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	<title>Colunas &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Ferramentas de Controle Parental</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2026 14:39:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O controle parental deve ser entendido como um mecanismo de orientação e cuidado, não como uma ferramenta de vigilância e desrespeito à privacidade. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana [1]</h3>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos meses vimos alguns países tomarem medidas fortes em relação ao uso de redes sociais por menores de idade, como Austrália e Dinamarca proibindo o uso, devido a diversos riscos que surgiram ao longo do tempo. No Brasil, além dos problemas das redes sociais, também temos as apostas digitais que estão inclusive viciando crianças e adolescentes que estão cada vez mais conectados, utilizando <em>smartphones</em>, <em>tablets</em> e computadores como ferramentas de aprendizado, entretenimento e socialização. Conteúdos inadequados, exposição excessiva às telas, contato com desconhecidos, <em>cyberbullying</em> e coleta indevida de dados são apenas alguns dos desafios que pais e responsáveis enfrentam dia a dia. Nesse contexto, o controle parental surge como uma estratégia essencial para equilibrar liberdade e segurança, permitindo que os jovens explorem o ambiente digital de forma saudável e protegida.</p>
<p style="text-align: justify;">O controle parental deve ser entendido como um mecanismo de orientação e cuidado, não como uma ferramenta de vigilância e desrespeito à privacidade. Assim como no mundo físico, onde limites são estabelecidos para garantir o bem-estar das crianças, no ambiente digital também é necessário criar regras e acompanhar o uso da tecnologia. Isso inclui definir horários, restringir conteúdos impróprios e monitorar interações. No entanto, tão importante quanto as ferramentas técnicas é o diálogo constante entre pais e filhos, construindo consciência sobre o uso responsável da Internet.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse cenário, ferramentas digitais específicas foram desenvolvidas para auxiliar os responsáveis nessa tarefa. Uma das mais conhecidas e amplamente utilizadas é o Family Link, uma solução gratuita que permite gerenciar o uso de dispositivos por crianças e adolescentes no sistema Android e, em menor escala, também no iOS. Apesar da crítica que se possa ter em relação a ferramentas de <em>big techs</em>, entende-se que esse é um momento em que a segurança e o desenvolvimento saudável dos menores de idade devem ser priorizados sobre outros aspectos das relações sociais com essas empresas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Family Link foi projetado para oferecer aos pais um conjunto robusto de recursos que possibilitam acompanhar, orientar e limitar o uso da tecnologia de forma prática e acessível e funciona a partir da criação de uma conta Google para a criança, vinculada à conta do responsável (sim, é preciso entregar um pouco de dados da criança para fazer o controle de dispositivos). Esse vínculo permite que o adulto tenha acesso a informações e controles sobre o dispositivo da criança. O processo de configuração é relativamente simples: o responsável instala o aplicativo em seu próprio celular e também no dispositivo da criança, seguindo as instruções para vincular as contas. A partir daí, diversas funcionalidades ficam disponíveis para gerenciamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos principais recursos do Family Link é o controle de tempo de uso. Com ele, os pais podem definir limites diários para o uso dos dispositivos, por exemplo, determinando que a criança pode utilizar telas por duas horas por dia entre todos os dispositivos com a conta dela; se usar uma hora de <em>smartphone</em>, só poderá usar uma hora de <em>tablet</em>. Quando esse limite é atingido, os dispositivos são bloqueados automaticamente, impedindo o uso até o dia seguinte. Além disso, é possível definir um horário de dormir, durante o qual os aparelhos ficarão indisponíveis. Essa funcionalidade é especialmente útil para evitar o uso excessivo de telas à noite, contribuindo para a qualidade do sono e para a manutenção de uma rotina saudável.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro recurso importante é o monitoramento de atividades. O Family Link fornece relatórios detalhados sobre o uso de aplicativos, mostrando quanto tempo a criança passa em cada aplicativo ao longo do dia, da semana ou do mês. Essas informações permitem que os responsáveis compreendam melhor os hábitos digitais dos filhos e identifiquem possíveis excessos ou comportamentos preocupantes. Com base nesses dados, é possível tomar decisões mais informadas sobre restrições ou ajustes nas regras de uso.</p>
<p style="text-align: justify;">O controle de aplicativos também é uma funcionalidade central da ferramenta. Os pais podem aprovar ou bloquear a instalação de aplicativos diretamente da loja, impedindo que a criança baixe conteúdos inadequados. Sempre que a criança tenta instalar um novo aplicativo, uma solicitação é enviada ao responsável, que pode aprovar ou recusar. Além disso, aplicativos já instalados podem ser bloqueados individualmente, caso sejam considerados impróprios ou estejam sendo usados de forma excessiva.</p>
<p style="text-align: justify;">No que diz respeito à navegação na Internet, o Family Link oferece integração com o Chrome e com o mecanismo de busca do Google, permitindo a ativação de filtros de conteúdo. Esses filtros ajudam a bloquear sites impróprios ou inadequados para a faixa etária da criança, embora não sejam infalíveis. É possível também criar listas de sites permitidos ou bloqueados manualmente, oferecendo um controle mais personalizado. Ou seja, nesse momento da evolução tecnológica, ter um controle parental robusto pode significar usar ferramentas de uma única empresa.</p>
<p style="text-align: justify;">O Family Link também permite que os pais visualizem a localização do dispositivo da criança em tempo real, desde que o aparelho esteja ligado e conectado à Internet. O bloqueio remoto do dispositivo está disponível, assim como o desbloqueio. O aplicativo também permite gerenciar configurações da conta da criança, como permissões de aplicativos, configurações de privacidade e acesso a determinados serviços do Google. Isso inclui, por exemplo, a possibilidade de desativar a personalização de anúncios ou restringir o uso de determinados recursos, contribuindo para uma experiência mais segura e adequada à idade.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto a ser considerado no controle parental é a adaptação das regras conforme a idade e maturidade da criança. O nível de controle necessário para uma criança de oito anos é diferente daquele adequado para um adolescente de quinze. O Family Link permite ajustar gradualmente as permissões, oferecendo mais autonomia à medida que o jovem demonstra responsabilidade. Esse processo é essencial para preparar os filhos para o uso independente da tecnologia no futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de todas essas funcionalidades, é importante reconhecer que nenhuma ferramenta de controle parental é completamente eficaz por si só. Crianças mais velhas e adolescentes podem encontrar maneiras de contornar restrições, especialmente se tiverem conhecimentos técnicos mais avançados. Por isso, o controle parental deve ser complementado com educação digital e diálogo aberto. Explicar os motivos das regras, ouvir as opiniões dos filhos e negociar limites são práticas fundamentais para o desenvolvimento de uma relação saudável com a tecnologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o controle parental deve ser visto como parte de uma abordagem mais ampla de educação digital. Isso inclui ensinar sobre segurança <em>online</em>, privacidade, respeito nas interações virtuais e pensamento crítico em relação às informações encontradas na Internet. O objetivo final não é apenas restringir, mas capacitar as crianças para que se tornem usuários conscientes e responsáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Atenção! Alguns aplicativos, como jogos, têm suas próprias redes sociais através dos <em>chats </em>entre os usuários, quem podem ser usados para estabelecer diálogo com os menores de idade. Esse tipo de recurso interno aos aplicativos não será descoberto pelo Family Link, um vez que o tempo de uso é liberado pode ser possível até receber <em>links </em>de outros locais maliciosos na Internet, talvez até para transferências financeiras. Portanto, é recomendável que cada aplicativo autorizado seja um pouco usado pelo responsável, para conhecimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o controle parental é uma necessidade na era digital, e o Family Link é uma ferramenta prática para auxiliar os responsáveis nessa tarefa. No entanto, seu uso deve ser sempre acompanhado de diálogo, educação e adaptação às necessidades individuais de cada família, para que a tecnologia seja uma aliada no desenvolvimento das crianças, não uma fonte de riscos ou conflitos. No próximo artigo trataremos de controle parental no Linux.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom diálogo a todos!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
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		<title>O futebol, a memória e o cemitério</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Apr 2026 08:55:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Artes_plásticas]]></category>
		<category><![CDATA[Desporto/esporte]]></category>
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					<description><![CDATA[O leitor deve estar se perguntando sobre o futebol e o cemitério, presentes no título da coluna. Então, vamos lá. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Filme bom fica passando na cabeça da gente. O mesmo vale para a fotografia e as artes em geral. A exposição <a href="https://caixanoticias.caixa.gov.br/Paginas/Not%C3%ADcias/2026/02-FEVEREIRO/CAIXA-Cultural-Sao-Paulo-apresenta-exposicao-Leonardo-Finotti-%E2%80%93-Sao-Paulo-Multiplicidade.aspx">São Paulo, Multiplicidade</a> – do arquiteto e fotógrafo Leonardo Finotti – é um exemplo. São dez séries produzidas pelo artista: <em>são paulo vertical, habitar mendes da rocha, marketscapes, necropoli[s]tics, pelada, re:favela, latinitudes, diálogos tropicais, veracidade </em>e<em> brutiful. </em>Agrupadas e exibidas em conjunto, as séries criam uma interessante leitura visual da capital paulista. A exposição <a href="https://caixanoticias.caixa.gov.br/Paginas/Not%C3%ADcias/2026/02-FEVEREIRO/CAIXA-Cultural-Sao-Paulo-apresenta-exposicao-Leonardo-Finotti-%E2%80%93-Sao-Paulo-Multiplicidade.aspx"><em>São Paulo, Multiplicidade</em></a>, fica em cartaz na Caixa Cultural de SP até 26 de abril de 2026. A curadoria é de Agnaldo Farias.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">A <a href="https://revistaprojeto.com.br/noticias/leonardo-finotti-sao-paulo-multiplicidade-caixa-cultural/">crítica especializada</a> destacou que a mostra é um “panorama consistente sobre as relações entre arquitetura, cidade e modos de habitar na capital paulista”; que “o artista constrói narrativas sobre permanência, transformação e tensão urbana”; que Finotti “tenciona a relação entre forma construída e uso cotidiano, entre monumentalidade e precariedade”; que não se “busca a imagem definitiva da cidade, mas múltiplas aproximações que revelam sobreposições de escalas e temporalidades”; que a cidade é um “conjunto de narrativas simultâneas”. É por aí. “São Paulo é como o mundo todo” – cravou Caetano Veloso na canção <a href="https://www.youtube.com/watch?v=MjCkYMVrGxU&amp;list=RDMjCkYMVrGxU&amp;start_radio=1">Vaca Profana</a>, com a precisão poética que lhe é peculiar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Na primeira visita que fiz à exposição de Leonardo Finotti, foi uma foto da série <em>latinitudes</em> que mais me chamou a atenção. Trata-se de um registro aéreo de <a href="https://www.leonardofinotti.com/projects/torres-del-parque/image/76302-140629-024d">Bogotá</a>, e não de São Paulo. No primeiro plano, a antiga arena de touradas (<em>Plaza de Toros de Santamaría</em>), ao fundo modernas torres residenciais e as montanhas dos Andes. A cor das construções é semelhante, mas o contraste entre elas é perceptível. Algumas décadas separam as construções da arena e das torres. O registro aéreo da <em>Plaza de Toros de Santamaría</em>, em Bogotá, sintetiza as principais características que a <a href="https://revistaprojeto.com.br/noticias/leonardo-finotti-sao-paulo-multiplicidade-caixa-cultural/">crítica especializada</a> identificou no trabalho de Leonardo Finotti: a relação entre arquitetura e modo de habitar, a permanência e a transformação, a sobreposição de temporalidades. São características que aproximam Bogotá de São Paulo, estabelecendo um diálogo possível. Mas não foi a qualidade estética do registro aéreo <em>Plaza de Toros de Santamaría, </em>em Bogotá, que me atraiu. Ocorre que aquele ângulo de visão é um dos possíveis para quem visita o mirante da Torre Colpatria, no centro da cidade, perto da antiga arena de touradas, do planetário e da Ca<em>rrera Séptima</em>. A foto me remeteu a imagens conhecidas e a boas lembranças. Curiosos labirintos da memória.