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	<title>Turquia &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Humanismo sob medida (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 May 2024 05:00:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
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					<description><![CDATA[O governo da Turquia anunciou no último dia 2 de maio o rompimento das relações comerciais com Israel até que o governo israelense “autorize o fluxo ininterrupto de ajuda humanitária para Gaza”. Em janeiro o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou que intensificaria sua ofensiva contra os curdos: “Não vamos parar até destruírmos todos os [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O governo da Turquia anunciou no último dia 2 de maio o rompimento das relações comerciais com Israel até que o governo israelense “autorize o fluxo ininterrupto de ajuda humanitária para Gaza”. Em janeiro o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou que intensificaria sua ofensiva contra os curdos: “Não vamos parar até destruírmos todos os grupos terroristas que têm intenções pérfidas ao longo desse trajeto”. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Milhares de entregadores entram em greve na Turquia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Mar 2022 16:24:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[PassaPalavraTV]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<category><![CDATA[Turquia]]></category>
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					<description><![CDATA[O aluguel custa 3.000 liras… o salário mínimo é de 4.000 liras. Como você pode dar conta? Por LabourNet]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por LabourNet</h3>
<p style="text-align: justify;"><iframe src="https://labournet.tv/iframe_embed_v2.php?clipId=7834" width="425" height="245" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<div class="table sectionedit26" style="text-align: justify;">
<p>Turco com legendas em inglês.</p>
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0">1 min</td>
<td class="col1">2022</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">A inflação na Turquia está crescendo exponencialmente e as greves de trabalhadores estão se espalhando, do setor industrial e de logística até o de saúde. Desde o início de fevereiro de 2022, milhares de entregadores de comida que trabalham para a Yemeksepeti (de propriedade da Delivery Hero) estão fazendo greves e protestado por todo o país.</p>
<p style="text-align: justify;">“O aluguel custa 3.000 liras… o salário mínimo é de 4.000 liras. Como você pode dar conta?”</p>
<p style="text-align: justify;">Os entregadores receberam um aumento salarial de 17%, alcançando apenas o salário mínimo, e que não é o suficiente para pagar o combustível e outros itens cotidianos que se tornaram inacessíveis desde a crise cambial. Os patrões e a polícia reagiram violentamente aos protestos dos trabalhadores. Em Kocaeli, os trabalhadores da fábrica automotiva Farplas foram demitidos e violentamente atacados e presos pela polícia. Em um armazém do supermercado Migros, em Istambul, trabalhadores em greve foram demitidos e presos por protestarem. No início do mês, 2.000 trabalhadores, a maioria mulheres, de uma fábrica de meias protestaram contra os salários de pobreza e conquistaram um aumento salarial de 70%.</p>
<p style="text-align: justify;">Entrevista da Yol TV<br />
Equipe: <a class="urlextern" title="https://yoltv.com/" href="https://yoltv.com/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Yol TV</a><br />
Tags: <a class="urlextern" title="https://en.labournet.tv/videos/gig-economy" href="https://en.labournet.tv/videos/gig-economy" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Gig Economy</a></p>
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		<title>Lutas inflacionárias: ocupação de fábrica da Farplas na Turquia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Feb 2022 10:46:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<category><![CDATA[Turquia]]></category>
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					<description><![CDATA[Se lutar pelo seu sustento neste país, eles te chamam terrorista e traidor da nação. Por Emre Şahin]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Emre Şahin</h3>
<blockquote><p>Publicado pela primeira vez em Junge Welt, em 1º de fevereiro de 2022</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Violência contra os trabalhadores: na segunda-feira [31 de janeiro], a polícia turca lançou uma operação em grande escala contra trabalhadores em greve em Kocaeli e prendeu 200 pessoas. Os trabalhadores haviam ocupado a fábrica de peças automotivas Farplas em protesto contra a demissão de seus colegas. A polícia invadiu o edifício e usou spray de pimenta, segundo a agência de notícias curda ANF.</p>
<p style="text-align: justify;">Os protestos começaram no dia 19 de janeiro com uma paralisação feita pelos trabalhadores após exigirem maiores salários e rejeitarem a oferta da administração como sendo insuficiente. A taxa de inflação afeta as pessoas na Turquia há meses, sendo que muitos já não conseguem pagar pelas mercadorias mais cotidianas. As negociações começaram no dia seguinte entre os trabalhadores e a administração, que prometera não demitir nenhum dos grevistas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, durante as negociações, a maioria dos 2.000 trabalhadores da empresa tornou-se membro do sindicato Birlesik Metal-Is (BMI) e, no dia 27 de janeiro, entraram com um pedido de representação no Ministério do Trabalho. A Farplas demitiu quase 150 trabalhadores em retaliação, ao contrário do que havia prometido e sem o pagamento de indenização. A justificativa dada foi que eles haviam participado da greve no dia 19 de janeiro, “perturbando as relações de trabalho”. A empresa também anunciou que iria entrar com um processo pedindo compensação pelos danos causados pela greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse nível de arrogância e assédio foi a gota d&#8217;água para os trabalhadores. Junto de seus colegas demitidos, anunciaram uma mobilização e exigiram a anulação das demissões. Eles reafirmam a exigência de melhores salários, horários de trabalho regulados e direito à organização. “Sem trabalho e sem pão não haverá paz”, gritavam os grevistas de dentro da empresa ocupada, como visto nas redes sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Quebrar a resistência tornou-se o trabalho da polícia: no final do domingo, eles posicionaram várias unidades na frente da empresa. Como resultado, os trabalhadores subiram no telhado para demonstrar a sua determinação. No entanto, nem mesmo lá eles estavam a salvo. Foram repetidamente assediados pelos drones da polícia, que imprudentemente colocaram a vida dos grevistas em risco. Na segunda-feira, a polícia invadiu a fábrica e prendeu os trabalhadores. Do lado de fora, milhares de membros do sindicato BMI vindos das empresas vizinhas se reuniram em frente à Farplas para apoiar seus colegas. Eles impediram a passagem dos ônibus de transporte da polícia até serem atacados por ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Trabalhadores liberados da custódia policial disseram ao jornal Birgün na segunda-feira: “Não prejudicamos a empresa, mas expressamos a nossa resistência às demissões. (… ) Fomos espancados e coagidos devido às nossas ações. O que aprendemos com isso? Se lutar pelo seu sustento neste país, eles te chamam terrorista e traidor da nação”.</p>
<blockquote><p>Traduzido ao português por Marco Túlio Vieira a partir da <a href="https://www.angryworkers.org/2022/02/02/inflationary-struggles-after-the-dismissal-of-their-work-mates-workers-occupy-the-farplas-factory-in-turkey/" target="_blank" rel="noopener">versão em inglês</a> publicada pelos Angry Workers of the World</p></blockquote>
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			</item>
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		<title>Lutas na fábrica da Farplas na Turquia</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/02/142199/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Feb 2022 08:47:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[PassaPalavraTV]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<category><![CDATA[Turquia]]></category>
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					<description><![CDATA[Direne Direne kazanacağız - "Resistindo e resistindo venceremos.” Por labournet tv]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por <a href="https://en.labournet.tv/struggles-farplas-factory-turkey" target="_blank" rel="noopener">labournet tv</a></h3>
<p><iframe src="https://labournet.tv/iframe_embed_v2.php?clipId=7828" width="425" height="245" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 31 de janeiro, a polícia turca deteve cerca de 200 trabalhadores da fábrica de peças automotivas Farplas. Os trabalhadores haviam ocupado a fábrica devido aos baixos salários e a tentativa da empresa de impedir a sindicalização. Os protestos começaram em 19 de janeiro com uma primeira paralisação do trabalho. Os motivos eram a insuficiência dos salários e uma oferta igualmente insuficiente por parte da empresa de aumento salarial. No decurso dos protestos, mais e mais trabalhadores juntaram-se ao sindicato Birleşik Metal-Iş. Como resultado, a Farplas demitiu 150 trabalhadores que eram agora membros do sindicato. A justificativa: eles participaram da greve em 19 de janeiro e atrapalharam o trabalho na empresa. Em resposta a essa tentativa de enfraquecer o sindicato, sindicalistas e trabalhadores, com seus colegas demitidos, ocuparam a fábrica em 31 de janeiro. Enquanto a polícia prendia os ocupantes, outros membros do sindicato Birleşik Metal-Işse reuniram em frente à fábrica vindos das empresas vizinhas. Eles bloquearam o despejo dos detidos até que a polícia usou a força para acabar com a resistência. Os sindicalistas e trabalhadores detidos foram liberados após darem o seu testemunho. Alguns relataram experiências de violência. Os protestos em frente à fábrica continuam, agora novamente com os trabalhadores demitidos.</p>
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		<title>Sobre os ombros de Putin e Assad?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Oct 2019 13:47:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Noticiar]]></category>
		<category><![CDATA[Síria]]></category>
		<category><![CDATA[Turquia]]></category>
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					<description><![CDATA[Será esse o preço hoje a ser pago pela revolução ao custo da sobrevivência dos revolucionários? Por Rodrigo Oliveira Fonseca]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por Rodrigo Oliveira Fonseca</h3>
<p style="text-align: justify;">No último dia 09 de outubro o exército turco e as milícias que controla em meio ao conflito na Síria iniciaram uma grande ofensiva militar contra a Administração Autônoma do Norte e do Leste da Síria – nome adotado atualmente pela federação formada a partir da Revolução de Rojava em 2012 e da campanha que, com o apoio de uma coalizão encabeçada pelos EUA, desmontou o extenso “califado” que o ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria na sigla em inglês) erigiu em 2014. A operação turca, denominada “Primavera da Paz” a despeito dos crimes de guerra que vem cometendo desde o primeiro dia, começou pouco após os EUA anunciarem oficialmente a retirada de seus soldados da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Eis que no dia 13 de outubro, após quatro dias de apelo das forças de Rojava em prol do fechamento do espaço aéreo no norte da Síria e de um mínimo de mediação com a Turquia por parte dos EUA, tornou-se público o acordo de cooperação militar entre as Forças Democráticas Sírias (SDF na sigla em inglês) e o Exército Árabe da Síria, de Assad (SAA na sigla em inglês), contra a ofensiva turca. No dia 14, aviões da Força Aérea Russa deram cobertura a movimentações conjuntas das SDF e do SAA e impediram o bombardeio do quartel-general das SDF em Manbij.</p>
<p style="text-align: justify;">Cidades em que as forças governistas não pisavam desde 2011 ou 2012 terão o exército de Assad nos seus arredores, de modo que os receios são grandes quanto ao alcance e aos desdobramentos dessa cooperação entre o regime e a revolução. O comandante-em-chefe das SDF, Mazloum Kobani, <a class="urlextern" title="https://foreignpolicy.com/2019/10/13/kurds-assad-syria-russia-putin-turkey-genocide/" href="https://foreignpolicy.com/2019/10/13/kurds-assad-syria-russia-putin-turkey-genocide/" rel="nofollow">deu a entender que haverá um preço alto a ser pago pela sobrevivência</a>: “Sabemos que teremos de assumir compromissos dolorosos com Moscou e Assad se quisermos trabalhar com eles. Mas, se temos de escolher entre compromissos e o genocídio do nosso povo, evidentemente escolhemos a vida do nosso povo”. Já o co-porta-voz do Partido da União Democrática (PYD, ligado ao PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão, da Turquia), Salih Muslim, assegura que o acordo visa exclusivamente a preservação da soberania nacional síria sobre seus territórios contra a invasão turca e seu plano genocida, afirmando que <a class="urlextern" title="https://anfenglishmobile.com/rojava-syria/salih-muslim-talks-about-the-agreement-with-the-syrian-state-38404" href="https://anfenglishmobile.com/rojava-syria/salih-muslim-talks-about-the-agreement-with-the-syrian-state-38404" rel="nofollow">não haverá intervenção sobre os trabalhos da Administração Autônoma Democrática e seus conselhos</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Afora a extrema-direita ocidental, que vê na luta de Rojava um “importante movimento anti-islâmico”, e sem considerar a esquerda identitária, que concorda com a extrema-direita mas inverte o sinal, acusando Rojava de racismo e islamofobia, até esse momento da conjuntura parecia haver um equilíbrio entre três posturas principais na esquerda mundial em relação ao movimento de Rojava: apoio, oposição e perplexidade. O apoio sem vacilações <strong>[1]</strong> vindo sobretudo de militantes e grupos libertários atentos às experiências de autogoverno que têm se desenvolvido na Síria; a oposição – aberta, envergonhada ou nas entrelinhas – vinda da esquerda leninista (tanto do lado pró-Assad, que se bate pelo nacionalismo terceiro-mundista, quanto do lado anti-Assad e pró-rebeldes do Exército Livre da Síria); e, de todos os lados, uma perplexidade sincera, frente às muitas contradições e improbabilidades em torno desse processo desde o seu início há sete anos.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir dos entendimentos entre as Forças Democráticas Sírias e os governos de Putin e Assad o campo da perplexidade se expandiu ainda mais, despertando também uma espécie de gozo incontido na esquerda leninista: no campo trotskista corre o “não me enganaram, eu já sabia”, como se o PYD, que nunca defendeu a derrubada de Assad, mas sim a realização de eleições livres, jamais tivesse sido efetivamente revolucionário; e no campo do nacionalismo terceiro-mundista corre um sórdido “bem-feito, a gente avisou”, que tem sido a tônica das intervenções de Assad quanto a Rojava.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das questões que causa receios e perplexidade pode ser formulada da seguinte forma:</p>
