Por Joshua Clover
PARTE 3: REVOLTA LINHA
CAPÍTULO 7
A Longa Crise
A revolta e a crise chegam juntas, cada uma anunciando a outra. A nova era de revoltas surge não apenas com a intensificação das rebeliões urbanas e suburbanas, mas também com o eclipse dos movimentos operários, as linhas de tendência das revoltas e greves primeiro se cruzando e depois divergindo, em sincronia com o auge e o declínio do “longo século XX” da hegemonia americana. O que a crise tem a ver com as revoltas, além dessa coincidência e de uma sensação ansiosa e difusa de que as coisas estão desmoronando?
A profunda relação entre revoltas e crises é o tema do restante deste livro, principalmente por causa de nosso argumento central: a crise sinaliza uma mudança do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e as revoltas devem ser entendidas, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a luta pela fixação de preços e a rebelião do excedente são formas distintas, embora relacionadas. Nos capítulos anteriores, isso foi aventado de forma fragmentada e agora merece um desdobramento sistemático. Isso é particularmente necessário, dado que a crise aparece na maioria das vezes como um evento pontual, mesmo que expresse um processo subjacente e contínuo no qual o capital encontra seus limites internos e luta violentamente para superá-los. A crise é o ponto de exclamação de uma profunda reorganização social. As revoltas expressam essa organização social alterada, dirigem-se a ela e procuram aboli-la e, assim, a si próprias.
A Longa Recessão, para usar a linguagem de Brenner, é semelhante a declínios anteriores. Este livro argumenta, no entanto, que as últimas quatro décadas podem ser entendidas de forma um pouco diferente, como uma Longa Crise. O período atual distingue-se de passagens semelhantes em ciclos anteriores na medida em que as recuperações do tipo visto anteriormente permanecem invisíveis do nosso ponto de vista. Historicamente, o capital resolveu sua contradição em desenvolvimento realocando-se para outro lugar, buscando uma circunstância em que a produção ainda não tivesse se prejudicado e o processo de acumulação pudesse recomeçar em uma base nova e ampliada. Isso tem o efeito de restabilizar o sistema mundial capitalista volatilizado pela crise secular. Não está claro se isso aconteceu ou está em andamento nos anos desde a recessão econômica global do final dos anos 1960 e início dos anos 1970. As tentativas de uma nova hegemonia pelas economias do Leste Asiático e da zona do euro fracassaram no caminho; as “economias emergentes” parecem já estar muito avançadas em sua produtividade para impulsionar a acumulação em escala global, internalizando massas de nova mão de obra na indústria ou na categoria mais ampla da manufatura [1]. O mal-estar planetário persiste, e com ele a volatilidade.
Isso não significa que as realocações e restaurações da acumulação de capital sejam impossíveis. Só por sua conta e risco se faz afirmações contundentes sobre um período histórico enquanto ainda se vive nele. Portanto, essas observações devem ser um tanto provisórias, uma tentativa de desenvolver um relato razoavelmente unificado da época. Há, pelo menos, algum consenso sobre por onde começar.
“E quanto a 1973-1974, então?”, questionou Fernand Braudel, grande historiador da longue durée. O ano de 1973 vê o primeiro de uma série de choques do petróleo, a retirada formal dos EUA de sua aventura no Sudeste Asiático e o colapso final do sistema monetário de Bretton Woods, preparando o terreno para o aumento dos desequilíbrios comerciais e da conta corrente; concomitantemente, há uma desaceleração global dos mercados. Este é apenas o começo do história. “Trata-se de uma crise conjuntural de curto prazo, como a maioria dos economistas parecem pensar assim? Ou tivemos o privilégio raro e nada invejável de ver com nossos próprios olhos o início da virada do século?” [2]
As perguntas são retóricas. Braudel está avaliando os “ciclos seculares”, os períodos econômicos mais longos — o que Arrighi esclareceria como ciclos de acumulação liderados por um Estado capaz de impulsionar a expansão material de uma economia mundial, sobre a qual a nação líder alcança hegemonia na medida em que seus ganhos fazem parte dos lucros sistêmicos (e na medida em que é capaz de garantir estabilidade ao sistema interestadual). Ambos os escritores remontam aos impérios comerciais protocapitalistas para uma consideração de quatro ciclos cada vez maiores e mais rápidos, mas com padrões semelhantes. Para Braudel, um ciclo começa quando outro termina, à maneira dos reinados monárquicos. Na versão revisada de Arrighi, eles se sobrepõem, com uma hegemonia entrando em sua fase crepuscular de financeirização, descendo para a escuridão com crédito prolongado, mesmo enquanto financia a aceleração de uma hegemonia emergente em direção à decolagem industrial.
