade, de igualdade e do gozo de todos os direitos políticos e sociais para as mulheres, e que o líder indicou explicitamente que não tem a intenção de recuar para as condições de há 1.400 anos;<br />
Nós, mulheres iranianas, declaramos agora as nossas reivindicações na forma desta resolução:<br />
1) Nós mulheres que, ombro a ombro com os homens, cumprimos os nossos deveres sociais para com o país e educamos a futura geração em casa, somos plenamente competentes e perfeitamente capazes de preservar o nosso carácter e a nossa honra. Acreditamos firmemente na preservação de um carácter feminino mas que a honra de uma mulher não se espelha numa específica forma de se vestir, e que o vestuário usado pelas mulheres deve ser um assunto delas próprias, levando em conta as exigências dos costumes e da sociedade;<br />
2) Deve-nos ser reconhecidos direitos cívicos iguais aos dos homens e deve ser abolida qualquer discriminação nas leis, em especial nas leis da família;<br />
3) Os direitos políticos, sociais e económicos das mulheres devem ser garantidos sem discriminação;<br />
4) Deve ser garantida a total segurança das mulheres para usufruírem dos seus direitos e das suas liberdades legais;<br />
5) O pleno gozo das liberdades fundamentais, da liberdade de escrita, de expressão oral, de crenças, de emprego e de associação, tem de ser garantido para todos os homens e mulheres;<br />
6) Todas as desigualdades existentes nas leis em vigor no país, incluindo as que dizem respeito ao emprego e ao trabalho, devem ser abolidas;<br />
7) As actuais posições ocupacionais das mulheres devem ser salvaguardadas;<br />
8) Embora aprovemos a decisão do governo de manter as Leis da Protecção da Família, exigimos que as inadequações da lei actual sejam removidas em favor da garantia dos direitos das mulheres.<br />
Pedimos ao primeiro-ministro do governo provisório Bazargan que torne pública a sua opinião sobre as nossas reivindicações.” (Tabari e Yeganeh)</p>
<p style="text-align: justify;">Azari descreve-o assim: “Durante esses dias, os fundamentalistas, os zelotas islâmicos e alguns pobres da cidade deambulavam pelas ruas em bandos de energúmenos, atacando e acossando as mulheres manifestantes por todos os meios. Iam dos insultos sexuais e das exibições indecentes aos espancamentos, esfaqueamentos e apedrejamentos. Usavam carrinhas e camionetas para obstruir as marchas em vários pontos.” Resultado, “os organizadores apelaram à desmobilização porque o número de feridos crescia e temia-se que este conflito fosse manipulado pelos contra-revolucionários para desestabilizar o novo regime”. (Azari)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O surgimento do movimento das mulheres</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo as manifestações tinham obrigado o regime a recuar – o que resultou na proliferação de organizações de mulheres, muitas vezes ramos de grupos da esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o grupo Emancipação da Mulher, que publicava um jornal mensal com o mesmo nome e fazia parte da Organização Comunista Unitária, foi “uma das primeiras organizações marxistas a denunciar o Estado islâmico depois da revolução” (Nahid Yeganeh, “Women’s Struggles in the Islamic Republic of Iran”, in Tabari and Yeganeh). Outra organização, a União Nacional das Mulheres, criada em Março de 1979 e parte dos Fadaiyin, era mais discreta na denúncia do governo. Publicou seis números da sua publicação <em>Igualdade</em> e um jornal mensal <em>Mulheres em luta</em>. Entre as outras organizações, havia a pró-chinesa Sociedade para o Despertar das Mulheres, o Comité para a Defesa dos Direitos das Mulheres, da iniciativa do partido trotskista HKS e vários grupos locais de mulheres no seio das minorias nacionais. Também se tinham criado organizações de mulheres islamistas e favoráveis ao governo (Tabari e Yeganeh). Todavia o registo da actuação da esquerda nestas mobilizações não é grande coisa. Como diz Farah Azari: “Durante as manifestações de mulheres em Março de 1979, quando foi levantada a questão do véu, os Fadaiyin, os Mujahedin e a maior parte dos pequenos grupos marxistas não apoiaram estas manifestações. Os Mujahedin e o Partido Tudeh [comunista] chegaram mesmo a criticá-las por estarem a fazer o jogo dos imperialistas e a pôr a revolução em perigo.”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A reacção islamista</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em 21 de Maio de 1979, o Ministério da Educação proibiu as escolas mistas e ordenou que todas as turmas fossem segregadas. Em 3 de Junho proibiu as mulheres casadas de frequentarem aulas no ensino superior. Em 8 de Julho de 1979, alguns estabelecimentos balneares do Mar Cáspio começaram a fazer segregação sexual – as mulheres eram chicoteadas em público se apanhadas a nadar no “sector dos homens”. Em 12 de Julho, três mulheres foram executadas pelos crimes de prostituição e corrupção.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2 de Outubro foi aprovada nova legislação que dava o direito ao divórcio exclusivamente ao marido; restaurava o “direito” do marido de não permitir que a mulher tivesse um emprego; baixava a idade mínima para uma mulher poder casar dos 18 para os 13 anos; e permitia aos homens terem até quatro esposas permanentes e um número ilimitado de esposas temporárias (Tabari e Yeganeh).</p>
<p style="text-align: justify;">Também se recorreu ao terror. Nima refere uma violação pelos Guardas Revolucionários como exemplo do terror usado para fustigar as organizações de mulheres: “Uma família recebeu recentemente a notícia da execução da sua filha. Os Pasdaran devolveram os seus pertences e deram 4 euros [R$ 8,5] aos pais, explicando que ‘ela era virgem, e como não se executam virgens no Islão, um dos Pasdars casou com ela temporariamente na noite anterior à execução e esse dinheiro era o preço do casamento temporário’”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 3 de Fevereiro de 1980 o porte de “uniformes islâmicos” tornou-se obrigatório para as enfermeiras e outras empregadas do Ministério da Saúde. Em Maio, em Urumieh, mulheres que não tinham o véu foram espancadas e esfaqueadas e no bazar de Bushehr recusaram-se a atender mulheres sem véu. Em 10 de Junho, as mulheres do Ministério da Justiça receberam a ordem de vir para o trabalho com “roupas simples e islâmicas” (Tabari e Yeganeh). Em 28 de Junho, Khomeini emitiu um decreto segundo o qual todas as mulheres a trabalhar nos serviços do governo deveriam usar o véu como parte da “revolução administrativa”. Em Julho, foi exigido às mulheres o uso do véu durante o Ramadão. Em Julho de 1980 foram abolidas todas as escolas mistas. Com a educação segregada, as professoras eram nomeadas para escolas femininas e os professores para escolas masculinas. Todas as estudantes receberam a ordem para usarem uniformes especiais do Ministério da Educação – as professoras receberam as instruções no mês seguinte. Ainda em Julho, a empresa de transportes colectivos de Teerão anunciou que as primeiras três filas de assentos nos autocarros [ônibus] seriam destinadas às passageiras.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 21 de Abril de 1981 o aniversário de Fátima [filha de Maomé] foi instituído como Dia da Mulher no Irão. Finalmente, em Julho de 1981, os Majlis (parlamento) ratificaram a Lei da Retaliação que, entre outras coisas, previa o apedrejamento até à morte para os crimes de adultério e chicotadas públicas ou amputação de membros como retaliação. (Tabari e Yeganeh).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As mulheres não desarmam</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Apesar destes ataques, os grupos de mulheres continuaram a lutar e a organizar-se. Azari escreveu: “Outros importantes grupos de mulheres foram criados no Banco Melli, o maior banco iraniano, no Ministério do Trabalho, no Serviço de Telecomunicações, no Organismo do Planeamento e muitos outros ministérios e serviços públicos, e ainda em algumas fábricas com muitas mulheres. As reivindicações destes grupos andavam essencialmente em torno da prestação de serviços de cuidados infantis, da igualdade salarial e das regalias de maternidade. Em muitos casos os patrões eram forçados a facultar uma creche ou a aumentar uma já existente”. Em 9 de Junho de 1979, as mulheres juristas fizeram uma ocupação de cinco dias por terem sido excluídas das cerimónias de nomeação de novos juízes. Em Setembro de 1979 houve protestos de mulheres estudantes nas escolas de formação técnica cujos cursos haviam sido suspensos com a decisão de segregar as aulas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-129550 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/C4VkxXUWcAI2sbp.jpg" alt="" width="1200" height="811" />Em 30 de Outubro de 1979 as mulheres manifestaram-se de novo contra as novas leis da família, apesar dos ataques dos Hezbollahi. Em 3 de Novembro as mulheres juristas organizaram uma ocupação no Ministério da Justiça, contra as novas leis. A Coligação Solidária das Mulheres deu-se a conhecer. Em 25 de Novembro de 1979, esta Coligação, que incluía grupos como a Emancipação das Mulheres e a Sociedade para o Despertar das Mulheres, organizou com êxito uma conferência de mulheres. A conferência condenou as medidas do governo contra os direitos das mulheres. Segundo Azari: “Encorajado pelo êxito da conferência, bem publicitada numa parte da imprensa, o comité não parou e começou a preparar a celebração do Dia Internacional da Mulher em Março de 1980. Realizou-se uma grande concentração num dos edifícios da Universidade de Teerão e foram lidas mensagens de solidariedade das esquerdas e de organizações progressistas, do Irão e do mundo. O comité então mudou de nome para Conselho de Solidariedade das Mulheres. Também se realizaram muitos comícios e concentrações noutras cidades importantes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois do decreto de Khomeini sobre o véu, de Junho de 1980, vários milhares de mulheres se manifestaram em frente dos serviços do presidente. Azari descreve a reacção: “As manifestantes defrontaram-se com gangues de Hezbollahi cruéis e armados de tacos que, além das formas habituais de agressões e maus tratos contra a oposição, se comprazeram a molestá-las sexualmente, por actos e por palavras.”</p>
<p><strong>[Fim da quarta e última parte]</strong></p>
<blockquote><p><em>Versão original (em inglês) <a class="urlextern" title="http://www.workersliberty.org/story/2008/11/04/workers-liberty-35-iran-revolution-and-counter-revolution-1978-9" href="http://www.workersliberty.org/story/2008/11/04/workers-liberty-35-iran-revolution-and-counter-revolution-1978-9" rel="nofollow">aqui</a>. Tradução do Passa Palavra.</em></p></blockquote>
<h3 style="text-align: justify;"><em>As quatro partes do artigo são:</em></h3>
<p style="text-align: justify;"><em>(1) <a href="../?p=28452" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Como os trabalhadores derrubaram um ditador</a><br />
(2) <a href="../?p=28538" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Como os trabalhadores foram esmagados</a><br />
(3) <a href="http://passapalavra.info/?p=28811" target="_blank" rel="noopener noreferrer">O fracasso da esquerda</a><br />
(4) Os islamistas contra as mulheres</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Irão 1978-1979 (3) : O fracasso da esquerda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Sep 2010 11:25:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
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					<description><![CDATA[Um artigo em quatro partes de Paul Hampton, sobre a revolução iraniana de 1978-79, editado em brochura pela Alliance for Workers’ Liberty (WorkersLiberty.org). Os factos relatados permitem compreender melhor o que é o Irão [Irã] dos nossos dias e também, certamente, tirar ensinamentos sobre os erros da esquerda.  Por Paul Hampton]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"> Por Paul Hampton</h3>
<p style="text-align: justify;">A classe trabalhadora iraniana foi a força social decisiva que derrubou o Xá em 1978-79. Mas os trabalhadores não avançaram com a construção do seu próprio Estado, acabando por ficar submetidos ao poder de um regime não menos repressivo que o do Xá.</p>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores formaram organizações e desenvolveram acções em defesa dos seus interesses próprios. O desenvolvimento de uma política independente da classe trabalhadora era uma possibilidade real em 1979. Todavia este potencial não foi consumado – em grande parte devido ao fracasso da esquerda, tanto iraniana como internacional.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-129487" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/f_irao31.png" alt="" width="500" height="375" />Parte da explicação para o fracasso da esquerda reside na repressão de que foi alvo às mãos do governo de Khomeini. Por exemplo, quando os Fadaiyin recusaram entregar as armas de que se haviam apoderado durante a insurreição de 9-11 de Fevereiro de 1979 e organizaram uma manifestação na Universidade de Teerão, Khomeini denunciou-os como “um grupo de bandidos e gente fora da lei” e “não-muçulmanos em guerra contra o Islão” (Hiro). A esquerda foi acossada pelos Hazbollahi desde o começo – e por outras forças do novo Estado, tais como os Pasdaran, até que foi levada a passar à clandestinidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a repressão está longe de ser tudo – e certamente não explica as oportunidades perdidas no começo de 1979. Foram a confusão ideológica da esquerda, a sua desorientação política e os seus erros de organização que levaram à perda de uma oportunidade histórica de uma tomada do poder pela classe trabalhadora – e à submissão dos trabalhadores iranianos a um novo despotismo que se manteve até hoje.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Ideologia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A razão fundamental do fracasso da esquerda, tanto iraniana como internacional, que condicionou tudo o resto, foram os seus erros ideológicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Quase toda a esquerda era estalinista e o pseudo-marxismo estalinizado e empobrecido impediu qualquer dos seus sectores de elaborar uma linha independente da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify; margin: 20px; width: 350px; font-family: Times; float: right; font-size: 11pt; border: black 4px outset; padding: 20px;"><strong>A REBOQUE DE KHOMEINI </strong><br />
