<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Colunas &#8211; Passa Palavra</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/category/colunas/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Mon, 24 Aug 2026 13:18:17 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.1</generator>
	<item>
		<title>Hora de “desbigtechtizar” a vida [1]</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159647/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/08/159647/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Aug 2026 18:22:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159647</guid>

					<description><![CDATA[A livre colaboração sem propriedade intelectual e patentes restritivas levaram a uma solução excelente que consome menos recursos. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana<a href="#_edn1" name="_ednref1">[i]</a></h3>
<p style="text-align: justify;">Há praticamente 26 anos atrás eu estava no <em>site </em>da universidade esperando minhas últimas notas do bacharelado em engenharia de computação, salvo engano dia 12 de dezembro de 2000, pois dependia de sistemas proprietários para fazer as atividades do curso, e também estava louco para instalar Linux para sempre. Vi as notas e com elas a verdadeira liberdade de escolha, e cá estamos usando <em>software</em> livre desde lá. Hoje felizmente o mundo da ciência mudou e poderia fazer o curso usando Linux em todos os anos, pois áreas como computação, construção civil, elétrica, física, química, etc. têm programas educacionais e profissionais livres ou proprietários para sistemas operacionais Linux. Assim, podemos dizer que a escolha do SO é bastante livre, não 100% em todas as áreas da atividade humana mas na vida pessoal me parece que as escolhas são plenas para computadores pessoais, dependendo um pouco de hábitos e conhecimento de que as alternativas existem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse tempo vimos várias discussões sobre liberdade, segurança, confiança, desconfiança, temas agora superados dados que temos <em>softwares</em> livres nas nuvens corporativas, na Estação Espacial Internacional, nas <em>big techs</em>, nos roteadores <em>wi-fi</em> em nossas casas, em <em>smartwatchs</em>, em carros, e entre outras coisas, nos <em>smartphones.</em> Resumiria esse sucesso em duas questões, sendo a segunda uma consequência da primeira: colaboração de conhecimento, e Custo Total de Propriedade menor. Ou seja, a livre colaboração sem propriedade intelectual e patentes restritivas levaram a uma solução excelente que consome menos recursos. Acredito que isso se reflete na vida pessoal também, pois manter um computador com Linux pra mim e pra família deu bem menos dor de cabeça que com o SO embutido nos equipamentos que compramos ao longo do tempo; situação que sempre vi como venda casada.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das explicações sobre o porquê mutias pessoas não mudam para um cenário mais seguro e menos trabalhoso é a dos formatos proprietários de arquivos, onde muitas de nossas informações estão salvas num formato que só programas proprietários podem abrir e editar corretamente. Na prática pagamos o computador, pagamos o uso dos programas, e quando criamos o nosso conteúdo nos é imposto um sócio que só permite acesso ao nosso próprio conteúdo usando o programa dele. Nossa vida digital já era aprisionada nesses formatos proprietários e agora nem ficam no nosso computador, ficam nas plataformas das <em>big techs</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos uma pequena parcela da sociedade que conseguiu em parte ou totalmente sair dessa lógica de aprisionamento de dados, também conhecida como “retenção de dados”, e agora temos um novo alerta (de abuso) por causa de um ecossistema que está muito sob o controle de uma única empresa: o Android será fechado por práticas desleais. Não é a primeira vez que algo do tipo acontece, grandes empresas sofrem processos e bloqueios por fugirem da legalidade, por darem um jeitinho de parecer estarem corretas, como as redes sociais presentes no Brasil que desobedecem ordens judiciais e são corretamente bloqueadas, e ainda fomentam um discurso de cerceamento de liberdade de expressão do jeito que Joseph Goebbels (Ministro da Propaganda do Nazismo) teria feito; e o fazem porque estão com muitos dados de pessoas que querem acesso a eles inclusive por questões emocionais, e acabam sendo induzidas a questionar a ordem judicial, não o abuso contra a Lei.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando a questão do Android, o Google está para fazer uma atualização que inviabilizará o uso de <em>software</em> livre no ecossistema Android, forçando todos a pagarem taxas para estarem na loja Play Store e dificultando lojas como a F-Droid<a href="#_edn2" name="_ednref2">[ii]</a>, que é dedicada a distribuição de programas livres. Em outras palavras, isso praticamente impede que se desenvolva uma sociedade onde podemos escolher usar <em>softwares</em> livres nos nossos <em>smartphones</em>, assim como hoje é nos <em>desktops</em> e<em> notebooks/laptops.</em> Até mesmo o ecossistema de jogos conta hoje com soluções baseadas em Linux. Não precisamos discutir o quanto a colaboração livre levou a excelência técnica, que levou a sistemas muito seguros, tudo a um custo inferior, pois se não fosse assim as <em>big techs</em> não teriam seus milhares de computadores usando <em>software</em> livre. O fundamental é que a liberdade de escolha exista em todos as áreas da atividade humana, e provavelmente a única resposta que será levada a sério é uma parte significativa da sociedade “desgoogletizar” suas vidas, daí talvez alguém pense “opa! precisamos deixar o Android aberto e fácil pra colaborações”. Imagino que usarão vários discursos do tipo “não é bem assim” mas já vimos histórias parecidas acontecerem na computação, e já sabemos os possíveis finais. Sinceramente, faz tempo que procuro soluções para isso que sejam fáceis de manter pela maioria da sociedade, a série “Estudando redes domésticas”<a href="#_edn3" name="_ednref3">[iii]</a> é parte dessa busca, espero em breve escrever mais sobre o assunto.</p>
<p style="text-align: justify;">A denúncia desse fechamento do Android pelo Google ocorre pelo movimento Keep Android Open<a href="#_edn4" name="_ednref4">[iv]</a>, onde podemos ler “A partir de 2027, uma atualização silenciosa, imposta sem consentimento pelo Google, bloqueará todo aplicativo Android cujo desenvolvedor não se registrou no Google, não assinou o contrato e não pagou …”, considero esse texto autoexplicativo. Na versão em português do Brasil da página principal do movimento podemos ler os detalhes dessa ação de fechamento, as organizações que são contra, diversos aspectos sobre o porquê isso é ruim, e o quê está sendo falado na mídia especializada. Considero fundamental que todos leiam as partes sobre a armadilha e a “Reaja”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre a seção “Reaja”, alguns documentos nos <em>links</em> estão em inglês então quem precisar use o recurso de tradução de seu navegador. Se entramos em “Entre em contato com as autoridades reguladoras”, no item “Brazil” teremos os endereços de duas autoridades brasileiras que podem ser acionadas por qualquer cidadão. Entendo que a questão não é só de liberdade de escolha individual, mas também de soberania digital nacional que o Governo Federal tem a obrigação de acompanhar e até intervir; conforme informado na página o Brasil é um dos quatro primeiros que serão obrigados a passar pela nova sistemática restritiva no Android.</p>
<p style="text-align: justify;">Além das sugestões do Keep Android Open, acho que algumas ações mais drásticas precisam ser tomadas para que o uso de plataformas de <em>big techs</em> seja de fato uma escolha, não uma obrigação por termos nossas vidas digitais presas nelas:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>abandonar bancos que só funcionem por aplicativos em<em> smartphones</em>: se o banco não é acessível por navegador Web, procure outro que funcione por esse meio;</li>
<li>passar todo conteúdo pessoal para formatos livres, mesmo que ocorra alguma perda de qualidade: cada um precisará salvar testes e depois tentar abrir em outros programas para avaliar se pode ou não passar a usar o formato livre;</li>
<li>trocar redes sociais comerciais por redes federadas: isso vai exigir criar toda uma comunicação com pessoas queridas em outros meios.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Todas essas são decisões muito pessoais, e cada um deverá fazer suas escolhas, que pode ser continuar usando (e provavelmente pagando caro) os meios proprietários das <em>big techs</em>. Mesmo assim, é fortemente recomendável que estudem a questão. Nos próximos artigos falaremos de opções técnicas, resgatando algumas já tratadas e outras novas.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom estudo/reação a todos!</p>
<h4><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ednref1" name="_edn1">[i]</a> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ednref2" name="_edn2">[ii]</a> a loja F-Droid pode ser instalada conforme instruções em &lt;<a href="https://f-droid.org/pt_BR/" target="_blank" rel="noopener">https://f-droid.org/pt_BR/</a>&gt;</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ednref3" name="_edn3">[iii]</a> com quatro artigos, com o primeiro disponível em &lt;<a href="https://passapalavra.info/2024/02/151675/" target="_blank" rel="noopener">https://passapalavra.info/2024/02/151675/</a>&gt;</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ednref4" name="_edn4">[iv]</a> &lt;<a href="https://keepandroidopen.org/pt-BR/" target="_blank" rel="noopener">https://keepandroidopen.org/pt-BR/</a>&gt;</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/08/159647/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O escritor, seus fantasmas e o outro</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159557/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/08/159557/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Aug 2026 21:36:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159557</guid>

					<description><![CDATA[Por Jan Cenek Conheci o escritor argentino Ernesto Sabato (1911-2011) procurando por Albert Camus (1913-1960). Queria ler algo sobre este e encontrei Mensageiros das fúrias: uma leitura camusiana de Ernesto Sabato, de Janer Cristaldo [1], que, entre outras atividades, traduziu o escritor argentino para o português. Sempre retorno aos livros de Sabato, costumo reler especialmente [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Conheci o escritor argentino Ernesto Sabato (1911-2011) procurando por Albert Camus (1913-1960). Queria ler algo sobre este e encontrei <em>Mensageiros das fúrias: uma leitura camusiana de Ernesto Sabato</em>, de Janer Cristaldo <strong>[1]</strong>, que, entre outras atividades, traduziu o escritor argentino para o português. Sempre retorno aos livros de Sabato, costumo reler especialmente <em>O escritor e seus fantasmas</em> <strong>[2]</strong>, coletânea de ensaios e impressões em que Sabato consolida sua ruptura com a física e reafirma sua adesão à literatura, que ele define como forma de conhecimento privilegiada para examinar a condição humana, “talvez a mais completa e profunda” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheci o escritor uruguaio Carlos Liscano (1949-2023) por meio de Ernesto Sabato. Caminhando, passei por um livreiro de rua. Parei, espiei e vi <em>El escritor y el otro</em> <strong>[4]</strong>, título que me remeteu ao livro <em>O escritor e seus fantasmas</em>, de Sabato. Seria um diálogo? O outro de Liscano corresponderia aos fantasmas de Sabato? Li e reli algumas vezes os ensaios e impressões do escritor uruguaio. Liscano foi, também, poeta, artista plástico e militante. Integrou o Movimento de Libertação Nacional &#8211; Tupamaros (MLN-T). Preso político, esteve encarcerado por treze anos (1972 &#8211; 1985). No cárcere, afirmou-se como escritor e iniciou sua produção literária. Traduzi e compartilhei pequenos trechos de Carlos Liscano que podem ser lidos <a href="https://passapalavra.info/2026/06/159317/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> e <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159427/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os fantasmas de Ernesto Sabato são obsessões inconfessáveis, traumas secretos, angústias profundas que atravessam os três romances escritos pelo argentino: <em>O túnel</em> (1948); <em>Sobre heróis e tumbas</em> (1961); <em>Abadon, o exterminador</em> (1974). Os fantasmas do escritor argentino têm a ver com a finitude do homem, os limites da ciência e o colapso da civilização. A “anelosa busca de uma ordem e de um por quê” <strong>[5] </strong>atormentou Sabato, empurrando-o da física para a literatura. Não lhe bastavam as verdades científicas dos objetos. Buscava, sobretudo, o homem. Para Sabato <strong>[6]</strong>, os argentinos – ele próprio incluído – estavam no final da civilização (em todos os sentidos), submetidos a uma ruptura duplamente dramática: “sem ter por trás o respaldo de uma grande cultura indígena (como a asteca ou a incaica) e sem poder, tampouco, reivindicar de modo cabal a tradição de Roma ou Paris”. Ainda não haviam se definido como uma pátria no mundo quando teve início a derrocada da civilização tecnocrática. A literatura é, para Sabato, uma possibilidade de reencontro, uma expressão híbrida do espírito humano posicionada entre a arte e o pensamento puro, a fantasia e o real, os sonhos e as sombras. No romance é possível explorar a realidade integral, objetiva e subjetiva, dentro e fora do sujeito. Foi o que fez Sabato migrar da física para a literatura.