<p style="text-align: justify;">“Se os curdos tiveram o apoio dos EUA por tanto tempo, então não deve ser coisa boa o que tem se desenvolvido no norte e no leste da Síria”.</p>
<p style="text-align: justify;">Evidentemente, os EUA têm interesses estratégicos no Oriente Médio, mas, <em>grosso modo</em>, estes já são muito bem representados e atendidos por Israel, Arábia Saudita e os petro-Estados. Quando os protestos por toda a Síria foram brutalmente reprimidos pelo governo de Assad e desembocaram em uma guerra civil, várias forças internacionais, com destaque para o governo de Barack Obama, buscaram influenciar e apoiaram militarmente o autodenominado Exército Livre da Síria (FSA na sigla em inglês). O crescimento e fortalecimento dos grupos fundamentalistas islâmicos no interior do FSA, com destaque para a Al-Qaeda local (atualmente organizada na Hayat Tahrir al-Sham, HTS, Organização para a Libertação do Levante), e a expansão vertiginosa do ISIS em 2014, levaram os EUA a uma mudança de estratégia. A Turquia foi assumindo progressivamente o financiamento de boa parte destes grupos, ao ponto de formar um “Exército Livre da Síria turco” (TFSA na sigla em inglês, o oficialmente denominado Exército Nacional Sírio), e os EUA passaram a priorizar o combate ao ISIS, investindo no armamento e no treinamento de forças curdas, árabes, assírias/siríacas, turcomenas, ligadas ao PYD. Inclusive, as Forças Democráticas Sírias foram criadas em 2015 nesse processo de formação de um agrupamento militar mais amplo que as guerrilhas do PYD (as YPG e YPJ, Unidades de Proteção Popular e Unidades de Proteção das Mulheres), para o combate ao ISIS em intensa articulação com a Coalizão internacional encabeçada pelos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-128629" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/Kurdos-4.jpg" alt="" width="750" height="500" />O apoio militar dos EUA aos braços armados de Rojava mostrou-se totalmente exitoso no combate ao ISIS, de modo que já não há regiões sírias controladas pelos fundamentalistas que mais apavoraram o mundo. Tratou-se realmente de um apoio pragmático e restrito ao combate ao ISIS. Por exemplo, as SDF não se envolveram na resistência à invasão turca de Afrin em 2018, cabendo esse papel às YPG e YPJ. Hoje, sem a colaboração dos EUA (antes o contrário!), as SDF estão ombreando com o SAA na resistência à invasão turca do norte da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não devemos escapar da parte final do enunciado, “não deve ser coisa boa o que tem se desenvolvido no norte e no leste da Síria”. Sob o horizonte do Confederalismo Democrático existe o desafio da organização social em comunas [como analisado <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2017/03/110819/" href="https://passapalavra.info/2017/03/110819/" rel="nofollow">aqui</a>, com desdobramentos na propriedade dos meios e nos modos de produção [analisados <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2015/02/102469/" href="https://passapalavra.info/2015/02/102469/" rel="nofollow">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2015/08/105708/" href="https://passapalavra.info/2015/08/105708/" rel="nofollow">aqui]</a>. Não são essas, por certo, as partes do projeto mais propagadas mundo afora, e sim aquelas que são tidas como os três pilares: ecologia, feminismo e democracia direta (que por vezes é dita apenas como “descentralização”, “boa governança baseada em governo pequeno” e respeito à diversidade étnica e cultural dos povos da Síria). Aumentando a perplexidade e as hesitações, o formulador teórico desse programa, Abdullah Öcalan, “Apo”, não pleiteia a “tomada do poder” nem a conformação de um Estado “de novo tipo”, como no zapatismo.<strong>[2]</strong> Logo, o PYD não é separatista nem é “curdista”, não tem em seu horizonte qualquer projeto análogo ao do Curdistão iraquiano (que se presta a servir de quintal dos capitais turcos), visando investir em um processo de superação a longo prazo do Estado-nação que não passa pelo seu enfrentamento – o que se manifestou na rejeição do PYD às tentativas de derrubar Assad e desmantelamento da unidade nacional da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso posto, não se pode realmente extrapolar o sentido do apoio dos EUA às forças de Rojava. Mas por que, então, Assad e o PYD não deram esse passo antes rumo a um entendimento? Por que experiências de coexistência (mesmo que tensas) como as de Hasakah e Qamishlo não se disseminaram?</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2017 o governo de Assad, sob influência dos russos, acenou com a possibilidade de um acordo com o PYD em torno de algum nível de autonomia nas regiões do norte e leste da Síria. As forças de Rojava chegaram, inclusive, a alterar o nome do seu não-Estado: de Federação Democrática do Norte da Síria, nome adotado em 2016 para substituir oficialmente o nome curdo “Rojava” (Oeste), tornaram-se Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria no ano passado.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, as negociações não avançaram. As forças de Assad e os russos também atuaram no combate final ao ISIS, mas se concentraram no violento confronto (ainda não solucionado) com o FSA, e o governo vem repetindo que não negocia a integridade territorial síria de 2011. É de se considerar o quanto que a proximidade entre as SDF e as forças estadunidenses emperraram as negociações, assim como a firmeza do PYD e forças aliadas em Rojava em não abdicarem de sua autonomia política e militar <strong>[3]</strong> – o que pode ter se mostrado decisivo na invasão a Afrin, que no passado recente era o cantão de maioria curda mais pacífico ao norte da Síria. O cenário, naquela ocasião, era um tanto parecido com o do início da nova operação turca: os russos, que colaboravam com as YPG e as YPJ na defesa territorial de Afrin, se retiraram pouco antes do início da ofensiva turca, em claro sinal de traição aos curdos; Assad bradou que não iria tolerar qualquer ataque ao território sírio… e o resultado é uma ocupação que já leva mais de um ano, com uma política de intensa alteração demográfica (anti-curda) coordenada pelos turcos, bastante conveniente ao governo de Damasco, que no passado sempre buscou a arabização de toda a Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">É sabido que o apoio à defesa de Afrin contra os turcos foi condicionado à “devolução” da região ao governo de Assad. Será esse o preço hoje a ser pago pela revolução ao custo da sobrevivência dos revolucionários? Rojava atira em Erdogan sobre os ombros de Putin e Assad como um dia os bolcheviques atiraram na reação czarista (Kornilov) sobre os ombros dos mencheviques (Kerensky)? Não há indícios de que Assad e, sobretudo, Putin, tenham algum interesse numa ação que vá além da dissuasão da pressão turca sobre a revolução de Rojava <strong>[4]</strong>, e esse “ombro amigo” às SDF pode muito bem ser outra coisa no curto e médio prazo.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, é difícil não desconfiar de (mais) uma arapuca contra a revolução. Ao contrário do governo de Putin, que no início reconheceu a legitimidade da busca de segurança nacional pela Turquia nas suas fronteiras com a Síria, o governo iraniano protestou imediatamente contra a operação turca. Mas assim que os turcos iniciaram sua campanha, as forças iranianas presentes em território sírio, fortes aliadas de Assad, atacaram bases das SDF em Deir Ezzor, na divisa com o Iraque (que é hoje um país sob influência do Irã).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-128634" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/Kurdos-3.jpg" alt="" width="750" height="421" />Erdogan lida com uma forte pressão interna contra os milhões de refugiados sírios no país. Também na Turquia existe uma direita xenófoba e isolacionista, que faz pouco caso da política imperialista do governo. A possibilidade de deportação desses refugiados para Rojava (ao invés do que houve em Afrin, com o envio de grupos fundamentalistas e de outros opositores que viviam na rebelde Idlib, ainda controlada pelo FSA) significaria um enorme ganho tanto para Erdogan quanto para Assad. Mas é razoavelmente claro que Assad não poderia, dessa vez, se comportar como no ano passado em relação à invasão de Afrin. As regiões que estão sendo atacadas agora não são tão predominantemente curdas quanto Afrin. Árabes, turcomenos e assírios (estes, em geral, cristãos) estão sendo também atingidos. Trata-se, assim, de uma oportunidade de ouro para o governo de Damasco recuperar a sua legitimidade nesses territórios. E a “cereja do bolo” dessa desconfiança é a intensa dedicação com que a mídia do governo tem se referido à movimentação do Exército sírio no norte do país sem mencionar qualquer acordo com as SDF e mesmo sem mencionar as SDF, a Administração Autônoma ou os curdos [por exemplo, <a class="urlextern" title="https://sana.sy/en/?p=175768" href="https://sana.sy/en/?p=175768" rel="nofollow">aqui</a>. Um silêncio com sabor de maus presságios.</p>
<p style="text-align: justify;">Por sorte essa história não termina nas ações e nos propósitos dos russos e de Assad frente à barbárie genocida promovida pelo Estado turco, assim como as SDF não terminaram na campanha contra o ISIS para a qual os EUA as prepararam. A sobrevivência dos revolucionários de Rojava é condição absoluta para o prosseguimento da revolução, que até aqui jamais se deu em condições favoráveis. E frente ao silêncio do Estado sírio estamos nós, não dispostos a ecoá-lo.</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Sem vacilações mas também, em alguns casos, mais animado pelo “repertório de um fascínio estético e fé política do que [pel]a própria realidade no terreno, que se apresenta aos nossos olhos sob uma nuvem de mistificação.” Ver o excelente artigo de Rachel Pach, <em>Biji Kritik Rojava</em>: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial, disponível <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2018/04/119300/" href="https://passapalavra.info/2018/04/119300/" rel="nofollow">aqui</a>. Este artigo é especialmente importante numa consideração realista das contradições do modelo econômico e social desenvolvido em Rojava, ao mesmo tempo em que reafirma o seu caráter revolucionário.<br />
<strong>[2]</strong> Öcalan entende que o Estado-nação é uma colônia do capital, perfeitamente funcional aos processos capitalistas de exploração, sendo o fascismo a forma mais pura do Estado-nação. Em Adbullah Öcalan, <em>Confederalismo Democrático</em>. Tradução do Coletivo Libertário de Apoio a Rojava. Rio de Janeiro: Rizoma, 2016, pp. 21; 31.<br />
<strong>[3]</strong> Para Öcalan (idem, p. 31; 32), o campo político não se separa do militar, “a liderança civil do Estado é apenas um acessório do aparato militar”, de modo que o confederalismo democrático é pensado como um “sistema de autodefesa da sociedade”.<br />
<strong>[4]</strong> O governo russo, que tem tido sucesso na ampliação de sua influência sobre os Estados que disputam entre si o protagonismo no Oriente Médio (além do Irã e da Turquia, Putin está reatando relações com os sauditas), deixou claro no dia 15 de outubro que não <a class="urlextern" title="https://elpais.com/internacional/2019/10/15/actualidad/1571149380_027433.html#?sma=newsletter_diaria_noche20191015m" href="https://elpais.com/internacional/2019/10/15/actualidad/1571149380_027433.html#?sma=newsletter_diaria_noche20191015m" rel="nofollow">permitirá um enfrentamento entre as forças sírias e turcas</a>.</p>
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		<title>Biji Kritik Rojava: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Apr 2018 18:07:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<category><![CDATA[Turquia]]></category>
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					<description><![CDATA[As utopias têm sua importância; assim como tem importância a crítica radical à realidade tal como esta está dada.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Rachel Pach</strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Prólogo: este texto foi escrito no contexto específico de 2016, quando comitês de solidariedade a Rojava começaram a se estabelecer ao redor do mundo e acenderam o tema no circuito militante de internet, onde dispararam debates se Rojava seria revolucionária ou não. Essa é ao mesmo tempo uma resposta a tudo isso, e também uma autocrítica, pelo pânico de fazer apologia espetacular a uma guerra alhures, e reflete a busca por outro sentido possível para a solidariedade internacional.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>“Solo la violencia de lo viviente es revolucionária”</em><br />