Inevitavelmente, “1973” é uma metonímia para mudanças demasiado amplas para serem contidas num único ano. No entanto, esta datação do “ponto em que a tendência secular começa a entrar em declínio, ou seja, o momento da crise” tornou-se um assunto de amplo consenso entre historiadores e teóricos da longue durée, apesar de diferenças relativamente pequenas [3]. Já encontramos o fato mais dramático, da perspectiva da acumulação e da hegemonia: o colapso secular da lucratividade e do crescimento, liderado pelo declínio da indústria manufatureira dos EUA, de tal forma que os melhores anos da recessão são piores do que os melhores anos do boom (com apenas uma ou duas pequenas exceções). Podemos, portanto, datar a ascensão cíclica das finanças a partir desse momento, embora não porque as finanças tenham “expulsado” o capital industrial — um modelo conceitual que abre caminho para a ideia catastrófica de capitalismo bom e ruim, ou capitalismo saudável e doentio. O capital é um espaço unitário de fluxos que buscam oportunidades de investimento que retornem a taxa média de lucro. Quando essa exigência não pode mais ser satisfeita por um setor industrial em crescimento, os lucros são armazenados em refúgios seguros ou reinvestidos em outros lugares em empreendimentos comerciais e/ou instrumentos financeiros. Financeirização é simplesmente o nome dado a essa mudança nos fluxos de capital. Quando observamos a publicação da obra mais célebre da engenharia financeira, o modelo de precificação de opções de Black-Scholes, ou a abertura do primeiro grande mercado de derivativos, a Chicago Board Options Exchange, ambos em 1973, devemos ter claro que essas não são novas armas que permitem às forças financeiras derrubar as paredes da indústria. Elas são consequências da necessidade do capital de espaço para ir além do setor industrial.
O Arco da Acumulação
A teoria da crise aborda a questão de por que a expansão industrial deve terminar e dar lugar às longas especulações financeiras em um grande redirecionamento dos fluxos de capital pontuado por uma desvalorização maciça. Arrighi e Brenner, possivelmente os dois historiadores econômicos mais convincentes do período que atingiu seu auge em 1973, oferecem explicações divergentes para esse declínio específico da acumulação, com base em suas diferentes percepções do que é o capitalismo; ambos também divergem em alguns detalhes da teoria abstrata da crise de Marx.
O modelo de Arrighi é pouco teorizado, em consonância com sua abordagem mais descritiva das economias mundiais. Ele sugere uma causalidade um tanto eclética, baseada em uma teoria da crise amplamente smithiana, que pressupõe que a concorrência de mercado corrói constantemente a margem de lucro. As lutas trabalhistas (entendidas à maneira de Karl Polanyi) oferecem outra pressão sobre os lucros, assim como o custo das funções hegemônicas de guarda global. Isso motiva o investimento a se afastar do nexo Estado-Indústria, que se encontra em dificuldades, em direção aos mercados financeiros internacionais.
A teorização mais sistemática de Brenner baseia-se em um modelo de superprodução no qual a capacidade industrial incontestável dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial acaba enfrentando a concorrência de produtores internacionais mais eficientes, notadamente Alemanha e Japão. Com altos níveis de investimento já imobilizados em capital fixo, cujo valor só pode ser recuperado por meio da fabricação de mais commodities, as empresas americanas são incapazes de reduzir a produção e, portanto, ficam presas em uma concorrência fratricida por participação no mercado. As empresas que deveriam ser eliminadas de um setor em uma onda de destruição criativa destinada a abrir canais para um novo crescimento, em vez disso, cambaleiam para frente, muitas vezes apoiadas pelo Estado, que precisa de sua riqueza e gestão de mão de obra para sua estabilidade. Isso leva ao “que foi efetivamente um processo de superinvestimento, levando ao excesso de capacidade e à superprodução na manufatura em escala internacional”, iniciando uma turbulência sistêmica que ainda não diminuiu [4].
Ambas as análises permanecem no nível dos preços, o nível quantitativo que descreve a manifestação efetiva da crise. Para a análise do valor de Marx, os movimentos dos lucros são fenômenos superficiais que correspondem a uma mudança subjacente no equilíbrio entre capital constante e variável: meios de produção e trabalho assalariado, ou trabalho morto e vivo. Apesar das forças contrárias, essa chamada composição orgânica do capital tende a aumentar com o tempo, à medida que a concorrência obriga a aumentar a produtividade, substituindo iterativamente o trabalho por máquinas e processos de trabalho mais eficientes (o que o século XX conheceu como fordismo e taylorismo, respectivamente).
Esse domínio crescente do trabalho morto sobre o vivo é uma expressão em toda a sociedade da lei do valor, à medida que o aumento da produtividade diminui a quantidade média de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir mercadorias. As consequências econômicas ocorrem de forma desigual. Inicialmente, os aumentos na produtividade geram lucros elevados que atraem mais investimentos e mais mão de obra para a produção. Isso, em combinação, produz uma expansão ainda maior. Com o tempo, porém, o aumento na proporção entre trabalho morto e vivo prejudica a capacidade de produção de valor, sendo o trabalho vivo no processo de produção a única fonte de mais-valia. A mesma dinâmica que originalmente impulsiona a acumulação — o aumento da produtividade no nexo entre salário e mercadoria — também a prejudica, até que a capacidade de produção e a capacidade de trabalho não possam mais ser reunidas e, em vez disso, fábricas vazias e populações desempregadas se acumulem lado a lado. Esse processo ampliado é o que chamamos de produção da não produção. A crise e o declínio não vêm de choques extrínsecos, mas dos limites internos do capital. Podemos chamar isso de “arco de acumulação”, que traça as contradições do capital ao longo do eixo do tempo histórico. Chamá-lo de arco sem dúvida suaviza uma trajetória irregular [5]. Além disso, o enredo não expressa algum fato simplesmente quantitativo sobre taxas de crescimento ou similares. Os dois lados do arco, embora ainda sejam arranjos do capitalismo e expressões da dinâmica do valor, são qualitativamente diferentes em sua organização social em uma dialética de continuidade e ruptura.