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o outro, de Carlos Liscano, é mais singelo. Sacada do escritor uruguaio: antes de criar uma obra, é preciso criar o personagem escritor. Foi o que fez o Carlos Liscano preso político da ditadura civil-militar uruguaia: criou o Carlos Liscano escritor, que publicaria dezenas de livros. O outro – o homem de carne e osso – se transforma em criado do escritor, apesar de conhecer todas as fraquezas e misérias do personagem que criou. Eis a separação: <em>el escritor y el otro</em>. Para Liscano <strong>[7]</strong>, o outro “sonha em um dia dissolver-se em seu personagem, para voltar a ser apenas um.” O que pode ou não acontecer. Mas, de qualquer forma, “criado o escritor, a obra se fará sozinha, porque o escritor se cria escrevendo”, garante Liscano <strong>[8].</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Jorge Luis Borges <strong>[9] </strong>também separou o escritor do outro. Talvez por não precisar se preocupar com a sobrevivência material de ambos, talvez por ser mais leitor que escritor; o outro, para Borges, é o que escreve livros. O contrário do que é para Liscano. Borges suspeita do outro Borges, o escritor, que “alcançou certas páginas válidas”, apesar do “perverso costume de falsear e magnificar”. Diferentemente de Liscano, Borges não demonstra nenhuma vontade de se dissolver no outro, antes pelo contrário. O desencontro borgeano é curioso. Pensei em registrar, <em>à la</em> Sabato, que o Borges escritor é um fantasma do Borges leitor. Mas seria ir longe demais levando a sério o que não é sério. A suposta confissão de Borges de que se reconhecia mais num rasqueado de guitarra do que nos livros do outro Borges, o escritor, é puro falseamento, que é a única parte séria do texto. Não fosse isso, o título poderia ser <em>El lector y el otro. </em>De qualquer forma, o texto de Borges ilumina, por contraste, <em>El escritor y el otro</em>, de Liscano.</p>
<p style="text-align: justify;">Se Borges ajuda a pensar Liscano por contraste, Sabato o faz por aproximação. Para Sabato <strong>[10]</strong>, a condição mais preciosa do escritor é o fanatismo: “Tem de ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se à sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer.” Aqui a prática de Liscano ilustra o argumento de Sabato. Fanatismo criativo: se definir, se forjar e se manter como escritor no cárcere de uma ditadura sanguinária.  Para Sabato <strong>[11]</strong>, o homem do tempo presente vive no limite: diante da aniquilação, da tortura, da solidão. A literatura do homem presente será, sobretudo, uma “literatura de situações excepcionais”. Eis uma boa definição para a prática literária de Carlos Liscano. Outra aproximação. Sabato <strong>[12]</strong> compara literatura e prostituição, se pergunta sobre a sobrevivência material do escritor, e responde de forma provocativa, diz que todas as maneiras de ganhar a vida são legítimas, desde que a “criação não seja manuseada, abastardada e barateada”. A saída de Liscano é menos provocativa, mas mais radical. O uruguaio simplesmente eliminou a questão do horizonte de possibilidades e preocupações. Criado o personagem escritor, resta ao homem de carne e osso que o criou, o outro, se virar para garantir a sobrevivência material de ambos. Ao separar o escritor do outro, Liscano deixa para este a labuta diária em busca do pão, permitindo que o escritor apenas e simplesmente escreva. Na prática, Carlos Liscano – o outro, o que inventou o escritor – teve uma série de empregos: faxineiro, professor, tradutor. Tudo para possibilitar que o Carlos Liscano escritor escrevesse sem “abastardar” sua literatura, para usar um verbo empregado pelo argentino. Sabato <strong>[13]</strong> é categórico: o escritor deve fazer qualquer coisa para sobreviver, pode se empregar num banco ou assaltar um carro-forte, só não pode transformar sua literatura em mercadoria. Liscano <strong>[14]</strong> é realista: constata que ser escritor lhe foi um exercício de renúncia, havia renunciado a ter uma família, filhos&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Encantamento dialético: ninguém lê duas vezes o mesmo livro. Conheci Liscano pela semelhança com um título de Sabato. Mas, quando reli o argentino depois de ler o uruguaio, já era outro, havia mudado. O que me faz pensar que um escritor escreve para se transformar, como argumenta Liscano, e um leitor lê pela mesma razão. Em Sabato <strong>[15]</strong>, chama a atenção a “absurda fome de eternidade”, a inabalável vontade de superar a “desgraçada precariedade” do corpo. Neste sentido, os fantasmas de Sabato são metafísicos. Os escritores geralmente confessam que escrevem para sobreviver à morte, deixando registros mais longevos que seus corpos. O que Sabato <strong>[16]</strong> chamou de “anelosa busca de uma ordem e de um por quê” às vezes é, também, uma inquebrantável vontade de marcar de alguma forma a precária passagem por este mundo. Um único ensaio presente em <em>El escritor y el otro </em>levou título, que é justamente: <em>Vencer o tempo</em>. Não é à toa nem coincidência. Liscano registrou que “o escritor luta contra a morte” <strong>[17]</strong>, “quer deixar testemunho para além da morte” <strong>[18]</strong>. Se é assim, o uruguaio compartilha com o Sabato a “absurda fome de eternidade” e a vontade de superar a “desgraçada precariedade” do corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Liscano suaviza e problematiza a inquebrantável vontade de marcar sua passagem pelo mundo por meio da literatura. Sabe que outros já tentaram o mesmo movimento e fracassaram. No texto <em>Borges e eu</em>, Jorge Luis Borges também aspira à permanência, mas com menos gravidade que Sabato, talvez por saber que permaneceria nos textos do outro, o Borges escritor. Sendo assim, pôde até disfarçar e despistar dizendo que pouco se reconhecia nos livros que escreveu. Com Sabato e no limite, a “absurda fome de eternidade” somada à “desgraçada precariedade” do corpo tem duas soluções possíveis: ou se busca algum Deus que dê sentido ao mundo e às coisas, um espírito absoluto levitando na eternidade; ou o homem será uma “alma atormentada” <strong>[19]</strong>, transitando entre o caos e os seus fantasmas. Difícil imaginar uma alma mais atormentada que a de Carlos Liscano. Treze anos encarcerado por uma ditadura sanguinária. A invenção de um escritor no cárcere e, posteriormente, uma vida toda preso à escrita, que nem sempre fluiu. Quem lê Liscano fica com a impressão de que a literatura às vezes é uma prisão mais cruel que as cadeias da ditadura uruguaia. Como é duro o vazio do escritor diante da página em branco. Como é torturante a distância entre a obra imaginada e a efetivamente criada. Mas tem que ser assim. Em 2025, foi lançado um documentário que resgata a luta e o reencontro de 52 uruguaios, contemporâneos de Liscano, que combateram ao lado da Frente Sandinista de Libertação Nacional, na Nicarágua, nos anos 1970. O título do filme é <a href="https://www.youtube.com/watch?v=tuBzPTwTO0g" target="_blank" rel="noopener"><em>Una y mil veces</em></a>. Perguntados se fariam tudo novamente, os homens respondem que sim: uma e mil vezes. Não sei se Carlos Liscano diria o mesmo sobre sua militância política, mas ele certamente teria criado o Carlos Liscano escritor mil vezes, se necessário.</p>
<p style="text-align: justify;">É assim porque a literatura transforma, se não o mundo, ao menos quem escreve e quem lê. Mais que isso, tal transformação é essencialmente humana. O Carlos Liscano que começava um livro sabia que nem o escritor nem o outro seriam os mesmos depois. É o milagre da criação, que, diga-se de passagem, é compartilhado pelos leitores. Ninguém escreve nem lê duas vezes o mesmo livro. O que contrasta com Sabato e até com Borges, no caso deste último por falseamento e brincadeira. Não significa que Liscano não tenha sido uma alma atormentada, como Sabato. Ocorre que o uruguaio escreveu apesar dos seus fantasmas, e não para exorcizá-los. Não se prendeu nem se limitou a eles. Liscano <strong>[20]</strong> confessa que escrever é “afundar, deixar-se afundar.” Mas ocorre que, nesse salto para dentro, nesse mergulho para baixo, o importante é “ouvir o rumor das palavras” <strong>[21]</strong>. Aqui a aproximação com Drummond <strong>[22]</strong> e sua procura da poesia é inescapável. Os poemas, assim como o romances, não estão nos acontecimentos e incidentes pessoais: nem na gota de bile, nem na careta de gozo, nem nos esqueletos familiares, nem na sepultada infância, nem nos porões da mente, nem nas obsessões inconfessáveis, nem nos traumas secretos, nem nas angústias profundas. Os poemas, assim como os romances, estão paralisados no reino das palavras. Por isso é preciso ouvir o rumor delas no salto que se faz para dentro, no mergulho para baixo. Liscano afirma, sem falsa modéstia, que algumas vezes conseguiu regressar com algo das viagens que fez ao reino das palavras. É o tal milagre da criação, que, quando acontece, transforma o escritor, o outro e os leitores. Escrever é, sobretudo, transformar. Se não o mundo, certamente a si mesmo e alguns poucos, como os leitores mais dedicados.</p>
<p style="text-align: justify;">Liscano <strong>[23]</strong>: “escrevo para deixar de ser o que sou.” Porque escrever transforma. Porque a escrita é imprevisível. Porque se o escritor soubesse previamente o que gostaria de dizer, não precisaria escrever. Evitaria assim a luta vã com as palavras <strong>[24]</strong>. Mas se privaria da alegria da criação: porque escrever é uma festa. Acrescento chamando Eduardo Galeano <strong>[25] </strong>para a prosa. Essa alegria – essa possibilidade positiva e reconfortante da criação literária – é o que encanta em <em>El escritor y el otro</em>. Sabato <strong>[26]</strong> registrou que fala de literatura como um camponês fala do seu cavalo. Penso que o dito se aplicaria melhor a Liscano, que soube reconhecer as alegrias do ofício. Imagino-o saboreando os textos que trouxe do reino das palavras. A escrita às vezes é uma festa, às vezes reconforta com vantagem. É também por essa razão que se escreve. Sabato: escrever é um parto difícil, é exorcizar fantasmas, é procurar verdades que a ciência e a filosofia não alcançam – gravidade que pesa, sempre. Liscano: escrever é se transformar, é dançar com os próprios fantasmas, é ser ultrapassado pelo texto – leveza que reconforta, às vezes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Janer Cristaldo. <a href="https://www.ebooksbrasil.org/eLibris/mensageirosdasfurias.html" target="_blank" rel="noopener"><em>Mensageiros das fúrias: uma leitura camusiana de Ernesto Sabato</em></a>. Florianópolis: Editora da UFSC, 1983.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Ernesto Sabato. <em>O escritor e seus fantasmas.</em> Rio de Janeiro: F. Alves, 1982.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Sabato, op. cit., p. 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4] </strong>Carlos Liscano. <em>El escritor y el otro.</em> Montevideo: Editorial Planeta, 2016.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5] </strong>Sabato, op. cit., p. 48.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6] </strong>Sabato, op. cit., p. 47.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7] </strong>Liscano, op. cit., p. 76.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8] </strong>Liscano, op. cit., p. 96.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9] </strong>Jorge Luis Borges. <a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm21069919.htm" target="_blank" rel="noopener"><em>Borges e eu</em></a>. Folha de São Paulo, 1999.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10] </strong>Sabato, op. cit., p. 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11] </strong>Sabato, op. cit., p. 54.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12] </strong>Sabato, op. cit., p. 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13] </strong>Sabato, op. cit., p. 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14] </strong>Liscano, op. cit., p. 93.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15] </strong>Sabato, op. cit., p. 75.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16] </strong>Sabato, op. cit., p. 48.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17] </strong>Liscano, op. cit., p. 95.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18] </strong>Liscano, op. cit., p. 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19] </strong>Sabato, op. cit., p. 48.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20] </strong>Liscano, op. cit., p. 91.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21] </strong>Liscano, op. cit., p. 91.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22] </strong>Carlos Drummond de Andrade. <em>Nova reunião: 23 livros de poesia</em> – volume 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p. 141.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23] </strong>Liscano, op. cit., p. 94.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24] </strong>Drummond, op. cit., p. 121.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25] </strong>Marina Rossi. <a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/08/cultura/1533759911_111388.html#:~:text=%E2%80%9CEscrever%20%C3%A9%20a%20%C3%BAnica%20coisa%20que%20eu,e%20as%20pessoas%20que%20cruzaram%20seu%20caminho." target="_blank" rel="noopener"><em>Ouça Eduardo Galeano</em></a>. El País, 2018.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26] </strong>Sabato, op. cit., p. 9.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/08/159557/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>4</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ferramentas de Controle Parental (4)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159495/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/07/159495/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jul 2026 17:08:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159495</guid>