Raoul Vaneigem – Por una internacional del género humano</p>
<p><strong>Um: sobre entender Rojava para além do espetáculo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma rede internacional de comitês de solidariedade à resistência curda vem se estabelecendo no mundo inteiro, impulsionada pela tradição da prática militante e funcionando basicamente como <em>bureaux </em>de propaganda do programa político de Rojava. Quem escreve este texto participou ativamente de um destes comitês no último ano (2016), movida por motivos que atravessam um campo extenso de ideações: de uma articulação política internacionalista; de uma auto-organização da vida cotidiana via assembleias de base, de bairro, comunas; da posição das mulheres não só nos frontes de batalha, mas à frente da sociedade, em pleno Oriente Médio; da história de décadas de guerrilha nas montanhas; da sobrevivência de povos originários sob os Impérios de todos os séculos; do cultivo de línguas proibidas e da dança em volta do fogo; dos mitos da antiga Mesopotâmia; da história heroica da esquerda na Turquia; da resistência às novas faces do fascismo; de uma <em>democracia sem Estado</em> que nasce de um Estado arruinado pela guerra civil; da noção de que neste tempo presente, em que tudo por toda parte parece avançar rumo às ruínas, há, em algum lugar do mundo, uma <em>revolução</em> posta em curso.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Rojava é uma zona de guerra, se encontra toda cercada e só pode ser conhecida em larga escala via o acesso remoto pela rede mundial de computadores. Assim se apresenta ao planeta como lugar <em>presente-ausente</em> no domínio global das imagens difusas: a internet. Páginas e perfis <em>online</em> põem em circulação uma profusão de fotos de garotas empunhando suas <em>kalashnikovs</em> fardadas com lindos lenços e tranças, montagens de paisagens montanhosas em cores contrastadas são sobrepostas ao retrato sorridente de Abdullah Öcalan, vídeos de combatentes <em>peshmergas</em> ostentando cadáveres do Daesh, reportagens de todo o tipo, panfletos, manifestações públicas de apoio… a dita <em>revolução curda</em> lançada ao mundo por compartilhamentos muitas vezes sem qualquer discernimento quanto ao conteúdo. Tal difusão se dá sobretudo pelo trabalho de propaganda militante, ou até diletante, e mais demonstram o repertório de um fascínio estético e fé política do que a própria realidade no terreno, que se apresenta aos nossos olhos sob uma nuvem de mistificação. No entanto, nem tudo o que circula é necessariamente tosco, e como qualquer outro acesso a uma realidade distante, entender Rojava exige uma pesquisa cuidadosa. E mesmo as imagens mais insólitas revelam algo de relevante sobre a guerra na nossa época: como, nesta era do capital fictício, a internet se constitui enquanto base material da guerra na Síria. Tal especulação virtual da tragédia não apenas produz conteúdo pesado para o mercado de dados da web (aquece a economia de cliques), como é inclusive responsável por arregimentar boa parte dos contingentes em campo e atrair investimentos para todos os lados. O espetáculo do colapso elevado ao <em>level hard</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer modo, Rojava existe. E aparece ao mundo como representação de <em>um outro possível</em> posto diante do estado de emergência em que este se encontra hoje. Revolucionário ou não (este é o tema quente de extensos debates nas páginas políticas), estamos falando de um <em>processo de formação social e territorial</em> histórico sem precedentes, que emerge no <em>epicentro da guerra mundial</em> da nossa época. E é claro que, entre o combate a inimigos reais em campo e o ataque à <em>totalitariedade</em> do Estado ou às abstrações concretas do capital, põem-se infinitos conflitos. Também a solidariedade internacional, assim como as críticas feitas por entidades estrangeiras contêm contradições. No limite deste texto, tecido a partir de afetos e atritos vividos no interior do militantismo anarquista de São Paulo, a defesa aqui feita é de que <em>as utopias têm sua importância; assim como tem importância a crítica radical à realidade tal como esta está dada</em>.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-119301" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/04/61ffe-dsc03532.jpg" alt="Biji Kritik Rojava: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial" width="510" height="383" /></p>
<p><strong>Dois: não se engane com a geopolítica</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A emergência histórica de Rojava enquanto região autônoma (autodeclarada <em>Federação do Norte da Síria</em>) diz respeito a uma <em>territorialidade formada na e pela guerra</em>. Mas não uma guerra qualquer (sem reduzir “qualquer guerra” a uma “guerra qualquer”), senão à protagonista das <em>guerras de reordenamento mundial</em> desta época – a guerra civil na Síria. Partir a análise por este pressuposto, com base no atual estágio do desenvolvimento capitalista, já atrita com várias perspectivas sobre a situação, sobretudo porque sabota concepções clássicas de <em>imperialismo e revolução</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A começar por recusar o modo mais vulgar de se ler uma guerra, personificando os Estados como “sujeitos” voluntariosos e plenos de poderes: como <em>players</em> num tabuleiro de <em>War</em>. Vista dessa maneira, a noção de <em>violência</em> se personifica nas figuras de Assad, Putin, Obama, Erdogan, Öcalan e os acontecimentos parecem redundar na vontade e atitude de entidades políticas identificadas por siglas (ISIS/PKK/AKP/YPJ/YPG/PYD/ETC). É <em>óbvio</em> que guerra tem estratégia estatal, e que chefes de Estado, partidos, organizações, desempenham os papeis que lhes cabem no jogo, com todo o teatro diplomático envolvido e as negociações por debaixo do pano. Mas nem tudo opera nesta escala de cartadas geopolíticas: há uma lógica abstrata e diversas contingências concretas movendo o processo. As ciências políticas que analisam e organizam as práticas políticas em geral não avançam pelo terreno das críticas do <em>valor</em> e da <em>vida cotidiana</em>. São justamente estes os frontes desta análise.</p>
<p><strong>Três: a guerra na época do capital fictício</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As condições da guerra, por sua vez, não são uma constante trans-histórica: não há fundamento antropológico que dê conta de entender o que de concreto move um a matar ao outro em massa. Cada guerra se determina em particular pelas estruturas sociais dadas a cada lugar e época, ligadas ao desenvolvimento geral da sociedade. Assim as guerras de hoje não seguem aquelas entre Impérios da primeira metade do século XX, nem às guerras regionais entre Estados dependentes das superpotências da segunda metade, nem as dos séculos anteriores, mas, sim, têm a ver com as circunstâncias gerais da nossa época – marcada pela queda do <em>Centro Mundial de Trocas</em> (<em>a.k.a.</em> WTC 11.9.01), atacado por <em>atores invisíveis</em> (a máscara do terrorismo), o ato inaugural do século XXI.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma ruptura substancial entre as guerras de antes e as de hoje. Se até o quase final do século XX as guerras operavam como motor à explosão do imperialismo, para a expansão forçada de fronteiras e dominação colonial de territórios, incorporando a tudo e a todos ao sistema mundial produtor de mercadorias, esse mesmo processo violento ainda avança – pois a modernização é irreversível – mas agora opera ao revés. Depois de ter forçado a socialização capitalista (baseada no trabalho abstrato) até os últimos rincões do planeta, o capital global entra em crise de valorização (ou seria colapso) e deixa zonas imensas em desolação econômica. E o que acontece nestes lugares de relações sociais mediadas pelo dinheiro que se veem num deserto financeiro? Estados desmoronados, deslocamentos forçados, guerra civil. Com o avanço acelerado da terceira revolução industrial, as especulações estratosféricas e as crises de hiperacumulação, o poder mundial não opera mais para incorporar “recursos” à reprodução ampliada do capital <em>porque tal capacidade se esgotou como se previa, sem ter engendrado sua própria superação como se esperava</em>. As novas guerras explodem então para a <em>exclusão de excedentes do sistema</em>, pois interessa ao rearranjo do ordenamento mundial capitalista a <em>destruição de estruturas e o extermínio de gente cuja existência, do ponto de vista da valorização capitalista, corresponde a um entrave</em>.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-119302 size-full" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/04/maxresdefault.jpg" alt="Biji Kritik Rojava: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial" width="1280" height="720" /></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto o capital financeiro transnacional acumulado por certos “agentes” banca a barbárie, a posição das velhas potências mundiais é permitir, a princípio, que <em>“eles se matem”</em>; e fornecem até forças e armas para tanto, como se fosse uma “guerra normal” de manutenção do <em>status quo</em>. Mas ao deflagrarem a maior “crise humanitária desde a segunda guerra mundial” (noticiada assim pela mídia como se a “vida normal” nessa sociedade já não fosse “crise humanitária”), então agem para lidar com os resíduos da catástrofe que produziram alhures. Assim, do controle da barbárie, passa-se à barbárie do controle: reações nacionalistas, radicalização do racismo, aumento do policiamento, recrudescimento das fronteiras, agravamento das condições de vida, genocídio. Não é a toa que a situação seja vista como atualização do fascismo – mas o ponto é que este agora não opera mais sob o fundamento de expansão da economia nacional <em>pois já não se pode mais explorar produtivamente os dominados</em>. Diferente de outras épocas, as migrações massivas não se dão mais pela <em>mobilidade do trabalho</em> (como era a história dos escravizados, dos proletarizados, ou mesmo daqueles que se aburguesavam alhures), mas pelo imperativo da <em>mobilização pela tragédia</em> – e isso é notável nas narrativas das próprias sagas pessoais sobre o abandono de tudo que se tinha, sobre a travessia de mares e desertos, que se dão não “por emprego”, senão pelo desespero de <em>poder continuar a existir</em>. Aqueles que, neste horizonte, conseguem ser explorados pelo trabalho chegam a parecer ter sorte. Cada uma dessas tragédias particulares é quantificada pelos Estados enquanto custo de gestão populacional. No fascismo do capital fictício, refugiados são tratados como <em>commodities</em> humanas escoadas num mercado mundial em crise. As “saídas políticas” aparecem <em>sempre provisórias</em>, assim como as medidas improvisadas vão virando permanentes. Os governos estendem <em>ad eternum</em> o estado de emergência: já não podem prometer nada senão o parcelamento da catástrofe a crédito e com juros.</p>
<p><strong>Quatro: Economia e Política, modelos em guerra</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A guerra civil da Síria expressa radicalmente os conteúdos deste tipo específico de guerra do <em>colapso da modernização</em>. Foi disparada pela insurgência popular num contexto de crise política e econômica, esmagada por um governo que atacou a própria população justamente por não poder defender sua administração da estrutura estatal. Vista do campo, acontece mais como um caos generalizado de centenas de milícias que se enfrentam em coalizões cambiantes, formadas por pequenos poderes armados (de várias ordens: os comandantes podem ser <em>sheiks</em>, gangsters, burgueses, chefes tribais, líderes comunitários… os combatentes, em geral, proletários), bancadas pelo capital financeiro estrangeiro (magnatas do petróleo, empresários de armas, há uma diversidade enorme de investidores interessados), e que, portanto, não são apenas inimigas no fronte, como também empresas concorrentes na disputa por investimento. Se no início do “conflito” uma única bala de AK-47 podia custar até dois dólares, quanto não custa esta guerra cinco anos depois?</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ponto fundamental para entender a guerra no capitalismo: não são os mortos que contam para os “acordos de paz”</em>. Controlar áreas militarmente implica em assumir a gestão dos lugares que se ocupa. Em regiões autônomas em relação ao Estado (sejam zonas rebeldes, Rojava ou o Califado), os grupos armados têm seus braços políticos (ou seria o contrário?), já que nessas condições a ordem social só existe enquanto posse da violência. Não à toa, as primeiras instituições civis que se estabelecem em áreas auto-administradas são a Polícia e a Justiça. Mas no plano das necessidades radicais, cabe à população em geral dar conta da manutenção da própria vida. É aí que se estabelece a <em>autogestão da sobrevivência</em> numa sociedade em ruínas.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-119303 size-full" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/04/Tanques-turcos.jpg" alt="Biji Kritik Rojava: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial" width="900" height="600" /></p>
