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	<title>Colunas &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A esperança</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 12:24:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[Em que momento o Brasil se fodeu? Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Mario Vargas Llosa <strong>[1]</strong> inicia o romance <em>Conversa na catedral</em> com uma pergunta incômoda: “em que momento o Peru se fodera?” O romancista mistura o país aos peruanos: “Zavalita era como o Peru: tinha se fodido em algum momento. Pensa: em qual?” Como a pergunta acontece em movimento – entre as avenidas Tacna e Wilson, a caminho da praça San Martín –, fica a impressão de que o Peru se fodeu não apenas no tempo, mas no espaço. Ainda no parágrafo inicial o romancista menciona uma grande fila no ponto em que passam os ônibus que vão para Miraflores, que é o bairro turístico, com calçadão sobre as falésias, de frente para o Pacífico. Então o Peru se fodeu no espaço: entre o bairro sofisticado e o centro de Lima, entre a costa banhada pelo Pacífico e as montanhas da cordilheira dos Andes, entre estas e a selva amazônica. Mas o Peru se fodeu também no tempo, em algum momento específico, quando? Mais que isso, os peruanos são como seu país, ambos se foderam. A pergunta passa por cima dos indivíduos e das fronteiras, é universal. O socrático “conhece-te a ti mesmo” ficou para trás. A questão é: quando a gente se fodeu? A ideia camusiana <strong>[2]</strong> segundo a qual o suicídio é o único problema filosófico realmente sério também ficou para trás. Saber em que momento a gente se fodeu é mais importante do que julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida.</p>
<p style="text-align: justify;">Já devem ter percebido aonde quero chegar: em que momento o Brasil se fodeu? O mais correto é que tenha se fodido em 22 de abril de 1500, no dia da invasão. Desde então o Brasil foi transformado em colônia de exploração. Uma rima e um destino. Também é possível pensar que a pergunta incômoda unifica a América Latina. Do Peru ao Brasil, da Argentina ao México, passando pela Colômbia e todos os demais países latino-americanos. Em que momento a América Latina se fodeu?</p>
<p style="text-align: justify;">As perguntas anteriores renderiam um textão. Quando acordar à noite angustiado porque o Brasil e a América Latina se foderam, vou tentar enumerar tragédias sociais até pegar no sono. Quem sabe um dia desperte e escreva um textão detalhando quando e por que nós nos fodemos. Antes disso, registro alguns pitacos pontuais, limitados ao Brasil do século XXI.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de ampliar a pergunta incômoda de Vargas Llosa para o Brasil sempre me atraiu. Mas só consegui rascunhar alguma coisa entre os dois turnos da última eleição. Já era sabido que a extrema direita havia sido a grande vencedora do primeiro turno. Comecei a escrever nos dias imediatamente posteriores ao primeiro turno, quando a esquerda reunia seus cacos e se organizava para “virar votos”. Provavelmente o Brasil se foderia novamente no segundo turno. Mas não faria grande diferença porque o país já estava fodido.</p>
<p style="text-align: justify;">Como não escrevi o tal textão detalhando quando e por que o Brasil se fodeu, vou responder de forma breve. Mas fica o convite para pensarmos. O leitor pode iniciar a reflexão individualmente, sempre que acordar angustiado com o futuro. Já disseram que a ansiedade é excesso de futuro <strong>[3]</strong>, mas fazer o quê? Olhar para o passado talvez nos liberte minimamente da angústia com os dias que virão, ou não. Enfim, segue a minha resposta provisória e limitada:</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 27 de outubro de 2002, quando Lula ganhou o segundo turno das eleições presidenciais e afirmou que a esperança havia vencido o medo. É que a esperança é a última que morre porque nos mata primeiro.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2004 quando, no primeiro governo Lula, foram enviadas tropas para liderar a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH). Ali se fortaleceram os generais que mais tarde integrariam o governo Bolsonaro. Em vez de passar a ditadura militar a limpo, fortaleceu o setor linha dura das forças armadas.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu quando começaram a cair os preços das <em>commodities</em> que exportava. Os fundamentos da economia estavam sólidos, repetia-se à exaustão. Não era bem assim.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2013 quando o governo petista foi absolutamente incapaz de dialogar com os protestos de rua, além de se aliar com as forças da ordem contra os manifestantes.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2014, quando construiu estádios discutíveis e acreditou que se consolidaria como potência com a conquista da Copa do Mundo. Veio o choque de realidade: derrota por 7 x 1 para a Alemanha.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu novamente em 2014 quando a esquerda majoritária chamou voto para Dilma em nome do retrocesso representado por Aécio, daí venceu a eleição e aplicou um ajuste fiscal daqueles.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu quando ampliou o crédito e transformou pobres em consumidores endividados. Esse setor se tornou um dos pilares de sustentação da extrema direita.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2018 quando a esquerda – incluindo os setores mais organizados da classe trabalhadora e a extrema esquerda – foi às ruas e ao WhatsApp para dizer “Ele não”! Que nada mais era do que um envergonhado sim para Haddad. Apesar do tamanho razoável do “Ele não”, o candidato da extrema direita cresceu após as manifestações da esquerda. É que a extrema direita não teve vergonha de defender os seus nem de expor o seu programa de destruição.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2022 quando elegeu para o terceiro mandato um conciliador numa conjuntura em que não havia brechas para conciliações. O Brasil não se fodeu só por causa do Lula nem foi só o Lula que fodeu o Brasil. Seria dar mais importância do que ele tem. Mas, por outro lado, não relacionar o grande conciliador à tragédia brasileira é bizarro.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu apesar dos setores minoritários da extrema esquerda que defenderam e defendem o voto nulo. O que é o voto nulo se não um limitado “Eles não”?</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu com as reformas trabalhista (do governo Temer) e previdenciária (do governo Bolsonaro). O Brasil pode se foder com as reformas que virão no próximo período.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu em 2023, quando o golpismo da extrema direita não foi devidamente tratado e julgado. Excluindo os processos midiáticos, a pauta “sem anistia” levitou no limbo.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu quando a esquerda majoritária terceirizou o combate à extrema direita para o judiciário. O país se fodeu um pouco por dia com cada um dos memes que cutucavam os bolsonaristas e, por tabela, elogiavam um dos ministros do STF. A careca brilhante do tal ministro é um espelho que reflete o vazio imaginativo da esquerda. Pouco tempo depois foram reveladas as relações suspeitas do paladino da justiça.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu quando o setor majoritário da esquerda assumiu a função ingrata de gerir o capitalismo nacional. A militância de esquerda, que foi para as ruas e para o WhatsApp<em>,</em> virou votos da direita defendendo que as gestões petistas são melhores que as bolsonaristas: bolsa família, elevação do salário mínimo, redução do desemprego. Só que os não convertidos já perceberam que o capitalismo é ingovernável. Como não estão em questão alternativas coletivas contra o capital, dá para intuir por que a extrema direita se fortaleceu. Somente a esquerda acredita que é possível gerenciar o capitalismo.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu quando a extrema direita aprendeu a jogar no erro e nas brechas da esquerda.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">O Brasil se fodeu porque a classe trabalhadora e a extrema esquerda não criaram nenhuma alternativa a Lula e ao PT por baixo e pela esquerda. Antes pelo contrário, no limite, os setores mais organizados da classe trabalhadora e da extrema esquerda se abrigaram debaixo do guarda-chuva petista sempre que houve tempestades.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">A lista é grande e fico por aqui. Alguns vão se irritar com a associação de Lula à tragédia brasileira. Em breve começará a ser repetida a ladainha segundo a qual “não é o momento para criticar Lula e o PT”. Outros dirão que é preciso ter esperança. Uma coisa não está distante da outra. Esperança tem a ver com esperar e aguardar. Por isso que a esperança é a última que morre, é que ela nos mata primeiro, de tanto esperar. A vitória eleitoral da esquerda é significativa porque passou pela mobilização popular. Teremos energia e criatividade para as próximas batalhas? Conseguiremos criar alternativas por baixo e pela esquerda? O Brasil vai se foder se a energia das ruas – decisiva na virada eleitoral – for desperdiçada.</p>
<h3 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Mario Vargas Llosa. <em>Conversa na catedral</em>. São Paulo: Saraiva, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Albert Camus. <em>O mito de Sísifo</em>. Rio de Janeiro: Record, 2025.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Glauber Ataide. <em>Filosofia para a vida: quando pensar é o melhor remédio.</em> Petrópolis: Vozes, 2025.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
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		<title>Meu pai, um país: um trotskista evangélico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Oct 2026 15:39:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[Meu pai não teve condições de lidar com as contradições que viveu. Será que nós temos tido condições? Por Isadora de Andrade Guerreiro ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Neste momento eleitoral, ter que escrever um texto pra coluna me deixou angustiada. Minha angústia vem da necessidade dos textos que estão saindo de ter que demonstrar certezas e apontar caminhos. Tenho dificuldade de apontar caminhos em meio ao desespero pois não quero ser heroína ou, como diz Tom Zé, para os olhos “de lá de dentro da escuridão” que esperam e querem que ele seja herói, saiba de tudo ou seja um Deus vingador: “eu sou inocente!”. No mesmo álbum, ele fala dos professores universitários como “aquela tal classe que ou passa a aprender com as ruas ou não vai sobreviver”. Então, esse texto é sobre o que estamos vivendo, e sobre um desejo de futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Também porque sei que a posição do <a class="urlextern" title="https://blogdaboitempo.com.br/2026/10/15/a-impotencia-do-eu-ja-sabia/" href="https://blogdaboitempo.com.br/2026/10/15/a-impotencia-do-eu-ja-sabia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“eu já sabia”</a>, que Douglas Barros descreveu como a maldição de Cassandra (profetiza em quem ninguém acreditava), não só não tem serventia, como ele disse, mas acho que tem que ser profundamente questionada por quem acha que sabe. Passado esse momento no qual cada pessoa tem feito o que pode para evitar o mal maior do retorno do período autoritário ao país, teremos que lidar com a situação de frente, seja qual for o resultado das eleições. Sem de fato entender o que se passa &#8211; e não aprenderemos isso nos livros &#8211; será muito difícil não entrarmos no jogo de guerra que está armado. Não há monstros do “lado de lá”, há pessoas vivendo outras experiências de vida, que muitas vezes não estamos dispostos a compartilhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu pai, falecido há dois anos em 20 de outubro, me disse há uns 15 anos que eu, intelectual da USP e cheia de certezas, não estava entendendo nada do país. Ele falava a partir do centro-oeste brasileiro, onde morava já fazia alguns anos, e de onde vinha, segundo ele, “a revolução”. Tal palavra, na boca do meu pai, tinha força &#8211; o que me fazia estremecer frente ao que aquilo de fato podia significar. Seria ele, e não eu, a Cassandra que Douglas Barros descreveu, me dizendo o futuro e eu não querendo acreditar?</p>
<p style="text-align: justify;">Muitas vezes, contar a trajetória das pessoas é também contar &#8211; e pensar sobre &#8211; a história do país. Vou então contar a história do meu pai, buscando mostrar o tamanho do desafio que temos adiante.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando nasci, meus pais eram trotskistas da Libelu (Liberdade e Luta), do movimento estudantil da USP, no final da ditadura. Meu pai entrou na Politécnica tendo vivido a maior parte da vida no interior de São Paulo, em Ribeirão Preto. O choque cultural foi imenso, como ele me contava, o que fez com que sua relação com a política sempre fosse meio que atravessada pelo trauma. Ele se tornou uma pessoa estranha, pois ao mesmo tempo em que se envolvia profundamente nas mobilizações e na organização política &#8211; de forma obsessiva &#8211; carregava uma crítica constante e mal formulada, que o deixava numa espécie de não-lugar frente aos colegas paulistas da elite intelectual, cheios de certezas. Em meio à obsessão, não se formou na universidade, diferente dos colegas, que depois viraram empresários e “gente grande” do PT &#8211; o que sempre o ressentiu. Virou estudante profissional. Foi pra Unesp, pra Fatec, nunca teve diploma.</p>
<p style="text-align: justify;">Participou do governo Erundina, num cargo comissionado na área de processamento de dados. Ao mesmo tempo que participou da construção de muita coisa interessante, a experiência de estar próximo ao poder e tudo o que isso significa o fez se desencantar pela política e pelo PT neste momento. A depressão foi profunda e sua vida se desmanchou em São Paulo. Ele não só não votava mais no PT, ele simplesmente deixou de votar: não ia e não justificava, por muitos anos. Para alguém que lutou contra a ditadura, era grave.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi morar na casa dos pais, que moravam em Goiânia &#8211; seu pai trabalhava na Petróleo Ipiranga, que sempre o enviava para fronteiras de desenvolvimento do país. O centro-oeste crescia na década de 1990. Foi lá que entrou para a igreja Batista e se casou novamente, com uma moça que vinha do interior do Tocantins. Os pais dela moravam na área rural, um lugar que só foi ter luz com o Programa Luz Para Todos, muitos anos depois. Um lugar impressionante, uma família enorme, forte e unida.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi quando eu, adolescente, conheci o centro-oeste. Quem acha que conhece o país e nunca viu as plantações de soja entre o Tocantins e a Bahia, de fato, não entendeu nada. De carro, você anda horas numa planície de linha do horizonte reta, com a estrada &#8211; maravilhosa, asfalto perfeito &#8211; fazendo o ponto de fuga. Máquinas gigantes são pontinhos que trabalham 24hs por dia. Os donos chegam de avião ou helicóptero. A cidade que era só um posto de gasolina no meio do deserto virou um polo regional. O nome dela? Luiz Eduardo Magalhães.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo mudou quando o PT ganhou o governo federal. Neste momento, meu pai já morava em Brasília, deslocado pela empresa de informática na qual trabalhava. Seus antigos amigos paulistas aportaram, e agora era ele quem conhecia o terreno. Meu pai mudou de vida. Andava de Corolla, recebia whisky em caixa de madeira com a estrela do PT. Sentia-se finalmente reconhecido. Não durou muito &#8211; Mensalão etc… em meio à queda, ele botou um processo contra a empresa pelo fato de ser PJ e ganhou. Arranjou inimigos por todos os lados e se refugiou no Tocantins.</p>