No longo século XX, o arco de acumulação viu primeiro a “transferência sem precedentes da população da agricultura para a indústria” e, em seguida, em uma grande reversão, a desindustrialização, afastando a população da indústria e do processo de produção de maneira mais geral, levando-a para o trabalho no setor de serviços ou para o subemprego e o desemprego [6]. Essas são reorganizações sociais em escala global.
Apesar de suas diferentes análises de causalidade, tanto Brenner quanto Arrighi conseguem escavar a forte relação entre a explicação lógica da acumulação autodestrutiva e a explicação histórica dos ciclos capitalistas, particularmente do ciclo atual em que se concentram. Ou seja, apesar de todas as suas sutilezas metafísicas, o debate sobre a chamada Lei da Tendência da Queda da Taxa de Lucro tem uma correspondência suficiente com as ascensões e quedas que Arrighi apresentou de forma tão abrangente. A explicação de Arrighi começa com a fórmula de Marx para a reprodução ampliada do capital, D-M-D’ (dinheiro-mercadoria-dinheiro’): o itinerário obrigatório do dinheiro da perspectiva do capitalista, passando para a produção de mercadorias se, e somente se, as mercadorias resultantes puderem ser vendidas a um preço mais alto — pois o capitalista só continua sendo capitalista se isso for possível. A novidade de Arrighi é, então, transferir esse processo lógico para a história empírica de seus “longos séculos”. Ele identifica “a alternância de épocas de expansão material (fases D-M de acumulação de capital) com fases de renascimento e expansão financeira (fases M-D’)”. Ele narra essa mudança de fase por meio de sua oposição temporal dos períodos D-M e M-D’:
Nas fases de expansão material, o capital monetário “coloca em movimento” uma massa crescente de mercadorias (incluindo a força de trabalho mercantilizada e os dons da natureza); e nas fases de expansão financeira, uma massa crescente de capital monetário “se liberta” de sua forma mercantil, e a acumulação prossegue por meio de transações financeiras (como na fórmula resumida de Marx, D-D´). Juntas, as duas épocas ou fases constituem um ciclo sistêmico completo de acumulação (D-M-D’) [7].
Na era do capitalismo moderno, essa fase de expansão material é cognata com o crescimento industrial. Nessa fase, a ação principal é a compra de força de trabalho e de meios de produção para a fabricação de mercadorias — ou seja, a valorização dentro do processo de produção. No período de expansão financeira, a principal ação é a venda dessas mercadorias para a realização do valor que elas carregam — ou seja, o capital se recentra no mercado, na troca e no consumo. Esse é o sentido de uma era de circulação da perspectiva do capital: à medida que a capacidade da produção de gerar altos lucros diminui, o capital muda seus investimentos para a realização no presente imediato tanto do valor existente quanto do valor que supostamente está por ser gerado no futuro.
Isso pode ser formulado de outra maneira. A crise irrompe no momento em que o lucro e a expectativa de lucro deixam de fluir da manufatura. Nesse momento, os credores procuram cobrar suas dívidas antes que os devedores fiquem sem recursos; as empresas devedoras, por sua vez, são obrigadas a deixar de reinvestir na produção, enquanto vendem freneticamente seus produtos no mercado para cumprir suas obrigações. Ou podemos narrar os fatos como mencionado anteriormente: o dinheiro disponível para reinvestimento deixa de circular quando os lucros da produção caem abaixo de um certo limite e fica cada vez mais parado nos bancos, marcando passo enquanto aguarda oportunidades de investimento suficientemente tentadoras. Esse momento de imobilidade é o momento da crise; quando o capital começa a circular novamente, ele busca tanto o comércio quanto os créditos sobre o valor futuro, o que Marx chama de capital fictício. Um exemplo sugestivo do presente é a medida em que as montadoras americanas sobreviventes obtêm cada vez mais lucros não da produção, mas do financiamento de compras de consumidores por meio de braços de crédito internos. Mais uma vez, vemos que a expansão financeira é a contração industrial vista de uma posição diferente. E, mais uma vez, narramos em termos indiferentes a mesma mudança da valorização para a realização, da produção para a circulação.
O capitalismo moderno passou por dois arcos, centrados na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, com o segundo surgindo à medida que o primeiro declinava. Cada um tem suas particularidades. Ao mesmo tempo, eles podem ser sintetizados em um arco mais longo. Desde a primeira decolagem até o recente declínio, sempre houve um motor de acumulação global em funcionamento. De aproximadamente 1830 a 1973, houve um núcleo de capital produtivo no Ocidente com sua expansão sistêmica crescente. É de acordo com isso que anteriormente chamamos o período do século XVIII até o presente de metaciclo, um grande arco de acumulação no sistema mundial capitalista seguindo o curso de circulação-produção-circulação linha.
O período de circulação linha, a reorganização social da Longa Crise, condiciona o declínio da greve e a nova era de revoltas de duas maneiras distintas, embora inevitavelmente relacionadas: a espacialização da economia e a recomposição da relação capital/classe. Vamos analisá-las uma de cada vez, antes de reuni-las no final.