O <em>Socialist Worker</em> de 28 de Outubro de 1978 comparava Khomeini ao pope Gapone para justificar o facto de se colocar a reboque do Imam.<br />
“É quase como se, apesar de as massas estivessem eivadas de uma tradição que faz parte da sua história – a tradição de uma oposição religiosa –, a única coisa que soubessem fosse comum a todos, entendida por todos, e fizesse dessa religião uma arma poderosa, que nada tem a ver com religiosidade ou mística e tudo a ver com o poder das massas.” (Joanna Rollo, <em>Iran: Beginning of a Revolution</em>, panfleto do SWP [Partido Socialista dos Trabalhadores, Estados Unidos]).<br />
“Nós já explicámos o que realmente está por trás deste movimento de massas e quão insensato é caracterizá-lo como um movimento religioso. Independentemente da força que possa estar na sua liderança e sejam quais forem as reivindicações com que se exprime, o movimento de massas não tem absolutamente nada a ver com uma qualquer religião, muito menos uma religião reaccionária.” (Saber Nickbin, <em>Iran: The Unfolding Revolution</em>, panfleto do IMG [tendência trotskista pablista]).<br />
O líder da IMG Brian Grogan vangloriava-se de ter gritado “Allah Akhbar” numa manifestação em Teerão, justificando-se com o facto de que isso significava que o povo era mais forte do que o exército do Xá.<br />
Em Dezembro de 1978, a Campanha Contra a Repressão no Irão (CARI) de Birmingham publicou um folheto que denunciava como sendo reaccionária a palavra de ordem “Abaixo os mulás”. Em Março de 1979 a CARI mudou de nome porque “as tarefas do movimento de solidariedade são agora diferentes” (<em>Socialist Change</em> de 29 de Março de 1979).<br />
“Os socialistas não lutam contra a religião. Não pensamos que, no Irão, se trate de uma luta entre marxistas e muçulmanos”. (<em>Intercontinental Press / Inprecor,</em> 17 de Setembro de 1979)</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado foi a “teoria” da revolução em duas fases, segundo a qual a classe trabalhadora iraniana teria um papel secundário numa luta geral “democrática” para derrubar a dinastia Pahlavi. O que significava que a liderança dessa “revolução democrática” estava confiada a outras forças sociais conquanto fossem suficientemente “anti-imperialistas”. Isso levou a esquerda a uma subordinação política aos mulás. Quase toda a esquerda foi incapaz de compreender o carácter específico do movimento de Khomeini e o tipo de Estado que ele concretamente queria criar em substituição do Xá. O partido Tudeh chegou mesmo a espalhar a ilusão de uma possível via “não-capitalista” para o [novo] regime. Contudo quase todos acreditavam que, por o regime ser “anti-imperialista” (isto é, anti-estadunidense), ele era de algum modo progressista.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda não compreendeu que, dadas as forças envolvidas no movimento da oposição, o Estado que iria emergir após o derrube do Xá poderia ser a favor de um capitalismo nacional, independente do capital global e ao mesmo tempo ferozmente hostil à classe trabalhadora. Ao enaltecerem os “muçulmanos militantes” velaram a natureza reaccionária do poder de Khomeini.</p>
<p style="text-align: justify;">A ausência de uma perspectiva de classe levou à subestimação dos comités de greve, e mais tarde das <em>shuras</em> de fábrica, erguidas pelos trabalhadores para defenderem os seus interesses. Diz Assef Bayat: “Quase toda a esquerda foi surpreendida pela súbita emergência das <em>shuras</em>. Quase todas as organizações de esquerda, assim como as próprias <em>shuras</em>, estavam confusas quanto ao que fazer e quanto ao papel político possível das <em>shuras</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda foi igualmente incapaz de perceber a importante dinâmica da luta pela libertação das mulheres. A partir dos protestos do Dia Internacional da Mulher, em Março de 1979, e nos dois anos que se seguiram, as mulheres travaram um combate permanente contra o regime. Mas a esquerda não entendeu que o combate contra o véu e outras formas de discriminação das mulheres era uma parte essencial da luta pela democracia e pela libertação das mulheres.</p>
<p style="text-align: justify;">De igual modo, a esquerda não lutou pela autodeterminação das minorias nacionais, como diz o CARI, quando Khomeini lançou a sua guerra santa contra os curdos, “a reacção das <em>shuras</em> e dos grupos progressistas da esquerda deixou muito a desejar”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em resumo, faltou à esquerda um programa democrático e socialista para unir a classe trabalhadora e para ele mobilizar outros sectores explorados e oprimidos, como meio de levar os trabalhadores a lutarem pela sua auto-libertação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Incapacidade organizativa</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A principal falha organizativa da esquerda iraniana durante 1978-79 foi a sua incapacidade para construir um partido revolucionário capaz de conduzir a classe trabalhadora contra os mulás e a favor do seu próprio poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Bayat exprimiu bem essa ideia quando escreveu: “A mais grave limitação, contudo, foi a ausência de uma efectiva força política empenhada em organizar a classe trabalhadora para o objectivo estratégico da construção do socialismo”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/f_irao32.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-full wp-image-28826" title="f_irao32" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/f_irao32.jpg" alt="f_irao32" width="336" height="234" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/f_irao32.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/f_irao32-300x209.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 336px) 100vw, 336px" /></a>A maior organização da esquerda, os Fadaiyin, tinha cerca de meio milhão de apoiantes. Já ganhara alguma credibilidade a seguir à campanha de guerrilhas contra o Xá. Credibilidade acrescida com o papel que tiveram na insurreição de 9-11 de Fevereiro de 1979. Foi correcto o boicote ao referendo de Khomeini sobre a República Islâmica em Março de 1979.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo a orientação política dos Fadaiyin era estalinista e atolava-se na teoria das fases [da revolução]. Não atacaram claramente o novo regime senão depois de, em Agosto de 1979, eles próprios serem atacados. Apesar de os seus membros participarem nas <em>shuras</em>, nas organizações de mulheres e na luta das minorias nacionais, não elaboraram um programa ou uma estratégia sobre a emergência do Estado teocrático. O mesmo se passou com os Mujahedin “marxistas”, rebaptizados Paykar no começo de 1979, que defendiam um estalinismo maoísta albanês. Um sinal da confusão ideológica dos Fedaiyin foi a cisão de Junho de 1980, em que a maioria se juntou ao partido Tudeh, isto é, o Partido Comunista que representava a URSS no Irão.</p>
<p style="text-align: justify;">O partido Tudeh garantiu o seu apoio ao governo de Khomeini em Fevereiro de 1979 e manteve-se como seu fiel aliado. Chegou ao ponto de apoiar na prática o esmagamento da esquerda pelo Estado. O partido Tudeh disse aos seus apoiantes em Agosto de 1981: “Desmascarar a acção política da contra-revolução nas empresas, nas famílias e em todo o lugar onde as massas estejam presentes, é uma das nossas tarefas mais importantes”. O que ficou claro quando a Maioria Fedaiyin e o Tudeh receberam cartas de agradecimento do comandante do exército responsável pelo esmagamento da revolta curda (Maziar Behrooz, <em>Rebels with a Cause</em>).</p>
<p style="text-align: justify;">Havia algumas pequenas organizações que tentaram uma análise e uma intervenção mais sérias. A Organização da Via dos Trabalhadores, ex-militantes dos Fedaiyin e dos Mujahedin que se opuseram ao maoísmo, consideravam que o regime de Khomeini era um “bonapartismo religioso” assente na pequena burguesia, na burguesia comerciante e na população semi-proletária, sob a liderança do clero. A Organização de Unidade Comunista (OUC) era anti-estalinista e participou na construção do movimento das mulheres (Behrooz, 1999, p.132).</p>
<p style="text-align: justify;">Havia também alguns trotskistas iranianos. Os fundadores iniciaram a sua actividade na Grã-Bretanha nos anos 1960. Formaram a Comissão Iraniana dentro do USFI Mandelite [Secretariado Unificado da Quarta Internacional, tendência Mandelite]. Trotskistas exilados nos Estados Unidos e na Europa formaram o Hezb-e Kargaran-e Socialist – HKS (Partido Socialista dos Trabalhadores) no começo de 1979. Foi publicamente apresentado em 22 de Janeiro de 1979.</p>
<p style="text-align: justify;">O HKS foi alvo da repressão desde o princípio. O seu primeiro comício, em 2 de Março de 1979, foi suspenso quando estudantes islamistas e maoístas tentaram interrompê-lo (Robert Alexander, <em>International Trotskyism</em>). Mas o seu líder Babak Zahraie chegou a participar em dois debates televisivos, em Abril e Maio de 1979, com o porta-voz de Khomeini Bani-Sadr, que viria a ser presidente do regime.</p>
<p style="text-align: justify;">O HKS tinha actividade entre os trabalhadores do petróleo no Khuzistão e no movimento das mulheres. Depois de uma série de greves, os trabalhadores do petróleo e da siderurgia sofreram muitas prisões, entre eles 16 membros do HKS. Em Agosto de 1979, 14 membros do HKS foram julgados pelo “Comité do Imam” local, sendo 12 deles condenados à morte – pena mais tarde suspensa. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Zahraie liderou uma cisão do HKS no Outono de 1979, para formar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (HKE). Na prática, o HKE deu um apoio crítico ao regime de Khomeini, e o mesmo fez outro grupo trotskista formado em Janeiro de 1981, o Partido Unitário dos Trabalhadores (HVK). Mas tiveram o mesmo destino do HKS e acabaram por se extinguir por volta de 1982.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também o HKS foi incapaz de elaborar o programa e a estratégia necessários para contrariar o domínio de Khomeini. Foi incapaz de alertar a classe trabalhadora iraniana contra a natureza do novo regime. Faltou-lhe a necessária implantação nas empresas. Por isso foi impotente para resistir aos ataques do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fracasso da esquerda internacional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda internacional, em particular a USFI, tem pesadas responsabilidades na derrota da esquerda iraniana. A repressão não foi um factor decisivo e havia conhecimento da história dos erros do passado (como no caso do esmagamento dos comunistas chineses por Chiang Kai-Shek em 1927). A esquerda internacional tinha tudo o que era preciso para analisar a estrutura de classes do Irão, a natureza dos mulás e as lições das derrotas passadas – mas foi totalmente incapaz de o fazer.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode dizer-se que nenhum grupo da esquerda internacional se saiu bem no caso da revolução iraniana.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/f_irao33.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-28827" title="f_irao33" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/f_irao33.jpg" alt="f_irao33" width="279" height="181" /></a>Mas o grupo que merece uma particular reprovação é o Partido Socialista dos Trabalhadores dos Estados Unidos (US SWP). Outrora orgulho do movimento trotskista, em meados dos anos 1960 era uma seita semi-castrista, semi-estalinista. O US SWP teve uma actuação particularmente vergonhosa porque tinha relações com o HKS e outras organizações trotskistas – e foi o autor da linha política do apoio crítico a Khomeini.</p>
<p style="text-align: justify;">O US SWP definiu o regime de Khomeini como “um governo anti-imperialista” (<em>The Militant</em>, 10 de Julho de 1981), exagerando as “conquistas” da revolução e desvalorizando ou simplesmente negando a natureza contra-revolucionária e anti-trabalhadores do regime. No final de 1981 o US SWP ainda afirmava que “essas <em>shuras</em> continuam a existir no regime de Khomeini” e os trotskistas iranianos continuavam a actuar abertamente nas fábricas e a publicar jornais. Diziam: “Foram infrutíferas as tentativas para sufocar o debate e para fazer marcha-atrás nas conquistas dos operários e dos camponeses iranianos não foram conseguidas. Falharam as tentativas para desmantelar os comités de trabalhadores, recuar na reforma agrária ou eliminar partidos políticos”. (Janice Lynn and David Frankel, <em>Imperialism vs the Iranian Revolution</em>)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Conclusão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O regime de Khomeini era um governo burguês que assentava em sectores do capital nacional, na burguesia comerciante e na base de apoio do poder financeiro das mesquitas. Foi uma forma de “anti-imperialismo reaccionário”, contrário ao domínio do capital estrangeiro mas violentamente hostil à classe trabalhadora iraniana. Não é um abuso de linguagem descrevê-lo como uma forma de fascismo clerical, dada a destruição que operou no movimento trabalhista.</p>
<p style="text-align: justify;">Khomeini conduziu o movimento de massas na oposição ao Xá e dissimulou o seu programa de um Estado teocrático atrás de um fraseado de aparência progressista. Mas a esquerda foi incapaz de analisar a natureza do seu projecto e de prever a forma que tomaria o seu poder. Como diz Nima: “as alusões retóricas [de Khomeini] à liberdade foram infelizmente mal compreendidas por muita gente da oposição ao Xá, incluindo muita da esquerda”.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda foi incapaz de preparar a classe trabalhadora iraniana e de a alertar para o que era esperável. Em vez disso, a esquerda usou analogias espúrias para enquadrar o movimento de Khomeini numa paródia mecanicista de “revolução permanente”, que estava bem longe da teoria original de Trotsky.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, a natureza religiosa da liderança foi explicada em analogia com figuras históricas, como o padre Gapon na revolução russa de 1905. Mas enquanto Khomeini era a figura central da hierarquia xiita, Gapon era um padre dissidente favorável à separação entre o Estado e a igreja. Desde o início que Khomeini foi muito claro sobre que Estado pretendia; Gapon pelo menos defendeu uma assembleia constituinte em 1905. E, claro, apesar da sua oposição ao Czar, Gapon não foi elogiado pelos bolcheviques como “sacerdote progressista” – ao passo que Khomeini recebeu credenciais de progressismo de muitos sectores da esquerda iraniana.</p>