<p style="text-align: justify;">O retorno dele para Goiânia, alguns anos depois, marcou um enésimo recomeço de vida, agora marcado pelo empreendedorismo e pelo mergulho na igreja evangélica. Dizia que nunca mais queria ter patrão, pois foram os patrões que sempre o colocaram em maus lençóis. Fez casas do Minha Casa Minha Vida em Luiz Eduardo Magalhães, abriu uma lanchonete em Goiânia que não teve condições de tocar. Nunca conseguiu ganhar dinheiro com nada disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a comunidade da igreja e as dinâmicas desse meio davam sentido a tudo o que ele tinha passado na vida, e o reconheciam como alguém sábio, que “mostrava os caminhos”. Só não virou pastor porque era separado. A igreja que ele frequentava era organizada em células, e ele era responsável por uma delas, na sua casa. Dizia que aquilo funcionava como os <em>soviets</em>. E que era, portanto, “a revolução”. A estrutura e os números da igreja são de fato impressionantes. Ele acreditava que finalmente estava colocando em andamento uma transformação estrutural no país, e que a esquerda precisava fazer parte disso. Revirava com polêmicas e esperanças populares os grupos de whatsapp dos amigos paulistas esclarecidos. Não havia dúvidas, do nosso ponto de vista, ele tinha enlouquecido. Ninguém acreditou.</p>
<p style="text-align: justify;">A ascensão bolsonarista mudou muito toda essa história, mais uma vez. Ele lutava contra a extrema-direita e tudo o que aquilo significava como retorno da ditadura que ele tinha vivido na pele. Em Goiânia e na sua igreja, as pessoas também tinham dificuldade de entender sua postura. Voltou a ficar escanteado, se afastou sem nunca romper os vínculos, e depois voltou a receber a célula em casa até o último dia da vida que pôde. No final da vida, estava numa profunda depressão. Me telefonou um dia só para dizer que continuava de esquerda. Como se eu fosse um porto seguro que pudesse salvá-lo, me perguntou se eu acreditava. Eu disse que nunca duvidei disso, mas adianta a alcunha quando o que se vive é muito maior do que as classificações, prenhes de certezas?</p>
<p style="text-align: justify;">Meu pai não teve condições de lidar com as contradições que viveu. Será que nós temos tido condições? É bom duvidar quando achamos que estamos entendendo o que está acontecendo, sabemos o que vai acontecer e podemos dar caminhos certeiros para evitar o pior. A história é muito mais complexa do que isso. Mas as experiências de vida das pessoas são expressões concretas das contradições em que estamos imersos. Dar voz a tais experiências, dando sentido coletivo ao sofrimento individual, parece ser um caminho potente. O lado de lá tem sido muito eficaz em fazer isso, enquanto nós permanecemos presos às nossas certezas.</p>
<p style="text-align: justify;">Desejo, esta semana, que o virar-voto não seja de esclarecimento, mas de escuta; que a escuta possa criar boas questões que coloquem a semente da dúvida no outro. Que possamos dar sentido coletivo transformador na germinação dessas dúvidas, florescendo um projeto comum. Os desafios não terminam domingo, eles apenas começam &#8211; ou continuam, se aprofundando. Talvez o maior deles seja não produzir inimigos a partir das nossas certezas, para não terminarmos no apocalipse da guerra infinita, essa sim profetizada por todos aqueles que sempre quiseram subordinar a humanidade.</p>
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		<title>Hora de “desbigtechtizar” a vida [3]</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Oct 2026 15:30:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[Em uma era onde qualquer pessoa com um smartphone pode ser um emissor de conteúdo, as redações tradicionais e as iniciativas independentes de checagem atuam como um remédio social. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana*</h3>
<p style="text-align: justify;">Ferramentas digitais são práticas, rápidas, e nos ajudam em diversas tarefas, no entanto, há momentos que precisamos parar e fazer grandes reflexões sobre assuntos que deveriam estar pacificados. Desde os primórdios da civilização humana, a busca e a preservação da verdade têm ocupado um lugar central e insubstituível no desenvolvimento moral, ético e social das mais diversas culturas e tradições religiosas ao redor do globo. A verdade nunca foi tratada pelas sociedades ancestrais apenas como um mero conceito epistemológico ou uma simples correspondência entre o discurso e a realidade factual: ela sempre foi erguida como o alicerce espiritual e comunitário que permite a coexistência pacífica e a confiança mútua.</p>
<p style="text-align: justify;">Em todas essas matrizes culturais, independentemente de suas diferenças teológicas e geográficas, podemos observar um consenso comum: a mentira corrompe a alma do indivíduo e desintegra o tecido da sociedade. A verdade, portanto, é a argamassa invisível que sustenta a humanidade. No entanto, a história moderna nos mostrou, de forma trágica e devastadora, como a subversão desse princípio ancestral pode levar a humanidade aos seus capítulos mais sombrios. Quando a verdade deixa de ser um valor moral e passa a ser tratada como um obstáculo a ser superado por projetos de poder, o terreno é pavimentado para o totalitarismo. Ninguém compreendeu e instrumentalizou essa distorção de maneira tão letal quanto Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista durante o Terceiro Reich. A ele é frequentemente atribuída a máxima maquiavélica que ecoa até os dias de hoje: &#8220;Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade&#8221;. Goebbels percebeu que as massas não são movidas por argumentos lógicos e complexos, mas por apelos emocionais, medos primais e repetição exaustiva. Ele controlava rigidamente o rádio, a imprensa, o cinema e as artes, criando um monopólio da informação onde qualquer narrativa divergente era silenciada pela violência e pela censura.</p>
<p style="text-align: justify;">Saltando das transmissões de rádio da década de 1930 para o hiperconectado século XXI, percebemos que o perigo da manipulação da informação não ficou confinado aos livros de história; ele apenas mudou de roupagem, ganhando uma escala e uma velocidade sem precedentes. Hoje, não lidamos mais com um Ministério da Propaganda centralizado, mas com um ecossistema digital caótico, fragmentado e algorítmico, onde proliferam as chamadas &#8220;<em>fake news</em>&#8221; e a difusão sistemática de desinformação nas redes sociais e plataformas de mensagens. A revolução digital e a Internet prometeram, em seus primórdios, uma democratização radical do conhecimento e, de fato deram voz a milhões que antes não a tinham. Contudo, a ausência de mediadores editoriais, de uma educação crítica, e o modelo de negócios das grandes empresas de tecnologia transformaram essa utopia em um campo minado. As redes sociais são projetadas para maximizar o engajamento do usuário, mantendo-o conectado pelo maior tempo possível para exibir anúncios direcionados. Consequentemente, os algoritmos tendem a promover organicamente teorias da conspiração, manchetes sensacionalistas e notícias fabricadas, pois elas viralizam até seis vezes mais rápido do que a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Grupos mal-intencionados, desde estelionatários em busca de cliques até agentes políticos e estatais interessados em desestabilizar democracias, exploram essa arquitetura digital. Eles utilizam exércitos de robôs (<em>bots</em>), perfis falsos, <em>deepfakes</em> (vídeos manipulados por inteligência artificial) e disparos em massa em redes como o WhatsApp para criar uma falsa percepção de consenso. As pessoas são então enclausuradas em &#8220;bolhas&#8221; ou &#8220;câmaras de eco&#8221;, onde só consomem informações que confirmam seus vieses preexistentes. O impacto disso é devastador: eleições são manipuladas, a confiança nas instituições democráticas despenca, reputações são destruídas e crises de saúde pública são agravadas, como vimos na proliferação de mentiras sobre vacinas e tratamentos sem eficácia comprovada durante a pandemia global.<br />
Diante desse cenário de guerra informacional, a importância da formação cidadã contra as <em>fake news</em> torna-se, talvez, o maior desafio educacional do nosso tempo. Particularmente, crianças e adolescentes sem a devida orientação, correm o risco de se tornarem tanto vítimas da desinformação quanto vetores de propagação, compartilhando impulsivamente mentiras que parecem divertidas, chocantes ou que validam suas identidades em formação. Podem ser criadas gerações de pessoas desinformadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa missão de separar o joio do trigo no vasto oceano de dados em que navegamos, destaca-se a importância das agências de verificação de fatos. Em uma era onde qualquer pessoa com um smartphone pode ser um emissor de conteúdo, as redações tradicionais e as iniciativas independentes de checagem atuam como um remédio social. Essas organizações não trabalham com opiniões, mas com uma metodologia rigorosa e transparente, baseada no jornalismo de dados, na consulta a fontes primárias oficiais, em laudos científicos e em registros públicos. Quando um boato viraliza, seja sobre a segurança de uma urna eletrônica, a procedência de um desastre ambiental ou uma suposta declaração polêmica de uma figura pública, as agências de verificação entram em ação para dissecar a informação. Elas reconstituem o caminho do dado, buscam a origem de imagens e vídeos usando ferramentas de busca reversa e consultam especialistas independentes. O trabalho das agências é fundamental não apenas para rotular o que é falso, verdadeiro, impreciso ou tirado de contexto, mas também para expor o modo de operação das redes de desinformação. Ao publicarem os passos de suas investigações, elas educam o público sobre como a mentira foi construída. Embora frequentemente sofram ataques orquestrados e sejam injustamente acusadas de viés político por grupos cujas narrativas falsas foram desmentidas, as agências de verificação seguem códigos de princípios internacionais rigorosos — como o da International Fact-Checking Network (IFCN) —, que exigem suprapartidarismo, justiça e transparência em suas correções.</p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, por exemplo, o Projeto Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos que reúne dezenas de veículos de comunicação brasileiros de diferentes matrizes editoriais com um único objetivo: investigar e desmentir rumores, conteúdos fabricados e táticas de manipulação que ganham tração na internet, especialmente em períodos eleitorais e crises nacionais. No entanto, confesso que alguns dos parceiros desse projeto são mídias que inspiram suspeitas de interesses econômicos contra as instituições republicanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, delegar a responsabilidade da verdade apenas às escolas e às agências de <em>fact-checking</em> é um erro estratégico: a linha de frente dessa batalha moral e cognitiva encontra-se dentro de casa. A família é o primeiro laboratório de socialização, onde a criança aprende a ler o mundo, a formar seus valores e a interpretar a realidade. Quando pais e responsáveis se omitem do debate sobre o que os jovens consomem em suas telas, eles abrem espaço para que algoritmos e influenciadores de procedência duvidosa assumam a tutoria intelectual de seus filhos. O diálogo familiar eficaz sobre <em>fake news</em> não deve ser construído na base do autoritarismo, da vigilância punitiva ou do confisco de aparelhos, pois tais atitudes costumam gerar alienação e sigilo por parte do adolescente. Ao contrário, deve-se adotar uma postura de escuta ativa e curiosidade genuína.<br />
Desse ponto, e aceitando que boa parte de nossas vidas já estão sequestradas pelas plataformas, principalmente as relações sociais, uma estratégia de redução de danos é procurar e começar a seguir agências de verificação em seus canais dentro das próprias plataformas junto à família, numa tentativa de fazer os algoritmos colocaram mais fatos checados mas nossas vidas. Sendo muito sincero, o cenário sobre a disseminação da verdade está ruim, mas podemos e devemos colaborar na formação de gerações mais vacinadas contra o fascismo e seus métodos de desinformação. Infelizmente, não parece razoável fazer sugestões de agências de verificação, assim cada pessoa ou família precisará pesquisar, discutir e escolher suas agências de verificação para seguir. Sem dúvida, atitudes assim são melhores que só adotar ferramentas digitais para fazer um trabalho que é intrinsecamente humano!</p>
<p style="text-align: justify;">Boas escolhas a todos!</p>
<p>*Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