<p style="text-align: justify;">O <em>Confederalismo Democrático</em> – modelo autogestionário que corresponde ao estatuto revolucionário de Rojava, que basicamente organiza a sociedade em níveis escalares partindo da base, e exige máxima representatividade da população nas esferas especializadas da política – proporciona a uma sociedade sob condições críticas de reprodução (com a capacidade produtiva praticamente arruinada e desequipada de toda a velha infraestrutura estatal) não apenas um funcionamento relativamente eficiente para a manutenção do território, como rearranja de modo bastante relevante a ordem social existente. É evidente também que, por toda parte onde a guerra se estabelece, a ordem social existente necessariamente se rearranja de maneira substantiva. Mas diferente do modo bárbaro como a gestão do território se estabelece em outras partes da Síria (como adjetivar a administração do <em>Daesh</em>?), o modelo em vigor em Rojava foi montado pelo Partido a partir de um repertório extenso de gestões da esquerda no último século, compondo num único mecanismo uma miscelânea de elementos do anarquismo e do socialismo, tanto quanto da social-democracia e da antiga ordem feudal, tem forte influência do movimento feminista ocidental, incorpora novas ondas capitalistas como a “economia solidária”, além de tentar introduzir técnicas ecológicas para a produção em geral, enquanto queima petróleo para produzir energia elétrica e prover a população de necessidades básicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos que adoram os consensos da práxis de esquerda, esse soa um modelo quase utópico, o consomem como idílio ideológico. Já àqueles teóricos da crítica que apontam afoitos na internet as incongruências entre o “projeto libertário” de Rojava e suas “práticas autoritárias”, é preciso dizer a eles que esse atrito entre um modelo de sociedade e a existência contraditória de uma sociabilidade, bem… esse não é um problema exclusivo dos “mals revolucionários curdos”: mas da <em>Política</em>, no sentido de esfera especializada em administrar o cotidiano. O verdadeiro problema da máquina <em>democrática não-estatal</em> montada em Rojava se encontra neste fundamento, e não nas especificidades do seu “bom” ou “mal” funcionamento, que não passam de contradições incondicionais. Em todo caso, as críticas ao processo concreto são necessárias, mas sendo cuidadosas em considerar as contingências. Já no campo da <em>Economia</em>, avisem aos críticos que a declaração de autonomia de um território não significa sua autonomização do planeta. Dado o grau de devastação das estruturas físicas do território, trocas precisam ser negociadas para garantir o mínimo de abastecimento para a população, e não há troca que se faça nesse mundo sem a mediação do dinheiro. Que Rojava esteja assentada sobre uma bacia de petróleo pode ser vista como sorte para uns ou azar para outros, o que importa é: comercializam <em>porque precisam</em>. Sobre a manutenção da propriedade privada, outro tópico que os analistas estrangeiros de Rojava não param de pôr em pauta, sabe-se que esta é uma questão de embate nos conselhos, e é, aliás, uma discussão elementar a ser feita não só do ponto de vista das teorias socialistas, mas porque repercutem imediatamente nas determinações práticas da vida. Mas também é importante lembrar que, no limite da análise, todos os modelos locais que aparecem como alternativos, o cooperativismo por exemplo, ainda são categoricamente capitalistas. Então para reiterar o óbvio aos peritos críticos da revolução dos outros: é impossível abolir a forma-mercadoria num contexto isolado – mas isso também nunca esteve no programa de Rojava.</p>
<p><strong>Cinco: as histórias de vitória curda</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Certamente, as vitórias das forças curdas (a impressionante batalha de Kobane) e a consequente conquista territorial para a autodeclarada Federação do Norte da Síria têm a ver com a história de organização política militar do PKK e a experiência de décadas de guerrilha contra os exércitos de todos os Estados nacionais que dominam o Curdistão; um repertório estratégico bastante avançado aliás, considerando a conjuntura desta guerra confusa. Também é claro que o sucesso de suas campanhas não se deve só a uma “cultura curda de inteligência bélica”, muito menos ao armamento soviético velho recuperado do Afeganistão, senão ao forte suporte norte-americano e ao apoio de outros países ao PYD/YPG/YPJ. Apontar tal posição tática e diplomática como incoerente para uma “luta verdadeiramente revolucionária” é uma crítica comum feita às milícias populares curdas, feita por aqueles que ignoram o quadro de necessidades reais extremas para que uma defesa seja possível naquele contexto. A perversidade está em exigir ao Outro, que no limite luta pela sobrevivência, que resista à guerra numa posição livre de contradições. Claro que é fundamental chamar atenção para as execuções e coerções historicamente promovidas pelo movimento curdo, porque flagra a incoerência dos princípios éticos e desmonta em público a ideologia dos discursos. Mas as insistentes acusações de violação aos direitos humanos que são dirigidas aos partidos socialistas curdos, em sua maioria não dialetizam a violência inerente a um processo social conduzido sob a ordem mundial do Estado, do Capital e do Patriarcado, e sim afirmam a ideologia burguesa da não-violência que reitera tal ordem, reivindicando seu código moral.</p>
<p><strong>Seis: essencialismo e status revolucionário</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Sem botar sobre Rojava o peso teórico, seja socialista utópico ou científico, do termo <em>revolucionário</em>, dá ao menos para ver seu processo como <em>estamentário</em>: no sentido de organização da sociedade civil posta em direção à consolidação de um novo tipo de estrutura social geral, que todavia não se estabeleceu. Enquanto momento histórico, o <em>processo de formação</em> move a sociedade pela virtualidade, apontando várias formas de organização possíveis que vão, com a vida em curso, se instituindo ou não. Se pode parecer impossível existir um território sem fronteiras rígidas ou uma arquitetura política sem Estado, é porque a forma Estado passou historicamente por um processo estamentário e se consolidou como forma absoluta da sociedade moderna. Mas com a modernização em colapso, vemos algo novo aí surgindo. Em Rojava como em diversas outras territorialidades contemporâneas, a auto-organização social numa porção de território não destitui imediatamente a existência do Estado que o domina, mas o prescinde enquanto mecanismo organizativo. Isso não necessariamente aponta para a superação histórica do Estado, muito menos se refere a uma “Zona Autônoma Temporária”; trata-se, antes de mais nada, de outra formação social tornada possível dada a plasticidade da ordem mundial em crise, e aos imperativos de rearranjo do sistema global capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer modo, a condição insanamente negativa de um processo de formação social conduzido sob a barbárie só pode destituir a ideia positivista da existência de um sujeito histórico revolucionário. A compreensão de que a história é feita por um corpo social organizado (cabe aqui uma miríade de formas e identidades possíveis), que conscientemente domina (seja pela “teoria social verdadeira” ou pelo tal “acúmulo de experiências” que a militância sempre clama) a um processo social posto em curso, projetando nele seu devir como se fosse um “programa”… esta ideia se mostrou uma ilusão, ainda mais depois do último século, quando aconteceram enfrentamentos autênticos por toda parte, sem terem, contudo, alcançado mais do que “meias-revoluções” (arranques de melhorias reais limitadas a certos âmbitos da vida social – <em>“partout des révolutionnaires, mais la Révolution nulle part”</em> – I.S. nº10, 1965). Isso só demonstra o quanto as teorias e as práxis políticas em geral não escapam à velha metafísica do sujeito da Razão iluminista, a mesma que fundou o Estado moderno e anima o capitalismo há séculos, agora mais do que nunca sob os signos da “administração” e “gestão social” (“planejamento” e “urbanismo” inclusos).</p>
<p style="text-align: justify;">Neste ponto, pode-se admitir que quase todo o debate sobre o status <em>verdadeiro</em> ou <em>falso</em> da revolução de Rojava feito entre anarco-apologetas e críticos marxistas cínicos continua acontecendo no plano do pensamento cartesiano, e reitera uma ideia fetichista de revolução. E no fim das contas, este também se demonstra um falso problema: porque as formulações abstratas do que é ou não revolução desconsidera as implicações concretas do ela representa para quem move (contraditoriamente) o processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Guerra e Paz no Curdistão</em>, Öcalan elabora uma tese da identidade curda com um <em>ethos essencialmente revolucionário</em>. Ele se baseia nos trabalhos acadêmicos de intelectuais de esquerda da Turquia nos anos 70, comprometidos com a construção política de uma identidade nacional curda para a fundação de um Estado socialista na região, e defende que a etnia curda é autóctone da Mesopotâmia e descende da primeira civilização, responsável pela <em>revolução neolítica</em>; também, veja bem o determinismo geográfico, que pela conformação de seu território (sobre a cordilheira Zagros-Taurus), os curdos (etimologicamente os <em>kurtis</em>, povos das montanhas) seriam <em>essencialmente guerrilheiros</em>. Já a <em>jinealogia</em>, a ciência específica das mulheres desenvolvida nas últimas décadas pelas academias de mulheres curdas, também se estabelece <em>naturalizando</em> o poder que estas vêm conquistando na sociedade ao longo de uma história de luta muito dura. Se hoje as mulheres ocupam papel central na formação social de Rojava, isso definitivamente não se deu por conta de uma “natureza feminina”, nem a convite de um líder homem iluminado, mas porque elas foram armadas pelas necessidades da guerra, ganharam força nas revoltas populares e forçaram sua maior participação ao longo do processo, como protagonistas da luta contra suas próprias opressões. Ou seja, por mais que essa ontologia toda sirva de discurso ideológico, o tal “espírito revolucionário” curdo diz respeito à história das tradições de resistência dessas populações. Trata, afinal, dos <em>modos de sobrevivência </em>passados geração a geração, durante séculos de guerra e dominação. A cosmogonia de um povo construída ao entorno de uma identidade revolucionária faz com que os mortos do passado reascendam a esperança nos vivos quando estes se encontram em perigo.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, a representação de Rojava como <em>revolução</em> pode ser ideológica, mas é real. É real porque desdobra de uma realidade histórica ao mesmo tempo em que determina esta realidade agora. A esperança e a desesperança não são só virtualidades: elas mobilizam a ação. A revolução enquanto representação comum de outra sociedade possível imprime sentido ao processo social vivido agora; move a comunidade, como a cada um em particular, a produzir ativamente a própria história – mesmo que não dominem totalmente o processo social que põem em curso.</p>
<p><strong>Sete: o sentido possível da solidariedade</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nas notas preparatórias para as teses sobre o conceito de história, escritas na época em que o fascismo triunfava, Benjamin escreveu: <em>“Marx diz que as revoluções são as locomotivas da história. Mas talvez não seja bem assim. É possível que as revoluções sejam, para a humanidade que viaja nesse trem, o gesto de puxar o freio de emergência”</em>. Se o único progresso lógico possível é o da expansão exponencial da barbárie, a revolução que se pode encontrar em Rojava está precisamente no combate deste avanço, como tentativa de ampliar o campo dos possíveis em direção a outro devir.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a violência do capital em colapso avançar em escala global, o essencial da solidariedade internacional às lutas radicais pela sobrevivência não está em fazer a defesa de um modelo político determinado, mas em mover-se em direção ao encontro com o outro; sem exigir-lhe um papel heroico ou acusá-lo moralmente por suas contradições. O movimento solidário se dá no sentido de entender sob quais condições se encontram nossas irmãs e irmãos, e buscar junto com elxs pelas violências capazes de combater a verdadeira violência que é a totalidade capitalista. Por isso é preciso manter a revolução como representação no campo dos possíveis – para que nos mova, porque não estamos mortos. Ou, como canta o lema Rojavista:</p>
<p><em>”Berxwedan Jiyan ê”!</em> (“Resistência é vida”).</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-119304 size-full" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/04/b926db1a349295e4b542742794fe0f26.jpg" alt="Biji Kritik Rojava: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial" width="3300" height="1809" /></p>
<p><strong>BIBLIOGRAFIA:</strong></p>
<p><em><strong>Adresse aux révolutionnaires d’Algérie et de tous les pays</strong> (Argel, juillet 1965)</em> – Internationale Situationniste, numéro 10. Mars, 1966.<br />
<em><strong>Califat &amp; Barbarie:</strong> En attendant Raqqa</em> – Tristan Leoni, DDT21. Julho 2016.<br />
<em><strong>Crédito à morte:</strong> a decomposição do capitalismo e suas críticas</em> – Anselm Jappe, 2012.<br />
<em><strong>Cristóvão Colombo Forever?</strong> Para a crítica das atuais teorias da colonização no contexto do colapso da modernização</em> – Roswitha Scholz, Revista EXIT! nº 13. Julho 2016.<br />
<em><strong>Guerra e paz no Curdistão:</strong> perspectivas para uma solução política da questão curda</em> – Abdullah Öcalan, 2008.<br />
<em><strong>La présence et l’absence:</strong> Contribuition à la théorie des représentations</em> – Henri Lefebvre, 1980.<br />
<em><strong>Por una internacional del género humano</strong></em> – Raoul Vaneigem, 1999.<br />
