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	<title>Colunas &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Carlos Liscano e a escrita</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jun 2026 17:24:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[Antes de criar uma obra, é preciso criar o personagem escritor. Foi esse movimento que o Carlos Liscano preso político realizou no cárcere da ditadura civil-militar uruguaia, quando criou o personagem Carlos Liscano escritor. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Carlos Liscano (1949 &#8211; 2023) foi um escritor uruguaio. Escreveu poemas, ensaios, contos, traduções, manuais de espanhol (quando morou na Suécia), matérias jornalísticas (quando regressou a Montevidéu), peças de teatro e romances. Foi também artista plástico e militante político. Integrou o Movimento de Libertação Nacional &#8211; Tupamaros (MLN-T). Preso político, ficou encarcerado por treze anos (1972 &#8211; 1985). No cárcere se definiu como escritor e iniciou sua produção literária. A escrita de Liscano é inseparável da vida do autor, “uma literatura de situações excepcionais”, para usar uma definição de Ernesto Sabato <strong>[1]</strong>. Na banca de um livreiro de rua encontrei <em>El escritor y el otro</em>, de Carlos Liscano <strong>[2]</strong>. À primeira vista, foi a semelhança do título do livro de Liscano com o de Sabato, citado anteriormente, que me chamou a atenção. Comprei, li e reli algumas vezes <em>El escritor y el otro</em>. Sacada de Liscano: antes de criar uma obra, é preciso criar o personagem escritor, no caso dele, o Carlos Liscano que assina os livros. Foi esse movimento que o Carlos Liscano preso político realizou no cárcere da ditadura civil-militar uruguaia, quando criou o personagem Carlos Liscano escritor. Daí a separação do escritor em relação ao outro (<em>el escritor y el otro</em>). Este último é o indivíduo real, no caso dele, o Carlos Liscano por trás do escritor. À época preso político, depois faxineiro, professor, tradutor e, mais recentemente, diretor da Biblioteca Nacional do Uruguai. O personagem Carlos Liscano escritor ter sido forjado pelo preso político Carlos Liscano na cadeia amplia a complexidade do processo. Foi publicado no Brasil um livro <strong>[3]</strong> reunindo ensaios, em português e espanhol, sobre <em>El escritor y el otro</em>, mas o texto completo do escritor uruguaio não está disponível em português. Por considerar que pode interessar aos leitores do Passa Palavra devido à força e ao humanismo da reflexão, digitei trechos do texto original em espanhol, traduzi o material utilizando o Google, revisei a tradução cotejando-a com o original e com sentido geral do livro <em>El escritor y el outro</em>. Compartilho, abaixo, em itálico. Preparei a postagem em duas partes, na primeira, este mês, reflexões de Liscano mais diretamente relacionadas à escrita, para o próximo mês, trechos relacionados à vida e à luta política. A numeração indicada é a mesma presente no livro de Liscano.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>40</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A vida é o modo que cada um encontra para atravessar a solidão. Mas não é a mesma coisa atravessar a solidão sozinho e estar perdido nela. O perdido procura os seus. Sabe que, se conseguir voltar ao grupo, estará salvo. Talvez isso não seja verdade, mas ainda assim o alivia pensar que a qualquer momento aparecerá alguém para lhe fazer companhia.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O outro sabe o tempo todo onde está, sem alívio.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O escritor é uma invenção de seu criado. Como a todo criado, ninguém lhe reconhece importância. O criado, que conhece como ninguém a fraqueza e a miséria do seu amo, finge não ter nada a ver com ele; e embora saiba que muito poucos o conseguem, sonha em um dia dissolver-se em seu personagem, para voltar a ser apenas um.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O romance não avança. Não é que não vá a lugar nenhum, é que simplesmente não se move. Quase todos os dias releio o que escrevi e não consigo fazê-lo crescer. Mas, enquanto isso, vir a estes papéis é sobreviver. Vivo o dia somente para chegar a estes papéis e empurrá-los um pouco, um pouquinho. Isso me salva. Salva a noite, outra noite.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>49</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Fazia oito anos que eu estava na prisão, lugar que sempre é para toda a vida. Tinha começado a escrever e não havia nada que justificasse aquela paixão, exceto que me ajudava a viver. E como somos humanos, ainda que nossa criação seja mentira, serve como verdade, se nos ajuda a viver.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Com os anos, percebi que essa espécie de modéstia que acabo de expressar nunca existiu. Eu me pus a escrever, eu comecei a escrever na prisão porque devia cumprir minha vida de escritor, contra o que fosse.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Foi o tempo da inocência literária, quando escrever significava avançar, e não havia perguntas sobre por que e para que era necessário avançar. Era a pré-história, o ser ainda não diferenciado, sem distância entre o indivíduo e o escritor. O escritor que ainda não havia sido inventado, mas já estava dominado pela fé de que tudo consistia em realizar a obra predestinada. Inocente e iludido, escolhia o caminho e avançava sem precauções, sem ver que caminhava em direção à dúvida, à angústia, à dupla vida perpétua. Porque em literatura nunca se avança. Aprendem-se técnicas, armadilhas, mas sempre se está no mesmo ponto, cavando o mesmo buraco, procurando o que qualquer um sabe que não se encontrará ali, mas convencido de que não há outra coisa que valha a pena senão continuar cavando. Porque o que se quer é deixar testemunho para além da morte. Porque esse trabalho obstinado e condenado à derrota já foi feito por muitos e nada conseguiram. Mas sabendo, ao mesmo tempo, que o trabalho inútil de escrever é a única coisa que pode dar sentido à vida. Porque no futuro haverá uma noite em que, da massa escura do céu, seremos capazes de lançar uma linha invisível em direção à Terra, em direção a esta mesa, e sentiremos que tudo junto acaba por ter significado. Pelo menos uma noite, uma noite única, a vida encontrará seu significado. Para isso se vive, para isso se escreve. Para chegar a esta noite, sozinho, num nono andar, não feliz, mas por algumas horas em paz.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>51</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A escrita ensina a falar consigo mesmo. Não tenho certeza de que ensine a falar com os demais.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O livro não existe antes de ser escrito. Porque materialmente não existe. Porque sequer existe na minha cabeça. Porque é a experiência de escrever o livro que faz com que eu seja eu. Porque sou um ao começar e outro ao terminar o livro. Porque quando escrevo vou avançando sobre o que não sei. Porque parto do não saber e, se tiver sorte, chego a saber algo novo. Isso é o que mais me seduz.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ao mesmo tempo, sei que não se escapa da prisão da linguagem. Não posso saber além do que expressam as palavras que conheço e que são o meu mundo, mas delas é possível extrair formas praticamente infinitas. É fascinante não saber o que sairá antes de concluir o livro. Mas isso não é tudo. Em cada imersão a gente volta a se dissolver, deixa de ser. Porque na vida a gente domina a linguagem para os assuntos práticos, para a reflexão do mais imediato. Mas para escrever é preciso desarmar todas as posições, afundar, deixar-se afundar, ouvir o rumor das palavras. Para isso é preciso deixar de ser, apenas estar. Creio que algumas vezes consegui voltar com algo dessa viagem. O resto tem sido contemplação do ponto que tudo une, que é a linguagem.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>52</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O fundamental do trabalho para me tornar escritor, creio hoje, abril de 2000, consistiu na tarefa negativa de renunciar. Renunciei a ser outras coisas, todas as que não fossem ser escritor.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Não creio que isso seja uma necessidade. Entendo que talvez seja possível ser escritor sem renunciar a nada. Mas para mim tem sido assim. Não tenho outra vida, não sei me imaginar de outro modo. Embora não o preveja, minha cabeça vê o mundo em função da letra escrita. Escrever é um modo de olhar. Isso não me faz feliz, nem melhor, nem me deixa contente. É como é, não tenho outra vida.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O que mais me surpreende hoje, ao lembrar os primeiros escritos da prisão, é saber que cinco, dez, vinte pessoas reconhecem em mim um escritor chamado Liscano. Aquele delírio próprio de preso virou realidade. Mas ninguém vê em mim o outro, aquele que fui, que continua sendo.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ainda, vinte anos depois, sinto a inclinação absurda por esta atividade solitária que é escrever. Nunca duvidei de que ia escrever uma obra que justificasse o considerar-me a mim mesmo escritor. Não consigo expressar com palavras, mas tenho uma ideia muito definida sobre a escrita, a minha obra e a obra que gostaria de escrever. Tenho também uma ideia muito clara de que deixei pelo caminho parte daquilo a que um homem normalmente aspira: uma família, filhos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>É difícil explicar, mas é mais ou menos isso. Quando me dou conta de que comecei um livro, é como se me ocorresse uma explosão na cabeça. De repente descubro um universo novo, começo a entender outra vez a literatura, o ofício de escrever.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Escrever é uma experiência com a linguagem, quer dizer, consigo mesmo. É uma experiência das minhas palavras comigo, que as escrevo. Não posso saber que palavra terminará esta frase antes de escrevê-la. Escrevo-a, está dita, e agora? Não mudo nada? Não, não mudo nada do mundo; mas sim, mudou minha relação com a palavra, a consciência de falar e de escrever. A consciência da escrita, ou seja, da linguagem, impede ser aquele que se seria se não fizesse essa reflexão sobre o que constitui o ser humano: a palavra.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Escrevo para deixar de ser o que sou. Porque se escrevo me transformo. Porque saio em campo aberto sem saber para onde vou. Porque se escreve para chegar a um lugar que não se previu. Quer dizer, não chegar nunca, estar sempre mais aquém, estar em outra parte. Mas sempre tentando, a viagem com a palavra. Porque se não falo, ainda que seja sozinho, ainda que seja para dentro, não existo. Se falo, sou, mas como não chego a dizer com exatidão o que penso, então o fato de falar me transforma em outro, mas nunca naquele que quero. A busca continua. Porque a escrita põe em questão aquele que escreve, dissolve-o por um instante na infinitude da linguagem, não o deixa voltar a ser o que era. Porque o escritor luta contra a morte, e ao escrever recebe a constância da morte. Porque a morte é a não palavra.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Em anos de reflexão primitiva, solitária e simples, na prisão, acreditei que se trata mais de criar uma literatura do que de escrever uma obra. Chegar a esse ponto da reflexão é difícil porque é absurdo. Como um indivíduo isolado formula isso? Como se pode ser capaz de tanta soberba?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Chegar ao ponto de dizer a si mesmo que se será autor de uma literatura é uma espécie de loucura. Essa vaidade poderia formular-se assim: é preciso escrever tudo, absolutamente tudo, e eu devo fazê-lo. É como se todas as situações, todos os objetos pedissem para ser escritos, apesar de se saber que tudo já foi escrito, e sem dúvida melhor, pelos mestres que admiramos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A gente se senta e observa esse universo que explode na cabeça e fica paralisado. Chega à conclusão de que é preciso abandonar tudo e dedicar-se a essa tarefa: escrever o Universo, a única coisa que tem sentido.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Mas depois se volta ao prático: é preciso comer, tomar banho, se barbear, cumprir com o trabalho e toda a servidão. Assim, da euforia à sensação de fracasso, depois de muitas horas solitárias criando o escritor, de muito tempo se permitindo brincar, mentindo em solidão: chega um dia em que, sem saber como, o personagem escritor está criado. É o momento em que a gente percebe que há quem reconheça a voz que conta, e se reconhece nela. Então já o outro, aquele que queria ser escritor, não existe. O personagem domina tudo. Não há diálogo possível entre o inventado e o outro.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Porque se trata é de criar o escritor e não a obra. Criado o escritor, a obra se fará sozinha. Porque o escritor se cria escrevendo, mas muito mais refletindo sobre o trabalho de escrever, sobre a vida que se escolhe. Porque ser escritor é escolher uma vida, um modo de estar no mundo, de ver as coisas. Porque se o indivíduo não escreve, não será escritor. Mas não basta escrever. Em algum momento de sua atividade, a reflexão se imporá: o quê, por quê, para quê?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ernesto Sabato. <em>O escritor e seus fantasmas.</em> Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Carlos Liscano. <em>El escritor y el otro.</em> Montevideo: Editorial Planeta, 2016.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Liliana Reales e Roberto Ferro (organizadores). <em>Carlos Liscano: ficções do eu e do outro</em>. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2013.</p>