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		<title>Os ossos do poeta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Sep 2026 17:49:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Jan Cenek Quando reli Ferreira Gullar, os ossos do poeta já estavam no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista, há quase 10 anos, junto com dezenas de imortais, incluindo Machado de Assis. Eu havia lido e relido Toda a poesia [1], mas não conhecia Em alguma parte alguma [2]. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Jan Cenek</h3>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">Quando reli Ferreira Gullar, os ossos do poeta já estavam no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista, há quase 10 anos, junto com dezenas de imortais, incluindo Machado de Assis. Eu havia lido e relido </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Toda a poesia</i></span></span></span> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>[1]</b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">, mas não conhecia </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma </i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>[2]</b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>. </i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">O primeiro livro, apesar da palavra “toda”, não inclui o último, que foi publicado posteriormente. Como é bom reencontrar um poeta inteiro, em forma e completo aos 80 anos de idade. Ferreira Gullar, </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">, é o mesmo de </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Toda a poesia</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">. As mesmas obsessões, os mesmos temas: </span></span></span><a href="https://passapalavra.info/2024/08/154118/"><span style="color: #386573;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><u>as coisas esquecidas</u></span></span></span></a><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">, o apodrecimento da matéria orgânica, a presença da morte, a angústia de se saber mortal e passageiro, o espanto diante da passagem do tempo.</span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">Há um pouco do primeiro Carlos Drummond de Andrade no último Ferreira Gullar. Provavelmente foi o pronome indefinido alguma que me chamou a atenção. Mas não só. </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Alguma poesia</i></span></span></span> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>[3] </b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">é</span></span></span><b> </b><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">o primeiro livro de Carlos Drummond. </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma</i></span></span></span><b> </b><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">é o último livro de Ferreira Gullar.</span></span></span><b> </b><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">Oitenta anos separam um do outro.</span></span></span><b> </b><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">Oitenta anos tinha o poeta maranhense quando publicou seu último livro de poemas.</span></span></span><b> </b><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Alguma poesia</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"> (1930), primeiros passos do poeta </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>gauche</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">: irônico, cético, engraçado. </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma </i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">(2010), despedida de outro poeta </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>gauche</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">: espantado diante da passagem do tempo. Drummond: a vida besta passa devagar numa </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>cidadezinha qualquer</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">, entre bananeiras e laranjeiras. Gullar: a vida besta passa espantosamente rápido, na quitanda do pai, Newton Ferreira, em São Luís do Maranhão, na primeira metade do século XX; no exílio no Chile e na Argentina, na década de 1970; no apartamento da Rua Duvivier, nº 49, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, nos primeiros anos do século XXI. Os poemas são rápidos e diretos, tanto no primeiro Drummond quanto no último Gullar. Apesar da vida lenta e besta na </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>cidadezinha qualquer</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"> do poeta mineiro.</span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">A poesia de Gullar está nas </span></span></span><a href="https://passapalavra.info/2024/08/154118/"><span style="color: #386573;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><u>coisas esquecidas</u></span></span></span></a><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">: atrás do balcão da quitanda do pai, Newton Ferreira, nos anos 1940, em São Luís; numa banana azedando na fruteira; em algum canto do apartamento da Rua Duvivier, em Copacabana, nos anos 2000; num acidente ocorrido na sala, mais precisamente no tranco provocado pelo atrito da cabeça do fêmur com o osso da bacia </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>[4]</b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">. Sacada de </span></span></span><a href="https://www.domingocompoesia.com.br/2018/03/a-poesia-ortopedica-de-ferreira-gullar.html?m=1"><span style="color: #386573;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><u>Frederico Spencer</u></span></span></span></a><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">: é a poesia ortopédica de Ferreira Gullar. Seja como for, o fato é que um osso de poeta dura mais que o próprio poeta, assim como a obsessão do poeta é dura como um osso. O espanto diante da passagem rápida do tempo sempre intrigou Ferreira Gullar. Por isso publicou livros intitulados </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Dentro da noite veloz</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"> e </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Na vertigem do dia</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">. Trata-se de “reacender o perdido”, de buscá-lo no “fundo do silêncio”. Por isso o poeta nomeou os amigos do pai – Luís Dedão, Cantuária, Elias –, além de posicioná-los perto do balcão da quitanda e de Newton Ferreira, numa conversa tão animada quanto perdida em algum dia esquecido na primeira da metade do século XX. Por isso Gullar fixou datas nos versos: uma segunda-feira, 03 de fevereiro de 2003; uma terça-feira, 02 de dezembro de 2008. Por isso o poeta foi obcecado pelo cheiro das frutas que apodreciam nas fruteiras, quintais e quitandas. O homem se inventa para livrar-se do fim – diria o poeta.</span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">A novidade, </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">, são os ossos espalhados pelas páginas. É como se o poeta buscasse algo mais perene que uma fruta, algo que resistisse melhor ao apodrecimento. Só que o efeito é o inverso. Os ossos espalhados pelos versos destacam a vertiginosa passagem do tempo. Se falamos dos ossos de um homem, é porque ele não existe mais. O espanto ósseo aparece, por exemplo, no poema </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Reflexão sobre o osso da minha perna </i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>[5]</b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">:</span></span></span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>[&#8230;]</i></span></span></span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>o osso</i></span></span></span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>este osso</i></span></span></span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>(a parte de mim</i></span></span></span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>mais dura</i></span></span></span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>e a que mais dura)</i></span></span></span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>é a que menos sou eu?</i></span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">São tantos ossos espalhados </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">, que fiquei pensando no que faria se encontrasse um osso do poeta na calçada. Expor no museu de arte contemporânea ou no centro de uma fruteira? Vender em algum sebo ou trocar por livros? Queimar em praça pública em protesto contra a guinada à direita do poeta, no final da vida? </span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">Comprei </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"> num sebo no sábado 13 de junho de 2026, à tarde, 13 anos depois das jornadas de junho de 2013, que não têm nada a ver nem com o poeta nem com o livro, mas é o acontecimento que me vem à cabeça quando penso no dia 13 de junho. Dentro do livro encontrei dois recortes de jornal, cheios de grifos. Numa matéria da Folha de São Paulo (FSP), datada de 02 de dezembro de 2011, informava-se que </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"> havia ganhado o prêmio Jabuti como melhor livro de ficção daquele ano. Numa coluna do próprio Ferreira Gullar publicada na FSP, datada de 29 de janeiro de 2012, o poeta comenta que escrevia movido pelo espanto. Li </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"> numa manhã gelada, era um domingo, 21 de junho de 2026, início do inverno no hemisfério sul. Almocei macarrão com almôndegas impactado pelas bananas podres – há 3 poemas intitulados bananas podres no livro – e pelos ossos espalhados nos versos de Gullar. Reli o livro na tarde daquele mesmo domingo. Foi quando reparei numa assinatura, numa data e num nome registrados à caneta, na primeira página do livro. Assinatura: um F meio inclinado que lembra uma cruz seguido de um ponto final, depois Gullar. Parece um epitáfio. Mas é a assinatura do poeta. Data: 03 de dezembro de 2011. Foi um sábado, conferi num calendário eletrônico. Nome: João Roberto Malheiros Julião. Provavelmente o primeiro dono do livro, que esteve presente no lançamento e ganhou o autógrafo do poeta. Ou então trabalhava, à época, na editora José Olympio, que publicou </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">. Por isso teria guardado e grifado a matéria sobre o prêmio Jabuti? Pelo </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Google</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"> tentei descobrir quem é, ou foi, João Roberto Malheiros Julião. Sem sucesso. Parece ter tido, ou ter, atuação no meio cultural, mas não encontrei muita coisa. </span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">Na tarde de 13 de junho de 2026, me venderam um livro assinado pelo próprio Gullar, provavelmente sem perceber. Se não, teriam tentado cobrar muito mais e eu não teria comprado, porque uma assinatura do poeta não vale mais que um poema. Na tarde gelada em que reli </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">, 21 de junho de 2026, a assinatura do poeta, o nome João Roberto Malheiros Julião, aquele 03 de dezembro de 2011 registrado na primeira página, a matéria e a coluna da Folha de São Paulo encontradas dentro livro se misturaram aos poemas de Gullar. Era o tempo passando. Eram as coisas esquecidas. Como uma banana azedando no cesto, uma conversa ocorrida numa quitanda de São Luís ou um osso armazenado no mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Era um espanto, quem sabe parecido com o que levava Ferreira Gullar a escrever poesia. Tudo e todos passam: uma banana esquecida na fruteira; um quitandeiro maranhense, como Newton Ferreira; um imortal da Academia Brasileira de Letras, como Ferreira Gullar. O homem é uma “aflição que repousa num corpo” – escreveu o poeta </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>[6]</b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">. Naquela tarde, em 21 de junho, nas primeiras horas do inverno de 2026 no hemisfério sul: uma parte de mim era vertigem, a outra parte era espanto.</span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>Notas</b></span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>[1]</b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"> Ferreira Gullar. </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Toda a poesia</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">.</span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b> </b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">20. ed</span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>. </b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">Rio de Janeiro: José Olympio, 2010a. </span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>[2] </b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">Ferreira Gullar. </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Em alguma parte alguma</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010b.</span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>[3] </b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">Carlos Drummond de Andrade. </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-ItalicMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><i>Alguma poesia</i></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">. Nova reunião: 23 livros de poesia – volume 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009.</span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>[4] </b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">Gullar, 2010b,</span></span></span><b> </b><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">op. cit., p. 39.</span></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><b>[5] </b></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">Gullar, 2010b,</span></span></span><b> </b><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;">op. cit., p. 32.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: TimesNewRomanPS-BoldMT, serif;"><b>[6] </b></span></span><span style="color: #000000;">Gullar, 2010b,</span><b> </b><span style="color: #000000;">op. cit., p. 75.</span></span></span></p>
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		<title>Kasa Invisível &#8211; 1 mês de resistência e mobilizações</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2026 14:01:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[A luta pelo direito à cidade e moradia em Belo Horizonte ainda está em aberto. Por Gabriel Rios]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Gabriel Rios</h3>
<p style="text-align: right; padding-left: 120px;"><em>“Habitar não é alojar-se. Um alojamento não é nada senão uma casinha, na qual as pessoas são &#8216;alojadas&#8217;, para o bem e para o mal, depois de sua jornada de trabalho e à espera da seguinte. É uma jaula cujos muros nos são alheios. Habitar é outra coisa. É um entrelaçamento de vínculos. É pertencer aos lugares na mesma medida em que eles nos pertencem. É não ser indiferente às coisas que nos rodeiam, é criar laços: com as pessoas, com os ambientes, com os campos, com as sebes, com os bosques, com as casas, com tal planta que repousa no mesmo espaço, com tal animal que normalmente se vê ali. É ter alicerce e possibilidades abertas nos nossos espaços. É o oposto dos pesadelos da metrópole, dos quais só temos que nos desfazer”.</em></p>
<p style="text-align: right; padding-left: 120px;"><em>-Conselho Noturno</em></p>
<p style="text-align: justify;">Desde 2013 a Kasa Invisível, localizada na Avenida Bias Fortes, 1034 do bairro de Lourdes (o 2º metro quadrado mais caro de Belo Horizonte) tem suas portas abertas à comunidade belorizontina, acolhendo famílias, indivíduos, cooperativas de trabalho e propostas de atividades sociais e culturais vindas de toda a cidade &#8212; e até mesmo de fora do país &#8212;, se configurando enquanto um espaço de encontro em BH, além de ser usada como moradia por três famílias. O espaço é autogerido, ou seja, sem hierarquias de comando e obediência, por um coletivo gestor que se define como anticapitalista, autônomo e horizontal.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um mês, a okupa foi surpreendida por uma ordem de despejo assinada pela Juíza Miriam Vaz Chagas da da 17ª Vara Cível de Belo Horizonte. Decisão essa que se deu ainda em primeira instância e desconsiderando o fato de que há um processo de usucapião tramitando na justiça pautado em relatos consistentes de que o espaço é usado para fins sociais, culturais, coletivos e também como moradia. Além disso, a juíza utiliza o argumento de “perigo de dano latente” do imóvel devido ao seu valor histórico de patrimônio cultural tombado, sendo que o tombamento foi efetuado por meio de esforços do próprio coletivo da Kasa.</p>
