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	<title>Ideias &amp; Debates &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (5)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 19:18:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[É a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 3</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Mudança, Ou, da Revolta à Greve</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">É impossível, certamente, descobrir o momento exato em que a greve supera a revolta no repertório. Qualquer determinação desse tipo seria excessivamente confiante quanto à clareza e pontualidade com que as formas de luta se desenvolvem, divergem e reformam. Pior ainda seria sugerir que uma desaparece, para ser substituída pela outra. As táticas, uma vez adotadas, estão sempre à mão, mais próximas ou mais distantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao buscar a transição, temos a dificuldade já exposta. A mudança da revolta para a greve é imanente a uma mudança mais completa e complexa na estrutura da ascensão do capital. A greve emerge da revolta — de um modo centrado na obtenção de lucros no mercado para um centrado na extração de mais-valia. Ou seja, a greve emerge no novo mundo da produção capitalista, como deve ser, a partir do espaço da circulação. Ela se afasta do mar, deixando um rastro de espuma, embora ainda não totalmente formada. Marinheiros britânicos, americanos e franceses estavam consistentemente entre os trabalhadores mais militantes do século XVIII, rivalizando com os sapateiros (os comerciantes eram encontrados mais consistentemente entre os líderes de distúrbios políticos do século XVII até a Comuna de Paris). A própria palavra inglesa <em>strike</em> parece datar de 1768, quando marinheiros se juntaram a “artesãos e comerciantes da cidade — tecelões, chapeleiros, serradores, moedores de vidro e carregadores de carvão — na luta por melhores salários, [e] arriaram suas velas e paralisaram o comércio da cidade. Eles &#8216;não tinham tripulação ou, de outro modo, eram impedidos de navegar todos os navios no Tâmisa&#8217;” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A derivação do termo francês para greve, <em>gréve</em>, é ainda mais sugestiva — uma etimologia com o alcance de um épico, começando na margem de um rio e terminando no Hôtel de Ville alguns séculos depois e a oitenta passos de distância. É uma palavra antiga. Originalmente, significava uma área plana de areia e cascalho próxima à água, uma praia e, portanto, um local onde os barcos descarregavam cargas. A <em>gréve</em> mais trabalhável do Sena tornou-se, portanto, o principal porto de Paris <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ficava na margem direita, uma vez que a cidade se expandiu a partir das ilhas do rio. A área aberta próxima à praia serviria como mercado central da cidade na Alta Idade Média, antes que os feirantes se mudassem para Les Halles. Trabalhadores não qualificados se reuniam ali em busca de trabalho, carregando e descarregando madeira e trigo, barris de vinho e fardos de feno: a Praça da Gréve. O nome duraria mais de 500 anos. Em 1802, a praça tornou-se a Place de l&#8217;Hôtel de Ville, renomeada em homenagem ao seu edifício principal, a residência do prefeito, o golpe termidoriano e, por um breve período, a Comuna. Fotografias antigas mostram que os c<em>ommunards</em> ergueram barricadas ali, em parte por causa de grandes barris de vinho. Uma rima medieval. Onde estava o mercado, estará a comuna.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159484" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg" alt="" width="800" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-681x341.jpg 681w" sizes="(max-width: 800px) 100vw, 800px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas estamos nos precipitando. Estamos no porto mais uma vez, o lugar que fornece a principal coordenada para esta primeira seção, para a era de ouro das revoltas. É inevitável, porque é prática e logicamente necessário, que o porto e o mercado parem a greve. É igualmente inevitável, então, que retornaremos ao porto mais adiante neste livro, à medida que as coisas oscilam de greve para revolta. É um ponto de captação de mão de obra não utilizada em meio à grande máquina do mercado. Um lugar de miséria e possibilidade. É apropriado, talvez, que a Place de Gréve também sediará uma guilhotina; o dicionário de 1835 associa a palavra <em>gréve</em> a execuções. Ele ainda não menciona ações dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a mudança já está em andamento. A ascensão do capital refina algumas frases. Chateaubriand, ultradireitista e inveterado criador de termos, usa <em>gréviste</em> em 1821; por enquanto, não significa exatamente um grevista, mas sim alguém que se opõe aos monarquistas. Seu faro para política está afiado como sempre. À medida que os corpos se reúnem na Praça, os desempregados que serão o primeiro exército das Jornadas de Junho, “<em>étre en gréve”</em> passa a significar “procurando trabalho”. Em 1848, após um colapso econômico em toda a Europa, “<em>mettre un patron en gréve</em>” significa “recusar-se a trabalhar para o patrão”. O sentido moderno e a greve moderna chegaram. A transição está completa.</p>
<p style="text-align: justify;">A França chega lá um pouco mais tarde do que a Inglaterra ou os Estados Unidos, por razões já discutidas. Os anos 1848-1851 são o grande pivô, apesar de toda a sua natureza farsesca. A industrialização agora remodelará a sociedade francesa em um nível profundo. Diante desta passagem, as perplexidades abundam, como em outros lugares. Em 1830, encontramos “uma revolta de trabalhadores têxteis ocorreu em Roubaix; eles queriam um aumento de salário”. O promotor de Douai relata: “Eles quebraram as vidraças nas lojas principais, onde foram em massa para solicitar acordos por escrito sobre o aumento”. Roubaix era um centro têxtil desde o final da Idade Média, com uma organização trabalhista bem desenvolvida. Shorter e Tilly registram isso corretamente (embora de forma ambígua) como um prelúdio para a greve na França, observando que “às vezes, os trabalhadores de uma loja paravam por um tempo e, às vezes, tentavam obter paralisações em outras lojas do mesmo setor”, mas, mais comumente, “o cerne de sua ação era uma demonstração de força aliada à apresentação de reivindicações coletivas relativas às condições de emprego em um conjunto específico de lojas. A lei da época proibia quase qualquer tipo de ação coletiva dos trabalhadores” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O promotor claramente não tem palavras para isso. O conteúdo da própria estrutura social em que está enredado ainda não lhe é conhecido: a chegada ao palco das classes trabalhadoras. Ele está preso à forma. É uma multidão enfurecida afinal, mesmo que sejam trabalhadores se mobilizando como trabalhadores em seus locais de trabalho, reivindicando melhores salários. A consequência desse formalismo é evidente. “A revolta, de acordo com o relatório do deputado, não parece ter nenhuma conotação política”, conclui nosso cronista. Podemos suspeitar que ele queria dizer que os eventos não estão diretamente relacionados à Revolução de Julho, duas semanas antes. Ao mesmo tempo, reconhecemos um senso comum a caminho de se tornar um truque de retórica. Ele realiza um certo tipo de trabalho, essa confusão, esse hábito peculiar de nomenclatura. Porque podemos chamá-lo da revolta, podemos proceder como se seu manifesto significado político não existisse. Mais um espasmo na história sem história dos miseráveis.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><em><strong>Quebra-Máquinas</strong></em></h4>
<p style="text-align: justify;">“ÀS CLASSES TRABALHADORAS”, como começavam os panfletos:</p>
<blockquote><p><em>Os Cavalheiros, a Agricultora, os Fazendeiros e outros, tendo comunicado a vocês sua intenção de aumentar seus Salários de forma satisfatória; e tendo sido bom sentirem que será mais benéfico para seus próprios interesses permanentes retornar às suas ocupações honestas habituais e se afastarem de práticas que tendem a destruir a Propriedade, de onde os próprios meios para seus Salários adicionais devem ser fornecidos</em><strong>[4]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta publicação em particular vem dos magistrados de Berkshire; apenas dois condados ingleses proferiram mais sentenças de morte a participantes da “revolta de Swing”, e nenhum prendeu tantos. O objetivo é acalmar os verdadeiros seguidores do mítico “Captain Swing” durante a onda de quebra-máquinas iniciada no outono de 1830. Caso isso acontecesse, as revoltas de Swing durariam até o ano seguinte. As classes trabalhadoras, neste ponto, ainda são plurais, as frações libertadas pelos destroços do feudalismo, ainda em processo de se transformarem na classe trabalhadora. Thompson considera 1790-1832 como o período crucial, onde encontramos também aquele episódio mais duradouro de destruição de máquinas, as revoltas luditas de 1811-1813.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159482" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png" alt="" width="701" height="891" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png 701w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-236x300.png 236w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-330x420.png 330w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-640x813.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-681x866.png 681w" sizes="(max-width: 701px) 100vw, 701px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Repetidamente, Swing trata de máquinas debulhadoras. Da mesma forma, “os ataques luditas se limitavam a objetivos industriais específicos: a destruição de teares mecânicos (Lancashire), máquinas de tosquia (Yorkshire) e resistência ao colapso do costume na indústria de tricô de Midland” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Já encontramos o mecanismo que, acionado pelos avanços agrários, fará girar as rodas da Revolução Industrial. A corrida pela produtividade, a própria base do desenvolvimento capitalista, significa a substituição da força de trabalho por meios de produção, do trabalho vivo por morto, do capital variável por constante. O aumento da produtividade tende a aumentar os salários, o que, por sua vez, força novos avanços que economizam mão de obra. Paralelamente, massas de empregados domésticos são lançadas ao mercado de trabalho: o aumento dos custos dos produtos agrícolas persuade os empregadores a abandonar arranjos residuais de trabalho em espécie em troca de salários, repassando a inflação aos trabalhadores. O trabalho agrário perdido pelo cercamento deprime esses mesmos salários, mesmo enquanto a indústria caminha pela paisagem com botas de sete léguas.</p>
<p style="text-align: justify;">À medida que o salário se generaliza, o mercado começa a renunciar à sua centralidade social. O espaço físico sujeito em parte ao controle comunitário, dá lugar a “mistérios de um mercado &#8216;autorregulador&#8217;, o mecanismo de preços e a subordinação de todos os valores comunitários ao imperativo do lucro” <strong>[6]</strong>. Em pouco tempo, “o membro característico dos pobres rurais era agora um proletário sem terra, dependendo quase exclusivamente do trabalho assalariado ou da Lei dos Pobres para sua vida” <strong>[7]</strong>. A Lei dos Pobres é um lembrete, à luz de discussões anteriores, de que zero também é um salário, embora um salário que precisará de suplemento para que seus beneficiários sejam mantidos em reserva disponível.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a isso, surgem o General Ludd e o Captain Swing, um liderando ataques contra as indústrias têxteis, o outro no teatro de combate agrário. Ambos os movimentos descreveram a si mesmo em termos militares, nunca melhor do que em uma carta “Assinada pelo General do Exército de Reparadores/Reformadores Ned Ludd Clerk”. Fizeram juramentos, muniram-se de armas. Contínuos e populares, dificilmente se pode discutir que foram revoltas reais. Seus períodos foram variados. Não tiveram uma única atividade. Somente nas revoltas de Swing, “incêndios criminosos, cartas ameaçadoras, panfletos e cartazes &#8216;inflamáveis&#8217;, &#8216;roubos&#8217;, reuniões salariais, agressões a feitores, párocos e proprietários, e a destruição de diferentes tipos de máquinas, todos desempenharam seu papel”. Apesar de toda essa variabilidade de forma, o conteúdo é constante. “Por trás dessas atividades multiformes, os objetivos básicos dos trabalhadores eram singularmente consistentes: alcançar um salário mínimo vital e acabar com o desemprego rural” <strong>[8]</strong>. Não menos claros eram os luditas, cujas “reivindicações incluíam um salário mínimo legal; o controle da &#8216;exaustão&#8217; de mulheres ou menores; arbitragem; o engajamento dos patrões para encontrar trabalho para homens qualificados despedidos por maquinário; a proibição de trabalho de má qualidade; o direito à associação sindical aberta” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não devemos sugerir que os dois grandes episódios de quebra de máquinas sejam idênticos. Seus fundamentos são diferentes. Apesar de toda a sua ligação, os mundos agrícola e industrial na Grã- Bretanha estão em desacordo; as batalhas obstinadas sobre as Leis dos Cereais ressaltam os interesses contrários do campo e da cidade. Kirkpatrick Sale intitula seu estudo “Rebeldes Contra o Futuro: Os Luditas e Sua Guerra contra a Revolução Industrial”; poderíamos dizer o mesmo dos manifestantes do Swing? <strong>[10]</strong> Mas é enganoso, ainda que esteja de acordo com parte do espírito de Thompson, considerar as revoltas como defesas retrógradas do costume. Novamente nos deparamos com a questão do prático, da necessidade. Frequentemente, os luditas colocam as coisas de maneiras difíceis de confundir, afirmando seu direito e intenção de “quebrar e destruir todo tipo de estrutura que não pague o preço regular previamente acordado”. Uma lista está anexada a este comunicado; máquinas que não desloquem trabalhadores serão deixadas intactas <strong>[11]</strong>. Ludd e Swing, sem dúvida, compartilham a sensação de um terreno perigosamente instável, de um mundo da vida sob coação. No entanto, eles estão unidos, na fórmula mínima, pela pressão para baixo nos salários e pela ameaça de desemprego tecnológico. E é aqui que o quebra-cabeça da classificação se afirma.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159483" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg" alt="" width="700" height="924" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-318x420.jpg 318w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-640x845.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-681x899.jpg 681w" sizes="(max-width: 700px) 100vw, 700px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As autoridades, previsivelmente, desejam conceder-lhes força insurrecional apenas quando necessário para aplicar penalidades mais severas. Em sua maioria, os grandes episódios de quebra de máquinas serão registrados como revoltas por observadores, na época e posteriormente. Afinal, as leis dão nomes, e muitas vezes é o crime de revolta pelo qual os exércitos de Ludd e Swing são processados (embora um projeto de lei específico que torne a invasão de domicílio um crime capital seja aprovado logo no início). Magistrados de Nottingham relatam “um espírito ultrajante de tumulto e revolta” nos primeiros dias de Ludd, estabelecendo os termos da arte para condenações da Lei da Revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">Ocasionalmente, o nome parece adequado, por exemplo, aplicado à extorsão de dinheiro e provisões. Os episódios reais, apesar de toda a sua variedade, muitas vezes assemelham-se formalmente à revolta — em seu tom, ímpeto, selvageria. E, no entanto, deveria ser impossível olhar para essas reivindicações e não reconhecer a greve em formação. Elas dizem respeito apenas a emprego, melhores salários, melhores condições de trabalho, proteções legais. Se estamos buscando a fonte da grande confusão entre a natureza subjacente da luta coletiva e sua aparência, não precisamos ir além desses eventos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos apresentar o argumento com clareza, principalmente porque se trata de um argumento sobre confusão. É somente neste período de transição histórica que os contornos da revolta e da greve podem finalmente ficar claros em seus delineamentos, exatamente porque é somente nesses períodos que os dois podem ser colocados em tão estreita proximidade, misturados e, no final, esclarecidos. Ou, para colocar de outra forma, a quebra de máquinas é como se dá a transição da revolta para a greve. Sem dúvida, parece retrospectiva, “o último capítulo de uma história que começa nos séculos XIV e XV” <strong>[12]</strong>. Mas essa insistência no costume, na luta contra o futuro, ignora aquela parte da quebra de máquinas que é a invenção, que antecipa. Não é menos um primeiro capítulo de políticas de confronto no local de trabalho que não terminaram. É somente em um período de transição que um híbrido tão chocante e inovador, com um pé no confinamento e nas revoltas por comida, um pé na legislação fabril e nas lutas pela jornada de trabalho, pode surgir. “Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal emergiu”, escreve Thompson <strong>[13]</strong>. Em tal circunstância, é inevitável que as táticas proliferem à medida que as pessoas tentam soluções para um novo conjunto de problemas, tomando emprestadas suas formas do antigo repertório — assim como o capital extrai suas formas do comércio até que o novo conteúdo esteja pronto para ser divulgado no dia a dia.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho como fulcro da reprodução, que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Na verdade, são a mesma coisa: contexto e conflito. Eles se movem juntos. O ritmo próximo dessa dupla mudança fornece a base histórica para um argumento político-econômico que define revolta e greve adequadamente em sua plenitude histórica — define-os não de acordo com atividades específicas, mas antes pelas maneiras como o problema da reprodução confronta a massa de pessoas, suas posições dentro das relações sociais dadas, os lugares para onde foram empurradas, os espaços onde seus antagonistas devem ser visíveis, podem ser vulneráveis.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>Os Muitos</strong></em></h5>
<p style="text-align: right;"><em>Levantem-se, como leões após o sono,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Em número invencível,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Sacudam suas correntes para a terra como orvalho</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que durante o sono caíram sobre vocês —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vocês são muitos — eles são poucos —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>— Percy Bysshe Shelley,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>“A Máscara da Anarquia”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Se alguém fosse em busca de um fio condutor que atravessasse a sequência revolta-greve-revolta “linha”, faria pior do que seguir o destino do poema de Shelley, composto para “um pequeno volume de <strong>canções populares</strong> totalmente políticas”<strong>[14]</strong>. O poema narra o Massacre de Peterloo de 1819, nomeado com alguma ironia em homenagem a Waterloo, travado quatro anos antes. Estamos no meio do caldeirão de Thompson, então. A Inglaterra está em meio à fome e à depressão. A revolta por comida, tendo atingido o pico segundo todos os relatos em 1800-1, está em recuo. O fim das guerras napoleônicas lançou uma grande massa de corpos em um mercado de trabalho incapaz de absorvê-los. A indigência na Inglaterra está em 15% e a emigração em níveis históricos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159485" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg" alt="" width="1053" height="1053" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg 1053w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1053px) 100vw, 1053px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É nesse contexto que 64.000 pessoas se reúnem no Campo de São Pedro, em Manchester, buscando reformas parlamentares, principalmente em relação ao sufrágio. A Lei da Revolta é lida. Na carga de cavalaria imediatamente seguinte, mais de uma dúzia de manifestantes são mortos e centenas ficam feridos. A indignação moral toma conta da nação. Na Itália, Shelley constrói seu poema a partir de notícias de jornais.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria difícil chamar Peterloo de revolta no sentido que a palavra havia se desenvolvido ao longo dos séculos anteriores. É próximo em certos aspectos. A grande assembleia se reúne na ágora. O termo e o código legal são usados em qualquer caso; é a categoria representativa que as pessoas têm em mãos. Certamente houve reuniões que podem ser mais apropriadamente chamadas de revoltas nos dias seguintes em cidades vizinhas. Mas a revolta do século XVIII atingiu, em geral, seu limite e explodiu. A multidão reunida na praça tenderá para a revolução ou nada, pressionada contra a impossibilidade da demanda prática quando até mesmo os apelos por reforma são recebidos com violência mortal. É aqui que o poema começa. O afastamento da revolta já começou. James Chandler escreve:</p>
<blockquote><p>Tudo isso quer dizer que, à semelhança de Peterloo, a “Revolução Francesa” em uma escala maior, ou talvez até mesmo o próprio “Romantismo” em uma escala ainda maior — nomeia um evento de duração indeterminada que marca uma grande transformação nas práticas da representação literária e política moderna, entendida em seu momento como tendo potencial revolucionário <strong>[15]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas o poema só é publicado em 1832, no final a nossa primeira tentativa. A estrofe final do longo poema irá tornar-se uma espécie de canção de marcha para luta após luta. É logo retomada pelos cartistas, que em 1842 se aproximam da primeira greve geral. O tempo do trabalho começou. Em 1911, Pauline Newman orientará seus discursos de organização para o Sindicato Internacional das Trabalhadoras do Vestuário Feminino com as frases de Shelley. Mas haverá outras oscilações. Em 2010, o poema é repatriado quando estudantes e outros que lutam contra cortes fatais no salário social atacam e ocupam o número 30 de Millbank, a sede do Partido Conservador em Londres. A estrofe final de Shelley é citada repetidamente nos dias seguintes, o fio condutor retornando na longa temporada que inclui o movimento das praças, o movimento <em>Occupy</em>, a Primavera Árabe — o retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">A estrofe final acrescenta um último verso a uma quadra que aparece anteriormente, desviando o olhar do pacifismo fundamental do poema: “Vós sois muitos — eles são poucos.” <strong>[16]</strong> Pode ser possível persuadir você de que os sons do primeiro verso, levantem-se/leões/depois, querem que você ouça a palavra revolta. É difícil não ouvir. É difícil não ouvir na associação do poema de “Anarquia” com o Estado corrupto, em vez de com os antagonistas do Estado, um precursor da inversão dialética com a qual iniciamos este livro: “Uma ordem violenta é uma desordem; e uma grande desordem é uma ordem. Essas duas coisas são uma só.” Mas o último verso de Shelley levanta uma questão mais simples ou talvez muito mais intratavelmente complexa, a dos muitos.</p>
<p style="text-align: justify;">O popular e o político, como ele insistia. Multidões e poder, na fórmula concisa de Canetti. Massas, classes, turba, multidão. Súditos, cidadãos, o povo. O sentido de antagonismo e metamorfose social, o sentido (para arriscar essa substancialização portentosa) do político: isso não pode ser desvinculado do sentido da multidão e daquilo que poderia lhes dar uma unidade, seja ela autodeclarada ou espectral. Isso dificilmente seria o lugar para uma revisão da literatura. Em vez disso, uma proposição simples: que revolta e greve serviram como, entre outras coisas, metonímias para este assunto em um determinado momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é outra maneira de delinear o que é apreendido na ideia de um repertório de ação coletiva e de identificar uma tática principal dentro dele. Essas táticas, e as mudanças entre elas, são expressões da massa social e suas recomposições, que por sua vez se formam e se transformam a partir de dadas bases materiais. Em outras palavras, a revolta não é um evento isolado e singular; é tanto uma fração real de quanto uma figura para os muitos aos quais está sempre adjacente. É a relação interna dos muitos externalizada sob certas condições. Isso também se aplica à greve. Compreender as transformações na sequência revolta-greve-<em>revolta “linha” </em>é enxergar as mudanças dos muitos, ver o que pode ser compreendido nelas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Greg Grandin, <em>The Empire of Necessity: Slavery, Freedom, and Deception in the New World</em>, Nova York: MetropolitanBooks, 2014, n. 146. A citação sem atribuição é de The Economic Review, Vol. 5, Londres: Rivington, Percival &amp; Co., 1895, 216.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Eric Hobsbawm faz uma observação fascinante em <em>The Age of Revolution: Europe 1789-1848</em>, Londres: Abacus, 2007, 265, nota de rodapé 31. Ele escreve: “A greve é uma consequência tão espontânea e lógica da existência da classe trabalhadora que a maioria das línguas europeias tem palavras nativas independentes para designá-la (por exemplo, grève, huelga, sciopero, zabastovka), enquanto que as palavras para outras instituições são frequentemente emprestadas.” No entanto, isso é, em última análise, enganoso de maneiras que serão exploradas no capítulo seguinte, notadamente pela forma como declara a autonomia da greve em relação a uma tradição mais antiga, como se ela tivesse surgido de forma autóctone a partir da nova dispensação proletária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Todos os trechos são de Edward Shorter e Charles Tilly, <em>Strikes in France 1830-1968</em>, Londres: Cambridge University Press, 1984, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Eric Hobsbawm e George Rude, <em>Captain Swing: A Social History of the Great English Agricultural Uprising of 1830</em>, Nova York: W. W. Norton, 1968, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Thompson, <em>Working Class</em>, 484.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Wood, <em>Origin of Capitalism</em>, 69.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Hobsbawm e Rude, <em>Capitão Swing</em>, 35.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 195.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Thompson, “Working Class ”, 551.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Kirkpatrick Sale, <em>Rebels Against the Future: The Luddites and Their War on the Industrial Revolution: Lessons for the Computer Age</em>, Boston: Addison-Wesley, 1995.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Conant e Darval, citados em Thompson, “Working Class”, 535.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Working Class”, 543.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Carta a Leigh Hunt, 1º de maio de 1820, <em>The Letters of Percy Bysshe Shelley: In Two Vols</em>., vol. 2, ed. Frederick L. Jones, Oxford: Clarendon Press, 1964, 191 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> James Chandler, England in 1819: <em>The Politics of Literary Culture and the Case of Romantic Historicism</em>, Chicago: University of Chicago Press, 1998, 18.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Diferentes impressões do poema variam em sua ortografia; esta citação segue a primeira edição, Londres: Edward Moxon, 1832.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Ilustram o texto &#8220;O Hôtel de Ville incendiado, atacado pelas tropas de Versalhes&#8221;, de Gustave Clarence Rodolphe Boulanger (1871), &#8220;O Líder dos Ludditas&#8221;, de autoria anônima (1812), &#8220;Um Retrato Original do Capitão Swing&#8221;, de autoria anônima (1830), &#8220;O Massacre de Peterloo&#8221;, de George Cruikshank (1819).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: justify;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: justify;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Factos etc. 1) «João Bernardo defendendo este método positivista»</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159392/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 06:51:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Os factos são sempre prévios à metodologia, sem resultarem dela. São o objecto da metodologia, não uma consequência. João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;">Tenho sido várias vezes classificado como empirista ou, mais frequentemente, como positivista ou adepto do positivismo lógico — e o curioso é que esses termos são empregues como censura e não como elogio. Eu sou um admirador de São Tomé, patrono dos empiristas. «Porque me viste, acreditaste?», repreendeu-o o ressuscitado, e acrescentou: «Felizes os que, sem terem visto, acreditam!» Ora, eu pertenço também ao número dos que querem ver para crer, e só posso estranhar que os meus críticos, que tantas vezes acreditam sem ter visto nada, se considerem materialistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas ver o quê?</p>
<p style="text-align: justify;">Os factos só começam a aparecer-nos verdadeiramente como factos quando são incómodos. É então que os sentimos, porque tudo aquilo que se limite a prolongar o existente passa-nos de imediato despercebido.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem não gosta de deparar com a incomodidade dos factos ou volta os olhos para outro lado ou, se for um pouco mais sofisticado e prefira envolver-se num escudo protector mais espesso, põe em causa o método que estabeleceu aqueles factos ou que os apresenta, sem sequer reflectir que o mesmo método apresentou ou estabeleceu os factos de que ele gosta ou de nem sequer se apercebe. É assim que, por exemplo, as estatísticas inconvenientes são recusadas pela generalidade dos esquerdistas com o argumento de que não resultam de uma perspectiva marxista mas se devem a métodos de pesquisa capitalistas, os mesmos métodos que estabelecem as estatísticas a que essas pessoas recorrem quando acham que elas validam as suas teses. Porém, a questão é hoje mais ampla, porque consideram-se válidos apenas os factos que forem apresentados por uma dada identidade étnica ou cultural ou sexual. Assim, os factos são despojados de qualquer realidade própria e atribui-se aos preconceitos metodológicos ou identitários a garantia exclusiva da realidade. De evidência factual, a realidade converte-se em emanação intelectual.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, a escolha ou aceitação do ponto de vista com que encaramos a realidade não implica uma criação de factos, mas apenas a atenção prioritária prestada a certos factos, porque são mais incómodos ou mais cómodos do que outros, e implica igualmente a metodologia com que alinhamos os factos e os observamos nas suas contradições. Os factos são sempre prévios à metodologia, sem resultarem dela. São o objecto da metodologia, não uma consequência. Em vez de se argumentar contra os factos dizendo que eles são impossíveis à luz de um certo modelo, deve-se substituir o modelo porque ele se revela incapaz de verificar os factos. Aquela visão selectiva que aceita os factos convenientes e rejeita os indóceis sustenta as múltiplas críticas ao que denominam <em>empirismo</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas devemos ir ainda mais longe, porque não basta ver os factos. É necessário procurá-los, e garantir que sejam factos e não simples projecções de um desejo. O desejo, que resulta do ponto de vista adoptado, não substitui os factos nem os invalida.</p>
<p style="text-align: justify;">Não pretendo aqui convencer as pessoas que não precisam de ver para crer, nem isto seria possível, porque se os factos não as convencem, quem sou eu para as persuadir! Não quero dar orientações, apenas esclarecer o método que uso na historiografia e na análise económica.</p>
<p style="text-align: justify;">No meu trabalho começo por considerar os factos isoladamente e, à medida que os vou acumulando, reúno-os pela localização no espaço ou na função ou pela concomitância no tempo. Depois reúno outros factos similares para outros espaços ou outros tempos. A partir daqui estabeleço sistemas de convergências e de oposições, e aquilo que inicialmente era apenas um amontoado de fichas começa a converter-se em estruturas que permitem detectar regras próprias. Com o avanço da pesquisa para novos espaços e outros tempos, as comparações multiplicam-se e a definição dos sistemas vai-se tornando mais precisa. Já não são só regras internas que se estabelecem, mas começa igualmente a definir-se a regra das comparações entre sistemas. É então que posso passar à definição de campos. Um campo delimita um sistema, com a sua estrutura e as suas regras. Se surgirem factos novos e se inserirem nesse campo sem lhe trazerem qualquer alteração, então fica comprovada a definição do sistema. Mas a descoberta de factos que coloquem novos problemas, irresolúveis no sistema tal como ele estava definido, obriga a desenhar um outro perímetro para o campo, a adequar-lhe a estrutura e a modificar-lhe as regras. O confronto com novos factos é, para um campo, o teste decisivo. Esta longa e trabalhosa passagem do enunciado de factos ao estabelecimento de campos constitui para mim a base fundamental da história comparada.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seguida, e só em seguida, posso reflectir sobre o método que me permitirá explicar aquelas convergências e oposições e, mais amplamente, o estabelecimento de campos. E explicar significa, para mim, <em>estabelecer a regra de</em>. Ora, essa explicação tem por sua vez de ser testada. Na escolha de um método influi o ponto de vista resultante da situação que se ocupa e das escolhas que se fazem, mas um método é muito mais do que um ponto de vista, porque se desenvolve na sua aplicação aos factos. Para isso verifico se a regra se adequa, ou não, a outros sistemas e aos vários campos e, consoante a conclusão, estabeleço as continuidades ou rupturas entre espaços e entre tempos. O mais importante nesta fase do trabalho são as contradições e as excepções, em suma, tudo o que parece fugir à norma, porque aí se podem encontrar as fissuras por onde o sistema se transformará ou entrará em crise. Passo assim do estático para o dinâmico, e são os pontos de ruptura detectados na sincronia que me tornam perceptíveis os rumos da diacronia.</p>