A Espacialização da Luta
As revoltas são, originalmente, lutas pelo preço dos bens, ou seja, lutas pela reprodução fora do salário, mas ainda suspensas no mercado. São “lutas para controlar o espaço” e a passagem por ele; há uma rima inclinada entre a revolta paradigmática de exportação em King’s Lynn em 1347 e o bloqueio maciço no porto de Oakland em 2011 [8]. O controle sobre o espaço assume muitas formas, muitas vezes envolvendo esforços para expulsar a polícia dos distritos comerciais que ela defende. As revoltas são obcecadas por edifícios, praças e passagens, com aglomerações na praça e nas ruas. Hobsbawm dedica um capítulo de seu livro Revolutionaries ao papel do urbanismo na insurreição. Há algo de arquitetônico em uma revolta, ou seja, algo espacial. A barricada, esse grande instrumento da revolta, tem suas origens no isolamento de bairros contra incursões; o surgimento da barricada nada mais é do que o surgimento da primeira era de revoltas, que recuou após a Primavera das Nações em 1848 [9]. As novas avenidas largas do século XIX são, em relatos sucessivos, projetadas para pôr fim às barricadas e as revoltas; o crescimento industrial acabará por fazer um trabalho melhor nisso.
A espacialidade prática da revolta corresponde a uma distinção teórica. A lógica abstrata da produção é temporal, a lógica abstrata da circulação é espacial. A produção é organizada pelo valor, pela valorização das mercadorias, e esse valor é regulado pelo tempo de trabalho socialmente necessário. É através desse tempo que ambos os lados se reproduzem. Na produção, tanto o capital quanto seus antagonistas lutam por esse tempo — sua duração, seu preço. A greve é uma luta temporal.
Uma vez que o valor temporal do trabalho vivo repousa na mercadoria, ele se torna objetivado, espacializado. A circulação é organizada pelo preço, pela realização da mais-valia como lucro quando as mercadorias trocam de lugar. Esta é uma formulação conceitualmente espinhosa, como fica evidente na exposição de Marx:
O dinheiro é agora trabalho objetivado, quer possua a forma de dinheiro ou de uma mercadoria particular. Nenhum modo objetivo de ser do trabalho se opõe ao capital, mas todos eles aparecem como modos possíveis de existência para ele, que ele pode assumir através de uma simples mudança de forma, passando da forma monetária para a forma mercadoria. A única antítese do trabalho objetivado é o trabalho não objetivado; em antítese ao trabalho objetivado, o trabalho subjetivado. Ou aquele trabalho que está presente no tempo, vivo, em antítese ao trabalho passado no tempo, mas existente no espaço. Como trabalho presente no tempo, não objetivado (e, portanto, também ainda não objetivado), ele só pode estar presente como capacidade, possibilidade, habilidade, como capacidade de trabalho do sujeito vivo [10].
Ao refletir sobre a relação lógica entre trabalho e mercadorias, Marx chega à antítese entre trabalho não objetivado e trabalho objetivado. De um lado, a força de trabalho que ainda não foi transferida para uma mercadoria no processo de produção; do outro, o valor objetivado nas mercadorias que agora entram no espaço de circulação, elas próprias objetos espaciais. O aumento da proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e vivo, é o próprio processo de espacialização e, portanto, a transformação das lutas temporais em espaciais. Essa distinção existe também no nível prático, no que diz respeito à circulação no sentido concreto: transporte, comunicações, finanças. Marx fala da famosa “aniquilação do espaço pelo tempo”. Isso tem sido frequentemente entendido como uma afirmação da crescente irrelevância das relações espaciais para o capital. O oposto é verdadeiro. Marx argumenta que o espaço se apresenta como o problema fundamental para a troca, e quanto mais o capital depende da troca, mais o espaço apresenta problemas a serem superados:
O capital, por sua natureza, ultrapassa todas as barreiras espaciais. Assim, a criação das condições físicas de troca — dos meios de comunicação e transporte — a aniquilação do espaço pelo tempo — torna-se uma necessidade extraordinária para ele. Somente na medida em que o produto direto possa ser realizado em mercados distantes em quantidades massivas, proporcionalmente à redução dos custos de transporte, e somente na medida em que, ao mesmo tempo, os meios de comunicação e transporte possam produzir esferas de realização para o trabalho, impulsionado pelo capital; somente na medida em que o tráfego comercial ocorra em volume massivo — no qual mais do que o trabalho necessário é substituída — apenas nessa medida a produção de meios baratos de comunicação e transporte é uma condição para a produção baseada no capital e, por essa razão, promovida por ele [11].
Os leitores provavelmente conhecem os debates muitas vezes tediosos sobre se essa passagem sugere que a circulação é internalizada à produção, ou se isso é apenas uma aparência e as obras e mercadorias da circulação são, como Marx continua, “uma condição para o processo de produção” — uma afirmação bastante diferente [12]. Para nossos propósitos, o significado é o mesmo. Esse é particularmente o caso, pois não estamos afirmando que as lutas na circulação têm uma relação privilegiada com a produção de valor. Na mudança que se segue à crise, o capital, incapaz de gerar mais-valia ou crescimento adequados por meio da produção industrial convencional, é compelido a entrar no espaço da circulação para competir por lucros, diminuindo seus custos e aumentando o tempo de rotatividade para um volume cada vez maior de mercadorias. As lutas nesse espaço são, portanto, centrais para a existência contínua de cada capital. Há poucas indicações de que isso gere acumulação da mesma forma que a produção industrial.