<em><strong>Rojava Revolution:</strong> Reshaping masculinity</em> – Rahila Gupta, 9/5/2016.<br />
<em><strong>Sobre o conceito da história</strong></em> – Walter Benjamin, 1940.<br />
<em><strong>Weltordnungskrieg:</strong> A guerra de ordenamento mundial, o fim da soberania e as mutações do imperialismo na era da globalização</em> – Robert Kurz, Crônicas do capitalismo em declínio (2003-2012).</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Originalmente publicado em espanhol no <a href="http://www.dosytresdorm.org/2&amp;3DNUMERO1_WEB.pdf" target="_blank" rel="noopener">#1 da revista 2&amp;3 DORM.</a> Traduzido e nos enviado pela própria autora.</em></p>
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		<title>Frente à guerra, curdos declaram autogovernos na Turquia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Aug 2015 19:33:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Síria]]></category>
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					<description><![CDATA[Com a escalada de ataques do governo Erdoğan, nos últimos dias cidades e bairros curdos se declararam em autogoverno e formaram autodefesas. Por JINHA]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por JINHA</h3>
<p style="text-align: justify;">Desde a nova onda de ataques do presidente turco Erdoğan contra o Curdistão logo após as eleições de junho, pessoas de todas as idades se juntaram aos esforços para se defender e governar a si próprias na região.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde os anos 1990, o Estado turco tem usado táticas de negação, assimilação e aniquilamento na região norte do Curdistão. Ainda que as promessas de paz que o AKP [Partido da Justiça e Desenvolvimento] fez ao chegar ao poder tenham despertado esperanças em muitos, 13 anos depois tais promessas permaneceram no papel.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 7 de junho, os curdos e outras pessoas Turquia afora rejeitaram o AKP em uma histórica eleição. O resultado do pleito arruinou os sonhos de Recep Tayyp Erdoğan de levar o país a um sistema no qual o poder ficaria concentrado no presidente. Agora Erdoğan declarou, na prática, uma guerra pessoal contra os curdos antes das eleições antecipadas, na esperança de começar uma guerra antes das eleições.</p>
<figure id="attachment_105823" aria-describedby="caption-attachment-105823" style="width: 300px" class="wp-caption alignright"><a href="/wp-content/uploads/2015/08/amed-women.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-105823 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/amed-women-300x168.jpg" alt="amed-women" width="300" height="168" /></a><figcaption id="caption-attachment-105823" class="wp-caption-text">Autodefesa de mulheres em Amed</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">No espírito das mulheres das YPJ [Unidades de Defesa das Mulheres, de Rojava] que lutam contra o Estado Islâmico em defesa de sua autonomia, os curdos da região norte declararam autogoverno em uma série de áreas. Entre as cidades e bairros que se declararam em autogoverno, estão Silopi; Cizre; o bairro Batman&#8217;s Bağlar; o distrito de Diyarbakır&#8217;s Sur; Lice; Silvan; Varto; Bulanık; Yüksekova; Şemdinli; Edremit; o bairro Van&#8217;s Hacıbekir; o bairro Gazi, em Istambul; e Doğubeyazit.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira declaração de autogoverno veio da cidade de Silopi no dia 10 de agosto. Silopi não é estranha à violência estatal. Moradores assistiram a assassinatos no meio da rua e vítimas atiradas em barris de ácido durante os anos 1990. Quando o AKP intensificou os ataques ao Curdistão, Silopi foi a primeira a entrar em ação. Em Silopi, a população cavou trincheiras em seus bairros para se prevenir contra a entrada de policiais ou soldados. Foi quando a polícia começou um ataque total.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 7 de agosto, de manhã cedo, policiais abriram fogo no bairro Zap, assassinando Hami Ulaş, de 58 anos, e Mehmet Hıdır Tanboğa, de 17. A polícia metralhou contra casas, deixando seis lares em chamas. O ataque deixou vários feridos, dentre eles crianças.</p>
<p style="text-align: justify;">A polícia começou a prender todos os feridos levados ao hospital. Um morador que fora baleado durante uma tentativa de prisão foi trazido à cidade de Diyarbakı por voluntários de direitos humanos horas depois, e lá o prenderam. Conforme a polícia posicionou snipers no topo dos prédios, moradores fecharam as cortinas para bloquear sua visão (uma famosa tática usada durante a resistência de Kobane em Rojava). Hoje, é difícil encontrar uma casa sem buracos de bala em suas paredes ou janelas.</p>
<figure id="attachment_105827" aria-describedby="caption-attachment-105827" style="width: 590px" class="wp-caption aligncenter"><a href="/wp-content/uploads/2015/08/silvan-defense-women.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-105827" src="/wp-content/uploads/2019/10/silvan-defense-women.jpg" alt="Assembleia popular em Silvan" width="590" height="383" /></a><figcaption id="caption-attachment-105827" class="wp-caption-text">Assembleia popular em Silvan</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A cidade de Cizre, também na província de Şırnak, viveu anos de massacres da polícia e soldados. Lá, os moradores se juntaram a Silopi ao declarar autogoverno no dia 10 de agosto. A população de Cizre estava bem preparada para a autodefesa. Na declaração de autogoverno, os moradores afirmam que é somente cavando trincheiras que eles poderão respirar tranquilos outra vez.</p>
<p style="text-align: justify;">A onda de execuções, prisões e torturas do governo de AKP começou uma escalada, trazendo à tona para muitos imagens dos dolorosos anos 1990. No dia 13 de agosto, o distrito de Varto, situado na província de Mus, se juntou às declarações de autogoverno. Em resposta, o Estado declarou, na prática, guerra contra a população local, começando uma onda de prisões e detenções na cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Os confrontos irromperam no dia 15 de agosto, quando as guerrilhas do HPG (ligadas ao PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão) tomaram controle das entradas e saídas da cidade por todo final de semana. Voluntários armados montaram trincheiras ao logo de todas as principais avenidas de Varto. Com uma investida mirando a base do distrito de polícia e o comando militar, as guerrilhas também garantiram o controle sobre as estradas e vias de acesso à cidade. Os guerrilheiros disseram à polícia e aos soldados que se mantivessem dentro dos prédios por sua própria segurança, deixando-os sem poder sair.</p>
<figure id="attachment_105821" aria-describedby="caption-attachment-105821" style="width: 300px" class="wp-caption alignleft"><a href="/wp-content/uploads/2015/08/620x366x680x365cc-v-16-8-15-ekin-wan3.jpg.pagespeed.ic_.N8ZjOVt3xC.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-105821 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/620x366x680x365cc-v-16-8-15-ekin-wan3.jpg.pagespeed.ic_.N8ZjOVt3xC-300x176.jpg" alt="620x366x680x365cc-v-16-8-15-ekin-wan3.jpg.pagespeed.ic.N8ZjOVt3xC" width="300" height="176" /></a><figcaption id="caption-attachment-105821" class="wp-caption-text">Ekin Van</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Nas redes sociais, começou a circular uma foto de Kevser Eltürk (nome de guerra Ekin Wan), guerrilheira da YJA Star [União de Mulheres Livres &#8211; Estrela], cujo corpo a polícia deixou nu, arrastou pelo chão e fotografou. Protestos contra o tratamento de Ekin Wan se espalharam por todo Curdistão. No dia 17 de agosto, foram encontrados dois cadáveres em Varto. Identificaram ser dos voluntários Andok Ekin e Demhat. A polícia assassinara um e esquartejara outro, de acordo com testemunhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Varto rapidamente se tornou em zona de guerra conforme soldados entraram no centro da cidade usando tanques e veículos blindados. Dezenas de construções foram destruídas. Uma delegação liderada por Selma Irmak, co-presidente do Congresso da Sociedade Democrática (DTK), analisou o dano e entrou em contato com locais, mas os oficiais de governo não aceitaram se reunir com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">A cidade de Bulanık, também na província de Muş próxima a Varto, declarou o autogoverno no dia 13 de agosto. Membros dos partidos HDP [Partido Democrático do Povo] e DBP, assembleias de bairros e co-prefeitos locais aderiram à declaração. Ali, Zeynep Topçu do Partido das Regiões Democráticas (DBP) falou em nome da Assembleia da Cidade Democrática, dizendo que como representantes eleitos pelo povo de Bulanık, eles iriam governar a si próprios, já que o regime não os representa.</p>
<figure id="attachment_105822" aria-describedby="caption-attachment-105822" style="width: 300px" class="wp-caption alignright"><a href="/wp-content/uploads/2015/08/silvan-defense.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-105822 size-medium" src="/wp-content/uploads/2019/10/silvan-defense-300x225.jpg" alt="silvan-defense" width="300" height="225" /></a><figcaption id="caption-attachment-105822" class="wp-caption-text">Autodefesas em Silvan</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">No dia 15 de agosto, aniversário do dia em que o PKK abriu fogo pela primeira vez no levante armado de anos atrás, foi também o dia em que a cidade de Silvan (em curdo, Farqîn), situada na província de Diyarbakır, declarou sua autonomia. A resistência cresceu após a Assembleia Popular de Farqîn decretar o autogoverno. Notavelmente, as mulheres ocuparam um papel de liderança na luta para defender as trincheiras em Silvan.</p>
<p style="text-align: justify;">O distrito de Sur, que é a parte mais antiga da cidade de Diyarbakır, declarou autogoverno no dia 14 de agosto. Com a declaração de autodefesa, a polícia intensificou seus ataques já frequentes na área. O bairro Lalebey se tornou palco de forte violência policial, enquanto jovens tentavam defender a vizinhança nas trincheiras. Oficiais eleitos do HDP e do DBP realizaram uma vigília noite adentro no bairro para evitar confrontos.</p>
<p style="text-align: justify;">O distrito de Lice, na província Diyarbakır, é um lugar onde muitos jovens foram assassinados pelas mãos do Estado nos últimos anos – de Ceylan Önkol, 12 anos, assassinado pela polícia, a Medeni Yıldırım, 18 anos, baleado durante um protesto contra a construção de um nova base policial. Recentemente, homens e mulheres jovens também tomaram as ruas decididos a defender seus bairros de ataques da polícia. Policiais avançaram nas ruas em veículos blindados, abrindo fogo indiscriminadamente nos bairros, ao que os membros da resistência responderam usando pistolas e granadas de luz.</p>
<p style="text-align: justify;">Na cidade de Yüksekova, na província de Hakkari, a resistência se espalhou a partir dos bairros de Orman, Kışla e Dize. Jovens conseguiram fechar totalmente o acesso aos bairros com trincheiras. Moradores formaram unidades de autodefesa para fazer vigílias armadas à noite. A comunidade fez danças tradicionais em torno de fogueiras, cantando músicas para apoiar a vigília. Seguindo Yüksekova, a cidade vizinha de Şemdinli também declarou autogoverno.</p>
<p style="text-align: justify;">Na cidade de Batman, a assembleia do bairro de Bağlar declarou o autogoverno como “uma necessidade urgente contra o Estado e o ataque total do governo do AKP”. A província de Van Oriental viu a autonomia ser declarada no distrito de Edremit, próximo à cidade de Van, onde a Assembleia Democrática do Povo de Edremit declarou a rejeição ao Estado. No bairro de Hacıbekir (em curdo, Xaçort), situado na área central de İpekyolu de Van, a Assembleia Democrática do Povo do bairro também declarou autogoverno.</p>
<p style="text-align: justify;">Declarações de autogoverno e o compromisso com a autodefesa só estão se espalhando. Hoje, distrito de Doğubeyazıt, na província de Ağrı, e o bairro de Gazi, em Istambul, também decidiram pelo autogoverno.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido do artigo de <a href="http://jinha.com.tr/en/ALL-NEWS/content/view/29082" target="_blank" rel="noopener noreferrer">JINHA</a>  publicado em 19 de agosto.</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: center;"><a href="/wp-content/uploads/2015/08/varto-defense.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-105825" src="/wp-content/uploads/2019/10/varto-defense.jpg" alt="varto-defense" width="590" height="400" /></a></p>