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O leitor deve estar se perguntando sobre o futebol e o cemitério, presentes no título da coluna. Então, vamos lá. É que na série <a href="https://www.leonardofinotti.com/projects/pelada/image/5511-130911-889d"><em>pelada</em></a>, Finotti fez fotos áreas dos terrões (campos de futebol de várzea) nas periferias de São Paulo. Já na série <a href="https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/1694954035122703-fotografo-registra-um-ano-de-pandemia-no-cemiterio-vila-formosa"><em>necropoli[s]tics</em></a><em>, </em>o artista registrou, com drone, a abertura de covas no maior cemitério da América Latina, Vila Formosa, no bairro homônimo, durante vários dias, no início da pandemia de Covid-19. Vista com alguns anos de distância, a abertura de covas faz lembrar a escalada de mortes, que a mídia noticiava diariamente, nos primeiros e mortíferos meses da pandemia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosos labirintos da memória. À primeira vista, a foto de Bogotá me chamou mais a atenção do que os terrões da periferia e o cemitério. Apesar do amor que sinto pelo futebol de várzea e dos funerais que acompanhei no cemitério Vila Formosa, inclusive para me despedir grandes amigos, naqueles dias em que ficamos sem chão. Como se uma visita a uma torre em Bogotá fosse mais marcante que o enterro de um amigo. No segundo contato, quando voltei à exposição <a href="https://caixanoticias.caixa.gov.br/Paginas/Not%C3%ADcias/2026/02-FEVEREIRO/CAIXA-Cultural-Sao-Paulo-apresenta-exposicao-Leonardo-Finotti-%E2%80%93-Sao-Paulo-Multiplicidade.aspx"><em>São Paulo, Multiplicidade</em></a>, foi a incômoda semelhança entre as fotos aéreas do cemitério e dos campos de futebol de várzea que me deixou intrigado: como se o crescimento da cidade tivesse algo de mórbido, estando relacionado, inclusive, com a agonia do futebol.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Vistos por cima nas fotos de Leonardo Finotti, o cemitério Vila Formosa e os campos de futebol de várzea são incomodamente semelhantes. O solo exposto tem o mesmo tom avermelhado. São as entranhas abertas da megalópole. Que cresce e avança sobre os terrões, o mesmo ocorrendo com o cemitério Vila Formosa: como se a cidade fosse abrir covas nos campos de futebol de várzea, ou organizar peladas entre as sepulturas.</p>
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		<title>ECA Digital e o desafio do controle parental</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Mar 2026 16:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Juventude]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
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					<description><![CDATA[O ECA Digital aumenta a responsabilidade das empresas na identificação de quem usa suas plataformas, mas é importante que os responsáveis acompanhem tudo que as crianças e os adolescentes usam nesses equipamentos. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level1">
<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana</h3>
<p style="text-align: justify;">Há poucas semanas foi aprovada a Lei 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, que torna a legislação de proteção de crianças e adolescentes mais rígida em relação às plataformas digitais, redes sociais e jogos <em>online</em>, ou seja, qualquer ambiente em que um adulto possa entrar em contato com uma criança ou adolescente. Coincidentemente, estive em uma discussão escolar sobre o uso de aplicativos de mensagens por pré-adolescentes que criaram um grupo de discussão para trabalhos escolares mas ocorreu também a prática de <em>bullying</em>; na prática os aplicativos de mensagens funcionam como redes sociais pois permitem que sejam formados grupos e o encaminhamento de conteúdos multimídia, que equivalem a você fazer uma postagem ou enviar um <em>link</em> de conteúdo entre os membros, assim cada contato fica equivalente a uma página em rede social.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a discussão alguns pais tinham a expectativa de que a escola faria o acompanhamento dos pré-adolescentes no uso do aplicativo de mensagens, mas depois de mais de uma hora de discussão alguns pontos legais foram colocados em relação a essa questão. O uso de celular na escola é proibido por lei federal, exceto para questões pedagógicas, além disso a Lei de Diretrizes e Bases da Educação protege a decisão sobre métodos e ferramentas de ensino como sendo dos professores, e assim foi dito de forma bem objetiva que a escola não estaria acompanhando os pré-adolescentes nesses grupos de mensagem, inclusive nem teria recursos humanos para entrar nesses grupos e acompanhar tudo estaria sendo escrito; tudo isso sem falar na questão da privacidade. De certa forma é preciso que todos entendam que a responsabilidade e o cuidado quanto ao uso de equipamentos digitais e Internet é de quem entrega esses dispositivos, logo se um responsável dá um <em>smartphone</em> para uma criança a responsabilidade no uso desse equipamento é de que o entregou nas mãos dela.</p>
<p style="text-align: justify;">O ECA Digital aumenta a responsabilidade das empresas na identificação de quem usa suas plataformas, mas é importante que os responsáveis acompanhem tudo que as crianças e os adolescentes usam nesses equipamentos. As empresas terão responsabilidade de garantir com maior eficácia na identificação da idade de quem se cadastrar, no entanto, tudo converge para um assunto já abordado nesta coluna que é o controle parental dos sistemas. Vale lembrar pelo menos um exemplo dos riscos que as crianças correm nesses ambientes, que é quando um adulto mal intencionado finge ser uma criança por, ganhando a confiança de quem conversa com ele para que, após todo esse tempo, comece a dizer o quê a criança deve fazer e até mesmo ameaçar para que ela não conte a ninguém o quê eles estão conversando, a partir daí os mais inimagináveis abusos podem acontecer e por isso é tão importante que os responsáveis pelas crianças estejam envolvidos nisso tudo pois o ECA Digital por mais rígido que pareça, não vai ser o suficiente.</p>
<p style="text-align: justify;">As ferramentas de controle parental podem ser tanto oferecidas com sistemas ou equipamentos, como pelas plataformas que estão implicadas na atualização do ECA, e talvez devido ao movimento internacional na gestão de riscos dos mais jovens essas ferramentas comecem a ter uma evolução mais acelerada. Nelas podemos encontrar recursos de controles do que pode ser instalado, quanto tempo os aplicativos podem ser usados de modo individualizado e até de modo geral. Durante a conversa na escola também houve o debate sobre quais aplicativos, sobre questões de privacidade neles, de serem ou não controlados por grandes empresas, etc. Infelizmente, por ser uma área em evolução não há um ecossistema de aplicativos de controle parental que nos permitam ampla liberdade de escolha, nem tenho uma boa revisão desses aplicativos para recomendar, ainda é um assunto em estudo. Mas é urgente que o controle é parental aconteça e abordaremos somente dois exemplos dessas aplicações. No entanto, o site <a href="https://alternativeto.net/browse/all/?tag=parental-control" target="_blank" rel="noopener">Alternativeto.net</a>, tem uma lista de programas de controle parental e uma classificação por curtidas, além da possibilidade de classificar entre tipos de licenças e plataformas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Google Family Link é uma ferramenta de controle parental desenvolvida pela Google para dispositivos Android que permite aos responsáveis acompanhar e gerenciar o uso digital de crianças e adolescentes. Entre suas principais características está a possibilidade de criar e supervisionar contas Google para menores, garantindo que o acesso a conteúdos e serviços seja mais seguro e adequado à idade. Na matéria <a href="https://passapalavra.info/2025/02/155827/" target="_blank" rel="noopener">“Tutorando crianças no uso de smartphones”</a> é apresentada uma sugestão de como usar esse recurso. Outro recurso importante é o rastreamento de localização, que permite verificar onde o dispositivo da criança está em tempo real, desde que ele esteja conectado à Internet; normalmente é necessário uma conta de celular com dados móveis.</p>
<p style="text-align: justify;">No Linux, para o ambiente GNOME, pode-se usar o programa &#8216;malcontent-gui&#8217;, que é a interface gráfica do sistema de controle parental dele, projetado para permitir que administradores e responsáveis gerenciem o acesso de usuários — especialmente crianças — a aplicativos e conteúdos no sistema. Ele funciona como uma camada amigável sobre o serviço de controle parental do sistema, oferecendo uma forma simples e visual de configurar restrições sem a necessidade de comandos avançados no terminal. De forma similar o Windows também possuí controle parental junto às configurações de contas de usuário. Recentemente o serviço de mensagens WhatsApp também lançou mecanismos de controle parental que pode restringir que crianças e adolescentes estabeleçam contatos com pessoas, ou entre em grupos sem autorização dos responsáveis; apesar das <a href="https://passapalavra.info/2025/05/156722/" target="_blank" rel="noopener">discussões sobre privacidade nesse aplicativo</a>, proteger nossas crianças parece uma prioridade e outros aplicativos de mensagens instantâneas podem não ter esse recurso.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de o ECA Digital aumentar as responsabilidades das empresas na proteção de crianças e adolescentes, sempre vai ter alguém tentando burlar a legislação, e uma camada de proteção gerenciada pelos responsáveis deles será também necessária. Como diz Mario Sérgio Cortella “a tarefa de educação dos filhos é da família em primeiro lugar, e do poder público de forma secundária. A escola faz escolarização. Por isso, se a família não cumpre aquilo que precisa cumprir, a escola não dará conta”. Parece ser imprescindível o uso de programas de controle parental, assim como a responsabilização das empresas em suas plataformas, a melhoria dessas ferramentas, assim como seu aprendizado. Vai ser um caminho árduo para todos, mas temos um caminho (o qual me incluo). Conforme aprender melhor sobre elas, teremos matérias sobre como as usar e configurar.</p>
<p style="text-align: justify;">Boa luta para nós!</p>
</div>
<div class="footnotes">
<div class="fn">
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong><em>Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</em></strong></div>
</div>
</div>
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		<title>O identitarismo, a encruzilhada e o atoleiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2026 13:33:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
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					<description><![CDATA[É compreensível que os corpos dissidentes apareçam e se mostrem. Mas se o mundo e a arte são transformados numa extensão do indivíduo, não estamos distantes do narcisismo. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Jan Cenek</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><em>Uma artista mapuche</em></strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Conheci o trabalho da artista mapuche &#8211; trans e não binária &#8211; Seba Calfuqueo no Museu de Arte Moderna de Bogotá (Mambo). A exposição chamava-se <em>A</em><em>ntü ñi kuram</em> &#8211; <em>Ovo de sol</em> -, uma expressão da língua mapudungun derivada de <em>antü kuram &#8211; </em>ovo sem embrião/ovo sem sol -, forma depreciativa utilizada para se referir à homossexualidade. Toda arte de Seba Calfuqueo consiste na afirmação da identidade mapuche, trans, não binária e, portanto, no rechaço à ideia de ovo sem sol.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo no início, o visitante é informado que mapuche significa “gente da terra”; que é um povo que vive e resiste no centro sul da Argentina e do Chile; que os mapuches mantiveram seu idioma, o mapudungun; que a cosmovisão mapuche está baseada na conexão e no equilíbrio entre os seres humanos e a natureza. Os trabalhos de Seba Calfuqueo incluem instalações, cerâmica, desenhos, fotografias, performances e vídeos. Destacam-se o azul, as águas, os cabelos e o corpo, sobretudo e ostensivamente, o corpo da artista: utilizado para afirmar sua identidade mapuche, trans e não binária.</p>