E, no entanto, esse é o destino inconfundível do capital pós-1973, tornando “nosso presente fundamentalmente um tempo de espaço logístico” [13]. Essa reorganização sistêmica, observa Jasper Bernes, “indexa a subordinação da produção às condições de circulação, o tornar-se hegemônico dos aspectos do processo de produção que envolvem a circulação”. Haverá implicações nesse desenvolvimento para as lutas contemporâneas. “A logística é a arte da guerra do capital, uma série de técnicas para a competição intercapitalista e interestatal” [14]. Será necessária uma contra-arte que se adapte a esse terreno transformado, mas que também reconheça o espaço logístico como peculiarmente estruturado pelas necessidades do capital, o tipo de maquinaria que o proletariado não pode simplesmente apreender e utilizar para seus próprios fins.
A construção maciça, impulsionada pelas finanças, do transporte marítimo global e da conteinerização, possivelmente o projeto mais fundamental para o capital nessa época, sinaliza a mudança radical. Ela é prenunciada pela regularização dos contêineres de transporte intermodal (aperfeiçoados para resolver os problemas logísticos da Guerra do Vietnã) por meio de uma série de acordos de 1968 a 1970 e pela desregulamentação do transporte na década seguinte [15]. O Centro de Transporte e Logística é criado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em 1973: “líder mundial em educação e pesquisa em gestão da cadeia de suprimentos” [16]. A fabricação Just-In-Time, que se generalizou na década de 1970, é o aspecto metodológico da mesma mudança. Desenvolvida na indústria automobilística japonesa, ela é o oposto do paradigma fordista da indústria automobilística dos Estados Unidos, descobrindo eficiências menos na organização da produção do que na circulação, no estoque e na troca: um conjunto interligado de práticas cujo núcleo constitui uma espécie de taylorismo da cadeia de suprimentos.
A correspondência desses desenvolvimentos com a crise industrial é quase absoluta. As expressões desse movimento interligado são numerosas. Em abril de 1973, a Federal Express entrega seu primeiro pacote; quarenta anos após o início da Longa Crise, a FedEx terá a quarta maior frota e será a maior companhia aérea de carga do mundo [17].
O Fim do Programa
A mudança na circulação é uma reestruturação econômica que impulsiona e se baseia em uma reorganização social maciça, uma recomposição do capital e da classe. Isso transforma profundamente os horizontes políticos e, com eles, as formas de luta. As mudanças subjacentes se mostraram opacas para alguns observadores. Um deles, escrevendo na revista socialista democrática Jacobin, descobre em 2015 que “a economia dos EUA gira em torno da expansiva indústria de logística” e só consegue concluir que, “após três décadas de mudanças dolorosas na economia industrial, acredito que os socialistas podem, mais uma vez, ter uma estratégia industrial nos Estados Unidos” [18]. Outra proposta do mesmo local observa a mesma transformação “particularmente na produção enxuta e nos estoques just-in-time” e reconhece a importância resultante de “focar nesses pontos de distribuição” para “bloquear a distribuição”. O autor recomenda, para esse fim, a organização de “grupos de trabalhadores estrategicamente posicionados”.
Esses exemplos reconhecem corretamente a vasta transferência de força de trabalho da produção industrial para o espaço de circulação, distribuição e troca. No entanto, a importância disso como um aspecto de uma reestruturação social profunda é negligenciada. É compreensível que o leitor fique perplexo quanto ao motivo pelo qual o esvaziamento do setor industrial, base histórica da organização socialista, exigiria mais uma vez uma “estratégia industrial”. Por sua vez, pode-se perguntar por que o “bloqueio da distribuição”, precisamente a tática dos não trabalhadores tanto lógica quanto historicamente, exige “grupos de trabalhadores”. Dessa perspectiva, não importa o problema, a solução é sempre a mesma: organização do trabalho industrial. É sempre tempo de greve.
Pode-se argumentar que os trabalhadores da circulação são de alguma forma mais difíceis de organizar, que algo peculiar ao novo local de trabalho exclui essa possibilidade. Há razões para acreditar nisso. Além da desagregação e da desqualificação como barreiras à organização, a tradicional paralisação do trabalho pressupõe um senso de posse moral dos trabalhadores sobre seus equipamentos, um resquício das culturas artesanais e manuais que fornece uma função legitimadora estranha ao âmbito da circulação. Dito isso, não há aqui nenhum argumento contra tal organização. A greve da UPS em 1997 mostra que tais coisas são possíveis. É inevitável que uma porcentagem crescente das poucas greves que estão desaparecendo seja na circulação e que as ações trabalhistas mudem para lutas de circulação, como uma questão prática. Considere a mudança tática ilustrativa por parte dos sindicatos franceses, por exemplo, quando as refinarias de petróleo e os depósitos de petróleo franceses foram bloqueados por duas semanas em 2010 [19]. De forma mais ampla, os argumentos normativos sobre o que as pessoas que lutam devem fazer ignoram a verdade mais básica. As pessoas lutarão onde estiverem.
Nosso argumento é que as pessoas estão em outro lugar. E, além disso, que a explosão desses locais de trabalho é sintomática de uma reestruturação maior que augura mal para o potencial dessa organização. O trabalho no mundo superdesenvolvido não mudou simplesmente seu centro de gravidade em algum sentido neutro. Sua relação com a acumulação mudou profundamente e, diante dessa mudança, a exigência de formas inalteradas de ação parece, na melhor das hipóteses, uma falha de compreensão. Mesmo a política de classe mais recôndita ou reducionista é agora obrigada a se reconfigurar de acordo com essas grandes transformações político-econômicas ou se condenar ao interminável papel de um romance ultrapassado ao qual o perfume de 1917 sempre se apega.