					<description><![CDATA[No fim das contas, a ferramenta técnica apenas reduz danos, mas o controle parental duradouro e definitivo continua sendo a educação digital, as conversas sobre privacidade e a negociação franca de limites. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level1">
<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana</h3>
<p style="text-align: justify;">Dando continuidade ao nosso percurso sobre o desafio do controle parental, que já passou pelas obrigações do ECA Digital, pelo uso do Family Link, pelas configurações em ambientes Linux e, mais recentemente, pela filtragem de conteúdo via <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr>, tentaremos neste artigo abordar uma solução mais abrangente. Muitos leitores e pais atentos podem se perguntar: existe uma prática comum a diversos sistemas para fazer esse controle? É uma questão que levará algum tempo para respondermos, mas já podemos identificar alguns passos para esse objetivo que são: criar um usuário restrito, permitir apenas aplicativos selecionados, usar um <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> para filtrar conteúdo e bloquear alterações nas configurações do sistema. Podemos, por exemplo, fazer tudo isso num celular Android mas com preferência para o Software Livre e escapar da entrega de dados pessoais e comportamentais às <em>big techs</em>? Depende do que se deseja. Se for para um controle muito detalhado como definir o tempo em cada aplicativo, é mais difícil, mas para um controle básico de aplicativos e conteúdos fica mais fácil.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante ressaltar que esses quatro passos formam um modelo conceitual genérico de proteção, aplicável e pesquisáveis para qualquer sistema operacional — seja Android, iOS, Linux, macOS ou Windows. Cada etapa cumpre uma finalidade específica e indispensável na arquitetura do controle parental básico: a criação de um usuário isola o ambiente da criança, impedindo que ela acesse dados sensíveis dos adultos; a permissão restrita de aplicativos garante que apenas conteúdos e ferramentas aprovadas pelo tutor sejam executados; a configuração de um <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> com filtros atua como uma barreira de rede, bloqueando conteúdos nocivos e ilícitos antes mesmo que cheguem ao dispositivo; por fim, o bloqueio das configurações de sistema impede que o menor, intencionalmente ou por curiosidade, desfaça as proteções estabelecidas. Entender essa lógica permite ao responsável adaptar a segurança independente do aparelho que tiver em mãos.</p>
<p style="text-align: justify;">Conforme refletimos anteriormente, decidir qual ferramenta usar envolve prioridades. Se no primeiro artigo o Family Link foi apresentado pela sua facilidade e urgência de proteção, aqui propomos uma alternativa para quem já tem familiaridade com o ecossistema de Software Livre e deseja fugir da “economia da atenção” e da vigilância corporativa desde a infância de seus tutelados. O ecossistema Android, embora mantido pela Google, possui raízes em código aberto e permite configurações profundas que, combinadas com a loja de aplicativos F-Droid (uma loja exclusiva para Software Livre), formam um bom escudo protetor. Neste artigo vamos seguir com esse sistema operacional como exemplo por ser bastante comum em <em>tablets</em>, equipamentos esses interessantes como dispositivos de auxílio a educação.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro passo desse caminho comum é <strong>isolar o ambiente da criança</strong>. O próprio sistema Android possui a função de múltiplos usuários, muito semelhante à que discutimos nos computadores com Linux. O ideal é ir em “Configurações”, depois em “Sistema” e procurar por “Múltiplos usuários” ou “Vários usuários”. Ali, o responsável deve manter o seu próprio perfil protegido por uma senha forte ou biometria (para que a criança não o acesse) e criar um “Usuário Padrão” (ou “Perfil Restrito”, caso esteja usando um <em>tablet</em>, onde o recurso costuma ser mais robusto). Esse novo usuário será o espaço digital da criança.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo passo, já dentro do perfil da criança, é <strong>configurar o filtro de conteúdo</strong>. Lembra-se do <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> que configuramos no Linux no <a href="https://passapalavra.info/2026/06/159364/" target="_blank" rel="noopener">terceiro artigo</a>? No Android (a partir da versão 9), isso é ainda mais simples, pois o sistema aceita <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> sobre TLS (DoT) nativamente, sem precisar de <em>firewall</em> complicado. O inconveniente é que cada fabricante faz seu menu de configuração de forma que e as palavras e a sequência podem variar um pouco. Um exemplo é ir em “Configurações”, depois “Rede e Internet”, “Avançado” e selecionar “<abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> Privado”, mas em dois equipamentos Android que tenho o caminho não é esse, porém achei essa configuração em ambos pesquisando o termo “<abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> P”, pois num deles a expressão usada é “<abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> Particular”. A partir desse ponto, selecionamos a opção “Nome do host do provedor de <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> privado” (ou particular) e inserimos o endereço do serviço focado em famílias. Mantendo a recomendação anterior, podemos usar o CleanBrowsing preenchendo com “family-filter-dns.cleanbrowsing.org”. Pronto, toda a navegação daquele perfil estará filtrada, mas se essa configuração não existir no perfil da criança, será necessário ir no perfil principal e aplicar isso a todos os usuários; tenho usado esse <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> faz uns dois meses e não mudou meu dia-a-dia, pode ser uma ótima opção para todos.</p>
<p style="text-align: justify;">O terceiro e o quarto passo são onde temos opções viáveis de Software Livre: <strong>restringir aplicativos e impedir alterações</strong>. Se a criança tiver acesso ao aplicativo “Configurações”, ela rapidamente aprenderá a desativar o <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> Privado, derrubando nossos filtros. A solução é instalar um bloqueador de aplicativos de código aberto, como o App Lock, obtido através da loja F-Droid <strong>[1]</strong>; na Play Store existem aplicativos similares. Ferramentas livres de bloqueio cumprem uma função simples e honesta: exigem uma senha (que só o tutor sabe) para abrir determinados programas, sem exibir anúncios ou coletar seus dados para terceiros.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso do App Lock do F-Droid cuidado para não ativar o “Atalho do App Lock” (ou Atalho de acessibilidade) nas configurações de acessibilidade pois isso ativa um ícone flutuante que permite desativar o bloqueio facilmente; para ele funcionar corretamente também precisei reiniciar o dispositivo. Com o App Lock (ou similar) instalado no perfil da criança, o responsável deve usá-lo para trancar a sete chaves três coisas fundamentais:</p>
<p style="text-align: justify;">1. O aplicativo “Configurações” (impedindo a troca do <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> ou de redes);</p>
<p style="text-align: justify;">2. A “Play Store” e o próprio “F-Droid” (impedindo a instalação de jogos ou navegadores não autorizados);</p>
<p style="text-align: justify;">3. Navegadores que não possuam filtros rigorosos.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, deixamos habilitados somente os jogos educativos, aplicativos de comunicação com a família ou plataformas de estudo que previamente acordamos com os menores. A criança não consegue alterar a rede, não consegue instalar novos aplicativos por conta própria e navega sempre sob o olhar protetor de um <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> familiar. Criamos, assim, uma <em>sandbox</em> (uma “caixa de areia” isolada e segura) baseada majoritariamente em recursos selecionados.</p>
<p style="text-align: justify;">Como dito, diversas vezes ao longo desta série de artigos, nenhuma solução técnica é 100% à prova de falhas. Adolescentes mais velhos sempre testarão os limites das cercas virtuais que construímos. Além disso, o trabalho de configurar um ecossistema assim exige paciência inicial por parte do adulto. Contudo, optar por esse caminho descentralizado e livre ensina aos jovens, pelo exemplo, que a tecnologia pode ser moldada às nossas necessidades familiares, e não o contrário. No fim das contas, a ferramenta técnica apenas reduz danos, que pode ser uma grande redução, mas o controle parental duradouro e definitivo continua sendo a educação digital, as conversas sobre privacidade e a negociação franca de limites.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom diálogo a todos!</p>
</div>
<div class="footnotes">
<div class="fn" style="text-align: justify;">
<div class="content"><em><strong>Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</strong></em></div>
</div>
<div class="fn">
<div></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> A loja F-Droid pode ser instalada conforme instruções em <a class="urlextern" title="https://f-droid.org/pt_BR/" href="https://f-droid.org/pt_BR/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://f-droid.org/pt_BR/</a></div>
</div>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/07/159495/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Carlos Liscano e a tortura</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159427/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/07/159427/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jul 2026 12:09:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Uruguai]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159427</guid>

					<description><![CDATA[O terror é “indizível”. Mas, de qualquer forma, é preciso dizer o que for possível. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Carlos Liscano (1949 – 2023) foi um escritor uruguaio que escreveu poemas, ensaios, contos, traduções, manuais de espanhol, matérias jornalísticas, peças de teatro e romances. Integrou o Movimento de Libertação Nacional &#8211; Tupamaros (MLN-T). Ficou encarcerado por treze anos (1972 &#8211; 1985). No cárcere da ditadura civil-militar uruguaia, se definiu como escritor e iniciou sua produção literária. Quando foi solto, para se sustentar como escritor, Liscano trabalhou como faxineiro e professor, entre outras ocupações. Mais que isso, aprofundou a separação entre o escritor (Carlos Liscano que escreve) e o outro (Carlos Liscano que sustenta o escritor). Daí o título de um dos seus livros: <em>El escritor y el otro </em><strong>[1]. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Foi publicada no Brasil uma coletânea <strong>[2]</strong> que reúne ensaios, em português e espanhol, sobre <em>El escritor y el otro</em>, mas o texto original não está disponível em português. Por considerar que pode interessar aos leitores do Passa Palavra devido à força e ao humanismo da reflexão, digitei trechos do texto em espanhol, traduzi o material utilizando o Google, revisei e ajustei a tradução cotejando-a com o original e com sentido do livro <em>El escritor y el otro</em>. No <a href="https://passapalavra.info/2026/06/159317/">mês passado</a>, publiquei trechos de Liscano relacionados à escrita.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o próximo mês, preparei um ensaio que discute as ideias de Carlos Liscano (<em>Uno y el otro</em>) e Ernesto Sabato (<em>O escritor e seus fantasmas</em> <strong>[3]</strong>) sobre a escrita. Como registrei anteriormente, foi a semelhança entre os títulos que me chamou a atenção, inicialmente. Depois, fui percebendo diferenças entre ambos e resolvi escrever.</p>