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		<title>Ferramentas de controle parental (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 May 2026 16:30:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Marcelo Tavares de Santana Continuando nosso desafio de controle parental em dispositivos digitais, neste artigo trataremos desse tipo de recurso em ambientes Linux, portanto, um sistema operacional para computadores de mesa, portáteis e afins. O ecossistema Linux é muito diverso em distribuições, como Ubuntu e Fedora, e também em ambientes gráficos de trabalho, como [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Marcelo Tavares de Santana</h3>
<p style="text-align: justify;">Continuando nosso desafio de controle parental em dispositivos digitais, neste artigo trataremos desse tipo de recurso em ambientes Linux, portanto, um sistema operacional para computadores de mesa, portáteis e afins. O ecossistema Linux é muito diverso em distribuições, como Ubuntu e Fedora, e também em ambientes gráficos de trabalho, como GNOME, KDE, XFCE, etc. Apesar da grande diversidade, há esforços em padronizar funcionalidades desses ambientes para facilitar, inclusive, compatibilidade entre eles e a usabilidade pelo usuário. No entanto, não foi encontrado um padrão comum de controle parental no universo Linux que funcionasse em qualquer ambiente e distribuição, mas há uma solução simples para isso que é instalar o ambiente gráfico com o controle parental que mais gostar. Na prática, significa que nossos filhos podem usar um ambiente gráfico diferente do nosso, por exemplo, podemos usar o ambiente KDE e para eles usamos o GNOME, pois a grande maioria das distribuições Linux permitem a instalação de mais de um ambiente gráfico. Portanto, se você uma Linux Mint com o ambiente Cinnamon, pode instalar outro ambiente para seu filho para o usuário dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse primeiro momento de controle parental no Linux, usaremos o ambiente GNOME e suas ferramentas como proposta, pois, apesar de ter não recursos comparáveis ao de soluções mais maduras (que recebem mais investimentos), é de simples instalação e utilização. Dessa forma, o uso de computador com Linux precisará também de diálogo e acordos de uso entre crianças e tutores, da mesma forma que precisa ser com qualquer dispositivo. Alguns podem pensar que seria melhor manter as crianças só usando<em> tablet</em> ou<em> smartphone</em>, mas conheço um caso de criança que foi alfabetizada com o Linux, usando jogos específicos para isso, e também há programas educacionais nas áreas de matemática, geografia, química e outros, que podem ser mais interessantes que os encontrados nesses equipamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de tudo, seja qual for a distribuição Linux que alguém usa, será preciso estar numa versão atualizada e deverá procurar como instalar o ambiente GNOME Shell com o Controle Parental no teu computador. Em seguida, deverá criar um usuário padrão para a criança, portanto sem permissões de administração. Por exemplo, se for no Debian, via terminal como usuário <em>root</em>, o comando abaixo instala os aplicativos necessários:</p>
<p style="text-align: justify;"># apt install gnome-session gnome-software malcontent-gui</p>
<p style="text-align: justify;">O &#8216;gnome-session&#8217; é para instalar o ambiente gráfico de trabalho, o &#8216;gnome-software&#8217; é um instalador de aplicativos para o GNOME, e o &#8216;malcontent-gui&#8217; é a ferramenta de controle parental. O instalador também é chamado de “Programas”: nele pesquisamos por aplicativos instalados, novos aplicativos e também encontramos classificação indicativa de idade em vários programas; nem todo instalador de aplicativos possui essa classificação. Uma vez com tudo instalado, deve-se procurar a configuração chamada “Controle parental” no GNOME e selecionar as opções desejadas. Note que será necessário colocar a senha de um usuário administrador para desbloquear as configurações para o controle. A figura a seguir mostra, à esquerda, a tela de “Controle parental” para um usuário chamado &#8216;Criança&#8217;; se houver mais usuários não-administradores, esses também aparecerão nessa tela. Para criar usuários no GNOME, poderá ir na aplicativo “Configurações”, escolha “Sistema” e depois “Usuários”. À direita na figura é mostrada a tela de restrição de aplicativos, que é trabalhosa, pois é preciso escolher todos que deseja bloquear, normalmente a maioria, e deixar desabilitado somente os que forem permitidos; no exemplo, somente o jogo 2048 está permitido e, assim, no menu de aplicativos do ambiente da criança, só vai existir essa opção. Um jeito rápido de habilitar tudo é usar as teclas &#8216;Tab&#8217; e barra de espaço alternadamente para restringir tudo e depois tirar a restrição somente dos aplicativos permitidos.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159251" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1.png" alt="" width="724" height="555" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1.png 724w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-300x230.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-548x420.png 548w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-640x491.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-681x522.png 681w" sizes="(max-width: 724px) 100vw, 724px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse momento, o melhor é restringir o uso de navegadores, pois permiti-los dá acesso a todos os conteúdos imagináveis na Web; assunto cujo controle parental será tratado num próximo artigo. Mais abaixo há as opções de restrição de instalação de programas, onde parece ser mais interessante deixar sempre restrito, pois assim qualquer programa novo a ser instalado precisará que um adulto participe dessa instalação. É importante sempre lembrar que, a cada novo aplicativo instalado, será necessário voltar nessa configuração e selecionar se ele será restrito ou não. Na primeira vez que a criança for usar seu usuário no computador, provavelmente um adulto deverá escolher para ela usar o ambiente GNOME, para que as restrições funcionem; o &#8216;malcontent&#8217; funciona parcialmente em outros ambientes gráficos, mas o melhor é usar o GNOME.</p>
<p style="text-align: justify;">No momento, o que dispomos nessa solução é só o controle de aplicativos, portanto, será necessário acordos de horários e limites de tempo para completar o controle. Existem soluções para Linux que permitem controle de tempo e de sites, mas são soluções separadas que exigem mais configurações e mais trabalho para manter; provavelmente uma boa conversa e acordos bem definidos supram a necessidade desses controles para um ambiente Linux. Com o tempo, novos recursos de controle parental devem aparecer, independente de existirem ou não investimentos no universo do Software Livre. De qualquer forma, as conversas entre crianças e adultos sempre deverão existir.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom diálogo a todos!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
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		<title>Até sempre, Aldir!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nicolas Lorca]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 May 2026 16:50:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Jan Cenek Tomo a liberdade de dispensar as aspas. Saberão reconhecer os versos do compositor genial, sem aspas. Assim como saberão reconhecer o autor do trecho mórbido e covarde, entre aspas. É que meu coração tropical está coberto de neve. Também eu bebo um pouquinho para ter argumento. Mesmo sentindo frio em minha alma, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Tomo a liberdade de dispensar as aspas. Saberão reconhecer os versos do compositor genial, sem aspas. Assim como saberão reconhecer o autor do trecho mórbido e covarde, entre aspas.</p>
<p style="text-align: justify;">É que meu coração tropical está coberto de neve. Também eu bebo um pouquinho para ter argumento. Mesmo sentindo frio em minha alma, apesar do açoite contínuo da noite. Bêbado. Mas sem traje de luto e sem chapéu-coco: arrebentar as correntes que envolvem o amanhã!</p>
<p style="text-align: justify;">Morreu o compositor genial: Aldir Blanc. Boêmio. Vascaíno. Psiquiatra. Apaixonado pelo samba e pelo jazz. Homem grande em todos os sentidos: turrão, pavio curto, humano. Quase não saía de casa, mesmo assim foi vitimado pela Covid-19. Tinha a barba e a voz grossas. Não gostava de sol, ia à praia para beber cerveja. Subia o morro, seguia os blocos carnavalescos e frequentava centros espíritas para curtir a batucada. Ainda garoto, construiu uma bateria de lata. Estudou medicina, tornou-se psiquiatra. Disse que a psiquiatria não ajudou o letrista. Foi o contrário.</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente está entre os maiores compositores da MPB: com Noel Rosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Adoniran Barbosa, Geraldo Filme. Como, no Brasil, as fronteiras entre a canção, a poesia e a literatura são tênues: a morte coloca Aldir no devido time, com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes e até Machado de Assis. Sim, o letrista da Zona Norte do Rio tem um quê do bruxo do Cosme Velho: o realismo, os detalhes, o band-aid no calcanhar, o dodói de Tolstói, a faca do crime, o ciúme que mata, o humor que redime, o banho de ervas, o nome da outra no pano vermelho, o cigarro molhado de chuva, a goiabada-cascão no sonho do boia-fria, a toalha molhada no chão, os fios de barba na pia, os falsos votos de feliz casamento, a curiosidade pelos rancores siameses e pela cruel indiferença.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há, na MPB, verso mais machadiano do que: eu aprendi que a alegria de quem está apaixonado é como a falsa euforia de um gol anulado. Três anos vivendo juntos. Ele é Vasco doente, ela grita Mengo no segundo gol do Zico. Não há, na MPB, crônica mais machadiana do que <em>A nível de</em>: Wanderley e Odilon – nomes que Aldir Blanc sacou na onomatopeia do parceiro João Bosco – são muito unidos, vão juntos ao Maracanã; Yolanda e Adelina, as esposas, são amigas e se fazem companhia; até que se estrutura um troca-troca; mulher com mulher, homem com homem; só que o casamento continua a mesma bosta.</p>
<p style="text-align: justify;">Na morte estúpida do artista, vê-se um paralelo fúnebre com a sua própria obra. São os becos sem saída do tempo presente. Em vez de reza uma praga de alguém. Não a bala com a bala, nem a faca com a faca, nem o corpo estendido no chão. Mas os doentes sem leito, a falta de respiradores, os corpos nos corredores, as covas coletivas, as subnotificações. É a morte do malandro, da enfermeira do Salgado Filho, do <em>latin lover</em>, das Marias, das Clarices e até dos compositores geniais. &#8220;E daí? Eu não sou coveiro&#8221; – disse uma figura verdadeiramente triste. O Brazil não merece o Brasil. O Brazil tá matando o Brasil. Do Brasil, S.O.S ao Brasil – diria Aldir.</p>