<p style="text-align: justify;">A casa que hoje está ocupada foi construída em 1938 em estilo <em>art decó</em> e ao longo do tempo, sofreu muitos danos estruturais pelo abandono de mais de 20 anos do antigo proprietário. Após anos lacrado, sem que o departamento de patrimônio da cidade conseguisse contato com os proprietários e seus herdeiros, foi somente após a ocupação que o tombamento pode ser realizado, tendo sido implementado pelo próprio coletivo gestor da Kasa Invisível. Diante disso, o argumento utilizado pela juíza demonstra a fragilidade na qual a decisão de despejo se baseia, e sua arbitrariedade diante de todas as provas processuais apresentadas durante todo o processo jurídico antes desta liminar da juíza.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob os efeitos desta liminar arbitrária, na sexta-feira, 21 de agosto, Dia Nacional da Habitação, a Kasa Invisível resistiu à sua primeira tentativa de despejo. A resistência veio pela força da mobilização, com o apoio da nossa comunidade, de parceiros e de simpatizantes, mostrando que a luta coletiva é capaz de abrir caminhos onde as instituições insistem em fechar portas. A luta começou com um café da manhã na porta da ocupação puxada por diferentes movimentos sociais e ocupações. Integrantes do coletivo, apoiadores de diversos movimentos, como o MLB, Teia dos Povos, UP, Boxe Antifa, Resistência Azul Popular, Sind-UTE, Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP), e Comissão de Direitos Humanos da OAB, além de advogados populares, parlamentares e assessores, se mobilizaram contra a tentativa de despejo.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto pessoas subiam ao telhado e estendiam faixas, movimentos e apoiadores colocavam seus corpos em frente a entrada da Kasa enquanto barricada, para que a família e seu advogado não pudessem nem sequer tentar abrir a porta da okupa com um chaveiro que foi chamado até o local. Ao mesmo tempo, a resistência também era feita de encontro e solidariedade. Pessoas traziam pães, sucos, café era baixado por cordas da varanda da Kasa. O relato completo e detalhado pode ser lido no blog do coletivo Kasa Invisível:</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://kasainvisivel.org/2026/08/22/1o-dia-resistencia-contra-o-despejo/" href="https://kasainvisivel.org/2026/08/22/1o-dia-resistencia-contra-o-despejo/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://kasainvisivel.org/2026/08/22/1o-dia-resistencia-contra-o-despejo/</a>)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159884 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50.jpeg" alt="" width="848" height="1280" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50.jpeg 848w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-199x300.jpeg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-678x1024.jpeg 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-768x1159.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-278x420.jpeg 278w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-640x966.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-681x1028.jpeg 681w" sizes="(max-width: 848px) 100vw, 848px" />Barricada coletiva permanente</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Conseguir barrar o despejo pela força da mobilização, com o apoio da nossa comunidade, de parceiros e de simpatizantes, é revigorante. Mostra que a luta coletiva é capaz de abrir caminhos onde as instituições insistem em fechar portas. A ameaça de despejo, porém, ainda existe. A liminar que decide pela a imissão da posse (ou seja, conferir posse a quem nunca a exerceu) ainda não foi derrubada nem suspensa. Assim, um mandado de despejo pode ser executado em breve.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, permanecemos mobilizados, organizados e dispostos a resistir. A Kasa Invisível intensificou sua agenda de atividades, recebendo inúmeros grupos e coletivos solidários ao espaço. Foram eventos praticamente diários onde a comunidade movimentou e cuidou da Kasa com cafés da manhã todos os dias da primeira semana de resistência, apresentações musicais, cinema na calçada, arte, passeios de bike, aula com alunos do curso de arquitetura, sarau e até corte de cabelo e terapia grátis!</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos dizer que o coletivo gestor e toda nossa rede foram surpreendidos com o tamanho e diversidade das formas de apoio, presença e cuidado com o espaço que ocupamos e mantemos há 13 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Por mais de uma década, construímos um espaço aberto para a comunidade, que pode ser usado por qualquer pessoa, coletivo, sindicato, movimento ou grupo que compartilhe e respeite princípios básicos anticapitalistas, antifascistas, e contrários a toda forma de opressão (de raça, de gênero, transfobia, etc.), apartidária e de independência em relação ao Estado e ao mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">Se hoje contamos com uma comunidade inteira defendendo esse espaço e as vidas que o habitam, é porque estivemos lado a lado na abertura de dezenas de novas ocupações, em protestos, marchas, panfletagens, distribuição de marmitas e recursos, jornadas de luta, festivais, mutirões, vigílias, almoços, plantios, oficinas, debates e todo tipo de agitação cujo objetivo é melhorar a vida das pessoas oprimidas e excluídas. Mantendo, em cada passo, a perspectiva de que a vitória de uma vida livre e próspera para todas só é possível com o fim do capitalismo e toda forma de opressão estatal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-159883 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1.jpeg" alt="" width="848" height="1280" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1.jpeg 848w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-199x300.jpeg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-678x1024.jpeg 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-768x1159.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-278x420.jpeg 278w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-640x966.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-1-681x1028.jpeg 681w" sizes="(max-width: 848px) 100vw, 848px" />Apoio internacional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No início de agosto anunciamos que foi dada a liminar que autoriza o despejo da Kasa Invisível, com base em alegações infundadas de que o imóvel “não serve de moradia” e que o coletivo de pessoas que habitam e cuidam do espaço representam “um risco para um imóvel tombado” &#8212; tombamento que só foi possível com o trabalho de ocupantes e estudantes e docentes de universidades públicas mineiras.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos anúncios e chamados de solidariedade contra o despejo da Kasa Invisível circularam pelo mundo e recebemos diversas imagens e mensagens de solidariedade: da Eslovênia, participantes do Acampamento de Verão Antiautoritário enviaram uma mensagem em uma faixa feita durante o evento em agosto. Outra imagem de um faixa nas ruas de Berlim foi enviada por membros do Food Not Bombs da Alemanha. No Uruguai, uma faixa contra o despejo da Kasa e fogos de artifício foram colocados em frente à embaixada Brasileira. Em Biel, na Suíça, aconteceu uma marcha de rua dia 11 de setembro, contra desalojos de ocupações na cidade e um banner em apoio à Kasa Invisível estava pendurado em um trailer seguindo a manifestação. Já no dia 13 de setembro, em Paris, a Fanfare Invisible fez uma parada tocando canções rebeldes e panfletagem em apoio às ocupações Maria do Arraial e Kasa Invisível.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas ações de quem está distante são fundamentais para nos dar força e lembrar que nossa arma é a solidariedade. O apoio mútuo dos povos não respeita fronteiras ou distâncias e fortalecem mutuamente a luta pela liberação de territórios em todo o globo. Tanto que os apoios internacionais à Kasa foram noticiados no Jornal Hoje em Dia, conferindo um peso ainda maior para o que está acontecendo na okupa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Audiência pública na Câmara Municipal de Belo Horizonte</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Por conta da ampla repercussão midiática que a ordem de despejo da Kasa Invisível obteve, diversas figuras políticas institucionais da esquerda progressista apareceram no dia da tentativa de despejo e se dispuseram a tentar algum tipo de pressão institucional. Uma dessas figuras foi a vereadora Juhlia Santos (PSOL), que convocou junto à comissão dos direitos humanos uma audiência pública na Câmara Municipal de Belo Horizonte sobre o despejo da Kasa Invisível no dia 8 de setembro.</p>
<p style="text-align: justify;">A mesa da audiência contou com a fala de diversos parceiros da Kasa Invisível, entre eles nossas vizinhas, uma participante do nosso GT Arquitetura, apoiadores e movimentos como MOB, MLB e MLP.</p>
<p style="text-align: justify;">A audiência também colocou uma série de questões que precisam ser respondidas formalmente pelo Poder Público, provocadas por uma carta protocolada pelo gabinete da vereadora. Entre elas, está a necessidade de saber se a Prefeitura tem conhecimento da ordem judicial de desocupação ou imissão de posse dos imóveis e, diante do tombamento e do interesse público envolvido, se pretende participar formalmente do processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Também questionou se a Prefeitura buscará encaminhar o conflito envolvendo a Kasa Invisível à Comissão Regional de Soluções Fundiárias do TJMG, considerando seus impactos sociais, culturais e habitacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto central diz respeito à atuação da Diretoria de Patrimônio Cultural (DIPC). Foram solicitadas informações sobre as vistorias, laudos e demais documentos produzidos pelo órgão sobre os imóveis, bem como sobre o recebimento e a aprovação das obras de restauro e estabilização do telhado realizadas na Kasa Invisível.</p>
<p style="text-align: justify;">É particularmente importante esclarecer o que a DIPC tem a dizer sobre os laudos de deterioração apresentados pela Defesa Civil, especialmente porque a decisão judicial que fundamenta o despejo parte da premissa de que o coletivo estaria deteriorando o imóvel. Fato crucial, pois o que ocorre é justamente o contrário: foram realizadas ações de manutenção, recuperação e restauro do espaço.</p>
<p style="text-align: justify;">A audiência solicitou, ainda, uma nova vistoria conjunta entre a DIPC e a Defesa Civil, de modo a atualizar os laudos e as informações utilizadas no processo judicial. Por fim, foram pedidas informações sobre a situação tributária dos três imóveis, incluindo o detalhamento de eventuais débitos de IPTU, taxas e multas, para compreender a situação fiscal dos proprietários e herdeiros.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir desse conjunto de informações, buscamos abrir a possibilidade de que o Município avalie instrumentos capazes de incorporar os imóveis ao patrimônio público e consolidar sua utilização social, cultural e comunitária. Questões que são centrais para um peso institucional maior à causa e precisam ser respondidas com urgência. Mas o principal ganho da audiência foi ocupar mais um espaço público para demonstrar a importância da Kasa Invisível para Belo Horizonte e, sobretudo, a força da comunidade que se construiu em torno dela.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-159887 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2.jpg" alt="" width="2310" height="1733" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2.jpg 2310w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-1536x1152.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-2048x1536.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.50-2-681x511.jpg 681w" sizes="(max-width: 2310px) 100vw, 2310px" />PL 574: o avanço da especulação imobiliária em Belo Horizonte</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, em 2026, a capital mineira segue os mesmos moldes desenvolvimentistas de exclusão que o da sua fundação no fim do século XIX. Depois de mais de um século de desenvolvimento capitalista, a metrópole definiu a zona sul da cidade como zona de expansão das moradias dos ricos, grandes prédios luxuosos e condomínios, e a zona norte como a região periférica, onde as indústrias mais poluentes e os indesejáveis devem ficar.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a estratégia neocolonialista por meio da cultura bares da moda não é suficiente para alcançar os objetivos do setor imobiliário, operações urbanas começam a ser articuladas no campo legislativo. O PL 574 é essencialmente isso. Apresentado pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e de autoria do prefeito Álvaro Damião (União Brasil), este projeto institui a chamada Operação Urbana Simplificada (OUS) Regeneração dos Bairros do Centro. A justificativa oficial do poder executivo é promover a “regeneração” e a “dinamização econômica” da área central e pericentral. Na prática, porém, o projeto é um grande pacote de benefícios desenhado sob medida para as grandes empresas do mercado imobiliário.</p>
<p style="text-align: justify;">O PL negligencia o déficit habitacional da capital que supera 60 mil famílias. Sem garantias de moradia acessível, o mercado construirá somente para a classe média-alta, causando a alta descontrolada dos aluguéis e expulsando os moradores tradicionais e de baixa renda para áreas cada vez mais periféricas, clássico processo de gentrificação.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o estado de exceção (bem conhecido por nós críticos ao estado democrático de direito) mais uma vez atua na conformação urbana, ignorando totalmente diversas diretrizes do Plano Diretor da cidade (que é completamente criticável). Ele incentiva a construção de megaempreendimentos e torres altas, permitindo que as construtoras superem o limite básico de construção em até 70%. O mais grave é que o texto prevê a isenção de 100% do pagamento da outorga onerosa nos dois primeiros anos de vigência. Ou seja, a prefeitura abre mão de uma receita milionária que deveria ser obrigatoriamente investida em habitação popular para simplesmente dar desconto às construtoras. E dispensa a exigência de afastamentos laterais e de fundos.</p>