<p style="text-align: justify;">Na videoperformance <em>Las quilas</em>, Seba Calfuqueo problematiza o pensamento binário, inclusive mapuche. A <em>quila </em>é uma espécie de bambu &#8211; hermafrodita e bissexual &#8211; típico das terras altas do sul da América Latina. Os chilenos e os mapuches veem as <em>quilas </em>como plantas invasoras e inúteis, que quando florescem provocam incêndios e a proliferação de pragas. A artista viu, no emaranhado de <em>quilas</em>, uma barreira natural, uma defesa da mata contra o avanço dos colonizadores europeus. Ela misturou o próprio corpo às <em>quilas</em> para afirmar a resistência e o não binarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra videoperformance interessante de Seba Calfuqueo é <em>Nunca serás un weye</em>. <em>Weyes</em> eram indivíduos mapuches cuja identidade de gênero transitava entre o feminino e o masculino. Os <em>Weyes</em> foram acusados de praticar sodomia e eliminados pelos espanhóis.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra videoperformance interessante e provocativa de Seba Calfuqueo é <em>Alka domo. </em>A artista recontextualiza e problematiza a história do líder militar mapuche Caupolicán (? &#8211; 1558), que teria sido escolhido após completar o desafio de segurar um tronco sobre os ombros por dois dias. Seba Calfuqueo recria a história de Caupolicán segurando um tronco oco de <em>coihue</em>, que é uma árvore tradicional do sul da América Latina. A artista escolheu sete pontos históricos para os chilenos e para os mapuches, calçou sete pares de sapatos diferentes, todos com salto alto e cada um com uma das sete cores da bandeira LGBTQIA+, ergueu um tronco &#8211; oco &#8211; e reproduziu o feito do líder militar mapuche.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outras videoperformances e fotografias exibidas no Mambo, Seba Calfuqueo junta o próprio corpo à natureza, especialmente rios e cachoeiras para afirmar sua identidade mapuche, trans e não binária. As provocações da artista são interessantes, mas a presença ostensiva do corpo dela causa estranhamento e faz pensar. Seria a minha condição de homem heterossexual incomodado com um corpo dissidente? Inconscientemente, quem pode garantir? Mas, por outro lado, fiquei matutando: como seria a arte &#8211; seria arte? &#8211; se os corpos dos artistas precisassem estar ostensivamente presentes nas obras? Desconfio que a arte não existiria, ou seria rebaixada ao nível das <em>selfies</em>, os egoretratos que se multiplicam como as mercadorias. O que teria sido &#8211; ou não teria sido? &#8211; se Portinari trocasse os trabalhadores que aparecem em seus quadros por sua própria imagem?</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosamente ou não, porque pode ser uma escolha dos curadores, espero que seja isso e não uma tendência da arte contemporânea, no piso superior do Museu de Arte Moderna de Bogotá estava exposto o trabalho da artista &#8211; amazonense e travesti &#8211; Uýra. A exposição chamava-se <em>Memórias inundadas</em>, explorava a relação com as águas em Manaus e em Bogotá. Rios e igarapés foram canalizados e poluídos nas duas cidades. A artista juntou o próprio corpo aos cursos dos rios degradados para denunciar a destruição do meio ambiente e, ao mesmo tempo, afirmar sua própria identidade. O trabalho da artista amazonense Uýra não me impactou como o da artista mapuche, Seba Calfuqueo, mas há uma linha de continuidade que une ambas: a presença ostensiva dos corpos delas nos trabalhos expostos. Como se o critério dos curadores do Mambo fosse um algoritmo de rede social, que impulsiona imagens pessoais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><em>Universalismo, tribalização, narcisismo e fulanização</em></strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Susan Neiman <strong>[1] </strong>problematizou a virada identitária do tempo presente. Para a filósofa estadunidense, o identitarismo se nutre das esperanças frustradas, que, aos poucos, fizeram a esquerda abandonar princípios fundamentais para a transformação social: a distinção entre justiça e poder, a confiança no progresso e, sobretudo, o universalismo. É aqui que os identitários se separam da esquerda. Neiman assinala os princípios que sustentam a política identitária/identitarismo: a) Renúncia ao universalismo, que pode ser usado para disfarçar interesse particulares. b) Luta por justiça limitada a grupos específicos. c) Desconfiança em relação à ideia de progresso, que teve consequências complicadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Como esclarece a filósofa, não se trata de abolir a crítica. É justamente o contrário. Para sustentar transformações sociais é preciso dobrar a aposta na crítica. Interesses particulares foram camuflados em ideais supostamente universais. Disputas por poder se misturaram com a luta por justiça. A crença no progresso pode ter consequências complicadas. Mas é preciso separar o joio do trigo. Ou, como na metáfora de Neiman, se a esquerda abre mão do universalismo, se limita a lutar por justiça para grupos específicos e deixa de acreditar no progresso: ela corta o galho em que está apoiada. O tombo é inevitável. A filósofa nos lembra que os nazistas criticavam conceitos universalistas, como humanidade, por supostamente serem invenções de judeus para ocultar interesses de poder. O que não é muito diferente do argumento identitário segundo o qual o universalismo iluminista oculta interesses europeus e, por isso, deve ser rechaçado. A filósofa vai mais longe: a visão identitária da cultura não está distante da ideia nazista de que a música alemã só deveria ser interpretada por arianos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os identitários promovem muita desconstrução e não constroem quase nada. Isso porque a política identitária é uma confissão de impotência, um realismo rebaixado e calibrado pelo neoliberalismo. Como a transformação radical da sociedade está fora de questão para os identitários, só resta disputar espaços de poder, defender justiça para grupos específicos e melhorias na distribuição da renda: sem nunca questionar as regras do jogo. Os manuais de economia burguesa ensinam que os recursos são escassos e os desejos ilimitados. Caberia, portanto, organizar a produção para maximizar o atendimento das necessidades considerando a escassez de recursos. Tudo muito distante de formulações como “de cada um segundo suas possibilidades, a cada um segundo suas necessidades.” Que os recursos são escassos, ou ao menos limitados, é razoavelmente óbvio; por outro lado, pensar que os desejos são ilimitados é começar a orbitar em torno das mercadorias. Quem parte de um princípio da economia burguesa não vislumbra absolutamente nenhuma alternativa ao capitalismo. Quem aprendeu somente a desconfiar de afirmações tem dificuldade para questionar falsificações <strong>[2]</strong>. Quem abre mão do universalismo, flerta com a reação.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Neiman, a política identitária teve origem na esquerda, mas aos poucos incorporou princípios e referências reacionárias. Os identitários não assumem abertamente, mas atuam como se o mundo fosse uma grande guerra de todos contra todos, e o horizonte de possibilidades se limitasse à defesa de interesses particulares, ou tribais. Nisso não estão muito distantes dos neoliberais, da ideia de fim da história e da formulação segundo a qual os recursos são escassos e os desejos ilimitados. Ou, como no ditado popular: “farinha pouca, meu pirão primeiro.” O problema é que, se contam apenas interesses particulares, ou tribais, por que fascistas, racistas, misóginos e outros não podem afirmar seus valores? Além de disputar os recursos escassos? O que garante legitimidade a um grupo e deslegitima outro? É por isso que Neiman sustenta, com razão, que sem universalismo não há combate consequente ao racismo, por exemplo. O argumento pode ser estendido a outras lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Dada a regressão identitária e o ataque ao universalismo iluminista, Neiman nos lembra que pensadores como Rousseau, Diderot e Kant foram os primeiros a condenar o eurocentrismo e o colonialismo, o que só foi possível e coerente porque se fundamentou no universalismo. A filósofa nos lembra, também, que num passado não muito distante as pessoas pagavam para assistir torturas e execuções. Se não é mais assim, a humanidade progrediu a partir da afirmação de valores universais. Não é porque um homem é africano ou europeu que ele não pode ser torturado, a tortura é uma aberração em absolutamente qualquer circunstância. O progresso não está garantido, mas é possível. Ser de esquerda, para Neiman, passa por acreditar que as pessoas podem lutar coletivamente e conquistar melhores condições de vida e avanços civilizatórios que contemplem a sociedade em geral, e não apenas grupos específicos. A condenação à tortura é um exemplo de avanço civilizatório.</p>
<p style="text-align: justify;">Os identitários se afastam da esquerda porque acreditam apenas em conquistas parciais e limitadas a grupos específicos. Um exemplo: o empoderamento. Para quem teve contato com a esquerda no século XX, é um tanto chocante ouvir exaustivamente a palavra “empoderar” saindo de bocas identitárias: não faz muito tempo a esquerda &#8211; especialmente a anarquista &#8211; falava em destruir o poder. O que é empoderar senão o contrário da destruição do poder? Neiman cita um caso curioso e preocupante de regressão identitária. Um comediante canadense foi às ruas perguntar se os torturadores da CIA deveriam ser recrutados considerando critérios de diversidade. As pessoas terem levado o gracejo a sério diz muito sobre o tempo presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos setores da esquerda que se incomodam com o universalismo, Neiman recorda que o melhor exemplo de política identitária é o nacionalismo assassino de políticos israelenses como o ministro Itamar Bem-Gvir. A filósofa sustenta que a política identitária/identitarismo pode ser definida como tribalismo, apesar dos alertas bem-intencionados de que o termo talvez seja ofensivo para alguns setores. Tribalismo transmite a ideia de barbárie. Daí a preferência de Neiman pelo termo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a arte é portadora da peculiaridade de antecipar tendências, os trabalhos da artista mapuche Seba Calfuqueo, expostos no Museu de Arte Moderna de Bogotá, mostram que o identitarismo empunhado para se fazer crítica social pode regredir do tribalismo para a fulanização, daí a presença ostensiva do corpo da artista, como se a arte devesse se adaptar aos algoritmos das redes sociais, que impulsionam imagens pessoais. Se não há nenhum valor universal que possa ser afirmado, se não há perspectiva de progresso, como a identidade mapuche ajuda sem resolver totalmente a questão, porque há o não binarismo dos weyes, mas há também a ideia de ovo sem sol: sobra apenas o corpo e o indivíduo. É a fulanização. Uma tendência antecipada pela arte?</p>
<p style="text-align: justify;">A psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta francesa Marie-France Hirigoyen <strong>[3]</strong> registrou que a sociedade neoliberal é uma fábrica narcisos. Narcisismo foi a palavra que me veio à cabeça quando visitei a exposição <em>Ovo de sol</em>, da artista mapuche Seba Calfuqueo. Mas fiquei na dúvida. Podia ser apenas uma impressão, um preconceito. Na sequência visitei a exposição <em>Memórias inundadas, </em>da artista amazônica Uýra, no mesmo museu. A linha de continuidade entre os trabalhos das artistas é a presença ostensiva do corpo delas nas obras. Restou pouco espaço para a dúvida. É compreensível que os corpos dissidentes apareçam e se mostrem. Mas se o mundo e a arte são transformados numa extensão do indivíduo, não estamos distantes do narcisismo. Como as ações coletivas são colocadas sob suspeita, restam as ações privadas, individuais e limitadas. As identidades grupais usadas para a crítica social, se não miram no universal, regridem para o indivíduo e o narcisismo. É a fulanização. A arte se aproximando perigosamente da estética das selfies.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><em>Uma metáfora</em></strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O identitarismo é a política construída a partir de &#8211; e limitada a &#8211; identidades grupais de gênero, étnicas, sexuais. Trata-se de um rebaixamento tolerado e promovido pelo neoliberalismo. Encruzilhada é um ponto onde os caminhos se cruzam. Atoleiro é um lugar com solo pantanoso, que às vezes retém quem transita por ele. Eis a metáfora: o identitarismo é uma encruzilhada no atoleiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a filósofa Susan Neiman, a política identitária nasceu na esquerda, depois virou à direita. A ideia de encruzilhada ajuda a pensar o identitarismo devido ao cruzamento da esquerda com a direita. Além disso, a ideia de encruzilhada tem, também, o sentido de ponto crítico que exige definições. Se é assim, imaginemos um ponto crítico, de cruzamentos, posicionado sobre o solo encharcado, onde os pés afundam.