<p style="text-align: justify;">Os heróis do bem – cidadãos de bem? – levando a paz na ponta dos aríetes. A conversão dos infiéis. A nudez sem véus diante da Santa Inquisição. As carreatas da morte. A burguesia dentro dos carros, exigindo o sacrifício dos trabalhadores. Empilhados nas filas dos hospitais: pais-de-santo, paus-de-arara, passistas, flagelados, balconistas, palhaços, marcianos, canibais, pirados dançando, todos dormindo de olhos abertos.</p>
<p style="text-align: justify;">Aldir Blanc teve dezenas de parceiros: Paulo César Pinheiro, Moacyr Luz, Guinga, João Bosco. Com este compôs <em>O bêbado e a equilibrista</em>, que era uma homenagem a Chaplin e, com Elis Regina, virou o hino da anistia. Existe figura mais chapliniana do que o exilado político? – perguntava o compositor.</p>
<p style="text-align: justify;">Adeus, Aldir. O tempo adormece as paixões, você as liberta. O tempo se rói com inveja, você dorme tranquilo. Até sempre!</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Texto escrito na noite da segunda-feira 04 de maio de 2020. Durante a pandemia de Covid-19. Quando chegou a notícia sobre o passamento do genial Aldir Blanc, ocorrido naquela manhã. Alguns anos depois, esta pequena lembrança.</p>
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		<title>“Moinho de Gente”: moradia como arma de guerra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 May 2026 13:46:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[O filme vale a pena ser divulgado e assistido, principalmente por lideranças e militantes que passam por processos de ameaça de remoção de ocupações e favelas, pois ali fica muito claro como tem se dado tais processos no tempo presente.  Por Isadora de Andrade Guerreiro ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Foi lançado em abril pelo Intercept Brasil o filme dirigido por Caio Castor e Gabriela Moncau <a class="urlextern" title="https://www.intercept.com.br/2026/04/22/favela-moinho-tarcisio-expulsao-moradores-3-cada-4-familias-ainda-nao-receberam-moradia-definitiva/" href="https://www.intercept.com.br/2026/04/22/favela-moinho-tarcisio-expulsao-moradores-3-cada-4-familias-ainda-nao-receberam-moradia-definitiva/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Moinho de Gente: A expulsão da última favela do centro de São Paulo”</a>, realizado junto a moradores e lideranças da Favela do Moinho. O filme acompanha todo o processo de remoção da favela, descrevendo, pela voz da própria comunidade, tudo o que passaram no último ano (e que fui também descrevendo <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" href="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" href="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, e o Passa Palavra também foi divulgando desde 2024 informes da luta <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/07/153800/" href="https://passapalavra.info/2024/07/153800/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/08/154404/" href="https://passapalavra.info/2024/08/154404/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/08/154555/" href="https://passapalavra.info/2024/08/154555/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156599/" href="https://passapalavra.info/2025/05/156599/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/12/158352/" href="https://passapalavra.info/2025/12/158352/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/02/158710/" href="https://passapalavra.info/2026/02/158710/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>). O filme vale a pena ser divulgado e assistido, principalmente por lideranças e militantes que passam por processos de ameaça de remoção de ocupações e favelas, pois ali fica muito claro como tem se dado tais processos no tempo presente. A saber, um tempo de guerra específico, no qual são os direitos sociais &#8212; no caso, a habitação &#8212; os instrumentos mobilizados para produzir a legitimidade social necessária à autorização da barbárie. Explico-me.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme explicita um processo no qual, em meio a uma violência de Estado absurda &#8212; com invasão discricionária de casas, demolição com gente dentro, enquadros com bala de borracha, mortes, desaparecimentos, tortura e prisões com flagrante forjado &#8212; os governos conseguem construir uma narrativa legitimadora. Para tanto, usam o atendimento habitacional como dispositivo de gestão responsável por efetivar seu objetivo maior: a extinção dos modos de vida populares do centro da cidade como meio de valorização territorial e obtenção de ganhos políticos num ano eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">É por meio do dispositivo habitacional que se tem ganhos políticos para ambos os lados da disputa eleitoral. De um lado, primeiramente o governo estadual de Tarcísio de Freitas ofereceu suas não-soluções habitacionais: financiamento (ou melhor, endividamento) de longo prazo para famílias acima de um salário mínimo e auxílio-aluguel insuficiente. Tal solução não atendia parte significativa das famílias, pressionadas a mentir a renda para poderem entrar nos programas oferecidos e, também, a se mudarem com urgência para moradias de aluguel completamente precárias, aumentando seu grau de vulnerabilidade social.</p>
<p style="text-align: justify;">No filme, são significativas as falas do governo estadual, que atende suas bases eleitorais: “Todo mundo aqui quer dar dignidade para essas famílias. E nós não queremos dar de graça porque de graça não tem graça. O que vale é trabalhar sim e ser digno de pagar a sua parcela e ser digno de ser proprietário da sua unidade. Todo mundo trabalha, todo mundo paga suas casas aqui, ninguém aqui ganhou nada de graça. E essas famílias também são capazes de trabalhar” e “isso aqui é a anti-reintegração de posse, porque isso aqui é o atendimento”.</p>
<p style="text-align: justify;">As famílias mobilizadas resistem a esta solução, pressionando o governo federal, proprietário da área, a se posicionar.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o governo federal entra no processo, disponibiliza ao Moinho uma solução apenas usada em casos de eventos extremos &#8212; como na tragédia do Rio Grande do Sul. Completa o valor de subsídio oferecido pelo governo estadual e garante a gratuidade da nova moradia até R$250mil e o aumento do auxílio-aluguel para R$1.200. Vale pensar qual era o evento extremo que acontecia ali: a necessidade urgente de se posicionar frente ao governo Tarcísio, no momento em que ele ascendia como alternativa da direita na disputa eleitoral federal.</p>
<p style="text-align: justify;">Se, por um lado, de fato a conquista das famílias foi histórica &#8212; resultado de sua resistência, extensa rede de proteção e escalonamento de seu conflito por sua posição territorial estratégica &#8212;, por outro estava ali selada a conquista também dos governos estadual e federal. Ambos podiam dizer que deram solução habitacional digna às famílias e que elas permaneceriam no centro da cidade, enquanto a verdade ficava na mão do destino: a existência no mercado de moradias que se enquadrassem nos critérios de valor e de condições de compra definidos pelo acordo. O direito foi “assegurado” com a abstração do dinheiro, que não tem responsabilidade nenhuma com a concretização material das necessidades humanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando as famílias foram atrás dessas moradias fictícias, perceberam que a vitória tinha gosto amargo. Não as encontravam, não conseguiam firmar os contratos, se enredavam na burocracia entre a Caixa Econômica Federal e a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Urbano e Habitacional do Estado de SP), entre outros problemas. E permaneciam resistindo. A violência policial aumentou. A principal liderança da comunidade, Alessandra Moja, é torturada e presa. Neste momento, numa das manifestações que impediam a entrada policial na favela, o filme mostra um policial militar, discutindo com uma moradora: “A carta de crédito é de R$250mil né? Eu acho que o imóvel da senhora não deve valer isso, né? [ela responde: Não importa!] Eu acho melhor a senhora pegar esses R$250mil e sair do lado da linha de trem, ir para um lugar digno. A oportunidade chegou, hein?”. Ou seja, não estamos te violentando, estamos apenas cuidando de vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado, que o Intercept teve acesso pela Lei de Acesso à Informação e que o <a class="urlextern" title="https://www.intercept.com.br/2026/04/27/governos-nao-cumprem-promessa-favela-do-moinho/" href="https://www.intercept.com.br/2026/04/27/governos-nao-cumprem-promessa-favela-do-moinho/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">LabCidade FAU-USP mapeou</a>, estava escrito nas estrelas: uma enorme dispersão predominantemente para a periferia e para cidades do interior e litoral paulista (77,3% das moradias definitivas estão fora do centro expandido de São Paulo), acompanhada de um novo ciclo de insegurança habitacional para a maioria das famílias (61,9%) que aceitou o auxílio-aluguel para sair do estado de sítio em que se encontra o território da favela atualmente &#8212; em ruínas e em ameaça constante de violência policial. Os relatos de quem está em aluguel são tristes: locais insalubres, pequenos para famílias e muitas vezes com regras que proíbem crianças e animais (o que tem feito famílias se dividirem) e sob condições de instabilidade enormes pela falta de contrato formal.</p>
<p style="text-align: justify;">Retomo a argumento do início do texto: o direito social, no caso, a moradia, como arma de guerra como face característica do tempo presente. O que aparece inicialmente como contradição, precisa ser entendido como instrumento de dessensibilização social. O dispositivo técnico de gestão tira da vista da sociedade o “problema”, autorizando a barbárie e retirando a possibilidade de resistência da população. A memória da Favela do Moinho precisa ser cuidada para que entendamos e nos preparemos para o que ela significa em termos políticos mais amplos. O filme e o <a class="urlextern" title="https://www.faveladomoinho.com/" href="https://www.faveladomoinho.com/" rel="ugc nofollow">Centro de Memória da Favela do Moinho</a> são parte desse esforço e convido todo mundo conhecer.</p>
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		<title>Ferramentas de Controle Parental</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/04/159126/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2026 14:39:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O controle parental deve ser entendido como um mecanismo de orientação e cuidado, não como uma ferramenta de vigilância e desrespeito à privacidade. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana [1]</h3>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos meses vimos alguns países tomarem medidas fortes em relação ao uso de redes sociais por menores de idade, como Austrália e Dinamarca proibindo o uso, devido a diversos riscos que surgiram ao longo do tempo. No Brasil, além dos problemas das redes sociais, também temos as apostas digitais que estão inclusive viciando crianças e adolescentes que estão cada vez mais conectados, utilizando <em>smartphones</em>, <em>tablets</em> e computadores como ferramentas de aprendizado, entretenimento e socialização. Conteúdos inadequados, exposição excessiva às telas, contato com desconhecidos, <em>cyberbullying</em> e coleta indevida de dados são apenas alguns dos desafios que pais e responsáveis enfrentam dia a dia. Nesse contexto, o controle parental surge como uma estratégia essencial para equilibrar liberdade e segurança, permitindo que os jovens explorem o ambiente digital de forma saudável e protegida.</p>