<p style="text-align: justify;">Para este mês, compartilho trechos de Liscano sobre a tortura praticada pela ditadura civil-militar uruguaia. O próprio escritor registrou que uma parte da tortura é “indizível”, porque o terror é “indizível”. Mas, de qualquer forma, é preciso dizer o que for possível. Abaixo, em itálico, algumas palavras de Carlos Liscano sobre a tortura. A numeração é a mesma presente no livro <em>El escritor y el otro</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>18</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vivi à margem da sociedade por muito tempo. Passei dois anos na Academia Militar e quatro anos na Força Aérea, o que é uma forma de viver à margem. Quando me deram baixa, após três meses na prisão, entrei para o ativismo clandestino por dois anos. Depois, treze anos na cadeia. Em seguida, dez anos e meio na Suécia. No total, vivi quase trinta anos à margem da sociedade uruguaia. Tenho amigos dentro e fora do Uruguai, mas não tenho nenhum amigo da adolescência, nenhum colega de classe. Por muitos anos, fui um viajante sedentário. Minha mente viajava, mas eu estava sempre preso ao mesmo lugar. Acho que isso me acostumou a viver mais no pensamento do que na realidade. Tenho uma grande capacidade de ficar sozinho. Não apenas sozinho: em solidão, sem ouvir música, sem atender o telefone, sem sequer existir. Não é o que busquei: é o que sou. Na solidão, no silêncio e na quietude: sou.</em><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>19 </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A sensação de ser estrangeiro é sempre a mesma. Foi o que senti naquela noite de 14 de março de 1985, viajando por Montevidéu na van que levava homens para casa depois de saírem da prisão. Naquela época, eu não tinha casa, nem emprego, nem profissão, nem família.</em><em> </em><em>Eu ia escrever: “naquela época eu não tinha cara”, em vez de “não tinha casa”, minha mão me corrigiu a tempo. Mas seria uma boa definição daquele período. De tanto não ter nada, de tanto que me faltava: naquela noite eu não tinha nem cara.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>38</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Muito se escreveu sobre a repressão no Uruguai durante a última ditadura. Muito se escreveu e muito foi publicado. Parecia não haver nada “indizível” sobre o que ocorreu. Essa é a imagem que se tem. Eu também escrevi sobre o que passou. No entanto, o que se diz é o que está na superfície. Toda a violência, o medo, o terror, as humilhações, nunca serão ditos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>É difícil falar da tortura porque ela é uma intimidade. É como a própria vida sexual, não há motivo para contá-la a não ser na intimidade ou na terapia. Fora desses momentos, é apenas obscenidade, exibicionismo, talvez doença. Na tortura há duas partes, dois corpos: o do torturado e o do carrasco. Esses corpos se enfrentam, se tocam, transmitem seus odores, as bocas gritam, há choro, gemido, insultos. O carrasco sente que o corpo do outro lhe pertence. E, porque lhe pertence, pode fazer o que quiser com ele. Nem sequer considera ruim que o corpo do outro lhe resista. É bom que o faça. Para isso ele está ali: para exigir a entrega. Se não há resistência, não há entrega.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A mentira do torturado é, para o torturador, o falso orgasmo do sexo comprado. Quando o torturador descobre que o outro mentiu, se indigna. O torturado não se entregou, ou seja, não resistiu de verdade, em algum ponto cortou caminho, simulou a entrega. Então, tudo recomeça de onde havia parado, mas com mais rigor. Agora, a entrega deverá ser maior do que antes. Chega um momento em que é notório, mas intransmissível, que não é a entrega que o torturador busca – a declaração, a aceitação da culpa –, mas sim o jogo que conduz a ela, o confronto dos corpos. O torturador quer a resistência. Tanto é assim que despreza o prisioneiro que não resiste. Para o torturador, a boca fechada do prisioneiro é o símbolo do corpo que não pôde conseguir, apesar de seus esforços. Quando o tempo passa, o torturador não odeia quem não se entregou a ele. Não se entregou, mas lutou. Resta-lhe essa lembrança, e ele até o respeita. Talvez também o admire.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Tudo isso, claro, é uma reconstrução da minha cabeça trinta anos depois. Sei que “O furgão dos loucos” não disse tudo o que aconteceu. Pode ser por minha imperícia, mas há uma parte que é indizível. O terror é indizível: a perspectiva de que a tortura não tem tempo, que começa e não terminará nunca, que se pode ser torturado durante dias, semanas, meses&#8230; isso é indizível. A qualquer momento, cinco, seis, oito anos depois, podiam tirar um preso da cela para torturá-lo.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Uma noite me levaram à sala de tortura. Havia outro preso a quem eu não conhecia. Nem sequer pude vê-lo naquela noite. A diversão deles consistia em fazer com que um preso conseguisse quebrar o outro. Aquilo era a obscenidade maior. Era a violação do corpo outra vez, mas agora como espetáculo. À dor misturava-se o pudor, a vergonha, o estar obrigado a mostrar ao companheiro a própria debilidade e miséria. Não considerávamos que o desamparo fosse uma desculpa. Não sentíamos que estar encapuzado, algemado pelas costas, poderia mitigar a vergonha.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Passaram-se trinta anos daquela noite miserável. Há poucos dias estive na casa daquele companheiro, conheci sua mulher, seus netos. Compartilhou comigo sua mesa e em sua casa fiquei para dormir. Nestes anos, tínhamos falado duas vezes, rapidamente. Ninguém tocou no assunto, mas sei que aquela noite de 1972 esteve presente nas horas que passei na casa dele. Tivemos a sorte de transformar a antiga violação em irmandade. Porque aquela noite a tortura, pela primeira vez, não tinha sido solitária. Eu tinha sentido seu corpo arrebentado junto ao meu. Ele ouviu meus gritos. Não recordo detalhes, mas nós dois sabemos que não conseguiram nos fazer quebrar, não aconteceu o espetáculo que eles esperavam. Não sei como foi para ele, mas para mim foi a sua presença, a vergonha, o que me ajudou a não me entregar.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Carlos Liscano. <em>El escritor y el otro.</em> Montevideo: Editorial Planeta, 2016.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Liliana Reales e Roberto Ferro (organizadores). <em>Carlos Liscano: ficções do eu e ficções do outro</em>. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2013.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ernesto Sabato. <em>O escritor e seus fantasmas.</em> Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/07/159427/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A greve da USP e o anjo da história</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159393/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/06/159393/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Jun 2026 13:39:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159393</guid>

					<description><![CDATA[A greve deixou claro, para quem ainda tinha dúvidas, que o acesso ao mundo da elite não apenas não seria fácil, mas principalmente não seria possível nem politicamente desejável.  Por Isadora de Andrade Guerreiro ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<div class="preview" style="text-align: justify;">
<div class="pad">
<div class="level2">
<p>A USP passou neste primeiro semestre por uma de suas mais longas greves estudantis dos últimos anos, com 54 dias parados. Haveria muito o que dizer sobre ela, mas vou me deter apenas sobre um aspecto que creio relevante neste meu lugar de colunista de Cidades do Passa Palavra: a alteração na forma de uso das forças de repressão pelo Estado de São Paulo e suas consequências nas lutas, seja na organização popular, seja na estudantil. Tenho comentado sobre o assunto particularmente no que tange às favelas, mas veremos a seguir que os métodos de abordagem em territórios distintos parecem estar se aproximando.</p>
<p>Em especial, a forma de remoção da Favela do Moinho foi amplamente comentada por mim (<a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" href="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" href="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/05/159159/" href="https://passapalavra.info/2026/05/159159/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>), mostrando ali uma articulação empresarial-militar específica, na qual a repressão é conformada em incursões armadas que espalham terror tanto indiscriminadamente, quanto de maneira direcionada quando se quer desbaratar núcleos dirigentes. O dispositivo é a criminalização generalizada, buscando relacionar narrativamente a organização popular ao tráfico de drogas, colocando o território, sua população e sua rede de apoio como parte do “ecossistema do crime”. O braço armado do Estado usado na forma de milícia aqui é relevante, bem como sua ampla aceitação pela sociedade, que dorme tranquila sabendo que a ordem do “cidadão de bem” está acima de qualquer direito humano.</p>
<p>Bem, eu já dizia ali que o sono não deveria ser tão tranquilo, já que o dispositivo de generalização indiscriminada do terror estava apenas em fase laboratorial, claro, no seu território preferencial, as favelas que atrapalham os circuitos de valorização. Como dispositivo político, no entanto, o pesadelo não tarda a chegar em territórios menos evidentes, como a Universidade de São Paulo. Na noite de 10 de maio, a mesma <a class="urlextern" title="https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/em-acao-violenta-pM-invade-campus-da-uSP-para-acabar-com-ocupacao-da-reitoria1" href="https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/em-acao-violenta-pM-invade-campus-da-uSP-para-acabar-com-ocupacao-da-reitoria1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">polícia militar paulista invadiu violentamente o prédio da Reitoria</a> ocupado por estudantes em greve, que reivindicavam melhorias de <em>permanência</em>. As cenas de terror são estarrecedoras. Qualquer semelhança com a Favela do Moinho &#8211; cujos moradores reivindicavam melhorias urbanas e habitacionais para morar e trabalhar, ou seja, <em>permanecer</em> numa área privilegiada de São Paulo &#8211; não é mera coincidência.</p>
<p>Foi invasão pois, agindo como milícia, a polícia não realizou uma ação de reintegração de posse, autorizada por um juiz a partir de um mandado judicial requerido pela proprietária do prédio, como pede o rito democrático. Sem mandado algum, nem extrajudicial, a ação policial não tinha nenhuma relação administrativa com a USP, que pode inclusive inicialmente dizer oficialmente que “sem comunicação prévia à Reitoria, houve a desocupação do espaço público pela Polícia Militar”. No entanto, no mesmo comunicado, a Reitoria dizia que “informou sobre a ocupação à Secretaria de Segurança Pública (SSP), no mesmo dia do ocorrido (7/5), com vistas à adoção dos protocolos de proteção e de preservação da ordem de competência das autoridades policiais” &#8211; ou seja, lavando ao mãos quanto ao que poderia ser feito, se retirando de qualquer responsabilidade causada por uma ação certamente violenta.</p>
<p>O que é isso senão a contratação de um serviço miliciano oficial por uma elite universitária que não quer sujar as mãos? Por que a USP não se utilizou do amparo legal para realizar essa desocupação, pedindo a reintegração de posse? Estaria com medo de ser questionada na justiça sobre os motivos da ocupação estudantil? Por que uma ação política dos estudantes é respondida com violência estatal ilegal, sem nenhuma comissão de negociação, como sempre ocorreu em outras situações como esta e que certamente seriam requeridas pela justiça em situações de mediação? São perguntas que ficaram sem resposta.</p>
<p>A USP não queria mediação, não queria colocar em questão o fato de que não sabia mais o que fazer com estudantes aos quais não concederia mais nada. Aos quais queria impor uma derrota que os colocasse “no seu lugar”, aquele de receber passivamente as benesses desenhadas para transforma-los em… cidadãos de bem.</p>
<p>A culpa passou a dominar o debate político diante do silêncio atordoante dos gestores acadêmicos, que se colocam acima de qualquer necessidade de dar resposta à comunidade ou à sociedade. Com força crescente pelo apoio de setores docentes, os estudantes passaram a ser criminalizados pela gestão universitária por suas atitudes consideradas violentas. Quem diria. O trauma está instalado e, com ele, o ódio, sentimento novo entre docentes e estudantes e que se renova cotidianamente no retorno às aulas em pequenas ou grandes retaliações mais ou menos administrativas (notas, faltas…), mais ou menos explícitas ou violentas, mas nem um pouco racionais.</p>