<p style="text-align: justify;">Para mim, enquanto historiador ou analista da economia, a história comparada e o teste dos factos funcionam como o laboratório para o cientista. As pretensões científicas dos estudos sociais são fortemente limitadas pela impossibilidade de proceder a experiências concebidas previamente, e não se pode ir mais longe do que organizar factos, sistemas e campos, e compará-los. A história comparada é o único laboratório possível. Foi assim que elaborei duas das minhas três obras de historiografia. O leitor desprevenido talvez pense que no <em>Poder e Dinheiro</em> e no <em>Labirintos do Fascismo</em> as inúmeras descrições de variantes tenham como objectivo ilustrar as normas gerais que estabeleci, mas o processo foi o inverso. Primeiro fui comparando séries de factos e casos e reunindo-os por semelhanças e compatibilidades, e pude assim definir campos e delimitá-los. As descrições de variantes, em vez de serem exemplos de normas elaboradas previamente, são o alicerce de toda a obra. Foi por aí que comecei.</p>
<p style="text-align: justify;">E assim, pouco a pouco e desta maneira sempre pedestre, fui elaborando um método teórico. Vocacionados para os factos e construídos a partir dos factos, os modelos teóricos têm para mim uma utilidade estritamente instrumental, operacional. Por isso devem — ou podem — mudar consoante os factos que se destinam a estudar, ou seja, a enquadrar e organizar. Não se trata de dogmas nem de princípios, mas de instrumentos, no sentido literal da palavra, e os instrumentos mudam consoante o material sobre que operam e as funções a que se destinam. É certo que, tal como quaisquer outras pessoas, um historiador ou um economista têm pressupostos que decorrem da situação social que ocupam e das suas opções ideológicas, pontos de vista que apontam um objectivo para as suas análises. Mas se escolhem ou elaboram um instrumento que lhes sirva para esse objectivo, precisamente por isso ele deve então adequar-se ao material empírico em que operam. Para ser eficaz, a razão crítica requer uma concepção instrumental da metodologia, senão transforma-se num mero irracionalismo de desejos ou ambições.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159405" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-195x300.jpg" alt="" width="560" height="861" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-195x300.jpg 195w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-666x1024.jpg 666w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-273x420.jpg 273w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-640x983.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-681x1046.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5.jpg 736w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Na minúcia com que os exijo, os exercícios de história comparada deparam com os limites das forças humanas. Vários anos depois de ter terminado o <em>Poder e Dinheiro</em> publiquei um ensaio em duas partes intitulado <em>Economia de Troca de Presentes. Para uma Teoria do Modo de Produção Pré-Capitalista</em>, onde procurei apresentar um panorama que ampliasse no tempo e universalizasse no espaço os problemas que enunciara a propósito do regime senhorial. Mas tratou-se apenas de um roteiro, uma proposta de trabalho, porque para levá-la a cabo precisaria de pelo menos mais uma existência. Seria conveniente, porém, que a história comparada tivesse só este tipo de limites e mais nenhuns. Ora, hoje ela depara com dois obstáculos de muito peso. De um lado, a comparação entre factos, sem restrições de espaço e de tempo, pressupõe uma ambição de universalismo e corrobora-o, o que é contrário a todos os identitarismos, incluída a sua forma arcaica de nacionalismos. O pós-modernismo e os identitarismos que se lhe seguiram dedicam-se a isolar conceptualmente — e tanto quanto possível materialmente — sociedades e civilizações que a história comparada procura organizar em áreas de estudo comuns e cada vez mais amplas. De outro lado, a forma como a estrutura universitária evoluiu, com uma subdivisão crescente dos campos de conhecimento e uma concorrência curricular que transforma cada especialidade em coutada exclusiva, compromete qualquer possibilidade de história comparada no interior da academia.</p>
<p style="text-align: justify;">Para agravar a situação, em algumas capelas marxistas a história comparada depara com o opróbrio da heresia. No dia 26 de Abril de 2024 um leitor escreveu num comentário (<a href="https://passapalavra.info/2024/04/152054/#comments" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>): «O método comparativo sob a forma das variações concomitantes foi defendido por Durkheim em seu livro “As Regras do Método Sociológico”. Este método é, por sua vez, a adequação do método de investigação das relações sociais ao método das ciências naturais que é a da experimentação direta (por isso, o método comparativo seria chamado por Durkheim também de “método da experimentação indireta”). Hoje em dia já não me surpreendo com João Bernardo defendendo este método positivista que foi criticado até mesmo pela limitada consciência burguesa, mas continuo, infelizmente, me surpreendendo com o seu contínuo combate ao marxismo ao atacar os supostos “marxistas”». Eis-me assim excluído do paraíso, ou sertão, dos ilustres iluminados.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, tal como eu a entendo e pratico a história comparada requer uma concepção instrumental da metodologia, em que esta surge por exigência dos factos e em que, portanto, se vai elaborando progressivamente, em vez de ser tomada como o prévio mecanismo motor. Mas não falta entre os marxistas quem prefira deduzir os factos a partir do método, a tal ponto que os factos se apresentam como simples ilustrações do método. Temos então divagações, mais perto da teologia do que da historiografia. Este tipo de lucubrações recorre à dialéctica, um método lógico que possui no misticismo um curioso <em>pedigree</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">O misticismo pretende estabelecer uma relação íntima e directa do indivíduo com a divindade, prescindindo dos intermediadores oficiais, que são os sacerdotes. E assim, sem colocar uma categoria social acima das restantes, o misticismo constituiu um terreno fértil para as heresias, já que cabia ao clero, e só a ele, a definição da ortodoxia. Ora, uma relação directa entre termos sistematicamente contraditórios, entre o finito e o infinito, entre o imperfeito e o perfeito, em suma, entre um indivíduo que padece de todas as limitações e uma divindade que não tem nenhuma, não pode operar-se sem transição e exige um contínuo desdobramento em que os termos contraditórios geram um termo intermédio, que por sua vez se desdobra, sem que esta série de contradições internas tenha qualquer razão intrínseca para se encerrar. É isto a dialéctica, e os problemas inerentes à célebre cláusula <em>filioque</em> são um bom exemplo desta lógica em acção.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi essa a dialéctica que os gnósticos se esmeraram a desenvolver e que Mestre Eckhart herdou, assimilando-a a outras heresias, até que Jakob Bœhme a codificou numa doutrina que ultrapassou muito a área da cultura germânica. E como o romantismo se definiu pela recusa do iluminismo e uma idealização do medievalismo, não devemos estranhar que a filosofia romântica tivesse assimilado a lição de Bœhme. Aliás, graças à sua amizade com Franz Xaver von Baader, Hegel remontou mais longe do que Bœhme e interessou-se muito pela obra de Mestre Eckhart. Aqueles marxistas que se espantarem com esta genealogia — e decerto não faltarão entre os leitores do Passa Palavra — deveriam saber que Georges Gurvitch mencionou como uma evidência que «a terminologia hegeliana» «é também a do misticismo alemão tradicional desde Jacob Bœhme». Para me exprimir numa fórmula concisa, a dialéctica, enquanto instrumento lógico do misticismo, tornou-se o eixo do pensamento de Hegel.</p>
<p style="text-align: justify;">A dialéctica só deixa de ser mística quando esbarra com os factos. Se a vetusta expressão <em>materialismo dialéctico</em> conserva algum sentido hoje, numa época em que a concepção de matéria tanto se alterou que acabou por se desmaterializar, é no choque com os factos. Foi esta a operação a que Marx se referiu quando disse que havia virado ao contrário a dialéctica de Hegel. Pretender colocar em primeiro plano a dialéctica, como se os factos se deduzissem dela, e julgar que a dialéctica superou o empírico, é regressar à teologia, e do modo mais absurdo, uma espécie de teologia laica. É o empirismo que transforma a dialéctica, de um infindável exercício teológico de desdobramentos contraditórios, num instrumento lógico, quero dizer, numa lógica que pode ser usada como instrumento na história comparada e na análise macroeconómica comparativa. As contradições internas, em vez de serem o mecanismo do ilimitado desdobramento das séries místicas, passam a ser o instrumento com que definimos os factos por oposição a outros factos e pelas suas rupturas internas, que permitem a passagem do estático ao dinâmico. E assim a superação do enunciado de factos pelo estabelecimento de campos, que há pouco defini como a base fundamental da história comparada, tal como eu a entendo e pratico, tem por instrumento essa dialéctica que Marx virou do avesso.</p>
<p style="text-align: justify;">Se eu sou marxista? Sim, sou. Marxista deste marxismo.</p>
<p><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A censura de Cristo a São Tomé está no <em>Evangelho segundo São João</em>, 20: 29.<br />
A citação de Georges Gurvitch encontra-se na sua obra <em>Déterminismes sociaux et liberté humaine. Vers l’Étude sociologique des cheminements de la liberte</em>, Paris: Presses Universitaires de France, 1963, pág. 22.</p>
<p style="text-align: center;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159412" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-300x209.jpg" alt="" width="100" height="70" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-300x209.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-768x534.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-604x420.jpg 604w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-640x445.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-681x473.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" /><em>As ilustrações reproduzem obras de M. C. Escher (1898-1972)</em>.</p>
<p>Pode ler <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159399/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> a segunda parte deste ensaio.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (4)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159433/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 19:51:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[Desde os seus primórdios, a revolta tem sido uma luta de circulação por excelência. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p><strong>CAPÍTULO 2</strong></p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Era de Ouro da Revolta</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Entre os muitos locais onde se poderia começar a história, cada um deles atormentado pela impossibilidade de chegar a um verdadeiro início, poderíamos olhar para Brístol e King&#8217;s Lynn em 1347. É demasiado cedo, claro. Estes acontecimentos são anómalos no gráfico de dispersão dos acontecimentos que entraram nos contos. Na melhor das hipóteses, são precursores. Talvez seja melhor começar no século XVI, onde “as revoltas por comida não seguiram uma tradição antiga: os primeiros foram como pequenos mamíferos peludos ofuscados pelos grandes dinossauros destruidores, que foram as rebeliões dinásticas e camponesas e as batalhas de cercamento” <strong>[1]</strong>. Ou o século XVIII de Thompson, <em>locus classicus </em>indiscutível. Tilly, em sua maior amplitude, propõe o período de 1650-1850. John Bohstedt vê um intervalo de três séculos em que “o nosso terceiro século, de 1740 a 1820, foi a era de ouro dos revoltas por comida” <strong>[2]</strong>. Thompson observa que estes são frequentemente identificados como “insurreições” ou “levantes dos pobres”. Outros, seguindo Thompson, advertem contra a imposição de distinções demasiado rígidas entre os tipos, optando por recomendar, em vez disso, a abordagem de “afastar-se da compartimentação de protestos. Embora a divisão dos protestos em diferentes &#8216;tipos&#8217; &#8211; alimentares, industriais, políticos, convencionais e assim por diante &#8211; possa ser mais organizada, ela obscurece a nossa compreensão dos próprios vínculos que os perpassam” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ligação é a própria ligação: a troca como síntese social. Marx observa que “a categoria econômica mais simples, por exemplo, o valor de troca, pressupõe uma população. Além disso, uma população que produz em relações específicas”. É com isto que “a colocação do produto no mercado… pode ser considerada mais exatamente como a transformação do produto <em>numa</em> <em>mercadoria</em>. Só no mercado é que ele é uma <em>mercadoria</em>” <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ascensão dos mercados, no sentido abstrato, é inevitavelmente desigual no espaço e no tempo, e muitas vezes difícil de ver. No entanto, as revoltas alimentares acompanham o mercado no seu percurso para se tornarem a forma paradigmática de conflito social. “À medida que uma massa crescente de trabalhadores passou a depender dos mercados para obter os seus alimentos, a Inglaterra tornou-se cada vez mais vulnerável ao fracasso das colheitas e às revoltas por comida”, Bohstedt nota <strong>[5]</strong>. Tilly diz o seguinte sobre a França: “Notamos o aumento duradouro das revoltas alimentares no final do século XVII, à medida que a pressão sobre as comunidades para cederem as reservas locais de cereais às exigências do mercado nacional aumentou” <strong>[6]</strong>. Richard Price, retomando o quadro de Thompson: “As revoltas dos preços e as lutas por conta da utilização racionalizada da terra foram formas características deste choque entre as inovações das forças de mercado e a afirmação de uma &#8216;economia moral&#8217; de obrigações recíprocas e responsabilidades” <strong>[7]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão da “economia moral” apoia-se fortemente no significado de auto- reconhecimentos particulares por parte dos antagonistas. Neste aspecto, é exemplar de muita reflexão sobre a revolta, um dispositivo explicativo que se baseia na intenção e na <em>razão </em>como baluarte contra análises despolitizantes, contrapondo a autorreflexão ao mero reflexo. É Thompson no seu momento mais justificatório, quando a justificação não é necessariamente a tarefa em causa. Um historiador contrapõe uma “economia pragmática”, argumentando: “Se as revoltas alimentares e as crenças paternalistas e da economia moral estavam tão enraizados na defesa da tradição como Thompson argumentava, essas tradições e crenças deveriam ter-se manifestado nas primeiras ondas nacionais de revoltas, 1740, 1756-57 e 1766” <strong>[8]</strong>. No entanto, “já deve ter ficado claro que os desordeiros de 1740 estavam mais interessados em confiscar alimentos do que em regular os mercados” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A apreensão de alimentos e a regulação dos mercados opõem-se apenas no domínio da ideologia. Como ambos os lados parecem não perceber, o sentido moral da multidão (caso exista) é um instrumento de necessidades pragmáticas, não a sua transgressão. A causa do acontecimento está noutro lado, na transformação social. Quando o mercado se generaliza e a troca se torna, nos termos de Alfred Sohn-Rethel, uma “segunda natureza puramente social” ao lado da primeira natureza do uso &#8211; quando a própria reprodução é cercada por todos os lados &#8211; o preço não pode deixar de se tornar um local de antagonismo imediato.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159440" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project.jpg" alt="" width="1280" height="885" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-300x207.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-1024x708.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-768x531.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-607x420.jpg 607w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-640x443.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-681x471.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />Mas não devemos apoiar-nos demasiado na magia do “preço”. Insistir na distinção é negligenciar o facto de que o zero da apreensão também é um preço; está em relação com o total de fundos disponíveis para satisfazer as necessidades básicas. No contexto do mercado, a expropriação direta encontra-se no mesmo continuum de uma luta redistributiva pela sobrevivência que a exigência de um custo mais baixo dos cereais. O próprio Tilly faz esta observação com respeito à Inglaterra, França e, eventualmente, Estados Unidos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Durante o período de 1650 a 1850, as pessoas, na maioria das vezes, impediam que os cereais saíssem da cidade, confiscando o carregamento, ou forçavam os alimentos locais a entrar no mercado a um preço inferior ao que o proprietário preferia. As autoridades chamavam a estas ações revoltas alimentares, mas na realidade consistiam em pessoas comuns que faziam quase exatamente o que as próprias autoridades faziam em tempo de escassez &#8211; proibir que os cereais saíssem da cidade, confiscar os abastecimentos locais, regular o preço <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A apreensão de alimentos <em>é</em> uma regulação do mercado, tal como a exportação de alimentos em caso de escassez é uma regulação do mercado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O</strong></em> <em><strong>Mercado</strong></em> <em><strong>Mundial</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">É por esta razão que começamos nas docas. Em 1347, ocorrem duas revoltas notáveis na Inglaterra, nos portos da Liga Hanseática de Brístol e King&#8217;s Lynn:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Uma vez a bordo, a multidão, assumindo o poder real, descarregou os navios “contra a vontade dos proprietários” e pôs os cereais à venda “ao seu próprio preço”. Os manifestantes também apreenderam e venderam outros carregamentos de milho que estavam a ser trazidos para Lynn para serem comercializados e depois, “sob a sua autoridade”, condenaram os proprietários ou transportadores à chacota pública, “sem processo legal”. Por último, a multidão foi acusada de prender o presidente da câmara e outros habitantes e de emitir proclamações quase reais <strong>[11]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta assunção carnavalesca do poder assombra a revolta; mais de quatro séculos depois, as Revoltas de Gordon assinarão no muro quebrado da prisão de Newgate, “Sua Majestade, Rei Mob”. A partir de um certo ponto, o comando sobre o preço não é tão fácil de distinguir da soberania. Mas é um fato diferente que é mais revelador aqui. No porto de Bristol, os navios dirigem-se para a Gasconha, os que partem de King&#8217;s Lynn para Bordeaux.</p>
<p style="text-align: justify;">O mercado mundial está em formação, um projeto de comerciantes, militares e bancos. Os acontecimentos de Bristol e de King&#8217;s Lynn ocorrem pouco depois de a Inglaterra não ter pago os empréstimos maciços de Florença com os quais financiou a invasão de França; tanto a Gasconha como Bordeaux são os eixos da Guerra dos Cem Anos. A rede comercial do Mediterrâneo propaga esta volatilidade, o “grande crash” da década de 1340 (onde se regista o primeiro colapso bancário, que derrubou as Casas de Bardi e Peruzzi). Contra este drama no sistema mundial nascente, as revoltas de exportação de 1347 não desempenham senão um papel secundário <strong>[12]</strong>. Contudo, estão costurados nesse tecido, urdume e trama.</p>
<p style="text-align: justify;">O porto, o entreposto, mesmo numa escala limitada (pois o que é King&#8217;s Lynn comparada com Veneza na Alta Idade Média, ou com Amsterdã do século XVII?) é o mais próximo que o mundo feito chegará da intersecção da teoria da produção e da circulação. Se é a azáfama do mercado local em grande escala, é ao mesmo tempo a condensação de todas as abstrações do espaço mundial, dos acordos comerciais, dos portulanos, do direito do almirantado. É a paisagem construída onde se manifesta a relação entre o local e o global. Fora do porto, é difícil conciliar as duas coisas, se a pessoa não tiver viajado muito: o quotidiano cívico da ágora e o sublime fictício do comércio oceânico. É a distância entre o livro contábil e a ficção de aventuras. Franco Moretti observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">As aventuras tornam os romances longos porque os tornam amplos; são os grandes exploradores do mundo ficcional: campos de batalha, oceanos, castelos, esgotos, pradarias, ilhas, bairros de lata, selvas, galáxias… Margaret Cohen, com quem aprendi muito sobre este assunto, vê-as como uma metáfora de expansão: o capitalismo na ofensiva, planetário, atravessando os oceanos. Penso que tem razão, e acrescentaria apenas que a razão pela qual a aventura funciona tão bem neste contexto é o facto de ser tão boa a imaginar <em>a guerra</em> <strong>[13]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nesta perspetiva, o feito de <em>Robinson Crusoé </em>é sintetizar o livro de contábil e a aventura &#8211; descobrir entre as verdades que a modernidade oferecerá, a unidade dos dois. Como diz Marx, “assim como a troca privada cria o comércio mundial, a independência privada cria completa dependência do chamado mercado mundial” <strong>[14]</strong>. O aforismo de Walter Raleigh precede-o: “Todo o comércio é comércio mundial; todo o comércio mundial é comércio marítimo”. Uma dialética da banca do comerciante e do mercado mundial, portanto, o emaranhado dos fenómenos mais locais e mais longínquos. E, juntamente com isso, a dialética da revolta e da guerra, King&#8217;s Lynn e Calais, cada um no extremo de uma meada partilhada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159439" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit.jpg" alt="" width="1280" height="971" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-300x228.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-1024x777.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-768x583.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-554x420.jpg 554w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-640x486.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-681x517.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />Pouco importa, para voltar a um tema anterior, se os desordeiros possuem pensamentos sobre os mercados mundiais, conflitos distantes, a malha apertada do espaço global. Têm uma tarefa prática que surge dentro destes, a partir destes, e que participa neles independentemente disso. Os participantes não conseguem parar de se virar para estas coisas que assombram todos os horizontes. Thompson, ao falar do planejamento e paciência negligenciados da revolta no mercado em toda a sua particularidade local, é atraído pela atração magnética da exportação:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Além disso, exigiam mais preparação e organização do que parece à primeira vista; por vezes, a “multidão” controlava o mercado durante vários dias, à espera de que os preços baixassem; por vezes, as ações eram precedidas de panfletos escritos à mão (e, na década de 1790, impressos); por vezes, as mulheres controlavam o mercado, enquanto grupos de homens interceptavam os cereais nas estradas, nas docas, nos rios; muito frequentemente, o sinal de ação era dado por um homem ou uma mulher que transportava um pão no alto, decorado com uma fita preta e com a inscrição com um slogan qualquer” <strong>[15]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Aqui, o senso comum da história da revolta torna-se uma narração, na qual a revolta de exportação é uma espécie de digressão, uma sub-história. Finalmente, é de grande importância, ao traçar o longo arco histórico da revolta, compreender que isso inverteu as coisas. Consideremos o século das ondas de revoltas nacionais. Em 1740, a grande maioria são “ações de multidão para impedir o transporte de alimentos”. As revoltas concentram-se em torno das costas e dos cursos de água: as fozes do Tamisa e do Severn, King&#8217;s Lynn, ao longo do Ouse e até o Union Canal. As revoltas mais generalizados de 1756-1757 registam um aumento tanto na fixação explícita de preços como nos ataques a comerciantes, mas continuam a orientar-se para os transportes; agrupam-se novamente em torno das vias navegáveis e em direção às Midlands. Por volta de 1795, o “ano culminante” de Thompson para as revoltas, apoiado pela fome e pelo jacobinismo canalizado, as revoltas encontram-se em todo o lado abaixo de Northumberland; a fixação de preços é agora igual aos transportes. Não há falta de nenhum dos dois. Em 1800-1801, as revoltas somam-se uns aos outros, espalhando-se pelas Midlands e atravessando a costa ao sul, no último pico antes das revoltas começarem a declinar na Inglaterra <strong>[16]</strong>. E não é só na Inglaterra; o rumo é muito semelhante nas colônias norte-americanas, onde os amotinados exemplares de 1709 a 1713 atacaram navios, tendo num caso partido um leme contra a partida de um carregamento de trigo; estes acontecimentos estão intimamente ligados ao comércio emergente das Índias Ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">O padrão é perfeitamente claro. A revolta das exportações, a intervenção física direta nos transportes, dificilmente é uma divergência ou improvisação na trajetória da revolta, mas antes a sua base. Está lá na origem, é uma invenção dos mercados nacionais e internacionais emergentes, do financiamento da bolsa nacional, da mercantilização da agricultura e da correspondente destruição da autossuficiência comunitária. Desde os seus primórdios, a revolta tem sido uma luta de circulação por excelência. Mesmo as sedições mais discretas e rústicas partilharam este contexto amplo. Depois de 1521, teve início uma expansão ainda mais dramática e sangrenta, a catástrofe da colonização, escravidão, das rotas das especiarias &#8211; aquilo a que alguns historiadores chamarão de “a primeira globalização”, a era mercantilista que integra a economia mundial no intervalo entre as viagens de Colombo e Da Gama num extremo, e a Revolução Industrial por outro. O fato de esta época mercantilista coincidir mais ou menos com a primeira época de revoltas não é uma correlação reveladora, mas sim a base histórica e teórica da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e</strong></em> <em><strong>Luta</strong></em> <em><strong>de</strong></em> <em><strong>Classes</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">No primeiro florescimento da revolta estão as sementes do seu declínio. A Inglaterra é o centro da parte inicial deste estudo, não por ser a primeira casa da revolta, mas por ser a casa da primeira transição, <em>revolta</em><em>-greve</em>. A lógica da revolta destaca-se de forma mais acentuada, em contraste. O próximo capítulo é dedicado a esta transição. No entanto, as dinâmicas subjacentes a essa transição já estão a emergir durante a era de ouro da revolta. Num movimento de auto-cancelamento e auto-propulsão que já nos deve ser familiar, esta emergência é tanto a condição para essa era de ouro como para o que a levará ao fim.</p>
<p style="text-align: justify;">O desenvolvimento do mercado coincide com o aumento da pressão sobre a população em toda a Europa, a partir de finais do século XV, e com o concomitante aumento dos preços dos cereais. Nestas condições, de acordo com o relato persuasivo de Brenner sobre a ascensão do capitalismo em Inglaterra, “encontramos os proprietários a consolidar as posses e a arrendá-las a grandes arrendatários capitalistas que, por sua vez, as cultivariam com base no trabalho assalariado e melhoramento agrícola” <strong>[17]</strong>. Na França, este processo é inibido pela tendência do Estado para proteger a propriedade dos camponeses. Daí resultam duas vias de desenvolvimento, eloquentemente avaliadas por Ellen Meiksins Wood:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">a dinâmica do crescimento auto-sustentado e a necessidade constante de melhorar a produtividade do trabalho pressupunham transformações nas relações de propriedade que criavam a necessidade de tais melhorias simplesmente para permitir que os principais atores econômicos &#8211; proprietários e camponeses &#8211; se reproduzissem. As divergências entre a Inglaterra e a França, por exemplo, pouco tinham a ver, em primeira instância, com as respectivas capacidades tecnológicas. Distinguiam-se pela natureza das relações entre proprietários e camponeses: um caso exigia o aumento da produtividade do trabalho, o outro não, e, de certa forma, até impedia o desenvolvimento das forças produtivas. O impulso sistemático para revolucionar as forças de produção foi mais o resultado do que a causa <strong>[18]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A pequena produção camponesa podia ser intensificada, e muitas vezes foi. No entanto, isso era geralmente feito através do aumento da mão de obra. Não se tratava de uma fuga à armadilha malthusiana e, como Brenner observa, dependia de uma maior produção de cereais de base noutros locais:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O desenvolvimento econômico inglês dependia assim de uma relação simbiótica quase única entre a agricultura e a indústria. Tratou-se, de fato, em última análise, de uma revolução agrícola, baseada na emergência de relações de classes capitalistas no campo que tornou possível que a Inglaterra se tornasse a primeira nação a experimentar a industrialização <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estes diferentes caminhos ditam diferentes lutas:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na Inglaterra, é claro, a revolta camponesa era dirigida contra os senhorios, numa vã última tentativa para defender a propriedade camponesa em desintegração contra a invasão capitalista que avançava. Na França, o alvo da revolta camponesa era, tipicamente, a tributação esmagadora do Estado absolutista <strong>[20]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Neste caso, Brenner refere-se a revoltas camponesas como a Rebelião de Kett, em 1549, a maior das revoltas de cercamento do período. Como já foi referido, estas revoltas estão relacionadas com as revoltas por comida pela questão da subsistência, mas tratam-se de uma rede ampla. Podemos aperfeiçoar esta ideia sugerindo que a revolta camponesa é como um tio daquilo que acabaremos por reconhecer como a revolta, uma posição feudal contra a reestruturação que lentamente perde a sua força à medida que o seu mundo se desvanece de forma desigual. A revolta sobrevive depois de o seu parente mais velho ter ficado na memória. Mas durante algum tempo desenvolve-se paralelamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159441" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder.jpg" alt="" width="1280" height="913" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-300x214.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-1024x730.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-768x548.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-589x420.jpg 589w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-640x457.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-681x486.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />É de esperar que assim seja. O mercado, o mundo das trocas e do consumo, tem uma longa história. Foi este fato que levou Fernand Braudel a afirmar que a economia tem três camadas. A vida quotidiana constitui a camada de base, com o mercado por cima. “Depois, ao lado, ou melhor, acima desta camada, vem a zona do anti-mercado, onde vagueiam os grandes predadores e onde a lei da selva entra em ação” <strong>[21]</strong>. O que isto deixa escapar é a forma como o capitalismo não é simplesmente uma camada acrescentada, mas também uma relação social que transforma o conteúdo do mercado que encontra ante si, preservando inicialmente a sua forma (e fazendo cada vez mais o mesmo com a vida quotidiana). Agora será onde o valor se realiza, por detrás da cortina de comprar barato e vender caro. O capitalismo é a internalização do comércio, não o seu contrário: um capitalismo inicialmente mercantil, circulatório. E o período em que este processo de internalização estiver em plena atividade &#8211; depois de iniciada a revolução agrícola, antes da revolução industrial &#8211; será a era de ouro da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> John Bohstedt, <em>The Politics of Provisions: Food Riots, Moral Economy, and Market Transition in England</em>, c. 1550-1850, Surrey, Reino Unido: Ashgate, 2013, 27.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> John Bohstedt, “The Pragmatic Economy, the Politics of Provisions and the &#8216;Invention&#8217; of the Food Riot Tradition in 1740”, in<em> Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, eds. Adrian Randall e Charles Molesworth, Nova York: St. Martin&#8217;s Press, 2000, 57-59.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Adrian Randall e Charles Molesworth, “The Moral Economy: Riots, Markets, and Social Conflict,” in <em>Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, 12.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 101, 534 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Bohstedt, “Pragmatic Economy”, 57.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Tilly, “Burgundy”, 503.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Richard Price, <em>Labour in British Society: An Interpretive History</em>, Londres: Croom Helm, 1968, 29.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Bohstedt, “Pragmatic Economy”, 75.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 67.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Tilly, “Speaking Your Mind”, 470.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Buchanan Sharp, “The Food Riots of 1347 and the Medieval Moral Economy,” in <em>Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, eds. Adrian Randall and Charles Molesworth, New York: St. Martin&#8217;s Press, 2000, 35-35.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Vale a pena notar aqui que “sistema mundial” não pretende designar a totalidade do globo e, então, tratar a Europa Ocidental como se ela pudesse desempenhar esse papel na análise, como tantas vezes acontece na imaginação ocidental. Como Immanuel Wallerstein esclarece, “A inclusão do hífen teve como objetivo sublinhar que não estamos falando de sistemas, economias, impérios do (todo) mundo, mas de sistemas, economias, impérios que são um mundo (mas muito possivelmente, e de fato geralmente, não abrangendo todo o globo)”. Immanuel Wallerstein, <em>World-Systems Analysis: An Introduction</em>, Durham: Duke University Press, 2004, 16-17.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Franco Moretti, “The Novel: History and Theory”, <em>New Left Review</em>, n.º 52, julho-agosto de 2008, 115, 124.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 159.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> E. P. Thompson, <em>The Making of the English Working Class</em>, Vintage Books, 1966, 65. Ele continua com uma nota de rodapé de J. F. Sutton, The Date-Book of Nottingham, Nottingham, ed. de 1880, p. 286: “Uma ação em Nottingham, em setembro de 1812, começou com várias mulheres colocando um pão de meio centavo no topo de uma vara de pescar, depois de pintá-lo com ocre vermelho e amarrar nele um pedaço de crepe preto, emblemático… da &#8216;fome sangrenta vestida com saco de cilício&#8217;”. A bandeira vermelha e preta começa no pão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Andrew Charlesworth, ed., <em>An Atlas of Rural Protest in Britain 1548-1900</em>, Londres: Croom Helm, 1983, 81, 84, 98, 102.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “Agrarian Class Structure and Economic Development in Pre-Industrial Europe”, <em>Past and Present</em>, n.º 70, fevereiro de 1976, 61.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ellen Meiksins Wood, <em>The Origin of Capitalism: A Longer View</em>, Londres: Verso, 2002, 66-7.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Brenner, “Agrarian Class Structure” (Estrutura de classes agrárias), 68.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Ibid., 70.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Fernand Braudel, <em>The Wheels of Commerce: Civilization and Capitalism, Fifteenth-Eighteenth Century</em>, vol. 2, Berkeley: University of California Press, 1982, 230.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Pieter Bruegel (1526–1569)</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (3)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 14:42:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 1: REVOLTA</strong></h4>