O editor da Jacobin, Bhaskar Sunkara, resume essa política ritualística. Ele reconhece que “pode ser útil considerar as maneiras pelas quais a situação atual se assemelha a um retorno ao pré-fordismo”; dada a semelhança, a política oferecida então certamente ainda deve prevalecer, e “às vezes novas crises precisam ser enfrentadas com o vocabulário antigo” [20]. Mas qual é esse vocabulário antigo e por que exigiria o mesmo conjunto de estratégias que esses pensadores vêm propondo há mais de um século, sem variações? Podemos notar aqui um erro simples na compreensão do caráter do arco de acumulação. Ele supõe que um ponto na descida seria historicamente idêntico a um ponto na ascensão simplesmente porque estavam na mesma altura (de lucro ou taxa de desemprego, etc.). Esse equívoco não leva em conta o vetor: a diferença entre ascensão e queda, entre mercados de trabalho restritos e flexíveis, entre a capacidade de dinamismo e expansão e o curso da estagnação e contração. As condições que historicamente possibilitaram o vocabulário socialista —acumulação real, um mercado de trabalho tenso, a possibilidade de ganhar poder apropriando-se de uma parte dessa acumulação, um proletariado industrial em expansão — não existem mais. Os ganhos progressivos que poderiam fortalecer e encorajar o partido de massa dependente da organização sindical não estão mais ao alcance, como estavam durante o crescimento econômico, a expansão e o boom. Isso faz parte de uma mudança mais ampla: “O ano de 1978”, como observou sucintamente um historiador de negócios, foi o “Waterloo para sindicatos, reguladores e reformadores tributários keynesianos” [21].
Talvez possamos admitir que Sunkara está parcialmente certo. É inevitável que compreendamos novos momentos primeiro através de vocabulários antigos. Mas estamos mais adiantados no arco do que ele pode supor e, portanto, talvez precisemos recorrer a um léxico bastante mais antigo e renová-lo. É mais cedo do que pensamos. Ou seja, é bem mais tarde.
O declínio do movimento trabalhista no Ocidente dispensa explicações. As narrativas contrárias, especialmente aquelas que sugerem que o declínio é resultado de combates ideológicos, falhas de vontade ou erros estratégicos, já foram submetidas ao que Marx chamou de crítica prática do real. Os dados básicos são bem conhecidos. Provavelmente, o mais claro é o colapso para zero das greves envolvendo mais de 1.000 trabalhadores a partir do final dos anos 1970. Para aqueles que duvidam dessa medida (que tem pouca correlação com a sindicalização), a situação pode ser resumida assim: nos Estados Unidos, após 1981, apenas três anos excederam 10 milhões de dias acumulados de paralisação por greves, com vários anos abaixo de 1 milhão. De 1947 a 1981, o número excedeu 10 milhões todos os anos, com uma média de mais do dobro disso [22].
Podemos encontrar um momento decisivo voltando mais uma vez a Detroit e a 1973, onde “pela primeira vez na história do UAW, o sindicato se mobilizou para manter uma fábrica aberta” [23]. Isso se tornará rapidamente o paradigma para a organização trabalhista, quer se queira ou não. Com o esvaziamento do setor industrial e a perda de lucratividade, a principal ameaça tanto para o capital quanto para o trabalho é que uma determinada empresa deixe de existir. E, em uma escala maior, a própria capacidade de autorreprodução do capital entrará em colapso. A partir desse ponto, as lutas contra o capital só podem ser contra a existência do capital, em vez de pelo empoderamento do trabalho. Capital e trabalho se encontram agora em colaboração para preservar a autorreprodução do capital, para preservar a relação de trabalho juntamente com a viabilidade da empresa. Isso impõe limites quase absolutos à negociação.
Podemos chamá-la de “armadilha da afirmação”, na qual o trabalho fica preso à posição de afirmar sua própria exploração sob o pretexto da sobrevivência. É uma versão do que Lauren Berlant chama de “otimismo cruel”. O otimismo é cruel em uma situação cada vez mais comum:
O objeto/cena que desperta uma sensação de possibilidade na verdade torna impossível alcançar a transformação expansiva pela qual uma pessoa ou um povo se arrisca a lutar; e, duplamente, é cruel na medida em que os próprios prazeres de estar dentro de uma relação se tornaram sustentáveis, independentemente do conteúdo da relação [24].
Certamente isso descreve com exatidão não apenas qualquer relação, mas as exigências da relação de trabalho na Longa Crise. A armadilha da afirmação é o otimismo cruel em seu estrato mais obstinado, existindo independentemente de apegos libidinosos, suas compulsões não envolvendo nenhum reconhecimento errôneo. Os prazeres sustentadores são comida e abrigo.
Preso na armadilha da afirmação, o trabalho deixa de ser a antítese do capital. Isso pode ser visto como o final irônico da própria afirmação que define o horizonte socialista da luta, em que “a revolução é, portanto, a afirmação do proletariado, seja como ditadura do proletariado, conselhos operários, libertação do trabalho, período de transição, definhamento do Estado, autogestão generalizada ou uma ‘sociedade de produtores associados’” [25].