<p>A semelhança com a remoção da Favela do Moinho não é mera coincidência também na medida em que se tratam de situações nas quais há uma população pobre e racializada, que carrega seus modos, experiências e necessidades de vida, instalada no seio do território das elites, resultado de lutas por acesso e <em>permanência</em>. Sim, pois essa greve &#8211; nas suas pautas e estratégias de luta &#8211; é um marco da transformação do corpo discente após a política de cotas. Texto muito revelador desta questão, escrito por estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU-USP), foi publicado <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/05/159199/" href="https://passapalavra.info/2026/05/159199/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui no Passa Palavra</a>.</p>
<p>Foi uma greve de enorme choque de diversas culturas políticas, para a qual a gestão universitária literalmente não estava preparada, não entende e, claro, não parava de julgar como “erradas” dentro de seus próprios parâmetros &#8211; e limites &#8211; históricos. Ora, não existe “errado” na política. Existem experiências, necessidades de vida e interesses divergentes em jogo, que entram em conflito. Se tais elementos não entram em jogo com o mesmo formato ou linguagem esperados pelas elites, como foram até então, entra-se em território desconhecido onde a barbárie parece estar autorizada, já que os velhos instrumentos não comportam uma reivindicação que, no limite, coloca em jogo a própria existência da Universidade como é conhecida.</p>
<p>Do lado do corpo estudantil, tais contradições vieram também à tona, pois a greve deixou claro, para quem ainda tinha dúvidas, que o acesso ao mundo da elite não apenas não seria fácil, mas principalmente não seria possível nem politicamente desejável: ao entrar no seu território, este corpo discente transforma-o. Por isso, percebeu que precisa assumir a tarefa política histórica de construir a nova forma universitária, que ainda não existe. Uma forma universitária que carregue uma verdade difícil para aqueles que achavam que tinham sido aceitos no paraíso: a de que este corpo estudantil faz parte da sociedade como sem-teto, como população em insegurança alimentar, no limite da saúde mental, tal qual aqueles fora dos muros. Estudante: lute como um sem-teto! É necessário articular lutas. É tarefa muito mais árdua, mas muito mais promissora, do que a reivindicação de acesso a uma forma que não comporta a sua existência. Isso ficou explícito na derrota que foi imposta violentamente ao corpo estudantil.</p>
<p>Derrota sim, é necessário assumir isso, assim como no caso da Favela do Moinho é necessário reiterar que as soluções habitacionais conquistadas não podem jamais ser consideradas uma vitória &#8211; o que seria assumir o discurso do seu algoz. No caso do movimento estudantil da USP, assumir a derrota, negando qualquer tipo de meia-vitória propagandeada pelos gestores docentes ou discentes, é ganhar a possibilidade de construir sua própria história, carregando consigo para o futuro a história dos vencidos, como diz Walter Benjamin (Teses sobre o conceito de história), e não aquela dos vencedores. Estes últimos são a classe dominante que, imbuída da noção de progresso, marcham adiante violentamente sem olhar para trás. Os vencidos devem olhar para trás e encarar seu próprio terror, pois apenas ele construirá a sua história. Segundo Benjamin, na Tese 9:</p>
<blockquote><p>Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.</p></blockquote>
<p>Para criar uma nova Universidade, não guiada pela noção de progresso, será preciso não se identificar com o mundo dos vencedores, mas construir seus próprios caminhos entre as ruínas. Neste sentido, é necessário que mostrem o cinismo da célebre frase inscrita na Praça do Relógio do Campus da Capital da USP “No universo da cultura, o centro está em toda parte”. Que todas as partes são essas, constantemente tendo negadas as suas existências? Benjamin lembra, na Tese 7, para que nunca nos esqueçamos:</p>
<blockquote><p>(…) Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes génios que os criaram, como à corveia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.</p></blockquote>
</div>
<div class="clearer"></div>
</div>
</div>
<div class="clearer" style="text-align: justify;"></div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/06/159393/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ferramentas de Controle Parental (3)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159364/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/06/159364/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Jun 2026 14:25:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159364</guid>

					<description><![CDATA[Usar um DNS com filtros é um grande auxílio na criação de crianças e adolescentes.  Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana</h3>
<div class="level1" style="text-align: justify;">
<p>Certamente chegará o momento que cada tutor deverá permitir que crianças e adolescentes acessem a Web, redes sociais, aplicativos, com tudo que há de bom e ruim, mas essa permissão não precisa acontecer de uma só vez, como um grande impacto na vida, ela pode acontecer de maneira gradativa usando ferramentas de controle parental. Essas ferramentas não são somente aplicativos que precisam ser instalados em cada equipamento, nem são somente assunto para os legisladores governamentais, pois existem iniciativas civis que ajudam nessa tarefa árdua de proteger infância e adolescência de ações de má-fé. Neste artigo vamos tratar do uso de serviços que filtram o conteúdo da Web.</p>
<p>Antes vale tratar duas questões desse contexto: quem faz as ferramentas e o do que se pode proteger. As ferramentas e sistemas de controle parental podem ser feitas por empresas, pessoas, governos, indivíduos, etc., e decidir por essa ou aquela ferramenta envolve alguns fatores como público-alvo, facilidade de uso, disponibilidade, abrangência e tempo de vida da ferramenta. Nem sempre esse cenário vai ser atendido por uma visão filosófica, como a do Software Livre, e diante disso será precisa escolher o quê priorizar, por exemplo, a segurança da criança ou o boicote a uma <em>big tech</em>. Percebi que faltou contar sobre essa reflexão quando decidi escrever sobre o Family Link, momento que considerei prioridade proteger as crianças rapidamente, até porque um artigo é somente uma sugestão e ferramentas podem ser substituídas, mas não dá para voltar atrás de uma violência que poderia ter sido evitada. Assim, sugiro que reflitam sobre não boicotarem as crianças e nem a si mesmos; sabemos que existe uma captura forte de nossas vidas na &#8216;economia da atenção&#8217; por gente com poder econômico colossal, mas a evolução da liberdade de escolha está acontecendo e ninguém precisa se autodestruir antes das opções chegarem. Do que conseguimos nos proteger também é uma questão bastante polêmica, pois é impossível ter uma solução 100% segura, e mesmo que existisse no mundo as crianças vão descobrir coisas boas e ruins em seus círculos de convívio e, nesse sentido, pode ser melhor que o problema aconteça perto da gente, de forma a reduzir danos. Com crianças pequenas acredito que o recomendável é sempre buscar conteúdos juntos quando for necessário, mas em algum momento será necessário permitir uma navegação autônoma, principalmente para fins educacionais.</p>
<p>A proposta a ser apresentada neste artigo depende de entendermos como funciona o <em>Domain</em> <em>Name System</em> (<abbr title="Domain Name System">DNS</abbr>), que permite que os computadores na Internet se encontrem para comunicação. Assim como na telefonia, os equipamentos computacionais usam números para sua comunicação, chamados números IP (Internet Protocol), mas nós não decoramos esses números assim como não costumamos decorar números de telefone, e só saber o número muitas vezes não é suficiente, precisamos de detalhes equivalentes a números de ramais e nomes de departamentos. Ou seja, o <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> funciona como se fosse uma agenda telefônica que já tem o nome do departamento e o número do ramal, tudo que é necessário para ir direto no <em>site</em> desejado a partir de seu nome. Esse sistema funciona em diversos equipamentos servidores ao redor do mundo, chamados servidores de <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr>, e na imensa maioria das vezes eles já são configurados automaticamente quando nos conectamos à Internet, seja por Wi-Fi, cabo, 5G, etc. Esses servidores de <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> formam uma espécie de grande lista de <em>sites</em> com todos os nomes e seus números IPs, sem qualquer filtro, incluindo números de páginas ilícitas e de conteúdos indesejados para crianças e adolescentes. No entanto, há servidores de <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> que filtram esses conteúdos e são uma boa opção para uso em família, inclusive os de <em>big techs</em> como o OpenDNS FamilyShield ou o CloudFare for Families. O <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> testado e proposto neste artigo é o CleanBrowsing Family Filter <strong>[1]</strong>, uma <em>startup</em> com abrangência e colaboração internacional e que filtra inclusive <em>sites </em>brasileiros, onde podemos encontrar e seu <em>site </em>tutorias de configuração para Android, iOS, Linux, macOS e Windows. Infelizmente, assim como com qualquer <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr>, novos sites de conteúdos indesejados podem demorar a serem percebidos e filtrados, assim como muitos <em>sites</em> de apostas legalizados também não serão bloqueados, portanto, sugiro que mantenham dados de cartões de créditos longe de crianças e adolescentes, ou usem com eles cartões com limites de uso bem estabelecidos em conversa aberta.</p>
<p>Sabemos que adolescentes acabam descobrindo como burlar esses <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> com filtros para usar outro que funcione com tudo, mas a seguir veremos um exemplo usando Linux que vai dificultar tentativas de usar outros <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr>. O ambiente de trabalho neste exemplo é o GNOME, mas qualquer ambiente possuí caminhos para as mesmas configurações. O primeiro passo é configurar o <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> do CleanBrowsing Family Filter na conexão que estiver em uso, e configurar os dois tipos de IPs (IPv4 e IPv6), que no caso do GNOME é ir em Configurações → Rede ou Wi-Fi → clicar no ícone de engrenagem da conexão em uso → ir na aba IPv4, desabilitar o <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> automático e colocar os números de IP “<strong>185.228.168.168, 185.228.169.168</strong>” (sem as aspas) → ir na aba IPv6, desabilitar o <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> automático e colocar os números hexadecimais “<strong>2a0d:2a00:1::, 2a0d:2a00:2::</strong>” ; em ambos os casos a vírgulas separa dois números porque são dois <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> para cada tipo de IP. Como podemos perceber, para voltar a usar o <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> mais abrangente é só ativar o <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> automática, algo muito fácil de alguém aprender, por isso vamos bloquear todos outros <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> que não sejam esses.</p>
<p>Para bloquear outros servidores de <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> precisas usar um programa de <em>firewall</em> e bloquear o quê chamamos de portas 53 e 853. No exemplo usamos o Gufw Firewall por ter uma boa interface para essa tarefa. A Figura 1 mostra com ficarão as regras do <em>firewall</em> após a configuração necessária, que no caso são regras para permitir os <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> da CleanBrowsing (regras 1, 2, 5 e 6) e regras para bloquear outros <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> (regras 3, 4, 7 e 8); observe que as regras para funcionar com o IPv6 têm a descrição “(v6)”, as regras sem isso são para IPv4. Para instalar o Gufw você deverá ter senha de <em>root</em> da tua instalação Linux; a maioria das instalações contam com esse aplicativo. Atenção que a sequência de configuração não é a mesma do resultado final, os passos são:</p>
<ul>
<li>testar o uso da Web após configurar os <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> na conexão;</li>
<li>configurar os <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> permitidos no <em>firewall </em>e testar<em>;</em></li>
<li>configurar o bloqueio de qualquer outro <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr>.</li>
</ul>
<p>Se você nunca configurou regras de um <em>firewall</em> a tela inicial do Gufw vai estar em branco, e a partir daí configuramos os <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> permitidos indo no ícone &#8216;+&#8217;, depois na aba &#8216;Opções avançadas&#8217; e colocando as seguintes configurações, mantendo as demais como estão:</p>
<ul>
<li>Nome: CleanBrowsing <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr></li>
<li>Política: Permitir</li>
<li>Direção: Saída</li>
<li>Para (IP): 185.228.168.168</li>
</ul>