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		<title>As esperanças turcas de um novo começo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Jun 2013 16:48:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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		<category><![CDATA[Turquia]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma generalização clara que pode ser feita dos protestos é que eles são pluralistas, refletindo muitos setores diferentes da sociedade turca.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por John McSweeney</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos dias a Turquia vem sendo tomada por perturbações sociais em larga escala do tipo que não se vê desde a desastrosa crise econômica de 2000-2001. Os protestos começaram no dia 28 de maio em Istambul, quando alguns ambientalistas e ativistas locais ocuparam o Parque Gezi, protestando contra a derrubada de um dos poucos grandes parques verdes na metrópole urbana em expansão que é Istambul — uma cidade de mais de 13 milhões de pessoas — para a construção de um <em>shopping center</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/2013/06/78477/turquia-2" rel="attachment wp-att-78493"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-78493" title="Turquia 2" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-2-300x168.jpg" alt="" width="300" height="168" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-2-300x168.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-2.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>No entanto, o que começou como um protesto de um pequeno número de pessoas se tornou uma crise a nível nacional após a circulação nas redes sociais de imagens da abordagem repressiva com que a polícia estava enfrentando os protestos. Fotos de tropas de choque totalmente equipadas jogando <em>spray</em> de pimenta e gás lacrimogênio em manifestantes pacíficos e desarmados, muitos deles mulheres, provocaram uma indignação generalizada e essa indignação resultou em uma cacofonia de “bastas” através do twitter e em outros lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Os manifestantes tiveram a adesão de muitos jornalistas conhecidos, atrizes e atores famosos e também de cantores cuja popularidade ajudou a publicizar a brutalidade policial. Ser uma figura pública conhecida, no entanto, não oferece nenhuma proteção da brutalidade policial na Turquia. A polícia atacou a todos com igual vigor e então contas de twitter no país inteiro viram imagens do jornalista famoso Ahmet Sik com seu rosto coberto de sangue da repressão policial.</p>
<p><strong>Blecaute midiático</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/2013/06/78477/turquia-6" rel="attachment wp-att-78497"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-78497" title="Turquia 6" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-6-300x168.jpg" alt="" width="300" height="168" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-6-300x168.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-6.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>A participação de envolvidos no mundo cultural turco – Taksim, a fonte inicial dos protestos, é o âmago cultural da Turquia – reflete um descontentamento crescente entre as classes liberais contra as intervenções cada vez mais autoritárias do governo na produção cultural. Medidas que vão desde a imposição de códigos de vestimenta nas novelas, a substituições de vozes críticas da TV e dos jornais até à colocação de administradores pró-governo para a elaboração de editoriais vêm causando queixas de que a mídia independente na Turquia está tendo o seu fim.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, a extensão em que a mídia tem sido amordaçada nos últimos anos tem também gerado combustível para os protestos; de fato, enquanto estava claro para a maioria na cidade o que estava acontecendo na rua em Taksim, a mídia convencional simplesmente ignorou os acontecimentos – apesar do fato de a Haber Turk, uma das maiores estações de TV, estar literalmente na esquina do Parque Gezi! Esse &#8220;número&#8221; de ignorância fingida inflamou o senso de indignação popular em relação ao governo e à mídia dirigida pelo governo e confirmou os medos de muita gente de que o país está lentamente marchando de olhos fechados para um regime autoritário. Conta-se uma história engraçada de que um homem em Besiktas jogou sua TV pela janela do apartamento, frustrado porque, ao invés de estar falando da tropa de choque atacando manifestantes e enchendo o seu bairro de gás lacrimogênio, um canal importante da TV turca escolheu transmitir um programa sobre pinguins [veja <em><a href="http://passapalavra.info/2013/06/78429" target="_blank" rel="noopener">aqui</a></em> a quarta ilustração a contar de cima].</p>
<p><strong>Mercantilização da cidade</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O medo do governo autoritário que se sente entre a burguesia liberal de Istambul também é sentido de forma aguda pela classe operária organizada da Turquia, que há menos de um mês enfrentou uma repressão policial em larga escala durante os protestos anuais do 1º de maio. O governo decidiu impedir o protesto anual sob o pretexto de preocupações de &#8220;segurança&#8221; relativas ao trabalho nas construções. No entanto, poucas semanas depois, os fãs do clube de futebol Galatasaray puderam celebrar a vitória no campeonato no mesmo lugar que havia sido considerado &#8220;inseguro&#8221; para manifestações de massa algumas semanas antes.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/2013/06/78477/turquia-4" rel="attachment wp-att-78499"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-78499" title="Turquia 4" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-4-300x168.jpg" alt="" width="300" height="168" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-4-300x168.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-4.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Isso mostrou para muitos que o governo está deliberadamente fechando os espaços de dissidência na cidade, e a reconstrução da Praça Taksim é vista por muitos como o começo de um projeto mais amplo de despolitizar e aumentar a vigilância no centro da cidade e também como parte uma estratégia de reconstrução mais ampla para <em>gentrificar</em> e mercantilizar a região. A Praça Taksim tem um valor particularmente afetivo para os corações e mentes das forças progressistas na Turquia porque se trata do local em que ocorreu um massacre contra manifestantes do 1º de maio no fim dos anos 70.</p>
<p style="text-align: justify;">O processo de mercantilização urbana é uma das principais características do desenvolvimento de Istambul, com a destruição de favelas e a sua substituição por construções multibilionárias para a elite de Istambul, a construção de arranha-céus de arquitetura modernista e a construção de uma ponte Bosphorus, que estão mudando dramaticamente a paisagem histórica de Istambul. Todas essas coisas forçaram o Comitê do Patrimônio Mundial da UNESCO a ameaçar classificar o patrimônio histórico de Istambul como “em perigo”. Os minaretes da arquitetura histórica da cidade estão sendo obscurecidos pelo desejo do governo municipal e de investidores de aplicar capital latente na construção de prédios cada vez mais altos e cada vez mais <em>shopping centers</em> – o que é irônico quando se pensa que o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_da_Justi%C3%A7a_e_Desenvolvimento_(Turquia)" target="_blank" rel="noopener">AKP</a> [Partido da Justiça e Desenvolvimento, no governo] é considerado uma força conservadora e com raízes islâmicas.</p>
<p><strong>Velhas divisões e novas solidariedades</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As raízes “islâmicas” do AKP são um argumento utilizado frequentemente para tentar falar do conflito na Turquia como se este fosse determinado por uma guerra cultural entre os kemalistas “secularistas” de antigamente e as classes médias islâmicas emergentes. Essa narrativa é popular em um largo segmento dos apoiadores do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Republicano_do_Povo" target="_blank" rel="noopener">CHP</a> (Partido Republicano Popular) – o maior partido de oposição parlamentar na Turquia.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/2013/06/78477/turquia-5" rel="attachment wp-att-78502"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-78502" title="Turquia 5" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-5-300x168.jpg" alt="" width="300" height="168" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-5-300x168.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-5.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>De fato, a percepção dessas divisões não foi melhorada quando na última semana o AKP decidiu impor uma nova legislação, banindo a venda de álcool após as 10 horas da noite, sem uma discussão mais ampla. Adicionalmente, revelou-se que a terceira ponte a ser construída teria o nome de um sultão otomano, Yavuv Sultan Selim – um sultão infame pela sua perseguição aos Alevitas do Império Otomano.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa narrativa também interessa ao AKP porque permite unir os seus apoiadores pela lembrança constante do tratamento discriminatório que os muçulmanos de fé sofriam antes da ascensão do AKP ao poder. Ela cria uma forma de distrair a atenção da sua atitude relaxada em relação ao capitalismo financeiro e a sua tentativa de disfarçar o desenvolvimento neoliberal com uma faceta islâmica como uma forma de manter uma hegemonia neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se, então, de uma narrativa conveniente tanto para o AKP quanto para o CHP mostrarem as divisões na sociedade turca nesses termos. É verdade que muitos dos slogans e a linguagem usada por uma parte significativa dos manifestantes de sábado (1 de junho) tiveram inspiração kemalista, mas talvez mais importante do que isso foi o fato de os protestos não serem totalmente conduzidos por uma narrativa kemalista. Isso faz com que as agitações atuais tenham uma diferença qualitativa dos últimos protestos generalizados, organizados em 2007 pela elite kemalista contra um plano de Erdogan se manter como presidente. Os protestos atuais, em contraste, foram constituídos principalmente por pessoas jovens sem filiação política e, portanto, mais afins às formas de protesto a que nos acostumamos nos últimos anos na Europa e aos protestos Occupy nos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">O mais significativo de tudo, no entanto, para um país que é muito patriarcal, é o fato das mulheres serem uma parcela enorme dos manifestantes. Portanto, uma generalização clara que pode ser feita dos protestos é que eles são pluralistas, refletindo muitos setores diferentes da sociedade turca. Nacionalistas turcos marchando ao lado de nacionalistas kurdos, liberais marchando com socialistas, héteros e gays, homens e mulheres, ambientalistas e sindicalistas. E, talvez o mais interessante de tudo – em um país em que as paixões pelo futebol criam divisões profundas de acordo com o time apoiado – veem-se cenas de fãs de clubes rivais se ajudando a proteger frente à repressão policial.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/2013/06/78477/turquia-8" rel="attachment wp-att-78505"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-78505" title="Turquia 8" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-8-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-8-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-8.jpg 630w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Para quem trabalha ou passa algum tempo andando por Istambul, uma das primeiras coisas a que tem que se adaptar é a luta diária para se enfiar no sistema de transporte público lotado. É um caso de luta corporal em que nenhuma trégua é dada. Trata-se de empurrar e passar por cima ou ser empurrado e passado por cima. Mas, nos protestos, a solidariedade está em todo lugar. E ela corta através de todas as divisões, com as pessoas das casas próximas oferecendo comida e abrigo, estudantes de medicina oferecendo ajuda médica na hora e lojas abrindo suas portas, moradores abrindo suas redes WiFi para que os manifestantes possam contornar o fechamento da rede 3g pelo governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda continua por saber se essa agitação pode se desenvolver para se tornar um movimento sério que possa construir uma oposição efetiva, aberta e progressista ao projeto neoliberal do AKP. Essa é uma questão que não é exclusiva da Turquia, mas também de outros países da Europa e no Oriente Médio. Com a presença de tantos partidos velhos de oposição, manchados pelos excessos do passado, será uma tarefa difícil criar uma visão totalmente nova. Mas uma coisa é clara: após a libertação do Parque Taksim e do Parque Gezi, enquanto as pessoas sentavam naquela grama de parque preciosa e recentemente retomada, qualquer um andando no meio das multidões teria, numa atmosfera carnavalesca, a sensação clara de que algo mudou na Turquia.</p>
<p>Traduzido pelo<em> Passa Palavra</em> a partir do original <a href="http://www.opendemocracy.net/opensecurity/john-mcsweeney/turkish-hopes-for-new-beginning" target="_blank" rel="noopener"><em>aqui</em></a>.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Os leitores encontrarão <a href="http://passapalavra.info/2013/04/76628" target="_blank" rel="noopener"><em>aqui</em></a> um glossário de gíria e de expressões idiomáticas,<br />
tanto do Brasil como de Portugal.</p>
</blockquote>
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		<title>Da Praça Taksim para onde? &#8211; pergunta alguém no local</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Jun 2013 17:27:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Já não é só um movimento do Parque Taksim-Gezi. Taksim tornou-se um símbolo ou um código. Deixou de ser um assunto fechado. Tornou-se um movimento de massas muito generalizado. Por Orhan Esen]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Orhan Esen</h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Caros amigos e colegas,</p>
<p style="text-align: justify;">O que se segue é uma avaliação pessoal dos acontecimentos de Istambul feita nesta tarde de domingo, 2 de junho, levando em conta o que, nas últimas semanas, tenho podido observar no terreno e tenho visto nos média. Dada a grande quantidade de informação, é inevitável que haja algumas inexactidões. Daí eu organizar o texto na forma de simples notas.</p>
<p style="text-align: justify;">Peço desculpa por não ter podido atender a todos os pedidos que me têm feito esta semana para entrevistas e encontros. Espero que este relato preliminar possa ajudar-vos. Desde já agradeço as vossas reacções.</p>
<p style="text-align: right;">Abraços e solidariedade, Orhan Esen</p>
</blockquote>