<p><strong>CAPÍTULO 1</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Que é Uma Revolta?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que está em jogo na definição de revolta não é simplesmente a possibilidade de fazer distinções históricas úteis, mas também a decifração do significado e do potencial político da revolta. Esse também é um problema para a pesquisa. Certamente, as revoltas frequentemente apresentam violência, direta, indireta ou como ameaça. Os problemas surgem quando os dois [revolta e violência] são atrelados um ao outro. Se alguém estiver, por exemplo, analisando registros públicos e selecionar <em>violência</em> e palavras relacionadas como termos de pesquisa, essa correlação terá um profundo efeito nos resultados. Da mesma forma, o pressuposto de que a violência indica uma revolta apresentará instantaneamente desafios para qualquer conceituação útil da atividade em questão.</p>
<p style="text-align: justify;">Considere as confusões que se proliferam quando se faz a fusão, neste exemplo do texto de abertura de <em>“Rioting in America”</em> de Gilje:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mesmo nos primeiros anos do século XIX, à medida que os trabalhadores refinavam suas táticas de greve, a coerção era necessária para impor a unidade e persuadir os proprietários quanto à legitimidade das exigências dos trabalhadores. Essa coerção frequentemente assumia a forma de revoltas &#8211; seja cobrindo de piche e penas um sapateiro recalcitrante em Baltimore ou brigando com os fura-greves nas docas de Nova York. A força era frequentemente usada para enfrentar a força, e as revoltas e a violência representam os sinais da história trabalhista americana desde a década de 1830 até o século XX. Antes de 1865, a maioria das greves violentas se limitava a cabeças rachadas e eram assuntos locais. Depois de 1865, as revoltas passaram a ter alcance nacional. Na grande greve ferroviária de 1877, os trabalhadores lutaram contra os militares de Baltimore a São Francisco. As dimensões dessas guerras trabalhistas continuaram a ganhar as manchetes nacionais com as batalhas em Homestead em 1892, Pullman em 1894, Ludlow em 1914 e Blair Mountain, West Virginia, em 1921. Acrescente a esses grandes cataclismos inúmeras escaramuças nas cidades, vilas e no campo, e veremos que grande parte da história do trabalho americano está escrita com sangue, como revoltas <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ficamos um pouco surpresos ao saber que a revolta é um aspecto marcante da história do trabalho. É um complemento da greve, seu braço armado. Ou talvez a revolta seja simplesmente uma subcategoria, a <em>greve violenta</em>; às vezes, elas se elevam ao status de “guerras trabalhistas”, chegando enfim ao último floreio gramaticalmente desajeitado, determinado a aproximar o máximo possível as palavras “revoltas” e “sangue”.</p>
<p style="text-align: justify;">Como costuma acontecer até mesmo com as concatenações mais arbitrárias, uma verdade é, no entanto, capturada. O eco de “escrito em letras de sangue e fogo” é sugestivo. A famosa descrição de Marx da acumulação primitiva insiste na violência das expropriações que produzem as condições para o capitalismo. À medida que os cavaleiros da indústria substituírem os cavaleiros da espada, parecerá que a apropriação do excedente sob o capital, diferentemente de todos os modos anteriores de produção, é garantida por meio de consentimento livre. Mas essa dupla liberdade do trabalho — <em>dos</em> meios de subsistência e <em>para</em> dispor de suas capacidades à vontade — é precisamente o que foi assegurado por essa violência originária, que não é dissolvida, mas sim sublinhada e preservada dentro da dominação impessoal da relação de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de se admirar, portanto, que a violência ronde o mundo do trabalho. Esse é o núcleo da verdade no relato de Gilje e o momento em que a violência poderia ter sido reconhecida como analiticamente independente da constituição da revolta. Com essa separação esclarecedora, a força ideológica dessa associação exclusiva poderia ser inspecionada. Mas é exatamente o que não acontece. É do caráter do pensamento burguês preservar uma compreensão mais moral do que prática do antagonismo social. Assim, em vez disso, encontramos a notável insistência de que a violência é sempre e em todos os casos um sinal da revolta — mesmo quando envolve “brigas com fura-greves”, um absurdo evidente. Citando “alguns precedentes legais”, Gilje acabará chegando à sua definição completa de revolta como “qualquer grupo de doze ou mais pessoas tentando fazer valer sua vontade imediatamente por meio do uso da força fora dos limites normais da lei” <strong>[2]</strong>. Uma revolta, não podemos deixar de notar, é o anverso perfeito de um júri.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é, nesse sentido, sempre e em toda parte ilegítima, o que pode não nos surpreender, a não ser pela alegação inicial de que ela serviu “para persuadir os proprietários da legitimidade das demandas dos trabalhadores”. A partir daí, os problemas categoriais só se proliferam. A consequência desse relato em particular é reduzir a greve em sua totalidade ao aspecto mais mínimo e ascético, a inação encontrada ao abandonar as ferramentas. Ela é sempre pacífica e sempre dentro da lei — apesar dos longos períodos da história durante os quais até mesmo a greve ou “reunião” mais moderadas eram ilegais, e apesar dos inúmeros exemplos de lutas com piquetes e outras formas de violência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159420" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg" alt="" width="1504" height="1157" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg 1504w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-300x231.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-1024x788.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-768x591.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-546x420.jpg 546w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-640x492.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-681x524.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1504px) 100vw, 1504px" /> Por meio de tais construções contrafactuais, obtemos um modelo de greve severamente limitado, tanto em termos de quais ações ela pode incluir, quanto em relação a seu escopo histórico e geográfico. De fato, a greve contemplada aqui quase não existe. Essa definição também tem o efeito contrário de ampliar e desfigurar nosso conceito de revolta para além de qualquer particularidade; ele pode ser encontrado em todos os tempos e lugares como algo que beira a essência trans-histórica. Uma definição mais persuasiva, mas ainda limitada, é oferecida por David Halle e Kevin Rafter:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[A revolta] envolve publicamente pelo menos um grupo, que com pouca ou nenhuma tentativa de ocultação, agride ilegalmente pelo menos um outro grupo ou ataca ou invade ilegalmente uma propriedade… de forma que se indique que as autoridades perderam o controle… os ataques a outro grupo ou à propriedade devem atingir um determinado limite de intensidade <strong>[3]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser útil em comparação com a avaliação de William Sewell, um dos principais historiadores da ação coletiva. Embora se baseie em Tilly, Sewell também dá à violência um lugar de destaque em sua estrutura analítica em todos os períodos históricos, concluindo que “o argumento essencial de Tilly ainda pode ser explicado de forma mais econômica com o uso de sua tipologia de violência competitiva, reativa e proativa” <strong>[4]</strong>. O que diferencia Sewell de Gilje é que, ao deslocar os termos revolta/greve para os registros de violência em vez de sobrepor as duas estruturas à força, ele é capaz de avaliar a mudança de uma orientação dominante para outra dentro de um repertório de ações aberto à transformação histórica. Ou seja, ele mantém a possibilidade de periodização como tal. Isso é exatamente o que Gilje efetivamente abandona ao obscurecer totalmente metade do trabalho da história. Tilly observa,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O repertório de ações coletivas evolui de duas maneiras diferentes: o conjunto de meios disponíveis para as pessoas muda em função de transformações sociais, econômicas e políticas, enquanto cada meio de ação individual se adapta a novos interesses e oportunidades de ação. Rastrear essa dupla evolução do repertório é uma tarefa fundamental para a história social <strong>[5]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A descrição da revolta como expressão multifacetada da violência social geral que muda de forma a torto e a direito, conforme ditam as circunstâncias, ressalta a segunda enquanto apaga a primeira — e, com ela, qualquer chance de compreender a importância sistemática do retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Econômico e o Político</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">O confusão entre revolta e violência tem sido uma ferramenta essencial para a redução política da revolta, seu isolamento da política propriamente dita, cuja medida se baseia implicitamente em um modelo de auto-consciência ou em sua ausência. Foi isso que Thompson começou a criticar, chamando-a de “visão espasmódica da história popular:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">De acordo com essa visão, as pessoas comuns dificilmente podem ser consideradas agentes históricos antes da Revolução Francesa. Antes desse período, elas se intrometem ocasionalmente em momentos de súbita perturbação social. Essas irrupções são compulsivas, em vez de autoconscientes ou autoativadas: são simples respostas a estímulos econômicos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas conceitualizações são renovadas na ciência positivista e quantitativa, por exemplo, do New England Complex Systems Institute. Seu estudo de 2011, focado em nações com baixos salários, traça uma correlação de explicação única [single-bullet] em que os autores “identificam um limite específico de preço dos alimentos acima do qual os protestos se tornam prováveis” <strong>[7]</strong>. Há desvios mais matizados dessas suposições subjacentes, articulando aumentos insuportáveis nos preços das mercaorias com mudanças econômicas mais amplas, como a reestruturação do FMI, programas e relações comerciais forçadas, que fornecem as condições para regimes alimentares precários. Enfatizando a construção da fome e da escassez, esses relatos, no entanto, assumem um verdadeiro mecanismo autonômico [autonomic] de encadeamento entre estímulo e resposta. A definição efetiva de revolta aqui é condicional. É simplesmente o que acontece quando os preços dos alimentos atingem um certo apogeu, uma versão da abordagem dos “historiadores do crescimento”, rejeitada por Thompson por “obliterar as complexidades do motivo, do comportamento e da função, que, se fossem notados pelo estudo de seus análogos marxistas, os fariam protestar” <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa abordagem encontra seu contraponto de forma um tanto perversa em Alain Badiou. Ele oferece um sentido qualitativo e abstrato do momento político. Em muitos aspectos, seu relato transcende os limites de seus contemporâneos, intelectuais de esquerda que, confrontados com as revoltas de Tottenham em 2011, aprenderam pouco. Na melhor das hipóteses, fomos levados a pensar que as revoltas alcançaram um espontaneísmo lamentável, aquela acusação que é a reanimação do pensamento socialista da tropa “espasmódico”. Foi um espetáculo estranho ver uma teoria política outrora moderna ser apresentada como um truísmo, como se o debate entre Lênin e Luxemburg tivesse sido resolvido e suas conclusões fossem válidas para sempre, sem necessidade de análise real. Em geral, os relatórios foram ainda menos generosos. Os participantes eram farsantes da sociedade antes deles, movidos pelas compulsões de autocancelamento da época, avatares do individualismo materialista momentaneamente liberados, talvez aptos a escapar de explosões sem sentido se lhes fosse fornecido um programa político. Como Slavoj Žižek perguntou, queixoso, do recinto de papel da <em>London Review of Books</em>: “Quem conseguirá direcionar a raiva dos pobres?” Era difícil não temer que um filósofo quisesse se encarregar dessa tarefa.</p>
<p style="text-align: justify;">Badiou, no entanto, deixa claro que as revoltas para as quais ele volta sua atenção não estão em busca de uma direção de vanguarda, sem a qual só podem afirmar a sociedade da qual surgiram. Ele as identifica como um fato periodizante em meio à sua própria realização:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…] vários povos e situações estão nos dizendo, em uma linguagem ainda indistinta, que esse período acabou; que há um renascimento da História. Devemos então nos lembrar da Ideia revolucionária, inventando sua nova forma ao aprender com o que está acontecendo <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A Ideia surge do evento da revolta, que então fornece uma força e duração organizacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse esquema, há uma certa alternância entre períodos em que “a concepção revolucionária de ação política foi suficientemente esclarecida (…) e, com base nisso, garantiu apoio maciço e disciplinado” e “períodos intervalares [quando], em contraste, a ideia revolucionária do período anterior (…) está dormente” <strong>[10]</strong>. Na falta de uma ideia ordenadora (muitas vezes aparecendo como a Ideia majestosa), esses últimos períodos dão origem à expressão dessa desordem no modo protopolítico da revolta. Badiou vê uma “estranha semelhança” entre nosso passado recente e a Restauração Francesa após a derrota final do espírito republicano: “desde o início da década de 1830, foi um grande período de revoltas, que muitas vezes foram momentânea ou aparentemente vitoriosas… Essas foram precisamente as revoltas, às vezes imediatas, às vezes mais históricas, características de um período intervalar” <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159422" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O puramente econômico e o puramente político, como era de se esperar, mostram os limites um do outro em negativo. O conto indexical do New England Complex Systems Institute não pode fazer muito além de atender certas quantidades à medida que elas se aproximam de determinados níveis e aguardar a revolta que inevitavelmente seguirá. O método deles parece ser relativamente preciso, depois de dados concretos, mas dificilmente é explicativo em relação à revolta como fenômeno social.</p>
<p style="text-align: justify;">O relato de Badiou, ao contrário, é admiravelmente explicativo, mas impreciso. Ou seja, ele fornece um contexto social reconhecível para a revolta em oposição a outras formas de ação, uma demanda por periodização, e está preparado para aceitar a revolta como um testemunho sério sobre a transformação histórica. No entanto, há imprecisões em sua pesquisa histórica, o que deriva de periodizações um tanto arbitrárias da história francesa a partir de desejos políticos imputados, em direção a uma trajetória global de revolta, à qual essa distribuição histórica não corresponde. O movimento oscilante que ele deduz para a França, com fases que duram décadas, tem pouca força de periodização; provavelmente preciso para seu país natal, ele combina pouco ou nada com as tendências da história em outros lugares. Além disso, qualquer revolta de importância política (uma “revolta histórica”, em sua tipologia) aparece como um evento praticamente sem determinação, fora do tempo. Os analistas quantitativos nos dão causalidade demais; Badiou, de menos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas duas abordagens estão diante de nós como Scylla e Charybdis, os duros bancos de areia do economicismo vulgar e o redemoinho da abstração política. Como navegar entre elas, entre a revolta como jogo de fome e a revolta como emanação de uma estrutura diáfana de sentimento político? Sem dúvida, cada um deles é, de certa forma, informativo, mas ainda insuficiente. Se enfatizamos a periodização, é primeiro porque mudanças fundamentais e duradouras no repertório da ação coletiva sugerem que a periodização é possível em formas mais completas do que espasmos ou oscilações, tanto em escalas infranacionais quanto supranacionais. Se a revolta olha para a periodização, o período, por sua vez, olha de volta para a revolta pelo buraco da fechadura dialética. É difícil, talvez impossível, estabelecer o que é uma revolta sem a periodização; com ela, a revolta (e também a greve) pode ser entendida como um conjunto de práticas diante de circunstâncias práticas, com ou sem um imaginário sobre a autoconsciência reflexiva dos participantes em que se baseiam tantos relatos.</p>
<p style="text-align: justify;">É na prática que Thompson baseia sua análise. Sua conclusão agrega um conjunto de outras práticas, incluindo bloqueio, confisco, revenda, ameaça e violência real contra comerciantes e transportadores. É a partir dessas práticas, em relação a um senso personalizado do custo de se manter vivo, que ele deduz a prática de fixação de preços como a atividade unificadora. Thompson, por sua vez, foi criticado pelo peso que ele dá ao costume e ao direito presumido de transformar o costume em uma arma, que é aproveitada pela multidão. No entanto, o caso mais básico que ele constrói se aproxima do indiscutível: o caso de reconhecer que a situação de revolta não é nem a simples fome nem a “emoção” política (como a revolta já foi chamada), mas sim o domínio do mercado. Se o mercado era “o ponto em que os trabalhadores mais frequentemente sentiam sua exposição à exploração, era também o ponto &#8211; especialmente em distritos manufatureiros rurais ou dispersos &#8211; em que eles podiam se organizar mais facilmente” e, portanto, era “tanto na arena da guerra de classes quanto na fábrica e na mina que se deu a revolução industrial” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Falar de guerra de classes não pode deixar de tender a um certo reducionismo. Não parece, pelo menos no sentido ortodoxo que adquiriu, totalmente adequado ao mundo protoindustrial em questão, nem ao presente quando o pertencimento de classe fornece não tanto um limite, mas uma lógica para a mobilização política. Apenas assim, como nossa introdução observa, a “fixação de preços de mercadorias no mercado” descreve apenas uma fração da revolta contemporânea. Thompson, e ele não está sozinho, aponta uma saída em um momento de atenção ao tema da revolta. Ele faz uma pausa em sua pesquisa para observar: “Os iniciadores das revoltas eram, com muita frequência, as mulheres”, pela razão evidente de que “elas também eram, é claro, as mais envolvidas no comércio cara a cara, mais sensíveis aos significados dos preços, mais experientes em detectar baixo peso ou qualidade inferior” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é apenas razoável, no caso das excluídas antecipadamente do “patriarcado do salário” <strong>[14]</strong> encontrarem mais intensamente a luta no mercado, uma vez que a agricultura de subsistência é minada e a questão básica da sobrevivência é forçada a entrar em uma esfera de troca em expansão. E isso nos oferece, mais do que uma lógica de circulação, a esfera do consumo e da troca. Além disso, gera uma lógica de reprodução como tal.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Dilema da Reprodução</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A reprodução social tem sempre dois lados. Do lado dos despossuídos do capital, ela é tanto a venda da força de trabalho quanto a compra do que é necessário para reproduzir essa força de trabalho. Do lado do próprio capital, é a valorização das mercadorias na produção e a realização desse valor na troca. Essas são as mesmas atividades, evidentemente, vistas de posições diferentes. A ilustração mais clara do caráter duplo da reprodução, sua unidade contraditória, é a chamada <em>double moulinet</em> ou, em alemão, <em>zwickmühle</em>, uma palavra que o inglês traduz como “dilema”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na narrativa tradicional desse dilema, trata-se de uma história do trabalho: da força de trabalho refeita e revendida pelo salário, e do trabalho reprodutivo infinitamente apropriado para esse processo, mais comumente referido como “trabalho feminino” não remunerado. O que Thompson vislumbra é que esse trabalho reprodutivo acontece não apenas em casa &#8211; cozinha, quarto, berçário &#8211; mas também, no período pesquisado por ele, é encaminhado pelo mercado. Quando o mercado parece ser a principal condição para a reprodução, as lutas pela reprodução inevitavelmente se situarão nele. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de notar que essa situação não se aplica a todos os sujeitos igualmente &#8211; que aqueles que são os últimos a entrar e os primeiros a sair do assalariamento, aqueles que nunca foram incluídos, aqueles que, na melhor das hipóteses, conseguem acesso secundário, estarão na vanguarda daqueles que se encontram lutando pela reprodução de maneiras que vão além do salário. Nessa divisão dos participantes, encontramos outra maneira de ver a conjuntura das épocas marcadas como “revolta” e “revolta linha”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159419 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png" alt="" width="198" height="340" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png 198w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922-175x300.png 175w" sizes="auto, (max-width: 198px) 100vw, 198px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Na introdução, estabelecemos uma definição tripartite de greve como a forma de ação coletiva que luta para definir o preço da força de trabalho, é unificada pela identidade do trabalhador e se desenvolve no contexto da produção; a revolta luta para definir os preços no mercado, é unificada pela desapropriação compartilhada e se desenvolve no contexto do consumo. A greve e a revolta são distinguidas mais ainda como táticas principais dentro das categorias genéricas de lutas pela produção e circulação. Podemos agora reafirmar e elaborar essas táticas como sendo cada uma delas um conjunto de práticas usadas pelas pessoas quando sua reprodução é ameaçada. A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Seus pontos fortes são igualmente seus pontos fracos. Eles fazem usos estruturados e improvisados do terreno dado, mas esse é um terreno que eles não criaram nem escolheram. A revolta é uma luta pela circulação porque tanto o capital quanto os seus despossuídos foram levados a buscar a reprodução nesse terreno.</p>
<p style="text-align: justify;">Se essa parece ser uma linguagem um tanto técnica para uma experiência sensorialmente carregada &#8211; um antagonismo social dramático carregado de perigo, fúria, desespero e certo prazer social -, isso é apenas uma resposta às rejeições convencionais da revolta já encontradas, por meio da apresentação de um argumento que não deveria ter sido necessário. A revolta, que compreende práticas organizadas contra ameaças à reprodução social, não pode ser nada além de política. Isso não quer dizer que a contradição da reprodução possa ser resolvida na circulação mais do que na produção. Na verdade, é a existência dessas duas esferas, em sua unidade e contradição, que garante a existência e dá forma às lutas pela reprodução. Se as vastas expansões da revolução industrial fornecem os excedentes para o desenvolvimento de aparatos militares e policiais modernos, elas também fornecem excedentes que podem ser usados para comprar a paz social. À medida que esses excedentes derretem e parcelas cada vez maiores da população se tornam excedentes para a economia, o Estado se volta cada vez mais para a coerção como estilo de gestão: o salário social do compromisso keynesiano é retirado em favor da ocupação policial das comunidades excluídas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a polícia e a revolta passam a se pressupor mutuamente. A revolta passa a se reconhecer por meio dessa imbricação. Caminhando por Hackney durante as revoltas de 2011, passando por cenas de angústia e excitação, passando por latas de lixo em chamas e os detritos de saques, alguns observadores concluíram que “uma luta coerente estava sendo travada aqui … para insistir no respeito dos policiais, forçar o reconhecimento de um assunto em que a rotina diária vê apenas um abjeto”. <strong>[15]</strong> A passagem aponta para a revolta como uma relação necessária com a estrutura atual do Estado e do capital, travada pelos abjetos &#8211; pelos excluídos da produtividade. Mas também aponta para a dependência da revolta em relação ao seu antagonista. No momento, a polícia aparece como necessidade e limite.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o tema dialético, esse dilema de necessidade e limite. O mercado, a polícia, circulação. Essas não são situações em que qualquer superação final é possível; é onde as lutas começam e florescem, desesperadamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Gilje, <em>Rioting in America</em>, 3.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ibid., 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> David Halle e Kevin Rafter, “Riots in New York and Los Angeles: 1935-2002”, em <em>New York and Los Angeles: Politics, Society, and Culture—A Comparative View</em>, ed. David Halle, Chicago: University of Chicago Press, 2003, 347.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> William Sewell, “Violência coletiva e lealdades coletivas na França: por que a Revolução Francesa fez a diferença”, <em>Política e Sociedade,</em> n.º 18, 1990, 529.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Charles Tilly, “Getting It Together in Burgundy, 1675-1975” (Unindo forças na Borgonha, 1675-1975), Teoria e Sociedade, 4: 4, 1977, 493.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Thompson, “Economia moral”, 76.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Marco Lagi, Karla Z. Bertrand e Yaneer Bar-Yam, “As crises alimentares e a instabilidade política no Norte da África e no Oriente Médio”, Cambridge, MA: Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra, 10 de agosto de 2011, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 78.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Badiou, <em>The Rebirth of History</em>, 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Ibid., 38-39.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ibid., 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 134, 120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Ibid., 115; 116</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Silvia Federici, <em>Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation</em>, Nova York: Autonomedia, 2004, 68,97-100.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> “A Rising Tide Lifts All Boats”, <em>Endnotes</em> 3 2011, 102.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As gravuras que ilustram este artigo são, respectivamente, das greves de Baltimore (1877), Homestead (1892) e Pullman (1894).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2026 16:51:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro? Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO (continuação)</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Mercado e o Chão da Fábrica</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A principal dificuldade em definir a revolta advém de sua profunda associação com a violência; para muitos, esta associação é tão carregada afetivamente para um lado ou para outro que é difícil de dissipar e, por sua vez, dificulta perceber outras coisas. Sem dúvida, muitas revoltas envolvem violência — talvez a grande maioria, se incluirmos danos materiais à propriedade, bem como ameaças explícitas ou <em>sub voce</em> [indiretas]. Não está totalmente claro se tal inclusão é natural ou razoável. Que dano material seja igual a violência não é uma verdade, mas a adesão a um conjunto particular de ideias sobre propriedade, relativamente recente, que envolve identificações específicas entre humanos e riqueza abstrata do tipo que culmina, por exemplo, no entendimento jurídico de que corporações são pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, essa insistência na violência da revolta obscurece a violência cotidiana, sistemática e onipresente que persegue a vida cotidiana na maior parte do mundo. A visão de uma sociabilidade geralmente pacífica que só excepcionalmente irrompe em violência é um imaginário acessível apenas a alguns. Para os demais — a maioria — a violência social é a norma. A retórica contra a revolta violenta torna-se um dispositivo de exclusão, voltado não tanto contra a “violência”, mas contra grupos sociais específicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao longo de mais de dois séculos, as greves frequentemente também envolveram violência: batalhas campais entre trabalhadores de um lado e policiais, fura-greves e mercenários do outro, que em seu auge assemelhavam-se a combates militares. Se estendermos a categoria como acima, a violência é onipresente na greve, mesmo como uma espécie de contraviolência defensiva. Reportando da França em 1968, o poeta italiano Angelo Quattrocchi observou:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores podem ameaçar destruir as máquinas, e a ameaça por si só pode impedir uma intervenção armada. Senhores da fábrica, a despossessão é sua maior força. As máquinas, o Capital, propriedade de outros e usufruído por outros, estão agora em suas mãos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta passagem pretende distinguir a greve limitada, para Quattrochi um evento covarde e coreografado, da ocupação de fábrica. É sugestivo que ele tenha escolhido fazer a distinção naquele momento, observando uma Paris onde revolta e greve entraram em intensa colaboração e competição, cada uma tentando transcender não apenas os seus próprios limites, mas também os da outra. Dito isso, o servilismo cinzento da greve limitada é, em si, um desenvolvimento histórico particular. A situação real que ele descreve, o potencial dos trabalhadores para disporem das engrenagens da produção como bem entenderem, está no cerne da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso pressupõe que já sabemos a diferença entre revolta e greve. Se não é a violência, o que é então? E. P. Thompson, cujo pensamento é a pedra angular deste livro, fornece a base para uma resposta em seu memorável “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. Se essa resposta foi curiosamente ignorada, é quase certamente porque o ensaio nunca formaliza completamente a lógica que apresenta. Criticando as reduções e a força despolitizadora contidas no termo “bread riot” (revolta do pão), ele produz uma visão mais sistemática da economia política da revolta:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tem-se sugerido que o termo “revolta” é uma ferramenta de análise pouco afiada para tantas queixas e motivos particulares. É igualmente um termo impreciso para descrever a ação popular. Se procuramos a forma característica da ação popular, não devemos considerar bate-bocas junto às padarias de Londres, nem mesmo as grandes contendas provocadas pelo descontentamento com os grandes moleiros, mas as “rebeliões do povo” (especialmente em 1740, 1756, 1766, 1795 e 1800) nas quais se destacaram os mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias. O notável sobre essas “insurreições” é, primeiro, a sua disciplina, e, segundo, o fato de mostrarem um padrão de comportamento cuja origem devemos buscar centenas de anos antes; um padrão que se torna mais, e não menos, sofisticado no século XVIII; que se repete, aparentemente de forma espontânea, em diferentes partes do país e depois da passagem de muitos anos tranquilos. A ação central nesse padrão não é o saque dos celeiros, nem o furto de grãos e farinha, mas “fixar o preço” <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É precisamente esta a situação que se inverterá com a virada do século:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O conflito econômico das classes na Inglaterra do século XIX encontrou a expressão característica na questão dos salários: no século XVII os trabadores mobilizavam-se rapidamente e partiam para a ação por causa do aumento dos preços <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Thompson capta a textura da transformação profunda em curso, de forma tão elusiva quanto imanente:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal começou. Nesses anos, a forma alternativa de pressão econômica — a pressão sobre os salários — está se tornando mais vigorosa; existe algo mais que retórica por trás da linguagem da sedição — organização de ligas clandestinas, juramentos, o obscuro “Ingleses Unidos”. Em 1812, os tradicionais motins da fome coincidem em parte com o luddismo. Em 1816, os trabalhados de East Anglia não só determinavam os preços, mas também exigiam um salário mínimo e o fim do sistema <em>speenhamland</em> de assistência aos pobres. Eles antecediam a revolta muito diferente dos trabalhadores de 1830. A forma antiga de ação continua a existir na década de 1840 e até mais tarde: estava profundamente arraigada no Sudoeste. Mas nos novos territórios da Revolução Industrial, ela passou gradativamente a outras formas de ação <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Preços e salários, eis a combinação. Um é a medida do mercado, o outro do chão de fábrica e da mina, e do trabalho agrícola desde que a agricultura de subsistência e as terras que outrora eram propriedade comum ruíram em meio a sangue e fogo. R. H. Tawney aborda o mesmo ponto, em termos um tanto diferentes:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A economia do bairro medieval era aquela em que o consumo tinha, de certa forma, a mesma primazia na mente do público, como árbitro indiscutível do esforço económico, tal como o século XIX atribuía aos lucros <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas os salários são, em si, um tipo especial de preço. Lembrando-nos disso, a fórmula se torna clara: em primeira instância, <em>a revolta é a fixação de preços para as mercadorias, enquanto a greve é a fixação de preços para a força de trabalho</em>. Este é o primeiro nível ou perspectiva de análise necessário para compreender a história da revolta, que poderíamos chamar de nível prático. A prática política em sua dimensão mais completa é a da reprodução — da família e do indivíduo, da comunidade local. Na virada do século XVIII para o XIX, a questão da reprodução desloca seu centro de gravidade de um lugar para o outro, de uma luta para a seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159375" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg" alt="" width="1920" height="1511" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1024x806.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1536x1209.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-640x504.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-681x536.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />É evidente que consumidor e trabalhador não são duas classes opostas, muito menos consecutivas. Em vez disso, são dois papéis momentâneos dentro da atividade coletiva necessária para reproduzir uma única classe: o emergente proletariado moderno, que precisam se virar dentro da relação salário-mercadoria. Se um momento prevalece sobre o outro, isso indica o grau de desenvolvimento técnico e social dentro dessa relação e a posição que o proletário ocupa nela. Na cena da revolta, aqueles que definem os preços no mercado podem ser trabalhadores (como no caso dos “mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias” de Thompson), mas este não é o fato imediato que os levou até lá. Esse reconhecimento permite um refinamento de nossas definições.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço da força de trabalho (ou as condições de trabalho, que são praticamente a mesma coisa: a quantidade de miséria que pode ser comprada por libra);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta trabalhadores aparecendo <em>enquanto trabalhadores</em>;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto da produção capitalista, caracterizando-se pela sua interrupção na fonte por meio da suspensão do trabalho, do bloqueio do chão de fábrica, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço das mercadorias (ou sua disponibilidade, o que é praticamente a mesma coisa, pois a questão é igualmente de acesso);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta participantes sem nenhum outro laço em comum além de sua despossessão;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto do consumo, caracterizando-se pela interrupção da circulação comercial.</p>
<p style="text-align: justify;">Este aparato conceitual é simples, mas poderoso, e é suficiente para o período inicialmente analisado por nossos estudiosos, isto é, estendendo-se até o século XX. No entanto, ele apresenta problemas para o presente. As lutas características da <em>revolta-linha</em>, o período que se inicia na década de 1960, juntamente com o último florescimento da greve, e que continua até o presente, não podem ser compreendidas adequadamente dentro da estrutura da fixação de preços, mesmo no sentido ampliado de Thompson. Mas também não podem ser compreendidas sem ela. É aqui que precisaremos de um segundo nível ou hotizonte: o da periodização, preocupado precisamente com o grau de desenvolvimento técnico e social do capital acima mencionado, em todas as suas eloquentes e ambíguas flutuações.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Circulação-Produção-Circulação Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Já observamos que a primeira transição, revolta-greve, corresponde histórica e logicamente à Revolução Industrial e sua extensão e intensificação da relação salarial no início do longo século XIX britânico. A segunda transição, greve-revolta linha, corresponde, por sua vez, ao período de “desintegração da hegemonia” dos Estados Unidos no final do longo século XX. Uma ascensão e uma queda. Um certo padrão em meio à confusão e ao ruído da história, levando-nos agora ao outono do império, conhecido pelos termos de capitalismo tardio, financeirização, pós-fordismo e assim por diante — aquela ladainha dilatada que corre para acompanhar o ritmo do nosso desastre proteico.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas datações são extraídas do esquema de Giovanni Arrighi, que descreve quatro “longos séculos e ciclos sistêmicos de acumulação”.</p>
<p style="text-align: justify;">“A principal característica do perfil temporal do capitalismo histórico esboçado aqui é a estrutura semelhante de todos os longos séculos”, observa Arrighi <strong>[11]</strong>. A estrutura recorrente é uma sequência tripartite que começa com uma expansão financeira originalmente liderada pelo capital mercantil; seguida de uma expansão material “de toda a economia mundial” liderada pela manufatura ou, mais amplamente, pelo capital industrial, na qual o capital se acumula sistematicamente; e quando isso atinge seus limites, uma expansão financeira final. Durante essa fase, nenhuma recuperação real da acumulação é possível, mas apenas estratégias mais ou menos desesperadas de adiamento. Historicamente, o setor financeiro da economia líder, em tal situação, encontrou uma potência industrial em ascensão para absorver seu excesso de capital, financiando assim sua própria substituição. Essa nova hegemonia se formará em bases necessariamente expandidas, capaz de restaurar a acumulação em escala global, mas, ao mesmo tempo, partindo de uma posição mais próxima de seus próprios limites de expansão — daí os ciclos sobrepostos de Arrighi, ampliando-se e acelerando-se à medida que avançam, a série de transferências antes conhecida como <em>translatio imperii</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159371" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png" alt="" width="809" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png 809w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-300x198.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-768x506.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-637x420.png 637w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-640x422.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-681x449.png 681w" sizes="auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa esquematização tem sido motivo de várias pesquisas sobre a transição para o capitalismo, frequentemente encontradas sob o título “Comércio ou Capitalismo?”. Robert Brenner, Ellen Meiksins Woods e outros argumentaram que o desenvolvimento de extensas redes comerciais e a consequente reorganização social não deve ser confundido com o capitalismo propriamente dito, e particularmente com o “desenvolvimento implacável e sistemático das forças produtivas” do capital, que não se pode dizer que tenha começado muito antes do ciclo britânico e da decolagem industrial <strong>[12]</strong>. É precisamente essa distinção que anima o argumento aqui apresentado. Os mercados são indiscutivelmente anteriores ao capitalismo e continuam nele; tornam-se parte da constituição do capitalismo somente quando são transformados pela elaboração do nexo salário-mercadoria e submetidos às disciplinas da produção de mais-valia. Isso acompanha a primeira transição, <em>revolta-greve</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, é difícil contestar a descoberta de Arrighi de que os impérios comerciais protocapitalistas seguiram praticamente a mesma parábola de desenvolvimento de suas versões mais realizadas. Os dois grandes impérios capitalistas, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, preservam e transmutam as formas de desenvolvimento, preenchendo-as com novos conteúdos. Dentro do alcance espiralado do capital, cada ciclo apresenta uma fase dominada pela lógica da produção, aqui significando a valorização das mercadorias, que Arrighi generaliza como D-M. Ao interromper estas, estão as fases dominadas pela circulação, pois tal é o caráter do capital mercantil ou financeiro, que Arrighi define como a realização de valores, ou M-D. Nunca é uma questão de ou/ou. Ambos os processos devem estar em vôo conjunto, ou o capital cessaria completamente de se mover (e capital imóvel não é capital de forma alguma). A descrição aqui diz respeito ao equilíbrio de forças dentro do circuito expandido do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos, portanto, uma periodização que corresponde às nossas práticas: <em>revolta-greve-revolta linha</em> mapeia as fases de <em>circulação-produção-circulação</em>. É verdade que o período que abrange o início do século XX foi para a Grã-Bretanha, na época ainda a principal economia capitalista, um período financeiro ou centrado na circulação. Aqui, o raciocínio do esquema de Arrighi baseado na sobreposição de ciclos fica claro. Embora os Estados Unidos tenham experimentado sua própria “Longa Depressão”, correspondente à inflexão econômica da Grã-Bretanha no final do século XIX, ainda assim eles supervisionaram, nesse período, uma notável expansão da produção, impulsionada por uma segunda Revolução Industrial capaz de contrabalançar o declínio britânico. Nossa fase atual de circulação, no entanto, carece de muitas evidências desse contrapeso sistêmico; apesar de toda a atenção dada ao papel da China como a nova oficina do mundo, por exemplo, ela já está perdendo mão de obra industrial <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">De fato, isso aponta para o que é único, pelo menos provisoriamente, sobre o nosso momento dentro de uma estrutura de sistemas mundiais. O alcance em espiral de longos séculos pode ter ficado sem espaço para se expandir; a retomada em uma escala maior não parece estar nos planos (embora não devamos descartar facilmente a capacidade do capital de se salvar de uma crise aparentemente total). O capital produtivo dominou, digamos, de 1784 a 1973. É possível que volte a dominar. No momento, isso parece incerto. Longe de sustentar uma hegemonia ascendente, os Estados Unidos, em seu declínio, estão — apesar de seu setor financeiro hipertrofiado — encerrando sua trajetória como nação devedora maciça. Agora é possível argumentar que, mesmo em nível global ou sistêmico, o capital se encontra em uma fase de circulação que não está sendo atendida pelo aumento da produção em outros lugares — uma fase distinta que inevitavelmente teremos de chamar de <em>circulação-linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, os regimes britânico e americano podem ser fundidos em um único metaciclo, que segue a sequência <em>circulação-produção-circulação linha</em>. Novamente, isso requer uma certa suavização heurística da trajetória volátil do sistema-mundo capitalista. Trata-se de um argumento, não de uma verdade absoluta. Ainda assim, achamos que é um argumento sugestivo: é possível mapear as três fases de Arrighi na periodização do capital de Brenner no que pode ser visto como um “arco de acumulação”, pelo menos no Ocidente, emergindo do comércio com a Revolução Industrial e descendo para as finanças com a desindustrialização generalizada, sem nenhuma reversão em vista. A sequência coeva de <em>revolta-greve-revolta linha</em> torna-se, portanto, uma história do capitalismo e uma exposição de sua forma atual, das contradições do presente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e Crise</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Para que o retorno da revolta sirva de testemunho sobre o <em>status</em> do capitalismo como tal, deve haver mais do que uma coincidência entre as duas sequências. Deve haver um encadeamento teórico. Esse é o terceiro e último nível do horizonte analítico, o da própria história, pelo qual nos referimos ao entrelaçamento dialético das lutas vividas com as compulsões do movimento autônomo do capital, entendido como um movimento real da existência social. O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pergunta já recebeu uma resposta preliminar. As fases lideradas pela produção material gerarão lutas dentro da produção, sobre o preço da força de trabalho; as fases lideradas pela circulação verão lutas no mercado, sobre o preço das mercadorias. Esse é um relato sincrônico, sem uma dinâmica que nos leve de uma fase a outra; além disso, ele ainda não aborda as peculiaridades da <em>revolta linha</em> e da <em>circulação linha</em>. Isso requer uma rápida passagem pela teoria marxiana da crise <strong>[14]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159374" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O valor, para Marx, tem tanto uma existência qualitativa como relação social como uma existência quantitativa no valor de troca <strong>[15]</strong>. O valor de troca de uma mercadoria viabiliza a mais-valia, a “essência invisível do capital”, valorizada na produção e realizada como lucro na circulação. A circulação, Marx se esforça por decifrar, nunca pode ser, por si só, a fonte de novo valor para o capital como um todo. A ideia de que isso poderia acontecer recebe um tratamento extenso e desdenhoso n&#8217;<em>O Capital</em>, que termina:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por mais que nos viremos, a conclusão final permanece a mesma. Se forem trocados equivalentes, não haverá mais-valia, e se forem trocados não equivalentes, ainda não teremos mais-valia. A circulação, ou a troca de mercadorias, não cria valor <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas categorias são infinitamente problemáticas, principalmente pelos limites da “circulação”. O extraordinário desenvolvimento do transporte, uma das principais marcas de nosso tempo, parece, a princípio, se encaixar nessa descrição, circulando produtos para realizar como lucro a mais-valia valorizada em outro lugar. Alguns argumentam que a mudança de local, ao contrário, aumenta o valor de uma mercadoria. Em seu sentido mais restrito, os “custos puros de circulação” podem ser limitados a atividades que não fazem nada além da troca em si, a transferência abstrata de título: vendas, contabilidade e coisas do gênero. Além disso, a financeirização e a “globalização” (ou seja, a extensão em direção aos limites planetários das redes e processos logísticos, coordenados pelos avanços nas tecnologias da informação) também devem ser entendidas como estratégias temporais e espaciais, respectivamente, para internalizar novas entradas de valor de outro lugar e de outro momento. Mas isso só pode afirmar a proposição de que a fase atual de nosso ciclo de acumulação é definida pelo colapso da produção de valor no centro do sistema-mundo; é por essa razão que o centro de gravidade do capital se desloca para a circulação, carregado pelo tripé da toyotização, da tecnologia da informação e das finanças.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, os fatos práticos são esclarecedores. Como Brenner observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Entre 1973 e o presente, o desempenho econômico nos EUA, na Europa Ocidental e no Japão, segundo todos os indicadores macroeconômicos padrão, deteriorou-se, ciclo econômico após ciclo econômico, década após década (com exceção da segunda metade da década de 1990) <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O crescimento do PIB global dos anos 50 até os anos 70 permaneceu acima de 4%; desde então, tem se mantido em 3% ou menos, às vezes muito menos <strong>[18]</strong>. Mesmo os melhores momentos durante a Longa Crise foram, em geral, piores do que os piores momentos do longo <em>boom</em> anterior. Se estipulássemos que o transporte pode fazer parte da valorização tanto como da realização, ainda assim nos confrontaríamos com o fato de que as grandes expansões do transporte global e a aceleração do tempo de rotatividade desde os anos 70 são concomitantes ao recuo da produção industrial nas principais nações capitalistas. Essa marcha a passos largos, por sua vez, é concomitante exatamente com o que a teoria do valor projeta de uma mudança em direção à circulação: menos produção de valor, menos lucros sistêmicos. De qualquer forma, a navegação e as finanças não parecem ter detido a estagnação e o declínio da lucratividade global. Tomando emprestado um termo de Gilles Chatelet, poderíamos chamar sua colaboração de “cibermercantilismo”, análogo ao modo pré-industrial no qual nenhuma quantidade de compras baratas e vendas caras ou vendas cada vez maiores pode levar à expansão.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, isso não quer dizer que não tenham aumentado os lucros de empresas individuais, que podem obter vantagem competitiva diminuindo seus próprios custos de circulação em um jogo de “empobreça-seu-vizinho” para a era da tecnologia da informação. Da mesma forma, as empresas podem participar de esquemas que recirculam e redistribuem o valor já existente, retirando uma parte à medida que ele passa. Sem ir muito longe no labirinto marxológico, podemos afirmar de forma bastante incontroversa sobre o período em questão que o capital, diante de retornos muito reduzidos nos setores tradicionalmente produtivos, vai em busca de lucro além dos limites da fábrica — no setor FIRE (<em>Finance, Insurance, and Real Estate</em>: isto é, Finanças, Seguros e Imóveis), ao longo das rotas traçadas pelas redes logísticas globais —, mas não encontra nenhuma solução contínua para a crise que o afastou da produção em primeiro lugar. Em vez disso, há uma agitação cada vez mais frenética, esquemas mais elaborados, bolhas e colapsos cada vez maiores. Em um movimento de desespero dialético, aquilo que levou o capital à esfera fratricida da circulação de soma zero faz praticamente o mesmo com uma parcela crescente da humanidade. Crise e desemprego, os dois grandes temas d&#8217;<em>O Capital</em>, são expressões da falha trágica do capital: ao buscar o lucro, ele precisa destruir a fonte do lucro, esbarrando em limites objetivos em seu impulso incessante de acumulação e produtividade. Os <em>Grundrisse</em> oferecem a formulação mais concisa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O próprio capital é a contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. Portanto, ele diminui o tempo de trabalho na forma necessária para aumentá-lo na forma supérflua; portanto, coloca o supérfluo em medida crescente como uma condição — questão de vida ou morte — para o necessário <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A “contradição em processo” nada mais é do que a própria lei do valor em movimento, apresentando-se de várias formas. Podemos vê-la como a contradição entre o valor e o preço, as medidas de produção e circulação, respectivamente — o que se revelará também como a contradição entre o capital como um todo e os capitais individuais. Esses últimos não se preocupam com a saúde geral do sistema capitalista, nem são obrigados a fazê-lo. Ao contrário, são obrigados a competir com outros capitais em seu setor. Portanto, embora a necessidade de expansão, de gerar novo valor que leve à acumulação sistêmica, seja um absoluto existencial do ponto de vista de todo o capital, os capitalistas individuais não pensam em termos de valor e acumulação. Eles medem sua existência em preço e riqueza e são compelidos a buscar lucro onde quer que ele seja encontrado, independentemente das consequências para o todo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse fenômeno unitário também é uma contradição entre a mais-valia absoluta e a relativa. As lutas intercapitalistas para economizar todos os processos substituem reiteradamente a força de trabalho por máquinas e formas organizacionais mais eficientes e, assim, com o tempo, aumentam a proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e trabalho vivo, expulsando a fonte de mais-valia absoluta na luta por sua forma relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise é o desenvolvimento dessas contradições até o ponto de ruptura. Isso caracteriza não uma escassez de dinheiro, mas seu excesso. Os lucros acumulados ficam ociosos, incapazes de se converter em capital, pois não há mais nenhuma razão sedutora para investir em mais produção. As fábricas ficam em silêncio. Buscando salários em outros lugares, os trabalhadores deslocados descobrem que a automação que economiza mão de obra se generalizou em vários setores. Agora, a mão de obra não utilizada se acumula lado a lado com a capacidade não utilizada. Essa é a produção da não-produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, voltamos, sob um disfarce um pouco diferente, à questão de classe, na forma do que Marx chama de “população excedente, cuja miséria está na razão inversa da quantidade de tortura que ela tem à disposição na forma de trabalho. Por fim, quanto mais extensas forem as seções pauperizadas da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, maior será o pauperismo oficial. <em>Essa é a lei geral absoluta da acumulação capitalista</em>” <strong>[20]</strong>. Como aponta o <em>Endnotes</em> no tratamento mais incisivo dessa questão: “Essa população excedente não precisa se encontrar completamente &#8216;fora&#8217; das relações sociais capitalistas. O capital pode não precisar desses trabalhadores, mas eles ainda precisam trabalhar. Assim, eles são forçados a se oferecer para as formas mais abjetas de escravidão assalariada na forma de produção e serviços insignificantes — identificados com mercados informais e, muitas vezes, ilegais de troca direta que surgem junto com as falhas da produção capitalista” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de surpreender que essa população excedente seja racializada em todo o Ocidente. A capacidade de lucro do capital sempre exigiu a produção e a reprodução da diferença social; em mercados de trabalho com excesso de oferta, o mecanismo das diferenças salariais dá um salto do quantitativo para o qualitativo. Junto com as “recuperações sem emprego” desde 1980, que dão suporte às teorias subjacentes de aumento do excedente, a taxa de desemprego, por exemplo, entre os negros estadunideneses tem se aproximado consistentemente do dobro da média atual, se não for mais alta, o que tem provocado, entre outras coisas, uma vasta expansão do complexo industrial-prisional para gerenciar esse excedente humano. O próprio processo de racialização está intimamente ligado à produção de populações excedentes, cada uma funcionando para constituir a outra de acordo com lógicas variadas de profunda exclusão. Como argumenta Chris Chen:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O surgimento do estado carcerário anti-negros nos EUA a partir da década de 1970 exemplifica os rituais de violência estatal e civil que reforçam a racialização da vida sem salário e a marcação racial da vagabundagem. Do ponto de vista do capital, a “raça” é renovada não apenas por meio de diferenças salariais racializadas persistentes ou do tipo de segregação ocupacional postulada pelas teorias raciais anteriores de “mercado de trabalho dividido”, mas também por meio da racialização de populações excedentes ou supérfluas não assalariadas, de Cartum às favelas do Cairo <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso opera, por sua vez, no nível da revolta contemporânea, uma rebelião excedente que é marcada pela raça e, por sua vez, a marca. Daí uma distinção final em relação à greve, que, na forma moderna, existe dentro de uma estrutura legal (mesmo que isso seja frequentemente ultrapassado). Aqui, começamos a entender o tipo de trabalho ideológico que está sendo feito pela insistência na ilegitimidade peculiar da revolta. A ilegalidade da revolta é, entre outras coisas, a ilegalidade do corpo racializado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Lutas na Circulação</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Uma população, portanto, cuja própria existência — sua possibilidade de reprodução — é redirecionada pela reorganização econômica da esfera da produção para a da circulação. Essa não é a “sociedade de consumo” no sentido popular, “a vitória definitiva do materialismo em uma adoração universal do fetiche da mercadoria” <strong>[23]</strong>. Mas é uma sociedade de consumo mesmo assim: população excedente confrontada com o velho problema do consumo sem acesso direto ao salário. Não de forma absoluta, não de forma homogênea em todo o mundo, mas suficientemente. Falamos de mudanças de tendência. Quando a base para a sobrevivência do capital muda substancialmente para a circulação, e a base para a sobrevivência dos empobrecidos muda da mesma forma, aí encontraremos a <em>revolta linha</em>. Assim, ela nomeia a reorganização social, o período em que ela domina e a principal forma de ação coletiva que corresponde a essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma maneira um tanto técnica de falar sobre exclusão e empobrecimento, sem dúvida, esse uso de categorias da economia política clássica e sua crítica. A virtude dessa linguagem está em seu poder de explicar a ligação entre <em>revolta</em> e <em>revolta linha</em> para revelar que a revolta do pão e a revolta racial, esses nomes imprecisos emparelhados, mantêm uma unidade profunda. Em uma formulação resumida, a crise sinaliza um deslocamento do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e a revolta deve ser entendida, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a fixação de preços e a rebelião dos excedentes são formas distintas, embora relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159377" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg" alt="" width="1500" height="991" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-300x198.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-1024x677.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-768x507.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-636x420.jpg 636w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-640x423.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-681x450.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />O novo proletariado, que deve agora (de acordo com o sentido original da palavra) expandir-se para incluir as populações excedentes entre os “sem reservas”, encontra-se em um mundo transformado. Já detalhamos algumas dessas transformações. A situação pode ser definida como um quiasmo de épocas. Em 1700, a polícia, tal como a reconhecemos, não existia; o mercado era vigiado ocasionalmente pelo oficial de justiça ou o funcionário parroquial. Ao mesmo tempo, a maioria das necessidades diárias da vida era produzida localmente. Em suma, o Estado estava longe e a economia, perto. Em 2015, o Estado está próximo e a economia, distante. A produção é aerossolizada; as mercadorias são montadas e entregues por meio de cadeias logísticas globais. Muitas vezes até mesmo os gêneros alimentícios básicos têm origem em um continente distante. Enquanto isso, o exército interno permanente do Estado está sempre à mão — progressivamente militarizado, sob o pretexto de fazer guerra às drogas e ao terror. A <em>revolta linha</em> não pode deixar de se voltar contra o Estado; não há como não fazê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O encontro espetacular com o Estado não deve, no entanto, sugerir que não exista uma forma diretamente econômica na revolta contemporânea, além de seu conteúdo político-econômico subjacente. As duas formas mais visíveis são a destruição econômica e o saque, uma frequentemente seguindo a outra em uma negação conjunta da troca e da lógica do mercado. Apesar da aparência universal desse aspecto da revolta, ela é sempre tratada como um desvio da e um comprometimento com a queixa inicial que poderia ter dado legitimidade a revolta. Que reivindicação ética poderia ser feita em relação ao roubo total? O fato de isso parecer misterioso aponta para um momento de fechamento ideológico e suprema ignorância histórica. O saque não é o momento da falsidade, mas da verdade que ecoa por séculos de revolta: uma versão da fixação de preços no mercado, embora a preço zero. É uma volta desesperada à questão da reprodução, embora dramaticamente limitada pela estrutura do capital em que inicialmente opera.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a revolta levanta a questão da reprodução, ela o faz como negação. Ele representa a reversão do destino dos trabalhadores na modernidade tardia. O poder histórico dos trabalhadores tem se apoiado em um setor produtivo em crescimento e em sua capacidade de se apoderar de uma parte do excedente em expansão. Desde a virada dos anos 70, o trabalho foi reduzido a negociações defensivas, compelido a preservar as empresas capazes de fornecer salários, afirmando o domínio do capital em troca de sua própria preservação. O trabalhador que aparece <em>como trabalhador</em> no período de crise enfrenta uma situação em que “o próprio fato de agir como classe aparece como uma restrição externa” <strong>[24]</strong>. Essa dinâmica, que poderíamos chamar de armadilha da afirmação, tornou-se uma forma social generalizada e uma estrutura conceitual, a irracionalidade racional do nosso tempo. A própria desordem da revolta pode ser entendida como a negação imediata disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas lutas, por sua vez, não podem deixar de confrontar o capital onde ele é mais vulnerável. Não há necessidade de imputar um tipo de consciência a essa forma latente de conflito com o capital. Compelido ao espaço de circulação, a revolta se encontra onde o capital tem deslocado cada vez mais seus recursos. A mais ou menos simultânea explosão de revoltas em Louis, Los Angeles, Nashville e mais de uma dúzia de outras cidades é um veredicto tão decisivo quanto se poderia imaginar sobre a tese da circulação. É fácil dizer que essa interrupção é amplamente simbólica: quanto do capital está em outro lugar, globalmente distribuído, resiliente, desmaterializado? As tomadas de rodovias no final de novembro de 2014 são, no entanto, um índice da situação real em que a luta ocorrerá. Além disso, elas demonstram os limites das várias categorias de revoltas. Elas são, evidentemente, descendentes das revoltas pré-modernas de exportação. Não são menos irmãos do que a paralisação do porto de Oakland em 2011 e o longo bloqueio do túnel planejado para o Vale de Susa pelo movimento No-TAV. Reconhecer isso é reconhecer que a revolta é uma tática privilegiada na medida em que é um exemplo da categoria mais ampla que designamos como “lutas na circulação”: a revolta, o bloqueio, a ocupação e, no horizonte mais distante, a comuna.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal surgiu”, escreveu Thompson sobre a transição de dois séculos atrás <strong>[25]</strong>. Até mesmo a imprensa burguesa tem um vislumbre disso: Em 2011, a <em>Newsweek</em> exibiu um revoltoso de Tottenham em sua capa, com roupa de treino e máscara, e as chamas no fundo, com a manchete “O DECLÍNIO E A QUEDA DA EUROPA (E TALVEZ DO OCIDENTE)” <strong>[26]</strong>. Algo acabou, ou deveria ter acabado; todos podem sentir isso. É uma espécie de interregno. Uma calmaria miserável, iluminada em todos os lugares pela sensação de declínio e incêndios acesos ao longo do terreno planetário da luta. As músicas no rádio são as mesmas — horríveis, surpreendentes. Elas prometem que nada mudou, mas nunca cumprem suas promessas, não é mesmo? As fissuras na organização da sociedade aumentam a cada semana. E, no entanto, essa persistência ansiosa, essa suspensão incômoda. Haverá uma recuperação? Uma catástrofe maior? O que devemos preferir? Essa é a tônica da época das revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Angelo Quattrochi, “What Happened,” em The Beginning of the End: France, May 1968, eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 49.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> E. P. Thompson, “The Moral Economy of the English Crowd in the Eighteenth Century,” <em>Past and Present</em>, n.º 50, fevereiro de 1971, 107-8. (<em>Edição brasileira In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo. Companhia das Letras, 1998</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 79.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> R. H. Tawney, <em>Religion and the Rise of Capitalism</em>, Londres: Harcourt Brace, 1926, 33.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century: Money, Power, and the Origins of Our Times</em>, Londres: Verso, 1996, 219-20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Robert Brenner, <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Londres: Verso, 2009, 13.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Alan Freeman, “Investing in Civilisation: What the State Can Do in a Crisis” em <em>Bailouts and Bankruptcies</em>, eds., Julie Guardand Wayne Antony, eds., Winnipeg: Fernwood, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> É frequentemente observado que Marx não deixou uma teoria completa sobre a crise. Sua teoria do valor em geral, no entanto, fornece a base lógica para uma teoria elaborada. Para o melhor resumo disso, ver Anwar Shaikh, “Introduction to the History of Crisis Theories” [Introdução à história das teorias da crise], <em>US Capitalism in Crisis</em> [O capitalismo americano em crise], Nova York: URPE, 1978.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Para a explicação mais eloquente desta parte da teoria de Marx, ver I. I. Rubin, <em>Essays on Marx&#8217;s Theory of Value</em>, trad. Fredy Perlman e Milos Samardzija, Nova Iorque: Black Rose, 1990, 120-21.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Karl Marx, Capital: <em>A Critique of Political Economy</em>, vol. 1, Londres: Penguin, 1992, 226.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs”, prólogo da edição espanhola de <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Madri: Akal, 2009. Disponibilizado ao autor em manuscrito, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ibid., 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Karl Marx, <em>Grundrisse</em>, Londres: Penguin Books, 1993, 706.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Karl Marx, <em>Capital</em>, vol. 1, 798 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> “Misery and Debt” [Miséria e dívida], <em>Endnotes</em> 2, 2010, 30, nota de rodapé 15.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Chris Chen, “The Limit Point of Capitalist Equality” [O ponto limite da igualdade capitalista], <em>Endnotes</em> 3, 2013, 217.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Tom Nairn, “Why It Happened” [Por que aconteceu], em <em>The Beginning of the End: France, May 1968</em> [O começo do fim: França, maio de 1968], eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense” [Comunização no tempo presente], em Communization and its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles [Comunização e seus descontentamentos: contestação, crítica e lutas contemporâneas], ed. Benjamin Noys, Nova York: Minor Compositions, 2011, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Thompson, “Moral Economy” [Economia moral], 128.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> <em>Newsweek</em>, 22 de agosto de 2011.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de que se seguiu ao assassinato de Martin Luther King Jr. em 1968.</em></p>