<p>Clique em &#8216;Adicionar&#8217;, a janela não será fechada mas a regra aparecerá na janela anterior. Mude somente o IP pelos outros números IPv4 e IPv6 e adicione cada um, formando um conjunto de quatro regras. Mude o nome para &#8216;<abbr title="Domain Name System">DNS</abbr>&#8216;, a política para &#8216;Recusar&#8217;, apague o IP e escreva na porta &#8216;Para:&#8217; o número 53, serão adicionadas duas novas regras. Mais outra configuração, mude o nome para &#8216;<abbr title="Domain Name System">DNS</abbr>-over-TLS&#8217;, mantenha a política como &#8216;Recusar&#8217; e altere o número da porta de 53 para 853. Com isso teremos a configuração da Figura 1 com as oito regras e um bloqueio para qualquer tentativa de usar outro <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr>. Teste a configuração usando a Web e tentando acessar conteúdos adultos.</p>
<figure id="attachment_159365" aria-describedby="caption-attachment-159365" style="width: 1542px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-159365" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/coluna.jpg" alt="" width="1542" height="1270" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/coluna.jpg 1542w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/coluna-300x247.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/coluna-1024x843.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/coluna-768x633.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/coluna-1536x1265.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/coluna-510x420.jpg 510w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/coluna-640x527.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/coluna-681x561.jpg 681w" sizes="(max-width: 1542px) 100vw, 1542px" /><figcaption id="caption-attachment-159365" class="wp-caption-text">Figura 1: Gufw Firewall com as regras para permitir somente os DNSs escolhidos</figcaption></figure>
<p>Como dito, nenhuma solução é perfeita e a todo momento surgem conteúdos indesejados que podem demorar a serem percebidos e bloqueados, e páginas de apostas e de compras legais que não serão bloqueados, mas usar um <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> com filtros é um grande auxílio na criação de crianças e adolescentes, que poderão fazer suas pesquisas escolares com mais segurança. Essa solução tem um inconveniente, que é ter que configurar o <abbr title="Domain Name System">DNS</abbr> em cada conexão que for usar, mas se tiver um computador fixo para estudo, já é possível estabelecer uma regra na casa de esse ser o de pesquisa e estudo para menores de idade. Existem formas de configurar a rede inteira da casa e fazer configuração por usuário no Linux, mas são configurações mais complexas; vamos deixar para outros artigos.</p>
<p>Boa navegação a todos!</p>
</div>
<div class="footnotes" style="text-align: justify;">
<div class="fn">
<div class="content"><em><strong>Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo</strong></em></div>
</div>
</div>
<div style="text-align: justify;"></div>
<div style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></div>
<div style="text-align: justify;"></div>
<div class="footnotes">
<div class="fn">
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> <a class="urlextern" title="https://cleanbrowsing.org/filters#step1" href="https://cleanbrowsing.org/filters#step1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://cleanbrowsing.org/filters#step1</a> – para saber mais vá em ‘About us’</div>
</div>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/06/159364/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Carlos Liscano e a escrita</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159317/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/06/159317/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jun 2026 17:24:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159317</guid>

					<description><![CDATA[Antes de criar uma obra, é preciso criar o personagem escritor. Foi esse movimento que o Carlos Liscano preso político realizou no cárcere da ditadura civil-militar uruguaia, quando criou o personagem Carlos Liscano escritor. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Carlos Liscano (1949 &#8211; 2023) foi um escritor uruguaio. Escreveu poemas, ensaios, contos, traduções, manuais de espanhol (quando morou na Suécia), matérias jornalísticas (quando regressou a Montevidéu), peças de teatro e romances. Foi também artista plástico e militante político. Integrou o Movimento de Libertação Nacional &#8211; Tupamaros (MLN-T). Preso político, ficou encarcerado por treze anos (1972 &#8211; 1985). No cárcere se definiu como escritor e iniciou sua produção literária. A escrita de Liscano é inseparável da vida do autor, “uma literatura de situações excepcionais”, para usar uma definição de Ernesto Sabato <strong>[1]</strong>. Na banca de um livreiro de rua encontrei <em>El escritor y el otro</em>, de Carlos Liscano <strong>[2]</strong>. À primeira vista, foi a semelhança do título do livro de Liscano com o de Sabato, citado anteriormente, que me chamou a atenção. Comprei, li e reli algumas vezes <em>El escritor y el otro</em>. Sacada de Liscano: antes de criar uma obra, é preciso criar o personagem escritor, no caso dele, o Carlos Liscano que assina os livros. Foi esse movimento que o Carlos Liscano preso político realizou no cárcere da ditadura civil-militar uruguaia, quando criou o personagem Carlos Liscano escritor. Daí a separação do escritor em relação ao outro (<em>el escritor y el otro</em>). Este último é o indivíduo real, no caso dele, o Carlos Liscano por trás do escritor. À época preso político, depois faxineiro, professor, tradutor e, mais recentemente, diretor da Biblioteca Nacional do Uruguai. O personagem Carlos Liscano escritor ter sido forjado pelo preso político Carlos Liscano na cadeia amplia a complexidade do processo. Foi publicado no Brasil um livro <strong>[3]</strong> reunindo ensaios, em português e espanhol, sobre <em>El escritor y el otro</em>, mas o texto completo do escritor uruguaio não está disponível em português. Por considerar que pode interessar aos leitores do Passa Palavra devido à força e ao humanismo da reflexão, digitei trechos do texto original em espanhol, traduzi o material utilizando o Google, revisei a tradução cotejando-a com o original e com sentido geral do livro <em>El escritor y el outro</em>. Compartilho, abaixo, em itálico. Preparei a postagem em duas partes, na primeira, este mês, reflexões de Liscano mais diretamente relacionadas à escrita, para o próximo mês, trechos relacionados à vida e à luta política. A numeração indicada é a mesma presente no livro de Liscano.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>40</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A vida é o modo que cada um encontra para atravessar a solidão. Mas não é a mesma coisa atravessar a solidão sozinho e estar perdido nela. O perdido procura os seus. Sabe que, se conseguir voltar ao grupo, estará salvo. Talvez isso não seja verdade, mas ainda assim o alivia pensar que a qualquer momento aparecerá alguém para lhe fazer companhia.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O outro sabe o tempo todo onde está, sem alívio.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O escritor é uma invenção de seu criado. Como a todo criado, ninguém lhe reconhece importância. O criado, que conhece como ninguém a fraqueza e a miséria do seu amo, finge não ter nada a ver com ele; e embora saiba que muito poucos o conseguem, sonha em um dia dissolver-se em seu personagem, para voltar a ser apenas um.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O romance não avança. Não é que não vá a lugar nenhum, é que simplesmente não se move. Quase todos os dias releio o que escrevi e não consigo fazê-lo crescer. Mas, enquanto isso, vir a estes papéis é sobreviver. Vivo o dia somente para chegar a estes papéis e empurrá-los um pouco, um pouquinho. Isso me salva. Salva a noite, outra noite.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>49</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Fazia oito anos que eu estava na prisão, lugar que sempre é para toda a vida. Tinha começado a escrever e não havia nada que justificasse aquela paixão, exceto que me ajudava a viver. E como somos humanos, ainda que nossa criação seja mentira, serve como verdade, se nos ajuda a viver.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Com os anos, percebi que essa espécie de modéstia que acabo de expressar nunca existiu. Eu me pus a escrever, eu comecei a escrever na prisão porque devia cumprir minha vida de escritor, contra o que fosse.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Foi o tempo da inocência literária, quando escrever significava avançar, e não havia perguntas sobre por que e para que era necessário avançar. Era a pré-história, o ser ainda não diferenciado, sem distância entre o indivíduo e o escritor. O escritor que ainda não havia sido inventado, mas já estava dominado pela fé de que tudo consistia em realizar a obra predestinada. Inocente e iludido, escolhia o caminho e avançava sem precauções, sem ver que caminhava em direção à dúvida, à angústia, à dupla vida perpétua. Porque em literatura nunca se avança. Aprendem-se técnicas, armadilhas, mas sempre se está no mesmo ponto, cavando o mesmo buraco, procurando o que qualquer um sabe que não se encontrará ali, mas convencido de que não há outra coisa que valha a pena senão continuar cavando. Porque o que se quer é deixar testemunho para além da morte. Porque esse trabalho obstinado e condenado à derrota já foi feito por muitos e nada conseguiram. Mas sabendo, ao mesmo tempo, que o trabalho inútil de escrever é a única coisa que pode dar sentido à vida. Porque no futuro haverá uma noite em que, da massa escura do céu, seremos capazes de lançar uma linha invisível em direção à Terra, em direção a esta mesa, e sentiremos que tudo junto acaba por ter significado. Pelo menos uma noite, uma noite única, a vida encontrará seu significado. Para isso se vive, para isso se escreve. Para chegar a esta noite, sozinho, num nono andar, não feliz, mas por algumas horas em paz.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>51</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A escrita ensina a falar consigo mesmo. Não tenho certeza de que ensine a falar com os demais.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O livro não existe antes de ser escrito. Porque materialmente não existe. Porque sequer existe na minha cabeça. Porque é a experiência de escrever o livro que faz com que eu seja eu. Porque sou um ao começar e outro ao terminar o livro. Porque quando escrevo vou avançando sobre o que não sei. Porque parto do não saber e, se tiver sorte, chego a saber algo novo. Isso é o que mais me seduz.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ao mesmo tempo, sei que não se escapa da prisão da linguagem. Não posso saber além do que expressam as palavras que conheço e que são o meu mundo, mas delas é possível extrair formas praticamente infinitas. É fascinante não saber o que sairá antes de concluir o livro. Mas isso não é tudo. Em cada imersão a gente volta a se dissolver, deixa de ser. Porque na vida a gente domina a linguagem para os assuntos práticos, para a reflexão do mais imediato. Mas para escrever é preciso desarmar todas as posições, afundar, deixar-se afundar, ouvir o rumor das palavras. Para isso é preciso deixar de ser, apenas estar. Creio que algumas vezes consegui voltar com algo dessa viagem. O resto tem sido contemplação do ponto que tudo une, que é a linguagem.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>52</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O fundamental do trabalho para me tornar escritor, creio hoje, abril de 2000, consistiu na tarefa negativa de renunciar. Renunciei a ser outras coisas, todas as que não fossem ser escritor.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Não creio que isso seja uma necessidade. Entendo que talvez seja possível ser escritor sem renunciar a nada. Mas para mim tem sido assim. Não tenho outra vida, não sei me imaginar de outro modo. Embora não o preveja, minha cabeça vê o mundo em função da letra escrita. Escrever é um modo de olhar. Isso não me faz feliz, nem melhor, nem me deixa contente. É como é, não tenho outra vida.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O que mais me surpreende hoje, ao lembrar os primeiros escritos da prisão, é saber que cinco, dez, vinte pessoas reconhecem em mim um escritor chamado Liscano. Aquele delírio próprio de preso virou realidade. Mas ninguém vê em mim o outro, aquele que fui, que continua sendo.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ainda, vinte anos depois, sinto a inclinação absurda por esta atividade solitária que é escrever. Nunca duvidei de que ia escrever uma obra que justificasse o considerar-me a mim mesmo escritor. Não consigo expressar com palavras, mas tenho uma ideia muito definida sobre a escrita, a minha obra e a obra que gostaria de escrever. Tenho também uma ideia muito clara de que deixei pelo caminho parte daquilo a que um homem normalmente aspira: uma família, filhos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>É difícil explicar, mas é mais ou menos isso. Quando me dou conta de que comecei um livro, é como se me ocorresse uma explosão na cabeça. De repente descubro um universo novo, começo a entender outra vez a literatura, o ofício de escrever.