<p style="text-align: justify;">Estar em oposição simultaneamente ao Xá e aos mulás não significava metê-los no mesmo saco nem ignorar as diferenças entre os dois regimes, nem engolir a propaganda de muitos médias [mídia] ocidentais que retratava todo o movimento como simples religiosos reaccionários. Tratava-se, muito simplesmente, de tirar conclusões dos factos acerca do movimento de Khomeini.</p>
<p style="text-align: justify;">Também não se pode dizer que a oposição aos mulás implicaria uma estratégia passiva e abstencionista da esquerda iraniana. Teria implicado, isso sim, um envolvimento activo nos comités de fábrica que abalaram o regime do Xá. Teria tornado necessário um envolvimento activo nas <em>shuras</em> dos trabalhadores, no movimento das mulheres e nas lutas das minorias nacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Teria sido preciso lutar por exigências democráticas, tais como uma assembleia constituinte. Teria implicado uma preparação da esquerda para se defender, formando milícias de trabalhadores. Teria implicado juntar-se às manifestações das mulheres. Teria implicado a luta pela autogestão dos trabalhadores nas empresas e por uma rede organizada das <em>shuras</em> que permitisse controlar sectores da indústria, com o objectivo de controlar o conjunto da economia.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi precisamente porque a esquerda foi incapaz destas coisas que Khomeini teve a possibilidade de consolidar e depois cimentar o seu regime. O que faltou no Irão, em 1978-81, foi precisamente uma visão interventionista alternativa.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>O QUE NÓS ESCREVEMOS NA ALTURA</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Durante os últimos anos 1970, os precursores da AWL [Alliance for Workers’ Liberty, a organização de cujo site foi retirada esta série de artigos. NDT] publicaram um semanário, <em>Workers’ Action</em>, que fez uma cobertura alargada da revolução iraniana.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos meses de 1978 o jornal continha relatos detalhados da onda de greves que acabou por derrubar o Xá. Os relatos insistiam em que os trabalhadores se deviam auto-organizar de forma independente. Por exemplo, num artigo intitulado “Não a um Estado islâmico, sim ao poder dos trabalhadores”, nós escrevíamos: “Para levar o movimento dos trabalhadores iranianos à vitória, contudo, os CONSELHOS OPERÁRIOS têm de organizar o combate desde já e, depois do derrube do Xá, o futuro poder revolucionário.” (<em>Workers’ Action</em>, 9 de Dezembro de 1978)</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, como quase toda a esquerda, nós subestimámos a natureza das ideias de Khomeini e do seu movimento, assim como o tipo de regime que ele planeava criar. Por exemplo, no artigo “Abaixo o Xá”, escrevemos:</p>
<p style="text-align: justify;">“A participação dos sacerdotes muçulmanos no movimento de oposição não significa que ele seja reaccionário. Muitos movimentos progressistas têm tido membros destacados que são padres – o movimento pelos direitos cívicos nos EUA, o movimento nacionalista da Irlanda e até as primeiras fases da Revolução Russa de 1905. Isso apenas significa que as mesquitas eram os únicos possíveis lugares de encontro para a oposição, e que os sacerdotes foram, até há pouco tempo, as únicas pessoas com possibilidade de levantar a voz contra o regime.</p>
<p style="text-align: justify;">“Mesmo a exigência de um ‘governo islâmico’ não tem (para os manifestantes que a levantaram) um sentido de fanatismo religioso, mas sim um impulso hostil ao luxo corrupto da classe média iraniana enriquecida com o petróleo.</p>
<p style="text-align: justify;">“O aiatolá Khomeini, líder principal da oposição muçulmana, declarou muitas vezes que não queria os barbarismos da ‘lei islâmica’ tal como é praticada no Paquistão ou na Arábia Saudita, onde se castigam os ladrões com a amputação das mãos; e também não se opõe à igualdade para as mulheres.” (<em>Workers’ Action</em> nº 124, 11 de Novembro de 1978)</p>
<p style="text-align: justify;">O jornal transcreveu uma entrevista de Khomeini ao <em>Le Monde</em>, em que ele se deu alguns ares de democrata (<em>Workers’ Action</em> nº 121, 21 de Outubro de 1978).</p>
<p style="text-align: justify;">As contradições da nossa posição ficaram sintetizadas no artigo “O Islão no Irão: o sinal dos oprimidos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Aí escrevemos: “Um ‘governo islâmico’ burguês vai enganar os operários e os camponeses iranianos tão impiedosamente como o faz o do Xá. A tarefa dos socialistas, contudo, é apoiar a luta de massas contra o Xá, mesmo quando essas lutas apresentam um governo islâmico como seu objectivo. No Irão, claro, os socialistas revolucionários vão lutar para convencer os operários e os camponeses de que as suas aspirações à democracia e à justiça só podem ser traídas pela burguesia e pelo Islão.” (<em>Workers’ Action</em> nº 125, 19 de Novembro de 1978)</p>
<p style="text-align: justify;">Foi num artigo de Rhodri Evans, “Poderá Khomeini parar a revolução?”, que estivémos mais próximos de uma advertência contra a iminente catástrofe. Aí se dizia: “É quase matematicamente certo que podemos prever um choque entre Khomeini e os trabalhadores. Os socialistas britânicos têm de estar preparados para darem todo o apoio possível aos trabalhadores iranianos.” (<em>Workers’ Action</em>, 24 de Fevereiro de 1979)</p>
<p style="text-align: justify;">A única organização que apresentou uma linha alternativa “abaixo o Xá, abaixo os mulás” foi (ironicamente) a Liga Spartaquista, que cedo advertiu para as consequências do poder teocrático para o movimento emergente dos trabalhadores, a esquerda, as mulheres e as minorias nacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de a Workers’ Action se ter oposto à exclusão dos spartaquistas dos comícios e manifestações sobre o Irão organizadas pelo SWP e o IMG, a verdade é que não denunciámos claramente o perigo de Khomeini chegar ao poder.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Os melhores elementos do HKS, alguns deles exilados na Grã-Bretanha, divulgaram uma crítica acerca dos erros da esquerda em 1979-81 e uma análise mais clara da natureza do regime. Em 1983 alguns membros do HKS abandonaram o USFI e editaram o jornal <em>Socialism va Enghelab</em> (Socialismo e Revolução) até 1990 e a partir de 1991, enquanto Liga Socialista Revolucionária Iraniana, o <em>Kargar-e Socialist</em> (Trabalhador Socialista).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>[Fim da terceira parte]</strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Versão original (em inglês) <a title="http://www.workersliberty.org/story/2008/11/04/workers-liberty-35-iran-revolution-and-counter-revolution-1978-9" href="http://www.workersliberty.org/story/2008/11/04/workers-liberty-35-iran-revolution-and-counter-revolution-1978-9" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">aqui</a>. Tradução do Passa Palavra.</em></p>
</blockquote>
<h3 style="text-align: justify;"><em>As quatro partes do artigo são:</em></h3>
<p style="text-align: justify;"><em>(1) <a href="http://passapalavra.info/?p=28452" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Como os trabalhadores derrubaram um ditador</a><br />
(2) <a href="http://passapalavra.info/?p=28538" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Como os trabalhadores foram esmagados</a><br />
(3) O fracasso da esquerda<br />
(4) <a href="https://passapalavra.info/2010/09/29030/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Os islamistas contra as mulheres</a></em></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Irão 1978-1979 (2) : Como os trabalhadores foram esmagados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Sep 2010 09:00:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
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					<description><![CDATA[Um artigo em quatro partes de Paul Hampton, sobre a revolução iraniana de 1978-79, editado em brochura pela Alliance for Workers’ Liberty (WorkersLiberty.org). Os factos relatados permitem compreender melhor o que é o Irão dos nossos dias e também, certamente, tirar ensinamentos sobre os erros da esquerda.  Por Paul Hampton]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Paul Hampton</h3>
<p style="text-align: justify;">O Xá abandonou o Irão [Irã] em 16 de Janeiro de 1979. A multidão festejou o facto nas ruas de Teerão. O seu derradeiro primeiro-ministro, Bakhtiar, acabado de nomear em finais de 1978, durou menos de um mês. O sentimento de liberdade, deitadas fora as algemas de muitos anos de repressão, era tangível. Como disse um trabalhador da fábrica da Caterpillar: “A melhor coisa que a revolução nos deu foi a liberdade… Doravante, um homem pode falar e protestar; pode criticar; pode ler livros, pode respirar…” (Bayat). Khomeini havia já nomeado o Conselho Revolucionário Islâmico no exílio. Regressou ao Irão a 1 de Fevereiro de 1979, saudado por milhões no aeroporto. A 5 de Fevereiro designou Bazargan como primeiro-ministro provisório.</p>
<figure id="attachment_129473" aria-describedby="caption-attachment-129473" style="width: 380px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-129473 size-full" title="pp_iraosublev1979b01" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979b01.jpg" alt="" width="380" height="297" /><figcaption id="caption-attachment-129473" class="wp-caption-text">Estudantes universitários de Teerão derrubam a estátua do Xá, em Novembro de 1978.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A insurreição de 9 a 11 de Fevereiro de 1979 pôs fim ao governo de farsa de Bakhtiar. A 9 de Fevereiro os fedaiyin realizaram uma manifestação às claras para celebrar a sua primeira operação de guerrilha em 1971. A manifestação coincidiu com confrontações armadas com a Guarda Imperial. No dia seguinte, a base aérea militar de Teerão rebelou-se contra o governo, sendo por isso atacada pela Guarda Imperial do Xá. Os fedaiyin juntaram-se à defesa da força aérea. A 11 de Fevereiro a batalha ainda continuava, até que o comando supremo do exército deu ordem às tropas para regressarem aos quartéis e a Bazargan para formar governo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A auto-organização dos trabalhadores</strong></p>
<p style="text-align: justify;">À medida que ia ruindo o velho Estado, os trabalhadores iam assumindo o controlo das funções sociais básicas – sendo o mais importante a implantação das <em>shuras</em> (conselhos) nas empresas. Estas <em>shuras</em> assumiram variadas formas – só em Teerão havia cerca de mil – e proliferaram nos primeiros meses de 1979 (CARI).</p>
<p style="text-align: justify;">Escreve Maryam Poya: “Os comités de greve em todas as fábricas, instalações, escritórios, escolas, universidades e outros locais de trabalho reformularam-se e começaram a funcionar como <em>shuras</em> (conselhos): <em>shuras</em> de operários, <em>shuras</em> de estudantes, <em>shuras</em> de empregados de escritório. Nas aldeias, os camponeses instituíram as suas <em>shuras</em> de camponeses. Nas cidades, o poder transitou para organismos chamados <em>Komitehs</em> (comités). Os <em>Komitehs</em> eram sobretudo constituídos por apoiantes das organizações de guerrilha, mas também incluíam clero local e outros apoiantes fanáticos da ideia de uma República Islâmica. Nas minorias nacionais, o poder ficou nas mãos das suas <em>shuras</em> locais”.</p>
<p style="text-align: justify; margin: 20px; width: 350px; font-family: Times; float: right; font-size: 11pt; border: 4px outset black; padding: 20px;"><strong>AS MINORIAS NACIONAIS </strong><br />
Um pouco menos de metade do povo iraniano em 1979 era persa e falava persa [ou parse, ou parsi, ou farsi]. Oprimidas no regime do Xá, as minorias nacionais – curdos, azeris, árabes, baluches, qashquaias e turcomanos – participaram no movimento para derrubá-lo para avançarem com as suas exigências de autogoverno e autodeterminação.<br />
No entanto, rapidamente o regime de Khomeini se virou contra estas minorias. Em 18-21 de Março, aldeias curdas de Sanandaj foram bombardeadas por exigirem autodeterminação nacional e por confiscarem terras dos latifundiários.<br />
Em 26-29 de Março, a tropa matou a tiro camponeses turcomanos em Gonbadkavoos, também por confiscarem terras.<br />
Em 26 de Julho eclodiram confrontos entre combatentes curdos e tropas do governo, em Marivan. Em meados de Agosto, combatentes curdos e tropas do governo travaram combates na zona de Paveh. As tropas do governo mataram 400 pessoas no ataque. Khomeini ordenou a mobilização geral para esmagar a rebelião curda. O Partido Democrático Curdo foi ilegalizado. Os combates continuaram em Saqaz e Sardasht. Os combatentes curdos propuseram um cessar-fogo mas Khomeini deu ordem ao exército para esmagar a rebelião.</p>
<p style="text-align: justify;">As <em>shuras</em> de trabalhadores eram comités de fábrica, organizações de chão de fábrica cujo comité executivo representava todos os trabalhadores da fábrica ou grupo industrial. Também eram eleitos sub-comités para tarefas específicas. A sua maior preocupação era o controlo operário. Bayat explica que “as <em>shuras</em> que tinham maior êxito eram as que exerciam um controlo total e dirigiam a empresa sem qualquer controlo efectivo por parte dos gestores designados oficialmente. As suas políticas e actividades eram independentes do Estado e dos administradores nomeados e baseavam-se nos interesses dos trabalhadores das bases”. Nos casos mais exemplares – caso das fábricas Fanoos e Automóveis do Irão – existia um contacto permanente entre a <em>shura</em> e as bases. O resultado de qualquer actividade ou negociação com alguma autoridade era transmitido aos trabalhadores. Esta forma de intervenção das bases atenuou as tendências burocráticas (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">Bayat explica que, no período entre Fevereiro e Agosto de 1979, os trabalhadores “travaram uma luta independente, e por vezes abertamente contra, dos líderes [clericais] da revolução”. Sugere que as <em>shuras</em> eram embriões de sovietes ou de conselhos operários. Por exemplo na fábrica têxtil de Chite Jahan, perto de Teerão, nos primeiros meses de 1979, a <em>shura</em> organizou-se para aumentar a produção, duplicar os salários mínimos reduzindo os dos engenheiros e administradores do topo e fornecer gratuitamente leite aos operários (Poya).</p>