Esses são os termos em que o grupo Théorie Communiste define o “programatismo”, o modelo central da luta revolucionária de classe no século XX. Moishe Postone identifica o programatismo (ele não usa o termo) com o “marxismo tradicional” que, segundo ele, reconhece erroneamente a base do capitalismo como a propriedade dos meios de produção, enquanto trata o trabalho produtivo como “a fonte transhistórica da riqueza e a base da constituição social”. A apropriação dos meios de produção, portanto, preserva a forma capitalista de riqueza enquanto a redistribui socialmente, e assim “o marxismo tradicional substitui a crítica de Marx ao modo de produção e distribuição por uma crítica apenas ao modo de distribuição” [26]. Daí a distinção usada aqui entre socialismo e comunismo: o primeiro indicando esse modelo distributivo, o segundo indicando a abolição da economia e o fim da relação indexical entre o trabalho de cada um e qualquer relação ou acesso à riqueza social.
Este “marxismo tradicional” deve ser entendido historicamente. O horizonte socialista do programatismo não deve ser entendido como uma falha analítica ou moral, nem como uma espécie de paralisação; haveria uma passagem do socialismo para o comunismo (ou de uma fase inferior para uma fase superior do comunismo, como Marx afirma em Crítica ao Programa de Gotha). Em vez disso, ele reflete com precisão as condições reais do mundo em que surge. É uma luta contra o capital “vista do ponto de vista do trabalhador, ou seja, do ponto de vista do ciclo do capitalismo produtivo”, nas palavras de Gilles Dauvé [27]. Ou seja, surge com o aumento do poder do trabalho industrial, razão pela qual os trabalhadores desse setor são capazes de se posicionar como a fração revolucionária da classe. Seu crescimento é a expansão do capital. Isso, no entanto, não implica um ponto de vista ou forma de luta imutável: “a centralidade do trabalho proletário na análise de Marx sobre o capitalismo não deve ser tomada como uma avaliação afirmativa de sua parte sobre sua primazia ontológica na vida social, ou como parte de um argumento de que os trabalhadores são o grupo mais oprimido da sociedade” [28].
É do outro lado do arco-íris da acumulação que os limites históricos do programatismo se tornam evidentes. Quando a fração de classe que centralizou a era do programa não exerce mais um poder peculiar sobre o capital, tal curso de luta é excluído. Esse resultado não é consequência de artimanhas políticas, de alguma política nefasta sob o título de “neoliberalismo”. É a própria autotransformação do capital da perspectiva do trabalho — trabalho agora forçado a afirmar o capital no mesmo gesto pelo qual afirma seu próprio ser. É precisamente essa luta pela autopreservação, o que a Théorie Communiste chama de “pertencimento de classe como uma restrição externa”, que é o limite das lutas trabalhistas como motor revolucionário [29]. As reivindicações salariais, outrora imaginadas como uma vantagem ou mesmo uma alavanca para a abolição da classe, devem agora ser adaptadas às necessidades de autorreprodução do capital, à medida que essa autorreprodução entra em crise. Em sua lassidão crepuscular, a classe trabalhadora é reduzida a reproduzir pouco além das condições de sua própria miséria. A luta salarial mantém sua legitimidade como reivindicação de sobrevivência — salário, salário contra a morte da luz —, mas ao mesmo tempo legitima o capital. Não há além.
Sobredeterminação
A revolta não busca preservar nada, não afirma nada, exceto talvez um antagonista comum, uma miséria comum, uma negação comum. Ela carece de um programa. Sob o título “Isso não foi um movimento”, um comentarista sobre as revoltas de Londres em 2011 escreve:
Nos distúrbios de agosto, nada na situação de seus protagonistas valia a pena ser defendido: vizinhança, residência, comunidade, etnia e raça, todos se revelaram aspectos da reprodução do capital, que produz esses proletários como verdadeiros indigentes. […] A linguagem da revolta não era a linguagem positiva do “movimento”, da mudança social, das reivindicações ou da política, mas sim a linguagem negativa do vandalismo. O que aconteceu foi muita destruição, nada foi construído, não houve planos, nem estratégias [30].
Para muitos observadores, essa é a característica mais perturbadora das revoltas. Diante disso, a exigência de um programa, a exigência de exigências, é em si uma exigência familiar, o estertor da política prescritiva. Ela não será atendida. Mas isso não quer dizer que as revoltas careçam de determinações. Na verdade, as revoltas são surpreendentemente sobredeterminadas pela série de transformações históricas que tornam inevitável o gênero particular de antagonismo que chamamos de lutas de circulação.
Um resumo será útil. O excedente social que acompanha a acumulação diminuiu e, com ele, a capacidade do capital e do Estado de atender às demandas por salários diretos e sociais, apesar de exceções ocasionais. A demanda salarial é excluída como nada mais do que uma ação de retaguarda inseparável da afirmação da existência do capital. O capital transferiu suas esperanças de lucro para o espaço da circulação e, assim, transferiu sua vulnerabilidade para lá. O trabalho mudou para a circulação com ele. O mesmo aconteceu com o não trabalho: os subempregados e desempregados, aqueles deixados para as economias informais, aqueles deixados para apodrecer. Essa desindustrialização foi dramaticamente racializada.
A morte da demanda salarial significa o desaparecimento das lutas de produção unificadas pelo papel comum dos participantes como trabalhadores assalariados. Ao mesmo tempo, a luta pela circulação não tem nenhuma exigência lógica de que seus participantes sejam trabalhadores. Se o trabalho tem acesso imediato e legitimidade para interromper a produção na fábrica, qualquer pessoa pode liberar um mercado, fechar uma estrada, fechar um porto. Como no século XVIII, os manifestantes podem ser trabalhadores, mas não aparecem como trabalhadores; os participantes não estão unificados pela posse de empregos, mas por sua desapropriação mais geral. Eles entram no espaço do mercado, lutando pela reprodução além do salário. Esta é a definição que oferecemos na introdução, repetida novamente.