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Escrever é uma experiência com a linguagem, quer dizer, consigo mesmo. É uma experiência das minhas palavras comigo, que as escrevo. Não posso saber que palavra terminará esta frase antes de escrevê-la. Escrevo-a, está dita, e agora? Não mudo nada? Não, não mudo nada do mundo; mas sim, mudou minha relação com a palavra, a consciência de falar e de escrever. A consciência da escrita, ou seja, da linguagem, impede ser aquele que se seria se não fizesse essa reflexão sobre o que constitui o ser humano: a palavra.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Escrevo para deixar de ser o que sou. Porque se escrevo me transformo. Porque saio em campo aberto sem saber para onde vou. Porque se escreve para chegar a um lugar que não se previu. Quer dizer, não chegar nunca, estar sempre mais aquém, estar em outra parte. Mas sempre tentando, a viagem com a palavra. Porque se não falo, ainda que seja sozinho, ainda que seja para dentro, não existo. Se falo, sou, mas como não chego a dizer com exatidão o que penso, então o fato de falar me transforma em outro, mas nunca naquele que quero. A busca continua. Porque a escrita põe em questão aquele que escreve, dissolve-o por um instante na infinitude da linguagem, não o deixa voltar a ser o que era. Porque o escritor luta contra a morte, e ao escrever recebe a constância da morte. Porque a morte é a não palavra.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Em anos de reflexão primitiva, solitária e simples, na prisão, acreditei que se trata mais de criar uma literatura do que de escrever uma obra. Chegar a esse ponto da reflexão é difícil porque é absurdo. Como um indivíduo isolado formula isso? Como se pode ser capaz de tanta soberba?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Chegar ao ponto de dizer a si mesmo que se será autor de uma literatura é uma espécie de loucura. Essa vaidade poderia formular-se assim: é preciso escrever tudo, absolutamente tudo, e eu devo fazê-lo. É como se todas as situações, todos os objetos pedissem para ser escritos, apesar de se saber que tudo já foi escrito, e sem dúvida melhor, pelos mestres que admiramos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A gente se senta e observa esse universo que explode na cabeça e fica paralisado. Chega à conclusão de que é preciso abandonar tudo e dedicar-se a essa tarefa: escrever o Universo, a única coisa que tem sentido.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Mas depois se volta ao prático: é preciso comer, tomar banho, se barbear, cumprir com o trabalho e toda a servidão. Assim, da euforia à sensação de fracasso, depois de muitas horas solitárias criando o escritor, de muito tempo se permitindo brincar, mentindo em solidão: chega um dia em que, sem saber como, o personagem escritor está criado. É o momento em que a gente percebe que há quem reconheça a voz que conta, e se reconhece nela. Então já o outro, aquele que queria ser escritor, não existe. O personagem domina tudo. Não há diálogo possível entre o inventado e o outro.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Porque se trata é de criar o escritor e não a obra. Criado o escritor, a obra se fará sozinha. Porque o escritor se cria escrevendo, mas muito mais refletindo sobre o trabalho de escrever, sobre a vida que se escolhe. Porque ser escritor é escolher uma vida, um modo de estar no mundo, de ver as coisas. Porque se o indivíduo não escreve, não será escritor. Mas não basta escrever. Em algum momento de sua atividade, a reflexão se imporá: o quê, por quê, para quê?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ernesto Sabato. <em>O escritor e seus fantasmas.</em> Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Carlos Liscano. <em>El escritor y el otro.</em> Montevideo: Editorial Planeta, 2016.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Liliana Reales e Roberto Ferro (organizadores). <em>Carlos Liscano: ficções do eu e do outro</em>. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2013.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/06/159317/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ferramentas de controle parental (2)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159248/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/05/159248/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 May 2026 16:30:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cuidados digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Vigilância]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159248</guid>

					<description><![CDATA[Por Marcelo Tavares de Santana Continuando nosso desafio de controle parental em dispositivos digitais, neste artigo trataremos desse tipo de recurso em ambientes Linux, portanto, um sistema operacional para computadores de mesa, portáteis e afins. O ecossistema Linux é muito diverso em distribuições, como Ubuntu e Fedora, e também em ambientes gráficos de trabalho, como [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Marcelo Tavares de Santana</h3>
<p style="text-align: justify;">Continuando nosso desafio de controle parental em dispositivos digitais, neste artigo trataremos desse tipo de recurso em ambientes Linux, portanto, um sistema operacional para computadores de mesa, portáteis e afins. O ecossistema Linux é muito diverso em distribuições, como Ubuntu e Fedora, e também em ambientes gráficos de trabalho, como GNOME, KDE, XFCE, etc. Apesar da grande diversidade, há esforços em padronizar funcionalidades desses ambientes para facilitar, inclusive, compatibilidade entre eles e a usabilidade pelo usuário. No entanto, não foi encontrado um padrão comum de controle parental no universo Linux que funcionasse em qualquer ambiente e distribuição, mas há uma solução simples para isso que é instalar o ambiente gráfico com o controle parental que mais gostar. Na prática, significa que nossos filhos podem usar um ambiente gráfico diferente do nosso, por exemplo, podemos usar o ambiente KDE e para eles usamos o GNOME, pois a grande maioria das distribuições Linux permitem a instalação de mais de um ambiente gráfico. Portanto, se você uma Linux Mint com o ambiente Cinnamon, pode instalar outro ambiente para seu filho para o usuário dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse primeiro momento de controle parental no Linux, usaremos o ambiente GNOME e suas ferramentas como proposta, pois, apesar de ter não recursos comparáveis ao de soluções mais maduras (que recebem mais investimentos), é de simples instalação e utilização. Dessa forma, o uso de computador com Linux precisará também de diálogo e acordos de uso entre crianças e tutores, da mesma forma que precisa ser com qualquer dispositivo. Alguns podem pensar que seria melhor manter as crianças só usando<em> tablet</em> ou<em> smartphone</em>, mas conheço um caso de criança que foi alfabetizada com o Linux, usando jogos específicos para isso, e também há programas educacionais nas áreas de matemática, geografia, química e outros, que podem ser mais interessantes que os encontrados nesses equipamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de tudo, seja qual for a distribuição Linux que alguém usa, será preciso estar numa versão atualizada e deverá procurar como instalar o ambiente GNOME Shell com o Controle Parental no teu computador. Em seguida, deverá criar um usuário padrão para a criança, portanto sem permissões de administração. Por exemplo, se for no Debian, via terminal como usuário <em>root</em>, o comando abaixo instala os aplicativos necessários:</p>
<p style="text-align: justify;"># apt install gnome-session gnome-software malcontent-gui</p>
<p style="text-align: justify;">O &#8216;gnome-session&#8217; é para instalar o ambiente gráfico de trabalho, o &#8216;gnome-software&#8217; é um instalador de aplicativos para o GNOME, e o &#8216;malcontent-gui&#8217; é a ferramenta de controle parental. O instalador também é chamado de “Programas”: nele pesquisamos por aplicativos instalados, novos aplicativos e também encontramos classificação indicativa de idade em vários programas; nem todo instalador de aplicativos possui essa classificação. Uma vez com tudo instalado, deve-se procurar a configuração chamada “Controle parental” no GNOME e selecionar as opções desejadas. Note que será necessário colocar a senha de um usuário administrador para desbloquear as configurações para o controle. A figura a seguir mostra, à esquerda, a tela de “Controle parental” para um usuário chamado &#8216;Criança&#8217;; se houver mais usuários não-administradores, esses também aparecerão nessa tela. Para criar usuários no GNOME, poderá ir na aplicativo “Configurações”, escolha “Sistema” e depois “Usuários”. À direita na figura é mostrada a tela de restrição de aplicativos, que é trabalhosa, pois é preciso escolher todos que deseja bloquear, normalmente a maioria, e deixar desabilitado somente os que forem permitidos; no exemplo, somente o jogo 2048 está permitido e, assim, no menu de aplicativos do ambiente da criança, só vai existir essa opção. Um jeito rápido de habilitar tudo é usar as teclas &#8216;Tab&#8217; e barra de espaço alternadamente para restringir tudo e depois tirar a restrição somente dos aplicativos permitidos.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159251" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1.png" alt="" width="724" height="555" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1.png 724w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-300x230.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-548x420.png 548w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-640x491.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-681x522.png 681w" sizes="(max-width: 724px) 100vw, 724px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse momento, o melhor é restringir o uso de navegadores, pois permiti-los dá acesso a todos os conteúdos imagináveis na Web; assunto cujo controle parental será tratado num próximo artigo. Mais abaixo há as opções de restrição de instalação de programas, onde parece ser mais interessante deixar sempre restrito, pois assim qualquer programa novo a ser instalado precisará que um adulto participe dessa instalação. É importante sempre lembrar que, a cada novo aplicativo instalado, será necessário voltar nessa configuração e selecionar se ele será restrito ou não. Na primeira vez que a criança for usar seu usuário no computador, provavelmente um adulto deverá escolher para ela usar o ambiente GNOME, para que as restrições funcionem; o &#8216;malcontent&#8217; funciona parcialmente em outros ambientes gráficos, mas o melhor é usar o GNOME.</p>
<p style="text-align: justify;">No momento, o que dispomos nessa solução é só o controle de aplicativos, portanto, será necessário acordos de horários e limites de tempo para completar o controle. Existem soluções para Linux que permitem controle de tempo e de sites, mas são soluções separadas que exigem mais configurações e mais trabalho para manter; provavelmente uma boa conversa e acordos bem definidos supram a necessidade desses controles para um ambiente Linux. Com o tempo, novos recursos de controle parental devem aparecer, independente de existirem ou não investimentos no universo do Software Livre. De qualquer forma, as conversas entre crianças e adultos sempre deverão existir.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom diálogo a todos!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/05/159248/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Até sempre, Aldir!</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159197/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/05/159197/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 May 2026 16:50:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159197</guid>

					<description><![CDATA[Por Jan Cenek Tomo a liberdade de dispensar as aspas. Saberão reconhecer os versos do compositor genial, sem aspas. Assim como saberão reconhecer o autor do trecho mórbido e covarde, entre aspas. É que meu coração tropical está coberto de neve. Também eu bebo um pouquinho para ter argumento. Mesmo sentindo frio em minha alma, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Tomo a liberdade de dispensar as aspas. Saberão reconhecer os versos do compositor genial, sem aspas. Assim como saberão reconhecer o autor do trecho mórbido e covarde, entre aspas.</p>
<p style="text-align: justify;">É que meu coração tropical está coberto de neve. Também eu bebo um pouquinho para ter argumento. Mesmo sentindo frio em minha alma, apesar do açoite contínuo da noite. Bêbado. Mas sem traje de luto e sem chapéu-coco: arrebentar as correntes que envolvem o amanhã!</p>