<p style="text-align: justify;">O controle parental deve ser entendido como um mecanismo de orientação e cuidado, não como uma ferramenta de vigilância e desrespeito à privacidade. Assim como no mundo físico, onde limites são estabelecidos para garantir o bem-estar das crianças, no ambiente digital também é necessário criar regras e acompanhar o uso da tecnologia. Isso inclui definir horários, restringir conteúdos impróprios e monitorar interações. No entanto, tão importante quanto as ferramentas técnicas é o diálogo constante entre pais e filhos, construindo consciência sobre o uso responsável da Internet.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse cenário, ferramentas digitais específicas foram desenvolvidas para auxiliar os responsáveis nessa tarefa. Uma das mais conhecidas e amplamente utilizadas é o Family Link, uma solução gratuita que permite gerenciar o uso de dispositivos por crianças e adolescentes no sistema Android e, em menor escala, também no iOS. Apesar da crítica que se possa ter em relação a ferramentas de <em>big techs</em>, entende-se que esse é um momento em que a segurança e o desenvolvimento saudável dos menores de idade devem ser priorizados sobre outros aspectos das relações sociais com essas empresas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Family Link foi projetado para oferecer aos pais um conjunto robusto de recursos que possibilitam acompanhar, orientar e limitar o uso da tecnologia de forma prática e acessível e funciona a partir da criação de uma conta Google para a criança, vinculada à conta do responsável (sim, é preciso entregar um pouco de dados da criança para fazer o controle de dispositivos). Esse vínculo permite que o adulto tenha acesso a informações e controles sobre o dispositivo da criança. O processo de configuração é relativamente simples: o responsável instala o aplicativo em seu próprio celular e também no dispositivo da criança, seguindo as instruções para vincular as contas. A partir daí, diversas funcionalidades ficam disponíveis para gerenciamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos principais recursos do Family Link é o controle de tempo de uso. Com ele, os pais podem definir limites diários para o uso dos dispositivos, por exemplo, determinando que a criança pode utilizar telas por duas horas por dia entre todos os dispositivos com a conta dela; se usar uma hora de <em>smartphone</em>, só poderá usar uma hora de <em>tablet</em>. Quando esse limite é atingido, os dispositivos são bloqueados automaticamente, impedindo o uso até o dia seguinte. Além disso, é possível definir um horário de dormir, durante o qual os aparelhos ficarão indisponíveis. Essa funcionalidade é especialmente útil para evitar o uso excessivo de telas à noite, contribuindo para a qualidade do sono e para a manutenção de uma rotina saudável.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro recurso importante é o monitoramento de atividades. O Family Link fornece relatórios detalhados sobre o uso de aplicativos, mostrando quanto tempo a criança passa em cada aplicativo ao longo do dia, da semana ou do mês. Essas informações permitem que os responsáveis compreendam melhor os hábitos digitais dos filhos e identifiquem possíveis excessos ou comportamentos preocupantes. Com base nesses dados, é possível tomar decisões mais informadas sobre restrições ou ajustes nas regras de uso.</p>
<p style="text-align: justify;">O controle de aplicativos também é uma funcionalidade central da ferramenta. Os pais podem aprovar ou bloquear a instalação de aplicativos diretamente da loja, impedindo que a criança baixe conteúdos inadequados. Sempre que a criança tenta instalar um novo aplicativo, uma solicitação é enviada ao responsável, que pode aprovar ou recusar. Além disso, aplicativos já instalados podem ser bloqueados individualmente, caso sejam considerados impróprios ou estejam sendo usados de forma excessiva.</p>
<p style="text-align: justify;">No que diz respeito à navegação na Internet, o Family Link oferece integração com o Chrome e com o mecanismo de busca do Google, permitindo a ativação de filtros de conteúdo. Esses filtros ajudam a bloquear sites impróprios ou inadequados para a faixa etária da criança, embora não sejam infalíveis. É possível também criar listas de sites permitidos ou bloqueados manualmente, oferecendo um controle mais personalizado. Ou seja, nesse momento da evolução tecnológica, ter um controle parental robusto pode significar usar ferramentas de uma única empresa.</p>
<p style="text-align: justify;">O Family Link também permite que os pais visualizem a localização do dispositivo da criança em tempo real, desde que o aparelho esteja ligado e conectado à Internet. O bloqueio remoto do dispositivo está disponível, assim como o desbloqueio. O aplicativo também permite gerenciar configurações da conta da criança, como permissões de aplicativos, configurações de privacidade e acesso a determinados serviços do Google. Isso inclui, por exemplo, a possibilidade de desativar a personalização de anúncios ou restringir o uso de determinados recursos, contribuindo para uma experiência mais segura e adequada à idade.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto a ser considerado no controle parental é a adaptação das regras conforme a idade e maturidade da criança. O nível de controle necessário para uma criança de oito anos é diferente daquele adequado para um adolescente de quinze. O Family Link permite ajustar gradualmente as permissões, oferecendo mais autonomia à medida que o jovem demonstra responsabilidade. Esse processo é essencial para preparar os filhos para o uso independente da tecnologia no futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de todas essas funcionalidades, é importante reconhecer que nenhuma ferramenta de controle parental é completamente eficaz por si só. Crianças mais velhas e adolescentes podem encontrar maneiras de contornar restrições, especialmente se tiverem conhecimentos técnicos mais avançados. Por isso, o controle parental deve ser complementado com educação digital e diálogo aberto. Explicar os motivos das regras, ouvir as opiniões dos filhos e negociar limites são práticas fundamentais para o desenvolvimento de uma relação saudável com a tecnologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o controle parental deve ser visto como parte de uma abordagem mais ampla de educação digital. Isso inclui ensinar sobre segurança <em>online</em>, privacidade, respeito nas interações virtuais e pensamento crítico em relação às informações encontradas na Internet. O objetivo final não é apenas restringir, mas capacitar as crianças para que se tornem usuários conscientes e responsáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Atenção! Alguns aplicativos, como jogos, têm suas próprias redes sociais através dos <em>chats </em>entre os usuários, quem podem ser usados para estabelecer diálogo com os menores de idade. Esse tipo de recurso interno aos aplicativos não será descoberto pelo Family Link, um vez que o tempo de uso é liberado pode ser possível até receber <em>links </em>de outros locais maliciosos na Internet, talvez até para transferências financeiras. Portanto, é recomendável que cada aplicativo autorizado seja um pouco usado pelo responsável, para conhecimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o controle parental é uma necessidade na era digital, e o Family Link é uma ferramenta prática para auxiliar os responsáveis nessa tarefa. No entanto, seu uso deve ser sempre acompanhado de diálogo, educação e adaptação às necessidades individuais de cada família, para que a tecnologia seja uma aliada no desenvolvimento das crianças, não uma fonte de riscos ou conflitos. No próximo artigo trataremos de controle parental no Linux.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom diálogo a todos!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O futebol, a memória e o cemitério</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Apr 2026 08:55:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Artes_plásticas]]></category>
		<category><![CDATA[Desporto/esporte]]></category>
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					<description><![CDATA[O leitor deve estar se perguntando sobre o futebol e o cemitério, presentes no título da coluna. Então, vamos lá. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Filme bom fica passando na cabeça da gente. O mesmo vale para a fotografia e as artes em geral. A exposição <a href="https://caixanoticias.caixa.gov.br/Paginas/Not%C3%ADcias/2026/02-FEVEREIRO/CAIXA-Cultural-Sao-Paulo-apresenta-exposicao-Leonardo-Finotti-%E2%80%93-Sao-Paulo-Multiplicidade.aspx">São Paulo, Multiplicidade</a> – do arquiteto e fotógrafo Leonardo Finotti – é um exemplo. São dez séries produzidas pelo artista: <em>são paulo vertical, habitar mendes da rocha, marketscapes, necropoli[s]tics, pelada, re:favela, latinitudes, diálogos tropicais, veracidade </em>e<em> brutiful. </em>Agrupadas e exibidas em conjunto, as séries criam uma interessante leitura visual da capital paulista. A exposição <a href="https://caixanoticias.caixa.gov.br/Paginas/Not%C3%ADcias/2026/02-FEVEREIRO/CAIXA-Cultural-Sao-Paulo-apresenta-exposicao-Leonardo-Finotti-%E2%80%93-Sao-Paulo-Multiplicidade.aspx"><em>São Paulo, Multiplicidade</em></a>, fica em cartaz na Caixa Cultural de SP até 26 de abril de 2026. A curadoria é de Agnaldo Farias.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">A <a href="https://revistaprojeto.com.br/noticias/leonardo-finotti-sao-paulo-multiplicidade-caixa-cultural/">crítica especializada</a> destacou que a mostra é um “panorama consistente sobre as relações entre arquitetura, cidade e modos de habitar na capital paulista”; que “o artista constrói narrativas sobre permanência, transformação e tensão urbana”; que Finotti “tenciona a relação entre forma construída e uso cotidiano, entre monumentalidade e precariedade”; que não se “busca a imagem definitiva da cidade, mas múltiplas aproximações que revelam sobreposições de escalas e temporalidades”; que a cidade é um “conjunto de narrativas simultâneas”. É por aí. “São Paulo é como o mundo todo” – cravou Caetano Veloso na canção <a href="https://www.youtube.com/watch?v=MjCkYMVrGxU&amp;list=RDMjCkYMVrGxU&amp;start_radio=1">Vaca Profana</a>, com a precisão poética que lhe é peculiar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Na primeira visita que fiz à exposição de Leonardo Finotti, foi uma foto da série <em>latinitudes</em> que mais me chamou a atenção. Trata-se de um registro aéreo de <a href="https://www.leonardofinotti.com/projects/torres-del-parque/image/76302-140629-024d">Bogotá</a>, e não de São Paulo. No primeiro plano, a antiga arena de touradas (<em>Plaza de Toros de Santamaría</em>), ao fundo modernas torres residenciais e as montanhas dos Andes. A cor das construções é semelhante, mas o contraste entre elas é perceptível. Algumas décadas separam as construções da arena e das torres. O registro aéreo da <em>Plaza de Toros de Santamaría</em>, em Bogotá, sintetiza as principais características que a <a href="https://revistaprojeto.com.br/noticias/leonardo-finotti-sao-paulo-multiplicidade-caixa-cultural/">crítica especializada</a> identificou no trabalho de Leonardo Finotti: a relação entre arquitetura e modo de habitar, a permanência e a transformação, a sobreposição de temporalidades. São características que aproximam Bogotá de São Paulo, estabelecendo um diálogo possível. Mas não foi a qualidade estética do registro aéreo <em>Plaza de Toros de Santamaría, </em>em Bogotá, que me atraiu. Ocorre que aquele ângulo de visão é um dos possíveis para quem visita o mirante da Torre Colpatria, no centro da cidade, perto da antiga arena de touradas, do planetário e da Ca<em>rrera Séptima</em>. A foto me remeteu a imagens conhecidas e a boas lembranças. Curiosos labirintos da memória.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O leitor deve estar se perguntando sobre o futebol e o cemitério, presentes no título da coluna. Então, vamos lá. É que na série <a href="https://www.leonardofinotti.com/projects/pelada/image/5511-130911-889d"><em>pelada</em></a>, Finotti fez fotos áreas dos terrões (campos de futebol de várzea) nas periferias de São Paulo. Já na série <a href="https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/1694954035122703-fotografo-registra-um-ano-de-pandemia-no-cemiterio-vila-formosa"><em>necropoli[s]tics</em></a><em>, </em>o artista registrou, com drone, a abertura de covas no maior cemitério da América Latina, Vila Formosa, no bairro homônimo, durante vários dias, no início da pandemia de Covid-19. Vista com alguns anos de distância, a abertura de covas faz lembrar a escalada de mortes, que a mídia noticiava diariamente, nos primeiros e mortíferos meses da pandemia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosos labirintos da memória. À primeira vista, a foto de Bogotá me chamou mais a atenção do que os terrões da periferia e o cemitério. Apesar do amor que sinto pelo futebol de várzea e dos funerais que acompanhei no cemitério Vila Formosa, inclusive para me despedir grandes amigos, naqueles dias em que ficamos sem chão. Como se uma visita a uma torre em Bogotá fosse mais marcante que o enterro de um amigo. No segundo contato, quando voltei à exposição <a href="https://caixanoticias.caixa.gov.br/Paginas/Not%C3%ADcias/2026/02-FEVEREIRO/CAIXA-Cultural-Sao-Paulo-apresenta-exposicao-Leonardo-Finotti-%E2%80%93-Sao-Paulo-Multiplicidade.aspx"><em>São Paulo, Multiplicidade</em></a>, foi a incômoda semelhança entre as fotos aéreas do cemitério e dos campos de futebol de várzea que me deixou intrigado: como se o crescimento da cidade tivesse algo de mórbido, estando relacionado, inclusive, com a agonia do futebol.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Vistos por cima nas fotos de Leonardo Finotti, o cemitério Vila Formosa e os campos de futebol de várzea são incomodamente semelhantes. O solo exposto tem o mesmo tom avermelhado. São as entranhas abertas da megalópole. Que cresce e avança sobre os terrões, o mesmo ocorrendo com o cemitério Vila Formosa: como se a cidade fosse abrir covas nos campos de futebol de várzea, ou organizar peladas entre as sepulturas.</p>