<p style="text-align: justify;">Como se todos esses problemas mencionados anteriormente já não fossem suficientes, há uma ameaça iminente aos territórios situados nas regiões que o PL abarca. Nos últimos meses, diversas ocupações sofreram ameaças de despejo como a Kasa Invisível, a ocupação Maria do Arraial (MLB) e outras ocupações situadas na região central do Movimento por Libertação Popular (MLP). Todas essas ordens de despejo vieram quase na mesma semana da votação do PL na Câmara, o que evidencia um projeto coordenado de gentrificação e elitização do centro da cidade e bairros adjacentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, o prefeito Álvaro Damião entrega a cidade nas mãos das empresas do setor imobiliário e expulsa tudo e todos aqueles que são vistos como marginais e indesejáveis pela elite e classe média alta belorizontina. Mais uma vez a cidade é redesenhada de cima para baixo, expulsando aqueles que não possuem um poder aquisitivo compatível com os altos alugueis que agora imperam na cidade (a média do aluguel na cidade chegou à R$1600,00 neste ano) e os bares “cool” que pipocam em cada esquina da região central.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159886 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51.jpg" alt="" width="2560" height="1920" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-1536x1152.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-2048x1536.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Image-2026-09-21-at-12.15.51-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Campanha pelo Despejo Zero</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Diante deste cenário, os movimentos por moradia e território de Belo Horizonte vem se articulando para dar uma resposta ao projeto higienista da Prefeitura. Nesta terça-feira, 22 de setembro, foi convocada uma reunião com todos os movimentos da esquerda radical de BH para discutir a construção da campanha pelo “Despejo Zero” na capital mineira. A reunião ocorrerá na ocupação Maria do Arraial às 19h30. Essa campanha se faz urgente, dado o risco de despejo que várias ocupações, como a própria ocupação Maria do Arraial e a Kasa Invisível, além de vários outros territórios de luta, passam neste momento. Esse cenário coloca em risco o direito à moradia em uma cidade com um déficit habitacional gigantesco (ultrapassa de 60 mil famílias sem moradia).</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo assim, convocamos todxs para ajudar de alguma forma nesta campanha, mesmo que de longe, seja de outra cidade, estado ou país. Qualquer ajuda neste momento será bem-vinda, seja financeira, midiática ou com um trabalho voluntário remoto com as possíveis campanhas de divulgação que irão surgir nas redes e nas ruas por meio de peças gráficas. A luta pelo direito à cidade e moradia em Belo Horizonte ainda está em aberto, este momento é crucial para que possamos dar um passo em direção à uma cidade mais plural ao invés de uma cidade homogênea e higienista que o prefeito Álvaro Damião pretende impor. Nessa luta tal articulação dos movimentos em uma campanha pelo Despejo Zero será crucial.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Contra o capital e a especulação imobiliária okupemos tudo!!</strong></em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Hora de “desbigtechtizar” a vida [2]</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Sep 2026 19:14:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[Para dar continuidade a “desbigtechtização” de nossas vidas, a seguir temos uma estratégia progressiva de transição para o software livre em nossos dispositivos móveis, baseada no que aconteceu no desktop. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Marcelo Tavares de Santana*</h3>
<p style="text-align: justify;">Enquanto vimos se desenvolver a maturidade do desktop livre, com aplicativos e formatos livres de arquivos, fomos surpreendidos por uma mudança de paradigma: a computação pessoal migrou de forma massiva para os smartphones. O aparelho que carregamos no bolso passou a concentrar nossas comunicações, dados bancários, fotografias de família, rotas de locomoção e registros de saúde. E foi exatamente aí que as grandes corporações de tecnologia (big techs) ergueram seus cercados mais impenetráveis. Como destacado anteriormente, iniciativas como a campanha internacional Keep Android Open <strong>[1]</strong> denunciam uma manobra deliberada para fechar ainda mais o ecossistema Android. Ao impor barreiras burocráticas aos aplicativos livres, tenta-se inviabilizar a instalação independente de aplicativos, configurando uma ameaça direta não apenas à liberdade de escolha individual, mas à própria soberania digital de países como o Brasil. Diante desse cenário não podemos ser espectadores passivos. Para dar continuidade a “desbigtechtização” de nossas vidas, a seguir temos uma estratégia progressiva de transição para o software livre em nossos dispositivos móveis, baseada no que aconteceu no desktop. Para iniciar qualquer movimento de desintoxicação tecnológica no smartphone, é indispensável compreender o papel estratégico de um repositório alternativo de aplicativos, como exemplo, o F-Droid <strong>[2]</strong>: um repositório comunitário, auditável e sem fins lucrativos, dedicado exclusivamente a softwares livres e de código aberto (Free and Open Source Software &#8211; FOSS).</p>
<p style="text-align: justify;">A distinção fundamental entre o F-Droid e a Google Play Store reside no modelo de confiança, auditoria e publicação. Na Play Store comercial, os desenvolvedores enviam arquivos binários já empacotados. O usuário não tem como saber se o binário instalado contém apenas o código prometido ou se inclui bibliotecas ocultas. No F-Droid oficial, a infraestrutura do projeto baixa o código-fonte disponibilizado publicamente, audita suas dependências e realiza a compilação nos próprios servidores do projeto. Isso garante que aquilo que está em execução no seu telefone corresponde estritamente ao código inspecionado. O gerenciador de aplicativos F-Droid não exige criação de conta, endereço de e-mail, cartão de crédito ou aceite de termos de vigilância comportamental.</p>
<p style="text-align: justify;">Um erro comum entre defensores do software livre é propor uma ruptura abrupta e absoluta do dia para a noite. Exigir que um usuário leigo formate o telefone, desinstale todos os aplicativos comerciais simultaneamente e abandone suas redes de contato de uma só vez costuma gerar estresse, perda de ferramentas de trabalho e, por fim, um retorno desiludido ao ecossistema fechado. Uma transição para aplicativos livres deve ser conduzida em etapas que respeitem a rotina produtiva e familiar de cada pessoa, conforme sugestões abaixo:</p>
<p style="text-align: justify;">• Etapa 1: instalar o F-Droid e baixe os aplicativos livres correspondentes às suas necessidades, mantendo temporariamente os equivalentes proprietários instalados.</p>
<p style="text-align: justify;">• Etapa 2: escolher ferramentas livres que compartilham fluxos visuais semelhantes aos aplicativos comerciais, o custo cognitivo da mudança cai drasticamente.</p>
<p style="text-align: justify;">• Etapa 3: Antes de excluir contas e aplicativos fechados, faça backup dos informações, principalmente exportando os dados para algum formato livre ou aberto, por exemplo, exporte sua agenda em formato .ics, gere o arquivo .vcf da sua lista telefônica e faça cópia das suas fotografias organizadas por pastas no computador. Quando você percebe que todos os seus dados continuam intactos e legíveis em seu poder, a dependência psicológica da plataforma comercial se desfaz.</p>
<p style="text-align: justify;">• Etapa 4: com os dados salvos e o novo aplicativo incorporado ao hábito diário, desinstale o aplicativo proprietário, mas se ele veio embutido de fábrica pelo fabricante e o sistema impede a desinstalação convencional, revogue todas as suas permissões de acesso (câmera, microfone, localização e armazenamento) e desative-o nas configurações do aparelho.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentro dessa proposta de etapas, abaixo segue uma seleção de aplicativos como sugestão para iniciar esse processo:</p>
<p style="text-align: justify;">1. OpenContacts: uma gerenciar de contatos que atua como uma gaveta blindada: ele armazena seus dados em um banco de dados próprio, invisível para o provedor de contatos padrão do sistema. O aplicativo oferece importação e exportação no formato aberto vCard (.vcf);</p>
<p style="text-align: justify;">2. Telegram X: a comunicação com círculos amplos ainda exige clientes de mensageria compatíveis com redes consolidadas. O Telegram X funciona com a mesma rede do Telegram;</p>
<p style="text-align: justify;">3. Fennec Droid: é uma versão comunitária construída a partir do código aberto do Firefox para Android, da qual foram retiradas as rotinas proprietárias e mantido o suporte a extensões, como o uBlock Origin;</p>
<p style="text-align: justify;">4. Etar: um calendário completo que adota padrões internacionais, como o formato iCalendar, e integra-se com facilidade a provedores de sincronização abertos (como DAVx⁵ e servidores Nextcloud);</p>
<p style="text-align: justify;">5. FreeDCam: concebido para quem não abre mão do rigor técnico, oferece controles manuais avançados de sensibilidade ISO, tempo de exposição, balanço de branco, foco milimétrico e gravação em formato RAW (DNG). Em vídeo, o aplicativo possibilita selecionar parâmetros customizados de codificação de áudio e taxas de bits, garantindo capturas fiéis sem compressões agressivas de fábrica;</p>
<p style="text-align: justify;">6. Organic Maps: usando dados colaborativos do projeto global OpenStreetMap, ele funciona inteiramente offline, cria rotas para condução veicular, etc., porém é preciso as ver de forma crítica, pois nos testes criou rotas ruins para bicicleta;</p>
<p style="text-align: justify;">7. Aves Libre: com uma interface moderna, esse aplicativo de galeria permite organizar coleções por pastas reais, etiquetas, geolocalização no mapa e atributos técnicos avançados (EXIF, IPTC, XMP).</p>
<p style="text-align: justify;">O repositório F-Droid tem muitos outros aplicativos separados em diversas categorias que podem se adaptar melhor a rotina que as sugestões apresentadas neste artigo, por isso, é um momento de instalar e experimentar.</p>
<p style="text-align: justify;">Boas experiências a todos!</p>
<div class="fn"></div>
<p>*Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
<p><strong>Nota</strong></p>
<p><strong>[1]</strong> &lt;https://keepandroidopen.org/pt-BR/&gt;</p>
<p><strong>[2]</strong> O gerenciador de aplicativos F-Droid pode ser instalada conforme instruções em &lt;https://f-droid.org/pt_BR/&gt;</p>
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		<title>A cara do Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Aug 2026 14:58:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Desporto/esporte]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Jan Cenek Como sacaram os criadores de memes: o Brasil é hexa. Foi eliminado da sexta Copa do Mundo consecutivamente. Entre as eliminações consta a surra de 7 x 1 para a Alemanha, na Copa de 2014, disputada no Brasil. Mas, como o que é ruim sempre pode piorar, a eliminação para a Noruega [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<div class="level1">
<p style="text-align: justify;">Como sacaram os criadores de memes: o Brasil é hexa. Foi eliminado da sexta Copa do Mundo consecutivamente. Entre as eliminações consta a surra de 7 x 1 para a Alemanha, na Copa de 2014, disputada no Brasil. Mas, como o que é ruim sempre pode piorar, a eliminação para a Noruega por 2 x 1, na Copa de 2026, foi, em muitos aspectos, ainda mais vexatória. É a pior colocação brasileira em 60 anos. Igualou a 11ª posição de 1966. O grande símbolo do vexame é o sujeito apelidado pejorativamente como menino Ney, apesar de ser um veterano em franca decadência. Neymar é um ex-jogador em atividade que foi convocado e atrapalhou a seleção brasileira. O menino Ney jogou como se fosse o dono do time e da bola, e não por mérito esportivo. Deu no que deu. Foi ridículo ver Neymar brigando com os noruegueses por absoluta incapacidade de competir esportivamente. Como se não bastasse, transformou uma cobrança de pênalti em disputa particular com o goleiro adversário, como se a seleção brasileira não estivesse a poucos minutos da eliminação. Qualquer jogador que anotasse um gol e diminuísse a diferença de 2 para 1 no final de uma partida pegaria a bola e reiniciaria o jogo rapidamente, para buscar o empate. O que fez o menino Ney? Resolveu discutir com o goleiro desperdiçando tempo. Atitude típica de um rematado narcisista, que está mais preocupado com a própria imagem do que com o resultado esportivo. Sobretudo, foi ridícula a discussão que precedeu a convocação de Neymar, com muita gente &#8211; quiçá a maioria, entre os quais diversos ex-jogadores &#8211; defendendo a convocação do sujeito que não fazia uma boa partida há anos. Na canção <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=XJp24DoZ1A0&amp;list=RDXJp24DoZ1A0&amp;start_radio=1" href="https://www.youtube.com/watch?v=XJp24DoZ1A0&amp;list=RDXJp24DoZ1A0&amp;start_radio=1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">A cara do Brasil</a>, os compositores Celso Viáfora e Vicente Barreto perguntam: “qual a cara da cara da nação?” Fiquei pensando e me ocorreu uma ideia incômoda: e se a cara do Brasil for o menino Ney?</p>
<p style="text-align: justify;">Neymar surgiu quase genial: leve, rápido, habilidoso, quase completo. Dominava quase todos os fundamentos do jogo, exceto o mais importante: nunca soube atuar coletivamente, faltou-lhe inteligência esportiva, debilidade que cresceu com o tempo. Por isso encerrou sua participação em Copas &#8211; oxalá tenha realmente encerrado &#8211; batendo boca com um goleiro, em vez de pegar a bola e reiniciar a partida o mais rápido possível. O advérbio “quase” é uma boa definição para o menino Ney. Quase foi um gênio. Na prática, tornou-se um grande desperdício, provavelmente o maior do esporte brasileiro. Eis outra boa definição para o sujeito: desperdício. Foi bisonho ver Neymar nas duas últimas Copas: superado pelo tempo, ele insistia em jogadas individuais que não era mais capaz de executar. A mania burra de prender excessivamente a bola o tornou alvo de faltas e pancadas e pode ter contribuído para as muitas contusões que teve durante a carreira. Jogadores com inteligência esportiva, como Ronaldo Fenômeno, sempre alertaram que o lugar para as jogadas individuais é perto da área, porque ali os marcadores evitam penalidades e faltas. Como o futebol é um esporte essencialmente coletivo, é na adaptação das potencialidades individuais às coletivas que se forjam os gênios e as grandes equipes. O melhor exemplo é Messi jogando no mais alto nível aos 39 anos. Perdeu as arrancadas longas, mas soube se adaptar, poupando energias para empregá-las no momento exato. Assim foi campeão mundial com a seleção argentina em 2022 e vice em 2026. Já Neymar, que é absolutamente incapaz de atuar coletivamente, atrapalhou a seleção brasileira. Foi assim nas duas últimas Copas. Em 2022, já sem a velocidade que tinha, insistiu na individualidade desperdiçando, assim, a maioria das jogadas. A eliminação contra a Croácia, nas quartas de final, foi exemplar. Após desperdiçar dezenas de jogadas insistindo em dribles que não funcionaram, o menino Ney marcou um belo gol na prorrogação. Só que, minutos depois, veio o empate croata numa falha coletiva da seleção brasileira e, na sequência, a derrota nas penalidades. Os brasileiros resolveram pressionar a saída de bola adversária quando estavam à frente no placar e bastava controlar a partida. O menino Ney, que já tinha 30 anos, participou da falha coletiva, também avançou; mas quando o movimento se mostrou errado e a equipe sofreu o gol, ele simplesmente culpou os companheiros de equipe, como se não tivesse participado do erro coletivo. Fosse um jogador genial, tivesse a inteligência esportiva de um craque, teria orientado os companheiros em campo e evitado o empate croata. É onde um craque genial se distancia de um rematado narcisista: nas vitórias, mérito dele; nas derrotas, culpa dos outros. E assim as derrotas vão se impondo sobre as vitórias. Em 2026, a seleção brasileira começou a perder para a Noruega justamente quando Neymar entrou em campo. Foi como se a equipe estivesse com um jogador a menos, porque ele não conseguia acompanhar o ritmo dos demais. Os jogadores mais rápidos e perigosos do Brasil, naquele momento da partida, Vini Jr e Endrick, tiveram que ser recuados para recompor a marcação. Como a especialidade de ambos não é marcar, a equipe perdeu qualidade no ataque e na defesa. O jogo brasileiro ficou lento e previsível porque todas as bolas tinham que passar pelos pés do menino Ney, como se ele fosse o dono da bola e do time. Estava desenhada a derrota. Não é coincidência: a seleção argentina cresceu e se encontrou quando encaixou e potencializou coletivamente o talento de Messi, que já era um veterano; já o último título da seleção brasileira veio com a Copa América de 2019, que Neymar não disputou porque estava contundido. É que o futebol é essencialmente coletivo e exige inteligência. Há cada vez menos espaço &#8211; em todos os sentidos &#8211; para narcisistas como Neymar.