Talvez, então, a “sobredeterminação” esteja errada. Uma nova situação para a disputa social foi gerada. Um novo arranjo da população por meio do mesmo movimento gera trabalhadores e não trabalhadores circulantes, que por acaso compartilham uma relação com essa situação de disputa. Essa mudança nas formas de ação coletiva é uma habilidade dialética. Mas a dialética precisa do proletariado, e não acabamos de declarar a morte da classe trabalhadora?
NOTAS
[1] Ver Joshua Clover e Aaron Benanav, “Can Dialectics Break BRICS?” The South Atlantic Quarterly 113: 4, outono de 2014, 743-59.
[2] Fernand Braudel, The Perspective of the World: Civilisation and Capitalism, vol. 3, Berkeley: University of California Press, 1982, 80.
[3] Ibid., 77.
[4] Brenner, Turbulence, 38.
[5] Para uma imagem do movimento crescente de acumulação e crise, ver Henryk Grossman, Law of Accumulation and Breakdown of the Capitalist System, Londres: Pluto Press, 1992, 84.
[6] Aaron Benanav e John Clegg, “Misery and Debt: On the Logic and History of Surplus Populations and Surplus Capital,” Contemporary Marxist Theory, eds. Andrew Pendakis et al., New York: Bloomsbury, 2014, 585.
[7] Arrighi, Long Twentieth Century, 87.
[8] Abu-Lughod, Race, Space, 41.
[9] Mark Traugott, The Insurgent Barricade, Berkeley: University of California Press, 2010, 81-82.
[10] Karl Marx, “Fragment des Urtexts von ‘Zur Kritik der politischen Ökonomie,’” Grundrisse der Kritik der PolitischenÖkonomie, Berlim: Dietz Verlag, 1858/1953, 942 (ênfase no original). Citado em Jacques Camatte, Capital and Community: The Results of the Immediate Process of Production and the Economic Work of Marx, trad. David Brown, Londres: Unpopular Books, 1988, 20.
[11] Marx, Grundrisse, 524-5 (ênfase no original).
[12] Ibid., 525 (ênfase no original).
[13] Deborah Cowen, The Deadly Life of Logistics: Mapping Violence in Global Trade, Minneapolis: University of Minnesota Press, 2014, 5 (ênfase no original).
[14] Jasper Bernes, “Logistics, Counterlogistics and the Communist Prospect,” Endnotes 3, 2013, 185.
[15] Marc Levinson, The Box: How the Shipping Container Made the World Smaller and the World Economy Bigger, Princeton: Princeton University Press, 2006, 147-9.
[16] Consulte o site do MIT Center for Transportation & Logistics MIT, ctl.mit.edu.
[17] Consulte a página da FedEx, “Nossa história: história e cronologia”, about.van.fedex.com; e a página da IATA Publicações e ferramentas interativas, https://web.archive.org/web/20120427115854/http://www.iata.org/ps/publications/pages/wats-freight-km.aspx.
[18] Joe Allen, “Studying Logistics”, Jacobin, 12 de fevereiro de 2015, jacobinmag.com.
[19] Para um estudo abrangente desse fenômeno em relação aos distúrbios, consulte Blaumachen, “The Transitional Phase of the Crisis: The Era of Riots” (A fase de transição da crise: a era dos distúrbios), blaumachen.gr.
[20] Bhaskar Sunkara, “Precarious Thought”, Jacobin, 13 de janeiro de 2012, jacobinmag.com.
[21] Jefferson Cowie, Stayin’ Alive: The 1970s and the Last Days of the Working Class, Nova York: New Press, 2010, 292. A fonte citada é Kim McQuaid, Uneasy Partners: Big Business in American Politics, 1945-1990, Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1994, 156.
[22] Consulte o banco de dados online do Bureau of Labor Statistics, “Economic News Release: Table 1. Work stoppages involving 1,000 or more workers, 1947-2014” (versão atualizada em 11 de fevereiro de 2015), bls.gov.
[23] Bill Bonds, WXYZ-TV News, falando sobre os eventos na fábrica de estampagem Mack, 16 de agosto de 1973. Citado em Georgakas e Sunkin, Detroit, 189.
[24] Lauren Berlant, Cruel Optimism Durham: Duke University Press, 2011, 2.
[25] Théorie Communiste, “Much Ado About Nothing,” Endnotes 1, 2008, 155.
[26] Moishe Postone, Time, Labor, and Social Domination, Cambridge: Cambridge University Press, 1993, 69 (ênfase no original).
[27] Gilles Dauvé, Ni Parlement ni syndicats: les Conseils ouvriers, Paris: Editions Les Nuits rouges, 2008, 6.
[28] Postone, Social Domination, 356 n.120.
[29] Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense,” Communization and Its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles, ed. Benjamin Noys, Wivenhoe: Minor Compositions, 2011, 53.
[30] Rocamadur/Blaumachen, “The Feral Underclass Hits the Streets: On the English Riots and Other Ordeals,” SIC, n.º 2, janeiro de 2014, 113-4.
As obras que ilustram este artigo são de Mario Sironi.
Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:
Introdução: Uma Teoria da Revolta
REVOLTA
Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?
Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta
Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve
GREVE
Capítulo 4: Greve Contra a Revolta
Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta
REVOLTA LINHA
Capítulo 8: Rebeliões Excedentes
Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna
First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016
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