<p style="text-align: justify;">Na fábrica Fanoos, a constituição da <em>shura</em> deu ao comité autoridade para organizar os trabalhadores para enfrentarem a “sabotagem contra-revolucionária”, dando-lhes treino militar e “expurgando os elementos corruptos, antipopulares e parasitários fosse qual fosse o seu cargo”. Qualquer elemento, incluindo os administradores, que fosse alvo de uma acusação comparecia perante uma assembleia de massas que decidia sobre o seu destino (Bayat). Os trabalhadores lutaram para obter refeitórios, instalações desportivas, clínicas e educação na empresa. Nas empresas onde os patrões tivessem fugido, os trabalhadores tomavam conta da produção, gerindo os ritmos de trabalho, as compras de matérias-primas e a venda dos produtos.</p>
<p style="text-align: justify;">Também trataram de assumir o controlo dos seus locais de trabalho. As assembleias gerais de trabalhadores julgaram e sanearam dirigentes, capatazes e agentes da SAVAK. Por exemplo na fábrica Arj, um trabalhador explicou que “depois da revolução, os gestores começaram a implementar os mesmos padrões de exploração e opressão. Mas os nossos rapazes tinham ganho consciência suficiente para não tolerarem um tal fardo. Por isso, os rapazes correram rapidamente com esses cavalheiros” (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">Na Eadem Motor Company, em Março de 1979, a <em>shura</em> de fábrica decidiu expulsar 11 gestores depois de investigar os seus casos. Na fábrica de automóveis Pars, os trabalhadores entraram em greve porque “o patrão não tem o direito de empregar ou despedir alguém sem consultar as <em>shuras</em>” (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">Na cimenteira Fama Beton, em Teerão, depois de formarem a <em>shura</em>, os trabalhadores obrigaram o patrão a aceitar as seguintes condições: “regresso ao trabalho com pagamento dos salários em atraso e [participação nos] lucros; semana de quarenta horas; monitorização adequada das decisões do Conselho de Administração, dos contratos, dos novos recrutamentos, da determinação dos honorários e salários; e um inquérito à situação financeira da empresa” (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">Em Maio de 1979, os trabalhadores da empresa Mitusac, ameaçados com dispensa de pessoal, realizaram uma ocupação de 25 dias e uma greve de fome de 4 dias. E quando assim conseguiram salvar os seus postos de trabalho, decidiram “tomar conta da empresa e assumir o poder da sua gestão” (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">O nível da luta dos trabalhadores manteve-se elevado. O novo governo provisório calculou que 50.000 trabalhadores participaram em novas greves nos primeiros meses de 1979. Entre Fevereiro de 1979 e Fevereiro de 1980 houve 350 conflitos laborais nas indústrias (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores fizeram greves por melhores salários, conseguindo aumentos médios de 50%, e o salário mínimo mais que duplicou (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">Um trabalhador entrevistado por Bayat explicou o alto nível de consciência alcançado por muitos trabalhadores durante este processo: “Veja, a razão fundamental para se fazer a Revolução foi porque nós queríamos tornar-nos senhores de nós próprios, determinar os nossos destinos… Não queríamos a situação em que um ou muito poucos tomam as decisões no lugar de milhares. Quando nós, que somos 2.500, estamos a trabalhar dentro destas paredes, nós queremos saber o que se passa aqui; o que vamos conseguir para o futuro, em que direcção está a caminhar a empresa, que lucros obtemos, quanto podemos tirar para nós, quanto podemos contribuir para o governo, para o investimento público”.</p>
<figure id="attachment_129472" aria-describedby="caption-attachment-129472" style="width: 298px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-129472" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979b03.jpg" alt="" width="298" height="360" /><figcaption id="caption-attachment-129472" class="wp-caption-text">Título do jornal Ettela&#8217;at de 11 de Março de 1979: &#8220;A hijab (traje religioso das mulheres) não é obrigatória&#8221;, aiatola Taleqani.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Todavia, havia <em>shuras</em> que funcionavam apenas como formas de co-determinação, com dois membros no Conselho de Administração, alguns pareceres consultivos e alguma participação na gestão da firma.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas <em>shuras</em> faziam a ligação entre diferentes empresas. A União das <em>Shuras</em> Operárias de Teerão Ocidental e a União das <em>Shuras</em> Operárias de Gilan eram organismos de coordenação entre diversos comités de empresa. Os trabalhadores do petróleo e os ferroviários tinham coordenações a nível nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto alto da organização ao nível nacional foi a criação do Conselho Fundador da União Geral dos Trabalhadores do Irão que, em Março de 1979, emitiu uma declaração de 24 reivindicações (ver caixa). Os trabalhadores desempregados eram um dos sectores mais activos da classe trabalhadora. Por exemplo, os desempregados ocuparam o Ministério do Trabalho e ocuparam as instalações centrais dos antigos sindicatos oficiais controlados pela SAVAK, transformando-a na Casa dos Trabalhadores (Khaneh Kargar). Um trabalhador explicou essa atitude: “Sugiro que permaneçamos neste lugar até que este ministro dos patrões se torne um ministro dos trabalhadores. O Ministro do Trabalho tem de saber que é ministro de um governo provisório, e ele mesmo é apenas provisório, não permanente. O dever dele é dizer aos proprietários e aos gestores que, durante 25 anos, eles roubaram milhões e milhões, por isso como podem dizer agora que estão na bancarrota? Não queremos as vossas promessas, queremos acção. Não nos acusem de sermos incréus. Satisfaçam as nossas exigências e nós rezaremos 37 vezes [por dia] em vez das 17”. (Poya)</p>
<p style="text-align: justify;">O poderio deste movimento dos trabalhadores foi demonstrado no 1º de Maio de 1979, quando um milhão e meio de trabalhadores desfilaram por Teerão.</p>
<p style="text-align: justify; margin: 20px; width: 350px; font-family: Times; float: right; font-size: 11pt; border: 4px outset black; padding: 20px;"><strong>AS REIVINDICAÇÕES DA UNIÃO GERAL DOS TRABALHADORES DO IRÃO </strong><br />
“Nós, trabalhadores iranianos, por meio das nossas greves, ocupações e manifestações, derrubámos o regime do Xá e durante esses meses de greve suportámos o desemprego, a pobreza e mesmo a fome. Muitos de nós foram mortos nesta luta. Fizemos tudo isso com o objectivo de criar um Irão livre da repressão de classe, livre da exploração. Fizemos a revolução para acabar com o desemprego e a carência de habitação, para substituir os sindicatos [oficiais] regidos pela SAVAK por shuras [conselhos de fábrica] independentes – conselhos formados pelos trabalhadores de cada fábrica para tratar das suas próprias necessidades políticas e económicas”.<br />
Os trabalhadores exigiam:<br />
1. Reconhecimento das shuras pelo governo.<br />
2. Abolição da Lei do Trabalho do Xá e a adopção de uma nova lei trabalhista escrita pelos próprios trabalhadores.<br />
3. Aumentos de salários correspondentes ao aumento do custo de vida.<br />
4. Prémios livres de impostos.<br />
5. Serviço de saúde gratuito, em vez do actual sistema de saúde semi-privado.<br />
6. Apoios à habitação o mais urgentemente possível.<br />
7. Pagamento das baixas por doença.<br />
8. Semana de cinco dias e quarenta horas.<br />
9. Saneamento de todas as pessoas próximas do antigo regime.<br />
10. Expulsão de todos os peritos estrangeiros e dos capitalistas, estrangeiros ou iranianos, com expropriação dos seus capitais a favor de todos os trabalhadores.<br />
11. Fim da discriminação contra os trabalhadores de fato-macaco e um mês de férias anuais.<br />
12. Melhores condições de saúde nas fábricas.<br />
13. Pagamento das baixas por doença.<br />
14. Fim dos processos disciplinares e das multas.<br />
15. Fim das intervenções da polícia, do exército ou do governo nos conflitos laborais.<br />
16. Participação das shuras nas decisões industriais, tais como os investimentos e as condições gerais da fábrica, assim como as compras, as vendas, a definição dos preços e a distribuição dos lucros.<br />
17. Determinação das contratações e dos despedimentos pelas shuras.<br />
18. Liberdade de manifestar e protestar, e legalização das greves.<br />
19. Devolução do capital das cooperativas aos trabalhadores.<br />
20. Refeições gratuitas, condições de higiene e maior segurança no trabalho.<br />
21. Disponibilização de serviços de ambulância, ama, banho e infantário no trabalho.<br />
22. Emprego formalizado e segurança de emprego para os trabalhadores temporários.<br />
23. Criação de um corpo de médicos para avaliar o estado de saúde dos trabalhadores fracos ou doentes e atribuir-lhes a dispensa do trabalho e a reforma.<br />
24. Abaixamento da idade da reforma nas indústrias de mineração e de moldes, de 30 para 20 anos de serviço.<br />
(“Pagamento das baixas por doença” aparece duas vezes no original, segundo Poya).</p>
<p style="text-align: justify;">“Os trabalhadores desempregados também tiveram um papel decisivo nas manifestações do 1º de Maio… O Conselho Fundador da União Geral dos Trabalhadores do Irão incitou todos os trabalhadores, empregados e desempregados, a celebrarem o 1º de Maio, juntando-se ao desfile à partida da Khaneh Kargar (Casa dos Trabalhadores). Nesse dia, desempregados e desempregadas encabeçavam a marcha com os seus filhos, levantando bandeiras e faixas e congratulando-se uns aos outros pela festa do 1º de Maio. A seguir a eles, desfilavam os trabalhadores empregados. Cada fábrica ou indústria ostentava as suas faixas próprias. Os alunos e estudantes e as organizações políticas também apoiaram o desfile” (Poya).</p>
<p style="text-align: justify;">A manifestação dos trabalhadores foi gigantesca: foram precisas seis horas para um milhão e meio de participantes desfilarem nas ruas de Teerão. Estes levavam faixas em persa, em árabe, em curdo e em azeri, com palavras de ordem como “Longa vida aos sindicatos autênticos e às <em>shuras</em>”, “Liberdade de expressão, liberdade de imprensa”, “Abaixo a velha legislação do trabalho”, “Operários e camponeses, uni-vos e lutai” e “Trabalho para os desempregados”. Contudo não deixou de haver incidentes. “Por vezes, a marcha era acossada por pequenos grupos de energúmenos islamistas que gritavam <em>slogans</em> anti-comunistas e pró-islâmicos. Os manifestantes respondiam: ’Os trabalhadores vencerão, os reaccionários serão derrotados’”. (Poya)</p>
<p style="text-align: justify;">Os apoiantes de Khomeini organizaram um desfile separado que partiu da Praça Imam Hussein, em Teerão, e que só conseguiu reunir poucos milhares de manifestantes. Os Mujahedin recusaram juntar-se ao cortejo independente dos trabalhadores, e realizaram o seu próprio nas proximidades de Teerão, e congregando apenas poucos milhares de manifestantes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A reacção islamista</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A atitude de Khomeini para com os trabalhadores foi clara desde o princípio. Ele preparou tudo para o confronto, antes de atacar o movimento nascente dos trabalhadores assim que regressou.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 20 de Janeiro de 1978, Khomeini instituiu o Comité de Coordenação e Investigação das Greves (CCIS), de que faziam parte Bazargan e o futuro presidente Rafsanjani. A sua principal tarefa era “apelar à desmobilização das greves que põem em risco as principais indústrias que produzem os bens de primeira necessidade para o povo e daquelas que ameaçam a sobrevivência do país” (Bayat). Em dez dias conseguiu persuadir cerca de 100 empresas em greve a voltarem ao trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o êxito do CCIS não foi total. O Comité de Greve dos Ferroviários recusou repetidamente o regresso ao trabalho e o transporte de combustíveis para “o consumo do povo”, como lhes pediam. Segundo Bayat, “o Comité de Greve dos Petróleos aceitou o pedido do CCIS para retomar a produção para consumo doméstico, mas só depois de uma longa discussão, com negociações e garantias.</p>
<p style="text-align: justify;">“O Comité de Greve da indústria petrolífera tinha um elevado grau de independência e autoridade, e aos olhos de Khomeini e dos seus aliados era como um poder paralelo… A confrontação culminou quando, cerca de três semanas antes da insurreição e de o Xá se ir embora, o líder dos grevistas do petróleo [M. J. Khatami] se ter demitido em protesto contra ‘o clero dogmático reaccionário’ e contra ‘a nova forma de repressão sob disfarce religioso’. A sua preocupação nesse momento, conforme a carta-aberta que escreveu ‘às massas do Irão’, tinha a ver com ‘a repressão existente… e as interferências arbitrárias do Enviado Especial (de Khomeini) nas competências e responsabilidades dos membros do Comité de Greve’”.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve novas afrontas e confrontações azedas logo a seguir à insurreição [9-11 de Fevereiro], quando dirigentes grevistas dos petróleos foram presos pelo novo governo e acusados de contra-revolucionários (Bayat). O novo governo foi claro. O porta-vos de Bazargan disse: “Aqueles que imaginam que a revolução continua estão enganados. A revolução acabou. Começou o período da reconstrução”. (Bakhash) Três dias depois da insurreição, Khomeini ordenou a todos os grevistas que regressassem ao trabalho “em nome da revolução”. O governo provisório fez frente às <em>shuras</em> e instituiu uma força especial de inspectores contratados dentro das empresas para informar sobre as suas actividades. Em vez delas, o governo defendia a existência de sindicatos oficiais. (Bayat)</p>