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		<title>ECA Digital e o desafio do controle parental</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Mar 2026 16:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Juventude]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
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					<description><![CDATA[O ECA Digital aumenta a responsabilidade das empresas na identificação de quem usa suas plataformas, mas é importante que os responsáveis acompanhem tudo que as crianças e os adolescentes usam nesses equipamentos. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level1">
<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana</h3>
<p style="text-align: justify;">Há poucas semanas foi aprovada a Lei 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, que torna a legislação de proteção de crianças e adolescentes mais rígida em relação às plataformas digitais, redes sociais e jogos <em>online</em>, ou seja, qualquer ambiente em que um adulto possa entrar em contato com uma criança ou adolescente. Coincidentemente, estive em uma discussão escolar sobre o uso de aplicativos de mensagens por pré-adolescentes que criaram um grupo de discussão para trabalhos escolares mas ocorreu também a prática de <em>bullying</em>; na prática os aplicativos de mensagens funcionam como redes sociais pois permitem que sejam formados grupos e o encaminhamento de conteúdos multimídia, que equivalem a você fazer uma postagem ou enviar um <em>link</em> de conteúdo entre os membros, assim cada contato fica equivalente a uma página em rede social.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a discussão alguns pais tinham a expectativa de que a escola faria o acompanhamento dos pré-adolescentes no uso do aplicativo de mensagens, mas depois de mais de uma hora de discussão alguns pontos legais foram colocados em relação a essa questão. O uso de celular na escola é proibido por lei federal, exceto para questões pedagógicas, além disso a Lei de Diretrizes e Bases da Educação protege a decisão sobre métodos e ferramentas de ensino como sendo dos professores, e assim foi dito de forma bem objetiva que a escola não estaria acompanhando os pré-adolescentes nesses grupos de mensagem, inclusive nem teria recursos humanos para entrar nesses grupos e acompanhar tudo estaria sendo escrito; tudo isso sem falar na questão da privacidade. De certa forma é preciso que todos entendam que a responsabilidade e o cuidado quanto ao uso de equipamentos digitais e Internet é de quem entrega esses dispositivos, logo se um responsável dá um <em>smartphone</em> para uma criança a responsabilidade no uso desse equipamento é de que o entregou nas mãos dela.</p>
<p style="text-align: justify;">O ECA Digital aumenta a responsabilidade das empresas na identificação de quem usa suas plataformas, mas é importante que os responsáveis acompanhem tudo que as crianças e os adolescentes usam nesses equipamentos. As empresas terão responsabilidade de garantir com maior eficácia na identificação da idade de quem se cadastrar, no entanto, tudo converge para um assunto já abordado nesta coluna que é o controle parental dos sistemas. Vale lembrar pelo menos um exemplo dos riscos que as crianças correm nesses ambientes, que é quando um adulto mal intencionado finge ser uma criança por, ganhando a confiança de quem conversa com ele para que, após todo esse tempo, comece a dizer o quê a criança deve fazer e até mesmo ameaçar para que ela não conte a ninguém o quê eles estão conversando, a partir daí os mais inimagináveis abusos podem acontecer e por isso é tão importante que os responsáveis pelas crianças estejam envolvidos nisso tudo pois o ECA Digital por mais rígido que pareça, não vai ser o suficiente.</p>
<p style="text-align: justify;">As ferramentas de controle parental podem ser tanto oferecidas com sistemas ou equipamentos, como pelas plataformas que estão implicadas na atualização do ECA, e talvez devido ao movimento internacional na gestão de riscos dos mais jovens essas ferramentas comecem a ter uma evolução mais acelerada. Nelas podemos encontrar recursos de controles do que pode ser instalado, quanto tempo os aplicativos podem ser usados de modo individualizado e até de modo geral. Durante a conversa na escola também houve o debate sobre quais aplicativos, sobre questões de privacidade neles, de serem ou não controlados por grandes empresas, etc. Infelizmente, por ser uma área em evolução não há um ecossistema de aplicativos de controle parental que nos permitam ampla liberdade de escolha, nem tenho uma boa revisão desses aplicativos para recomendar, ainda é um assunto em estudo. Mas é urgente que o controle é parental aconteça e abordaremos somente dois exemplos dessas aplicações. No entanto, o site <a href="https://alternativeto.net/browse/all/?tag=parental-control" target="_blank" rel="noopener">Alternativeto.net</a>, tem uma lista de programas de controle parental e uma classificação por curtidas, além da possibilidade de classificar entre tipos de licenças e plataformas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Google Family Link é uma ferramenta de controle parental desenvolvida pela Google para dispositivos Android que permite aos responsáveis acompanhar e gerenciar o uso digital de crianças e adolescentes. Entre suas principais características está a possibilidade de criar e supervisionar contas Google para menores, garantindo que o acesso a conteúdos e serviços seja mais seguro e adequado à idade. Na matéria <a href="https://passapalavra.info/2025/02/155827/" target="_blank" rel="noopener">“Tutorando crianças no uso de smartphones”</a> é apresentada uma sugestão de como usar esse recurso. Outro recurso importante é o rastreamento de localização, que permite verificar onde o dispositivo da criança está em tempo real, desde que ele esteja conectado à Internet; normalmente é necessário uma conta de celular com dados móveis.</p>
<p style="text-align: justify;">No Linux, para o ambiente GNOME, pode-se usar o programa &#8216;malcontent-gui&#8217;, que é a interface gráfica do sistema de controle parental dele, projetado para permitir que administradores e responsáveis gerenciem o acesso de usuários — especialmente crianças — a aplicativos e conteúdos no sistema. Ele funciona como uma camada amigável sobre o serviço de controle parental do sistema, oferecendo uma forma simples e visual de configurar restrições sem a necessidade de comandos avançados no terminal. De forma similar o Windows também possuí controle parental junto às configurações de contas de usuário. Recentemente o serviço de mensagens WhatsApp também lançou mecanismos de controle parental que pode restringir que crianças e adolescentes estabeleçam contatos com pessoas, ou entre em grupos sem autorização dos responsáveis; apesar das <a href="https://passapalavra.info/2025/05/156722/" target="_blank" rel="noopener">discussões sobre privacidade nesse aplicativo</a>, proteger nossas crianças parece uma prioridade e outros aplicativos de mensagens instantâneas podem não ter esse recurso.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de o ECA Digital aumentar as responsabilidades das empresas na proteção de crianças e adolescentes, sempre vai ter alguém tentando burlar a legislação, e uma camada de proteção gerenciada pelos responsáveis deles será também necessária. Como diz Mario Sérgio Cortella “a tarefa de educação dos filhos é da família em primeiro lugar, e do poder público de forma secundária. A escola faz escolarização. Por isso, se a família não cumpre aquilo que precisa cumprir, a escola não dará conta”. Parece ser imprescindível o uso de programas de controle parental, assim como a responsabilização das empresas em suas plataformas, a melhoria dessas ferramentas, assim como seu aprendizado. Vai ser um caminho árduo para todos, mas temos um caminho (o qual me incluo). Conforme aprender melhor sobre elas, teremos matérias sobre como as usar e configurar.</p>
<p style="text-align: justify;">Boa luta para nós!</p>
</div>
<div class="footnotes">
<div class="fn">
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong><em>Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</em></strong></div>
</div>
</div>
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		<title>O identitarismo, a encruzilhada e o atoleiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2026 13:33:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
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					<description><![CDATA[É compreensível que os corpos dissidentes apareçam e se mostrem. Mas se o mundo e a arte são transformados numa extensão do indivíduo, não estamos distantes do narcisismo. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Jan Cenek</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><em>Uma artista mapuche</em></strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Conheci o trabalho da artista mapuche &#8211; trans e não binária &#8211; Seba Calfuqueo no Museu de Arte Moderna de Bogotá (Mambo). A exposição chamava-se <em>A</em><em>ntü ñi kuram</em> &#8211; <em>Ovo de sol</em> -, uma expressão da língua mapudungun derivada de <em>antü kuram &#8211; </em>ovo sem embrião/ovo sem sol -, forma depreciativa utilizada para se referir à homossexualidade. Toda arte de Seba Calfuqueo consiste na afirmação da identidade mapuche, trans, não binária e, portanto, no rechaço à ideia de ovo sem sol.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo no início, o visitante é informado que mapuche significa “gente da terra”; que é um povo que vive e resiste no centro sul da Argentina e do Chile; que os mapuches mantiveram seu idioma, o mapudungun; que a cosmovisão mapuche está baseada na conexão e no equilíbrio entre os seres humanos e a natureza. Os trabalhos de Seba Calfuqueo incluem instalações, cerâmica, desenhos, fotografias, performances e vídeos. Destacam-se o azul, as águas, os cabelos e o corpo, sobretudo e ostensivamente, o corpo da artista: utilizado para afirmar sua identidade mapuche, trans e não binária.</p>