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito se discute sobre a decadência do futebol brasileiro. Uma das hipóteses levantadas é que os jogadores são vendidos para o exterior muito jovens. Aos 18 anos já não atuam mais no Brasil. Endrick e Estevão, ambos negociados pelo Palmeiras, são dois exemplos. Como os melhores jogadores vão embora muito cedo, não criam vínculos com os clubes brasileiros e com a própria seleção, além de se formarem como atletas no exterior. Assim estaria se perdendo a “essência” do futebol brasileiro. Mas não foi exatamente esse o movimento de Lionel Messi, que foi para o Barcelona aos 13 anos, se formou como atleta na Espanha e só brilhou realmente na seleção argentina depois dos 30 anos? Messi foi campeão olímpico com <em>la albiceleste</em> aos 21 anos, em 2008. Mas o primeiro título com a seleção principal veio apenas na Copa América de 2021, quando tinha 34 anos. A consagração definitiva chegou um ano depois, na Copa de 2022, vencida pelos argentinos. Messi tinha 35 anos. Já o movimento do menino Ney foi diferente: seguiu para o Barcelona aos 21 anos, quase formado. Se digo quase, é porque lhe faltava o mais importante: nunca soube atuar coletivamente, nunca teve inteligência esportiva. Se é assim, a pergunta é incômoda, mas possível: como teria sido a carreira esportiva do menino Ney se ele tivesse se formado no Barcelona? Impossível saber ao certo. Mas se soubesse jogar coletivamente, com um mínimo de formação humanista, se fosse menos narcisista… São muitos “ses”, mas é razoável pensar que Neymar seria melhor como ser humano e, também, como atleta, se tivesse outra formação. Como ser humano: Neymar “é a bet encarnada, a expectativa do milagre que nunca se realiza”. A sacada é de <a class="urlextern" title="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" href="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Fabio Luis Barbosa dos Santos</a>. Como atleta: Neymar foi quase. O advérbio fica por minha conta. E fica também por minha conta uma outra impressão: Neymar é o brasileiro com muito orgulho, com muito amor, a personificação do refrão ufanista que a torcida repete exaustivamente. Impossível imaginar alguém com mais amor (próprio) que o quase craque. O menino Ney não explica a decadência do futebol brasileiro, mas, por outro lado, não é exagero dizer que ele é a maior expressão dela.</p>
<p style="text-align: justify;">A canção <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=6yiQg47H5W8&amp;list=RD6yiQg47H5W8&amp;start_radio=1" href="https://www.youtube.com/watch?v=6yiQg47H5W8&amp;list=RD6yiQg47H5W8&amp;start_radio=1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">A cara do Brasil</a> foi lançada por Ney Matogrosso em 1997. A seleção brasileira havia sido campeã mundial três anos antes, de forma pragmática: uma defesa bem postada atrás, Romário e Bebeto decidindo na frente. <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=L7fnV_5k9CM" href="https://www.youtube.com/watch?v=L7fnV_5k9CM" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">A cara do Brasil</a> foi regravada pelo próprio Celso Viáfora em 1999. A seleção brasileira havia sido derrotada na final pela França, um ano antes, apesar de contar com Ronaldo, Rivaldo e Roberto Carlos. Lançada entre as Copas de 1994 e 1998, a canção pergunta o que é o Brasil passando pelo futebol e a encantadora equipe de 1982:</p>
<p style="text-align: center;"><em>O Brasil é o lixo que consome</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ou tem nele o maná da criação?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Que é Brasil zero a zero e campeão</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ou o Brasil que parou pelo caminho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Zico, Sócrates, Júnior e Falcão?</em></p>
<p style="text-align: justify;">A seleção brasileira derrotada pela Itália em 1982 continua sendo lembrada justamente pelo futebol encantador. O “maná da criação”, como no verso acima. O “futebol arte”, como se costuma dizer. Desconfio que parte da confusão relacionada à decadência futebolística brasileira passa pela expressão “futebol arte”. É que a arte pode ser individual, ainda que inserida numa tradição, como ocorre com o romance; já o futebol é essencialmente coletivo. Por isso o menino Ney foi um quase craque e é, ao mesmo tempo, a personificação da decadência do futebol brasileiro, que ainda forma bons jogadores, mas não consegue potencializá-los coletivamente. A seleção de 1982 encantou porque o coletivo potencializou o talento individual e o refinamento estético. Todos os gols, especialmente os mais belos, foram construídos em jogadas coletivas. É o que pouco se viu na seleção brasileira depois, inclusive em 2002, com Ronaldo e Rivaldo. Daí a nostalgia pela equipe de Zico, Sócrates e Falcão. É verdade que a equipe de 1982 reuniu, provavelmente, o melhor meio-campo brasileiro, assim como é sabido que o futebol se ganha na meiúca, Espanha e Argentina comprovaram a tese na Copa de 2026. Tinham as melhores meiúcas. Não basta reunir craques, o coletivo precisa potencializar o talento individual, especialmente no meio-campo. A força do conjunto deve ser maior que a soma das capacidades individuais. Esse milagre do encontro aconteceu algumas vezes na seleção brasileira: 1970 com Pelé, Gerson, Rivelino e Tostão; 1982 com Zico, Sócrates, Júnior e Falcão. Outra sacada de Fabio Luis Barbosa dos Santos <strong>[1]</strong>: o Brasil derrotou a Itália em 1970 jogando o fino da bola; perdeu em 1982 para o mesmo adversário, apesar do futebol encantador; para vencer os italianos em 1994, o Brasil jogou como se fosse a Itália. A diferença é que a seleção brasileira ainda contava com craques decisivos, como Romário e Bebeto, que se potencializavam. Trinta e dois anos depois, em 2026, um técnico italiano dirigiu a seleção brasileira, e a equipe perdeu como se fosse a Itália. Não superou a Noruega nem na posse de bola. Não tinha nem talentos individuais nem um coletivo forte, sequer uma dupla de ataque genial, como em 1994.</p>
<p style="text-align: justify;">Na canção <em>A cara do Brasil</em>, a pergunta sobre o que é o Brasil surge “meio a esmo” para o compositor “esparramado na rede”, que vai desenhando a cara do país a partir das contradições nacionais, inclusive as futebolísticas. Brasil encantador de 1982? Ou Brasil precavido de 1994? Mais que isso, Celso Viáfora e Vicente Barreto cutucam um furúnculo nacional:</p>
<p style="text-align: center;"><em>A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ninguém precisa consertar</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Se não der certo a gente se vira sozinho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>De certo então nada vai dar</em></p>
<p style="text-align: justify;">A referência a Garrincha e Aleijadinho é forte. Foram gênios tortos. Penso nos Profetas e nos Passos da Paixão, do Aleijadinho, expostos no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG). Estão entre as obras mais impactantes que conheço. Imagino Garrincha parafusando algum João, na lateral, como no verso de <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=qcdOtuVjaxc" href="https://www.youtube.com/watch?v=qcdOtuVjaxc" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Chico Buarque</a>. Só que, no futebol, o talento individual separado do coletivo é cada vez menos decisivo. Aleijadinho tinha uma equipe de trabalho que quase não é lembrada. Garrincha era genial, mas jogou em equipes fortes, e não faria em 2026 o que fez em 1958 e em 1962. Isso porque o espaço é muito menor, o coletivo conta ainda mais e a capacidade física dos atletas é muito maior. Digo de passagem: uma obviedade como essa ser uma heresia no Brasil diz muito sobre a cara do país, que morre de amor e de orgulho por si próprio, e sempre precisa de reis e <a class="urlextern" title="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" href="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">salvadores messiânicos</a>. <em>Messi-ânicos</em>… A discussão absurda sobre levar ou não Neymar para a Copa de 2026 passou pela crença estúpida em salvadores messiânicos. Deu no que deu: um vexame quiçá pior do que o 7 x 1. Na canção <em>A cara do Brasil</em>, a referência a Garrincha e Aleijadinho é tão forte, a ideia de que “a gente se vira sozinho” é tão entranhada, que eu não prestava atenção no verso seguinte &#8211; <em>de certo então nada vai dar</em> &#8211; que desmente a ilusão, que é um tapa na cara da nação. O vexame na Copa de 2026 me fez perceber o verso final da canção, que refuta o pachequismo ufanista.</p>
<p style="text-align: justify;">“O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível” &#8211; escreveu Drummond <strong>[2]</strong>. Acrescento: não há nenhum Garrincha, nenhum Aleijadinho, nenhum Drummond disponíveis. Mas há o menino Ney e um país que é quase a cara dele: que confunde enriquecimento pessoal com capacidade esportiva, que tem uma absurda necessidade de salvadores messiânicos e uma estúpida ilusão de que cada um deve se virar sozinho. Como cravou o poeta <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/10/140383/" href="https://passapalavra.info/2021/10/140383/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Souzalopes</a>, um craque das palavras que tive o prazer de conhecer:</p>
<p style="text-align: center;"><em>contra o tédio</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>contra o bódi</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>ou nóis si uni</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>ou nóis si fódi</em></p>
<p style="text-align: justify;">Vale para o futebol e para a vida, inclusive porque um não está separado da outra. Só que é o inverso do que tem acontecido no Brasil. A discussão que precedeu a convocação do menino Ney foi ridícula porque não passou pela capacidade esportiva do sujeito para disputar uma Copa do Mundo. Estava em jogo outra questão, ainda que não declarada. Neymar é milionário, portanto, é bom e deve jogar. Eis o raciocínio curto da maioria dos defensores do menino Ney. Por isso qualquer crítica ao sujeito costuma ser associada à inveja. É que as pessoas querem enriquecer, como Neymar. Todo o resto é detalhe menor, inclusive os meios e as consequências. Nudez pornográfica da meritocracia: quem enriquece é bom, os demais são fracassados. Pior ainda: na cabeça dos defensores do menino Ney, ele não tem nenhuma responsabilidade pelas derrotas brasileiras nem é a principal expressão delas, porque a culpa é sempre dos outros. Neymar é a cara do Brasil <em>com muito orgulho e muito amor</em>: em que cada um se acha capaz de se virar sozinho, enquanto todos se lascam coletivamente.</p>
<p style="text-align: justify;">O futebol brasileiro encantava não apenas pelas conquistas, estava em jogo uma possibilidade civilizatória: como criação concreta, estética, proletária e coletiva; contra o pragmatismo, as simplificações, o tédio e o trabalho estranhado. Ao que tudo indica, o encantamento relacionado ao futebol brasileiro é passado. O que foi atestado pelo vexame na Copa de 2026, ao escalar um ex-jogador em atividade, que, além disso, é a grande expressão da decadência do futebol brasileiro: com sua falta de inteligência esportiva e, consequentemente, sua incapacidade de se potencializar e se fortalecer coletivamente. Vale para o menino Ney e para o futebol brasileiro, por isso o primeiro personifica a decadência do segundo. Se o vexame servir, pelo menos, para encerrar a participação de Neymar na seleção brasileira e, quem sabe, sepultar o refrão ufanista repetido pela torcida, já será um avanço significativo. O menino Ney e o brasileiro <em>com muito orgulho e muito amor</em> são, antes de tudo, insuportáveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos. <em>Saudade do que nunca fomos: brasileiros e o futebol</em>. São Paulo: Elefante, 2026.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Carlos Drummond de Andrade. <em>Mané e o sonho</em>. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.blogletras.com/2014/07/mane-e-o-sonho.html" href="https://www.blogletras.com/2014/07/mane-e-o-sonho.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.blogletras.com/2014/07/mane-e-o-sonho.html</a></p>
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		<title>1º dia da resistência contra o despejo da Kasa Invisível</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Aug 2026 13:17:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[A força da comunidade impede o desalojo no Dia da Habitação. Por Kasa Invisível]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><a href="https://kasainvisivel.org/2026/08/22/1o-dia-resistencia-contra-o-despejo/" target="_blank" rel="noopener"><span class="x1lliihq x1plvlek xryxfnj x1n2onr6 xyejjpt x15dsfln x193iq5w xeuugli x1fj9vlw x13faqbe x1vvkbs x1s928wv xhkezso x1gmr53x x1cpjm7i x1fgarty x1943h6x x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af" dir="auto"><span class="x193iq5w xeuugli x13faqbe x1vvkbs xt0psk2 x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af x126k92a">Por KASA INVISÍVEL</span></span></a></h3>