<figure id="attachment_129471" aria-describedby="caption-attachment-129471" style="width: 300px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-129471 size-full" title="khomeini_bazargan" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/khomeini_bazargan.jpg" alt="" width="300" height="220" /><figcaption id="caption-attachment-129471" class="wp-caption-text">Logo que voltou do exílio, Khomeini nomeou Bazargan chefe do governo provisório.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Em 18 de Fevereiro foi formado o Partido da República Islâmica para encabeçar os apoiantes de Khomeini na política oficial. Os milicianos e outras tropas de choque como os Hezbollahi (o Partido de Allah) foram organizados para atacar os oponentes nas ruas e nas empresas. Discursando em Qom a 1 de Março de 1979, Khomeini disse: “A democracia é um outro nome para a usurpação da autoridade de Deus para governar”. (Dilip Hiro, <em>Iran under the Ayatollahs</em>). E acrescentou: “O que o país quer é uma república islâmica; não apenas uma república, não uma república democrática, não uma república democrática islâmica. Não usem o termo ‘democrática’. É coisa dos Ocidentais.” (Bahkash)</p>
<p style="text-align: justify;">Em Março de 1979 Khomeini recorreu às ameaças: “Qualquer desobediência ou sabotagem da prossecução dos planos do governo provisório será considerada como uma oposição à genuína Revolução Islâmica. Os provocadores e agentes serão mostrados ao povo como elementos contra-revolucionários, para que o povo decida o que fazer com eles, como decidiu em relação ao regime contra-revolucionário do Xá” (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">Em 31 de Março o ministro do Trabalho anunciou que o governo era “a favor dos sindicatos oficiais e está convicto de que os trabalhadores só podem defender os seus interesses com um sindicalismo saudável; por isso o ministério irá apoiar esse tipo de organizações e tem a intenção de dissolver quaisquer outras formas dispensáveis de organização”. (Poya)</p>
<p style="text-align: justify;">O governo começou a interferir nos locais de trabalho, nomeando representantes seus como gestores e tentando minimizar o papel das <em>shuras</em>. Encorajou grupos de apoiantes a estabelecer comunidades islâmicas nas empresas, para promover religião e os comportamentos islâmicos no que diz respeito ao trabalho e à propriedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos trabalhadores não aceitaram isso. Um trabalhador da Roghan Pars, subsidiária da Shell, explicou-o bem em Março de 1979: “A revolução foi vitoriosa devido à greve dos trabalhadores. Livrámo-nos do Xá e esmagámos o seu sistema, mas agora está tudo na mesma. Os gestores nomeados pelo Estado têm a mesma mentalidade dos gestores de outrora. Temos de reforçar as nossas <em>shuras</em> porque os gestores têm medo delas. Sabem que, se as <em>shuras</em> continuarem a ser poderosas, eles estão feitos. Não podem impor-nos directamente as suas políticas contra os trabalhadores; mas agora estão contra as <em>shuras</em> com base nas crenças religiosas. Se nós dizemos alguma coisa, a resposta deles é ‘Isso é subversão comunista para enfraquecer as tuas crenças religiosas’. Gostava de saber o que é que as <em>shuras</em> têm a ver com a religião! Os trabalhadores são explorados na mesma: muçulmanos, cristãos ou de outra religião qualquer. O sacana do gestor que anda a sugar o nosso sangue de repente tornou-se um bom muçulmano e tenta dividir-nos com base na religião de cada um; por isso já devíamos saber que a única forma de vencermos é mantermos a nossa unidade através das <em>shuras</em>”. (Poya)</p>
<p style="text-align: justify;">Um outro disse-o aos gritos: “Se eles não reconhecem os direitos das nossas <em>shuras</em>, haverá ocupações e sabotagens. Se eles ilegalizarem a <em>shura</em>, os trabalhadores nunca os deixarão entrar nas fábricas. Se dissolverem a <em>shura</em>, será a vez de eles se irem embora também”. (Poya)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os alicerces do Estado islâmico</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O governo provisório acelerou o projecto de uma constituição islâmica. Em 30-31 de Março organizaram um referendo com a pergunta: Sim ou não a uma República Islâmica. Os boletins de voto eram vermelhos para o Não e verdes para o Sim. Os membros dos Komitehs locais entregavam aos votantes o boletim que eles preferiam e carimbavam-lhes o bilhete de identidade. (Hiro)</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-129470 size-full" title="pp_iraosublev1979b02" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/pp_iraosublev1979b02.jpg" alt="" width="246" height="430" />O governo também recorreu à repressão ostensiva. Em 10 de Abril de 1979 uma manifestação de trabalhadores desempregados em Isfahan foi atacada por milícias de Khomeini e um trabalhador foi morto.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Maio de 1979 o governo adoptou a Lei das Forças Especiais para impedir as <em>shuras</em> de intervirem “nas questões de gestão e de salários” dos gestores nomeados pelo governo. (Bayat)</p>
<p style="text-align: justify;">Em 6 de Maio, Khomeini ordenou a criação dos Guardas Revolucionários Islâmicos (os Pasdaran), que foram formalmente fundados em 16 de Junho. (Hiro)</p>
<p style="text-align: justify;">O regime nacionalizou 483 fábricas, 14 bancos privados e todas as companhias seguradoras em Junho de 1979 (Bayat). Assumiu o controlo de 70% do sector privado, pagando indemnizações aos capitalistas estrangeiros e iranianos. Agiram assim, na realidade, porque os trabalhadores de muitas fábricas já tinham na prática expulso os patrões e o regime queria recuperar o controlo pela imposição dos seus próprios gestores.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a Fundação Islâmica Mustazafin apropriou-se dos bens da Fundação Pahlavi, da família do Xá, que incluía 20% dos activos de todas as empresas privadas. Foram nomeados gestores do Estado para imporem as medidas do governo.</p>
<p style="text-align: justify;">O regime também se serviu da sabotagem económica para sapar as fábricas que tinham <em>shuras</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">As transacções com a <em>shura</em> da fábrica Plant foram proibidas pelo Estado e pelos comerciantes do bazar, com o pretexto de que os membros da <em>shura</em> eram comunistas. Na fábrica Orkideh Chinese o Estado cortou as importações de matéria-prima da Alemanha Ocidental quando os trabalhadores assumiram o controlo da fábrica. Cortaram o crédito a duas fábricas da indústria de lanifícios, em Naz-Nakh e Isfahan, com o intuito de desmantelar as <em>shuras</em>. (Bayat)</p>
<p style="text-align: justify;">Em 22 de Junho, uma manifestação na Universidade de Teerão para exigir uma assembleia eleita pelo povo foi destroçada pelos Hezbollahi. O governo decidiu que o projecto da nova constituição seria elaborado por uma Assembleia de Especialistas. A nova constituição, aprovada em referendo em Dezembro de 1979, continha artigos que visavam restringir as <em>shuras</em>. Por exemplo o artigo 105 dizia que “as decisões tomadas pelas <em>shuras</em> não podem ir contra os princípios islâmicos nem contra as leis do país” (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">Durante o ramadão, em 25 de Julho de 1979, Khomeini anunciou a proibição da música na rádio e na televisão, comparando-a com o ópio. (Hiro 1985, p.127)</p>
<p style="text-align: justify;">Em 7 de Agosto de 1979 o governo pôs em prática uma lei de imprensa adoptada há dois meses, com os Pasdaran [guardas islâmicos] a ocuparem os escritórios do diário liberal <em>Ayandegan</em>. Mais tarde nesse mesmo mês, o governo proibiu 41 jornais da oposição e apropriou-se de duas grandes editoras. Isso constituiu um duro golpe para a esquerda, cujos jornais faziam circular cerca de um milhão de exemplares. (CARI)</p>
<p style="text-align: justify;">Em Agosto, Khomeini criou a Cruzada da Reconstrução, para consertar estradas e edifícios do Estado. Trabalhadores da General Motors, da Caterpillar e da Iran National eram mandados embora com o pretexto da falta de componentes nas suas fábricas. As greves e as ocupações foram declaradas ilegais, como “subversão comunista”.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira vaga ampla de repressão aberta contra as <em>shuras</em> foi lançada em Agosto. Segundo Bayat, “muitos activistas independentes das <em>shuras</em> foram presos, e boa parte deles foram executados”.</p>
<p style="text-align: justify;">As forças de Khomeini também atacaram as esquerdas. Em 12 de Agosto, uma manifestação convocada pela Frente Nacional, pelos Fedaiyin e pelos Mujahedin foi atacada pelos Hezbollahi e os Pasdaran. No dia seguinte as sedes dos Fedaiyin e dos Mujahedin foram cercadas pelas forças de Khomeini.</p>
<p style="text-align: justify;">Khomeini definiu-se claramente num discurso de 19 de Agosto em Qom: “Nós cometemos um erro. Se tivéssemos proibido todos esses partidos e frentes, quebrado todas as suas canetas, colocado forcas nas principais praças e dado cabo dessa gente corrupta e desses subversivos, não estaríamos agora com estes problemas”. (“Why Khomeini wants gallows in the streets”, <em>Workers’ Action</em> nº 150, 25 de Agosto de 1979)</p>
<p style="text-align: justify;">Em Outubro de 1979 a Khaneh Kargar (Casa dos Trabalhadores) foi ocupada pelo Komiteh local – não sem que os desempregados a recuperassem por duas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo também usou Associações Islâmicas e “<em>shuras</em> islâmicas” para minar a organização independente nas empresas.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi neste contexto que aconteceu a ocupação da embaixada dos EUA, em 4 de Novembro de 1979. Segundo a Campanha contra a Repressão no Irão (CARI), [a ocupação] “foi planeada e organizada pelo partido do poder (PRI) e o seu objectivo central foi desviar o movimento de massas” usando “uma demagogia anti-imperialista vazia”.</p>
<figure id="attachment_129469" aria-describedby="caption-attachment-129469" style="width: 373px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-129469 size-full" title="06_iran_iraq_war" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/09/06_iran_iraq_war.jpg" alt="" width="373" height="432" /><figcaption id="caption-attachment-129469" class="wp-caption-text">O Iraque ataca o Irão: combatentes voluntários iranianos nas frentes do sul, nos primeiros dias da guerra.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">No começo de 1980, foram fechadas muitas <em>shuras</em> de fábrica, inclusive nos petróleos, nos caminhos de ferro e na metalurgia. Em Agosto de 1980 o governo aboliu a partilha dos lucros e adoptou uma lei que remetia as <em>shuras</em> a um mero papel consultivo. Os trabalhadores continuaram a resistir. Um trabalhador disse ao jornal <em>Keyhan</em>: “Esta lei visa enfraquecer a força dos trabalhadores; de facto, trata-se de um reconhecimento dos sindicatos estaduais que apenas preserva os direitos dos capitalistas. As <em>shuras</em> são a base da nossa força nas fábricas. Agora está claro que, enquanto forem os capitalistas a mandar nas fábricas, eles vão continuar a enfraquecer-nos” (Poya).</p>
<p style="text-align: justify;">A Khaneh Kargar tornou-se a sede das Associações Islâmicas e das “<em>shuras</em> islâmicas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Estas Associações Islâmicas tinham a seguinte função: doutrinar os trabalhadores com a ideologia do poder; policiar os locais de trabalho; mobilizar os trabalhadores em apoio do regime. Segundo Bayat, eram vistas pelos trabalhadores como “os novos agentes da SAVAK que, em vez de gravatas, usavam barbas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o Iraque atacou o Irão no fim de Setembro de 1980, o resultado foi “uma vaga de chauvinismo histérico que rapidamente inundou o país, incluindo a classe trabalhadora e a maior parte da esquerda”. O outro efeito importante foi a militarização da sociedade, com um exército regular renovado, o número dos Pasdaran triplicado e novas organizações como os corpos Basij. Até as Associações Islâmicas foram armadas. (CARI, <em>The Iranian Workers’ Movement</em>)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os trabalhadores continuam a resistir</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ainda em 1981 os trabalhadores militantes continuavam a desafiar as imposições do governo. Bayat conta um incidente que testemunhou. “Na fábrica gerida pelo Estado Iran Cars, ocorreu uma grave confrontação por a <em>shura</em> ter levantado fundos do departamento financeiro para pagar aos trabalhadores o seu prémio anual em Março de 1981. Alguns dos membros da <em>shura</em> foram presos como reacção do Estado a essa iniciativa. Os trabalhadores retiraram as suas exigências para conseguirem a libertação dos membros da <em>shura</em> presos. No dia em que eu visitei a fábrica, os representantes do Imam (Khomeini) e do Procurador-Geral apareceram na fábrica para resolver o conflito que continuava. Depois de uma azeda discussão entre os trabalhadores e esses representantes, um trabalhador azeri levantou-se e declarou ‘Tal como derrubámos o regime do Xá, também podemos derrubar qualquer outro regime’. Nesse momento os operários começaram a aplaudir.” Mas em Junho de 1981 os últimos vestígios da independência das <em>shuras</em> tinham sido apagados. Na fábrica Iran Cars, “os Pasdaran armados irromperam na fábrica e começaram a prender membros da <em>shura</em> e outros activistas segundo uma lista negra preparada pela Associação Islâmica”. (Bayat)</p>
<p style="text-align: justify;">O número de conflitos nas indústrias caiu de 180 em 1980-81 para 82 em 1981-82. Os trabalhadores da indústria petrolífera, que haviam conseguido a semana de 40 horas com a sua luta, perderam-na quando o Conselho da Revolução decretou a semana de 44 horas.</p>