<p style="text-align: justify;">Na videoperformance <em>Las quilas</em>, Seba Calfuqueo problematiza o pensamento binário, inclusive mapuche. A <em>quila </em>é uma espécie de bambu &#8211; hermafrodita e bissexual &#8211; típico das terras altas do sul da América Latina. Os chilenos e os mapuches veem as <em>quilas </em>como plantas invasoras e inúteis, que quando florescem provocam incêndios e a proliferação de pragas. A artista viu, no emaranhado de <em>quilas</em>, uma barreira natural, uma defesa da mata contra o avanço dos colonizadores europeus. Ela misturou o próprio corpo às <em>quilas</em> para afirmar a resistência e o não binarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra videoperformance interessante de Seba Calfuqueo é <em>Nunca serás un weye</em>. <em>Weyes</em> eram indivíduos mapuches cuja identidade de gênero transitava entre o feminino e o masculino. Os <em>Weyes</em> foram acusados de praticar sodomia e eliminados pelos espanhóis.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra videoperformance interessante e provocativa de Seba Calfuqueo é <em>Alka domo. </em>A artista recontextualiza e problematiza a história do líder militar mapuche Caupolicán (? &#8211; 1558), que teria sido escolhido após completar o desafio de segurar um tronco sobre os ombros por dois dias. Seba Calfuqueo recria a história de Caupolicán segurando um tronco oco de <em>coihue</em>, que é uma árvore tradicional do sul da América Latina. A artista escolheu sete pontos históricos para os chilenos e para os mapuches, calçou sete pares de sapatos diferentes, todos com salto alto e cada um com uma das sete cores da bandeira LGBTQIA+, ergueu um tronco &#8211; oco &#8211; e reproduziu o feito do líder militar mapuche.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outras videoperformances e fotografias exibidas no Mambo, Seba Calfuqueo junta o próprio corpo à natureza, especialmente rios e cachoeiras para afirmar sua identidade mapuche, trans e não binária. As provocações da artista são interessantes, mas a presença ostensiva do corpo dela causa estranhamento e faz pensar. Seria a minha condição de homem heterossexual incomodado com um corpo dissidente? Inconscientemente, quem pode garantir? Mas, por outro lado, fiquei matutando: como seria a arte &#8211; seria arte? &#8211; se os corpos dos artistas precisassem estar ostensivamente presentes nas obras? Desconfio que a arte não existiria, ou seria rebaixada ao nível das <em>selfies</em>, os egoretratos que se multiplicam como as mercadorias. O que teria sido &#8211; ou não teria sido? &#8211; se Portinari trocasse os trabalhadores que aparecem em seus quadros por sua própria imagem?</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosamente ou não, porque pode ser uma escolha dos curadores, espero que seja isso e não uma tendência da arte contemporânea, no piso superior do Museu de Arte Moderna de Bogotá estava exposto o trabalho da artista &#8211; amazonense e travesti &#8211; Uýra. A exposição chamava-se <em>Memórias inundadas</em>, explorava a relação com as águas em Manaus e em Bogotá. Rios e igarapés foram canalizados e poluídos nas duas cidades. A artista juntou o próprio corpo aos cursos dos rios degradados para denunciar a destruição do meio ambiente e, ao mesmo tempo, afirmar sua própria identidade. O trabalho da artista amazonense Uýra não me impactou como o da artista mapuche, Seba Calfuqueo, mas há uma linha de continuidade que une ambas: a presença ostensiva dos corpos delas nos trabalhos expostos. Como se o critério dos curadores do Mambo fosse um algoritmo de rede social, que impulsiona imagens pessoais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><em>Universalismo, tribalização, narcisismo e fulanização</em></strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Susan Neiman <strong>[1] </strong>problematizou a virada identitária do tempo presente. Para a filósofa estadunidense, o identitarismo se nutre das esperanças frustradas, que, aos poucos, fizeram a esquerda abandonar princípios fundamentais para a transformação social: a distinção entre justiça e poder, a confiança no progresso e, sobretudo, o universalismo. É aqui que os identitários se separam da esquerda. Neiman assinala os princípios que sustentam a política identitária/identitarismo: a) Renúncia ao universalismo, que pode ser usado para disfarçar interesse particulares. b) Luta por justiça limitada a grupos específicos. c) Desconfiança em relação à ideia de progresso, que teve consequências complicadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Como esclarece a filósofa, não se trata de abolir a crítica. É justamente o contrário. Para sustentar transformações sociais é preciso dobrar a aposta na crítica. Interesses particulares foram camuflados em ideais supostamente universais. Disputas por poder se misturaram com a luta por justiça. A crença no progresso pode ter consequências complicadas. Mas é preciso separar o joio do trigo. Ou, como na metáfora de Neiman, se a esquerda abre mão do universalismo, se limita a lutar por justiça para grupos específicos e deixa de acreditar no progresso: ela corta o galho em que está apoiada. O tombo é inevitável. A filósofa nos lembra que os nazistas criticavam conceitos universalistas, como humanidade, por supostamente serem invenções de judeus para ocultar interesses de poder. O que não é muito diferente do argumento identitário segundo o qual o universalismo iluminista oculta interesses europeus e, por isso, deve ser rechaçado. A filósofa vai mais longe: a visão identitária da cultura não está distante da ideia nazista de que a música alemã só deveria ser interpretada por arianos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os identitários promovem muita desconstrução e não constroem quase nada. Isso porque a política identitária é uma confissão de impotência, um realismo rebaixado e calibrado pelo neoliberalismo. Como a transformação radical da sociedade está fora de questão para os identitários, só resta disputar espaços de poder, defender justiça para grupos específicos e melhorias na distribuição da renda: sem nunca questionar as regras do jogo. Os manuais de economia burguesa ensinam que os recursos são escassos e os desejos ilimitados. Caberia, portanto, organizar a produção para maximizar o atendimento das necessidades considerando a escassez de recursos. Tudo muito distante de formulações como “de cada um segundo suas possibilidades, a cada um segundo suas necessidades.” Que os recursos são escassos, ou ao menos limitados, é razoavelmente óbvio; por outro lado, pensar que os desejos são ilimitados é começar a orbitar em torno das mercadorias. Quem parte de um princípio da economia burguesa não vislumbra absolutamente nenhuma alternativa ao capitalismo. Quem aprendeu somente a desconfiar de afirmações tem dificuldade para questionar falsificações <strong>[2]</strong>. Quem abre mão do universalismo, flerta com a reação.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Neiman, a política identitária teve origem na esquerda, mas aos poucos incorporou princípios e referências reacionárias. Os identitários não assumem abertamente, mas atuam como se o mundo fosse uma grande guerra de todos contra todos, e o horizonte de possibilidades se limitasse à defesa de interesses particulares, ou tribais. Nisso não estão muito distantes dos neoliberais, da ideia de fim da história e da formulação segundo a qual os recursos são escassos e os desejos ilimitados. Ou, como no ditado popular: “farinha pouca, meu pirão primeiro.” O problema é que, se contam apenas interesses particulares, ou tribais, por que fascistas, racistas, misóginos e outros não podem afirmar seus valores? Além de disputar os recursos escassos? O que garante legitimidade a um grupo e deslegitima outro? É por isso que Neiman sustenta, com razão, que sem universalismo não há combate consequente ao racismo, por exemplo. O argumento pode ser estendido a outras lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Dada a regressão identitária e o ataque ao universalismo iluminista, Neiman nos lembra que pensadores como Rousseau, Diderot e Kant foram os primeiros a condenar o eurocentrismo e o colonialismo, o que só foi possível e coerente porque se fundamentou no universalismo. A filósofa nos lembra, também, que num passado não muito distante as pessoas pagavam para assistir torturas e execuções. Se não é mais assim, a humanidade progrediu a partir da afirmação de valores universais. Não é porque um homem é africano ou europeu que ele não pode ser torturado, a tortura é uma aberração em absolutamente qualquer circunstância. O progresso não está garantido, mas é possível. Ser de esquerda, para Neiman, passa por acreditar que as pessoas podem lutar coletivamente e conquistar melhores condições de vida e avanços civilizatórios que contemplem a sociedade em geral, e não apenas grupos específicos. A condenação à tortura é um exemplo de avanço civilizatório.</p>
<p style="text-align: justify;">Os identitários se afastam da esquerda porque acreditam apenas em conquistas parciais e limitadas a grupos específicos. Um exemplo: o empoderamento. Para quem teve contato com a esquerda no século XX, é um tanto chocante ouvir exaustivamente a palavra “empoderar” saindo de bocas identitárias: não faz muito tempo a esquerda &#8211; especialmente a anarquista &#8211; falava em destruir o poder. O que é empoderar senão o contrário da destruição do poder? Neiman cita um caso curioso e preocupante de regressão identitária. Um comediante canadense foi às ruas perguntar se os torturadores da CIA deveriam ser recrutados considerando critérios de diversidade. As pessoas terem levado o gracejo a sério diz muito sobre o tempo presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos setores da esquerda que se incomodam com o universalismo, Neiman recorda que o melhor exemplo de política identitária é o nacionalismo assassino de políticos israelenses como o ministro Itamar Bem-Gvir. A filósofa sustenta que a política identitária/identitarismo pode ser definida como tribalismo, apesar dos alertas bem-intencionados de que o termo talvez seja ofensivo para alguns setores. Tribalismo transmite a ideia de barbárie. Daí a preferência de Neiman pelo termo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a arte é portadora da peculiaridade de antecipar tendências, os trabalhos da artista mapuche Seba Calfuqueo, expostos no Museu de Arte Moderna de Bogotá, mostram que o identitarismo empunhado para se fazer crítica social pode regredir do tribalismo para a fulanização, daí a presença ostensiva do corpo da artista, como se a arte devesse se adaptar aos algoritmos das redes sociais, que impulsionam imagens pessoais. Se não há nenhum valor universal que possa ser afirmado, se não há perspectiva de progresso, como a identidade mapuche ajuda sem resolver totalmente a questão, porque há o não binarismo dos weyes, mas há também a ideia de ovo sem sol: sobra apenas o corpo e o indivíduo. É a fulanização. Uma tendência antecipada pela arte?</p>
<p style="text-align: justify;">A psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta francesa Marie-France Hirigoyen <strong>[3]</strong> registrou que a sociedade neoliberal é uma fábrica narcisos. Narcisismo foi a palavra que me veio à cabeça quando visitei a exposição <em>Ovo de sol</em>, da artista mapuche Seba Calfuqueo. Mas fiquei na dúvida. Podia ser apenas uma impressão, um preconceito. Na sequência visitei a exposição <em>Memórias inundadas, </em>da artista amazônica Uýra, no mesmo museu. A linha de continuidade entre os trabalhos das artistas é a presença ostensiva do corpo delas nas obras. Restou pouco espaço para a dúvida. É compreensível que os corpos dissidentes apareçam e se mostrem. Mas se o mundo e a arte são transformados numa extensão do indivíduo, não estamos distantes do narcisismo. Como as ações coletivas são colocadas sob suspeita, restam as ações privadas, individuais e limitadas. As identidades grupais usadas para a crítica social, se não miram no universal, regridem para o indivíduo e o narcisismo. É a fulanização. A arte se aproximando perigosamente da estética das selfies.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><em>Uma metáfora</em></strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O identitarismo é a política construída a partir de &#8211; e limitada a &#8211; identidades grupais de gênero, étnicas, sexuais. Trata-se de um rebaixamento tolerado e promovido pelo neoliberalismo. Encruzilhada é um ponto onde os caminhos se cruzam. Atoleiro é um lugar com solo pantanoso, que às vezes retém quem transita por ele. Eis a metáfora: o identitarismo é uma encruzilhada no atoleiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a filósofa Susan Neiman, a política identitária nasceu na esquerda, depois virou à direita. A ideia de encruzilhada ajuda a pensar o identitarismo devido ao cruzamento da esquerda com a direita. Além disso, a ideia de encruzilhada tem, também, o sentido de ponto crítico que exige definições. Se é assim, imaginemos um ponto crítico, de cruzamentos, posicionado sobre o solo encharcado, onde os pés afundam.