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há luta coletiva sem identificação. Por isso a esquerda defende revolucionários e revoluções. Daí os resgates históricos e as formações. Não se trata apenas de aprender com o passado. A questão é forjar identificações e afinidades para potencializar a luta coletiva. Se uma mulher se identifica como trabalhadora revolucionária, afirma uma identidade que a aproxima da sua classe social, reforça a luta coletiva e a perspectiva de superação do capitalismo e do machismo. Não se trata de uma identidade absoluta e fixa. Se uma mulher se identifica como uma trabalhadora revolucionária, é porque acredita que é preciso e possível resistir e superar o capital. Numa nova sociedade e num outro modo de produção, ela poderá prescindir da identificação como trabalhadora revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;">A política identitária entendida como um tribalismo empregado para defender interesses de grupos específicos é funcional para a direita. É mais ou menos o que fizeram e fazem os reacionários. Como sugere a filósofa Susan Neiman, o nacionalismo assassino de políticos israelenses, como o ministro Itamar Bem-Gvir, é um bom exemplo. Por outro lado, a força do identitarismo para problematizar questões sociais é limitada. Ele teria surgido na esquerda, mas se firmou como capitulação, é incapaz de questionar as relações de produção capitalistas porque abriu mão do universalismo. A exposição <em>Ovo de sol</em>, da artista mapuche Seba Calfuqueo, é um exemplo. À medida que tenta se apegar a uma identidade estanque, ela se fecha para novas sínteses. Ser um weye, transitar entre feminilidade e masculinidade, poderia ser um alívio para a artista, mas não seria uma solução, basta lembrar a ideia de ovo sem sol presente na cultura mapuche. Em algum momento uma coisa fatalmente se chocaria com a outra. Difícil imaginar uma artista trans e não binária plenamente integrada à sociedade mapuche. Seba Calfuqueo procura no passado o que só poderia encontrar no futuro. Estaciona na desconstrução sem construir, ou, ao menos, imaginar alternativas. O identitarismo é uma encruzilhada no atoleiro. Porque abriu mão do universalismo, a política identitária estaciona na antítese, é incapaz de promover novas sínteses. O que é fatal porque a vida é movimento e transformação. Sobra o corpo. Apenas e tão somente o corpo, que a artista expõe ostensivamente: um corpo se debatendo no atoleiro. Aqui é interessante retomar a filósofa Susan Neiman: o pessoal é político, mas a política não pode se limitar ao pessoal. Os limites do identitarismo para a crítica social perpassam todo o trabalho de Seba Calfuqueo que compõe a exposição <em>Ovo de sol</em>. A limitação da política ao pessoal. A presença ostensiva do corpo, que chamei de fulanização. A cosmovisão mapuche se baseia na conexão e no equilíbrio entre seres humanos e natureza. Nos trabalhos de Seba Calfuqueo não se nota tal equilíbrio, pelo contrário, o que se impõe em primeiro plano é sempre o corpo da artista: o drama do corpo, o corpo que precisa se destacar, o corpo afundando no atoleiro. Um narcisismo funcional para o neoliberalismo e a sociedade de consumo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os limites do trabalho da artista mapuche são expostos na videoperformance <em>Buscando a Marcela Calfuqueo</em>. Marcela é uma mulher parecida com Seba. Elas se conheceram nas redes sociais. A diferença entre as duas é o sexo biológico. Marcela é quem Seba gostaria de ser, se tivesse nascido mulher. Daí a busca por ela e, talvez, o afastamento dela. O que não aparece na videoperformance. Mas pode ser imaginado. Não deve ser agradável, para Marcela, conviver com a obsessão de Seba: não exatamente por ela como outra pessoa, mas por ser ela, substituindo-a. Nada mais invasivo do que isso. Em uma de suas instalações, Seba Calfuqueo usou cabelos sintéticos para formar a palavra <em>kangechi</em>, que na língua mapudungun significa o outro, a ideia de que a diversidade e a diferença são importantes. Só que a busca de Seba por Marcela tem muito mais a ver com o narcisismo típico da sociedade neoliberal do que com a palavra <em>kangechi</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Incialmente, a política identitária se nutre das esperanças frustradas, depois se retroalimenta à medida que gera mais frustrações. O que ajuda no fortalecimento do identitarismo. Mas frustração tem limites. Por isso que, para artistas criativas e radicais, como Seba Calfuqueo, a disjuntiva é universalismo ou capitulação. A vida é movimento e transformação: não pode parar. O que não avança, retrocede. A tentativa identitária de se agarrar e estacionar nas antíteses está condenada a afundar, como um corpo que se debate no atoleiro. Identidades grupais de gênero, étnicas, sexuais podem contribuir para a conquista de avanço coletivos e civilizatórios, se mirarem no universal. Estancadas em si mesmas, servem apenas para fragmentar as lutas, abrir nichos de mercado e reforçar o <em>status quo</em>. Não há luta por libertação coerente sem universalismo. Os identitários nada têm a oferecer, a não ser novos grilhões.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Susan Neiman. <em>Izquierda no es woke</em>. Bogotá: Penguim, 2024.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Neiman, 2024, op cit., p. 21.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Marie-France Hirigoyen. <em>Los narcisos han tomado el poder</em>. Bogotá: Paidós, 2020.</p>
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		<title>Para além da Tarifa Zero</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 12:45:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
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					<description><![CDATA[O grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. Por Isadora de Andrade Guerreiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Em setembro de 2025 tive a oportunidade incrível &#8211; proporcionada por Daniel Santini, a quem agradeço &#8211; de entrevistar a atual deputada federal e ex-prefeita de São Paulo (1989-1993) Luiza Erundina (PSOL), seu secretário de transportes à época, Lucio Gregori, e Mauro Zilbovicius, ex-diretor da Cia. de Engenharia de Tráfego (CET) e do Departamento do Sistema Viário (DSV). A pauta era a Tarifa Zero ontem e hoje, dado que o trio foi responsável pela proposta pioneira no país durante a primeira gestão municipal do PT em São Paulo. O <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">resultado da entrevista</a> foi publicado na <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Diálogos Socioambientais v.8, n.23</a>, em novembro de 2025, um dossiê muito especial com contribuições atuais sobre o tema, organizado pela professora Silvana Zioni e o próprio Daniel Santini.</p>
<p style="text-align: justify;">O dossiê vem em boa hora, na medida em que o tema com certeza será parte da disputa eleitoral deste ano, que será delicadíssima por uma série de questões. Foi lançado justamente quando o governo federal pediu um estudo detalhado para implantar a Tarifa Zero nacionalmente e, em Belo Horizonte, o assunto foi votado na Câmara e não ganhou, mas assustou. Para quem acompanhou o nível de embate do tema em 2013, ver onde ele chegou atualmente é, no mínimo, surpreendente. Ou temerário… e por isso retomar suas origens de forma viva na entrevista foi algo muito importante.</p>
<p style="text-align: justify;">Digo isso pois o grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. O que está em pauta é se ela será uma tábua de salvação para um setor empresarial em franca crise &#8211; e que é pedra fundamental de amplos clientelismos Brasil afora -, ou se será parte de uma transformação urbana e social mais estrutural. Politicamente relevante é que o embate institucional está acontecendo dentro do campo da dita esquerda partidária, com PT e PSOL em lados opostos: o deputado federal Jilmar Tatto (PT) tem representado o setor empresarial dos transportes e feito propostas que têm avançado mais do que as de Erundina dentro do parlamento e do executivo federal.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso a entrevista está especial e convido todo mundo a ler. Aquela tarde junto aos três ecoou fundo em mim, pois foi como um sopro de brisas frescas vindas de um lugar perdido. Zilbovicius colocando a racionalidade técnica no seu lugar, como instrumento político; o incrível Lucio Gregori relacionando a Tarifa Zero com a revolução social anticapitalista; e Erundina, de uma força transbordante e incansável, mas ao mesmo tempo extremamente afetiva e carinhosa durante toda a tarde, trazendo a noção de direito social como algo muito mais estrutural do que se transformou no neoliberalismo. Assim, a entrevista tem algo de incômodo, pois mexe com potências políticas adormecidas que as gerações atuais nem sonham o quão mobilizadoras foram. Faz-nos pensar no estado de coisas em que estamos, no desespero de ter que defender o pouco que restou de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o que é um governo municipal não era uma questão, mas sim o que pode ser um governo municipal dentro de uma sociedade mobilizada. Isso aparece numa fala do engenheiro Zilbovicius:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até hoje guardo uma fala da Luiza, que ela repetia constantemente: cada ação “tem que ser pedagógica”. As pessoas precisam aprender com essa luta. Ou seja, não se tratava apenas de resolver um problema imediato, mas de usar essa solução para fazer política, demonstrar uma nova possibilidade e, a partir dela, demandar mais. Estávamos ali para empurrar a fronteira do possível e alargar os limites do que era considerado realizável.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Alargar o possível é também alargar nosso pensamento. A Tarifa Zero ser viável leva o debate, evidentemente, ao tema técnico &#8211; também discutido no dossiê &#8211; e é nesse momento que precisamos atualizar o lugar da técnica na política &#8211; onde queremos chegar com a Tarifa Zero? Sem isso, cairemos inevitavelmente na implantação de um modelo que instrumentalizará a gratuidade, sem colocar o cerne da questão da mobilidade que é, na prática, o capitalismo. Levantei essa questão quando trouxe na entrevista o exemplo da habitação: a gratuidade (ou quase) veio dentro de um modelo financeirizado de salvação empresarial que trouxe muitas vezes mais problemas urbanos e sociais do que soluções (individuais e parciais, muitas vezes logo perdidas pelo <a class="urlextern" title="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" href="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">endividamento</a> ou pela <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" href="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">violência</a>), como vemos no Minha Casa Minha Vida. Ou seja, já conhecemos essa ladainha. Ela é sedutora, vem junto com o progressismo nosso de cada dia, com a vontade de avançar dentro do possível, de ter vitórias em meio ao cenário perturbador de espoliação que vivemos, de poder respirar. Mas não podemos nos esquecer que ela cobra a fatura, sem dó. O almoço não é grátis, embora possa parecer &#8211; o que torna a coisa ainda pior politicamente, muitas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">Gregori, ao responder, chama atenção a isso:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, a mobilidade humana não é tratada como questão estrutural no capitalismo. A premissa básica de que a locomoção é elemento fundamental da existência humana &#8211; é um direito humano &#8211; está ausente dessa lógica.</p>
<p style="text-align: justify;">O debate que travamos aqui é singular. Se levado para a esquina, a discussão se restringirá à superlotação dos ônibus ou ao preço da passagem. Falta à sociedade capitalista a compreensão de que a mobilidade transcende a mera necessidade de ir do ponto A ao ponto B. É muito mais do que isso: a mobilidade das pessoas é fundamental na vida humana.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Questionei, nesse sentido, por que a mobilização popular em torno dos transportes é tão diferente de outros setores como a habitação, a saúde e a educação. Além de muito menor, por um lado, quando “acendeu o pavio” se alastrou como palha seca, sem controle, em 2013. Por um lado, tanto tempo entre a gestão municipal e as jornadas de junho e, por outro, a persistência do tema, que volta como espectro inevitavelmente com a pergunta “ser ou não ser, eis a questão”. Gregori foi cirúrgico:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que falta é uma discussão ampla que investigue a essência do problema. Do que estamos falando? De algo que envolve a cidade em sua totalidade. E percebe-se que essa visão integral simplesmente não existe. Há falta de mobilização popular em torno do tema, durante tanto tempo, simplesmente porque é um jogo que nunca foi jogado. Como é que a população ou o cidadão comum pode, de repente, do nada, formular isso?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso leva ao tema da totalidade das lutas &#8211; e da potencialidade da mobilidade nas lutas urbanas neste quesito &#8211; e, inevitavelmente, no ponto crucial: estamos perdendo. Erundina tem clareza desta conjuntura, ainda que não se acomode. Segunda ela:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua indagação sobre a mobilização popular toca em ponto crucial. Os movimentos sociais não exercem pressão suficiente porque a mobilização popular substantiva praticamente deixou de existir. Os partidos de nosso campo ideológico abandonaram o projeto de fomentar participação das bases. O resultado é a ausência de mobilização genuína, falta de participação popular, inexistência de hegemonia das classes populares e erosão do poder popular no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Perdemos o tecido social vibrante do período pós-ditadura, quando a sociedade estava mobilizada e resolvia problemas coletivamente através de organizações de base.