<p style="text-align: justify;">Baseada numa citação de Maomé segundo a qual “o trabalho é como uma <em>jihad</em> [um combate] ao serviço de Deus”, o regime usou uma concepção instrumentalista do trabalho para aumentar a produtividade. Visava assim impor uma comunidade islâmica “sem classes” por sobre as relações trabalho-capital. Para o efeito até a linguagem mudou: a palavra <em>kargar</em> (trabalhador) foi substituída por <em>karpazir</em> (aquele que quer trabalhar).</p>
<p style="text-align: justify;">Como descreve Bayat: “Relativamente aos trabalhadores, a islamização do trabalho ia de par com a islamização (melhor dizendo, a arregimentação) dos lazeres. A fábrica é entendida como uma barricada contra os <em>koffar</em> (infiéis), onde os <em>agirs</em> (os que labutam) têm de escutar os sermões religiosos e também cumprir ‘o dever divino de produzir’. Em consequência, foi destacado um número massivo de mulás de fábrica, o que foi uma transformação religiosa do ambiente das fábricas, com a afixação e pintura de grandes murais, cartazes e palavras de ordem nas paredes e a difusão sonora, aos gritos, dos discursos oficiais durante os intervalos e as refeições, etc.”.</p>
<p style="text-align: justify;">A subordinação dos trabalhadores foi sintetizada pelo responsável da Justiça em Março de 1983: nas fábricas, “os gestores são o cérebro, as Associações Islâmicas são os olhos, e o resto são as mãos” (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto a resistência, passiva e activa, continuou. Em 1984-85 foram registados cerca de 200 conflitos na indústria. Bayat conta, acerca de alguns dos mais significativos:</p>
<p style="text-align: justify;">“Numa fábrica metalúrgica de Teerão, assisti a uma oração de massas na mesquita da fábrica. De um total de 700 trabalhadores, menos de 20, quase todos velhos, assistiam ao acto. O resto dos trabalhadores estavam a jogar futebol no pátio da fábrica, ou a conversar. Daí em diante (Primavera de 1981), a participação das orações de massas passou a ser obrigatória nas fábricas e nos escritórios. Numa outra fábrica, um jovem gestor explicou que eram os próprios trabalhadores que pediam sermões religiosos, mas não participavam. Ao contrário, vi eu, sentavam-se ao sol a conversar”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[Fim da segunda parte]</strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Versão original (em inglês) <a class="urlextern" title="http://www.workersliberty.org/story/2008/11/04/workers-liberty-35-iran-revolution-and-counter-revolution-1978-9" href="http://www.workersliberty.org/story/2008/11/04/workers-liberty-35-iran-revolution-and-counter-revolution-1978-9" rel="nofollow">aqui</a>. Tradução do Passa Palavra.</em></p>
</blockquote>
<h3 style="text-align: justify;"><em>As quatro partes do artigo são:</em></h3>
<p style="text-align: justify;"><em>(1) <a href="http://passapalavra.info/?p=28452" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Como os trabalhadores derrubaram um ditador</a><br />
(2) Como os trabalhadores foram esmagados<br />
(3) <a href="https://passapalavra.info/2010/09/28811/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">O fracasso da esquerda</a><br />
(4)<a href="https://passapalavra.info/2010/09/29030/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"> Os islamistas contra as mulheres</a><br />
</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Irão 1978-1979</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Aug 2010 00:37:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[Um artigo em quatro partes de Paul Hampton, sobre a revolução iraniana de 1978-79, editado em brochura pela Alliance for Workers’ Liberty (WorkersLiberty.org). Os factos relatados permitem compreender melhor o que é o Irão dos nossos dias e também, certamente, tirar ensinamentos sobre os erros da esquerda. Por Paul Hampton]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"> Por Paul Hampton</h3>
<h4><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-129452" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a05-70x70-1.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="/2010/08/28452" target="_blank" rel="noopener noreferrer">1) Como os trabalhadores derrubaram um ditador</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>A meio do Verão a situação tinha mudado drasticamente; o número de greves aumentou rapidamente à medida que a crise económica se agravava, os salários reais caíam e o número de desempregados crescia. Quando a campanha do regime contra os altos salários e a baixa produtividade começou a fazer efeito, a classe trabalhadora entrou na arena da luta.</em></p>
<h4><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-129451" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979b02-70x70-1.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="/2010/09/28538" target="_blank" rel="noopener noreferrer">2) Como os trabalhadores foram esmagados</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>O governo começou a interferir nos locais de trabalho, nomeando representantes seus como gestores e tentando minimizar o papel das shuras. Encorajou grupos de apoiantes a estabelecer comunidades islâmicas nas empresas, para promover religião e os comportamentos islâmicos no que diz respeito ao trabalho e à propriedade.</em></p>
<h4><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-129450" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/f_irao31-70x70-1.png" alt="" width="70" height="70" /><a href="/2010/09/28811" target="_blank" rel="noopener noreferrer">3) O fracasso da esquerda</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>A classe trabalhadora iraniana foi a força social decisiva que derrubou o Xá em 1978-79. Mas os trabalhadores não avançaram com a construção do seu próprio Estado, acabando por ficar submetidos ao poder de um regime não menos repressivo que o do Xá.</em></p>
<h4><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-129448" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979d2-70x70-1.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="/2010/09/29030" target="_blank" rel="noopener noreferrer">4) Os islamistas contra as mulheres</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>O derrube do Xá foi uma festa para os oprimidos. Mulheres, homossexuais mulheres e homens e minorias nacionais participaram na revolução, acreditando que um novo regime traria a democracia e a liberdade. Mas foram sobretudo a opressão das mulheres e a liquidação do emergente movimento das mulheres que revelaram o carácter reaccionário do regime de Khomeini.</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Irão 1978-1979 (1) : Como os trabalhadores derrubaram um ditador</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2010 10:08:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
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					<description><![CDATA[Um artigo em quatro partes de Paul Hampton, sobre a revolução iraniana de 1978-79, editado em brochura pela Alliance for Workers’ Liberty (WorkersLiberty.org). Os factos relatados permitem compreender melhor o que é o Irão dos nossos dias e também, certamente, tirar ensinamentos sobre os erros da esquerda.  Por Paul Hampton]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"> Por Paul Hampton</h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>A revolução iraniana de 1978-79 foi um dos acontecimentos mais importantes do séc. XX, rico de ensinamentos para os trabalhadores socialistas. É uma história de luta de classes, de emancipação das mulheres e de despertar de minorias nacionais. Os trabalhadores iranianos foram a força decisiva que esteve por trás do derrube do odiado regime de Mohammed Reza Shah. Todavia este movimento foi esmagado pela teocracia que tomou o lugar da monarquia. O Estado islâmico dirigido pelos sacerdotes foi uma catástrofe para os trabalhadores, para as mulheres e para os oprimidos em geral. Os acontecimentos tiveram enormes repercussões em toda a política do Médio-Oriente e do mundo. Paul Hampton conta a história neste artigo em quatro partes.</em> <strong>WorkersLiberty.org</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-129465 size-full" title="pp_iraosublev1979adest" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979adest-300x203-1.jpg" alt="" width="300" height="203" /></em>O Xá Mohammed Reza tornou-se senhor do Irão [Irã] depois de o seu pai (o Xá Reza, que fundou a dinastia Pahlavi em 1921) ter sido forçado a abdicar pelos Aliados em 1941. Depois também ele foi marginalizado, em 1952, pelos nacionalistas liderados por Mossadeg. Em 1953, com o apoio da CIA, a ditadura do Xá foi restaurada por um golpe militar.</p>
<p style="text-align: justify;">Apoiado nas reservas de petróleo e na repressão, o Xá deu algumas ajudas do Estado ao desenvolvimento industrial e à reforma agrícola, com consequências económicas rápidas e importantes. Entre 1950 e 1978, segundo números da OCDE, o PIB aumentou nove vezes enquanto o PIB per capita quadruplicava.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1962 os trabalhadores industriais representavam apenas cerca de 20% da força de trabalho total. Em 1977, 33% da força de trabalho estava na indústria. Em 1977, cerca de 50% da população economicamente activa (isto é, quase 9 milhões) eram trabalhadores assalariados. A maior parte era assalariada em actividades industriais (2,38 milhões), como as manufacturas, a mineração, a construção, os bens de consumo, os transportes e as comunicações. No entanto muitos trabalhadores eram migrantes que ainda mantinham fortes laços rurais (Bayat, <em>Workers and Revolution in Iran</em>). Como explicou o historiador Ervand Abrahamian: “O Xá Reza deu azo ao surgimento de uma classe trabalhadora moderna; o Xá Muhammad alimentou o seu crescimento para fazer dela a maior classe do Irão contemporâneo” (in <em>Iran between two revolutions</em>).</p>
<figure id="attachment_28460" aria-describedby="caption-attachment-28460" style="width: 300px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28460 size-full" title="pp_iraosublev1979a02" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a02.jpg" alt="" width="300" height="361" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a02.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a02-249x300.jpg 249w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /><figcaption id="caption-attachment-28460" class="wp-caption-text">O Xá Reza e a rainha recebem a corte.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Este período de rápido desenvolvimento do capitalismo (conhecido como a “Revolução Branca”) teve outros efeitos. O governo do Xá foi marcado pelos métodos selvagens da SAVAK – a polícia secreta – em que se generalizaram as torturas e os assassinatos encomendados pelo Estado. Tanto a oposição, como o parlamento burguês e os sindicatos foram proibidos; só era legal o partido do Xá, Partido do Ressurgimento Nacional. As políticas do Xá levaram os camponeses a deixarem as suas terras pelos bairros de lata [favelas] das cidades, esmagaram o comércio da classe média e desafiaram o bem implantado clero.</p>
<p style="text-align: justify;">O golpe de 1953 pôs termo ao processo de sindicalização e uma lei trabalhista de 1959 interditava a auto-organização dos trabalhadores. O Xá também criou sindicatos oficiais dirigidos pela SAVAK. Segundo Assef Bayat, quando o Estado criou a Organização dos Trabalhadores Iranianos, em 1976, havia 845 sindicatos oficiais e 20 sindicatos livres com 3 milhões de filiados.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meados dos anos 1970, a seguir a um breve aumento dos preços do petróleo, a economia começou a vacilar. Gente de todas as classes começou a desafiar o Xá e tornou-se claro que o seu poder estava ameaçado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A oposição</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O Xá foi incapaz de criar uma base social adequada de apoio ao seu regime. De facto teve contra ele uma série de opositores. Em primeiro lugar a classe trabalhadora, da qual um terço estava concentrada em grandes fábricas e nas maiores cidades, em particular Teerão. Mas os trabalhadores estavam politicamente atomizados, sem representação independente, e só se conseguiam organizar clandestinamente em empresas isoladas.</p>
<figure id="attachment_28461" aria-describedby="caption-attachment-28461" style="width: 413px" class="wp-caption alignright"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a01.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28461 " title="pp_iraosublev1979a01" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a01.jpg" alt="Soldados com máscara de gás confrontam-se com estudantes revoltosos nos portões da Universidade de Teerão (1978)." width="413" height="153" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a01.jpg 574w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a01-300x111.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 413px) 100vw, 413px" /></a><figcaption id="caption-attachment-28461" class="wp-caption-text">Soldados com máscara de gás confrontam-se com estudantes revoltosos nos portões da Universidade de Teerão (1978).</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Em segundo lugar as minorias nacionais. Curdos, azeris, árabes, baluches, cashquaias e turcomanos constituíam pelo menos um terço da população do Irão e viviam sobretudo nos campos. Eram regularmente reprimidos pelo regime e era-lhes negado qualquer direito nacional, linguístico ou cultural. Houve uma rebelião armada no Curdistão iraniano entre 1967 e 1969.</p>
<p style="text-align: justify;">Em terceiro lugar, a minoria de muçulmanos sunitas, assim como os judeus, os zoroastrianos e os bahais, que foram alvo de perseguições religiosas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em quarto lugar, houve também sectores da burguesia, estudantes e intelectuais da classe média que se opuseram ao regime. Uns eram membros da Frente Nacional, o partido de Mossadeg. Outros eram membros do Movimento de Libertação do Irão, fundado em 1961.</p>
<p style="text-align: justify;">Outros ainda tomaram parte nos movimentos esquerdistas de guerrilha, a partir dos anos 1960. Destes, o grupo mais notável era a Organização das Guerrilhas Fedaiyin do Povo Iraniano, conhecidos como “os <em>fedaiyins</em>”, resultado da fusão de anteriores organizações de guerrilha, e que começou a fazer ataques militares contra instalações e contra personalidades do regime em 1971.</p>