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há luta coletiva sem identificação. Por isso a esquerda defende revolucionários e revoluções. Daí os resgates históricos e as formações. Não se trata apenas de aprender com o passado. A questão é forjar identificações e afinidades para potencializar a luta coletiva. Se uma mulher se identifica como trabalhadora revolucionária, afirma uma identidade que a aproxima da sua classe social, reforça a luta coletiva e a perspectiva de superação do capitalismo e do machismo. Não se trata de uma identidade absoluta e fixa. Se uma mulher se identifica como uma trabalhadora revolucionária, é porque acredita que é preciso e possível resistir e superar o capital. Numa nova sociedade e num outro modo de produção, ela poderá prescindir da identificação como trabalhadora revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;">A política identitária entendida como um tribalismo empregado para defender interesses de grupos específicos é funcional para a direita. É mais ou menos o que fizeram e fazem os reacionários. Como sugere a filósofa Susan Neiman, o nacionalismo assassino de políticos israelenses, como o ministro Itamar Bem-Gvir, é um bom exemplo. Por outro lado, a força do identitarismo para problematizar questões sociais é limitada. Ele teria surgido na esquerda, mas se firmou como capitulação, é incapaz de questionar as relações de produção capitalistas porque abriu mão do universalismo. A exposição <em>Ovo de sol</em>, da artista mapuche Seba Calfuqueo, é um exemplo. À medida que tenta se apegar a uma identidade estanque, ela se fecha para novas sínteses. Ser um weye, transitar entre feminilidade e masculinidade, poderia ser um alívio para a artista, mas não seria uma solução, basta lembrar a ideia de ovo sem sol presente na cultura mapuche. Em algum momento uma coisa fatalmente se chocaria com a outra. Difícil imaginar uma artista trans e não binária plenamente integrada à sociedade mapuche. Seba Calfuqueo procura no passado o que só poderia encontrar no futuro. Estaciona na desconstrução sem construir, ou, ao menos, imaginar alternativas. O identitarismo é uma encruzilhada no atoleiro. Porque abriu mão do universalismo, a política identitária estaciona na antítese, é incapaz de promover novas sínteses. O que é fatal porque a vida é movimento e transformação. Sobra o corpo. Apenas e tão somente o corpo, que a artista expõe ostensivamente: um corpo se debatendo no atoleiro. Aqui é interessante retomar a filósofa Susan Neiman: o pessoal é político, mas a política não pode se limitar ao pessoal. Os limites do identitarismo para a crítica social perpassam todo o trabalho de Seba Calfuqueo que compõe a exposição <em>Ovo de sol</em>. A limitação da política ao pessoal. A presença ostensiva do corpo, que chamei de fulanização. A cosmovisão mapuche se baseia na conexão e no equilíbrio entre seres humanos e natureza. Nos trabalhos de Seba Calfuqueo não se nota tal equilíbrio, pelo contrário, o que se impõe em primeiro plano é sempre o corpo da artista: o drama do corpo, o corpo que precisa se destacar, o corpo afundando no atoleiro. Um narcisismo funcional para o neoliberalismo e a sociedade de consumo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os limites do trabalho da artista mapuche são expostos na videoperformance <em>Buscando a Marcela Calfuqueo</em>. Marcela é uma mulher parecida com Seba. Elas se conheceram nas redes sociais. A diferença entre as duas é o sexo biológico. Marcela é quem Seba gostaria de ser, se tivesse nascido mulher. Daí a busca por ela e, talvez, o afastamento dela. O que não aparece na videoperformance. Mas pode ser imaginado. Não deve ser agradável, para Marcela, conviver com a obsessão de Seba: não exatamente por ela como outra pessoa, mas por ser ela, substituindo-a. Nada mais invasivo do que isso. Em uma de suas instalações, Seba Calfuqueo usou cabelos sintéticos para formar a palavra <em>kangechi</em>, que na língua mapudungun significa o outro, a ideia de que a diversidade e a diferença são importantes. Só que a busca de Seba por Marcela tem muito mais a ver com o narcisismo típico da sociedade neoliberal do que com a palavra <em>kangechi</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Incialmente, a política identitária se nutre das esperanças frustradas, depois se retroalimenta à medida que gera mais frustrações. O que ajuda no fortalecimento do identitarismo. Mas frustração tem limites. Por isso que, para artistas criativas e radicais, como Seba Calfuqueo, a disjuntiva é universalismo ou capitulação. A vida é movimento e transformação: não pode parar. O que não avança, retrocede. A tentativa identitária de se agarrar e estacionar nas antíteses está condenada a afundar, como um corpo que se debate no atoleiro. Identidades grupais de gênero, étnicas, sexuais podem contribuir para a conquista de avanço coletivos e civilizatórios, se mirarem no universal. Estancadas em si mesmas, servem apenas para fragmentar as lutas, abrir nichos de mercado e reforçar o <em>status quo</em>. Não há luta por libertação coerente sem universalismo. Os identitários nada têm a oferecer, a não ser novos grilhões.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Susan Neiman. <em>Izquierda no es woke</em>. Bogotá: Penguim, 2024.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Neiman, 2024, op cit., p. 21.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Marie-France Hirigoyen. <em>Los narcisos han tomado el poder</em>. Bogotá: Paidós, 2020.</p>
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		<title>Para além da Tarifa Zero</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 12:45:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
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					<description><![CDATA[O grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. Por Isadora de Andrade Guerreiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Em setembro de 2025 tive a oportunidade incrível &#8211; proporcionada por Daniel Santini, a quem agradeço &#8211; de entrevistar a atual deputada federal e ex-prefeita de São Paulo (1989-1993) Luiza Erundina (PSOL), seu secretário de transportes à época, Lucio Gregori, e Mauro Zilbovicius, ex-diretor da Cia. de Engenharia de Tráfego (CET) e do Departamento do Sistema Viário (DSV). A pauta era a Tarifa Zero ontem e hoje, dado que o trio foi responsável pela proposta pioneira no país durante a primeira gestão municipal do PT em São Paulo. O <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1434" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">resultado da entrevista</a> foi publicado na <a class="urlextern" title="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" href="https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/issue/view/89" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Diálogos Socioambientais v.8, n.23</a>, em novembro de 2025, um dossiê muito especial com contribuições atuais sobre o tema, organizado pela professora Silvana Zioni e o próprio Daniel Santini.</p>
<p style="text-align: justify;">O dossiê vem em boa hora, na medida em que o tema com certeza será parte da disputa eleitoral deste ano, que será delicadíssima por uma série de questões. Foi lançado justamente quando o governo federal pediu um estudo detalhado para implantar a Tarifa Zero nacionalmente e, em Belo Horizonte, o assunto foi votado na Câmara e não ganhou, mas assustou. Para quem acompanhou o nível de embate do tema em 2013, ver onde ele chegou atualmente é, no mínimo, surpreendente. Ou temerário… e por isso retomar suas origens de forma viva na entrevista foi algo muito importante.</p>
<p style="text-align: justify;">Digo isso pois o grande embate atual não é mais a possibilidade de implantação da Tarifa Zero, que se mostra cada vez mais viável, mas qual o seu lugar político-econômico, que precisa ser disputado. O que está em pauta é se ela será uma tábua de salvação para um setor empresarial em franca crise &#8211; e que é pedra fundamental de amplos clientelismos Brasil afora -, ou se será parte de uma transformação urbana e social mais estrutural. Politicamente relevante é que o embate institucional está acontecendo dentro do campo da dita esquerda partidária, com PT e PSOL em lados opostos: o deputado federal Jilmar Tatto (PT) tem representado o setor empresarial dos transportes e feito propostas que têm avançado mais do que as de Erundina dentro do parlamento e do executivo federal.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso a entrevista está especial e convido todo mundo a ler. Aquela tarde junto aos três ecoou fundo em mim, pois foi como um sopro de brisas frescas vindas de um lugar perdido. Zilbovicius colocando a racionalidade técnica no seu lugar, como instrumento político; o incrível Lucio Gregori relacionando a Tarifa Zero com a revolução social anticapitalista; e Erundina, de uma força transbordante e incansável, mas ao mesmo tempo extremamente afetiva e carinhosa durante toda a tarde, trazendo a noção de direito social como algo muito mais estrutural do que se transformou no neoliberalismo. Assim, a entrevista tem algo de incômodo, pois mexe com potências políticas adormecidas que as gerações atuais nem sonham o quão mobilizadoras foram. Faz-nos pensar no estado de coisas em que estamos, no desespero de ter que defender o pouco que restou de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o que é um governo municipal não era uma questão, mas sim o que pode ser um governo municipal dentro de uma sociedade mobilizada. Isso aparece numa fala do engenheiro Zilbovicius:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até hoje guardo uma fala da Luiza, que ela repetia constantemente: cada ação “tem que ser pedagógica”. As pessoas precisam aprender com essa luta. Ou seja, não se tratava apenas de resolver um problema imediato, mas de usar essa solução para fazer política, demonstrar uma nova possibilidade e, a partir dela, demandar mais. Estávamos ali para empurrar a fronteira do possível e alargar os limites do que era considerado realizável.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Alargar o possível é também alargar nosso pensamento. A Tarifa Zero ser viável leva o debate, evidentemente, ao tema técnico &#8211; também discutido no dossiê &#8211; e é nesse momento que precisamos atualizar o lugar da técnica na política &#8211; onde queremos chegar com a Tarifa Zero? Sem isso, cairemos inevitavelmente na implantação de um modelo que instrumentalizará a gratuidade, sem colocar o cerne da questão da mobilidade que é, na prática, o capitalismo. Levantei essa questão quando trouxe na entrevista o exemplo da habitação: a gratuidade (ou quase) veio dentro de um modelo financeirizado de salvação empresarial que trouxe muitas vezes mais problemas urbanos e sociais do que soluções (individuais e parciais, muitas vezes logo perdidas pelo <a class="urlextern" title="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" href="https://www.labcidade.fau.usp.br/tag/endividamento/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">endividamento</a> ou pela <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" href="https://passapalavra.info/2024/03/151962/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">violência</a>), como vemos no Minha Casa Minha Vida. Ou seja, já conhecemos essa ladainha. Ela é sedutora, vem junto com o progressismo nosso de cada dia, com a vontade de avançar dentro do possível, de ter vitórias em meio ao cenário perturbador de espoliação que vivemos, de poder respirar. Mas não podemos nos esquecer que ela cobra a fatura, sem dó. O almoço não é grátis, embora possa parecer &#8211; o que torna a coisa ainda pior politicamente, muitas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">Gregori, ao responder, chama atenção a isso:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, a mobilidade humana não é tratada como questão estrutural no capitalismo. A premissa básica de que a locomoção é elemento fundamental da existência humana &#8211; é um direito humano &#8211; está ausente dessa lógica.</p>