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, esse cenário foi desmontado. O povo perdeu sua voz e a crença em sua capacidade de transformação. Consequentemente, pautas como mobilidade e moradia não geram mais apelo ou participação massiva. O poder popular foi esvaziado.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Daniel Santini fez a pergunta que não quer calar no tema da Tarifa Zero, replicando uma provocação que fiz a ele num congresso acadêmico da área de planejamento urbano. “A pior Tarifa Zero &#8211; que remunera bem os empresários, que não muda nada, estruturada num sistema precarizado &#8211; é melhor do que um sistema com cobrança?”. Erundina fecha a entrevista com essa resposta, que é uma pérola que coroa não só o tema da Tarifa Zero, mas a encruzilhada dos nossos tempos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eu não consigo deixar de falar disso. Retomando a questão da moradia: eu trabalho com isso desde o começo da minha vida, como assistente social. A moradia conquistada na marra, fazendo caminhada a pé até o Palácio do Governo para que se ligasse água e luz nas favelas, quando vinha, tinha um peso e uma importância para aquela população muito diferente. Porque ela se capacitava a partir daquela conquista para outras lutas e para outras conquistas. Por isso, um programa massivo de moradia, tipo Minha Casa Minha Vida, não contribui para mobilizar e para conscientizar o povo da própria força. Não pode ser comparado com aquela luta na qual o próprio povo conquista a moradia. Ou para urbanizar a sua favela, em vez de fazer uma casa própria, que ele vai pagar 30 anos, ou não vai nem mesmo conseguir pagar. Isso não é uma política que emancipa os setores populares.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a questão: não se faz mais política hoje nesse país, capaz de fazer com que as pessoas se emancipem, como se fez no passado. Nós conseguimos fazer aquele governo porque a gente vivia em um período de pós-ditadura militar, em um processo de redemocratização, onde se conquistou algum nível de emancipação popular.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós tivemos apoio popular para experimentar uma forma de ser governo no qual todo mundo governou. Por isso tem uma força que não termina nunca. Aquele governo continua, porque não foi um governo de uma pessoa, nem de um partido: foi um movimento social popular, num determinado momento da história política desse país que não acontece mais. Porque os partidos estão bitolados por um modelo dentro do capitalismo que até o povo tem direito a uma casinha, tem água na favela e outras tantas coisas, mas sem alterar as bases sobre as quais essa sociedade está construída…</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Como não se sentir tocada? Quem for ler a entrevista na íntegra, verá que quem começa falando e perguntando é Erundina, a entrevistada. Vi que seria difícil me colocar. Mas, ao final, na mesa do café, ela me agradeceu a entrevista, que tomou um rumo que ela não esperava, a fazendo também respirar outras brisas. Que nos inspiremos nesse encontro geracional, pois os desafios vindouros são grandes.</p>
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		<title>Como vai o seu backup?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Mar 2026 14:01:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O backup não evita que problemas aconteçam, mas permite que os danos sejam reversíveis. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana [1]</h3>
<p style="text-align: justify;">Alguns assuntos são sempre importantes de serem revistos e com certeza <em>backup</em> é um deles. Pensava em rever esse assunto no final do ano passado, mas como costuma ser férias, verão, carnaval, vamos rever nesse momento e torcer para que mais pessoas pratiquem segurança de dados mesmo que trabalhem na escala 6×1 e tenham pouco tempo para cuidar de si próprios e de sua vida digital.</p>
<p style="text-align: justify;">O <em>backup</em> caseiro é uma prática essencial em um mundo cada vez mais digitalizado, no qual fotos de família, documentos pessoais, trabalhos acadêmicos, registros financeiros e lembranças afetivas existem principalmente em formato digital. Apesar disso, muitas pessoas só percebem a importância do <em>backup</em> quando já enfrentaram a perda de arquivos por falha no disco rígido, defeito em SSD, roubo do aparelho, ataque de vírus ou simples erro humano. Computadores quebram, celulares são perdidos, contas podem ser invadidas e arquivos podem ser apagados sem intenção. O <em>backup</em> não evita que problemas aconteçam, mas permite que os danos sejam reversíveis, permitindo a recuperação de dados.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante distinguir <em>backup</em> de sincronização de arquivos. Serviços de arquivos em nuvem funcionam principalmente como plataformas de sincronização, mantendo os mesmos arquivos atualizados em diferentes dispositivos, portanto, se um arquivo é apagado por engano na origem, ele também é apagado na nuvem. Embora muitos desses serviços ofereçam histórico de versões e lixeira temporária, o ideal é pensar em <em>backup</em> como um processo com cópias adicionais e independentes. Um arquivo sincronizado é uma cópia de trabalho, não uma cópia de segurança.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos cuidados mais importantes no <em>backup</em> caseiro é não confiar em apenas um único local de armazenamento das cópias de dados. Manter todos os arquivos apenas no computador principal é um risco considerável, pois qualquer falha de <em>hardware</em> pode resultar em perda total. Também não é prudente deixar todas as cópias no mesmo ambiente físico, já que um furto, incêndio ou dano elétrico pode afetar simultaneamente o computador e o dispositivo de <em>backup</em>. Por isso, a prática mais segura envolve manter pelo menos uma cópia fora do local principal, preferencialmente num dispositivo não conectado à Internet.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro cuidado fundamental é proteger dados sensíveis com senhas fortes e, quando possível, criptografia. Além disso, é necessário verificar periodicamente se os <em>backups</em> realmente funcionam, restaurando alguns arquivos de teste para confirmar que estão íntegros e acessíveis. Um <em>backup</em> que nunca foi testado pode gerar falsa sensação de segurança.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a maioria das pessoas, o método mais confortável de <em>backup</em> é aquele que equilibra simplicidade e eficiência, sem exigir conhecimentos técnicos avançados ou rotinas complexas. Um bom ponto de partida é organizar os arquivos importantes em uma única pasta principal no computador, concentrando ali documentos, fotos, planilhas, PDFs e outros conteúdos relevantes. Essa organização facilita tanto a sincronização quanto a cópia periódica.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda ação deste método consiste em manter uma cópia local em um HD externo ou SSD portátil. Uma vez por semana, ou em intervalos regulares que façam sentido para sua rotina, a pasta principal pode ser copiada ou sincronizada para esse dispositivo. O ideal é que o HD externo permaneça desconectado quando não estiver em uso, reduzindo o risco de que um eventual <em>malware</em> ou <em>ransomware</em> alcance também a cópia de segurança. Esse hábito simples aumenta significativamente a proteção dos dados, pois cria uma camada adicional independente da Internet e das contas <em>online</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Para completar e ter alta segurança de dados, é preciso um segundo HD externo e criptografado num local remoto, pode ser a casa de um parente ou o trabalho, e de tempos em tempos você troca o HD externo local com o remoto, sempre levando o primeiro para trocar no local remoto, e trazendo o segundo para funcionar como HD local. O importante é não ter as três cópias no mesmo local físico durante o processo. Essa prática é conhecida como Backup 3-2-1: três cópias, dois <em>backups</em>, um <em>backup</em> remoto.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso dos celulares, que hoje concentram grande parte das fotos e conversas pessoais, procure de tempos em tempos conectar o aparelho ao computador e copiar manualmente arquivos importantes. Essa prática amplia a segurança e evita surpresas desagradáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Em resumo, um sistema caseiro de <em>backup</em> eficiente não precisa ser complicado nem caro. Ele pode ser construído com organização básica dos arquivos e uma cópia periódica em dispositivo externo guardado com segurança. Ao adotar essa combinação simples e sustentável, a maioria das pessoas consegue reduzir drasticamente o risco de perder documentos, memórias e informações valiosas. Mais importante do que buscar a solução perfeita é estabelecer uma rotina realista e mantê-la ao longo do tempo. O <em>backup</em>, quando integrado de forma natural à vida digital, transforma-se em um hábito de cuidado com a própria história e de tranquilidade no futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, processos de automação facilitam e previnem falhas na rotina de <em>backup</em>, mas exigem mais tempo de configuração e uma seleção cuidadosa de <em>softwares</em>; isso será objeto de um artigo específico. Segue uma lista de artigos importantes para uma melhor prática para nossas cópias de segurança:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/09/128394/" href="https://passapalavra.info/2019/09/128394/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Cuidados digitais com senhas e chaves criptográficas</a> ;</li>
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/08/139682/" href="https://passapalavra.info/2021/08/139682/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mapa de Segurança Digital (1)</a> ;</li>
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/09/140182/" href="https://passapalavra.info/2021/09/140182/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mapa de Segurança Digital (2)</a> ;</li>
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/10/140642/" href="https://passapalavra.info/2021/10/140642/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mapa de Segurança Digital (3)</a> .</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Bom <em>backup</em> a todos!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>O que é um poeta?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158716/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Feb 2026 11:17:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando nascemos somos todos poetas ou demoramos um pouco perceber a estranheza do mundo e da vida? Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Jan Cenek</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Filme bom fica passando na cabeça da gente. Foi o que ocorreu quando assisti <a href="https://www.youtube.com/watch?v=8dOv7-enNLs" target="_blank" rel="noopener"><em>Um poeta</em></a>. O diretor, o colombiano <a href="https://elpais.com/america-colombia/2025-08-28/simon-mesa-cineasta-un-poeta-es-una-pelicula-sobre-los-artistas-a-los-que-se-los-chupo-el-alcohol-en-medio-de-la-violencia.html" target="_blank" rel="noopener">Simón Mesa Soto</a>, afirmou que a película é um convite ao riso: “riámonos de todo, riámonos de nosotros mismos”. Disse, também, que se baseou em si mesmo para construir o personagem principal do filme, o poeta fracassado Oscar Restrepo. Simón Mesa Soto apenas trocou o ofício do personagem, do cinema para a poesia. O que é ser artista na América-latina senão flertar com o fracasso? Especialmente para os que escolhem o cinema, arte que exige investimentos consideráveis. Quem consegue viver de arte no continente de Bolívar? Como tantos outros, o poeta Oscar Restrepo não conseguiu. Aos cinquenta e poucos anos vivia com a mãe, além de percorrer alcoolizado as ruas de Medelín, cidade que tem periferias muito parecidas com as brasileiras. Isso se vê no filme, como bônus. Um capítulo especial na história dos fracassos do poeta Oscar Restrepo ocorre quando ele se rende, resolve trabalhar formalmente como professor e conhece uma aluna, Yurlady, com potencial para a poesia. A gana de transformar a menina na grande poeta que ele próprio não conseguiu ser, faz o professor se meter em confusões. Oscar Restrepo é um fracassado cômico, como o poeta <a href="https://passapalavra.info/2023/06/148751/" target="_blank" rel="noopener">Homerinho</a>: “O fracassado cômico é um ator que interpreta uma peça no teatro errado. É puro desencontro. É um cidadão que comparece a uma audiência judicial em traje de banho. O cômico brota do emprego de técnicas ultrapassadas e do desencontro: como o soldado que vai à guerra com um estilingue, ou o adolescente que se masturba usando preservativo.” A graça de <em>Um poeta</em> está no fracasso do personagem principal. Ponto para o diretor Simón Mesa Soto: superou o próprio fracasso fazendo piada de si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Não aparecem muitos versos de Oscar Restrepo na película, e não é necessário, afinal, trata-se de um convite ao riso a partir de um fracasso, não é a divulgação de uma obra poética. Sabemos apenas que o personagem é alcoólatra, que ama o poeta José Asunción Silva e desconfia do romancista Gabriel Garcia Márquez, provavelmente porque é atraído sobretudo pelo fracasso e pela tragédia. O filme é engraçado, mas não só. Boas películas ficam passando na cabeça da gente, e às vezes nos deixam questões. A pergunta que ficou, para mim, é sobre os poetas. O que é um poeta? Por que Oscar Restrepo é, sobretudo, um poeta? Por que o filme transmite a sensação de “eis um poeta”? A resposta que me veio e que, creio, pode ser generalizada não está no fracasso em si, porque é possível superar o fracasso fazendo piada de si mesmo. Carlos Drummond de Andrade foi mestre nessa arte. Penso, por exemplo, no poema <em>O passarinho dela</em> <strong>[1]: </strong></p>