<hr />
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Jun 2026 12:55:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[Esta é, portanto, a necessidade mais básica: uma teorização propriamente materialista da revolta. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Joshua Clover</h3>
<blockquote><p>Este livro foi publicado originalmente em inglês pela editora Verso (2016). Esta é uma tradução coletiva feita por alguns camaradas no âmbito de um grupo de estudos. A revisão da tradução é do Passa Palavra.</p></blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>para Oakland, para a comuna</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A. Uma ordem violenta é desordem; e</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>B. Uma grande desordem é uma ordem.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Estas duas coisas são uma. (Páginas de ilustrações.)</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>—“The Connoisseur of Chaos,” Wallace Stevens</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Você sabe como conseguir, sem entrada, sem dinheiro nunca, dinheiro não dá em árvore de jeito nenhum, só os brancos têm, fazem com uma máquina, para te controlar, você não pode roubar nada de um homem branco, ele já roubou, ele te deve tudo o que você quiser, até a vida dele. Todas as lojas abrirão se você disser as palavras mágicas. As palavras mágicas são: Contra a parede, filho da puta, isso é um assalto! Ou: Quebre a janela à noite (essas são ações mágicas), quebre as janelas durante o dia, a qualquer hora, juntos, vamos quebrar a janela e tirar a merda de lá. Sem entrada. Sem tempo para pagar. Pegue o que quiser.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>—“Black People!”, Amiri Baraka</em></strong></p>
<hr />
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Agradecimentos</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Como muitos outros livros de teoria política, este livro é fruto de mobilizações políticas que, por sua vez, orientaram grupos de leitura, pesquisas e inúmeras discussões. Em todas essas variadas circunstâncias, tenho sido grato pela amizade, discernimento e diligência — literal e figurativa — de Ian Balfour, Ali Bektaş, Lauren Berlant, Sean Bonney, Bruno Bosteels, Shane Boyle, Sarah Brouillette, Lainie Cassel, Maya Gonzalez, Virginia Jackson, Neil Larsen, Laura Martin, Phil Neel, Sianne Ngai, Will O&#8217;Connor, Simone Pinet, Nina Power, Louis-Georges Schwartz, Tim Simons, Michael Szalay, Alberto Toscano, Wendy Trevino e Derek Zika. Provavelmente esqueci alguns. As formulações iniciais foram propostas por Beverly Silver, incentivadas por William Sewell, e desenvolvidas posteriormente em visitas ao Centro de Teoria Social e História Comparada de Robert Brenner e ao Centro Arrighi de Estudos Globais. A produção deste livro não teria sido possível sem o apoio de Sebastian Budgen e do pessoal da Verso, de David Theo Goldberg e do Instituto de Pesquisa em Humanidades da Universidade da Califórnia, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Warwick e da assistência editorial de Deborah Young.</p>
<p style="text-align: justify;">Seeta Chaganti e Carol Clover proporcionaram as condições de possibilidade. Sou particularmente grato aos camaradas cujos pensamentos e ações são os nervos e tendões deste livro, incluindo Aaron Benanav, Jasper Bernes, Chris Chen, Tim Kreiner, Colleen Lye, Annie McClanahan, Chris Nealon e Juliana Spahr. <em>E quando tudo estiver terminado, dê-me sua mão para que possamos recomeçar do início.</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Uma Teoria da Revolta</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas estão chegando, já estão aqui, outros estão a caminho, ninguém duvida disso. Eles merecem uma teoria adequada.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma teoria da revolta é uma teoria da crise. Isso é verdade em uma dimensão específica e local, em momentos de vidros quebrados e incêndios, em que a revolta é considerada a irrupção de uma situação desesperadora, a pauperização até o limite, a crise de uma determinada comunidade ou cidade, de algumas horas ou dias. Entretanto, a revolta só pode ser compreendida como tendo uma significação estrutural e imanente, para parafrasear Frantz Fanon, na medida em que pudermos descobrir o movimento histórico que fornece sua forma e substância. Devemos, então, passar para outros níveis, nos quais as instâncias aglutinadoras próprias das revoltas são indissociáveis da crise capitalista contínua e sistêmica. Além disso, a revolta como uma forma particular de luta ilumina o caráter da crise, torna-a novamente pensável e oferece uma perspectiva a partir da qual podemos ver seu desdobramento.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira relação entre a revolta e a crise é a do excedente. Isso já parece um paradoxo, pois tanto a crise quanto a revolta são comumente entendidos como decorrentes de escassez, carência, privação. Ao mesmo tempo, a revolta é a própria experiência do excesso. Excesso de perigo, excesso de informação, excesso de equipamento militar. Excesso de emoção. De fato, as revoltas já foram conhecidas como “emoções”, uma história ainda visível na palavra francesa: <em>émeute</em>. O excesso crucial no momento da revolta é simplesmente o dos participantes, da população. O momento em que os partidários da revolta excedem a capacidade de gerenciamento da polícia, quando os policiais fazem sua primeira retirada, é o momento em que a revolta se torna totalmente ela mesma, se afasta da continuidade sombria da vida cotidiana. A incessante regulação social que parecia ideológica, onipresente e abstrata é, nesse momento de excesso, revelada como uma questão prática, aberta à contestação social.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos esses excessos correspondem a transformações sociais mais amplas, das quais essas experiências de excesso afetivo e prático são indissociáveis. Essas transformações são as reestruturações materiais que respondem à crise capitalista e a constituem, e que apresentam excedentes de capital e população como características centrais. E são elas que propõem a revolta como uma forma necessária de luta.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158125 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017.jpg" alt="" width="928" height="627" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017.jpg 928w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-300x203.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-768x519.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-622x420.jpg 622w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-640x432.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-681x460.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 928px) 100vw, 928px" /></p>
<p style="text-align: justify;">“Qualquer população tem um repertório limitado de ação coletiva”, observa Charles Tilly, grande historiador dessas questões. Escrevendo em 1983, ele mede uma transformação histórica singular, uma mudança oceânica cujas marés se espalharam logo ou tarde pelo mundo industrializado:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em algum momento do século XIX, as pessoas da maioria dos países ocidentais abandonaram o repertório de ação coletiva que vinham usando há cerca de dois séculos e adotaram o repertório que usam até hoje <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A mudança em questão foi da revolta para a greve. Desde a passagem marcada por Tilly, ambas as táticas existem no repertório; a questão é saber qual delas predomina, fornecendo a orientação principal na guerra incessante pela sobrevivência e pela emancipação. A percepção de um recuo da revolta nessa narrativa tem sido um lugar-comum. A frase de abertura do popular volume <em>Rioting in America</em>, de 1996, nos informa: “As revoltas fazem parte do passado americano” <strong>[2]</strong>. Mas o passado nunca está morto. Ele sequer é passado.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, outra transformação já estava em andamento: desde os anos 60 ou 70, a grande mudança histórica se inverteu. À medida que as nações superdesenvolvidas entraram em uma crise contínua, ainda que irregular, a revolta voltou a ser a principal tática no repertório da ação coletiva. Isso é verdade tanto no imaginário popular quanto no domínio dos dados (na medida em que tais questões permitem a comparação estatística). Independentemente da perspectiva, as revoltas alcançaram uma resoluta centralidade social. As lutas trabalhistas foram, em sua maioria, reduzidas a ações defensivas esfarrapadas, enquanto a revolta aparece cada vez mais como a figura central do antagonismo político, um espectro que surge em debates insurrecionais, em estudos governamentais ansiosos e em reluzentes capas de revistas. Os nomes se tornaram pontos cardeais de nosso tempo. A nova era de revoltas tem raízes em Watts, Newark, Detroit; passa pela Praça Tiananmen em 1989 e Los Angeles em 1992, chegando ao presente global de São Paulo, Gezi Park, San Lázaro. A revolta proto-revolucionária da Praça Tahrir, a revolta quase permanente da Exarcheia, a virada reacionária da Euromaidan. No núcleo crepuscular: Clichy-sous-Bois, Tottenham, Oakland, Ferguson, Baltimore. São muitos para contar.</p>
<p style="text-align: justify;">A teoria é imanente à luta; muitas vezes ela precisa se apressar para alcançar uma realidade que se acelera. Uma teoria do presente surgirá de seus confrontos vividos, em vez de chegar à cena carregada de homilias e prescrições retroativas a respeito de como a guerra contra o Estado e o capital deve ser travada, programas que, segundo nos dizem, alguma vez funcionaram e que agora podem ser renovados e impostos mais uma vez em nosso momento bastante distinto. O subjuntivo é um modo adorável, mas não é procedimento do materialismo histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui chegamos a uma espécie de encruzilhada. De forma muito esquemática, a associação da estrutura analítica de Marx com uma descrição leninista da estratégia política — centrada na organização proletária em direção ao partido revolucionário e na tomada do Estado e da produção — está profundamente sedimentada. A revolta não tem lugar nesse cenário conceitual. Com frequência, entende-se que a revolta não tem política alguma, é uma irrupção espasmódica que deve ser lida de forma sintomática e talvez receba uma dose paternalista de simpatia. Aqueles que atribuíram à revolta o potencial de uma abertura insurrecional para uma ruptura social geralmente vêm de tradições intelectuais e políticas indiferentes ou até mesmo antitéticas ao comando do Estado e da economia, mais notoriamente (mas não exclusivamente) as de algumas vertentes do anarquismo <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso expressa uma ligação subterrânea do comunismo, tanto por céticos quanto por adeptos, com a “organização” como tal, e mais ainda com algum partido de esquerda da ordem, com um senso científico do progresso da história, com a modernidade pela qual devemos passar com toda sua barbárie maquinada. Ao contrário, a revolta, como é amplamente aceito até mesmo entre seus partidários, é uma grande desordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a oposição entre greve e revolta passa a representar, por meio de um silogismo velado, a oposição do marxismo <em>tout court</em> a outras tradições intelectuais e políticas, geralmente aquelas que são antidialéticas, se não diretamente anticomunistas. A maioria, se não todos os lados, compartilharam dessa visão. Não faltaram livros à esquerda e à direita para nos informar, ora em tons melancólicos, ora comemorativos, que o declínio do movimento trabalhista e do binômio classe revolucionária &#8211; partido de massa, ou a suposta transcendência de qualquer teoria do valor-trabalho, significam que podemos finalmente deixar a análise de Marx e suas categorias para o século XX, se não para o século XIX. Você já deve estar familiarizado com a narrativa. Os países de origem do capitalismo não apresentam mais uma classe trabalhadora industrial com poder ou magnitude crescentes, que pudesse servir como uma vanguarda para as classes exploradas em geral, muito menos tomar as rédeas da produção. Além disso, o foco original no trabalhador fabril inglês e a contabilização desse trabalho como particularmente produtor de valor e, portanto, mais próximo do coração do capital, representou o sujeito da política inevitavelmente como branco e masculino. Dada a globalização do capital, seu salto para todos os cantos da existência social e os desenvolvimentos vitais da política anticolonial (para abreviar uma série de intervenções cruciais e complexas), será necessário um novo sujeito revolucionário e um novo desdobramento revolucionário.</p>
<p style="text-align: justify;">Decerto isso é uma caricatura. Essas sugestões são, de fato, em muitos aspectos, instrutivas, se não simplesmente verdadeiras. Isso não significa uma refutação do materialismo histórico, mas põe um conjunto de problemas para ele. O enfraquecimento dos movimentos trabalhistas tradicionais no Ocidente e a intensificação de uma desapropriação mais completa não apontam para o fim do antagonismo anticapitalista potencialmente revolucionário nem da força analítica do materialismo histórico. Além disso, ainda precisaremos do último para compreender o primeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal de contas, o materialismo histórico é uma teoria da transformação, se é que é alguma coisa. Isso não quer dizer que toda mudança histórica deva ser apoiada. Mas um marxismo que só consegue entender a tendência da realidade como um erro não é marxismo algum. O significado da revolta mudou radicalmente. Ela não será entendida se não nomearmos as determinações e forças segundo as quais ela assume seu novo papel e pelas quais ela é impelida irresistivelmente para o futuro, mesmo quando olha para trás, para os séculos XVII e XVIII. Esta é, portanto, a necessidade mais básica: uma <em>teorização propriamente materialista da revolta</em>. A revolta para os comunistas, digamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não está claro se esse livro existe. Talvez a abordagem mais próxima seja <em>The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings</em>, de Alain Badiou: “Eu também sou marxista — na íntegra, completamente e, portanto, naturalmente, não há necessidade de reiterar isso”, insiste ele, reiterando-o em várias ocasiões ao mesmo tempo em que observa que ele é</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">bem ciente dos problemas que foram resolvidos e que é inútil reexaminá-los; e dos problemas que permanecem pendentes e que exigem de nós uma retificação radical e uma esforço inventivo. Todo conhecimento vivo é composto de problemas que precisam ser construídos ou reconstruídos, e não de descrições repetitivas <strong>[4]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Depois de oferecer essa nota promissória, ele não se preocupa muito com a problemática do capital, nem faz muito uso das categorias que nos foram legadas pela crítica da economia política. Ficamos com “a Ideia” desempenhando o papel deixado pelo partido, fornecendo uma coordenação do espírito revolucionário que procede a certa distância dos desenvolvimentos dialéticos das forças sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Badiou organiza seu livro como uma taxonomia de revoltas organizada em torno da Primavera Árabe. Essa é uma das abordagens genéricas que se sobrepõem a esses estudos, dividindo as revoltas de acordo com o status político, a causa disparadora principal ou eventual, a composição dos participantes. Outra é o estudo sociológico dos manifestantes e suas condições imediatas, e seu primo próximo, a fenomenologia (geralmente em primeira pessoa). Há também os estudos de caso de revoltas famosas, além de pesquisas e atlas menos glamourosos. Independentemente de suas lacunas, a biblioteca das revoltas é escura e profunda; apenas uma fração pode ser abordada aqui. Este livro tem outras promessas a cumprir. Ele também se baseia na teoria do valor de Marx e na teoria da crise, da qual a primeira não pode ser desvinculada, em relatos de como os setores urbanos se esvaziam, como setores inteiros da economia se erguem e caem, e como o sistema-mundo se organiza e desorganiza; a tradição da análise dos sistemas mundiais fornece uma estrutura de amplitude global e de <em>longue durée</em> para pensar o evento localizado da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">Há limites para essa extensão, necessariamente. É evidente que as revoltas na Índia e na China, para escolher apenas dois exemplos contemporâneos, têm suas próprias características distintas (e seus próprios estudos em desenvolvimento). Minhas alegações se referem principalmente às nações do Ocidente de desenvolvimento industrial precoce e agora em processo de desindustrialização. Esses lugares não têm um apelo privilegiado para as revoltas; eles são, na verdade, o terreno em que uma lógica específica se torna visível, uma lógica tanto da revolta quanto do capital em seu outono catastrófico. Espero que essas reflexões sejam, de certa forma, adaptáveis, pois estão inseridas em mudanças político-econômicas que, por sua vez, estão fadadas a viajar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158124" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before.webp" alt="" width="2000" height="1335" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before.webp 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-1024x684.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-768x513.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-1536x1025.webp 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-629x420.webp 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-681x455.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />Além disso, assim como a nova era de revoltas expressa as transformações globais do capital e, portanto, carrega suas condições objetivas, ela se torna uma ocasião para examinar mais profundamente essas transformações. Se este livro oferece alguma novidade, elas são as seguintes: primeiro, definições mais claras de <em>revolta</em> e <em>greve</em>, que padecem de mais confusão do que se poderia esperar. Em segundo lugar, uma explicação de por que a revolta voltou e por que ele assume a forma que tem no presente. E, em terceiro lugar, uma vez que a lógica da revolta e sua relação com as transformações do capital tenham sido apreendidas, fornecer algumas previsões sobre o futuro da luta. Uma teoria do presente, portanto. No mínimo, a teoria deve ser capaz de explicar por que, após o fracasso em apresentar uma acusação contra o policial que assassinou Michael Brown em Ferguson, Missouri, houve uma onda nacional de revoltas — e por que, como se por uma telepatia entre os empobrecidos, as revoltas em cidade após cidade assumiram a forma de bloqueio da rodovia disponível mais próxima.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta-Greve-Revolta Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Este livro está organizado mais ou menos em ordem cronológica, desde a era de ouro das revoltas até a era das greves e vice-versa, com foco especial nas passagens de transição. No entanto, não se trata de uma crônica. Em vez disso, ele aproveita a oportunidade para desenvolver uma série de conceitos e argumentos sobre revolta e economia política à medida que avança. Ele constrói um modelo explicativo que pode coordenar os principais fatos do presente, de modo que eles possam se manifestar de forma um pouco mais eloquente. Ao se aproximar da era atual, os capítulos inevitavelmente se tornam um pouco mais detalhados. No entanto, o todo será necessariamente uma simplificação das infinitas complexidades da realidade; assim são os modelos heurísticos. Pelo menos, isso faz com que os livros sejam mais curtos.</p>
<p style="text-align: justify;">O Riot Act do Rei George I em 1714, em resposta, em parte, às revoltas da Coroação que acompanharam sua ascensão, se apresentava como “Um ato para prevenir revoltas e assembleias desordeiras, e para punir os desordeiros de forma mais rápida e eficaz”. Isso levanta uma questão sobre o estatuto comunicativo da revolta desde seu início. Trata-se, em grande parte, de uma declaração, de um discurso — ele prescreve a linguagem que deve ser lida para declarar uma reunião ilegal (daí a expressão, “ler o Riot Act”). Com ele, o termo <em>riot</em> muda decisivamente de seu sentido mais antigo de “vida desregrada, solta ou esbanjadora; deboche, dissipação, extravagância” e até mesmo “folia, alegria ou barulho desenfreados” para seu significado contemporâneo de “uma violenta perturbação da paz por uma assembleia ou grupo de pessoas; um surto de ilegalidade ativa ou desordem entre a população”. Chaucer, como tantas vezes, antecipa a modernidade da palavra. “Roubos e revoltas são conversíveis”, escreve ele em <em>The Cook&#8217;s Tale</em>, observando que o mestre paga o preço pela folia do aprendiz <strong>[5]</strong>. Ele associa a palavra à reviravolta das hierarquias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">A transição da revolta para a greve ocorre de forma irregular. A chegada da greve como fato social ocorre entre 1790 e 1842, data da primeira greve em massa na Inglaterra. Assim como muitas mudanças marítimas, é difícil reconhecê-las em sua primeira aparição, mas elas se mostrarão com clareza em um exame posterior. Será útil reconhecer a continuidade, bem como a oposição, a maneira como o novo conteúdo para a luta emerge de formas mais antigas de ação e, portanto, passa por períodos de indefinição. O mesmo pode ser dito sobre o retorno das revoltas; ainda é cedo. Com o declínio do movimento trabalhista no Ocidente, a revolta aumenta, tanto relativa quanto absolutamente. Inevitavelmente, há um intervalo em que as duas táticas coexistem uma ao lado da outra. De uma perspectiva, elas parecem disputar a primazia; de outra, a volatilidade de sua presença dual durante essa segunda transição produz uma situação revolucionária, que é amplamente conhecida com o nome, não totalmente preciso, de “1968”. O ano histórico-mundial de 1973 é o ano da virada, com o colapso dos lucros industriais sinalizando o início do que deveria ser corretamente chamado de Longa Crise, com suas recomposições de classe e divisão global do trabalho que progressivamente minam as possibilidades de organização militante dos trabalhadores no Ocidente. Na década de 80, a transição está praticamente concluída. Se isso aparece inicialmente como parte de um fechamento mais amplo das fronteiras revolucionárias — como o fim da história concomitante com a saída do comunismo do século XX —, o veredicto é mais uma vez aberto ao debate. O debate está intrinsecamente ligado ao retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Revolta-greve-revolta</em>, portanto. Mas isso não é suficiente. Tal formulação pode sugerir uma simples oscilação, ou pior, uma regressão. Essa narrativa tem seu apelo, dadas as tonalidades afetivas do presente, as insinuações de um colapso civilizacional acelerado por uma catástrofe ecológica. No entanto, isto é apenas um contorno, não uma teoria. Ela não é explicativa nem precisa. A nova era de revoltas, em muitos aspectos não se assemelha à sua antecessora. Antes do século XIX, as dificuldades gerais enfrentadas pelos pobres para administrar a subsistência, incluindo não apenas as revoltas pelo pão, mas também as revoltas contra os cercamentos das terras comuns, proporcionavam a ocasião para o surgimento do antagonismo social. Notavelmente, esses eventos incluíam as “revoltas contra exportações”, revoltas em que o transporte de grãos para fora do condado, especialmente em épocas de fome, era interrompido por esforços combinados e coordenados. De acordo com muitos relatos, essa configuração básica das necessidades é mantida até hoje; estudos empíricos que relacionam os preços dos alimentos a revoltas continuam sendo comuns e, de certa forma, persuasivos, principalmente em países com baixos salários. No entanto, as revoltas começam agora não no celeiro, mas na delegacia de polícia, literal ou figurativamente, incitados pelo assassinato de um jovem de pele escura pela polícia, ou em decorrência do fracasso do aparato legal em responsabilizar adequadamente a polícia por sua violência. A nova era encontra seu paradigma nas revoltas de Los Angeles de 1992, após a absolvição dos policiais que foram gravados espancando brutalmente Rodney King após uma parada de trânsito — revoltas que se espalharam por várias outras cidades e continuaram por cinco dias. Cada vez mais, as revoltas contemporâneas ocorrem dentro de uma lógica de racialização e têm o Estado, e não a economia, como seu antagonista direto. A revolta retorna não apenas a um mundo mudado, mas ela mesma se transformou.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Revolta-greve-revolta linha</em>. Assim fica melhor. Esses termos compõem as três seções do livro. Cada uma delas tem não apenas um período apropriado, mas também um lugar apropriado. Para a primeira era de revoltas, o mercado, mas sobretudo o porto; para a era da greve, o chão de fábrica; e, para a nova era de revoltas, a praça e a rua. Para cumprir essa sequência tripartite, este livro precisará descobrir tanto a continuidade das duas eras de revoltas quanto suas diferenças: a unidade de uma revolta no mercado e os levantes frequentemente racializados dirigidos aparentemente contra o Estado. Aqui está o argumento, em sua forma condensada e abstrata, ao qual o restante do livro acrescentará detalhes e digressões, bem como uma estrutura político-econômica e um olhar para o futuro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Charles Tilly, “Expressando sua opinião sem eleições, pesquisas ou movimentos sociais”, <em>The Public Opinion Quarterly</em> 47: 4, inverno de 1983, 464.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Paul A. Gilje,<em> Rioting in America</em>, Bloomington: Indiana University Press, 1999, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> The Invisible Committee, <em>The Coming Insurrection</em>, Cambridge: Semiotext(e), 2009, e sua continuação To Our Friends, trad. Semiotext(e), Cambridge: Semiotext(e), 2015, são as versões mais incisivas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Alain Badiou, <em>The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings</em>, trad. Gregory Elliot, Nova York: Verso, 2012, 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> “For thefte and riot, they been convertible.” Geoffrey Chaucer, <em>The Riverside Chaucer</em>, 3ª ed., Larry D. Benson, ed. geral, Boston: Houghton Mifflin, 1987, 85.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de Los Angeles, em 1992</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016</p>