<p style="text-align: justify;">A Organização Popular Iraniana Mujahedin (Marxista-Leninista), conhecida como “os <em>mujahedins</em> marxistas”, nasceu de uma organização muçulmana com o mesmo nome. O Partido Tudeh (Comunista) tinha pouca presença organizada no Irão durante a maior parte dos anos 1970, aparentemente só com um ramo organizado a funcionar antes de 1979 (Maziar Behrooz, <em>Rebels with a cause</em>).</p>
<figure id="attachment_28468" aria-describedby="caption-attachment-28468" style="width: 401px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a04.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28468" title="pp_iraosublev1979a04" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a04.jpg" alt="Socorrendo um manifestante ferido, Outono de 1978." width="401" height="269" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a04.jpg 401w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a04-300x201.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 401px) 100vw, 401px" /></a><figcaption id="caption-attachment-28468" class="wp-caption-text">Socorrendo um manifestante ferido, Outono de 1978.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Todas estas organizações eram fortemente influenciadas pelo estalinismo, seja por certos Estados como a Rússia, a China e a Albânia, seja pelas suas teorias da revolução em dois estádios [estágios], dependência, “anti-imperialismo”, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, o grupo mais visível de oposição ao Xá eram os mulás [líderes e eruditos religiosos] e o bazar [comerciantes dos mercados]. Tanto os religiosos como o bazar tinham sido prejudicados com o desenvolvimento capitalista. A reforma agrícola do Xá reduziu os rendimentos das mesquitas e as reformas educativas enfraqueceram a sua influência nas escolas.</p>
<p style="text-align: justify;">A figura proeminente e força motora dos mulás era o aiatola Khomeini. Expatriado pelo Xá em 1963, Khomeini passou a maior parte dos 15 anos seguintes em Najaf (Iraque) onde desenvolveu as suas ideias de um regime teocrático. Foram as suas hostes que conduziram o processo de derrube do Xá e por fim foi ele que o substituiu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O derrube do Xá</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A maior parte dos relatos do derrube do Xá enfatizam o papel dos intelectuais e do clero na corrosão do seu regime. Mas a força social que transformou a oposição deles numa ameaça real foi a classe trabalhadora iraniana.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Junho de 1977 a polícia foi enviada para arrasar favelas [bairros de lata] no sul de Teerão. Milhares de pobres urbanos confrontaram-se com a polícia durante semanas, recusando-se a deixá-los executar a destruição. Em 27 de Agosto de 1977, 50.000 manifestantes varreram os bulldozers e a polícia das suas ruas, forçando o regime a desistir do plano. Desde 1950, este foi o primeiro protesto de massas contra o Xá que saiu vitorioso e que mostrou que o regime podia ser derrotado.</p>
<figure id="attachment_28474" aria-describedby="caption-attachment-28474" style="width: 380px" class="wp-caption alignright"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a03.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28474 " title="pp_iraosublev1979a03" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a03.jpg" alt="Manifestação contra o Xá em Teerão, com a tropa por perto para controlar a multidão, 1978." width="380" height="257" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a03.jpg 380w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a03-300x202.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 380px) 100vw, 380px" /></a><figcaption id="caption-attachment-28474" class="wp-caption-text">Manifestação contra o Xá em Teerão, com a tropa por perto para controlar a multidão, 1978.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Depois de anos de paz [social] na indústria, os trabalhadores das fábricas modernas começaram a exprimir as suas reivindicações. Em Julho de 1977, trabalhadores pegaram fogo à fábrica da General Motors em Teerão. Durante os três meses seguintes houve mais de 100 incêndios nessa que era uma das maiores empresas do país.</p>
<p style="text-align: justify;">A oposição intelectual e religiosa tornou-se mais reivindicativa. Em Novembro de 1977, escritores, advogados e poetas começaram a fazer leituras públicas. No mês seguinte a oposição religiosa começou a crescer. Começou com um apelo do aiatola Khomeini ao derrube do Xá em Dezembro de 1977.</p>
<p style="text-align: justify;">Khomeini conseguiu criar uma rede de sacerdotes dentro do Irão para manter viva a sua mensagem – por exemplo através de cassetes gravadas e espalhados pelo país. E, com consequências futuras, desenvolveu as suas ideias quanto ao tipo de Estado que queria para substituir o Xá.</p>
<p style="text-align: justify;">As manifestações religiosas começaram na cidade santa de Qom em Dezembro de 1977. Foram mortos manifestantes e Khomeini apelou a um luto de 40 dias, ao qual se seguiria uma nova manifestação, e assim se desencadeou um ciclo de protestos em que cada repressão se tornava motivo para manifestar de novo. Estes protestos de inspiração religiosa, que mobilizavam a pequena burguesia do bazar e o lumpenproletariado, prosseguiu pela Primavera e Verão de 1978.</p>
<p style="text-align: justify;">Como refere Ramy Nima, “os motins de Outubro de 1977 até Junho de 1978 raramente tinham a participação da classe trabalhadora industrial, dos pobres das cidades ou dos recém-recrutados trabalhadores ‘migrantes’; e apenas sete greves importantes são mencionadas durante este período” (in <em>The Wrath of Allah</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A classe trabalhadora industrial movimenta-se</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Foi então que a classe trabalhadora industrial se impôs – se bem que mais motivada pelos seus interesses económicos próprios do que por objectivos políticos e sociais mais gerais.</p>
<figure id="attachment_28476" aria-describedby="caption-attachment-28476" style="width: 380px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a05.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28476" title="pp_iraosublev1979a05" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a05.jpg" alt="Os trabalhadores do petróleo entraram em greve nos finais de 1978." width="380" height="225" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a05.jpg 380w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a05-300x177.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 380px) 100vw, 380px" /></a><figcaption id="caption-attachment-28476" class="wp-caption-text">Os trabalhadores do petróleo entraram em greve nos finais de 1978.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Em Março de 1978 os trabalhadores da fábrica Azmayesh, em Teerão, entraram em greve contra os despedimentos [demissões]. Nesse mesmo mês, seiscentos jardineiros empregados na indústria petrolífera pararam o trabalho exigindo aumento de salário. Em Abril, 2.000 trabalhadores da indústria de tijolos de Tabriz vieram para a rua (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">Como refere Nima: “A meio do Verão a situação tinha mudado drasticamente; o número de greves aumentou rapidamente à medida que a crise económica se agravava, os salários reais caíam e o número de desempregados crescia. Quando a campanha do regime contra os altos salários e a baixa produtividade começou a fazer efeito, a classe trabalhadora entrou na arena da luta.</p>
<p style="text-align: justify;">“A primeira onda de greves, em Junho de 1978, ainda se limitava a reivindicações económicas, em particular os prémios, as horas extraordinárias e os salários… Os trabalhadores da água e algumas unidades industriais de Teerão também pararam o trabalho. Entre Julho e Setembro, as greves multiplicaram-se. Em Abadan, no princípio de Julho, 600 trabalhadores do saneamento entraram em greve, exigindo 20% de aumentos salariais, prémios anuais e um sistema de seguro de saúde. Nos finais desse mês, cerca de 1.500 operários têxteis de Behshar fizeram greve por salários; questionavam o papel e a natureza dos sindicatos oficiais do Estado e exigiam eleições livres para os delegados sindicais.</p>
<p style="text-align: justify;">“Em Agosto ocorreu um grande número de greves em Tabriz, a mais importante das quais foi a dos cerca de 2.000 trabalhadores da principal fábrica de máquinas-ferramenta. Os grevistas foram para a rua durante duas semanas exigindo salários mais altos, prémios anuais, assim como melhor habitação e condições sociais. Em Setembro, os trabalhadores desencadearam várias grandes greves em Teerão, nas províncias de Fars e Khuzestan, em especial na cidade de Ahwaz; fábricas de montagem de automóveis, fábricas de máquinas-ferramenta, fábricas de papel, todas se tornaram cenário de lutas.”</p>
<p style="text-align: justify;">As mobilizações religiosas e as lutas nas indústrias começaram a abalar o regime. A resposta do Xá foi aumentar a repressão. Declarou a lei marcial e deu ordens às tropas para atacarem a manifestação de 8 de Setembro de 1978, conhecida como “Sexta-feira Negra”, em que milhares de manifestantes foram mortos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A classe trabalhadora intervém politicamente</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A resposta dos trabalhadores foi passar à acção na indústria, não só pelos seus interesses imediatos mas também com reivindicações sociais e políticas. Nima, mais uma vez, descreve os acontecimentos com bastante realismo:</p>
<figure id="attachment_28479" aria-describedby="caption-attachment-28479" style="width: 395px" class="wp-caption alignright"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a06.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28479" title="pp_iraosublev1979a06" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a06.jpg" alt="Numa parede em Teerão, 1978: &quot;Os reis são a desgraça da história. Tu és o mais desgraçado dos reis. Morte ao imperialismo&quot;." width="395" height="246" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a06.jpg 395w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a06-300x186.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 395px) 100vw, 395px" /></a><figcaption id="caption-attachment-28479" class="wp-caption-text">Numa parede em Teerão, 1978: &#8220;Os reis são a desgraça da história. Tu és o mais desgraçado dos reis. Morte ao imperialismo&#8221;.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">“[Em 9 de Setembro] cerca de 700 trabalhadores da refinaria de petróleo de Teerão entraram em greve, não como anteriormente, só por melhores salários, mas em protesto contra a imposição da lei marcial e o massacre da Praça Jaleh. Dois dias depois, a 11 de Setembro, a greve estendia-se às refinarias de Isfahan, Abadab, Tabriz e Shiraz. A 12 de Setembro, 4.000 tipógrafos e outro pessoal dos dois maiores jornais de Teerão saíram à rua protestando contra a renovação da censura ordenada pelo general Oveissi, governador militar. Em 13 de Setembro, trabalhadores das cimenteiras de Teerão entraram em greve exigindo melhores salários, liberdade para todos os presos políticos e o fim da lei marcial. A onda de greves chegou à maior parte das vilas e cidades: trabalhadores do cimento em Behbahan, motoristas de autocarros [ônibus] em Kermanshah, trabalhadores da fábrica de tabacos de Gorgan, professores, bancários, e até trabalhadores de alguns hotéis de luxo (incluindo, por exemplo, o Teheran Hilton).”</p>
<p style="text-align: justify;">Assef Bayat, autor do livro mais detalhado em inglês acerca do papel dos trabalhadores no Irão durante este período, escreveu que, “segundo os dados disponíveis, nas greves registadas (menos do que as realmente acontecidas) pelo menos cerca de 35.000 trabalhadores de diferentes fábricas pararam o trabalho em Setembro, avançando com reivindicações económicas e políticas, organizando manifestações e publicando resoluções”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas em Outubro a situação alterou-se. Diz Bayat: “Quando 40.000 operários do petróleo, 40.000 operários metalúrgicos e 30.000 trabalhadores dos caminhos de ferro pousaram as ferramentas no espaço de três semanas, o dinamismo do processo revolucionário mudou drasticamente”.</p>
<p style="text-align: justify;">Bayat cita notícias da altura do jornal liberal <em>Ayandegan</em>:</p>
<p style="text-align: justify;">“Só no dia 6 de Outubro, entraram em greve os trabalhadores dos caminhos de ferro de Zahedan, mais 40.000 trabalhadores da metalurgia de Isfahan, das minas de cobre de Sar Cheshmeh e Rafsanjan, da petroquímica de Abadan, dos correios de Isfahan e de todos os ramos do Banco de Shahriar. No dia seguinte, o mesmo: juntaram-se ao movimento todas as refinarias, os Royal Air Services, a fábrica Iranit em Ray, os funcionários da alfândega de Jolfa, o Departamento dos Assuntos de Navegação e Portuários em Bandar Shahpour, a Tractor Sazi em Tabriz, a rádio e as televisões de Rezayeh, 80 unidades industriais de Isfahan, uma siderurgia em Bafgh, funcionários judiciais por todo o país e funcionários das Finanças de Maragheh. No dia seguinte, foi a vez da fábrica Zamyad em Teerão, da General Motors, da Organização do Plano e do Orçamento e dos ferroviários de Zahedan (de novo). No dia a seguir (11 de Outubro de 1978) os maiores jornais diários entraram em greve. A fábrica Canada Dry, os portos e estaleiros de Khorramshahr, a fábrica Iran Kaveh, as zonas de pesca de Bandar Pahlavi, a fábrica Minoo, a Vian Shre, a Gher Ghere-i Ziba, todos os trabalhadores da província de Gilan, 2.000 tijoleiros de Tabriz, operários do petróleo de Abadan e Ahwaz, da fábrica de tubos e na Machin Sazi em Saveh, 40.000 trabalhadores do Behshar Industrial Group por todo o país, motoristas de autocarros [ônibus] de Rezay, trabalhadores das comunicações de Kermashah – todos estes se juntaram à greve numa rápida sucessão”.</p>