<p style="text-align: justify;">Morreu o compositor genial: Aldir Blanc. Boêmio. Vascaíno. Psiquiatra. Apaixonado pelo samba e pelo jazz. Homem grande em todos os sentidos: turrão, pavio curto, humano. Quase não saía de casa, mesmo assim foi vitimado pela Covid-19. Tinha a barba e a voz grossas. Não gostava de sol, ia à praia para beber cerveja. Subia o morro, seguia os blocos carnavalescos e frequentava centros espíritas para curtir a batucada. Ainda garoto, construiu uma bateria de lata. Estudou medicina, tornou-se psiquiatra. Disse que a psiquiatria não ajudou o letrista. Foi o contrário.</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente está entre os maiores compositores da MPB: com Noel Rosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Adoniran Barbosa, Geraldo Filme. Como, no Brasil, as fronteiras entre a canção, a poesia e a literatura são tênues: a morte coloca Aldir no devido time, com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes e até Machado de Assis. Sim, o letrista da Zona Norte do Rio tem um quê do bruxo do Cosme Velho: o realismo, os detalhes, o band-aid no calcanhar, o dodói de Tolstói, a faca do crime, o ciúme que mata, o humor que redime, o banho de ervas, o nome da outra no pano vermelho, o cigarro molhado de chuva, a goiabada-cascão no sonho do boia-fria, a toalha molhada no chão, os fios de barba na pia, os falsos votos de feliz casamento, a curiosidade pelos rancores siameses e pela cruel indiferença.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há, na MPB, verso mais machadiano do que: eu aprendi que a alegria de quem está apaixonado é como a falsa euforia de um gol anulado. Três anos vivendo juntos. Ele é Vasco doente, ela grita Mengo no segundo gol do Zico. Não há, na MPB, crônica mais machadiana do que <em>A nível de</em>: Wanderley e Odilon – nomes que Aldir Blanc sacou na onomatopeia do parceiro João Bosco – são muito unidos, vão juntos ao Maracanã; Yolanda e Adelina, as esposas, são amigas e se fazem companhia; até que se estrutura um troca-troca; mulher com mulher, homem com homem; só que o casamento continua a mesma bosta.</p>
<p style="text-align: justify;">Na morte estúpida do artista, vê-se um paralelo fúnebre com a sua própria obra. São os becos sem saída do tempo presente. Em vez de reza uma praga de alguém. Não a bala com a bala, nem a faca com a faca, nem o corpo estendido no chão. Mas os doentes sem leito, a falta de respiradores, os corpos nos corredores, as covas coletivas, as subnotificações. É a morte do malandro, da enfermeira do Salgado Filho, do <em>latin lover</em>, das Marias, das Clarices e até dos compositores geniais. &#8220;E daí? Eu não sou coveiro&#8221; – disse uma figura verdadeiramente triste. O Brazil não merece o Brasil. O Brazil tá matando o Brasil. Do Brasil, S.O.S ao Brasil – diria Aldir.</p>
<p style="text-align: justify;">Os heróis do bem – cidadãos de bem? – levando a paz na ponta dos aríetes. A conversão dos infiéis. A nudez sem véus diante da Santa Inquisição. As carreatas da morte. A burguesia dentro dos carros, exigindo o sacrifício dos trabalhadores. Empilhados nas filas dos hospitais: pais-de-santo, paus-de-arara, passistas, flagelados, balconistas, palhaços, marcianos, canibais, pirados dançando, todos dormindo de olhos abertos.</p>
<p style="text-align: justify;">Aldir Blanc teve dezenas de parceiros: Paulo César Pinheiro, Moacyr Luz, Guinga, João Bosco. Com este compôs <em>O bêbado e a equilibrista</em>, que era uma homenagem a Chaplin e, com Elis Regina, virou o hino da anistia. Existe figura mais chapliniana do que o exilado político? – perguntava o compositor.</p>
<p style="text-align: justify;">Adeus, Aldir. O tempo adormece as paixões, você as liberta. O tempo se rói com inveja, você dorme tranquilo. Até sempre!</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Texto escrito na noite da segunda-feira 04 de maio de 2020. Durante a pandemia de Covid-19. Quando chegou a notícia sobre o passamento do genial Aldir Blanc, ocorrido naquela manhã. Alguns anos depois, esta pequena lembrança.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/05/159197/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>“Moinho de Gente”: moradia como arma de guerra</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159159/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/05/159159/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 May 2026 13:46:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159159</guid>

					<description><![CDATA[O filme vale a pena ser divulgado e assistido, principalmente por lideranças e militantes que passam por processos de ameaça de remoção de ocupações e favelas, pois ali fica muito claro como tem se dado tais processos no tempo presente.  Por Isadora de Andrade Guerreiro ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Isadora de Andrade Guerreiro</h3>
<p style="text-align: justify;">Foi lançado em abril pelo Intercept Brasil o filme dirigido por Caio Castor e Gabriela Moncau <a class="urlextern" title="https://www.intercept.com.br/2026/04/22/favela-moinho-tarcisio-expulsao-moradores-3-cada-4-familias-ainda-nao-receberam-moradia-definitiva/" href="https://www.intercept.com.br/2026/04/22/favela-moinho-tarcisio-expulsao-moradores-3-cada-4-familias-ainda-nao-receberam-moradia-definitiva/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Moinho de Gente: A expulsão da última favela do centro de São Paulo”</a>, realizado junto a moradores e lideranças da Favela do Moinho. O filme acompanha todo o processo de remoção da favela, descrevendo, pela voz da própria comunidade, tudo o que passaram no último ano (e que fui também descrevendo <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" href="https://passapalavra.info/2025/04/156274/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156760/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" href="https://passapalavra.info/2025/09/157652/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, e o Passa Palavra também foi divulgando desde 2024 informes da luta <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/07/153800/" href="https://passapalavra.info/2024/07/153800/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/08/154404/" href="https://passapalavra.info/2024/08/154404/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/08/154555/" href="https://passapalavra.info/2024/08/154555/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/05/156599/" href="https://passapalavra.info/2025/05/156599/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/12/158352/" href="https://passapalavra.info/2025/12/158352/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a> e <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/02/158710/" href="https://passapalavra.info/2026/02/158710/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>). O filme vale a pena ser divulgado e assistido, principalmente por lideranças e militantes que passam por processos de ameaça de remoção de ocupações e favelas, pois ali fica muito claro como tem se dado tais processos no tempo presente. A saber, um tempo de guerra específico, no qual são os direitos sociais &#8212; no caso, a habitação &#8212; os instrumentos mobilizados para produzir a legitimidade social necessária à autorização da barbárie. Explico-me.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme explicita um processo no qual, em meio a uma violência de Estado absurda &#8212; com invasão discricionária de casas, demolição com gente dentro, enquadros com bala de borracha, mortes, desaparecimentos, tortura e prisões com flagrante forjado &#8212; os governos conseguem construir uma narrativa legitimadora. Para tanto, usam o atendimento habitacional como dispositivo de gestão responsável por efetivar seu objetivo maior: a extinção dos modos de vida populares do centro da cidade como meio de valorização territorial e obtenção de ganhos políticos num ano eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">É por meio do dispositivo habitacional que se tem ganhos políticos para ambos os lados da disputa eleitoral. De um lado, primeiramente o governo estadual de Tarcísio de Freitas ofereceu suas não-soluções habitacionais: financiamento (ou melhor, endividamento) de longo prazo para famílias acima de um salário mínimo e auxílio-aluguel insuficiente. Tal solução não atendia parte significativa das famílias, pressionadas a mentir a renda para poderem entrar nos programas oferecidos e, também, a se mudarem com urgência para moradias de aluguel completamente precárias, aumentando seu grau de vulnerabilidade social.</p>
<p style="text-align: justify;">No filme, são significativas as falas do governo estadual, que atende suas bases eleitorais: “Todo mundo aqui quer dar dignidade para essas famílias. E nós não queremos dar de graça porque de graça não tem graça. O que vale é trabalhar sim e ser digno de pagar a sua parcela e ser digno de ser proprietário da sua unidade. Todo mundo trabalha, todo mundo paga suas casas aqui, ninguém aqui ganhou nada de graça. E essas famílias também são capazes de trabalhar” e “isso aqui é a anti-reintegração de posse, porque isso aqui é o atendimento”.</p>
<p style="text-align: justify;">As famílias mobilizadas resistem a esta solução, pressionando o governo federal, proprietário da área, a se posicionar.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o governo federal entra no processo, disponibiliza ao Moinho uma solução apenas usada em casos de eventos extremos &#8212; como na tragédia do Rio Grande do Sul. Completa o valor de subsídio oferecido pelo governo estadual e garante a gratuidade da nova moradia até R$250mil e o aumento do auxílio-aluguel para R$1.200. Vale pensar qual era o evento extremo que acontecia ali: a necessidade urgente de se posicionar frente ao governo Tarcísio, no momento em que ele ascendia como alternativa da direita na disputa eleitoral federal.</p>
<p style="text-align: justify;">Se, por um lado, de fato a conquista das famílias foi histórica &#8212; resultado de sua resistência, extensa rede de proteção e escalonamento de seu conflito por sua posição territorial estratégica &#8212;, por outro estava ali selada a conquista também dos governos estadual e federal. Ambos podiam dizer que deram solução habitacional digna às famílias e que elas permaneceriam no centro da cidade, enquanto a verdade ficava na mão do destino: a existência no mercado de moradias que se enquadrassem nos critérios de valor e de condições de compra definidos pelo acordo. O direito foi “assegurado” com a abstração do dinheiro, que não tem responsabilidade nenhuma com a concretização material das necessidades humanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando as famílias foram atrás dessas moradias fictícias, perceberam que a vitória tinha gosto amargo. Não as encontravam, não conseguiam firmar os contratos, se enredavam na burocracia entre a Caixa Econômica Federal e a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Urbano e Habitacional do Estado de SP), entre outros problemas. E permaneciam resistindo. A violência policial aumentou. A principal liderança da comunidade, Alessandra Moja, é torturada e presa. Neste momento, numa das manifestações que impediam a entrada policial na favela, o filme mostra um policial militar, discutindo com uma moradora: “A carta de crédito é de R$250mil né? Eu acho que o imóvel da senhora não deve valer isso, né? [ela responde: Não importa!] Eu acho melhor a senhora pegar esses R$250mil e sair do lado da linha de trem, ir para um lugar digno. A oportunidade chegou, hein?”. Ou seja, não estamos te violentando, estamos apenas cuidando de vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado, que o Intercept teve acesso pela Lei de Acesso à Informação e que o <a class="urlextern" title="https://www.intercept.com.br/2026/04/27/governos-nao-cumprem-promessa-favela-do-moinho/" href="https://www.intercept.com.br/2026/04/27/governos-nao-cumprem-promessa-favela-do-moinho/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">LabCidade FAU-USP mapeou</a>, estava escrito nas estrelas: uma enorme dispersão predominantemente para a periferia e para cidades do interior e litoral paulista (77,3% das moradias definitivas estão fora do centro expandido de São Paulo), acompanhada de um novo ciclo de insegurança habitacional para a maioria das famílias (61,9%) que aceitou o auxílio-aluguel para sair do estado de sítio em que se encontra o território da favela atualmente &#8212; em ruínas e em ameaça constante de violência policial. Os relatos de quem está em aluguel são tristes: locais insalubres, pequenos para famílias e muitas vezes com regras que proíbem crianças e animais (o que tem feito famílias se dividirem) e sob condições de instabilidade enormes pela falta de contrato formal.</p>
<p style="text-align: justify;">Retomo a argumento do início do texto: o direito social, no caso, a moradia, como arma de guerra como face característica do tempo presente. O que aparece inicialmente como contradição, precisa ser entendido como instrumento de dessensibilização social. O dispositivo técnico de gestão tira da vista da sociedade o “problema”, autorizando a barbárie e retirando a possibilidade de resistência da população. A memória da Favela do Moinho precisa ser cuidada para que entendamos e nos preparemos para o que ela significa em termos políticos mais amplos. O filme e o <a class="urlextern" title="https://www.faveladomoinho.com/" href="https://www.faveladomoinho.com/" rel="ugc nofollow">Centro de Memória da Favela do Moinho</a> são parte desse esforço e convido todo mundo conhecer.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/05/159159/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