<p style="text-align: center;">© Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>O marxismo e as universidades</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2026 13:02:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[O marxismo acadêmico, com raríssimas exceções, se insere nos muros das universidades, sem questionar a natureza reacionária do ambiente acadêmico, se colocando como um observador da luta de classes. Por Michel Goulart da Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Goulart da Silva</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O marxismo encontra pouca difusão nos meios acadêmicos, sendo, por um lado, combatido e difamado, tendo na maior parte dos casos suas ideias expostas de forma deturpada. Por outro, os poucos intelectuais presentes no meio acadêmico que se reivindicam inseridos na tradição marxista raramente fazem um efetivo combate contra as ideologias reacionárias que permeiam universidades e centros de pesquisa. Esses intelectuais, em sua maioria, apresentam o marxismo como uma das possíveis formas de interpretação da realidade, relativizando a produção do conhecimento e colocando-o no mesmo nível das correntes burguesas.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, dentre os acadêmicos que reivindicam o marxismo, são raros os que possuem uma efetiva prática política; quando muito, o fazem dentro dos limites de seu próprio sindicato (e às vezes nem isso). O marxismo acadêmico, com raríssimas exceções, se insere nos muros das universidades, sem questionar a natureza reacionária do ambiente acadêmico, se colocando como um observador da luta de classes. Nas universidades, é comum ver “personagens que, não podendo exercer a verdadeira função desbravadora que compete à ciência, acolhem-se à sua sombra, apropriam-se dos benefícios sociais e das honrarias acadêmicas que propicia”. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Existe um absoluto isolamento da universidade em relação à luta política concreta dos trabalhadores contra o capitalismo. Os intelectuais pós-modernos, mesmo os que se dizem progressistas, são absorvidos pelas estruturas reacionárias dos espaços acadêmicos, tornando-se reprodutores da exploração de classe expressa nessas instituições. Quanto aos marxistas acadêmicos, em sua maioria, se limitam a um combate teórico em polêmica com seus pares dentro das universidades e, em paralelo, criam todo o tipo de explicações para neutralizar, criticar ou mesmo desqualificar as organizações revolucionárias dos trabalhadores. Criam-se polêmicas que não tem qualquer relação com a realidade concreta da classe e apresentam-se soluções reformistas para as contradições da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Os representantes da intelectualidade acadêmica, inclusive a maior parte daqueles que se reivindicam marxistas, se colocam intencionalmente fora da luta de classes, muitas vezes até mesmo negando sua condição de trabalhadores. Com isso, assumem uma postura messiânica, arrogando-se o papel de mentores capazes de orientar os trabalhadores no caminho que consideram correto para a prática de suas lutas. Outros destes intelectuais resumem a exploração do trabalho e a luta de classes ao que chamam de “disputas de narrativas”, onde fragmentos identitários se constituiriam na busca por uma maior representatividade na sociedade. Os intelectuais acadêmicos procuram se isentar da luta de classes e da construção de uma estratégia política que coloque como centro a derrubada do capitalismo e de todas as instituições que o defendem. Mesmo que se apresentem como “promotores do avanço científico e técnico em geral, eles se identificam com os interesses do capital, uma vez que é o movimento geral deste que determina as prioridades acadêmicas”. <strong>[2] </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os intelectuais acadêmicos, ao limitarem sua atuação ao espaço universitário, são cooptados pelo elitismo acadêmico, considerando-se independentes ou mesmo acima de qualquer tipo de conflito de classes e, por isso, os únicos capazes de indicar os caminhos corretos. Essa intelectualidade assume um completo preconceito em relação ao trabalho manual, como se os operários ou outras categorias de trabalhadores não tivessem capacidade para analisar e entender a exploração a que estão submetidos. Semeiam a crença de que somente os intelectuais acadêmicos, enclausurados em suas cátedras, poderiam olhar para os conflitos da sociedade e, a partir desse olhar que se pretende científico e objetivo, propor saídas que, necessariamente, passam pela conciliação entre as partes em luta.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159204 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-1.jpg" alt="Marxismo e as universidades" width="640" height="465" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-1.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-1-300x218.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-1-578x420.jpg 578w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa intelectualidade acredita na ideia de que o conhecimento científico é somente aquele legitimado pela burocracia acadêmica. Essa institucionalização da ciência faz com que os intelectuais acadêmicos se vejam como donos do conhecimento ou os únicos autorizados a discutir essas verdades. Essa é uma perigosa visão que faz com que somente uma elite esclarecida seja considerada dona do conhecimento científico, ignorando que este é uma produção social coletiva, datando de muitos séculos, que em muito ultrapassa um conjunto de artigos publicados em periódicos reconhecidos pelas instituições do Estado. Essa postura expressa, no campo científico, a decadência histórica do capitalismo, que “se manifesta como processo de fragmentação do conhecimento que o segmenta profundamente da realidade e de si mesmo”. <strong>[3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os fenômenos da realidade existem concretamente e sua análise, ainda que necessite de um domínio do método científico e do trabalho de pesquisa, não depende exclusivamente de um diploma universitário. Em milhares de anos a humanidade produziu e acumulou uma grande quantidade de conhecimentos, que deveriam poder ser acessados por quaisquer pessoas a qualquer momento, para compreender os mais variados fenômenos da realidade em que estão inseridos. Os métodos de pesquisa não são uma exclusividade das instituições universitárias, mas o produto de milênios de investigações, experiências e sistematizações realizadas pela humanidade. O papel central das universidades está em organizar, sistematizar e difundir esses conhecimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses conhecimentos, independente da área de pesquisa, quando colocados nas mãos dos trabalhadores podem ser revolucionários. Caso venham a ser efetivamente apropriada pela classe revolucionária, a produção do conhecimento pode não apenas desvelar os fenômenos da realidade, como superar os limites impostos pelo elitismo acadêmico e pelas necessidades do lucro capitalista. Nessa perspectiva, pode-se analisar os fenômenos em sua materialidade, não se colocando no círculo vicioso das “disputas de narrativas”, e compreendendo a impossibilidade da neutralidade dentro de uma sociedade dividida em classes antagônicas. Portanto, assumindo uma perspectiva revolucionária,</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“[…] os marxistas colocam os sábios diante de suas responsabilidades. Eles não são a nova vanguarda da humanidade. Sua qualidade de sábios não lhes dá, em política, nenhuma competência particular. Mas importa-lhes, com a autoridade imensa que será então a deles, tomar suas responsabilidades &#8211; e por isso mesmo seu lugar no combate, ao lado da classe operária, por uma sociedade socialista sem classe”. <strong>[4]</strong></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Para os marxistas, não pode haver o apego às instituições existentes do Estado. O espaço acadêmico na sociedade capitalista está ocupado em produzir e colaborar com a ideologia das classes dominantes, sendo um entrave para os efetivos avanços científicos socialmente necessários. Esse problema não se deve a uma questão subjetiva dos pesquisadores acadêmicos ou dos gestores das universidades, mas à situação concreta do capitalismo, marcado pela “transformação das forças produtivas, das quais a ciência faz parte, em forças destrutivas”. <strong>[5]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O espaço universitário expressa as contradições da sociedade capitalista e, com mediações das mais variadas, a exploração de classe da burguesia. Entende-se que é a sociedade “que cria a estrutura de meios e fins, que relaciona, historicamente, a instituição com as necessidades sociais por ela atendidas”, determinando, “por sua estrutura e evolução típicas, os ritmos das instituições”. <strong>[6] </strong>Para responder aos interesses do capital, a universidade, ainda que pública e gratuita para os estudantes, precisa ser um espaço de liberdades democráticas restritas que controla a participação política de trabalhadores e de estudantes. Esse modelo de universidade tem como tarefa mais evidente a formação de força de trabalho, também cabendo a essas instituições auxiliar o capital no processo de produção de mercadorias, desenvolvendo não apenas novas tecnologias, como também métodos de pesquisa e diagnósticos sobre diferentes aspectos da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Os diferentes sujeitos que constroem a universidade devem discutir os problemas das instituições para além dos problemas conjunturais, como orçamento ou eleições internas, compreendendo sua relação intrínseca com o sistema econômico. Os intelectuais marxistas podem colaborar nesse processo, na medida em que partem de um referencial teórico que coloca no centro da análise as contradições intrínsecas da sociedade e necessidade de sua superação. Esses setores precisam organizar-se como parte da classe trabalhadora no sentido de lutar por uma nova universidade, expressando as transformações econômicas e políticas de uma nova sociedade.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159205 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-1.jpg" alt="Marxismo e as universidades" width="604" height="480" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-1.jpg 604w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-1-300x238.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-1-529x420.jpg 529w" sizes="auto, (max-width: 604px) 100vw, 604px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Álvaro Vieira Pinto. Ciência e existência: problemas de filosofia da pesquisa científica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 255.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong> Maria de Lourdes Pinto de Almeida. A pesquisa acadêmica no século XXI. Campinas: Mercado de Letras, 2012, p. 81.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong> Osvaldo Coggiola. Universidade e ciência na crise global. São Paulo: Xamã/Pulsar, 2001, p. 57.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4] </strong>Gerárd Bloch. Ciência, luta de classes e revolução. São Paulo: Palavra, 1980, p. 71-2.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5] </strong> Gerárd Bloch. Ciência, luta de classes e revolução. São Paulo: Palavra, 1980, p. 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6] </strong> Florestan Fernandes. Universidade brasileira: reforma ou revolução? São Paulo: Expressão Popular, 2020, p. 153.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Oyvind Fahlstrom (1928-1976).</em></p>
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		<title>Intelectual dissidente: Quem é o intelectual hoje?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Apr 2026 12:55:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Se houve um tempo em que o intelectual se imaginava à frente dos outros, esse tempo já não é o de hoje. Por Rafael Leopoldo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por  Rafael Leopoldo</h3>
<p style="text-align: justify;">Para localizarmos o intelectual hoje, creio que seja necessário dar um passo atrás e pensar qual era a função do intelectual. Para isso, a melhor materialidade para pensar o papel do intelectual talvez sejam os manifestos políticos, porque é por meio deles que se configura a principal imagem que temos do intelectual. Claro que a referência imediata é Karl Marx e Friedrich Engels, com o Manifesto Comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">Gostaria, porém, de evocar os manifestos em geral, e não apenas o Manifesto Comunista, que nos interessa, sobretudo, por ter o mérito de criar um novo gênero literário. Separo cinco características dos manifestos: 1) coletividade; 2) teatralidade; 3) performatividade; 4) conteúdo programático; e, por último, 5) futuridade, correlata ao utopismo. Devido a essas características, é possível entender por que movimentos minoritários, movimentos artísticos de ruptura e intelectuais contemporâneos têm predileção pelo gênero manifesto.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158973" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437.jpg" alt="" width="880" height="626" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437.jpg 880w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437-300x213.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437-768x546.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437-590x420.jpg 590w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437-640x455.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437-681x484.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 880px) 100vw, 880px" />No primeiro elemento, a coletividade, temos que, mesmo quando o manifesto é escrito por uma única pessoa, ele evoca uma massa, uma multidão ou um comum. Um dado importante do Manifesto Comunista é que ele foi publicado inicialmente sem autoria, posto que expressa o ponto de vista de um coletivo: o proletariado. O Manifesto Comunista surge como um texto anônimo e apenas posteriormente ganha a autoria dos pensadores alemães.</p>
<p style="text-align: justify;">No segundo elemento, a teatralidade, encontramos uma dimensão teatral calculada, a falta de poder da posição do manifesto é compensada por meio de exageros teatrais. A autoridade do manifesto seria, assim, simulada, e não fundada numa autoridade real. No Manifesto Comunista há a vontade de substituir o espectro do comunismo pela manifestação real do comunismo. A partir desses elementos, é possível compreender que, de maneira geral, o manifesto é uma ferramenta do fraco e que, em sua teatralidade, há a possibilidade de um reposicionamento nos regimes de poder.</p>
<p style="text-align: justify;">No terceiro elemento, a performatividade, há uma relação complexa entre teatralidade e pragmática da linguagem. Na teoria dos atos de fala desenvolvida, principalmente, na filosofia da linguagem, abandona-se um entendimento naturalista, convencionalista ou ainda mentalista e ideacional da linguagem em favor de uma concepção performativa. Ao refletirmos sobre a pragmática da linguagem, um dos dados fundamentais é que quando ela é usada em um sentido performativo, não descrevemos simplesmente o real, mas o constituímos. A linguagem performativa é usada para realizar (<em>to perform</em>) algo. A fala performativa é complexa nos manifestos, já que o manifesto não teria, de antemão, a autoridade performativa da sua própria fala. Cria-se na coletividade, na teatralidade e no conteúdo programático do manifesto, uma dimensão futura na qual essa fala, inicialmente sem autoridade, adquire a força de se constituir.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158971" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2677495847.jpg" alt="" width="474" height="295" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2677495847.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2677495847-300x187.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />No quarto elemento &#8211; o conteúdo programático &#8211; e no elemento quinto &#8211; a utopia &#8211; encontro um entrelaçamento no manifesto que mostra o seu lado propositivo. O manifesto é mais construtivo do que destrutivo. Um dos aspectos dessa proposição é o texto programático do manifesto, que corresponde a uma exposição clara, muitas vezes em tópicos, da produção de uma voz política, de uma composição social e da constituição de uma relação de poder. A composição desse novo é exatamente o não-lugar almejado pelos discursos utopistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Postas essas cinco características, gostaria de propor uma distinção entre os manifestos clássicos e os manifestos dissidentes. Essa distinção evoca também a diferença entre os intelectuais em geral e o intelectual dissidente. Ora, creio que esse ponto de diferença resida na relação com a ideia de vanguarda, posto que vários manifestos políticos e artísticos se associaram à noção de vanguardear os outros. O termo remonta ao vocabulário militar francês, avant-garde. Em sua acepção militar, refere-se a um pequeno grupo de escolta que faz o reconhecimento de um local. A vanguarda se torna uma metáfora para designar aqueles que estão à frente, isto é, na vanguarda da maioria dos seus contemporâneos, que, por sua vez, estariam atrás, na retaguarda.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfatizar a metáfora militar traz à baila toda a problemática do imaginário militar: a misoginia; a disciplina monástica; o conformismo; a servidão; a violência e, em última instância, a guerra. O manifesto, em sua fase mais tétrica, no fascismo de Marinetti, no Manifesto Futurista, afirma em seu conteúdo programático o seguinte: “Nós queremos glorificar a guerra &#8211; a única higiene do mundo &#8211; o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, a bela ideia pela qual se morre e o desprezo pelas mulheres”. Portanto, os manifestos dissidentes parecem criticar precisamente a característica específica de vanguardista da ação revolucionária, seja ela política ou artística.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158972" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2822577435.jpg" alt="" width="474" height="314" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2822577435.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2822577435-300x199.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />O surgimento dos manifestos e das utopias dissidentes acompanha o despontar do que é o intelectual hoje. Quando Michel Foucault, numa entrevista feita por Alexandre Fontana, publicada na revista francesa L&#8217;Arc, em 1977, é indagado sobre qual seria o papel do intelectual na atualidade, ele responde elaborando uma hipótese que propõe a distinção entre o intelectual universal e o intelectual específico. Com isso, têm-se duas posições interessantes, mas nenhuma delas corresponde ao que se faz hoje no campo das dissidências.</p>
<p style="text-align: justify;">O que me interessa, primeiramente, nessa diferença é que Foucault assinala o marxismo como um indicador para a ação revolucionária e para a constituição de um modus operandi do intelectual universal. Portanto, é forçoso compreender o Manifesto Comunista como referência constitutiva do intelectual universal. A principal crítica que Foucault dirige ao intelectual universal, em sua relação com o marxismo, diz respeito a um imaginário militar vanguardista, no qual o partido se compreende como a parte mais avançada, a responsável por impulsionar o restante. Esse saber do partido é o que libertaria a classe operária e a massa popular da sua suposta falta de saber.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante dessa relação entre o partido e a massa, tem-se o efeito negativo de impedir a possibilidade de escuta da multiplicidade de vozes dissonantes. Tem-se, igualmente, o efeito negativo de impedir a compreensão da multiplicidade de corpos e experiências. Para Foucault, o partido ou o intelectual não teria que formar a consciência operária, posto que ela já existe. Tratar-se-ia, antes, de ajudar a difundi-la. Esta é uma das diferenças entre o intelectual universal, o intelectual específico e o intelectual dissidente.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">O intelectual universal, desenvolvido entre os séculos XIX e XX, deriva da figura do homem da justiça. O intelectual específico se elabora a partir da Segunda Guerra Mundial, com a figura do especialista notável. O intelectual universal tem como modelo o marxismo e a vanguarda. O intelectual específico é representado pelo cientista, isto é, pelo particular. O intelectual universal tem como exemplo paradigmático o escritor. O intelectual específico nos apresenta o físico atômico. O intelectual universal tem como modelo de luta o partido, a ação revolucionária. O intelectual específico está envolvido em lutas imediatas. Não obstante, parece-me que a dimensão do intelectual específico nunca foi o bastante para descrever totalmente o intelectual daquela época; além disso, essa descrição se torna falha para o entendimento do intelectual de hoje.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158970" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597.jpg" alt="" width="1500" height="1102" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-300x220.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-1024x752.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-768x564.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-572x420.jpg 572w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-640x470.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-681x500.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />O intelectual dissidente não carrega o modelo da consciência universal e nem representa o especialista do particular, mas está envolto nas configurações do social. Ele não tem como modelo o escritor genial que proclama o universal, nem o especialista notável, mas aquele que produz os processos capilares de resistência. Tal personagem não está preocupado com o jogo de uma verdade universalmente válida, nem se limita a atuar na luta no nível de uma reconfiguração do regime de verdade científico, mas o jogo da verdade parece ser produzido em outro lugar, às vezes, na própria experiência dos sujeitos, nos seus próprios corpos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se considerarmos que o intelectual dissidente não está nos debates apenas por meio das ferramentas tecnológicas dos cientistas, um dos seus elementos é um afastamento do discurso científico moderno em prol de outras epistemologias, mais situadas e híbridas. Ele se elabora ao produzir fortes críticas à formação heteronômica do sujeito. Assim, se o sujeito era subjetivado pelo discurso científico, por meio de saberes específicos da medicina, da criminologia e da pedagogia, o intelectual dissidente primeiro critica toda a tecnologia de produção de sujeitos que se dá via discurso científico. Nesse sentido, uma de suas principais características é uma política da nominação: a passagem de um regime de classificação científica para um regime de classificação dissidente, com suas autonominações, heteronominações e transnominações.</p>
<p style="text-align: justify;">No âmbito da sexualidade, observa-se que o saber da medicina compõe tanto a norma, a heterossexualidade, quanto o desvio, a homossexualidade, a bissexualidade e a transexualidade. Na atualidade, tem-se cada vez mais processos de autonominação. Parece-nos que outras construções são produzidas nas resistências e no laço social, como as nomeações “gay”, “não-binário”, “trans” e “queer”. Não são nomeações médicas, mas autonominações criadas e negociadas no corpo do social. Não obstante, temos também heteronominações como, por exemplo, a palavra “cisgênero” e os estudos sobre a branquitude. Não se trata de nomear a si mesmo, mas, além disso, de nomear o outro. Por fim, pensando as transnominações, nominações híbridas, que transitam entre regimes, temos, por exemplo, a passagem do autismo para a noção de neurodivergente, um conceito híbrido entre o regime científico (neurologia) e o regime dissidente, que busca uma representação não patológica.</p>
<p style="text-align: justify;">Se houve um tempo em que o intelectual se imaginava à frente dos outros, como consciência esclarecida da história e baluarte do universal, esse tempo já não é o de hoje. O intelectual dissidente não se autoriza pela vanguarda nem pelo privilégio de um saber supostamente superior. Ele emerge onde os sujeitos resistem, nomeiam a si mesmos, deslocam classificações e inventam as condições de uma existência. Essa existência amplia, de forma muito decisiva, a vida de tantas outras existências.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Rafael Leopoldo é psicanalista e filósofo. Doutor em Filosofia pela UFOP. E-mail: ralasfer@gmail.com</em></p>
<p><em>As imagens que ilustram esse artigo são reproduções de obras de Alfredo Volpi.</em></p>
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		<title>MBL: a máquina fascista jovem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Apr 2026 13:21:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O MBL transformou a rebeldia em conformismo, o descontentamento em ódio regressivo, a juventude em tropa de choque da ordem.  Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Arthur Moura</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre (MBL) emergiu no cenário político brasileiro como uma das expressões mais acabadas da reorganização da direita em tempos de crise estrutural do capital. Sua aparição pública em meados de 2014, no contexto do desgaste do governo Dilma Rousseff e da crise econômica que atingia o país, não pode ser compreendida como um fenômeno isolado ou meramente espontâneo. O MBL é resultado de um longo processo histórico que combina, de um lado, o avanço do neoliberalismo e de seus aparelhos de difusão ideológica e, de outro, o refluxo das lutas populares e a cooptação progressista que esvaziou as possibilidades de transformação radical. Na aparência, o MBL se apresenta como um movimento juvenil, irreverente, liberal em costumes e crítico da “velha política”. Essa superfície, porém, encobre sua essência: um projeto político reacionário, alinhado internacionalmente a redes de <em>think tanks</em> ultraliberais, financiado por empresários e estrategicamente formatado para ocupar as lacunas deixadas pela falência do progressismo conciliador. A linguagem do meme, a estética pop, o tom debochado e a retórica da eficiência foram armas eficazes para atrair a juventude e setores médios descontentes, convertendo indignação difusa em ódio direcionado contra trabalhadores, movimentos sociais e qualquer crítica à ordem capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se, portanto, de um aparelho de hegemonia de classe. O MBL não é apenas um agrupamento de jovens políticos em busca de visibilidade, mas parte de uma engrenagem ideológica maior, que envolve a burguesia interna, setores do imperialismo, redes de comunicação corporativa e plataformas digitais transnacionais. Sua função é canalizar o ressentimento social contra a esquerda, transformar precariedade em adesão servil ao liberalismo e, em última instância, naturalizar o fascismo como resposta política legítima. O presente texto parte da convicção de que compreender o MBL exige ir além da sua autoimagem publicitária e das análises superficiais que o tratam como mero “grupo de garotos ambiciosos”. Ele deve ser situado na totalidade histórica da luta de classes no Brasil, na dinâmica da dependência latino-americana e no ciclo recente de contrarrevoluções preventivas. Somente assim é possível demonstrar por que o MBL não é um fenômeno democrático, mas sim a expressão juvenil e midiática de uma direita fascistizante que se alimenta da crise e atua como ponta de lança para conter qualquer possibilidade de organização popular.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto seguirá a seguinte linha: primeiro, reconstituiremos a gênese do movimento, seus fundadores, influências e contexto imediato. Em seguida, analisaremos seu desenvolvimento, financiamento e aparato comunicacional; depois pensaremos a sua linha teórica e ideológica, revelando como se articula entre liberalismo econômico e conservadorismo moral. Discutiremos também a questão central: por que o MBL é fascista? E, por fim, discutiremos seu papel atual, suas disputas internas, seu reposicionamento no pós-bolsonarismo e os caminhos da luta revolucionária contra esse inimigo de classe. Assim, o objetivo não é apenas produzir uma narrativa histórica sobre o MBL, mas também situá-lo como fenômeno típico da fase atual do capitalismo dependente brasileiro: uma fase em que o neoliberalismo e o fascismo se entrelaçam, e em que a direita busca travestir-se de novidade juvenil enquanto carrega consigo todo o peso reacionário da tradição burguesa. A denúncia teórica e política do MBL é parte indissociável da luta contra o fascismo e contra o capital.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158947" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/images.jpg" alt="" width="244" height="207" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>IPES, IBAD e a tradição anticomunista no Brasil</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Brasil possui uma longa tradição de aparelhos ideológicos e financeiros destinados a conter a mobilização popular e difundir o anticomunismo, especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960. O cenário em que se formam os principais aparelhos ideológicos da direita brasileira (como o IPES e o IBAD) deve ser compreendido à luz da ordem internacional do pós-Segunda Guerra Mundial, quando a divisão do planeta em duas grandes esferas de influência, lideradas pelos Estados Unidos e pela União Soviética, impôs uma dinâmica global marcada pela disputa ideológica e geopolítica da Guerra Fria. A derrota do nazifascismo não significou o triunfo da emancipação popular, mas sim a reorganização do capitalismo sob a hegemonia norte-americana, que emergiu da guerra com a maior força militar, econômica e política do mundo. O Plano Marshall, a criação da OTAN e a consolidação do macartismo no interior dos EUA foram expressões dessa nova hegemonia imperialista que buscava conter a expansão do socialismo. Do outro lado, a União Soviética, responsável pelo esmagamento da máquina nazista no front oriental, consolidava sua influência no Leste Europeu e projetava internacionalmente o prestígio da Revolução de Outubro, tornando-se referência para milhões de trabalhadores e movimentos de libertação em todo o mundo. Essa bipolaridade produziu uma onda de antagonismos estruturais: para Washington, era necessário conter qualquer experiência reformista ou revolucionária no Sul global, pois cada avanço do socialismo era lido como ameaça à ordem burguesa mundial. O Brasil, país de capitalismo dependente e estratégico no continente latino-americano, foi incorporado nesse tabuleiro como área de influência norte-americana, recebendo vultosos investimentos financeiros e logísticos destinados a fortalecer o antagonismo anticomunista, neutralizar movimentos populares e organizar elites empresariais e militares para o enfrentamento contra a esquerda. Esse é o contexto em que se deve compreender o nascimento dos aparelhos como IPES e IBAD: expressões locais de uma guerra global, onde o capital internacional se valeu da burguesia interna para implementar sua estratégia de dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">A Aliança para o Progresso, lançada por John F. Kennedy em 1961, constituiu-se como um dos mais sofisticados instrumentos da política imperialista norte-americana no continente, articulando “ajuda econômica” e “cooperação técnica” como formas de legitimar a penetração do capital estadunidense e ao mesmo tempo conter a expansão socialista após a Revolução Cubana. Sua função essencial era dupla: de um lado, difundir a propaganda anticomunista apresentando o capitalismo liberal como sinônimo de modernização e desenvolvimento; de outro, articular-se com as elites locais e seus aparelhos privados de hegemonia para estruturar um verdadeiro cinturão de contenção contra a radicalização política das massas. No Brasil, a Aliança encontrou terreno fértil nas articulações empresariais e militares que deram origem ao IPES e ao IBAD, funcionando como fornecedora de recursos, legitimidade e diretrizes estratégicas para uma guerra ideológica que não se limitava à disputa eleitoral, mas visava abertamente criar as condições subjetivas e objetivas para a derrubada do governo João Goulart. Essa engrenagem conjugou investimentos em projetos vitrine, cooptação de lideranças reformistas, financiamento de campanhas conservadoras e uma sistemática propaganda anticomunista difundida pela grande imprensa, compondo um ecossistema contrarrevolucionário que culminou no golpe civil-militar de 1964. Em síntese, a Aliança para o Progresso, em articulação com o IPES e o IBAD, demonstrou que o imperialismo estadunidense não operava apenas pela força bruta, mas pela construção paciente de uma hegemonia ideológica que travestia sua ofensiva de modernização democrática, quando na verdade preparava o terreno para a violência reacionária e a supressão da soberania popular.</p>
<p style="text-align: justify;">O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) constituem dois exemplos fundamentais dessa estrutura de poder. Criados com apoio direto do empresariado nacional e em estreita ligação com interesses norte-americanos, ambos cumpriram papel central na preparação política, cultural e midiática que culminou no golpe de 1964. O IPES, fundado em 1961, organizava cursos, palestras, filmes, cartilhas e eventos para disseminar a ideologia anticomunista. Reunia empresários, banqueiros, militares e intelectuais conservadores que viam nas reformas de base de João Goulart uma ameaça à propriedade privada e à ordem social. Sua função era clara: moldar a opinião pública, formar quadros e infiltrar o discurso liberal-conservador em sindicatos, escolas, universidades e na imprensa. Não se tratava apenas de um “centro de pesquisa”, mas de um verdadeiro think tank avant, antecipando as formas de atuação que, décadas depois, seriam retomadas por instituições como o Instituto Millenium e, mais recentemente, pelo MBL.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o IBAD, criado em 1959 por Ivan Hasslocher, cumpria uma função ainda mais explícita: financiar campanhas eleitorais de candidatos conservadores e anticomunistas. Recebia recursos de empresas nacionais e estrangeiras, com forte suspeita de repasses oriundos de organismos ligados aos Estados Unidos, no contexto da Guerra Fria. Em 1962, o IBAD atuou de forma massiva nas eleições, canalizando milhões de cruzeiros para parlamentares comprometidos com o combate às reformas sociais. O escândalo foi tão grande que uma CPI revelou parte do esquema, mas o instituto foi fechado apenas formalmente: suas redes de financiamento e articulação permaneceram ativas e se integraram ao bloco que derrubaria Jango em 1964.</p>
<p style="text-align: justify;">João Goulart, o Jango, deve ser compreendido dentro da tradição do varguismo que moldou a política brasileira no século XX. Herdeiro direto da linha trabalhista, Jango se consolidou como figura de transição entre a herança populista de Vargas e as demandas emergentes de uma classe trabalhadora urbana e, sobretudo, rural, cada vez mais organizada e disposta a reivindicar direitos. Embora fosse, em essência, um liberal reformista que acreditava na conciliação de classes e na possibilidade de modernizar o capitalismo brasileiro sem romper com suas bases estruturais, Jango incorporou pautas que soavam perigosas para a elite agrária e industrial. As Reformas de Base (especialmente a reforma agrária, pensada para redistribuir terras improdutivas e reduzir a secular marginalização do campesinato), representavam um ponto de inflexão em uma sociedade marcada pela concentração fundiária e pela dependência externa. O fato de o Estado se voltar, ainda que de maneira tímida, para os trabalhadores rurais, historicamente abandonados pelo poder público e submetidos a formas quase feudais de exploração, acendeu o alarme nas classes dominantes. Jango, ao tentar mediar os interesses populares com a manutenção da ordem burguesa, terminou por ser acusado de comunista, o que serviu de álibi perfeito para a ofensiva da direita, articulada com o imperialismo estadunidense e financiada por organismos como o IBAD e o IPES. Assim, sua figura revela a contradição do reformismo no Brasil: ao mesmo tempo em que prometia modernização e justiça social, acabou servindo como estopim para a reação golpista que consolidaria o projeto de dominação burguesa e militar a partir de 1964.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158946" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md.jpg" alt="" width="512" height="768" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista ideológico, o IPES e o IBAD buscavam construir uma visão de mundo: o comunismo seria uma ameaça existencial, a luta de classes uma invenção estrangeira, e a defesa da ordem e da família os pilares da nação. Esse discurso foi introjetado no imaginário social através da mídia, da escola e das igrejas, sedimentando um anticomunismo difuso que perdura até hoje. Se o MBL atual mobiliza memes e redes sociais, os institutos dos anos 1960 recorriam a filmes, radionovelas e manuais escolares, mas a função era a mesma: neutralizar a consciência crítica e legitimar a repressão. É preciso destacar também a dimensão de classe dessa ofensiva. O IPES e o IBAD eram sustentados pelos grandes empresários nacionais, ligados ao capital estrangeiro, que temiam as reformas trabalhistas, a reforma agrária e o controle do capital externo. Não se tratava de uma “guerra de ideias” abstrata, mas da defesa intransigente de privilégios materiais. A burguesia brasileira, historicamente associada ao imperialismo, sempre tratou qualquer possibilidade de transformação social como uma ameaça a ser eliminada. Os institutos funcionavam como correias de transmissão dessa estratégia, convertendo a luta econômica em guerra ideológica.</p>