<p style="text-align: justify;">O debate que travamos aqui é singular. Se levado para a esquina, a discussão se restringirá à superlotação dos ônibus ou ao preço da passagem. Falta à sociedade capitalista a compreensão de que a mobilidade transcende a mera necessidade de ir do ponto A ao ponto B. É muito mais do que isso: a mobilidade das pessoas é fundamental na vida humana.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Questionei, nesse sentido, por que a mobilização popular em torno dos transportes é tão diferente de outros setores como a habitação, a saúde e a educação. Além de muito menor, por um lado, quando “acendeu o pavio” se alastrou como palha seca, sem controle, em 2013. Por um lado, tanto tempo entre a gestão municipal e as jornadas de junho e, por outro, a persistência do tema, que volta como espectro inevitavelmente com a pergunta “ser ou não ser, eis a questão”. Gregori foi cirúrgico:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que falta é uma discussão ampla que investigue a essência do problema. Do que estamos falando? De algo que envolve a cidade em sua totalidade. E percebe-se que essa visão integral simplesmente não existe. Há falta de mobilização popular em torno do tema, durante tanto tempo, simplesmente porque é um jogo que nunca foi jogado. Como é que a população ou o cidadão comum pode, de repente, do nada, formular isso?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso leva ao tema da totalidade das lutas &#8211; e da potencialidade da mobilidade nas lutas urbanas neste quesito &#8211; e, inevitavelmente, no ponto crucial: estamos perdendo. Erundina tem clareza desta conjuntura, ainda que não se acomode. Segunda ela:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua indagação sobre a mobilização popular toca em ponto crucial. Os movimentos sociais não exercem pressão suficiente porque a mobilização popular substantiva praticamente deixou de existir. Os partidos de nosso campo ideológico abandonaram o projeto de fomentar participação das bases. O resultado é a ausência de mobilização genuína, falta de participação popular, inexistência de hegemonia das classes populares e erosão do poder popular no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Perdemos o tecido social vibrante do período pós-ditadura, quando a sociedade estava mobilizada e resolvia problemas coletivamente através de organizações de base.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, esse cenário foi desmontado. O povo perdeu sua voz e a crença em sua capacidade de transformação. Consequentemente, pautas como mobilidade e moradia não geram mais apelo ou participação massiva. O poder popular foi esvaziado.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Daniel Santini fez a pergunta que não quer calar no tema da Tarifa Zero, replicando uma provocação que fiz a ele num congresso acadêmico da área de planejamento urbano. “A pior Tarifa Zero &#8211; que remunera bem os empresários, que não muda nada, estruturada num sistema precarizado &#8211; é melhor do que um sistema com cobrança?”. Erundina fecha a entrevista com essa resposta, que é uma pérola que coroa não só o tema da Tarifa Zero, mas a encruzilhada dos nossos tempos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eu não consigo deixar de falar disso. Retomando a questão da moradia: eu trabalho com isso desde o começo da minha vida, como assistente social. A moradia conquistada na marra, fazendo caminhada a pé até o Palácio do Governo para que se ligasse água e luz nas favelas, quando vinha, tinha um peso e uma importância para aquela população muito diferente. Porque ela se capacitava a partir daquela conquista para outras lutas e para outras conquistas. Por isso, um programa massivo de moradia, tipo Minha Casa Minha Vida, não contribui para mobilizar e para conscientizar o povo da própria força. Não pode ser comparado com aquela luta na qual o próprio povo conquista a moradia. Ou para urbanizar a sua favela, em vez de fazer uma casa própria, que ele vai pagar 30 anos, ou não vai nem mesmo conseguir pagar. Isso não é uma política que emancipa os setores populares.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a questão: não se faz mais política hoje nesse país, capaz de fazer com que as pessoas se emancipem, como se fez no passado. Nós conseguimos fazer aquele governo porque a gente vivia em um período de pós-ditadura militar, em um processo de redemocratização, onde se conquistou algum nível de emancipação popular.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós tivemos apoio popular para experimentar uma forma de ser governo no qual todo mundo governou. Por isso tem uma força que não termina nunca. Aquele governo continua, porque não foi um governo de uma pessoa, nem de um partido: foi um movimento social popular, num determinado momento da história política desse país que não acontece mais. Porque os partidos estão bitolados por um modelo dentro do capitalismo que até o povo tem direito a uma casinha, tem água na favela e outras tantas coisas, mas sem alterar as bases sobre as quais essa sociedade está construída…</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Como não se sentir tocada? Quem for ler a entrevista na íntegra, verá que quem começa falando e perguntando é Erundina, a entrevistada. Vi que seria difícil me colocar. Mas, ao final, na mesa do café, ela me agradeceu a entrevista, que tomou um rumo que ela não esperava, a fazendo também respirar outras brisas. Que nos inspiremos nesse encontro geracional, pois os desafios vindouros são grandes.</p>
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		<title>Como vai o seu backup?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Mar 2026 14:01:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O backup não evita que problemas aconteçam, mas permite que os danos sejam reversíveis. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana [1]</h3>
<p style="text-align: justify;">Alguns assuntos são sempre importantes de serem revistos e com certeza <em>backup</em> é um deles. Pensava em rever esse assunto no final do ano passado, mas como costuma ser férias, verão, carnaval, vamos rever nesse momento e torcer para que mais pessoas pratiquem segurança de dados mesmo que trabalhem na escala 6×1 e tenham pouco tempo para cuidar de si próprios e de sua vida digital.</p>
<p style="text-align: justify;">O <em>backup</em> caseiro é uma prática essencial em um mundo cada vez mais digitalizado, no qual fotos de família, documentos pessoais, trabalhos acadêmicos, registros financeiros e lembranças afetivas existem principalmente em formato digital. Apesar disso, muitas pessoas só percebem a importância do <em>backup</em> quando já enfrentaram a perda de arquivos por falha no disco rígido, defeito em SSD, roubo do aparelho, ataque de vírus ou simples erro humano. Computadores quebram, celulares são perdidos, contas podem ser invadidas e arquivos podem ser apagados sem intenção. O <em>backup</em> não evita que problemas aconteçam, mas permite que os danos sejam reversíveis, permitindo a recuperação de dados.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante distinguir <em>backup</em> de sincronização de arquivos. Serviços de arquivos em nuvem funcionam principalmente como plataformas de sincronização, mantendo os mesmos arquivos atualizados em diferentes dispositivos, portanto, se um arquivo é apagado por engano na origem, ele também é apagado na nuvem. Embora muitos desses serviços ofereçam histórico de versões e lixeira temporária, o ideal é pensar em <em>backup</em> como um processo com cópias adicionais e independentes. Um arquivo sincronizado é uma cópia de trabalho, não uma cópia de segurança.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos cuidados mais importantes no <em>backup</em> caseiro é não confiar em apenas um único local de armazenamento das cópias de dados. Manter todos os arquivos apenas no computador principal é um risco considerável, pois qualquer falha de <em>hardware</em> pode resultar em perda total. Também não é prudente deixar todas as cópias no mesmo ambiente físico, já que um furto, incêndio ou dano elétrico pode afetar simultaneamente o computador e o dispositivo de <em>backup</em>. Por isso, a prática mais segura envolve manter pelo menos uma cópia fora do local principal, preferencialmente num dispositivo não conectado à Internet.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro cuidado fundamental é proteger dados sensíveis com senhas fortes e, quando possível, criptografia. Além disso, é necessário verificar periodicamente se os <em>backups</em> realmente funcionam, restaurando alguns arquivos de teste para confirmar que estão íntegros e acessíveis. Um <em>backup</em> que nunca foi testado pode gerar falsa sensação de segurança.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a maioria das pessoas, o método mais confortável de <em>backup</em> é aquele que equilibra simplicidade e eficiência, sem exigir conhecimentos técnicos avançados ou rotinas complexas. Um bom ponto de partida é organizar os arquivos importantes em uma única pasta principal no computador, concentrando ali documentos, fotos, planilhas, PDFs e outros conteúdos relevantes. Essa organização facilita tanto a sincronização quanto a cópia periódica.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda ação deste método consiste em manter uma cópia local em um HD externo ou SSD portátil. Uma vez por semana, ou em intervalos regulares que façam sentido para sua rotina, a pasta principal pode ser copiada ou sincronizada para esse dispositivo. O ideal é que o HD externo permaneça desconectado quando não estiver em uso, reduzindo o risco de que um eventual <em>malware</em> ou <em>ransomware</em> alcance também a cópia de segurança. Esse hábito simples aumenta significativamente a proteção dos dados, pois cria uma camada adicional independente da Internet e das contas <em>online</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Para completar e ter alta segurança de dados, é preciso um segundo HD externo e criptografado num local remoto, pode ser a casa de um parente ou o trabalho, e de tempos em tempos você troca o HD externo local com o remoto, sempre levando o primeiro para trocar no local remoto, e trazendo o segundo para funcionar como HD local. O importante é não ter as três cópias no mesmo local físico durante o processo. Essa prática é conhecida como Backup 3-2-1: três cópias, dois <em>backups</em>, um <em>backup</em> remoto.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso dos celulares, que hoje concentram grande parte das fotos e conversas pessoais, procure de tempos em tempos conectar o aparelho ao computador e copiar manualmente arquivos importantes. Essa prática amplia a segurança e evita surpresas desagradáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Em resumo, um sistema caseiro de <em>backup</em> eficiente não precisa ser complicado nem caro. Ele pode ser construído com organização básica dos arquivos e uma cópia periódica em dispositivo externo guardado com segurança. Ao adotar essa combinação simples e sustentável, a maioria das pessoas consegue reduzir drasticamente o risco de perder documentos, memórias e informações valiosas. Mais importante do que buscar a solução perfeita é estabelecer uma rotina realista e mantê-la ao longo do tempo. O <em>backup</em>, quando integrado de forma natural à vida digital, transforma-se em um hábito de cuidado com a própria história e de tranquilidade no futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, processos de automação facilitam e previnem falhas na rotina de <em>backup</em>, mas exigem mais tempo de configuração e uma seleção cuidadosa de <em>softwares</em>; isso será objeto de um artigo específico. Segue uma lista de artigos importantes para uma melhor prática para nossas cópias de segurança:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/09/128394/" href="https://passapalavra.info/2019/09/128394/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Cuidados digitais com senhas e chaves criptográficas</a> ;</li>
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/08/139682/" href="https://passapalavra.info/2021/08/139682/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mapa de Segurança Digital (1)</a> ;</li>
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/09/140182/" href="https://passapalavra.info/2021/09/140182/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mapa de Segurança Digital (2)</a> ;</li>
<li class="li"><a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/10/140642/" href="https://passapalavra.info/2021/10/140642/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Mapa de Segurança Digital (3)</a> .</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Bom <em>backup</em> a todos!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">
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