<p style="text-align: center;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-78442" title="PP_Turquia(1)" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia1.jpg" alt="" width="437" height="291" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia1.jpg 437w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia1-300x199.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 437px) 100vw, 437px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A situação em Istambul mudou e continua a mudar a cada minuto com grande rapidez. Isso acontece assim agora mesmo. Eis as [minhas] actualizações após o que observei até este domingo, 2 de junho, às 8 da noite.</p>
<p style="text-align: justify;">Ontem, sábado, 1 de junho, possivelmente 1 milhão de pessoas desfilou até à Praça Taksim, vindas de toda a metrópole (e de outros pontos do país), e as forças da polícia retiraram da zona de Taksim.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje a zona foi toda cercada com pesadas barricadas de material retirado das obras e assim se tornou uma redoma segura.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda a gente considera que foi um dos dias mais extraordinários que se viveram em Istambul na sua história de 2.700 anos. Chamem-lhe o que quiserem.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje foi ainda mais extraordinário.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes, uma nota importante:</p>
<p style="text-align: justify;">O terror policial transferiu-se para o vizinho bairro de Besiktas, atingindo um nível de crueldade até agora nunca visto por aqui. Relatos horripilantes apontam para o uso de novas substâncias químicas. Na noite passada, na zona de Besiktas-Dolmabahce, foram praticadas violações dos direitos humanos num grau inédito. A situação deve ter sido mesmo muito grave, pois os média sociais estão cheios com as piores histórias. O sofrimento das pessoas ultrapassou tudo o que já pôde ser captado em imagens. O tipo de gás utilizado (de certeza que não era o já conhecido gás lacrimogéneo) em Besiktas ao anoitecer tem de ser investigado. (Não tenho mais pormenores de momento.) <strong>[*]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nota: Em Besiktas há uma outra importante questão respeitante ao direito à cidade (a da privatização, e consequente exclusão do público, da zona marginal em frente à sede dos serviços do primeiro-ministro) e, em particular, os adeptos do clube Besiktas FC participaram muito activamente, e em grande número, no apoio à luta por Taksim a partir do segundo dia de ocupação [deste parque] e estão furiosos com o primeiro-ministro Erdogan por sentirem, e justamente, que ele &#8211; literalmente &#8211; &#8220;lhes roubou a sua zona ribeirinha&#8221;. Algo que os afecta muito pessoalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Os distúrbios em Besiktas prosseguem. Hoje foram chegando notícias muito más de toda a Turquia.</p>
<p style="text-align: justify;">[&#8230;]</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-full wp-image-78450" title="PP_Turquia(7)" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia7.jpg" alt="" width="370" height="223" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia7.jpg 370w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia7-300x180.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 370px) 100vw, 370px" />Agora algumas notas para uma análise política da situação aqui: uma movimentação de massas como a de ontem será analizada de muitos ângulos diferentes. Tentarei captar alguns dos principais aspectos.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O carácter da grande massa que entrou na praça [do parque Taksim] mudou. O movimento original de ocupação, que tinha o objectivo de salvaguardar o parque &#8220;, perdeu totalmente o controlo da situação&#8221;. Isto não o digo como crítica: tecnicamente seria algo totalmente impossível.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Mas também: Se alguém ou alguma &#8220;entidade&#8221; afirmar que tem o controlo da situação política, ponham isso em questão. A situação evolui de um modo muito espontâneo, certamente com inúmeros agentes tentando avançar com as respectivas pautas. Tecnicamente falando, há uma coordenação de grupos de esquerda que está a organizar o evento de hoje (2 de junho) na Praça Taksim e no Parque Gezi.</p>
<p style="text-align: justify;">Notável! Taksim nunca viveu uma maré destas. Taksim converteu-se miraculosamente em local de peregrinação sagrada. Famílias que vêm visitar e tirar fotografias à frente de carros da polícia queimados e lavados, etc. As redes sociais estão cheias delas&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Este novo movimento transbordou e espalhou-se por todo o país. Houve violentos confrontos por todo o lado. Já não é só um movimento do Parque Taksim-Gezi. Taksim tornou-se um símbolo ou um código. Deixou de ser um assunto fechado.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Tornou-se um movimento de massas muito generalizado, de espectro muito amplo, com um forte teor secularista. Um movimento de todos os secularistas que se opõem e estão descontentes com o verdadeiro carácter, ou simplesmente com o estilo de governação, de um governo conservador autoritário.</p>
<p style="text-align: justify;">O autoritarismo kemalista não era hoje muito visível no terreno. Durante horas gritou-se &#8220;Nós somos os soldados de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Mustafa_Kemal_Atat%C3%BCrk" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Mustafa Kemal</a>&#8221; (é melhor isso do que gritarem: Exército, vem salvar-nos! &#8211; legitimando um regime militar), mas, ao mesmo tempo, a coisa soa um tanto &#8220;folclórica&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Ao mesmo tempo isto significa: o &#8220;direito à cidade&#8221;, que caracteriza o movimento original, foi largamente ultrapassado. Isto deixou de ser um genuíno movimento tipo &#8220;occupy&#8221; ou &#8220;direito à cidade&#8221;. Se assim posso dizer, o &#8220;occupy&#8221; foi politicamente ocupado, ou ofuscado.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Exemplo: Grupos como os muçulmanos anticapitalistas, que eram parte integrante do movimento original occupy/direito à cidade, desapareceram oficialmente da resistência (pelo menos tornaram-se invisíveis as suas bandeiras e faixas).</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje reapareceram, não em grande número, mas muito visíveis. Em &#8220;coexistência pacífica&#8221;. Vejam a foto. Muito próximos dos kemalistas ferrenhos. Os anticapitalistas não-muçulmanos são obviamente uma zona tampão. Nenhum outro motivo poderia tê-los levado a juntarem-se no mesmo espaço. É inédito. Os curdos também apareceram, com mais visibilidade. E os LGBT, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixei de ouvir as discussões em torno do projecto Taksim, que eram dominantes no movimento inicial. Foi o que aconteceu, ainda na sexta-feira, quando cerca de 50.000 pessoas forçaram a travessia do parque e continuavam a tentar recolher o lixo, apesar de fustigados pelo gás lacrimogéneo.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Do ponto de vista da experiência pessoal e das massas, a situação tem um imenso impacto de emancipação. O momento é, para todos, inegavelmente &#8220;revolucionário&#8221;. Após a &#8220;libertação de Taksim&#8221; centenas de milhares de jovens, muitos deles com suas famílias, viveram essa sensação única de uma vida. É, ao mesmo tempo, um grande festival de liberdade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-78445" title="PP_Turquia(5)" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia5.jpg" alt="" width="350" height="232" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia5.jpg 350w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia5-300x198.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" />Hoje é possível dar-lhe um nome claramente: em Taksim o que se passa é uma situação revolucionária numa redoma. Pode-se ir visitar, ir lá, sentir aquilo, respirá-lo, gozar, ser envenenado, e voltar a sair do oásis, caminhar dois quilómetros até à próxima estação de transportes públicos em funcionamento, e regressar ao trabalho como todos os dias. Em dois dias, milhões de istambulitas, apenas por influência das redes sociais, vieram visitá-la. O seu lado carnavalesco e libertador, no sentido mais positivo que isto pode ter.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a extrema polarização dos médias entre os apoiantes do governo e os kemalistas reduz tudo isto a uma imagem política a preto e branco. Perdem-se as cores, as nuances. É para isso que precisamos das redes sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">A criatividade e o humor dos graffiti não têm limites. Não parei de me surpreender.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Com a nova situação em Taksim, a partir de 1 de junho, a demolição do acampamento policial à entrada do Parque Gezi, e dos escritórios da empresa construtora (ambos em containers pré-fabricados instalados lado a lado, ambos ocupando ostensivamente a entrada do parque há meses) parecem traduzir o consenso geral das massas aqui reunidas. Todos os serviços públicos vizinhos, como terminais de transportes públicos, etc., ficaram intocados. O que aconteceu foi uma desconstrução selectiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo assim. Tornaram-se Mecas de turismo revolucionário. Vagas de gente, limpeza geral. Como se fossem &#8220;produzidas&#8221; de propósito para cenário de um filme.</p>
<p style="text-align: justify;">À noite, houve mais demolições: agora foram as máquinas de obras destinadas ao túnel em construção, a fase de arranque do Projecto Taksim começada em 5 de novembro de 2012. A obra do túnel Taksim em construção parou.</p>
<p style="text-align: justify;">Como já não há nenhuma autoridade, particularmente durante a noite, verificaram-se naturalmente outras demolições por pessoas não identificadas &#8211; como é habitual nestas situações &#8211; contra outros alvos. Certamente que os médias dominantes irão fazer uma cobertura extensiva desses casos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta tendência limitou-se apenas à primeira noite. A &#8220;autoridade&#8221; ou, melhor dizendo, o comportamento colectivo responsável e sensato estava completamente restabelecido. Mais uma vez fico deslumbrado. A autêntica disciplina das três primeiras noites, quando o movimento de ocupação era sobretudo formado por uma elite intelectual, estava restabelecido, agora numa base generalizada de massas.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Há um tom novo nas manifestações: a exigência da demissão do governo. (Não se trata, há que dizer, de exigir &#8220;eleições antecipadas&#8221; ou &#8220;a mudança de um sistema eleitoral injusto&#8221; que não permite uma representação capaz mas tão só fortes maiorias parlamentares).</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; As palavras do líder republicano Kilicdaroglu, há uma semana, perante a Internacional Socialista, comparando Erdogan com Assad enquanto ditador, e que causaram uma viva reacção da Assembleia (apontando para a exclusão por incapacidade mental, por ter comparado um Erdogan eleito com Assad) &#8211; refletem muito bem este ambiente. Os republicanos têm recusado aceitar os resultados eleitorais há já três eleições, note-se. Os republicanos cancelaram uma manifestação prevista para a zona asiática da cidade e, em vez disso, apelaram à mobilização para a Praça Taksim em 31 de maio.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Os fantasmas acerca do pós-conquista de Taksim estão a mudar drasticamente, e no lado oposto estão a tornar-se também maximalistas: no mesmo dia (1 de junho) o primeiro-ministro Erdogan falou abertamente de um novo bloqueio policial e da limpeza total da praça, derrubando todas as árvores, fazendo avançar a construção desse edifício no Parque Gezi, tal como projectado, e indo mesmo mais longe: a demolição da Ópera, em Taksim (que está presentemente a ser restaurada com dinheiro do governo!). A nova barricada da polícia não apareceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Grande novidade: a AKM &#8211; o teatro da Ópera &#8211; em renovação foi hoje acupado. As discussões acerca do seu destino nos últimos dez anos são a razão de fundo para todo o projecto Taksim. Erdogan, a princípio, queria demoli-lo.  Ele achava que tinha um argumento negocial, uma possível concessão a seu favor: renovar o AKM mas, em compensação, arrasar um quartel. A possibilidade de não conseguir nem uma nem outra coisa é demais para um ego como o dele. Ele terá de fazer algo para o evitar. Não será isto um primeiro-ministro que está demasiado interessado em questões locais?</p>