<p style="text-align: justify;">A herança dessa experiência é visível nas décadas seguintes. Durante a ditadura, muitos quadros formados no IPES e no IBAD ocuparam cargos de Estado e seguiram articulando a política econômica em sintonia com o receituário neoliberal que viria a florescer nos anos 1980 e 1990. O desmonte da soberania nacional, as privatizações e a precarização do trabalho são desdobramentos de uma longa preparação intelectual, financeira e política. Quando olhamos para o MBL, percebemos a continuidade dessa tradição. A diferença é o meio: se antes eram cartilhas e palestras, hoje são vídeos virais e podcasts; se antes a palavra de ordem era “anticomunismo” em nome da ordem e da família, agora é “empreendedorismo” em nome da liberdade e do mercado. Mas a função é idêntica: servir como frente ideológica e cultural de uma burguesia em crise, mobilizando setores médios e juventude contra qualquer perspectiva emancipatória.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, o estudo do IPES e do IBAD nos revela que o MBL não é novidade nem exceção. É a versão 2.0 de uma máquina antiga, atualizada para a era digital, mas fiel à mesma lógica: conter a luta de classes, difundir o medo do comunismo, legitimar a repressão e garantir os lucros da burguesia. Entender essa genealogia é essencial para que não nos enganemos com a “espontaneidade” aparente de novos movimentos. Toda vez que a ordem capitalista é ameaçada, surgem aparelhos de propaganda e mobilização financiados pelo grande capital, disfarçados de juventude, de modernidade ou de inovação, mas sempre a serviço da dominação.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A gênese do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre (MBL) deve ser entendido como parte de um processo mais amplo de reorganização da direita brasileira em sintonia com o avanço internacional das redes ultraliberais e com a ofensiva do capital contra o trabalho na esteira da crise global de 2008. O MBL surge como o rosto jovem e midiático de um projeto de poder muito mais antigo: a tentativa da burguesia de recompor sua hegemonia diante do desgaste do progressismo, da crise do lulismo e da incapacidade das organizações populares de oferecer uma alternativa revolucionária. A gênese do MBL está diretamente vinculada ao esgotamento do pacto lulista. Durante os anos 2000, o crescimento econômico baseado no boom das commodities, somado a políticas sociais compensatórias, permitiu ao governo petista conciliar interesses de frações da burguesia e das classes trabalhadoras. Mas tal arranjo não poderia durar indefinidamente. A crise de 2008 expôs os limites do modelo, provocando desaceleração econômica, inflação e aumento do desemprego. Ao mesmo tempo, a manutenção de privilégios ao grande capital (isenções fiscais, juros elevados, exportações primarizadas) escancarava o caráter burguês do governo do PT.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, abriu-se um vácuo político. A esquerda institucional, comprometida com a conciliação, não possuía mais credibilidade para mobilizar a base popular. As forças revolucionárias, fragilizadas, não conseguiram apresentar alternativas organizadas. O cenário estava maduro para que a direita reorganizasse seu discurso, mobilizando o ressentimento social em direção a uma agenda regressiva. Foi nesse terreno fértil que o MBL germinou.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158945" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408.jpg" alt="" width="1920" height="1197" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-300x187.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-1024x638.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-768x479.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-1536x958.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-674x420.jpg 674w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-640x399.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-681x425.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As figuras do MBL: biografias como propaganda da burguesia</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Desde o início, o movimento apostou na construção de figuras públicas transformadas em mercadorias políticas, cada qual encarnando uma função específica dentro da engrenagem ideológica da burguesia. O rosto humano do MBL é, na verdade, a manipulação calculada de biografias individuais transformadas em mitos: o jovem prodígio, o estrategista de bastidor, o outsider debochado, o representante das minorias convertido em reacionário. A burguesia, ao longo da história, sempre precisou de personagens que servissem como simulacros de autenticidade para ocultar os interesses do capital. No caso do MBL, essa lógica se repete com precisão cirúrgica.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Kim Kataguiri: o “gênio liberal” de fachada</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Kim Kataguiri foi vendido como um milagre da juventude política brasileira: um rapaz de ascendência japonesa, oriundo de classe média, que supostamente teria se “indignado” contra a corrupção e encontrado no liberalismo econômico a saída para os males do país. A mídia corporativa apressou-se em transformá-lo em celebridade, convidando-o para entrevistas, documentários e reportagens laudatórias. Kim tornou-se um personagem perfeito para a narrativa de que o Brasil precisava de “novos líderes” para além da polarização PT-PSDB. Mas, sob a capa da juventude e do frescor, esconde-se o velho programa da burguesia: destruição de direitos sociais, alinhamento automático ao imperialismo, criminalização da luta de classes. Sua ascensão meteórica é prova de que não se tratava de talento individual, mas de engenharia social financiada por think tanks, empresários e redes internacionais de ultraliberalismo. Kim encarna o fantasma do empreendedorismo político, figura moldada para atrair jovens despolitizados e convencê-los de que o problema do Brasil são os sindicatos, os movimentos sociais e os pobres que “dependem do Estado”. O mito do “jovem prodígio” é, na verdade, o verniz cultural de uma política de ódio de classe.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Renan Santos: o capitalista do bastidor</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Se Kim é o rosto sorridente para as câmeras, Renan Santos é o cérebro cínico do negócio. Empresário, articulador de redes e financiamentos, Renan operou desde o início como cafetão político: explorando a energia juvenil e transformando-a em mercadoria eleitoral e em influência negociável com a direita tradicional. A função de Renan foi estruturar o MBL como máquina de poder e negócio, articulando parcerias com empresários, garantindo a propaganda massiva nas redes e coordenando as ações de rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua biografia não é a da “indignação”, mas a da gestão empresarial da política, em sintonia com a lógica neoliberal que transforma tudo (até mesmo a rebeldia) em produto. Renan Santos representa a camada da burguesia que prefere atuar nos bastidores, sem se expor diretamente, mas que colhe os frutos do trabalho de massas de jovens manipulados e instrumentalizados. Sua prática comprova que o MBL nunca foi um movimento popular, mas uma empresa política travestida de movimento social.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Arthur do Val (Mamãe Falei): a caricatura do ódio de classe</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Arthur do Val, o famigerado “Mamãe Falei”, representa o pior lado do fascismo sem uniforme: a grosseria convertida em virtude, a truculência erigida em autenticidade. Oriundo do YouTube, Arthur foi fabricado como personagem debochado, aquele que insulta professores, feministas, militantes de esquerda e trabalhadores em manifestações. Seu papel foi o de traduzir em linguagem vulgar e agressiva aquilo que Renan articulava e Kim revestia de suposta racionalidade. Arthur do Val tornou-se um bufão a serviço da burguesia, especializado em criar polêmicas e arrastar a juventude despolitizada para o campo da direita por meio da estética do escárnio. Sua carreira política acabou em escândalo após a divulgação de áudios misóginos durante viagem à Ucrânia, mas esse episódio não é acidente: é a comprovação de sua essência reacionária. Arthur não foi vítima de si mesmo, foi apenas fiel ao que sempre foi: um misógino, fascista e serviçal da ordem capitalista. Sua queda expõe os limites da política do espetáculo, mas também mostra como o MBL sempre soube explorar figuras descartáveis para manter sua máquina funcionando.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158943" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1.jpg" alt="" width="715" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1.jpg 715w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-300x168.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-640x358.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-681x381.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 715px) 100vw, 715px" />Fernando Holiday: a farsa da diversidade reacionária</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Fernando Holiday é, talvez, a peça mais cínica do tabuleiro do MBL. Negro, homossexual, jovem, filho de empregada doméstica, Holiday foi erguido como prova viva de que não existe racismo estrutural no Brasil e de que o liberalismo seria o caminho da “superação individual”. Sua trajetória foi convertida em panfleto vivo contra as lutas antirracistas, contra o movimento negro e contra o feminismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Holiday demonstra a crueldade da ideologia burguesa: transformar a exceção em regra, o indivíduo em justificativa para negar a opressão coletiva. Sua função foi legitimar, com sua presença, um projeto estruturalmente racista, elitista e excludente. Nada mais útil ao fascismo de mercado do que colocar um jovem negro para dizer que cotas raciais são um erro, que o movimento negro é vitimismo e que a polícia genocida está apenas cumprindo seu papel. Fernando Holiday é a expressão encarnada da servidão voluntária, alguém que renega suas próprias origens para servir de escudo ideológico à classe dominante.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Guto Zacarias, Ricardo Almeida e Matheus Faustino: os quadros auxiliares</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Ao lado dessas figuras centrais, o MBL abrigou outros militantes e dirigentes como Guto Zacarias, Ricardo Almeida e Matheus Faustino, que tiveram papéis secundários, mas estratégicos. Eles funcionaram como corpo de sustentação, multiplicando a presença do MBL em diferentes regiões, reforçando a narrativa de pluralidade e garantindo a expansão da máquina midiática. Sua função nunca foi individual, mas coletiva: eram peças intercambiáveis de uma engrenagem maior. Ao contrário de Kim, Renan, Arthur e Holiday, que viraram celebridades, esses quadros operaram como soldados políticos na guerra cultural da direita. A burguesia sabe muito bem: para cada rosto público, é preciso uma massa de quadros invisíveis, dispostos a organizar, difundir e reproduzir a ideologia dominante. O MBL provou que, no capitalismo contemporâneo, biografias são armas políticas. Cada um de seus integrantes foi moldado para representar uma faceta do projeto burguês: o prodígio, o empresário, o bufão, a exceção racial e os quadros auxiliares. Nenhum deles existe como sujeito político autêntico; todos são funções de uma engrenagem maior, cujo objetivo é consolidar o fascismo de mercado no Brasil. A crítica marxista deve deixar claro: não se trata de julgar moralmente os indivíduos, mas de revelar como suas vidas foram instrumentalizadas para legitimar o capital, criminalizar a classe trabalhadora e pavimentar o caminho da extrema-direita. A tarefa histórica não é apenas denunciar essas figuras, mas desmascarar a estrutura de poder que as produziu, porque enquanto houver capitalismo, haverá sempre novos “Kims”, “Renans”, “Arthurs” e “Holidays” prontos para assumir o palco do espetáculo burguês.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Financiamento e conexões internacionais da extrema-direita</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Um dos aspectos centrais para compreender a gênese do Movimento Brasil Livre (MBL) é o seu financiamento e a forma como se insere em uma rede internacional de organizações ultraliberais e de extrema-direita. A versão oficial, que apresenta o grupo como fruto de uma juventude “autônoma” e “espontânea” mobilizada por doações individuais ou vaquinhas virtuais, é parte da própria operação ideológica que visa encobrir seus laços com setores empresariais e redes de poder muito mais amplas. Desde sua fundação, o MBL contou com apoio direto e indireto de empresários do agronegócio, do setor financeiro e de grupos industriais, que viam na sua atuação uma frente útil para desgastar o governo petista e conter qualquer tentativa de reformas sociais mais profundas. Mas o núcleo da engrenagem está nas conexões internacionais. O MBL foi moldado por uma teia continental que remete à Atlas Network, rede de think tanks ultraliberais criada nos Estados Unidos e financiada por magnatas como os irmãos Koch. Essa rede funciona como uma espécie de incubadora de organizações da direita em todo o continente, fornecendo recursos, treinamento, suporte jurídico e, sobretudo, know-how em comunicação digital e marketing político. É desse laboratório que emergiram não apenas o MBL no Brasil, mas também grupos semelhantes na Argentina, Chile, Venezuela, Colômbia e outros países, todos com o mesmo perfil: jovens de classe média alta, discurso liberalizante e antiesquerdista, estética “moderna” e capacidade de ocupar o espaço digital com agressividade.</p>
<p style="text-align: justify;">A extrema-direita latino-americana, ao longo do século XX, sempre contou com o apoio de setores empresariais locais e de redes internacionais. No Chile, por exemplo, durante os anos 1960 e início dos 1970, setores católicos conservadores organizados em torno da Democracia Cristã e depois do próprio Pinochet foram financiados por canais ligados aos EUA, via CIA e fundações “educativas”, como parte da preparação para o golpe de 1973. Na Argentina, organizações civis e paramilitares de ultradireita também receberam recursos e treinamento de instâncias norte-americanas, articulando-se ao empresariado local contra qualquer tentativa de redistribuição. No Brasil, desde a criação do IBAD nos anos 1950 e do IPES nos anos 1960, já se verificava a infiltração direta de recursos empresariais e internacionais na organização da ofensiva conservadora que culminaria no golpe de 1964. A novidade do MBL não está, portanto, na dependência de financiamento externo, mas na forma como essa dependência se traduziu numa estética juvenil e numa comunicação digital afinada com a lógica das redes sociais do século XXI. O movimento funcionava como uma franquia de um projeto maior, cuja matriz está na reorganização global da direita diante da crise estrutural do capitalismo e do esgotamento do progressismo latino-americano. Essa ofensiva, que atravessa a década de 2010, visava aproveitar o desgaste de governos como os de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner e Rafael Correa para promover uma guinada neoliberal e antipopular.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158944" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml.jpg" alt="" width="735" height="1110" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml.jpg 735w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-199x300.jpg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-678x1024.jpg 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-278x420.jpg 278w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-640x967.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-681x1028.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 735px) 100vw, 735px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Assim, desde sua origem, o MBL esteve longe de ser “espontâneo”. Sua existência só se explica ao se compreender a longa tradição de financiamento e articulação internacional da extrema-direita na América Latina. De IBAD e IPES no Brasil aos católicos conservadores chilenos e aos empresários argentinos, sempre houve uma base de classe dominante e um elo externo sustentando a reação. O MBL é apenas a atualização dessa história: um grupo aparentemente jovem e autônomo, mas, na realidade, peça de uma engrenagem continental que busca conter qualquer possibilidade de avanço popular e reorganizar o bloco no poder sob a bandeira do liberalismo de mercado e da repressão às forças sociais insurgentes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Aparato midiático e linguagem juvenil</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A força inicial do MBL não se deu no parlamento, mas nas ruas e nas redes. Seus fundadores souberam explorar as ferramentas digitais (Facebook, Twitter, YouTube) para difundir uma linguagem acessível, repleta de memes, humor debochado e simplificações ideológicas. Essa estética “irreverente” era fundamental para se diferenciar da velha direita, vista como careta, envelhecida e excessivamente institucional. Ao mesmo tempo, o movimento construiu forte presença nas ruas a partir de 2015, organizando manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Tais atos foram estimulados por ampla cobertura midiática (Globo, Veja, Folha, Estadão), que oferecia palco e legitimidade aos jovens liberais. O MBL funcionava como uma ponte entre empresários financiadores, mídia corporativa e massas descontentes, transformando insatisfação difusa em pressão política articulada. O golpe parlamentar de 2016, que resultou no impeachment de Dilma, só pode ser explicado levando em conta o papel do MBL. O movimento foi a vanguarda de mobilização social que deu aparência “popular” a uma articulação burguesa conduzida no Congresso, no Judiciário e no empresariado. O MBL encarnava, no espaço público, o ressentimento das classes médias e a ofensiva do grande capital contra direitos sociais. Sua função histórica, portanto, não foi apenas participar de protestos, mas legitimar a ofensiva neoliberal e preparar o terreno para um projeto ainda mais reacionário que culminaria na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. O MBL ajudou a normalizar o discurso de ódio, a desqualificar a esquerda, a corroer a legitimidade das instituições democráticas e a naturalizar a violência como resposta política.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As Jornadas de Junho de 2013 e a gênese reacionária do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">As Jornadas de Junho de 2013 constituem um marco incontornável na história recente da luta de classes no Brasil. O estopim, aparentemente localizado no aumento das passagens de ônibus, rapidamente transbordou para uma indignação popular difusa contra a precarização da vida urbana, a corrupção estrutural e a repressão policial. Essa irrupção massiva da juventude e dos trabalhadores nas ruas revelou a insatisfação latente diante de um Estado que, em meio ao crescimento econômico do lulismo, jamais rompeu com os mecanismos de exploração e desigualdade. Sob a lente marxista, Junho expressa a contradição entre a promessa de inclusão capitalista e a realidade da dominação de classe: as demandas por mobilidade, saúde e educação pública escancaravam o caráter burguês de um Estado que só se move em consonância com os imperativos da acumulação.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse primeiro momento, a repressão brutal da polícia militar (balas de borracha, prisões arbitrárias, assassinatos), foi documentada e denunciada por uma miríade de mídias ativistas independentes. Coletivos como a Mídia Ninja e centenas de iniciativas de streaming improvisado ganharam projeção ao transmitir em tempo real a barbárie estatal. Essa comunicação popular representava uma fissura no monopólio da grande imprensa, historicamente alinhada à burguesia. No entanto, ao mesmo tempo em que fortaleciam a denúncia, essas mídias não possuíam uma estratégia de classe capaz de organizar a revolta em direção a uma saída revolucionária. Sem um horizonte político claro, o terreno das ruas permaneceu aberto para a infiltração de tendências reacionárias que se apresentavam como “apartidárias” e “sem bandeiras”. A consigna “sem partido”, que no início expressava a recusa justa à burocracia eleitoral, rapidamente foi apropriada por setores de direita como arma de criminalização da esquerda organizada. Essa manipulação ideológica transformou o descontentamento em hostilidade contra movimentos sociais e organizações de trabalhadores, produzindo verdadeiras guerras campais entre blocos progressistas e reacionários dentro das manifestações. O que estava em disputa era a própria direção política da massa revoltada: de um lado, uma juventude popular que apontava para a radicalização das lutas; de outro, grupos articulados que buscavam canalizar a energia das ruas para uma pauta antipolítica, liberalizante e moralista. Essa batalha refletia a lógica marxista da luta de classes travada também no campo ideológico: quando não há direção proletária organizada, a burguesia ocupa o vazio, reorganizando o ressentimento em prol da conservação da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, germina o Movimento Brasil Livre (MBL). Seu surgimento foi uma reação calculada à insurgência popular de 2013. O MBL apropriou-se da linguagem juvenil e da estética digital para mascarar seu projeto burguês, apresentando-se como alternativa “moderna” diante da falência da esquerda institucional. Mais que isso: o movimento encontrou na tática da infiltração uma de suas principais armas. Arthur do Val, posteriormente alçado a celebridade política, desenvolveu técnicas de se infiltrar em manifestações de esquerda com o objetivo explícito de desestabilizar, ridicularizar e criminalizar militantes. Seus vídeos, editados de forma caricata, eram difundidos no YouTube como entretenimento, convertendo a violência política em espetáculo. Sob a aparência de humor debochado, tratava-se de uma prática criminosa: espionagem, difamação e incitação ao ódio contra trabalhadores organizados. Do ponto de vista marxista, esse método revela a função ideológica do MBL: não dialogar, mas destruir, não disputar, mas sabotar a auto-organização popular. A ofensiva digital de figuras como Arthur do Val corresponde ao que Marx e Engels identificavam como função da ideologia dominante: apresentar a dominação de classe como senso comum, invertendo a realidade. Ao expor militantes como caricaturas, o MBL transformava os explorados em culpados de sua própria miséria, legitimando a repressão estatal e naturalizando o neoliberalismo como única saída. Essa lógica é estruturalmente fascista: ao invés de enfrentar os capitalistas, o ódio é direcionado contra sindicatos, feministas, negros, estudantes e qualquer forma de organização coletiva. O fascismo, dizia Reich, é a psicologia de massas da reação. No Brasil, ele se encarnou na figura midiática de jovens que transformaram a política em mercadoria digital.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158949" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1.jpg" alt="" width="903" height="1024" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1.jpg 903w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-265x300.jpg 265w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-768x871.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-370x420.jpg 370w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-640x726.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-681x772.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 903px) 100vw, 903px" />Assim, o MBL foi não apenas produto desse contexto, mas sua antítese reacionária. Onde a classe trabalhadora ensaiava passos de independência, o MBL interveio para reabsorver a energia insurgente em favor da burguesia. Onde as mídias independentes denunciavam a violência policial, o MBL difundia o escárnio e a legitimação da repressão. Onde os movimentos populares buscavam radicalizar as pautas sociais, o MBL pregava a despolitização total, como se a ausência de partido fosse garantia de liberdade. Na prática, era a abdicação da luta de classes em favor do domínio absoluto do capital. Junho abriu a brecha, mas a ausência de organização revolucionária permitiu que o inimigo a ocupasse. A lição é clara: sem direção proletária consciente, toda revolta corre o risco de ser capturada pelo aparelho ideológico da burguesia.</p>
<p style="text-align: justify;">O ano de 2015 marca a primeira grande aparição pública do MBL como força política. Aproveitando o desgaste do governo Dilma Rousseff após as eleições de 2014 e a Operação Lava Jato, o movimento foi um dos principais articuladores dos protestos de março, abril e agosto, que levaram milhões às ruas sob o lema do combate à corrupção e do impeachment.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui já se observa a função histórica do MBL: transformar ressentimento social em mobilização dirigida contra o governo petista. O descontentamento com a economia, a inflação e o desemprego foram canalizados não contra os capitalistas ou as estruturas do Estado, mas contra um partido específico, apresentado como encarnação de toda a corrupção. A esquerda foi demonizada, e a ideia de que o impeachment era “a saída democrática” foi massificada. O MBL fornecia a estética juvenil, os memes e o discurso moralizante que tornava esse processo palatável para amplos setores médios.</p>
<p style="text-align: justify;">A ascensão do MBL só foi possível porque encontrou amplificação midiática sistemática. Jornais, revistas e canais de televisão abriram espaço generoso para seus líderes, que passaram a ser tratados como porta-vozes legítimos da “nova política”. Kim Kataguiri foi entrevistado inúmeras vezes, Holiday recebeu destaque como “jovem negro contra o vitimismo”, e Renan Santos aparecia como articulador de bastidores. Essa relação era simbiótica: enquanto a mídia oferecia visibilidade, o MBL garantia a ocupação das ruas com pautas que interessavam à burguesia. A narrativa de que o impeachment representava uma “revolta popular” só foi possível porque jornais e TVs transmitiam ao vivo as manifestações convocadas pelo movimento, exaltando sua suposta espontaneidade e minimizando seu caráter empresarial e organizado. Dessa forma, o MBL tornou-se peça-chave na engrenagem de legitimação do golpe de 2016. A mídia corporativa não apenas narrava os protestos; ela os produzia junto com o MBL.</p>
<p style="text-align: justify;">O impeachment de Dilma Rousseff foi o marco da consolidação do MBL. O movimento foi um dos principais articuladores das manifestações que criaram o ambiente político necessário para o golpe parlamentar. Sua atuação demonstrou que a burguesia havia encontrado um novo instrumento: uma direita jovem, agressiva, aparentemente “independente” dos velhos partidos, mas totalmente subordinada ao capital. Com o golpe consumado, o MBL cumpriu sua função histórica imediata: garantir as condições sociais para a ascensão de Michel Temer e a aprovação de medidas impopulares como a PEC do Teto de Gastos e a reforma trabalhista. Ao mobilizar as massas contra a “corrupção do PT”, o movimento abriu caminho para um projeto neoliberal ainda mais agressivo, que não teria sobrevivido sem apoio de rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Se nas ruas o MBL já havia demonstrado capacidade de mobilização, foi nas redes sociais que consolidou seu diferencial estratégico. Com páginas que chegavam a milhões de seguidores no Facebook, canais no YouTube e forte presença no Twitter, o movimento tornou-se um dos principais difusores de conteúdo político digital no Brasil. A linguagem era simples, memética, apelando para o humor, a ridicularização do adversário e a simplificação ideológica. Essa estética não era apenas “engraçada”; ela tinha função política clara: desmoralizar a esquerda, criminalizar o pensamento crítico e difundir a ideologia liberal-fascistizante como senso comum.</p>
<p style="text-align: justify;">A internet foi, portanto, o laboratório de subjetivação do MBL. Ali, ele consolidou sua base social e preparou o terreno para disputar corações e mentes de milhões de jovens que não se viam representados pela política tradicional.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158948" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989.jpg" alt="" width="330" height="652" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989.jpg 330w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989-152x300.jpg 152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989-213x420.jpg 213w" sizes="auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A entrada na política institucional</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em 2016, alguns membros do MBL se candidataram a cargos públicos, em especial vereadores e deputados. O caso mais emblemático foi a eleição de Fernando Holiday como vereador em São Paulo pelo DEM, com quase 50 mil votos. Holiday tornou-se símbolo da estratégia: um jovem negro, gay, oriundo da periferia, defendendo pautas ultraliberais e conservadoras. Sua figura foi instrumentalizada como prova de que o MBL era “inclusivo” e “plural”, embora sua política fosse frontalmente contrária aos interesses das classes populares e das minorias. A entrada de quadros do MBL na institucionalidade mostrou que o movimento não pretendia ser apenas uma força de pressão externa. Ele buscava disputar poder diretamente, formando uma nova geração de políticos de direita para consolidar sua agenda.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre 2015 e 2018, o MBL também enfrentou contradições. Parte de sua base defendia um liberalismo mais “puro”, enquanto outra parte se aproximava cada vez mais do conservadorismo autoritário. Essa tensão refletia não apenas divergências ideológicas, mas disputas por recursos e visibilidade. Ainda assim, o denominador comum permanecia: a submissão ao grande capital e o combate intransigente à esquerda. As contradições internas nunca colocaram em risco a função central do MBL: ser um braço político da ofensiva burguesa. O período 2015-2018 foi decisivo para preparar o terreno para Jair Bolsonaro. Embora o MBL e Bolsonaro tenham divergido em alguns momentos, sobretudo após 2019, é inegável que o movimento foi incubadora do bolsonarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A naturalização do discurso de ódio, o moralismo anticorrupção, a criminalização da esquerda, a deslegitimação da política institucional e a defesa de medidas autoritárias foram todos elementos difundidos pelo MBL antes mesmo da candidatura de Bolsonaro ganhar força. O MBL forneceu parte da estética bolsonarista, da sua base social e da sua legitimidade. Entre 2015 e 2018, o MBL se consolidou como ator central da política brasileira. Seu desenvolvimento foi marcado por:</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><strong>Estruturação empresarial e financiamento burguês</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Amplificação midiática sistemática</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Capacidade de mobilização de massas contra a esquerda</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Consolidação como força digital; </strong></li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Inserção institucional no parlamento</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Preparação do terreno para o fascismo bolsonarista</strong>.</li>
</ul>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158951" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson.jpg" alt="" width="400" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-188x300.jpg 188w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-263x420.jpg 263w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Linha teórica e ideologia do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A consolidação do MBL como força política não se explica apenas por sua presença midiática ou pelo apoio empresarial. O movimento possui uma linha teórica e ideológica própria, construída a partir da combinação de três vetores centrais: o liberalismo econômico radical, o conservadorismo moral e o fascismo adaptado ao contexto brasileiro contemporâneo. A análise dessa composição revela a função do MBL na luta de classes e sua relação com a reprodução do capitalismo dependente no Brasil. O discurso oficial do MBL se apresenta como liberal, defendendo a liberdade individual, o livre mercado e a redução do Estado. Inspirado por autores como Friedrich Hayek, Ludwig von Mises e Milton Friedman, o movimento difunde a ideia de que o Estado é um entrave ao desenvolvimento, a corrupção é seu efeito natural e a iniciativa privada é a solução para todos os problemas sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse liberalismo, contudo, é apenas a fachada ideológica de uma prática autoritária. O MBL nunca defendeu verdadeiramente a liberdade em sentido universal, mas apenas a liberdade do capital de explorar sem entraves. Sua concepção de indivíduo é restrita ao consumidor; sua ideia de sociedade é a de um mercado sem limites; e sua noção de democracia é reduzida a procedimentos formais que podem ser suspensos quando o capital exige. Assim, o liberalismo no MBL cumpre a função de revestir políticas violentas com o manto da “liberdade”. Privatizações, cortes de direitos, repressão a greves e perseguição a movimentos sociais são apresentados como expressões da “livre escolha” dos cidadãos, quando na realidade são imposições brutais de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o liberalismo é a face econômica, o conservadorismo moral é a face cultural do MBL. O movimento construiu sua base em torno de pautas como:</p>