<p style="text-align: center;">[&#8230;]</p>
<p style="text-align: center;"><em>O passarinho dela</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>está batendo asas, seu Carlos!</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ele diz que vai se embora</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>sem você pegar.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Não é muito diferente do que fez o diretor Simón Mesa Soto, que superou o próprio fracasso fazendo piada de si mesmo. Se é por aí, não é o fracasso que necessariamente define um poeta, mesmo considerando que em geral os poetas são fracassados. O cômico, na película, está no gracejar com o fracasso, mas isso não responde à questão que o filme colocou para mim. O que é um poeta? A resposta me veio com uma palavra comum ao espanhol e ao português: desadaptado! Não lembro se a palavra é pronunciada no filme, mas com certeza está subentendida. Oscar Restrepo é um desadaptado. O ator, Ubeimar Ríos, se adaptou perfeitamente ao personagem desadaptado: a camisa por dentro da calça, os ombros estreitos, o abdômen saltado, os braços finos, as olheiras salientes e, sobretudo, o cenho franzido de quem se esforça para enxergar.</p>
<p style="text-align: justify;">Os poetas têm dificuldade com as pequenas tarefas cotidianas, como lavar a louça, manter um emprego, fazer pequenas manutenções, se relacionar com vizinhos e por aí vai. Porque não se encaixam no mundo, precisam transformá-lo. Mas como transformar o mundo sem dominar sequer pequenas tarefas cotidianas? A poesia – entendida como a arte de manejar as palavras – é uma das poucas possibilidades que resta aos desadaptados. As palavras ainda não foram totalmente privatizadas e seguem disponíveis para a quixotesca tarefa de produzir sensações com elas. Não estamos distantes do que Drummond <strong>[2] </strong>definiu como “a luta mais vã”. Vã e cômica, acrescento. Um exemplo. Imagino um sindicalista revolucionário – quiçá também poeta – liderando uma greve débil. Só lhe resta o recurso de fazer discursos inflamados, lutar com palavras, porque se disser a verdade enfraquecerá ainda mais o movimento. Mas as palavras, mesmo as firmes e inflamadas, não movimentam sozinhas a classe trabalhadora. O cômico brota da distância dos resultados em relação aos objetivos, da radicalidade do discurso comparada com a tibieza do movimento. As palavras firmes e inflamadas do poeta sindicalista revolucionário se dissolvem no ar.</p>
<p style="text-align: justify;">Se é pelo caminho que intuo, os poetas são desadaptados que usam o limitado recurso que lhes resta – as palavras – para adaptar a realidade a eles próprios. Trata-se de empregar as palavras para produzir sentimentos num mundo insensível, o belo no meio da feiura generalizada. Ou garantir um conforto mínimo numa realidade estranha. Ou ainda, na pior das hipóteses, ao menos compartilhar o estranhamento que sentem.</p>
<p style="text-align: justify;">No belo documentário <a href="https://vimeo.com/223387317" target="_blank" rel="noopener">Vagamundo</a>, Eduardo Galeano conta uma história interessante. Havia morrido o cão que o acompanhava nos passeios pela cidade. Galeano caminhava sozinho quando viu uma garotinha que vinha na sua direção. A menina sorria e cumprimentava as plantas que encontrava: “Buenos días, plantita! Buenos días plantita!” A alegria da garotinha revigorou o escritor, que teve uma sacada: quando nascemos somos todos poetas, depois o mundo se encarrega de encolher nossos horizontes. Esse encolhimento é a adaptação que engole quase todos, com poucas exceções, como Oscar Restrepo, na película de Simón Mesa Soto. Mas sejamos menos poéticos, quando nascemos somos todos poetas ou demoramos um pouco perceber a estranheza do mundo e da vida?</p>
<p>O poeta Manoel de Barros <strong>[3]</strong>, gostava de alargar horizontes e se deliciava com o “delírio do verbo”:</p>
<p style="text-align: center;"><em>No descomeço era o verbo.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Só depois é que veio o delírio do verbo,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>O delírio do verbo estava no começo, lá onde a</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Criança diz: “Eu escuto a cor dos passarinhos”</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>A criança não sabe que o verbo escutar não funciona</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>para cor, mas para som.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Então se a criança muda a função de um verbo, ele</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>delira.</em></p>
<p style="text-align: center;">[&#8230;]</p>
<p style="text-align: justify;">O delírio do verbo, para o poeta Manoel de Barros, é a capacidade que as crianças têm para subverter a linguagem – ou seria um brincar com as palavras? –, um certo “escutar a cor dos passarinhos”, ou, por que não, dar bom dia para as plantas, como quer Eduardo Galeano. Aliás, quem sabe no descomeço fosse um “buenos diás, plantita” e só depois o “verbo” e o “delírio do verbo”, que já carrega um quê de transformação ou, se não, ao menos de brincadeira. Manoel de Barros não esconde que gostaria de fazer brinquedos com as palavras <strong>[4]</strong>, um exemplo <strong>[5]</strong>:</p>
<p style="text-align: center;"><em>Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>a lesma deixa risquinhos líquidos&#8230;</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as</em></p>
<p style="text-align: center;"><em> palavras</em></p>
<p style="text-align: justify;">Oscar Restrepo é um Manoel de Barros que não deu certo porque não herdou propriedades que lhe permitissem “comprar o ócio”. Quem consegue viver de arte na América-latina? Mas não é coincidência ambos terem encontrado a poesia nas crianças. As crianças são capazes de cumprimentar as plantas e escutar a cor dos passarinhos porque não estão totalmente adaptadas. Elas brincam e reinventam. É mais ou menos o que fazem os poetas com o precário recurso de que dispõe: as palavras. Enquanto o capital não privatizar totalmente o alfabeto, a poesia seguirá sendo democrática, como o futebol. Qualquer um pode praticá-la, em qualquer canto e com a vantagem de que não precisa de companheiros para formar equipes. O versejar é, geralmente, um exercício de solidão. Mas que completude quando se escreve a quatro ou mais mãos. Não há gesto mais íntimo. Os que já compartilharam a escrita não esquecem nunca. Gostei da comparação. As palavras são como uma bola que qualquer criança pode pegar, brincar e até chutar numa vidraça. “Jogar pedrinhas no bom senso”, diria o poeta Manoel de Barros <strong>[6]</strong>. Por que não?</p>
<p style="text-align: justify;">É porque não se adaptaram – não tiveram os horizontes encolhidos – que os poetas se metem na luta vã de reinventar e brincar com palavras, às vezes atirando-as nas vidraças do mundo. É o tal “delírio do verbo”: uma subversão e um brincar com as palavras e, no limite, com o real. Quem começa alterando o sentido das palavras e da linguagem termina questionando o sentido da realidade. É por isso que os poetas são quixotescos, mas também perigosos. Voltemos ao descomeço e ao brincar com as palavras. Lembrei do tributo do poeta Manoel de Barros <strong>[7]</strong> ao romancista João Guimarães Rosa:</p>
<p style="text-align: center;"><em>Passarinho parou de cantar.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Essa é apenas uma informação.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Passarinho despareceu de cantar.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Esse é um verso de J. G. Rosa.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Desapareceu de cantar é uma graça verbal.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Poesia é uma graça verbal.</em></p>
<p>Passarinho desapareceu de cantar é “uma graça verbal”, e é, também, um “delírio do verbo” no sentido manoelino. O poeta Carlos Drummond de Andrade <strong>[8] </strong>também homenageou o romancista João Guimarães Rosa:</p>
<p style="text-align: center;">[&#8230;]</p>
<p style="text-align: center;"><em>Projetava na gravatinha</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>a quinta face das coisas,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>inenarrável narrada?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Um estranho chamado João</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Para disfarçar, para farçar</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>o que não ousamos compreender?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Tinha pastos, buritis plantados</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>no apartamento? </em></p>
<p style="text-align: center;"><em>no peito?</em></p>
<p style="text-align: center;">[&#8230;]</p>
<p>Tem que ser muito desadaptado para imaginar buritis plantados num apartamento, para (dis)“farçar o que não ousamos compreender”. Aliás, o que é o verbo “farçar” senão uma brincadeira e uma subversão? Meio farsar, meio disfarçar. A melhor maneira de homenagear um criador e catador de palavras, como João Guimarães Rosa, é com um verbo inventado. Com Manoel de Barros, no descomeço era o verbo, depois o “delírio do verbo”: uma subversão semântica, um escutar a cor dos passarinhos. Já o poeta moleque idoso de Itabira chuta o pau da barraca e atira um novo verbo nas vidraças dos dicionários: “farçar”! Eis uma invenção e uma solução, um subverter o descomeço. Ah, se digo poeta moleque idoso é porque Drummond conseguiu reunir graça de um menino com o sarcasmo de um velho. Novamente Drummond <strong>[9]</strong>, dessa vez quando da morte do pintor Cândido Portinari:</p>
<p style="text-align: center;">[&#8230;]</p>
<p style="text-align: center;"><em>Agora há uma verdade sem angústia</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>mesmo no estar-angustiado.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>O que era dor é flor, conhecimento</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>plástico do mundo.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>E por assim haver disposto o essencial,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>deixando o resto aos doutores de Bizâncio,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>bruscamente se cala</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>e voa para nunca mais</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>a mão infinita</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>a mão de olhos azuis de Cândido Portinari  </em></p>
<p style="text-align: justify;">Há melhor maneira de “disfarçar o que não ousamos compreender”? O que significa pintar olhos azuis na mão infinita de Cândido Portinari, senão um “farçar”? Drummond embaralha as palavras e a anatomia: transplanta um componente da visão para um membro terminal do corpo, costura os nervos unindo os sistemas visual e musculoesquelético. Começar a recriar as palavras e a linguagem é começar a recriar o mundo, inclusive a anatomia humana. Por isso os poetas são perigosos, repito. O resto cabe aos “doutores de Bizâncio”, que não são portadores da mesma carga de graça e subversividade.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas tinha uma pedra no caminho da minha resposta sobre o que é um poeta. E o <a href="https://passapalavra.info/2022/03/142770/" target="_blank" rel="noopener">haikai</a>? E os poemas de três versos surgidos no Japão há mais de três séculos: que não estão muito distantes do zen budismo, que pressupõe sobretudo a integração no tempo e no espaço? Para captar uma rã mergulhando no tanque, ou um caracol escalando o monte Fuji, ou a chuva pingando na roseira? Haikai <strong>[10]</strong> é o instante reconquistado (Octavio Paz): expressa o real, a essência das coisas, a partir da intuição e com simplicidade (O. Svanascini). Eis a pedra no caminho da minha resposta: um desadaptado é capaz de escrever bons haikais? Talvez. Porque a desadaptação pensada a partir do poeta Oscar Restrepo se refere sobretudo às relações de produção, e não necessariamente ao tempo e ao espaço. Para captar um instante singular, ou mesmo para fabricá-lo – um caracol escalando o monte Fuji, por exemplo – é preciso um grau de imersão no presente que é negado pelo produtivismo bocó das relações de produção capitalistas. Parar, observar, refletir e recriar instantes é perda de tempo e de dinheiro na cartilha do capital. Se é assim, a imersão no instante pressuposta pelo haikai é, também, portadora de certo grau de desadaptação. É um fato, mas não é uma solução. O haikai parece mais próximo, se não do “buenos días, plantita” em si, do registrar em poucos versos o instante mágico em que a garotinha sorri e cumprimenta as plantas, como o que presenciou Eduardo Galeano. Se é assim, o haikai está um pouco distante do “delírio do verbo” (Manoel de Barros), do “farçar” (Carlos Dummond de Andrade) e da desadaptação. Mas não muito. Vou me explicar.</p>