<p style="text-align: justify;">Nesta sexta-feira, 21 de agosto, Dia Nacional da Habitação, a Kasa Invisível resistiu à sua primeira tentativa de despejo. Apesar de o risco iminente permanecer, terminamos o dia ainda mais fortes para seguirmos juntos em resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta começou com um café da manhã na porta da ocupação puxada por diferentes movimentos sociais e ocupações. Membros do coletivo ficaram dentro da ocupação enquanto a comunidade e uma multidão de apoiadores se organizavam na calçada. Exatamente às 7:30 da manhã, chegaram o oficial de justiça e a família dos herdeiros do antigo proprietário, acompanhados de um caminhão de mudança, criando um momento silêncio e tensão que foi notado pelas pessoas dentro da Kasa. Integrantes do coletivo, apoiadores de diversos movimentos, como o MLB, Teia dos Povos, UP, Boxe Antifa, Resistência Azul Popular, Sind-UTE, Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP), e Comissão de Direitos Humanos da OAB, além de advogados populares, parlamentares e assessores, se mobilizaram pacificamente contra a tentativa de despejo.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto pessoas subiam ao telhado e estendiam faixas, o rapper FBC conversava com os trabalhadores do caminhão de mudança e os convencia a não ajudarem no despejo, falando da importância do espaço para a comunidade e o autoritarismo de um despejo como esse. Os dois profissionais desistiram de ajudar no carreto e algumas pessoas ainda ouviram fazer comentários de apoio ao movimento. A tensão aumentava com a presença do advogado dos antigos proprietários, filmando o rosto de manifestantes, enquanto todas as pessoas presentes cantavam, de forma irônica, sobre herdeiros perderem um imóvel e ele se transformar em ocupação: <strong><em>“Vovô deixou, você esqueceu e agora você perdeu”</em></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a resistência também era feita de encontro e solidariedade. Pessoas traziam pães, sucos, café era baixado por cordas da varanda da Kasa. Compramos marmitas coletivamente para dezenas de pessoas presente, almoçamos na calçada, compartilhando comida, conversas e a animação de quem se reúne para lutar por uma causa comum. Enquanto isso, apoiadores que não puderam comparecer presencialmente acompanhavam as atualizações em tempo real por meio de dezenas de canais de comunicação online e perfis de grande alcance que cobriram e deram visibilidade ao ato. No mesmo dia, o PL 547/25, o “PL da Gentrificação”, que permite o avanço da verticalização e especulação imobiliária nos bairros da região central da cidade, era votado na Câmara Municipal e enfrentava também mobilização popular e resistência. A PL foi barrada através de uma obstrução na justiça!</p>
<p style="text-align: justify;">Um chaveiro chegou a ser chamado para tentar abrir a fechadura, mas sequer conseguiu se aproximar da porta da ocupação. Pouco depois, desistiu de cruzar a multidão e foi embora. O oficial de justiça também deixou o local e, por fim, os herdeiros foram embora, prometendo chamar a polícia. A polícia, porém, não veio. Diversos gabinetes parlamentares enviaram manifestações ao comando e até ao governador, demonstrando solidariedade e preocupação com o desalojo de um espaço de moradia e centro social em um imóvel histórico no centro da cidade.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">No final do dia, que contava ainda com comício do presidente Lula, também no centro da cidade, o ato do Dia Nacional da Habitação contra os despejos saiu da Praça Sete, passou pela Ocupação Maria do Arraial, também ameaçada de despejo, e chegou à Kasa Invisível, reunindo gritos, cantos e discursos de apoio à resistência. Estiveram presentes centenas de pessoas moradoras de ocupações de BH, especialmente geridas pelo MLB, como Eliana Silva, Maria do Arraial e Paulo Freire.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de duas semanas marcadas por tantas derrotas no campo da justiça burguesa, conseguir barrar o despejo pela força da mobilização, com o apoio da nossa comunidade, de parceiros e de simpatizantes, é revigorante. Mostra que a luta coletiva é capaz de abrir caminhos onde as instituições insistem em fechar portas.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">A ameaça de despejo, porém, ainda existe. Ele pode voltar a acontecer em breve. É por isso que precisamos permanecer mobilizados, organizados e dispostos a resistir.<br />
Seguimos em vigília e recebendo uma intensa programação de atividades políticas e culturais em apoio à permanência da ocupação.</p>
<p style="text-align: justify;"><span class="x1lliihq x1plvlek xryxfnj x1n2onr6 xyejjpt x15dsfln x193iq5w xeuugli x1fj9vlw x13faqbe x1vvkbs x1s928wv xhkezso x1gmr53x x1cpjm7i x1fgarty x1943h6x x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af" dir="auto"><span class="x193iq5w xeuugli x13faqbe x1vvkbs xt0psk2 x1i0vuye xvs91rp xo1l8bm x5n08af x126k92a"> </span></span></p>
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		<title>Hora de “desbigtechtizar” a vida [1]</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Aug 2026 18:22:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
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					<description><![CDATA[A livre colaboração sem propriedade intelectual e patentes restritivas levaram a uma solução excelente que consome menos recursos. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana<a href="#_edn1" name="_ednref1">[i]</a></h3>
<p style="text-align: justify;">Há praticamente 26 anos atrás eu estava no <em>site </em>da universidade esperando minhas últimas notas do bacharelado em engenharia de computação, salvo engano dia 12 de dezembro de 2000, pois dependia de sistemas proprietários para fazer as atividades do curso, e também estava louco para instalar Linux para sempre. Vi as notas e com elas a verdadeira liberdade de escolha, e cá estamos usando <em>software</em> livre desde lá. Hoje felizmente o mundo da ciência mudou e poderia fazer o curso usando Linux em todos os anos, pois áreas como computação, construção civil, elétrica, física, química, etc. têm programas educacionais e profissionais livres ou proprietários para sistemas operacionais Linux. Assim, podemos dizer que a escolha do SO é bastante livre, não 100% em todas as áreas da atividade humana mas na vida pessoal me parece que as escolhas são plenas para computadores pessoais, dependendo um pouco de hábitos e conhecimento de que as alternativas existem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse tempo vimos várias discussões sobre liberdade, segurança, confiança, desconfiança, temas agora superados dados que temos <em>softwares</em> livres nas nuvens corporativas, na Estação Espacial Internacional, nas <em>big techs</em>, nos roteadores <em>wi-fi</em> em nossas casas, em <em>smartwatchs</em>, em carros, e entre outras coisas, nos <em>smartphones.</em> Resumiria esse sucesso em duas questões, sendo a segunda uma consequência da primeira: colaboração de conhecimento, e Custo Total de Propriedade menor. Ou seja, a livre colaboração sem propriedade intelectual e patentes restritivas levaram a uma solução excelente que consome menos recursos. Acredito que isso se reflete na vida pessoal também, pois manter um computador com Linux pra mim e pra família deu bem menos dor de cabeça que com o SO embutido nos equipamentos que compramos ao longo do tempo; situação que sempre vi como venda casada.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das explicações sobre o porquê mutias pessoas não mudam para um cenário mais seguro e menos trabalhoso é a dos formatos proprietários de arquivos, onde muitas de nossas informações estão salvas num formato que só programas proprietários podem abrir e editar corretamente. Na prática pagamos o computador, pagamos o uso dos programas, e quando criamos o nosso conteúdo nos é imposto um sócio que só permite acesso ao nosso próprio conteúdo usando o programa dele. Nossa vida digital já era aprisionada nesses formatos proprietários e agora nem ficam no nosso computador, ficam nas plataformas das <em>big techs</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos uma pequena parcela da sociedade que conseguiu em parte ou totalmente sair dessa lógica de aprisionamento de dados, também conhecida como “retenção de dados”, e agora temos um novo alerta (de abuso) por causa de um ecossistema que está muito sob o controle de uma única empresa: o Android será fechado por práticas desleais. Não é a primeira vez que algo do tipo acontece, grandes empresas sofrem processos e bloqueios por fugirem da legalidade, por darem um jeitinho de parecer estarem corretas, como as redes sociais presentes no Brasil que desobedecem ordens judiciais e são corretamente bloqueadas, e ainda fomentam um discurso de cerceamento de liberdade de expressão do jeito que Joseph Goebbels (Ministro da Propaganda do Nazismo) teria feito; e o fazem porque estão com muitos dados de pessoas que querem acesso a eles inclusive por questões emocionais, e acabam sendo induzidas a questionar a ordem judicial, não o abuso contra a Lei.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando a questão do Android, o Google está para fazer uma atualização que inviabilizará o uso de <em>software</em> livre no ecossistema Android, forçando todos a pagarem taxas para estarem na loja Play Store e dificultando lojas como a F-Droid<a href="#_edn2" name="_ednref2">[ii]</a>, que é dedicada a distribuição de programas livres. Em outras palavras, isso praticamente impede que se desenvolva uma sociedade onde podemos escolher usar <em>softwares</em> livres nos nossos <em>smartphones</em>, assim como hoje é nos <em>desktops</em> e<em> notebooks/laptops.</em> Até mesmo o ecossistema de jogos conta hoje com soluções baseadas em Linux. Não precisamos discutir o quanto a colaboração livre levou a excelência técnica, que levou a sistemas muito seguros, tudo a um custo inferior, pois se não fosse assim as <em>big techs</em> não teriam seus milhares de computadores usando <em>software</em> livre. O fundamental é que a liberdade de escolha exista em todos as áreas da atividade humana, e provavelmente a única resposta que será levada a sério é uma parte significativa da sociedade “desgoogletizar” suas vidas, daí talvez alguém pense “opa! precisamos deixar o Android aberto e fácil pra colaborações”. Imagino que usarão vários discursos do tipo “não é bem assim” mas já vimos histórias parecidas acontecerem na computação, e já sabemos os possíveis finais. Sinceramente, faz tempo que procuro soluções para isso que sejam fáceis de manter pela maioria da sociedade, a série “Estudando redes domésticas”<a href="#_edn3" name="_ednref3">[iii]</a> é parte dessa busca, espero em breve escrever mais sobre o assunto.</p>
<p style="text-align: justify;">A denúncia desse fechamento do Android pelo Google ocorre pelo movimento Keep Android Open<a href="#_edn4" name="_ednref4">[iv]</a>, onde podemos ler “A partir de 2027, uma atualização silenciosa, imposta sem consentimento pelo Google, bloqueará todo aplicativo Android cujo desenvolvedor não se registrou no Google, não assinou o contrato e não pagou …”, considero esse texto autoexplicativo. Na versão em português do Brasil da página principal do movimento podemos ler os detalhes dessa ação de fechamento, as organizações que são contra, diversos aspectos sobre o porquê isso é ruim, e o quê está sendo falado na mídia especializada. Considero fundamental que todos leiam as partes sobre a armadilha e a “Reaja”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre a seção “Reaja”, alguns documentos nos <em>links</em> estão em inglês então quem precisar use o recurso de tradução de seu navegador. Se entramos em “Entre em contato com as autoridades reguladoras”, no item “Brazil” teremos os endereços de duas autoridades brasileiras que podem ser acionadas por qualquer cidadão. Entendo que a questão não é só de liberdade de escolha individual, mas também de soberania digital nacional que o Governo Federal tem a obrigação de acompanhar e até intervir; conforme informado na página o Brasil é um dos quatro primeiros que serão obrigados a passar pela nova sistemática restritiva no Android.</p>
<p style="text-align: justify;">Além das sugestões do Keep Android Open, acho que algumas ações mais drásticas precisam ser tomadas para que o uso de plataformas de <em>big techs</em> seja de fato uma escolha, não uma obrigação por termos nossas vidas digitais presas nelas:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>abandonar bancos que só funcionem por aplicativos em<em> smartphones</em>: se o banco não é acessível por navegador Web, procure outro que funcione por esse meio;</li>
<li>passar todo conteúdo pessoal para formatos livres, mesmo que ocorra alguma perda de qualidade: cada um precisará salvar testes e depois tentar abrir em outros programas para avaliar se pode ou não passar a usar o formato livre;</li>
<li>trocar redes sociais comerciais por redes federadas: isso vai exigir criar toda uma comunicação com pessoas queridas em outros meios.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Todas essas são decisões muito pessoais, e cada um deverá fazer suas escolhas, que pode ser continuar usando (e provavelmente pagando caro) os meios proprietários das <em>big techs</em>. Mesmo assim, é fortemente recomendável que estudem a questão. Nos próximos artigos falaremos de opções técnicas, resgatando algumas já tratadas e outras novas.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom estudo/reação a todos!</p>
<h4><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ednref1" name="_edn1">[i]</a> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ednref2" name="_edn2">[ii]</a> a loja F-Droid pode ser instalada conforme instruções em &lt;<a href="https://f-droid.org/pt_BR/" target="_blank" rel="noopener">https://f-droid.org/pt_BR/</a>&gt;</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ednref3" name="_edn3">[iii]</a> com quatro artigos, com o primeiro disponível em &lt;<a href="https://passapalavra.info/2024/02/151675/" target="_blank" rel="noopener">https://passapalavra.info/2024/02/151675/</a>&gt;</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ednref4" name="_edn4">[iv]</a> &lt;<a href="https://keepandroidopen.org/pt-BR/" target="_blank" rel="noopener">https://keepandroidopen.org/pt-BR/</a>&gt;</p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>O escritor, seus fantasmas e o outro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Aug 2026 21:36:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Jan Cenek Conheci o escritor argentino Ernesto Sabato (1911-2011) procurando por Albert Camus (1913-1960). Queria ler algo sobre este e encontrei Mensageiros das fúrias: uma leitura camusiana de Ernesto Sabato, de Janer Cristaldo [1], que, entre outras atividades, traduziu o escritor argentino para o português. Sempre retorno aos livros de Sabato, costumo reler especialmente [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Conheci o escritor argentino Ernesto Sabato (1911-2011) procurando por Albert Camus (1913-1960). Queria ler algo sobre este e encontrei <em>Mensageiros das fúrias: uma leitura camusiana de Ernesto Sabato</em>, de Janer Cristaldo <strong>[1]</strong>, que, entre outras atividades, traduziu o escritor argentino para o português. Sempre retorno aos livros de Sabato, costumo reler especialmente <em>O escritor e seus fantasmas</em> <strong>[2]</strong>, coletânea de ensaios e impressões em que Sabato consolida sua ruptura com a física e reafirma sua adesão à literatura, que ele define como forma de conhecimento privilegiada para examinar a condição humana, “talvez a mais completa e profunda” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheci o escritor uruguaio Carlos Liscano (1949-2023) por meio de Ernesto Sabato. Caminhando, passei por um livreiro de rua. Parei, espiei e vi <em>El escritor y el otro</em> <strong>[4]</strong>, título que me remeteu ao livro <em>O escritor e seus fantasmas</em>, de Sabato. Seria um diálogo? O outro de Liscano corresponderia aos fantasmas de Sabato? Li e reli algumas vezes os ensaios e impressões do escritor uruguaio. Liscano foi, também, poeta, artista plástico e militante. Integrou o Movimento de Libertação Nacional &#8211; Tupamaros (MLN-T). Preso político, esteve encarcerado por treze anos (1972 &#8211; 1985). No cárcere, afirmou-se como escritor e iniciou sua produção literária. Traduzi e compartilhei pequenos trechos de Carlos Liscano que podem ser lidos <a href="https://passapalavra.info/2026/06/159317/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> e <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159427/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os fantasmas de Ernesto Sabato são obsessões inconfessáveis, traumas secretos, angústias profundas que atravessam os três romances escritos pelo argentino: <em>O túnel</em> (1948); <em>Sobre heróis e tumbas</em> (1961); <em>Abadon, o exterminador</em> (1974). Os fantasmas do escritor argentino têm a ver com a finitude do homem, os limites da ciência e o colapso da civilização. A “anelosa busca de uma ordem e de um por quê” <strong>[5] </strong>atormentou Sabato, empurrando-o da física para a literatura. Não lhe bastavam as verdades científicas dos objetos. Buscava, sobretudo, o homem. Para Sabato <strong>[6]</strong>, os argentinos – ele próprio incluído – estavam no final da civilização (em todos os sentidos), submetidos a uma ruptura duplamente dramática: “sem ter por trás o respaldo de uma grande cultura indígena (como a asteca ou a incaica) e sem poder, tampouco, reivindicar de modo cabal a tradição de Roma ou Paris”. Ainda não haviam se definido como uma pátria no mundo quando teve início a derrocada da civilização tecnocrática. A literatura é, para Sabato, uma possibilidade de reencontro, uma expressão híbrida do espírito humano posicionada entre a arte e o pensamento puro, a fantasia e o real, os sonhos e as sombras. No romance é possível explorar a realidade integral, objetiva e subjetiva, dentro e fora do sujeito. Foi o que fez Sabato migrar da física para a literatura.