<p style="text-align: justify;">As greves mais importantes em Outubro foram as da indústria do petróleo, que foram organizadas por comités de greve militantes. Nima descreveu como “os trabalhadores do petróleo no Khuzistan elegeram um comité de greve para organizar a greve e ligá-la às lutas dos trabalhadores nos campos petrolíferos, nas refinarias e na administração. As suas exigências políticas, formuladas a 29 de Outubro, incluíam a abolição da lei marcial, a libertação dos presos políticos e a dissolução da SAVAK. A produção de petróleo parou totalmente. No importante terminal de petróleo da ilha Kharg, estivadores e outros empregados tinham-se juntado à greve, impedindo qualquer carregamento de petróleo para fora da ilha.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve tentativas infrutíferas para pôr fim à greve e finalmente o exército foi utilizado para forçar os trabalhadores a voltarem ao trabalho.”</p>
<p style="text-align: justify; margin: 20px; width: 350px; font-family: Times; float: right; font-size: 11pt; border: black 4px outset; padding: 20px;"><strong>O PROGRAMA DOS TRABALHADORES DO PETRÓLEO</strong><br />
Em 29 de Outubro, os trabalhadores do petróleo em Ahwaz formularam um amplo leque de reivindicações:<br />
1. Fim da lei marcial.<br />
2. Total solidariedade e cooperação com os professores em greve em Ahwaz.<br />
3. Libertação incondicional dos presos políticos.<br />
4. Nacionalização da indústria petrolífera.<br />
5. Todas as comunicações em língua persa [parse].<br />
6. Expulsão do país de todos os trabalhadores estrangeiros.<br />
7. Fim da discriminação contra as mulheres, enquanto empregadas e operárias.<br />
8. Implementação de uma lei para resolver o problema da habitação dos operários e empregados do petróleo.<br />
9. Apoio às reivindicações dos trabalhadores da produção, incluindo a dissolução da SAVAK.<br />
10. Punição dos ministros e altos funcionários corruptos.<br />
11. Redução dos turnos das tripulações das plataformas petrolíferas <em>offshore</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Mariam Poya descreveu alguns aspectos notáveis destas lutas. Os trabalhadores das alfândegas deixaram entrar os medicamentos, os alimentos para crianças e o papel. Os trabalhadores dos tabacos manifestaram-se contra a importação de produtos estadunidenses. Os mineiros do carvão entraram em greve por solidariedade com os professores e os estudantes.</p>
<p style="text-align: justify;">“Não passavam muitos dias sem que um novo sector do mundo do trabalho entrasse por sua vez em greve, ou se juntasse às manifestações e protestos de rua. Todas as noites, durante uma hora, os trabalhadores das comunicações cortavam as emissões da propaganda das rádios e televisões do regime. Os ferroviários recusaram-se a deixar os oficiais da polícia e do exército a viajarem nos combóios. Os trabalhadores da energia atómica entraram em greve, declarando que a sua indústria havia sido imposta ao Irão pelas grandes potências mais interessadas na guerra nuclear do que numa indústria criativa. O complexo siderúrgico construído pelos russos foi completamente fechado. Praticamente todos os estabelecimentos industriais foram fechados, com excepção do gás, dos telefones e da electricidade: nestes casos, os trabalhadores explicaram que continuavam a trabalhar para servir o público, mas que apoiavam as greves e as manifestações para derrubar o regime. Os estivadores e os marinheiros só descarregavam alimentos, material médico e o papel que era preciso para a actividade política.” (“Iran 1979”, in Colin Barker ed, Revolutionary Rehearsals).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Trabalhadores do petróleo ocupam o centro da cena</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A greve dos trabalhadores do petróleo tinha um significado especial, dada a sua posição estratégica na economia. A greve de Outubro durou 33 dias e paralisou a economia.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de um encontro do comité de greve com o presidente da Companhia Nacional de Petróleo Iraniana, os trabalhadores contaram que ele iria “tomar em consideração as reivindicações económicas, mas que as outras estavam fora da sua esfera de acção”. A resposta deles foi: “Dissemos-lhe que não faríamos qualquer distinção entre as nossas reivindicações económicas e as não-económicas. Dissemos-lhe que temos um só caderno de reivindicações” (Nore in Nore e Turner, <em>Oil and Class Struggle</em>).</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de as exigências políticas terem sido apresentadas e de as negociações com o governo terem falhado, 1.700 delegados de diferentes empresas presidiram a uma concentração de massas da refinaria de Abadan, à frente das tropas, decidindo permanecer toda a noite nas instalações da administração. Foram atacados com tanques (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">O Xá respondeu enviando o exército. Mas os trabalhadores não vergaram. Em 4 de Dezembro desencadearam uma greve total, cessando completamente a produção.</p>
<figure id="attachment_28482" aria-describedby="caption-attachment-28482" style="width: 324px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a10.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28482 " title="pp_iraosublev1979a10" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a10.jpg" alt="O povo arma-se com armas dos quartéis conquistados em Teerão, um ou dois dias antes de queda da monarquia, Fevereiro de 1979." width="324" height="431" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a10.jpg 324w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a10-225x300.jpg 225w" sizes="auto, (max-width: 324px) 100vw, 324px" /></a><figcaption id="caption-attachment-28482" class="wp-caption-text">O povo arma-se com armas dos quartéis conquistados em Teerão, um ou dois dias antes de queda da monarquia, Fevereiro de 1979.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Por todo o Irão, os trabalhadores criaram comités de greve, ocuparam as suas empresas ou pararam a produção. No entanto havia pouca coordenação entre as várias indústrias. O melhor exemplo foi a discussão entre trabalhadores do petróleo e ferroviários sobre o transporte de combustíveis para uso doméstico: os trabalhadores do petróleo argumentaram sobre os níveis de produção para outras prioridades e os trabalhadores siderúrgicos de Isfahan negociaram com os ferroviários o transporte de carvão para as suas fornalhas (Nore).</p>
<p style="text-align: justify;">Estas lutas, não sendo o resultado de uma direcção consciente de organizações revolucionárias, também não eram simplesmente “espontâneas”. Bayat recolheu provas de que alguns trabalhadores vinham organizando núcleos clandestinos nas suas empresas pelo menos desde há oito anos antes destes acontecimentos (Bayat).</p>
<p style="text-align: justify;">Desta vez, a importância global da acção dos trabalhadores não desapareceu às mãos dos comentadores burgueses. O Xá saiu do Irão a 16 de Janeiro de 1979, para nunca mais voltar.</p>
<p style="text-align: justify;">Como dizia o <em>Financial Times</em> em 17 de Janeiro de 1979: “Uma vez que as greves aplicaram a sua pressão em áreas-chave como as alfândegas, a banca e evidentemente o petróleo, isso revelou-se a arma mais eficaz para levar o Xá a compreender que tinha de ir embora.” (Nima)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O papel do clero</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Embora tenha sido o poder da classe trabalhadora a forçar o Xá a ajoelhar-se, não foram organizações de trabalhadores que conduziram todo o movimento de oposição ao seu regime. Apesar de as palavras de ordem nas manifestações de Dezembro – “Enforque-se a marioneta dos Estados Unidos”, “Armas para o povo” e “Fora com o Xá” – serem bem laicas, a organização desses protestos estava nas mãos dos apoiantes de Khomeini.</p>
<p style="text-align: justify;">Diz Bayat: “Claro que os trabalhadores controlavam todas as actividades revolucionárias nas empresas, mas não exerciam a sua liderança, nem podiam fazê-lo, sobre o movimento de massas no seu todo. Essa liderança estava nas mãos de outros: Khomeini e os líderes a ele associados.”</p>
<p style="text-align: justify;">Os seguidores de Khomeini tinham construído uma bem organizada rede de quadros por todo o país, em especial nos centros urbanos. Ao longo da luta, as mesquitas receberam fundos dos bazares, que eram usados para fins políticos. Nima descreve as forças sociais representadas pelos líderes religiosos:</p>
<p style="text-align: justify;">“Nenhuma outra organização da oposição podia exibir uma rede de 180.000 membros, com 90.000 quadros (os mulás), cerca de 50 líderes (os aiatolas), 5.000 funcionários (o clero médio), 11.000 estudantes de teologia e toda uma massa de membros de base, como professores de islamismo, pregadores, oficiantes e organizadores de procissões.”</p>
<figure id="attachment_28485" aria-describedby="caption-attachment-28485" style="width: 380px" class="wp-caption alignright"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a11.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28485" title="pp_iraosublev1979a11" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a11.jpg" alt="Clérigos muçulmanos e soldados dão as mãos em sinal de amizade, em cima de um blindado, Fevereiro de 1979." width="380" height="319" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a11.jpg 380w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a11-300x251.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 380px) 100vw, 380px" /></a><figcaption id="caption-attachment-28485" class="wp-caption-text">Clérigos muçulmanos e soldados dão as mãos em sinal de amizade, em cima de um blindado, Fevereiro de 1979.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Khomeini apelou às greves em 17 de Outubro e de novo em 18 de Dezembro, como parte da sua campanha para derrubar o regime. Apesar de receber apoio financeiro das mesquitas e dos comerciantes do bazar, o comité de greve do petróleo rechaçou a proposta de um representante de Khomeini, Barzagan (que viria a ser o primeiro primeiro-ministro pós-Xá) para desmobilizarem as greves e apenas pararem as exportações (Campanha contra a Repressão no Irão, Movimento dos Trabalhadores Iranianos). Segundo Poya, “alguns trabalhadores do petróleo enviaram uma carta a Khomeini exprimindo o seu apoio, mas exigindo a participação dos trabalhadores no futuro governo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Note-se, por exemplo, que as reivindicações dos trabalhadores do petróleo não incluíam a apelo à criação de uma República Islâmica. E, como mostrou o desenvolvimento das <em>shuras</em> (conselhos de fábrica) a partir do início de 1979, havia um choque de interesses entre os dirigentes clericais e o movimento dos trabalhadores – e a perspectiva de uma luta autónoma da classe trabalhadora ao mesmo tempo contra o Xá e contra o novo regime teocrático.</p>
<p style="text-align: justify;">Teria sido possível prever a natureza do regime de Khomeini? Era claro, a avaliar pelas palavras de ordem usadas em manifestações (tais como “Vitória ao justo poder do Islão”, “O véu ou a morte”, em Tabriz, em Fevereiro de 1978). Também era claro que as queimas de livros e os ataques aos cinemas tinham um cariz reaccionário – por exemplo, uma campanha contra um banco porque tinha tido um capitalista bahai [religião monoteísta persa, não islâmica] como accionista. (Workers Action, 24 de Novembro de 1978).</p>
<figure id="attachment_28488" aria-describedby="caption-attachment-28488" style="width: 434px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a09.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28488 " title="pp_iraosublev1979a09" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a09.jpg" alt="1 de Fevereiro de 1979, aeroporto de Teerão-Mahrabad: o aiatola Khomeini (ao centro) regressa do exílio." width="434" height="192" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a09.jpg 542w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2010/08/pp_iraosublev1979a09-300x132.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 434px) 100vw, 434px" /></a><figcaption id="caption-attachment-28488" class="wp-caption-text">1 de Fevereiro de 1979, aeroporto de Teerão-Mehrabad: o aiatola Khomeini (ao centro) regressa do exílio.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Khomeini manifestou claramente a sua hostilidade à esquerda. No <em>Le Monde</em> de 6 de Maio de 1978, disse: “Não iremos colaborar com marxistas, nem mesmo para derrubar o Xá. Dei instruções específicas aos meus seguidores para não o fazerem. Opomo-nos à ideologia deles e sabemos que sempre acabam por nos apunhalar pelas costas. Se eles chegassem ao poder, estabeleceriam um regime ditatorial contrário ao espírito do Islão”.</p>
<p style="text-align: justify;">Também nos seus escritos era claro que tinha a intenção de instalar um poder teocrático. Nomeadamente, Khomeini formulou a ideia do Velayat-e-Faqih, a vice-regência ou governo dos juristas islâmicos. Nas suas conferências de 1969 explicou que “os verdadeiros governantes são os próprios juristas islâmicos” (Bakhash, <em>The Reign of the Ayatollahs</em>).</p>
<p style="text-align: justify;">Resumindo, se a esquerda tivesse estado atenta, havia sinais óbvios quanto à natureza do regime que Khomeini queria criar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[Fim da primeira parte]</strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Versão original (em inglês) <a title="http://www.workersliberty.org/story/2008/11/04/workers-liberty-35-iran-revolution-and-counter-revolution-1978-9" href="http://www.workersliberty.org/story/2008/11/04/workers-liberty-35-iran-revolution-and-counter-revolution-1978-9" target="_blank" rel="nofollow noopener noreferrer">aqui</a>. Tradução do Passa Palavra.</em></p>
</blockquote>
<h3 style="text-align: justify;"><em>As quatro partes do artigo são:</em></h3>
<p style="text-align: justify;"><em>(1) Como os trabalhadores derrubaram um ditador<br />
(2) <a href="http://passapalavra.info/?p=28538" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Como os trabalhadores foram esmagados</a><br />
(3) <a href="https://passapalavra.info/2010/09/28811" target="_blank" rel="noopener noreferrer">O fracasso da esquerda</a><br />
(4)<a href="https://passapalavra.info/2010/09/29030" target="_blank" rel="noopener noreferrer"> Os islamistas contra as mulheres</a></em></p>
]]></content:encoded>
					
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			<slash:comments>3</slash:comments>
		
		
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