<p style="text-align: justify;">A graciosa película <em>Um poeta</em>, do colombiano Simón Mesa Soto, ficou passando na minha cabeça e me colocou a pergunta “o que é um poeta?” Influenciado pelas confusões em que se meteu o personagem/poeta/fracassado Oscar Restrepo, intuí que os poetas são, sobretudo, desadaptados. Daí fui folhear meus livros de poesia para confirmar minimamente a intuição e escrever este texto, porque não atingi a plenitude do poeta Manoel de Barros e não gostaria de “ser elogiado de imbecil” <strong>[11]</strong>, pelo quando escrevo sobre poesia. No parágrafo anterior registrei que o haikai é uma pedra no caminho da minha resposta, isso porque os poemas curtos surgidos no Japão há mais de três séculos se aproximam do zen budismo e pressupõe um elevado grau de integração no tempo e no espaço, o que se chocaria com a ideia de que o poeta é um desadaptado. Mas havia uma pulga atrás da minha orelha, ou, para ser mais preciso, um caracol <strong>[12]</strong>, o caracol de Kobayashi Issa (1763 – 1827):</p>
<p style="text-align: center;"><em>Caracol,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>docemente, docemente,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>escala o Fuji!</em></p>
<p>Ora, ora, ora. Um caracol escalando docemente o monte Fuji tem muito mais a ver com um instante inventado (Manoel de Barros) do que com um instante reconquistado (Octavio Paz), tem mais ver com o “farçar” (Drummond e Guimarães Rosa) do que com a expressão simples do real (O. Svanascini). Um caracol escalando docemente o monte Fuji não está muito distante dos delírios do verbo. Caracol é um substantivo comum, nomeia um molusco e, à primeira vista, não combina com o advérbio docemente, nem com escaladas. Essas combinações são coisas de poeta. Só um artista é capaz de “farçar” um caracol alpinista, escalando o monte Fuji.</p>
<p style="text-align: justify;">O caracol de Kobayashi Issa me fez lembrar do <a href="https://literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&amp;id=141939" target="_blank" rel="noopener"><em>Prefácio Interessantíssimo,</em> de Mário de Andrade</a>: “Belo da arte: arbitrário, convencional, transitório — questão de moda. Belo da natureza: imutável, objetivo, natural — tem a eternidade que a natureza tiver. Arte não consegue reproduzir natureza, nem este é seu Fim. Todos os grandes artistas, ora consciente (Rafael das Madonas, Rodin do Balzac, Beethoven da Pastoral, Machado de Assis do Brás Cubas), ora inconscientemente (a grande maioria) foram deformadores da natureza. Donde infiro que o belo artístico será tanto mais artístico, tanto mais subjetivo quanto mais se afastar do belo natural.” É isso. Está explicada a doçura estética e subjetiva do caracol alpinista de Issa. Os grandes artistas deformam a natureza, inclusive os poetas que escrevem haikais.</p>
<p>É, provavelmente, com Matsuo Bashô (1644 – 1694) que o haikai mais se aproximou do instante reconquistado: sem deformação da natureza, sem invenções, sem “farçar o que não ousamos compreender”, sem os delírios do verbo, sem o ego do artista (no sentido zen budista). Um exemplo <strong>[13]</strong>:</p>
<p style="text-align: center;"><em>Um doce ruído</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>interrompe meu sonho:</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>gotas de chuva sobre a folhagem.</em></p>
<p>Eis um instante soberbo registrado por Bashô: que conforta, alegra e nos transporta para uma noite chuvosa no Japão do século XVII. Quase não se nota a presença do poeta e o seu ego, apesar da doçura do ruído. Mas mesmo no mestre Bashô é possível encontrar certa deformação da natureza, no sentido do <em>Prefácio Interessantíssimo. </em>Um exemplo <strong>[14]</strong>:</p>
<p style="text-align: center;"><em>Sobre o mar, a tarde:</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>voz de pato vem</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>vagamente branca&#8230; </em></p>
<p style="text-align: justify;">A voz de pato voa com o vento, vem vagamente, na aliteração do poeta. É branca. O haikai de Bashô pode não ser exatamente um delírio do verbo, mas carrega certa carga de desvario do substantivo feminino voz, que não tem cor. Como escrevi em outro texto, <a href="https://passapalavra.info/2022/03/142770/" target="_blank" rel="noopener">o haikai é uma poética da sugestão</a>. Não sei se eu que sou excessivamente desadaptado, mas a “voz vagamente branca” me dá a impressão de que o pato está se afogando. Se é assim, entramos no reino da poesia e da deformação do real, porque patos não se afogam. A opção pelo substantivo feminino voz, em vez do verbo grasnar ou da onomatopeia quá quá, faz sentido. Além de formar a aliteração, confere uma saborosa carga de ambiguidade ao poema. Há um haikai de Issa <strong>[15]</strong> ambíguo como o de Bashô, só que engraçado:</p>
<p style="text-align: center;"><em>Até ao buraco</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>do nariz do Grande Buda</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>chega uma andorinha.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A graça do haikai de Issa está na sugestão, no incômodo causado pela pequena andorinha ao Grande Buda, que tem buracos, humanamente. Imagino o Grande Buda se coçando e espirrando. Mais que isso, se a pequena andorinha é capaz de chegar “até” ao buraco do nariz do Grande Buda, significa que os outros buracos dele podem ser acessados. Imagino o Grande Buda submetido à medicina do tempo presente, tendo os buracos visitados por câmeras e outros instrumentos, fazendo endoscopias e colonoscopias. Que sugestão iconoclasta do poeta japonês! Issa brinca com o sagrado. Um monge budista não iria tão longe. Fazer graça com o Grande Buda é coisa de poeta, esses desadaptados.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Carlos Drummond de Andrade. <em>Nova reunião: 23 livros de poesia</em> – volume 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p. 60.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ibidem, p. 121.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Manoel de Barros. <em>Poesia completa</em>. São Paulo: Leya, 2010. p. 301.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Ibidem, p. 327.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5] </strong>Ibidem, p. 260.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6] </strong>Ibidem, p. 486.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Ibidem, p. 404</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8] </strong>Carlos Drummond de Andrade. <em>Nova reunião: 23 livros de poesia</em> – volume 3. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p. 421.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9] </strong>Carlos Drummond de Andrade. <em>Nova reunião: 23 livros de poesia</em> – volume 2. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p. 82.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10] </strong><em>O livro dos HAI-KAIS</em>. 2. ed. Massao Ohno Editor: São Paulo, 1987.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11] </strong>Manoel de Barros, op. cit., p. 403.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12] </strong>O livro dos HAI-KAIS, op. cit., p. 105.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13] </strong>O livro dos HAI-KAIS, op. cit., p. 55.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14] </strong>O livro dos HAI-KAIS, op. cit., p. 39.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15] </strong>O livro dos HAI-KAIS, op. cit., p. 116</p>
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		<title>Sharenting: um perigo da tecnologia em família</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2026 13:48:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[É importante refletir sobre a real necessidade de cada publicação: ela beneficia a criança ou atende principalmente ao desejo de validação social dos adultos?  Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana</h3>
<div class="level2" style="text-align: justify;">
<p>É muito bom reunir família e amigos para criar e relembrar momentos, conversar, ver vídeos e fotos, porém com o avanço das redes sociais e das tecnologias digitais, a forma como as famílias registram e compartilham momentos da vida cotidiana mudou bastante. Fotografias que antes ficavam restritas a álbuns físicos agora circulam instantaneamente por plataformas digitais. Nesse contexto surge o fenômeno conhecido como <em>sharenting</em> — termo derivado da junção de <em>sharing</em> (compartilhar) e <em>parenting</em> (parentalidade) — que descreve o hábito de publicar conteúdos envolvendo crianças e adolescentes na internet, geralmente por seus próprios responsáveis.</p>
<p>À primeira vista, o <em>sharenting</em> parece uma prática inofensiva. Pais e mães compartilham conquistas escolares, aniversários, primeiros passos ou situações engraçadas como forma de celebrar o crescimento dos filhos e manter vínculos sociais com amigos e familiares. Para muitos, essas publicações representam uma extensão natural do afeto, funcionando como um diário digital da infância. Além disso, as redes oferecem facilidades a essa troca de experiências e sensação de pertencimento, pois são projetadas e planejadas para reter os usuários em suas diversas formas de relações sociais.</p>
<p>No entanto, apesar de suas motivações positivas, o <em>sharenting</em> levanta questões éticas, jurídicas e psicológicas relevantes. Um dos principais pontos de debate diz respeito à privacidade infantil. Crianças pequenas não possuem maturidade para compreender as implicações de longo prazo da exposição digital, tampouco podem consentir de forma informada sobre a divulgação de sua imagem e de dados pessoais. Assim, decisões tomadas hoje pelos adultos podem afetar diretamente a vida dessas crianças no futuro.</p>
<p>A chamada “pegada digital” começa a ser construída muito antes de o indivíduo ter consciência dela. Fotos, vídeos e relatos permanecem armazenados em servidores, que podem ser replicados por terceiros e, em muitos casos, tornam-se praticamente impossíveis de remover completamente da Internet. Esse histórico digital pode influenciar relações sociais, oportunidades profissionais e até a autoestima na vida adulta. Situações embaraçosas, problemas de saúde ou dificuldades escolares, quando expostos publicamente, podem gerar constrangimentos duradouros.</p>
<p>Outro aspecto preocupante é o uso indevido dessas informações. Imagens de crianças podem ser apropriadas por desconhecidos, utilizadas fora de contexto ou até mesmo exploradas em ambientes inadequados. Além disso, a publicação frequente de rotinas, locais visitados e detalhes pessoais pode facilitar práticas como engenharia social, golpes ou assédio. Em um cenário de crescente sofisticação tecnológica, inclusive com o avanço de <em>deepfakes</em> e clonagem de voz, qualquer material compartilhado amplia as probabilidades de risco; vide as ferramentas de Inteligência Artificial que estão trocando as roupas de mulheres por peças íntimas e até nus sem autorização.</p>
<p>Do ponto de vista psicológico, o <em>sharenting</em> também pode impactar o desenvolvimento da identidade infantil. À medida que crescem, crianças e adolescentes podem sentir que sua história foi construída publicamente sem sua participação. Isso pode gerar conflitos familiares, sensação de perda de controle sobre da própria imagem e dificuldades na construção da autonomia. Para alguns jovens, descobrir que momentos íntimos foram amplamente divulgados pode provocar sentimentos de vergonha ou traição.</p>
<p>No Brasil, o debate ganha contornos específicos à luz do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Ambas reconhecem a criança como sujeito de direitos, incluindo o direito à privacidade e à proteção de dados pessoais. Embora ainda haja lacunas na aplicação prática dessas normas ao <em>sharenting</em> cotidiano, cresce o entendimento de que responsáveis devem agir sempre considerando o melhor interesse da criança, mesmo quando se trata de postagens aparentemente banais.</p>
<p>Isso não significa que toda forma de compartilhamento seja prejudicial ou deva ser proibida. O ponto central está no equilíbrio e na responsabilidade. Algumas práticas podem ajudar a reduzir riscos, como evitar a divulgação de informações sensíveis, limitar o alcance das publicações, não expor situações constrangedoras e, sempre que possível, envolver crianças maiores na decisão sobre o que será postado. Também é importante refletir sobre a real necessidade de cada publicação: ela beneficia a criança ou atende principalmente ao desejo de validação social dos adultos?</p>