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o outro, de Carlos Liscano, é mais singelo. Sacada do escritor uruguaio: antes de criar uma obra, é preciso criar o personagem escritor. Foi o que fez o Carlos Liscano preso político da ditadura civil-militar uruguaia: criou o Carlos Liscano escritor, que publicaria dezenas de livros. O outro – o homem de carne e osso – se transforma em criado do escritor, apesar de conhecer todas as fraquezas e misérias do personagem que criou. Eis a separação: <em>el escritor y el otro</em>. Para Liscano <strong>[7]</strong>, o outro “sonha em um dia dissolver-se em seu personagem, para voltar a ser apenas um.” O que pode ou não acontecer. Mas, de qualquer forma, “criado o escritor, a obra se fará sozinha, porque o escritor se cria escrevendo”, garante Liscano <strong>[8].</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Jorge Luis Borges <strong>[9] </strong>também separou o escritor do outro. Talvez por não precisar se preocupar com a sobrevivência material de ambos, talvez por ser mais leitor que escritor; o outro, para Borges, é o que escreve livros. O contrário do que é para Liscano. Borges suspeita do outro Borges, o escritor, que “alcançou certas páginas válidas”, apesar do “perverso costume de falsear e magnificar”. Diferentemente de Liscano, Borges não demonstra nenhuma vontade de se dissolver no outro, antes pelo contrário. O desencontro borgeano é curioso. Pensei em registrar, <em>à la</em> Sabato, que o Borges escritor é um fantasma do Borges leitor. Mas seria ir longe demais levando a sério o que não é sério. A suposta confissão de Borges de que se reconhecia mais num rasqueado de guitarra do que nos livros do outro Borges, o escritor, é puro falseamento, que é a única parte séria do texto. Não fosse isso, o título poderia ser <em>El lector y el otro. </em>De qualquer forma, o texto de Borges ilumina, por contraste, <em>El escritor y el otro</em>, de Liscano.</p>
<p style="text-align: justify;">Se Borges ajuda a pensar Liscano por contraste, Sabato o faz por aproximação. Para Sabato <strong>[10]</strong>, a condição mais preciosa do escritor é o fanatismo: “Tem de ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se à sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer.” Aqui a prática de Liscano ilustra o argumento de Sabato. Fanatismo criativo: se definir, se forjar e se manter como escritor no cárcere de uma ditadura sanguinária.  Para Sabato <strong>[11]</strong>, o homem do tempo presente vive no limite: diante da aniquilação, da tortura, da solidão. A literatura do homem presente será, sobretudo, uma “literatura de situações excepcionais”. Eis uma boa definição para a prática literária de Carlos Liscano. Outra aproximação. Sabato <strong>[12]</strong> compara literatura e prostituição, se pergunta sobre a sobrevivência material do escritor, e responde de forma provocativa, diz que todas as maneiras de ganhar a vida são legítimas, desde que a “criação não seja manuseada, abastardada e barateada”. A saída de Liscano é menos provocativa, mas mais radical. O uruguaio simplesmente eliminou a questão do horizonte de possibilidades e preocupações. Criado o personagem escritor, resta ao homem de carne e osso que o criou, o outro, se virar para garantir a sobrevivência material de ambos. Ao separar o escritor do outro, Liscano deixa para este a labuta diária em busca do pão, permitindo que o escritor apenas e simplesmente escreva. Na prática, Carlos Liscano – o outro, o que inventou o escritor – teve uma série de empregos: faxineiro, professor, tradutor. Tudo para possibilitar que o Carlos Liscano escritor escrevesse sem “abastardar” sua literatura, para usar um verbo empregado pelo argentino. Sabato <strong>[13]</strong> é categórico: o escritor deve fazer qualquer coisa para sobreviver, pode se empregar num banco ou assaltar um carro-forte, só não pode transformar sua literatura em mercadoria. Liscano <strong>[14]</strong> é realista: constata que ser escritor lhe foi um exercício de renúncia, havia renunciado a ter uma família, filhos&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Encantamento dialético: ninguém lê duas vezes o mesmo livro. Conheci Liscano pela semelhança com um título de Sabato. Mas, quando reli o argentino depois de ler o uruguaio, já era outro, havia mudado. O que me faz pensar que um escritor escreve para se transformar, como argumenta Liscano, e um leitor lê pela mesma razão. Em Sabato <strong>[15]</strong>, chama a atenção a “absurda fome de eternidade”, a inabalável vontade de superar a “desgraçada precariedade” do corpo. Neste sentido, os fantasmas de Sabato são metafísicos. Os escritores geralmente confessam que escrevem para sobreviver à morte, deixando registros mais longevos que seus corpos. O que Sabato <strong>[16]</strong> chamou de “anelosa busca de uma ordem e de um por quê” às vezes é, também, uma inquebrantável vontade de marcar de alguma forma a precária passagem por este mundo. Um único ensaio presente em <em>El escritor y el otro </em>levou título, que é justamente: <em>Vencer o tempo</em>. Não é à toa nem coincidência. Liscano registrou que “o escritor luta contra a morte” <strong>[17]</strong>, “quer deixar testemunho para além da morte” <strong>[18]</strong>. Se é assim, o uruguaio compartilha com o Sabato a “absurda fome de eternidade” e a vontade de superar a “desgraçada precariedade” do corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Liscano suaviza e problematiza a inquebrantável vontade de marcar sua passagem pelo mundo por meio da literatura. Sabe que outros já tentaram o mesmo movimento e fracassaram. No texto <em>Borges e eu</em>, Jorge Luis Borges também aspira à permanência, mas com menos gravidade que Sabato, talvez por saber que permaneceria nos textos do outro, o Borges escritor. Sendo assim, pôde até disfarçar e despistar dizendo que pouco se reconhecia nos livros que escreveu. Com Sabato e no limite, a “absurda fome de eternidade” somada à “desgraçada precariedade” do corpo tem duas soluções possíveis: ou se busca algum Deus que dê sentido ao mundo e às coisas, um espírito absoluto levitando na eternidade; ou o homem será uma “alma atormentada” <strong>[19]</strong>, transitando entre o caos e os seus fantasmas. Difícil imaginar uma alma mais atormentada que a de Carlos Liscano. Treze anos encarcerado por uma ditadura sanguinária. A invenção de um escritor no cárcere e, posteriormente, uma vida toda preso à escrita, que nem sempre fluiu. Quem lê Liscano fica com a impressão de que a literatura às vezes é uma prisão mais cruel que as cadeias da ditadura uruguaia. Como é duro o vazio do escritor diante da página em branco. Como é torturante a distância entre a obra imaginada e a efetivamente criada. Mas tem que ser assim. Em 2025, foi lançado um documentário que resgata a luta e o reencontro de 52 uruguaios, contemporâneos de Liscano, que combateram ao lado da Frente Sandinista de Libertação Nacional, na Nicarágua, nos anos 1970. O título do filme é <a href="https://www.youtube.com/watch?v=tuBzPTwTO0g" target="_blank" rel="noopener"><em>Una y mil veces</em></a>. Perguntados se fariam tudo novamente, os homens respondem que sim: uma e mil vezes. Não sei se Carlos Liscano diria o mesmo sobre sua militância política, mas ele certamente teria criado o Carlos Liscano escritor mil vezes, se necessário.</p>
<p style="text-align: justify;">É assim porque a literatura transforma, se não o mundo, ao menos quem escreve e quem lê. Mais que isso, tal transformação é essencialmente humana. O Carlos Liscano que começava um livro sabia que nem o escritor nem o outro seriam os mesmos depois. É o milagre da criação, que, diga-se de passagem, é compartilhado pelos leitores. Ninguém escreve nem lê duas vezes o mesmo livro. O que contrasta com Sabato e até com Borges, no caso deste último por falseamento e brincadeira. Não significa que Liscano não tenha sido uma alma atormentada, como Sabato. Ocorre que o uruguaio escreveu apesar dos seus fantasmas, e não para exorcizá-los. Não se prendeu nem se limitou a eles. Liscano <strong>[20]</strong> confessa que escrever é “afundar, deixar-se afundar.” Mas ocorre que, nesse salto para dentro, nesse mergulho para baixo, o importante é “ouvir o rumor das palavras” <strong>[21]</strong>. Aqui a aproximação com Drummond <strong>[22]</strong> e sua procura da poesia é inescapável. Os poemas, assim como o romances, não estão nos acontecimentos e incidentes pessoais: nem na gota de bile, nem na careta de gozo, nem nos esqueletos familiares, nem na sepultada infância, nem nos porões da mente, nem nas obsessões inconfessáveis, nem nos traumas secretos, nem nas angústias profundas. Os poemas, assim como os romances, estão paralisados no reino das palavras. Por isso é preciso ouvir o rumor delas no salto que se faz para dentro, no mergulho para baixo. Liscano afirma, sem falsa modéstia, que algumas vezes conseguiu regressar com algo das viagens que fez ao reino das palavras. É o tal milagre da criação, que, quando acontece, transforma o escritor, o outro e os leitores. Escrever é, sobretudo, transformar. Se não o mundo, certamente a si mesmo e alguns poucos, como os leitores mais dedicados.</p>
<p style="text-align: justify;">Liscano <strong>[23]</strong>: “escrevo para deixar de ser o que sou.” Porque escrever transforma. Porque a escrita é imprevisível. Porque se o escritor soubesse previamente o que gostaria de dizer, não precisaria escrever. Evitaria assim a luta vã com as palavras <strong>[24]</strong>. Mas se privaria da alegria da criação: porque escrever é uma festa. Acrescento chamando Eduardo Galeano <strong>[25] </strong>para a prosa. Essa alegria – essa possibilidade positiva e reconfortante da criação literária – é o que encanta em <em>El escritor y el otro</em>. Sabato <strong>[26]</strong> registrou que fala de literatura como um camponês fala do seu cavalo. Penso que o dito se aplicaria melhor a Liscano, que soube reconhecer as alegrias do ofício. Imagino-o saboreando os textos que trouxe do reino das palavras. A escrita às vezes é uma festa, às vezes reconforta com vantagem. É também por essa razão que se escreve. Sabato: escrever é um parto difícil, é exorcizar fantasmas, é procurar verdades que a ciência e a filosofia não alcançam – gravidade que pesa, sempre. Liscano: escrever é se transformar, é dançar com os próprios fantasmas, é ser ultrapassado pelo texto – leveza que reconforta, às vezes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Janer Cristaldo. <a href="https://www.ebooksbrasil.org/eLibris/mensageirosdasfurias.html" target="_blank" rel="noopener"><em>Mensageiros das fúrias: uma leitura camusiana de Ernesto Sabato</em></a>. Florianópolis: Editora da UFSC, 1983.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Ernesto Sabato. <em>O escritor e seus fantasmas.</em> Rio de Janeiro: F. Alves, 1982.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Sabato, op. cit., p. 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4] </strong>Carlos Liscano. <em>El escritor y el otro.</em> Montevideo: Editorial Planeta, 2016.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5] </strong>Sabato, op. cit., p. 48.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6] </strong>Sabato, op. cit., p. 47.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7] </strong>Liscano, op. cit., p. 76.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8] </strong>Liscano, op. cit., p. 96.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9] </strong>Jorge Luis Borges. <a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm21069919.htm" target="_blank" rel="noopener"><em>Borges e eu</em></a>. Folha de São Paulo, 1999.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10] </strong>Sabato, op. cit., p. 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11] </strong>Sabato, op. cit., p. 54.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12] </strong>Sabato, op. cit., p. 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13] </strong>Sabato, op. cit., p. 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14] </strong>Liscano, op. cit., p. 93.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15] </strong>Sabato, op. cit., p. 75.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16] </strong>Sabato, op. cit., p. 48.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17] </strong>Liscano, op. cit., p. 95.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18] </strong>Liscano, op. cit., p. 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19] </strong>Sabato, op. cit., p. 48.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20] </strong>Liscano, op. cit., p. 91.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21] </strong>Liscano, op. cit., p. 91.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22] </strong>Carlos Drummond de Andrade. <em>Nova reunião: 23 livros de poesia</em> – volume 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p. 141.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23] </strong>Liscano, op. cit., p. 94.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24] </strong>Drummond, op. cit., p. 121.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25] </strong>Marina Rossi. <a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/08/cultura/1533759911_111388.html#:~:text=%E2%80%9CEscrever%20%C3%A9%20a%20%C3%BAnica%20coisa%20que%20eu,e%20as%20pessoas%20que%20cruzaram%20seu%20caminho." target="_blank" rel="noopener"><em>Ouça Eduardo Galeano</em></a>. El País, 2018.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26] </strong>Sabato, op. cit., p. 9.</p>
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