<figure id="attachment_78455" aria-describedby="caption-attachment-78455" style="width: 400px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-78455 " title="PP_Turquia(8)" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia8.jpg" alt="" width="400" height="252" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia8.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia8-300x189.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-78455" class="wp-caption-text">Enquanto a CNN Internacional mostra os confrontos em directo, a CNN da Turquia dá um programa sobre&#8230; pinguins!</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Outra declaração bastante franca, mas problemática (de Erdogan) se seguiu a esta: um governo eleito só pode ser escrutinado pelos eleitores de quatro em quatro anos, sendo entretanto legítima qualquer intervenção sem direito a ser questionada. Apenas admitiu que a polícia terá ido um pouco longe demais no uso do gás lacrimogéneo. (Talvez por isso tenham decidido experimentar um novo gás em Besiktas!)</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Também há que notar: O movimento republicano, claramente presente em Taksim, não se comportou como é habitual, pois até agora não exigiram &#8220;o exército no seu posto&#8221; como faziam nos seus comícios há uns anos atrás. Se este comportamento continuar, isso poderia levá-los a testemunhar a sua força própria enquanto tais, ganhando autoconfiança. Os acontecimentos de Taksim podem tornar-se um marco para os republicanos se tornarem parte do sistema democrático. (&#8220;Nós temos poder que chegue, não precisamos de um &#8216;big brother&#8217; para olhar por nós, a nossa presença tem toda a razão de ser, somos parte deste país, ninguém nos pode tocar, temos uma identidade, uma dignidade e um modo de vida.&#8221;)</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, isto foi provado.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Todavia estão a aparecer nas redes sociais anúncios muito obscuros, e a meu ver ameaçadores (tais como &#8220;muçulmanos armados atacam e chacinam manifestantes&#8221;). É obviamente para provocar os sentimentos republicanos, para acelerar a escalada.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Neste 1º de junho, as tão oficiais declarações de Erdogan há duas semanas &#8211; banir para sempre qualquer actividade política da Praça Taksim &#8211; tornaram-se de facto redundantes e passaram à história. Por instinto ou por reflexo, os grupos revolucionários de esquerda reconheceram amplamente o potencial do conflito de Taksim. O 1º de junho foi concebido como uma celebração adiada do 1º de maio  de 2013 &#8211; 1º de maio que começou por ser proibido em Taksim por razões de segurança, e logo proibido para sempre. A Praça Taksim foi toda decorada com bandeiras e faixas de todos os movimentos da esquerda, simulando um 1º de maio.</p>
<p style="text-align: justify;">Por que não exigir agora que esta conquista seja reconhecida oficialmente? Por que não negociar agora para que este direito de manifestação na Praça Taksim seja de futuro intocável? Isso seria um grande passo em frente, após 30 anos de luta para conseguir fazer o 1º de maio em Taksim. Mas não, nem sequer se fala em articular isso! Queremos, sim, é que o governo se vá embora.</p>
<figure id="attachment_78453" aria-describedby="caption-attachment-78453" style="width: 380px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-78453 " title="PP_Turquia(4a)" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia4a.jpg" alt="" width="380" height="232" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia4a.jpg 380w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia4a-300x183.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 380px) 100vw, 380px" /><figcaption id="caption-attachment-78453" class="wp-caption-text">A Praça Taksim, com o Parque Gezi à esquerda, e&#8230;</figcaption></figure>
<figure id="attachment_78452" aria-describedby="caption-attachment-78452" style="width: 380px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-78452" title="PP_Turquia(4)" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia4.jpg" alt="" width="380" height="223" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia4.jpg 380w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia4-300x176.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 380px) 100vw, 380px" /><figcaption id="caption-attachment-78452" class="wp-caption-text">&#8230; o que o governo turco quer lá fazer.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">&#8211; A &#8220;conquista&#8221; da praça desencadeou um estado de espírito revolucionário: trata-se de exigir abertamente a retirada do governo. (Tal como outrora aconteceu com o Czar. As analogias com a Revolução de Outubro não aparecem muito neste círculos.) É isso que queremos, e não outra coisa. Uma exigência simples e lógica: &#8220;o Projecto Taksim tem de ser renegociado&#8221; (humm, cheira-me a infantilidade) &#8211; é o que é repetido a toda a hora, pois estamos numa situação revolucionária. (A revolução irá possivelmente resolver o problema do Parque no futuro como um problema técnico de menor relevância; &#8220;os nossos técnicos&#8221; sabem muito mais disso do que os deles).</p>
<p style="text-align: justify;">Mantém-se a questão mais importante: quem é que vai negociar com o governo? O maximalismo &#8211; que nem faz questão nem está realmente interessado no problema de origem &#8211; não está interessado numa solução concreta para o Parque Gezi e para o Projecto Taksim. Para sermos levados a sério nesta matéria, ainda precisamos de negociadores que sejam levados a sério pelo governo. Sem isso, será uma escalada de luta inútil.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Uma nota muito pessoal (para o futuro): Estou potencialmente preocupado com uma possível escalada, no que isso tem a ver com o processo de paz no Curdistão. Há meios claramente opostos ao processo de paz, como os ultra-republicanos do &#8220;Partido dos Trabalhadores&#8221; e outros que tais, que mostraram bem visivelmente as suas bandeiras ontem na praça. Houve notícias de que deputados, membros e simpatizantes da ala direita tomaram parte nos confrontos com a polícia. Quanto aos meios de esquerda, distanciaram-se do processo de paz sinmplesmente porque ele foi uma iniciativa do AKP, e estão também muito presentes em Taksim. Aqueles que planeiam torpedear o processo de paz não poderiam encontrar melhores condições para o preparar.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo não pode nem deve ser tão estúpido que não perceba que, ao acabar com uma guerra a leste do país, não pode dar início a outra guerra a oeste. O oeste secularizado (certo ou errado) encara muitas das recentes intervenções e medidas do governo como uma declaração de guerra às suas regiões. Beber [bebidas alccólicas] em público é uma das componentes dos actos de protesto, e aqui isso é significante.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-78443" title="PP_Turquia(2)" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia2-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia2-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia2-1024x682.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia2.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />&#8211; O BDP-HDK, que representa o movimento curdo e os seus aliados, esteve fortemente presente na fase inicial (&#8220;occupy&#8221;), com a presença do próprio Sýrrý Sureyya Onder, deputado do Parlamento, que teve um papel determinante na paragem dos buldozers. Foi ferido por uma granada de gás e desapareceu rapidamente. Uma posição mais forte e um envolvimento maior do BDP e dos seus aliados do HDK serão certamente úteis para normalizar a situação, assim como para assegurar e reestabelecer padrões democráticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje notava-se uma participação mais discreta dos curdos.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O apelo original, fundador da Plataforma Taksim, &#8220;Taksim hepimizin!&#8221; [&#8220;Taksim pertence a todos nós!&#8221;] é um claro apelo a um uso pluralista e a um planeamento participativo da Praça Taksim, mas tem sido prejudicado. Esta palavra de ordem secularista, amplamente adoptada pelas massas como exigência de um uso exclusivo do espaço urbano, não é a meu ver isenta de problemas.</p>
<p style="text-align: justify;">Transcrevo aqui o comunicado da Plataforma, publicado nesta manhã de 2 de junho:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">COMUNICADO DE IMPRENSA DA PLATAFORMA TAKSIM &#8211; 1 de junho de 2013</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1.</strong> Manifestar é um direito constitucional. Exerce a violência sobre os que querem proteger um parque, o relvado e as árvores é, por sua vez, um crime.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2.</strong> Lançar gás lacrimogéneo sobre pessoas jovens ou idosass, saudáveis ou doentes, que são motivadas pelo exposto acima, e sobre elas exercer a violência é uma grave violação dos direitos humanos e uma tortura.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>3.</strong> A Plataforma Taksim, que é uma iniciativa cívica independente onde se incluem especialistas de diversas áreas, vem tentando discutir com o governo este Projecto desde o primeiro dia do seu anúncio. É inaceitável mostre preferir a violência às negociações.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>4.</strong> Queremos que o governo prometa não provocar danos nas árvores de Taksim. Exigimos que os planos de construção no centro de Istambul sejam abandonados, que o espaço verde seja ampliado sem prejuízo das árvores existentes, e melhor protecção com a participação das ONGs.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5.</strong> Continuaremos a apoiar as reacções democráticas e sociais do povo, dentro dos critérios acima definidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Taksim é de todos nós!</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-78446" title="PP_Turquia(6)" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia6.jpg" alt="" width="300" height="261" />Para concluir:</p>
<p style="text-align: justify;">Têm-me perguntado como se deverá manifestar a solidariedade internacional neste caso. O que posso dizer é o seguinte:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O uso de agentes químicos contra os manifestantes deve ser proibido de imediato.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Os responsáveis pelo tratamento chocante e injusto imposto a ocupantes pacíficos, que levou à escalada do conflito, devem ser investigados.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Deve ser preservada a função da Praça Taksim enquanto espaço para a visibilidade política dos cidadãos de Istambul. As propriedades físicas da Praça e do Parque Gezi adjacente &#8211; quanto à segurança, etc. &#8211; devem ser desenvolvidas.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O Projecto Taksim deverá ser renegociado no seu todo através de um processo participativo. Os relvados não deverão ser tocados.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Um monumento à memória das 37 pessoas que morreram no &#8220;1º de maio sangrento&#8221; de 1977 deve fazer parte do Projecto Taksim.</p>
<p style="text-align: justify;">(Quanto a mim, os dias 1 e 2 de junho de 2013 já asseguraram o seu lugar na história. Já se tornaram &#8220;O DIA DE TAKSIM&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Abraços, Orhan</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Texto recebido por email. Traduzido do inglês pelo Passa Palavra.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Orhan Esen</em></strong><em> é fundador e coordenador do grupo <a href="http://www.arkistan.com/_html/arkistan_main.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Arkistan</a>. Estudou história económica e social na Universidade do Bósforo, em Istambul, cidade onde nasceu, e fez mais alguns estudos de história da arte e arquitectura em Viena. É investigador, escritor e editor e, não menos importante um militante da rede de cidadãos de Istambul, onde ainda vive. O seu foco de atenção são as rápidas mudanças do ambiente urbano, e as suas consequências arquitecturais, sociais, políticas e ecológicas.</em></p>
<p><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[*]</strong> No dia 7 de Junho recebemos uma mensagem do autor informando que parecem ser falsas as informações relativas ao uso do Gás Orange pelas autoridades.</p>
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		<title>Praça Taksim</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Jun 2013 20:22:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Coletânea dos artigos publicados a respeito da vaga de protestos que teve origem na Praça Taksim, Turquia. Por Passa Palavra Turquia: Impressões do movimento de protesto em Ankara De forma similar à grande parte do movimento Occupy, as táticas dos manifestantes até agora têm sido bem mais radicais que os seus objetivos proclamados. Por Chilli Sauce [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Coletânea dos artigos publicados a respeito da vaga de protestos que teve origem na Praça Taksim, Turquia.</em> <strong>Por Passa Palavra</strong><span id="more-99122"></span></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2013/06/78226" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-116216" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/bandeiraturca-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Turquia: Impressões do movimento de protesto em Ankara</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>De forma similar à grande parte do movimento Occupy, as táticas dos manifestantes até agora têm sido bem mais radicais que os seus objetivos proclamados.</em><strong> Por Chilli Sauce</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2013/06/78429" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-116215" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Turquia1-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Da Praça Taksim para onde? – pergunta alguém no local</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Já não é só um movimento do Parque Taksim-Gezi. Taksim tornou-se um símbolo ou um código. Deixou de ser um assunto fechado. Tornou-se um movimento de massas muito generalizado.</em> <strong>Por Orhan Esen</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2013/06/78477" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-116214" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/Turquia-2-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As esperanças turcas de um novo começo</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Uma generalização clara que pode ser feita dos protestos é que eles são pluralistas, refletindo muitos setores diferentes da sociedade turca</em>. <strong>Por John McSweeney</strong></p>
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