<p>Educar para o uso consciente das redes é parte essencial desse processo. Pais e responsáveis são modelos de comportamento digital, e suas atitudes influenciam diretamente como crianças irão se relacionar com a tecnologia no futuro.</p>
<p>Em resumo, o <em>sharenting</em> é um fenômeno complexo, situado entre o afeto familiar e os desafios da era digital. Embora seja motivado, em grande parte, por amor e orgulho, ele exige reflexão sobre limites, consentimento e consequências de longo prazo. Diante desse cenário algo radical precisa ser proposto:</p>
<ul>
<li class="li">encerre todos os compartilhamentos colocando todos os conteúdos no modo privado de cada rede social;</li>
<li class="li">mostre fotos e vídeos nos encontros presenciais através de celular, <em>tablet</em> ou TVs (alguns modelos <em>smart</em> aceitam compartilhamento de tela do celular);</li>
<li class="li">se decidirem conscientemente fazer um grupo com a família para compartilhar momentos da criança, faça em aplicativos com criptografia ponta-a-ponta e configure a opção de conteúdo efêmero que apague automaticamente em até uma semana &#8211; não use redes sociais.</li>
</ul>
<p>As plataformas digitais sempre trarão ferramentas que facilitem seus usos para capturar nosso cotidiano e encher suas bases de dados com informações que possam ser analisadas e vendidas, exigindo de nós um certo comportamento anti-modernidade usando aparelhos sofisticados como um álbum em papel em encontros presenciais. O lado bom é que teremos que fazer mais esforço em nos encontrarmos fora do meio digital e trocar o compartilhamento de memes por risadas presenciais.</p>
<p>Boas reuniões a todos!</p>
</div>
<div class="footnotes">
<div class="fn" style="text-align: justify;"><strong><em>Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</em></strong></div>
</div>
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		<title>Meia Lua</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Jan 2026 12:23:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[Quem vinha morar na praça central da cidade costumava passar horas observando as pessoas que saíam do metrô. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: right;"><em>Refugiamo-nos no amor,<br />
</em><em>este célebre sentimento,<br />
</em><em>e o amor faltou: chovia,<br />
</em><em>ventava, fazia frio em São Paulo.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Fazia frio em São Paulo…<br />
</em><em>Nevava.<br />
</em><em>O medo, com sua capa,<br />
</em><em>nos dissimula e nos berça</em></p>
<p style="text-align: right;">(Carlos Drummond de Andrade &#8211; O medo)</p>
<p style="text-align: justify;">Morava há meses na praça central de São Paulo: com as garotas de programa, os cães, os pombos, a base da polícia, as palmeiras imperiais, as lojas, os pastores, os traficantes, os vendedores ambulantes, o chafariz, a estação do metrô, a catedral e o marco zero da cidade. Conhecia alguns bairros de São Paulo. Morou em outras praças e ruas. Mas preferia a Sé. Não pelo local em si, nem pelo fluxo de pessoas, nem pelas possibilidades comerciais. Preferia a Sé pelos companheiros que encontrou por lá. Nunca tinha experimentado tanta camaradagem. Como era novo na região e às vezes passava noites observando o céu, ganhou o apelido: Meia Lua.</p>
<p style="text-align: justify;">A notícia se espalhou rápido: uma doença estava matando as pessoas. Covid-19. Coronavírus. Pandemia. Palavras que assustavam. Era preciso redobrar os cuidados higiênicos: lavar as mãos, não tocar o rosto. Quem tivesse família devia retornar para casa. Diziam até que a prefeitura criaria abrigos para a população de rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Meia Lua notou uma significativa diminuição do movimento no semáforo em que vendia balas. Os poucos motoristas que paravam se protegiam atrás dos vidros. Decidiu não incomodá-los. Interrompeu as vendas.</p>
<p style="text-align: justify;">O comércio fechou. As esmolas acabaram. Os espaços culturais cancelaram as atividades. As garotas de programa deixaram de atender. As pessoas evitavam contatos físicos. A polícia parou de expulsar os moradores de rua da praça nas primeiras horas da manhã. A catedral interrompeu as missas, apenas o sino continuou ecoando. Mas voluntários mantiveram a distribuição de alimentos aos necessitados, e o porteiro de um estacionamento morava no imóvel e deixava os ex-companheiros usarem o banheiro, normalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando viu pessoas circulando mascaradas, Meia Lua achou que tivesse a ver com o frio fora de época, e comentou com os companheiros, que se divertiram. “Ê Meia Lua! É a doença!” &#8211; disse o Noca, rindo. Tentou se explicar, depois quis desconversar, mas não teve jeito, virou motivo de chacota. Os companheiros se divertiam sempre que passava alguém usando máscara. Diziam “que frio” e riam. No início, Meia Lua se irritava, mas acostumou com os gracejos, se divertia com a alegria dos companheiros, ria com eles.</p>
<p style="text-align: justify;">Há tempos não recebia notícias dos familiares. Desejava que estivessem bem. Achava estranho. De um dia para o outro, quase sem perceber, um pouco por acaso e um pouco por descuido, perdeu o contato com a mãe e os irmãos. Dormia na praça central da maior cidade do país e não sabia onde encontrar os familiares. Teria algum deles voltado para o sertão? Quando a saudade apertava, Meia Lua se posicionava próximo à saída principal do metrô, e observava os transeuntes. Um conhecido talvez passasse por ali. Ele pediria notícias, apresentaria os companheiros, contaria por onde andou e o que fez. Nunca mais perderia o contato com os familiares. Meia Lua espiava as pessoas com olhos aflitos. Comovia os companheiros. Todos sabiam o que ele sentia. Também eles haviam passado pela mesma fase. Quem vinha morar na praça central da cidade costumava passar horas observando as pessoas que saíam do metrô. A cena era ainda mais triste no tempo da pandemia. As poucas pessoas que passavam por ali usavam máscaras, como se não quisessem ser reconhecidas. Meia Lua mirava o vazio, como um náufrago. “Ê Meia Lua! Vem pra cá!” &#8211; chamavam os companheiros quando a cena se tornava excessivamente melancólica.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o avanço da pandemia, quem pôde deixou a praça. Piauí conseguiu dinheiro com um amigo e foi para o interior. Os mais velhos convenceram o Babão a procurar os tios. Mas alguns não tinham para onde ir, nem queriam se afastar dos companheiros.</p>
<p style="text-align: justify;">Era outono. O vírus percorria a cidade. O trânsito quase parou. Ouviam-se apenas as sirenes das ambulâncias. Os finais de tarde eram vermelhos. As noites eram geladas. Meia Lua observava as estrelas. Nunca tinha visto o céu de São Paulo tão estrelado. Parecia que estava num pequeno povoado do interior. Ele queria falar sobre as estrelas, queria mostrá-las aos companheiros, mas não interrompia o sono deles. Não sabia ao certo o que dizer e não tinha certeza: via estrelas ou sonhava com o sertão?</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Deepfake e cuidados com golpes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Jan 2026 12:36:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[Áudio e vídeo deixaram de ser prova de identidade, identidade hoje exige contexto mais verificação cruzada. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana*<a id="fnt__1" class="fn_top" href="https://wiki.passapalavra.info/doku.php?id=discussion:artigos_em_reserva#fn__1"></a></h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">É impressionante a capacidade das ferramentas de Inteligência Artificial produzirem vídeos falsos utilizando nossas fotos e áudios. Felizmente para nós, algumas pessoas têm produzido exemplos nas redes sociais de como é possível criar situações irreais utilizando imagens de outras pessoas, inclusive colocando voz artificial nessas produções. Isso acontece porque os computadores para produzir esses vídeos estão cada vez mais acessíveis, assim como as ferramentas mais fáceis. Não é absurdo pensar que no futuro próximo teremos celulares capazes de fazerem esses vídeos falsos. Como toda tecnologia essa possibilidade pode ser usada para o bem ou para o mal, pode ser usada para dar acesso à produção de vídeos educativos ou comerciais, porém também pode ser usada para golpes.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa tecnologia que permite criar vídeos muito realistas a partir de outras imagens é conhecido como <em>deepfake</em>, que é a junção de <em>deep</em> <em>learning</em> com <em>fake</em>, ou seja, de aprendizado profundo com falso. Basicamente, a partir de nossas imagens e áudios, algoritmos computacionais “aprendem” os traços de nossos rostos e o timbre de nossas vozes e depois do “aprendizado” é possível reproduzir situações irreais a partir dos dados coletados. O conteúdo falso pode ser vídeo ou só áudio, e para tentarmos nos proteger minimamente disso, algumas ações podem dificultar que tenham dados suficientes para produzir conteúdo falso convincente pela clonagem de voz ou imagem:</p>
<p style="text-align: justify;">1. Prevenção pessoal</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li class="li">desconfie de urgência emocional: pedidos “urgentes”, ameaças ou apelos afetivos são comuns em golpes;</li>
<li class="li">use palavra-código familiar: combine uma palavra ou frase secreta para confirmar identidade em situações críticas;</li>
<li class="li">nunca confirme dados sensíveis por áudio (CPF, senhas, códigos de verificação) quando receber o contato (quando nós fazemos o contato pode ser necessário para a outra parte confirmar nossa identidade);</li>
<li class="li">evite publicar áudios longos da sua voz em redes sociais (lives, podcasts públicos sem controle, WhatsApp aberto);</li>
<li class="li">em videos, verifique sincronia labial e microexpressões (piscar de olhos, boca imprecisa, olhar “travado”);</li>
<li class="li">observe iluminação e sombras: <em>deepfakes</em> ainda erram em reflexos, dentes e bordas do rosto;</li>
<li class="li">desconfie de baixa resolução “conveniente”: vídeo ruim pode ser proposital para esconder artefatos.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">2. Boas práticas de verificação humanas:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>confirmação por segundo canal, ex.: recebeu um vídeo, ligue por telefone conhecido ou envie mensagem por outro canal;</li>
<li>quebre o roteiro do golpista, faça perguntas inesperadas;</li>
<li>crie atraso intencional: <em>deepfake</em> funciona melhor sob pressão, então ganhar tempo reduz risco, por exemplo, indo pegar um copo de água.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">3. Prevenção organizacional:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>proíba decisões críticas baseadas apenas em áudio ou vídeo (transferências, autorizações, mudanças contratuais);</li>
<li>exija autenticação multifator humana, inclusive encontro presencial dependendo da possibilidade/necessidade;</li>
<li>atenção com urgência artificial, autoridade falsa, quebra de padrão de comportamento.</li>
<li>exija assinaturas e autenticação forte, como ICP-Brasil na assinatura digital de documentos e vídeos.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">4. Exposição digital consciente:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>reduza informações biométricas públicas: menos vídeos e áudios longos, quanto mais dados tiverem melhor fica o <em>deepfake</em>;</li>
<li>restrinja perfis privados para familiares;</li>
<li>evite IA aberta para “clonar a si mesmo” por brincadeira (muitas retêm amostras);</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">5. Resposta a incidentes, se suspeitar de <em>deepfake</em>:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>não reaja imediatamente;</li>
<li>preserve evidências (arquivo original, <em>print</em> de tela, etc.);</li>
<li>confirme por outro canal;</li>
<li>comunique oficialmente (empresa, banco, administração);</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">6. Regra de ouro:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>áudio e vídeo deixaram de ser prova de identidade, identidade hoje exige contexto mais verificação cruzada.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente, a tecnologia é muito sofisticada e leva a uma lista grande de recomendações, mas com um pouco de prática passa a ficar mais fácil, e nesse caso é muito interessante treinar os olhos e ouvidos indo nas redes sociais buscando os exemplos de pessoas que fazem <em>deepfake</em> para conscientizar sobre os avanços de ferramentas de Inteligência Artificial, que fazem esse tipo de conteúdo. Com o tempo teremos IAs que vão criar conteúdo em tempo real, acessível e fácil de usar, como já vimos na sétima arte.</p>
<p style="text-align: justify;">Para este mês sugiro que pesquisem os termos “deepfake” e “IA”, vejam vídeos de exemplo e mostre aos familiares e amigos; podem até se divertir com isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Boa pesquisa/diversão!</p>
<p style="text-align: justify;"><em>* Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</em></p>
</div>
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