<ul>
<li class="li">ataque à educação crítica, sob o lema da “Escola sem Partido”;</li>
<li class="li">combate a políticas de gênero e sexualidade;</li>
<li class="li">defesa da família tradicional como núcleo moral da sociedade;</li>
<li class="li">demonização do feminismo, dos direitos LGBT e das lutas antirracistas.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Esse conservadorismo cumpre função clara: desviar a insatisfação social das contradições de classe para “inimigos culturais”. O professor, o artista, o militante feminista ou antirracista são apresentados como ameaças à ordem social, enquanto os verdadeiros inimigos (banqueiros, empresários, latifundiários) permanecem intocados. A guerra cultural é o terreno onde o MBL mais se destacou. Utilizando memes, vídeos curtos e uma linguagem agressiva, o movimento transformou a disputa ideológica em espetáculo midiático. O riso, a zombaria e o deboche passaram a ser armas políticas. A desqualificação substituiu o argumento. O resultado é uma política reduzida a slogans e afetos primários, que reforçam o ódio e a intolerância.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>MBL: Liberalismo de Fachada, Fascismo de Essência</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre é, em sua essência, a tradução contemporânea de um fenômeno que marcou o século XX: o fascismo. Evidentemente, não se trata da repetição literal da estética de camisas negras ou marchas paramilitares; o MBL é expressão de um fascismo “sem uniforme”, adaptado às condições da sociedade de massas, às redes digitais e à lógica do neoliberalismo periférico. Para compreendê-lo, é necessário retomar as categorias que definem o fascismo como fenômeno histórico e político.</p>
<p style="text-align: justify;">Leandro Konder já afirmava que o fascismo é um fenômeno tipicamente de direita. Sua força não está em criar ideias próprias, mas em saquear o arsenal marxista e distorcê-lo: luta de classes transformada em tragédia eterna a ser disciplinada por uma elite; ideologia esvaziada de seu caráter crítico para virar propaganda; nação reinterpretada como mito orgânico acima das contradições sociais. Mussolini, ex-dirigente socialista, foi o protótipo dessa apropriação perversa, vendendo à burguesia italiana uma caricatura do marxismo que justificava a repressão. O MBL age na mesma chave: repete termos como “liberdade”, “revolução”, “novo movimento social”, mas esvaziando-os de conteúdo emancipatório para reorientá-los em favor da ordem capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158950" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310.jpg" alt="" width="1920" height="1804" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-300x282.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-1024x962.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-768x722.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-1536x1443.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-447x420.jpg 447w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-640x601.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-681x640.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Wilhelm Reich, em sua teoria da economia libidinal, mostra que o fascismo não se explica apenas pela política de classes, mas pela gestão repressiva das pulsões. O fascismo mobiliza a energia das massas não pela promessa de emancipação, mas pelo reforço da autoridade e da sexualidade reprimida. Vladimir Safatle, retomando Reich, argumenta que o fascismo é “a articulação entre a suspensão da lei e o culto da lei”, funcionando como regressão paranoica de uma sociedade inteira. É o culto da violência, a exaltação da polícia, a defesa da repressão, o ódio ao inimigo interno. O MBL cumpre esse papel: dissemina discursos de ódio contra professores, sindicatos, movimentos sociais e minorias, ao mesmo tempo em que incensa a polícia e naturaliza a brutalidade estatal.</p>
<p style="text-align: justify;">Deleuze e Guattari, no <em>Anti-Édipo</em>, lembram que “as massas desejaram o fascismo”. A servidão voluntária é elemento central: o autoritarismo não se impõe apenas de cima, mas encontra adesão social. É isso que explica a penetração do MBL entre a juventude: muitos jovens aderem ao discurso de “rebeldia liberal”, acreditando que estão lutando contra o sistema quando, na prática, reforçam o domínio do capital. O desejo pelo autoritarismo, pela ordem, pelo “fim dos privilégios” (que nunca são os da burguesia) é manipulado pelo movimento como combustível político. Adorno e Horkheimer, na <em>Dialética do Esclarecimento</em>, definem o fascismo como patologia social, paranoia organizada pela indústria cultural e pela política de massas. Essa patologia está presente no MBL: a simplificação do discurso, a criação de inimigos fictícios (“comunismo”, “ideologia de gênero”), a mobilização constante de afetos de medo e ódio. Tudo isso garante coesão a um projeto que, na realidade, é funcional ao capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, o fascismo deve ser entendido como contrarrevolução preventiva. Quando o capital entra em crise, e as massas ensaiam processos de contestação, surge a necessidade de reorganizar o consenso pela força. O MBL foi um instrumento dessa contrarrevolução no Brasil pós-2013: capturou o mal-estar popular, canalizou-o contra a esquerda e pavimentou o caminho para o golpe de 2016 e a ascensão de Bolsonaro. Não é exagero dizer que o MBL é um braço auxiliar do bolsonarismo, ainda que tente hoje se diferenciar dele para sobreviver.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, chegamos ao ponto central: o MBL representa um fascismo de mercado. Ele combina o ultraliberalismo econômico (privatizações, ataque a direitos, Estado mínimo) com a defesa intransigente da repressão estatal. É a junção entre Hayek e Mussolini, Chicago e Integralismo, Paulo Guedes e o porrete da polícia. Seu projeto é claro: um país onde a juventude seja mobilizada para odiar o inimigo interno, aplaudir a violência, acreditar que a exploração é liberdade e que a destruição dos direitos sociais é modernidade. Portanto, o MBL é parte da engrenagem fascista contemporânea, adaptado às novas formas de comunicação e subjetividade, mas cumprindo a mesma função histórica: salvar o capital em crise pela repressão, pelo ódio e pela destruição de qualquer possibilidade de emancipação. O MBL é peça fundamental do aparelho de hegemonia de classe, atualizado para a era digital, cujo liberalismo é pura fachada. A essência é fascista: culto à ordem, criminalização da esquerda, mobilização do ressentimento social e ataque sistemático à crítica intelectual.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos traços centrais do fascismo é a exaltação da ordem social e a naturalização da violência estatal como instrumento de preservação dessa ordem. O MBL, desde seu surgimento, legitimou a repressão policial contra greves, ocupações estudantis e manifestações populares. Em seus discursos e práticas midiáticas, os militantes do movimento apresentam a polícia como garantidora da “liberdade”, invertendo a realidade concreta em que essa mesma polícia é a guardiã dos interesses burgueses, responsável pelo genocídio da juventude negra e periférica. Essa legitimação da violência corresponde ao núcleo do projeto fascista, que busca transformar a repressão em consenso, convencendo setores médios de que a eliminação do “inimigo interno” é condição para a paz social. Outra marca estrutural do fascismo é a construção de um inimigo absoluto, desumanizado e responsabilizado por todos os males sociais. O MBL opera nesse registro ao equiparar o petismo ao comunismo e tratar qualquer militante de esquerda como ameaça à nação. A retórica contra o “marxismo cultural” e contra a “doutrinação” nas escolas é instrumento para consolidar a imagem do inimigo interno. Essa lógica é profundamente fascista porque não admite mediação: a esquerda é apresentada não como adversária política legítima, mas como inimiga a ser destruída. Assim, cria-se a base ideológica para a violência física, a perseguição judicial e a repressão aberta contra trabalhadores organizados.</p>
<p style="text-align: justify;">Marx já apontava que a pequena-burguesia, em momentos de crise, oscila entre o proletariado e a burguesia. É nesse setor social que o fascismo encontra sua principal base. O MBL mobiliza exatamente esse ressentimento: jovens de classe média precarizados, trabalhadores informais que acreditam no “empreendedorismo”, segmentos médios que veem nos pobres e nos movimentos sociais a causa de sua instabilidade. O movimento transforma a frustração em ódio, convertendo contradições estruturais do capitalismo em ressentimento dirigido contra inimigos fictícios. Como dizia Adorno, a personalidade autoritária encontra satisfação em submeter-se à ordem e, ao mesmo tempo, agredir os mais fracos. O MBL organiza politicamente esse impulso. A apropriação da estética juvenil é outro elemento clássico da estratégia fascista. Nos anos 1920 e 1930, o fascismo europeu soube mobilizar símbolos de vitalidade e modernidade para atrair a juventude. O MBL cumpre a mesma função no século XXI, usando memes, linguagem digital, humor debochado e estética pop. Essa aparência de novidade serve para canalizar a energia juvenil (que poderia se dirigir à transformação radical) para a defesa da ordem do capital. É a transmutação da rebeldia em conformismo ativo: o jovem que poderia lutar contra a exploração é transformado em defensor da exploração, sob o mito da meritocracia e do empreendedorismo. Essa inversão é típica do fascismo, que se alimenta da força vital das massas para submetê-las à lógica da dominação.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158953" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo.jpg" alt="" width="332" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo.jpg 332w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo-199x300.jpg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo-279x420.jpg 279w" sizes="auto, (max-width: 332px) 100vw, 332px" />Por fim, o anti-intelectualismo é elemento constitutivo do fascismo. O MBL, desde seu início, atacou universidades, professores, cientistas e artistas, acusando-os de “doutrinadores” e “parasitas”. Essa recusa da crítica é funcional: ao deslegitimar o pensamento crítico, o movimento busca cortar pela raiz qualquer possibilidade de contestação consciente à ordem burguesa. O ódio à crítica é parte da necessidade estrutural de um projeto que só sobrevive se transformar a ignorância em virtude. A hostilidade contra a universidade pública e contra a produção cultural crítica demonstra o caráter fascista do MBL, que deseja um povo dócil, desinformado e incapaz de formular alternativas. O MBL, portanto, é mais que um grupo liberal: é a expressão contemporânea de um fascismo de mercado, adaptado às condições do capitalismo dependente brasileiro. Liberal na economia, fascista na política. Essa combinação reflete a necessidade da burguesia de intensificar a exploração em tempos de crise, eliminando direitos, privatizando serviços e precarizando o trabalho, ao mesmo tempo em que reprime com violência qualquer forma de resistência popular. Trata-se de um fascismo sem uniforme, mas com a mesma essência: mobilização de massas contra o proletariado, culto à ordem, ódio à crítica, repressão como consenso. Do ponto de vista histórico, a ascensão do MBL responde à crise do lulismo, ao desgaste do progressismo e ao vazio deixado pela ausência de uma direção revolucionária. Quando as Jornadas de Junho de 2013 expuseram a insatisfação popular, a burguesia tratou de reorganizar suas forças. O MBL foi a resposta: transformar a rebeldia em conformismo, o descontentamento em ódio regressivo, a juventude em tropa de choque da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A consequência inevitável dessa ofensiva é a intensificação das lutas concretas na sociedade. À medida que o MBL e outros aparelhos fascistizantes avançam, os setores populares são pressionados à autodefesa e à radicalização. O conflito entre interesses antagônicos (burguesia e proletariado) tende a se acirrar. O MBL cumpre a função de ponta de lança ideológica e prática da repressão, criando o ambiente para que a violência de Estado se legitime e para que o ódio contra os trabalhadores se normalize. Mas a luta de classes não se apaga. O avanço fascista provoca, inevitavelmente, a reação popular. Greves, ocupações, protestos e lutas comunitárias emergem como resposta à ofensiva. A sociedade se cinde cada vez mais entre os que defendem os interesses dos dominantes, travestidos de liberalismo, mas sustentados pelo fascismo, e os que lutam por sobrevivência, dignidade e emancipação. Essa cisão reflete a impossibilidade de conciliação entre capital e trabalho em tempos de crise. O fascismo de mercado do MBL, portanto, não é apenas ameaça ideológica. Ele é prenúncio de confrontos concretos, de choques nas ruas, de radicalização da luta política. Cabe aos trabalhadores e às organizações revolucionárias compreender que a disputa não é apenas eleitoral ou institucional, mas vital: trata-se de defender a própria existência contra um projeto que naturaliza a morte, a exploração e a repressão.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O MBL no presente e a tarefa revolucionária</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Após a ascensão meteórica que culminou no golpe de 2016 e na pavimentação do caminho para Bolsonaro, o MBL passou por mudanças profundas. Seu desgaste político foi visível: crises internas, disputas entre figuras, perda de parte da base mais radicalizada. Ainda assim, o movimento não desapareceu. Pelo contrário: manteve-se como força midiática, explorando as redes sociais, adaptando-se ao jogo parlamentar e reposicionando-se no tabuleiro da direita. Hoje, o MBL busca se reciclar como uma direita jovem, “moderna” e supostamente democrática, uma operação de maquiagem que não apaga sua gênese fascista.</p>
<p style="text-align: justify;">Suas candidaturas continuam a ocupar espaço institucional, muitas vezes em aliança com setores do centro liberal e do progressismo domesticado. Nas câmaras municipais, assembleias estaduais e no Congresso, suas figuras seguem articulando projetos de ataque aos direitos trabalhistas, às universidades, aos movimentos sociais. As redes de apoio empresarial e midiático, ainda que menos explícitas, permanecem, garantindo fôlego para a sobrevivência política do grupo. O MBL soube se ajustar: se antes vendia-se como vanguarda do antipetismo, agora tenta aparecer como guardião da democracia contra os “excessos” do bolsonarismo, sem jamais romper com o projeto de fundo que ajudou a consolidar. Esse reposicionamento é perigoso. Quando até setores progressistas tratam o MBL como “interlocutor legítimo”, seja em debates televisivos, seja em mesas de negociação, contribuem para normalizar um agrupamento que nasceu do golpismo e do fascismo de mercado. A normalização é um dos mecanismos mais eficazes do fascismo: ele se traveste de legalidade, de pluralidade, de voz democrática, enquanto avança em sua tarefa histórica de aniquilar a organização popular.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda institucional, com seu antifascismo domesticado, reforça esse processo. Ao recusar a denúncia radical, prefere o jogo parlamentar, o diálogo “civilizado” com os algozes, acreditando que se pode conter a extrema-direita com boa retórica e alianças momentâneas. É a mesma lógica que, no passado, entregou a classe trabalhadora desarmada diante do avanço reacionário. Esse limite precisa ser evidenciado: não há pacto possível com quem nasce do fascismo e continua a operar como tropa de choque da burguesia. O enfrentamento ao MBL exige uma estratégia distinta: crítica sistemática, denúncia cotidiana e construção de organização popular. A batalha não é apenas parlamentar, mas cultural, comunicacional e formativa. A hegemonia do MBL foi construída no terreno da juventude e das redes; é ali que também precisamos intervir, não com o mesmo espetáculo vazio, mas com formação política, cultura crítica, cinema, música, literatura, debate público radical. As trincheiras da cultura e da comunicação são fundamentais para disputar consciências e romper com a manipulação liberal-fascista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158954" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd.jpg" alt="" width="222" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd.jpg 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd-167x300.jpg 167w" sizes="auto, (max-width: 222px) 100vw, 222px" />A tarefa revolucionária que se coloca é clara: combater o MBL é combater o fascismo em sua versão neoliberal. Se o MBL sobrevive mesmo após o desgaste do bolsonarismo, é porque cumpre função estrutural: preparar a juventude para o ódio de classe, treinar quadros políticos submissos à ordem e apresentar o capitalismo como destino inevitável. O combate ao MBL, portanto, é inseparável da luta contra o fascismo e contra o capitalismo. Denunciar, enfrentar e derrotar esse movimento não é apenas tarefa de resistência, mas condição para a emancipação. A história mostrou, da Comuna de Paris ao antifascismo do século XX, que não há conciliação possível: ou se constrói um poder popular capaz de destruir os aparelhos da burguesia, ou estaremos sempre à mercê das novas roupagens da mesma barbárie.</p>
<p><em>As imagens que ilustram este artigo são reproduções de obras de  José Leonilson.</em></p>
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		<title>Valor, comércio e apostas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2026 20:19:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[O dinheiro vale hoje, ou não vale nada. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Primo Jonas</h3>
<p>&nbsp;</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As mentiras do atleta</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Hic Rhodus, hic salta!</em>, diz um espectador ao atleta da fábula ao terminar de escutar a sua história. O atleta, de pouca monta em sua terra natal, havia viajado à ilha de Rodas e lá, segundo sua narrativa, realizou um salto magnífico que não fora superado por nenhum ganhador dos jogos olímpicos. Ele então convidou o público a um dia acompanhá-lo a Rodas para que pudessem ver sua proeza ao vivo, e foi então que um espertinho soltou a famosa frase que Marx retomou para falar sobre a transformação do dinheiro em capital: a transformação da lagarta em mariposa (isto é, a transformação do possuidor de dinheiro em capitalista) deve ocorrer na esfera da circulação e <em>não</em> deve ocorrer nela. Tais são as condições do problema. <em>Hic Rhodus</em>…</p>
<p style="text-align: justify;">O recompilador das fábulas chamadas “de Esopo”, daquelas que chegaram a nós, fecha a breve narrativa com a seguinte moral: quando não se pode provar uma coisa com feitos, tudo o que é falado sobra. Se não pode ser demonstrado, o valor do relato é nulo.</p>
<p style="text-align: justify;">A escolha particular de Marx para fechar um capítulo do seu livro “O capital” onde versa sobre “as contradições de sua fórmula geral” da produção capitalista (D-M-D&#8217;) até hoje chama muito a atenção, para além dos aspectos curiosos a respeito de suas citações e referências clássicas, e nos leva diretamente a um dos debates recorrentes entre marxistas: a natureza do valor e sua relação com o dinheiro. Se bem é extensa a literatura sobre a história da teoria do valor-trabalho, infelizmente o prestígio político da figura de Marx criou, há tempos, o vício de remeter-se à autoridade inclusive para dizer coisas contrárias ao texto original.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158894 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/05.jpg" alt="" width="350" height="695" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/05.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/05-151x300.jpg 151w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" />Vamos repor de maneira esquemática e breve a diferença entre Ricardo e Marx: para o primeiro autor, o valor das mercadorias é criado a partir do tempo de trabalho realizado sobre elas no processo que as produz. A outra grande corrente que foi desenvolvida de maneira paralela, e concorrente, é a teoria subjetiva do valor, onde o tempo de trabalho não importa muito, o que importa é a escassez de um bem e a valoração subjetiva dos indivíduos. Pois bem, Marx toma de Ricardo a ideia do tempo de trabalho, mas extrapola para uma esfera da produção social e já não de produtores independentes: o tempo de trabalho que gera valor em uma mercadoria não é o tempo do cronômetro e do produtor isolado, mas sim <em>o tempo socialmente necessário para produzir tal mercadoria</em>. Partimos já de um sistema capitalista dado, onde diferentes produtores independentes realizam seus trabalhos e criam mercadorias que concorrem entre si no mercado. Se eu gasto 2 dias para fazer uma cadeira enquanto os marceneiros de minha cidade fazem uma mesma cadeira em apenas 1 dia, não estou criando uma cadeira com duas vezes mais valor que as demais, estou gastando o dobro de tempo para criar o mesmo valor que os demais fabricantes realizam em 1 dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Chego então ao mercado e digo “estive em Rodas e fiz uma cadeira com o equivalente a 2 dias de valor-trabalho. Se quiserem, podem vir comigo e comprovar que esta cadeira tem esse valor”, e um concorrente meu, observando meu discurso diz “<em>Hic Rhodus!</em> Eu fiz a mesma cadeira com apenas 1 dia de valor-trabalho”. Os 2 dias de valor-trabalho de minha cadeira se desmancham no ar. Aquilo que foi gerado em potência no processo de produção não se confirmou na circulação, isto é, na etapa de compra e venda das mercadorias. A proeza do salto não se realizou, ficamos apenas com a promessa, a história de algo que ocorreu em outro lugar.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, uma leitura muito comum entre marxistas, que poderíamos classificar como positivista, entende que o valor é uma qualidade imanente das mercadorias uma vez que elas recebem a intervenção do trabalhador no processo de produção. Como se pudéssemos tirar fotos dos diferentes estágios, a mercadoria vai recebendo “quantidades de valor” durante o processo e chega ao mercado com essa qualidade imanente, que finalmente será <em>realizada </em>ao ser vendida, segundo a tradição terminológica das traduções ao português e ao espanhol. Oras, acreditar que a mercadoria chega ao mercado com uma qualidade imanente correspondente ao seu valor é como acreditar na história do atleta grego. O fato dele não conseguir reproduzir diante de nossos olhos a sua proeza não nos indica apenas que ele piorou suas capacidades atléticas, como se houvesse perdido músculos desde então. Indica que o salto original foi uma mentira, apenas palavras ao vento. Quanto ao valor, o processo produtivo que trouxe as mercadorias ao mercado e que não foram vendidas ao preço esperado também é comparável às palavras ao vento, uma mentira que se descobre a posteriori. Produziu-se para uma demanda que não passava de ilusão.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma economia comercial</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">No debate marxista o foco está posto sobre o fundamento da mais-valia. Para toda uma parte da teoria econômica tradicional o lucro econômico dos empresários vem do fato de venderem as mercadorias por mais dinheiro do que o desembolsado como custos para produzi-las. Marx se opõe a esta interpretação ao indicar que o processo de valoração do capital ocorre <em>e também não ocorre</em> na esfera da circulação, na compra e venda. E quando diz que não ocorre na circulação aponta que no processo de produção há um fator crucial: a exploração do trabalho. Isto é, ao trabalhador, que é uma parte dos custos de produção, não se paga em salário o valor que ele está somando às matérias-primas com seu trabalho senão que lhe é pago apenas o valor necessário para reproduzir sua força de trabalho. Se formula a questão desta forma: o empresário não compra <em>o trabalho</em> despendido pelo trabalhador, ele compra a <em>força de trabalho</em> do trabalhador, que é posta a sua disposição por um período dado (a jornada de trabalho). Em termos matemáticos: o total de valor que um trabalhador consegue imprimir às mercadorias é maior do que aquilo que o trabalhador absorve consumindo o valor dos bens que seu salário lhe permite comprar. Valor entregue ao trabalhar &gt; Valor absorvido na reprodução da força de trabalho. Quanto maior esta diferença, maior é a taxa de exploração do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Se nosso atleta se limitasse a contar suas proezas em outras terras sem ter que demonstrá-las poderíamos dizer, com muitos marxistas, que a produção da mais-valia ocorre na esfera da produção. É um enfoque que ganhou muita força nos partidos obreiristas que buscavam catequizar os operários industriais e mostrar que sua atividade laboral era o fundamento da sociedade capitalista. O valor ganha assim uma natureza imanente, palpável, o que também é excelente para vulgarizar uma compreensão dita “materialista” da sociedade e da história. E assim como algumas feministas reclamaram de forma estranha o conceito de “valor” para os trabalhos domésticos, também alguns setores marxistas propuseram o desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo como se o valor fosse algo que o operário cria com suas mãos, e do qual deveria estar orgulhoso.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158892" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/03.jpg" alt="" width="450" height="358" /></p>
<p style="text-align: justify;">A premissa que estes marxistas ignoram é que o capitalismo é essencialmente uma economia comercial: o critério último que define, ainda, os fluxos de valor são as operações comerciais. É possível que cheguemos a um estágio deste modo de produção onde a esfera da circulação deixe de ser o critério último, mas ainda não estamos lá. Existe, certamente, uma tendência a autonomizar o processo de produção de suas amarras comerciais. Os autores que analisam a classe gestorial, por exemplo, nos mostram que existe uma base social e técnica que empurra nesta direção, a de um capitalismo dominado pelos dirigentes dos processos produtivos, indiferentes às dinâmicas do mercado. A exclusão do aspecto comercial do capitalismo também levou muitos marxistas a ignorar por completo as questões monetárias da economia, mantendo-se sempre próximos ao pensamento clássico que concebia o dinheiro como um facilitador neutro das trocas, um véu que se amolda passivamente aos contornos e relevos da economia real.</p>
<p style="text-align: justify;">Suzanne de Brunhoff escreveu sobre marxismo e política monetária a princípios dos anos 70, quando os Estados Unidos abandonavam o padrão ouro gerando incertezas sobre o futuro do dinheiro mundial (<em>A política monetária</em>, 1973). Ela começa seu ensaio reconhecendo a “desmaterialização” do dinheiro e que o dinheiro de crédito “permite a circulação das mercadorias”. A contrapartida dessa condição habilitante do crédito é o necessário acúmulo incessante de dívida. No capitalismo toda moeda nacional está em relação direta com o mercado mundial e com as demais moedas: o mercado mundial supõe um consenso que valide e estabilize as relações comerciais, sem o qual prevalecem os protecionismos (nacionais ou continentais) e a guerra. Por muito tempo o ouro foi uma peça central desse consenso, o seu valor e sua materialidade permitiram a estabilização de circuitos de circulação de mercadorias, forjando o mercado mundial que já Marx descrevia em sua época. “A moeda como equivalente geral, estando em relação com um aparelho de Estado, é incompatível com o nacionalismo e se relaciona necessariamente com a circulação mundial de mercadorias e de capitais”, afirma Suzanne.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“A moeda atua como uma obrigação inerente a toda economia comercial, em qualquer modo de produção vigente.(…) Para que o uso da moeda possa produzir efeitos favoráveis aos capitalistas &#8216;produtivos&#8217;, eles também devem se submeter a um mínimo de obrigações que garanta o funcionamento e a reprodução do equivalente geral”. Brunhoff desenvolve esta ideia de “reprodução do equivalente geral” na senda dos consensos e das obrigações que operam no mercado mundial, sem os quais o dinheiro deixa de funcionar como tal. Um exemplo de situação onde a reprodução do equivalente geral se vê ameaçada são os episódios de hiperinflação: as obrigações contraídas rapidamente exacerbam para um lado o benefício dos devedores e por outro o prejuízo para os prestamistas, a imprevisibilidade do valor futuro da moeda leva os agentes a guardar valor em outras divisas ou em bens duráveis. Os autores da economia clássica, como dissemos, sustentavam uma visão do dinheiro como simples facilitador da produção econômica: ele não possui, e não deve possuir, a capacidade de afetar a economia por uma dinâmica própria, deve apenas ajustar-se à economia produtiva. Daquela época eram as ideias de um dinheiro que fosse o “padrão invariável de valores”, um dinheiro universal sem inflação, estável, transparente no passado e no futuro. Essas ideias, nos diz a autora, são ensejos dos dirigentes da produção capitalista que se deparam, para prejuízo de seus poderes, com as determinações do aspecto comercial do modo de produção capitalista. Por ser uma economia comercial, o dinheiro deve cumprir outro tipo de função, incompatível com um tal “padrão invariável”. </em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A lei e o nosso lado subjetivo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O dinheiro no capitalismo precisa suportar a correção <em>ex-post </em>de um valor e portanto absorver uma alteração de seu valor no tempo. Essa característica atual do dinheiro é tanto mais importante quando a troca de informação e as alterações nos processos produtivos e das condições comerciais aumentam em frequências cada vez mais impressionantes.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158891 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/02.jpg" alt="" width="310" height="616" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/02.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/02-151x300.jpg 151w" sizes="auto, (max-width: 310px) 100vw, 310px" />A lei do valor, segundo Marx, é aquela que confere às mercadorias um valor pelo tempo <em>socialmente necessário</em> para a elaboração dessa mercadoria. Quanto mais avançadas as forças produtivas menor o tempo <em>socialmente necessário</em> para produzi-las. A consequência histórica desse avanço das forças produtivas é a transformação das formas do trabalho: os gestos passam a ser cronometrados, os tempos são fragmentados, a inteligência é fatiada. O trabalho realizado com as técnicas de ontem vai perdendo valor (de maneira contínua, mas também em saltos, os chamados ciclos da mais-valia relativa). Esse aumento da produtividade pavimentou, nos limites da lei do valor, o desenvolvimento capitalista e as novas formas de trabalho que geração atrás de geração vão sendo impostas aos proletários. A lei do valor, que direciona a produção capitalista no sentido das técnicas de maior produtividade e dessa maneira transforma as relações sociais, também se aplica no mercado mundial por meio das taxas de câmbio. Ao desvalorizar a moeda intencionalmente, um governo consegue pressionar para baixo o valor monetário do <em>tempo socialmente necessário</em> daquilo que é produzido em seu país, tendo como referência uma moeda de uso internacional como o dolar americano. Esta é outra função do dinheiro que exige que ele não seja apenas um facilitar neutro da economia produtiva: ele funciona como ferramenta de classes dominantes para obter vantagens comerciais no mercado mundial, sempre e quando essas classes têm êxito no controle da dinâmica monetária, o que não sempre ocorre.</p>
<p style="text-align: justify;">O surgimento de um fenômeno como o Bitcoin e a digitalização do dinheiro coloca outros problemas ainda quanto a como os trabalhadores entendem o dinheiro: os aparelhos de telecomunicações pessoais, os telefones celulares, se tornaram sorvedouros de dinheiro, um lugar que vem canalizando quantidades cada vez maiores do salário global. O prestígio das criptomoedas, hoje bem recebidas em Wall Street, e a massividade das apostas on-line (do futebol aos eventos históricos contemporâneos como guerras e eleições) nos revelam algo sobre a situação atual de uma importante função do dinheiro, a reserva de valor. Está em dúvida a estabilidade do valor ou estabilidade do futuro? Seja como for, a ideia de reserva, de um valor quieto sem destino certo, parece estar fadada a desaparecer. O dinheiro vale hoje, ou não vale nada.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, podemos comparar usos “irracionais” do dinheiro enquanto ferramenta econômica individual, como a doação do dízimo a uma igreja, uma contribuição sindical, a mensalidade de algum canal de notícias comunitário, ou a aposta compulsiva. Todas formas com que um trabalhador ou trabalhadora se desfaz de uma parte de seu salário, diminuindo assim o valor daquilo que consumirá para reproduzir sua força de trabalho. Essas modalidades de uso “irracional” podem ser, e o são, estimuladas por meio do marketing digital, sem o qual uma empresa hoje não prospera. Assim, podemos esperar que a reprodução do equivalente geral não se limite à acumulação de uma série de moedas e taxas de câmbio, que ela também entranhe novas formas psicológicas e sociais do uso do dinheiro a nível planetário, induzidas pelos próprios mecanismos de emissão e distribuição dos equivalentes gerais usados para remunerar a força de trabalho.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-158895 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/6.jpg 400w" sizes="auto, (max-width: 70px) 100vw, 70px" /><em>Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Hiroshi Sugimoto</em>.</p>
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